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AVALIAÇÃO CLINICA DO TRATAMENTO CIRÚRGICO DE

PSEUDOARTROSE DO ESCAFÓIDE CÁRPICO – 7 CASOS

Rui Faustino1, Teresa Magalhães1 , João Oliveira1 , Carlos Dias1 , Gonçalo


Martinho1 , Leonor Paulo2.

Resumo :

Foram avaliados sete pacientes submetidos a tratamento cirúrgico


por pseudoartrose do escafóide cárpico no período compreendido
entre Janeiro de 2001 e Setembro de 2005.
O tratamento visou a consolidação e o alívio sintomático.
Seis Pacientes haviam sido previamente tratados de forma conservadora
enquanto um não havia recebido tratamento prévio após fractura com mais de
dez anos de evolução e com alterações degenerativas associadas.
Todos os pacientes foram avaliados clínica e radiologicamente.

* Trabalho realizado no Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Hospital de Santarém


1-Interno do Complementar de Ortopedia
2-Assistente Hospitalar Graduada

Introdução :

Depois das fracturas do rádio distal , tratam-se das fracturas mais frequentes
do punho , normalmente causada por uma queda com a mão em hiperextensão
e desvio radial.
60-80% ocorrem na porção média.
A particular anatomia do escafóide predispõe ao atraso de consolidação e
pseudoartrose porque se articula com quatro dos sete ossos do carpo. A
irrigação sanguínea no escafóide é precária, 67% apresentam um foramina
arterial ao longo do seu comprimento , 13% só apresentam irrigação do 1/3
distal e 20% não têm irrigação no 1/3 proximal.
A prevalência da osteonecrose pode ser de 35% em fracturas ao nível do pólo
proximal ; 35% se fracturas descoaptadas .

Material e métodos:

No período compreendido entre Janeiro de 2001 e Setembro de 2005 , sete


pacientes com pseudoartrose do escafóide cárpico sintomáticos foram
operados: cinco, segundo a técnica de Matti-Russe modificada. Num dos
casos em que existiam alterações degenerativas associou-se estiloidectomia
radial.

Num dos casos de fractura proximal que havia sido submetido à técnica de
Matti Russe , ao final de 6 meses verificou-se não consolidação, tendo-se
procedido à excisão do fragmento proximal.
Num outro caso de fractura do pólo proximal procedeu-se à sua excisão e
estiloidectomia.

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100% eram do sexo masculino sendo quatro pseudoatroses do escafóide à
direita e três à esquerda . Cinco ao nível do 1/3 médio e duas ao nível do polo
proximal.
A idade variou entre os 14 e os 44 anos ( média de 28 anos ) , todos relatavam
dor e deficit funcional. Num dos casos ( fractura com mais de 10 anos não
tratada ) em termos radiológicos além dos sinais típicos da pseudoartrose
apresentava sinais de alterações degenerativas radiocárpicas. O tempo
decorrido entre o traumatismo e o tratamento cirúrgico variou desde 6 meses a
120 meses com uma média de 24 meses.
Em cinco casos utilizou-se enxerto ósseo cortico-esponjoso colhido a nível
distal do rádio e num dos casos utilizou-se enxerto ósseo cortico-esponjoso
colhido a nível do olecraneo. Em 50% a osteossíntese foi realizada com
parafuso de Herbert , nos restantes 50% com 2 Fios de Kirshner. Segui-se um
período de imobilização gessada palmar incluindo o polegar com o punho em
posição neutra que variou desde 6 semanas a 16 semanas.

Fig. 1- Radiografia do punho AP evidenciando uma típica pseudoartrose do escafóide


cárpico

Resultados:

Após um seguimento médio de 72 meses ( entre 42 e 96 meses )


avaliados segundo o sistema de avaliação clínica de Green e O´Brien
modificado ( Tabela 1)(2), Quatro pacientes apresentaram resultados
excelentes , dois bons resultados e um razoável. Observamos consolidação
com integração do enxerto nos casos operados pela técnica de Matti-Russe ,
não assistimos a alterações degenerativas ulteriores.

