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Quadrinhos, cinema, animação e tevê.


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20/04/10
Uma nova onda nos quadrinhos de super-heróis.
A partir dos anos 80, falou-se muito sobre HQs de super-heróis realistas. Mas fala
r em realismo nesse gênero de quadrinhos é praticamente uma contradição em termos. Afinal
algo que se chame de realista pressupõe que se tenha como parâmetro o que chamamos de
mundo real . Portanto, não haveria em princípio nada muito realista numa obra que tem
como protagonistas personagens que voam pelos céus, disparam raios de suas mãos ou s
e transformam em monstros superpoderosos. Neste sentido, o caráter extraordinário e
fantasioso dos quadrinhos de super-heróis asseguraria que esse gênero não incluísse algo
que pudéssemos chamar estritamente de realista .
Ainda assim, entre a segunda metade da década de 1970 e a primeira metade da década
seguinte, começaram a surgir HQs de super-heróis que buscavam uma abordagem mais rea
lista das situações envolvendo os personagens. O auge dessa tendência viria em meados
dos anos 80, com a publicação de O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller e Watchmen d
e Alan Moore e Dave Gibbons. Nessas duas obras, o gênero super-heróis ganhou context
ualização política e social, além de dimensão psicológica e histórica. Ao mesmo tempo, esse
rabalhos se destacaram por inovar a linguagem dos quadrinhos de super-heróis, infl
uenciando até a forma como eles passariam a ser comercializados nos Estudados Unid
os (como minisséries de luxo e graphic novels).
Em entrevistas da época, ao ser perguntado se sua obra e a de Miller haviam salvo
o gênero super-heróis, Moore respondeu que o que fizeram estaria mais para um trabalh
o de assassinato . O fato é que O Cavaleiro das Trevas e Watchmen foram obras tecnic
amente inovadoras que se tornaram marcos na história dos quadrinhos, mas que também
disseminaram uma concepção negativa e violenta dos super-heróis. Sucesso de público e crít
ica, essas HQs acabaram dando origem a várias cópias, que imitavam alguns elementos
de sua narrativa revolucionária, mas que muitas vezes apenas mimetizavam os aspect
os mais sombrios e sanguinolentos da abordagem de Miller e Moore.
Foi naquela época que Wolverine, por exemplo, foi assumindo um comportamento ainda
mais violento e que o Justiceiro deixou de ser um antagonista do Homem Aranha p
ara ganhar suas próprias séries. Mas talvez o produto mais marcante dessa fase tenha
sido Spawn de Todd McFarlane. A série copiava os quadros em forma de tela de tevê e
as massas de sombras características de O Cavaleiro das Trevas, além de depender mu
ito das cenas de violência, embora não contasse com o sentido psicológico ou político vi
sto em Watchmen. Assim, em muitos casos, o resultado da influência de Miller e Moo
re acabou sendo muito sangue e pouquíssima qualidade artística.
Nos últimos anos, tem surgido uma nova onda de HQs de super-heróis repletas de violênc
ia explícita (e também com algumas cenas de sexo quase explícito). Voltadas a leitores
maduros e ambientadas numa realidade similar ao chamado mundo real , essas publicações nã
poupam em palavrões e parecem ter como um de seus objetivos centrais causar algum
ultraje. Um melhor exemplo é a série The Boys, criada pelo polêmico Garth Ennis e edi
tada em 2007 pelo selo Wildstorm da DC Comics até seu n°6, quando a editora cancelou
sua publicação devido a seu conteúdo. A série então passou a ser publicada pela Dynamite
e acaba de chegar ao Brasil numa coletânea pela Devir.
Pegando uma carona na linha After Watchmen e para promover o primeiro encadernad
o da série (The name of the game), a Dynamite relançou o n°1 da série, pelo preço de $1.00
. Como não sou um fã do estilo excessivamente cínico e propositalmente polêmico de Garth
Ennis, não comprei a coletânea original e nem pagarei R$39,50 pela edição da Devir. Mas
, para saber do que se tratava, adquiri a edição promocional e posso dizer que Ennis
correspondeu às expectativas! Ou seja: logo de saída vemos um super-herói tendo o crâni
o esmagado, um rapaz destroçando sua namorada contra um muro, um pouco de sexo dep
ois, bastante cinismo e alguns palavrões.
Um autor, é claro, tem todo direito de escrever o que quiser e, se há justificativa,
sexo e violência podem fazer parte de uma HQ de super-heróis (basta citar o fantástic
o Miracleman: Olympus, que traz as duas coisas de forma justificada e contextual
izada). Para mim, o problema no trabalho de Ennis é a gratuidade com que o sexo e
a violência aparecem. Como se causar polêmica e ultrajar aqueles que acham que revis
tas de super-heróis não devem trazer sexo e violência fosse a razão de ser de seu trabal
ho. Mas há, é claro, quem goste muito dos quadrinhos desse roteirista irlandês. E para
estes leitores, The Boys: O nome do jogo pode ser a publicação que estavam esperand
o!
(CONTINUA)
Postado por Wellington Srbek às 12:00 12 comentários
Marcadores: Alan Moore, DC Comics, Frank Miller, Garth Ennis, Super-Heróis
05/04/09
O Spirit de Will Eisner, na adaptação cinematográfica de Frank Miller.
A ligação de Frank Miller com as HQs do Spirit de Will Eisner e os filmes de crime e
violência urbana vem desde o início de sua carreira, quando ele inovou os quadrinho
s de super-heróis com seus desenhos e roteiros para a revista Daredevil. A utilização
inteligente dos recursos narrativos introduzidos por Eisner somada ao emprego de
um ritmo cinematográfico moderno deram às revistas do Demolidor um dinamismo e uma
riqueza narrativa raros nos quadrinhos de super-heróis até então. Por tudo isso, era d
e se esperar que a adaptação cinematográfica de The Spirit, escrita e dirigida por Mil
ler, fosse no mínimo um bom filme e especialmente fiel e respeitoso à obra que lhe s
erviu de inspiração. Infelizmente, nem de longe é isso que acontece!
A verdade é que não podemos reclamar que não fomos avisados de que Miller estava mais
interessado em celebrar seu estilo gráfico pessoal do que propriamente homenagear
seu mestre e amigo. Já no cartaz do filme, desenhado pelo próprio diretor, o contras
te em preto e branco marcado, com partes em vermelho gritante, tem muito mais a
ver com a série Sin City do que com a própria The Spirit. E bastou ver o trailer do
filme, com suas cenas em preto e branco saturados, para ficar evidente que Mille
r gostou tanto da adaptação de seu próprio quadrinho para os cinemas que resolveu repe
tir o visual, fugindo completamente ao espírito da obra de Eisner. Quanto ao filme
em si, a lista de erros, falhas e insultos é tão extensa que mal sei por onde começar
!
O visual é sombrio e feio. Os detalhes em branco estourado cansam. Os diálogos são cli
cherescos e tediosos. Alguns momentos mergulham no mais profundo kitsch sentimen
talóide. O ritmo às vezes cai num arrastar que se prolonga por muito mais do que dev
eria e um pouco além. As cenas de briga parecem saídas de uma sessão de luta livre mal
ensaiada. Há até mesmo tiradas de humor forçadas que devem agradar a alguém com extremo
mau-gosto. Com isso, em seus momentos mais dinâmicos , o longa-metragem não passa de u
ma comédia pastelão mal escrita e pessimamente iluminada. O que me leva à pergunta de
quarenta milhões de dólares: o filme tem mesmo uma história? Uma que valha a pena ser
assistida? Pergunto, pois a produção é tão chata e pretensiosa que com vinte minutos eu
já estava pedindo para que acabasse! Mas só acabou após intermináveis uma hora e quarent
a minutos...
O Comissário Dolan, Ellen, Silken Floss, Plaster of Paris, Octopus... Todos os per
sonagens no filme parecem errados ou excessivos ou diminuídos. Só Sand Saref parece
na medida. Também, com a beleza e as medidas da atriz Eva Mendes, fica difícil para
qualquer diretor errar feio. Diga-se de passagem, Miller segue os passos de Quen
tin Tarantino e faz uma ponta no início do filme, para logo morrer e não deixar saud
ades em ninguém. Quanto ao próprio Spirit, da primeira sequência em que ele aparece até
as últimas, Miller fez de tudo para não fazer jus ao personagem humano e simpático cri
ado por Eisner. Praticamente um super-herói invulnerável, imitando a voz e os saltos
do Batman e recitando falas de um Rorschach mais sentimental, o Spirit cinemato
gráfico tem pouco ou quase nada do herói clássico dos quadrinhos.
Em resumo, The Spirit é um péssimo filme. Usando termos mais técnicos, eu diria que se
trata de lixo cinematográfico puro e simples. Uma obra dispensável que conquistou s
em grande esforço um lugar de desonra ao lado de produções como A Liga Extraordinária e
Mulher-Gato. Se você ainda não foi ao cinema assistir a esse filme, minha sugestão é que
não vá. Economize seu tempo e dinheiro. Ele não vale o esforço de sair de casa. Ainda a
ssim, se fizer questão de conferir a adaptação de Frank Miller da obra-prima de Will Eis
ner, bem, espere até sair em DVD. Ou mesmo espere até passar na tevê. Antes de encerra
r, porém, devo fazer uma derradeira ressalva: os créditos finais com os story boards
de Miller ao fundo ficaram bem bacanas. Aliás, o autor de O Cavaleiros das Trevas
e Sin City deveria voltar a se dedicar ao que sempre fez bem, que é desenhar quad
rinhos!
Postado por Wellington Srbek às 17:05 14 comentários
Marcadores: Cinema, Frank Miller, Sin City, Spirit, Will Eisner
10/12/08
A arte da coerência: uma entrevista com Dave Gibbons, parte3.
Parte final de nossa entrevista e Dave Gibbons fala um pouco mais sobre Watchmen
, explica tudo sobre seu novo livro, diz o que pensa da adaptação para o cinema e ta
mbém quais são seus novos e futuros projetos.
Wellington Srbek: Eu uso a analogia de Watchmen ser semelhante a um relógio suíço: um
construto de centenas e centenas de pequeninas peças que se juntam para formar uma
maquinaria funcional. Há também a analogia de Watchmen ser semelhante a uma sinfoni
a: uma estrutura complexa, composta por diversos movimentos com muitos ecos e si
metrias. As duas analogias nos dão a idéia de um todo que é mais do que a soma de suas
partes . Mas, para o senhor, o que Watchmen representa?
