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ELETRICIDADE E SOCIEDADE

(um binômio sinergético)

Que apague definitivamente a luz, quem não precisa da eletricidade!

A história do desenvolvimento humano em sociedade está intrinsecamente ligada à natureza


curiosa e empreendedora de nossa espécie. Se por muito tempo vagamos de caverna em
caverna, na busca por água e alimento, geralmente cultivando em tocha a luz do fogo, hoje
vagamos de túnel em túnel, de prédio em prédio, de site em site, cultivando a luz do jogo. O jogo
da busca pelo conhecimento, o jogo da perpetuação genética, mas também o jogo cruel do
capitalismo, do conforto puro e simples, do consumismo exacerbado e da ganância. Esta
frenética interferência na natureza está pondo em risco nossa existência.

Não, a Eletricidade e suas leis não são as vilãs da história – o homem é mesmo um animal
predatório – mas digamos que a descoberta da natureza elétrica dos materiais, a formulação de
leis que permitiram a exploração do conceito e a invenção, criação e adaptação de um “sem
número” de dispositivos elétricos (no todo ou em partes), de fato modificaram para sempre a
forma como vivemos, e já há bastante tempo.

É clara hoje nossa dependência da dona Eletricidade (assim como de outras formas de
energia), mas como será que chegamos a isso? Quais os atores, qual o cenário para a história
dos elétrons em movimento?

Das cavernas aos templos gregos, (graças às interações eletroquímicas do cérebro humano
em franco desenvolvimento) um salto gigantesco para a sociedade fora alcançado. O homem
começava a procurar razões não só para a existência como para quase tudo. A observação e
formulação de “teorias” para explicar este ou aquele fenômeno, ganha impulso com os filósofos
gregos. Por volta do ano 250 AC Tales de Mileto, observou que ao se esfregar âmbar (uma
substância vítrea) com pele de carneiro, pedaços de palha eram atraídos pelo âmbar. A palavra
eléktron significa âmbar em grego. dona Eletricidade começava a nascer.

Mas seu parceiro físico, Senhor Eletromagnetismo, também foi objeto de estudo de Tales.
Numa cidade chamada Magnésia, Tales investigou as propriedades de uma pedra que atraia
objetos de ferro. O cientista (na época não havia este conceito, mas o grego era um cientista dos
bons!) nomeou a pedra de “pedra magnética” em função do nome da cidade e de seus habitantes
que eram conhecidos por magnetes..

Curiosamente foi preciso esperar por mais de mil e quinhentos anos para que outros atores,
noutros cenários, dessem continuidade à história. Para resumir:

Por volta de 1400, verificou-se que as “pedras magnéticas” tinham utilidade. Se uma agulha de
aço for tocada por uma delas, transforma-se também em ímã. Passa então a atrair objetos de
ferro. Se uma agulha imantada (agulha friccionada pela pedra magnética) for colocada numa
rolha de cortiça, a flutuar na água, ou posta sobre um pino, girará de modo que uma das
extremidades apontará para o norte.
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Essas agulhas imantadas, que apontavam para o norte, eram chamadas de “bússolas”, os
navegantes europeus usavam-nas para cruzar os oceanos e explorar terras distantes. Teria sido
muito difícil a Cristóvão Colombo descobrir a América, em 1492, não fora a existência de
bússolas a bordo.

E o âmbar? Não parecia ter utilidade, e poucos o levaram em consideração.

Por volta de 1570, um cientista inglês chamado William Gilbert começou a trabalhar com
ímãs. Também se interessou pelo âmbar. Por que atraía objetos depois de friccionado? Que
haveria de especial nele?

Gilbert sabia que o âmbar era chamado de “elektron” em grego, e de “electrum”, em latim. Por
isso chamou de “elétricas” a todas as substâncias que tinham capacidade de atrair coisas após
serem friccionadas. Usou a palavra para mostrar que tinham a mesma propriedade do âmbar.

Em 1600, Gilbert publica um trabalho metódico (De Magnete) sobre as propriedades do


magnetismo. Este mesmo trabalho é considerado a primeira aplicação do método científico.

