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JACOB BAZARIAN
Ex-Pesquisador Científico do Instituto de Filosofia de Moscou
da A cadem ia de Ciências da U R S S

O PROBLEMA
DA VERDADE
TEORIA DO CONHECIMENTO

2? edição

V.à' ■•iVW'

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Ç M ïs e fa

EDITORA ALFA-OMEGA
São Paulo
1985
Planejam ento gráfico e p ro d u ção :
Jesus A. Pugliesi

C apa:
A lexandre Benevides

1.4 edição 1979 - Círculo do Livro - SP - 5000 ex.


2.? edição 1980 - Círculo do Livro - SP - 5000 ex.
l.S edição 1980 - Edições Sím bolo - SP - 3000 ex.
2.? edição 1985 - Ed. A lfa Omega - SP - 3000 ex.

D ireitos Reservados
E D ITO R A A L FA OM EGA LTDA.
05413 - Rua Lisboa, 500 - São Paulo - SP - Tel. (011) 852-6400

Im presso no Brasil
Printed in Brazil
ÍNDICE ESQUEMÁTICO

1. “PARTE
CAP. I — A IMPORTÂNCIA DA TEORIA DO CONHECI­
M E N T O .................................................................................... 31
CAP. II — OS GRAU§ DO CONHECIMENTO ....................... 43
CAP. III — A ESSÊNCIA DO CONHECIMENTO................... 51
CAP. IV — A POSSIBILIDADE DO CONHECIMENTO....... 73
CAP. V — AS FONTES DO CONHECIMENTO....................... 99
CAP. VI — O CONHECIMENTO SENSÍVEL OU EMPÍRICO 103
CAP. VII — O CONHECIMENTO RACIONAL OU ABSTRA­
TO .................................................................................................. 107
CAP. VIII — OS PRINCÍPIOS RACIONAIS OU LÓGICOS .. 115

2 . aPARTE

CAP. IX — O PROBLEMA DA VERDADE E SEU CRITÉRIO 131

3 . -PARTE

CAP. X — O CONHECIMENTO INTUITIVO OU CRIATIVO 179

BIBLIO G RAFIA........................................................................... 223


1

I
i
ÍNDICE DETALHADO

0 A u to r.................................... .................................................. 13
Alguns Trabalhos do Autor ........................................................ 15
Agradecimentos ........................................................................... 17
Dedicatória.................................................................................. 19
Prefácio........................................................................................ 21
Algumas palavras sobre este livro................................................ 25

1 .“PARTE

CAP.I — A IMPORTÂNCIA DA TEORIA DO CONHECIMENTO

1 — Noções de filosofia............................................................. 31
2 — A árvore do conhecimento ................................................ 33
3 — Finalidade prática do conhecimento ................................. 34
4 — Conceito atual de filosofia ................................................ 36
5 — Os problemas fundamentais da filosofia........................... 37
6 — Divisão da filosofia ............................................................ 39
7 — Divisão da gnosiologia........................................................ 41
8 — Conceito de conhecimento ................................................ 41

CAP. II — OS GRAUS DO CONHECIMENTO

1 — Conhecimento vulgar.......................................................... 43
2 — Conhecimento científico .................................................... 44
3 — Conhecimento filosófico.................................................... 44
4 — A evolução do pensamento humano ................................. 46
1) Estado Teológico ou Fictício........................................ 47
2) Estado Metafísico ou Abstrato ................. .......... ■.... 48
3) Estado Positivo ou Científico ...................................... 48

7
CAP. III — A ESSÊNCIA DO CONHECIMENTO

1 — O problema fundamental da filosofia ............................... 51


2 — Idealismo filosófico............................................................ 54
1) Idealismo objetivo ........................................................ 54
2) Idealismo subjetivo....................................................... 55
3) Crítica do Idealismo filosófico ..................................... 58
A) As raízes gnosiológicas do idealismo....................... 58
B) Idealismo e religião.................................................. 62
C) As raízes ideológicas do idealismo ......................... 64
3 — Materialismo filosófico...................................................... 64
1) Evolução da concepção materialista............................. 65
A) " Materialismo ingênuo ........................................ 65
B) Materialismo espontâneo........................................ 66
C) Materialismo mecanicista ...................................... 66
D) Materialismo vu lg ar................................................ 66
2) Materialismo Dialético........................................ : ___ 67
3) O Materialismo Dialético é ciência e não ideologia___ 69

CAP. IV — A POSSIBILIDADE DO CONHECIMENTO

A — Soluções negativas............................................................... 73
1 — Ceticismo absoluto.............................................................. 74
2 — Ceticismo relativo............................................................... 74
1) Agnosticismo de K ant.................................................... 75
A) As teses fundamentais da gnosiologia kantiana . . . 76
B) As teses do dogmatismo moral kantiano.................. 79
2) Novas modalidades do ceticismo relativo:
Positivismo, Fenomenalismo, Relativismo, Subjeti­
vismo, Probabilismo, Convencionalismo, Ficcionalismo,Utilita­
rismo ou Pragmatismo, etc ........................................................... 82
3 — Crítica do ceticismo sistemático ........................................ 85
1) As raízes gnosiológicas do ceticismo............................. 85
Á) O ceticismo sistemático e a dúvida metódica.......... 86
B) Como surgem os conceitos...................................... 87
C) Não existem “ coisas em si” incognoscíveis............ 88
2) As raízes ideológicas do ceticismo................................. 89
1) O agnosticismo idealista efideísta ........................... 91
2) O agnosticismo materialista e ateu ........................... 91
3) A função positiva e negativa da religião....................... 92
A — Soluções positivas
— Dogmatismo gnosiológico.................................................. 94
1) Dogmatismo ingênuo.................................................. 94

8
2) Dogmatismo racional.................................................... 94
3) Dogmatismo irracional.................................................. 94
2 — Materialismo Dialético ..................................................... 95

CAP. V — AS FONTES DO CONHECIMENTO

1 — Empirismo......................................................................... 99
2 — Racionalismo .................................................................... 100
3 — Intuicionismo.................................................................... 101
4 — Materialismo dialético...................................................... 101
5 — As espécies e formas de conhecimento............................. 102

CAP. VI — O CONHECIMENTO SENSÍVEL OU EMPÍRICO

1 — Sensação ............................................................................ 103


2 — Percepção .......................................................................... 103
3 — Representação.................................................................... 103
4 — Imaginação criadora . . ..................................................... 104
5 — Fantasia............................................................................. 104

CAP. VII — O CONHECIMENTO RACIONAL OU ABSTRATO

1 — CO NCEITO ...................................................................... 107


Os processos para a formação de conceitos:..................... 107
A) Análise....................................................................... 108
B) Síntese ..................................................................... 108
C) Abstração ............................................................... 108
D) Generalização.......................................................... 108
2 — JU ÍZ O ............................................................................... 108
3 — RACIOCÍNIO .................................................................. 109
As formas do raciocínio lógico: ........................................ 109
1) DEDUÇÃO................................................................... 109
A) Dedução analítica ou form al................................... 109
B) Dedução sintética ou construtiva ........................... 109
2) INDUÇÃO ................................................................... 110
A) Indução form al........................................................ 110
B) Indução amplificadora ou científica....................... 110
C) Analogia ................................................................. 111
D) As quatro fases da indução científica..................... 112
E) As formas superiores do conhecimento racional: .. 112
Hipótese, tese, teoria, Lei, Princípio, Doutrina,
Sistema......................................................................................... 112

9
CAP. VIII — OS PRINCÍPIOS LÓGICOS E RACIONAIS
1 — Princípios lógicos:
1) Princípio da identidade ................................................ 115
2) Princípio da não-contradição ....................................... 116
3) Princípio do terceiro excluído....................................... 116
2 — Princípios racionais:
1) Princípio da razão suficiente......................................... 118
2) Princípio da causalidade .............................................. 118
3) Princípio do determinismo............................................ 118
3 — Observações Críticas
1) O caráter inato, evidente, necessário e universal dos
princípios?..................................................................................... 120
2) Lógica Formal e Lógica D ialética................................. 123
3) Causalidade e casualidade ............................................ 124
4) Princípio da finalidade.................................................. 125
O erro do finalismo, antropomorfismo, fatalismo e
voluntarismo................................................................................. 125

2 .“PARTE

CAP. IX — O PROBLEMA DA VERDADEÈ SEU CRITÉRIO


1 —Conceito da verdade......................... ................................ 131
2 —O aspecto objetivo e subjetivo da verdade....................... 133
3 —Espécies de verdades ........................................................ 135
4 —Duas categorias diferentes de fatos e verdades............... 139
5 —O critério da verdade ........................................................ 142
1) O critério da autoridade.............................................. 142
2) O critério da evidência ................................................ 144
3) O critério da ausência de contradição......................... 145
4) O critério da utilidade .................................................. 146
5) O critério da prova ...................................................... 150
6 — Modalidades de provas .................................................. 151
7 — O papel da prática no conhecimento ............................. 154
8 — O significado de prática e práxis..................................... 156
9 — Formas de prática............................................................ 157
10 — O critério da prática..................... 158
11 — O critério da te o ria .......................................................... 161
12 — A unidade da teoria e da p rática..................................... 163
13 — O caráter concreto da verdade ....................................... 165
14 — A verdade relativa e a verdade absoluta......................... 166
1) Absolutismo ................................................................ 167
2) Relativismo ................................................................. 167
3) Absolutismo relativista................................................ 167

10
15 — Verdades absolutas............................................................ 169
16 — O desenvolvimento dos conhecimentos hum anos............ 17Ó
A) Teorias sobre a natureza da luz ................................. 170
B) Teorias sobre a natureza do desenvolvimento social . 171

3. °PARTE

CAP. X — CONHECIMENTO INTUITIVO OU CRIATIVO

1 — O CONHECIMENTO IN T U IT IV O ................................. 179


a) O que a intuição não é ............................................ •... 180
b) O que a intuição é .......................................................... 181
c) Conceito etimológico .................................................... 181
2 — A S FORMAS DE INTUIÇÃO ......................................... 181
1) Intuição sensivel ou empírica......................................... 182
2) Intuição metafísica ou m ística....................................... 182
3) Intuição intelectual........................................................ 182
1.°) Intuição de evidência ou racional......................... 182
2. °) Intuição heurística ou divinatória......................... 183
3 — A INTUIÇÃO HEURÍSTICA .......................................... 185
a) Definição de intuição heurística ................................... 185
b) Método de adivinhar a verdade e solucionar problemas 185
c) Tipos de intuição profissional ...................................... 185
d) Nomes populares da intuição heurística....................... 186
e) Valor hipotético da solução intuitiva ........................... 186
4 — TRAÇOS CARACTERÍSTICOS DA INTUIÇÃO HEU­
RÍSTICA ...................................................................................... 186
1) Caráter im ediato........................................................... 186
2) Caráter repentino .......................................................... 187
3) Caráter não-consciente.................................................. 187
a) O esquema do cérebro.............................................. 188
b) A memória subconsciente........................................ 189
c) O trabalho subterrâneo do subconsciente............... 189
d) O pressentimento intuitivo e o ,pressentimento
com um.......................................... 190
e) Solução do problema durante o sonho ................... 191
f) O subconsciente não esquece n a d a ........................... 193
g) A reminiscência pela psicanálise e pela hipnose . . . . 194
h) O subconsciente cumpre ordens do consciente........ 194
4) Sem dados suficientes.................................................... 195
a) Solução em pírica...................................................... 195
b) Solução racional ou ló g ica...................................... 195
c) Solução intuitiva ...................................................... 196
d) Salto através do “ abismo” empírico e lógico......... 196

11
e) Intuição e parapsicologia ........................................ 197
f) Ausência de dados na memória subconsciente........ 198
g) O fundamento material da capacidade intuitiva . . . 198
h) Soluções intuitivas verdadeiras e erradas ............... 200

5 — INTUIÇÃO, SENTIDOS, RAZÃO ELÓGICA

1) Unidade dialética entre intuição, sentidos e razão........ 202


2) Unidade dialética entre intuição e lógica, entre méto­
do intuitivo e discursivo .............................................................. 204

6 — CONDIÇÕES FAVORÁVEIS À MANIFESTAÇÃO DA


INTUIÇÃO HEURÍSTICA ........................................................ 206
1. a) Problema não resolvido ......................................... 206
2. a) Desejo imperioso de solucionar o problema.............. 206
3. a) Colocação correta e concreta do problema................ 208
4 . a) Ricos conhecimentos práticos e teóricos................ 209
5. a) Concentração de todas as forças psíquicas............... 213
(Trabalho consciente longo e intensivo)
6. a) Desconcentração psíquica....................................... 214
(Passagem para outro tipo de atividade)
7. a) Mente flexível e aberta para o n o v o ........................ 219

7 — REGRAS PARA DESENVOLVER A CAPACIDADE


INTUITIVA................................................................................ 220

BIBLIO G RAFIA......................................................................... 223

12
O AUTOR

Jacob Bazarian, de origem armênia, nasceu, em 1919, naTurquia


e veio ao Brasil com a idade de 8 anos.
Em 1945, licenciou-se em Filosofia (pura) pela Universidade de
S. Paulo (USP). Trabalhou no jornal Hoje e foi diretor e redator-chefe
do jornal Ararat publicado em S. Paulo.
Em 1949, mudou-se para Paris, onde fez curso de extensão na
Faculdade de Filosofia da Sorbonne (com Bachelard e Jean Wahl) e
foi redator-chefe do jornal Armênia publicado em francês.
Em 1950, mudou-se para Erevan, capital da Armênia Soviética,
onde foi eleito deputado e fez curso de pós-graduação no Instituto de
Filosofia da Academia de Ciências da Armênia.
Em 1954, seguiu para Moscou, a fim de concluir seus estudos.
Em 1956, defendeu Tese de Candidato a Doutor em Ciências Filo­
sóficas, em Moscou, no Instituto de Filosofia da Academia de Ciên­
cias da URSS.
Durante os dez anos que trabalhou como pesquisador científico
do referido Instituto, publicou, em russo, vários trabalhos filosóficos
e escreveu sobre a história do pensamento filosófico e sociológico
brasileiro para as obras coletivas História da Filosofia (em 7 tomos) e
Enciclopédia Filosófica (em 5 tomos).
Em 1966, voltou ao Brasil, onde começou a trabalhar como jor­
nalista e professor universitário. Foi diretor e redator-chefe da revista
Armênia e, desde 1969, leciona Sociologia nas Faculdades de Direito,
de Administração e de Relações Públicas de Itapetininga (SP).
Jacob Bazarian é autor de centenas de artigos, de dezenas de
trabalhos científicos e vários livros, entre os quais: Mito e Realidade
sobre a União Soviética; Intuição Heurística e Curso de Sociologia.

13
OBRAS DO AUTOR

ALGUNS TRABALHOS DO AUTOR PUBLICADOS NA URSS

“ A luta das forças progressistas brasileiras contra a ideologia imperialista” (Tese


de Candidato a Doutor em Ciências Filosóficas defendida no Instituto de Filosofia da
Academia de Ciências da URSS), Moscou, 1956.
“ Confissões de um sociólogo brasileiro” , na revista Problemas de Filosofia, Mos­
cou, 1958, n.° 8.
“ O ilustre pensador brasileiro do séc. XIX, Tobias Barreto” , Revistada História
da Cultura Mundial, Moscou, 1959, n.° 6.
“ O ilustre pensador brasileiro Euclides da Cunha” , na Gazeta Literária (Órgão
oficial daU nião dos Escritores Soviéticos), Moscou, 15/8/1959.
“ A essência da filosofia de Nietzsche” , na revista Kommunist, (Órgão oficial do
PCUS), Moscou, 1961.
“ O Brasil — sêc. XX” , na revista Tempos Novos, Moscou, 1961, n.° 44.
“ Lima Barreto, como escritor e pensador” , na revista Problemas de História,
Moscou, 1962, n.° 11.
“ José Bonifácio — Patriarca da Independência do Brasil” , na revista União
Soviética, Moscou, 1963, n.° 6.
“ A filosofia brasileira” , na Enciclopédia Filosófica, T. I., 1960.
“ O pensamento filosófico e sociológico brasileiro, desde a metade do séc. XIX até
o começo do séc. XX” , na História da Filosofia, T. II, IV e V, Moscou, 1957-1961
(Obra coletiva do Instituto de Filosofia da Academia de Ciências da URSS).
“ Introdução à edição russa do livro de João Cruz Costa 'Panoram a da História da
Filosofia no Brasil’ ” , Moscou, 1962.
As correntes filosóficas e sociológicas no Brasil contemporâneo, no livro Brasil,
Moscou, 1963.
“ O pensamento filosófico e sociológico brasileiro contemporâneo” , no livro A
filosofia e sociologia nos países da Europa Ocidental e América, Moscou, 1964.
Verbetes sobre filósofos e sociólogos brasileiros, desde o séc. XIX até aos nossos
dias, publicados nos 5 volumes da Enciclopédia Filosófica, Moscou, 1960-1970.

15
OBRAS DO A UTOR PUBLICADA S NO BRASIL

Mito e Realidade sobre a União Soviética (Análise imparcial do regime soviético ~


por um ex-membro do Partido Comunista), São Paulo, 2.“ edição, 1973.
Intuição Heurística, Ed. Alfa-Ômega, S. Paulo, 2." edição, 1973.
Curso de Sociologia (Contribuição para uma Sociologia Pluri-estrutural), Ed. José
Bushatsky, São Paulo, 1972.
A Arte de Aprender e Passar nos Exames, Ed. Livraria Nobel S. A ., São Paulo,
1972.
Considerações Filosóficas sobre a Sociedade Ideal, Edição da Faculdade de Direito
de Caruaru, Pernambuco, 1974.
A Origem e Evolução das Coisas (do Cosmos, d a Vida, do Homem, da Sociedade e
do Pensamçnto), Ed. do D. A. “ Júlio Prestes” da Faculdade de Ciências Jurídicas e
Administrativas de Itapetininga (São Paulo), 1975.

16
AGRADECIMENTOS

“ É muito difícil realizar um trabalho teórico contínuo durante o


ano letivo normal” — confessa com razão o grande psicólogo hu­
manista norte-americano Abraham Maslow, que escreveu sua ex­
celente obra Introdução à Psicologia do Ser graças à ajuda de pessoas
e entidades filantrópicas.
Isto é mais verdadeiro ainda em nosso país, onde é impossível o
escritor, sobretudo o ensaísta, viver de sua profissão, já que os di­
reitos autorais recebidos pela venda de seus livros não representam
10% do que ele poderia ganhar se fosse lecionar numa faculdade ou
trabalhar numa empresa, em vez de escrever.
Escrever ensaios em nossa terra é uma ocupação terrivelmente
deficitária. E sem ajuda financeira é quase impossível. Esta é uma das
principais razões porque em nosso país são raros os ensaístas profis­
sionais.
O presente livro foi escrito graças à ajuda desinteressada de várias
pessoas generosas — ex-alunos, amigos e parentes — ajuda essa que
possibilitou libertar-me de preocupações monetárias durante o tempo
dedicado à elaboração do livro.
Sou eternamente grato a essas pessoas humanitárias, pertencen­
tes, aliás, a diferentes opiniões religiosas, filosóficas e políticas.
É óbvio que eles não são responsáveis pelas idéias defendidas no
livro, nem pelos eventuais erros e falhas do mesmo. Isso é de inteira
responsabilidade do Autor.
Mas, se este livro for útil a alguém, é necessário agradecer aos
mecenas, que com seu gesto nobre e desinteressado, tornaram possível
a elaboração e publicação deste livro.

17
i
DEDICATÓRIA

Este livro é dedicado

Aos meus amigos ex-alunos de S. Paulo:

Natàlia Murata, Joaquina Fernandes de Oliveira, íris Fernandes


Tito, José dos Santos Filho, Antônio de Pádua Guimarães, Dr. João
Alves Veríssimo, Dr. Enno Gau, Dr. José Rocha, Dr. Sérgio Talarico,
Dr. Antônio Pagliara, Dr. Salvador Pacífico, Dr. Enzo Battezini
(falecido), Dr. ítalo Nicodemo, Dr. Reynal d’Avila, Dr. Fernando C.
Morais, Dr. José Neves, Dr. Nichan Bertezlian, Dr. Giancarlo Nardi,
Dr. Nestor Pacheco e Míria Coelho.

Aos meus amigos ex-alunos do Paraná:

Dr. Paulo Vieira de Camargo (Maringá), Abrahão Barbosa


Emílio (Ponta Grossa), Gil Simon Zanetti (Ponta Grossa) e Reginaldo
José Ribas (Curitiba).

Aos meus amigos e parentes de S. Paulo

Com. José Distchekenian, Com. Karnig Bazarian, Paren Ba-


zarian, Krikor Bazarian (falecido), Antranik Bazarian, Krikor
Apovian, Iskuí Apovian, Manoug Kaloustian, Jorge Koumerian, Ar­
tur Minassian, Alberto Kurdoghlian, Irmãos Danielian, Sarkis Par-
seghian, Rubens Apovian, Irmãos Behisnelian, José Seraidarian, Sér­
gio Aristakessian, Avedis Momdjian, Dr. Jean Garo Kehyayan, Dr.
19
Salomão Schattan, Fernando Mangarielo, Prof. Célio Benevides de
Carvalho, Dr. Alcides Cintra Bueno Filho (falecido), Senador André
Franco Montoro e Moysés Baumstein.

Aos meus amigos de Osasco

Barkev Kamagian, Pedro Avedis Seferian, Garbis Seferian,


Haroutiun Seferian, Nichan e Ohannes Nerguizian, Artur Ignados-
sian, Avedis Seferian, Zakarias Kartalian, Dr. Hirant Sanazar e Dr.
Krikor Tarpinian.

Aos meus amigos de Itapetininga

Dr. Augusto Flaviano Arruda Costa (Presidente da Fundação


Karnig Bazarian), José Menk, Juliana Fabiano, Cav. Epaminondas
Ambrósio, Dr. Otílio Lara Filho, Prof. Stephenson e Profa. Tereza
Lisboa, Dr. José Lopes Cardoso, Dr. Jorge Haidar, Rita de Cássia
Prado, Zilda Elena Leonel Ferreira, Iraci de Oliveira e Florivaldo da
Silva Leite Fernandes.

Aos meus amigos de Brasília (DF)

Ministro Dário Moreira de Castro Alves e escritora Dinah Silveira


Queirós.

Aos meus amigos do Exterior

Antaram Aharonian — Montevidéu — Uruguai.


Dikran Miurekian — Buenos Aires — Argentina.

20
PREFÁCIO

Se o s poucos que sabem m uito não ensinarem o s m uitos


que sabem p ou co, então todos poderem os ser vítim as da •
ignorância e da servidão.

“ Os filósofos não fizeram mais que interpretar o mundo de


maneiras diferentes, trata-se porém de transformá-lo” — escreveu um
célebre filósofo alemão do séc. 19. Nós concordamos com tal pen­
samento, mas queremos lembrar que antes de transformar algo é
preciso conhecê-lo. Sem uma teoria científica do conhecimento da
verdade não é possível interpretar corretamente o mundo, o homem e
a sociedade e muito menos transformá-los.
Nenhuma ação transformadora poderá ser bem sucedida se ig­
norarmos a natureza das coisas com que lidamos. Nós só poderemos
tirar proveito de algo se conhecermos a verdade sobre o mesmo. Só
poderemos imitar, produzir e mudar algo se soubermos como fun­
ciona, só poderemos transformar o mundo, a vida e a sociedade, se
conhecermos a verdade, isto é, a essência das coisas e as leis pelas
quais eles se regem.
Assim, uma teoria científica do conhecimento da verdade é uma
disciplina absolutamente necessária a qualquer atividade prática ou
teórica, a qualquer tarefa de compreensão e transformação do mun­
do, do homem e da sociedade.
O conhecimento da verdade é eminentemente útil para o sucesso
pessoal e profissional tanto do inventor como do cientista, tanto do
filósofo como do revolucionário, tanto do político como do indus­
trial, tanto do patrão como do operário.
O estudo da teoria do conhecimento da verdade é importantís­
simo também para as nações, sobretudo para os países em vias de
desenvolvimento como o nosso. Um país é grande na medida em que
seus cidadãos têm um alto nível científico, técnico e administrativo.
Para incrementar a economia e a cultura de um país é absolutamente in­

21
dispensável conhecer bem as coisas. O conhecimento científico e tec­
nológico é a arma mais poderosa e decisiva para o sucesso e o desenvol­
vimento polifacético ê multilateral tanto na vida individual como no
destino do país.
Conhecer a verdade significa mais pão, mais saúde, mais habi­
tações, mais conforto, mais justiça e mais felicidade, e tudo mais.
Conhecer a verdade é poder, é prever, é vencer, é ser livre, é ser in­
dependente, é ser desenvolvido.
Quanto mais verdades conhecermos, mais poderosos e livres
seremos. “ Conhecereis a verdade, e a verdade vos tornará livres” diz
o Evangelho segundo São João.
Conhecer a verdade, saber distinguir a verdade do erro, do falso e
da mentira, aprender a descobrir e até adivinhar a verdade não faz mal
a ninguém. Só pode ser benéfico.
A ignorância de nossa juventude universitária a respeito dos
problemas fundamentais do conhecimento, principalmente sobre o
problema da verdade e de seu critério, é tão grande, que a impede de
formar uma concepção científica do mundo, acumular conhecimentos
positivos e tornar-se uma pessoa competente dentro de sua especia­
lidade.
Aliás, não é somente ao estudante universitário que falta uma
concepção científica do mundo. Há muitas pessoas que são grandes
autoridades num ramo do saber (cientistas, físicos, químicos, mé­
dicos, engenheiros, técnicos, industriais, militares etc.), que na sua es­
pecialidade são rigorosos e só aceitam fatos comprovados, fundamen­
tados etc.. Mas basta se aventurarem em outros campos do saber para
aceitarem as coisas sem nenhum fundamento ou prova e, por isso
mesmo, dizerem os maiores disparates. Quantos geniais cientistas há
por aí que acreditam em fantasmas e nos discos voadores guiados por
seres de outros planetas. Pode ser que tais discos existam, mas até o
momento que não for rigorosamente provada sua existência não se
pode crer neles sem reserva.
O que falta a todas essas pessoas é um conhecimento elementar
do que seja a verdade, e como distingui-la do erro e do falso.
A importância do estudo de uma teoria científica do conhecimen­
to da verdade se torna mais premente ainda numa época como a nos­
sa, em que uma onda de ceticismo, irracionalismo e misticismo assola
certos países.
Por mais paradoxal que pareça, o ceticismo sistemático está in­
timamente ligado às diversas doutrinas irracionais e místicas. Todos

22
eles negam à razão a possibilidade de conhecer a verdade e de com­
preender a realidade circundante. O ceticismo sistemático é tão mortal
para o sucesso pessoal e o desenvolvimento de uma nação quanto as
diversas manifestações do misticismo e irracionalismo.
É fora de dúvida que esta onda anticientífica é insuflada por
ideólogos de nações poderosas, interessados em manter os povos dos
países subdesenvolvidos na ignorância e no obscurantismo para
melhor poder subjugá-los e explorá-los. Pois as pessoas e os povos que
ignoram a verdade são mais facilmente dominados e subjugados.
Assim, a Gnosiologia ou Teoria do Conhecimento da Verdade
também é uma arena de lutas ideológicas, que refletem os interesses
econômicos de diferentes forças sócio-econômico-políticas.
Por isso, para o progresso e independência econômica de um país
em desenvolvimento como o nosso, é de vital importância incentivar o
estudo do conhecimento da verdade científica.
Se os poucos que sabem muito não ensinarem os muitos que
sabem pouco, então todos poderemos ser vítimas da ignorância e da
servidão.
Eis porque julgamos um grande dever cívico para o bem da nação
e de seus concidadãos ministrar um curso de Teoria do Conhecimento
.em todos os cursos colegiais e universitários de qualquer especiali­
dade.
Apesar da grande importância do estudo da teoria do conheci­
mento da verdade, infelizmente é paupérrima a literatura sobre o as­
sunto em nossa língua.
Com a publicação desta Introdução à Teoria do Conhecimento, o
Autor espera preencher essa grave lacuna, a fim de dar sua modesta
contribuição para o êxito na vida particular e profissional de cada um
e para a grandeza do nosso país.

23
r
ALGUMAS PALAVRAS SOBRE ESTE LIVRO

1 — SOBRE O CONTEÚDO

Como dissemos, apesar da importância da teoria do conhecimen­


to, infelizmente é paupérrima a literatura sobre o assunto em nossa
língua.
Os poucos livros sobre a Teoria do Conhecimento existentes no
mercado brasileiro sofrem de muitas falhas: ou são muito sucintos e
não abordam certos aspectos importantes do tema, ou, ao contrário,
são volumosas monografias escritas num estilo prolixo, confuso e
abstrato, sobre um aspecto particular do problema do conhecimento.
O que é decepcionante na leitura desses livros é que o estudioso
do assunto fica sem saber o principal: o que é afinal o conhecimento,
o que é a verdade e qual o critério para distinguir o conhecimento ver­
dadeiro do falso.
De todos os livros existentes no Brasil sobre o assunto, o melhor
continua sendo o livro de Johannes Hessen, Teoria do Conhecimento,
(publicado por sinal em Portugal), que já teve várias edições. Hessen
aborda de um modo sistemático os problemas fundamentais do co­
nhecimento, numa linguagem clara e concisa, sem prejuízo da profun­
didade. O Autor provou de maneira brilhante que se pode escrever de
um modo compreensível sobre problemas abstratos e difíceis.
Mas, o livrinho de Hessen foi escrito meio século atrás e em
muitos aspectos já está superado. A maior falha, porém, é a ignorân­
cia completa do critério científico da verdade — que aliás é o pro­
blema central da gnosiologia.
Da mesma falha sofrem os trabalhos tomistas sobre o assunto,
que aliás são muito sucintos, ocupando em geral um pequeno capítulo
num grande compêndio da filosofia.
É interessante observar que em muitos problemas, tais como a
possibilidade do conhecimento, o conceito da verdade e outros, as
posições tomistas coincidam com as posições marxistas.
Já os trabalhos marxistas sobre a Teoria do Conhecimento são
melhores. O materialismo dialético foi a única filosofia que elaborou
de modo sistemático e conseqüente uma teoria científica do conhe­
cimento. E, o que é mais importante, solucionou de modo totalmente
satisfatório o problema central da gnosiologia que é o critério da ver­
dade (a práxis).
A crítica que se pode fazer aos trabalhos marxistas sobre a Teoria
do Conhecimento é que eles, embora científicos, são breves, elemen­
tares e muitas vezes até superficiais. Outra falha grave é o espírito
cism ático e sectário que neles reina. Os autores repetem as mesmas
idéias escritas, há dezenas de anos atrás, pelos fundadores do marxis-
mo-leninismo, sem trazer novas contribuições. Tal repetição torna sua
leitura monótona, enfadonha e até embotante.
Quanto ao presente livro, em suas linhas gerais, ele foi inspirado,
em sua estrutura, no livro de Hessen e, em seu método e em sua teoria,
na gnosiologia do materialismo dialético, que é, atualmente, a mais
científica e conseqüente teoria do conhecimento.
Assim, aproveitando o que há de positivo nos diferentes livros de
gnosiologia, procuramos, ao mesmo tempo, sanar as falhas dos mes­
mos. E, em consequência, resultou um trabalho diferente e original.
Em muitos aspectos do problema do conhecimento, a nossa abor­
dagem e solução são diferentes. E há capítulos inteiramente novos e
originais, como, por exemplo, o conhecimento intuitivo ou criativo,
totalmente esquecido nos manuais de gnosiologia em geral, inclusive
marxistas.
O capítulo sobre o conhecimento intuitivo ou criador é uma nova
variante, consideravelmente revista e ampliada, do nosso opúsculo In­
tuição Heurística. Essa parte foi incluída aqui por duas razões prin­
cipais: 1) por fazer parte integrante de uma teoria científica do co­
nhecimento e, 2) pelo fato de o livro Intuição Heurística ter sido
recomendado em cursos universitários e em vários cursos especiali­
zados de parapsicologia, hipnose e controle mental. Como tal livro es­
tá esgotado, uma nova edição se fazia necessária para satisfazer
aquelas demandas.
Isto, porém, não significa que o presente livro seja completo e
isento de falhas. Nas condições atuais, isso não é possível por falta de
muitos dados sobre a natureza do processo cognoscitivo. A Teoria do
Conhecimento é uma ciência relativamente nova e em certos aspectos

26
ainda está engatinhando. Mas isso não deve desanimar ninguém. Ao
contrário, deve incentivar os especialistas para dar a sua contribuição,
ainda que modesta, abrindo caminho para que outros possam con-
* tinuar a tarefa de elaborar uma teoria mais completa e científica do
conhecimento.
A tarefa é tão importante que vale a pena dedicar-se a ela, pois é
necessário insistir: sem uma teoria científica do conhecimento não é
possivel compreender o mundo, o homem e a sociedade e muito
menos transformá-los.

2 — SOBRE O ESTILO

Na exposição dos problemas, o Autor procurou o máximo de


clareza, concisão e precisão, sem prejuízo da profundidade.
Existe opinião bastante difundida de que a filosofia, incluindo a
gnosiologia, dificilmente se presta para uma exposição clara. E em
parte, isto é verdadeiro: a filosofia estuda as leis mais gerais sobre o
mundo, o homem, a sociedade e o pensamento. E por isso ela tem um
t caráter bastante abstrato e complexo.
Mas, isso não significa que é impossível expor claramente os
problemas filosóficos. É necessário acabar com esse mito, atualmente
em voga, de que o estilo obscuro é sempre profundo e o estilo claro é
sempre superficial.
, É estupidez, ignorância e esnobismo, pensar que não se pode es­
crever de modo claro, conciso e preciso sobre assuntos complexos e
obscuros. A verdade é que tanto se pode escrever de modo obscuro
sobre problemas simples e cotidianos, como se pode, muito bem, es­
crever de modo claro e compreensível sobre problemas abstratos,
complexos e difíceis.
Na minha longa experiência de jornalista, professor e ensaísta,
pude verificar, à saciedade, que é muito mais fácil escrever de modo
obscuro do que de modo claro sobre um mesmo assunto. A primeira
variante de um artigo, de um discurso ou de uma aula é ainda prolixa,
obscura e cheia de imprecisões e contradições. Para torná-la clara,
concisa e precisa, sem prejuízo da profundidade, é necessário tra­
is, balhar arduamente, durante muito tempo (aliás, assim o fazem todos
os grandes escritores e ensaístas).
Outro exemplo, conhecido de qualquer professor de colégio ou
universidade. No meu curso universitário obrigo os meus 400 alunos
anuais a escreverem quatro trabalhos por ano, de 5 a 15 páginas. Pois
bem, a maioria absoluta (mais de 90%) desses trabalhos está escrito

27
numa linguagem confusa, obscura e quase hermética. E só com o tem­
po alguns vão adquirindo as qualidades do estilo científico-filosófico:
clareza, concisão e precisão.
Como se pode, diante desses fatos inegáveis, dizer que o estilo
obscuro é sinal de profundidade e genialidade e o estilo claro e simples
é sinal de mediocridade. Na realidade é o contrário.
O estilo obscuro testemunha o fato de que o autor não aprendeu a
se expressar claramente: ou porque ainda não aprendeu a pensar
claramente, ou, porque, consciente ou inconscientemente, não o quer.
A compreensibilidade do texto é uma questão de esforço e de
honestidade intelectual. Permitam-me lembrar a opinião de algumas
autoridades sobre o assunto.
“ A clareza é a boa fé do filósofo” — dizia Vauvenargues.
“ O estilo é o próprio homem” — dizia Buffon.
“ O que se concebe bem, enuncia-se claramente. E as palavras
para exprimi-la chegam facilmente” — dizia Boileau.
O próprio Hegel, o mais obscuro filósofo moderno, reconhecia a
dificuldade de escrever de modo claro. Numa carta endereçada, em 2
de julho de 1807, a um alto funcionário bávaro, Niethammer, que lhe
pedia escrever um compêndio de lógica para os alunos dos liceus,
Hegel confessava: “ É mais fácil ser ininteligível de uma maneira
sublime do que ser inteligível de um modo simples” . (Cf. Paul
Foulquié, Le Problème de la Connaissance, Ed. de l’Ecole, Paris,
1964, p. 140).
“ Os textos obscuros e impenetráveis não o são em virtude do as­
sunto, ou por deficiência do leitor, mas por inépcia do próprio autor,
incapaz de pensar e exprimir-se com clareza. Confundir obscuridade
com profundidade é preconceito romântico que cabe à filosofia des­
fazer. Pois, como dizia Peguy, nada mais profundo e mais claro que
um diálogo de Platão, e nada mais profundo e claro que um pensa­
mento de Pascal” — escreve Roland Corbisier (em sua Enciclopédia
Filosófica, Ed. Vozes, Rio, 1974, p. 8).
“ Geralmente as coisas essenciais são simples, enquanto os con­
ceitos retorcidos e ambíguos, e as cascatas de palavras, podem servir
para esconder o vazio ou evitar o confronto com a reta singeleza dos
princípios que definem o necessário para viver com dignidade, como
proclamou o Congresso, e como queremos todos nós, 30 anos dçpois,
e sempre” — escreve Antônio Cândido. (“ Os escritores e a litera­
tura” , in Opinião, Rio 26/9/75, p. 24).

28
PRIMEIRA PARTE
1 — A IMPORTÂNCIA DA TEORIA DO CONHECIMENTO

A Gnosiologia ou Teoria do Conhecimento, que estuda os


problemas fundamentais do conhecimento, é uma das partes essen­
ciais da Filosofia. Para compreender a importância da Gnosiologia e
situá-la dentro da Filosofia, é necessário dizer alguma coisa sobre a
última.

1 — NOÇÕES DE FILOSOFIA

Muita gente tem uma idéia negativa, desfavorável e pejorativa da


filosofia, como se ela fosse a coisa mais obscura, complexa, caótica e
inútil.
Essa é a razão porque muitos definem quem se ocupa de filosofia
do seguinte modo: “ O filósofo é aquele que entra num quarto escuro
para procurar um gato preto que não existe lá” . Ou como dizem ainda
ironicamente: ‘‘A filosofia é uma coisa tal, que sem a qual, a vida
continua tal e qual” .
Apesar de humorísticas, essas “ definições” exprimem com
exatidão as elocubrações de muitos filósofos e de muitos volumosos
tratados de filosofia que se publicaram desde o tempo de Platão até
hoje.
Muitas correntes filosóficas e muitos filósofos, sobretudo os
teólogos da Idade Média, tudo fizeram para justificar essa depre­
ciação desonrosa da filosofia. É muito conhecida a frase “ discussões
bizantinas” , ou “ questões escolásticas” , para definir certos tipos de
filosofias ou de filósofos que discutem questões estéreis, tais como:
— Quantos anjos cabem na ponta de um alfinete?
— Qual o sexo dos anjos?

31
— Onde fica o purgatório?

