JOÃO HENRIQUE DA SILVA

A INDISCIPLINA E A VIOLÊNCIA ESCOLAR: UMA PERSPECTIVA PEDAGÓGICA E JURÍDICA PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

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SÃO PAULO 2010 JOÃO HENRIQUE DA SILVA

A INDISCIPLINA E A VIOLÊNCIA ESCOLAR: UMA PERSPECTIVA PEDAGÓGICA E JURÍDICA PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Claretiano para obtenção do título de Especialista em Direito Educacional. Orientador: Professor Mestre Carlos Alberto Marinheiro.

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SÃO PAULO 2010 JOÃO HENRIQUE DA SILVA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Claretiano para obtenção do título de Especialista em Direito Educacional. Orientador: Professor Mestre Carlos Alberto Marinheiro.

A INDISCIPLINA E A VIOLÊNCIA ESCOLAR: UMA PERSPECTIVA PEDAGÓGICA E JURÍDICA PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

Orientador: Professor Mestre Carlos Alberto Marinheiro. Examinadora: Professora Doutora Aparecida Dinalli

DEDICATÓRIA . 04 de dezembro de 2010.4 São Paulo.

que me compreenderam e motivaram a lutar sempre pela concretização dos meus objetivos. AGRADECIMENTOS Agradeço ao meu orientador. a compreensão e o estímulo da Luiza Andreotti. Sua presença amiga confortou-me e direcionou-me para o amadurecimento profissional. Ms. Carlos Alberto Marinheiro. . Também agradeço à Escola Estadual “Presidente Bernardes”.5 Dedico este trabalho ao meu amigo Adriano São João que me abriu as portas para o saber e o desenvolvimento deste trabalho. Agradeço a minha família. que me fez acordar para o trabalho árduo e sério de professor. pois me ensinou que educar é vocação. possibilitando desenvolvê-lo com seriedade e responsabilidade. Demonstraram que a árdua tarefa de educar é dignificante. Sou grato ao meu amigo Luiz Henrique que me compreendeu nos momentos mais complicados na minha vida. que me guiou no desenvolvimento deste trabalho. Agradeço também a paciência. principalmente no desenvolvimento deste trabalho. minha mãe que sempre me incentivou para prosseguir meus estudos. como fonte de valores. Mesmo sem estudo. além de me motivar no desejo da busca pela sabedoria. agradeço aos meus amigos professores. que me ajudou a caminhar nos trilhos difíceis da vida. Sou grato a Deus. sua experiência de vida apontou-me caminhos para o desenvolvimento integral como ser humano. que contribuíram para o desenvolvimento profissional e o despertar para o ato de educar comprometido com o bem comum. em especial. Inclusive. É um ofício digno para colaborar com o desenvolvimento de todos os seres humanos. À Escola Estadual “Vinícius Meyer” e à Escola Estadual “Virgília Paschoal”. Prof.

sou grato à vida. EPÍGRAFE A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e.6 E. com tal gesto. O ato de ensinar contribui para o próprio desenvolvimento como ser humano. A educação é. por me ensinar que o trabalho de professor é mais do que “ganhar um pão a cada dia”. também. salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda de novos e dos jovens. por fim. onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos. Inclusive me mostrou que o exercício da cidadania deve estar presente em todos os momentos da nossa vida. Trata-se de amadurecimento enquanto pessoa em vista da formação de outros seres humanos. e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de .

a educação exige uma leitura jurídica da solução dos problemas . qualificar para o trabalho e para o exercício da cidadania. porém. preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum.7 empreender alguma coisa nova e imprevista para nós. Há um grande esforço de entender o seu papel na conjuntura atual. Urge. 1992. É por meio dos conflitos que é possível propor valores democráticos e cidadãos para o desenvolvimento da personalidade humana. o direito à educação. ela tem sido objeto de reflexão constante nos mais diversos segmentos da sociedade brasileira. Diversas leituras interpretam e receitam os remédios necessários para superar este obstáculo no espaço escolar. Atualmente. (ARENDT. gestão. Um dos problemas que mais tem chamado a atenção dos estudiosos diz respeito à indisciplina e à violência. Diante desse universo de respostas para resolver este problema. porque é a partir da garantia deles que a cidadania é consolidada. Por isso. destaca-se a idéia de que uma postura pedagógica e jurídica deve estar presente nas escolas para remodelar sua organização. É por meio deles que é possível mudar o caráter de uma educação fechada em si mesma para uma mais aberta a todas as pessoas. em especial. deve-se entender o que é o direito humano e. didática e envolvimento com a família e a sociedade. exigindo assim um repensar as posturas pedagógicas. p. Além disso. que é formar cidadãos. Antes. consideradas como obstáculos sérios para o desenvolvimento de uma educação com qualidade. 247). A cidadania pode ser conquistada através da resolução dos problemas escolares. jurídicas e políticas. Tais problemas estão presentes nas mais diversas escolas do país e do mundo. é imprescindível que a pedagogia e a juridicidade se reorganizem e resgatem a verdadeira essência da sua presença na instituição escolar. concretizar as suas finalidades. RESUMO A educação escolar é uma instituição fundamental para o desenvolvimento da sociedade. contribuindo assim para a remodelação das práticas pedagógicas e jurídicas. então.

. cabe ao Direito e à Escola demonstrarem como é que podem ajudar na resolução de tais problemas. então é fundamental que a perspectiva jurídica para a solução do ato infracional esteja na presente na escola. em especial. Cidadania. não deixam de se enriquecer entre si e impulsionar a educação para uma ação mais digna e nobre. ajudando a superar os conflitos através das leis que ajudam a guiar as relações sociais. E ainda demonstrar quais são os caminhos pedagógicos coerentes com a missão da escola. compreendendo-se como um crime que repercute no campo penal.8 disciplinares. a perspectiva jurídica e pedagógica são elos indissociáveis na prática educativa em vista da formação do ser humano e do cidadão. a indisciplina. Em seguida. da violência escolar porque ela na legislação ganha o significado de ato infracional. porque esta é a tarefa essencial da pedagogia escolar. é importante ter presente o que a pedagogia da escola entende como indisciplina e violência escolar e. Portanto. Palavras-Chave: Indisciplina e Violência escolar. uma vez que a escola é um locus propício à formação humana. principalmente. visando à realização da cidadania. Direitos. Apesar de suas peculiaridades. Perspectiva Jurídica. contribui para a qualificação do seu serviço. uma vez que a violência escolar deve ser tratada no fórum do direito. Perspectiva Pedagógica. A instituição escolar. Se o Direito é a instância necessária para a legitimação dos direitos. Posteriormente. amparada pelo direito.

1 A resposta da Educação em conformidade com o tempo 3 1 3 3 3. ATO INFRACIONAL: UMA PERSPECTIVA JURÍDICA NA EDUCAÇÃO 2. A PERSPECTIVA PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO 3.2 A EDUCAÇÃO: À ESCUTA DE SI MESMO 3.1.1 A educação “bancária” 3.2.1 OS DIREITOS HUMANOS: UM FUNDAMENTO PARA UMA VIDA DIGNA 5 1.3 LEITURA SOCIAL DO ATO INFRACIONAL 3 5 5 8 5 9 3.2 O DIREITO E A CRIANÇA E O ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI 5 2.2.9 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 1.2 A educação “problematizadora” . 7 0 7 4 9 1 9 1 9 3 3.1 A Educação e suas concepções 3.1.1 A EDUCAÇÃO: À ESCUTA DO TEMPO.2. A PERSPECTIVA JURÍDICA NA EDUCAÇÃO 1.1.1 O DIREITO E A EDUCAÇÃO NA VIDA ESCOLAR 2 2.2 DIREITO À EDUCAÇÃO: EM BUSCA DA REALIZAÇÃO DA DIGNIDADE HUMANA 0 2 1 1 0 1 4 2.

2. A PERSPECTIVA JURÍDICA NA EDUCAÇÃO PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA 9 8 4.1 A PERSPECTIVA PEDAGÓGICA E A CIDADANIA 5.2 Respostas para o dilema da indisciplina e violência escolar 9 4 4.1.1.1.3 Formação Ética no espaço escolar 5.10 3.1. O QUE É SER CIDADÃO? 10 0 4.1.1 O Regimento Interno 10 9 5.2.2 O Projeto Político-Pedagógico 5.2 A PERSPECTIVA JURÍDICA E A CIDADANIA 10 9 4.4 Articulando ações possíveis na escola CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 11 8 11 9 12 9 13 3 13 9 14 7 15 0 . A PERSPECTIVA PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO 11 7 PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA 5.1 O Contrato Pedagógico e as Assembleias de Classe 5.

. considerado como um direito social indispensável para a conquista de verdadeiro e pleno exercício da cidadania humana. a política. a economia e as tecnologias se transformaram rapidamente. professores e gestores até agora não conseguiram resolver de modo adequado ou satisfatório. Dentre os direitos. bem como demonstrar que a indisciplina e a violência são problemas que pais. gerando também problemas para a própria sociedade. familiar e com a sociedade. Entretanto. social e cultural do Brasil. merece destaque o da educação. A desigualdade social é uma conseqüência drástica de uma economia que quer se desenvolver às custas da exploração do outro. a desigualdade social e a crise da autoridade provocam comportamentos inadequados.11 INTRODUÇÃO O século XXI é o início de um novo período histórico. Pelo fato de a instituição escolar estar articulada com a instituição política. O Estado Social Democrático procura garantir todos os direitos inerentes à condição humana. Em vista disso. As instituições familiares e educativas têm o dever de se preocupar com a educação dos seus filhos e alunos. O transporte. O mundo globalizado alterou significativamente as estruturas das relações sociais. O presente Trabalho de Conclusão de Curso procurará desenvolver uma reflexão sobre os problemas atuais que afetam a realidade educacional. interdependentes e universais para a realização humana. a ciência. acelerando a vida de todo e qualquer indivíduo. a Constituição Federal da República Federativa Brasileira de 1988 apresenta os direitos fundamentais do cidadão como garantias indispensáveis. econômica. ela enfrenta atualmente um obstáculo que precisa ser superado: a indisciplina e a violência escolar (ou ato infracional). para que o cidadão tenha uma vida digna. A política neoliberal redesenhou a situação política.

o comportamento dos professores diante os problemas no espaço escolar. a elaboração de uma reflexão sobre a construção da cidadania por meio da perspectiva pedagógica e jurídica. relação entre perspectiva pedagógica e a indisciplina e a violência escolar. portanto. separada da realidade. a indisciplina e a violência escolar no espaço escolar. o exercício da cidadania através da perspectiva pedagógica. muitas vezes. por último. intelectual e afetiva do aluno. Tendo presente esses elementos.12 respectivamente. conceitualização e delimitação do termo indisciplina e violência escolar. . levando em consideração a dimensão física. a escola tem a função de compreendê-la como um ponto de partida para a construção da cidadania. principalmente na superação dos seus conflitos e na consolidação da cidadania. esse Trabalho de Conclusão de Curso desenvolverá os seguintes pontos: a educação e seus obstáculos no século XXI. Assim. Para atingir esse objetivo. o trabalho buscará mostrar que a escola precisa repensar o modo como vem lidando com o problema da indisciplina e violência. a contribuição do ordenamento jurídico para o exercício da cidadania. o objeto deste Trabalho é refletir como que a perspectiva jurídica e a pedagógica podem cumprir seu papel no espaço escolar. analisar a indisciplina e a violência escolar e as perspectivas pedagógicas e jurídicas que podem usadas para a construção de um exercício da cidadania. e. uma vez que a educação permanece. porém não conseguem realizar uma educação crítica e cidadã. A indisciplina e a violência escolar são situações que exigem uma reflexão crítica e séria sobre os procedimentos tomados pela escola e pelos pais. Por isso. Este estudo visa. a finalidade das normas jurídicas no ambiente escolar. caso contrário não será capaz de desenvolver uma educação que realmente ajude na transformação dos educandos.

econômicos. a violência e as perspectivas pedagógicas e jurídicas relacionadas à educação. O terceiro capítulo refletirá sobre a influência da conjuntura atual nas estruturas sociais. principalmente. políticos e filosóficos pelos quais a escola passa e que influenciam significativamente na convivência escolar e no desenvolvimento da aprendizagem. este trabalho procurará mostrar como que as leis são imprescindíveis para a aplicação de regras e normas. O segundo capítulo analisará especificamente como que a perspectiva jurídica pode ajudar a solucionar os problemas da indisciplina e da violência escolar. este trabalho buscará entender como os fenômenos da indisciplina e da violência afetam o espaço escolar. culturais. O ponto de partida da reflexão será a perspectiva jurídica. . Por fim. será possível estudar os dois elementos importantes desta pesquisa: os problemas sociais.13 Através de um levantamento bibliográfico sobre a indisciplina. O primeiro capítulo tratará dos direitos humanos. entre eles a indisciplina. principalmente. bem como a formação para a cidadania. a escolar. na resolução do ato infracional. frustração e imposição. tendo em vista que o ordenamento jurídico é um instrumento de formação para a cidadania. analisará o papel da pedagogia que deve resolver os problemas da indisciplina e redirecioná-los para a formação da cidadania. e como redirecioná-los para uma formação humana mais sólida e cidadã. que é foco constante de crítica. considerada como a base para que a escola assente suas decisões de maneira democrática e justa. do direito à educação. não para subserviência ou atitude passiva na sociedade. demonstrando seu valor e sua necessidade para a efetivação no espaço escolar. e a dificuldade que as escolas possuem em compreender o que é a indisciplina e o ato infracional. Em seguida. principalmente. Tendo presente essa perspectiva. e o modo como a instituição escolar compreende os problemas disciplinares.

não porque pune. harmonia. mas porque realimenta a sua função na instituição escolar com objetivo essencial de formar seres cidadãos. compreensão e solidariedade. este Trabalho de Conclusão de Curso tem por finalidade mostrar que o direito e a pedagogia são duas molas propulsoras para a solução dos problemas no espaço escolar.14 O quarto capítulo estudará como o direito no espaço escolar pode mudar o caráter de uma escola “bancária” para uma instituição que respeita realmente os direitos humanos. procurando ressignificar a sua missão. reencantar o seu modo de atuação nos conflitos internos para realizar a cidadania. E o quinto capítulo delimitará as diversas tarefas que a perspectiva pedagógica deve resgatar na educação. Portanto. . além de estabelecer um Regimento Interno que favoreça o clima de união. transformadores da realidade.

às pessoas imputáveis. reflete-se neste capítulo a importância dos direitos na vida social. que são. os maiores de 18 anos. Diante dessa caracterização. é importante reconhecer que os fatos da indisciplina e da violência escolar devem ser pensados como um confronto à realização destes direitos. Então. no Brasil. A estes. tem cabimento a . como gênero. para efeito da respectiva pena. Para compreender a indisciplina e a violência é necessário levar em consideração que os educandos são iguais a todo o ser humano. 11). para perceber como são legitimados estes direitos no momento de solucionar conflitos. em especial. (DELORS. da liberdade e da justiça social.15 CAPÍTULO I A PERSPECTIVA JURÍDICA NA EDUCAÇÃO A educação surge como um trunfo indispensável à humanidade na sua construção dos ideais da paz. sob a perspectiva pedagógica e jurídica em vista da construção da cidadania. quando incidirem em determinado preceito criminal ou contravencional. Demonstra que os direitos são indispensáveis para superar a precariedade da vida do homem. além de possibilitar reaver aquilo que é pertencente aos seres humanos. em regra. 2001. p. Trata-se 1 “A infração penal. uma vez que tanto os alunos quanto os próprios profissionais da educação não contribuíram para a efetivação destes direitos. Tais reflexões possibilitam iniciar o assunto temático deste Trabalho de Conclusão de Curso que aborda a questão da indisciplina e violência escolar. A reflexão que se procura desenvolver neste primeiro capítulo tem o objetivo de apresentar as noções gerais sobre os direitos humanos e sua importância na educação. o ato infracional1. A criança e o adolescente são também sujeitos de direitos. o qual será estudado no segundo capítulo. só pode ser atribuída. no sistema jurídico nacional. das espécies crime ou delito e contravenção. bem como na educação.

361. (CASTRO. ed. mas de uma entidade jurídica a encerrar a idéia de que o tratamento a ser deferido ao seu agente é próprio e específico.. a pós-modernidade pode ser caracterizada por: uma nova ordem de mundo e uma nova “constelação de valores” e condições de vida (2009. 640-641. na acepção técnico-jurídica. São Paulo: Atlas. Uma nova condição de vida devido à globalização que. Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado: Comentários Jurídicos e Sociais. significa a concorrência das informações com o conhecimento sistemático.1 OS DIREITOS HUMANOS: UM FUNDAMENTO PARA UMA VIDA DIGNA O ser humano vive num período complexo. O período histórico atual é denominado de pós-modernidade. por se tratar simplesmente de uma realidade diversa. Não se cuida de uma ficção. foi denominada por McLuhan de “aldeia global” que. Curso de Filosofia do Direito. as instituições passam por profundas mudanças. padrões e valores de modo intenso. a qual sofre interferências significativas nas suas relações jurídicas com o Estado. a conduta do seu agente não configura uma ou outra daquelas modalidades de infração. políticos. . Da Prática do Ato Infracional. a conduta descrita como crime ou contravenção penal.16 agora de um olhar humano para a realização daquilo que torna os educando mais humanos: os direitos. Napoleão X. Segundo Bittar e Almeida2. Ele se depara com um mundo neoliberal marcado por dificuldades. p. respectiva sanção. só pela circunstância de sua idade. In CURY. mas. Guilherme Assis de. AMARANTE. 1. O desajuste existe. por sua vez. Isso também afeta a instituição educativa. 2007. principalmente no aspecto jurídico. ALMEIDA. sociais e culturais que influenciam e determinam a vida de cada ser humano. simples ato infracional. Cf. na linguagem do legislador. injustiças e obstáculos. caracterizado por mudanças rápidas e contínuas. São Paulo: Malheiros. 2 Cf. Abaixo daquela idade. 7.). mas. p. Munir (Coord. 640641). Atualizada por Maria Júlia Kaial Cury. p. p. grifo nosso). Eduardo C. Desse modo. 199). 2009. 2008. 2008. não constitui como crime ou contravenção. Trata-se de uma fase de avanços tecnológicos. B. ed. 9. financeiros. entendida no sentido cultural. In: CURY. propiciando nesta interação humana circulações de informações. BITTAR.” (AMARANTE.

de seus abusos e de sua obsolescência” (BITTAR. A sua aplicação teórica acontece inicialmente através de leis escritas. (FERRAZ JÚNIOR. Essa . Destarte.17 Além disso. Mas como as práticas jurídicas não são efetivadas com justiça. p. p. Através dela organiza-se e fundamenta todas as ações que buscam efetivar um Estado Democrático de Direito. p. 2003. através de técnicas de controle e dominação implementar medidas que desumanizam a vida humana. ao menos paulatina e parcial que se projeta sobre as práticas jurídicas” (BITTAR. 1971. Seus princípios e objetivos almejam uma vida digna. o Direito protege o homem do poder arbitrário. 2009. 643). 31-32). 47. 2003. senão radical. um modo de pensar e abordar as instituições humanas em termos ideais. Ao estabelecer regras para organizar a sociedade. o direito estabelece normas para guiar a conduta humana e orientá-lo para uma vida saudável na convivência com os demais. Ela também é uma das mais completas e ricas em instrumentos de direitos para garantir a eficácia do Estado Social que se fundamenta no Estado de Direito. porque “traz consigo uma mudança. (ARNOLD. “está em curso um revisionismo das insuficiências da modernidade jurídica. Contudo. ALMEIDA. salvando-o da maioria caótica e do tirano ditatorial. no caso. Também busca equalizar as relações sociais para realizar a justiça. uma vez que a lei ou o direito existe para regular a vida humana. pode ser um instrumento de manipulação e alienação. A lei escrita maior de um país. apud FERRAZ JÚNIOR. p. 2009. o Brasil. a pós-modernidade contribui para profundas transformações na vida social. O Direito refere-se à certa atitude. 31). 642). ALMEIDA. exercido à margem de toda regulamentação. Consiste na exigência de que as instituições sociais coloquem em prática certos princípios que não dependem da existência humana. é a Constituição Federativa que pode ser chamada de Carta Magna ou Carta Política. p. Por meio dele a sociedade se desenvolve e progride.

uma Constituição do Estado Social. p. com a visão do largo e ambicioso espaço jurídico onde ela traçou a esperança de conciliar. 2) Os direitos e garantias previstos na Constituição que não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados ou dos tratados internacional pelas quais a República Federativa do Brasil faz parte. p. a Constituição de 1988 é fundamentalmente. Vicente. de agir em conformidade com a norma garantidora de seus fins e interesses. Ao passo que o direito subjetivo é a “faculdade concebida aos indivíduos. O direito e a vida dos direitos.. (BONAVIDES. a fim de garantir aos indivíduos e à comunhão social a consecução de seus fins”. 4) E a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito. em muitas das suas dimensões essenciais. lhes for devido”. na forma da lei. 553-554). singulares ou coletivas de procederem segundo o seu preceito. de cerca de 200 leis complementares e ordinárias. Essas são as garantias fundamentais do direito objetivo e de direito subjetivo3 que perpassam a nova Constituição do Brasil. Inclusive. O direito positivo é o “conjunto sistemático de normas destinadas a disciplinar a conduta dos homens na convivência social. 2008. ed. 215-216). os problemas constitucionais referentes às relações de poderes e exercícios de direitos subjetivos têm que ser examinados e também resolvidos à luz dos conceitos derivados daquela modalidade de 3 O direito objetivo e subjetivo estão relacionados com o direito positivo. RAO. 3) As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata. 102: a argüição de descumprimento de preceito fundamental decorrente desta Constituição será apreciada pelo Supremo Tribunal Federal. bem como de exigir de outrem aquilo que.. 215).18 característica manifesta-se por causa de quatro regras básicas de máxima amplitude que têm como função alicerçar o Estado de Direito: 1) ação de descumprimento de preceito constitucional que se encontra no parágrafo 1° do art. . Assim. por força da mesma norma. 2004. Só que o direito positivo tem uma distinção fundamental entre a norma considerada em si e a faculdade que ela confere às pessoas. entre a norma que disciplina a ação (norma agendi) e a faculdade de agir de conformidade com o que ela dispõe (facultas agendi). na suas relações externas e feitas valer pela autoridade do Estado. ou seja. p.]” (RAO. em termos de eficácia normativa. de modo formal e material. asseguradas pela proteção-coerção a cargo o Estado [. 6. 2004. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2004. 553). das quais pouco mais da metade foram aprovadas pelo Congresso Nacional. direito objetivo refere-se ao “complexo de normas gerais imposta às ações humanas. (RAO. Cf. dependendo. Ela contém 250 artigos acrescidos de um Ato das Disposições Constitucionais Transitórias com 83 artigos. Dessa forma. (BONAVIDES. os princípios do Estado social com os do Estado de Direito. 2008. p.

2010). à segurança e à propriedade”. São pessoas que possuem direitos relacionados intrinsecamente com os ideais revolucionários: a liberdade. Este artigo significa o “conjunto de normas pertinentes à organização do poder. ao exercício da autoridade. . 569). p. no Artigo 5° prescreve: “Todos são iguais perante a lei. p. O direito de fraternidade diz respeito ao “direito ao desenvolvimento. o Brasil precisou estabelecer direitos e garantias fundamentais para que se firmasse a ideia de um Estado que busque o bem comum. é um direito protetivo. (HORTA. O direito da igualdade se refere “aos direitos sociais. Tais ideais são princípios de direito. tanto individuais como sociais” (BONAVIDES. à forma de governo. (BONAVIDES. aos direitos da pessoa humana. 184). cujo objetivo é a proteção dos direitos individuais e coletivos da pessoa humana. o direito ao meio ambiente. 564). o direito à paz. 616). sem distinção de qualquer natureza. p. em busca da preservação da dignidade humana. 2008. 80). Na verdade. ALMEIDA. 563). pois protege os direitos do homem (BITTAR. 2004). p. E o direito à liberdade concerne aos direitos civis e políticos. 2008. o direito de propriedade sobre o patrimônio comum da humanidade e o direito de comunicação” (BONAVIDES. protegendo-a de lesões ou violações. culturais e econômicos bem como os direitos coletivos ou de coletividades” (BONAVIDES. Também “efetiva o princípio geral do reconhecimento de todos os seres humanos como pessoas e dá consequência jurídica a esse reconhecimento” (HERKENHOFF. 2009. (POZZOBON. Em decorrência disso.19 ordenamento. à distribuição da competência. 2008. 2008. p. este artigo garante todos os direitos consagrados na Constituição. Por isso. Também consiste em direitos fundamentais. 2007. à igualdade. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País. à liberdade. Assim. a igualdade e a fraternidade. p. a inviolabilidade do direito à vida.

2006.” . IV . sem distinção de raça.garantir o desenvolvimento nacional. III . p. tendo como meta a igualização de condições de vida assimétricas. justa e solidária. III . o lazer. 4 De acordo com a Constituição Federal. em vez de realizar barbaridades na vida social.. p. sem preconceitos de origem. Tais políticas têm como foco a redistribuição de bens numa sociedade. Os objetivos são: “Art.promover o bem de todos.. a saúde. Nessa igualização de condições. Inciso III). (HADDAD. a proteção à maternidade e à infância. pois todos são iguais perante a lei. um modo de estabelecer a igualdade e a justiça no cenário brasileiro.” Complementando tais fundamentos é importante que se estabeleça os objetivos desta república que estão relacionados intimamente na busca do bem comum.].]. Assim. 2007.construir uma sociedade livre. 3° [. I . nacionalidade. a moradia. GRACIANO. IV .a cidadania. 185). idade e quaisquer outras formas de discriminação. cor. o trabalho. II . A dignidade também é garantida no artigo 6° da Constituição Brasileira que reza: “São direitos sociais a educação. Aliás. raça.os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.a soberania. direitos de créditos diante do Estado que demandam direcionamento dos governos para o cumprimento de necessidades sociais através do desenvolvimento de políticas públicas.a dignidade da pessoa humana. V . como meio de realizar a dignidade na vida humana. I .20 Esses direitos são valores-fonte que complementam outros direitos (HORTA. São direitos que objetivam a dignidade. a segurança. a dignidade é um fundamento do Estado4 (Art. o Estado Democrático de Direito do Brasil tem como fundamentos: “Art. 131). 1° [. sexo.. a previdência social. a assistência aos desamparados. na forma desta Constituição”. profissão. todos devem ter seus direitos garantidos e legitimados para que a dignidade seja resgatada. 1.o pluralismo político. cor. II .erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais. destaca-se para o estudo deste Trabalho de Conclusão de Curso o direito social à educação. São assim.. sexo.

“a educação surge como um trunfo indispensável à humanidade na sua construção dos ideais da paz. 1996. 52). 5 6 DELORS. as opressões. Garantir a educação é dar o substrato para que o indivíduo legitime os seus direitos e realize a dignidade humana. . 11). A sociedade contemporânea civilizada é uma sociedade essencialmente estruturada na educação. E mais: a Constituição que não privilegia esse direito e não instrumentaliza os seus titulares para fruí-lo. Educação: um tesouro a descobrir. Joaquim Carlos. 11. p. (1996. bem maior objeto de tutela pelos denominados direitos fundamentais. Belo Horizonte. as incompreensões. 2008. 6. mais autêntico. da liberdade e da justiça social” (2001. III. bem como seu desenvolvimento. São Paulo: Cortez.]” (2001. é necessário garantir a educação para propiciar a dignidade. Ela é a “via que conduz a um desenvolvimento humano mais harmonioso. grifo do autor). 82. como brota do próprio art. A questão é social por excelência. jan. da CF”. Ou seja. 2001. “A educação é a base da construção da cidadania. 210. 1°. Se a dignidade efetiva-se por meio da realização dos direitos. ed.21 1. essencial e imprescindível.2 DIREITO À EDUCAÇÃO: EM BUSCA DA REALIZAÇÃO DA DIGNIDADE HUMANA De acordo com Jacques Delors5. põe a perder toda a boa intenção do seu texto. 11). e a educação é um direito essencial que assegura demais direitos. a exclusão social. A sociedade que não cuida da educação de seus membros compromete o seu futuro e destina-se a ser dominada pelas mais desenvolvida. p. p. a educação para Joaquim Carlos Salgado7 deve ser vista da seguinte forma: A educação na sociedade contemporânea adquire importância vital para quantos dela participam. de modo a fazer recuar a pobreza. A educação é um bem natural. p. In CURY. Revista Brasileira de Estudos Políticos. n. as guerras [. atributo da dignidade da pessoa humana... Jacques. 15-69. (SOUZA. só serão possíveis pela educação. 7 SALGADO. p. e sua subsistência como tal. contribuindo assim para a construção da paz na sociedade 6. Os direitos fundamentais. p.

como os limites reais existentes para a sua concretização” (HADDAD. não diminuindo assim as possibilidades de sua efetivação. então. porém. GRACIANO. Logo. pois vive em circunstância liberal. levando-se em consideração não apenas as possibilidades jurídicas. a Constituição de 1988 traz um capítulo próprio de direitos sociais (Capítulo II do Título II) e um título sobre a Ordem Social (Título VIII). 04/2005. Eles “são mandados de otimização” (HADDAD. a Constituição Brasileira é um instrumento jurídico-normativoemancipatório.22 A Constituição perderá. 2006. GRACIANO. FDSM: N. são verdadeiras normas jurídicas e como tais devem ser consideradas” (2006. exigem-se novos métodos de interpretação judicial para a sua aplicação. permitindo que o sistema ideológico e manipulador perpetuem. (HADDAD. viola tais 8 Segundo Leandro Oliveira (2005). Na Constituição. que exigem a realização de algo ‘na maior medida possível’. muitas das normas de direitos sociais devem ser vistas como princípios “que. uma vez que esta interpretação é mecanizada. p. 2006. ela realiza-se de modo disforme. os princípios da Constituição não são cumpridos. formado por diversas normas que têm aplicação imediata.134). a educação é entendida como um direito social e torna-se uma política pública fundamental para a vida humana. Contra a barbárie: por um direito constitucional insurgente. Cf. Leandro Corrêa. . porque sua interpretação é descompromissada e a busca da transformação social não realiza seus objetivos. OLIVEIRA. p. Os princípios devem ser compreendidos como um “tipo especial de norma. que. individualista e normativista do Direito. p. sendo estes regulamentados no artigo 6°. ascética e burocrática. mas sim manipulados. dissociada de sua real função social e jurídica. apesar de apresentarem alto grau de generalidade. As regras ou normas dizem o que deve ser feito. 2006. 133). Revista do NUPE. Direcionam ações que regulam a sociedade em vista da realização de tais direitos. os direitos sociais devem ser inscritos na Ordem Social. Porém. De acordo com Eliana Teixeira (2001. p. 134). isto é. 134). ao omitir-se. 37). mas não limitam os direitos pelo fato de serem princípios. exigindo assim a intervenção do Estado na realização de políticas públicas. Para Haddad e Graciano. seu caráter cidadão e de instrumento jurídiconormativo-emancipatório8 se desconsiderar a educação como direito base para vida de todo e qualquer cidadão. p. GRACIANO. mas não realizou seu objetivo de emancipar. Inclusive. que propicia uma desumanização dos seus objetivos e funções.

sendo assim acionável e exigível (Art. Mariângela. 2006. p. 208. 9 De acordo com Haddad e Graciano. (TEIXEIRA. 17. “o reconhecimento dos direitos sociais contribuiu para que se operasse uma profunda alteração no discurso vigente sobre a natureza dos direitos humanos. conforme dispõe o artigo 5°. VII. Não há nada pior em um Estado social do que a omissão dos poderes públicos no tocante à realização das políticas públicas constitucionalmente delineadas. como direito social. tendo por objetivo atender os interesses desta. órgão incumbido de apreciá-las. que afeta a integridade do sistema e. Os direitos sociais consistem em “[. sendo promovida e incentivada com a colaboração de todos (Art. Esse dispositivo constitucional possui um caráter bifronte. É um direito para toda a sociedade que.143-144). como tal. mas também da família. 2008.. por meio de sua organização e em prol de seus interesses. GRACIANO. GRACIANO.23 direitos e que. grifo do autor). HADDAD. 205 da CF/88). p. deve ser levada ao Judiciário. 101). Trata-se de uma lesão de direitos extremamente grave. 100-101). porque há a garantia do direito de exigir a prestação estatal e um dever da sociedade para contribuir com o desenvolvimento da educação. “pela primeira vez na história brasileira. (HADDAD. 2001. tendo como meta a igualização de condições de vida assimétricas” (2006. § 1º). e a sua proteção é dever da família. Tais políticas têm como foco a redistribuição de bens numa sociedade. 2001. GRACIANO. p. 2001. (HADDAD. 2006. é um direito assegurado e que deve ser exigido. 10 Um dever presente na Constituição Federal de 1988 que. Ou seja. p. 2006. Com isso. Uma violação que não pode acontecer diz respeito ao direito à educação que. Sérgio.] direitos de créditos diante do Estado que demandam direcionamento dos governos para o cumprimento de necessidades sociais através do desenvolvimento de políticas públicas. Desta maneira. esse direito é um direito público subjetivo. (TEIXEIRA. no caso de se referirem aos direitos sociais. criou o Estado como organismo forte. In CURY. aborda a questão da criança como prioridade absoluta. um papel de prestador de serviços na área de educação. 131). São Paulo: Ação Educativa. p. que acentuava seu caráter meramente individual”. p. O direito à educação é um dever do Estado10. . Cf. 38). da sociedade e do Estado” (AMARAL E SILVA. mas também um direito subjetivo. o Estado assume uma postura intervencionista. inciso XXXV da Constituição Federal.. Inclusive. A educação entre direitos humanos. é uma conquista. pois nem sempre esteve presente como um direito social nas constituições anteriores9. possuem um caráter coletivo. (TEIXEIRA. 145). p.

(2006. o direito público subjetivo consiste no [. Daí a necessidade de os dispositivos constitucionais buscarem legitimar a educação como um direito social. o direito de exigir coativamente. ou seja. no mundo pós-moderno. já que a educação é a alma da democracia. na falta de cumprimento da obrigação. O Estado. em especial.. de igualdade e de justiça para todo e qualquer ser humano. quando se percebe a necessidade de reconhecer os direitos dos homens que foram violados e barbarizados pelos próprios homens no decorrer do desenvolvimento da história humana. porque é “do desenvolvimento da educação que todos os demais anseios da sociedade serão resolvidos. nessa circunstância. em juízo ou fora dele. fazer ou não fazer algo em benefício de um particular. tem contra o devedor uma pretensão. Sem ela. Dada a sua importância. Dá o suporte para que o indivíduo desenvolva suas potencialidades e humanize-se. p. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (Art. O titular. 150). Sendo um direito público subjetivo. p. a educação torna-se o instrumento integrador. Neste caso. contribuindo assim para o seu desenvolvimento sustentável. 127) afirmam que o reconhecimento do direito à educação encontra-se presente nos principais documentos internacionais de proteção dos direitos humanos: o Pacto Internacional dos Direitos . a educação básica busca cumprir a sua finalidade que é: “o pleno desenvolvimento da pessoa. Haddad e Graciano (2006. 133). 2001. socializador e dignificador da vida humana. 205 da CF/88). não é possível que a sociedade prospere e contribua para o desenvolvimento da humanidade.] poder público tem o dever de dar. p.. Um investimento adequado reconhece que o direito à educação é uma garantia fundamental para que se realize uma condição de vida digna. e a garantia de um Estado Democrático de Direito depende dos investimentos da educação” (TEIXEIRA. a educação foi tema debatido ao longo dos séculos.24 Para Haddad e Graciano. a prestação devida. pode ser constrangido judicialmente a executar o que deve.

para poderem assumir plenamente suas responsabilidades dentro da comunidade. Cf. constantes da Carta da Organização dos Estados Americanos. PROTOCOLO DE SAN SALVADOR. 13 A Convenção Americana dos Direitos Humanos é conhecida como Pacto de San José. Consiste na consolidação do continente americano. 10.” CONVENÇÃO AMERICANA SOBRE DIREITOS HUMANOS. na medida dos recursos disponíveis. Prescreve no artigo 26 que os Estados Partes devem se comprometer a “adotar providências. Acesso em: 31 ago. dizem que devem ser adotadas medidas especiais de proteção e assistência para todas as crianças (art. É um acordo que busca reconhecer a importância dos direitos humanos. 2010.org/dwnld/ac_apoio/legislacao/outros/pacto_internacional_2. igualdade e solidariedade. deve ser educada de acordo com os idéias da Carta das Nações Unidades. uma vez que visam a realização da igualdade. Sociais e Culturais11.” Consequentemente. Pacto de San José da Costa Rica. de um regime de liberdade pessoal e de justiça social. buscando assim. San José da Costa Rica. étnicos ou religiosos e promover as atividades em prol da manutenção da paz. dignidade. que se fundamenta no respeito aos direitos essenciais do homem.org.idh. Convenção sobre os Direitos da Criança. amor e compreensão. 14 O Pacto de San Salvador trata-se de um pacto adicional à Convenção Americana Sobre Direitos Humanos referentes aos direitos econômicos. tanto no âmbito interno como mediante cooperação internacional.onu-brasil. Por isso. Em especial. ONU. reformada pelo Protocolo de Buenos Aires. reconhece que ela. e. Disponível em: < http://www2. Convêm. liberdade. justiça e fraternidade no mundo. Ainda.org.php>. . sociais e culturais. conseguir uma subsistência digna. em San José da Costa Rica. ONU. ciência e cultura. 2010. Este pacto demonstra que os países signatários concordam com o reconhecimento da dignidade inerente a todas as pessoas e dos seus direitos iguais e inalienáveis.200-A (XXI) da Assembleia Geral das Nações Unidas. 3). pela justiça e pela paz. 2. a Convenção Americana de Direitos Humanos13 e o Protocolo de San Salvador14. Inclusive.br/doc_crianca1.htm>.org/Basicos/Portugues/e. pelo pluralismo ideológico. Disponível em: <http://www. Acesso em: 31 ago. Estabelece o reconhecimento de que os direitos são atributos de qualquer pessoa humana e é importantíssimo reconhecer a sua dignidade. especialmente econômica e técnica. 16 de dezembro de 1966. tolerância. e o Brasil tornou-se signatário desse acordo em 24 de janeiro de 1992. Acesso em: 31 ago. a fim de conseguir progressivamente a plena efetividade dos direitos que decorrem das normas econômicas. deve crescer num seio da família. dita algumas exigências que devem ser cumprida para que realize dignamente estes ideais. sociais e culturais também reconhecidos e legitimados. o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Plano Nacional da Educação (PNE). 22 de novembro de 1969.br/casdh. com espírito de paz.25 Econômicos. superar a violação constante dos direitos para legitimar uma vida coerente com princípios que humanizam a vida e ceda espaço a inclusão social e a proteção dos seus direitos. principalmente. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação representa a participação cidadã dos diferentes segmentos da sociedade civil organizada na área da educação. Cf.cidh. Acesso em: 31 ago. Sociais e Culturais. favorecer a compreensão. a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). a Constituição Federal de 1988. diretrizes gerais para garantir o direito à educação em todos os níveis da educação. Disponível em: <http://www. Cf. a Convenção sobre os Direitos da Criança12. no dia 22 de novembro de 1969. sociais e sobre educação. in verbis: “Os Estados Partes neste Protocolo convêm em que a educação deverá orientar-se para o pleno desenvolvimento da personalidade humana e do sentido de sua dignidade e deverá fortalecer o respeito pelos direitos humanos. também. demonstrando que elas são uma prioridade absoluta e merecem proteção integral. apresenta no artigo 13. pelas liberdades fundamentais. a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais.htm>.200-A. em 16 de dezembro de 1966. Resolução n. Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. no plano interno. pois foi assinada e aberta na Conferência Especializada Interamericana sobre Direitos humanos.Protocolo_de_San_Salvador.foncaije. num ambiente de felicidade. 12 A Convenção sobre os Direitos da Criança diz que a infância tem direito a cuidados e a assistência especiais. Por isso. 2010. 2. por via legislativa ou por outros meios apropriados. Sociais e Culturais. no Fórum Nacional 11 O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. As regras que se referem ao direito à educação estão prescritas no artigo 28 e 29. em que a educação deve capacitar todas as pessoas para participar efetivamente de uma sociedade democrática e pluralista. 2010. este protocolo aborda no artigo 13 o direito à educação pelo qual prescreve. bem como a necessidade da sua legitimação pelo poder público.pdf>. Disponível em: <http://www. permitindo que as pessoas possam ter seus direitos econômicos. foi adotado pela Resolução n. para desenvolver sua personalidade de modo pleno e harmonioso.

uma lei não é uma diretriz infalível e abstrata a partir da qual tudo o contexto real vai ser ordenado. gratuita. Contudo. 99-100). qualidade do acesso e permanência etc. foi aprovada e sancionada em dezembro de 1996. Suas propostas. de cada centro educativo. ela reflete os usos e costumes da sociedade que a produziu. 05-21. e apresentadas ao Congresso Nacional.394/96? (RAMAL. toda legislação é também fruto das tensões de interesses. mas não pode ser tomada como um fim em si mesma. RAMAL. Salvador: Revista de Educação CEAP. representadas por intelectuais. assim como todas as práticas pedagógicas sugeridas serão cumpridas. 9. A nova Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional. pois as bases dessa responsabilidade social não estão no seu texto. De acordo com Andre Ramal (1997) 15. Isso não ocorreu com a lei anterior (5. por um lado. Andrea Cecília.692/71). 1997). (PEREIRA. e sim na ação de cada professor. como Lei. atribuições e responsabilidades. TEIXEIRA In BRZEZINSKI. salário dos professores. uma vez que suas normas somente atingem os grandes problemas enfrentados pela educação.394. pois ela se encontra distante da realidade brasileira. ano 5. deve-se evitar um sentimento ingênuo de que. procurando trazer o ideal para o real. 17. n. Além do mais. uma vez promulgada a nova LDB. . jun. todas as reformas propostas serão realizadas. 2008. acordos e alianças envolvidos no seu processo de elaboração. após 14 anos. defendiam uma escola pública. por outro ela se propõe assumir a condição de orientadora dessa prática.26 em Defesa da Escola Pública na LDB. Se. 15 Cf. gestão escolar. tais como: carga horária. laica e de qualidade. A Lei distribui funções. de cada escola. Em razão disso. de 1997. p. As participações populares. necessita ainda de ser reformulada para corresponder às expectativas do mundo. como poderá ocorrer com a lei 9. somadas com a das escolas privadas. p. e ordena a prática social no sentido de possibilitar seu controle e sua regulação. investimento. acenando para modos de agir e de conviver que se distanciam dessa mesma prática.

p. nos últimos anos. laico. A LDB não é um texto ideal e faltam ajustes. Assim deseja ampliar o direito à educação. exige um ensino universal. como um direito público. almejando assegurar o acesso e a permanência do aluno na escola. A LDB. universal e único e obrigatório (PEREIRA. Tal processo constata-se. Eis o processo educacional: amadurecer-se e transformar-se. 2008. 101-104). 101). por meio de uma “garantia de padrão de qualidade” (art. desenvolver a personalidade e qualificá-la para o trabalho. a educação não se muda por decretos. Tal garantia contribui para que os indivíduos tenham as mesmas oportunidades que outros que estudam em escola particular. prescreve o princípio da “igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”. . coerência e igualdade para realizar democraticamente a sua função. (RAMAL. mas a partir de agora é o conjunto dessas diretrizes que vai fundamentar a ação pedagógica dos brasileiros pelos próximos anos. Possibilitar a democratização da educação é ajudar a consolidar a cidadania. pois esta lei é como a semente lançada que deve ser regada e adubada por atitudes previstas em lei para que surjam frutos. Uma educação para todos aqueles que se fundamentam no princípio republicano de igualdade de oportunidades educacionais. 2008. Nas entrelinhas dos 92 artigos escritos em linguagem jurídica podem ser encontradas as mudanças com que se sonha no cotidiano no espaço escolar. Inclusive. TEIXEIRA In BRZEZINSKI. mesmo que lentamente. A educação básica. na legitimação dos princípios de igualdade. TEIXEIRA In BRZEZINSKI. gratuito. 3°. Chegou o momento de exigi-las e ousá-las. no seu artigo 3°. destinado à formação comum.27 Aliás. mas percorrê-lo é ainda um desafio. 1997). É claro que um caminho foi trilhado. Além de outras garantias que objetivam reconhecer os direitos de todos com honestidade. dada a exclusão e marginalização cruel que ainda existe. (PEREIRA. inclusive. liberdade e fraternidade para que estabeleça um ensino público. como a questão da ampliação do direito à educação básica. IX). p.