Eletricidade na era moderna

A partir do século XVI a eletricidade e o magnetismo são estudados com rigor científico. Mas é
no século XVIII que os principais conceitos são revistos, formulados e equacionados.

Século XVIII

Luigi Aloisio Galvani, médico italiano realiza experimentos com eletricidade na dissecção de
animais, fazendo com que uma rã movesse as pernas. Este estudo só foi publicado
postumamente (“Ensaio da Força dos Nervos na Relação com a Eletricidade”- datada de 25 de
Novembro de 1782). Galvani seria o descobridor da Bioeletricidade. Galvani também desenvolve
um protótipo de bateria, mas o invento acaba sendo creditado ao cientista italiano Alessandro
Volta.

1733 – Charles François. C. du Fay publica sobre a existência de dois tipos de eletricidade, o
que mais tarde seria identificado como "positivo" e "negativo". Também identifica a diferença
entre isolantes e condutores.

1750 - A existência de dois tipos de eletricidade foi também comprovada de forma independente
pelo cientista estadunidense Benjamim Franklin (1706-1790), que aparentemente desconhecia
os trabalhos desenvolvidos na Europa. O norte-americano criou o conceito de carga elétrica e
atribuiu os sinais positivo e negativo para distinguir os dois tipos. Nessa época, já haviam sido
reconhecidas duas classes de materiais: isolantes e condutores.

1752 - A partir de suas observações sobre descargas atmosféricas, Franklin inventa o pára-raios.

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1785 – O físico francês Charles Coulomb (1736-1806) investigou, por volta de 1780, as forças
elétricas usando uma balança de torção. Embora, não havia instrumentos precisos para fazer
medidas elétricas, Coulomb conseguiu determinar relações matemáticas importantes na
descrição das interações eletrostáticas. Ele observou que força atrativa ou repulsiva era
proporcional ao produto das duas cargas interagentes (q1 e q2) e inversamente proporcional ao
quadrado da distância r entre elas.

1800 - Alessandro Volta desenvolve a pilha voltaica, precursor das baterias modernas. A pilha
de Volta era capaz de produzir corrente contínua.

Século XIX

1820 - Hans Christian Örsted observa que uma corrente elétrica causa uma pertubação em uma
bússola próxima, ilustrando a iteração entre eletricidade e magnetismo. André-Marie Ampère
consegue desenvolver e explicar o fenômeno.

1827 - Georg Ohm publica “Die galvanische Kette mathematisch bearbeitet” (O Circuito
Galvânico, Investigado Matematicamente), trabalho no qual desenvolve a teoria de circuitos,
incluindo a Lei de Ohm.

1831 - Michael Faraday determina experimentalmente o fenômeno da indução magnética entre


duas bobinas, formulando o princípio do transformador. A indução também é observada com o
uso de um ímã permanente, obtendo-se desta forma o princípio dos motores e geradores
elétricos.

1864 - James Clerk Maxwell apresenta em “A Treatise on Electricity and Magnetism” as


equações do eletromagnetismo, consolidando os experimentos de Faraday. Suas equações
prevêem a existência das ondas eletromagnéticas, e anuncia que a própria luz é uma forma de
eletromagnetismo.

1879 - Thomas Edison inventa a primeira lâmpada elétrica comercialmente viável.

1880 - Edison patenteia o sistema de distribuição elétrica.

1882 - Edison implementa o primeiro sistema de distribuição elétrica, em corrente contínua, 110
Volts, em Manhattan.

1888 - Heinrich Hertz comprova a existência de ondas eletromagnéticas, confirmando as teorias


de Maxwell.

1890 (aprox.) - Disputa entre Tesla e Edison na implementação dos sistemas de distribuição
elétrica, a chamada Guerra das Correntes. Finalmente vence Tesla, com a corrente alternada,
essencialmente pelas características dos transformadores em elevar a tensão, diminuindo as
perdas na transmissão de energia.

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1892 - Nikola Tesla publica a base dos sistemas de corrente alternada. George Westinghouse
patrocina os projetos de Tesla.