E muitos outros problemas que são, na realidade, falsos pro­


blemas.
Mas não é só antigamente que se discutiam tais disparates. Ainda
hoje vemos muitos autores célebres gastar “ tinta e latim” discutindo
seriamente se os deuses eram astronautas, se os habitantes dos discos
voadores adivinham o nosso pensamento, se as venusianas (habitantes
do Planeta Vénus) são muito sensuais, ou os marcianos (habitantes do
Planeta Marte) são muito belicosos ou se os lunáticos (habitantes da
Lua) são mesmo loucos, apesar de que não temos nenhuma prova
científica da existência de tais seres e provavelmente não teremos, pois
as recentes pesquisas astronáuticas mostraram que nesses planetas não
há sinal de vida de seres superiores.
A maioria absoluta dos livros de filosofia, publicados atualmente
em certos países culturalmente atrasados, pertencem a essa categoria
de falsos problemas. Num estilo hermético, esotérico, obscuro,
prolixo e confuso, e numa linguagem enigmática, rebuscada e sofis­
ticada, os autores escrevem gigantescos calhamaços, tecendo longas
discussões bizantinas e escolásticas sobre problemas que não existem,
e, se existem, poderiam ser ditas em algumas páginas num estilo ático,
sóbrio, numa linguagem clara, concisa e precisa.
Se eles não o fazem, é porque não podem ou não querem exte­
riorizar seus pensamentos escusos, ou, então, querem esconder a sua
ignorância e sua incapacidade. Como diz muito bem Michel Foucault:
“ O hermetismo é um abuso de poder de alguns intelectuais, que se
fecham num discurso quase inacessível, para ficarem imunes às crí­
ticas e polêmicas” . (Michel Foucault, Pasquim, 6/6/73).
Mas, assim como em todos os domínios do conhecimento existem
o autêntico saber e o falso saber, assim também na filosofia é neces­
sário distinguir aquilo que é verdadeiramente ciência filosófica da­
quilo que é falsa especulação filosófica. E esta última não deve com­
prometer a verdadeira filosofia — que existe, tem valor e é absolu­
tamente necessária a qualquer ser humano, classe social ou país.
Na realidade todos nós filosofamos sem saber. Desde o homem
primitivo até o homem civilizado, todos nós aspiramos saber, co­
nhecer a essência das coisas, em uma palavra — a verdade. Já na an­
tiga Grécia, essa aspiração ao saber foi chamada de Filosofia.
Etimologicamente a palavra filosofia vem do grego (filia =
amor; sofia = sabedoria) e significa “amor à sabedoria” , “ amante
do saber” . A filosofia nasceu na Antiga Grécia. Naquele tempo não

32
havia ciências particulares e os pensadores da época chamavam-se
sofos, isto é, sábios. Pitágoras, por modéstia, preferiu a palavra fi­
lósofo, isto é, amigo ou amante da sabedoria. A sabedoria, para os
primeiros sábios gregos, compreendia não só o que hoje denomi­
namos ciência, isto é, a explicação das coisas pelas suas causas reais e
naturais, como também sabedoria propriamente dita, isto é, amor da
verdade, a prática da virtude e a prudência na conduta.
A filosofia tinha, então, por finalidade, conhecer os primeiros
princípios da realidade, o substrato último das coisas, a origem, a es­
sência, o valor e o sentido do Universo e da Vida, bem como a con­
duta virtuosa.

2 — A Á R V O R E D O CONHECIMENTO

O conhecimento humano começou com a filosofia. Temos a ten­


dência de separar a filosofia das outras ciências; entretanto, elas não
estão isoladas, mas formam um todo. A realidade exterior não é for­
mada de segmentos, setores, departamentos estanques, separados por
uma espécie de muralha chinesa. A realidade é um todo inseparável.
Na natureza e na sociedade tudo está ligado, tudo é interdependente.
É por considerações práticas e didáticas que dividimos a realidade em
diferentes aspectos. Como não podemos conhecê-la profundamente,
de um só golpe, como um todo que é, então estudamos um mesmo
fenômeno natural ou social sob aspectos diferentes. Esta é a razão
porque nasceram e nascem ainda diferentes ciências.
Todos os conhecimentos do homem são interdependentes, for­
mando, assim, simbolicamente uma árvore — a árvore do conheci­
mento humano. O tronco dessa árvore é a filosofia; as ramificações —
as diferentes ciências particulares.
Antigamente os conhecimentos acerca do cosmos, das coisas, dos
homens e das sociedades, devido ao seu caráter especulativo, faziam
parte da Filosofia, em geral, e da Filosofia da Natureza, em parti­
cular.
Graças ao desenvolvimento da técnica e à aplicação dos métodos
científicos no estudo de diferentes fenômenos, várias disciplinas, que
antes faziam parte da Filosofia, foram paulatinamente se destacando
da mesma e tornando-se ciências autônomas sobre determinado as­
pecto da realidade. Abaixo damos, na ordem cronológica, o nasci­
mento das ciências particulares e seus principais fundadores:

Matemática — séc. 3 a.C. — Euclides


Astronomia — séc. 16 — Copérnico

33
Física — séc. 17 — Galileu
Química — séc. 18 — Lavoiser
Biologia — séc. 19 — C. Bernard e G. Mendel
Antropologia — séc. 19 — Lamarck, Darwin
Psicologia — séc. 19 — Wundt, Fetchner, Freud
Sociologia — séc. 19 — Comte, Durkheim, Marx e Engels

A essa lista é necessário acrescentar a formação de uma filosofia


científica (em contraposição à filosofia especulativa e metafísica clás­
sica). Entre seus fundadores modernos podemos mencionar o empiris­
mo inglês do séc. 17, o materialismo francês do séc. 18, a dialética de
Hegel, o materialismo e ateísmo de Feuerbach, que tornaram possível
a criação de uma filosofia científica que é o materialismo dialético e
histórico elaborado por Marx e Engels, e seus epígonos Plekhanov,
Lenin e muitos outros.
Assim, a filosofia é o alfa e o ômega do saber, a base e a pirâmide
do conhecimento. É a rainha das ciências, que orienta as demais ciên­
cias mas que, por sua vez, se alimenta delas. A filosofia sem as ciên­
cias particulares é vazia, mas as ciências sem uma filosofia científica
são como os viandantes extraviados que erram pelo mundo, sem saber
onde estão e o que fazer com os seus conhecimentos.

3 — FINALIDADE PRÁTICA DO CONHECIMENTO


Qual o motivo determinante dessa aspiração natural ao conhe­
cimento? Aristóteles considerava que o desejo do saber, a curiosidade
espontânea para o conhecimento é inato do homem, isto é, inerente à
natureza humana. Ele afirmava que “ foi a admiração que moveu os
primeiros pensadores às especulações filosóficas” .
Essa opinião de Aristóteles vem sendo repetida há mais de 2.500
anos como uma verdade absoluta. Assim, por exemplo, o filósofo con­
temporâneo Nicolau Hartmann acha que “ o último sentido do co­
nhecimento filosófico não é tanto resolver enigmas como descobrir
maravilhas” .
Mas, a explicação do célebre filósofo grego e de seus adeptos é
superficial, pois as causas últimas da gênese do pensamento filosófico
não se encontram nesse sentimento de curiosidade e de admiração que
procura conhecer o mundo e os homens pelo simples prazer de co­
nhecer, saber com o exclusivo objetivo de saber. Essa curiosidade de
saber é mais conseqüência do que a causa.
Na realidade, a filosofia, como qualquer outro tipo de saber tem
uma finalidade prática. A curiosidade de saber, o desejo de conhecer é,

34
em última análise, uma exigência da necessidade de sobrevivência,
inerente a todo ser humano.
Segundo nossa teoria da natureza humana, teoria essa que defen­
demos no nosso próximo trabalho1, a causa primeira e remota das di­
ferentes atividades teóricas do homem é a necessidade de sobrevivência
individual, a necessidade de preservação ou de conservação individual.
Este é o substrato primeiro e último, de suas atividades. Tudo o mais é
uma conseqüência derivada dessa fonte primeira que nós chamamos de
quintessência do ser. É para satisfazer esse impulso de preservação in­
dividual que o homem precisa conhecer, trabalhar e se multiplicar —
pois de outro modo ele não poderá sobreviver.
Para garantir sua sobrevivência individual e da espécie o homem
precisa obter os meios de vida (comer, abrigar-se etc.). Para isso o
homem é obrigado a trabalhar juntamente com os seus parentes e
semelhantes. No processo do trabalho, ele enfrenta uma infinidade de
obstáculos existentes no mundo circundante que são os fenômenos e
as forças hostis da natureza e da sociedade. Para vencer essas forças
hostis é absolutamente necessário conhecê-las corretamente. Conhecer
corretamente as coisas significa conhecer a verdade ou a essência das
coisas. Ora, a filosofia é justamente a disciplina que estuda a essência
de todas as coisas: do cosmos, da vida, do homem e da sociedade.
Assim, o conhecimento surgiu da necessidade prática de so­
breviver, principalmente no processo da produção material. O desen­
volvimento posterior da produção material foi exigindo cada vez mais
novos conhecimentos. Assim, nasceram as diferentes ciências e téc­
nicas.
Por exemplo, da necessidade de medir a superfície das terras e o
produto do trabalho do homem, nasceram as ciências matemáticas; da
necessidade de construir casas, pontes, ferramentas, máquinas etc.,
nasceram as ciências naturais e técnicas; da necessidade de garantir
sua saúde e combater as doenças físicas e psíquicas nasceram as ciên­
cias biológicas, psicológicas e médicas; da necessidade de garantir sua
vida social e torná-la mais suportável, à medida que ela ia se tornando
mais complexa, nasceram as ciências sociais (ciências econômicas,
jurídicas, políticas, sociais etc.); da necessidade de compreender sua
origem e seu destino nasceram as ciências antropológicas e filosóficas;
e, finalmente, da necessidade de saber como se deve agir de modo
mais adequado nasceram as disciplinas axiológicas (morais, reli­
giosas etc.).

1. O trabalho que estamos escrevendo tem como título provisório “ O Impulso de


Sobrevivência — A Quintessência do Ser.”

35
Portanto, é para utilizar os resultados do conhecimento em sua
atividade prática e para satisfazer suas necessidades vitais (impulso de
sobrevivência do indivíduo e da espécie) é que o homem procura
conhecer o mundo circundante e as leis que regem seu desenvolvimen­
to, a fim de extrair disso um código de comportamentos adequado e
eficiente.

Saber é poder — dizia Bacon


Saber é prever — dizia Comte
Saber é vencer e sobreviver — podemos dizer hoje.

Antigamente venciam os mais fortes fisicamente. Agora vencem


os mais fortes intelectualmente, isto é, os que mais sabem, os que têm
mais conhecimentos.
Assim, o conhecimento, por mais abstrato que seja, sempre tem
uma finalidade prática. Eis porque a prática, a atividade material
produtiva dos homens é, ao mesmo tempo, a fonte de nossos co­
nhecimentos e o objetivo final dos nossos conhecimentos.

4 — CONCEITO ATU AL DE FILOSOFIA

Para compreender bem a essência da filosofia é necessário, antes


de tudo, imbuir-se da idéia de que, como qualquer outra disciplina, a
filosofia também é uma categoria histórica. Isto significa que ela não
só tem uma história, como muda de problemática no decorrer dos
tempos. Assim, no decorrer de sua história, mudou-se o conceito, o
objeto e o objetivo da filosofia.
A filosofia atual não é mais aquela que pretendiam que fosse no
tempo de Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Hegel e outros,
como um conjunto de conhecimentos abstratos e desinteressados
sobre problemas metafísicos e transcendentais, divorciados da rea­
lidade e da vida social.
Atualmente, a filosofia é uma ciênda que estuda as leis mais
gerais do ser, do pensamento, do conhedmento e da ação. É uma con­
cepção científica do mundo como um todo, do qual se pode deduzir
certa forma de conduta. Fundamentalmente, a filosofia estuda a es­
sência e valor de todas as coisas: do cosmos, da vida, do homem e da
sociedade. É uma reflexão critica sobre a origem, a essência e a razão
do cosmos e do homem. Hoje, a filosofia é um instrumento de ação e
transformação do mundo, com o objetivo de melhorar a existência
humana, de tornar mais humana a vida social.

36
A filosofia só é válida se for uma filosofia da vida e para a vida.
A filosofia divorciada da vida prática é estéril e inútil, assim como a
vida é cega sem a filosofia. A filosofia é a luz que ilumina nossa vida,
indicando a razão do universo, do homem e da sociedade. É por isso
que desde tempos imemoriais os povos dizem que o saber é luz.

5 — OS PROBLEMAS FUNDAMENTAIS DA FILOSOFIA

A preocupação fundamental do homem em todos os tempos foi


de caráter prático-ético, isto é, saber como agir, qual deve ser a sua
conduta perante o mundo e perante os seus semelhantes, a fim de
sobreviver e vencer na vida.
A prova disso que afirmamos está no fato inegável que as reli­
giões, que são doutrinas essencialmente éticas, precederam em todos
os povos, as reflexões filosóficas sobre o cosmos. A prioridade do
problema ético sobre o problema cosmológico e gnosiológico é evi­
denciada pelas investigações históricas sobre o caráter essencialmente
religioso-ético do pensamento filosófico na Antiga China, índia,
Egito e Mesopotâmia.
Na Grécia, o problema ético chega ao seu cume com Sócrates ao
colocar seu lema predileto “ conhece-te a ti mesmo” como preocu­
pação fundamental das cogitações filosóficas. Sócrates exprimiu
muito bem essa preocupação ética do homem ao dizer que o homem é
aquela criatura que está constantemente à procura de si próprio, uma
criatura que a cada momento deve examinar e investigar as condições
de sua própria existência.
O pensamento filosófico nasceu no momento em que o homem
teve noção clara de sua fraqueza como ser biológico e moralmente im­
perfeito, quando problematizou a si mesmo, como o mais agudo e
dilacerante dos problemas.
A filosofia se impõe como tarefa a partir do momento em que o
homem cotidiano cai em si mesmo e pergunta pelo sentido de sua
própria existência ou, como dizia Epitecto, quando ele tem a cons­
ciência de sua própria fraqueza ou de sua impotência nas coisas neces­
sárias. Ou, como diz E. Brehier, a filosofia começou quando as afir­
mações da consciência espontânea sobre o homem e sobre o universo
se tornaram problemáticas.
Assim, o objetivo último da filosofia é encontrar respostas a estas
interrogações inquietantes do homem sobre si mesmo: O que somos?
De onde. viemos? Para onde vamos? Qual é a nossa razão de ser sobre
a terra? Será o homem realmente o senhor de sua vida ou é um simples

37
joguete de forças cegas que agem no universo? Estaremos destinados a
perecer completamente ou possuímos uma alma imortal? Qual o ver­
dadeiro significado da-nossa presença no mundo? Qual é o sentido úl­
timo do universo e vida humana?
Para tirar, dessas diversas reflexões, lições práticas e regras de
conduta, é, portanto, essencial, ter resolvido o problema do porque da
vida. “ A maior desgraça do homem não é a pobreza, nem a doença,
nem a morte; é a infelicidade de ignorar para que nasce, sofre e
morre” — dizE. Lamy.
É por não ter podido responder a estas questões que J. P. Sartre
julga a vida absurda. Com efeito, não se pode pôr coerência na nossa
vida individual sem responder a essas perguntas. Como essas pergun­
tas se aplicam ao conjunto da humanidade, muitos filósofos contem­
porâneos procuram ‘‘o sentido da história” , isto é, o destino da
humanidade.
Mais tarde os filósofos-moralistas compreenderam que para
resolver corretamente o problema da conduta e do destino do homem
era necessário conhecer mais profundamente o mundo, sua origem e
sua finalidade.
Nasceram então as reflexões filosóficas de ordem ontológica (que
alguns chamam de metafísica), isto é, sobre a relação entre o ser e o
pensamento, que é o problema fundamental da filosofia. Foi no
momento em que o homem formulou essa pergunta mais extensa e
profunda sobre a questão do ser primordial de todas as coisas que a
verdadeira filosofia nasceu.
Assim, foi na Antiga Grécia do séc. VI a. C. (uns 2.500 anos
atrás) que, pela primeira vez na história da humanidade, se deram os
primeiros passos na passagem do mito para o logos, isto é, da men­
talidade mítica-teísta para o pensamento filosófico-científico. Esse
pensamento filosófico-científico consiste em explicar os fenômenos
por suas causas reais e naturais, através da razão e da reflexão cien­
tífica.
Os primeiros Filósofos gregos começaram a refletir sobre o
problema fundamental da filosofia: qual é o princípio e a essência de
todas as coisas? O que é primordial: o ser ou o pensamento? Qual é a
causa real e natural das coisas: do Cosmos, da Vida, do Homem, da
Sociedade e do Pensamento?
Os sábios ou filósofos de então fizeram as primeiras tentativas de
explicação naturalista, determinista, ateísta, materialista e evolu-
cionista da origem e evolução do mundo, da vida, do homem e da
sociedade.

38
Esta passagem do problema prático (ético) para o problema
teórico (ontológico) se reflete na definição que Aristóteles dá, então,
da filosofia como “ciência das primeiras causas e dos primeiros prin­
cípios” .
Mas ao estudar as causas reais e naturais de todas as coisas, os
filósofos compreenderam que para resolver corretamente esse pro­
blema, era necessário elaborar uma teoria do conhecimento, a fim de
estabelecer que valor têm os nossos conhecimentos sobre o mundo e o
homem.
Assim, ao problema ético (Teoria dos Valores) segue-se o pro­
blema ontológico (Teoria do Ser), e a este problema gnosiológico
(Teoria do Conhecimento), que a partir de Kant (século 18) passou a
constituir a base de toda a Filosofia.

6 — DIVISÃO DA FILOSOFIA

Assim, na História da Filosofia, encontramos sempre esses dois


aspectos: teórico — o problema do ser e do conhecimento; e prático —
o problema da ação. A filosofia teórica compreende a Ontologia e a
Gnosiologia, que se limitam a estudar o objeto tal como ele é (juízos
de realidade). A filosofia prática compreende a Axiologia que indica
como deve ser o ideal nos diferentes domínios da conduta humana
(juízos de valor).
Como ciência que estuda as leis mais gerais do ser, do conheci­
mento e da ação, podemos distinguir na filosofia três partes funda­
mentais:
I — ONTOLOGIA OU TEORIA DO SER: Estuda a origem, a
essência e a causa primeira do cosmos, da vida e do pensamento; e a
relação entre o ser e o pensamento.
Responde às perguntas: Qual é a realidade primordial: o ser ou o
pensamento? Qual é a origem e a essência do cosmos e da vida hu­
mana? O que somos? De onde viemos?
Na filosofia clássica, esses problemas eram estudados pela
Metafísica Geral.
II — GNOSIOLOGIA OU TEORIA DO CONHECIMENTO:
Estuda a origem, a essência e a validade do conhecimento.
Responde às perguntas: O que podemos conhecer? O que é o
conhecimento? Existe a verdade? Como podemos conhecê-la? Qual é
o critério da verdade? Qual é o valor dos nossos conhecimentos?

39
III — AXIOLOGIA OU TEORIA DOS VALORES: Estuda a
origem, a essência e a evolução dos valores existenciais e indica os
princípios da ação.
Responde às perguntas: Quál é o valor das coisas? Como de­
vemos agir? O que devemos fazer? Como devemos comportar-nos? O
que podemos esperar? Para onde vamos? Qual é o sentido da vida?
Qual é o destino da humanidade?
A axilogia compreende a Filosofia do Bem (Ética), a Filosofia do
Belo (Estética), a Filosofia do Justo (Direito, Política), a Filosofia do
Homem (Antropologia filosófica), a Filosofia do Destino do Homem
e do Universo (Escatologia), a Filosofia da Fé (Teologia) etc.. Na
filosofia clássica estes últimos problemas eram estudados pela Me­
tafísica Especial.
As três partes da Filosofia — Ontologia, Gnosiologia e Axiologia
estão intimamente ligadas.
De um lado, a solução do problema do conhecimento depende da
Ontologia, isto é, da concepção que se tem do mundo e do homem.
Por outro lado, da solução do problema do conhecimento depen­
de a possibilidade e o valor da Ontologia: se a nossa razão é incapaz de
conhecer a essência das coisas, qualquer Ontologia torna-se impos­
sível e nós não poderemos chegar a nenhuma certeza sobre a existência e
a essência da matéria, do pensamento e de outros problemas ontoló­
gicos e metafísicos.
Em conseqüência, a Axiologia ou Teoria dos Valores, que se
baseia na Ontologia, desmorona com a base que a sustenta.
Assim, a solução do problema do conhecimento é da mais alta
importância para a formação de uma concepção do mundo e do
homem.
Conclusão: Para resolver eficientemente os problemas ontoló­
gicos e axiológicos (existenciais ou metafísicos), cumpre antes de tudo
estar armado com uma gnosiologia científica capaz de nos indicar o
melhor meio para se obter um conhecimento verdadeiro das coisas, is­
to é, para formar uma concepção científica do cosmos, da vida, do
homem, da sociedade e do pensamento.
Nesse sentido, a Gnosiologia é o núcleo, a base de toda filosofia.
É a ciência filosófica fundamental. Eis porque achamos que qualquer
disciplina, seja filosófica ou não, deveria ser precedida com o estudo
dos problemas fundamentais do conhecimento.

40
7 — DIVISÃO DA GNOSIOL OGIA

A Gnosiologia (do grego gnosis = conhecimento e iogos = ciên­


cia) ou Teoria do Conhecimento é a ciência que estuda os problemas
fundamentais do conhecimento.
A Gnosiologia ou Teoria do Conhecimento pode ser dividida em
três partes:
1) GNOSIOLOGIA — propriamente dita. Estuda a essência do
conhecimento, a possibilidade do conhecer a realidade, as origens ou
fontes do conhecimento, as formas ou espécies em que se reveste o
conhecimento, bem como a validade do conhecimento em geral, isto
é, o que é a verdade e qual o seu critério.
2) EPISTEMOLOGIA — (do grego episteme = ciência). Estuda
a validade do conhecimento científico (das ciências particulares).
3) METODOLOGIA — Estuda os meios ou métodos de inves­
tigação do pensamento correto e do pensamento verdadeiro. Divide-se
em:
A) Lógica Formal — Estuda os princípios formais do pensamen­
to. Estuda o pensamento correto, isto é, a coerência do pensamento
consigo mesmo.
B) Lógica Dialética — Estuda as condições subjetivas-objetivas
do conhecimento da realidade com o fim de alcançar a verdade ob­
jetiva. Estuda o pensamento verdadeiro, isto é, a correspondência en­
tre o pensamento e o objeto (a realidade objetiva).
No presente livro estudaremos primordialmente a primeira parte,
isto é, a Gnosiologia propriamente dita. E só eventualmente toca­
remos nas demais partes.

8 — CONCEITO DE CONHECIMENTO

Quando se fala em conhecimento, tem-se em vista o conhecimen­


to da verdade, do pensamento verdadeiro, pois um conhecimento fal­
so não é propriamente conhecimento, mas sim erro e ilusão. Mas
como na realidade nem todos os nossos conhecimentos são verda­
deiros, usamos esse termo em geral para o verdadeiro e o falso co­
nhecimento.
Então, vejamos o que nós entendemos por conhecimento em
geral, independente de ser verdadeiro ou falso. Todo conhecimento
representa uma relação entre o sujeito cognoscente (nossa mente, nos-

41
sa consciência) e o objeto conhecido (os fatos, objetos e fenômenos da
realidade exterior).
O conhecimento pode significar tanto o processo de conhecer,
como o produto desse processo.
Como processo, podemos definir o conhecimento como sendo o
reflexo e a reprodução do objeto na mente.
Como produto desse processo temos os conhecimentos sensíveis e
racionais: os nossos conhecimentos de matemática, de física, biologia,
psicologia, sociologia, filosofia etc., que são estudados pelas respec­
tivas disciplinas.
É evidente que no presente trabalho estudaremos o conhecimento
v>
juio processo. Nos próximos capítulos abordaremos os seguintes
problemas que constituem o objeto da Gnosiologia propriamente dita:
1. Os graus de conhecimento
2. A essência do conhecimento
3. A possibilidade do conhecimento
4. As fontes do conhecimento
5. As espécies e a forma do conhecimento
6. A verdade e seu critério
7. O conhecimento intuitivo ou criativo

42
II — OS GRAUS DO CONHECIMENTO

Como já dissemos, o conhecimento pode ser falso e verdadeiro,


fictício e real, superficial e profundo, mais ou menos falso ou ver­
dadeiro. Assim, entre o conhecimento falso e verdadeiro há toda uma
gama, uma escala bem ampla.
De acordo com sua profundidade e sua aproximação da verdade,
podemos distinguir, de um modo geral, três graus de conhecimento:
1. Vulgar
2. Científico
3. Filosófico

1 — CONHECIMENTO VULGAR

É o conhecimento cotidiano, ametódico, isolado, casual, super­


ficial, adquirido em nossa atividade diária. É o saber do homem
comum que se limita às noções correntes e superficiais sobre as coisas
e os fenômenos, sem se preocupar com as conexões causais que existem
entre os fenômenos. É um conhecimento vago que só constata os fatos
sem procurar explicá-los cientificamente pelas suas causas reais e
naturais. De um modo geral, coincide com o conhecimento empírico-
sensorial no sentido vulgar.
Por exemplo: muitas pessoas sabem, por experiência, que os cor­
pos caem ou sobem quando abandonados no espaço, que as roupas
molhadas secam mais depressa quando estendidas ao sol, que o leite
ferve chegando a certo grau de temperatura, mas não sabem ou não
procuram determinar exatamente suas causas reais.

43
A essa categoria de conhecimento pertencem muitos conhecimen­
tos falsos, nossas supertições, crendices, preconceitos, as informações
por “ ouvir falar” etc..
Nem sempre, porém, é um conhecimento errado, pode ser até
verdadeiro, porém, não temos a certeza de sua verdade.
Precisamos tomar cuidado com os conhecimentos vulgares e não
fazê-los passar por verdadeiros até serem comprovados.
Numa sociedade de transição como a nossa, em que as coisas
mudam tão depressa porque o progresso é rápido, para não ficarmos
em desvantagem em relação aos outros, é necessário abandonar os
conhecimentos vulgares e as idéias já caducas para adquirir o máximo
oossível de conhecimentos científicos, comprovados, verdadeiros.
Bacon dizia que “ o homem mais perigoso é aquele que sabe pelo
meio” . De fato, o ignorante é humilde porque ele sabe que não sabe; o
sábio é modesto porque ele tem consciência de que aquilo que ele sabe
é apenas uma pequena parcela do que ele ainda não sabe. Agora,
aquele que sabe pelo meio é pretensioso e pensa que sabe tudo. De­
vemos temer o homem que leu só um livro, pois ele vai julgar tudo por
esse único livro — o que é muita presunção.

2 — CONHECIMENTO CIENTÍFICO
Consiste no conhecimento causal e metódico dos fatos e dos
fenômenos, colocando uns em relação com os outros, de modo que é
possível descobrir-lhe a uniformidade e determinar as leis que o re­
gem.
A palavra ciência vem do latim scientia e significa saber, co­
nhecimento. “ Saber uma coisa de modo absoluto é saber a causa que
a produziu e que a causa não poderia ser outra” (Aristóteles). A ciên­
cia é o conhecimento pelas causas reais e naturais comprovadas. Ciên­
cia é um sistema de conhecimentos metódicos sobre a natureza, a
sociedade e o pensamento, a verdade dos quais é verificada e precisada
no decorrer da prática social. Seu objetivo consiste em estudar as
causas reais dos fenômenos e descobrir as leis objetivas pelas quais
eles se regem.
Só é científico o conhecimento que for provado, isto é, verificado
e demonstrado.

3 — CONHECIMENTO FILOSÓFICO

A filosofia também é uma ciência que procura conhecer as causas


reais dos fenômenos, não as causas próximas como nas ciências par­

44
ticulares, mas as causas profundas e rem tas de todas as coisas. O
conhecimento filosófico possui mais profundidade, universalidade e
radicalidade do que o conhecimento científico. “ A filosofia é a ciência
das primeiras causas e dos primeiros princípios” (Aristóteles).
A filosofia representa o complemento ou a integração das ciên­
cias particulares. Enquanto as ciências estudam as leis pelas quais se
regem determinados fatos e fenômenos particulares, a filosofia
unifica todo o conjunto das leis científicas em leis supremas. ‘‘A ciên­
cia é o saber parcialmente unificado; a filosofia é o conhecimento
totalmente unificado” (Spencer).
Entre a ciência e a filosofia não existe diversidade de processo
cognoscitivo, mas apenas diferenças de grau e de generalização. O
conhecimento filosófico abrange e supera o conhecimento científico.
É o conhecimento mais profundo e geral que existe.
Kant disse que as ciências estudam a realidade e a filosofia o faz
também. Toda vez que uma ciência estuda determinado problema, a
filosofia poderia considerar-se supérflua. Há, porém, um fato que a
ciência não estuda, nem pode estudar, que é a própria ciência posta
como objeto. Como disse Kant, “ a filosofia apresenta-se, pois, como
o exame crítico das condições de certeza das próprias ciências” .
As ciências elaboram-se e desenvolvem-se a partir de certos pres­
supostos que os cientistas, enquanto tais, não procuram explicar. A
mesma coisa se dá com o jurista. O juiz ou o advogado podem nos
dizer se uma relação jurídica está ou não de acordo com a lei, isto é,
sobre o que seja “ de direito” (quid sit juris), mas não podem definir
o que seja “ o direito” (quid sit jus) e “ qual seja o critério universal
mediante o qual se pode reconhecerem geral o justo e o injusto.” (Cf.
Miguel Reale, Filosofia do Direito, Ed. Saraiva, S. Paulo, 1969, 5.a
edição, p. 30).
Como já dissemos, atualmente a filosofia é a ciência que estuda
as leis mais gerais do ser (cosmos, vida, homem, sociedade) e do pen­
samento, isto é, do conhecimento e da ação. A filosofia é uma con­
cepção geral do mundo como um todo, da qual se pode deduzir certas
regras de conduta para vencermos na luta pela vida. Para atingir esse
objetivo com eficiência e sucesso, é necessário que ela seja científica,
isto é, que a filosofia esteja fundamentada em conhecimentos cien-
tificamente comprovados.
A filosofia tem, portanto, dupla finalidade:
O problema teórico do conhecimento — juízos de realidade.
O problema prático da ação — juízos de valor.

45
A religião também é, como a filosofia, uma concepção geral do
mundo, da qual se deduz uma certa forma de conduta. Só que a fi­
losofia é uma concepção científica e a religião não é. A religião exis­
tiu em todos os povos’. Para as massas populares, a religião desem­
penha o papel de filosofia. Mas, enquanto a religião é baseada em
dogmas, que são aceitos pela fé e que não podem ser provados e nem'
admitem crítica, a filosofia é baseada em principios estabelecidos
pelas ciências, isto é, comprovados, e é uma reflexão crítica por ex­
celência. A filosofia científica a todo momento põe em dúvida a ver­
dade dos princípios. Ela não só critica os princípios das ciências par­
ticulares, mas também os da própria filosofia.
Resumindo: O conhecimento vulgar não procura as causas reais
dos fenômenos e, por ignorar estas, procura às vezes explicar os fe­
nômenos por causas falsas ou fictícias que, por isso mesmo, não
podem ser provadas.
O conhecimento científico procura as causas reais e naturais
próximas, as leis que regem determinados fenômenos particulares, e
demonstra a verdade dos mesmos por meio de diferentes tipos de
provas.
Mas, ele não comporta valores, enquanto que o conhecimento
filosófico vai muito além dos fenômenos, procura conhecer as causas
remotas e profundas, ou seja, as causas primeiras e últimas, a essência
profunda das coisas, sua origem, sua finalidade, seu valor etc.... “ Lá
onde as outras ciências param, onde sem mais indagar aceitam os
pressupostos, aí entra o filósofo e começa a investigar” (Bochenski).
Por outro lado, as ciências estudam aspectos particularès da
realidade. Por exemplo: O homem pode ser estudado do ponto de vis­
ta da química (suas propriedades químicas), da biologia, da psico­
logia, da antropologia etc.. Já, a filosofia estuda o homem como um
todo e procura conhecer sua essência íntima, o que somos, de onde
viemos e para onde vamos.
O verdadeiro filósofo deve conhecer as leis fundamentais de
todas as ciências. O conhecimento filosófico é universal, radical e
crítico por excelência. Cada um de nós pode e deve ter espírito cien­
tífico-filosófico.

4 — A EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO HUMANO

O conhecimento humano pode ser também estudado do ponto de


vista de sua evolução. Uma das teorias mais interessantes a esse res­
peito é a “ Lei dos Três Estados” do filósofo francês Comte.

46
Augusto Comte (1798-1857) — fundador da filosofia positivista e
da sociologia como ciência, em sua Dinâmica Social elaborou uma
teoria sobre a evolução do pensamento do homem e da humanidade
no decorrer da História. Esse movimento dinâmico ele o expressou na
Lei dos Três Estados.
Segundo essa lei, o pensamento humano, na sua evolução, passa
pelos três estados ou estágios teóricos seguintes: Teológico, Metafísico
e Positivo. Os estados ou estágios se distinguem entre si pela maneira
de conceber as causas dos fenômenos, sejam fenômenos naturais ou
sociais.
Vamos resumir, com nossas palavras, como Comte concebia es­
ses estados ou estágios, ilustrando com exemplos nossos.
1 ESTADO TEOLÓGICO OU FICTÍCIO: É o estágio mais
atrasado. O espírito humano, devido a sua ignorância, ainda não
conhece as causas reais e naturais dos fenômenos e explica os fenô­
menos pela ação direta e contínua de forças fictícias e agentes so­
brenaturais: mágicas, míticas, divinas (fetiches, duendes, espíritos,
deuses, Deus etc.), cuja intervenção arbitrária explica todas as
anomalias aparentes do universo.
O estado ou estágio teológico compreende três fases:
A) Fetichismo: É a fase mais primitiva, que não difere do estado
mental a que atingem os animais superiores. Consiste em atribuir aos
corpos exteriores numa vida essencialmente análoga à nossa. Nessa
fase os homens atribuem a causa dos fenômenos a forças mágicas
imanentes que existiriam dentro dos objetos, (coisas, animais ou pes­
soas). Certos povos adoravam o sol, outros a vaca, outros os totens
(totemismo) e outros objetos por acreditarem que os mesmos pos­
suíam o poder de fazer o bem ou o mal, e, por isso mesmo, convinha
ao homem estar em boas relações com os mesmos.
B) Politeísmo: Nessa fase a força mágica é retirada dos objetos
materiais para ser misteriosamente transportada a diversos seres fic­
tícios, habitualmente invisíveis, cuja intervenção ativa e contínua se
torna daí por diante a origem direta de todos os fenômenos naturais e
humanos. É quando os homens atribuem a causa de um grupo de
fenômenos à vontade de um deus correspondente que dirigiria esse
setor.
Eis alguns exemplos tirados da religião politeísta da Antiga
Grécia e Roma: Eros — deus do amor, Vénus — deusa da beleza, Diana
— deusa da caça, Eolo — deus do vento etc.. Eles pensavam que o mar
está bravo porque Netuno está zangado; a Terra treme e solta fogo por-

47
que Vulcano está trabalhando; a colheita foi boa porque Ceres assim o
quis etc..
C) Monoteísmo: Quando os homens atribuem a causa de todos
os fenômenos à vontade arbitrária de um só deus.
Por exemplo, na religião monoteísta judaica-cristã-maometana,
Deus é o criador de tudo que existe e responsável por tudo que acon­
tece no mundo: morre uma criança, há genocídio, alguém nasce
aleijado, há um terremoto e morrem milhares de pessoas — tudo por­
que assim foi a vontade de Deus.
2) ESTADO METAFÍSICO OU ABSTRATO: É o estágio tran-
sitório^que na realidade, é uma simples modificação geral do estado
anterior, quando os agentes sobrenaturais são substituídos por forças
ou virtudes abstratas, verdadeiras entidades, abstrações personifi­
cadas, inerentes aos diversos seres do mundo e concebidos como ca­
pazes de engendrar por si mesmos todos os fenômenos.
Eis alguns exemplos de explicação metafísica ou abstrata: Por
que os corpos caem? É porque eles têm horror ao vácuo (Aristóteles).
Por que chove? É porque a água quer voltar à sua origem. Por que o
ópio faz dormir? É porque tem virtude dormitiva.
No século 18, o químico Stall, por ignorar a causa real da com­
bustão dos corpos, imaginou um fluido que ele chamou de jlogístico,
que seria o responsável pela combustão. Por exemplo, o algodão pega
fogo porque tem qualidade flogística.
3) ESTADO POSITIVO OU CIENTÍFICO: É o estágio mais
evoluído, quando os homens explicam os fenômenos por suas causas
naturais e reais. Nesse estado os homens abandonam a explicação
teológica e metafísica da realidade e tentam descobrir as leis reais que
regem os fenômenos, isto é, as relações constantes de sucessão e si­
militude, que existem entre os fenômenos, mediante a observação,
a experi mentação e comprovação na realidade.
Eis alguns exemplos de explicação científica: A criança nasce
porque o óvulo feminino foi fertilizado pelo espermatozóide mas­
culino. Existem guerras porque há choques de interesses econômicos.
Chove, não porque assim quer o mána, ou Eolo, ou Deus, ou a água
quer voltar às suas origens, mas porque nuvens carregadas de vapor de
água com temperaturas e cargas elétricas diferentes, se chocam entre
si. O vapor de água se liquefaz e cai em forma de chuva. O trovão e
o raio não são causados por nenhuma força mágica, sobrenatural ou
abstrata, nem pela ira dos deuses, mas pelo choque de nuvens car­
regadas com cargas diferentes de eletricidade. Uma criança nasce cega
ou aleijada não por feitiço ou por vontade divina, mas por causa

48
natural e real, que é necessário descobrir (doenças venéreas dos pais,
drogas nocivas ingeridas pela mãe durante a gravidez etc.).
A “ lei dos três estados” de Comte destinava-se a descrever a
evolução intelectual da humanidade ou a marcha progressiva do pen­
samento da humanidade. Como escreve Comte, “ Essa marcha é
regida por uma lei fundamental, aplicável a todas as nossas concep­
ções principais, a todos os ramos de nosso conhecimento e de nossa
organização” .
Assim, não só o conhecimento, mas, também, toda a história da
sociedade humana passaria por três “ estados” teóricos diferentes e
sucessivos: o estado teológico ou fictício, que se identifica com a An­
tiguidade; o estado metafísico ou abstrato que se identifica com a
Idade Média e o estado positivo ou científico que começa na Idade
Moderna.
Segundo Comte, não só a humanidade mas também o indivíduo,
na sua evolução mental, passa pelos três estados: na infância é teo­
lógico, na adolescência é metafísico e na idade adulta é positivo (ou
científico): “ Ao contemplar sua própria história, não se lembrará
cada um de nós de que, quanto às noções mais importantes, foi suces­
sivamente teólogo na infância, metafísico na juventude e positivo na
virilidade?” (A. Comte).
Cumpre anotar que, segundo Comte, nem todos os indivíduos
adultos chegam ao estado positivo ou científico. Em muitos deles res­
tam ainda, em menor ou maior grau, vestígios ou resquícios de estado
teológico e metafísico — resquícios esses que são verdadeiros em­
pecilhos para a formação de uma mentalidade ou de um espírito
positivo, científico — necessário para a compreensão verdadeira da
realidade.
OBSER VAÇÕES CRÍTICAS: A lei dos três estados de Comte foi
muito criticada e completamente esquecida pelos filósofos e soció­
logos, mas nem sempre essa crítica é procedente e esse esquecimento
justificável. Como diz Louis Weber “ ela ainda é a mais precisa e a mais
compreensiva que se tenha enunciada’’.
É verdade que nem todos os indivíduos e nem todas as sociedades
seguem essa evolução linear concebida por Comte. Mas uma coisa é
certa: o homem comum, iletrado ou ignorante, quando não conhece a
causa natural e real dos fenômenos, tem a tendência de atribuir a
causa a forças mágicas, sobrenaturais ou abstratas.
Por exemplo, ainda hoje há pessoas que acreditam no poder
mágico dos fetiches (amuletos, talismãs, figas, ferradura, pata de
coelho etc.) ou no poder sobrenatural dos diferentes santos ou deuses:

49
São Cristóvão — protetor dos motoristas; Santo Antônio — protetor
dos namorados; Santa Cecília — protetora das virgens; São Judas
Tadeu — protetor das causas impossíveis etc., etc.. Outros procuram
atribuir a causa de seus sucessos ou fracassos amorosos e financeiros à
influência dos astros, dos signos zodíacos etc., como fazem os adeptos
da astrologia.
Todos esses casos são exemplos de resquícios ou vestígios do es­
tado teológico (fetichismo e politeísmo) que sobrevivem até hoje na
mente do homem comum, inculto e ignorante. Sobrevivem também na
mente de muitos conhecidos pensadores quando eles tentam explicar
certos fenômenos, cujas causas reais ainda ignoram.
Já, a pessoa culta, que alcançou o estágio positivo e adquiriu o
espírito científico, quando não conhece a causa real e natural dos
fenômenos, rejeita categoricamente qualquer explicação teológica ou
metafísica. Se ele quer conhecer a causa de um fenônemo, ele tenta
formular uma hipótese em bases naturais, e só aceita como verdadeira
esta hipótese, depois que ela for confirmada pela experiência ou pela
prática social.
Não obstante as falhas, a filosofia positivista de Comte desem­
penhou um importante papel progressista na luta contra as doutrinas
teológicas e metafísicas dominantes no séc. 19. Ela teve muita reper­
cussão no mundo ocidental da época e influenciou muitos pensadores
modernos.
No Brasil, a filosofia positivista encontrou fervorosos adeptos
entre nossa elite cultural, sobretudo entre os nossos militares (que se
caracterizam pela sua tradição pacífica, progressista e cultural —
coisa rara entre os militares de outros países). Essa influência foi tão
grande que se materializou na nossa bandeira nacional. A divisa “Or­
dem e Progresso” é de inspiração positivista. Isto significa, segundo a
filosofia de Comte, que o Progresso só é possível dentro da Ordem.
Mas a maior contribuição do positivismo de Comte para o nosso
país foi a difusão do espírito científico e da sociologia como ciência
entre nossa intelectualidade e, conseqüentemente, nas nossas escolas
secundárias e superiores. Essa é a razão porque o Brasil foi um dos
primeiros países a criar cátedras de sociologia, graças ao que hoje
temos grandes centros de pesquisas sociológicas e excelentes soció­
logos formados no espírito positivo, científico.

