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Calendários regulam a vida da humanidade há milênios

Marcelo Viana – 02/01/2019

Na infância vivi em povoados rurais do norte de Portugal. Os camponeses eram quase todos analfabetos e não tinham acesso a
jornais, rádio, muito menos TV. Lembro do meu espanto com sua capacidade para saber quando estava na hora de semear ou
colher o milho, a cenoura e outras espécies agrícolas. Que misterioso “instinto” do tempo possuíam essas pessoas simples?

Não é à toa que o calendário é um dos avanços mais antigos da civilização. Para as populações nômadas de caçadores-coletores
era muito importante conhecer o tempo para acompanhar as migrações das espécies de caça ou conduzir os rebanhos para novas
pastagens. E com a sedentarização e a invenção da agricultura tornou-se ainda mais crítico poder localizar o presente dentro dos
ciclos a que está sujeito o nosso planeta, especialmente os ciclos anual e mensal.

A arqueologia comprova que métodos para marcar o tempo, por exemplo por meio da posição dos astros, remontam ao neolítico,
entre 12 mil e 6.000 anos atrás. Já os primeiros calendários conhecidos surgiram na idade do bronze, há cerca de 5.000 anos,
juntamente com a invenção da escrita, na Suméria, no Egito, na Babilônia e na Assíria.

O principal problema do calendário reside no fato de que o ano (órbita da Terra em torno do Sol) e o mês (movimento da Lua em
torno da Terra) não correspondem a números inteiros de dias. No século 11 os persas já sabiam que um ano contém
365,24219858156 dias, o que é notavelmente preciso.

O calendário dos babilônios consistia de 12 meses lunares, iniciados a partir da observação da Lua, juntamente com um período
intercalar de alguns dias para completar o ano. A república romana usava uma variação desse calendário, mas o fato de que o
período intercalar era definido por decreto político originou abusos, que levaram Júlio César a fazer uma reforma. O calendário
juliano perdurou até o século 16, quando foi sendo substituído pelo calendário gregoriano que usamos hoje.

O aprimoramento do calendário motivou avanços científicos importantes, especialmente na matemática e na astronomia. Mas a
importância crucial da contagem do tempo para a vida das pessoas significa que essa atividade também esteve sempre ligada à
política e à religião.

O que me leva de volta aos povoados da infância. Uma fonte de informação a que os camponeses tinham acesso era a igreja. Por
meio dela ficavam sabendo os dias dos santos. Então, bastava memorizar as datas das sementeiras e colheitas relativamente a
esses dias.

Afinal, ninguém precisa de instinto misterioso para lembrar que o momento certo para provar o vinho novo, e comer castanhas
assadas, é no São Martinho, 11 de novembro.

Ramanujan foi um matemático inspirado pelos deuses


Marcelo Viana – 09/01/2019

O indiano Srinivasa Ramanujan (1887-1920) é uma das figuras mais interessantes da história da matemática, talvez de toda a
ciência. Apesar de ter tido uma educação formal muito deficiente, ele tinha um talento extraordinário para descobrir misteriosas
relações entre diferentes números, expressas em fórmulas extremamente complicadas das quais ninguém suspeitara antes.

Ramanujan quase nunca conseguia explicar como chegara até elas e atribuía suas intuições à inspiração divina da deusa
Mahalakshmi, protetora de sua família. Divina, mas não infalível: algumas (poucas) de suas fórmulas estavam erradas! Outras só
seriam comprovadas muito depois pelo trabalho de outros matemáticos, especialmente do francês Pierre Deligne, que ganhou a
medalha Fields em 1978 —em parte, por ter provado a chamada Conjectura de Ramanujan.

O indiano pertence ao pequeno clube dos matemáticos cuja vida, mal ou bem, foi contada em filmes. O mais recente (2015),
intitulado “O Homem que Conhecia o Infinito”, é bastante fiel aos fatos para uma obra do gênero.

Ramanujan nasceu na região de Madras (atualmente Chennai), no sul da Índia. Sua família pertencia à casta brâmane, a mais
elevada na sociedade hindu, mas era pobre, e ele perdeu o pai cedo. Aos 16 anos, descobriu a paixão pela matemática, que virou
seu interesse quase exclusivo. Anotava suas descobertas num caderno surrado, que carregava o tempo todo.

O descaso pelas demais disciplinas fez com que fosse reprovado mais de uma vez. Mais tarde, já casado, viu-se forçado a aceitar
um emprego humilde. Aos 23 anos, encorajado pelos empregadores, reuniu seus melhores resultados numa carta ao renomado
matemático inglês G. H. Hardy (1877 – 1947), da Universidade de Cambridge.

Impressionado, Hardy convidou-o a visitar a Inglaterra, onde se esforçou para fazer com que o seu gênio fosse reconhecido,
vencendo preconceitos. Mas o clima inglês, aliado a deficiências nutritivas, agravou o frágil estado de saúde de Ramanujan.
Diagnosticado com tuberculose, voltou à Índia, onde morreu pouco depois, aos 32 anos.
O interesse por Ramanujan vai muito além da matemática e se estende, por exemplo, ao campo da inteligência artificial. Essa área
da ciência visa compreender como a mente humana faz para escolher, entre inúmeras possíveis ações, aquela que parece mais
adequada a cada situação. O objetivo é replicar esses processos complexos em outros “cérebros”.

Uma questão óbvia é saber se todos pensamos e decidimos do mesmo modo ou se diferentes seres humanos podem estar
equipados com “softwares” distintos. Embora a maioria dos especialistas se incline para a primeira opção, as misteriosas intuições
de Ramanujan são citadas frequentemente como possível evidência do contrário.

Ciência 'inútil' revoluciona nosso dia a dia


Marcelo Viana – 16/01/2019

Conta-se que o físico britânico Michael Faraday (1791-1867) recebeu um dia em seu laboratório o ministro da Fazenda, que o
questionou para quê serviria a eletricidade, na prática. Dizem que o cientista respondeu: “Um dia, Vossa Excelência poderá cobrar
impostos sobre ela."

Um amigo me apresentou o livro "The Usefulness of Useless Knowledge" (a utilidade do conhecimento inútil, em tradução livre),
de Abraham Flexner.

O autor faz uma defesa eloquente da ciência básica, da busca do conhecimento por si mesmo, sem objetivos práticos imediatos.
Ele mostra que, muitas vezes, o impacto dela em nossas vidas é muito maior do que a pesquisa de curto prazo pode almejar ou
vislumbrar.

Flexner (1866-1959) foi uma personalidade muito influente na educação e ciência dos Estados Unidos na primeira metade do
século 20. Sua avaliação crítica do ensino da medicina deu origem a uma reforma profunda no treinamento de médicos na
América do Norte, da qual emergiram as melhores escolas nessa área.

Ele também fundou o renomado Instituto de Estudos Avançados (IAS, na sigla em inglês) de Princeton. O IAS teve origem no
desejo dos irmãos Caroline e Louis Bamberger de investir a fortuna numa iniciativa em prol da sociedade.

Os Bamberger tinham razões para estarem gratos: venderam sua loja de departamentos pouco antes do colapso da bolsa de valores
em 1929, que originou inúmeras falências e deu origem à Grande Depressão.

Inicialmente, os irmãos pensavam abrir uma escola de medicina dentária, mas Flexner os convenceu a investir seu dinheiro em
pesquisa básica, com destaque para a matemática e a física teórica (atualmente, o IAS está dedicado à matemática, ciências
naturais, história e ciências sociais).

Foi sugerido que o instituto fosse localizado em Princeton, onde poderia usufruir do contato com uma das universidades mais
conceituadas do país, e sua excelente biblioteca.

Na contratação dos primeiros pesquisadores, Flexner tirou proveito da situação vivida na Europa com o advento do nazismo,
oferecendo porto seguro a cientistas de primeira linha, especialmente judeus.

Integraram esse grupo matemáticos e físicos do calibre de Albert Einstein, Kurt Gödel e John von Neuman, entre outros, que
estabeleceram a reputação do IAS de uma vez por todas. Até hoje, já passaram pelo Instituto como pesquisadores 33 ganhadores
do Prêmio Nobel e 42 vencedores da Medalha Fields (75% do total!).

Flexner concebeu o IAS como um paraíso da ciência pura, onde os melhores cientistas poderiam se dedicar “à busca sem
obstáculos do conhecimento inútil”, num ambiente confortável e aprazível e sem precisar lidar com nenhuma das preocupações
quotidianas.

Em seu livro, ele observa como essa pesquisa “inútil” vem gerando algumas das revoluções mais profundas do nosso dia a dia, do
computador à energia nuclear, do GPS aos diagnósticos por imagem. Voltarei ao tema em breve.

Números primos de Mersenne, visando o infinito


Marcelo Viana – 23/01/2019

Há uns 20 anos, eu trabalhava no Impa quando percebi o computador lento. Rodei um diagnóstico e encontrei o processo de outro
usuário. O título, “mersenne”, esclareceu quase tudo: eu já sabia que estava em curso um esforço internacional para encontrar um
novo número primo de Mersenne.
Essa tarefa costumava ser confiada a supercomputadores, mas os promotores da iniciativa a tinham transformado em um mutirão:
pedaços do cálculo eram rodados em milhares de computadores em volta do mundo. Entre eles o meu, como eu acabava de
descobrir.

O colega responsável desculpou-se, disse que não achava que fosse me atrapalhar e parou o cálculo na hora. Mas não resistiu a
perguntar: “O que você tem para fazer no computador que seja mais interessante do que encontrar um primo com um milhão de
dígitos?”

Marin Mersenne (1588 – 1648) foi um monge erudito francês com invulgar diversidade de interesses científicos. Foi descrito
como “o centro do mundo da ciência e da matemática na primeira metade do século 17”. Hoje em dia é lembrado, sobretudo,
pelos números de Mersenne, aqueles que têm a forma 2n–1 para algum inteiro n.

Não é difícil mostrar que 2n–1 só pode ser primo de n for primo, mas a recíproca é falsa: 11 é primo e, no entanto, 211–1=2047
não é (isto já fora observado por Hudalricus Regius em 1536). Não sabemos se existe um número infinito de primos de Mersenne,
e muitas outras perguntas permanecem sem solução.

Por outro lado, há métodos muito mais eficazes para testar a primalidade de 2n–1 do que para outros números. Por essa razão, de
longa data o recorde de maior primo conhecido é detido por um primo de Mersenne.

Esse recorde acaba de ser quebrado, com a descoberta do 51º primo de Mersenne, que corresponde a n=82.589.933 e tem
24.862.048 dígitos! Mais uma vez foi resultado de um esforço coletivo, chamado Grande Busca por Primos de Mersenne na
Internet (GIMPS, na sigla em inglês). O passo decisivo foi alcançado em 7 de dezembro por Patrick Laroche, profissional de TI
que trabalha na Flórida, USA.

A busca por primos cada vez maiores tem aplicações práticas, por exemplo, na criptografia (que está baseada no fato de que
decompor um número em fatores primos é um problema difícil, se os primos forem grandes) e no teste de hardware e software.
Ela também colabora na resolução de perguntas matemáticas sobre números primos. Por exemplo, o GIMPS encontrou nos
últimos anos 3 vezes mais primos de Mersenne do que se esperava nessa faixa. A teoria precisa ser ajustada?

Mas tenho certeza de que para a maioria dos participantes, inclusive aquele meu colega, a grande motivação é simplesmente
aprender, ir além, chegar onde ninguém esteve antes. Realmente, existe algo mais interessante para fazer?

Lewis Carroll e a matemática do País das Maravilhas


Marcelo Viana – 30/01/2019

“Bom”, disse Alice, “no meu país, correndo assim, teríamos chegado a algum lugar”.

“É um país muito lento!”, respondeu a Rainha. “Aqui precisamos correr o máximo para ficar no mesmo lugar. Se quiser ir a algum
lugar, tem que correr o dobro!”

O universo de “Alice do Outro Lado do Espelho” e “Alice no País das Maravilhas” está cheio de paradoxos que desconcertam e
fascinam crianças e adultos há gerações. E a matemática está por toda a parte. “Vejamos: 4 vezes 5 é 12 e 4 vezes 6 é 13 e 4 vezes
7 é... nossa! Desse jeito nunca chegarei a 20!”, lamenta-se Alice.

Não surpreende, pois o autor, Lewis Carroll (1832-1898), era professor de matemática. Mas não se trata de mero jogo de
contradições: há razões para crer que “Alice” também é uma sátira do modo como a matemática estava ficando mais abstrata.

Charles Dodgson (Lewis Carroll era pseudônimo literário) pertencia a uma família com tradições de serviço na igreja anglicana, e
ele próprio tomou ordens religiosas. Tendo provado seu talento para a matemática nos estudos em Oxford, tornou-se professor da
disciplina nessa universidade.

Teve grande interesse pela fotografia. Chegaram até nós fotos que tirou, inclusive das três irmãs Liddel, as jovens filhas do decano
(diretor) de sua faculdade. “Alice no País das Maravilhas” começou com uma história que contou às meninas durante um passeio
de barco. A do meio, Alice Liddel, o instou a colocar por escrito.

Conta-se que os livros de “Alice” chegaram ao conhecimento da rainha Vitória. Encantada, ela escreveu parabenizando e dizendo
que adoraria ler as demais obras do autor. Travesso, Carroll enviou à soberana seu “Tratado elementar da teoria dos determinantes
e aplicação à teoria das equações simultâneas lineares e algébricas”. Infelizmente, não sabemos se Vitória apreciou.

Profundamente conservador em tudo, Carroll repudiava as geometrias não euclidianas, os números imaginários e outros avanços
da matemática. “Alice” está repleta dessa indignação.
“Diga o que quer dizer!” exige a Lebre. “Eu quero dizer o que digo, é o mesmo!”, retorque Alice. “Totalmente diferente!”,
contesta a Lebre, “Por acaso, ‘vejo o que como’ é o mesmo que ‘como o que vejo’?!” Uma paródia da álgebra abstrata e suas
operações não comutativas.

E a famosa cena do chá, com o Chapeleiro Louco, a Lebre e o Arganaz, seria uma sátira da teoria dos quaternions de William
Hamilton (1805-1865). A teoria descreve os movimentos no espaço tridimensional, mas só funciona se considerarmos uma quarta
dimensão, o tempo: sem ela só existem as rotações em círculos. No livro há um quarto personagem, o Tempo, mas ele saiu (a
Rainha teria mandado cortar a cabeça) e, sem ele, os outros três são forçados a repetir seus gestos em círculos.

(Passando as contas de Alice, a coluna chegou ao número 4 vezes 25. É um enorme prazer escrevê-la. Muito obrigado aos leitores
pela companhia!)

Mulher semilendária, Hipátia foi a primeira matemática


Marcelo Viana – 06/02/2019

É celebrada como a primeira matemática da História. Mulher de forte personalidade que, numa sociedade masculinizada, reuniu à
sua volta um círculo brilhante de discípulos que a admiravam. Quem foi Hipátia de Alexandria?

As fontes históricas são escassas. Pior, sua vida e as trágicas circunstâncias de sua morte fizeram dela ícone de causas diversas, até
contraditórias, nas quais ela, provavelmente, não se reconheceria. A lenda ocultou os fatos.

