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UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL

DO NOROESTE DO ESTADO
DO RIO GRANDE DO SUL

DIEGO FRANCISCO VIEIRA SOARES

O PROCESSO HISTÓRICO DOS ANIMES E MANGÁS NO


BRASIL

Coronel Bicaco
2019
Diego Francisco Vieira Soares

O processo histórico dos animes e mangás no Brasil

Trabalho de Conclusão do Curso de História da


Universidade Regional do Noroeste do Estado do
Rio Grande do Sul – Unijuí –, como requisito para
a obtenção do diploma de Licenciatura em História.

Orientadora: Prof.ª Sandra Maria do Amaral

Coronel Bicaco
2019
1

Índice

RESUMO............................................................................................................4

INTRODUÇÃO...................................................................................................5

1. A HISTÓRIA E OS ASPECTOS DOS ANIMES E MANGÁS..........................7

1.1 Conceito Histórico de Animes E Mangás.................................................7

1.2 Características Próprias dos Mangás e Animes....................................20

2. MANGÁS E ANIMES NO BRASIL...............................................................35

2.1 A Década de 1960 as Influências dos Primeiros Mangás e Animes......35

2.2 Década de 1970 e o Começo da Expansão do Meio e a Censura........45

2.3 A Década de 1980 a Expansão do Meio dos Animes e Mangás............55

2.4 Anos de 1990 A Explosão dos Animes e Mangás..................................66

2.5 Anos 2000 a Decadência da Tv Aberta e o Nascimento das Fansubs. .84

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................101

REFERÊNCIAS..............................................................................................107
2

Índice de Figuras

Figura 1: Emakimono....................................................................................................8
Figura 2: Chōjū-giga......................................................................................................9
Figura 3: Estampa Ukiyo-ê............................................................................................9
Figura 4: Jornal The Japan Punch..............................................................................10
Figura 5: cena mangá Tagosaku to Mokube no Tokyo Kenbutsu...............................12
Figura 7: obra Sazae-san............................................................................................13
Figura 6: Machiko Hasegawa......................................................................................13
Figura 8: Osamu Tezuka.............................................................................................14
Figura 9: mangá Jungle Taitei (kimba o leão branco).................................................14
Figura 10: fragmento da película Katsudō Shashin....................................................16
Figura 11: filme de animação infantil momotaro.........................................................17
Figura 12: filme de animação Momotaro no umiwashi...............................................17
Figura 13: filme kujira..................................................................................................18
Figura 14: anime astro boy..........................................................................................19
Figura 15: revista shonen jump...................................................................................21
Figura 16: manga tankohon japonês The Lost Canvas..............................................22
Figura 17: cenas do anime astro boy..........................................................................23
Figura 18: representação mangá (esquerda) animação (direita) da obra One Piece –
Echiro Oda...................................................................................................................24
Figura 19: ordem de leitura mangá.............................................................................25
Figura 20: alguns exemplos de cores utilizadas nos mangàs e animes....................26
Figura 21: expressões usadas pelo personagem Yato da obra Noragami - Adachitoka
.....................................................................................................................................27
Figura 22: personagens Simbad – magi; Lucy – Fairy Tail.........................................28
Figura 23: obra Hamtaro – Tms Entertainment...........................................................29
Figura 24: obra Sailor moon – Naoko Takeuchi..........................................................30
Figura 25: obra Naruto – Massashi Kishimoto............................................................30
Figura 26: obra Michiko e Hatchin – Takashi Ujita......................................................31
Figura 27: obra Gantz – Hiroya Oku...........................................................................32
Figura 28: cartas de propaganda incentivando a imigração para o Brasil.................37
Figura 29: primeiro navio a chegar no Brasil trazendo imigrantes Kosato Maru........38
Figura 30: revista Tupãzinho – Minami Keizi – editora Pan Juvenil...........................39
Figura 31: capa de volume revista EDREL.................................................................40
Figura 32: álbum encantado – Minami Keizi – editora EDREL...................................41
Figura 33: Ninja o Samurai Magico – Claudio Seto – editora EDREL........................43
Figura 34: obra A Técnica Universal das Histórias em Quadrinhos – Fernando Ikona
.....................................................................................................................................44
Figura 35: série tokusatsu Nacional Kid......................................................................45
Figura 36: revista karate men editora EDREL............................................................48
Figura 37: Las Aventuras de Meteoro editora Abril.....................................................49
Figura 38: Quadreca edição N° 4................................................................................51
Figura 39: Clube do Capitão Aza exibição - TVTupi...................................................53
Figura 40: Cyborg 009 - Shotaro Ishinomori...............................................................54
3

Figura 41: Super Dínamo - Fujiko Fujio......................................................................55


Figura 42: kimba o leão branco – Osamu Tezuka.......................................................56
Figura 43: mangá Super Pinoquio – Claudio Seto......................................................58
Figura 44: revista Robo Gigante - Selene Tobias.......................................................59
Figura 45: revista zillion – editora Abril.......................................................................60
Figura 46: Jaspion – editora Abril................................................................................61
Figura 47: Lobo Solitario - Kozuo Koike Goseki Kojima.............................................62
Figura 48: Ozamu Tezuka e Mauricio de Souza - 1984..............................................63
Figura 49: anime Patrulha Estelar – 1983 – Rede Manchete.....................................65
Figura 50: poster oficial de lançamento da obra Akira – 1988 - Izô mashimoto
katsuhiro otomo...........................................................................................................66
Figura 51: movimento pedindo a saída do então presidente Fernando Collor de Mello
.....................................................................................................................................69
Figura 52: obra Crying Freeman - Ryoichi Ikegami, Kazuo Koike..............................70
Figura 53: A Lenda de Kamui - Sanpei Shirato...........................................................71
Figura 54: anime Doraemon: o Super Gato – rede Manchete....................................72
Figura 55: anime Cavaleiros do Zodiaco - Masami Kurumada...................................73
Figura 56: personagens Saori, Marin e Seiya – Cavaleiros do Zodiaco....................75
Figura 57: personagem Shun - Cavaleiros do Zodiaco..............................................76
Figura 58: Shurato - Hiroshi Kawamoto......................................................................77
Figura 59: anime Sailor Moon - Naoko Takeuchi........................................................78
Figura 60: anime dragon ball – akira toryama.............................................................79
Figura 61: manga Ranma ½ – Rumiko Takahashi......................................................81
Figura 62: Pokémon - Satoshi Tajiri............................................................................83
Figura 63: Meu Amigo Totoro – Estúdio Ghibli............................................................84
Figura 64: Ghost in the Shell - Masamune Shirow.....................................................85
Figura 65: Holy Avenger - Marcelo Cassaro...............................................................87
Figura 66: Mangá Tropical - Marcelo Cassaro, Erica Awano Fábio Yabu, Daniel HDR,
Alexandre Nagado, Arthur Garcia, Silvio Spotti; Elza Keiko, Eduardo Müller, Rodrigo
de Góes, Denise Akemi, Sônia Maria Bibe Luyten.....................................................87
Figura 67: Tikara e Keika - Maurício de Sousa...........................................................88
Figura 68: Turma da Mônica Jovem - Maurício de Souza..........................................90
Figura 69: Samurai X (Rurouni Kemshin) - Nobuhiro Watsuki...................................91
Figura 70: Sakura Card Captor - grupo CLAMP.........................................................92
Figura 71: Naruto - Masashi Kishimoto.......................................................................93
Figura 72: Fullmetal Alchemist - Hirumo Arakawa......................................................96
Figura 75: Bleach - Tite Kubo......................................................................................97
Figura 76: A Viagem de Chihiro - estúdios Ghibli........................................................98
4

RESUMO

A pesquisa a seguir foi desenvolvida para mostrar, como foi que as animações
japonesas e suas histórias em quadrinhos, também conhecidos como animes e
mangás chegaram ao Brasil, desde suas origens no Japão, passando pela imigração
japonesa no Brasil, e seu desenvolvimento a partir da década de 1960 ate os anos
2000. A pesquisa foi desenvolvida em ordem cronológica abordando desde o Japão
do século VIII ate os anos 2000 no Brasil. Para isso foi feita uma pesquisa em
diferentes fontes, tais como, sites na internet relacionados a esse meio, livros
publicados de pesquisadores do meio, antologias das obras citadas e acervos
digitais das emissoras citadas. Também mostrará como se deu o processo de
disseminação desse meio, e como a mesma acabou se tornando parte da cultura
brasileira, influenciando em diversas áreas da sociedade. Do mesmo modo ira
realçar como esse tipo de mídia se comporta em relação aos fenômenos sociais,
como politica, censuras e representações sociais. Ira ressaltar como a cultura
brasileira absorve de forma rápida elementos de outras culturas, fazendo com que
se torne cada vez mais rica, completa e diversificada.

Palavras Chave: animes, mangás, processo cultural, história


5

INTRODUÇÃO

As histórias em quadrinhos sempre fizeram parte do imaginário das pessoas


desde que seus primeiros volumes lançados em 1985 pelos jornais sensacionalistas
de Nova York nos Estados Unidos, no Brasil as primeiras tirinhas saíram em jornais
a partir do ano de 1905, a arte sequência dos quadrinhos passou a ser estudada e
aprimorada no nosso país. Durante muitos anos, apenas quadrinhos ocidentais
tiveram algum tipo de destaque nas bancas do país, porém, por conta do processo
de imigração e da curiosidade característica do povo brasileiro, a partir de 1960
começamos a olhar mais ao oriente, e ver que lá, também Haviam obras dessa
categoria para serem aproveitadas.

Desde os anos de 1960 que a cultura oriental está sendo inserida na cultura
brasileira por meio dos animes e mangás, porém por se tratar de uma mídia de nicho
específico, não se tem muitas pesquisas relacionadas ao assunto, por isso, para
aqueles que são leigos, ao olhar um mangá ou assistir um anime, se passa a
impressão de que o que estão vendo é algo que surgiu a pouco tempo e que não
possui uma história dentro da cultura brasileira, mas quando olhamos para o
passado, vemos que a relação da cultura brasileira e da cultura oriental se tornou
muito mais próxima nos últimos 60 anos, justamente pela entrada dessa mídia em
nosso país.

Com foco nessa história, e que a pesquisa aqui é apresentada, vendo a


história pregressa que essa mídia tem em nosso país, e analisando os diferentes
gêneros e demografia que a mesma atende, torna-se necessário uma pesquisa
sobre esse tema, pois, com essa carga de conteúdo podemos analisar como essas
obras atingiram a sociedade e como através delas conseguimos tocar em temas de
suma importância para a sociedade. Outro ponto que motiva a pesquisa e como as
diferentes camadas da sociedade conseguiu se relacionar com esse meio, visto os
diferentes movimentos sociais que essa mídia criou através dos anos.
6

Nesse sentido também se vê necessária um estudo das temáticas dos animes


e mangás, por conta da dinâmica que um tipo de mídia tem com a outra (mangás-
editoração, anime-animação) foi feito uma pesquisa que trouxesse os parâmetros
históricos de ambas, pois, dentro da temática, uma mídia leva a outra, então analisá-
las de forma separada resultaria em um levantamento incompleto. A pesquisa sobre
mangás e animes foi realizada com o intuito de buscar mostrar cronologicamente
como se deu a expansão dos animes e mangás no Brasil além de identificar seus
aspectos culturais, foram usados dados coletados de documentos, fotos, vídeos
retirados da televisão e mangás publicados foram analisados como fonte e depois
como meio exemplificador.

Também foi utilizado documentos, livros, artigos e pesquisas para se analisar


e anexar o conhecimento que já foi feito sobre a área. Estão presente nesta
pesquisa o conceito histórico de animes e mangás bem como suas características
próprias, teve como ponto de começo o processo de imigração japonesa no Brasil
no começo do século XX, a partir dai houve uma divisão dos capítulos por década,
começando com as décadas de 1960 e 1970 as influências dos primeiros mangás, a
década de 1980 e os primeiros animes, a cultura japonesa no Brasil nos anos de
1990 e o ano de 1994 e a explosão dos animes com a obra Cavaleiros do Zodíaco,
como foi disseminação da cultura dos animes e mangás no Brasil, os anos 2000 e
como a internet se tornou ferramenta para expansão da cultura dos animes e
mangás por meio das “fansubs” movimento da década de 2000 que traduzia animes
e mangas e disponibilizava na internet sem fim financeiro, foram abordados os
pontos negativos, problemas e as censuras sofridas através do tempo Por fim a
pesquisa busca explicar como o fenômeno cultural dos animes e mangás nos
últimos 60 anos cresceu e ganhou notoriedade, quais foram as mudanças que se
passaram, seus impactos sociais e como ganhou a expressão que tem nos tempos
atuais.
7

1. A HISTÓRIA E OS ASPECTOS DOS ANIMES E


MANGÁS

1.1 Conceito Histórico de Animes E Mangás

Mangás são histórias em quadrinhos de origem japonesa, porém podem ser


encontradas em vários países orientais (China, Coreia do Sul, Tailândia, etc.), são
caracterizadas por serem lidas da direita para a esquerda, ao contrário das
convencionais histórias em quadrinhos ocidentais. A palavra mangá surgiu da junção
de dois vocábulos: “man” (involuntário, irresponsável) e “gá” (desenho, imagem). Ou
seja, mangá significa literalmente “desenhos involuntários”, ou “desenhos
irresponsáveis”; A palavra pode ser escrita, em japonês, das seguintes formas: kanji
( 漫画 ), hiragana ( ま んが ), katakana ( マ ンガ ) e romaji (manga). Também a várias
diferenças dentro do Japão de como tratar essas variações de escrita.

A palavra mangá significa rabiscos


descompromissados, ou ainda imagens involuntárias,
expressão que reflete muito bem o caráter gráfico de formas
sintéticas, caricaturadas e muitas vezes espontâneas
presentes no mangá desde sua pré-história. O termo se
originou com o trabalho do artista de ukiyo-e (escritura do
mundo flutuante) Katsushika Hokusai, que criou o Hokusai
Manga, uma série de livros com ilustrações em 15 volumes de
1814 a 1878. (VASCONCELLOS, 2006, p,19).

A palavra mangá surgiu no século XVIII, era usado na pintura chinesa


conhecida como sumi-ê, foi usada pela primeira vez no Japão no final do século
XVIII, com a publicação de obras como Shiji no yukikai (1798) de Santō Kyōden, e
no início do século XIX, em obras como Manga Hyakujo de Aikawa Minwa (1814), e
os célebres livros Hokusai Manga (1814-1834), contendo desenhos variados a partir
de esboços do famoso artista de ukiyo-e Katsushika Hokusai. Rakuten Kitazawa
8

(1876-1955), usou pela primeira vez a palavra “mangá” no sentido moderno. Outros
termos usados para indicar quadrinhos no Japão eram toba-e, que se inspiraram nas
obras de Toba Sōjō, um influente artista do século XI, e ponchi-e nome derivado da
popular revista britânica da época punch.

Nos séculos subsequentes, os japoneses começaram a


adotar os desenhos em pergaminhos e gravuras, “não sendo
raras as ocasiões em que estas apresentavam temas
escatológicos ou eróticos” (MOLINÉ, 2004, p.18).

Os primeiros mangás surgiram no período Nara (século VIII d.C.), com o


aparecimento dos primeiros sistemas de narrativa ilustrada em rolos de pinturas
japonesas chamados de emakimono ou emakis. Continham pinturas e textos que
juntos contavam uma história na medida que eram desenrolados, esta nova forma
de expressão artística combinava texto e imagem, e era desenhada, pintada, ou
estampada num suporte numa orientação horizontal, nelas eram retratadas batalhas,
romances, religião, contos populares e histórias do mundo sobrenatural.

Figura 1: Emakimono

Fonte: https://quadrinheiros.com

Os rolos (makimono) geralmente feitos de papel ou de seda, foram


predominantes durante os períodos Heian (VIII d.C.) e Kamakura (XII d.C), Genji
Monogatari é o exemplar de emakimono mais antigo conservado, sendo o mais
famoso o Chōjū-giga atribuído ao bonzo Toba Sōjō, também conhecido como
Kakuyū e preservado no templo de Kozangi em Kyoto. Nesses últimos surgem,
9

diversas vezes, textos explicativos após longas cenas de pintura. Esse estilo
desenho em que boa parte da história e contada através de imagens e traços
específicos é hoje uma das características mais importantes dos mangás. Miura e
Koike (2003 p.12) indicam que o ato de escrever logo fez derivar a criação de
desenhos que retratavam a vida cotidiana durante o século XVII, chamados ukiyo-e.
Esses ainda hoje são estudados como fonte de conhecimento sobre a vida das
pessoas no período Edo (XVII d.C.), em que os tradicionais rolos são substituídos
por livros, eram inicialmente destinadas à ilustração de romances e poesias, mas
rapidamente surgem livros para ver em oposição aos livros para ler, antes do
nascimento da estampa independente com uma única ilustração de ukiyo-ê no
século XVI.

Figura 2: Chōjū-giga

Fonte:https://esoumdesenho.wordpress.com/2018/10/24/antiguidades-choujuu-jinbutsu-giga-o-
primeiro-manga-da-historia

Figura 3: Estampa Ukiyo-ê

Fonte:http://www.nipocultura.com.br/ukiyo-e-%E2%80%9Cpinturas-do-mundo-flutuante%E2%80%9D/

No começo do século XIX, as obras gráficas da Europa chega ao Japão


através do cartunista Charles Wirgman um artista britânico que chega em Yokohama
10

em 1861 e no ano seguinte cria o jornal satírico The Japan Punch, onde publicou até
1887, muitos de seus desenhos traziam aspectos que exerceram muita influência
sobre os mangás, também foi ele que ensinou técnicas ocidentais de desenho e
pintura para um grande número de artistas japoneses como Takahashi Yuichi
influente pintor japonês, conhecido por seu trabalho pioneiro no desenvolvimento do
movimento artístico yōga (estilo ocidental) na pintura japonesa do final do século
XIX.

Nessa época retratavam homens e mulheres


mundanas, cenas de teatro, retratos de beldades famosas,
atores e lutadores de sumô. Surgiram temas históricos,
paisagens, flores, pássaros, e a qualidade foi melhorada. No
entanto, na essência tinham muito a ver com as histórias em
quadrinhos. (LUYTEN 2000 p.98).

Figura 4: Jornal The Japan Punch

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:The_Japan_Punch.jpg

Sobre a influência do The Japan Punch de Wirgman, Kanagaki Robun escritor


e jornalista japonês e Kawanabe Kyosai artista de pintura tradicional japonesa,
criaram a primeira revista de mangá em 1874 sobre o nome de Eshinbun Nipponchi
a obra tinha estilo simplório de desenhos e não se tornou popular foi encerrada
depois de três edições. A revista Kisho Shimbun lançada em 1875 foi inspirado por
Eshinbun Nipponchi, que foi seguido por MaruMaru Chinbun em 1877, e em seguida
11

Garakuta Chinpo em 1879. No contexto dessas obras eram diversas as imagens e


paisagens as quais se inspiravam.

Após esse período uma gama de artistas japoneses passaram a estudar e


utilizar técnicas ocidentais para desenvolver seus trabalhos, até que em 1912 o
autor Rakuten Kitazawa escreve o mangá Tagosaku to Mokube no Tokyo Kenbutsu,
o primeiro mangá moderno da história, pois, devido ao sucesso e técnica empregada
em sua construção serviu de modelo para outros mangás até os dias de hoje, o
mesmo autor 1905 revolucionou novamente o mercado editorial japonês criando a
revista Tokio pakku, o qual se baseou em várias revistas ocidentais. Alguns anos
antes no ano de 1895 Iwaya Sazanami criou a primeira revista Shōnen, a Shōnen
Sekai que foi publicada até 1914, foi criada como parte de muitas revistas criadas
que se conectaria com muitas partes diferentes da sociedade no Japão. Rakuten
Kitazawa inspirado por esse trabalho, criou a shoujo sekai uma versão voltada para
o público feminino e a Shōnen pakku que era voltada para o público infantil, mesmo
nas publicações de revistas atuais podemos notar que esse padrão de gênero na
revista ainda se mantém.