1893 - Charles Proteus Steinmetz desenvolve uma formulação matemática para o estudo de
circuitos em corrente alternada (nasce o fasor).

1893 - Nikola Tesla realiza a primeira transmissão de rádio, porém sua invenção seria creditada,
com controvérsias, a Guglielmo Marconi em 1904.

No final do século a engenharia elétrica se consolidada como uma profissão reconhecida.

A Revolução Industrial e os Avanços da Tecnologia

O século XVIII foi marcado pelo grande salto tecnológico nos transportes e máquinas. As
máquinas a vapor, principalmente os gigantes teares, revolucionaram o modo de produzir. Se por
um lado a máquina substituiu o homem, gerando milhares de desempregados, por outro baixou o
preço de mercadorias e acelerou o ritmo de produção.

O uso de máquinas em grande escala foi implantado na Inglaterra a partir de 1760,


aproximadamente. Teve profunda influência sobre a economia mundial, ocasionando
significativas mudanças sociais, políticas e culturais para o homem contemporâneo. A esse
processo de alteração estrutural da economia, que marcou o início da Idade Contemporânea,
chamamos de Revolução Industrial.

Para a sua eclosão, porém, foi decisiva a acumulação de capitais verificada entre os séculos
XV e XVIII. Graças à Revolução Industrial, o capitalismo da época Moderna pôde amadurecer e
constituir-se num sistema econômico, suplantando definitivamente os vestígios do feudalismo.

Uma divisão clássica normalmente aceita no mundo acadêmico para melhor entender a
Revolução Industrial, baseia-se em três períodos:

1760 a 1850 – A Revolução se restringe à Inglaterra, a "oficina do mundo". Preponderam a


produção de bens de consumo, especialmente têxteis, e a energia a vapor.

Na primeira metade do século os sistemas de transporte e de comunicação desencadearam as


primeiras inovações: os primeiros barcos a vapor (Robert Fulton/1807); a locomotiva
(Stephenson/1814); revestimentos de pedras nas estradas McAdam (1819); telégrafos
(Morse/1836).

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As primeiras iniciativas no campo da eletricidade: como a descoberta da lei da corrente
elétrica (Ohm/1827) e do eletromagnetismo (Faraday/1831).

Dá para imaginar a quantidade de mudanças que estes setores promoveram ou mesmo


promoveriam num futuro próximo. As distâncias entre as pessoas, entre os países, entre os
mercados se encurtariam. Os contatos mais regulares e freqüentes permitiriam uma maior
aproximação de mundos tão distintos como o europeu e o asiático.

No setor têxtil a concorrência entre ingleses e franceses permitiu o aperfeiçoamento de teares


(Jacquard e Heilmann). O aço tornou-se uma das mais valorizadas matérias-primas.

1850 a 1900 – A Revolução espalha-se por Europa, América e Ásia: Bélgica, França, Alemanha,
Estados Unidos, Itália, Japão, Rússia. Cresce a concorrência, a indústria de bens de produção se
desenvolve, as ferrovias se expandem; surgem novas formas de energia, como a hidrelétrica
e a derivada do petróleo. O transporte também se revoluciona, com a invenção da locomotiva e
do barco a vapor.

Entre as invenções que assinalaram o começo da Segunda Revolução Industrial, três


merecem destaque especial: o processo de Bessemer de transformação do ferro em aço
(Hemy Bessemer), o dínamo, cuja invenção criou condições para a substituição do vapor pela
eletricidade, e o petróleo ("ouro negro") que passou a ser utilizado como força motriz em navios
e locomotivas.

A explosão tecnológica conheceu um ritmo ainda mais frenético com a energia elétrica e os
motores a combustão interna. A energia elétrica aplicada aos motores, a partir do
desenvolvimento do dínamo, deu um novo impulso industrial.

Movimentar máquinas, iluminar ruas e residências, impulsionar bondes. Os meios de


transporte se sofisticam com navios mais velozes. Hidrelétricas aumentavam, o telefone dava
novos contornos à comunicação (Bell/1876), o rádio (Curie e Sklodowska/1898), o telégrafo sem
fio (Marconi/1895), o primeiro cinematógrafo (irmãos Lumière/1894) eram sinais evidentes da
nova era industrial consolidada.