Para os filósofos pagãos da fase final do império romano, representou a resistência ao cristianismo. Na Idade Média, foi
convertida em símbolo do cristianismo: aspectos de sua vida foram incorporados à lenda de Santa Catarina de Alexandria (que dá
nome ao estado brasileiro). Para os pensadores do Iluminismo, simbolizou a oposição ao cristianismo. No século 20, foi
reinventada como precursora do feminismo.

Hipátia foi assassinada em 415, mas o ano do seu nascimento não é conhecido: estima-se que tenha sido por volta de 355. Era
filha de Téon de Alexandria, matemático e astrônomo de renome e diretor do Mouseion, prestigiosa escola de elite onde era
ensinada a filosofia neoplatônica.

Boa parte do pouco que sabemos sobre Hipátia chegou pelos escritos de seus discípulos. Ela atraía admiração generalizada, tanto
pelos ensinamentos quanto pela autoridade moral, inclusive a frugalidade de sua vida e vestimenta, e a virgindade que teria
mantido durante toda a vida.

Não há evidências de que alguma vez tenha deixado Alexandria. Não era um ambiente democrático: em consonância com o
pensamento de Platão, professores e alunos do Mouseion evitavam contato com as massas, que consideravam incapazes de
compreender o conhecimento elevado.

Acredita-se que parte do “Almagesto” do astrônomo Ptolomeu que chegou até nós é de autoria de Hipátia. Ela também escreveu
comentários à “Aritmética” de Diofanto e aos trabalhos de Apolônio de Perga sobre seções cônicas, que se perderam.

A vida e obra de Hipátia foram ofuscadas por sua trágica morte. Logo após ascender ao bispado de Alexandria, o futuro São Cirilo
perseguiu os que não seguiam o cristianismo ortodoxo. Quando se voltou contra os judeus, estes contaram com a proteção do
prefeito (governador militar) Orestes, talvez porque ele se ressentisse do poder crescente do bispo.

No conflito entre os dois, Orestes foi apoiado por personalidades influentes de Alexandria, com destaque para Hipátia. Acusada de
ser obstáculo à reconciliação, denegrida por propaganda entre as massas populares (por quem nunca se interessara), em março de
415 ela foi atacada na rua por partidários de Cirilo. Os relatos de seu assassinato às mãos da multidão variam, mas todos são muito
violentos.

Apesar de embaraçoso para a Igreja, o episódio não impediu a canonização do bispo.

Rigor de Flexner ao avaliar cursos levou medicina americana ao topo


Marcelo Viana – 13/02/2019

Escrevi há um mês sobre o livro “A utilidade do conhecimento inútil”, do norte-americano Abraham Flexner. O autor merece que
falemos mais dele. Flexner nasceu em Louisville, Kentucky, em 1866. Na época, o ensino no sul dos Estados Unidos era muito
ruim, mas ele se autoeducou na biblioteca local. Dessa forma, conseguiu acesso à Universidade Johns Hopkins, então recém-
criada e que se tornaria a primeira universidade de alto nível científico no país, com cursos de doutoramento no sentido moderno.
Após a graduação, Flexner voltou ao Kentucky para ser professor. Ao final do primeiro ano, insatisfeito com o desempenho,
reprovou a turma inteira. Protestos dos pais levaram a um inquérito: após ouvir os fatos, a direção da escola validou a decisão de
Flexner.

Seu trabalho como docente acabou quando Flexner decidiu fazer mestrado. O tema foi a análise do sistema educacional do seu
país. A conclusão, uma crítica devastadora, tornou Flexner persona non grata na comunidade dos educadores, mas também atraiu
a atenção da Fundação Carnegie para o Avanço da Educação, que lhe encomendou um estudo sobre o ensino de medicina.

No início do século 20, a grande maioria das faculdades norte-americanas de medicina funcionava como certos cursos de moda,
serviço social, estética e outros tópicos nos nossos dias: pegavam o dinheiro dos alunos, davam um par de aulas, e outorgavam um
lindo diploma. Só em Chicago eram 14.

Flexner fez cursos rápidos de medicina na Johns Hopkins e no Rockefeller Institute e partiu para visitar todas as 155 faculdades de
medicina dos Estados Unidos e Canadá. Muitas vezes teve que apelar para a astúcia. Numa faculdade em Des Moines, Iowa, todos
os laboratórios – marcados Anatomia, Patologia, Fisiologia etc –estavam trancados e não foi possível encontrar o zelador.

Flexner declarou-se satisfeito, agradeceu e foi para a estação. Só que no lugar de pegar o trem, voltou à faculdade sozinho,
encontrou o zelador e –mediante uma “doação” de 5 dólares– convenceu-o a abrir os laboratórios. Todos tinham o mesmo
equipamento: lousa, mesa e algumas cadeiras...

O “Relatório Flexner” foi impiedoso: a esmagadora maioria das faculdades, e as leis e autoridades que permitiam sua existência,
eram “uma desgraça para a causa da medicina”. A publicação trouxe processos judiciais e ameaças de morte, mas Flexner venceu:
as faculdades fajutas fecharam (em Chicago só sobraram 3), e a América do Norte partiu para conquistar a liderança na área que
detém até hoje.

Já pensou se essa moda –avaliar, apoiar o que é bom e fechar o que não presta– pega no Brasil?

Os marcianos já caminharam na Terra


Marcelo Viana – 20/02/2019

Na imensidão do Universo há incontáveis galáxias, cada uma com bilhões de estrelas, rodeadas por ainda mais planetas. Entre
tantos, não há como duvidar de que muitos têm vida inteligente. Certamente, muitos planetas já alcançaram a era espacial: seus
habitantes circulam entre os astros, explorando novos mundos. Não é possível que não encontrem um lugar lindo como a Terra.

Enrico Fermi (1901-1954), o grande físico ítalo-americano que liderou o projeto nuclear dos EUA, não estava convencido. "Esses
seres superiores já deveriam ter chegado. Onde estão eles?" A resposta, descarada, veio do físico e biólogo húngaro Leo Szilard
(1898""1964): "Eles já estão entre nós, só que se denominam húngaros". Assim nasceu a lenda dos marcianos.

Nos anos em torno da 2ª Guerra Mundial, emigrou para os EUA um grupo impressionante de cientistas húngaros, especialmente
matemáticos e físicos de origem judaica.

Além de Szilard, estavam Theodore von Kárman (1881-1963), Eugene Wigner (1902-1995), John von Neumann (1903-1957),
Edward Teller (1908-2003), Paul Erdös (1913-1996), Peter Lax (nascido em 1926) e muitos outros.

Com seu talento sobre-humano —e o sotaque do Drácula nos velhos filmes protagonizados pelo húngaro Bela Lugosi —, eram
um grupo à parte. Ficava fácil acreditar que não eram deste mundo.

Dizia-se que uma nave marciana pousara em Budapeste por volta de 1900. Após a conclusão de que a Terra não lhes interessava,
os alienígenas foram embora mas não sem antes gerarem os famosos cientistas. Estes contribuíam para enfeitar e propagar a lenda,
adicionando "evidências". Edward Teller, que se orgulhava das iniciais E.T., fingia preocupação: "A história está se espalhando,
aposto que von Kármán anda falando demais!"

No livro "Os Marcianos", o cientista húngaro György Marx aponta a prova irrefutável da origem não terráquea do grupo: embora
não haja ruas com seus nomes em Budapeste, tanto von Neumann quanto Szilard e von Kármán são nomes de crateras na Lua, e
até em Marte.

Quase todos os marcianos já partiram para o mundo de seus ancestrais. Mas Peter Lax, expoente da matemática aplicada no século
20, continua entre nós, aos 92 anos.

Lax foi protagonista de um episódio bizarro, em 1970, quando era professor do Instituto Courant de Matemática da Universidade
de Nova York. Um grupo de alunos anarquistas sequestrou um supercomputador do instituto, cuja compra Lax havia liderado, e
ameaçou destruí-lo com dispositivos incendiários. Usando seus poderes, Lax desativou os dispositivos e salvou a máquina.
Efeito Matilda: por que mulheres são menos valorizadas na ciência?
Marcelo Viana – 27/02/2019

No livro “Sapiens - Uma breve história da humanidade”, Yuval Harari questiona por que as sociedades humanas são
majoritariamente patriarcais, pelo menos desde a invenção da agricultura. Há várias teorias, mas nenhuma explica
convincentemente por que nossas culturas valorizam mais os homens do que as mulheres.

Em ciência, esse fenômeno tem nome: “efeito Matilda”, em homenagem à ativista norte-americana Matilda Gage (1826-1898),
defensora do sufrágio universal e da abolição da escravatura. No ensaio “Woman as an inventor” (A mulher enquanto inventora),
publicado em 1883, ela elenca contribuições femininas à ciência e à tecnologia e mostra como, ao longo da história, muitas delas
foram atribuídas a homens.

Muitas vezes isso está associado ao “efeito Mateus”, ou seja, cientistas renomados que recebem crédito excessivo em detrimento
de seus colegas mais jovens, de qualquer gênero. O nome faz referência ao Evangelho de Mateus (“àquele que tem, mais será
dado e ele terá abundância, mas, daquele que não tem, mesmo o que possui será tirado”).

O mais antigo caso registrado diz respeito a Trota, que viveu na cidade italiana de Salerno na primeira metade do século 12 e se
notabilizou na área de medicina da mulher.

Seus tratamentos foram coletados em um texto em latim intitulado “Trotula”, que alcançou fama em toda a Europa. Mas a ideia de
que fosse obra de uma mulher era demasiado estranha para os monges copistas que reproduziram o texto na Idade Média. Após
sua morte, a autoria foi atribuída a seu marido ou filho. Com o tempo, os confusos monges chegaram a “converter” Trota num
homem chamado Trotula. A verdade só veio à tona no século 20.

No tempo de Matilda, a injustiça estava sacramentada na lei: “Se uma mulher casada conseguir uma patente, ela poderá usar como
entender? De modo algum. Ela não terá qualquer direito sobre o fruto de sua mente. Seu marido pode dar seu próprio nome à
invenção e fazer com ela o que quiser”.

As leis mudaram, na maior parte dos países, mas pressupostos culturais são muito resistentes. Tomei consciência disso, de modo
contundente, durante reunião de preparação do projeto “Meninas Olímpicas do Impa”, iniciativa apoiada pelo CNPq (Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) que visa agir na educação básica para incentivar a permanência de
meninas nas áreas de ciências exatas e tecnologia.

No meio de uma bela discussão sobre como evidenciar a contribuição feminina, para surpresa geral, jovens professoras na equipe
se pegaram várias vezes se referindo às autoras dos trabalhos que analisávamos como "eles".

Muito resta a ser feito, por homens e mulheres, para erradicar o efeito Matilda. O edital do CNPq sinaliza que o tema entrou para
valer na pauta nacional. E muitas outras ações estão em curso, incluindo o primeiro Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas,
em julho, e o lançamento iminente da Olimpíada Brasileira Feminina de Matemática.

Einstein, o papa da ciência, emigrou para o Novo Mundo


Marcelo Viana – 06/03/2019

Quando Abraham Flexner se lançou na construção do Institute for Advanced Study (IAS) de Princeton, ele tinha uma certeza: o
sucesso da instituição dependeria, acima de tudo, da excelência de seus professores. E Flexner tinha um plano.

Seu ídolo, Coit Gilman, fundador da universidade Johns Hopkins, percorrera a Europa em busca dos melhores pesquisadores,
“aqueles que ensinam melhor mesmo sem ensinarem”. Flexner pretendia imitá-lo. Só não podia prever que conseguiria o prêmio
máximo.

Albert Einstein já era uma figura mítica. Depois que a observação do eclipse de 1919, em Sobral, Ceará confirmou as previsões da
teoria da relatividade geral, Einstein virou pop: estavam dando seu nome a bebês, escolas, hospitais e até cigarros!

Ofertas de emprego choviam das melhores instituições, inclusive da própria universidade de Princeton, vizinha do futuro IAS.
Mas até então Einstein declinara deixar Berlim, apesar da crescente degradação da situação dos judeus. Em 1932, Flexner
aproveitou que o físico estava de visita à Califórnia para lhe fazer uma proposta. Einstein gostou do formato do IAS e também já
concluíra que sua posição na Alemanha era insustentável. Em 4 de junho daquele ano, aceitou tornar-se o primeiro professor do
IAS.

Ainda havia que decidir a questão espinhosa do salário. Einstein pediu US$ 3 mil por ano, alvitrando que talvez pudesse viver
com menos. Flexner respondeu fixando o valor em USS$ 10 mil. Assim, em 17 de outubro de 1933, Einstein desembarcou em
Nova York com sua esposa, Elsa, para integrar o novo instituto.
O físico francês Paul Langevin, amigo de Einstein, disse que foi como se o Vaticano tivesse mudado para a América: “O papa da
física mudou-se e agora os EUA se tornarão o centro das ciências naturais”. Importante contribuição de Adolf Hitler à construção
do poderio científico, tecnológico e econômico americano...

Nos anos finais de sua carreira no IAS, Einstein trabalhou na compatibilização da teoria da relatividade com a mecânica quântica.
Nisso ele fracassou, e a obra continua inacabada. A cada vez que as duas divergem, sua tendência era achar que o problema estava
na mecânica quântica (“Deus não joga dados”), mas até os nossos dias as evidências vêm confirmando as previsões quânticas, por
mais inacreditáveis que pareçam.

Esses anos também viram a completa degradação da relação entre Einstein e Flexner até que, em 1939, uma revolta dos
professores liderada pelo físico forçou o diretor a se demitir.

Einstein deixou como legado uma profunda revolução no modo como entendemos o universo, quebrando paradigmas
profundamente enraizados. Mas suas ideias também conduziram a mudanças importantes no nosso dia a dia. Disso falaremos
brevemente.

Nenhuma lei científica leva o nome do descobridor, nem a de Murphy


Marcelo Viana – 13/03/2019

Algum tempo atrás escrevi que não é de Pitágoras o teorema que leva o seu nome. Isso causou desconforto, e leitores me
acusaram de “revisionismo histórico” e “destruição de reputação”. Exageros à parte, acho ótimo que a matemática desperte
paixões normalmente reservadas a arbitragens de futebol ou novelas.

No entanto, eu só contei uma “novidade” conhecida dos historiadores há mais de um século a partir de achados arqueológicos na
Babilônia e que não diminui em nada o papel dos pitagóricos no desenvolvimento do pensamento ocidental.

Além disso, são muitos os avanços científicos atribuídos erroneamente. Citarei alguns casos em que o erro é fortuito e não
resultado de má-fé ou viés.

Já dei aqui outro exemplo: o teorema de Stokes do cálculo vetorial —descoberto pelo físico Lord Kelvin, apresentado ao colega
George Stokes. Anos depois, Stokes incluiu a questão numa prova na Universidade de Cambridge e acabou levando a fama, dando
o nome ao teorema. Não há registro de que Kelvin, alçado à grande nobreza do reino, tenha se sentido prejudicado.

