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DEFENSORIA PÚBLICA GERAL DO ESTADO

EXMO. SR. DR. DE DIREITO DA 7ª VARA CÍVEL REGIONAL DA


BARRA DA TIJUCA

Processo nº 0014551-03.2021.8.19.0209

“A justiça pode caminhar sozinha; a injustiça precisa


sempre de muletas, de argumentos.”
(Nicolae Iorga)

CARLOS ROBERTO STRPPEL, devidamente


qualificado nos autos da AÇÃO DE DESPEJO POR FALTA DE
PAGAMENTO C/C COBRANÇA proposta por SOLANGE THURLER
SERRANO, vem pela Defensoria Pública, NO PRAZO LEGAL EM DOBRO,
apresentar sua

CONTESTAÇÃO

aduzindo, para tanto, o que se segue:

Inicialmente, reafirma sua condição de hipossuficiente, indicando


para patrocinar seus interesses a Defensoria Pública deste Estado, NA FORMA
DA DECLARAÇÃO E DOS DOCUMENTOS, OS QUAIS JÁ SEGUIRAM,
VIA PETIÇÃO, DEVIDA E ANTERIORMENTE PROTOCOLIZADA.
(A) DA REALIDADE DOS FATOS (NAS PALAVRAS DO
PRÓPRIO SUPLICADO, POR E-MAIL):

“Depois de abandonado o prédio houve uma invasão, e os invasores foram se


apossando dos espaços, transformando-os em várias quitinetes.
Alguns foram vendendo e passando adiante.
Foi criada uma Associação de Moradores em 19 de junho de 1988 para organi
zar a bagunça.
Em 2013, a senhora Elizabeth Quadros, (apto. 110D) entrou para o Conselho
Consultivo e Fiscal da Associação, onde encontrou diversas irregularidades, ta
is como o fato da metade dos funcionários não estarem registrados; O IPTU d
o terreno em dívida ativa, Os membros da Associação pagavam mais de R$400
,00 pelos canais da Sky, que era pacote completo, com todos os canais que fica
va na casa do vice-
presidente Ulisses Bonfim, de onde saiam clandestinamente APENAS dois ca
nais para todos os apartamentos do prédio; extintores de incêndio vencidos, es
goto entupido, inundava os apartamentos quando chovia, e quem limpava era
um funcionário não registrado com um aramezinho, sem receber insalubridad
e e sem equipamentos de segurança, entre muitas outras irregularidades.

Como Presidente do Conselho Consultivo e Fiscal, a senhora Elizabeth teve ac


esso aos balancetes mensais da prestação de contas da Associação, onde const
atou que não houve transferência da posse do imóvel 109D. De acordo com o
Estatuto da Associação, a troca de Titularidade deve ser feita com o pagament
o do valor de 6 condomínios vigente, o que não ocorreu, portanto, a senhora S
olange nunca foi e não é a posseira desta Quitinete,
ou seja, esse contrato se torna inválido.
Em 30 de agosto de 2016 eu, Carlos Roberto Streppel, aluguei a posse, tipo qui
tinete 109D, vizinho da senhora Elizabeth, 110D.
Em 2017 foi feita a reforma do Estatuto da Associação. Nessa ocasião, a senho
ra Elizabeth, ainda presidente do Conselho Consultivo e Fiscal, assinou, entre
outros, a lista de presença dos proprietários adimplentes para aprovação do no
vo estatuto. Nessa ocasião, eu, Carlos Roberto Streppel, assinei como proprietá
rio do apartamento 109D. Fui a 29ª assinatura, conforme documento em anex
o, a pedido do administrador, Hamilton Castilho.
Em momento algum isso foi questionado, nem o administrador falou algo sobr
e a senhora Solange. Foi por conta disso que a Senhora Elizabeth pesquisou o
s balancetes dos anos anteriores constatando que não houve transmissão da Ti
tularidade, e por isso, ele, ou qualquer outra pessoa que estivesse de posse do i
móvel poderia assinar.

