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HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL - HIS: TABELA DE REQUISITOS

SZÜCS, Carolina Palermo


Professor Titular ARQ/CTC/UFSC, Coordenador do
Grupo de Estudos da Habitação – GHab/ARQ – e-mail: carolps@arq.ufsc.br
Universidade Federal de Santa Catarina, Campus da Trindade,
CEP 88050 – 900 – Florianópolis/SC – Tel/FAX + 55 48 331 9550
RESUMO
O presente artigo pretende oferecer informações qualitativas e quantitativas que possam orientar os órgãos
responsáveis pela produção habitacional voltada para a população de baixa renda na elaboração de novos
projetos para o setor.
Apresenta os resultados da Pesquisa Recomendações para Novos Projetos de Habitação de Interesse Social a
partir da Análise das Interações entre Morador e Moradia, financiada pela FINEP através do Plano de Ação
Social.
Busca tecer recomendações projetuais que possam garantir habitabilidade e flexibilidade às unidades
habitacionais, através da revisão dos parâmetros de projeto aplicados, com destaque para a dimensão funcional e
simbólica do abrigo.
O artigo apresenta em linhas gerais a metodologia aplicada no trabalho de campo, o perfil identificado do
usuário-alvo, os principais problemas encontrados na moradia tanto no que diz respeito ao projeto original
quanto no que toca as modificações introduzidas pelos moradores ao longo dos anos e a forma como esses
problemas foram tratados no âmbito da pesquisa.
Apresenta finalmente os resultados alcançados, reunidos na Tabela de Requisitos, criada para faciltar a
compreensão por parte dos órgãos promotores da HIS no contexto específico, sobre a população-alvo, suas
necessidades e carências.

ABSTRACT
This article intend to offer quality and quantity informations about popular dwelling program for poor people,
helping the responsible institutions for new projects of these sectors.
Introduce the result of the research: Recomendações para Novos Projetos de Habitação de Interesse Social a
partir da Análise das Interações entre Morador e Moradia (Recommendations for New Projects of Social
Advantage Dwelling Based in the Interaction Between Resident and Residence), sponsored by FINEP through
Plano de Ação Social (Social Action Plan).
Search to connect project recommendations who can to guarantee good dwelling and adaptation to the unite
residences, making revision in the considerations of the real project, especially for the functional and symbolic
measurement of the shelter.
This article shows in general lines the methodology used in the field work, the profile of the resident, the main
problems found in the edifications, as much about the original project as about the modifications made by the
residents along years and the way as these problems were considered in the research activities.Finally, shows the
reached result about the needs of resident people, put it together in the list of requirements created to make easy
the understanding of the promoter institution HIS in the specific context.

