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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA

PROJETO, UTOPIA E REVOLUÇÃO: O DEBATE ENTRE “URBANISTAS” E


“DESURBANISTAS” NA URSS DA VIRADA DE 1920 PARA 1930.

Iraldo Alberto Alves Matias1

Introdução

Só com a fusão da cidade com o campo é que se


pode (...) levar as massas que hoje definham nas
cidades ao ponto em que o seu estrume sirva para
produzir plantas em vez de produzir doenças.
Friedrich Engels

A presente comunicação pretende apresentar o debate urbanístico que ocorreu na


URSS, na passagem de 1920 para 1930, quando se enfrentaram duas correntes antagônicas em
suas propostas teóricas e práticas para o ordenamento territorial e habitacional soviético, no
início do planejamento econômico, que se auto-identificavam como “urbanistas” e
“desurbanistas”. Esta problemática está inserida na história dos movimentos vanguardistas da
arquitetura européia moderna, do período que vai das últimas décadas do século XIX até
meados da década de 1930.
O porquê dos anos 1920 pode ser explicado por Kopp, que considera esse contexto
central do ponto de vista estético, por ser aquele em que se afirma e se difunde a chamada
“Nova Arquitetura”2. Mas, como lembra Rodrigues, existe um processo histórico que
diferencia a experiência urbanística soviética das demais, ocorridas nos países da Europa
Ocidental: uma revolução3. Assim, dos meandros dessa efervescência política e cultural do
início do século passado surge a polêmica entre os arquitetos e urbanistas soviéticos, que
travaram um debate em torno das principais questões que se colocavam naquele momento,
como pressupostos para a “edificação do socialismo”. Diante desta problemática, a posição

1
Doutorando (Bolsista CAPES) do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de
Campinas – PPGS/UNICAMP, na Área Trabalho, Cultura e Ambiente, na Linha de Pesquisa de Sociologia do
Trabalho. End. eletrônico: iraldomatias@yahoo.com.br.
2
Kopp identifica a “Nova Arquitetura” como um fenômeno cultural que surgiu na Europa, traduzindo-se em
movimentos estéticos nacionais, como o “l’Esprit Nouveau”, na França; o De Stijl, na Holanda; a Bauhaus, na
Alemanha; e o Construtivismo, na URSS. Cf. Anatole, Kopp, Arquitectura y Urbanismo Soviéticos de los Años
Veinte. Barcelona, Lumen, 1974. Tafuri demonstra que há uma unidade entre essas diferentes “ideologias
arquitetônicas”, tendo elas em comum, entre outras coisas, uma visão “naturalista” da cidade e uma herança
teórica das “utopias urbanas” iluministas. Cf. Manfredo Tafuri, Projecto e Utopia. Lisboa, Presença, 1985.
3
Jacinto Rodrigues, Urbanismo e revolução. Porto, Afrontamento, 1975.
2

defendida nas linhas que se seguem tentará demonstrar as importantes contribuições teóricas e
conceituais efetivas que os “desurbanistas” deixaram, mas apresentar os seus limites, os quais
estavam circunscritos ao “processo de resolução negativa da ambiguidade em que se
constituíra a revolução russa”4.

Aspectos teórico-metodológicos: urbanismo e relações sociais de produção.

Para a realização desta tarefa foi necessário recorrer às análises de teóricos e


historiadores das “ideologias arquitetônicas”5 do período em questão. Assim, recuperou-se a
produção crítica realizada por autores europeus politicamente “radicalizados” pelos eventos
de Maio de 1968 contexto que, como mostra Chauveau6, influenciou diretamente os
estudantes de arquitetura da época. Naquele momento, o foco das pesquisas voltou-se às
conseqüências dos movimentos revolucionários do século XX sobre a produção estética em
geral, de onde surgiram diversos trabalhos específicos sobre a arquitetura soviética pós-
Outubro de 1917, com uma orientação teórico-metodológica dentro do campo do marxismo.
No entanto, como essas obras apareceram paralelamente aos primeiros estudos que
questionavam a natureza “socialista” da sociedade soviética, suas análises não trazem ainda
esta problemática de forma bem delineada, lacuna em que se procura inserir este trabalho.
Metodologicamente, é preciso investigar este debate estético no âmbito das
contradições internas da revolução russa. Bernardo afirma a importância de se “estudar o
processo inaugurador da revolução para só depois, em função dele, estudar o processo da
própria revolução”7. Esta investigação deve ocorrer, não no nível de desenvolvimento das
forças produtivas, mas sobre a