E, não podemos deixar de lado, a invenção do automóvel movido à gasolina (Daimler e


Benz/1885) que geraria tantas mudanças no modo de vida das grandes cidades. O motor a diesel
(Diesel/1897) e os dirigíveis aéreos revolucionavam os limites da imaginação criativa e a
tecnologia avançava a passos largos.

A indústria química transforma-se como setor de ponta no campo fabril, particularmente em


função da “revolução” na obtenção de matérias primas sintéticas a partir dos subprodutos do
nitrogênio e fosfatos, corantes, fertilizantes, plásticos, explosivos, etc.

A chegada do século XX traz uma visão de universo totalmente transformado: quais seriam os
limites, as possibilidades do avanço tecnológico?

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1900 até hoje – Surgem conglomerados industriais e multinacionais. A produção se automatiza;
surge a produção em série; e explode a sociedade de consumo de massas, com a expansão dos
meios de comunicação. Avanços na indústria química e eletrônica, a engenharia genética e a
robótica.

A terceira fase da revolução industrial é a que vai de 1900 até os dias de hoje. Caracteriza-se
pelo surgimento de grandes complexos industriais e empresas multinacionais e pela automação
da produção. Desenvolvem-se a indústria química e a indústria eletrônica/micro-eletrônica.

Os avanços da robótica e da engenharia genética também são incorporados ao processo


produtivo, que depende cada vez menos de mão-de-obra e mais de alta tecnologia. Nos países
de economia mais desenvolvida surge o desemprego estrutural. O mercado se globaliza apoiado
na expansão dos meios de comunicação e de transporte.

Século XX

Marca um grande desenvolvimento no campo da eletrônica, basicamente com o


desenvolvimento da válvula, seguido pelos transistores e circuitos integrados.

A engenharia elétrica subdivide-se em engenharia eletrotécnica (de potência) e engenharia


eletrônica; a eletrônica ainda gerou outras subdivisões: engenharia de telecomunicações e a
engenharia da computação.

A descoberta de materiais supercondutores também causou grande impacto no estudo da


eletricidade, e inovações gradualmente são implementadas.

Energia Elétrica e Sociedade

A energia, nas suas mais diversas formas, é indispensável à sobrevivência da espécie


humana. E mais do que sobreviver, o homem procurou sempre evoluir, descobrindo fontes e
formas alternativas de adaptação ao ambiente em que vive e de atendimento às suas
necessidades. Dessa forma, a exaustão, escassez ou inconveniência de um dado recurso
tendem a serem compensadas pelo surgimento de outros recursos.

Nenhum desenvolvimento tecnológico seria possível sem ENERGIA. Grande parte dos
dispositivos criados pelo homem (na sua saga desenvolvimentista) depende fundamentalmente
da ENERGIA ELÉTRICA.

Em termos de suprimento energético, a eletricidade se tornou uma das formas mais


versáteis e convenientes de energia, passando a ser recurso indispensável e estratégico para
o desenvolvimento socioeconômico de qualquer país ou região.

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No limiar do terceiro milênio, os avanços tecnológicos em geração, transmissão e uso final de
energia elétrica permitem que ela chegue aos mais recônditos lugares do planeta, transformando
regiões desocupadas ou pouco desenvolvidas em pólos industriais e grandes centros urbanos.

Os impactos dessas transformações socioeconômicas são facilmente observados em nosso


cotidiano, hoje até mesmo através de imagens de satélite, como ilustrado na imagem a seguir.

As luzes destacam certas áreas mais desenvolvidas ou densamente povoadas da superfície


terrestre como o leste dos Estados Unidos, a Europa ocidental e o Japão. As áreas escuras
incluem as regiões centrais da América do Sul, África, Ásia, e Austrália.