Meu contrato venceu em 25 de fevereiro 2019. Dessa data até 2 de outubro de


2020 ( minha demissão) me foi descontado o valor do aluguel, antes de receber
o salário, independentemente de minha vontade. ,A senhora Elizabeth me ress
arciu dos valores pagos à Associação, por ter interesse no imóvel.
Foi feita uma abertura na parede unindo os dois apartamentos, e reforma na c
ozinha.(...)
Em 26 de agosto de 2016, aluguei da administração do prédio, a Kitinete em
questão (109 D) para ficar próximo à moradora do apartamento 110 D, com
quem eu tinha uma relação mais íntima.
A posseira do apartamento 110 D era, na época, presidente do Conselho
consultivo e fiscal da Associação de Moradores que administra o prédio.
Nesse cargo, com acesso à documentação, descobriu que
o verdadeiro posseiro da Kitinete 109 D havia falecido, e
não havia transmitido a posse para nenhum herdeiro, nem
por inventário, nem ESTE
de nenhuma outra forma.
SENHOR FALECIDO ERA POSSEIRO DE OUTRAS 4
KITINETES NESSE MESMO PRÉDIO, OUTRAS KITS
EM OUTRAS LOCALIDADES, E ERA MORADOR DE
UM APARTAMENTO NA BARRA DA TIJUCA.
Para receber o direito de posse das kitinetes desse prédio em relação
à Associação de Moradores, é preciso pagar a quantia de 6 (seis) condomínios
vigentes, o que não foi feito pela viúva em relação a nenhuma das Kitinetes.
Donde se conclui que, as posses não lhe pertencem.
Tendo eu perdido o emprego de professor, e havendo uma vaga de
porteiro no prédio, me candidatei ao cargo para continuar a honrar com o
condomínio com as taxas referentes à essa Kitinete.
Em 1º de março de 2017 assumi o cargo de
porteiro até a data de 02 de outubro de 2020.
Nesse período, respondi sobre tudo deste imóvel, inclusive,
assinei como proprietário adimplente, a ata de modificação do novo estatuto,
a pedido do presidente da Associação. Ora, só assina a ata, os reconhecidos
donos das posses e que estejam adimplentes. Se hoje alguém questiona sobre
o posseiro deste imóvel, aquele estatuto não tem validade.... (aqui já dá outra
ação...)
Em 2 de outubro de 2020, fui demitido do cargo de porteiro deste
prédio, por expressar minha indignação pela não prestação de contas dos
valores pagos à administração, por ter uma administração sem nenhuma
transparência, por ver o administrador tratando sob ameaças os empregados,
por ver os moradores menos informados de seus direitos, serem ameaçados.
Enfim, tendo eu pago todas minhas obrigações até aquela data, estando com
o suposto contrato vencido (contrato que não tem valor, visto que a senhora
que se intitulava dona da posse, Solange Thurner, não tem documento que
prove a posse da Kitienete), dei por encerrado meu compromisso e obrigação
moral com o referido imóvel.(...)
Acontece que a Administração do prédio seguiu descontando do meu salário
antes de me pagar, os valores do condomínio (autorizado por mim), e do
aluguel (não autorizado por mim), até outubro de 2020. Não tive como evitar
esse desconto que julguei indevido pois fui ameaçado quanto ao emprego.
A posseira do apartamento 110 D ao lado, abriu a parede, fazendo uma
ligação entre as duas Kitinetes.
Então, em outubro de 2020, quando fui demitido do cargo de porteiro
do condomínio, a posseira do 110 D deu início as reformas no imóvel, visto ter
muita infiltração, com tudo muito estragado e extremamente úmido. Passado
uns meses, a filha da senhora Solange entrou em contato com a posseira,
pedindo dinheiro. Mas foi-lhe negado. Meses depois, um advogado da família
entrou em contato uma vez, também pedindo dinheiro. A posseira explicou o
que estava acontecendo e o advogado concluiu que realmente não tinha
direito a pedir nada, e nunca mais retornou.
Tendo em vista a posseira ter conhecimento da forma de administrar o
dinheiro dos contribuintes da associação, como por exemplo o não pagamento
do IPTU do terreno, tendo ido vários anos para a dívida ativa; o administrador
prometeu que faria de tudo para prejudicá-la. Agora esta ação está sendo
feita pelo advogado, filho do administrador do prédio. Dessa forma ele pensa
que pode intimidá-la.”

(B) PRELIMINARMENTE/ MATÉRIA QUE PODE SER ALEGADA


A QUALQUER TEMPO:

1) DA FLAGRANTE ILEGITIMIDADE ATIVA AD CAUSAM/


DA INÉPCIA DA PETIÇÃO INICIAL

Consoante se depreende da real versão dos fatos e da parca e frágil


documentação, anexada pela autora, às fls. 16/18, o referido “contrato” não
comprova a real situação de posse ou de propriedade do imóvel, anterior a
esta “forçada” assinatura, pelo réu, de tal documento.