Dave Gibbons: Sim, eu creio que, você sabe, no próprio livro nós fizemos analogias ao
mecanismo do relógio (a forma do palácio do Doutor Manhattan é como os mecanismos inte
rnos de um relógio). Dito isto, eu sempre considerei a abordagem de Alan para a es
crita um pouco tipo a abordagem de Mozart para a música, você sabe, ele vê a coisa tod
a em sua cabeça, ele tem a sinfonia toda em sua cabeça, com todas as partes, ele esc
reve muito detalhadamente. E então, enquanto desenhista, você essencialmente interpr
eta isso, você essencialmente é a orquestra, você é o maestro. E então... Sim, eu creio qu
e essa é uma analogia muito boa, e eu acho que meio que a tomo como sendo o que Wa
tchmen representa para mim, você sabe, qualquer coisa escrita, qualquer coisa conj
unta, sempre acontece parte por parte, e só mesmo depois de tudo acabado é que você po
de se reclinar e admirar a paisagem. Então, ahn... Sim! É uma sinfonia, é um mecanismo
de relógio.
WS: O senhor acaba de lançar Watching the Watchmen: The Definitive Companion to th
e Ultimate Graphic Novel. Por favor, fale-nos desse livro.
DG: Bem, como eu disse, ele foi publicado pela Titan, tem 257 páginas, traz um mon
te de esboços, os rascunhos para as páginas da série inteira, traz páginas do roteiro de
Alan, cartas que trocamos, traz cartas para a DC, traz fotos da divulgação [da série
original], traz páginas não-publicadas, traz estudos que nunca utilizamos, traz esqu
ematizações e planos, e também traz um comentário escrito por mim (ah, minha história de c
omo Watchmen veio a existir, desde bem no início). Ahn, ele também traz um ensaio mu
ito interessante de John Higgins, sobre como ele a coloriu. E [o livro] é exclusiv
amente sobre a revista em quadrinhos, ele não faz qualquer menção sobre... ah... o fil
me ou qualquer coisa relacionado a isso. Eu queria que ele fosse uma celebração da,
você sabe, experiência criativa que Alan e eu tivemos, que foi uma experiência criativ
a muito positiva e agradável. Ele não se detém nas áreas da... ah... contenda ou disputa
s entre Alan e a DC Comics, porque não se trata desse tipo de livro (você sabe, um l
ivro assim pode muito bem aparecer no futuro, [mas] é um outro livro). Realmente, é
uma muito detalhada e muito densa celebração de como foi criar Watchmen.
WS: Um amigo me trouxe dos Estados Unidos seu pôster promocional para o filme Watc
hmen. Logo, acredito que o senhor está feliz com essa adaptação da HQ. Quais são suas ex
pectativas para o filme?
DG: Sim, eu estou feliz com a adaptação. Desde o início, desde minha primeiríssima conve
rsa com Zack Snyder eu tive uma boa sensação sobre ela. E certamente cada nova coisa
que vi apenas me fez sentir melhor. Eu vi metade das cenas do filme em agosto,
e eu gostei demais (não estava acabado, muito da computação gráfica não estava pronto, mas
foi absolutamente envolvente e fascinante). Desde então, eu vi... ah... ambos os
trailers e vi os vinte e cinco minutos mais ou menos de cenas que Zack mostrou a
os jornalistas, e estou tomando parte da turnê de Watchmen e Sim, eu sinto que foi fe
ito devidamente, que foi feito tão bem quanto qualquer um poderia razoavelmente es
perar. Ahn, e... eu estou realmente aguardando para vê-lo nos cinemas e ver como t
odos reagirão a ele. Eu tenho a sensação de que os fãs vão ficar muito felizes com ele. É c
aro que há aqueles fãs empedernidos, absolutamente radicais (que eu compreendo) para
os quais nada a não ser uma adaptação palavra por palavra, imagem por imagem, linha p
or linha, jamais agradará. Creio [porém] que você precisa ser um pouco mais realista q
uanto a isso. No final das contas, creio que é preciso ter algo que seja um bom fi
lme, algo que o espectador de cinema mediano considere que valha a pena ir assis
tir.
WS: Recentemente, o senhor terminou a saga de Martha Washington, escrita por Fra
nk Miller, além de escrever e desenhar algumas edições de Green Lantern Corps. Quais são
seus planos para 2009 e o futuro próximo?
DG: Bem, no que diz respeito a Martha Washington, nós vamos reunir tudo num format
o estendido, com mais de 500 páginas, será uma edição definitiva e trará novas introduções
ritas por Frank e por mim, e eu espero que traga toda e qualquer aparição de Martha.
Porque as aparições dela foram relevantes esparsadamente, nós queremos reunir tudo de
forma que os leitores possam ler tudo num só lugar. Eu recentemente fiz uma HQ cu
rta de Hellblazer para a DC, a qual eu escrevi [e que será publicada este mês, na ed
ição especial n°250 da revista de John Constantine] (um personagem que estranhamente m
e agrada). Ahn... Realmente agora meu tempo está tomado pela promoção de Watchmen, pel
o licenciamento, consultoria. Ahn, eu espero trabalhar num projeto de direitos a
utorais reservados no ano que vem, com um roteirista com o qual eu nunca trabalh
ei antes (não posso realmente dizer mais nada sobre isso, porque obviamente simple
smente não me cabe definir como isso será anunciado). Mas, sim, eu estou mesmo é curti
ndo a "turnê" do circo Watchmen e esperando o filme ser lançado e, algum tempo depoi
s, voltar a fazer algum trabalho honesto.
WS: Muito obrigado por esta entrevista!
DG: Muito obrigado por seu interesse e saudações para meus fãs e amigos aí na América do S
ul!
Postado por Wellington Srbek às 00:00 8 comentários
Marcadores: Alan Moore, Dave Gibbons, Entrevistas, Frank Miller, Watchmen
08/12/08
The art of coherence: an interview with Dave Gibbons, part3.
Last part of our interview and Dave Gibbons talks a little bit more about Watchm
en, tells us about his new book, says what he thinks of the movie adaptation and
also which are his new and future projects.
Wellington Srbek: I use the analogy of Watchmen being similar to a Swiss watch:
a construct of hundreds and hundreds of tiny pieces that come together to form a
working machinery. There s also the analogy of Watchmen being similar to a sympho
ny: a complex structure, composed by various movements with lots of echoes and s
ymmetries. Both analogies give the idea of a whole that is more than the sum of i
ts parts . But for you, Mr. Gibbons, what Watchmen represents?
Dave Gibbons: Yeah, I think, you know, even within the book we have made analogi
es to clockwork -- the form of Doctor Manhattan s palace is like the internal work
s of a clock. That said, I ve always considered Alan s approach to writing to be a l
ittle bit like kind of Mozart s approach to music, you know, he sees the whole thi
ng in his head, he has the whole symphony in his head with all the parts, he wri
tes down in great detail. And then, as an artist, you essentially interpret that
, you essentially are the orchestra, you are the conductor. And so Yeah, I think
that s a very good analogy, and I think I kind go along with that been what Watchm
en represents to me, you know, any writing thing, any joint thing, always happen
s piece by piece, and it s not really until be done the whole thing that you can s
it back and see, see the landscape. So, ahn Yeah! Is a symphony, is a clockwork.
WS: You ve just released Watching the Watchmen: The Definitive Companion to the Ul
timate Graphic Novel. Please, tell us about this book.
DG: Well, as I said it is published by Titan Books, it is 257 pages, it s got load
s of sketches, the real thumbnails for the whole series, it s got pages of Alan s sc
ript, it s got letters between us, it s got letters for DC, it s got pictures of the m
erchandize, it s got unpublished pages, it s got designs that we never used, it s got
schematics and plans, and it s also got a commentary by me -- ah, my story of how
Watchmen came to be, from its very, very beginning. Ahn, it s also got a very inte
resting essay by John Higgins about how he colored it. And it is solely about th
e comic book, it doesn t make any mention of ah the movie or anything to do with tha
t. I wanted it to be a celebration of, you know, the creative experience Alan an
d I had, which was a very positive and enjoyable creative experience. It doesn t s
trands in the areas of the ah contention or disputes between Alan and DC Comics, b
ecause it is not that kind of book -- you know, that might well appear in the fu
ture, it is another book. Really, it is a very detailed, very dense celebration
of what it was like to create Watchmen.
WS: A friend brought me from the USA your promotional poster to the Watchmen mov
ie. So, I believe that you are happy with this adaptation of the book. What are
your expectations about the movie?
DG: Yeah, I m happy with the adaptation. From the very beginning, from my very fir
st conversation with Zack Snyder I had a good felling about it. And certainly ev
ery additional thing that I ve seen has only made me feel better. I saw half-cut o
f the movie back in August, which I totally enjoyed -- wasn t finished, a lot of t
he CGI wasn t done but it was absolutely engrossing and fascinating. Since then I ve
seen ah both the trailers, and I ve seen the 25 minutes or so of scenes that Zack h
as shown to journalists, and I m taking part in the Watchmen road show, and Yeah, I
feel that it s been done properly, it s been done as well as anybody could reasonab
ly expect. Ahn, and I m very much looking forward to seeing it out there in the cin
emas, and gain everybody s reaction to it. I have a feeling that the fans are gonn
a be very happy with it. Of course there are those absolute diehard heart fans -
- I understand that -- for whom nothing but actually word for word, picture for
picture, line for line adaptation would ever do. I think you have to be a little
bit more realistic about it. In the end of the day, I think you have to have so
mething which is a good film, something that the average movie goer will conside
r worth going to see.
WS: Recently you have finished the Martha Washington saga written by Frank Mille
r, besides written and drawn some Green Lantern Corps issues. What are your plan
s for 2009 and the near future?
DG: Well, on the section of Martha Washington we are gonna collect all together
into one big oversized book, it will be 500 pages plus, and it will be absolute
size, and it will have new introductions by Frank and by me, and it will have ho
pefully every possible appearance of Martha. Because her appearances have been r
elevant scatterly, we wanna bring it all together so that readers could read it
all in one place. I ve recently done a little Hellblazer story for DC, which I wro
te -- character that I strangely enjoy. Ahn Really now my time is taken on the Wa
tchmen promotion, and licensing, consultancy. Ahn, I hope to be working on a cre
ator owned project next year with a writer that I haven t worked with before -- ca
n t really say any more than that, because obviously it is not just up to me how t
his is announced. But, yeah, I m very much enjoying the Watchmen road show circus,
and looking forward to the movie coming out, and sometime after that going back
to do some honest work.
WS: Thanks a lot for this interview, Mr. Gibbons!
DG: Thanks very much for your interest, and greetings to my fans and friends out
there in South-America!
Postado por Wellington Srbek às 00:00 0 comentários
Marcadores: Alan Moore, Dave Gibbons, Frank Miller, Interviews, Watchmen
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08/12/08
A arte da coerência: uma entrevista com Dave Gibbons, part3.
A última parte de nossa entrevista e Dave Gibbons fala um pouco mais sobre Watchme
n, nos fala sobre seu novo livro, diz o que pensa da adaptação para o cinema e também
quais são seus novos projetos e futuro.
