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L i x o:

Uma Radiografia da Nossa Sociedade

Andres Salomon Cohen Sebilia


Biólogo – CRB 15.565/02D

1999

1
Eu devo confessar a vocês que o progresso a princípio foi lento. Agora,
quando me recordo daqueles dias de batalha, eu me lembro de que isso
também foi doloroso no início. Mas, à medida que os dias passavam, eu vi
que tinha de jogar fora muitas outras coisas que eu considerava como
minhas, e chegou o tempo em que desistir daquelas coisas se tornou uma
questão de Contentamento.
(Mahatma Gandhi)

Sumário
Agradecimentos 4
Apresentação 5
I- Apresentação do Problema 8 - 61
1
1. Introdução 9
2. O Consumo de Matérias-Primas, Energia e Manufaturados 12
3. A Produção de Matérias-Primas e Manufaturados 18
4. As Mudanças na Economia e na Sociedade ou Maquiagem Verde? 22
5- A Análise do Ciclo de Vida 30
6. O Crescimento Populacional 33
7. Economia, Desenvolvimento e Meio Ambiente 41
8. O Desperdício em nossa Sociedade 50
9. Militarismo, Desarmamento e Meio Ambiente 54
II- Os Principais Tipos de Resíduos 62 – 88
1. Domiciliares ou Urbanos 63
2- Doméstico Perigoso 67
3. Hospitalares 70
4. Industriais 73
5. Radioativos 82
III- Métodos de Tratamento e Disposição Final 89 - 110
1. Aterros Sanitários e Lixões 90
2. Incineradores 94
3. Usinas de Compostagem 99
4. Coleta Seletiva e Reciclagem 104
IV- A Reciclagem das Matérias-Primas 111 – 153
1. Papel 112
2. Plásticos 119
3. Vidros 125
4. Metais 129
5. Outros Materiais 135
5.1. Pilhas 135
5.2. Borracha /Pneus 139
5.3. Automóveis 144
5.4. Computadores e Máquinas Eletro-eletrônicas 147
5.5. Coco 150
5.6- Embalagens Longa Vida 152
V- Discussão 154 – 166
1. Uma Visão do Desenvolvimento da Sociedade 155
2. As Questões Econômicas 156
3. A Administração do Lixo e seus Problemas 160
4. A Coleta, o Tratamento, e a Disposição Final do Lixo 162
5. As Mudanças Necessárias que se Avizinham 166
6. O Dia do Julgamento Final 166
VI- Fontes Bibliográficas
VII- Anexos
1- Oportunidades de Negócios

Agradecimentos:

A nossa única aquisição na vida, e que trazemos conosco para todo sempre, é o amor
pelo que está vivo, neste mundo e na infinidade dos mundos. Para honrar, exprimir este
amor poderoso, complexo, não nos limitamos ao método científico, como o exigia a
prudência. Mas o que é o amor prudente? Os nossos métodos foram os dos cientistas, mas
também dos teólogos, dos poetas, dos feiticeiros, dos magos e das crianças. No fim de
1
contas, conduzimo-nos como bárbaros, preferindo a invasão do que a evasão (Le Matin
des Magiciens. Pauwels, L. & Bergier, J.- 1980. Librairie Gallimard, Paris).

Este é também o espírito desta obra. Nela realizamos uma pesquisa do que foi
publicado nos últimos anos sobre o assunto. Desde já gostaríamos de nos desculpar com
algum autor, caso o tenhamos deixado de consultar ou não o citamos no escopo da nossa
própria obra. Ela é dedicada à todas as pessoas que, com seu amor, lutam para que
tenhamos um mundo melhor do qual possamos nos orgulhar.

Diversas pessoas participaram, direta ou indiretamente, para tornar possível a


realização desta obra. Faço um agradecimento todo especial `a meus pais, Samuel Cohen
Benvinista e Miriam Cohen pelo carinho que sempre me dispensaram. Aos Srs. Cláudio
de Mello Vieira e Luciano Basto Oliveira pela inestimável pesquisa de parte do material
que compõe esta obra. Ao Compromisso Empresarial para a Reciclagem - CEMPRE - e
a Fundação Brasileira para Conservação da Natureza - FBCN - pela cessão de
importante e imprescindível bibliografia, além da oportunidade de desenvolver projetos na
área de coleta seletiva. As Sras Patrícia Amazonas e Márcia de Sousa Drolshagen os
nossos mais sinceros agradecimentos pelas discussões e orientações durante nossa
agradável convivência. Não podemos deixar, também, de agradecer ao Sr Alberto Weisz e
à todo o staff da W 12 Comércio de Papéis Ltda pela oportunidade de conhecer o
problema do lixo e da reciclagem. À Maria Claudia de Amorim, os nossos mais profundos
e sinceros agradecimentos pelo carinho, inestimável apoio, revisão de parte do manuscrito
e paciência, sem as quais não teria sido possível realizarmos esta obra. Por fim, deixamos
expressos os nossos agradecimentos à todos aqueles que, de uma forma ou de outra,
contribuiram para esta obra: autores, jornalistas, editores, amigos(as) etc ... .

Os espíritos se assemelham aos para-quedas: só funcionam quando abertos e,


esperamos sinceramente termos alcançado este objetivo. Uma obra aberta, inacabada à
espera de críticas e sugestões de modo a torna-la sempre atual.

Apresentação
Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto
algum – para si ou para os outros - abandona-lo quando assim
ordena o seu coração. Olhe cada caminho com cuidado e atenção.
Tente-o tantas vezes quantas julgar necessário. Então, faça a si
mesmo uma pergunta: possui este caminho um coração? Em caso
afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não tem
importância alguma.
(Carlos Castañeda)
A avareza da Humanidade é insaciável.
(Aristóteles)

2
Os sistemas biológicos terrestres sempre foram a base dos sistemas econômico e
social da humanidade, fornecendo alimentos, as matérias-primas, os minerais e
produtos sintéticos derivados do petróleo. Desempenharam, também, um importante e
imprescindível papel no comércio, através do transporte, na alimentação e, atualmente
desempenham um componente significativo na geração de energia em vários países do
mundo, notadamente no Brasil.
Os aumentos constantes e crescentes da população mundial faz com que as
pressões sobre estes ecossistemas aumentem ainda mais. Muitos bilhões de seres
humanos, ávidos pelo consumismo, levam o ambiente até os limites da sua capacidade
de suporte e recuperação. A produtividade de várias áreas de pesca, oceânicas e
interiores, está diminuindo a medida que o homem ultrapassa o limite de suporte das
espécies. As florestas do mundo inteiro estão desaparecendo a um ritmo nunca antes
imaginado devido as necessidades cada vez maiores de novas áreas para a agricultura;
para produção de lenha (quase 1/3 da humanidade utiliza a lenha para produção de
energia); exploração da madeira para construção civil e de móveis, além de serem a
fonte para a produção de papel para jornal e outros usos na sociedade. Assim, os
setores da educação, da construção e das comunicações são extremamente
dependentes das matérias-primas retiradas das florestas. Sabe-se que são perdidos
anualmente 17 milhões de hectares de florestas tropicais, área que corresponde ao
território do Japão. Essas florestas cobrem apenas 7% da superfície terrestre, mas
servem de habitat a 50 - 80% das espécies do planeta.
O conceito de capacidade de suporte é bastante conhecido entre os profissionais
ligados à área do meio ambiente. Porém, os economistas e os políticos desconhecem
completamente este conceito; pelo contrário, estas pessoas tem a idéia de um meio
ambiente infinito, provendo ad infinitum as matérias-primas e toda sorte de recursos
naturais ao homem. A capacidade de suporte de um ecossistema natural é determinado
por seu máximo rendimento sustentável, que pode variar em função de inúmeros
fatores: ciclos sazonais, suas dimensões e tamanho original dos recursos, seu histórico
de exploração, mudanças climáticas e a exploração de outros recursos
interdependentes à aquele explorado. Resumindo, a exploração de um cardume de
determinada espécie de pescado depende do tamanho da população do cardume; da
disponibilidade de alimento às suas necessidades; à área total ocupada pelo cardume;
às características biológicas da espécie de pescado (migrações reprodutivas ou
alimentares; tipo de reprodução - desova parcial ou total, tamanho mínimo em que os
indivíduos começam a se reproduzir, e distribuição dos ovos, larvas e juvenis na
coluna d'água) e, principalmente, do cumprimento da legislação, que exerce uma série
de salvaguardas sobre os recursos pesqueiros. Se houver sobrepesca (exploração
acima dos limites sustentáveis, através do desrespeito da época de reprodução, uso de
redes que capturam indivíduos jovens e imaturos, entre outros fatores), o que se
observará, e já se observa com importantes recursos pesqueiros como a sardinha, é sua
diminuição progressiva, quiçá, até o seu total esgotamento.
Os biólogos e outros profissionais do meio ambiente que compreendem os
sistemas biológicos e suas limitações não foram capazes de relaciona-los às
necessidades econômicas das modernas sociedades, sendo suas atitudes sempre
encarada como romântica e irreal. Por outro lado, os responsáveis pelas decisões
econômicas e políticas não conseguiram perceber as relações, inclusive de
interdependência, entre os sistemas econômico e biológico. A economia e a ecologia
não se comunicam, em parte porque os princípios da segunda e a teoria da primeira
tem muito pouco em comum1. Hoje, a dimensão da nossa intervenção na natureza é
1 BROWN, L.R. O Vigésimo Nono Dia. Rio de Janeiro, Ed. Da Fundação Getúlio Vargas. 1980.
2
cada vez maior, e os efeitos físicos de nossas decisões ultrapassam as fronteiras
nacionais. A crescente integração econômica das nações amplia as consequências das
decisões nacionais. As noções de fronteiras nacionais se tornaram tão permeáveis que
apagaram as tradicionais distinções entre assuntos de significação local, nacional e
internacional. A poluição das águas vai tomando rios, lagos e mares que banham mais
de um país. Através da atmosfera, a poluição do ar se espalha além de muitos países.
A explosão do reator nuclear da usina de Chernobyl demostrou a fragilidade da noção
de fronteiras quando o assunto é a poluição. A imposição do interesse comum é
muitas vezes prejudicada porque as áreas de jurisdição política não coincidem com as
áreas de impacto ambiental. As políticas energéticas de uma jurisdição podem causar
precipitação ácida em outra ou, as políticas pesqueiras de um país podem afetar a
pesca em outro. Não existe, infelizmente, até agora, uma autoridade supranacional que
possa resolver tais questões e só é possível fazer valer o interesse comum por meio da
cooperação internacional .
O direito nacional e internacional está cada vez mais defasado devido ao ritmo
acelerado e à dimensão crescente dos impactos sobre a base ecológica do
desenvolvimento. Por isso, cabe aos governos preencher as grandes lacunas que o
direito nacional e internacional apresentam no tocante ao meio ambiente; buscar
meios de reconhecer e proteger os direitos das gerações presentes e futuras a um meio
ambiente adequado a sua saúde e bem-estar; elaborar, sob os auspícios da ONU, uma
Declaração Universal sobre a Proteção ao Meio Ambiente e o Desenvolvimento
Sustentável e uma Convenção para aperfeiçoar os mecanismos para evitar ou
solucionar disputas sobre as questões relativas ao meio ambiente e à administração
dos recursos.
No passado, quem cuidava das questões ambientais eram os ministérios e
instituições do meio ambiente, que às vezes tinham pouco ou nenhum controle sobre a
destruição causada por políticas e práticas agrícolas, industriais, de desenvolvimento
urbano e florestais. Foi um erro, por parte da sociedade atribuir a responsabilidade de
evitar danos ao meio ambiente a ministérios e orgãos setoriais que os causam com
suas políticas. Assim, nossas práticas de administração ambiental ficaram muito
concentradas em reparar os danos já feitos: recuperação de regiões em processo de
desertificação, reflorestamento, recontrução de ambientes urbanos, restauração de
habitats naturais e reabilitação de terras selvagens2.
É possivel se chegar a uma nova era de crescimento econômico, fundamentada em
políticas que mantenham e ampliem a base de recursos da Terra. O progresso que
alguns povos desfrutaram no século passado pode ser vivido por todos nos próximos
anos. Os problemas ambientais que enfrentamos hoje, aliado ao aspecto da pobreza -
um dos maiores flagelos do mundo - derivam tanto da falta de desenvolvimento
quanto de consequências de certas formas de crescimento econômico.
Por isso, torna-se necessário uma nova abordagem de exploração dos recursos
naturais do planeta, que pode ser considerado como um grande organismo vivo, um
superorganismo que tenta sempre se adaptar as perturbações produzidas pelo
desenvolvimento humano. Segundo essa nova visão, denominada Hipótese Gaia, se
uma espécie tenta modificar profundamente as condições de equilíbrio ideais para a
manutenção da vida, Gaia pode reagir e procurar eliminar a parte que a está
incomodando, alterando drásticamente as condições ambientais. Isso deve servir de
alerta para nós, que nos caracterizamos, como espécie, pela capacidade de ação
transformadora sobre o meio ambiente. Nossa história fornece eloquentes exemplos
das consequências desastrosas do manejo irresponsável do ambiente, lição de que a
2 BRUNDTLAND, G.H.(org.). Nosso Futuro Comum: Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento. Rio de Janeiro, Ed. Da Fundação Getúlio Vargas. 1991.

3
crise ecológica não é um fenômeno recente, nem uma conquista da sociedade
moderna3.
Até quando vamos continuar, biólogos, economistas, políticos, empresários e
sociedade em geral, falando idiomas diferentes? Quando vamos despertar para
perceber que o nosso planeta agoniza como um paciente na UTI? O tema de interesse
comum mais importante a partir de agora é a necessidade de incluir considerações
econômicas e ecológicas no processo de tomada de decisões, tanto ao nível local,
nacional e internacional; a participação das populações regionais envolvidas;
representantes de organizações não-governamentais - ONG's - nacionais e
internacionais; representantes da comunidade econômica - Banco Mundial, por
exemplo - e representantes dos governos. As preocupações econômicas e ecológicas,
não devem e, não se opõem necessariamente. As políticas que conservam a qualidade
das terras agricultáveis e protegem as florestas, melhoram as perspectivas a longo
prazo de desenvolvimento agrícola. A maior eficiência no uso de matérias-primas e
energia pode servir a objetivos ecológicos e econômicos, através da redução de custos
operacionais da produção.
A sociedade hoje se defronta com um problema da maior gravidade: a destinação
final dos resíduos sólidos, o lixo. Esta, talvez seja a grande oportunidade para que nós
- profissionais do meio ambiente - e toda a sociedade se organize para a solução desta
tão delicada questão. Ela envolve aspectos tão abrangentes sob o ponto de vista
ambiental, social, político e econômico que torna-se um desafio fascinante.

CAPÍTULO I
Apresentação do Problema

3 M’BOW, A.M. Desenvolvimento e Desarmamento: o maior desafio do século. Revista O Correio da Unesco,
ano 10, n05. Maio. 1982.
4
1- Introdução
Terra fumegante de fábricas.
Terra trepidante de negócios.
Terra vibrante de cem novas radiações.
Este grande organismo, definitivamente,
vive por e para uma nova alma.
(Louis Pauwles & Jacques Bergier)

Toda atividade humana produz sobras, resíduos materiais desnecessários, que são
genéricamente denominados de Lixo. Sob o ponto de vista econômico, definimos lixo
como tudo aquilo que não têm mais valor.
O lixo acompanha o homem em seu progresso. É algo que surge automaticamente,
sempre que existir alguma coisa inútil ou imprestável ao seu proprietário e, que ele
não só deseja, como precisa desfazer-se dele e abrir espaço à outras utilidades que
atendam, de imediato, as suas necessidades de subsistência, conforto, segurança ou,

2
simplesmente, estética. Acontece, porém, que a nossa preocupação com o lixo tem
uma existência muito recente.
Porque o lixo é central na cultura industrial, começa-se a pensar em torno da
angústia que ele nos provoca: angústia que não é outra coisa senão da nossa própria
morte! Nossa maior preocupação com o lixo não decorre do fato de que seja preciso
fazer algo com as coisas, inúteis - que morreram! - mas do fato de que é preciso nos
livrarmos delas como de cadáveres. Morrer é como ir para o lixo. Assim, é
compreensível que queiramos nos livrar do lixo, como queremos nos livrar também da
morte.
Acontece que o lixo é uma instituição fundamental na sociedade industrial. Tão
fundamental como a fábrica e o lucro. O lixo é irmão tão gêmeo destes, que já
pensamos muito mais longe: Lixo gera Lucro ou Lucro gera Lixo?4
A natureza do lixo domiciliar e dos estabelecimentos comerciais e industriais tem
mudado drásticamente nas últimas décadas. A quantidade gerada também vem
crescendo dia-a-dia, tornando a questão da destinação do lixo um dos mais difíceis
problemas ambientais da nossa época nos centros urbanos. Boa parte dos orçamentos
municipais vai para o lixo: se somados os gastos com varrição, coleta, transporte,
tratamento e disposição final dos resíduos sólidos nas cidades brasileiras, as despesas
de uma prefeitura com a limpeza urbana ultrapassam 10% do seu orçamento, e podem
atingir até 20% nas mais populosas - uma conta que prefeito algum pode deixar de
pagar5.
A crise do lixo deixa bem aparente o lado sombrio do crescimento econômico. A
noção de crescimento econômico e tecnológico adotadas até hoje não incluem a noção
de qualquer limitação. Acreditamos que todo crescimento é bom, sem reconhecermos
que, num meio ambiente finito, tem que existir um equilíbrio dinâmico entre
crescimento e consumo de matérias-primas, entre crescimento e preservação
ambiental e, entre crescimento, distribuição de riquezas e combate à miséria. As
consequências do contínuo e predatório crescimento econômico é o esgotamento dos
recursos e intensa degradação ambiental6.
A sociedade de consumo foi planejada segundo três obscenidades básicas: a
obsolescência planejada, as embalagens descartáveis e as campanhas de publicidade
que induzem ao consumo de produtos de necessidade discutível, que contribuem de
maneira decisiva para dilapidar ainda mais o meio ambiente e aumentar os problemas
com o lixo urbano: É o desperdício. Lixo e desperdício parecem faces da mesma
moeda.
Segundo Darling & Dasmann (1972) as cidades tendem a ocupar o mesmo nicho
global dentro da Biosfera e a explorar os mesmos recursos, da mesma maneira. Dessa
forma, fomenta-se uma competição cada vez mais intensa, entre os ecossitemas
naturais e urbanos, gerando pressões ambientais cada vez mais fortes que vão, por sua
vez, comprometer ainda mais a qualidade dos seus cidadãos, principalmente do
terceiro mundo7.
Como disse o Sr. José Lutzemberger, a insensatez do desperdício nos leva a supor
que o nosso pequeno e frágil planeta tem de um lado um buraco infinito do qual
extraímos infinitamente os recursos e, do outro lado um segundo buraco, no qual
atiramos inesgotavelmente a poluição e o lixo que produzimos8.

4 RODRIGUES, J.C. A Cultura do Lixo e suas Angústias. In: Falas em Torno do Lixo. Rio de Janeiro, Co-
Edição Nova – ISER – Pólis. 1992.
5 MARINI, P. Lixo: uma montanha de problemas. D.M. Março. 1992.
6 AMAZONAS, P.; DROLSHAGEM, M. de S.P. & SEBILIA, A.S.C. Nossa Vida e o Lixo. Documento
Interno da Fundação Brasileira para Conservação da Natureza – FBCN. 1992.
7 DARLING, F.F. & DASMANN, R.F. The Ecosystem view of human society. In: SMITH, R.L. (Coord.) The
Ecology of Man. New York, Harper & Row. 1972.
2
Recentemente, no entanto, o tema passou a receber um novo tratamento. Reduzir,
reutilizar e reciclar tornaram-se conceitos, sinais de modernidade que ecoam pelos
quatro cantos do mundo. Talvez se fale tanto em lixo na atualidade pela própria
impossibilidade de continuar a escondê-lo ou ignora-lo. O orgulhoso criador tornado
refém da sua própria obra9.
Preocupadas com um problema que só tende a crescer com o passar do tempo, as
cidades buscam todos os tipos de soluções: crian-se sistemas de coleta seletiva;
constroen-se novos aterros ou recuperam os antigos e já sub-dimensionados; destroen-
se áreas de florestas ou manguezais para criação de lixões; instalan-se usinas ou
incineradores; busca-se parcerias com indústrias recicladoras para tentar vencer as
montanhas diárias de lixo atacando-as por todos os lados. Inclusive, algumas poucas
conseguem traçar políticas globais de limpeza urbana. Compra-se lixo, troca-se lixo,
criam-se empregos no lixo na tentativa de dar algum fim a ele. Algumas comunidades
mobilizam-se para que os aterros sejam transferidos para longe delas, enquanto outros
grupos populacionais vão morar nos lixões em busca de sua subsistência. Discute-se
calorosamente a incineração, especialmente dos resíduos hospitalares, defendida por
alguns como solução tecnologicamente moderna e eficaz e, condenada por outros
como oportunista e de um imediatismo criminoso. Recentemente, por lei municipal,
foi proibida em Vitória (ES) a incineração de lixo, enquanto Porto Alegre (RS) se
prepara para adquirir um. A cidade de Curitiba (PR) estuda a possibilidade de passar a
usar um e Brasília (DF) quer desestimular o uso daquele que tem10.
Como podemos observar, cada cidade tenta, a sua maneira, lidar com um problema
que só tende a se agravar. Existem muitas controvérsias e discussões à respeito de
como tratar o problema do lixo. A nosso ver, cada administração terá que ter
criatividade e, principalmente recursos para investir em programas que lidem com o
problema como realmente ele deve ser tratado. As questões do lixo em nossos dias
envolve, também, aspectos do intenso crescimento populacional e dos centros urbanos
e de novas práticas e políticas de desenvolvimento econômico e erradicação da
pobreza. Estas, por sua vez, vão incidir sobre a necessidade de redução do consumo de
matérias-primas e energia, na mudança em relação à produção de bens de consumo e
de mentalidade, no combate ao desperdício e, principalmente do papel da sociedade
organizada e dos governos na elaboração e fiscalização de políticas ambientais mais
aceitáveis, visando a melhoria da qualidade de vida da nossa população.

8 AMAZONAS, P.; DROLSHAGEM, M. de S.P. & SEBILIA, A.S.C. Nossa Vida e o Lixo. Documento
Interno da Fundação Brasileira para Conservação da Natureza – FBCN. 1992.
9 EIGENHEER, E.M. As Raízes do Desperdício. Rio de Janeiro, Instituto de Estudos da Religião – ISER. 1993.
910 MARINI, P. Lixo: uma montanha de problemas. D.M. Março. 1992.

10

3
2- O Consumo de Matérias-Primas,
Energia & Manufaturados
A conservação da Natureza não deve ser vista apenas
como um dos objetivos do Desenvolvimento. Ela é parte
da nossa obrigação moral para com os demais seres
vivos e as futuras gerações.
( Gro Harlem Brundtland )

A nossa economia enormemente produtiva requer que nós façamos do consumo o


nosso modo de vida, que nós convertamos a compra e uso de mercadorias em rituais,
que nós busquemos a nossa satisfação espiritual ou do nosso ego no consumo. Nós
precisamos de coisas consumidas, destruídas, gastas, substituídas e descartadas
numa taxa continuamente crescente11. Esta ode ao consumo do Sr. Victor Lebow,
consultor de vendas americano, se tornou o pilar central da vida e do pensamento dos
cidadãos dos EUA no pós-guerra e que foi exportado para os países da Europa e o
Japão durante a recuperação econômica que teve lugar nestas áreas. Porém, antes que
as pessoas do mundo pudessem atingir o sonho americano, o planeta se transformaria
num imenso depósito de lixo.
A medida que a nossa sociedade progride, a Economia da Permnência vai sendo
substituída pela Economia da Transitoriedade. A tecnologia em pleno progresso tende
11 DURNING, A. Perguntando o quanto é suficiente. In: Qualidade de Vida 1991: Salve o Planeta. São Paulo,
Ed. Globo. 1991.
4
a fazer baixar os custos dos produtos manufaturados muito mais rapidamente do que
os custos dos consertos destes mesmos produtos. Um acha-se automatizado (o
primeiro) e, o outro, permanece como uma operação de natureza manual; isto significa
que, frequentemente fica mais barato substituir um objeto ou produto do que consertá-
lo.
Além disso, a tecnologia avançada torna possível melhorar os produtos e objetos à
medida que o tempo passa. Já é possível antecipar os progressos ulteriores da
tecnologia. As próximas melhorias que advirão, dentro de intervalos cada vez
menores, fazem frequentemente muito mais sentido econômico se os produtos tiverem
uma duração cada vez mais curta. É a Obsolescência Planejada pelas grandes
corporações. Alvin Toffler, em O Choque do Futuro12 referiu-se a nossa sociedade
(EUA) como A Era do Desperdício e do Descartável: de fraldas a foguetes espaciais.
O que se observa atualmente é uma enorme desigualdade de consumo no mundo,
desde matérias-primas, produtos manufaturados, serviços e, principalmente alimentos.
E, é no consumo que as modernas economias fincaram seus pilares. A seguir, um
perfil do consumo no mundo:

1- O Consumo de Alimentos:
Há hoje no mundo um número maior de pessoas famintas do que jamais houve em
toda a história da humanidade, e este número está aumentando. Em 1980, havia 340
milhões de pessoas em 87 países em desenvolvimento que não ingeriam o número
suficiente de calorias e, por isso apresentavam deficiência de crescimento e graves
problemas de saúde. Esse total, situava-se ligeiramente abaixo dos números de 1970,
em termos proporcionais à população mundial, mas em números absolutos
representava um aumento de 14%. Segundo previsões do Banco Mundial, esses
números devem continuar crescendo. Um relatório do Banco Mundial de 1988
estimou que mais de 900 milhões de pessoas em todo o mundo vivem atualmente em
um estado de pobreza absoluta, caracterizado pela desnutrição, analfabetismo e altas
taxas de mortalidade infantil13.
A escada do consumo global de alimentos tem três degraus. Segundo estimativas
recentes do Banco Mundial, na base os 630 milhões de pessoas mais pobres do mundo
que são incapazes de obter para si uma dieta saudável. No segundo degrau, os 3,4
bilhões da classe média mundial obtêm calorias suficientes e bastante proteína vegetal,
possuindo a alimentação básica mais saudável da população mundial.
Por outro lado, é neste segundo degrau - na classe média - que se observa os mais
elevados índices de desperdício alimentar, principalmente nos países do terceiro
mundo. Desperdício este que serviria para alimentar a enorme legião de famintos em
todo o mundo. É muito comum observar-se nas grandes cidades a catação de comida
nas latas de lixo em frente a restaurantes, supermercados e residências. O mais
chocante é quando esta catação se dá nos lixões localizados nas periferias das cidades
e, onde é muito grande o número de pessoas que retiram desta atividade o seu sustento
e subsistência.
O topo da escada é composto por comedores de carne, cerca de 1,25 bilhão de
pessoas, aqueles que obtêm próximo dos 40% de suas calorias da gordura animal. A
produção de carne, para uma parcela tão pequena da população mundial, é responsável
pelos maiores problemas ambientais observados nas áreas de produção alimentar: alto
consumo de grãos para engorda animal, que requerem cada vez mais terras
disponíveis para monocultura que, por sua vez trazem a erosão e o desgaste do solo. O
uso excessivo de defensivos agrícolas nas monoculturas traz, também, a contaminação
12 TOFFLER, A. O Choque do Futuro. São Paulo, Ed. Artenova. 1973.
13 LEONARD, H.J. Meio Ambiente e Pobreza: Estratégias de Desenvolvimento para uma Agenda Comum.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor. 1992.
2
do solo e das reservas aquíferas do planeta. Repare que, para produzir 1 Kg de carne,
são consumidos 5 Kg de grãos, o equivalente a 9 litros de gasolina de energia e uma
enorme quantidade de água, direta ou indiretamente. O processamento industrial e o
empacotamento também trazem custos adicionais no modo pelo qual os ricos se
alimentam uma vez que, gasta-se ainda mais energia e matérias-primas neste processo.
Para que cada pessoa, nos países em desenvolvimento, tenha uma alimentação
como a das pessoas dos países industrializados, por volta do ano 2000, é preciso que
haja um aumento do número de calorias e proteínas, como mostra a tabela I. 3.1. Mas,
o aumento na produção de alimentos não deve basear-se em políticas de produção
ecologicamente inviáveis, nem comprometer as perspectivas de segurança alimentar a
longo prazo. Nos últimos 100 anos, houve mais desmatamentos para a criação de
novas áreas de cultivo do que em todos os séculos precedentes. Assim, muitas vezes
as florestas estão sendo destruídas apenas para obter terras de cultivo de baixa
qualidade, incapazes de sustentar os que as trabalham. O cultivo extensivo em
encostas íngremes está aumentando a erosão do solo em muitas regiões de países
desenvolvidos e em desenvolvimento. Além disso, o comércio internacional de
madeiras tropicais é um dos fatores que mais contribuem para o desflorestamento14.

2- Consumo de Energia:
Os limites extremos do desenvolvimento global talvez sejam determinados pela
disponibilidade de recursos energéticos e pela capacidade da biosfera de absorver os
subprodutos do uso da energia. Primeiro há problemas de abastecimento: o
esgotamento das reservas de petróleo, o alto custo e o impacto ambiental da mineração
do carvão e, os riscos da tecnologia nuclear. Segundo, há problemas de emissão,
principalmente o acúmulo de dióxido de carbono, que causam o aquecimento global
da Terra e as chuvas ácidas. Terceiro, a exploração de fontes renováveis, como lenha e
energia hidrelétrica, também pode trazer graves problemas ecológicos.

Países Aumento Aumento


Calorias (%) Proteínas (%)
África 5 5,8
América Latina 3,4 4
Ásia 3,5 4,5
(fonte: Nações Unidas, 1986 & FAO, 1985)

Os problemas mais urgentes dizem respeito às necessidades das famílias pobres do


terceiro mundo, que dependem basicamente de lenha. Na virada do século, 3 milhões
de pessoas poderão estar vivendo em áreas onde a madeira é cortada mais depressa do
que pode crescer, ou onde já há escassez de lenha.
Os países industrializados precisam reconhecer que o seu consumo de energia está
poluindo a biosfera e diminuindo as já escassas reservas de combustíveis fósseis. Mas,
principalmente, é necessário reduzir o consumo per-capita e estimular a busca de
novas fontes e tecnologias não-poluentes. Não é viável, nem muito menos desejável,
que os países em desenvolvimento simplesmente adotem os mesmos padrões de
consumo de energia dos países industrializados.

3- O Consumo de Matérias-Primas:
No que diz respeito ao consumo de matérias-primas, prevalece o mesmo padrão
dos alimentos. Cerca de 1 bilhão de pessoas na zona rural subsistem à custa da
14BRUNDTLAND, G.H.(org.). Nosso Futuro Comum: Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento. Rio de Janeiro, Ed. Da Fundação Getúlio Vargas. 1991.

1
biomassa coletada no meio ambiente local. A maior parte do que é usado todo dia -
cerca de ½ Kg de grãos, 1 Kg de lenha e forragem para seus animais - poderia
constituir recursos auto-renováveis. Infelizmente, como essas pessoas são
frequentemente expulsas para ecossistemas frágeis e não produtivos - devido à falta de
terras e pelo crescimento populacional - as suas necessidades nem sempre são
satisfeitas.
Aproximadamente, 1,5 bilhão de pessoas vivem na categoria média de uso de
materiais. Fornecer a cada uma delas mercadorias duráveis todo ano consome entre 50
e 150 Kg de aço e de 20 a 50 gigajoules de energia. No topo desde morro está a classe
esbanjadora, que consome matérias-primas de modo extravagante. Um habitante
típico daquele ¼ industrializado do mundo consome 15 vezes mais papel, 10 vezes
mais aço, 12 vezes mais combustível do que um habitante do terceiro mundo.
Uma boa parte das matérias-primas que entram no processo produtivo das
indústrias acabam saindo, na outra extremidade, como resíduos. Há, também, um
enorme desperdício de energia gasta na produção industrial. Embora o lixo urbano não
seja nem a maior nem a mais perigosa das categorias de resíduos, são certamente um
excelente indicador do desperdício na nossa sociedade. A produção de artigos que
acabam como lixo corresponde a maior parte dos resíduos gerados. Ironicamente, a
medida que a intensidade do uso de matérias-primas parece estar caindo na produção
industrial, o crescimento contínuo da geração de lixo indica que o seu acúmulo está
crescendo no setor de produtos de consumo diário. As sociedades que pretendam
melhorar a distribuição de renda, reduzir o desperdício e melhorar sua eficiência
ambiental precisam reduzir, primeiramente, a sua produção de lixo.
A industrialização e o crescimento econômico trouxeram não apenas aumentos
significativos nas quantidades per-capita de resíduos mas também, mudanças nas suas
características. As quantidades de matéria orgânica nos países em desenvolvimento
parece estar aumentando (45%) e, representa mais do que o dobro (20%) encontrado
nos aterros sanitários da Europa Ocidental. O desperdício de papéis e plásticos
também parece estar crescendo, mesmo que, atualmente inúmeros programas de coleta
seletiva estejam conseguindo a sua redução, lenta porém gradual. O grande problema
diz respeito à substituição do vidro, aço e fibras vegetais pelo plástico e pelo alumínio.
A presença de substâncias altamente contaminastes e tóxicas em produtos de uso
diário como pilhas, latas de tintas, solventes, pesticidas e produtos de limpeza diversos
vem modificando a composição do lixo e trazendo novos problemas aos planejadores
encarregados da administração do lixo nas grandes cidades.
A maioria dos países compartilham de uma estratégia comum no que diz respeito
ao lixo: a hierarquia da sua administração. Esta hierarquia parte de uma lista de
opções administrativas, em ordem de prioridades:

2
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente endossa e recomenda a
adoção desta hierarquia. Infelizmente, a maioria dos governos continua a se
concentrar na administração do lixo - e nos seus problemas - e não na sua redução e
gerenciamento correto.
A limpeza pública, a coleta, o transporte e o destino final dos resíduos sólidos
dizem respeito à saúde pública. A União tem poder para criar leis em relação à defesa
e à proteção da saúde da população. Mas os estados também podem atuar para
complementar as ações do governo federal. É bom esclarecer que a fixação de normas
gerais cabe à União. Aos municípios compete a execução da tarefa sanitária, já que a
constituição declara que eles são autônomos para organizar os serviços públicos locais
que sejam necessários. A Lei Federal ordena que tanto a coleta quanto o transporte e o
destino final do lixo devem ser feitos de uma maneira que não afetem nem tragam
inconvenientes à saúde e ao bem-estar da população (esta lei está regulamentada no
Código Nacional de Saúde)15.
No Brasil, verificamos os mesmos problemas enfrentados pela maioria dos países
em relação as questões do lixo. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística - IBGE - de 1989, apenas 50% da população tem acesso à coleta regular de
lixo. Os outros 50% são simplesmente abandonados pelo poder público no que diz

15 Jornal A Gazeta Mercantil. Janeiro. 1995.


3
respeito à coleta e, o lixo é jogado pela população na periferia de suas residências, em
terrenos baldios ou atirados nos cursos de água locais.
Os 50% restantes apresentam disposição final, na maioria dos casos, como mostra
a relação abaixo. São poucas as exceções à esta regra, casos isolados do Paraná
(Curitiba), Rio de Janeiro e São Paulo, principalmente.

Métodos de Disposição Final Percentual


(%)
1- depósitos municipais / lixões 86,4
2- manguezais e áreas alagadas 1,8
3- aterro controlado 9,6
4- aterro sanitário 1,1
5- incineração 0,3
6- reciclagem / compostagem 0,8
(fonte: Amazonas, P. et alli , 1992)

Figura 1.1- A disposição final do lixo no Brasil (log x+1).

Os resíduos dispostos nos lixões à céu aberto, na periferia das zonas urbanas, são
fonte de degradação ambiental com todos os inconvenientes decorrentes de
decomposição ao ar livre. O lixo, constituído em grande parte de matéria orgânica
biodegradável, entra rapidamente em decomposição. Não havendo recolhimento
periódico desse material, o oxigênio disponível é rapidamente consumido pela
atividade bacteriana, dando lugar a uma intensa decomposição anaeróbia com
desprendimento de gases odoríficos. Forma-se, também, um líquido escuro, ácido e
mal cheiroso, o chorume, que se infiltra no solo e contamina as águas (superficiais e
subterrâneas). Os resíduos de origem não orgânica, como papéis, plásticos, vidros e
metais, entre outros, devido à sua longa biodegradabilidade se acumulam e liberam
substâncias tóxicas para o ambiente.
A deficiência dos serviços de coleta oferecidos pela maioria dos municípios, faz
com que grande parte do lixo produzido desapareça e o resultado dessa situação é:

■ terrenos baldios com entulhos; mosquitos, moscas, ratos e outros organismos


transmissores e causadores de doenças;
■ praias poluídas com latas, embalagens plásticas, papéis, matéria orgânica etc.;
■ rios e canais com colchões, sofás, pneus, sacos de lixo e todo tipo de utensílios
domésticos que causam entupimento destes locais. Nas épocas das chuvas, provocam
inundações das áreas adjacentes, trazendo várias doenças para a população ribeirinha;
■ morros e favelas com montanhas e cascatas de lixo que são responsáveis por
graves problemas de deslizamentos de terra sobre residências e barracos, na maioria
das vezes, com muitas vítimas, principalmente crianças.

1
3- A Produção de Matérias-Primas
& Manufaturados
O homem que conhece as Leis da Natureza
não a escraviza, nem torna-se seu escravo.
Torna-se seu amante.
( Buda )

A produção e utilização das matérias-primas foi quase insignificante até a


Revolução Industrial. A partir da industrialização no início do século XX, o consumo
cresceu a uma taxa explosiva, principalmente madeiras e minérios. A produção e o
consumo per-capita continuou a crescer até as duas últimas décadas. De acordo com
uma estimativa recente, somente os EUA consumiram mais minerais entre 1940 e
1976 do que toda a humanidade junta até 1940. Em todo o mundo, desde a metade do
século XX, a demanda de cobre, energia, carne, aço e madeira quase dobrou, de
cimento quadruplicou, de plásticos quintuplicou e o de alumínio cresceu sete vezes16.
Entretanto, desde meados da década de 70 este consumo declinou e estabilizou-se
nas economias dos países da Europa e dos EUA. Novas industrias em franca expansão
estão atualmente respondendo por uma parcela crescente da produção econômica,
consumindo menos matérias-primas e energia do que as tradicionais indústrias de
extração, de beneficiamento e manufaturas: são as indústrias de computadores, de
Biotecnologia e de Alta Tecnologia. Deve-se ressaltar que tal fenômeno ainda não se
observa nos países do terceiro mundo, onde as suas economias ainda estão no estágio
da produção de manufaturados para atender à uma classe média, ávida pelo consumo.
O perigo dos níveis elevados de consumo dos recursos naturais, reside muito mais
nos danos ambientais decorrentes da sua extração, do seu beneficiamento e do
consumo dos seus produtos finais, do que nos riscos do seu esgotamento. Por
exemplo, o crescente aumento dos níveis de gás carbônico na atmosfera (provenientes
dos automóveis e da atividade industrial) e, consequente aumento da temperatura
global da Terra, o chamado Efeito Estufa, são muito mais perigosos que os riscos de
colapso energético decorrentes do esgotamento do petróleo.
A cada ano a exploração de matérias-primas danifica grandes extensões de terras,
destroi milhões de árvores, produz bilhões de toneladas de resíduos e poluição num
grau superado apenas pela produção, beneficiamenrto e uso da energia. Energia esta,
16 DURNING, A. Perguntando o quanto é suficiente. In: Qualidade de Vida 1991: Salve o Planeta. São Paulo,
Editora Globo.
1
gerada para extrair e beneficiar as mesmas matérias-primas, criando uma espiral de
consumo do tipo feedback, onde o aumento de um, provoca automaticamente o
aumento do outro.
Os problemas de suprimentos de recursos minerais não-combustíveis
aparentemente são, a princípio, menores. Segundo vários estudos anteriores a 1980,
que supunham uma demanda exponencialmente crescentes, o problema só surgiria no
decorrer do próximo século. Como houve um declínio do consumo, tudo leva a crer
que os minerais só se esgotarão num prazo ainda mais longo. A história do
desenvolvimento tecnológico também sugere que a indústria pode se ajustar à
escassez se houver maior eficiência no uso, na reciclagem e na substiutição17. Onde
quer que ocorra a exploração dos recursos - principalmente através da mineração -
gera danos sobre o meio ambiente uma vez que esta é considerada uma das atividades
da economia mais danosa, apesar de ser uma das mais precariamente documentadas.
Os principais danos são:

Principais Danos Ambientais


1- aumento da erosão e/ou desertificação
2- diminuição dos recursos naturais
3- mudanças climáticas
4- diminuição da Biodiversidade

Segundo o Worldwatch Institute, o Relatório Global 2.000, elaborado pelo


Conselho dos EUA sobre a Qualidade do Meio Ambiente, em 1980 fez estimativas
assombrosas:

Área minerada no mundo 571 milhões de hectares


Minas abandonadas nos EUA 09 milhões de hectares
Resíduos da mineração nos EUA 1,25 bilhões de toneladas
Resíduos sólidos urbanos nos EUA 600 milhões de toneladas

Evidentemente que as quantidades de resíduos decorrentes das atividades de


mineração não são o principal problema a ser enfrentado. Neste caso, a própria
atividade mineradora é que representa o ponto crucial da questão. Grandes extensões
de terra são deslocadas de uma área para outra, a cobertura vegetal sofre impactos
violentíssimos, com reflexos em toda a biodiversidade local, e os mananciais da região
sofrem intensa contaminação, levando estes efeitos até o homem.
As matérias-primas são, então, transportadas até as indústrias de beneficiamento e
de produção de bens de consumo. A indústria é fundamental nas economias das
sociedades modernas e fator indispensável ao crescimento. É essencial nos países do
terceiro mundo, a fim de ampliar a base de seu desenvolvimento e atender as suas
crescentes necessidades. E, embora se diga que os países industrializados já estão
entrando numa era pós-industrial, a Terceira Onda segundo Alvin Toffler, que é a era
da informática, essa transição precisa contar com um fluxo contínuo de riqueza
proveniente da indústria. Muitas das necessidades humanas essenciais só podem ser
atendidas por meio de bens e serviços que a indústria pode fornecer. Muitos desses
bens e serviços consomem muitas matérias-primas e energia e são altamente
poluidoras. Por isso, seus impactos sobre o meio ambiente são os maiores já
registrados em toda a história da humanidade.
O período de maior crescimento da produção industrial se deu entre 1950 e 1973,
quando se registrou um crescimento anual de 7% na atividade de manufaturas e 5%
17 BRUNDTLAND, G.H.(org.). Nosso Futuro Comum: Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento. Rio de Janeiro, Ed. da Fundação Getúlio Vargas. 1991.

1
nas atividades de mineração. Posteriormente, entre 1973 e 1985, estes índices
declinaram e ficaram em torno de 3% ao ano nas indústrias de produção de bens
manufaturados e praticamente a zero nas atividades mineradoras. O uso de
combustíveis fósseis cresceu quase trinta vezes e a produção industrial aumentou mais
de 50 vezes. Hoje, o aumento anual da produção industrial é talvez o mesmo da
produção da Europa em fins dos anos 30.
Estes números tem reflexo na importância relativa das indústrias como geradora de
empregos. O que se observa, é que as indústrias perderam à muito tempo o "status" de
atividade geradora de empregos, que foi, está e continuará sendo substituída pelo setor
de serviços, que sofreu intenso crescimento nos últimos 15 anos.
A grande expansão industrial que se seguiu ao término da II Grande Guerra não
levou em consideração a preservação ambiental e a exploração dos recursos naturais,
trazendo poluição à níveis nunca antes visto. Este fenômeno aconteceu principalmente
nos países da Europa Ocidental, EUA e Japão. Porém, os seus reflexos aconteceram
na ex-União Soviética, nos países da Europa Oriental em muitos países do terceiro
mundo que começavam a esboçar um início de industrialização.
No final dos anos 60, uma consciência e uma preocupação maiores por parte da
opinião pública levaram os governos e as indústrias, do primeiro e do terceiro
mundos, a tomarem certas atitudes e providências. Elaboraram-se programas e
políticas para a proteção do meio ambiente, conservação dos recursos e ecossistemas
naturais. Mais tarde, recorreu-se a uma série de instrumentos econômicos - tributação,
multas por poluição e subsídios para equipamentos de controle de poluição - que
surtiram algum efeito apenas nos países onde o nível de educação e pressão das
instituições criou um certo embaraço e boicote a muitos produtos.
A indústria, sob pressão dos governos e da opinião pública, reagiu criando novas
tecnologias e novos processos industriais com vistas a reduzir os níveis de poluição e
redução dos impactos ao meio ambiente. Divulgaram-se diretrizes e códigos de
conduta relativos à segurança dos produtos e ao funcionamento das fábricas, às
práticas comerciais, à transferência de tecnologia e à cooperação internacional. A
poluição é uma forma de desperdício e um sintoma de ineficiência da produção
industrial. Quando as indústrias percebem os custos da poluição, as vezes são
motivadas a investir em melhores produtos e processos para aumentar sua eficiência,
reduzindo-a e a seus rejeitos, sobretudo quando há incentivos econômicos para isso.
No entanto, o quadro nos países mais pobres, é um pouco diferente: aumentaram
os despejos de produtos químicos no solo, em rios, lagos e águas costeiras, causando
impactos sobre a biodiversidade e sobre o homem. Limpar o que já foi poluído é uma
solução cara. Assim, todos os países precisam prever e evitar os problemas de
poluição, estimular as tecnologias que deixem poucos rejeitos e prever o impacto de
novos produtos, tecnologias e rejeitos. Só nos países da comunidade européia os
efeitos causados pela poluição sobre o meio ambiente necessitariam de milhares de
dólares para algum tipo de ação reparadora. As estimativas falam em US$ 10 bilhões
para a Alemanha, mais de US$ 1,5 bilhão para a Holanda, pelo menos US$ 600
milhões para a Dinamarca e para os EUA, as projeções giram entre US$ 20 e US$ 100
bilhões.
De acordo com um levantamento feito em 1984 pela Organização para
Cooperação e o Desenvolvimento Econômico - OCDE - das avaliações realizadas em
vários países industrializados, os gastos com medidas de proteção ao meio ambiente
nos últimos 20 anos tiveram um efeito positivo a curto prazo sobre o crescimento
econômico e o emprego, porquanto aumentavam a demanda e, consequentemente
fizeram aumentar a produção de economias que não operavam com plena capacidade.
E, o que é mais importante, trouxeram benefícios que, de um modo geral, superaram
2
os custos. Nos últimos anos, os países industrializados conseguiram crescer
econômicamente usando menos matérias-primas e energia por unidade de produção
através do uso de novas tecnologias. Entretanto, as tecnologias dos países
industrializados nem sempre são adequadas ou fáceis de adaptar às condições sócio-
econômicas e ambientais dos países em desenvolvimento.
O controle da poluição tornou-se, e com toda razão, um próspero ramo da
indústria em muitos países industrializados. Empresas muito poluidoras muitas vezes
levaram a progressos no desenvolvimento de equipamentos anti-poluição,
desintoxicação, tratamento de rejeitos, instrumentos de mensuração e sistemas de
monitoramento. Essas indústrias não apenas se tornaram mais eficientes e
competitivas, como também muitas delas descobriram novas possibilidades para
investimentos, vendas e exportações. O mercado de equipamentos, produtos e serviços
anti-poluição está em franca expansão, tanto nos países industrializados quanto nos
países recém industrializados e em vias de industrialização.
Não está se fazendo tudo o que é necessário para adaptar às necessidades dos
países em desenvolvimento as recentes inovações nos campos da tecnologia de
materiais, conservação de energia, informação tecnológica e biotecnologia como
forma de aliviar os problemas ambientais que se apresentam como decorrência do
desenvolvimento econômico18.

18 BRUNDTLAND, G.H.(org.). Nosso Futuro Comum: Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento. Rio de Janeiro, Ed. Da Fundação Getúlio Vargas. 1991.

3
4- As Mudanças na Economia e na Sociedade
ou Maquiagem Verde ?
Tudo o que acontecer à terra, acontecerá
aos filhos da terra. A terra não é do homem.
O homem pertence a terra.
(Ignacy Sachs)

A redução das fontes de lixo, iniciada pela progressiva substituição de matérias-


primas virgens por matéria-prima secundária, é das poucas opções que elimina a
necessidade de novos investimentos na extração, remoção e processamento industrial
além de reduzir o consumo de energia e de poluição. É, no entanto, descartada como
irrealista.
A redução das quantidades de lixo produzidas não é uma tarefa fácil, porque as
pessoas querem e necessitam das coisas que compram, usam e descartam; um símbolo
da manutenção do status quo criado pelo stablishment. Os milhares de shoppings
centers no mundo todo, são a essência do estilo de vida mais pernicioso do mundo. O
descarte diário de sacos de lixo tornou-se uma rotina, da qual aparentemente ninguém
escapa, nem as comunidades mais carentes da periferia das grandes metrópoles.
Até recentemente, as pessoas escolhiam seus produtos de consumo pelo seu
potencial de durabillidade e qualidade. Isso era uma prática comum tanto nos países
desenvolvidos quanto naqueles em desenvolvimento. Inclusive, era um forte apelo
para a estratégia de marketing dos fabricantes. Porém, após a Segunda Guerra
Mundial os EUA criaram e exportaram um novo estilo de vida: o consumismo. O
desenvolvimento de diversos materiais sintéticos derivados do petróleo,
principalmente, propiciou o barateamento da produção, além de aumenta-la em
detrimento da qualidade do produto final. Até poucas décadas atrás, a maior parte dos
bens de consumo era feita com os materiais tradicionais e, sem mistura. Hoje
encontramos uma desconcertante mistura de materiais, sintéticos e naturais; novos e
velhos, recicláveis ou não19.
Como interromper ou reverter esta tendência? Seriam necessárias iniciativas
simultâneas de fabricantes, consumidores e dos governos. Os governos deveriam
tentar persuadir os fabricantes da necessidade de mudar, mesmo a médio prazo,
determinadas embalagens ou produtos. Numa segunda etapa, os consumidores seriam
alertados a não consumir certos produtos devido a sua nocividade em relação ao meio
ambiente. Os governos poderiam, ainda, sobretaxar estes produtos impedindo porém,
que as taxas fossem repassadas para as mercadorias. Além disso, os fabricantes
deveriam escrever no produto ou embalagens a sua composição, se são tóxicos e em
que grau, se são ou não recicláveis e, como o consumidor deveria proceder para dispor
o produto ou embalagem ao término do seu uso. Numa economia esbanjadora as
embalagens tornam-se um fim em si mesmo, os descartáveis proliferam e o
componente durabilidade desaparece. Nos EUA, 4% dos gastos de um consumidor em
mercadorias, são direcionados para as embalagens; US$ 225/per-capita/ano que vão
parar no lixo!20 A criação de incentivos fiscais para produtos ecologicamente corretos
19 BROWN, L.R. (org.). Qualidade de Vida 1991: Salve o Planeta. São Paulo, Ed. Globo. 1991.
20 LEONARD, H.J. Meio Ambiente e Pobreza: Estratégias de Desenvolvimento para uma Agenda Comum.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor. 1992.
20
4
ajudaria a estimular a indústria e o comércio a desenvolver novas estratégias de venda
e eliminação das embalagens desnecessárias.
Como continuar a vender sem reduzir custos com pessoal e manter a
competitividade? Como os planejadores das industrias podem ajudar na redução do
lixo gerado nas grandes cidades? As respostas são bastante simples:

■ Primeiro, desenvolver serviços, produtos ou bens de consumo com maior


durabilidade média e que possam ser reutilizados diversas vezes. Além disso, os
componentes destes bens poderiam ser recicláveis ou substituíveis por novos quando
houvesse algum defeito técnico;
■ Segundo, redução de embalagens desnecessárias. Diversos produtos poderiam
reduzir em 20% o seu custo se houvesse a eliminação de 50% nas embalagens
(remédios, por exemplo). Dados do Worldwatch Institute de 1991 apontam que 33%
do lixo da Alemanha, 32% do lixo dos EUA e 21% do lixo da Holanda é constituído
por embalagens.

O colapso dos governos socialistas na Europa Oriental está provocando uma onda
de entusiasmo na demanda do consumidor, insatisfeito com a economia controlada
pelo estado. Com o fim da guerra fria e da polarização capitalismo versus comunismo,
uma nova ideologia está substituindo as idéias de direita e esquerda. De um lado, estão
os que consideram fundamental o crescimento econômico, a qualquer preço, e
vislumbram-no como a única esperança para os pobres atingirem o padrão de vida da
classe média burguesa dos EUA e Europa.
Do outro lado, os profetas do desenvolvimento auto-sustentado que advertem sobre
os limites do crescimento como a chave para a melhoria da qualidade de vida da
população. Desconfiam das novas tecnologias, vendo nelas as sementes dos futuros
problemas ambientais. Consideram, também, a economia incapaz de oferecer a
prosperidade a alguns sem tirar dos outros. Lamentam, igualmente a perda do sentido
humanista e o saque da Terra e ridicularizam os defensores do economicismo como
tecno-oportunistas e profetizam um desastre mundial se não alterarmos
substancialmente nosso sistema econômico, notadamente a questão do consumismo
desenfreado e do desperdício.
A medida que a sociedade toma consciência do grau de desperdício que pratica,
dos problemas causados ao meio ambiente com esse hábito e da divulgação na mídia
do incentivo ao uso de produtos verdes, nos levam a ter esperanças de reduzir as
quantidades per-capita de lixo gerados no planeta. Todos estaríamos em melhores
condições se cada um considerasse os efeitos dos seus atos sobre os demais. Mas
ninguém está disposto a crer que os outros agirão desse modo, e assim todos
continuam a buscar seus próprios interesses21.
O Conselho de Prioridades Econômicas (CEP) uma organização não-
governamental de pesquisa de interesse pública não-lucrativa publicou um guia para
ação ambiental de 42 pontos, de modo a servir de modelo para consumidores e
empreendedores de produtos e negócios ambientalmente saudáveis. A seguir, vamos
apresentar alguns pontos deste guia22:

Reduza a Quantidade de Lixo e Colabore com a Reciclagem:

21 BRUNDTLAND, G.H.(org.). Nosso Futuro Comum: Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento. Rio de Janeiro, Ed. Da Fundação Getúlio Vargas. 1991.
22 Jornal A Gazeta Mercantil. Junho. 1993.
22

2
20- Colabore com a Reciclagem: Separe jornais, garrafas, plásticos e latas. A
reciclagem economiza energia e usa materiais que de outra forma seriam inutilizados
como lixo. Uma lata de refrigerante feita com alumínio reciclado usa menos 50% da
energia necessária para fazer uma com matéria-prima, causa 90% menos poluição do
ar e 95% menos poluição da água.
21- Procure Produtos com o Símbolo da Reciclagem: Restrinja-se ao vidro, metal
ou papel, que são materiais mais próprios para a reciclagem. Em 1988, somente 3% do
lixo plástico produzido nos EUA foi coletado para a reciclagem.
22- Evite Produtos com Embalagens feitas de Material Misto: As combinações de
diferentes plásticos são quase impossíveis de reciclar hoje, ainda assim, a maioria dos
alimentos congelados e para microomdas são embalados em material que mistura três
ou quatro tipos de plásticos. Isto deve mudar nos próximos anos, pois empresas como
a Wellman Inc. e a Du Pont estão pesquisando métodos que permitam separar os
diferentes tipos de plásticos para que eles possam ser reutilizados.
23- Use Produtos de Papel Reciclado: Se você não usa material reciclado, não está
reciclando nada. Sem um mercado que demande materiais reciclados, a reciclagem
não dará certo ou se tornará outra indústria subsidiada. Em casa e no trabalho, use
produtos de papelaria, papel higiênico e papel para impressão feitos com pelo menos
50% de fibras recicladas.
24- Reutilize os Recipientes e Produtos Tanto Quanto Possível: Pergunte a amigos
e vizinhos se eles precisam das coisas que você pretende descartar, doe a organizações
para revenda ou distribua entre os necessitados. Procure comprar de segunda mão
roupas, móveis e tudo o que se possa limpar com segurança em feiras, bazares.
25- Compre em Grandes Quantidades: Isto reduz o excesso de embalagens e
economiza dinheiro a longo prazo.
26- Fraldas: Use as de pano que você mesmo lava ou use um serviço de fraldas.
Os tecidos felpudos são os melhores materiais para fraldas. As fraldas reutilizáveis são
muito mais baratas do que as descartáveis e podem ser usadas durante todo o tempo
em que o seu filho precisar delas.
27- Evite Produtos Dercartáveis: Compre canetas que usem cartuchos ou sejam
recarregáveis. Use giletes com lâminas substituíveis em vez das totalmente
descartáveis.
28- Evite Produtos com Embalagens Excessivas e Desnecessárias: Entre dois
produtos equivalentes, escolha o que use a embalagem mais simples e feita com um
único tipo de material.
29- Leve a Sua Própria Sacola Quando for Fazer Poucas Compras: Se você
comprar pequenos artigos, coloque-os em sua bolsa ou pasta em vez de pegar uma
sacola de plástico da loja.

Preserve o Meio Ambiente

35- Não Compre Produtos Fabricados à Custa de Espécies em Perigo de Extinção


ou Exploradas em Excesso: Evite peles, marfim, pele de répteis, casco de tartarugas e
madeiras raras.
36- Faça ou Colabore com um Jardim Comunitário: Nas áreas urbanas, os jardins
unem as comunidades e trazem um pouco de natureza/verde para as cidades.
37- Plante Árvores: As árvores transformam dióxido de carbono em oxigênio.
Uma árvore adulta pode substituir cerca de 22 Kg de dióxido de carbono por ano. As
árvores podem evitar a erosão e a desertificação. Plantadas de forma estratégica à
volta de uma casa, elas podem reduzir as necessidades de refrigeração em 10 a 15%.
2
38- Apóie as Organizações que Trabalham pelas Causas que o Preocupam:
Torne-se membro ou dedique um pouco do seu tempo ao trabalho voluntário.
Informe-se na sua cidade sobre como entrar em contato com as organizações do seu
interesse.
39- Escreva Cartas: Diga a seu vereador, deputado ou senador como se sente
quanto às questões ambientais ou à legislação específica. Entre em contato com os
orgãos ambientais da sua cidade e exija a legislação ambiental.
40- Insista com a Escola de Seu Filho para que Providencie Educação Ambiental:
Ainda temos a chance de restaurar uma harmonia saudável com a natureza se a
preocupação com o meio ambiente em que vivemos se tornar uma segunda natureza.
41- Insista em Seu Emprego ou Companhia para que Todos Assumam uma Atitude
Mais Alerta aos Problemas Ambientais: É possível economizar energia em seu
trabalho? O papel usado é reciclado? Os materiais que vão para o lixo são separados e
encaminhados para a reciclagem?
42- Assine o Abaixo-Assinado do Dia da Terra 1990: Compre e use produtos
menos perigosos para o meio ambiente e fabricados por empresas que promovem a
responsabilidade ambiental. Escreva para: Earth Day 1990, P.O. Box AA, Stanford,
CA 94.309, EUA23.