“A posseira do apartamento 110 D era, na época, presidente do


Conselho consultivo e fiscal da Associação de Moradores que administra o
prédio.
Nesse cargo, com acesso à documentação, descobriu que
o verdadeiro posseiro da Kitinete 109 D havia falecido, e
não havia transmitido a posse para nenhum herdeiro, nem
por inventário, nem ESTE
de nenhuma outra forma.
SENHOR FALECIDO ERA POSSEIRO DE OUTRAS 4
KITINETES NESSE MESMO PRÉDIO, OUTRAS KITS
EM OUTRAS LOCALIDADES, E ERA MORADOR DE
UM APARTAMENTO NA BARRA DA TIJUCA.”
2) DA PRÉVIA EXISTÊNCIA DE CONTRATO DE
TRABALHO, COMO PORTEIRO – DA INCOMPETÊNCIA
ABSOLUTA

I – O réu reconhece a existência de um contrato de trabalho, firmado como


PORTEIRO, o qual ensejou a habitação do imóvel (objeto desta lide), pelo
réu, como pagamento da prestação in natura – COMO SE DEPREENDE,
CLARAMENTE, DO CONTRATO DE TRABALHO, REGISTRADO EM
SUA CTPS, ÀS FLS. 67 DOS AUTOS, COM A ASSOCIAÇÃO DOS
MORADORES E AMIGOS DO SOLAR DO PONTAL.

II – Ocorre, porém, que a demanda derivou de relação de emprego, donde


entende a doutrina ser competente para julgar a justiça do Trabalho,
conforme os dizeres de Sérgio Pinto Martins, em sua obra Direito
Processual do Trabalho:

“Se as ações possessórias decorrerem da relação de emprego,


competente será a Justiça do Trabalho para solucionar o
conflito”. Citando Giglio (1984:57), o autor comenta: “Se a
habitação do imóvel integra o salário como pagamento in
natura, se, com maior razão, era preciso morar no prédio
para poder exercer as funções contratadas (de zelador, de
vigia, de empregado rural etc.), então concluímos que a
controvérsia sobre o imóvel não deriva de um contrato
autônomo de locação, de natureza civil, e sim da relação de
emprego, é competente a Justiça do Trabalho, e não a
Justiça Ordinária.”

Desta feita, mister concluir-se, portanto, pela


extinção do feito sem julgamento do mérito, por
incompetência absoluta, na forma do artigo 337, inciso II, do
NCPC/2015, vez que o conteúdo da peça vestibular, em que
pese tratar-se de ação de Despejo, foi decorrente de relação
de emprego, até outubro de 2020.

(C) NO MÉRITO:

I) DA NULIDADE DO CONTRATO DIANTE DO VÍCIO DE


CONSENTIMENTO E DO ESTADO DE PERIGO – ART. 171, II,
DO NOVO CÓDIGO CIVIL:

Ao assinar o “contrato de locação”, acima


aludido, o réu se encontrava em estado de necessidade
assim definido como “o sacrifício de um interesse
juridicamente protegido, para salvar de perigo atual e
inevitável o direito do próprio agente ou de terceiro,
desde que outra conduta, nas circunstâncias concretas,
não era razoavelmente exigível " (Guilherme de Souza
NUCCI, Código penal comentado, p. 152).

Temos aqui o direito à moradia e, em

especial, de manutenção de um emprego informal, em

confronto com o possível locupletamento ilícito da

primeira, onde deveria haver, no mínimo, uma

compensação. Ora, o contrato de locação firmado não

pode produzir qualquer efeito no plano jurídico já que

flagrante o vício de consentimento diante do estado de

necessidade ou de perigo, em que se encontrava o réu.


Conflituosa, portanto, a relação jurídica existente

entre as partes, em razão de abuso de direito e de comportamento

eivado de má-fé, s.m.j., por parte da autora. O que se quer rever

é a própria relação jurídica que se constituiu com base em negócio

jurídico defeituoso, que contém, certamente, nulidades insanáveis.

Nesse norte, o Novo Código Civil, aponta como anuláveis os


atos e negócios jurídicos firmados com os defeitos jurídicos da
LESÃO e do ESTADO DE PERIGO, in verbis:

“Art. 156. Configura-se o estado de perigo quando


alguém, premido da necessidade de salvar-se, ou a
pessoa de sua família, de grave dano conhecida da
outra parte, assume obrigação excessivamente
onerosa.”