4
João Bernardo, Para uma teoria do modo de produção comunista. Porto, Afrontamento, 1975, p.178.
5
Tafuri, op.cit.
6
Em sua análise sobre a cidade e a revolução, Chauveau estuda três contextos revolucionários: a Revolução
Russa, o Maio de 1968 e a Revolução Cubana. No caso do movimento da década de 1960, o autor apresenta o
manifesto dos estudantes europeus de Belas-Artes, onde criticavam a prática arquitetônica na sociedade
capitalista. Aqueles consideravam que o papel objetivo do arquiteto no capitalismo é garantir o quadro de uma
estrutura de opressão e exploração. Assim, denunciavam os interesses econômicos por trás da questão da
urbanização e do desenvolvimento das próprias cidades. Afirmavam também que os problemas no campo da
arquitetura e do urbanismo, para além de “técnicos”, são eminentemente políticos. Benjamin Chauveau. Ville et
révolution, 2009, 11pgs. Disponível em: <http://www.apo33.org/siteweb/article.php3?id_article=348>. Acessado
em:04/05/2009.
7
Bernardo, op. cit., p.141. Esta investigação deve ocorrer, não no nível de desenvolvimento das forças
produtivas, mas sobre a “(...) natureza das relações sociais dominantes, isto é, simultaneamente, na reprodução
da divisão capitalista do trabalho e nas relações ideológicas e políticas, as quais são um efeito dessa divisão
mas constituem também as condições sociais dessa reprodução”. Charles Bettelheim, A luta de classes na União
Soviética: primeiro período (1917-1923). Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976, p.24-25 (grifado no original). Para
uma discussão teórica mais ampla sobre a dialética entre relações sociais de produção e as forças produtivas,
numa perspectiva de transição para o comunismo, cf. João Bernardo, Economia dos conflitos sociais. São Paulo,
3

(...) natureza das relações sociais dominantes, isto é, simultaneamente, na reprodução


da divisão capitalista do trabalho e nas relações ideológicas e políticas, as quais são
um efeito dessa divisão mas constituem também as condições sociais dessa
reprodução.8

A transição para o comunismo deve contemplar o fim da divisão social entre direção
e execução da produção e da separação entre trabalho manual e intelectual, isto é, “a gestão
da economia exercida cada vez mais directamente pelos produtores organizados”9. Se nos
primeiros anos após a insurreição de Outubro havia uma situação de “transição” ainda
colocada, esta logo se esvai, e a história passa a se desenvolver no sentido contrário, pois “os
comitês de fábrica vão sendo esvaziados até se chegar à sua supressão, enquanto os soviets
vão rapidamente perdendo todo o poder real”10. Eis o caráter da principal contradição que se
observa desde o início do processo revolucionário que, no período aqui representado, se
agrava ainda mais.
Consolida-se uma situação pela qual o Partido Bolchevique, enquanto órgão político
vai sendo dominado por sua estrutura burocrático-administrativa11. Além disso, ocorre um
processo crescente, embora contraditório, de intensificação do trabalho nas fábricas e no
campo; de diminuição de direitos civis por parte dos trabalhadores urbanos e rurais; de
estratificação salarial, com larga vantagem para os técnicos e especialistas; de ampliação da
divisão hierárquica do processo de trabalho, com premiações por produtividade; de utilização
de métodos tayloristas de gestão do processo produtivo; até se chegar a uma total falta de
controle do operário sobre seu próprio trabalho, submetido às vontades do diretor único da
unidade fabril. Eis o caráter contraditório que se observa desde o início do processo
revolucionário soviético que, no período aqui representado, se agrava ainda mais.
Portanto, a consolidação do capitalismo de Estado integral – situação que vai se dar
com a afirmação do stalinismo enquanto linha política majoritária, e sua “grande virada”12–,

