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O couro e a arte de produção

Clara Marineli Silveira Luiz Vaz


Embrapa Pecuária Sul. Bagé, RS, Brasil. Caixa Postal: 242
clarav@cppsul.embrapa.br

Introdução

A criação de ovinos e de caprinos está presente em todos os estados do


Brasil, sob exploração familiar e empresarial, sendo as regiões de maior
população a Nordeste, com predominância de ovinos sem lã (deslanados) e de
caprinos, seguida da região Sul, onde se criam ovinos com lã e a caprinocultura
ocupa posição secundária. Nas Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Norte encontram-
se ovinos lanados e deslanados, com predominância dos últimos sendo a criação
de caprinos emergente.
Embora, com distintas aptidões econômicas, todos os ovinos, nas diversas
condições agroecológicas, são explorados para a produção de carne e
secundariamente de pele. Situação similar ocorre na criação de caprinos, que tem
na indústria do leite uma importante fonte de renda. No sul, os ovinos são
explorados também, para produzir lã e mais recentemente, leite, já dos caprinos
colhe-se, também, fibras.
De modo geral, em todos os estados brasileiros, a ovino-caprinocultura
empresarial está em ascensão, pois o ciclo produtivo desses animais é curto, com
aproximadamente 210 dias de duração (período transcorrido do acasalamento ao
abate da cria), é possível a produção de carne e pele, estando a matriz apta para
novo ciclo.
Ovinos lanados possuem o corpo coberto por fibras denominadas lã,
enquanto os ovinos deslanados e os caprinos são cobertos por pêlos, com exceção
da raça Angorá que produz uma fibra têxtil muito macia, denominada Mohair.
Conforme a cobertura da pele, com lã ou pêlos, após o curtimento são produzidos
artigos diferenciados que atendem procura crescente nos mercados nacional e
internacional por produtos naturais.
Este trabalho objetiva descrever características, utilização e processamento
tradicional de peles, lanada e deslanada, provenientes de ovinos e caprinos,
relatando alguns casos de sucesso do artesanato rural, além de produtos oriundos
da indústria curtidora.

1. História

É impossível falar sobre peles sem uma referência histórica sobre o


assunto. Durante milênios o couro vem sendo utilizado como matéria prima para
produzir conforto e bem estar às populações. O couro curtido apresenta um
conjunto de propriedades sem similares em nenhuma matéria prima natural: pode
ser extremamente duro e resistente ou muito suave e malheável, como um fino
tecido. Alem disso, apresenta uma estrutura porosa que permite a passagem de ar
e vapor de água. Como vestuário, o couro é utilizado desde a domesticação dos
ovinos, aproximadamente há 8.000 anos.
Não se tem conhecimento da data exata quando o homem primitivo
começou a produção de couros fortes e flexíveis. Os caçadores pré-históricos
devem ter observado que os couros e peles obtidos dos animais protegia contra o
frio, a chuva e o espinho. Povavelmente, também descobriram que os couros
secos apodreciam quando molhados. O conjunto desses fatores deve ter
incentivado o tratamento primitivo do couro que consistia na raspagem do carnal
para remover gorduras e músculos e depois de seco aplicação de graxa, sebo e
medula óssea, no estado bruto, para amaciá-lo e impermeabilizá-lo.
É possível que o curtimento fosse uma descoberta acidental.
Provavelmente os curtentes vegetais foram descobertos quando peles brutas
ficaram submergidas em pântanos florestais, onde folhas, frutos e córtex
molhados pudessem originar uma solução curtente. Por outro lado, o simples fato
de um couro ser estendido sobre um tronco teria adquirido novas propriedades que
o fazia resistente à putrefação.
As propriedades do sal como meio de conservação de peles é conhecida há
milênios e como alguns sais contém alúmen aceita-se, também, a descoberta
acidental deste mineral.
Segundo Vallejo (1944), 3.600 anos A.C. era ensinado aos sidonios a arte
do processamento da pele para uso em vestuário, constituindo-se a preparação de
peles na mais antiga indústria de processamento para vestuário, com enfoque nos
conceitos de qualidade e formação de mão de obra. Nesse período, os povos
primitivos desconheciam os princípios da tecelagem e mais tarde, os hebreus
inventaram o pergaminho para registro do pensamento. Assim, os fatos sugerem
que o progresso da civilização esteve alicerçado desde os primórdios, na
utilização do couro para proteção (tendas, tapetes, almofadas, vestuário),
locomoção (velas para embarcações, celas para montarias), defesa (couraças e
escudos) e utensilios domésticos (vasos e copos) permitindo as migrações
humanas através dos continentes. Porém, sem dúvida, a maior contribuição do
couro para a humanidade, durante essa caminhada, foi o registro da história.
A indústria do couro tem evoluído visando a oferta de produtos
competitivos, alicerçados na proteção ambiental e no emprego de máquinas
“inteligentes” movidas a energia elétrica e tempo controlado de ação. Todavia, no
meio rural, princípios primitivos de curtimento estão acessíveis a qualquer
produtor, todavia, como o aprendizado exige prática, só um curtidor experiente é
capaz de converter couros e peles secos e ásperos em curtido de qualidade
transformando-os em material agradável e atrativo. É interessante salientar que
devido as diferenças de processamento, não são comparáveis os curtimentos de
origem industrial com os de origem artesanal, pois o acabamento será diferente
devido a limitação do uso de reagentes e de equipamentos.