50
III — A ESSÊNCIA DO CONHECIMENTO

Nós já falamos brevemente que o conhecimento representa uma


relação entre um sujeito e um objeto e que, como processo, o co­
nhecimento é o reflexo e a reprodução do objeto na nossa mente.
Vamos examinar com mais detalhes esse assunto, porque ele é o
problema fundamental, tanto da gnosiologia como da filosofia, pois
trata-se da essência das coisas e do conhecimento.
O ponto de partida de qualquer teoria do ser ou do conhecimento
é a resposta que dá ao problema fundamental da filosofia.

1 — O PROBLEMA FUNDAMENTAL DA FILOSOFIA

Este problema é um tanto abstrato e complexo, mas, dada a sua


grande importância, é necessário falar dele com mais detalhe. Ao ex­
por a problemática, procuraremos ser bastante claro e compreensível,
sem prejuízo da profundidade.
A questão fundamental da filosofia — que é objeto da Ontologia
— tem dois aspectos que denominaremos de ontológico e gnosioló-
gico:
O aspecto ontológico é a relação entre o ser e o pensamento, a
matéria e a consciência, no sentido de estabelecer o elemento primor­
dial do mundo — assunto que examinaremos neste capítulo.
O aspecto gnosiológico da questão fundamental trata da cognos-
cibilidade do mundo exterior, isto é, se a nossa mente, o nosso pen­
samento, é capaz de conhecer e refletir de maneira adequada o mundo
que nos cerca. Esse assunto será examinado no capítulo seguinte.

51
A Relação entre o Ser e o Pensamento

Observando atentamente o mundo que nos rodeia, podemos


constatar que tudo que existe no mundo — objetos, fatos, fenômenos
etc. — pode ser englobado em duas categorias muito gerais e abstratas:
o ser e o pensamento.
O ser é um conceito filosófico para denominar todas as coisas
materiais: a matéria, a natureza, o mundo exterior, a realidade e todos
os objetos, fatos e fenômenos materiais que existem fora de nosso
pensamento.
O conceito de ser engloba tanto a existência como a essência; é a
sua unidade.
Ao ser, de natureza material, se opõe o pensamento, de natureza
imaterial, ideal, espiritual.
O pensamento é uma categoria filosófica para designar a cons­
ciência do sujeito, a mente, o espírito, a alma e todos os fenômenos
ideais ou espirituais que existem dentro do nosso pensamento, de nos­
sa consciência, dentro do sujeito, isto é, os conhecimentos sensíveis e
racionais, tais como sensações, percepções, representações, sentimen­
tos, emoções, idéias, conceitos, pensamentos etc..
O problema fundamental da filosofia consiste em saber que
relação há entre essas duas categorias filosóficas, entre o ser e o pen­
samento, entre o material e o ideal (ou espiritual), entre a matéria e a
consciência, entre o objeto e o sujeito.
A relação entre a matéria e a consciência é a questão fundamental
da filosofia pela simples razão de que é tão universal e avassaladora
que abrange todos os problemas filosóficos, determinando não só a
solução de questões específicas, como também, a concepção do mun­
do como um todo. É impossível, portanto, criar um sistema filosófico
e esboçar um quadro do mundo, sem antes resolver o problema
fundamental da filosofia.
Por isso, nenhuma doutrina filosófica pode prescindir desse
problema. Mais ainda, na história da cultura não houve e não há
nenhuma disciplina que, de um ou de outro modo, consciente ou in­
conscientemente, não toque nesse problema e não pressuponha im­
plicitamente uma solução do mesmo.
Uma solução científica da questão fundamental da filosofia é de
grande importância não só para o desenvolvimento da filosofia, em
geral, como de todas as ciências em particular, e, especialmente, de
uma teoria científica do conhecimento.

52
Embora a gnosiologia seja uma parte relativamente autônoma da
filosofia, qualquer teoria do conhecimento parte de determinada
solução do problema fundamental da filosofia. Mesmo aquelas
doutrineis gnosiológicas que negam a existência de qualquer ontologia
e reduzem toda a filosofia à gnosiologia, partem implicitamente de
determinadas opiniões ontológicas sobre a essência do ser e do pen­
samento.
O problema fundamental da filosofia — estudado no plano on­
tológico como problema da relação entre o ser e o pensamento, é tam­
bém estudado no plano gnosiológico, como o problema da relação en­
tre o objeto e o sujeito do conhecimento.
No plano ontológico (que é o objeto da Ontologia), estuda-se a
essência das coisas e indaga-se o que é primário: o ser ou o pensamento?
A matéria ou a idéia? Isto é, é o pensamento que determina o ser, ou, ao
contrário, é o ser que determina o pensamento.
No plano gnosiológico, estuda-se a essência do conhecimento e
da relação cognoscitiva do sujeito com o objeto, e indaga-se qual o
fator primário e determinante no conhecimento humano: o objeto ou
o sujeito? A realidade ou a consciência? É a consciência um reflexo e
reprodução do objeto, ou, ao contrário, o objeto é um reflexo e uma
reprodução de nossa consciência? É a consciência determinada pelos
objetos e suas propriedades, ou estas são produzidas pela nossa cons­
ciência?
Conforme a resposta que dão a essa pergunta, as doutrinas fi­
losóficas dividem-se em dois grandes campos: idealismo e materia­
lismo.
Se a resposta for que o pensamento, a idéia, a consciência, o
sujeito é primário e determina o ser, a matéria, a realidade, temos o
idealismo filosófico com suas inúmeras variantes. Se, ao contrário,
a resposta for que o ser, a matéria, a realidade, o objeto, é primário e
determina o pensamento, a idéia, a consciência, o sujeito, temos o
materialismo filosófico com suas diferentes variantes.
Como se vê, conforme a resposta que se dê ao problema fun­
damental da filosofia, temos apenas duas soluções diametralmente
opostas, tanto no plano ontológico como no plano gnosiológico:
idealismo ou materialismo.
Vejamos, brevemente, cada uma dessas soluções.
Antes, porém, de abordar as diferentes doutrinas, queremos
fazer uma advertência importante para não confundir o sentido fi­
losófico dos termos idealismo e materialismo com o seu sentido moral
e popular, totalmente diferente e até oposto.

53
O idealismo filosófico é uma doutrina que afirma que a idéia ou
a consciência é anterior à matéria e que esta é uma criação ou produto
da idéia.
O idealismo no sentido mòral e popular significa a pessoa que
tem um ideal nobre na vida, à qual se dedica de corpo e alma, des­
prezando os bens materiais.
O materialismo filosófico é a doutrina que afirma que a matéria,
o mundo material, é anterior à consciência, à idéia, e que esta é um
reflexo ou produto da matéria.
O materialismo no sentido moral e popular significa a pessoa que
só se interessa pelos bens materiais, os prazeres sensuais, a ânsia do
dinheiro, desprezando os bens ideais e espirituais.
Como se vê, o sentido moral e popular nada tem a ver com o sen­
tido filosófico. É evidente que neste livro estes termos são usàdos
somente no sentido etimológico e filosófico.

2 — IDEALISMO FILOSÓFICO

Existem inúmeras variantes de idealismo gnosiológico. Vamos


agrupá-los em duas grandes correntes: 1) Idealismo Objetivo e
2) Idealismo Subjetivo.
1) IDEALISMO OBJETIVO: É a doutrina que afirma que o
primordial é a Idéia Absoluta, o Espírito Universal, a Vontade
Universal, que existiria objetivamente e eternamente, antes e indepen­
dente da natureza e dos homens, e que teria criado o mundo, o homem
e todas as coisas materiais ou que estas seriam apenas cópias, reflexos
ou produtos daquela.
O primeiro grande representante dessa corrente foi Platão.
Platão dividia o mundo em dois: o mundo das “ idéias” ou “ subs­
tâncias ou essências eternas” e o mundo das “ coisas materiais
mutáveis” .
As “ idéias eternas” seriam “ o ser verdadeiro” , “ o ser real” , algo
Drimário. E as coisas materiais mutáveis que nos rodeiam não seriam
nada mais que “ sombras das idéias eternas” , dos “ protótipos
ideais” ou dos “ arquétipos ideais” , que existiriam real e objetivamen­
te antes das coisas, num “ mundo de idéias” que não se sabe onde fica.
Platão expressou sua doutrina recorrendo ao Mito da Caverna
com a seguinte comparação: o cativo que passa toda a sua vida
acorrentado na caverna, de costa para a saída de onde entra a luz, não
tem a possibilidade de ver o que se passa lá fora, onde brilha o sol e se

54
movem as coisas “ verdadeiras” e “ reais” . Ele só vê suas sombras
projetadas na parede da caverna.
O mesmo ocorre aos homens que vivem no mundo. Igual ao
cativo, só conhecem as sombras das coisas “ verdadeiras” , que estão
no “ mundo das idéias” .
Assim, para Platão, as coisas materiais não eram mais que a som­
bra, a cópià, o reflexo, de um mundo ideal, o mundo das idéias, em
que reinava o pensamento puro, que não tinha necessidade do mundo
material para existir.
Com sua teoria, Platão assentou as bases de todas as doutrinas
idealistas, tanto objetiva como subjetiva, bem como do ceticismo e
agnosticismo, que apareceriam mais tarde na História da Filosofia.
A doutrina platônica chegou à sua forma mais abstrata e inveros-
símel no Idealismo Absoluto de Hegel. Segundo esse filósofo alemão
do séc. 19, primeiro e antes de tudo existia a Idéia Absoluta, a Razão
Universal, a verdade abstrata, existente algures, desde a eternidade,
que negando-se a si mesma torna-se natureza, matéria, existência ex­
terior, e, finalmente, voltando-se a si mesma, torna-se Espírito Ab­
soluto, isto é, pensamento, consciência, que a si própria se reconhece
(autoconhecimento).
Para Hegel, a Idéia Absoluta é o demiurgo (criador) do mundo
real, e este último nada mais é que manifestação externa da Idéia.
Assim, todos os fatos e fenômenos da natureza e da sociedade
seriam formas de existência, o invólucro exterior, o aspecto visível, a
encarnação da idéia absoluta e universal, existente por si mesma, antes
da existência do mundo.
2) IDEALISMO SUBJETIVO: Enquanto o Idealismo Objetivo
parte da pressuposição da existência de uma Idéia Absoluta, de um
pensamento ou consciência objetiva, o Idealismo Subjetivo parte do Eu
(Ego) Absoluto, da consciência do sujeito individual, afirmando que o
primordial é a consciência subjetiva do indivíduo isolado.
No fundo, não hà uma diferença essencial entre as duas formas
de idealismo, porque para os representantes tanto de uma como de
outra forma de idealismo, o fundamento, a base primordial de tudo
que existe é o pensamento ou a consciência absoluta ou individual,
que cria ou produz as coisas materiais.
Fichte, por exemplo, sustentava que o mundo material externo é
criado pelo sujeito absoluto, o Eu, que possui capacidade criadora,
ativa. A única realidade é o Eu, que, pelo choque com as coisas, cria o
não-eu, isto é, os objetos materiais.

55
Segundo a doutrina do Idealismo Subjetivo toda a realidade está
encerrada na consciência do sujeito. Os objetos, as coisas não são
nada mais do que conteúdos da consciência. Todo o ser consiste em
serem apercebidos por nós, em.serem conteúdos de nossa consciência.
A nossa consciência, com os seus vários conteúdos, é a única coisa
real.
Esta forma de idealismo também é denominada consciencialis-
mo, pois todo objeto material, toda a realidade exterior, não é senão
uma criação ou produto de nossa consciência.
O representante clássico do idealismo subjetivo foi o bispo inglês
Berkeley do séc. 18 (1684-1753), cujo ponto de partida afirmava: “ Es­
se est pèrcipi” = “ Ser é ser percebido” , isto é, o ser ou a existência
das coisas consiste em serem apercebidas. A existência absoluta das
coisas sem a consciência não tem sentido. Não conhecemos as coisas,
mas as imagens das coisas. Tomemos, dizia ele, por exemplo a maçã.
O que nós podemos dizer dela?
Suponhamos uma maçã com as seguintes qualidades: é cor-de-
rosa, tem um sabor agridoce, tem um cheiro agradável, é lisa e fria,
tem forma redonda etc.. Ora, dizia ele, todas essas qualidades enu­
meradas da maçã nada mais são que um complexo de minhas sen­
sações visuais, táteis, gustativas, olfativas etc., fornecidas pelos meus
sentidos de visão, tato, temperatura, paladar, olfato etc..
De qualquer modo que a consideremos, nós encontramos nela
somente nossas próprias sensações. E o que se refere à maçã, igual­
mente se refere a todos os objetos e corpos materiais.
Berkeley escreveu que a matéria não é aquilo que nós acredita­
mos, ao pensar que ela existe fora de nosso espírito. Pensamos que as
coisas existem, porque as vemos, porque as tocamos; nós acreditamos
na sua existência, porque elas nos dão sensações. Mas as sensações
não passam de idéias que temos em nosso espírito. Ora, as idéias não
podem existir fora do nosso espírtio.
Conclusão: a matéria é a idéia que dela fazemos; a matéria é uma
idéia.
A doutrina de Berkeley pode ser chamada também imaterialismo,
pois para ele a matéria não existe, ela é uma ilusão; existem somente
idéias de um mundo material, colocadas por Deus em nosso espírito.
Com sua doutrina Berkeley esperava destruir o materialismo e o
ateísmo para justificar a teologia. Ele escreveu que a matéria uma vez
banida da natureza, carregará consigo todas as construções céticas e
ímpias.

56
Se seus princípios forem aceitos e considerados verdadeiros, ter-
se-á, como conseqüência, que o ateísmo e o ceticismo serão de um só
golpe completamente abatidos... escreveu Berkeley no Prefácio de seu
livro Três diálogos entre Hilas e Filanous.
Eis onde está a “chave” para a compreensão da doutrina do
venerável bispo inglês: Berkeley só aplicava o seu princípio às coisas
materiais, mas reconhecia a existência (independente de nossa cons­
ciência) da alma e de Deus, a quem considerava a causa do apareci­
mento das percepções sensíveis em nós. Assim o idealismo de Berkeley
tinha uma finalidade e justificação teológica.
Depois de Berkeley, o idealismo subjetivo tentou “ aperfeiçoar-
se” em muitos detalhes, tentou encontrar um vocabulário novo, cada
vez mais obscuro, a fim de se rejuvenescer e fundamentar as suas
premissas. Entretanto, as mais modernas variantes de idealismo sub­
jetivo não produziram, contra os materialistas, nenhum — mas, li­
teralmente nenhum — argumento que não possa ser encontrado na
doutrina do bispô-filósofo.
Entre as novas correntes do idealismo subjetivo está o Empiro-
criticismo de Mach e Avenarius, cuja tese diz que não há nada senão
complexo de sensações e a Filosofia da Imanênda de Schuppe e de
Schubert-Soldern, segundo a qual todo ser é imanente à nossa cons*
ciência. Schuppe diz que “ Um ser dotado da propriedade de não ser
(ou de ainda não ser) conteúdo da consciência é uma idéia inconce­
bível” .
Trata-se, como se vê, de “ demonstrar” que não existe nada fora
de nossa consciência, de nossas representações, de nossas idéias. Não
há realidade “ exterior” ; tudo se reduz, em última análise, às nossas
próprias representações mentais. E, se suprimirmos a consciência, ou,
como se diz, o “ eu” , toda a realidade desaparecerá. Desta maneira,
nem o ser, nem a natureza, nem a matéria, nem as outras pessoas ou
consciências podem existir fora e independentemente da minha cons­
ciência. Essa proposição inicial de Berkeley e dos machistas (a filo­
sofia de Mach e seus adeptos) leva inevitavelmente à negação de tudo
que existe, à negação da existência de outras pessoas, além da pessoa
que sente.
Assim, o idealismo subjetivo leva inevitavelmente à negação ab­
surda de tudo que existe fora das sensações humanas. Tal visão do
mundo chama-se solipcismo, segundo o qual só existe a consciência do
sujeito individual.
Criticando o solipcismo de Berkeley, Diderot escreveu: “ Houve
um momento de delírio em que o clavicórdio sensível pensou que ele é

57
o único clavicórdio que existe no inundo e que toda a harmonia do
Universo está nele” .
Embora nas palavras os idealistas subjetivos abjuraram frequen­
temente o solipcismo, na realidade eles não podem se livrar dele, mes­
mo com a ajuda dos mais absurdos argumentos lógicos.
De fato, se ao conteúdo de nossas sensações não corresponde
nenhuma realidade objetiva, existente fora e independente de nossas
sensações subjetivas, isto significa que nada existe além de nossas sen­
sações, além da consciência do sujeito cognoscente.
3) CRÍTICA DO IDEALISMO FILOSÓFICO: Uma pessoa que
não está familiarizada com os problemas filosóficos pode se perguntar:
será possível que na história da filosofia houve pessoas que afirmaram
seriamente que o pensamento, a idéia, a consciência existiu antes da
natureza, ou que todas as coisas e fenômenos existem somente nas nos­
sas sensações, representações e idéias? Ou que as propriedades desses
objetos são criações ou produtos de nosso entendimento? Sim, houve!
E não só houve no passado, mas, e atualmente há muitos que pensam
assim.
Pergunta-se, como podem pessoas adultas em sã consciência
chegar a concepções filosóficas tão absurdas como sejam as afir­
mações dos idealistas de todos os matizes? Como conseguiu florescer
o idealismo filosófico?
O idealismo filosófico evidentemente não é uma visão objetiva,
científica do mundo, mas não se deve encará-lo com um simples dis­
parate. Tal atitude seria ingênua e superficial.
Sendo uma concepção anticientífica e deformada da realidade, o
idealismo filosófico tem, no entanto, raízes profundas, tanto na his­
tória do conhecimento humano, como na história da sociedade clas-
sista (dividida em classes sociais) e desempenha um determinado papel
ideológico.
As primeiras constituem as raízes gnosiológicas e as últimas são
as raízes ideológicas, sociais ou políticas.
Vejamos, primeiro, em que consistem essas raízes gnosiológicas,
teórico-cognoscitivas do idealismo, para depois examinarmos suas
raízes sociais, seus objetivos ideológicos.

A) As Raízes Gnosiológicas do Idealismo


Foi Lenin quem melhor desvendou as raízes gnosiológicas e
sociais do idealismo. Dada a importância do assunto, vamos examinar
mais detalhadamente as idéias de Lenin a respeito.

58
Lenin sublinhou que o idealismo filosófico não é sem fundamen­
to, sem base, não é infundado; ele tem raizes gnosiológicas que se
encontravam em algumas particularidades do conhecimento humano:
“ O desdobramento (bifurcação, duplicação) do conhecimento do
homem e a possibilidade do idealismo (= religião) já são dados na
primeira elementar abstração “ casa” em geral e “ casas singula­
res” . (Lenin, Cadernos Filosóficos, Moscou, 1949, p. 308).
O homem não. pode deixar de operar com conceitos gerais tais
como, por exemplo, “ casa” , “ planta” , “ animal” etc.. Seu pensa­
mento tem a capacidade de generalizar, criar conceitos gerais ou abs­
trações, que refletem os objetos, os fenômenos naturais e suas rela­
ções, entre si. Baseando-se neles, a ciência descobre as leis do desen­
volvimento do mundo exterior. Mas esses conceitos não são elabo­
rados de uma vez, e sim paulatinamente, no processo da prática
milenar da humanidade.
E eis que a origem empirica dos conceitos é esquecida e alguns
pensadores idealistas começam a absolutizar os conceitos abstratos e a
considerá-los como produtos do pensamento racional ou divino. Por
exemplo, falando das maçãs, peras, laranjas, bananas, que existem
realmente, e sua noção geral, “ a fruta” , o idealismo objetivo coloca
esse conceito, que nada mais é que uma abstração da realidade, na
própria base da existência dessas maçãs, peras, laranjas e bananas.
É o que em filosofia se chama reificação ou coisificação dos con­
ceitos, isto é, considerar os conceitos gerais como existentes na rea­
lidade, quando na verdade eles só existem na consciência ou no pen­
samento, como resultado da abstração e generalização de coisas con­
cretas, particulares. Da mesma forma, o idealismo subjetivo, sob o
pretexto de que é impossível conhecer os objetos sem as sensações, faz
desta última a única realidade e nega a existência do mundo exterior.
Na sociedade dividida em classes, esse esquecimento foi favo­
recido pela separação entre o trabalho intelectual e o trabalho manual,
o isolamento, o afastamento, a ruptura dos ideólogos do processo
imediato da produção material; em uma palavra, a perda de contato
com a realidade, o divórcio entre a teoria e a prática.
O conhecimento humano é um processo especial de reflexo do
mundo exterior. Mas, como diz Lenin, não é um reflexo simples,
morto, passivo, como no espelho, e sim um processo muito complexo,
em forma de ziguezague, que contém em si a possibilidade de vôo da
fantasia a partir da realidade imediata. Mais ainda, o homem pode,
sem o sentir, transformar os conceitos abstratos em fantasia.
Como mostra Lenin, numa simples pi oposição como “ João é
homem” , já se encontra o singular (João) ligado ao geral (homem),

59
pois o geral existe somente no singular. O singular e o geral existem
numa unidade dialética inseparável. A separação do geral do singular
leva ao vôo do pensamento a partir da vida real, à suposição de que
além de João, José, Pedro e outros homens singulares realmente exis­
tentes, existe ainda o “ homem” abstrato em geral. Se se toma a abs­
tração o “ homem” em geral como uma realidade objetiva, existente
independente dos homens singulares que realmente existem, isso já é
idealismo, pois se toma como realidade objetiva o pensamento, o con­
ceito “ homem” em geral. (V. trabalho de Lenin, “ A Propósito da
Dialética” , em Cadernos Filosóficos (em russo) Moscou, 1947, p. 329).
“ O idealismo filosófico é disparate só do ponto de vista de um
materialismo grosseiro, simplista e metafísico. Ao contrário, do ponto
Aa vJsta do materialismo dialético, o idealismo filosófico é um desen­
volvimento unilateral, exagerado — ampliação, inchação — de um dos
pequenos traços, lados, facetas do conhecimento, num Absoluto di­
vinizado, desligado da matéria, da natureza.
O idealismo é misticismo clerical. Isso é verdade, mas o idealismo
filosófico é (“ antes” e “ sobretudo” ) um caminho que conduz ao mis­
ticismo clerical através de uma das nuances do infinitamente com­
plexo conhecimento (dialético) do homem.
O conhecimento do homem não é (não segue) uma linha reta, mas
uma linha curva, que se aproxima indéfinidamente de uma série de
círculos, de uma espiral. Um fragmento, um pedaço, um segmento
desta curva pode ser transformado (unilateralmente transformado)
em linha reta, independente, integral, que (se as árvores impedem de
ver a floresta) leva então ao pântano, ao misticismo clerical (onde a
fixa o interesse de classe das classes dominantes). O caráter retilíneo e
unilateral, a petrificação e ossificação, o subjetivismo e a cegueira
subjetiva — eis as raízes gnosiológicas do idealismo. Ora, o misticis­
mo clerical (= idealismo filosófico) tem, como se vê, raizes gnosio­
lógicas; ele não é infundado, ele é uma flor estéril, sem dúvida, mas
que cresce sobre a árvore viva do verdadeiro conhecimento humano,
vivaz, fecundo, vigoroso, todo poderoso, objetivo e absoluto.
(Lenin, “ A Propósito da Dialética” , em Cadernos Filosóficos (em
russo), Moscou 1947, p. 330).
Estas são as raízes gnosiológicas do idealismo filosófico em geral.
Mas cada variedade do idealismo, além de acima mostradas raízes
comuns a todas as variedades do idealismo, tem suas raizes gnosio­
lógicas peculiares. Assim, por exemplo, o Idealismo objetivo de
Platão vê as coisas materiais como sombras, cópias, reflexos das
“ idéias eternas” . Hegel, com o seu Idealismo Absoluto, exagera o
papel das idéias abstratas universais, a tal grau que a idéia se transfor-'

60
ma no demiurgo (criador) da realidade material, como fundamento de
tudo que existe.
Já o idealismo subjetivo exagera excessivamente o papel do
momento sensível do conhecimento humano. Ele transforma a cons­
ciência no criador do mundo, das coisas materiais, vendo as coisas
como complexo de sensações. Por isso ele considera a sensação como
a única realidade.
O idealismo matemático se manifesta quando certos matemáticos
absolutizam o número e as fórmulas matemáticas e esquecem que elas
expressam determinados processos e regularidades reais do mundo
material.
Já o idealismo físico se manifesta quando certos físicos achavam
que “ a matéria desapareceu” , porque certas propriedades da matéria,
que antes nos pareciam absolutas, imutáveis, primordiais (tais como a
impenetrabilidade, a inércia, a massa etc.), tornaram-se relativas e
inerentes a certos estados da matéria.
Vejamos um exemplo concreto, corriqueiro, para ilustrar o erro
dos idealistas: O indivíduo ignorante e analfabeto pensa que a Terra é
plana, reta, porque o espaço em que ele vive assim lhe parece. Ele
apenas absolutizou um segmento do círculo, tomando a parte pelo
todo. De fato, um pequeno segmento da Terra parece plana, reta, masa
ciência nos demonstra que a Terra é redonda e, matematicamente
falando, mesmo o pequeno segmento é levemente curvo e não reto,
como parece à primeira vista.
Outro exemplo: antes de construir uma casa, o construtor tem na
consciência a idéia de como deve ser, mais ou menos, a mesma. Dessa
premissa, o idealista chega à conclusão errônea de que a idéia é an­
terior ao objeto, de que o objeto é criação do sujeito. Isso é puro
idealismo filosófico. É que esse indivíduo se esquece de que a idéia da
casa que o construtor tem na cabeça é o resultado do reflexo de muitas
casas reais, objetivas, antes vistas por ele. As características das casas
vistas, combinando entre si na consciência do construtor, podem fazer
surgir uma casa diferente das outras. E a própria imaginação, a fan­
tasia e a intuição do homem podem criar novas coisas com novas
características. Mas em todos esses casos, para existir, essas coisas
devem se basear em possibilidades reais, pois nem tudo que a fantasia
do homem possa imaginar é exeqüível e poderá existir (por exemplo o
saci-pererê).
O pensamento, a consciência do sujeito, cria apenas a idéia ou
imagem da coisa, mas não a própria coisa material. E o fato da idéia
da casa ser anterior à própria casa não significa que a casa foi criada e
produzida materialmente pela idéia, pelo pensamento do sujeito.
i
61
Sem dúvida que podemos dizer, em certo sentido, que fazemos do
objeto em que pensamos um conteúdo da consciência. Mas isto não
significa que o objeto seja idêntico ao conteúdo da consciência dela,
irias apenas que o conteúdo da consciência, quer seja uma represen­
tação ou um conceito, me faz presente o objeto, ainda que este con­
tinue sendo independente da consciência.
Quando afirmamos, pois, que hâ objetos independentes da cons­
ciência, esta independência relativa à consciência é considerada como
uma nota do objeto, ao passo que a imanência à consciência refere-se
ao conteúdo do pensamento, que é com efeito, um elemento de nossa
consciência. O pensamento, o ser pensando, refere-se ao conteúdo, ao
passo que a independência relativa ao pensamento, o ser não pensado,
ao objeto. (J. Hessen, Teoria do Conhecimento, Coimbra, 1968,
p. 107-108).
B) Idealismo e Religião

O idealismo filosófico está intimamente ligado com a teologia.


De um ou de outro lado, ele sempre sai em defesa da religião. Por is­
so Lenin sublinhou frequentemente que o idealismo filosófico é obs­
curantismo e misticismo clerical ou caminho para o mesmo, que ele
leva, através de uma das nuances do conhecimento humano, com­
plexo e infinito, ao fideísmo.
O parentesco do idealismo com a religião consiste antes de tudo
na comunidade de suas fontes. Nos tempos imemoriais, quando o
homem ainda não tinha nenhuma noção sobre a estrutura do seu cor­
po e as leis da natureza, ele chegou à falsa conclusão que suas percep­
ções e representações sensíveis são condicionadas por uma força es­
pecial chamada espírito ou alma. Assim nasceu uma visão fantástica
sobre a alma, com a ajuda da qual o homem primitivo tentou explicar
os sonhos, o desmaio, e outros fenômenos da vida. Ele julgava que a
alma encontra-se no corpo do homem enquanto ele vive e deixa o cor­
po após a morte. Então, a alma se desliga do corpo, mas ela não
morre e sim continua viva. Assim se formou a opinião sobre a imor­
talidade da alma.
Engels mostra que de modo semelhante, graças à antropomor-
fizaçâo e espiritualização dos objetos e fenômenos da natureza, nasceu
a representação (ou idéia) dos deuses ou de deus, aos quais paulati­
namente começaram a conferir uma origem e essência extraterrena a
sobrenatural.
O idealismo filosófico nada mais é que uma forma refinada,
sofisticada, do pensamento teológico (na acepção comteana), reinante
nos primeiros albores da humanidade, quando os primeiros homens

62
pensantes, por ignorarem ainda as causas reais e materiais dos fe­
nômenos, procuravam explicá-lo pela intervenção de forças imate­
riais, míticas, mágicas, sobrenaturais, ou divinas, tais como fetiches,
duendes, espíritos ou deuses.
Em segundo lugar, o parentesco entre o idealismo e a religião
consiste no fato de que ambos admitem, em última instância, de uma
ou de outra forma, a criação, a construção ou produção do objeto
pelo sujeito ou pensamento.
A solução dada ao problema fundamental da filosofia pelas
doutrinas idealistas, sobretudo o idealismo objetivo, está calcada
diretamente na doutrina da religião cristã. No fundo, o idealismo é
uma variante filosófica da concepção teológica judaica-cristã de que o
mundo teria sido criado por um Ser Superior, Absoluto e Onipotente,
chamado Deus.
O mundo, afirma a religião cristã, não existia até que foi criado
por Deus. O mundo, afirmam os idealistas, não existia até que foi
criado pela Idéia Absoluta, pelo pensamento, pela consciência do
sujeito universal ou individual, existente antes e independente do
mundo material.
Como se vê, no fundo, vem a dar no mesmo. A única coisa que o
idealismo faz é substituir a palavra “ Deus” pela palavra Idéia, Es­
pírito, pensamento, consciência etc.. Mas não é difícil ver que atrás
desses conceitos abstratos e universais existe implicita a idéia de de­
miurgo, de criador, de deus.
Só que as doutrinas idealistas contemporâneas são muito mais
sofisticadas e difíceis de compreender do que o seu protótipo reli­
gioso, como por exemplo no Idealismo Absoluto de Hegel, onde a
criação do mundo a partir da Idéia tomou uma forma absurda e in-
verossímel.
É claro que não se pode identificar completamente a religião com
o idealismo. Entre eles existe certa diferença, mas eles têm de comum
o fato de que tanto o idealismo como a religião, no fundamento e
começo de tudo que existe, colocam um princípio ideal, espiritual. Por
isso, a religião e o idealismo estão estrekamente vinculados.
É por isso que o idealismo, qualquer que seja sua forma, leva ao
misticismo e fideísmo. Surge e existe para, de uma forma indireta,
fundamentar e defender a religião, a concepção criacionista do
mundo.
Como dizia Lenin, “ O idealismo não é mais do que uma forma
sutil e requintada do fideísmo... O papel objetivo, o papel de classe do

63
empirocriticismo, limita-se a servir inteiramente os fideístas na sua
luta contra o materialismo em geral e contra o materialismo histórico
em particular” . (Lenin, Materialismo e Empirocriticismo, Ed. Estam­
pa, Lisboa, 1971, p. 344).

C) A s Raízes Ideológicas do Idealismo


Se o idealismo tivesse somente raízes gnosiológicas, então ele não
seria tão difundido. Se na sociedade atual não houvesse classes sociais
e grupos políticos, interessados na difusão de idéias reacionárias, en­
tão o idealismo não seria tão vivaz, duradouro como ele é.
Isto significa que além das raízes gnosiológicas, o idealismo tem
ainda raízes ideológicas sociais (políticas, de classe), que desempe­
nham um papel decisivo na vivacidade e sobrevivência do idealismo.
Lenin mostra como os representantes da burguesia culta tentam,
com meios refinados e sofisticados, reservar um “ lugarzinho” para o
fideísmo, que nasce nas camadas inferiores das massas populares
devido à ignorância, ao embrutecimento e à estúpida selvageria das
contradições capitalistas.
“ É impossível deixar de ver, por trás da escolástica gnosiológica
do empirocriticismo, a luta dos partidos em filosofia, luta que traduz,
em última análise, as tendências e a ideologia das classes inimigas da
sociedade contemporânea. A filosofia moderna está tão impregnada
do espírito de partido como a de há dois mil anos atrás” . (Lenin,
Materialismo e Empirocriticismo, Ed. Estampa, Lisboa, 1971,
p. 344).
A luta do idealismo contra o materialismo na filosofia e, em par­
ticular, na gnosiologia reflete os interesses económico-políticos das
classes dirigentes, interessadas em manter as grandes massas na ig­
norância, no misticismo e fideísmo, para mais facilmente dominá-las e
explorá-las.
A interpretação idealista dos fenômenos da natureza e da so­
ciedade sempre constituiu a tarefa principal dos ideólogos das classes
antidemocráticas. Assim, via de regra, o idealismo filosófico desem­
penhou na história da sociedade um papel reacionário, ao combater as
forças do progresso, da democracia e da ciência.

3 — MATERIALISMO FILOSÓFICO
É a doutrina que resolve cientificamente o problema fundamental
da filosofia, o da relação entre o ser e o pensamento, entre o objeto e o
sujeito.

64
O materialismo filosófico sempre foi a concepção do mundo das
classes sociais avançadas, adeptas da democracia e interessadas no
progresso da ciência e da sociedade.
Ao contrário do idealismo, o materialismo mostra que o mundo,
por natureza, é material, considera o ser, a matéria, como o dado
primário e o pensamento, a consciência, como o dado secundário,
derivado do primário.
Em oposição ao idealismo, o materialismo mostra que os objetos
materiais existem fora e independente de nossa consciência, que nos­
sas sensações e idéias são imagens do mundo exterior.
Segundo a excelente definição de Comte, o materialismo é a
doutrina que explica o superior pelo inferior, em outros termos, o
vital e espiritual pelo material.

1) EVOLUÇÃO DA CONCEPÇÃO M ATERIALISTA: Na his­


tória da filosofia podemos traçar várias etapas no desenvolvimento da
concepção materialista do mundo, desde suas formas mais simples,
ingênuas e espontâneas, até a mais alta forma baseada nos dados das
ciências naturais contemporâneas.
A concepção materialista do mundo nasceu nos países do Oriente
antigo: China, índia, Egito, Babilônia. Nos fins do séc. 7 e começos
do séc. 6 antes de nossa era, desenvolveu-se nas colônias jónicas da
Grécia, passando depois para Atenas e Roma.
Depois de ter sido sufocado durante mais de mil anos de Idade
Média, em que a filosofia se transformou em serva da Teologia, a
filosofia materialista dos antigos filósofos gregos e romanos reapa­
receu com novo vigor com a Renascença e os grandes descobrimentos
geográficos e científicos do séc. 16.
Durante os últimos quatro séculos, apareceram várias escolas
filosóficas que desenvolveram a filosofia materialista, desenvolvimen­
to esse que culminou com a criação do materialismo dialético e his­
tórico elaborado no séc. 19 por Marx e Engels, cuja obra foi enri­
quecida pelos seus epígonos Plekhanov, Lenin e muitos outros mar­
xistas soviéticos e contemporâneos.
Abaixo damos apenas algumas escolas materialistas, resumindo o
que escrevem a respeito Rosental e Iudin em seu Pequeno Dicionário
Filosófico.
A) MA TERIALISMO INGÊNUO: É a concepção materialista
do homem comum, é a certeza intuitiva de que o mundo é material por
natureza e existe fora da consciência humana.