Rakuten Kitazawa, mais tarde, no período Meiji, usou a


linguagem e a forma dos pasquins ingleses do século XIX para
a nova construção da imagem e humor das influências
ocidentais que filtrou para conceber o que legou ao futuro da
História dos mangás e animês do Japão. O sucesso foi tão
grande que surgiu a primeira revista japonesa de humor
Marumaru Shimbum em 1877 e teve a duração de 30 anos. Os
japoneses trocaram o pincel pela pena e os quadrinhos
tomaram rumos diferentes no Japão. (LUYTEN, 2014, p.31).
12

Figura 5: cena mangá Tagosaku to Mokube no Tokyo Kenbutsu

Fonte: https://www.japanpitt.pitt.edu/essays-and-articles/culture/popular-culture-manga

Após a segunda guerra mundial os Estados Unidos ocuparam o Japão


fazendo com que o país fosse inundado com novas formas de desenho e edição,
uma das pessoas que teve influência nesta nova época do Japão foi Machiko
Hasegawa a primeira mulher a escrever um mangá, sua obra Sazae-san
revolucionou o mangá moderno trazendo a base para muitas obras futuras, também
atualmente é considerado o mangá/anime mais longo da história sendo exibido e
publicado até os dias atuais, por essa obra Machiko Hasegawa e considerada a
“mãe” dos mangás. Outra mudança na época, foram que os mangás começaram a
ser publicados em compilações de várias histórias em akahons (livros vermelhos),
que eram produzidos com papel mais barato e em tamanho reduzido
(aproximadamente tamanho de cartões-postais), tais características fizeram com
que os mangás ganhassem cada vez mais popularidade, visto que era uma mídia
barata para se ler, esse padrão é encontrado na maioria dos mangás que foram
publicados nas últimas décadas.
13

Figura 7: obra Sazae-san

Fonte:https://www.crunchyroll.com/pt-br/anime-news/2016/04/24-1/the-very-best-of-machiko-
hasegawa-art-exhibit-celebrates-70-years-of-sazae-san

Figura 6: Machiko Hasegawa

Fonte: https://womenincomics.fandom.com/wiki/Machiko_Hasegawa

Porém outra revolução passaria pelo mercado de mangás, nos anos de 1950,
Osamu Tezuka começou a publicar suas obras, seu primeiro grande sucesso foi
Jungle Taitei (no Brasil kimba o leão branco) e depois Astro Boy, com essas obras e
sua popularidade Tezuka abriu as portas do mundo para os mangás, pois, suas
obras começaram a ser distribuídas em quase todo o ocidente, por isso, se Machiko
Hasegawa e a “mãe” dos mangás Osamu Tezuka pode ser considerado o “pai”, pois
além de ajudar a popularizar os mangás no mundo, também foi ele que ajudou a
criar e revolucionar as animações a partir da década de 1960.

Como estudante de medicina no início do pós-guerra,


ele registrou seu espanto e vontade de produzir algo
14

semelhante em outros de seus quadrinhos autobiográficos


após assistir a um filme americano recente: “Por que os filmes
americanos são tão diferentes dos japoneses? Como eu posso
desenhar quadrinhos que façam as pessoas rir, chorar e se
emocionar como aquele filme?” Foram esses saltos de
imaginação que permitiram a Tezuka transformar os quadrinhos
japoneses (GRAVETT, 2006 p.30).

Figura 8: Osamu Tezuka

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Osamu_Tezuka

Figura 9: mangá Jungle Taitei (kimba o leão branco)

Fonte: http://www.desenhoonline.com/site/ozamu-tezuka-o-pai-do-manga/

Podemos perceber que o movimento de mangas veio crescendo através dos


tempos, pouco a pouco, década a década; porém, no Japão a partir do XX outra
forma de arte começou a se desenvolver junto com a indústria gráfica, a indústria do
cinema e da animação, esse movimento vai culminar no que nos popularmente
15

chamamos de “animes” porém para entender esse movimento precisamos


primeiramente entender suas origens.

Os animes são animações feitas no oriente, principalmente no Japão onde foi


desenvolvida a palavra “anime” e a forma abreviada que os japoneses chamam a
palavra em inglês “animation”, podem ser independentes quando não são baseadas
em nenhuma obra anterior, porém a maioria dos animes é feita baseada em uma
versão já de sucesso de mangá, ou seja, quando um mangá atinge um certo grau de
popularidade ele terá uma versão em anime, sua origem se dá no começo do século
XX quando as técnicas de animação e de cinema estavam começando a florescer
na Europa e nos Estados Unidos, aproximadamente entre o ano de 1906 e 1907 a
primeira animação japonesa foi criada, o curta metragem de apenas 3 segundos
chamado Katsudō Shashin que foi redescoberto apenas em 2005 pelo especialista
em iconografia Natsuki Matsumoto e o historiador de animação Nobuyuki Tsugata,
nesse período, diversas obras ocidentais começaram a ser exibidas no Japão, o'que
fez com que os artistas locais começassem a se organizar para realizar obras de
animação nacionais.

O estrangeirismo começou a tomar conta das terras


nipônicas influenciando desde os costumes até o idioma: antes
da influência norte-americana, os japoneses utilizavam a
mesma palavra, douga – imagens em movimento –, para filmes
e desenhos animados, foi com baseado na palavra inglesa
animation que surgiu a expressão anime para designar
desenhos animados (SATO, 2005 p.25).
16

Figura 10: fragmento da película Katsudō Shashin

Fonte: https://www.imdb.com/title/tt1226777/

Mesmo sem muitas fontes de informação sobre como o ocidente criava suas
animações, a companhia Tennenshoku Katsudo Shashin (Tenkatsu) lançava em
1917 o primeiro filme de animação totalmente feito no Japão, o filme Imokawa
Mukuzō Genkanban no Maki, a obra é de extrema importância tanto para o
cinema/animação quanto para a história do próprio país, pois ficou evidente para os
artistas da época que com um pouco de esforço, tinha-se condições de realizar suas
obras. A prova disso e que pouco tempo depois, outros 2 artistas lançam seus
próprios filmes de animação; o pintor de estilo ocidental Seitaro Kitayama
interessado pela nova arte que estava surgindo, e após muitas tentativas e falhas
consegue lançar a obra Saru Kani gasse; e Sumikazu Kouchi que tenta ir por um
caminho mais autoral cria a obra Hanawa Hekonai Shinto no maki. Esses três
artistas formaram a base para o começo da animação no Japão, visto que muitas
técnicas que utilizaram eram próprias ou adaptadas de técnicas ocidentais, porém
apenas Seitaro Kitayama se manteve fixo na área, os outros após esse começo
mudaram de área por motivos adversos. Foi Kitayama o primeiro a exportar uma
animação para a França com a obra infantil momotaro sendo assim a primeira obra
de animação japonesa no ocidente.
17

Figura 11: filme de animação infantil momotaro

Fonte:https://www.animenewsnetwork.com/encyclopedia/anime.php?id=4937

A partir do ano de 1933, vários artistas começam a ser contratados pelo


governo japonês a fim de realizar propagandas que realçaram a moral do exército do
país, o principal deles Mitsuyo Catedral, que no ano de 1941 após o Japão entrar na
segunda guerra mundial foi mandado a fazer a obra Momotaro no umiwashi, uma
animação com claro teor de propaganda de guerra que era exibido para o público
infantil, após isso vários filmes foram exibidos com essa finalidade.

Apesar da censura e falta de liberdade de expressão, foi


no período militar que a animação japonesa mais evoluiu
tecnicamente, graças ao incentivo financeiro do governo para a
produção de seu material (SATO, 2005, p.128).

Figura 12: filme de animação Momotaro no umiwashi

fonte: https://mubi.com/pt/films/momotaro-the-sea-eagle
18

A partir do ano de 1945 até o começo da década de 1950, por conta da


derrota do Japão na segunda guerra mundial e da crise que quase se instaurou nos
primeiros anos pós-guerra, não houve nenhuma animação de conteúdo significante,
porém segundo Luyten (2000, p.122), “as pessoas estavam querendo reconstruir
suas próprias vidas, vencer a fome e a miséria, cuidar dos órfãos de guerra, dos
veteranos mutilados e dos sobreviventes das duas bombas em Hiroshima e
Nagasaki. O poder aquisitivo estava baixo e a busca de entretenimento barato era
uma necessidade.” Com isso as produções japonesas só voltariam a ser produzidas
em 1952 com Noburo Ofuji com a obra Kujira, que foi no ano de 1953 premiada no
festival de Cannes. Com o Japão aos poucos se recuperando da guerra e as
produções de animações voltando aos poucos, tudo se encaminha para ano de 1963
o ano que mudaria a industrial e a cultura japonesa.

Figura 13: filme kujira

Fonte: https://www.nishikata-eiga.com/2011/12/noburo-ofujis-whale-1952.html

1 de janeiro de 1963 o ano em que foi lançado Astro Boy, a primeira


animação a receber o nome popular “anime” baseado no mangá de mesmo nome,
de autoria de do já citado Osamu Tezuka, que não estava satisfeito apenas de já ter
revolucionado o setor de mangás, se tornando exemplo para outros artistas, ele
também queria que seus mangás ganhassem movimento e vida, e que, as pessoas
comuns que não tinham acesso ao cinema também pudessem usufruir dessa arte.
Foi então que depois de muito estudo e esforço, Tezuka junto com sua equipe
conseguiram criar técnicas que deixavam a animação mais barata e mais rápida de
ser feito, após isso conseguiu contrato com a emissora TV Fuji onde começou a ser
exibida; astro boy foi o primeiro anime a ir para a TV e também foi o primeiro grande
anime de sucesso no mundo, tendo sua técnica de animação, sua estética, e
19

principalmente forma de enredo, praticamente um padrão que é seguido nas


animações até os dias atuais, o sucesso foi tão grande no Japão e no ocidente que
abriu um novo setor de entretenimento, visto que diversas empresas e produtoras
começaram a investir nesse setor.

Figura 14: anime astro boy

Fonte: https://myanimelist.net/anime/2747/Tetsuwan_Atom/pics

O Japão é a prova de que uma nação não-caucasiana,


e que se segue um raciocínio diferente da tradição judaico-
cristã, pode se tornar industrializada, desenvolvida e rica sem
abrir mão de sua herança cultural, e parece que isso é visto
como algo inspirador por muitos jovens, inclusive na Ásia e na
América Latina. (SATO, 2005 p.201)

A partir da década de 1960 e 1970 a produção de mangás e animes vem


crescendo a cada ano, chegando ao ponto que atualmente o Japão e a 2 maior
indústria audiovisual e gráfica do mundo em termos de lucro e influência, perdendo
apenas para os Estados Unidos, com uma variedade de histórias que passam por
diferentes temas, estão cada vez mais se expandindo e aumentando esse grau de
influência, nos capítulos que se seguiram poderemos analisar que apesar de parecer
uma mídia nova os mangás e animes já fazem parte da realidade brasileira a vario
anos.
20

1.2 Características Próprias dos Mangás e Animes

Como podemos constatar a história dos mangás e animes é antiga e variada,


pois, com o passar do tempo cada vez mais elementos eram criados e anexados
aos materiais existentes, todo esse conteúdo somando-se a rica história e mitologia
japonesa fez com que as obras criadas fossem a mais variadas possíveis, com
traços e estilos muito específico deste tipo de arte. Os mangás por serem produções
tipicamente nipônicas segundo Meireles (2003, p.206), acredita-se que eles:
“buscam o envolvimento total do leitor em um mundo à parte, no qual ele pode viver
suas fantasias e escapar às tensões do quotidiano”. Quando lemos um mangá ou
assistimos a um anime pela primeira vez, aqueles que não tem um prévio
conhecimento desta cultura podem não entender o que está se passado na trama
lida ou assistida, por conta disso nos próximos tópicos será feito uma breve síntese
dessas características.

Formatos:

Os mangás e animes, diferente do que acontece com as produções no


acidente, possuem algumas peculiaridades no seu estilo de formato e na sua
distribuição. Os mangás após serem escritos e desenhado por seus autores(o autor
e que escreve a história e que também desenha) tendo assistentes apenas para
auxílio. As obras de Mangás são escritas pelos mangakas (nome que se dá aos
escritores de histórias em quadrinhos japonesas) o processo de criação de um
mangá basicamente consiste em que o autor/mangaka faça os primeiros esboços de
desenho e diálogos depois de revisar o posicionamento e escrita do mangá, utiliza
seus assistentes apenas para fazer a finalização.

Os mangás são publicadas em capítulos em revistas antológicas (revistas


com vários temas e histórias), essas revistas podem ter de 400 a 800 páginas
dependo da editora que está sendo feita, sua publicação pode ser desde semanal e
trimestral; para que os custos de sejam mais baixos e que seja mais acessível a
todos são impressas em papel-jornal ou papel reciclado além disso com exceção
21

das capas o conteúdo das histórias e em preto e branco, há diversas editoras no


Japão que suprem esse mercado e publicam seus materiais.

venda é feita nas estações de trens ou metrôs, em


quiosques com cigarros, chocolates, jornais e refrigerantes, em
livrarias ou então em máquinas (como as que vendem cigarros,
cerveja, saquê etc.).. O material custa aproximadamente o
mesmo valor de uma passagem de transporte urbano do país.
De acordo com Gravett (2006) uma edição da revista Shounen
Sunday, com mais de 400 páginas, custa em média 220 ienes
(cerca de 2 dólares). O autor ainda comenta que as tiragens
são enormes, a Shounen Jump, por exemplo, teria uma tiragem
semanal de 3 milhões de cópias. (LUYTEN 2000 p.44).

Figura 15: revista shonen jump

Fonte: http://soldadosnerd.blogspot.com/2016/12/o-que-e-weekly-shonen-jump.html

Quando uma determinada história atinge um número x de capítulos


(geralmente em arcos de história) elas ganham uma versão de volume único
encadernado, chamado no Japão de tankohon, são essas versões que são
exportadas para o exterior, dependendo do sucesso de cada obra essas histórias
podem receber novas versões com melhores acabamentos e melhor impressão com
papéis de melhor qualidade.
22

Figura 16: manga tankohon japonês The Lost Canvas

Fonte: https://ssperfil.wordpress.com/2011/04/30/lost-canvas-capa-do-volume-25-do-manga-
tankohon-japones/

Com os animes acontece algo parecido, após a revolução que Osamu Tezuka
fez com o anime astro boy, os animes passaram a ter formatos muito mais distintos
do que o resto do mundo, a primeira coisa a se falar e que os animes são animações
baratas de serem feitas, pois além de haver um reaproveitamento de frames e
paisagens, muitos diálogos acontecem com o efeito de “animação parada” onde
apenas a boca e algumas expressões são animadas. Porém apesar da expressão
“barata” não quer dizer que há falta de qualidade nas obras, pois, apesar dessa
diferença os animes não ficam atrás das animações ocidentais.

Ele foi o principal agente da transformação do mangá,


graças à abrangência de gêneros e temas que abordou, às
nuances de suas caracterizações, aos seus planos ricos em
movimento e, acima de tudo, sua ênfase na necessidade de
uma história envolvente, sem medo de confrontar as questões
humanas mais básicas: identidade, perda, morte e
injustiça(GRAVETT, 2006 p.28).
23

Figura 17: cenas do anime astro boy

Fonte: https://br.pinterest.com/pin/312085449148930954/

O caminho que um anime percorre e de certa forma simples, quando um


mangá atinge um determinado grau de sucesso, ele ganha sua versão em anime,
essa versão pode ser a de série de televisão, quando e exibido diretamente nas
emissoras abertas ou cabeadas, a sua qualidade e mais básica pois, precisa ser
feita em um tempo menor para suprir a demanda da programação. Os animes
também podem virar filmes de animação, após algumas obras fazerem sucesso na
TV acabam ganhando uma versão de sua história para o cinema, porém, também há
casos em que o filme de animação não tem um mangá base, sendo feito
diretamente para o cinema, esse é o tipo de animação que é mais sofisticada e que
possui a melhor qualidade, já que os estúdios têm um período de tempo mais para
se dedicar a obra.

A indústria cultural infanto-juvenil japonesa é baseada


no tripé mangá-animê-cinema. Uma série de mangá de
sucesso se torna um animê, que se torna um filme
(VASCONCELLOS, 2006 p.38).

Por último temos os formatos de OVA (original video animation) que engloba
os formatos anteriores, podem ser desde episódios remasterizados de séries, e
filmes que já saíram do catálogo dos cinemas. Vale ressaltar que apesar da maioria
das produções seguirem esse caminho a muitas obras que fazem essa “ordem” de
24

lançamento ao contrário e acabam saindo do cinema e virando animações de série


ou mangás.

Figura 18: representação mangá (esquerda) animação (direita) da obra One Piece – Echiro
Oda

Fonte: https://imgur.com/gallery/TknF3

Estilo gráfico e animado:

Os mangás têm seu estilo gráfico e animado bem particular, pois, há várias
características que denotam a sua origem. Uma das primeiras coisas que se é
notada em um mangá e a sua ordem de leitura que basicamente é o oposto da
leitura feita no ocidente, ou seja, a leitura dos quadrinhos e dos balões de diálogo
devem ser feitas da direita para a esquerda, esse costume se deve ao fato de que
os primeiros livros japoneses eram feitos em pergaminhos, que seguindo o costume
oriental eram desenrolados da direita para a esquerda, o que acabou influenciando a
escrita e a linguagem e consequentemente o modo de ler um mangá.

Tal costume é facilmente compreensível, os mangás são


um entretenimento relativamente barato e muito prático de ser
consumido, ideal para uma sociedade com tão pouco tempo
livre para o lazer e que nutre grande paixão pela leitura.
(ZAGO, 2012 p.42).

Já os animes não possuem uma diferença tão expressiva em relação a sua


exibição, o que mais se destaca e que diferente dos desenhos animados ocidentais
25

que possuem aberturas e encerramentos simples, os animes têm aberturas e


encerramentos que além de terem uma duração maior (aproximadamente 1,30 s)
são mais desenvolvidas e são trocadas a cada arco de história. Segundo Zago,
(2012, p.43) no que diz respeito a popularidade dos tanto de animes e mangás é que
as animações perdem para os mangás em popularidade entre os japoneses, devido
aos horários de exibição que nem sempre coincidem com a agenda do espectador e
a uma menor variedade de temas por conta do custo elevado da produção, mas
internacionalmente elas têm o efeito de alavancar as vendas das histórias
impressas.

Figura 19: ordem de leitura mangá

Fonte: https://otakubfx.com.br/como-ler-um-manga-quadrinho-japones/

Outra particularidade que aparece tanto nos mangás quanto nos animes e
seus traços de desenhos específicos, nesse quesito podemos notar aquela que é a
marca mais conhecida dessa mídia, os olhos grande e expressivos que são usados
principalmente para transmitir mais detalhes em expressões emocionais, as cores
usadas são as mais variadas possíveis já que podem ser encontradas em várias
tonalidades, desde o tradicional castanho, verde até cores como vermelho e lilás.

Historicamente os desenhos de “linhas simples (de


influência chinesa) e estilizadas, e com personagens de olhos
grandes, surgiram porque a maioria da população era
analfabeta no kanji e essa era a melhor maneira de
transparecer os sentimentos das personagens sem a utilização
de ideogramas” (FARIA, 2004 p.13).
26

Porém a dissonância de cores não se restringe apenas aos olhos, dentro do


meio de mangás e animes, os tons de pele e cabelo extremamente coloridos tornam
as obras ainda mais diferentes das ocidentais, pois, podemos encontrar, por
exemplo, personagens negros com cabelos vermelhos ou brancos, personagens
brancos com cabelos azuis ou cinzas, personagens com a pele rosa ou roxo, esses
são pequenos exemplos de como a mistura de tipos de cores e personagens tornam
essa mídia extremamente rica visualmente.

Figura 20: alguns exemplos de cores utilizadas nos mangàs e animes

Fonte:https://aminoapps.com/c/otanix/page/blog/as-cores-no-anime-parte-i/
1Qxm_g1f6uda6z0DJnRnLlmMPlBEj6jYlZ

São usadas também inúmeras metáforas visuais para representar seus


personagens, dando tanto a leitura quanto a animação uma melhor fluidez de enredo
quando se é necessário tratar de sentimentos mais intensos, são alguns exemplos
de tipos de metáforas visuais ; uma pequena gotícula de suor ao lado da testa ou
bochecha representando constrangimento, receio; deformação na face do
personagem com veias aparecendo ou com o surgimento repentino de dentes e
chifres, representando maldade ou raiva; personagem assume uma forma “chibi”
27

(baixinho em japonês), que pode ser empregado para demonstrar vergonha, medo
mas em alguns casos quando usado com olhos grandes e brilhantes pode ser usado
para mostrar “fofura”; face com expressão neutra com sombreado na testa e nos
olhos indicando a emoção de ódio. Essas são apenas algumas expressões usadas
normalmente nas obras, há inúmeras outras formas de se passar emoção, sendo
que a maioria varia de acordo com o autor.