Wellington Srbek: Eu uso a analogia de Watchmen ser semelhante a um relógio suíço: um
construto de centenas e centenas de pequeninas peças que se juntam para formar uma
maquinaria funcional. Há também a analogia de Watchmen ser semelhante a uma sinfoni
a: uma estrutura complexa, composta por diversos movimentos com muitos ecos e si
metrias. Ambas as analogias nos dão a idéia de "um todo que é maior que a soma de suas
partes". Mas para você, Sr. Gibbons, Watchmen o que representa?
Dave Gibbons: Sim, eu acho, você sabe, até mesmo dentro do livro que fizemos analogi
as com relógio - a forma do palácio do Doutor Manhattan é como os mecanismos internos
de um relógio. Dito isso, eu sempre considerei abordagem de Alan para a escrita um
pouco como o tipo de abordagem de Mozart com a música, você sabe, ele vê a coisa toda
em sua cabeça, ele tem toda a sinfonia em sua cabeça com todas as partes, ele anota
em grande detalhe. E então, como um artista, você essencialmente interpreta isso, v
ocê essencialmente é a orquestra, você é o maestro. E então ... Sim, eu acho que é uma anal
gia muito boa, e eu acho que tipo ir junto com sendo o que Watchmen representa p
ara mim, você sabe, qualquer coisa escrita, alguma coisa comum, sempre acontece pe
daço por pedaço, e não é realmente até ser feita a coisa toda que você pode sentar e ver, v
r a paisagem. Então, ahn ... Yeah! É uma sinfonia, é um relógio.
WS: Você acabou de lançar vigia os vigilantes: O companheiro definitivo para a Graph
ic Novel Ultimate. Por favor, conte-nos sobre este livro.
DG: Bem, como eu disse, é publicado pela Titan, tem 257 páginas, tem um monte de esb
oços, os rascunhos real para toda a série, ela tem páginas do roteiro de Alan, ele tem
cartas entre nós, ele tem cartas para DC, tem fotos da mercadoria, tem páginas inédit
as, tem desenhos que nunca usamos, tem esquemas e planos, e ele também tem um come
ntário escrito por mim - ah, minha história de como Watchmen veio a ser, a partir de
sua muito, muito começo. Ahn, também traz um ensaio muito interessante de John Higg
ins sobre como ele coloriu. E é somente sobre o livro em quadrinhos, não faz qualque
r menção de ... ah ... o filme ou alguma coisa a ver com isso. Eu queria que fosse u
ma festa, você sabe, a experiência criativa que Alan e eu tive, que foi uma experiênci
a muito positiva e agradável criativo. Ele não se detém nas áreas de contenção ... ah ... o
litígios entre Alan e DC Comics, porque não é esse tipo de livro - você sabe, que bem p
oderiam aparecer no futuro, é outro livro. Realmente, é uma celebração muito detalhada,
muito densa do que era como criar Watchmen.
WS: Um amigo me trouxe dos EUA o cartaz promocional do filme Watchmen. Então, eu a
credito que você esteja feliz com esta adaptação do livro. Quais são suas expectativas s
obre o filme?
DG: Sim, eu estou feliz com a adaptação. Desde o início, da minha primeira conversa co
m Zack Snyder Eu tive uma boa sensação sobre isso. E certamente cada nova coisa que
eu vi apenas me fez sentir melhor. Eu vi cortar metade do filme em agosto, e eu
gostei - não estava acabado, um monte de CGI não foi feito, mas foi absolutamente en
volvente e fascinante. Desde então que eu vi ... ah ... ambos os trailers e vi os
25 minutos mais ou menos das cenas que Zack mostrou aos jornalistas, e eu estou
participando do road show "Watchmen", e ... Sim, sinto-me que tem sido feito cor
retamente, que tem sido feito, assim como ninguém poderia esperar. Ahn, e ... Esto
u muito ansioso para vê-lo lá fora, nos cinemas, e todos reagirão a ele. Tenho a sensação
de que os fãs vão ficar muito felizes com ele. Claro que existem aqueles fãs empederni
dos, absolutamente radicais - Eu entendo que - para quem nada, mas na verdade, p
alavra por palavra, imagem por imagem, a linha para a adaptação da linha faria nunca
. Eu acho que você tem que ser um pouco mais realista quanto a isso. No final do d
ia, acho que você tem que ter algo que é um bom filme, algo que o espectador de cine
ma mediano considerar a pena ir ver.
WS: Recentemente, você terminou a saga de Martha Washington, escrita por Frank Mil
ler, além de escrever e desenhar algumas edições de Green Lantern Corps. Quais são seus
planos para 2009 e do futuro próximo?
DG: Bem, na seção de Martha Washington nós vamos recolher todos juntos em um grande li
vro de grandes dimensões, será acrescido de 500 páginas, e será tamanho absoluto, e vai
ter novas introduções por Frank e por mim, e terá sorte toda a aparência possível de Marth
a. Porque suas aparições têm sido relevantes scatterly, queremos trazê-lo todos juntos p
ara que os leitores podem ler tudo em um só lugar. Eu tenho feito recentemente uma
história de Hellblazer pouco para a DC, que eu escrevi - personagem que eu estran
hamente desfrutar. Ahn ... Realmente agora meu tempo é tomado pela promoção de Watchme
n, e de licenciamento, consultoria. Ahn, espero estar trabalhando em um projeto
criado por propriedade no próximo ano com um escritor que eu não tenha trabalhado an
tes - não posso dizer mais do que isso, porque obviamente não é só para mim como isso é an
unciado . Mas, sim, eu estou curtindo muito o circo Watchmen road show, e ansios
o para o filme ser lançado e, algum tempo depois que voltar a fazer algum trabalho
honesto.
WS: Muito obrigado por esta entrevista, o Sr. Gibbons!
DG: Muito obrigado por seu interesse, e saudações aos meus fãs e amigos lá fora, na Améric
a do Sul!
Wellington Srbek postado Por
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04/06/08
Pixel manda bala com 100 Balas.
Com o fim da série Sandman em 1996, a supervisora editorial do selo Vertigo, Karen
Berger, iniciou um processo de reformulação da linha de quadrinhos adultos da DC Co
mics, apostando em novos gêneros e autores. Uma das séries lançadas nessa fase foi 100
Balas, criada por Brian Azzarello e Eduardo Risso. Para quem perdeu as primeira
s edições, a Pixel relançou recentemente as cinco primeiras HQs dessa série de crime e v
ingança, enquanto, a título de experiência, lança também uma sequência de quatro revistas m
nsais.
Quadrinhos envolvendo detetives, policiais e bandidos fizeram muito sucesso nos
anos 30 e 40, refletindo as questões sociais da realidade norte-americana da época.
Com isso, personagens como Dick Tracy, Spirit, Batman e Homem-Borracha fizeram c
arreira ajudando a polícia a solucionar crimes e manter a lei e a ordem . Nas últimas déc
adas, porém, aconteceu uma alteração nos personagens enfocados e nos ambientes retrata
dos, acompanhada de uma mudança na própria lógica narrativa. Os tradicionais quadrinho
s de detetive e as revistas policiais passaram a ser substituídos pelo que podemos
chamar de histórias de crime.
O resultado foi uma busca por enredos menos maniqueístas e mais realistas, acompan
hada de deslocamentos nos papéis tradicionais do mocinho e do bandido . Uma violência ur
ana crua, incompetência e corrupção policial, personagens falíveis e excluídos dos benefíci
s de uma sociedade que os tenta ignorar, esses são os principais elementos das nov
as histórias de crime. Nos quadrinhos, o sucesso da série Sin City foi o grande cata
lisador de um renovado gênero noir. Por suas características temáticas e visuais, ineg
avelmente a herdeira e prolongadora da linha iniciada por Frank Miller foi 100 B
alas de Brian Azzarello e Eduardo Risso.
A premissa básica é esta: um enigmático homem, que se identifica pelo nome Agente Grav
es, aproxima-se de uma determinada pessoa e lhe entrega uma maleta contendo uma
arma, cem balas que não podem ser rastreadas e provas irrefutáveis contra alguém que t
enha destruído sua vida. Além disso, Graves promete à pessoa escolhida imunidade legal
para levar a cabo sua vingança contra quem a prejudicou. No geral, os roteiros de
100 Balas buscam retratar os subúrbios e submundos das grandes cidades, tendo com
o protagonistas pessoas comuns que acabam se deixando levar pelas circunstâncias.
Já os desenhos primam por representar diferentes grupos étnicos, baseando-se fundame
ntalmente num contraste entre preto e branco.
A coletânea 100 Balas: Atire primeiro... traz as cinco primeiras histórias da série, a
companhadas de uma HQ curta, em 128 páginas, formato 17 cm x 26 cm, ao preço de R$14
,90. Nas três primeiras partes, somos apresentados ao Agente Graves, ao Sr. Shephe
rd e a Dizzy Cordova, uma jovem recém-saída da prisão, que receberá a dádiva das cem bala
Já na história curta que se segue, na noite de Natal uma velhinha vai à delegacia, arr
ependida por ter aceitado a oportunidade de se vingar, três anos antes. Na sequência
final em duas partes, é a vez de um ex-empresário, que viu sua vida desmoronar ao s
er injustamente acusado, apostar sua sorte numa vingança, não sabendo que, na verdad
e, ele não passa de um peão numa trama maior.
Elementos da trama de conspiração que envolve a série anunciam ser desvelados em 10 Ba
las: Parlez Kung Voux 1, uma revista de 48 páginas, formato 17 cm x 26 cm, ao preço
R$ 7,90. Primeira de quatro revistas que a Pixel programou lançar mensalmente, a e
dição traz os números 12 e 13 da série original. Passada em Paris, a história mostra a vol
ta de Dizzy Cordova, agora trabalhando diretamente para o Agente Graves e o Sr.
Shephard. A despeito da mudança de cenário, não faltam as cenas em bares, sequências de
brigas e até um pouco da nudez feminina que Azzarello e Risso pegaram emprestado d
e Miller e tornaram a marca registrada de suas próprias revistas. Para quem tem ac
ompanhado a série, a edição faz o prenúncio de grandes revelações.
Pessoalmente, à parte o efeito sonoro e emblemático do título, desde o início sempre que
stionei por que alguém precisaria de "cem balas" para matar outra pessoa. Mais que
isso, a lógica olho por olho que embasa a série sempre me incomodou. O fato, contudo,
é que a premiada 100 Balas é um sucesso também entre os leitores brasileiros, ganhand
o atenção mais que especial da Pixel.
Postado por Wellington Srbek às 19:22 3 comentários
Marcadores: Frank Miller, Histórias de Crime, Sin City, Vertigo
30/04/08
Spawn Origem Vol.2 reúne McFarlane, Moore & Miller.
