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O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather

Sabrina no. 264

O caminho da esperança
“Season of mitts”
Anne Mather

A paixão de Piers por Abby, sua secretária, foi tão violenta que em pouco tempo eram marido e
mulher. Abby estava no céu. Mas aquela felicidade acabou num piscar de olhos: os preconceitos
da aristocrática família de Piers foram mais fortes. Daí a traumática separação. Durante onze
anos ela criou sozinha, seu filho Mathew, já que Piers negava a paternidade do menino... Agora
estavam de novo frente a frente e ela sabia que o garoto precisava da presença do pai. Além
disso, o antigo amor pelo marido insinuou-se no coração de Abby, fazendo de sua vida um
inferno! Ela iria escapar de mais essa armadilha do destino?

Capítulo I
Ao voltarem para o apartamento, duas cartas a esperavam na caixa do correio. O dia fora
terrível. Primeiro, estourara a bomba de que a Companhia Boume Electronics ia fechar as
portas. Depois, aquela convocação do professor de Matthew para que ela comparecesse à
escola, após a aula; e agora, aquelas duas cartas, enviadas de Rothside, que traziam a Abby
recordações que preferia esquecer.
Matthew a seguiu até a acanhada sala de estar do apartamento, lançando um olhar furtivo para
os dois envelopes que ela segurava, antes de atirar-se displicentemente sobre o sofá.
Era um menino muito desenvolvido para a idade. Já tinha quase a altura da mãe. o que
dificultava ainda mais fazer-lhe uma reprímenda.
Mas, naquele momento, Abby estava mais preocupada com o conteúdo da carta de Piers, que
há anos não lhe escrevia, do que com as últimas novidades da tumultuada vida escolar do filho.
Matfhew era uma criança problemática, ou, pelo menos, era o que parecia nos últimos dois
anos. Abby começava a perder a confiança em sua capacidade de controlá-lo.
Nem sempre fora assim. Durante dez anos, eles tinham sido muito chegados, e se enlendiam às
mil maravilhas. Mas quando o garoto descobrira que Piers, seu pai, ainda estava vivo, e não
morto, conforme a mãe lhe contara desde pequeno, as coisas tinham se complicado.
Abby tentara justificar-se, explicando que mentira para poupá-lo do sentimento de rejeição que
ele sofria agora, mas Matthew não lhe dera ouvidos.

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Ao saber que na realidade a mãe se separara do pai. antes mesmo dele nascer, não quis mais
aceitar qualquer argumentação, e atribuía-lhe toda a culpada separação.
De início. Abby preferiu deixar o barco correr, sem forçar a barra, na esperança de que, com o
passar do tempo, Matthew compreendesse suas razões. Suas previsões, porém, estavam
erradas. O tempo piorara ainda mais a situação, e até o comportamento de Matthew no colégio
vinha se agravando desde então.
Matthew agora estava ameaçado de expulsão da escola, caso não parasse de cabular as aulas.
Mas até mesmo este grave problema passara para segundo plano diante daquela carta
imprevista.
Piers nunca escrevia. De vez em quando, ela recebia notícias dele, através de sua tia Hannab.
Desde sua última visita, quando ela ainda eslava na maternidade, por ocasião do nascimento de
Matthew, Piers nunca mais dera sinal de vida. E era por isso que os dedos de Abby tremiam ao
abrirem o envelope.
Era curioso como ela conseguia reconhecer a caligrafia do ex.-marido, depois de tantos anos.
Taivez fosse graças às horas intermináveis que, no passado, passara datilografando seus
incontáveis rascunhos.
Até que Abby gostava de ir todas as manhãs à mansão da fazenda, para trabalhar na elegante e
luxuosa biblioteca. Todas as moças da região a invejavam por ela secretariar Piers Roth, o galã
mais cobiçado das redondezas de Rothside e Alnbury. Fora uma verdadeira glória ter
conseguido aquela colocação, entre tantas candidatas. E quando Piers começou a demonstrar
que se sentia atraído por ela, Abby teve a impressão de estar sendo a protagonista de uma
novela romântica e maravilhosa, em que ambos se apaixonavam, casavam e viviam felizes para
sempre.
Desdobrou o papel da carta e viu impresso nele o nome e endereço do remetente.
"Cara Abby..."
- De quem é? quis saber Matthew, curioso, esparramando-se no sofá. Aquele cabelo cortado
tão rente a fez lembrar de uma foto que vira de um prisioneiro de um campo de concentração.
Talvez ele tivesse percebido o tremor de suas mãos, e Abby foi para perto da janela, fingindo
precisar de mais luz para ler.
- Não me distraia, disse, sem disposição de enfrentar uma nova discussão.
Matthew conformou-se e começou a apertar os cordões das botas.
"Cara Abby", tornou a ler, soltando um suspiro, "Talvez não lhe surpreenda muito saber que eu
decidi me divorciar."
Divórcio! Ela não só ficou surpresa, mas pasmada. Sem qualquer razão plausível, Abby sempre
pensara que Piers nunca iria se divorciar dela. Talvez, inconscientemente, alimentara a
esperança de que um dia toda aquela horrível confusão seria esclarecida. E que Piers iria
acreditar na sua verdade. Mas agora via que estivera errada, e aquelas palavras a abalavam
profundamente.
Continuou a ler:
"Estou cientie de que, diante das circunstâncias, eu não teria necessidade de
informá-la sobre minhas intenções, mas quis que soubesse que não lhe guardo mais rancor. O
que foi feito, foi feito. Você era jovem demais para a responsabilidade de um casamento, e eu
era suficientemente adulto para saber disso."
Os dentes de Abby mordiam nervosamente os lábios, mas ela forçou-se a terminar a leitura.
"'Espero que você e o garoto estejam bem. Comunico-lhe que em breve você será procurada
pelos meus advogados". Seguiam-se as despedidas de praxe e a assintura: "Roth".

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Somente Roth, pensou Abby com amargura, dobrando a folha. Nem Piers ou pelo menos, Piers
Roth. Parecia que ele assinara uma carta comercial. Os músculos de seu rosto chegaram a
latejar, mas só por um instante, pois logo conseguiu controlar suas emoções.
E daí'?, perguntou-se. Que grande diferença fazia isso? Ela poderia continuar a chamar-se sra.
Roth. Então, por que sentia-se tão abalada?
- E então?
Tinha até se esquecido de Matthew. mas ao ouvi-lo, lançou-lhe um olhar por cima dos ombros.
- Nada. Nada de importante e recolocou a carta dentro do envelope. - Oh, esta aqui é da
tia Hannah!
- Ela também é minha tia, não é? Matthew ergueu-se no sofá. Porque nunca fui visitá-la? Fez
uma careta. Oh. nem precisa dizer. Já sei. É porque ela mora em Northumberland e não vale a
pena fazer uma viagem tão longa só para ir vê-la, ele sorriu forçado. O que você quer dizer, na
verdade, é que meu pai também mora lá. e você tem medo de encontrá-lo.
- Não!
As faces de Abby ficaram rubras. Sabia que Matthew nunca acreditaria nela, mesmo se lhe
contasse toda a verdade, pois estava convencido de que ela o privara da companhia do pai,
fugindode caso pensado, para Londres.
Voltando a dar atenção a carta de tia Hannah, Abby passou uma vista d'olhos por aquela letra
miúda e insegura. O texto era bem mais sucinto do que habitualmente. Só ocupava uma página,
em vez da meia dúzia de folhas que tia Hannah costumava enviar. Suas cartas eram quase
sempre extensas, e descreviam minuciosamente o menor incidente que ocorresse, em Rothside.
Era uma consequência da sua própria solidão, e Abby queria convencer-se de que lia aqueles
calhamaços só para agradar a velha senhora, mas o fato é que ela adorava cada palavra.
Hannah Caldwell não era na verdade tia de sua mãe. Mas quando esta morrera, ao dar a luz a
um prematuro, ela levara Abby consigo para Rothside. O pai de Abby ficara tão transtornado
com a morte da esposa que vendeu a casa que possuíam em Newcastle e mudou-se para
a Escócia, indo trabalhar em Aberdeen.
Ficara combinado com tia Hannah que tão logo ele encontrasse uma moradia adequada e
conseguisse uma empregada doméstica, Abby se mudaria para lá. Mas isso nunca aconteceu.
Lawrence Charlton acabou morrendo afogado num acidente marítimo, poucas semanas após
sua chegada, e o lar provisório de tia Hannah ficou sendo definitivo.
À medida que lia a carta da tia, aumentava a apreensão de Abby. Ela contava que sofrera um
ataque cardíaco há questão de uns dez dias. - "você entende, não foi nada sério, mas serve
como lembrete de que já não sou mais tão jovem como antes", escrevera.
Abby ficou pensativa. Quantos anos teria agora tia Hannah? Oitenta e dois, oitenta e três?
Refletiu que a tia estava velha demais para morar sozinha naquela casa de campo,
principalmente agora que estava com o coração enfraquecido.
"O sr. Willis quer que eu me transfira para Rosemount", continuava a carta -"Mas eu lhe disse
que só saio daqui carregada numa maca. Essa é a solução que esses jovens médicos
encontram hoje em dia: jogar velhos nos asilos, como se fossem gado. Não quero ir viver com
uma turma de velhos caducos. Gosto de estar cercada de gente jovem. Meu maior desejo é que
você e Matthew viessem morar mais perto de mim. Sinto muito a sua falta. Abby."
A consciência de Abby doeu. Fora duro para tia Hannah quando ela casara com Piers, com
somente dezoito anos. Mas, pelo menos naquela época, ela acreditava que a sobrinha ia ser
feliz. E quando Abby deixara Rothside. menos de um ano depois, tia Hannah
sofreu muito, arrependendo-se de ter deixado que tudo aquilo acontecesse.

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De início.quando Matthew era ainda um bebé. a tia fora até Londres conhecer o sobrinho-
bisneto, mas as despesas de viagem e a idade avançada impediram que ela voltasse
mais vezes. Já tinham se passado dez anos desde aquele encontro, e apesar de Abby manter
uma correspondência assídua, não era a mesma coisa que verem-se pessoalmente.
E agora mais aquela: tia Hannah tivera um ataque cardíaco, e Abby não soubera de nada até
ser informada pela própria tia. Afinal, ela era sua única parente e Abby tinha-lhe uma dívida de
gratidão.
Respirou fundo e leu as últimas linhas:
"Sem dúvida você já deve estar sabendo que Piers tem intenção de casar novamente." Abby
pestanejou. O divórcio!
"Ele veio visitar-me há poucos dias, a tia prosseguia, - "Acho que foi o dr. Willis quem lhe
contou sobre o meu pequeno distúrbio. Ele hegou, muito amável e solícito, com uma cesta
cheia de frutas e ovos frescos da fazenda. Disse-lhe que não devia ter-se incomodado, más ele
grantiu que não era incómodo algum.
Desconfio que pretendia me amansar, antes que a notícia chegasse aos meus ouvidos. A eleita
é Valerie Langton, naturalmente. Você deve se lembrar dela. pois já lhe contei que os Langton
compraram a fazenda de Ben Armsírong quando ele se aposentou. Eia é engraçadinha, e não
deve ter mais do que uns vime e três, vinte e quatro anos.
E tem chances de tornar-se a futura sra. Roth,. já que gosta de caçadas e dedica-se a obras de
caridade. Bem, minha querida, não me sinto com forças para prolongar esta carta. Escreva logo.
Você sabe o quanto anseio pelas suas notícias. Com todo o meu carinho..."
Abby estava arquejante quando repôs a carta da tia no envelope. Quer dizer que Piers queria o
divórcio para poder casar de novo? Abby não pôde evitar que uma onda de ressentimento lhe
invadisse a alma. Como ele podia fazer uma coisa dessas? Como?
Certa de que Matlhew ainda a observava, simulou um comportamento natural.
- Tia Hannah sofreu um enfarte, informou. - O médico acha que ela não deve mais morar
sozinha, na sua idade, e eu estou de acordo.
Matthew franziu a testa.
- Então, porque ela não vem morar conosco? perguntou, muito prático.
Abby soltou um longo suspiro.
- Porque ela não vai querer deixar sua casa, e, além disso, eu não tenho condições financeiras
para hospedá-la. A Boume Electronics vai fechar, e ao menos por um mês ficarei sem
emprego, até conseguir outro. Matthew arregalou os olhos.
- E o que você vai fazer?
- Não sei,
Abby ainda não tivera tempo de meditar sobre seus problemas, que não eram poucos. O que
faria? Aquele apartamento, apesar de pequeno, tinha um aluguel exorbitante. Qualquer corte na
renda traria dificuldades. O pagamento mensal da firma era-lhe indispensável para fazer frente
às despesas de manutenção. Havia contas de luz e gás, a escola de Matthew. e uma verba para
poder apresentar-se decentemente vestida em sua função de secretária.
Quanto à comida, ela não se incomodava em pagar o alto custo dos jantares de Matthew no
colégio, pois. pelo menos, tinha certeza de que ele ficava bem alimentado. Abby era de comer
pouco. Graças a isso, conservava-se tão esbelta quanto nos tempos de escola.
Trevor até lhe tinha dito que ela nem parecia mãe de um filho da idade de Matthew, mas Abby
desconfiava dos elogios dele. Trevor era parcial, e por mais que ele afirmasse o contrário. Abby
estava convencida de que envelhecera bastante nos últimos dois anos.

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Olhou para o filho com ansiedade. O que fariam? Como reagiria Matthew quando não houvesse
dinheiro para a sua mesada?
- Você vai arrumar outro emprego?
O garoto parecia seriamente preocupado, e Abby apressou-se em tranquilizá-io.
- Se Deus quiser! Vou ter que arrumar, não é? Afinal, se não sou eu, quem põe dinheiro nesta
casa?
Matthew pareceu ofendido.
- Gostaria de já ter idade suficiente para poder trabalhar, mas ainda faltam quatro anos! Não é
justo!
Abby não respondeu, e foi para a pequena cozinha que dava para a saleta. Ainda por cima,
precisava encarar a possibilidade de Matthew parar de estudar aos dezesseis anos. Outrora,
tivera confiança de que o filho se sairia bem nos exames finais e conquistaria uma bolsa de
estudos para a Universidade. Mas agora perdera as esperanças. Mesmo que tivesse dinheiro
suficiente para lhe financiar os estudos universitários, Matthew não demonstrava qualquer
interesse em aprender.
A turminha com quem ele andava só não tinha ainda ido parar na delegacia de Polícia. De resto,
aprontavam horrores! Abby imaginou o que poderia acontecer quando o menino não estivesse
mais na escola.
Não queria que o filho se tornasse um marginal, nem pretendia que fosse o sustentáculo da
casa. Tudo o que desejava era que eie fosse um garofo normal, que a respeitasse, assim como
ela o respeitava, e não passasse o resto de seus dias acusando-a de ter-lhe arruinado a vida.
Poucos dias mais tarde, Abby estava no escritório, arquivando a correspondência, quando o
telefone tocou. Ao atender, a telefonista avisou que a chamada era para ela. Rezou para que
não fosse novamente aquele professor de Matthew. Mas foi uma voz masculina desconhecida
que faiou do outro lado da linha.
- É a sra. Roth? Aqui quem fala é Sean Willis, o médico da sra. Caldwell.
Abby sentiu a boca seca.
- Não me diga que...
- Não, não há com que preocupar-se, sra. Roth. Ao menos por enquanto.
- Como assim? - Abby não estava entendendo direito.
- Acho que não estou sendo claro, sra. Roth. Na verdade, a razão principal do meu telefonema é
que a sra. Caldwell me contou que a senhora é sua única parente. Estou certo?
A única parente... Abby tentava se recuperar do susto, pois no primeiro instante pensara que o
dr. Willis ia comunicar-lhe a morte da tia.
- Oh. sim, acho que sou, ela confirmou.- Por quê? Há algo de errado com ela? Em que posso
ser útil?
- Minha esperança é que a senhora possa ajudar-me a convencer sua tia a deixar Ivy Cottage,
disse o médico. Como deve saber, ela mora lá sozinha e recentemente teve um ataque
cardíaco.
- Sei disso. Ela me escreveu, contando.
- Ainda bem. Assim, a senhora pode entender melhor que é uma tolice sua tia insistir em ficar
lá. Santo Deus! Ela já tem mais de oitenta anos! Pode ter outro ataque a qualquer momento.
- Está querendo me dizer que tia Hannah precisaria ser internada num hospital?

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- Não digo num hospital, mas numa casa de repouso, como Rosemont. Não sei se
conhece, mas é uma casa residencial bastante agradável.
- ... para gente velha, completou Abby, secamente. Sim, eu sei. Tia Hannah também me contou
sobre isso. Mas receio que ela não queira ir para lá.
O dr. Willis soltou um suspiro audível.
- Se a senhora tem afeição pela sua tia, sra. Roth, vai compreender como é importante que ela
fique sob constante vigilância. Se ela tiver outra crise...
- Posso fazer uma ideia da situação, doutor, disse Abby, desconsolada. Só não vejo no
que posso ajudar.
- Entre em contato com ela. Tente persuadi-la de que isso é para o seu próprio benefício. Quem
sabe possa convencê-la,
- Pode ser que não.
- Mas. ao menos, vai tentar?
- Claro, hesitou, antes de perguntar. Ela não está em perigo de vida. está?
- O único perigo é a teimosia dela, retorquiu o dr. Willis. – Eu entrego o caso nas suas mãos.
sra. Roth.
Aquele problema ocupou-lhe a cabeça pelo resto do dia, mas no começo da noite. Abby já
chegara a uma conclusão. Teria que ir pessoalmente a Rothside. Não iria resolver aquele
assunto por carta, e já era tempo de parar de fugir do passado.
Tomou todas as informações sobre horários de trens e ônibus interestaduais. Era um trajeto
longo demais para ser feito em apenas um fim-de-se mana, mas não podia deixar de ir.
Nunca se perdoaria se acontecesse alguma coisa a tia Hannah sem que ela tivesse tentado
ajudar.
Nem quis pensar na hipótese de reencontrar Piers. Mas não via possibilidade de tornar a vê-lo.
Afinal, iria passar apenas 24 horas em Rothside. Por que ficar, tão apreensiva? O divórcio era
apenas uma formalidade, conforme ele mesmo afirmara, Há doze anos não se comunicavam.
Eram praticamente dois estranhos. Talvez ele sequer a reconhecesse, se a visse.
Ao chegar ao apartamento, começou a planejar o que levaria na viagem. Matthew já tinha
voltado da escola e assistia televisão. Respondeu ao seu cumprimento com um grunhido, e ela
foi guardar as compras do supermercado na cozinha, antes de começar a falar.
- Você se lembra do que andei comentando a respeito de tia Hannah? disse enquanto
esperava que os pães de queijo que pusera no forno assassem. Lembra-se que ela leve um
enfarte?
- Hum.
Entretido com o desenho animado, Matthew não lhe dera maior atenção.
- Matthew! chamou-o impaciente.
- Estou ouvindo...
- Bom. Fez uma pausa para encontrar as palavras certas. Estive pensando em ir para Rothside
neste fim de semana para visitá-la.
- Hum........ O que? Finalmente ele se interessou. Você está dizendo que vamos para
Northumoeriand'?
- Sim. para Rothside, em Northumberland.
- Oba! Há anos que Abby não o via tão entusiasmado. Verdade mesmo?
- Verdade!

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Abby pasmou-se com aquela reação. Esperava que ele começasse a reclamar porque, com a
viagem, iria perder o primeiro turno do campeonato de futebol.
- Que legal! ele exclamou, todo sorridente.
- Então não se importa?
- Eu não! Vamos num daqueles trens expressos?
- Provavelmente. Abby sentiu-se aliviada. E depois, iremos de ônibus, de Newcastle até
Alnbury.
- Ainbury? Onde é isso?
- Oh. é uma cidadezinha a uns oito quilómetros da casa da tia. Onde eu frequentava a escola,
quando era criança. Agora vá pondo a mesa para o lanche, Matt. Os pãezinhos de queijo já
estão cheirando, e não quero que queimem.
Abby reservou passagens para o trem das dezessete e trinta, na sexta-fcira. Combinou
de apanhar Matthew no colégio às dezesseis. o que lhe daria tempo suficiente para chegar à
estação dentro do horário,
- Veja se não se suja muito, Abby recomendou, quando ele saiu para o colégio naquela
manhã, trajando, todo pomposo, seu melhor uniforme.
Desde que soubera da viagem. Mathew mudara de atitude. Quem sabe resolvera superar seus
rancores, pensou ela. a caminho do escritório. Trevor Boume, seu chefe, concordara que ela
saísse mais cedo.
- Eu estava pensando que você ia sair antes para comparecer a alguma entrevista numa
nova firma, disse ele, lamuriento. Sei que você faz muita questão de continuar independente,
não é?
Abby sorriu.
- Se você se refere àquilo que estou pensando, então é verdade, faço muita questão de minha
independência. Não daria certo, Trevor. Você ficou solteirão tempo demais.
Para seu alívio, Trevor deixou passar aquela observação sem maiores comentários.
Periodicamente, ele tentava aprofundar o relacionamento deles, mas Abby sempre lhe opunha
resistência. Gostava dele. Gostava de trabalhar para ele, E só. Não que fosse uma mulher
frígida. Muito pelo contrário. Havia ocasiões em que seu corpo desejava uma aproximação mais
íntima com alguém. Mas Matthew era o seu freio.
Matthew já estava à espera, quando ela chegou à escola. O blazer estava um pouco
empoeirado, mas felizmente, fazia bom tempo e o uniforme não estava salpicado de lama como
era hábito.
O garoto fez questão de carregar a mala que a mãe levava, e Abby sentiu-se protegida ao
tomarem o ônibus para a estação ferroviária. Mattew sabia ser amável e atencioso quando
queria. Seria tão bom se ele fosse sempre assim!
O trem partiu dentro do horário. Havia um restaurante num dos vagões, mas Abby trouxera
sanduíches que Matthew devorou, contente da vida. mal o trem saiu dos subúrbios de Londres.
Depois de comer, o menino começou a ficar indócil e pediu licença para dar um giro pelos
vagões. Percebendo sua ansiedade, Abby deu-lhe permissão.
Na ausência do filho, abriu o estojo de pó compacto e olhou-se no espelhinho.
Teria mudado muito? Doze anos era muito tempo. Já não tinha mais dezoito anos. Estava
beirando os trinta e já não tinha mais a expressão inocente da juventude. Ela mudara sob vários
aspectos, que um simples espelho não podia revelar.

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Seus olhos verdes, sombreados por espessas pestanas, pareciam ter perdido o brilho, e ela
dava-se por feliz por seu cabelo ser loiro-claro, que disfarçava bem os fios grisalhos. A cútis
ainda era boa e lisa. mas nada disso podia alterar o fato de que ela agora era uma mulher feita,
e não mais a adolescente que casara com Píers Roth.
Mathew voltou do passeio pelo trem e seu rosto magro, agora iluminado peia luz artificial, o fazia
assemelhar-se ao pai.
- Abri as portas que dão para as plataformas e fui olhar lá fora, ele explicou.
Já tinham passado por vários trechos familiares do lugarejo, e rever aquele panorama que ela
conhecia tão bem mexia com seus nervos. O menino percebeu o nervosismo da mãe.
- Não tem perigo, só queria ver a locomotiva, mas a porta de comunicação estava
trancada.
- Oh, Matl!
- É que eu nunca viajei num trem a diesel, e queria conhecer o maquinismo para poder contar
aos caras lá da escola.
- "Os caras!" Abby sacudiu a cabeça. Você não está querendo referir-se aos seus colegas?
Maitew sorriu.
- Okey. meus colegas, repetiu, bem humorado, e Abby pensou em como ele podia ser
simpático, quando não era agressivo.
- Você está pálida. Eslá preocupada com tia Hannah?
- Bem... estou preocupada, mas não sabia que demonstrava. Estou parecendo uma velha
decrépita, não é? Devo estar, pois até andei imaginando se ela vai me reconhecer.
- Por que diz isso?
- Ora, por quê! Faz dez anos que ela não me vê, Matt.
- E daí? Você não está nada vefha.
- Obrigada.
- Por falar nisso, outro dia um dos formandos me perguntou se você era minha irmã, disse
Matthew, com uma certa relutância. Quando lhe contei que era minha mãe ele disse que você
devia ser uma menina de escola quando me teve. Eu lhe dei um soco no meio da cara!
- Oh, Matt! - Abby ficou chocada, e ao mesmo tempo lisonjeada.
- É que... bem... - Matt continuou. - Ele estava insinuando que eu não tinha pai. Que eu era um
bastardo!
- Matt! Nunca mais repita essa palavra!
- Mas é verdade. Ninguém acredita quando digo que meus pais são separados. Eles pensam
que você é mãe solteira.
- Mas nós dois sabemos que não é verdade.
- Sabemos mesmo?
A fisionomia de Matt ficou sombria, mas logo ele forçou um sorriso, como se não quisesse
estragar o prazer daquela viagem. Olhou pela janela e perguntou:
- Onde estamos? Já chegamos a Newcastle?
Seguindo o exemplo do filho, Abby deixou de lado os próprios dissabores e respondeu:
- Não. Estamos em Darlington. Ainda temos que passar por Durham e só depois vem
Newcastle.

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- A que horas chegaremos em Alnbury? Tia Hannah sabe da nossa chegada?


- Assim espero. Escrevi ontem, avisando. Não quis mandar um telegrama para não
assustá-la. Pessoas idosas sempre associam telegramas a desgraças, respirou fundo. Foi um
telegrama que anunciou a morte de meu pai.
- O avõ Charlton?
- Pois é... Tia Hannah foi tão bondosa comigo. Nunca poderei retribuir tanta dedicação.
- E a que horas vamos chegar? - insistiu o garoto.
- Se tudo der certo, lá pelas dez da noite.
- Não é muito tarde, para uma velha da idade dela? - perguntou Matthew, e Abby foi obrigada a
dar-lhe razão.
Desembarcaram na estação de Newcastle quase na hora de tomarem o ônibus das nove. Abby
estava se afobando com as malas, e Matlhew interveio.
- Calma! Deve haver outro ônibus às nove e meia.
- Não tenho tanta certeza, e... - calou-se ao ver um homem parado junto a grade divisória da
plataforma. Alto e magro, com as faces morenas encovadas, os cabelos escuros, quase
magros, era uma figura inconfundível. Mudara um pouco. Estava mais velho e mais corpulento,
mas ela o reconheceu no mesmo instante. Sua imagem estava gravada profundamente em sua
memória. Estancou o passo e Matthew também parou, olhando-a com impaciência.
- Mamãe.
- Espere um segundo.
Fingiu que estava procurando alguma coisa na bolsa, mas nada podia alterar o fato de ele estar
ali à espera de ambos. Tia Hannah não devia ter feito uma coisa dessas, pensou, contrariada.
Ela não estava preparada para aquele encontro. A última coisa que podia lhe passar pela
cabeça era a possibilidade de tornar a vé-lo naquela noite. Olhou para Matthew, ansiosa,
imaginando qual ia ser a reação dele.
- O que foi? Não está se sentindo bem? perguntou o garoto. São quase nove horas. Você não
fazia tanta questão de apanhar esse ônibus?
Abby não sabia o que dizer.
- É que.., bem... acho que. afinal, não vamos mais precisar tomar esse ônibus - disse, confusa.
Maithew não entendeu, e antes que ela pudesse jusiificar-se, a!go aconteceu, fazendo com que
o coração de Abby quase parasse.
Piers estava sorrindo para alguém que acabava de desembarcar de um dos vagões da primeira
classe. Era uma moça do tipo mignon, muito graciosa e feminina. Apesar da temperatura
amena, trazia sobre os ombros um casaco de peles.
Valeríe Langton?
Abby tentou controlar aquela sensação de fraqueza que antecede um desmaio. Matthew olhou
para ela e para a divisória da plataforma, duas ou três vezes.
- Mamãe... o que houve? Quem é aquele homem? O que ele está fazendo ali parado? Você o
conhece?
Abby molhou os lábios ressequidos com a ponta da língua.
- Oh, eu... eu pensei que conhecesse - disse tentando se recompor. Como a noite está quente!
Estou morrendo de calor!
- Pois não está com cara de quem está com calor, disse Matthew. passando ambas as malas
para uma das mãos e segurando-a pelo cotovelo.

Livros Florzinha - 9 -
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- Você está branca como uma cera, reparou, começando a empurrá-la para a borboleta da
saída.
- Oh, espere! - A moça de casaco de peles estava agora junto à grade, conversando com Piers.
Não é mais preciso tanta pressa. Matt. Não vamos conseguir pegar esse ònibus.
- Essa eu não entendi! exclamou o garoto, olhando desconfiado para Piers. Mamãe, você
conhece aquele homem! É meu pai?
Dessa vez Abby desejou realmente desmaiar. Qualquer coisa seria melhor do que correr o risco
de Piers vê-la.
- Mamãe! Matthew já estava aflito.
- Pois bem! Ele é seu pai. Mas não veio para nos buscar, conforme você mesmo pode
constatar.
A fisionomia de Matthew revelava emoções conflitantes, e. quando ele olhou de novo para Piers
seus olhos refletiam incredulidade.
Piers se afastava com a moça, acompanhando um carregador que transportava a bagagem.
O carro dele devia estar lá fora, pensou Abby, tentando não se sentir amargurada. Para a srta.
Langton não haveria a chateação de um ônibus. Iria para casa confortávelmente acomodada
numa limousine.
Era o cúmulo do azar Piers ter aparecido na estação justamente naquela noite.
Pobre Matthew! Como estaria se sentindo, vendo o pai pela primeira vez, e sem poder
apresentar-se ou conhecê-lo.
Abby estava carregando os bilhetes para serem picotados, quando Matthew largou a
bagagem no chão e saiu em desabalada carreira atrás de Piers e da moça.
Abby ficou petrificada, sem forças para reagir. Parecia um pesadelo. Precisava detê-lo e não
podia,queria gritar e não conseguia.
Viu quando o menino segurou Piers peia manga do paletó, quando falou com o pai. Viu também
a expressão de consternação e assombro da moça olhando o homem que estava a seu lado.

Capitulo II
Abby acordou no dia seguinte com uma sensação de desnorteamento, principalmente pelo
silêncio reinante no quarto. Ela, que durante doze anos acostumara-se aos ruídos da cidade
grande, estranhava aquela quietude, só quebrada, eventualmente, pelo arrulhar dos pombos no
telhado ou pelo cacarejar das galinhas no quintal.
Com súbita apreensão, lembrou-se que estava em Rothside, deitada na mesma cama que
ocupara por mais de quinze anos. em lvy Cottage, antes de seu casamento com Piers.
Afastou as cobertas e levantou. Foi até a janela e olhou para aquela paisagem que lhe pareceu
mais familiar do que nunca.
lvy Cottage situava-se nos limites do vilarejo, mas de lá se avistavam as campinas verdes que
se espraiavam por quilómetros, e o açude onde nadavam os patos. A aldeia era minúscula.
Na rua principal ficava o correio, e uma grande loja, que vendia de tudo.
Durante o inverno era frequente ficarem isolados pela neve, que tornava os caminhos
intransitáveis. Mas aquele era o seu lar. Se ela não. tivesse se casado com Píers, poderia ainda
estar morando ali. E se em vez de ter escolhido um homem tão mais velho e com um padrão de
vida tão diferente do seu, tivesse se casado com Tristan Oliver, por exemplo, nada daquilo teria
acontecido.

