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SIMBOLIZAÇÃO PRIMÁRIA E OS LIMITES

DA TÉCNICA NO MANEJO DOS AFETOS


E DA SENSORIALIDADE

Paulo de Carvalho Ribeiro

A teoria da simbolização primária de Roussillon

Em seu capítulo sobre o trabalho de simbolização, Roussillon

(2012) nos traz algumas hipóteses sobre os momentos constitutivos do


psiquismo. A natureza das primeiras inscrições que funcionam
como

matéria-prima para a formação do sujeito, e as transformações que


elas sofrem em diferentes momentos de interação com os primeiros
constituem eixo principal de uma teoria da simbolização
objetos, o

construida em permanente diálogo com Freud e outros autores.

A diferenciação entre simbolizaço primária e secundária, a


importância concedida à reflexividade no processo de subjetivação e
a necessidade de superação da ideia de que a simbolização depende
da ausência do objeto são pressupostos de base que nortearão todo o
desenvolvimento teóric0 apresentado.
Essa simbolização constitutiva da subjetividade, que acontece
na presença do objeto, vai no sentido oposto às teorias que lançam
mão do autoengendramento da simbolização a partir de uma redução
relacionada ao narcisismo primário e a mecanismo de
masoquista
coexcitação. Segundo essa perspectiva, da qual Roussillon distancia,
se

a diminuição do investimento no objeto,


necessária ao surgimento de
uma representação que não se confunde com a percepção, dependeria
de uma ligação do investimento, que se daria pela via do masoquismo
e da coexcitação.
Paralelamente a essa crítica ao autoengendramento da simbo-
via masoquista, Roussillon associa a simbolização na
lização pela
Paulo de Carvalho Ribeiro
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com a superação da relação de exclusão, tal como


presença do objeto UmaOmo
alucinação. Uma
e
encontrada em Freud, entre percepção e outra
de forma simultänea e essa simis
coisa estariam presentes
a tese winnicottiana da
idade
dade
nos ajudaria
primária,
a compreender
criatividade
segundo a qual o objeto e criado/ encontrado na perces Pção/

alucinaçãão.
Tendo apresentado esses pontos fundamentais, Roussillon passa
a discutiro problema da simbolização primária. Para tentaresecapar
teorica, ele se propõe a levarar
do que descreve como uma babelizaçao
tais como os de pictogram.
em consideração diferentes Conceitos,
de demar
(Aulagnier), significante formal (Anzieu), signiticantes
(M.Pinol-Douriez) meio e
cação (Rosolato), protorrepresentaçoestodos do conceito de simbo.
maleável (M. Milner), aproximando-os
assim ao campo da metapsicologia
lização primária e vinculando-os
freudiana.
A simbolização primária é descrita, grosso modo, como um grupo

elementares que descrevem uma ação


ou um movimento
de processos
entre eles para formar
simples, podendo acontecer combinações
verdadeiros cenários. Além
conjuntos mais amplos, comparáveis a elemen-
dessa hipótese sobre a combinação dos diversos processos
tares, Roussillon propõe duas outras hipóteses
sobre a simbolização
perspectiva da interação precoce com o objeto,
primária fundadas na
fabricaçao
a saber, a hipótese de uma participação do ambiente na

desses processos elementares e a hipótese de que o compartilhameno


desses processos, que contribuem para sua organização em linguas
e condição para a própria existência da simbolização primara. de
Trata-se, com essas hipóteses, de estabelecer a importana
Ienómenos que poderíamos incluir numa categoria geral de le )e
e

mitativos (palavra que não é utilizada por Roussillon nesse


cuja ilustração é dada pela referência às observações das intera
Aexist
precoces entre mes e bebês realizadas por Stern (2000).denominaa
de sistemas de acoplamento ou ajustamento (accordage) terações

de nessa"
intermodais ou transmodais torna-se evidenteque determl
um dete
PTecoces onde se pode constatar, por exemplo, que
meio des
nado movimento do bebê é mimetizado pela mae por Com a aça0
- uyo ritm0, intensidade e timbre guardam uma relaçao d e s i g n a resses

observada. Stern utiliza o termo accordage affectif2ensão


para afetiva, essa2
Tenömenos. Roussillon assinala
que, além da dimeda
Simbolização primária e os limites da técnica .. 73