Uma prova que as posturas ambientalmente corretas começam a ganhar corpo em


todo mundo, foi a inauguração em junho de 1993 da nova loja da Wal-Mart, em
Kansas, EUA. A nova loja, chamada de eco-loja, é mais clara e espaçosa, construída
com vigas de madeira em vez de aço e oferece clarabóias que permitem que o interior
seja iluminado com luz natural e apresenta um sistema de ar condicionado que não usa
clorofluorcarbono- CFC's. A reciclagem é o tema da loja, com letreiros colocados
através de todo o estacionamento transmitindo mensagens sobre como reciclar, tais
como reduza, recuse, recicle. A loja recicla todo o seu lixo junto com o dos clientes,
que podem utilizar um centro local para reciclagem de papel, alumínio, vidro e outros
materiais. Após pagar as compras, os usuários são encorajados a se desfazer das
embalagens numa estação de reciclagem dentro da loja, próximo da saída. Bancos de
materiais reciclados, inclusive plástico e alumínio foram espalhados pela loja.
Consultores ambientais dizem que a eco-loja da Wal-Mart marca o primeiro
movimento consciente de um grande varejista para executar iniciativas ambientais da
comunidade local dentro dos seus muros. Esquecendo a motivação - que é meramente
maquiagem verde - as companhias estão se movendo em direções ambientalmente
responsáveis e estão sendo premiadas pêlos consumidores que desejam que isto
ocorra, diz Robert P. Corman, Presidente da Partnership for Social Enterprise, um
grupo de acessoria à corporações sem fins lucrativos24.
Seguindo a mesma linha da Wal-Mart, o complexo Lar Center/Center Norte -
shopping-center da cidade de São Paulo - comercializou em dezembro de 1994, 40
toneladas de papel e papelão. Segundo a Sra. Glória Baungart, responsável pelas áreas
de propaganda, marketing e eventos do Lar Center/Center Norte, o material consiste
basicamente em caixas de embalagens que são prensadas e enfardadas. Depois é
feita uma pesquisa em várias fábricas de papel para vender o material. O dinheiro
arrecadado é colocado em uma caderneta de poupança que garante parte da
manutenção de uma creche na Vila Guilherme25. A Sra Baungart afirma que a idéia
surgiu no início da implantação do shopping porque observou-se um acúmulo muito
grande desse tipo de embalagens. Nos meses de movimento normal no shopping,
23 BERLE, G. O Empreendedor do Verde: A Oportunidade de Negócios em que Você pode Salvar a Terra e
ainda Ganhar Dinheiro. São Paulo, Makron Books do Brasil. 1992.
24 Jornal A Gazeta Mercantil. Junho. 1993.
25 Jornal Jornal do Brasil. Março. 1995.
3
chegam a ser recolhidas de 20 a 25 toneladas de papel e papelão e, que será iniciada
uma pesquisa para começar a coleta seletiva de lixo para os usuários do complexo -
6,5 milhões de pessoas por mês circulam pelos 48 restaurantes e 600 lojas26.
No estado de Washington, o Instituto Americano do Ferro e do Aço acaba de
lançar uma campanha para promover o uso do aço para construção civil. Segundo o
Sr. Rick Haws, pesquisador do instituto passamos muito tempo sem alertar a opinião
pública para a reciclabilidade do aço, e agora vamos suprir esta deficiência 27. A
campanha já começa a surtir efeitos e o aço já está sendo compreendido como não
prejudicial ao meio ambiente e uma alternativa barata para o uso da madeira. O aço é
70% reciclável e, assim não destruímos as florestas e por outro lado, há toneladas de
carcaças de automóveis feitos de aço pelas ruas e nos depósitos de lixo, afirma John
Picard, construtor civil de 34 anos que acaba de construir sua casa usando aço e outros
materiais e técnicas alternativas28.
Em novembro de 1993 deverá estar à disposicão o primeiro equipamento de
pequeno porte, fabricado no país, para recolhimento e reciclagem de gases CFC's.
Desenvolvido pela Atenas Indústria e Exportação Ltda, fabricante de componentes e
ferramentas para refrigeração, em conjunto com a Empresa Brasileira de
Compressores - Embraco - é destinado para recolhimento dos gases CFC's de
refrigeradores e ar condicionados de uso doméstico. Além da perspectiva da
reciclagem destes gases, a Du-Pont está criando novos gases alternativos aos CFC's29.
Os novos produtos são o SUVA MP 39 e MP 66 e o SUVA HP 80 e HP 81, que
segundo a Du-Pont tem um impacto 98% menor na camada de ozônio do que seus
similares. Estes produtos podem ser uma alternativa barata para substituição de todo
CFC uma vez que, até 1995, segundo a Convenção de Montreal, será proibido o seu
uso no mundo.
A construtora Carioca João Fortes Engenharia Ltda. está lançando, no Rio de
Janeiro, um novo empreendimento residencial, o Ocean Drive Resort, orçado em US$
35 milhões. Nele, os blocos de apartamentos foram projetados de forma que as áreas
comuns recebam o máximo de iluminação natural, evitando assim o uso de luz
artificial nos halls dos elevadores durante a maior parte do dia. O empreendimento
contará ainda com uma estação de tratamento de águas e esgotos e sistema de coleta
seletiva de lixo, que será comercializado e sua renda revertida para o condomínio. O
Ocean Drive começa a ser construído em agosto de 1993 e deve ficar pronto em
199630.
O desenvolvimento e aplicação de materiais de construção de baixo custo e
reduzido consumo de energia torna-se uma exigência atual básica. Os materiais de
construção convencionais requerem elevados investimentos de capitais, consomem
grandes quantidades de energia e matérias-primas não renováveis. Em contraposição,
o uso de materiais de origem vegetal - como a madeira, o bambú e as fibras vegetais -
proporciona considerável economia de energia e recursos.
Foi pensando nestes aspectos - e nos baixos salários e na falta de moradias
adequadas de uma parcela significativa da nossa população - que alguns cientistas,
engenheiros e arquitetos vem desenvolvendo materiais e técnicas de construção para

26 Jornal Jornal do Brasil. Março. 1995.


26 Jornal Jornal do Brasil. Janeiro. 1992.
27 Jornal Jornal do Brasil. Janeiro. 1992.
2728 Jornal A Gazeta Mercantil. Setembro. 1995.
2829 Jornal A Gazeta Mercantil. Julho. 1993.
29

30

4
barateamento das unidades de moradia. O emprego do bambú - como substituto do
aço em estruturas de concreto armado - é uma das alternativas.
O bambú, como a madeira, é vulnerável à deterioração causada pelo ataque de
fungos e insetos. Por isso, o tratamento preventivo do bambú consiste na aplicação de
produtos químicos que conservam a qualidade do material e impedem que ele seja
atacado por seres vivos que se alimentam de madeira. O bambú apresenta uma
resistência à tração tão grande ou superior à do aço, a um custo econômico e
ambiental muito inferior31.
O Instituto de Pesquisas Tecnológicas - IPT - de São Paulo desenvolveu um novo
tipo de argamassa - material normalmente usado para unir tijolos ou para revestir
paredes - que tem como principais componentes o lixo industrial de siderúrgicas e
fibras de coco. Os pesquisadores do instituto fizeram um bloco com o material, que
testado em laboratório e em campo, mostrou ter mais resistência, segurança,
durabilidade e impermeabilidade do que o concreto comum possibilitando, também,
uma redução de 20% no custo da construção. Os pesquisadores já construíram uma
casa modelo no bairro de Vila Nova Cachoerinha, em São Paulo.
A fórmula da nova argamassa emprega escória de alto forno moída- gipsita, cal
hidratada, areia e, a tudo isso junta-se 2% de fibras de coco. A quantidade de fibra de
coco parece pequena, mas é bastante significativa. Cerca de 2% de fibra vegetal em
argamassa é muita coisa. Sem ela, a estrutura quebra, pois é a fibra de coco que dá
uma resistência três vezes maior, afirma o coordenador da pesquisa o Sr. Wanderley
John. Segundo o Sr John, o Brasil usa por ano cerca de 2 milhões de toneladas de
fibras de coco na indústria de estofados para automóveis. Mas, 98% dessa matéria-
prima que chega aos depósitos das fábricas é eliminada por se tratar de fibras curtas.
E, justamente estas fibras curtas que foram testadas pêlos pesquisadores, que
misturadas aos resíduos de produção de ferro gusa - que também iriam para o lixo -
que se levou adiante a construção da casa modelo32.
A indústria do vestuário foi a primeira a investir em produtos mais ambientalmente
corretos. Agora, a Hering Têxtil S. A. está lançando uma camiseta produzida com
matérias-primas 100% naturais: malha de algodão tingida com corantes feitos à base
de frutas, legumes, raízes entre outros. A tecnologia foi obtida junto ao Consórcio
Ecotex, que reúne um pool de empresas voltadas para o desenvolvimento e domínio
de tecnologia de artigos têxteis 100% naturais. Não se trata apenas de um produto
mas de um conceito, afirma o diretor de marketing e comércio exterior, Sr. Ulrich
Kuhn. Segundo ele, o produto não tem um interesse comercial imediato, tendo em
vista o seu custo (entre US$ 7 e US$ 8) mas entendemos que a busca do equilíbrio
ecológico não é apenas um modismo e sim uma tendência mundial33.
Seguindo os mesmos passos da tendência mundial, a Filobel têxtil, do grupo Safra
S.A., está lançando o Eco-ton, uma linha de tecidos naturais de fio de algodão que
obedece à requisitos técnicos em sua produção para reduzir os impactos sobre o meio
ambiente e a saúde do consumidor. Os produtos são feitos de 100% algodão e com
corantes atóxicos e biodegradáveis, que exige apenas 1/5 da quantidade de água
normalmente usada o que significa, também redução de lançamento de efluentes. O
algodão para a confecção da malha é colhido manualmente, evitando o uso de
produtos químicos34.
As ermpresas de veículos e de combustíveis, também, estão entrando no mercado
verde. Começaram a circular na cidade de Berlim, na Alemanha, os primeiros taxis
31 GHAVANI, K. Bambú: um material renovável na construção civil. In: Desenvolvimento em Harmonia com
o Meio Ambiente. Fundação Brasileira para Conservação da Natureza – FBCN. 1992.
32 Jornal O Globo. Julho. 1993.
33 Jornal A Gazeta Marcantil. Junho. 1993.
34 Jornal A Gazeta Mercantil. Junho. 1993.
5
verdes, cujo combustível é chamado de biodiesel, que resultou da aliança entre
agricultores, fabricantes de automóveis, empresas de taxis e indústria química. Os
taxis verdes consomem um combustível feito a partir de óleo de colza, que tem o
mesmo rendimento dos veículos que usam óleo diesel normal, mas contaminam
menos o meio ambiente e podem ajudar a reduzir o consumo de petróleo. Por não
conterem enxofre, reduz até 50%, quando comparado ao diesel feito a partir do
petróleo, os gases poluentes e em cerca de 65% o dióxido de carbono, segundo um
estudo realizado pela Administração Federal de Ecologia, da Alemanha.
O consórcio automobilístico Daimler Benz, o grupo químico Henkel, várias
cooperativas agrícolas e a Confederação Alemã de Transporte de Passageiros, Taxis e
Automóveis de Aluguel deram apoio integral a iniciativa de introduzir o biodiesel. A
Daimler Benz já oferece automóveis mercedes-benz do modelo E-200D, preparados
para consumir biodiesel. A Opel, a Volkswagem e a Audi estarão em breve
oferecendo veículos adaptados para consumirem o biodiesel, que poderão também
utilizar o diesel normal em caso de dificuldade de se encontrar um posto de gasolina -
já existem 300 e está prevista uma rede de mais de 700 postos - que contenha o
combustível verde. Este combustível pode também ser utilizado por outros tipos de
veículos, como ônibus e tratores35.
Um relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico -
OCDE, indica que os biocombustíveis obtidos a partir do cultivo de colza e milho,
podem ajudar a reduzir a dependência do petróleo, e fornece uma fonte de energia
renovável, diminue as emissões de gases que produzem o efeito estufa e mantém a
produção das áreas agrícolas. A Agência Internacional de Energia - AIE - argumenta,
entretanto, que os preços do petróleo precisam se aproximar dos US$ 50 o barril para
que os biocombustíveis se tornem uma alternativa competitiva. Mesmo com isenções
de taxas vigentes, os biocombustíveis são mais caros do que aqueles que eles
substituem. Se puderem ser comercializados, provavelmente será com base no fato de
serem produtos verdes, que não afetam o meio ambiente, diz um relatório da AIE.
Produzir álcool etílico a partir da beterraba, que rende a maior quantidade de
combustível automotivo por hectare, provavelmente maximizaria a quantidade de
petróleo que poderia ser deslocada, informa a AIE. Mas, este é também o mais caro
dos biocombustíveis a partir de produtos cultivados. O único biocombustível líquido
que dá um produto similar é o álcool etílico proveniente da madeira, que também é um
dos que apresentam custo mais baixo, mas a tecnologia para este processo ainda não
foi provada. Os avanços, no que se refere ao cultivo e a tecnologia de processamento,
podem reduzir os custos dos biocombustíveis e defende a realização de mais pesquisas
nessas áreas, complementa o relatório da AIE.
A curto prazo, a produção de eletricidade a partir da madeira pode trazer um
resultado político mais satisfatório do que os outros biocombustíveis extraídos de
outras plantações, apesar da pouca contribuição para a redução da dependência do
petróleo. O custo de apoiar o uso da agricultura para produzir madeira para geração de
eletricidade seria provavelmente menor do que os apoios vigentes para a agricultura e
muito menor do que o custo da produção de biocombustíveis líquidos a partir do
cultivo de produtos alimentares, informa a AIE36.

35 Jornal Jornal do Brasil. Março. 1995.


36 Jornal Jornal do Brasil. Março. 1995.
6
5- Análise do Ciclo de Vida
A história da humanidade seria a preparação febril do seu
suicídio. Reforçaria a suposição de que, incapazes de gerir sua
própria agressividade e ganância, as civilizações tecnológicas
exterminariam-se logo que se tornassem capazes.
(Márcio Silveira Lengruber)

O conceito e a condução da análise do ciclo de vida de um produto ou


processamento industrial que o originou é relativamente recente e emergiram devido a
uma maior responsabilidade ambiental por parte dos governos, dos fabricantes e
consumidores.
O que é a análise do Ciclo de Vida?
A análise do ciclo de vida pode ser definida como um processo objetivo no sentido
de avaliar a carga sobre o meio ambiente de um produto, processo ou atividade, pela
identificação e quantificação de energia e matérias-primas usadas e, dos resíduos
gerados (em todas as etapas do ciclo, da produção ao descarte final pelo
consumidor) e deixados no meio ambiente. Consiste, ainda, em avaliar e implementar

7
as medidas de proteção ambiental cabíveis e necessárias (Real Sociedade Britânica
de Toxicologia e Química, Código de Práticas, 1991).
O primeiro estágio deste processo é um inventário ou levantamento de dados e, o
segundo é a interpretação destes mesmos dados, da produção até a destinação final dos
produtos e serviços ao seu término.
Um número muito grande de termos foram criados para designar e descrever este
processo. O primeiro deles, Análise do Ciclo de Vida, foi instituído nas décadas de 60
e 70 e envolvia, basicamente, o aspecto do consumo de energia. Porém, mais
recentemente, dois outros termos foram criados para designar esta nova concepção
ecológico-econômica: Inventário do Ciclo de Vida e Rotulação do Ciclo de Vida.
Outros termos, tais como Análise do Fluxo de Matérias-primas e Eco-balanceamento
também têm sido encontrados na literatura mais recente.
A análise do ciclo de vida é uma extensão óbvia e vital dos processos de
desenvolvimento autosustentado e de rotulação ecológica de bens e serviços que estão
sendo desenvolvidos e implementados em muitos países de todo mundo. Para garantir
o rótulo de ecológico de um produto, torna-se necessário uma auditoria para avaliação
das etapas de produção envolvidas, o consumo de matérias-primas e de energia, o
consumo de energia na sua utilização e, a quantidade e o(s) tipo(s) de resíduo(s)
gerado(s).
Estes estudos, no passado, ignoravam os impactos secundários, como a quantidade
de matérias-primas e energia utilizadas para construir a empresa e os problemas
ambientais de longo prazo (aumento da temperatura global - efeito estufa, o aumento
da destruição da camada de ozônio, aumento da erosão e desertificação do solo e, o
aumento das chuvas ácidas).
Entretanto, decidir onde começa e termina a coleta de dados e a avaliação para
estes estudos tem sido o ponto mais sensível e determinou a contenção da expansão
deste tipo de avaliação, principalmente no que diz respeito a padronização de
metodologias. Este processo é um exercício muito detalhado e, pelo menos, em teoria,
muito simples. A aplicação de metodologias próprias, com um mínimo de
padronização, produz uma coleção de dados precisos e complexos. De posse desta
coleção de dados, estará ultrapassado o primeiro estágio do processo da análise do
ciclo de vida. Agora, entra em cena o segundo estágio: a avaliação destes dados e o
estabelecimento de metodologias e padrões de análise dos mesmos. Este é o aspecto
mais difícil de se julgar e interpretar.
Usando como exemplo, a produção de papel, vamos perceber algumas sutilezas na
avaliação dos dados. Quantos quilogramas de polpa de celulose foram usados, quanto
foi o consumo de energia, quantos litros de água foram gastos, quanto de poluentes foi
lançado nos corpos d’água e no ar e, por último, quanto de papel foi gerado no final
do processo. Porém, o processo não termina aí.
Resta saber qual a quantidade deste papel que foi para os aterros e lixões e qual o
seu percentual de retorno para reciclagem. Outro aspecto importante diz respeito ao
tempo de biodegradabilidade deste papel nos aterros e os possíveis impactos sobre o
meio ambiente.
E, é aqui que surgem os grandes problemas e conflitos envolvendo a análise do
ciclo de vida dos produtos e serviços. As decisões sem bases científicas seguras
podem criar distorções graves. Por exemplo, o que é pior: o lançamento de toneladas
de poluentes com um pequeno grau de toxidade (e, aí surge a questão: o que é um
pequeno grau de toxidês?) ou alguns quilogramas de dioxinas ou de PCB’s (bifenilas
policloradas) - substâncias altamente poluentes e tóxicas?
Estas questões são altamente subjetivas e individuais. Além disso, sem um critério
mínimo de padronização da medição e avaliação dos graus de poluição e toxidade,
2
não será possível se avaliar cientificamente esta questão. Outros aspectos são,
também, relevantes:

■ Como comparar alto consumo de energia com alto consumo de água? Qual deles
impõe maior impacto ambiental? Qual deles produz maiores impactos de longo
prazo?
■ Como comparar e avaliar o uso de recursos naturais renováveis com os não
renováveis? Como podemos avaliar o uso da bauxita - na produção de alumínio - e a
exploração de determinados recursos pesqueiros?
■ Como podemos avaliar os impactos dos aterramentos sanitários e da queima de
incineradores?
■ Um dos critérios que poderia ser utilizado neste - e em outros casos - é o da
necessidade deste ou daquele produto. Mais uma vez entramos num campo muito
nebuloso. O que é considerado como necessidade em nossos dias? Definir claramente
necessidades de maneira global é, provavelmente, uma questão muito difícil sem levar
em consideração a divisão de classes sociais e econômicas, as diferenças e os aspectos
regionais e nacionais.

Alguns estudos pilotos tem tentado estabelecer critérios mais definidos para
avaliação de impactos imediatos após a produção e descarte dos mais variados bens.
Outros, tentam definir os impactos de longo prazo. Porém, na prática uma questão
muito importante vem a tona: as empresas, devido a intensa competição por mercados,
ajudados ainda pela globalização da economia, estão constantemente lançando novas
metodologias de produção, novos produtos e novos serviços.
Então, como avalia-los? Seria necessário que antes que estes produtos ou serviços
fossem lançados no mercado, se determinasse a análise dos seus prováveis impactos.
Mas, como avaliar estes impactos se estes produtos ainda não estão no mercado?
Vários estudos preliminares chegaram a conclusões diferentes e contraditórias
sobre diversos produtos, similares ou não. As comparações são normalmente muito
difíceis de serem levadas a cabo. Imagine a comparação entre dois produtos
alimentícios que consumam embalagens industrializadas. Como comparar os aspectos
da produção das embalagens sem levar em consideração aspectos importantes como o
transporte dos centros de produção até o mercado consumidor?

■ Se o transporte for feito por via ferroviária ou hidroviário os impactos são de


uma forma. Por outro lado, se o transporte for rodoviário, será outro;
■ Também, devemos considerar que em caso de o transporte ser do mesmo tipo,
um aspecto que poderá entrar em cena é o tipo de veículo a ser utilizado neste
transporte. Por exemplo, são usados normalmente veículos longos, de 12 toneladas de
carga. Estes veículos economizam no transporte, já que carregam mais mercadorias
por unidade de espaço e consumo. Porém, ao entrarem nas cidades contribuem
enormemente para engarrafar o já caótico trânsito das grandes metrópoles, acarretando
um aumento - indireto do consumo de combustíveis fósseis. Além disso, trazem um
aumento considerável do stress sobre a população. E agora, como avaliar e mensurar o
strees e agrega-lo ao cálculo do ciclo de vida?
■ No caso do transporte não ser um critério possível de ser utilizado, as
embalagens devem ser analisadas em relação aos seus respectivos percentuais de
reciclabilidade, de reciclados em sua composição, sua taxa de recuperação e se
apresentam produtos tóxicos (tintas, por exemplo) em sua composição. A taxa de
reciclabilidade de uma matéria-prima também pode ajudar a criar distorções. Os
metais podem , em teoria, ser reciclados indefinidamente sem que haja perda do seu
2
padrão de qualidade. Já os plásticos e o papel têm limitações neste aspecto. Por
exemplo, o papel após 4 ou 5 processos de reciclagem tem uma redução nos tamanhos
das suas fibras, inviabilizando a sua continuidade, a não ser que sejam introduzidas no
processo um certo percentual de fibras virgens.

Em muitas situações torna-se impossível concluir acerca da qualidade entre dois


produtos semelhantes ou entre os processos de produção de bens e serviços. O
fornecimento por parte das empresas de inventários e dados detalhados sobre os
processamentos e utilização de matérias-primas e energia ajudaria na criação de um
banco de dados muito importante e, a partir daí, poderia se pensar em análises mais
precisas e realistas. A criação de comissões especiais, compostas por ambientalistas,
representantes da sociedade civil, das administrações e dos governos, das indústrias e
do comércio e, da comunidade científica poderia contribuir decisivamente para se
estabelecer parâmetros e metas a serem cumpridas, de modo a privilegiar, ao mesmo
tempo, aspectos ecológicos e econômicos. A participação dos consumidores neste
processo de tomada de decisões é, também, de suma importância. Na realidade, são os
consumidores que poderão fornecer valiosas informações sobre a qualidade e
eficiência no uso dos produtos e serviços.
As análises sobre o ciclo de vida de bens e serviços tenderão a tornar-se uma
importante ferramenta na implantação da ISO 14.000. Além disso, e, por causa disso,
a implantação da ISO 14.000 (certificação da qualidade ambiental de um produto ou
serviço) poderá se tornar o divisor de águas na competição por novos mercados no
fenômeno de globalização econômica que ora está em curso no mundo. Esperamos,
então, que as análises do ciclo de vida seja uma importante ferramenta na preservação
dos recursos naturais e na melhoria da qualidade ambiental da Terra. É, o que nós
esperamos, tanto para nós mesmos quanto para as futuras gerações.

6- O Crescimento Populacional
O casamento do capitalismo com a ecologia acabará
sempre em divórcio.
O amor ao lucro seduz mais que o amor ao planeta.
(Fernando Gabeira)

População é um conjunto de indivíduos de uma mesma espécie, que vivem numa


mesma área, ao mesmo tempo e, que possuam a capacidade de gerar descendência
fértil37. Em seu meio ambiente natural, as populações oscilam de geração em geração.
Mas, considerando-se um período de tempo maior, sua tendência é manter o tamanho
constante.
O tamanho de uma população natural depende do balanço entre natalidade,
mortalidade (predação, parasitismo e competição com outros seres vivos) imigração e
emigração. Assim, uma população poderá:

■ aumentar de tamanho em função da redução da mortalidade, aumento da


natalidade ou imigração de outros indivíduos;
■ diminuir de tamanho, quando a mortalidade superar a natalidade ou ocorrerem a
emigração de indivíduos;
■ manter-se-á estável quando houver uma situação de equilíbrio entre natalidade e
imigração versus mortalidade e emigração.

37 SARIEGO, J.C. Educação Ambiental: As Ameaças ao Planeta Azul. Rio de Janeiro, Editora Scipione.
3
Nunca em toda a sua história, a humanidade se multiplicou a uma velocidade tão
acelerada, consumiu tantos recursos naturais e degradou tanto o meio ambiente. A
explosão demográfica representa uma séria ameaça aos ecossistemas terrestres,
podendo trazer consequências terríveis e irreversíveis para todos os seres vivos que se
entrelaçam nesta teia gigantesca chamada Planeta Terra. Poucos são os governantes e
analistas demográficos a compreender que uma população mundial que cresce num
ritmo de 3% ao ano, índice aparentemente despretensioso, na verdade se multiplicará
por 19 em um século.
Ao longo da presente e da próxima década, a humanidade estará se proliferando ao
ritmo acelerado de 97 milhões de pessoas por ano (250.000/dia ou 3/segundo). A cada
ano, 81 milhões de pessoas abandonarão o campo e passarão a viver nas regiões
metropolitanas das megas e grandes cidades. As aglomerações urbanas que mais
incham são aquelas dos países em desenvolvimento, onde não há nenhum tipo de
planejamento e infra-estrutura sanitária básica e onde os recursos financeiros são cada
vez mais escassos, acarretando poluição, fome e miséria; aumento da violência,
criminalidade urbana e, destruição ambiental.
Quando a população mundial ultrapassou a marca dos 4 bilhões de habitantes,
atingiu um nível além do qual seu aumento assume um outro caráter inquietante.
Agora, mais do que nunca, este crescimento começa a reduzir a capacidade produtiva
e regenerativa dos sistemas biológicos. Assim, a preocupação com o crescimento
populacional desperta a atenção para com o progresso e a igualdade do ser humano.
Os 12 mil anos que transcorreram desde o nascimento da agricultura e o advento
da revolução industrial foram marcados por um crescimento populacional que se
acelerou gradualmente. Ademais, a revolução industrial tornou ainda mais acelerado
este processo uma vez que, passou a oferecer novas ofertas de trabalho, melhoria da
renda, geração de tecnologia e novas oportunidades econômicas se abriram para
empresários e trabalhadores. A melhoria da qualidade dos serviços de saúde e dos
meios de produção agrícola foram consequências da era pós-revolução industrial.
Evidentemente, que estes foram fatores decisivos para elevar ainda mais as taxas
anuais de crescimento: reduziram-se as taxas de mortalidade com o advento de
condições médico-sanitárias mais eficientes. Assim, enquanto a população mundial
aumentou de 2 a 5% ao século durante os primeiros 1.500 anos da nossa era, hoje, em
muitos países, encontra-se em níveis alarmantes de 3 a 4% ao ano, se aproximando da
capacidade limite do nosso planeta. O espaço de tempo que agora a população
aumenta de 1 bilhão tornou-se extremamente curto, conforme mostra a tabela I.5.1.

População Anos Ano que


Mundial Transcorridos Atingiu
(Em Bilhões)
Um (1) 2.000.000 1830
Dois (2) 100 1930
Três (3) 30 1960
Quatro (4) 15 1975
Cinco (5) 11 1986
Seis (6) 9 1995
(fonte: Nações Unidas - ONU, 1986)

Nos países industrializados, o índice global do crescimento populacional é inferior


a 1% ou já estão chegando a zero. A população dos países industrializados pode
aumentar dos atuais 1,2 bilhões para cerca de 1,4 bilhões em 2025. A maior parte do
aumento da população global deverá ocorrer nos países em desenvolvimento, que
passarão dos atuais 3,7 bilhões em 1985 para prováveis 6,8 bilhões em 2025.
1
Segundo dados das Nações Unidas, ao terminar a II Grande Guerra, 400 milhões de
pessoas viviam nas cidades dos países do primeiro mundo e 200 milhões nas cidades
dos países do terceiro mundo. Em 1970, eram 600 milhões tanto no primeiro quanto
no terceiro mundo e, já na década de 90, inverteu-se a relação: 1,2 bilhão de pessoas
nos países mais pobres e 700 milhões nos países ricos. Inclusive, este brusco aumento
populacional não foi acompanhado pelo crescimento da oferta de empregos, de infra-
estrutura urbana e serviços públicos básicos. Segundo estimativas da ONU, no ano
2000, 18 das 20 cidades com mais de 10 milhões de habitantes e 2 das maiores
cidades do Mundo estarão na América Latina- provavelmente, a Cidade do México e a
cidade de São Paulo. São cidades que terão de conviver com a miséria, a escassez de
recursos financeiros e a destruição ambiental gerada pela pobreza38.
Entre os anos de 1985 e 2000, a força de trabalho nos países em desenvolvimento
aumentará em cerca de 900 milhões de pessoas, com o que terão de ser criadas novas
formas de sustento para 60 milhões de pessoas por ano. O acentuado declínio nas
taxas de natalidade nos países industrializados deveu-se em grande parte ao
desenvolvimento econômico e social. Os níveis cada vez mais altos de renda e
urbanização e, o novo papel desempenhado pelas mulheres na moderna sociedade
ocidental, tiveram grande influência neste processo. A tabela I.5.2 mostra o rápido
aumento populacional, em algumas cidades do terceiro mundo, da década de 50 e sua
projeção para o ano 2000.
Outro problema enfrentado pelas nações que apresentam elevados índices de
crescimento populacional, que são aquelas sociedades pré-industriais do terceiro
mundo, é que grande parte da sua população são compostas de jovens. Dados da ONU
mostram que nestas nações 50% dos indivíduos ainda não completou 19 anos e, em
muitos países pobres os números são ainda mais assustadores. No Paquistão, por
exemplo 46% tem idade inferior ou igual a 15 anos. No Peru e na Nigéria esta cifra
está entre 40 e 45% da população. A médio e longo prazo, os governos destes países
se defrontarão com um problema muito sério: onde e como conseguir trabalho,
moradia e alimento para toda esta população?

Cidade 1950 Cifra Mais Ano 2000


(em Milhões) Recente (em Milhões)
(em Milhões)
Cidade México 3,05 16,0 ( 1982 ) 26,3
São Paulo 2,7 12,6 ( 1980 ) 24
Bombaim 3,0 8,2 ( 1981 ) 16
Cairo 2,5 8,5 ( 1979 ) 13,2
Bogotá 0,61 3,9 ( 1985 ) 9,6
Nairobi 0,14 0,83( 1970 ) 5,3
Manilha 1,78 5,5 ( 1980 ) 11,1
Nova Délhi 1,4 5,8 ( 1981 ) 13,3
(fonte: Nações Unidas - ONU, 1991)

Embora o problema demográfico seja multi-disciplinar, o que mais chama a


atenção dos planejadores governamentais é o aspecto da alimentação. Evidentemente
que isto é devido, ainda hoje, ao impacto causado pela obra Um ensaio sobre o
princípio da população de Thomas R. Malthus, puplicado em 1797. Segundo Malthus,
as populações tendem a crescer de forma exponencial enquanto os recursos
alimentares crescem de forma aritmética, exercendo forte pressão sobre os recursos
alimentares. Analisando a questão sob o ponto de vista econômico, social e ambiental,

38 Jornal A Gazeta Mercantil. Junho. 1993.


1
diversos estudiosos da demografia ressaltaram os problemas que uma sociedade com
altas taxas de crescimento poderá enfrentar:

■ aumento da pressão sobre os recursos naturais e matérias-primas, que gera


defasagem na produção e aumento nos preços dos manufaturados e alimentos. Isto vai
acarretar aumento da inflação e do desemprego;
■ o desemprego traz recessão econômica, fazendo baixar as taxas de crescimento
da economia e o nível de vida da população. Devido a isso, os governos têm reduzido
a sua arrecadação de impostos. A redução da arrecadação faz os governos
aumentarem as alíquotas dos seus impostos para equilibrar sua receita;
■ Diante deste quadro, os governos reduzem os investimentos em educação,
saneamento básico e saúde, comprometendo ainda mais o nível de vida da população.
O aumento dos impostos gera mais desemprego, mais recessão e mais inflação, numa
espiral crescente assustadora;
■ Esta situação vai fazer com que haja aumento da violência, da criminalidade, da
prostituição, do número de pessoas que vão morar nas ruas, crianças abandonadas,
analfabetismo, desnutrição, aumento das doenças. À longo prazo, os riscos de
convulsão social são enormes pondo, em cheque inclusive, a democracia, caso este
seja o regime vigente.

Projeções da ONU revelam que a população mundial aumentará dos atuais 4


bilhões para um número entre 10 e 16 bilhões antes de estacionar. Do ponto de vista
meramente demográfico, essas projeções são bastante razoáveis. Todavia,
consideradas no contexto das tensões econômicas, sociais e ecológicas, elas são
descabidas. Os sinais de tensão nos principais ecossistemas e em muitas nações do
planeta, indicam que estes estão à beira do colapso. Esperar que estes ecossistemas
naturais suportem a triplicação ou quadriplicação é um desafio à lógica da ecologia e
da sociologia39.

Figura 4.1- Crescimento Populacional no Mundo, em Milhões de pessoas40.

Uma outra preocupação emergente dos planejadores urbanos que o crescimento


demográfico está suscitando, é a explosão populacional nos grandes centros urbanos.
Cerca de 90% do aumento, no mundo em desenvolvimento, ocorrerá nas áreas
urbanas, cuja população deverá passar dos atuais 1,15 bilhões para 3,85 bilhões em
2025. O que se observa é que as cidades incham a medida que a população urbana
cresce, devido não só ao aumento da natalidade mas também ao êxodo da população
rural que vai em busca de novas oportunidades nos centros urbanos.

Figura 4.2- Número de Cidades com mais de 8 Milhões de Pessoas no Mundo41.


É assustador verificar como, em pouco tempo, aumentou o número de cidades com
mais de 8 milhões de pessoas em todo o mundo. O resultado é a proliferação de
assentamentos e invasões de propriedades de maneira ilegal, com instalações
primitivas e índices alarmantes de doenças conjugadas a um ambiente insalubre. Este
inchamento gerado por tensões no campo, seria resolvido com um eficiente programa
de reforma agrária e assistência técnica ao produtor, de modo a melhorar a
produtividade no campo dos países do terceiro mundo. Muitos países utilizam
39 BROWN, L.R. Qualidade de Vida 1991: Salve o Planeta. São Paulo, Editora Globo. 1991.
40 MARTINE, G. O Crescimento Populacional do Brasil. Revista Ciência Hoje, vol.9, n051:29-35. 1989.
41 MARTINE, G. O Crescimento Populacional do Brasil. Revista Ciência Hoje, vol.9, n051:29-35. 1989.
2
extensas áreas para monoculturas voltadas para exportação ou, estas servem para
pastagens. Estas áreas, dominadas por grupos empresariais poderosos não trazem
nenhum benefício direto as populações locais. Pelo contrário, é muito comum a
violência contra líderes comunitários e sindicais, representantes da igreja engajados no
trabalho com estas comunidades e de organizações não governamentais. Deve-se
ressaltar que o número de analfabetos e sem terras aumentou muito nas últimas
décadas, principalmente nas regiões mais pobres do mundo. A tabela I.5.3 mostra a
número de famílias sem terras, em milhões, nas várias áreas do mundo e o percentual
sobre o número total de famílias na agricultura.

Região do Total Famílias Quase sem Terras Sem Terras


Mundo (em milhões) (milhões) (%) (milhões) ( % )
Ásia 162 94 58 31 13
África 46 29 63 3 7
América Latina 24 13 54 4 17
Total 232 136 59 31 13
(fonte: Organização de Alimentação e Agricultura - FAO, 1984)

Figura 4.3- Número de Pessoas - em Milhões - Desnutridas, e Analfabetas, projetadas para o ano de
199042.

Assim, se o ritmo de crescimento da população diminuir, quem mais irá lucrar


serão as grandes cidades, que se tornarão mais fáceis de administrar. A questão básica
é controlar este processo de modo a evitar uma séria deterioração da qualidade de
vida. Por isso, é preciso estimular a criação de centros urbanos menores, a fim de
reduzir as pressões sobre as grandes cidades. Caso isso não aconteça, os países em
desenvolvimento precisarão aumentar em 65% a sua capacidade de proporcionar
infra-estrutura, serviços e moradias apenas para manter as condições atuais, já
bastante precárias.
Ao longo da maior parte da sua história, o Brasil apresentou taxas de mortalidade e
de natalidade elevadas mas, mesmo assim, coube à imigração grande parte da
responsabilidade pelo crescimento da nossa população. O censo demográfico de 1980
mostrou uma clara tendência à queda das taxas de natalidade em todas as regiões e
camadas sociais do Brasil. Esta tendência se observou tanto no campo quanto nas
cidades de pequeno à grande porte.
O Brasil, assim como muitos países do terceiro mundo, comprimiu em algumas
décadas as transformações que levaram de um a dois séculos para se concretizar na
Europa e nos EUA. Porém, nos países em desenvolvimento esta transição não está
associada à extensão dos benefícios sócio-econômicos à sua população; pelo
contrário, aprofundaram-se ainda mais as desigualdades entre pobres e ricos,
aumentou-se o consumo de matérias-primas para confeccionar bens para exportação e
venda para as elites, aprofundando-se o desperdício de alimentos, matérias-primas e,
recursos econômicos e materiais foram mal aplicados e administrados em prol de uma
parcela muito pequena da população.

Figura 4.4- Taxas de Crescimento Populacional no Brasil de 1840 até 202043.

42 MARTINE, G. Luz no Túnel. Revista Globo Ecologia. Número Especial, Junho. 1992.
43 MARTINE, G. O Crescimento Populacional do Brasil. Revista Ciência Hoje, vol.9, n051:29-35. 1989.

1
A década de 80 foi palco de uma mudança fundamental na história demográfica do
Brasil, com significativas implicações no meio ambiente urbano. Pela primeira vez, as
duas maiores metrópoles - São Paulo e Rio de Janeiro - diminuiram sua participação
no conjunto da população brasileira. Em São Paulo, essa taxa recuou de 10,6% em
1980 para 10,4% em 1991. No Rio de Janeiro, o declínio foi mais acentuado,
passando de 7,4% para 6,6%, respectivamente.
Ao que tudo indica, o Brasil ingressou nos anos 80 num novo ciclo: o da
desmetropolização, liderada basicamente pela região sudeste, mas confirmada por
uma redução no ritmo de crescimento das demais regiões metropolitanas. De 1980 a
1990, as nove maiores metrópoles brasileiras cresceram apenas 1,88%, metade do
incremento demográfico observado na década anterior. Porém, essas grandes cidades
continuam a ter um peso importante na distribuição populacional do país. Três de cada
dez pessoas no Brasil residem hoje numa cidade metropolitana, com todas as
implicações sociais e ambientais que essa concentração acarreta.
Mais grave ainda é que, ao mesmo tempo que exibem uma perda de fôlego da taxa
global de crescimento, essas cidades passaram a viver mais intensamente o fenômeno
da periferização. Na média, o entorno mais pobre - e onde se observa os maiores
índices de pobreza e impactos ambientais - cresceu 2,96% ao ano, contra 1,26% no
caso dos municípios centrais44.
Segundo o Sr. Francisco Zepeda, coordenador de Saneamento Básico da
Organização Pan-americana de Saúde a América Latina tem hoje cerca de 450
milhões de habitantes, sendo que 325 milhões são os grandes produtores de lixo
urbano que necessitam de serviços de limpeza e disposição. As 250 mil toneladas/dia
produzidas são dispostas de maneira incorreta. Cuba e Chile são os países que tem
destinado mais adequadamente os seus resíduos. Se a população crescer a um ritmo
de 3% ao ano e a produção de lixo crescer 1% por habitante, esta quantidade pode
duplicar dentro de 15 a 20 anos45.
A tabela I.5.4 relaciona as quantidades (Kg) de lixo produzidas por habitante/dia.

Países Quantidade
(Kg/Habit./dia)
Brasil, Argentina e México 1,8
EUA 3,7
Europa 3,9
(fonte: Jornal Gazeta Mercantil, junho de 1993)

Figura 4.5- Crescimento Populacional em algumas cidades do Rio de Janeiro.

Para a Organização Pan-americana de Saúde a infra-estrutura necessária para


coletar e dispor adequadamente 250 mil toneladas de lixo nos países da América
Latina, exigiria investimentos da ordem de US$ 8 bilhões46.
Dados da Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro - Comlurb -
revelam que houve um aumento de 32,9% no volume de lixo produzido em nossa
cidade, nos últimos treze anos, enquanto a população residente aumentou somente 8%.
O aumento refere-se ao lixo produzido na capital pela população flutuante que vive
nas cidades da região metropolitana e circula na capital durante o horário de trabalho,
analisa o Sr. Paulo Carvalho Filho, ex-presidente da Comlurb.

44 MARTINE, G. O Crescimento Populacional do Brasil. Revista Globo Ciência, Número Especial. 1992.
45 Jornal A Gazeta Mercantil. Junho. 1993.
46 Jornal A Gazeta Mercantil. Junho. 1993.

1
Este lixo está revelando um alto índice de desperdício de matérias-primas e
alimentos, além do contínuo empobrecimento da cidade devido à migração cada vez
mais intensa para áreas sem infra-estrutura básica. Dados do IBGE mostram que as
populações das cidades-satélites do Rio de Janeiro vem crescendo à taxas superiores
as da capital. A tabela I.5.5 e o gráfico 5.5 ilustram este fato.

Cidades Taxas de Crescimento


(%)
Rio de Janeiro 0,88
Maricá 3,28
Itaboraí 3,16
Nova Iguassú 1,48
Duque de Caxias 1,31
(fonte: Jornal A Gazeta Mercantil, junho de 1993)

Para o Sr. Jorge Henrique dos Santos, coordenador do censo do IBGE e


responsável pela pesquisa é claro, porém, que a crescente migração da capital
fluminense para os municípios vizinhos é decorrente da queda do poder aquisitivo da
população. Este problema será tão mais grave quanto mais se aprofundar a crise
econômica no Brasil.

7-Economia, Desenvolvimento &


Meio Ambiente
Os povos dos países pobres são obrigados a fazer uma troca
explicita: aceitar a degradação ambiental, a longo prazo, e
a humilhação para atender as suas necessidades imediatas
de alimentos e habitação.
( Indira Gandhi )

Ao longo da sua história, a humanidade sempre foi além das suas próprias
fronteiras em busca de matérias-primas essenciais, seja através do comércio ou das
guerras, para satisfazer as suas necessidades. Hoje, devido à expansão do comércio
internacional e da globalização da economia, este fenômeno atingiu um estágio que
ameaça seriamente todos os ecossistemas do planeta. A busca de um desenvolvimento
mais harmonioso com o meio ambiente está exigindo mudanças drásticas na economia
1
das nações, seja daquelas que já atingiram a plena capacidade industrial como
daquelas que estão em vias de consegui-la.
Assim, um novo pensamento se apresenta ao mundo com pretensões de
universalidade: o ecológico, questionando o desenvolvimento e os modelos de
sociedade. Esse desafio é apresentado como necessidade de se repensar o
desenvolvimento na sua dimensão social. Recoloca a crítica dos sistemas existentes,
forçando o capital a se confrontar com o meio ambiente, que pretendeu e ainda
pretende subordinar em sua realização. O pensamento ecológico está dizendo ao
capital que antes dele vem a relação com a natureza, diante do qual o capital é apenas
uma criança brincando de Criador, sem ter idade e sabedoria para isso47.
Os problemas ambientais com que nos defrontamos não são novos, mas só
recentemente sua complexidade começou a ser entendida. Antes, nossas maiores
preocupações voltavam-se para os efeitos do desenvolvimento sobre o meio ambiente.
Hoje, temos de nos preocupar também como a deterioração ambiental pode impedir
ou reverter o desenvolvimento econômico.
Para que os intercâmbios econômicos internacionais beneficiem a todas as partes
envolvidas, é preciso que antes sejam atendidas duas condições: a manutenção dos
ecossistemas dos quais dependem a economia global deve ser garantida e os parceiros
econômicos têm de estar convencidos de que o intercâmbio se processa numa base
justa. Relações desiguais e baseadas em qualquer tipo de dominação não constituem
uma base sólida e duradoura para a interdependência. No caso de muitos países em
desenvolvimento não estão sendo atendidas nenhuma dessas condições.
Os vínculos econômicos e ecológicos entre as nações aumentaram depressa, o que
torna maior o impacto das crescentes desigualdades verificadas no desenvolvimento e
no poder econômico das nações. A assimetria das relações econômicas internacionais
agrava o desequilíbrio, pois as nações em desenvolvimento geralmente sofrem
influência das condições econômicas internacionais, mas não tem influência sobre
elas.
O ímpeto menos acelerado de expansão econômica e a estagnação do comércio
mundial na década de 80 desafiou a capacidade de todas as nações reagirem e
ajustarem-se. Porém, os países em desenvolvimento, principalmente os da África e da
América Latina, entre 1980 e 1984 perderam cerca de US$ 55 bilhões em suas
exportações devido à queda dos preços dos produtos primários. De fato, mais da
metade desses países teve seu PIB per-capita reduzido neste período em quase 10%.
As relações econômicas internacionais representam um problema particular para os
países pobres que tentam administrar seu meio ambiente, porque a exportação de
recursos naturais continua sendo fator de peso em suas economias, sobretudo no caso
dos menos desenvolvidos. A instabilidade e as tendências de preços adversos
enfrentadas pela maioria dessas nações impossibilitaram-lhes administrar suas bases
de recursos naturais com vistas a uma produção constante. O ônus cada vez maior do
serviço das suas dívidas externas e a diminuição de novos fluxos de capital
intensificaram as forças que levam a deterioração do meio ambiente e ao esgotamento
dos recursos, em prejuízo do desenvolvimento a longo prazo.
A perspectiva de crescimento, a médio prazo, das economias dos países
industrializados é de 3 a 4%, o mínimo considerado necessário pelas instituições
financeiras internacionais para que esses países participem da expansão da economia
mundial. Tais índices de crescimento podem ser sustentáveis do ponto de vista
ambiental se estas nações continuarem a orientar seu crescimento para atividades que
consumam menos energia e matérias-primas, e a usa-las de maneira cada vez mais
eficiente. Porém, à medida que estas nações usam menos matérias-primas e energia, se
47 ACSELRAD, H. Meio Ambiente e Democracia. Rio de Janeiro, IBASE. 1992.
2
tornam mercados cada vez menores para os produtos primários e os minerais que são a
fonte de exportação, e de renda, dos países em desenvolvimento.
Qual a solução?
Se os países em desenvolvimento concentrarem seus esforços em eliminar a
pobreza e satisfazer às necessidades humanas mais básicas, haverá um aumento da
demanda interna de produtos agrícolas e de manufaturados, e também de alguns
serviços. O desenvolvimento econômico e o desenvolvimento social podem e devem
apoiar-se mutuamente. Os recursos aplicados em educação, alimentação e saúde
podem aumentar a produtividade dos indivíduos e, consequentemente, o aquecimento
da economia. Portanto, na lógica do desenvolvimento econômico mundial está
implícito um estímulo, e uma necessidade, ao crescimento econômico das economias
dos países do terceiro mundo. Não só será possível estes países cumprirem com os
encargos de suas dívidas como também poderão começar a importar bens dos países
industrializados, tornando ainda mais aquecida a economia mundial.
Muitos países em desenvolvimento precisam, para crescer, de influxos externos de
capital. Dados os atuais índices de crescimento populacional, seria necessário um
crescimento global da renda nacional de cerca de 5% ao ano nas economias da Ásia,
5,5% na América Latina e de 6% na África. Se estes fluxos não forem suficientes, não
há qualquer perspectiva de melhoria do padrão de vida. Em consequência, os pobres
serão forçados a continuar a danificar o seu meio ambiente para poderem sobreviver.
Assim, fica muito difícil, e as vezes até impossível, o desenvolvimento a longo prazo.
Os recursos financeiros para os países em desenvolvimento diminuíram em termos
reais. Globalmente, há agora, de fato uma evasão. Nos anos da década de 90, o
aumento esperado de capital internacional para os países em desenvolvimento será
apenas metade daquele necessário para recuperar o crescimento em níveis que
permitam reduzir a pobreza. Porém, somente o aumento da remessa de capital externo
não basta; é necessário esforços internos: a correta aplicação desases recursos em
melhoria das condições das populações menos privilegiadas é o ponto crucial da
questão. É preciso ressaltar que a própria redução da pobreza é requisito para um
desenvolvimento ecologicamente viável. A pobreza reduz a capacidade das pessoas
para usar os recursos de modo sustentável, levando-as a exercer maior pressão sobre o
meio ambiente. Os indivíduos mais pobres do mundo concentram-se, atualmente, em
dois tipos de áreas: áreas rurais remotas e ecologicamente frágeis e, a periferia das
áreas urbanas - cada vez maiores. A tabela I.6.1 mostra a quantidade dos mais pobres
nas suas respectivas regiões do mundo.
Região Mundo Total de Pobres
( em milhões )
Sul da Ásia 390
China 84
Leste da Ásia 33
África Subsaariana 156
Oriente Próximo e Norte da África 39
América Latina 78
Total 780
(fonte: Banco Mundial, 1988)

Nos anos 80, as taxas de crescimento econômico declinaram acentuadamente ou


mesmo foram negativas em grande parte do terceiro mundo, sobretudo na África e na
América Latina. Entre 1981 e 1985, o crescimento populacional foi maior que o
crescimento econômico na maioria dos países em desenvolvimento. A deterioração
das relações de troca, as obrigações cada vez maiores dos serviços da dívida externa e
o protecionismo crescente nas economias de mercado desenvolvidas causaram sérios
3
problemas de pagamentos ao exterior. O custo mais alto dos empréstimos externos,
numa época em que as exportações estavam em baixa, também contribuiu para a crise
da dívida em muitos países em desenvolvimento. Após esta crise, tornaram-se
especialmente onerosos os programas de austeridade traçados pelo Fundo Monetário
Internacional - FMI - como requisito para aumentar os créditos destinados a atender às
necessidades a curto prazo do balanço de pagamentos. E, isso foi uma mudança
radical em relação aos anos 60 e 70, onde o rápido crescimento econômico era visto
como uma ameaça ecológica. Agora, essa ameaça reside na recessão, na austeridade e
na brutal queda do padrão de vida que agravaram mais as pressões sobre o meio
ambiente.
Em face dos montantes envolvidos, o impacto da dívida foi mais visível em alguns
países da América Latina. Em 1985, a dívida mundial total era de US$ 950 bilhões
dos quais, cerca de 30% eram devidas por quatro países: Argentina, Brasil, México e
Venezuela. Nos anos 60 e 70, o crescimento econômico da América Latina, cerca de
5% ao ano, foi facilitado por empréstimos dos países industrializados, em grande parte
por serem países ricos em recursos naturais. Devido a recessão mundial dos anos 80,
os mercados de exportação se retraíram e políticas monetárias restritivas fizeram as
taxas de juros globais atingirem níveis nunca vistos. Além disso, a evasão de capital
agravou o problema. Em consequência, as importações latino-americanas caíram em
40%, em termos reais, em três anos. A retração daí decorrente trouxe vários
problemas:

■ redução em 8% do PIB dos oito principais países;


■ diminuição dos salários e aumento do desemprego;
■ aumento da pobreza e da degradação das condições urbanas e ambientais.

As transferências líquidas de sete dos principais países da América Latina


somaram quase US$ 39 bilhões em 1984, e, nesse mesmo período, 35% das receitas
de exportação foram destinadas ao pagamento dos juros da dívida. Essa drenagem
maciça de recursos representa de 5 a 6% do PIB da região, cerca de 1/3 da poupança
interna e quase 40% das receitas de exportação. Ela adveio de políticas de ajustamento
que impõem cortes drásticos e desiguais nos salários, nos serviços sociais, no
investimento, no consumo e no emprego, tanto no setor público quanto no setor
privado, agravando ainda mais os problemas de desigualdade social e pobreza
generalizada. A tentativa de expandir as exportações e encontrar substitutos de
produtos importados aumentaram-se, acentuadamente, as pressões sobre o meio
ambiente e os recursos. Além disso, intensificaram-se também a deterioração e a
exploração excessiva do meio ambiente. Grande parte do rápido crescimento das
exportações desses países verificou-se na área de matérias-primas, alimentos e
manufaturados baseados em recursos.
Assim, os recursos naturais da América Latina não estão sendo usados para o
desenvolvimento ou a melhoria das condições de vida, e sim para atender às
exigências financeiras dos países industrializados, os credores. Pretender que países
relativamente pobres ao mesmo tempo baixem seus padrões de vida, aceitem o
aumento da pobreza e exportem quantidades cada vez maiores de recursos escassos a
fim de manter a capacidade creditícia, reflete prioridades que poucos governos eleitos
democraticamente conseguiriam tolerar por muito tempo. A situação atual não é
compatível com o desenvolvimento sustentável. O crescimento precisa ser retomado

2
nos países da América Latina porque é neles que estão mais diretamente interligados o
crescimento econômico, o alívio da pobreza e das condições ambientais adversas.
No Brasil, a situação é das mais graves. Com uma distribuição de renda
espantosamente desigual - ilhas de opulência num mar de miséria - e com uma classe
média cada vez mais espremida nosso pais não foi até agora capaz de mudar seu
modelo de desenvolvimento que destroi o meio ambiente e degrada as condições de
vida do seu povo48. O nosso desenvolvimento constituiu-se basicamente num duplo
processo de produção de desigualdades em nível social: através do autoritarismo
político e do descaso ou destruição sistemática dos recursos naturais disponíveis em
abundância no país. Começamos por destruir os povos indígenas que aqui viviam em
paz com a natureza. Depois, operamos o desenvolvimento através da força de trabalho
escrava, destruindo gente para mover a economia e acumular riqueza para uns poucos.
Com a industrialização, continuamos no mesmo caminho, acentuando as
desigualdades, concentrando renda, pagando baixos salários, ignorando as condições
de vida e de trabalho dos trabalhadores, explorando de forma extensiva e predatória os
recursos49. Na crise sócio-ambiental brasileira, a degradação ecológica e a
desigualdade social são ramos diferentes de uma mesma raiz: o modelo pelo qual o
capitalismo se desenvolveu no país, expulsando camponeses de suas terras,
expandindo as fronteiras da grande exploração agropecuária, incentivando a
especulação fundiária e o desmatamento, esgotando os solos e contaminando as águas,
inviabilizando a pesca artesanal e o extrativismo florestal, adotando um padrão de
desenvolvimento danoso para o meio ambiente, hipertrofiando as estruturas urbanas,
concentrando riqueza e marginalizando populações50.
O endividamento dos países em desenvolvimento continua sendo uma questão
grave. Os mercados de produtos primários e de energia são muito instáveis, o
protecionismo dos mercados e as guerras comerciais representam uma séria ameaça.
Cada vez mais bancos credores e orgãos oficiais estão percebendo que muitos países
devedores não terão condições de manter os serviços de suas dívidas, a menos que o
ônus seja diminuído. Entre as medidas discutidas contam-se empréstimos adicionais,
perdão de parte da dívida, reescalonamento a prazos mais longos e adoção de termos
mais brandos. Mas, está faltando o essencial: a urgência.
Nos anos 90, a expansão da classe média no mundo é o fenômeno mais importante
a ser destacado. De Brasília a Budapeste, passando por Bombaim, uma classe média
vibrante e energética está surgindo rapidamente, na medida em que um número maior
de países relaxa os controles do Estado e adere à economia de mercado. É verdade,
muitos dos grupos recém-enriquecidos do mundo vão desenvolver-se em vias muito
diferentes das percorridas nos EUA e na Europa Ocidental. Eles divergem
amplamente em geografia, história política e costumes sociais. Mas, assim como as
aspirações de uma vasta classe média mudaram a Europa Ocidental do século XIX, o
anseio de seus congêneres do século XXI por estabilidade, prosperidade e liberdade
vai transformar o mundo. Toda vez que uma nova classe média surgiu, a reforma
política seguiu seu rastro51, diz o Sr. Raymond F. Wylie, professor de relações
internacionais da Universidade de Lehigh.
As pressões por mudanças sociais tendem a se acumular. Além disso, as pessoas da
classe média em geral querem menos restrições sobre a sua vida particular. E, em
última instância, elas vão pressionar pela adoção de soluções para muitos dos

48 ACSELRAD, H; VIEIRA, R.; & GUARANY, R. Ecologia, Direito do Cidadão: uma coletânea de textos.
Rio de Janeiro, Jornal do Brasil. 1993.
49 ACSELRAD, H; VIEIRA, R.; & GUARANY, R. Ecologia, Direito do Cidadão: uma coletânea de textos.
Rio de Janeiro, Jornal do Brasil. 1993.
50 MARTINE, G. O Crescimento Populacional do Brasil. Revista Globo Ciência, Número Especial. 1992.
51 Jornal A Gazeta Mercantil. Janeiro. 1995.
3
problemas que assolam o mundo industrializado ocidental: poluição, assistência
médica, criminalidade e drogas. O florescimento dessas classes médias emergentes
depende da prosperidade continuada. Ligada ao restante do mundo através das
telecomunicações avançadas -TV a cabo e por satélite - a nova classe média pode
receber instantaneamente um retrato preciso das riquezas ocidentais - e querer o
mesmo para si.
A Ásia é a região mais cotada nessa corrida internacional para a prosperidade. Se o
crescimento da economia asiática se mantiver de 5 a 8%, a Sra. Linda Y.C. Lim, da
Universidade de Michigan, nos EUA, prevê que a classe média asiática, sem contar o
Japão, poderá atingir 700 milhões até o ano 2010, controlando um estonteante
potêncial de gastos de US$ 9 trilhões - 50% mais que a atual economia norte-
americana. A redução das barreiras comerciais e o colapso da inflação também
tornam a América Latina terreno fértil para a classe média, e a ascensão dos
mercados do Leste Europeu e da Rússia ajuda a sustentar ambições semelhantes.
Mesmo na África do Sul pós-apartheid, um pequeno círculo de profissionais liberais
negros está rápida expansão52. Uma estimativa razoável é de que ¼ da população do
mundo - cerca de 1,2 bilhão de pessoas - goze do padrão de vida da classe média.
As idéias econômicas do movimento ecológico, que já é um movimento
emocionalmente e politicamente bem plantado, têm sido muito discutidas, mas existe
uma posição teórica muito pequena. A ausência de uma concepção econômica própria
do movimento ecológico tem permitido que se façam propostas de maquiagem-verde
em contrapartida de uma política econômica realmente verde.
O movimento ecológico fez grandes denúncias da destruição ambiental e muitas
vezes se apresentou como uma alternativa parlamentar. Os deputados eleitos iam para
o parlamento com a missão de denunciar o processo de destruição ambiental, de evitar
que o crescimento econômico representasse danos para o meio ambiente53.
Mas poucas pessoas se perguntaram seriamente o que aconteceria se os verdes
fossem governo? Se num determinado momento, eles fossem os orientadores de uma
política econômica, quais as propostas econômicas inovadoras e norteadoras de
desenvolvimento do movimento ecológico. E, as respostas a estas questões vem sendo
procurada por vários teóricos do mundo inteiro.
O espaço onde se procurou uma resposta mais intensamente são os chamados
Encontros de Cúpula Alternativos, paralelos aos encontros do Grupo dos Sete, para
discutir os rumos da economia mundial dentro da perspectiva do movimento
ecológico54.
Ainda não se chegou a um sistema acabado, mas esses encontros levaram a uma
visão do que pode ser uma economia ou um desenvolvimento alternativo. E esse
desenvolvimento seria diferente daquele que acontece no modelo de produção
capitalista e do socialismo real. Ele teria que apresentar alguns princípios
fundamentais:

■ Desenvolvimento Alternativo versus Necessidades Humanas:


O desenvolvimento alternativo deve levar em conta as necessidades humanas e não
a produção do lucro como ponto principal. Ao propor esta idéia, começaram a se
defrontar com muitas dificuldades, pois o lucro sempre foi a mola mestra do sistema
capitalista. A expressão necessidades humanas precisa ser melhor definida. Elas
representam as necessidades materiais e não-materiais. As necessidades materiais nós
conhecemos: habitação/moradia, alimentação, educação, lazer, transporte, salários
52 Jornal A Gazeta Mercantil. Janeiro. 1995.
53 CEMPRE Informa, N024. Agosto. 1995.
54 GABEIRA, F. Princípios da Economia Alternativa. Documento Interno do Partido Verde, Seccional do Rio
de Janeiro. 1994.
4
dignos etc.. Em relação às necessidades materiais muita coisa mudou de, digamos, de
50 anos para cá. A televisão, por exemplo, não era uma necessidade (assim como, o
telefone). Hoje, a televisão poderia representar uma importante fonte de lazer,
educação e cultura para uma nação.
As necessidades materiais são históricas, dependem da época em que os indivíduos
vivem e se desenvolvem. Essa perspectiva ecológica fala das necessidades não
materiais, que a economia convencional não aborda. Mas, o que seriam as
necessidades não-materiais? É muito difícil definir. Porém, as discussões evoluíram
até o ponto de introduzir algumas idéias:

1. a possibilidade das pessoas conviverem, trocarem idéias em paz e harmonia,


independente de raça, credo, cultura, posição social e escolaridade;
2. criatividade e iniciativa para tentar resolver os seus problemas de
desenvolvimento e meio ambiente;

Este é um princípio que ainda não chega a determinar claramente o tipo de


desenvolvimento, mas já vemos alguns pontos de partida nele. Por exemplo, na
Noruega quando se pensou em explorar o petróleo do Mar do Norte, a idéia, se fosse
desenvolvida pura e simplesmente dentro da perspectiva do lucro, seria uma. Mas se
partisse de uma outra perspectiva, a das necessidades humanas (consequentemente, as
necessidades do país) e da preservação do meio ambiente, o ritmo seria outro. Então,
foi possível a partir do regime da social-democracia, impor um ritmo onde não era
precisamente o ritmo que seria imposto pelo capitalismo. Nesse momento, houve uma
afirmação de um desenvolvimento alternativo. Esse princípio, de atender as
necessidades humanas, é vago e incompleto. Porém, temos que avançar mais nessa
discussão;

■ Desenvolvimento Alternativo Endógeno:


O desenvolvimento alternativo tem que ser endógeno. Esse processo de
desenvolvimento material tem que partir das necessidades internas da sociedade. É a
sociedade internamente quem decide os seus caminhos. Isso quer dizer que não existe
um modelo universal de desenvolvimento e, cada sociedade tem o direito de procurar
o seu modelo de desenvolvimento. Este fenômeno não acontece no Brasil, onde a
mentalidade é fruto da sua colonização, cujo modelo é o capitalismo aplicado nos
EUA e na Europa. E, nós sempre nos vemos como se fossemos um cidadão dos EUA
e da Europa amanhã - Complexo de Vodka Orloff - sem imaginar um modelo ou
circunstância própria. Um momento histórico próprio e, que hoje na história da
humanidade é difícil de reproduzir em países do Terceiro Mundo, mesmo porque
existem limites. Não teríamos como construir o colonialismo, o imperialismo e as
próprias possibilidades planetárias em termos de recursos não-renováveis. Eles não
suportariam o tipo de consumo dos EUA e Europa, reproduzidos em escala mundial
em todo o terceiro mundo. Então, teríamos que repensar o desenvolvimento não só
porque nós temos as nossas características como também porque não é possível se
desenvolver com um consumo que o planeta não suportaria (aquecimento mais rápido
do planeta, mais lixo e mais poluição).
O conceito de modernidade no Brasil foi postulado tendo como modelo os EUA e
a Europa e, até certo ponto, não levando em conta uma série de fatores. Por exemplo,
o ex-presidente Collor achava que os carros brasileiros eram carroças, sob o ponto de
vista da velocidade, sem levar em conta uma característica importantíssima: a
segurança, pois os carros brasileiros quando vão para fora passam por várias

5
alterações para ficarem mais seguros. Isto, porém, não acarreta a elevação dos seus
custos finais de comercialização.
Outra concepção errada da modernidade é que ela é vista também como uma ilha, e
não tem que ser ampliada em termos de economia. No Brasil ninguém considera
moderno o aumento dos salários. Os trabalhadores tem que ter salários dignos e, no
entanto, é a característica mais importante dos países chamados modernos. Os
operários por não terem acesso a um salário digno não conseguem obter uma série de
produtos de consumo que precisam ter. Mas, no Brasil, isso é escamoteado.
A idéia de moderno no Brasil sempre vem com o conceito da destruição do
tradicional. Por exemplo, quando nós construímos a nossa indústria automobilística, a
prespectiva foi construir estradas rodoviárias e abandonamos as ferrovias e as
hidrovias por que o moderno era ir de carro e se desenvolver nessa direção. Hoje, nós
vemos que as ferrovias em muitos países europeus e no Japão são transportes
extremamente modernos, cuja tecnologia é muito mais avançada que a
automobilística. Os trens bala (com flutuadores eletromagnéticos) são mais rápidos e
seguros. No sul do Brasil, os plantadores de alho e cebola, na medida em que o
Mercosul for sendo implantado, serão prejudicados, pois eles não têm a mesma
produtividade e os subsídios de argentinos e uruguaios; é a tendência do pensamento
liberal. E, como liberal quer dizer que eles se danem, pois a preocupação básica é
como consumidor vai conseguir cebola e alho mais barato? O que é parcialmente
certo. Mas, o que fazer com os setores da economia que não podem competir num
primeiro momento? Vamos permitir que eles sejam destruídos e que estas pessoas
venham para as cidades para se somarem aos 32 milhões de miseráveis que já
existem? Não, existe a possibilidade do governo dar uma ajuda até eles se
estruturarem, se modernizarem e passarem a ser competitivos também. Não podemos
ver o país como consumidor apenas. Ele é também produtor e por isso temos que
olhar o conjunto.