Livros Florzinha - 10 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

Com toda a certeza, a mãe de Piers teria considerado Tristan uma escolha mais acertada, pois
não era segredo para ninguém que ela nunca aprovara o casamento de Abby com o filho.
Opusera-se de todas as formas possíveis àquela união, e só a tenacidade de Piers conseguira
vencer a barreira materna. A separação do casal fora, de uma certa forma, uma vitória para a
sra. Roth.
Afastando-se da janela. Abby passou os braços pelo seu corpo magro. Não queria mais pensar
naquela família. Mas depois do que presenciara na noite anterior, era difícil tirar os Roth da
mente. Fora tudo tão embaraçoso, tão absurdamente cômico! Não que ela tivesse achado
graça.
Ao contrário, fitara com vontade de enfiar-se num buraco, no momento em que Piers a encarara
com aquele seu olhar crítico e ameaçador. Mas, pensando agora, a cena até que tivera sua
dose de humor. Só que naquela hora ninguém se divertira. Aquela reação impulsiva de Matthew
apresentar-se ao pai pareceu, aos olhos dos outros, obra da própria mãe. Pelo menos, Piers
deve ter pensado assim.
Abby estremeceu de repulsa e vergonha e, não mais suportando ficar ali sozinha, a remoer o
acontecido, vestiu um penhoar e desceu as escadas.
Eram somente sete e meia da manhã, mas Hannah Caldwell já estava em plena atividade na
cozinha. Ao ver a sobrinha, indicou-lhe uma bandeja onde estavam as xícaras e o bule de chá.
- Eu ia levar o chá para vocês, lá em cima, mas já que se levantou, pode mos tomá-Io aqui
mesmo - disse, as faces enrugadas, coradas de prazer.
Abby apertou-lhe a mão e foi sentar-se à mesa da cozinha.
E pensar que não precisaria nunca ter saído dali, refletiu. Que bom que tia Hannah ainda existia!
Naquele momento, ela estava precisando tanto falar com alguém amigo!
- Então, finalmente você está aqui! - exclamou a velha senhora, acomodando-se ao seu lado e
segurando as mãos da sobrinha. - Veio para ficar?
- Só o fim de semana, conforme lhe escrevi,
- Sim, eu sei. E você também me escreveu que anda preocupada com Matthew. Agora que o
conheci, posso entender a razão.
- Está se referindo ao que aconteceu na noite passada?
- Estou me referindo aos motivos que estão por trás daquilo que aconteceu. Hannah despejou
o chá nas xícaras. Abby, por que não contou a ele toda a verdade?
- Como eu poderia? Ele nunca acreditou em mim, e agora vai acreditar muito menos.
- Por que agora?
- Era mais fácil fazer de conta que o pai tinha morrido. E, para mim, era como se fosse verdade.
Era como se ele estivesse morto
- Oh, Abby!
- Piers sempre nos repudiou, tia Hannah! Ele rejeitou Matthew. Como eu poderia contar ao
menino uma coisa dessas?
- E quando foi que ele descobriu?
- Há uns dois anos.
- Como foi?
- Ele... ele deve ter visto a certidão de nascimento,
- E daí?

Livros Florzinha - 11 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Ele leu uma das suas cartas, enquanto eu estava ausente. Foi minha culpa. Eu devia ter
percebido que ele estava crescendo, que estava se tornando mais curioso.
- E ele acabou matando a charada, colocando as duas peças juntas, Hannah suspirou. Sinto
muito, minha querida. Eu devia ter sido mais cautelosa.
- Você sempre foi prudente. Nunca mencionou o sobrenome de Piers, Mas é que o nome dele é
pouco comum.
- Depois disso, você contou a verdade?
- Disse-lhe que Piers e eu nos separamos por incompatibilidade de genios.
- Só isso? Não lhe contou sobre as brigas? Sobre Tristan?
- Acha que isso ia adiantar alguma coisa? A respiração de Abby tornou-se ofegante. Não
percebe que já era tarde demais? Eu não tinha mais chances de reconquistar a simpatia de
Marthew. Ele me condenou, e ainda me condena, comprovou isso ontem à noite.
- Oh. minha querida! Hannah parecia inquieta. Conte-me tudo direitinho. Ontem você estava
muito perturbada e eu não quis parecer intrometida.
- Oh, foi um horror! Matt estava sendo tão bonzinho, tão prestativo! Até pensei que ele tivesse
superado o problema. Nem me passou pela cabeça que ele tivesse conhecimento da carta de
Piers sobre o divórcio. Se eu soubesse disso, teria pensado duas vezes antes de trazê-lo
comigo.
Hannah fez um gesto de concordância.
- Continue. Você disse que viu Piers na estação.
- Certo. Ele tinha ido buscar a srfa. Langton que, por coincidência, viajou no mesmo trem. De
primeira classe, naturalmente.
- Naturalmente.
- Bem... - Abby mordeu os iábios. A princípio, quando vi Piers, pensei que... Fez uma pausa
Pode imaginar o que pensei.
- Que eu tinha pedido a ele para ir buscá-la?
- É... Foi uma estupidez minha, reconheço. Mas naquela hora, foi a única coisa que me ocorreu.
- Você chegou a comentar isso com Matthew?
- Não. Mas eu estava tão atrapalhada que Matt. inleligente como é, acabou percebendo tudo.
- E por que você deixou que ele saísse correndo atrás de Piers? Não era tão difícil imaginar o
que poderia acontecer.
- Eu não deixei. Mas não consegui impedi-lo, pois, quando dei pela coisa, ele já estava longe.
- E Matt se apresentou a Piers como sendo o filho dele?
- Foi.
Abby sentiu um peso insuportável comprimindo-lhe o peito.
- E como Piers reagiu? Renegou o filho diante da srta. Langton?
- Não, Abby não conseguia controlar o rancor crescente. Mas também não o recebeu de
braços abertos!
- Era de se esperar, Hannah olhou para a sobrinha, penalizada. Meu amor, você pode
imaginar o susto que Valerie deve ter levado? Ninguém aqui no vale sequer sabia que você
tinha um filho.
- É... posso calcular. Mas naquela hora, tudo o que vi foi Piers me olhando como se quisesse
me matar!

Livros Florzinha - 12 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Bem. é que sem querer, você acabou armando uma boa confusão. Nunca deve ter passado
pela cabeça da srta. Langton que ela ia ter um enteado,
- Piers não considera Matt como filho dele. E deve ter dito isso à srta. Langton tão logo nós
saltamos daquele carro.
- A única vantagem foi que vocês não tiveram que esperar pelo ônibus das dez - disse
Hannah irónica.
- Em compensação, foi a viagem mais longa de minha vida. Durante todo o trajeto, ninguém
disse uma palavra, nem Matt. Talvez ele estivesse arrependido do seu gesto impensado. Em
resumo, ficamos todos sentados e mudos, como múmias, esperando chegar ao nosso destino.
- Piers nem perguntou como você estava? Por que tinha vindo a Rothside?
- No carro, não. Nem me lembro se ele disse alguma coisa, só sei que ele foi tremendamente
hostil. Foi horrível!
- Como é que ele apresentou você a Valerie?
- Oh, como a ex-esposa, penso eu. Foi humilhante.
- Esqueça - Hannah olhou-a com ternura. Você não pode imaginar como é bom tê-la
aqui novamente, Abby. A casa tem estado tão vazia todos esses anos!
- Eu também estou muito feliz em revê-ia, tia. Mas ouvi dizer que você não anda se
comportando bem! O tom era meio brincalhão.
- Oh, você se refere à conversa que teve com o dr. Willis? Já lhe disse, na carta, que não
pretendo deixar esta casa. Se eu tiver que morrer, prefiro morrer aqui, junto de tudo o que é
meu, e não num asilo. Portanto, poupe o seu fôlego, pois para Rosemont não vou nem
algemada!
- Você fala como se aquilo fosse uma prisão, tia Hannah!
- Para mim é a mesma coisa. Não dá para entender, Abby? Morei aqui em Ivy Cottage toda a
minha vida. Não vou sair agora.
- Então terá que contratar uma enfermeira, ou uma governanta. Alguém que possa cuidar de
você. alguém...
- Não quero uma estranha circulando pela minha cozinha, interrompeu a velha senhora
com determinação. Não vou permitir que qualquer uma fique me dizendo o que devo ou não
fazer, na minha própria casa!
- Mas. tia Hannah...
- Não adianta. Abby. Já tomei minha resolução. E se você veio para cá para tentar me fazer
mudar de ideia, perdeu seu tempo.
Abby não desistiu.
- O dr. Wíllis disse que você não pode ficar sozinha!
- Então, venham vocês morar comigo, sugeriu. Não há nada que a impeça. Ainda mais agora
que você e Piers vão se divorciar. Eu lhe daria um emprego e você daria a Matt uma
oportunidade de conhecer melhor seu lugar de origem,
- Isso é impossível! revidou Abby, amedrontada com aquela proposta.
- Por quê? Por causa do seu trabalho em Londres?
- Não é por isso.
- Não? Já se cansou do seu emprego?

Livros Florzinha - 13 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Não, Abby titubeou. É... é que, para ser franca, a Bourne Electronics vai encerrar suas
atividades.
- Vai? Hannah não disfarçou sua alegria. Então, seus problemas já estão resolvidos!
- Não. Tia Hannah.
- Qual é a desculpa? Abby abaixou a cabeça.
- A família Roth não gostaria disso, você sabe muito bem.
- E daí? Desde quando eu me incomodo com o que os Roth pensam ou deixam de pensar?
- Eu não poderia fazer uma coisa dessas com Piers!
- Fazer o quê? - Hannah impacientou-se. Já esqueceu o que Piers lhe fez? Matthew é ou não é
filho dele?
- Você sabe que é.
- Então, não acha que já é tempo dele encarar essa verdade?
- Não quero nada dele, tia.
- De acordo. Mas não percebe que ele só está pensando em si próprio? Onde foi parar o
seu espírito combativo, garota?
- Não posso, não posso!
Abby levantou-see foi para perto da janela. O quintal que antigamente era tão bem cuidado,
estava em petição de miséria. Evidentemente, tia Hannah era velha demais para abaixar-se e
lidar com a terra. Era uma pena!
A anciã também levantou-se e, mudando momentaneamente de assunto, perguntou:
- O que será que aquele rapazinho lá em cima vai querer para o desjejum?
- Umas torradas com manteiga e geiéia são suficientes, Abby forçou um sorriso. É melhor
que eu suba e me vista.
- Tudo bem. Mas não me diga que você não vai comer nada. Um chazinho ralo não é o
bastante.
- Não costumo comer pela manhã. Mas vou aceitar umas torradas.
- Torradas! - escarneceu a velha senhora. Um bom prato de ovos com presunto é o que você
precisa! Sabia que você está só pele e osso?
Abby sorriu e começou a subir as escadas. Entrou no quartinho do filho. Matthew ainda dormia,
a cabeça coberta pelos lençois. Tornou a fechar a porta e foi para o banheiro. Escovou os
longos cabelos vigorosamente, até ficarem brilhantes, e prendeu-os na nuca. Mas não se
maquilou.
Ao descer, encontrou Tia Hannah acendendo o fogão a lenha.
- É para esquentar a caldeira e ter água quente no banheiro. Tem certeza de que não quer ao
menos um ovo escaldado?
- Entrego os pontos. Vou comer um ovo, desde que você me faça companhia, respondeu Abby.
sorrindo.
- Combinado.
Mas. quando Tia Hannah ia começar a cozinhar, uma batida na porta dos fundos a conteve.
Abby olhou-a interrogativamente.
- Talvez seja o moleque da fazenda querendo saber se quero mais ovos - disse Hannah. Mas
quando abriu a porta, recuou, espantada. - Piers! - exclamou. - Ora. vamos entrando!
Você é um bocado madrugador, hein?

Livros Florzinha - 14 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Quando é necessário - disse Piers. entrando na pequena cozinha. - Bom dia, Abby. Vejo que
você também é de acordar cedo.
Abby continuou imóvel, sentada à mesa pois as pernas trémulas a impediam de se levantar.
Limitou-se a olhá-lo. Aos trinta e sete anos, Piers Roth era mais atraente do que aos vinte e três,
quando começara a trabalhar para ele pensou.
Ao ver que Abby não respondia ao seu cumprimento, Piers transferiu a atenção para Hannah.
- Como já deve ter presumido, sra. Caldweil, vim até aqui para falar com Abby, em particular.
Anunciou, com um sorriso cortês. A senhora se importa que eu troque umas palavras com ela a
sós?
- Absolutamente. Pode usar a sala de visitas.
Lembrando-se da atitude de Piers na noite anterior, Abby teria preferido não falar com ele agora,
só por desaforo. Mas ao ver o olhar suplicante de Tia Hannah achou que era melhor não
provocar uma cena.
Conformada, seguiu-o até a sala de visitas, que lhe pareceu gelada, apesar do calor reinante lá
fora. Era um comodo da casa pouco usado e decadente. Tão decadente quanto aquele
quinta!, pensou Abby, numa tentativa de não se deixar abalar por aquela entrevista tão
inesperada.
Após fechar a porta atrás de si, Piers lançou um olhar melancólico para aquela saia antiga,
cheirando a mofo, abarrotada de móveis, bibelõs e mil quinquilharias. Abby imaginou se ele se
lembraria da primeira vez em que entrara naquele cómodo, na noite em que tia Hannah saíra
para visitar a prima doente. Ou da noite em que eles tinham feito anjor, ao pé da lareira, depois
da velha senhora ter subido para ir dormir? Cada cantinho daquela sala tinha uma história que
Abby preferiria esquecer. Sentiu-se constrangida quando o olhar de Piers fixou-se nela, depois
de vagar pelo ambiente.
- Naturalmente você deve saber por que estou aqui - disse ele, sem a menor afabilidade. Talvez
você queira explicar-me a razão daquela cena deprimente de ontem à noite. Como soube que
eu estaria na estação à espera daquele trem? Foi tia Hannah quem a informou? Nesse caso,
gostaria de saber como ela soube disso.
Abby inspirou fundo, sabendo que não adiantaria exaltar-se.
- Acredite ou não, você era a última pessoa do mundo que eu esperava encontrar ontem
à noite. Ou, ainda, que eu queria encontrar. Como você sabe tia Hannah esteve doente. O
médico que está tratando dela me pediu para que eu a aleitasse sobre o perigo de morar
sozinha. Esta é a única razão por que me encontro aqui.
Piers encarou-a desconfiado.
- Uma carta não teria sido menos dispendiosa?
- Talvez. Acontece que eu gosto muito de tia Hannah. Ela é a única pessoa que realmente se
preocupa comigo.
Piers pareceu afetado por aquelas palavras.
- Que necessidade você tinha de trazer o menino? Abby reteve o fôlego.
- Ele é meu filho, Piers. Talvez você também se admire que eu tenha amor e consideração por
ele.
Piers deu um passo à freme.
- Você não tinha com quem deixá-lo? Algum amigo? O ressentimento de Abby aumentou.
- Se você está se referindo a um amigo homem, sinto desapontá-lo. Matt e eu vivemos sozinhos.
Piers sacudiu os ombros largos.

Livros Florzinha - 15 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Mas você deve ter amigas.


- Isso é problema meu, Abby já estava ficando saturada. E que mal havia em trazer Matt?
Afinai, ele pertence a este lugar.
Os olhos de Piers fuzilaram.
- Isso é o que você andou contando para ele.
Abby enfureceu-se.
- Não andei contando nada a ele!
- Contou que eu sou o pai dele!
- E você é!
- Ora, por favor! Não vamos martelar nisso novamente! - a respiração dele acelerou-
se. O fato é que você afirmou que eu era, e apontou-me a ele na estação. Senão, ele não teria
corrido atrás de mim e me feito passar aquele vexame na frente de Val.
- Não foi nada disso.
Estava sendo difícil para Abby controlar-se. Piers se mostrava tão seguro de si, tão arrogante! O
pior é que ela não podia disfarçar a irritação quando ele falava da moça de uma forma tão
íntima.
- Eu também fiquei chocada - continuou ela. - Foi uma coisa tão inesperada. Não fui eu quem
disse a Matthew que você era o pai dele. Ele adivinhou sozinho. Como eu poderia prever aquela
reação?
- Você está querendo me dizer que, ao ver um estranho na estação, ele presumiu que fosse o
próprio pai? O tom de voz era sarcástico, não sou tão burro assim. Abby!
- Seu... seu bastardo! - agrediu-o Abby, furiosa. Você acha que eu ia querer que ele soubesse
que seu próprio pai o renega? Acha que eu ia correr o risco de você negar-lhe a paternidade?
Até dois anos atrás. Matthew pensava que você tinha morrido, e eu preferiria mil vezes que ele
continuasse a acreditar nisso.
A expressão de Piers era de cetícismo.
- O que está dizendo? Que ele descobriu, de repente, sem mais nem menos, o nosso
parentesco?
- Ele leu uma das cartas de tia Hannah. Viu seu nome lá escrito, e o identificou como sendo o
mesmo da certidão de nascimento. Você sabe que ele não é nenhum imbecil. Seria muita
coincidência eu conhecer dois homens chamados Piers, não acha?
- Foi daí que.você lhe contou a sua história.
- Não contei história alguma! Abby estava indignada. Disse simplesmente que o nosso
casamento não tinha dado certo por... por incompatibilidade de genios.
- Devo então concluir que não existe a menor relação entre a minha carta, anunciando o
divórcio, com a sua presença aqui em Rothside!
- Não mesmo! - Abby gritou.
Piers emitiu um som gutural e, resmungando, encaminhou-se para a janela. Estacionada no
meio-fio, estava uma perua Mercedes Benz, muito polida e reluzente. Mais um dos seus
automóveis, pensou Abby, ansiosa para que ele desse o fora. Os Roth gastavam mais em
carros, anualmente, do que ela e Matthew tinham para viver.
- E o que o garoto pensa a meu respeito? - perguntou Piers subitamente, mantendo-se
de costas para ela. Ele deve me culpar por essa tal incompatibilidade de genios.

Livros Florzinha - 16 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Para ser franca, ele acha que sou eu a culpada, isso deve dar-lhe um grande prazer! É o
cumulo da ironia!
Piers virou-se e encarou-a.
- Não me dá prazer algum. Afinal, o filho é seu. Por que não lhe conta a verdade? Diga-!he que,
apesar de ele levar o meu sobrenome, não é meu filho!
- Não posso dizer isso. porque estaria mentindo - retorquiu ela. Oh, por que não vai embora.
Piers? A sua presença aqui não é bem-vínda. E não precisa mais se preocupar. Não vou deixar
que Matt o aborreça novamente. Nós vamos embora amanhã.
Piers voltou para o meio da sala. só que dessa vez ficou tão perto dela que Abby podia até
sentir-lhe o perfume, lavanda, misturado com o cheiro de tabaco de seus charutos predileios.
- Acredito em você quanto ao fato de não esperar me ver na estação, disse cordato. Foi uma
coincidência infeliz que, espero, seja esquecida por ambos.
Se ele pensava que aquelas palavras conciliatórias a apaziguariam, estava enganado. Teria
preferido que Piers dissesse abertamente o que estava pensando, deixando de lado os panos
quentes.
- Quanta magnitude de sua parte! exclamou, irónica, consciente de que a proximidade deie a
perturbava mais do que desejava. Não me venha com paternalismos! Não preciso disso. Vá
pedir desculpas à srta. Langton. Ela está bem mais necessitada do que eu!
- Eu não estava me desculpando. Apesar de estar propenso a aceitar o fato de que você não
poderia ter adivinhado que eu iria buscar Val na estação, continuo achando que foi uma tolice
imperdoável ter trazido o menino para cá. Principalmente numa ocasião como esta e sabendo o
quanto ele estava curioso a meu respeito.
- Ocasião como esta? Que ocasião?
- Quando estamos à beira do divórcio.
- Matthew não sabe de nada sobre o divórcio.
- Tem certeza?
Não, Abby não tinha tanta certeza assim. Matthew poderia ter lido a carta de Piers da mesma
forma que lera a de tia Hannah.
- Mesmo que ele saiba, que diferença faz?
- E é você quem me pergunta isso? Pelo amor de Deus, Abby! O garoto pensa que sou o pai
dele!
- E daí?
- Santo Cristo! Você não entende? Não importa o que nós dois sintamos um pelo oufro. O
que importa é o que ele vai sentir. Você quer feri-lo1
- E você. o que tem a ver com isso?
- Eu me preocupo com qualquer criança que esteja numa situação dessas, ergueu os ombros,
nervoso. Abby, você precisa dizer-lhe a verdade. O menino é inteligente e vai compreender.
O auto-controle de Abby foi-se de vez.
- É isso o que você pensa? E o que realmente pensa? Os olhos verdes lançavam chimpas. Seu
grandessíssimo pedante! Como se atreve a vir até aqui ensinar-me como agir com um filho que
você ignorou durante doze anos? O que lhe importa se ele ficar ou não ferido? Não me venha
dizer, agora, que vai sentir remorsos, quando ambos estamos saindo de sua vida
definitivamente. Foi muito conveniente para você alegar que Matthew não era seu filho!
Era uma boa saída para um casamento malogrado. Você, que nunca se dispôs sequer a
pagar uma pensão alimentícia! O que tem a fazer agora é esquecer que existimos.

Livros Florzinha - 17 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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Os maxilares de Piers ficaram rijos.


- Isso não é verdade. Eu lhe enviei dinheiro...
- Que eu devolvi, cortou Abby. Não queria a sua caridade!
- Não era caridade.
- E o que era então? Uma esmola para apaziguar a sua consciência? Uma tentativa para provar
que eu só queria mesmo o seu rico dinheirinho? Um meio de aplacar seu sentimento de culpa?
- Não! O rosto contorcido pela emoção. Piers segurou-a pelo braço e puxou-a
energicamente de encontro a si. Acredite se quiser, mas um de nós precisava ter um resto de
decência, seus dedos a apertavam dolorosamente. Sua ordinariazinha egoísta. Quando, na
sua vida, você pensou em alguém, além de você mesma?
Abby levou o braço para trás e desferiu-lhe uma sonora bofetada. Foi uma reação instintiva e
incontrolável, da qual logo se arrependeu. Horrorizada, viu a marca dos seus dedos no rosio
tenso de Piers.
- Não esperava outra coisa de você, disse ele. muito frio.
Os músculos dos maxilares de Piers latejavam, as narinas palpitavam, e a respiração tomara-se
ofegante. Os olhos do ex-marido a penetraram como duas lâminas. Seria um olhar de ódio ou
desprezo? Não sabia dizer. Só sabia que ele continuava a apertá-la junto a si, e ela sentiu-lhe o
corpo em brasas.
- Eu deveria mat-la! murmurou Pieis inclinando a cabeça, e Abby entreabriu os lábios
involuntariamente.
Ele ia beijá-la pensou, incrédula.
Apesar de seu ódio, de seu desdém, de sua revolta, ele ainda sentia alguma coisa por ela!
As pernas de Abby fraquejaram quando aquele olhar penetrante fixou-se em seus lábios. Mas
logo ele a libertou daquele abraço, causando-lhe uma dolorosa frustração. Piers alcançou a
porta rapidamente e, já com a mão na maçaneta, voltou a fitá-la, dessa vez com evidente
rancor.
- Espero nunca mais tornar a vê-la, disse com uma frieza que não combinava com sua
fisionomia alterada. Você tem razão. Eu usei o nascimento da criança como pretexto para fugir
de um relacionamento impossível. O nosso casamento foi uma farsa, desde o início. Talvez
tivesse sido melhor ter-lhe dito a verdade, antes de casar. Talvez você tenha razão de me
acusar de omissão. Mas como eu poderia saber que você era uma gata libidinosa que iria pôr
suas unhas de fora em tão pouco tempo?

Capitulo III
- Mamãezinha!
A voz aflita de Matthew vinha da porta entreaberta, Abby não queria que ele a visse naquele
estado, com os olhos congestionados e inchados, depois da crise de choro. Mas precisava
atendê-lo. Tapando o nariz com um lenço, virou-se para ele.
- Oh, já levantou? perguntou, sem necessidade. Eu... você dormiu bem? Por que não pede à tia
Hannah para lhe dar o desjejum?
- Ela já está escaldando dois ovos para mim, disse Matthew inquieto, apoiando-se ora num
pé, ora no outro. O que foi, mamãe? Você andou chorando?
Abby deu um suspiro profundo e afastou o lenço do rosto.
- Oh, você sabe como são essas coisas, tentou disfarçar. Velhos lugares, velhas recordações...

Livros Florzinha - 18 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Meu pai esteve aqui, não foi? Acordei com a voz dele. Por que ele veio tão cedo?
Abby procurou desesperadamente por uma explicação.
- É que seu pai é um homem muito ocupado, disse. Vai ver que tinha coisas importantes a
fazer logo mais.
- Ele veio por causa de ontem à noite, não é verdade? Ele ficou uma fera porque eu estraguei o
"barato" dele com aquela fulana.
- Bem... de fato, você o colocou numa situação difícil, concordou Abby com voz cansada. Você
agiu impulsivamente, sem saber o que eslava fazendo. Seu pai vai levar isso em consideração.
Mas vamos esquecer de tudo, ok?.
- Esquecer! repetiu Matihew, inconformado. Não vou esquecer coisa alguma. Até que enfim
pude conhecê-lo, e tive a impressão que ele gostou de mim. Foi uma pena que aquela "dona"
estivesse presente, senão poderíamos ter conversado de verdade. Quando eu voitar a vê-lo...
- O quê? Matt, você não vai vê-lo nunca mais!
- E por que não? Ele é meu pai! Por que você acha que eu estava tão entusiasmado em vir
para cá? Depois que li a carta dele, achei que, se eu viesse, teríamos uma última chance.
- Você ieu a carta de seu pai?
Matihew se encabulou, mas assim mesmo não se deixou intimidar.
- E por que não deveria? Você nunca iria me contar, eu sei. Ele quer o divórcio, estava escrito
lá. E para quê? Para casar com aquela ta! Langton?
- Oh. Matt! Eu gostaria que você entendesse uma coisa: seu pai não está interessado em nós.
Nem em mim, nem em você. O que ele quer é a liberdade dele.
Matthew ficou contrariado,
- Como você sabe? Só porque ele quer se divorciar de você, conciui que também não me quer?
Milhares de casais se separam, mas os filhos continuam a ver os pais.
- Não é bem assim, Abby estava prestes a contar-lhe tudo, mas ficou penalizada em destruir
aquele restinho de ilusão do menino. Matt, não me olhe assim. Dou-lhe minha palavra que não
é minha culpa, mas... mas hoje peia manhã seu pai deixou bem claro que não quer mais nos
ver.
- Não é verdade!
Ela sentiu-se impelida a abraçar o filho, mas ele recuou.
- O que você andou dizendo para ele? O menino já estava soluçando. Aposto que
foi você quem pediu para que ele nos esquecesse. Foi isso mesmo. A culpa é sua!
- Matt...
Mas Mathew saiu correndo para a cozinha, fugindo da mãe. Abby o seguiu vagarosamente,
perdendo a última esperança de ter um bom relacionamento com o fiiho.
Ao chegar à cozinha, Hannah parou de cortar o pão, e, antes de dar atenção à sobrinha, olhou
para o alto da escada.
- O que está acontecendo, afinal? Primeiro, Piers sai desta casa como um vendaval, sem ao
menos se despedir. E agora, Matthew sobe por essas escadas, como se você estivesse atrás
dele de chicote em punho!
Abby deixou-se cair sentada numa cadeira, no auge do desânimo.
- Nem me pergunte - disse, desconsolada. Existem ocasiões em que eu desejaria ter tido o
mesmo destino de minha mãe: morrer ao dar à luz. Não sei se terei forças para ir até o fim.

Livros Florzinha - 19 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Claro que tem, afirmou Hannah. E não torne a dizer uma coisa dessas! Seja grata pelo que
possui, juventude e saúde. Há muita gente neste mundo que invejaria a sua sorte, !embre-se
disso.
- Eu... eu sei. Só não sei o que fazer agora. Matt vive me acusando de tudo, Ele me acusou até
de ter mandado Piers embora esla manhã, e Deus é testemunha de que ocorreu exatamente o
contrário.
- Suponho que Piers tenha vindo aqui para pedir que você afaste o menino do seu caminho.
- Foi mais ou menos iss, Hannah ficou indignada.
- Esse homem é um idiota! Será que não enxerga a semelhança que existe entre eles? Ambos
são teimosos! A acusam por uma falta que você não cometeu! Gostaria de bater aquelas duas
cabeças duras, uma contra a outra!
- Quem me dera que tudo fosse assim tão simples! E pensar que sempre achei que, mais cedo
ou mais tarde, Piers ia começar a ter dúvidas.
- A mãe dele nunca ihe permitiria pensar de outra forma, disse Hannah, tirando os ovos quentes
da panela.- Você só facilitou as coisas para ela. quando ficou grávida logo depois de casar.
Durante anos, a sra. Roth fez uma lavagem cerebral em seu filho para que ele acreditasse
naquela história sobre você e Tristan.
- O fato de Tristan ter ido embora pouco ajudou.
- Pois é... - continuou Hannah. - Por uns bons tempos, os Oliver ficaram amargurados. Mas
agora Lucy já é uma moça feita. Lembra-se de Lucy Oliver? Ela casou, e agora é o marido quem
toma conta da fazenda.
- Tristan foi embora para o Canadá, não foi?
- Sim, e acho que fez muito bem. Ele também casou por lá e já tem três filhos.
- Homem de sorte! Como tudo teria sido mais simples se eu tivesse casado com Tristan.
- Você não o amava, declarou Hannah, muito prática. Talvez tivesse sido realmente mais
simples, sob certos aspectos. Mas diga honestamente. Abby: você teria sido feliz? Está certo
que as coisas com Piers não correram como você esperava, mas pelo menos ele lhe deu um
pouco de felicidade.
- Uma felicidade que estou pagando até hoje - respondeu Abby, com ressentimento. Piers
nunca me deu uma oportunidade para explicar tudo! Peto menos, poderia ter concordado
em falar novamente com o dr. Morrison. Poderia ter mandado fazer novos testes em outro
laboratório.
- Abby, Abby! Você não pode ser tão ingênua! Não depois de doze anos de casamento. Deve
saber como essas coisas são importantes, principalmente para um homem. Piers consultou
aquele médico, seguindo conselhos da mãe, para assegurar-se de que não poderia ter filhos.
- Mas os testes estavam errados, e você sabe disso! - afirmou Abby, fazendo forças para não
chorar.
- Possivelmente. Mas o fato é que Piers não tinha motivos para duvidar da autenticidade
dos exames. Tenho certeza que, hoje em dia, você pode entender como ele deve ter-se sentido.
Santo Deus! Ele ficou tão deprimido que sequer lhe contou o resultado, apesar de ter sido essa
a intenção da mãe. Eia pretendia que assim você desistisse do casamento.
- Mas ela não podia pensar que uma coisa dessas ia fazer alguma diferença quanto aos meus
sentimentos por Piers!
- Pois foi o que pensou.. A maior parte das moças, mesmo nos dias de hoje, querem ter filhos
quando casam.
- Mas poderíamos adotar uma criança!

Livros Florzinha - 20 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Não seria a mesma coisa. Pelo menos, Piers não era dessa opinião. Abby, tente se colocar no
lugar dele. Como teria reagido se um médico lhe dissesse que você era estéril?
Abby ficou impaciente.
- De qualquer forma, ele deveria ter me dado uma chance para explicar.
- Talvez. Mas as evidências eram contrárias, não eram? E o fato de você descobrir que
estava grávida logo nas primeiras semanas do casamento...
- Tia Hannah! Abby olhou-a, indignada.- Afinal, de que lado você está?
- Estou só bancando o advogado do diabo. Estou do seu lado, Abby e você sabe disso. Mas
continuo a achar que aquela sua fuga não ajudou em nada.
- Eu não poderia ter tido a criança aqui.
- Não vejo a razão.
- Não queria que Piers me visse naquele estado, que acompanhasse a minha gravidez,
vendo-me engordar dia a dia, observando-me, desprezando-me, achando-me horrorosa!
- Mulheres grávidas não ficam horrorosas! Você fugiu porque não teve coragem para enfrentar
a situação.
- Tia Hannah!
- É isso mesmo, Abby. Sinto muito, mas é a pura verdade. Você permitiu que os Roth
determinassem o seu futuro. Oh, ter ido para Londres foi um ato de bravura, não nego. Mas
não pense que foi somente para provar aos outros que podia ser uma mulher independente, que
você deixou Rothside. Na verdade, você estava fugindo, e era isso que os Roth queriam.
Abby tevantou-se e começou a caminhar, inquieta.
- É isso que você pensa a meu respeito?
Tia Hannah resolveu refrear a língua para não feri-la ainda mais.
- Minha querida, eu lhe quero bem, e sabe disso. Mas não adianta fugir da verdade. Mais cedo
ou mais tarde ela se volta sobre os nossas cabeças. É o que está acontecendo agora.
- Está se referindo a Matthew? Hannah concordou.
- Mas o que posso fazer?
- Bem, fugir novamente não é a melhor medida. Matthew não a perdoará, enquanto você não
puder provar que não teve culpa do que aconteceu.
- E como poderei fazer isso?
- Voltando a morar em Rothside. Dando a Matthew a chance de conhecer o pai como ele
realmente é.
- Não. Eu já lhe disse, tia, que não posso fazer uma coisa dessas.
- Por que não pode?
- Já falei. Porque não seria justo.
- Para Piers? Abby! Matthew é filho legítimo de Piers! Que direito tem eie de continuar
ignorando esse fato?
Abby mordeu os lábios.
- O que as pessoas iriam dizer? O que pensariam?
- E daí? Provavelmente pensarão que você teve a criança enquanto estava em Londres. O que
não deixa de ser verdade.
- Mas como poderei provar que Matthew é mesmo filho de Piers? Ele nunca acreditará em mim!