Quando lançada em 1992, a revista Spawn de Todd McFarlane foi um sucesso imediato,
ajudando a projetar a Image Comics como uma importante força do mercado norte-ame
ricano. O que se viu nos meses e anos seguintes foi uma trajetória de sucesso come
rcial tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Lançada por aqui inicialmente pel
a Abril Jovem, a revista mensal da cria do inferno passou a ser publicada pela Pix
el a partir de seu número 151. Além da revista regular (atualmente em seu número 174),
a editora tem lançado a coleção Spawn Origem, que reimprime as primeiras HQs da série.
O segundo volume reúne os números 6, 7, 8 e 11, sendo os dois últimos escritos por Ala
n Moore e Frank Miller.
As HQs desse volume trazem o típico Spawn dos primeiros dias. Muitas páginas de um só
quadro, composições confusas repletas de emaranhados de traços, sequências narrativas fr
agmentadas, enquadramentos cortados e, é claro, os enredos fracos e desenhos tecni
camente deficientes de McFarlane. O fato, porém, é que toda a violência sem-sentido e
o traço caricaturizado do quadrinista agradaram em cheio aos leitores da época, tend
o grande apelo ainda hoje. Na história publicada originalmente em Spawn número 6 e 7
, o soldado do inferno tem que enfrentar Chacina, um ciborgue assassino criado pel
a máfia (!?) para dominar as ruas de Nova York. Após muita pancadaria e algumas sequên
cias sentimentalóides envolvendo a ex-mulher de Spawn, a história conclui com o sádico
herói executando sumariamente seu já derrotado adversário.
Logo quando lançada, apesar do sucesso entre os leitores, a série Spawn foi bombarde
ada pela crítica, que não perdoou os péssimos roteiros de McFarlane. Foi com o objetiv
o de aplacar os críticos mais ferrenhos que o quadrinista-empresário (já então esbanjand
o dinheiro) contratou quatro dos mais conceituados roteiristas da época para escre
ver edições especiais da revista. Mas, apesar dos renomados colaboradores, os roteir
os dos números 8 e 11 deixam muito a desejar. No primeiro, Alan Moore guia os leit
ores por uma viagem aos círculos do Inferno, com direito a um pomar de almas conde
nadas, demônios travestidos de Elvis e um humor um tanto duvidoso. Já no último, Frank
Miller traz os leitores de volta às ruas de Nova York para uma historinha pueril,
envolvendo duas improváveis gangues que se exterminam numa disputa pelo beco onde
mora o sanguinário herói.
Em Spawn Origem Vol.2, são notáveis as ausências dos números 9 e 10 da revista, escritos
por Neil Gaiman e Dave Sim. O primeiro deles introduziu os personagens Ângela e C
agliostro (além do Spawn medieval), enquanto o segundo contou com a participação do pe
rsonagem Cerebus, sendo uma espécie de alegoria para a situação do mercado de quadrinh
os nos Estados Unidos. O problema com Spawn n°9 é que Gaiman e McFarlane acabaram se
desentendo sobre o pagamento de direitos autorais dos personagens criados pelo
roteirista e também em relação aos direitos de publicação do herói Miracleman. Quanto ao nú
o 10, ao que consta existe um acordo de não-republicação da história, embora pareça que Si
m também não tenha ficado muito satisfeito quando McFarlane e seus companheiros da I
mage passaram a praticar relações de trabalho semelhantes às das grandes editoras.
Spawn Origem Vol.2 tem capa cartonada, 112 páginas, formato 17cm x 26cm, sendo ven
dido por R$32,90. Apesar da baixa qualidade das HQs, a edição é uma boa pedida para os
novos fãs de Spawn que não acompanharam a série quando lançada originalmente no Brasil.
Após as histórias publicadas nesse volume, Alan Moore voltou ao "universo" de Spawn
com a dispensável minissérie Feudo de Sangue, enquanto Frank Miller escreveu um rot
eiro de terceira para o especial Spawn / Batman. Quanto a Todd McFarlane, depois
de ganhar mais dinheiro, ele decidiu apostar suas fichas numa série de animação para
a HBO, num filminho para o cinema e numa linha de brinquedos que leva seu nome (
deixando sua cria infernal a cargo de outros quadrinistas, alguns até bem mais com
petentes do que ele, como Greg Capullo por exemplo). Para quem quiser saber mais
sobre os quadrinhos de Moore, Miller e McFarlane, basta clicar nos nomes em des
taque abaixo.
Postado por Wellington Srbek às 00:01 2 comentários
Marcadores: Alan Moore, Frank Miller, Spawn, Super-Heróis, Todd McFarlane
25/04/08
Spawn / Batman, uma HQ medíocre de Miller & McFarlane.
Escrita por Frank Miller e desenhada por Todd McFarlane, Spawn / Batman foi lançad
a no Brasil, pela Abril Jovem, em 1997. Edição oportunista que se apoiou no estrondo
so sucesso do personagem criado por McFarlane e no prestígio do nome de Miller, a
revista impressionou-me na época pela falta de originalidade do roteiro e por seus
desenhos abaixo da média. Assim, embora essa HQ tenha todos os elementos para agr
adar aos fãs de McFarlane, ela é desaconselhável para quem admira os trabalhos sérios de
Miller.
Nos anos 80 e 90, o nome Frank Miller foi sinônimo de qualidade nos quadrinhos. Af
inal, o criador de O Cavaleiro das Trevas e Sin City foi um dos responsáveis por u
ma revolução qualitativa no mercado norte-americano. Levando para os comics influência
s de HQs japonesas, européias e sul-americanas, Miller criou um trabalho pessoal,
no qual a qualidade artística era presença constante. Mas não é isso que vemos em Spawn
/ Batman.
Naquela mesma época, Todd McFarlane era sinônimo de popularidade nos quadrinhos. Em
poucos anos, ele se tornou o artista mais famoso e bem-sucedido do mercado norte
-americano. Com seu traço repleto de elementos caricaturais, expressões e imagens ex
ageradas, somado a uma narrativa fragmentada, McFarlane criou uma fórmula de suces
so, seguida fielmente por seus imitadores. Mas não há dúvida de que, em se tratando de
sse quadrinista, raras vezes fama e qualidade artística andaram juntas. E é exatamen
te isso que vemos em Spawn / Batman.
É difícil dizer se foi a falta de qualidade artística de McFarlane que influenciou neg
ativamente Miller, ou se este simplesmente optou por rabiscar um esboço de roteiro
, por se tratar de uma revista que seria publicada pela Image Comics. O fato é que
Spawn / Batman não passa de um subproduto do roteiro que o próprio Miller escreveu
para o filme Robocop 2. Basicamente, o que diferencia as duas histórias escritas p
or Miller é a existência de Spawn, que dá conotações místicas ao roteiro da HQ.
Como sempre, os desenhos de McFarlane trazem as caretas excessivas, capas gigant
escas, erros de anatomia e excesso de rabiscos que lhes são característicos. Mas gra
nde parte do suposto dinamismo da arte desse desenhista não está em seu traço, e sim n
as cores produzidas por computação gráfica. Utilizando uma variação entre gradações leves e
ntrastes fortes, a coloração cria a ilusão de energia e movimento que tanto tem fascin
ado e agradado aos leitores nas últimas décadas.
Os principais trabalhos autorais de Frank Miller e Todd McFarlane, Sin City e Sp
awn respectivamente, são quase opostos. Embora ambos abusem da violência, nos trabal
hos de Miller ela tem limites mais realistas. Contudo, é no visual das HQs que as
diferenças se tornam mais notáveis. Sin City apóia-se nos contrastes entre luz e sombr
a, ao estilo de Alberto Breccia, valorizando a narrativa visual. Já Spawn abusa da
s cores, apoiando-se em imagens de detalhe ou grandes cenas de impacto inspirada
s na estética dos mangás. Essas diferenças nos trabalhos dos desenhistas fazem do prim
eiro um artista e do outro um criador de sucessos de massa.
No final das contas, Spawn / Batman serviu apenas para confirmar o que muitos já s
abiam. Primeiro, o fato de que na companhia de Todd McFarlane até os melhores rote
iristas foram capazes de criar trabalhos ruins. Segundo, por alguns milhares de
dólares, mesmo um quadrinista dos mais conceituados não se sente constrangido em faz
er um trabalho medíocre. É claro que, ao aceitar trabalhar nessa HQ especial, Miller
também estava buscando uma divulgação extra para Sin City, projeto que começava a desla
nchar na época em que a revista foi lançada nos Estados Unidos. Mas, quer seja pelo
dinheiro, quer seja pela divulgação de seu trabalho, a pergunta que fica é: será que val
eu a pena?
Postado por Wellington Srbek às 00:03 13 comentários
Marcadores: Batman, Frank Miller, Spawn, Super-Heróis, Todd McFarlane
27/01/08
Nossos parabéns a Frank Miller!
Frank Miller é hoje mundialmente conhecido como o autor das HQs que originaram os
filmes Sin City e 300, além de ser o diretor do futuro filme Will Eisner s The Spiri
t. Mas esse quadrinista norte-americano, que completa 51 anos hoje, já foi muito m
ais que uma estrela menor na constelação de Hollywood. Do início dos anos 80 até meados
dos anos 90, seu trabalho influenciou os quadrinhos norte-americanos, dando orig
em a algumas das mais importantes HQs das últimas décadas.
Em postagens anteriores, já abordei sua prestigiada fase na revista Daredevil, sua
marcante abordagem na minissérie Wolverine, além do inovador Ronin e do revolucionári
o O Cavaleiro das Trevas. Também falei de suas colaborações com David Mazzucchelli em
A Queda de Murdock e Batman: Ano Um, bem como de suas parcerias com Bill Sienkie
wicz na Graphic Novel do Demolidor e na minissérie Elektra Assassina. Mas, após essa
sequência de importantíssimos trabalhos, Miller passou um tempo afastado dos quadri
nhos. Nesse período, ele fez sua primeira aproximação com o cinema, produzindo o rotei
ro inicial do lastimável Robocop 2.
Quando voltou às HQs em 1990, Miller lançou a muito aguardada e bastante decepcionan
te graphic novel Elektra Vive, escrita e desenhada por ele, com cores pintadas p
or Lynn Varley. Na sequência, boa parte de seus trabalhos seria produzida em colab
oração com outros desenhistas. Assim surgiram Give me Liberty em parceria com David
Gibbons, Hard Boiled ilustrada por Geof Darrow, Robocop vs Exterminador desenhad
a por Walter Simonson e O Homem sem Medo com desenhos de John Romita Jr., isso s
em falar na edição 11 da revista Spawn e na perfeitamente esquecível Spawn/Batman, amb
as produzidas com Todd McFarlane. Contudo, o trabalho mais importante de Frank M
iller em seu retorno aos quadrinhos foram as edições da série Sin City.