■ Auto-Sustentação:
É o princípio do desenvolvimento do país (ou região) buscar os recursos em sí
próprio, não dependendo de fora para estimula-lo.
No Brasil ainda se fala que o nosso desenvolvimento será muito estimulado pelo
comércio exterior, pela venda fora do Brasil. Mas já existe uma corrente que fala em
estimular o mercado interno. Vamos criar uma situação que a gente produza e
consuma, que o dínamo do crescimento econômico esteja no Brasil.
Quando a gente diz basear-se nos seus próprios recursos, não fica longe da própria
Teoria Maoísta, que num determinado momento propôs para a China também basear-
se nas suas próprias forças para desenvolver-se. Isso significaria um fechamento para
o exterior? Não, mas significaria um novo diálogo em torno da transferência de
tecnologia, que é fundamental para a economia ecológica, pois nem sempre nós
importamos a tecnologia que precisamos mais e, somos levados a importar uma
tecnologia que beneficie a quem a produz. Por exemplo, para nós era muito mais
interessante, e importante, que nós importássemos uma tecnologia que nos assegurasse
uma telefonia rural eficiente. Mas, nós importamos a telefonia celular que já estava
pronta para um mercado consumidor elitista.

■ Consciência Ecológica:
Essa consciência não significa pura e simplesmente uma consciência política, mas
uma consciência em que reside o próprio desenvolvimento e passa a ter uma
importância no cálculo econômico. Por exemplo, nós nunca calculamos os danos
ambientais na economia quando se faz um projeto, seja como governo (federal,
2
estadual ou municipal), seja como empresa privada. Você prevê o que vai gastar, o
que vai ganhar e seus cálculos econômicos param mais ou menos por aí. Lucros e
investimentos - benefícios vistos - e não há uma avaliação no conjunto. Por exemplo,
na Amazônia, na exploração de bauxita, um lago foi destruído e isso não foi
computado no cálculo econômico do projeto. Agora, o que é isso? Um buraco negro
na economia? Tem uma existência? Na verdade, quando nós vamos ver, tem uma
existência. Ninguém calculou os prejuízos que as empresas localizadas na Baía de
Guanabara teriam que computar para a sua destruição. Elas não tiveram custo algum.
Elas calcularam quanto iam gastar em matérias-primas, força de trabalho, fizeram seus
produtos, recolheram seus lucros e hoje a humanidade no conjunto tem que colocar
US$ 800 milhões para começar a reparar os estragos na Baía de Guanabara. Esse
custo no planejamento anterior era um buraco negro. Então, onde entra este custo?
Essa é uma crítica que a visão de que a economia alternativa tem da economia
convencional burguesa. Ela não calcula o desgaste do meio ambiente como perda a ser
reparada, pois ela tem a perspectiva do produtor individual capitalista que pensa que o
que for lucro, é lucro e, o que for prejuízo, a gente socializa. E, as vezes pode ser até
pior. Na Baía de Guanabara o prejuízo foi social e para certos produtores foi lucro.
Para certos pescadores, que dependiam da pesca, foi a ruína. Então, nenhum processo
econômico pode sobreviver ou avançar se não for ecologicamente orientado.

■ Reformas Estruturais:
Não adianta nada também orientar um processo econômico - ou outros princípios -
se você não faz mudanças estruturais na sociedade. No caso da sociedade brasileira,
uma das coisas que mais salta aos olhos é a estrutura agrária completamente
ultrapassada. Milhares de pessoas precisando de terras para plantar e algumas poucas
retendo-a e mantendo-a improdutiva. Uma reforma agrária ecológica iria permitir um
outro processo de produção, onde as famílias produziriam melhor, explorariam melhor
a terra, que aumentasse a produção de alimentos e, iria permitir que, com habilidade,
que essas comunidades se unissem e que tivessem uma prespectiva maior em relação à
proteção das águas, das matas ciliares e uma série de medidas que poderiam garantir
esse processo adiante.

■ Discussão:
Sintetizando, estas perspectivas foram baseadas em cinco princípios e foi mais ou
menos o que aconteceu em termos de discussão nos Fóruns Econômicos Alternativos.
Essa é uma visão de uma política econômica ecológica mais radical.
Existem outras visões reformistas, num sentido que elas não querem mudanças
estruturais na sociedade. Elas querem que o capitalismo se desenvolva de uma
maneira mais harmoniosa e menos prejudicial ao meio ambiente. Dentro dessa linha,
existem várias indicações de como mudar as empresas para terem um comportamento
mais ecológico. Já existem várias empresas se reformando e ensinando a outras
grandes empresas a ganhar dinheiro com o meio ambiente. Seja ganhar dinheiro no
sentido de racionalizar a produção, pois se examinarmos uma grande empresa, como
elas gastam papel e utilizam energia, notamos que elas têm muita gordura, que elas
podem trabalhar com uma perspectiva ecológica. Uma maneira de conviver com os
problemas ambientais, de altera-los e continuar produzindo e enriquecendo. Seria um
tipo de maquiagem verde, uma pseudo-reforma verde, que tem seus adeptos e que está
se desenvolvendo. Por exemplo, o Conselho dos Empresários do Desenvolvimento
Sustentável tem uma expressão internacional muito forte. A tese deles é que só o
capitalismo pode salvar o meio ambiente e que através da visão liberal é que o meio
ambiente será salvo, é uma perspectiva de defender o capitalismo.
3
8- O Desperdício em Nossa Sociedade
O desperdício está associado ao domínio e a posse.
Sem possuir, não poderíamos desperdiçar.
( Liliana L. Wahba )

Os alarmantes índices de desperdício no Brasil - em todos os seus tipos e formas -


representa uma grave questão na já dramática situação sócio-econômica em que
vivemos. Podemos dizer até, que é imoral.
Desde tempos imemoriais que o homem vive a contradição da fartura para poucos -
incluindo aí o desperdício - e a miséria para muitos. Todas as religiões ou seitas da
humanidade, de uma certa forma abordam o problema. Encontramos na tradição
judaica um conceito que fundamenta a busca por uma melhor qualidade (seja do
benefício ou da eficiência de algo). Tal conceito é a obrigação do Ishuv Olam -
preocupar-nos com o assentamento do mundo. A idéia de assentamento do mundo
como uma responsabilidade dos indivíduos baseia-se nas situações onde um não perde
nada e o outro se beneficia. Poderíamos, portanto, equiparar a idéia de qualidade de
produção à realização de quantas possíveis intervenções sejam capazes de beneficiar
um setor, aspecto ou elemento sem prejudicar o outro.
A qualidade de produção é, por assim dizer, um voto de riqueza. É uma obrigação
de todo indivíduo fazer com que a riqueza de uma parte, ou de um segmento se
expanda para outras partes e segmentos de seu universo de abrangência. Qualquer
indústria, ou outro meio de produção qualquer, estará desperdiçando em relação ao
mundo exterior se, novamente, não possuir nenhum nível de comprometimento com a
sua eficácia. Quanto mais fragmentado for um processo de produção, maiores serão
seus níveis de desperdício. A integração permite que o esforço organizacional cumpra
o seu papel de mais cedo ou mais tarde reduzir ou eliminar o desperdício.
A produção, a criação e a intervenção do ser humano na natureza são imperativos
que moldaram a nossa civilização. Todas estas atividades propõem a construção de
novas ordens através da transformação da natureza. Estão, na eventualidade do
1
malogro do seu esforço, possibilitando também a sua destruição. Não é por acaso que
o conceito de desperdício em hebraico bíblico seja definido como tashchit -
destruição. O desperdício é a falência da proposta civilizatória de que nos
incumbimos. É, na verdade, um dos poucos referenciais seguros na aferição, ou
eventual correção de curso de nossa proposta. O desperdício é o termômetro de nosso
grau de construtividade55 ou de nossa destrutividade.
No que tange à questão do desperdício, a Bíblia nos surpreende e nos provoca.
Surpreende porque sua perspectiva lança um olhar para muito além do desperdício
material. Provoca porque coloca desafios e questionamentos a serem respondidos não
apenas com belas proclamações e manifestações, mas com gestos concretos. A Bíblia
nos convoca à coerência.
De fato, a Bíblia mostra que o desperdício é consequência da falta de
planejamento, da usura e principalmente da acumulação em excesso. Mas, sobretudo,
ela nos propõe uma luta contra o desperdício que não seja desligado de uma
consciência histórica, de um respeito pela nação, pela cultura e pela cidadania.
Finalmente, a Bíblia revela a insuspeitável fertilidade do resto, daquele material
humano cujo valor desprezamos e às vezes até condenamos. Esse resto abandonado e
esquecido - os marginalizados e excluídos da sociedade - são sem dúvida o nosso
maior desperdício. Mas, para o Deus bíblico, são a aliança do povo e luz das nações
(Is 42, 6); são a ovelha perdida (Lc 15, 4-7) que mesmo abandonando as outras
noventa e nove ovelhas - bem comportadas - o pastor vai procurar, porque não quer
perder, não quer desperdiçar56.
Como se manifesta o fenômeno do desperdício dentro do contexto econômico? E,
em um contexto não-econômico? Qual a sua abrangência e incidência dentro do
aspecto político? Qual a sua relação com o desenvolvimento cultural de uma nação?
As respostas à todas estas questões nos levarão a repensar as nossas relações com o
mundo material que nos cerca e que a sociedade tanto valoriza.
Uma área óbvia de incidência do problema é representada pelas patologias
políticas, com frequência associadas à incompetência na gestão pública. A aplicação
de dinheiro público, pelos diferentes níveis governamentais, é não raro regulada por
éticas de quadrilha. A compra de uma ampla série de bens, executada pelos poderes
públicos - de obras de engenharia pesada a alimentos para a merenda escolar - é ditada
mais por motivações enquadradas em todos os Códigos Penais do mundo, do que pela
busca de um ajuste entre investimento e produção de bens públicos. É possível dizer,
nesses casos e de forma cínica, que a evidência do desperdício - quando se vê, por
exemplo, estradas abandonadas ou alimentos estragados em armazéns do Estado - é
mera ilusão, já que o dinheiro empenhado na produção e circulação desses bens foi
criteriosa e privadamente apropriado57.
Em 1993, o Governo do Brasil deverá desperdiçar pelo menos US$ 33 bilhões de
um total de US$ 55 bilhões destinados pelo Orçamento da União aos chamados
Programas Prioritários. Apenas 40% dos recursos liberados pelo governo chegam ao
seu destino, é o que afirma o ex-ministro da fazenda Sr. Paulo Haddad. Vários estudos
denunciam que a falta de planejamento e a corrupção são as principais causas desse
desperdício58. Se o Brasil investisse por ano o equivalente a US$ 300 milhões no
combate ao desperdício, o país poderia alcançar o ano 2000 com um PIB de US$ 900
bilhões, bem superior ao projetado para o próximo ano. Somos os campeões
55 BONDER, N. Melhor nada fazer do que transformar algo em nada. In: As Raízes do Desperdício. Rio de
Janeiro, Instituto de Estudos da Religião – ISER. 1993.
56 CAVALCANTI, T. A Bíblia e o Desperdício. . In: As Raízes do Desperdício. Rio de Janeiro, Instituto de
Estudos da Religião – ISER. 1993.
57 LESSA, R. Notas sobre o Desperdício e sua Ubiqüidade: uma perspectiva da ciência política. In: As Raízes
do Desperdício. Rio de Janeiro, Instituto de Estudos da Religião – ISER. 1993.
58 Jornal Jornal do Brasil. Maio. 1993.
2
mundiais do desperdício, foi o que afirmou o Sr José Eduardo Andrade Vieira, ex-
ministro da Indústria e Comércio à época59. A longa recessão e aguda inflação, recuo
em várias áreas da economia, crescimento das atividades informais e um gigantesco
contingente de pobres e miseráveis - cerca de 32 milhões de pessoas ou a população
da Argentina - este é o atual quadro da realidade brasileira. E todos estes graves
problemas poderiam ser minorados, talvez até resolvidos, se todos nós nos
conscientizássemos da importância do combate ao desperdício.
Em maio de 1992, o Serviço de Apoio às Micros e Pequenas Empresas - Sebrae -
fez uma pesquisa com 864 empresas que revelou:

■ 43% do lixo coletado tinham potêncial mínimo de poluição, 41% apresentavam


baixo potêncial e somente 16% foram classificados entre médio e alto potêncial
poluidor;
■ apesar de somente 30% dos entrevistados saberem do grande potêncial de
reaproveitamento do lixo/resíduos gerados em suas empresas, apenas 20% realizavam
esta operação;
■ cerca de 30% de todo o material usado na construção civil acaba virando
lixo/entulho. No resto do mundo, este percentual fica em torno de 10%60.

O que se desperdiça em alimentos no Brasil, cerca de US$ 4 bilhões ao ano, é


justamente o que daria para matar a fome de toda a população de deserdados. Segundo
dados do Instituto Brasileiro de Análises sócio-econômicas - IBASE - para combater a
fome e a miséria seriam necessários estes mesmos US$ 4 bilhões anuais, que seriam
aplicados na geração de 9 milhões de empregos, a US$ 100 cada. Assim, somente
evitando o desperdício, combatemos o problema em duas frentes: vamos dispor dos
alimentos e ao mesmo tempo, haverá a geração de renda61.
E é justamente na agricultura que vamos encontrar os maiores índices de
desperdício, que acontece desde o plantio, colheita, transporte e comercialização. Os
dados são aterradores: 25% a 30% dos grãos e 40% das frutas, legumes e verduras vão
parar todos os anos no lixo62.
Dados recentes mostram que o desperdício também acontece no dia a dia da
população, principalmente nas classes média e alta. Por exemplo, num
restaurante/churrascaria há, em média, um desperdício de carne da ordem de 100 Kg
num dia de Domingo. Esta carne, que a maior parte da população não tem acesso
devido aos baixos salários, serviria para alimentar até 30 pessoas63.
A tabela I.7.1 relaciona as perdas na alimentares no Brasil, desde a produção até a
sua comercialização final.
A busca desesperada por alimentos, não importa se estragados, movimenta mais
de 20 mil pessoas por mês na Central de Abastecimento - Ceasa - de Recife. Mais de
96 toneladas de horti-frutigranjeiros, sem qualidade para serem vendidas, são
recolhidas todo mês por catadores, em sua maioria mulheres e crianças. Os produtos
em melhor estado são vendidos ou trocados por outros alimentos na vizinhança. Os
piores, eles comem64, é o que contam as jornalistas Letícia Lins e Yvana Fechine.

Produtos Perda Anual


( em milhões US$ )
59 Jornal Jornal do Brasil. Junho. 1993.
60 Jornal A Tribuna da Imprensa. Setembro. 1992.
61 Jornal Jornal do Brasil. Julho. 1993.
62 Jornal Jornal do Brasil. Junho. 1993.
63 Jornal Jornal do Brasil. Julho. 1993.
64 Jornal O Globo. Novembro. 1994.
1
grãos 985
arroz 254
trigo 41
hortaliças 529
frutas 509
pecuária 200
leite 500
pesca 610
queimadas 150
Total 3.778
(fonte: Ministério da Agricultura, 1993)

Visando reduzir o desperdício de alimentos, está em estudo a criação do primeiro


Banco de Alimentos. O sistema existe em 180 países do mundo e visa aproveitar a
comida que é desperdiçada em supermercados, sendo enviada para entidades que
ajudam entidades carentes. A idéia foi trazida ao país pelo sociólogo Herbert de
Souza, idealizador da Ação da Cidadania, Contra a Fome e a Miséria e pelo
empresário Oded Grajew, presidente da Fundação Abrinq pelos Direitos das Crianças.
O Banco de Alimentos vai funcionar recolhendo produtos que sobram nas
prateleiras dos supermercados devido a problemas na embalagem ou por estarem com
o prazo de validade vencidos. Esses alimentos serão enviados para laboratórios de
análise que vão testar se eles ainda tem condições de consumo. Em caso positivo,
estes alimentos serão distribuídos para os comitês que fazem parte da campanha
contra a fome65.
O homem como não precisa lidar diretamente com a natureza - aí incluídos as
áreas adjacentes às urbanas onde se dá o plantio de alimentos - para suprir as suas
necessidades, acaba afastando-se dela, desconhecendo a maneira mais elementar de
comportar-se no mundo em que vive. A tecnologia avançada vai aprimorando a
possibilidade de manipulação distanciada e o ato de dominar transcende aquele do
conviver. O consumo não necessariamente vem acompanhado do desperdício, mas
abre as portas para ele. O desperdício começa e se instala quando se consome mais
que o necessário e, a necessidade, nos dias atuais, não é mais só determinada pela
estrutura biológica mas sim segue ideais e expectativas que irão dimensiona-la e
direciona-la.
A sociedade atual perdeu a dimensão correta de suas necessidades e apresenta
patologias crescentes, um desbalanceamento que se desenvolve sob a tensão de atritos
internos e de objetivos díspares e conflitantes. Aterrorizado pelo temor de ser
descartado pela Natureza, o homem ignora o seu ciclo e quer a todo custo domina-la.
Finge que a despreza quando, no fundo a teme. E desafia os seus medos através de
uma manipulação indiferenciada66, irresponsável e até certo ponto, criminosa.

65 EIGENHEER, E.M. (org.). Coleta Seletiva de Lixo: Experiências Brasileiras. Rio de Janeiro, Centro de
Informações sobre Resíduos Sólidos – Universidade Federal Fluminense (UFF)/ISER/GTM. 1993.
66 WAHBA, L.L. A Sombra do Desperdício. In: As Raízes do Desperdício. Rio de Janeiro, Instituto de Estudos
da Religião – ISER. 1993.
1
9- Militarismo, Desarmamento
& Meio Ambiente
Toda ação que compromete as condições ambientais de
existência e trabalho das populações atenta contra
direitos ambientais de indivíduos e coletividades.
( Henri Acselrad )

A humanidade acha-se diante do maior desafio do século. O nível e a velocidade


da corrida armamentista certamente aumentam o perigo de uma guerra em escala
global. A ocorrência de uma guerra nuclear ameaçaria a própria existência da
humanidade. Nesta e nas próximas décadas os povos do mundo se verão em face de
novos reptos tecnológicos, econômicos, sociais e ambientais, que ganharão em
complexidade se a corrida armamentista continuar no mesmo ritmo. No contexto de
um programa para deter e inverter essa corrida, é imperativo encontrar soluções
também para os problemas que entravam o progresso tecnológico, econômico e social
dos países em desenvolvimento do Terceiro Mundo. São precisos mais recursos
financeiros, humanos e materiais para resolver os problemas referentes à matérias-
primas, energia, produção de alimentos e proteção ambiental. Este é o desafio da
década de 90 e das próximas, que necessitam de medidas urgentes, concretas e
eficazes para o desarmamento em benefício da humanidade67.
Os fenômenos compreendidos pelos termos desarmamento e desenvolvimento são
percebidos por todos em termos gerais, mas convém sermos um pouco mais
específicos. Desarmamento é o processo de redução do tamanho das forças armadas
e dos gastos com elas; a destruição ou desmonte de armas em serviço ou
armazenadas; a eliminação paulatina da capacidade de produzir novas armas e, a
baixa do pessoal militar e sua integração na vida civil68.
O processo interveniente deve caracterizar-se por reduções equilibradas que
garantam a segurança de todas as nações e também permitir a verificação do
cumprimento das reduções combinadas. Há no processo um lugar preciso para acordos
de limitação que realmente impeçam o aumento quantitativo e o aperfeiçoamento
qualitativo dos arsenais, pois tais acordos são de valor inestimável para incutir
confiança, além de servirem como degraus para a redução total e completa,
principalmente dos arsenais nucleares (mesmo que isto se apresente como uma utopia
no presente e no futuro mais próximo).
Desenvolvimento, no sentido mais amplo, refere-se à mudanças econômicas e
sociais na sociedade, que resultarão na melhoria para todos. Significa, proporcionar

67 M’BOW, A.M. Desenvolvimento e Desarmamento: o maior desafio do século. Revista O Correio da


Unesco, ano 10, n05. Maio. 1982.
68 M’BOW, A.M. Desenvolvimento e Desarmamento: o maior desafio do século. Revista O Correio da
Unesco, ano 10, n05. Maio. 1982.
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a cada um de nós as condições materiais necessárias a uma vida mais produtiva e
digna69.
O crescimento econômico, ou seja a expansão da produção, é requisito do
desenvolvimento. Mas, o desenvolvimento não pode ficar limitado ao crescimento
econômico. Desenvolvimento significa também que cada um deve ter a oportunidade
de participar plenamente do processo econômico e social e se beneficiar dele. Porém,
para que o esforço geral de desenvolvimento seja moral e politicamente defensável,
ele deve empenhar-se na criação de um modelo de crescimento econômico que reduza
significativamente num período razoável as atuais disparidades entre as nações no que
se refere às condições de vida. O esforço de desenvolvimento deve também ser
compatível com as disponibilidades de recursos de longo prazo e com as limitações
ambientais, na medida em que a determinação de tais limites seja possível.
O militarismo sempre esteve associado a segurânça nacional. Porém, diante da
mais clara percepção da piora do relacionamento do homem com a natureza e da
crescente evidência da necessidade de ajuste, os governos inevitavelmente terão de
redefinir o conceito tradicional de segurânça nacional. Os cuidados com a segurança
da nação é sem dúvida tão antigo quanto a própria nação estado, embora somente
depois da II Grande Guerra tenha adquirido um caráter predominantemente militar.
Todavia, a preocupação com as ameaças militares por parte dos outros países tornou-
se tão saliente nas deliberações sobre segurança nacional que outras ameaças têm sido
ignoradas. O empobrecimento dos sistemas biológicos, a progressiva exaustão dos
recursos de combustíveis fósseis e as tensões econômicas decorrentes da escassez de
recursos representam ameaças que derivam menos das relações entre países do que da
relação do homem com a natureza.
Há mais de três décadas, o ex-presidente dos EUA, Dwigth D. Eisenhower,
advertiu que o problema na defesa é o quão longe pode-se caminhar sem destruir
internamente o que você está tentando defender do que vem de fora70. Entendida como
um aviso contra a criação de complexo militar-industrial todo-poderoso, a afirmação é
igualmente aplicada a um problema que o mundo está só ameaçando combater os
efeitos do militarismo sobre o meio ambiente. O grande escritor de ficção-científica
Isaac Asimov, quando perguntado sobre a questão de segurança nacional, das armas
atômicas e, da possibilidade de uma guerra nuclear, respondeu que não se pode travar
nem mesmo uma guerra convencional, pois se trata de um fenômeno que consumiria
muita energia e, não a dispomos em quantidades suficientes para nos darmos ao luxo
dessa extravagância. Precisamos de toda a energia que pudermos somente para nos
mantermos-nos vivos, não sobrando nada para as guerras71.
As políticas militares empregadas pelas grandes potências mundiais levou as suas
economias a investimentos de fazer inveja aos utópicos programas sociais da maioria
dos países, mesmo os mais desenvolvidos. Os gastos militares já respondem por 6%
da produção econômica mundial, ou seja mais de US$ 110 por cada grupo de homem,
mulher e criança no mundo. Os custos com armas e programas de desenvolvimento de
novas armas excedem os orçamentos de saúde e educação juntos na maioria dos países
do mundo, principalmente nos países envolvidos em disputas territoriais, étnicas ou
religiosas. Se somarmos as forças regulares e para-militares, existem no mundo inteiro

69 M’BOW, A.M. Desenvolvimento e Desarmamento: o maior desafio do século. Revista O Correio da


Unesco, ano 10, n05. Maio. 1982.

70 M’BOW, A.M. Desenvolvimento e Desarmamento: o maior desafio do século. Revista O Correio da


Unesco, ano 10, n05. Maio. 1982.
71 M’BOW, A.M. Desenvolvimento e Desarmamento: o maior desafio do século. Revista O Correio da
Unesco, ano 10, n05. Maio. 1982.

2
muito mais pessoas com uniformes militares do que professores (estes números são
ainda muito mais impressionantes se comparados aos médicos).
O número de cientistas e engenheiros dedicados à pesquisa e desenvolvimento com
fins militares é muito maior do que as comissões voltadas para resolver os principais
problemas de saúde de tecnologias pacíficas. Na década de 70, este número situava-se
em torno de 2.300 cientistas e engenheiros (cerca de 20% do total) e, se somarmos
outros profissionais envolvidos, direta ou indiretamente (como técnicos de nível
superior), este número chagaria a 400 mil pessoas. Na década de 80, este número teve
um leve aumento nos primeiros anos e, posteriormente, estabilizou-se depois dos
acordos internacionais de desarmamento.
O presidente do Comitê de Serviços Militares do Senado dos EUA, senador Sam
Nunn fez uma ligação explícita entre o militarismo e o meio ambiente, propondo que
os recursos tecnológicos do Departamento de Defesa fossem destinados à solução de
problemas ecológicos. Longe de serem as salvadoras da biosfera, contudo, as forças
armadas mundiais, sozinhas, são provavelmente o maior poluidor da Terra. As guerras
modernas impõe uma devastação ambiental em grande escala, como demostraram os
conflitos do Vietnã, Afeganistão e Golfo Pérsico. Em alguns casos, a alteração
ambiental foi conscientemente empregada como arma de guerra: no Vietnã, os EUA
usaram o Agente Laranja, desfolhante usado nas matas e florestas para desalojar os
comunas ou vietcongs, que faziam guerrilhas e impunham pesadas baixas ao exército.
Na Guerra do Golfo, os iraquianos atearam fogo aos poços de petróleo do Kwaite,
criando uma poderosa e gigantesca cortina de fumaça para dificultar os ataques aéreos
da aviação aliada.
Mas mesmo em tempos de paz as forças armadas contribuem para a sangria de
recursos e degradação ambiental. A produção, os testes e a armazenagem de armas
convencionais, químicas, biológicas e nucleares geram grandes quantidades de
substâncias tóxicas e radioativas que contaminam o meio ambiente. Assim, depois dos
recentes acordos de desarmamento, em 1991 e 1992 - os dejetos militares estão
literalmente vindo à tona, mostrando os anos de negligência para com o meio
ambiente nos complexos industrial -militar dos países desenvolvidos. O aumento da
consciência ambiental tem sensibilizado cidadãos comuns para temas antes restritos
apenas às Organizações Não-Governamentais - ONG’s - engajadas ao Movimento
Pacifista, estão forçando os governos a encarar a realidade do problema e a prestar
contas aos contribuintes. Mas, protegidos pelo manto da Segurança Nacional, as
forças armadas e os fornecedores militares têm ignorado ou se eximido dos
regulamentos e legislações ambientais sem falar, na retenção de dados e estatísticas
verdadeiras e confiáveis sobre as agressões perpetradas ao meio ambiente. Apesar
disso, os dados disponíveis nos permite traçar um quadro estarrecedor destes
problemas, trazendo perspectivas sombrias para o futuro da humanidade se
continuarmos a nos omitir frente a esta tão delicada e urgente questão.
As forças armadas modernas requerem vastas extensões de terra e de espaço aéreo,
para treinamento, testes e armazenagem de armas e equipamentos militares, munições
e contingente humano. A tabela I.8.1 mostra o fenomenal crescimento nas
necessidades de espaço das forças armadas.
As estimativas globais do uso militar direto da terra fora de tempos de guerra foi
estimado em 1981 em 1% do território total das 13 nações mais ricas do mundo dentre
elas, o Brasil. Mas, acredita-se estar na faixa de 0,5 a 1% em todo o mundo -
aproximadamente, 750 mil a 1,5 milhão de Km2. Ou seja, uma área correspondente ao
tamanho da Indonésia e da Turquia, respectivamente. Num mundo dramaticamente
escasso de terras produtivas, qualquer uso não produtivo e, ao mesmo tempo,
destrutivo, parece uma inversão de prioridades e um crime contra a humanidade. E, as
3
necessidades dos militares por novas áreas está aumentando, diminuindo as já escassas
terras para a agricultura, manutenção de áreas virgens e selvagens, lazer e moradias. É
irônico e absurdo que, em nome da defesa da integridade nacional contra ameaças
externas, áreas cada vez maiores e de boa qualidade sejam destinadas as forças
armadas, impedindo, de fato, o desenvolvimento da sociedade e o bem comum da
população.
O treinamento de guerra deixa um enorme rastro de morte e destruição em seu
caminho. As manobras da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) na ex-
Alemanha Ocidental, causaram US$ 100 milhões de prejuízos na agricultura, nas
florestas e propriedades particulares no ano de 1989.

Eventos Área Necessária


(Km2/10.000 soldados)
Tempos Antigos 1
Guerras Napoleônicas - fim século XVIII, início 20
XIX
I Guerra Mundial - 1914-1918 248
II Guerra Mundial - 1939-1945 3.000
Guerra do Yom Kippur - 1973 4.000
Manobras da Otan na Alemanha Ocidental - 1978 55.000
(fonte: Environmental Conserveition, 1989)

Segundo o Sr. Michael Renner, pesquisador do Worldwatch Institute, com a sua


violência coreografada, as forças armadas destroem grandes extensões de terras que
se supõe elas devam proteger. Terras usadas para treinamento de guerra estão
sujeitas a sofrer severa degradação. As manobras militares destroem a vegetação
natural, perturbam o habitat da vida selvagem, erodem e compactam o solo,
sedimentam os rios e causam inundações. Áreas de bombardeio transformam a terra
num deserto lunar, deformado com enormes crateras. Áreas de tiro para tanques e
artilharia contaminam o solo e as águas subterrâneas com chumbo - substância
mutagênica ou cancerígena - e outros resíduos tóxicos. Alguns mísseis anti-tanques,
por exemplo, contém bastões de urânio72 que contaminam com radioatividade o solo,
as águas, as plantas e, podem chegar até as populações.
As forças aéreas tem um acesso muito mais amplo ao espaço aéreo do que tem à
terra. Os vôos rasantes e supersônicos são o aspecto da aviação mais perigoso e
prejudicial à saúde. Eles impõem uma carga psicológica crescente e pouco
documentada sobre a saúde humana. Um avião em vôo rasante - mais ou menos, 750m
acima do solo - produz ruídos de até 140 decibéis, quando os limites ideais à audição
humana está em torno de 40 decibéis. Além do ruído, o susto provocado por um vôo
rasante (o estrondo se estende por uma área de até 5.000 Km2) o corpo humano libera
adrenalina, causando a elevação da pressão sanguínea e dos batimentos cardíacos,
perturbações no estômago e intestino. O que a força aérea dos EUA chama de o som
da liberdade é assustador para aqueles forçados a tolerá-lo, principalmente as crianças.
Em tempos de paz, as forças armadas consomem uma quantidade de combustíveis
e energia que poderiam suprir as necessidades de povos que enfrentam uma escassez
sem precedentes na história da humanidade.
A tabela I.8.2 relaciona o consumo de combustíveis de alguns equipamentos
militares usados em treinamento ou patrulha.
Um avião de combate F16 decolando para uma simples e rotineira missão de
treinamento consome até 3.400 litros de combustível antes de retornar a sua base. Em
menos de 1 hora, ele consumirá quase duas vezes mais gasolina que um motorista
72 BROWN, L.R. (org.). Qualidade de Vida 1991: Salve o Planeta. São Paulo, Editora Globo. 1991.
1
americano (maiores consumidores do planeta) durante 1 ano ou, quase 10 vezes mais
que um motorista esbanjador do terceiro mundo no mesmo período.
E, o gasto de combustível de um tanque M1 - Abrams é tão voraz, que é melhor
medi-lo em litros por quilômetros do que quilômetros por litro.
Aproximadamente ¼ do total de combustíveis gasto pela aviação americana, cerca
de 42 milhões de toneladas por ano, é usado para propósitos militares. O Pentágono
(Ministério da Defesa dos EUA) é o maior consumidor doméstico e isolado e, muito
provavelmente, o maior de todo o mundo. Analisando de um outro ângulo, ele
consome, em 12 meses, energia suficiente para mover todo o sistema de transporte de
massa dos EUA por cerca de 14 anos.

Equipamento Distância ou Consumo


Tempo de Operação (litros)
Tanque M1- Abrams 1,0 Km 47
Jato F15- máximo impulso 1,0 minuto 908
Tanque M1- Abrams- Veloc. máx. 1,0 hora 1.113
Caça Bombardeiro - F4 Phantom 1,0 hora 6.359
Navio de Guerra - Couraçado 1,0 hora 10.810
Bombardeiro B-52 1,0 hora 13.671
Porta-aviões 1,0 hora 21.300
Grupo de Aviões- Porta-aviões 1 dia 1.589.700
Divisão Tanques - 38 1 dia 2.271.000
(fonte: Brown, L., 1991 e 1992)

Com estatísticas mais completas sobre o uso de energia nas atividades militares,
seria possível esboçar o perfil da poluição do ar causada pelas forças armadas. Como
os equipamentos militares são obviamente projetados para um desempenho superior
de combate, não para eficiência energética, parece razoável admitir que a participação
militar na poluição ultrapasse a sua participação na energia consumida. Qualquer
avaliação precisaria olhar também para a poluição criada pela produção de
armamentos, um esforço dificultado pelo fato das estatísticas de emissões industriais
não distinguirem as fontes civis das militares.
De acordo com o Sr. Gunar Seitz, do movimento verde-pacifista alemão, as
emissões resultantes das operações das forças armadas sozinhas representam pelo
menos de 6 a 10% da poluição global do ar73. O Instituto de Pesquisa para uma
Política de Paz, da Alemanha, estimou que de 10 a 30% de toda a degradação
ambiental global se devem as atividades militares ou a ela associada.
A tabela I.8.3 relaciona o consumo de combustíveis e as emissões estimada de
poluentes do ar da aviação militar dos EUA, ex-União Soviética, ex-Alemanha
Ocidental e o resto do Mundo.
Pouco tem sido feito para definir a contribuição militar para a degradação da
camada de ozônio e para o aquecimento global da Terra- Efeito Estufa, como mostra a
tabela I.8.4.
O fato de o setor militar esconder muitos dados sobre as suas operações - sob o
manto da segurança nacional - faz com que seja muito difícil esboçar um quadro
realista do uso da energia e da poluição ligados às forças armadas. Enquanto a
participação do setor militar pode não parecer significativo em comparação com
outras atividades humanas, ela é contudo substâncial, dado que as operações militares
não contribuem diretamente em nada para o bem-estar social e econômico da
humanidade.

73 BROWN, L.R. (org.). Qualidade de Vida 1991: Salve o Planeta. São Paulo, Editora Globo. 1991.

1
Países Consumo Emissões
(milhares de
toneladas)
Total Percentual CO NOX SO2
(milhões oneladas) (%)
EUA 18,6 44,1 381 157 17,9
ex-União Soviética 11,8 28,1 244 100 11,4
ex-Alemanha Oc. 1,5 3,5 31 13 1,4
Mundo 42,2 100,0 865 357 40,6
(fonte: Worldwatch Institute, junho, 1990)

No que diz respeito ao consumo de matérias-primas, as avaliações são mais


realistas porém, não menos aterradoras. As tabelas I.8.5 e I.8.6 mostram o consumo
total de minérios e ligas pela indústria militar e, o consumo por equipamento militar,
respectivamente.

1- As atividades do Pentágono resultaram em emissões de Carbono da ordem de 46


milhões de toneladas. Estes números representam cerca de 3,5% do total de
emissões dos EUA a partir da queima de combustíveis fósseis;
2- Somente os jatos militares dos EUA consomem 37 milhões de toneladas de
combustíveis. Se estes números estão corretos, seriam gerados e liberados para a
atmosfera cerca de 150 milhões de toneladas de Carbono, aproximadamente 3% do
total produzido no mundo ou a mesma quantidade gerada pela Inglaterra;
3- Se fossem incluídos aqui os números referentes à todo o complexo industrial-
militar do mundo, estes números chegariam facilmente a 300 milhões de toneladas;
4- O uso de gases que destroem a Camada de Ozônio são cada vez mais usados
pelos militares e estão de fora da Convenção de Montreal, que pretende que sejam
banidos todos os gases à base de CFC's até 1995. O Pentágono usa o Halon - 1211
(76%) e o CFC-113 (50%) que são responsáveis por 13% da destruição da camada
de Ozônio. Sem falar no uso de outras substâncias à base de CFC's de uso
exclusivamente militar, e que não podem ser muito bem mensurados pela sociedade
civil;
5- A queima dos combustíveis sólidos de foguetes e mísseis estratégicos libera o
gás Cloreto de Hidrogênio, que prejudica a Camada de Ozônio. Os ônibus espaciais
da Nasa também usam este tipo de combustível e liberam para a atmosfera superior
cerca de 56 toneladas de cloro à cada lançamento.
(fonte: Worldwatch Institute, 1991)

Somente em 1987, os EUA e a ex-União Soviética possuíam 4.000 mísseis


intercontinentais estratégicos. Sabe-se que países como Inglaterra, França, Alemanha
Ocidental e alguns poucos países do Terceiro Mundo possuem este tipo de
armamento. Então, se refizermos as contas, iremos observar que pelo menos 1.500
milhão de casas populares deixaram de ser construídas somente com o cimento usado
para construção dos silos usados para guardar estes mísseis.
O número de latas, embalagens e outros bens de consumo que deixaram de ser
fabricados representa um número tão grande que inundaria o planeta e, de certa forma
resgataria a cidadania da maioria da população do Mundo que vive em condições sub-
humanas.
Atualmente, 9% do consumo global de minério de ferro - 60 milhões de toneladas -
são destinadas a propósitos militares. O uso de alumínio, cobre, níquel e platina nas
máquinas de guerra ultrapassa toda a demanda do Terceiro Mundo por esses materiais.

Mineral Consumo
(%)
Cobre 11,1
1
Chumbo 8,1
Alumínio 6,3
Níquel 6,3
Prata 6,0
Zinco 6,0
Ferro 5,1
Mercúrio 4,5
Cromo 3,9
Tungstênio 3,6
(fonte: Westview Press, 1984)

As operações de mineração para extrair estes materiais impõem pressões


ambientais significativas e, muitos materiais são altamente tóxicos. Na sua incessante
busca de capacitação e prontidão, as forças armadas estão envenenando a terra, o ar,
as águas e as pessoas que se supõe elas devam proteger. Estão destruindo ou
inutilizando áreas produtivas, contaminando as águas usadas para consumo humano e
irrigação das plantações, poluindo o ar que respiramos - nós e eles, os militares. Tendo
durante décadas descarregado no solo uma sopa letal de materiais perigosos, as bases
militares se tornaram uma bomba relógio para a saúde, detonando em câmara lenta.

Consumo Tipo de Armamento Produção de Bens


( toneladas ) ( quantidade )
Aço - 4.450 míssil intercontinental - 1 9 milhões latas - alimentos
Cimento - 1.200 " 250-500 casas populares padrão
Alumínio - 50 " 3 milhões latas refrigerantes
Cromo - 12,5 " -
Titânio - 0,75 " -
(fonte: Worldwatch Institute, 1991)

As forças armadas são muito provavelmente os maiores produtores de resíduos


perigosos dos EUA e do mundo. Em anos recentes (1988-1990) o Pentágono gerou
entre 400.000 e 500.000 toneladas por ano de resíduos tóxicos, mais do que as 5
maiores empresas químicas dos EUA juntas. Os seus fornecedores produziram mais
dezenas, se não centenas de milhares de toneladas de substâncias tóxicas.
O conhecimento dos efeitos dessas substâncias sobre a saúde permanece limitado,
mas suspeita-se que a exposição humana por meio da água de beber, do consumo de
alimentos, da absorção direta pela pele ou da inalação pode causar câncer, defeitos
congênitos e alterações no patrimônio genético. Podem, ainda, danificar seriamente as
funções do fígado, dos rins, do sangue e do sistema nervoso de uma pessoa.
A questão da poluição e da degradação ligadas ao setor militar serviu para unificar
dois grandes movimentos ativistas mundiais: os verdes e os pacifistas. Nos EUA, a
Campanha Nacional contra os Resíduos Tóxicos e Centro de Informações do
Cidadão sobre Resíduos Perigosos estão ajudando a sociedade a enfrentar a poluição
dos complexos militares nas áreas onde eles estão instalados. Técnicos ambientais
advogados e juristas e outros profissionais estão promovendo discussões para propor
mudanças na legislação para tornar as instalações militares sujeitas às mesmas
exigências e penalidades ambientais que atingem as indústrias não-militares. A
criação de um Fundo de Segurança Ambiental é uma exigência e uma necessidade
para arrecadar verbas para investigação, pesquisa e limpeza das áreas contaminadas
por instalações militares ou afins.
Na Alemanha unificada, os cidadãos violentados pelo strees contínuo causado
pelos vôos rasantes das aeronaves de combate, exigiram um fim dessa prática e

1
pesadas indenizações por problemas de saúde decorrentes desta prática. A
contaminação do solo, águas e ar pelos militares que ocupavam bases no seu território
(EUA, ex-União Soviética, França e Inglaterra) também está se tornando uma questão
quente, que já está sendo encaminhada para Tribunais Internacionais.
Esses exemplos mostram que a forte pressão pública pode ter sucesso em mudar a
atitude militar em relação ao meio ambiente. Mas para serem mais efetivos nessa luta,
os movimentos populares de base precisam de ferramentas adequadas. Uma é a
legislação que garante o direito de saber como ela está sendo aplicada à poluição das
companhias dos EUA na esfera civil. Rompendo a cortina nacional de segurança, tal
legislação poderia exigir não somente das agências de defesa, mas também dos
fornecedores militares que preparassem relatórios detalhados sobre os impactos nas
áreas de testes de armas, em áreas de manobras, das substâncias químicas usadas no
fabrico dessas armas, seus resíduos decorrentes da produção e os danos ambientais e a
saúde decorrentes da sua exposição à elas, que seriam de domínio público. Avaliações
de impacto ambiental para quaisquer projetos militares futuros, já exigidos para as
forças armadas dos EUA e Canadá, são um importante caminho para identificar
impactos potencialmente adversos antes que eles se tornem realidade.
A incompatibilidade fundamental entre o setor militar e o meio ambiente fica claro
num recente depoimento público prestado no estado da Virgínia - EUA, pelo
comandante de uma base militar nos EUA: Nosso negócio é proteger a nação, não o
meio ambiente74.
Um mundo que quer fazer as pazes com o meio ambiente não pode continuar a
entrar em guerras, ou a sacrificar a saúde humana e os ecossistemas da Terra. A
qualidade ambiental reúne uma longa lista de sólidas razões para se estimular o
desarmamento. Espoliar e enfraquecer o planeta e seus sistemas naturais de suporte de
vida é um preço muito alto pela liberdade e pela soberania nacional.

CAPÍTULO II

Os Principais Tipos de Resíduos

74 BROWN, L.R. (org.). Qualidade de Vida 1991: Salve o Planeta. São Paulo, Editora Globo. 1991.
2
1- Resíduos Domiciliares / Urbanos
Não, não haverá para os ecossistemas aniquilados dia seguinte.
O ranúnculo da esperança não brota no dia seguinte.
A vida harmoniosa não se restaura no dia seguinte.
O vazio da noite, o vazio de tudo será o dia seguinte.
(Carlos Drumond de Andrade)

1
Corresponde à maior parte do lixo
produzido nas cidades. É composto pelos
resíduos proveniente das residências,
estabelecimentos comerciais e industriais,
além dos resíduos resultantes da varrição
das ruas e poda das árvores. Em geral,
varia conforme a cidade, o clima, os
hábitos e o padrão de vida da população.
Quanto mais alto o poder aquisitivo,
maiores são as quantidades de papéis,
plásticos, vidros e metais.
Ao contrário, nas sociedades mais pobres são observados um grande desperdício
de alimentos e restos de comida, apesar de encontrarmos, também, uma grande
quantidade de resíduos inorgânicos recicláveis. A tabela II.1.1 apresenta a
composição do lixo urbano de algumas cidades:

Cidades / RJ. SP. Manaus St. Louis Hong Medellim


Resíduos ( EUA ) Kong
matéria org. 34,4 37,8 51,2 22 29 56
papéis 27,1 29,6 29 38 32 22
metais ferros. 2,8 5,4 6,8 8 2 2
trapos/couros 2,7 2,2 3,5 2 10 4
plásticos 12,5 9 2,8 15 6 5
vidros 2 5,6 1,7 4 10 2
madeira 1,1 1 1,5 1 - -
outros 17,4 9,4 3,5 10 11 9
(Fontes: Comlurb/Rio, 1992; Lima, L. M. Q., 1988 E Banco Mundial,1990)

Em 1927, o lixo na cidade de São Paulo era composto por 82,5% de matéria
orgânica e estava isento de materiais plásticos. O que se observa atualmente na tabela
é uma diminuição da quantidade de matéria orgânica e um aumento dos resíduos
inorgânicos, inclusive de plásticos que hoje perfazem cerca de 9% em peso. Este
aumento do plástico pode ser explicado pela substituição de materiais tradicionais
como papel, vidro e metais pelos produtos plásticos derivados do petróleo, que
invadiram as nossas vidas a partir da década de 60 e 70.
O lixo brasileiro, segundo o BNDES, chega a 41 mil toneladas/dia ou 14,8 milhões
de toneladas/ano se contabilizarmos apenas as grandes cidades e, como em todos os
países do mundo é mais ou menos aproveitado na produção de industrializados. Em
1987, o BNDES estudava a implantação de um programa de US$ 100 milhões para
construção de Usinas de Reciclagem em 180 cidades. A partir da instalação das
usinas, previu-se que elas seriam responsáveis pelo aproveitamento de 76% do
plástico, 54,8% do papel e papelão, 37,8% dos vidros e 2,5% dos metais, que
substituiriam as matérias-primas virgens utilizadas para a produção nas indústrias.
A possibilidade de transformar os atuais 25 mil catadores dos lixões em
cooperativados controladores das usinas é, a primeira vista, o aspecto mais positivo do
programa. Esses trabalhadores, sem o contato direto com o lixo, como ocorre
atualmente, passariam a operar em ambiente de total salubridade e teriam os seus
familiares longe dos lixões. Este programa além de criar novos empregos, gerar
impostos e novos mercados, resgataria a cidadania de uma população que tem sido
marginalizada, estigmatizada e abandonada pelos governos municipal, estadual e
federal.

2
Os catadores de lixo estão provando - nas ruas das mais movimentadas capitais
brasileiras - que são elementos fundamentais para a otimização da coleta seletiva,
agilizando o escoamento dos materiais e proporcionando aos municípios maior
economia com transporte - ítem que mais pesa no custo dos programas de reciclagem.
Esta força de trabalho, ainda pouco valorizada pelas administrações, representa na
verdade, uma via de mão dupla: além de ajudarem a racionalizar a coleta seletiva,
unindo esforços para torna-la economicamente viável, os catadores - que agora
começam a se organizar em cooperativas e sindicatos - podem obter bons rendimentos
com a venda dos materiais recicláveis, principalmente papéis e alumínio.
Em Santos - SP, a operação de coleta dos catadores recolhe cerca de 50 toneladas
por dia de material reciclável. Em Recife - PE - a Associação Pernambucana de
Defesa da Natureza - ASPAN - apoiada pela Fundação McArthur, dos EUA, iniciou
um projeto piloto de organização dos 1.500 catadores de rua da cidade, que recolhem
120 toneladas de recicláveis por dia. Já em Fortaleza - CE - os catadores se reúnem
periódicamente em igrejas para discutir sua participação na nova usina de reciclagem
que a prefeitura está construindo, com a intenção de absorver como mão-de-obra as
pessoas que vivem da catação na cidade - cerca de mil pessoas sendo que, 600 atuam
no lixão de Jangurussu.
No Rio de Janeiro, um estudo recém concluído pela Companhia Municipal de
Limpeza Urbana - Comlurb - com os catadores do lixão de Gramacho, em Duque de
Caxias, revela em pequena escala uma realidade provavelmente comum aos que
vivem da catação do lixo em outros pontos da cidade: 63% das cerca de 600 pessoas -
com um contingente familiar de 2.871 indivíduos - e que atuam no lixão de Gramacho
não querem deixar a atividade - cujo rendimento mensal varia de 2 a 3,5 salários
mínimos. Cada um deles cata uma média diária de 270 Kg de lixo - plásticos 28%,
papel/papelão/jornal 26%, alumínio 24% e latas de aço 12% - entre as 4 mil toneladas
despejadas no local diariamente75.
A primeira cooperativa de catadores de lixo foi fundada em 1985, na cidade de São
Paulo. A Associação dos Catadores de Papel tem como objetivos organizar os
catadores de lixo - cerca de 10 mil - para tentar driblar as muitas irregularidades de
que são vítimas os catadores, sobretudo no que diz respeito ao preço pressionado para
baixo. Na maioria das vezes eles estão nas mãos de aparistas e sucateiros, a quem
vendiam o material coletado à preços muito baixos. Passamos por quatro ou cinco
intermediários antes do lixo chegar à indústria, afirma José Amado Teodoro,
tesoureiro da Cooperativa dos Catadores Autônomos de Papel, Aparas e Materiais
Reaproveitáveis - COOPAMARE. A luta para atrair novos cooperativados baseia-se
no pagamento justo pelo lixo coletado. Os catadores e a cooperativa procuram
conscientizar as pessoas a respeito do seu trabalho. O catador é quase um técnico
nessa função. Nós temos um trabalho importante para o bem estar social. Recolher o
lixo significa trazer vantagens para a sociedade porque, se separamos e vendemos o
material reaproveitável a indústria ganha, comprando matéria-prima mais barata e a
sociedade também ganha, já que a Prefeitura economiza pagando menos pela menor
quantidade de lixo coletada76, afirma José Amado. Já há catadores organizados em
Santos, Belo Horizonte, Baurú e Marília.
O trabalho prévio de coleta de lixo é feito pelos catadores, que retiram o que é
reaproveitável, deixando .para as empresas coletoras o restante do lixo, diminuindo de
sobremaneira o volume total. O trabalho do catador é um garimpo. Joga-se fora de
tudo: relógios, rádios, eletrodomésticos, livros, jornais, revistas, móveis e toda a

75 CEMPRE Informa, n010. Janeiro/Fevereiro. 1994.


76 CEMPRE Informa, n010. Janeiro/Fevereiro. 1994.
2
sorte de objetos77, segundo José Amado, que deixou um emprego de balconista de 11
anos, para ser catador profissional.
Toda a infra-estrutura, ainda pequena, que os catadores de lixo conseguiram, veio
de doações: o Corpo Municipal de Voluntários - CMV - doou 50 uniformes; do Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES - a entidade recebeu uma
prensa, um triturador de papel, uma empilhadeira e um caminhão pequeno; a
Prefeitura cedeu espaço embaixo do viaduto Eduardo Sayad, na rua Loefgreen, em
Vila Mariana e, o espaço da sede foi cedido pela Organização Auxílio Fraterno -
OAF78.
A cidade do Rio de Janeiro já tem seis cooperativas de catadores em pleno
funcionamento, reunindo 1,3 mil pessoas nos bairros da Usina, Vargem Pequena,
Barra da Tijuca, Copacabana, Centro, Leblon e Gávea. Outras 11, constituídas
informalmente, estarão em operação até o final de 1995. Este programa de criação de
cooperativas, desenvolvido pela Comlurb, tem como objetivo a maior contribuição
desse segmento de trabalhadores no processo de coleta seletiva de lixo na fonte.
Atualmente, os catadores separam cerca de 1,8 mil toneladas/mês de resíduos
recicláveis e obtêm uma renda mensal entre R$ 500 e R$ 700, dependendo da área de
atuação de cada um deles79.
O impacto da catação de material reciclável na rua, sintoma da grave crise
econômica que atravessamos, já evidenciou-se na composição do lixo coletado no Rio
de Janeiro. Os catadores de rua estão desviando uma proporção cada vez maior de
papel do lixo antes que ele seja coletado. Esta é uma das conclusões de um amplo
levantamento sobre a composição do lixo urbano, realizado pela Companhia
Municipal de Limpeza Urbana do Rio - Comlurb - a partir de amostras de resíduos
coletadas em 14 bairros de diferentes classes sócio-econômicas.
Enquanto em 1981 os papéis representavam 42% dos resíduos sólidos da cidade,
em 1993 este material passou a ocupar somente 24% do total do lixo coletado pela
Comlurb, número que espelha a atuação de catadores de rua. Os números refletem a
recessão econômica, que resulta no consumo de menor número de embalagens e o
crescimento da catação de materiais recicláveis existentes no lixo, principalmente
papéis, como fonte alternativa de renda80, analisa Paulo Carvalho Filho, presidente da
Comlurb. Em sua avaliação, conhecer a composição do lixo é fundamental para quem
deseja promover a coleta seletiva ou investir em usinas de reciclagem81.
Com relação aos plásticos, o comportamento foi inverso: passou de 7% em 1981
para 14% em 1993, devido ao crescimento do uso de garrafas e sacolas plásticas. Os
plásticos e papéis juntos correspondiam a 48% do lixo há 12 anos, enquanto em 1993
não passavam de 39%. O estudo comparou o lixo produzido por bairros de baixa
renda com o lixo gerado pelos mais ricos, resultando em números que mostram
claramente as diferenças de padrão de consumo na cidade do Rio de Janeiro. Na Barra
da Tijuca - bairro de classe média-alta - os plásticos e papéis representam 42% do
lixo. Já na favela da Rocinha, o volume cai para 31%.
Os dados sobre o vidro tornam as diferenças ainda mais evidentes: na Avenida
Vieira Souto - uma das áreas mais ricas e valorizadas da cidade - 8,2% do lixo é
composto por vidro. No Condomínio Novo Leblom - bairro de classe média na Barra
da Tijuca - a presença de vidros cai para pouco menos de 6%. Na favela da Rocinha,
não passa de 2,2%.