Livros Florzinha - 21 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Talvez você não consiga.


- Essa não entendi.
- Matthew poderá conseguir.
- Matthew? Abby estava confusa.
- Minha querida, se você trouxer Matthew para morar aqui, se o matricular na escola de
Alnbury, se deixar que ele conviva com os outros meninos da vila... Dá para imaginar o que
Piers poderá sentir?
- Duvido que sinta alguma coisa.
- Duvida? Não acha que essa presença constante poderá sacudi-lo?
- Sacudir, concordo, mas...
- Ouça-me, Abby. Sou bem mais velha e talvez um pouco mais sábia do que você. Está certo,
concordo que a aproximação com Piers poderá, a princípio, causar-lhe um certo mal-estar. Mas
dê tempo ao tempo. Cedo ou tarde, seu coração de pai falará mais alto.
- Tia Hannah, acho que você está se iludindo.
- Pois eu pago pra ver.
- E você acha que Piers vai deixar que alguém atrapalhe seus planos de se casar com Valerie
Langton? Ora, tia, você já deveria ter adivinhado o que Piers andou contando a ela. A verdade,
sob o ponto de vista dele.
- Mesmo assim, a moça deve ter ficado na dúvida.
- Tia. você não está sendo realista.
- Não? Esse homem já amou você, e muito.
- Isso foi há muito tempo.
- Mas se ele começar a vê-la com frequência, a ouvir falar de você, como decerto vai acontecer,
começará a reviver o passado.
- Lembranças que logo serão esquecidas.
- Algumas delas, pode ser. Mas exislem outras, difíceis de esquecer.
Abby impacientou-se.
- Se você pensa, tia, que depois de tudo o que aconteceu, eu vou poder perdoar Piers...
- Não espero milagres, respondeu Hannah. Estamos falando sobre Matthew. É nele que você
deve pensar. O futuro do menino precisa ser garantido. Ele é filho de Piers e, por direito, a
propriedade dos Rolh deverá pertencer-lhe um dia.
- Bem, sim... mas...
- Ao menos, dê uma oportunidade a natureza. O garoto é o pai escrito. Talvez, à primeira vista,
a semelhança não seja tão evidente. Mas existem detalhes... afinidades... Com o tempo,
quem sabe a verdade venha à tona? Gostaria de ver a cara de Piers quando ele começar a
desconfiar que esteve errado todos esses anos.
Abby pensou nessa hipótese. Ela também gostaria, e muito. Mesmo que não desse em nada,
seria uma doce vingança saber que Piers iria remoer a besteira que cometera peio resto de seus
dias.
Matlhew ficou em seu quarto até a hora do almoço. Ao descer as escadas, deu um sorriso
amarelo para a mãe, que ficou aliviada em ver que, aparentemente, o menino tinha superado
sua crise de rancor. Ele respondeu às perguntas de tia Hannah e comeu com apetite.

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O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- O que você vai fazer hoje à tarde? perguntou tia Hannah a Matthew, que já havia repetido a
sobremesa e esvaziado a jarra de limonada. Abby! virou-se para a sobrinha. Por que você
não leva Matthew para dar uma voita? Tenho certeza de que ele vai gostar de conhecer o nosso
vilarejo.
Tia Hannah fez a sugestão com a cara mais inocente do mundo, mas Abby sabia que a velha
senhora tinha segundas intenções. Queria que ela convencesse o menino a mudar-se para
Rothside. Assim, matariam dois coelhos de uma só cajadada: garantiriam um lar permanente
para ambos e evitariam que a tia precisasse deixar Ivy Cottage.
- Não sei se... - começou a dizer Abby, mas foi ínterrompida.
- Vão andando! - insistiu tia Hannah. - Vou só dar uma lavadinha nessa louça e depois vou
descansar um pouco, de pernas para o ar. O dr. Willis recomendou que eu fizesse isso todas as
tardes. Diz que faz bem para a circulação. Esses médicos jovens têm cada uma!
- E então, Matthew? perguntou ao filho, já preparada para uma negativa, mas o menino aceitou
o convite.
- Vamos. sim. Já que temos que ir embora amanhã, o melhor é aproveitar o pouco tempo que
me resta.
Abby pediu ao filho para ir arrumar-se um pouco e, depois que ele subiu as escadas, falou com
a tia.
- Se você quiser que eu fique, daqui por diante, vou querer fazer os serviços da casa, em troca
da minha hospedagem.
Ao encaminhar-se para a pia, Hannah olhou-a, incrédula. - Está falando sério?
- Se Matt concordar, começando a enxugar os pratos. - Não é uma promessa, mas já que nada
está dando certo, estou disposta a fazer uma tentativa.
Abby começou a remoer aquela possibilidade quando ela e Matthew começaram a andar por
uma alameda verdejante que levava ao centro do vilarejo. Era uma tarde ensolarada e a
atmosfera estava impregnada peio perfume das flores e dos milharais. Passarinhos cantavam
entre os arvoredos, e os patos nadavam tranquilamente no açude. Matthew mantinha-se calado
e prestava pouca atenção à paisagem. De vez em quando, atirava para longe as pedras que ia
encontrando pelo caminho.
- Quando eu era criança, costumava soltar barquinhos de papel naquele açude, disse
Abby, numa tentativa de despertar-lbe o interesse.
Matthew continuou mudo e Abby apontou para uma construção de pedras cinzentas.
- Foi ali que aprendi as primeiras letras, antes de ter idade suficiente para frequentar a escola
primária de Alnbury.
Algumas crianças brincavam no gramado em frente ao edifício, mas pararam ao verem Abby e
Matthew. Certamente perguntaram-se quem seriam aqueles dois forasteiros.
Seguindo adiante, passaram pelas lojas e pelo correio. Em seguida, ficava a Igreja de St.
Saviour, onde ela e Piers haviam se casado. Evitou passar por ali. com receio de que o
Reverendo Armstrong aparecesse à porta e a reconhecesse. Seria embaraçoso apresentar-lhe
Matthew, como filho de Piers. As pessoas poderiam não acreditar nela, principalmente os
conhecidos de sua sogra. Sabia que ficar morando ali no vilarejo podia ser uma tarefa muito
pesada para o futuro. E temia não ser capaz de levá-la até o fim.
- Onde é que meu pai mora? perguntou subitamente Matthew.
Abby hesitou anfes de responder.
- Fora da aldeia. Ele... bem, eie mora em Rothside Manor. O nome deste vilarejo provêm do
sobrenome Roth.

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O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Já tinha imaginado, disse com insolência. Afinal, onde fica Rothside Manor?
Abby titubeou.
- Por que quer saber?
- Por acaso é segredo?
- Não, não é segredo. Só não sei por que você quer saber.
Matthew deu um sorriso cínico.
- Não se preocupe que não vou invadir a propriedade alheia. Só queria saber onde meu pai
mora com os meus avós.
- Você só tem uma avó, que é a mãe de seu pai, A sra. Roth.
- Como ela é?
Matthew parecia muito interessado, e Abby pensou como era ironico o fato de a sogra suscitar
tanta curiosidade numa criança que ela nunca desejara.
- Bem... ela... ela é muito distinta. Deve estar com uns sessenta anos, mais ou menos. A
ultima vez que a vi, era uma senhora muito elegante, de cabelos grisalhos, que gostava de
andar a cavalo. Pelo que tia Hannah andou contando, hoje em dia ela dedica a maior parte de
seu tempo a obras assistenciais. Você sabe, quermesses da igreja, campanhas para levantar
fundos, esse tipo de coisas que se espera que uma pessoa da posição dela faça.
- Eles são ricos? Matthew estava curioso e perdera aquele ar de indiferença. Você já morou
em Rothside Manor. não morou? Eu também já morei lá?
- Não, Abby sentiu que corava e desviou-se do assunto chamando a atenção do filho para um
pequeno animai que cruzou seu caminho. Em Londres não temos desses bichinhos.
Matthew não se deixou impressionar, e Abby continuou a caminhada, achando que já era hora
de falar sobre o assunto que fora desviado até o momento: a mudança. Tia Hannah tinha razão
quando dizia que o garoto náo podia ser privado do direito de encontrar sua verdadeira
identidade.
- Matt...
Ela faiara baixinho, mas o menino a ouvira, pois ergueu a cabeça.
- Matt... Repetiu, sem saber por onde começar. Tia Hannah sugeriu que talvez fosse melhor
que nós ficássemos com ela por uns tempos.
A fisionomia de Matthew transfigurou-se.
- Ficar com ela? Quer dizer, nas férias?
- Não, Abby escolheu as palavras cuidadosamente. Nós viríamos morar aqui em
Rothside, pelo menos por uma temporada.
- Morar com tia Hannah? perguntou, perplexo.
- Como você sabe, o médico acha que ela não deve morar sozinha, por causa da idade e do
coração. Se não me falha a memória, você mesmo sugeriu que morássemos todos juntos lá
no apartamento. Ela achou melhor fazer ao contrário, nós viríamos para cá.
- Deixar Londres?
- Não é uma idéia tão má assim, ainda mais que eu vou perder o meu emprego. O aluguel
daquele apartamento é muito caro, e. hoje em dia, não é tão fácil conseguir um novo trabalho.
Matthew franziu a testa.
- E iríamos morar em Ivy Cottage?
- Claro.

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O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Não é uma casa muito grande... pelo menos para três pessoas.
- O apartamento também é pequeno, evidenciou Abby.
- E eu precisaria ir para a escola?
- Lógico. Você iria para a escola de Alnbury, aquela de que lhe falei. Parece que existe um
ônibus especial que apanha todas as crianças das aldeias vizinhas, forçou um sorriso. No meu
tempo, a gente tinha que usar as linhas normais.
- Meu pai também freqíientou essa escola?, perguntou.
- Não, Abby suspirou, desanimada, mas continuou O que você acha? Vamos aceitar o convite
de tia Hannah?
Matthew abaixou-se para pegar um capim, que esmagou entre os dentes.
- Meu pai está sabendo disso?
Abby corou.
- Não, ele não sabe. E daí? Ele não tem nada a ver com as nossas decisões.
- Mas esta vila é dele, não é?
- Não. A família Roth já possuiu a maior parte dessas terras, no passado. Mas os tempos
mudaram. Não que eles náo continuem ricos...
- ... e poderosos - acrescentou Matthew, mas ela o ignorou.
- O que quero dizer é que eles não são os donos de Rothside. Matt. Na verdade, eles são um
tanto esnobes e não se misturam com os habitantes daqui. As amizades deles vivem fora da
vila.
- Então, como foi que você conheceu meu pai? perguntou o menino, confundindo ainda
mais a cabeça da mãe.
- Quer mesmo saber? Matt, tudo isso pertence ao passado. Foi um grande erro. Você está
interessado em erros?
- Está querendo me dizer que eu fui um dos seus erros? - murmurou, ressentido.
E Abby fechou os olhos, desesperada.
- Não foi isso que eu quis dizer. O nosso casamento é que foi um erro. Piers e eu éramos de
classes sociais diferentes. Nunca deveríamos ficar juntos, pois não tínhamos nada em comum.
- Com exceção de um filho - afirmou Matthew, muito inteligentemente.
- Matt, nós acabamos com tudo, mesmo antes de você nascer!
- Acho que você errou nisso também, revidou o menino. Ao menos, eu poderia ter tido a chance
de escolher com quem gostaria de morar.
Abby engoliu em seco.
Matthew a tinha ferido muitas vezes, mas nunca tão profundamente como dessa vez.
Desnorteada, começou a trilhar o caminho de volta, e ao passarem pelo gramado onde as
crianças ainda brincavam uma bola de ténis foi cair aos pés de Matthew. Se ao menos ele
pudesse ser uma daquelas crianças normais e despreocupadas!
Um dos menorzinhos, um menino gorducho e ruivo, foi para perto de Matthew para recuperar a
bola. Matthew abaixou-se rápido e a segurou para o alto, prepotente e desafiador.
- Devolva a bola, Matthew! Você está interrompendo o jogo! Matthew hesitou, e em
seguida, sem dizer palavra, arremessou-a através do gramado, por cima da cabeça das
crianças, fazendo com que caísse dentro do açude.

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Os patos se assustaram e saíram de dentro da água, grasnando e sacudindo as penas


molhadas.
Matthew esfregou as mãos, deu um sorriso de satisfação e fez uma careta para o garotinho
ruivo que estava prestes a chorar.
Abby ficou possessa.
- Seu idiota! - gritou, furiosa. Você não conseguirá conviver com crianças decentes! Volte já para
casa, suba para o seu quarto e não apareça mais até amanhã!

Capitulo IV
No primeiro instante. Abby pensou que Matihew fosse desafiá-la. Ele ficou vermelho como um
pimentão, fechou os punhos, mas depois, talvez por um resquício de respeito que ainda tinha
por ela, limitou-se a lançar-lhe um olhar raivoso e saiu correndo em direção à casa da tia
Hannah.
Abby fez um estorço para acalmar-se e virou-se para o garotinho ruivo.
- Bem, vamos lá!... vamos ver o que podemos fazer para salvar aquela bola. Até que está um
dia bom para patinar na água!
A boquinha do garoto deixou de tremer, e ele chegou a dar-lhe um sorrisinho conformado.
- Por que eie jogou a bola no açude? - perguntou o menininho já mais confiante. - Não vai
dar mais para jogar com a bola toda encharcada!
- Vamos ver se dá, hein?
Abby acompanhou-o pelo gramado, sentindo que estava sendo alvo de todos os olhares,
inclusive de um grupo de mulheres que tinham se juntado, bisbilhoteiras, junto ao portão de uma
das casas, e de dois velhos que estavam sentados num banco, à sombra de uma árvore.
Todos deviam ter presenciado a cena, pensou Abby. dando uma olhada em Matthew, que já se
distanciara. Ela deveria ter obrigado o filho a ir recuperar a bola, mas, na hora, ficara
exasperada demais para raciocinar direiio.
A bola estava boiando na superfície, mas fora do alcance das mãos. Abby tentou pescá-la com
o auxílio de um galho, sem sucesso.
- Quer que eu entre na água e vá buscá-la? - perguntou uma menina de tranças castanhas,
começando a descalçar as sandálias.
Abby a deteve. A última coisa que queria, naquele momento, era que aparecesse alguma mãe
furiosa, acusando-a de ter posto em risco a vida da filha.
- Deixe que eu vou, disse Abby. já se arrepiando com a idéia de enfiar os pés naquela água
suja e lodosa.
Tirou as próprias sandálias e arregaçou a barra dos jeans. Ao sentir os pés afundarem na
camada de lodo, chegou a estremecer de nojo.
- Posso ajudar?
O oferecimento vinha de um homem de ombros largos, um tanto atarracado, vestido com calça
de algodão creme, com uma mancha de tinta à altura dos joelhos, e camisa de mangas
arregaçadas.
A menina de tranças foi segurar-lhe a mão e ele sorriu, divertido.
- Não precisa, afirmou Abby, já aproximando-se da bola. Eu chego lá! e esticando o braço,
conseguiu alcançá-la. - Viu? Mas, obrigada, da mesma forma.

Livros Florzinha - 26 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Não tem de quê - retrucou o homem, estendendo a mão para ela. Não deu para chegar a
tempo porque eu estava pintando a casa, e precisei antes lavar as mãos. Sou Sean Willis. Você
deve ser a sobrinha da sra. Caldwell. Pude reconhecê-la pela fotografia que sua tia tem na
mesinha de cabeceira.
- Sean Willis! Abby tentou limpar os pés na grama. - Então você é...
- ... o médico de sua tia - ele completou. - Ela me contou que você estava para chegar. Sou-lhe
muito grato.
- Ora! Era o mínimo que eu poderia fazer.
- -Só espero que tenha conseguido convencê-la. É imprescindível que ela compreenda.
Abby olhou para os pés descalços, admirando-se de não ter dito que tinha planos de ir morar
com a tia. Ele aprovaria, certamente, mas agora não estava muilo segura de que aquela seria a
solução mais acertada. Depois do péssimo comportamento de Matthew, como poderia
permanecer ali? As coisas poderiam piorar em vez de melhorarem.
- Oh, você não pode voltar para casa desse jeito! - disse Willis. Vai estragar as suas
sandálias! Posso oferecer-lhe o meu banheiro? Miranda virá conosco para que essas velhas
fofoqueiras não comecem a mexericar.
Abby ergueu os olhos do chão.
- -Mas sua mulher não...
- Minha mulher morreu, Sra. Roth. Teve uma leucemia quando Miranda tinha poucos
meses de vida. Agora tenho uma empregada, a Sra. Davison, que toma conta da casa e que.
por sinal, é um tesouro. Mas hoje ela foi a Newcastle fazer compras.
Abby acabou sendo persuadida pela amabilidade do médico. O único obstáculo foi o caminho de
pedregulho que levava até a porta da casa dele.
- Você vai precisar levá-la no colo, papai - disse Miranda, ao ver Abby tentando pisar
desajeitadamente naquelas pedrinhas pontiagudas.
- Como não pensei nisso antes? - Sem hesitar, suspendeu Abby nos braços e a carregou até a
soleira da porta - Quer que a leve até lá dentro?
- Não é preciso - E Abby pediu que a soltasse. Oihe, se me arrumar uma bacia com água
posso lavar os pés aqui na escada, à vista de todos!
- Não acho uma boa ideia. E. pelo que soube através de sua tia, você não é do tipo que se
importa com mexericos. Só tome cuidado com a tinta fresca do hall. Estava pintando o rodapé
quando a vi dar seu mergulho no açude.
A casa era antiga, com duas .janelas flanqueando a porta de entrada. Um corredor comprido e
estreito atravessava-a de ponta a ponta, e agora havia jornais espalhados pelo chão, em vez de
carpetes.
- Venha até o lavabo - convidou o médico, enquanto a filha largava as sandálias sujas junto à
escada - E você, Miranda, vá buscar uma bacia e uma toalha para a Sra; Roth.
- Nem queira saber como estou agradecida - disse Abby, pouco depois, já com os pés lavados
e enxutos. - Aquela água estava imunda! Nem sei como os patos não morrem envenenados!
- Oh, você não tem ideia de como os patos são resistentes. Agora venha, convidou ele,
dirigindo-se para uma das salas. Preparei um chá. Foi um bom pretexto para parar um pouco. Já
estava começando a ficar com dor nas costas de tanto pintar esses rodapés.
A hesitação de Abby foi imperceptível. Quando ela o seguiu até uma sala de estar muito
confortável, notou que eles estavam sozinhos.

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- Miranda foi lá fora brincar mais um pouco, explicou ele, indicando um sofá para que
Abby se sentasse, e acomodando-se a seu lado. Quem vai bancar a dona-de-casa? Eu ou
você? Se for você, já vou avisando que gosto de leite no chá e dois torrões de açúcar.
Abby sorriu e incumbiu-se das honras da casa.
- Por quanto tempo vai ficar em Rothside? perguntou Sean, servindo-se de um biscoito. -
A sra. Caldwell ficou eufórica com a sua visita. Ela me disse que você nunca mais voltou, desde
que foi para Londres.
Abby apressou-se em dar uma justificativa para tão longa ausência.
- E uma viagem muito longa. Mas Tia Hannah veio nos ver em Londres.
- E as passagens de trem estão pela hora da morte!
- De fato.
- Foi muita sorte ter.pego um fim de semana com um tempo tão bom - disse o médico,
mudando de assunto. - Rothside é deprimente quando faz um mau tempo. Você deve saber
disso melhor do que eu. Pois já morou aqui. Eu nasci e me criei em Hampshire, e lá o clima não
chega a esses extremos.
- Há quanto tempo está morando em Rothside, dr. Willis?
- Sean. por favor - ele corrigiu-a, pegando mais um biscoito. - Deixe-me ver... há uns dez anos,
aproximadamente. O dr. Morrison ainda estava aqui. Você deve tê-lo conhecido. Ele se
aposentou mais ou menos na época em que você se mudou.
- Sim, conheci.
Abby não queria esticar aquele assunto e resolveu dar uma explicação sobre o que acontecera
naquela tarde com Matthew.
- Não sei o que deu nele. Geralmente Matthew se dá bem com outras crianças. Eu devia tê-lo
obrigado a ir apanhar a bola, mas fiquei tão desnorteada que o despachei de volta para casa.
- Eu vi o garoto. Ele é muito forte e desenvolvido. Quantos anos ele tem? Doze. treze?
- Onze. Por ele ser tão crescido, as pessoas pensam que é mais velho, e esperam que se
comporte como um adulto. Mas ele não passa de um crianção.
- Você devia ser muito jovem quando ele nasceu.
- Eu tinha dezoito anos - disse Abby, levantando-se. Não quero importuná-lo por mais tempo,
dr, Willis. O chá estava ótimo, mas agora preciso ir andando.
- Como queira.
Sean também levantou-se, e ela notou que ambos eram quase da mesma altura. Mas o Dr.
Willis parecia maior, talvez por ser tão troncudo. Ficou imaginando quantos anos ele teria. De
trinta e cinco a quarenta anos, a mesma faixa de idade de Piers. Mas era bem diferente dele.
Parecia-se mais com Tristan Oliver, robusto e sólido. O tipo de homem que inspira confiança,
honesto, sincero e aberto.
- Terei oportunidade de vê-la novamente, antes de partir? perguntou, quando Abby
saía. A sra. Caidwell disse que você iria passar só o fim de semana. Ainda vai estar por aqui na
segunda de manhã?
- Penso que não. Qualquer que fosse a decisão, precisaria voltar para Londres, para tomar
providências sobre a mudança. Talvez nos reencontremos em breve. Obrigada pelo chá.
Era o que eu estava precisando.
- Disponha sempre e volte logo.

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Abby sentiu um calor no rosto ao atravessar o gramado. Sabia que Sean a seguia com o olhar.
Estancou, olhou para trás e acenou-lhe um adeus.
Abby voltou para casa e não contou a Tia Hannah sua mudança de planos.
No domingo de manhã, estava ajudando a descascar batatas para o almoço, quando
comunicou-lhe que não queria mais mudar-se para Rothside.
- Mas, Abby! Hannah fitou a sobrinha com lágrimas nos olhos. Você prometeu! Você disse que
ia tentar! Não pode voliar atrás com a sua palavra. Se você não ficar comigo, o Dr. Willis vai me
obrigar a ir para Rosemount. Garanto que não terei nem um mês de vida se sair da minha casa.
Abby soltou um profundo suspiro.
- Tia Hannah, o Dr. Willis não é o monstro que você imagina. Cheguei a conhecê-lo
pessoalmente, lembra-se? Abby já tinha feito um resumo de sua visita à casa do médico. Ele só
quer o melhor para você. Se insiste em querer ficar aqui, então precisaremos fazer outro tipo de
arranjo.
- Já sei. Uma dama de companhia! Hannah enxugou o canto dos olhos com a ponta do avental
Oh, Abby, por que você mudou de idéia? Não se sente feliz aqui? Foi alguma coisa que eu fiz?
Se ao menos você me contasse...
- Não é nada disso, tia. Por favor, não fique com essa cara! Eu virei visitá-la, agora que já
aprendi o caminho. É que não acho bom para Matthew ser tirado do seu ambiente. Ele não iria
se adaptar aqui.
A partida foi difícil. Matthew mal lhe dirigira duas palavras desde o dia anterior.
Abby chegou à beira de uma crise de choro na hora da despedida, quando tia Hannah os
acompanhou até o táxi que os levaria a Alnbury, para depois apanharem o ônibus para
Newcasile.
O silêncio de Matthew serviu ao menos para Abby recompor-se, até chegarem à rodoviária.
Durante toda a semana seguinte, não falou com o filho sobre as razões que a tinham levado a
desistir da ideia de irem morar com a tia. Matthew ia diariamente para a escola, como sempre, e
ela continuou a trabalhar, apesar do serviço ter diminuído consicieravelmente. Abby chegou a
desconfiar que Trevor ainda a mantinha no escritório apenas por consideração e pena.
Apesar disso, continuou a sustentar uma falsa aparência de que tudo ia bem, até que, passados
dez dias desde o retomo, seu pequeno mundo desmoronou.
Era um dia parecido com qualquer outro, Abby ia até sair mais cedo do escritório, por falta do
que fazer, quando, lá pelas três e meia, apareceu um policial na recepção. Ela levantou-se de
seu lugar para atendê-lo, imaginando em que enrascada Trevor teria se metido.
- É a sra. Roth?
O fato de o policial saber seu nome a intrigou, mas não chegou preocupá-la. Trevor devia ter
solicitado íjue se dirigissem antes a ela, n qualidade de sua secretária. Não havia motivos para
chegar a conclusõe precipitadas.
- Pois não. Posso ajudarem alguma coisa? -perguntou, sol/cita.
- Espero que possa - o policial era jovem e tímido, mas notava-se que estava disposto a cumprir
com seu dever. - É sobre seu filho, Sra. Roth, Ele está detido lá na delegacia com mais dois
rapazinhos. Foram pegos no Marburys furtando mercadorias.
As pernas de Abby amoleceram e ela precisou sentar-se. .
- Mas... eu pensei que ele estivesse na escola!
O policial fez um aceno com a cabeça, como se já esperasse essa resposta,

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- Pelo que nos contou o professor dele, Matthew vem cabulando as aulas ultimamente. Parece
que o professor já linha tido uma conversa com a senhora a esse respeito.
- Sim, sim, ele falou comigo - Abby tentou coordenar as ideias. Fui chamada na escola quando
terminou o semestre. Ele me advertiu que Matíhew precisava prestar mais atenção às aulas...
mas nunca pensei que... interrompeu-se bruscamente, para recomeçar em seguida. - Sabe.
senhor guarda, ele não deveria ter feito o segundo semestre naquela escola, pois eles não
tinham turmas para a sua idade. - Ele é um garoto influenciável, senhor guarda, e o puseram
com meninos maiores, que não são companhia adequada.
Colocando o capacete embaixo do braço, o policial sugeriu, educadamente:
- Seria bom que me acompanhasse até a delegacia, sra. Roth. A senhora poderia explicar a
situação diretamente ao sargento Hodges. Tenho certeza de que ele vai ser toleranle, pois
também é pai.
A caminho da delegacia. Abby foi fazendo mil conjecturas a respeito da situação. Eles lhe fariam
um monte de perguntas. Descobririam que ela não tinha marido e poderiam julgar que não tinha
capacidade para educar o filho. Será que lhe tirariam a custódia de Matthew? Delinquentes
primários seriam enviados para os reformatórios do Estado?
Matthew e os outros dois rapazinhos estavam esperando na ante-saia da delegacia, vigiados
por um guarda e uma moça da Polícia Feminina. Abby sentiu um certo alívio ao verificar que o
filho parecia sinceramente consternado, apesar de ter ficado logo carrancudo ao vê-la.
A entrevista com o sargento Hodges não foi nada agradável. O Marburys era uma das maiores
cadeias de supermercados do país, e tudo indicava que não era a primeira vez que os garotos
tinham sido pilhados em atitudes suspeitas. Só que das outras vezes não havia provas, e agora
tinham sido apanhados em flagrante.
Abby não sabia o que dizer. Sua fraca argumentação de que Matthew era ainda muito criança e
que fora influenciado por más companhias caiu por terra quando o sargento lhe afirmou que ele
era o líder do grupinho. O menino precisaria apresentar-se à Corte Juvenil na manha seguinte e,
conforme a decisão dos juizes, a sentença poderia ser adiada até que fosse preparado um
relatório completo sobre a ocorrência e a vida pregressa do garoto.
- As Cortes Juvenis estão mais preocupadas em salvaguardar os interesses dos jovens
do que em aplicar sanções - disse o sargento Hodges, confidencialmente, antes que ela se
retirasse. Vai depender muito do depoimento do diretor da escola. Pode ser que seu filho seja
liberado apenas com uma advertência, por esta vez,
Abby sentiu-se grata por aquela pequena parcela de tranquilidade que o policial lhe concedeu,
mas seu coração desandou a bater diante da perspectiva de ter que lidar com Matthew depois
desse incidente.
Matthew voltou para o apartamento cabisbaixo, as mãos enfiadas nos bolsos, apertando os
lábios raivosamente todas as vezes que Abby tentava raciocinar com ele.
Sentia que a barreira entre os dois crescera mais ainda e estava se tomando quase
intransponível.
Depois daquele contratempo, nem adiantava mais voltar para o escritório. Abby resolveu ligar
para Trevor de uma cabine telefónica que havia em frente ao prédio, para dar-lhe uma
satisfação.
Quando Trevor atendeu, ela fez um resumo do acontecido.
- Amanhã cedo vou precisar ir com ele à Corte. Tem algum problema?
- Tire o dia para você - concedeu Trevor. Afinal, do jeito que as coisas estão por aqui. ninguém
faz muita falta. E por falar nisso, Abby, se você encontrar outra colocação, não deixe de me
avisar. Você vai receber o seu salário integral, mesmo que não complete o mês. Se quiser, tire o
restante da semana. Comunico-me com você, caso haja necessidade.

Livros Florzinha - 30 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

Ao subir pelo elevador, Abby ficou refietindo se aquela não seria uma forma polida de Trevor
dizer-lhe que não precisava mais dela. Era estarrecedor pensar que dentro de duas semanas
estaria desempregada.
Quando entrou novamente no apartamento, ouviu vozes, mas não deu muita atenção ao fato.
Presumiu que Matt estivesse grudado na televisão, como sempre. Depois de ter pendurado o
casaco no cabide, abriu a porta da sala de estar e foi logo dizendo:
- Pode ir desligando essa televisão!
Parou abruptamente ao ver aquele homem alto e moreno parado junto à janela. Matthew estava
a seu lado. os ombros tensos e o rosto afogueado, com uma expressão ressentida.
Abby fitou-o, desnorteada, antes de prestar atenção em Piers. Piers parecia bem à vontade.
Muito elegante, em seu terno com colete, o paletó jogado por sobre o ombro, parecia calmo e
tranqiiíJo, e Abbj invejou sua capacidade de eximír-se das responsabilídades.
De repente, como num estalo, Abby leve um palpite tenebroso. Só havia uma razão que
pudesse ter levado Piers até ali: tia Hannah devia ter sofrido outro ataque cardíaco! Talvez
eslivesse seriamente doente... ou pior do que isso! Soltou um gemido e seus olhos se encheram
de lágrimas.
- O que é isso. Abby? Afinal, as coisas não são tão más assim. Não exagere!
Aquela admoestação fez com que Abby reagisse. Limpou as lágrimas com o dorso da mão e o
encarou. A última coisa que queria dele era piedade. Qualquer coisa que por ventura tivesse
acontecido seria suportada com coragem, como sempre.
Só não atinava com o que teria dito Piers a Matthew, que o deixara tão vermelho e cabisbaixo.
- O que lhe disseram na polícia? - perguntou Piers. E, antes que Abby se refizesse da surpresa,
ele prosseguiu: Espero que lhe tenham dito que o caso pode ser resolvido com uma fiança.
Talvez isso lhe sirva de consolo, apesar de que sou da opinião que uma boa surra traria
melhores resultados.
- Não é problema seu - resmungou Matthew, ao ouvir o que Piers dissera.
Abby estava pasma que Matthew tivesse contado ao pai sobre aquele deplorável incidente. Não
era do feitio dele.
- Quando vim para o apartamento e não a encontrei, fui procurá-la no escritório, explicou Pier
ignorando a malcriação de Matthew. Falei com um sujeito chamado... Trevor?
- Trevor? - Abby continuava atónita. - Mas acabei de falar com ele pelo telefone, e ele não me
disse nada!
- Eu não mencionei o meu nome. Talvez tenha pensado que eu fosse algum oficial de justiça.
Só sei que acabou me dizendo onde você estava e o que tinha acontecido.
- Afinal, por que você está aqui? É... é por causa de tia Hannah? Ela piorou? O Dr. Willis podia
ter-me telefonado se... se...
- Você conhece Sean Willis, penso eu.
- Sim, tive oportunidade de conhecê-lo, Abby estava ficando impaciente. Piers, se
aconteceu alguma coisa com tia Hannah. por favor...
- Abby. não aconteceu nada com tia Hannah. Ela está tal e qual você a deixou. Nem pior, nem
melhor. Não é por isso que estou aqui.
- Então porque...
Piers lançou um olhar em direção de Matthew.
- Poderíamos falar em particular, Abby? Tenho um assunto para discutir com você. Sobre
uma coisa que tia Hannah me disse.

Livros Florzinha - 31 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Se é a respeito do divórcio, então eu acho que Matt...