A imagem acima é na verdade uma composição de centenas de fotos da Terra vista do espaço
ao longo de períodos noturnos em todos os cantos do mundo. (geradas pelos satélites DMSP -
maiores informações em http://www.ngdc.noaa.gov/dmsp/index.html)

Apesar dos referidos avanços tecnológicos e benefícios proporcionados, cerca de um terço


da população mundial ainda não tem acesso a esse recurso, e uma parcela considerável é
atendida de forma muito precária. No panorama nacional, a situação é menos crítica, mas ainda
muito preocupante.

No Brasil percebemos uma enorme diversidade regional e forte concentração de pessoas e


atividades econômicas em regiões com sérios problemas de suprimento energético. Como
indicado pelo censo demográfico de 2001, mais de 80% da população brasileira vive na zona
urbana. A grande maioria desse contingente vive na periferia dos grandes centros urbanos, onde
as condições de infraestrutura são altamente deficitárias.

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Grande parte dos recursos energéticos do país se localiza em regiões pouco desenvolvidas,
distantes dos grandes centros consumidores e com fortes restrições ambientais.

Promover o desenvolvimento econômico dessas regiões, preservar a sua diversidade biológica


e garantir o suprimento energético de regiões mais desenvolvidas são alguns dos desafios da
sociedade brasileira.

Embora o consumo de eletricidade não seja necessariamente um bom indicador do grau de


desenvolvimento de uma região ou país, as atividades socioeconômicas tornam-se cada vez
mais dependentes desse recurso.

O suprimento de energia elétrica no Brasil é ainda muito deficitário em várias regiões, seja pela
falta de acesso ou pela precariedade do atendimento.

A disponibilidade de recursos energéticos e de tecnologias de aproveitamento não é fator


limitante ao crescimento econômico do país. Contudo, a grande extensão do território nacional, a
distribuição geográfica dos recursos e as peculiaridades regionais são importantes desafios ao
planejamento da oferta e gerenciamento da demanda.

Por esses e outros motivos, o Setor Elétrico Brasileiro vem passando por mudanças e ajustes,
a fim de evitar que esses desafios tornem-se um entrave ao desenvolvimento socioeconômico do
país.

MUDANÇAS SOCIAIS

A análise de tantos feitos tecnológicos não poderia ficar isenta das mudanças sociais ocorridas
neste mesmo período. As empresas industriais perderam totalmente suas feições caseiras
adquirindo uma nova forma. Surgem grandes conglomerados econômicos, a crescente
participação do setor financeiro na produção industrial: trustes, cartéis, holdings.

Ao lado de uma intensificação da exploração do trabalho operário, da urbanização


desenfreada e sem planejamentos, das epidemias provocadas pelo acúmulo de populações nos
grandes centros sem infraestrutura, cresciam as fábricas cada vez mais poderosas e
determinantes de um processo irreversível.

As nações, por sua vez, buscavam garantir melhores mercados fornecedores de matérias-
primas, impulsionando o colonialismo afro-asiático que deixa marcas profundas até os dias de
hoje. Ou seja, não é um mero processo de avanço. O avanço tecnológico sempre foi
acompanhado, desde o período paleolítico, de intensas mudanças sociais. Nem sempre
positivas.

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Observe a imagem a seguir – o ser humano se funde ou se rende ao avanço tecnológico?

Para o filósofo Frances Guy Debord, a “sociedade tecnológica” tem como característica
marcante, a velocidade na troca de informações. Tal fato faz com que, por exemplo, o capital
especulativo seja gerenciado vinte quatro horas por dia, isto é, as transações financeiras ocorrem
em tempo real. Tudo isso só é possível em função das novas tecnologias de comunicação e
informação.

As conseqüências da nova organização do capitalismo no cotidiano da humanidade são as


mais variadas. Dentre elas, pode-se citar o controle massificado das mentes que se dá
fundamentalmente por intermédio dos meios de comunicação, mais especificamente, a televisão.
Esse controle a que grande parte da população mundial está submetida é analisado por Debord
no livro Sociedade do Espetáculo.