INTRODUÇÃO
O artigo ora apresentado divulga os resultados de pesquisa financiada pela FINEP, desenvolvida no âmbito do
Ghab/ARQ/UFSC, no biênio 98/99. A mencionada pesquisa tratou do estabelecimento de requisitos de projeto
dirigidos para o setor da Habitação de Interesse Social – HIS e está voltada para a região de Florianópolis. O
trabalho foi organizado em etapas sendo que a primeira tratou do referencial teórico e da coleta de dados no
campo; a segunda propiciou a sistematização e análise dos dados levantados, com identificação de conflitos na
relação dos usuários com a moradia; a terceira etapa definiu a caracterização, dentre os conflitos detectados,
daqueles que seriam tratados no universo da arquitetura e a última etapa do trabalho envolveu a caracterização
dos indicadores de qualidade e o lançamento de recomendações de projeto para novo ações no setor.
Justificativa do projeto
O projeto da habitação destinada à população de baixa renda e provida pelo Estado, tem se caracterizado pela
excessiva padronização, onde as questões ligadas à cultura e às características regionais têm sido muito pouco
consideradas, resultando na maioria das vezes em espaços impessoais e estranhos ao usuário.
A qualidade das edificações têm se mostrado precária e inadequada às condições de conforto local, a ponto de
ainda no primeiro ano de moradia, muitos proprietários empreenderem reformas na edificação, corrigindo falhas
ou inadequação da obra. Como elemento agravante, os padrões de projeto ainda hoje utilizados não apresentam
flexibilidade1 e dificultam tentativas de adaptação da moradia sem envolver interferências maiores no edifício.
A inviabilidade econômica da construção de unidades personalizadas, ao lado da inadequação da produção de
unidades excessivamente padronizadas, desafia o projetista no sentido da busca de alternativas construtivas mais
flexíveis, que permitam ao usuário a introdução de elementos “personalizadores” (sic.) que entretanto não
interfiram na qualidade ambiental e construtiva da edificação.
No sentido do conhecimento mais aprofundado das características, necessidades e anseios dos usuários
potenciais, entendeu-se que é imprescindível identificar, reconhecer e analisar unidades habitacionais
padronizadas existentes, através da verificação da forma como o usuário a transformou ao longo do tempo, e que
resultado obteve a partir dessas transformações. A abordagem proposta é a de avaliar as interações entre os
usuários e suas moradias, de modo a obter subsídios que possibilitem diminuir o hiato existente entre o que os
moradores necessitam e desejam e o que o produto arquitetônico - casa - oferece.
Referencial teórico
A interrelação entre os diversos elementos que constituem o cotidiano do ser humano, compõem uma “teia” de
eventos relacionada com fenômenos, pessoas, lugares e atividades. Entende-se que a compreensão da qualidade
de vida numa abordagem holística, implica em desvendar os vários contextos vivenciados pelos sujeitos no seu
dia-a dia. É neste sentido que entende-se relevante associar a qualidade de vida às interrelações entre um sujeito
ou grupo familiar e sua moradia.
Embora prover habitabilidade - e flexibilidade – constitua a característica essencial da edificação, sabe-se que
nos conjuntos habitacionais de baixa renda, a qualidade de vida dos moradores é afetada, entre outros fatores,
pela inadequação ou inexistência de determinados elementos arquitetônicos que interferem diretamente no
sentido da Territorialidade (necessidade humana de demarcação do território); da Privacidade (necessidade de
estar só); da Identidade (necessidade de destacar-se do meio) e da Ambiência (necessidade de conforto
ambiental, de utilização e conservação dos equipamentos, de circulação e de segurança).
A necessidade de se flexibilizar o projeto da habitação popular procura atender uma demanda emergente que se
coloca em dois níveis de complexidade: de um lado, busca possibilitar a inserção de um espaço produtivo dentro
da casa; de outro lado, procura permitir o acesso à moradia a uma faixa maior da população que tem condições
de adiquirir apenas uma edificação muito pequena mas que poderá, ao longo do tempo, ampliar sua casa para
atender suas necessidades espaciais, em acordo com suas possibilidades financeiras.
No âmbito da pesquisa em questão, a metodologia avaliativa utilizou princípios da teoria dos conflitos (Malard,
1992 apud Ghab, 1999) e utilizou observações sistemáticas “in loco” e entrevistas com os moradores. Dados
referentes à condição original das habitações foram levantados e utilizados para análise, visando a compreensão
do processo evolutivo das unidades em questão.
O trabalho de campo
Foi escolhido o Conjunto Habitacional Bela Vista, localizado em Barreiros, Município de São José, por ser um
dos conjuntos mais antigos da Grande Florianópolis e apresentar modificações significativas ocorridas ao longo
do tempo. O conjunto se apresenta hoje como um mosaico de formas onde poucas são as casas originais,
utilizadas aqui como referência. Foi povoado por uma população de origem diversa e contrastes culturais. Foi
projetado e construído em etapas pela COHAB/SC, sendo que a obra foi iniciada em 1967.
O trabalho compreendeu o estudo de 17 unidades pré-selecionadas. Foram estabelecidos critérios de seleção no
sentido de se obter uma amostragem variada do conjunto. Foram selecionadas casas implantadas em terrenos
com diferentes situações topográficas; casas com uso exclusivamente residencial e outras com uso misto; casas
situadas em lotes de esquina e outras em lotes de meio de quadra e casas com diferentes níveis de intervenção no
projeto original. A distribuição entre as etapas de implantação do conjunto foi efetuada de modo proporcional ao
número de unidades de cada epata.