- Não é a respeito do divórcio, interrompeu-a Piers com energia. E agora, se não se importa,
eu...
Abby tomou a iniciativa.
- Vá para o seu quarto. Matt, pediu ela, logo mais vou falar com você.
- Não vejo por que... - Começou a argumentar o menino, só para provocar a intervenção do pai.
- Já para o seu quarto! - ordenou Piers. E o garoto obedeceu, contrariado.
Depois que a porta do quarto fechou-se, Abby soltou o fòiego retido.
- Bem.,, então, o que foi que tia Hannah lhe disse? Não consigo imaginar.
- Minha viagem a Londres foi por oulros motivos, Piers atirou o paletó sobre o sofá. Não teve
nada a ver com você.
- Já supunha isso, Abby levantou o queixo? Tia Hannah pediu para vir falar comigo? No
mínimo, contou-lhe o que ela queria que eu fizesse. Pois bem. Não precisa se preocupar, que
eu não vou voltarei para Rothside. Já tenho problemas suficientes por aqui mesmo.
- Estou vendo. Desde quando Matthew está se metendo em encrencas com a polícia?
- Desde hoje, Abby enfiou as unhas nas palmas das mãos. Piers, por lavor, diga logo o que
tem a dizer. Não estou com disposição para conversa fiada.
- Conversa fiada? Você acha que isso é conversa fiada?
- Sim. não... oh, não sei. Piers, não sei por que veio, mas posso adiantar que dispenso a sua
opinião sobre o comportamento de Matt. Concordo que ele está se tornando um problema. Mas
é problema meu, não seu conforme você já teve ocasião de me jogar na cara.
- Você nunca cede, hein, Abby? Está sempre com uma pedra na mão!
- Ora! Como você pensa que me sinto toda vez que você nega a paternidade de seu filho?
- Isso é outro assunto.
- Ah, é? Pois para mim dá tudo na rnesma. Você abriu mão de sua responsabilidade há mais de
onze anos, e não lhe dou o direito agora de se intrometer na educação dele.
- Certo, Piers fez um esforço para controlar-se. Não vim aqui para discutir sobre a educação
de Matthew. Ontem visitei sua tia. Conforme você presumiu, ela me contou qual foi o
pedido que lhe fez.
- Contou? Não sei por que cargas d'água foi contar. E você, o que disse?
- Nada que você já não soubesse. Abby, por que não falou comigo francamente quando
estivemos juntos? Por que me usar como desculpa para ficar em Londres?
- Eu usei?
- E não usou? Você disse à sua tia que eu teria objeções quanto à sua volta a Rothside.
- E não teria?
Piers hesitou.
- Não posso impedi-la de morar onde queira.
- E Matthew?
- O que é que tem Matthew?
- Precisarei esconder a sua identidade?
- A identidade de Matthew, como você a chama, depende de sua própria consciência.

Livros Florzinha - 32 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Seu pedante, nojento!


Piers tomou fôlego.
- Acho que você já foi longe demais com essa história, Abby. No que me concerne, você pode
contar o que quiser às pessoas. Logo que esse divórcio estiver resolvido, vou casar com Val
Langton e estarei me lixando com as mentiras que você inventar a meu respeito.
- Mentiras! - Olhou para eJe ressentida, mas logo reagiu com indignação - Fora daqui!
disse, com a voz embargada por um soluço. Pelo amor de Deus, saia daqui antes que eu o
ponha pra fora a pontapés!
- Abby... Piers aproximou-se perturbado, enfraquecendo-lhe a determinação. Por que
faz isso, Abby? Por que vive me provocando? Isso lhe dá alguma satisfação masoquista? Você
não vê como esses seus coices atingem a você e às pessoas que a cercam?
- Não me amole! Afastou-se para longe dele. Agora vá. por favor. Não temos mais nada a nos
dizer.
- E o que é que você vai fazer?
- Não é da sua conta!
- Mas eu preciso saber, Abby.
- O que você acha? Ela tornou a encará-lo. Vou levar a vida adiante, como tenho feito até
agora. Que mais eu poderia fazer?
- Poderia voltar para Rothside e atender ao desejo de sua tia. Ela me falou que você corre o
risco de perder seu emprego. Seria uma boa alternativa ficar com ela. E o garoto poderia
começar vida nova.
- O garoto, como você o chama, rebela-se contra tudo o que faço por ele. Abby procurou por
um lenço. E... e a sua vinda aqui só serviu para piorar as coisas ainda mais. Não percebe que
você o encoraja a acreditar que... que...
- ... que sou o pai dele, Piers completou. Nesse ponto, você tem razão, mas voltar para
Rothside é outra coisa bem diferente. Pelo menos, ninguém vai poder negar que ele pertence
àquele lugar. Tenho certeza de que os Oliver...
- Saia! gritou, exasperada e Piers encaminhou-se para a porta.
- Pense bem no que eu lhe disse, recomendou calmamente, antes de sair, tornando a apoiar o
paletó sobre o ombro.

Capitulo V
Abby saiu da audiência da Corte Juvenil completamente confusa. Nen podia acreditar no que se
passara naquele recinto, e até Matthew parecia aturdido.
Por alguma razão que só ele conhecia, Piers se declarara responsável pelo bom comportamento
de Matthew no futuro. Enviara seu próprio advogado, Miles Shand, para represemá-lo e dar
assessoria jurídica. Abby foi instruída a dizer que pretendia voltar para o norte da Inglaterra, a
fim de facilitar a interferência do marido na educação do menino. Era inacreditável.
Em vez de ressentir-se pela intromissão do pai, Matthew reagiu favoravelmenle. Por certo
imaginando que Piers estava disposto a assumir totalmente sua paternidade dali por diante.
Como poderia ela decepcioná-lo? Como poderia explicar-lhe que Piers apenas usara de seu
grande prestígio a fim de influenciar o veredito do magistrado londrino?
- Parece que chegamos a um resultado satisfatório, Sra. Roth, Míles Shand apareceu ao lado
dela, muito sorridente, apertando-lhe a mão e acenando afavelmente para Matthew. Agora é só

Livros Florzinha - 33 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

tomarmos as providências para a sua mudança para Rothside. O Sr. Roth já deve ter-lhe dito
que a senhora poderá deixar tudo ao nosso encargo,
- Não. A voz de Abby saiu ríspida. Não, sr. Shand, ele não me disse nada. Mas eu gostaria
muito de falar com o Sr. Roth, caso o senhor possa marcar um encontro.
O advogado pareceu embaraçado.
- Oh, o sr. Roth foi obrigado a voltar para Rothside hoje cedo, para acompanhar... acompanhar
a pessoa com quem ele estava viajando.
- Certamente o senhor está se referindo à srta. Langton, disse Abby, muito digna, e Miles
Shand fez uma cara de alívio.
- Ah, sim, naturalmente. Claro que a senhora deve estar sabendo. Então, como eu estava
dizendo, a senhora vai ter que esperar para falar com ele em Rothside.
- Suponho que o senhor saiba que Piers está entrando com uma ação de divórcio.
Dessa vez o advogado embatucou.
- Está?
- É lógico que o senhor sabe!
- É... o sr. Roth mencionou algo a respeito,.. Mas isso não altera nada. nas presentes
circunstâncias. Quero dizer, o divórcio é para os pais, náo para os filhos.
- Mamãe!
Matthew estava começando a ficar indócil, e se ela continuasse com aquela conversa, poderia
destruir completamente suas esperanças. Não sabia o que Piers tinha em mente, e não queria
chegar a conclusões precipitadas, antes de ter uma conversa séria com ele. Só uma coisa era
certa: mais uma vez os Roth tinham tomado as iniciativas sobre o seu destino, e mais uma vez
ela e Matthew seriam as vítimas.
A viagem de volta para Northumberland foi praticamente idêntica à primeira. Só que dessa vez,
ironicamente, estava sendo realizada por sugestão do próprio Piers. Há somente um mês, ele
declarara que nunca mais queria vê-la, e agora lá estava ela, cumprindo uma deliberação dele
para voltar.
O que o fizera mudar de ideia de forma tão imprevista? Será que se conscientízara da existência
daquele filho? Era impossível, pois ele mal conhecia o menino, e o pouco que conhecera não
era nada animador. Devia haver outra razão, e ela tentou descobri-la duranle todo o percurso de
Londres até Newcastle.
Matthew estava bem mais manso, depois daquela audiência. Certamente, esperava do pai muito
mais do que ele poderia oferecer. Abby não queria nem pensar na desilusão que ele sofreria
quando descobrisse o seu engano.
A mudança decorrera na maior facilidade. O advogado de Piers incumbiu-se de tudo, inclusive
de mandar guardar seus móveis num depósito, caso um dia ela resolvesse montar casa
novamente.
Trevor Bourne fora extremamente generoso e até lhe dera uma gratificação extra, pelos anos de
serviço. O dinheiro havia sido muito útil.
O trem chegou a Newcastle às seis da tarde. Era um dia nublado de outubro, e seria noite
quando eles chegassem a Alnbury. Abby teria preferido viajar num horário matutino, mas Miles
Shand já tinha comprado as passagens e não havia possibilidade de trocá-las. Era a primeira
vez que ela viajava de primeira classe e Matthew estava encantado com todo aquele conforto.
Dessa vez eles traziam uma bagagem maior e, quando desembarcaram houve um certo
atropelo para descarregar as malas. Estavam decidindo quem carregaria o que, quando Piers
apareceu inesperadamente entre a multidão.

Livros Florzinha - 34 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Deixem tudo aí. Vou chamar um carregador.


- Viu, mamãe? Desta vez ele veio buscar a nos dois! disse Matlhew, sorrindo. Vamos,
não faça essa cara. O carro deve estar estacionado lá fora. Vamos!
Abby seguiu o filho com relutância. Quais eram, afinal, as intenções de Piers? O que ele
ganharia com aquilo? Valerie Lagton não iria aborrecer-se com esse súbito interesse dele por
uma criança que sempre ignorara?
Ao chegarem à rua, Piers já estava esperando por eles.
- O carro está estacionado numa área proibida. É melhor que se apressem.
A bagagem foi acomodada no porta-rnalas e Piers fez sinal a Matthew para que ocupasse o
assento traseiro.
- Sua mãe vai na frente comigo, determinou, recebendo o primeiro olhar de desapontamento do
filho. Entre logo, Matthew. Você está impedindo a passagem. Abby. dê-me a sua frasqueira e
acomode-se.
- Mamãe... eu não posso sentar na frente? pediu Matthew. sem obedecer à ordem do pai.
Nunca sentei no banco da frente. Aposto que você já foi sentada aí um monte de vezes!
- Para trás, Matthew! O tom de voz de Piers era incisivo. Abby. entre, por favor. Não quer que
eu leve uma multa, quer?
Abby suspirou.
- Bem que Matt podia...
- Entrem!
Piers puxou o banco para a frente, empurrando Matthew para o assento traseiro, e olhou para
Abby com determinação, dando a entender que. se ela cedesse, poderia ser um mau exemplo
para o menino.
Piers concentrou sua atenção na direção do carro enquanto atravessavam a cidade que, àquela
hora, estava no auge do rush. Mas quando pegaram a estrada, relaxou a tensão e perguntou se
eies tinham feito uma boa viagem.
Abby ainda não conseguira digerir aquela atitude autoritária de Piers. Custara a aceitar a
decisão do juiz em dar a ele o pátrio poder, mas era melhor isso do que correr o risco de alguma
assistente social resolver entregar o menino a uma instituição do Estado.
Agora que Piers estava falando com ela, sentiu uma necessidade irresistível de perguntar-lhe
como se atrevera a impor sua autoridade sobre o filho. E que história era aquela de ir buscá-los
na estação, como se fosse a coisa mais natural do mundo? Será que ele não percebia o mal
que estava fazendo?
Piers afirmara que não queria ferir o menino, mas estava fazendo de tudo para acabar com seu
equilíbrio emocional. Aquilo era uma verdadeira crueldade!
Como se sentisse as palavras ásperas que Abby tentava calar, Piers olhou-a para estudar-lhe a
fisionomia. Ela virou-lhe a cara.
Não queria falar com ele. Não queria sequer encará-lo. Ficou louca de raiva quando Matthew
começou a responder às perguntas do pai.
Aparentemente, o menino superara a decepção de ter que viajar no banco traseiro, e, ouvindo o
diálogo entre os dois. Abby sentiu-se ultrajada e injustiçada.
Por que seria que toda vez que ela repreendia Mattew por alguma malcriação, o garoto
amarrava a cara por horas seguidas e até dias, enquanto que, nas duas vezes em que Piers o
admoestara, ele não parecia ofendido?

Livros Florzinha - 35 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Algum problema? Piers perguntou a meia-voz, depois que Matthew esgotou todos os
tópicos referentes ao assunto viagens. Você não pronunciou uma só sílaba desde que
chegou. Tenho a ligeira impressão de que teria preferido vir de ônibus.
- E teria mesmo, revidou Abby com infantilidade, sem corresponder ao senso de
humor dele. O que você está querendo fazer. Piers? Destruir a mínima chance de entendimento
que ainda sobrou entre mim e Matt?
A maneira como ele apertou o volante demonstrava sua irritação, mas foi com voz suave e
pausada que Piers respondeu:
- Pensei que você quisesse que eu tratasse Matthew como um ser humano. Estou pronto a
aceitar que já que ele leva o meu sobrenome, eu devo assumir uma certa responsabilidade.
Quaisquer que sejam os meus sentimentos pessoais a seu respeito, estou disposto a ajudar no
que puder, pois estou vendo que vocês, estão precisando muito de ajuda.
O suspiro profundo de Abby indicava que ela estava prestes a explodir.
- Mais tarde, Abby. Mais tarde falaremos. Agora conte-me se Shand fez o que devia. Ele é um
sujeitinho pomposo e falante, mas é um bom advogado.
Abby chegou a ranger os dentes.
- O Sr. Shand fez exatamente o que você lhe disse que fizesse. Forçou-me a aceitar o
veredito do juiz, que já era, de antemão, de seu conhecimento. Diga-me uma coisa: a Srta.
Langton aprova essas suas iniciativas a nosso respeito?
- Val sabe de tudo o que estou fazendo, retrucou lealmente. O que não quer dizer que ela
tenha alguma influência sobre as minhas decisões. Eu resolvi que me encarregaria de Matt e ela
aceitou a minha resolução. Até está ansiosa para ver o menino novamente. Isso responde à sua
pergunta?
- Está ansiosa para ver o menino novamente... - Abby repetiu com voz desdenhosa.
- Foi justamente o que eu disse. Abby, você deve compreender que eu não poderia adotar
Matthew sem o consentimento dela.
Abby abriu a boca, atônita.
- Adotar?
- Não no sentido literal da palavra, seu tom de voz mostrava que ele estava começando a
enervar-se. Abby, quando eu me dispus a ser responsável por Matthew, naquele tribunal, sabia
o que estava fazendo. Sabia o que isso representava. Olhe, Abby, sei muito bem que vai ser
duro para você aceitar, mas creia que só estou pensando nos interesses do menino. A
assistente social encarregada do caso de Matthew espera que eu cumpra com o meu
compromisso. Existem ainda formulários a serem preenchidos, e o comportamento futuro do
garoto deverá ser impecável.
- Sei disso.
Abby nunca imaginara que Piers iria levar aqueia missão tão a sério. Precisava de um tempo
para convencer-se de suas boas intenções.
- Já estamos chegando?
Malthew já se cansara de contar todos os carros que passavam por eles, e agora debruçava-se
sobre o espaldar do assento dianteiro. Teria ouvido aquela conversa? Teria compreendido o seu
significado? O que Piers queria realmente fazer pelo garoto?
Abby teve uma leve intuição de que Piers queria mesmo é que ela engolisse todas as
acusações que lhe fizera no passado sobre sua falta de responsabilidade.
- Mais uns quinze minutos. respondeu Piers. Mas por que tanta pressa? Você está com fome?
Na verdade, já é hora de jantar.

Livros Florzinha - 36 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Tudo bem. Matthew olhou para o painel do carro. Qual é a veiocidade que este carro
alcança?
- Ele vai longe. Mas o limite de velocidade nas estradas é de oitenta quilometros horários. Não
é prudente ultrapassar esse limite.
- Mas você já ultrapassou.
- Foi sem querer.
- Eu vi. Matthew parecia muito satisfeito com sua esperteza. Quando eu crescer, vou ter um
Mercedes-Benz.
- Vai? Piers trocou um olhar com Abby. Antes disso, você vai ter que se esforçar muito. Se eu
fosse você, não começaria a pensar nisso ião cedo.
- Só faltam cinco anos, e cinco anos passam depressa - declarou Matthew com arrogância. E,
quando eu tiver dezessete anos...
- Quando você tiver dezessete anos, ainda vai estar estudando - disse Piers. e Matthew reteve
a respiração.
- Não, não vou mais estudar. Vou sair da escola aos dezesseis. Mamãe ainda não lhe
disse? Essa história de exames, classificações, boletins... não é comigo. Quero ser livre, quero
viajar.
- Sem dinheiro, não vai poder viajar para muito longe.
- Eu vou conseguir dinheiro.
- Como?
Matthew calou-se.
- Roubando outro supermercado? - perguntou Piers, sarcástico. Ou tem outra ideia mais
lucrativa em mente?
Matthew ficou vermelho como um tomate, mas não deu o braço a torcer.
- Mamãe não lhe contou nada? insistiu.
- Sua mãe não me contou nada sobre os planos dela a respeito do seu futuro. Mas eu vou lhe
contar os meus, ok"?
- Faça como quiser. - Matthew sacudiu os ombros, indiferente, mas Abby aguçou os ouvidos
para escutar.
- Você vai continuar no colégio até os dezoito anos e, se tiver uma boa cabeça, entrará para a
Universidade.
- Universidade! -repetiu Matthew, desgostoso.
- Sim senhor, universidade! Sublinhou Piers, inabalável. Não despreze o que não conhece.
Posso lhe garantir que é bem melhor do que trabalhar para ganhar a vida.
Matthew fez um muxoxo.
- É tudo a mesma chatice!
- É bem diferente. Em todo caso, a escolha é sua: trabalho ou universidade.
- Você frequentou a Universidade?
- Sim.
- Qual?
- A de Londres.
- Londres!

Livros Florzinha - 37 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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Matthew parecia agora um pouco mais animado, mas Abby achou que aquela conversa já tinha
ido longe demais.
- Universidades custam dinheiro - disse ela. Uma fortuna! E Matthew sabe que vai ser
bem difícil eu poder sustentá-lo numa universidade.
- Você não vai precisar fazer isso. Será por minha conta - retrucou Piers, calmamente.
Antes que Abby pudesse contestar. Piers virou-se para Matthew e apontou para as luzes
de Rothside, qiie já piscavam ao longe. Estamos chegando.
Tia Hannah estava aguardando à soleira da porta de Ivy Cottage.
- Abby! saudou ela, eufórica, indo ao encontro deles.
Piers carregou a bagagem para dentro de casa, enquanto a velha senhora abraçava a sobrinha
e o garoto.
- Entre um pouco, ela convidou, quando Piers fechou o porta-malas. Está servido de
uma xícara de chá? A chaleira já está no fogo.
- Hoje não, obrigado, disse Piers, e amenizou a recusa com um sorriso afável. Vejo você
amanhã, Abby acrescentou, dando a volta no carro. Boa noite. Matt. Cuide bem de sua mãe!
Depois de fecharem a porta, Abby teve vontade de desabafar todas as suas frustrações, mas
não o fez. Matthew a olhava vigilante, e Abby pensou que ele estivesse apreensivo com os
planos de Piers. Resolveu comportar-se como se aquele retorno a Rothside fosse um
acontecimento normal e sem importância. Só depois do jantar, quando o menino subiu para ir
dormir, é que ela pode por Hannah a par de todas as novidades.
- Eu já estava sabendo dessa audiência na Corte Juvenil, disse a tia, ao servir um cálice de licor
caseiro. Você mencionou alguma coisa na carta, e Piers veio aqui pessoalmente para relatar-
me tudo, tão logo chegou de Londres. Aliás, você vai me perdoar por eu ter pedido a Piers que
fosse procurá-la no apartamento. Não pensei que fosse dar tamanha confusão. Minha única
intenção era que ele a convencesse a vir morar em Rothside. Achei que, se ele ihe garantisse
que não tinha nada contra, você se decidiria.
- Mas como foi que ele soube que eu não queria vir para cá por causa dele? Não sabia que
você e Piers eram tão chegados.
- Ora, Abby! Hannah sentou-se em frente da sobrinha e saboreou um gole do licor. Você bem
sabe que eu conheço Piers desde que ele andava de fraldas. Oh, já sei. Eu não tive muita
intimidade com ele depois de adulto, mas nós sempre estivemos em contato; tal como fazia o
pai. Piers também sempre se interessou pelos nossos negócios.
- Desta vez interessou-se demais! retorquiu Abby, bruscamente.
- Abby, eu não falei nada a Piers sobre Matthew. Não era o meu papel. Mas ele sabia da
opinião do Dr. Willis, e tudo o que eu disse foi que sentia muito que você não pudesse vir morar
comigo.
- Mas você lhe contou que o motivo de minha recusa era ele?
- Não com tantas minúcias. Mas o fato é que era, ou não era? Quero dizer, não foi somente o
mau comportamento de Matthew que a fez mudar de ideia. Abby suspirou Bem, seja como for,
foi a melhor coisa que você fez, tendo em vista as circunstâncias. Hannah levantou-se para
atiçar o fogo. Vamos encarar a realidade, Abby. Londres não é o lugar ideal para um menino
como Matthew. É uma cidade com muitas tentações. Ao menos, em Rothside, ele terá uma
chance de recomeçar tudo de novo.
- Terá mesmo? Abby não estava muito convencida. Você está se referindo à hipótese de Piers
reconhecê-lo como um Roth?
- Sim. E não é isso o que ele está fazendo? Não era isso que você tanto queria?

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- Mas, agora? Abby terminou seu licor e levantou-se. Eu criei Matthew sozinha por mais de
onze anos. Você acha justo que só agora Piers resolva tirar essa responsabilidade das minhas
mãos?
- É que pensei que Matthew estivesse em maus lençóis, querida. Pensei que houvesse o
risco de lhe ser tirada a guarda do menino.
- Quem lhe disse tal coisa? Hannah ficou desconcertada.
- Bem. Piers, acho eu. Abby, você precisa admitir que Matthew não é uma criança fácil de lidar,
e está fichado pelas autoridades policiais. O relatório do professor foi deplorável.
- Foi iambém Piers quem lhe contou isso?
- Pode ter sido ele. Ora, Abby, pare de me olhar com tanta severidade. Tente ver o
lado bom disso tudo. Como você mesma afirmou, durante onze anos você foi a única
responsável pela criação de seu filho. Não acha que chegou a hora de o pai dele carregar nos
ombros uma parte desse fardo?
Os lábios de Abby tremeram.
- Nunca considerei Matthew um fardo.
- Mas foi. E agora que ele está crescendo, sua tarefa vai se torna cada vez mais espinhosa.
- Mas Piers não acredita que Matt seja filho dele, teimou Abby. Ele está fazendo tudo isso só
para salvaguardar o seu sobrenome.
- Pois eu não acredito nisso.
- Não pense que faz isso por mim. Piers não levantaria um dedo por minha causa. Se quer
saber, acho que é por causa de Valerie Langton.
- Valerie? Hannah estava intrigada. E por quê?
- Bem, Matt não se apresentou a Piers, na frente dela, como sendo filho dele? E Piers não
negou. Seria estranho um pai não se interessar por um filho. A moça poderia ficar mal
impressionada.
Hannah franziu a testa.
- Hum..
- Pois eu aposto que foi isso mesmo. Fico enojada só de pensar que ele resolveu me roubar a
custódia de Matthew só para se exibir. Piers não tinha o direito de fazer uma coisa dessas.
Pobre Matt! Nem sei se ele vai adaptar-se a essa nova vida. Só espero que Piers o deixe em
paz, agora que limpou a barra perante a futura mulher.

Capitulo VI
Surpreendentemente Abby dormiu bem, e na manhã seguinte acordou disposta a enfrentar os
seus problemas. Piers se cansaria de bancar o pai extremoso tão logo aquilo deixasse de ser
novidade. E, quando se casasse com Valerie Langton, ela provavelmenfe não iria aceitar um
enteado com a metade da idade dela.
Decidida a levar o chá para tia Hannah na cama, como uma forma de compensação por tantas
confusões. Abby vestiu-se e foi para a cozinha acender o fogo. Logo que a bandeja ficou pronta,
levou-a ao quarto da velha senhora.
- Que horas são? - perguntou a tia, muito surpresa.
- São só sete e quinze. E que achei que você merecia um descanso. Já limpei as cinzas do
fogão e o fogo está aceso. Diga o que quer para o desjejum, que hoje eu me encarrego disso.

Livros Florzinha - 39 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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Ali, deitada, a tia parecia muito frágil e vulnerável. Abby sentiu uma pontada de remorso por
estar causando tantos transtornos.
- Acho que gostaria de saber que consegui superar o meu mau humor. Afinal, era meu
desejo vir morar aqui. Os únicos empecilhos eram Matthew e Piers. Esse assunto já foi
resolvido, e agora estou aqui, disposta a dar o melhor de mim mesma para não lhe causar
mais dissabores.
- Dissabores? Mas, querida, se soubesse como me sinio feliz com a sua presença! Você só
trouxe alegrias para esta pobre velha.
Piers chegou depois de todos terem tomado o desjejum, na cozinha, pois tia Hannah fez
questão de descer e incumbir-se dessa tarefa.
Eram nove e meia, e Matthew estava no jardim examinando os canteiros devastados, depois de
ter devorado um prato enorme de cereais e ovos mexidos. Ao ouvir os passos de Piers no
cascalho da pequena alameda, Abby não pôde evitar sentir uma pontada de ciúme pela
eniusiástica recepção que Matthew deu ao pai.
- Olhem só quem está aqui! disse o menino, virando-se para o pai.
- Aquela perua Mercedes-Benz que está lá fora é sua? Posso ir dar uma espiada?
- Desde que você não mexa no câmbio, tudo bem. E já na soleira da porta, cumprimentou.
Bom dia, Abby. Bom dia, sra. Caldwel. Espero que todos tenham tido uma boa noite.
- Aceita um cafezínho? ofereceu Hannah, já pegando na chaleira para pôr a água a ferver. É
só um minutinho. mas fique à vontade.
- Na verdade, eu vim convidar Abby para sair comigo de carro, disse ele muito amável.
Precisamos conversar e eu também quero lhe mostrar uma coisa. A senhora não se incomoda
de ficar tomando conta de Matthew? '
- Claro que não. E você, Abby? Tem alguma coisa contra?
- Acho que podemos conversar aqui mesmo.
- Da outra vez, Matthew estava dormindo revidou Piers. Vá buscar um casaco ou uma malha
leve. O carro tem aquecimento.
Abby oihou para os jeans e a camiseta de algodão que estava vestindo.
- Se você insiste em sair, é melhor que eu troque de roupa.
- Para quê? Por mim, você está ótima!
Apesar dele estar de roupa esporte, apresentava-se impecável como sempre, a calça de brim
parecendo ter sido costurada no corpo, realçando os músculos das longas pernas.
Quando Abby saiu pelo portão, Matthew estava encarapitado rio muro, de cara amarrada por
não poder ir junto.
- Não se preocupe com ele, afirmou Piers. logo que ela entrou na perua. Matt precisa aprender
que não pode monopolizá-la. E você precisa deixar de ser boba, permitindo que ele faça isso.
- Oh, sim, eu sou mesmo uma boba total reforçou Abby com azedume. Fui boba também em
permitir que você dirigisse a minha vida. Aquilo de você mandar Shand ao tribunal para
acompanhar a audiência não passou de uma manobra. Eu poderia ter-me virado muito bem
sozinha.
- Poderia? Naquele momento estavam atravessando a vila, e Piers acenava para várias
pessoas que o cumprimentavam respeitosamente. Pois a mim pareceu que você estava
meio perdida. Tive a nítida impressão de que estava sendo difícil controlar o garoto.
- Como assim? Só porque ele se meteu numa enrascada com a polícia, uma vez?

Livros Florzinha - 40 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Uma vez? Essa foi a vez que você soube. Santo Deus! Ele é um pefeito cabulador de .ulas. Já
foi pego várias vezes naquele supermercado em atitudes suspeitas. Só por milagre não foi
detido das outras vezes. E já ouvi boatos sobre o que ele andou aprontando aqui. em Rothside.
Você sabe que este é um vilarejo de interior, onde nada passa em brancas nuvens. As pessoas
falam mesmo..
- É por esse motivo que você está fazendo tudo isso? Para não dar o que falar?
- Você devia ser a primeira a saber que eu não ligo para mexericos.
- Então, qual é a razão? Você não se importa com Matthew. nunca se importou. Por que não
nos deixa em paz? Eu não lhe pedi ajuda.
- Certo. Piers conduziu o Mercedes para a estrada que levava a Alnbury. Talvez porque eu
tenha sentido pena da sua situação. Afinal, você ainda é minha esposa.
Abby cerrou os punhos agressivamente.
- Duas coisas que eu não quero: a sua caridade e a sua piedade!
- Matthew quer.
- É uma baixeza você dizer isso!
- Mas é a verdade, o tom de voz era seco. Você estava prestes a perder aquele emprego,
Abby. Muito provavelmente iria perder também o apartamento. Qual autoridade permitiria a você
criar uma criança, nessas condições? Principalmente tratando-se de um garoto como Matthew
com péssimos antecedentes?
Abby ficou num beco sem saída. Ele tinha razão. Mas ela não daria o braço a torcer.
- O que está dizendo? Que fez tudo isso por mim e não por Matthew?
- Eu mal conheço Matthew, respondeu Piers, tranquilamente. Como você mesma insiste em
dizer, ignorei a existência dele durante onze anos. Mas você ainda é minha mulher. Abby. Em
agosto foi o nosso décimo-primeiro aniversário de casamento.
- Dos quais só passamos quatro meses juntos - disse Abby, melancolicamente.
- Quatro meses? É... foi esse o período que você morou na mansão. Mas nós estivemos juntos
por muito mais tempo do que isso.
Abby ficou cabisbaixa, vendo os joelhos tremerem.
- Aquilo foi diferente. Foi bem antes de sua mãe vir a saber sobre nós dois. Você... você ia
casar com Melanie Hastings. e o nosso relacionamento não era para ser levado a sério.
- Mas foi.
- Não deveria ter sido.
- Concordo.
Aquela palavra dura de anuência manteve-os em silêncio por algum tempo. Só quando ele
entrou na estrada que levava a Warkwick é que Abby se manifestou novamente.
-- Para onde estamos indo?
- Para Warkwick. Há um colégio iá, o Abbotsford. Já ouviu falar?
- Foi onde você estudou?
- Foi.
- É um internato, não é?
- Mas também admitem semi-internos.
- Você não está querendo matricular Matthew nesse colégio, ou está?

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O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- E por que náo?


- Você sabe porque. A anuidade é uma fábula!
- Nem tanto assim. Saí quinhentas libras por ano. -- Quinhentas libras!
- E o ensino é dos melhores. Puxadíssimo!
- Não duvido, Abby sacudiu a cabeça. Piers, isso é uma loucura!
- Ué! Você não quer que o garoto receba uma boa educação?
- Nunca vou poder pagar uma anuidade dessas!
- Mas eu posso. Piers hesitou por um instante. Abby, pelo que você andou me contando,
Matthew se comporta mal porque é um revoltado. Sua grande revolta é não ter um pai e
acrescentou, antes que Abby protestasse: Um pai que se importe com ele.
- Ele não precisa de pai. Até hoje nos arranjamos muito bem só nós dois.
- Até hoje, Piers reforçou intencionalmente, parando o carro numa pracínha. Abby, você precisa
admitir que o garoto está confuso. Sob o ponto de vista dele, você me deixou porque nós não
nos dávamos bem. Não é uma razão bastante forte para acabar com um casamento.
Abby levantou a cabeça.
- E você está com a intenção de lhe contar a verdade?
- Não. Por enquanto, não, Piers pareceu refletir sobre as palavras seguintes. É que antes
pretendo levá-lo a Rothside Manor.
- Na mansão!
- Para que Val o conheça melhor.
Abby sentiu uma contração no estômago. Por alguns minutos ela esquecera do divórcio,
esquecera de Valerie Langton, esquecera de tudo, em prol do desejo mútuo de fazer o melhor
para Matthew.
- E sua mâe? O que ela vai dizer se você levar meu filho para a casa dela? Ela nunca me quis
lá, só Deus sabe, e eu não vou deixar que o menino seja maltratado.
- Ela náo vai maltratá-lo. Acredite ou não, minha mãe nunca odiou você. Só ficou contrariada
quando eu larguei Melanie.
- Contrariada! - ironizou Abby.
- Mas ela aceitou a ideia do nosso casamento, mesmo suspeitando que Trislan Oliver tinha a
prioridade.
Abby ficou rubra de raiva.
- Tristan? Pura mentira!
- Oh, eu admito que você era virgem quando... bem... quando fiz amor com você em primeiro
lugar.
- Em primeiro lugar?
Abby deu-se conta de que estava repetindo tudo o que ele dizia, mas eram coisas tão injustas
que ela não encontrava meios para revidar.
- Piers, seria melhor que você me levasse de volta. Já tivemos esse tipo de conversa milhares
de vezes, e, para ser franca, já estou saturada.
Piers encolheu os ombros, mas não fez menção de ligar o motor novamente.
- Você deve saber que Tristan foi para o Canadá. Ele tornou a falar. De início, até pensei que
tivesse ido atrás de você.