Durante os anos 1920, os quadrinhos começaram a usar


certas convenções para aumentar a expressão da ação. O
principal propósito era destacar a função de cada elemento
como movimento dos personagens, seus sentimentos, etc.
Temos assim figuras convencionais de ação: linhas retas =
velocidade; estrelinha = dor; gotas = calor ou medo; poeirinhas
= velocidade; espirais = tontura, e figuras convencionais de
sons expressas pelas exclamações, interrogações e
onomatopeias. (LUYTEN, 2002, p. 178).

Figura 21: expressões usadas pelo personagem Yato da obra Noragami - Adachitoka

Fonte: https://www.pinterest.fr/pin/161848180338602285/

Alguns animes e mangás podem também ter elementos de Ecchi em suas


cenas, o Ecchi, traduzido como obsceno, são elementos de sexualização de
determinados personagens, podem acontecer tanto em personagens masculinos
como femininos, em obras destinadas a menores, esse conteúdo se apresenta de
28

maneira mais cômica e servindo como fanservice (partes narrativas para agradar os
fãs) nesse caso as cenas não são explícitas, em obras de teor adulto, se apresenta
de maneira mais sóbria e menos cômica, sendo trazida mais para a realidade.

Roupas muito curtas, transparentes ou a falta delas são elementos típicos de


obras consideradas ecchi também a movimentação em ângulos a destacar a
sensualidade, as personagens femininas tendem a serem representadas com corpos
mais curvilíneos e seios grandes, geralmente dando destaque para estes; os
personagens masculinos são apresentados com corpos mais tonificados e com boa
aparência muitos são mostrados com parte da virilha ou glúteos a mostra. Esses
elementos de Ecchi são destinados tanto para homens quanto para mulheres, visto
que as obras são destinadas para ambos os sexos.

Figura 22: personagens Simbad – magi; Lucy – Fairy Tail

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipédia

Demografias e gêneros

Dentro da indústria de mangás e animes podemos classificá-los pela sua


demografia, ou seja, pelo público alvo em específico a que a obra será destinada,
são divididas em 5 categorias que são:
29

Kodomo (criança): obras feitas para o público infantil, são histórias simples de
fácil assimilação, geralmente não possuem arcos seriados longos, sendo cada
capítulo/episódio uma história fechada, nos mangás os capítulos vêm com páginas
para colorir e jogos, nos animes as histórias sempre passam alguma mensagem ou
valor de cunho educacional, no Brasil um kodomo que fez muito sucesso foi
Hamtaro.

Figura 23: obra Hamtaro – Tms Entertainment

Fonte: https://www.imdb.com/title/tt0318895/

Shoujo (jovem garota): obras feitas para o público jovem feminino da faixa dos
12 aos 18 anos, possuem diversos aspectos narrativos diferentes, que vão desde a
ação, drama e romance, seu estilo gráfico apresenta personagens mais fantasiosos
com aparências e personalidades mais exageradas, os romances também tendem a
ser mais idealizados e ingênuos. As obras desta demografia também possuem
grande número de cenas de ação trazendo ao publico feminino uma experiência
igual ao publico masculino, pois, as personagens diferente da abordagem da maioria
das obras ocidentais, não são retratas apenas como donzelas em perigo (apesar de
haver personagens assim mesmo nos animes e mangás), dentro dessas obras as
mulheres são desde combatentes, estrategistas, possuidoras de poderes misticos, e
lideres. No Brasil o mangá/anime mais conhecido do gênero e Sailor Moon.
30

Figura 24: obra Sailor moon – Naoko Takeuchi

Fonte: https://www.imdb.com/title/tt0114327/

Shonen (jovem garoto): obras feitas para o público jovem masculino da faixa
etária dos 12 aos 18 anos, e o gênero mais comum de ser exportado para fora do
Japão e a forma mais popular de mangá e anime, geralmente suas histórias têm
como características a ação, humor e um protagonista masculino(embora a
presença feminina seja essencial e presente em todas as obras) possuem os
mesmos estilos gráficos das obras shoujo porém aqui é dado ênfase nas
lutas/batalhas, o mangá/anime mais conhecido do gênero no Brasil e Naruto.

Figura 25: obra Naruto – Massashi Kishimoto

Fonte: https://www.emotioncard.com.br/imagens-do-naruto-boruto/
31

Josei (mulher): obras feitas para o público adulto feminino com faixa etária
para maiores de 18 anos,  são mais realistas que as categorias anteriores com
histórias focadas na vida adulta e no cotidiano feminino,  esse tipo de mangá/anime
costuma apresentar temas e narrativas que vão desde a ficção, cotidiano até a
pornografia, e gênero que menos transforma mangás em animes, pois muitas obras
acabam virando séries, novelas ou filmes, uma das obras mais conhecidas e Michiko
e Hatchin cuja a ambientação, paisagem e culturas apresentadas são inspiradas no
Brasil.

Figura 26: obra Michiko e Hatchin – Takashi Ujita

Fonte: https://www.imdb.com/title/tt1324968/

Seinen (jovem, adulto jovem): obras feitas para o público adulto masculino
com faixa etária para maiores de 18 anos,  possuem traços e desenvolvimento mais
realista sendo equivalentes a demografia Josei, porém no caso dos Seinen os temas
tanto os animes quantos os mangás vão mais para o lado dos esportes, política e
terror gore, apesar desses serem mais comuns também a uma variedade de obras
sobre outros assuntos, por serem para maiores de idade a uma maior liberdade na
hora de se criar as obras, pois, sua venda comercialmente se dá em revistas e
horários específicos para adultos, no Brasil uma das principais obras que chegaram
por aqui foi gantz.
32

Figura 27: obra Gantz – Hiroya Oku

Fonte: https://www.imdb.com/title/tt0434685/

Junto a demografia existente, os animes e mangás podem ser divididos em


gêneros, as categorias em cada uma dessas obras podem se encaixar são amplas,
já que um mesmo mangá ou anime pode ter uma, duas ou mais de três categorias
diferentes dependendo do conteúdo de sua história. Os gêneros que compõem
essas obras são as seguintes:

Nekkets: tipo de mangá e animes em que as cenas de ação, onde os


personagens defendem os valores da amizade e do treinamento, geralmente foco de
história são batalhas e lutas. Exemplos: Dragon Ball.

Mecha: mangás e animes sobre robôs gigantes tripulados por seres humanos,
histórias quase sempre futuristas com temas sobre tecnologia. Exemplos Gundam.

Cyberpunk:  mangás e animes sobre futuros distópicos dominado pela


tecnologia e grandes corporações, são histórias que focam na sobrevivência e no
aspecto político dos futuros apresentados. Exemplo: Cowboy Bebop

Aniparo: paródias de animes, mangás entre outros, tem histórias focadas na


comédia com episódios sem ordem cronológica e que utilizam de referências a
outras obras. Exemplo: Gintama
33

Jidaimono: Mangá e animes com temas históricos, seja a história local


japonesa ou global envolvendo temas mundiais. Exemplo: Lobo Solitário

Jôhô Mangá: Mangás e animes de tom educativo, voltado para crianças são
histórias simples que buscam passar algum conhecimento. Exemplo: Doraemon.

High School: mangás e animes que retratam a vida cotidiana escolar, podem
conter desde histórias sobre escolas normais até aspectos místicos e sobrenaturais,
tudo retratado dentro deste ambiente. Exemplo: Ansatsu Kyoushitsu.

Spokon: mangás e animes esportivos, retrata histórias sobre campeonatos e


práticas esportivas, em algumas obras temas como superpoderes também podem
aparecer. Exemplos: Captain Tsubasa.

Gekiga: mangás e animes com histórias de tom mais adulto e temas


dramáticos, podem conter de histórias de guerra até traumas pessoais. Exemplos:
Lobo Solitário.

Magical Girl: mangás e animes que tem como tema meninas que possuem
algum objeto mágico ou poder especial, são histórias que tem em sua maioria
personagens femininas como protagonistas. Exemplos: Sakura Card Captor.

Music: mangás e animes com temas musicais, podem ser histórias de


romance ou drama sobre músicos, bandas ou melodias. Exemplo: Nodame
Cantabile

Shoujo ai - Yuri: mangás e animes de romance homossexual entre mulheres,


são histórias que envolvem o relacionamento afetivo entre duas mulheres ou jovens
garotas. Exemplo: Kannazuki no Miko.
34

Shounen ai - Yaoi: mangás e animes também de romance homossexual entre


homens, são histórias que envolvem o relacionamento afetivo entre dois homens ou
jovens garotos. Exemplo: Sekai-ichi Hatsukoi.

Adendo importante: tanto os gêneros Shoujo ai - Yuri quanto Shounen ai -


Yaoi não possuem teor pornográfico, em algumas obras há algumas menções a
sexo (Yuri – Yaoi que são obras voltadas para o público mais adulto) mas não são
explícitas, porém nas obras voltadas para adolescentes e de classificação livre
(Shoujo ai – Shounen ai ), não é feita tal referência, as obras desses gêneros são
focadas no romance e na relação entre essas pessoas, não devem ser confundidas
com Hentais e obras pornográficas.   

Harém: mangás e animes que apresentam um personagem masculino ou


feminino que cercado por interesses amorosos do sexo oposto, são histórias
geralmente cômicas. Exemplo: Love hina.

Hentai, Seijin Mangá ou Ero-Mangá: mangás pornográficos.

Com isso podemos notar o quão rico e esse meio de mídia, pois, cada
demografia em cada gênero e em cada obra acaba possuindo particularidades,
também é possível notar no que se refere a suas características tanto em qualidade
quanto em profundidade de tramas, as obras japonesas e orientais não perdem em
nada para o ocidente. Em relação a números Japão detém atualmente o maior
público leitor e a maior produção de Histórias em Quadrinhos do mundo. Segundo
Gravett, (2006, p. 18) em uma pesquisa feita em 2002, pelo Instituto de Pesquisa de
Publicações do Japão, 38,1% do que foi publicado no país correspondia a Mangás,
no caso das revistas foram 281 títulos diferentes no mercado. Destas, 37,7% eram
revistas masculinas; 38,4% eram de revistas para meninos; 8,8%, para meninas e
6,7%, para as mulheres. Cerca de um sexto da receita da indústria de revistas
japonesas 250 bilhões de ienes (cerca de 3 bilhões de dólares), vem das revistas e
mangá, graças a seu potencial de gerar grandes lucros, o ramo dos quadrinhos é o
mais competitivo da indústria editorial do país.
35

2. MANGÁS E ANIMES NO BRASIL

2.1 A Década de 1960 as Influências dos Primeiros Mangás


e Animes

Os mangás e animes como uma mídia que se expande em várias


demografias e gêneros também acabou por chegar no Brasil, porém para
entendermos o contexto em que essa mídia chegou ao Brasil precisamos voltar
exatamente para o ano de 1895, ano que o Brasil e Japão assassinaram um tratado
de amizade na cidade de paris, esse acordo possibilitou que ambos os países
tivessem trocas de mercadorias, produções culturais e intelectual, nessa época o
Japão enfrentava uma grave crise dentro do país, pois, havia pouca terra fértil no
país para plantio, fazendo com que qualquer perda de safra trouxesse a fome a
população, também havia o problema da mecanização de algumas culturas, o que
levou vários trabalhadores do campo a ficarem sem emprego. Com isso o Japão
começou a assinar contratos com vários países para possibilitar e incentivar que
uma parte da população migrasse, já no Brasil havia muita demanda de mão de obra
barata para trabalhar nas lavouras de café, visto que alguns anos antes havia sido
abolido a escravidão que era fonte da maioria da mão de obra do país, então o
Brasil estava aceitando toda a mão de obra barata que conseguisse trazer.
36

Figura 28: cartas de propaganda incentivando a imigração para o Brasil

Fonte:https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Affiche_%C3%A9migration_JP_au_BR

Nos primeiros anos após o tratado ser assinado, não houve números
significativos de japoneses vindo para o Brasil, isso se deu por conta do preconceito
de boa parte da população, que os considerava como uma raça inferior (os primeiros
japoneses a emigrar eram discriminados da mesma maneira que os negros que aqui
viviam). A imigração japonesa começa de fato no dia 18 de junho de 1908 quando o
navio Kosato Maru após uma viagem de 52 dias traz os primeiros imigrantes vindos
do Japão, vieram 781 pessoas que compunham 165 famílias. Após essa data,
diversos outros navios aportaram nos portos brasileiros, trazendo diversos
imigrantes vindos do Japão, eles acabaram se espalhando por áreas de são Paulo,
Minas Gerais e Paraná. Durante os anos que se seguiram os japoneses se fixaram
no Brasil, e várias famílias acabaram se espalhando para vários outros estados.

A imagem que os brasileiros teriam dos imigrantes


japoneses começou a ser formada antes mesmo do primeiro
navio, o Kasato Maru, chegar ao Brasil em 1908. Ainda no final
do século XIX se iniciaram os debates sobre a possibilidade da
vinda deles para o país, discussão essa baseada
principalmente em aspectos raciais. Naquela época
predominavam entre a elite brasileira os ideais eugenistas, uma
pseudociência que dividia a humanidade em raças, superiores
e inferiores. Para os brasileiros partidários desse ideal, o
37

subdesenvolvimento do Brasil era devido à sua inferioridade


racial, já que depois de servir de receptáculo dos degredados
portugueses, o país recebeu uma imigração que consideravam
da pior espécie. Eles viam como saída embranquecer a
população, estimulando a imigração europeia e proibindo a
entrada de negros e amarelos. (FERRAZ, 2008).

Figura 29: primeiro navio a chegar no Brasil trazendo imigrantes Kosato Maru

Fonte:https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2018/08/24/110-anos-da-imigracao-japonesa-no-
brasil-serao-comemorados-em-sessao-especial

A cultura dos animes e mangás no Brasil tem seu pontapé inicial na década
de 1960, alguns descendentes de japoneses começaram a viajar para o Japão, tanto
para visitas quanto para estudos, com isso acabavam tendo contato com a nova
onda de mangás e animes que estavam ganhando popularidade naquela época por
conta das obras de Osamu Tezuka. Em 1964 o artista e escritor Minami Keizi após
se inspirar na obra de Tezuka o mangá/anime astro boy, tentou publicar na antiga
editora pan juvenil, histórias de um personagem que havia criado chamado
Tupãzinho com as histórias em formato de mangá, o projeto acabou não
acontecendo e Minami acabou publicando seu personagem com traços ocidentais,
porém essa experiência fez com posteriormente tenta-se entrar novamente nesse
ramo. No ano de 1966 Minami orienta os desenhistas Fabiano Dias, José Carlos
Crispim, Luis Satiro e Antonio Duarte a seguirem o estilo japonês de histórias em
quadrinhos na obra/álbum chamado Encantado que continha algumas adaptações
de fábulas infantis escrita por ele mesmo, a obra foi publicada pela editora
Bentivegna.
38

Os mangás representam um fenômeno de comunicação


de massa atingindo tiragens milionárias em seu país de origem.
De desconhecida no mundo ocidental, a Cultura Pop Japonesa,
passa hoje em dia, a fazer parte do cotidiano dos jovens do
mundo inteiro. O Brasil, tendo a maior colônia nipônica fora do
Japão, já tinha a tradição de ler estas revistas japonesas
através de seus imigrantes tornando-se pioneiro não só na
leitura como na produção de mangá fora do Japão desde a
década de 1960. É importante conhecer o surgimento do
mangá a partir de Hokusai, seu crescimento no Japão e como
se deu o impacto da vinda massiva de novos títulos a partir da
década de 1990. Além disso, a experimentação através da
proliferação de fanzines e a produção de quadrinhos brasileiros
utilizando a forma do mangá como expressão. (LUYTEN 2014
p. 2)

Figura 30: revista Tupãzinho – Minami Keizi – editora Pan Juvenil

Fonte: http://www.guiadosquadrinhos.com/edicao/tupazinho-n-1/tu159100/41570

Em dezembro de 1966 foi criada a editora EDREL (editora de revistas e livros)


funcionava na rua tamandaré n°150 no bairro da liberdade em São Paulo, a EDREL
foi a primeira editora a publicar material com referências a cultura japonesa e mangá
no Brasil, pois antes mesmo da empresa ser criada seus fundadores e gestores já
39

estavam envolvidos no meio, foi fundada por Salvador Bentivegna, Jinki Yamamoto e
Minami Keizi, os três vieram da editora Pan que havia fechado algum tempo antes,
após abrirem as portas e começarem com as primeiras publicações. Segundo
Luyten (2014 p.3) a editora começou a suprir um mercado que apesar de pequeno,
tinha uma certa demanda, visto que a maioria dos mangás que vinham para o Brasil
até aquela época eram trazidos direto do Japão por pequenos grupos de
descendentes de japoneses, não eram traduzidos para a nossa língua e eram
vendidos em pequenas quitandas e armazéns principalmente no bairro da liberdade,
tinha como linha de edição principalmente quadrinhos em sua maioria referentes a
humor, como Minami era sócio da empresa acabou que seu personagem Tupãzinho
foi escolhido para ser fazer parte da logo e mascote da editora.

Figura 31: capa de volume revista EDREL

Fonte:http://bancadosgibisbrazucas.blogspot.com/2015/10/repostagem-edicoes-de-o-samurai-
editora.html

Nesse começo de trajetória dos mangás e animes no Brasil, podemos notar


que era um meio de mídia muito exclusivo a uma determinada região e um
determinado grupo, porém nessa época alguns nomes devem ganhar destaque, o
primeiro deles é o já citado Minami Keizi, que e por muitos considerado o “pai dos
mangás” no Brasil, pois na década de 1960 teve inúmeras contribuições para que o
segmento começa-se a dar os primeiros passos em solo nacional, como exemplo
40

temos aquele que é considerado o primeiro mangá (ou revista com inspiração nesse
formato) que o também já citado álbum encantado, também com outras influências
dentro da EDREL em estilo de mangá.

Você ficaria chocado, como ficaram todos naquela


época. Pela primeira vez, via-se um gibi que reunia em suas
páginas todos os elementos das facções citadas acima. Um
gibi que não se sabia se era de heróis, terror ou infantil e que
trazia uma aventura da época do Japão feudal. A história
narrada em ritmo de desenho animado, com muito mais
quadrinhos por página do que estávamos acostumados a ver e
cheio de personagens com nomes impronunciáveis. E, além de
tudo, tinha um roteiro absolutamente original. É mundo dos
comics para quem teve a sorte de ler aquele gibi, lançado pela
novata Editora Edrel, nunca mais poderia ser o mesmo
(ROSA , 2013, p. 51).

Figura 32: álbum encantado – Minami Keizi – editora EDREL

Fonte: http://www.universohq.com/noticias/editora-criativo-resgata-primeiro-manga-brasileiro-de-1966/

No ano de 1967 entram na editora os desenhistas e roteiristas Claudio Seto e


Fernando Ikona com eles a frente dos projetos da editora várias obras foram
lançadas com características de mangás. Os traços de suas revistas eram variados
41

podia ser notado que havia um estilo gráfico mais ocidental como por exemplo a
ordem de leitura, porém o padrão de desenho e arte utilizado por Ozamu Tezuka no
Japão era nitidamente observado, principalmente nas obras que recebiam a
assinatura de Claudio Seto, sua principal obra na época era Ninja o Samurai Mágico,
que quando foi lançado, teve considerável tiragem, seu estilo e forma narrativa
caíram no gosto não apenas dos descendentes de japoneses, mas também de boa
parte do público que consumia naquela época quadrinhos americanos, as histórias
de Seto também foram um marco para a entrada dos mangás no Brasil.

Imagine chegar então no jornaleiro da esquina, naquela


banquinha pequena que possuía no máximo 50 revistas
diferentes em seus cordéis, e mais de 20 títulos de jornais na
bancada. Daí, encontrar preso por um prendedor de roupa em
um barbante um gibi chamado “Ninja, o Samurai Mágico”,
estampado na capa, em close, um descabelado, com cara de
bêbado, um espadachim com roupa estranha em destaque, e
um selo editorial, com um garotinho desenhado no estilo do
Gasparzinho. (LUYTEN 2005, p. 14).