2. Produtos obtidos com as peles de pequenos ruminantes

Os criadores podem oferecer aos curtumes a pele resultante do abate para


consumo doméstico ou processá-la para auferir valor agregado.
As peles provenientes de ovinos lanados diferem em características das
peles cobertas por pêlos. Estas apresentam uma estrutura mais compacta, por isso,
após o processamento, as napas (pele depilada e tingida) terão mais brilho e
resistência do que as oriundas de peles lanadas. As peles provenientes de ovinos
mestiços (cruzamento de animais lanados com deslanados) possuem qualidade
inferior devido ao choque entre raças, pois estas apresentam variação de textura na
área de aproveitamento industrial. Ovinos lanados do tipo Crioulo produzem peles
com características especiais de suavidade e resistência, resultando em napas
similares àquelas produzidas por caprinos e deslanados.

2.1 Utilização da pele de pequenos ruminantes na indústria


2.1.1 Processamento da pele lanada
A pele lanada é processada no estado natural, com lã ou depilada.

2.1.1.1 Processamento no estado natural, com lã íntegra - para uso na


decoração, em formato natural ou recortes para confecção de artigos;

2.1.1.2 Processamento no estado natural com rebaixamento da cobertura de


lã a 5 mm - para utilização em vestuário (forrinho, napalã) e artigos diversos;

2.1.1.3 Processamento no estado natural com rebaixamento da cobertura de


lã e uso de produtos químicos específicos - para produção de artigos
terapêuticos ou medicinais (forro de colchões para prematuros, pacientes
terminais, queimados, repouso e fisioterapia).

2.1.1.4 Processamento no estado natural com remoção da cobertura de lã -


para utilização em vestuário (forrinho, napa) e artigos decorativos;

Os produtos manufaturados de pele lanada existentes no mercado são: Pele


Decoração, Pele Medicinal, Forrinho e Gamulã (confeccionados com a pele
inteira); rolos para pinturas, boinas para polimento, tapetes, almofadas, pufes,
animais decorativos, pantufas, toucas, palmilhas, luvas, casacos e forro para
calçados (confeccionados com recortes).

2.1.2 Processamento da pele deslanada


A pele deslanada de ovinos e caprinos é processada após a remoção dos
pêlos para uso em vestuário (napas e forrinho) e para outras finalidades
(pergaminho). Os produtos disponíveis no comércio são basicamente para
vestuário (casacos, saias e luvas), podem ser encontrados artigos decorativos e
pergaminho.
Os retalhos excedentes da pele lanada são transformados em tiras e tecidos
em tear primitivo para a produção de tapetes artesanais que imitam uma superfície
com lã, enquanto os retalhos de peles deslanadas, pelo mesmo processo, são
transformados em colchas, imitando um tecido de camurça.

2.2 Utilização da pele de pequenos ruminantes no artesanato


No ecossistema dos Campos Sulinos, com predominância no Pampa,
observa-se o crescimento de uma indústria doméstica, de conhecimento popular
para o aproveitamento das peles de pequenos ruminantes. Esse conhecimento
tradicional, foi transmitido de geração em geração, desde as guerras entre Portugal
e Espanha durante a demarcação da linha divisória entre o Rio Grande do Sul e
Uruguai, conforme Pont (1983). Naquela época peles ovinas eram transformadas
em pelegos para montaria, enquanto as peles de caprinos eram depiladas e
utilizadas em finas tranças para acabamento dos aperos. Hoje, esses produtos
oriundos do abate, para consumo doméstico, visam atender nichos de mercado. A
pele de cordeiro é valorizada como decoração e a de ovino adulto, como pelego
para montaria. O couro de cabra é transformado em “lonca”ou pele depilada
utilizada na indumentária tradicional ou em instrumentos musicais de Escolas de
Samba e rituais religiosos.