Lançada originalmente nas páginas da revista Dark Horse Presents, a primeira história
de Sin City teve ótima repercussão, sendo reunida em livro e dando origem a uma bem-
sucedida sequência de minisséries lançadas pelo selo Legend. Negando a superexploração vis
ual pela qual os comics passavam na época, com suas HQs policiais em preto e branc
o, Miller resgatou elementos que andavam meio esquecidos nos quadrinhos norte-am
ericanos. Efeitos de luz e sombra, uma história que justifique as sequências de ação, não
existindo apenas em função delas, e uma narrativa que tenha um "fio condutor" são algu
ns dos elementos recuperados em Sin City. Além disso, nas seções de cartas das minisséri
es, Miller engajou-se num longo e acalorado debate contra os sistemas de censura
do mercado norte-americano de quadrinhos. Mas o que mais impressionou em Sin Ci
ty foi seu visual.
Alguns elementos, como um traço característico e conciso ou a narrativa rápida e com p
ouco texto, foram sendo aperfeiçoados por Miller ao longo de sua carreira. O que S
in City trouxe de inovador foi um uso peculiar do contraste entre luz e sombra.
Esse novo estilo é composto principalmente por massas de preto e branco, empregada
s de tal forma que os quadros parecem sempre iluminados por um clarão. Na verdade,
esse recurso não foi criado originalmente por Miller, sendo em parte influenciado
por Hugo Pratt, mas principalmente por Alberto Breccia, o desenhista argentino
da série Mort Cinder. Nesta, a luminosidade e as sombras são utilizadas com o objeti
vo de reforçar o clima de tensão e mistério das histórias, enquanto no trabalho de Mille
r o efeito é empregado para destacar os personagens e as sequências de ação. Contudo, o
quadrinista norte-americano parece ter se acostumado demais ao estilo e temáticas
de Sin City, fazendo com que os volumes seguintes começassem a ser apenas mais do m
esmo .
Enquanto trabalhava em novas HQs de Sin City, Miller produzia roteiros para dife
rentes desenhistas. Assim surgiram Martha Washington Goes to War e outras edições co
m a personagem desenhada por Dave Gibbons, a premiada The Big Guy and Rusty com
as detalhadas ilustrações de Geof Darrow, bem como a apocalíptica e surrealista Bad Bo
y, produzida em parceria com Simon Bisley, como parte de uma aberta campanha con
tras as restrições aos temas abordados nos quadrinhos. Outro exemplo disso foi a rev
ista Tales to Offend, na qual Miller apresenta o personagem Lance Blastoff, um m
ercenário interplanetário sem escrúpulos que vive atrás de diversão e dinheiro, matando di
nossauros e poluindo reservas ambientais. Ao fim da década de 1990, Miller ainda l
ançaria com Lynn Varley a minissérie 300, sua estilizada e superestimada versão para a
batalha das Termópilas.
O novo século trouxe Miller de volta à DC Comics e a um dos personagens que o consag
raram no início de sua carreira. Os resultados, no entanto, foram o absolutamente
dispensável DK2 e o meramente comercial All Star Batman, este último desenhado por J
im Lee. Mas, talvez cause ainda mais arrepios a anunciada Santo Terror, Batman! , H
Q em que o quadrinista promete mostrar o Homem-Morcego enfrentando os terrorista
s da Al-Qaeda. De qualquer forma, com o sucesso das adaptações de Sin City e 300, além
do esperado filme Will Eisner s The Spirit, o futuro de Frank Miller parece cada
vez mais ligado ao cinema. E se seus quadrinhos dos últimos anos deixaram muito a
desejar, podemos sempre celebrar suas obras do passado, dando nossos parabéns a es
se importante quadrinista.
Para saber mais sobre os trabalhos de Frank Miller, clique no nome em destaque a
baixo.
Postado por Wellington Srbek às 15:40 0 comentários
Marcadores: Batman, Demolidor, Elektra, Frank Miller, História dos Quadrinhos, Sin
City
26/01/08
Ronin, o mangá futurista de Frank Miller.
Nos anos 80, novos autores e tendências possibilitaram uma transformação nas HQs norte
-americanas. Entre esses autores estava Frank Miller, que inovou a narrativa dos
comics ao empregar elementos dos quadrinhos japoneses. Tudo começou quando chegou
às suas mãos um grosso volume com o mangá Lobo Solitário (um sucesso no Japão, que narra
a história de um samurai sem mestre e seu filinho Diagoro). Ao folhear o mangá pela
primeira vez, Miller ficou impressionado com a narrativa visual impecável, o que t
eria uma influência decisiva em suas HQs (além de torná-lo um dos principais divulgado
res da obra de Kazuo Koike e Goseki Kojima no Ocidente).
Após essa feliz descoberta, o quadrinista norte-americano passou a incorporar elem
entos narrativos de Lobo Solitário às HQs do herói Demolidor. Ele também introduziu pers
onagens saídos da cultura japonesa, como ninjas e samurais, dando destaque à sensual
assassina Elektra (que ganharia mais tarde uma minissérie pintada por Bill Sienki
ewicz). Outro personagem que ganhou um tratamento à japonesa foi o mutante Wolveri
ne que, na minissérie escrita por Chris Claremont e desenhada por Miller, viaja ao
Japão, onde enfrenta ninjas e lutadores de sumô (além de aparecer com garras na forma
de lâminas japonesas). Mas talvez a maior homenagem de Miller aos quadrinhos japo
neses seja Ronin (marco fundamental na trajetória das graphic novels e minisséries d
e luxo).
Lançada em seis edições pela DC Comics e concluída em 1984, Ronin deu início à publicação d
nisséries com temática mais adulta. Começando no Japão feudal, a HQ mostra um jovem samu
rai que busca vingar a morte de seu mestre. No confronto final contra o assassin
o, Ronin e o demônio Agat acabam aprisionados numa espada mágica, ressurgindo séculos
depois numa caótica e altamente tecnológica Nova York do futuro. O roteiro se desenr
ola a partir daí, contando com muitos duelos de espadas, cenas do Japão feudal e hor
das de robôs. Bastante original em sua fusão entre passado e futuro, elementos orien
tais e ocidentais, o enredo básico e a temática principal de Ronin seriam, anos mais
tarde, copiados pela série de animação Samurai Jack (produzida por Genndy Tartakovsky
para o Cartoon Network).
Mas é sem dúvida em termos narrativos e estilísticos que a minissérie de Miller causou m
aior impacto. Antecipando alguns dos elementos que o quadrinista desenvolveria p
osteriormente em O Cavaleiro das Trevas (como sequências de flash back e simulações de
imagens de monitores), Ronin também chamou atenção pelas sequências de duelo inspiradas
por Lobo Solitário (e aprimoradas a partir do que Miller já havia feito em Daredevi
l e Wolverine). No entanto, o que mais se destacou na minissérie foi seu visual ba
stante incomum para os padrões dos quadrinhos norte-americanos, com linhas tênues, e
maranhados de traços e cores estilizadas (produzidas por Lynn Varley). Por tudo is
so, Ronin se assemelhava mais a um álbum europeu do que a um comics da época (eviden
ciando a influência das HQs de Moebius e em particular do álbum Exterminador 17 de E
nki Bilal).
Ronin não foi um enorme sucesso comercial quando lançada. De qualquer forma, a minis
série de Miller contribuiu para a popularização dos mangás no Ocidente, particularmente
da série Lobo Solitário (cujas edições ocidentais contaram com capas desenhadas por ele)
. Os elementos da narrativa dos mangás utilizados por Miller também influenciaram ou
tros quadrinistas, promovendo uma renovação dos comics. Além disso, a minissérie (lançada
originalmente no Brasil há vinte anos) foi um marco na relação das grandes editoras no
rte-americanas com os autores mais renomados, que passaram a ter maior controle
e direitos sobre suas criações. Só isso já faria de Ronin, o mangá futurista de Frank Mil
, uma HQ decisiva para a história dos quadrinhos norte-americanos (que abriria cam
inho para O Cavaleiro das Trevas e Elektra Assassina, entre outras obras marcant
es).
Postado por Wellington Srbek às 13:23 7 comentários
Marcadores: Ficção Científica, Frank Miller, Graphic Novel, História dos Quadrinhos, Lob
o Solitário, Mangá
13/01/08
Robôs gigantes, monstros gosmentos, Miller & Darrow.
Originalmente uma minissérie em duas partes, The Big Guy and Rusty foi lançada pelo
selo Legend da Dark Horse, em 1995. O roteiro de Frank Miller e a minuciosa arte
de Geof Darrow brincam com o universo dos quadrinhos e filmes japoneses de mons
tros e robôs. A história começa quando um grupo de cientistas japoneses (envolvidos nu
ma experiência genética) dá vida a um maléfico monstro ancestral. Como acontece nos film
es de Godzilla, a gigantesca criatura passa então a arrasar Tóquio. Além de toda a des
truição (que inclui explosões e desabamentos de prédios causados pelas chamas que o laga
rto gigante lança), a gosma que cai da boca do monstro tem a estranha propriedade de
transformar homens em répteis monstruosos. Incapaz de vencer a criatura com suas
armas convencionais, o exército japonês coloca em ação um protótipo secreto: Rusty, o garo
to robô.
Rusty é inegavelmente uma referência a Astro Boy, personagem criado pelo mestre dos
quadrinhos japoneses, Osamu Tezuka. O Astro Boy original era um pequeno robô, com
feições de criança e movido a energia nuclear, que lutava contra monstros e vilões. É exat
amente isso que Rusty é (aliás, este não era o nome do menino que acompanhava o cão Rin
Tin Tin em suas aventuras no Forte Apache?). Mas o pequeno Rusty (que na HQ de M
iller representa o Japão) não consegue vencer o dragão gosmento. Desesperados, os lídere
s japoneses resolvem colocar o orgulho nacional de lado e pedem socorro a The Big
Guy (um robô gigante que tem o design arredondado e os frisos metálicos dos carros e
geladeiras dos anos 50). Como é óbvio que o Grandalhão representa os Estados Unidos, o
final da história você pode imaginar.
Ao resgatar o universo temático das HQs e filmes dos anos 50, Miller não utilizou ap
enas seus personagens (robôs e monstros), como copiou o estilo dos textos. O propo
sital excesso de adjetivos e o uso de jargões, como The Big Guy is on the move! (O G
randalhão está a caminho!), reforçam a figura do herói e a dramaticidade dos ataques do
monstro. E como nas antigas HQs, o herói que representa os Estados Unidos chega na
última hora para salvar o mundo. Mas, deixando de lado o ufanismo de Miller, os d
esenhos em The Big Guy and Rusty merecem um destaque à parte. Cada um dos quadros
de Darrow é uma galeria de minuciosos e às vezes quase imperceptíveis detalhes. A minúci
a visual, na reconstituição de Tóquio ou no desenho de cada personagem em cena, sugere
um domínio da técnica pouco comum nos quadrinhos em geral, além de uma paciência quase
oriental. Em uma das cenas, o monstro estraçalha um vagão do metrô, lançando ao ar estil
haços de metal; o que não se nota a princípio é que, em meio aos estilhaços, Darrow desenh
ou dezenas de pessoas voando pelos ares (mórbido, mas tecnicamente impressionante)
.