“Art.157. Ocorre a lesão quando uma pessoa, sob


premente necessidade, ou por inexperiência, se obriga
a prestação manifestamente desproporcional ao valor
da prestação oposta.
§ 2º Não se decretará a anulação do negócio se for
oferecido suplemento suficiente, ou se parte
favorecida concordar com a redução do proveito.

II) DA GRATUIDADE DE JUSTIÇA E DA NÃO INCIDÊNCIA DE


HONORÁRIOS E CUSTAS JUDICIAIS

No que concerne aos honorários advocatícios,


custas e demais despesas judiciais, importante destacar que tais
parcelas são indevidas pela parte isenta na forma da Lei 1.060/50 e
art. 98 do CPC. Neste aspecto, E. STJ já fixou o seguinte
posicionamento:

“Se a parte goza dos benefícios da


assistência judiciária, no valor da purgação
da mora não se incluem as despesas
alusivas as custas e honorários de
advogado, isenção que perdurará pelo prazo
e forma previstos no art. 12 da Lei nº
1.060/50.”
( STJ – Bol AASP 1083/283)

Aliás, tal questão já havia sido deliberada no


VI ENTA – 6º. Encontro Nacional dos Tribunais de Alçada,
realizado em Belo Horizonte, em julho de 1983 (RT 580/297), ao
aprovar por unanimidade a conclusão nº. 39:
“Estando o locatário ao abrigo da justiça
gratuita, não deve o mesmo arcar com os
ônus da sucumbência, mesmo nas ações de
despejo por falta de pagamento.”
( in Theotonio Negrão, CPC anotado, 27ª.
Ed., Saraiva, 1996, p. 1034).

III) DA APLICAÇÃO DA LEI ESTADUAL Nº 9.020/20 –


DA SUSPENSÃO DE ORDENS DE DESPEJO ATÉ
O FIM DA PANDEMIA.

O presente feito foi distribuído em 07/05/2021, vale dizer, ainda na


crise pandêmica e com decisão de concessão da liminar, salvo
melhor juízo, totalmente equivocada, pois proferida em
09/06/2021, diante do delicado e grave cenário mundial de saúde,
ainda vigente e do que aqui se expõe a seguir.

Assim, desde o início do ano de 2020, o mundo vem enfrentando a


pandemia de Coronavírus, a qual notoriamente abalou todas as atividades
econômicas, sendo os profissionais autônomos sabidamente dos que mais
sofreram.

Como é intuitivo, se a ré, ora agravante, já enfrentava graves


problemas financeiros, o recrudescimento da pandemia que ainda ora
experimentamos vem se somar às dificuldades de mudança já existentes.

Com efeito, é sabido que o número de casos de COVID-19 vem


aumentando diária e exponencialmente, o que em parte se explica pelo maior
índice de transmissibilidade que as mutações do vírus trouxeram.
Sabe-se, destarte, que o colapso do sistema de saúde, senão é um
fato já concretizado, ocorrerá em curtíssimo espaço de tempo, considerando os
últimos números da pandemia que vêm sendo divulgados e constatados, de
forma avassaladora.

A excepcionalidade que a pandemia de coronavírus representa não


passou ao largo da atuação das autoridades dos Poderes Executivo e Legislativo,
sendo certo que no âmbito do Estado do Rio de Janeiro foi editada a Lei Estadual
n° 9.020/2020, que, dentre outras medidas, estabeleceu a suspensão do
cumprimento de mandados de reintegração de posse, imissão na
posse, despejos e remoções judicial ou extrajudiciais, enquanto
perdurar a situação de emergência decorrente do novo
coronavírus, declarada pelo Decreto n° 46.973/20.

No dia 28/09/2020, foi publicada a Lei Estadual nº


9.020/20. Referida lei determina a suspensão de cumprimentos de
mandados de reintegração de posse no Estado do Rio de Janeiro,
enquanto medida temporária de prevenção ao contágio e de
enfrentamento à pandemia causada pelo novo coronavírus.