Cortez, 1991, e Maria Turchetto. “As características específicas da transição ao comunismo”. In: Márcio
Bilharinho Naves. Análise marxista e sociedade de transição. Campinas, IFCH/UNICAMP, 2005, p.07-56.
8
Bettelheim, op.cit., p.24-25 (grifado no original).
9
Bernardo, Para uma teoria..., cit., p.141-142.
10
Naves, op.cit., p.60.
11
“A fusão do partido tecnocrático com as instituições políticas é, pois, um momento da transformação da
constituição do novo modo de produção em nova forma de realização do antigo modo de produção capitalista”.
Idem, ibidem, p.145.
12
A “grande virada” de 1929 é marcada por uma aceleração do complexo e violento processo de “coletivização
forçada” da produção agrícola. Essa “coletivização” é a própria condição para a realização dos Planos
Qüinqüenais, e surge como primeira grande realização da nova função do Estado: um duplo papel de
opressão/repressão, enquanto forma das novas relações de propriedade. Idem, ibidem, p.170. Sobre as
características do período stalinista, cf. Márcio Bilharinho Naves. “Stalinismo e capitalismo”. In: Análise
marxista e sociedade de transição. Campinas, IFCH/UNICAMP, 2005, p.57-73. Sobre a “guerra anticamponesa”
4

marca a ascensão da burguesia de Estado. Bernardo define a nova classe exploradora a partir
de sua natureza gestora, a qual desenvolve um papel de organização e desenvolvimento das
condições gerais de produção no capitalismo13. O longo período de planificação econômica
aparece como uma mistificação da “substituição” do mercado por relações sociais de tipo
“socialista”. Mantêm-se, efetivamente, categorias econômicas capitalistas como salário e
preço, por exemplo, enquanto o Estado organiza as trocas mercantis entre as unidades fabris e
a distribuição dos bens de consumo à massa trabalhadora. A “ideologia do Plano”14 é a base
sobre a qual se desenvolve o debate urbanístico na URSS.

Situação urbana na URSS, no final da década de 1920.

A via do “crescimento econômico” gerou profundas transformações na estrutura


urbanística e habitacional nas áreas urbanas e rurais soviéticas, aprofundando antigos
problemas e criando novos. Ceccarelli considera como “problemas de fundo”, no contexto da
implementação do I Plano Qüinqüenal, relativos à gestão territorial da URSS: a transformação
da geografia do país, devido às novas políticas de colonização interna; a mudança regional de
importantes centros econômicos; e a ampliação e integração do embrionário sistema de
comunicação herdado do regime czarista15.
Nas grandes cidades que já existiam antes da revolução, houve uma explosão
demográfica acentuada, como no caso de Moscou, que em 1917 possuía cerca de 2 milhões de
habitantes e chegou a mais de 4 milhões no final dos anos 1930. Já a população soviética total
era de quase 137 milhões de habitantes, em 1920, alcançando quase 166 milhões, em 1933.
Além disso, no mesmo período a população urbana total dobrou, passando de 20 milhões para
quase 40 milhões16. Ceccarelli aponta a desvantagem em que o proletariado urbano e rural se

estabelecida durante as “coletivizações”, cf. Charles Bettelheim, As lutas de classes na U.R.S.S., v. III, t. 1,
Lisboa: Europa-América, SD.
13
A classe dos gestores se “autonomiza”, passando a reproduzir-se enquanto proprietária coletiva dos meios de
produção estatizados, através do controle sobre o próprio aparelho de Estado. Conduz, assim, o processo de
trabalho e a apropriação de mais-valia, engendrando novas formas de exploração do proletariado. Esta é uma
questão importantíssima para analisar com mais rigor o debate urbanístico soviético. Bernardo, Para uma
teoria..., cit., p.168.
14
“A planificação enunciada pelas teorias arquitetónicas e urbanísticas remete para algo diferente de si: para uma
reestruturação da produção e do consumo em geral; por outras palavras, para uma coordenação planificada da
produção”. Tafuri, op. cit., p.68. Logo, “a ciência arquitetônica integra-se totalmente na ideologia do plano, e as
próprias opções formais não passam de variáveis que dela dependem”. Idem ibidem, p.78.
15
Paolo Ceccarelli, La Construccion de la Ciudad Sovietica. Barcelona, Gustavo Gili, 1972, p.19.
16
Idem, ibidem, p.12.
5