3. Características das peles


3.1 Pele lanada
Atentos para as necessidades dos curtumes e de curtidores artesanais Vaz
et al. (2002) trabalhando com cordeiros de cinco raças, criados em campos
naturais do bioma Pampa e abatidos aos 150 dias de idade avaliaram as
características do carnal e a cobertura lanar após o curtimento (Tabela 1). Embora
a raça Texel apresentasse carnal mais resistente, a superfície lanada continha
fibras ásperas ao tato e sem brilho o que inviabiliza o produto para uso em
decoração ou fins terapêuticos, todavia pela resistência e a densidade de fibras por
unidade de área, pode se constituir em excelente artigo para uso em montaria
(Pelego) ou produção de boinas para polimento e rolos para pintura. A raça
Romney Marsh apresenta brilho na lã, porém pouca densidade de fibras o que
inviabiliza o uso em montarias, pele terapêutica ou rolos para pintura, sendo
indicada para decoração. As peles das raças Corriedale e Ideal apresentaram o
carnal com pouca resistência, sendo a superfície lanada compatível para uso em
diversos produtos, exceto aqueles que exijam muito atrito. As peles provenientes
da raça Merino apresentaram qualidade para uso em terapia hospitalar e pelegos,
com carnal resistente e densidade de fibras por unidade de área, salientando-se a
característica de resiliência.

3.2 Pele deslanada


As peles deslanadas apresentam carnal com resistência superior à
observada nas peles provenientes de ovinos lanados, faz exceção à raça Crioula
que possui pele resistente e macia. As napas produzidas pelas peles deslanada e da
raça ovina Crioula são superiores em resistência, maciez e brilho.

4. Cuidados com as peles


Para que a pele tenha qualidade e o produtor possa obter melhor
remuneração pela matéria prima, cuidados devem ser observados desde a compra
dos animais, boas práticas de manejo antes, durante e após o abate garantem
produtos de qualidade.

A observação de boas práticas de manejo resulta em mais desfrute do


rebanho e geração de renda, sendo a comercialização das peles obtidas de abates
para consumo doméstico um interessante agregado de renda que pode valer até
15% do preço de um animal vivo ou no mínimo o dobro se processada na fazenda.
Todavia, para a obtenção de uma pele lanada de boa qualidade há necessidade de
cuidados extras, pois a cobertura de lã é a característica mais importante e a que
sofre mais com o manejo, antes e após o abate, por possuir glândulas para
lubrificação da fibra onde começa a ação de bactérias que determinam queda de lã
e falta de resistência do couro. Por outro lado, sob condições normais, a oferta de
pequenos ruminantes para o frigorífico é procedida com base no quilo vivo, sendo
a pele e a lã, acessórios do peso corporal. Quando o pagamento é feito pela
indústria da carne, com referência ao rendimento de carcaça, o peso vivo pré abate
fica excluído e o produtor não será remunerado em função aos cuidados
dispensados para produção de uma pele de qualidade. Assim, ocorre uma
dissociação entre o produtor e a indústria peleteira que necessita de matéria prima
com qualidade. Enquanto o primeiro fica desestimulado, os curtumes remuneram
a indústria frigorífica por uma matéria prima que pode conter problemas desde sua
origem.

Vaz e Oliveira (2001) atendendo uma demanda da indústria gaúcha de


peles diagnosticaram a incidência dos principais defeitos da pele lanada obtida de
abate doméstico. O levantamento avaliou 30.177 peles, produzidas durante 10
anos (1987/1997) por 1.882 associados de uma Cooperativa de Lãs do Rio Grande
do Sul. Os resultados (Quadro 1), mostraram que 20.098 peles/pelegos (66,6% do
total avaliado), apresentaram os mais variados defeitos considerados numa escala,
sob três níveis de intensidade. Corte, mortandade e punilha foram os principais
defeitos constatados, sendo percentualmente semelhantes em intensidade, porém,
juntos representaram mais da metade das peles defeituosas. De uma maneira geral,
estas estão relacionadas a práticas deficientes de extração e de conservação da
matéria prima durante a produção. Outro detalhe importante observado foi a
variação na incidência de defeitos conforme a estação do ano. Durante os meses
de clima quente aumentaram os prejuízos pela ação da punilha (larva de
coleóptero), piques de tesoura e deterioração (pele azeda), enquanto que nos
meses de inverno ocorreu maior incidência de roedores e sementes tipo
carrapicho. Desse modo, as perdas ocorreram também, antes do abate, como nos
piques de tesoura e na agregação de sementes à lã, ou depois, como na presença
de punilha, peles azedas e roídas. Nesse sentido, a classificação comercial indicou
que do total, 1.090 (3,61 %) unidades com defeitos estavam extremamente
prejudicadas, por isso, sem valor comercial.