Figura 33: Ninja o Samurai Magico – Claudio Seto – editora EDREL

Fonte: http://www.guiadosquadrinhos.com/edicao/ninja-o-samurai-magico-n-2/ni15204/41948
42

Outro nome importante da Edrel e da história dos mangás no Brasil foi


Fernando Ikona, como um dos desenhistas e roteiristas da editora ajudou Minami e
seto com várias obras que a editora estava trabalhando, com isso acabou entrando
em contato com a cultura e o estilo editorial japonês, sua contribuição mais
importante foi o livro A Técnica Universal das Histórias em Quadrinhos, que foi
lançada pela própria editora EDREL na época em que Seto e Minami publicaram
suas revistas. Essa obra é de extrema importância, pois nela temos pela primeira
vez a citação sobre mangás propriamente ditas, todas as obras anteriores não
aprofundaram sobre qual estilo eram desenhadas/ escritas, porém na obra de Ikona
temos informações detalhadas sobre os mangás que eram lançados na época.

Figura 34: obra A Técnica Universal das Histórias em Quadrinhos – Fernando Ikona

Fonte: https://www.bigorna.net/index.php?secao=arquivosincriveis&id=1300050960

Como podemos notar a editora EDREL, seus desenhistas e roteiristas deram


os primeiros passos para o que hoje é o mercado de animes e mangás no Brasil,
suas publicações na década de 1960 tiveram extrema importância, pois até então a
população tinha um mercado de gráfico sequencial basicamente formado por obras
europeias e americanas, que tinham histórias que se dividem apenas em três grupos
que não se misturavam entre si, as de heróis, as de comédia e as voltadas para o
público adulto, basicamente era isso que existia nas bancas da época, com a
chegada da EDREL, houve uma significativa mudança nesse conceito, já que as
histórias que eram publicadas não se encaixavam em quase nenhum patamar
43

preestabelecido, com histórias mais profundas personagens menos cartoonizados


mas ainda com humor, designers e traços totalmente diferentes dos estilos já
conhecidos, acabaram atraindo a atenção e conquistando certos públicos que
ansiavam por coisas novas.

Não por acaso como diz Nagado (2005 p.6) o Brasil foi o primeiro país a
produzir mangás fora do Japão. Isso realça como a cultura brasileira abraça todo o
tipo de expressão e sempre tenta assimilar novas tendências, pois sempre na
história nacional que uma cultura imigrante veio para o Brasil, sempre teve aspectos
que foram absolvidos e estruturados na nossa própria cultura, com os mangás não
foi diferente, pouco a pouco, após o começo das publicações várias pessoas que
não pertenciam ao nicho específico nipônico, já comentavam sobre as obras, assim
espalhando cada vez mais essa cultura.

Como podemos ver a influência da cultura japonesa começa nessa época a


dar os primeiros passos no nosso país, também na mesma década de 1960 os
primeiros traços de cultura japonesa começaram a vir para as televisões do Brasil,
vale relembrar que naquela época a televisão no nosso país estavam também no
começo. A primeira emissora de televisão a passar algum programa de origem
japonese foi a TV Record que no ano de 1964 passou a exibir a série de tokusatsu
(séries live-action) Nacional Kid, a série ganhou grande popularidade na época em
que foi lançada, pois, devido as várias misturas de elementos ocidentais e orientais
na composição da série, fez dele uma muito popular na época. Ainda na mesma
década o anime Gigantor (nome original Tetsujin 28) que era baseado no mangá de
Mitsuteru Yokoyama foi o precursor dos animes no Brasil, tendo sendo exibido no
final da década de 1960.
44

Figura 35: série tokusatsu Nacional Kid

Fonte: https://br.pinterest.com/bluesconosur/s%C3%A9ries-tv-national-kid/

A série Nacional Kid tem uma importância significativa para a abertura do


mercado de animações japonesas no Brasil, pois, foi através dela que as primeiras
emissoras como TV Record e a extinta TV Tupi começaram a olhar para as
produções nipônicas com mais interesse, pois naquela época o mercado de séries e
animações era praticamente dominado pelas produções dos estúdios americanos,
principalmente pela Disney e os estúdios Hanna-Barbera, com essa olhada mais ao
oriente, que essas emissoras deram elas acabaram se interessando pelas
produções que eram feitas naquele país, e isso fez com que o os primeiros animes
já chegassem as televisões nacionais já na década seguinte.
45

2.2 Década de 1970 e o Começo da Expansão do Meio e a


Censura

A década de 1970 não foi a melhor para a cultura dos mangás e animes, pois,
nesse período acontecia o regime militar período em que o país teve leis que
censuravam obras mais facilmente, a censura oficial a quadrinhos de maneira geral
começou em 1965 com a Lei das Publicações Perniciosas aos Jovens, assinada
pelo presidente General Castelo Branco, esta lei basicamente cometia que todo o
conteúdo que tivesse como público-alvo os jovens, deveriam antes de ser
publicados passar por análise dos órgãos do governo, porém como seu texto não
tinha um foco específico no que censuraria, durante vários anos, várias revistas
conseguiram publicar suas obras sem maiores problemas (como no caso das
editoras e obras já citadas). Porém as coisas mudam com o Decreto de Lei N° 1.007
de 26 de Janeiro de 1970 que tornou mais rígidas as regras para revistas e obras
em geral que eram publicadas naquela época, agora pela nova lei não seriam
toleradas nenhuma publicação que ofendesse a moral e os bons costumes, e que,
todas as obras deveriam antes de ser publicadas passar pela verificação do
departamento de polícia federal, a nova lei também dizia que caso fossem
encontradas irregularidades nas obras as mesmas deveriam ser proibidas de serem
divulgadas e a apreensão de todos os exemplares que forem impressos ou
produzidos. A obra mais famosa a sentir o peso da nova lei foi a já citada série
Nacional Kid que parou de ser exibida por todas as TVs Brasileiras quando o
ministro da justiça da época Alfredo Buzaid que censurou todas as séries e revistas
que tinham super-heróis voadores.

A censura oficial aos quadrinhos foi autorizada em


1965, pelo general Castelo Branco com a Lei das Publicações
Perniciosas aos Jovens. O novo contexto político
evidentemente alterou a feição do mercado editorial brasileiro,
tanto fechando algumas editoras quanto incrementando o
negócio de outras. (VERGUEIRO 2013, Pag. 4)
46

Apesar da censura nessa época, a progressão dos animes e mangás no


Brasil começou a se tornar mais ampla, a editora EDREL que começara suas
funções na década passada continuava a publicar suas revistas, porém poucos
títulos relacionados a mangás foram feitos, a mais relevante foi a revista Karate Men
que apesar de ter temas relacionados aos mangás anteriores não possuem o
mesmo estilo utilizado nestas obras, também são feitos algumas publicações no
estilo Shoujo (mangás para meninas) josei/seinen (mangás adultos) porém não se
tem muitas informações sobre essas obras. A partir do ano de 1971 a editora EDREL
começa a mudar sua segmentação de publicação indo mais para o lado das revistas
pop que faziam sucesso na época, levando Minami Keizi sair, com isso a editora
entrou em declínio, a EDREL também nesse período teve problemas com a censura
da ditadura militar, pois publicaram algumas revistas de teor erótico, e acabou por
fechar no ano de 1975.

Figura 36: revista karate men editora EDREL

Fonte: http://www.guiadosquadrinhos.com/edicao/karate-men-n-1/ka152100/65520

Também na década de 1970 a editora Abril começa a publicar Las Aventuras


de Meteoro produzidas na editora Abril Argentina a obra que era produzida por
artistas argentinos tinha inspiração e estilo de Speed Racer (Mach Go Go no
47

original) escrito pelo mangaka Tatsuo Yoshida, publicado em 1966. Com o sucesso
da obra a editora começou a produzir suas revistas com artistas brasileiros. Mesmo
não sendo diretamente um mangá, essas obras começaram aos poucos a
disseminar o gênero no Brasil, pois as revistas em quadrinhos americanas que já
eram vendidas aqui, começavam a cair na mesmice de histórias de heróis, isso fez
com que cada vez mais o público procura-se obras mais diferentes para consumir.

Figura 37: Las Aventuras de Meteoro editora Abril

Fonte: http://quadripop.blogspot.com/2014/05/os-quadrinhos-baseados-em-animes.html

Outra editora que na época apesar da censura fez sucesso foi a editora EBAL
(Editora Brasil-América Limitada) que foi fundada em 18 de maio de 1945 por Adolfo
Aizen, foi a principal difusora das histórias em quadrinhos no país, porém o interesse
da editora pelos mangás japoneses foi começar apenas no ano de 1969, quando
Pedro Anisio e Eduardo Baron criaram a obra O Judoka, que apesar de apresentar
formato ocidente, várias nuance-as na arte e no estilo narrativo são inspirados nos
mangás japoneses, além de vários volumes virem assinados com a participação de
Fernando Ikona. A EBAL foi uma das primeiras editoras de renome a começar a
perceber o potencial que havia nas obras feitas no Japão, pois, nesse período os
mangás já eram um sucesso absoluto no Japão e boa parte do oriente, superando
as HQs americanas.
48

Nessa década uma importante figura no mundo dos mangás brasileiros surgiu
no meio acadêmico a professora e pesquisadora Sonia Maria Bibe Luyten, formada
em jornalismo sendo mestre e doutora em comunicação e arte, foi uma das
primeiras pesquisadoras brasileiras a pesquisar sobre o universo dos mangás e da
cultura pop japonesa, e a uma das fundadoras do núcleo de estudos de mangá na
USP (universidade de São Paulo). No ano de 1977 Luyten cria a Quadreca uma
revista científica sobre histórias em quadrinhos, foi publicada pela Editora
Laboratório com Arte, selo da editora da universidade de São Paulo, que na época
fazia parte do departamento de jornalismo e editoração da ECA-USP (Escola de
Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo).

A edição de N°4 da revista publicada em 1978 foi dedicada aos mangás, eram
20 páginas que continham artigos, comentários, alguns exemplos de desenhos dos
alunos no estilo mangá, e uma tradução, entre os artigos estão: O fantástico e
desconhecido mundo das HQs japonesas – Sonia Luyten – esse artigo faz um
breve resumo da história e origem dos mangás e como foi a sua evolução até o ano
de 1978, também fala sobre como e feita a editoração dos mangás e a quais os
públicos a que se dirigem; Formas de mangás – Sonia Luyten – nesse artigo
ressalta-se como a cultura japonesa está presente em todas as partes da arte de se
fazer mangá, desde a escrita até a quadrinização sendo algo que expresse muito
bem a herança cultural desse povo; Técnicas de quadrinização – Sonia Luyten –
descreve como contar uma história através de quadrinhos sequenciais e a diferença
que se tem sobre as ilustrações simples, como são usados os balões de diálogo e
onomatopeias visuais; Vamos fazer uma associação de aficionados por mangá?
– Fugio Akatsuba (texto original) Sumire Misawa (tradução) - artigo traduzido do
japonês que dá algumas dicas de como montar um grupo de estudos sobre mangá,
e como organizar os trabalhos.
49

Figura 38: Quadreca edição N° 4

Fonte: http://www2.eca.usp.br/quadreca/

Na época em que foi lançada a quadreca N°4 e a pesquisadora Sonia Luyten


foram pioneiros no que diz respeito ao estudo de forma acadêmica dos mangás, e
isso não apenas no Brasil, no Japão país de origem desse meio, pouquíssimos
artigos haviam sido feitos aprofundando os estudos na área, e também poucos
pesquisadores haviam escrito sobre o tema, o que torna o esse trabalho ainda mais
importante, e que nessa época o assunto mangá era quase que desconhecido pelo
povo de maneira geral, quase sempre as histórias japonesas pertenciam a um nicho
pequeno da sociedade, porém com a introdução desses trabalhos não só a
comunidade acadêmica mas também uma boa parte da população pode conhecer
mais sobre o tema, esse artigo também pretendeu introduzir a ideia de se pesquisar
mais afundo sobre os mangás e como funcionava a sua diversidade.

Como podemos ver a produção de mangás e conteúdos relacionados a ele


cresceu muito em relação à década passada, porém podemos analisar como a
censura freou esse desenvolvimento, olhando para o panorama de obras que
vinham sendo criadas, percebemos que se os artistas daquela época não tivessem
seus trabalhos restringidos, hoje provavelmente, o Brasil assim como o Japão, seria
um exportador de seus próprios quadrinhos, esse é um pequeno exemplo de como
50

um estado inchado e autoritário pode fazer com que oportunidades sejam perdidas.
Mas mesmo assim, com toda a repressão podemos ver que vários artistas e
pesquisadores não deixaram de criar a analisar essa cultura tão rica quanto a dos
mangás.

De um modo geral, o Brasil perdeu a chance de produzir


mangá, o que deveria ter ocorrido na década de 1970 ou 1980.
Jovens desenhistas que cresceram lendo mangá não
conseguiram publicar seu mangá no Brasil e ingressaram nos
Estúdios Disney e Maurício de Sousa, apesar de talentosos.
Exemplo disso foi a editora Edrel, que nas décadas de 1960 e
1970 lançou diversas revistas de mangá nacionais, que
obtiveram bastante sucesso. Como essa editora era pequena e
não tinha estrutura para crescer mais e nenhuma outra se
interessou em mangá, nem brasileira nem japonesa, ficamos
sem o mangá nacional. (NORIYUKI, ABRADEMI 2013).

Na área dos animes a década de 1970 apesar de apresentar dificuldades


culturais e de censura, foi muito próspera para os animes, nessa época a TV
brasileira começou a notar o desenvolvimento da TV japonesa, e com isso passou a
buscar alguns animes para diversificar sua programação, já que a maioria das
animações que eram exibidas eram de estúdios americanos, com isso o mercado de
animes no Brasil estava aberto.

Os anos de 1970 podem ser considerados como a época de ascensão total


da televisão no Brasil. Segundo o Censo de 1970 Quatro milhões de famílias já
possuíam aparelhos de televisão, o que resultava em mais ou menos vinte e cinco
milhões de telespectadores. A qualidade da transmissão associado a chegada da TV
em cores trouxe ainda mais o público a consumir diferentes tipos de programa,
diferente dos anos 60 que se resumia a poucos canais de destaque com
transmissão de pouca qualidade, essa década estava sendo marcada pela
diversidade de canais e pela melhora significativa de qualidade. Foi nesse tempo
que a Rede Globo se popularizou, a rede Record e a TV Tupi também lideravam a
audiência brasileira.
51

Também nesta época a TV passou aos poucos a trabalhar mais com as


empresas, estas já não compravam apenas os programas e sim espaços para poder
anunciar seus produtos, com isso várias possibilidades de programas tanto para
adultos, público geral ou infantil, este último que teve grande aumento de
programas. Entre os principais que se destacavam a Vila Sésamo que era importada
de outros países e era reproduzido pela Rede Globo, Bambalão da TV Cultura e
clube do Capitão Aza na TV Tupi. A televisão começava a mostrar seu jeito de ser,
de se fazer e de se manter diante do público que não parava de crescer. O governo
militar se utilizou maior ainda da censura e emissoras de grande repercussão
tiveram diversos de seus programas cancelados devido a censura.

Figura 39: Clube do Capitão Aza exibição - TVTupi

Fonte: http://www.infantv.com.br/infantv/?p=21185

Os anos de 1970 inauguraram o que a mídia chama de época de ouro da


televisão brasileira e isso não só se manifestou em todos os países da América
Latina, como em todo o mundo. No próprio Japão, a produção dos animes passou a
crescer infinitamente e com a chegada dos grandes estúdios, ficou bem mais fácil
controlar os custos e negociar com as emissoras, que dessa vez se interessavam
pelo material. No Brasil com essa nova onda de programas, os animes começaram
cada vez mais a ficar popular, tendo sido exibido diversas séries ao longo da
década. Conforme jornalista Sérgio Peixoto escreveu na revista Animax Magazine
de 1996, parece que estas produções chegaram aqui por acaso, pois foram
oferecidas a baixo custo, tiveram uma dublagem razoável e colocadas como simples
52

complemento da programação infantil de várias emissoras. Mas para surpresa de


todos, tiveram grande audiência e foram sendo exibidas e reexibidas várias vezes.

Nessa época vários animes passaram a ser exibidos na TV em sua maioria


em programas infantis, por serem muito diferentes das animações americanas no
começo houve certa estranheza com relação ao público, pois, as animações apesar
de parecerem infantis tinham como enredo e temática muito mais seria e
desenvolvida, muito diferente das animações lúdicas americanas, a animação
também era um diferencial, pois como já citado aqui, o estilo oriental tinha suas
próprias características, porém, ao notar a qualidade da animação (que para a
época era muito boa) e como eram desenvolvidas as tramas logo o público se
acostumou e passou a apreciar as obras japonesas. Um exemplo disso foi o anime
Cyborg 009 do autor Shotaro Ishinomori a série estreou no Brasil no ano de 1974 na
TV Tupi, sendo exibida todas as manhãs. Seus episódios foram reprisados até a
exaustão, tanto que a exibição do anime durou até 1976, o que é muito raro, já que
ele apenas possui 26 capítulos.

Figura 40: Cyborg 009 - Shotaro Ishinomori

Fonte: https://www.wattpad.com/story/73124569-cyborg-009-song-one-shots

Vários outros na mesma época começavam a fazer sucesso na TV Brasileira,


sendo exemplos de alguns deles; Pinócchio de autor Ippei Kuri era um anime é uma
53

adaptação livre que guarda semelhanças e diferenças com o conto de fada original
de Pinóquio. Ao contrário da adaptação da Disney ou mesmo de outros estúdios de
animação, O fato de ser uma história de conto de fadas narrada em anime assusta
de primeira vista e a grande quantidade de drama dá um tom especial (o que é
incomum). Pinócchio foi exibido pela TV Tupi e Record Com duração de 52
episódios todos coloridos, algumas poucas histórias tinham relação com o conto de
fadas original. Outro anime da mesma época Fantomas do autor Takeo Nagamatsu
tem uma história complicada, cheia de reviravoltas e inimigos que marcaram os
caminhos do protagonista e justiceiro. Era composta de 52 episódios, foi
extremamente bem produzido e animado mesmo tendo alguns episódios em branco
e preto. Exibido na Rede Record no Brasil. Super Dínamo do mangaka Fujiko Fujio
teve uma das adaptações mais fiéis já feitas de um mangá para uma série de
animação, com histórias carregadas de fantasia, aventura e comédia, o anime
cativou muitos fãs, principalmente o público masculino, teve duração de 54
episódios. O clima leve ajudou a alavancar o sucesso e foi exibida tanto pela TV Tupi
quanto pela Record.

Figura 41: Super Dínamo - Fujiko Fujio

Fonte: http://blogclimax.blogspot.com/2014/01/bau-do-tesouro-super-dinamo-por-corto.html

As obras do mangaká Osamu Tezuka também tiveram importância


significativa para essa época, como o anime A Princesa e o Cavaleiro Um dos
54

grandes clássicos da animação japonesa, é talvez uma das mais expressivas


criações de Tezuka teve a duração de 52 episódios (o que era muito comum na
época), sendo exibida no Brasil na TV Tupi, Record e SBT. a vinda desta obra de
Tezuka para o Brasil é importantíssima para o contexto da animação naquela época,
pois, era um dos poucos animes a passar na TV com relativo sucesso, porém com
um enredo mais calmo e menos agressivo do que se via nos animes e animações
daquele período. Com esse sucesso logo outro anime de Tesuka viria para o Brasil.
Kimba e um dos animes mais politicamente corretos que passaram pela televisão
brasileira conta a saga do jovem leão branco desde filhote até sua jornada ao mundo
adulto, com um roteiro dramático, cheio de lições de moral e principalmente uma
história tocante, Osamu Tezuka conseguiu conquistar o público através de muito
sentimentalismo e boas lições de vida. Como todas as animações da época durou
52 episódios e fez bastante sucesso, sendo exibido colorido no Japão e branco e
preto no Brasil. A mágica de seus episódios foi tanta, que foi a inspiração para a
criação do filme animado O Rei Leão.