162. Com isso existe uma concepção unificada da educação básica que enseja dar oportunidade que o aluno estude desde os 4 até os 17 anos de idade. foram estabelecidas novas prioridades para a Década da Educação no PNE 2011/2020. ao desejar priorizar a educação básica. TEIXEIRA In BRZEZINSKI. Ele deve ser resultado da discussão nas duas casas legislativas federais (Câmara e o Senado).] a ampliação do conceito de educação básica há de se refletir na integração entre os seus vários níveis – e desses necessariamente com o ensino superior -. Cada um desses níveis tem uma função social. Essa lei criou a obrigatoriedade de Estados.28 Deste modo. em 9 de janeiro de 2001. o do MEC e o da sociedade brasileira. p. de forma que o nível seguinte nunca terá o objetivo de suprir as fragilidades e/ou dificuldades ocorridas no anterior. objetivando formá-los tanto intelectualmente. Antevisto.. inclusive. 2009. [. 214 e presente na LDB no artigo 9°. 158). o governo precisou criar um Plano Nacional de Educação (PNE) por meio da Lei n°. o PNE deve ser avaliado periodicamente pelo Poder Legislativo. 2008. 105). fundamental e médio. através da Lei nº 10. 4 da LDB). Com efeito. ao efetivar o direito à educação. quando psicologicamente e afetivamente. De acordo com a lei. Eles complementam-se. levando à composição de um bloco de conhecimento e à formação de habilidades e atitudes calcadas em valores éticos e na participação. ao processo de aquisição gradativa e integralizada do saber.. Desde ano passado e no decorrer deste ano. Essa clareza é fundamental para evitar equívocos prejudiciais à formação do indivíduo. 208. de dois projetos de lei. para aqueles que não tem a idade certa (Art. CF de 88/ Art. Ele foi aprovado pelo Congresso Nacional. efetiva-se as diversas possibilidades de direitos promulgados na carta política. (LIBÂNEO. um trabalho político-pedagógico a ser desenvolvido junto aos alunos. OLIVEIRA. integram-se. Por isso. inciso I. Municípios e Distrito Federal elaborarem seus planos decenais. que é uma reavaliação do decênio do PNE . e publicado no Diário Oficial da União. é imprescindível que o indivíduo tenha o direito à educação na garantia dos diversos níveis da educação básica: infantil. o PNE é uma exigência constitucional através do Art. sendo acompanhado pela sociedade civil organizada. (PEREIRA. p.172/2001. 10. I. mas não devem ser mutuamente compensatórios. TOSCHI. uma finalidade educativa delimitada.

Com efeito. prescreve as prioridades para que seja garantido com eficácia o direito social da educação. em sentido próprio. antes. d) Valorizar os profissionais da educação. Com efeito. p. c) Ampliar o atendimento nos demais níveis desse ensino. o Plano Nacional da Educação por si só não realiza as suas metas e diretrizes necessárias. teoricamente. Ele se define. se constituiriam em estratégias para a realização dos objetivos e metas previstos no PNE. b) Garantir ensino fundamental a todos os que a ele não tiveram acesso na idade própria ou que não o concluíram. Segundo Saviani (2007). que devem obedecer aos princípios da participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola e da participação ativa da comunidade escolar e locar em conselhos escolares e equivalentes. as diretrizes e metas para cada nível e modalidade de ensino e também na formação e valorização do magistério e dos profissionais da educação. (LIBÂNEO. ele define: as diretrizes para a gestão e o financiamento da educação. b) a melhoria da qualidade de ensino em todos os níveis da educação. sendo necessário que o Plano de Desenvolvimento da Educação esteja articulado com ele para um cumprimento real dos objetivos e prioridades que devem ser legitimadas na sociedade civil. o PDE dá como pressupostos o diagnóstico e o enunciado das diretrizes. como um conjunto de ações que. Assim. e) Desenvolver os sistemas de informação e de avaliação em todos os níveis e modalidades de ensino. confrontando-se a estrutura do Plano Nacional de Educação (PNE) com a do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). que introduzir o advérbio "teoricamente" porque. Por isso. assegurando seu ingresso e permanência na escola e a conclusão desse ensino. o Plano Nacional da Educação precisa definir diretrizes para a realização das suas prioridades. as prioridades que devem reafirmar-se são: a) Garantir ensino fundamental obrigatório. 2009. 159). Ele possui os seguintes objetivos: a) a elevação global do nível de escolaridade da população brasileira. constata-se que o segundo não constitui um plano. buscando medidas necessárias para que o direito à educação seja legitimado na sociedade. Tive. o PDE não se define como uma estratégia . de fato. d) a democratização da gestão do ensino público nos estabelecimentos oficiais. Além da realização destes objetivos. OLIVEIRA. c) a redução das desigualdades sociais e regionais na questão de acesso e permanência na escola pública. Todavia. concentrando-se na proposta de mecanismos que visam à realização progressiva de metas educacionais. TOSCHI. porém.29 anterior.

portanto. . indígenas. Acesso em: 29 abr. estados e municípios. e estabelecer padrões de qualidade para cada modalidade de educação. implantar o Sistema Nacional de Educação. A singularidade do PDE. a singularidade do PDE se manifesta naquilo que ele traz de novo e que.org. ensino fundamental de nove anos e ensino médio.]. ampliar o investimento em educação pública. De acordo com o Ministro Haddad16. Retornando ao Plano Nacional da Educação 2011/2020. deve-se atentar para a singularidade do Plano de Desenvolvimento da Educação para uma melhor apreensão do seu significado e relação com o Plano Nacional da Educação. atingindo 10% do PIB até 2014. aquilo que o distingue de outras peças também ligadas ao termo "plano". Disponível em: <http://www. Trata-se da preocupação em atacar o problema qualitativo da educação básica brasileira. antes. Jornal da Ciência. implantar a escola de tempo integral na educação básica. É. constata-se que. aí. o nome "plano" evoca. Ele não parte do diagnóstico.. mais alguma coisa como o "Plano de Metas" de Juscelino Kubitschek do que a idéia dos planos educacionais como instrumentos de introdução da racionalidade na ação educativa. universalizar o atendimento público e gratuito da pré-escola. em regime de colaboração entre União. entendida esta como um processo global que articula a multiplicidade dos seus aspectos constitutivos num todo orgânico [. um negativo e outro positivo. Ainda de acordo com Saviani (2007). 29 de março de 2010. Em sentido positivo. o PDE não se configura como um Plano de Educação propriamente dito. afro-descendentes e povos do campo. isto é. na verdade. percebe-se que existem alguns desafios que são prementes e buscam a superação desse plano. Em sentido negativo.adur-rj. pode ser aferida em dois sentidos. Cumpre. tais como: extinguir o analfabetismo. não fazia parte do PNE e também não se encontrava nos planos anteriores. mas se compõe de ações que não se articulam organicamente com este.br/5com/popup/conae_2010_ministro_sugere. Assim sendo.30 para o cumprimento das metas do PNE..htm>. um programa de ação. valorizar a carreira do magistério. 2010. Conae 2010: Ministro sugere metas de qualidade no novo Plano Nacional de Educação. expandir a educação profissional. o PNE deve trabalhar prioritariamente por uma educação qualitativa através de meios de atendimento e com recursos necessários ao seu 16 SBPC. valorizar os profissionais da educação. o que se revela em três programas lançados no dia 24 de abril: o "Índice de Desenvolvimento da Educação Básica" (IDEB). das diretrizes e dos objetivos e metas constitutivos do PNE. democratizar a oferta de vagas no ensino superior. pois. examinar especificamente essa questão. garantir oportunidades para estudantes com deficiência. o "Provinha Brasil" e o "Piso do Magistério".

2003. da escola e da sociedade. os objetivos e as prioridades anteriormente vistas são aperfeiçoadas. após uma experiência frustrante da Década da Educação de 2001/2020. o segundo capítulo vai procurar demonstrar que o Estatuto da Criança e do Adolescente é outra “asa” necessária para que o indivíduo possa voar ainda mais alto rumo ao desenvolvimento integral do ser humano. busquem realizar uma educação pública. 2010). Quando os próprios conflitos. mas a realidade ainda é de exclusão e marginalização daqueles que não têm oportunidades ou daqueles que mesmo encontrando-se na escola não têm uma educação com qualidade. Portanto. Espera-se que assim. acrescentando novas prioridades para a Nova Década da Educação para o PNE 2011/2020. É necessário pensar num projeto político-pedagógico para a educação brasileira. (SBPC. Enfim. bem como da União. 34). por meio da articulação entre a sociedade civil e o governo. p. dos pais. e no qual nossas práticas pedagógicas e educacionais se constituam alternativas concretas de resistência à destruição dos direitos sociais alcançados e expressos na Constituição Federal de 1988”. Um anseio que se encontra presente também no Estatuto da Criança e do Adolescente que procura regulamentar diversos direitos e deveres das crianças e dos adolescentes.31 cumprimento. dentro do ambiente educacional. o bem comum. são resolvidos democraticamente e juridicamente. na solução dos conflitos dentro do espaço escolar. em busca de um Brasil “mais ‘civilizatório’ e menos bárbaro. Direito social da educação que ainda encontra grande entraves e obstáculos. Ele reconhece a importância de investir na educação infantil. SILVA. universalizar o ensino e valorizar os professores. fundamentado na ética e na participação democrática. principalmente. a . levando em conta a noção de que o Direito é a instituição jurídica necessária para desenvolver e regular a vida em sociedade. (VIZIM. gratuita. democrática e de qualidade para todos. diversas leis ajudam resolver efetivar o direito à educação. Por isso.

a justiça e a dignidade humana que devem deixar de ser meros ideais para se tornarem realidade. O Direito. em especial. exige sua legitimação na vida social para que se estabeleça uma harmonia na sociedade. principalmente. não valorizá-la. de desenvolvimento por razões ligadas às condições objetivas de vida. p. provocando transmutação dos valores.32 igualdade. por não terem os valores morais como centrais em sua personalidade (ou ter apenas os de caráter mais privado) e por terem o espaço de recreação prematuramente cerceado e. é necessário analisar o Estatuto da Criança e do Adolescente que oferecem significativas . Por isso. discordarem dos métodos de ensino empregado e da maneira como os professores se relacionam com eles. pelo conteúdo escolar estar aquém ou além do nível de desenvolvimento cognitivo e de aprendizagem. CAPÍTULO II ATO INFRACIONAL: UMA PERSPECTIVA JURÍDICA NA EDUCAÇÃO A indisciplina – contrariamente à visão biológica. Dessa forma. da violência escolar. impele para valores e regras que contribuem para a melhor forma possível de convivência. 2004. consequentemente. que tende a concebê-la como hiperatividade – é decorrente muito mais do fato de a criança e o adolescente não saberem o que estão fazendo na escola. 203-204). o fenômeno da indisciplina e. (SILVA. diante de um mundo pós-moderno que se muda continuamente.

a finalidade de proteger a liberdade dos cidadãos. a equidade. dos adolescentes. o direito público classifica-se em três partes: direito político. (CRETELLA JÚNIOR. mas ambas têm uma meta comum: estabelecer uma vida digna. para que se coloquem sob uma vontade única. (BOBBIO. materiais. 315). para que seja possível a proteção e ao aperfeiçoamento do homem. como parte do todo social. direito das gentes e direito cosmopolita. a posição do direito como parte da metafísica dos costumes.33 orientações para zelar pelos direitos e cumprir os deveres das crianças. Kant diz que o direito18 é um “conjunto de princípios capazes de informar uma legislação positiva”. mas que deve considerá-lo “em estado de comunhão com seus semelhantes. bem com sua teoria dos “direitos reais quase pessoais [. p.1 O DIREITO E A EDUCAÇÃO NA VIDA ESCOLAR Direito e Educação são duas ferramentas imprescindíveis regular. contribuindo para que surja o direito que pressupõe a coexistência social. ALMEIDA. personalizada no Estado. a natureza da pena. a que pertence”. Direito político refere-se ao conjunto de normas instauradas pelos seres humanos que vivem juntos. 2009. que tem por sua vez. Aliás. cada um pode usufruir da liberdade que lhe é concedida pelo direito de todos os outros de usufruir de uma liberdade igual à dele. Assim. O Direito. p. 70. criticou o instituto da escravidão. 2. Analisou a fórmula de Ulpiano [. p. p. formar e desenvolver a humanidade. expôs a doutrina dos direitos reais e dos direitos pessoais.. estudou o direito inato e os direitos adquiridos. . isto é. estabelece regras e normas para ordenar melhor a convivência entre os membros da sociedade.. 2004. em um determinado território.. (RAO. ou de sua ação sobre os bens. Possuem objetivos diferentes. porque somente onde a liberdade é limitada. a coexistência em nome da liberdade.. da sociedade e de outras instituições. 51).]”. ajuda a desenvolver o ser social do homem. de acordo com o pensador Konigsberg. o fundamento do direito de punir. 18 De acordo com Cretella Júnior (2008. Ele pode ser de dois tipos: natural ou positivo. Kant estudou na área do direito: “O estado de necessidade. 2008). apud BITTAR. O direito natural não se 17 Entender o que seja o direito necessita olhar para a realidade cotidiana pela qual percebe que “a atividade do ser humano sempre se exterioriza através de suas relações com os seus semelhantes. 147-148). investigou o sentido da posse e da propriedade. como um pacto ou acordo.17 O direito é o que possibilita a livre coexistência dos homens. dos pais. 1997.]. a liberdade de um não se transforma numa não-liberdade para os outros. que lhe proporcionam os meios de conservação e desenvolvimento”.

2007). p. Cf. dos pensamentos ou dos desejos. Por isso.34 mistura com o direito positivo. Só que o direito não tem o dever móbil. LEITE. 52-53) demonstra a importância do direito desde a concepção da vida humana: O direito ampara o ser humano desde o momento em que é concebido e enquanto ainda vive no ventre materno. mas todos são livres. a justiça e a dignidade. p. a constituição civil é uma relação de homens livres que se encontram sob leis coativas. (CRETELLA JÚNIOR. e a liberdade de todos estão em relação a uma lei universal. Petrópolis: Vozes. por isso. Também é a disciplina nas atividades externas dos seres humanos. 2007. O direito positivo é diverso entre os povos. o direito é uma ciência formal. porém. No direito. Também é a forma universal da existência de diversas liberdades individuais. É a canônica que dá origem ao direito e informa-o. 2008). de lugar. dependendo das circunstâncias de tempo. (CRETELLA JÚNIOR. de momento histórico. direito e faculdade de coagir representam a mesma coisa. Ressalta-se. regularizando as condições formais e modalidades através das quais se torna possível que as pessoas realizem seus fins e interesses individuais. os contratantes são vistos como iguais e livres. Já o direito natural19 é um só. Primeiras lições sobre Kant. Rao (2004. Kant identificou os direitos naturais com a liberdade. 145). (2009. E depois o segue e acompanha em todos os passos e 19 Segundo Nader. Isto é. pois se baseia em postulados da razão humana. Razão prática e direito. mas sim o seu aspecto formal. Aliás. visto que não é possível separar a forma do conceito jurídico (CRETELLA JÚNIOR. preocupa-se com as relações exteriores ou práticas. não dependendo da legislação externa. (LEITE. no pensamento kantiano. refletindo-se no direito positivo de cada povo. que o direito não controla as intenções do homem. p. não sendo assim uma disciplina das volições. Assim. . A coação é o instrumento pelo qual procuram anular as inclinações sensíveis que prejudiquem o uso da liberdade dos outros. T. é importante uma competência coercitiva que é a fundamentação e preservação da liberdade dos indivíduos. a liberdade. 20 O direito também se funda na condição geral que deve aceitar ao mesmo tempo a todos os arbítrios. buscando equilibrar as relações existentes20. O direito é de fundamental necessidade para que as relações estabelecidas na sociedade reafirmem os seguintes valores: o respeito. a igualdade. Tais direitos são conhecidos a priori pela razão. F. 2008). o direito não regulamenta a matéria da exteriorização dos atos arbítrios. Só que a aplicação deste direito podem se diversificar. 2008. In: ______. todas as legislações se fundamentam num mesmo conjunto de princípios. 147). não dependendo de nada. A liberdade de um ser humano é limitada por causa da liberdade de outro.

Essa educação moral contribui para desenvolver a dimensão social da criança. além do campo moral por causa do uso social das capacidades. 47-49). de grau em grau. já que a educação é um “processo civilizador . não podendo existir aquela sem este. Se a coexistência social resulta da natureza humana. E. como filho. Prevê e segue. ou seja. com a liberdade. Inclusive.. uma vez que a escola amplia a educação moral iniciada em casa. ou não fazer alguma coisa. o desenvolvimento da consciência social. (TRINDADE. é que a sociedade e direito forçosamente se pressupõe. suas relações patrimoniais. quer tenham por objeto bens corpóreos. a dimensão formativa dos valores e atitudes. fazer. p. também cria. por fim. Pode ainda ajudar a nascer um novo humanismo. a fim de dispor de referências que lhe permitam situar-se no mundo. que Deus fez à sua semelhança. Protege-lhe. 2001. quer recaiam sobre outras pessoas. com o seu nascimento. o direito decorre. seu desenvolvimento físico e mental. ou seja. Prevê e disciplina as conseqüências patrimoniais e penais da violação de seus direitos. a integridade física e moral. Ubi societas ibi jus. torna o indivíduo mais “consciente de suas raízes. De semelhante modo. devem fazer parte os conteúdos atitudinais.. o direito. p. a educação molda. contemplando o seu nascimento e. (DELORS. Por isso. a educação deve desenvolver dois tipos de conteúdos: o conteúdo conceitual (conhecimento acumulado) e procedimental (que ajuda no desenvolvimento das potencialidades e habilidades). também da natureza do homem. nubente.35 contingências de sua vida. Regula suas relações de família. Como demonstra o filósofo e educador John Dewey. perpetuando-o através de seus sucessores [. dispondo sobre sua capacidade progressiva ou sobre sua incapacidade. obrigadas a uma prestação de dar. dispõe sobre a sua morte. plasma e forma o ser humano. e um grande espaço dedicado ao conhecimento das culturas e dos valores espirituais das diferentes civilizações e ao respeito pelos mesmos para contrabalançar uma globalização em que apenas se observam aspectos econômicos ou tecnicistas”. Contempla sua qualidade de membro de grupos sociais e de membro da comunhão política. o início de sua personalidade. “com um componente ético essencial. De fato. e deve ensinar-lhe o respeito pelas outras culturas”. nem esta sem aquela. Ela ajuda na formação da capacidade de julgar. que ele. 90). parente. esposo e pai. É responsável pela edificação de um mundo mais solidário.]. bem assim. ordena e enquadra na ordem da comunhão universal. inclusive suas relações com o Estado. o direito forma e molda o ser humano. 2009. Define sua atividade profissional.

Por isso. em especial.36 de: desenvolvimento. fundamentando-se em valores e no objetivo de uma vida social mais harmoniosa. dá-se com o direito o qual ajuda a lapidar a consciência social. regras de convivência que ajudem a desenvolver a sociedade de modo justo. De modo semelhante. devem ser estabelecidas normas. 2009. este segundo capítulo irá demonstrar como que o ordenamento jurídico. de transmissão e refinamento da consciência social” (TRINDADE.069/90) que prescreve diversas normas para proteger seriamente as crianças e os adolescentes dos abusos cometidos pelo Poder Público. escola e sociedade. o direito à educação e a garantia dos demais direitos também estão presentes no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n°. Além de ela apresentar as diretrizes gerais na Constituição Federal. igualitário e fraterno. ou seja. pode ajudar a resolver os problemas na vida educacional do aluno. 90). método e gestão. preparando os indivíduos para viver civilizadamente. a educação ajuda a desenvolver essa consciência social. pois o ordenamento jurídico compreende que as . está presente também na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional que possui normas para regulamentar o Sistema Nacional de Ensino. o Estatuto da Criança e do Adolescente. justa e igualitária. Esta lei e a Carta Magna inovam em termos de conteúdo. pais. 8. p. Além disso. 2.2 O DIREITO E A CRIANÇA E O ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI O direito à educação está presente em diversas normas jurídicas internas e externas. Com efeito. moldando-o para ser um cidadão consciente e crítico do seu papel na sociedade. busca modos de resolver os problemas. mostrando que ao longo da vida.

. assim. (AMARAL E SILVA In CURY. 2005. Uma outra mudança significativa refere-se ao caráter da legislação: é para todas as crianças e adolescentes e não mais discricionária como os anteriores que legislavam para “menores em situação irregular.. procurando estabelecer como diretriz básica e única no atendimento de crianças e adolescentes a doutrina de proteção integral21. (PEREIRA. Assim reza o artigo 4° e 18° do ECA: É dever da família. das políticas assistenciais e da política de proteção especial” (In CURY. c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas. de modo definitivo. à liberdade e à convivência familiar e comunitária. 10-11). 23 De acordo com Vasconcelos. com absoluta prioridade. afirmando que a sua proteção é dever da família. Reconhecendo que há nobreza e dignidade do ser humano criança. Assim. 2008. Parágrafo único. do qual o Brasil é signatário22. à saúde. 341). à profissionalização. a Convenção Americana de Direitos Humanos e o Protocolo de San Salvador. trata-se da criança como prioridade absoluta23. 21 Proteção integral “constitui-se em expressão designativa de um sistema onde crianças e adolescentes figuram como titulares de interesses subordinantes frente à família. p. 17). a Convenção sobre os Direitos da Criança. à alimentação. destinadas a assegurar os direitos consagrados. A garantia de prioridade compreende: a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias.697. este Estatuto rompe. 17). c) institucionaliza a participação popular na elaboração. p. da comunidade. à sociedade e ao Estado” (PAULA. Neste caso. agora. incluindo as processuais. com a doutrina da situação irregular adotada pelo Código de Menores (Lei 6.37 a) crianças e os adolescentes são sujeitos de direitos e prioridade absoluta das políticas públicas e. ao lazer. apud PEREIRA. o Conselho de Direitos (democracia representativa) e o Conselho Tutelar (democracia participativa). à cultura. da sociedade em geral e do poder público assegurar. (AMARAL E SILVA In CURY. por meio de dois Conselhos. Na Carta Política. ao esporte. p. d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude. as “crianças e adolescentes são. p. [. de modo novo. p.79). b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública.10. com a participação decisiva da sociedade civil e. definição e controle das políticas públicas. b) a política de atenção a esse grupo deve-se dar a partir do concurso das três esferas da administração pública (nacional. à educação. 2002. 2004. .]. a efetivação dos direitos referentes à vida. ao respeito. portadores de todo o tipo de garantias. estadual e municipal) num todo articulado (na idéia de Rede). p. considerados sujeitos de direitos e com prioridade absoluta. à dignidade. Sociais e Culturais. de 10. 23. o legislador apresenta uma lei coerente com o texto constitucional de 1988 e documentos internacionais aprovados com amplo consenso da comunidade das nações. 2008. 2008. 25). no amplo espectro das políticas sociais básicas. 22 Veja o capítulo um que retrata a relação entre as leis internacionais e o direito educacional nos seguintes documentos: o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. da sociedade e do Estado.

moral. Art. In CURY. São Paulo. O objetivo do ECA24 é “garantir direitos de cidadania. integridade e liberdade”. violência e exploração da pessoa humana”. In CURY. direito à integridade psíquica e direito à integridade moral. 2008. 7º A criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde. 6º Na interpretação desta Lei levar-se-ão em conta os fins sociais a que ela se dirige. mental. 1992. (BIERRENBACH. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana. não discriminando ninguém.]. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência. p. p. de que são titulares de direito subjetivo a criança e ao adolescente. É dever de todos zelar pela dignidade da criança e do adolescente. assegurando-se-lhes. [. violento. Esta proteção integral consiste no conjunto de direitos que pertencem a elas pelo fato de estarem em condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. 19). In FESTER. PEREIRA. Art. Art.. violência. as exigências do bem comum. por lei ou por outros meios. discriminação. 25 “O legislador desdobrou o direito ao respeito e à dignidade. p. em condições de liberdade e de dignidade. e a condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento. do prazer e do poder para descobrir a dignidade da pessoa humana e a força do relacionamento fraterno que nasce da gratuidade do amor. reconhecida juridicamente pelo Estatuto da Criança e do Adolescente: Art. 93). sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei. a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico. Tais direitos25 são assegurados por uma política de direitos que deve articular atores e instituições responsáveis pela garantia da doutrina da proteção integral para o conjunto da população infantil e juvenil. p. 18. mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso. Como objeto do Estatuto. os direitos e deveres individuais e coletivos. solidária e capaz de vencer discriminações. Um país que aprende a valorizar a criança e a empenhar-se na sua formação manifesta sua decisão de construir uma sociedade justa. aos seus direitos fundamentais. punido na forma da lei qualquer atentado. 2005. (PEREIRA. por ação ou omissão. 2005. a lei protege a criança e o adolescente contra qualquer ofensa ilícita ou ameaça de ofensa à sua personalidade física ou moral” (MATTIA. Irandi. espiritual e social. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação. (OLIVEIRA.38 Art. todas as oportunidades e facilidades. 64). . exploração. 14) 26. 2008. estará superando a tentação do ter. as crianças e os adolescentes devem ser protegidos integralmente. aterrorizante. em três subtipos. em condições dignas de existência. pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano. vexatório ou constrangedor. 26 Cf. crueldade e opressão. Portanto.. Universidade de São Paulo. 24 “Na medida em que a sociedade brasileira praticar este Estatuto. a saber: direito à integridade física. O Adolescente em conflito com a lei e o direito à educação.

. 7°. sem nenhum tipo de discriminação. 2005. 15). 60° do Estatuto.através do princípio de proteção integral – buscam efetivar as mudanças jurídicas na legislação brasileira. 53°. 15°. difusos e coletivos da criança e do adolescente. p. 167). 19°. como meio de dignificar a vida destes seres. é necessário que sejam respeitados os seguintes eixos da política do direito: Promoção-Proteção. p. 2005. como estava presente nas legislações antecessoras do Estatuto. Assim. Defesa-Responsabilização. (PEREIRA. Dessa forma. 1516). Os direitos previstos estão presentes especificamente nos artigos 3º. Para garantir os direitos. os Códigos de Menores de 1927 e de 1979. Além da participação da Sociedade e das instituições do Sistema de Garantia de Direitos. como no caso do Poder Judiciário através do Juizado da Infância e da Juventude. implementadas e efetivadas para todos. até para aqueles que vivem em situações sócio-educativas. (PEREIRA.39 Trata-se de uma proteção de caráter positivo. 17). a luta pelo reconhecimento dos direitos fundamentais também na vida da criança e do adolescente . 2005. Tal conquista foi possível através do Movimento Social de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (MSDCA) durante a segunda metade dos anos 70 e que almejava uma melhor definição do papel e das atribuições de cada poder do Estado em relação aos direitos individuais. atualmente. pois deseja assegurar direitos que são violados constantemente pelos adultos. O Poder Judiciário ou os poderes públicos têm a obrigação de interpretar as normas constantes da ECA e de outras leis. Vigilância-Controle. 2005. resoluções ou decretos externos e internos do país. 4º. Os adultos agora devem zelar pelos direitos deles. responsabilizando .se pela garantia de proteger a criança e o adolescente. p. p. (PEREIRA. são regras que devem seres respeitadas. (PEREIRA.

Previsão jurídica do princípio de igualdade perante a lei. 7. 7-8). Diretrizes Técnicas: Prémio Sócio-Educando.40 Os direitos. devendo ser aplicada somente nos casos imprescindíveis em resposta a atos infracionais graves. aqueles prescritos no artigo 3°. O art. parágrafo único). 27. Irandi. se o crime não chega. não sendo mais admitida como medida protetiva. Eliminação dos eufemismos. 4. caso o adolescente seja autor de um ato infracional cabe medidas sócio-educativas. Incorporação dos princípios constitucionais de proteção à pessoa. 2004. 76. a determinação ou instigação e o auxílio. São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos. 28 A Carta Magna diz em seu artigo 228 que: “são penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos. s. Além destes princípios. 17-18). 29 “Art. fundamentam-se em três princípios: 1) a criança e o adolescente gozam de todos os direitos humanos garantidos à pessoa humana. 6.então. p. Art. A infância é concebida como sujeito pleno de direitos. 2005.d. São direitos que visam à consecução de uma vida digna. 8. 2730 do Código Penal estabelecem essa imputabilidade as crianças e adolescentes. é prevista a presença obrigatória de advogado e ao Ministério Público cabe a função de controle e contrapeso. 5. salvo disposição expressa em contrário. ao passo que as crianças não se aplicam tais medidas. 104. 2) este grupo etário tem direito à proteção integral pelo fato de estarem na condição de desenvolvimento. A internação somente é cabível nos casos de delito ou contravenções. em especial. (Fonte: Doc. em condições de liberdade e dignidade que os ajudarão a se desenvolver. (PEREIRA. mas medidas de proteção previstas no artigo 101. p.” . 2. independente da sua idade. não são puníveis. Definição e hierarquização da função judicial: ao juiz cabe dirimir conflitos de natureza jurídica. A situação irregular recai sobre a pessoa ou a Instituição que se omitiu de alguma forma em relação a criança e o adolescente. sujeitos às normas da legislação especial”. As legislações se destinam para o conjunto da categoria Infância e Adolescência. Por isso. Exemplo: a internação constitui-se em real medida de privação de liberdade. 11) 27: 1. 2004. PEREIRA. vê-se a necessidade de realizar os quesitos da “Nova Gramática dos Direitos da Criança e do Adolescente” (PEREIRA. sendo reconhecidos . Programas de sócio-educação aos adolescentes em conflito com a lei. 10429 da ECA e art. uma vez que são penalmente inimputáveis28. p. 3) e este grupo possui garantias de um desenvolvimento sadio e adequado. O ajuste. Maringá: UEM/PEC/PCA/CMDCA.” 30 “Casos de impunibilidade. sujeitos às medidas previstas nesta Lei. pelo menos. Essa distinção está prevista no artigo 2° da ECA: 27 Cf. 3.. a ser tentado (art. numa situação jurídica em relação aos direitos fundamentais.

p. Parágrafo único. não apenas biológico. possui a maturidade suficiente para formar sua 31 Ressalta-se que “[. como também orienta a sua prática econômica e política e a sua conduta social”. 35). 8. p. valores. a criança vá construindo uma representação social do mundo e de si própria. reconhecendo-se sua condição especial de pessoas em desenvolvimento32.. rituais e linguagem. costumes.348). (In CURY. no que concernem as fases delas. apud PEREIRA. tem importância no Estatuto. Assim. que acarretam um tratamento através de sua própria família ou na comunidade. através do qual a criança não só percebe.. (PEREIRA. 31). p. constituída por conhecimentos. a criança infratora fica sujeita às medidas de proteção previstas no art. a restrição de direitos. mas sóciopsicocultural. presentes no artigo 112. Isto ocorre porque o Estatuto considera que o adolescente. como uma fase que se desenvolve entre a infância e a idade adulta31. 2005. sem que ocorra a privação de liberdade. 20-21). a pessoa até doze anos de idade incompletos.. normas. 101. é garantido ao adolescente as garantias do devido processo legal detalhados no artigo 111. Enquanto. p. 2008. 171 e seguintes. 2005. p. compreende e julga a si própria e ao mundo. Ambos gozam dos mesmos direitos fundamentais. observando-se nos demais o procedimento dos arts. 1997. Este conjunto de significados funciona como um gabarito. Acredita a lei que. 32 Engel apresenta o que seria esse desenvolvimento vislumbrado nas entrelinhas do Estatuto: “[. e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. Nos casos expressos em lei. . mitos. crenças. Fixar a idade da criança até os doze anos incompletos explica-se pelo fato de ela encontrar-se na fase da puberdade.] adolescência é a idade na vida em que se começa a enfrentar o tempo como uma dimensão significativa e contraditória da identidade. também chamado de cultura. essa diferenciação entre criança e adolescente. De acordo com Solari (2008.. 2º Considera-se criança. que podem implicar a privação da liberdade. Esta prescrição está presente no Livro I. em determinadas situações. que formam um sistema de significados. (MELUCCI. O tratamento de suas situações é distinto quando incorrem em atos de conta descritos como delitos ou contravenções pela lei penal. o adolescente infrator pode ser submetido a um tratamento mais rigoroso chamado de medidas sócio-educativa.] a criança e o adolescente são sujeitos em condições peculiares de desenvolvimento. ao passo que para o adolescente determina a partir de doze até dezoito anos. aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade. A adolescência na qual a infância é deixada para trás e os primeiros passos são dados em direção à fase adulta. inaugura a juventude e constitui sua fase inicial”. da maturação sexual reprodutiva. ao relacionar com sua realidade (subjetiva e objetiva).41 Art. para os efeitos desta Lei. Contudo.

mas quando for necessário e estiver de acordo com a lei. . O “menor” ou adolescente e a criança possuem direito à educação. Aliás. Octacílio Sacerdote Filho33 (2010) ressalta que o ato de indisciplina (que será estudado no próximo capítulo) deve estar previsto no regimento interno da Escola.42 opinião e decidir sobre certos assuntos que o podem afetar e concernem à sua própria vida e destino. é melhor utilizar a expressão adolescente em conflito com a lei ou adolescente autor de ato infracional. 2005. 2010. por detrás. 2008. Volpi diz que o adolescente deve “tomar consciência de que existem formas mais eficientes de garantir suas necessidades básicas e de que a exigência dos seus direitos precisa acontecer de forma organizada e socialmente viável” (In CURY.seed. Assim. p. independentemente de realizar um ato indisciplinado ou um ato infracional.adolescente possui direitos que podem ampliar-se até para aqueles indivíduos que possuem 18 a 21 anos de idade. além de exigir o cumprimento dos seus deveres. p. em vez de desejar uma segregação ou exclusão ainda mais destes indivíduos.gov. 31-32). ou ainda deve ser denominado de adolescente a quem se atribua autoria de ato infracional. Mas uma categoria “menor” que não deve ser vista como inferioridade. 33 SACERDOTE FILHO./ATO_DE_INDISCIPLINA_E_ATO_INFRACIONAL.pdf>... Ato de Indisciplina e Ato Infracional. 31-34). p. 363). a etapa da adolescência é aquele período em que devem ser reconhecidos e garantidos os seus direitos. (PEREIRA. a Carta Política e a ECA apresentam que ser . que representa uma política de cuidado que objetiva zelar pela dignidade do adolescente e da criança. adolescente ou jovem referem-se a um critério legislativo que.br/. porque chamá-lo de adolescente infrator valoriza o termo infrator imprimindo assim um estigma irremovível. De acordo com o ordenamento jurídico. Disponível em: <www. Por isso.pr. (PEREIRA.nre. Para Pereira. Octacílio. apresenta a situação de que estes indivíduos são considerados como “menores”. 2005. Acesso em: 23 mar. mas como sujeitos de direitos e garantias jurídicas. Mas nunca se esquecendo do princípio da doutrina da proteção integral.

às pessoas imputáveis. Por isso. E devido ao direito à educação prevista no artigo 205 da Carta Política e do artigo 53 da Lei n°. simples ato infracional. consiste numa conduta prevista como crime ou contravenção penal. a conduta do seu agente não configura uma ou outra daquelas modalidades de infração. 2008. das espécies crime ou delito e contravenção. mas de uma entidade jurídica a encerrar a idéia de que o tratamento a ser deferido ao seu agente é próprio e específico. (SACERDOTE FILHO.069/90. d) transferência de turma. (In CURY. 630) esclarece que o ato infracional cometido através de violência ou grave ameaça são os crimes de roubo e estupro. Abaixo daquela idade. só pela circunstância de sua idade. E outras medidas podem ser tomadas com o agravamento da indisciplina. só pode ser atribuída. 361. Já o ato infracional. mas. b) advertência escrita com comunicação aos pais. que são. Amarante: A infração penal. dentro do ordenamento jurídico penal pátrio. . a suspensão representa o não comparecimento às aulas.43 onde é registrado que o aluno que não cumprir as regras deve seguir os seguintes procedimentos: . 2010). como gênero. mas deve receber os conteúdos programáticos do professor dentro do espaço escolar. Jurandir Marçura (In CURY. a conduta descrita como crime ou contravenção penal. no Brasil. Em último caso. no sistema jurídico nacional. e) transferência de turno. p. os maiores de 18 anos. desde que não prejudique o trabalho do adolescente. c) suspensão da freqüência das atividades normais da classe. O desajuste existe. grifo nosso). ou propriamente a violência. o responsável deverá ser punido de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (artigo 232). De acordo com Napoleão X. o aluno deverá mudar de turno. Não se cuida de uma ficção. mas. quando incidirem em determinado preceito criminal ou contravencional. para efeito da respectiva pena.Incumbe ao professor e ao diretor aplicar punições em casos menos graves. 8. .Tipos de punições: a) advertência verbal. (SACERDOTE FILHO. 2008. p. não constitui como crime ou contravenção. não pode proibir o aluno ao acesso à educação. por se tratar simplesmente de uma realidade diversa. em regra. 2010). A estes. Caso o aluno seja ridicularizado ou constrangido. na acepção técnico-jurídica. descritos. tem cabimento a respectiva sanção. na linguagem do legislador.