Peles frescas (12.150), Tipo Adulto e Borrego com Lãs obtidas de abate
industrial foram avaliados por Vaz et al. (2001) quanto à classificação comercial:
89 % das peles eram de Primeira, 8,2 % de Segunda e 2,8 % de Terceira
Qualidade. As Peles de Segunda e Terceira apresentaram defeitos ocasionados por
cortes, excesso de tração (rompimento, esgassamento), manchas na lã por
produtos defensivos e falta de formato (mal riscadas). Nas peles de Primeira
foram observados cortes e rompimentos localizados fora da área de
aproveitamento industrial, hematomas e absessos dentro. Nas peles de Terceira,
cortes, rompimentos e bernes na área de aproveitamento industrial. Em 97 % das
peles Tipo Borrego com Lã observou-se lesões, desde reações cicatriciais até
absessos, causados pela flexilha - semente de gramínea do gênero Stipa (Stipa
sp.), que desapareceram após o resfriamento e a adição de sal, porém ficaram
visíveis após o processamento. Neste caso, apenas 0,5% das peles foram integras
após o processamento. Outro trabalho quantificou os defeitos quanto a qualidade
comercial de peles obtidas da indústria frigorífica (Tabela 2).

Os resultados indicaram que em 80 peles Borregos com Lã classificadas


como de Primeira Qualidade, uma (1,25 %) não possuía defeitos, 47 peles (100
%) apresentaram um defeito e as demais (32) apresentaram 2 ou 3 defeitos.
Entretanto, com 2 ou 3 defeitos aumentaram as perdas de qualidade, passando de
Segunda a Refugo. Da amostra, 104 peles (98,75 %) apresentavam lesões por
flexilha sob diferentes graus de cicatrização, não observadas durante a avaliação
industrial.

Os resultados sugerem que o efeito da agressão sobre a pele nem sempre


condena a qualidade industrial. Provavelmente, o defeito determina o produto final,
pois rugas e lesões por flexilha são defeitos aceitáveis para Forro e Pele Decoração
e condenáveis para Vestuário. Assim como falta de densidade de fibras por
unidade de área não é indicada para Decoração e Pele Medicinal, mas para Forro e
Vestuário. Peles com cortes e rasgões podem ser recortadas e transformadas em
Tapetes ou outros artigos.
Por outro lado, peles lanadas classificadas como de Primeira, oriundas de
frigorífico, podem apresentar sérios defeitos chegando a inviabilizar o acabamento
de até 13% das unidades sob processamento. O problema está relacionado com a
conservação durante o transporte.
O criador deve atentar para os seguintes cuidados com a pele:
4.1 Cuidados antes do abate
4.1.1 - Tosquiar os ovinos de consumo 60 dias antes do abate, pois a indústria
valoriza as peles classificadas com altura de lã equivalente a esse período pós
tosquia. Além disso, os cortes provocados pela tesoura, durante a esquila, estarão
cicatrizados no momento do abate e a lã obtida se constitui em agregado de renda;
4.1.2 - Marcar os ovinos com tinta própria para lã, de fácil remoção ao lavado ou
identificá-los com sinais (recortes) ou brincos nas orelhas;
4.1.3 - Evitar traumatismos acidentais: manter os potreiros de campo nativo
roçados na primavera para evitar a produção de sementes de “Flexilha” que
produz abscessos ao penetrar na pele dos cordeiros causando lesões permanentes.
Conservar troncos, currais e aramados em bom estado, evitando tábuas e
parafusos soltos ou pontas de arame que causam traumatismos e lesões na pele.
Transportar os animais em veículos com carrocerias apropriadas, livres de agentes
que possam traumatizá-los. Evitar a aplicação de injeções subcutâneas em áreas
nobres da pele, procurando as regiões desprovidas de lã (axilas e virilha). Tratar
miíases e bernes.