1
O termo “flexibilidade” será considerado para efeito deste artigo, como a capacidade do edifício de se adequar a um leque
siginificativo e variado de necessidades familiares.
A investigação nas unidades resultou na criação de alguns documentos que permitiram uma sistematização mais
adequada dos dados: as Fichas de Relato e Observações incluiram os depoimentos retirados das entrevistas e
outras informações memorizadas; os Registros Gráficos trouxeram o levantamento físico da unidade, com seu
respectivo “lay-out”; as Fichas de Caracterização registrou as observações geradas pela leitura espacial dos
ambientes, com ênfase nos problemas ambientais e funcionais existentes; finalmente, os Registros Fotográficos
permitiram a visualização de outros elementos reveladores de conflitos não percebidos durante as visitas.
Com os documentos em mãos, foi efetuada uma validação documental, tarefa que se mostrou imprescindível no
sentido de dar unidade às informações produzidas. Após a necessária validação, a equipe de pesquisadores
procedeu a identificação dos conflitos arquitetônicos, agrupando-os em dois níveis: os decorrentes da condição
original do projeto e aqueles decorrentes das intervenções realizadas pelos usuários. A etapa resultou na
Relação de Conflitos que visava facilitar a compreensão e o entendimento das questões tratadas. O material
produzido, além de constituir os Dossiês Individuais de Levantamento e Análise, agrupou todos os elementos
conflitantes identificados em cada unidade habitacional, subsidiando o tratamento dos problemas detectados.
A seguir são apresentados os conflitos identificados na etapa de campo, após revisão e validação.
Conflito arquitetônico
Definição: Elemento ou requisito arquitetônico ausente ou mal provido, interferindo na necessidade, desejo ou
condição humana não satisfeito.
A• Conflitos Decorrentes da Condição Original do Projeto:
Características Projetuais Condição não Satisfeita
Padronização excessiva. Implantação adequada em terrenos acidentados
Aproveitamento racional do lote
Drenagem eficiente do lote
Aproveitamento de espaços residuais abaixo da edificação
Personalização das unidades
Tratamento adequado das pontas de quadras
Tratamento adequado das fachadas frontais nas esquinas
Inexistência de muros Isolamento visual dos dormitórios de unidades vizinhas
de demarcação dos lotes Proteção contra enxurradas
Segurança do patrimônio
Marcação do território
Delimitação do espaço privativo familiar
Isolamento visual entre as unidades
Inexistência de espaço para Conforto nas atividades de apoio
as atividades de serviço Proteção dos equipamentos
Privacidade das atividades familiares
Insuficiência do reservatório Higiene e conforto
de água (250 lt).
B• Conflitos Decorrentes de Inserções do Usuário:
Características Projetuais Condição não Satisfeita
Reformas realizadas sem Condições ambientais e funcionais diversas
assessoria técnica competente
C• Relação geral dos conflitos identificados
1. Transição entre espaço público e privado X Necessidade de segurança e privacidade no espaço familiar.
2. Identificação da porta de entrada X Condição de acessibilidade à casa.
3. Localização do portão de pedestres X Necessidade de identificação do acesso à casa.
4. Utilização do acesso social X Necessidade de privacidade e de comunicação da imagem do morador.
5. Localização da área de serviço X Necessidade de ambiência para as atividades diárias.
6. Abrigo para veículo X Necessidade de conservação do patrimônio.
7.Tratamento do lote X Condição de drenagem do lote e necessidade de integração com a natureza.
8. Relação com a área pública X Condição de segurança dos transeuntes.
9. Relação com atividade produtiva X Condição de conforto na utilização e necessidade de identificação da
atividade comercial.
10. Interrelação dos usos X Necessidade de higiene, conforto na utilização e conservação dos equipamentos e
condição de privacidade.
11. Dimensionamento, localização e quantidade do equipamento e/ou mobiliário X Necessidade de conforto na
utilização e circulação.
12. Dimensionamento do ambiente X Necessidade de conforto na utilização e condição de privacidade.
13. Utilização do ambiente X Necessidade de privacidade, condição de aproveitamento racional dos espaços e
necessidade de comunicação da imagem do morador.
14. Articulação espacial X Condição de privacidade na zona íntima, necessidade de conforto na circulação e
acesso e necessidade de caracterização das zonas da habitação.
15. Espaço de refeições X Condição de vida familiar e necessidade de ambiência para as atividades diárias.
16. Reforma interrompida X Condições de conforto, durabilidade dos materiais e aproveitamento racional dos
espaços.
17. Armazenagem do bujão de gás X Condição de segurança.
18. Iluminação natural e ventilação X Necessidade de conforto térmico e lumínico, higiene e conservação dos
ambientes e equipamentos.
19. Instalação elétrica e/ou telefônica X Condição de segurança.
20. Estado de conservação do edifício e/ou ambiente X Condição de higiene e necessidade de comunicação da
imagem do morador.
21. Uso de materiais de revestimento X Necessidade de conforto na utilização e ou manutenção.
22. Dimensionamento e/ou proteção da circulação vertical X Condição de segurança e conforto na utilização.
23. Proteção e/ou manutenção dos ambientes e/ou equipamentos X Condição de higiene, conservação e
segurança e necessidade de comunicação da imagem do morador.
24. Pé-direito X Necessidade de conforto na utilização.
25. Relação do banheiro com a cozinha X Condição de conforto e higiene.