103). reduzido à impossibilidade de resistência”. In CURY. 631). Inclusive. 122. Assim. a autoridade policial não poderá liberar o adolescente. os crimes considerados graves são penas com reclusão. como sói [sic] acontecer. latrocínio e homicídio qualificado. In CURY. para ela. nos arts. gerando nas pessoas sentimento de indignação. prisão simples e/ou multa. . art. justificadora da imposição de medida de internação (cf. imperícia ou negligência do agente. os crimes leves e as contravenções penais. deve compreender por grave o ato infracional a que a lei penal comina pena de reclusão. pois esta violência surge como conseqüência da imprudência. 157 define roubo como “subtrair coisa móvel alheia. 122. Logo. ou depois de havê-la.44 respectivamente. (MARÇURA. roubo. 631-632). em regra. mas utiliza esta expressão para justificar a imposição de medida de internação (art. aliás. 157 e 213 do Código Penal34. com detenção. 2008. a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. Como o legislador fundamentouse nos conceitos de crime e contravenção penal para definir o ato infracional (art. porque neste caso a internação 34 Art. Mas o que seria grave ameaça na legislação? A lei não conceituou o que seja ato infracional grave. mediante grave ameaça ou violência a pessoa. exigindo a lei que o ato infracional tenha sido perpetrado mediante violência ou grave ameaça – circunstancia. estupro. mediante violência ou grave ameaça. por qualquer meio. I)”. Nessas hipóteses. deve-se desconsiderar a modalidade culposa. 630). sem exemplos notórios os crimes de extorsão mediante seqüestro. Nos crimes de homicídio e lesão corporal. para si ou para outrem. “não integrando os tipos penais como meio de execução. E o artigo 213 conceitua estupro como “constranger alguém. 2008. p. atentado violento ao pudor. (In CURY. devendo proceder na conformidade do art. p. (MARÇURA. Ressalte-se que o adolescente não será liberado pela autoridade policial quando se referir ao ato infracional grave e de repercussão social. II). 175. nos crimes cometidos mediante violência ou grave ameaça contra a pessoa. p. que é aquele que provoca clamor público. devese buscar na lei penal o balizamento necessário para a conceituação de ato infracional grave. existe o ato infracional de repercussão social.

gera repercussão no campo penal. p. não é todo adolescente que realizou um ato infracional que será privado de liberdade. p. as circunstâncias e a gravidade da infração. Esta repercussão no campo penal é realizada juridicamente pelo Estatuto da Criança e do Adolescente por meio dos programas de sócio-educação35 que atende aqueles adolescentes que estão em situação de conflito com a lei. 2008. é competente para conhecer da problemática e administrar as medidas específicas de proteção a todas as crianças carentes ou infratoras. Ou seja. 403). 2010). como indivíduo. 12). a ação do aluno que. 36 “O juiz da infância e da juventude tem competência para administrar privativamente as medidas de proteção aos adolescentes infratores. In CURY. 346). Todavia. 2008. 262 do Estatuto. repressivo e coercitivo” (PEREIRA. (PEREIRA. (PEREIRA. In CURY. p. tendentes a interferir no seu processo de desenvolvimento objetivando melhor compreensão da realidade e efetiva integração social. . estiver regulamentado de acordo com o Código Penal. p. 2004.45 provisória decorrente do flagrante se impõe para garantir a segurança pessoal do adolescente e a manutenção da ordem pública. receba ela medidas sócio-educativas (portanto. buscando realizar uma “política de atendimento em torno da promoção e defesa dos direitos ao contrário dos programas de caráter assistencialista. porque a medida sócio-educativa é aplicada quando se leva em conta a possibilidade do adolescente cumpri-la. não punitivas). 12). 631). no contexto da proteção integral. Como é possível perceber. mas na vida educacional todo ato praticado por um aluno dentro das dependências de um estabelecimento de ensino será considerado como um ato de indisciplina. enquanto não criados e instalados os Conselhos Tutelares”. 2004.” (MAIOR. 2004. o ato infracional tratado até agora diz respeito à vida social. para o adolescente autor de ato infracional a proposta é de que. por força do disposto no art. 35 “Então. Por outro lado. 2008. p. Este programa deve desenvolver uma educação social dos adolescentes e jovens. (MOUSNIER. atendendo-os e orientado-s através do Plano de Acompanhamento Personalizado (PAP) para o cumprimento da medida sócio-educativa que foi aplicada pelo Poder Judiciário 36 de modo eficaz e eficiente. (MARÇURA. p. (SACERDOTE FILHO. In CURY. 12). se não houver no ordenamento jurídico descrição de tal ato como um ilícito penal.

pois visa a assegurar a integridade física e moral do acusado e. 2008. além da lavratura do auto. diretamente. Só que a “decisão deverá ser fundamentada e basear-se em indícios suficientes de autoria e materialidade. 172). decorrente da inimputalibilidade”. uma vez “civilmente identificado” o adolescente. (ENGEL In CURY.] a ‘preso’ em flagrante. demonstrada a necessidade imperiosa da medida” (parágrafo único. In CURY. 108)38. entretanto.” (PRADE. 171) ou à entidade constante do mandado. quando não se confunda com a responsável pela apreensão. (PRADE. então. tratando-se de sindicado. Assim. art.. à autoridade judiciária (ECA. sem nota de culpa e lavratura do auto (salvo no caso do art.. p. 374). p. quando for “flagrante de ato infracional ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente” (art. art. o mesmo se dá com a prisão preventiva (art. antes de ser julgado (sentença judicial).] assegura-se à criança até 12 anos que comete um ato infracional a preservação de todos os direitos assegurados em lei. p. de proteção e judiciais”. 173).. de certo modo. 106). e. encaminha-se o adolescente. esta medida poderia ser pretexto para legitimar a arbitrariedade. mas quando apreendido em flagrante de ato infracional. uma vez que inexiste voz de prisão sendo apenas o adolescente conduzido à delegacia.46 [. art. sendo irrelevante tratar-se de interrogatório formal (ou informal) ou mera coleta simplificada de informações.] proveniente de ordem judicial. admitindo-se apenas para o adolescente infrator a restrição do seu direito à liberdade. A medida de privação da liberdade acontece. 108). fica assegurado o prazo máximo de 45 dias para a definição da sentença. há quem diga. Ocorrendo esta hipótese. Sabendo-se da lentidão da Justiça. 2008. 339). ininvocáveis em nível supletivo. Caso a apreensão seja “[.. 2008.. proteger a sociedade. Inclusive. Após sua apreensão. p. 301 e 311 do CPP). o alegado infrator será ouvido (ECA. 376). In CURY. art. Tudo porque se cinge ao ato físico de simples apreensão. deve ser resolvido logo este ato infracional para liberá-lo imediatamente (parágrafo único. 107). 384). Além de ter “direito à identificação dos responsáveis pela sua apreensão. preventiva. remetido é à autoridade policial competente (ECA.” (VOLPI. devendo ser informado acerca de seus direitos” (parágrafo único.. . a não ser seja 37 Este artigo não se refere “[. desde logo. Caso seja necessário aplicar a medida de internação. art. art. se houver violência ou grave ameaça à pessoa. 106 da ECA) 37. a “apreensão de qualquer adolescente e o local onde se encontra recolhido serão incontinenti comunicados à autoridade judiciária competente e à família do apreendido ou à pessoa por ele indicada” (art. e não indiciado. 38 “A determinação de permitir a internação de adolescente acusado de ato infracional mesmo antes de definida a sentença é uma medida. “não será submetido a identificação compulsória pelos órgãos policiais. a autoridade policial que ouve deve ser identificada. Se não há prisão em flagrante. para os fins pertinentes e oportuno encaminhamento ao juiz competente. In CURY. e assim mesmo somente em casos considerados de extrema gravidade e em condições especificas. 107). 173) na oportunidade da oitivida das testemunhas. ficará preso no máximo 45 dias (art. 2008.

112. III . 40 O artigo 114 do Estatuto da Criança e do Adolescente demonstra que “a imposição das medidas previstas nos incisos II a VI do art. 2008. grifo do autor). Por isso. VI. terem que apresentar documentos. grifo do autor). II . (In CURY. p. p. faz uma identificação que humilha e ofende a dignidade das crianças. nem vestir. quanto a apreensão.direito de solicitar a presença de seus pais ou responsável em qualquer fase do procedimento. a mesma lei elege o princípio da inimputabilidade dos indivíduos entre 0 e 18 anos. “o caráter indiciário da autoria não significa. p. na forma da lei. ressalvada a hipótese de remissão. VI . têm como pressuposto a ocorrência de ilegalidade. IV . a qualquer pretexto. 111. 42 Prade demonstra que “tanto a prisão (abrangendo quaisquer modalidades). possam vir a ter direitos ameaçados ou violados. Após obedecer as formalidades e as garantias processuais40 é que podem ser aplicadas as sanções disciplinares41. nem onde morar. se inocorrentes relaxamento e/ou liberação caberá habeas corpus para fazer cessa a violência/coação à liberdade de locomoção. 103.pleno e formal conhecimento da atribuição de ato infracional. 674) e do Estatuto da Criança e do Adolescente (art. podendo confrontar-se com vítimas e testemunhas e produzir todas as provas necessárias à sua defesa. Ao lado disto. Volpi diz que “é absurdo proceder à identificação compulsória de crianças e adolescentes que não tem o que comer. p. mediante citação ou meio equivalente.47 necessário “efeito de confrontação” quando há dúvidas substanciadas e fundadas em lei (art. 39 Na apreensão. nos termos do art.” (MAIOR. mas procurando localizar o autor do ato infracional. constantes no Código do Processo Penal (art. .assistência judiciária gratuita e integral aos necessitados. entre outros). In CURY. 339. o processo pode passar por uma revisão judicial. entretanto. a existência de prova circunstancial veemente.igualdade na relação processual. São asseguradas ao adolescente.direito de ser ouvido pessoalmente pela autoridade competente.” (In CURY. no caso de imputáveis. V . o adolescente em conflito com a lei tem as seguintes garantias processuais: Art. em relação aos inimputáveis. 41 Engel percebe que a legislação reconhece a necessidade de “que a criança e o jovem. 110). as seguintes garantias: I . (DIGIÁCOMO. tomando pro base a reconhecida condição peculiar de desenvolvimento sócio-cognitivo em que se encontram estes sujeitos”. submetendo-os às situações mais humilhantes” (In CURY. 419). 380. 2008. 2008. 388). mas sim. 2008. os policiais ao executarem seu trabalho. que para o exercício dessa tarefa não pode violar os direitos fundamentais prescritos na Carta Magna. em função de uma dada conduta – crime ou contravenção – reconhecida como ato infracional. buscando garantir o direito do aluno/cidadão contra atos abusivos/ arbitrários da autoridade encarregada da aplicação da sanção disciplinar42. portanto. antes de fazer uma apreensão. 112 pressupõe a existência de provas suficientes da autoria e da materialidade da infração. entre outras. como se trata de constrangimento ilegal. 109)39.” Desse modo. 127. consistente esta na desobediência dos requisitos legais autorizadores daquelas constrições à liberdade. as crianças não podem ser submetidas a pratica vexatória de serem revistados. Mas sua internação deve seguir um processo legal (art. Em ambas as circunstâncias.defesa técnica por advogado. para o efeito de relaxamento ou da liberação. mera presunção. 2010). Todavia. Infelizmente. convergente e conclusiva no que tange àquele a quem se pode atribuir a infração. 106.

junto a entidades assistenciais. 44 Veja o que diz o Estatuto sobre essas duas medidas: “Art. A liberdade assistida será adotada sempre que se afigurar a medida mais adequada para o fim de acompanhar. pois ela. VII . ou. juntamente com o benefício da remissão. “[. no curso da instrução do procedimento apuratório do ato infracional ou na sentença final. a medida poderá ser substituída por outra adequada. A prestação de serviços comunitários consiste na realização de tarefas gratuitas de interesse geral. seja quanto às suas conseqüências.liberdade assistida. em local adequado às suas condições. a autoridade competente poderá aplicar ao adolescente as seguintes medidas: I . mormente para preveni-la quanto às prejudiciais conseqüências da recidiva” (MOUSNIER In CURY. As medidas sócioeducativas são as seguintes: Art. será admitida a prestação de trabalho forçado. e pela autoridade judiciária.qualquer uma das previstas no art.” “Art. Em se tratando de ato infracional com reflexos patrimoniais. II ... bem como em programas comunitários ou governamentais. por outra forma. auxiliar e orientar o adolescente. Já a medida V adota o princípio de institucionalização dos adolescentes 43 Lima apresenta que “[. A advertência consistirá em admoestação verbal.. 112. na modalidade de medida sócio-educativa. que será reduzida a termo e assinada. escolas e outros estabelecimentos congêneres.obrigação de reparar o dano. III . hospitais. Parágrafo único. § 2º Em hipótese alguma e sob pretexto algum. p.inserção em regime de semi-liberdade. 2008. deve ser percebida sua importância. que o adolescente restitua a coisa.] é comumente capaz de instrumentalizar os objetivos de ambas as áreas. pelo órgão do Ministério Público. E a medida III e IV é uma medida aberta45. A medida I43 e II inicia-se e finaliza-se na ação do Juiz44. compense o prejuízo da vítima.” 45 O Estatuto prescreve as seguintes regras para ela: “Art.prestação de serviços à comunidade. no recesso de seus lares. a adolescentes que não registrem antecedentes infracionais e para os casos de infrações leves. § 3º Os adolescentes portadores de doença ou deficiência mental receberão tratamento individual e especializado. 344). temos administrado cautelarmente à criança infratora a admoestação. Poderá ser aplicada. antes de instaurado o procedimento apuratório. deve se destinar. 118.. grifo do autor). seja quanto à sua natureza.] a advertência. Existem diversas medidas que são aplicadas dependendo do ato cometido. Os pais.advertência. I a VI.internação em estabelecimento educacional. ora para coibir comportamentos inadequados à vida em sociedade. Assim sendo.48 Este rito processual é necessário para apurar adequadamente o ato infracional e aplicar uma medida sócio-educativa ao adolescente. Verificada a prática de ato infracional. 2008. via de regra. se for o caso. 116. 115.” (In CURY. a advertência. ora para prevenir os filhos acerca de certos perigos e condutas. IV . da condição do adolescente em cumpri-la eficazmente e da possibilidade de ser aplicada uma medida de proteção especial. 425. por período não excedente a seis meses. VI . 101. § 1º A medida aplicada ao adolescente levará em conta a sua capacidade de cumprila. Art. V . utilizam. no exercício do pátrio poder. p.” . medida educativa. Havendo manifesta impossibilidade. 117. promova o ressarcimento do dano. as circunstâncias e a gravidade da infração. Contudo. a autoridade poderá determinar.

Afinal. de conservar para os adolescentes infratores.. devendo sua manutenção ser reavaliada.49 combinando privação e restrição de liberdade46. (PEREIRA.. 404) compreende que as medidas de advertência. ou como forma de transição para o meio aberto. p. sujeita aos princípios de brevidade. . deve-se lembrar que deve provar a materialidade ou indícios de autoria do fato e o estabelecimento de defesa (contraditório). este rito processual deve ser guiado pelos princípios do artigo 1° da Constituição que são: a soberania. por ser provisória. deve ser resolvida pelo juiz até 45 dias. § 3º Em nenhuma hipótese o período máximo de internação excederá a três anos.] trata-se de uma imposição jurídica de estender os direitos processuais básicos aos adolescentes. Mas antes de aplicar tal medida. acima de tudo. § 4º Atingido o limite estabelecido no parágrafo anterior. o Estado deve prover tal assistência judiciária gratuita através da nomeação de dativo pelo poder judiciário (juiz) 48 . possibilitada a realização de atividades externas. colocado em regime de semi-liberdade ou de liberdade assistida. a cidadania e a dignidade da pessoa humana. Olympio Sotto Maior (In CURY. mediante decisão fundamentada. Enquanto a medida VI 47 trata-se da institucionalização dos adolescentes em meio fechado. privando-os da liberdade. 121. Esta medida. 392). Ao passo que para as 46 O artigo 120 diz que “o regime de semi-liberdade pode ser determinado desde o início. p. excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. ajudando a tratá-los como sujeitos que podem se transformar. a medida V e IV exigem a organização de programas de atendimento para que os adolescentes sentenciados cumpramnas. limitando os poderes do juiz. Inclusive. no máximo a cada seis meses. 47 A regulamentação da internação apresenta que: “Art. p. § 1º Será permitida a realização de atividades externas. o adolescente deverá ser liberado. aquele que não tem condição. obrigação de reparar o dano e prestação de serviços à comunidade indicam nítida prevalência do caráter educativo ao punitivo. Com relação a estas medidas de sócio-educação. 2005. ouvido o Ministério Público. A internação constitui medida privativa da liberdade. 18-20). Na defesa. porque produzem no adolescente em conflito com a lei a possibilidade de reafirmação dos valores ético-sociais. Enfim. § 2º A medida não comporta prazo determinado. a critério da equipe técnica da entidade.” 48 De acordo com Braga. 2008. o processo legal “[. sua identidade enquanto cidadãos” (In CURY. 2008. independentemente de autorização judicial”. que são capazes de aprender moralmente. uma vez que as técnicas educativas voltadas à autocrítica e à reparação do dano se mostram muito mais eficazes. salvo expressa determinação judicial em contrário. § 6º Em qualquer hipótese a desinternação será precedida de autorização judicial. § 5º A liberação será compulsória aos vinte e um anos de idade.

010. utilizável como forma de transição para a colocação em família substituta.acolhimento institucional. dentre outras. O abrigo é medida provisória e excepcional. (Redação dada pela Lei nº 12.colocação em família substituta. orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos. 98. a educação. o lazer. oferecer um caminho de dignidade. 2008.encaminhamento aos pais ou responsável. Verificada qualquer das hipóteses previstas no art. a autoridade competente poderá determinar. . mediante termo de responsabilidade. IV . eliminam o comportamento só naquele momento em que a punição ocorre. à criança e ao adolescente. Também ajuda no exercício do inerente potencial dirigido à sociabilidade e cidadania (MAIOR. de 2009) Vigência IX .orientação. II . tais medidas têm um caráter pedagógico. VI .50 técnicas de conteúdo punitivo.inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à família. V . a saúde. pois forma o individuo. para que contribua para o desenvolvimento da sua maturidade humana. consequentemente. Além dessas medidas.requisição de tratamento médico. 417). Logo. VIII . (Redação dada pela Lei nº 12. para as teorias da aprendizagem. apoio e acompanhamento temporários.abrigo em entidade. em regime hospitalar ou ambulatorial. a cultura e demais direitos devem ser efetivados também na realização das medidas. p. III . Parágrafo único. o esporte. assim que os controles aversivos sejam retirados. VII .inclusão em programa de acolhimento familiar. VII . Aplicá-las é propiciar o desenvolvimento da conduta destes seres que merecem todo o cuidado e proteção. de 2009) Vigência VIII . psicológico ou psiquiátrico.inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio. Desse modo.010. In CURY. para que possam realizar-se enquanto sujeitos de direitos e.colocação em família substituta.matrícula e freqüência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino fundamental. existem as medidas de proteção especial: Art. as seguintes medidas: I . reaparecendo com mais força e ferocidade. não implicando privação de liberdade. 101. além de prepará-lo como um indivíduo dotado de potencialidades que merecem ser realizadas e incentivadas. O próprio nome da medida já reflete a essência e os motivos da sua aplicação: as medidas aplicadas ao autor de ato infracional devem ter por objetivo o desenvolvimento da sua sociabilidade e socialização.

através das secretarias ou departamentos responsáveis. 2010). questionar certas posturas da sociedade. III . articular com outras redes de atendimento. São medidas aplicáveis aos pais ou responsável: I . 2010. será analisada pela Justiça Comum. todos da ECA). I. e 105. Conselho Tutelar e as “redes de atendimento”. (Expressão substituída pela Lei nº 12. VI . dialogam com ambas para que ajude na efetivação dos direitos. é um órgão político que tem uma função pró-ativa e de transformação da realidade. evitar que a violência continua a ocorrer. II . 2008. órgão competente e autônomo. nem de segurança pública. caso o infrator tenha menos de doze anos de idade. ou pela Justiça da Infância e da Juventude. eles devem ser responsabilizados e cumprir uma das medidas exigidas pelo artigo 129 da ECA: Art. de 2009) Vigência Parágrafo único. Se ele encontra-se em idade acima de 18.inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio. V .010.” (MOUSNIER. (SACERDOTE FILHO. 136. requisitar serviços. Voltando a atenção para as medidas sócio-educativas. 2010). X . ter um planejamento de ação ou programa de uma proposta adequada para a realização dos direitos.encaminhamento a cursos ou programas de orientação. . IV . observar-se-á o disposto nos arts. 129. VIII . Caso os pais colaborem no ato infracional do filho. caso o infrator tenha entre 12 e 18 anos. . ajudar na garantia dos direitos da criança. 346). VII . orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos. Murillo José.advertência. trata-se de uma democracia participativa personificada. fiscalizar os programas. Pouso Alegre: Câmara Municipal de Pouso Alegre. IX . na sua organização e implementação. não jurisdicional.suspensão ou destituição do pátrio poder poder familiar. sua função é resolutiva. a justiça ou Poder Judiciário delega competência ao Poder Executivo para acompanhamento e orientação dos adolescentes com certas medidas.encaminhamento a tratamento psicológico ou psiquiátrico. In CURY. Cf. não é órgão investigativo. previsto no diploma e ainda inexistente no território nacional. Participam 49 “O Conselho Tutelar. (DIGIÁCOMO. 98 e incisos. encontrar medidas concretas para orientar e encaminhar os pais e as crianças.perda da guarda. promover e ajudar na execução de programas de atendimento. cc o art. 23 e 24. devem ser realizados pelas políticas públicas de atenção ao adolescente. p. não é órgão de repreensão. aplicar medidas de proteção. encaminhar e orientar os pais e criança. Palestra. deve colaborar e mobilizar para a realização dos direitos.encaminhamento a programa oficial ou comunitário de proteção à família. Na aplicação das medidas previstas nos incisos IX e X deste artigo.51 Acrescenta-se que o ato infracional deve ser resolvido pelo Conselho Tutelar 49. Ou seja. DIGIÁCOMO. da família e de outras instâncias. 30 set.obrigação de matricular o filho ou pupilo e acompanhar sua freqüência e aproveitamento escolar. Os programas de sócio-educação. terá atribuição para aplicar as medidas específicas de proteção às crianças e aos adolescentes e às crianças infratoras (arts.obrigação de encaminhar a criança ou adolescente a tratamento especializado. o Conselho Tutelar tem a função de intervir e amparar a família. nem polícia. pela atenção à infância e à juventude.destituição da tutela.

(MUNIR In CURY. contribuindo. então. tomando por base as resoluções que se referem à política de direitos. no sentido de que (PEREIRA. A garantia de que todas suas necessidades sejam satisfeitas encontra-se na Declaração de Genebra (1924). p. de acordo com o sistema jurídico respectivo. na Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas (1948) e na Convenção Americana Sobre os Direitos Humanos. a definição de projeto de acompanhamento personalizado (PAP). ao lazer. 23). 17): as leis internas e o direito de cada sistema nacional possam garantir a satisfação de todas as necessidades das pessoas de até dezoito anos. 1991. p. (PEREIRA. 16). deve cumprir as bases legais que orientam os programas de atendimento. o Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente. rol das atividades cotidianas de caráter pessoal e educacional.52 também da definição dos princípios e diretrizes de implementação dos programas de sócioeducação. à saúde. e executar as prescrições da legislação brasileira e as deliberações dos Conselhos de Direitos (nos três níveis da administração pública). não incluindo apenas o aspecto penal do ato pratico pelo ou contra o adolescente. p. realizando o princípio da doutrina de proteção integral. apud PEREIRA. 2005. Assim. pode responder por uma infração de forma diferente do adulto”. sendo realizados de modo direto ou não (convênio firmado com entidades nãogovernamentais). (PEREIRA. as Regras Mínimas das Nações Unidas para a Prevenção da Delinquência 50 Nesta regra estão definidos conceitos jurídicos que devem ser implementados pelos Estados-Membros da Organização das Nações Unidas (ONU) no que concerne a aplicação da lei sobre jovem. . para que a medida seja cumprida satisfatoriamente. infração e infrator. 16). inclusive. p. 5. à convivência. E a doutrina da proteção integral é defendida por outras declarações internacionais: Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça da Infância e da Juventude (Regras de Beijing. as bases que devem ser implementadas ao tempo da medida aplicada são: espaço físico. a participação da família. 1985)50. mas o seu direito à vida. independentemente da esfera administrativa. p. 2004. aqueles editas pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA). que são: “Jovem é toda a criança ou adolescente que. à educação. A instituição que coordena os programas de sócio-educação. à liberdade e outros. à profissionalização. 2004. 2004.

do controle-vigilância e defesa-responsabilização. Maria Ignês. (PEREIRA.. deve considerar ou realizar três aspectos de atenção ao adolescente: promoção-atendimento. v. São Paulo: Brasiliense. Com efeito.. p. . 63-96. Aliás. 24). que substitua a nacional. 2005. administrativa ou outra autoridade pública”. uma vez que este. “Jovem infrator é aquele a que se tenha imputado o cometimento de uma infração ou que seja considerado culpado do cometimento de uma infração. Por atividades de controle. entende-se toda forma de detenção ou prisão. In: FESTER. entende-se a organização de uma autêntica tutela jurisdicional de nível internacional. na atuação dos Sistemas de Garantias de Direitos. proteção. fundamentando-se nas Regras de Beijing. b) induzir os que já a têm a aperfeiçoála.. Por atividades de garantia. 51 Apresenta a conceituação de jovem e privação de liberdade do seguinte modo: “Entende-se por jovem uma pessoa de idade inferior a 18 anos”. Direitos Humanos e. educação e formação profissional para permitir-lhe que desempenhe um papel construtivo e produtivo na sociedade”. Três aspectos que são detalhados por Bobbio: Por promoção. (PEREIRA. 3940. Cf.). de onde não se permita a saída livre do jovem. (PEREIRA. 25). p. e as Regras Mínimas das Nações Unidas para a Proteção dos Jovens Privados de Liberdade (1990)51. encontra-se na fase de desenvolvimento e é prioridade absoluta das políticas públicas. p. 25). 71) que troca a palavra jovem por menor. “Infração é todo comportamento (ação ou omissão) penalizado com a lei. de acordo com o respectivo sistema jurídico”. Aliás. Antonio Carlos Ribeiro (Org. apesar de estar em conflito com a lei. seja com relação aos procedimentos (número e qualidade dos controles jurisdicionais). p. seja com relação ao direito substancial (número e qualidade dos direitos a tutelar). 2005. A finalidade da Justiça da Infância e da Juventude é realizar o bem-estar do jovem52. deve realizar no tratamento institucional dedicando ao adolescente “cuidado. 2005.. a ECA. se e em que grau as recomendações foram respeitadas [.. entende-se o conjunto de medidas que os vários organismos internacionais põem em movimento para verificar-se em que grau as recomendações foram acolhidas. aplicação da medida e ao cumprimento da decisão judicial – devem ser levados em conta. “Por privação de liberdade. 24). 52 Tratar do bem-estar do jovem consiste em que “todos os momentos do processo que envolve o ato infracional – da apuração do fato.2. 1992. ordenado por qualquer autoridade judicial. por todo o Sistema de Garantias de Direitos – os princípios definidos da doutrina da proteção integral” (PEREIRA. assim como a internação em outro estabelecimento público ou privado.53 Juvenil (Diretrizes de Riad. 26). 17). Direitos Humanos e a criança. p.]. Elas apresentam que é importante prevenir a delinquência juvenil para prevenir o delito na sociedade. 2005. 2005. 1992. p. (BOBBIO. BIERRENBACH. p. 2004. p. p. esta mesma regra é apresentada com outro termo sobre o jovem pela autora Bierrenbach (1992. entende-se o conjunto de ações que são orientadas para este duplo objetivo: a) induzir para os Estados que não têm uma disciplina específica para a tutela dos direitos do homem a introduzi-la. a legislação.” (PEREIRA. 1990). apud PEREIRA.

enquanto sujeito de um processo que se renova continuamente. Acesso em: 06 set. atuando nas dimensões pedagógicas. cultura e lazer. um desdobramento das potencialidades de autodeterminação e libertação do educando. então. p. 2010.folha. Acesso em: 06 set.shtml>. Justiça condena Estado a pagar R$ 400 mil por morte de jovem na Febem de SP. saúde.. FOLHA-ONLINE. FOLHA-ONLINE. política.3 LEITURA SOCIAL DO ATO INFRACIONAL O ato infracional deve ser encarado.com.uol. esta deve ser percebida como uma garantia de efetivar todos os direitos da criança e do adolescente. Disponível em: <http://www1.shtml>. Ou seja.uol. voltada para práxis do bem comum. Portanto. como um momento especial pelo qual se pode formar o aluno. 2008. Ao longo dos anos53.br/cotidiano/804735-vinte-e-tres-internos-da-fundacaocasa-de-mogi-mirim-sp-ainda-estao-foragidos. 2010. através da escolarização. (VASCONCELOS In CURY.com.] devem-se apoiar em procedimentos metodológicos que se pautem por um caráter emancipador em todas as ações empreendidas. aplicar as leis é contribuir para a lapidação da personalidade desta criança ou adolescente em formação. objetivando desenvolver uma consciência social e moral.. 53 FOLHA-ONLINE. bem como realizar a dignidade humana nestas duas fases de vida. social e econômica em um mesmo processo. as medidas especiais de proteção e a medidas sócio-educativas [. Disponível em: <http://www1. mas um momento oportuno para se moldar e construir uma individualidade pautada numa ética social. portanto. Isto quer dizer que se faz mister edificar todo um trabalho social e educativo com vistas à promoção e defesa dos direitos humanos e de cidadania. . 342. 2. 2010. Febem usa arma de paintball contra interno.shtml>. Ao estar em conflito com a lei não pode ser percebido como um instrumento de opressão ou manipulação.uol.folha. profissionalização.br/folha/cotidiano/ult95u130890. Dever-se-á buscar.54 Retornando a ideia de bem-estar. São esses momentos inter-relacionados do processo educativo que lhe propiciarão condições básicas de suporte para atingir uma etapa de autonomia na condição da própria existência. Vinte e três internos da Fundação Casa de Mogi Mirim (SP) ainda estão foragidos. a questão da resolução dos conflitos em que se encontram os jovens não é bem concretizada. Disponível em: <http://www1.com. muitas rebeliões ocorreram representando uma resposta da violência que sofrem na medida de internação.folha. Acesso em: 06 set.br/cotidiano/801578-justica-condena-estado-a-pagar-r400-mil-por-morte-de-jovem-na-febem-de-sp. Contudo. grifo nosso).

os direitos Humanos são incompatíveis com a sua política econômica-social. convivendo em ambientes. enfim. ainda mais predispostos a conduta violentas e anti-sociais. e com um único fio condutor: o de preservar. Bierrenbach afirma que. Um dos motivos está na dificuldade de que a medida sócio-educativa não se aplica ao conteúdo. Desta forma. quando do desinternamento. Inclusive. como pessoas cuja historia de vida. 403404). p. ao esporte e ao trabalho regular de apoio a esse grupo. como dizem eles). Isso está presente nas “rebeliões” ou reações que acontecem no interior dos complexos institucionais do país que instiga a perceber que os programas de atendimento ao adolescente. o pensamento de Irandi Pereira demonstra que os programas de sócioeducação não concretizam o princípio de proteção integral.. natureza perversa. os privilégios das elites. a qualquer preço. daí a importância de se observar atentamente as novas regras legais referentes à internação. de regra. em especial. alta periculosidade. para que cumpra suas obrigações legais com eficiência. Maior demonstra: [. promíscuos e aprendendo as normas próprias dos grupos marginais (especialmente no que tange a responder com violência aos conflitos do cotidiano).55 Isso reflete aquilo que Olympio S. Tais programas deveriam ser um espaço especial para desenvolver uma educação que realmente ajude os adolescentes a rever suas atitudes e remodelar os seus objetivos. Privados de liberdade. 20). seria necessário desenvolver uma política pública que efetive o direito à educação. Contudo. à cultura.. sim. (PEREIRA.]. Assim. Com efeito. (In CURY. 2004. funcionam sob a ótica da doutrina da situação irregular no trato dos adolescentes e jovens sentenciados. .. especialmente aquelas que dizem respeito à excepcionalidade da medida [. os adolescentes internados acabam ainda mais distantes da possibilidades de um desenvolvimento sadio. ao método e à gestão dos programas de sócio-educação estabelecidos pelo poder executivo. p.] a internação é a medida sócio-educativa com as piores condições para produzir resultados positivos. 2008. equivocada [o]. pois esse aspecto na verdade é instável. a partir da segregação e da inexistência de projeto de vida.. a questão da privação da liberdade nas instituições como FEBEM. passada e futura. a probabilidade (quase absoluta) é de que os adolescentes acabem absorvendo a chamada identidade de infrator. como de má índole. passando a se reconhecerem. no Brasil. conduzida [o] ao sabor da pressão do momento. certamente estaremos diante de cidadãos com categoria piorada. resta indestrutivelmente ligada à delinqüência (os irrecuperáveis. à arte.

propiciando assim. p. . é necessário reavaliar a contribuição das instituições sociais públicas que procuram perpetuar uma lógica de exclusão. Desse modo. ou internacionalizada como melhor convém. buscando apenas controlar e corrigir os desvios violentamente55. 363). Um comprometimento que atinge os jovens sentenciados que não são alvos da política pública. no que tange à educação escolar. das carências e violências que meninos e meninas pobres são submetidos” (VOLPI. 93). nem de uma concretização adequada da sua tutela pelo Estado que. mais segregadoras e mais estigmatizantes dos sentenciados. O direito à educação é um dos mais violados: Tratando dos jovens em conflito com a lei não é fácil desatar os nós vivenciais a que estão submetidos. (PEREIRA. incentivando a organização. (1992.56 inclusive com a ameaça mais ou menos velada da desnacionalização da economia. internados em institucionais públicas que continuam operando na lógica caritativo-repressivo-assistencialista ou mesmos em programas sócio-educativos restritivos da liberdade que pouco apresentam indicadores de resultado sob a ótica da política de direitos. como também. em especial. buscando realizar um linha participativa de trabalho. mantémse silenciado diante de tanta calamidade. 41). p. p. Infelizmente. Praticar a educação escolar em ambientes contaminados por relações paradoxais como liberdade/prisão. liberdade/restrição do direito. 2008. se torna muito mais complexo promover a educação escolar regular dada a condição em que se encontram: privados de liberdade. abandono social. comprometendo indelevelmente o futuro da nação brasileira. 40-41) diz que na política de atendimento aos adolescentes em conflito54 com a lei. a iniciativa e a criatividade das bases comunitárias. p. criativos e participativos muito diferentes do que estamos acostumados a saberfazer. reclamar por medidas cada vez mais punitivas. já bastante aberta ao capital estrangeiro. In CURY. aquilo que é direito não é realizado porque o Estado não cumpre o que é seu dever e que está prescrito na constituição. nas leis infraconstitucionais e nas leis internacionais assinadas. Não demonstra que é um equívoco aplicar a lei quando se procura sobrepor idéias ou realizar uma luta de poder. Irandi Pereira (2005. 55 O legislador e a sociedade deve entender que “o cometimento de um ato infracional não decorre simplesmente da indo má ou de um desvio moral. mas antes deveria mostrar que é pelo caminho jurídico que se alcança a legitimação de uma vida digna. essa política continua afastada dos debates jurídico-institucionais e da sociedade. 2005. Deveria 54 A nova política de atendimento deveria ser autopromotora. A maioria absoluta é o reflexo da luta pela sobrevivência. sujeito de direitos/objeto de controle social exige projeto político-pedagógicos inovadores. de dominação e imposição.

em face do art. mandado de segurança coletivo59 e mandado de injunção60. ou faculdades. Em síntese. 56 O direito ajuda proteger a personalidade do ser social (do homem) e disciplinar-lhe sua atividade. englobando os direitos coletivos em sentido estrito. lesado ou ameaçado de lesão.57 objetivar também que a lei ajuda na formação do desejo de construir uma sociedade justa. e que poderá ser impetrado por partido político com a representação no Congresso Nacional e organização sindical. (PEREIRA. 53). demonstra que transformar a vida social na realização da igualdade e de oportunidades para todos. (MORAES. 28-30). de maneira inédita. 2009. ele “[.” (MENDES. especialmente os direitos do consumidor..] consiste em uma ação constitucional de caráter civil e de procedimento especial. Além de poderem entrar com mandado de segurança58.. da Constituição Federal prevê. ou concretas. Mas antes deve ser entendida como uma “[. 590). (MORAES. p. dentro do todo social de que faz parte. Conferindo assim. precisa ser pela via jurídica56. p. 163). à sabedoria e á cidadania. uma proporção tendente a criar e a manter a harmonia na sociedade. Além do mais. que concerder-se-á mandado de injunção sempre que a falta de norma regulamentadora torne inviável o exercício de direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade.. 60 “O artigo 5°. entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos um ano. p..] grande novidade no âmbito de proteção aos direitos e garantias fundamentais.. “o mandado de segurança coletivo terá por objeto a defesa dos mesmos direitos que podem ser objeto de mandado de segurança individual.]ação constitucional. independentemente de edição de lei regulamentando-o. (RAO. 2009. 59 Artigo 5° inciso LXX. p.. propiciando estabelecer. para a defesa de posições individuais ou singulares. o direito à educação. 164). parágrafo 1. no intuito de viabilizar o exercício de um direito. 58 Está presente no artigo 5°. por ato ou omissão de autoridade pública ou agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder Público”. desde que presentes os atributos da liquidez e certeza.” (MORAES. tem-se constituído também em importante instrumento de defesa dos direitos em geral. em defesa dos interesses de seus membros ou associados.na constituição é uma “[. O direito garante os direitos do ser humano e os ajuda defender. porém direcionada à defesa dos interesses coletivos em sentido amplo. constituindo-se verdadeiro instrumento de liberdade civil e política”.. da Constituição Federal.] é conferido aos indivíduos para que eles se defendam de atos ilegais ou praticados com abuso de poder. de natureza civil. que visa suprir uma omissão do Poder Público. Deste modo. p. da Constituição Federal. O Supremo Tribunal Federal decidiu de forma unânime pela autoaplicabilidade do mandado de injunção.” (MORAES. 2009. e de deveres. 57 “A Ação civil tem-se constituído em significativo instituto de defesa de interesses difusos e coletivos e.. 2009. este capítulo faz uma reflexão sobre os passos jurídicos presentes no Estatuto da Criança e do Adolescente com a finalidade de efetivar uma vida digna. . os interesses individuais homogêneos e os interesses difusos. p. o adolescente pode requerer a ação civil pública57 para que o seu direito seja garantido. LXIX. harmonia e dignidade à vida. p. entre os homens. pelo fato de os homens se encontrarem em sociedades reais. cujo objeto é a proteção de direito líquido e certo. contra ato ou omissão ilegais ou com abuso de poder de autoridade. principalmente. 163). embora não voltada. violência e exploração da pessoa humana.” (MORAES. por definição. Ele “[. 163). inciso LXXI. Por exemplo. ou obrigações. p. 2005. 2004. solidária e capaz de vencer discriminações. 153). 5°. uma liberdade ou uma prerrogativa prevista na Constituição Federal”. 2009. 2009. uma vez que o direito equaciona a vida social através de uma reciprocidade de poderes. Aliás. que determina que as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata.

Uma formação cidadã que depende da realização de uma pedagogia que compreenda adequadamente o problema da indisciplina e da violência escolar. com relação aos jovens que se encontram em situação de conflito com a lei. Ela visa a ensinar as pessoas a viver. para que forme verdadeiramente um cidadão consciente do seu papel. e ainda entender o papel do Estatuto na solução dos jovens em conflito com a lei. já que antes será refletido o papel pedagógico na solução do conflito da indisciplina e da violência escolar (ato infracional). CAPÍTULO III A PERSPECTIVA PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO A educação desafia-nos em mundo tão complexo e fragmentado. que será objeto do próximo capítulo. devem ser aplicadas medidas que visem a emancipação do indivíduo. a reflexão ajuda entender o que é ser cidadão. (LIBÂNIO. uma vez que cometeram ato infracional. da autonomia e da independência.58 principalmente. 2009. 239). Ressalte-se que ao compreender o que seja o direito à educação e demais direitos. p. realizada na escola ou na sociedade como um todo. Este será o tema do penúltimo e último capítulo do presente estudo. Diante da conduta do adolescente. o desenvolvimento da sua maturidade. . não pode ser reprimida violentamente. Essa violência. controle-vigilância e defesa responsabilização. mas deve levar em conta os aspectos da promoção-atendimento.

Escutar o . 1 A EDUCAÇÃO: À ESCUTA DO TEMPO Tomar conhecimento deste caminho requer que a educação ouça o tempo porque está inserida nas transformações históricas. É dar-se conta das possibilidades inauguradas e reinantes. cultural. ou pressupostos pedagógicos. Mas é escolher o trajeto. O caminho da educação tem suas múltiplas formas e vivências. 3. valores e preços. Seu preço porque conseqüências advirão e resultados serão esperados. É a realização destas possibilidades que impele o homem a perceber o seu preço e o seu valor. formando assim um verdadeiro cidadão. principalmente. ética. Busca mostrar as possibilidades de se trilhar um caminho de educação que seja capaz de na resolver os conflitos por meio de um andar pautado numa educação democrática. A fenda das possibilidades inaugura sempre um novo período histórico. categoriza e o que se valora influencia determinantemente na vida humana. político. o que se faz estipula. social. Tal caminho será objeto principal deste terceiro capítulo do trabalho de conclusão de curso. indisciplina e violência. qualifica. culturais. Ressalva-se que caminhar no trilho da educação não é realizar a essência da verdadeira educação. o que se entende por disciplina. Seu valor. Diante disso. tratar do caminho da educação é olhar para o mundo. para as relações sociais e para a sua própria missão. Tem seus anseios e objetivos diferenciadores e antagônicos. Este capítulo pretende fazer uma leitura do caminho da educação. sociais. As relações tecidas no chão social abrem diversas possibilidades para o mundo. Desse modo. Desenhar o caminho que o homem deve percorrer é fixar o preço e o valor das coisas. Possui diversas possibilidades.59 Tudo tem o seu preço e o seu valor. que se deseja realizar. econômicas e política. econômico e também educacional. Com a educação também é assim. pois significações e importância serão estipuladas na vida.