Figura 42: kimba o leão branco – Osamu Tezuka

Fonte: http://tezukainenglish.com/wp/?page_id=882
55

2.3 A Década de 1980 a Expansão do Meio dos Animes e


Mangás

Os anos de 1980 começaram, ao contrário da década passada, de maneira


mais branda com relação a ditadura militar, foi o período em que começou o
movimento das “diretas já”, movimento que pregava a abertura política e o fim do
regime militar, também ficou Conhecida por muitos como a década perdida devido
às diversas crises que assolavam não só o Brasil mas também o mundo. Em relação
a censura que muito prejudicou os mangás e animes, esse período por conta da
pressão popular e do enfraquecimento do poder dos militares, passou a ser mais
“tolerante” com relação às obras que eram lançadas, com isso a cultura pop
japonesa pode se expandir de vez por todo o país.

Com toda essa transformação em andamento, havia


também uma certa efervescência cultural no ar. Atividades
artísticos culturais que tinham sido reprimidas pela censura
começaram a voltar, assim como, surgiram novos espaços
considerados alternativos Surgiu também o Espaço Carbono
14, na Bela Vista, como um local que oferecia exibição de
filmes alternativos e de exposições de arte e quadrinhos. Havia
também vários fanzines editados de forma precária, copiados
em fotocopiadora ou até mimeografados. Era uma forma de
expor seus trabalhos e manifestar sua opinião sobre qualquer
assunto. (NORIYUKI, ABRADEMI 2013).

No início dos anos 1980 uma nova editora começa a ganhar popularidade
com estilo mangá, a editora Grafipar que era localizada da cidade de Curitiba estado
do Paraná teve suas atividades iniciadas no ano de 1978, porém só a partir do ano
de 1980 e que teve um maior destaque em suas tiragens. Entre os nomes que
estiveram na editora, alguns destaques foram: Franco de Rosa, Ataíde Braz, Mozart
Couto, Watson Portela, Claudio Seto, Toninho Lima, Itamar Gonçalves e outros.
Buscando se firmar no mercado, a editora teve sucesso principalmente em suas
obras voltadas para o público adulto porém suas revistas voltadas para o público
juvenil também tinham uma ótima qualidade. Em 1982, a Grafipar lançou Super-
Pinóquio, de Claudio Seto revista em formato no estilo mangá, o roteirista e
56

desenhista Cláudio Seto fez uma releitura do personagem Tetsuwan Atom (Astro
Boy de Osamu Tezuka) título que, infelizmente, só durou um volume.

Figura 43: mangá Super Pinoquio – Claudio Seto

Fonte:https://medium.com/@gibi_nativo/rob%C3%B4-gigante-e-super-pin%C3%B3quio-
36ed37859d3e

Outra obra da editora, foi a revista Robô Gigante – O Poderoso Guardião, que
apresentava duas aventuras. A primeira, com roteiro de Cláudio Seto assinando a
obra com o pseudônimo Selene Tobias, e quadrinização de Watson Portela, era uma
aventura inspirada pelos mangás, que, na época, ainda eram praticamente
desconhecidos, essa revista teve apenas uma edição. Na segunda aventura do
título, Ultraboy, de Franco de Rosa com quadrinização e roteiro, trazia uma aventura
com um personagem inspirado nos seriados tokusatsu que faziam sucesso na época
Ultraman e Ultraseven. Essas obras para época tinham uma qualidade tanto gráfica
quanto narrativa muito boa, muitas vezes por conta dessa qualidade eram
confundidas com obras que vinham de fora do país. Watson Portela também ilustrou
A Saga de Xanadu na revista Almanaque Xanadu, com história e traço estilo mangá
essa revista também teve apenas uma edição. Podemos notar que muitas das
revistas que foram lançadas acabaram na primeira edição, isso se deu por conta da
crise que havia no Brasil nessa época, mesmo que fossem vendidas várias edições
de uma revista, por conta do custo inflacionado dos materiais acabava em prejuízo
para a editora.
57

Figura 44: revista Robo Gigante - Selene Tobias

Fonte:https://medium.com/@gibi_nativo/rob%C3%B4-gigante-e-super-pin%C3%B3quio-
36ed37859d3e

Nessa década, várias editoras tanto grandes quanto pequenas publicaram


algumas revistas no estilo mangá, isso se deve ao fato de que esse meio estava
cada vez mais se difundindo pelo Brasil, um exemplo disso foi a editora Bloch
fundada em 1952, que no ano de 1983 lançou Spectreman, que possuía um mangá
no Japão, produzido por Daiji Kazumine e pelo criador Souji Ushio, porém, a editora
Bloch publicou uma versão não-oficial desenhada por Eduardo Vetillo, a revista era
produzida no estilo dos quadrinhos americanos. Em 1989, Editora Abril que já havia
publicado obras no formato manga lança a revista de Zillion, inspirada na franquia de
videogames da Sega, a revista foi escrita por Ataide Braz com desenhos de Roberto
Kussumoto. Ambas foram embaladas pelo sucesso das obras de tokusatsu que
faziam sucesso na TV naquela época, e ficaram em publicação por vários anos.
58

Figura 45: revista zillion – editora Abril

Fonte:http://www.guiadosquadrinhos.com/edicao/misto-quente-apresenta-n-10/
mi003119/126758

A editora Abril também publicou a revista Black Kamen Rider e Cybercop,


obras que também tinham certo reconhecimento do público, toda a produção da
obra foi feita por artistas brasileiros sendo os roteiros de Alexandre Nagado, Marcelo
Cassaro e Rodrigo de Góes e desenhos de Aluir Amancio, Marcello Arantes, João
Pacheco, Jaime Podavin, Watson Portela e Arthur Garcia. A editora abril no ano de
1989 após comprar os direitos autorais da obra O Fantástico Jaspion, no mesmo
ano já começou a produzir e vender, com formato clássico das revistas em
quadrinhos já vendidas pela editora (estilo americano) e com páginas coloridas,
imediatamente as revistas se tornaram um sucesso, teve a duração de 12 edições e
assim como as obras citadas acima também teve apenas artistas brasileiros em seu
desenvolvimento.

O Jaspion foi uma tentativa interessante de fazer super-


heróis no estilo americano à revelia dos editores da Abril, mas
que deu certo e perdurou por um bom tempo depois que deixei
o título. A ideia daquele formato foi minha e do meu amigo
roteirista Rodrigo de Góes e de Alexandre Nagado. (Amancio,
HQ Maniacs 2009).
59

Figura 46: Jaspion – editora Abril

Fonte: https://www.omelete.com.br/quadrinhos/

As publicações nacionais inspiradas na cultura pop japonesas principalmente


nos tokusatsus, fez com que cada vez mais uma parcela grande do público brasileiro
começasse a olhar com outros olhos para aquele estranho jeito de contar histórias,
pouco a pouco as pessoas (jovens e adultos) que eram entusiastas das obras
nacionais de mangás, começavam a procurar meios de consumir esse material
diretamente do Japão, as editoras da época vendo o mercado que cada vez se abria
mais para esse meio, a partir da metade da década de 1980 começou a trazer
mangás com histórias originais do Japão.

A primeira editora a publicar um mangá original no Brasil foi a editora Cedibra,


localizada na cidade do Rio de Janeiro, foi fundada no final da década de 1960 e era
conhecida por tornar mais acessíveis livros clássicos a população em geral, em
1988 começou a publicar a obra Lobo Solitário do autor Kozuo Koike e do ilustrador
Goseki Kojima , mangá que já tinha feito muito sucesso no Japão e nos Estados
Unidos, apesar de ter vindo com a ordem de leitura dos volumes no formato oriental,
o restante da obra seguia de forma original, inclusive a ordem de leitura dos quadros
de diálogo, essa era a primeira vez que um mangá era publicado assim no Brasil,
60

mesmo com a diferença de leitura e com uma história mais pesada, o mangá fez
muito sucesso abrindo caminho para várias outras obras nos anos que se seguiram.

Figura 47: Lobo Solitario - Kozuo Koike Goseki Kojima

Fonte: http://nagado.blogspot.com/2017/01/lobo-solitario.html

Outro marco importante da década foi a criação da Associação Brasileira de


Desenhistas de Mangá e Ilustrações (ABRADEMI), fundada em 3 de fevereiro de
1984 era a junção de dois grupos, da comissão de exposição de quadrinhos e
ilustrações da sociedade brasileira de cultura japonesa (BUNKYO), e a já citada
associação dos amigos dos mangás fundada por Sonia Luyten que também deu o
nome da associação. A ABRADEMI tinha como objetivos a divulgação da cultura
japonesa principalmente as ilustrações e mangás, e o intercâmbio cultural entre o
Brasil e Japão, teve como primeiro presidente Francisco Noriyuki Sato, tinha como
atividades aulas de desenho, exposições e debates sobre o tema.

Na área de quadrinhos, havia uma movimentação na


sede do Sindicato dos Jornalistas São Paulo, na rua Rego
Freitas, para defender os interesses da categoria, mais
notadamente a Lei que obrigava as editoras a publicarem 50%
de material de autores nacionais. Desse grupo surgiu a AQC –
Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas, no final de
1983 (embora a entidade paulista cite 1984 como o ano de sua
fundação. http://www.aqc-esp.com.br). O grupo foi liderado
pelos cartunistas Jal, Gualberto, Franco de Rosa e pelo
pesquisador Worney Almeida de Souza, mas contava com
61

apoio em todo o país, inclusive a entidade contava com nomes


de peso como Henfil e Ziraldo. Enquanto a Abrademi não
existia, o grupo de fundadores da Abrademi também
participava da AQC, alías, essas duas entidades sempre foram
ligadas, no sentido de se organizar eventos em conjunto.
(NORIYUKI, ABRADEMI 2013).

Um desses eventos teve grande destaque foi a visita de Ozamu Tezuka em 29


de setembro de 1984, era a primeira vez que um artista de mangá reconhecido vinha
até o Brasil. Durante os dias em que se seguiram a sua visita Tesuka participou de
visitas a exposições tanto da ABRADEMI quanto de outras entidades, também
ministrou palestras para comunidade japonesa e para profissionais de quadrinhos,
foi nessa visita que Tesuka se encontrou pela primeira vez com autor de Gibis
Maurício de Souza.

Figura 48: Ozamu Tezuka e Mauricio de Souza - 1984

Fonte: https://www.japaoemfoco.com/a-amizade-de-tezuka-osamu-e-mauricio-de-souza/

Nesse mesmo ano de criação mais precisamente em novembro, a


ABRADEMI lança o primeiro fanzine (fanzine e uma publicação não profissional e
não oficial feita por entusiastas de uma cultura em particular) sobre mangás e
animes no Brasil, chamado Clube do Mangá, tinha como inspiração a publicação do
artista japonês Shotaro Ishinomori, era uma publicação de exemplar único que
continha uma diversidade trabalhos e contribuições dos membros associados, a
edição era passada de mão em mão entre os membros, e cada um que lia fazia
alguma anotação para incrementar a publicação, com isso os membros acabavam
aprendendo uns com os outros por meio da observação, a se aprimorarem.
62

Outra menção a década de 1980 que merece ser destacada é a quantidade


de tokusatsus que começaram a ser exibidas nos mais diferentes canais nacionais,
como podemos notar boa parte das publicações, dos estudos e a própria criação da
ABRADEMI se deu por conta da popularização da cultura pop japonesa nessa
década, e isso se deu em parte justamente por essas obras. No campo dos animes
podemos notar esse comportamento também, diferente da década de 1970 que
foram trazidos diversos animes para a TV, essa década em específico não investiu
tanto em trazer novos animes, porém mesmo com essa redução houve um interesse
cada vez maior por parte do público pelas obras produzidas no Japão. Uma das
principais pioneiras nessa divulgação foi o canal de TV Rede Manchete.

A Rede Manchete foi uma emissora de televisão que foi fundada em 5 de


junho 1983 na cidade do Rio de Janeiro pelo jornalista e empresário Adolpho Bloch,
foi a emissora de TV que mais contribuiu para a divulgação da cultura pop japonesa
no Brasil, também foi a primeira a investir de forma séria na exibição de animes,
como exibir os episódios em ordem (a maioria dos canais não tinha esse cuidado),
os horários e dias fixos para cada série de anime (os canais da época exibiam a
maioria dos desenhos muitas vezes de maneira esporádica e em horários diferentes
a cada dia) todos esses cuidados tornaram a canal reverência nessa mídia, até na
década que se seguiu. Esse animes eram exibidos principalmente no programa
infantil Clube da Criança, que tinha estreado em 6 de junho de 1983 e tinha como
apresentadora do programa Xuxa, que fazia sua estreia na TV.

Na década de 1980 além dos tokusatsus que já eram exibidos em vários


canais, a Rede Manchete também passou diversos animes em seu programa infantil
Clube da Criança, o primeiro deles a ganhar destaque foi O Pirata do Espaço do
autor Go Nagai era um anime do gênero Mecha que passou entre 1983 e 1985, por
conter diversos elementos de ficção científica e robótica logo o anime ganhou
popularidade no Brasil.
63

Outro anime que fez muito sucesso na mesma época foi Patrulha Estelar foi
produzido em 1983 pelo autor Yoshinobu Nishizaki, foi exibido em 1983 também no
programa Clube da Criança, um fato interessante sobre esse anime e que a primeira
versão da segunda temporada foi comprada dos estúdios americanos, que tinham
reeditado várias partes por motivos de censura, segundo eles para evitar referências
a ideologia antiamericana, então o público que viu o anime na época em que era
exibido pela Rede Manchete notou muita diferença entre as temporadas que se
seguiram.
Figura 49: anime Patrulha Estelar – 1983 – Rede Manchete

 
Fonte: http://www.tujaviu.com/2010/01/patrulha-estelar-desenhos-antigos.html

Outro marco importante da época foi na área do cinema, em 1988 estreava no


cinema brasileiro o filme de animação japonesa AKIRA obra do diretor Izô
mashimoto e do mangaká katsuhiro otomo, foi a primeira obra do gênero a ser
lançado no país, pois, até então apenas obras ocidentais haviam sido reproduzidas,
o filme não revolucionou apenas o cinema do Brasil onde abriu as portas para os
longas-metragens japoneses, mas também revolucionou toda a cultura em si, além
de ter um aprimoramento técnico na animação e na arte de design, também possui
uma história que influenciou quase todas as obras de ficção científica que foram
lançadas posteriormente, no Brasil é lembrado até os dias atuais como um dos
maiores sucessos de sua época.
64

Figura 50: poster oficial de lançamento da obra Akira – 1988 - Izô mashimoto katsuhiro otomo

Fonte: https://medium.com/tend%C3%AAncias-digitais/akira-e-suas-influ%C3%AAncias-
f473e5d1a5a7

Toda essa movimentação cultural, seja na nas publicações de revistas e


mangás, ou na exibição de tokusatsus e animes, e por último nas telas do cinema,
fizeram com que a cultura pop japonesa fosse ficando cada vez mais em evidência,
cada vez mais as pessoas que consumiam essas obras buscavam conhecer mais
sobre esse meio, com isso em 1988 entre os dias 02 a 31 de julho aconteceu o
primeiro grande evento para fãs de animes e mangás no Brasil, o evento foi
realizado no SESC Ponpeia na cidade de São Paulo, havia diversas atividades
sendo desenvolvidas no evento dentre elas, amostras de mangás, tanto nacionais
quanto originais japoneses, também estavam sendo exibidos diversos animes e
tokusatsus, além de conversas e trocas de experiências, havia mostras de coleções
de réplicas e obras.

Eu fiz uma pesquisa pela internet, em revistas antigas e


nos velhos recortes de jornais que tenho guardado aqui em
casa desde os anos 1980, e posso dizer com toda a certeza
que o primeiro grande evento para fãs de anime e mangá
totalmente organizado por brasileiros aconteceu de 02 a 31 de
julho de 1988, no SESC Pompéia, feito para comemorar a
fundação da a ORCADE – ORganização Cultural de Animação
e Desenho, grupo de fãs fundado por mim e pelo falecido José
Roberto Pereira. Até o encerramento das atividades da
65

ORCADE em 2004 (16 anos sem pausas), foram realizadas


mais de 600 encontros dos membros com exibições de animes
– um recorde até hoje não superado por nenhum clube do
Brasil. (PEIXOTO, ANIMAX MAGAZINE, 1996)
66

2.4 Anos de 1990 A Explosão dos Animes e Mangás

A década de 1990 diferente das três décadas anteriores começa de maneira


prospera para o meio dos animes e mangas, visto que na década passada ouve a
abertura política no Brasil, elegendo o primeiro presidente pelo voto direto desde a
eleição de 1960, o presidente eleito Fernando Affonso Collor de Mello assumiu em 1
de janeiro de 1990, em seu mandato foi marcado pela implementação do plano
Collor que foi o conjunto de reformas econômicas para estabilizar a hiperinflação
que afetava o Brasil na época, apesar de uma ligeira melhora na economia o plano
Collor não conseguiu reavivar a economia do país além de piorar a situação,
somado a isso as diversas denúncias de corrupção culminou com seu impeachment
em 1992, o Brasil se conseguiria estabilidade econômica em 1994 com o plano Real
no governo de Itamar Franco. Apesar da grave recessão que atingia o país no
começo da década, a situação foi se estabilizando ao longo dos anos, essa
estabilização da economia para um aumento significativo das produções de mídias
de entretenimento, pois, com a economia aos poucos sendo renovada, os
investimentos tanto em publicidade e produtos, voltou a ter força, com isso todas as
mídias que trabalhavam com merchandising e propaganda, tiveram mais opções de
investimento. O movimento mais significativo da época foi o Movimento dos Caras
Pintadas que pediam a renúncia/ impeachment do presidente Fernando Collor, esse
e um dos exemplos de movimentação social que aconteceram no país pós-ditadura
e também mostra que não a mais a mesma repressão que houve em nas últimas
décadas, isso para o cenário geral brasileiro tanto para o midiático foi muito positivo,
pois o fim da censura em específico contribuiu para que a TV e o cinema tivessem
mais liberdade de escolha da programação e quais animações iria ser transmitidas,
já as publicações de revistas não precisavam mais passar pelo pente fino dos
tempos da ditadura, podendo agora comprar títulos diretamente do Japão para
serem publicados por aqui.
67

Figura 51: movimento pedindo a saída do então presidente Fernando Collor de Mello

Fonte:https://teleguiado.com/televisao/2013/06/abertura-do-processo-de-impeachment-de-collor-
garantiu-boa-audiencia-em-1992.html/attachment/fora-collor-caras-pintadas-92

Justamente por conta dessa comercialização de mangás originais e que em


relação as décadas passadas os anos de 1990 não teve nenhuma obra brasileira de
destaque no meio, se pudéssemos travar um ponto negativo da década seria esse,
pois, tanto os artistas quanto as editoras foram perdendo interesse em produzir
obras nacionais, com isso os mangás originais vindos do Japão tomaram
praticamente todo o espaço. Porem essa invasão de obras nipônicas também tem
seus lados positivos, com cada vez mais obras sendo publicadas a disseminação da
cultura japonesa por meio dos mangás tinha subido um patamar a mais. Uma das
primeiras obras a chegar no Brasil no começo da década foi Crying Freeman foi
publicado pela editora Nova Sampa de autoria de Kazuo Koike e desenho de Ryoichi
Ikegami, era um mangá destinado ao público mais adulto (Seinen), por conta das
cenas de violência e sexo, a obra já tinha feito muito sucesso em diversos países, e
teve uma receptividade mediana no nosso país (muito por conta da crise econômica
da época em que foi lançado), essa foi apenas a primeira de uma leva de mangás
que seriam publicados até o fim da década.
68

Figura 52: obra Crying Freeman - Ryoichi Ikegami, Kazuo Koike

Fonte: http://www.guiadosquadrinhos.com/edicao/crying-freeman-n-1/cr068100

A editora abril que na década passado já havia começado a publicar obras de


mangás, trouxe para o Brasil em 1992, Mai a Garota Sensitiva do autor kazuya Kudo
e com traços de Ryoichi Ikegami, e A Lenda de Kamui do autor Sanpei Shirato que
foi publicado em 1993, ambos os mangás vieram de versões dos EUA (porém ainda
originais) o que era muito comum nessa época visto que não havia ainda um
mercado fixo com as editoras japonesas, então tornava-se mais barato trazer a
versão feita nesse país. Ambas as obras têm teor histórico e são voltadas para o
público mais adulto (Josei, Seinen), e tiveram uma boa tiragem no nosso país,
mostrando que nesse período não apenas os mais jovens consumiam esse tipo de
mídia, mas que pessoas mais velhas estavam buscando novas fontes de leituras em
outros meios.
69

Figura 53: A Lenda de Kamui - Sanpei Shirato

Fonte: http://middlejapan0.blogspot.com/2011/08/lenda-de-kamui.html

A TV também se beneficiou com essa liberdade na escolha da sua


programação, no começo da década de 1990 começou a investir cada vez mais em
obras de animes oriundas diretamente do Japão, foi nesse começo de década que
também a dublagem começou a ser mais valorizada pela TV, visto que cada vez
mais obras de animação estavam sendo compradas para serem exibidas para os
mais diferentes públicos a dublagem passou de um mero complemento feito de
qualquer maneira (como nas décadas de 1960, 1970 e mais da metade da década
de 1980), para se tornar algo mais profissional, com uma melhora significativa no
áudio, nas escolhas das vozes e na interpretação dos artistas, que agora passaram
a ser feitas quase que exclusivamente por atores.