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O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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Abby manteve-se calada, o rosto escondido pelos longos cabelos que lhe caíram pelos ombros.
- Ele não foi procurá-ía? insistiu Piers. Não lhe contou que pretendia viajar? Por que você não
foi com ele? Ninguém, nem você, pode negar que Tristan estava apaixonado!
Abby continuou muda. Piers suspendeu-lhe uma mecha de cabelos da testa e ela ficou dura,
sentindo um tremor interno quando ele falou, com voz sussurrante:
- Você não mudou nada... continua tão desejável quanto quando tinha quinze anos. Ficou
chocada com isso? Pois saiba que logo que a vi, e você era ainda uma adolescente, eu a
desejei para mim.
Abby ergueu a cabeça, desafiadora.
- Você está me namorando? pergumou, sarcástica. É uma outra forma de persuasão que você
encontrou? Não me venha dizer que sou desejável. Tenho espelho em casa! Sei muito
bem o que sou: uma massacrada dona-de-casa, com quase trinta anos!
- Pois você parece ter a mesma idade de Val! - retrucou Piers, dando a volta na chave de
ignição. Agora vou lhe mostrar o colégio e depois voltaremos. Você terá tempo para resolver
neste fim de semana. Se estiver de acordo, poderemos ir falar com o diretor na semana que
vem, antes que eu vaje para a Alemanha.
- Você vai para a Alemanha?
- Só por uma semana. Val e eu conhecemos um conde alemão e sua mulher, quando fomos
esquiar na Áustria, no começo do ano. Eles moram num castelo da Floresta Negra, e nos
convidaram para participar da festa da cerveja local.
- Ah, sei... – Abby odiou-se pelo ciúme que estava sentindo. Deve ser interessante. A srta.
Langton também vai?
- Sim, vai. Piers apontou para o pára-brisa. Esta é a escola! O que acha?
Abbotsford era um colégio tradicional, e o prédio, muito antigo, estava recoberto de heras. Mas
mesmo à distância, via-se que era um educandário de classe, nobre e imponente.
- Que tal?
Piers estava esperando pela reação dela e, num impulso, Abby abriu a porta do carro e saltou.
- Parece um lugar ideal, declarou, vendo que Piers também saía do carro e a seguia através do
alto portão de ferro batido. - Quantos anos você tinha quando veio para cá?
- Oito. No começo, fiquei semi-interno. Só mais tarde é que meus pais acharam conveniente me
internar.
Abby tentou imaginar Piers com oilo anos. Devia -ptufcer-se bastante com Matthew, naquela
mesma idade. Não tanto fisicamente, mas no temperamento. Matthew foi uma criança adorável.
Adorável! Abby lançou um olhar furtivo para o marido. Aquele não era o adjetivo que ela devia
ler aplicado a Piers. Não, depois de tudo o que acontecera. Não depois de ter sido tratada
daquela forma injusta. Entretanto, tal como Matthew, Piers sabia ser irresistível quando queria.
Ao dar-se conta do rumo que seus pensamentos estavam seguindo, Abby teve um calafrio.
- Você está arrepiada de frio! exclamou ele, ao notar a reação de Abby, e.passando-lhe o braço
pela cintura, a fez voltar.para o carro.
Ele também sabia ser solícito e atencioso... quando queria. Depois que se acomodaram,
Piers ficou olhando para a linha do horizonte com um olhar distante.
- Lembra-se daquela tarde em que fomos ao High Tor? Estava garoando como hoje, e
nós ficamos gelados até os ossos!
- Piers, vamos embora!

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- Já vamos. Mas Piers ainda não tinha terminado a história. As muretas da torre ainda existem,
ou pelo menos as ruínas. Aposto como ainda estão lá as cinzas da fogueira que acendemos e o
capim seco com que fizemos a nossa cama.
- Pare com isso! gritou ela. O que você está tentando fazer?
- Não sei. Talvez tentando descobrir por que razão deu tudo errado. Bem... você sempre foi
uma criatura irascível.
- Eu não pedi para que você se casasse comigo!
Piers concordou.
- Não, não pediu, mas bem que você eslava doidinha para casar. Poderia ter tido mil
problemas se Matthew fosse ilegítimo.
- Bem menos do que eu tenho agora - retrucou Abby, muito ofendida com aquela indireia.
E não falou mais com ele até chegarem em frente ao portão de Ivy Cottage.
No sábado, Piers levou Matthew para conhecer a avó. Abby não queria deixar, mas Matthew
ficou tão ansioso com aquela perspectiva que ela não teve coragem de proibi-lo.
- Afinal, os Roth são a família dele, ponderou tia Hannah. quando ficaram a sós. Além do mais,
Piers poderia valer-se dos seus direitos para forçá-la a concordar.
Era uma verdade irritante.
Mas não foi fácil testemunhar o entusiasmo de Matthew quando voltou da visita. Parecia um
garotinho novamente, e tia Hannah trocou um olhar de cumplicidade com a sobrinha, quando ele
mencionou a avó.
- Ela é bem velha - comentou Matthew. E quase não pode andar por causa da perna.
- Da perna? perguntou Hannah.
- E que ela sofre de artrite, explicou ele, servindo-se de mais um bolinho que a mãe fizera para
o lanche. É por isso que ela não monta mais a cavalo. Mas eles ainda têm cocheiras, e papai
me levou para ver o ponei. Vou aprender a montar nele!
Papai! Abby respirou fundo. Eie dissera a palavra com tanta espomaneidade! Mas como teria
reagido a sra. Roth ao ver o neto? Será que Matthew notara alguma coisa de errado?
- Um pónei! exclamou Hannah, dando corda ao menino. Mas que ótimo! E ele tem nome?
- Chama-se Hazel. É o nome de um dos coelhos de um livro de histórias de um tal Richard
Adams. Papai vai me arrumar um exemplar para eu ler.
Abby forçou-se a sorrir.
- Em resumo, você gostou da visita?
- Oh. sim. É um lugar lindo. Os comodos são enormes, a mobília é uma beleza. Não sei por que
você não gostou de lá, mamãe, Soltou um suspiro conformado. Depois fomos tomar chá, lá na
sala de visitas, você sabe. A Srta. Langton estava lá. Ela é bacana. É um pouco
"metidinha a besta", mas acho que eslava se esforçando para agradar papai.
Como aquele menino era observador, pensou Abby. Pelo menos não se deixara cegar pelo
deslumbramento daquele luxo todo. E a avó? Teria passado despercebida?
Pelo restante da semana Abby teve que aguentar os comentários de Matthew. Aquele sábado ia
ficar inesquecível na memória do filho, e ela precisava conformar-se de que Piers agora fazia
parte da vida do garoto. O Dr. Willjs veio visitar sua paciente na segunda-feira pela manhã, e
Abby o recebeu com evidente satisfação.
- Então, você resolveu voltar? disse o médico, depois de ter examinado tia Hannah no
quarto. Espero que desta vez fique para sempre.

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- Eu também espero, Abby apontou para a chaleira. Aceita um cafezinho? Ia coar um, agora
mesmo.
. - E dá para não aceitar? Sean sorriu e acomodou-se, sem a menor cerimónia, numa cadeira
junto ao fogão. Eo garoto? Pensei que fosse encontrá-io por aqui.
- Oh. ele foi até o armazém fazer umas compras para tia Hannah, disse Abby, sentindo que
corava. Suponho que tenha ouvido algum comentário sobre Matthew. Ele deve ter dado o que
falar para o pessoal da vila.
- Ouvi dizer que ele é filho de Piers Roth, admitiu Sean. Mas isso não me surpreendeu. Pelo
sobrenome, imaginei que tivessem algum parentesco. Mas isso não é da conta de ninguém. Eu.
de minha parte, sempre respeitei a vida particular dos outros.
Maithew voltou na hora em que estavam tomando o cafezinho e, para constrangimenlo de Abby.
Piers veio junlo.
- Papai me deu uma carona, disse o menino, olhando furtivamente para Sean. Ele quer falar
com você sobre aquele colégio.
Abby lançou um olhar gelado para o marido.
- O que tinha que falar sobre isso com ele? perguntou, evidentemente aborrecida.
- Mencionei de leve e, retribuindo o cumprimento de Sean com fria educação, acrescentou:.
Que bom ter uma clínica que funciona sozinha. O pessoal do serviço de atendimento telefonico
sabe onde você está?
- O Dr. Willis veio para me examinar, interferiu Hannah, que acabava de descer as escadas,
não escondendo seu desagrado pela ironia de Piers. Termine o seu café, doutor. Não se deixe
assustar pelo Sr. Roth.
- Pode ficar descansada que eu não me assusto à toa, sra. Caldwe, afirmou Sean, muito seguro
de si depositando a xícara vazia sobre a mesa. Mas é que já está na hora de eu ir andando. Foi
bom vê-lo novamente. Matthew. Adeusinho, Roth. Até logo, Abby. Espero revê-la em breve.
Depois que o médico saiu, a atmosfera ficou elétrica, mas Piers não se deu por vencido.
- Então. Abby? Você já tomou a sua decisão? - perguntou, com uma inflexão bem mais
amigável do que a que usara para falar como Sean Willis.
- Pelo visto, você já tomou a decisão por mim, respondeu com voz cansada. Matt, o que você
prefere? Ir para esse colégio que seu pai escolheu, ou para a escola de Alnbury?
Ela sabia de antemão qual seria a resposia.
- Prefiro ir para o colégio onde papai estudou, declarou, olhando para Piers. Posso ir conhecê-
lo? É muito grande?
- Não é tão grande assim. Deve acomodar uns quatrocentos alunos. Mas, antes de ir visitá-lo,
seria melhor que sua mãe e eu fôssemos falar com o Ssr. Grant, o Diretor.
- E quando posso começar?
Maithew nunca se mostrara tão empolgado com os estudos, mas Abby teve a ligeira
desconfiança de que todo aquele entusiasmo terminaria quando ele soubesse a quantidade de
tarefas que aquele colégio dava para os alunos fazerem em casa.
- Depois do Natal, Piers respondeu à pergunta. E, virando-se para Abby. acrescentou: Marquei
uma entrevista, a ser confirmada, para as dez horas da manhã. Para você está bem?
- E faz alguma diferença?
Abby não pôde evitar sentir-se desconsiderada. Piers já tinha feito todos os arranjos, como
sempre, sem consultá-la. Só porque ela gostara da fachada do educandárío ele já tomara todas

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as iniciativas. Mas, a nao ser que quisesse causar uma grande desilusão a Matthew ela
precisava acatar aquela intromissão.

Capitulo VII
A terça-feira amanheceu chovendo. Uma chuva fina e persistente.
Abby ficou indecisa sobre o que vestir. Um tailleur seria o mais adequado, mas os que ela
possuía já estavam mais do que batidos. Decidiu-se por um vestido de jérsei cor de cereja.
Sobre ele, usou o único casaco que tinha, de veludo preto e corte clássico, que contrastava com
seus cabelos louros.
Piers não fez comentários sobre sua aparência quando a veio buscar com um carro Daimler.
Apenas pegou o guarda-chuva que tia Hannah lhe emprestara, para atravessar a alameda do
jardim, e guardou-o no porta-malas, antes de voltar a sentar-se ao volante.
Em seu terno cinza-chumbo com colete, ele parecia ainda mais esnobe e convencional.
O Sr. Grani era um homem muito agradável, de uns cinquenta e poucos anos, com verdadeira
vocação para o cargo de Diretor de escola: parecia gostar sinceramente de crianças, era
meticuloso nas informações que prestava aos pais e combinava isso tudo com um
surpreendente senso de humor.
- Seu marido já me explicou toda a situação, Sra. Roth. Tenho certeza de que Matthew vai
beneficiar-se pelo fato de ter a atenção de ambos novamente.
- Oh, sim.
Abby forçou um sorriso, tentando imaginar o que Piers teria dito ao Sr. Grant. Nunca antes
Matthevv se dera ao luxo de ter a atenção do pai e da mãe simultaneamente, e ela só esperava
que aquela nova experiência não fosse prejudicial ao menino.
Já fora Abby respirou melhor e apressou-se em voltar para o carro.
- Você está encharcada! disse Piers, sacudindo os respingos do paleto, ao entrar pela outra
porta. É melhor tirar esse casaco, antes que apanhe um resfriado. Aqui dentro está aquecido, e
por enquanto você não vai precisar de agasalho.
Abby hesitou mas, considerando que ele tinha razão, tirou o casaco molhado e esfregou os
braços nus para reativar a circulação.
- Voltaremos na próxima semana para que Matthew conheça o colégio continuou
Piers, quando o carro começou a afastar-se do edifício. Então, ficou satisfeita?
- Bem, o que foi feito, foi feito. Agora já assumi um compromisso com o Diretor.
- Não é bem assim. Sempre há tempo para um cancelamento. Se você acha que para
Matthew vai ser melhor a escola de Alnbury, não vou me opor, mesmo não estando de acordo.
- Só tem um senão... Como é que Matthew virá para o colégio? Pelo que entendi, eles não têm
ônibus escolares.
- Falarei com os Croft, sugeriu Piers. O filho mais velho deles frequenta essa escola, e Sarah
vai levá-lo e buscá-lo todos os dias. Acho que eía não se incomodaria em levar também
Matthew.
- Sarah Croft? Lembro-me dela!
Sarah fora uma das poucas amigas que Abby tivera na época de seu casamento com Píers.
- Vocês não andaram se correspondendo?
- Não. Ela me escreveu uma vez, mas eu não respondi. Achei que não devia. Afina!, os Croft
eram seus amigos, não meus. Teria sido embaraçoso para mim coniinuar com a amizade.

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- Embaraçoso?
- Não finja que não entende! revidou Abby. Como poderia manter a amizade de Sarah quando
ninguém estava sabendo da existência do bebé?
- E por que você não contou a ela? Se é que conheço bem Sarah, tenho certeza de que tomaria
as suas dores.
- Eu não queria que ninguém tomasse as minhas dores. Tudo o que desejava era esquecer.
- Esquecer-me? É isso que você quer dizer?
- Interprete como quiser.
- E você esqueceu?
- Sim afirmou Abby, inflexível.
- Completamente?
- Do mesmo jeito que você me esqueceu, disse ela, resoluta.
- Mas eu não a esqueci. Abby.
- Só que não queria se lembrar. Piers encolheu os ombros.
- Eu tinha as minhas razões, não tinha?
- Imaginava que tinha.
-- Mas você não respondeu à minha pergunta.
- Que pergunta?
- Se você me esqueceu completamente.
- É difícil esquecer completamente a quem se odeia.
Abby ouviu a respiração de Piers alterar-se.
- E ainda me odeia?
Abby virou o rosto para a janela, olhando a chuva cair. Teria desejado responder que sim, que
ainda o odiava mais do que nunca. Mas não seria verdade. Desde que Piers voltara à sua vida,
seus sentimentos tinham mudado. Já não sentia tanto rancor pelas humilhações que ele a fizera
sofrer no passado. O tempo abrandara seu ódio, e o fato de estar novamente ao lado dele, de
sentir a antiga atração ressurgir, tinha feito com que sua vontade de vingar-se enfraquecesse.
- Para onde estamos indo? perguntou, de súbito, ao sair de seu devaneio, dando-se conta de
que ele já havia ultrapassado a estrada que levava à vila. Este não é o caminho para
Rothside. É a estrada particular que leva à mansão dos Roth!
- Absolutamente certo Piers lançou-lhe um rápido olhar. Pensei em almoçarmos juntos lá em
casa. em homenagem aos velhos tempos. Que me diz disso?
- Almoçar na mansão? Com sua mãe? Abby apertou os lábios. Algo me diz que ela não vai
gostar nem um poaco.
- Ela não está em casa. Foi para Newcasíle com tia Isabel, para fazer compras, e só vai voltar à
tardinha.
Abby teve uma estranha sensação. As palavras de Piers traziam-lhe recordações de seus
primeiros encontros ilícitos, quando eles aproveitavam as ausências da mãe para namorar. Tudo
havia começado inocentemente, ou pelo menos assim lhe parecera. Afinal, ela só linha
dezesseis anos, e aquele era seu primeiro emprego. Apesar de ela logo ter sentido uma grande
atração por ele jamais imaginara que Piers poderia corresponder a esse sentimento com a
mesma intensidade.

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Ele ainda estava na Universidade quando o pai morrera, e os negócios ficaram nas mãos de
Procuradores, que não se atreviam a tomar decisões importantes. Quando finalmente tomou as
rédeas dos negócios, havia um acúmulo de trabalho esperando por ele- A secretária que
durante muitos anos trabalhara para o pai pedira demissão para ir cuidar da mãe inválida.
Quando o cargo ficou em aberto, Abby candidatou-se.
Nunca esperara ser aceita, mesmo porque havia outras candidatas bem mais experientes. Mas
Piers insistiu que preferia alguém a quem pudesse ensinar o serviço a seu modo, e só mais
tarde ela soubera da verdadeira razão daquela escolha. Para Abby, o emprego tinha sido um
verdadeiro achado. Era perto de casa e eia podia ir diariamente de bicicleta,
economizando as passagens de ònibus, o que lhe permitia entregar seu salário a tia Hannah
praticamente intato. Tinham sido dias felizes, muilo felizes.
Pensando neles, Abby soltou um suspiro saudoso. Logo ela aprendera tudo sobre avaliações de
terrenos e propriedades, e sobre administração imobiliária. Também teve oportunidade de
testemunhar os problemas que ele enfrentava tentando manter um relacionamento amistoso
com seus rendeiros e inquilinos. Havia muita rivalidade entre eles, e Piers sempre procurava ser
o mais justo possível, favorecendo os mais pobres e necessitados.
Costumava discutir esses problemas com Abby, acatando-lhe, muitas vezes, a opinião. E logo
seus diálogos começaram a ter um cunho mais pessoal. Ele contou-lhe sobre seus tempos de
universidade; e ela sobre sua família, inclusive a razão por que tia Hannah a abrigara sob seu
teto.
Eram conversas descontraídas, e ele parecia interessar-se por tudo o que Abby dizia. Aquela
camaradagem removera todas as barreiras sociais existentes entre os dois, e Abby chegou a
esquecer sua origem humilde e o fato de que a família dele poderia não aprovar o
relacionamento que maniinharn.
Fora nessa ocasião que Tristan Oliver a convidou para irem a um baile de adolescentes em
Alnbury. Iriam de Ônibus e o pai dele iria buscá-los de carro na volta, já que o rapaz tinha
somente dezessete anos e ainda não podia dirigir.
Encorajada por tia Hannah. Abby aceitou o convite e mencionou aquele baile a Piers, de forma
casual, talvez com a intenção secreia de mostrar que era requisitada pelos rapazes de sua
idade.
Chegou a levar um choque ao deparar com Piers, na saída do baile, postado ao lado do pai de
Tristan.
- Precisei vir a Alnbury tratar de uns negócios - dissera ele ao sr. Olíver, amavelmente. Vou
aproveitar a oportunidade para acompanhar Abby até em casa. De qualquer forma, é o meu
caminho, e o senhor precisaria desviar-se do seu.
O pai de Tristan ficou tão surpreendido quanto ela, mas como a explicação de Piers era razoável
não discutiu.
Os Oliver não eram rendeiros da família Roth, pois tinham sua própria fazenda, e como dissera
Piers, eles teriam que desviar-se de seu trajeto para levar Abby para Ivy Cottage.
Assim, logo ela já estava confortavelmente instalada ao lado de Piers na perua que os levaria
para Rothside.
- Você não se importou, não é mesmo? - perguntou Piers, tão logo deixaram Alnbury para trás.
- Confesse. Você não tinha negócio algum a tratar em Alnbury tinha?
- Não, respondera Piers, honestamente.
- Você veio para se encontrar comigo,
Aquilo já não era mais uma pergunta, e sim uma afirmação. Não devia ter feito isso - ela
acrescentara.

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- Eu sei.
Abby segurara a respiração.
- Piers...
- Não. não diga nada , pediu, muito tenso. Vamos deixar por isso mesmo.
- Se é o que você quer.
- Se é o que quero? Piers pisou no breque com tal violência que ela foi atirada para frente. Não.
não é isso que eu quero. Abby. A voz era muito insinuante. Você sabe muito bem o que quero,
e tem todo o direito de me desprezar por isso.
- Eu não o desprezo, Piers.
Só naquele momento ela percebera que a razão dela gostar tanto da companhia de Piers não
era somente por ele ser um bom patrão, amigo e compreensivo. Na verdade, sentia-se atraída
por ele como mulher, esperando muito mais do que tinha direito de esperar daquele
relacionamento socialmente tão desigual.
- Abby?
Ele a encarava fixamente, e apesar da escuridão da noíle podia sentir a intensidade daquele
olhar,
- Abby... não brinque comigo. Eu não sou um desses seus namoradinhos. Não sou
Tristan Oíiver.
- Eu sei.
Piers passara-ihe a mão pelos longos cabelos e soltara-lhe a fivela, deixando livre e solta aquela
cabeleira macia e sedosa.
-- Pena que você ê jovem demais, ele sussurrou, com os lábios projetados para a freme,
sensualmente, e ela eletrizou-se toda.
- Nao diga isso!
- Por que não? É verdade!
A mão morena e acaricíante tinha deslizado da nuca para o queixo rosado, e, num gesto
instintivo, Abby roçara os lábios pelos dedos que a tocavam.
Piers pressionara o polegar sobre aqueles lábios, obrigando-a a entreabrir a boca. Logo seus
próprios lábios estavam colados aos dela, num beijo devastador.
Podia ser que Abby não estivesse preparada para a sensualidade adulta de Piers, mas
mostrara-se uma excelente aluna e correspondera aos arroubos da paixão com o mesmo
arrebatamento. Tudo isso acontecera há muito lempo.
- E então?
Notando que Piers ainda esperava por uma resposta ao seu convite para ir almoçar na mansão.
Abby balançou a cabeça, numa negativa.
- Tia Hannah está à minha espera. Ela pode ficar preocupada se eu não voltar para o almoço,
principalmente com um tempo desses.
- Mande-lhe um recado. Ela não vai achar ruim, se souber que você está comigo. Mesmo que
ela não me aprecie muito, por causa das circunstâncias, sei que ainda me considera um
cavalheiro.
- Considera? Pois eu tenho as minhas dúvidas!

Livros Florzinha - 49 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Abby, por favor, seja mais indulgente comigo. Que diabo! Pode ser que esta seja a nossa
última chance de falarmos como marido e mulher. Já escrevi ao meu advogado para dar início à
ação de divórcio.
Abby ficou indecisa. A chuva, lá fora, conspirava contra ele. Acabou aceitando o convite, mesmo
a contragosto.
Aquele caminho particular que levava à mansão pareceu-lhe tão familiar... Não queria lembrar-
se do passado, mas diante de seus olhos pareciam se descortinar aqueles acontecimentos
remotos e perturbadores.
A recordação da primeira vez em que Piers fizera amor com ela voltou-lhe à memória com uma
nitidez assustadora. Era incrível que se lembrasse de todos os detalhes, depois de quase
quatorze anos.
Do primeiro beijo a outras intimidades. cada vez mais ousadas, tudo foi muito natural e
espontâneo. De início, os conselhos que sempre ouvira de tia Hannah continham seus impulsos.
Mas, pouco a pouco, as ansiedades de seu corpo calaram toda e qualquer advertência ou
remorso.
Ambos eram jovens e estavam apaixonados.
O clima na mansão, durante o trabalho, tomara-se tenso. Eles ficavam tempo demais juntos,
tempo demais sozinhos, e o inevitável acabou acontecendo. Chegou a admirar-se de como a
sra. Roth não percebesse o que se passava debaixo de seu nariz. Talvez não desconfiasse de
nada porque considerava Abby apenas como mais uma das "'aldeãs do vilarejo", e acreditava
que Piers também pensasse o mesmo.
Foi durante o entardecer de um verão muito quente... relembrou Abby. melancólica.
Estivera trabalhando até depois da hora. ajudando a sra. Roth a endereçar os convites para uma
festa ao ar livre, em benefício de uma instituição de caridade. Piers estava ausente, pois fora
assistir às corridas de cavalos no hipódromo.
Enquanto cumpriam aqueia tarefa monótona, a sra. Roth soltara a bomba.
- Talvez no ano que vem, nesta mesma época, estaremos enviando os convites para o
casamento de Piers - anunciara ela, com emoção. A tão querida Melanie! Uma moça adorável!
Vai ser uma esposa e tanto!
Abby soube instantaneamente de quem ela estava falando. Nos últimos tempos, Melanie
Hastings era vista com freqííência na mansão. Os pais dela eram amigos íntimos da Sra. Roth e
Abby pensara, ingenuamente, que aquela era a única razão da presença constante da moça.
Mas era claro que se enganara, e foi com as mãos tremendo de raiva e ressentimento que Abby
terminou de executar seu serviço.
Piers chegara em casa bem na hora em que Abby estava de saída, indo buscar sua bicicleta no
pálio. Ele a deteve, com um olhar suspeitoso e sombrio.
- Ei, espere! Aonde vai com tanta pressa? Eu levo você para casa. E só o tempo de ir buscar o
carro.
- Não é preciso, muito obrigada, recusara Abby, fria e seca. Boa noite, Sr. Roth. Nos veremos
amanhã.
- Abby! Piers segurou-a pelo braço. Que história é essa de senhor Roth? Enrugou a testa,
assumindo um ar desconfiado. O que foi que minha mãe andou lhe dizendo?
- O que poderia ela ter me diio? os olhos verdes chispavam de raiva. Ah, talvez que você
vai se casar no próximo ano! completara, sarcástica.
Desvencilhando-se dele, saltou para o assento da bicicleta e saiu pedalando com fúria.

Livros Florzinha - 50 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

Ele a alcançou depois que já transpusera os limites da propriedade, e bloqueou seu caminho
com o carro.
- Desça daí! ordenou, muito sério, tirando-lhe a bicicleta das mãos. Sem titubear, atirou-a na
parte traseira do veículo e, segurando Abby pelo cotovelo, obrigou-a a entrar no automóvel.
- Então, é ou não é verdade? perguntou Abby. tentando simular indiferença.
Ele limitou-se a dar a partida no carro, que saiu à toda. cantando os pneus. Sem dizer palavra,
conduziu-o até a beira do lago das trutas, que se estendia por vários acres.
Era um lugar pitoresco, com águas plácidas, circundadas de arvoredos que refletiam seus
contornos na superfície espelhada. Mas Abby sabia que ele não a trouxera ali para apreciar a
paisagem.
- Não confia em mim? perguntou ele, convidando-a a acompanhá-lo com um gesto,
mas ela continuou sentada.
- E eu deveria confiar em você?
- Talvez não. - Percorreu-a dos pés. à cabeça com um olhar inflamado pelo desejo. Do
jeito que me sinto neste momento, você tem toda a razão de estar com medo de mim.
- Então, leve-me para casa, pediu ela, fazendo um esforço para combater a atração que aquele
olhar provocante exercia sobre ela.
Afinal, ele ainda não desmentira a acusação, e foi entre indignada e fascinada que usou ambas
as mãos para empurrá-lo para longe. Mas tudo o que conseguiu foi deslizar para fora do carro,
com as pernas bambas. Quando se ergueu, seu corpo veio roçando peio dele e Abby pôde
sentir que Piers estava no auge da excitação. Isso fez com que seus próprios sentidos se
exaltassem, e ela arqueou o corpo instintivamente de encontro ao dele. As mãos de Piers
deslizaram pelas suas costas até chegarem aos quadris e ele a puxou contra si, ainda com
maior sofreguidão. A boca sequiosa procurou seus lábios, e eia chegou a perder o fôlego, tal o
ímpeto daquele beijo:
Beijara-a seguidamente, dando expansão ao desejo que refreara até então. Mesmo que ambos
soubessem do perigo de soltarem suas emoções, não havia como controlar-se. Eles se queriam,
e aquela atração mútua era uma tentação irresistível.
Sob seus pés havia um tapete de relva; Piers a fez deitar e começou a desabotoar-lhe a blusa e
a saia.
Abby não tentara detê-lo. Ao contrário, ela própria começou a livrá-lo da camisa, numa
ansiedade incontida. Quando os corpos nus de ambos se encontraram, ele sugou-lhe a língua
rosada e ela gemeu de prazer.
- Pode chegar alguém, Abby sussurrara languidamente, quando aquele corpo moreno, agora
inteiramente nu, se estendera sobre o dela.
- Deixe-os, dissera ele, saboreando-lhe a boca úmida. Só não peça para eu parar, Abby. Não
vou poder.
- Não, não pare... - murmurou, mesmo sentindo aquela penetração palpitante em seu corpo.
- Relaxe... deixe que aconteça, disse ele, olhos nos olhos, e o grito que estava por escapar de
seus lábios foi sufocado por mais um beijo.
Por um instante. Abby só sentiu dor, uma dor lancinante que nem mesmo as carícias daquelas
mãos amorosas conseguiram suavizar. Foi então que ele começou a mexer-se, e ela pensou
que Piers fosse se afastar. Para prendê-lo, circundou-lhe os quadris com as pernas, trazendo-o
para mais perto.
- Abby... ele gemeu quando, enlouquecido pela paixão, começou a fazer movimentos convulsos,
com o rosto soterrado em seus cabelos revoltos, até chegar ao êxtase.

Livros Florzinha - 51 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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Abby permaneceu ali deitada, contente por saber que o tinha satisfeito.
Só quando ele ergueu o corpo, apoiando-se sobre o cotovelo, é que ele teve consciência do que
acontecera. O sangue subiu-ihe ao rosto, ao ver aqueles olhos que a fitavam, embranquecidos
de prazer.
Com um suspiro, ele a beijou novamente, e ela passou-lhe os braços carinhosamenle pelo
pescoço.
- Tudo bem com você? ela sussurrou ao seu ouvido, enquanto aquela boca úmida molhava-lhe
o pescoço.
- Oh, Abby! ele murmurou, voltando a acariciar-lhe os seios desnudos. Abby, foi tão bom!
Tão lindo! Mas da próxima vez será ainda melhor.
- Da próxima vez? Abby susteve o fôlego ao sentir-lhe uma nova ereção.
- Vai ser agora, disse ele, segurando-a possessivamente pelos quadris.
- Oh. não! Abby sacudiu a cabeça. Não assim, em seguida!
- Pois vai ser assim, disse ele, louco de desejo. Eu posso, e desta vez vai ser diferente.
Prometo.
E fora. Tudo recomeçou, só que ela não ficou mais passiva, a espera do gozo dele.
Acompanhou seus movimentos, num ritmo uníssono, e ambos alcançaram o clímax ao mesmo
tempo.
Abby mal reconheceu sua própria voz, quando soltou um grito de prazer supremo...

Capítulo VIII
- Abby...
Só quando Piers a chamou foi que ela se deu conta de que já estavam estacionados no pátio
interno da mansão. Teve a impressão de que ele estivera olhando, todo aquele tempo, como se
estivesse vendo, numa tela de cinema, o desenrolar de seus pensamentos. Ficou rubra de
vergonha.
- Eu... eu não vou descer, disse ela. Leve-me de volta, Piers. Além do mais. o que diria sua mãe
se nos encontrasse aqui? Já imaginou a reação que ela teria?
- Estou pouco me incomodando com as reações de minha mãe. Tenho trinta e sete anos.
Abby. É idade suficiente para tomar as minhas próprias decisões, como por exempio,
convidar quem eu quiser para almoçar comigo. Rothside Manor agora me pertence, sabia
disso? Santo Deus! É pedir muito que almoce comigo? Quero me separar de você como gente
civilizada, apesar de não termos nos comportado assim durante o nosso casamento. .
Abby soltou um suspiro, olhando para Malton, o mordomo, que já estava no pórtico de entrada,
com o guarda-chuva em riste.
- O que os empregados irão dizer?
- Provavelmente vão contar à minha mãe, retrucou, lacónico. E você se importa? Vamos lá,
Abby. Umas duas horas juntos, é tudo o que eu peço, e acrescentou, com ironia: Ou será que
você prefere ir tomar chá com o dr. Willis?
- Por falar nisso, você foi muito rude com ele! - retrucou, indignada.
- Abby!
- Ora, esqueça, desistiu de argumentar. Só que não vou poder ficar muito tempo. Matthew
deve estar doido para saber o que foi decidido sobre a escola.
- Matthew pode esperar.