Outro exemplo, menos científico. Após um teste fracassado com equipamento de sua autoria, o engenheiro aeroespacial Edward
Murphy colocou a culpa no assistente. “Se tem um jeito de fazer dar errado, esse cara consegue.” A frase antipática foi convertida
no disparate “tudo que pode dar errado dará”, a famosa “lei de Murphy” que o próprio detestava. Mas não precisamos ter pena:
será que a frase original o teria feito tão famoso?

Existe até uma “teoria” sobre o assunto. Em 1997, o matemático russo Vladimir Arnold, grande gozador, proclamou: “Princípio
de Arnold: se um conceito tem o nome de alguém, essa pessoa não é a descobridora”. Claro que, segundo Arnold, esse princípio
fora descoberto por outra pessoa, no caso o físico Michael Berry. Portanto: “Princípio de Berry: o princípio de Arnold pode ser
aplicado a si mesmo”.

Mas a “teoria” é mais antiga. Em 1980, o estatístico Stephen Stigler já publicara a “Lei Stigler da eponímia: nenhuma descoberta
científica leva o nome do seu descobridor”. Previsivelmente, Stigler também atribuiu essa regra a outra pessoa, o sociólogo Robert
Merton, concluindo que o fato de ter o nome errado comprova que se trata de lei científica.

Stigler menciona vários exemplos, desde o cometa Halley, que os astrônomos chineses já estudavam em 240 a.C., até o nosso
teorema de Pitágoras, que os matemáticos babilônios gravaram na argila 1.800 anos antes do nascimento do filósofo grego.

Poderíamos acrescentar mais um: a regra de l’Hôpital do cálculo. Mas essa dá pano para manga, fica para outro dia.

Para que serve a ciência de Einstein?


Marcelo Viana – 20/03/2019

Foi o “ano miraculoso” de Albert Einstein. Em 1905, o físico de 26 anos publicou, além de sua tese de doutoramento (“Sobre uma
nova determinação das dimensões moleculares”), quatro trabalhos fora de série, em temas muito distintos.

Na época, Einstein trabalhava como analista de patentes: a pesquisa era uma espécie de “hobby”. Seu objetivo era compreender os
mistérios que nos cercam, sem qualquer preocupação quanto à utilidade de suas descobertas. No entanto, elas revolucionaram o
modo como vivemos hoje.
O primeiro trabalho, “Um ponto de vista heurístico sobre a produção e transformação da luz”, explicou por que corrente elétrica é
criada quando superfícies metálicas são iluminadas. Esse fenômeno, chamado efeito fotoelétrico, havia sido observado pelo
francês Alexandre-Edmond Becquerel em 1839, e confirmado pelo alemão Heinrich Heinz em 1887.

Einstein propôs que a luz seria formada por partículas, os fótons. A corrente elétrica seria o resultado de fótons colidindo com
elétrons e libertando-os de suas posições nos átomos do metal. Esta teoria foi confirmada experimentalmente e valeu a Einstein
seu (único) prêmio Nobel, da física, em 1921. As aplicações estão por toda a parte: células fotoelétricas, controles remotos de
aparelhos, sensores de presença, fotocopiadoras, câmeras digitais e muito mais.

Em 1827, o botânico escocês Robert Brown observara que partículas de pólen suspensas em água se agitam permanentemente,
como se estivessem vivas. A primeira explicação satisfatória foi dada por Einstein também em 1905, no trabalho “Sobre o
movimento de pequenas partículas suspensas num líquido estacionário”. O experimentalista francês Jean-Baptiste Perrin
confirmou essa explicação e ganhou o prêmio Nobel da física em 1926. As aplicações na vida real vão desde a modelagem
matemática do mercado financeiro (bolsa de valores) até o desenvolvimento de algoritmos avançados de decisão.

Ao final do ano mágico, Einstein publicou “A inércia de um corpo depende de seu conteúdo energético?”, onde introduziu sua
equação mais famosa: E=mc2. Como c (a velocidade da luz, 300 mil km por segundo) é muito grande, ela mostra que mesmo uma
pequena massa m corresponde a uma quantidade enorme de energia E. Esse fato está na origem tanto das bombas atômicas quanto
da energia nuclear para fins pacíficos.

Mas, entre todos estes trabalhos fantásticos, aquele que lhe trouxe mais fama foi “Sobre a eletrodinâmica dos corpos em
movimento”. Nele, Einstein apresentou sua (primeira) teoria da relatividade, cheia de ideias paradoxais como, por exemplo, que
objetos ficam mais curtos, e relógios ficam mais lentos, quando estão em movimento.

Essa teoria foi generalizada dez anos depois, para incluir o fenômeno da gravitação. Falaremos de suas importantíssimas
aplicações práticas na semana que vem.

Sem descobertas 'inúteis' de Einstein, GPS não existiria


Marcelo Viana – 27/03/2019

O sistema de posicionamento global (GPS, na sigla em inglês) foi criado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, com
fins militares, e depois aberto ao uso civil. Atualmente, outros países têm sistemas similares.

O advento dos dispositivos móveis colocou o GPS ao alcance de todos, tornando-o um dos avanços tecnológicos com impacto
mais evidente em nossas vidas.

O que é menos conhecido é que o sistema não poderia funcionar sem a descoberta mais famosa de Albert Einstein, a teoria da
relatividade, iniciada no “ano miraculoso” de 1905 e completada em 1915.

Para explicar isso, precisamos entender como funciona o GPS. Agradeço ao leitor Alison Moraes, tecnologista sênior do Instituto
de Aeronáutica e Espaço, por suas explicações detalhadas.

O equipamento fundamental do GPS é uma constelação de satélites em volta da Terra, os quais emitem sinais eletromagnéticos
que identificam o satélite e informam a hora exata da emissão.

Os sinais são recebidos em nossos dispositivos (celulares, por exemplo), que sabem a hora exata da recepção. Dessa forma, como
o sinal eletromagnético se desloca à velocidade da luz, podemos calcular as distâncias do dispositivo em relação a cada um dos
satélites.

A partir daí, como as posições dos satélites também são conhecidas, para obter a posição do dispositivo só é preciso resolver um
sistema de equações bastante simples.

Em teoria, bastaria ter as distâncias em relação a quatro satélites, mas na prática é preciso usar mais, para aumentar a
confiabilidade. E, para garantir que satélites em número suficiente estejam acessíveis a todo momento de qualquer ponto na
superfície terrestre, é necessário que a constelação seja relativamente grande: atualmente são 31 satélites.

O erro do sistema está entre 5 e 10 metros e, com as melhorias em curso, deverá cair para alguns centímetros.

Isso é uma façanha incrível pois, mesmo que a explicação acima possa parecer simples, na prática há muitas dificuldades. Entre
outras, os relógios nos satélites precisam estar perfeitamente sincronizados com os do solo —a margem de erro permitida é de
apenas 20 nanossegundos (0,000000020 segundos). E é aí que a teoria da relatividade se torna indispensável.
Como os satélites estão em movimento, a relatividade restrita diz que seus relógios se atrasam 7 microssegundos por dia. Mas
como eles estão mais afastados do centro gravitacional da Terra, a relatividade generalizada dá que eles se adiantam 45
microssegundos por dia.

Combinando os dois efeitos, vemos que os relógios nos satélites se adiantam 38 microssegundos (0,000038 segundos) por dia.

Pode parecer pouco, mas é quase 2.000 vezes a tolerância permitida!

Se esse efeito não fosse compensado (atrasando os relógios de propósito), o erro na posição aumentaria 10 km a cada dia,
tornando o GPS realmente inútil.

Que destino queremos para a matemática no Brasil?


Marcelo Viana – 03/04/2019

Em 15 de março, participei no “Dia da matemática para o desenvolvimento”, realizado por diversas instituições científicas
francesas na sede da Unesco, em Paris. O evento visou realçar o papel da matemática e da ciência em geral como motores de
desenvolvimento e de geração de riqueza e contou com a participação de cientistas e educadores de todos os continentes.

O Brasil teve papel de destaque, como um exemplo de sucesso cuja trajetória histórica encerra importantes ensinamentos para
outros países. Na minha palestra, intitulada “Matemática no Brasil: dos anos 1950 aos anos 2020”, fiz uma explanação das
circunstâncias e fatores que conduziram o país à posição que hoje ocupa no cenário internacional.

Nas últimas três décadas, a produção científica do Brasil em matemática passou de 0,79% a 2,34% do total mundial, e o número
de estudantes matriculados em programas de doutorado cresceu de 677 para 1.395. Isso também se refletiu num número crescente
de pesquisadores brasileiros proferindo palestras no Congresso Internacional de Matemáticos (ICM): em 2018 foram 13.

Esse progresso conduziu às grandes conquistas alcançadas recentemente: a medalha Fields do pesquisador Artur Avila, em 2014,
a realização do ICM 2018 e da Olimpíada Internacional de Matemática 2017 no Rio de Janeiro e a promoção do Brasil ao grupo
de elite da União Matemática Internacional.

A principal pergunta dos presentes era: “Qual foi o segredo?”. Não há dúvida de que o maior deles foi a opção de grandes
matemáticos (que um colega chamou de “gigantes”), como J.Palis, M. do Carmo, M. Peixoto, E. Lima, D. de Figueiredo,
L.Nachbin e outros, de abrir mão de ótimas oportunidades no exterior para regressarem e fazerem nossa matemática acontecer.

Os desafios de hoje não são menores: consolidar o progresso alcançado, garantir que a excelência da pesquisa se traduza em
melhora da educação, disseminar a cultura matemática na nossa sociedade, facilitar o acesso de todos ao conhecimento que vai
dominar o século 21. Enquanto os pioneiros voltaram para um país que tinha pouco mas prometia muito, a realidade agora é outra.

As sucessivas reduções do financiamento da ciência e a concomitante fragilidade das instituições de fomento vêm tornando a
carreira científica no Brasil cada vez menos atraente para nossos jovens. Na matemática, o efeito ainda é limitado, mas já é real:
alguns de nossos melhores cérebros estão jogando a toalha e partindo para construir suas vidas em outros países.

É indispensável e urgente recompor o financiamento da ciência sob pena de vermos ruir perante os nossos olhos o trabalho de
gerações. Na semana em que o orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia foi cortado em 42% (!!), e o da Educação teve a
maior redução bruta da Esplanada (R$ 5,83 bi), haja ânimo para manter o otimismo...

O que o xadrez nos diz sobre o futuro da humanidade?


Marcelo Viana – 10/04/2019

Na faculdade, passava horas na biblioteca. Entre outras joias encontrei o livrinho "Computadores, Xadrez e Planejamento de
Longo Termo", do engenheiro soviético Mikhail Botvinnik (1911-1995), publicado em 1970.

Botvinnik, campeão mundial de xadrez entre 1948 e 1963, era celebridade no meu meio. Que ele tivesse escrito sobre como
jogava e como seus processos de decisão poderiam ser reproduzidos numa máquina era uma descoberta incrível para um jovem
que aprendia rudimentos de programação. Decidi que iria implementar o seu método!

Sabia que outros deveriam ter tido a mesma ideia, começando pelos pioneiros da computação na União Soviética. E que, se eles
não tinham conseguido, talvez minhas chances não fossem boas. Fui em frente assim mesmo: fracassei, claro, e fui feliz tentando.

Botvinnik propunha "buscas seletivas": o programador escolhe uma fórmula para avaliar cada posição do tabuleiro e a máquina
vai testando movimentos das peças (na época conseguiam testar quatro movimentos à frente), abandonando a busca quando a
avaliação fica ruim.
Alguns anos depois as máquinas já eram mais poderosas. As buscas seletivas foram substituídas pela força computacional bruta.
As primitivas maquininhas de xadrez dos anos 1980 foram ficando mais competitivas. Mas "sabíamos" que o ser humano
manteria a primazia, afinal, nenhuma máquina pode jogar melhor que seu programador, certo?

Até que aconteceu. Em 1997 o computador Deep Blue da IBM, capaz de avaliar 200 milhões de posições por segundo, bateu o
campeão do mundo Garry Kasparov. Foi um choque, mas não provou que computadores tivessem ficado mais inteligentes que os
humanos.

A partir daí, a ênfase passou do hardware para a busca de algoritmos mais eficazes de decisão, resgatando a abordagem de
Botvinnik. No fim de 2017 houve um evento ainda mais significativo que o triunfo do Deep Blue: a derrota de Stockfish 8,
algoritmo campeão do mundo, para AlphaZero, outro algoritmo, do Google.

A novidade é que AlphaZero ensinou a si mesmo a jogar xadrez (e outros jogos, como Go), sem intervenção humana. Após nove
horas de jogando contra si mesmo, AlphaZero humilhou o campeão do mundo num torneio de cem partidas: 28 vitórias, 72
empates, nenhuma derrota.

Uma prova contundente de como a inteligência artificial está adquirindo o poder de substituir a humanidade em domínios que
acreditávamos serem só nossos.

Brasil conquista ouro inédito em olimpíada feminina de matemática


Marcelo Viana – 17/04/2019

Regressou sexta-feira (12) ao Brasil nossa delegação na Olimpíada Europeia Feminina de Matemática (EGMO, na sigla em
inglês), realizada em Kiev, Ucrânia, de 7 a 13 de abril. Ana Beatriz Studart, 17, do Ceará, Bruna Nakamura, 16, de São Paulo,
Maria Clara Werneck, 17, do Rio de Janeiro, e Mariana Groff, 17, do Rio Grande do Sul —lideradas por Deborah Alves (SP) e
Luize Vianna (RJ)— trouxeram uma premiação inédita: um ouro (Mariana, 14ª posição entre 196 competidoras) e dois bronzes
(Ana Beatriz e Maria Clara). O Brasil ficou em 20º entre 49 países.

A EGMO é realizada desde 2012 em diferentes países europeus, e o Brasil participa desde 2017, por iniciativa do Impa (Instituto
de Matemática Pura e Aplicada) e da Sociedade Brasileira de Matemática. Este ano também conta com apoio das escolas das
alunas. Até o momento, já somamos 9 medalhas e uma menção honrosa.

Competições abrangentes como a Obmep (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas) contam com presença
equilibrada de meninas e meninos, inclusive na segunda fase, em que participam apenas os 5% melhores de cada escola.

Mas esse não é o caso de certames com caráter mais competitivo, como a OBM (Olimpíada Brasileira de Matemática) ou a IMO
(Olimpíada Internacional de Matemática). Na IMO 2017, no Rio de Janeiro, as garotas foram apenas 10%. Isso levou o Impa a
criar uma premiação especial (Impa Olympic Girls Award) para aquelas que mais contribuíssem para suas equipes, a qual se
tornou permanente na IMO a partir daí.

Na própria Obmep, a presença feminina entre os premiados é minoritária e, pior ainda, diminui com a idade. Em 2018, as meninas
foram 30% dos medalhistas no ensino fundamental, mas apenas 20% no ensino médio.

Este fenômeno merece um estudo técnico, ainda não realizado, para entender suas causas. Mas parece claro que fatores
socioculturais —pouco incentivo das famílias e professores(as), barreiras culturais, carência de casos-modelo— se combinam para
perpetuar o disparate de que “matemática não é coisa de mulher”.