Em seu art. 1º, a lei dispõe:

Art. 1º. Ficam suspensos todos os mandados de reintegração de


posse, imissão na posse, despejos e remoções judiciais ou
extrajudiciais no Estado do Rio de Janeiro em ações distribuídas
durante o estado de calamidade pública em virtude da situação de
emergência decorrente do novo coronavírus (COVID-2019),
declarado pelo DECRETO nº 46.973, de 16 de março de 2020.
Parágrafo único. As disposições contidas no caput aplicam-se
exclusivamente a situações de litígio em relação à ocupação de
imóveis, que antecedem a data de publicação desta Lei.
Gize-se que a referida Lei Estadual n° 9020/20 teve sua eficácia
restabelecida por recente decisão do Supremo Tribunal Federal, em virtude da
decisão proferida pelo Ministro Lewandovski na Reclamação 45.319.

Induvidoso que a situação de emergência é persistente, o que nos


leva a ponderar que se trata de ação distribuída durante o estado de calamidade
pública, sendo, pois, a eficácia da Lei Estadual n° 9020/20 totalmente aplicável,
revelando, ainda, uma interpretação acorde com o sistema jurídico vigente, que
tem entre os fundamentos da República o princípio da dignidade da pessoa
humana – CF/88, art. 1º, inciso III.

Com efeito, tira-se da fonte pretoriana julgados recentes


apontando para esse norte interpretativo, senão vejamos:

“Despejo por Falta de Pagamento c/c Cobrança de Aluguéis


- Restabelecimento da eficácia da Lei Estadual 9.020/2020
pelo Supremo Tribunal Federal suspendendo o
cumprimento de ordens de despejo, reintegrações de posse
e remoções no estado do Rio de Janeiro durante a
pandemia da COVID-19 em razão da Reclamação (RCL)
45319 - Recurso parcialmente provido. Agravo de Instrumento
em face de decisão que deferiu a liminar para desocupação do
imóvel em 15 dias, em ação de despejo cumulada com
cobrança de aluguéis. Requer o agravante a revogação da
decisão ou dilação de prazo por 02 meses para desocupação do
imóvel. Em que pese o débito locatício do agravante se
estender desde 2018, e o prazo da Lei Federal de nº 14.010/20
ter acabado desde 30/10/2020. O Supremo Tribunal Federal
(STF), em 23/10/2020, restabeleceu a eficácia da Lei
Estadual 9.020/2020 do Rio de Janeiro, que suspende o
cumprimento de ordens de despejo, reintegrações e
imissões de posse e remoções no Estado durante a
pandemia da Covid-19, em razão da Reclamação (RCL)
45319. Ordem que pode ser deferida, mas não executada.
Recurso parcialmente provido.”1 (grifamos)
1
TJ/RJ – Agravo de Instrumento n° 0085535-91.2020.8.19.0000 – 26ª Câm. Cív. – Rel. Des. Natacha
Nascimento Gomes Toste Gonçalves de Oliveira – julg. em 04/03/2021
“Agravo de Instrumento. Impugnação ao
cumprimento provisório de sentença. Alegação de excesso de
execução. Prova. Ausência. Desacolhimento da pretensão.
Seguro garantia judicial. Garantia do juízo. Possibilidade.
Incidência de multa e honorários. Impossibilidade.
Denunciação da lide. Desembolso prévio pelo denunciante.
Desnecessidade. Pedido de penhora eletrônica via sistema
Bacenjud. Pandemia da COVID-19. Novo coronavírus.
CNJ. RECOMENDAÇÃO. 1- Recai sobre o impugnante, ora
agravante, o ônus de demonstrar, com precisão, a existência de
excesso na execução. 2- A partir da deflagração da execução,
ainda que provisória, passou a ser do executado o ônus de
demonstrar eventual excesso e, por consequência, trazer aos
autos prova que considera essencial à comprovação de fato
impeditivo ao direito do exequente. 3- A ausência de prova do
fato constitutivo do direito alegado desautoriza acolher a
pretensão. 4 - A fiança bancária e o seguro garantia judicial
equivalem a dinheiro para fins de indicação de bens e de
penhora na execução, ou seja, produzem os mesmos efeitos
jurídicos que dinheiro para fins de garantia do juízo visando
assegurar a satisfação do crédito exigido por meio da tutela
jurisdicional (art. 835, § 2º, do CPC). 5 - E tratando-se
de cumprimento provisório de sentença, a garantia do juízo
basta para que seja cumprida a obrigação imposta na sentença
até que se aguarde o trânsito em julgado. 6- Incorreta aplicação
da multa e dos honorários dispostos no artigo 523, § 1º, do
CPC. 7- O CPC permite que o credor requeira o cumprimento
da sentença diretamente contra o denunciado, nos limites da
condenação deste na ação regressiva (artigo 128, parágrafo
único, do CPC), o que já seria suficiente para determinar o
depósito por parte da agravante sem que fosse necessário
algum desembolso prévio pela denunciante. 8- Observância
da suspensão dos atos constritivos em razão da pandemia
pelo COVID-19, noticiada na decisão impugnada. 9- Dispõe
o artigo 6º da Recomendação nº 63/2020, do Conselho
Nacional de Justiça (CNJ): "Art. 6º Recomendar, como
medida de prevenção à crise econômica decorrente das
medidas de distanciamento social implementadas em todo o
território nacional, que os Juízos avaliem com especial
cautela o deferimento de medidas de urgência, decretação
de despejo por falta de pagamento e a realização de atos
executivos de natureza patrimonial em desfavor de
empresas e demais agentes econômicos em ações judiciais
que demandem obrigações inadimplidas durante o período
de vigência do Decreto Legislativo nº 6 de 20 de março de
2020, que declara a existência de estado de calamidade
pública no Brasil em razão da pandemia do novo
coronavírus Covid-19". 10- Não se afigura viável o
acolhimento do pedido para efetivação de penhora eletrônica
em seu desfavor. 11- Recurso a que se dá parcial provimento. 2