77 CEMPRE Informa, n010. Janeiro/Fevereiro. 1994.


78 Revista Projeto Reciclagem. Ano 3 (Especial). Maio. 1994.
79 CEMPRE Informa. n024. Agosto. 1995.
80 CEMPRE Informa. n024. Agosto. 1995.
81 CEMPRE Informa. n024. Agosto. 1995.

3
O levantamento constata que a proporção de matéria orgânica é mais alta nos
bairros mais pobres. Como a maior parte da matéria orgânica é composta por restos
de alimentos, podemos concluir que os pobres desperdiçam mais comida que os ricos.
Eles não tem acesso aos meios adequados para conservação de alimentos e compram
produtos mais baratos, que muitas vezes não tem embalagens apropriadas e estragam
com maior rapidez, observa o Sr. Paulo de Carvalho Filho82.
Uma pesquisa de opinião pública, realizada na cidade do Rio de Janeiro, revelou
que os próprios habitantes se consideram os responsáveis pela sujeira e pelo lixo
espalhado pela cidade. O dado mais interessante da pesquisa foram as soluções
apresentadas:

■ punição através de multas - 64,1%;


■ trabalho comunitário de limpeza da área suja - 24,2%;
■ aulas - 27%;
■ processo civil e prisão aos infratores - 1,6%.

A maioria dos entrevistados - 69,3% - consideram a cidade suja porém, os serviços


da Companhia Municipal de Limpeza Urbana, Comlurb, foram considerados bons por
43,7% e regulares por 39,7% dos entrevistados. Um resultado interessante e, até
surpreendente foi a resposta de 65,7% das pessoas que disseram que separariam o seu
lixo em casa para favorecer a reciclagem. Somente 27% das pessoas disseram que não
separariam o seu lixo em casa, demostrando a enorme potencialidade de se implantar
um sistema de coleta seletiva83.

2- Doméstico Perigoso
O Universo deixa de ser visto como uma máquina,
composta de uma infinidade de objetos, para ser
descrito como um todo dinâmico, indivisível, cujas
partes estão essencialmente inter-relacionadas.
(Fritjof Cappra)

82 CEMPRE Informa n012. Abril. 1994.


83 Jornal O Globo. Junho. 1991.
4
O lixo doméstico perigoso pode ser
definido como qualquer material
descartado pelas donas de casa que são
potencialmente capazes de colocar a
saúde humana e o meio ambiente em risco
devido à sua natureza química ou
biológica84.
O lixo doméstico perigoso é muito difícil
de ser avaliado, já que ele é gerado em
quantidade muito pequena mas num
número muito grande de locações.
Somado a este fato, deve-se ressaltar também que ele não tem uma regulamentação
específica como o lixo perigoso de origem industrial, uma vez que eles produzem
impactos muito pequenos isoladamente.
As donas de casa manipulam uma surpreendente variedade de substâncias
químicas perigosas todos os dias em suas residências: produtos de limpeza, tintas e
solventes e, diversos produtos de jardinagem. Muitos deles são inflamáveis,
corrosivos, oxidantes ou tóxicos. Outros produtos, como baterias, pilhas e lâmpadas
fluorescentes contém metais pesados, que são muito perigosos para a saúde pública.
Os impactos sobre o meio ambiente dos resíduos domésticos perigosos são muito
difíceis de serem avaliados. Os processamentos industriais geram grandes quantidades
de resíduos segundo várias categorias de risco enquanto os produtos ditos domésticos
encerram usualmente uma diluição significativa destas mesmas matérias-primas. Um
estudo na cidade de Boston, Massachusetts, USA, indicou que cerca de 4% do volume
de resíduos perigosos nos cursos d’água tem procedência doméstica - uma pequena
porém significante contribuição. Estimativas de muitos países sugerem que os
resíduos domésticos perigosos perfazem, aproximadamente, 1% de todo o lixo
municipal - novamente, uma pequena contribuição de algumas toneladas de resíduos
perigosos. Por exemplo, certos materiais representam um potencial de perigo muito
grande: na Inglaterra, são dispostos cerca de 33.000 toneladas/ano de óleo de motor
por motoristas particulares e taxistas.
Atualmente, os resíduos domésticos perigosos são dispostos conjuntamente com os
outros resíduos urbanos, em aterros sanitários ou são incinerados. Isto pode acarretar
sérios problemas de poluição do ar, do solo ou das águas. À medida que proliferam os
programas de redução da geração de resíduos, a coleta seletiva e a reciclagem, outros
programas de disposição mais racional destes resíduos terão de ser desenvolvidos no
sentido de resolver este problema. As medidas usadas até agora incluem:
■ Aterramento sanitário: os resíduos domésticos perigosos contribuem para a
lixiviação de substâncias que causam séria poluição no solo e na água. Estes sítios
também estão associados à poluição do ar por solventes.
■ Incineração: a maior parte dos resíduos domésticos perigosos são incinerados
juntamente com os outros resíduos coletados no município. Porém, já existe um
consenso que estes incinerados não são adequados para a queima destes produtos.
Certos pesticidas por exemplo, requerem longos períodos em temperaturas mais altas -
do que normalmente os incinerados são operados - para poderem destruir ou prevenir
a formação de subprodutos tóxicos. Outros materiais como baterias, pilhas e lâmpadas
fluorescentes que contém metais pesados requerem que as cinzas provenientes desta
queima sejam tratadas como resíduos perigosos.
■ Estações de tratamento de água e esgotos: os resíduos perigosos lançados
diretamente nos sistemas de águas e esgotos residênciais são carreados até as estações
84 Hazardous Household Waste. Warmer Factsheet. 1992.
2
de tratamento do município. Os processos biológicos ou químicos usados no
tratamento destas águas porém são aqueles adequados para limpar e neutralizar a ação
tóxica destes produtos químicos. Inclusive, diversos metais pesados e pesticidas ficam
retidos no lodo ou lama que se formam nestas estações - mais um problema, pois este
material irá necessitar de disposição adequada como resíduo perigoso. Assim,
podemos perceber que quase invariavelmente o destino destes resíduos acaba sendo os
rios e, daí para os mares.
■ Reciclagem e compostagem: o manejo destes resíduos são particularmente
importantes em se tratando de reciclagem. Diversos resíduos perigosos podem causar
injúrias à quem os manuseia e/ou contaminar os recicláveis e produzir danos aos
equipamentos usados em seu processamento. A correta separação dos resíduos
orgânicos é essencial para uma compostagem livre daqueles resíduos contaminantes.
Existem vários outros incentivos para se proceder a separação dos resíduos
domésticos perigosos: a segurança é um deles e, o mais importante. A estocagem e a
disposição inadequada destes resíduos são responsáveis por uma grande percentagem
de acidentes à crianças, idosos e catadores de lixo. Os principais tipos de resíduos
perigosos domésticos podem ser resumidos na tabela II.2.1.
Estudos nos EUA estimaram que uma dona de casa produz em torno de 10 Kg/ano
de resíduo doméstico perigoso. As quantidades aumentam ou diminuem de acordo
com o grau de educação da comunidade e da eficiência dos programas de coleta da
municipalidade. Segundo um relatório publicado na Inglaterra, foram encontrados
com uma dona de casa inglesa 17 tipos de produtos de pintura, muitos deles com mais
de 25 anos. Este relatório mostrou que muitas pessoas retêm resíduos domésticos
perigosos por não saberem como se desfazer dele - uma ótima razão para se oferecer
este tipo de serviço.

tintas e afins produtos de produtos Produtos de remédios outros ítens


jardim para a limpeza
utomóveis
• vernizes • Pesticidas •
óleos de • detergentes • remédios • produtos de
• tintas • herbicidas motor • desinfetante vencidos piscina
• solventes • fungicidas • óleos de s • produtos de • lâmpadas
• óleos para • repelentes freios • branqueado- beleza flurescentes
conservação • •
fertilizantes óleos de • res de • pilhas e
de madeiras transmissão roupas baterias
• colas • ceras • desodorizad
• vernizes ores
(fonte: Hazardous Household Waste, Warmer Factsheet, 1992)

Uma grande variedade de programas de coleta ou entrega voluntária destes


resíduos estão sendo testadas em diferentes partes do mundo. Estes programas se
baseiam:
■ nas empresas que compram certos produtos - como óleo de motor, tintas, sucatas
ferrosas ou não e entulho.
■ em locais públicos, religiosos, museus, aterros sanitários, etc durante o seu
horário normal de funcionamento. Nestes locais podem ser promovidos eventos para
educar e conscientizar o público, já que eles já podem dispor dos coletores para os
recicláveis.
■ através de veículos especialmente adaptados para coleta regular - semanal,
mensal ou mais frequentemente para determinada locação.

1
Em Seattle, nos EUA, as coletas são feitas por um trailer móvel - composto de
laboratório, oficina e posto médico - que visita vários pontos diferentes e
permanecendo lá até duas semanas ao longo do ano.
A coleta dos resíduos domésticos perigosos mostra que uma grande quantidade
deles pode ser usada, re-usada e o que realmente não pode ser mais aproveitada pode
ser enviado para um aterro sanitário. Em Seattle, 59% destes resíduos tiveram uso
benéfico direto, 33% foram enviados para aterramento sanitário seguro e 4% foi
incinerado. Estudos similares realizados no Canadá mostraram que até 68% destes
resíduos podem ser reaproveitados. Os custos com a coleta varia, de acordo com o
programa empregado, US$ 10 a US$ 150 por habitante85.

3- Resíduos Hospitalares
A mutação técnica, em diversos graus,
afeta a totalidade do mundo habitado.
( Georges Gusdorf )

Os resíduos hospitalares são menos ou tão contaminantes quanto os resíduos


gerados em nossas residências e na maioria dos nossos estabelecimentos comerciais e,
até hoje não houve qualquer comprovação técnica que tenha havido infecções

85 Hazardous Household Waste. Warmer Factsheet. 1992.

1
transmitidas à funcionários que os manipulam, seja nas unidades hospitalares ou nos
depósitos municipais de lixo.
O principal risco de infecções estão nos resíduos cortantes ou perfurantes. Mesmo
no lixo residêncial ou comercial encontramos estes resíduos que, se forem
devidamente acondicionados e separados tornam os riscos de infecções uma
possibilidade bastante remota.
Assim, o maior problema do lixo gerado nas unidades hospitalares é o mesmo
daquele gerado em toda a nossa sociedade: o Desperdício86.
O Medical Waste Tracking Act87, editado pela Agência de Proteção Ambiental dos
EUA em 1988, define os tipos de resíduos hospitalares e recomendações sobre sua
destinação final:

■ Hospitalar:
Composto pelos resíduos administrativos e alimentares. Recomenda-se seu correto
acondicionamento em sacos plásticos vedados e seu encaminhamento para aterros
sanitários ou incineradores;
■ Infecciosos:
Qualquer resíduo potencialmente capaz de causar doença infecciosa. É composto
pelos restos dos Laboratórios de Microbiologia e Patologia (banco de sangue e outros
líquidos corporais, peças anatômicas e carcaças de animais) e, todos os resíduos
cortantes e perfurantes. Estes resíduos devem ser encaminhados para aterros sanitários
ou para incineradores;
■ Médicos:
Qualquer resíduo decorrente do diagnóstico e do tratamento. Deve ter a mesma
destinação dos resíduos hospitalares e infecciosos.

Nos EUA e na Europa, a incineração e os aterros sanitários são os métodos mais


usados para destinação final do lixo nas unidades hospitalares. A própria Organização
Mundial de Saúde - OMS - recomenda a incineração como sendo o método mais
eficiente para eliminação dos resíduos hospitalares, principalmente sólidos e semi-
sólidos. Estes equipamentos devem estar instalados na própria unidade hospitalar e
devem estar adaptados para recuperação da energia proveniente da queima dos
mesmos.
No Brasil, a Portaria Nº 053/79, do antigo Ministério do Interior, determinava que
todas as unidades hospitalares - assim como os portos e aeroportos - tivessem
incineradores ou queimassem os seus resíduos. O lixo hospitalar não justifica a
incineração88, opina o Sr. Cícero Bley Jr., consultor de meio ambiente. Em 1991, a
Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA - desobrigava a
rede Hospitalar de incinerar os seus resíduos, já que na maioria dos casos era mais
uma das muitas leis no Brasil que não era cumprida.
A Fundação de Engenharia e Meio Ambiente - Feema - em 1988 elaborou a
Diretriz de Nº 1.317 que define os procedimentos a serem adotados nas etapas de
manuseio, acondicionamento, armazenamento, transporte e destinação final do lixo
hospitalar. Dados da própria Feema, de 1989, revelavam que 75% das 2.000 unidades
hospitalares no Rio de Janeiro utilizavam os vazadouros públicos para dispor seus

86 Centro de Informações sobre Resíduos Sólidos – Universidade Federal Fluminense (UFF)/Instituto de


Estudos da Religião (ISER).
87 ZANON, U. Riscos infecciosos imputados ao lixo hospitalar: realidade epidemiológica ou ficção sanitária.
Revista Soc. Med. Trop., n023(3): 163-170. 1990.
88 Destino final do lixo hospitalar é tema de discussão nacional. Revista FEEMA, n06: 19-22. Julho/Agosto.
1992.
2
resíduos, 33% os incineravam, 2% mantinham vazadouro próprio e 10% não
declararam o destino dos seus resíduos.
No Rio de Janeiro, existem duas propostas para disposição final do lixo hospitalar:
a construção de um único incinerador para queima de todos os resíduos das unidades
hospitalares e, a construção pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana -
Comlurb - de uma unidade de tratamento de lixo hospitalar na Usina de Reciclagem
do Cajú. Segundo o ex-presidente da Comlurb, Ivan Lagrotta, o funcionamento da
unidade de tratamento de lixo hospitalar da Usina do Cajú teria capacidade de tratar
80 t/dia de lixo hospitalar, recolhido nas Zonas Centro e Norte da cidade.
Projetamos, ainda a construção de mais duas usinas do gênero, em Bangú e em Santa
Cruz, com capacidade de tratar 30 t/dia e 10 t/dia, respectivamente. Juntas, as 3
usinas terão capacidade para tratar 120 t/dia, bem mais do que as 90 t/dia
produzidas em nosso município89.
Na cidade de São Paulo, há 12 anos que todo lixo hospitalar é levado para os dois
incineradores, que também servem a municípios vizinhos90.
Em 31 de agosto de 1993 foi publicado no Diário Oficial da União (ano CXXXI -
no. 166), a Resolução Nº 5, do CONAMA, de 05/VIII/93, que dispõe sobre o correto
gerenciamento dos resíduos sólidos de portos, aeroportos, terminais rodo-ferroviários
e estabelecimentos prestadores de serviços de saúde em todo o país. As principais
normas e recomendações contidas neste documento são91:
1- A definição de resíduos sólidos, no artigo I, segundo a Associação Brasileira de
Normas Técnicas - ABNT - como resíduos nos estados sólido e semi-sólido, que
resultam de atividades da comunidade de origem: industrial, doméstica, hospitalar,
comercial, agrícola, de serviços e de varrição;
2- Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos que aponta e descreve as ações
relativas ao manejo de resíduos sólidos, no âmbito dos estabelecimentos
mencionados no art. I desta Resolução, contemplando os aspectos referentes à
geração, segregação, acondicionamento, coleta, armazenamento, transporte e
disposição final, bem como a proteção à saúde pública;
3- Sistema de Tratamento e Disposição Final dos Resíduos Sólidos conjunto de
unidades, processos e procedimentos que alteram as características físicas, químicas
e biológicas, e conduzem à minimização dos riscos à saúde pública e a qualidade do
meio ambiente;
4- Incentivo a Reciclagem na elaboração do Plano de Gerênciamento dos
Resíduos Sólidos, devem ser considerados princípios que conduzam à reciclagem;
5- Obrigatoriedade da Presença de um Profissional Competente "os
estabelecimentos listados no art. 2, terão um técnico, devidamente registrado em
conselho profissional, para o correto gerênciamento dos resíduos sólidos gerados em
decorrência de suas atividades;
6- Acondicionamento e Transporte Adequado serão acondicionados em sacos
plásticos com a simbologia adequada, para os resíduos infectantes; outros cortantes
ou perfurantes estes serão acondicionados préviamente em recipiente rígido,
estanque, vedado e identificado pela simbologia de substância infectante; o
transporte será feito em veículos apropriados, compatíveis com as características dos
resíduos, atendendo às condicionantes de proteção ao meio ambiente e à saúde
pública.
7- Classificação dos Resíduos Sólidos:

89 Destino final do lixo hospitalar é tema de discussão nacional. Revista FEEMA, n06: 19-22. Julho/Agosto.
1992.
90 MARINI, P. Lixo: uma montanha de problemas. D.M. Março. 1992.
91 Diário Oficial da União. Ano CXXXI, n0166. 05 de Agosto. 1993.
2
GRUPO A: resíduos que apresentam risco potêncial à saúde pública e ao meio
ambiente devido à presença de agentes biológicos.
Enquadram-se neste grupo, dentre outros: sangue e hemo-derivados; animais
usados em experimentação, bem como os materiais que tenham entrado em contato
com os mesmos; excreções, secreções e outros líquidos orgânicos; meios de cultura;
tecidos, orgãos, fetos e peças anatômicas; filtros de gases aspirados de áreas
contaminadas; resíduos advindos de área de isolamento; restos alimentares de
unidades de isolamento; resíduos de laboratórios de análises clínicas; resíduos de
unidades de atendimento ambulatorial; resíduos de sanitários de unidade de internação
e de enfermaria e animais mortos a bordo dos meios de transporte, objeto desta
Resolução.
Neste grupo incluem-se, dentre outros, os objetos perfurantes ou cortantes, capazes
de causar punctura ou corte, tais como lâminas de barbear, bisturi, agulhas, escalpes e
vidros quebrados, provenientes dos estabelacimentos prestadores de serviço de saúde.

GRUPO B: resíduos que apresentam risco potêncial à saúde pública e a meio


ambiente devido às suas características químicas.
Enquadram-se neste grupo, dentre outros:

■ drogas quimioterápicas e produtos por ela contaminados;


■ resíduos farmacêuticos (remédios vencidos, contaminados, interditados ou não-
utilizados);
■ demais produtos considerados perigosos segundo a classificação da NBR 100004
da ABNT (tóxicos, corrosivos, inflamáveis e reativos).

GRUPO C: rejeitos radioativos - enquadram-se neste grupo os materiais


radioativos ou contaminados por radionuclídeos, provenientes de laboratórios de
análises clínicas, serviços de medicina nuclear e radioterapia, segundo Resolução da
Comissão Nacional de Energia Nuclear - CNEN - Nº 6.05.

GRUPO D: resíduos comuns são todos os demais que não se enquadram nos
grupos descritos anteriormente e que se apresentam, basicamente com a mesma
composição que os resíduos domésticos.

4- Resíduos Industriais
Aquele que possui algo grande deve cuidar
para que não se torne excessivo.
( I Ching )

2
O lixo industrial é a resultante de toda
atividade gerada em pequenas, médias e
grandes unidades de produção, de bens de
consumo ou não, e pode conter uma
grande variedade de tipos de resíduos,
alguns até inofensivos enquanto que,
outros nem tanto. Assim, podemos
classificar os resíduos de origem industrial
em três categorias92:

■ Resíduos comuns:
Semelhante ao lixo domiciliar, variando as suas quantidades e composição em
decorrência da particularidade da produção. Pode ser disposto da mesma forma que os
resíduos domiciliares ou comerciais;
■ Resíduos Perigosos:
Requerem tratamento, acondicionamento, coleta, transporte e destinação final
especial e, que podem e devem ser realizados pela própria fonte geradora. Os
incineradores tem sido os mais indicados e utilizados, apesar da sua eficiência ser
discutível em função dos altos custos de implantação, operação e manutenção sem no
entanto considerar, ainda, os prejuízos de ordem econômica (desperdício) e ambiental.
Em caso de disposição inadequada, os prejuízos podem ser até muito graves e
irreversíveis (se levarmos em conta o tempo de vida de um ser humano médio),
devido a seu enorme potêncial de dispersibilidade no meio ambiente (sólido, líquido,
gasoso e biológico). Apesar de toda a controvérsia em torno do assunto, a reciclagem
ainda é a melhor solução ambiental, mesmo que não implique em solução à nível
econômico;

■ Resíduos de Alta Periculosidade:


Requerem ainda mais cuidado do que os resíduos perigosos pois são compostos
orgânicos, na sua maioria, de alta persistência e longa biodegradabilidade que podem
trazer sérios danos ao meio ambiente e à saúde humana, mesmo em quantidades
bastante reduzidas. Mesma situação dos resíduos perigosos.

O mundo produz todos os anos cerca de 340 milhões de toneladas de resíduos


industriais altamente tóxicos e poluentes. Alguns países estão mais atentos ao
problema e desenvolveram programas muito eficientes que minoram razoavelmente o
problema, caso do Japão; outros países adotam outras estratégias, como a reciclagem,
caso da França, a partir da importação de resíduos a preços bastante reduzidos.
Atualmente, uma outra questão vem chamando a atenção das autoridades: o
contrabando de lixo tóxico de origem industrial, denominado nos meios econômicos
de comércio internacional de resíduos. Esta prática vem sendo adotada como uma
forma de driblar leis ambientais mais rígidas e vem sendo praticada como barganha na
obtenção de recursos (empréstimos) que ajudem as economias dos países do Terceiro
Mundo. Porém, já foram denunciados casos envolvendo estados ou países de mesmo
padrão de desenvolvimento93.

A tabela II.4.1 relaciona o total de resíduos industriais produzido e o quanto deste


material é exportado para outros países.

92 AMAZONAS, P.; DROLSHAGEM, M. de S.P. & SEBILIA, A.S.C. Nossa Vida e o Lixo. Documento
Interno da Fundação Brasileira para Conservação da Natureza – FBCN. 1992.
93 Revista Globo Ciência. Ano 2, nº 24: 40. 1993.
2
Países Produção Exportação
(milhões tonel.) (milhões tonel.) ( %)
Alemanha 14,2 805 5,7
Holanda 1,5 188 12,5
EUA 238 127 0,5
Suíça 0,4 108 27
Canadá 3,3 101 3,1
Áustria 0,4 87 21,7
Finlândia 0,2 65 32,5
França 3 45 1,5
Suécia 0,5 30 6
Irlanda 0,02 14 70
Dinamarca 0,1 9 9
Noruega 0,2 8 4
Itália 3,6 3 0,08
Austrália 0,3 0,3 0,1
Espanha 1,7 0,1 0,006
Japão 0,7 0,04 0,006
(fonte: Revista Globo Ciência, ano 2, nº 24: 40, 1993)

A pressão econômica das indústrias exportadoras de lixo é tão forte que os países
do terceiro mundo não conseguem se organizar de modo a impedir à sua entrada. Um
levantamento recente publicado na Revista Britânica The Economist, da Organização
de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico - OCDE - mostra que a Alemanha
está na liderança entre os países exportadores de lixo tóxico, com cerca de 18% de
todos os resíduos por ela gerados. Para aproveitar a indústria do reaproveitamento e
da reciclagem, os países acabaram afrouxando as medidas de controle sobre o
comércio de lixo comum e, no mesmo caminho seguem o lixo hospitalar e o químico
tóxico.
A organização ecológica Greenpeace denunciou que, somente em 1992, os EUA
exportaram para o México 72 mil toneladas de resíduos tóxicos. Desde 1986, que o
Greenpeace documentou 120 propostas de exportação de lixo industrial para países do
Caribe e da América Latina. A exportação do lixo tóxico e indesejável cresce como
opção econômicamente mais lucrativa por que sai mais barato do que reciclar ou
dispor de alguma outra forma, imposta na maior parte das vezes por leis ambientais
rígidas. A Revista Britânica The Economist publicou um estudo da maior empresa
dos EUA de administração de lixo, mostrando que ela perde US$ 33 por tonelada de
material reciclável que produz, abaixo discriminados. O nível ideal de lucratividade só
seria atingido se os governos locais pagassem cerca de US$ 58/tonelada, o que é
impossível pois ultrapassa em muito a receita disponível para esta atribuição na
maioria das prefeituras dos EUA94.
Até 1987, o Brasil não tinha uma lei que proibisse a importação de lixo tóxico.
Com o surgimento da Secretaria de Meio Ambiente - SEMA - houve uma primeira
manifestação à respeito. Em 1992, o Brasil aderiu à Convenção da Basiléia e o Ibama
publicou uma portaria, à Portaria 138 N/92, seguida da Instrução Normativa 040 de
março de 1993. Estes instrumentos legais visavam regulamentar a matéria proibindo a
importação de resíduos perigosos. Só que, junto a portaria, havia um anexo permitindo
a importação à juízo do Ibama. Finalmente, em julho de 1993, surgiu o Decreto nº
875, por meio do qual o governo brasileiro finalmente adotou as recomendações e
restrições da Convenção da Basiléia, destaca a Sra. Nilde Pinheiro, da Secretaria de
Meio Ambiente.

94 Jornal Jornal do Brasil. Junho. 1993.


1
Serviços Prestados Custo/Recebimento
(US$/tonelada)
1- coleta e separação resíduos 150 - 200
2-venda dos resíduos reaproveitáveis 40
3- economia aterros sanitários 30
4- pagamento prefeitura pelo serviço 22

Com o objetivo de controlar e, em muitos casos, banir a entrada de resíduos


considerados perigosos, o Conselho Nacional de Meio Ambiente publicou no Diário
Oficial da União, a Resolução nº 37 que determina os critérios ambientais para este
tipo de comércio no país. Essa resolução substitui a de nº 7, de maio de 1994, que
previa a criação de uma comissão interministerial para rever a situação de outros tipos
de resíduos. Pela resolução anterior, incluía-se qualquer tipo de coisa no que era
considerado outros resíduos. Nisso, se incluía, por exemplo, cavaco de madeira e
sucata de aço, que o Ibama considera como matéria-prima. Pela resolução de nº7, o
Ibama também tinha de controlar a importação de resíduos inertes, que ficou agora
abolido pela nova resolução.
A nova resolução do CONAMA determina que fica proibida a importação de
resíduos perigosos (classe I), em todo território nacional, sob qualquer forma e para
qualquer fim, inclusive reciclagem ou reaproveitamento. São considerados outros
resíduos, classe II aqueles que exigem consideração especial, coletados de
residências ou decorrentes de incineração de resíduos domésticos. Já os não-inertes,
classe III, são passíveis de importação, porém sujeitos ao controle do Ibama, e
incluem as cinzas, escórias e borras da indústria metalúrgica, assim como os
pneumáticos usados. A importação destes resíduos só poderá ser realizada para a
finalidade de reciclagem ou reaproveitamento e após o atendimento de exigências,
tais como: autorização do Ibama; laudo técnico; atendimento à melhor técnica e
normas internacionais e nacionais de acondicionamento e transporte; cadastramento
junto ao Ibama; apresentação de documentos do orgão ambiental estadual ou
municipal e, apresentação ao Ibama, até 30 de novembro de cada ano, de formulário
de previsão de importação para o ano seguinte95.
A tabela II.4.2 relaciona os principais tipos de resíduos listados na classe I.
Em outubro de 1993, a Cetesb, empresa paulista responsável pelo controle
ambiental, apreendeu uma carga de produtos tóxicos procedente da Inglaterra, depois
de denuncias do grupo Greenpeace, e que continha metais pesados em sua
composição. Esta carga de 200 toneladas será devolvida ao país de origem o mais
breve possível. Em 1989, a empresa responsável pela importação desta carga, já havia
feito negócios com empresas da Dinamarca, Holanda e Itália.
O estado do Rio de Janeiro gera por ano 300 mil toneladas de lixo químico e, cerca
de 30 %, ou 90 mil toneladas, são considerados perigosos como o ascarel,
organoclorados e metais pesados. Dados recentes indicam que 45 mil toneladas destes
resíduos são abandonados, sem nenhum tratamento prévio em terrenos baldios, rios e
lagoas de todo o estado, sendo a Baixada Fluminense o local mais visado.

ANEXO 1-A - RESÍDUOS PERIGOSOS - CLASSE I


( Anexo I da Convenção da Basiléia )
Fluxos de Resíduos

95 Jornal A Gazeta Mercantil. Janeiro. 1995.


1
Y1- Resíduos clínicos oriundos de cuidados médicos em hospitais, centros
médicos e clínicas
Y2- Resíduos oriundos da produção e preparação de produtos farmacêuticos
Y3- Resíduos de medicamentos e produtos farmacêuticos
Y4- Resíduos oriundos da produção, formulação e utilização de biocidas e
produtos fitofarmacêuticos
Y5- Resíduos oriundos da fabricação, formulação e utilização de produtos
químicos utilizados na preservação da madeira
Y6- Resíduos oriundos da produção, formulação e utilização de solventes
orgânicos
Y7- Resíduos oriundos de operações de tratamento térmico e de têmpera que
contenham cianetos
Y8- Resíduos oriundos de óleos minerais não aproveitáveis para o uso a que
estavam destinados
Y9- Misturas ou emulsões resíduais de óleos/água ou hidrocarbonetos/água
Y10- Substâncias e artigos residuais que contenham ou estejam contaminados
com bifenilas policlorados e/ou tarfelinos policlorados e/ou bifenilos polibromados
Y11- Resíduos de alcatrão resultantes do refino, destilação ou qualquer outro
tratamento pirolítico
Y12- Resíduos provenientes da produção, formulação e utilização de tintas em
geral, corantes, pigmentos, lacas e vernizes
Y13- Resíduos oriundos da produção, formulação e utilização de resinas látex,
plastificantes, colas / adesivos
Y14- Resíduos de substâncias químicas produzidas em atividade de pesquisa e
desenvolvimento ou de ensino que não estejam identificadas e/ou sejam
conhecidos
Y15- Resíduos de natureza explosiva que não estejam sujeitos à outro tipo de
legislação
Y16- Resíduos oriundos da produção, preparação e utilização de produtos
químicos e materiais de processamento fotográfico
Y17- Resíduos resultantes do tratamento superficial de metais e plásticos
Y18- Resíduos resultantes de operações de depósito de resíduos industriais
(Fonte: CONAMA, 1995)

Na Grande São Paulo, por exemplo, sabe-se que das 187 mil toneladas de resíduos
perigosos produzidos por ano, 83,1 mil toneladas são dispostas irregularmente no solo
ou em corpos d'água. A desinformação faz com que a população sofra as
consequências da poluição sem o saber, ou, quando os sintomas de contaminação se
manifestam, sem identificar suas causas reais96.
A lei nº 2.011 de 1992, que dispõe sobre a obrigatoriedade de implantação do
Programa de Redução de Resíduos, do deputado Carlos Minc (PT/RJ), até hoje não
conseguiu aplicar nenhuma multa nos infratores. Segundo o deputado autor da lei,
esta impunidade é consequência do desmonte da Fundação Estadual de Engenharia
do Meio Ambiente - FEEMA - que não instrui as empresas a como cumprir a lei97.
Apesar da afirmação do Sr. Adir Ben Kauss, Presidente da Feema, que a FEEMA faz
um trabalho permanente de orientação das indústrias, procurando soluções de
tratamento final para os resíduos98, os jornais do Rio de Janeiro estão cheios de
notícias das consequências, mais ou menos graves, sobre os transtornos à população
dos resíduos de origem industrial.
No estado de São Paulo existe um sistema de controle dos resíduos industriais
desde 1989. Mas, apesar disso a situação é grave - especialmente em relação aos
resíduos classificados como perigosos da classe I. O princípio que coloca a indústria
como responsável pelo destino adequado a ser dado aos resíduos é válido, mas não é

96 Jornal Jornal do Brasil. Março. 1995.


97 Jornal Jornal do Brasil. Março. 1994.
98 Jornal Jornal do Brasil. Março. 1994.
2
suficiente99, alega o diretor de Controle da Poluição de Regiões Metropolitanas da
Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental - Cetesb - Sr. Lineu Rodrigues
Alonso. Ao estado cabe a formulação de diretrizes, leis, padrões e linhas de
financiamento, além do controle e fiscalização. Porém, com a estrutura disponível
nem o controle desejado é possível.
Na cidade de São Paulo, onde o serviço de coleta cobre toda a cidade, de acordo
com o Sr. Jair Rosa Cláudio, diretor da Limpurb, há quatro aterros; o Aterro
Bandeirantes é o maior deles, com capacidade de recebimento de 5 mil toneladas
diariamente, inclusive das classes II e III. As empresas geradoras destes resíduos
pagam US$ 24 por cada tonelada disposta - até recentemente, o preço era de US$ 3
por tonelada. Aceitar estes resíduos nos aterros municipais é uma forma de evitar que
aumentem os incontáveis pontos de descarga clandestinos, que seguramente já passam
dos 40 na região metropolitana100.
A legislação101 que regulamenta o lançamento de resíduos industriais perigosos já é
bastante antiga porém, não pode ser considerada ultrapassada. O Decreto nº 50.877, de
29 de junho de 1961, publicado no Diário Oficial da União em 30 de junho de 1961,
Dispõe sobre o lançamento de resíduos tóxicos ou oleosos nas águas interiores ou
litorâneas do País, e dá outras providências, estabelece que:

O Presidente da República, usando da atribuição que lhe confere o Artigo 87, ítem
1, da Constituição, e considerando a necessidade de disciplinar o lançamento de
resíduos sólidos, líquidos ou gasosos, domiciliares ou industriais, visando preservar a
poluição das águas interiores e litorâneas do País, na forma prevista no Artigo 10 do
Código de Pesca, baixado com o Decreto-lei nº 794, de 19 de outubro de 1938,
decreta:

Art. 1- Os resíduos líquidos, sólidos ou gasosos, domiciliares ou industriais


somente poderão ser lançados às águas, in natura ou depois de tratados, quando esta
operação não implique na poluição das águas receptoras.
Art. 3- Para efeitos deste Decreto, considera-se como poluição qualquer alteração
das propriedades físicas, químicas e biológicas das águas, que possa importar em
prejuízo à saúde, à segurança e ao bem-estar das populações e ainda comprometer a
sua utilização para fins agrícolas, industriais, comerciais, recreativos e,
principalmente, a existência normal da fauna aquática.
Art. 4- Serão consideradas poluídas as águas que não satisfaçam os seguintes
padrões:

■ a média mensal de oxigênio dissolvido não será inferior a 4 (quatro) partes por
milhão, nem a média diária será inferior a 3 (três) partes por milhão;
■ a média mensal de demanda bioquímica de oxigênio não será superior a 5
(cinco) partes por milhão (DBO), 5 (cinco) dias a 20 graus Célcius;
■ o pH não poderá ser inferior a 5 (cinco) ou superior a 9,5 (nove e meio).
Art. 8- As pessoas físicas ou jurídicas, que lancem resíduos poluidores nas águas
interiores, terão um prazo de 180 (cento e oitenta) dias, contados da data de expedição
do presente decreto, para tomarem as providências tendentes a retê-los ou trata-los,
observadas as normas técnicas e científicas aplicáveis ao caso.
Art. 11- O presente Decreto entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas
as disposições em contrário.
99 Jornal Jornal do Brasil. Março. 1994.
100 MARINI, P. Lixo: uma montanha de problemas. D.M. Março. 1992.
101 Legislação de Conservação da Natureza. Quarta Edição. Fundação Brasileira para Conservação da
Natureza (FBCN)/Companhia Energética de São Paulo (CESP). 1986.
2
No dia 06 de outubro de 1975 , foi publicado no Diário Oficial da União o Decreto
nº 76.389, de 3 de outubro do corrente, que Dispõe sobre as medidas de prevenção e
controle da poluição industrial, de que trata o decreto-lei nº 1.413, de 14 de agosto de
1975, e dá outras providências estabelece que:
O Presidente da República, usando da atribuição que lhe confere o Artigo 81, Ítem
III, da Constituição, e tendo em vista o disposto no Decreto-lei nº 1.413, de 14 de
outubro de 1975 DECRETA:

Art. 1- Para as finalidades do presente Decreto considera-se poluição industrial


qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente,
causadas por qualquer forma de energia ou substância sólida, líquida ou gasosa, ou
combinação de elementos despejados pelas indústrias, em níveis capazes, direta ou
indiretamente, de:

I- prejudicar a saúde, a segurança e o bem estar da população;


II- criar condições adversas as atividades sociais e econômicas;
III- ocasionar danos relevantes à flora, à fauna e a outros recursos naturais.

Art. 2- Os orgãos e entidades gestores de incentivos fiscais e bancos oficiais,


considerarão explicitamente, na análise de projetos, as diferentes formas de
implementar política preventiva em relação à poluição industrial, para evitar
agravamento da situação nas áreas críticas, seja no aspecto de localização de novos
empreendimentos, seja na escolha do processo, seja quanto à exigência de
mecanismos de controle ou processos antipoluitivos, nos projetos aprovados.
Art. 3- A Secretaria Especial do Meio Ambiente - SEMA - proporá critérios,
normas e padrões, para todo o território nacional, de preferência em base regional,
visando a evitar e a corrigir os efeitos danosos da poluição industrial.
Art. 5- Além das penalidades definidas pela Legislação Estadual e Municipal, o
não cumprimento das medidas necessárias à prevenção ou correção dos
inconvenientes e prejuízos da poluição do meio ambiente, sujeitará os transgressores:

■ à restrição de incentivos e benefícios fiscais concedidos pelo poder público;


■ à restrição de linhas de financiamento em estabelecimentos de créditos oficiais;
■ à suspensão das atividades.

Art. 14- Este Decreto entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as
disposições em contrário.

Deve-se ressaltar dois pontos interessantes deste decreto: primeiro, quando no


Artigo 1 dispõe sobre a poluição criar condições adversas às atividades sociais e
econômicas já há um esboço de contabilização dos custos ambientais na formulação
da política industrial no país, fato inédito na legislação ambiental vigente. Segundo,
no Artigo 5, quando impõe restrições ao oferecimento de linhas de créditos, incentivos
e benefícios fiscais a empresas poluidoras. Este artigo deveria, pelo menos em tese,
coibir o lançamento de resíduos industriais no ambiente já que o governo federal
sempre beneficiou as indústrias, tanto as multinacionais quanto as nacionais.
O Conselho Nacional de Meio Ambiente - CONAMA - através da Resolução
006/88, dispõe sobre O licenciamento de Resíduos Industriais Perigosos. Os principais
pontos desta resolução são102:
102 DIAS, G.F. Educação Ambiental: princípios e práticas. São Paulo, Editora Gaia. 1992.
2
A- Considerando a ausência de informações sobre os tipos e destinos dos resíduos
gerados no Parque Industrial do País;
B- Considerando a necessidade de dados precisos sobre os estoques de Bifenilas
Policloradas - PCB's - e agrotóxicos fora de especificação ou de uso proibido no país;
C- Considerando que estes produtos podem apresentar características
extremamente prejudiciais à saúde humana e ao meio ambiente;
D- Considerando, ainda, que para elaboração de diretrizes nacionais visando o
controle dos resíduos perigosos, é essencial à realização de um inventário dos resíduos
industriais gerados e/ou existentes no país, RESOLVE:

Art.1- No processo de licenciamento ambiental de atividades industriais, os


resíduos gerados e/ou existentes deverão ser objeto de controle específico.
Art. 2- As indústrias geradoras de resíduos, enquadradas nos critérios abaixo, com
orientação do orgão de controle ambiental do Estado ou da SEMA em caráter
supletivo deverão, no prazo de 90 (noventa) dias a partir da publicação desta
Resolução, ou a partir de 60 (sessenta) dias após a notificação, apresentar ao orgão
ambiental competente, informações sobre a geração, características e destino final dos
seus resíduos, na forma definida no Anexo I, desta Resolução:

I- indústrias metalúrgicas com mais de 100 (cem) funcionários;


II- indústrias químicas com mais de 50 (cinqüenta) funcionários;
III- indústrias de qualquer tipo (grupo 00 a 30) com mais de 500 (quinhentos)
funcionários;
IV- indústrias que possuem sistemas de tratamento de águas residuárias do
processo industrial;
V- indústrias que geram resíduos perigosos como tais definidos pelos orgãos
ambientais competentes.

Parágrafo único - O orgão ambiental competente terá o prazo de 30 (trinta) dias, a


partir da data de publicação desta Resolução, para emitir a notificação a que se refere
o caput deste artigo.
Art. 3- As entidades públicas e/ou privadas que possuam estoques de agrotóxicos
fora de condições, de uso proibido, deverão apresentar ao orgão ambiental competente
dentro de 90 (noventa) dias, a partir da publicação desta Resolução, o inventário
destes estoques, na forma definida no Anexo I.
Art. 4- As concessionárias de energia elétrica e empresas que possuam materiais
e/ou equipamentos contaminados por Bifenilas Policloradas - PCB's - bem como
estoques e/ou equipamentos fora de uso, contendo óleos ascaréis, deverão apresentar
ao orgão ambiental competente, dentro de 60 (sessenta) dias, a partir da publicação
desta resolução, o inventário destes estoques, na forma definida no Anexo I.

Mais uma vez, fica claro que o controle da poluição industrial não é um problema
de legislação mas sim, de se fazer cumpri-la. Esta resolução do CONAMA cria a
oportunidade de se estabelecer um banco de dados sobre à indústria, sua matéria-
prima, seu processamento industrial, seus rejeitos e, principalmente, o destino final
dado à eles. De posse destes dados, pode-se descobrir a(s) indústria(s) poluidor(as).
Conhecendo todas as etapas do processo industrial e seus rejeitos é muito mais fácil
realizar vistorias periódicas para verificar o cumprimento da legislação ambiental

2
vigente. Deve-se ressaltar, entretanto, que salvo raras exceções, os orgãos de
fiscalização são mal aparelhados e carecem de profissionais realmente capacitados
para realizar este trabalho.

O Japão, atualmente é um bom modelo para se verificar o estágio da poluição


industrial. Embora o governo japonês tenha encampado a questão da preservação do
meio ambiente nos últimos anos, de forma à melhorar sua imagem junto a mídia
internacional, pouco fez até agora para introduzir uma legislação que defina o papel da
indústria na proteção ambiental ou na imposição de normas específicas para o lixo
industrial. Depois de um vertiginoso aumento da economia japonesa no pós-guerra, o
país se viu assolado por uma descarga de poluentes tão grande, que obrigou a
imposição de leis que coibiam a poluição do ar e das águas. Estas leis foram impostas,
em parte, por diversas ações civis de indenizações que as indústrias e o próprio
governo sofreram e que foram obrigados a pagar pesadas multas.
O caso mais famoso é o ocorrido na Baía de Minamata onde a empresa de produtos
químicos Chisso lançou resíduos à base de mercúrio in natura. Este mercúrio foi
assimilado por mariscos e mexilhões e por peixes, alimentos básicos dos japoneses.
Morte e defeitos genéticos foram os resultados desta irresponsabilidade. Segundo Ian
Austin, diretor da empresa de consultoria ambiental Dames & More, a Chisso deixou
de gastar US$ 941,62 mil e se viu obrigada a gastar, a guisa de indenizações, 112,65
milhões ao ano, aproximadamente, 100 vezes mais103. De acordo, ainda com o Sr.
Austin, a poluição do solo provocada pelos depósitos de lixo industrial deverá
representar um problema para o governo e indústrias japonesas dentro dos próximos
anos. Uma legislação referente ao custo para o usuário, que exige que as companhias
paguem pela coleta e tratamento do lixo poluído, terá de ser aplicada, pois o custo de
fechamento e limpeza dos depósitos de lixo industrial são enormes e, dentro de sete
anos, as companhias não terão mais locais disponíveis para depositar o lixo
industrial gerado104.

103 Jornal A Gazeta Mercantil. Março. 1994.


104 Jornal A Gazeta Mercantil. Março. 1994.

2
5- Radioativos:
Se pudéssemos limpar as portas O Universo num grão de areia.
da percepção, tudo se revelaria A Eternidade num segundo.
ao homem tal qual é: infinito. ( Willian Blake )
( Willian Blake )

Quando o reator nuclear nº 4 da Usina de Chernobyl, na ex-república soviética e


atual Ucrânia, explodiu nas primeiras horas do dia 26 de abril de 1988, lançou uma
grande núvem de plutônio, iodo, estrôncio e césio radioativo por toda a Europa estava
definitivamente desmistificado o discurso dos defensores da energia nuclear quanto a
total segurança das centrais nucleares. O acidente, o pior já registrado oficialmente,
causou danos ambientais e à saúde até hoje não muito bem estudados, devido
principalmente à omissão de dados reais do governo, à época soviético. Uma equipe
do Parlamento Europeu e da Comissão Européia de Energia Atômica trabalham nas
Repúblicas da Rússia, Bielorrússia e da Ucrânia, as mais afetadas pelo desastre e,
segundo suas estimativas os mananciais de água dessas regiões ficarão contaminados
por pelo menos uma década. Mas a escala dessa missão de combate a radiação, que
3
transformou em deserto um dos mais férteis territórios da Europa Central, é
aterradora. Num raio de 30 Km ao redor da usina, a terra está tão contaminada que
toda a vida humana normal foi rechaçada. Barcos, tratores, caminhões, ônibus,
helicópteros e toda sorte de objetos aparecem abandonados pela cidade, formando um
imenso cemitério que permanecerá como um dos mais tristes legados da
humanidade105.
Apesar das consequências desastrosas desse acidente, os governos continuam a
desenvolver a energia nuclear sem nenhuma certeza de que o problema do lixo
atômico poderá ser resolvido106. A advertência é do Sr. Nicholas Lenssen, do
Worldwatch Institute, no relatório entitulado Lixo Nuclear: o problema que
permanece. Este material radioativo, que permanecerá mortalmente ativo por dezenas
de milhares de anos, está sendo acumulado em instalações de armazenamento
provisórios nos 26 países que utilizam a energia nuclear107. O lixo atômico pode ser
definido como qualquer material resultante de atividades humanas que apresente alto
nível de radiação e cuja reutilização seja imprópria ou não prevista108. Porém, a
poluição nuclear pode assumir outras formas. Há riscos desde a produção de minerais
radioativos, seu processamento e concentração, sua utilização na pesquisa científica,
na medicina, na agricultura, na indústria e na produção de energia. Por último, e o
aspecto mais controvertido, a destinação do lixo atômico109.
Em 1990, os rejeitos provenientes das usinas nucleares giravam em torno de 80 mil
toneladas. Em 1985, este total era próximo das 40 mil toneladas e, em 1970 estes
valores eram 20 vezes menor. Em vinte anos, houve um aumento assombroso na
quantidade de rejeitos de origem nuclear. Para o ano 2000, esta cifra deve chegar à
450 mil toneladas e, a curto prazo, os governos não sabem como destinar este
material.
A solução de enterrar o lixo atômico a centenas de metros de profundidade na
crosta terrestre, considerada como a mais segura pela maioria dos governos, é
extremamente polêmica. Existe a possibilidade de o local de estocagem se tornar
vulnerável devido a movimentações do solo ou a infiltração de água110.
Segundo a Comissão Nacional de Energia Nuclear - CNEN - ao contrário do se
divulga, existem soluções técnicas para guardar os rejeitos radioativos sem riscos para
a humanidade. Estes resíduos levam cerca 800 anos para ter a sua radioatividade
reduzida aos mesmos valores específicos do material de origem. Assim, após este
tempo estaremos retornando à natureza algo do mesmo nível de radioatividade que já
existia. Hoje, uma das técnicas mais empregadas de tratar o lixo radioativo consiste
em diluir, inicialmente, este material em uma matriz de vidro - vitrificação,
solidificando-a na forma de um cilindro. Depois, este é envolvido em um outro
cilindro de chumbo. O vidro tem uma taxa de dissolução, mesmo na água corrente,
bastante baixa e é resistente à grande maioria dos agentes químicos. De forma que, se
um cilindro destes for colocado, inadvertidamente, em água corrente, teria uma taxa
de dissolução da ordem de 1 milímetro por século. Isto, per si, significaria um tempo
de retorno ao meio ambiente superior a 10.000 anos para um cilindro com 10 cm de
raio. Isolado da água corrente, a resistência deste cilindro seria estendida a várias
centenas de milhares de anos.

105 Jornal A Gazeta Mercantil. Novembro. 1993.


106 Worldwatch Institute. 1992.
107 Worldwatch Institute. 1992.
108 O que é o lixo atômico? Folheto Informativo, Ministério das Minas e Energia. 1987.
109 ACSELRAD, H.; VIEIRA, L. & GUARANY, R. Ecologia, direito do cidadão: uma coletânea de textos.
Rio de Janeiro, Jornal do Brasil. 1993.
110 RAY, D.L. & GUZZO, L. Sucateando o Planeta. Porto Alegre, Expressão e Cultura/Instituto Liberal.
1982.
2
O segundo invólucro de chumbo tem dupla finalidade: primeiramente, serve para
atenuar as radiações permitindo o manuseio dos cilindros. Em segundo lugar, funciona
como um protetor adicional contra a corrosão do meio ambiente. Finalmente, a
cobertura de chumbo recebe um envoltório de aço inoxidável para dar resistência
mecânica ao conjunto. Este material é enterrado, de preferência, em depósitos salinos
subterrâneos com profundidades superiores a 600 metros e podem resistir intáctos
durante milhares de anos. Os depósitos salinos são os locais ideais, pois trata-se de
ambientes sem umidade, evitando-se assim a corrosão, o que estenderia de forma
extrema a durabilidade do material a ser depositado111.
O lixo radioativo não é sempre aquilo que aparenta ser, pois ele hoje contém
muitos dos materiais úteis de amanhã, como o amerício - usado nos detectores de
fumaça - e o urânio, que pode ser reprocessado e reutlizado como combustível das
centrais nucleares. O lixo nuclear pode ser uma mina, mas apenas se tivermos,
primeiro, a coragem de encara-lo como uma fonte de matérias-primas - como os
inofensivos resíduos domésticos e usa-lo até que ele não tenha mais nada a oferecer.
Chegou a hora de revisar toda essa questão do lixo atômico e de nos perguntarmos
se reprocessar não é melhor do que enterrar, apesar das questões levantadas pelos
movimentos pacifistas que o reprocessamento, também, abre as portas para a
produção de novas armas atômicas. O reprocessamento faz sentido em termos
científicos, técnicos e ambientais. Depois do reprocessamento e da retirada de todos os
isótopos úteis e benéficos, o resíduo remanescente, adequadamente embalado, pode
ser depositado nos oceanos.
A alegação do Greenpeace (citando Jackson Davis, biólogo da Universidade da
Califórnia), de que a deposição dos resíduos nucleares no mar vai torna-lo tão
radioativo que não poderá mais manter as condições de vida alí existentes112, não se
sustenta. Talvez as pesquisas no mundo real sejam mais convincentes em mostrar
quão rapidamente o oceano recupera-se da contaminação. Nas Ilhas Marshall, no
Oceano Pacífico, a ilha Eniwetok, palco de 46 explosões atômicas, foi completamente
contaminada pela radioatividade. A maior parte dela se concentrou na lagoa, onde as
cadeias de alimentação marinha ficaram rapidamente livres da radioatividade e
puderam ser consumidas. Isso não acontece com os animais e plantas terrestres.
Mais de 30 anos depois, os cocos, a fruta-pão, outras plantas, assim como os
caranguejos de terra - o favorito dos nativos - ainda estão tão contaminados pelo
estrôncio 90 e césio 137 que não podem ser regularmente consumidos. Entretanto, no
mar, esses radionuclídeos são diluídos por quantidades maciças de estrôncio, cálcio,
césio e potássio estáveis, e não representam mais ameaças para as cadeias alimentares
marinhas. Se os resíduos nucleares fossem depostos no oceano, seriam vitrificados,
encerrados em caixas de aço inoxidável e levados às profundezas dos oceanos, longe
da terra, penetrando nos sedimentos macios do fundo do mar113.
A solução dos problemas dos rejeitos radioativos talvez esteja na utilização de
certas bactérias, conhecidas pela sigla GS - 15, e que se utilizam do urânio para
auxiliar no seu metabolismo. Os cientistas da Divisão de Recursos Aquáticos do U.S.
Geological Survey, na Virgínia, acreditam que estas bactérias podem atuar na
descontaminação de águas poluídas por urânio. O urânio é solúvel em água e isto
dificulta sua remoção e descontaminação. As GS - 15 reagem com o metal, fazendo-o

111 O que é o lixo atômico? Folheto Informativo, Ministério das Minas e Energia. 1987.
112 RAY, D.L. & GUZZO, L. Sucateando o Planeta. Porto Alegre, Expressão e Cultura/Instituto Liberal.
1982.
113 RAY, D.L. & GUZZO, L. Sucateando o Planeta. Porto Alegre, Expressão e Cultura/Instituto Liberal.
1982.
3
tornar-se insolúvel e ele se precipita no fundo, facilitando a sua remoção por processos
físicos de separação, bem mais baratos e eficientes.
Segundo a microbiologista envolvida na descoberta, Elizabeth Phillips, outro uso
muito importante poderá ser a sua utilização para outros metais pesados, que
apresentam comportamento semelhante ao do urânio, como cromo e selênio. Como já
vivem na natureza, não devem provocar nenhum desequilíbrio ecológico nem risco
algum para os seres vivos. Elas existem em todos os lugares, provavelmente até aí no
Brasil114.
Os resíduos de origem radioativa, sem dúvida, os mais perigosos dentre todos
aqueles tratados até agora. São resíduos de longa permanência, alto potêncial
contaminante e de efeitos mais destrutivos ao meio ambiente e a saúde humana,
podendo, inclusive colocar a humanidade num beco sem saída. Mesmo em pequenas
doses, a radiação oferece riscos de câncer quatro a oito vezes mais do que se pensava
a uma década atrás.
Em fevereiro de 1994, mais de setenta países reunidos em assembléia decidiram
proibir o despejo de todos os tipos de rejeitos radioativos no mar, prática muito
comum em termos de disposição final deste tipo de resíduo. A votação aconteceu no
último dia da Convenção de Londres, que trata da poluição marinha e do despejo de
resíduos no mar e, foi realizada na sede da Organização Marítima Internacional, em
Londres. A única exceção foi a Rússia, que é um dos países que mais despejam seus
resíduos radioativos no mar, principalmente nas costas do Japão, o que já provocou
protestos veementes do governo japonês. O banimento mundial do lançamento de
resíduos no mar entra em vigor em cem dias após a sua aprovação.
Em outubro de 1993, um navio militar russo despejou 900 toneladas de lixo
nuclear de baixa radiação no mar do Japão, a 550 Km à oeste da ilha japonesa de
Hokaido. O ministro russo do meio ambiente, Viktor Danilov Danilyan, prometeu que
a Rússia nunca mais jogaria lixo nuclear no oceano se outros países ajudarem a
construir uma usina de tratamento de rejeitos radioativos115. Segundo ainda o Sr.
Danilyan, o governo russo estava procurando ativamente outras formas de dar um
fim aos rejeitos nucleares, tais como concentrar o lixo na forma sólida para depois
enterrar116.
Com o fim da guerra fria e os recentes acordos de desmantelamento dos arsenais
nucleares, trouxeram mais uma dor de cabeça ao governo russo: o que fazer com o
plutônio e o urânio altamente enriquecido das armas nucleares ?
Tentando minimizar este novo problema, o governo dos EUA assinou um acordo
com o governo da Rússia se comprometendo a fornecer 30 mil contâiners especiais
para armazenamento deste material. Estes contâiners serão construídos pela empresa
Scientific Ecology Group, num contrato assinado junto ao Departamento de Defesa no
valor de US$ 40 milhões.
O próprio governo dos EUA está com um sério problema de destinação dos
resíduos radioativos das suas 120 usinas nucleares. São mais de 20 mil toneladas de
combustível nuclear usado, que estão depositados em piscinas de água junto as usinas.
O congresso americano já decidiu que todo este material será enterrado em um
depósito à ser construído pelo Departamento de Energia em Yucca Montain, no estado
de Nevada. O problema, é que este depósito só estará pronto por volta de 2010 e, até
lá as empresas e usinas não sabem onde estocar os seus rejeitos, que aumentam dia a
dia.
Segundo denúncias do Jornal O Globo, de 25 de maio de 1993, existem 7.800
toneladas de resíduos radioativos no Brasil, mal armazenados em depósitos
114 Jornal Folha de São Paulo. Maio. 1991.
115 Jornal A Gazeta Mercantil. Novembro. 1993.
116 Jornal A Gazeta Mercantil. Novembro. 1993.
4
provisórios e sem as condições mínimas de segurança. O ex-Presidente da República
Sr. Itamar Franco, inclusive, determinou a seu ex-Ministro-Chefe da secretaria de
Assuntos Estratégicos - SAE - Sr. Mário César Flores que estudasse todas as
alternativas possíveis para solucionar o problema. Segundo o Sr. Mário César Flores,
não há previsão no Orçamento do ano de 1994 para a construção do depósito que
guardará o lixo radioativo da mina de urânio de Poços de Caldas (MG), orçado em
US$ 14 milhões e é a prioridade do governo federal em relação aos resíduos
radioativos117. Em Poços de Caldas, o governo explora esta mina de urânio e só
aproveita o chamado minério de primeira, com o qual é produzido o yellow-cake,
produto que depois de enriquecido será utilizado na produção do combustível para as
usinas nucleares. Um segundo tipo, a torta II, que aparece misturado a outros
minerais, constituem os resíduos que estão sendo armazenados em tambores.
A segunda prioridade, é o depósito de Abadia - GO - a 150 Km de Brasília, onde
será guardado todo o material contaminado pelo acidente com o Césio-137, que
aconteceu em Goiânia em 1988.
Num ferro-velho de Goiânia, alguns sucateiros abriram uma velha e desativada
bomba de césio, retirada das ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia. Sua capsula
possuía 19 gramas de cloreto de césio.
Ao ser arrombada, o brilho suave e semelhante da purpurina fascinou as vítimas,
principalmente as crianças, que chegaram a passar no corpo esta substância para que
brilhassem no escuro. O resultado dessa irresponsabilidade das autoridades
competentes foi a morte e invalidez de muitas pessoas e uma enorme área
contaminada118.
O lixo de Goiânia está guardado em 4.317 tambores e 1.342 caixas metálicas que
devem ser lacrados em cilíndros de concreto. No entanto, o que mais preocupa os
pesquisadores da Comissão Nacional de Energia Nuclear - CNEN - é o lixo orgânico -
animais contaminados que foram mortos na época do acidente e lacrados nos
cilíndros. A decomposição da matéria orgânica produz gases e há suspeitas de que eles
possam estar contaminados. O Sr Merril Eisembud, ex-diretor do Laboratório de
Segurança da Comissão de Energia Atômica dos EUA se colocou a disposição da
CNEN para orientar técnicos brasileiros na colocação dos rejeitos em seu local
definitivo. No futuro, um laboratório de radioecologia deverá ser instalado ao lado do
depósito de lixo nuclear em Goiás119.
Sete anos depois, o material que provocou o segundo maior acidente nuclear -
oficial - do mundo continua no depósito improvisado de Abadia, embora esteja
vencido, há 44 meses, o prazo de segurança para a sua utilização. Os tambores
carregados de material radioativo estão empilhados, ao ar livre, numa área de 22 mil
m2, sem nenhum tipo de proteção contra os efeitos da chuva e do sol120.
Existem duas situações de perigo em relação à realidade nuclear: o risco que corre
a população vizinha à atividade ou instalação, que sofre um perigo nuclear direto, e o
risco da população não adjacente à instalações, que não correm este risco direto. Mas,
em qualquer uma das duas situações, a ameaça de ocorrer em breve algum prejuízo, a
iminência de dano já é possível de punição, sem que precise haver a culpa de alguém
ou de algum orgão. A lei que garante isso é a de nº 6.453 de 17 de outubro de 1977.
Ela é clara neste sentido e trata da responsabilidade civil e criminal por causa de

117 Jornal O Globo. Maio. 1993.


118 SARIEGO, J.C. Educação Ambiental – as ameaças ao Planeta Azul. Rio de Janeiro, Editora Scipione.
1994.
119 Jornal O Globo. Maio. 1993.
120 Jornal Jornal do Brasil. Maio. 1994.
5
ameaças ou danos nucleares continuados. Se ficar comprovada a existência de riscos e
danos nucleares, a Comissão Nacional de Energia Nuclear - CNEN - pode ser
responsabilizada por não haver efetuado o monitoramento ou controle do material.
Mas, qual é a verdadeira situação nuclear no Brasil?
Segundo o físico Luís Pingelli Rosa, da COPPE / UFRJ, a situação da Usina
Nuclear de Angra I não é lá muito boa. O gerador de vapor apresenta problemas de
corrosão, o que é muito grave, já que ele é fundamental para remover o calor do
circuito primário. Na região de Angra dos Reis, tem sido notada em algas e
sedimentos a presença de cobalto-58 e cobalto-60, material radioativo emitido pela
Usina121. Há, ainda, dois outros problemas muito graves em relação à usina. O
primeiro é o destino final dos rejeitos de alta radioatividade, já que só existe um
armazenamento provisório.
O segundo problema é plano de emergência para a evacuação da região em caso de
acidente. O plano original, que conta com a participação do exército, não funciona.
Por exemplo, o deslocamento de tropas até o local é de mais ou menos 10 horas, e isso
em caso de acidente nuclear onde as ações deveriam ser urgentes. Os 180 ônibus que
fariam o transporte são de um tamanho que impede sua circulação pela maioria das
ruas de Angra dos Reis. Mesmo assim, já houve uma melhora, pois há alguns anos o
plano de evacuação era secreto. Foi por iniciativa de uma Comissão da Assembléia
Legislativa do Rio de Janeiro, coordenada pelo ex-deputado ecologista Liszt Vieira,
com a assessoria Sociedade Brasileira de Física e da COPPE/UFRJ, tendo à frente o
Prof. Luís Pingelli Rosa e com o apoio da comunidade de Angra dos Reis, que o plano
de evacuação até então secreto, acabou sendo liberado para conhecimento da
sociedade em 1985. Dessa data em diante, o plano passou a ser discutido por entidades
de meio ambiente, prefeitura, universidades, parlamentares e, diversas modificações
foram encaminhadas. Já foi realizado um teste para evacuar a população em caso de
acidente122.
Os defensores da conclusão das obras da Usina Nuclear de Angra II, tecnólogos e
burocratas, prudentemente tem se afastado da discussão sobre que destino dar aos
rejeitos radioativos perigosos. Discute-se as necessidades energéticas do país, os
custos, a dependência tecnológica e até o programa paralelo. Mas do lixo nuclear
não se fala. Porque eles sabem que não existe no mundo uma alternativa segura e
muito menos barata para armazenar os resíduos nucleares123, é o que afirma o
jornalista Dioclécio Luz. Apesar de todo desenvolvimento da indústria nuclear, ainda
não se sabe o mais simples: o que fazer com o lixo radioativo?
No caso do Brasil, esta questão também está sem resposta. Se as obras de Angra II
forem concluídas e, a usina estiver funcionando a toda carga, vão ser geradas 53
toneladas/ano de lixo nuclear altamente radioativo. Segundo ainda o jornalista
Dioclécio Luz, se o destino desse material for o mesmo da Usina de Angra I, será
construída uma piscina, com água sendo usada como isolante. Mesmo operando feito
vaga-lume (tanto que apaga e acende), Angra I já acumula mais de 100 toneladas de
material altamente radioativo nessas piscinas e mais 4 mil barris, com 200 litros
cada, com resíduos de média radioatividade124.
As usinas nucleares geram energia por 25 a 40 anos, mas o lixo que produzem
permanece perigoso por milhares de anos e, como lixo radioativo podemos dizer que é
tudo aquilo que estiver contaminado: são pedaços de canos, roupas, equipamentos em
121 ACSELRAD, H.; VIEIRA, L. & GUARANY, R. Ecologia, direito do cidadão: uma coletânea de textos.
Rio de Janeiro, Jornal do Brasil. 1993.