65
O materialismo ingênuo identifica o ser com o pensamento, o ob­
jeto com o sujeito, isto é, ainda não distingue o objeto apercebido de
sua percepção, que é o conteúdo da consciência e pensa que os objetos
são exatamente como os percebemos.
Como ainda não tem nenhuma fundamentação teórica e atitude
crítica, o materialismo ingênuo não é uma concepção científica e pode
facilmente desviar-se para o idealismo e dogmatismo.
B) MATERIALISMO ESPONTÂNEO: É a concepção mate­
rialista espontânea, implícita, não reconhecida, difusa, filosoficamen­
te não consciente, própria da maioria dos cientistas e naturalistas, a
respeito da existência real do mundo exterior refletido por nossa cons­
ciência. Já distingue o objeto do sujeito cognoscente.
A convicção, mais ou menos fundamentada teoricamente, de que
o mundo é material e de que ele existe independentemente de nossa
consciência é concepção empírica de todo homem de senso equili­
brado, mas pode conduzir, também, ao empirismo vulgar e ao po­
sitivismo. Os idealistas tiram proveito das debilidades do materialismo
espontâneo, para desviá-lo às posições do idealismo filosófico e ce­
ticismo sistemático.
C) MATERIALISMO MECANICISTA: Uma das etapas e for­
mas da filosofia materialista. O materialismo mecanicista trata de ex­
plicar todos os fenômenos da natureza por meio das leis da mecânica e
de reduzir todos os processos naturais qualitativamente diferentes
(químicos, biológicos, psíquicos e outros) a processos mecânicos. Esta
doutrina considera o movimento como uma simples translação de cor­
pos no espaço devida à ação exterior, ao choque dos corpos entre si. O
materialismo mecanicista nega as fontes interiores do movimento das
coisas, sua mudança qualitativa, os saltos no desenvolvimento, o
desenvolvimento do inferior ao superior, do simples ao complexo. Es­
ta escola materialista se difundiu particularmente no séc. 17 e 18, em
consequência do alto nível alcançado pela mecânica e matemática.
D) MATERIALISMO VULGAR: Corrente filosófica surgida
nos meados do século 19, na Alemanha. Embora reconhecendo que a
matéria é a realidade única e defendendo o ateísmo, os materialistas
vulgares acreditavam que o cérebro produz o pensamento como o
fígado segrega a bílis, explicando assim o pensamento de forma gros­
seiramente simplista. Segundo eles, o clima, a alimentação etc., deter­
minam diretamente a maneira de pensar dos homens. Assim, eles
negavam o papel ativo das idéias, do pensamento. No fundo eram
mecanicistas e metafísicos (isto é, adialéticos, não-dialéticos).

66
Observação: Quando os filósofos idealistas criticam a filosofia
materialista, eles têm em vista, em geral, estas escolas de materialismo
ingênuo, espontâneo, mecanicista, vulgar e metafísico — que, de fato,
são doutrinas não suficientemente científicas e, por isso mesmo
apresentam muitas falhas. Os filósofos idealistas, combatem essas
falhas não para corrigi-las e substituí-las por teses mais científicas, mas
para combater a concepção materialista em geral, com a finalidade de
impor sua filosofia totalmente anticientífica e fideísta.
Infelizmente, os filósofos e os compêndios de filosofia em geral
ignoram a existência de uma nova etapa no desenvolvimento do pen­
samento materialista, mais científico e satisfatório, que é o materialis­
mo dialético. O materialismo dialético também critica as falhas dessas
escolas materialistas, mas com a finalidade de corrigi-lase substituí-las
por teses mais científicas.
2) MATERIALISMO DIALÉTICO: É a forma superior, cien­
tífica da concepção materialista do mundo, elaborada por Marx e En-
gels e desenvolvida ulteriormente por Plekhanov, Lenin e outros mar­
xistas russos e não-russos.
Fundindo os elementos positivos contidos na concepção mate­
rialista de Feuerbach e na concepção dialética de Hegel e baseando-se
nas novas conquistas das ciências, Marx e Engels refundiram, com es­
pírito crítico, o que havia de mais precioso no pensamento filosófico
científico da época e elaboraram a forma superior do materialismo
que é o materialismo dialético.
O materialismo dialético (ou diamate como se diz abreviadamente)
superou a estreiteza, a inconsequência e as falhas do materialismo
metafísico e da dialética idealista, conservando, ao mesmo tempo, o
lado positivo das mesmas. Assim, a nova doutrina dialetizou o ma­
terialismo metafísico e materializou o idealismo dialético.
Chama-se materialismo dialético porque, para estudar a natu­
reza, a sociedade humana e o pensamento, emprega o método dia­
lético, antimetafísico, e porque sua teoria filosófica é um materialis­
mo rigorosamente científico. O método dialético e o materialismo
filosófico interpenetram-se reciprocamente, acham-se indissoluvel­
mente ligados e constituem uma concepção filosófica, única e coe­
rente.
O método dialético materialista ensina que, para estudar acer-
tadamente os processos da natureza e da sociedade, é preciso con­
siderá-los em sua conexão, em seu condicionamento recíproco, em seu
movimento e em sua transformação; é preciso compreender o desen­
volvimento não como um simples crescimento quantitativo, mas como

67
um processo em que as mudanças quantitativas se transformam neces­
sariamente, em certa etapa, em modificações qualitativas radicais; é
preciso partir do fato de que o conteúdo interno do desenvolvimento e
da transição da qualidade antiga à qualidade nova é a luta dos con­
trários, a luta entre o novo e o velho.
Por exemplo, o materialismo metafísico e vulgar só admitia
mudanças quantitativas na matéria, de modo que ele reduzia o pen­
samento a fatos de ordem material. Já o método dialético materialista,
introduzindo os processos dialéticos na matéria, admite, no fim das
mudanças quantitativas, mudanças qualitativas (ou essenciais) e daí a
existência de um psiquismo (consciência, pensamento, espírito etc.)
que é sem >dúvida um produto da matéria, mas realmente distinta dos
fenômenos de ordem material.
Quanto à teoria materialista dialética, ela baseia-se nos seguintes
princípios fundamentais:
1) o mundo é, em sua essência, material e se desenvolve segundo
as leis do movimento da matéria que passa de uma forma para a
outra.
2) a matéria é anterior à consciência, e esta nada mais é que o
produto da matéria altamente organizada.
3) o mundo material e suas leis são cognoscíveis e nossas sen­
sações, representações e conceitos são reflexos das coisas que existem
independentemente da nossa consciência.

O materialismo dialético afirma que o mundo é material por


natureza e prova que todos os objetos e fenômenos, desde as ínfimas
partículas dos átomos até os gigantescos planetas, desde as bactérias
até os animais superiores e o homem, são diferentes formas da matéria
em movimento em suas diversas etapas de desenvolvimento.
Contrariamente ao idealismo objetivo, que considera o mundo
como sombra da “ Idéia eterna” , uma encarnação da “ Idéia Abso­
luta” ou uma criação do Espírito Absoluto (Deus), o materialismo
dialético sustenta que a matéria é eterna, sempre existiu, e jamais foi
criada do nada por alguém; o mundo é causa de si próprio (causa sui)
e se desenvolve segundo as leis dialéticas e objetivas do movimento da
matéria e não tem necessidade de nenhum “ primeiro impulso” ou
“ primeiro motor” .
Em oposição ao idealismo subjetivo, o qual afirma que os objetos
materiais são produtos do pensamento, da consciência individual ou
universal, e que as coisas nada mais são que complexos de sensações, o

68
materialismo dialético parte do princípio de que a consciência é o
dado secundário, derivado, pois é reflexo da matéria; que o pensa­
mento é produto da matéria chegada, em seu desenvolvimento, a um
elevado grau de perfeição, que a consciência é uma propriedade de um
corpo material extraordinariamente complexo: o cérebro humano.
Aplicando o materialismo dialético ao estudo dos fenômenos
sociais, Marx e Engels fundaram o materialismo histórico, uma das
maiores conquistas das ciências sociais. O princípio fundamental do
materialismo histórico (ou concepção materialista da história ou, ain­
da, sociologia materialista) afirma que as condições da vida material
da sociedade são o dado primário e que as idéias, a consciência social,
são o dado secundário, derivado. Ou, como escreve Marx em lin­
guagem filosófica: “ Não é a consciência que determina a existência
social, é a existência social que determina a consciência social” .
O materialismo dialético e histórico é por excelência uma filo­
sofia da práxis, da ação transformadora da natureza, do homem e da
sociedade. Caracterizando a essência da nova filosofia, Marx escreveu:
“ Os filósofos não fizeram mais que interpretar o mundo de diversas
maneiras, trata-se, porém, de transformá-lo” .
3) O M A T E R IA L IS M O D IA L É T IC O É C IÊ N C IA E NÃO
I D E O L O G I A : Finalizando, queremos fazer aqui
uma advertência
muito importante: Para os ideólogos marxistas, o materialismo
dialético é ao mesmo tempo:
1) a filosofia ou a concepção do mundo do partido comunista e
do proletariado, das massas operárias;
2) parte integrante da teoria do socialismo científico proletário e
um guia à ação revolucionária, uma arma ideológica eficaz para a
transformação revolucionária da sociedade capitalista em sociedade
comunista.

Em uma palavra, é uma filosofia própria e exclusiva do prole­


tariado e do comunismo.
Essas teses porém não são de todo verdadeiras.
Em primeiro lugar, o materialismo dialético é uma concepção
filosófica do mundo, mas ele não é um sistema filosófico fechado,
acabado, e sim uma doutrina viva, aberta, que se apóia nos dados
positivos das ciências particulares e que se enriquece sem cessar com as
novas aquisições descobertas e contribuições.
O materialismo dialético de hoje é muito diferente daquele que
foi elaborado há mais de um século por Marx e Engels, pois, como já

69
disseram seus próprios fundadores, o materialismo se enriquece e
toma novas feições com cada descoberta científica. Se não fizer isso se
converte em dogma.
Assim, o materialismo dialético de hoje é obra coletiva de muitos
cientistas e filósofos marxistas e não-marxistas.
Em conseqüência disso, ela pode fornecer a todos os homens, de
qualquer classe ou especialidade, um método e uma teoria científica
que lhes permita conhecer as leis mais gerais da natureza, do homem,
da sociedade e do pensamento, conhecimento esse indispensável para
transformar as coisas. Inspirando-se numa filosofia científica, qual­
quer pessoa pode alcançar imensos êxitos em todos os domínios de sua
atividade teórica e prática.
Justamente por ser uma visão científica do mundo, o materialis­
mo dialético não pode ser exclusivo da classe proletária, mas pertence
a toda a humanidade progressista.
Por isso, não tem sentido falar que o materialismo dialético é
uma filosofia proletária, do mesmo modo que não tem sentido falar
de uma biologia proletária ou de uma biologia burguesa. Toda dis­
ciplina, na medida que é, rigorosamente falando, uma ciência, está
acima dos partidos. Só a ideologia, que não é científica, é que pode ter
caráter de classe, ser proletária ou burguesa, ser progressista ou
reacionária.
Em segundo lugar, a filosofia do materialismo dialético não está
de maneira alguma exclusiva e organicamente ligada ao socialismo e
ao comunismo — como pretendem os marxistas. Do mesmo modo
que a biologia científica não está exclusivamente ligada ao comunis­
mo, mas pode ser útil tanto para a construção do capitalismo como
para a construção do comunismo, o materialismo dialético pode ser
também útil para todos, burgueses e proletários, para a construção do
regime social que quiserem.
O que é certo, e fartamente comprovado pela História, é que as
classes progressistas, interessadas no desenvolvimento das ciências e
da sociedade, professam, em geral, uma concepção científica, vale
dizer materialista e ateísta do mundo, enquanto que as classes rea­
cionárias, não interessadas nesse desenvolvimento, adotam, em geral,
uma concepção anticientífica, vale dizer, idealista e fideísta do
mundo.
O materialismo dialético é uma filosofia científica e como qual­
quer ciência nos dá uma visão científica de seu objeto e, nessa medida,
é um guia para compreender o mundo e um instrumento eficaz para
transformar esse mundo.

70
A adoção de uma filosofia científica é a condição sine que non
para o desenvolvimento econômico e social de qualquer país, so­
bretudo dos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento como o
nosso, onde há uma burguesia progressista, interessada na indepen­
dência econômica e política do país.
Conclusão: O materialismo dialético é uma filosofia científica, e
como tal ela não pode ser exclusiva da classe proletária, ela pertence a
toda a humanidade progressista, como qualquer outra ciência: a as­
tronomia, a física, a química, a biologia, a psicologia e a sociologia
etc..
O que se pode dizer sem erro é que o materialismo dialético é a
concepção filosófica das classes progressistas. E como há países sub­
desenvolvidos ou em desenvolvimento, em que a própria burguesia é
progressista, pois está interessada em obter a independência econô­
mica e política do seu país, essa burguesia pode muito bem adotar o
materialismo dialético como arma ideológica eficaz para a consecução
de seus fins.
Corolário: É possível ser materialista dialético e não ser comunis­
ta, como se pode ser comunista e não ser materialista dialético.
Aliás, a história da filosofia está cheia de filósofos idealistas e
fideístas que pregaram o comunismo (Platão, Thomas Morus, Cam-
panela etc.) e de muitos materialistas que foram ideólogos da bur­
guesia na época de ascensão do capitalismo (Bacon, Hobbes, Hol-
bach, Diderot, Feuerbach, Haeckele outros).

71
[

!
IV — A POSSIBILIDADE DO CONHECIMENTO

O segundo aspecto do problema fundamental da filosofia — o


aspecto gnosiológico — é o da possibilidade do conhecimento. Este
problema consiste no seguinte: Existe no vir-a-ser perpétuo das
coisas, na mudança permanente e na diversidade infinita das coisas,
algo de estável que o nosso pensamento possa captar? Ou estamos
condenados de modo inapelável a errar num mundo de aparências e
ilusões?
Em outras palavras: O que podemos conhecer? A nossa mente, a
nossa consciência, é capaz de conhecer e refletir de maneira adequada
o mundo que nos rodeia? É possivel ao sujeito captar o objeto, co­
nhecer a verdade, a essência íntima das coisas, o númeno, a “coisa em
si” ? É a razão humana capaz de penetrar nos mistérios da Natureza e
trazer à luz as leis do seu desenvolvimento?
Sobre a cognoscibilidade do mundo na História da Filosofia exis­
tem duas posições antagônicas: os que a negam e os que a afirmam.
Entre as soluções negativas estão as doutrinas céticas e agnósticas
com suas inúmeras variantes; e entre as soluções positivas estão as
doutrinas dogmáticas e materialistas.
Os adeptos do idealismo filosófico, sobretudo do idealismo sub­
jetivo, duvidam em geral da possibilidade de conhecer a essência das
coisas. Já alguns adeptos do idealismo objetivo, como o Tomismo
(filosofia oficial da religião cristã) e o Idealismo Absoluto de Hegel
crêem na cognoscibilidade do mundo.
Os adeptos do materialismo filosófico acreditam, em princípio,
na possibilidade do conhecimento, mas há certos filósofos materialis­
tas que são inconsequentes e que professam diferentes formas de ag-
nosticismo.

73
A — SOLUÇÕES NEGATIVAS

Entre as doutrinas que negam a possibilidade de conhecer a ver­


dade, isto é, a essência das coisas, podemos enumerar o ceticismo ab­
soluto e o ceticismo moderado com suas inúmeras modalidades.

1 — CETICISMO ABSOLUTO
É a doutrina que nega peremptoriamente a possibilidade de co­
nhecer a verdade. Afirma que o homem não pode, em nenhum do­
mínio, chegar à certeza.
O mais velho representante dessa doutrina foi o sofista, da An­
tiga Grécia, Gorgias, que sustentava as três teses seguintes: 1) o ser
não existe; 2) se ele existisse não poderíamos conhecê-lo; 3) ainda
que pudéssemos conhecê-lo não poderíamos comunicá-lo aos outros.
Outro filósofo grego da época, Pirro (ou Pirron), afirmava que é
impossível conhecer qualquer coisa de verdadeiro. Dado que os nossos
juízos sobre a realidade são contraditórios e não existem conhecimen­
tos e juízos verdadeiros, é melhor suspender o juízo (Essa suspensão
de juízo ele chamava de epoche).
O ceticismo absoluto nega a possibilidade de o sujeito poder
apreender o objeto; desconhece o objeto e concentra toda a sua aten­
ção no sujeito, nos fatores subjetivos do conhecimento humano.
CRÍTICA: É óbvio que essa doutrina é insustentável e anula a si
própria. Afirma que o conhecimento é impossível, mas com isso ex­
prime um conhecimento. Assim, o ceticismo cai numa contradição
consigo mesmo. (Vide, adiante, a crítica geral ao ceticismo siste­
mático).

2 — CETICISMO RELATIVO
Além dessa forma, absoluta, radical e geral de ceticismo, que
praticamente foi superado porque leva ao absurdo e à negação de si
próprio, apareceram na história da filosofia, sobretudo nos quatro úl­
timos séculos, várias modalidades de ceticismo relativo, moderado e
especial, tais como o agnosticismo, o positivismo, o fenomenalismo, o
relativismo, o subjetivismo, o probabilismo, o convencionalismo, o
utilitarismo ou pragmatismo etc..
Enquanto o ceticismo absoluto nega radicalmente a possibilidade
do conhecimento em geral, o ceticismo relativo nega parcialmente a
possibilidade de conhecer a verdade em determinado domínio ou põe
limites ao conhecimento.

74
Antes de expor o assunto, cumpre observar que nos ensinamentos
dos pensadores sofistas (pré-socráticos) e céticos (pós-socráticos) já
encontramos os germes do ceticismo relativo, com todas as suas
diferentes nuances que apareceram dois mil anos depois, e que
enumeramos acima.
Um dos mais conhecidos desses sofistas foi, sem dúvida, Pro-
tágoras de Abdera (que viveu no séc. 5 a. C.). Partindo dos ensina­
mentos de Heráclito de que tudo flui e tudo muda, e das variações da
sensação conforme as disposições subjetivas do nosso espírito,
Protágoras inferiu disso a relatividade e subjetividade dos nossos
conhecimentos. Sua doutrina ele enunciou com a célebre fórmula: “ O
homem é a medida de todas as coisas” . Com isso ele queria dizer que a
forma de conhecimento das coisas depende do homem e varia de um
homem para outro. Empirismo, agnosticismo, relativismo e subje­
tivismo são as notas características de sua doutrina de ceticismo
relativo.
Aplicando sua fórmula ao conhecimento dos deuses, ele dizia:
‘‘Quanto aos deuses, não posso saber se existem ou não existem, ou
como é a figura deles, pois muita coisa impede de sabê-lo, sobretudo a
obscuridade do assunto e a brevidade da vida humana” .
Os ensinamentos dos sofistas e dos céticos moderados, embora
fossem errôneos, desempenharam um papel positivo na luta contra as
excessivas pretensões dos realistas ingênuos e dos dogmáticos, que
acreditavam piamente que podemos conhecer, de modo direto e
imediato, a verdade, a essência das coisas, e que os conhecimentos as­
sim adquiridos tinham valor de verdade absoluta, eterna e imutável.
1) AGNOSTICISMO DE KANT: A mais difundida das moda­
lidades do ceticismo relativo foi o agnosticismo. Derivado do grego a =
não e gnosis = conhecimento, a palavra agnosticismo significa: não
conhecível, inconhecível, incognoscível.
É a doutrina que nega a possibilidade de conhecer a essência das
coisas, considera impossível a metafísica e afirma que o homem só
pode conhecer o fenômeno, a aparência das coisas.
O agnosticismo moderno foi teoricamente elaborado por Kant no
séc. 18, floresceu no século 19 com Comte, Spencer e outros, e encon­
trou adeptos entre certos materialistas espontâneos (naturalistas),
neopositivistas, pragmatistas e outras formas moderadas de ceticismo
do séc. 20. Assim, o agnosticismo tem adeptos tanto entre os idealis­
tas, como em certos materialistas espontâneos (cientistas naturalistas).
O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) fundador do ag­
nosticismo moderno, é praticamente o pai da gnosiologia como ciên­

75
cia. Foi com ele e a partir dele que a teoria do conhecimento tomou
grande impulso a ponto de tornar-se o centro e a base de toda a fi­
losofia.
Kant foi sem dúvida um dos maiores filósofos de todos os tem­
pos. Infelizmente, sua filosofia, como um todo, não é conseqüente e
coerente. O traço fundamental de sua filosofia é a conciliação entre
materialismo e o idealismo, entre o ceticismo e dogmatismo. Não
vamos aqui analisar todo o seu sistema filosófico, chamado Criticis-
mo, Apriorismo ou Idealismo Transcendental, mas somente a sua
doutrina a respeito do conhecimento humano que chamamos de Ag-
nosticismo.
Que podemos saber? Que devemos fazer? Que podemos esperar?
Eis as três questões fundamentais às quais Kant pretende dar uma
solução definitiva. Das três, a mais importante é a primeira por de­
pender dela a solução das outras duas.
Enquanto o dogmatismo admite sem discussão a possibilidade de
atingir a verdade metafísica e científica, e o ceticismo absoluto nega
peremptoriamente a possibilidade de alcançar a verdade, a crítica
kantiana versará sobre “ o poder da razão em geral, considerada em
relação a todos os conhecimentos a que se pode elevar, independen­
temente de qualquer experiência” .
Vejamos com mais detalhe os princípios da gnosiologia kantiana,
que tão enorme influência teve na filosofia contemporânea.
A doutrina gnosiológica de Kant é um tanto complexa e de difícil
compreensão, sobretudo por causa da nova terminologia criada por
ele. Procuraremos expô-la com a maior clareza possível, sem prejuízo
de sua profundidade.

A) As Teses Fundamentais da Gnosiologia Kantiana

Partindo da incognoscibilidade da essência das coisas, Kant cons­


trói sua gnosiologia no espírito do idealismo subjetivo.
Kant começa distinguindo o númeno do fenômeno. O númeno é a
“ coisa em si” , a essência das coisas (materiais ou espirituais) que exis­
tem fora e independente da nossa consciência. Nós não podemos
conhecer o númeno. Ele é incognoscível. Só podemos conhecer o
fenômeno que é a “ coisa para nós” , a manifestação exterior da coisa
em si tal como se apresenta à nossa consciência.
As “ coisas em si” agem sobre os nossos órgãos sensoriais e como
resultado surgem as sensações. Mas estas (sensações) recebidas pelos

76
sentidos, carecem de toda ordem e regra e representam um verdadeiro
caos de impressões.
A tarefa do nosso pensamento consistirá em dar forma a esse
material, em pôr ordem neste caos de sensações, colocando-as no tem­
po e no espaço e relacionando entre si os conteúdos das sensações. É
graças a essas formas que conseguimos formar um quadro coerente
que satisfaça nossa necessidade de lógica.
A matéria do conhecimento vem do objeto e é dada pela expe­
riência. A forma do conhecimento procede do sujeito e é anterior a
qualquer experiência.
Identificar estas formas subjetivas e mostrar como graças a elas
se torna possível o conhecimento — é o propósito do apriorismo ou
criticismo kantiano.
As formas da consciência são subjetivas e a priori, isto é, não
existem na realidade objetiva, existem somente no nosso espírito, an­
tes e independente de qualquer experiência.
Existem duas formas principais: as de sensibilidade e as do enten­
dimento.
As formas de sensibilidade são o espaço e o tempo, que ordenam
as sensações caóticas numa justaposição no espaço e numa sucessão
no tempo, de um modo espontâneo, involuntário e inconsciente. Des­
se modo surge o conhecimento sensível do mundo exterior e do mundo
interior.
Porém este é apenas o primeiro ato do conhecimento. O processo
cognoscitivo continua com as formas do entendimento.
As formas do entendimento, chamadas de conceitos puros ou
categorias, ordenam e sistematizam logicamente as nossas percepções
(ou conhecimentos sensíveis) em conceitos. Nasce assim o conheci­
mento intelectual, conceituai, abstrato.
A sensibilidade é fonte do conhecimento do singular, o enten­
dimento, do geral.
O princípio do apriorismo kantiano afirma: “ É por meio da sen­
sibilidade que os objetos nos são dados; sozinha, ela nos fornece as in­
tuições empíricas; mas é o entendimento que pensa os objetos, e é dela
que nascem os conceitos’’.
“ Sem a sensibilidade, nenhum objeto nos será dado; e sem o en­
tendimento, nenhum objeto será pensado” .

77
“ Os pensamentos sem conteúdos são vazios; as intuições sem os
conceitos são cegas” , isto é, as formas sem os conteúdos são vazias, os
conteúdos sem as formas são cegos.”
“ É necessário, portanto, tornar sensíveis seus conceitos (isto é, de
lhes juntar o objeto da intuição) e de tornar inteligíveis suas intuições
(isto é, de as submeter aos conceitos).”
Kant criou seu próprio sistema de categorias lógicas ou conceitos
mais gerais do pensamento. O número dessas categorias é exatamente
doze, divididas em quatro grupos, de acordo com as ligações naturais
de 1) quantidade; 2) qualidade; 3) relação e 4) modalidade entre o
sujeito e q predicado. As doze categorias são: 1) unidade, pluralidade
e totalidade; 2) realidade, negação e limitação; 3) substância, causa e
reciprocidade; 4) possibilidade, existência e necessidade.
Por exemplo, o conceito de causalidade enlaça dois conteúdos de
percepção considerando um como causa e o outro como efeito.
Segundo Kant, as propriedades qualitativas das coisas (cor, odor,
sabor etc.) e as propriedades quantitativas (forma, extensão, movi­
mento etc.), bem como as formas da sensibilidade (espaço e tempo) e
as formas do entendimento (as 12 categorias) não derivam da expe­
riência e não refletem as propriedades objetivas das coisas, mas são
elementos a priori, subjetivos, imanentes ao nosso espírito e impostos
pelo sujeito ao objeto do conhecimento.
Assim, nós não conhecemos as coisas tais como elas são em si,
mas somente revestidas dos elementos subjetivos nos quais as en­
quadramos. É como se víssemos as coisas através de óculos coloridos
das formas a priori de nossa consciência.
É desse modo que a consciência do sujeito cognoscente cria,
constrói e produz o mundo dos seus objetos.
Para Kant, o conhecimento não é a conformidade da imagem ou
idéia com a coisa, nem o reflexo do objeto na consciência do sujeito
cognoscente, mas uma criação ou construção do objeto pelo sujeito.
Segundo Kant, as ciências são possíveis não como conhecimento
da realidade ou do mundo extramental, senão como construções sub­
jetivas do espírito, que impõe suas leis aos objetos. As leis da ciência
são, portanto, produto do espírito humano. Muito longe de refletirem
as relações reais do mundo material, elas refletem as exigências do es­
pírito humano. E por isso são relativas ao homem.
Assim se estabelece a relatividade dos nossos conhecimentos, pois
o conhecimento, a ciência, variaria se o espírito variasse.

78
Estabelece-se ao mesmo tempo a subjetividade dos nossos co­
nhecimentos, pois as leis, longe de representarem verdades objetivas,
representam apenas verdades subjetivas do nosso pensamento.
0 mundo fenomênico em que vivemos é obra do pensamento
humano. Kant compara a revolução realizada por ele em filosofia à
realizada por Copérnico em astronomia. Ao invés de fazer o espírito
gravitar em torno das coisas, ele fez as coisas girarem em tomo do es­
pírito.
Conclusão: O mundo fenomênico que conhecemos é um mundo
formado pela nossa consciência. Nunca podemos conhecer como ô
mundo está constituído em si, pois logo que tratarmos de conhecer as
coisas, introduzimo-las, por dizer, nas formas a priori da consciência.
Desta maneira não temos perante nós a coisa em si, o númeno, mas a
coisa como se nos apresenta ou seja, o fenômeno.
Como se vê, a gnosiologia kantiana tem por fundamento o
idealismo subjetivo.

B) As Teses do Dogmatismo Moral Kantiano

Segundo Kant, além da sensibilidade e do entendimento, há uma


terceira faculdade cognoscitiva do homem, superior às outras, que é a
razão pura. Esta procura elevar-se ao absoluto e solucionar problemas
metafísicos e transcendentais, tais como a idéia cosmológica sobre a
finitude ou infinitude do mundo, a idéia psicológica sobre a imor­
talidade da alma e a idéia teológica sobre a existência de Deus.
Mas, a razão desejosa de conhecer o mundo, ao tentar solucionar
esses problemas ou idéias cai inevitavelmente em contradição consigo
mesma, contradição que é incapaz de superar. Todas as tentativas da
razão para sair dos limites da experiência subjetiva, levam-na ine­
vitavelmente a contradições dialéticas insolúveis — que são as anti­
nomias.
A antinomia (do grego: contradição entre as leis), é a contradição
entre duas proposições que se reconhecem igualmente verdadeiras e
que se excluem mutuamente. As antinomias são aquelas contradições
em que os contrários podem ser demonstrados ou rejeitados com o
mesmo rigor lógico.
Por exemplo, segundo Kant, a idéia cosmológica compreende
quatro antinomias:1
1 .a) O mundo é finito (limitado) no tempo e no espaço. O mundo
é infinito (ilimitado) no tempo e no espaço.

79
2. a) Tudo é simples e indivisível. Não há nada simples, tudo é
complexo e divisível.
3. a) Existe liberdade no mundo. Não há liberdade no mundo,
tudo é necessário.
4. a) Existe uma causa primeira no mundo. Não há causa pri­
meira.

Ao tentar responder a essas questões, a razão se mete no atoleiro


das antinomias, em que tanto a tese como a antítese são refutáveis e
irrefutáveis. Com o mesmo rigor lógico, pode-se demonstrar a fini-
tude ou infinitude do mundo, assim como a divisibilidade e indivi­
sibilidade da substância. Por outro lado, não se pode rejeitar, mas
tampouco provar, a possibilidade e a impossibilidade da liberdade, da
mesma maneira que não se pode demonstrar a existência ou a inexis­
tência de um ser absolutamente necessário.
O mesmo se dá com os “ paralogismos” da teologia “ racional” ,
que tenta provar pela razão pura que a alma é uma substância espi­
ritual e imortal, que a vontade é livre e superior à lei de causa e efeito,
e que existe um “ ser necessário” , Deus, criador e legislador, como
pressuposto de toda a realidade.
Essas idéias teológicas são totalmente inacessíveis à experiência,
isto é, incognoscíveis, e, como tais, Kant as inclui entre as “coisas em
si” , entre os númenos.
Ora, a metafísica dogmática e teológica pretende conhecer os
númenos, as essências, as “ coisas em si” . É uma ilusão, é uma tarefa
fadada ao fracasso. Não havendo relação direta da razão com tais ob­
jetos supra-sensíveis estas idéias são destituídas de todo fundamento
real.
Assim, a metafísica como ciência racional é impossível, pois, ul­
trapassa os domínios do sensível e não é suscetível de nenhuma ve­
rificação experimental. Os dogmas da religião cristã não podem ser
demonstradas pela razão pura.
Demonstrada a impossibilidade de uma metafísica científica,
Kant procura criar uma metafísica da fé. Do criticismo da razão pura,
passa Kant ao dogmatismo moral da razão prática.
Se Deus, a imortalidade e a liberdade são eliminados do mundo
empírico dos fenômenos, por serem incognoscíveis, não há nenhuma
razão, segundo Kant, para rejeitar a possibilidade de que existam no
mundo ideal dos númenos, como objetos de fé, por necessidades de
ordem moral e prática.

80
A aceitação de tais dogmas religiosos não é uma questão de cer­
teza científica, mas uma questão de certeza de fé, de crença. São pos­
tulados da razão prática ou da consciência moral que nós aceitamos
como se fossem verdadeiros, porque sem eles a religião é impossível.
Sua Crítica da razão prática é dedicada a fundamentar a con­
ciliação da ciência com a religião, da razão com a fé.
Assim, Kant chegou a limitar a ciência em benefício da fé e da
religião, chegando mesmo a reconhecer isso ao declarar: “Tive, por­
tanto, de suprimir o saber, para obter lugar para a fé.” (V. Prefácio à
2 .a edição da Crítica da Razão Pura, em “ Os Pensadores” , T. XXV,
Ed. Abril Cultural, São Paulo, 1974, p. 17).
Tais são as respostas às duas outras questões fundamentais de sua
filosofia: Que devemos fazer? Que nos é lícito esperar?
Resumo: A gnosiologia de Kant pode ser reduzida às seguintes
proposições básicas:
1. a) A “ coisa em si” , onúmeno, é incognoscível (Agnosticismo).
2. a) O nosso conhecimento permanece limitado ao mundo fe-
nomênico (Fenomenalismo).
3. a) O mundo fenomênico surge da nossa consciência, que or­
dena e elabora o material sensivel com a ajuda das formas a priori da
sensibilidade e do entendimento (Apriorismo).
4. a) O conhecimento é uma criação (ou construção ou produção)
da consciência do sujeito cognoscente (Subjetivismo e Idealismo Sub­
jetivo).
5. a) Como produto do espírito humano, o conhecimento varia
conforme o espírito. Ele é relativo ao homem (Relativismo).
6. a) Como a razão humana não pode conhecer e demonstrar a
existência de Deus, da imortalidade da alma e do livre-arbítrio, porque
tais idéias são transcendentais e incognoscíveis, não há razão nenhuma
para rejeitar a possibilidade de qué existam no mundo ideal dos nú-
menos, como objetos de fé, por necessidades de ordem moral e prática
(Dogmatismo moral e Fideísmo).

Agnosticismo, fenomenalismo, apriorismo, subjetivismo, re­


lativismo e fideísmo — eis os traços característicos fundamentais da
gnosiologia kantiana, construída no espírito do Idealismo Subjetivo.
A filosofia de Kant chama-se também Criticismo por se apresen­
tar como uma crítica do valor dos nossos conhecimentos, e como

81
Idealismo Transcendental por considerar como transcendentais (isto
é, anterior e além da nossa experiência e razão), tanto as formas
a priori da consciência, como as “ coisas em si” e as idéias metafísicas.
Como se vê, a filosofia de Kant é contraditória porque quis con­
ciliar coisas incompatíveis: o materialismo com o idealismo, o dog­
matismo com o ceticismo, a filosofia com a teologia, a ciência com a
religião, a razão com a fé, para reabilitar Deus e a religião.
Assim, Kant ofereceu à filosofia idealista contemporânea fun­
damentos teóricos sobre o agnosticismo e o fideísmo, que os filósofos
retrógrados de todos os matizes ainda utilizam para lutar contra a
concepção científica do mundo.
2) NOVAS MODALIDADES DO CETICISMO RELATIVO:
Com Kant, o agnosticismo — essa forma mitigada de ceticismo sis­
temático — recebeu um grande impulso, difundiu-se largamente no
séc. 19 e 20 e praticamente penetrou em todas as doutrinas filosóficas
contemporâneas, idealistas e mesmo materialistas, originando novas
modalidades de ceticismo relativo, tais como: positivismo, feno-
menalismo, relativismo, subjetivismo, probabilismo, convencionalis­
mo, ficcionalismo, utilitarismo etc..
O traço comum a todas essas novas modalidades de ceticismo
relativo consiste em negar a possibilidade de conhecer a verdade ob­
jetiva, a essência das coisas, ou, em termos kantianos, a “ coisaem si” ,
o númeno, sobretudo a substância primordial absoluta, seja ele de que
natureza for: material (matéria), ou ideal (idéia) ou espiritual (Deus).
Na filosofia pós-kantiana, poucas doutrinas filosóficas salvaram-
se desse contágio. Entre elas, o Idealismo Absoluto de Hegel, o
Idealismo Teológico do neotomismo e o Materialismo Dialético de
Marx e Engels.
Vejamos brevemente algumas dessas novas modalidades de ag­
nosticismo ou ceticismo relativo:
Positivismo — Doutrina fundada pelo filósofo francês A. Comte
(1798-1857) e que recebeu ampla difusão entre filósofos e cientistas
contemporâneos.
O ponto de partida do positivismo é o seguinte: como é impos­
sível um conhecimento científico da essência das coisas, do númeno,
da “ coisa em si” , e dos problemas metafísicos-transcendentais, a
ciência deve limitar-se ao positivamente dado, isto é, ao estudo dos
fenômenos imediatos da experiência e no descobrimento das relações
invariáveis de semelhanças e de sucessão que os ligam, sem indagar o
“ porquê” dessas relações. A ciência positiva deve desistir de buscar as
i
82
causas primeiras e as causas finais e limitar-se à descrição dos fenô­
menos.
O positivismo, como o agnosticismo, é uma espécie de feno-
menalismo.
Fenomenalismo (do grego phaenomenon = fenômeno, manifes­
tação, aparição, aquilo que aparece) — Teoria segundo a qual não
podemos conhecer a essência das coisas em si (númenos), mas somente
como elas se manifestam exteriormente, como elas se nos apresentam
(fenômenos), isto é, podemos conhecer “ como” as coisas são, mas
não “ o que são” na realidade.
O fenomenalismo não nega a existência das “ coisas em si” fora e
independente do sujeito cognoscente e até as admite expressamente.
Uma nova variante do fenomenalismo é o Fenomenismo — teoria
que considera que só existem realmente os fenômenos, isto é, as re­
presentações que nós fazemos das coisas e rejeita a existência real dos
númenos ou das coisas em si, as quais considera como apenas uma
palavra oca sem sentido.
Relativismo — Teoria segundo a qual, não há verdade absoluta,
universalmente válida. Toda a verdade é relativa e tem apenas uma
validade limitada.
Subjetivismo — Teoria segundo a qual não há verdade objetiva,
universalmente válida. Toda verdade é subjetiva, isto é, válida apenas
para o sujeito que conhece e julga. O que é verdadeiro para uns pode
ser falso para outros.
Essa teoria como a do relativismo, contradizem-se a si mesmas
quando pretendem de fato uma validade universal e objetiva para a
sua tese — “ toda a verdade é relativa e subjetiva” .
Probabilismo — Teoria segundo a qual nosso pensamento não
pode ter acesso à verdade propriamente dita, mas somente a pro­
posições apresentando um grau mais ou menos elevado de proba­
bilidade ou de credibilidade.
Como é impossível um conhecimento rigoroso da verdade, nunca
poderemos dizer, pois, que esta ou aquela proposição seja verdadeira.
A única coisa que podemos afirmar é que ela tem maior ou menor
probabilidade de ser verdadeira. Não existe portanto certeza rigorosa,
mas apenas probabilidades.
Convencionalismo — Teoria de Henri Poincaré, segundo a qual
os princípios científicos, pelo menos os de geometria e de mecânica,
têm caráter puramente convencional.