4.2 Cuidados durante o abate


4.2.1 - O primeiro corte para remoção da pele deve ser reto, partindo do queixo à
extremidade da cauda. Este será atravessado por dois cortes perpendiculares que
unem a face interna dos braços e a face interna das pernas. O conjunto destes
cortes denomina-se de Risco e tem a finalidade de orientar o formato da pele.
Durante a esfola não sujar a face interna da pele (carnal) com sangue ou conteúdo
intestinal, se necessário lavar ligeiramente o carnal;

4.2.2 - Evitar cortes e rompimentos na pele (usar faca romba depois do risco e
manter uma tração moderada utilizando o punho para separar a pele da carcaça);

4.2.3 - Retirar o excesso de gordura e carne externas ao carnal, aparar o excesso


das extremidades da pele (garras). Se possível deixar a cauda com 10 cm de
comprimento, as patas podem ser aparadas nas articulações do joelho e jarrete e a
cara na linha das orelhas ou dos chifres. Eliminar outros excessos
cuidadosamente, visando manter a forma original da matéria prima brutos. Na
dúvida não desgarrar. Providenciar imediatamente a salga ou estaqueamento.
4.3 Cuidados após o abate
4.3.1 - A pele lanada pode ser conservada por dois processos: salga e
estaqueamento. A salga é o processo mais econômico, pois utiliza sal grosso e não
precisa estaqueamento, nem utilizar defensivos contra pragas. No estaqueamento
evitar o uso de bambus ou arames, pois depreciam o carnal. Construir painéis
estaqueadores em forma de quadro (1,40 m x 2,0 m) a) revestido por tecido de
juta, onde o carnal será comprimido contra a tela (massagem do centro da pele
para as extremidades) até que a pele fique aderida, b) suporte de madeira
construído com ripas de 1,40 m e 2,0 m x 5 cm x 2 cm onde são fixadas laçadas
de borracha munidas de ganchos para esticar a pele. Neste processo, a medida que
a pele seca vai encolhendo, enquanto a borracha vai cedendo mantendo a forma
natural da matéria prima. Cuidado, nesta etapa, a pele lanada pode sofrer
alterações por ação de bactérias associadas ao calor e a umidade, que causam o
desprendimento das fibras de lã ou o rompimento do couro durante o
processamento industrial;
4.3.2 - Secar a pele a sombra, mantendo o painel inclinado em um ângulo
aproximado de 45 graus, protegendo-a do orvalho e da chuva;

4.3.3 - Depois de secas, empilhar as peças em local ventilado e seco, protegendo-


as contra ratos, traças e punilhas (larvas de um cascudo) que se multiplicam nas
peles conservadas por estaqueamento, os danos são severos e inutilizam a matéria
prima, causando cortes no carnal, enquanto as traças cortam as fibras de lã ou
pêlos. A remoção do excesso de garras e a vigilância periódica se constituem em
importante arma de combate, que pode ser associada ao uso de defensivos
(pulverização com carrapaticidas piretróides). É aconselhável armazenar as peles
em pilhas individuais, para caprinos ou ovinos, com altura máxima de 50 cm .
Todavia, a comercialização periódica evita estes transtornos.

3.3.4 - Manusear a pele com cuidado evitando dobrá-la. Utilizar as duas mãos na
manipulação das peças, para evitar rompimentos.

4. Casos de sucesso
4.1 Produção de pelegos para uso em montarias
Os ovinos crioulos, até a homologação da raça, em 2001, eram criados sob
regime de economia familiar, sendo a produção de pelegos, para uso em
montarias, uma forma de desfrute do rebanho, já que, em condições de abate
doméstico a carne faz parte do cardápio familiar, ou no máximo, comercializada
em eventos festivos. Desse modo, o pelego preto foi um dos pilares da
conservação desses ovinos, tanto no estado puro, como em cruzamentos, para
atender um elo importante da cultura gaúcha, dentro da cadeia produtiva.

É interessante observar que o preço de um pelego varia conforme o tamanho,


altura da lã e coloração das fibras, sendo os mais valiosos para a indústria
artesanal aqueles com fibras negras. A equivalência entre preço do pelego preto in
natura equivale a 1 ou 1,5 vezes o preço da carcaça e 5 vezes o valor da carcaça,
após o processamento.