122 ACSELRAD, H.; VIEIRA, L. & GUARANY, R. Ecologia, direito do cidadão: uma coletânea de textos.
Rio de Janeiro, Jornal do Brasil. 1993.
123 Jornal Folha do Meio Ambiente. Junho. 1993.
124 Jornal Folha do Meio Ambiente. Junho. 1993.
2
geral e o próprio resíduo nuclear resultante da fissão. O lixo nuclear, na verdade , é a
própria usina. O que fazer com ela depois que acabou a sua vida útil? Mais um
problema. E caro! Uma usina pequena, gerando 330 Megawatts - Angra II vai gerar
1.300 - custa US$ 224 milhões para ser construída. Desmonta-la, sem riscos, custaria
US$ 333 milhões. Estudos mostram, inclusive, que muitas usinas construídas para
uma vida útil de 40 anos, estão sendo fechadas com uma média de 12 anos125, assinala
o Sr. Dioclécio Luz.
No Brasil, é a Comissão Nacional de Energia Nuclear - CNEN - o orgão
responsável pela normatização e fiscalização dos rejeitos radioativos. Através da
Resolução 19/85, publicada no Diário Oficial da União em 17 de Dezembro de 1985,
Norma NE - 6.05, é que são estabelecidos os critérios gerais e requisitos básicos
relativos à Gerência de Rejeitos Radioativos. Esta Norma aplica-se às Instalações
Radioativas sujeitas a processo de licenciamento pela CNEN, de acordo com a Norma
CNEN NE - 6.02, Licenciamento de Instalações Radioativas. Na aplicação desta
Norma devem ainda ser consideradas as normas da CNEN relativas a Radioproteção,
Licenciamento de Instalações Nucleares e Transporte de Materiais Radioativos.
Os rejeitos radioativos são classificados em categorias segundo o estado físico,
natureza da radiação, concentração e taxa de exposição. O seu gerenciamento inclui:

1- A sua separação de todos os outros tipos de materiais;


2- Os resíduos que não puderem ser removidos da instalação, deverão ser
armazenados em recipientes adequados, que devem portar o símbolo internacional de
presença de radiação de maneira clara e visível, até que possam ser transportados e/ou
eliminados;
3- Os recipientes para separação, coleta ou armazenamento provisório devem ser
adequados as características físicas, químicas, biológicas e radiológicas dos rejeitos
para os quais são destinados. Devem, também, ter asseguradas suas condições de total
integridade e vedação;
4- Os veículos a serem utilizados no transporte de rejeitos devem ter meios de
fixação e suporte dos recipientes, de modo a evitar danos aos mesmos;
5- Os veículos, após cada serviço de transporte, devem ser monitorados e, caso seja
necessário, descontaminados;
6- O local de Instalação destinado ao Armazenamento Provisório deve:

■ conter com segurança os rejeitos, física e radiológicamente, até que possam ser
removidos para local determinado pela CNEN;
■ realizar monitoramento radiológico permanente;
■ ser cercado e sinalizado, com acesso restrito a pessoal autorizado;
■ ter piso e paredes impermeáveis e de fácil descontaminação;
■ dispor de meios que, em caso de acidentes, evitem a dispersão do material;
■ dispor de planos de proteção física e radiológica, bem como procedimentos para
situações de emergência.

7- A eliminação dos rejeitos está condicionada à parecer técnico da CNEN em face


dos fatores ambientais envolvidos, segundo os seguintes critérios:

■ a eliminação dos rejeitos líquidos na rede de esgotos só poderá ser feita se o


rejeito for solúvel em água; de fácil dispersão; a quantidade anual de radionuclídeos
eliminada anualmente não deve exceder os valores estipulados nas tabelas desta
125 Jornal Folha do Meio Ambiente. Junho. 1993.

2
resolução e, a eliminação de líquidos corporais de pacientes deve ser feita de acordo
com as especificações da CNEN.
■ a eliminação de rejeitos sólidos no sistema de coleta de lixo urbano e de rejeitos
gasosos na atmosfera devem ser iguais ou inferiores à valores especificados na atual
Resolução.

8- a CNEN ou seus representantes estão autorizados a realizar inspeções e


auditorias a todas as instituições à ela credenciadas assim como, determinar a
suspensão ou cancelamento da autorização para operação caso seja verificado o
descumprimento destas normas.

CAPÍTULO III

Métodos de Tratamento e Disposição Final

2
1- Aterros Sanitários e Lixões
Peço a Deus que nos dê a serenidade do nosso guerreiro
Nelson Mandela, a ousadia de um Gandhi - que não se
curvou diante do Império Inglês - e, a doçura de um
menimo de rua, ao estender a mão à espera da cidadania.
( Luis Inácio "Lula" da Silva )

O aterro sanitário é uma das formas de dispor o lixo no solo segundo métodos
criteriosos e adequados. O lixo é disposto no solo e enterrado em camadas sucessivas,
de espessuras pré-determinada e recobertas por uma camada de solo argiloso.
A prática de enterrar o lixo como forma de disposição final não é uma rotina
recente. Existem registros de que diversos povos da antiguidade já o faziam para
produção de adubo.

■ Os nabateus, na Mesopotâmia, há mais de 2.500 anos antes de Cristo enterravam


seus restos domésticos e agrícolas;
■ Por volta do ano 150, em Roma o lixo foi considerado como o responsável pelo
desenvolvimento de roedores e diversos insetos transmissores de doenças. Então,
todos os resíduos urbanos eram enterrados em valas para eliminar ou reduzir os ratos,
responsáveis pela transmissão da peste bubônica. Na idade média, a peste também foi
a responsável pela prática de enterrar os dejetos. Do aprimoramento contínuo desta
prática surgiu aquilo a que chamamos hoje de aterro sanitário.
O aterro sanitário é, atualmente, o método mais usado para dar a destinação final
dos resíduos urbanos. O seu baixo custo e a simplicidade da sua execução são os
argumentos mais fortes dos defensores desta prática. Os que combatem os aterros,
alegam que serão necessárias áreas cada vez maiores, próximas aos centros urbanos,
para dispor quantidades crescentes de lixo. De qualquer maneira, as principais
vantagens dos aterros são:

■ disposição adequada de grandes quantidades de lixo;


■ condições favoráveis para a decomposição dos restos orgânicos;
■ melhoria das condições sanitárias;
■ possibilidade de recuperação destas áreas degradadas;
■ baixo custo de operação.

A tabela III.1.1 apresenta os preços médios de disposição de lixo em aterros


sanitários em alguns países.
Apesar de todas as vantagens, pode ocorrer contaminação das águas pelo chorume,
líquido escuro, ácido e mal cheiroso, gerado pela decomposição do lixo. Por isso,
recomenda-se uma série de estudos até a sua execução, estação de tratamento e
2
sistema de drenagem adequados. A escolha da área deve obedecer a vários critérios
que devem ser avaliados antes da implantação de um aterro sanitário:

■ facilidade de acesso;
■ inexistência de recursos minerais e hídricos;
■ a constituição do solo e sua permeabilidade;
■ capacidade de carga e a distância dos lençóis freáticos;
■ a proximidade de jazidas de argila, pois o lixo deve ter cobertura diária (ou
outros materiais para cobertura);
■ possuir cerca para impedir a ação de catadores.
Países Custos Aterros
(US$/tonelada)
França 29,81 - 53,66
Alemanha 59,62 - 89,43
Itália 59,62 - 89,43
Finlândia 20,87 - 43,22
Holanda 38,75 - 104,34
Reino Unido 8,94 - 26,83
Espanha 2,98 - 14,91
Suécia 14,91 - 64,09
Austrália 5,22 - 17,89
Nova Zelândia 17,89 - 26,83
EUA 14,91 - 65,58
América Latina 2,98 - 5,96
Sudeste Asiático 2,24 - 7,45
Brasil/SP. 3,00 - 27,00
(fonte: Jornal Gazeta Mercantil, 1993 e 1994)

A grande desvantagem dos aterros sanitários é o desperdício de matérias-primas. A


quantidade de materiais inorgânicos e matéria orgânica que poderiam ser reciclados
ou reaproveitados é assombrosa, como mostra o gráfico III.1.1.
É inconcebível que em pleno século XX as administrações ainda não se deram
conta do desperdício que isto acarreta. A partir do momento que se estabeleça os
custos ambientais na produção de manufaturados e dos serviços, os custos de
implantação, manutenção e gerenciamento dos aterros tenderão a crescer.
Isto talvez desestimule a implantação de novos aterros e, certamente, novas
práticas de gerenciamento de lixo deverão ser adotadas. Mesmo assim, diversos tipos
de resíduos ainda deverão ter como destino os aterros sanitários. Porém, o volume de
materiais, certamente, será muito inferior aos números que são dispostos na
atualidade.
A tabela III.1.2 relaciona as principais vantagens e desvantagens dos aterros
sanitários.

Vantagens Desvantagens
■ elimina o problema da catação ■ necessidade de grandes áreas livres
para a sua implantação
■ impedem a proliferação de seres ■ solução temporária, em função da
transmissores e causadores doenças capacidade de recebimento de lixo
■ permite a recuperação limitada de ■ rigoroso controle operacional para
áreas para uso público manter os padrões sanitários
■ custos de implantação, operação e ■ gastos decorrentes da poluição e
manutenção relativamente baixos contaminação pelo chorume

1
■ permite a recuperação de gás metano ■ desperdício de matérias-primas que
poderiam ser recicladas

O método de dispor o lixo mais usado no Brasil é simplesmente abandona-lo a céu


aberto: são os lixões. Só para se ter uma idéia, o estado de São Paulo dispõe em lixões
87,% de todo o lixo coletado, sem nenhum tipo de tratamento ou cuidado, 11% vão
para as usinas e compostagem e 2% são incinerados. Em 1914, 65,5% dos resíduos
foram parar nos lixões, 23,2% entregues aos chacareiros, 10,6% foram incinerados e
0,7% reciclados. Estes números demostram claramente que em quase um século muito
pouco foi feito para se dispor o lixo de maneira eficiente. Tal fato se deve ao
despreparo dos prefeitos e dos responsáveis diretos pelos serviços de limpeza
pública. Além disso, para a população em geral, a preocupação com a limpeza
pública limita-se à coleta de lixo e poucos são os que tem a noção do que é feito com
esse material após a coleta126, é o que afirma o Sr. Roberto de Campos Lindemberg -
da Associação Brasileira de Profissionais em Limpeza Urbana.

Figura 1.1 - Composição Média do lixo encontrado nos lixões.

Baseados na Portaria 53 de 1979, do ex-ministério do Interior, alguns estados


brasileiros proíbem o lançamento de resíduos sólidos em lixões, já que esse tipo de
depósito é um ilícito administrativo, ou seja, é proibido por lei. A ocorrência deste
ilícito pode gerar ação civil para que se ponha um fim nesse depósito ou para reparar
os danos causados pela disposição do lixo127.
As 583 prefeituras do estado de São Paulo, juntas, produzem cerca de 17.300
toneladas de lixo e apenas 1% desse total são dispostos em aterros e a cidade de São
Paulo não está incluída no seleto rol de cidades paulistanas que utilizam os aterros
como forma de minorar os problemas decorrentes do lixo. O lixo da cidade de São
Paulo tem sido disposto em vários aterros ou lixões, que já começam a se mostrar
incapazes de suportar esta enorme carga que recaem sobre eles:

■ o aterro/lixão de Vila Albertina - em operação desde 1977 - já está em fase final


de vida útil;
■ Santo Amaro - em operação desde 1990 - terá, ainda, de 15 a 20 anos de vida
útil, se forem mantidas as atuais quantidades nele dispostas;
■ o aterro/lixão Bandeirantes - em operação desde 1979 - só tem mais 4 anos de
vida útil e, nele são dispostos também lixo industrial, além do lixo domiciliar, num
total de 117.400 toneladas/mês128.

Nos lixões, e também nos aterros, onde não há nenhum tipo de controle, podem
haver emissões de substâncias tóxicas para a atmosfera, que são mais prejudiciais do
que aquelas geradas por muitos incineradores. Nos processos de decomposição do lixo
ao ar livre, os gases poluentes sobem para a atmosfera e retornam com as chuvas. Um
fato muito comum e que ilustra esta questão são os incêndios, provocados ou
126 Gestão e Tecnologias de tratamento de Resíduos Sólidos – Documento Síntese – REMAI’91. Secretaria de
Meio Ambiente do Estado de São Paulo. 1992.
127 ACSELRAD, H.; VIEIRA, L. & GUARANY, R. Ecologia, direito do cidadão: uma coletânea de textos.
Rio de Janeiro, Jornal do Brasil. 1993.

128 Revista Projeto Reciclagem. Ano 3 (especial). Maio. 1992.


2
decorrentes da combustão natural, nos lixões, onde toda sorte de materiais são
queimados e seus gases são liberados para o meio.

2- Incineradores:
Qual o lugar do homem na natureza? Se não houver frutos, valeu a beleza das flores.
De onde viemos? Se não houver flores, valeu a sombra das folhas.
Qual o nosso poder sobre a natureza e, Se não houver folhas, valeu a intenção da semente.
dela sobre nós? ( Henfil )
Em que direção caminharemos? [
( T. H. Huxley )

A incineração é um processo de combustão do lixo com significativa redução do


peso, volume e recuperação energética e com produção de gases e cinzas altamente
tóxicos ou poluentes, onde a temperatura (para que haja a queima completa), a
turbulência (para que haja um maior contato das partículas com o oxigênio) e o tempo
de permanência (para que se efetive o processo como um todo) são fatores
determinantes129. Alguns tipos de resíduos exigem a sua utilização, como a queima de
dinheiro fora de circulação, remédios com prazo de validade vencidos ou

129 Revista Aspergillus. Ano I, n05. Março/Abril. 1993.


1
contaminados, alimentos deteriorados, materiais tóxicos e drogas e, material gráfico
apreendido pela polícia, dentre outros130.
A incineração, mesmo se levarmos em conta os métodos rudimentares
empregados, é um método de disposição final já bastante antigo. Porém, foi só a partir
do início do século XX que os incineradores passaram a ser largamente empregados.
Já na década de 20, existiam em operação mais de 150 incineradores nos EUA e 280
na Europa. No Brasil, o primeiro incinerador foi instalado na cidade de Manaus, em
1896 pelos ingleses, com capacidade para processamento de 60 t/dia de resíduos. Em
1958 o incinerador foi desativado devido aos altos custos de manutenção e por não
atender mais a demanda local. Em 1913, foi inaugurado o incinerador do Araçá - na
cidade de São Paulo - também com tecnologia inglesa e capacidade de processamento
de 40 toneladas/dia, que funcionou até 1948. Em 1948, foi inaugurado o incinerador
de Pinheiros, já com tecnologia americana. Outros dois incineradores da cidade de São
Paulo - Ponte Pequena e Vergueiro - estão operando com problemas técnicos.
Pesquisas recentes mostram que diversos governos estão investindo na construção
de incineradores com recuperação energética. Nos últimos anos, mais de 300 novos
incineradores foram construídos em todo os EUA, como forma de solucionar os
problemas do lixo urbano. Este programa contava, inclusive, com o apoio oficial das
autoridades americanas. Diversas prefeituras de cidades americanas estão agora
enfrentando um sério problema: a falta de lixo para queimar nos seus incineradores.
Depois de investirem bilhões de dólares na construção de incineradores com
recuperação energética, não conseguem lixo suficiente para manter seus fornos
funcionando a plena capacidade. Como o custo da incineração é mais alto que a
disposição em aterros, somada ao fato da recessão econômica nos EUA, levaram a
redução da geração de lixo. Além disso, existe uma controvérsia muito grande à
respeito das cinzas provenientes da incineração. A legislação de alguns estados
consideram as cinzas como resíduos perigosos e exigem tratamento especializado. Por
outro lado, outros estados não as consideram como tal e dispensam este
procedimento.
A Agência de Proteção Ambiental dos EUA - EPA - revelou uma série de
propostas para impor restrições para construção de novas unidades de incineração de
resíduos perigosos. Desde a aprovação das emendas de 1984 ao Resource
Conserveition and Recovery Act, a lei que garante a conservação e recuperação dos
recursos naturais, grande parte do lixo perigoso foi transferida de aterros para
incineradores. Porém, muitos ambientalistas americanos sustentam que a incineração
não oferece segurança e propuseram uma moratória já na construção de novas
unidades incineradoras. Ainda de acordo com a EPA, a moratória não interferirá no
processamento do lixo perigoso porque os incineradores não estão operando com toda
a sua capacidade no momento. Além dessas restrições, a EPA vai propor a
padronização das emissões de dioxinas e metais pesados131.
A França desenvolveu técnicas de incineração ambientalmente muito eficientes,
onde os índices de gases emitidos são baixíssimos e, ao mesmo tempo, os
incineradores tem um ótimo aproveitamento energético. Diversos consultores
ambientais europeus destacam a importância destes na incineração dos plásticos como
a melhor maneira de lidar com este material, que tem sido bastante rejeitado pelas
industrias recicladoras, principalmente na Alemanha. A tabela III.2.1 relaciona os
percentuais de plásticos incinerados em vários países. Os filtros ou outros dispositivos
instalados nas chaminés dos incineradores retêm grande parte dos gases poluentes
130 ACSELRAD, H.; VIEIRA, L. & GUARANY, R. Ecologia, direito do cidadão: uma coletânea de textos.
Rio de Janeiro, Jornal do Brasil. 1993.

131 Jornal A Gazeta Mercantil. Maio. 1993.


2
porém, com um agravante: o que fazer com as cinzas tóxicas adicionais ? Elas devem
ser armazenadas em recipientes especiais, vedados e encaminhados a aterros
sanitários, específicos ou não.

Países Percentual Incinerado


%
Portugual, Espanha, Grécia e Brasil 0 - 10
EUA 15 - 20
Noruega e Itália 15 - 20
Suécia, Bélgica, França, Holanda e Alemanha 35 - 70
Japão 70
Suíça, Dinamarca e Luxemburgo 70 - 80
(fonte: Shell, 1992)

Incineradores para queima massiva são tecnicamente capazes de eliminar de 65 a


75% do peso e 80 a 90% do volume de lixo que recebem. Entretanto, devido a
interrupções para manutenção periódica e à parcelas de resíduos muito volumosos ou
inertes para serem queimados, as reduções efetivas nas quantidades de rejeitos sólidos
que devem ser aterrados, em geral são baixos, algo em torno de 50% em peso e 60%
em volume.
A incineração apresenta várias desvantagens em relação aos outros métodos de
disposição final do lixo. A mais importante, a longo prazo, é um processo destrutivo
que desperdiça tanto matérias-primas quanto energia.
Embora muitos incineradores possam recuperar a energia da combustão, esta é
consideravelmente menor do que aquela necessária para manufaturar os artigos que
eles queimam. Além disso, a queima do lixo não é um processo limpo, um vez que há
a geração de poluentes para o solo, para a água e para o ar. A combustão em altas
temperaturas quebra as ligações químicas, liberando os metais tóxicos presentes que
estavam inertes. Assim livres, esses metais ou outras substâncias, por lixívia das
cinzas do incinerador podem penetrar nos lençóis freáticos.
Podem, igualmente, lançar no ar óxidos de enxofre e de nitrogênio (ambos
precursores de chuva ácida), monóxido de carbono, gases ácidos, dioxinas e furanos
(substâncias potencialmente cancerígenas e causadoras de anomalias genéticas) e
metais pesados (como chumbo, cádmio, mercúrio entre outros, que podem entrar nos
ciclos biológicos com muita facilidade e causam grandes danos à saúde humana e ao
meio ambiente). É uma tecnologia suja, uma solução imediatista que compromete as
gerações futuras132, alega o Sr. Jairo Restrepo, perito em lixo químico e consultor da
Secretaria de Meio Ambiente da Presidência da República. Segundo o consultor Sr.
Cícero Bley Junior não se pode liquidar com uma tecnologia de uma hora para outra,
mas os incineradores são mais perigosos do que aparentam ser e não devem ser
usados sistematicamente133.
Ainda de acordo com o Sr. Jair Rosa Cláudio, da Limburb, se todo o lixo da cidade
de São Paulo fosse incinerado, ainda sobrariam umas 2 mil toneladas diárias de
cinzas, que somadas aos elementos do lixo que não podem ser queimadas,
resultariam entre 4 e 5 mil toneladas diárias de sobras que invariavelmente
acabariam nos aterros sanitários134.
Outra séria desvantagem dos incineradores é seu alto custo de instalação e
manutenção. Os governos normalmente oferecem uma série de subsídios, como
132 Destino final do lixo hospitalar é tema de discussão nacional. Revista FEEMA, n06: 19-22. Julho/Agosto.
1992.
133 Destino final do lixo hospitalar é tema de discussão nacional. Revista FEEMA, n06: 19-22. Julho/Agosto.
1992.
134 MARINI, P. Lixo: uma montanha de problemas. D.M. Março. 1992.
1
redução de impostos e das tarifas de energia consumida. O Institute for Local Self-
Reliance - ILSR - sediado em Washington, D.C., estima que a capacidade para
incinerar uma tonelada por dia custa de US$ 100 mil a US$ 150 mil135. Dados recentes
mostram que os custos de manutenção dos aterros e, mesmo da coleta seletiva são
infinitamente inferiores a isso, sem levar em consideração os custos ambientais.
O gráfico III.1.1 mostra alguns países e os percentuais de resíduos que são
destinados aos incineradores:
Diversos projetos de incineradores ainda estão em desenvolvimento em todo
mundo, apesar de todos os argumentos contrários à sua utilização. O primeiro
incinerador flutuante de lixo poderá ter sua construção iniciada em 1994 como forma
de amenizar os graves problemas decorrentes do lixo, enfrentados pela administração
da cidade de Tóquio, no Japão. Este incinerador flutuante vai consistir num barco de
180 metros de comprimento por 69 metros de largura, conectado ao continente por
duas estradas paralelas. O seu custo inicial foi orçado em US$ 572 milhões.
A legislação ambiental japonesa atual prevê que os resíduos devem ser incinerados
à pelo menos 10 Km da costa. A grave carência por novos espaços e a oposição dos
moradores próximos as unidades de incineração já implantadas estão levando os
planejadores japoneses a buscarem novas alternativas na busca de soluções para os
problemas relacionados aos resíduos domésticos e industriais. No Japão existem 2.000
incineradores, dos quais alguns são antigos e estão em processo de fechamento.
Porém, nos últimos anos os japoneses construiram 400 plantas modernas de
aproveitamento de rejeitos para geração de energia. Apenas 10 a 20% do lixo em
forma de matéria-prima é descartado, e somente 10% desse lixo vai diretamente para
os depósitos sem que seja separado ou incinerado. Estas plantas tem capacidade para
incinerar 150.000 toneladas/ dia e atualmente operam com apenas 50% da sua
capacidade máxima. Todas estas plantas são centros comunitários abertas ao público
e, estão equipadas com piscinas, quadras de tênis e salas de aula. Existem também,
máquinas que lavam os caminhões de coleta de lixo, que são limpos uma vez por dia.

Figura 2.1- Os percentuais incinerados em alguns países.

Algumas indústrias investem na construção de incineradores para dispor o seu lixo


e prestar serviços a outras empresas. A unidade da Basf, em Guaratinguetá - SP,
investiu US$ 6 milhões na construção de uma unidade de incineração, que tem
capacidade para queimar 225 toneladas/mês de resíduos perigosos, hospitalares e
domésticos. A empresa pretende dispor de 20% da capacidade de queima para
serviços à terceiros. A Hoesht já possui na região uma unidade de incineração, em
Suzano, que também destina parte da sua capacidade de queima para outras empresas.
Um acordo com a prefeitura de Guaratinguetá vai permitir a incineração do lixo
hospitalar e farmacêutico da cidade136. A seguir, listamos na tabela III.2.2 algumas
vantagens e desvantagens dos incineradores:

Vantagens Desvantagens

■ redução significativa do peso e ■ requer custos elevados para a sua


do volume que vão para os aterros manutenção, implantação e operação
sanitários
■ possibilidade de reaproveitar a ■ necessidade de dispor as cinzas tóxicas em
energia do lixo incinerado aterros sanitários
135 BROWN, L.R. (org.). Qualidade de Vida 1991: Salve o Planeta. São Paulo, Editora Globo. 1991.
136 Jornal A Gazeta Marcantil. Junho. 1993.
2
■ pode receber todos os tipos de ■ necessidade de pessoal especializado para
resíduos/lixo a operação e manutenção
■ não há contato direto dos ■ pode se constituir numa perigosa fonte de
operadores com o lixo poluição do ar, das águas e do solo
principalmente se não dispor de
equipamentos de controle e monitoramento

Para tentar solucionar o problema de disposição das 12 mil toneladas/dia


produzidas na cidade de São Paulo, a prefeitura pretende abrir concorrência para
concessão de implantação e operação de dois incineradores de lixo doméstico, com
capacidade para incinerar 1.200 toneladas cada. Segundo estimativas do secretário
municipal do meio ambiente, Werner Zulauf, serão necessários investimemtos da
ordem de US$ 250 milhões. A previsão é de que estes incineradores sejam instalados
em 1995 ou 1996, sendo que a empresa operadora terá a concessão por vinte anos137.
O Conselho Minicipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável -
CADES - já concedeu a licença prévia para a construção dos dois incineradores de
lixo doméstico, de Sapopemba e Santo Amaro. Os incineradores serão implantados e
operados por dois consórcios: Etesco de Bartolomeis (Santo Amaro) e Vega-
Sopave/Companie General des Chaufe e Martin (Sapopemba). Cada incinerador terá
capacidade de processar 1.200 toneladas/dia de lixo e a primeira previsão de
investimentos é de US$ 155 milhões, que serão pagos às empresas pela prefeitura no
prazo de 5 anos através da tonelagem a ser queimada. Porém, segundo a assessoria de
imprensa do CADES estes valores podem ser maiores do que as previsões originais,
em função dos padrões de emissões de gases atmosféricos emitidos durante o processo
de queima do lixo. O padrão apresentado era de 1,27 nanogramas/m3 de ar. Mas,
posteriormente, o CADES fixou novos valores para essas emissões em 0,14
nanogramas/m3, norma padrão adotada na Alemanha138.
A prefeitura enfrenta forte resistência dos moradores de Sapopemba e Santo
Amaro, que são contrários à instalação dos incineradores, devido à emissão de
dioxinas. Segundo a Greempeace, os incineradores, por melhor que sejam, emitem
dioxinas - substâncias cancerígenas e que trazem danos aos sistemas imunológico e
reprodutivo dos seres vivos. Estudos da Agência de Proteção Ambiental dos EUA,
não encontraram níveis seguros de exposição a dioxinas em animais testados em
laboratórios139. A Greempeace também critica a prefeitura por não apresentar nenhum
plano para redução de lixo e eliminação de substâncias tóxicas que entram na
composição do lixo urbano, assim como um programa integrado de coleta seletiva,
reciclagem e compostagem. Segundo a coordenadora da campanha contra substâncias
tóxicas da Greempeace, Sra. Marijane Lisboa, "a Prefeitura quer soluções fáceis,
para um problema que é muito difícil140.

137 Jornal A Gazeta Marcantil. Junho. 1993.


138 Jornal A Gazeta Marcantil. Junho. 1993.
139 Jornal A Gazeta Marcantil. Janeiro. 1995.
140 Jornal A Gazeta Marcantil. Janeiro. 1995.
2
3- Usinas de Compostagem
O macaco da floresta que se tornou macaco terrestre. O
macaco terrestre que se tornou macaco caçador e, o macaco
caçador que acabou por se tornar macaco culto.
( Desmond Morris )

A compostagem é definida como ato ou ação de transformar os resíduos


orgânicos, através de processos físicos, químicos e biológicos, em uma matéria
biogênica mais estável e resistente à ação das espécies consumidoras141. Composto é
a denominação genérica dada ao fertilizante orgânico resultante do processo da
compostagem142. A usina de compostagem é um complexo eletro-mecânico formado
por diversos eventos destinados a preparar cientificamente o composto orgânico143.
A prática de fazer adubo ou composto orgânico a partir do lixo é uma atividade
antiga que, atualmente, está ressurgindo em face do aumento dos resíduos orgânicos
gerados pelo homem das modernas sociedades industrializadas. Este composto não
representa, necessariamente, uma solução final para os problemas decorrentes do lixo,
mas pode contribuir decisivamente para a redução dos impactos sobre o meio
ambiente causados pela disposição inadequada dos resíduos urbanos. O processo de
compostagem pode ser resumido do seguinte modo, segundo E. J. Kiehl144.
No processo de compostagem a matéria orgânica atinge dois estágios importantes:
a digestão, que ocorre em primeiro lugar, correspondendo à fase de fermentação na
qual a matéria alcança a bio-estabilização. O segundo estágio é a maturação, no qual a
matéria atinge a humificação.
A compostagem classifica-se em:

1- Quanto à Biologia:
■ Aeróbio: A fermentação ocorre na presença do ar; a temperatura da massa em
decomposição é alta e, produz-se gás carbônico e água;
■ Anaeróbio: A fermentação se dá em ausência de ar; a temperatura da massa em
decomposição é baixa e, produz-se metano, ácido sulfídrico etc...;
■ Misto: Resulta da combinação dos dois processos.

2- Quanto à Temperatura:
■ Criofílico: A fermentação se dá em temperaturas baixas, geralmente próximas à
temperatura ambiente;
■ Mesofílico: A fermentação ocorre em temperaturas médias, variando entre 40 e
55 graus Célcius;
■ Termofílico: A fermentação se processa em temperaturas superiores a 55 graus
Célcius.
3- Quanto ao Ambiente:
■ Aberto: A fermentação é realizada a céu aberto, em pátios de maturação;
■ Fechado: A fermentação é realizada em biodigestores, bioestabilizadores, torres
e células de fermentação.

4- Quanto ao Processamento:
141 LIMA, L.M.Q. Tratamento de Lixo. São Paulo, Editora Hemus. 1988.
142 LIMA, L.M.Q. Tratamento de Lixo. São Paulo, Editora Hemus. 1988.
143 LIMA, L.M.Q. Tratamento de Lixo. São Paulo, Editora Hemus. 1988.
144 LIMA, L.M.Q. Tratamento de Lixo. São Paulo, Editora Hemus. 1988.

3
■ Estático ou Natural: O revolvimento da massa em fermentação é feito
esporadicamente;
■ Dinâmicos: A massa em digestão é revolvida continuamente.

O caminho escolhido para dar destino as quase 7.000 toneladas diárias de lixo
geradas na cidade do Rio de Janeiro sem dúvida foi o das usinas de tratamento e
compostagem. Para o ex-presidente da Comlurb toda cidade deveria ter uma, uma vez
que ele acredita que elas são a solução para reduzir o volume de lixo pois o que sobra
do processamento é matéria inerte, não tóxica e em torno de 20% do coletado. Na
última semana de fevereiro de 1992 começou a funcionar no Rio de Janeiro a Usina de
Tratamento e Compostagem do Cajú, um investimento de US$ 25 milhões feito com
recursos próprios da Comlurb e da prefeitura. Diariamente, estão sendo levadas para o
bairro do Cajú 1.120 toneladas de lixo, das quais 145 toneladas são preparadas para a
reciclagem e 600 são transformadas em fertilizantes, o que significa um despejo diário
35% menor no aterro (lixão) de Duque de Caxias, município da região
metropolitana145. A tabela III.3.1 relaciona as usinas de compostagem instaladas no
Brasil, sua capacidade média de processamento e sua situação atual.

Estados Número de Capacidade Situação Atual


Usinas (tonel./dia)
SP 24 10 - 1.000 12 - em operação
07 – paradas
03 - em obras
02 – desativadas
MG 07 80 - 300 03 - em operação
03 - em obras
01 - sem informações
RJ 06 80 - 1.120 04 - em operação
01 – parada
01 - em obras
PR 04 - 01 - em operação
03 - sem informações
RS 02 12 - 150 em operação
DF 02 100 - 300 01 - em operação
01 – desativada
SC 02 - 01 – desativada
01 - sem informações
AM 01 100 em operação
PB 01 - Desativada
RN 01 - sem informações
MS 01 80 em operação
ES 01 160 em operação
RR 01 50 Parada
PE 01 - em operação
AL 01 - em operação
PA 01 150 Parada
Total 56 - 28 - em operação
17 – paradas/em obras
11- desativadas/sem inf.
(fonte: Amazonas, M.- 1992. Revista Projeto Reciclagem, maio de 1992)
Segundo denúncias do Jornal O Globo de julho de 1993, a usina de reciclagem e
compostagem do Cajú apresenta problemas técnicos insolúveis que fazem com que ela
funcione bem abaixo de sua capacidade. O primeiro problema, e mais evidente, é o

145 MARINI, P. Lixo: uma montanha de problemas. D.M. Março. 1992.


1
mal cheiro. Os moradores dos bairros adjacentes à usina - Cajú, Benfica, Bonsucesso e
Complexo da Maré - sofrem desde a sua inauguração com os odores liberados pelos
três digestores da usina. O problema poderia ter sido evitado, segundo técnicos da
Feema, se as condições meteorológicas da área onde a usina foi construída tivessem
sido avaliados corretamente.
Os projetistas acharam que a brisa constante na região dispersaria o mal cheiro.
Estavam errados. A Feema constatou que na área predominavam ventos fracos e
inversões térmicas, o que dificulta a renovação do ar. Um outro problema foram as
rachaduras, uma delas no higienizador nº 1 e, que obrigou a prefeitura a paralisar a
usina para reparos. Oito meses após a sua inauguração, o presidente da Comlurb,
Paulo Carvalho Filho, já considerava as rachaduras da usina erros de projeto e
execução.
Para o Sr. Paulo Carvalho Filho, presidente da Comlurb, o principal problema da
usina é que os higienizadores são muito grandes, na posição vertical, ficando o lixo
compactado. Assim, o ar puxado pelos exaustores instalados na boca dos
higienizadores não passa por todo o lixo. Com isso, parte do material não entra em
processo de biodigestão e exala mau cheiro146. Ainda de acordo com o presidente da
Comlurb, os problemas da usina estão relacionados à erros de concepção e
avaliação do projeto e, à tecnologia usada147.
A tabela III.3.2 lista as vantagens e desvantagens da compostagem.

Vantagens Desvantagens

■ elimina o problema da ■ requerem investimentos muito elevados,


catação dependendo do grau de mecanização das
usinas
■ impede a proliferação de ■ necessidade de disposição dos restos em
seres transmissores e aterros sanitários
causadores de doenças
■ recicla a matéria orgânica ■ acúmulo do adubo/composto nos pátios da
para produção de usina devido à falta de mercado consumidor
adubo/composto
■ pode ser adaptada para ■ possibilidade de contaminação do composto
receber e separar matérias- por produtos tóxicos - metais pesados, por
primas inorgânicos para que exemplo
sejam separados e limpos
- ■ não pode processar todos os tipos de
resíduos
- ■ pode ocorrer exalação de odores mal
cheirosos se o processo for mal operado
- ■ necessidade de rígido controle das
operações.

O Brasil tem potêncial para produzir cerca de 31 mil toneladas/dia de composto


orgânico, quantidade suficiente para adubar todos os dias uma safra de grãos que
ocupa área equivalente a 82 propriedades rurais de médio porte, com 25 hectares cada
uma. Mas os números oficiais do IBGE mostram que, das 90 mil toneladas/dia de lixo
coletadas no país, somente 1,1% são encaminhadas para as usinas de compostagem.
Esse cálculo, elaborado sob a orientação do consultor Edmar Kiehl, que durante 34
anos pesquisou o tema na Escola de Agricultura Luiz de Quiróz - ESALQ - de
Piracicaba, em São Paulo. Este estudo revela a existência de um campo ainda pouco
explorado para novos investimentos em reciclagem no Brasil, dentro de uma visão do
146 Jornal O Globo. Julho. 1993.
147 Jornal O Globo. Julho. 1993.
1
gerenciamento integrado do lixo. Com o composto orgânico, uma lavoura que em
média precisa de 400 Kg de adubo por hectare, pode economizar até US$ 125 por
tonelada ao reduzir pela metade o consumo de fertilizante químico148, garante o Sr.
Kiehl.
O Brasil perde 30% de sua safra agrícola, totalizando um desperdício anual de 14
milhões de toneladas de alimentos. Esse fator, aliado aos hábitos de consumo da
população, levam ao desperdício e às formas inadequadas de conservação dos
alimentos nas residências, faz o lixo urbano brasileiro conter entre 40% e 50% de
matéria orgânica. Nos países desenvolvidos este número é inferior a 20%.
No Rio de Janeiro, as três usinas de compostagem da Comlurb, que juntas tem
capacidade para produzir 800 toneladas/dia de composto orgânico, só estão
produzindo 300 toneladas / dia. O problema é que a usina do Cajú precisou desativar a
compostagem após detectar defeitos estruturais nos digestores e fará obras para
melhorar o fluxo operacional e o tratamento biológico do lixo. A Comlurb adotou uma
estratégia agressiva de marketing para incentivar o uso do composto na agricultura,
reduzindo de US$ 12 para US$ 2 o preço da tonelada do adubo, em 1 ano. Como
resultado, as vendas aumentaram significativamente: as usinas já venderam 2 mil
toneladas de adubo que ainda não produziram, além de manter estoque de 1.000
toneladas para pequenos compradores", revela Gilson Leite Mansur, gerente de
Usinas da Comlurb149.
Em São Paulo, o Departamento de Limpeza Urbana da Secretaria de Serviços e
Obras - Limpurb - pretende construir dois centros de separação de lixo, cada um com
capacidade de receber 2,5 toneladas/dia. A metade do lixo será incinerada para gerar
energia elétrica - 200 kw/tonelada/hora - e a outra metade encaminhada para
compostagem150, informa Bruno Cervone, diretor da divisão de compostagem e coleta
seletiva da Limpurb. Atualmente, as duas usinas de compostagem de São Paulo - a de
Vila Leopoldina e São Mateus - estão operando com capacidade máxima, produzindo
cerca de 950 toneladas/dia de composto orgânico.
O composto orgânico pode ter outros tipos de utilização, além da agricultura.
Dentre alguns desses usos, podemos destacar:

■ é útil na fabricação de tijolos e pode servir também de insumo da composição de


concreto para construção civil;
■ é capaz ainda de fornecer gás para gerar calor e energia elétrica e, em alguns
países como Canadá e China, é matéria-prima para a síntese de óleo combustível;
■ no Rio de Janeiro, a Comlurb chegou a desenvolver processo para utilizar o
produto na contenção de encostas, prevenindo a erosão e desmoronamento. Usado em
obras de contenção da auto-estrada Grajaú-Jacarepaguá - zona norte do Rio - o
composto devolveu ao solo desmatado sua capacidade de reter líquidos,
proporcionando o crescimento de nova vegetação que ajuda a sustentar a encosta;
■ no tratamento paisagístico, o produto tem outra aplicação: pode compor a
formulação das soluções de hidro-semeadura - líquido contendo sementes de
gramíneas, nutrientes, emulsões e aglutinantes, lançado nas encostas para recompor a
vegetação;
■ conter manchas de óleo derramado no mar é outra utilidade do composto
orgânico que começou a ser estudada pela Comlurb. As primeiras experiências na

148 CEMPRE Informa. n018. Outubro. 1994.


149 CEMPRE Informa. n018. Outubro. 1994.
150 CEMPRE Informa. n018. Outubro. 1994.

2
Refinaria de Duque de Caxias, revelaram que o composto na fase inicial de
maturação, foi capaz de reagir com o óleo, aglutinando-o151.
O químico alemão Peter Krauss, especialista em usinas de reciclagem de lixo
divulgou em 1993 o resultado de exames de metais pesados em amostras de adubos
gerados por quatro usinas brasileiras. As análises e os testes mostraram altos índices
de chumbo, cobre e zinco que compromete a qualidade do composto, polui o solo e
pode causar intoxicação no organismo das pessoas que ingerirem os alimentos
cultivados com este adubo. O problema mais grave, é a impossibilidade de as usinas
brasileiras adaptarem seus equipamentos para a redução dos índices de metais
pesados. Seria preciso construir novas usinas para sanar este problema. A taxa de
metais pesados no composto brasileiro é, em média, duas a três vezes maior do que na
Alemanha, conforme mostra a tabela III.3.3152.
A acumulação de metais pesados no solo torna impossível a sua despoluição. Eles
podem, ainda entrar nos ciclos biológicos e biogeoquímicos e entrar nas cadeias
alimentares ou serem absorvidos por plantas cultivadas na agricultura. Os resultados
são desastrosos como revelaram vários acidentes envolvendo metais pesados, sendo o
da Baía de Minamata no Japão o de resultados mais conhecidos e estudados. As
consequências biológicas mais graves são câncer e mutações genéticas e, em diversas
ocasiões, morte.

Metais Usina Usina Usina Usina Usina


(mg/Kg) Alemã Rio SP - 1 SP – 2 Paraná
Zinco 375 1.115 421 1.228 983
Chumbo 150 316 241 398 216
Cobre 150 512 477 670 611
(fonte: Jornal do Brasil, 1992)

4- Coleta Seletiva e Reciclagem


A natureza humana Que trabalho fantástico é o Homem.
é uma intrincada trama A beleza do Mundo, o modelo dos Animais.
de razão e ritos, Na mente do homem tudo é possível.
de sabedoria e religião, Nela está contido todo o passado e todo o
de prosa e poesia, futuro.
de realidade e sonho. ( Willian Sheakespeare )
( Suzane Langer )

As atividades de recuperação e reciclagem de materiais são capazes de gerar


inúmeros empregos, diretos e indiretos. Se vistas como capazes de absorver materiais
151 CEMPRE Informa. n018. Outubro. 1994.
152 Jornal Jornal do Brasil. Março. 1992.
1
destinados aos lixões, a reciclagem deverá ser planejada também para absorver o
homem que vive e trabalha nesses locais: o catador. Apenas através das atividades de
coleta seletiva e triagem manual, a reciclagem seria capaz de absorver todos os
catadores de um dado vazadouro, e ainda criar empregos diretos. Conforme o tipo de
programa, pode-se envolver deficientes físicos, crianças carentes, indigentes,
idosos/aposentados, voluntários e outros públicos que tem dificuldade de inserção
profissional153.
As palavras do Sr. Márcio Amazonas à respeito da coleta seletiva servem de alento
para que iniciemos imediatamente a coleta seletiva em todas as cidades, pequenas,
médias e grandes, pois estaríamos resolvendo dois grandes problemas que ameaçam à
sociedade brasileira: a fome e a miséria e, o desemprego. Ao mesmo tempo,
estaríamos, também, solucionando problemas ambientais de grande magnitude como o
consumo desenfreado de matérias-primas e as questões relativas ao lixo.
A coleta seletiva pode ser definida como a correta separação dos vários tipos de
resíduos, em recipientes diferenciados, para que sejam encaminhados com vistas à
comercialização154. A reciclagem, por sua vez, transforma produtos/matérias-primas
velhas e sem utilidade em novos produtos e matérias-primas que servirão de base as
indústrias155, diminuindo os impactos sobre o meio ambiente, reduzindo os níveis de
poluição decorrentes do fabrico desses manufaturados e reduzindo o consumo de
energia. Evidentemente, as consequências mais imediatas seriam a redução dos preços
destes mesmos manufaturados, aumento do consumo e aumento da receita de estados
e municípios, através dos impostos.
A coleta seletiva de lixo iniciou-se no Brasil, de forma sistemática e documentada,
em abril de 1985 em São Francisco, bairro da cidade de Niterói, no Rio de Janeiro.
Implantado através da Universidade Federal Fluminense - UFF - e do Centro
Comunitário de São Francisco - CCSF - o trabalho estendeu-se e deu lugar, a partir de
1986, a novos projetos em unidades militares, escolas, edifícios entre outros156.
A partir de 1989, e influenciados pela propaganda em torno da ECO'92, diversos
programas foram desenvolvidos por prefeituras, empresas, ONG'S e diversos outros
tipos de instituições. Inúmeros desses programas evoluíram e persistem até hoje;
outros entraram na onda verde que tomou conta do país pós ECO'92 e aproveitaram
para se autopromover, através de uma bem bolada campanha de marketing.
Evidentemente, a implantação da coleta seletiva no Brasil depende, primeiramente,
do estabelecimento de legislação pertinente que estimularia o engajamento de
industriais, comerciantes e população em geral. Além disso, requer investimentos
maciços em educação da população de modo a torna-la conscientizada, participativa e
atuante. Outra questão delicada e, também não devidamente avaliada, diz respeito ao
comércio de matérias-primas secundárias. Este comércio já funciona há pelo menos
cinqüenta anos e não se mostra muito interessado em participar de maneira mais
atuante na coleta seletiva uma vez que, segundo eles a coleta seletiva irá elevar o
preço deste material que eles adquirem como se fosse lixo, que é como a população
trata os seus rejeitos. Nesta categoria estão incluídos os aparistas e os sucateiros em
geral. Podemos observar em todas as grandes cidades os burrinhos-sem-rabo, que são
153 AMAZONAS, M. A reciclagem como motor de geração de empregos. Revista Projeto Reciclagem. Ano 3
(especial). Maio. 1992.
154 EIGENHEER, E.M. (org.). Coleta Seletiva de Lixo: Experiências Brasileiras. Rio de Janeiro, Centro de
Informações Sobre Resíduos Sólidos – Universidade Federal Fluminense (UFF)/Instituto de Estudos da Religião
(ISER). 1993.
155 EIGENHEER, E.M. (org.). Coleta Seletiva de Lixo: Experiências Brasileiras. Rio de Janeiro, Centro de
Informações Sobre Resíduos Sólidos – Universidade Federal Fluminense (UFF)/Instituto de Estudos da Religião
(ISER). 1993.
156 EIGENHEER, E.M. (org.). Coleta Seletiva de Lixo: Experiências Brasileiras. Rio de Janeiro, Centro de
Informações Sobre Resíduos Sólidos – Universidade Federal Fluminense (UFF)/Instituto de Estudos da Religião
(ISER). 1993.
2
o elo mais fraco desta cadeia. São eles que fazem o recolhimento de todos os nossos
rejeitos e os encaminham aos aparistas e sucateiros, as vezes por preços muito abaixo
daqueles que eles comercializam para as indústrias.
Além de todas estas questões, existe ainda o problema das empresas responsáveis
pela limpeza pública urbana. Dados de diversas prefeituras demostram claramente que
a coleta seletiva é muito mais onerosa do que o recolhimento regular. O que não é
contabilizado nestes custos são os impactos causados ao meio ambiente, através dos
lixões. Nunca os custos ambientais são contabilizados na hora de serem efetivados
programas mais racionais e ecologicamente corretos, pois a legislação ambiental não é
cumprida.
A coleta seletiva, como tem sido operada no Brasil, precisa de fortes ajustes para
reduzir os seus custos e aumentar o fluxo de material reciclável. Estas são algumas das
conclusões do programa de pesquisa Ciclosoft desenvolvido pelo CEMPRE –
Compromisso Empresarial para a Reciclagem, que até agora analisou em detalhe sete
programas de coleta seletiva no Brasil: Curitiba, Florianópolis, Salvador, Santo
André, Santos, São José dos Campos e São Paulo.
O custo médio destes programas é de US$ 262 por tonelada, cerca de dez vezes o
custo da coleta convencional. A receita obtida através da venda dos recicláveis, na
média, cobre apenas 10% dos custos dos programas. Os altos custos são aliados a um
baixo impacto na redução do fluxo de lixo. Na média, apenas 4,8% do lixo, em peso,
dos bairros onde há coleta seletiva está sendo reciclado por estes programas. O melhor
índice obtido foi de 10,7%, em peso. Uma das saídas seria o engajamento - através da
formação de cooperativas - dos catadores de rua, que coletam quantidades muito
maiores que os programas157.
Diversos países vem aplicando com sucesso seus programas de coleta seletiva
graças a leis ambientais, algumas delas bastante severas. Grande parte da reciclagem
não tem vantagem econômica e, grande parte dela consome mais energia do que
economiza158, diz Steve Webb, diretor de política da Associação Nacional das
Empreiteiras de Dejetos Descartáveis - ANEDD - do Reino Unido. Os países
industrializados estão se empenhando nas tentativas de melhorar o controle dos
rejeitos sólidos de todos os setores de suas economias, das casas e da indústria à
agricultura e à mineração.
A seguir, vamos citar alguns exemplos destas iniciativas:

1- NOS EUA:
Segundo Tom Heyman, ao longo da sua vida, um americano médio consumirá
20.000 garrafas de cerveja; 450 litros de outras bebidas alcoólicas; 913 pilhas; 67
pneus; 10.300 latas de alumínio; 12.800 embalagens de vidro; 22 toneladas de
papéis; 5 carros; jogará fora quase 50 toneladas de comida; consumirá 10 milhões
de litros de água e receberá 8 toneladas de publicidade pelo correio159.
A enorme quantidade de lixo produzida pelos americanos e a indisponibilidade de
novas áreas para instalação de aterros sanitários, mobilizou os governos federal,
estadual e municipal a desenvolverem uma legislação específica no sentido de
regulamentar a redução, a coleta e separação e a reciclagem.
À nível federal, está sendo reforçada a Lei Resource Conserveition and Recovery
Act que estabelece os percentuais a serem alcançados na separação do lixo doméstico
a partir de julho de 1995: Metais - 40%; Vidros - 40%; Papéis - 40%; Plásticos - 25%
e Resíduos de jardim - 75%.

157 CEMPRE Informa. n09. Dezembro. 1993.


158 CEMPRE Informa. n09. Dezembro. 1993.
159 HEYMAN, T. In as Average Lifetime. New York, Fawcett - Columbine. 1992.
3
Os fabricantes de embalagens deverão atender a pelo menos uma das seguintes
opções:

■ Utilização de pelo menos 25% de materiais reciclados até 31/ XII/1995; 35% até
31/XII/1998 e 50% até o ano 2000;
■ Fabricação de embalagens que possam ser reutilizadas com o mesmo objetivo
original pelo menos 5 vezes;
■ Redução de peso das embalagens em 15% quando comparado com a embalagem
usada para o mesmo objetivo e produzida com o mesmo material de há 5 anos atrás;
em 20% quando comparada com outra fabricada com material diferente.

À nível estadual e municipal, em 1991 inúmeros estados promulgaram pela


primeira vez leis estabelecendo metas específicas para a reciclagem do lixo doméstico,
variando de 25% a 50%.
Outra Lei, a chamada Recycled Content Legislation, foi promulgada na Califórnia
exigindo um mínimo de 15% de material reciclado nas embalagens de vidro e pelo
menos 10% em sacos plásticos. Também na Califórnia uma outra Lei exige que todo
vidro recuperado no estado seja lá mesmo vendido.
Nos estados de Washington e da Carolina do Sul foi proibido o despejo de óleos
usados em qualquer ambiente natural; Arkansas e Carolina do Sul proibiram o
vazamento de pneus e resíduos de jardins enquanto que, outros estados estão
elaborando Leis para proibir que haja a disposição de pilhas, baterias,
eletrodomésticos, automóveis, produtos químicos tóxicos e lixo hospitalar.
Uma das legislações mais duras dos EUA entrou em vigor em Saint Paul - estado
de Minnesota - na luta contra as embalagens descartáveis, principalmente o plástico.
Um decreto municipal proíbe que embalagens plásticas descartáveis (copos,
embalagens de leite e refrigerantes e produtos de limpeza) sejam usados no comércio
da cidade. Assim, diversos produtos tiveram suas embalagens de plásticos substituídas
por papel, vidro ou de metal e, as lojas que não oferecerem alternativas as embalagens
plásticas sofrerão multas de US$ 50. Os comerciantes são também obrigados a aceitar
a devolução de inúmeras embalagens descartáveis, que poderão ser encaminhadas
para a reciclagem ou a incineração.
Em Minneapolis, na outra margem do Rio Mississipi, uma regulamentação
parecida entrou em vigor na mesma época, mas será aplicada de maneira diferente: a
municipalidade vai reciclar todas as embalagens plásticas geradas na cidade. As leis
aprovadas nas cidades de Saint Paul e Minneapolis parecem ser as mais abrangentes
dos EUA160, comenta Nancy Skinner - diretora-executiva da organização não-
governamental Soluções Locais para a Poluição Global, com sede em Berkeley -
Califórnia. Hoje, em Minneapolis existem mais de 100 mil moradias que reciclam
restos de comida e garrafas plásticas, além de outros objetos reutilizáveis ou

160 Jornal Jornal do Brasil. Março. 1992.


2
recicláveis. Todos os moradores que participam do programa pagam uma menor taxa
de lixo161.
Uma vez que estas novas leis proíbem embalagens que não possam ser devolvidas
ou recicladas e, obrigam os estabelecimentos a recebe-las ou recicla-las, estas medidas
devem ajudar a resolver um dos graves problemas que se defrontam as 2,3 milhões de
pessoas que vivem nestas duas cidades: reduzir as montanhas de lixo que se
acumulam nos aterros e incineradores.
Há duas maneiras de agir, diz Susan Vadney, porta-voz do Conselho sobre
Resíduos Sólidos - organização de empresas que produzem 59 bilhões de garrafas e
embalagens plásticas por ano. Você pode usar a forma negativa, com base em
ameaças, ou a maneira positiva, através da cooperação162, acrescenta a Sra. Vadney,
afirmando que atualmente existem mais de 500 programas de reciclagem e redução de
lixo.

2- Na Alemanha:
O governo alemão acredita que ainda possa recuperar entre 30% e 50% dos
resíduos de origem domiciliar, mesmo sendo a Alemanha o país com Leis Ambientais
mais rígidas. A seguir, a produção de resíduos nos Aterros Sanitários e sua
recuperação atual.