sintonia se dá também no campo estésico, ou seja, envolve os processos


sensório-motores.
Somos então conduzidos à seguinte hipótese
apresentada por
Roussillon: uma plena utilização desses processos elementares quue
participam da simbolização primária (pictograma, significantes formais,
mimetismos) supõe uma forma de narração e um reconhecimento pelo
ambiente humano. Aquilo que é encenado pelo bebè precisa ser reco-
nhecido e compartilhado pelas pessoas significativas do ambiente, para
que adquiram de fato uma efetividade simbólica. Em outras palavras,
Roussillon parece querer dizer que a reflexividade necessária à consti-
tuição do sujeito psíquico advém dos diversos recursos de espelhamento
utilizados pelo ambiente.
Roussillon conclui sua apresentação da simbolização primária
referindo-se ao conceito de meio maleável proposto por Milner (1952)
e associando-o a um objeto transicional da simbolização, capaz de
assegurar a existência de um modo primitivo de relação, sem o qual
nenhuma simbolização é possível.

Comentário sobre a teoria da simbolização primária

A primeira coisa a ser comentada sobre a teoria da simboli-


zação primária de Roussillon é a insuficiència de sua articulação com
a metapsicologia freudiana. Sua proposta de superar a "babelização"
teórica, transformando a dispersão de conceitos correlatos numa
síntese conceitual assentada no campo metapsicológico não me
parece ter sido realizada a contento. Não se trata, de minha parte, de
estabelecer como imprescindível a articulação de qualquer conceito
psicanalítico com a metapsicologia freudiana. Diferentemente de
Roussillon, chego a pensar que o pensamento de Freud a respeito das
origens do psiquismo deixa muito a desejar, e que talvez fosse o caso
de nos libertarmos um pouco da metapsicologia e nos permitirmos

explorar utros campos, comoo das neurocièncias, por exemplo, no


intuito de avançarmos na compreensão das origens do psiquismo.
Permanece, porém, o fato inegável de que várias pistas deixadas por
Freud são altamente férteis e se impõem aos estudiosos da origem
do psiquismo. Uma delas, mencionada por Roussillon nesse capítulo
Paulo de Carvalho Ribeiro
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simbolização, sao oS conceit0s de masoquismo ne..


sobre a
Penso que uma tentativa de aproximar osn
imário e
de coexcitação. ocessos
de simbolizaç o da metapsicologia reauerPOCessos
elementares

obrigatória por esses


conceitos, mas nao na perspectiva do em
gendramento da simbolizaçao ligada a uma situação de narcisism autoen
em objeto. Pensar o masoquismo e a coexcitação sem
abrir meo0
do objeto me parece ser o desario teorico a ser enfrentado mão
apenas de indicação
de uma possibilidade de enfrentá-lo fa
em
seguida, uma breve incursão na teoria da seduç o generalizada de

Laplanche.
Ao repensar os fundamentos da psicanalise e propor sua teoria
da sedução generalizada, Laplanche concede ao masoquismo e ao
conceito freudiano de coexcitação um lugar de destaque. Seguindo
alguns marcos estabelecidos por ele em seu texto de 1992 sobre o
masoquismo, pode-se constatar que a incidência da sexualidade
inconsciente do adulto sobre a criança impõe o masoquismo como
O posição libidinal originária. Os fatores determinantes dessa posição
masoquista originária são a passividade da criança perante a inevitável
inoculação da sexualidade pelo adulto, o caráter invasivo dessa inocu-
lação, a prioridade do registro corporal nesseprocesso ea conexão
inevit vel dessa inoculação com a produção fantasmática na criança.
Se a manipulação de seu corpo é a condição fundamental da
sobrevivência do bebê, podemos afirmar, seguindo Jacques Andre
(1995), que originariamenteo corpo do bebê é uma superficieexposta
a invasão e à imposição de sensações. Torna-se, assim, evidente que
as fantasias despertadas na criança pela mensagem sexual do aaui
sempre irão trazer umareferênçia àviolência. Ao tomar a fantasia
classica bate-se
criança" ou "meu pai bate no meu irmaozil
uma
ou irmzinha" (Freud, 1919, p. 227) como exemplo
do efeito da
para digmático
sedução, Laplanche estabelece uma relação clara enue
ataque fronteiras corporais e a fantasia
às
Em suas
masoquista.
elaborações sobre "O problema econômico do ric
quismo (Freud, 1927), Laplanche aponta um extravio
comparável àquele observado no abandono das teses apresentau m
(Freud e Breuer, 1893-1895) e na cOorres-
Estudos sobre a histeria"
pondência com Fliess, ou seja, o abandono da teoria da sedução i t
matica. Ao formular sua teoria do ravia ao
ao