encontrava em relação aos técnicos e administradores, aos militares e aos intelectuais, que
habitavam moradias maiores e de melhor qualidade17.
Devido à decadência das estruturas prediais e à falta de investimentos no setor de
edificação, a situação residencial do proletariado se encontrava em crescente precariedade. A
disponibilidade de espaço habitacional per capita registrou uma forte queda naquele período,
em toda a URSS. A situação era ainda pior nos centros urbanos recém constituídos, em
relação às áreas urbanas mais antigas. Ou seja, eram as regiões de mais rápida
industrialização, portanto de maior concentração proletária, que mais sofriam com este
problema. Como concluiu Ceccarelli ao observar estes fatos, “tales condiciones de vida
significaban entonces una carga de sacrificios y de deberes cada vez más desproporcionadas y
cada vez más difícil de soportar por parte de la classe obrera”18.

“Urbanistas” x “desurbanistas”: a questão cidade/campo.

Até 1928, o urbanismo soviético ainda não havia implementado concretamente


nenhum grande projeto, assim como até 1926 não se abordará a questão da “cidade
socialista”, embora a arquitetura tenha sido um tema central na produção estética soviética
desde 191719. Para Kopp, é o Plano que vai abrir espaço para implementar um urbanismo
“inteiramente novo”20, um período marcado por uma “explosão criativa”. Arquitetos e
urbanistas passam a questionar a natureza sócio-econômica das cidades ocidentais, e seu
caráter capitalista, postulando um novo tipo de assentamento humano coerente com as
“novas” relações sociais. Dentro desta perspectiva, os arquitetos da OCA21 (Associação dos
Arquitetos Contemporâneos) desenvolveram o conceito de condensadores sociais22. Estes
procuravam, assim, transpor para a linguagem projetual conceitos que fornecessem um
conteúdo socialista, desde as moradias operárias, até a ordenamentos territoriais de maior
amplitude. Neste sentido, os condensadores sociais seriam a materialização dessas novas

17
Esta situação se agravou de tal forma que, no XV Congresso do PCUS em 1927, foi um dos pontos mais
atacados pela “oposição de esquerda”, que protestava: “Los obreros de las grandes ciudades industriales
constituyen la parte menos favorecida de la población en la cuestión de vivienda. La división de la superficie
habitable entre los grupos sociales, en una serie de ciudades, analizadas estadísticamente, es la siguiente: para los
obreros, de 5 a 6 m2; para los empleados de 6 a 9 m2; para los artesanos 7,6 m2; para los profesionales liberales
10,9 m2; para las personas que no trabajan 7,1. Esto demuestra que los obreros ocupan el último escalón. La
superficie de vivenda de los obreros disminuye de año en año”. Apud Ceccarelli, op. cit., p.17.
18
Ceccarelli, op. cit., p.15.
19
Sobre o desenvolvimento da arquitetura na URSS pós-Outubro de 1917, cf. Kopp, op.cit. e Rodrigues, op.cit.
20
Kopp, op. cit., p.197.
21
Para um histórico detalhado das diferentes organizações dos arquitetos soviéticos, suas concepções e
divergências teóricas e práticas, cf. Rodrigues, op. cit., e Kopp, op. cit.
22
Rodrigues, op. cit., p.43.
6

orientações arquitetônico-urbanísticas, configurando-se moradias, espaços e territórios que