83
O convencionalismo substitui a noção de verdade pela da co­
modidade. É erro, por exemplo, perguntar se a geometria euclidiana é
mais verdadeira que outra; ela é apenas mais cômoda.
Para Henri Poincaré, a ciência é apenas uma “ linguagem” con­
vencional, uma maneira de formular o que percebemos dos fenô­
menos, mas, de nenhum modo, uma explicação decisiva do real.
Poincaré põe em dúvida mesmo a grande descoberta da translação da
Terra, em torno do Sol; não quer ver o sistema de Copérnico senão
como uma “ linguagem” . Segundo ele a afirmação “ a Terra gira” não
tem sentido, pois que nenhuma experiência a verificará; simplesmente
é mais cômodo supor que a Terra gira.
Teoria dos hieróglifos — Teoria segundo a qual as representações
do homem são apenas signos convencionais ou hieróglifos, sem se­
melhança com as coisas reais. Os adeptos desta teoria afirmam que
nossos órgãos dos sentidos não nos dão um conhecimento verídico dp
mundo, que nossa consciência não reflete o mundo objetivo.
Nominalismo simbólico — Exagerando o caráter convencional
dos princípios da ciência, alguns cientistas chegaram a considerá-los
como puramente simbólicos e artificiais, sem corresponder a qualquer
realidade.
Para Duhem, por exemplo, “ uma teoria física não é uma ex­
plicação” , mas apenas uma representação dos fatos por meio de
proposições matemáticas, deduzidas de princípios “ que não preten­
dem enunciar relações verdadeiras entre propriedades reais dos cor­
pos” ^ por isso “ podem formular-se arbitrariamente” .
Le Roy, ainda mais radical, não só considera os princípios
matemáticos arbitrários e análogos às regras de qualquer jogo, como
julga que “ o sábio fez a ordem e o determinismo que julga encontrar
nas coisas” .
As teorias científicas são receitas, um jogo formal de palavras,
que dão resultado. “ Os nossos cálculos não são verdadeiros, no sen­
tido exato do termo: são apenas eficazes” .
Ficcionalismo (“ a Filosofia do como se” de Hans Vaihinger) —
Teoria segundo a qual o nosso intelecto trabalha de preferência com
pressupostos falsos, com ficções, desde que eles se mostrem úteis
e vitais. A ‘‘verdade’’ é pois o “ erro mais adequado’’.
A ficção, como se sabe, é uma representação mental à qual nada
corresponde na realidade.
Pragmatismo ou Utilitarismo — Doutrina segundo a qual tudo
que é útil e eficaz é verdadeiro. Em vez de investigar se uma doutrina,

84
teoria ou proposição é verdadeira ou falsa, o pragmatismo se interessa
apenas pelos resultados práticos que ela possa dar.
Partindo do pressuposto agnóstico que é impossível conhecer a
essência das coisas e ignorando o conceito da verdade como concor­
dância entre o ser e o pensamento, sugere um novo conceito de verdade.
Segundo ele, verdadeiro significa aquilo que é útil e vantajoso para a
vida e a sobrevivência do indivíduo, ou de um grupo ou uma classe
social.
Essa concepção pragmatista da verdade, fundada pelos filósofos
americanos C. Pierce e W. James, tornou-se a filosofia oficial do*
“ businessman” americano. Teve também muitos fervorosos adeptos
na Inglaterra, França, Alemanha e outros países.
Assim, por exemplo, Nietzsche escreve que “ A verdade não é um
valor teórico, mas apenas uma expressão para designar a utilidade,
para designar aquela função do juízo que conserva a vida e serve a
vontade de poder” .

3 — CRÍTICA DO CETICISMO SISTEMÁTICO

Parece incrível que filósofos de tão grande envergadura e fama


tenham sustentado teorias tão frágeis e incoerentes.
Acontece que para compreender isso é preciso levar em consi­
deração certos fatores históricos restritivos, entre os quais salienta­
mos?
1) o atraso relativo do espírito científico e dos instrumentos de
pesquisa científica, não permitiam um conhecimento científico mais
profundo das coisas.
2) o interesse consciente ou inconsciente dos ideólogos em difun­
dir tais idéias errôneas por razões de ordem social e política.
Assim, o ceticismo absoluto e suas modalidades relativas têm
raízes gnosiológicas e raízes ideológicas ou sociais-políticas.
Vejamos as raízes gnosiológicas, para depois vermos as raízes
ideológicas ou sociais-políticas.
1) AS RAÍZES GNOSIOLÓGICAS DO CETICISMO: A crítica
dos céticos contra os dogmáticos tem fundamento. De fato, os nossos
conhecimentos não têm valor absoluto de verdades eternas e imu­
táveis. Nossos conhecimentos são relativos por várias razões:1
1) Os nossos conhecimentos sobre certos fatos e fenômenos da
natureza, sobretudo do homem e da sociedade, são precários e muitas

85
vezes errôneos. Por exemplo, nossa atual ignorância a respeito da
causa ou das causas do câncer. Na Antiga Grécia e mesmo no tempo
de Kant, a nossa ignorância era muito maior a respeito de todas as
coisas.
2) Nossos conhecimentos científicos são, em geral, verdades in­
completas, e válidos apenas dentro de certos limites. Por exemplo,
nossos conhecimentos a respeito da estrutura interna da matéria ou do
pensamento.
3) Certos objetos da realidade mudam de essência por deter­
minação de certas causas materiais e com isso tornam caducos os nos­
sos conhecimentos a respeito dos mesmos. Por exemplo: a psicologia
da mulher „que trabalha fora do lar, e é economicamente independen­
te, é muito diferente, em sua essência, da mulher do tipo clássico
economicamente dependente dos pais ou do marido.

A) O Ceticismo Sistemático e a Dúvida Metódica

Assim, uma certa dose de ceticismo e de dúvida é sempre salutar


para o avanço dos conhecimentos. Mas não devemos confundir o
ceticismo sistemático com o ceticismo metódico ou a dúvida metódica
de Descartes e dos cientistas em geral, que consiste em começar a pôr
em dúvida tudo que se apresenta à consciência como certo e verda­
deiro, para eliminar deste modo todo o falso, até chegar a um co­
nhecimento seguro.
Enquanto o ceticismo sistemático e radical é negativo e impro­
dutivo, pois desiste de toda a possibilidade de conhecer as coisas, a
dúvida metódica ou o espirito crítico só aceita algo como verdadeiro
depois de ser provado — o que é uma das exigências fundamentais do
espírito científico.
O ceticismo só na aparência parece com a dúvida metódica e o es­
pírito crítico. Mas entre eles há uma diferença fundamental. Enquan­
to os partidários da dúvida metódica acreditam que a razão pode em
princípio conhecer tudo e guardam um salutar espírito crítico até con­
seguir provas suficientes, os céticos sistemáticos partem do pressupos­
to que, em princípio, a razão humana é impotente para conhecer os
enigmas do Universo.
Mas os céticos de toda laia não têm razão em negar a possibili­
dade de chegar à certeza, de conhecer a verdade objetiva.
Nossos conhecimentos científicos, embora relativos e mutáveis,
refletem mais ou menos fielmente parte da realidade e têm partículas
de verdade absoluta. Por exemplo: a tese de que a Terra é redonda e
gira em torno de si e do Sol. E assim todos os princípios, leis e teorias
científicas comprovadas pela prática.

86
Os céticos mais moderados, como os agnósticos, acreditam na
possibilidade de conhecer em geral os objetos e fenômenos circundan­
tes, que existem fora de nossa consciência, mas põem limites a esses
conhecimentos e consideram que o objeto do conhecimento é uma
criação do sujeito. É o caso do apriorismo kantiano, segundo o qual o
conhecimento é possível graças ao fato de vestirmos os objetos do
conhecimento com formas de nossa sensibilidade e as categorias de
nosso entendimento, formas estas que não existiriam nos objetos, mas
apenas no sujeito.
O ponto de partida de Kant — a existência dessas formas (que ele
chama de juízos sintéticos a priori) — é um falso pressuposto. Tais
formas ou juízos não existem. Negada a existência dos juízos sinté­
ticos a priori, rui por terra todo o sistema de Kant.
É óbvio que as formas e os conceitos apriorísticos de Kant lem­
bram as “ idéias inatas” de Descartes (que, segundo ele, teriam sido
colocadas em nós por Deus) ou as “ verdades eternas” de Leibniz ou
ainda as “idéias eternas” de Platão, que existiriam algures, antes e in­
dependente da experiência humana.
Como observou muito bem Locke, se houvesse no homem idéias
inatas, essas idéias gerais seriam conhecidas antes das coisas parti­
culares dadas na experiência; ora, na realidade, o conhecimento do
particular precede o conhecimento do geral.
Seliouvesse idéias inatas, manifestar-se-iam, sobretudo, nos seres
mais próximos da natureza, crianças, iletrados, selvagens; ora, esses
seres ignoram tais idéias. Só o homem adulto e culto conhece os con­
ceitos gerais.

B) Como Surgem os Conceitos


O conceito é uma representação mental abstrata e geral, é uma
forma superior de conhecimento que permite expressar os caracteres
gerais e essenciais das coisas e dos fenômenos da realidade objetiva. O
conceito não existe dentro do nosso espírito como elemento a priori,
inato, anterior à experiência, nem fora de nós, como uma coisa ou en­
tidade real. É o erro dos que reificam ou coisifícam os conceitos abs­
tratos.
Na realidade objetiva não existem os conceitos de causalidade,
quantidade etc., como tal. Ninguém pode ver, tocar, cheirar o con­
ceito quantidade, qualidade etc., como tal, como uma coisa real. O
conceito só existe no nosso espírito, como reflexo de fatos e fenô­
menos que existem fora de nós.
Por exemplo, o conceito de mortalidade como tal não existe antes
e fora de nós. O que existe são seres particulares vivos, que nascem e

87
morrem. Depois de observar muitas vezes, pela experiência individual
e da humanidade, no decorrer dos séculos, o homem chegou à con­
clusão que todos os seres vivos morrem, isto é, são mortais. Portanto,
o conceito de mortalidade é apenas uma representação mental, geral e
abstrata para expressar esse fato real, particular e concreto.
Tanto os conceitos como as leis científicas só existem no espírito
do sujeito cognoscente, mas seu conteúdo é objetivo, isto é, eles re­
fletem os fenômenos objetivos.
Os conceitos gerais são extraídos dos objetos e fenômenos da
realidade objetiva, pelos processos mentais de análise, síntese, abs­
tração e generalização de uma grande massa de fatos singulares: faz-se
abstração dos elementos fortuitos, das propriedades não-essenciais,
para formar conceitos que refletem as relações e os caracteres essen­
ciais, fundamentais, de um grupo de fatos e fenômenos da realidade
objetiva.
Pelo fato de serem extraídas da realidade objetiva, todas as
noções científicas são representações mentais dessa realidade.
Portanto, é totalmente falsa a afirmação de Kant e de seus
epígonos que os conceitos e as categorias são a priori, anteriores e in­
dependentes da experiência e impostos pelo espírito aos objetos do
conhecimento.

C) Não Existem ‘‘Coisas em Si” Incognoscíveis

Também é errônea a afirmação dos agnósticos a respeito da im­


possibilidade de conhecer os problemas ontológicos chamados me­
tafísicos, que eles consideram como transcendentais, além deste mun­
do sensível, tais como a infinitude do Universo, a existência de Deus, a
imortalidade da alma, o livre-arbítrio etc..
Alguns desses problemas “ transcendentais” , tais como a existên­
cia de um Deus criador e legislador, e a existência de uma alma es­
piritual livre e independente, já foram solucionadas negativamente
pela filosofia científica. Outras, tais como a finitude ou infinitude do
Universo no tempo e no espaço, ainda não o foram, mas o serão al­
gum dia, talvez num futuro não muito longínquo. Aliás, este é o único
problema realmente “ metafísico” e “ transcendental” por ser difícil
de demonstrá-lo cientificamente; porém, já existem várias tentativas
de demonstrar teoricamente que o Universo é infinito no espaço e no
tempo.
Kant abre um abismo artificial entre o númeno e o fenômeno. A
“ coisa em si” incognoscível de Kant é uma abstração morta, vazia de

88
sentido. No final das contas a “ coisa em si” transforma-se num sím­
bolo estéril, num puro nada, numa coisa impensável.
A própria vida, a cada momento, refuta o ceticismo sistemático
tanto o ceticismo absoluto como o ceticismo relativo e suas inúmeras
modalidades, demonstrando que o homem é capaz de conhecer a ver­
dade objetiva, a essência das coisas, válida universalmente.
O desenvolvimento impetuoso da ciência e da técnica demons­
tram que não existem “ coisas em si” incognoscíveis, que há somente
uma diferença entre o que já é conhecido (“ coisa para nós” ), e o que
ainda não é conhecido (“ coisa em si” ), mas que o será graças à ciência
e à prática. Uma vez conhecida, a “ coisa em si” se converte em “ coisa
para nós” .
Se as pessoas conseguem reproduzir artificialmente as coisas é
porque conseguiram conhecer a essência das mesmas. Por exemplo, a
borracha natural era uma “ coisa em si” até o dia em que a química
conheceu sua essência e começou a produzir, por meio de síntese
química, a borracha sintética, transformando assim a “ coisa em si”
em uma “ coisa para nós” . Outro exemplo, a energia atômica era uma
“ coisa em si” até há pouco tempo, mas a ciência contemporânea des­
cobriu sua essência e aprendeu a produzi-la. Por conseguinte, a ener­
gia atômica também se converteu em uma “ coisa para nós” .
A quantidade de coisas conhecidas aumenta cada vez mais, num
ritmo acelerado, à medida que se desenvolvem os conhecimentos cien­
tíficos e técnicos do homem. Não é isto uma demonstração irrefutável
da validade objetiva e universal dos nossos conhecimentos? Não é isto
uma prova convincente de que a razão humana tem a possibilidade de
conhecer o númeno, a “ coisa em si” , a essência das coisas?
A atividade prática e teórica do homem refuta o agnosticismo e
todas as modalidades de ceticismo. Quer se trate da natureza ou da
sociedade, o conhecimento científico se estende e se aprofunda sem
cessar. Não há limites absolutos ao conhecimento humano. Não há na
natureza coisas incognoscíveis. Há somente uma diferença entre o já
conhecido e o que ainda não o é, mas o será graças à atividade prática
e científica do homem.
2) RAÍZES IDEOLÓGICAS DO CETICISMO: Por mais in­
crível e paradoxal que pareça, o ceticismo sistemático leva ao seu con­
trário, àquilo que pretende combater — o dogmatismo moral e re­
ligioso.
O objetivo social e político secreto, consciente ou subconsciente,
do ceticismo sistemático em qualquer de suas variedades e nuances é o
mesmo do idealismo filosófico, sobre o qual já falamos: decretar a
impotência da razão humana para conhecer os segredos do universo e,

89
desse modo, justificar ou abrir caminho para o irracionalismo, o mis­
ticismo ou o fideismo, em uma palavra, para a concepção religiosa do
mundo.
Já que a razão é limitada para conhecer a essência das coisas e
as idéias transcendentais e teológicas (Deus, imortalidade, liberdade,
etc.), então o agnosticismo apela para o dogmatismo moral da ra­
zão prática ou deixa o caminho aberto para conhecê-los por meios
irracionais (fé, intuição metafísica ou mística etc.), como nas dife­
rentes doutrinas do dogmatismo irracional.
Toda a filosofia de Kant é um esforço teórico para fundamentar a
ciência sem cair no materialismo e no ateísmo e, ao mesmo tempo,
justificar os dogmas da religião, baseada na fé e na necessidade moral.
Para fugir ao materialismo e ao ateísmo, Kant sentia a neces­
sidade de provar a subjetividade do espaço; receava o argumento de
que, se considerasse o espaço como objetivo e material, Deus deveria
existir no espaço, e ser, por conseguite, espacial e material.
Receoso de que a crença em Deus desaparecesse com o progresso
da ciência, por não ser possível vê-lo através do telescópio ou outros
meios ou instrumentos científicos de observação, Kant e outros
ideólogos da burguesia entenderam que a fé em Deus se robusteceria
se mostrassem que suas idéias centrais e básicas são a priori e inatas
em todas as almas normais.
É por isso que para Kant o conhecimento só é possível através das
formas puras “ transcendentais” , condições a priori do conhecimento.
As leis científicas seriam leis do nosso espírito e não leis das coisas.
Schopenhauer observou muito bem que Kant era verdadeiramen­
te um cético e que, havendo deixado de crer, hesitava em destruir a fé
popular, receoso das consequências na moral pública. “ Kant paten­
teia a falta de alicerces da teologia especulativa e deixa intacta a
teologia popular, chegando mesmo a estabelecê-la em mais nobre for­
ma, como o é uma fé baseada no sentimento moral” . Segundo
Schopenhauer, o desejo de Kant era, “ por meio da teologia moral,
fornecer alguns frágeis e temporários suportes à fé, para que seus es­
combros não caíssem sobre ele, tendo, assim, tempo de fugir-lhes”
(citado por W. Durant, História da Filosofia, Companhia Editora
Nacional, São Paulo, 1966, p. 276. Vide também pp. 249, 273 e 275).
Como toda a sua filosofia, a teoria do conhecimento de Kant foi
uma reação ao materialismo e ateísmo francês; com ela, Kant pro­
punha-se restaurar o idealismo, reabilitar Deus e a religião, bastante
alquebrados sob os golpes dos pensadores materialistas. Kant queria
conciliar a ciência com a religião. Sua teoria do conhecimento pro-

90
punha-se a limitar os direitos da razão e deixar um lugar para Deus,
como ele mesmo reconheceu.
Assim o agnosticismo — essa modalidade de ceticismo siste­
mático e relativo leva ao irracionalismo e fideísmo.
É necessário contudo distinguir duas variantes de agnosticismo:
1) O agnosticismo idealista e fideísta, que nega radicalmente à
razão a capacidade de conhecer a essência das coisas e prega a neces­
sidade de recorrer a meios irracionais, como a fé, para fundamentar a
existência das idéias transcendentais; e
2) O agnosticismo materialista e ateu, que acredita na capacidade
da razão de conhecer o mundo, em geral, mas nega a possibilidade de
conhecer as idéias metafísicas e transcendentais.

O agnosticismo materialista é o espírito positivo em matéria de


ciência e cético em matéria metafísica e religiosa.
Esse tipo de agnosticismo recebeu muita difusão entre os cientis­
tas do séc. 19 e 20, que na sua especialidade eram materialistas e
acreditavam na possibilidade de conhecer as leis da natureza e da
sociedade, mas na questão dos problemas metafísicos declaravam-se
agnósticos, isto é, achava impossível dar-lhes uma solução positiva ou
negativa.
No fundo desse agnosticismo dos cientistas esconde-se um
materialismo e ateísmo mal disfarçado, uma forma vergonhosa de
aceitar o materialismo e o ateísmo às escondidas e de renegá-lo em
público.
É uma atitude e posição oportunista, típica do intelectual da clas­
se média de sociedade capitalista.
Sabe-se muito bem que nas sociedades capitalistas só são consi­
derados e amparados os ideólogos que, direta ou indiretamente,
defendem as idéias que refletem os interesses das classes dominantes e
da religião oficial. Qualquer filósofo ou cientista que defenda idéias
contrárias à religião oficial e aos interesses da classe dominante é por
todos os meios perseguido e sabotado. Ou não são aceitos em cargos
oficiais ou são dispensados dos mesmos se já estão lá.
Num ambiente desse é perfeitamente compreensível, embora não
justificável, a atitude oportunista do agnóstico materialista e ateu. É
uma questão de sobrevivência. Só alguns filósofos e cientistas des­
temidos têm a coragem de defender suas idéias progressistas até o úl­
timo suspiro.

91
Mas esse tipo de agnosticismo materialista também desemboca no
fideísmo, pois se não afirma a existência das idéias transcendentais
(Deus etc.) também não o nega.
O ceticismo sistemático e relativo, em qualquer de suas moda­
lidades, é uma posição sui generis que corresponde exatamente às
necessidades da burguesia imperialista, que não pode dispensar o
desenvolvimento das ciências a serviço da produção, mas que, ao mes­
mo tempo, estabelece um limite ao conhecimento científico para
deixar um lugar para a fé e à religião.
Manter na ignorância e no obscurantismo clerical o povo em
geral e sobretudo os povos de nações subdesenvolvidas ou em vias de
desenvolvimento, é o melhor meio de continuar e subjugá-los e ex­
plorá-los e, desse modo, impedi-los de progredir e obter sua indepen­
dência econômica e política.
Assim, igual ao idealismo filosófico, o ceticismo sistemático-em
qualquer de suas variedades desempenha um papel reacionário ao
combater as forças do progresso e da democracia.
Para um país em desenvolvimento como o nosso, que luta pela
sua independência econômica e política, é de vital importância rejeitar
qualquer modalidade do idealismo e do ceticismo gnosiológico e ar­
mar seus quadros intelectuais com uma teoria científica do conhe­
cimento, a fim de alcançar o mesmo desenvolvimento econômico e
social das grandes nações.
O conhecimento científico e tecnológico é a arma mais poderosa e
decisiva para o êxito do desenvolvimento multilateral tanto na vida in­
dividual como no destino de um país.
3) A FUNÇÃO POSITIVA E NEGATIVA DA RELIGIÃO: A
religião tem uma função positiva muito prática e útil: colocar um
freio moral às aspirações das massas populares, que não tendo ainda o
discernimento suficiente para distinguir, por si mesmas, o bem do
mal, são obrigadas a praticar o bem e evitar o mal por força de sanção
religiosa. Em vez de obrigá-las pela força física, se as obriga pela força
espiritual a manter-se na submissão e moralidade.
Por outro lado, a religião serve de consolo para as camadas
pobres da população, que, não podendo realizar suas necessidades e
seus desejos neste mundo terreno, embalam-se com os sonhos de
realizá-las no mundo celestial do Além.
Além do mais, através das preces, que se baseiam nas leis naturais
da sugestão e auto-sugestão, a religião dá aos crentes um poderoso
meio de obter o que se aspira; quando a técnica das preces é aplicada
com verdadeira fé e fervor, pode operar milagres.

92
Por estas e outras razões, a educação moral e religiosa do povo é
absolutamente necessária para garantir a ordem social, até o dia em
que todos se tornarem seres humanos suficientemente responsáveis e
autoconscientes de seus direitos e deveres para com a sociedade em
que vivem.
Nas sociedades atéias como a URSS e a China, onde foi banida a
religião como cosmovisão, e com isso desapareceu a sanção religiosa,
utilizam-se outros tipos de sanções: satírica, moral, crítica, política,
jurídica e policial. E quando esses meios legais mostram-se ineficien­
tes, recorrem a meios mais drásticos e desumanos, tais como as pri­
sões, internamento nos campos de concentração e nos hospitais
psiquiátricos etc..
Mas, ao lado deste aspecto, positivo, a religião tem um aspecto
muito negativo: consagrando a incapacidade da razão de conhecer o
mundo, tratando de convencer de que tudo acontece pela vontade de
um Deus onipotente e providencial, a religião condena o homem à
passividade, leva ao fatalismo, à renúncia ao conhecimento do mundo
e de suas leis e, consequentemente, à renúncia à luta pela transfor­
mação desse mundo.
A religião adormece o indivíduo e ele começa esperar de um Deus
legislador o estabelecimento de uma sociedade mais justa e humana,
em que ele possa viver mais humanamente. É nesse sentido que Marx
disse que a religião é o ópio do povo. Em outros termos, a religião
desempenha um papel conservador e reacionário.
Ora, se até certo ponto é compreensível o uso da religião como
ópio para adormecer as grandes massas populares inconscientes e
irresponsáveis, não se pode compreender que esse mesmo ópio ador­
meça também os quadros intelectuais, que serão os futuros dirigentes
do país, e dos quais depende o desenvolvimento econômico e cultural
da nação, desenvolvimento esse que permitirá a emancipação eco­
nômica e politica do país e sua entrada no rol das grandes nações
soberanas.
Portanto, os dirigentes das nações interessados no seu desenvol­
vimento e na sua independência econômica e politica, se querem ser
bem sucedidos, terão que adotar uma ideologia progressista, incen­
tivando por todos os meios uma concepção científica do mundo e, an­
tes de tudo, uma teoria científica do conhecimento. Pois, como já
mostramos, conhecer a verdade traz poder, liberdade e indepen­
dência.

93
B — S O L U Ç Õ E S P O S IT IV A S

Entre as doutrinas que acreditam na possibilidade de conhecer a


verdade, isto é, a essência das coisas, podemos distinguir: o dogmatis­
mo e o materialismo dialético.

1 — O D O G M A T IS M O G N O S IO L Ó G IC O

O dogmatismo gnosiológico é a doutrina que crê na possibilidade


de conhecer a verdade absoluta de modo direto e imediato, por meios
empíricos, racionais ou supra-racionais.
Podemos distinguir duas modalidades de dogmatismo: o dog­
matismo ingênuo e o dogmatismo absoluto ou sistemático.
1) D O G M A T I S M O I N G Ê N U O : Historicamente é a mais antiga
(por exemplo, no homem primitivo) e psicologicamente a primeira
(por exemplo, na criança) — concepção do homem comum e inculto,
segundo a qual as coisas, com todas as suas propriedades, são tais
como as vemos e sentimos.
Para o dogmático ingênuo ainda não existe o problema do co­
nhecimento. Considera como óbvio a possibilidade de um contato
direto entre o sujeito e o objeto. Ele ignora que o conhecimento é es­
sencialmente uma relação entre o objeto e um sujeito. Ele desconhece
de certo modo o sujeito.
Como o dogmatismo ingênuo ainda é uma atitude pré-científica e
pré-crítica, pode descambar facilmente para o misticismo e irracio-
nalismo.
No dogmatismo absoluto ou sistemático, podemos distinguir o
dogmatismo racional e o dogmatismo irracional.
2) D O G M A T I S M O R A C I O N A L : Doutrina, segundo a qual
podemos conhecer a verdade absoluta diretamente por meios ra­
cionais, mas considera a razão como faculdade supra-sensível, in­
dependente de toda a experiência, inexplicável portanto pela experiên­
cia. Essa concepção do dogmatismo racional é encontrada nas formas
platônica, aristotélica, escolástica ou cartesiana: reminiscência das
idéias eternas, como em Platão; encarnação inteligível pura, como em
Aristóteles; a fé, razão derivada da inteligência incriada, como em S.
Tomás; “ luz natural” posta em nós pelo Criador e que parece “ a
marca do obreiro na obra” , como em Descartes; “ visão direta em
Deus” , como em Malembranche, e outras doutrinas em que a razão
aparece sempre como verdadeira participação no Absoluto.
3) D O G M A T I S M O I R R A C I O N A L : Além do dogmatismo
racional existem outras variedades do dogmatismo absoluto que

94
pregam a possibilidade de alcançar a verdade absoluta de modo direto
por meios irracionais ou supra-racionais, através da intuição (in-
tuicionistas) como, por exemplo, em Bergson, ou através da fé (fideís-
tas) como, por exemplo, nas doutrinas religiosas.
Entre estas é interessante citar o gnosticismo, doutrina de diver­
sas seitas religiosas e místicas dos sés. 2 e 3 d. C., cujos iniciados
pretendiam ter do Ser Supremo e de todas as coisas um conhecimento
absoluto e total, bem superior do que a ensinada pela Igreja. Uniam a
teologia cristã ao neoplatonismo e ao pitagorismo.
De acordo com os gnósticos, todos os seres espirituais nascení
como emanações de Deus. Os gnósticos prepararam o terreno para os
escolásticos da Idade Média.
CRÍTICA: Como se vê, os dogmáticos creem piamente que a ver­
dade absoluta pode ser conhecida de modo direto quer pelos sentidos
(os empíricos), quer pela razão (os racionalistas), quer pela intuição
(os intuicionistas) ou pela fé (fideístas) ou outros meios supra-
racionais (irracionalistas).
Os dogmáticos têm razão em defender a possibilidade de co­
nhecer a verdade, a essência das coisas. Entretanto, a verdade objetiva
e absoluta não pode ser conhecida de um modo direto e imediato. O
conhecimento da verdade é um processo longo, complexo e indireto,
entre o objeto e o sujeito cognoscente.
Se fosse possível conhecer a verdade, a essência das coisas, a ver­
dade absoluta, de um modo direto e imediato, não haveria nenhuma
necessidade das ciências. Estas nasceram e continuam se desenvolven­
do justamente para fornecer ao homem um conhecimento mais com­
pleto e profundo das coisas.
O dogmatismo gnosiológico qualquer que seja a variante, leva
inevitavelmente ao irracionalismo, misticismo e fideísmo.
2 — MATERIALISMO DIALÉTICO
No fim do capítulo anterior dissemos que um dos princípios fun­
damentais do materialismo dialético afirma que o mundo material e
suas leis são perfeitamente cognoscíveis, e as nossas sensações, re­
presentações e conceitos são reflexos das coisas que existem fora de
nossa consciência e, conseqüentemente, as verdades científicas têm
caráter objetivo.
A posição do materialismo dialético ou diamate é intermediária
entre o dogmatismo e o cetismo relativo. Os adeptos do materialismo
dialético afirmam juntamente com os relativistas, que os nossos
conhecimentos são relativos, na etapa atual, mas crêem na possibi-

95
lidade de conhecer a verdade absoluta, não de modo imediato como
afirmam os dogmáticos, mas sim, paulatinamente.
Hà um movimento permanente, progressivo de aproximação do
nosso pensamento ao objeto, do conhecimento incompleto ao co­
nhecimento mais completo, do fenômeno ao númeno, da verdade
relativa à verdade absoluta.
Ao contrário do agnosticismo, o diamate nega que haja “ coisas
em si’’ incognoscíveis, e afirma que há unicamente coisas ainda não
conhecidas. Graças ao desenvolvimento das ciências e da técnica, o
númeno, a essência das coisas, a “ coisa em si’’, vai se tornando em
“coisa para nós” . Os conhecimentos que o homem possui sobre o
mundo são fidedignos, sua razão é capaz de penetrar na natureza in­
terna das coisas e conhecer sua essência.
Em oposição ao idealismo, ao apriorismo e ao criticismo, o
materialismo dialético rejeita o divórcio entre a matéria e a forma, do
conhecimento, e afirma que todas as propriedades e as formas sen­
síveis e conceptuais (que Kant chama de formas a priori da sensibi­
lidade e do entendimento) pertencem aos objetos.
Assim, tanto as propriedades sensíveis quantitativas, chamadas
primárias (como a forma, o volume, o movimento etc.) como as
propriedades qualitativas, chamadas secundárias (como a cor, som, o
calor, o odor, o sabor, a dureza etc.) pertencem ao objeto e não ao
sujeito. A nossa consciência nada mais faz que reproduzi-las mais ou
menos fiel e completamente.
Essas propriedades sensíveis não são na realidade exatamente
como as percebemos, (como pensam os dogmáticos e os materialistas
ingênuos), mas são movimentos corpusculares da matéria (o som, o
calor) ou irradiação de energia de diferentes freqüências (a luz, as
cores) ou outras radiações eletromagnéticas emanadas pelos objetos
materiais, que produzem em nossa consciência imagens correspon­
dentes. Essas propriedades representam reações de nossa consciência a
determinados estímulos e ações externas, provindas das coisas, que in­
cidem nos órgãos dos sentidos, produzindo em todas as pessoas nor­
mais as mesmas sensações, percepções e imagens.
Quanto ao espaço e ao tempo, o diamate os considera como for­
mas de existência da matéria, formas essas que têm caráter objetivo,
existem fora de nossa consciência e são a posteriori, isto é, existem
depois da experiência.
Quanto aos conceitos gerais e às categorias como a quantidade,
qualidade, causalidade etc., eles só existem na nossa consciência, mas
como reflexos das propriedades e relações que existem nos objetos.
São, portanto a posteriori, isto é, aparecem depois da experiência.

96
Assim, não é a dialética das idéias que produz a dialética das
coisas (como pensam os kantianos) mas, ao contrário, é a dialética das
coisas que produz a dialética das idéias.
“ O movimento do pensamento é apenas o reflexo do movimento
real, transportado e transposto no cérebro do homem” (Marx, in
Postface à 2.a edição alemã de O Capital).
Em outros termos, os conhecimentos que se encontram na cons­
ciência do sujeito em forma de sensações, percepções, representações,
noções, conceitos, categorias e leis científicas, refletem os objetos, os
fatos, os fenômenos, suas propriedades, bem como as relações exis­
tentes entre eles.
O materialismo dialético foi a primeira doutrina filosófica na his­
tória do pensamento humano a elaborar uma teoria científica do
conhecimento, a dar uma explicação científica da natureza do co­
nhecimento e do processo cognoscitivo. A gnosiologia diamática toma
por base a realidade objetiva do mundo exterior que existe indepen­
dentemente da consciência dos homens, e considera o conhecimento
como o reflexo ativo desse mundo objetivo na consciêncià do sujeito
cognoscente.
Não vamos aqui nos deter mais demoradamente no exame da
gnosiologia diamática, porque os próximos capítulos serão consa­
grados à exposição mais detalhada dos princípios fundamentais do
conhecimento à luz do materialismo dialético criativo. Dizemos
criativo porque, tanto pela temática como pela interpretação, nossa
abordagem difere bastante daquilo que existe nos autores marxistas
ortodoxos (soviéticos ou não), como aliás fizemos até aqui.

97
V — AS FONTES DO CONHECIMENTO

Já vimos que do ponto de vista da gnosiologia científica o co­


nhecimento é o reflexo e a reprodução do objeto na mente.
No processo do conhecimento participam os sentidos, a razão e a
intuição. Pergunta-se: qual deles é a origem, a fonte e a base principal
do conhecimento humano? Na questão de saber o lugar e a importân­
cia deles no conhecimento da verdade há divergências de opiniões. Na
história da filosofia apareceram diferentes doutrinas a respeito:

1 — EMPIRISMO
(Do grego, empeiria = experiência) Doutrina que afirma que a
única fonte de nossos conhecimentos é a experiência, recebida pelos
nossos sentidos. Seu axioma fundamental é: “ Nihil est in intellectu
quod priusnon feurit in sensu” . Istoé, nada existe no intelecto que an­
tes não tenha estado nos sentidos.
Os empiristas consideram que o conhecimento empírico, sensível,
obtido através dos órgãos dos nossos sentidos, é suficiente para co­
nhecer a verdade. Ao nascer, a mente humana está completamente
vazia, assemelhando-se a uma tábua rasa, uma folha em branco, na
qual a experiência escreve. Todos os nossos conhecimentos, incluindo
os mais gerais e abstratos, o sujeito cognoscente tira da experiência. A
razão não agrega nada de novo, pois limita-se simplesmente a unir e
ordenar os diferentes dados da experiência. É suficiente a razão se
afastar dos dados da experiência para cair no erro, desligar-se da
realidade.
Os representantes principais do empirismo foram Locke, Hume,
Condillac, Stuart Mill, e outros.
CRÍTICA: O mérito dos empiristas foi assinalar com energia a
importância da experiência na origem dos nossos conhecimentos. Eles

99
têm razão ao afirmar que não existem idéias inatas, que antes da ex­
periência não há e nem pode haver conhecimento sobre o mundo ex­
terior. O ponto fraco dos empiristas é a subestimação do papel da
razão, do pensamento abstrato, e a sua diferença qualitativa em re­
lação ao conhecimento empírico.
Os nossos sentidos nos dão somente o conhecimento dos fenô­
menos. A essência das coisas, o númeno, só pode ser alcançada pela
razão, pelo pensamento abstrato.

2 — RACIONALISMO

(Derivado do latim, ratio = razão). Doutrina que afirma que a


razão humana, o pensamento abstrato, é a única fonte do conheci­
mento da verdade.
Ao contrário dos empiristas, afirmam que os nossos sentidos nos
enganam e nunca podem conduzir a um conhecimento verdadeiro,
pois que o mundo da experiência encontra-se em contínua mudança e
alteração.
Segundo o racionalismo, um conhecimento é verdadeiro somente
quando é logicamente necessário e universalmente válido. Esse co­
nhecimento só pode ser alcançado pela razão.
Adeptos do racionalismo: Platão, Descartes, Spinoza, Leibniz,
Kant e outros.
Segundo a teoria das idéias inatas de Descartes ou das formas a
priori de Kant, os conceitos fundamentais do conhecimento são-nos
inatos, isto é, nascem conosco, e, portanto, não procedem da expe­
riência, são a priori, isto é, anterior à experiência.
CRÍTICA: O mérito do racionalismo consiste no fato de subli­
nhar o importante papel ativo e criador da razão, do pensamento abs­
trato, no conhecimento da verdade, da essência das coisas. Mas erram
ao divorciar a razão da experiência, ao desprezar o papel dos sentidos,
considerando que a razão, independente da experiência, pode co­
nhecer a verdade.
RAÍZES GNOSIOLÓGICAS DO RACIONALISMO: Os ra-
cionalistas partem da consciência do homem adulto e culto, que ad­
quiriu muitas idéias, axiomas e principios da razão. Mas eles se es­
quecem que essas idéias, princípios e axiomas tiveram uma origem
empírica. Depois de serem repetidas milhares de vezes pelo pensamen­
to, essas verdades objetivas se tornaram evidentes e axiomáticas e
criaram a impressão de serem a priori, inatas, congênitas e inerentes à
razão humana.

100
3 — INTUICIONISMO

Pecam no mesmo erro os intuicionistas, como Bergson e outros,


quando afirmam que é possível conhecer diretamente a verdade, o ab­
soluto, sem o auxílio dos sentidos e da razão, através de uma facul­
dade irracional 011 sobrenatural chamada intuição, com a qual es­
tariam dotadas, segundo eles, apenas algumas elites previlegiadas,
eleitas por uma força sobrenatural (Deus etc.).
A intuição desempenha um papel muito importante no conhe­
cimento da verdade, mas ela não funciona sem os dados empíricos e
racionais.
Estudaremos esse ponto mais detalhadamente no capítulo sobre o
conhecimento intuitivo.

4 — MATERIALISM O DIALÉTICO
Como vimos, tanto o empirismo como o racionalismo e o in-
tuicionismo são doutrinas unilaterais. Enquanto o primeiro considera
os nossos sentidos (a experiência) como a base a fonte do conhecimen­
to, o segundo considera a razão e o terceiro, a intuição.
A verdade no caso estã na síntese dialética das três teorias ex­
tremas — O Materialismo Dialético. Segundo essa doutrina, os três
fatores, os sentidos, a razão e a intuição tomam parte na elaboração
do conhecimento.
Na nossa atividade prática, obtemos, por meio de nossos órgãos
dos sentidos, imagens sensíveis dos objetos concretos. Nesses mesmos
objetos encontram-se implícitas (ocultas, em potência), suas quali­
dades não-sensíveis, a sua essência. Só é preciso extraí-la. Isso tem lugar
por obra da nossa razão e da intuição, pelo entendimento ativo ou pelo
intelecto. Como indica a palavra (intelligere, de intus legere = ler no in­
terior), a inteligência cognoscente lê na experiência, tira da experiência
os seus conceitos. Dos conceitos assim extraídos, obtêm-se, por meio de
operações da razão, os conceitos mais abstratos e mais gerais, como os
que estão contidos nas categorias nos princípios da razão.
O materialismo dialético estabeleceu que o conhecimento não é
um reflexo simples, passivo, inerte, “fotográfico” , da realidade, mas
um processo dialético complexo.
Esse processo se desenvolve por etapas ligadas entre si e que se
sucedem uma à outra. Lenin expressou admiravelmente a essência
desse processo e mostrou como a realidade se reflete em cada grau do
conhecimento da verdade objetiva: “ Da contemplação viva ao pen­
samento abstrato, e deste à prática — tal é o processo dialético do

101
conhecimento da verdade, do conhecimento da realidade objetiva”
(Cadernos Filosóficos, Ed. Russa, Moscou, 1947, pp. 146-147).
A razão está intimamente ligada aos nossos sentidos. Os dados do
sentido são a base, o fundamento dos nossos conhecimentos, mas não
todo o seu fundamento. A razão, o pensamento, na base desses co­
nhecimentos, vai além, em busca da essência das coisas que não estão
ao alcance dos sentidos.
A razão sem os dados empíricos é vazia.
A experiência sem a razão é cega.
Não há idéias inatas, nem a priori, anteriores à experiência. Do
ponto de vista biológico, as idéias não se herdam. Herda-se apenas o
mecanismo da atividade nervosa que serve de base fisiológica para o
conhecimento. Os conhecimentos práticos e teóricos acumulados
pelas gerações procedentes são herdadas, socialmente, através da ins­
trução, da educação ou adquiridos pela própria experiência individual
no processo da atividade prática e teórica.
5 — A S ESPÉCIES E FORMAS DO CONHECIMENTO
Assim, existem três espécies de conhecimento:
A — O conhecimento sensível ou empírico — fornecido pelos
nossos órgãos sensoriais (visão, audição, tato, olfato, paladar).
B — O conhecimento racional ou abstrato — obtido pela razão
ou intelecto.
C — O conhecimento intuitivo ou criativo obtido pela intuição.
Cada espécie de conhecimento se manifesta em formas peculiares
de conhecimento, segundo o quadro abaixo:
Espécies de conhecimento: Formas de conhecimento:

A — Sensível ou Empírico

B — Racional ou Abstrato

C — Intuitivo ou Criativo

Examinemos, brevemente, cada espécie de conhecimento com as


respectivas formas que elas se revestem.