Por isso. Colocando. . Para Lyon. a desigualdade social ainda é predominante. (LYON. percebe-se que o século XXI é o início de uma nova fase histórica. então. David. (LYON. a pósmodernidade é “conceito multifacetado”. como Estado de Social Democrático. “Poucos têm muito. 1998. o Estado. Na verdade. que a chama a atenção para um conjunto de mudanças sociais e culturais muito profundas ocorridas no final do século XX e no início desse século em algumas das sociedades “avançadas”. p. (LYON. 16). alcança notoriedade na década de 80 e 90. p. 2) traçar os rumos da educação de acordo com as exigências do tempo. para que o cidadão tenha uma vida digna. Pós-modernidade. abrindo a possibilidade de seguir diretrizes conforme o que se vive ou o que deve ser vivido. 7). O homem conquistou muitos avanços na área da ciência. uma vez que o século XX passa por profundas mudanças sociais e culturais.60 tempo tem uma dupla dimensão: 1) entender o que se passa na realidade atual. O pósmoderno é o esgotamento da modernidade. São Paulo: Paulus. em prática a audição sobre o tempo. que acreditava ser a ciência o único meio para o progresso e uma expressão política na busca de um mundo racionalizado. Tal conceito existe como uma idéia ou forma de crítica na mente dos intelectuais e nos meios de comunicação. 9-79). Como conceito analítico-social. 1998. que é um conceito complexo61. Os avanços e as desigualdades fazem parte de uma nova sociedade gestada que se denomina de pós-modernidade. 1998. Porém. da tecnologia e da economia. 1998. 61 A partir desta definição concentra-se na exposição reflexiva feita pro David Lyon que oferece um quadro da realidade contemporânea. LYON. p. a pós-modernidade faz parte do pensamento social. procura garantir todos os direitos inerentes à condição humana. Cf. e muitos têm muito pouco”.

Derrida. O Mal-Estar no Pós-Modernismo: teorias. Já o pós-modernismo comercial ou cooptado foi teorizado por Baudrillard. 15). p. metafísicas e literárias ocidentais que foram questionadas pelo pós-estruturalismo e pela desconstrução. e Georg Simmel (1858-1918). Cf. Os progenitores de tal situação foram: Friedrich Nietzsche. Pós-modernismo refere-se aos fenômenos culturais e intelectuais. E. o pós-moderno é a incredulidade com relação às metanarrativas que se orientam pelo Iluminismo. Devido à influência desses autores e o próprio contexto sócio-político-históricocultural. (Kaplan. 14).). 1998. p. Lacan. com a publicação do livro 62 Kaplan diz que há dois tipos de pós-modernismo: o utópico e o comercial ou cooptado. pelos estudiosos da cultura popular. por meio do qual a ciência legitima a si mesma como a edificadora da emancipação. 1993. 17). 1993. Karl Marx.61 Entre os estudiosos. (KAPLAN. mas também os que versam sobre a classe. que anunciou o niilismo na sociedade. p. KAPLAN. Cixous. p. Ambas as utilizações de pós-moderno provocam um pensar que “transcende os próprios binarismos das tradições filosóficas. facilitando extensões maiores. práticas. 1998. Ocorre aqui uma “atomização do social”. é costume fazer uma distinção entre pós-modernismo62 (ênfase no cultural) e pós-modernidade (ênfase no social). Ann (Org. Pós-modernidade significa o esgotamento da modernidade e as mudanças sociais ocorridas. 19-22). (LYON. 1993. 14) O pós-modernismo utópico tem como representantes: Bakhtin. Também há um deslocamento da leitura para se deleitar com as imagens e representações (iconocentrismo). Percebe-se que uma nova sociedade está surgindo ou um novo modo de compreender e viver o mundo. Questiona todas as premissas básicas do Iluminismo. p. Mas em ambos os casos. houve aqueles que refletiram sobre o conceito de pós-modernidade. . o emprego do termo ‘pós-modernismo’ assinala um movimento para além/longe dos vários posicionamentos (não apenas estéticos. a raça e o sexo) das teorias totalizantes anteriores”. (LYON. (LYON. Arthur Kroker e David Cook. que refletiu sobre o capitalismo. talvez eclipsando a centralidade convencional da produção” (LYON. p. Mas o termo pósmoderno foi usado de modos distintos por estudiosos de literatura e feministas e por outro lado. p. Kristeva e Rolan Barthes. há duas questões cruciais: “a proeminência das novas tecnologias de informação e comunicação. Quem popularizou o termo “pós-moderno” foi Jean-François Lyotard63. 1998. de gosto e opinião e o interesse pelo particular em lugar do universal. e o consumismo. 17). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1993. como a globalização. Martin Heidegger com relação ao esquecimento do Ser. 24-26). Realiza queda das hierarquias de conhecimento. Nesta medida. (KAPLAN. que analisou a situação cultural e social. 63 Para Lyotard.

A modernidade inaugurou uma nova ordem social. (LYON. São Paulo: Loyola. p. por sua rejeição da tradição. Teologia da Secularização. 1998. filosofia. 1998. p. Esse tema evoca também uma questão teológica setorial e uma questão global sobre o lugar que a fé cristã. p. “para indicar o processo de emancipação da vida cultural (política. o termo aparece casualmente em Wilhelm Dilthey. o processo de emancipação do mundo moderno da tutela do cristianismo e da Igreja (momento da descontinuidade) mas. A atitude logocêntrica da modernidade é radicalmente rompida pela ênfase posta sobre a indeterminância da linguagem” (LYON. Desse modo.62 The Postmodern Condition (LYON. p. Porém. ele diz que a episteme moderna estava se desagregando e o seu objeto. 24). Ainda presenciam-se os resultados da modernidade. levando-a se secularizar67. o homem. 1998. Inclusive. (LYON. (LYON. no final do século XIX e início do século XX. Outros pensadores que realizaram também a reflexão sobre o pós-moderno são: Jean Baudrillard 64. São mudanças sociais profundas derivadas do crescimento industrial-capitalista-tecnológico. p. implicando no surgimento e no desenvolvimento dos centros urbanos. 1998. o estilo militar. dando-se assim a destruição do significado. p. 65 Derrida tem como tarefa a desconstrução. ciência. Conseqüentemente. p. a reflexão sobre o mundo pós-moderno continua. de outro lado. Gianni Vattimo e Luce Irigary. Embora tenha raízes antes do século das luzes. que indica “de um lado. 123-152. e por suas conseqüências globais”. 123). A Modernidade é um termo que se aplica à ordem que se manifesta depois do Iluminismo. Jacques Derrida65. O significado cultural ocorre mais tarde. 26). provocam um grande impacto sobre os padrões da sociedade. In: _____. O ponto fundamental da modernidade é a crença no progresso e no poder da razão humana de ser livre e o eu se construir. 1998. GIBELLINI. O jurídico “significa a passagem de pessoas do estado clerical para o secular. 124). “o mundo moderno está marcado por seu dinamismo sem precedentes. que é “levantar discussões persistentes sobre nossos próprios textos e sobre os textos dos outros. p. 123. o cristianismo e a Igreja exercem na sociedade moderna. 28-29). os signos perderam o contato com as coisas significadas. Mas é somente depois de 1945 que o conceito secularização é aplicado para interpretar a modernidade. Ela alcançou uma predominância 64 Baudrillard diz que o “o mundo contemporâneo é dominado por imagens dos meios de comunicação de massa eletrônicos”. 29. o conhecimento. a ciência. 1998. 66 Foucault se concentra sobre as ciências humanas. estava morto. economia. Ele busca a genealogia para compreender o mundo. Cf. A Teologia do Século XX. Michel Foucault66. Nessa acepção. 1988. “O conhecimento ainda está em questão. negar que qualquer texto seja definitivo ou estável. p. 1998. remete à contribuição do cristianismo para a formação do mundo moderno e à permanência de impulsos cristãos na sociedade moderna (momento de continuidade)” (GIBELLINI. 1998. 35-47). grifos do autor). 67 O termo secularização tem dois significados: um jurídico e um cultural. (GIBELLINI.30). 1998. . introduzindo uma mudança em grande escala sem precedentes e em geral irreversível. 123). mas ligado com – ou fundido com – o poder e também cm os corpos”. p. Até mesmo a religião não escapa da influência exterior. a disciplina. Rosino. ou a passagem de bens eclesiásticos a [sic] propriedade secular” (GIBELLINI. arte e costumes) da tutela eclesiástica” (GIBELLINI. literatura. ou sua marginalização. Max Weber e Ernst Troeltsch.

o homem passou a ser explorado e alienado cada vez mais na sociedade capitalista. na sociedade de informação. para o modo como o conhecimento é criado e recuperado. o consumo é tudo. . 58-76). o homem do final do século XX e início do século XXI já se encontra na pós-modernidade. quer chegar a um entendimento com a modernidade. pragmática: Funciona? E eficiente? O eu autônomo assume o centro da cena. O eu é consumo e é livre para escolher. (LYON. Com efeito. enquanto para outros. 1998. 80-83). as telecomunicações e os computadores tornar-se-iam “decisivos para o modo como os intercâmbios econômicos e sociais são conduzidos. Para alguns pensadores69. Para alguns a modernidade acabou. debater sobre a modernidade é um fator importante para a compreensão do mundo contemporâneo. Segundo Daniel Bell. (LYON. Mas simultaneamente esse eu individual perde o sentido de significado e de propósito. cada um regido por suas próprias leis. na verdade. o homem encontra-se em um novo tipo de sociedade: a sociedade pós-industrial que faz uso de novas tecnologias de informação e de comunicação68. políticos e sociais. (LYON. mas de fato a principal regra prática é instrumental. (1998. pois aprofunda as desigualdades sociais e econômicas associadas com o crescimento das tecnologias eletrônicas. não produzem a sociedade pós-industrial nem a pós-moderna. E assim a realidade se fragmenta. Para Lyon. reivindicando novas liberdades que seriam convertidas em direitos civis. O eu se traduz num projeto de posses de bens desejados. implícitas ou explícitas. uma situação que se tornou um problema fundamental. p. o estilo de vida do consumidor e o consumo em massa monopolizam a vida dos homens no mundo pós-moderno. as notas de referência de 3 a 6. A modernidade nos legou um mundo dividido em segmentos sociais. p.63 global. 47-55). mas estão envolvidas profundamente nas transformações contemporâneas do mundo. Tudo é mercantilizado. Mas com o desenvolvimento da tecnologia e a busca incessante pelo lucro. 69 Cf. uma vez que sem elas não existiria o consumismo e a cultura de consumo. 61). as novas tecnologias de informação e de comunicação. O homem também se tornou individualista. A autoridade supostamente passa das bases religiosas para as científicas. p. e o caráter de trabalho e de organizações em que os homens [sic] estão engajados” (1980. 1998. p. As 68 Segundo Bell. 56). 1998. por causa da sociedade tecnológica e informatizada. p. 1998. apud LYON. Esse pós-industrialismo é criticado por Bell. Com efeito.

Tratando-se. São pessoas isoladas. Como constata Libânio.64 escolhas provocam dúvida. 1998. João Batista. o modo como as pessoas são integradas na sociedade.]”. então. p. p.]. Portanto. Sem sempre aquilo que a sociedade produz é capaz de preencher o vazio existencial da pessoa. 123). (LYON. é um conceito que solicita a participação em um debate sobre a natureza e o rumo das sociedades. consumismo. a dimensão religiosa do ser humano reage fortemente. 87-104). 267). 2002. LIBÂNIO. 109-113). informações.. (LYON. Não se pode deixar de lado uma análise social e cultural que atuam juntas e obrigam os homens a formarem juízos analíticos e filosóficos sobre a modernidade em si. fora de grupos institucionais estáveis. (LIBÂNIO. 2002.. remanescentes de práticas tradicionais somam sua presença nesse mundo da religiosidade [. “A conduta do consumidor se torna o foco cognitivo e moral da vida – consumir é um dever prazeroso -. 270). p. 1998. Essas intimidações têm como personagem o consumidor. e também o nexo do gerenciamento sistêmico”. O consumo é a característica predominante da modernidade. Para Lyon. Por isso. (LIBÂNIO. (LYON. A Religião no iniciou do Milênio. por carências materiais e/ou psíquicas ou por uma curiosidade despertada pela mídia. 1998. 2002.. p. em comprar o produto religião que lhe mais satisfaz. Também é uma experiência de crise. outros buscam um acesso imediato à esfera religiosa. Cansados de recorrer a mediações institucionais. Bauman critica71 o consumismo por sua “duplicidade”. As variadas expressões religiosas acompanham os gostos e necessidades da sociedade. Novos movimentos religiosos atraem antigos militantes das tendências de esquerda. p. . Cada pessoa pode escolhê-la de modo a la carte. 71 Zygmunt Bauman diz que os homens recebem as “intimidações de pós-modernidade”.. Deve-se inclusive realizar uma interação entre o pré-moderno. “A religiosidade explode em todas as partes [. O crescimento da onda religiosa contemporânea é resultado das mudanças sociais. p. mas é também fundamental na pósmodernidade. o conceito de pós-modernidade é uma ‘problemática’ preciosa que chama a atenção do homem para questões centrais relativas às mudanças sociais contemporâneas. Até mesmo a democracia deixa-se guiar pelo mercado. Cf. Nem falta a repetição mecânica de comportamentos consumistas que buscam mercadorias religiosas que agências especializadas nesse produto. Todas as pessoas são afetadas pelo consumismo. É na crise do mundo que a religião mostra a sua verdade e o seu significado. Sedentos de utopia ou de experiências complementares. Também é necessário fazer uso de uma análise sociológica para 70 Muitos acreditavam que a religião “morreria”. Mas ela renasce fortemente na sociedade de diversas formas. hesitação e ansiedade.. São Paulo: Loyola. escolhendo formas rituais que lhes respondem afetivamente. invenções. A um mundo marcado pela tecnologia. Ou indivíduos que se abeiram das fontes religiosas por uma sede provocada por insatisfações existenciais. 102-104). políticas e culturais experimentadas pelo ser humano.. Até mesmo a religião pode ser comercializada70. 1998. O pós-modernismo é o novo paradigma cultural. no mundo contemporâneo. a sociedade consumista (LYON. uma vez que não consegue cumprir o que promete: a felicidade universal. Religiosidade reprimida em muitos explode selvagemente. o moderno e o pós-moderno. mas de um modo paradoxal. num contexto globalizado. de um novo modo. é preciso repensar a noção de cidadania para que ela possa gerenciar.

XX). XX. sociais e culturais do mundo contemporâneo que se originam dos avanços tecnológicos. São transformações imbricadas por uma ideologia neoliberal que cria um sistema mundial auto-regulado. Primeiro elemento circunstancial vivido pelo ser humano: a globalização. 129-131). 51).. 2009. Diante dessa diversidade. OLIVEIRA. 2009. Assim. p. sociais. De acordo com Libâneo. 2009. Toschi. p. cap. XIX e início do séc. políticas. não se pode deixar de traçar alguns elementos comuns que se constatam no discurso reflexivo dos autores contemporâneos. Monopolista ( séc. 2009. TOSCHI. o capitalismo remodela o mundo. (LIBÂNEO. que compreende o progresso técnico-científico. Monopolista de Estado (séc.65 compreender as mudanças significativas que questionam essencialmente todo edifício da modernidade.. A arrogância moderna negou o divino e se dirigiu para a emancipação do ser humano. 72-73). p. OLIVEIRA. globalização entende-se como transformações econômicas. a busca de eficiência e de competitividade e a desregulamentação do comércio entre países com a destruição das fronteiras nacionais e a procura pela completa de trânsito para as pessoas. o capitalismo lançou-se “[. cap. mercadorias e capitais. inicio da déc. da reestruturação do sistema de produção e desenvolvimento. No final do século XX.. Concorrencial global (séc. refletir sobre a constituição do mundo no século atual é olhar para diversas leituras sobre ele. políticos e culturais que expressam o espírito da época e a etapa de desenvolvimento do capitalismo em que o mundo se encontra atualmente.” (LIBÂNEO. (2009. (LIBÂNEO. na organização do trabalho e nos hábitos de consumo. TOSCHI. OLIVEIRA. 74. cap. Capitalismo72 é um modo de produção que possui um 72 O capitalismo possui quatro etapas no que concerne ao grau de produção: capitalismo concorrencial (séc. p. a privatização de amplos setores de bens e sérvios produzidos pelo Estado. 51-53). A pós-modernidade é um fenômeno de fin de millénium. . de mundialização. TOSCHI. XX. XIX). Dito de outro modo. globalização designa [. ou seja. Esse termo sugere a idéia de movimentação intensa. p. p. em uma espécie de mercado universal.. OLIVEIRA.] uma gama de fatores econômicos. da compreensão do papel do Estado. Por meio dela. ou melhor. Esse processo de aceleração. Deste modo. (LIBÂNEO. a globalização pode ser entendida como uma estratégia de enfrentamento da crise do capitalismo e de constituição de uma nova ordem econômica mundial.] em um acelerado processo de reestruturação e integração econômica. de 80). XVIII início do séc. pós 2º Guerra Mundial). das modificações nele realizadas e das mudanças no sistema financeiro. grifo nosso). TOSCHI. em partes como telecomunicações e informática. Oliveira. de que as pessoas estão em meio a um acelerado processo de integração e de reestruturação capitalista. (1998. integração e reestruturação capitalista vem sendo chamado de globalização. 51).

p. era digital. que pode ser chamada também de: revolução científica e técnica. João Ferreira de. TOSCHI. TOSCHI. ed. revolução informática. OLIVEIRA. unificador e auto-regular da sociedade. A atuação deste capitalismo no cenário mundial adapta-se e remodela-se conforme as novas exigências. OLIVEIRA. pela aceleração das transformações técnico-científicas. fica evidente que as mudanças econômicas. o capitalismo e o liberalismo estão assumindo duas posições clássicas ou macrotendências: a) a concorrencial que se preocupada com a liberdade econômica. “Tem como princípio organizador a relação trabalho assalariado-capital e como condição básica a relação produção social-apropriação privada” (LIBÂNEO. ou sociedade tecnológica. Uma nova ordem que instiga a realização de um capital financeiro e especulativo. OLIVEIRA. 59-60). principalmente. sociedade do conhecimento. LIBÂNEO. p. p. (LIBÂNEO. e ampliam-se os centros de pesquisa e as grandes empresas do mundo. estabelecendo assim. 2009. TOSCHI.66 capital que é o principal meio de produção. 2009. b) e a estatizante que tem como preocupação central o conteúdo igualitarista-social. revolução informacional. (LIBÂNEO. 84-95. 2009. 2009. revolução tecnológica. a sociedade técnico-informacional.71). . porque os espaços de aprendizagem se ampliam e o saber tem um espaço importante. uma Terceira Revolução Industrial. Mirza Seabra. tais como: o paradigma da liberdade econômica. 52). Neoliberalismo: o mercado como princípio fundador. In: ______. TOSCHI. 2009. e as diversidades e os contrastes da sociedade. p. 80-84). que se alternam de acordo com o estágio de desenvolvimento e de adaptação. OLIVEIRA. (DELORS. Alguns estudiosos afirmam que a sociedade atual deve ser chamada de sociedade do conhecimento. ou simplesmente. 2009. José Carlos. estrutura e organização. Além disso. Inclusive. Educação Escolar: políticas. Cf. Mas se trata de uma sociedade gestada pela globalização que incentiva a constituição de redes científicas e tecnológicas que se liguem entre si. p. políticas. TOSCHI. culturais originam-se. (LIBÂNEO. Assim. OLIVEIRA. sociais. Além da atuação dos interesses econômicos. A nova sociedade depende de dois modos de regulação da vida social: informação ou financiamento. educacionais. 8. p. de sociedade técnico-informacional. (LIBÂNEO. TOSCHI. 39). p. 59). a modernização capitalista-liberal realiza-se na execução de dois paradigmas de condução de projetos diferenciados. 2001. da eficiência e da qualidade e o paradigma da igualdade. São Paulo: Cortez. OLIVEIRA.

(DELORS. TOSCHI. Ela ajuda na realização de uma revolução informacional por meio do qual há um espantoso e contínuo avanço das telecomunicações dos meios de comunicação (mídias) e das novas tecnologias de informação. etc. 64). dos serviços e das relações sociais. que impele a constituição de um novo mundo. Para muitos. ele constitui a maior invenção do século. OLIVEIRA. transporte. 36). denominada de “aldeia global”. 60). A revolução na Microeletrônica revoluciona ou traz grandes reflexos econômicos. indústria. A Revolução se assenta na microeletrônica. p. (LIBÂNEO. informação.67 A tecnologia encurta o tempo e o espaço e se relaciona de modo cada vez mais estreito os diferentes aspectos da atividade mundial. (LIBÂNEO. Ela fez com que a humanidade entrasse na era da comunicação universal pela qual se abolem as distâncias. Nela há uma livre circulação de imagens e de palavras. de eficiência e de aumento da produtividade em um mundo cada vez mais competitivo e globalizado. microbiologia e a energia termonuclear. TOSCHI. sob pena de tornarem-se obsoletos ou de serem excluídos das atividades que realizam. 2009. OLIVEIRA. São potencialmente infindáveis as aplicações do computador em diferentes campos da atividade humana: lazer. comércio. 2001. educação. 3940). já que seu fascínio. Uma invenção que ganha vida e transforma-se num utensílio de prioridade absoluta. 2009. A vedete da revolução é a o computador. p. seu aperfeiçoamento e sua utilização não parecem ter limites. agricultura. telecomunicação. em seu favor. (LIBÂNEO. . 2001. Em todos esses campos começa a fluir uma cultura digital pela qual todos se sentem fascinados ou pressionados a dela participar e adquirir seus produtos. Desse modo. ainda. a indústria e o comércio. pesquisa. p. 2009. o fato de ter se tornado sinônimo de modernização. p. O computador tem. saúde. p. TOSCHI. uma nova cultura. sociais e culturais: agricultura. transformando as relações internacionais e a compreensão do mundo pelas pessoas. fazendo com que exista uma compreensão de que é imperioso informatizar. as transformações técnico-científicas revolucionam o mundo contribuindo para modificações da produção. 64-66). OLIVEIRA. (DELORS.

b) automação. OLIVEIRA. d) demissões. 199). Ela significa a concorrência das informações com o conhecimento sistemático. f) diminuição dos salários. Esse fenômeno atinge seu ápice a partir de 1980. ou melhor. diferentes mecanismo de informação. Mas que também possibilita “uma nova forma de divisão social e de exclusão: de um lado. 2009. faz com que os mercados se unifiquem e se dispersem. (LIBÂNEO. rompe as fronteiras e enfraquece governos. TOSCHI. Com efeito.68 Essa nova condição de vida. c) implementação de programas de qualidade total e de produtividade (processos de reengenharia em vista de maior racionalidade econômica. g) desqualificação do Estado (como promotor do desenvolvimento econômico e social) e minimização das políticas públicas. p. 76). (CASTRO. capitais e tecnologias sem identidade nacional. propiciando nesta interação humana circulações de informações. eliminação de direitos trabalhistas e flexibilização dos contratos de trabalho. do comércio. da cultura. acesso e pesquisa. a submissão a uma racionalidade econômica baseada no mercado global competitivo e autoregulável. . TOSCHI. 2007. p. (LIBÂNEO. subemprego. de outro. OLIVEIRA. Tal ordem é a mola propulsora que traz as seguintes conseqüências: a) produtos. desemprego estrutural. foi cunhada por McLuhan. nessa nova realidade. diminuição do poder sindical. informatização e terceirização da produção. do consumo. p. 75). configura uma nova ordem econômica mundial. os excluídos desse exercício”. da informação. OLIVEIRA. desemprego. 2009. e) recessão. os que têm o monopólio do pensamento. Diz respeito a uma revolução caracterizada pelo surgimento de uma nova linguagem comunicacional. OLIVEIRA. (LIBÂNEO. possibilidades de entretenimento e de educação. exclusão e crise social. chamada de “aldeia global”. 2009. 2009. mas também impõe a lógica da exclusão. pressupondo. (LIBÂNEO.76). 75. p. a globalização. TOSCHI. TOSCHI. presente no mundo da produção. p. OLIVEIRA. 2009. 69). do trabalho e das finanças. TOSCHI. p. acúmulo de informações. (LIBÂNEO. 68). padrões e valores de modo intenso. pois a globalização.

João B. tais como: a multiplicidade de línguas. ser tentado ou instigado. 41). expressão da diversidade cultural da humanidade. tribal” (LIBÂNIO. 243).. 73 O teólogo João Batista oferece uma leitura interessante sobre o cenário mundial nas suas mais diferentes interfaces. a marginalização dos espaços rurais. amplia-se o crescimento desigual entre os países. A real: “[. numa grande parte do mundo em desenvolvimento. E como educar hoje?. no ano de 2010. 241). a urbanização acelerada. Mas. sugerindo a busca da lucidez. ao mesmo tempo. “a continuação do êxodo rural.] certa socialidade contemporânea de caráter presentista. 43-46). então. novas formas de comunicação in massa surgem. Ele apresenta a questão dos chats e do Orkut. p.69 A nova ordem que se reina acentua as pressões migratórias. tais como: Facebook e Twitter. (DELORS. 2009. 46). assim. 2001. Ele apresentou no capítulo 18. alteração das referências existenciais ou habituais do homem. uma “[. 2001. Libânio73 apresenta um fenômeno típico da contemporaneidade: a tribalização que podem ser de dois tipos: real e a virtual. às vezes.. Somam-se a eles outros fatores. correndo o risco de encarar como ameaças as evoluções que se operam além das fronteiras do seu grupo imediato e de. uma leitura reflexiva sobre a relação entre o homem e o seu envolvimento com a internet. captados através dos meios de comunicação social. por um sentimento ilusório de segurança. a atração pelos modos de vida e. (DELORS. E a virtual consiste no fenômeno chamado de cibercultural ou no ciberespaço pelo qual as pessoas se comunicam via internet.. a existência de novas sofisticadas armas químicas ou biológicas. imediata. há um crescimento demográfico rápido. pelos valores dos países mais prósperos.. vitalista. p. existindo uma sociabilidade sem relação afetiva com o outro.] luta-se contra as formas depressivas de solidão pela constituição de grupos de interesses comuns” (2009. degradação ambiental. meios de transporte mais rápidos e mais baratos”. . um novo estilo de relacionamento. com a possibilidade da conseqüência de rejeição do outro. p. ou antes. a fechar-se sobre si mesmo. As bases da existência do homem contemporâneo encontram-se abaladas. (DELORS. p. p. integrando. 2001. Sinalizando-se. em chat.

Ele se vende para se sentir bem com os amigos. a massa é a mentira. o homem contemporâneo é dominado pelo mercado. Dinheiro é a base fundamental para que o outro seja importante. O homem é responsável pela sua existência. o pensador Soren Kierkegaard74 redescobre o indivíduo (PAULA. a existência não se reduz a idéias. como baladas. Ser homem é ser uma mercadoria. A multidão. 197). é interessante melhor debruçar-se na pesquisa da sua concepção antropológica. A verdade é para ser vivida. Mas para Kierkegaard. A liberdade do ser humano é atrofiada pelo consumo: ele é aquilo que tem e não aquilo que é. fica evidente que o mundo atual é complexo. transgridem-se os limites com toda desenvoltura. Monografia (Graduação em Filosofia) – Faculdade Católica de Pouso Alegre. Portanto. Kierkegaard instiga uma percepção crítica com relação a configuração do homem que se vive. 96 p. Existência é reflexão.] o momento atual mostra-se paradoxal. A história humana está numa desenvoltura tão intensa que faz o ser humano 74 O pensador Soren A. Limite estreito. Muitas pessoas são aquilo que os outros são. Tudo gira em torno do lucro. No campo da ciência e da ética. ao favorecer naturalmente o capital e seus detentores em detrimento do trabalho. à lógica e à experimentação. então. Pouso Alegre. Pensamento único.1 A resposta da Educação em conformidade com o tempo Diante das premissas apresentadas anteriormente.. O mercado rege com leis férreas o jogo de interesses. Sugere-se. é considerado careta e excluído. Instiga o homem repensar seus atos e transformar-se para provocar uma transformação na sociedade. pelo seu agir. Libânio (2009. o limite do sistema neoliberal se impõe. com a família e com a sociedade. A concepção de Homem no pensamento existencial de Soren Kierkegaard. possibilidade. p. Contra essa lógica secularista. 2002. a leitura do seguinte Trabalho de Conclusão de Curso: SILVA. 250) apresenta em linhas sucintas a configuração contemporânea: [. . eleição. Desse modo. Considera-se qualquer oposição como entulho do passado. p. bares.70 Ademais. 3. e não se veste como manda o figurino. Quem não participa dos ambientes sociais. 2008.. festas. pela multidão. Hoje em dia a ciência procura controlar a vida das pessoas. Ele é aquilo que se torna. interiorização. O homem precisa resgatar o verdadeiro sentido da verdade. pela massa. João Henrique.1. No campo econômico.

“a escola reproduz. mais flexível e polivalente. a ideologia presente na educação brasileira garante privilégios para a classe dominante. b) levam o capitalismo a estabelecer. Uma ideologia a favor da vida. 2009. que existe uma ideologia.asp?codigo=12B793>. Disponível em: <http://revistaeducacao. culturas. 240). não porque ela deseja e escolhe este caminho. Diante disso. A escola é a reprodução do sistema vigente75. econômica e política.com. Nessa situação. Contudo. o que provoca certa valorização da educação formadora de novas habilidades cognitivas e de competências sociais e pessoais. Torna-se um espaço de confluência de valores. Assim. diz que está presente porque faz parte da condição humana.71 perder-se diante desse emaranhado de fatores que constroem uma teia do existir caracterizada por mutações constantes no estilo da vida humana e interferem significativamente na organização das instituições. nas necessidades e nos valores escolares. de idéias. Porém. Pensadores divergem sobre este assunto. se vê numa encruzilhada constante. ou seja. É apenas um elemento para entender o que se ocorre na escola.uol. as novas exigências estabelecidas para a escola são: a) exigem um novo tipo de trabalhador. Interação de distintas visões de mundo. Enquanto para outros. da dignidade.br/textos. Para alguns não existe ideologia porque esta acabou. Fabiano. percebe-se na realidade social. Repete em miniatura o que acontece na grande sociedade e prepara as pessoas para manter a estrutura dominante” (2009. sob muitos aspectos. Mas não se deve pensar nisso de modo exclusivo. Mais presente do que nunca. se o mercado unifica. 75 Existe uma ideologia ou não na escola? Essa é uma questão que ainda instiga e é debatida por vários pensadores. Cf. a escola reflete o meio. o fato é que o homem atua através de um conjunto lógico e sistemático de ideias. cabe a escola propor um sistema educacional que possibilite transformar a realidade. Ela se relaciona com diversas instituições e introduz no corpo do seu funcionamento diversos modelos de segmentado da sociedade. A divergência de opiniões. c) modificam os objetivos e as prioridades da escola. crenças. p. A escola. a sociedade no duplo sentido do verbo. Sendo ela positiva ou negativa. para a escola. Acesso em: 17 nov. finalidades mais compatíveis com os interesses do mercado. como uma instituição social. . d) produzem modificação nos interesses. Os oprimidos são cada vez mais explorados. Inclusive. uma vez que ela está inserida no mundo. Educação e escola possuem uma ideologia? É uma questão de percepção da realidade. CURI. construir seres humanos críticos. então. Segundo Libânio. dificulta enxergar um caminho coerente e pautado na realização do ser humano. regula e normatiza a vida social e a escola é um segmento da vida social. valores ou crenças.

A necessidade de reestruturação da escola pública exige a primazia da iniciativa privada. A escola de hoje precisa conviver com outras modalidades de educação: a formal. o papel do Estado é relegado a segundo plano. TOSCHI. f) induzem alteração na atitude do professor e no trabalhador docente. p. busca realizar diretrizes e medidas pelas quais o País se moderniza. dá-se início de um processo de reestruturação dos sistemas educativos e da instituição. A orientação política do neoliberalismo de mercado. 2009. regida pelas leis de mercado. se adapta às exigências de globalização da econômica fundadas pelas instituições financeiras e pelas corporações internacionais. como decorrência da incapacidade administrativa e financeira de o Estado administrar o bem comum. p. da escola e do ensino.72 e) forçam a escola a mudar suas práticas por causa do avanço tecnológico dos meios de comunicação e da introdução da informática. a produtividade. o governo brasileiro vem implementando suas políticas econômicas e educacionais de ajuste. uma vez que os meios de comunicação e os demais recursos tecnológicos são muito motivadores. OLIVEIRA. (LIBÂNEO. TOSCHI. (LIBÂNEO. 2009. com objetivo de formar cidadãos mais preparados e qualificados para um novo tempo. isto é. OLIVEIRA. 55). 101). na modernização da instituição educativa. ao mesmo tempo em que se dão mais importância aos métodos e ao papel da iniciativa privada no desenvolvimento e no progresso individual e social. um discurso de crise e de fracasso da escola pública. OLIVEIRA. p. a flexibilidade. 53). . TOSCHI. Assim. 52). adquire as condições de inserção no mundo globalizado e. articulando-as e integrando a elas. por sua vez. As políticas. desse modo. (LIBÂNEO. apresenta. exigem a diversificação. TOSCHI. a informal e a profissional. p. a competitividade. a eficiência e a qualidade dos sistemas educativos. 2009. Diante dessa crise da função do Estado. Assim. no que se refere a educação. de acordo com os parâmetros reformas neoliberais que. 2009. (LIBÂNEO. ideologicamente. OLIVEIRA. impõe uma adequação às demandas e exigências do mercado.

porque impõe a todas as crianças o mesmo modelo cultural e intelectual. muitas vezes.] Em vez de um projeto educacional para a inclusão social e para a produção da igualdade. as empresas não contribuem para a inserção social. 239).. 106). o insucesso escolar76 surge como irreversível. fundamentando-se somente nos resultados escolares. na verdade. . OLIVEIRA. para que a escola corresponda aos desafios impostos pela sociedade tecnológica à escola e ao campo da educação em geral. 113). Desse modo. 102). os sistemas educativos formais são. 56). Busca-se assim uma qualidade total na educação através de um enfoque sistêmico que acontece através de uma administração eficiente e na utilização de uma tecnologia educacional. (DELORS. (DELORS. 2001. que é necessário em certos casos. p. 2009. exigente.. adota-se uma lógica da competição em que a equidade. à marginalização e à exclusão social77. 76 “[.73 A nova pedagogia educacional tem a “função primordial desenvolver as novas habilidades cognitivas (inteligência instrumentalizadora) e as competências sociais necessárias à adaptação do indivíduo ao novo paradigma produtivo. Os aptos são aqueles que estão de acordo com os resultados quantitativos realizados na escola. p. OLIVEIRA. gera. TOSCHI. (DELORS. 2009.. 2009. sofisticado.” (LIBÂNEO.] gera simultaneamente exclusão para os de pouca escolaridade e concorrência entre os escolarizados” (2009. 77 Libânio percebe no cenário educacional que ocorreu uma elitização da educação que. p. p. OLIVEIRA. sem levar em conta a diversidade dos talentos individuais. Esse fenômeno “[. porém pode ser pervertido e traduzir-se numa prática excessivamente seletiva. p. Assim. p. p. deseducou os seres humanos. além de formar o consumidor competente. 56). 2001. ou melhor. a mobilidade social é pensada sob o enfoque estrito do desempenho individual” (LIBÂNEO. TOSCHI. TOSCHI. porque o insucesso escolar é gerador de exclusão. As empresas selecionam os mais aptos que passaram pela lógica da exclusão escolar. Desta forma. acusados justamente de limitar a realização pessoal. e consequentemente. 55). A nova ótica da educação prioriza o princípio de emulação. (LIBÂNEO. 2001. ao desenvolvimento intelectual..

] perspectivas democráticas de construção de uma sociedade moderna. Os novos paradigmas estabelecidos devem contribuir na geração de [. a educação tem o desafio de capacitar a mão-de-obra e requalificar trabalhadores. justa e solidária. OLIVEIRA. abre o caminho para que sua função libertadora. o que. 111-112). Em uma sociedade de conhecimento e de aprendizagem. formar o consumidor exigente e sofisticado para um mercado diversificado. Quando ela se deixa guiar pelas rédeas da economia. mas . TOSCHI. não deve significar a aniquilação da diversidade e das singularidades dos sujeitos. (LIBÂNEO. Portanto. Precisando agir na realização de uma democracia de fato. uma educação voltada para o mercado perde sua essência. TOSCHI. objetivando satisfazer as exigências do sistema produtivo e. São dois fatores que impedem a consecução de uma educação libertadora e humana. mas a construção de uma sociedade democrática na forma e no conteúdo. Desta forma. evidentemente. 2009. p. (LIBÂNEO. 110). a escola precisa enfrentar alguns obstáculos: a indisciplina e a violência. 2009. ouvindo o tempo.. que saiba competir seus talentos e habilidades no mercado de trabalho. versátil qualificado intelectual e tecnologicamente e capaz de se submeter a um contínuo processo de aprendizagem” (LIBÂNEO. 2009. é preciso dotar os sujeitos sociais de competências e habilidades para a participação na vida social. a instituição escolar consegue agir. Não porque eles são empecilhos próprios. TOSCHI.. Torna-se precária quando se prioriza uma formação exclusiva para o trabalho. sofisticado e competitivo. Com efeito. a fim de não ensejar novas formas de divisão social. OLIVEIRA. que irão oprimir e dilacerar a vida humana. Sua ação deve ser fiel a sua missão. emancipadora e humana seja subjugada a interesses hegemônicos. p. elas apresentam que o novo sistema produtivo necessita de um “trabalhador cada vez mais polivalente. flexível. OLIVEIRA. p. Deve ajudar na construção de uma cidadania consciente e ativa. 114). econômica e cultural.74 Aliás. Um consumidor compreendido como um cidadão eficiente e competente. ainda.

o tópico seguinte buscará compreender o que seja indisciplina escolar e a violência como barreiras a serem enfrentadas pela escola para que construa uma sociedade melhor. Determina suas prioridades e qualidades. Atualmente.75 momentos em que a escola deve pesquisar. Quem quiser educar. São fatores angustiantes e preocupantes para ela. precisa ouvir o mundo. Contudo. Sua missão é ajudar o mundo a ser melhor. igualitária e digna. 3. O mundo influencia nas decisões da escola. Entretanto. Elas são elementos que objetivam não a consolidar uma escola direcionada para o mercado. não pode querer ser o mundo. compreender e agir. mas “presentes” que irão propiciar uma revisão das suas práticas pedagógicas para o estabelecimento de uma vida democrática. jogada “na lama”. Para tanto. um das questões que preocupam a escola é a indisciplina e a violência. na realização de uma educação justa. A educação deve estar atenta a isso.2 EDUCAÇÃO: À ESCUTA DE SI MESMO A educação faz parte de um ninho complexo de diversos fatores que confluem para poder se guiar no mundo. Mas será? A indisciplina e a violência escolar desmoronam seus objetivos? A educação está mesmo no “fundo do poço? Quais são as causas e as conseqüências destes fatores? Há soluções para tais condutas? São perguntas como essas que nortearão o presente tópico. interpretá-lo e remodelá-lo. . É como ela se visse deixada ao relento. eles são fatores desmotivadores para a perpetuação do descaso escolar e da ignorância no entendimento de suas causas e conseqüências. mas procurar conciliar sua essência com os objetivos do mundo.

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A indisciplina e a violência não deixam a educação “na lama” quando são fatores que a educação procura superar e fundamentar-se por um compromisso sério consigo mesmo. Sua precariedade advém de diversos fatores, inclusive, de ela isentar-se da culpa e responsabilizar a sociedade ou ao Estado. Se ela está “na lama”, melhor ela se reerguer, por mais que o barro dos aspectos econômicos, sociais culturais, políticos a afligem; por mais que a chuva da desestruturação da “nuvem” familiar a incentiva a ficar na lama; por mais que a “água” de soluções imediatistas e punitivas não a ajudam encontrar uma saída do abismo. Diante desses conflitos, a educação tem que olhar para si mesma. Refletir seriamente e comprometidamente sobre a perspectiva sua para o mundo atual. Para isso precisa inicialmente conhecer as causas da indisciplina. De acordo com Julio G. Aquino (2003, p. 16) 78, uma das primeiras causas é o fato de a sociedade se encontrar numa contínua mudança. Sua instabilidade chega também à escola porque são alunos que vêm desta configuração social. Mas não se pode pensar que somente o meio influencia na maturação das capacidades psicológicas do indivíduo. (LAJONQUIÈRE, 1996, p. 26) 79. Esta configuração provoca uma barbárie escolar, porque o ethos escolar contemporâneo não realiza sua missão adequadamente. (AQUINO, 2003, p. 22). Ultimamente, “forjaram-se medidas de enquadramento penal dos hábitos do aluno, de acordo com regulamentos, estatutos, códigos múltiplos. Os regimentos escolares e suas ‘normas de conduta’ são bons exemplos desse movimento”. (AQUINO, 2003, p. 20). Prefere-se punir a educar. Outra causa é o quadro de conflitante de flexibilização, desritualização institucional das práticas escolares. “Os ritos são as rotinas catalisadoras dos papeis e das funções ali em
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A reflexões seguinte deste autor foram retiradas da seguinte obra: AQUINO, Julio Groppa. Indisciplina: O Contraponto das escolas democráticas. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2003. 79 LAJONQUIÈRE, Leandro. A criança, sua (in) disciplina e a psicanálise. In: AQUINO, Júlio Groppa (Org.). Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1996. p. 25-37.

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vigor para os que dela fazem parte” (AQUINO, 2003, p. 23). Mas tais ritos estão em crise, isto é, a crise da educação “traduz-se no desarranjo das pautas de funcionamento dessa instituição secular e, por conseguinte, na desfiguração dos papeis e das funções clássicas de seus protagonistas” (AQUINO, 2003, p. 23). Lamentavelmente incumbe ao professor um projeto messiânico:
exigem do professor inúmeros papeis – o familiar, o clínico (médico, psicológico, logopedista etc.), o assistência social, o nutricionista. O papel de ensinar é ampliado até o incomensurável: é preciso ensinar tudo. [...] Escola impossível, onde se coloca ao professor a missão de levar para a sala de aula tudo aquilo que falta. Os resultados sempre serão poucos, lhe aponta uma eterna dívida. (AMORIN, 1989, p. 94, apud AQUINO, 2003, p. 24).