Como se depreende desses julgados, o Poder Judiciário também


vem atuando em harmonia com os demais Poderes e as diretrizes emanadas do
Pretório Excelso e do Conselho Nacional de Justiça estão prestigiando a
dignidade da pessoa humana, que inegavelmente é o bem da vida de maior
grandeza, além de colocar em cotejo a defesa do interesse comum, posto que, em
meio à maior crise sanitária da história recente, esses bens jurídicos devem
preponderar em relação ao legítimo interesse patrimonial da parte autora, já que
este, ao contrário da vida humana e do interesse coletivo, pode ser relegado para
proteção futura.

As hipóteses de incidência da lei se aplicam diretamente ao presente


caso, uma vez que a inicial foi distribuída em 17/08/2020, durante o estado de
calamidade pública, estando em vigor o Decreto nº 46.973, de 16 de março de
2020. E segundo narrado na própria petição inicial, a ocupação teria ocorrido
bem antes da publicação da mencionada lei.

Assim, tem-se que os dois requisitos temporais exigidos pela


lei estão presentes: (i) ação distribuída durante a
situação excepcional causada pela pandemia, ou
seja, posteriormente a 16/03/2020; e (ii) ocupação
ocorrida antes da publicação da referida lei
estadual, isto é, antes de 28/09/2020 (conforme
2
TJ/RJ – Agravo de Instrumento n° 0042332-79.2020.8.19.0000 – 15ª Câm. Cív. – Rel. Des. Milton Fernandes
de Souza – julg. em 09/03/2021.
narrado na própria exordial). Dessa forma, a regra que
determina a suspensão dos mandados de reintegração e de despejo
tem plena aplicação ao presente caso, razão pela qual é necessário
o recolhimento do mandado expedido até o fim do estado de
emergência em saúde pública no Estado do Rio de Janeiro,
conforme preconiza a Lei Estadual nº 9.020/20, que se encontra em
vigor. Frise- se que o pleito tem por finalidade evitar a
permanência de diversas famílias e, no caso, mais de 400
(quatrocentos) animais nas ruas, uma vez que configura um risco
para a saúde individual das pessoas, além de ampliar o risco
coletivo/comunitário face à pandemia do SARS-Cov-2/COVID-19.

Não se justifica que se lance pessoas na rua quando se considera


que ainda existe risco à vida e a saúde delas, especialmente no presente caso,
em que há entre os atingidos pela reintegração pessoas integrantes do grupo
de risco. Além disso, os recentes dados publicados demonstram que os
índices de contaminação, de óbitos e de ocupação de leitos de hospitais no
Rio de Janeiro voltaram a crescer, o que torna ainda maior o risco para as
famílias que se encontram no imóvel.