Após o sucesso da minissérie original, que ganhou prêmios pela arte de Darrow, foram l
ançadas uma reedição reunindo as 65 páginas da HQ, além de uma nova edição, The art of The
Guy and Rusty, sem texto e em preto e branco. No fim dos anos 90, os personagen
s criados por Miller e Darrow ganharam uma série de desenhos animados para a tevê.
Postado por Wellington Srbek às 12:24 4 comentários
Marcadores: Cinema, Desenhos Animados, Ficção Científica, Frank Miller, Mangá
27/11/07
A insana relação entre Batman e Coringa.
Sou de uma época em que os personagens dos quadrinhos eram tratados em primeiro lu
gar como personagens , e não como franquias a serem exploradas em novos sucessos de ven
das ou bilheterias. Assim, pelo menos para nós leitores, heróis e vilões pareciam ter
uma personalidade e uma trajetória que se transformava ao longo do tempo. Batman e
Coringa são bons exemplos disso. Nos quadrinhos dos anos 80 e 90, seus encontros
foram marcados por um "jogo de gato e rato", em que cada vez se tornava mais difíc
il distinguir qual dos dois era o mais insano.
Foi com O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller que o estranho relacionamento ent
re o Homem-Morcego e seu principal inimigo adquiriu uma dimensão mais "doentia". D
e um lado, o soturno vigilante obcecado por sua missão; do outro, o psicopata excênt
rico e homicida. Em seu embate final, ao passarem por uma Casa dos Espelhos, a d
ialética que os movia tornou-se evidente: herói e vilão apresentavam-se como figuras c
omplementares, a existência de um justificava a do outro. Não é por menos que o desfec
ho da história acontece com um abraço mortal, dentro do Túnel do Amor.
Essa abordagem psicológica foi retomada em A Piada Mortal dos ingleses Alan Moore e
Brian Bolland, edição na qual a origem do Coringa é contada. Sendo o personagem centra
l da história, ele aparece como um vilão sádico e amoral que desconhece quaisquer limi
tes, enquanto Batman só se preocupa em desempenhar o papel de guardião de Gotham Cit
y, a ponto de seu único elo com a vida cotidiana ser o mordomo Alfred. Buscando um
a abordagem mais realista dos super-heróis, a HQ é marcada por cenas de violência explíc
ita. O próprio Alan Moore chegou a admitir que teria ido um pouco além da conta, num
roteiro em que o Coringa aleija e abusa de Bárbara Gordon, além de torturar seu pai
, para no fim acabar às gargalhadas, num quase abraço com o Batman.
O Cavaleiro das Trevas e A Piada Mortal colocaram Batman na linha de frente da r
enovação que caracterizou os comics na década de 1980, além de transformarem o Coringa n
o vilão mais famoso e cultuado dos quadrinhos. Não é à toa que as duas obras foram a bas
e para o roteiro e temática do badalado filme Batman de 1989, que teve o ator Jack
Nicholson no papel do Coringa. Mas é preciso não nos esquecermos de que foi o seria
do de tevê dos anos 60, com a ótima atuação de Cesar Romero no papel do palhaço do crime ,
e tornou Batman um personagem tão popular, até mesmo entre aqueles que não liam quadri
nhos. Contudo, foi mesmo a abordagem mais adulta dos roteiros de Miller e Moore
que estabeleceu um novo patamar a partir do qual outros autores puderam criar su
as histórias.
Um bom exemplo é Asilo Arkham, criada por Grant Morrison e Dave McKean, que tem co
mo tema central a história da própria instituição para loucos criminosos. Ao longo das pág
inas dessa exuberante graphic novel, o Homem-Morcego faz um tour pelo manicômio on
de estão internados seus principais inimigos. Porém, a viagem acaba se revelando um
mergulho na própria alma do herói, torturado pela dor e culpa da morte de seus pais.
O mestre de cerimônias não poderia ser outro, é claro, senão o Coringa. Mas a HQ enfren
tou censura por parte dos editores da DC Comics, que temiam a possibilidade de e
la prejudicar a imagem de um de seus principais personagens. O motivo principal:
a sequência em que o Coringa, mais afetado e abusado do que nunca, faz uma alusão p
erniciosa ao relacionamento entre Batman e Robin.
Do ponto de vista técnico e temático, Asilo Arkham é um bom exemplo do avanço qualitativ
o dos quadrinhos de super-heróis nos anos 80. Produzida por autores britânicos, a HQ
tem um texto que lida com assuntos pouco comuns nos quadrinhos norte-americanos
, sem falar num visual impressionante que mistura desenho, pintura, fotografia e
colagem. Após essa elaborada obra, parecia que nada de novo poderia ser acrescent
ado ao relacionamento entre Batman e Coringa. Mas então surgiu Arlequina!
Nascida na série de animações do Batman lançada em 1992, Arlequina revelou-se uma das vi
lãs mais sensuais e espirituosas dos últimos tempos. Na HQ especial Louco Amor , public
ada no Brasil nas revistas Batman - O Desenho da TV nºs 14 e 15, sua origem e seu
relacionamento amoroso com o Coringa são mostrados de forma inteligente e até ousada
. Contratada para trabalhar no Asilo Arkham, a psiquiatra Harley Quinzel acaba s
e apaixonando por um paciente. Só que o paciente em questão é ninguém menos que o Coring
a, e isso leva Harley a iniciar uma carreira no crime, provando que "de médico e l
ouco todo mundo tem um pouco". Para Frank Miller, a HQ produzida por Paul Dini e
Bruce Timm foi a melhor história do Batman na década de 1990, opinião com a qual conc
ordo plenamente.
Em 2008, será lançado The Dark Night, um novo filme do Homem-Morcego, que terá o Corin
ga como vilão principal. Com ele, a insana relação entre os personagens ganhará um novo
capítulo e certamente também se intensificará nos quadrinhos. Enquanto o filme não chega
, as ótimas HQs citadas neste texto valem ser lidas ou relidas. Com alguma pesquis
a, O Cavaleiro das Trevas, A Piada Mortal, Asilo Arkham e Louco Amor podem ser enc
ontradas em lojas virtuais, nas edições originais ou em português. Por sua qualidade a
rtística e importância para a história dos quadrinhos, essas HQs não podem faltar na col
eção de nenhum bat-fã.
Postado por Wellington Srbek às 16:30 19 comentários
Marcadores: Alan Moore, Batman, Coringa, Frank Miller, Grant Morrison, História do
s Quadrinhos
24/11/07
O retorno do Cavaleiro das Trevas.
Na história dos quadrinhos, poucas revistas causaram tanto impacto quanto Batman:
The Dark Knight Returns, lançada pela DC Comics em 1986. Apresentando um herói cinqu
então e obstinado que luta para salvar uma caótica Gotham City do futuro, esta minis
série em quatro edições ajudou a transformar o mercado norte-americano, abrindo caminh
o para as graphic novels e minisséries de luxo. A partir dela, os editores percebe
ram que quadrinhos de super-heróis voltados para um público mais maduro poderiam ser
um bom negócio. Escrita e desenhada por Frank Miller, arte-finalizada por Klaus J
anson e pintada por Lynn Varley, Batman: O Cavaleiro das Trevas (título que a HQ r
ecebeu no Brasil em 1987) também inauguraria um novo padrão artístico para os quadrinh
os de super-heróis.
Ao iniciar a história, Miller sabia que estava lidando com importantes ícones cultur
ais, sem falar nos milhões de dólares que giram em torno do bat-símbolo e do super-S . E
que ele fez, ao longo das 200 páginas da história, foi justamente resgatar o caráter o
riginal dos personagens, recuperando sua força arquetípica, minada por décadas de plágio
s e HQs estereotipadas. Mas o sucesso avassalador da minissérie não se deveu apenas à
qualidade do roteiro, narrativa e desenhos. Miller já era um dos artistas mais val
orizados do mercado norte-americano e, graças ao seriado de tevê dos anos 60, Batman
era um fenômeno cultural que extrapolava os quadrinhos (lembremos inclusive que m
uitos dos jornalistas e críticos que saudaram efusivamente a minissérie, em 1986, er
am crianças ou jovens nos anos 60).
Contudo, a hilária série de tevê estrelada por Adam West estava muito distante da abor
dagem pretendida por Miller, que contou com outros referenciais para sua versão séri
a dos super-heróis. Ainda nos anos 70, os quadrinistas Denny O Neill e Neal Adams ha
viam produzido boas HQs buscando o caráter mais sombrio de Batman, e já nos anos 80
Alan Moore tinha feito a primeira recriação racionalista de um antigo super-herói, com
a série Marvelman (que Miller homenageia, desenhando um garoto vestido como o herói
britânico, na página 11 do último capítulo de sua minissérie).
Em O Cavaleiro das Trevas, os personagens são o elemento fundamental de um politiz
ado roteiro. Batman aparece como um guerreiro imbatível movido por um único propósito:
combater o crime, mesmo que para isso seja necessário infringir a Lei. Já o Super-H
omem apresenta-se como o defensor da Lei, mesmo que isso signifique ser um mero g
aroto de recados do governo norte-americano. Alfred continua sendo o fiel e espir
ituoso escudeiro de Batman. O Coringa representa tudo que ele mais abomina, enqu
anto o comissário Gordon, os valores morais que o herói quer defender. E há a Robin, u
ma adolescente que conquista o afeto do herói cinquentão. Isso sem falar numa plêiade
de personagens coadjuvantes.
Ao longo da história, o que une personagens tão diversos é o fato de todos estarem à som
bra de Batman, servindo-lhe de contraponto e sempre reforçando sua figura quase mo
nolítica. Neste sentido, o Cavaleiro das Trevas criado por Miller é uma reação ao que vi
nha acontecendo desde os anos 70, quando a indústria dos comics foi afetada pela c
rise econômica e moral nos Estados Unidos. Naquele momento, os super-heróis clássicos
(depositários do otimismo e nacionalismo norte-americanos) perderam sua credibilid
ade. Afinal, enquanto o antes imbatível Capitão América era derrotado no Vietnã, nem mes
mo o quase onipotente Super-Homem era capaz de superar a recessão econômica e os escân
dalos políticos.