propor uma
masoquismo, A Freud s ulsão

explicação endogênica baseada na oposiçao c


Simbolizaçào primária e os limites da técnica .. 17

de morte e pulsão de vida. Desse ponto de vista biologizante, o maso-


quismo aparece como resultado do tratamento erótico operado pela
pulsão de vida sobre os restos internos da pulsão de morte. A fantasia
masoquista fica assim circunscrita ao masoquismo feminino e é vista
como efeito secundário das alterações sofridas pelo elemento tanático
endógeno. Paralelamente, o masoquismo moral passa a ser visto
como o estágio final, dessexualizado, em que o ego sofre a punição
do superego.
O outro ponto que nos interessa aqui particularmente é o
recurso, no texto de 1924, à teoria da coexcitação apresentada em
"Tres ensaios.." "E bem possível que nada de considerável importância
ocorra no organismo sem contribuir com algum componente para a
excitação sexual" (Freud, 1905, p. 240). Temos aqui duas possibilidades
de compreensão da coexcitação: ao valorizar as funções autoconser-
vativas, favorecemos uma visão endogênica da coexcitação, ao passo

que a importância dada ao papel sedutor do outro nos conduz a uma


concepção alteritária da coexcitaço. Laplanche não hesita em afirmar
que é necessário restabelecer o poder sedutor do outro como funda-
mento da coexcitação e substituir o papel desempenhado pela pulsäo
de morte pelo potencial traumático da sexualidade proveniente do
outro. Isso significa ver a teoria da coexcitação como um corolário da
teoria da sedução generalizada.
Podemos concluir este breve percurso sobre masoquismo e
sedução generalizada afirmando que o problema econômico do
solucionad0 ao se consideraro poder que a
masoquismo pode ser

mensagem sexual do outro tem sobre criação


a da fantasia maso-
quista e a relação dessa fantasia com as origens da sexualidade e da
simbolização. Em outras palavras,a fantasia masoquista é a expressão
libidinal da convergência da sedução originária e do surgimento da
excitação sexual.
Essas considerações nos levam a afirmar que, se de fato
Roussillon pretende se valer da metapsicologia freudiana para
promover uma síntese teórica sobre a simbolização primária, torna-se
obrigatória a consideração do papel do sexual nesses processos
elementares que dependem do reconhecimento pelo outro e sobretudo
de sua fabricação pelo outro. Quanto de sexual existe na capacidade de
acoplamento/sintonia inter e transmodal demonstrada pelo objeto, é
uma questão que nos parece fundamental.
Paulo de Carvalho Ribeiro

Tudo na teoria da simbolizaçao primária proposta por Ra.


indica a importåncia das trocas Corpora1s entre o infanto oussillon
obietos. Os processos elementares que tem suas raizes no mimat eseus
na tradução inter e transmodal de movimentos e acões esimp Smo,
capacidade de espelhamento amplo e criativo das experiências afaes, na
sivas,
sensoriais e motoras do intante não tèm como se desgarrar d catego-
,
rias tais como penetração, dominaçao, apassivação, excitação, descar
expulsão, incorporaçãoe tantas outras indissociáveis do sexual. Scarga,
Formulo, assim, minha principal pergunta sobre a teoria da
simbolização primária de Roussillon: Admitindo que a constituicão do
sujeito psíquico parte das primeiras inscrições perceptivas/alucinatórias e
passa por uma metabolização de natureza simbolizante que tem o outro
como participe e envolve destinos pulsionais cono o
masoquismo, qual
o papel e a importância do sexual na simbolização primária?