Olimpíadas femininas como a EGMO ajudam a combater esses efeitos, proporcionando a meninas talentosas incentivos adicionais
e a oportunidade de se tornarem modelos inspiradores para muitas outras. Nossa medalhista de ouro, Mariana, três vezes premiada
na EGMO (e muitas mais em outras olimpíadas do conhecimento), já pertence a essa ilustre galeria.

No mesmo espírito, o Impa está lançando a olimpíada brasileira feminina de matemática, intitulada Torneio Meninas na
Matemática (TM2), iniciativa de um grupo de medalhistas olímpicas liderado pela cearense Ana Karoline Borges, estudante do
Instituto Militar de Engenharia (RJ).

O TM2 será realizado pela primeira vez no segundo semestre de 2019 e passará a integrar o processo seletivo para a própria
EGMO.
Matemática rende uma reforma da Previdência por ano
Marcelo Viana – 24/04/2019

Já escrevi aqui sobre o valor material da matemática. Da otimização de redes de produção e distribuição ao desenvolvimento de
tecnologias de comunicação e informação, o conhecimento matemático é protagonista na economia mundial da era da internet.
Quanto vale isso em dinheiro?

No início da década, quatro países —Reino Unido, França, Holanda e Austrália— realizaram estudos técnicos para quantificar a
contribuição da matemática às suas economias. As conclusões foram análogas e impressionantes: de 10% a 11% dos empregos
estão em profissões com forte conteúdo matemático, e essas atividades geram de 13% a 16% do PIB (produto interno bruto)
desses países.

Traduzido para o Brasil, significa que a matemática pode somar R$ 1 trilhão (por ano!) à nossa economia. É o que o governo
federal pretende economizar, em dez anos, com a reforma da Previdência. Como realizar esse potencial?

Mais um país europeu, a Espanha, acaba de publicar um estudo desse tipo. Por ser um caso um pouco mais próximo do nosso, as
conclusões são especialmente interessantes para o Brasil. Os números são menores, mas ainda assim impressionantes. Atividades
com forte incorporação da matemática criam 6% dos empregos e geram 10,1% do PIB da Espanha, ou seja, 103 bilhões de euros
(R$ 455 bilhões) por ano.

Incluindo impactos indiretos, sobe para 19,4% dos empregos e 26,9% do PIB. As atividades mais impactadas são a informática, as
telecomunicações, as finanças e a indústria de energia.

A produtividade dessas profissões matematizadas é comparável à dos países mais avançados: 47,20 euros (R$ 208,40) por hora.
Segundo o estudo, "a diferença de impacto se explica pela estrutura produtiva espanhola, que está mais orientada para atividades
com menor presença de profissões que requerem certa intensidade matemática".

O estudo contém diversas recomendações para sair desse relativo atraso, todas relevantes para o Brasil: tornar a matemática
protagonista no sistema educacional, melhorar o diálogo entre o meio acadêmico e o empresariado, promover a pesquisa e as
aplicações da matemática.

Há anos, a comunidade científica brasileira insiste que gasto em ciência não é custo, é investimento. Não conheço outro com
retorno de R$ 1 trilhão por ano. Você conhece?

Maurício Peixoto se confunde com a história da matemática


Marcelo Viana – 01/05/2019

Em 2010, o Impa e a Sociedade Brasileira de Matemática assinaram contrato com a editora internacional Springer para publicar
livros de trabalhos selecionados de grandes matemáticos brasileiros. Sabendo que Maurício Peixoto completaria 90 anos no ano
seguinte, assumi a tarefa de tentar preparar o livro dele em tempo para o aniversário.

Sua reação foi evasiva, aparentemente sem entusiasmo. Quando insisti, surpresa ainda maior: claro que concordava, explicou, e
estava muito grato. Mas será que eu poderia esperar um ou dois anos, pois ele estava escrevendo um trabalho que iria culminar sua
obra? Prova viva de que a matemática faz bem à saúde, aos 89 anos Maurício continuava em forma e cientificamente tão
ambicioso quanto sempre fora.

Cearense que virou carioca, graduou-se em engenharia na Universidade do Brasil (atual UFRJ). Em entrevista dada em 2011 aos
colegas Elon Lima e Enrique Pujals, explicou que a intenção sempre foi estudar matemática —engenharia era, na época, o que
havia de mais próximo. "Não pus um tijolo em cima de outro", declarou, rindo.

Nos anos 1940 e 1950, seu seminário na escola de engenharia e no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas foi o primeiro ambiente
permanente para discussão de matemática avançada no país.

Seus trabalhos mais conhecidos tratam da "estabilidade estrutural". Dizemos que um fenômeno é estruturalmente estável se o
modo como ele evoluiu não varia muito quando alteramos um pouco as condições. A maioria das receitas de cozinha não desanda
se errarmos um pouquinho os ingredientes, elas são estáveis.

Em matemática, a noção tinha sido introduzida em 1937 pelos soviéticos A. Andronov e L. Pontrjagin, mas em 20 anos a teoria
não avançara. Maurício tomou conhecimento por um artigo que leu na biblioteca do Impa em 1955 e logo decidiu que trabalharia
no tema. Os resultados, que publicou entre 1959 e 1963 em revistas científicas prestigiadas, atraíram o interesse de Stephen
Smale, futuro medalhista Fields, que iria revolucionar esta área da matemática, dando impulso fundamental à criação da renomada
escola brasileira de sistemas dinâmicos.
Maurício viveu para testemunhar os frutos desse esforço: o Congresso Internacional de Matemáticos no Rio de Janeiro e, também
em 2018, a promoção do Brasil ao grupo de elite da União Matemática Internacional. Faleceu no domingo (28), deixando um
notável legado à ciência brasileira.

Filosofia e ciência estão juntas desde a antiguidade


Marcelo Viana – 08/05/2019

Quando fiz o ensino médio, em Portugal ao final dos anos 1970, o currículo incluía duas disciplinas obrigatórias para todos:
português e filosofia. Creio que ambas continuam obrigatórias por lá. Elas me abriram horizontes que talvez eu não tivesse
alcançado de outra forma.

Uma dos meus temas favoritos era a filosofia da ciência. Foi assim que tomei conhecimento de Poincaré e suas ideias sobre a
natureza do raciocínio matemático. A matemática é uma ciência notável porque ela é, ao mesmo tempo, dedutiva (rigorosa) e
indutiva (criadora de conhecimento): todos os fatos são consequências lógicas de algumas afirmações fundamentais, chamadas
axiomas, mas os teoremas, como o de Pitágoras, dizem coisas que vão muito além dos axiomas.

Como isso é possível, de onde surge esse conhecimento?

Foi na aula de filosofia, e não de matemática, que ouvi falar pela primeira vez nos objetos maravilhosos que depois seriam
chamados “fractais”. A palavra ainda não era conhecida: o livro “Geometria Fractal da Natureza” de Benoît Mandelbrot, que a
criou e a popularizou, só foi publicado (em inglês) uns anos depois. Mas os fractais já assombravam matemáticos e filósofos desde
o século 19.

Como não ficar fascinado com floco de neve de Koch, em que todo (!) ponto é uma “esquina” onde não existe reta tangente? Dez
anos depois eu me tornara pesquisador, e a matemática dos fractais já era um de meus maiores interesses de pesquisa e é até hoje.

Como adquirimos conhecimento e o que podemos conhecer: a realidade objetiva ou uma mera representação subjetiva? As
questões da epistemologia me ajudaram, anos depois, a entender melhor o significado da mecânica quântica.

As aulas me instigaram a ler mais sobre temas filosóficos, e assim conheci a excelente “História da Filosofia Ocidental” de
Bertrand Russel, um dos livros mencionados quando ele ganhou o prêmio Nobel da Literatura em 1950.

Por meio dele me interessei pelo pensamento cristão antigo e medieval. Os grandes pensadores da Igreja Católica e sua busca pela
divindade por meio da razão aliada à fé. O modo como o humanismo emergiu dessa busca, ao final da Idade Média. A nova
aliança entre a ciência e a filosofia que redesenhou o mundo no Renascimento. A gênese, mais tarde, da nação-estado e outras
ideias fundamentais que moldaram a história das relações internacionais, magistralmente contada por Henry Kissinger em
“Diplomacia”.

Para Russel, a filosofia é uma “terra sem dono” entre a ciência e a teologia: tal como esta, lida com questões inacessíveis ao
método científico, mas usa a razão no lugar do dogma. “A ciência diz-nos o que sabemos, e é pouco [...] A teologia induz a crer
dogmaticamente que temos conhecimento onde realmente só temos ignorância”, explica. “Ensinar a viver sem certeza e sem ser
paralisado pela hesitação é talvez a dádiva mais importante da filosofia do nosso tempo a quem a estuda”.

Essas palavras de 1945 são mais relevantes do que nunca nos nossos dias.

Os Bernoulli são a família real da matemática


Marcelo Viana – 15/05/2019

Progressos recentes na neurologia mostram que o cérebro humano é uma estrutura plástica, que pode ser moldada de forma
profunda. O órgão à nascença importa muito menos do que o modo como ele é reorganizado ao longo de nossa infância e
juventude, por meio da aprendizagem. Então, ninguém nasce “de exatas” ou “de humanas”, isso é determinado pela educação.

Certamente por isso, a vocação matemática é muito menos hereditária do que se imagina. O francês Jacques-Louis Lions (1928 -
2001) foi excelente matemático e seu filho, Pierre-Louis (nascido em 1956), é detentor da medalha Fields. Mas tais situações são
raras.

Curiosamente, conheço mais casos em que a vocação “passou” de sogro para genro. Existem até dinastias: Jacques Hadamard
(1865 - 1963) foi sogro de Paul Lévy (1886 - 1971), que foi sogro do medalhista Fields Laurent Schwarz (1915 - 2002), que por
sua vez foi sogro de Uriel Frisch (nascido em 1940). Não tenho nenhuma explicação razoável para esse fenômeno.

Mas a matemática tem pelo menos uma grande família. Originários da Bélgica, os Bernoulli emigraram para a cidade suíça da
Basileia, onde nasceu a primeira geração que nos interessa. De quatro irmãos (e seis irmãs), dois alcançaram renome na
matemática: Jacob (1654 - 1705) e Johann (1667 - 1748). Daniel (1700 - 1782), filho de Johann, foi outro matemático de primeiro
nível. Seu primo Nicolaus I (1687 - 1759), seus irmãos Nicolaus II (1695 - 1726) e Johann II (1710 - 1790), e os filhos deste,
Johann III (1744 - 1807) e Jacob II (1759 - 1789), também fizeram contribuições significativas à matemática.

Os trabalhos dos Bernoulli tratam de temas importantes e muito diversos. Jacob fez avanços pioneiros na teoria da probabilidade
—lei dos grandes números, processos de Bernoulli— além de ter descoberto a constante ‘e’ e os chamados números de Bernoulli.

Johann trabalhou em equações diferenciais (equação de Bernoulli) e no cálculo das variações.

Daniel formulou o princípio de Bernoulli da hidrodinâmica, além de ter estudado o paradoxo de São Petersburgo, um importante
problema em probabilidade e economia (teoria da decisão) formulado por Nicolaus I.

Os Bernoulli eram extremamente talentosos, mas não eram uma família sem problemas. Havia ciúme enorme entre Jacob e
Johann. Depois que esse ficou famoso, Jacob declarava que o irmão havia sido seu aluno, o que irritava Johann.

Os dois brigaram por causa da solução de um problema isoperimétrico (Qual é a maior área que podemos limitar com uma curva
de comprimento dado?), a ponto de pararem de se falar em 1697. Jacob desconfiava que Johann queria seu emprego na
Universidade da Basileia, que Johann realmente conseguiria depois da morte do irmão.

Johann também se envolveu em sérias controvérsias com o marquês de L’Hôpital, seu patrocinador, e com o próprio filho, Daniel.
Essas histórias ficam para a semana que vem.

A notável família matemática Bernoulli era problemática


Marcelo Viana – 22/05/2019

Remonta à lenda da princesa fenícia Dido, contada pelo romano Virgílio, no poema épico “Eneida”. Fugindo de sua cidade natal,
Tiro, Dido chega ao norte de África, onde precisa encontrar abrigo. Astuciosa, faz um pedido modesto ao rei local para que lhe
conceda a terra que ela conseguir conter numa pele de boi. O rei acede. Dido corta a pele em tiras muito finas, que usa para formar
uma corda. Com ela cerca uma grande área de terra, onde funda a cidade de Cartago, que se tornaria a maior rival de Roma.

Em matemática, é chamado problema isoperimétrico: qual é a maior área que podemos cercar com uma curva de comprimento
dado? Sua solução —a área é máxima quando a curva é uma circunferência— marca a criação de um novo campo de pesquisa, o
cálculo das variações.

Em 1697, Jacob Bernoulli (1654–1705) desafiou o irmão Johann (1667–1748) para um problema desse tipo. Johann resolveu
rapidamente (gabou-se de que só precisou de três minutos), mas a solução estava errada. Jacob não deixou passar a oportunidade
para ridicularizar o irmão publicamente. Isso acabou de vez com a relação entre eles.

Caso raro de concentração de talento, a família Bernoulli produziu oito matemáticos nos séculos 17 e 18, dos quais três foram
excelentes: além de Jacob e Johann, também o filho deste último, Daniel (1700–1782). Muitos matemáticos pensam que foi uma
única pessoa que obteve todos esses trabalhos com o nome Bernoulli (foi o meu caso por muito tempo...).

Mas, como família, tinha sérios problemas. Em 1738, Daniel publicou um livro sobre hidrodinâmica. Seu pai, Johann, publicou
outro livro sobre o mesmo tema, usando as ideias de Daniel, mas com data anterior, afirmando que o filho o tinha plagiado!

A partir de 1694, o nobre francês Guillaume François Antoine (1661–1704), Marquês de l’Hôpital, pagou a Johann um bom
honorário para que o informasse sobre suas descobertas na teoria do cálculo, as quais ele não poderia contar para mais ninguém.
Dois anos depois, o marquês publicou o livro “Análise dos infinitamente pequenos com aplicações às linhas curvas”, que se
tornou um enorme sucesso. Entre outros resultados, contém a famosa regra de l’Hôpital para cálculo de limites 0/0 ou ∞/∞. No
prefácio, o autor agradece a Leibniz e aos Bernoulli, especialmente a Johann.

Depois da morte do marquês, Johann veio a público afirmar que o livro era cópia exata das notas de aula que ele próprio tinha
dado a l’Hôpital. Depois do papelão com Daniel, os historiadores não acreditaram, claro. Até que, nos anos 1920, foi encontrada
na universidade da Basileia uma cópia das notas de Johann, que comprovou a sua afirmação.

A regra de l’Hôpital é mais uma descoberta científica que não leva o nome de seu descobridor...
Hoje comemoramos o acerto de Einstein, mas ele também errou
Marcelo Viana – 29/05/2019

“O mundo moderno começou em 29 de maio de 1919, quando fotografias do eclipse solar tiradas […] em Sobral, no Brasil,
confirmaram a verdade de uma nova teoria do universo.” Assim começa o livro “Tempos modernos”, do historiador Paul Johnson,
celebrando o experimento que confirmou a previsão da teoria da relatividade geral de Einstein sobre o encurvamento da luz sob a
ação da gravitação, exatamente cem anos atrás.