Nesse começo de década dois animes se destacaram, o primeiro deles foi


Guerra das Galáxias do autor Shoji Kawamori, exibida pela emissora rede CNT, foi
um dos primeiros animes do gênero mecha a se popularizar no Brasil, gênero esse
que na época estava ficando cada vez mais em evidencia por conta das diversas
histórias que estavam sendo produzidas no Japão, graças à popularidade que
ganhou misturando elementos de ficção científica, robôs, e espaço, abriu caminho
para que diversas outras obras do gênero fossem exibidas posteriormente. O
segundo anime desse começo de década foi Doraemon: o Super Gato do autor
70

Fujiko Fujio, foi exibido em outubro de 1992 na Rede Manchete no programa do


Clube da Criança, foi um dos principais animes voltados para o público infantil
(Kodomo) a ser exibido no país, teve apenas vinte episódios dublados, porém assim
como a obra anterior foi responsável por abrir caminho para que outras obras do
mesmo gênero começassem a ser exibidas no país.

Figura 54: anime Doraemon: o Super Gato – rede Manchete

Fonte:http://daileon-blog.blogspot.com/2016/04/doraemon-grande-aposta-da-sato-company.html

Como vimos até aqui tanto os mangás quanto os animes, sempre foram uma
mídia mais de nicho, quase sempre focada em um público menos que as grandes
produções ocidentais, porém isso começou a mudar com a chegada da obra Os
Cavaleiros do Zodíaco do mangaka Masami Kurumada, que estreou em 1 de
setembro de 1994 na Rede Manchete, era o início da explosão da cultura pop
japonesa em todo o território nacional. A história do anime que seguia as aventuras e
batalhas de cinco jovens guerreiros que trajavam armaduras, cada uma com uma
constelação diferente, Seiya(Pegasus), Shiryu(dragão), Hyoga(cisne),
Shun(Andrômeda) e Ikki (fênix) e tinham como missão proteger a jovem Saori Kido
que era a reencarnação da deusa da sabedoria e guerra grega Atena, a história
desenvolve diversas tramas envolvendo diferentes contos da mitologia grega
romana, além de trazer uma trama complexa e inovadora para os padrões da TV
brasileira da época.
71

Figura 55: anime Cavaleiros do Zodiaco - Masami Kurumada

Fonte:http://www.monsterbrain.com.br/cavaleiros-do-zodiaco-versao-definitiva-sera-publicada-no-
brasil/

Logo após sua estreia a audiência da emissora começou a aumentar


significantemente, se tornando em pouco tempo a programa de maior audiência da
emissora, o sucesso era tanto que quando alguns capítulos foram exibidos em
horário nobre (após as 19 horas) bateram em audiência as novelas da globo (que na
época eram a maior audiência da TV brasileira), era um fenômeno que ninguém
tinha visto até então, com esse sucesso a TV Manchete que estava prestes a falir
conseguido se reerguer e continuar suas atividades por mais alguns anos.

O desenho foi o ponto focal para solidificar no Brasil a


presença e o gosto pelo animê e pelo mangá. Some-se a isso o
período propício da economia brasileira e o surgimento da
internet no Brasil, como principal veiculadora de informações
para os fãs brasileiros. O desenho foi extremamente
privilegiado por uma ferrenha campanha de marketing e
inúmeros produtos licenciados chegaram ao Brasil através da
empresa japonesa de brinquedos, produtora de animação e
detentora dos direitos da animação, a Bandai. O Brasil estava
no início do Plano Real, idealizado pelo então presidente
Fernando Henrique Cardoso, e a situação econômica do país
72

em termos de importações e exportações era propícia para a


chegada de muito material estrangeiro importado, além disso, o
consumo da população brasileira aumentou
consideravelmente, especialmente no setor de lazer e indústria
cultural. (MACHADO, 2009 pag. 22).

Todo esse sucesso foi quase que por acaso, visto que a obra não fez muito
sucesso no Japão seu país de origem e nem nos outros países que tinha passado, a
empresa Santoy que estava distribuindo o anime estava interessada em vender os
brinquedos da marca, quem conduziu a negociação com a empresa foi Eduardo
Miranda chefe da divisão de cinema da TV Manchete, no começo quando foi
apresentado ao material promocional da obra, Miranda a princípio não gostou do
que viu pois o material apresentado não tinha como ser exibido para o público
infantil, nas suas palavras:

Me sentaram para assistir a um trailer de 15 minutos do


desenho. O vídeo era exatamente assim: sangue, violência,
tentativa de suicídio, autoflagelação, cara furando os olhos... aí
você pensa: estou com uma programação completamente
infantil. Como posso dar um parecer positivo a isso?
(MIRANDA, OMELETE 2014).

Após a reunião Miranda pediu para que a Santoy enviasse alguns capítulos
para que ele pudesse assistir antes de dar um parecer, após alguns dias a empresa
enviou os 5 primeiros capítulos para que fosse avaliado, segundo Miranda:

Na hora, entendi que não tinha nada a ver com aquela


violência sem nexo do promo. (MIRANDA, OMELETE 2014).

Com isso a série de anime começou a ser exibida, a TV Manchete não pagou
nada para exibir a obra, a emissora tinha apenas que passar as propagandas nos
intervalos que o anime estava sendo exibido com isso os lucros da emissora com o
programa se tornaram ainda mais altos. No começo por conta do grande público não
73

conhecer esse tipo de obra ouve certa rejeição por parte dos pais e mães dos jovens
que assistiam a obra, na época ouve várias ligações e cartas para a emissora
pedindo para que o anime não fosse mais exibido, porém com o tempo todos
começaram a entender mais sobre a obra e compreendê-la, e também graças a
mente aberta do chefe de cinema Miranda que não desistiu da obra, quis olhar mais
afundo sobre a proposta do anime por essa compreensão mutua que hoje a cultura
pop japonesa se tornou tão difundida no país.

O anime Os Cavaleiros do Zodíaco gerou reações não só daqueles que já


conheciam esse meio dos animes e mangas, como também daqueles que nunca
tiveram contato com esse tipo de obra, o formato com que a obra apresenta a
história conquistou o público logo nos primeiros episódios, boa parte por conta dos
personagens que fogem a convenção normal aos quais o público brasileiro estava
acostumado gerando assim uma representatividade sobre cada personagem, alguns
exemplos; os jovens garotos viam na figura do Seiya (cavaleiro de Pegasus) a figura
de um homem forte mas que também tinha seus momentos de fraqueza e queda; as
jovens garotas tinham na figura da Saori (deusa Atena) e Marin (amazona de águia)
a figura de duas mulheres muito poderosas, sendo Saori a personagem mais
poderosa da obra, e Marin a mentora do protagonista da obra.

Figura 56: personagens Saori, Marin e Seiya – Cavaleiros do Zodiaco

Fonte: https://saintseiya.fandom.com/pt-br/
74

Outro personagem ganhou destaque na época por conta da diferença com os


demais, em uma época em que a sociedade era preconceituosa, personagens com
aspectos mais afeminados eram tratados apenas como coadjuvantes e em papéis
cômicos, cavaleiros do zodíaco começou a mudar isso; o personagem Shun
(cavaleiro de Andrômeda) era totalmente o diferente dos demais, apesar de ser
homem, hétero tinha uma personalidade dócil e gentil, não gostava de lutar e era
pacifista, tinha aparência andrógena e vestia uma armadura cor-de-rosa que era
regida por uma entidade feminina, mas que também era um grande guerreiro, por
conta disso muitos jovens (LGBTs , homens mais sensíveis), se viam representados
na figura do personagem.

Figura 57: personagem Shun - Cavaleiros do Zodiaco

Fonte: https://saintseiya.fandom.com/pt-br/

Como sucesso de Cavaleiro dos zodíaco a manchete logo começou a


encomendar mais animes para a sua programação, com isso trouxe alguns animes
que fossem parecidos com a temática de cavaleiros do zodíaco, então no começo
de 1996 começaram a ser exibidos os animes Samurai Warriors do estúdio Sunrise
inspirados nas histórias dos samurais e lendas japonesas, e Shurato do mangaka
Hiroshi Kawamoto que tinha sua trama focada nas mitologias budistas e hinduístas,
ambos começaram a ser exibidos para suprir a falta de episódios novos de
Cavaleiros do Zodíaco, apesar de fazerem sucesso ainda não conseguiam chegar
perto da audiência da outra obra.
75

Figura 58: Shurato - Hiroshi Kawamoto

Fonte:https://heroisx.com/2012/03/06/shurato-anime-classico-sobre-cavaleiros-de-armadura/

Nesse período a TV Manchete também percebeu que o público feminino


também se interessava pelas obras de animes que estavam sendo exibidas, e
tentando atrair ainda mais as garotas jovens da época, começou a exibir em 29 de
abril de 1996 o anime Sailor Moon, da autora Naoko Takeuchi, logo após a sua
estreia a obra já alcançou uma audiência elevada, visto que era a primeira vez que
uma obra do gênero Shojo (jovem garota) tinha espaço na TV ao lado das outras
animações, com a trama que trazia apenas protagonistas e vilãs e praticamente sem
homens com poderes, além de possuir cenas de ação, lutas que não perdia em
nada para os shonens (jovem garotos) da época, e com tom de romance típico
dessas obras, o anime atingiu em cheio o público feminino que tinha gostado de
cavaleiros do zodíaco. Porém o anime sofreu com algumas censuras na época em
foi lançado, a principal delas foi com as personagens Sailor Urano e Sailor Netuno,
que na versão original com voz japonesa formam um casal, e na versão americana
com cortes e dublada em português elas são apenas primas, as TV que exibiram o
anime na época acharam melhor censurar a interação das duas por considerar o
comportamento “inapropriado”.
76

Figura 59: anime Sailor Moon - Naoko Takeuchi

Fonte:https://jc.ne10.uol.com.br/blogs/oviral/2018/12/13/

As demais emissoras vendo o sucesso da TV manchete com os animes


também começaram a comprar e exibir animes na grade de programação, a
emissora que teve êxito em tentar igualar o sucesso foi a SBT como programa
infantil Bom Dia e Cia que avia sido criado três anos antes em 2 de agosto de 1993
e tinha como apresentadora a Eliana, vários animes foram exibidos nesse programa,
porém o de maior destaque foi Dragon Ball do mangaka Akira Toryama que estreou
em 19 de agosto de 1996, depois de cavaleiros do zodíaco, a obra de Dragon Ball e
o segundo anime mais sucesso e influência do Brasil, tendo suas versões Dragon
Ball Z, Dragon Ball GT e Dragon Ball Super, dubladas e exibidas no Brasil até hoje.
O sucesso do anime se deu por conta da sua fórmula simples de aventura, humor e
Lutas de artes marciais que cativavam o público que assistia, para se ter um
exemplo a luta do protagonista contra um dos principais vilões da obra, durou em
sequência de episódios mais de 4 horas e 13 minutos, sendo quase todo esse
tempo apenas de combate físico e destrutivo.

A identificação entre o leitor e o herói provém também


de certas tendências do seu comportamento. Uma
característica recorrente é a do herói estoico, austero, de
caráter rígido – uma herança direta do comportamento dos
samurais. São conhecidas as histórias sobre o auto sacrifício
da classe guerreira no Japão: suportavam a dor e se
sacrificavam (LUYTEN, 2012, p. 57).
77

Figura 60: anime dragon ball – akira toryama

Fonte: https://super.abril.com.br/galeria/

Os mangás também se beneficiaram com o sucesso das animações na TV,


pois, agora com esse meio tornando-se popular entre a grande massa, as
publicações de mangas vindos diretamente do Japão, o principal sucesso na época
foi justamente Dragon Ball, que começou a ser publicado no Brasil em janeiro de
1997 pela editora Abril Jovem, sendo e primeira manga Shonen a fazer sucesso no
Brasil. Também faziam sucesso no Brasil nessa época as diversas revistas
informativas de animes, muitas delas embaladas pelo sucesso de Cavaleiros do
Zodíaco a de mais destaque foi a revista Herói da editora Conrad, era voltada para o
acompanhamento de séries, matérias especiais, curiosidades e bastidores de TV
principalmente do nicho de super-heróis.

Nessa mesma época vários outros animês seguiram


esses mesmos passos. Essa grande onda de animês na
televisão fez crescer o interesse do público pelo assunto e
levou à criação de diversas revistas especializadas sobre o
assunto, entre elas podem ser citadas Herói, Animax, Anime
Dô, que publicavam matérias sobre os animês que passavam
na televisão assim como também traziam notícias sobre as
novidades do próprio mercado de animês japoneses. Foi
através dessas publicações nacionais que a grande parte do
público infantojuvenil a quem essas revistas eram destinadas
78

descobriu que todos os desenhos animados que eles


acompanhavam na televisão tinham sua origem em histórias
em quadrinhos japonesas que se chamavam mangá. Foi
através desse movimento de divulgação que o interesse sobre
o mangá tomou força o suficiente para então, anos mais tarde,
tornar viável a publicação desses mangás aqui no Brasil,
devidamente traduzidos para o português.(MACHADO, 2009
pag. 22).

Em 1998 e aberta na cidade de são Paulo a editora e loja Animanga que era
especializada na venda e divulgação de animes e mangas, foi uma das primeiras
editoras a focar na publicação de mangás, foi a Animanga que trouxe para o Brasil
um dos mangás/animes mais polêmicos da década de 1990, o mangá Ranma ½ da
mangaka Rumiko Takahashi, e traduzido no Brasil por Cristiane Akune Sato membro
da ABRADEMI, foi um dos primeiros mangás trazidos para o Brasil que misturava
elementos de Shonen e Shojo em uma única história, a trama da obra gira em torno
de Ranma Saotome um adolescente de 16 anos que em uma viagem de treinamento
acaba sendo amaldiçoado, quando molhado com água fria se transforma em uma
mulher e só volta a ser homem quando e molhado com água quente. O mangá por
conta de não ter sido tão difundido no Brasil não fez muito sucesso, já o anime
deveria ser exibido na TV manchete, porém com a falência da mesma em 1998
acabou sendo oferecido para as emissoras Rede Record e SBT que não quiseram
comprar a obra, no começo dos anos 2000 a TV Band publicou que exibiria o anime
porém, isso não aconteceu também. Muitos atribuem essa falta de vontade das
emissoras de exibir o anime de Ranma ½ , por conta da obra já ter sido proibida em
vários países e inclusive banida do México, a obra só foi exibida no Brasil em 3 de
julho de 2006.
79

Figura 61: manga Ranma ½ – Rumiko Takahashi

Fonte: http://www.guiadosquadrinhos.com/edicao/ranma-12-n-27/ra176100/64304

Vale nesse momento abrir um parêntese e discutir sobre essa situação, como
podemos notar, apesar de como foi dito no início do capítulo, de que a década de
1990 era marcada pela liberdade das obras após o fim da censura, oque e sim
verdade, visto o número de mangás e animes que vieram nessa época; porém
temos três exemplos aqui citados de censura autoaplicada pelas próprias emissoras
e pela audiência, o primeiro caso foi o personagem Shun de Cavaleiros do Zodíaco,
que era ridicularizado por uma parcela do publico (o qual o chamavam da expressão
“Viadinho”); o segundo caso foi em no anime Sailor Moon em que duas personagens
femininas formavam um casal, mas na versão censurada que as emissoras
insistiram em manter, essas personagens foram transformadas em apenas primas, e
o último caso da obra de Ranma ½ o anime ficou engavetado durante anos em
várias emissoras por conta do medo de exibir um anime cujo o personagem podia
ser associado aos transgêneros. Esses casos mostram que a expansão dos mangás
e animes pegou boa parte do publico que era acostumado com obras ocidentais de
surpresa, visto que na maioria das animações ou revistas americanas e brasileiras
da época os temas que essas obras apresentavam, nunca haviam sido abordados,
isso reforça ainda mais a importância dos animes e mangás tiveram no Brasil, pois,
algo que tem se debatido muito ultimamente e o preconceito e representatividade, e
como as mais diversas obras podem abordar tais conceitos, porém enquanto
80

diversas mídias hoje estão apenas no começo do processo de representatividade,


no Brasil por meio dos anime e mangas isso já acontece desde a década de 1990.

Outra questão importante foi a da violência nas obras de animes da década,


isso aconteceu principalmente com Dragon Ball e Cavaleiros dos Zodíaco, na época
que as animações que passavam na TV, houve diversas tentativas de boicotar as
produções por uma parcela do publico, que achava que expor os jovens a violências
desses animes, faria com que os mesmos tivessem problemas disciplinares, porém
o que a maioria dessas pessoas não sabia e que o estilo de animação que os
artistas do Japão usa e o da violência com consequência, que e quando uma ação
violenta como uma luta, tem consequências nos personagens, elas tem peso na
trama, os animes mostram isso como uma forma de mostrar para os jovens que agir
de maneira inconsequente e violenta pode acarretar no mal do seu semelhante; no
Brasil o estilo dos desenhos que passava em 1990 que vinha dos EUA era a
violência sem consequência, ou seja, a violência era banalizada e tratada com tom
cômico, o que sem querer passava a mensagem de que não importa oque você faça
com a outra pessoa, ela vai ficar bem; essa diferença entre as animações foi a que
mais foi sentida no nosso país.

É difícil chegar a uma conclusão sobre a violência nos


mangás se partirmos de conceitos morais ocidentais. Em
primeiro lugar, o Japão é um país com um dos índices mais
baixos de criminalidade do mundo; é perfeitamente possível
sair às ruas a qualquer hora do dia ou da noite com segurança.
É proibido o porte de armas sem justificativa, e a constituição
renuncia à guerra. Portanto, nada a justifica. A violência existe,
sem dúvida, mas sob outras formas (que descreverei
posteriormente), e talvez uma hipótese para justificar a maneira
como é representada nos quadrinhos seria uma compensação
daquilo que não existe na realidade (LUYTEN, 2012, p. 46).
81

Outro grande destaque da década foi Pokémon de Satoshi Tajiri,


originalmente a obra era uma franquia de jogos, que tinha destaque no Japão, então
como meio de alavancar as vendas dos jogos, foi criado um anime para difundir o
jogo, estreou na TV Tokio japonesa em 1997, e logo após, já começou a fazer
sucesso. A franquia não se limitou apenas aos jogos, diversos produtos começaram
a ser vendidos com a marca, tornando-o uma das franquias mais rentáveis do
mundo. Pokémon estreou no Brasil em 1999 no programa Eliana & Alegria da Rede
Record, e assim como no resto do mundo teve um imenso sucesso no país.

• Figura 62: Pokémon - Satoshi Tajiri

• Fonte: https://www.pokemon.com/br/

O cinema de animações japonesas também ganhou impulso nessa década,


um desses motivos foi a compra de várias obras do renomado estúdio de animação
Ghibli terem sido compradas pela Disney para ser distribuídas no ocidente, o anime
que chegou primeiro aqui por meio dessa negociação foi O Serviço de Entregas da
Kiki, que foi escrito e dirigido por Hayao Miyazaki e estreou no Brasil em 27 de julho
de 1990. Outro anime/filme que também veio para o Brasil foi Meu Amigo Totoro
escrito e dirigido por Hayao Miyazaki que estreou em 8 de março de 1995, ambos os
filmes são ate hoje elogiados pela crítica especializada, pois, retratam com
sensibilidade as nuances da personalidade humana em diferente tipos de conflitos o
último, por exemplo, trata dos mais diferentes assuntos, de uma maneira mais
humana e sentimental.
82

Figura 63: Meu Amigo Totoro – Estúdio Ghibli

Fonte: https://www.posterplus.com.br/poster-filmes/anime/poster-meu-amigo-totoro/

Em 1996 foi lançado no Brasil o primeiro filme de animação/anime de Ghost in


the Shell do autor Masamune Shirow foi exibido no Brasil na Mostra Internacional de
Cinema em São Paulo, logo foi revendido para diversas mídias, o filme/anime faz
parte junto com Akira das obras japonesas que mais influenciaram a cultura pop com
o subgênero alternativo de ficção científica chamado Cyberpunk, podemos notar
várias similaridades da obra em vários filmes ocidentais depois da década de 2000,
o principal deles foi The Matrix que baseou quase todo o seu conteúdo nessas
obras.