possibilitasse um “envolvimento espacial” o qual favorecesse o desenvolvimento de “novos
modos de vida”, enfim, de novas relações sociais23.
Rodrigues critica a apropriação mecanicista do conceito de condensadores sociais
por parte dos chamados “urbanistas”, principalmente pela presença de concepções
ultracoletivistas nos projetos das chamadas “casas-comuna”. O “urbanista” Sabsovic defendia
a necessidade de uma ampla “coletivização” da vida dos trabalhadores industriais, para
superar o “modo de vida individualista pequeno-burguês” das cidades capitalistas, como
princípio para a construção das “cidades socialistas”24. A “casa-comuna” era uma tentativa de
obter uma “socialização máxima”, através de um modelo de habitação que deveria engendrar
o “modo de vida socialista”. Tratava-se de um edifício urbano de grandes dimensões onde
eram realizados serviços coletivizados para uma grande concentração de trabalhadores.
Diante destas concepções, o “desurbanista” Pasternak indaga de forma consciente:
“¿Será una colectividad la desmesurada multitud de personas reunidas en un solo edificio?”25.
O caráter “economicista” das propostas “urbanistas” é bem claro, uma vez que fundamentam
toda a sua argumentação para a superação da divisão entre trabalho manual e intelectual e da
contradição cidade-campo - definida nessa concepção pelo “atraso técnico da agricultura”26 –,
no desenvolvimento das forças produtivas, isto é, no crescimento da indústria pesada, no
aumento da produtividade, na construção de grandes centros industriais e agroindustriais, no
aperfeiçoamento dos transportes e das comunicações, etc.
O mesmo mecanicismo “urbanista” se manifesta na concepção de superação da
divisão entre trabalho manual e intelectual. A proposta de Sabsovic não trata da
revolucionarização das relações de produção, do controle operário direto sobre a esfera da
produção. O mesmo coloca o foco do problema na esfera do “tempo livre” do trabalhador,
quando este poderá se dedicar ao que chama de “interesses marginais” (artes, esporte, leitura,
etc.). Para Sabsovic, com o desenvolvimento neste domínio através de uma suposta
“socialização da cultura”, “la diferencia entre trabajadores ‘manuales’ e ‘intelectuales’

23
Idem, ibidem, p.42.
24
L. M. Sabsovic, “El problema de la ciudad”. In: Ceccarelli, op. cit., p.03-34.
25
A. Pasternak, “Polêmicas sobre la ciudad del futuro”. In: Ceccarelli, op. cit., p.66 (grifado no original).
26
O mecanicismo dos “urbanistas” acerca da “mentalidade” camponesa não difere das posições defendidas por
Stálin no início das “coletivizações”, como vemos na seguinte passagem: “las máquinas agrícolas y la
organización sobre bases científicas de la producción agrícola elevarán el nível cultural del trabajador agrícola,
elevándole al mismo grado, más o menos, que haya alcançado el obrero de la ciudad dentro de 15 años; a este
alto nível cultural deberán corresponder también condiciones de vida absolutamente distintas”. Sabsovic, op. cit.,
p.09.
7

desaparecerá gradualmente”27. Assim, numa operação claramente ideológica, transferem-se as


contradições objetivas no interior do processo produtivo, para a esfera subjetiva da “cultura”.
Realiza-se então o ocultamento do controle da produção pela burguesia de Estado, ou dos
gestores, como conceitua Bernardo28.
Os “desurbanistas”, orientados pelas teses de Marx e Engels a respeito do
antagonismo entre cidade e campo, rechaçavam veementemente as concepções que
procuravam “reformar” as cidades tradicionais em moldes “socialistas”. Para o “desurbanista”
Pasternak, esta maneira de enfrentar tais contradições se baseava “en una aritmética
demasiado primitiva: aquí se recorta, allí se pega: esto, evidentemente, lleva a la nivelación,
pero los centros urbanos siguen existiendo”29. Em sentido contrário, os “desurbanistas”
recusavam-se a ser “(...) os ‘cirurgiões’30 da cidade capitalista, a agir somente à custa de
arranjos parciais e de modificações quantitativas, decidiram-se a pôr em causa globalmente a
própria cidade” 31. Ohitovitch, considerado o principal teórico do “desurbanismo”, afirma isto
literalmente nesta significativa passagem:

A cidade deve perecer nas ruínas do modo de produção capitalista, porque a cidade
era uma necessidade da sociedade capitalista de mercadorias. Estas necessidades
desaparecerão, a própria cidade desaparecerá, enquanto produto destas. A cidade é a
forma, a condição das relações sociais desta sociedade.32

Guinzburg e Barsc, em seu projeto para a reconstrução de Moscou, comparam a


cidade com um “doente” e as reformas “urbanistas” – a construção de “cidades-repouso” e
balneários para tentar escapar dos problemas estruturais das grandes metrópoles –, como o
“remédio” com que se tenta curá-la, um sistema de “veneno e contraveneno” tipicamente
capitalista. Esses arquitetos contrapõem a esta situação o que chamam de “profilaxia
socialista”: a criação de um sistema de assentamento humano que possa resolver
adequadamente “el problema del trabajo, del descanso y de la cultura, como un único e
ininterrumpido proceso de la existencia socialista”33.