No Brasil, não faltaram aqueles que criticavam o esforço “inútil”, defendendo que os recursos deveriam ser utilizados em coisas
“com retorno para a população”. Felizmente, isso não impediu os astrônomos britânicos de irem em frente, com o apoio do nosso
Observatório Nacional, consolidando uma área da ciência com inúmeras aplicações nos nossos dias.

O sucesso do experimento transformou Einstein em uma celebridade do dia para a noite: nenhum cientista na história foi tão
conhecido do público. Seu colega Paul Langevin chamava-o de "o papa da ciência”. Mas Einstein também cometeu erros.

Um deles foi no próprio cálculo do encurvamento da luz: antes, ele havia previsto um valor que era menos da metade do correto.
Deu sorte que foi impossível observar o eclipse de 1912, que poderia ter invalidado essa previsão! Em 1915, publicou a versão
definitiva da teoria, com o valor correto (1,75 segundos de arco), confirmado em 1919.

O erro mais importante de Einstein foi sua oposição à mecânica quântica, cujas conclusões contraintuitivas nunca aceitou. Morreu
antes que experimentos comprovassem que entre a intuição humana e as bizarrices quânticas a natureza sempre opta por estas
últimas.

Logo depois de 1915, foi constatado que, pela equação de campo de Einstein, o universo deveria estar em expansão. Chocado com
essa previsão, em 1917 ele optou por modificar a equação, adicionando uma “constante cosmológica” que representaria a energia
do vácuo. Mas em 1931 o astrônomo norte-americano Edwin Hubble descobriu que o universo está realmente se expandindo!
Einstein renegou então a constante cosmológica, considerando-a seu maior erro.

Ironicamente, em 1998 foi descoberto que a expansão do universo está se acelerando. Esse fato é atribuído à presença de “energia
escura”, da qual não sabemos praticamente nada, mas que poderia corresponder à constante cosmológica. Então, o “maior erro”
pode acabar sendo uma profecia involuntária!

Há outro erro de Einstein com uma história rocambolesca, na descoberta das ondas gravitacionais. Esse fica para outra ocasião.

Neste momento, vale a pena lembrar que a pequena Sobral, no interior do Ceará, também é famosa por ter um dos melhores
sistemas educacionais do país, e ótimos resultados na Olimpíada de Matemática. Você acha que é coincidência?

Somos bons em muitas coisas, mas probabilidade não é uma delas


Marcelo Viana – 05/06/2019

O Homo sapiens é uma máquina notável. Aprimorados 200 mil anos atrás na savana africana, nossos hardware e software se
tornaram surpreendentemente flexíveis.

Andar de bicicleta ou escrever, por exemplo, são coisas que fazemos bem, embora não servissem de nada para a sobrevivência de
nossos ancestrais. Mas há um campo em que somos ruins: entender probabilidades. Mostro ao leitor.

Nasceram dois bebês no bairro e sabemos que um deles é menina. Qual é a probabilidade de que ambos sejam meninas? A
maioria responde que é ½ (50%), argumentando que o outro bebê pode ser menino ou menina, e que esses dois casos são
igualmente prováveis. A resposta está errada!

Inicialmente há 4 possibilidades: (menino, menino), (menina, menino), (menino, menina) e (menina, menina). Como sabemos que
um dos bebês é menina, o primeiro caso está excluído. Restam três, todos igualmente prováveis, dos quais apenas um corresponde
a duas meninas. Portanto a probabilidade correta é 1/3.

Um dos exemplos mais populares é o Paradoxo do Aniversário. Numa turma com 25 alunos, qual é a probabilidade de que dois
façam aniversário no mesmo dia? A maioria das pessoas acredita que seja pequena, afinal há 365 dias no ano e poucos alunos.
Mas a resposta certa é 56%.

Outro exemplo foi popularizado por programas de auditório. No palco há três portas: atrás de uma há um prêmio e nas outras, algo
ruim. O jogador escolhe uma, mas não abre. O apresentador abre outra porta —necessariamente uma ruim— e pergunta ao
jogador se mantém sua escolha inicial. A resposta não é nada intuitiva. Mesmo não sabendo qual das portas é a boa, o candidato
sempre deve trocar: pode provar-se que a probabilidade de ganhar o prêmio fica duas vezes maior.
Talvez porque a nossa intuição sobre o tema seja tão fraca, a teoria matemática da probabilidade só deu os primeiros passos no
século 16, primeiro na Itália e depois na França. Um dia contarei essa história.

Para terminar, um desafio. Dois alunos faltam a uma prova e, para se justificar, inventam que “furou um pneu do carro”.
Desconfiado, o professor pergunta separadamente para os dois: “qual pneu?”.

Supondo que os alunos não combinaram, qual é a probabilidade de que deem a mesma resposta? Respostas são bem vindas pelo e-
mail viana.folhasp@gmail.com.

Como ganhar dinheiro com jogos de azar?


Marcelo Viana – 12/06/2019

Comentei semana passada que o cérebro humano não é bem adaptado para entender probabilidades. Isso é surpreendente, pois tal
competência deveria ser útil para a sobrevivência de nossos ancestrais. No entanto, sem a ajuda da matemática temos dificuldade
para lidar até com situações simples de incerteza.

A teoria matemática da probabilidade só começou no século 16. Os primeiros avanços foram obtidos por um dos personagens
mais interessantes de seu tempo, o italiano Girolamo Cardano (1501 - 1576), e a motivação era prática: como ganhar dinheiro com
jogos de azar?

Cardano tem lugar de destaque na história da matemática também por outra razão: em 1545 publicou o livro Ars Magna (A
Grande Arte), em que introduziu os números negativos e divulgou pela primeira vez as soluções das equações de graus 3 e 4
(dando o crédito aos descobridores).

Astrólogo, médico, geômetra e astrônomo, Cardano se sustentava e pagava seus estudos com os lucros do jogo e chegou a juntar
uma boa fortuna. Por volta de 1520, começou a escrever o “Livro dos Jogos de Azar”, em que identificou pela primeira vez as leis
matemáticas do acaso. Sua descoberta mais importante foi o Método do Espaço Amostral: para calcular a probabilidade de que o
jogo seja favorável, conte todos os resultados possíveis e também todos os resultados favoráveis; a divisão do segundo número
pelo primeiro dá a probabilidade desejada, sob certas condições.

Vamos praticar? O seu amigo propõe que sejam lançados 2 dados, um após o outro. Se a soma dos números obtidos for 6 ou
menos ele paga R$ 1.000, caso contrário quem paga é você. Vale a pena jogar? Respostas são bem vindas pelo email
viana.folhasp@gmail.com.

Cardano nunca publicou esse livro para não divulgar seus segredos profissionais. O texto foi encontrado após a sua morte e só
seria editado em 1663.

Àquela altura, a ciência da incerteza já estava mais avançada. A humanidade estava começando a aprender que o acaso tem muito
mais a ver com matemática do que com preces ou superstições.

Esse aprendizado está longe de ser concluído. Ainda na Copa de 2014, minha filha de quatro anos afirmava que o gol da Croácia
no Brasil foi culpa nossa, porque servimos a salada num pote vermelho. Mas eu acho que ela não queria mesmo era comer
salada…

Duas figuras maiores da ciência do Renascimento, Johannes Kepler (1571-1630) e Galileo Galilei (1564-1642), também
escreveram sobre apostas e jogos de dados. Será que descobriram como ganhar dinheiro jogando? Não perca os próximos
episódios.

Quanto vale uma aposta?


Marcelo Viana – 19/06/2019

Dizem que “sorte no jogo, azar no amor”, mas o francês Antoine Gombaud (1607–1684), que se intitulava Chevalier de Meré para
parecer nobre, era bem-sucedido nas duas atividades. Também gostava de matemática e um dia, em 1654, deparou-se com o
seguinte problema.

Dois apostadores combinaram jogar uma série melhor de sete de partidas de cara ou coroa (ganha o primeiro com quatro vitórias),
mas pararam quando um deles tinha uma vitória e o outro, três. Qual é o modo mais justo de dividir o dinheiro? A divisão deveria
ser baseada na probabilidade de vitória de cada um, mas Gombaud não sabia fazer esse cálculo. Então, consultou Blaise Pascal
(1623-1662), matemático, físico e filósofo.
Pascal percebeu que os métodos para resolver a questão ainda teriam que ser descobertos. Inseguro sobre como avançar, apelou
para o advogado Pierre de Fermat (1601-1665), que nas horas vagas se dedicava à matemática. Juntos descobriram as leis
fundamentais do acaso, base da teoria moderna da probabilidade, indo além do trabalho de Cardano no século anterior.

Entre os conceitos mais importantes de Pascal e Fermat está o “valor esperado”, que é o valor E que, na média, o apostador irá
ganhar (E positivo) ou perder (E negativo) a cada aposta. Se o jogo é lançar um dado, e o apostador ganha R$ 6 se sair o número 6
(probabilidade 1/6), e perde R$ 1 se sair outro número (probabilidade 5/6), então E = (1/6) x 6 + (5/6) x (-1) = R$ 1. Este valor é
positivo, logo o jogo é vantajoso para o apostador.

Seria de se esperar que pessoas só fizessem apostas com E positivo, isto é, com mais chance de ganhar do que de perder. Mas
praticamente todos os jogos de apostas (loterias, corridas de cavalos, bingos, cassinos) têm valor esperado negativo!

É fácil entender o motivo: os custos de organizar o jogo e o lucro de quem organiza pesam sobre o apostador. O valor esperado da
aposta simples da Mega-Sena (que custa 3,50 reais) é –2,30 reais, pois cerca de 68% do dinheiro apostado vai para o governo.
Matematicamente, esse jogo é desvantajoso para o apostador!

Por que pessoas fazem apostas tão desvantajosas? Discutiremos isso na próxima semana.

Gombaud também queria saber o que é mais provável: tirar um seis em quatro lançamentos de dado, ou tirar um duplo seis em 24
lançamentos de dois dados?

Será que o leitor ou a leitora poderiam responder ao Chevalier de Meré pelo email viana.folhasp@gmail.com

O segredo para ganhar no jogo


Marcelo Viana – 26/06/2019

Em uma de suas canções, a banda irlandesa de rock U2 garante que “todo apostador sabe que é para perder que se aposta”. Essa
afirmação tem base matemática: na grande maioria dos jogos de azar, o jogador tem mais chance de perder do que de ganhar.

Por exemplo, na tradicional roleta francesa há 37 casas numeradas. Os jogadores podem apostar em qualquer uma, menos na de
número 0: quando a bola cai lá o dinheiro vai para o cassino.

Por isso, o valor esperado da roleta é negativo, cerca de -2,7%. Pode não parecer muito, mas são coisas assim que fazem de
cassinos um dos negócios mais rentáveis —basta observar lugares como Las Vegas ou Macau para constatar o poder
extraordinário do jogo de gerar lucro para quem o controla.

Há outra grande vantagem da casa sobre quem aposta. A cada vez que a roleta gira, o resultado é imprevisível. Mas, de acordo
com a Lei dos Grandes Números, descoberta pelo matemático suíço Jacob Bernoulli (1654–1705), após um grande número N de
vezes é garantido que a bola terá caído cerca de N/37 vezes em cada casa, inclusive a número 0. O lucro do cassino é previsível.

Outro irlandês, George Bernard Shaw (1856–1950), prêmio Nobel da literatura em 1925, expressou a ideia muito bem: “Quem faz
um milhão de apostas [o cassino], enquanto o indivíduo só pode fazer uma ou duas, não corre nenhum risco financeiro, pois o que
acontece em um milhão de apostas é garantido, ainda que ninguém possa prever o que acontecerá em cada uma delas”. Polêmico,
Shaw concluía que a existência do jogo é “o mais perverso crime contra a sociedade”.

Por que alguém aposta em condições desvantajosas? Em alguns casos é pela diversão, pela adrenalina. D. Isaura, minha mãe,
jogou na loteria de Natal durante anos, pela brincadeira, garantindo que sabia que não iria ganhar (claro que sempre teve uma
ponta de esperança, mas nunca ganhou).

Outras vezes é por desconhecimento, por não entender quão adversas são as probabilidades. Aliás, é bem sabido hoje em dia que
muitas decisões humanas não são racionais, não estão baseadas na matemática: avanços nessa área renderam a Richard Thaler o
prêmio Nobel da economia de 2017, por exemplo.

Tudo isto não quer dizer que não seja possível ganhar dinheiro com apostas. Comentei aqui que Cardano era jogador bem
sucedido. Anos atrás jornais divulgaram o caso do britânico Elliot Short, que teria ganhado 20 milhões de libras com apostas em
cavalos.

Só que, em qualquer dos casos, os ganhos não eram em cima de cassinos ou jockey clubes, e, sim, de outros apostadores que não
entendiam a matemática do jogo.

Resumindo, o segredo para ganhar no jogo é apostar contra trouxas que saibam menos matemática!
Apps de navegação começaram como brincadeira
Marcelo Viana – 03/07/2019

Quando o holandês Edsger Dijkstra preencheu os papéis para casar com sua noiva, Maria, indicou como profissão “programador
de computador”, mas autoridades recusaram. Elas tinham alguma razão: em 1957 havia pouquíssimos computadores —um único
em toda a Holanda— e a programação não existia. Dijkstra teve que se casar como matemático mesmo.

O primeiro computador holandês que funcionava, o ARRA II, havia sido construído no Mathematisch Centrum de Amsterdã em
1952, ano em que Dijkstra foi contratado. Mas em 1956 foi substituído pelo ARMAC, 50 vezes mais rápido, e pediram que
Dijkstra fizesse uma demonstração para o público leigo das maravilhas que a nova máquina podia fazer.

Era um enorme desafio: ele precisava encontrar um problema que todo mundo entendesse, difícil para humanos, mas que o
computador resolvesse rapidamente. Escolheu tratar da questão de encontrar o caminho mais curto, por estrada, entre duas
cidades. Mas para isso precisava saber como resolver e como programar a solução no ARMAC.

Após semanas tentando, a descoberta veio enquanto tomava um café com Maria. “O algoritmo para o percurso mínimo foi
concebido em 20 minutos, sem papel nem lápis”, contou depois. A apresentação foi um sucesso: Dijkstra pedia que alguém do
público escolhesse duas cidades, apertava um botão e (apenas!) um minuto depois o computador dava o itinerário mais curto entre
elas. Ninguém jamais vira isso.

O ARMAC virou sucata, mas o algoritmo de Dijkstra tem inúmeras aplicações nos nossos dias. Ele está na origem dos aplicativos
de navegação que usamos para dirigir e também regula o modo como os servidores da internet conversam entre si, otimizando as
ligações entre dois pontos quaisquer. O próprio Dijkstra aplicou ideias parecidas ao desenho de circuitos eletrônicos, minimizando
a quantidade de material e o tempo de comunicação entre as partes.