102
VI — O CONHECIMENTO SENSÍVEL OU EMPÍRICO

O conhecimento sensível ou empírico ê o conhecimento da


realidade através dos nossos sentidos (vista, ouvido, tato, olfato,
paladar). Todo objeto material, fora de nós, tem propriedades sen­
síveis que podem ser conhecidos pelos nossos sentidos, tais como:
cor, som, temperatura, dureza, vibração, cheiro, gosto, extensão,
volume, forma, quantidade, movimento etc..
Formas em que aparece o conhecimento sensível: 1 — SEN­
SAÇÃO; 2 — PERCEPÇÃO; 3 — REPRESENTAÇÃO:

1 — SENSAÇÃO

É uma imagem subjetiva, do mundo objetivo. Os objetos ex­


teriores, atuando nos órgãos dos sentidos, produzem imagens no nos­
so cérebro. A sensação é o reflexo em nosso cérebro de uma ou mais
qualidades sensíveis isoladas dos objetos exteriores, por exemplo: a
sensação da forma da laranja, de seu peso, de sua cor, de seu cheiro,
de seu gosto ou de seu tato.

2 — PERCEPÇÃO

É o reflexo do conjunto das qualidades sensíveis dos objetos ex­


teriores. Reflete o objeto como um todo em sua forma sensível.
Exemplo: a percepção de todas as qualidades sensíveis da laranja.

3 — REPRESENTAÇÃO

É a reprodução na mente das qualidades sensíveis do objeto. Na


representação a presença do objeto não é obrigatória.

103
Graças a memória, pensamos no objeto e o representamos na
mente com todas as suas qualidades. Por exemplo: a imagem de uma
laranja ou de um antigo colega de escola que não víamos há muito
tempo.
A representação, que também é chamada, às vezes, de imagi­
nação reprodutora, por alguns autores, é a forma de conhecimento
que serve de ponte entre o conhecimento empírico e o abstrato, o elo
intermediário entre a percepção sensível e o conceito abstrato.

4 — A IMAGINAÇÃO CRIADORA

É a faculdade de construir na mente um objeto com qualidades


que existem na natureza, mas que necessariamente não pertencem ao
objeto na conexão dada. Por exemplo: imaginar uma laranja maior e
mais doce, ou uma nova fruta com qualidades peculiares a duas fnitas
e espécies diferentes: a lima, que tem qualidades do limão e da laranja,
uma casa diferente das outras etc..

5 — A FANTASIA

É a faculdade de construir imagens dos objetos com qualidades


que talvez nem existam na natureza na conexão dada. Por exemplo: o
centauro (monstro fabuloso com cabeça de homem e corpo de cava­
lo), a sereia, o saci-pererê etc....
Alguns autores de obras de ficção científica ou de realismo
mágico afirmam que “ tudo que a fantasia do homem possa imaginar
já existiu, existe ou existirá no futuro” . Essa afirmação, por mais fas­
cinante que seja, não é verdadeira. Nossa fantasia pode imaginar
coisas que nunca existiram e nunca poderão existir. Por exemplo:
podemos imaginar uma escultura de pedra, com forma e qualidades
humanas, que sente, pensa, fala e age. No entanto isso é uma pos­
sibilidade irreal, inexeqüível, pois a pedra é um ser bruto, inanimado,
completamente destituído de vida sensorial, de razão e de intuição.
Por mais interessante e fascinante que sejam as criações da fan­
tasia, é necessário ter um espírito suficientemente lúcido e crítico para
não confundi-las com a realidade. Por exemplo, ninguém acredita na
existência do saci-pererê, embora ele seja personagem de muitas
fábulas brasileiras.
Para que o objeto de nossa imaginação e fantasia possa existir é
necessário que ele seja baseado em possibilidades reais.

104
A imaginação e a fantasia, quando fecundas e realistas, desem­
penham importante papel nas artes e na ciência, criando novas obras
de arte ou inventando novos objetos e descobrindo novas coisas.
Um exemplo disso temos nas obras de Júlio Verne, que previu e
descreveu várias descobertas científicas, muito antes de existirem na
realidade. Isso foi possível porque Júlio Verne tinha uma imaginação
e fantasia fecunda e realista, baseada no espírito científico e filosófico
mais avançado de sua época.
O conhecimento empírico é o fundamento do conhecimento, m{is
não todo o fundamento. O conhecimento sensível, ainda que nos for­
neça uma imagem verdadeira da realidade objetiva, não está em con­
dições de penetrar na essência tias coisas. Por exemplo: contemplamos
uma lâmpada elétrica, mas não é possível representar que a corrente
elétrica seja um fluxo de elétrons que se movem com uma velocidade
fantástica. Para isso é necessário recorrer ao auxílio do conhecimento
abstrato, que, baseando-se nos dados fornecidos pelo conhecimento
empírico, vai mais além, até penetrar no íntimo das coisas e desvendar
as leis que as regem.

105
I
í
VII — CONHECIMENTO RACIONAL OU ABSTRATO

O conhecimento racional, também chamado abstrato ou lógico,


nos dá o conhecimento das qualidades não-sensíveis, essenciais, gerais
dos objetos. O homem, ser racional, tem a razão que lhe permite
penetrar no “ fundo” das coisas.
Formas do conhecimento racional: 1 — CONCEITO;
2 — JUÍZO; 3 — RACIOCÍNIO.

1 — CONCEITO {noção ou idéia)

É uma imagem subjetiva do mundo objetivo, mas uma imagem


mental e não sensível como na percepção. Enquanto a imagem sen­
sível é concreta e particular, o conceito é abstrato e geral. O conceito
reflete os aspectos essenciais, universais do objeto, abstraindo-se dos
aspectos secundários. Exemplos de alguns conceitos, noções ou idéias:
flora, fauna, ser humano, mortalidade, gravidade etc..
Por exemplo: o conceito ou a idéia do ser humano não abrange
dados concretos e particulares de idade, sexo, nacionalidade, raça,
lugar e tempo. Fixa só aquilo que é essencial geral, comum a todos os
homens: animal social e racional, apto para pensar e trabalhar.
O conceito forma-se comparando todos os homens, abstraindo
todos os caracteres particulares e secundários, e generalizando o que
há de comum e essencial a todos os homens.
OS PROCESSOS PARA A FORMAÇÃO DE CONCEITOS:
Assim, para formar o conceito de algo, usamos vários processos men­
tais: análise, síntese, abstração, generalização etc....

107
A) Análise

Operação mental que consiste em decompor um todo (objeto ou


fenômeno) em seus elementos constituintes, a fim de compreender o
lugar que eles ocupam e o papel que desempenham no todo.

B) Síntese

Operação mental que, ao inverso da análise, consiste em recom­


por um todo (objeto ou fenômeno) a partir de seus elementos cons­
tituintes, a fim de compreendê-lo em sua totalidade, em seu conjunto.

C) Abstração

(Vem do latim ab trahere = tirar de): Operação mental que con­


siste em isolar ou separar, para considerá-lo à parte, um elemento de
um todo que não é separável na realidade, a fim de distinguir o aci­
dental (particular) do essencial (geral) — aquilo que é sempre o mesmo
em objetos diversos, independentes de suas particularidades indivi­
duais.

D) Generalização

Operação mental que consiste em estender a toda uma classe de


objetos ou fenômenos os elementos essenciais, gerais, universais,
constatados num certo número de objetos ou fenômenos da mesma
classe. É assim que se formam os conceitos. Quanto mais um concei­
to é abstrato mais geral ele é. Assim o conceito do Ser é o mais geral
e abstrato dos conceitos, pois ele abrange todos os seres existentes.
Tanto a análise e a síntese, como a abstração e generalização são
processos mentais inseparáveis uns dos outros, isto é, não existem
separadamente.
Assim como com as sensações formam-se percepções e represen­
tações, com os conceitos formam-se juízos e raciocínios.
2 — JUÍZO

É uma relação entre dois ou mais conceitos. O juízo é uma


proposição ou asserção, isto é, uma afirmação ou negação entre dois
ou mais conceitos. Por exemplo: O homem é um ser social e racional.
Homem — conceito — sujeito.
É — copula — verbo que une, afirmando ou negando.

108
Ser social e racional — conceito — predicado.

3 — RACIOCÍNIO

É uma relação ou combinação de juízos, do qual se tira outro


juízo chamado conclusão.
A S FORMAS DE RACIOCÍNIO LÓGICO: O raciocínio lógico
tem duas formas fundamentais: dedução e indução.
1) DEDUÇÃO: É o raciocínio que vai do geral para o particular,
isto é, desce dos princípios gerais para os fatos particulares.
O ponto de partida da dedução é sempre um princípio tido como
verdadeiro a priori. O ponto de chegada é a tese ou conclusão, que é
aquilo que se quer provar.
Distinguem-se duas formas de dedução:

A — Dedução Analítica, Formal ou Silogística

Utilizada na Lógica Formal. É um raciocínio puramente formal,


onde a conclusão não dã um conhecimento novo, pois ela está im­
plícita nos princípios. Sua forma mais importante é o silogismo,
raciocínio composto de três juízos ou proposições: duas premissas
(maior e menor) e uma conclusão. Exemplo de silogismo ou dedução
formal:
Todos os homens são mortais (premissa maior).
Ora, Sócrates é homem (premissa menor).
Logo, Sócrates é mortal (conclusão).
Na premissa maior jâ está implícita a conclusão (Sócrates é mor­
tal).

B — Dedução Sintética, Construtiva ou Demonstrativa

Empregada nas ciências matemáticas. A conclusão é uma pro­


posição nova que se constrói com a ajuda dos princípios. Exemplo:
num teorema de geometria a conclusão não está contida nos princípios
(na hipótese), mas a demonstração consiste em construí-la com a
hipótese. Por exemplo, contrói-se a soma dos ângulos de um polí­
gono com as dos triângulos, nos quais pode-se decompor o polígono e
cujo número é o de seus lados, menos dois; na Álgebra constrói-se a
nova forma de expressão algébrica, partindo da primeira etc..

109
2) INDUÇÃO: É o raciocínio que vai da particular para a geral,
isto é, que sobe da observação dos fenômenos às leis que os regem, que
são relações constantes e necessárias que há entre eles. O ponto de par­
tida da indução não são os princípios (como na dedução) mas a obser­
vação dos fatos e dos fenômenos da realidade objetiva. Seu ponto de
chegada é o estabelecimento de leis ou regularidades que regem ditos
fatos ou fenômenos. A indução é o método científico por excelência e,
por isso mesmo, é o método fundamental das ciências naturais e
sociais.
Na realidade, a indução não é um raciocínio único: ela com­
preende um conjunto de procedimentos, uns empíricos, outros lógicos
e outros intuitivos que estudaremos mais adiante.
Distinguem-se duas formas de indução:

A) Indução Formal

A lei que consiste o ponto de chegada exprime realmente a to­


talidade dos fenômenos observados. Exemplo:
A Terra, Marte, Vénus etc., são desprovidos de luz própria.
Ora, a Terra, Marte, Vénus etc., são todos planetas.
Logo, todos os planetas são desprovidos de luz própria.
Essa lei se refere a todos os sete planetas do nosso sistema solar.
A indução formal não aumenta o conhecimento, mas apenas
substitui por um termo geral uma série de termos singulares.

B) Indução Amplificadora ou Científica

A lei não exprime a totalidade, mas, sim, uma parte dos fenô­
menos. Conclui de um ou mais fatos particulares para todos os fatos
semelhantes, presentes e futuros.
Exemplo:
Este imã atrai o ferro, aquele imã atrai o ferro...
Logo, em toda parte e sempre, o imã atrairá o ferro.
Outro exemplo:
Sócrates morreu, Platão morreu, Aristóteles morreu etc....
Ora, Sócrates, Platão, Aristóteles e os demais eram homens.

110
Logo, todos os homens são mortais.
Neste raciocínio fica claro que não foram observados todos os
casos ou fatos, mas um certo número deles, considerados suficientes
para estabelecer a relação constante e necessária representada pela lei.
Embora a indução amplificadora seja imperfeita e passível de
erro, é o raciocínio mais utilizado nas ciências, pois na prática nem
sempre é possível observar todos os fatos ou fenômenos. Aliás, na
maioria dos casos, isso nem é necessário para se chegar a uma lei
geral.
C) Analogia

É uma forma particular de indução. O raciocínio por analogia


consiste na passagem de uma semelhança constatada a outra seme­
lhança não constatada. Exemplo: constata-se que o planeta Marte
possui uma atmosfera semelhante a da Terra e disso se conclui que
pode ter seres vivos. Embora o raciocínio por analogia seja muito
freqüente e, às vezes, traga resultados positivos, na realidade é um
raciocínio incompleto, arriscado e de valor discutível.
CONCLUSÃO: Indução e dedução, tal como análise e síntese,
abstração e generalização, não são modos isolados de raciocínio e de
pesquisa como pensam muitos autores; eles se entrosam e na realidade
são inseparáveis uns dos outros.
Por exemplo: a conclusão estabelecida pela indução pode servir
de princípio (premissa maior) para a dedução; mas a conclusão da
dedução pode também servir de princípio da indução seguinte, e assim
por diante. Exemplos:
O ferro conduz eletricidade, o cobre também, o zinco também
etc....
Ora, o ferro, o cobre, o zinco etc... são metais.
Logo, todos os metais conduzem eletricidade.
A conclusão deste raciocínio indutivo serve de premissa maior
para o raciocínio dedutivo:
Todos os metais conduzem eletricidade.
Ora, o ouro é metal.
Logo, o ouro conduz eletricidade.
NB: Quando uma das premissas não é verdadeira, a conclusão
também não é verdadeira. Por exemplo:

111
Todos os homens são honestos.
Ora, os assaltantes são homens.
Logo, os assaltantes são honestos.
No exemplo acima a premissa maior é falsa, pois nem todos os
homens são honestos.

D) As Quatro Fases da Indução Científica:

O estudo pela indução científica ou amplificadora pode ser des­


dobrado em quatro fases:
1. a) Imaginar uma hipótese de trabalho que será o fio condutor
da investigação ou pesquisa.
2. a) Observar, colher e coordenar os fatos, objetivamente sem
idéias pré-concebidas, isto é, deixando de lado todas as crenças,
preconceitos e superstições.
3. a) Descobrir, nos fenômenos estudados, relações de causa e
efeito, estabelecendo explicações gerais, hipóteses, fórmulas, regu­
laridades, princípios gerais que exprimem essas relações.
4. a) Confirmar, por meio de várias mobilidades de provas di­
retas e indiretas (verificação, demonstração etc.), se as explicações
gerais formuladas são verdadeiras, isto é, se refletem corretamente as
relações objetivas.
Se, com esses processos de verificação e de demonstração,,a ver­
dade das regularidades descobertas é confirmada, então formula-se as
mesmas em caráter mais ou menos permanente em formas superiores
do conhecimento racional, tais como: hipóteses, teses, teorias, leis e
princípios, que posteriormente podem ser englobados num sistema ou
numa doutrina.

E) As Formas Superiores do Conhecimento Racional

Vejamos alguns desses degraus superiores do conhecimento


racional:
HIPÓTESE: É uma suposição ou proposição, tese ou teoria
provável, cuja verdade ainda não foi demonstrada. Na hipótese nem
todos os dados foram comprovados. Por exemplo: as suposições acerca
da existência de vida em Marte e em outros planetas do sistema solar.
Depois de mais ou menos provada, a hipótese toma forma de tese ou
teoria.

112
TESE: É a proposição de uma teoria tida como verdadeira e que se
apresenta para ser provada.
TEORIA: É um conjunto de teses e princípios fundamentais sis­
tematicamente organizados sobre determinados assuntos. Por exem­
plo: a Teoria da Relatividade, a Teoria Atômica, a Teoria da Origem da
Vida, a Teoria da Evolução, a Teoria da Hereditariedade etc..
Depois de suficientemente verificadas pela experiência e demons­
tradas pela lógica, as hipóteses, teses e teorias se transformam em leis
e princípios científicos.
LEI (natural, científica): Em gnosiologia é o enunciado de uma
relação necessária e constante entre fatos e fenômenos, relação essa
decorrente da natureza interna das coisas, isto é, de sua essência. Por
exemplo: leis da gravitação universal, leis da conservação da matéria e
da energia etc..
Não confundir a lei natural e científica com a lei normativa. A
primeira tem caráter objetivo, independente da consciência e da von­
tade dos homens, enquanto que a segunda é criada e ditada pelos
homens, tais como as leis jurídicas, as normas morais, as regras de
trânsito etc..
PRINCÍPIO: Em gnosiologia, é uma proposição (tese ou teoria)
muito geral, fundamental, suficientemente demonstrada e por isso
mesmo considerada como verdadeira, da qual as leis já descobertas
.podem ser consideradas como consequências. Por exemplo: O Prin­
cípio da Conservação da Energia.
Não confundir princípio com axioma, postulado e dogma.
O axioma tem várias acepções. No sentido restrito de princípio
lógico e racional, o axioma é uma proposição evidente por si mesma e
que se aceita como verdadeira e sem demonstração. Por exemplo: “ O
todo é maior que qualquer de suas partes” ; “ Duas quantidades iguais
a uma terceira, são iguais entre si” .
No sentido geral, mais usado nos nossos dias, o axioma é uma
proposição, evidente ou não, que não se deduz de outra, é indemons-
trável, mas que é aceita sem demonstração como necessária para servir
de base ou ponto de partida para a construção de um sistema hipo­
tético-dedutivo. Nesse sentido, o axioma inclui o postulado e tem
caráter convencional. Por exemplo, “ os axiomas geométricos não são
nem juízos sintéticos a priori, nem fatos experimentais; são conven­
ções” — como diz Henri Poincaré.

113
O postulado é uma proposição não-evidente nem demonstrável,
mas admitida, por convenção, como princípio indispensável de um
sistema dedutivo. Por exemplo, o postulado de Euclides: por um pon­
to fora de uma reta, não se pode traçar senão uma paralela a essa reta.
O dogma é uma proposição indemonstrável e indiscutível, aceito
na base somente da crença e da fé, sem a participação criticada razão
ou da prova científica. Por exemplo, o dogma da criação do homem e
do mundo por um ser superior, os dogmas de existência de Deus, da
imortalidade, do livre-arbítrio etc..
Como se vê, o axioma, o postulado e o dogma são proposições
aceitas na base da convenção ou da fé. Já o princípio cinetífico, para
ser aceito precisa ser suficientemente demonstrado.
DOUTRINA: Em gnosiologia, é um conjunto de teorias e de prin­
cípios que servem de base a um sistema científico ou filosófico. Por
exemplo a Doutrina Evolucionista.
SISTEMA: Em gnosiologia, é um conjunto de teorias e princípios
científicos ou filosóficos que constituem um todo orgânico. Por exem­
plo: Sistema Heliocêntrico de Copérnico.
Na linguagem corrente é freqüente usar como sinônimos ou idéias
afins os conceitos de teoria, princípio, doutrina e sistema.

114
VIII — OS PRINCÍPIOS l ó g ic o s e r a c io n a is

Em nosso raciocínio, partimos de certos princípios fundamentais


da razão que “ são tão necessários quanto os músculos e os tendões
para andar, ainda que não atentemos nisso” (Leibniz). Esses prin­
cípios constituem a armadura de todo pensamento lógico e racional e
orientam a atividade do pensamento correto e verdadeiro. Eles não
figuram explicitamente em nossos raciocínios, mas sústentam todos os
seus andamentos. Eis porque alguns autores os chamam de primeiros
princípios ou princípios diretores do conhecimento.
A observação desses princípios do raciocínio é condição neces­
sária para que o nosso pensamento seja claro, preciso, correto, con-
seqüente e verdadeiro. Sem eles o pensamento perde sua precisão, es­
tabilidade e se toma confuso, incoerente, contraditório, errôneo ou
falso.
Entre esses princípios queremos ressaltar dois deles, o lógico e o
racional com seus respectivos derivados.
1 — O PRINCÍPIO LÓGICO E SEUS DERIVADOS PODEM SER
ASSIM FORMULADOS:
1) PRINCÍPIO DE IDENTIDADE: Tudo é idêntico a si mesmo.
O que é, é. Expressa-se pela fórmula: A é A. Exemplo: a mesa é mesa.
Esse princípio fundamental é tão elementar e evidente que sua
formulação é difícil e sempre desconcerta um pouco.
O princípio de identidade (que poderia também ser chamado de
princípio de identificação) trata de identidade abstrata, ela é tauto­
lógica e nada de novo nos ensina. Na prática ela quase não é utilizada
por ser evidente demais. Mas ela implica em dois princípios derivados
que são sempre utilizados em nossos raciocínios.

115
2) PRINCÍPIO DA NÃO-CONTRADIÇÃO (OU DA CON­
TRADIÇÃO): Uma coisa não pode ser e não ser ela mesma, ao mesmo
tempo e do mesmo ponto de vista. Expressa-se pela fórmula: A não é
não-A. Exp.: a mesa não é não-mesa.
Não deve haver contradição no nosso raciocínio. Não se pode
dizer que A é não-A, que mesa é não-mesa ao mesmo tempo e sob o
mesmo ponto de vista.
Este princípio nada mais é que a forma negativa do princípio de
identidade.
3) PRINCÍPIO DO TERCEIRO EXCLUÍDO: Uma coisa é ou
não é. Entre duas possibilidades contraditórias não há lugar para uma
terceira possibilidade. Entre ser e não ser uma determinada coisa, não
há meio termo.
Expressa-se pela fórmula: Ou A é B ou A não é B. Ou isto é mesa,
ou não é mesa. Ou este país é Brasil ou não é.
Este principio é a forma disjuntiva do princípio de identidade.
Esses princípios da lógica formal foram estabelecidos há 2.500
anos atrás, por Aristóteles e quase não mudaram no decorrer dos tem­
pos.
Exemplificando numa frase as três leis do Princípio da Identidade
poderíamos dizer: Este país é Brasil. O Brasil não é Argentina. Ou o
Brasil é um país sul-americano ou não é.
É de capital importância distinguir a noção de “ contraditório” e
“ contrário” ou “ oposto” , que são frequentemente confundidos na
linguagem corrente. Duas proposições contraditórias têm os mesmos
termos: somente um é afirmativo, o outro é negativo.
Regra das proposições contraditórias: Duas proposições con­
traditórias não podem ser verdadeiras e falsas ao mesmo tempo. Uma
é necessariamente verdadeira, a outra necessariamente falsa. Por
exemplo: “ Esta proposição é verdadeira” e “ Esta proposição não é
verdadeira” . “ A água está fria” e “ A água não está fria” .
As proposições contraditórias são incompatíveis porque uma é a
negação total da outra. Não há meio termo entre elas.
Já nas proposições contrárias ou opostas há meio termo.
Regra das proposições contrárias: Duas proposições contrárias
não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, mas elas podem ser fal­
sas ao mesmo tempo. Por exemplo: “ Esta proposição é verdadeira” e

116
“ Esta proposição é falsa” . “ A água não está fria” e “ A água não está
quente” .
Há meio termo entre essas proposições porque “ verdadeiro” e
“ falso” , “ quente” e “ frio” não são contraditórios (incompatíveis),
mas opostos ou contrários. Como uma proposição que não é ver­
dadeira não é necessariamente falsa, entre os contrários “verdadeiro”
e “ falso” , “ frio” e “ quente” há vários graus entre um ou outro
oposto, tais como provável, duvidoso, momo etc.. Por exemplo: “ Es­
ta proposição não é nem verdadeira nem falsa, mas provável” ; “ A
água não está nem fria nem quente, mas morna” .
“ É de proposições contrárias (opostas) e não de proposições con­
traditórias que a dialética faz a síntese. Duas verdades contraditórias
são radicalmente exclusivas uma da outra” . (V. Paul Foulquie, La
Connaissance, Paris, Éditions de 1‘Ecole, 1966, p. 187).
Por exemplo, um círculo quadrado é uma contradição lógica,
uma impossibilidade lógica, pois reúne dois elementos contraditórios
que jamais podem se conciliar numa síntese. Enquanto que se pode
dizer “ A água não está nem fria e nem quente” quando sua tempe­
ratura estiver morna.
É importante salientar que essas leis ou princípios lógicos tratam
de coisas consideradas ao mesmo tempo, num mesmo sentido, e sob o
mesmo ponto de vista ou sob a mesma relação.
Os princípios (ou leis) da lógica formal, como todas as regras
lógicas, têm força em relação a coisas prontas, formadas. Eles só
podem ser utilizados, onde podemos abstrair-nos da mudança e do
desenvolvimento dos objetos estudados.
Os juízos são de fato idênticos a si mesmos se as coisas que elas
refletem não mudam naquele momento em que nós operamos esses
juízos ou quando podemos abstrair-nos de sua mudança.
As mudanças ou o desenvolvimento das coisas, fenômenos e
processos, podem fazer que o “ frio” não seja mais “ frio” e que se
colocando em um outro ponto de vista julgue-se como “ correto” o
que se julgava “ incorreto” .
É necessário levar em consideração que não somente o conteúdo
mas também a forma é um reflexo da realidade material circundante.
Assim, as leis ou princípios da lógica formal também são reflexos na
nossa mente de determinadas relações entre as coisas.
Quando não se respeitam as leis ou princípios lógicos, o pen­
samento perde sua precisão, sua coerência e conseqüência, e torna-se

117
incoerente e contraditório. Respeitá-los é a condição indispensável
para que o raciocínio seja correto e coerente, independente de seu
conteúdo concreto.
2 — 0 PRINCÍPIO RACIONAL E SEUS DERIVADOS PODEM
SER ASSIM ENUNCIADOS:

1) PRINCÍPIO DA RAZÃO SUFICIENTE: Tudo que existe e


acontece tem sua razão de ser, tem sua explicação.
Por “ razão” , em geral, se entende a causa, o motivo, a base, o
fundamento, a condição de um fato, e em sentido restrito, o motivo de
uma ação. E por “ razão de ser” entende-se as causas ou as condições
que explicam um acontecimento, que o tornam inteligível e compreen­
sível.
O princípio da razão suficiente implica em dois outros princípios
racionais todos eles intimamente ligados:
2) PRINCÍPIO DA CAUSALIDADE: Nada acontece sem
causa. “ Nihil fit sine causa” . Todo fenômeno e tudo que acontece
tem uma origem, uma razão de ser, uma causa ou causas que o an­
tecedem e o produzem.
3) PRINCÍPIO DO DETERMINISMO: Os fenômenos não se
produzem arbitrariamente, mas são determinados por suas condições ■
de existência. Nas mesmas condições, as mesmas causas produzem os
mesmos efeitos (Princípio das leis). É possível prever os fenômenos se
se conhecem as condições ou os fatores que o determinam.
Já vimos que compreender e conhecer as causas dos fenômenos e
os motivos das ações é uma necessidade imperiosa do ser humano para
poder satisfazer suas necessidades naturais, indispensáveis para a sua
sobrevivência.
As idéias básicas do Princípio da razão suficiente e de seus de­
rivados foram expressas há mais de 2.500 anos atrás pelos primeiros
filósofos materialistas gregos.
No único fragmento de Leucipo que chegou até nós diz-se:
“ Nada nasce sem causa, mas tudo surge por alguma razão e em vir­
tude de uma necessidade” .
Seu famoso discípulo Demócrito, pai da teoria atômica, dizia:
“ Nada nasce do nada e nada volta ao nada” . “Tudo acontece pelo
destino, de tal forma que este destino traz consigo a força da neces­
sidade.”

118
Na época moderna, foi Leibniz quem formulou de modo claro e
evidente os dois princípios fundamentais (lógico e racional), como leis
do conhecimento:
“ Os nossos raciocínios fundam-se sobre dois grandes princípios:
o da Contradição, pelo qual consideramos falso o que ele implica, e
verdadeiro o que é oposto ao falso ou lhe é contraditório.
E o da Razão suficiente, pelo qual entendemos não poder algum
fato ser tomado como verdadeiro ou existente, nem algum enunciado
ser considerado verídico, sem que haja uma razão suficiente para ser
assim e não de outro modo, embora freqüentemente tais razões não
possam ser conhecidas por nós.
Também há duas espécies de verdades: as de Razão e as de Fato.
As verdades da Razão são necessárias, e o seu oposto, impossível; as
de Fato, contingentes, e o seu oposto, possível.” (Leibniz, Mona-
dologia, parágrafos 31, 32, 33, em “ Os Pensadores” , Ed. Abril Cul­
tural, S. Paulo, 1974, T. 29, p. 66).
Como se vê, Leibniz não separava os dois princípios* o lógico e o
racional, que para ele serviam como critério das verdades de razão (is­
to é, as verdades lógicas, onde não deve haver contradição) e das ver­
dades de fato (isto é, as verdades materiais, que devem ser fundamen­
tadas.
O princípio da razão suficiente expressa a necessidade de fun­
damentar os juízos que entram no conjunto do conhecimento humano
e reza: todo juízo, para que se considere verdadeiro e incontestável
deve ser fundamentado (demonstrado) no sentido de que devem ser
trazidas razões suficientes da verdade desse juízo.
Sob a expressão razão suficiente da verdade de um juízo (ou de
uma proposição ou tese), compreende-se o conjunto de juízes ver­
dadeiros (que se chamam fundamentos ou argumentos) — tais que o
novo juízo fundamentado segue deles pelas leis e regras da lógica.
Na composição da razão suficiente podem estar os axiomas, as
definições, os juízos testemunhados pela percepção imediata e juízos
conclusivos já fundamentados com a ajuda da demonstração.
Conclusão: Assim, qualquer juízo, tese ou proposição utilizado
no raciocínio deve respeitar não somente os princípios lógicos (da
identidade, não-contradição e do terceiro excluído) como também os
princípios racionais da razão suficiente, da causalidade e do deter­
minismo.
O respeito dessas leis e princípios é a condição indispensável para
a precisão, clareza, coerência e demonstrabilidade da proposição.

119
As ciências são conjuntos de teses ou proposições verdadeiras e
hipóteses prováveis, ligadas entre si por relações de forma e de con­
teúdo.
Duas condições fundamentais são indispensáveis para que uma
tese (um juízo oú uma proposição) seja considerada verdadeira:
1) Que essa tese ou conclusão reflita e reproduza (reconstrua na
mente), de modo fiel, as regularidades existentes nos objetos e fe­
nômenos reais, isto é, que a tese seja verdadeira em relação à realidade
que reflete.
2) Que partindo de premissas verdadeiras, o raciocínio seja
correto e conseqüente consigo mesmo (isto é, que não haja contra­
dição no raciocínio).
“ Se nossas premissas são verdadeiras e se nós aplicamos a elas de
modo correto as leis do raciocínio, então o resultado deve correspon­
der à realidade” . (Engels, Anti-Duhring, ed. russa, Moscou, 1950,
p. 317).
Essas duas condições essenciais da verdade são formuladas pelos
dois princípios fundamentais intimamente ligados entre si. Um se
refere à forma do raciocínio e tem caráter formal — o Princípio de
Identidade e seus derivados. Outro se refere ao conteúdo e tem caráter
material ou substancial — o Princípio da razão suficiente e seus de­
rivados.
Enquanto a tarefa principal do primeiro é evitar a contradição e
garantir a coerência do pensamento consigo mesmo, abstraindo-se do
conteúdo, a tarefa principal do segundo é provar a verdade pelas suas
causas reais e materiais.
O pensamento humano procede também por intuições adivi­
nhadoras ou criadoras, processos complexos e sujeitos a erros, mas
que, guiados e controlados pelos dois princípios fundamentais acima
expostos, chegam a conhecimentos verdadeiros que não podem ser al­
cançados somente pelo pensamento lógico discursivo. Na parte final
deste livro exporemos detalhadamente o conhecimento intuitivo ou
criador.

3 — OBSERVAÇÕES CRÍTICAS

1) Os princípios lógicos ou racionais são considerados pela


maioria dos filósofos como verdades inatas, a priori, evidentes,
necessárias e universais.

120
Inatas ou a priori, isto é, existentes no nosso espírito antes e in­
dependente da experiência.
Evidentes, isto é, não necessitam de demonstração, pois sua ver­
dade é captada intuitivamente, de modo imediato.
Necessários, isto é, indispensáveis para toda a atividade racional,
pois são a condição necessária de todo pensamento correto e ver­
dadeiro. É impossível raciocinar e agir sem utilizá-los.
Universais, isto é, válidos para todas as pessoas, para todas as
coisas e circunstâncias. Eles constituem as leis de todos os espíritos.
Todavia, esses princípios só são reconhecidos como tais por uma
minoria de pessoas, pois a maioria ignora e por isso mesmo não res­
peita esses princípios.
Aqui se toma necessário fazer algumas observações críticas.
Vejamos primeiro o pretenso caráter inato e apriorístico.
Na realidade os princípios lógicos e racionais não são inatos nem
a priori, mas adquiridos e a posteriori, isto é, eles surgem depois da
experiência e educação social das pessoas. Eles se tornam a priori
somente no espírito das pessoas adultas e cultas.
Os estudos de antropólogos e sociólogos mostraram que os povos
iletrados, ditos selvagens e primitivos, ignoram os princípios lógicos.
Assim, por exemplo, os índios bororos do Brasil afirmam: “ Os bo­
roros são araras’’ (papagaios). Os bororos consideram as araras o
totem da tribo, não se distinguem dele e se consideram eles mesmos
araras. Para o homem civilizado “ A é A” e “ A não é não-A” . Para
os bororos pode-se ser, ao mesmo tempo, homem e papagaio. Desse
modo, a mentalidade primitiva não respeita o princípio da identidade
e da não-contradição. Essa mentalidade pré-lógica chama-se men­
talidade participial.
Aliás, as crianças numa determinada fase inicial, também têm
uma mentalidade participial e não respeitam os princípios lógicos.
O mesmo acontece com os princípios racionais. A maioria dos
povos iletrados, todas as crianças e as pessoas incultas do mundo in­
teiro desconhecem os princípios racionais. É verdade que essas pes­
soas têm uma idéia intuitiva do princípio da razão suficiente, mas essa
idéia é totalmente deformada.
Enquanto o indivíduo adulto e culto procura as causas reais e
naturais das coisas, como exige o espírito científico, as crianças e os
povos primitivos e iletrados ainda hoje explicam as coisas através de

121
causas fictícias, tais como fetiches, duendes, espíritos, deuses e outras
forças ocultas e irracionais.
As crianças de hoje, como os povos primitivos de ontem, vivem
mergulhados num mundo fantástico, onde tudo é possível, inclusive
criar tudo a partir do nada.
A cosmovisão dessas criaturas está envolta no irracionalismo,
misticismo e fideísmo — em uma palavra, elas ainda estão no estado
pré-lógico, pré-racional, pré-científico, (ou pré-positivo, como diria
Comte, na sua Lei dos Três Estados, da qual já falamos).
Ninguém nasce com os princípios pré-formados. É graças à ex­
periência, ao contato com a realidade, à atividade produtiva e so­
bretudo à instrução e educação que as pessoas elaboram e conhecem
os princípios, que são percebidos como leis objetivas do ser, da
realidade. E só se tomam leis do pensamento porque são leis da
realidade objetiva, pois, como já dissemos, o conhecimento é o re­
flexo e a reconstrução em nossa mente da realidade objetiva e de suas
leis.
Estão enganados aqueles filósofos que pensam que o homem nas­
ce racional. Na verdade, a criança nasce irracional. Ela se torna ra­
cional graças à vida social e à educação. É a sociedade que forma nos­
sa natureza humana, nossa mente, nossa razão, nossa personalidade,
educando e transmitindo a cultura acumulada pelas gerações ante­
riores.
O ser humano é mais um produto da vida social do que da heran­
ça biológica. O ser humano tem base social, ou dito em termos fi­
losóficos: O ser humano tem uma essência social. Aliás, não só o ser
humano como o próprio conhecimento humano tem uma essência
social. Se uma criança vive fora da sociedade humana, numa ilha
isolada, ela pode viver como ela quiser, mas não se tom a um ser
social, humano e racional (é o caso do homo-ferus, das crianças sel­
vagens). Portanto, o homem é social não porque ele é racional e
humano, mas, ao contrário, ele é racional e humano porque é social.
Fora da sociedade ele é um animal irracional, pois no indivíduo
isolado as emoções e as paixões zoológicas é que predominam.
Assim, os princípios da razão, longe de serem quadros fixos,
inatos ou a priori, representam o produto de certo estado de evolução
do pensamento cognitivo do homem adulto e civilizado.
Pelas mesmas razões acima enumeradas, os princípios lógicos e
racionais não podem ser consideradas como verdades evidentes,
necessárias e universais por todas as pessoas. Esses princípios são

122
reconhecidos como tais só depois de muita experiência individual e
educação social e científica.
2) Os princípios lógicos de identidade, da não-contradição e do
terceiro excluído não são absolutamente universais, isto é, válidos
para todas as coisas e circunstâncias. Eles são válidos dentro de certo
limite. Os princípios lógicos asseguram apenas a correção do pen­
samento formal, isto é, do pensamento que faz abstração do devir
real. É o caso da Lógica Formal e das Matemáticas, cujos objetos não
dependem do fator tempo.
Já mostramos que os princípios lógicos só se aplicam a objetos
considerados ao mesmo tempo e na mesma relação. Eles são eficientes
somente para as coisas estáticas, acabadas, mas são insuficientes lá
onde há permanente mudança e desenvolvimento. As mudanças das
coisas podem fazer com que aquilo que era verdadeiro ontem não o
seja mais hoje. Ou colocando-se de outro ponto de vista, julga-se falso
aquilo que se julgava verdadeiro.
As coisas que mudam e se desenvolvem, como por exemplo: o
que era quente se toma frio, o verdadeiro se torna falso, o pobre se
torna rico, exigem uma outra lógica que possa refletir essa mudança.
Esta é a função da Lógica Dialética, que se esforça por adaptar o pen­
samento à realidade mutante ou, melhor, procura refletir no pen­
samento a realidade mutante.
O mundo é infinitamente rico e mutável e o pensamento humano
não pode abarcá-lo de uma vez em sua totalidade e mudança. Por isso
divide-o em momentos isolados e estáticos, expressando-os em con­
ceitos, juízos e raciocínios.
O conceito abstrato parece mais pobre que as percepções sen­
síveis. Na realidade, qualquer conceito reflete a realidade de maneira
mais profunda, completa, verdadeira, porque capta as relações inter­
nas dos objetos, inacessíveis ao conhecimento sensível, e porque ex­
pressa não um ou vários objetos singulares, mas toda a infinidade de
objetos pertencentes ao gênero e à espécie.
A passagem do conhecimento sensível ao conhecimento abstrato
é um salto qualitativo: é a passagem do conhecimento exterior e su­
perficial (fenômeno) das coisas ao conhecimento de sua essência, de
sua natureza íntima (númeno).
Assim, os conceitos refletem a natureza interna, a essência dos
objetos ou dos fenômenos. Mas como o miindo e as coisas estão em
constante mudança e desenvolvimento, os conceitos, se querem ser
válidos, devem ser flexíveis e móveis, isto é, dinâmicos ou dialéticos.