É de suma importância ressaltar que houve o ajuizamento de


representação de inconstitucionalidade junto à Corte Especial do TJERJ e a
referida lei teve sua eficácia suspensa. Todavia, a Defensoria Pública do
Estado do Rio de Janeiro propôs reclamação constitucional no STF e a
eficácia da norma foi restaurada. Assim, a constitucionalidade da lei
estadual invocada encontra espeque em decisão do ministro Ricardo
Lewandowski, no bojo da Reclamação nº 45.319. Recentemente, a decisão
do ministro relator foi referendada pelos seus colegas de turma à
unanimidade. Confira-se um trecho do dispositivo (grifos adicionados):

Com efeito, entendo que tal decisão, ao menos aparentemente, pode


estar a afrontar DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO DE
JANEIRO Av. Marechal Câmara, nº 314, Centro, Rio de Janeiro, RJ, CEP
20.020-080 Telefone: (21)2332-6224 | CRC: 129 | www.defensoria.rj.def.br
[Página 3 de 6] o entendimento que prevaleceu nos paradigmas invocados na
presente reclamação, no sentido de que medidas de proteção à saúde pública
durante a pandemia são matéria de competência legislativa concorrente, não
havendo hierarquia entre os entes da federação. Ademais, embora a Lei
Estadual 9.020/2020 imponha a suspensão de “mandados de reintegração de
posse, imissão na posse, despejo e remoções judiciais ou extrajudiciais” (art.
1º), ao menos a princípio, trata-se de sobrestamento temporário da execução
de tais medidas, levando-se em conta a complexidade ora enfrentada em razão
da pandemia mundial, somada às peculiaridades daquela unidade federativa.
A urgência da medida está caracterizada pelo fato notório que o contágio do
coronavírus é crescente, e que os serviços de saúde podem não suportar a
demanda de internações de pacientes infectados, em estado grave de saúde.
Com essa fundamentação, os Ministros desta Corte, em casos análogos ao
presente, proferiram decisões na Rcl 40.131-AgR/MS, de relatoria do Ministro
Luiz Fux; Rcl 42.573-AgR/MG, de relatoria do Ministro Alexandre de Moraes;
e Rcl 41.935-MC/MT, de relatoria do Ministro Gilmar Mendes, com liminar
deferida pela Presidência do STF durante o recesso de julho. Dessa forma, em
exame perfunctório, próprio dessa fase processual, verifico a presença dos
requisitos para a concessão de medida liminar, reservando-me ao exame mais
aprofundado da demanda por ocasião do julgamento do mérito. Isso posto,
defiro o pedido liminar para suspender os efeitos da decisão reclamada,
suspendendo-se, outrossim, a tramitação da Representação de
Inconstitucionalidade 0079151-15.2020.8.19.0000, restabelecendo o dispositivo
questionado na Lei Estadual 9.020/2020, até o julgamento de mérito desta
reclamação. (…) (STF - Rcl: 45319 RJ 0111513-83.2020.1.00.0000, Relator:
RICARDO LEWANDOWSKI, Data de Julgamento: 23/12/2020, Data de
Publicação: 11/01/2021).

Evidentemente, o TJERJ já vem aplicando a decisão da Suprema Corte


(grifos adicionados):

AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE DESPEJO C/C COBRANÇA.


DECISÃO DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Av. Marechal Câmara, nº 314, Centro, Rio de Janeiro, RJ, CEP 20.020-080
Telefone: (21)2332-6224 | CRC: 129 | www.defensoria.rj.def.br [Página 4 de 6]
QUE INDEFERIU A DESOCUPAÇÃO DO IMÓVEL EM RAZÃO DA
PANDEMIA. PRESENÇA DOS REQUISITOS AUTORIZADORES DA
MEDIDA. INADIMPLÊNCIA RECONHECIDA PELOS RÉUS E
ANTERIOR À PANDEMIA. OBSERVÂNCIA DA DECISÃO LIMINAR
DEFERIDA PELO MINISTRO RICARDO LEWANDOWSKI, NA RCL.
45.319. RESTABELECIMENTO DO ARTIGO 1º DA LEI ESTADUAL
9020/20 QUE IMPÕE A MANUTENÇÃO DA DECISÃO AGRAVADA.
RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. (…) 6- Nada obstante, em
recente decisão, de 29/12/2020, o Ministro Ricardo Lewandowski,
liminarmente, restabeleceu a Lei Estadual 9.020/20, de 25/09/2020, que veda o
cumprimento de mandados de reintegração de posse e imissão na posse, além
de despejos e remoções judiciais e extrajudiciais; 7- Na hipótese, considerando
que a demanda foi ajuizada em 14/09/2020, portanto durante o estado de
calamidade pública do Estado do Rio de Janeiro, incide a legislação apontada,
razão pela qual, neste momento, vigente a decisão supracitada, torna-se
inviável a determinação de imediata desocupação do imóvel, como pretende o
agravante; 8- Manutenção da decisão agravada; 9- Recurso conhecido e
desprovido. (TJ-RJ - AI: 00714397120208190000, Relator: Des(a). JDS
ISABELA PESSANHA CHAGAS, Data de Julgamento: 28/01/2021,
VIGÉSIMA QUINTA CÂMARA CÍVEL, Data de Publicação: 29/01/2021).