Pare para pensar, caro leitor: na época não havia internet, GPS, mapas por satélite ou smartphones. Se Dijkstra tivesse tentado
fazer alguma coisa com aplicação prática no seu tempo, talvez a esta altura ela já estivesse esquecida. Em vez disso, por meio de
uma brincadeira “inútil”, ele contribuiu de verdade para o mundo em que vivemos hoje.

Dijkstra tinha consciência de que a matemática não é valorizada como merece. Com humor, descrevia o plano de fundar uma
companhia chamada Matemática S.A. para comercializar teoremas matemáticos, da mesma forma como empresas de software
hoje comercializam aplicativos. A Matemática S.A. atuaria na produção, no conserto e na manutenção de teoremas, e seu carro-
chefe seria a demonstração da famosa Hipótese de Riemann. Difícil mesmo seria cobrar royalties dos matemáticos que usam a
Hipótese de Riemann na prova de seus teoremas...

Informática da Holanda começou com computador que não funcionava


Marcelo Viana – 10/07/2019

“Ministro, são três departamentos. O de matemática pura pensa de modo abstrato e acha que é um cubo com 13 dimensões. O de
estatística está jogando dados com esse cubo. E o de matemática aplicada escreveu um programa para o computador ARRA
simular esse processo.”

Com este discurso notável, Adriaan van Wijngaarden, diretor de computação do Matematisch Centrum de Amsterdã, apresentou
ao seu ministro da Educação o primeiro computador da Holanda.

Até 1948, cálculos complicados eram feitos por mulheres operando calculadoras de mesa. As “computadoras” eram consideradas
mais organizadas e mais confiáveis do que os homens. O advento da computação eletrônica ia privá-las dessa opção profissional.

O ministro apertou um botão e o ARRA começou a gerar dados, mas logo travou. Van Wijngaarden não perdeu o rebolado:
“Incrível! O cubo está balançando num dos cantos, sem saber para onde cair. Se V. Ex.ª apertar novamente o botão dará uma
ajuda.”

Assim feito, o ARRA retomou o cálculo. Mas foi só o ministro sair, travou de novo e nunca mais funcionou. Quatro anos depois
foi substituído.

Apesar do nome, o ARRA II era totalmente distinto, com muitas inovações de hardware e software. Seu principal programador era
Edsger Dijskstra, de quem já falei aqui e que faria o doutorado em 1959 sob a orientação de van Wijngaarden. Uma das tarefas do
novo computador era calcular a palpitação (vibrações estruturais) dos aviões Fokker —principal causa de quebra das asas das
primeiras aeronaves.
Anos depois, Dijkstra fez uma viagem à Austrália, a última parte num Fokker F27. Na chegada, seu anfitrião lamentou tê-lo feito
sofrer num avião que balançava tanto. Dijkstra respondeu: "Meu caro, eu senti-me totalmente seguro. Lembre que fui eu que
calculei as frequências de vibração das asas!”

Em 1956, entrou em funcionamento o ARMAC. Mais complexo e 50 vezes mais rápido do que o ARRA II, continuava
barulhento. Os técnicos tentavam tirar algum proveito, com bom humor: programavam o ARMAC para tocar o hino nacional
holandês sempre que havia visitas da família real.

Por essa altura, o Mathematisch Centrum decidiu privatizar o desenvolvimento de computadores, criando a empresa Electrologica.
Após lançar vários modelos de sucesso, em 1968 foi vendida à multinacional holandesa Philips, onde formou a base da divisão de
computadores. Um exemplo de sucesso de pesquisa e inovação fomentadas pelo poder público no ambiente acadêmico e
oportunamente incorporadas à indústria.

Esta coluna é dedicada a Arminda Magalhães, que me fez conhecer a Holanda.

Campeão de matemática desfila em carro de bombeiros


Marcelo Viana – 17/07/2019

Na semana passada, Felipe Plentz Klein, 15, viveu a aventura de sua vida. Viajou mais de 3.000 km, de Sapiranga (RS), a
Salvador (BA) para receber sua medalha de ouro da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep).

Ao lado de outros 574 meninos e meninas, participou da sempre emocionante cerimônia de premiação, presidida por Marcos
Pontes, ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), e prestigiada por representantes da comunidade
acadêmica e dos governos estadual e municipal.

Em Salvador, Felipe encontrou jovens de todo o Brasil que compartilham o encanto pela matemática e a olimpíada.

A tímida Mariana Heck, do Colégio Militar do Rio de Janeiro, assistiu compenetrada à palestra que precedeu à premiação. Na
matemática não tem timidez: ganhou ouro no 6º ano, em sua primeira Obmep.

Nayra de Oliveira, de Cocal dos Alves (PI), 5.500 habitantes, conquistou sua quarta medalha e espera ingressar na Fundação
Getúlio Vargas. Com a Obmep, os alunos de sua escola, Augustinho Brandão (8 ouros, 9 pratas, 4 bronzes e quatro menções
honrosas neste ano), aprenderam a sonhar alto. Descoberto lá pela Obmep, Sandoel Vieira hoje é aluno de doutorado do Impa
(Instituto de Matemática Pura e Aplicada). A jornalistas, Nayra falava com desenvoltura sobre como a olimpíada abre
oportunidades, especialmente fora dos grandes centros.

O cearense Orisvaldo Salviano, em sua última participação, é exemplo disso. O sucesso —30 medalhas na Obmep e em
olimpíadas do conhecimento— abriu as portas do renomado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde começa a
estudar mês que vem!

A Obmep é organizada desde 2005 pelo Impa, em parceria com a Sociedade Brasileira de Matemática, e apoio do MCTIC e do
Ministério da Educação.

Mais de 18 milhões de jovens de praticamente todos os municípios do Brasil realizam a primeira fase. Os 5% melhores de cada
escola se classificam para a segunda fase, que determina os prêmios. Desde 2017, a Obmep está aberta a todas as escolas do país,
públicas e privadas.

Para o gaúcho Felipe, talvez o melhor tenha ficado para o final. Ele desfilou em carro do Corpo de Bombeiros por Sapiranga! Não
é só para campeão de futebol. Felipe foi recebido com faixas e aplausos na Escola Municipal Pastor Rodolfo Saenger, também
premiada com mais duas pratas, um bronze e oito menções honrosas. Ocasião para a prefeita se congratular com os ótimos
resultados da rede municipal: dez medalhas e 50 menções honrosas, no total.

Estudos comprovam que a valorização da participação na Obmep por parte da família, escolas e autoridades resulta em melhora
acentuada dos resultados de todos os alunos, inclusive nas avaliações oficiais de desempenho escolar, como Saeb e Prova Brasil.

A iniciativa da prefeitura e da escola do Felipe é um belo exemplo de como tais estímulos geram um círculo virtuoso.
Bill Gates não caiu na pegadinha de Warren Buffett
Marcelo Viana – 24/07/2019

Bill Gates, o bilionário fundador da Microsoft, conta que seu amigo megainvestidor Warren Buffett o desafiou para um jogo de
dados diferente. Eram quatro dados, cada um com uma combinação distinta de números nas faces. Cada jogador escolheria um
dado, lançaria várias vezes, e o vencedor seria quem obtivesse pontuação superior em mais lançamentos.

Gentilmente, Buffett ofereceu que Gates escolhesse primeiro. Desconfiado, Gates analisou os dados e devolveu a gentileza,
insistindo que fosse o outro o primeiro. Ele percebera a pegadinha: os dados formavam um conjunto não-transitivo!

Se Alice é mais alta do que Bernardo, e este é mais alto do que Claudia, então claro que Alice é mais alta do que Claudia. Os
matemáticos dizem que “ser mais alto do que” é uma relação transitiva.

Mas há muitas situações que não são transitivas. Se o Botafogo vencer o Cruzeiro, e este derrotar o Santos, infelizmente isso não
garante que o Fogão ganha do Peixe. Um exemplo simples de jogo não-transitivo é o popular Pedra-Papel-Tesoura, em que cada
uma das opções ganha de uma e perde para a outra.

A partir dos anos 1970, matemáticos descobriram que é possível criar situações semelhantes – mas muito mais interessantes e
sutis – usando dados com faces numeradas de modo adequado.

Não sabemos como eram os dados de Buffett, mas podemos imaginar que fossem parecidos com estes, que foram descobertos
pelo estatístico norte-americano Brad Efron: o dado A tem o número 3 em todas as faces; o dado B tem duas faces 0 e quatro faces
4; o dado C tem três faces 1 e três faces 5; e o dado D tem quatro faces 2 e duas faces 6.

No confronto direto o dado A perde para o B. Se Gates escolhesse o dado A, Buffett poderia pegar o B e ficar em vantagem: teria
probabilidade 4/6 de obter número 4, e vencer. Mas, analogamente, B perde para C, que perde para D, que perde para A (convido
o leitor a verificar e me enviar pelo e-mail viana.folhasp@gmail.com). O segundo a escolher sempre pode ficar em vantagem!

Buffett é conhecido por seu interesse em dados não-transitivos, porque “mexem com nossas ideias sobre probabilidade”. Fez a
amiga Sharon Osberg cair num jogo desses e “achou hilário”.

Também há dados não-transitivos para três jogadores, ou seja, em que o terceiro tem a opção de ficar em vantagem sobre ambos
os adversários. Por exemplo, o leitor pode usar dados de Grime para pregar uma peça em dois amigos ao mesmo tempo: A tem
três faces 2 e três 7; B tem quatro faces 3 e duas faces 8; C tem cinco faces 4 e uma 9; D tem uma face 0 e cinco 5; e E tem duas
faces 1 e quatro 6.

Não esqueça que o segredo para ganhar no jogo é apostar contra trouxas que saibam menos matemática!

A propósito: até hoje ninguém encontrou dados não-transitivos para quatro jogadores. Alguém se habilita?

Colóquio e Encontro de Mulheres refletem a matemática atual


Marcelo Viana – 31/07/2019

O primeiro Colóquio Brasileiro de Matemática, de 1º a 20 de julho de 1957, em Poços de Caldas (MG), contou com 49
professores de 9 instituições, quase toda a comunidade matemática brasileira da época. Estava um pequeno número de mulheres,
como Marília Peixoto e Elza Gomide, que, ao lado de Maria Laura Leite Lopes, foram nossas primeiras doutoras na matéria. A
matemática engatinhava por aqui.

A 32ª edição do evento, realizado pelo Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) a cada dois anos, acontece esta semana,
com mais de mil inscritos. Este ano, tem uma importante dimensão extra: no fim de semana, aconteceu o primeiro EBMM
(Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas), com quase 500 participantes.

Desde 1957, o Colóquio tem papel determinante no desenvolvimento da matemática brasileira, facilitando o contato entre
pesquisadores nacionais e estrangeiros e o acesso, sobretudo dos mais jovens, aos avanços recentes na área. Sucessivas gerações
de nossos melhores matemáticos encontraram suas vocações no Colóquio.

Já na primeira edição, houve um curso ministrado pelo alemão Georges Reeb, um dos expoentes mundiais da topologia e da teoria
das folheações. O cuidado em atrair os melhores matemáticos do planeta para apresentarem seus trabalhos é uma constante.
Outro fator que contribuiu muito para o sucesso foi a decisão, desde o início, de que todo curso precisaria ter um texto escrito pelo
professor para ser distribuído aos alunos. Muitos de nossos livros de matemática de maior sucesso no Brasil e no exterior
começaram assim. A regra continua sagrada, mas hoje a distribuição é prioritariamente eletrônica.
A partir de 1987, o Colóquio trocou Poços de Caldas pela sede do Impa no Rio de Janeiro. Acentuou-se a tendência de
crescimento do evento, com participação de mais de um milhar de alunos de graduação ou pós-graduação, professores e
pesquisadores. A programação diversificou-se, para atender público tão heterogêneo. E a dimensão internacional ficou mais forte.

Desde 2009, a Sociedade Brasileira de Matemática também promove edições nas cinco regiões do Brasil: a mais recente ocorreu
em Rio Branco (AC), em março. Os Colóquios das Regiões resgatam o formato inicial do Colóquio, capilarizando sua ação por
todo o território nacional.

O Brasil do 32º Colóquio tem pouco que ver com o da primeira edição. Temos uma medalha Fields, de Artur Avila, e estamos
entre as 11 potências da pesquisa matemática mundial. O Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas é um excelente símbolo
dessa evolução. Seus participantes, mulheres e homens, celebram a contribuição feminina à matemática no Brasil e discutem os
fatores que, no meio acadêmico e fora dele, contribuem para afastar as mulheres da ciência e tecnologia.

O que querem as mulheres matemáticas, afinal?


Marcelo Viana – 07/08/2019

No fim de julho, por dois dias, aconteceu no IMPA o primeiro Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas (EBMM). Na
programação, palestras científicas, apresentações de jovens, tutoriais, mesas redondas e muitas discussões sobre o papel da mulher
e a questão da diversidade na ciência. Com quase 500 participantes, mulheres e homens, foi um enorme sucesso.

Mas claro que não foi unanimidade. Um colega escreveu-me queixando-se: “Nunca vi evento de matemática excluir mulher, este é
o primeiro em que vejo exclusão”. Respondi discordando das duas afirmações. Primeiro, o EBMM esteve aberto a todos: a
participação masculina num evento como esse é da maior importância. Segundo, embora (na maioria dos países) mulheres não
estejam proibidas de participar em atividades científicas, mecanismos de exclusão mais sutis, mas muito eficazes, infelizmente
continuam em ação.

Quando a família incentiva o filho, mas não a filha, a ter bom resultado na Olimpíada de Matemática, a menina está sendo
excluída. Também é exclusão quando o orientador recusa uma aluna porque ela pode engravidar durante o doutorado. Quando
uma mulher deixa de participar numa conferência porque não tem com quem deixar os filhos, está efetivamente sendo excluída.
Homens não têm problemas desses...

Assim, mulheres talentosas vão sendo afastadas do ambiente da ciência, para prejuízo de todos. Vemos esse efeito na Olimpíada
de Matemática, com o percentual de medalhistas meninas caindo com a idade – são 31% no Ensino Fundamental e apenas 19% no
Ensino Médio.

O colega protesta que “o homem não é o inimigo” e está certo. Mas, por isso mesmo, precisamos ser parte da solução. As
desvantagens que as mulheres enfrentam são tanto estruturais quanto culturais. A mudança começa nas mentalidades.

Um usuário das redes sociais protesta que “as mulheres querem privilégios”. Mas o que ouvi no EBMM foi o pleito, de mulheres
cuja trajetória profissional eu respeito, de que a sua contribuição seja reconhecida em pé de igualdade e que as especificidades –
maternidade, responsabilidades familiares– sejam levadas em conta, exatamente para que o “jogo” seja mais justo. As agências
europeias de pesquisa já fazem isso em suas avaliações de desempenho.

“Qual é o problema de haver menos mulheres do que homens nas ciências?”, questiona outro internauta. O problema é que isso é
fruto de fatores sociais, estruturais e culturais discriminatórios, que nos privam da contribuição de metade da humanidade. Tenho
duas crianças e quero que a minha filha tenha as mesmas oportunidades que o irmão para escolher sua trajetória profissional e ter
sucesso em sua escolha.