Sobre o texto "Elasticidade e limite


na clínica da
drogadicção"
Em consonância com as ideias apresentadas por Roussillon em
seu texto sobre o trabalho de simbolização, Bianca Bergamo Savietto e
Luis Claudio
Figueiredo abordamo problema da clínica com pacientes
não neuróticos, tomando
de Bion
como principal referência as contribuiçoes
(1965) sobre as transformações que, a partir de O, ou seja, d
experiència emocional inconsciente em sua condição de origem
toda a noSsa vida somatopsíquica, determinam diferentes
vicissituu
da constituição psíquica e diferentes movimentos transteren
na clinica
psicanalítica. Lançando mo de um pensamento línico
COmplex0, um caso de drogadicção é analisado sob a ótica detrês
vertices que
caracterizam três formas de expressão clinica
neca-
SnOs u
psiquicos desenvolvidos no contato do suieito em constituiy
com seus
objetos primordiais.
Oprimeirodesses vértices
Tem como protótipo a função se organizapor
denominada torno(1963)
em Bion continent
da de reve
contiie
de réverie
ou seja, uma modalidade de sonho
acordado que o agen
nencia exerce a favor do outro sujeito: a
sonha-se por eic forma
metabolizar e simbolizar suas
experiências emocionais.
Simbolização primária e os limites da técnica .. 79

O segundo vertice, baseado no confronto, relaciona-se com o


que Bion (1965) chama de intolerància à frustração e cuja caracte-
ristica definidora é a presença maciça de movimentos expulsivos dos
maus objetos intoxicantes e a obliteração da capacidade de pensar daí
advinda. A clinica do confronto constitui-se, portanto, numa colocação
de limites aos mecanismos mortiferos de pura evacuação e às fantasias
onipotentes que tanmbém participam desse ódio à realidade e dessas
resistencias psicóticas que impedema atividade de pensar.
No terceiro vértice, o da auséncia, o conceito bioniano de trans-
formação em alucinose torna-se fundamental, na medida em que pode
ser tomado como o polo oposto da experiència emocional de origem,
na qual o paciente é levado a admitir e suportar o vazio infinito e sem
forma, essencialmente incognoscível. A transformação em alucinose
nega essa experi ncia, transformando o nada em algo que preenche,
supostamente dá sentido, explica etc. Nesse caso, é preciso que o0
analista se mantenha numa posição em que O possa ser admitido.
Com sua presença reservada, ele permite a instalação de vazios na
própria mente e na mente do paciente, uma experiência da angústia
tolerada a favor da reconciliação com o nada de entes.
O relato do caso Juliana leva em conta esses três vértices e deixa
claro um movimento evolutivo que se inicia, nos primeiros tempos
da análise, com uma predominancia das clinicas da continncia e
do confronto, para atingir, num momento mais tardio do processo, a
clinica da ausência. Se, em um primeiro momento, torna-se evidente
que as insuficiências e inadequações do objeto materno intoxicante
tendiam a ser paradoxalmente sanadas pelo consumo intoxicante do
objeto-droga, os efeitos tanto da contenção quanto do confronto analí-
ticos vão gradativamente favorecendo o estabelecimento de vínculos
transferenciais estruturantes do psiquismo e garantidores de uma
reconstrução subjetiva. A clinica da ausência se instala no momento

em que a presença reservada da analista, podendo predominar sobre


os dois outros vértices clínicos, conduz à criação de uma autonomi
coisas de uma forma
dodesejo da paciente, que se descobre querendo
que nunca tinha experimentado até então.
Nesses três vértices clínicos que se conjugam para produzir o
efeito terap utico transtormador, um aspecto merece destaque: a
natureza da comunicação que se estabelece entre analista e cliente.
Em vários momentos do relato do caso deparamo-nos com afirma
çoes que ressaltam a dimensão não verbal das trocas estabelecidas no
80
Paulo de Carvalho Ribeiro