Segundo Paulo Ghiraldelli Júnior (2009) 80, os professores trabalham com “anjos na escola”.
O que a professora faz é diferente. Eis o que ela faz: ela limpa o traseiro de seus alunos (às vezes, mais de 50 em uma sala), assua o nariz deles, enxuga o suor deles, cuida de machucados e quebraduras nem sempre feitos na escola, toma a temperatura deles para ver febre, escuta pulmões, tira piolhos, escova dentes da criançada. Em alguns lugares, examina partes sexuais por conta de abusos e outras coisas do tipo ou, mesmo, por conta de coceiras e até DSTs avançadas. Isso é o que o educador faz. Ele ou ela não tem em sala de aula nenhum daqueles anjos sem corpos que gente do tipo do pessoal que escreve sobre educação imagina estar na escola. Ora, enquanto nossas autoridades não admitirem, no âmbito da discussão pedagógica, que o que se paga para o professor para que ele lide com corpos, e não com anjos – até porque anjos não vão para a escola (que eu saiba) –, é realmente uma miséria, não há o que conversar. Não há o que falar sobre educação. [grifo do autor].

Esta situação gera um sentimento de frustração ao professor que se entrega ao sistema que aliena. O professor se vê desmotivado, a ponto de “cruzar os braços” para a mudança que deve ser feita por ele na escola. Essa falta de estímulo também repercute nas ações dos alunos que, ao verem o professor descomprometido, colabora para que a indisciplina e a violência aconteçam. Quando eles percebem que nada é feito, aproveitam a oportunidade para se rebelarem de modo que chamem a atenção para uma mudança que fica somente nas suas memórias. Guardam assim, que a escola pública é “péssima”, de “baixa”
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GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. Anjos na escola pública brasileira. Disponível <http://portal.filosofia.pro.br/noticias/anjos-na-escola-publica.html>. Acesso em: 23 set. 2009.

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qualidade, professores “chatos” e “ignorantes”. Mas também, perpetuam a condição que escola pública é precária e não tem solução. Entretanto, é necessário que os professores entendam seu papel. Eles não podem aceitar que a indisciplina e a violência possuem uma causa exterior, uma vez que não são figuras exclusivas do aluno, nem somente é responsabilidade da sociedade, nem exclusivamente competência da própria organização do corpo pedagógico 2003, p. 25). Assim, “é possível constatar, pois, que a indisciplina (como problema teórico e prático) em geral é tratada de maneira imediatista, sem o circunstanciamento conceitual necessário” (AQUINO, 1996, p. 7). Inclusive, as reflexões apressadas inferem que só a droga da obediência poderia salvar a instituição escolar. Ou seja, identificam como um caráter patológico a conduta dos alunos, atribuindo-lhe o “[...] estatuto de anômalos, disfuncionais, enfermos” (AQUINO, 2003, p. 32). Querem ver a disciplina somente como docilidade e obediência. Muitos crêem que os alunos possuem TDHA82 (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), termo presente na Associação Brasileira do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Segundo a pesquisa feita por esta Associação, 3 a 5 % dos alunos possuem este transtorno, estando mais presente nas crianças de 5 a 10 anos de idade. Pensa-se que as causas para ela são: genes, lesões neurológicas mínimas (gestação) ou alterações das substancias químicas cerebrais. (AQUINO, 2003, p.26-29). Muitos educadores estendem essa patologia para seus alunos, pensando que eles se encontram enfermos ao realizarem atos indisciplinados, sem ao menos compreender do que se
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. (AQUINO,

Yves La Taille reflete que os seguintes perigos no tratamento deste tema: moralismo ingênuo (valores), reducionismo (psicológico – características individuais, sociológico – causas gerais, complexidade). (1996, p. 910). Cf. LA TAILLE, Yves. A Indisciplina e o sentimento de vergonha. In: AQUINO, Júlio Groppa (Org.). Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1996. p. 9-23. 82 Aquino apresenta 18 razões para perceber quais são os alunos que possuem o transtorno de atenção e hiperatividade. Cf. AQUINO, Julio Groppa. Indisciplina: O Contraponto das escolas democráticas. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2003. p. 26-28.

p. p. Inclusive. acaba contribuindo com a psicologização do cotidiano escolar. 28). que depende das características da clientela. 8). percebem. e. da adolescência para a juventude. 10)..” (2003. Mas. por mais que tenha conhecimento de que há uma “linha divisória entre incivilidade.. por um lado.. indisciplina e violência. está fadada ao fraco uma vez que apenas ele mesmo poderia. trata-se de um inadiável trabalho ético-político que se impõe aos educadores atuais. 2003. 28) [. 2003. p. que é o de problematizar a demanda psicologizante por causa da intensa necessidade em requerer serviços parapedagógicos. 36).] a pretensão de alguns educadores. 2003. como a psicologia. 2003. Na visão de Lajonquière (1996. Entretanto. (p. Sugerem que o professor deve se impor. Mas “[. para Aquino. valer-se ‘utilmente’ de ‘seu’ saber a produzir. nos professores. na verdade. supõe..]” (AQUINO. Responsabilizam a família que deve ter causado prejuízos psíquicos ao educarem de um . Desse modo. mas não se pode dizer o mesmo em relação a diaa-dia escolar. nunca se sabe ao certo o que separa os atos de incivilidade dos de indisciplina nem onde este terminam para começarem os atos violentos.79 trata esta doença. agressividade essa gerada pela ‘desestruturação’ do ambiente familiar”. de vir a saber sobre a singularidade subjetiva do agir de um aluno. erroneamente. Mas. os pais e os alunos dizem que falta postura do professor. pois a indisciplina é “um fenômeno escolar que ultrapassa fronteiras socioculturais e também econômicas” (AQUINO. Pensa-se também como sendo apenas um fenômeno específico. transferem a responsabilidade para outras ciências.] manifestação de uma agressividade latente dirigida contra as figuras de autoridade.. por outro. ou nos próprios alunos.. psiquiatria e medicina para solucionarem estes problemas. Depois de jogar a culpa na sociedade. Neste. 7).. p. (AQUINO. 9-10). Um fenômeno que atinge seu ápice entre a etapa final do ensino final e o início do ensino médio. de passagem.se que seja uma “[. chegado o caso.] não se pode dizer que haja um perfil docente mais (ou menos) propenso aos enfrentamentos disciplinares [. p. (AQUINO. p..

2003. 9). 2003. uma vez que ela ocasiona desgosto pelo estudo. 2003. p. a autoridade pela sedução. os indisciplinados são mensageiros fieis das transformações sócio-históricas que batem às portas das escolas. a Filosofia pelas discussões das crises existenciais. a própria tecnologia é o fator propulsor para o desinteresse em sala. 35). apud AQUINO. Muitos professores preferem inicialmente aconselhar até se cansarem.. (AQUINO. Sendo a escola então um “[. preocupa-se em intimar os alunos e estabelecer punições para que ele se discipline. Eles queixam que há falta de limite porque os pais não lhes impõem limites. Para Aquino. p. as causas para os conflitos em torno da disciplina estão relacionadas com o meio ou com a sociedade que influencia nas condutas dos alunos: “As desigualdades econômicas e sociais. Ainda apresentam que a televisão83. Assim. (AQUINO.. A escola passa a ser o templo da juventude. 40). p.” (LA TAILLE. o aluno irá se tornar um ser humano melhor. 2003. 22). (AQUINO. e. 11.” Um 83 Um dos problemas atuais é o fato da criança ser demasiadamente adulada: “Troca-se Machado de Assis por história de Walt Disney.80 determinado modo. 11). 1994. O fato é que a escola “aconselha-se até o limite do suportável. Por isso. visto que este é um ambiente ainda clássico e “bancário”.” (AQUINO. além de contribuírem com o esfacelamento da escola como instituição democrática ou contestação ou resistência civil. p. . Pela coerção. a crise de valores e o conflito de gerações são alguns dos factores [sic] que podem explicar os desequilíbrios que afectam [sic] tanto a vida social como a vida escolar” (ESTRELA. estabelecem punições reparatórias. (LA TAILLE.] palco de confluência de forças molares que em muito ultrapassa seu escopo de atuação. p. castiga-se até o limite do aceitável – daí em diante. por último. 2003. 11). 1996. 12). as ordens pelas negociações. não o mais o templo do saber. não restará outra alternativa se não a de buscar a redenção externa. os encaminhamentos parapedagógicos. p. 1996. p. p. depois.

42-44). No caso familiar. Porém se esquecem de que a tarefa da escola é “[. Tal estruturação consiste na introjeção de determinados parâmetros morais apriorísticos. Trata-se. 39). por meio da reapropriação do legado cultural. . p. (AQUINO. solidariedade etc. Ou melhor. visa-se à ordenação do pensamento do “ aluno”. p. pelo fato de que as crianças são seres ainda em constituição. o que está em questão é a ordenação da conduta da “criança”. quando a família incentiva uma responsabilidade prévia (obedecer e respeitar) dentro de casa colabora para o reconhecimento da autoridade externa. ou algozes porque as crianças ajudam reproduzi-las. que são: permeabilidade a regras comuns. p. No entanto. reciprocidade. partilha de responsabilidade. p. no caso escolar.. Família e Escola “são instituições vizinhas. está a cargo da esfera familiar.] a prerrogativa do trabalho de (re) construção do legado cultural”.. cooperação. 2003. pois. A primeira. Inclusive.81 lugar onde as crianças e os adolescentes são vítimas. 2003. p. não deveriam confundir-se. por meio da moralização de seus hábitos. consequentemente. Nem tudo depende da família. Isto é. do reconhecimento da autoridade como condição sine qua non para a convivência em comunidade e. mas díspares em suas práticas”. São diferentes porque o modo como enfrentam as questões da vida privada e da vida pública são distintas. assumindo o cuidado familiar. porque a equação de um pai provedor mais (+) uma mãe cuidadosa com (+) relações harmoniosas não geram (=) uma prole disciplinada. porque a escola não é marionete nem totalmente autônoma diante dos problemas que enfrentam. pelo fato de elas serem representantes de uma nova geração. (AQUINO. é de responsabilidade do âmbito escolar. Família e sociedade desestruturadas não são fatores únicos. 1996. de grandezas de diferentes ordens que não se confundem jamais. 45): a existência de crianças impõe dois tipos de obrigação a toda a sociedade: a preservação da vida e a continuidade do mundo. 45). 40). deve ficar claro que os atos indisciplinados não correspondem exclusivamente às transformação macroestruturais. para o trabalho em sala de aula. (AQUINO. 2003. por isso alguns pensam que os educadores devem ser orientadores dos pais. (AQUINO. A segunda. Como apresenta Aquino (2003. porque a instituição escolar reproduz as forças.

In: AQUINO. 57-71. pois ela deveria ser espaço de (re) produção científica e cultural nas expectativas de seus agentes e clientela. A manutenção da disciplina constitui com efeito. do talento profissional específico de cada educador.). (1996. os problemas técnicos e de formação que parecem eternamente desencontrados das demandas e das condições dos aprendizes. Terceiro: a inevitável quebra do contrato pedagógico. Marlene. Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. Com efeito.]” (ESTRELA. se gasta muito mais energia com as questões psíquicas e morais do aluno do que com a principal tarefa de estimulá-los ao saber. Infelizmente. 46). São Paulo: Summus. tão antigo como a própria escola e tão inevitável como ela. a instituição educativa preocupa-se mais com a normatização da conduta alheia do que com o legado cultural que deveria ser assimilado pelo aluno. e assim por diante. a nosso ver. p. apud AQUINO. Guirado84 revela que: A relação professor/aluno já vem abalada por embates e desafios: os problemas infra-estruturais como os salários e a precariedade das condições físicas. 1996. Júlio Groppa (Org.. A escola não deve pensar que a democratização do ensino não leva os alunos a serem ingratos por não valorizarem seu lugar concedido na escola. 47). os problemas sociais e de relacionamento com os de segurança e ameaças ao exercício de sua função por alunos e outros grupos institucionais. p. Atualmente.. Segundo: o desvio de função. a escola sofre as seguintes conseqüências quando não cumpre satisfatoriamente sua tarefa: Primeiro: o desperdício da força de trabalho qualificada.11-12. 1996. 1994. um comprometimento de ordem ética. 1996. uma vez que a proposta de trabalho educacional raramente se cumpre de maneira satisfatória. . Além do mais. uma preocupação de todas as épocas. como já testemunham vários textos de Platão [. no sentido de que eles não 84 Cf. gerando assim um estado aberto de ambigüidades e insatisfação.] fenômeno essencialmente escolar. 2003. a disciplina deve ser percebida como um “[.82 Nessa relação de autoridade que se faz no envolvimento entre professor e aluno.. p. o que implica. GUIRADO. pois professores deveriam ater-se as suas atribuições didático-pedagógicas. 69). p. 46-47). p.. Poder Indisciplina: os surpreendentes rumos da relação de poder. p. nem impostores. Consequentemente. a escola deveria admitir que as estratégias de administração do ato indisciplina serão sempre insuficientes porque abordam-na de modo ensaístico . (AQUINO. (AQUINO.

51-55). cabe ao professor “ensaiar outras modalidades de relação com os mais novos”. toda empresa pedagógica acaba se revelando pouco eficaz. p. uma vez que oscilação e provisoriedade acontecem. por cima. por outro. bem como. Muitas vezes pensa-se que “o aluno disciplinado é aquele que se encaixa no molde de uma criança ideal. 11). 50-51).] os contratempo disciplinares sinalizaram o impacto do ingresso de uma clientela diferenciada em uma estrutura opaca e resistente a mudanças. e. desse modo. p. mesmo que seja cansativo. Ele deve almejar construir sua autoridade baseada no contínuo convívio escolar. (AQUINO. La Taille diz que “[. 2003. aquele cuja imagem aparece institucionalmente fora de foco”. os alunos acabam se transformando em crianças mais ou menos indisciplinadas.] espera-se que as crianças venham a ser adultos possuidores de tudo aquilo que hoje nós não temos imaginariamente. Não pensando. 1996.” (LAJONQUIÈRE.. Mas. 85 Um dos problemas em almejar um aluno perfeito deve-se ao fato que na atualidade “[. Desta forma. p... por um lado. ainda preserva princípios pedagógicos e políticos de uma escola de elite.. p. 31).83 deveriam estar lá. . além do desempenho em cada matéria ser diferente dos demais. de certa forma. ao contrário. (AQUINO. buscando reconstruí-la. (AQUINO. p. disciplina não pode ser entendida como uma boa educação e conviver pacificamente. Ademais.] a indisciplina em sala de aula é (entre outros fatores) decorrência do enfraquecimento do vínculo entre moralidade e sentimento de vergonha” (1996. trata-se de consegui-lho graças à metódica observância de um programa tanto moral quando natural. 32). incapazes de dialogar com os novos perfis discentes – uma escola de massa que. uma vez que todos estão em fase de desenvolvimento. (LAJONQUIÈRE. 47-49).. no fato de que [. p. então.. e o indisciplinado é. 1996. a gênese da indisciplina residiria nos conflitos perpetrados pelas próprias práticas escolares. porque isso pode ser gerado por medo do castigo e pela conformidade com a situação. que a indisciplina reside no sintoma da incompatibilidade entre a escola e os alunos. Desse modo. Desta feita. 2003. Deve perceber que alunos fracos não existem porque não é possível existir aluno perfeito85. 2003. de outrora.

procurando certa autonomia que é responsável por equilíbrio psicológico. pois vários atos de indisciplina traduzem-se na afronta a moral. desejando afirmar e expandir o seu eu. seu lado externo é sua origem. um vínculo entre disciplina em sala de aula e moral por que: primeiramente. p. 1996.. p. 19). Quando se trata de um “[.] juízos alheios têm grande peso e formarão a primeira camada da imagem que terá de si”.] olhar crítico. é um sentimento inevitável que se inicia desde quando a criança toma a consciência de sua própria perceptibilidade. nos remete aos dois controles. É neste auto-controle que surge o caminho da moral através do qual vai associarse à imagem que cada um faz de si. desonra. (LA TAILLE.. (LA TAILLE. a disciplina e a moral colocam o problema da relação do indivíduo com um conjunto de normas.. 1996. em segundo. . 1996. 1996. a construção da imagem de si que cada um procura realizar e preservar”. da escuta. p. p. 1996. negativo. a vergonha encontrará sua tradução mais freqüente: sentimento de rebaixamento. p. Desse modo. mas toda disciplina não é moral” (LA TAILLE. p. do pensamento dos outros.] a vergonha não se associa apenas à moralidade. seu lado interno é a atribuição de valor. e no valor em si.. Mas ela busca ter uma boa imagem de si..14). 20). (LA TAILLE. Há. 12). p.” (LA TAILLE. (LA TAILLE. Mas “os atos de indisciplina pode ser genuinamente morais” (LA TAILLE. necessariamente. 11-12). p. “Toda moral pede disciplina.84 O sentimento de vergonha86 corresponde ao fato de o indivíduo saber ser objeto do olhar. 1996. Assim. a construção da imagem de si influenciará na conduta do aluno.. na sua disciplina e na moral. Aliás. No fato de ter seus próprios critérios. 13). “[. então. 14). Não dependerá da publicidade dos atos. 20). 1996. 1996. humilhação. contribuindo para que ela faça juízo de valor sobre si mesma. 86 “A vergonha é um sentimento que. (LA TAILLE. e sua realimentação na exposição ao juízo alheio. Além dela referir-se também a um controle interno. O olhar influenciará no desejo de se valorizar. Porém. mas é impossível pensar a moralidade sem ela”. os “[.

p. 9-10). que a todos submeteria”. a história e a psicanálise mostram a priori que as crianças sempre algo aprenderão para além de toda sua (in)disciplina.. p. 1996. pois está em jogo o lugar que a escola ocupa hoje na sociedade. 41). 1996. p. de fato. as causas da indisciplina tratam-se de “um entrelaçamento. estritamente? Conforme Celso Antunes87 (2002. 3.] [pois deveria ser ] pensado com o retorno sui generis da diferença que habita o campo subjetivo. [. 31). o lugar que a moral ocupa”. Celso. 1996. ed. • não ofereça condições para que os professores possam “acordar” em seus alunos sua potencialidade como elemento de auto-realização. inevitavelmente.. . Inclusive. oferecendo aos alunos cultura e não migalhas pedagógicas embrulhadas em bondade psicoafetiva.. Lajonquière propõe que a instituição deve livrar-se moralmente dos imperativos pedagógicos hegemônicos. 31).] um incidente de indisciplina.. para se concentrar a reinventar o cotidiano escolar. Não se pode considerar que “tudo aquilo que foge a um programa moral e/ou natural é. Desse modo. (LAJONQUIÈRE. p. (LA TAILLE. a indisciplina ocorre quando a classe é aquela que: • não permita aos professores oportunidades plenas para o desenvolvimento de seu processo de ajuda na construção do conhecimento do aluno. “a indisciplina em sala de aula não se deve essencialmente a “falhas” psicopedagógicas. Para Aquino (1996. p. 22). ao desenvolvimento de uma aprendizagem significativa e vivências geradoras da formação de atitudes socialmente aceitas em seus alunos.85 Com efeito.” (LAJONQUIÈRE. o lugar que a criança e o jovem ocupam. uma interpenetração de âmbitos entre as diferentes instituições que define a malha de relações sociais do que uma suposta matriz social e supra-institucional. a indisciplina. preparação para o trabalho e exercício consciente da cidadania. 87 Cf. Professor bonzinho = aluno difícil: A questão da indisciplina em sala de aula. • não permita um consciente trabalho de estímulo às habilidades operatórias. Mas o que seria. Petrópolis: Vozes.[. ANTUNES. 2002.

a indisciplina emana-se de três elementos: “a escola e a sua estrutura. Ao tentar disciplinar. [. um quartel. In: AQUINO. Muito menos atribuir a responsabilidade às ações do professor. impõe medo. a tentativa de rupturas a serem realizadas na escola com a função de potencializar uma transição institucional escolar de um modelo autoritário de pensar e efetivar a tarefa educacional para um modelo menos elitista e conservador. as relações factuais entre os alunos.” (AQUINO. Áurea M. 73-82.] não é possível assumir que a indisciplina se refira ao aluno exclusivamente. Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. . no qual os professores são os generais e os alunos soldados. Mas esta “[. p.. com outras demandas e valores. Indisciplina e violência: a ambigüidade dos conflitos na escola. Funciona como uma militarização. subserviência.. Júlio Groppa (Org. 1996. Mas. a gênese da indisciplina não residiria na figura do aluno. mas na rejeição operada por esta escola incapaz de administrar as novas formas de existência social concreta. Também não é possível creditá-la totalmente à estruturação escolar e suas circunstâncias sócio-históricas. por exemplo. p. o tempo. formar condutas de docilidade e submissão. 1996. 1996. porém esta pode: [. 48).. 45). seus sistema de sanções. p. numa ordem arcaica e despreparada para absorvê-lo plenamente. gera uma reação que explode na indisciplinada incontrolável ou na violência banal.” (GUIMARÃES. 1996. 45). (AQUINO.] estar indicando o impacto do ingresso de um novo sujeito histórico. 1996. o modo como são partilhados os espaços. pelo modo de autoridade 88 Cf. 19). também pela não integração e união entre a sua equipe docente e administrativa. (AQUINO. para Celso Antunes. o professor e a sua conduta e o aluno e a sua bagunça” (2002.. a disciplina imposta nas escolas é aquela que pressiona.. p. tornando-a um problema de cunho essencialmente didático-pedagógico. coação.).86 Infelizmente. São Paulo: Summus.. 78) 88. personificados nas transformações do perfil de sua clientela. A indisciplina significaria. p. busca-se eliminar a indisciplina. Nesse sentido. (AQUINO. ao desconsiderar.] disciplina imposta. GUIMARÃES. Geralmente a escola objetiva uniformizar. p. Desse modo. 1996. homogeneizar. p. 43). tratando-se de um problema de cunho psicológico/moral. A escola por causa da sua organização interna. assim.

ele desencadeia novos dispositivos para que o aluno. das obrigações e das normas. tenha autonomia sobre o seu próprio aprendizado e sobre sua própria vida. (GUIMARÃES. caracterizados pela diferença. 79) preleciona que professor [. p. 79).. há uma duplicidade que. exige-se a não necessidade de um controle totalitário. garante a coesão dos alunos. Por isso. (ANTUNES. Guimarães corrobora para entender que a indisciplina pode expressar ódio. como as salas de aula são lugares de relações. 1996. p. os alunos em conjunto com os professores deveriam ter uma relação mais saudável pautado pela ética e valores humanos. em especial. maior a violência dos alunos em tentar garantir as forças que assegurem sua vitalidade enquanto grupo. o professor desempenha um papel violento e ambíguo. professores e diretores) como nas brincadeiras. pela precariedade. de uma planificação racional. Guimarães (1996. 20-33). Nas brigas (envolvendo alunos. Ao mesmo tempo em que a ordem é necessária. O professor porque não se preocupa com a sua formação continua. Com efeito. de outro.] imagina que a garantia do seu lugar se dá pela manutenção da ordem. 79). ao assegurar a expressão de forças heterogêneas. (GUIMARÃES. p. 2002. raiva. e uma forma de interromper as pretensões do controle homogeneizador imposto pela escola. mas a diversidade dos elementos que compõem a sala de aula impede a tranqüilidade da permanência neste lugar. por último. vingança. .. 1996.87 estabelecida e. por não ser reprimível. quanto maior a repressão. Com relação à atuação do professor. porque eles passam a partilhar de emoções que instituem o sentimento da vida coletiva. pela ausência de clareza como encara a questão disciplinar. ao se diferenciar dele. pois se. desejando manterem-se apáticos. uma vez que os alunos procuram de modo espontâneo e não planejado o querer-viver que. ele tem a função de estabelecer os limites da realidade. pela instabilidade. de um lado. p. impede a instalação de qualquer tipo de autoritarismo. Inclusive. desinteressados e desanimados com a educação. E.

] atitude de desrespeito. dialogar e conviver de modo cooperativo com seus pares. as normas são observadas como condição necessária ao convívio social. Júlio Groppa (Org. Rego89: o conceito de indisciplina não é “estático.88 Ressalva-se que disciplina se alcança através da negociação. que apresenta dificuldades em entender o ponto de vista do outro e de se autogovernar (no sentido expresso por Vygotsky. p. p. ao disciplinar. 85) Todavia. que não respeita a opinião e o sentimento alheios. (REGO. é encarada como um resultado (ainda que não exclusivo) da prática educativa realizada na escola. tampouco nem universal. sem questionar as regras e preceitos vigentes em determinada organização. que não acata e não se submete. 93. e provoca rupturas e questionamentos. Entretanto. o indisciplinado é aquele que se rebela. a disciplina não é compreendida como mecanismo de repressão e controle. uma vez que orienta e baliza sua relações sociais. 1996. Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. do não cumprimento de regras 89 Cf. mas principalmente internalizados por todos). a disciplina é concebida como uma qualidade. Assim. de intransigência. 90 “[.. (GUIMARÃES. da articulação do trabalho em conjunto. entre as diferentes culturas e numa mesma sociedade” (1996.101. pergunta. 1996. à obediência e à acomodação. grifo do autor). mas como um conjunto de parâmetros (elaborados pelos adultos ou em conjunto com os alunos. De modo semelhante compreende Teresa Cristina R. uma virtude (do indivíduo ou de um grupo de alunos) e. a indisciplina90 ventila-se como uma “[. 87. ao invés de ser compreendida como um pré-requisito para o aproveitamento escolar. a disciplina. Deste ponto de vista. REGO. 1996. que cede. deveria intuir que regras e normas são importantes para guiar as relações e possibilitar o diálogo.] no plano educativo.). Indisciplina e o processo educativo: uma análise na perspectiva vygotskiana. São Paulo: Summus. 80).” (REGO. a cooperação e a troca entre os membros na comunidade escolar. Como decorrência. 84). E o disciplinador é identificado com a pessoa que molda os indivíduos. Aí se encontra a verdadeira educação. uniforme. 1996. Consequentemente. 86). mas sim como aquele que não tem limites. de intolerância aos acordos firmados. levando o aluno a uma atitude autônoma e libertadora.. a escola. p. 1996. um aluno indisciplinado não é entendido como aquele que questiona. In: AQUINO. do diálogo.. levando à submissão. como a tolerância. visando a uma convivência e produção escolar de melhor qualidade. se inquieta e se movimenta na sala. principalmente.. . p. p. que deve ser obedecidos no contexto educativo. na efetivação de valores humanos. concebe-se o disciplinado como aquele que obedece. Teresa Cristina R. como um objetivo a ser trabalhado e alcançado pela escola. Neste caso. Enquanto. Ele se relaciona com o conjunto de valores e expectativas que variam ao longo da história. 1984). nem se acomoda. p. (REGO. que não consegue compartilhar.

.] essa violência atravessa toda a organização social. por isso mesmo. 2004. Ela se manifesta de três modos na escola: a) quando ela é o local de violências que têm origem externa a ela. por exemplo. Flávia. simbólica). familiares: [. Desse modo. 25 apud (1989. 42). 2004. A sociedade da insegurança e a violência na escola. cobrança excessiva da postura sentada. 1996. Ela implica diversos atores e sujeitos. 100). o comportamento indisciplinado está [. pouco incentivo à autonomia e às interações entre os alunos. b) outra aquela que tange às atividades institucionais e que diz respeito a casos de violência direta contra a instituição. p. p. maciça ou esparsa.. E o comportamento violento? Qual é o seu significado na realidade escolar? As causas da indisciplina e suas conseqüências ajudam na consolidação de uma violência constante no espaço escolar. “Segundo Yves Michaud (1989). SCHILLING. quando não remodela este espaço social.. Inclusive. apud SCHILLING. inadequação da organização do espaço da sala de aula e do tempo para a realização das atividades. Trata-se de uma vitimização que acontece a todos sob diversas formas.. São Paulo: Moderna. Cf.. tais como: propostas curriculares problemáticas e metodologias que subestimam a capacidade do aluno (assuntos pouco interessantes ou fáceis demais). como as relações lúdicas. Deste modo. mas é socialmente construída e. 2004. sevícia e abuso físico ou psíquico contra alguém e caracteriza relações intersubjetivas e sociais definidas pela opressão e intimidação. (SCHILLING. 1. (REGO. em suas posses. seja em sua integridade física. um ou vários atores agem de maneira direta ou indireta. consequentemente. p. Ele diz que “[.. 1996. surgindo nos setores menos regulamentados da vida. 13. a violência introduz o desregramento e o caos num mundo estável e regular” (SCHILLING. 2004. 38). ed. constante uso de sanções e ameaças visando ao silêncio da classe. 2004. 2004. 37).] violência é um ato de brutalidade. além acontece sob formas diferentes (violência física. de cooperação.” (FRANCO. 86). 87). 33-35).. p. p. apud SCHILLING. p. deve-se perceber que a violência91 não é causal. emocional. Compreendendo. . p. p. 13. apud SCHILLING. psicológica. 1983. (REGO. principalmente. a disciplina como um resultado da prática educativa concretizada na escola. e projetando-se até a codificação dos valores fundamentais da cultura.. causando danos a uma ou várias pessoas. 13. 38). pouco diálogo etc. excessiva centralização na figura do professor (visto como único detentor do saber) e. c) e aquela que acontece no 91 A violência é conceito multidimensional. numa situação de interação. Ela “[. pelo medo e pelo terror” (1989. pode ser previsível. p. p.] há violência quando. 1996. p.. (REGO. seja em sua integridade moral.89 capazes de pautar a conduta de um indivíduo ou de um grupo”. depredação ou agressão verbal aos professores.. p.] diretamente relacionado a uma série de aspectos associas à ineficiência da prática pedagógica desenvolvida.] permeia as relações de vizinhança. então. ou em suas participações simbólicas e culturais” (1989. deve perceber que a “[.

o silenciamento que provoca. 92 Esta violência “reflete a banalização da violência cotidiana. o espaço escolar. que serão despejados” (SCHILLING. p. p. Renato.. gerando um infortúnio para educar. Desgastam. 2004. ganham vida na escola cinco formas da violência: a violência da indiferença92. uso de armas). (SCHILLING. 342. Uma das formas mais difundidas de violência é o bullying93. 77-78). o seguinte livro oferece uma compreensão importante do que seja esta forma de violência: Cf. Caren. . a escola torna-se uma instituição de vítimas porque “cria-se um círculo vicioso de vitimização e agressões mútuas que termina impossibilitando a resolução pacífica dos conflitos” (SCHILLING. 2004. Ele pode ser definido de três modos: um comportamento agressivo ou uma ofensa intencional. a quebra dos discursos arrumados e prontos que usávamos” (SCHILLING. e violência contra o patrimônio (vandalismo e depredação)” (SCHILLING. p. “Para os alunos. 177).. 77). In: ALVES. Violência na Escola: um Guia para pais e professores. CUBAS.” (OLWEUS. apud SCHILLING. Viviane de Oliveira. da discriminação. Ademais. 1993. p. a social e a da criminalidade. a doméstica. roubos). p. violências contra a propriedade (furtos. apud CUBAS. p. 2004. é a violência que acontece estruturalmente nas instituições. Viviane.90 relacionamento entre os próprios alunos e aquela entre professor e aluno. Reflete também a dificuldade que cerca a violência. 2007. São Paulo: Imprensa Oficial. de criar aqueles que fracassarão. 2007. (CUBAS. 2004. p. Isto é. acontece em relações interpessoais caracterizadas por um desequilíbrio de poder. mas a experiências vivenciadas de formas múltiplas e distintas por aqueles que a sofrem (p. 84). CUBAS.] as violências nas escolas não se resumem a uma série de dados objetivos. 93 Para melhor esclarecimento. Assim. 86). em seu exercício de excluir. assim. 27). brigas. ocorre várias vezes e por muito tempo. Ela pode ser categorizada assim: “violências contra pessoas (ameaças. violência sexual. 2004. p. da violência fatal. “um aluno é vítima de bullying quando está exposto constantemente e durante boa parte do tempo a ações negativas por parte de um aluno ou de um grupo de alunos. 89). Bullying: assédio moral na escola. 2004. RUOTI. “[. 2007. De acordo com a UNESCO. 84-95).

os autores apresentados aqui demonstram a necessidade de revelar a obviedade do óbvio (mostrar o que está evidente. p.91 Ele pode ser direto. prejudicando o desenvolvimento da personalidade e a realização do bem-estar coletivo. 2007.2. mas não se quer enxergar) da vida educacional. A própria organização do mundo contemporâneo estipula uma configuração para a formação da vida humana. uma vez que as relações sociais tornam-se pesadas. quando se trata de ataques abertos à vítima. p. (CUBAS. 2007. mostra quais as causas e conseqüências. faz diferentes leituras sobre o que é educar e como educar. ou seja. a indisciplina e a violência podem ser compreendidas de diferentes maneiras por aqueles que as vivenciam dolorosamente na realidade. abrindo espaço para a agressão. uma vez que manipula relacionamentos. Por isso. em vez de um projeto voltado para a formação ética. em consonância com a psicologia. Portanto. autoritarismo para defender as suas idéias. (CUBAS. . ajudando-os a resolver as situações de modo ético e justo. além de ordenar que a escola funda suas decisões num projeto educacional que vê a indisciplina e violência como uma das suas preocupações para formar o homem. é importante que os pais desencorajem seus filhos a se comportarem de modo agressivo. 190). 3. dificultosas. verbais e psicológicas. 177-178). expresso através de agressões físicas. E cabe à escola elaborar e executar um programa anti-bullying para que mude o quadro de violência que destrói projetos de vida. isola ou exclui os alunos. Porém.1 A Educação e suas concepções A formação humana por meio da educação é compreendida de vários modos. E há o indireto. que é mais sutil. imposição. Qualquer dessas duas formas incita à violência. Diferentes pedagogias apresentam um paradigma que deve ser implementado na escola. E a pedagogia.

. imposta pelo currículo escolar aos integrantes do processo 94 Cf. 2005. 47) 94.] não há construção do conhecimento em busca da transformação e superação das dificuldades sociais. 2005.92 Como não é objeto desta pesquisa refletir.2. com objetivo de estabelecer dois lados antagônicos e possíveis na realidade escolar.] à memorização dos conteúdos transmitidos. 48). contribuindo para que esse não se sinta sujeito capaz de participar do processo de construção histórica.causas e sujeitos: A educação problematizadora como proposta real de superação. O professor tem uma relação vertical. Indisciplina escolar . p. é um detentor do saber que deposita conteúdos no educando. tornando-o submisso perante as ações opressoras de uma sociedade excludente. impedindo o desenvolvimento da criatividade e sua participação ativa no processo educativo. 95 Nela também “[. conhecimentos historicamente construídos por meio de seu principal agente: o professor.” (REBELO.. Petrópolis: Vozes. 2005. porque não trabalha como uma “ação-reflexão-ação (práxis) sobre realidades do indivíduo. 3.] como atitudes contrárias e ameaçadoras aos preceitos capitalistas. desenvolvimento da autonomia.. 3.1. hegemônica e excludente. 47). 2005. Rosana Aparecida Argento. Inclusive. esse tipo de ensino anula o poder criativo e participativo do aluno. p. com o objetivo apenas de transmitir valores e conhecimentos de forma simplificada e fragmentada. 47-48).] função de transmitir ao aluno. de forma mecânica. p. uma vez que leva o aluno “[. REBELO. ed. (REBELO. 2005. serão apresentadas apenas duas modalidades de formação que interferem na resolução dos conflitos escolares. sobre as distintas possibilidades de formar o ser humano. A educação bancária95 é classificada como domesticadora. de modo exaustivo.. esse modelo vê a indisciplina escolar “[.. mas perpetuação de uma cultura dominante..” (REBELO.. representantes da ideologia dominante e estabelecidas como verdades absolutas. Não se buscam transformações sociais. pelo contrário.1 A educação “bancária” Tal concepção de educação tem a “[.” (REBELO. . p. Ratifica-se um ensino antidialógico..

(FREIRE.2 A educação “problematizadora” . ouvintes (os educandos). Além disso. não há criatividade. o saber é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. 49). p. 2001). Essa concepção é cunhada e criticada por Paulo Freire que dizia que os oprimidos (os alunos) vivenciam uma concepção de educação opressora. O Educador é o real sujeito que tem como tarefa “encher” os educandos com os conteúdos de sua narração. Consequentemente. uma vez que. desconectados da totalidade em que são engendrados e em cuja visão ganharam significação. tende mais ingenuamente a adaptar os indivíduos ao mundo. a educação “bancária” mantém e estimula a contradição na sociedade opressora. Tais conteúdos são retalhados da realidade. o educador é o sujeito que conduz os educandos à memorização mecânica do conteúdo narrado. 2001). (REBELO. os educandos são sempre os que não sabem. 2001). o educador é o que sempre sabe. a educação é um ato de depositar: os educandos são os depositários e os educandos são os depositantes. Uma das características dessa educação dissertadora é a sonoridade da palavra. 3. As relações educador . Para a concepção “bancária” de educação. (FREIRE. 2005. Ela impõe a passividade e. assim. o que implica um sujeito (narrador) e os objetos pacientes. Essa rigidez não vê a educação e o conhecimento como processos de busca. à realidade parcializada dos depósitos recebidos.1. não há transformação. Neste caso. Isso leva os educandos e o educador a se arquivarem.educando são relações fundamentalmente narradoras e dissertadoras. (FREIRE.93 educativo.” Essa indisciplina denuncia a discriminação social e demarca que é de exclusiva responsabilidade apenas do aluno. Inclusive. não há saber.2. nessa visão distorcida.

] ato de amor. (REBELO. aspectos fundamentais na busca da libertação do homem das injustiças sociais. 50). deve acontecer numa relação horizontal em que tanto educador como educando buscam saber mais em comunhão.” (REBELO. (REBELO. usando da sua autoridade democrática. a tolerância e a conscientização das nossas possibilidades como seres participantes na construção do conhecimento do mundo. 50. p. práxis. a disciplina é entendida como “[. Inclusive. um espaço pedagógico interessante. a criatividade. 2005. p. (REBELO. porque quanto mais produção. Entretanto. 2005. respeito a todas as visões de mundo. esperança e troca de experiências entre os envolvidos. p. em conjunto com alunos. 2005. visando alcançar um produto de forma superficial e rapidamente. Essa concepção de educação: [. em busca de uma sociedade mais justa. o respeito. 51)... a partir das necessidades e preocupações do aluno. 2005. deve levá-lo a compreender a realidade da qual faz parte e intervir conscientemente para melhorá-la. 2005.] deve ser prática constante no espaço escolar como meio de superação da indisciplina. cria. mais lucro. abordando-o. o educador é visto como “como coordenador do processo educativo já que. a cooperação.. por isso o diálogo é fundamental neste processo educativo libertador”. agir para a sua transformação.. o diálogo. estimulante e desafiador. para que nele ocorra a construção de um conhecimento científico significativo. ou seja. porque o ser humano deve refletir e denunciar o mundo em que vive. p. o pensar crítico e a construção coletiva. O educador deve também desenvolver um trabalho pedagógico que. enquanto prática educativa. A finalidade dessa prática disciplinar não é a de silenciar o aluno. 2005.] construção interna que . por isso é pedagógica. (REBELEO. pois valorizando a relação professor/aluno.94 Consiste num modelo que vê educar como um “[. p. 51). 52). grifo do autor). Além do mais a disciplina não se refere a um controle externo do tempo e do espaço. desenvolve-se a participação. colaborando com o desenvolvimento da autonomia intelectual e da autodisciplina dos alunos. 51). (REBELO. Desse modo. mas de ultrapassar os limites do espontaneísmo e do conhecimento como senso comum... p. O diálogo deve ser ação/reflexão/ação.

” (REGO. Se o professor pautar os parâmetros relacionais no seu campo de conhecimento. almejase neste tópico sistematizar e completar outras possíveis respostas para o problema da indisciplina. grifo do autor). (AQUINO. Apresentou reflexões significativas como a perspectiva educacional que pode ajudar a resolver os problemas escolares. na maneira com que nos posicionamos perante o nosso outro complementar” (AQUINO. mais do que esperar a transformação das famílias ou de lamentar os traços comportamentais que cada aluno apresenta ao ingressar na escola. 1996. 53). 1996. fator importante para libertação do homem. deve tomar decisões que instigam a transformação da realidade. 52). 1996. nos nossos vínculos cotidianos e. “A saída possível está no coração mesmo da relação professor-aluno. p.2. isto é. . Contudo. 100. principalmente. p.” (REBELO. 51). Diante dos fatos alegados sobre tais problemas. de semelhanças e diferenças. p. façam uma análise aprofundada e conseqüente dos fatores responsáveis pela ocorrência da indisciplina na sala de aula. 1996. 3. Uma moralidade que “pressupõe a observância de regras. Inclusive. 50). 50). 2005. a escola é delegada a superar esse obstáculo. p.2 Respostas para o dilema da indisciplina e violência escolar Os tópicos anteriores proporcionaram uma visão sobre diversos enfoques sobre a resolução dos conflitos dentro do espaço escolar.95 colabora com a busca da autonomia intelectual. principalmente. é necessário que os educadores concebam estes antecedentes como ponto de partida e. p. de regularidades e exceções” (AQUINO. Mas o professor deve também restabelecer uma “função epistêmica autêntica e legítima da escola” (AQUINO. p. contribuirá para (re) inventar a moralidade discente. porque como instituição que tem uma prática social. 1996.