Afirmações de que “mulheres não dão para a matemática” ou “homens são provedores, mulheres são cuidadoras” têm tanta base
científica quanto “manga com leite faz mal”: nenhuma. Afirmações assim também são aplicadas a raças, para justificar
discriminação. Já deveríamos ter aprendido a lição.
Bela Adormecida está apreensiva
Marcelo Viana – 14/08/2019

Bela Adormecida, assídua leitora desta coluna, está apreensiva. Foi convidada a participar em um experimento científico a partir
de domingo.

O primeiro dia é fácil, ela só precisa dormir. Então os organizadores lançarão uma moeda: se der cara, ela será acordada na
segunda-feira para uma entrevista; se der coroa, será acordada e entrevistada tanto na segunda quanto na terça-feira. Ao acordar
ela não saberá que dia é nem qual foi o resultado da moeda.

A entrevista consistirá sempre da mesma pergunta: “Em sua opinião, qual é a probabilidade de ter dado cara?” Depois de
responder, ela tomará um comprimido para esquecer tudo e voltar a dormir. Na quarta-feira, acordará definitivamente e estará
terminado.

Bela estava tranquila: “a moeda é equilibrada, logo a probabilidade de dar cara tem que ser 1/2, entende?” explicou-me. Mas
descobriu que há quem alegue que é apenas 1/3, pois se der coroa ela será acordada duas vezes, e se der cara apenas uma. Essa
ideia foi formalizada em 2000 pelo filósofo Adam Elga, da Universidade de Princeton. O argumento dele é o seguinte.

A cada vez que Bela acordar haverá três casos possíveis: A2 = deu cara, e é segunda-feira; O2 = deu coroa, e é segunda; e O3 =
deu coroa, e é terça. As probabilidades de A2 e O2 são iguais, porque a moeda é equilibrada. As probabilidades de O2 e O3
também são iguais, pois quando dá coroa os procedimentos nos dois dias são idênticos. Então, os três casos são igualmente
prováveis, ou seja, todos têm probabilidade 1/3. Portanto, cara (que só ocorre no A2) também tem probabilidade 1/3.

Então, é 1/2 ou 1/3? “Já há centenas de trabalhos publicados sobre o assunto, e não chegam a um consenso!”, aflige-se a princesa.

A turma do 1/2 ataca o argumento de Elga com o seguinte raciocínio: como a moeda é equilibrada, na hora em que for dormir (no
domingo, antes do lançamento da moeda) Bela tem que acreditar que a probabilidade de dar cara é 1/2. Mas até acordar na
segunda-feira ela não terá nenhuma informação adicional. Então, por que mudaria de opinião?!

Os partidários do 1/3 replicam que Bela adquire nova informação sim: o simples fato de estar acordada, consciente, mesmo não
sabendo mais nada. Um ponto de vista muito peculiar...

Bela preocupa-se porque o acordo é que a cada vez que acordar depositarão R$ 6.000 na conta dela se tiver dado cara, e sacarão
R$ 4.500 se tiver dado coroa. Caso a probabilidade seja 1/2, o valor esperado (1/2) x 6.000 – (1/2) x 4.500 = 750 reais é positivo.
O dinheirinho viria a calhar, princesas têm tantas despesas hoje em dia... Mas se for 1/3, o valor esperado (1/3) x 6.000 – (2/3) x
4.500 = – 1000 reais é negativo, e nesse caso o trato é desvantajoso!

E você, cara leitora, estimado leitor: em sua opinião, Bela deve aceitar a proposta ou não? Respostas são bem-vindas pelo e-mail.

(Aprendi esta história com o meu amigo Jorge Buescu, da Universidade de Lisboa).

O Universo é feito de simetrias


Marcelo Viana – 21/08/2019

Nossa primeira experiência com simetria ocorre em frente ao espelho, na primeira infância. A fascinação de descobrir o mundo
“do outro lado”, estranhamente parecido com o nosso, é inesquecível. Mas simetria é muito mais: sabemos hoje que ela é um
aspecto fundamental do tecido do Universo.

“É apenas um pequeno exagero dizer que a física é o estudo da simetria”, afirmava Phillip Anderson, prêmio Nobel da física em
1977. A matemática Emmy Noether provou que “a cada simetria matemática de um sistema corresponde uma quantidade física
preservada pela evolução desse sistema”. Este teorema tem papel fundamental na física, especialmente na mecânica quântica,
onde explica propriedades das partículas subatômicas (carga, spin etc.) como resultado de certas simetrias matemáticas do
Universo.

A membrana do vírus da gripe é formada por apenas quatro tipos de proteínas, que se encaixam em um padrão geométrico
repetitivo: o código genético para construir tal estrutura é mais econômico do que seria necessário para um padrão menos
simétrico. Organismos vivos tiram proveito de simetrias de muitas outras formas para economizar no uso de recursos. E minerais
estruturam-se em formas cristalinas cheias de simetrias porque estas requerem menos energia.

Simetria também tem protagonismo na arte, claro. Leonardo da Vinci baseou sua “Última ceia” numa composição simétrica: a
posição de Cristo isolado no centro acentua dramaticamente sua solidão às vésperas da paixão. Perfeita simetria das feições é parte
do que faz de Nefertite, rainha do Egito antigo, “a mulher mais bela de todos os tempos”. Também é da simetria dos elementos
arquitetônicos que emana o encanto estético do Taj Mahal. Até Johann Sebastian Bach fez uso de padrões simétricos em algumas
de suas composições musicais.
Os dicionários contêm muitas definições de simetria, a maioria fazendo referência a “beleza”, “equilíbrio” e “harmonia”. Prefiro
esta, que diz mais sobre o conceito: “invariância (do objeto ou sistema) sob a ação de uma ou mais transformações”. No caso do
espelho, a transformação é a reflexão na superfície espelhada. Há versões mais complexas: por exemplo, caleidoscópios usam
combinações de espelhos, usualmente três, para criar imagens fascinantes.

Também há simetrias de outros tipos. A estrela do mar, com seus 5 “braços” apresenta simetria de rotação: se rodarmos o corpo
72º (= 360º dividido por 5) em torno do centro, a aparência fica inalterada (mas o bicho pode ficar um pouco desorientado...). Já o
calçadão de Copacabana apresenta simetria de translação: se deslocarmos o padrão da calçada na direção do mar, por uma
distância adequada, a sua aparência permanece a mesma.

Um notável resultado matemático, chamado Teorema Mágico, descreve todas as simetrias que existem em duas dimensões.
Escreverei sobre isso na próxima semana.

Os matemáticos acharam todas as simetrias


Marcelo Viana – 27/08/2019

O mundo à nossa volta é feito de simetrias. Estão presentes na estrutura do universo, das partículas subatômicas às galáxias, nos
materiais do planeta, nos próprios seres vivos e, claro, nas diversas manifestações da arte humana. Frequentemente, elas emergem
da busca pelo equilíbrio, pela economia dos recursos.

Tostão observou em seu artigo na Folha do último domingo (25), que a simetria tem papel importante até no futebol. Os jogadores
com funções similares (zagueiros, laterais, volantes, meias e atacantes) dispõem-se simetricamente em relação ao eixo
longitudinal do campo, porque esse arranjo contribui para estruturar a ação do time.

Como expliquei na semana passada, simetria significa que o objeto fica inalterado quando lhe aplicamos uma ou mais
transformações, tais como reflexões, rotações ou translações.

Uma notação para representar os diferentes tipos de simetria, tanto no plano (2D) quanto no espaço (3D), foi criada por William
Thurston, ganhador da medalha Fields no ano de 1982, e John Conway, outro excelente matemático e divulgador científico
carismático.

Essa notação utiliza os inteiros positivos 1, 2, 3, ... juntamente com quatro símbolos especiais (o “espelho” *, o infinito ∞, o
“milagre” X e o “espanto” O) para descrever as transformações que preservam a figura.

Por exemplo, a “calçada paulista” tem simetria 2222, pois fica inalterada por rotações de meia volta (180°) em torno de quatro
pontos especiais.

Os padrões de simetria que incluem o símbolo infinito são chamados “frisos”, porque têm forma de faixa. Os demais são
chamados “papéis de parede”.

Uma descoberta notável da matemática no século 20, chamada de Teorema Mágico, afirma que em 2D existem exatamente 24
padrões de simetria: 17 papéis de parede e 7 frisos.

Um fato surpreendente é que todas essas simetrias vêm sendo realizadas nas artes decorativas desde a antiguidade.

Por exemplo, os sete frisos foram identificados em cerâmicas escavadas na Suméria, datadas de cerca de 5.000 a.C.. Mas não
precisamos ir tão longe para nos encantarmos com a criatividade humana: basta olhar o chão quando caminhamos numa calçada
de “pedras portuguesas”.

A arte da calçada portuguesa utiliza um material difícil e é praticada por operários de origem humilde e formação limitada, o que
torna ainda mais notável a riqueza dos padrões que elaboram.

Isso é muito visível em Lisboa: em suas calçadas já foram identificados todos os sete frisos e 11 dos 17 papéis de parede —um
dos 6 que faltam foi encontrado na cidade de Guimarães.

Pense bem, caro leitor, querida leitora. Os artistas que produziram todas essas obras de arte não conheciam o Teorema Mágico,
apenas usaram sua criatividade e intuição.

E, nos nossos dias, a matemática veio delinear os limites absolutos e imutáveis dessa intuição.

Os artistas foram até onde era possível e não encontraram outros padrões simétricos porque, simplesmente, eles não existem.
Fascinante, não?

Bolsas do CNPq e Mais Médicos se encontram em Cocal dos Alves


Marcelo Viana – 04/09/2019

D. Isaura, minha mãe, é professora aposentada da educação primária em Portugal. Quando iniciou a carreira, a colocação de
professores em escolas públicas era baseada em um concurso anual. Cada candidato disputava com a nota de formatura, mais um
bônus por cada ano de serviço. Em desvantagem relativa, os mais jovens ficavam com as escolas menos disputadas, em lugares
pequenos e remotos. O povoado na província de Trás-os-Montes onde comecei a escola, informalmente aos 4 anos, está cercado
por montanhas que no inverno ficavam nevadas e infestadas de lobos famintos.

O sistema era bem aceito porque cada professor tinha sua nota melhorando com o tempo, até conquistar uma posição permanente.
E assim era atendida a obrigação do Estado de oferecer um serviço fundamental – educação – em todas as regiões do país. Essa
solução, satisfatória para Portugal, seria provavelmente inviável no Brasil, com sua dimensão continental e estrutura federativa.
Mas o problema aqui é o mesmo. E soluções satisfatórias ainda precisam ser encontradas, para a educação, a saúde e outros
serviços básicos.

O Programa Mais Médicos ilustra bem o problema. A questão costuma ser formulada em termos de uma dicotomia: “importar”
profissionais estrangeiros para que ocupem vagas deixadas pelos nacionais, ou incentivar (com que recursos?) brasileiros para que
se desloquem para regiões remotas? São perguntas difíceis, que não cabe tentar responder aqui. Até porque acredito que a
verdadeira solução é outra.

No domingo (1), o Fantástico, da TV Globo, foi a Cocal dos Alves (PI) analisar as consequências dos cortes de bolsas do CNPq
(Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), especialmente para os medalhistas da OBMEP (Olimpíada
Brasileira de Matemática). Cada medalhista ganha uma bolsa de R$ 100/mês, por um ano, enquanto está na educação básica, e
outra de R$ 400/mês durante a graduação, para aprofundar seus estudos de matemática.

Município de menos de 6 mil habitantes, com um dos 30 piores IDH do Brasil, Cocal é um improvável celeiro de premiados da
OBMEP, a quem a Olimpíada passou a oferecer oportunidades de vida e sucesso até então inexistentes. Na visita, os jornalistas
descobriram algo que nem nós do IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) sabíamos: todos os três médicos que atuam em
Cocal foram medalhistas da OBMEP e se desenvolveram e custearam seus estudos com essas bolsas modestas!

Formar talentos locais para atuarem profissionalmente em suas cidades, junto de suas famílias, é muito mais barato do que
qualquer programa de realocação de profissionais, nacionais ou estrangeiros. E cumpre uma das mais nobres funções sociais do
Estado.

Então por que precisamos suplicar que as bolsas do CNPq não sejam descontinuadas?

A diferença que faz um professor


Marcelo Viana – 11/09/2019

Visitei semana passada a Escola Municipal Alberto José Sampaio (EMAJS), na Pavuna, no Rio de Janeiro, para um momento
muito especial: a premiação da Olimpíada de Matemática da escola. Localizada na zona norte carioca e na divisa com a Baixada
Fluminense, a Pavuna ocupa a 99ª posição entre os 126 bairros da cidade no Índice de Desenvolvimento Humano. As estatísticas
de segurança refletem a realidade desafiadora que vivem seus moradores. A cada vez que chove um pouco mais, a escola fica
alagada: na primeira vez em que a visitei, dois anos atrás, o recreio ainda estava coberto de lama.

“Estamos em um bairro com IDH muito baixo, com alto nível de pobreza. Temos alunos com muitas dificuldades em todos os
sentidos, de aprendizagem, sociais. Isso interfere diretamente no desempenho do estudante e da escola” explica a diretora Cinthya
Tebaldi, ao mesmo tempo em que comemora o progresso alcançado, particularmente nas olimpíadas de matemática.

Apesar das dificuldades, é uma escola bem organizada e que exala dinamismo e otimismo. O segredo é o de sempre: um grupo de
professores apaixonados por seu trabalho, entre os quais se destaca Deivison Cunha.

Conheci Deivison quando ele era aluno do Mestrado Profissional (PROFMAT) no Impa, de 2012 a 2014. Aos 38 anos, é professor
em duas escolas municipais e um colégio particular. À noite, leciona em uma universidade, em duas cidades diferentes. No meio
da rotina exaustiva, ainda encontra fôlego para coordenar na região o programa OBMEP na Escola, cuja meta é melhorar a
qualidade do ensino da disciplina no país, bem como a participação do colégio no programa Meninas Olímpicas do Impa, que visa
estimular a presença de alunas em atividades ligadas à ciência. E ainda é pai atento de dois filhos em idade escolar.

Inconformado, Deivison vem buscando melhorar a participação da EMAJS na OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática das
Escolas Públicas). “Criamos uma olimpíada na escola para incentivar nossos estudantes e mostrar que eles podem, sim, conquistar
premiações na OBMEP”, explica. Organizar a competição é um desafio: o trabalho é voluntário, e as premiações são adquiridas
com recursos doados pelos próprios professores.

“Minha relação com a Matemática era um sufoco. Não compreendia a matéria. Até que percebi que o problema estava em mim.
Precisava dar mais atenção ao assunto. As aulas descontraídas do Deivison me ajudaram”, relata Nathan Matos, 15 anos, um dos
premiados deste ano.

Os resultados desse esforço estão surgindo: em 2017, a escola alcançou sua primeira medalha na OBMEP, e desde 2016 já
acumula quatro menções honrosas (antes tivera apenas duas, em 2007 e 2014). A cerimônia de premiação, em que tive a honra de
participar, é uma celebração emocionante da dedicação e do sucesso de todos, com a presença de professores e familiares.
Iniciativas simples como esta têm um enorme impacto positivo.