123
Para obter conceitos flexíveis, dinâmicos e dialéticos, é necessário
precisar e aprofundar os conceitos já existentes, assim como criar
novos conceitos que reflitam corretamente as condições objetivas
mutantes. A dialética do pensamento deve refletir o mais fiel e com­
pletamente possível a dialética das coisas, da realidade mutante.
3) É necessário não confundir causalidade com casualidade. O
princípio de causalidade ensina que nada acontece sem causa. Pode
parecer que esse princípio nega a casualidade, isto é, o que acontece por
acaso. Na realidade uma não nega a outra. A casualidade ou acaso
também existe. É o encontro de acontecimentos que pertencem a séries
causais independentes umas das outras (A. Cournot), é a “ a inter­
ferência mútua de linhas causais independentes” (Maritain). Por
exemplo: uma semente dá nascimento necessariamente a uma planta
se encontrar condições favoráveis. Mas vem a geada e a planta é
aniquilada. Com relação ao crescimento da planta, a geada é um fato
acidental, casual. Embora a geada tenha suas causas, ela podia não vir
quando a semente foi lançada. Foi por acaso (para a planta), que a
geada veio. Assim, a existência da casualidade não nega o princípio da
causalidade, pois a casualidade também tem suas causas reais.
Na terminologia filosófica, a casualidade é chamada também de
contingência, isto é, aquilo que pode acontecer ou não, aquilo que não
é nem necessário nem impossível.
Na linguagem popular, a casualidade ou contingência é co­
nhecida como sorte e azar. Sorte quando o acaso é favorável e azar
quando é desfavorável aos interesses da pessoa ou da coisa em vista.
É evidente que o conceito de sorte e azar é muito relativo, pois o
que é sorte para uma pessoa pode ser azar para outra, e vice-versa. Is­
so se vê muito bem em qualquer tipo de jogo de sorte ou de azar, tais
como os jogos de dados, de baralho ou de loteria esportiva ou federal,
ou ainda na roleta (desde que não haja trapaça). Por exemplo, na
roleta há 50% de probabilidade de acertar no “ preto” ou no “ ver­
melho” , mas pode acontecer que (ainda segundo as leis da proba­
bilidade) dê “ vermelho” 10 vezes seguidas, para a sorte de uns ou azar
de outros apostadores.
O que nos interessa em todos esses casos é que a casualidade, em­
bora não possa ser adivinhada com absoluta certeza, porque o evento
é contingente, mesmo assim ele obedece ao princípio da razão sufi­
ciente, isto é, às leis da causalidade e do determinismo.
Em outros termos, o acaso, a sorte e o azar, também tem uma
causa pela qual ele acontece assim e não de outro modo, só que é

124
muito difícil ou quase impossível prever porque assim acontece. Mes­
mo admitindo que haja pessoas dotadas dos assim chamados “ po­
deres parapsicológicos” (telepatia, precognição, clarividência etc.)
elas não podem prever tais fatos e acontecimentos casuais, embora a
opinião vulgar acha que pode. Se isso fosse verdade as pessoas
chamadas sensíveis ou hipersensíveis, isto é, as que têm poderes
parapsicológicas, preveriam ou adivinhariam com antecedência os
resultados dos jogos chamados de azar e ficariam milionários — o que
não acontece na realidade. Só esse fato já mostra que ninguém pode
prever ou adivinhar os fatos ou acontecimentos casuais, contigentes
ou fortuitos.
4) Muitos autores reconhecem a existência de um terceiro prin­
cípio chamado PRINCÍPIO DA FINALIDADE, que afirma: As
diferentes partes ou elementos de um todo são como meios ordenados
em vista de um fim. Ou de outro modo: Todo o ser tende para um fim.
Tudo acontece com e para uma determinada finalidade. Todo o ser
age tendo em vista um objetivo.
Mas, esse Princípio da Finalidade não é universal, ele não fun­
ciona na natureza bruta; ele só funciona no mundo humano, onde há
seres pensantes que agem tendo em vista um fim, um objetivo, uma
meta, um ideal.
Na natureza bruta nada acontece com determinada finalidade. A
natureza não é nem moral, nem finalista. Ela é o que é. Na natureza
tudo é resultado da necessidade e da casualidade. Só os seres humanos
que perseguem um objetivo e dão valor a suas atividades.
Por isso no estudo dos fatos e fenômenos naturais é preciso evitar
tanto o finalismo como o antropomorfismo, que consistem em
atribuir aos fenômenos naturais finalidades, objetivos, sentimentos e
valores que são inerentes somente a seres humanos.
Ê errado querer igualar o fenômeno natural ao fenômeno social.
Um fenômeno natural, o eclipse, por exemplo, obedece a um deter­
minismo inexorável e ninguém pode evitá-lo. Já os fenômenos sociais,
os valores e instituições sociais por exemplo, não têm a mesma ine­
xorabilidade dos fenômenos naturais. Nisto reside a grande diferença
entre o determinismo absoluto dos fenômenos naturais e o determinis­
mo relativo dos fenômenos sociais.
É preciso, por outro lado, não confundir determinismo social,
com fatalismo. O fatalismo (fatum = destino) crê que os aconteci­
mentos estão determinados de antemão por uma força desconhecida e
nue o homem é um joguete cego das leis implacáveis da história. O

125
fatalista diz: “ Mektup” , isto é, “ Está escrito” , “ Tinha que acon­
tecer” . É uma posição muito cômoda e passiva. Não reconhece o
papel ativo do homem que pode intervir nos acontecimentos naturais e
sociais.
Não devemos exagerar o caráter determinista dos fenômenos
sociais. O determinismo social não é absoluto nem fatal. O homem
não é mero joguete das leis sociais. O ser humano se distingue dos
seres inanimados e dos animais irracionais pela possibilidade que tem
de dirigir, de orientar o curso dos acontecimentos e até mesmo de criar
uma nova sociedade, com novos valores e novas instituições.
Os fenômenos sociais obedecem, sem dúvida, ao princípio da
razão suficiente e seus derivados, os princípios da causalidade e do
determinismo, mas os valores e as instituições sociais foram criados
pelos próprios homens das gerações anteriores. Por isso os homens
podem modificar, dentro de um certo limite, os valores e as insti­
tuições sociais dominantes. Nisto é que se manifesta a vontade do
homem e sua capacidade de transformar o mundo.
É necessário, por outro lado, também evitar o voluntarismo que
pensa mudar tudo de acordo com a sua vontade arbitrária. É verdade
que “ os homens fazem sua própria história” , como observa Marx,
mas “ não nas condições criadas por eles e sim nas condições dadas” .
Aliás, a vontade humana pode modificar, dentro de certos li­
mites, não só os fenômenos sociais como também os fenômenos
naturais, desde que ele conheça as leis pelas quais eles se regem e aja
de acordo com essas leis.
Assim, por exemplo, só conhecendo e respeitando as leis da
natureza é que podemos criar novas espécies vegetais e animais, ex­
plorar a energia atômica e voar até a lua.
Aliás, de nada valeria conhecer os fenômenos naturais ou sociais
se o homem não pudesse aproveitá-los ou modificá-los em seu be­
nefício. É por isso que nasceram as diferentes ciências — para servir o
homem.
Conclusão: No estudo e interpretação dos fenômenos naturais é
necessário evitar tanto o finalismo como o antropomorfismo, que são
projeções de fins e paixões do mundo humano ao mundo bruto. Por
outro lado, no estudo dos fatos e fenômenos sociais e históricos é
preciso evitar tanto o fatalismo que nega completamente a liberdade
de ação humana como o voluntarismo que pensa modificar tudo de
acordo com seu livre-arbítrio.

126
O ser humano não é nem absolutamente escravo, nem absolu­
tamente livre da natureza e da sociedade. “ A necessidade só é cega na
medida em que não é compreendida” — já dizia Hegel.
“ A liberdade nada mais é que a consciência da necessidade” disse
muito bem o genial filósofo Spinoza.

127
SEGUNDAPARTE
í
IX — O PROBLEMA DA VERDADE E SEU CRITÉRIO

Já vimos que a Teoria do Conhecimento ou Gnosiologia, que es­


tuda o problema do conhecimento, é a parte mais importante da fi­
losofia. Já examinamos vários aspectos do conhecimento: a essência,
a possibilidade, as fontes, as espécies e as formas do conhecimento.
Agora vamos ver o que é a verdade e qual o seu critério, que é o
problema central da gnosiologia, e um dos problemas mais importan­
tes da filosofia.
Neste capitulo abordaremos os seguintes temas:
1 — O que é a verdade.
2 — O caráter objetivo do conteúdo da verdade.
3 — O critério da verdade.
4 — O pàpel da prática no conhecimento.
5 — A unidade da teoria e da prática.
6 — O caráter concreto da verdade.
7 — A verdade relativa e a verdade absoluta.

1 — CONCEITO DA VERDADE

O que é a verdade? Eis a pergunta que todo mundo faz, desde a


infância até a idade adulta, independente do sexo, raça, cultura e
civilização. A ela dedicam sua vida os sábios, os heróis e os santos. Ela
é a deusa idolatrada também por todos os homens simples do mundo
inteiro.
O que é ela e em que consiste a sua força de atração? Como já
vimos, só o conhecimento verdadeiro pode servir às necessidades
práticas e existenciais dos seres humanos. Quanto mais verdades
sabemos, mais livres somos. “ Conhecereis a verdade e a verdade vos
tornará livres” diz-se no Evangelho de São João. (Cap. 8, vers. 32).
>
131
Podemos dizer que quanto mais verdades sabemos mais aptos estamos
para vencer na luta pela sobrevivência.
Mas, há também os indiferentes e os céticos que, como Pilatos,
perguntam “ o que é verdade?” , e lavam as mãos, porque não sabem e
não querem saber onde está a verdade, o certo.
Mas então o que vem a ser a verdade, o conhecimento verda­
deiro?
Já vimos que o conhecimento é o reflexo e a reprodução do ob­
jeto em nossa mente; pois bem, o conhecimento verdadeiro é aquele
que reflete corretamente a realidade na mente; a verdade é a corres­
pondência, a concordância, a conformidade, a adequação, do pen­
samento com o ser, do sujeito com o objeto, do juizo com o objeto
real, da idéia com a coisa, ou em termos escolásticos: Adaequatio in-
tellectus cum re.
Assim, a verdade é o reflexo fiel do objeto na mente, a adequação
do pensamento com a coisa. É verdadeiro todo juízo que reflete
corretamente a realidade.
O contrário da verdade é o erro, o contrário do juízo verdadeiro é
o juízo errado, falso. O erro é o conhecimento que não reflete fielmen­
te a realidade e por isso mesmo não corresponde à realidade. O erro
consiste no desacordo, na não-conformidade, na inadequação do pen­
samento com a coisa, do juízo com a realidade.
Por coisa subentendemos qualquer ser, objeto, fato ou fenômeno
real, concreto ou abstrato, externo ou interno.
Por pensamento subentendemos o espírito, a inteligência, a men­
te, a consciência, o sujeito cognoscente, o juízo, as idéias, os co­
nhecimentos etc..
Exemplo de juízo verdadeiro: a Terra é redonda e gira em tomo
de si e do Sol. O homem surgiu a partir da evolução de animais in­
feriores.
Exemplo de juízo errado ou falso: a Terra é plana e imóvel. O
homem foi criado por um ser sobrenatural.
Para que um juízo seja verdadeiro, não é necessário que a con­
formidade ou adequação entre o juizo e a coisa seja total ou perfeita e
represente tudo o que o objeto é, pois os nossos conhecimentos podem
ser verdadeiros sem serem completos, perfeitos ou exaustivos. É a
diferença entre a verdade relativa e a verdade absoluta (que veremos
adiante).

132
2 — O A S P E C T O O B JE TIV O E SU B JE TIV O D A VER D AD E

Sabemos que fora de nós existem objetos com diferentes pro­


priedades que não dependem do sujeito cognoscente, nem de nossa
vontade, nem de nossa consciência.
Já vimos que o conhecimento é uma relação entre o sujeito cognos­
cente e o objeto conhecido. Sabemos também que o conhecimento é o
reflexo subjetivo (na consciência do sujeito cognoscente) dessas
propriedades objetivas (do objeto exterior à nossa consciência). Desse
modo, o conteúdo do conhecimento, aquilo que é refletido na cons­
ciência, tem caráter objetivo, isto é, existe fora e independente de nós.
Como um conhecimento, para ser verdadeiro, tem que correspon­
der ao objeto existente na realidade exterior, então o conteúdo do
conhecimento verdadeiro (o objeto e suas propriedades) não depende
de nossa consciência, de nossa vontade ou preferência.
O que existe na realidade não pode ser verdadeiro ou errado.
Simplesmente existe. Verdadeiros ou errados só podem ser nossos
conhecimentos, nossas percepções, nossas opiniões, nossos conceitos
ou juízos a respeito do objeto. Em outras palavras, verdadeiro ou
errado pode ser apenas o reflexo subjetivo da realidade objetiva.
Muitos filósofos céticos e idealistas-subjetivistas, afirmam que a
verdade não tem caráter objetivo, que a verdade é relativa, múltipla e,
portanto subjetiva, isto é, cada sujeito tem sua verdade.
Assim, por exemplo, para o existencialismo de J. P. Sartre a
palavra verdade perdeu todo o seu sentido. Cada um coloca arbi­
trariamente as normas do verdadeiro e do falso, como do bem e do
mal; ademais, ele permanece sempre livre, por uma decisão não menos
arbitrária de escolher normas totalmente diferentes. Nessa hipótese,
não existe verdades senão subjetivas e convencionais.
Acontece que o raciocínio desses filósofos é errôneo (feito de boa
ou má-fé — não importa). Eles confundem os sentidos diferentes dos
conceitos de “ objetivo” e “ subjetivo” .
Com efeito, essas duas categorias têm sentidos bem diferentes.
Etimológica e fundamentalmente, o termo objetivo significa que o
objeto conhecido está fora do sujeito cognoscente. Mas, em sentido
figurado, para alguns filósofos pode significar o objeto do conhe­
cimento, isto é, que o objeto está na mente do sujeito e pertence ao
domínio do pensamento. Nesse último sentido, a palavra objetivo tem
significação de subjetivo (dentro do sujeito).

133
Do mesmo modo, o conceito de subjetivo, etimológica e fun­
damentalmente, significa o reflexo do objeto exterior no sujeito cog­
noscente, mas pode, em sentido figurado, significar, também, opinião
ou impressão pessoal, parcial, pré-concebida, arbitrária, que é própria
de um ou mais sujeitos (pessoas) e não é válido para todos, isto é, não
tem caráter objetivo e universal. Por exemplo, os gostos são subje­
tivos e o provérbio diz: “ gosto não se discute” . Nesse sentido, sub­
jetivo é freqüentemente sinônimo de relativo, convencional, aparente,
ilusório.
Os idealistas-subjetivistas' tomam ambos esses conceitos não no
sentido etimológico, mas no sentido figurado. Assim, para eles, os
objetos e suas propriedades só existem dentro do sujeito cognoscente,
isto é, têm caráter subjetivo. E, por outro lado e por isso mesmo, con­
sideram a verdade como subjetiva, isto é, uma opinião toda pessoal
que não tem correspondência adequada no mundo objetivo, exterior.
Em outras palavras, eles acham que a verdade é uma construção sub­
jetiva que depende da nossa consciência, de nossa vontade, desejo e
gosto.
No livro do escritor francês Saint-Exupery — O Pequeno Prín­
cipe — o personagem principal é um subjetivista típico. Tudo que ele
quer ou sonha, pensa que é real. A realidade e a fantasia estão con­
fundidas, não há mais distinção entre o real e o irreal, entre o ver­
dadeiro e o falso. Quando o Pequeno Príncipe pediu ao rei que “ or­
denasse ao Sol que se ponha” , o rei muito sensatamente replicou: “ É
preciso exigir de cada um o que cada um pode dar. A autoridade
repousa sobre a razão. Se ordenares ao teu povo que ele se lance ao
mar, farão todos a revolução” .
O erro dos idealistas-subjetivistas consiste em não levar em con­
sideração que o conhecimento é o reflexo subjetivo das qualidades ob­
jetivas que existem na realidade exterior e que portanto, o conteúdo de
nossos conhecimentos tem um caráter objetivo, isto é, real, exterior à
nossa consciência. Em outras palavras, o conteúdo da verdade não
depende nem da nossa mente nem da nossa vontade. Sendo um reflexo
fiei da realidade, a verdade só pode ser uma, e uma só. Estão, portan­
to, redondamente enganados aqueles que afirmam que cada um tem a
sua verdade, que existem tantas verdades quantos sujeitos e que não
existem verdades objetivas, válidas para todos.
O fato do daltônico sentir erradamente como “ verde” o “ ver­
melho” , não significa que seja assim na realidade; significa apenas
que os sentidos dessa pessoa não refletem corretamente as ondas
luminosas. O fato de termos a impressão de que a Terra é plana e
imóvel e o Sol gira em torno dela não significa que assim seja na

134
realidade. Aliás, durante muito tempo a humanidade toda pensava as­
sim. A afirmação, estabelecida pela ciência, de que a Terra é redonda
e que ela gira em torno do seu próprio eixo e em terno do Sol é uma
verdade objetiva, que não depende de nossa opinião ou vontade sub­
jetivas. E, entretanto, quanta gente foi queimada na fogueira pela In­
quisição por causa dessa afirmação verdadeira.
Vejamos outros exemplos: a constatação de que o fogo queima a
mão, de que certas substâncias são venenosas não são invenções do
homem. É preciso ser muito infantil para não acreditar na objetivi­
dade dessas verdades estabelecidas pela mente humana no decorrer de
sua longa experiência. Aliás, é o que fazem as crianças: enquanto não
põem a mão no fogo não se convencem disso.
A força de gravidade, segundo a qual todo corpo mais pesado
que o ar e que se encontra no campo de atração da Terra tende a cair
no centro desta, não é invenção humana; é uma verdade objetiva que
devemos reconhecer e respeitar. As pessoas podem comprová-la
atirando-se de uma ponte ou de um prédio alto. Se chegarem vivo até
lá embaixo, poderão se convencer que é uma verdade objetiva e não
subjetiva.
A lei da atração universal ou da gravitação universal descoberta
por Newton é verdadeira não porque ele a criou ou quis que assim fos­
se, mas porque assim o é na realidade. A lei da gravitação universal
existe objetivamente e não subjetivamente na cabeça de Newton, só
porque ele a descobriu. Aliás, ele a descobriu porque ela existe ob­
jetivamente, independente do sujeito cognoscente. E justamente por­
que ela existia antes de Newton é que foi possível descobri-la, refletin­
do corretamente em sua mente, em forma de lei a lei, objetiva que
existia fora dela.
Está claro que sem o sujeito cognoscente não há verdades. Mas isso
não significa que a verdade seja subjetiva, pois o conteúdo dessa ver­
dade não depende de nós, de nossa vontade. Nós não podemos criar,
inventar verdades e leis naturais. O que nós podemos é estudar os ob­
jetos e fenômenos e descobrir as verdades e as leis naturais pelas quais
elas se regem, refletindo corretamente na nossa mente aquilo que existe
na realidade objetiva.

3 — ESPÉCIES DE VERDADES

A dificuldade em compreender e solucionar o problema da ver­


dade vem do fato de que o conceito de verdade tem várias acepções
que é necessário distinguir para evitar confusão. Abaixo damos al­
gumas espécies de verdades:

135
1) A verdade material, objetiva ou real, como nas ciências na­
turais, que consiste na conformidade do conteúdo do conhecimento
com seu objeto reai, quando uma proposição é verdadeira se for
demonstrada ou verificada pela experiência sua correspondência com
os fatos reais. Alguns chamam este tipo de verdade de fato ou fatual.
Exemplos: O fogo queima a mão. A Terra é redonda. A água é uma
substância composta de 2 átomos de hidrogênio e 1 átomo de oxi­
gênio, cuja fórmula química é H 2O.
2) A verdade formal ou lógica, como na lógica formal, quando
um raciocínio é verdadeiro se há coerência do pensamento consigo
mesmo e ausência de contradição. Alguns chamam este tipo de ver­
dade de razão. Exemplos: Ou o Brasil é um país sul-americano ou não
é. Todos os homens são mortais. Ora, Sócrates é homem. Logo,
Sócrates é mortal.
3) A verdade axiomática ou convencional, como nas matemá­
ticas, onde certos axiomas e postulados, que não são evidentes, nem
generalizações experimentais e nem hipóteses aceitos em vista de fazer
sua verificação ulterior, são considerados convenções no sentido de
que dependem da determinação dos cientistas entre si.
Mas esses axiomas ou postulados convencionais não são total­
mente arbitrários, pois, entre as muitas convenções possíveis, a es­
colha é guiada pelos fatos experimentais e-tem, por isso, certo fun­
damento objetivo na natureza das coisas. Por exemplo, a geometria
euclidiana não é mais verdadeira que outra, porém é mais cômoda.
Outros exemplos: os diferentes sistemas de peso e medição, as diferen­
tes escalas de temperatura, de teor alcoólico etc..
Semelhante às convenções científicas temos as convenções so­
ciais, regras ou normas sociais, estabelecidas pelos homens para a
convivência humana, que são mais arbitrárias do que as convenções
científicas, embora também correspondam a determinadas necessi­
dades objetivas da sociedade em questão. Essas verdades conven­
cionais têm caráter subjetivo e relativo no sentido de que variam con­
forme o tempo e o local, conforme a pessoa, o grupo social e a so­
ciedade em questão. Essas verdades podemos englobá-las sob a de­
nominação de verdades axiológicas.
Aliás, o parentesco entre estas duas espécies de verdades conven­
cionais pode ser detectada pela origem comum às palavras axioma e
axiologia. Ambas derivam da raiz grega axios, que significa o que tem
valor, preço, estima, dignidade.
Eis algumas dessas verdades axiológicas que têm caráter conven­
cional, relativo e subjetivo:

136
4) A verdade axiológica propriamente dita, que são valores
éticos, jurídicos, estéticos, religiosos etc., estabelecidos pelos homens
como tais, dentro de determinado contexto social. Exemplos: “ É ver­
gonhoso e pecaminoso andar completamente nu em público” (Isso
não é verdade para os índios e os nudistas). A proibição do divórcio,
da prática oficial do aborto, da eutanásia e outras instituições sociais
proibidas por determinada sociedade, mas permitidas por outras. O
conceito do que é pornográfico e do que não é varia no tempo e no
espaço, isto é, de sociedade para sociedade e numa mesma sociedade.
Aquilo que ontem era proibido pode se tomar legal hoje ou amanhã e
vice-versa.
5) A verdade moral, é a conformidade das palavras com aquilo
que a pessoa pensa e julga, quando as pessoas manifestam o que real­
mente pensam. Nesse sentido, em vez da palavra verdade utiliza-se a
palavra veracidade, cujo contrário é falsidade ou mentira. Exemplo:
A veracidade ou falsidade de um testemunho.
Não confundir veracidade com verdade. O termo veracidade tem
uma significação subjetiva, refere-se à sinceridade e boa-fé da pessoa
que fala, mas não implica nenhuma garantia de verdade objetiva.
Uma pessoa pode ser veraz, mas isso não implica nenhuma ga­
rantia da verdade do que ela diz, no sentido de corresponder à verdade
objetiva. Por exemplo, uma pessoa afirma com sincera e honesta con­
vicção: ‘‘Eu creio que a Terra é plana e imóvel” . Essa pessoa está
falando a verdade no sentido de que está sendo sincera e honesta, mas
isso não significa que sua opinião seja verdadeira.
6) A verdade pragmática, aquilo que é útil, vantajoso, aquilo que
serve para os interesses particulares e para o sucesso de uma pessoa ou
de um grupo social. Exemplo: “ A pessoa que acredita na reencarnação
dos espíritos porque isso lhe reconforta e lhe faz bem” . Ou como diz
Saint-Exupery: “ A verdade para o homem é o que faz dele um ho­
mem” .
7) A verdade político-estatal, que é estabelecida como tal por um
grupo político ou pelos governantes de um país, por corresponder aos
interesses econômicos, políticos e sociais desse grupo social, da so­
ciedade ou do Estado em questão. Exemplo: A falsa teoria do “ espaço
vital” ou da superioridade da raça ariana-germânica — defendida
pelos ideólogos do nazismo. Ou esta outra “ verdade” totalitária:
“ Não é o Estado que deve servir o homem, é o homem que deve servir
o Estado” . O conjunto dessas verdades forma o que se chama de
ideologia.

137
8) A verdade dogmática ou religiosa, que é estabelecida como tal
pelos criadores e elaboradores de determinada religião. Aqui não há
nenhuma necessidade de coerência consigo mesmo, nem de corres­
pondência com a realidade. Basta o enunciado da autoridade religiosa
ou das escrituras sagradas. Exemplo: O dogma da criação do mundo a
partir do nada.
9) Existem ainda outros tipos de “ verdades” , tais como verdades
fictícias, verdades irreais, verdades ilusões, verdades justificações etc.
etc., que não são verdades propriamente falando.
É da confusão de uma espécie de verdade com outra, sobretudo
da confusão entre verdade científica e verdade axiológica e conven­
cional é que vem toda a dificuldade para compreender e solucionar o
problema da verdade.
É evidente que tanto a Gnosiologia como as ciências naturais só
lidam com os dois tipos fundamentais de verdade: a verdade material
e a verdade formal, isto é, a correspondência com a realidade objetiva
e a coerência consigo mesma — dois aspectos principais da verdade
que, aliás, constituem uma unidade dialética.
Rigorosamente falando, só essas duas espécies de verdades têm
direito a serem chamadas de verdades propriamente ditas, por terem
caráter objetivo, necessário e universal. As chamadas verdades
axiomáticas e axiológicas e suas variedades não podem ser chamadas
de verdades, por terem caráter convencional, contingente, relativo e
subjetivo. Essas verdades é melhor chamá-las de convenções, normas,
regras, valores ou dogmas, conforme o caso.
Assim, ao estudar os diferentes fatos e fenômenos naturais e
humanos é muito importante distinguir entre si duas categorias di­
ferentes de fatos: os fatos e fenômenos científicos, dos fatos e fe­
nômenos humanos; a verdade fatual e científica, da verdade axio­
lógica e convencional; as leis científicas, das leis normativas; a prova
científica, da prova jurídica; os juízos de realidade, dos juízes de
valor, a ciência da crença etc. etc..
Para ilustrar o que estamos falando, vamos mostrar abaixo, num
quadro comparativo, as duas maneiras diferentes de abordagem, con­
forme a natureza dos fatos e fenômenos estudados e as espécies de
verdade que se quer estabelecer e provar.

138
4 — D U A S C A T E G O R IA S D IF E R E N T E S D E F A T O S E
VERDADES

CIÊNCIAS CAUSAIS DISCIPLINAS AXIOLÓGICAS

As ciências naturais e sociais, As disciplinas axiológicas ou nor­


como Astronomia, Física, Quí­ mativas (impropriamente cha­
mica, Biologia, Antropologia, madas de ciências), como Di­
Psicologia, Sociologia etc.: reito, Política, Ética, Religião,
Regras de Trânsito etc.:
1) Estudam as causas reais e 1) Estudam a ordenação e sis­
naturais dos fatos e fenômenos tematização dos fatos normativos
naturais e sociais, que não depen­ que dependem só da vontade
dem da vontade humana. humana.
2) Emitem juízos de realidade: 2) Emitem juízos de valor: dizem;
dizem o que é a coisa (o que foi e como deve ser a coisa, isto é,
o que será), isto é, juízos que juízos que correspondem a va­
correspondem à realidade, cuja lores determinados pela vontade
existência independe do homem. humana.
3) Enunciam uma necessidade 3) Enunciam uma necessidade
natural e objetiva, independente moral e juridica, um dever, que
da vontade humana. depende da vontade dos homens.
4) Estabelecem verdades e leis 4) Estabelecem verdades e leis
naturais, objetivas, independen­ axiológicas, convencionais e nor­
tes da vontade humana, tais mativas sobre o comportamento
como: princípios, leis, teorias, social, dependentes da vontade
hipóteses e opiniões científicas. humana, tais como: princípios,
normas, deveres, regras, obri­
gações, preferências e opiniões
pessoais.
Exp.: Leis da gravitação univer­ Exp.: Leis jurídicas, normas
sal, leis da conservação da morais, mandamentos religiosos,
matéria, teoria da evolução das regras de trânsito etc..
espécies etc..
5) O critério da verdade científica 5) O critério da verdade axio-
é a prova científica fundamen­ lógica é a enunciação ou a
tada pelos métodos de verificação apresentação de fatos.
experimental e demonstração,
pelos métodos estatísticos, Por exemplo, na disciplina do
probabilístico, histórico, com­ Direito o critério da verdade
parativo e outros. Em uma jurídica é a prova jurídica es-

139
palavra: a prova pela prática tabelecida pelo complexo de
direta e indireta. A teoria sozinha motivos produtores de convicção
é incapaz de nos dar a certeza. É (conjunto probatório), é a
só na prática que se pode provar apresentação de documentos
a verdade de uma idéia nova. públicos e particulares, confis­
Exemplo: só experimentando é sões, testemunhas, asserções^ in­
que se pode saber se o fogo dícios, evidências, presunções,
queima ou não determinado ob­ exames periciais e vistorias, ar­
jetivo novo. bitramentos, provas circunstan­
ciais, normas estabelecidas pelos
códigos, regras de trânsito, dog­
mas estabelecidos pelas religiões
etc..
6) A conclusão da prova cien­ 6) A conclusão da prova jurídica
tífica tem base sólida e quando é duvidosa e pode até ser falsa.
não é suficientemente verdadeira, Exp.: documentos falsificados
tem grande probabilidade de o (passaportes, certidões, diplo­
ser. Exemplo: Lei da gravitação, mas), falsas testemunhas, falsas
Teoria da evolução, Leis da evidências e presunções etc..
genética.

7) A autoridade máxima da ver­ 7) A autoridade máxima da ver­


dade científica é a prova direta ou dade axiológica e normativa pode
indireta fundamentada na prática ser a prova jurídica, a lei nor­
individual e social independente mativa dos códigos, a opinião
da opinião subjetiva das pessoas. pessoal dos magistrados, a pa­
lavra do Papa ou das Escrituras
Sagradas.
8) A verdade científica tem 8) A verdade axiológica, nor­
caráter objetivo, isto é, não mativa, tem caráter subjetivo, is­
depende da consciência e da von­ to é, depende da consciência e da
tade dos homens. vontade dos homens.
As paixões de interesses pes­ As paixões e interesses pes­
soais dos homens não desem­ soais desempenham papel impor­
penham (pelo menos, não devem tantíssimo na avaliação, justi­
desempenhar) nenhum papel na ficação e distorção dos fatos nor­
constatação dos fatos científicos. mativos.
9) Reino da causalidade e do 9) Reino da contingência social,
determinismo, da necessidade dos valores e das ideologias, es­
objetiva, independe da vontade tabelecidos pela vontade hu­
humana. mana.

140
10) Aqui a liberdade é a cons­ 10) Aqui a liberdade é o livre-
ciência, o conhecimento da arbítrio, a vontade dos homens.
necessidade natural.
O homem pode agir livre­ O homem é livre de respeitar
mente só na medida em que res­ ou não as leis normativas.
peita as leis naturais.
Exemplo: A cidade pode ser Exemplo: O homem pode
abastecida com água somente se transgredir as leis jurídicas,
forem respeitadas e aplicadas a. morais e religiosas (roubar,
lei da gravidade universal. matar, violar, mentir, pecar/
transgredir as regras de trânsito
etc.) embora corra o risco de
sofrer sanções e coações por essas
transgressões.
11) As leis científicas não podem 11) As leis normativas podem ser
ser revogadas pelos homens, pois revogadas pelos homens, pois
não foram feitas por eles. foram feitas por eles.
Conclusão: Não confundir duas categorias diferentes de fatos e
de verdades: as verdades e leis naturais descobertas pelos homens (e
que não dependem deles), com as verdades axiológicas e as leis ju-
ridicas, éticas e religiosas, criadas pelos homens para regular a con­
vivência humana na sociedade. Estas últimas sim, são verdades con­
vencionais, relativas e subjetivas no sentido figurado da palavra, em­
bora sejam também ditadas por determinadas condições objetivas da
existência social.
Exemplo típico dessa confusão é o caso daquele bem intencio­
nado, mas voluntarista Prefeito de Palmeira dos índios, que queria
revogar a lei da gravidade por uma decisão unânime da Câmara
Municipal, confundindo-a com uma lei jurídica: “ Informado pelo
engenheiro da Municipalidade que a lei da gravidade impedia a cons­
trução de uma caixa de água na praça central de Palmeira dos índios,
devido a um forte declive, o prefeito da cidade não se conformou.
Retornando ao gabinete, chamou seu líder na Câmara, recomendan­
do-lhe que conseguisse maioria “para derrubar a lei da gravidade,
pois era preciso construir uma caixa de água na praça” .
Ao que retrucou o líder: “ Senhor prefeito, não se sabe se esta lei é
municipal ou estadual. E, depois, pode ser federal. É melhor não
mexer no assunto, para não criar problemas. O negócio é não de­
sobedecer ao engenheiro, que é autoridade no assunto” . (O Estado de
S. Paulo, 9/6/1971).
“ Sem comentários” — como se costuma dizer nesses casos.

141
5 — O C R IT É R IO D A V E R D A D E

Agora temos que resolver a questão mais importante da teoria do


conhecimento: o critério da verdade científica.
Se a verdade é o reflexo e a reconstrução fiel e correta do objeto
na mente, em forma de sensações, representações, conceitos, teses ou
teorias, então pergunta-se: Como saber se determinada imagem ou
idéia que temos na mente é o reflexo fiel e correto das qualidades do
objeto real? Como saber se um juízo, uma idéia ou uma hipótese, é
verdadeiro ou errado? Como saber onde e com quem está a verdade?
Não basta que um conhecimento seja verdadeiro. Há necessidade
imperiosa de poder alcançar a certeza de que é verdadeiro.
Esta questão importantíssima chama-se critério da verdade* A
palavra critério (do grego Kriterion = juízo, Krinein = julgar) é o
juiz, a norma, o princípio que permite distinguir o verdadeiro do fal­
so, a verdade do erro, julgar se uma asserção é verdadeira ou não.
Popularmente, podemos chamá-lo de pedra de toque, que é a pedra
com a qual é verificada a autenticidade e o quilate do ouro.
Na história da Filosofia, nestes 2.500 anos, houve várias ten­
tativas para solucionar a questão. Infelizmente, a maioria absoluta
dos filósofos não pôde ou não quis encontrar um critério válido
universalmente. Somente no último século é que foi elaborado de
modo rigoroso esse critério pelos fundadores do materialismo dia­
lético, mas muitos filósofos contemporâneos ainda continuam ig­
norando-o, de boa ou má-fé, não importa.
Mas, antes, vejamos algumas soluções propostas nestes 2.500
anos.
1) O CRITÉRIO DA AUTORIDADE: Esse critério consiste em
resolver qualquer questão em discussão apelando à autoridade do mes­
tre, de personalidades ilustres, fundadores de doutrinas filosóficas e
religiosas. Historicamente é o mais antigo e psicologicamente é o
primeiro critério da verdade. Na antiguidade e nas sociedades primi­
tivas, onde a cultura era incipiente, a opinião da autoridade era deci­
siva, como em nossos dias, a opinião dos adultos (pais, mestres) é o
critério máximo da verdade para as crianças.
Na Idade Média, quando a ideologia dominante era a religião, o
critério da verdade estava na Bíblia, na autoridade divina revelada,
nas Escrituras Sagradas, na palavra de São Tomás de Aquino, o fun-

142
dador do tomismo (a filosofia oficial da religião cristã) ou na auto­
ridade de Aristóteles, cuja filosofia serviu de fundamento para o
tomismo. “ Sou homem de um só livro” — dizia com orgulho S.
Tomás de Aquino, aludindo à Bíblia.
Embora o princípio da autoridade esteja hoje abalado, ele con­
tinua funcionando bem na religião, porque a religião é baseada em
dogmas enunciados pelas autoridades religiosas e que devem ser
aceitos pela fé, sem discussão.
É por isso que, até hoje, os adeptos de qualquer religião ou
doutrina filosófica dogmatizada, consideram a opinião dos funda­
dores e dos mestres como critério supremo da verdade.
CRÍTICA: O critério da autoridade, além de ser insuficiente,
pode ser muito perigoso. Sabe-se que o célebre pensador e cônego
italiano Giordano Bruno foi queimado na fogueira e seu patrício
Galileu Galilei foi condenado pela Inquisição, como heréticos, por
contrariarem as verdades “ eternas” das Escrituras Sagradas, ao afir­
marem que nossa Terra não era o centro do Cosmos e que ela se movia
por si mesma.
Ainda hoje, milhões de católicos honestos, que defendem o
direito ao divórcio e ao aborto, são perseguidos e excomungados,
como heréticos e pecadores, pelo Papa, por divergirem dos dogmas
“ divinos” , “ revelados” , “ sagrados” , “ eternos” , da religião cristã.
Nas décadas dos anos 30 e 40 do nosso século, na URSS e na
Alemanha nazista foram sacrificados como “ traidores” milhões de
seres humanos, simplesmente por não concordarem com as “ ver­
dades” dogmatizadas dos fundadores da doutrina dominante.
Mas nas ciências e na filosofia científica o princípio da autori­
dade não funciona, não serve como critério da verdade. A opinião do
mestre ou de qualquer outra autoridade, seja cientista ou filósofo, no
máximo, só tem valor de testemunho que se pode apenas levar em
consideração.
A ciência está em permanente desenvolvimento e a filosofia cien­
tífica é crítica por excelência. Aquilo que foi verdadeiro ontem pode
não o ser mais hoje. Aquilo que é certo para um país, pode não o ser
para outro país que se acha em diferente fase de desenvolvimento
econômico, social e cultural. Eis a razão porque a verdade dogma­
tizada só pode prejudicar o desenvolvimento da pesquisa científica e
filosófica. Esta é a razão porque a ciência e a filosofia cientifica re­
jeitam categoricamente a opinião da autoridade como critério último
da verdade.