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Conhecer faz parte da vida das crianças e jovens, mas eles devem ser convocados e instigados para buscar o saber. Desse modo, dependerá da proposta através do qual o

conhecimento é formulado e gerenciado nesse microcosmo (cada sala de aula). Mas trata-se de uma tarefa difícil, porque exige sempre um recomeço, a cada aula, cada turma, cada semestre. (AQUINO, 1996, p. 52).
O papel da escola, então, passa a ser o de fermentar a experiências do sujeito perante a incansável aventura humana de desconstrução e reconstrução dos processos imanentes à realidade dos fatos cotidianos, da incessante busca de uma visão mais dilatada de suas múltiplas determinações e dos diferentes pontos de vista sobre eles. (AQUINO, 1996, p. 52).

Consequentemente, determina-se que o aluno ponha para funcionar a engrenagem denominada de pensamento lógico, independentemente do campo específico de determinada matéria ou disciplina. “A partir daí, o barulho, a agitação, a movimentação passam a ser catalisadores do ato de conhecer, de tal sorte que a indisciplina pode se tornar, paradoxalmente, um movimento organizado, se estruturado em torno de determinadas idéias, conceitos, proposições formais.” (AQUINO, 1996, p. 53). Com efeito, busca-se despontar uma nova disciplina: “aquela que denota tenacidade, perseverança, obstinação, vontade de saber”. (AQUINO, 1996, p. 53). Disciplina não pode ser silenciamento, obediência e resignação, mas “significar movimento, força afirmativa, vontade transpor os obstáculos.” “Disciplina torna-se, então, vetor de rebeldia para consigo mesmo e de estranhamento para com o mundo – qualidades fundamentais do trabalho humano de conhecer.” (AQUINO, 1996, p. 53). Como apresenta Antunes (2002, p 14), silêncio sepulcral é bom em cemitério, não em sala de aula, pois nela precisa-se de interação, envolvimento e comunicação. Com isso, impetra-se uma conduta dialógica por parte do professor, uma intervenção pedagógica que se constrói através de uma “negociação constante, quer com relação às estratégias de ensino ou de avaliação, quer com relação aos objetivos e até mesmo aos conteúdos preconizados –

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sempre com vistas à flexibilização das delegações institucionais e das formas relacionais.” (AQUINO, 1996, p. 53.) Essa construção do conhecimento de modo negociável exige investimentos nos vínculos concretos, fidelidade ao contrato pedagógico e a permeabilidade para mudança e para a invenção. Além de novas estratégias, experimentações de diferentes ordens no processo de ensino-aprendizagem. (AQUINO, 1996, p. 54.) “Desta forma, o lugar do professor pode tornar-se também um lugar de passagem, de fluxo da vida. Se não, o aluno desaparece, torna-se platéia silenciosa de um monólogo sempre igual, estático, à espera...” (AQUINO, 1996, p. 54.). Com efeito,
A disciplina (...) significa a capacidade de comandar a si mesmo, de se impor aos caprichos individuais, às veleidades desordenadas, significa, enfim, uma regra de vida. Além disso, significa a consciência da necessidade livremente aceita, na medida em que é reconhecida como necessária para que um organismo social qualquer atinja o fim proposto. (FRANCO, p. 40, apud PEREIRA, 2010).

Aliás, nessa disciplina,
o sujeito precisa se adaptar a uma série de valores, costumes, práticas sociais, etc. que fazem parte de sua cultura, mas, ao mesmo tempo, deve estar atento para a necessária transformação destes valores, práticas, etc. naquilo que têm de desumano, de alienado, que precisa ser superado. A disciplina consciente e interativa, portanto, pode ser entendida como o processo de construção da auto-regulação do sujeito e/ou grupo, que se dá na interação social e pela tensão dialética adaptação-transformação, tendo em vista atingir conscientemente um objetivo. (PEREIRA, 2010, grifo nosso).

Enfim, o terceiro capítulo foi um momento propício para resgatar o ideal da educação na contemporaneidade, principalmente no que concerne aos conflitos, tais como a indisciplina e a violência. Contudo, é necessário ainda discorrer sobre uma das funções primordiais da educação: formar cidadãos. Tal tarefa faz parte tanto de uma perspectiva pedagógica quanto jurídica, o que será apresentado a seguir.

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CAPÍTULO IV

A PERSPECTIVA JURÍDICA NA EDUCAÇÃO PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

Uma sociedade é democrática na proporção em que prepara todos os seus membros para com igualdade aquinhoarem de seus benefícios e em que assegura o maleável reajustamento de suas instituições por meio da interação das diversas formas da vida associada. Essa sociedade deve adotar um tipo de educação que proporcione aos indivíduos um interesse pessoal nas relações e direção sociais, e hábitos de espírito que permitam mudanças sociais sem o ocasionamento de desordens. (DEWEY, 1979, p. 106). Ao longo do Trabalho de Conclusão de Curso buscou-se demonstrar como que a indisciplina e a violência podem ser tratadas seguindo dois horizontes: o direito e a educação.

Assim parafraseando a relação entre fé e razão trabalhada pela encíclica. Carta encíclica Fides et Ratio. regida por filosofias niilistas. muitas vezes. proposta na Carta Encíclica Fides et Ratio96. ed. em última análise. conhecendo-se e amando-o. estimulando o ser humano a progredir no caminho da sabedoria. fé e razão devem andar juntas. São Paulo: Paulinas. de fragmentação do saber. pode-se dizer que direito e a pedagogia constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a consolidação da cidadania. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e. para poder ajudar o ser humano a procurar a verdade e a descobrir um sentido para a vida. pragmáticas e que deixam. Ambos também são meios para construir uma sociedade justa. 7. O mundo contemporâneo atravessa uma grande crise de sentido. na ocorrência de problemas relacionados à indisciplina e violência escolar. porque solucionam estes problemas de modo justo. auxilie na efetivação de uma vida cidadã. Desse modo. É a vida quem coloca no coração do homem a necessidade de estabelecer regras e normas de convivência. as pessoas perdidas e sem direção na vida. que junto com o direito.99 A perspectiva jurídica e pedagógica são duas ferramentas que ajudam na elaboração adequada e digna para formar o ser humano. possibilitando fundar uma pedagogia. igualitária e fraterna. De acordo com a encíclica. para que. principalmente. São instrumentos que asseguram a dignidade. 96 JOÃO PAULO II. o direito e a educação são duas perspectivas que remetem à interligação entre fé e razão. na qual o Papa João Paulo II afirma: A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. de conhecer a ele. 2004. O diálogo entre a fé e a razão pode exercer a função de discernimento crítico e purificador daquilo que o mundo hoje propõe. . possa chegar também a verdade plena sobre si próprio.

a perspectiva jurídica e pedagógica molda o homem. chamada ser humano. Sendo eles imprescindíveis para a concretização da cidadania é necessário tomar conhecimento como que ambos podem ajudar na realização deste objetivo. É uma pedra preciosa que se caracteriza pela beleza em si de ser cidadão. não abordou o objetivo essencial que ambas as leitura proporcionam: formar cidadãos. como que a violência (ato infracional) pode ser resolvida por meio da perspectiva jurídica. para assim consolidar a cidadania. E o terceiro capítulo delineou como que a pedagogia (ato de educar) é capaz de resolver os problemas da indisciplina. O QUE É SER CIDADÃO? . É um tema central no Direito Educacional que trabalha com a instância jurídica e pedagógica. Ajudam a lapidar a pedra bruta. em especial. Assim. especialmente neste último fato. que é o homem. para que se torne uma pedra preciosa. Todavia. Neste tópico. construindo um ser humano e um cidadão. Desse modo. será tratada a perspectiva jurídica que fomentará a realização da democracia e da cidadania no espaço escolar. no entrelaçamento entre o direito e a pedagogia.1. Portanto. 4. Isto é. o direito e a pedagogia são como que suportes para ajudar na realização da cidadania. este quarto capítulo tem a tarefa de oferecer algumas sugestões de ação que devem ser desenvolvidas pela escola.100 Com efeito. Foi apresentado no primeiro e segundo capítulos como que o direito ampara o ser humano nos problemas de indisciplina e violência escolar. Ser cidadão é possível através da realização dos direitos humanos. amparadas pelo direito e pela pedagogia. os três capítulos ofereceram uma leitura jurídica e pedagógica para solucionar os problemas enfrentados tanto no espaço escolar como na sociedade.

Também desempenham um papel de revolução jurídica e por ser um documento importante sobre a vida no Império Romano. contribuiu com os seus numerosos institutos que fazem parte dos sistemas jurídicos atuais. Alexandre. p.C. principalmente naquelas instituições jurídicas relacionadas ao direito de propriedade no seu prisma civilista e ao direito das obrigações. (CRETELLA JÚNIOR. Inclusive.).). que se tornaram a base do Direito Civil moderno. que será norteado no caráter privatístico do Código Civil Brasileiro. 17). que é a igualdade de liberdade no uso da palavra nas assembléia dos cidadãos e no instituto do grafe paranomon pelo qual se questionavam as leis já estabelecidas. Acesso à justiça e cidadania. p. entendiam como cidadão somente aqueles homens que participavam da gestão da cidade por meio do exercício direto dos direitos políticos. que é o priorizador da defesa da propriedade como direito real.101 De acordo com Alexandre César97. 97 98 Cf. os juristas romanos foram os primeiros a organizar o direito. mas formado de várias partes. (2002. o termo cidadão. 8-9). Belo Horizonte: Del Rey. A contribuição de Justiniano se deve a organização das leis que já existiam e a formulação de novas. sem a intervenção de representantes. Direito Romano Clássico: seus institutos jurídicos e seu legado. p. 2009). De acordo com José Cretella Júnior. classificando-as e aplicando-as a novos casos. Não reconheciam como cidadãos os escravos. p. sistemático. o direito romano é um vasto campo de observação. o status de cidadão se materializava na isogoria. 2009. 2) o Digesto ou Pandectas. para o direito romano98 o cidadão devia dedicar-se às coisas de interesse público e necessitava de passar por uma educação que desse suporte para tal função. o morador da cidade-estado da Antiguidade Greco-Romana. verdadeiro laboratório do direito. (2007. justificando inclusive a legítima defesa da posse. ed. VÉRAS NETO. p. planejado” (p. CÉSAR. Contudo. pois. Cuiabá: EdUFMT. etimologicamente. gozar. O Direito Romano é um legado indelével na história da humanidade. absoluto. In: WOLKMER. Francisco Q. eram votadas pelo povo reunido em comícios curiais (CÉSAR. com novas determinações legais. p. tiraram as casuísticas diária as regras jurídicas. (VÉRAS NETO. 128). Essa obra corresponde a um “conjunto ordenado de leis e princípios jurídicos. (CÉSAR. 2009. Influenciando assim. erga omnes. baseado no privilegio de usar. 2002. p. 4. que significa o sócio da polis ou civitas. como um direito ilimitado. 7) e composto por 5 partes: 1) o Código de Justiniano que possui toda a legislação romana revisada desde o século II. Enquanto em Roma existia uma esfera legislativa que se compreendia como leges datae e as leges rogatae que. os artesãos e os comerciantes. 51-53). o Corpus Juris Civilis foi instituído no governo de Justiniano I (imperador bizantino – 527 d. tem origem na expressão latina civis. p. as mulheres. 2002. para Cretella Júnior. Assim. 2007. Sua influência percebe-se nas várias instituições liberais individualistas contemporâneas. no direito atual. propostas por uma magistrado. 18). Fundamentos da História do Direito. 121-154. 7. 17). harmônico. 4) o Código Novo que é o Código Velho atualizado. Cf. reduzidos a um corpo único. na reflexão na redação dos modernos códigos. 3) Institutos que são os princípios fundamentais do direito. os estrangeiros. que é uma obra fundamental da jurisprudência (2007. e abusa da coisa. composto pela jurisprudência romana. isto é. 51). no grego como polites. então. 5) as Novelas ou Autênticas que se referem às leis formuladas por Justiniano. Antonio Carlos (Org. 2002. Em Atenas. (SUPERABRIL. .

e os direitos políticos e sociais. Depois. na Idade Média. 1967. . o pensamento iluminista. 62. com a consolidação dos Estados nacionais e a conseqüente separação funcional das instituições anteriormente fundidas. p.).” (CÉSAR. propiciou a emergência dos direitos civis. comportando assim todos os tipos de direitos (CÉSAR. apud CÉSAR. (CÉSAR. uma vez que o avanço territorial e político do absolutismo monárquico. centralizador do poder público. p. Desse modo. surge a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão que compreende o cidadão em duas dimensões: uma universal e outra nacional. 19). 21). Mas ela deve ser entendida do ponto de partida. 2002. p. no século XI. p. então. p. 2002. produto histórico da modificação das relações sociais e políticas das sociedades que. (CÉSAR. credo. 2002. Rompendo com a monarquia. (CÉSAR. que fez suprimir a cidadania como elemento de liberdade entre iguais. Essa moderna concepção de cidadania seria. Inclusive. no século XVIII. p. a cidadania é resgatada na Península itálica. Havia aqueles que detinham. caracterizadoras das relações sociopolíticas do feudalismo. p. Assim. 2002. ao longo dos anos. 2002. 18). o direitos humanos foi aperfeiçoando o seu conceito. 2002. p.” (CÉSAR. 19). o status civitatis “foi substituído por um complexo de relações hierárquicas privadas. Todavia. 2002. 21). posteriormente. Um sentido de comunidade que vai ganhar mais ênfase com Welfare State. liberdade. 20). o Estado deve tutelar e respeitar os direitos. surge a distinção entre direitos civis (do homem) e direitos políticos (do cidadão). “a participação na gerência do Estado é indireta. em um primeiro momento. o direito de participar das decisões políticas. reconhece que o ser humano é titular de direitos naturais (vida. etc.102 Depois. prejudicava a realização da cidadania. 20). por força da lei. e a liberdade consiste em que não haja intervenção abusiva do Estado na vida privada dos cidadãos. que é uma “espécie de igualdade humana básica associada ao conceito de participação integral na comunidade” (MARSHAL. através da representação política. ganhando mais força com o pensamento liberal-burguês no período moderno.

formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal.. As leis delegadas serão elaboradas pelo Presidente da República. 68.o pluralismo político. meio ambiente equilibrado. constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I .. os de competência privativa da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal.]. V . sujeitos.. cidadania e naturalização. processual.a cidadania. Compete privativamente à União legislar sobre: I . Parágrafo único. aeronáutico. (CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988).103 Ademais.nacionalidade. XIII . 22. nos termos desta Constituição. pleno emprego.. tendo como conseqüência a formulação de alternativas ao novo modelo de desenvolvimento econômico adotado (“capitalismo desorganizado”. a matéria reservada à lei complementar. 2002.os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. em maioria. simbolizados pelos novos movimentos sociais e populares. eleitoral. (CÉSAR. nem a legislação sobre: . espacial e do trabalho.a dignidade da pessoa humana. II . ausência de qualquer tipo de discriminação [. que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente. p. Ou como diz o artigo 68 da Carta Magna: Art. IV . 23-24). [.Não serão objeto de delegação os atos de competência exclusiva do Congresso Nacional. agrário. participação real nas decisões políticas. penal. globalização da economia.direito civil. § 1º . marítimo. o neoliberalismo político. 24). Uma nova significação de cidadania que abarca o “acesso à educação. e o individualismo extremado. são algumas circunstância da nova configuração mundial) e o nascimento de outros sujeitos sociais. da construção de um novo conceito de cidadania. 1º A República Federativa do Brasil. III . que deverá solicitar a delegação ao Congresso Nacional.]” (CÉSAR. saúde e alimentação dignas. o Estado Mínimo. comercial.a soberania. Uma cidadania que é o fundamento do Estado Democrático Brasileiro: Art. 2002. a circulação dinâmica dos capitais internacionais. com o Estado de Bem-Estar Social levaram a um grande movimento social. p. Uma República que tem a responsabilidade primeira de legislar sobre: Art. Todo o poder emana do povo.

o povo e os direitos políticos. busca-se romper coma dicotomia liberal homem/cidadão. (CÉSAR. reduzindo-o ao exercício dos direitos políticos dos indivíduos. Inclusive. a carreira e a garantia de seus membros. III .. mas sim manipulados. (CÉSAR. pela qual José Afonso da Silva compreende que a cidadania são entendidos como participantes da vida do Estado. os princípios da Constituição não são cumpridos. de acordo com César. p. 305. uma vez que esta interpretação é mecanizada. p. seu nascedouro é sempre o Estado. a cidadania. (1992. Logo. Contudo. Entretanto. direitos individuais. Então. políticos e eleitorais. permanece na teoria jurídica dominante no Brasil99 o conceito de cidadania surgido nas revoluções burguesas. Mas. vive em circunstância liberal. instituídos e instituintes.nacionalidade. através de uma unificação das temáticas que permita pensar os direitos humanos como o núcleo da dimensão da cidadania e o problema de sua (ir) realização como problema relativo à construção da cidadania. que acaba por reduzir o conceito de cidadania a uma elaboração meramente jurídica. o reconhecimento e o exercício dos direitos humanos. onde se delimitam seus direitos e deveres. explicitam uma abordagem superficial e quase um “epifenômeno”. [grifo nosso]. “pai” de toda normatividade. um atributo das pessoas integradas na sociedade estatal. que propicia uma desumanização dos seus objetivos e funções. além de despir também seu caráter eminentemente normativista. esquecendo seu real significado humano100. cujos temas centrais são a nacionalidade. ascética e burocrática. que cede ao indivíduo nacional a cidadania. no direito brasileiro. 2002. diretrizes orçamentárias e orçamentos. 84). ou ainda como um atributo político decorrente do direito de participar no governo e direito de ser ouvido pela representação política. decorrente dos preceitos constitucionais. torna-se um obstáculo a percepção do valor real do que é ser cidadão. mas não realizou seu objetivo de emancipar. isto é. fundado numa abordagem pretensamente científica. normalmente e principalmente os políticos. II . dissociada de sua real função social e jurídica.organização do Poder Judiciário e do Ministério Público. para a teoria jurídica dominante. Desse modo.] dimensão ampla de participação social e política e através da qual a reivindicação. cidadania. 99 A dogmática constitucional brasileira continua a reproduzir a concepção de cidadania herdada do liberalismo. apud MELO. 1998. 41-42). Tais concepções. 2002. permitindo que o sistema ideológico e manipulador perpetuem.104 I . . 100 De acordo com Leandro C.. realizadas no discurso jurídico dominante no Brasil.planos plurianuais. porque sua interpretação é descompromissada e a busca da transformação social não realiza seus objetivos. pois. 41). ser cidadão é o indivíduo ser titular dos direitos políticos de votar e ser votado. percebendo a cidadania apenas como um status legal. passa a ser uma ligação jurídica entre o cidadão e o Estado. ela realiza-se de modo disforme. p. deve ser conferida a cidadania uma [. individualista e normativista do Direito. a Constituição Brasileira é um instrumento jurídico-normativoemancipatório. Oliveira (2005). p. se exteriorizam enquanto processo histórico. Assim.

104 São essencialmente direitos coletivos da humanidade. Acesso em: 30 out.] passaram na ordem institucional a manifestar-se em três gerações sucessivas. para Bonavides. de crença religiosa. à seguridade social. Com efeito. 1998. representa uma fase de institucionalização do Estado Social. ou nos chamados direitos civis. 78). à saúde. 517. que traduzem sem dúvida um processo cumulativo e qualitativo. 77-87). apud MELO. (1997. p. “a realização plena dos direitos de cidadania envolve o exercício efetivo e amplo dos direitos humanos. 102 Os direitos de primeira geração consistem nas liberdades individuais. a férias. Maria Victoria. segunda103 e terceira104 geração são infra-estruturais. p. apud MELO.br/artigos/benevidescidadaniaedireitoshumanos. In: SILVA. E também são direitos de todos. De acordo com Paulo Bonavides. pelo acesso à Justiça que também constitui um Direito Humano. 1998. formam a pirâmide cujo ápice é o direito à democracia.. “a cidadania não se resume na pertinência a uma comunidade estatal ou à possibilidade de manifestar-se periodicamente por meio de eleições para o Legislativo e o Executivo. 2010). (p. (BENEVIDES.] os direitos de primeira102. 2010). como o direito a educação.iea. à partilha do patrimônio científico. “[. Procura-se garantir as liberdades de locomoção. Destarte. apud CÉSAR. p. a horário. à autodeterminação dos povos. Cf.. além dos direitos civis. (PIOVESAN. 1998. (BENEVIDES. Por exemplo: o direito ao salário. Aludem ao direito ao meio ambiente. metafísica.). 42-43). 79). 12. São de solidariedade planetária para que se garante uma vida digna para todos. os direitos fundamentais [. 103 Residem nos direitos sociais que estão ligados ao mundo do trabalho. p. políticos.” (MELO. Inclusive. p. p. p. Cidadania e Direitos Humanos. econômicos e culturais. de certo modo. em substituição da universalidade abstrata e. consistindo em direitos de caráter social mais geral. 2002. O direito à democracia. à paz. 1993. Cidadania: subsídios teóricos para uma nova práxis. 79). à previdência etc. Reinaldo Pereira e (Org. compreendendo-os ainda como direitos de quarta geração. coroamento da globalização política”. (ANDRADE. 526.pdf>. (MELO. Direitos humanos como educação pra a justiça. de modo efetivo. 2010).. à habitação. de integridade física. p. de opinião. à defesa ecológica. 1998.. 77) 101. 46). . 2002.usp. Milena Petters. tendo por bússola uma nova universalidade. a de propriedade. material e concreta. São Paulo: LTr. de acesso à justiça. sociais. BENEVIDES. 1998. (1997. de segurança. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Uma cidadania que é assegurada. 101 MELO. p. junto com o direito à informação e ao pluralismo.105 numa perspectiva política em sentido amplo. cultural e tecnológico. (CÉSAR. nacional e internacionalmente assegurados”. (BENEVIDES. A cidadania inclui direitos coletivos e difusos. ao desenvolvimento. relativo aos direitos humanos do jusnaturalismo do século XVII. Disponível em: <http://www. 2010.

. realizado com a efetividade dos direitos políticos e de participação e dos direitos fundamentais processuais. no cenário brasileiro. 2010). 1996. Desse modo. era para o Direito ser um instrumento de transformação social. São a essência do Estado Democrático de Direito que abrange todos os direitos e garantias do ser humano. o sistema procura cada vez mais manipular e agir equivocadamente. Demonstrando assim que cidadania..php? option=com_docman&task=cat_view&gid=25&dir=DESC&order=date&Itemid=40&limit=10&limitstart=10 >. 1998. na realidade brasileira existem dois tipos de cidadãos: 1) subcidadão corresponde à população que é explorada e subjugada pelo poder hegemônico. os ricos sempre conseguem burlar a lei.. vivendo em todos os tipos de miséria... De acordo com Lênio Streck. dos entes coletivos e de sua emancipação nos espaços definidos no interior da sociedade. 80). Por exemplo. (BARATTA. 81). p. 81).] perpassa pela realização dos três status do cidadão: o status negativus. STRECK. 1998.br/index. a práxis da cidadania [. (OLIVEIRA. que corresponde aos direitos clássicos civis e de liberdade. apud MELO.com. da mesma forma que os Direitos Humanos não se concretizam sem o exercício da democracia. Constituição ou Bárbarie? – A lei como possibilidade emancipatória a partir do Estado Democrático de Direito.] intimamente ligados. 1998. democracia e direitos humanos estão “[. p. é importante que os direitos sejam efetivados para que se realize a cidadania105. p. os direitos fundamentais da pessoa humana não são efetivados. uma “morte espiritual da Constituição”. p. Tendo em vista que há no Brasil uma crise de legalidade. pois. .. Segundo Jelinek. compatíveis com o atendimento ao princípio da dignidade humana. 1998. 2) o sobrecidadão é aquele que não se subordina ao sistema. do cidadão. a população de baixa renda sofre com a manipulação do Direito. A Constituição deve ser vista como explicitação do contrato social. Inclusive. Acesso em: 5 mar. Lênio Luiz. Cf. há necessidade de mudar a postura dos juristas do Direito. isto é. 79). 1998. Disponível em: <http://leniostreck. 2005). uma inefetividade da Constituição. a função do Direito é possibilitar que nesse Estado Democrático. Por isso.106 1996. 2010. O direito brasileiro preocupa-se mais em resolver as disputas interindividuais e os juristas conseguem “pensar” o problema a partir dos pré-juízos advindos do modelo liberal-individualista-normativista. Aliás. Logo. mas ocorre uma desfuncionalidade do Direito das Instituições encarregadas de aplicar a lei. Os direitos são só negados e a prática jurídico-judiciária nega a aplicação desses direitos. Deste modo. mas se dispõe dele e revela a “razão cínica brasileira”. p. Uma razão cínica pela qual as ações injustas continuam ser feitas. o espaço de mediação ético política da sociedade e é a condição de possibilidade para implantação das promessas da modernidade. 79). falar sobre a cidadania “[.” (MELO.” (MELO. (STRECK. e o status activus. (MELO. p.] é reafirmar o direito pela plena realização do indivíduo. apud MELO. concernente aos direitos de prestação. 15. 105 O cidadão não tem garantia da efetivação dos seus direitos que são assegurados pela Constituição. um remete ao outro. este coloca à disposição dos juristas os mecanismos para implantação das políticas do welfare state. Isso fortalece por causa de um paradigma liberal e individualista que propicia uma injusta e desigual ordem social. o status positivus. seus conteúdos interpenetram-se: a cidadania não é constatável sem a realização dos Direitos Humanos.

pdf>. 2010).].iea.107 Para Maria Benevides106 (2010). Com efeito. (CARBONARI. A construção de políticas públicas são ações e programas atentos para a asseguração dos direitos dos mais explicitamente violados e também são ações estruturais que tenham dignidade humana com fim inadiável. o fato de estar ou não em dívida com a justiça penal e entre outras regras. de 2004. quando os direitos são violados prejudicam a cidadania. Assim. os direitos do cidadão e a própria idéia de cidadania não são universais no sentido de que eles estão determinados a uma específica e delimitada ordem jurídica-política. o estado civil. Mas deve ficar bem claro que existem diferenças entre os direitos humanos e os direitos dos cidadãos: os Direitos Humanos são universais e naturais. Disponível em: <http://www. Desse modo. voltadas à sua garantia”. cidadania e direitos da cidadania referem-se a uma determinada ordem jurídica-política de um país. 2010. os direitos do cidadão coincidem com os direitos humanos107.usp. remodelados. a idéia de cidadania é eminentemente política e está relacionada com as decisões políticas e não com os valores universais. reforçados ou criar outros com relação aos direitos humanos. Desse modo.br/artigos/benevidescidadaniaedireitoshumanos. de um Estado. Sistema Nacional de Direitos Humanos. BENEVIDES. necessitam ser “incorporados à legislação nacional e se constituir em políticas públicas globais efetivas. Paulo César. de uma ordem jurídica-política vigente. porque o governo pode estabelecer os direitos e deveres quando for necessário para melhorar a vida de cada cidadão. os direitos da cidadania são direitos específicos dos membros de um determinado Estado. os órgãos do Estado devem ser direcionados. . 107 Direitos Humanos precisam ligar democracia e desenvolvimento para que ocorra a participação da cidadania seja uma componente de efetivação de direitos e para que o desenvolvimento propicie uma efetivação das garantias fundamentais dos Direitos Humanos. 2004). Em muitos casos. os Direitos Humanos pelo fato de serem um corpo jurídico e um ideal ético internacional. Maria Victoria. no qual uma Constituição define e garante quem é cidadão. 2010). São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Assim. que são os mais amplos e abrangentes. quais são os direitos e deveres que ele terá em função de uma série de variáveis. a condição de sanidade física e mental. Cf. tais como: a idade. Inclusive. uma vez que existe a compreensão de que cidadãos estão relacionados aos direitos e deveres prescritos num respectivo país. Passos Fundo: [s. e. Acesso em: 30 out. (BENEVIDES. Cidadania e Direitos Humanos. ao passo que os direitos do cidadão são direitos criados e devem necessariamente estar presentes no ordenamento 106 Cf. CARBONARI. jan. (BENEVIDES.

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jurídico. Enquanto os Direitos Humanos são universais, ou seja, devem ser preservados e garantidos em qualquer região do mundo, além de serem naturais por que antecedem o poder do Estado, a cidadania consiste na garantia de determinados direitos e deveres vigentes no conjunto jurídico de um país. (BENEVIDES, 2010). Contudo, não se poder perder de vista que para a defesa dos direitos faz deve-se ter presente a idéia de cidadania e dos próprios direitos que sempre estão em processo de construção e mudança. Assim, a cidadania tem que ser ativa, ou seja, aquela que “[...] institui o cidadão como portador de direitos e deveres, mas essencialmente participante da esfera pública e criador de novos direitos para abrir espaços de participação”. (BENEVIDES, 2008)
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. Uma cidadania que pode conquistar-se cada vez mais sua legitimação na sociedade,

uma vez que os Direitos Humanos estão marcados significativa e essencialmente na Constituição Brasileira de 1998 que “[...] ampliou consideravelmente a gama dos direitos de cidadania e os mecanismos necessários à sua tutela [...]” (MELO, 1998, p. 84), consolidando um novo paradigma de cidadania e exercício democrático. Com vista a consolidar o regime democrático109. Dessa forma, é necessária uma nova práxis de cidadania vinculada à reconstrução da democracia que se compreende do seguinte modo:
1 – assente na racionalidade formal do Direito, como defende Bobbio, no sentimento constitucional (Löwenstein) e na vontade de Constituição (Hesse); 2 – comprometida com a real efetivação dos direitos positivados, não enquanto concessão estatal ou imposição coercitiva, mas de forma integrativa, através da cooperação entre os indivíduos e os grupos; 3 – atuante na luta pelo “instituído sonegado” e pela floração contínua de novos direitos; 4 – voltada para a emergência dos novos sujeitos de direitos; 5 –vinculada a um novo exercício da cidadania que aponte para redefinição do espaço público e para a refundação do pacto social, retomando o principio rousseniano de “comunidade”, fundado na obrigação
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Cf. BENEVIDES, Maria Victoria. A Questão Social no Brasil: os direitos econômicos e sociais como direitos fundamentais. Disponível em: <http://www.hottopos.com/vdletras3/vitoria.htm> Acesso em: 28 nov. 2008. 109 No entender de Benevides (2008), a democracia é um regime que contribui para a “consolidação e a expansão da cidadania social, com a garantia das liberdades e da efetiva e autônoma participação popular”. Ela é um “regime político fundado na soberania popular e no respeito integral aos direitos humanos”.

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horizontal entre os cidadãos, com autonomia e responsabilidade na participação e solidariedade para a formação da vontade geral; e 6 – aberta ao jus contendum, ao conflito de interesses e divergência das tensões que existem na sociedade, em prol de um síntese equilibrada entre “subjetividade, cidadania e emancipação”. (MELO, 1998, p. 86-87).

Contribuindo, então, para uma práxis que expande os espaços participativos e efetue os Direitos Humanos, “[...] fazendo com que a sociedade brasileira resgate sua dimensão cidadã com compromisso, criatividade, ousadia e sobretudo, com paixão [...]” (MELO, 1998, p. 87). Pois a sociedade é transformada quando se vive com paixão a cidadania.

4.2 A PERSPECTIVA JURÍDICA E A CIDADANIA

A cidadania está relacionada intimamente com o direito. Quando o direito remodela seu modo de organizar, aperfeiçoa a noção de ser cidadão. Assim, quando o ordenamento jurídico busca rever e reconduzir o país para o desenvolvimento para a realização da igualdade, da liberdade e da fraternidade, consolida uma cidadania digna, uma vez que os indivíduos devem ser cidadãos amparados por alicerces que garantem a realização de uma sociedade justa. Desse modo, é importante que a escola repense como que se relaciona com o direito para que se guie por um caminho que seja capaz de fundamentar a cidadania em bases sólidas. Ou seja, se a perspectiva jurídica trabalha em conjunto com as decisões pedagógicas, conforme elas ou em parceria, ajudará na constituição de um cidadão respeitável e digno. Na verdade, o regimento interno deve ajudar a desenvolver ações que ajudem na formação da cidadania, pois o direito “[...] equaciona a vida social, atribuindo aos seres humanos, que a constituem, uma reciprocidade de poderes, ou faculdades, e de deveres, ou obrigações”, além de conferir “[...] harmonia à vida [...]” e constituir “[...] o fundamento da ordem social”. (RAO, 2004, p. 53).

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E instituindo a ordem na sociedade contribui para que os cidadãos se realizem plenamente, pois é na ordem que todos os direitos e garantias são efetivados com qualidade. É nessa legitimação que se realiza plenamente a cidadania.

4.2.1 O Regimento Interno

A ordem pode ser bem estabelecida quando há um regimento, uma regulamentação dos direitos e deveres, para que se firme um pacto pelo qual todos possam trabalhar pela construção de um ambiente sadio e adequado para aprender e se desenvolver enquanto ser humano. Regimento é o “ato, efeito ou modo de reger, de dirigir. Normas impostas ou consentidas; disciplina, regime [...].” (FERREIRA, 1975, p. 1207, apud ANDRADE; PEREIRA, 2008)
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. É um conjunto de normas e regras que organizam o funcionamento de

uma instituição, um órgão. São normas que podem ser impostas ou consentidas. (ANDRADE; PEREIRA, 2008). Entretanto, o Regimento, ao ser formado, deve estar de acordo com os princípios constitucionais e legislação geral. Sua elaboração na escola é um ato administrativo, didático e disciplinar que regula o funcionamento deste estabelecimento de ensino. (ANDRADE; PEREIRA, 2008). Porém, o estabelecimento de ensino nunca deve esquecer os princípios, os fundamentos, os objetivos descritos na carta política que visa à realização da igualdade, da liberdade, da fraternidade, ideais revolucionários de 1789 que devem se concretizar no espaço escolar. (ANDRADE; PEREIRA, 2008).

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Cf. ANDRADE, Maria Raquel; PEREIRA; Cássia Regina Dias. Regimento Escolar: o aspecto jurídico das sanções disciplinares e/ou medidas pedagógicas. Disponível em: <http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/14666.pdf?PHPSESSID=2010012108381666>. Acesso em: 23 abr. 2010.

com a realização de um trabalho psicossocial sério. Diante da violência escolar.gov. Acesso em: 23 mar. 2010.. Com efeito. condições de vida mais dignas e perspectivas de um futuro melhor. extensível à sua família.111 O regimento inclui deveres que também devem estar em conformidade com o ordenamento jurídico. grifos do autor). previamente. p... 5. DIGIÁCOMO. ANDRADE. 2008.html>. que lhe irá proporcionar.pr. 2004. resolve-se de acordo com as normas prescritas no Regimento interno escolar. Assim. a escola deve proceder da seguinte forma: Havendo a prática de ato infracional por pessoa menor de doze anos (definida como criança no Estatuto da Criança e do Adolescente) o caso deve ser encaminhado ao Conselho Tutelar do Município e.. sendo ainda necessária a indicação da instância escolar (direção da escola ou conselho escolar. mas com objetivo educativo. O regimento escolar deve [. tratamento.] punição pura e simples do adolescente em conflito com a lei. Caso o autor do ato infracional seja maior de doze anos e menor de dezoito (pessoa adolescente. Ato de Indisciplina: como proceder. Como disse Murillo Digiácomo. [que] o próprio adolescente a ela tem direito [. ANDRADE.069) e o Código Civil e Código Penal. . (2008. principalmente com a Constituição. por exemplo) que ficará encarregada de apreciação do caso e aplicação da medida 111 Cf. Paraná: Ministério Público. ao juizado da Infância e Juventude. quando um aluno descumprir o que se exige pela lei.mp.] estabelecer. através da orientação. o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8. segundo o Estatuto) a questão há de ser encaminhada à Delegacia Especializada ou ao promotor de justiça. Disponível em: <http://www. porque versando sobre indisciplina. p. Ressalva-se que dará início a este procedimento quando se referir a um ato infracional (conduta descrita como crime ou contravenção penal).br/cpca/telas/cadoutrinaeducacao4. Não punir para oprimir. 2. Murillo. do qual poderá resultar aplicação de medida sócio-educativa. quais as condutas que importam na prática de atos de indisciplina. desencadeado-se procedimento para aplicação de medidas de proteção. deve ser assegurada ainda sua defesa... acompanhamento. 2008). ele sofrerá algumas punições. o Estado não aplica uma [. quando o indivíduo não exerce seus deveres. KUHLMANN. apud PEREIRA. 2010) 111. (DIGIÁCOMO. escolarização e profissionalização (tudo de acordo com suas necessidades pedagógicas). mas para melhorar enquanto ser humano. apud PEREIRA. mas sim sua reeducação e ressocialização. bem como as sanções disciplinares a elas cominadas. (GRILO. permitindo-se a instauração do procedimento destinado à apuração do ato infracional.]. na falta deste órgão.

que trata da relação de penas. Além disso.. (DIGIÁCOMO. não poderá haver vexame ou constrangimento ao aluno.igualdade de condições para o acesso e permanência na escola.112 disciplinar respectiva (em respeito à regra contida no art. e) cruéis.” 118 “Art.. de acordo com o art.ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante.” 115 “Art. 116 “XLVII . a aplicação da sanção disciplinar ao aluno acusado da prática de ato de indisciplina.. ou que está em conflito com a lei. visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa. X . c) de trabalhos forçados. inciso I da Lei nº 8. a vida privada. da Constituição Federal (dentre outros). 232. 2010. [. principalmente.igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. . (DIGIÁCOMO.]”. 84. Se a vitima for criança ou adolescente.ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente”. cuja imposição é vedada mesmo para adultos condenados pela prática de crimes.. moral ou à imagem. art. Também não poderá deixar de ser observada nenhuma das hipóteses do art. preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho. e em especial a crianças e adolescentes. pois descumpre os direitos constitucionais de qualquer cidadão garantidos no art. “Art. V e X117. Igualmente.]..detenção de seis meses a dois anos. proporcional ao agravo.não haverá penas: a) de morte. 53. [.. que garante a todo cidadão.5º incisos III.são invioláveis a intimidade.é assegurado o direito de resposta.]..069/90. o violador em tese será o responsável pela prática do crime regulamentado no art.igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. [. A criança e o adolescente têm direito à educação. assegurando-se-lhes: I . 117 “III . o direito de acesso e permanência na escola. [. sob 112 113 “LIII . d) de banimento. não poderá ocorrer de forma sumária119..”. é claro que as sanções disciplinares previstas no regimento não podem contrastar com o princípio fundamental e constitucional. inciso LIII112 também da Constituição Federal). XIX.” 119 Preleciona Murillo Digiácomo (2010.5º. do artigo 206115.. inciso I da Constituição Federal.5º. a honra e a imagem das pessoas.232118 da Lei nº 8. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I .].3º114.]. inciso XLVII116 da Constituição Federal. [. guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento: Pena . grifos do autor). grifos do autor) que a “razão pela qual não se admite a aplicação das sanções de suspensão pura e simples da freqüência à escola (uma eventual suspensão deve contemplar. [. 114 “Art. assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. V .53113. nos termos do art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I . 2010).394/96 e. além da indenização por dano material. Submeter criança ou adolescente sob sua autoridade. inciso I da Lei nº 9. b) de caráter perpétuo...069/90. salvo em caso de guerra declarada. 206.. Inclusive.]”.

2010).] deve ser formalmente cientificado122 de que sua conduta (que se impõe seja devidamente descrita). como também. dependendo da idade do adolescente. ANDRADE.113 pena de violação do contido no art. determinado ato de indisciplina (com remissão à norma do regimento escolar que assim o estabelece). a realização de atividades paralelas. ainda. a partir daí. e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa.no decorrer da duração da medida). desde que sob a supervisão de educadores. será nula de pleno direito. incisos LIV120 e LV121 da Constituição Federal. do contrário. facultando-se ao acusado a assistência de advogado.]. independentemente da idade do indivíduo. 2010). indicar testemunhas [.]” (PEREIRA.5º. nas próprias dependências da escola ou em outro local. e muito menos a expulsão ou a transferência compulsória do aluno. passível de revisão judicial e mesmo sujeitando os violadores de direitos fundamentais do aluno a sanções administrativas e judiciais. o local.. que assegura a todos os indivíduos o direito ao devido processo legal. notadamente se criança ou adolescente (para assistí-lo ou representá-lo perante a autoridade escolar).ou mesmo provas aplicadas . em tese. depoimento pessoal perante a autoridade processante e arrolamento/oitiva de testemunhas do ocorrido. Deve indicar também. seja no que se refere ao encaminhamento as autoridades competentes da prática do ato infracional seja as providências também no âmbito da área administrativa escolar [. que deve estar devidamente previsto no regimento escolar (também por imposição do art.5º. que em última análise representa um "atestado de incompetência" da escola enquanto instituição que se propõe a educar (e não apenas a ensinar) e a formar o cidadão.. deve ser a ele oportunizado exercício ao contraditório e à ampla defesa. deve ser comunicado ao Conselho Tutelar.. confronto direto com o acusador. (DIGIÁCOMO.ex vi do disposto no citado art.. quanto criminal. “O relato é feito em forma de ofício e deve constar qualificação completa da criança e/ou adolescente (nome. Todo o procedimento disciplinar. o nome dos alunos ou professores agredidos ou ameaçados e. caracteriza.5º. com os meios e recursos a ela inerentes. É obrigatoriamente..aos litigantes. ao contraditório e à ampla defesa. data de nascimento. Nesta circunstância. Depois de ser testemunhada de todas essas formalidades e garantias constitucionais é que se poderá tratar da aplicação de sanção disciplinar. de modo que o aluno não perca os conteúdos ministrados .” 120 “LIV .. objetivando colocar a pessoa a salvo da arbitrariedade de autoridades investidas do poder de punir. a hora. em processo judicial ou administrativo. (DIGIÁCOMO. filiação. tanto na esfera cível (inclusive com indenização por dano moral eventualmente sofrido . inciso X da Constituição Federal).A família deve ser comunicada das providências tomadas pela escola. dependendo da natureza e extensão da infração praticada pela autoridade responsável pela conduta abusiva e arbitrária tratada. com a obrigatória notificação de seus pais ou responsável. cuja imposição. inciso LIV da Constituição Federal). tal qual dela se espera. ou a uma delegacia de polícia especializada ou ainda ao Promotor de Justiça da Infância e da Juventude. . deverá ser conduzido em sigilo. [. endereço completo.” 121 “LV .ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal.” 122 O relato sobre o ato infracional. 2008).

apud PEREIRA. [. 2008)..]. (PEREIRA. (DIGIÁCOMO. exigindo que o aluno freqüente a escola e possa aprender fora da sala de aula com trabalhos e orientações dadas pelo professor e pela direção.]. p. (GRILO. incluem. deve ficar claro que [. demonstrando a necessidade de se guiar por atitudes respeitáveis e dignas de se viver com os outros. representando assim uma medida pedagógica. retratação.. ANDRADE. a suspensão da freqüência às atividades da classe.se: [. apresentando os motivos que levaram a autoridade a entender comprovada a acusação e a rejeitar a tese de defesa apresentada pelo aluno e seu responsável.. cabíveis para os casos mais graves e de multirreincidência. não afronta aos aspectos legais e não são apenas de caráter punitivo.] as medidas disciplinares de suspensão as atividades de classe. mas também de cunho educativo/pedagógico.. KUHLMANN. 2010) Acrescente-se que a sanção disciplinar é de encargo da escola que deve estar instituída no Regimento Interno.]. Dessa forma. que serão aplicadas quando o aluno não cumprir os deveres previstos no regimento escolar. para que se remodele na convivência com outras pessoas. mudança de turno e mudança de turma.114 importante ressaltar que a decisão que impõe a sanção disciplinar precisa ser devidamente fundamentada. Dessa forma.. (PEREIRA. 7-8. 2008). a sanção deve ter caráter essencialmente educativo. . [. A suspensão não pode gerar exclusão do aluno no espaço escolar. 2008). a retratação verbal ou escrita. para que possa ser interposto eventual recurso às instâncias escolares superiores e mesmo reclamação ou similar junto à Secretaria de Educação. As outras atitudes devem ocorrer em casos mais graves com objetivo de modificar a conduta do aluno... A retratação verbal e escrita é um modo de corrigir sua conduta. inserindo-o num novo contexto. E quando concerne à indisciplina. por período determinado. ANDRADE. 2004. uma vez que se trata de procedimentos adotados pela escola.. No que tange às penalidades aplicadas pelo Conselho Escolar ou pela comissão de disciplina (colegiado). a mudança de turma e a mudança de turno. entretanto. ANDRADE.