Tipo Resíduo Aterro Sanitário Recuperado


(milhões toneladas) (milhões toneladas)
papéis 3,83 1,5
vidros 3,57 1,25
metais Ferros. 0,658 0,250
alumínio 0,36 -
plásticos 0,808 0,20
(fonte: Sebrae, 1992)

Em 1992, um novo pacote de leis, ainda mais rígidas estava para ser implementado
pelo Governo, através Ministério do Meio Ambiente, visando reduzir o volume de
lixo pela reciclagem e incineração.
Em 1991 entrou em vigor a German Waste Packaging Ordinance que estabelece as
normas a serem seguidas em relação as embalagens, tornando os fabricantes e
distribuidores responsáveis pela sua recuperação e transporte, visando a sua
reutilização ou reciclagem, evitando-se assim a sua incineração ou disposição em
Aterro Sanitário. Em 1993 a indústria deverá coletar 60% do vidro, 40% do estanho
e 30% do alumínio, papel e plástico usado em embalagens. Em 1995 este percentual
deverá ser de 80%.
Esta legislação é pioneira, pois estabelece a exigência da reciclagem mesmo que
ela não seja econômica ou que não haja mercado para os produtos recuperados. Isto
certamente obrigará as indústrias a repensar suas embalagens, investir em novas
tecnologias, em novos mercados e produtos.
Em nível estadual/municipal, diversas cidades alemãs criaram seus próprios
pacotes de leis. A cidade de Munique, na Baviera, pretende reforçar o uso de
embalagens retornáveis para todos os tipos de bebidas, como refrigerantes, cervejas,
161 Jornal Jornal do Brasil. Março. 1992.
162 Jornal Jornal do Brasil. Março. 1992.

1
leite e água mineral. Evidentemente, os fabricantes e distribuidores estão se
pronunciando de maneira contrária, mas o governo já estabeleceu multas de 1.000 (U$
1.600) a 10.000 (U$ 16.000) Marcos. Em casos mais graves, até a cassação da licença
comercial da empresa.
No estado de Baden-Wurtemberg, o governo propôs que todos os livros e cadernos
escolares sejam exclusivamente produzidos com papel reciclado. O governo do estado
da Westphalia - Reno do Norte - baixou uma nova Lei de disposição final do lixo:

■ os municípios devem realizar análises qualitativas do lixo gerado em suas


jurisdições;
■ implantar a coleta seletiva de papéis, plásticos, vidros e metais, além dos restos
orgânicos e de construções;
■ garantir local apropriado, estabelecendo os padrões, para disposição final do lixo
por pelo menos 10 anos;
■ as empresas ou estabelecimentos que gerarem mais de 500 kg de lixo/ano devem
providenciar seus próprios locais para dispo-lo em local seguro por pelo menos 5
anos.

3- No Japão:
A escassez áreas para dispor seu lixo - doméstico e industrial - e a escassez de
matérias-primas tornou o país um líderes na vanguarda da coleta seletiva e da
reciclagem. além disso, os resíduos que sobram da reciclagem são operados de forma
eficiente e de maneira compatível com o meio ambiente, sem agredi-lo. Para se ter
uma idéia, os americanos reciclam cerca de 10 a 11% de todo lixo sólido, em contraste
com o Japão que atualmente recicla 40 a 50%. A coleta seletiva do lixo doméstico está
presente em 90% das comunidades japonesas e em muitas delas, há a coleta do lixo
perigoso (baterias, pilhas, termômetros e outros) que contém mercúrio e outros metais
pesados. Estes são coletados e processados separadamente e não vão para os aterros
ou outros depósitos.
A reciclagem é comum no Japão porque as pessoas são conscientizadas a realiza-la
desde criança, pois aprendem estes valores na escola. Nas escolas, uma das matérias
ensinadas diz respeito à educação ambiental, e elas são levadas a conhecer as plantas
de aproveitamento dos rejeitos. Outra forma de enraizar a reciclagem na vida das
pessoas é o trabalho realizado por certas comissões que vão de porta em porta, uma
vez por ano, ensinando e explicando como reciclar, e como tomar cuidado com o lixo.
O segredo do sucesso da coleta seletiva no Japão é a participação da sociedade no
processo. O auto policiamento nos prédios - locais onde é muito difícil exercer um
controle e coleta eficiente - é feito por pessoas responsáveis que explicam aos
moradores como agir. Caso alguma família não queira participar ou misture o seu lixo
orgânico com outros materiais, ela será mal vista pelo resto da comunidade. Em
alguns casos, chega-se até a marcar as sacolas de lixo com o nome do morador para
identifica-lo aos demais moradores do prédio, de modo a deixa-lo embaraçado 163.
Dessa forma, a pressão da sociedade faz a comunidade se envolver.
Uma legislação conhecida como Lei para Promoção da Utilização de Recursos
Recicláveis ou Lei da Reciclagem, estabelece os percentuais de recuperação a serem
atingidos:

Resíduo / Material 1989 (%) 1994 (%)


papéis 50 55
latas de aço 44 60
163 Revista Projeto Reciclagem. Ano 2, n05. Julho. 1991.
1
latas de alumínio 43 60
vidros 49 55

A Lei estabelece ainda O Lixo como recurso reciclável e pretende contribuir para a
solução do problema dentro da ótica de gerenciamento de recuperação dos recursos.
Estabelece ainda que determinadas indústrias ou distribuidores deverão implantar
sistemas de reciclagem e identificar os produtos por tipo de material, de modo a
facilitar a separação por parte do consumidor final.
A questão primodial a ser abordada, é a vontade política dos governos dos EUA,
Alemanha e Japão em relação à coleta seletiva e a reciclagem. Este conjunto de Leis e
dispositivos, além de uma fiscalização eficiente, educação e conscientização das suas
populações, tornam estas práticas uma realidade em nossos dias.
A coleta seletiva e a reciclagem na Alemanha passa no momento por uma situação
interessante: seu sucesso é uma das causas dos problemas que o sistema conhecido
como Duales System Deutschland - DSD - está enfrentando. Este sistema, implantado
em 1992, por 600 grupos industriais para cumprir as metas impostas pelo governo está
esperando coletar quatro vezes mais do que o montante fixado, principalmente
plásticos. Com isso, os pátios das indústrias estão cada vez mais cheios de matéria-
prima, prejudicando o sistema de coleta o, que, evidentemente desagrada a população
pela perda da qualidade do serviço. Além disso, as indústrias que não estavam
dimensionadas para tal volume recorrem as exportações dos resíduos como forma de
dar vazão à produção. Parte da solução repousa no desenvolvimento das instalações de
reciclagem, por parte destas indústrias, principalmente em relação aos plásticos,
presentes em diversos produtos de consumo da população. Ou então, as indústrias
serão forçadas a repensar o uso indiscriminado do plástico em suas embalagens e
substituí-lo por outro tipo de material, como papéis e vidros.
Um exemplo interessante do sucesso e eficiência de programa de coleta seletiva e
reciclagem, é aquele desenvolvido no Vietnã. A capital vietnamita, Hanoi, tem uma
sofisticada rede de coleta, reaproveitamento de lixo e de reciclagem, apesar do baixo
grau de desenvolvimento econômico, falta de coletores individuais de lixo e baixo
nível de instrução da população. Em muitos países a coleta seletiva é fruto da atuação
da mídia e de organizações não governamentais - ONG's - de caráter ambientalista
enquanto que, no Vietnã é uma necessidade e faz parte do dia-a-dia da população na
sua sobrevivência. Enquanto nos países ocidentais, a ênfase dos programas de
reciclagem recaem sobre o papel e o vidro, no Vietnã a coleta e a venda de sucatas
metálicas é o mais lucrativo ítem do lixo para os catadores de rua. Em todas as regiões
do país, as pessoas se organizam para a coleta de sucatas metálicas de todos os tipos:
caminhões e até bombas que não explodiram são desmanchadas e acabam virando
sucata que, posteriormente serão refundidos para a produção de uma ampla gama de
produtos necessários a um país destruído por uma guerra e que enfrentou durante
muito tempo um longo boicote econômico de uma parte da comunidade mundial.
Nas ruas da capital existe um sistema bem organizado de coleta de lixo. Dúzias de
pequenos carros com três rodas fazem a sua ronda durante o dia, coletando lixo.
Quando estes carros estão cheios, eles são esvaziados em grandes montes onde é
realizada a catação de todos os produtos que podem ser reaproveitados e reciclados.
Pessoas de todas as cidades, também, coletam de casa em casa papéis, vidros,
plásticos e sucatas metálicas para revende-las e tirar daí o seu sustento.
Como se vê, através de uma combinação de pobreza e empreendimento, o povo
vietnamita dá um exemplo de como podemos combater o grande desperdício que
norteia a nossa sociedade consumista. Em Hanoi, e em outras cidades do Vietnã,
muito pouco acaba indo para os aterros sanitários.
1
CAPÍTULO IV

A Reciclagem das Matérias-Primas

2
1- Papel
A princípio, insensíveis como feras, dei aos homens sentido,
atribui-lhes mente. No início, vendo, pareciam cegos e, ouvindo
não escutavam, mas como fantasmas se atropelavam.
Em sonhos, a história perplexa dos seus dias confundiam.
(Ésquilo - Prometeu Acorrentado)

O nome papel vem do uso das folhas de papirus no Egito, no século XVIII antes
de Cristo. Existem duas correntes distintas para explicar a origem do papel na nossa
sociedade.
O papel, que hoje é um elemento tão
comum em nosso quotidiano, foi
inventado na China por volta do século II
a.C. e difundiu-se no Oriente com relativa
rapidez. Já no século II da nossa era,
chegou à Coréia e depois de cem anos já
era encontrado no Japão e na Indochina,
chegando a Índia antes do século VII.
Embora o uso do papel se difundisse com
certa facilidade, o processo de fabricação
era um segredo revelado à poucos.

Na Indochina a prática de sua fabricação iniciou-se na século XII. A mesma


sequência aconteceu na rota que trouxe o papel para o Ocidente: primeiro o comércio
e depois de certo tempo a sua fabricação. A travessia do papel da China para o mundo

3
árabe se deu no século VIII, estendendo-se pelo território islâmico até chegar ao
continente europeu, por volta do século XI, tendo a Itália como porta de entrada164.
Outros autores discutem que a origem do papel está ligada à presença na Terra,
desde há mais de 300 milhões de anos, de certas vespas, que certamente foram os
primeiros industriais na arte de fabrica-lo. Estes insetos, ao comerem certos tipos de
madeira, produziam uma polpa com a qual construiam os seus ninhos. A partir dessa
observação por naturalistas, teve-se a idéia de cozinhar a madeira, de modo a se
conseguir o mesmo efeito que a digestão dos insetos165.
A atividade de reciclagem no Brasil se confunde com as próprias origens da
fabricação de papéis no país. As primeiras fábricas brasileiras de papel, instaladas há
mais de seis décadas, se utilizavam de papéis descartados para a produção de novos
papéis. Nessa ocasião, a quase totalidade das necessidades brasileiras de papel, em
seus diferentes tipos, eram supridas por fornecedores do exterior. O passo seguinte da
indústria brasileira foi a produção de papéis utilizando-se matérias-primas virgens
importadas. Só a partir do início dos anos 70, a indústria brasileira de celulose começa
a ter expressão, passando os fabricantes de papéis a utilizarem as matérias-primas
virgens de origem nacional e estrangeiras166. A Associação Nacional dos Fabricantes
de Papel e Celulose - ANFPC - classifica os papéis produzidos no Brasil nas seguintes
categorias:

■ papéis para imprensa


■ papéis para imprimir
■ papéis para escrever
■ papéis para embalagens
■ papéis para fins sanitários
■ cartões e cartolinas
■ papéis para fins especiais

Todos os tipos de papéis citados, com exceção das categorias para fins sanitários e
para fins especiais, são recicláveis e representam 87,3% do total produzido no país.
Além das diferenças de utilização nos meios de produção social, os tipos de papéis
também se diferenciam na natureza das fibras usadas na sua confecção. Segundo a
ANFPC, as fibras são classificadas em:

■ celulose de fibras curtas:


O Brasil produz estas fibras quase que exclusivamente de florestas de eucaliptos
plantadas pelas empresas do setor. Produz um tipo de papel que se caracteriza pela
opacidade (necessário para papéis de impressão e escrever) ou maciez e suavidade
(fundamental em diferentes tipos de papéis para fins sanitários);
■ celulose de fibras longas:
São obtidas de pinheiros exóticos, aclimatados pelas indústrias do setor. A
principal característica dos papéis feitos com estas fibras é a resistência ao rasgo e ao
estouro, já que são elas as ideais para fabricação dos papéis de embalagens;
■ pastas de madeira:
As matérias-primas para produção de pastas de madeira podem ser obtidas das
mais diferentes fontes inclusive, de serrarias. Sua maior utilização têm sido como

164 AMAZONAS, P.; DROLSHAGEM, M. de S.P. & SEBILIA, A.S.C. Nossa Vida e o Lixo. Documento
Interno da Fundação Brasileira para Conservação da Natureza – FBCN. 1992.
165 AMAZONAS, P.; DROLSHAGEM, M. de S.P. & SEBILIA, A.S.C. Nossa Vida e o Lixo. Documento
Interno da Fundação Brasileira para Conservação da Natureza – FBCN. 1992.
166 Anuário Estatístico. Associação Nacional dos Fabricantes de Papel e Celulose (ANFPC). 1995.
2
enchimento, sempre para complementar a composição fibrosa dos papéis,
conjuntamente com as fibras celulósicas.

A tabela IV.1.1 resume os tipos de papéis e matérias-primas usadas para produzi-


los.

Tipos de Papéis Característica Matéria-prima


■ escrever ■ opacidade ■ fibras curtas
■ impressão ■ maciez ■ fibras longas e curtas (30% e 70%)
■ fins sanitários ■ suavidade
■ kraft ■ resistência ■ fibras longas
■ papelão ondulado ■ resistência ■ capa e contracapa - fibras longas +
curtas
■ miolo - pasta de fibra de papel usado -
reciclado

■ cartolinas ■ resistência ■ fibras curtas (30%) e fibras longas


(70%)

A reciclagem de papéis é uma atividade tradicional e simples, bastante


desenvolvida no país. Atualmente, ela representa 32% do consumo total de fibras,
englobando as importações de papel. De acordo com o Sr. Márcio Amazonas (1992),
o Brasil reciclou em 1990, 1,49 milhões de toneladas de aparas, 27% do total
consumido. Há alguns anos atrás, o Japão estava reciclando 95% do papel jornal e
51% provenientes dos restos de papel porém, recentemente, essa taxa vem caindo na
medida em que o Yen valoriza-se em relação ao dólar, pois o país foi inundado com
aparas de papel importado dos EUA167. Fenômeno identico se deu no Brasil, em 1993,
que recebeu uma grande quantidade de papel velho proveniente dos EUA, fazendo
baixar o preço das aparas no mercado nacional. A tabela IV.1.2 mostra a evolução da
recuperação de papel no Brasil.
Os problemas ambientais não estão relacionados apenas ao uso do papel, que
devido a sua longa biodegradabilidade - segundo alguns estudos, pode levar décadas -
mas também, a sua fabricação. Para sua produção grandes quantidades de árvores e de
água são exigidos. Para fabricar uma tonelada de papel, consome-se 200 m3 de água
que, é equivalente ao consumo diário de uma cidade de 1.000 habitantes, desde que,
cada habitante consuma cerca de 200 litros diariamente. Toda esta água deve, após sua
utilização no processamento industrial, ser devolvida ao corpo d'água original e, com
frequência, ela está poluída com fibras vegetais, caolim, breu, celulose bem como,
com inúmeros produtos químicos tóxicos usados na digestão e no branqueamento do
papel. O processamento industrial produz também vários poluentes atmosféricos:
material particulado, óxido de enxofre e odores característicos, que se não forem
devidamente tratados podem causar muitos incômodos à saúde humana.
Resumidamente, o processamento industrial pode ser descrito da seguinte forma:
primeiro, a madeira é cortada em pedaços muito pequenos; depois, ela é cozida até
formar uma polpa ou massa de celulose; essa massa é lavada para retirada da sujeira;
são adicionados produtos químicos para o branqueamento; em seguida, ela começa a
ser secada, prensada, começam a se formar as folhas, que vão ser enroladas em
bobinas.

Anos Consumo Papéis Consumo Papéis Taxa Recuperação


(1.000 t) Recicláveis (%)

167 Revista Projeto Reciclagem. Ano 2, n05. Julho. 1991.


1
(1.000 t)
1978 2.696 836 31
1979 3.196 948 29,9
1980 3.428 1.052 30,7
1981 3.009 920 30,6
1982 3.327 966 29
1983 3.184 1.003 31,5
1984 3.219 1.085 33,7
1985 3.599 1.155 32,1
1986 4.115 1.390 33,8
1987 4.371 1.489 34,1
1988 3.771 1.429 37,9
1989 4.294 1.596 37,2
1990 4.053 1.479 36,5
1991 4.208 1.487 35,3
1992 3.964 1.473 37,3
1993 4.184 1.624 38,3
1994 4.604 1.719 37,3
(fonte: Associação Nacional dos Fabricantes de Papel e Celulose - ANFPC - 1995)

Para fabricar uma tonelada de papel são necessários a derrubada de 10 a 20


árvores, eucaliptus, de 6 a 7 anos de idade. Sabemos que as árvores utilizadas para a
extração de celulose na produção do papel foram plantadas para este fim e que depois,
outras vão ser novamente plantadas em seu lugar. Mas, em geral, estas áreas
reflorestadas com pinheiros e/ou eucalíptus foram realizadas as custas do
desmatamento de áreas florestais nativas, com todos os impactos ambientais
decorrentes desta atividade: erosão e desagaste do solo, desaparecimento de espécies
animais e vegetais, interferência no ciclo local de chuvas e, à longo prazo, alterações
nas bacias hidrográficas locais. Segundo dados de 1991, a área plantada para produção
de papel no Brasil é da ordem de 1,4 milhões de hectares, para uma produção de 5
milhões de toneladas168. Além disso, esta monocultura não constitui uma cobertura
vegetal natural para substituir àquela natural destruída. Muitos governos também
oferecem grandes subsídios à retirada de madeira seletiva das florestas, tanto para
produção da pasta de celulose quanto para fabricação de outros produtos.
Cada vez que o papel é reciclado, as fibras que ele é formado tornam-se mais
curtas e ele vai perdendo sua qualidade, ficando mais fraco. Como as fibras vegetais
são recursos renováveis, a introdução de novas tecnologias de fabricação podem ser
desenvolvidas visando a melhoria da sua qualidade. Técnicas de engenharia genética
também podem ser aplicadas para aumentar e melhorar as fibras. Estas duas práticas,
combinadas à redução da demanda de novas fibras, combate ao desperdício de papel e
aumento da reciclagem, poderão permitir que as necessidades de papel sejam
satisfeitas sem que isso provoque efeitos desastrosos sobre as florestas do mundo. A
reciclagem de papel economiza cerca de 2,5 barris de petróleo por tonelada de aparas
utilizadas e 50% no consumo de água169.
Segundo dados de 1990 do Conselho de Desenvolvimento Industrial - CDI, do
Ministério da Indústria e do Comércio - o consumidor brasileiro joga fora no lixo,
todos os anos, cerca de US$ 480 milhões com o desperdício de papel. Os grandes
vilões desta história, sem dúvida são os servidores públicos, federais, estaduais e
municipais. Diversos programas foram desenvolvidos desde então visando combater
este desperdício de divisas, tanto à nível federal como estadual e municipal. Porém, é
muito grande o desperdício de papel nas residências, nos estabelecimentos comerciais

168 MARTINE, G. Luz no túnel. Revista Globo Ecologia. Junho. 1992.


169 MARTINE, G. Luz no túnel. Revista Globo Ecologia. Junho. 1992.
1
e industriais. O papel perfaz, aproximadamente 30% do total depositado nos aterros e
lixões das capitais do Brasil.
O Instituto Nacional de Propriedade Industrial - INPI - apresentou à Associação
Nacional dos Fabricantes de Papel e Celulose um amplo relatório de monitoramento
tecnológico do setor de papel e celulose, elaborado a partir da análise de 162 patentes
depositadas no Brasil, Europa e EUA. A conclusão deste estudo coincide com
números que mostram um significativo aumento da produção de papel reciclado no
Brasil. No Rio de Janeiro - estado que não tem base florestal e concentra muitos
fabricantes - o produto reciclado já representa 70% de toda a produção de papel,
segundo dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro - Firjan 170 . A
tabela IV.1.3 mostra o aproveitamento de papel usado na produção de papel novo no
Brasil e no Mundo e o gráfico 1.1 mostra os tipos de papéis recicláveis no Brasil.
Mas, a reciclagem do papel também traz muitos problemas. Segundo denúncias
do Jornal O Estado de Minas, de 16 de janeiro de 1995, as indústrias mineiras de
reciclagem de papel estão fazendo um papelão, já que é muito grande a poluição
causada pelas indústrias de reciclagem de papéis no estado de Minas Gerais.
Irresponsáveis e, além do mais, administradas sem compromisso ou responsabilidade
ambiental por parte de seus proprietários ou grupos econômicos, estas indústrias (14
oficialmente no estado) causam, diariamente, uma poluição equivalente ao lançamento
de esgotos sanitários gerados por uma cidade de 140 mil habitantes.
Segundo levantamento realizado pela Diretoria de Controle Ambiental da
Fundação Estadual de Meio Ambiente de Minas Gerais - Feam - uma tonelada de
papel produzida por dia gera uma carga poluidora que consome grande parte da
Demanda Química de Oxigênio - DQO - correspondente a que uma comunidade de
100 a 300 pessoas faria com os dejetos sanitários. Sabendo-se, extra-oficialmente, que
existem 30 e não apenas 14 indústrias de reciclagem de papel e papelão funcionando
sem quaisquer tratamento de seus resíduos, este potêncial poluidor chega à níveis
assustadores.

Países Taxa de Total Total Fibras


Recuperação Aparas Usadas Usadas
(%) ( 1.000 t ) ( 1.000 t )
Holanda 68,9 1.640 2.380
Dinamarca 65,7 216 329
Espanha 62,4 2.099 3.365
Israel 60,1 110 183
Japão 49,3 12.437 25.227
Alemanha 47,6 4.522 9.500
Colômbia 47,3 261 552
Chile 35,8 138 385
Argentina 31,9 353 1.106
Brasil 29,9 1.429 4.782
EUA 24,4 17.745 72.725
(fonte: Trombine, 1988)

Outro fator relevante levantado pela fiscalização da Feam é que a maioria das
indústrias estão longe da capital - Belo Horizonte - e, portanto, longe dos olhares da
população mais esclarecida, da imprensa e, principalmente dos ambientalistas. Elas
estão localizadas em municípios de médio e pequeno porte, lançando seus efluentes
em rios ou córregos de baixa vazão. Então, os danos ambientais, devido ao

170 Jornal A Gazeta Mercantil. Julho. 1993.


2
carreamento de fibras orgânicas e poluentes tóxicos usados no processamento
industrial, que transmitem cor e turbidês, que matam os seres aquáticos por asfixia171.
Segundo a Divisão de Controle de Indústrias Químicas e Alimentícias da Feam,
tudo poderia ser evitado no processo industrial - a exemplo do que acontece no
Primeiro Mundo, graças às tecnologias disponíveis no mercado. A matéria-prima
utilizada pelas indústrias de reciclagem consiste, basicamente, de aparas de papel
velho. Primeiramente, é feita uma seleção dos papéis recicláveis de forma a se
adquirir características específicas dos tipos a serem obtidos. Estes papéis são
depsitados, juntamente com produtos químicos, em um tanque contendo água,
denominado Hidro-pulper, onde se dá a preparação da massa ou polpa de celulose. A
segunda fase do processo consiste na eliminação de impurezas - plásticos, grampos,
arames, barbantes, pedras e areia, dentre outros. Após a limpeza, a massa passa pelo
processo de refinação, visando conferir um aspecto mais homogêneo e obter as
condições ideais para a formação do papel. A pasta passa por nova limpeza e, em
seguida é levada à máquina de papel, onde se obtém o produto final. Formam-se as
folhas com alta umidade, que é gradativamente seca e prensada. passando-se, então,
ao bobinamento comercial.

figura 1.1- Os tipos de papéis e sua participação na reciclagem no Brasil. (fonte: Associação
Nacional dos Fabricantes de Papel e Celulose - ANFPC - 1995)

É nesse processo que se gera a poluição. Ou seja, ela advém dos próprios
equipamentos utilizados, na linha de limpeza e refinação da polpa além, da lavagem
das máquinas e equipamentos auxiliares. As etapas de secagem e prensagem na
máquina que fabrica o papel são as que mais contribuem para tragédia ambiental,
fazendo elevar a concentração dos sólidos em suspensão - fibras de celulose que se
depositam nos leitos dos rios, além de uma grande quantidade de produtos químicos
despejados juntos. Dá pena - constatam os próprios técnicos da Feam - isso partir
exatamente de indústrias de reciclagem que, como o próprio nome faz supor
deveriam ser verdes e não o são172. Eles lembram que mesmo as indústrias
consideradas verdes causam uma poluição que a maioria das pessoas desconhece.
Tanto a poluição como a tentativa de solucionar estes crimes ambientais que ainda
se praticam no estado de Minas Gerais - e quiçá, também em outros estados do Brasil
- são reincidentes e remontam à década de 80. A Feam avaliou uma proposta
apresentada pelo Sindicato das Indústrias de Papel, Papelão e Cortiça para o
desenvolvimento de um projeto global de tratamento ambiental, a nível secundário,
para os efluentes líquidos gerados por essas indústrias. Ao contrário da poluição que
aumentou, quase nada andou desse tempo para cá. Isso fez o Conselho Estadual de
Política Ambiental - Copam - convocar, em janeiro de 1994, todas as indústrias
existentes no estado de Minas Gerais para providenciar os licenciamentos corretivos
na Feam. Deu-se um prazo de 30 dias. Mais 6 meses para que as indústrias estudassem
e apresentassem um projeto executivo para tratamento ou disposição adequada dos
seus rejeitos industriais. E outros 18 meses para implantação, de fato, de seus sistemas
de controle final.
Estes prazos acham-se vencidos desde julho de 1994 e, efetivamente, nenhuma das
empresas cumpriu os prazos acordados. Apenas duas de um total de 30 - as fábricas de
papel Santa Terezinha (antiga Impasa) em Governador Valadares e, a Trombini
171 Jornal O Estado de Minas. Janeiro. 1995.
172 Jornal O Estado de Minas. Janeiro. 1995.

3
(antiga Facelpa), em Ponte Nova, possuem ou estão implantando sistemas de
tratamento secundário para a sua poluição. A fábrica de papel Santa Terezinha,
inclusive, é apontada pela Feam como um exemplo a ser seguido, por possuir um
sistema completo e eficiente de tratamento.
E, o que dizem as indústrias?
Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Reciclagem de Papel, Sr. Heitor
Vilela, a explicação para o setor ainda não ter atendido ainda à legislação ambiental é
política e está associado à omissão do estado e do ex-governador Sr. Hélio Garcia.
"Nós cansamos de procurar os orgãos ambientais estaduais e a Secretaria de Indústria
e Comércio, em busca de ajuda para financiarmos, em conjunto, o estudo de uma
solução tecnológica que pudesse controlar os efluentes que jogamos nos rios. Porém,
foi uma luta em vão, com a administração ausente e displicente do governo passado. O
Sr. Hélio Vilela disse ser proveitoso colaborar com a Feam, na medida que o setor,
antes de poluidor, é ecológico e social, por reduzir aterros, empregar 20 mil pessoas
no estado e diminuir a devastação, na medida em que se recicla um material que já foi
produzido. Sabemos que existe tecnologias, que o tratamento primário de nossa
poluição é até rentável para as empresas, porque recuperam fibras que iriam para os
corpos d'água. Se reciclarmos, então, a água que usamos no processo industrial, o
custo de um tratamento secundário fica ainda mais barato173.
O que causa espanto é o presidente de uma associação industrial utlilizar
argumentos tão torpes e absurdos para justificar a ineficiência das empresas que ele
representa. Tranferir a poluição dos aterros para os rios não é um argumento plausível
para justificar a alcunha de ecológico da sua atuação. Muito menos social, quando
polui as reservas aquíferas locais que, certamente, são elas que abastecem as
populações locais. Portanto, presumimos que o Sr. Hélio Vilela deveria reconsiderar
as suas afirmativas à respeito do assunto. Ou então, deveria se atualizar no que diz
respeito as novas formas de processamento industriais realmente saudáveis, uma vez
que a Companhia Paraíbuna de Papéis - em Juiz de Fora, dirigida pelo Sr. Hélio Vilela
- é o pior exemplo, em termos de poluição, das empresas mineiras de reciclagem de
papéis, segundo avaliação dos técnicos da Feam174.

2- Plásticos

173 Jornal O Estado de Minas. Janeiro. 1995.


174 Jornal O Estado de Minas. Janeiro. 1995.

2
A ética é sempre escolha e histórica. Escolha construída socialmente,
mas também escolha do indivíduo em cada um dos seus atos. É
histórica porque vai se modificando ao longo do tempo, de acordo
com as realidades e desafios postos às sociedades.
(Liszt Vieira)

Os plásticos são materiais muito recentes para a civilização humana, se formos


compara-lo com outros materiais tradicionais na nossa cultura como o papel
(provavelmente inventado no século XVIII a. C.), o vidro (achados arqueológicos,
datam de até 4.000 anos a.C.) e, os metais (que fazem parte integrante da história da
evolução do homem).
As primeiras matérias plásticas foram inventadas no início do século XX, como o
PVC, descoberto na Alemanha, em 1913. Além de criar usos inéditos na vida do
homem, eles substituem com bastante frequência o vidro, os metais, o papel e o
papelão e a madeira, entre outros. Embalagens, brinquedos, tubos, cabos e calçados
são algumas das aplicações dos plásticos no nosso quotidiano. Porém, a invenção do
plástico trouxe novos aspectos quanto à destinação do lixo, pois ao mesmo tempo que
foi se incorporando aos nossos hábitos, o plástico também assumiu o caráter de
produto descartável, indo parar rapidamente das mãos do consumidor para os
depósitos de lixo175.
As vantagens do plástico são a economia de matérias-primas, facilidade no
processamento, leveza, menor consumo energético, ocupa muito menos espaço físico
na armazenagem (tanto como matéria-prima quanto como produtos manufaturados),
durabilidade e estética. No campo das embalagens, consumo de quase 60% de toda a
matéria-prima produzida no país, pode-se citar outras vantagens:

■ influência decisiva no sucesso de marketing de uma linha ou produtos de


consumo, principalmente pela aparência e funcionalidade da embalagem expressa em
forma e peso, qualidade de impressão gráfica, característica de abertura, novo
fechamento e fluxo;
■ manutenção da qualidade do produto contido;
■ aumento da vida útil de prateleira do produto contido;
■ imquebrabilidade, impermeabilidade e indeformabilidade;
■ resistência à perfuração por roedores e outros animais;
■ facilidade de manejo;
■ higiene;
■ em muitos casos, visualização do produto contido, por exemplo os grãos176.

Na maioria dos países desenvolvidos, os plásticos perfazem um percentual bem


mais significativo do que nos países do terceiro mundo, refletindo o padrão e a
qualidade de vida dos respectivos povos. Assim, podemos supor que o consumo per-
capita de plásticos é maior nestes países do que, por exemplo, no Brasil.
A tabela IV.2.1 e o gráfico 2.1 ilustram muito bem esta questão, mostrando o
consumo per-capita/ano de plásticos em alguns países.
A utilização do plástico no Brasil, além de ainda muito pequena, como mostram os
números, encontra-se praticamente restrita à embalagens de alimentos e produtos de
limpeza.
Embora o plástico represente uma pequena fração dos resíduos nos depósitos de
lixo e aterros, apenas 5 a 7% do peso total, chama a atenção mais do que outros
materiais devido às suas cores fortes, sua total descartabilidade, sua resistência à
degradação (estudos levam a crer que demoraria mais de um século para poder ser
175 Revista Projeto Reciclagem. Ano 2. n05. Julho. 1991.
176 Revista Projeto Reciclagem. Ano 1. n01. 1990.
2
degradado pelo ambiente) e a sua leveza que faz com que sejam facilmente levados
pelo vento e pelas águas para poluir áreas adjacentes. Por tudo isso, o plástico passou
a ser um dos materiais mais combatidos pelos movimentos ambientalistas.

Países Quantidade
(Kg/per-capita/ano )
EUA 69,7
Japão 54
Europa 38,1
Brasil 9,78
(fonte: Revista Projeto Reciclagem, 1990)

Figura 2.1- Consumo de plástico/habitante/ano.

Os dados da tabela IV.2.2 relacionam os percentuais de plásticos encontrados nos


lixões nos EUA, Europa e algumas cidades brasileiras.

Países Percentual
(%)
EUA 7
Europa 7
São Paulo 5,6
Rio de Janeiro 12,5
Manaus 2,8
(fonte: Revista Projeto Reciclagem, 1990)

Outro problema encontrado são as diferentes composições dos quase quarenta tipos
de plásticos existentes. Por este motivo, a reciclagem do plástico está mais
concentrada dentro das próprias indústrias de produção de matérias-primas plásticas.
O plástico misturado no lixo ainda continua sendo o problema.
Para melhorar a eficiência na separação dos vários tipos de plásticos, já está sendo
aplicado em todo o mundo, um sistema de codificação nos produtos de consumo. O
sistema de identificação no Brasil é mostrado abaixo:
PET - Polietileno tereftalato.
Utilizado em garrafas para refrigerantes e fibras sintéticas.
PEAD - Polietileno de Alta densidade.
Utilizado em engradados para bebidas, baldes, garrafas para álcool, garrafas
para produtos químicos domésticos, bombonas, tambores, tubos para líquidos e gás,
tanques de combustível para veículos automotores e filmes.
V - Cloreto de Polivinila.
Utilizado em tubos e conexões para água, encapamentos de cabos
elétricos, garrafas para água mineral e para detergentes líquidos, lonas, calçados,
esquadrias e revestimentos, equipamentos médico-cirúrgicos.
PEBD - Polietileno de Baixa Densidade.
Utilizado em embalagens de alimentos, sacos industriais, sacos para lixo, lonas
agrícolas e filmes.
PP - Polipropileno.
Utilizado em embalagens para massas e biscoitos, potes de margarina, seringas
descartáveis e equipamentos médico-cirúrgico, fibras e fios têxteis, utilidades
domésticas e autopeças.
PS - Poliestireno.

1
Utilizado na fabricação de aparelhos de som e TV, copos descartáveis, para
água e café, embalagens de alimentos e revestimento interno para geladeiras.
OUTROS.
Resinas plásticas não indicadas anteriormente e produtos co-extrusados.

Na tabela IV.2.3 e no gráfico 2.2 a composição e o consu-mo das resinas plásticas


virgens no mercado brasileiro e no lixo da Itália, respectivamente:

Tipo Resina Consumo ( % )


PEDB 32
PVC 21
PEAD 17
PP 17
PS 9
Plásticos Engenharia 2
(fonte: ABIPLAST, 1991)

Uma das vantagens desse novo produto é que não é necessário fazer a separação
dos diferentes tipos de plásticos: todos eles podem entrar na composição deste novo
material.
A madeira plástica pode substituir com sucesso a madeira tradicional, diminuindo
assim, a pressão sobre as já poucas florestas no planeta. Sua durabilidade é, também
superior à da madeira comum, principalmente no que diz respeito a sua não
deterioração em relação à água e resistência ao ataque de seres vivos que se
alimentam da madeira natural. A tecnologia de produção é bastante simples: todos os
resíduos plásticos podem ser triturados em partículas de aproximadamente 50mm;
estas partículas são secadas e delas eliminados todos os outros tipos de resíduos
(papel, por exemplo); por fim, estas partículas são compactadas, formando uma massa
homogênea que é extrusada e moldada nos objetos desejados. A linha de produtos é
variada: tinas para alimentação de animais, folhas para revestimento de canteiros
agrícolas, caixas de coleta para resíduos de jardim, pisos para granjas, canaletas e
calhas, postes e mourões e, "pallets", que saem até 60% mais baratos que os similares
de plástico comum ou mesmo de madeira.

Figura 2.2 - Composição dos plásticos presentes no lixo da Itália.

Uma das alternativas, e que atualmente tem ganho bastante espaço dentro da
reciclagem do plástico em todo mundo, é a fabricação da chamada madeira plástica.
Um outro tipo de madeira plástica usa poeira de madeira (sobras de serrarias) com
plásticos recolhidos nas empresas de coleta ou reciclagem. Produzido pela empresa
Enviro Safe - de Nova York, nos EUA - este novo material já está disponível para
produção de inúmeros produtos, que vão desde bancos de praça até decks para
atracação de barcos. O novo produto é fabricado com polietileno de baixa densidade,
o plástico usado em sacolas de supermercados, por exemplo. A Enviro Safe derrete o
polietileno junto com os resíduos de madeira e submete a mistura a alta pressão,
conseguindo um compensado denso com 50% de cada componente. Na verdade, as
empresas de recolhimento ou reciclagem não sabem o que fazer com este material e
ele acaba nos aterros sanitários177, afirma um dos sócios da empresa, o Sr. Bart
Signorelli. Testes feitos em Marathon - na Flórida - indicam que o produto pode ter

177 Jornal O Globo. Março. 1992.


1
mais de 60 anos de vida útil. Para tornar o produto ainda mais resistente, a Enviro
Safe está experimentando adicionar resina de poliéster na mistura178.
Um importante passo foi dado para estimular a reciclagem de plásticos usados - em
geral muito cara - e reduzir a incineração - extremamente poluente - que, só nos países
da comunidade européia é estimado em um volume superior a 50 milhões de toneladas
por ano. Um grupo de cientistas de Liege, na Bélgica idealizaram e testaram com
sucesso dois sistemas de reciclagem de lixo plástico bem mais baratos e eficientes do
que todos os métodos desenvolvidos até então. As grandes dificuldades enfrentadas na
reciclagem dos materiais plásticos era a mistura de vários tipos de substâncias
plásticas, que apresentavam propriedades químicas diferentes, mesmo se
considerarmos que este material era proveniente de coleta seletiva. Além disso, o lixo
plástico em geral se apresenta misturado com outros materiais resultantes de sua
fabricação ou processamento industrial - como cola, tintas e rótulos, o que
praticamente inviabilizava a sua reciclagem. Dessa forma, os materiais plásticos
reciclados tinham um custo maior do que aqueles produzidos a partir da matéria-prima
virgem.
Os testes preliminares feitos em plásticos provenientes do lixo da coleta urbana,
feita de maneira seletiva, mostraram que o comportamento dos diferentes tipos de
plásticos se mantinham de forma homogênea, gerando matéria-prima capaz de
produzir manufaturados com a mesma qualidade da matéria-prima virgem. O outro
passo, era saber se em escala industrial este processo seria viável! Os testes
posteriores provaram que sim. Outros testes ainda vão ser feitos para determinar se
podem ser confeccionados recipientes de grandes dimensões179.
O problema gerado pela longa ou não biodegradabilidade dos plásticos
provenientes do petróleo parece ter chegado ao fim. Técnicos do Instituto de
Pesquisas Tecnológicas - IPT - e da Copersucar, com o apoio do Departamento de
Engenharia Genética da Universidade de São Paulo - USP - e do Programa de Apoio e
Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Financiadora de Estudos e Projetos -
Finep, desenvolveram um tipo de plástico biodegradável produzido por bactérias a
partir da cana-de-açúcar que já está mobilizando o mercado pela sua qualidade.
Dentre os tipos de plásticos alternativos, este se destaca devido a:

■ sua fabricação emana um baixo teor de poluentes;


■ degrada-se em aterros sanitários no prazo de seis a dezoito meses, sem qualquer
problema adicional para o solo;
■ é reciclável;
■ seu custo é considerado baixo - cerca de US$ 3/kg (seu similar mais próximo
fabricado na Inglaterra - à base de beterraba - custa US$ 10.00/quilograma). Os
plásticos provenientes da indústria petroquímica custam cerca de US$ 1/quilograma.

A única desvantagem detectada até agora é que esta variedade de plástico tem se
mostrada mais quebradiça do que os tipos convencionais, uma deficiência que os
pesquisadores do IPT vem se esforçando para eliminar. O Brasil pode oferecer esse
preço final porque é o maior produtor mundial de cana e já dispõe de infra-estrutura e
matérias-primas para dar início à produção em escala comercial. Mesmo custando o
triplo do produto comum, o plástico de cana- que deverá chegar no mercado
internacional a partir de 1995- terá um mercado respeitável a sua disposição. Segundo
as projeções mais otimistas, o mercado internacional de plásticos alternativos

178 Jornal O Globo. Março. 1992.

179 Jornal Jornal do Brasil. Maio. 1994.


2
movimentará algo em torno de US$ 143 milhões. As previsões indicam uma produção
inicial de 10 mil toneladas anuais e segundo o Sr. Celso Lellis, que trabalha no IPT, e
responde pelo desenvolvimento do projeto, conta que já recebeu consultas informais
de empresas multinacionais, de transformação de plásticos e fabricantes de produtos
descartáveis - como fraldas e barbeadores180.
Outros plásticos alternativos ou verdes tem sido desenvolvidos no mundo.
Pesquisadores de uma companhia de biotecnologia desenvolveram um tipo de plástico
biodegradável, elaborado com fibras vegetais, que se decompõe num prazo de dois a
três meses depois de enterrado181.
Seguindo esta mesma linha, o botânico Christopher Somerville da Universidade
Estadual de Michigan - nos EUA - desenvolveu as primeiras plantas capazes de
produzir material plástico comercial. O plástico produzido pelas plantas é denominado
de PHB e é útil para a fabricação de garrafas, embalagens e revestimentos. É a
primeira vez que um vegetal é modificado para produzir alguma coisa diferente, algo
que um vegetal jamais fez. A pesquisa abre o caminho para a produção de matérias-
primas em fazendas e não mais em fábricas182, é o que afirma o Sr. Somerville. Os
vegetais utilizados pelos cientistas são da família do repolho e têm sido muito usados
em experiências genéticas e de biotecnologia. A descoberta é importante porque
permite aproveitar diretamente a energia do sol - através da fotossíntese das plantas -
para fazer um produto de origem industrial.
O plástico PHB já é produzido na Inglaterra, a partir de bactérias, e custa em torno
de US$ 25/Kg. O seu equivalente feito de petróleo é muito mais barato - US$ 1/Kg.
Segundo os técnicos envolvidos na pesquisa, este alto custo poderá ser reduzido
quando ele começar a ser produzido em maior escala183.
O plástico sempre foi considerado o vilão da história da reciclagem. Porém,
atualmente isto está mudando. Diversas empresas e instituições (no Brasil e no
Mundo) estão investindo em novas tecnologias para tentar resolver esta questão. A
Polibrasil - empresa petroquímica em que estão associados a Petroquisa, Shell,
Ipiranga Química e a Polipropileno do grupo Suzano - acaba de patentear em todo o
mundo o Suplen, nome dado a uma matéria-prima inédita do mercado e que, há 20
anos, agita os laboratórios e centros de pesquisa das mais respeitadas empresas do
mundo.
O suplen é um tipo de resina obtida do polipropileno - usado na produção de
copos, pratos e bandejas opacos descartáveis - e que, a médio prazo poderá vir a
substituir com vantagens econômicas uma outra matéria-prima, o poliestireno, que
também é usado na fabricação desses mesmos produtos, que, aliás serão os primeiros
produtos fabricados com o suplen.
O produto é o resultado de seis anos de pesquisa que trabalharam na unidade da
Polibrasil em Camaçari, na Bahia. Em seu desenvolvimento foram usadas as mais
modernas técnicas de engenharia química. A grande vantagem do suplen está no fato
de que, com ele, se pode fabricar o mesmo produto feito à base do concorrente
poliestireno mas com uma economia de 17% de matéria-prima184, é o que afirma o Sr.
Ernesto Teixeira Weber, diretor superintendente da empresa. O potêncial de consumo
do suplen no Brasil é de 40 mil toneladas anuais, capaz de movimentar US$ 40
milhões. No mundo, estima-se que o consumo de poliestireno, produto que o suplen

180 O biodegradável plástico de cana. Revista Planeta, seção jornal. Ano 21. N0 7. Junho. 1993.
181 Jornal Jornal do Brasil. Julho. 1992.
182 Jornal Jornal do Brasil. Maio. 1992.
183 Jornal Jornal do Brasil. Maio. 1992.
184 Jornal Jornal do Brasil. Maio. 1993.
2
planeja substituir, seja de 2,5 milhões de toneladas, que movimentam US$ 2,5
bilhões185.

3- Vidros
Os homens comuns seguem os passos de um grande homem,
qualquer que seja a ação que ele execute.
E quaisquer que sejam as normas por ele estabelecidas por
seus atos exemplares, são Seguidas por todo mundo.
( Bhagavad-gitã )

O vidro é dos materiais sintéticos fabricados pelo homem, o mais antigo. Existem
registros de peças de vidro que datam de até 4.000 anos atrás. O vidro foi descoberto
acidentalmente quando comerciantes fenícios deixaram cair salitre perto de uma
fogueira. Misturado `a areia e, sob a ação do calor, houve a fusão destes materiais e a
formação do vidro186.
A reutilização de produtos de vidro é uma realidade
há muito tempo, tanto no Brasil quanto nos países
desenvolvidos. A coleta seletiva é uma prática tão
tradicional quanto a da reciclagem, chegando ao ponto
de não podermos falar sobre uma, sem nos referirmos a
outra. Reciclagem e coleta seletiva formam uma coisa só
e, em certos casos, já fazem parte da cultura de vários
países industrializados. No Brasil, a situação ainda está
um pouco longe desta, mas já estamos caminhando nesse
sentido187.

Vários estudos já demostraram que em termos de consumo energético as


embalagens de vidro retornável são a melhor solução para produtos de consumo
diário, ao invés daquelas de papelão ou plástico. De acordo com o Sr. Mauro
Akerman, da Companhia Vidraria Santa Marina existem países que reciclam até 90%
do vidro, ou seja, de sua produção apenas 10% são feitos de matérias-primas novas e
mesmo os minerais que entram na composição do vidro, como areia, barrilha e
feldspato, sendo abundantes na natureza a sua retirada acaba sendo uma agressão à
natureza. Além desses três elementos básicos, existe uma quantidade variável de
outros produtos que servem para melhorar a qualidade do vidro, facilitar a sua fusão,
obter colorações diferentes e propriedades específicas desejadas, como maior
resistência ou transparência.
Alguns elementos usados na fabricação do vidro vem de jazidas cada vez mais
distantes dos centros consumidores. Metade da barrilha, da qual é extraída o sódio
consumido no Brasil, é importada - principalmente dos EUA. Outros produtos como o
bórax e o ácido bórico, usados na fabricação de vidros termorresistentes, são
importados da Argentina, encarecendo ainda mais a sua produção188.
185 Jornal Jornal do Brasil. Maio. 1993.
186 AMAZONAS, P.; DROLSHAGEM, M. de S.P. & SEBILIA, A.S.C. Nossa Vida e o Lixo. Documento
Interno da Fundação Brasileira para Conservação da Natureza – FBCN. 1992.
187 AMAZONAS, M. A reciclagem como motor de geração de empregos. Revista Projeto Reciclagem. Ano 3
(especial). Maio. 1992.

188 AMAZONAS, M. A reciclagem como motor de geração de empregos. Revista Projeto Reciclagem. Ano 3
(especial). Maio. 1992.
1
Uma das vantagens das embalagens de vidro é a sua eficiência na reutilização por
diversas vezes. Uma lavagem e esterilização eficiente, uma troca de rótulo e a
colocação de tampas (ou rolhas) e ela está pronta para voltar à linha de produção.
Embora o consumo de energia para limpeza das garrafas retornáveis seja menor do
que o de refusão delas, para produção de novas, há inúmeras vantagens adicionais que
devem ser consideradas na avaliação do conceito de reciclagem:
■ as garrafas poderiam ser bem mais leves pois a exigência quanto à sua
resistência é para um ciclo apenas;
■ o reciclo do vidro é uma prática econômicamente viável, como já demostraram
inúmeras avaliações de organismos econômicos;
■ os principais custos envolvidos na reciclagem são a coleta, a separação e o
transporte, que são os mesmos para a reutilização;
■ o reciclo do vidro em vários países da Europa tem sido um sucesso em função da
instalação eficiente de pontos de entrega voluntária e coleta189.

No Japão, o equivalente a 60% de todas as garrafas é reutilizado numa proporção


de três vezes ao ano. Algumas tem um percentual bem alto de retorno, como as
garrafas de 2 litros de sakê que possuem um índice de 95% de reutilização, com um
ciclo de quase 20 vezes ao ano. Outras embalagens também apresentam um alto
percentual de recolhimento e são recicladas e com isso, o Japão realiza uma grande
economia nesta área190. Nos EUA e, principalmente na Europa, o consumidor já está
habituado e conscientizado quanto a importância da coleta seletiva do vidro. Mesmo
apresentando períodos de altos e baixos em alguns países, o programa europeu de
coleta de vidro é o mais eficiente de todos e é , organizado pela Federação Européia
do Vidro de Embalagens - FEVE. Apesar de ser uma entidade supranacional, cada
país membro tem seu próprio programa de coleta e reciclagem de vidro, com
campanhas institucionais de conscientização muito eficientes. A tabela IV.3.1 mostra
o total de vidro coletado pela FEVE.

Ano Total Coletado Número Países


(milhões tonel.) Membros
1977 1 6
1980 1,5 8
1983 2,5 12
1989 4 17
(fonte: Revista Projeto Reciclagem, 1992)

A reciclagem de vidro não é uma prática nova nos EUA. Em diversos estados, os
coletores instalados em supermercados, shoppings centers e diversos outros locais de
grande afluência de pessoas arrecadaram um grande volume de potes e embalagens
usadas. Nos últimos anos, a quantidade de coletores aumentou, o que criou mais
incentivos para a participação da população no esforço da reciclagem. Em 1985, o
Conselho do Instituto das Indústrias de Embalagens de Vidro, representando também
as empresas fabricantes de coletores de vidro, tomou uma atitude contra a crise de
resíduos sólidos, incentivando a reciclagem. Cada membro do conselho deveria
contribuir para um fundo que promoveria a embalagem de vidro, fazendo surgir uma
nova campanha de reciclagem. Este programa não só reduziu a quantidade de vidros
nos aterros sanitários, como também fez com que os fabricantes usassem menos
recursos naturais, menos energia e lançassem menos emissões à atmosfera durante a
189 ROUSE, G. Reciclagem de vidro: uma questão de custo e benefícios. Revista Projeto Reciclagem. Ano 3
(especial). Maio. 1991.
190 Revista Projeto Reciclagem. Ano 2. n05. Julho. 1991.
1
produção. Além disso, houve um grande incentivo para as empresas que operavam
com outros tipos de resíduos - aparistas e sucateiros - a se engajarem nesta campanha
de recuperação e reciclagem do vidro. Em 1990, os EUA produziram 10,3 milhões de
toneladas, totalizando 41,1 bilhões de embalagens - 31% para cervejas e 33% para
alimentos. Desse total, 500 mil a 1 milhão de toneladas foram importadas e o índice
de reciclagem é da ordem de 31% ou 3,4 milhões de toneladas.
Em 1992, haviam no Brasil 26 programas de reciclagem de vidros, mantidas pela
Associação Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro - ABIVIDRO. Estes
programas, de caráter assistencialista à entidades carentes, rendeu US$ 600 mil e
funcionam em convênio com as prefeituras das cidades onde estão implantadas. São,
ao todo, 24 cidades: 12 em São Paulo (sendo 3 deles na própria cidade de São Paulo);
2 no Paraná; 3 em Santa Catarina; 3 no Rio Grande do Sul; 1 na Bahia; 1 em
Pernambuco e 2 no Rio de Janeiro. Através destes programas, foram reciclados cerca
de 1.000 toneladas, representando 1 bilhão de unidades, entre garrafões, garrafas,
potes, frascos e copos de embalagens de vários tamanhos, que deixaram de ir para o
lixo e se transformaram em novas embalagens, representando apenas, 20 a 30% do
que seria possível recolher.
As indústrias vidreiras pagam em média US$ 54 pela tonelada de cacos, tanto
brancos quanto escuros. Já os sucateiros pagam, em média, US$ 55 pela tonelada de
vidros brancos e US$ 42 pelos cacos escuros- âmbar (nos EUA, as indústrias pagam
de US$ 40 a US$ 55 pela tonelada de cacos claros e de US$ 20 a US$ 55 pelos cacos
escuros). Os garrafeiros compram garrafas usadas e revendem para reaproveitamento
em indústrias e os preços médios variam de US$ 72 para mil embalagens de 1 litro a
US$ 6,6 para igual quantidade de garrafas one-way (nos EUA, os preços variam entre
US$ 10 a US$ 20 à tonelada de cacos claros ou escuros)191.
Embora os números da reciclagem do vidro no Brasil ainda esteja longe do que
pode ser atingido, são bastante animadores. A fabricação de produtos feitos de vidro,
atualmente, utilizam cerca de 33% de matéria-prima secundária da reciclagem. A
reciclagem, através da utilização de matéria-prima secundária, representa uma
significativa economia de energia (12.000 graus na refusão dos cacos e 15.000 graus
na fusão de matérias-primas) e de consumo de matérias-primas, principalmente
barrilha que o Brasil não é auto-suficiente e precisa importar. Por exemplo, para
produzir 1 kg de vidro, são extraídos 1,2 Kg de matérias-primas da natureza enquanto
que, na reciclagem, 1 Kg de cacos produz a mesma quantidade de manufaturados.
A tabela IV.3.2 e o gráfico 3.1 mostram a utilização de matéria-prima reciclada na
produção de manufaturados.

Países Matéria-prima
Reciclada ( % )
Suíça 71
Holanda 70
Alemanha 63
Brasil 33
Finlândia 31
Portugual 30
Espanha 27
Reino Unido 21
(fonte: Jornal do Brasil, 1993)

Os cacos encaminhados para a reciclagem não podem conter pedaços de cristais,


espelhos, lâmpadas e vidros planos usados nos automóveis e na construção civil. Por
terem composição química diferente, esses tipos de vidro podem causar trincas e
191 CEMPRE Informa. n020. Dezembro.1994.
1
defeitos nas embalagens. O mesmo ocorre se os cacos estiverem misturados com terra,
cerâmica e louças.
Como não são fundidos junto com o vidro, esses materiais acabam formando
pedras no produto final, provocando a sua quebra espontânea. O plástico em excesso
pode gerar bolhas e alterar a cor da embalagem. Igual problema se verifica quando há
contaminação por metais, como as tampas de cervejas e refrigerantes. Além disso, os
metais podem causar sérios danos aos fornos.
Os vidros devem ser separados por cores para se evitar alterações no padrão visual
das embalagens finais e reações que formam espumas indesejáveis nos fornos. Frascos
de remédios só podem ser reciclados se forem coletados separadamente nas unidades
hospitalares e mesmo as embalagens quebradas podem ser recicladas.

Figura 3.1- Utilização de matéria-prima secundária, "Cacos", na produção de embalagens de Vidro.

As embalagens de vidro não são biodegradáveis e por isso não se decompõe nos
aterros e ou lixões. Além disso, dificulta as operações nas usinas de compostagem,
que precisam separa-los por processos mecânicos ou manuais. Como, também, não
são materiais combustíveis, a sua incineração não é economicamente interessante. O
vidro funde-se a 1.200 º C e se transforma em cinzas e seu efeito abrasivo pode causar
problemas aos fornos e equipamentos de transporte192.

4- Metais
Quem não sente uma alegria infinita
de estar aqui neste mundo revolto e
mutante, perigoso e belo
(Moreno Fraginals)

Os primeiros metais que o homem


primitivo conheceu foram aqueles poucos
que eram encontrados em seu estado puro
(um pouco de ouro, cobre e ferro),
geralmente de procedência meteórica.

Com eles eram fabricados seus objetos de adorno já por volta de 5.000 a. C. A
descoberta de que poderia obter metais a partir da fusão de minérios deve ter sido,
como tantas outras, puramente casual.
Segundo inúmeros registros históricos, os primeiros ferreiros da antiguidade já
praticavam a reciclagem em seus trabalhos. Os recuperadores ou sucateiros de antanho
recolhiam espadas, escudos e outros despojos nos campos de batalha para forjar novas
armas e utensílios193.

192 CEMPRE Informa. n020. Dezembro.1994.

193 AMAZONAS, P.; DROLSHAGEM, M. de S.P. & SEBILIA, A.S.C. Nossa Vida e o Lixo. Documento
Interno da Fundação Brasileira para Conservação da Natureza – FBCN. 1992.
2
Conta-se que a lata teria sido inventada a pedido de Napoleão Bonaparte, para que
seus soldados pudessem levar alimentos para as guerras sem problemas de
conservação. Outros dizem que o alimento enlatado surgiu na Inglaterra, em 1800194.
O trabalho de reaproveitamento de sucatas metálicas no Brasil, em especial as
ferrosas, teve o seu início com a chegada dos imigrantes europeus. Essa atividade, que
sempre foi caracterizada pelo informalismo, acabou se tornando arcaica com a
implantação do Parque Siderúrgico Nacional. Os recicladores, no caso os grandes, só
conseguiram se recuperar em termos tecnológicos, quando o Primeiro Plano
Siderúrgico Nacional estava pronto, nos anos 70, com pressões junto ao governo para
permitir a importação de equipamentos adequados, como prensas e trituradores
modernos fazendo uma virada em tempo recorde. Somente em 1992 o setor de
preparação de sucata foi reconhecida como atividade industrial pelo Ministério do
trabalho, através da portaria nº 3078.
Hoje o nosso parque para preparação de sucata é um dos mais modernos do
mundo, é o que afirma Emílio Zaidan, presidente do Instituto Nacional das Empresas
de Preparação de Sucata Não Ferrosa e Aço - INESFA. Hoje, o parque siderúrgico
brasileiro é constituído por 26 usinas, localizadas em 11 estados e a capacidade
instalada é de 28,5 milhões de toneladas/ano. Em 1994, a produção de aço bruto
alcançou 25,7 milhões de toneladas e, em 1993, ela se situou na faixa de 25 milhões
de toneladas195.
A atividade de recuperação de materiais secundários, que vem crescendo em
importância, principalmente nos países mais desenvolvidos, face a poupança de
energia, a aceleração da exaustão das reservas de boa parte dos minérios e por uma
constante preocupação com a preservação do meio ambiente. Em 1990, a reciclagem
somente de sucata metálica ferrosa irá gerar uma economia da ordem de 17,5 milhões
de barris de petróleo ao Brasil. A qualidade da sucata brasileira é muito boa e com ela
fabricamos chapas maravilhosas, com um material mais barato do que qualquer parte
do mundo, tanto que somos exportadores de aço196.
No mercado brasileiro, o preço da sucata de aço, matéria-prima para as indústrias
siderúrgicas, está variando, atualmente na média de US$ 70 a 80 a tonelada. Os preços
variam, de acordo com as empresas consumidoras, em função da qualidade, dos tipos
de material e do local de compra.
A tendência do mercado aponta para uma queda nos preços da sucata com um
possível aquecimento da economia futuramente, propiciando o aumento da oferta de
matéria-prima197, é o que afirma o Sr. Antônio Farhat Saifi, superintendente de
suprimentos da Siderúrgica Mendes Junior, de Juiz de Fora - MG. No ano passado,
segundo o Sr. Saifi, quando chegou a ocorrer falta de sucata no mercado interno, o
preço alcançou até US$ 100 a tonelada.
O consumo de sucata de ferro e aço no Brasil tem sido da ordem de 6 milhões de
toneladas por ano, sendo mais da metade oriunda de geração do próprio parque
siderúrgico. As importações ficam em torno de 100 mil toneladas anuais e, é
praticamente inviável economicamente importar sucata metálica, pois seu preço final
chega entre US$ 170 a US$ 175 a tonelada198, segundo o Sr. Saifi. Em 1993, foram
consumidas 700 mil toneladas de folhas de aço para a produção de 600 mil toneladas
de latas. Por outro lado, o Brasil exporta a mesma proporção de embalagens de aço
que importa: 5%.