O espetáculo discutido por Debord vai muito além da presença dos meios de comunicação de
massa no cotidiano das pessoas. Segundo o autor, o espetáculo é a própria sociedade e, por
assim ser, torna-se o principal instrumento de unificação social, ou seja, por meio da imagem se
cria a realidade e essa realidade construída realiza a unidade da vida. Isso fica evidenciado na
seguinte afirmação: O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre
pessoas, mediada por imagens (Debord, 1997:14).

Na sociedade espetacular, conforme a visão do autor, o sistema econômico produz o


isolamento de forma circular por meio da produção de bens. A televisão, o automóvel e outros
bens de consumo são instrumentos que ocupam o lugar do diálogo, da convivência e reforçam a
separação, o isolamento.

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Isso se exemplifica atualmente, pelo número de horas que muitas pessoas gastam da sua vida
a contemplar os programas de televisão, bem como na alegria de adquirir um novo carro. Debord
caracteriza isso como:

A alienação do espectador em favor do objeto contemplado (o que resulta de sua própria


atividade inconsciente) se expressa assim: quanto mais contempla, menos vive; quanto
mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende
sua própria existência e seu próprio desejo. (Debord, 1997:24)

Desse modo, as pessoas tornam-se telespectadoras do mundo. Assistem ao mundo, em vez


de agir, de buscar uma transformação social.

Debord ressalta ainda a função da mercadoria na sociedade espetacular. O tempo, o espaço,


a arte, a cultura, a comunicação, tudo isso é organizado pelo espetáculo. Segundo o autor, tudo
vira mercadoria e invade a vida cotidiana, passando, portanto, a ocupar toda a vida social.

Não há somente uma relação com a mercadoria, mas, não se enxerga nada além dela: o
mundo que se vê é o seu mundo (Debord, 1997:30).

A sociedade moderna pode então ser compreendida como o reino absoluto do espetáculo, da
representação “fetichizada” do mundo dos objetos e das mercadorias. O espetáculo consagra
toda a glória ao reino da aparência.

Assim, a mercadoria representa na consciência algo elevado em função da sua exaltação pelo
espetáculo. Ela passa a se impor como se fosse única. Há, portanto, uma luta da mercadoria pela
sua existência, pelo seu domínio no grande espetáculo. Nas palavras de Debord:

Um estilo de roupa surge de um filme; uma revista lança lugares da moda, que por sua vez
lançam as mais variadas promoções. (...) nos chaveiros-brindes, por exemplo, que não são
comprados, mas oferecidos junto com a venda de objetos de valor, ou que decorrem de
intercâmbio em circuito próprio, é possível perceber a manifestação de uma entrega mística
à transcendência da mercadoria. (Debord, 1997:45).

Na atualidade, isso é visto diariamente em quase todos os aspectos da vida social. Por meio
da publicidade e da propaganda, o espetáculo vai ditando gostos, desejos, sonhos; padrões de
beleza, modos de amar, de sofrer; enfim, dirige toda a vida humana no planeta.

Há uma submissão coletiva aos valores propagados pelo espetáculo, observa-se um


“anestesiamento” generalizado, uma embriaguez compartilhada. Ninguém age. Todo mundo
contempla o imenso espetáculo.

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Considerações

A análise de Debord sobre a sociedade moderna traz uma crítica inteligente e necessária à
civilização tecnológica. Esse tipo de reflexão contribui para o pensamento alternativo a esse
modelo de sociedade apesar de se perceber que o espetáculo, em muitos momentos, parece ter
tomado de conta do “DNA” dos indivíduos. No reino do consumo produzido pelo espetáculo, o
sofrimento também vira mercadoria. Por assim ser, sofre-se por tudo e por nada.

Grande parte deste espetáculo é devido ao trabalho quase abnegado de muitos cientistas ao
longo dos séculos. Suas teorias INVENTADAS para descrever o mundo geraram produtos,
conceitos, conflitos, guerras, conforto, facilidades...