GRÁFICO DE INCIDÊNCIA DOS CONFLITOS

Resultados: Pela análise dos dados verificou-se que mais da metade dos problemas encontrados pelos usuários
em suas moradias eram decorrentes da qualidade intrínseca da edificação, reforçando a idéia de que não reside
no tamanho da edificação sua qualidade de uso e sim na forma como seus espaços se articulam e propiciam a
melhor apropriação. A utilização dos espaços, através do uso de equipamentos, por exemplo, foge da
possibilidade de ação do projetista e diz respeito à vida privada das famílias, não devendo fornecer senão
informações sobre o perfil sócio-cultural da população usuária e suas expectativas quanto ao produto casa no
contexto considerado.

ELEMENTOS GERADORES DE CONFLITOS


Com a análise dos conflitos, foi possível identificar os pontos críticos da casa e do lote, nós onde as atividades
referentes à vida diária fica prejudicada, pela inexistência ou mau provimento de elementos arquitetônicos. Esses
nós, denominamos Elementos Geradores de Conflitos, agrupados em três níveis: referente às relações extra-lote;
referente às relações casa-lote-rua e referente às relações intra-muros
Requisitos de qualidade
Definição : São aqueles capazes de causar interferência direta em um ou mais níveis considerados nos elementos
geradores de conflitos. Está na sua utilização, a garantia de melhores condições de habitabilidade e flexibilidade
para o projeto.
• Requisitos ambientais – São os atributos responsáveis pela resposta de projeto frente os condicionantes
climáticos na estruturação, articulação, conforto e salubridade da unidade ou do conjunto.
Avaliação geral:
A falta de flexibilidade do projeto comprometeu os requisitos ambientais mínimos de habitabilidade, gerando
ambientes confinados, sem iluminação e ventilação. Não houve preocupação com a disposição da casa no lote,
interferindo na orientação solar dos espaços e prejudicando a captação de ventos predominantes.
Recomendações: • propor parcelamento do solo adequado à topografia
• implantar a edificação no lote de forma diferenciada em função da inserção no meio natural
• implantar a edificação segundo a condição de insolação e ventilação
• dimensionar corretamente as aberturas
• Requisitos dimensionais - Referem-se às dimensões e áreas mínimas necessárias ao atendimento das condições
de segurança e habitabilidade da edificação. Envolvem os espaços necessários à instalação e uso dos
equipamentos bem como à circulação dos ambientes.
Avaliação: O projeto original não foi capaz de atender as necessidades básicas do usuário, principalmente na
questão dimensional, carecendo de maior eficiência na articulação de no dimensionamento dos espaços criados.
Recomendações: • não sobrepor área de uso do equipamento com área de passagem
• dimensionar os ambientes para instalação dos equipamentos básicos
• dimensionar os espaços coletivos de acordo com a escala humana
• dimensionar corredores e escadas de modo a permitir sempre o trânsito de duas pessoas ao
mesmo tempo, em sentidos opostos