Livros Florzinha - 52 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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Fez sinal para que o mordomo abrisse o guarda-chuva, e ajudou Abby a sair do carro.
Se Malton, ou a sra. James, que era governanta na casa há mais de vime anos, ou Jerrold, o
encarregado das cocheiras, estranharam que Píers trouxesse a esposa desaparecida para
almoçar na mansão, ao menos se abstiveram de fazer quaíquer comentário.
Aliás, a sra. James foi de uma polidez exagerada quando fez questão de acompanhá-la para
lavar as mãos num dos banheiros do andar superior.
- É uma satisfação vê-la novamente aqui, Sra. Piers, disse ela, esperando que Abby penteasse
o cabelo.
A governanta sempre a tratara como Sra. Piers, para diferenciá-la da velha Sra. Roth.
- A satisfação é toda minha, sra. James, respondeu Abby, sem a menor sinceridade.
Estar aii, naquela casa que íhe trazia tantas recordações amargas, não era prazer nenhum. Fora
uma idiota em deixar-se convencer por Piers a almoçar com ele.
O almoço foi servido na sala de jantar da família, assim chamada por ser bem menor do que a
sala de jantar formal, onde eram recebidos os convidados. Mesmo sendo um ambiente mais
íntimo, era tão luxuosamente mobiliado que chegava a intimidar, principalmente alguém
habituado a fazer as refeições na cozinha de lvy Cotagge. Abby lembrou de como ficara nervosa
ao entrar ali, nas primeiras semanas de seu casamento.
Foram servidos por uma copeira jovem e graciosa, chamada Susan, que Abby nunca vira antes.
A moça desmanchava-se em sorrisos e atenções com Piers e Abby imaginou que aquela devia
ser mais uma das "aldeãs do vilarejo" a sentir-se atraída pelo charme do dono da casa, tal como
acontecera com ela própria, há muitos anos.
O almoço estava delicioso, mas Abby tinha perdido o apetite e mal tocou na comida. Piers
pareceu apreciar o vinho, mas também devolveu o prato quase intato.
Pouco conversaram à mesa, pois sempre havia testemunhas por perto. Primeiro Susan, e
depois a sra. James, que se incumbia de retirar os pratos ao final do almoço.
- O senhor não comeu quase nada, Sr. Roth, observou, com a familiaridade que os anos de
serviço lhe credenciavam. Quem sabe a galinha não estava temperada a seu gosto?
-- A galinha estava excelente, Sra. James - afirmou Piers, levantando-se e dando a volta à
mesa, a fim de puxar a cadeira para Abby. Acho que é esse tempo chuvoso que me tirou o
apetite. Jerrold já foi levar o recado a sra. Caldwell, de que a Sra. Roth vai demorar-se?
- Sim senhor. Ele já voltou faz tempo. Quer que eu chame o motorista para levar a Sra... Sra.
Roth para casa?
- Nao vai ser necessário. Eu mesmo vou acompanhá-la, obrigado.
O pequeno refeitório comunicava-se com um grande salão de estar, mas Abby teria preferido
usar a porta da saída, em vez de acompanhar Piers para dentro daquele comodo.
Mas a Sra. James estava por perto, e ela não se atreveu a desobedecê-lo, quando a convidou
para o café.
Logo que fecharam a porta. Abby pronunciou-se.
- Prefiro ir embora já.
Piers limitou-se a indicar-lhe a bandeja com o bule de café e as xícaras, que estava sobre uma
mesinha:
- Sirva-se.
Ele próprio serviu-se de café e foi sentar-se no sofá ao lado dela.

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O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Diga-me uma coisa, começou Piers. Quando Matthew nasceu, como você fez para sustentar
a ambos? Você não quis aceitar a minha ajuda financeira, portanto gostaria de saber como se
arrumou.
Abby hesitou.
- Você está querendo perguntar se eu recorri ao supremo sacrifício de me prostituir? disse,
ironica. E ele chegou a ficar roxo.
- Não foi isso que eu quis dizer. Simplesmente queria saber como vocês viviam.
- Por uns tempos recorri à Previdência Social, auxílio-maternidade. Você deve conhecer como
funciona. Nem imagina como uma pessoa tem iniciativas quando está na pior.
- Você não precisava ter ficado na pior, retrucou ele. furioso. Pelo amor de Deus, Abby! O
dinheiro estava lá, à sua disposição! Por que não o usou?
- Usá-lo para o filho de outro homem? Abby sabia ser cruel e sarcástica quando queria. Ora,
Píers, eu tinha conservado um restinho de amor-próprio. Você não ia me despojar também
disso, como de tudo o mais!
Piers levantou-se e começou a caminhar pela sala, inquieto.
- Quando o bebé era maiorzinho, você conseguiu um emprego, não foi mesmo? E quem
tomava conta da criança enquanto você ia trabalhar?
- De início, arrumei uma mocinha como pajem. E quando ele tinha idade suficiente, deixava-o
numa escolinha maternal.
- E nunca escreveu a Oliver? Não o viu mais depois que você foi embora de Rothsíde?
- E por que deveria?
Abby não estava a fim de dar tantas explicações. Piers se desinteressara dela durante dozes
anos. Por que haveria agora de satisfazer-lhe aquela curiosidade tardia?
- Está na hora de eu ir andando - declarou, tomando o último gole de café. - Agradeço pelo
almoço. Estava ótimo. Se eu não tiver oportunidade de ver a Sra. James, cumprimente-a
por mim...
- Abby! A voz angustiada de Piers a deteve, e ele veio postar-se à sua frente, as mãos nos
bolsos do paletó. Abby, não vá ainda.
Ela empertigou-se.
- Porque não?
- Ainda não terminamos de falar.
- Eu já terminei.
-- A nossa conversa está com onze anos de atraso!
- Oh, essa não, Piers! Pode até ser que o seu recente envolvimento com Matthew o autorize a
querer conquistar a confiança e a amizade dele. Mas comigo é diferente. O fato de você estar
ajudando Matt não lhe dá o direito de fazer um interrogatório policial sobre a minha vida.
- Mas Abby...
- Nossas vidas são separadas, Piers! Separadas, ouviu? Eu não espero nada de você e você
não deve esperar nada de mim.
Piers estreitou os olhos. Sempre poderei interrogar Matthew, e você sabe disso.
Abby sacudiu os ombros.
- Fica a seu critério.
- Não se incomoda do que eu possa dizer a ele sobre você?

Livros Florzinha - 54 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Oh. Piers! Abby o encarou com a boca tremula. Afinal, o que você quer de mim? Por que me
trouxe aqui? O que realmente espera ganhar com isso?
- Já lhe disse, retrucou ele de maus modos. Queria que conversássemos como duas
pessoas civilizadas e, se possível, que nos tornássemos amigos.
- Amigos! exclamou ela, em tom de mofa. Não faz nem um mês que você me disse que não
queria me ver nunca mais!
- Eu sei.
- E então?
- Pois bem. Taivez eu tenha falado sem pensar, numa hora de raiva. Talvez não fosse bem isso
o que eu queria dizer. Talvez eu tenha me revoltado por reconhecer que ainda não tinha
conseguido me libertar do fascínio que você exerce sobre mim.
Abby abriu a boca, mas não conseguiu falar. A muito custo, balbuciou:
- O... o quê?
- Você me ouviu bem. E continuou, como se sentisse menosprezo por si mesmo. É patético,
não é? Depois de todo esse tempo, descobrir que ainda a quero.
- Você está maluco!
Em seguida, correu para a porta, querendo sair dali o mais rápido possível. Mas ele foi mais ágil
e interceptou-lhe a passagem.
- Calma! Não precisa ficar desse jeito! Tudo o que eu disse é que ainda me sinto atraído
por você. Abby, mas... Afastou-se, deixando-lhe o caminho livre. Mas não tenho a
intenção de repetir os erros passados.
Abby chegou a suspender a respiração pelo impacto daquela declaração posterior. Por um
instante, chegou a acreditar que Piers a trouxera ali para fazer amor com ela. E, apesar da sua
primeira reação ter sido de pânico, reconheceu que a razão de seu medo estava nela própria.
Não teria resistido à tentação, essa é que era a verdade.
Olhou-o de forma ausente, para não dar mostras de seu conflito íntimo.
- Pode me ievar para casa agora? perguntou, gélida.
- Se você insiste.
Mas antes que a porta fosse aberta, ouviu-se uma batida, e o rosto redondo da Sra. James
apareceu peia abertura, com uma expressão de quem pede desculpas.
- Sinto muito incomodá-lo, senhor, mas Partridge está aqui. Parece que houve uma inundação
lá na várzea, e ele queria dizer-lhe duas palavrinhas.
Piers olhou hesitante para Abby, e ela apressou-se em propor:
- O motorista não poderia me levar para casa? Assim, evitaria causar-lhe transtornos.
Só não vou a pé por causa da chuva.
- Não há problema, senhor. Posso mandar chamá-lo já, concordou a Sra. James, muito afoita,
como se estivesse doida para se iivrar daquela visita indesejada.
- Eu acompanharei a Sra. Roth tão logo tenha atendido a Partridge, Piers asseverou
secamente. Só sinto que você tenha que esperar uns minutinhos, acrescentou, amável,
dirigindo-se a Abby, que ficou sem ação.
Depois que Piers saiu da sala. a sra. James sentiu-se na obrigação de fazer as honras da casa.
- Gostaria de tomar mais um cafezinho, Sra. Piers? Esse já deve ter esfriado, e não me custa
nada...

Livros Florzinha - 55 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Não, obrigada. Só gostaria de ir ao banheiro novamente, declarou Abby, já senhora de si.


E a governanta dispôs-se a acompanhá-la, como da primeira vez. Mas Abby é que não estava
disposta a tê-la atrás dos calcanhares como um cão de guarda.
A governanta não gostou muito, mas não teve alternativa, senão retirar-se.
Abby subiu por aquelas escadas tão suas conhecidas, e, ao chegar ao primeiro lance, uma
curiosidade irresistível apossou-se dela. Em vez de ir para orbanheiro, resolveu entrar no quarto
de Piers.
Não era o mesmo quarto que eles haviam compartilhado durante o breve período do casamento.
Era um quarto de solteiro, austero e impessoal, e a única evidência de que tinha um ocupante
eram os objetos de toalete que estavam sobre a comoda e um porta-retratos colocado na
mesinha de cabeceira:
A fotografia era de Valerie Langton. Abby reconheceu-a num só relance. Mas, sem poder
reprimir-se, atravessou o quarto e pegou no porta-retratos para examiná-lo mais de perto.
- Essa foto foi tirada em Badminton, quando Vai competiu num campeonato de esqui.
A voz inexpressiva vinha da porta, e Abby levou tamanho susto que largou o porta-retratos,
deixando-o cair e espatifar-se no chão. Os cacos de vidro se espalharam pelo carpete.
- Sinto muito, desculpou-se, olhando para o estrago. Se não se importa, vou levá-lo comigo
para mandar trocar o vidro. Não era minha intenção quebrá-lo, mas você me assustou.
- O que está fazendo aqui? perguntou Piers, em vez de responder, A Sra. James me disse que
você pediu para ir ao banheiro. Ou seria só um pretexto?
- Não! Eu queria mesmo ir ao banheiro. Entrei aqui só por curiosidade.
- Curiosidade? Piers encostou-se ao batente da porta. De quê? Ele não estava ajudando em
nada, e Abby preferiu cortar o assunto.
- Vamos esquecer tudo isso? Levo o porta-retratos para consertar e pronto! Abaixou-se e
começou a catar os cacos, sem saber o que estava fazendo, e uma das lascas feriu-lhe o dedo.
- Maldição! - gritou ela, chupando o sangue.
- Largue isso aí! - gritou Piers, ainda mais alto. E agora, quero saber o que veio fazer no meu
quarto. O que esperava encontrar aqui? Alguma calcinha sua, esquecida em outras épocas?
O sangue, dessa vez, subiu à cabeça de Abby.
- Seu sujo! E agora saia da minha frente, que eu quero ir lavar este dedo e retocar a
maquilagem.
- Vai mesmo? Será que não terá também curiosidade em saber como foi redecorado o quarto de
casal, para quando Vai vier morar aqui comigo? Por que não vai dar uma espiada? É na porta
pegada, você sabe.
- Não estou nem um pouco interessada nas mudanças que a srta. Langton possa ter feito.
- Não mesmo? E se eu lhe disser que ela tirou aquele tapete lindo de Aubussone que removeu
a escrivaninha francesa de que você tan!o gostava?
Abby recusou-se a ser provocada.
- Não interessa! E agora, quer sair do meu caminho, ou prefere que eu chame a Sra. James?
- Você faria isso? Piers afastou-se da porta. Pois muito bem. Vá chamá-la, se é isso que você
quer. Direi a Va! que você não aprovou as alterações. Está bem assim?
- Seu... seu cachorro! - explodiu Abby. OK, mostre-me as modificações que essa sua
noivmha fez no quarto de dormir. Você vai ver o quanto isso me atinge! - disse, desdenhosa.

Livros Florzinha - 56 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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Piers levou-a até o quarto do casal, e ela surpreendeu-se com o que viu. Tudo estava
exatamente iguai aos velhos tempos.
- Você não pensou que Val ia querer usar o nosso amigo quarto, pensou? - perguntou ele,
zombeteiro. As acomodações que minha mãe reservou para nós sequer estão nesta ala da
casa. Eu estou dormindo no meu antigo quarto de solteiro só até a data do casamento.
Abby recuou, como se tivesse levado uma punhalada no coração. Piers dissera aquilo
deliberadamente. só para feri-la. Será que sabia o que ela ainda sentia por ele? Queria
espezinhá-la, crucificá-la? Por que haveria de permitir tal coisa? Se ainda sentia algo por ela
haveria de valer-se dessa fraqueza para vingar-se.
- Lembra-se de quando vínhamos até aqui nas tardes chuvosas? começou a dizer Abby
acariciando o acolchoado da cama.
Piers ficou rígido.
- Estou de acordo com a sua sugestão. Por que não vamos andando?
- Só mais um minuto!
- Abby!
- Lembra-sc? eia continuou, insinuante. Costumávamos vir até aqui nas tardes de chuva, como
a de hoje. e...
Piers a segurou pelos ombros e a sacudiu.
- O que você está querendo fazer comigo? Perguntou, jogando-a sobre a cama. Estamos nos
divorciando, !embra-se? Você estava certa. Foi um erro tê-la trazido, aqui em casa. Eu não
estava no meu juízo perfeito!
Abby sorriu-lhe, contente por ter conseguido tanto com tão pouco esforço.
- O que há com você, Piers? instigou-o. Você está fingindo indiferença, ou a proximidade do
meu corpo já não o excita mais? Será que sua mãe conseguiu convencê-io de que, além de
estéril. você é também impotente?
Aquilo foi a gota d'água. Piers subjugou-a com toda a força de seu corpo vigoroso e Abby deu-
st conta de que o tiro saíra pela culatra.
- Piers, pare! Você vai se odiar por fazer isso... Vai se desprezar...
- Eu me desprezarei ainda mais se não for até o fim. Não, me rejeite, Abby. Não vou machucá-
la. Não vai ser como da primeira vez.
Mas foi. Não que ele a tivesse machucado, mas reviveram todos aqueles momentos de paixão
com ânsia redobrada pelos longos anos de separação.
Enfim saciados, perceberam o que tinham feito. Abby pulou da cama e começou a catar suas
roupas esparsas pelo chão. Não suportando a vergonha de vestir-se na presença de Piers,
levou tudo para o banheiro.
Antes de tornar a vestir-se, tomou um chuveiro rápido para livrar-se do odor dele, que emanava
por todos os seus poros. Mas as marcas dos seus beijos tinham ficado impressas por todo o
corpo.
Pouco depois, voltou para o quarto e o encontrou já pronto, esperando por ela.
- Tudo bem? - perguntou Piers, sem emoção. Então, vamos indo?
Ao descerem, encontraram a Sra. James no hall. A governante olhou-os intrigada. O que estaria
da imaginando? O que diria ã mãe de Piers? E como reagiria a velha senhora ao descobrir que
Abby estivera a sós com Piers por tanto tempo?
- A Sra. Roth já está de saída - disse-lhe Piers, muito seco.

Livros Florzinha - 57 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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Ao empurrarem a porta basculante que dava para o pátio de estacionamento, ouviram o ruído
de pneus rangendo no cascalho.
- Sua mãe chegou mais cedo do que o esperado, comentou a Sra., James, com evidente
satisfação, quando Malton apareceu para levar-lhe o guarda-chuva. A chuva estragou-lhe o
passeio. Ela vai ficar admirada em vê-la aqui, Sra. Piers.
Piers lirou o guarda-chuva das mãos do mordomo e empurrou Abby em direção ao Daimler.
- Entre! ordenou ele. abrindo-lhe a porta. Abby obedeceu prontamente, para evitar o
inevitável confronto com a Sra. Roth.
- Piers!
O chamado da mãe impediu que Piers entrasse tambem no carro. Resignadamente. ele voltou
para o portão.
- O que está havendo por aqui? Abby ouviu a sra. Roth perguntar, lançando um olhar malévolo
em sua direção.
Não chegou a ouvir a resposta de Piers, pois ele impeliu a mãe para dentro de casa. Pouco
depois, já estava de volta e acomodava-se ao volante. Abby não ficou admirada por tanta
rapidez e eficiência. Mas certamente Piers não fizera aquilo por ela. Desejara apenas evitar uma
cena.
- Eu... eu te odeio! - Balbuciou ela convulsivamente.
- Não foi essa a minha impressão - disse ele, calmamente, entrando na estrada para Rothside.
Não diga nada, Abby. Não vamos começar com recriminações. O que aconteceu, aconteceu.
Ninguém precisa se arrepender. Digamos que foi o encerramento de uma era. Olhou-a de
soslaio, quem sabe, agora cada um de nós poderá recomeçar novamente a viver.
Abby estava à beira das lágrimas quando chegaram em frente ao portão de Ivy Cottage.
Nenhum dos dois se mexeu, e ficaram em silêncio por um longo tempo, até que Piers sussurrou:
-- Meu Deus! Por que ainda te quero tanto? Por que você entrou novamente na minha vida,
justamente quando pensei que estivesse tudo acabado?
- Piers!
- Eu sei. Você me odeia e me despreza. Mas acredite-me: não tanto quanto eu mesmo me
odeio e me desprezo!

Capítulo IX
Se tia Hannah achou estranho que Abby não tivesse convidado Piers a entrar, não fez qualquer
comentário, e Matthew estava por demais ansioso; em saber detalhes sobre a nova escola para
dar atenção àquela partida rápida do pai.
- Como é o prédio? Você viu as safas de aula? Eles têm campo de futebol? - perguntou o
menino, sucessivamente, e Abby teve que explicar que, à parte a entrevista com o diretor, ela
pouco vira das instalações do educandário.
- Você poderá vê-las pessoalmente na próxima semana. Se tudo der certo, seu pai e eu vamos
íevá-lo para dar uma olhada.
- Oba! - exclamou o garoto, entusiasmado. E Abby ficou aliviada pelo futuro do filho não ter sido
prejudicado por seu ato impensado.
Mas a tia não era do mesmo parecer, tão logo Matthew subiu para ir dormir, ela fez a pergunta
que estava atravessada na garganta, desde a tarde.
- Você achou ajuizado ter ido à mansão para se meter em novas confusões com a Sra. Roth?

Livros Florzinha - 58 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Não houve confusão alguma - assegurou Abhy, precavida. - Ela não estava em casa. Piers e
eu almoçamos sozinhos. Pelo menos tão sozinhos quanto seria possível, com aquele vaivém de
empregados.
- Ainda bem. É que você demorou tanto que pensei, tolamente, que já tinha acontecido algum
problema com a mãe de Piers.
- Oh, não, Abby ficou contente pelas labaredas de fogo da lareira disfarçarem o rubor de suas
faces. A sra. Roth não voltou até a hora em que já estávamos de saída. Nem cheguei a falar
com ela. Estava chovendo, sabe, e eu já tinha entrado no carro.
- Hum...
Hannah parecia suspeitosa, mas não insistiu no assunto, e começaram a falar sobre Matthew e
Abbotsford. Nos dias que se sucederam, nada de importante aconteceu. Abby soube, através de
conhecidos, que Piers e Valerie tinham partido para a Alemanha, e remoeu-se com a ideia de
ele ir para a cama com a moça. Chegou a ter insonia por causa disso.
O tempo melhorou, e Matíhew ofereceu-se para cuidar do jardim e da horta de tia Hannah. Abby
sentiu-se orgulhosa em ver que o filho estava disposto a colaborar na manutenção da casa.
O único aconíecimentp fora da rotina foi a visita do Dr. Sean Wilíis à tia e o convite que fizera a
Abhy para que fosse jantar com ele, que foi aceito sem hesitação.
Mas. para surpresa da sobrinha, a tia não se mostrou muito entusiasmada.
- Você acha prudente sair com outro homem, quando Matthew acaba de descobrir quem é o
próprio pai?
Colocado daqueia forma, até Abby teve restrições ao convite.
- Não pensei nisso. Dificilmente aceito convites para sair a noite. Mas é que Sean tem sido tão
bondoso, tão amigo...
- Não é de admirar, já lhe disse muitas vezes que você é uma moça bonita e atraente. Quai o
homem que não se sentiria orgulhoso em sair com você?
Abby sorriu, condescendente.
- Vou consultar Maít decidiu. Explicarei a ele que, assim como Piers tem essa... essa Srta.
Langton, eu também tenho o direito de ter os meus amigos.
Hannah meneou a cabeça.
- Não se surpreenda se ele for contra. As regras sempre foram mais liberais para os homens do
que para as mulheres, e Matthew pertence ao sexo masculino, lembre-se disso.
Conforme o previsto, Matthew emburrou quando Abby foi dizer-lhe o que planejava fazer.
- E se papai voitar? Ele deve estar de volta hoje ou amanhã. O que a gente diz para ele?
- A verdade e nada mais, retrucou Abby pacientemente. Matt, seu pai e eu estamos nos
divorciando, você está cansado de saber. O que eu faço da minha vida só a mim compete. Não
tem nada a ver com seu pai.
Matthew fez um muxoxo.
- Não há chance de vocês dois ficarem juntos novamente?
- Não.
Ele deu um suspiro sentido.
- Você voltaria, se ele lhe pedisse.?
- Não, Abby foi ríspida. Matt, isso é pura perda de tempo. Nós dois não temos nada em comum.
- Têm a mim! - insistiu Matt.

Livros Florzinha - 59 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Sim, está bem. Agora preciso ir me arrumar. O Dr. Wiliis ficou de me apanhar às sete.
Apesar dessa conversa com Matthew. Abby apreciou a noitada. Jantaram no restaurante de um
hotel, em AInbury. A comida estava ólima e Sean era uma exceiente companhia. Ele chegou a
fazer confidências sobre sua vida, contando como fora difícil ser aceito em Rothside, no início de
sua carreira.
- Entendo como deve ter-se sentido, disse Abby. solidária. Até eu, que sou daqui, depois de
uma ausência de onze anos, me sinto deslocada. Só Matt é que não parece estranhar.
- É que, para o menino, a convivência com o pai e a mãe foi benéfica. Quando a criança é criada
só pela mãe ou só pelo pai, está sujeita a desequilíbrios.
- Desequilíbrios?
- É que quando se é sozinho, a tendência é mimar demais os filhos, para compensá-los da
falta do cônjuge. Duas pessoas podem não concordar com tudo, e isso até é bom. A
criança é submetida a um choque de opiniões, mas o resultado é favorável.
- Até parece que desentender-se ê uma situação ideal.
- E é, Sean respirou fundo. Minha falecida mulher e eu costumávamos discutir. Náo
estou falando em casais que brigam constantemente. O que quero dizer é que a criança
precisa conhecer a ambos, em suas qualidades e defeitos. Assim, quando crescer, poderá
tomar suas próprias decisões.
Abby sempre sentira orgulho de sua independência mas, repentinamente, aquela conversa
evidenciou que ela estava sozinha. Ainda tinha Matthew, é claro, e Hannah agora estava sob os
seus cuidados. O problema era Piers e o fato de ele não mais poder se envolver com sua vida,
após o casamento com Valerie Langton, causava-lhe depressão.
O dia seguinte custou a passar. Novembro se aproximava, com suas longas e frias noites, em
que ela pouco teria o que fazer senáo "chorar sobre o leile derramado",
Hannah também parecia abatida, e Abby preocupou-se quando ela concordou, sem protestos,
em ir deitar-se depois do almoço. Geralmente ela tirava só um cochilo, sentada na cadeira de
balanço junto à lareira, mas naquele dia aceitou a sugestão de ir dormir na cama, em seu
quarto.
Mais tarde, quando Abby subiu para ver se ela estava bem, ficou impressionada com o aspecto
frágil e envelhecido da tia. O sono suavizava-lhe as rugas do rosto, mas as pálpebras fechadas,
escondendo-lhe a luminosidade daqueles olhos vivos e inteligentes, a faziam parecer mais velha
e acabada.
Resolveu ir procurar o Dr. Willis e saiu deixando Matthew na cozinha, entretido com um quebra-
cabeças.
A Sra. Davison atendeu à porta. Abby presumiu que aquela fosse a empregada de Sean, mas a
mulher deu mostras de tê-la reconhecido.
- O Dr. Willis eslá em casa? - perguntou Abby.
- Ele está em casa, mas está ocupado. Não sei se devo interrompê-lo. É algum assunto
particular? acrescentou, com certa malevolência.
- Não, não é, retrucou Abby, batendo o queixo de frio. Vim por causa da Sra. Caldwetl. Tive a
impressão de que ela não está passando bem.
- Oh, então é melhor que entre. A Sra. Davison deu-lhe passagem. Se esperar um momento,
vou chamá-lo.
Sean não pareceu aborrecido com aquela interrupção.
- Vou buscar a minha maleta - disse o médico. Não fique assim preocupada, tenho certeza de
que não é nada grave.

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O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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Quando atravessaram o gramado, Abby comentou:


- Tenho um palpite de que a sua empregada não gosta de mim. Só espero que ela não pense
que o estou fazendo perder o seu tempo. Ela me deu a impressão de que estou querendo tirar
proveito da nossa amizade.
- E que a sra. Davison está querendo garantir o seu emprego, disse ele, segurando-a pelo
braço. Ela não é boba. Sabe muito bem que o nosso relacionamento é uma ameaça para ela.
- Sean!
- Éi verdade. Se e note bem que estou dizendo se, eu tiver que me casar de novo, a
supremacia dela pode balançar. Pelo menos é o que ela pensa.
- O nosso relacionamento não é assim tão íntimo, contestou Abby.
- Para um vilarejo,deste tamanho, a amizade mais inocente pode ser mal interpretada, como já
aconteceu no passado.
Abby enviou-lhe um olhar interrogativo.
- Então você sabe?
- Sobre o seu "caso" com o filho dos Oliver? Sim eu sei. A sua volta fêz com que
ressuscitassem os velhos mexericos. E como o pessoal nos tem visto juntos, sentiram-se na
obrigação de me prestar informações.
- Oh. meu Deus! Por que não me deixam em paz?
- E como poderiam, depois que voltou, trazendo uma criança que você insiste em dizer que é
filho de Piers Roth? Dê-lhes um tempo. Abby. Se eles querem comenlar, que comentem, fez
uma breve pausa. Uma coisa é certa...
- O quê?
- Nunca ouvi ninguém criticá-la pelo que aconteceu. Eles todos jogam a culpa na família
Roth. São solidários com a gente "deles". Abby entristeceu.
- Mas não é justo.
- E o que é justo nesta vida? Deixe estar. Os Roth podem aguentar o tranco. A popularidade
deles está caindo, e vai cair ainda mais quando ele se casar com essa tal Langton.
- Porquê?
-- Bem, você a conheceu?
- Superficialmente.
- Aquela esnobe! Você consegue vê-la conquistando a afeição e a simpatia do pessoal da vila?
Pois eu não consigo,
- Bem... Não, a atual Sra. Roth não é exatamente uma criatura adorável!
No tempo dela, pouco importava ser simpática ou não. Mas os tempos mudaram, graças a
Deus. Acho que Piers Roth já se deu conta disso. Mas essa Srta. Langton... pelo amor de Deus!
Ele bem que poderia ter escolhido coisa melhor.
Depois que o Dr, Willis examinou Hannah. o veredicto não foi nada animador.
- Ela já está muiío velha, Abby disse ele, na cozinha, na presença de Matthew. Você precisa
estar preparada para o pior. Esta é a razão por que recomendei Rosemount, e a razão por que
você está aqui. Mas não se preocupe demais. Ela é bem mais resistente do que aparenta, e
algo me diz que não irá entregar a alma a Deus tão facilmente.
Depois que o médico foi embora, Matthew deixou o quebra-cabeças de lado e ficou sentado,
meditativo. Eram quase cinco horas e a neblina começava a cair.

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O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Por que ele não chega? perguntou o menino, impaciente, indo espiar pela janela da sala de
estar.
Piers não chegou, e no dia seguinie Abby soube a razão do atraso. Estava numa banca de
revistas, quando ouviu duas mulheres conversarem entre si.
- Não. eles não voltaram,uma delas dizia. Susan acha que foram para Paris para escolher o
vestido de noiva, mas eu achei que o Sr. Roth não iria fazer uma coisa dessas. Dá azar ver o
vestido de' noiva antes do casamento.
- Então o que eles foram fazer em Paris? Será que resolveram fugir?
- Fugir? - A mulher, que por sinal era a mãe de Susan parecia irritada. Não iam fazer uma coisa
dessas! Ele ainda é casado, não é? Com essa sobrinha de Hannah Caldwell. Sei que eles estão
tratando do divórcio, mas ele não pode casar antes que os papéis fiquem prontos, não é
mesmo?
- Acho que sim.
- Além disso, de acordo com o que Susan me contou, essa história não está muito bem
contada.
- Como assim?
- Depois eu conto. Sabia que Abby Caidweíl esteve na mansão a semana passada? Como
estou lhe dizendo, você não sabe nem da metade da história ioda.
A outra mulher parecia ter ficado impressionada, mas Abby só sentia humilhação. Esperou que
as duas se afastassem, antes de sair de seu esconderijo. Voltou em seguida para casa, para
explicar a Matthew os motivos da ausência do pai.
Na verdade, ela nem chegou a falar nada. pois ao entrar em casa, o menino exclamou;
- Viu o carro? Era um Rolls-Royce! Não é incrível? Um Rolls-Royce só para trazer um recado!
- Que recado?
- Recebi um bilhete de minha avó. Veja só! Leia!
- O quê? Da sra. Roth?
- Pois já não lhe disse? Foi o motorista quem trouxe. Num Rolls-Royce. Um
modelo antigo, mas sempre um Rolls-Royce - acrescentou, pedante.
Abby teve a premonição de uma desgraça, sem saber por quê. E, quando terminou de ler o
bilhete, aquela sensação ainda não a abandonara.
A Sra. Roth queria que Matthew fosse tomar chá com ela, na tarde do dia seguinte. Pedia para
que ele chegasse cedo, a fim de tomar uma aula de equitação com Jerrold. O pior é que pedia
para Abby ir junto!
- Não é fantástico? Matthew a olhava, excitadíssímo. Vou montar Hazel e você vem junto
comigo.
Abby sacudiu a cabeça.
- Não vai dar.
- Como não vai dar? A alegria de Matthew arrefeceu. Por quê?
- Porque não.
- Oh... - Matthew pensou estar entendendo. Você pensa que papai e a Srta. Langton vão estar
iá? Pois não vão. O motorista disse que eles só vão voitar dentro de mais aiguns dias. Houve
um atraso, não sei bem. Vai ser bom você tornar a ver a Sra. Roth.