194 CEMPRE Informa. n019. Novembro.1994.


195 Anuário Estatístico. Ministério das Minas e Energia, Secretaria de Minas e Metalurgia, Departamento de
Minas e Metalurgia. 1995.
196 Revista Projeto Reciclagem. Ano 3 (especial). Maio. 1992.
197 Jornal A Gazeta Mercantil. Maio. 1994.
198 Jornal A Gazeta Mercantil. Maio. 1994.
2
As latas de folha-de-flandres detém 25% do mercado nacional de embalagens,
principalmente aquelas relacionadas aos produtos comestíveis - óleo de cozinha,
conservas, leite e derivados - que representam 72,5% do consumo de latas de aço. O
restante, diz respeito a tintas e produtos químicos (14,5%), óleos lubrificantes (2,4%),
tampas metálicas (8,7%) e outros produtos (1,9%)199. A tabela IV.4.1 mostra a geração
e o consumo - em mil toneladas - de sucata metálica no Brasil.

Ano Setor Siderúrgico


Produção* Aquisição Mercado Consumo* Importação*
Nacional*
1990 3.248 2.878 6.274 113
1991 3.155 2.545 5.714 89
1992 3.482 2.660 6.086 99
(fonte: Instituto Brasileiro de Siderurgia, 1993. * mil toneladas)

Para obtenção dos metais não-ferrosos a partir dos minérios na forma em que são
encontrados na natureza, são empregados processos muito dispendiosos e com grande
consumo energético. Além disso, os grandes estragos ao meio ambiente e as leis anti-
poluição, acabaram por impulsionar a prática da reciclagem no setor industrial.
Entre os produtos recicláveis na indústria, os metais ferrosos são os únicos que
contam com normatização da Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT -
através da NBR 8746, de fevereiro de 1985, que classificou as sucatas metálicas em
31 tipos diferentes, objetivando promover um aumento da eficiência do sistema de
reciclagem, através da caracterização dos produtos de acordo com os aspectos
importantes para o processo industrial. A importância do emprego da sucata metálica,
ferrosa ou não ferrosa, na siderurgia e fundição, mostra uma redução no consumo de
energia em, no mínimo 50%, explicando de certa forma sua excepcional participação
nas economias à nível dos mercados nacional e internacional.
No lixo urbano, a incidência do metal ferroso se dá predominantemente através de
produtos de folha de flandres - latas - que se apresentam amassadas, com uma grande
quantidade de sujeira agregada e resíduos dos produtos de seu conteúdo além de, seus
respectivos rótulos. Também são encontradas as chamadas sucatas ferrosas mistas, ou
seja, sucatas de maior porte como latões, barras e chaparias diversas. Já os metais não
ferrosos aparecem em uma percentagem bastante pequena no lixo urbano. Destaca-se
entre eles o alumínio (embalagens do tipo quentinha, vasilhames de refrigerantes,
panelas e utensílios diversos) e o cobre, presente em quantidades ainda menores que o
alumínio.
Afirmando que o produto é fácil de ser reciclado e com o intuito de incrementar o
uso da lata no Brasil, que soma apenas 5 Kg per-capita contra 18 Kg per-capita nos
EUA, é uma das metas do Programa de Estímulo ao consumidor da embalagem
Metálica - PRÓ-LATA - que o Sindicato da Indústria de Estamparia e Embalagens
Metálicas - SIEMESP - lançou em maio de 1992 na sede da Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo - FIESP. A primeira medida concreta é o lançamento do selo
ecológico Aço Reciclável, que procura valorizar o produto junto ao consumidor. No
Brasil, 18% ou 108 mil toneladas de latas de aço são recicladas por ano - ao preço
médio de US$ 20 por tonelada de sucata prensada - enquanto que este percentual
chega a 34% (1991) nos EUA, totalizando 952 mil toneladas. No Japão este
percentual de recuperação e reciclagem chega aos 61%200.
Se o Brasil reciclasse todas as latas de aço que consome atualmente, seria possível
evitar a retirada de 900 mil toneladas de minério de ferro por ano, prolongando a vida

199 CEMPRE Informa. n019. Novembro. 1994.


200 CEMPRE Informa. n019. Novembro. 1994.
3
útil das nossas reservas minerais. Além disso, deixaria ocupar 8,6 milhões de m 3 em
aterros todos os anos (somente na cidade de São Paulo são jogadas no lixo diariamente
360 toneladas de latas de aço) e proporcionaria economia de 240 milhões de kwh de
energia elétrica - equivalente ao consumo de 4 bilhões de lâmpadas de 60 watts. Isso
sem falar nas 45 milhões de árvores - nativas e de reflorestamento comercial -
deixariam de ser cortadas para a produção de carvão vegetal usado como redutor do
minério de ferro201.
Os fabricantes de embalagens metálicas, que apresentaram um faturamento global
em 1991 de US$ 1 bilhão, associados ao sindicato respondem por 100% da produção
nacional. As indústrias estão conclamando seus clientes - fabricantes de alimentos,
produtos de limpeza e produtos químicos em geral - a aplicar o selo ecológico nas
embalagens dos seus produtos. Segundo o Sr. José Villela de Andrade Jr., presidente
do SIEMESP, no caso dos alimentos a lata confere ao produto uma vida de prateleira
de mais de dois anos e é, segundo pesquisas recentes, a embalagem mais segura para
o óleo de soja. Para degradar-se, no entanto, a embalagem de folha de flandres leva
apenas 4 anos, contra até 120 anos consumidos por inúmeros tipos de plásticos.
Comparado com o tetra-pack, a lata é também muito mais segura202.
No processo de reciclagem, as latas devem estar livres de impurezas contidas no
lixo, principalmente terra e outros materiais metálicos - como alumínio. O estanho em
concentração elevada pode dificultar a reciclagem. Se o teor for superior a 22%, a
sucata só pode ser misturada como carga na produção do aço mediante a retirada do
estanho por processos metalúrgicos. A presença de matéria orgânica gera mais
escória.
As latas de aço dificultam a compostagem do lixo para a produção de adubo
orgânico. Mas, elas são consideradas como biodegradáveis, uma vez que, misturadas
como os demais resíduos, sofre lento processo de oxidação e degradação. Por serem
magnéticas, podem ser separadas mecanicamente por meio de eletro-ímãs nas usinas
de compostagem. Quando incineradas em temperaturas acima de 1.500º C, as latas
sofrem intensa oxidação e voltam ao estágio natural de minério de ferro203.
A reciclagem do alumínio é uma das atividades em franca expansão no mercado da
reciclagem. A empresa Reynolds Metals é a pioneira mundial na reciclagem de latas
de alumínio. As primeiras latas de alumínio surgiram nos EUA, em 1963. Porém, o
primeiro Recycling Center foi inaugurado em 1968, na cidade de Los Angeles - nos
EUA - que fizeram retornar cerca de 0,5 tonelada de alumínio por ano. Quinze anos
depois, em 1983, esse mesmo volume era reciclado por dia. As campanhas de coleta
se multiplicaram ao longo do tempo e, atualmente 10 milhões de americanos
participam ativamente dos programas de coleta204.
A reciclagem das latas de alumínio no Brasil é um dos programas institucionais de
reciclagem que mais resultados tem obtido junto à comunidade principalmente depois
do lançamento, em outubro de 1991, do Programa de Reciclagem da Lata de Alumínio
pela Reynolds Latasa. Em três anos, foram coletadas mais de 6 mil toneladas de latas -
em média, cerca de 200 toneladas/mês - com a participação de 1,2 milhão de pessoas,
contribuindo para o total reciclado de 1,3 bilhão de latas205.
É o único programa de reaproveitamento de materiais integrado do Brasil, isto é,
abrange todas as fases do processo, desde a coleta das embalagens usadas até o
reprocessamento em forma de novas latas, 100% fabricadas a partir de material
reciclado. Envolve atualmente 26 empresas de diversos segmentos da economia, sob a
201 CEMPRE Informa. n019. Novembro. 1994.
202 Revista Projeto Reciclagem. Ano 3 (especial). Maio. 1992.
203 CEMPRE Informa. n019. Novembro. 1994.
204 CEMPRE Informa. n019. Novembro. 1994.
205 CEMPRE Informa. n018. Outubro. 1994.
2
coordenação da Latasa. Este programa já coletou 600 toneladas de latas em quase dois
anos e mobilizou cerca de 400 mil pessoas, que foram aos postos de coleta e troca 206. A
implantação do mercado de refrigerantes e cervejas em latas de alumínio no Brasil,
abriu mais um campo para a reciclagem, em proporções nunca antes atingidas
anteriormente. Aproximadamente 1 bilhão de latas de alumínio - que tradicionalmente
teriam com destino certo o lixo - deverão ser recuperadas neste ano no Brasil e
transformadas novamente em latas, peças fundidas para a indústria automobilística e
em insumo para a fabricação de aço. A atividade de recuperação do alumínio tornou-
se um grande negócio devido ao seu alto valor de comercialização, atraindo
sucateiros em todo o país- cerca de 2.000; supermercados- cerca de 210 nos estados
do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo; escolas- mais de 1300
escolas, em oito estados e, mais entidades beneficentes e igrejas- 65. Nos EUA, o
negócio envolve 10 mil postos de coleta e movimenta US$ 2,5 milhões dia207.
O preço médio gira em torno de US$ 450 a US$ 600 a tonelada. Depois de
refundidas, as latas são reduzidas a chapas ou tarugos, matérias-primas para fabricar
novas embalagens/latas e, as peças que entrarão nos motores de automóveis, como
pistões e tampas de cabeçote. O número acima representa cerca da metade da
produção de latas de alumínio que a Latasa S/A pretende alcançar neste ano - 2
bilhões de unidades - e corresponde ao consumo da ordem de 16 mil toneladas de
alumínio primário necessário para a sua fabricação. Segundo estimativas da própria
Latasa, outro bilhão de latas ainda continua seguindo em direção aos lixões. Mas não
por muito tempo208, é o que afirma José Roberto Giosa, Gerente de Reciclagem da
Latasa. Dentro de 3 anos, a previsão é de chegar a recuperar 80% das latas que a
empresa vier a produzir.
A tabela IV.4.2 mostra a evolução do programa de recolhimento de latas.

Ano Quantidade Recuperada


(%)
1991 37
1992 37
1993 50
1996 80
(fonte: Jornal Gazeta Mercantil, 1994)

Nesses 4 anos, o crescimento dos negócios ligados a reciclagem das latas de


alumínio, que movimenta hoje cerca de US$ 7 milhões ao ano, levou o Brasil a
superar largamente muitos países industrializados, como o Japão, a Inglaterra,
Alemanha, Itália e Grécia e chegar bem perto dos EUA, onde existe o maior mercado
de latas do mundo, com uma produção de 97 bilhões de unidades ao ano209.
A tabela IV.4.3 mostra os percentuais de recuperação das latas de alumínio em
alguns países.
A reciclagem de 1.000 Kg de alumínio significa 5.000 Kg de minério de bauxita
poupados. A economia de energia no processamento industrial também é espantosa:
para se produzir 1.000 Kg de alumínio a partir do minério de bauxita, gasta-se 17.600
kW/h de energia elétrica enquanto que, para reciclar esta mesma quantidade de
alumínio, gasta-se apenas 750 kW/h ou seja, uma economia de quase 95%. Em relação
à economia de energia, nenhum outro material se equivale à reciclagem do alumínio,
conforme mostra a tabela IV.4.4.
206 Folheto Informativo. Reynolds Latasa S/A. 1993.
207 CEMPRE Informa. n018. Outubro. 1994.
208 Folheto Informativo. Reynolds Latasa S/A. 1993.

209 Jornal A Gazeta Mercantil. Maio. 1994.


1
Países Quantidade Ano Início
Recuperada (%) Programa
Brasil 50 1988
EUA 68 1968
Japão 44 1978
Grécia 27 -
Inglaterra 23 -
Alemanha 22 -
Itália 13 -
(fonte: Jornal A Gazeta Mercantil, 1994)

A produção total de alumínio em 1989 foi de 966,3 mil toneladas, segundo o


Anuário Estatístico da Associação Brasileira do Alumínio - ABAL - com uma
recuperação de 66,6 mil toneladas ou 6,4%. Os dados sobre a recuperação de sucata
de alumínio constam a partir de 1974, quando foram recuperadas 22,4 mil toneladas, o
que equivaleu a 8,5% da produção. Este alumínio secundário é comumemte
empregado pela indústria automobilística, aeronáutica, eletro-eletrônica, mecânica e
de aparelhagem e instrumentação óptica.
O que as indústrias recicladoras querem para ampliar seu espaço, é melhorar a
eficiência na coleta, para consequentemente obterem uma qualidade melhor, uma vez
que existem muitas variedades de alumínio que precisam ser separadas. Isto,
certamente, acarreta um aumento nos custos. Uma das alternativas para a
maximização da reciclagem do alumínio, é apontada pelo Diretor Executivo da
Associação Brasileira de Metais Não-Ferrosos - ABRANFE - Sr. Edson Guide: Se as
empresas que consomem o reciclado, se agrupassem e entrassem num acordo sobre
quais os tipos padrões de material desejados, esta medida seria suficientemente eficaz
para aumentar e melhorar o consumo do alumínio secundário210.

Material Matéria-prima Matéria-prima Percentual


Primária Secundária (%)
(kW/h/t) (kW/h/t)
alumínio 17.600 750 95
aço 6.840 1.784 74
papel 4.980 1.465 71
vidro 4.827 4.192 13
(fonte: Sebrae , 1992)

No processo de reciclagem, a sucata de alumínio não pode conter ferro. O teste do


imã é a melhor técnica para certificar a ausência desse material. O material não é
compostável e por isso ele deve ser retirado por processos manuais ou mecânicos. O
alumínio se funde a 660º C e de acordo com a temperatura dos incineradores onde eles
são encaminhados, sua queima pode gerar compostos orgânicos voláteis provenientes
das tintas e vernizes. As embalagens de alumínio, também, se degradam parcialmente
nos aterros, devido a existência de uma camada de óxido em sua superfície211.

210 Revista Projeto Reciclagem. Ano 3 (especial). Maio. 1993.


211 CEMPRE Informa. n018. Outubro. 1994.

1
5- Outros Materiais

5.1- Pilhas
A humanidade, mergulhada desde o início num universo
incompreensível e angustiante - pois não tinham regras
para a ação - realizou notáveis esforços para por aí
uma ordem, que os levou da descoberta do fogo à
manipulação do átomo.
( Carl Sagan )

A Suíça possui desde 1986 legislação


específica para o recolhimento em
separado de pilhas que serão recicladas.
Das 4 mil toneladas de pilhas produzidas
no país, 100% delas são recicladas graças
ao trabalho desenvolvido pelo
Departamento Federal de Meio Ambiente
e de diversas organizações ambientalistas
que realizam um trabalho, porta a porta,
junto a população.

Em função disso, somente 50% das pilhas chegam aos postos especiais instalados
em supermercados, mercearias e bancas de jornais; os outros 50% são recolhidos na
seleção do lixo caseiro.
Apesar do governo ter proibido em 1991 a exportação de pilhas usadas, já havia
há algum tempo pesquisas para se obter a auto-suficiência no tratamento destes
resíduos na Suíça. Até 1991, as pilhas consumidas pelos suíços eram exportadas para
a ex-Alemanha Oriental212, é o que afirma o Sr. Mathias Tellembach, da Seção de
Dejetos Industriais de Berna, na Suíça.
Na Alemanha, o recolhimento de produtos contendo resíduos domésticos perigosos
é baseado, como na Suíça, na colaboração voluntária de empresas e consumidores,
apesar da legislação sobre a obrigatoriedade das empresas terem de receber de volta as
embalagens de seus produtos. Também na Alemanha, as pilhas (as lâmpadas
fluorescentes, as baterias e outras embalagens de produtos tóxicos) acabam no lixo
doméstico, junto com os outros resíduos. Todavia, o atuante Ministério do Meio
Ambiente alemão resolveu atacar o problema em duas frentes: primeiro, conseguiu à
retirada de inúmeros componentes tóxicos no fabrico de produtos de consumo de
massa (por exemplo, geladeiras e baterias) e, segundo, o compromisso de
revendedores e lojistas de receberem de volta o lixo doméstico considerado perigoso.
212 Jornal Jornal do Brasil. Abril. 1993.
1
Infelizmente, estatísticas do próprio Ministério do Meio Ambiente alemão revelam
que apenas 15% do lixo doméstico perigoso está sendo coletado através deste sistema.
Surgiram, então outras estratégias para otimizar a coleta destes materiais. Em Berlim,
uma vez por mês circula um veículo especial conclamando a população a entregar os
resíduos considerados perigosos. Em outras cidades, foram instalados postos de
entrega voluntária, com latões diferenciados para a coleta destes resíduos, à
semelhança dos latões já instalados para a coleta dos resíduos inorgânicos não
perigosos213.
De autoria do deputado Antônio Francisco Neto (PL), o protejo de lei nº 81 / 91,
aprovado pela Assembléia Legislativa do estado do Rio de Janeiro, em 31 de março de
1993, que torna obrigatória a reciclagem de pilhas e baterias. Ao contrário do que
acontece em vários países desenvolvidos, onde há programas específicos de coleta e
reciclagem de pilhas, atualmente no Brasil elas são descartadas junto com o lixo
residêncial comum com um agravante: elas possuem em sua composição mercúrio,
metal pesado de alto poder tóxico. De acordo com o deputado autor do projeto, a
idéia partiu da experiência européia, onde este tipo de produto só pode ser vendido
em troca de usados, como o casco de bebida214.
Em relação as baterias, o problema é semelhante. Nos EUA, que reciclam 80% das
baterias, também se defrontam com o problema. A reciclagem das baterias inclui a
retirada do ácido sulfúrico - que é reprocessado ou então enviado para um local
especializado no tratamento de resíduos perigosos - e o seu sucateamento para
posterior envio para uma usina siderúrgica para serem transformados em novos
lingotes para produção de novos bens de consumo, inclusive baterias. Só no estado de
Minnesota, a reciclagem das baterias dos carros durante um ano manteria quase 3,5
milhões de toneladas de chumbo e 500 mil litros de ácido sulfúrico fora dos
vazadouros.
O secretário de meio ambiente do Distrito Federal, o Sr. Paulo Timm estudava a
possibilidade de iniciar a coleta de pilhas em 1993. A implantação imediata de um
programa de coleta de pilhas, que são rejeitos altamente tóxicos e trazem prejuízos
quase irrecuperáveis para as áreas onde são depositadas. Pensamos em desenvolver
o programa com o Serviço Social do Comércio - SESC - e implanta-lo logo na
primeira semana de maio (de 1993). A coleta será feita nas escolas públicas e as
pilhas serão trocadas por entradas do jardim zoológico. Assim, criaremos uma
consciência ecológica nas crianças - nossos maiores agentes no processo de
educação ambiental215.
Por outro lado, os fabricantes de pilhas se defendem, desmentindo o potêncial
poluidor dos seus produtos e alegam, além disso, que a reciclagem é desnecessária e
antieconómica, sofisticado e caro . O Sr. Cyro do Valle, da Apliquim, empresa
especializada na reciclagem de resíduos perigosos, desenvolveu uma tecnologia para
reciclar os componentes da pilha usada, mas por falta de mercado (coleta seletiva) o
sistema ainda não foi implantado. Para ele a coleta diferenciada de pilhas e lâmpadas
(outra fonte significativa de mercúrio nos lixões, aterros e usinas) e,
consequentemente, a reciclagem só será feita quando a legislação exigir216. Toda pilha
funciona como uma mini-usina, que transforma energia química em energia elétrica
numa reação de caráter irreversível onde, os subprodutos originados não podem mais
ser reaproveitados. Segundo o Sr. Vivaldo Castanho Iakowski, diretor da Microlite,
detentora da marca de pilhas Ray-O-Vac, as pilhas comuns, de zinco-carvão, não
preocupam, pois a quantidade de mercúrio é desprezível, não chegando a 0,006% de
213 Jornal Jornal do Brasil. Abril. 1993.
214 Jornal Jornal do Brasil. Abril. 1993.
215 Jornal Folha do Meio Ambiente. Abril. 1993.
216 Jornal Folha da Tarde. Agosto. 1992.
2
seu peso. As alcalinas preocupavam mais. Há 10 anos atrás elas chegaram a ter
quase 1% do seu peso em mercúrio. Hoje, este valor foi reduzido para 0,04% e daqui
a dois anos estará reduzido à zero217.
Atualmente, os fabricantes de pilhas do mundo inteiro estão sofrendo forte pressão
de grupos ambientalistas. Por isso, os fabricantes de pilhas já estão investindo US$
200 milhões em pesquisas e equipamentos para reduzir as substâncias nocivas
utilizadas para produzi-las, principalmente os metais pesados. Dados recentes
mostram progressos notáveis na redução de até 97% do mercúrio usado nas pilhas
alcalinas.
Porém, estes fabricantes estão convencidos de que ainda não é o momento de
atender as pressões do movimento ambientalista para a reciclagem de pilhas
descartáveis. A reciclagem ainda não compensa218, sentenciou o engenheiro químico
Terry Telsrow, que desde 1985 dirige a divisão de normas e de segurança de produtos
da Eveready Battery Co. Inc., nos EUA. As tecnologias existentes de reciclagem de
pilhas existentes hoje, exigem investimentos excessivamente elevados. Então,
segundo o Sr. Telzrow, a não ser que se desenvolvam novas tecnologias na área de
reciclagem, o melhor caminho passa pela redução das fontes de contaminação de
metais pesados, particularmente o mercúrio219. Nos EUA, por exemplo, a Energizer
fabricada pela Eveready sem mercúrio é conhecida como a pilha verde e já
corresponde a 70% do mercado220.
Segundo o Sr. José Arnaldo Gomes, responsável técnico pelo Departamento de
Pesquisas da Cetesb, as pilhas contribuem de forma substâncial para a presença de
metais pesados no lixo. O mais grave, ainda, é que parte desses metais pesados das
152 milhões de pilhas comuns e de 40 milhões de pilhas alcalinas, consumidas
anualmente só na cidade de São Paulo, acabam entrando na cadeia alimentar
humana221. Como não há recolhimento diferenciado das pilhas, elas normalmente
seguem dois caminhos distintos, ambos muito perigosos: ou elas vão para os
aterros/lixões ou vão para as usinas de compostagem.
Nos aterros ou lixões, ficam expostas ao tempo (sol e chuvas), sofrem processo de
oxidacão (ferrugem), se rompem e liberam o seu conteúdo para o meio ambiente,
contaminando todos os outros resíduos lá presentes. Com as chuvas (ou mesmo, pelo
chorume), estes resíduos tóxicos são carreados e podem penetrar o solo,
contaminando-o ou indo parar nos lençóis freáticos. Podem também ser levadas para
rios e córregos em áreas adjacentes aos depósitos. Uma vez contaminados os
mananciais de água, a contaminação por parte do homem é o passo mais rápido e
imediato: através dos alimentos, seja pela utilização dessa água na irrigação ou pelo
próprio solo contaminado; através do consumo direto de água ou, ambos os processos
conjugados.
Nas usinas de compostagem, as pilhas, misturadas ao resto do lixo, ficam girando
nos biodigestores por 48 horas onde muitas são amassadas, moídas e se rompem,
liberando os metais pesados à massa orgânica que está se formando. Após o período
de maturação, o composto está pronto para ser consumido, contaminado por metais
pesados que, também vão entrar nos ciclos biológicos.
Em função desses problemas, a Cetesb está elaborando um programa de coleta
seletiva para tratamento do lixo doméstico perigoso para a cidade de São Paulo, a ser
apresentado ao Programa Estadual de Controle da Poluição Industrial, em janeiro de
1993. Na verdade, está apenas se retomando um projeto feito em 1990 e que previa a
217 Jornal Jornal do Brasil. Abril. 1993.
218 Jornal A Gazeta Mercantil. Julho. 1993.
219 Jornal A Gazeta Mercantil. Julho. 1993.
220 Jornal A Gazeta Mercantil. Julho. 1993.
221 Jornal Folha da Tarde. Agosto. 1992.
3
instalação de postos de entrega voluntária de pilhas (além de embalagens de spray,
lâmpadas fluorescentes e frascos de remédios) sob a responsabilidade da Cetesb. O
programa previa uma série de alternativas para o reaproveitamento dos materiais que
compõe este(s) produto(s). Nas pilhas comuns, concluiu-se que seria possível
reaproveitar o zinco e as folhas de flandres e, no caso das pilhas alcalinas, aproveitar-
se-ia o mercúrio, o dióxido de manganês, o plástico, o latão, sais de zinco e de
potássio222. Uma outra solução seria o uso de pilhas recarregáveis, como as que a
empresa americana Rayovac Corporation está lançando no mercado americano. Estas
pilhas tem a duração de uma pilha alcalina comum, mas pode ser usada até 25 vezes.

222 Jornal Folha da Tarde. Agosto. 1992.


4
5.2- Borracha / Pneus
O mundo moderno sabe que em nenhum setor a
interdependência global é mais crucial do que nas
questões relativas ao meio ambiente, pois elas
trascendem as fronteiras nacionais.
( Tenzin Gyatno-Dalai Lama )

Desde que John Boyd Dunlop inventou o pneu, os motoristas de veículos


automotores passaram a dirigir com mais conforto e segurança. Mas não foram só
vantagens que acompanharam o valioso invento do Sr. Dunlop. A resistência,
característica que garante a segurança dos pneus, está se tornando um problema
ambiental. Os polímeros sofisticados e as cintas de aço são praticamente
indestrutíveis. Podem suportar o desgaste causado pela alta velocidade nas auto-
estradas do mundo, mas é imensamente difícil dar-lhes um destino adequado quando
sua vida útil chega ao fim.
Pneus usados podem ser encontrados às margens das estradas, flutuando nas praias
ou espalhando fumaça tóxica no ar quando queimados. O problema ficou tão crítico
que a Comissão Européia identificou os pneus, em 1991, como o primeiro dos fluxos
de resíduo tóxico prioritários, a respeito dos quais deveriam ser tomadas certas
medidas. Só a Europa Ocidental produz 200 milhões de pneus por ano, os EUA outros
250 milhões e o Japão, 140 milhões.
Até hoje, as soluções para este problema tem se baseado em três opções:
recauchutagem, trituração e incineração. As três opções tem sido defendidas, apesar
dos problemas que cada delas apresenta. Assim, cada país tem adotado medidas
específicas para solucionar seus próprios problemas. Ao mesmo tempo, a produção
mundial de pneus não mostra sinais de queda enquanto que, diversos países estão
apertando suas normas legais sobre a destinação dos pneus para os aterros sanitários,
destino tradicional da maior parte dos pneus.
A tabela IV.5.2.1 mostra a produção mundial de pneus.
Na Alemanha, os aterros sanitários estão proibidos de receber pneus. Se forem
levados para estes locais, é exigido o pagamento de uma taxa extra, para serem
encaminhados a um especialista. Os pneus sucateados são bastante usados para a
geração de calor em fornalhas de cimento. No entanto, esta é uma prática quase
isolada em toda Europa. No entanto, medidas ainda mais rigorosas estão em estudo na
Alemanha. A legislação tornará os fabricantes de pneus responsáveis pelos resíduos
sempre que o proprietário de um veículo. No Reino Unido, o armazenamento de pneus
em terrenos foi proibido há alguns anos em razão dos riscos potenciais de incêndios e
de contaminação do meio ambiente. O Departamento do Meio Ambiente também
aconselhou que os aterros limitassem a proporção de sucata de pneus a 5% do seu
volume, diante dos riscos de instabilidade e poluição, por meio da lixiviação
(separação através de lavagem). troca-los.
A recauchutagem já responde por 50% dos pneus usados pelos caminhões no
Reino Unido, Itália e Alemanha. Mas a proporção de pneus de automóveis é muito
menor223, é o que afirma o Sr. Maurizio Prete, diretor da divisão de pneus para
caminhões da Pirelli. O Sr. Prete diz que, a relutância dos motoristas particulares em

223 Jornal A Gazeta Mercantil. Fevereiro. 1995.


5
usar pneus recauchutados decorre amplamente de preocupações equivocadas sobre
segurança, e o orgulho de possuir um carro novo224.
A transformação dos pneus em migalhas ou pó, que podem ser reconstituídos em
tapetes ou forrações de borracha para carpetes, geram produtos de baixa qualidade e
tem uma demanda limitada225, é o afirma o Sr. Reiner Stark, responsável pela área de
qualidade e meio ambiente da Continental Pneus, maior fábrica de pneus da
Alemanha.
No Reino Unido, a empresa Elm Energy, sediada em Wolverhempton, criou uma
fábrica para a queima de pneus para geração de energia. Os cinco incineradores da
empresa estão funcionando normalmente para a queima de 100 mil toneladas de pneus
usados anualmente. Mas existem obstáculos: primeiro, existe um limite no tocante à
quantidade de pneus que podem ser absorvidos nas fornalhas. E, segundo, a geração
de eletricidade ainda depende de subsídios governamentais.

Empresa País Vendas Produção


(em milhões) (em milhões)
Michelin França 9,5 55,91
Bridgestone Japão 9,47 140,12
Sumitomo 2,5
Toyo 2,5
Goodyear EUA 8,8 237,45
Cooper 1,0
Continental Alemanha 3,7 45,63
Pirelli Itália 2,7 -
Kumbo Coréia do Sul 0,87 42,28
- China - 64,27
- Brasil - 31,17
(Fonte: European Rubber Journal, 1991 e 1992)

No entanto, as empresas produtoras de pneus também estão procurando por novas


alternativas para dispor as sucatas de pneus. A Michelin, maior produtora de pneus do
mundo, é a pioneira no uso de pó de borracha derivado de pneus usados para ser
misturado ao betume em camadas de asfalto. Segundo os técnicos da fábrica francesa,
a utilização de borracha pode melhorar a aderência, reduzir o nível de ruído e da
pulverização do asfalto, além de criar uma camada de asfalto mais durável. A fábrica
Continental, da Alemanha, tentou antecipar-se a uma possível nova legislação, e já
implantou uma subsidiária - a Reifen Entsorgungs Gesellschaft, REG - para coletar
pneus usados e assegurar que eles sejam eliminados de forma ambientalmente
saudável. A REG, no momento, está trabalhando com 120 toneladas de sucata de
pneus por ano226.
As novas propostas da União Européia para um programa de lixo tóxico podem ser
ainda mais rigorosas. De acordo com especialistas no assunto, as principais metas
incluiriam a eliminação de 25% dos pneus através da recauchutagem. Os outros 65%
seriam eliminados através de programas de recuperação como material reciclado e
incinerado para geração de eletricidade. Os 10% restantes seriam eliminados através
da exigência de os fabricantes produzirem pneus de duração mais longa no ano 2000,
o que efetivamente cortará a quantidade de sucata de pneus.
Há apenas sete anos, o destino das sucatas de pneus nos EUA era encher os
buracos de terrenos de terraplanagem ou serem empilhados nos depósitos de lixo.
224 Jornal A Gazeta Mercantil. Fevereiro. 1995.

225 Jornal A Gazeta Mercantil. Fevereiro. 1995.


226 Jornal A Gazeta Mercantil. Fevereiro. 1995.

1
Com a mudança - operada em parte pela mudança de comportamento em relação aos
problemas ambientais e o incentivo e restrições impostas pela nova legislação de
controle ambiental. Atualmente ¼ dos pneus velhos não usados na recauchutagem são
reaproveitados de inúmeras formas.
A primeira forma de utilização dos pneus velhos é como combustível para geração
de energia. Iniciada em 1986, deverá consumir em 1993 entre 47 e 50 milhões de
pneus, segundo estimativas do Conselho de Manejo de Sucatas - SMTC. Outra forma
comum é o de reutilização dos restos de pneus como asfalto de borracha na construção
de estradas. Em 1992, entre 5 e 6 milhões de pneus gastos estão sendo usados na
pavimentação de estradas americanas. A previsão para 1994 é de se utilizar para este
fim, algo em torno de 20 milhões de unidades. A terceira forma de utilização é seu uso
na construção civil. As sucatas de pneus tanto podem substituir materiais tradicionais
quanto serem usados para assentamento em estradas - 35 estados americanos já
utilizam esta técnica para dar fim as sucatas de pneus227. Este ano serão consumidos
entre 53 e 58 milhões de pneus pelas companhias construtoras dos EUA nas mais
diversas obras.
Um outro bom negócio relativo ao uso dos pneus, é a indústria de recauchutagem
que, só no ano de 1992 atingiu a cifra de 31,5 milhões de unidades, num comércio que
deverá gerar quase US$ 2 milhões, segundo estimativas da Associação Americana de
Recauchutagem - ARA. Segundo Martin Bozart, diretor da ARA, com o governo
aumentando o uso de pneus recauchutados em sua frota e a Agência de Proteção
Ambiental - EPA - apertando o cerco, o mercado tende a crescer cada vez mais"228. Os
maiores clientes das indústrias recauchutadoras são, sem dúvida, as grandes
companhias aéreas, a força aérea americana e as grandes companhias transportadoras
terrestres.
Nos EUA, a borracha obtida de pneus velhos é um dos principais componentes do
sapato reciclado produzido pela Deja Shoe Company. Com a forma de tênis cano
longo, o calçado é fabricado também com sobras de tecidos, filtros de café e sacos de
supermercados. A empresa produz 100 mil pares/ano, somando 15 modelos diferentes,
que custam de US$ 40 a 70 nas lojas. Depois de usados, os calçados podem ser
devolvidos à Deja para serem reciclados mais uma vez229.
Segundo Eduardo Morais Martins, secretário da Associação Brasileira dos
Recauchutadores, são necessários 200 litros de petróleo para produzir um pneu novo
para um ônibus ou caminhão. Esse mesmo pneu, se for recauchutado, utiliza somente
30 litros. Um pneu recauchutado é três vezes mais barato e a vida média dele é
próxima do novo, 90%, e as vezes até igual, dependendo da qualidade da matéria-
prima utilizada230. Para o presidente da Associação de Recauchutadores e
Revendedores do Rio de Janeiro, Sr. Mário Corujo, praticamente 100% dos pneus de
carga usados no Brasil, ônibus, caminhões e até aviões, são recauchutados231.
O Brasil produz anualmente cerca de 31,7 milhões de pneus e importa cerca de 3,5
milhões de pneus usados - aproximadamente, 10% da produção - de acordo com a
Associação da Indústria de Pneus. O presidente da Associação e também diretor da
Goodyear, Sr. Cesário Ruiz, condena esta prática, apesar da Goodyear possuir uma
fábrica para recauchutagem de pneus de avião que usa pneus usados. Estamos
comprando lixo de outros países e isso é inadmissível232, diz o Sr. Ruiz.
227 MONTEIRO, M. Pneu importado: o que há por trás desse negócio. Revista Ecologia & Desenvolvimento.
Ano 5, n054. Agosto. 1995.
228 CEMPRE Informa. n020. Dezembro. 1994.
229 CEMPRE Informa. n020. Dezembro. 1994.
230 Jornal Jornal do Brasil. Setembro. 1992.
231 Jornal Jornal do Brasil. Setembro. 1992.
232 Jornal Jornal do Brasil. Setembro. 1992.

2
O Brasil é o maior importador de pneus usados dos EUA. Em 1994, das 963 mil
unidades exportadas pelos EUA, o mercado brasileiro absorveu quase a metade ou
seja, 415 mil pneus usados, que foram comprados a US$ 9,16 a unidade 233. Estimativas
do setor indicam que 3,5 milhões de pneus vindos do exterior foram vendidos no país
em 1994 (a produção nacional total no mesmo período foi de 33,8 milhões). Para o
ano de 1995, as previsões falam em 5,5 milhões de unidades - 16,27% da produção
nacional, que são responsáveis por 117.000 empregos diretos em 1993234.
O Sr. Mario Corujo, diretor da Pneuback - uma das maiores recauchutadoras e
importadoras de pneus usados do país - discorda. Os pneus usados importados não
chegam a dois milhões e, além disso, têm vida útil maior que os pneus novos
fabricados aqui235, diz o Sr. Corujo. Já ocupando a posição de segundo maior mercado
de recauchutagem do mundo, o Brasil recicla 100 toneladas/ano de pneus. Nos EUA,
este número é 20 vezes maior236.
Recentemente, a Borcol Indústria de Borracha Ltda, lançou no mercado uma
inovadora linha de pallets de borracha, fabricados quase que integralmente a partir da
reciclagem de pneus velhos ou rejeitados pelo controle de qualidade dos fabricantes.
São colocados à cada ano no Brasil cerca de 30 milhões de novos pneus, que depois
de usados acabam encostados nos pátios dos sucateiros ou se acumulam nos lixões,
aterros, valas ou terrenos baldios. A Borcol recicla 10% de todos os tipos de pneus
produzidos e a produção de pallets vai desafogar os impactos sobre a madeira nobre,
normalmente usada para a sua produção. Segundo o Sr. Bruno Nardine, diretor
comercial da empresa, as possibilidades de aplicação da borracha reciclada são
imensas: assoalhos para ônibus e vagões de trens, placas para sinalização, andaimes,
tapetes para automóveis, dispositivos para eletrificação, pisos para palcos e diversas
outras finalidades237. Apesar da matéria-prima ser barata, US$ 0,2/tonelada, os custos
industriais são elevados e, os pallets de borracha tem carga tributária maior, pagando
18% de IPI, que os pallets tradicionais de madeira estão isentos238.
A Relastomer, empresa de base tecnológica sediada no Rio de Janeiro, está
construindo uma fábrica na Bahia para produzir 6 mil toneladas anuais de borracha
reciclada para pneus, possibilitando a redução do despejo deste material nos aterros ou
lixões. A tecnologia desenvolvida pela empresa permite também a diminuição de até
70% dos custos de produção dos vários tipos de borracha. Em sua planta piloto, no
Rio de Janeiro, a Relastomer já está produzindo 1 tonelada mensal de borracha
reciclada a partir de pneus usados.
Atualmente, no mercado brasileiro, 26 mil toneladas anuais de borracha são
recuperadas na mistura para produção da borracha vulcanizada, usada, por exemplo,
em pneus recauchutados. O consumo de borracha SBR, destinada à fabricação de
pneus, é de 170 mil toneladas anuais239.
Um projeto pioneiro vai transformar imprestáveis pneus velhos em aliados na
contenção de encostas. Amarrados uns aos outros, recheados de areia e argila e
enterrados, os pneus servirão para a construção de muros de sustentação, substituindo
- a um custo muito inferior - as técnicas tradicionais, que usam concreto.
Desenvolvido pela Geo-Rio, da Pontifícia Universidade Católica - PUC, do Rio de
Janeiro e Universidade de Ottawa, no Canadá, o novo método será aplicado na cidade
do Rio de Janeiro num muro a ser construído numa comunidade de pescadores de
233 CEMPRE Informa. n024. Agosto. 1995.
234 MONTEIRO, M. Pneu usado importado: o que há por trás desse negócio. Ecologia & Desenvolvimento.
Ano 5, n054. Agosto. 1995.
235 Jornal Jornal do Brasil. Outubro. 1994.
236 Jornal Jornal do Brasil. Outubro. 1994.
237 Jornal A Gazeta Mercantil. Julho. 1993.
238 Jornal A Gazeta Mercantil. Julho. 1993.
239 CEMPRE Informa. n09. Dezembro. 1993.
3
Jequiá, na Ilha do Governador. Os pneus serão conseguidos de graça, num depósito
em Duque de Caxias e com a Comlurb. O trabalho será feito em mutirão com a
comunidade240, disse o engenheiro da Geo-Rio, Sr. Luís Otávio Martins Vieira.
Segundo o Sr. Vieira, a eficácia do processo foi comprovada no Canadá e, os baixos
custos vão permitir espalhar estes muros pelas áreas de riscos da cidade241.

5.3- Automóveis
Quanto maior é a rapidez de transformação de uma
sociedade, mais temporárias são as necessidades
individuais. Essas flutuações tornam ainda mais
acelerado o senso de turbilhão da sociedade.
( Alvin Toffler )

Até 70% de um automóvel que chegou ao fim de sua vida útil podem ser
reciclados, embora seja difícil ir além disso, no momento242, afirma Günter
Zimmermeyer da Verband der Auto-mobilindustrie da Alemanha. Isto se deve ao fato
240 Jornal Jornal do Brasil. Março. 1995.
241 Jornal Jornal do Brasil. Março. 1995.

242 Jornal A Gazeta Mercantil. Março. 1994.


4
de 100% de todos os metais, principalmente os ferrosos, são recuperáveis e
recicláveis. Não obstante, materiais como plásticos e borracha são de difícil
recuperação quando do seu sucateamento.
Quando um automóvel chega ao final de sua vida útil, representa uma fonte
importante de matérias-primas pois atualmente existem 8 milhões de veículos na
União Européia que podem ser reciclados a cada ano e, este nível poderá aumentar,
pois o número de veículos na UE cresce de ano a ano, tendo dobrado nos últimos 20
anos. Em 1974, existiam 70 milhões de automóveis e em 1992 o seu número situava-
se, em torno de 142 milhões243 observa o Sr. Zimmermeyer.
Em 1993, o governo alemão propôs medidas neste sentido, que foram, de certa
forma, contestadas pelo movimento ambientalista Aliança 90 - Partido Verde pois isso
pode levar as pessoas a pensarem que os carros são ambientalmente corretos, contanto
que se possa reciclar as suas partes. Segundo Petra Mai, da Associação da Indústria
Automobilística, os custos que envolvem a reciclagem de um carro varia, mas deve
ficar em torno de US$ 500 por veículo244. Ficarão fora desta legislação os carros em
que a reciclagem exceder o valor dos materiais a serem recuperados e carros
acidentados onde se verificar que a recuperação se tornar antieconómica. Muitas
fábricas, inclusive a Volkswagem e a Mercedes-Benz, já iniciaram programas
voluntários de reciclagem para determinar a maneira mais eficaz de reaproveitar os
materiais de um carro retirado de um ferro-velho.
Existem na Europa cerca de dois milhões de automóveis da marca trabants, que
foram produzidos na ex-Alemanha Oriental. São automóveis obsoletos e poluidores,
se formos considerar a legislação ambiental dos países onde estes veículos rodam. Um
dos seus principais problemas é que sua carroceria é feita com um tipo de plástico não
reciclável e, no momento em que as indústrias estão mobilizadas na reciclagem dos
seus próprios veículos esta, certamente, torna-se uma questão delicada para o governo
alemão.
À exceção da sua carroceria, que pesa em torno de 700 Kg, tudo neles pode ser
reciclado. A disposição destas carrocerias em depósitos de ferro-velho tornaria-se
onerosa, uma vez que já há falta de espaço para dispor o lixo na Alemanha. Por outro
lado, a sua incineração seria uma solução se as resinas produzidas durante a sua
combustão não fossem tão tóxicas e poluentes o que, fere a legislação sobre emissão
de poluentes atmosféricos.
A solução foi desenvolvida pela Companhia de Pesquisa e Desenvolvimento em
Biotecnologia - IFZ, de Berlim - que já está desenvolvendo linhagens de bactérias que
fariam a disgestão desse plástico. Os resultados dessa inovadora atividade só
começarão a ser conhecidos em 1994 ou 1995. Até lá, esperamos que os resultados
finais sejam tão promissores quanto aqueles obtidos em análises experimentais245.
Na Holanda, deve entrar em vigor uma lei que determina que toda a sucata dos
automóveis, pneus usados, baterias e resíduos de óleos terão que ser reciclados até
1994. Segundo o ministro do meio ambiente, Hans Alders, esta legislação deve estar
regulamentada até o final de 1992. Além disso, estamos obrigando as indústrias a
receber de volta os seus produtos. Mas a forma de fazer isso, se através de esquemas
de depósitos ou preços iniciais mais altos, é problema delas246.
Especialistas holandeses no assunto estimaram que a indústria automobilística
deverá elevar o preço médio dos automóveis novos em US$ 150 para poder cobrir os
custos da sua reciclagem ao final da sua vida útil. Como a Holanda não dispõe de
áreas para dispor seus resíduos, estão em estudo novas leis para instituir a reciclagem
243 Jornal A Gazeta Mercantil. Março. 1994.
244 Jornal A Gazeta Mercantil. Março. 1994.
245 Jornal Jornal do Brasil. Outubro. 1992.
246 Jornal Jornal do Brasil. Outubro. 1992.
2
de eletrodomésticos e todos os outros tipos de resíduos inorgânicos, cuja meta é, até o
ano 2000, a reciclagem processar cerca de 60% de todo lixo gerado no país.
Aproveitando o pacote de leis de preservação ambiental do governo sueco, a Volvo
Personvagnar vai abrir uma estação de reciclagem, para carros usados, no início de
1994 na cidade de Joenkoeping. Para o gerente de projetos da Volvo, Sr. Nils
Hernborg, este é um projeto de pesquisa concebido para um sistema efetivo de
orientação para o reaproveitamento e reciclagem de carros na Suécia247. O projeto se
concentrará no aproveitamento dos 300 Kg de plásticos, vidros, metais e borracha dos
carros abandonados nos terrenos baldios e aterros do país. O sistema atual reaproveita
apenas os metais e o aço, perfazendo apenas 75% do peso dos veículos. Deve-se
ressaltar que este projeto é o resultado de uma joint-venture entre a Volvo e
representantes das indústrias recicladoras e dos ferro-velhos248.
O uso universal de plásticos em carros poderia representar até o ano 2010 um
grande problema de rejeitos sólidos igual a tonelagem total de carros sucateados no
final dos anos 50. A advertência consta do estudo Fechando o Ciclo - O Desafio da
Reciclagem de Carros. Uma parte considerável desses plásticos está indo atualmente
para aterros sanitários, que em breve estarão com a sua capacidade esgotada. O estudo
examina a possibilidade de incineração e reciclagem destes materiais como as únicas
opções em lidar com o problema num futuro próximo, mas vai exigir cooperação entre
os fabricantes de carros de todo mundo.
A padronização dos materiais plásticos usados pode representar uma boa medida
para se dar a partida no processo de tomada de decisões. Uma reunião de cúpula das
associações dos fabricantes de carros da Europa, Américas , Japão e Coréia - os
maiores fabricantes e exportadores de carros - necessita ser convocada com urgência
para rever a situação e adotar medidas urgentes249, disse Karl Ludvigsen, um dos
autores do relatório.
No Brasil, a reciclagem de materiais empregados na fabricação de veículos, por
enquanto, não passam de estudos ou está engatinhando. A indústria sequer sabe se
investir nessa área é caro ou barato. Os estudos mais avançados estão na Autolatina e,
segundo a empresa o que dificulta a reciclagem é a grande diversificação de materiais
e aplicações que envolvem vários fornecedores e departamentos da empresa. Isto quer
dizer que antes de investir na reciclagem, deve trabalhar a padronização dos materiais
(e métodos ou processos) que são usados na fabricação dos carros. A criação de
padrões que definem o grau de exigência de cada peça em relação às propriedades do
material do quão são feitas, visando definir se ela pode ser feita de material 100%
reciclado ou com certa quantidade de matéria-prima virgem.
A Fiat, num trabalho preliminar, vem exigindo dos seus fornecedores a
identificação de todos os tipos de plásticos usados nos automóveis. O objetivo dessa
exigência é facilitar a reciclagem pelas empresas especializadas uma vez que a mistura
dos vários tipos de plásticos dificulta a reciclagem. Na sua linha de montagem, a Fiat
já reaproveita a borracha dos pneus e os metais não-ferrosos.
A General Motors do Brasil ainda não tem, segundo a sua assessoria de imprensa,
nenhum programa de reciclagem de materiais250.

247 Jornal A Gazeta Mercantil. Novembro. 1993.


248 Jornal A Gazeta Mercantil. Novembro. 1993.
249 Jornal A Gazeta Mercantil. Julho. 1993.
250 Jornal Jornal do Brasil. Outubro. 1992.
3
5.4-Computadores e Máquinas
Eletro-eletrônicas
Nós só queremos aquilo que é dado
naturalmente a todos os povos do mundo:
sermos donos do nosso próprio destino, não
do dos outros, e em cooperação e amizade
com todos aqueles outros.
( Golda Meir )

As indústrias de produtos elétricos-eletrônicos da Europa estão para se encontrar


com ambientalistas e autoridades da Comunidade Européia, para tentar buscar uma
solução para o número crescente de produtos em desuso que as duas indústrias
produzem. O lixo eletrônico abrange tudo, desde velhos computadores,
fotocopiadoras, aparelhos estéreos, até cabos de telefone e lâmpadas. A faixa ampla de
produtos e a diversidade de interesses dificultam as negociações e tornam a proposta
de elaboração de um documento detalhado sobre as soluções, regras, mecanismos de
controle e fiscalização uma questão muito difícil.
As indústrias alemães temem que o Ministério do Meio Ambiente do seu país não
espere pelas negociações e sejam aprovadas leis já em 1995 que as obrigue a receber
de volta uma ampla gama de produtos eletro-eletrônicos e a criar metas específicas de
reciclagem. O modelo proposto pelo ministério coloca problemas imensos251, diz
251 Jornal A Gazeta Mercantil. Novembro. 1994.
5
Bernhard Diegner que representa o grupo de projetos da ZVEI, associação dos
fabricantes de produtos eletrônicos alemães.
O custo anual do programa para os produtos eletrônicos em desuso em toda a
Europa pode chegar a US$ 3,49 bilhões em 1994 / 95, de acordo com a associação
européia dos produtores destes produtos de consumo. Ao mesmo tempo, a ZVEI
deseja que os programas de recebimento destes produtos sejam no geral voluntários, e
que os fabricantes sejam obrigados a receber de volta apenas os produtos de sua
própria marca. Para eles o maior pesadelo será uma repetição do programa de
reciclagem compulsória - o Deutschland System Duales da Alemanha - que gerou
mais papel e plásticos usados do que as indústrias recicladoras alemães poderiam
processar no mesmo período. Os ambientalistas argumentam, por outro lado, que os
programas voluntários não funcionam e citam o caso dos programas de reciclagem de
pilhas, em que a taxa de coleta permanece baixa - 15 a 40% - mesmo sendo a mesma
gratuita.
Os fabricantes afirmam que os dejetos eletrônicos em termos quantitativos são um
problema menor em relação a outros setores. Na França por exemplo eles chegam a
uma quantidade de 1,3 milhões de toneladas/ano, ante 20 milhões de toneladas/ano de
lixo doméstico e 150 milhões de toneladas/ano de lixo industrial e comercial. Outro
problema a ser enfrentado é que muitos rejeitos eletrônicos são de difícil reciclagem
ou reaproveitamento.
No Brasil, a Sra. Maria Almeida Teixeira, coordenadora da comissão para o grupo
que analisa a questão do lixo eletrônico, instituído em 1992- admite que os avanços
têm sido muito lentos. Porém, esta história pode estar mudando. A partir de uma
iniciativa inédita de sucateiros, a cidade de Resende, no interior do estado do Rio de
Janeiro está sendo chamada de a capital nacional da reciclagem. O uso de velhas
máquinas de fotocopiadoras, retiradas do mercado pela Xerox do Brasil, estão sendo
usadas para a produção de cadeiras e mesas escolares. Com o isopor das embalagens
usadas, estão sendo feitas bolinhas para o enchimento de bonecas nas indústrias de
brinquedos da região. A empresa de sucata Controle Dinâmico ergeu os muros do seu
parque de produção com as carcaças das fotocopiadoras. Com as placas de vidro, a
empresa montou as divisórias de seus escritórios. Os plásticos rígidos que compõem
as máquinas geram tijolos mais leves, resistentes e baratos. E os metais são
transformados em camas de latão, que estão entre os objetos exibidos na vitrine da
loja da Controle Dinâmico252.
Incentivado pelo programa de coleta seletiva implantado pela própria Xerox do
Brasil em Rezende (vide Cadernos de Reciclagem nº 1 - A Coleta Seletiva em
Escritórios. Editado pelo CEMPRE - Compromisso Empresarial para a Reciclagem.
1992) a prefeitura decidiu-se engajar também na reciclagem e está desenvolvendo um
programa de coleta seletiva na cidade, contando inclusive com o apoio de uma
cooperativa de sucateiros, constituída para este fim. A cidade de Rezende é a única
cidade fluminense que mantém seu aterro sanitário dentro das normas e padrões
ambientais exigidos, com sistemas de impermeabilização e tratamento do chorume em
lagoas de estabilização, que reduzem seu potêncial toxicológico em até 95%. Segundo
dados da própria prefeitura, a meta é manter os custos de coleta entre US$ 30 e US$
45 por tonelada o que torna mais barato a reciclagem do que sua disposição final no
aterro sanitário253.
De acordo com recente levantamento da ONG ambiental alemã Bund fur Umwelt
and Naturschutz Deutschland, a maioria dos fabricantes de computadores já baniu os
CFC's e tintas `a base de solventes, utilizando produtos pré-montados, além de
assinalar as partes de plástico para reciclagem e reutilização dos componentes velhos
252 Jornal A Gazeta Mercantil. Julho. 1993.
253 Jornal A Gazeta Mercantil. Julho. 1993.
2
para reparos. Além disso, quatro grandes fábricas já apresentam programas de retorno
de produtos na Alemanha: Vobis, Apple, Actebis e Acer.
Para desmontar um velho computador é gasto cerca de uma hora254, diz Helmut
Finchk, chefe do programa de reciclagem da Hewlett-Packard na Alemanha que já
opera há três anos na Alemanha. As subsidiárias da Hewlett-Packard na Europa
atualmente estão enviando equipamentos indesejáveis para um centro de reciclagem
especializado, em Grenoble - França - o Hardware Recylcling Europe. Menos de 5%
das 100 toneladas que chegam todo mês vão para os aterros. Há quatro anos atrás,
esses números eram 30% mais altos, mas a Hewlett-Packard pode agora separar e
reciclar quase todos os componentes dos seus produtos, inclusive computadores.
Assim, disc-drives são reutilizados como peças sobressalentes; placas de circuito
integrado são aprimoradas para revestir metais preciosos; o material plástico que
reveste os cabos de cobre é retirado e reciclado (plásticos de alta qualidade) ou
incinerado em fornos de cimenteira próximos - devido ao seu alto valor energético
(plásticos de baixa qualidade ou mesclados) e, velhos chips e microprocessadores de
memória acabam em brinquedos.
O cobre revestido, os componentes e metais preciosos são vendidos para ajudar no
pagamento dos tratamentos caros de pilhas, tubos de raio catódico e plásticos
mesclados. Hoje estamos equilibrados, mas tudo depende dos volumes manejados e
ainda não sabemos se um programa em larga escala será economicamente viável255
diz Denise Furet, gerente de projetos ambientais da Hardware Recylcling Europe.
Os cemitérios de computadores estão se transformando num problema ecológico
nos EUA. Todos os anos, mais de 10 milhões de computadores emitem seu último bit-
eletrônico na América do Norte. Eles são vítimas do progresso tecnológico, que
abrevia cada vez mais seu ciclo vital.
No ano de 2005 haverá mais de 150 milhões de computadores nos EUA. É um
volume imenso, que provocará um enorme problema ambiental256, observa Mark
Greenwood, um diretor da Agência de Proteção dos EUA - EPA.
Que fim levam os computadores?
Nos EUA, aumenta a cada dia o número de empresas como a Advanced Recovery
que recolhem os computadores que estão fora de uso. Eles são desmontados, se
retiram os metais úteis como o alumínio e o ouro, além da extração dos
semicondutores para serem vendidos como peças de reposição.
Tudo o que não pode ser reutilizado fica concentrado no cemitério eletrônico. O
problema é que só uma parte mínima é reciclável. Os hardware continuam, então, se
acumulando em todo território americano, causando preocupações para o futuro.
Uma comissão mista composta por representantes do governo e da indústria já
realizou estudos para desenvolver o computador verde, com partes que podem ser
facilmente recicladas. Isto implicará o uso de materiais recicláveis no invólucro
plástico externo e mecanismos de montagem que permitam substituir as partes
rapidamente.
A iniciativa da EPA para resolver o problema, encontrou terreno fértil entre setores
importantes da indústria, que tiveram um desenvolvimento rápido nos anos 60 e 70,
lado a lado com o aumento da preocupação com problemas ambientais. Mas não basta
somente a boa vontade para resolver uma questão tão complexa. Uma solução extrema
seria obrigar as indústrias que fabricam os computadores a se encarregar de dar o
destino adequado, quando os clientes e usuários decidirem se livrar dos velhos
computadores. Nem todos concordam com a exigência da reciclagem. Noventa por

254 Jornal A Gazeta Mercantil. Novembro. 1994.


255 Jornal A Gazeta Mercantil. Novembro. 1994.
256 Jornal Jornal do Brasil. Abril. 1993.
2
cento da população do planeta nunca colocaram a mão num computador257, assegura
Alex Randall, presidente de uma fundação que aceita a doação de computadores
usados para envia-los aos países do Terceiro Mundo.
E, o que acontece, também, com fogões, geladeiras e freezers velhos? Talvez isto
não pareça importante e significativo, pois muitos de nós só lidamos com esse
problema poucas vezes em nossa vida. Mas, se multiplicarmos essas poucas vezes por
alguns milhares de milhões de famílias, teremos um problema de grande magnitude.
Normalmente, quando os eletrodomésticos quebram ou ficam velhos, nós
simplesmente os jogamos fora. Muitas vezes eles são consertados e reaproveitados
pelas comunidades mais carentes que não possuem dinheiro suficiente para a compra
de um modelo novo. Em outros casos, quando o defeito é grave e o custo do seu
conserto o inviabiliza, estes aparelhos vão parar nos ferros-velhos. E, é aí que
começam os problemas.
Os refrigeradores e condicionadores de ar antigos possuíam em seus motores uma
substância muito perigosa: as bifenilas policloradas - PCB’s. Em 1979, a Agência de
Proteção Ambiental -EPA - dos EUA baniu os PCB’s, obrigando as indústrias
produtoras de bens a substituí-los por outras substâncias menos tóxicas. Porém, o que
fazer com todos estes aparelhos fabricados antes de 1980? Devido as normas da EPA,
os sucateiros e ferros-velhos relutam em aceitar aparelhos eletrodomésticos ou retiram
os seus motores sem muito critério em relação aos PCB’s. Se todos os
eletrodomésticos que os americanos jogam fora todos os anos fossem reciclados, de
227 a 272 mil quilos de PCB’s seriam mantidos fora dos vazadouros todos os anos258.
5.5- Côco
Enquanto o conhecimento científico for monopólio de
corporações fechadas de especialistas, o debate político
estará condenado a permanecer em nível rasteiro, cada
lado esgrimando lugares comuns e meias-verdades.
(Paul Singer)

A chegada do verão lança um desafio para o mercado de reciclagem: reaproveitar


os resíduos de côco gerados em grande quantidades na orla marítima que - na maioria
dos casos - são levados para os lixões ou aterros sanitários sem qualquer tipo de
reaproveitamento. O Brasil produz 500 milhões de unidades de côcos por ano e o
material despejado demora até 8 anos para se decompor.
Somente na orla marítima da cidade do Rio de Janeiro são coletadas nos finais de
semana de janeiro e fevereiro - meses mais quentes do ano - 45 toneladas de côco.
Durante o restante da semana, são geradas 9 toneladas por dia. Entre 85% e 90% do
lixo coletado aos sábados e domingos do verão - principalmente neste período do ano
- é composto pelos restos de côco. No Rio, somente a empresa Disque-Côco, que
comercializa a água e a polpa da fruta, joga no lixo 60 mil unidades de côco verde por
mês.
Algumas empresas já despertaram a sua atenção para o enorme potêncial de
reaproveitamento desse material. A empresa Socôco, uma maiores no processo de
beneficiamento de côcos e derivados no Brasil, queima as fibras da fruta para gerar
vapor para as caldeiras. Cada tonelada de biomassa pode produzir 1.840
quilowatts/hora de energia e poderia substituir com muitas vantagens o uso da madeira
ou do carvão vegetal para este mesmo fim, trazendo grandes benefícios à manutenção
das nossas matas e florestas. Anualmente, são reaproveitados os restos de 50 milhões
de côcos recolhidos nas plantações da Socôco. Ricas em óxido de potássio, as cinzas

257 Jornal Jornal do Brasil. Abril. 1993.


258 MONTEIRO, M. Pneu importado: o que há por trás desse negócio. Ecologia & Desenvolvimento. Ano 5,
n054. Agosto. 1995.
1
geradas na combustão são usadas como adubo para manutenção e plantio dos
coqueiros, trazendo uma economia de até 25% nos gastos com fertilizantes.
As fibras do côco pode ser usado em diversos setores da indústria259:

■ diversas empresas de pequeno porte se utilizam das fibras para produção de cordas,
capachos e vassouras, que são mais resistentes e baratas;
■ a Wolkswagen do Brasil já utiliza nos carros mais baratos e populares bancos com
estofamentos produzidos com fibras de côco;
■ o pernambucano Sr. Augusto Burla desenvolveu o Coxim, uma variação do xaxim,
feito de fibras de côco e que pode ser usado como substrato para plantas ornamentais
com a vantagem de ter propriedades bactericida e ainda evitar a proliferação de
pragas;
■ a Emprapa, no Rio de Janeiro, estuda o uso dessas fibras na alimentação de animais;
■ o Instituto de Pesquisas Tecnológicas, de São Paulo mistura fibras de côco e
resíduos/escória das indústrias siderúrgicas ao cimento para uso na construção civil,
trazendo uma redução de até 50% nos custos;
■ em Fortaleza - CE - a Universidade Federal do Ceará está transferindo ao setor
produtivo a tecnologia de fabricação de compensados contendo fibras de côco e óleo
de castanha de cajú, que servem como cola para agregar o material.