(DIGIÁCOMO. Possuem competência e autoridade para aplicar as punições os professores e o diretor do estabelecimento de ensino. debate. nos casos menos gravosos e.” . Lei. 123 Ensina Octacílio Sacerdote Filho (2010) que: “O professor. objetivando garantir os direitos fundamentais do aluno. com toda a comunidade escolar. na realização dos procedimentos legais. 8. 2006. (DIGIÁCOMO. Aliás.115 só podem ser aplicadas pelo Conselho Escolar123 e este adotando procedimento autorizado por lei. 2010). 53. dos alunos. dos professores e da direção escolar.069). o colegiado (Conselho Escolar ou Conselho Disciplinar). (DIGIÁCOMO. ANDRADE. tornando-se responsável para implementar normas que ajudaram na consecução de uma escola democrática. possui uma fortíssima carga pedagógica. Portanto. nos casos mais graves. Assim é necessário que os alunos sejam ouvidos e respeitados nas suas decisões. o diretor da escola e o colegiado não possuem competência para aplicar medidas sócio-educativas ou medidas sócio-educativas ou medidas de proteção às crianças e adolescentes que cometem ato infracional. obedecendo-se as normas prescritas no regimento interno. em vista de uma formação da cidadania democrática. ao aplicar medidas justas na apuração e resolução dos problemas indisciplinares e infracionais. visto que é missão constitucional que a escola deve ministrar. 2010). por isso. os alunos se sintam envolvidos por uma teia pedagógica que os ajudará a evitar a repetição de condutas semelhantes e ensinando-lhes uma impagável lição de cidadania. p. o processo disciplinar. 54-55). 1996. Ela se encarrega de transmitir culturas às novas gerações. Ou seja. o papel da escola. Uma missão que se orienta pela realização do direito à educação. valores e hábitos” (HUMBERTO SILVA. uma vez que instituição de ensino tem objetivo de formar e preparar a pessoa para o exercício da cidadania. requer participação dos pais (ver art. Desse modo. 2008). deve ser concebido como um espaço importante “onde se dá a transmissão cultural e a formação para a convivência social. dos funcionários. levando-os ao conhecimento do processo pedagógico da escola (pública ou particular) e a participação ativa na definição de suas propostas educacionais. 2010). o regimento interno precisa respeitar os parâmetros legais e ser elaborado por meio de uma ampla discussão. (PEREIRA. apud SILVA. Isso corrobora para que. Já com relação aos atos de indisciplina estes devem ser solucionados dentro do âmbito da própria entidade educacional.

(SOUZA. 2008. 436). p. Ou como ensina Aquino (1996. outorgam “[. saúde. 125 “A educação é a base da construção da cidadania. Assegurando os seus direitos. enquanto sujeito de um processo que se renova continuamente. da fatalidade enfim”. 2008. a instituição escolar é o espaço propício e oportuno para 124 O objetivo pedagógico poderá ser realizado adequado quando incorporar uma dimensão jurídica que exige a escola instituir uma instância de mediação. Por exemplo. p. sem dúvida. 133). São esses momentos inter-relacionados do processo educativo que lhe propiciarão condições básicas de suporte para atingir uma etapa de autonomia na condição da própria existência. 1°. a liberdade. a justiça e a realização dos direitos no espaço escolar. Logo. o regimento interno deve ser guiado pelos objetivos de incentivar a autonomia. cultura e lazer. Direitos que são assegurados quando as sanções são aplicadas e possuem um objetivo pedagógico124 no Regimento Interno. PARRAT-DAYAN. 2008. estará cooperando para que forme cidadãos125. 48): “O acesso pleno à educação é. Como enfrentar a indisciplina na escola. . (PARRATDAYAN. porque se efetiva todos os direitos e garantias inerentes à pessoa presentes na lei. As medidas especiais de proteção devem-se apoiar em procedimentos metodológicos que se pautem por um caráter emancipador em todas as ações empreendidas. p. Tendo uma intenção pedagógica ao aplicar as sanções disciplinares possibilitará que seus direitos sejam garantidos e concretizados. Dever-se-á buscar. Cf. Silvia. e que seja realmente aberta e democrática. Principalmente.. política. para além de uma sobrevivência mínima. 2008. p. da CF”.] que todas as crianças e adolescentes brasileiros tenham uma escola pública gratuita. 348). 342. São Paulo: Contexto. atributo da dignidade da pessoa humana. p. social e econômica em um mesmo processo. 204. (ENGEL.116 Um espaço que ajuda na consolidação do exercício prático da cidadania. 2008. porque o próprio ECA e demais leis. (In CURY. 210. portanto. grifos nosso). atuando nas dimensões pedagógicas. principalmente. de boa qualidade. profissionalização. o passaporte mais seguro da cidadania. Assim.. contribuirá para a emancipação do aluno. (CAVALCANTE. A cidadania se realiza e se gesta num espaço em que seus direitos são efetivados. p. In CURY. portanto. 2008. um desdobramento das potencialidades de autodeterminação e libertação do educando. uma instância de arbitragem e conciliação na escola. a responsabilidade. In CURY. grifo nosso). Isto quer dizer que se faz mister edificar todo um trabalho social e educativo com vistas à promoção e defesa dos direitos humanos e de cidadania. como brota do próprio art. à mercê do destino. III. p. bem maior objeto de tutela pelos denominados direitos fundamentais. In CURY. capaz. através da escolarização. In CURY. o direito à educação. de preparar o educando para o pleno e complexo exercício da cidadania” (VASCONCELOS. para Vasconcelos. Por fim. 2008. grifos do autor).

através deles. 2006. mas sim a de reencantar a vida e a educação em um mundo em que o encantamento do mundo do consumo. ao mesmo tempo. 128-129). que pressupõe e é. buscando formar. verdadeiros cidadãos. CAPÍTULO V A PERSPECTIVA PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA O reencantamento da vida e da educação é a busca de um novo sentido de vida. das mercadorias-símbolos. É pela realização de uma perspectiva jurídica que ofício educacional romperá com uma educação bancária e incumbirá de transformar o mundo. p. Essa busca [.] não é a de encantar um mundo completamente desencantado.. . a descoberta da ‘profundidade' e a vivência de um entusiasmo para além do econômico-quantitativamente mensurável (uma nova espiritualidade) e a solidariedade com os injustiçados em busca de uma outra sociedade (uma nova postura ético-politica). Este será o tema do próximo capítulo. Contudo.. levou ao desencantamento das outras dimensões e aspectos da vida. um sentido mais humano. (SUNG.117 consolidar o exercício da cidadania. a educação não pode esquecer-se de extrair da sua essência uma ação educativa para que contribua para solucionar os problemas de indisciplina e violência escolar. constituído de uma nova forma de ver e compreender a vida e a realidade que nos cerca (epistemologia).

a instituição educativa mostrará o seu papel e o seu valor quando concretizar determinados projetos. gestada e fundada na escola. depende de uma pedagogia que incentive o seu exercício. é a sua força motriz e propulsora para o estabelecimento da cidadania. porque ao prescrever e determinar condutas. no desenvolvimento da personalidade do aluno e na sua qualificação para o trabalho. Assim. ações e atitudes em seu espaço que. Por isso. Portanto. a pedagogia é imprescindível na instituição escolar.1 A PERSPECTIVA PEDAGÓGICA E A CIDADANIA A instituição educativa é envolvida pela perspectiva jurídica que coopera para a realização da cidadania. o direito está educando e formando o indivíduo para uma sociedade democrática. da indisciplina e da violência. De fato. As diretrizes pedagógicas implicam numa mudança no caráter de atuação da escola. A cidadania. de democracia e de ética no tratamento dos conflitos escolares. Mas não se pode desconsiderar que a pedagogia está relacionada intimamente com o direito. Mas a instituição escolar não pode orientar-se somente por uma perspectiva jurídica. 5. este capítulo irá adentrar no caminho pedagógico para plantar sementes da cidadania. se a escola deseja conduzir-se conforme os princípios . porque os problemas disciplinares impelem para que a educação resgate o seu papel e materialize os seus objetivos.118 O direito na vida educacional possibilita instrumentalizar ações que alicercem a construção da cidadania. afetará a sociedade e a família. consequentemente.

(AQUINO. A escola deve assentar uma nova disciplina que realize atitudes de tenacidade. perseverança. 5. inclusive. 1996. . p. (AQUINO. buscando ampliar sua visão de mundo e almejando entender os diferentes pontos de vista e. Como é objeto deste trabalho demonstrar que a pedagogia inspira o exercício da democracia na resolução de conflitos.2. deverá desenvolver uma educação para a cidadania.2 Educação: à escuta de si mesma. visando à realização da cidadania e da democracia. procurar traçar orientações possíveis para a realização de um espaço escolar melhor. por uma conduta dialógica. quais são as concepções gerais que devem permear na escola para resolver tais problemas. é assunto deste item exprimir quais são os atos que podem ajudar a escola modificar o seu “rosto” para que possa cumprir fidedignamente sua missão. principalmente no tópico 3. assim. 53).1.119 educacionais jurídicos e de acordo com a sua essência.2 Respostas para o dilema da indisciplina e violência escolar. Deste modo. 52). e a relação aos objetivos e até mesmo aos conteúdos 126 Foi explicado no capítulo três. Uma disciplina que se expresse numa intervenção pedagógica marcada. serão demonstrados neste tópico as ações possíveis e concretas126 que devem ser concretizadas no espaço escolar. Isto é possível quando o educador institui uma negociação constante entre a relação às estratégias de ensino ou de avaliação. no item 3. principalmente. como que a instituição escolar deve entender a indisciplina e a violência e. obstinação. 1996.1 O Contrato Pedagógico e as Assembleias de Classe A escola tem a tarefa de aproveitar as experiências do sujeito diante da incansável aventura humana de desconstrução e reconstrução dos processos imanentes à realidade dos fatos cotidianos. p. vontade de saber. A educação cidadã acontece quando a instituição escolar revê o seu papel e traça os caminhos pelos quais deve percorrer.

(MORO. (MORO. Universidade de São Paulo.] define as regras e os vínculos em torno dos quais se estabelece a relação pedagógica em ambiente escolar” (MORO. 53). que falta nos alunos. tal postura entende o aluno como elemento essencial na construção dos parâmetros relacionais que a ambos inclui. [. 48) 127. 2004. p. O contrato pedagógico é uma idéia cultivada por Janine Filloux.. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-graduação em Educação. Paulo Adriana de Brito. tais como: os investimentos nos vínculos concretos. Mais do que a função dos participantes do processo de aprendizagem. a fidelidade ao contrato pedagógico. experimentações de diferentes ordens. Existem alguns quesitos importantes para a construção negociada ou ao contrato. Ou seja. 127 Cf. São Paulo. 1996. 54). 2004.] a relação pedagógica contratual fundada sobre o estabelecimento e o respeito das respectivas posições (professor-aluno) como condição da existência do campo pedagógico e de sua manutenção. Contratos em sala de aula: as regras escolares em questão. p. Assim. 1996. O desnivelamento consiste no fato de que os professores. 54). é o lugar dos participantes que configura as relações que se estabelecem. (AQUINO. 2004.. 55) Na visão da autora francesa Filloux. 2004..120 preconizados. p. objetivado a flexibilização das delegações institucionais e das formas relacionais. uma vez que este parâmetros constituirão no estabelecimento de um contrato que. a troca de conhecimentos que ocorre entre professor e aluno desenvolve-se sobre uma relação assimétrica. Assim. a permeabilidade para mudança e para a invenção. a posição também garante o espaço de desenvolvimento da relação pedagógica.. p. Analisando os discursos dos alunos e dos professores. . é condição sine qua non para a ação pedagógica. MORO. p. é importante o estabelecimento de um contrato pedagógico que “[. 1996. p. a qual realizou uma pesquisa com cerca de 900 alunos e professores do ensino médio Francês. Conseqüente. (AQUINO. por sua vez. determinando que o educador realize novas estratégias. gera uma relação de assimetria. portando um determinado saber. Filloux delineou um modelo relacional fundando no desnivelamento entre os participantes do processo de ensino-aprendizagem. 55-56). (AQUINO.

dos professores e de toda a comunidade escolar. (DUBET. pois é importante que haja regras de vida em grupos partilhadas para que se exerça a cidadania que decorre de verdadeiros contratos de vida comum entre os professores e os alunos. o que exige uma nova ordem relacional fundada na equanimidade. p. como ferramenta reguladora das salas de aula. 56). 58). 2003. p. Dessa forma. 2004. o local de formação.” (MORO. de B. 56). o contrato pedagógico “[. Obviamente que suporiam obrigações para estes alunos. pois o contrato estipulado é substituído por um novo contrato que nasce no vínculo criado entre professor e aluno. em torná-los amigos. aos olhos de uns e outros. 227. esse novo contrato contribui para o desenvolvimento da aprendizagem e adquirir o saber proposto pelo professor. o que supõe obrigações por parte dos alunos. pois o contrato pedagógico. (MORO. não é apenas desejar relações menos desgastantes. 1997. Com efeito. a ação pedagógica não reside em conciliar os alunos e professores. Paula A. fazendo surgir um novo contrato de natureza paradoxal pelo qual. mas também obrigações para os professores. Para Janine. Um ambiente que funda suas ações em regras de convívio que sejam coletivamente definidas e aplicadas e recíprocas. p.121 Essa relação assimétrica gera um desequilíbrio natural. o docente se transforma no agente instituinte e a classe.] definido e instituído pela escola. p. . Assim. as regras e os objetivos sugeridos pela escola transformam-se durante o relacionamento em sala de aula. p. Moro (2004. autônomas e responsáveis... mas é a possibilidade de desenvolver um trabalho numa escola que se torna um ambiente de relações democráticas. Consequentemente. presente nessa relação pedagógica. 54) declara que é necessário que as regras estejam de acordo com as necessidades e possibilidades reais dos alunos e professores. transformam-se em ato durante o relacionamento professor-aluno. 2004. apud AQUINO.

p. A instituição escolar deve fixar . p. 5960). que permite ás pessoas estarem tão bem informadas quanto possível. elaborado pela própria instituição escolar em observância as legislações afins” (AQUINO. Preocupação com o bem-estar dos outros e com o “bem comum”. de caráter obrigatório. 6. Com isso é possível perceber que a democracia demanda que seja cultivada uma “defesa intransigente da liberdade. 7. p. O uso da reflexão e da análise crítica para avaliar idéias.122 Com efeito. independetemente de sua popularidade.” (AQUINO. 2003. apud AQUINO. 2003. De acordo Hanna Arendt. 62). 60-61). “a qualificação do professor consiste em conhecer o mundo e ser capaz de instruir os outros acerca deste. A organização das instituições sociais para promover e ampliar o modo de vida democrático.” (AQUINO.. é necessário que se instalem “dois mecanismos pedagógicos de regulação democrática do convívio escolar: os ‘contratos pedagógicos’ e as ‘assembléia de classe’ – ambos em conformidade com os princípios de uma educação em valores que tenha o modo de vida democrático ao mesmo tempo como fim e meio. do respeito mútuo etc. Ele é um “documento legal. da justiça. 58). 2003. “só se ensina democracia fazendo democracia . 60). p. Preocupação com a dignidade e os direitos dos indivíduos e das minorias. 17. 3. problemas e políticas. apud AQUINO. 4. viver democraticamente pressupõe: 1. A compreensão de que a democracia não é tanto um “ideal” a ser buscado. O contrato pedagógico necessita de uma autoridade docente que se esforce de modo redobrado para que realize a democracia na instituição escolar. 61). Por isso é importante rever o papel do Regimento Interno da instituição educativa. 2003. Para isso. 5. p. De acordo com Apple e Beane (1997. p. 239. é preciso que o professor passe por uma formação contínua e que seja qualificado. 2. E inclusive. Fé na capacidade individual e coletiva de as pessoas criarem condições de resolver problemas. da dignidade. 62). porém sua autoridade se assenta na responsabilidade que ele assume por este mundo” (1992. p. (AQUINO. 2003. como um conjunto de valores ‘idealizados’ que devemos viver e que devem regular nossa vida enquanto povo. p. 2003.. p.” (AQUINO. O livre fluxo das idéias. 2003.

2003. 64-66). é necessária uma revisão paradigmática dos valores presentes nas prescrições disciplinares. Inclusive. Um pacto que deve ser representado na forma de contrato pedagógico que remete às pautas de ação e convívio em sala de aula. 2003. porque a instituição escolar tem que perceber a disciplina escolar não se adquire por regulamentos. p. banimento. limites e horizontes da relação. O fato é que eles seguem um “padrão discursivo generalizante. p. de negação de condutas. Deve oferecer condições mínimas de funcionamento que trate da partilha de responsabilidade. Seu teor deve ser estritamente operacional e assertivo. uma vez que elas são empregadas para intimidar ou penalizar. 62-63). Há práticas antiéticas e abertamente ilícitas e. e afeitas ao campo da incivilidade ou a ausência de boas maneiras. p. ou por ameaça de punição. negociando o que é possível e necessário.123 uma organização administrativa. 2003. delimitando estratégias de organização e ritualização democrática da sala de aula que foram aprovadas. (AQUINO. na parte de normas disciplinares do regimento. para que se aplica papeis distintos e complementares na relação entre professor e aluno. um compromisso tácito entre as partes. Então. 2003. consequentemente. 63). (AQUINO. contra-mão. mas por meio de um acordo. p. retaliação. Há situações que os regimentos representam mais um de sistema de penalização dos infratores. pois goza de autonomia plena quanto à elaboração e realização de seu regulamento interno para que se oficialize os direitos e deveres de toda a comunidade escolar. (AQUINO. pasteurizado. monocórdio” (AQUINO. 2003. (AQUINO. 67). Entretanto. p. é possível perceber que existem regras muito exigentes. a coerção e o apassivamento. pedagógica e disciplinar. . o regimento pode buscar realizar democracia ou justificar decisões arbitrárias. engendram-se a sujeição. Ele deve determinar os parâmetros de conduta para ambas as partes e exprimir os objetivos. 67-69). Ademais. sua eficácia pedagógica é restrita.

ou rigidez excessivas delas (não há flexibilização). (AQUINO. a sua implantação deve ser paulatina. apud AQUINO. necessitando que o professor supervisione e oriente os alunos. Sendo preciso sempre sua revisão “[. Com efeito. as escolhas metodológicas.. 2003. o cronograma de atividades.] porque o grupo-classe passa por diferentes etapas progressivas no que se refere à validação e á tomada de consciência quanto às regras de ação e de convívio: da imposição ao consentimento e. p. não haverá legitimação posterior. por fim. 1994. as tarefas decorrentes. Por isso. 2003. O contrato tem a função inicial de ser demonstrativo e argumentativo. 71).. Deve ficar claro que as rotinas de trabalho e de convivência não serão comuns a todos os momentos da vida escolar. é necessário que as regras e normas sejam discutidas e definidas coletivamente. p. Porém. e principalmente. 2003. 69-70). Sem tais regras devidamente acordadas. (AQUINO. 2003. o consentimento voluntário e o engajamento efetivo dos alunos em relação às regras de funcionamento do grupo é possível quando se esforça sempre para manter a flexibilidade e o valor das regras. 71). até. isto é. Um contrato bom respeita as características e possibilidades dos alunos e os seus costumes. A saída é posicionar e esclarecer o que se espera do outro. demandando inovações e criações de novas experimentações. ou uma indisposição de algum . à autodisciplina” (ESTRELA. as regras comuns de conduta em sala de aula. E por último. p. p. é necessário fundar um pacto de confiança e cultivar expectativa. o contrato abarca o trabalho pedagógico (o que é feito) e a convivência (como deve ser feito). 72).124 Dessa forma. deve superar dois obstáculos na realização de uma relação humana sadia: a idealização excessiva do outro e a contra-idealização. nas rotinas de trabalho. “desde os itens programáticos. Depois. os critérios de avaliação. E o pacto contratual pode se romper quando há uma ambigüidade das regras (regras não claras).” (AQUINO.

2003. Assim.] o contrato pedagógico tem por função precípua o reconhecimento e a validação dos papeis e das funções complementares de professor e aluno” (AQUINO. 77). 76). 75).. “[. mas “cultivar uma ambiência civil capaz de desencadear a reflexão e a vivência sistemática de valores e atitudes caras ao convívio democrático”. 2003.. 2003. que será garantido quando ocorrer: 1) uma clareza razoável. p. 3) rotinas e paus de convivência conhecidas e respeitadas por ambos. p. a exeqüibilidade dos contratos impetra o envolvimento de todos. (AQUINO. p. Portanto. (AQUINO. 4) resultados concretos que validem seu processamento cotidiano. Desse modo. p.] as ‘penalidades’ devem portar um caráter inclusivo e sempre de reparação ao andamento acordado pelo grupo-classe” (AQUINO. é preciso que a educação em valores se materialize em ações concretas.. 2003. 2003. Todos têm que participar e responsabilizar-se mutuamente. para os parceiros. Porém. (AQUINO. Não é transmitir didaticamente juízos morais. “Educar em valores engloba diferentes dimensões – desde o ideário pedagógico corrente na instituição até as atitudes cotidianas dos agentes escolares. (AQUINO. p. 75). 75). p. 74). não são auto-suficientes como mecanismos de regulação do convívio democrático. 2003.. p.125 (ns) aluno (s) (predisposição negativa em relação ao professor). dos propósitos da relação. (AQUINO. 2) uma nítida configuração das atribuições de cada parte envolvida. 2003. 75-76). exigindo observância e manutenção constantes. ou ainda ausência de lastro ético do professor (falta de autoridade moral). (AQUINO. 72-74). 78). p. Procurando evitar um caráter punitivo e expiatório. 2003. sendo então necessárias as assembleias de classe que põem os valores em ato na educação. E no contrato. . pois elas “devem ser discutidas publicamente e aplicadas exclusivamente com vistas à solidificação dos acordos coletivos” (AQUINO. p. as sanções ou “[. 2003. passando pelas estratégias de problematização pedagógica dos conflitos testemunhados no dia-a-dia civil do alunado”.

Importa-se para a concretização de valores democráticos. (AQUINO. 2003. 80-81). 7879). • Vivenciar. no segundo. p. Dito de outro modo. a sala de aula) como local privilegiado de participação democrática ativa e. de modo democrático e visando à justiça. de legitimação dos fundamentos que regem o modo de vida democrático. mas também da ação moral. • Abordar temas curriculares contextualizados segundo os dilemas da cidadania contemporânea. apud AQUINO. a partir de trocas significativas entre membros da comunidade escolar.126 A democracia na escola exige que haja uma educação em todos os momentos. afetivo e moral do aprendizado escolar.. requerem virtudes. grifos nosso). p.). injustiça etc. tanto nos âmbitos interpessoais como nos coletivos. 17. racional e dialogicamente princípios de valor que ajudem a julgar criticamente a realidade. Assim. desigualdade. ambas ancoradas. tais como equidade. construir formas de vida mais justas. então. os objetivos da educação em valores são: • Atribuir igual importância aos âmbitos cognitivo. 1998b. 2003. . apontam para finalidades morais. p.. mas para a repetição moral”. elaborar autônoma. uma educação moral que possui um âmbito de reflexão que ajude a: [. fazer com que adquiram também aquelas normas que a sociedade. ao mesmo tempo. 79. em valores universalmente desejáveis.] detectar e criticar os aspectos injustos da realidade cotidiana e das normas sociais vigentes. o próprio espaço escolar (e em especial. por sua vez. enfim. o que se traduziria numa apropriação mais significativa e conseqüente das ações escolares por parte de seu alunado. no primeiro caso. p. não se abre espaço para a criatividade. solidariedade e justiça. no que se refere ao universo não apenas do juízo moral. em particular aqueles relativos aos direitos humanos (preconceito. As práticas de valor tem diferenciação: há práticas procedimentais e praticas substantivas: “Ambas ordenam cursos de ação que expressam valores. 2003. • Gerenciar os conflitos escolares numa perspectiva dialógica e de respeito mútuo. a educação moral quer colaborar com os educandos para facilitar o desenvolvimento e a formação de todas aquelas capacidades que intervêm no juízo e na ação moral. • Desenvolver a tomada de consciência e a capacidade autônoma de escolhas. • Propor sistematicamente a vivência de situações problema – do ponto de visto do convívio democrático – como disparadoras da construção das competências e habilidades. conseguir que os jovens façam seus aqueles tipos de comportamentos coerentes com os princípios e normas que pessoalmente construíram. lhes deu. sendo necessária. uma determinada prática de valor. (AQUINO.” (PUIG ROVIRA. abrem espaço para a criatividade e a investigação moral por parte dos sujeitos.

grifos nosso). (ARANTES. p. de maneira que todos considerem a assembléia como uma atividade habitual da sala de aula. • Interromper o trabalho individual da aula e modificar. 59-66. às vezes. Cf. a tomada de consciência sobre si mesmo e a conversão em tudo aquilo que seus membros considerarem oportuno. ou de tudo aquilo que qualquer um de seus membros considera importante e merecedor da atenção dos colegas. cuja responsabilidade é regular e regulamentar as relações interpessoais e a convivência no âmbito dos espaços coletivos. a conteúdos que envolvam a vida funcional e administrativa da escola.127 Aliás. 2007. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICA. • Dispor o espaço de sala de aula. 81). que têm como objetivo regular e regulamentar temáticas relacionadas ao convívio entre docentes e entre esses e a direção. aproveitando assim como um espaço social que guiará os sistemas democráticos. c) e as assembleias docentes. As assembleias de classes128 consolidam-se em escolas que se constituem como comunidades democráticas. 2003. 82. a atitude de cooperação entre todos os seus membros. p. Esses dois tipos mais a assembleia de classe complementam em processos contínuos de retroalimentação que colaboram para a construção de uma nova realidade educativa. devem discutir as questões com objetivo de otimizar a ação e a convivência democrática. 65). as assembléias de classe são os momentos institucionais privilegiados de diálogo. com esse simbolismo. 2007. envolvendo professores e alunos. Brasília: Ministério da Educação. • Empregar o tempo atribuído à assembléia para falar juntos de tudo o que ocorre à turma. Valéria Amorin. as assembléias representam o momento institucional em que o grupo-classe viabiliza a auto-reflexão. 81). p. Sua marca principal é o protagonismo e seu alvo. e vice-versa. embora não idêntica nem com igual responsabilidade. de certo modo. 2003. No entendimento de Puig. as assembleias. a co-autoria pela construção dos valores e das atitudes características da convivência democrática. p.” (ARANTES. uma vez que as assembleias figuram como sustentação dos contratos. 128 Será discorrido sobre as assembleias de classe. Convivência Democrática e Educação: A construção de relações e espaços democráticos no âmbito escolar. Ética e Cidadania: Construindo valores na Escola e na Sociedade. . Para Puig. os papeis de alunos e professores de maneira que sua participação seja mais igualitária. um dos valores democraticamente desejáveis e factíveis no cotidiano escolar. (AQUINO..] b) as assembleias de escola. p. ARANTES. Ela deve ser organiza do seguinte modo: • Destinar uma pequena parte do tempo semanal a esse tipo de reunião. de forma distinta do habitual para favorecer o diálogo e para fortalecer.. Desse modo. 2003. p. a consecução dos propósitos de uma educação de valores é possível através da realização do contrato pedagógico e das assembleias de classe que são práticas de valor intimamente relacionadas. ao projeto político-pedagógico da instituição. 2007. (AQUINO. 65). mas existem outros dois tipos de assembleias: “[. que podem usar para alcançar diversas finalidades. (AQUINO.

M.] colocar-se no lugar dos outros companheiros e imaginar como se sentem. mas a maneira de concretizá-las varia em função da especificidade própria de cada idade. b) “Debate dos temas”: diálogo. há três momentos: a) preparação: estabelecer os temas. (AQUINO. entender quais situações são problemáticas e comprometer-se com sua melhoria. [. de organizar o trabalho e de solucionar os conflitos de convívio que possam apresentar-se.. 2000. Assuntos em pauta. exigindo que recordem o acordo firmado e valorar nas assembleias seguintes o grau de cumprimento e as principais dificuldades que surgiram. ou seja.. Intervir e pedir a palavra. b) análise do ocorrido (refletir).]. 85-86). acolher a diversas idéias. Indicar a discussão. As propostas de trabalho devem ser respeitadas. p. c) Aplicação do acordo. O educador deve buscar o equilíbrio entre a igualdade e o auxílio na forma e no conteúdo do debate. expressar a opinião própria de forma respeitosa e compará-la com a do demais. e fazer isso com a vontade de comprometer pessoalmente nessas mudanças. espera-se que surjam as seguintes capacidades no espaço escolar: [. cumprir o acordo no cotidiano da classe. o modo de realizar as assembleias de sala aula depende da idade dos alunos. p. 88). (AQUINO. Além de respeitar as diferentes opiniões.. 2003. p. p. Com efeito. 129 Há uma obra que detalha como que deve se organizar e implementar as assembleia de classe. J. Mas não se pode esquecer que o professor tem a função de intervir quando for necessário e ajudar na condução da assembléia. nomes de quem quer intervir. apud AQUINO. et al. 2002b. Sua necessidade e utilidade podem ser parecidas. c) decide-se e organiza-se o que se quer fazer (projetos de trabalho e diretrizes de convivência). Democracia e participação escolar: propostas de atividades. 2003. (AQUINO. p.128 • Dialogar com a disposição de se entender. exigir quando for necessário respeitar os valores democráticos básicos. São Paulo: Moderna. 2003.. 84). (PUIG ROVIRA. Assim. ou defender uma postura pessoal oferecendo-se razões para tal. 88). • Dialogar. É evidente que as assembléia não podem ser realizadas do mesmo modo na educação infantil ou no ensino médio. • Finalmente. p. 83-84) 129. Com relação ao desenvolvimento das assembléias de classe. 2003. p. as funções da assembléia são: a) o papel informativo (conhecimento dos atos). PUIG ROVIRA. 2003. 28-29. . Buscar acordos e cumprilo. Cf. portanto. (AQUINO. 2003. 86-87). com a vontade de mudar o necessário para que a vida da turma seja otimizada. (AQUINO.

. Contudo. Portanto. Há que se exigir que a comunidade 130 De acordo com Paulo Moro. amizade. é importante enfatizar a prática dialógica. além de distinguir a autoridade do professor na sala de aula e saberem o que é uma transgressão. na sua pesquisa realizada. . não pode deixar o indivíduo à mercê de decisões legalistas. Quando ela relaciona com o aluno no palco. Desse modo. 89). deve atentar para o desenvolvimento de pessoas mais conscientes de seus direitos e deveres. 2004. 112). 131 “A idéia de democratizar as relações em sala de aula. confiança ou responsabilidade [. 112-113). p. 2003. imediatistas e irresponsáveis. 5.. de exercício de responsabilidade e autonomia dos alunos e. Assim.] questões afeitas à solidariedade. mas não se responsabilizam com os efeitos de suas atitudes no grupo. 2004.129 Ademais. como prática democrática131 voltada para a construção da cidadania.]” (AQUINO. 109). Eles parecem querer assumir seu papel de discente. incluindo o aluno no processo decisório. São práticas contratuais que propiciam a “reafirmação da ritualização130 da sala de aula. Quando ela motiva a realização sublime de existir..” (MORO. 2004. pelas quais os alunos e professores reconheçam-se como participantes do mesmo jogo. assembleias estimulam “[. 2004.2 O Projeto Político-Pedagógico A cidadania é possível na escola quando ela própria busca contracenar com o aluno no seu palco escolar. 111). (MORO. igualdade. 2003. sujeitos a regras semelhantes. grifo nosso). os contratos pedagógicos e as assembleias de classe têm o objetivo configurar a sala de aula como espaço de parcerias. confirma que os alunos percebem a falta de ritualização dos espaços de sala de aula. respeito às diferenças. 89). há professores que não concretizam o seu papel de autoridade. p. (MORO.. auxiliando a construir o espaço da cidadania já desde a escola. porém. (MORO. 2004. enquanto sujeito de direitos e deveres. p. Além de contribuir para o desenvolvimento de capacidades morais desejáveis e criar hábitos democráticos. como maneira de reforças as habilidades de comunicação. p. análise e crítica dos alunos. estimulando-o a apresentar todas as suas capacidades e talentos na arte de existir.” (MORO. compreendendo-as como justas. há alunos que reconhecem as regras. (AQUINO. além de contribuir para o seu posicionamento no momento das decisões. sobretudo. Também proporcionam a formação de capacidades morais e aquisição de atitudes e valores.1. p. através dos contratos pedagógicos. p. 112. p. e ajuda otimizar a vida do grupo-classe.

da valorização da coletividade. Desse modo. no planejamento de ensino e de gestão. fundamentando-se numa sociedade democrática. Prende-se a um discurso insuficiente para cumprir uma educação verdadeiramente democrática. Muitas vezes a democracia é apenas vista como espaço em que todos estão presentes e vivem juntos. Contudo. propiciando. por meio do diálogo. neoliberal ou assistencialista. . uma ação intencional que precisa ser definida coletivamente. percebe-se que em pleno século XXI. voltado para a formação de cidadãos que. É na realidade educativa. inclusive. para adentrar-se no espetáculo da vida. deveria efetivar as mudanças dentro do seu espaço escolar. 2009). como às funções administrativas. tanto no que se refere às atividades pedagógicas. assim. quais objetivos. O Projeto Político-Pedagógico é um eixo norteador das ações educativas no ambiente escolar. apresentando para a sociedade que ela pode transformar a sua vida. principalmente no Projeto Político-Pedagógico (PPP) 132. 132 Para facilitar à escrita utilizará se a sigla PPP. que a democracia deveria acontecer. com caráter político e pedagógico. Ele apresenta as idéias que a escola pretende ou idealiza fazer. as escolas ainda mantêm o status tradicional. sejam capazes de criticar e transformar a realidade. Ele é um guia para as ações da escola.130 escolar se torne protagonista na formação humano. da solidariedade e companheirismo. viver a democracia. (ÁVILA. Trata-se de um planejamento. caracterizada por um compromisso coletivo e no desejo de formar cidadãos que busquem transformar a realidade. Quando se fala em democracia da escola deve-se entendê-la como momento de participação no conjunto das decisões escolares. É fato que a instituição escolar. metas e estratégias. a instituição educativa precisa propor um projeto político-pedagógico que procure dar vida à dimensão política e ética na vida humana. além de saberem ler e escrever. A democracia participativa não existe na maioria das escolas brasileiras.

O seu pensamento é inerentemente político na educação. imprecisas. Sociedade e Democracia no pensamento de John Dewey. (TEITELBAUM. Por exemplo. Educação. Christiane Coutheux. A Escola e a Sociedade (1899). por isso a sua dimensão formal só pode ser entendida como parte de um processo mais amplo. Universidade de São Paulo. 169-170). em uma perspectiva macrossocial. ela precisa mobilizar as exigências concretas das crianças na lapidação de suas capacidades. cozinhar. São Paulo. 110. o PPP precisa ser implementado democraticamente na escola. vagas e gerais. entre natureza humana e cultura. 1996. que aprisiona o homem num estado definido de coisas: trata-se de uma participação ativa na conquista da democracia e no constante zelo que sua manutenção exige. experiência e aprendizagem não se separam. É um pensador norte-americano que dá suporte para entender o que seja democracia na educação. e a sua função da formação do ser humano. Dissertação (Mestrado em Educação). uma vez que se importava com a moralidade prática. em especial. construir abrigo. (ARANHA. o momento oportuno de preparo e exercício primeiro da experiência democrática. 135 Dewey afirma que vida. a escola deve favorecer um espaço para: o cultivo de alimentos. É essa experiência democrática que falta nas escolas. (TRINDADE. gênero e classe. precisa também. p. Como reflete Trindade133. Não se formam 133 Cf. Critica as diversas compreensões pedagógicas que oprimem o aluno e aquelas escolas que se preocupam com a reprodução das relações existentes de raça. Faleceu em 1952. Vermont (Estados Unidos da América). Para ser verdadeira. o espaço da educação é.131 Com efeito. considerar as demandas da sociedade para uma harmônica integração do indivíduo no grupo. 2001). A escolarização é. por excelência. que dá condições para a criança exercer controle sobre a própria vida. Assim. As idéias não podem ser impostas. Como filósofo e educador. A elaboração do PPP nas escolas atuais deve ser feita de forma coletiva. 134 O pensador John Dewey pode oferecer contribuições significativas para a reflexão sobre a importância da democracia na educação. nas públicas. Se a escola trabalha pela formação dos futuros cidadãos. Dewey esteve profundamente envolvido com as causas educacionais. Deve concretizar uma educação progressiva. favorecendo a manutenção do status quo. Democracia e educação (1916). 2009. então a escola deve formar futuros cidadãos num espaço realmente democrático em vista da legitimação da democracia na sociedade. criar estórias e trabalhos artísticos e etc. APPLE. O modelo tradicional ainda é aplicado. 2009. de interação entre indivíduo e sociedade. produziu diversas obras. Desenvolveu um papel de filósofo engajado intimamente na crítica social. Possui uma visão da educação que se encontra enraizada na expansão da democracia em todas as esferas da vida social. Foi e é respeitado pelo seu compromisso com a educação progressista e políticas democráticas e ainda criticado pela “fragilização” da escolarização estadounidense e destruição das velhas tradições. Ao longo da sua vida. 125p. à luz do pensamento deweyano134. TRINDADE. as principais são: Meu Credo Pedagógico (1897). É geralmente reconhecido como o educador estadounidense mais reputado do século XX. Por isso a escola tem a tarefa de promover pela educação a retomada contínua dos conteúdos vitais. Daí a necessidade das atividades manuais e físicas. Tal perspectiva não é a simplificadora adaptação à civilização. sociais e políticas. p. grifos nosso). permite que ela enriqueça sua experiência. . está criando para a criança e o adolescente melhores condições para se iniciar no envolvimento moral e social. além do estímulo ao espírito de iniciativa e à independência do aluno. e estes se encontram numa sociedade “democrática”. fabricação de vestuário. Liberdade e cultura (1939) e entre outras obras. pois. aos 92 anos de idade. A educação progressista ou a educação como vida135 não é legitimada na escola. Ele nasceu em 1859 em Burlington.

na autêntica educação democrática. independentes e sensíveis às questões sociais. grifos nosso). 2001). p. p. A sala de aula torna-se. [. utilizando uma linguagem artificial. apud TRINDADE. mecânico. críticos. urge pôr em prática uma escola democrática que.] sociedade democrática é um agrupamento social que. desprovida de sentido e significado. de modo a permitir a flexibilidade no reajusta das instituições e proporcionar uma educação. enquanto cuida da realização plena da experiência de cada um de seus membros.” (DEWEY. que via o ser humano somente como uma matéria. Uma educação que deve se guiar pela perspectiva de que a escola é a vida e não uma preparação para a vida. grifos do autor). 1897. caminha em direção ao interesse comum. Assim sendo. preocupada com a dignidade humana e com a inteligência cientifica que era pensada fora da escola. 2001). 2009. 90). mas uma massa amorfa. de somente uma concepção pedagógica centrada no poder e na opressão. Ou seja. 136 A concepção pedagógica de Dewey é totalmente diferente da compreensão da escola tradicional que se fundamentava num modelo do “sistema fabril”. as atitudes e Estará colaborando para serem autônomos. p. desse modo. sem provocar confusão e desordem. (TRINDADE. O que se faz presente também na . 1996. educação: A sociedade só ser deveras democrática se todos os membros lhe participam do bem comum em termos de igualdade. 116. efetive todas as suas capacidades. cultive valores democráticos que irão beneficiar toda a coletividade social em vista de uma sociedade democrática. APPLE. 2009. assegura a composição de sua unidade por sujeitos ativos e deliberadamente engajados nos fins de liberdade e emancipação humana. (TEITELBAUM. uma subversão. uma espécie de vida comunitária democrática. Almeja fabricar136 robôs pacientes e subservientes. mas também forma o pensamento crítico. 170. que serve apenas para alienar os estudantes. (TEITELBAUM. incentiva que seu julgamento seja capaz de apreender condições sobre as quais deve operar. Silenciavam e ignoravam os interesses e as experiências dos alunos. sendo ela mesma um espaço de contestação dos desmandos do indivíduo e da sociedade (TRINDADE. passivos. e mentalmente habilitados a realizar mudanças sociais. homogeneizada e passiva. que seus olhos e ouvidos e mãos sejam ferramentas prontas para se conduzir. colaborando para que ela comande a si mesma.. e possibilitar que as “forças executivas sejam treinadas a agir econômica e eficientemente. ajuda a prepará-lo para a vida futura. A escola de todos torna-se escola de uma única visão. APPLE. ancorando seus passos em métodos que promovem uma cultura de tolerância e de espírito crítico. p. (TRINDADE. 91). Inclusive. 117). APPLE. Logo. não relacionando com a vida social. Assim. com isso. Essa concepção de aprendizagem entende a educação como “uma reconstrução ou reorganização da experiência. Conquistar e ampliar a democracia exige uma contínua adaptação e enfrentamento dos novos problemas. 2001).132 indivíduos pensantes. que esclarece e aumenta o sentido desta e também a nossa aptidão para dirigirmos o curso das experiências subseqüentes” (ARANHA. a escola é espaço que transmite conteúdos. (TEITELBAUM. O espírito crítico ou uma aprendizagem significativa é vista como um confronto às normas escolares. 2009. através do Projeto PolíticoPedagógico. 2009. p. tornando os indivíduos pessoalmente interessados na participação e no reajustamento da vida social. e fomentando uma aprendizagem manual ou mental..