RECOMENDAÇÕES DE PROJETO
Relações extra-lote
Problema: Número excessivo de unidades implantadas em baixa densidade, com grande dispêndio de solo
urbano; espaços públicos inadequados ao uso; grande distância entre o assentamento e a área urbana.
Recomendações: • propor conjuntos com número mais reduzido de unidades
• oferecer tipologias que propiciem maior economia de escala
• fixar o morador pela oferta de espaços de fácil apropriação
• criar elementos que proporcionem o sentimento de inserção no contexto
• estruturar e qualificar os espaços coletivos do conjunto
• utilizar pavimentação adequada ao uso específico dos espaços
• criar percursos com pontos focais com vegetação permanente e de fácil manutenção
• hierarquizar percursos de pedestres e veículos
• criar ambientes diferenciados e permeáveis
• atender diferentes faixas etárias no programa dos espaços coletivos
• dimensionar os espaços coletivos de forma compatível com a escala humana
Relações casa - lote - rua
Problema: Difícil identificação da entrada do lote e da casa; inversão funcional frente X fundos; parcelamento do
solo inadequado à topografia; má relação com o entorno (espaço público); má inserção de espaços produtivos.
Recomendações: • possibilitar a criação de espaço produtivo na frente do lote
• tratar de forma diferenciada as casas de esquina
• utilizar recuo mínimo frontal de cinco metros, permitindo guarda do veículo dentro do lote
• ocupar a frente do lote de no máximo 50% da testada
• propor construção em etapas, atendendo o aumento do número de dormitórios ou a inserção
de espaço produtivo na casa
• quando a edificação ocupar a frente do lote, propor uma diferença de nível, garantindo
privacidade ao espaço familiar
• quando houver, criar acessos independentes para o espaço produtivo e para a residência
Relações intra-muro
Problema: Ampliações desqualificadas; subdimensionamento e rigidez funcional dos ambientes; articulação
espacial ineficiente.
Recomendações: • articular entrada com o espaço de vivência
• garantir a aproximação das áreas molhadas
• garantir a aproximação entre banheiro e zona íntima
• evitar circulações cruzadas
• propiciar a integração entre sala e cozinha
• garantir a articulação dos ambientes já na primeira etapa de construção, mantendo esta
articulação nas etapas subsequentes
• flexibilizar as ampliações
Na sequência, cada ambiente da casa será tratado mais detalhadamente.

A SALA
Nos casos analisados, a sala se apresenta como um sério ambiente gerador de conflitos. A sua existência em
grande parte das unidades, não possui caráter prático. Em função de características sócio-culturais dos usuários,
este ambiente ganha caráter vitrinista ou o que batizamos de sala-museu2. Suas funções tradicionais são
geralmente transferidas para a cozinha, que passa a acumular as funções sociais e de serviço.
Entende-se que não se pode eliminar a sala do programa mínimo da habitação social no contexto considerado.
Pode-se entretanto propiciar uma mudança no conceito local de sala, aproximando-a do real espaço de convívio
familiar, no caso, a cozinha, estabelecendo uma articulação mais efetiva entre esses ambientes e incrementando
sua utilização.
A sala de estar e/ou jantar apresenta solicitações funcionais variadas, que implicam em equipamento
diferenciado.
Os problemas impostos pelos espaços de convívio são diferentes dos espaços de repouso, com utilização
predominantemente noturna, realizada por um número determinado de usuários. Naqueles espaços, deve-se
computar ainda os ocupantes transitórios, como visitantes e convidados. No caso, o dimensionamento é mais
complexo, devendo considerar o comportamento social da família, variando de caso a caso.
Consideram-se como peculiares a esses espaços as seguintes sub-atividades: fazer refeições coletivamente,
receber visitantes, conversar, ouvir música, assistir à televisão, atender ao telefone, descansar, ler, realizar tarefas
escolares, podendo ainda incorporar a realização de trabalhos manuais, passar roupa e costurar.

Dimensões mínimas
para o mobiliário da sala

A necessidade de se implantar em um espaço reduzido, equipamentos destinados a funções tão diferentes, exige
que tais equipamentos apresentem dimensões mínimas, com possibilidade de fácil remoção e versatilidade de
uso, como sofás-cama, mesas extensíveis e estantes modulares.