Livros Florzinha - 62 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Eu não vou. Sinto muito. Matthew, mas não posso ir. Eu não me dou bem com a Sra. Roth.
e...
- Você não se dá bem com muita gente, não acha? disse Matthew, num tom de crítica. O que
eu acho é que você é desmancha-prazeres.
Você me afastou de meu pai de propósito, e agora que me aproximei dele quer estragar tudo de
novo! – Não é verdade!
- [E, sim senhora! Você disse que meu pai não se incomodava com a. gente, e ele se
incomoda. Disse que ele não se interessava por mim, e ele se interessa! Você está pouco
ligando para o que está certo ou errado. O que você está é com ciúme.
- Ciúme?
- Vai me dizer que não está? Pensa, por acaso, que se ficar longa deles eu farei o mesmo?
Pois não farei. Já disse ao motorista para que vovó me espere, que eu vou. e ele virá me buscar
amanhã, às duas horas.
Aquilo era bem pior do que Abby imaginara. Agora Matthew pensava que ela queria mantê-lo
afastado da família. Como faria para evitar destruir-lhe a confiança nela para sempre?
- Matt...
- Não adianta. Eu vou mesmo.
- Está certo, concordou eJa. mas já arrependida de ter concordado. Iremos ambos. Mas não
vamos tomar chá. Vai ser só o tempo para você treinar em Hazel e em seguida voltaremos para
casa. Está bem assim?
Matthew fez uma cara desconsoiada.
- Melhor isso do que nada.
Tia Hannah não aprovou a ideia.
- Francamente, Abby! - exclamou, logo depois do almoço, quando Matthew subiu para trocar de
roupa. Você vai puiar da panela para o fogo! Essa mulher só quer prejudicá-la, escreva o que
estou lhe dizendo. Eu teria jurado que ela não ia deixar passar em brancas nuvens aquele
negócio de você ter ido almoçar na mansão.
- Mas, tia Hannah. Esse convite não tem nada a ver comigo. É para Matthew!
- Tem tanta certeza? - A tia parecia cética. Abby, aqueles empregados devem ter contado
à patroa tudo o que aconteceu. Não ia demorar muito para ela querer tirar satisfações.
- Satisfações do quê? Só porque fui almoçar com Piers? Foi ele quem me convidou!
- Hum... - Hannah franziu a testa. - Foi um afmoço bem comprido. Eram mais de três horas
quando você chegou... Abby ficou vermelha.- Não a estou condenando. Sei muito bem o quanto
você ama aquele homem.
- Amei, tia Hannah, amei!
- Acha, então, que foi ajuizado permitir que ele a levasse para a cama?
- Como sabe disso?
-- Era só olhar para a sua cara. Não falei nada na hora para não perturbá-la ainda mais.
- Oh. tia!
- Sinto muito, Abby, mas conheço Piers Roth de longa data! Ele nunca desistiu de você.
Fiquei preocupada naquele dia e estou preocupada agora.
- Não há motivo.
- Há motivo, sim. Não quero que por causa dele você sofra de novo.

Livros Florzinha - 63 -
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- Pensei que você gostasse de Piers.


- E gosto. Mas não quero que ele a faça sofrer, senão não me perdoarei nunca de ter pedido
para você vir morar comigo.
- Ora. que bobagem! Abby abraçou a velha senhora. Pelo amor de Deus, tia! Já sou adulta e sei
o que estou fazendo.
- Sabe mesmo?
- Antes que comece a ralhar comigo, quero que saiba que aquilo não significou nada para mim.
Honestamente. Ate já esqueci de tudo. Agora, pare de se preocupar comigo, e vá tirar uma boa
soneca.

Capitulo X
Fazia anos que Abby não ia acomodada no banco de trás de um Rolls-Royce, tendo um
motorista particuiar ao volante. Matthew, então, que nunca conhecera tal luxo, não cabia em si
de tanta vaidade.
- Que pena que aqui a gente não conhece ninguém! Imagine se aqueles caras, os meus
amigos, pudessem me ver agora!
Mas o estado de espírito de Abby não combinava com o do filho. Aquela visita forçada a
Rothside Manor a deprimia.
- Você não está zangada por que eu a fiz vir está? perguntou Matt à meia-voz, quando se
aproximaram da mansão. Estou sabendo que você e vovó não são grandes amigas, mas você
mesma sempre diz que não se deve guardar rancores.
- Não se preocupe comigo, garantiu Abby, pegando na bolsa e nas luvas, pronta para descer,
pois o carro já estava entrando no pátio de; estacionamento. Se sua avó me convidou, não será
com a intenção de me por daqui para fora, soltando os cachorros, não acha? brincou. j
- Ela não iria fazer urria cojsa dessas, disse Matthew. e acrescentou com ar de
heró. Eu não permitiria! ;

A sra. James esperava-os à porta e recebeu Abby com um olharj inquiridor.


- Ora. .ora, então está de volta, Sra. Piers? - exclamou, num tom cáustico,.mas Abby não
mordeu a isca.
- É um prazer tornar a vê-la, Sra. James - retrucou, com exagerada polidez, quando a
governante ajudou-a a tirar o casaco. - Já deve conhecer meu filho Matthew.
- Oh, sim. já conheço, enviou um sorriso foiçado para o menino. Aliás. Matthew. eu soube que
hoje você vai ter uma aula de equitação.
- Vou. - Respondeu ele, com aquela superioridade de quem não dá muita trela a empregados.
Positivamente, Matthew não negava o sangue que lhe corria nas veias.
A Sra. James os acompanhou até a sala japonesa, onde a Sra. Roth aguardava por eles.
Aquela sala, de estilo oriental, decorada com raras peças de laca e marfim, trazia lembranças
pouco agradáveis, e uma delas era áqueia mulher de idade, recostada numa chaise longue,
para melhor acomodar a perna doente.
Abby achou que a Sra. Roth estava muito envelhecida, mas continuava a manter aquele porte
altivo e dominador que em outros tempos tanto a intimidara.
A sogra olhou primeiro para Matthew. de uma forma surpreendentemente afetuosa. Se Abby
não soubesse das coisas, diria que a Sra. Roth vira no menino o que o próprio pai não pudera,
ou não quisera vêr. Sem saber por que, sentiu uma incomoda e absurda premonição.

Livros Florzinha - 64 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Venha cá. garoto. Não vai dar um beijo na vovó? pediu ela, antes mesmo de dirigir um olhar à
nora.
Depois que o menino obedeceu, ela segurou-lhe as mãos e o examinou de perto, fazendo uma
crítica carinhosa. - Não me diga que vai cavalgar vestido desse jeito!
Matthew corou e olhou desenxabido para os jeans, a japona e o suéter que vestia.
- Não tenho outra roupa, disse ele, e Abby sentiu na própria alma toda a humilhação do filho.
Não era justo a Sra. Roth fazer aquele comentário desdenhoso. Mas aparentemente, a intenção
da sogra não fora criticá-lo, pois fogo acrescentou:
- Tive um palpite de que você não tinha um traje de montaria, deu um meío-sorriso. Por isso,
fui a Newcastle para comprar-lhe uma roupa adequada. Vá com a Sra. James lá em cima, e ela
lhe mostrará onde trocar de roupa.
Abby abriu a boca para revidar, mas quando viu a expressão de alegre expectativa no rosto do
filho, não teve coragem de decepcioná-lo.
- Vá... vá trocar de roupa, Matt. Foi muita bondade de sua avó pensar em você.
Matthew sorriu e depois de dar um abraço agradecido na avó, saiu da saia à procura da sra,
James.
Havia chegado o momento que Abby tanto temia: ficar a sós com a sogra. Enrijeceu-se toda
quando aquele olhar metálico recaiu finalmente sobre ela.
- Não quer sentar-se,Abigail?
A Sra. Roth era a única pessoa que sempre a chamava pelo nome completo. Aquele nome
trouxe-lhe à memória a discussão que tivera com a mãe de Piers quando ela descobrira que o
filho andava de amores com a secretária. Na ocasião, Abby ficara apavorada. Mas agora, vendo
a velha inimiga tão envelhecida, admirou-se por se ter deixado intimidar tanto naquela época.
Afinal, ela nao passava de uma mulher desvalida, que tinha se desgastado na ânsia de controlar
todos os atos da vida do filho.
Abby sentou-se numa cadeira de braços, de frente para a sogra. Apesar da tensão inicial,
eslava mais senhora de si e, cruzando as pernas displicentemente, perguntou, afável:
- Como esiá, Sra. Roih? Soube que a senhora está sofrendo de artrite e lamento muito.
- Isso não é nada. Era evidente que a sogra não queria ser lastimada. Foi uma queda,
esfregou o joelho inchado. Disseram-me que uma operação resolvia, mas eu não confio
nada em médicos.
Abby absteve-se de maiores comentários e, em silêncio, olhou em tomo para aqueles móveis
luxuosos. Recebê-los naquela sala que transbordava de riqueza e requinte fora, por certo, uma
estratégia para impressionar Matthew. Quais seriam as intenções ocultas daquela mulher?
Matthew reapareceu elegantemente trajado com culotes de veludo, um paletó de tweed, botas
de cano alto e um chicotinho na mão. Estava tão bonito, tão entrosado com o cenário daquela
casa. Ele é tão semelhante a Piers!
- Já estou pronto, vovó!
Aproximou-se para ser inspecionado, e a Sra. Roth deu-lhe um sorriso de aprovação.
- Caiu-lhe como uma luva. não acha. Abigail? ela comentou, incluindo-a na conversa. Agora
vá procurar Jerrold. O chá será servido às quatro, assim você terá bastante tempo para
exercitar-se.
- Oh, mas é que... - Matthew olhou interrogatvamente para a mãe, lembrando-se da
recomendação que eia lhe fizera.

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- Dívirta-se. Querido, Abby apressou-se em dizer, para aplacar-lhe os receios. E ele saiu, mais
satisfeito com aquela aprovação implícita.
Depois que Madhew se foi, a atmosfera ficou ainda mais pesada, e Abby obrigou-se a continuar
naquela posição descontraída, para não dar a perceber que estava ficando nervosa.
- A senhora deve sentir falta dos seus passeios a cavalo. Lembro-me do quanto apreciava a
equitação.
A sra. Roth levantou a cabeça ostensivamente.
- Não a fiz vir até aqui porque precisava de sua piedade, Abigail.
- Acredito que não precise, manteve um tom de voz deliberadamente suave e
obsequioso. Com certeza está querendo falar sobre Matthew. e quis me dar uma oportunidade
para que eu pudesse agradecer-lhe por tudo o que tem feito por ele.
Abby empertigou-se.
- De você eu não quero nada, retorquiu a sra. Roth, gélida. Exceto um pouco mais de vergonha
na cara.
- Por que diz isso?
Mas Abby sabia, e preparou-se para o pior.
- Estou me referindo à sua vinda aqui, na semana passada, durante a minha ausência, e ao seu
comportamento indecente. Você quis seduzir Piers e comprometê-lo para que ele suste a ação
de divórcio.
Por um instante. Abby sentiu o sangue ferver, mas logo arrefeceu, pensando no ridículo daquela
situação. Chegou a ter vontade de rir. A mãe de Piers ainda pensava estar tratando com uma
tímida adolescente, mas agora ia enfrentar uma mulher feita, capaz de discutir com ela em
igualdade de condições. Se aquela megera pensava que iria esmagá-la como a um inseto.
estava muito enganada.
- Eu não seduzi Piers - respondeu, despreocupada. - E nem ele me seduziu...
- Ele tem mais moral.
- Isso não impediu de irmos para a cama juntos, revidou Abby, bem mais agressiva depois
daquele insulto. Pois é, Sra. Roth. Nós fizemos amor, sim senhora. A Sra. James não lhe
contou? Eu teria jurado que ela ia contar!
Ao ver a velha perder o fôlego, Abby sentiu-se triunfante.
- Você está mentindo!
- Estou? Então por que não pergunta à sua governanta onde passamos a tarde toda?
A Sra. Roth chegou a ficar cinzenta.
- Você está insinuando que vai contestar a ação de divórcio?
- Eu não, Abby mantinha a calma. O que aconteceu não foi premeditado. Piers pode
prosseguir com a ação de divórcio. Não foi minha intenção fazer chantagem com ele, se é isso
que está imaginando. Mas não pense que poderá continuar a controlar a minha vida. Não só
não vou permitir, como a senhora nem tem mais capacidade para isso.
- Oh, não tenho, hein? A mão da Sra. Roth tremia quando ela suspendeu a perna doente para
apoiá-la no chão. Vou lhe dizer uma coisa, não sou assim tão fraca quanto aparento.
- Nunca achei que fosse, Abby suspirou. Sra. Roth, não estou a fim de discutir com a senhora.
Não fui em quem pediu para vir aqui e, se quer saber, não vejo a hora de ir embora. Que tal uma
trégua, só por esta tarde? Pelo menos em consideração a Matthew?

Livros Florzinha - 66 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Você é uma despudorada! gritou. Pensa que depois de ter admitido que induziu meu filho a ir
para a cama com você, eu vou poder perdoá-ía?
- Eu não pretendo isso.
- Mas quis ter o prazer sádico de me contar! Você está pouco ligando de ter arruinado a vida de
meu filho!
- Que exagero!
- Ele teria se casado com Melanie Hastings, se não fosse por você.
- Ele não amava Melanie.
- Amor! ironizou a sra. Roth. De que adiantou o amor, quando Piers descobriu tudo? O amor
sai pela janela quando a realidade entra peia porta.
Abby baixou a cabeça, soturna.
- Esse assunto já está morto, Sra. Roth. Que tal enterrá-lo?
Mas a sra. Roth estava fora de si e continuou.
- É o que você gostaria, não é? Passar uma esponja em tudo, como se nada tivesse
acontecido. Eu sabia que iam recomeçar as encrencas, quando me disseram que você
tinha voltado para Rothside. Mal pôde esperar para começar a interferir novamente na vida de
meu filho, hein?
- Não é nada disso, Abby tornou a erguer a cabeça e encarou a velha corajosamente. - Ouça,
sra. Roth. Pense o que quiser de mim, mas eu lhe garanto que Matthew é fiiho de Piers!
- Eu sei.
Abby teve a sensação de ter levado um soco no peito.
- A senhora sabe? Sabe?
A Sra. Roth fingiu que estava à procura de um lenço, dando-se um tempo para escolher melhor
as palavras seguintes.
- Sim, declarou finalmente, assoando o nariz. Vim a saber há umas três semanas, logo depois
que Piers trouxe Matthew aqui para casa.
Abby agarrou-se aos braços da poltrona, sentindo uma vertigem. Lembrou-se daquele
pressentimento que tivera logo ao chegar, e que se infiltrara em seu subconsciente como um
veneno.
- Como... como soube?
- Isso não importa. O que importa é que, pelo bem de seu .filho, você vai fazer exatamente o
que eu mandar.
Abby sentiu a boca seca.
- Mandar?
- Justamente. Quero que você vá embora de Rothside. Abígail, Quero que faça as suas
malas e voite para o lugar de onde veio.
Abby não conseguia coordenar as ideias. Tudo tinha acontecido tão rapidamente! Não era a
primeira vez que a mãe de Piers abalava-lhe as estruturas com sua arrogância e maldade. Mas,
dessa vez, não se deixaria subjugar.
- Não tenho a mínima intenção de deixar Roth.side, sra. Roth.
O silêncio que se seguiu estava carregado de ameaças, mas Abby reprimiu o medo que estava
sentindo, usando o bom senso. Não havia o que temer. Aquela velha não podia fazer nada
contra ela. Tudo o que precisava fazer era continuar ali sentada e esperar.

Livros Florzinha - 67 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Naturalmente, você deve estar sabendo que eu posso fazer com que mude de ideia.
Aquelas palavras pareciam ressoar dentro do cérebro de Abby. Mas ela não se deixaria abater
por aquela ameaça velada.
Lcvantando-se da poltrona com determinação, encarou a sogra firmemente, valendo-se da
diferença de altura.
- Acho que essa conversa não nos leva a parte alguma. A única coisa válida é que finalmente a
minha inocência foi reconhecida. Matt é seu neto. Essas ameaças para que eu deixe Rothside
são inúteis, e ambas sabemos disso. Mas não se preocupe, sra. Roth. Vou manter distância de
Piers. Não tenho intenção de passar novamente por uma imbecil.
- O que disse?
- Eu não reconheci Matthew como meu neto - asseverou a muíher, com voz melíflua, e Abby
parou a meio caminho da porta de saída. - Você me ouviu. O fato de saber que Matt é filho de
Piers não implica que eu assuma publicamente esse parentesco. Nem Piers está a par disso. E
ele nunca saberá... não por minha boca.
- Mas...
Abby estava perplexa, sabendo que a sogra queria vingar-se, mas sem atinar qual seria a forma
de vingança. A expiicação veio cm seguida.
- Se você concordar em sair de Rothside, se concordar em deixar Matthew morar, conosco e
frequentar a escola de Abbotsford, eu nunca direi a ele que é um bastardo!
- Mas ele não é!
- Acha que eie vai acreditar em você?disse a Sra. Roth. Acha que ele vai se conformar, se
você o privar de tudo isso?
- Sua velha bruxa! gritou Abby, com toda a força de seus pulmões.
- Ofensas não resolvem. Você me conhece bem e sabe do que sou capaz.
- Vou contar tudo a Piers! Vou lhe dizer que a senhora sabe da verdade!
- Ele também não vai acreditar em você. Nunca acreditou, e a troco de que iria íazê-lo agora?
Além disso, essa acusação contra mim seria tão absurda que ele acabaria rindo na sua cara!
Abby sobressaltou-se.
- A senhora é uma mulher diabólica!
- Sou uma mulher decidida, que sabe o que quer. E agora, quero que suma da vida de meu
filho para sempre!
Abby ainda estava paralisada, branca como um lençol, pelo efeito daquelas palavras,
quando Matthew assomou à porta. O menino pareceu perceber o clima de guerra, e seu
primeiro olhar foi para o rosto lívido da mãe. Mas a sra. Roth tomou logo a iniciativa de distrair-
lhe a atenção, começando a fazer-lhe mil perguntas sobre a aula de equitação.
Matthew sorriu amarelo e respondeu educadamente, mas de vez em quando, relanceava um
olhar para a mãe,
- O que houve com você, mamãe? - perguntou por fim, vendo lágrimas brilharem nos olhos
verdes de Abby.
A sra. Roth fitou a nora ameaçadoramente. De fato, aquela mulher seria capaz de tudo.
- Nada, nada... Quer dizer que você se divertiu bastante? O que Jerrold achou dessa primeira
aula?
- Ele disse que me saí muito bem, por ser a primeira vez que monto a cavalo.

Livros Florzinha - 68 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Que ótimo!
Estava sendo difícil para Abby sustentar aquela conversa oca com o garoto, e chegou a ficar
grata à Sra. Roth quando ela interferiu.
- Você precisa voltar mais vezes, Matt. Aliás, sua mãe e eu estivemos conversando a
esse respeito, e ela não se opõe a que você venha passar uns tempos aqui. Você gostaria? -
perguntou, enviando um olhar vitorioso para Abby.
- Ficar aqui. na mansão? - Matt voltou a perscrutar a fisionomia da mãe, que estava ainda mais
pálida e conturbada do que antes. - Quer dizer que eu e mamãe poderíamos ficar aqui, junto
com a senhora e papai?
- Sua avó está falando sobre você, Matt, não sobre mim - esclareceu Abby
debilmente. Você sabe... bem, você sabe que seu pai e eu estamos nos divorciando. Minha
presença aqui não teria cabimento.
Matthew mordeu os lábios.
Vendo a indecisão do menino, a sra. Roth começou a bajulá-lo, ilustrando, muito falante, todas
as vantagens e comodidades que ele teria se fosse morar na mansão. Mesmo assim, Matthew
não se deixou enredar.
- Sei que a casa é muito linda, que eu teria um quarto com banheiro particular, uma sala de
jogos, televisão a cores... mas, bem... Eu virei muitas vezes visitá-la, vovó. A senhora e papai
têm sido muito bonzínhos comigo, mas eu não vou deixar mamãe sozinha. Ela não tem
mais ninguém no mundo.
- Tem a tia, revidou a sra. Roth, já azeda, pois não estava acostumada a ser contrariada, e
esperara por tudo, menos pela oposição do menino. Matthew, sua mãe ainda é uma mulher
jovem. Nunca lhe ocorreu que ela talvez queira viver sua própria vida, sem as restrições que um
menino de sua idade pode criar? Quem sabe ela até queira se casar de novo!
Abby abriu a boca para negar, mas tornou a fechá-la diante do olhar malévolo da sogra. Mas
quando o filho a fitou, consternado, ela sentiu-se impelida a tranquilizá-lo da melhor forma que a
situação permitia.
- Não é bem assim, Matt, começou a dizer, ignorando a cara de desaprovação da Sra. Roth.
Nunca o considerei como um estorvo, e nem tenho intenções de me casar de novo.
- Mas você não se importaria se eu viesse morar aqui?
Abby umedeceu os lábios.
- Se... se é isso que você quer...
Matthew apertou os olhos, desconfiado.
- Você não está querendo se ver iivre de mim?
- Claro que não! - assegurou com veemência, horrorizada com aquela suposição.
- O que sua mãe esta querendo dizer é que ela não vai se opor caso você prefira morar na
mansão em lugar de Ivy Cottage. Explicou a avó, impaciente. Matthew, você é meu neto, filho
de meu filho. Não percebe que quando eu e seu pai morrermos. Rothside Manor vai lhe
pertencer?
Aquela era uma forma vil de subornar uma criança. Abby teve vontade de esbofetear aquela
velha corrupta.
- Sua mãe pode não querer ficar morando em Rothside - confinou a megera, sem dar-se por
satisfeita. Ela poderia arrumar um bom emprego em Londres, se não tivesse você para
preocupar-se.

Livros Florzinha - 69 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- E tia HannahMatthew chegou a fechar os punhos de revolta. Mamãe, você não pode deixar
tia Hannah sozinha! Você sabe que ela não vai querer ir para um asilo!
Abby não estava mais aguentando tanta pressão.
- Sugiro deixar esse assunto para outra oportunidade, declarou, resoluta. É uma decisão que
não pode ser tomada assim, de repente. E, virando-se para o filho: Vá trocar de roupa. Matt.
Precisamos ir embora. Você poderá vir qualquer outro dia para tomar chá com sua avó.
A Sra. Roth ficou lívida, mas não deixou de dar mais uma flechada.
- Não é preciso trocar de roupa, Malthew. Esse traje é seu. Se quiser, vá buscar suas
roupinhas. Mas da próxima vez apresente-se vestido como se deve para a aula de equitação.
Depois que Matthew saiu, a Sra, Roth terminou de destilar a última dose de veneno,
- Você tem quarenta e oito horas para decidir sobre o futuro de seu filho! foi o terrível ultimato.
Depois desse prazo, lavo as minhas mãos, e não vou mais querer saber dele. Só que direi a
Matthew o porquê do meu afastamento. Entendeu?
Quando Abby e Matthew sentaram no banco traseiro do carro, isolados do motorista pelo vidro
divisório, o menino quis saber o que tinha acontecido durante sua ausência.
- Por que a vovó perguntou se eu queria ir morar na mansão? O que você andou dizendo a ela?
Quem teve essa ideia?
Exaurida, Abby encostou a cabeça no espaldar do assento.
- Foi sugestão da sua avó. Eu não tive nada a ver com isso. Pode ser que ela queira
salvaguardar os seus interesses. Ela sabe que eu nunca poderia lhe dar o padrão de vida que
eles têm.
Mas Matt não ficou satisfeito e levantou uma porção de questões, irrespondíveis por causa da
situação.
- Não estou entendendo mais nada - disse ele, inconformado. - O que tia Hannah vai dizer de
tudo isso?
- Só perguntando a ela, não acha? retrucou Abby, irritada, pois estavam num beco sem saída,
e a Sra. Roth tinha acabado com seu estoque de paciência.
Hannah foi recebê-los no portão, com cara de poucos amigos. Com sua costumeira agudeza de
espírito, logo percebeu que algo não ia bem.
Quando Matthew subiu para ir trocar de roupa, Abby abriu os braços, num gesto de rendição.
- Você estava certa. A Sra. Roth tinha realmente um motivo escuso quando me convidou. Só
não posso falar disso agora, enquanto Matihew esíiver por perto. Você vai cair de costas quando
souber.
Sean Wíllís apareceu na hora do chã. Vinha pedir a Abby para servir de babá enquanto ele
estivesse fora de casa, atendendo a um parto.
- A Sra. Davíson está de folga e eu não posso deixar Miranda sozinha, explicou ele. É só por
uma ou duas horas. No máximo, às oito estarei de volta.
- Vá com ele, assentiu tia Hannah, começando a tirar a mesa. Matt me ajudará a lavar a louça.
Já passava das dez quando Sean voltou, e Miranda fora dormir há mais de duas horas.
- Desculpe, disse ele. Não esperava demorar tanto. É que tive que fazer uma cesariana.
- Não precisa se preocupar, assegurou Abby, sorrindo, tentando disfarçar suas próprias
preocupações. Por mim. tudo bem. E Miranda se comportou como um anjo.
- Ela é uma boa menina.

Livros Florzinha - 70 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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Abby notou que Sean parecia esgotado.


- Antes de ir embora, vou lhe preparar uma xícara de chá. Sente e descanse. Você trabalhou
demais.
- Aceito só se me fizer companhia. Faz tempo que não sei mais o que é ter uma bela e
atenciosa mulher esperando por mim depois de um dia de trabalho.
Tomaram o chá juntos, e Sean notou que Abby estava taciturna e abatida.
- Ouvi dizer que você esteve hoje à tarde na mansão. Como é? A Sra. Roth andou disparando
suas setas venenosas?
- E a minha cabeça foi o alvo, disse Abby, suspirando. Mas como soube?
- O mundo é pequeno, e a nossa aldeia menor ainda. Por coincidência, a
parturiente é irmã da Sra. James, e as novidades correm depressa em Rofhside.
- Mas isso não é novidade! Todo mundo sabe que a Sra. Roth não me suporta. Fico imaginando
o que a Sra. James andou comentando. Não há nada que aconteça naquela casa que ela não
saiba.
Sean abaixou a xícara e a olhou afentamente.
- Você parece amargurada. Não pretendia lhe causar aborrecimentos.
- Não foi você quem me aborreceu, Abby deu um sorriso frouxo. Acho que você está sabendo
da nossa história. Sendo médico, as pessoas lhe fazem muitas confidências. Agora é melhor
eu ir andando.
Ele segurou-a pela mão.
- Espere. Não vá ainda. Abby... Abby, se eu puder fazer alguma coisa por você, é só pedir.
- Ninguém pode fazer nada por mim - Abby levantou-se, disposta a ir embora. Obrigada pelo
chá.
- Não! Espere! Quero realmente ajudá-la. Fez uma pausa. Acho que até sei qual é o seu
problema. É Matthew. não é? Os Roth duvidam que o garoto tenha o mesmo sangue deles.
Abby engoliu em seco.
- Como soube?
- Com a prática, um médico aprende a conhecer não somente o físico das pessoas, mas
também o íntimo. Muitos boatos correram por aí a esse respeito, principalmente depois daquela
sua fuga precipitada. As pessoas faziam suposições, falavam...
- E o que diziam as pessoas?
- Oh, você sabe. Ele é ou não é o pai? Mas a maioria achava que era.
- Não me diga! disse Abby. A maioria... menos Piers.
- Piers? Mas por quê? Não me venha dizer que foi por causa daquela velha história sobre
Tristan Oiiver.
Abby abaixou a cabeça, constrangida.
- Se eu lhe contar, promete que não comenta com ninguém?
- Dou-lhe a minha palavra de honra. Além do mais, os médicos são obrigados a manter
segredos profissionais.
- Quando Piers foi fazer os exames pré-nupciais, foi considerado estéril.
- Estéril? Não é possível!
- Não é?

Livros Florzinha - 71 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

- Ora, Abby. você sabe melhor do que ninguém que isso é um absurdo. Corto o meu
braço direito como Mati é filho de Piers. As características genéticas são evidentes.
- Mesmo assim, Piers não acredita em mim. Ele se baseia num relatório apresentado pelo
Dr. Morrison sobre os exames.
- Morrison! Você está dizendo que foi o dr. Morrison quem mandou fazer os exames?
- Sim, é isso.
Sean balançou a cabeça.
-- Bem, talvez não seja ético dizer isso, mas o Dr. Morrison. quando cheguei aqui, já deveria ter-
se aposentado há tempos.
- Isso significa que ele... ele cometia erros?
- Não cabe a mim acusá-io, mas existem uns dois ou três de seus pacientes aqui na vila que só
por muita sorte ainda estão vivos. O Dr. Morrison já estava meio esclerosado. Esquecia
das coisas, era desorganizado, coitado, estava velho demais. O que eu estranho é que Piers
se tenha submetido a esses testes. Na minha opinião, eie é um homem excepcionalmente
saudável.
Abby hesitou antes de informar:
- Foi ideia da mãe dele. É que Piers tinha lido caxumba aos dezoito anos, e a Sra. Roth achou
mais conveniente, pelas dúvidas, consultar o dr. Morrison.
Sean pareceu irritar-se.
- Mas Abby, milhares de homens já tiveram caxumba, inclusive eu, .sem que surjam efeitos
colaterais.
- Eu sei. Mas naquela época eu não sabia. até... até...
- ... a!é que ficou grávida. - Sean terminou a frase por ela - Pobre Abby! Então foi por isso que
você fugiu? Mas, agora que voltou, tudo recomeçou. - Franziu a testa. - O que não compreendo
é por que a Sra. Roth está fazendo tanta onda com Matt, já que acha que ele não é seu neto.
Pelo que andei sabendo, ela está ficando muito apegada a ele,
- Está mesmo - Abby fechou as pálpebras, expulsando as lágrimas. - Oh, a Sra Roth sabe que
Matt é filho de Piers! Foi o que ela própria me afirmou. Mas como nunca gostou de mim. nunca
aprovou o meu casamenio... bem... ela está querendo tirar-me Matt.
Sean estava abismado.
- Ela não pode fazer uma coisa dessas!
- Não. Legalmente não pode. Mas eia está me chantageando. Ameaçou-me que
contaria a Matt que Piers não é pai dele, que ele é ilegítimo, se eu não ceder à vontade dela.
Eslou no mato sem cachorro!
- Essa mulher é um monstro! Foi por isso que a convidou à mansão? Para lhe dar o golpe de
misericórdia?
Abby concordou com cabeça.
- Não sei o que fazer...
Sean colocou-lhe as mãos sobre os ombros magros.
- Você precisa lutar, Abby. Não pode permitir que lhe tirem seu filho. Que diabo de homem é
esse Piers Roth, que admite que a mãe leve adiante uma baixeza dessas?
- Pode ser que eJe não saiba o que está se passando. - Abby quis justificá-lo, sem muita
convicção. - Ele está viajando.

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O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Foi para a Alemanha, eu sei. Mas não posso acreditar que a Sra. Roth tenha tomado uma
iniciativa dessas sem a aprovação do filho.
Abby também tinha chegado àquela conclusão, e a confirmação de sua suspeita não ajudou em
nada.
- Agora é melhor que eu vá. É muito tarde, anunciou, mas Sean ainda não encerrara o assunto.
- Tive uma ideia! Quando mudei para cá, herdei os arquivos do dr. Morrison. Você sabe, os
fichários médicos de todos os pacientes que passaram por este consultório. Sc eu tiver sorte,
talvez possa encontrar o tal relatório que ele fez sobre os exames de Piers. Pode levar algum
tempo até achá-lo, mas se você quiser, poderei tentar.
Abby entreabriu os lábios, com uma expressão de ansiosa esperança nos olhos verdes.
- Você faria isso por mim?
- Quando você me olha desse jeito, eu faço qualquer coisa. Posso começar agora mesmo.
Abby pensou que não seria justo que ele varasse a noite consultando os arquivos.
- Não, hoje não. Amanhã eu volto. Afinal, quem esperou doze anos pode esperar mais um dia!