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disposições necessárias à continuação sempre renovada e progressiva da vida social não devem resultar de mera transmissão direta de conhecimentos e emoções, dos educadores aos educandos; mas hão de ser o fruto implícito ou indireto da participação de educadores e educandos nas experiências do mesmo ambiente social. Quer dizer que a escola não deve ser isolada da vida comum, mas tem simplificá-la, purificá-la e melhorá-la. Nela, a direção dada pelos educadores não deve ser baseada no prestígio ou na ascendência pessoal ou subjetiva destes, mas, sim nos resultados objetivos ou universalmente válidos da experiência comum, física, ou sociológica. Destarte, a educação será vida ou crescimento contínuo, e não apenas preparação para a vida adulta; nem mero desenvolvimento ou formação mental subjetiva; nem simples exercitação ou treino de faculdades ou capacidades especiais e isoladas e já adrede preparadas. Como processo contínuo de crescimento ou reconstrução da experiência socialmente participada, a educação terá o seu fim em si mesma, não sendo meio para fins diferentes e ulteriores. Será progressiva como a própria vida e não regressão mental ao passado, nem recapitulação das fases culturais-históricas do mesmo. Será democrática, enfim, não reservada a classes privilegiadas; mas nem por isso estreitamente individualista, e sim comunitária, no sentido da participação enquanto possível extensa dos interesses do grupo por todos os respectivos membros e da interação enquanto possível plena e livre entre os vários grupos. (ACKER, 1979, p. XV-XVI, grifos nossos).

Portanto, o Projeto Político-Pedagógico, fundamentado e implementado de acordo com a visão deweyana, possibilita desenvolver uma educação democrática que favoreça o bem comum, bem como a participação e interação entre todos. A coletividade presente no espaço escolar favorece o desenvolvimento de diversas dimensões humanas (a intelectual, a afetiva, a social e a psicológica), contribuindo para que o indivíduo exista realmente, além de se realizar enquanto ser humano por meio dos valores democráticos137. Afinal, é necessário concretizar um Projeto Político-Pedagógico que eleja a democracia como fim, pois assim a educação remodelará e reviverá a sua missão libertadora e transformadora da realidade. Além de formar o indivíduo de modo digno e nobre.

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Diante disso, “os valores democráticos não devem ser assumidos como naturalmente caros ao homem, mas como uma aposta moral sobre o fim e o meio pelo qual devemos lutar” (TRINDADE, 2009, p. 87-88, grifo do autor). Urge, então, a transformação da sociedade. A transformação acontece pela inculcação de valores democráticos na educação, entendida como um “processo que se inicia tão logo o indivíduo nasce e se vê em contato com um entorno cultural. Esse ambiente o forma, mesmo inconscientemente, em habilidades, hábitos, idéias e sentimentos” (TRINDADE, 2009, p. 88). Dessa forma, “a escola deve se constituir como a instituição mais bem preparada para formar o aluno tanto na participação do saber acumulado quanto no desenvolvimento de suas capacidades próprias” (TRINDADE, 2009, p. 90). Por isso é importante desenvolver dois tipos de conteúdos: o conteúdo conceitual (conhecimento acumulado) e procedimental (que ajuda no desenvolvimento das potencialidades e habilidades), além do campo moral por causa do uso social das capacidades. Inclusive, devem fazer parte os conteúdos atitudinais, ou seja, a dimensão formativa dos valores e atitudes, uma vez que a escola amplia a educação moral iniciada em casa. Essa educação moral contribui para desenvolver a dimensão social da criança, ou seja, o desenvolvimento da consciência social, já que a educação é um “processo civilizador de: desenvolvimento, de transmissão e refinamento da consciência social” (TRINDADE, 2009, p. 90).

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5.1.3 Formação Ética no espaço escolar

O contrato pedagógico, as assembleias de classe e o Projeto Político-Pedagógico estimulam uma determinada exteriorização de conduta, uma realização de ações que devem ser éticas e consolidar o exercício da cidadania. São modos de trabalhar que incentivam a viver democraticamente, pautando suas atitudes em ações éticas. Nalini138 preleciona que
Ética é a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. É uma ciência, pois tem objeto próprio, leis próprias e método próprio, na singela identificação do caráter científico de um determinado ramo do conhecimento. O objeto da Ética é a moral. A moral é um dos aspectos do comportamento humano. A expressão moral deriva da palavra romana mores, com o sentido de costumes, conjunto de normas adquiridas pelo hábito reiterado de sua prática [...].Com exatidão maior, o objeto da ética é a moralidade positiva, ou seja, “o conjunto de regras de comportamento e formas de vida através das quais tende o homem a realizar o valor do bem”. (2008, p. 114, grifos do autor).

Araújo139 (2007, p. 13) diz que ética e moral tem significados próximos, tratando de conjuntos de princípio ou padrões de conduta que regulam as relações dos seres humanos com o mundo em que se vive. E se a educação se fundamentar em tais princípios, transformar-se-á num âmbito de reflexão individual e coletiva que ajude a elaborar racionalmente e autonomamente princípios gerais de valor, princípios que colaborem a enfrentar criticamente os problemas da realidade, tais como: a violência, a tortura ou a guerra. Assim, a educação ética e moral corrobora na análise crítica da realidade cotidiana e das normas sociomorais vigentes, ajudando,então, a realizar formas mais justas e adequadas de convivência. (PUIG, 1998, p. 15, apud ARAÚJO, 2007, p. 13). Ademais, como o papel da educação é a formação ética do homem, é necessário que a educação considere a dimensão comunitária das pessoas, seu projeto pessoal e também sua capacidade de universalização, que deve ser feita dialogicamente, porque desse modo,
138

Cf. NALINI, José Renato. Filosofia e Ética Jurídica. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. Cf. ARAÚJO, Ulisses. A educação e a construção da cidadania: eixos temáticos da ética e da democracia. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICA. Ética e Cidadania: Construindo valores na Escola e na Sociedade. Brasília: Ministério da Educação, 2007. p. 11-21.
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colaborarão para ajudar na construção do melhor mundo possível por meio de uma responsabilização pela realidade social. (CORTINA, 2003, p.113, apud ARAÚJO, 2007, p. 13-14) Só que isto é possível quando se respeita a diversidade humana, procurando superar as exclusões, os preconceitos e as discriminações originárias das diferentes formas de deficiências, e ainda devem ser ultrapassadas as diferenças sociais, econômicas, psíquicas, físicas, culturais, religiosas, raciais, ideológicas e de gênero, para que construa uma cidadania efetiva na sociedade, na família e na escola. (ARAÚJO, 2007, p. 14). Uma cidadania que se constrói por meio da ética. Os Parâmetros Curriculares Nacionais140 (1998, p. 49) dizem que moral e ética são empregadas como sinônimos, como conjuntos de princípios ou padrões de conduta. Etimologicamente o termo mores e ethos refere-se a um sentido comum, que é a idéia de costume. Os costumes consistem no primeiro conteúdo da cultura, são estilos de viver criados pelos homens. Nele se criam valores, princípios e regras que guiaram a conduta humana. Entretanto, moral e ética possuem distinções. Na área filosófica, por moral entendese o conjunto de princípios, crenças e regras que guiam o comportamento humano nas distintas sociedades, e a ética como a reflexão crítica141 sobre a moral. (PCNs, 1998, p. 49). A moral, então, consiste no posicionamento em relação aos valores e aos deveres que devem ser assumidos pela pessoa. Ela implica na responsabilidade, no cuidado com o poder que se exerce, ao realizar escolhas e delimitar os caminhos para ação. Já a ética é uma reflexão crítica sobre a moralidade. Ela procura esclarecer e questionar os princípios que norteiam as ações. Ela verifica a coerência entre práticas e princípios, além de questionar, reformular ou fundamentar os valores e as normas componentes de um moral. (PCNs, 1998,
140

Cf. BRASIL. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental. Brasília: Ministério da Educação e da Cultura, 1998. 141 Segundo Bittar, “[...] a ética deve ser uma atitude reflexiva da vida, algo impregnado à dimensão da razão deliberativa, em constante confronto com as inquirições, dificuldades, os desafios e os problemas inerentes à existência em si”. (2004, p. 4). Cf. BITTAR, Eduardo C. B. Ética, educação, cidadania e direitos humanos: estudos filosóficos entre cosmopolitismo e responsabilidade social. Barueri: Manole, 2004.

grifo nosso). estabelecendo critérios. burilamento. o aperfeiçoamento das faculdades intelectuais. físicas e morais. construir. fazendo o exercício da cidadania. entre outras coisas. 1998. para que se instalem ações/relações efetivamente democráticas. uma atitude crítica. intenção. E essa formação moral é possível através da legitimação de valores que. O PCN ensina que A moral já encontra instalada na prática educativa que se desenvolve nas escolas: o cotidiano escolar está encharco de valores que se traduzem em princípios. serem livres e autônomos. essas proibições (que resultado pretendem?). para pensar e julgar. . (PCNs. buscando desenvolver a autonomia. ação humana e inter-relação social) e a questão educacional (formação. p. Dessa forma. que via da ação para a reflexão sobre o seu sentido e seus fundamentos. com a questão ética. comportamento. refletir. assim. grifos nosso) entende que “[. a independência e a liberdade. O que se quer é que a ética aí encontre espaço. Configura-se. 52-53). como um disciplina na grade curricular. (PCNs.136 p. proibições. revigorada e transformada. p. para problematizar constantemente o viver pessoal e coletivo. aquisição de instrução. é certo que tem a ver com a capacitação e o adestramento de potencialidades humanas e. 76. regras.] a questão ética (valor. portanto. no processo de ensino e aprendizagem que se realiza em cada uma das áreas de conhecimento. ensinar com 142 Eduardo Bittar (2004. de reconhecimento dos limites e possibilidades dos sujeitos e das circunstâncias.. (PCNs. participando da gestão de ações coletivas. essa regras (qual a sua finalidade?). Na dimensão afetiva cabe à escola ajudar o aluno a instrumentalizar a realização de seus projetos. p. uma vez que ela lida com as habilidades individuais de agir para si e para os outros”. A ética é um eterno pensar. grifos nosso). 51-52). na escola. p. 1998. a fim de que se reflita sobre esses princípios (em que se fundamentam?). possui duas dimensões fundamentais: a afetividade e a racionalização. 1998. Assim. Assim. por sua vez. fazendo escolhas. p.” (PCNs. 61. e da reflexão retorna à ação. Trazer a ética para o espaço escolar significa enfrentar o desafio de instalar. a proposta de realização de uma educação moral que proporcione às crianças e adolescentes condições para o desenvolvimento de sua autonomia. 1998. de problematização das ações e relações e dos valores e regras que os norteiam. E. preparo social) caminham lado a lado”. 53-54. 78). sua presença deve contribuir para que os alunos possam tomar parte nessa construção.. 2004. “entre a moral e a ética há um constante movimento. essas ordens (a que interesses atendem?). Dessa forma. ordens. “se a educação é. 53). entendida como capacidade de posicionar-se diante da realidade. p. A ética na escola142. tem objetivo de realizar uma educação moral. (BITTAR. sua presença é imprescindível no espaço educativo. consciência.

responsabilidade. permeando modos de conduzir as situações no espaço escolar. São valores que implementados ajudam na consecução de uma educação com qualidade. solidariedade. Para melhor esclarecimento destes valores cf. os princípios e os valores se exteriorizam em ações concretas. para alcançar a felicidade. grifos nosso) 144. Desse modo. como um espaço fundamental de convivência (lugar de conhecimento. mas sim quando se põe em prática a ambas. 144 LODI. 95-113. a justiça. 67-71). a solidariedade. Cidadania e Educação: Escola.” (LODI. Exercitar a cidadania decorre quando o aluno aprende a ser cidadão. precisa afirmar valores de participação. aprender a suar o diálogo nas mais diferentes situações e comprometer-se com o que acontece na vida coletiva da comunidade e do país. Conteúdos de Ética para Terceiro e Quarto Ciclos. que materializadas. (PCNs.. implícitas nos valores e regras. o contrato pedagógico. Essa valores e atitudes precisam ser aprendidos e desenvolvidos pelos estudantes e. responsabilização. Ética e Cidadania: Construindo valores na Escola e na Sociedade. Desse modo.137 qualidade. Tal educação é possível quando a ética. Porém. Isto só é possível quando não se teoriza a ética e a moral na vida escolar. participação. portanto. opinar. ARAÚJO. as assembleias de classe e o Projeto PolíticoPedagógico são ações possíveis. o qual consiste em [. Lucia Helena. p. 143 Tais valores constituem-se como conteúdos que devem ser trabalhos como conteúdo curricular da disciplina Ética. ação. podem e devem ser ensinados na escola. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICA. democracia e cidadania. 1998. ARAÚJO. In: BRASIL. p. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental.. p. bem como os alunos. exige-se que os relacionamentos da comunidade sejam fundamentados em valores143. a escola. cultivar os conceitos de justiça. 2007. nãoviolência. ousar e transformar). concretizem tais valores. Ética. diálogo. Além desses. isso não isenta que os professores e a direção escolar. (PCNs. respeito e solidariedade para que reconheçam como atitudes necessárias. Brasília: Ministério da Educação e da Cultura. tais como: o respeito mútuo. 1998. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. PCNs. 1998. 76). o diálogo. além de desenvolverem a arte do diálogo. expõem uma conduta ética e valores que devem conduzir a escola para um espaço de consolidação da democracia ativa e exercício da cidadania. a moral. . p. justiça. Ulisses F. E a racionalidade implica que a instituição educativa procure refletir sobre os valores morais.] aprender a agir com respeito. 69.

procurando articular com a dimensão política.” (2004. com as carestias reais que envolvem certa comunidade e suas demandas. Além de terem um papel ativo como sujeitos da aprendizagem. motivando o diálogo e ouvindo o que o educando tem a dizer. Isso exige que ele trabalhe Explorando temas de motivação e proximidades com as reais condições vivencias existenciais do povo. e no desenvolvimento da capacidade de autonomia moral dos indivíduos. p. só se constrói decidindo e. com os projetos sociais em andamento e as grandes e pequenas questões que incomodam uma sociedade em dado contexto. 145 “Só se aprende agindo. as necessidades cotidianas. Por isso é importante que a escola reveja seu papel pedagógico na formação ética. 101). Não há ética fora do imperativo da ação/decisão. uma vez que. só se age testando o mundo. Também deve buscar a humanização dos seus educandos por meio de uma “[. no conhecer e no agir. mas sim liberdade. ARAÚJO. como demonstra Bittar: Parece que a prática ética. permitindo que a liberdade invada os modos pelos quais as práticas pedagógicas e fazem. demonstrando as causas e as razões da opressão. engajadora. p. 2007. a politicidade do saber. não num sentido de que as aulas devam se converter em “lavagem cerebral” do educando por ideologias políticas determinadas. Consciência política é sinônimo de preocupação com o social. p. consciente e livremente. p. 2004. 5). e isso num sentido muito democrático. Política aqui não significa clausura ou unilateralidade político-partidária. despertando desse modo em seus educandos esse interesse no saber. 2007. a ciência. interagir entre o senso comum. o crescimento ético-reflexivo facilita os modos pelos quais as interações humanas se engrandecem. 69-76. Isso porque o sentido da consciência política aqui trabalhado não é o de uma consciência político-partidária.” (BITTAR.] educação conscientizadora. ou muito menos o de uma consciência exclusivista refratária e impermeável a novas demandas políticas. então. (LODI. demonstrando e agindo para a vida e negando a morte abortiva das mentalidades. 2004. praticados145. só se aprende errando. assumindo atitudes democráticas na condução dos trabalhos acadêmicos. com o momento histórico vivido. 2004. 69). neste permanente processo. assumindo eticamente sua responsabilidade profissional e social com a cidadania e a responsabilidade política. 94. ou seja. grifos nossos).138 Esses princípios éticos são aprendidos e assumidos quando são experienciados. prática educativa e prática política estão saudavelmente imbricadas no ato de ensinar. instigando a mentalidade da pesquisa e da busca autônoma pelo saber. O Educador democrático deve. E disso não pode o educador democrático se esquivar.. tornando-se um educador-investigador para trazer sempre nos estímulos Brasília: Ministério da Educação. . 94). o que vale dizer. p. na capacidade de analisar e eleger valores para si. habilitante. estimulante e produtiva” (BITTAR. p. (BITTAR..

veiculando a paixão pela mobilização que a educação é capaz de proporcionar. Afinal. a formação ética influencia na formação do cidadão.” (BITTAR. como formar seres éticos e cidadãos. Muitas teorias pedagógicas. são algumas formas de dar passos em direção à libertação do oprimido de sua condição. . grifos nossos). combatendo toda forma de exclusão social que se possa instaurar dentro da escola ou da sala de aula. entendimentos semelhantes. da fraternidade e da liberdade. Tais ações podem contribuir para a resolução de conflitos no espaço escolar. 102-103. jurídicas e entre outras ciências apresentam diversas sugestões para ensinar como que se educa. 5.1. A indisciplina e a violência possuem diferentes leituras. psicológicas. bem como em direção à formatação de uma nova conjuntura educacional capaz de motivar a superação do povo brasileiro pelas suas próprias forças. para que aja com fundamentação e de acordo com o espaço escolar que se vive. por sua vez. da igualdade. é necessário que o educador seja um pesquisador na tarefa de educar. quais são os valores importantes. 2004.139 aos alunos e a si mesmo. vivenciando por suas atitudes o compromisso assumido com a sala de aula. cada autor reflete de acordo com as pesquisas examinas e uma leitura própria do mundo. ajudam na formação de um indivíduo ético. filosóficas. Porém. Não se pode deixar de levar em conta que diante da pluralidade de concepções pedagógicas existem linhas comuns. pois se responsabilizam pelo bem comum.4 Articulando ações possíveis na escola A realização da cidadania comporta diversas ações possíveis que se baseiam em valores e princípios democráticos que. formando e informando o educando quanto à sua própria realidade histórico-social. Ser aluno cidadão é guiar-se por uma conduta que reflita continuamente sobre seus atos. instaurando e assumindo a politicidade do mister educacional. Alunos éticos são alunos cidadãos. e como é possível ajudar no desenvolvimento da personalidade do aluno. p. possibilitando modificar as suas ações em vista de um ambiente sadio. Dessa forma. pela realização da justiça.

indisciplina e violência nas escolas. reavaliando suas condutas e refletindo sobre os resultados que o educador poderá perceber se a sua missão foi cumprida de acordo com as exigências das circunstâncias. guia-se pelo parâmetro educativo da realização da dignidade humana. p. é revendo continuamente suas ações. haja democratização das relações escolares. ofereça condições para a conscientização de todos os envolvidos. substitua o uso de punições expiatórias pelas sanções de reciprocidade. para mudar o quadro escolar. Ética. dentre tantas. deixa de ver o aluno indisciplina e violento como problema. Rio de Janeiro: Vozes. A primeira obra é de Nelson Pedro Silva. 2004. este tópico traz em seu bojo algumas obras que podem estimular os educadores a repensarem a sua ação educativa. Ela se chama Prevenção e 146 Cf. Há outra obra que merece um estudo detalhado e curioso.140 Diante dessa complexidade de buscar soluções para os conflitos no espaço escolar. relacione os conteúdos tradicionais com a vida. o educador se motivará e almejará vôos mais altos. dez soluções possíveis. é necessário que a escola substitua a cultura da culpa pela da responsabilidade. SILVA. Trata-se de um ofício árduo. fica a tarefa ao educador e a direção de formar-se continuamente. pois percebendo que a ignorância e acomodação prejudicavam o estabelecimento de uma educação com qualidade. indisciplina e violência escolar. ainda. (SILVA. Nelson Pedro. Para ele. 153-204). faz uma reflexão sobre o que seja indisciplina e violência. psicopedagógica e psicológica. Assim. 2004. . e abolia qualquer forma de humilhação. 2004. aproveita o pensamento de Piaget para entender esse fenômeno educacional e apresenta. 204) 146 . Deste modo. rumo à emancipação do aluno. chamada de Ética. “Saber nunca é demais e não ocupa lugar” (SILVA. p. mas compensador. porque traça ações concretas para prevenir e solucionar os problemas disciplinares. compreenda e concretize a educação como fator de desenvolvimento. forme-se por meio de uma orientação pedagógica.

os quais apresentam diversas ações para superar uma educação “bancária” em vista de uma educação “problematizadora” e democrática na Escola Municipal de Ensino Fundamental “José Honório Rodrigues”. é importante que haja na escola um espaço de discussão e diálogo que contribuam para a construção do conhecimento. Uma escola cidadã e democrática. 2008. BOYNTON. 2008. 2008. (PARRAT-DAYAN. Não pode haver um aniquilamento da consciência e da reflexão. principalmente. (PARRAT-DAYAN. As ideias não podem ser negadas. p. Porto Alegre: Artmetd. uma vez que a vida social colabora no desenvolvimento de linguagens. das regras morais. . Ao longo dos dezenove capítulos o autor fornece pistas para solucionar os problemas disciplinares. 128-129). uma vez que as idéias são explanadas num espaço coletivo e público. Prevenção e resolução de problemas disciplinares: Guia para Educadores. Mark. 147 BOYNTON. Demonstram diversos momentos nos quais se dedicaram a realizar uma educação cidadã. é preciso estabelecer o primeiro passo que consiste na compreensão de quais são as regras comuns que vinculam uns aos outros. Eles também estimulam a criatividade e a confrontação de pontos de vistas distintos. almejada também por Silvia Parrat-Dayan. 129). Existe também o livro Indisciplina Escolar: Causas e Sujeitos. escrito por Rosana Aparecido e Argento Rebelo. para a socialização e para firmar a disciplina. existe quando os conflitos da indisciplina e da violência são solucionados de maneira adequada. Cada capítulo apresenta diversos modos de agir para equacionar os problemas e estabelecer uma disciplina sólida e ética. De acordo com a autora. corroborando para o desenvolvimento da cidadania e da democracia.141 resolução de problemas disciplinares: Guia para Educadores. lógicas e jurídicas. através do PPP. Exige que a criança ou o aluno aprenda discutir e compartilhar pensamento.147 de autoria de Mark Boynton e Christine Boynton. p. Inclusive. a partir dos problemas de indisciplina. Christine.

trabalha junto e faz de tudo para que eles sejam os personagens mais importantes da classe. p. colaborar e compartilhar experiências e ideias uns com os outros.. torna-se um enriquecimento democrático mútuo.] um produto da educação. como já mostramos. 130). o professor leva as 148 “O professor cria situações estimulantes e incita os alunos a resolvê-las. a cidadania é [. dá conselhos.. Nessa interação. (PARRAT-DAYAN. Então. exigindo assim uma responsabilização progressiva. 129-130). dialogar e argumentar. p. 130). A democracia não é apenas um espaço no qual se confrontam mecanismos econômicos e políticos. Consequentemente. Pensar juntos implica pedir à criança que utilize procedimentos do pensamento adulto. 131). uma vez que permite a reflexão sobre os seus pontos de vista e sobre a visão de mundo de outras pessoas. da indisciplina. Isto possibilita ser uma preparação para a vida democrática e uma boa inserção na aula e no mundo social.” (PARRAT-DAYAN. E não podemos aprender a democracia se não aprendermos a discutir. Para Parrat-Dayan. Os adultos são mediadores. o professor precisa saber escolher e criar situações148 nas quais o aluno aprenda a partir da sua própria experiência. 2008. por sua vez. É necessário ter a garantia da vida democrática para conseguir o aprendizado da cidadania. p. 2008. (PARRAT-DAYAN. O professor ajuda. A democracia ocorre quando eles são tratados com respeito e as regras são elaboradas por eles mesmos. criticam. aprende a ser cada vez mais autônomo e independente. examinam os precedentes e imaginam alternativas. aprendendo a discutir. (PARRAT-DAYAN. abrirá espaço para que a democracia se realize e uma investigação científica seja feita. Com seu método.142 Desse modo. p. Toda democracia apóia-se no fato de um encontro de pessoas que constroem juntas ou aceitam uma base comum. acompanha. o professor promoverá competências sociais. trazem elementos. . (PARRAT-DAYAN. é necessário aprender as regras que permitam a discussão e. p. (PARRAT-DAYAN. também. o pensamento em conjunto. Além do mais. 130). 2008. E por meio do conflito. A solidariedade também é um elemento de coerência democrática. p. na resolução de conflitos. E o aluno. 131). ensinando aos alunos saber conviver. 2008. 2008. 2008. Querer dizer. ela também supõe a intersubjetividade e o diálogo argumentado. espírito crítico deve ser favorecido porque também é a garantia de democracia.

no que tange a ética. o rigor argumentativo. necessita de que a escola trabalhe temas que desenvolvam a cultura do respeito. um espaço onde possa defender suas ideias. a defesa do interesse geral e o desejo de convivência caracterizam a cidadania democrática. exige que dê oportunidade de participação e responsabilização as crianças. e no que se refere à a afetividade.143 crianças a elaborar marcos referenciais. ao mesmo tempo. as leis justas. política (porque participa do poder). 133). 2008. Parrat-Dayan ensina que A cidadania moderna. no que concerne à jurídica. 2008. p. (PARRAT-DAYAN. objetivando uma educação com qualidade. a democratização na instituição educativa acontece quando se presencia o espírito crítico. (PARRAT-DAYAN. se a escola almeja uma formação para a cidadania. p. p. exige que se crie uma instância de arbitragem e de conciliação na escola. criar na escola um espaço de interação. Dessa forma. o tempo. A conduta democrática supõe valores tais como a coerência ética. a educação não pode entender a criança como um cidadão autônomo. grifos nossos). as . pois assegura direitos e deveres que devem ser efetivados no espaço escolar. ética (porque dá prioridade ao interesse coletivo) e afetiva (porque supõe o convívio). a colaboração sólida e a crítica construtiva. a construção de normas contribui para um clima de cidadania. Ademais. (PARRAT-DAYAN. Porém. 132). a participação no poder. é. espaço e o trabalho. Esses diferentes valores supõem tanto uma atitude democrática quanto uma atitude filosófica que permitirá a construção da identidade de cada indivíduo neste mundo onde a globalização provoca a ruptura de marcos referenciais constitutivos da identidade individual e social. Desse modo. a autonomia e a cooperação. o professor e o aluno precisam organizar em conjunto a aula. 131-132. Inclusive. o espírito crítico. jurídica (porque obedece às leis do país). E estas dimensões podem ser consideradas na educação da seguinte forma: no que se refere à participação no poder. A cidadania exige participação da vida pública. isso não desmerece que a cidadania leve em conta o indivíduo e o grupo. específica dos sistemas democráticos. Resumindo. 2008. parte dos próprios alunos. pois ela está numa fase de aprendizagem e desenvolvimento de suas capacidades e talentos.

] os programas de ensino. (PARRAT-DAYAN. A aula é o lugar em que as diferentes facetas da comunicação podem ser exploradas. obediência e subserviência. Ademais. p. recursos e coragem política poderíamos solucionar muitos dos problemas que se colocam para a escola e para a sociedade em geral. Muitos problemas poderiam ser resolvidos se houvesse a consolidação de uma cultura democrática e a efetivação dos direitos humanos. organizar. 2008. de renovação das instituições educacionais e da formação permanente. 2008. (PARRAT-DAYAN. p. um debate democrático na disciplina. 134). Os professores poderão transformar a educação a partir de múltiplos debates. propugnar a superação da razão instrumental. formular um pensamento. postular a superação da clausura especializada que determina a autopoiese dos conhecimentos especializados e encerrados sobre si mesmos. E não pode exigir uma imagem ideal de criança. tornada objeto da organização curricular e da formação uni-centrada das antigas disciplinas monolítica.. p. as práticas pedagógicas e a formação de professores deveriam ser reestruturados e repensados. para que aprendem a analisar...] repensar o condicionamento da razão pela razão frenética. surgida como fruto contextual pós-moderno. Com vontade. decidir e encontrar soluções em conjunto. 135). 2008. Ou seja. para dizer e para decidir. caracterizada pela docilidade. A palavra para aprender. p. Silvia Parrat-Dayan conclui que [. para diversos fatores que prejudicam o andamento satisfatório do ensino-aprendizagem. o que supõe. antecipar. concretizando. a indisciplina pode ser resolvida com um olhar interdisciplinar. Assim. então. A indisciplina é um sintoma da má adaptação do sistema escolar às necessidades de cultura e de saber da sociedade atual. (PARRAT-DAYAN. é importante desenvolver nos alunos uma lógica cooperativa pelo qual devem aprender a escutar. ao mesmo tempo.. 2008. diretores e funcionários tomar a palavra. escutar e dialogar com os outros. . isso pode ser resumido nas seguintes ações: [. participar de uma conversação numa sociedade democrática e plural. falar. Para Bittar.] como uma ordem político-pedagógica que permita tanta aos alunos quanto aos docentes. Também é importante compreender a ordem disciplinar [.. (PARRAT-DAYAN. 136). respeitar e tolerar. 139). mesmo quando a harmonia não é possível.144 responsabilidades e os projetos.. que deve ser vista como uma necessidade absoluta porque permite uma nova aproximação cooperativa.

Educação e Metodologia para os Direitos Humanos: Cultura democrática. de cada classe. 2004. produtiva e dinâmica. também. libertadora e autoconsciente. Só a ação direta de cada professor. para o exercício de direitos e deveres públicos. B. A disciplina que vem do papel especifico da escola (o sistemático e o progressivo). Educação para a cidadania não é somente o direito de todos. éticos. preparo dos eleitos para a condução dos negócios públicos. mas passageiros. 3) valorizar a iniciativa pessoal de cada professor. João Pessoa: Editora Universitária. 9) não há duas escolas iguais. 2007. 4) cultivar a curiosidade. Cada escola é fruto do desenvolvimento de suas próprias 149 BITTAR. da consciência cívica. 7) a escola não pode ser um espaço fechado. Moacir Gadoti apresenta o que seria uma Escola Cidadã que pare ele abrange as seguintes diretrizes: 1) ser uma escola autônoma para todos democrática na sua gestão. a educação tem em vista a formação da consciência nacional. interação civilizada e sincronizada entre membros da sociedade civil e associações. Sua ligação com o mundo se dá pelo trabalho. o gosto pela leitura e pela produção de textos. superar o modelo da educação tecnicizante e produtor de subjetividades rasas. unilateral. mas continuadas. Educação em Diretos Humanos: Fundamentos teóricos-metodológicos. p. Pequenas ações. interativa e crítica. informação. p. 6) deve. como retomada da consciência da prática de uma razão emancipatória. 2007. comunitários e restabelece ligações com o passado e as tradições culturais de um povo. em que preponderam a falta de tecnologia. a paixão pelo estudo.. da cidadania e dos direitos humanos. de cada escola. SILVEIRA. 2) valorizar a dedicação exclusiva dos professores e ser de tempo integral para os alunos. Rosa Maria Godoy et al. 331-332) 149. [. 5) deve propor a espontaneidade e o inconformismo. Ademais. Propugnar por um sistema forte educação é propugnar pelo futuro da democracia. ser uma escola disciplinada. Eduardo C. fragmentário. são melhores no processo de mudança que eventos espetaculares. na relação solidária entre a escola e a sociedade.. desincentivar o modelo de ensino pouco-provacativo ou negador da intersubjetividade dialogal. p. consciência para o exercício do voto. 8) a transformação da escola não se dá sem conflitos. Entre essas ações destaca-se a formação para a cidadania. instrumentos de progresso. Ela se dá lentamente. preparo para a filtragem de informações veiculadas pelos mass media. uma vez que fortalece os laços históricos. Mas abordar a cidadania não é tratar apenas do conjunto de direitos e deveres legais ou constitucionais. (BITTAR. do conjunto das pessoas envolvidas em cada escola. 107).] mas em cidadania ativa e participativa.145 incentivar o desenvolvimento de habilidades e competências interativas. 313-334. (2004. mas sobretudo uma conquista de uma sociedade que se quer ver emancipada de suas grades estreitas e restritas. na medida em que se define o que se é pelo que o mercado exige que seja tornado o indivíduo. pode tornar a educação um processo enriquecedor. Deste modo. (BITTAR. propugnar a formação humana integral. p. autonomia e ensino jurídico. não a aprendizagem mecânica. convocar os educadores e docentes do ensino jurídico a uma rebelião contra o pensamento compartimentado. No entender de Bittar. 108). . estimular o desenvolvimento do agir comunicativo fundador da cidadania.

v. respeito. p. 10) cada escola deveria ser suficientemente autônoma para organizar o seu trabalho de forma que quisesse. Portanto. consolida-se a cidadania no espaço escolar. a ação educativa é política porque abrange debates. Assim. Campinas. 9. horizonte estabelecido juridicamente e pedagogicamente. abril de 1999. nº 66. (2008. 2009) 150 . discussão. a Escola Cidadã. construção do conhecimento. busca realizar o bem comum e respeitar o espaço coletivo. Revista Diálogo Educativo. marcada por participação. (PIRES. ano 10. principalmente. fundamentados nos valores democráticos e na ética. pela qual desenha no indivíduo o desenvolvimento de suas potencialidades e capacidades. a ação educativa comporta formar o indivíduo na dimensão intelectual. elaboração de regras. Educação & Sociedade. Buscando diversos meios ou instrumentos de trabalho. Indisciplina e Violência nas escolas: algumas questões a considerar. traça programas de ação e. A nova escola. Isto é possível através do ideal de uma disciplina consciente e interativa. 2009. inclusive. p. 211-212). mas também possui uma intencionalidade política. contratar e exonerar professores. set. 150 GARCIA. responsabilidade. 28. . psicológica e social. n. Joe. a perspectiva pedagógica entrelaçada com a perspectiva jurídica busca remodelar os papeis até então seguidos pela instituição escolar. a indisciplina e a violência escolar não podem ser compreendidas apenas como circunstâncias dificultadoras e obstáculos para a efetivação do direito à educação. é possível quando se desenvolvem atitudes sérias e comprometidas com a transformação da sociedade. Isto é. Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula e na escola. em rumo de um paradigma que efetiva o exercício da cidadania. 1999) 151. Curitiba. a critério do seu Conselho de Escola. a indisciplina e a violência podem ser pensadas mais como um desafio ou como uma oportunidade para uma profunda revisão das visões e práticas pedagógicas colocadas em prática. Afinal. Dorotéia Baduy. formação do caráter e da cidadania. Aliás. 151 PIRES. pois são momentos em que a escola precisa realmente extrair da sua essência uma ação educativa para que do abismo surja um ser humano e cidadão./dez. 511-523. (GARCIA. afetiva.146 contradições.

como numa orquestra em busca da realização da cidadania ativa e plena. Não se pode mais guiar-se pelas políticas autoritárias. E deve ser analisada como um meio e não um fim”. 1999) “o que seria de uma orquestra. analisar. se cada músico tocasse o que quisesse? Se não houvesse disciplina? Ela é necessária. alimentando um projeto comum de escola e de sociedade”.] os educadores devem se comprometer com o processo de transformação da realidade. apud PIRES. Necessita reanimar-se para cumprir o seu papel. a instituição escolar não pode julgar que a sociedade é culpada. narcisistas. egoístas. Deve remodelar-se para romper com as tradições opressões e excludentes que demarcam seu campo de atuação na escola. Não pode ficar subjugada aos problemas e obstáculos.147 Segundo Vasconcellos (1994. oligárquicas e capitalistas. Diante da indisciplina e da violência escolar.. interpretar e questionar a realidade em que vive. Vasconcellos diz que “[. Precisa desocultar a sua verdadeira tarefa. Tem que refletir. A instituição educativa tem a missão de dar voz e vez a sua essência.. Há que se remodelar as instituições sociais para que as grandes evoluções da ciência e da tecnologia não se percam diante da desumanização que se acelera continuamente. CONCLUSÃO O mundo contemporâneo exige um novo modo de conduzir a vida. . Portanto.

Porém. Mais do que nunca. da justiça cumpram-se realmente na escola. cabe a ela ressignificar seu projeto educacional. ela precisa apoiar-se no direito. formando este tanto de modo intelectual quando de maneira ética. Impede. para propiciar o desenvolvimento integral do ser humano. na perspectiva jurídica. normas. social e ética. A perspectiva jurídica não está dissociada da perspectiva pedagógica na ação educativa. intelectual. justo. metas.148 Por isso. afetiva. . esta deve buscar cumprir seus objetivos legais para que o paradigma da inclusão. valores e pedagogias como meio de consolidar a cidadania. Este Trabalho de Conclusão de Curso não oferece uma solução simples e fácil para os problemas escolares. a indisciplina e a violência no ambiente escolar necessitam de duas perspectivas. porque ambas buscam educar e formar o ser humano em todas as suas dimensões (física. retirando o “véu de maia” para reerguer a sua construção de um trabalho voltado para a humanização. A sua consolidação no espaço escolar impede a violação dos direitos. É “despertar do seu sono dogmático”. então. a jurídica e a pedagógica. não deixa de ser uma contribuição para rever as posturas pedagógicas e jurídicas construídas nas escolas que perderam seu valor e força de atuação. Exigindo. psicológica. que novos valores se entremeiam na vida escolar. E no que concerne à perspectiva pedagógica. pois esta perspectiva fundamenta as ações da escola colaborando para garantir os direitos e solucionar de modo democrático. dos valores democráticos. Ser cidadão é efetivar os direitos humanos. dignificação da vida humana. afetiva e social) e exercite sua cidadania. Mas também é favorecer a formação humana na dimensão intelectual. física. negar aquilo que é devido ao homem. As duas perspectiva são como asas que contribuirão para que os problemas disciplinares deixem de ser momentos de frustração para fundar objetivos. Como o direito é respectivo da perspectiva jurídica. igualitário e fraterno os problemas.

apontar para os pássaros. as perspectivas jurídicas e pedagógicas são como duas pontes que dão acesso para a cidadania. Cada sala de aula é um laboratório único para que o professor possa superar os problemas e conquistar os seus objetivos educacionais. para que perceba que o momento atual é uma parte do presente e que exige de si o desapego à infância. ao egoísmo. incluído e humanizado. O educador deve mostrar e demonstrar que existe outra realidade pela qual ele pode se sentir acolhido.149 Trata-se de oferecer um embasamento teórico para compreender os fenômenos vividos. direção. O educador não pode se desvencilhar deste ofício. cada sala de aula exige do professor e da direção um tratamento diferenciado. no momento de atravessar a ponte ou desejar rebelar-se contra a necessidade de passar por ela. Cabe aos educadores mostrar o mundo. Por isso é necessário retomar o que foi decido. O aluno que ficar distraído com as paisagens ao redor. . à violência. Cada amanhecer é uma possibilidade para o educador “pintor” pegar de novo suas tintas e pincéis e pintar o quadro como foi pensado. discutido e estabelecido. para que estabeleça uma diretriz para superar o problema. Deve ficar claro que não são pistas totalmente acertáveis para os conflitos na instituição escolar. porque cada escola. pai. deverá ser ajudado pelo professor. Por isso. as árvores e o rio que corre de modo veloz. quais são as causas e conseqüências da indisciplina e da violência escolar. Afinal. podendo até mesmo ficar admirado com a beleza e a sublimidade da arte que retratou ou viu no seu quadro. é imprescindível que cada professor. as folhas. não deixa de ser uma tarefa árdua e exigente. Consequentemente. à acomodação. apontando pistas para transformar o espaço escolar. aluno ou a sociedade reveja e analise qual é o problema.

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