27
Sabsovic, op. cit., p.19.
28
Bernardo, Para uma teoria..., cit.
29
Pasternak, op. cit., p.67.
30
Rodrigues se refere ao termo utilizado pelo arquiteto Moïse Guinzburg, em sua carta de resposta às críticas de
Le Corbusier ao “desurbanismo”. Guinzburg, após demonstrar seu respeito pelo trabalho de Corbusier acusa-o
de ser “o melhor cirurgião da cidade contemporânea” e de querer “curá-la a qualquer preço”, além de ser incapaz
de “superar as contradições objetivas do capitalismo”. Moïse Guinzburg, “Respuesta de Moïse Guinzburg a Le
Corbusier”. In: Paolo Ceccarelli, op. cit., p.82-83.
31
Rodrigues, op. cit., p.14-15.
32
Ohitovitch apud Rodrigues, op. cit., p.64.
33
Moïse Guinzburg, M. Barsc, “La ciudad verde: la reconstrucción socialista de Moscú”. In: Ceccarelli, op. cit.,
p.235. Este projeto não foi implementado pelo governo soviético.
8

Enfim, os projetistas orientados por princípios “desurbanistas” propunham,


basicamente, um ordenamento territorial (e da produção) descentralizado, através de
“unidades econômicas regionais”, que se estendessem ao meio urbano e rural de forma a
acabar com seu antagonismo. Criariam-se, assim, as bases para novas formas de assentamento
humano que garantissem maior qualidade de vida para os trabalhadores rurais e urbanos,
combatendo o isolamento e o envelhecimento no campo, e aproximando os operários fabris da
natureza. Procuravam uma união da indústria e da agricultura num “todo orgânico”. Os
autores do projeto “desurbanista” da cidade industrial de Magnitogorsk defendiam o princípio
da proximidade34: do trabalhador com o local de trabalho, da produção com a fonte de
matérias-primas, de energia e com o consumo. Além da utilização de materiais locais e de
construções montáveis/desmontáveis, que favorecessem uma maior mobilidade, contra o
imobilismo da vida nos grandes centros urbanos. Nesse esquema o desenvolvimento do
sistema de transportes tinha um papel fundamental. Esses assentamentos teriam uma forma
“linear”, através de “bandas de colonização” numa distribuição territorial dentro de um
traçado ortogonal, com eixos de serviços em intervalos regulares, que garantissem a dispersão
populacional e produtiva. Esses eram os fundamentos, defende Rodrigues, de um “modo de
organização socialista do espaço”, qual seja, “uma descentralização orgânica em oposição à
divisão técnica e social do trabalho”35.
Considerando-se a via econômica pela qual a URSS enveredava no início dos anos
1930 – as perseguições e expurgos que vinham acontecendo, de antigos quadros bolcheviques
que se opunham à linha oficial do Partido, além do afastamento das massas e do
endurecimento com o proletariado, através do alto grau de exploração e opressão a que esta
classe estava sendo submetida –, esse debate não tardaria em “acabar”. Foi o que aconteceu,
através das Resoluções de 1930 e 1931 baixadas pelo CC, as quais decretavam o “êxito do
socialismo”, transferiam ao Conselho dos Comissários do Povo a tarefa de estabelecer
critérios para a construção das “novas cidades socialistas” e promulgavam a “industrialização
acelerada” da URSS como a única via para “constituir las bases necesarias para una
transformación radical del modo de vida”36. Além disso, nestes documentos se afirma que o
Partido atacará tanto os “oportunistas de direita” (os “urbanistas”), como os “de esquerda”
(“desurbanistas”), por pretenderem barrar o desenvolvimento histórico da URSS no caminho