ambiente analítico e insistem em destacar a importância do


do ia
mimo-gesto-postural da comunicação aliestabelecida. Assin caráter
ocorre nas experiéncias subjetivas arcaicas, em que as COmo
trocas
e a dominam as trocas como objeto, essa
sensorialidade corporais
forma
interação tenderia também a permear a relação analítica. de
Além dessa caracteristica peculiar da comunicação, o pránei.
uso do objeto-droga, no caso em questao, e associado pelos
res
uma tentativa de estabelecer um envelope psiquico, ou seja, de sunrira
uma deficiência
estabelecimento de fronteiras psiquicas
no
que se
relacionam diretamente com as fronteiras corporais indispensáveis
à constituição e manutenção do Eu. Ao comparar a necessidade que
sente das sessões de análise com a necessidade que um viciado
sente
da cocaína, e ao manifestar o desejo de carregar no bolso sua
analista,
Juliana coloca em evidência uma imprecisão de limites que vai além
do psíquico e se confunde com fantasias de incorporação e controle
do corpo da analista.
Paralelamente à importância que sensório adquirem
o corpo e o
na análise, os movimentos transferenciais descritos pela analista de
Juliana indicam a presença das dimensöes amorosa e sexual:
Transferência repartida, a dimensão sexualizada é experimen-
tada no vínculo com o novo companheiro, enquanto a dimensao
amorosa com seus componentes de sublinmação e elaboração é expe-
no vínculo analista. Calcados na transferència,
rimentada com a
os sentimentos se bipartiram, de modo que Juliana nào é capaz
de, sozinha, dar sentido ao que sente; "fica tudo cristalizado, em
Suspenso, até ela "vir na análise" (Savietto e Figueiredo, 2013, p. 4)

AS relações de Juliana com os namorados costumavam ser


marcadas por interesses
econômicos e profissionais, ao mesmo temy
em avam-
que eram destituídas de colorido afetivo amoroso e tornavs
se fonte
permanente de decepções e sentimentos de rejeiçi
iais
portanto, uma nítida
sobreposição dos movimentos tra
que dão conta de uma nova forma de relacão como objeto e om anare
o apare
seu
Cimento da
capacidade de estar em relacão amorosa/sexua
namorado atual.
sso analítico em
eu interesse em destacar esse
aspecto do processo
primordial com
questao liga-se à tese segundo a qual
a relação prim comitoda
ODJeto, Justamente
por envolver trocas corporais macia
81
Simbolização primáriae os limites da técnica ..

criaçãoe resolução de excitações que elas acarretam, não têm


como
a
Isso faz trabalho
não se inscrever no registro do sexual. com que o

clinico psicanalitico, e principalmente aquele que envolve os vértices


da contenção e do confronto, na medida em que reproduz e parcial
mente refaz a situação primordial de constituição do sujeito, deveria,
obrigatoriamente, valer-se de recursos técnicos que envolvem o corpo
eo sensório. Mas aqui reside, a meu ver, todo o problema, uma vez

que tais recursos não teriam como se sexual, da mesma forma


livrar do
sexual permeie seus afetos e
que uma m e não tem como evitar que o
seus cuidados dirigidos ao bebê. Existe, portanto, uma desproporção
entre a importância concedida pelos psicanalistas das relações de
objeto às formas não verbais de análise de pacientes não
interação na

neuróticos, e a efetiva capacidade de lidar com afetos cuja expressão e


Saber
manejo exigem trocas que vo muito além da linguagem verbal.
percebere compreender as formas de expressão mimo-gesto-postu-
rais, demonstrar empatia diante das autênticas manifestações afetivas
dos pacientes, tais como o choro, a raiva ea alegria, são pré-requisitos
básicos para a condução de uma análise, mas não me parecem sufi-
cientes. Interpretar as fantasias, os desejos e a transferência tampouico
me parece um procedimento à altura do efeito de reconstituição de
experiênciasfundantes que se pretende produzir na clíinica desses
pacientes não neuróticos. Qual seria, então, a solução para esse que
considero um dos maiores impasses da clinica psicanalítica em geral
e sobretudo da clínica dos estados fronteiriços e psicóticos?
Em muitas vinhetas clínicas apresentadas pelos analistas das
um aspecto chama atenço: a referência às vivências
de
relações objeto,
do bebê e sua relação com manifestações transferenciais. Nesses
atendimentos, sempre está em jogo uma tentativa de se aproximar
das vivências primitivas do paciente com seus objetos primordiais,
mas essas tentativas frequentemente adquirem a forma explicativa ou
buscam interpor palavras e pensamentos onde um transbordamento
de afeto ameaça se apresentar. Não seria essa inflexão racionalista da
técnica a expressão mais acabada do impasse acima mencionado? Lá
onde se espera a revivescência de uma situaç o originária, muitas
vezes assistimos à produção de uma conversa sobre as experiências
de um bebê que é visto como terceiro na relação analítica. A meu ver,
nada poderia ser mais distante das vivências de um bebê do que essa
Paulo de Carvalho Ribeiro
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da relação do bebê com seu ahi