Adicionalmente, em 02/03/2021, foi editada a Recomendação CNJ nº 90/21,


que se dirige ao Poder Judiciário de todo o país para que, enquanto
perdurar a situação de pandemia de COVID-19, “avaliem com especial
cautela o deferimento de tutela de urgência que tenha por objeto
desocupação coletiva de imóveis urbanos e rurais, sobretudo nas hipóteses
que envolverem pessoas em estado de vulnerabilidade social e econômica”
(art. 1º), bem como “antes de decidir pela expedição de mandado de
desocupação coletiva de imóveis urbanos e rurais, verifiquem se estão
atendidas as diretrizes estabelecidas na Resolução n.º 10, de 17 de outubro
de 2018, do Conselho Nacional de Direitos Humanos” (art. 2º).

Apesar de recente, o Poder Judiciário também já vem aplicando a


recomendação ao redor do país, como o Tribunal de Justiça do Estado do
Maranhão, no bojo do Agravo de Instrumento nº 0804074
79.2021.8.10.0000, por exemplo (grifos adicionados):

Não por acaso que recentemente editado pelo Conselho Nacional de Justiça a
Recomendação n.º 90, de 02 de março de 2021, em que orienta aos órgãos do
Poder Judiciário a adoção de cautelas quando da solução de conflitos que
versem sobre desocupação coletiva de imóveis urbanos e rurais durante o
período da pandemia do coronavírus. (…) Essas avaliações devem ser feitas
pelos magistrados, levando em consideração, dentre outros aspectos, o grau de
acesso da população afetada às vacinas ou a tratamentos disponíveis para o
enfrentamento da covid-19, situações, essas, hoje, de difícil contemplação por
qualquer pessoa. (…) Por essa razão entendo que a temporária sustação dos
efeitos da atacada decisão impõe-se como medida de respeito a vida humana,
em especial por vislumbrar que daí não decorrente prejuízo irreparável à parte
agravada, e sim o acautelamento da saúde e da vida das pessoas a serem
desalojadas que, a meu ver, pela excepcionalidade do momento que vivemos,
seriam as únicas prejudicadas a suportar quiçá um dano irreversível. Diante
do exposto e diante do caráter humanitário desta decisão, hei por bem, de
conformidade com o art. 1019, Inciso I, do Código de Processo Civil, o efeito
suspensivo, se lha conceder, com vistas a sustar a eficácia da liminar de
reintegração de posse deferida nos autos da Ação de Reintegração de Posse n.º
0800926- 57.2021.8.10.0000 , até julgamento definitivo deste recurso.

CONCLUSÃO:

Por todo o exposto, requer-se:

A) Depreende-se, PRELIMINARMENTE, que não merece prosperar


o pedido pleiteado na inicial, por se tratar de questão relacionada
à existência de uma relação de trabalho entre a Associação
originária e o Réu (por mais de três anos), devendo ser extinto o
feito, sem julgamento do mérito E DECLINADA A
COMPETÊNCIA PARA A JUSTIÇA DO TRABALHO;

B) Ainda, PRELIMINARMENTE, consoante toda a narrativa


inicial, que seja o feito extinto, sem julgamento do mérito, na
forma do art. 485, incisos I e/ou VI do CPC;

C) NO MÉRITO, caso ultrapassadas as preliminares arguidas, e


tratando-se de contrato de locação, com cristalinos vícios de
consentimento, vale dizer, de lesão e estado de perigo e, portanto,
absolutamente nulo em sua origem e essência, a total
improcedência dos pedidos, com a condenação da autora ao
pagamento de custas e honorários advocatícios, em prol do
CEJUR/DPGE;

D) A expedição de OFÍCIO ao Registro de Imóveis competente, para


fins de verificação do registro da propriedade do imóvel e de
consequente sucessão hereditária.

Protesta por todas as provas em Direito admitidas,


mormente pela prova documental superveniente, testemunhal e de
vistoria do imóvel.

TERMOS EM QUE,
PEDE DEFERIMENTO

Rio de Janeiro, 25 de novembro de 2021.

SOLANGE DE CARVALHO MESTRE


Defensora Pública
MAT. 815.693-7

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