O Cyberpunk “transforma” os elementos característicos


da Ficção Cientifica para melhor acomodá-los ao atual
paradigma pós-moderno e às subculturas urbanas às quais o
Cyberpunk constantemente se reporta. Apesar de certos
subgêneros encontrados no cyberpunk (Steampunk e
Mannerpunk) terem referências e ambientações do passado
histórico, a maioria das obras ainda encontra-se em um futuro
em megalópoles como Los Angeles e grandes conturbações,
como Boston-Atlanta . (AMARAL, 2005, pag. 6).
83

Figura 64: Ghost in the Shell - Masamune Shirow

Fonte: https://reelrundown.com/animation/Ghost-In-The-Shell-1995-Review

Por conta da popularidade dos mangás e animes no Brasil nos anos de 1990
uma prática começou a ganhar força entre o publico que consumia esse tipo de
entretenimento, o Cosplay. A prática de cosplay é a arte de utilizar maquiagem,
interpretação, vestuário para se fantasiar em um personagem especifico, seja em
eventos, concursos ou festas do meio, tem sua origem nas Wordcon (feiras de
Ficção Cientificas americanas) da década de 1930, porém, se tornou mais
conhecido a partir da década de 1970 por conta dos mangás e animes que faziam
sucesso no Japão e no mundo. Os primeiros concursos e exposições de cosplay do
Brasil foram realizadas no dia 13 de outubro de 1996, na 1ª MangáCon organizada
pela já citada ABRADEMI, também foi um dos primeiros eventos de cosplay da
América Latina.
84

2.5 Anos 2000 a Decadência da Tv Aberta e o Nascimento


das Fansubs

A década de 1990 como visto, foi de grande expansão para o meio dos
mangás e animes, muito por conta da TV aberta que possibilitou que vários animes
fizessem sucesso no Brasil, esse quadro se mantém por boa parte dessa década de
2000, porém algo que não era muito comum na década passada estava cada vez
mais ganhando força, a internet, o mundo em si estava entrando em uma era de
evolução, tanto o Brasil quanto o mundo estavam vendo as fronteiras ficarem cada
vez mais próximas, as relações comerciais por conta dessas novas tecnologias, 
estavam cada vez mais fáceis e isso fez total diferença de como os animes e
mangás começaram a ser exportados para o ocidente. Diferente das outras
décadas, nessa a publico em geral já tinha conhecimento das obras Japonesas,
fazendo com que a cada vez mais a demanda por essas obras aumenta-se, porém
como o publico era muito vasto, as empresas e emissoras começaram cada vez
mais a investir para tentar suprir essa demanda.

Como dito no capítulo anterior, com a vinda das obras de mangás diretamente
do Japão, o mercado brasileiro de mangás diminuiria drasticamente, pois, para as
editoras era mais fácil importar obras originais do Japão, que já faziam sucesso do
que incentivar os artistas nacionais, porém mesmo assim durante a década de 2000
algumas obras e trabalhos de artistas brasileiros tiveram destaque. Uma delas e a
obra O pequeno Ninja do autor João Costa e do desenhista Bruno paiva, foi
publicada pela editora Cristal Distribuidora e Comércio Ltda. em 2002, por conta da
temática simples e toques de humor era destinada para o público infantil. Outro
mangá brasileiro de sucesso foi Holy Avenger, de 1999 do autor Marcelo Cassaro,
baseado em um jogo de RPG lançado em 1998, foi uma das séries de mangás
nacionais mais famosas e importantes da época, devido ao seu sucesso em 2003 foi
lançada uma continuação da história, por esse tempo de publicação e pela
importância da obra teve em uma época quase que dominada por mangás vindo de
fora do país, Holy Avenger é uma das obras mais importantes desse meio no Brasil.
85

Figura 65: Holy Avenger - Marcelo Cassaro

Fonte: http://www.mundohq.com.br/historias-em-quadrinhos/publicacao/72/holy.html

No mesmo ano de 2003 Cassaro se juntou com Erica Awano; Fábio Yabu e
Daniel HDR, Alexandre Nagado, Arthur Garcia e Silvio Spotti; Elza Keiko e Eduardo
Müller; Rodrigo de Góes, Denise Akemi e Sônia Maria Bibe Luyten, todos artistas e
pesquisadores que já tinham experiência no meio para criar a obra Mangá Tropical,
lançado pela editora Via Lettera, o mangá com seis histórias com diversos temas, na
obra tudo desde a trama até as referências a locais, se passam no Brasil, também é
uma obra importante que mostra que é possível retratar a cultura nacional em
diversos segmentos de arte, inclusive na arte oriental do mangá. O Mangá tropical
por conta de seus autores que vieram cada um de um nicho diferente mas com
experiência em obras japonesas, possui vários estilos mesclados em suas escritas e
artes, fazendo com que a obra seja muito rica em conteúdo.

Em suas 96 páginas, serão seis histórias com temas


variados, tendo em comum tramas que se passam no Brasil
dos dias de hoje. Para compor os cenários (como o Museu do
Ipiranga e o bairro de Pinheiros), todos os autores trabalharam
com referências fotográficas a fim de criar maior identificação
com o leitor. Notícia site Omelete (2003)

Figura 66: Mangá Tropical - Marcelo Cassaro, Erica Awano Fábio Yabu, Daniel HDR, Alexandre
Nagado, Arthur Garcia, Silvio Spotti; Elza Keiko, Eduardo Müller, Rodrigo de Góes, Denise Akemi,
Sônia Maria Bibe Luyten
86

Fonte: http://www.guiadosquadrinhos.com/edicao/manga-tropical/ma096100/28566

Outro nome que deve ser mencionado e Maurício de Sousa, como já dito
aqui, ele é o mangaká Ozamu Tezuka se tornaram amigos nos anos de 1980 por
isso muitos dos trabalhos de Sousa tinham referências a mangás, essa condição
mais o trabalho de muitos anos escrevendo quadrinhos da Turma da Mônica, fez
com que em 2008 ele e sua esposa Alice Takeda fossem escolhidos para criar as
mascotes Tikara e Keika em homenagem ao centenário da imigração japonesa no
Brasil. Os trabalhos de Maurício de Sousa na divulgação da cultura Japonesa no
nosso país foram tão significativas que em 2013 o cônsul-geral do Japão em são
paulo Noriteru Fukushima entregou a Sousa a honraria Ordem do Sol Nascente
Raios de Ouro com Roseta, que foi concedida pelo próprio imperador japonês da
época, Akihito.

Figura 67: Tikara e Keika - Maurício de Sousa

Fonte: https://madeinjapan.com.br/2008/02/21/keika-a-mais-nova-criacao-do-mauricio-de-sousa/
87

Em 2008 Maurício de Souza lança por meio de seu próprio estúdio o


Gibi/Mangá da Turma da Mônica Jovem, uma releitura dos personagens clássicos
de Sousa com linguagem e estilo que remete aos mangás, inclusive sua edição feita
em preto em branco com quadrinização muito similar às usadas nas obras orientais,
era destinada ao público pré-adolescente. O sucesso foi tanto que a série passou a
ser publicada nos EUA, tornando-se a uma das revistas em quadrinhos mais
vendidas do mundo.

Mônica não é mais baixinha ou gorducha; Magali


preocupa-se com a qualidade da sua alimentação; Cascão
toma banho "de vez em quando"; e Cebolinha, após fazer um
tratamento com uma fonoaudióloga, não troca mais as letras -e
prefere ser chamado de Cebola. "Cada um manteve sua
característica, só que menos evidente. Na adolescência as
preocupações vão além de suas próprias características",
afirma Mauricio. "Está havendo uma curiosidade pelos
personagens crescidos justamente por essa possibilidade de
novos temas."
A outra mudança é no estilo dos desenhos, mais
próximos dos mangás. "Na verdade, emprestamos do estilo
mangá a expressividade dos olhos, algumas cenas mais ágeis
e a impressão em preto-e-branco", diz Mauricio. "Eu diria que a
"Turma da Mônica Jovem" é uma mescla de meu estilo com o
mangá e não apenas mangá. Não perdemos as características
básicas, mas adotamos uma tendência que está aí na
preferência desse público." (CIRNE, 2008).
88

Figura 68: Turma da Mônica Jovem - Maurício de Souza

Fonte: https://pt.slideshare.net/JuuuhSouza/tmj-01-turma-da-mnica-jovem-edio-01

Com a vinda dos anos 2000 as séries japonesas começam a dominar o


mercado de mangás, uma das principais editoras que investiu nesse mercado foi a
já citada Editora Conrad, fundada em 1993 foi uma das percussoras nas publicações
de mangás originais vindos do Japão. Suas publicações mais notáveis começaram
em novembro de 2000 com a publicação de dois clássicos já conhecidos do público
brasileiro, Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco. A editora optou por começar por
essas obras por conta da popularidade que tinham com os leitores, fazendo com que
o marketing fosse mais fácil. A Conrad publicou ao longo de sua história diversos
títulos de mangás, foi ela que trouxe a obra Vagabond um mangá escrito e ilustrado
por Takehio Inoue, que era baseado no romance épico japonês Musashi de Eji
Yoshikawa, começou a ser publicada em novembro de 2001 e fez sucesso
considerável, o mangá por conta do conteúdo histórico que carrega, era lido não
apenas por entusiastas da cultura japonesa, mas também por pessoas interessadas
em história e filosofia que viam na obra um conteúdo riquíssimo a ser estudado.

Outra editora que publicava mangás na época era a JBC (Japan Brazil
Communication), que era uma editora japonesa/brasileira fundada em 1995, que a
partir do ano de 2000 começou a trazer vários mangás para o país. Uma dessas
89

obras foi Samurai X (Rurouni Kemshin) do mangaká NobuhiroWatsuki que começou


a ser publicada em maio de 2001, também foi outro mangá que fez sucesso no
Brasil, pois a versão de anime já havia sido exibida em 1999 na emissora Rede
Globo. A partir desse ponto começamos a notar que outras obras além de Samurai X
tiveram seus mangás trazidos para o Brasil por conta do sucesso das séries na TV,
várias outras obras japonesas também fizeram sucesso por conta disto.

Figura 69: Samurai X (Rurouni Kemshin) - Nobuhiro Watsuki

Fonte: https://mangasjbc.com.br/rurouni-kenshin-01/
90

A JBC também trouxe em maio de 2001 o mangá de Sakura Card Captor


criado pelo grupo CLAMP, tinha como público-alvo Shoujo de gênero mahou shoujo,
no mesmo ano foi exibida na Rede Globo, foi uma das obras do seu gênero de maior
sucesso no Brasil junto com Sailor Moon, sua história que envolvia não apenas
elementos básicos do gênero, como seus poderes e como a protagonista se via em
meio a história, mas também desenvolvia várias cenas de ação coisa que muitas
meninas não estavam acostumadas a ver, o'que gerava uma identificação maior com
a personagem.

Figura 70: Sakura Card Captor - grupo CLAMP

Fonte: http://www.guiadosquadrinhos.com/edicao/sakura-card-captors-n-1/ca049100/39053

Uma das obras de maior popularidade no Brasil foi Naruto escrito e


desenhado por Masashi Kishimoto, seu mangá foi trazido pela editora italiana Panini
Comics que já alguns anos estava publicando mangás no país, o primeiro volume da
obra chegou em maio de 2007, o anime de Naruto também começou a ser exibido
no mesmo ano na emissora SBT. O impacto da obra foi muito positivo, visto que fez
sucesso logo na estreia, tanto do mangá quanto do anime, isso se deve ao fato de
que além de ser um shounen de ação envolvendo personagens Ninjas, algo que já
era do conhecimento popular no Brasil por conta dos inúmeros filmes e séries que
91

abordavam o tema, também tinha uma rica mitologia própria, misturando elementos
de cultura japonesa e chinesa que criavam um mundo único.

Figura 71: Naruto - Masashi Kishimoto

Fonte: http://www.guiadosquadrinhos.com/edicao/naruto-gold-n-1/na011102/118450

As três editoras até aqui citadas foram responsáveis pela maioria das
publicações dessa década, em sua maioria as obras que mais vieram para o Brasil
foram os de Shounen, Shoujo e seinen, boa parte se deve ao fato de esse tipo de
mangá ser mais fácil de se publicar e conseguir abranger um público maior, também
foram publicadas nesse período os seguintes mangás: Editora Panini Comics - Afro
Samurai mangaká Takashi Okazaki público Seinen ano 2009; Berserk autor Kentaro
Miura público Seinen ano 2005; Black Lagoon autor Rei Hiroe público Seinen ano
2008; Bleach autor Kubo Tite público Shōnen ano 2007; Claymore autor Norihiro
Yagi público Shōnen ano 2009; Colégio Ouran Host Club autor Bisco Hatori público
Shōjo ano 2008; Destino Cativo autor Hino Matsuri público Shōjo ano 2008; Éden: É
um mundo infinito autor Hiroki Endou público Seinen ano 2003; Gantz autor Hiroya
Oku público Seinen ano 2008; Kare First Love autor Kaho Miyasaka publico Shōjo
ano 2008. editora JBC - A Lenda do Bracelete do Crepúsculo autor Tatsuya
Hamazaki (Roteiro) Rei Izumi (Arte) público Shōnen ano 2006; Angelic Layer autor
Ageha Ohkawa (Roteiro) Satsuki Igarashi (Arte) CLAMP público Shōnen ano 2005;
Blue Dragon - Secret Trick autor Ami Shibata público Shōnen ano 2010; Chobits
92

autor CLAMP publico Shōjo ano 2003; Cowboy Bebop autor Yutaka Nanten público
Shōjo ano 2004; Death Note autor Tsugumi Obah (Roteiro) Takeshi Obata (Arte)
público Shōnen ano 2007; D.N.Angel autor Yukiru Sugisaki publico Shōjo ano 2010;
El-Hazard autor Hidetomo Tsubura publico Shōnen ano 2006; Gunnm - Hyper Future
Version autor Yukito Kishiro público Seinen ano 2003; Hellsing autor Kohta Hirano
público Seinen ano 2008; Inu-Yasha autor Rumiko Takahashi publico Shōnen ano
2002; Nana autor Ai Yazawa público Josei ano 2008. editora Conrad – Adolf autor
Osamu Tezuka público Seinen ano 2006; Angry autor Yoo Kyun Won publico Shōnen
ano 2006; Battle Royale autor Koushun Takami (Roteiro) Masayuki Taguchi (Arte)
público Seinen ano 2006; Slam Dunk autor Takehiko Inoue público Shōnen ano
2005.

Podemos notar que a quantidade de mangás que foram publicados desde os


anos de 1960 até os anos 2000 foi crescente, isso se deu por conta do interesse
cada vez maior do público brasileiro em obras que não caísse na mesmice das
obras ocidentais, os mangás justamente por abordarem temas diferentes a cada
nova obra, também não se limitavam pelo padrão das histórias convencionais, cada
autor como podemos notar nas obras citadas, mesmo pertencendo ao mesmo
público e gênero podem abordar histórias completamente diferentes. Se o interesse
por mangás na década de 2000 cresceu exponencialmente os animes que vinham
desses mangás também começaram a ter um destaque ainda maior tanto pelos
mangás tanto pelo movimento de animes que ocorreu na década passada de 1990.

Apesar dos anos 2000 começar embalado para os animes, pois na década
passada houve o grande “boom” dos animes com Cavaleiros do Zodíaco e
Pokémon, quase todas as emissoras da TV aberta brasileira tinham em sua
programação alguma obra de animação japonesa, o que antes era um tipo de obra
direcionada a apenas um nicho, agora se transformou em algo de preferência pelo
grande público, essa situação permaneceu assim até o ano de 2001, quando os
animes e boa parte da programação infanto-juvenil começou aos poucos a perder
espaço na TV aberta do Brasil, os motivos para essa queda dos animes foi, em
primeiro, a censura que era aplicada, pois, vários animes que eram exibidos
93

receberam uma dose tão alta de censura nas cenas, que a história acabava não
fazendo sentido; o segundo motivo foi a concorrência que os animes estavam
fazendo com atrações nacionais, os canais abertos eram conhecidos pelas
produções próprias no estilo série ou novela (exemplo, a novela infantil Chiquititas,
ou a série adolescente Malhação), essas atrações se viram ameaçadas pelas
animações japonesas que eram, além de mais baratas, acabavam roubando a
atenção do público-alvo dessas atrações, com isso as TVs pouco a pouco
começaram a diminuir a exibição dos animes para que suas obras próprias que
rendiam mais lucro para a emissora as quais tinham os direitos autorais(o lucro que
os animes geram tinha que ser dividido com os estúdios que criaram a animação); o
terceiro motivo foi a expansão de canais pagos voltados para esse tipo de conteúdo,
eram exemplos desses canais, cartoon network, fox kids Locomotion; o quarto
motivo foi a internet que possibilitou aqueles que queriam consumir esse tipo de
mídia ver a obra desejada a hora que quisesse.

Mesmo com essa situação como já mostrado aqui, vários animes fizeram
sucesso, principalmente aqueles que tiveram seus respectivos mangás lançados
juntos, entre outros que fizeram sucesso se destacaram animes que tiveram uma
boa receptividade do público ou que eram associados a algum produto, um deles por
exemplo e o anime Zatch Bell do mangaka Makoto Raiku, um shounen lançado no
Brasil em 2004 que fez bastante sucesso por conta das cenas de ação e do enredo
mais voltado para a comédia, foi transmitido no programa infantil TV Globinho da TV
Globo, programa esse que teve grande relevância para os animes desse período,
pois era a principal fonte de animes na TV aberta. Outro anime que fez sucesso
nesse programa foi Yu-Gi-Oh um shonen sobre jogos de cartas do mangaka Kazuki
Takahashi que começou a ser exibido em 2003, o anime se tornou popular assim
como Pokémon por conta do jogo que era comercializado no Brasil na época.

Outro anime que fez sucesso ainda na TV aberta foi Fullmetal Alchemist da
autora Hirumo Arakawa, começou a ser transmitido no programa infantil TV Kids da
emissora Rede TV, foi um dos animes que mais gerou confusão no público, pois,
apesar de ser um shounen e ter várias passagens de ação, tinha uma trama que
94

envolvia ciência, religião, política e ética, tendo por muitas vezes debates filosóficos
acerca da existência humana, que faziam aqueles que assistiam ficarem se
perguntando se estavam realmente assistindo a um desenho, a autora da obra
Arakawa conseguiu misturar elementos de diferentes tipos e criar uma obra que para
muitos críticos e perfeita, não à toa Fullmetal Alchemist é considerado o melhor
mangá/anime de todos os tempos.

Figura 72: Fullmetal Alchemist - Hirumo Arakawa

Fonte: https://dinastiageek.com.br/porque-assistir-fullmetal-alchemist-brotherhood

Dos muitos canais pagos que começaram a ter na programação os animes,


um merece um destaque, o canal Animax, que foi o primeiro canal de televisão da
América Latina a ser dedicado exclusivamente aos animes, começou a operar em 31
de julho de 2005 e passou diversos animes pela sua programação incluindo quase
todos os citados até agora. Um dos seus maiores destaques foi o anime Bleach do
autor Tite Kubo que foi exibido em 2008.

O avanço dos canais a cabo abriu uma nova opção para


os otakus (fanáticos) brasileiros. Como os canais abertos não
primam por respeitar horários e exibir séries na íntegra, a saída
para o público de classe média e alta foi acompanhar canais a
cabo (NAGADO, 2007, p.73).
95

Figura 75: Bleach - Tite Kubo

Fonte: https://www.imdb.com/title/tt0434665/

Nos cinemas várias animes estavam sendo exibidos na época, uma das
principais obras da época foi A Viagem de Chihiro dos estúdios Ghibli que estreou no
Brasil em 18 de julho de 2003, considerado pela crítica um dos melhores filmes de
animação de todos os tempos ganhou os Oscar de melhor filme de animação em
2003 além de outras 35 premiações, esse sucesso se deu por conta da história além
de ser muito bem roteirizada abordar a cultura japonesas e diversos fatores sociais,
também se destaca a qualidade da animação e o desenho dos personagens.