34
M. Ohitovich; M. Barsc; N. Sokolov, “Magnitogorsk”. In: Ceccarelli, op. cit., p.261-285. O projeto não foi
aprovado pelo governo soviético.
35
Rodrigues, op. cit., p.60.
36
“Resolución del CC del PC del 16 de mayo de 1930 sobre las tareas relativas a la transformación del modo de
vida”. In: Ceccarelli, op. cit., p.187-189.
9

para o “socialismo”. O que impressiona é o fato de ali se defender que esse conjunto de
medidas garantiria a “eliminación definitiva de la congénita antítesis entre ciudad y campo”37.
Em 1934, Svetlov e Gornyi, ao discutir a problemática da “cidade socialista” numa
“sociedade sem classes”, jogam a última pá de cal no debate já derrotado, ao definirem o
“desurbanismo” como a “política de un capitalismo en decomposición con relación a la
ciudad, testimonia la disgregación del propio capitalismo y representa una concepción
absolutamente reaccionaria”38. A partir dali, a URSS passou a contratar arquitetos ocidentais
para a construção e reformulação de seus grandes centros urbano-industriais, com preferência
por aqueles que passaram pela experiência de planejamento da social-democracia weimariana,
como Ernst May, Bruno Taut, Hannes Meyer, entre outros39. Sobre esta questão, Rodrigues
conclui que o governo soviético,

Ao chamar um arquiteto experimentado na construção de cidades operárias


num país capitalista, implicitamente decidira-se fazer cidades o mais rentáveis
possível para o desenvolvimento industrial, sem a preocupação do bloqueio de
todas as possibilidades de modificação profunda que isso significava.40

A linha imposta pela oficialidade soviética era totalmente coerente com a forma
estatal de capitalismo que ali se desenvolvia, principalmente, com a via stalinista instaurada
no final dos anos 1920. Para Stálin, as cidades não iriam desaparecer na URSS, como ainda
surgiriam novas grandes cidades, as quais tornar-se-iam “centros de grande indústria e
também da transformação dos produtos agrícolas e dum poderoso desenvolvimento de todos
os ramos da indústria alimentar”41. Conseqüentemente, até o início da década de 1970 cerca
de 1/3 da população soviética vivia em 300 cidades, das quais 230 foram construídas após a
revolução42. Portanto, venceu o projeto de “hipertrofia urbana”, ou seja, a forma capitalista de
organização territorial que garantia objetivamente a reprodução do antagonismo entre cidade e
campo, ao mesmo tempo em que se disseminava – através de uma forte propaganda
ideológica dos PC’s, consolidados nos mais diversos países –, a conquista histórica de uma
“sociedade sem classes”.

37
Idem ibidem, p.205.
38
F. Svetlov; S. Gornyi, “La ciudad socialista en la sociedad sin clases”. In: Ceccarelli, op. cit., p.221.
39
Sobre o tema ver Francesco Dal Co, El arquitecto em la lucha de classes y otros escritos. Barcelona, Gustavo
Gili, 1972, e Tafuri, op. cit.
40
Rodrigues, op. cit., p.84.
41
Stálin apud Rodrigues, op. cit., p.76.
42
Rodrigues, op. cit., p.100.
10

Considerações Finais

Após décadas do término deste importante debate, as concepções “desurbanistas”