Ambientada num futuro próximo, no qual um senil Ronald Reagan é o presidente do país,
a obra de Miller reflete o novo clima político e social da década de 1980. Na Gotham
City do futuro, a redução dos fundos destinados à assistência social, a corrupção e incomp
tência dos políticos, o efeito estufa e uma eminente guerra nuclear contra a União Sov
iética são algumas das causas da violência e insegurança que tomam conta da sociedade. N
essa terra de ninguém , dominada por gangues de adolescentes assassinos, Batman é o herói
redentor, cujo retorno é aguardado (algo como Rei Arthur ou Jesus Cristo). Entret
anto, por mais que Miller critique o governo e os políticos, há algo que é sempre resg
uardado em suas HQs: um suposto espírito empreendedor norte-americano, incansável em
sua busca por justiça. Diante de um governo decadente, as ações ilegais do Cavaleiro
das Trevas estariam assim justificadas. Com isso, o Super-Homem, que sempre diz s
im a alguém com um distintivo ou bandeira , é enviado para deter o subversivo Batman.
Quanto ao visual, o estilo rebuscado dos desenhos de Frank Miller e Klaus Janson
, somado às cores de Lynn Varley, dá maior densidade aos personagens e veracidade à hi
stória. Mas é em termos de narrativa que O Cavaleiro das Trevas trouxe sua maior con
tribuição à arte dos quadrinhos. Nas HQs do Demolidor, além de uma narrativa cinematográfi
a , Miller misturou influências de Will Eisner ao mangá Lobo Solitário. Já em Ronin, somar
am-se elementos dos europeus Moebius e Bilal. O Cavaleiro das Trevas é uma síntese d
essas experiências, acrescentando-se a influência de Hugo Pratt, que recebe citações dir
etas (a ilha em que se dá o conflito entre EUA e URSS chama-se Corto Maltese e, no
segundo capítulo, a página que mostra a bandeira norte-americana transformando-se n
o S do Super-Homem foi adaptada de uma HQ do quadrinista italiano).
Narrativa subjetiva, enquadramentos em pormenor, valorização da sequencialidade, zoo
ms, flashbacks, intercalação de narrativas e imagens de página inteira são alguns dos re
cursos empregados de forma articulada e original por Miller. Fizeram escola o us
o dos quadros em forma de telinha de tevê e a sequência da morte dos pais de Bruce W
ayne. Logo no primeiro capítulo, uma lição de como prender a atenção do leitor (ao estilo
do filme Tubarão de Steven Spielberg): passam-se 27 das 47 páginas, antes que Batman
surja triunfal, numa página inteira. O Cavaleiro das Trevas também influenciou a fo
rma de se abordar os super-heróis, que se tornariam mais violentos nos anos seguin
tes (como se para imprimir mais realismo e atrair o público fosse necessário estar sem
pre superando a agressividade das edições anteriores). Por outro lado, a obra de Mil
ler abriu caminho para trabalhos que deram continuidade ou reforçaram suas conquis
tas, como Batman: Ano Um, A Piada Mortal, Asilo Arkham, Batman 1889, além da ótima sér
ie de animação lançada pela Warner em 1992.
O fato é que, a partir de O Cavaleiro das Trevas com sua abordagem mais realista , os
quadrinhos de super-heróis passaram a ser vistos com outros olhos. O caráter politi
zado da minissérie, mas principalmente a qualidade gráfica, o elaborado roteiro e a
narrativa inovadora deram-lhe o título de clássico dos quadrinhos, tornando-a uma re
ferência para novos autores. Com ela, Frank Miller tornou-se um nome reconhecido i
nternacionalmente e o Homem-Morcego viveu novamente uma onda de batimania , que inc
luiu filmes, desenhos animados, brinquedos e várias bugigangas. Sobretudo, esta HQ
é uma leitura indispensável para os fãs do Batman, e também do Super-Homem.
Atualmente, O Cavaleiro das Trevas está disponível no Brasil em duas edições (capa dura
e brochura) lançadas pela Panini. O volume inclui extras e também DK2, a coloridinha
e dispensável sequência que Miller produziu há alguns anos.
Postado por Wellington Srbek às 15:03 8 comentários
Marcadores: Batman, Cavaleiro das Trevas, Coringa, Frank Miller, História dos Quad
rinhos, Super-Heróis
22/11/07
Recriando "lendas" dos quadrinhos.
Nos anos que se seguiram à publicação de Crise nas Infinitas Terras, a editora DC Comi
cs investiu em novas séries e edições especiais, cujo objetivo era recontar a origem d
e seus principais heróis. O resultado foram trabalhos de qualidade, que ajudaram a
dar vida nova a verdadeiras "lendas" dos quadrinhos.
Super-Homem foi o primeiro e mais popular dos super-heróis. Desde que apareceu em
1938, o Homem de Aço enfrentou todo o tipo de vilões e ameaças: de maléficos nazistas a
monstros alienígenas, passando por andróides enlouquecidos e meteoritos radioativos.
Mas nem o maior super-herói da DC ficou imune à tendência racionalista dos anos 80. E
ra preciso tornar o Super-Homem mais verossímil, encontrar explicações para seus poder
es e amadurecer seu relacionamento com Lois Lane.
A tarefa ficou a cargo de John Byrne que, com a minissérie The Man of Steel, não só re
contou a origem do personagem, mas estabeleceu limites para seus poderes e fraqu
ezas. Nas histórias de Byrne, lançadas em 1986, Clark Kent ganhou uma maior autonomi
a e personagens como Lex Luthor e Lois Lane tornaram-se algo mais que clichês do vi
lão cientista maléfico e louco e da linda mocinha a ser salva . Em outras palavras, Byrn
e tornou o Super-Homem um personagem atualizado e adaptado ao ambiente e público d
a época. E ele foi apenas o primeiro da lista!
Com as HQs que criou para o Demolidor no início da década de 1980, Frank Miller torn
ou-se o desenhista mais inovador dos quadrinhos norte-americanos. Quando a DC re
solveu reagir à perda de mercado, apostando em novos projetos, Miller recebeu sina
l-verde para produzir Ronin, HQ-laboratório em que ele testou estilos, técnicas e in
fluências. Em seguida veio O Cavaleiro das Trevas: uma das HQs mais impactantes e
influentes da história dos quadrinhos norte-americanos. Seguindo o sucesso desta sér
ie, Miller foi contratado para recontar a origem do Homem-Morcego, produzindo em
1987 a excelente Batman: Ano Um, feita em parceria com o desenhista David Mazzu
cchelli.
Mais sombrio do que antes e atormentado pela morte de seus pais, Batman tornou-s
e o contraponto ideal para o Super-Homem (num antagonismo já presente em O Cavalei
ro das Trevas). Por algum tempo, também Byrne e Miller foram identificados pelos l
eitores como a luz e as trevas nos quadrinhos de super-heróis, numa percepção alimentad
elos editores (embora talvez seja mais correto dizer, como bem resumiu um amigo,
que: Byrne nos fazia entrar para os quadrinhos, mas era Miller que nos mantinha
lá ). Inegavelmente, foram O Cavaleiro das Trevas e Batman: Ano Um que fizeram do Ho
mem-Morcego um personagem interessante e sério novamente (tarefa difícil, se levarmo
s em consideração a imagem jocosa que se associou a ele após o popular seriado de tevê d
os anos 60).
Mesmo com Super-Homem e Batman ganhando uma vida novinha em folha, faltaria aind
a a terceira personagem principal da DC Comics. Contudo, todos sabem que desenvo
lver histórias com super-heroínas não é algo muito fácil. Há obviamente uma tendência à ero
até mesmo à ridicularização das personagens femininas. E isso se agrava se a super-mulh
er em questão nasceu numa ilha grega isolada do resto do mundo, mas enfrenta seus
inimigos vestindo uma fantasia baseada na bandeira dos Estados Unidos. Assim, po
demos dizer que o desenhista George Pérez, auxiliado pelos roteiristas Greg Potter
e Len Wein, fez quase um milagre ao recontar a origem da Mulher-Maravilha.
Utilizando deuses e monstros da mitologia grega, os autores redefiniram a origem
dos poderes da heroína e até arranjaram uma explicação para seu calção azul com estrelinha
brancas. Além disso, nos desenhos da nova série, Pérez pôde mostrar seu talento e cuida
do com os detalhes, ao desenhar as divindades gregas e a arquitetura do próprio Ol
impo (pessoalmente, posso dizer que ler aquelas HQs, repletas de deuses e referênc
ias mitológicas, aumentou meu interesse pelo campo da História, contribuindo para qu
e alguns anos depois eu escolhesse esse curso na faculdade).
Na trilha do que Alan Moore fizera com Marvelman e Monstro do Pântano, a principal
lição que o trabalho de Miller, Byrne e Pérez deixou para as HQs de super-heróis foi mo
strar que a literatura, as artes em geral e a própria vida real podem e devem ser
fontes de inspiração para os autores de quadrinhos. Tanto é que, com as reformulações de m
eados dos anos 80, a DC conseguiu reorganizar seu elenco de personagens, tornand
o-os atrativos para um público mais exigente e maduro. E este trabalho continuaria
com outros personagens (como Gavião Negro, Aquaman e Homem-Animal), tendo um pont
o central na minissérie Lendas, que contou com os desenhos de John Byrne e abriu c
aminho para a nova Liga da Justiça.
Infelizmente, nas inúmeras minisséries e edições especiais surgidas nos últimos anos, os t
emas introduzidos e as contribuições trazidas por aqueles trabalhos foram explorados
à exaustão. A indústria dos comics, mais uma vez, não soube se livrar de seu maior defe
ito: a teimosia em transformar qualquer boa idéia numa fórmula do sucesso a ser repeti
da à exaustão. É claro que, para os antigos e novos leitores, há sempre a opção de rever aq
elas ótimas histórias que recriaram alguns dos principais personagens dos quadrinhos
.
Postado por Wellington Srbek às 16:57 5 comentários
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ne, Super-Heróis
15/11/07
Frank Miller: demolindo padrões dos quadrinhos.
Em 1979, um jovem e desconhecido desenhista chamado Frank Miller assumiu o lápis d
a revista Daredevil da Marvel Comics. No início, ele apenas desenhava as histórias e
scritas por Roger McKenzie, mas em pouco tempo passou a colaborar com o roteiris
ta, para em seguida assumir também os roteiros. O fato é que, quando Miller desenhou
sua primeira edição da Daredevil, a revista estava em vias de ser cancelada. Quando
ele a deixou, em 1983, a publicação havia se tornado uma das mais vendidas e influe
ntes do início dos anos 80, fazendo do Demolidor um personagem de primeira linha d
a Marvel, e de Frank Miller um nome conhecido e respeitado nos quadrinhos.