Em nome das leis

A partir de princípios matemáticos, procura-se entender a complexidade do Universo; no


entanto, não se sabe se tais princípios existiam antes de serem pensados e questionados pelos
cientistas.
A ciência se baseia numa poderosa presunção, que diz respeito aos laços entre o mundo real e o
mundo das teorias. De fato, os cientistas não conseguiriam ir à parte alguma se não
acreditassem que o mundo real contém certas regularidades e que elas podem ser
compreendidas, ao menos em parte, por um processo racional de pesquisa. Embora muitos
modelos teóricos a respeito do mundo ou de alguns de seus aspectos sejam obviamente falhos e
sujeitos a correção, os cientistas supõem que tais teorias espelham, mesmo que de forma
imperfeita, alguma faceta da realidade. Assim, embora sejam inegavelmente invenções da mente
humana, espera-se que as teorias científicas sirvam para captar pelo menos alguns elementos do
mundo "lá fora".

De qualquer forma, é para o ser humano refletir sobre a sua existência, mesmo estando
“embriagado” pelo espetáculo. É possível perceber que apesar do espetáculo, a essência do
viver não se apresenta nele. Deste modo, e refletindo dialeticamente, as brechas sempre
existem. É possível perceber, no cotidiano, como as pessoas, apesar do espetáculo, fazem uma
vida diferente.

Que a nossa vida seja ESPETACULAR, tendo em mente o “DESENVOLVIMENTO


SUSTENTÁVEL DA TECNOLOGIA” a “CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA E CIDADÔ, e a aspiração
por um mundo ÉTICO. Sem estes princípios, fatalmente voltaremos para a caverna! Mas, fica a
dúvida: haverá cavernas?

Marcello Cláudio de Gouvêa Duarte

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Referências bibliográficas:
• Debord, G Sociedade do Espetáculo foi escrito em 1968.

• Artigo da Profa. MSc. Lêda Gonçalves de Freitas é coordenadora de Graduação da


Católica Virtual, Professora do Curso de Pedagogia e Normal Superior da Universidade
Católica de Brasília, Doutoranda do programa de Pós-Graduação do Instituto de Psicologia
da UnB

• Atlas de energia elétrica do Brasil / Agência Nacional de Energia Elétrica. – Brasília :


ANEEL, 2002.
• A vida cotidiana no Brasil moderno: a energia elétrica e a sociedade brasileira (1880-
1930).

Esse último lançamento realizado "no apagar das luzes", num momento em que a ordem do dia era o
racionamento de energia elétrica como conseqüência da crise no setor, explicita a atualidade do tema.
Vale ressaltar a formação da equipe de autores da obra, constituída em grande parte por historiadores e
museólogos. A divisão da obra em três capítulos, intitulados 'Modernidade e progresso', 'A cidade', e 'A
casa', foi orientada pela preocupação em construir o contexto histórico-social do período em que os
efeitos da utilização da energia elétrica se fizeram sentir no cotidiano dos principais centros urbanos da
sociedade brasileira. Dentro dessa perspectiva, são analisados os aspectos do cotidiano que abrangem os
espaços público e privado, os hábitos e práticas sociais relacionados à vida material, e a relação entre a
produção e o consumo de objetos. O primeiro capítulo introduz o leitor no cenário da modernidade que se
anuncia mundialmente a partir de finais do século XIX, com as transformações científico-tecnológicas
promovidas em decorrência da chamada segunda revolução industrial, quando foram criadas novas formas
e fontes de produção de energia.

• Todos os sites com acesso entre 25 e 30 de maio de 2010

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702002000300012

http://www.novafisica.net/conteudo/cont-3-geracao1.htm

http://super.abril.com.br/superarquivo/1989/conteudo_111544.shtml

http://www.humanitates.ucb.br/2/sofrimento.htm

http://eternosaprendizes.com/2008/10/07/a-terra-vista-do-espaco-a-noite/

http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/revolucao-industrial/revolucao-industrial.php

http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/historia-da-eletricidade/historia-da-eletricidade-2.php

http://super.abril.com.br/superarquivo/1999/conteudo_117980.shtml

http://vsites.unb.br/iq/kleber/EaD/Eletromagnetismo/LeiCoulomb/LeiCoulomb.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Georg_Simon_Ohm

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