passaram por um processo de mistificação, tanto por parte de seus críticos como de seus
entusiastas. Os primeiros apontavam como o maior problema desta corrente o seu caráter
utópico. Não estavam de todo errados, mas muitas vezes acabaram por distorcer suas teses e a
reproduzir a linha oficial “economicista” assumida pelo Partido – como é o caso de Kopp,
mas, principalmente, de Ceccarelli. Estes consideravam uma “fantasia” a proposta
“desurbanista”, um “retorno idílico à natureza”, portanto inaplicável. No entanto, o que
orienta essas críticas é a noção de que o “socialismo” na URSS ainda estava em construção no
final da década de 1920, e que sua base era o crescimento econômico calcado na
industrialização pesada e na coletivização da produção agrícola, devidamente organizados por
um planejamento estatal. Assim, esses críticos da arquitetura acabam passando à margem da
problemática da natureza das relações sociais de produção que se consolidavam na URSS,
nos termos aqui apresentados.
Tafuri formula uma crítica mais consistente e profunda, ao desvendar o caráter
ideológico da planificação presente nas teorias arquitetônicas modernas como um todo,
fornecendo subsídios para uma análise da natureza gestora da classe – na qual se inseriam os
urbanistas soviéticos, ainda que de modo contraditório –, que ascendia ao poder
definitivamente naquele período. No entanto, Tafuri, que definiu o “desurbanismo” como uma
“utopia regressiva” acaba incorrendo no erro de atribuir apenas à burguesia (no caso a de
Estado), o papel de sujeito histórico, onde o proletariado aparece passivamente como objeto
de “ideologias arquitetônicas” progressistas. Para este, tratava-se do movimento
superestrutural de um capitalismo em degenerescência, ao menos no que concerne à sua
capacidade de alimentar utopias sociais. A auto-atividade das massas operárias é posta, assim,
em segundo plano.
Enquanto defensor incondicional do “desurbanismo”, Rodrigues demonstra como
estes procuraram, em diversos momentos, se opor à linha burocrática do Partido, a manter o
contato com as massas trabalhadoras, além de enfrentar as contradições entre cidade e campo
e entre trabalho manual e intelectual, no campo da política, não como uma problemática
meramente técnica. Os “desurbanistas” sustentavam as críticas levantadas em 1924 pela
“oposição de esquerda” com relação aos rumos da revolução, além de questionarem as
11

próprias interpretações teóricas dadas à obra de Marx e Engels pela linha oficial do Partido43.
Logo, Rodrigues identifica nas teses “antiurbanas” os princípio de uma “teoria socialista em
construção” da organização territorial e da habitação.
No entanto, é preciso ressaltar que “urbanistas” e “desurbanistas” acreditavam na
planificação como a própria forma de organização socialista do território e da economia.
Enquanto os “urbanistas” ocultavam o poder gestor da nova classe dominante sob sua
concepção de “cidade socialista”, os “desurbanistas” criticavam o mecanicismo teórico e a
burocratização do Partido, embora pouco tenha sido dito sobre o afastamento do proletariado
do controle direto sobre a produção. Os “desurbanistas” percebiam a redução da qualidade de
vida do proletariado, mas não pareciam perceber que a gestão estatal da produção constituía-
se como uma modalidade de extração de mais-valia, uma forma extrema de exploração do
trabalho operário e camponês. Todavia, apenas os “desurbanistas” trataram de forma justa a
questão cidade-campo, mesmo com todas as dificuldades já apresentadas. Neste sentido, a
grande limitação na proposta “desurbanista”, o que lhe dava de fato um caráter utópico, era a
tentativa de engendrar um “modo de vida socialista”, através da gestão territorial, sem
questionar os determinantes político-econômicos que fundamentavam um processo real e
efetivo de ampliação profunda das mesmas contradições que tentavam sanar: isto é, as novas
relações sociais de produção que instauravam o capitalismo de Estado e o poder gestor da
nova classe dominante na URSS, processos ocultados pelo fetichismo da planificação
econômica.
A grande contribuição deste debate, portanto, foi demonstrar como momentos de
ruptura política, com toda sua complexidade, favorecem o surgimento de novas idéias e
concepções de organização social, nos mais diversos campos de produção material, intelectual
e estética. Importante também é perceber os limites de um processo histórico como esse,
quando orientado por uma linha que privilegie o desenvolvimento material em detrimento da
necessária transformação radical das relações sociais de produção. Isto pode tornar o processo
revolucionário mais difícil de se realizar, mas o coloca em bases mais sólidas. De qualquer
forma, os projetistas soviéticos aqui apresentados demonstraram que, no campo da luta
política, existe um espaço determinante para o exercício da criatividade.

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Essa afirmação fica bem ilustrada nesta significativa passagem do manifesto desurbanista: “un veradadero
conocimiento de la teoría marxista nos habría impedido excluir la ‘personalidad humana’ de las viviendas
comunistas (...). Si conociéramos la teoria hubiéramos evitado el considerar la ciudad como una forma de
habitat humano válida para los próximos siglos. (...) El conocimiento del marxismo impide pasar por encima
del hombre vivo y real”. Cf. “Por el desurbanismo”. In: Ceccarelli, op. cit., p.77, (grifado no original).