OS DORMITÓRIOS
Apesar dos dormitórios terem sido os ambientes menos modificados, com exemplos onde nenhuma modificação
foi efetuada, a estrutura proposta originalmente e suas reduzidas dimensões, induzem a um baixo nível de
conforto, muitas vezes ligado ao número excessivo de peças de mobiliário ou às dimensões inadequadas das
mesmas. Além desses problemas, que no caso não podem ser atribuídos diretamente ao projeto da edificação,
2
Ambiente de aparência, na maioria das vezes contendo mobiliário especial, que destoa dos demais ambientes da casa e onde
atividade alguma é exercida. Território interditado às crianças, cumpre uma função exclusivamente simbólica.
verificou-se: camas de casal dispostas coladas a uma das paredes - função do subdimensionamento do ambiente;
dificuldade de acesso a peças de mobiliário - função de circulações muito reduzidas; má disposição da janela,
induzindo a uma obstrução involuntária do acesso, geralmente pela colocação da cama ou gaveteiro; escolha
inadequada do tipo de esquadria da janela, geralmente obstruindo o vão de abertura, prejudicando a ventilação
higiênica do ambiente.
De modo geral, todos os dormitórios, aqueles definidos tanto no embrião quanto nas etapas subsequentes da
construção, devem compor uma zona íntima, preservada visualmente da cozinha, podendo ter ligação direta com
a sala. Em edificações que iniciam com apenas um quarto, este deve atender as necessidades mínimas de
conforto para um casal ou duas pessoas. Em edificações de dois dormitórios, um deles deve atender a este
requisito. O segundo quarto deverá ser dimensionado para receber uma cama ou beliche.
Em todos os casos, os dormitórios devem ser orientados para captar preferencialmente o sol da manhã e a
esquadria proposta deverá liberar todo o vão de abertura. As aberturas deverão ser dispostas no ambiente de
modo a não induzir obstrução ao seu acesso, seja a janela, seja a porta.
O dormitório não implica apenas na atividade de dormir. Inclui ainda sub-atividades que demandam privacidade
visual e/ou sonora. Comporta as seguintes sub-atividades: dormir, descansar, ler, convalescer de enfermidade,
tratar de enfermos, guardar roupa e objetos pessoais.

Dimensões mínimas
para o mobiliário do
dormitório do casal

No propósito de satisfazer às exigências mínimas de habitabilidade, o dormitório de casal deverá atender aos
seguintes quesitos:
- Comportar, no mínimo, uma cama de casal, uma mesa de cabeceira, um guarda-roupa de 3 ou 4 portas. O
guarda-roupa deve ser colocado o mais próximo possível da entrada do quarto, evitando-se a necessidade de
contornar a cama para atingí-lo.
- Ser dimensionado para comportar ainda a uma cômoda ou gaveteiro. Seguindo-se a mesma orientação relativa
ao guarda-roupa.
- Uma passagem com largura não inferior a 55 cm deve ser garantida para permitir a circulação no ambiente e
acesso aos equipamentos e aberturas. Tolera-se uma largura mínima de 40 cm em situação crítica. Deve
igualmente ser garantido o acesso livre a pelo menos 60% da janela, permitindo o controle da esquadria. As
áreas de circulação e de utilização do equipamento deverão ser superposta.
Com relação ao segundo dormitório ou dormitório dos filhos, consideram-se como próprias as atividades:
dormir, descansar, ler, convalescer de enfermidade, tratar de enfermos, alojar hóspede(s), receber amigos,
conversar, ouvir música, realizar trabalhos escolares, guardar roupas, objetos pessoais e escolares.
O sub-programa do quarto dos filhos apresenta solicitações não encontradas no dormitório de casal, referentes ao
convívio, lazer, recreação e estudos. Apenas a função “estudo” implica em equipamento específico. As demais
sub-atividades podem ser desenvolvidas com a utilização do mobiliário normal de dormitório.
Dimensões mínimas
para o mobiliário do
dormitório dos filhos

Equipamento mínimo: uma cama de solteiro ou beliche (em quartos com menos de 7,50 m2) ou duas camas de
solteiro ou beliche (nos quartos com mais de 7,50 m2), uma mesa de cabeceira, um roupeiro de duas ou três
portas e uma mesa de estudo com a respectiva cadeira.
É desejável que seja possibilitada a colocação suplementar de uma peça de mobiliário (cômoda ou estante para
livros). Os demais requisitos de funcionalidade são idênticos ao dormitório de casal.