O desenho que possui uma importância de resgate


histórico pode recuperar a memória social de um povo, contar e
recontar fatos, registrar ocorrências, capturar as sensações
épicas ou simplesmente terrenas que pertençam a esse
determinado grupo social. (BORGES, 2008, p.12).
96

Figura 76: A Viagem de Chihiro - estúdios Ghibli

Fonte: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-37485/fotos/detalhe/?cmediafile=21052756

A internet nessa década estava se expandindo em uma taxa gigantesca, no


ano 2000 havia cerca de 304 milhões de computadores e usuários conectados a
rede no mundo, esse número subiu em 2005 para 1 Bilhão, isso se deu por conta da
optimização da tecnologia e do barateamento dos dispositivos de informática; com
essa rápida disseminação da internet no mundo também trouxe grandes mudanças
para o meio dos animes e mangás. Em meados dos anos 2000 um novo método
para se discriminar a cultura dos mangás e animes começou a circular no Brasil,
foram os Fansubs que resumidamente e a prática em que um grupo sem fins
lucrativos, começa a traduzir e legendar mangás e animes e a distribuí-lo na internet.

A prática fansubber como conhecemos hoje tem suas origens nos EUA entre
o final da década de 1980 e a de 1990, quando um grupo de pessoas que
consumiam não apenas animes mas também Tokusatsu que passavam nas TVs
americanas, começaram a trazer por conta próprias séries diretamente do Japão por
meio de fitas VHS que eram traduzidas pelos próprios membros e distribuídas entre
os amigos se pelos serviços de postagens, muitos das pessoas que tinham essa
prática eram universitários que gostavam da cultura japonesa e viam que o mercado
formal não atendia as necessidades de consumo. Como podemos notar em citações
anteriores, o Brasil nas décadas de 1960 e 1970 tinha uma prática muito parecida
com essa, porém com os mangás, então começamos a observar que a prática das
97

fansubs pode ser uma mistura do modelo americano com o modelo já existente no
nosso país.

Fã-clubes americanos surgiram para apoiar o


armazenamento e a circulação de animação japonesa. Nos
campi das faculdades, organizações de estudantes formaram
grandes bibliotecas, com material legal e pirateado, e
realizavam exibições destinadas a educar o público sobre os
artistas, estilos e gêneros do anime japonês. O Anime Club, do
MIT, por exemplo, organiza exibições semanais utilizando
material de uma biblioteca com mais de 1.500 filmes e vídeos
(JENKINS, 2009, P. 220).

E difícil precisar quando que as fansubs começaram a ser organizadas no


Brasil; sabe-se que foi em meados dos anos 2000 quando a internet começou a
ganhar força e os computadores e programas estavam mais acessíveis a boa parte
da classe média e baixa, porém na década de 1990 havia alguns grupos que já
faziam um trabalho semelhante, um desses grupos foi o BAC - Brasil Anima Club foi
fundado por Antonius Kasbergen em Brasília no ano de 1996 e que distribuía cópias
das fansubs americanas. Já nos anos 2000 começaram a aparecer centenas de
grupos interessados em ter acesso a mais conteúdo de cultura pop japonesa, isso
se deu pelo fato da TV aberta não passar mais essas animações com frequência em
seus programas, e das TVs pagas que exibiam alguns animes, serem caras para
uma parte da população, com isso a internet se tornou um ótimo lugar para se
divulgar e consumir esse material.

Os métodos utilizados para organizar os grupos de fansubs eram de acordo


com a tecnologia da época proporciona, por exemplo, para os membros
conversarem ou se conhecerem era por meio das redes sociais da época mlRC,
ICQ, Orkut e MSN, os membros que estavam diretamente ligados a tradução
mantinham contato também por mensagem de texto via celular ou por telefone,
assim tão logo conseguisse uma obra de anime ou mangá para traduzir os grupos já
98

começavam a realizar o projeto. O processo que esses grupos de fãs também se


mostrou bem organizado, visto que cada um tinha uma ação a ser desempenhada,
as divisões eram: os buscadores ou coletores, era a pessoas que tinha o arquivo do
mangá ou anime ou que busca o arquivo em diversos espaços; os tradutores, que
faziam a tradução das legendas e diálogos para o português; o tipógrafo, são
aqueles que fazem marcação das legendas cria créditos e logotipos além de notas
explicativas; o sincronizador, são os responsáveis pela montagem e edição; e por
último o revisor, aqueles que revisão a obra para ver se não a erro de tradução,
gramática ou montagem. Após as traduções feitas o passo seguinte era a divulgação
que ficava a cargo das mesas redes sociais, muitas vezes também era feita nos
sites do Blogger. Para compartilhar com o público geral a obra era feita de duas
maneiras, por meio de sites de Download ou por meio de softwares como por
exemplo Lime WIRE e eMULE que eram programas de compartilhamento de
arquivos para baixar.

Como podemos notar apesar de ser uma prática amadora e muitas vezes
feito por pessoas que não são do meio profissional de animação e quadrinhos, a
muito esforço envolvido na prática das fansubs, fato de também grande parte desse
movimento ser sem fins lucrativos, ou seja, os participantes desse movimento
apenas estão buscando algo cultural que eles apreciam como forma de
entretenimento, nos diz que segundo Jenkins 2009 que “os fansubbers buscarem
por conta própria os animes para traduzi-los legendá-los e disponibilizá-los para
outros fãs, sem nenhum ônus financeiro remete-nos às noções de cultura
participativa e inteligência participativa”. Porém a muita controvérsia em relação as
fansubs, visto que essas produções não pagam direitos autorais para as empresas e
autores que fazem as obras originais, então a muitos veem essa prática como
simples pirataria de produtos, mas a maioria dos membros dos fansubs sabiam
dessa situação, então para evitar que a imagem dos fãs fossem misturadas a de
bandidos e para que as empresas e seus autores tivessem seus reconhecimentos
algumas medidas eram tomadas; como, traduzir e legendar apenas animes e
mangás que não fossem comercializados no Brasil, ou parar quando uma obra que
era veiculada pela fansub ganhava uma adaptação oficial. Outra prática recorrente
99

era sempre colocar anúncios dentro da tradução para que aqueles que lesem ou
assistissem a obra não comercializa-se o mangá ou anime, e que se possível
comprassem obras originais.

Quando os fãs se tornam piratas? A distinção entre as


práticas dos fãs e a infração dos direitos autorais nem sempre
é clara; ou melhor, os produtores da indústria tendem a reagir
fortemente ao que eles percebem como violação de direitos
autorais, enquanto os fãs vêem práticas como adaptações e
interpretações válidas, que reforçam seu consumo legítimo de
textos de mídia. Controle sobre a circulação textual constitui o
ponto crucial dos debates: debates sobre quem deve ter
permissão para distribuir e lucrar com os textos da mídia e
como. (DENISON, 2011, p. 01).

Vendo esses pontos podemos concluir que as fansubs nasceram de uma


necessidade que uma grande parcela de pessoas tinha por esse conteúdo cultural ,
de certa forma com a internet e as fansubs ajudaram os animes e mangás a se
livrarem das correntes que os prendiam as emissoras de TV e das grandes
produtoras, e também onde mais houve crescimento desse meio, e quase
impossível descrever em apenas uma pesquisa todas as obras que foram trazidas
para o Brasil a partir do ano de 2007, então podemos perceber que a cultura dos
animes e mangás que durante décadas ficou delimitada ao bel prazer de executivos,
agora está totalmente livre e se expandindo.

Com essa nova onda dos animes tanto na TV como na internet vários eventos
começaram a ocorrer na década de 2000, um dos principais eventos desse período
e o Anime Friends evento que até hoje e um dos maiores do Brasil, teve sua primeira
edição em julho de 2003 com mais de 120 mil pessoas, número que se tornou
crescente nas edições posteriores, o evento é conhecido por trazer várias
celebridades da cultura pop japonesa desde mangakas até músicos. Também nesse
evento há competições de cosplay tanto nacional quanto internacional, nomeadas de
100

concurso Yamato. A partir deste ano, ate a época atual, todos os anos o evento e
realizado, e a cada ano o publico tende a aumentar.
101

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O desenvolvimento dessa pesquisa, mostrou como foi a vinda e ascensão dos


animes e mangás para o Brasil, isso se fez necessário para vermos como uma
cultura pode ser assimilada por outra, nesse caso a cultura brasileira e a japonesa.
O objetivo dessa pesquisa foi mostrar além da história da chegada dessas obras,
como foi o impacto na mídia, na sociedade e na cultura. Como vimos até aqui a
cultura do mangá japonês, é milenar e a cada ano, década ou século, veio se
aprimorando para se tornar algo que expressasse a cultura desse povo, porém os
mangás não foram suficientes, o Japão por ser um país que se orgulha muito da sua
história começou a transcender as páginas dos mangás, com isso começaram a
desenvolver suas próprias animações, mesmo sem o conhecimento das tecnologias
e técnicas de animação, os artistas japoneses não desistiram de sua arte. O artista
que mais contribuiu para a criação desse meio no Japão foi Ozamu Tezuka, ele foi
um dos principais artistas da época a não ficar na sua própria zona de conforto e
querer que suas obras, e a cultura que elas representavam fossem levadas ao
público da melhor maneira possível. Toda essa expressividade, se traduziu de
maneira abrangente nos animes e mangás, como podemos ver no número
expressivo de demografias e gêneros de obras que são divididos; as demografias
abrangem todas as idades, desde uma criança até uma pessoa idosa, pois, os
japoneses entenderam que não existe idade para o apreciamento de boas obras;
outro ponto é a quantidade de gêneros de animes e mangás, basicamente ele
engloba todo o espectro de gostos e costumes humanos, temos obras que vão
desde a clássica obra de luta, passando por obras de culinária ou esportes, e até
obras que abordam romance entre pessoas do mesmo sexo, também a diversas
obras que tocam em assuntos delicados como política e religião; basicamente os
animes e mangás são hoje o meio mais diversificado e mais representativo de
entretenimento que há na nossa sociedade atual.

Mangás após fazerem sucesso dão origem aos animes, que são exibidos na
televisão, que se fazem sucesso vão para o cinema, personagens com olhos
102

grandes, feições exageradas, cabelos coloridos e roteiros cheios de magia,


aventuras e monstros, mas também que abordam temas sensíveis e de interesse
público, assim é o mangá, a tradicional história em quadrinhos japonesa que, que na
década de 1960 começou a ganhar espaço no Brasil. Esse processo começou na
década de 1960 em que descendentes de japoneses como Minami Keizi e Claudio
Seto começaram a utilizar as influências gráficas, narrativas e temáticas de mangá
em seus trabalhos na editora EDREL, editora essa de grande papel, não apenas no
meio dos animes e mangás, mas também no meio editorial brasileiro, pois, graças
aos seus colaboradores viram o mercado que as obras japonesas estavam abrindo.
Nos anos de 1970 os mangás ganharam mais atenção, com Speed Racer (Mach Go
Go nome original) cuja série foi publicada pela editora Abril, os animes também junto
com a TV começam a ter mais destaque, porém, com a ditadura militar e a censura o
promissor mercado de animações e revistas em quadrinhos que estava se
desenvolvendo no Brasil foi praticamente parado, a censura de um meio apenas por
ideologia política, privou o Brasil de possivelmente ter um mercado tão lucrativo
quanto os EUA e o japão tem hoje em dia. A censura no nosso país foi e ainda é um
problema, como podemos ver a primeira censura foi a do regime militar, que
basicamente matou a oportunidade de desenvolvermos um mangá de cunho
nacional e exportá-lo, pensem como seria se o Brasil tivesse a mesma forma de
exportar sua cultura como o Japão, além dos lucros que essas obras dariam e os
milhares de empregos, o mundo todo conheceria a nossa cultura, porém os militares
da época não se importaram e para tentar censurar alguns “profanadores da moral e
dos bons costumes” mataram um mercado inteiro. A segunda censura veio do povo
e das emissoras na década de 1990 e continuou nos anos 2000, com a onda do
“politicamente correto”, pois durante anos o público estava acostumado com as
obras ocidentais, que não tinham nada de muito diferente da zona de conforto das
pessoas, porém quando os animes e mangás se popularizaram muitas partes
ficaram ultrajadas com as cenas de violência ou com os personagens diferentes,
então invés de procurar entender as obras, muitos começaram a tentar censurar.

Já na década de 80, os tokusatsus (séries de super-heróis em live-action)


ganharam muita força e sucesso no Brasil Sendo um dos principais programas
103

origem oriental, nesta época os mangás Super-Pinóquio de Claudio Seto (baseado


em Astro Boy) e Robô Gigante foi criado e lançado no Brasil em formato japonês, no
típico estilo mangá, essas eram mais contribuições de Seto para a cultura dos
animes e mangás, pois, como podemos observar ele era o principal nome desse
meio no Brasil; também em 1980 mais precisamente 1984 foi criada a Associação
Brasileira de Desenhistas de Mangá e ilustrações ABRADEMI órgão de extrema
importância para esse meio, foi nessa associação que os primeiros grupos de fãs da
cultura pop japonesa começaram se reunir, também no mesmo ano o mangaká
Osamu Tezuka visitou o Brasil e apresentou uma exposição com artes de vários
artistas brasileiros, foi a primeira vez que um autor renomado de mangás veio ao
Brasil, e também diz a onda de crescimento que esse tipo de mídia estava tendo não
só no Brasil como no mundo. Apesar disso tudo foi apenas com a publicação do
clássico foi Lobo Solitário, em 1988, pela Cedibra que o mercado de mangás no
Brasil ganhou força. Em 1994 ocorreu uma ''‘explosão’'' de animes e mangás no
Brasil, com o sucesso de Cavaleiros do Zodíaco pela Rede Manchete, abriu de vez
as portas da cultura dos animes e mangás no Brasil, foi um momento tão
significativo que mudou completamente a relação da indústria audiovisual e Gráfica
com o público, principalmente no que diz respeito a quais obras trazer para o país,
também foi o momento que publico em geral começou a ver que existiam obras boas
além das que vinham dos EUA, também foi nessa época várias revistas informativas
como a Revista Herói deram uma grande atenção às séries de mangás japoneses,
isso fez com que outras revistas exclusivas sobre animes aparecem no Brasil. Os
anos 2000 a TV aberta entra em crise e os animes e mangás começam a migrar
para outras plataformas como internet e a TV paga, já a essa altura já haviam sido
criados diversos grupos que traduziam, legendaram, editavam e compartilhavam
obras vindas diretamente do japão, esse movimento ficou conhecido como
movimento Fansub.

Com todas essas obras sendo lançadas no Brasil, não demorou muito para
que diferentes pessoas começaram a ter mais interesse não apenas nas obras em si
mas também pelo movimento que estava por trás. A cultura dos animes e mangás se
tornou tão popular no Brasil muito por conta de ser uma cultura participativa, ou seja,
104

a pessoa não só observa os acontecimentos, ela vive esses acontecimentos, e isso


se dá nesse caso em duas situações: a primeira foi na criação das fansubs, em que
basicamente um grupo de fãs viu que o mercado brasileiro não satisfazia a demanda
por essas obras, então reuniram-se com outros diversos fãs e começaram eles
mesmos a fazer essas obras para o Brasil, tendo seus próprios métodos e meios
essas tribos urbanas da cultura pop japonesa conseguiram fazer com que essa
cultura tivesse muito mais visualizações. A segunda podemos notar com a prática
dos cosplays, como vimos essa prática se deu no Brasil nos anos 1990 e continua
até os dias atuais, os praticantes dessa arte se vestem, se maquiam e agem de
acordo com o personagem preferido seja em festas, feiras ou exposições do meio,
isso podemos considerar o máximo do vivenciamento que uma cultura, em que o
indivíduo não apenas aprende ou tem contato com os elementos culturais, mas sim
vivencia essa experiência.

Outro ponto considerável que podemos constatar é o da representatividade,


por ser um meio que abrange quase todo o espectro de público, os animes se
construíram como algo que foge ao padrão comum da sociedade ocidental, desde
as primeiras obras que chegaram ao Brasil, já conseguimos notar o diferencial das
obras japonesas, com personagens de cores de pele diferentes com cabelos e olhos
das mais diferentes cores, podemos ter negros com cabelos brancos até o violeta,
com olhos cinzas até o lilás, podemos ter pessoas brancas com cabelo preto até o
cor-de-rosa, com olhos vermelhos até o dourado; também temos personagens
asiáticos, negros, brancos, e indígenas (ou nativos), tanto como protagonistas como
personagens secundários ou até mesmos vilões, nenhum outro meio de
entretenimento atual tem uma diversidade de cores e etnias representadas tão
grande quanto nos animes. E foi justamente essa diversidade que ajudou com que
os mangás e animes caíssem no gosto do brasileiro, visto que o Brasil é um país
extremamente miscigenado, em que cada pessoa nascida aqui tem suas
características próprias devido a carga genética que cada um herdou dos diferentes
povos que aqui se alocaram, no Brasil não existe uma pessoa branca que tenha
sangue puro da Europa, ou um negro que tenha sangue puro africano, todos (nem
que seja um pouco) os nascidos no nosso país são mestiços; e isso vai de encontro
105

com as obras japonesas, fazendo com que o brasileiro tenha uma melhor
identificação com os personagens dessas obras.

Ainda no ponto da representatividade, agora sobre a representatividade social


nos animes e mangás nesse quesito essas obras também tem um destaque muito
grande, não só por terem obras que são destinadas para homens, meninos e para
mulheres, meninas, mas também por oferecer obras que sejam para ambos os
sexos ou voltadas para o publico homossexual, todos os gêneros são abrangidos
pelas obras japonesas, essa foi mais uma diferença que fez essas mídias ganham
tanto destaque no Brasil. Para as mulheres esse foi o ponto mais notório para que
começassem a consumir essas obras, pois, diferente das obras ocidentais, em que a
mulher na maioria das histórias era a personagem fraca que tinha que ser resgatada
ou que era um pouco forte, mas não tinha quase destaque, nos mangás e animes
elas se viram representadas, com personagens que muitas vezes são mais fortes
(emocionalmente, mentalmente ou fisicamente) que os personagens masculinos,
que em boa parte das obras ou tem um destaque considerável ou são elas as
protagonistas, com isso as mulheres ou meninas (dependendo da obra) tinham ali
algo para se ver, e algo para se comparar. No caso do público LGBTs foi algo
parecido, nas obras ocidentais elas eram tratadas ou de forma muito caricata (e
ofensivo) ou de maneira extremamente sexualizada, como se o fato de ser
homossexual o transforma-se em um depravado(a), além e claro de dificilmente teria
alguma relevância nas histórias, porém nos mangás e animes, essa inclusão vem
desde as primeiras obras lançadas tanto no japão quanto no Brasil, além de terem
seus próprios gêneros com obras lançadas periodicamente inclusive na TV aberta,
algo impensável no ocidente, os personagens têm histórias próprias focadas muito
mais em suas personalidades do que na sexualidade em si, são desde os
protagonistas até os vilões. No Brasil infelizmente poucas obras foram
comercializadas e exibidas com essa temática, muito por conta do preconceito,
porém com as fansubs essas muitas dessas foram traduzidas e disponibilizadas na
internet.
106

O Brasil nesses mais de 50 anos da chegada desse meio passou por muitas
transformações, passou por muitos governos e regimes, foi pouco a pouco mudando
como olhar o mundo, e em todo esse tempo os mangás e animes estavam aqui, não
apenas para entreter mas também para mostrar que a cultura do Brasil não está
fechada, ela se modifica e absorve mais elementos, com todos esses fatores
podemos concluir que a cultura dos animes e mangás além de mudar e adicionar
uma nova cultura a já rica cultura brasileira, também causou e continua a causar na
sociedade o efeito de se propor a conhecer e respeitar novas ideias e costumes, o
fato da cultura pop japonesas ter crescido junto com a cultura midiática do Brasil nos
diz que ela ainda tem muito para se desenvolver e crescer, e cada vez mais fazer
parte do nosso cotidiano. Os animes e mangás não são obras perfeitas, e nem
precisam ser, também não agradam muitas pessoas, mas também não precisa
agradar a todos, ela é livre e se depender dos seus fãs, continuará sendo.
107

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