O mercado exige tamanhos diferentes: no sul do Estado os pelegos devem ter


dimensão menor, para se adequarem às celas, enquanto no norte, nordeste e outros
estados, devem possuir o dobro do tamanho e maior comprimento de lã, para
atender o tradicionalismo. Cada propriedade tradicional possui o seu sistema de
produção.

4.1.1 Técnica primitiva da fronteira gaúcha para aproveitamento de pelegos


(adaptação de Sílvio Reis Duarte).

Após o abate e esfola correta com a mão, salgar fartamente o pelego com sal
fino, dobrá-lo ao meio (carnal com carnal) e deixá-lo em repouso por
aproximadamente 8 h no verão ou 16 h. no inverno;

● Estaquear o pelego mantendo o formato natural esticando bem, no sentido


longitudinal para dar comprimento;

● Esticar no sentido transversal para dar largura à pele. Nos pelegos, o ponto
crítico está situado na altura das axilas, por isso esticar ao máximo essa região;

● Manter o pelego na sombra, abrigando-o a noite, até que o carnal esteja rígido,
(seco);
● Remover o excesso de sal;

● Empilhar os pelegos, carnal com carnal, em mesa, a prova de ratos.

● Repouso durante 60 dias para obtenção de carnal em tom cremoso. Um período


maior significa carnal de tom amarelado com maior procura;

● Para evitar punilha e traça intercalar cada peça com folhas de eucalipto, aroeira
ou louro.

● O tempo de armazenamento nesta etapa varia conforme as necessidades de


tempo. Em períodos de muita umidade e na presença de carnal “chorando” levar
os pelegos ao sol, com exposição do carnal, até voltar à normalidade.

● Lavado: sacudir delicadamente o pelego para a remoção do sal, se necessário;

● Colocá-lo flutuando em uma superfície com água, com o carnal para baixo, por
aproximadamente quatro horas para rehidratação;

● Colocar o pelego em cima de uma lona e remover o excesso de sujeira, com


água fria e massagens suaves;

● Remover o excesso de sujeira;

● Ensaboar com sabão em barra;

● Cobrir com lona plástica enquanto lava outra peça. Atenção: excesso de calor
pode afrouxar a lã!...

● Enxaguar e ensaboar novamente quantas vezes necessárias, até completa


remoção da sujeira;

● Escorrer a água e estaquear pelo lado do carnal, para manter a forma;

● Pendurar o pelego pela cabeça para exposição ao ar;

● Bater a lã com um bastão para soltar fragmentos vegetais, pentear as mechas e


ajudar na secagem;

● Aguardar até que o pelego esteja seco;

● Remover as estacas e cortar no formato dos arreios;


● Sovar a mão utilizando a gordura natural. Pode utilizar quantidades discretas de
nata azeda ou óleo de mocotó nesta operação;

● Colocar o pelego em um cavalete e rebaixar a altura da lã eliminando as pontas


queimadas pela intempérie.

4.1.1.1 Dicas de qualidade

● Preservar o ambiente colocando os efluentes com resíduos em um fosso para


decantação;

● Os melhores pelegos pretos são produzidos por ovinos de 4 a 6 dentes,


correspondente entre dois e três anos de idade;

● Pelegos com intervalo de tosquia entre 12 meses apresentam defeitos, pois são
marcados nas regiões de atrito, devido ao comprimento de mecha;

● O comprimento da lã deve alto, pois durante a toalete, o artesão irá dar altura
compatível a uma boa resiliência;

● Tosquiar o ovino antes do abate na região do risco da pele;

● O risco entre os quartos deve passar na altura dos glúteos pois o comprimento
do pelego é limitado pela inserção da cauda.

4.1.2 Técnica primitiva utilizada na Serra do Sudeste do Rio Grande do Sul


para preparar pelegos e pele de cordeirinho (Fazenda Santa Anália).

● Após esfola cuidadosa com a mão, lavar ligeiramente as partes sujas de sangue
e cortar excesso de garreio;

● Remover excesso de gordura e tecido subcutâneo;

● Misturar uma porção de sal em duas de alúmen (sulfato de alúmen), macerando


bem até que fique um pó;

● Passar a mistura no carnal e deixar em repouso, estendido, com a lã para baixo,


por aproximadamente uma semana;

●O carnal deve permanecer úmido. Se secar umedecê-lo com leite;

● Reaproveitar a mistura excedente.