Todas estas iniciativas demostram o grande potêncial que o côco pode ter dentro
do mercado de resíduos sólidos, principalmente nos centros produtores e
consumidores. As técnicas e as propostas já existem porém, carecem de incentivos
governamentais para que este ramo se desenvolva cada vez mais.

259 CEMPRE Informa. n020. Dezembro. 1994.


2
5.6- Embalagens Longa Vida
A evolução biológica é baseada na transferência
de informações contidas no código genético. No
homem, esta evolução é maior na cultura e, em
uma das suas variáveis: a tecnologia.
( Claes Ramel )

As embalagens longa vida começaram


a ser produzidas no início dos anos 70 e,
pouco tempo depois elas já estavam no
Brasil. Composta de papel-cartão (75%),
polietileno de baixa densidade (20%) e
alumínio (5%), a embalagem longa vida
tem a característica de preservar a
integridade dos alimentos por muitos
meses sem que haja necessidade de
refrigeração. Outras vantagens em relação
às embalagens tradicionais, são:

■ economia de energia no transporte fazendo com que haja redução das emissões
de CO2, responsáveis pelo aquecimento da Terra - o efeito estufa;
■ ao dispensar o uso de refrigeração, atualmente o maior consumidor de CFC,
auxilia na manutenção da camada de ozônio.

O consumo de embalagens longa vida está crescendo no Brasil. Em 1994 foram


produzidas 1,7 bilhão de caixas e as previsões são de atingir a casa dos 2,5 bilhões de
unidades em 1995. Os números, no entanto, são pequenos se comparados às 20
bilhões de unidades consumidas nos EUA e as mais de 5 bilhões consumidas na
Alemanha.
As embalagens ainda não estão sendo recicladas no Brasil em escala comercial. O
aumento do consumo destas embalagens, a expansão dos programas de coleta seletiva
e o desenvolvimento de novas tecnologias deverão alavancar a reciclagem desse
1
material nos próximos anos. Porém, as aparas e sobras da produção das caixas na
fábrica da Tetra Pak, de Monte Mor, interior de São Paulo, são recicladas, para
produzir os mais diferentes tipos de produtos: tarugos para realimentar as bobinas da
fábrica; cestos para transporte de mudas de laranja e, produção de bancos de praça. As
sobras são encaminhadas para fábricas de papel (papelão ondulado, papel kraft e
embalagens para ovos).
Na Alemanha, onde o consumo é bastante elevado, a taxa de reciclagem é de 65%.
O mercado de papel e papelão aproveita as fibras na produção de novas embalagens e
sacos industriais. Cada tonelada de caixa reciclada gera aproximadamente 700 Kg de
papel kraft. As sobras podem ser reaproveitadas e transformadas em solas de sapato,
tapetes de carros e espaçadores de pallets.
Nos EUA, além da reciclagem há ainda a sua conversão em energia através da
incineração. As embalagens longa vida tem poder calorífico de 21.000 BTU’s/Kg.
Isso significa que uma tonelada gera energia na forma de calor equivalente ao que é
obtido com a queima de 5 m3 de lenha ou 50 árvores adultas. Além do vapor, a queima
produz como resíduos gás carbônico e trióxido de alumínio na forma sólida (alumina),
que pode ser usado como agente floculante nas estações de tratamento de água ou
como agente refratário em altos-fornos. Nos países onde estas embalagens são
recicladas, o preço médio varia de US$ 100 a tonelada.
Nos aterros sanitários ou lixões, este material é estável e atóxico. Sua camada
externa de papelão se degrada mais facilmente do que as outras de plástico e alumínio.

2
CAPÍTULO V

Discussão

2
1- Uma Visão do Desenvolvimento da Sociedade
As cidades brasileiras, em sua maioria absoluta, padecem dos males da falta de
planejamento urbano, da carência dos serviços essenciais de saneamento e da
incompetência gerêncial. Mergulhadas em crises financeiras crônicas, as
nossas cidades não tem oferecido perspectivas de melhoria de qualidade de vida
aos seus habitantes. O mau uso dos parcos recursos financeiros disponíveis -
quando estes não vão engrossar fortunas - aliado à entraves políticos e
burocráticos, empurram a maioria das grandes cidades brasileiras para buracos
profundos, de onde só saírão com grandes sacrifícios.
(Genebaldo Freire Dias)

O planeta é muito antigo e os seres humanos, muito recentes uma vez que os
acontecimentos importantes em nossas vidas pessoais são medidos em horas, dias ou
anos; nossa vida em décadas; nossa genealogia familiar em séculos e, todo a nossa
história registrada em milênios. Contudo, fomos precedidos um enorme espaço de
tempo medido em bilhões de anos, que foi o tempo transcorrido entre o aparecimento
da Terra, da vida, da evolução dos seres vivos e o desenvolvimento da biosfera.
A questão mais importante que vem a tona é a relação destrutiva que o homem está
tendo com a biosfera. Na sua história geológica , processos maravilhosos tiveram
lugar antes do homem fazer a sua triunfal aparição e começar a empregar todo o seu
potêncial biológico, enquanto espécie animal, para a sua própria destruição e de toda a
vida. Os progressos nos campos da ciência e da tecnologia, que são determinados por
regulamentos e leis da sociedade, foram fantásticos. Ao mesmo tempo, o homem
resolveu submeter a biosfera à estas mesmas leis, tentando transformar a natureza em
uma "tecnosfera". Esta mudança, obviamente, é um princípio impossível de ser
alcançado. A conclusão a que chegamos é que o homem não gosta do seu planeta ou,
mais grave ainda provou ser incapaz de coexistir com a natureza.
A impressão que temos é que não podemos, também, fazer oposição à natureza e
a todas as formas de vida que lá existem. Nós não conseguimos, nem vamos
conseguir, domina-la pois, somos parte da sua carne, do seu sangue e do seu
pensamento mais atávico. Para que possamos conseguir à coexistência com ela,
precisamos mudar à nossa postura e chegar as seguintes conclusões:

■ a sociedade humana é parte integrante da biosfera;


■ a tecnologia humana não pode ser vista como um alienígena para a biosfera mas
sim, como mais um estágio do nosso ulterior desenvolvimento que emergiu a partir da
3
nossa sensibilidade, do nosso saber e, principalmente, da nossa observação da
própria natureza;
■ a sociedade humana, como fazendo parte da biosfera, deve obedecer as suas
leis260.
Ao mesmo tempo, a sociedade humana é certamente diferente da biosfera; ela é
regida por leis que não são observadas em nenhuma outra parte dela. É claro,
entretanto, que estas leis só podem ser válidas até o momento que elas não
contradizem as leis da biosfera. Em outras palavras, a biosfera tem poder de veto nas
atividades humanas que a agridem.
Durante milhões de anos, o homem e todos os seres vivos retiraram os recursos da
biosfera, necessários à sua subsistência, e, devolveram outros, às custas de
transformações bioquímicas por eles realizadas. A enorme capacidade que os
organismos, principalmente os decompositores microscópicos, tem de reciclar a
matéria orgânica produzida nas atividades humanas e faze-las retornar ao ciclo da
biosfera não alteraram significativamente o seu perfil. Porém, nos últimos cem anos, a
situação tem mudado drásticamente. Os meios de produção tem continuado a sua
espoliação aos recursos naturais e tem retornado substâncias (em muitos casos,
extremamente tóxicas) que não podem ser recicladas pelas populações de
decompositores. Consequentemente, o fluxo de materiais entre o homem e a biosfera
agora é unidirecional ou seja, só flui no sentido da biosfera para o homem, trazendo
alterações na sua estrutura que estão interferindo na sua capacidade de autodepuração
e regeneração. É óbvio que deveríamos esperar por suas respostas as nossas agressões
e, elas estão começando a aparecer: mudanças climáticas, tanto no hemisfério norte
quanto no hemisfério sul; o Efeito Estufa, devido ao aquecimento global da Terra; os
buracos na camada de Ozônio e, perda da produtividade dos ecossistemas terrestres e
aquáticos, interferindo diretamente na produção dos recursos alimentares no planeta.
Ainda não sabemos ao certo quais as exatas consequências destes fenômenos nem
se será possível a sua interrupção ou reverção. A ciência ainda não pode avaliar os
reais efeitos que a poluição e a exploração excessiva dos recursos naturais tiveram
sobre a biosfera. As simulações realizadas por computadores dependem de muitas
variáveis que a ciência ainda não tem como mensurar, como por exemplo o tempo que
uma floresta leva ao alcançar o seu climax de desenvolvimento.
O problema do lixo pode ser o ponto de partida para a tomada de consciência, em
escala planetária, da necessidade de mudança de posturas de toda a sociedade
organizada: industriais, comerciantes, comunidade científica, governos e a população.
Até quando vamos continuar tentando esconder a sujeira embaixo do tapete?
Onde está a saída ?
Os governos, orientados pela comunidade científica, devem educar e conscientizar
sua população além de disciplinar a produção das indústrias e a comercialização
destes mesmos produtos. A elaboração de leis ambientais que repassem para as
indústrias os custos da exploração e poluição do meio ambiente, sem que eles sejam
repassados ao consumidor, são medidas efetivas para tentar interromper os graves
problemas ambientais que se avizinham. Além disso, deve haver um amplo debate, a
nível planetário, no sentido de amenizar o crescente aumento populacional e diminuir
as desigualdades existentes entre os países ricos e pobres.
Segundo o Sr. Anil Agarwal o movimento ambientalista do Terceiro Mundo
aprendeu que não pode haver desenvolvimento econômico que não seja harmônico
com o meio ambiente. E mais ainda: pode-se mostrar de uma forma convincente que
a destruição ambiental tem um impacto diferenciado. Ela atinge aos pobres mais

260 KANSHILOV, M.M. The Evolution of the Biosphere. Moskow, Mir Publisher.
2
profundamente e, portanto, não há mais escolha, o desenvolvimento para os pobres
tem que levar em conta as questões ecológicas261.

2- As Questões Econômicas

A visão de que o crescimento surge, como num passe de mágica, com a expansão
do número de ricos é uma poderosa e inconveniente ferramenta política, porque ela
permite que sejam evitados os mais difíceis temas referentes à desigualdade de renda e
à distribuição desigual da riqueza. As pessoas partem do pressuposto de que, enquanto
há crescimento, há esperança de que a vida dos pobres possam ser melhoradas sem
sacrifícios para os ricos. A realidade, contudo, é que atingir uma economia global
ambientalmemte sustentável não é possível sem que os mais ricos limitem o seu
consumo a fim de deixar espaço para os pobres aumentarem o seu próprio. Não há
mistérios nos elementos básicos envolvidos no processo de atingirmos essa condição;
todas as tecnologias necessárias, ferramentas e elementos de mudanças existem. O
obstáculo real é nos decidir a nos comprometer com um novo caminho. Esse
compromisso precisa partir de cada um de nós. E de todos nós conjuntamente262.
As palavras do Sr Lester Brown ilustram bem o comportamento das economias do
primeiro mundo: enquanto elas enriquecem e melhoram o nível de vida das suas
populações, as economias do terceiro mundo continuam a ser exploradas numa nova
forma de colonialismo; o neocolonialismo é muito diferente daquele que aprendemos
nos livros de história. Não há a imposição da força bruta, pelas armas, mas sim, a
imposição pelo poder econômico. Vemos, por exemplo, a exportação de rejeitos das
indústrias - com subsídios - para os países do terceiro mundo em troca de favores ou
empréstimos, que muitas vezes acabam perdidos na corrupção que toma conta de
muitas democracias em estado embrionário. Os ricos do terceiro mundo são as únicas
pessoas que desfrutam das benesses que estes países em desenvolvimento ostentam.
Grande parte da população está submetida à condições sub-humanas como falta total
de saneamento básico, assistência médica, educação, alimentação, baixos salários e
redução drástica da sua expectativa de vida.
Para os países pobres, mais que nunca, a alternativa se coloca em termos de
projetos de civilização originais ou de não-desenvolvimento, não mais parecendo
possível nem, sobretudo, desejável a repetição do caminho percorrido pelos países
industrializados. Para os países ricos, é necessário que, daqui para diante, se limite o
desperdício de recursos em via de esgotamento relativo. As variações dos preços de
certa forma atuarão nesse sentido, mas seria perigoso abandonar esses problemas à
mercê do mercado. A eliminação dos desperdícios e a manutenção, em níveis
toleráveis, da poluição provocada, quer pela produção, quer pelo consumo de
determinados produtos, levantarão também o problema dos limites ao incremento dos
consumos materiais, em benefício dos serviços sociais concebidos no sentido mais
amplo do termo, levando a um perfil de desenvolvimento, ao mesmo tempo, menos
intensivo em recursos e menos degradante para o ambiente263.
O principal símbolo do desenvolvimento para os países pobres, são os shoppings
centers. São áreas enormes onde o consumidor mais afortunado pode dar vazão aos
seus ideais de consumo, como um cidadão do primeiro mundo. Porém, os shoppings
centers são locais onde mais se verifica o desperdício: energia elétrica, embalagens de
todos os tipos, principalmente as descartáveis de fast food além de uma grande
quantidade de comida. O nosso planeta não está preparado para suportar bilhões de

261 Jornal Jornal do Brasil. Maio. 1990.


262 BROWN, L.R. O Vigésimo Nono Dia. Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas. 1980.
263 SACHS, I. Ecodesenvolvimento: crescer sem destruir. São Paulo, Editora Vértice. 1986.
2
consumidores estilo shopping. Por isso, torna-se necessário repensar o tipo de
desenvolvimento que almejamos e que o nosso planeta pode oferecer.
O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente
sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias
necessidades. Para os teóricos do desenvolvimento autosustentado, alguns pontos
básicos devem ser considerados:

■ o desenvolvimento deve ser ecologicamente inspirado, isto é, deve pensar nas


necessidades das novas gerações e respeitar os limites da biosfera;
■ um desenvolvimento alternativo precisa ser baseado em transformações
estruturais, com o objetivo de quebrar a dominação política e econômica, oferecendo
as mais amplas possibilidades de autogestão;
■ a necessidade de se constituir um índice de avaliação econômico - social -
ambiental em substituição ao Produto Nacional Bruto - PNB ou Produto Interno Bruto
- PIB, que pode refletir aspectos econômicos porém não espelha a realidade ambiental
e social264.
■ o conceito de necessidades, sobretudo as necessidades essenciais dos pobres do
mundo, que devem receber a máxima prioridade. Segundo o Deputado Federal - pelo
Partido Verde do Rio de Janeiro - e jornalista Fernando Gabeira, hoje o telefone e
mesmo a televisão são bens de extrema necessidade;
■ a noção das limitações que o estágio da tecnologia e da organização social impõe
ao meio ambiente, impedindo-o de atender às necessidades presentes e futuras.

A satisfação das necessidades essenciais (alimentos, roupas, saúde, habitação,


empregos, salários dignos, lazer) depende em parte de que se consiga o crescimento
potêncial pleno, e o desenvolvimento sustentável exige claramente que haja
crescimento econômico em regiões onde tais necessidades não estão sendo atingidas.
Onde já estão atingidas, ele é compatível com o crescimento econômico, desde que o
crescimento reflita os princípios amplos da sustentabilidade e da não-exploração dos
outros. Mas o simples crescimento não basta. Uma grande atividade produtiva pode
coexistir com a pobreza disseminada - nosso caso - e isto pode constituir um grande
risco para o meio ambiente. Por isso, o desenvolvimento sustentável exige que as
sociedades atendam às necessidades humanas, tanto aumentando o potêncial de
produção quanto assegurando a todos as mesmas oportunidades.
Felizmente, também, já há um reconhecimento da necessidade de se estabelecer
novos índices para medirmos o progresso. Atualmente, dois deles já vem sendo
usados para estudos e avaliações de aspectos e econômicos e sociais, principalmente
nos países do terceiro mundo.
Concebido pelas Nações Unidas, o Índice de Desenvolvimento Humano - HDI
(Human Development Index) é medido numa escala que vai de 0 a 1 e leva em
consideração três indicadores sociais: longevidade(expectativa de vida, desde o
nascimento); conhecimento (taxas de alfabetização e percentual de analfabetos na
população) e, controle sobre os recursos necessários a uma vida decente (Produto
Interno Bruto - PIB, ajustado ao poder de compra). A associação dos indicadores de
longevidade e conhecimento ao PIB, fornecem informações muito mais realistas sobre
o padrão de vida das populações. Por exemplo, uma alta expectativa média de vida
indica amplo acesso ao cuidado com a saúde e ao consumo satisfatório de alimentos.
Uma comparação entre países classificados de acordo com o PIB e o HDI, ambos
ajustados per-capita, revela algumas amplas disparidades: certos países com baixas
rendas médias possuem HDI's relativamente elevados, e vice-versa. Em Sri Lanka o
264 Jornal Jornal do Brasil. Maio. 1990.
2
PIB per-capita é de apenas US$ 2.053, ao passo que o HDI é de 0,79. Mas no Brasil,
onde o PIB é duas vezes maior, de US$ 4.307 por pessoa, o HDI é 0,78, ligeiramente
inferior. Isto se deve ao fato de a riqueza ser distribuída de maneira mais uniforme no
Sri Lanka, juntamente com um maior acesso à alimentação e aos serviços sociais,
enquanto no Brasil ela está, em larga medida, concentrada nas mãos da quinta parte
mais rica da população.
Os EUA, que se acham em primeiro lugar em termos de renda ajustada per-capita,
com US$ 17.615, é o décimo nono país na coluna do HDI, abaixo de países como a
Austrália, o Canadá e a Espanha265. A nível mundial, existem grandes disparidades na
renda per-capita- que em 1984 variava de US$ 190 nos países mais pobres do terceiro
mundo até US$ 11.430 nas economias dos países industrializados. Tais desigualdades
representam grandes diferenças não apenas quanto à atual qualidade de vida, mas
também quanto à capacidade das sociedades para melhorarem sua qualidade de vida
no futuro.
O Índice de Prosperidade Econômica Sustentável - ISEW (Index of Sustainable
Economic Welfare), concebido pelos Srs. Herman Daly & John Cobb, é o mais
abrangente de todos os índices pois considera aspectos sociais, econômicos e
ambientais, como a destruição do meio ambiente. Depois de ajustar o componente de
consumo do índice de acordo com a desigualdade na distribuição, os autores incluem
vários custos ambientais associados à má administração econômica, tais como o
esgotamento de recursos, a perda da produtividade da terra devido à erosão do solo e à
urbanização e o custo da poluição do ar e da água. Eles também incorporam aquilo
que chamam de danos a longo prazo ao meio ambiente, uma cifra que tenta levar em
consideração mudanças em larga escala tais como os efeitos do aquecimento
global/efeito estufa e dos danos inflingidos a camada de ozônio266.
Dependendo da orientação do progresso tecnológico, alguns problemas imediatos
podem ser resolvidos, mas podem surgir outros ainda maiores. Uma tecnologia mal
empregada pode marginalizar amplos segmentos da população. As grandes
monoculturas, o desvio dos cursos d'água, a extração mineral e florestal, a emissão de
gases e efluentes líquidos e erosão devido ao plantio excessivo, são todos exemplos
atuais da intervenção humana na biosfera durante o desenvolvimento da nossa
sociedade. Assim, abandonar o projeto de uma hidrelétrica porque traria impactos
ambientais à um ecossistema sensível pode ser uma medida a favor do progresso e não
um retrocesso no desenvolvimento.
Os sintomas de que a concepção de relacionamento do homem com a natureza
estão mudando, começam a se manifestar com uma frequência cada vez maior na
nossa sociedade. A civilização industrial ainda tem considerado os recursos naturais
apenas como um dos insumos do processo produtivo e não como uma variável
complexa, que permeia todos os aspectos da vida humana. Tal constatação tem levado
ao questionamento da capacidade desse modelo de garantir a sua reprodução e,
principalmente, a busca de alternativas que permitam o homem alcançar patamares
mais elevados de qualidade de vida.
Por isso, torna-se fundamental reconhecer que os desequilíbrios ambientais são
modalidades de custos sociais que, necessariamente, devem ser contabilizados no
processo de desenvolvimento. Porém, a mudança do discurso, embora repleta de
significados, é insuficiente para viabilizar efetivas melhorias na qualidade do uso que
fazemos dos nossos recursos naturais. Não podemos ficar esperando que caiam do céu
as mudanças estruturais, indispensáveis à modernização da sociedade, para somente
então começarmos a agir. Cabe-nos, dentro da área de atuação de cada um, incorporar

265 BROWN, L.R. O Vigésimo Nono Dia. Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas. 1980.
266 BROWN, L.R. O Vigésimo Nono Dia. Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas. 1980.
3
a variável ambiental como uma dimensão de planejamento, conferindo-lhe sua real
importância.
Nesse esforço de identificar novas alternativas para o enfrentamento de problemas
já antigos, procuramos abrir espaços para o surgimento de novas concepções de
projetos, para o aporte de novas tecnologias e para a modernização das relações entre
as diferentes instâncias de poder governamental e entre o estado e a sociedade civil,
tornando-a co-partícipe do processo de implementação das políticas públicas. Torna-
se fundamental, portanto, fortalecer os laços de cooperação internacional, em que o
relacionamento entre as nações seja pautado por uma ética que estabelaça a co-
responsabilidade na busca da melhoria da qualidade ambiental267.

3- A Administração do Lixo e seus Problemas

Uma questão fundamental, que está a desafiar todos nós, sobretudo nas grandes
cidades, é a do tratamento e destinação final dos resíduos sólidos, que é uma das
questões mais desafiadoras para um administrador público no âmbito municipal, pelo
custo que representa o tratamento e o destino desses resíduos e pela incapacidade
que os municípios têm de dar conta do tamanho, da dimensão, da complexidade e da
gravidade desse problema.
É verdade que os países do primeiro mundo já devem ter conseguido progresso
maior, até porque já conseguiram avançar mais em termos de gestão e de tecnologias
no tratamento dessa questão e, certamente, poderão nos ajudar numa linha de
cooperação e de intercâmbio permanente, para que possamos, pelo menos, atenuar e
aliviar as graves consequências, os graves efeitos que estão colocados no quotidiano
das nossas cidades, das nossas gestões municipais com esse problema do tratamento
e destino dos resíduos sólidos. E, temos que enfrentar isso com muita humildade, não
só esta questão, mas as contradições em relação aos problemas sociais, às demandas
sociais e à necessidade de preservar a qualidade de vida das pessoas que moram nas
cidades, sobretudo do Terceiro e Quarto Mundos268.
Os números apresentados como diagnóstico da situação atual do setor de resíduos
sólidos no Brasil foram feitos a partir de projeções de dados levantados pela pesquisa
Diretrizes Nacionais de Limpeza Urbana, elaborada em 1983. Assim, considerava-
se que a população urbana brasileira, estimada em 113 milhões de habitantes, gerava
90 mil toneladas de lixo/dia, das quais, numa perspectiva otimista, 63 mil toneladas -
ou 56% - eram coletadas. Além disso, dos 12 mil locais escolhidos para disposição
final destes resíduos, somente 3% foram considerados sanitariamente e
ambientalmente adequados.
Do ponto de vista institucional, identificou-se a falta de envolvimento, participação
e de motivação de administradores públicos e usuários de uma forma geral, além do
vazio entre as políticas propostas de atuação federal e municipal, associado à ausência
de instrumentos legais, institucionais e financeiros. Afirmou-se ser fundamental
pensar o setor de resíduos sólidos sob a ótica do planejamento global intra-setorial
(água, esgoto, drenagem e resíduos) e, inter-setorial (saúde pública, meio ambiente,
recursos hídricos, desenvolvimento urbano, habitação, infra-estrutura e serviços
públicos).
As ações governamentais no setor de resíduos são incipientes e esparsas,
requerendo urgente definição e diretrizes para o setor. Isso tem tornado difícil ou
267 SETTA, J. Gestão e Tecnologias de tratamento de Resíduos Sólidos – Documento Síntese – REMAI’91.
Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo. 1992.
268 ERUNDINA, L. Solenidade de Abertura. Gestão e Tecnologias de tratamento de Resíduos Sólidos –
Documento Síntese – REMAI’91. Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo. 1992.

4
mesmo impraticável uma solução conjunta ou de ampla escala. Os poucos textos
legais utilizados são portarias e instruções normativas, quase sempre inaplicáveis
devido à falta de recursos ou instrumentos inadequados que viabilizem sua
implantação. Nesse contexto, torna-se clara a necessidade de os governos federal,
estadual e municipal adotarem medidas e uma legislação efetiva e conjunta sobre o
assunto, estabelecendo definitivamente diretrizes políticas e, evidentemente, técnicas
para o setor269.
De acordo com dados da pesquisa sobre resíduos sólidos domésticos e públicos
que está sendo desenvolvida no âmbito do Programa de Gestão Urbana e Meio
Ambiente - PNUD/BIRD/Habitat, os problemas enfrentados pelos serviços de limpeza
urbana em países em desenvolvimento, de um modo geral são:

■ limitação financeira orçamentos inadequados, fluxo de caixa


desequilibrado, arrecadação insuficiente e
ausência de linhas de crédito
■ falta de capacitação do gari ao engenheiro chefe
técnica e profissional
■ falta de cooperação da -
população
■ descontinuidade no cada nova administração muda a política e o
serviço e na administração pessoal técnico

Qualquer administração que queira dar início a um programa sério de


gerenciamento dos resíduos sólidos, deve ter metas sólidas a serem atingidas. As mais
importantes poderiam ser:

■ atendimento pleno da população a partir da utilização de tecnologias adequadas


para as etapas do processo- coleta, transporte, acondicionamento, tratamento e destino
final;
■ busca da qualidade do serviço prestado através de procedimentos mais eficientes
e eficazes, tanto no âmbito econômico quanto ambiental;
■ otimização e modernização de equipamentos;
■ redução do fluxo de lixo e incentivo à coleta seletiva e reciclagem;
■ auto-sustentação, privatização e/ou parcerias com empresas privadas;
■ desenvolvimento gerencial e técnico;
■ redistribuição da atual conduta entre os agentes da sociedade - governo, mercado
e voluntarismo;
■ estabelecer uma hierarquia de processos tecnológicos no tratamento e disposição
final dos resíduos sólidos: redução da produção de lixo na própria fonte geradora:
reciclagem  compostagem  recuperação energética através da incineração 
aterro dos rejeitos.

A visão panorâmica da situação dos resíduos sólidos - sejam eles domésticos,


hospitalares ou especiais/tóxicos (industriais) - não é das mais graves, comparada com
outras nações do terceiro mundo. Apesar disso, os dados demostram uma situação
bastante insatisfatória e apontam a necessidade de soluções consorciadas entre as
administrações (em todos os âmbitos) a iniciativa privada e a sociedade organizada.

269 PINTO, P.C. Aspectos políticos e institucionais do manejo de resíduos. Gestão e Tecnologias de tratamento
de Resíduos Sólidos – Documento Síntese – REMAI’91. Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São
Paulo. 1992.

1
Segundo o Sr. Francisco A. Sertã, da Fundação Estadual de Engenharia do Meio
Ambiente - Feema, o regime de administração direta é a forma mais usual de
adotada em todo o país para gerenciar o sistema de limpeza urbana. O sistema de
administração indireta se dá através da contratação de empresas privadas para
execução de alguns serviços. A mão-de-obra direta empregada no setor de limpeza
urbana é constituída em grande parte, por pessoal de baixo nível de escolaridade,
sugerindo a necessidade urgente de sensibilização comunitária para o setor e o
treinamento do pessoal envolvido270. Outros apectos pertinentes a serem considerados
são271:

■ a existência, nos grandes centros brasileiros, de tecnologias de disposição e


tratamento de resíduos, o que permitiria o desenvolvimento de uma legislação de
controle;
■ a capacitação da indústria nacional para a absorção dessas tecnologias;
■ as limitações das pequenas e médias empresas quanto a recursos para o
desenvolvimento de sistemas individualizados de destinação de resíduos;
■ a necessidade de importação de tecnologias para a incineração dos resíduos
especiais;
■ a presença de um parque industrial que pode absorver a matéria-prima
secundária - através da coleta seletiva de resíduos domésticos - visando a sua
reciclagem.

4- A Coleta, o Tratamento e a Disposição Final do Lixo

Verifica-se que a coleta de lixo nas áreas rurais brasileiras só se realiza nas
proximidades dos núcleos urbanos. De uma maneira geral, nas zonas rurais o lixo é
queimado ou enterrado pelas próprias pessoas que os geram.
De uma maneira geral, houve uma acentuada melhora nos serviços de coleta de
lixo no Brasil de, digamos, 10 anos para cá.
O aterro sanitário é uma das práticas de destinar os resíduos sólidos mais usada e,
encontrada em quase todos os municípios do Brasil. Contudo, na verdade, eles - os
aterros - são verdadeiros lixões a céu aberto (86,4%), alguns poucos (9,6%) são
aterros controlados e, realmente, muito poucos (1,1%) são aterros sanitários. Isto se
deve ao total despreparo das administrações municipais e aos responsáveis diretos
pelas companhias de limpeza urbana. A população é co-responsável também pois, em
geral, a sua preocupação limita-se apenas à exigir a coleta do seu lixo, sem se importar
com o seu destino final e com as consequências ambientais que possam ocorrer.
Um aterro sanitário para ser eficiente deve apresentar as seguintes características:

■ os resíduos devem ser cobertos com terra diariamente a fim de evitar o


aparecimento e desenvolvimento de animais transmissores ou causadores de doenças
assim como, evitar a ação dos catadores;
■ impermeabilização do solo para evitar a contaminação e poluição dos lençóis
freáticos;
■ colocação de uma cerca para impedir a ação de catadores de lixo;
270 SERTÃ, F.A. Tecnologias tradicionais em resíduos sólidos industriais. Gestão e Tecnologias de tratamento
de Resíduos Sólidos – Documento Síntese – REMAI’91. Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São
Paulo. 1992.
271 SERTÃ, F.A. Tecnologias tradicionais em resíduos sólidos industriais. Gestão e Tecnologias de tratamento
de Resíduos Sólidos – Documento Síntese – REMAI’91. Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São
Paulo. 1992.

2
■ construção de uma estação de tratamento do chorume;
■ construção de um sistema de drenagem - chorume e biogás - eficiente, com
aproveitamento do gás metano.

Quando comparados aos dos países do primeiro mundo, os aterros no Brasil


apresentam custos muito baixos. A disponibilidade de grandes áreas e a abundância de
terra, para cobertura do lixo, e, principalmente, a não adoção de técnicas adequadas
podem explicar esta questão. Além disso, o desleixo com a quantidade e com a
qualidade do lixo recebido diariamente, contribuem ainda mais para a redução da
qualidade dos aterros/lixões.
Os pontos mais importantes a serem considerados, para reverter esta situação, na
instalação de novos aterros sanitários são:

■ necessidade de alteração das normas dos Estudos de Impacto Ambiental - EIA -


e Relatório de Impacto Ambiental - RIMA - para instalação e manutenção dos aterros
para que não haja comprometimento da qualidade de vida da população circunvizinha
e dos operadores e funcionários diretamente envolvidos;
■ necessidade de um monitoramento permanente, mesmo após o seu esgotamento,
a fim de evitar a deterioração da área e possíveis acidentes.

Existem atualmente no Brasil 56 usinas de compostagem - dos tipos aceleradas e


simplificadas. Desse total, segundo informações mais atualizadas, 17 estão em
operação, 23 desativadas ou paradas e 16 estão em obras. É mais um sintoma do
desperdício de recursos públicos e ineficiência administrativa dos nossos governantes.
Um aspecto importante em relação as usinas, refere-se ao seu correto
dimensionamento; ao estabelecimento de parâmetros compatíveis ao sistema de coleta
com o porte e localização das instalações e a disponibilidade de aterros sanitários para
dispor os resíduos gerados pelas usinas. É, igualmente importante, ter em mente que é
preciso dar um fim ao composto/adubo gerado para que ele não permaneça acumulado
nas instalações da usina, principalmente se o seu custo for maior do que os similares
encontrados no mercado.
Além disso, dados recentes mostram que o composto gerado em algumas usinas
brasileiras está contaminado por metais pesados, com índices acima do permitido
pelas normas internacionais. Em toda a Europa, só existe uma usina capaz de separar a
matéria orgânica de metais pesados, e o custo do produto final torna-se extremamente
alto.
No Brasil, a não implantação da coleta seletiva, faz com que o lixo vá misturado
para as usinas e, na maior parte delas, a separação dos materiais recicláveis é
exclusivamente feita por catação. Em algumas poucas usinas, utiliza-se um eletro-imã
para a separação dos metais. Neste caso, o preço final das usinas torna-se muito
elevado e acarreta outras despesas de implantação e manutenção.
Para evitar todos estes problemas, poderia ser implantada a coleta seletiva onde, a
separação dos materiais inorgânicos na própria fonte geradora, traria mudanças
significativas em todo o processo: redução dos custos de implantação e manutenção;
seriam necessárias usinas menores e mais baratas e, melhoria da qualidade do
composto gerado. A coleta seletiva é um excelente meio de mobilização e
conscientização da população.
Pesquisa realizada na cidade do Rio de Janeiro, demostrou que a população
carioca estaria disposta a separar o seu lixo, desde que fosse orientada e esclarecida
para tal. A população considera o serviço prestado pela companhia de limpeza urbana
- Comlurb - satisfatório. Consideram, também, o cidadão carioca o próprio
2
responsável pela sujeira da sua cidade e estariam dispostos a uma mudança de
comportamento.
Em 1991, numa reunião do CONAMA houve uma forte ação de lobistas para que
não fosse aprovada uma resolução objetivando a proibição, no Brasil, da incineração
de resíduos municipais, em especial daqueles gerados em hospitais. Recentemente, a
Agência de Proteção Ambiental dos EUA - EPA - manifestou-se oficialmente a
respeito da semelhança entre os resíduos domiciliares e hospitalares, concluindo não
haver necessidade de tratamento diferenciado para os resíduos oriundos dos
estabelecimentos prestadores de serviços de saúde, tendo em vista o alto custo da
incineração, além dos malefícios trazidos pela geração das dioxinas272.
As unidades de incineração são consideradas fábricas de resíduos, pois não só
existem materiais que não podem ser incinerados como também, do processo de
incineração, sobram resíduos sólidos - além dos gases emitidos - que necessitam de
disposição final em aterros.
Em se tratando de resíduos industriais, na América Latina, os incineradores são
empregados apenas em poucos casos, devido principalmente aos altos custos de
implantação e manutenção das unidades de incineração. Diversas indústrias de grande
porte adquiriram unidades de incineração para queimar seus rejeitos e, para prestarem
serviços para outras empresas da área industrial ou prefeituras (resíduos industriais,
hospitalares e farmacêuticos - remédios vencidos).
A utilização de incineradores para a queima de certos resíduos perigosos em larga
escala não se encontra, ainda, devidamente equacionada quanto a avaliação dos seus
reais danos ambientais e, principalmente, quanto ao estabelecimento de
regulamentação específica para um adequado gerenciamento e controle de operações.
Os objetivos são claros: a prevenção de que estas unidades venham a se constituir em
unidades que produzam rejeitos perigosos durante o processo de queima.
Discute-se, calorosamente, as principais vantagens e desvantagens das unidades de
incineração para resíduos perigosos e hospitalares. Outro motivo de discussão,
relaciona-se ao porte e sua localização pois, é muito grande a rejeição da população à
estas unidades, tanto nos países desenvolvidos quanto nos países em desenvolvimento.
A única excessão é o Japão, que continua construindo unidades de incineração e as
transformaram em áreas de lazer para a população.
Segundo o Professor Emílio Eigenheer, a coleta seletiva deve ser vista dentro de
um sistema integrado de gerenciamento de resíduos sólidos e não como uma
panacéia para o problema"273. Por isso, destacamos alguns pontos de vista do Sr.
Eigenheer à respeito da questão:

■ Os programas de coleta seletiva devem efetuar pesquisas e manter um banco de


dados sempre atualizado de dados técnicos, inclusive de custos e benefícios;
■ Na elaboração e execução de programas de coleta seletiva, devem ser
considerados - igualmente - aspectos educativos, ambientais, administrativos,
econômicos, sociais e operacionais sem que haja prioridade de um - ou mais - em
detrimento dos outros;
■ As iniciativas comunitárias de coleta seletiva de pequeno porte - bairros ou
distritos - devem ser apoiadas pelas Prefeituras Municipais, mesmo que estas não
participem diretamente do seu processo de organização e gerenciamento;
272 PINHEIRO, S. Tecnologias tradicionais em resíduos sólidos: incineração e emissão. Gestão e Tecnologias
de tratamento de Resíduos Sólidos – Documento Síntese – REMAI’91. Secretaria de Meio Ambiente do Estado
de São Paulo. 1992.
273 EIGENHEER, E.M. (org.). Coleta Seletiva de Lixo: Experiências Brasileiras. Rio de Janeiro, Centro de
Informações sobre Resíduos Sólidos – Universidade Federal Fluminense (UFF)/Instituto de Estudos da Religião
(ISER)/GTM.
2
■ Os projetos de coleta seletiva devem dar atenção também aos resíduos orgânicos
presente no lixo doméstico. A produção de adubo/composto - para criação de hortas
comunitárias - ou ração - através da implantação de usina apropriada - para
alimentação de suínos ou peixes, pode se converter numa excelente fonte de
arrecadação servindo, também, para melhorar a qualidade alimentar da comunidade
envolvida;
■ É desejável que os projetos de coleta seletiva implantados durante uma gestão
municipal, tenham continuidade na próxima administração, incluindo a sua equipe
técnica.

No momento em que as prefeituras descobrirem que a coleta seletiva é um


excelente negócio, certamente ela ganhará mais espaço junto aos administradores.
Além de se constituir numa fonte extra de receita, a partir da comercialização dos
produtos recicláveis e diminuição dos gastos com disposição final em aterros ou
lixões, a coleta seletiva pode ser feita através de parcerias com as empresas privadas e
cooperativas de catadores de lixo.
Neste caso, a redução das despesas com a coleta regular de lixo, libera verbas para
outros programas de interesse social, melhorando a qualidade de vida da população e a
imagem do administrador municipal junto a seus eleitores, cumprindo tão somente as
obrigações do cargo para o qual foi escolhido.
O estabelecimento de leis municipais específicas de estímulo à reciclagem, pode
ser um dos pontos cruciais para a implantação da coleta seletiva. Porém, somente um
trabalho educacional na conscientização e participação da população pode garantir o
sucesso do programa. É fundamental a existência de um mercado de produtos
reciclados para estimular a reciclagem e a coleta seletiva nas cidades. Não existe
reciclagem sem um mercado consumidor de produtos reciclados.
Um dos aspectos mais interessantes em relação à coleta seletiva é a participação
dos catadores de rua. Eles são os responsáveis por grande parte do retorno da matéria-
prima secundária nas grandes cidades ao ciclo de produção. Recentemente, eles
começaram a se organizar em cooperativas para fugirem da exploração de aparistas e
sucateiros, que pagavam valores muito inferiores à aqueles que eles podem conseguir
agora. Qualquer programa de coleta seletiva que venha a ser implantado, deve levar
em consideração a participação desse segmento no processo.
A coleta seletiva e a reciclagem parece ser a solução tão sonhada para os
problemas de excesso de produtos desse nosso planeta tão superpopuloso.
Dependendo do ponto de vista, a reciclagem e a coleta seletiva são a solução para os
problemas de escassez de espaços para os aterros e, de matérias-primas para a
indústria ou, a fonte de toda uma série de problemas de oferta e procura de matérias-
primas.
Por isso, consideramos que ela não pode ser vista como a solução final para os
nossos problemas com o lixo, mas uma das soluções que deve ser posta em prática,
simultaneamente com várias outras.

5- As Mudanças Necessárias que se Avizinham

O aparecimento de instituições ambientalistas e dos produtos chamados verdes


também teve influência na discussão dos problemas relacionados ao lixo. Para o
empresário verde, em última análise, o grande fator é a educação do consumidor.
Afinal, é o consumidor quem decide, com seu dinheiro e com seu voto, as novas
mudanças que estão acontecendo no mundo.
3
Na Europa, em 20 anos, o movimento verde evoluiu de um movimento marginal
de um bando de hippies para uma força política reconhecida por todos os governos
onde eles estão organizados. Na Alemanha, os verdes passaram de uma multidão de
românticos e alucinados barulhentos para uma entidade política respeitada. Eles
venceram a resistência de inúmeros legisladores e se mostraram úteis ao conseguir a
aprovação de inúmeras leis que impuseram melhorias para remediar abusos cometidos
pelas indústrias contra o meio ambiente.
Em termos empresariais, o movimento ambientalista verde alemão teve algumas
influências em novas estratégias de marketing, em novas preferências de consumo,
mudanças nas embalagens e em muitos produtos.
O gerente de marketing da maior empresa de produtos de limpeza da Alemanha-
Werner & Mertz Gmbh, Rolf Lehmann afirma que, somente uma pequena
percentagem dos consumidores tem consciência ecológica e, por isso não aceitarão
preços mais altos por produtos verdes. A indústria tem que oferecer os produtos que
não agridem ao meio ambiente no mesmo nível de preços dos que eles podem a vir
substituir.
A preocupação ambiental não é necessariamente uma questão de opção política.
As pessoas que compram produtos verdes podem ser conservadoras em termos
políticos, enquanto outras tem orientação progressista, inclusive verde274.
Nos EUA, a educação, consciência e a responsabilidade ambiental estão na mão
de sociedades privadas e conselhos. Hoje, estas associações estão crescendo em
número e influência e, neste processo, atraindo adeptos políticos poderosos (inclusive,
o atual Vice-Presidente dos EUA é egresso do movimento ambientalista). Também
nos EUA está em marcha um movimento pela implantação do selo verde para
identificação dos produtos ambientalmente saudáveis.
Em última análise, as ações governamentais e das empresas em favor do meio
ambiente geralmente são lideradas por ações ou inações dos consumidores. Em
pouquíssimos casos, o governo lidera, como nas áreas densamente povoadas e
poluídas nos países desenvolvidos, como Los Angeles e Nova York, nos EUA;
Tóquio, no Japão; Holanda; Dinamarca; Alemanha e Suiça. Consequentemente, o
incremento do comércio global dos produtos verdes deverá ser igualmente
influenciado pelo poder de compra dos consumidores.

6- O Dia do Julgamento Final

Em 1984, foi iniciado um projeto de escavação do lixo em Tempe, fora dos limites
de Phoenix, no Arizona - EUA. Escavações semelhantes, todas muito científicas, vêm
sendo realizadas em Tampa - Flórida; Staten Island - Nova York e, San Francisco -
Califórnia. Os jornais compõem cerca de 16% das amostragens históricas, algumas
ainda bastante legíveis. Em um depósito foram encontrados uma garrafa de plástico de
1947 e uma vassoura velha de 40 anos com a maioria das cerdas intactas.
Evidentemente, não se pode confiar tanto na biodegradabilidade quanto se imaginava.
Talvez, a palavra biodegradável precise ser restruturação, mas isso é apenas uma
questão de semântica. Nossas colossais montanhas de material inútil dificilmente
podem ser espalhadas de forma que a luz do dia e a oxidação possam decompô-las.
Debaixo dos depósitos de lixo, nas entranhas úmidas e escuras dos aterros, o lixo é
preservado, não decomposto275. O gráfico 1.1 mostra o tempo aproximado de
biodegradabilidade de alguns materiais presentes nos lixões.
274 BERLE, G. O Empreendedor do Verde: A Oportunidade de Negócios em que Você pode Salvar a Terra e
ainda Ganhar Dinheiro. São Paulo, Makron Books do Brasil. 1992.
275 BERLE, G. O Empreendedor do Verde: A Oportunidade de Negócios em que Você pode Salvar a Terra e
ainda Ganhar Dinheiro. São Paulo, Makron Books do Brasil. 1992.
2
O que, sem dúvida, teremos que fazer, nos séculos à frente, é o que a maioria das
civilizações tem feito: construir por cima dos refugos da nossa civilização e dar aos
arqueólogos de 3000 d.C. a oportunidade de grandes sensações e perplexidades276 para
com a nossa sociedade.

Figura 1.1- Tempo de Degradabilidade de alguns materiais - log X+1 (em anos) - presentes no lixo. Na
ordem: lignina; madeira; cigarros; chicletes; jornais; plásticos; metais; e vidros. (fonte: Revista
Superinteressante, 1993).

VI- Fontes Bibliográficas


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276 BERLE, G. O Empreendedor do Verde: A Oportunidade de Negócios em que Você pode Salvar a Terra e
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2
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VII- Anexos

3
1- Oportunidades de Negócios
“Toda verdade passa por três etapas:
primeiro, ela é ridicularizada;
depois, ela é violentamente antagonizada;
Por último, ela é universalmente aceita
como auto-evidente”.
(Arthur Schopenhauer)

1.1- Sacos de Papel


■ Objetivos:
Reduzir as quantidades de papéis que vão parar nos lixões ou aterros sanitários.
Com este material, pode-se produzir sacolas de papel para supermercados, lojas de
departamentos e lojas para presentes finos.

■ Setor da Economia e Ramo de Atividade:


Este setor é denominado de secundário.
O objetivo é a produção de sacolas de papel.

■ Investimentos e Faturamento Mensal:


Investimentos Faturamento Mensal
(US$) (US$ / Mês)
Inicial............................54.800,00 -
Fixo..............................42.500,00 -
Capital de Giro................7.200,00 -
Reserva Técnica..............5.000,00 -
Total...........................109.500,00 58.600,00

■ Oportunidades e Riscos:
Este investimento pode ser considerado de alto risco, devido principalmente aos
altos investimentos envolvidos e aos preços oscilantes das matérias-primas no
mercado. Para tentar minimizar custos e riscos, o negócio deve ser implantado
próximo aos centros de consumo e de produção de matérias-primas.
Segundo alguns aparistas, os preços do papel kraft são os que mais sofrem
oscilações ao longo do ano. Por isso, recomenda-se estabelecer parcerias com

1
aparistas, indústrias ou empresas que se utilizam desta matéria-prima como forma
de minimizar os custos.
Isenções fiscais (enquadramento como micro-empresa) ou renúncia fiscal (não
pagamento de ICMS sobre resíduos) pode contribuir para redução de custos e
minimizar investimentos.

■ Infra-estrutura Básica:
O empreendimento deve ser instalado em galpão industrial, que disponha de
serviços de água e esgotos, luz e telefone. A área do galpão deve contemplar 250
m2, entre área coberta e escritório.
Os equipamentos básicos constam de:

máquina para saco de papel - tipo 20 Kg


ferramentas e utensílios
mesa - 1,20 X 2,00 m
material de escritório - mesa, cadeiras, arquivo e diversos

■ Aspectos Econômicos:
mão-de-obra: 4 funcionários em regime de trabalho 8 h / dia, 24 dias / mês
A produtividade gira em torno de 144 mil sacolas / dia ou 3,5 milhões de
unidades / mês
Investimentos Fixos:
Ítem Discriminação Quantidade Valor (US$)
1 máquina para saco de papel - tipo 1 36.700,00
matador 20 litros
2 ferramentas e utensílios - 1.300,00
3 instalações elétricas - 3.40000
4 mesa - 1,2 X 2,0 m 300,00
5 Material de escritório - 1.000,00
6 telefone - aluguel 1 100,00
7 micro-computador 1 1.500,00
Total - - 44.300,00

Custos Fixos:
Ítem Discriminação Valor (US$)
1 pessoal e encargos sociais 2.000,00
2 honorários do contador 150,00
3 aluguel e taxas 600,00
4 energia elétrica 200,00
5 água e telefone 100,00
6 despesas de manutenção 150,00
7 pró-labore 400,00
Total - 3.600,00

Custos de Matéria-prima:
Ítem Discriminação Quantidade Valor Unitário Valor Total
(Kg) (US$) (US$)
1 papel kraft - 40g / m2 25.920 1,05 26.800,00
2 cola 1.099 1,7 2.000,00
3 tinta 100 2,10 300,00
4 fitilho de plástico 10 1,25 15,00
Total - - - 29.115,00

Custo Unitário por Quilo:


Ítem Discriminação Preço por Quilo
(US$)
1 papel kraft - 40 g / m2 1,10
2 cola 0,10

1
3 tinta 0,0080
4 fitilho de plástico 0,0004
5 mão-de-obra 1,10
6 custos fixos - investimentos 1,50
Total - 3,8092
Custo Total de Produção:
Ítem Discriminação Valor
(US$)
1 materiais diversos 28.800,00
2 mão-de-obra direta 1.000,00
3 custos fixos 2.500,00
Total - 32.300,00

Preços Unitário e Total de Venda:


Discriminação Custo Unitário Preço Unitário Venda Preço Total
(US$) (US$) (US$)
1 Kg sacos papel 1,25 2,27 2,27
produção - 26.000 1,25 2,27 58.600,00

■ Conclusões e Recomendações:
Apesar dos altos custos dos investimentos, produção e operação, este pode ser
considerado um “bom negócio”. Segundo o potêncial de reciclagem e
reaproveitamento de resíduos, pode-se conseguir uma redução substâncial nos
custos de matéria-prima. Outro aspecto interessante, é a proposta de renúncia fiscal
para todos os resíduos não-tóxicos, uma vez que estes já pagaram impostos
enquanto matéria-prima e na sua transformação em “bens de consumo”.
O futuro empreendedor deve procurar as prefeituras que ofereçam algum tipo de
benefício fiscal, como enquadramento em micro-empresa, para que ele possa
operar com uma margem maior de lucratividade.
Deve-se, igualmente, procurar se associar ao comércio local de modo que se
faça a substituição das sacolas plásticas (de difícil reciclagem, devido ao seu uso
corrente como “saco de lixo” após o transporte das mercadorias adquiridas) pelas
de papel. Há a necessidade de se fazer um trabalho de educação da população
local para se viabilizar esta mudança, uma vez que as sacolas de plástico possuem
um custo de produção mais baixo.

1.2- Embalagens de Alumínio para Alimentos:


■ Objetivos:
A era dos descartáveis, principalmente no setor de alimentos, está promovendo
uma sangria muito grande dos recursos naturais. E, no setor de alimentos é que
este fenômeno se manifesta com maior intensidade. Não só devido ao desperdício,
mas também devido ao fenômeno da terceirização que o segmento da alimentação
1
(industrial ou não) vem sofrendo. Por isso, é cada vez maior o número de
estabelecimentos que se utilizam de embalagens de alumínio.

■ Setor da Economia e Ramo de Atividade:


Este setor é denominado de secundário.
O objetivo é a produção de embalagens de alumínio para refeições do tipo
“quentinha” ou “marmitex”.

■ Investimentos e Faturamento Mensal:


Investimentos (US$) Faturamento / Mês (US$)
Inicial..........................18.000,00 -
Fixo............................14.000,00 -
Capital de Giro..............3.200,00 -
Reserva Técnica............1.000,00 -
Total...........................36.200,00 12.500,00

■ Oportunidade e Riscos:
As regiões ou cidades com densidade populacional de média à grande e com
uma grande concentração de empresas do ramo de alimentos, que vão ser
responsáveis diretos pelo consumo destas embalagens, são condicionantes
importantes de se levar em conta no momento de se investir neste tipo de negócio.
Outro aspecto que deve-se considerar são as empresas fornecedoras de matérias-
primas. Estas devem estar próximas e devem ser consultadas à respeito dos preços
de mercado das matérias-primas. Este mercado é dominado por grandes empresas
e podem impor dificuldades na aquisição do material.

■ Infra-estrutura Básica:
O imóvel ideal para este tipo de negócio são os galpões industriais, com no
mínimo 60 m2 de área coberta. As instalações devem contar com energia elétrica,
água e esgoto e, telefone.
Os equipamentos básicos constam de:
prensa semi-automática
cortadeira circular e guilhotina
mesa de madeira - 2,00 X 0,90 m
material de escritório - mesa, cadeira, arquivo e diversos

■ Aspectos Econômicos
mão-de-obra - 1 funcionário, em regime de trabalho de 8 horas / dia em 24 dias /
mês
A produtividade gira em torno de 3.500 - 4.000 unidades / dia ou 90.000 - 100.000
unidades / mês
Investimentos Fixos:
Ítem Discriminação Quantidade Valor (US$)
1 prensa semi-automática - 1.200 unidades / 1 7.200,00
dia de capacidade
2 cortadeira circular semi-automática 1 3.700,00
3 guilhotina automática 1 1.300,00
4 mesa madeira 1 400,00
5 armários de aço - estoque de produtos 2 800,00
acabados
6 material de escritório - 1.000,00
7 telefone - aluguel 1 100,00
8 microcomputador 1 1.500,00
Total 08 16.000,00

Custos Fixos:
Ítem Descriminação Valor (US$)
1
1 aluguel e taxas - imóvel 300,00 - 600,00
2 pró-labore sócios - 2 200,00 - 400,00
3 água, luz e telefone 160,00
4 honorários - contador 150,00
5 manutenção e depreciação 100,00
6 prensador 200,00
7 encargos sociais 200,00
Total 1.310, - 1.810,00
00

Custos de Matéria-prima e Produção:


Ítem Descriminação Quantidade Custo / Custo Custo
(g) gramas Unitário Produção
(US$) (US$) (US$)
1 embalagem nº7 E - 5,6 0,0364
19.200 unidades T - 3,2 0,0065 0,0208 1.098,24
E+T - 8,8 0,0572
2 embalagem nº 8 E - 6,4 0.0416
67.200 unidades T - 4,0 0,0065 0,0260 4.542,72
E+T - 10,4 0,0676
3 embalagem nº 9 E - 7,2 0,0468
9.600 unidades T - 4,8 0,0065 0,0312 748,80
E+T - 12,0 0,0780
Total 96.000 unidades 31,2 0,0195 0,1956 6.389,76

■ Conclusões e Recomendações:
Segundo vários especialistas, este empreendimento pode ser considerado um
“bom negócio” e para que não haja prejuízos, há a necessidade de comercialização
de, pelo menos, 35 a 45% da produção. O empreendimento opera com uma
margem de lucro da ordem de 6 a 10% do faturamento total. A instalação da
indústria em locais com isenção ou renúncia fiscal pode aumentar ainda mais a
margem de lucro do empreendimento. O enquadramento em “micro-empresa” pode
aumentar esta margem de lucro para até 20% do faturamento bruto.
A instalação próxima aos centros produtores - pequenas usinas siderúrgicas - ou
de comercialização de matérias-primas pode ajudar a reduzir custos de transporte e
matérias-primas. A utilização de matérias-primas recicladas também pode contribuir
ainda mais para a redução dos custos finais dos produtos.

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1.3- Indústria de Beneficiamento de Sucata de Vidro
■ Objetivos:
0 As indústrias de embalagens de vidro estão utilizando cada vez mais sucata de
vidros - cacos - como matéria-prima na produção de seus produtos. Concentradas
principalmente no sudeste e sul do país, várias empresas investiram em programas
de coleta seletiva e em postos de entrega voluntários - PEV’s - como uma maneira
de obter matérias-primas mais baratas e reduzir o desperdício de vidros que
acabariam indo parar nos lixões.

■ Setor da Economia e Ramo de Atividade:


O setor da economia que se insere o beneficiamento de sucatas de vidro é o
secundário. Preparar as sucatas, lavando-as, separando-as e beneficiando-as são
os objetivos que uma empresa deste ramo realiza.

■ Investimento e Faturamento Mensal:


Investimentos Faturamento Mensal
(US$ / Mês)
Inicial.................................108.620,00 -
Fixo.....................................92.670,00 -
Capital Giro..........................15.950,00 -
Reserva Técnica................... - -
Total...................................217.240,00 28.810,00

■ Oportunidades e Riscos:
A instalação em áreas próximas aos centros de produção de embalagens
certamente irá facilitar os negócios da empresa, reduzindo os riscos de
investimentos. Apesar dos investimentos serem considerados altos, os riscos do
negócio não darem certo são muito baixos.
Pode-se tentar parcerias com hotéis ou outros centros geradores de grandes
quantidades de vidros para facilitar a retirada destes materiais. Uma parceria com
cooperativas de catadores pode ajudar a manter sempre constante o fluxo de
matérias-primas para o empreendimento.

■ Infra-estrutura Básica:
A empresa deve ser montada em áreas servidas de água, esgotos, luz e
telefone.

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O imóvel ideal são os galpões industriais. Para este tipo de empreendimento, ele
deve contar com um terreno de 800 m2 e uma área coberta de 320 m2. A maior parte
desta área - 300 m2 - será destinada para a lavagem, separação, estocagem e
beneficiamento. Os outros 20 m2 serão destinados para a parte administrativa.
A infra-estrutura básica consta de:
cilindro de lavagem
1 esteira metálica + 1 esteira de borracha
1 caminhão basculante - 7m3
material de escritório - mesa, cadeira, arquivos, telefone, etc...

■ Aspectos Econômicos

mão-de-obra - 9 funcionários (1 motorista, 5 operários, 2 ajudantes e 1 gerente de


produção - com participação nos lucros)
produtividade
investimentos fixos