Capitulo XI
Na hora em que Abby chegou em casa. constatou, com alívio, que tia Hannab já se recolhera
para dormir. Ela devia tê-la esperado até quase onze horas, pois o bule com chocolate que
preparara ainda estava morno.
Para Abby, o sono era impossível. Apesar de cansada, aquele turbilhão de pensamentos que
envolviam a chantagem da sra. Roth, o comportamento de Matthew, a ajuda de Sean Willis e
suas próprias conclusões, mantinham seu cérebro ativo.
Virou-se e revirou-se na cama, tentanto não pensar em Piers e na sua cumplicidade com o
plano da mãe, até que exausta, acabou adormecendo. Mas nem assim teve paz. Sonhou com
Piers fazendo amor com Valerie Langton. na cama que pertencera ao casal.
Na manhã seguinte, perdeu a hora e desceu ainda de robe, pensando encontrar Matthew e tia
Hannah já tomando o desjejum. Mas a cozinha estava vazia, e ela tornou a subir as escadas.
Primeiro foi para o quarto da tia. e a encontrou já desperta, mas prostrada. Abby tomou-lhe o
pulso ansiosamente, fitando-a com preocupação.
- Como se sente? - perguntou, interrompendo uma tentativa da tia para comentar o assunto que
ficara em suspenso. Acho melhor você ficar descansando mais um pouco.
- Mas são quase nove horas! Por que não me acordou mais cedo?
- É que eu também acordei tarde, acrescentou, carinhosa. Fique tranquila e repouse mais um
pouco. Vou preparar-ihe o chá.
- Você chegou tardíssiino onten à noite. Esperei o máximo que pude para termos aquela
conversa, mas depois desisti. Matthew também ficou aflito.
- Matt? H por quê?
- Bem. Matt ainda alimenta esperanças de que você e Piers se reconciliem, e ele não
gosta que você saia com outros homens.
- Sair? - protestou Abby. - Desde quando servir de babá é um programa?

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Diante daquela admoestação velada. Abby sentiu-se na obrigação de contar-lhe sobre o


imprevisto que retivera Sean por mais tempo do que o esperado.
- Hum.. - resmungou a tia. - Mas você ainda não me contou o que aconfeceu na mansão.
- Deixe-me antes preparar um chá. Eu não saberia falar, sem tomar antes algo estimulante.
Antes de voltar para a cozinha, Abby foi dar uma espiada no quartinho de Matthew. Era estranho
que todos naquela casa tivessem dormido demais. Só pedia a Deus que Matthew não estivesse
zangado por causa de sua saída notuma.
Mas quando abriu a porta, viu que a cama estava desfeita, porém vazia. Aonde eie teria ido?
Por que não a chamara para dar-!he o desjejum? Normalmente, ele era de bom apetite.
Não querendo afligir tia Hannah, desceu logo as escadas para ir à procura do menino.
Revirou a casa, o jardim e o quintal, mas não o encontrou. A capa de chuva, que estava
pendurada no cabide do hall também sumira.
Não era hábito de Matthew fazer uma coisa dessas, pensou, ao colocar a chaleira no fogo. Será
que ficara ressentido diante de sua tolerância em permitir que fosse morar com a avó, achando
realmente que ela queria iivrar-se deie? Ou se aborrecera com a amizade dela por Sean Willis?
Colocando os dois fatos juntos, eíe bem que poderia ter-se sentido Sobrando.
Quando a água começou a ferver, seu cérebro também estava em ebulição. Onde teria se
metido Matthew? Diante das circunstâncias, só poderia estar num lugar: Rothskie Manor!
Se ao menos já estivesse vestida, poderia ir até o telefone público, ligar para a mansão. Assim
saberia da verdade, por mais dura que fosse.
Foi um martírio tomar o chã com tia Hannah, sem saber onde Matthew linha se metido e sem
poder se abrir com ela. A ideia de que o filho optara por ir morar com os Roth era tão
traumatizante que Abby não pôde reprimir um soluço.
- Você não deve deixar-se abalar tanto pelo que a Sra. Roth possa ter-lhe dito - disse a tia,
querendo confortá-la. Matthew é um menino sensato, e mesmo que no momento esteja um
pouco deslumbrado com as atenções da avó, logo que ele encontrar outro divertimento, as
coisas entrarão nos eixos.
Se o problema fosse só esse!, pensou Abby com amargura, não querendo acrescentar maiores
explicações. Aquele assunto deixaria tia Hannah ainda mais arrasada do que já estava.
Antes de mais anda. precisava encontrar Matthew.
Depois de tomar o chá, a tia recostou-se novamente nos travesseiros, com a fisionomia pálida e
abatida.
- Não vou querer comer nada - disse ela, quando Abby sugeriu trazer-lhe uma torradas. Só
preciso de mais um pouco de sono. Vá... vá dar o desjejum a Matthew. Ele está em fase de
crescimento e precisa se alimentar bem.
Obviamente, em vez disso, Abby foi se aprontar rapidamente para sair e dar um telefonema.
Foi Malton quem atendeu à chamada, e, com um nó na garganta, Abby perguntou por Matthew.
- Matthew, sra. Piers? Por que acha que ele está aqui? - O mordomo parecia
supreendido. Ninguém me avisou de que ele tinha sido convidado para pernoitar na mansão.
- E não foi. Oh, não faz mal. Deixe estar.
Abby saiu da cabine telefónica pior do que quando entrara.
Matthew fugira, e, exceção feita à casa da avó, não havia outro lugar para onde ele pudesse ter
ido.

Livros Florzinha - 74 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
Sabrina no. 264

Num estalo, lembrou-se de Sean. Por que não pensara nele antes? O médico já ajudara uma
vez, e sabia da verdade sobre Matthew.
A Sra. Davison atendeu à porta, olhando-a com aquela costumeira expressão de desconfiança.
- O Dr. Willis está fazendo uma cirurgia, disse ela. bloqueando-lhe a entrada. Se quiser,
pode deixar um recado. Direi a ele para comunicar-se com a senhora mais tarde.
- Mas é muito urgente!
- Essa cirurgia também é, sra. Roth - retrucou a sra. Davison e, dessa vez, não parecia estar
blefando. Já lhe disse, tão logo ele termine, direi para que entre em contato com a senhora.
- Oh. está bem e Abby virou-lhe as costas.
- Não quer deixar recado? Abby voltou a olhar para trás.
- Não. Só diga que o procurei.
Ao atravessar o gramado. Abby sentiu uma sensação crescente de solidão e desamparo. Nunca
fora uma mulher fraca e dependente, mas naquele momento tinha chegado ao máximo de sua
vulnerabilidade.
O que iria fazer? O que poderia fazer? Como Matthew podia ter feito aquilo com ela, sem dar-lhe
uma chance de defender-se?
Ao chegar ao portão de Ivy Cottage, um carro freou às suas costas. Ao vírar-se. reconheceu a
perua Mercedes e viu Piers ao volante. Mas o que a fez sentir um arrepio na espinha foi a figura
muito tensa de Matthew, sentado ao lado do pai.
O menino abriu logo a porta e foi saltando, muito vermelho e sem graça, os olhos no chão,
as mãos enfiadas nos bolsos do jeans.
- Desculpe, mamãe - disse baixinho, e Abby ergueu os ombros, sem saber o que responder.
- Vá para dentro - ordenou o pai, descendo do carro. Falo com você mais tarde. Agora, preciso
ter uma conversa com sua mãe.
.- Oh. mas... - O olhar de Matthew saltava de um para o outro. Você vai lhe contar por que fiz
isso. não vai? Eu não tinha intenção de aborrecê-ia.
- Está certo, mas vá andando, insistiu Piers, carrancudo, esperando que o menino entrasse.
Mas Abby teve que meter-se.
- Aonde você foi, Matt? - gritou, indo no seu encalço.
- Papai lhe conta. Posso fazer um sanduíche? Não comi nada até agora e estou morto de
tome!
- Oh. claro que pode, disse ela. atordoada. entendendo cada vez menos.
- Agora, vá entrando no carro,disse-lhe Piers autoritário, mas Abby sacudiu a cabeça com
veemência.
- Não. Qualquer coisa que tenha a me dizer pode ser dita aqui, na frente de iodos. Já estou
cheia de tantas fofocas e não quero que levem mais histórias aos ouvidos de sua mãe
principalmente depois do que ela andou me dizendo.
- Eu não ligo para o que os outros dizem.
- Mas eu preciso ligar. Oh, fale logo. Estou me congelando com esse frio!
Piers não gostou muito da idéia, mas começou as explicações.
- Matthew estava a caminho da mansão...
- Logo imaginei, interrompeu ela. A caminho? Então ele não chegou até lá?

Livros Florzinha - 75 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Não. Apanhei-o no meio da estrada. Sei que deveria tê-lo trazido mais cedo, mas é que
andamos conversando. Era preciso que ele entendesse a situação.
- Que situação? Deu um branco na cabeça de Abby. Sobre voeê e a srta. Langton? Ele já está
cansado de saber, e...
- Nada disso - Piers cortou-lhe a palavra, zangado. Estou falando sobre a situação a
respeito dele. Quis explicar-lhe por que participei tão pouco da vida dele até agora.
Abby precisou segurar-se nas grades do portão.
- Não me diga que você lhe contou sobre... sobre...
- ... sobre a minha crença de que eu era estéril? Sim, contei - Piers pôs-lhe a mão saber. Foi
melhor assim. Pobre criança! Se eu não o esclarecesse, ele poderia ter mil razões para me
detestar.
Abby tremia tanto que mal se sustentava em pé, mas ainda teve forças para revidar.
- Então você fez isso! - gritou, aos soluços. - Você fez! Você contou! Sua mãe me disse que eu
teria quarenta e oito horas de prazo! Oh, meu Deus. Você merecia ser morto! Como pôde fazer
uma coisa dessas? Bateu-lhe furiosamente no peito com os punhos fechados, em total
desespero. Vocês, os Roth, pensam que são os donos do mundo! E, chorando
convulsivãmente, continuou a massacrando-o com .seus socos. Oh. Deus! Oh. Matthew! Quem
me dera nunca ter nascido!
Piers deixou que ela desabafasse mais um pouco, mas depois segurou-lhe os pulsos e a puxou
para dentro do carro.
- Entre! - disse com os dentes cerrados. Você não vai querer que a metade de Ruthside assista
a uma cena de pugilato!
- Largue-me!
Abby ainda se debateu, tentando livrar-se dele. mas não conseguiu, e acabou caindo estatelada
no banco da frente. Piers trancou a porta para que ela não escapasse e foi sentar-se a seu lado.
- Agora você vai me dizer por que todo esse escândalo! Ou prefere ir até a mansão para que eu
possa saber da verdade pela boca de minha mãe?
Abby ficou tensa e endireitou-se no assento.
- Não se faça de desentendido, murmurou roucamente. Você sabia muito bem o que ela
estava fazendo comigo. Aliás, deve até ter sido o autor da ideia!
Piers segurou-a pelo queixo brutalmente, obrigando-a a encará-lo.
- De que diabo você está falando'? Eu já a avisei, Abby! Não me faça perder a paciência!
Abby quis ler a mensagem daqueles olhos que a fitavam, rnas não conseguiu.
- Ora. você sabe! insistiu. Sua mãe deixou tudo bem claro. Parece que, afinal, você se
compenetrou de que Matthew é seu filho, e agora quer que eu me curve à sua vontade
soberana!
- O quê?
Se Abby não estivesse tão fora de si, possivelmente teria visto um autêntico assombro nos olhos
de Piers. Mas assim, cabisbaixa, esgotada pelo desespero, tudo o que fez foi continuar a
lamentar-se.
- Ela tinha me dado um prazo de quarenta e oito horas. Mas agora é tarde demais. Já é um fato
consumado. Matthew vai me condenar pelo resto da vida!

Livros Florzinha - 76 -
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- Santo Cristo! Você achou que ele estava com cara de condenação'? perguntou, furioso. Eu o
trouxe de volta porque é aqui que ele deve estar, ao lado da mãe. Matt tem consciência disso, e
sabe que eu nunca quis disputá-lo com você.
- Você nunca o disputou porque não acredita, ou melhor, não acreditava que ele
fosse seu filho.
- Ok, um a zero pra você. Mas pode crer que não tive nenhuma intenção de tirá-lo de você.
Mesmo que eu tivesse. Matt não concordaria.
- Como assim?
- O que você pensa que ele ia fazer na mansão logo cedo?
Abby não respondeu e ele continuou.
- Matt queria dizer a avó que, apesar de gostar de visitá-la, não deseja morar lá para sempre.
Abby agarrou-se a um fio de esperança.
- Você quer dizer que ele prefere morar comigo'?
- Pois não acabei de dizer? Piers fez um gesto de desânimo diante daquela incompreensão.
Abby. não sei o que minha mãe andou lhe dizendo. O que sei é que Matthew sabe exatamente o
que quer.
Abby ergueu os olhos como se só agora o estivesse vendo.
- Pensei que você ainda estivesse viajando!
- Eu? Piers meneou a cabeça. Fui até a Alemanha, mas voltei ontem à noite. Você sabia disso?
- E que ouvi dizer...
- O que ouviu dizer?
- Que você tinha ido para Paris com a Srta. Langton. Parece que para comprar o enxoval dela.
- Val foi para Paris, mas eu não a acompanhei.
- Oh, claro! Ela não haveria de querer que você visse o vestido de noiva antes do casamento.
Piers olhou-a de esguelha.
- Então, vai ou não me contar o que minha mãe andou aprontando, ou ainda acredita que eu
esteja a par de tudo?
Abby mordeu o lábio inferior.
- Se você não sabe nada sobre os planos de sua mãe. por que... por que foi contar a Matt sobre
Tristan?
- Sobre Tristan? olhou-a, atônito. E o que é que Tristan Oliver tem a ver com essa história?
Abby, que conversa é essa?
- Então, o que você disse a Matthew? Que é filho de pai desconhecido? E ele não
ficou chocado?
Piers chegou a gemer.
- Abby, tire essa ideia de sua cabeça! Tudo o que eu disse a Matt é que a nossa separação foi
por minha culpa. Contei-lhe dos meus ciúmes, das minhas dúvidas, da minha incompreensão.
Acho que ele acabou até ficando com pena de mim. Vou precisar passar o resto de minha vida
para me redimir,
- Redimir-se?
- Por todos estes anos de afastamento. Se eu não tivesse sido tão orgulhoso e cabeçudo, teria
logo procurado um outro médico para ter um segundo parecer.

Livros Florzinha - 77 -
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- Espere aí! Não estou entendendo. Quer dizer que agora você acredita que Matt é seu
filho?
- Abby, nem sei como pedir o seu perdão!
- Não acredito em você. Deve ser outro truque sujo de sua mãe para me comover e fazer-me
ceder.
- Pare com isso! - grifou Piers. com raiva controlada. Abby, estou sendo sincero. Anteontiem.
fui consultar um médico em Londres e me submeti a novos testes. Não sou e nunca fui estéril!
Dessa vez Abby sentiu-se tentada a dar-lhe crédito, mas ainda tinha uma dúvida.
- E por que você foi procurar um médico? Por causa do seu casamento com a Srta.
Langlon? Ela precisava de uma confirmação?
-- Val? Ela até daria graças a Deus de não ter filhos. Desde que tenha dinheiro bastante para os
seus esportes luxuosos, o resto não a interessa.
- Então, foi por causa de Matt?
Piers passou-lhe a mão pelo rosto gelado.
-- Não. Foi por sua causa, sua peste! disse, quase raivoso. Por nossa causa, se quer saber.
Desde que você voltou, não consigo tirá-la mais do meu pensamento. Eu já estava a ponlo de
enlouquecer!
Abby mal podia acreditar em seus ouvidos.
- Mas você não vai casar com Valerie Langton?
- Vou coisa alguma! Se você tivesse me dado uma chance de explicar... Terminei tudo
com ela na Alemanha. Não podia continuar, depois do que houve entre nós lá em casa.
- Mas você disse que me odiava, que me desprezava...
- Foi você quem disse isso, corrigiu Piers, - Eu disse que desprezava a mim. E
desprezava mesmo, porque apesar de tudo o que eu pensava de mal a seu respeito, ainda
assim te queria, te amava.
Com mãos trémulas, Abby segurou-lhe a aba do paletó.
- Você... você me ama?
- Sempre te amei. Meu Deus! Levei onze anos para tentar me livrar dessa obsessão. Mas
quando você voltou compreendi que nunca conseguiria.
- E você contou isso à sua mãe?
- Ela jã sabe que não vou mais casar com Val. Telefonei-lbe antes de sair da Alemanha.
Antes de sair da Alemanha! Abby começava a compreender toda a trama.
- E lhe expíicou o motivo? - quis saber, segurando-lhe a mão com ternura.
- Ela sabe o que sinto por você. Nunca consegui ocultar os meus sentimentos.
- E qual foi a reação dela?
- Deixe pra lá.
- Quero saber!
- Bem... cia disse que eu estava perdendo o meu tempo, pois você pretendia ir embora de
Roshide para sempre.
Aquilo era demais, e Abby resolveu abrir-se com Piers, contando-lhe tudo o que realmente
acontecera.

Livros Florzinha - 78 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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Piers ficou arrasado, e Abby chegou a ter pena dele. Tomou a iniciativa de consolá-lo,
acariciando-lhe suavemente o rosto acabrunhado. A reação foi imediata. Piers abraçou-a com
emoção, procurando-lhe avidamente os lábios.
- Aqui não. Piers. Podem nos ver.
- E daí? Você não pode me negar isso. Abby! Eu te quero tanto!
Sem se importarem em dar mais um espetáculo para a vizinhança, entregaram-se a um beijo
tão apaixonado e longo que, quando se apartaram, ambos estavam ofegantes.
- Não queria deixá-la agora, Abby. Mas preciso ir. Tenho mil coisas a fazer, e vou ter que falar
com um monte de gente. Acha que poderá maneirar com Matt até eu voltar?
- Você vai voltar?
Ele enviou-lhe um sorriso maroto.
- E acha que vou poder ficar longe de você?

Capítulo XII
Quando Abby entrou em casa, encontrou Matthew sentado na cozinha, mastigando um
sanduíche de queijo, mas seu rosto afogueado denunciava que ele estivera correndo.
- Você não estava lá na frente, na sala de visitas, estava? - perguntou, desconfiada ela própria
com o rosto em brasa, com receio que o filho tivesse testemunhado a cena recente.
- E mesmo que estivesse, qual o problema? replicou ele dando a entender que estava
preparado para aceitar as novidades.
Sem poder mais conter-se,Abby abraçou-o, comovida,
- Oh, meu querido! Seu pai e eu não vamos mais nos divorciar! Vamos viver todos juntos,
como uma verdadeira família!
Matthew exultou.
- Verdade? Vocês vão ficar juntos de novo? Onde? Aqui ou na mansão?
Abby sentiu uma inquietação passageira.
- Bem... na mansão, penso eu... Disse, com desânimo, detestando a perspectiva
de ter que viver sob o mesmo teto da mulher que tinha feito de tudo para arruinar-lhe a vida.
Bem... os detalhes ainda não foram acertados. O principal é que vamos ficar todos juntos.
- Vocéesfá feliz?.
- O que vooè acha?
Matthew abaixou a cabeça.
- Eu andei espiando vocês pela janela, confessou.
- Bem que eu desconfiei - disse ela sorrindo. E. num tom mais severo, acrescentou: - Você me
deu um suslo quando sumiu de casa! Eu não sabia o que pensar.
- É que imaginei que daria tempo-de ir e voltar sem que você desse pefa minha falta. Mas era
mais longe do que eu pensava, e papai me encontrou no meio do caminho. O resto você já deve
estar sabendo.
- Nao tudo, Abby enrugou a testa. Por que você ia ver sua avó escondido de mim?
- Agora pode parecer bobagem, mas é que. bem... eu pensei que se eu dissesse a ela que não
queria ir morar na mansão, vovó ia parar de querer que você fosse embora daqui. Se eu fosse

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morar com meu pai, mas só com ele teria sido bom. Eu iria sentir muito a sua falta, mamãe, mas
pelo menos teria a ele. Mas não gostaria de morar com vovó e com aquela chata da Srta.
Langton. E ela não iria me querer por perto, depois que casasse com papai.
- Oh. Matt! Abby passou-lhe os dedos pelos cabelos. E eu que pensei que você ia querer morar
na mansão de qualquer jeito! A Sra. Roth lhe ofereceu muito mais do que eu posso,
- Bem ela é podre de rica, disse Matthew. muito prático, mas eu não viveria em lugar algum
sem você mesmo que, às vezes, você me dê umas broncas.
- Oh. Matt!
As lágrimas encheram-lhe os olhos, sem que ela pudesse controlar-se. Matthew levantou-se e
foi abraçá-la.
- Não chore, mãezinha. Papai vai resolver tudo direitinho. Ele me garantiu. Vai até arrumar a
vida de tia Hannah!
- Tia Hannah!
Abby linha até esquecido dela, com tantas confusões. Subiu as escadas imediatamente e.
quando entrou no quarto, viu que a tia já tinha acordado.
- Acho que vou aceitar aquelas torradas que você me ofereceu - disse a velha senhora,
seniando-se na cama. Por que você está tão vermelha? O que aconteceu, enquanto eu dormia?
- Bem... aconteceram muitas coisas, mas o mais importante é que Piers e eu não vamos mais
nos divorciar.
Foram interrompidas pela voz de Sean Willis, vinda do andar térreo.
- Posso faiar-lhe um segundinho. Abby? perguntou em voz alta. É sobre aquele relatório
médico. Acho que encontrei algo que vai lhe interessar.
O relatório!
Abby chamou Matthew para que ficasse fazendo companhia à tia e desceu para atender Sean.
Encontrou-o remexendo nas cinzas da caldeira.
- Não está com frio?
- Só estou cansada. Tive uma manhã e tanto!
- Acredito, Sean parecia tristonho. Pelo que ouvi acho que esse relaiório é supérfluo.
Abby corou.
- O que você ouviu?
- Bem... você foi vista hoje peta manhã, no carro de Roth. E a Sra. Davison me avisou que você
esteve lá em casa à minha procura. Presumi que quisesse me pedir para suspender as
investigações.
- Oh, não.
- Não?
- Fui lá por causa de Matthew. Ele tinha desaparecido de casa. Oh, uma história muito
comprida. Mas me diga, o que você descobriu?
Sean tirou um envelope do bolso,
- Esta é uma cópia do relatório que o dr. Morrison deu a seu marido.
- Posso olhar?
- Claro. - Sean passou-lhe o envelope. A carta anexa é mais explicativa.
De fato. lá estavam todos os dados de Piers e o diagnostico fatal. Abby ficou confusa.

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O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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- Mas... em que isto pode ajudar?


- Espere - Sean entregou-lhe outro envelope semelhante. Dê uma espiada nisto.
Era um relatório sobre o mesmo tipo de teste. Só que o nome do paciente e os dados pessoais
estavam meio apagados e quase ilegíveis. Nesse segundo relatório o resultado era favorável.
Ambos os pacientes haviam sido examinados na mesma época, mas a carta anexa determinava
que o homem desconhecido era quinze anos mais velho do que Piers. Abby balançou a cabeça.
- Mas o que prova isto? Como estes dois relatórios podem ter sido confundidos, se é isso que
está supondo?
Sean sorriu amarelo.
- Seria mais fácil culpar os métodos confusos de arquivamento do velho médico, mas na
verdade o Dr. Morrison não teve culpa.
- Então, quem teve?
- Já viu o cabeçalho dos formulários? Ambos provêm do Hospital Geral de Alnbury.
- E daí?
- Morrison encaminhava seus pacientes para lá, pois não tinha o equipamento necessário
para esse tipo de testes. E um hospital muito grande e na época, havia um surto de intoxicação
alimentar e a equipe médica estava sobrecarregada de serviço.
- Quer dizer que foram eles a cometer o erro?
- É o que tudo indica. Eu nunca teria relacionado os dois relatórios se eles não tivessem
sido arquivados na mesma pasta. O método de Morrison, ou melhor falando, a falta de
método!
- Mesmo assim, por que acha que Piers não tem problemas físicos?
-- Pois bem. Vou explicar. Depois de ter lido os dois relatórios consultei a ficha médica do outro
homem que, por sinal, já faleceu. Fez uma breve pausa, ele mandou fazer os exames porque
estava na faixa dos trinta anos, era casado há muito tempo e não tinha filhos.
- Compreendo.
- Consultou Morrison para saber se havia aigo de errado com ele. Aparentemente, não havia.
Mas quando ele morreu, no ano passado, o casal ainda continuava sem filhos.
- Pobre homem!
- Pois é. Mas isso não é tudo. Sean franziu a testa - Esta preparada para ouvir o restante?
- Preparada? - Abby sentiu-sc inquieta. É uma pergunta tão assustadora!
- Os Roth já estão a par disso tudo.
- O quê?
- Depois que colhi todos os dados, telefonei para o hospital em Alnbury onde tenho vários
amigos, para confirmar as minhas suspeitas. Isso não foi difícil, pois eles já tinham consultado
os arquivos para uma averiguação semelhante, solicitada pela própria família Roth.
Abby começou ajuntar as ideias.
Quer dizer que Piers já sabia, ou pelo menos suspeitava da verdade, antes de ter viajado para a
Alemanha, ou talvez antes mesmo de ela ter voltado para Roihsíde. A data pouco importava.
Mediante aquela revelação. Piers procurara um outro médico, e os novos testes haviam
comprovado que fora cometido um erro no passado. Então, por que Piers não tinha dito logo,
em vez de fazê-la acreditar que se submetera a novos exames por causa dela?

Livros Florzinha - 81 -
O caminho da esperança (Season of mitts) Anne Mather
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Talvez não tivesse sido por causa dela. A suspeita era por demais dolorosa. O que devia ter
acontecido é que, depois de conhecer Matthew, ele decidira ficar com o filho, e após analisar os
prós e contras devia ter chegado à conclusão de que aquela seria a única maneira de ter
certeza do que estava fazendo.
- Ei! - Sean deu-lhe um tapinha brincalhão no rosto. Pensei que você fosse ficar satisfeita com
as novidades. O que acabei de lhe dizer é a prova concludente de que Matt é filho de Piers e a
Sra. Roth perdeu seu maior trunfo.
A Sra, Roth!
O cérebro de Abby começou a funcionar racionalmente. Santo Deus! Por que ela tinha essa
tendência de pensar sempre no pior? Não havia razão para pensar que Piers não foi sincero.
Com todas as mentiras que a sogra lhe pregara, pelo menos uma vez tinha falado a verdade.
Ela dissera que sabia. E como? Era óbvio que fora ela a telefonar para o hospital.
- Que foi, Abby? Ficou aborrecida comigo?
A voz do médico a trouxe de volta à realidade e, muito segura de si, anunciou:
- Piers e eu não vamos nos divorciar. Hoje pela manhã já entramos num acordo. Eu queria
agradecer-lhe por tudo o que fez por mim.
- Eu? Sean fez uma careta conformada. Eu não fiz nada. Tudo o que fiz foi entregar de bandeja
a moça com quem eu pretendia casar.
- Oh. Sean! Abby apertou-lhe o braço amistosamente - Tenho certeza de que um dia você vai
encontrar alguém que o ame muito. Você merece. E agora, que fal um cafezinho?
- Gostaria muito, mas preciso atender a um chamado em Alnbury. No fim da semana virei
examinar sua tia. Mas se precisar de mim antes, é só chamar.
- Obrigada. Sean.
Abby acompanhou o médico até o portão e, mal ele se afastou. Piers veio chegando com a
perua Mercedes.
Abby apressou o passo para voltar para dentro de casa. mas Piers segurou-a por um braço.
- O que veio fazer aqui o dr. Willis?
Abby fitou-o sem graça.
- Vai me dizer que está com ciúme?
- Você sabe que sou ciumento... confirmou. Vamos entrando. Preciso expor um plano que andei
bolando.
Quando entraram na cozinha. Abby sentiu um arrepio de frio e foi ligar o aquecedor elétrico que
era usado nas emergências, antes de perguntar a Piers se ele queria tomar alguma coisa para
esquentar-se.
- Não, obrigado. Agora prefiro me esquentar assim...
Passou-lhe os braços pela cintura e o beijo apaixonado dissipou qualquer dúvida que ainda
restava no coração de Abby.
Matthew os interrompeu, descendo as escadas correndo, e Abby desprendeu-se do marido,
antes que o filho entrasse na cozinha.
- Vi o seu carro lá fora! - exclamou o menino, sorrindo para o pai. - Como é? Já contou as
novidades para a vovó?
- Matt!
O garoto corou com aquela chamada, mas Piers sorriu, benevolente.

Livros Florzinha - 82 -
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- Sim, já falei com sua avó. Enquanto conversava, seus olhos não se desprendiam de Abby.
Ela concordou com a minha sugesião. e vai passar uma boa temporada na casa da irmã.
Abby estava pasma, mas Matthew nem se abalou.
- Na casa de tia Isabel? perguntou Matthew. demonstrando seu conhecimento sobre os novos
parentes, mas Piers sacudiu a cabeça.
- Não. Na casa de tia Elizabeth. Você não a conhece. Ela mora na Austrália. Convenci sua avó
de que o clima quente vai ser bem melhor para a saúde dela.
- Ah, sei,disse Matthew inocentemente. - Por causa da artrite?
Aquilo foi só a primeira parte dos planos de Piers. Ele não tinha perdido tempo, e durante a
longa conversa Abby foi ficando a par do restante.
A Sra. James acompanharia a patroa à Austrália, como camareira particular. Susan, a sorridente
criada da mansão, viria cuidar de Hannah. A tia gostava de gente jovem e, além do mais, era
amiga da família da moca.
Piers, com a mulher e o filho, iriam morar em Rothside Manor, tão logo a Sra. Roth embarcasse
para bem longe.
Já era tarde da noite. Abby e Piers ainda estavam na cozinha, depois que Matthew e a tia
subiram para ir dormir.
Piers não parecia nem um pouco disposto a ir embora. Ele a fez sentar-se em seu colo e
perguntou:
- Afinal, o que o Dr. Willis veio fazer aqui hoje de manhã?
- Você não vai gostar de saber, disse Abby. fazendo suspense.
- Não é segredo para mim que ele gosta de você. Por que pensa que fui tão rude com ele?
- Então foi por isso?
- Não se faça de boba. Mas, então, por que ele veio aqui hoje?
Abby tomou coragem e contou-lhe tudo sobre os exames, menos o que sabia a respeito da Sra.
Roth. Quando terminou. Piers segurou-a pelo queixo.
- Ele deve também ter descoberto que minha mãe andou fazendo investigações por conta
própria.
Abby levou um choque.
- E como você sabe disso?
Hoje pela manhã, no nosso "acerto de contas", ela acabou confessando.
- Só hoje?
- Sim, Mas há tempos eu já tinha dúvidas. Era um bom pretexto para ter você de volta.
- Piers!
- Que o Senhor me perdoe. Mas eu te quero tanto. Abby! Vamos já para a cama!
Abby olliou-o entre incrédula e assustada.
- Mas... aqui?
- Você dorme numa cama, não dorme? - perguntou, brincalhão.
- É uma caminha de solteiro!
- Para que precisamos de mais?
- Mas é que...

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Piors não a deixou concluir e. muito autoritário, repeliu:


- Já para a cama! Abby obedeceu.
Passado algum tempo. Abby abriu os olhos e viu Piers debruçado sobre ela, apoiando-se sobre
o cotovelo e fitando-a com adoração.
- Você é a única mulher que conheci que é linda tanto acordada como dormindo - disse
baixinho, para não perturbar o sono alheio.
Abby sentiu uma dolorosa pontada de ciúme.
- E você deve ter conhecido um monte de mulheres, disse ela, ressentida pensando em todos
aqueles anos de separação.
- Não vou jurar que fui um monge durante esses onze anos, admitiu. Mas não houve
ninguém mais na minha vida, não no sentido que você está pensando.
- Houve Valerie Langton - lembrou-lhe.
- Acredite ou não, mas Val e eu nunca dormimos juntos. Éramos apenas bons amigos. Acho
que a mãe dela a preveniu para que não tivesse maiores envolvimentos comigo, antes que o
divórcio tosse homologado.
- Mas bem que você teria gostado.
- Eu não me teria feito de rogado se ela facilitasse, confessou com honestidade. Mas isso foi
antes de você reaparecer na minha vida.
Abby espreguiçou-se como um gato satisfeito e passou os braços pela nuca de Piers. que
aproveitou para beijar-lhe suavemente a curva dos seios.
- Vou começar os preparativos para fazermos uma viagem, murmurou ele,
aconchegando-se mais. Pensei em irmos só nós dois, mas não seria justo deixar Matt sozinho.
- E para onde iremos?
- Sei lá! Fiji, ou as Ilhas Seychelles. Um lugar quente, onde não seja necessária muita roupa.
Um lugar onde possamos ficar à vontade.
- Uma segunda lua-de-mel? perguntou Abby num suspiro, lembrando-se das duas
semanas divinas que passara com ele em Aniigua, na Guatemala, há onze anos.
- Gostou da idéia?
- Adorei!
- Então vou começar a tomar as providências.
- Não se esqueça de providenciar também a reforma do quarto das crianças. Você vai querer
ter outros filhos, não vai?
- Quantos você quiser - concordou Piers, deslizando uma perna por cima dela. - Mas nesse
momento só quero a você...

FIM

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