Tales de Mileto foi o primeiro matemático


Marcelo Viana – 18/09/2019

Anos atrás, um amigo me contou sobre uma conferência de física cuja cerimônia de abertura fora prestigiada por um representante
do poder público. Impressionado, talvez, pela presença dos cientistas, o dignitário confessou de cara que a única coisa de que se
lembrava das aulas de física era “aquele negócio de seno e cosseno”.

A teoria do seno e cosseno pertence à matemática, claro. Mais precisamente à trigonometria, que é o estudo das relações entre as
medidas dos ângulos e dos lados de triângulos. Esse estudo remonta aos primórdios da história, na Mesopotâmia e no Egito, mas
alcançou novo patamar a partir do filósofo e matemático grego Tales de Mileto, o primeiro indivíduo na história a quem se
atribuem descobertas matemáticas.

Há dois teoremas com o nome de Tales na geometria, ambos sobre triângulos. Historicamente, seu aspecto mais inovador é serem
afirmações gerais, que se aplicam a quaisquer triângulos e não apenas a casos particulares. Eles marcam a evolução da matemática
do particular para o geral, do concreto para o abstrato, que se iniciara antes mas alcançou a maturidade na Grécia.

Acredita-se que Tales tenha nascido na cidade de Mileto, em meados da década 620 a.C., e morrido aos 78 anos, durante a 58ª
Olimpíada, que ocorreu entre 548 e 545 a.C.. Segundo o historiador Heródoto, ele previu o eclipse de 28 de maio de 585 a.C..
Outros afirmaram que Tales teria usado seus teoremas para medir a altura das pirâmides do Egito, mas o fato de que os relatos
variam bastante (alguns atribuem a façanha a Pitágoras!) torna a credibilidade duvidosa.

O primeiro uso conhecido da palavra trigonometria está no livro “Trigonometria: tratado breve e claro da resolução de triângulos”
(em tradução livre do latim), publicado em 1595 pelo astrônomo e teólogo alemão Bartholomaeus Pitiscus (1561 – 1613). Pitiscus
também teria sido o primeiro a usar o ponto decimal (em português usamos a vírgula) para separar a parte inteira da parte decimal
de um número. Seu nome foi dado a uma cratera na Lua.

Mas o uso das ideias da trigonometria é muito anterior: o grego Hipparchus de Rhodes (190 a.C. – 120 a.C.), considerado o
fundador da área, publicou em 180 a. C. um livro sobre o tema contendo tabelas da primeira função trigonométrica, chamada
“corda” e relacionada com a função seno.

Embora esse livro tenha se perdido, acredita-se que tais tabelas foram usadas no cálculo do tempo a partir de observações
astronômicas. Aliás, tabelas de cordas também aparecem nos dois volumes do “Almagesto”, o tratado do astrônomo greco-romano
Claudius Ptolomeus (100 – 170) que formalizou o sistema geocêntrico, em que a Terra ocupa o centro do Universo.

As funções trigonométricas que conhecemos, como seno e cosseno, vieram mais tarde. Falaremos sobre elas, sua história e sua
utilidade na próxima semana.

Para que servem seno e cosseno?


Marcelo Viana – 25/09/2019

O estudo das relações entre os lados e os ângulos dos triângulos, que chamamos trigonometria, remonta à antiguidade e é uma das
áreas mais centrais e úteis da matemática.

Infelizmente, na sala de aula costuma ser reduzido a uma lista de definições e fórmulas opacas, sem menção às suas importantes
aplicações práticas.

Não surpreende que a maioria dos alunos não guarde boa lembrança. E os nomes estranhos das funções trigonométricas (seno,
cosseno, tangente etc.) não ajudam.
Em espanhol, “seno” também significa “seio”, e uma vez um colega de Madrid me garantiu que essa seria a origem do nome,
fazendo referência à forma arredondada do gráfico da função seno. Mas a história é um pouco mais complicada.

A noção de seno de um ângulo apareceu pela primeira vez por volta do ano 500, em trabalho do matemático e astrônomo hindu
Aryabhata, o Velho (476 – 550). Ele usou o nome “jya” (corda de arco) que, por uma tradução mal feita, virou “jaib” (dobra ou
baía) em árabe e, depois, “sinus” (dobra, baía ou... seio) em latim. Desta última, popularizada por Leonardo Fibonacci (1170 –
1250), o maior matemático da Europa medieval, resultou o nome atual.

Uma das aplicações mais impactantes da trigonometria foi na criação do Sistema Métrico Decimal, que hoje é utilizado na maioria
dos países. Até o século 18, eram usadas centenas de unidades de peso e medida, que variavam de região para região e ao longo
do tempo. Os franceses, por exemplo, mediam comprimento em “pés do rei”, com óbvios inconvenientes quando mudava o
monarca. Com a industrialização e o crescimento do comércio, ficou urgente padronizar as unidades.

Após tentativas fracassadas para se criar um padrão internacional por consenso, a França revolucionária saiu na frente. Em 1790, a
Academia Francesa de Ciências nomeou cinco notáveis cientistas — Borda, Condorcet, Lagrange, Laplace e Monge — para se
debruçar sobre o problema e apresentar propostas concretas. Em seu relatório eles propuseram, entre outras coisas, que a unidade
de comprimento passasse a ser o “metro”, definido como 1/40.000.000 do comprimento de um meridiano terrestre.

Um detalhe incômodo era que os meridianos não têm todos o mesmo comprimento... Mas isso não era problema para os
patrióticos gauleses: escolheram o meridiano que passa pelo centro do Observatório de Paris! Visitei-o anos atrás: um trilho
metálico atravessa o prédio do Observatório, assinalando a localização desse meridiano histórico.

Um problema mais sério era como medir um meridiano. Estender uma trena de 40 mil km em volta da Terra estava fora de
questão, evidentemente. Falaremos na próxima semana sobre a solução e o papel fundamental que a trigonometria desempenhou.

Sem trigonometria, não existiria cartografia nem GPS


Marcelo Viana – 02/10/2019

Ao final do século 18, a França adotou como medida oficial de comprimento o “metro”, definido como 1/40.000.000 do
comprimento do meridiano de Paris. O problema é que é impossível medir um meridiano diretamente. A solução foi escolher duas
cidades sobre o meridiano de Paris, Dunquerque e Barcelona, e medir a distância e a diferença de latitude entre elas: a partir daí, o
comprimento do meridiano pode ser obtido usando uma regra de três.

Mas a tarefa continuava complicada, pois a distância entre essas cidades é de mais de 1 mil km... Até os anos 1980, distâncias
entre pontos na superfície da Terra – possivelmente separados por montanhas, lagos etc– eram calculadas usando o método de
triangulação, baseado na trigonometria.

A ideia é a seguinte: começamos com dois pontos, A e B, tais que a distância entre eles é conhecida. Dado outro ponto, C, visível
a partir de ambos, procedemos da seguinte forma: no ponto A, medimos o ângulo entre as direções AB e AC, e no ponto B
medimos o ângulo entre as direções AB e BC. Isso é feito usando uma espécie de luneta, chamada teodolito. Com essas
informações, usando funções trigonométricas, é possível calcular as distâncias entre A e C e entre B e C. Depois, podemos
calcular as distâncias de A e C (ou B e C) a outro ponto D, e assim sucessivamente.

Este método permitiu que os astrônomos Jean-Baptiste Delambre (1749 – 1822) e Pierre Méchain (1744 – 1804) medissem com
precisão a distância de Dunquerque a Barcelona, entre 1792 e 1799. A partir desses resultados, foi dada a primeira definição
oficial do metro.

Mas o uso da trigonometria na cartografia começara antes. Na França, esteve muito ligada à família Cassini, uma das dinastias
mais notáveis da história da ciência. Nos anos 1670, o astrônomo real Giovanni Domenico Cassini (1625 – 1712) dera início a um
projeto de mapear toda a França. Juntamente com o filho, Jacques Cassini (1677 – 1756), concluiu em 1718 a primeira medição da
distância de Dunquerque a Barcelona, que seria usada para construir protótipos provisórios do metro, enquanto se aguardava
Delambre e Méchain terminarem seu trabalho.

O filho de Jacques, César-François Cassini (1714 – 1784), partiu do trabalho do pai e avô para obter a primeira triangulação
completa do território francês. Seu filho, Jean-Dominique Cassini (1748 - 1845) – bisneto de Giovanni Domenico, que dera
origem à dinastia no século anterior –, refinou e concluiu o trabalho do pai. O mapa Cassini, publicado pelos dois entre 1744 e
1793, estabeleceu o padrão da cartografia científica.

Com o advento dos satélites artificiais, a medição de distâncias e a elaboração de mapas passaram a ser feitas do espaço. Mas isso
só aumentou o papel da trigonometria. Por exemplo, os sistemas de posicionamento global (GPS) dependem das funções
trigonométricas para funcionar: é usada trigonometria esférica (ou espacial), para lidar com as 3 dimensões do espaço.
Futuramente, além da latitude e longitude eles darão também a altitude, com precisão suficiente para que aviões possam usar o
GPS em sua navegação.
Índia criou numeração moderna, mas não a fórmula de Bhaskara
Marcelo Viana – 09/10/2019

Acabo de passar duas semanas na Índia a trabalho, para participar em uma conferência que o IMPA (Instituto de Matemática Pura
e Aplicada) co-organizou em Bangalore. Aproveitei para visitar o renomado Instituto Tata de Pesquisa Fundamental, em
Bombaim, e para conhecer Goa, a velha capital do império português no Oriente.

A matemática indiana remonta a 1200 a.C. e suas realizações são notáveis. Os hindus descobriram o zero (independentemente dos
babilônios e dos maias) e também vem deles o símbolo 0, que usamos para representar esse número: seu primeiro uso conhecido
foi no manuscrito Bakhshali, escrito em fragmentos de casca de bétula por volta do século 3.

Esse importante avanço permitiu que criassem o sistema posicional decimal para representar números. O princípio central (“de
lugar para lugar, cada um é dez vezes o anterior”) já aparece no Aryabhatiya, escrito em sânscrito ao final do século 5 pelo
matemático e astrônomo Aryabhata (476 – 550). Transmitido ao Ocidente pelos árabes, e popularizado por Fibonacci, o sistema
decimal hindu libertou os europeus da esquisita numeração romana, tornando-se padrão em todo o planeta.

Enquanto isso acontecia, a matemática na Índia continuava avançando. No século 7, já estavam trabalhando com números
negativos, tendo identificado corretamente as respectivas regras de operação, como “negativo vezes negativo dá positivo”.

O que eles não fizeram foi descobrir a fórmula resolvente da equação de grau 2... O meu colega em Bombaim ficou surpreso
quando contei que no Brasil ela é chamada “fórmula de Bhaskara”: houve dois matemáticos importantes com esse nome, nos
séculos 7 e 12, mas ninguém na Índia associa qualquer deles com a fórmula (que já era conhecida dos babilônios por volta de
1.800 a.C.). Que se saiba, esse disparate é invenção brasileira.

Nos nossos dias, a Índia permanece um dos países mais desenvolvidos na pesquisa em matemática, ocupando um lugar no grupo 4
da União Matemática Internacional, o segundo mais importante. Isso se deve em parte ao prestígio do Instituto Tata, de Mumbai,
historicamente o primeiro centro de excelência em matemática no mundo em desenvolvimento.

Fundado em 1945 com o apoio da família Tata, de empresários, uma das mais importantes da Índia, o instituto é integralmente
financiado pelo governo federal indiano. Nos anos 1950, contou com o apoio de J. Nehru, primeiro-ministro fundador da Índia
independente, para conseguir sua sede própria, um belo campus no tradicional bairro Navy Nagar, entre instalações das forças
armadas indianas.

Em matemática, o Tata tem tradição especialmente forte na importante área da geometria algébrica. O instituto também tem
departamentos de física, química, biologia e computação (o primeiro computador da Índia foi construído no Tata, em 1957).
Continuarei na próxima semana.

Índia tem 3.000 anos de matemática


Marcelo Viana – 16/10/2019

Visitei a Índia por duas semanas para uma conferência de minha área de pesquisa (sistemas dinâmicos), que o Impa organizou em
Bangalore, em parceria com o Centro Internacional de Física Teórica de Trieste e o Centro Internacional de Ciências Teóricas de
Bangalore, filial do Instituto Tata de Bombaim.

A pesquisa matemática indiana tem um passado glorioso, que remonta a 1.200 a.C., e continua entre as mais desenvolvidas do
mundo. Na trigonometria, seus primeiros resultados apareceram nos Surya Siddhanta, manuscritos dos séculos 4 e 5 que
introduziram as definições e os nomes das funções seno e cosseno.

Um milênio depois, a matemática indiana continuava na vanguarda: entre os anos 1300 e 1600, a escola de Kerala, no sul da Índia,
fez descobertas que os europeus só alcançariam um par de séculos depois.

No livro Tantrasangraha, do matemático e astrônomo Nilakantha (1444 – 1544), foram exibidas expansões em séries de potências
que permitem calcular as funções trigonométricas e o número π (pi) com grande precisão. Infelizmente, esses avanços não se
tornaram conhecidos fora da Índia, e acabaram sendo ultrapassados pela descoberta do cálculo infinitesimal por I. Newton e G.
Leibnitz.

No século 19, a Índia produziu um dos matemáticos mais extraordinários da história: Srinivasa Ramanujan (1887 – 1920), cuja
vida foi contada no filme “O homem que Viu o Infinito”. Dotado de intuição fora do comum para descobrir fórmulas matemáticas
complexas, Ramanujan atribuía sua inspiração à deusa Namagiri. O fato de que algumas dessas ideias “divinas” estavam erradas
torna o caso ainda mais interessante.
No caminho de Bombaim, onde visitei o Instituto Tata, para Bangalore passei um fim de semana conhecendo Goa. A região foi
conquistada em 1510 pelo extraordinário Afonso de Albuquerque, artífice do império português no Oriente. Foi um golpe de
gênio estratégico: além da excelência do seu porto, Goa ficava na divisa entre dois reinos rivais, Bijapur (muçulmano) ao norte e
Vijayanagar (hindu) ao sul, permitindo ao astucioso governador português e a seus sucessores intervir com sucesso na diplomacia
regional.

Assim, Goa permaneceria como centro do poder português na Ásia por mais de 450 anos, até ser anexada em 1961 pela Índia
recém-independente. Quando eu era criança, o governo de Portugal ainda se recusava a reconhecer a “invasão ilegal”, pelo que
Goa continuava sendo ensinada na escola. Na época eu sabia “tudo” sobre seus rios, ferrovias, produção agrícola e industrial etc.

O legado dessa incrível aventura ainda é visível nos nossos dias, em diversos monumentos e igrejas (quase 10% dos moradores
são católicos), em nomes de lugares (Vasco da Gama, onde fica o aeroporto, é a maior cidade do estado), em sobrenomes exóticos
como “Souza” ou “Noronha” e nas cerca de 10 mil pessoas que falam nossa língua fluentemente, com encantador sotaque
europeu.

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