A COZINHA
Como a cozinha ganha funções práticas que caberiam à sala, este ambiente passa a cumprir um papel múltiplo
dentro da casa, somando o caráter social ao de serviço. Destaca-se como o principal ambiente articulador, por ser
utilizado como espaço de convívio dioturno e troca social.
O projeto original não considerou estas características sócio-culturais da população-alvo, deixando de considerar
ainda as dimensões mínimas necessárias à utilização dos equipamentos. Por isso, recomenda-se que a cozinha
seja "zoneada", com adequada articulação das atividades desenvolvidas neste espaço, com zonas oferecidas já na
primeira etapa de construção e outras, à partir de ampliações previstas em projeto.
Recomenda-se assim, que a zona entregue na primeira etapa de construção, atenda prioritariamente as atividades
de armazenamento de alimentos e utensílios (armários e geladeira), e local de preparo de alimentos (fogão e pia).
Deve ainda ser entregue uma área mínima destinada à atividade de comer, com possibilidade de colocação de
mesa para 2 a 4 lugares.
As ampliações previstas em projeto devem prever alterações sem que haja necessidade de deslocamento das
instalações hidráulicas e, quando possível, também as elétricas, facilitando a ampliação e reduzindo os
sobrecustos.
Quanto ao acesso externo a este ambiente, recomenda-se que ele aconteça preferencialmente pelo comedor 3,
preservando a circulação e o espaço de preparo de alimentos.

Dimensões mínimas para o mobiliário da cozinha

3
Espaço destinado às refeições, ora localizado no ambiente de cozinha - a copa - ora localizado no ambiente de sala - a sala
de jantar.
Consideram-se como específicas ou compatíveis com a cozinha as seguintes sub-atividades: guardar gêneros
alimentícios e utensílios de cozinha, preparar alimentos, cozinhar as refeições, lavar utensílios, eliminar resíduos,
podendo ainda comportar: passar roupa e guardar material de limpeza. A cozinha deverá atender os seguintes
quesitos:
- Comportar, no mínimo, um balcão com pia, um refrigerador, um fogão e um armário (que pode ser suspenso).
O fogão deverá ficar próximo à janela e não confrontar com o refrigerador. A abertura da porta do refrigerador
e/ou forno não deve ocupar o espaço adjacente ao balcão de pia e/ou mesa de trabalho.
- Comportar uma mesa auxiliar para trabalho ou para a tomada de refeições, com capacidade para duas a quatro
pessoas.
- Preservar uma passagem livre com largura não inferior a 90 cm.

A LAVANDERIA E ÁREA DE SERVIÇO


Um dos problemas mais graves apresentados pelo projeto original foi a ausência de um espaço destinado para a
lavanderia, ou seja, a parte coberta da área de serviço, fazendo com que as atividades afetas a este ambiente,
passem a ocorrer fora da edificação, exposta portanto às intempéries, ou inseridas em ambientes da casa não
compatíveis com tal função.
Como forma de minimizar o efeito da inexistência deste ambiente, fica a recomendação de que a área de serviço,
tanto a parte coberta (lavandeira) como a descoberta (zona de varal externo), conste já do programa do projeto
original da unidade. O programa interno deste ambiente deve atender às necessidades mínimas de uso dos
equipamentos e à circulação.
Desta forma, a lavanderia deve atender às necessidades dimensionais e de instalação dos equipamentos
referentes à sua utilização, garantindo espaço mínimo para o tanque e um equipamento complementar (máquina
de lavar ou mesa para passar roupa). Deve ainda propiciar o espaço para um pequeno varal de teto e
armazenagem do material de limpeza, distanciando-os, por segurança, do local de armazenagem dos alimentos.
Estas atividades devem funcionar sem que ocorra interferência nociva na circulação do ambiente.
Deve estar inserida na casa de maneira a garantir uma melhor articulação com a cozinha e com a área externa de
varal. Esta área externa deve possibilitar a guarda do botijão de gás, como requisito mínimo de segurança e a
colocação de um equipamento de lazer ou hobby (pequena churrasqueira ou uma horta). Deverá finalmente
garantir os requisitos ambientais de ventilação e insolação dentro do lote tanto na etapa inicial da construção
quanto nas ampliações previstas.