● Lavado: colocar o pelego submerso em água corrente, por aproximadamente
meio dia;

● Remover o excesso de sujeira, com água fria e massagens;

● Ensaboar bem com sabão em barra, abrindo a lã para extrair a sujeira e agitar o
pelego na água;

● Repetir a operação e colocar o pelego ensaboado, num varal improvisado para


bater a lã visando organizar as mechas e auxiliar na limpeza;

● Enxaguar. Repetir a operação quantas vezes necessário;

● Por último deixar o pelego submerso, por algumas horas, com o carnal para
fora, para que os peixes limpem algum resíduo de carne ou gordura;

● Depois de escorrido, estaquear o pelego pelo carnal, esticando bem;

● Bater a lã com um bastão para soltar fragmentos vegetais e facilitar a secagem;

● Manter o pelego na sombra, durante as horas mais quentes do dia e abrigá-lo a


noite;

● Quando o carnal estiver ligeiramente úmido, remover as estacas e massageá-lo


com nata cozida;

● Levar a pele ao sol e repetir a operação se desejar maior maciez;

● Levar o pelego a uma mesa e sovar o carnal com ajuda de uma régua, bastão ou
fundo de garrafa;

● Cortar no formato desejado.

4.1.2.1 Dicas de qualidade

● Cuidar o ambiente, eliminando os resíduos de sabão e sal em fosso de


decantação;

● O sabão derretido economiza tempo e dinheiro, pois facilita a limpeza


(acrescentar uma porção de aproximadamente meio copo de sabão derretido em
um balde de água, agitar e distribuir aos poucos sobre a pele, massageando). Por
este processo uma barra de sabão é suficiente para lavar até três pelegos.

● esta técnica garante um produto livre de “choro”;


● Os melhores pelegos pretos são obtidos de borregos crioulos nascidos no outono
e abatidos com um ano de idade, com lã inteira;

● O comprimento do pelego em função da largura é obtido da seguinte maneira:


Fixar uma estaca longa da ponta do focinho à cauda. Transfixar estacas em “X”
esticando na diagonal mão e pata. Colocar estaca auxiliar para dar comprimento
ao pelego, lateralmente ao pescoço, entre o encontro e a parte posterior. Por
último usar estacas transverais, estaqueando com bastante força a região entre as
axilas e moderadamente as regiões central e entre as virilhas;
● Pendurar o pelego pelo posterior e colocar peso na cabeça contribui para
aumentar o comprimento.

4.2 Produção de peles para usos diversos Artesanato Kurt Couros (técnicas
adaptadas por João Luis de Carvalho)

Este artesanato é um prestador de serviço sob regime de economia familiar


há três gerações. Atende os clientes e nas horas vagas compra matéria prima para
processamento e comercialização local ou em feiras.

A produção de artigos fica limitada e dificultada devido à falta de


equipamentos apropriados. Mesmo assim são produzidos pelegos em série, onde o
acabamento de cada unidade dependerá de fatores climáticos (desde uma semana,
no verão, até um mês, no inverno). Atende produtores rurais, empresários e
artesãos. Utiliza curtimento com cromo para couros, pelegos acabados e peles,
para uso em tapetes, decoração, montaria e vestuário. Há pedidos para
processamento de pele lanada até a fase de wet blue.

Conforme o cliente utiliza curtimento à base vegetal (tanino) e depilação


com cal para peles lanadas e de caprinos para produção de bolsas, vestuário,
calçados e forros para móveis.

As peles de caprinos podem ser processadas depiladas ou revestidas de


pêlos. Durante o inverno aumenta a procura por peles de caprinos da raça
Angorá, para decoração e na primavera/verão por lonca (pergaminho no estado
bruto). Os clientes são artesãos, intermediários e escolas de samba e os produtos
finais: acabamento de vestuário, indumentária gaúcha, cintos, chaveiros, objetos
de decoração e instrumentos musicais. Recebe pele de ovinos deslanados para
processamento de lonca.

4.2.1 Produção de lonca (técnica tradicional adaptada por João Luis de


Carvalho)

● Reverdecimento do couro seco;

● Descarnar o couro ligeiramente eliminando as sobras;

● Preparar uma solução com cal apagada (concentração 1 a 4 kG de cal para 100
Lt de água);

● Submergir a(s) pele(s) na cuba durante três dias, retirando as peles e revolvendo
a solução duas vezes ao dia;

● No final do terceiro dia eliminar a solução em uso e acrescentar uma solução


nova;

● Manter as peles nesta solução por mais três dias e trocar a solução de cal;

● Repetir a operação. Até o décimo dia a pele está pronta para a depilação;

● Depilação; O momento adequado para a depilação se determina passando o


polegar contra os pelos, os quais devem se desprender ser resistência;

● Descarne (a solução de cal incha a hipoderme facilitando a operação). As


camadas mais profundas da pele devem ficar lisas, limpa e sem cortes. Usar faca
afiada;

● Colocar a pele em remolho de solução de cal por um dia e raspar a flor (lado
depilado) novamente, para limpar os restos de pelos e folículos;

● Lavar muito bem;

● Estaquear usando pregos e secar a sombra;

● Enrolar a pele seca no sentido longitudinal para armazenamento.