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TABELA 1
SISTEMA DE AVALIAÇÃO CLÍNICA DE GREEN E O´BRIAN MODIFICADO

VARIAVEIS PONTOS ACHADOS


DOR 25 NENHUMA
20 OCASIONAL
15 MODERADA
0 INTENSA
ACTIVIDADE LABORAL 25 RETORNO NORMAL
20 TRABALHO RESTRITO
15 DESEMPREGADO
0 INAPTO DEVIDO A DOR
AMPLITUDE DE 25 % DO NORMAL 100%
MOVIMENTOS
15 75-99%
10 50-74%
5 25-49%
0 0-24%
FORÇA MUSCULAR 25 % DO NORMAL 100%
15 75-99%
10 50-74%
5 25-49%
0 0-24%
RESULTADO FINAL
EXCELENTE 90-100
BOM 80-89
RAZOAVEL 65-79
MAU <65

TABELA 2
SISTEMA DE AVALIAÇÂO – PONTUAÇÂO

Pacientes Idade Sexo Local da Lado Dor Actividade Amplitude Força Resultado
fractura laboral de Muscular
moviment
os

FAP 14 M 1/3 Drto 20 20 15 25 Bom


médio
RMCA 44 M Pólo Esq 25 25 15 25 Excelente
proxim
al

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GMFA 18 M 1/3 Drto 25 25 25 15 Excelente
medio
LCFR 20 M 1/3 Drto 25 25 25 25 Excelente
médio
JFRJ 43 M 1/3 Drto 15 20 15 15 Razoavel
medio
EI 41 M 1/3 Esq 25 25 15 25 Excelente
médio
EG 19 M Pólo Esq 25 25 15 15 Bom
proxim
al

Discussão:

A totalidade dos casos na nossa serie diz respeito ao sexo masculino , de facto
estas fracturas são mais frequentes em individuos jovens do sexo masculino ,
devido a maior actividade física nesta faixa etária.
O desenvolvimento das pseudoartroses devem-se muitas vezes a falhas no
diagnóstico , inicio tardio de tratamento , o local e a descoaptação da fractura e
se existirem lesões ligamentares associadas.

Em 1933 Matti desenvolveu uma técnica na qual se produzia uma cavidade


dentro do escafóide para ser preenchida por osso esponjoso da crista ilíaca.
Em 1951 é modificada por Russe ao abordar o escafóide via volar em
detrimento da via dorsal de Matti. Passou então a designar-se por técnica de
Matti-Russe. Modificamos a via de Matti Russe ao colher enxerto cortico
esponjoso a nível distal do rádio e olecranio.
A consolidação promove a estabilidade do carpo e melhora as queixas álgicas
do paciente.
Utilizando o sistema de avaliação clínica de Green e O´Brien modificada ( a
original incluía os resultados radiográficos ) verificamos cerca de 57% de
excelentes resultados. 28,6% de Bons resultados ( Um dos casos associado a
luxação transescafoido-semilunar e outro reintervencionado por necrose do
pólo proximal pos cirurgia pela técnica de Matti-Russe.)
O Resultado menos conseguido 14,4% ( Razoável ) foi encontrado num
paciente com história de fractura com cerca de 10 anos e com alterações
degenerativas associadas.
Verificamos ausência ou melhoria significativa da dor em cerca de 85,6% dos
pacientes
72% retomaram a actividade laboral normal , 28% com algumas restrições.
Houve melhoria na amplitude de movimentos e na força muscular entre boa a
excelente na totalidade dos casos.

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Fig.2 – Rx AP pós operatório Fig.3 Rx AP – Evidenciando consolidação

Conclusão:

A pseudoartrose é a complicação mais comum das fracturas do escafóide e


têm a sua importância pelo facto de afectarem uma população jovem e activa.
A técnica de Matti Russe que preferencialmente utilizamos utiliza a via volar
que não lesa a vascularização do escafóide e a modificação do método
colhendo enxerto a nível distal do rádio ou no olecraneo em vez da crista ilíaca
exclui a necessidade de anestesia complementar e também esta associado a
menor morbilidade.
Não houve relatos de complicações de ferida pós operatória.
Obtivemos mais de 80% de bons a excelentes resultados com esta técnica
Em apenas um caso se verificou necrose do pólo proximal havendo
necessidade da sua excisão mas com bom resultado clínico.

Referencias :

1- Canale e Beaty : Campbell´s Operative Orthopaedics, 11ed :


Fractures and dislocations of carpal bones ,
2- Cooney W.P. , Dobyns J.H. , Linsheid R.L. , :Fractures of scaphoid. A
rational approach to management. Clin Orthop
3- Max RF Ramos : Revista Brasileira de Ortopedia , nº 5 – Maio 2000:
Tratamento da pseudoartrose do escafoide cárpico pela técnica de Matti Russe
utilizando enxerto do Olecranio

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4- Leite NM , Acta Ortopédica Brasileira 1: 1993 : Tratamento cirúrgico de
pseudoartroses e atrasos de consolidação do escafoide pela técnica de Matti –
Russe
5- Hoonig-san-Duyvenbode, J Bone Joint Surg, 73 : 1991 : Pseudoartrosis of
scaphoid treated with the Matti-Russe operation

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