Dimensões mínimas para o mobiliário da cozinha

As sub-atividades relativas à área de serviço são: eliminar resíduos, reunir roupa suja, lavar e passar roupa,
guardar material de manutenção, guardar ferramentas leves e efetuar pequenos reparos. Para atender aos fins a
que se destina, deve observar as seguintes características:
- Comportar, no mínimo, um tanque e uma máquina de lavar roupa, mesmo que a mesma não seja instalada de
imediato.
- Comportar equipamento adicional como secadora de roupa, balcão ou prancha dobrável de passar roupa.
- Ser aberta para o exterior em uma de suas paredes de maior dimensão.
O BANHEIRO
O banheiro deve estar preferencialmente incorporado à zona íntima, mas não deve se distanciar em demasiado da
área de convívio familiar. Sua implantação deve permitir acréscimos de área na casa, tanto neste ambiente
quanto em outros ou o acréscimo de ambientes novos, sem prejudicar a estrutura espacial e/ou a circulação. Por
isso, o banheiro deve surgir longe da zona "ampliável"4 da edificação, posicionado-se de forma transversal ao
sentido preferencial da ampliação ou do maior comprimento do lote, evitando desta forma, o confinamento
ambiental ou a demolição de partes prontas, podendo gerar desperdícios significativos.
Em unidades onde a previsão de ampliação estabelece um número máximo de três ou mais dormitórios,
recomenda-se que o banheiro tenha uma estrutura compartimentada mínima (colocação do lavatório fora do
espaço sanitário/box, por exemplo) , permitindo sua utilização por mais de uma pessoa. Esta providência
aumenta a eficiência de uso e reduz a necessidade de construção de um segundo banheiro, mesmo em unidades
maiores.
Se o banheiro estiver próximo à cozinha, a porta de acesso deve estar em uma relação indireta com este
ambiente, garantindo privacidade e preservando a higiene. Além disto, o projeto, em sua primeira etapa de
construção, deve possuir uma estrutura de funcionamento interno onde a rede hidráulica esteja localizada em
uma mesma parede, reduzindo custos de infra-estrutura e orientando futuras ampliações. Sendo o ambiente mais
especializado da casa, os requisitos mínimos dimensionais de seu projeto, devem ser respeitados, sob risco de
inviabilizar seu uso.

Dimensões mínimas para o mobiliário do banheiro

O banheiro dá suporte às seguintes sub-atividades: tomar banho, lavar o rosto, barbear-se, pentear o cabelo,
escovar os dentes, trocar roupa, atender as necessidades fisiológicas. Para tal deverá atender os seguintes
quesitos:
- Deverá, quando possível, apresentar um projeto compartimentado, permitindo a utilização por mais de um
usuário.
- Deverá comportar a instalação de, no mínimo, um lavatório, um vaso sanitário e um chuveiro, atendendo as
dimensões próprias e áreas de utilização.
- O box com chuveiro deve ficar próximo da janela, facilitando a exaustão dos vapores quentes peculiares no
inverno. Deve entretanto permitir o acesso livre ao comando da esquadria, permitindo seu fechamento durante o
banho, prevenindo o choque térmico, principalmente em regiões frias. O lavatório e o armário com espelho
devem ficar próximos a uma fonte de luz natural, considerando-se 1,00 m como satisfatório e mais de 2,00 m
como insatisfatório.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Grupo de Estudos da Habitação – Ghab/CTC/UFSC (1999). “Recomendações e Alternativas para Novos
Projetos de Habitação Popular a Partir da Avaliação das Interações entre Usuários e Moradia”- Relatório
Final de Pesquisa, Florianópolis.

4
Trata-se essencialmente da área da edificação, em sua 1ª etapa de construção, não sujeita a ampliações.

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