colocação em perspectiva eto. Nessa
tentativa de interpretação
da relação beb-objeto, o quec esa
imediato éjustamente o beb .
Retomando agora o caso Juliana, gostaria de destacar a .
passagem na qual os autores se preocupam em esclarecero significado
de uma metáfora na qual a paciente compara a análise aos óculos
visão que
miope que tinha do mundo e das pessoas:
Ihe permitem corrigir a
Oue fique claro: é ao processo de compartilhamento do sentido
possivel de uma experiència emocional que nos referimos quando
dissemos que o processo se completa ao Juliana afirmar "ter colocada
os óculos. O processo psicanalítico caminha.. Rumo ao despren.
dimento, à separação, à constituiç o de um aparelho próprio para
pensar, e não no sentido do estabelecimento e da manutenção de uma
relação parasitária e simbiótica que funcionaria como prótese com
valor de suplência às carências da constituição narcisica da paciente.
Afinal, caminhando nesse sentido, o processo (psicanalitico, neste
caso?) nada mais do que manteria Juliana na mesma situação de
infantilidade, desamparo, alienação e de dependência patológica e
desumanizante a um objeto tão supostamente onipotente quanto a
droga. (Savietto e Figueiredo, 2013, p. 60)
Nada mais justificado do que essa preocupação em deixar claro o
que uma análise pretende produzir como efeito último: uma ausên1a
que, ao ser suportada, torna-se libertadora, uma experiência de 0, uma
travessia do fantasma... Por outro lado, essa passagem não poderia sei
mais reveladora da preocupação com os riscos envolvidos na reabe
tura parcial da relação primitiva
da
com o objeto; reveladora tamDcl
faixa estreita entre simbiose e a propiciação da diferencIaga
a

separação, onde o analista deve se


equilibrar.
lodos
concordamos com a necessidade de que
exponha e se deixe contaminar até certo ponto com a
o
anaildização
Vivida pelo
paciente; que ele não procure obturar
apreo
apressadamente

todas as
angústias relacionadas ao desconhecimento do
na análise ou aos efeitos das projeções a ele dirigidas. Aenvolvido
a ande quande
verdade sobre isso é que os processos nos quais o analista situaço
olvido
ao exercer sua ções
função, na e dependência,
primitivas de indiferenciaçãomedida em que
recupc.
nos c c tam
Dalavras,
com
O
imprevisível e podem nos deixar à deriva. Em ou
lavras,

relação nnaqual
estamos
sempre soba ameaça de nos
perdermos numa
Simbolizaçào primária e os limites da técnica ... 83

podemos nos tornar o bebë desamparado, a mâe amorosa e domina-


dora, o pai sedutor e perverso, tudo isso ao mesmo tempo e muito
mais do que isso.
Feitas essas considerações, chego à pergunta que me parece
fundamental: a transferència repartidae os sentimentos bipartidos
detectados na análise de Juliana seriam apenas uma particularidade
desse caso, ou deveríamos concluir que na impossibilidade de conceder
ao corpo uma participação mais efetiva na condução da análise, ou seja,
na impossibilidade de contato fisico e trocas corporais fundamentais
nas relações arcaicas com o objeto, toda análise dependerá do concurso
de relações amorosas e/ou sexuais externas à análise para que ela de
fato produza efeitos transformadores. A transferência repartida, na
qual a dimensão sexualizada é experimentada no vínculo com o novo
companheiro, enquanto a dimensåo amorosa com seus componentes
de sublimação e elaboração é experimentada no vínculo com a analista,
seria uma condição necessária para o sucesso da análise?
Se, de fato, como comentamos anteriormente a partir de algumas
indicações de Roussillon, a simbolização constitutiva da subjetividade,
que deve se efetuar na presença do objeto, depende do masoquismo
primário e da coexcitação, como lidar, na sessão de análise, com esses
fatores que invariavelmente vêm contaminar a clínica da continência
e do confronto, colocando permanentemente em xeque a reserva e a
clínica da ausência?

Referências

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