As histórias e os desenhos de Miller, complementados pela arte-final precisa de Kl
aus Janson, trouxeram uma ambientação e um realismo raros nos quadrinhos de super-he
róis. Seus enquadramentos mostrando personagens de corpo inteiro, bem como seus cor
tes rápidos, valorizavam as sequências de ação, evidenciando a influência da narrativa cin
matográfica moderna. Suas diversificadas e criativas divisões de página sublinhavam o c
lima psicológico dos roteiros, seguindo a risca os ensinamentos do mestre Will Eisn
er. E, é claro, há o elemento que conquistou os jovens leitores norte-americanos e b
rasileiros nos anos 80: a influência do mangá Lobo Solitário de Kazuo Koike e Goseki K
ojima, do qual Miller pegou emprestado não apenas sequências de quadros, mas também sa
murais, ninjas, katanas, estrelinhas mortais e toda sorte de elementos japoneses
. Não é à toa que, após salvar a revista do desaparecimento, Miller apresentou sua princ
ipal criação: a personagem Elektra, uma antiga namorada do Demolidor, que se tornara
uma sensual assassina ninja.
Com grande atenção aos detalhes e à construção psicológica dos personagens, Miller se fez v
ler de narrativas paralelas (em que os leitores seguem ao mesmo tempo duas linha
s de ação) e também de enquadramentos subjetivos (em cenas desenhadas a partir do pont
o de vista de um personagem). Tornou-se célebre a página em que o Demolidor aponta u
ma arma para o rosto do Mercenário, com a "câmera" se aproximando do olho do vilão nas
passagens de quadro, até o momento extremo, quando a sequência é cortada e aparece o
dedo do Demolidor puxando o gatilho. O herói não aparece, mas toda a tensão e a carga
emocional que envolve a cena estão presentes nos olhos do vilão. Se não bastasse a ino
vação narrativa, o tema em si era bastante incomum para os comics, pois mostra o pro
tagonista da história fazendo roleta-russa com o assassino de sua amada. Para os p
adrões dos quadrinhos de super-heróis, algo revolucionário! Miller tocou em temas nunc
a vistos em histórias da Marvel, tudo com uma abordagem direta. Ele utilizou a vid
a cotidiana e o pequeno mundo do crime presente nas grandes cidades. Seus heróis e
ram tão realistas quanto seus vilões: pessoas com problemas comuns, paixões e medos.
Com a qualidade e a boa repercussão alcançada por suas histórias, Miller tornou-se uma
espécie de autor oficial do Demolidor , e isso mesmo após sua saída da revista Daredevil
. Mas para a alegria dos fãs, ele não demoraria muito a retornar às HQs do homem sem me
do e da enigmática Elektra. Em parceria com o artista Bill Sienkiewicz, Miller crio
u em 1986 a Graphic Novel do Demolidor e a minissérie Elektra Assassina (obras que
inovaram a estética dos quadrinhos de super-heróis, abrindo espaço para HQs com arte
pintada). Ao mesmo tempo, ele retomou os roteiros da revista Daredevil, com a ótim
a série de histórias que ficou conhecida no Brasil como A queda de Murdock (desenhad
a pelo talentoso David Mazzucchelli). No início dos anos 90, Miller retornaria aos
personagens que fizeram sua fama em duas histórias: Elektra Vive, uma graphic nov
el que demorou mais de cinco anos para ser concluída (gerando uma enorme expectati
va entre os leitores, mas não correspondendo no fim) e Demolidor - O Homem Sem Med
o, minissérie desenhada por John Romita Jr. (que repete a fórmula de Batman: Ano Um,
mas sem o mesmo resultado).
Tendo sido um marco para os quadrinhos de super-heróis no início dos anos 80, as pri
meiras histórias de Frank Miller para o Demolidor contribuíram para mostrar aos edit
ores que o público estava pronto e, sobretudo, desejava histórias mais sofisticadas
com desenhos mais elaborados. Consideradas hoje um clássico dos quadrinhos de supe
r-heróis, essas histórias foram relançadas no Brasil pela Panini em 2003, sendo recent
emente reunidas pela Marvel no volume Daredevil by Frank Miller & Klaus Janson O
mnibus HC, um calhamaço de capa dura e 816 páginas, ao preço de $99.99 US. Quando as h
istórias foram lançadas originalmente, não foi necessária tanta sofisticação editorial: bas
aram simples revistinhas em papel-jornal, que custavam apenas cinquenta centavos
de dólar e traziam o talento inovador de um jovem desenhista que demoliu velhos p
adrões dos quadrinhos.
Postado por Wellington Srbek às 17:01 6 comentários
Marcadores: Demolidor, Elektra, Frank Miller, História dos Quadrinhos, Lobo Solitári
o, Will Eisner
05/11/07
Legend, um selo de qualidade nos quadrinhos.
Nos anos 80, os quadrinhos de super-heróis da Marvel e DC passaram por uma das mel
hores fases de sua história. A influência das HQs européias e japonesas, os trabalhos
produzidos pelos autores ingleses e uma maior sofisticação das edições deram origem a um
a revolução qualitativa nos comics. Em 1993, alguns dos autores responsáveis por aquel
e excepcional momento decidiram se juntar para lançar o selo Legend.
A idéia de reunir um grupo de quadrinistas (baseando-se na qualidade de seus traba
lhos e objetivando a manutenção dos direitos autorais das HQs e personagens) partiu
de Frank Miller e John Byrne. Segundo Miller, esta era uma idéia antiga que voltou
à tona em 1992, quando Todd McFarlane, Jim Lee e Rob Liefeld criaram a Image Comi
cs (editora que sacudiu o mercado norte-americano de quadrinhos, abalando a hege
monia da Marvel e DC).
No início da década de 1990, Miller e Byrne estavam envolvidos em projetos lançados pe
la Dark Horse (editora que se tornara conhecida por lançar quadrinhos autorais e a
daptações de filmes para as HQs). Miller havia escrito as minisséries Liberdade (desen
hada por Dave Gibbons) e Hard Boiled (ilustrada por Geof Darrow), e estava produ
zindo a série Sin City. Já Byrne começava a desenvolver a série Next Men (que originalme
nte havia sido planejada para ser a base do universo Marvel 2099).
Motivados pelos resultados alcançados pela Image, Miller e Byrne resolveram reunir
um grupo de quadrinistas, que contava com o talento de Mike Mignola, Dave Gibbo
ns, Arthur Adams, Mike Allred, Paul Chadwick e Geof Darrow. Assim nascia o selo
Legend, com o qual as histórias e personagens do grupo seriam publicadas pela Dark
Horse, mas permanecendo como propriedade de seus autores. Os variados estilos,
a originalidade e a identificação do trabalho com seu autor eram elementos marcantes
nas revistas do Legend (algo muito diferente de se ter um bando de desenhistas-
dublês que copie o estilo de um autor mais famoso).
Através do selo, Miller passou a publicar as novas histórias com a personagem Martha
Washington (desenhadas por Dave Gibbons), as novas minisséries de Sin City, além de
lançar a HQ The Big Guy and Rusty (desenhada por Geof Darrow). John Byrne levou p
ara Legend a série Next Men, com seus super-heróis de um mundo sombrio. Paul Chadwic
k chegou com as HQs de Concreto, um introspectivo personagem dividido pelo desej
o de ser um herói e os problemas causados por seu corpo monolítico. Arthur Adams lanço
u a série Monkeyman and O Brien, com as histórias de um gorila extradimensional e sua
companheira fortona. Mike Allred transferiu para o selo seu personagem Madman, u
ma estranha mistura do Capitão Marvel com o Monstro de Frankenstein. Mike Mignola
trouxe Hellboy, uma série de histórias estreladas por um heróico demônio simiesco.
A experiência do selo Legend não durou muito, mas séries como Sin City e Hellboy fruti
ficaram em várias continuações, mesmo após o selo deixar de ser usado (e se hoje as criaçõe
de Miller e Mignola alcançam notoriedade internacional através dos filmes de Hollyw
ood, isso em grande parte se deve à semente lançada em 1993). O fato é que as revistas
com o selo Legend não seguiam o padrão de produção industrial dos comics em geral, apro
ximando-se da forma como os artistas europeus criam suas HQs. Sem se preocupar e
m criar personagens e histórias para serem transformados em brinquedos ou desenhos
animados, os integrantes do grupo Legend mostraram como conciliar interesses ed
itoriais e qualidade artística. E esta é uma lição que não deveria ser esquecida!
Postado por Wellington Srbek às 16:16 0 comentários
Marcadores: Frank Miller, Hellboy, História dos Quadrinhos, John Byrne, Mike Migno
la, Sin City
04/11/07
A marcante minissérie do Wolverine.
Publicada nos Estados Unidos em 1982, Wolverine reuniu dois grandes astros dos q
uadrinhos de super-heróis: Chris Claremont que conseguira (em parceria com John By
rne) transformar os X-Men nos personagens mais lidos dos comics, e Frank Miller
que fizera da revista do Demolidor uma das mais inovadoras do mercado norte-amer
icano. A minissérie Wolverine é o encontro dessas duas experiências bem-sucedidas, num
a HQ dedicada a um personagem em ascensão. Como resultado, aquelas quatro revistas
deram início à wolverinemania .
A história de Wolverine começa no Canadá e faz referências à época em que o herói era um ag
e-secreto do governo canadense (o que dá ao roteiro um estilo James Bond). Mas as
ligações com as HQs dos X-Men criadas por Claremont e Byrne terminam na sétima página da
minissérie. Para encontrar um amor do passado, o herói mutante viaja ao Japão, onde t
em que enfrentar ninjas e mafiosos japoneses (bem no estilo dos quadrinhos de Fr
ank Miller).
Os personagens coadjuvantes e a temática de Wolverine estão mais próximos das histórias
do Demolidor, do que das HQs dos X-Men. Logo, era de se esperar que o herói mutant
e ficasse um tanto deslocado, mas isto não acontece, graças às alterações introduzidas por
Miller. Além de adaptar o personagem a seu estilo de desenho, Miller modificou o
formato de suas garras (que passaram a se assemelhar a lâminas de espadas japonesa
s) e alterou sua postura e técnicas de luta, aproximando-o dos ninjas e samurais.
Contudo, essas mudanças por si sós não resumem as inovações desta HQ.
Ao lidar com ninjas e samurais, Miller inspirou-se na narrativa dos quadrinhos j
aponeses, criando cenas de luta bastante eficientes. Dividir a página em 4 ou 5 qu
adros alongados (algo comum no mangá Lobo Solitário) permite ao desenhista represent
ar os personagens e a ação por inteiro, privilegiando o dinamismo da cena. Se a histór
ia de Claremont (com suas referências à honra e aos tradicionais costumes japoneses ) nã
enhuma obra-prima, a narrativa e os desenhos de Miller foram decisivos para o su
cesso da minissérie. Com ela, surgia um Wolverine mais violento e impiedoso, que d
eixaria marcas na trajetória do personagem (e até de seus vários clones ) nas décadas segu
ntes. No Brasil, a minissérie Wolverine foi lançada pela editora Abril em 1987 e rel
ançada mais recentemente pela Panini em volume único. Em 2006, a Marvel relançou o tra
balho de Claremont e Miller numa edição em capa-dura para a série Premiere.
Postado por Wellington Srbek às