4.2.2 Dicas de qualidade

● Nunca preparar uma solução de cal com as peles dentro da tina, pois pode
causar queimaduras;
● A cal pode ser substituída por cinza fresca;
● A depilação deve ser feita com objeto rombo (sem fio);
● Evitar o sol durante o processamento para não escurecer o produto.
● Usar luvas e proteger o ambiente

5. Considerações finais
Embora o produto final exija cuidado e trabalho adicionais, o
processamento das peles de pequenos ruminantes é uma atividade gratificante que
pode envolver a família para agregar valor aos subprodutos do abate para
consumo doméstico de carne.

6. Referências bibliográficas

PONT, R.Campos Realengos. Formação da fronteira sudoeste do Rio Grande


do Sul. Edigal. 1:19-114. 450p. 1983.

VALLEJO, J.F. Curtidos de Cueros – Manuales Hobby 2. Ed. Graf Castramán


Hermanos. 1:3-5. 173p. 1944

VAZ, C.M.S.L.; OLIVEIRA, N.M. de. Problemas associados à qualidade das


peles de ovinos lanados provenientes de abate doméstico no Rio Grande do Sul.
Bagé: Embrapa CPPSUL, 2001. 3p. (Comunicado Técnico 47)

VAZ, C.M.S.L.; OLIVEIRA, N.M. de; BORBA, M. Problemas associados à


qualidade das peles de ovinos lanados provenientes de abate industrial no Rio
Grande do Sul. Bagé: Embrapa CPPSUL, 2001. 2p. (Comunicado Técnico 46)

VAZ, C.M.S.L.; MONTEIRO, E.; OLIVEIRA, N.M. de; Características e


produto final das peles de cordeiros de diferentes raças, criados no mesmo
ambiente e abatidos aos 150 dias de idade. Rev O Couro ed. Maio. 2002, p. 18-
21.
Anexos

Tabela 1. Características industriais de peles processadas Tipo Decoração obtidas

de cordeiros desmamados aos 90 dias, suplementados até o abate aos 150 dias de

idade.

Raça/Quantidade Características da lã Características do carnal

Ideal - 16 Feltro na base, sem resistência. Pouco resistente

Altura: 30/40; 40/50 mm

Merino - 20 Altura pouco uniforme, com resistência. Pouco resistente

Altura: 20/30; 30/40; 40/50 mm

Corriedale - 19 Feltro na base, sem resistência. Normal a fino

Altura: 40; 40/50 mm

Romney - 18 Feltro na base, sem resistência, pouca Normal, discretamente fino.

densidade. Altura: 40/50 mm


Grau de Defeito Percentual
intensidade encontrado
do defeito Parcial Total

Alto Corte 19,8


mortandade 18,7
punilha 17,3
55,8
Moderado rasgada 4,8
queimada 9,1
piques de tesoura 7,4
gordurosa 7,7
azeda 3,1
esgassada 4,7
36,8
Baixo resistência 1,2
marcas de taquara 0,7
semente 1,0
rugas 0,2
roídas 1,7
desgarradas 1,4
berne 0,1
pretas 0,9
sangue 0,1
flexilha 0,1
7,4
Total peles 20.098

QUADRO 1. Incidência de defeitos (%) em peles ovinas obtidas de abate


doméstico na metade sul do Rio Grande do Sul

Tabela 2. Quantificação dos defeitos quanto a classificação comercial de peles


Tipo Borrego com Lã, obtidas por amostragem na indústria frigorífica (%).

Nº.de PRIMEIRA SEGUNDA TERCEIRA REFUGO TOTAL


defeitos Nº. (%) Nº. (%) Nº. (%) Nº. Nº. (%)
(%)
0 1 100 1 1,25
1 47 100 47 58,75
2 22 62,9 11 31,4 2 5,7 35 27,5
3 10 45,5 2 9,1 3 13,6 7 31,8 22 12,5
105