143
A ciência e a filosofia científica não reconhecem outra autoridade
senão a linguagem dos fatos, a palavra da realidade, a voz da razão, e
acima de tudo a prova científica.
2) O CRITÉRIO DA EVIDÊNCIA: O mais conhecido, divul­
gado e aceito critério, desde Aristóteles até nossos dias, afirma que o
único e último critério da verdade é a evidência. A palavra evidência
— deriva de “ ver” — ato de visão direta e imediata, obtida pela in­
tuição de evidência.
Por exemplo, as proposições: “ O todo é maior que sua parte” ;
“ Duas quantidades iguais à uma terceira são iguais entre si” ; “Algo
não pode ser uma coisa e seu contrário, ao mesmo tempo e sob o mes­
mo ponto de vista” — são verdades evidentes que nós captamos direta
e imediatamente pela intuição de evidência.
A evidência é a plena clareza da verdade. A certeza é o estado
subjetivo que acompanha a evidência.
Resumindo esse ponto de vista R. Jolivet escreve:
Tudo que é evidente é verdadeiro.
Tudo que é verdadeiro é evidente.
A evidência seria universal, isto é, válida para todos os espíritos,
suficiente a si mesma, não pode e nem precisa ser provada (Cf. R.
Jolivet, Curso de Filosofia, Editora Agir, Rio de Janeiro, 9.a edição,
1968, pp. 69-70).
Mais de 90% dos filósofos modernos aceitam esse ponto de vista.
CRÍTICA: A evidência como critério da verdade, embora seja
bastante eficiente, não é, entretanto, suficiente, pois a evidência pode
ser verdadeira e falsa, real e aparente, ainda que haja no sujeito o sen­
timento subjetivo de certeza. Basta lembrar as ilusões dos sentidos que
nos dão uma percepção ou noção falsa e errônea das coisas reais.
Por exemplo: Durante milênios pensou-se que a Terra fosse plana
e imóvel e que o Sol girasse em torno dela. Aliás, as crianças de todos
os tempos e os índios ou povos primitivos bem como milhões de ig­
norantes de hoje também pensam assim, pois isso parece mais eviden­
te do que dizer que a Terra é redonda e que ela gira em torno do seu
eixo e em torno do Sol.
A evidência, como critério único e último da verdade, não serve,
pois a própria evidência necessita de outro critério para determinar
quando e onde se trata de evidência verdadeira e evidência falsa.

144
A evidência como critério da verdade, na filosofia moderna, foi
estabelecida por Descartes e seguida por Spinoza. Este dizia que “ As
idéias que são claras e distintas jamais poderão ser falsas” .
Leibniz, criticando essa opinião dizia que Descartes “alojou a
verdade na hospedaria da evidência, mas esqueceu-se de dar o seu en­
dereço.”
Esse critério da verdade também pode ser perigoso. Às vezes, a
ignorância, a tradição, as paixões e os preconceitos nos fornecem
evidências falsas. Em nome de verdades “ evidentes” , os pensadores
oficiais sempre criticaram os grandes descobridores de novas ver­
dades, pois as verdades mais fecundas, longe de se imporem antes de
tudo como evidentes, se consideram com espanto e escândalo, como
contrárias à evidência tradicional.
3) O CRITÉRIO DA AUSÊNCIA DE CONTRADIÇÃO (ou
DA NÃO-CONTRADIÇÃO): Para o Positivismo Lógico ou o
Idealismo Lógico, corrente filosófica muito difundida nos países an-
glo-saxões, a verdade significa a concordância ou coerência do pen­
samento consigo mesmo. Essa concordância pode ser conhecida na
ausência da contradição entre os juízos ou enunciados. É também
conhecida como critério da não-contradição. Por exemplo:
Todos os homens são mortais (premissa maior).
Ora, Sócrates é homem (premissa maior).
Logo, Sócrates é mortal (conclusão).
Neste raciocínio não há contradição entre os juízos, o pensamen­
to é coerente consigo mesmo, logo é verdadeiro.
CRÍTICA: Esse critério é válido apenas para a Lógica Formal,
que lida apenas com a verdade formal, onde um enunciado é ver­
dadeiro não porque concorda com a realidade objetiva, mas porque é
coerente, dentro de um sistema, com outros enunciados. É válido
também nas Matemáticas.
Aqui o pensamento não lida com objetos reais, mas sim com ob­
jetos ideais. Se nós nos limitarmos a esse critério, poderemos fazer
passar por verdadeiros muitos sofismas e paralogismos, raciocínios
errados e absurdos. Vejamos por exemplo, o silogismo seguinte:
Todos os homens são honestos (premissa maior).
Ora, os ladrões são homens (premissa menor).
Logo, os ladrões são honestos (conclusão).

145
Neste silogismo também não há contradição entre os juízos enun­
ciados. A conclusão (os ladrões são honestos) é lógica, correta e for­
malmente verdadeira. O raciocínio é perfeito, de acordo com a lógica
formal. Mas é errado de acordo com a lógica material, porque é er­
rado o enunciado da premissa maior (Todos os homens são honestos).
Por isso é errado também a conclusão (Os ladrões são honestos).
É importante não confundir a verdade formal com a verdade
material.
A verdade formal é apenas o acordo do pensamento consigo mes­
mo. É o raciocínio lógico, conseqüente e coerente consigo mesmo, e
não necessariamente o acordo do pensamento com a realidade. Há
erro formal quando há contradição apenas no raciocínio.
O mesmo acontece nas Matemáticas. Tomemos o seguinte pos­
tulado: “ Por um ponto situado fora de uma reta dada não se pode
traçar senão uma só paralela a essa reta” . Essa asserção será ver­
dadeira (não-contraditória) se admitirmos o postulado de Euclides,
mas será errado (contraditório) se decidirmos adotar uma geometria
não-euclidiana, por exemplo, a “ geometria hiperbólica” do mate­
mático russo Lobatchevski (1793-1856), que postula; “ Por um ponto
situado fora de uma reta dada é possível traçar duas paralelas a essa
reta” . E o mais interessante é que, embora uma geometria negue a
outra, ambas são coerentes dentro de sua axiomática e ambas têm
aplicações científicas, só que em domínios diferentes.
A verdade real ou material é o acordo do juízo ou pensamento
com a realidade objetiva, com as coisas. Exp.: A asserção “ Todos os
homens são mortais” só poderá ser considerada verdadeira se afe­
tivamente todos os homens são mortais.
Para que um pensamento seja verdadeiro não basta que ele seja
coerente consigo mesmo, é necessário ainda, e sobretudo, que corres­
ponda à realidade objetiva, isto é, que tenha conteúdo verdadeiro, que
reflita corretamente a verdade objetiva. Que seja uma verdade ma­
terial e objetiva.
A correção formal, isto é, a não-contradição, a consequência e
demonstração formal de nosso pensamento, é muito importante. Mas,
tomada isoladamente, sem ligação com a vida e a realidade, não nos
garante a verdade objetiva e por isso não pode ser considerada como
critério de verdade. Ela simplesmente elimina a contradição nas nos­
sas idéias, mas não permite ainda conhecer a verdade objetiva.
4) O CRITÉRIO DA UTILIDADE: Quem sistematizou e
propagou mais este critério foi o Pragmatismo — doutrina filosófica

146
dominante nos Estados Unidos da América e difundida também na
Inglaterra e outros países. Segundo essa doutrina, o único critério da
verdade de um juízo é sua utilidade prática, o sucesso, o êxito, a van­
tagem, o lucro.
A palavra pragmatismo deriva do verbo grego pragma que sig­
nifica “ ação” , “ o que se refere à ação” “ o que se faz” , “ a coisa da
qual se ocupa” .
Nesse sentido etimológico, o pragmatismo significa a concepção
segundo a qual o critério da verdade está na ação e não na especu­
lação. A verdade se conquista e se assimila pela ação e não pela con­
templação.
Segundo o Pragmatismo americano, a inteligência não alcança
sua finalidade senão quando ela conduz a uma ação eficaz; a idéia
verdadeira é aquela que tem bom êxito, que é bem sucedida.
Sob uma forma menos paradoxal, a idéia verdadeira é aquela que
sai vitoriosa das provas de verificação, mais brevemente, é verdadeiro
aquilo que foi verificado.
Segundo o Instrumentalismo, forma do pragmatismo de J.
Dewey e da Escola de Chicago, o pensamento em geral e as teorias em
particular não são mais que um instrumento para a ação, inclusive a
ação intelectual ou científica, e é seu rendimento na ação que faz seu
valor de verdade. Afirma o caráter instrumental da verdade, isto é, a
verdade é simples instrumento para a ação e para o enriquecimento da
èxperiência ulterior.
Assim William James e John Dewey ensinam a identificação da
verdade com a verificação. É verdadeiro, dizem eles, o que é verifi­
cado; é válida a hipótese que sai vitoriosa das provas estabelecidas
para seu controle e, que nesse sentido, constitui um êxito, um sucesso.
Nessa formulação, a posição do pragmatismo até que é aceitável
com algumas reservas. Infelizmente, as palavras como “ ação” , “ ex­
periência” , “ verificação” , “ eficaz” , “ sucesso” , “ útil” , “vanta­
joso” usados pelos pragmatistas como critério da verdade são inter­
pretadas em sentido muito diferente, amplo, vago e subjetivo. O
próprio William James nada fez para dissipar o equívoco. Pelo con­
trário, contribui pessoalmente para deteriorar seu significado. De tal
modo que o pragmatismo decaiu num utilitarismo e praticismo vulgar
e subjetivista.
Com efeito, diz W. James, existem vários planos de experiência:
Na experiência física, o verdadeiro é o que permite prever e agir, o que
tem eficácia, o que é vantajoso, o que oferece um certo rendimento.

147
Na experiência psicológica ou intelectual, o verdadeiro é o que é van­
tajoso para o pensamento, que nos dá um estado de tranquilidade, de
paz e de repouso. Assim também será verdadeira uma concepção
política se justifica nossos interesses ou uma crença religiosa se nos
consola e traz paz espiritual. Por exemplo, a idéia de Deus, como
todas as outras idéias, só é verdadeira se rende algo, como William
James declara sem rodeios: “ Deus é uma coisa da qual nos servimos” .
“ O verdadeiro é o que é vantajoso, não importando de que maneira”
conclui W. James.
Assim, sob sua forma mais grosseira, a verdade é identificada
com o êxito, com o útil, o vantajoso, o lucro etc.. As coisas não são
verdadeiras em si, mas chegam a ser verdadeiras de acordo com sua
utilidade. A idéia verdadeira é aquela que é mais eficaz, que rende
mais, que paga mais.
Nessa perspectiva, o critério racional científico da verdade é
substituído pelo critério ético-utilitário, o juízo de realidade pelo juízo
de valor (opinião e interesse pessoal), a teoria do conhecimento pela
teoria dos valores.
O escritor francês Saint-Exupery, autor de O Pequeno Príncipe,
escreve no seu livro Terra dos Homens: “A verdade para o homem é o
que faz dele um homem” . A verdade não é o que se demonstra. A ver­
dade é o que nos desenvolve, o que nos liberta e nos realiza. Se uma
determinada religião, cultura ou escala de valores propicia ao homem
a plenitude é porque elas são a verdade do homem.
Eis uma visão tipicamente pragmatista, utilitarista e subjetivista’
do critério da verdade.
CRÍTICA: É muito atrativo o critério da verdade pregado pelo
pragmatismo, pois se é verdadeiro tudo que é bom para nós, tudo que
dá resultado, sucesso, vantagem, lucro etc., fica moralmente justi­
ficado qualquer meio para alcançar nosso objetivo individual, mesmo
tais meios como a mentira, o roubo, o homicídio.
Aqui desaparece qualquer limite entre a verdade e o erro, a ve­
racidade e a mentira, entre a conduta socialmente aprovada e a con­
duta considerada criminosa.
Não resta dúvida que essa concepção do critério da verdade além
de errado é superficial (aliás é errado porque é superficial). Os norte-
americanos, homens práticos por excelência, são avessos à teoria e às
especulações filosóficas, que nos dão um conhecimento mais profun­
do da realidade, justamente porque seus ideólogos são céticos e ag­
nósticos, e negam a possibilidade de conhecer a essência das coisas, is­
to é, a verdade.

148
O pragmatismo foi muito difundido e deturpado nos EUA jus­
tamente por corresponder ao espírito prático e oportunista do norte-
americano. “ Realista, ele era oportunista. Ele não tinha o culto dos
princípios; estes não lhe pareciam apreciáveis senão pelos resultados
que eles poderiam ter. Nosso tempo diria que, por isso, ele era prag-
matista. (L. Madelin, em Foulquié e Saint-Jean, Dictionnaire de Ia
Langue Philosophique, PUF, Paris, 1962, p. 560).
O raciocínio do norte-americano é muito simples e superficial: já
que é difícil e trabalhoso conhecer o que é a verdade em si, então é
“ verdadeiro” tudo que funciona bem, que traz vantagem pessoal.
O pragmatismo é a filosofia do individualista burguês, volun-
tarista e anárquico, a quem não interessa a verdade em si, objetiva, in­
dependente de sua vontade. Ele está convicto que pode vender qual­
quer coisa a quem quer que seja, desde que aplique sua técnica volun-
tarista.
Mas, atrás dessa eficiência americana esconde-se, latente, o seu
futuro fracasso como homem moral e pensante. O critério pragmatis-
ta da verdade é uma arma de dois gumes; é o feitiço que vira contra o
feiticeiro.
Vejam, por exemplo, a apologia velada feita pelo cinema ame­
ricano dos “ gangsters” , dos mafiosos e dos traficantes de entorpecen­
tes, apresentados ao público com toda a simpatia, como verdadeiros
heróis. Resultado: em troca de um punhado de dólares, os próprios
propagandistas da criminalidade correm o perigo de serem vítimas de
seus anti-heróis. E o são muitas vezes. Haja visto a freqüência e fa­
cilidade com que se matam os próprios presidentes da nação.
Não é por acaso que a sociedade americana é a que tem, propor­
cionalmente aos seus habitantes, o maior número de criminosos de
toda a laia.
Não é possível apagar a diferença fundamental entre a verdade e
o erro, o verdadeiro e o errado, entre a veracidade e a falsidade, o bem
e o mal, sem pagar um preço muito alto por tal incapacidade.
O pragmatismo despoja da verdade todo o seu significado. O fato
de um juízo ser útil, vantajoso, consolador, reconfortante, não o
transforma em verdade. Ele pode ser errado e falso.
Por exemplo: o racismo, o anti-semitismo, o antifeminismo, o
antidivorcismo, o anti-abortismo e outras idéias são apregoadas como
verdades por certos ideólogos porque trazem proveito e lucro para
certos grupos sociais, mas nem por isso se tomam verdades objetivas,
científicas.

149
O critério pragmatista da verdade é uma concepção subjetivista,
oportunista, egoistica, mercantilista e maquiavélica da verdade, se­
gundo a qual os fins justificam os meios. Ele pode ser mais perigoso ain­
da do que os critérios anteriores,-pois pode justificar qualquer idéia
monstruosa, desumana, desde de que seja útil aos seus interesses. Foi o
que fizeram os ideólogos do nazifacismo e o fazem hoje os ideólogos da
classe dominante de muitos países para poder continuar dominando.
É óbvio que os conhecimentos verdadeiros podem ser e são úteis.
Mas uma conseqüência do conhecimento verdadeiro jamais deve ser
tomada pela verdade mesma. A utilidade e o proveito não podem ser­
vir de critério da verdade. As teorias científicas são verdadeiras não
porque são úteis. Ao contrário: justamente porque são verdadeiras,
isto é, refletem corretamente as relações objetivas, é que são úteis. Só
os conhecimentos verdadeiros são capazes de trazer benefícios à
humanidade, embora, temporariamente, possam prejudicar os in­
teresses egoísticos de alguns homens, ou grupos sociais, ou classes
dirigentes de uma nação.
5) O CRITÉRIO DA PROVA: E incrível que no problema mais
importante da teoria do conhecimento, que é o critério da verdade, nes­
tes 2.500 anos de pensamento filosófico, nenhum filósofo, seja da linha
idealista seja da linha materialista, tenha encontrado um critério cien­
tífico da verdade, válido universalmente.
Os filósofos, na melhor das hipóteses, viram o critério supremo da
verdade na evidência. Mesmo um filósofo de alto gabarito como
Spinoza afirma que “ o único critério da verdade é a própria verdade” .
Mas, nós já vimos que, embora mais ou menos válida, o critério da
evidência é insuficiente e até perigoso.
O pragmatismo, prosseguindo o caminho aberto pelo empirismo,
de Bacon e outros, foi o que mais se aproximou do critério da verdade
ao indicar a importância da ação, da prática e da verificação. Mas,
como já vimos, o pragmatismo descambou para um utilitarismo e
oportunismo grosseiro e subjetivista.
A única corrente filosófica que deu uma solução satisfatória e con-
seqüente ao problema em questão foi a filosofia marxista, ao mostrar o
papel da prática no conhecimento. No próximo capítulo analisaremos
com mais detalhe essa valiosa contribuição.
Embora no uso cotidiano nos utilizemos, em maior ou menor
grau, de todos os critérios da verdade até aqui apresentados, vimos que
eles são insuficientes para nos dar a certeza de que uma proposição é
verdadeira ou errada, rigorosamente falando.

150
Então, onde encontrar, afinal de contas, um critério eficiente da
verdade? Um critério que não dependa nem da autoridade, nem da
evidência, nem da utilidade e nem do interesse ou opinião das pessoas?
O critério supremo, real e objetivo, da verdade é a prova. De todos
os critérios, o mais eficiente e cientificamente válido é o critério da
prova.
Nós já vimos que, segundo o princípio da razão suficiente, qual­
quer situação (proposição, tese), para considerar-se verdadeira deve
ser provada, isto é, devem ser conhecidos os fundamentos suficientes
por força dos quais ela se considera verdadeira.
Suponhamos que o estudante ouvindo o relato do professor en­
contra uma série de proposições desconhecidas para ele. Por exemplo:
ele fica sabendo que o homem descende de animais inferiores, que cer­
tos ultra-sons matam organismos vivos elementares, que a Terra é
redonda e gira em torno de si e do Sol etc. etc..
O estudante tem o direito de duvidar da verdade dessas propo­
sições até o momento em que elas forem provadas, verificadas, de­
monstradas, explicadas, fundamentadas. Uma vez que elas forem
provadas, uma vez que houver suficientes fundamentos comprovando
a verdade das mesmas, duvidar delas já não é possível. Toda tese cien­
tificamente provada é sem dúvida verdadeira.
Na ciência e na atividade cotidiana, nada deve ser aceito na base
da crença e da fé (com isso acontece por exemplo na religião), mas é
necessário provar, demonstrar, fundamentar tudo que se diz.

6 —MODALIDADES DE PROVAS

Agora vamos esclarecer o que entendemos por prova, e que


modalidades de provas existem.
De uma maneira geral, a prova é aquilo que estabelece a verdade
de uma asserção colocada em dúvida, é aquilo pelo qual adquirimos a
certeza da verdade de algo, aquilo que leva nosso espírito a reconhecer
a verdade de uma proposição òu a realidade de um fato, pelo ra­
ciocínio ou pelo testemunho (apresentação de fatos materiais).
Assim, a prova é um raciocínio ou apresentação de fatos pelo
qual se constata ou se estabelece a verdade de uma proposição.
Há várias modalidades de provas, conforme a disciplina estudada
e a natureza dos fatos a serem provados e a espécie de verdade que se
tem em vista.

151
Há provas diretas e indiretas, há provas práticas e teóricas, há
provas materiais e lógicas. De um modo geral, podemos englobá-las
em 2 modalidades de provas:
1. a) Verificação por meio de provas diretas, práticas e materiais.
2. a) Demonstração por meio de provas indiretas, teóricas e ló­
gicas.

1.a) A verificação é um processo que consiste em examinar, con­


trolar, confirmar ou provar se uma asserção ou hipótese é verdadeira
ou errada, confrontando-a com os fatos.
Para provar a verdade de uma asserção, a verificação utiliza-se
das provas diretas, práticas e materiais, tais como experiência de la­
boratório, a apresentação de fatos, testemunhas, documentos, ob­
jetos, fenômenos e acontecimentos individuais, obras de literatura e
arte etc.. A verdade desses fatos se estabelece através do testemunhò
direto dos órgãos dos sentidos. Em uma palavra pela experiência
imediata.
Eis alguns exemplos: Para se convencer da verdade da afirmação
que “ o fogo queima a mão” , basta colocar a mão no fogo. Para saber
se “ o pudim está bom” , basta experimentá-lo, isto é, comê-lo. Só
comendo é que se pode saber se o pudim está bom ou não. Do mesmo
modo pode-se provar o perigo do abismo, dos venenos, das doenças
contagiosas etc..
É verdade que, às vezes, nossas sensações não transmitem de
modo totalmente exato as propriedades dos fatos e dos fenômenos da
realidade objetiva. Por exemplo: uma vara introduzida até a metade
na água parece-nos quebrada; ou o movimento da Terra em torno do
seu eixo parece-nos como o movimento do Sol em torno da Terrá.
Mas nessa base seria errôneo concluir que nossas sensações não são
capazes de nos dar um quadro verdadeiro do mundo. O pensamento
humano, fundamentado nos conhecimentos práticos e teóricos
acumulados pelas gerações anteriores, ajuda-nos a corrigir tais ilusões
dos sentidos e, no final das contas nossas sensações dão, em certa
medida, representações corretas sobre a realidade circundante.
Como ressaltava Lenin, o homem nem poderia se adaptar bio­
logicamente ao seu meio, se suas sensações não lhe dessem represen­
tações objetivamente corretas sobre ele. Sem os dados dos sentidos
não é possível nenhum conhecimento. Por isso, os fatos isolados, os
fenômenos isolados individuais, as percepções imediatas, tomadas em
seu conjunto e em suas relações, podem e servem como fonte de nosso

152
conhecimento e como fundamento para a prova da verdade de nossos
juízos.
Na pergunta: quando os fatos têm uma força probatória incon­
dicional, Lenin responde que “ os fatos, se tomados no seu todo, nas
suas relações, não só são ‘teimosos’ mas é coisa probatória” pois
eles representam a expressão de determinadas leis objetivas.
As provas materiais, diretas e imediatas, não necessitam de
demonstrações. Basta verificá-las pela experiência imediata. Agora,
aquilo que não é compreensível pela verificação imediata necessita de
demonstração.
2.a) A demonstração utiliza de preferência as provas indiretas,
teóricas e lógicas, que têm caráter mais científico.
A demonstração é usada comumente como sinônimo de prova.
Mas há certo grau de generalidade entre os dois conceitos. Se todas as
demonstrações podem ser chamadas de provas, nem todas provas são
demonstrações. Há provas que não necessitam de demonstrações, tais
como as provas materiais da experiência imediata que vimos acima. Já
a demonstração consiste em estabelecer de um modo evidente, ri­
goroso e convincente, a verdade de uma proposição por meios in­
diretos.
Embora no processo da demonstração de certas teses nós não
apelamos para a sua verificação experimental direta, entrementes na
demonstração precisamos basear-nos em tais verdades que ou foram
verificadas na prática ou elas mesmas demonstram-se por meio de ver­
dades que já foram verificadas diretamente pela prática. Isto significa
que, na fundamentação da verdade de certas teses, nós, no final das
contas, baseamo-nos na prática.
O princípio da razão suficiente já estudado diz que, na ciência,
para a demonstração de novas teses visando a ampliação de nossos
conhecimentos, é possível utilizar somente teses comprovadas, que
possuem razão suficiente, em virtude da qual elas são consideradas
verdadeiras. As hipóteses, as teses não comprovadas (embora pos­
teriormente elas possam ser provadas) não podem ser utilizadas como
fundamentos de demonstração.
A demonstração tem dois aspectos: formal e material.
l.°) A demonstração formal, utilizada nas matemáticas e na
lógica formal, é um raciocínio dedutivo destinado a estabelecer a ver­
dade de sua conclusão, apoiando-se em proposições evidentes ou já
demonstradas ou admitidas como verdadeiras.

153
2.°) A demonstração material é toda a operação mental que es­
tabelece a verdade de uma proposição, quer dedutivamente, quer in­
dutivamente, incluindo a prova ou demonstração indireta e por absur­
do.
A prova ou demonstração indireta é um raciocínio que estabelece
a verdade de uma proposição mostrando que, no caso considerado,
todas as hipóteses possíveis são evidentemente erradas com exceção de
uma só, aquela que se enuncia a proposição. Por exemplo: Este
homem pode ter morrido de morte natural, por homicídio ou por
suicídio. Como evidentemente não houve morte natural, nem ho­
micídio, logo houve suicídio.
A prova ou raciocínio por absurdo é um processo que consiste em
estabelecer a verdade de uma proposição mostrando que sua con­
traditória leva a conseqüências errôneas ou incompatíveis com a
hipótese.
Entre as provas indiretas, teóricas e lógicas, podemos concluir
ainda vários métodos de verificação e demonstração utilizados pelas
ciências naturais e sociais, tais como os métodos estatístico, proba-
bilístico, histórico, comparativo, genético etc..
Se quisermos resumir numa só palavra a essência de todas as
modalidades de provas científicas — tanto as diretas como as indi­
retas, podemos dizer que a verdade de uma tese prova-se pela prática
imediata e mediata, científica, histórica, individual e social, ou, em
outras palavras, pela práxis individual e social.
Assim, a prova pela prática imediata e mediata é a pedra de
toque, o critério supremo da verdade de qualquer fato ou teoria.

7 —‘O PAPEL DA PRÁTICA NO CONHECIMENTO

A grande contribuição da filosofia marxista na elaboração de


uma teoria científica do conhecimento consiste justamente no fato de
que ela, pela primeira vez na História da Filosofia, revelou o decisivo
papel da prática no processo do conhecimento. Ela mostrou que a
atividade prática, e antes de tudo a atividade produtiva dos homens, é
ao mesmo tempo:
1) o fundamento de todo o processo do conhecimento, isto é, a
fonte, o ponto de partida de qualquer espécie de conhecimento;
2) o objetivo final do conhecimento;
3) o critério decisivo da verdade.

154
O papel e o valor da atividade prática no conhecimento foi es­
tudado por Hegel, Feuerbach e outros filósofos, mas foram Marx e
Engels que souberam colocá-lo corretamente e solucionar cientifi­
camente o problema do critério da verdade.
Eis o célebre pensamento de Marx a esse respeito: “ A questão de
saber se o pensamento humano pode atingir a verdade objetiva não é
uma questão teórica, mas uma questão prática. É na prática que o
homem deve provar a verdade, isto é, a realidade e o poder, a ter-
renalidade de seu pensamento. A discussão sobre a realidade ou ir­
realidade do pensamento, isolado da prática, é uma questão puramen-,
te escolástica” . (K. Marx, II Tese sobre Feuerbacb).
Ao estabelecer o critério da prova pela prática, os fundadores da
filosofia do materialismo dialético Marx e Engels não deixaram ne­
nhum tratado sobre o assunto, de modo que o que eles escreveram
sobre o assunto, embora fundamental, é pouco.
Considerável sobre o assunto foi a contribuição de Lenin, prin-
cipalmente em suas obras Materialismo e Empirocriticismo e nos
Cadernos Filosóficos.
É abundante na União Soviética trabalhos sobre o papel da
prática. Mas, infelizmente, os filósofos soviéticos, muito presos às
formulações dos clássicos do marxismo-leninismo, limitam-se, em
geral, a repetir as mesmas palavras dos mestres, sem acrescentar algo e
sem explorar mais profunda e detalhadamente o rico conteúdo do
conceito de prática. De modo que o conceito de prática nos livros
soviéticos sobre a teoria do conhecimento (em geral muito breves) fica
envolto numa nebulosa e não se desvenda todo o seu amplo signifi­
cado. É verdade que há excessões, como por exemplo o livro escrito
por um coletivo de autores soviéticos, Prática — critério da verdade
na ciência (em russo), Moscou 1960, em que se aplica o critério da
prática nas diferentes ciências naturais e sociais.
Felizmente, vários filósofos marxistas não-soviéticos trouxeram
valiosas contribuições nesse campo. (Vide, por exemplo, o opúsculo
de Mao-Tsé-Tung Acerca da Prática, o livro de Antônio Gramsci
Concepção Dialética da História, Ed. Civilização Brasileira, Rio,
1966; e sobretudo a excelente pesquisa de Adolfo Sanchez Vasquez
Filosofia da Práxis, Ed. Paz e Terra, Rio, 1968 e outros).
Dada a suma importância do tema e a falta de clareza reinante a
respeito, achamos que seria útil falar com mais detalhe sobre o assun­
to.
Ao expor abaixo o papel da prática no conhecimento, nós com­
pletamos os pensamentos dos fundadores da filosofia do materialismo

155
dialético (Marx, Engels, Lenin) com as contribuições dos filósofos
soviéticos e não-soviéticos, e damos também nossa modesta contri­
buição, tudo dentro do espírito da própria filosofia em questão. As­
sim se terá uma visão, mais rica e completa de um assunto de decisiva
importância na teoria do conhecimento.

8 — O SIGNIFICADO DE PRÁTICA EP RÁXIS

O vocábulo prática vem do grego praktikos. Como adjetivo sig­


nifica ativo, eficaz, que convém à ação. Como substantivo significa
ação propriamente dita e se opõe a gnosis, que significa teoria, co­
nhecimento, contemplação.
Na linguagem cotidiana, o termo prática é usado como atividade
humana no sentido estritamente utilitário e pejorativo, como se pode
sentir nas seguintes expressões: “ homem prático” , “ resultados
práticos” e “ profissão muito prática.”
Para evitar tal confusão indesejável, alguns autores (como Vas-
quez, por exemplo) em vez do termo prática preferem usar, como
sinônimo equivalente, a palavra prâxis, que também significa a
própria ação e se opõe a gnosis, à teoria e à contemplação.
Aliás, é por não saber ou por não querer fazer esta distinção entre
a acepção filosófica e a acepção vulgar é que os adeptos do pragmatis­
mo decaíram no mais baixo utilitarismo.
Pois, tanto os vocábulos prática e práxis, como os vocábulos
pragmatismo, pragmatista e pragmático derivam do verbo grego pras-
sein ou prattein (agir, fazer) de onde, por sua vez, derivam os substan­
tivos pragma (ação, afazeres, negócio) e praxis (ação) e os adjetivos
pragmáticos e praktikos que se referem à ação (Cf. Foulquie e Saint-
Jean, Dictionnaire de la Langue Philosophique, pp. 559-561).
Como já vimos, as palavras pragmatismo, pragmatista e prag­
mático que originariamente significam ação, atividade prática, ad­
quiriram o sentido pejorativo de utilitarista, que visa o lucro, a van­
tagem, o sucesso a qualquer preço.
Já, no vocabulário marxista, a prática ou práxis designa o con­
junto de atividades materiais e produtivas do homem visando a trans­
formação do mundo material e social para fazer dele um mundo
humano. É nesse sentido que Marx escreveu: “ Os filósofos não fi­
zeram mais que interpretar o mundo de diferentes modos; trata-se
porém de transformá-lo (Marx, II Tese sobre Feuerbach).
A categoria da práxis ou prática, como atividade transforma­
dora, ocupa um lugar tão importante, fundamental e central na fi-

156
losofia marxista que alguns autores preferem chamar o marxismo de
“ filosofia da práxis’’.
Já os filósofos soviéticos Elez e Davidova consideram a teoria da
práxis revolucionária como “ medula do marxismo” e caracterizam a
práxis como “ o processo vivo infinito de transformação e mudança”
e vêem na dialética a teoria da práxis em geral. “ A dialética mate­
rialista é a ciência da transformação do mundo natural em mundo
humano; é a teoria da transformação revolucionária do próprio
homem” . (I. Elez e G. Davidova, “ A dialética materialista como
teoria da práxis revolucionária” , Revista Problemas da Filosofia,*
Moscou, 1965, n.° 9, p. 5. Cit. por Vasquez, op. cit., pp. 44 e 181).

9 — FORMAS DE PRÁTICA

O fundamento para a classificação das formas de prática pode ser


diferente. Por exemplo pode-se classificar a prática de acordo com as
esferas de atividade vital do homem. Nesse caso temos:
1) A prática na esfera da vida econômica, antes de tudo a pro­
dução material.
2) A prática na esfera política, a forma superior da qual é a luta
de classes, a revolução social.
Do ponto de vista da análise filosófica, como base para a clas­
sificação das formas de prática, pode-se tomar a relação da prática
com a teoria. Desse ponto de vista, podemos distinguir três formas de
prática:
1. °) A atividade exterior do homem, coincidindo com o seu com­
portamento social, com a existência (sobrevivência) cotidiana, com a
orientação nas normas sociais-morais, políticas etc..
2. °) A atividade material propriamente dita, baseada na ex­
periência empírico-prática. Aqui a prática coincide com a experiência
prática (p. exp. conhecimentos práticos). Tal conhecimento existe
somente na forma de fim, objetivo, meta.
3. °) A prática em unidade com o conhecimento científico. Ela se
fundamenta na apreensão teórica do objeto, se manifesta como
atividade total de operações adequadas à estrutura do objeto. Essa
forma desenvolve-se juntamente com o aparecimento da produção de
grandes máquinas. Essa atividade prática baseia-se na teoria cientí­
fica. (Cf. A. Ogurtsov, Verbete “ Prática” , em Enciclopédia Filo­
sófica (em russo), Moscou, 1967, T. 4, pp. 347-348).

157
Conclusão: Segundo o ponto de vista da filosofia marxista, a
prática ou pràxis é o conjunto da atividade produtiva, técnica e cien­
tífica dos homens, orientada na transformação da natureza (toda a
experiência do desenvolvimento da agricultura e da indústria), é o
conjunto da atividade revolucionária política e social, orientada na
transformação da sociedade (luta de classes, revolução social, o
movimento pela emancipação nacional e edificação de determinado
regime econômico-social-político).
Assim, a concepção marxista da práxis compreende:
1) o trabalho, a produção agrícola, industrial etc.;
2) o trabalho de pesquisa científica, a verificação experimental;
3) a produção ou criação de obras de arte;
4) a ativjdade política e social etc..

(Cf. O. O. Yakhot, Palestras populares sobre o materialismo


dialético (em russo), Moscou, 1962, p. 215; G. Politzer e outros, Prin­
cípios Fundamentais de Filosofia, Ed. Fulgor, Rio, 1967, p. 156, e
Adolfo Sanchez Vasquez, Filosofia da Práxis, Ed. Paz e Terra, Rio,
1968, pp. 3-5 e 194-202).
Resumindo: A prática ou práxis, na concepção marxista, é o con­
junto da atividade produtiva e revolucionária dos homens, orientada
na transformação do mundo material, espiritual e social, em benefício
das necessidades humanas.
Como se vê, a palavra prática ou práxis é entendida na filosofia
marxista no sentido mais alto possível, como atividade em geral, como
vida, realidade, experiência pessoal e científica, sobretudo como
atividade produtiva e revolucionária.
Esse é o conceito de prática ou de práxis, que na filosofia marxista
é o fundamento e o objeto final do conhecimento, sobretudo o critério
supremo da verdade de qualquer percepção, idéia, juízo, teoria ou ação
revolucionária.

10 — O CRITÉRIO DA PRÁTICA

Assim, a prova pela prática, pela vida e pela realidade é o único


critério válido, é a pedra de toque, a água régia, o juiz supremo da
verdade de qualquer teoria ou ação.
Desse critério dimanam importantes conclusões, imprescindíveis
na vida pessoal e profissional, na nossa atividade individual e social.

158
Ao apreciar nossa atividade produtiva, econômica, política e cien­
tífica devemos sempre nos guiar pelo critério da prática.
Se a realidade contradiz nossos cálculos, suposições ou hipóteses,
devemos ter a coragem de renunciar a eles, aprofundando nossos
conhecimentos, pondo-os em consonância com a experiência, com a
prática. Quando nos obstinamos e não queremos levar em conta os
fatos da vida, caímos sempre em logro e fracasso.
Muitas vezes é difícil, senão impossível, no plano teórico, saber se
algo é verdadeiro ou falso. Em ciência, como já vimos, não funciona q
critério da autoridade, e os demais critérios estudados não são sufi­
cientes para julgar a verdade das afirmações.
Teoricamente, uma hipótese científica por mais lógica que pareça,
enquanto não for confirmada e provada pela prática, não pode ser
ainda considerada verdadeira. No melhor dos casos, continua sendo
uma hipótese com menor ou maior possibilidade de ser verdadeira.
Por exemplo, a possibilidade de haver ou não vida no planeta Marte
só pode se tornar verdadeira no dia em que for confirmada e provada
pela prática técnica e científica.
O mesmo acontece na vida social e política. Por exemplo, só
podemos saber se um regime político que se apregoa como ideal é ou
não é bom depois de vê-lo funcionar na prática. Na teoria pode ser
muito belo e bom, mas na prática ser o contrário. “A teoria na prática
é outra” — como diz certo humorista.
É pela prática também que verificamos a sinceridade ou a fal­
sidade das promessas de autoridades políticas e de nossos amigos. É
nas horas difícies que se conhecem os verdadeiros amigos — reza a
sabedoria popular.
Nada há de estranho e surpreendente no fato de que a prática
humana seja o critério supremo da verdade de nossos conhecimentos.
Se a prática, a vida, a realidade, em uma palavra, se a práxis, como
conjunto da atividade material dos homens orientada na transfor­
mação do mundo material e social, é a fonte e o objetivo, a causa
primeira e causa final, de nossos conhecimentos, nada mais lógico e
natural que o critério da verdade desses conhecimentos seja sua
própria fonte e seu próprio objetivo, isto é, a prática. A prática entra
em cada fase, em cada degrau do processo do conhecimento, desde o
começo até o fim, e determina tanto a forma como o conteúdo de nos­
sos conhecimentos.
Se nossa mente, nossa consciência, nosso espírito, é um produto
da evolução e experiência milenar da humanidade, um produto, em

159
última instância, da natureza e da sociedade humana, e, em conse-
qüência disso, faz parte dela, nada mais natural e lógico que nossa
consciência esteja em condições de refletir corretamente as leis da
natureza e da sociedade. É a dialética das idéias, refletindo e repro­
duzindo a dialética das coisas, pois “ é a dialética das coisas que
produz a dialética das idéias (Lenin),
“ O conhecimento não pode ser biologicamente útil, útil ao
homem na prática, na conservação da vida, na conservação da es­
pécie, se não reflete a verdade objetiva independente do homem. Para
o materialista, o “ êxito” da prática humana demonstra a concordân­
cia das nossas representações com a natureza objetiva das coisas per­
cebidas”.. (V. I. Ulianov (Lenin), Materialismo e Empirocriticismo,
Ed. Estampa, Lisboa, 1971, p. 130).
Se a verdade é o conhecimento que reflete corretamente a rea­
lidade na nossa mente, se ela é a correspondência correta da idéia com
a realidade, nada mais natural e lógico do que verificar a sua vera­
cidade na própria fonte que é a realidade, a prática.
Se nossos conhecimentos, surgidos como resultado do estudo da
realidade, são confirmados pela própria realidade, pela experiência,
pela prática, significa que são verdadeiros, fidedignos, autênticos.
E, ao contrário: ás idéias ou hipóteses ou teorias que não são
confirmadas pela realidade, pela experiência, ou pela prática, são
errôneas.
Segundo o materialismo dialético, o papel da prática na deter­
minação da verdade é expressa nesta frase lapidar de Lenin:
“ Da observação viva ao pensamento abstrato, e deste à prática —
tal é a via dialética da verdade, do conhecimento da realidade obje­
tiva” (Lenin, Cadernos Filosóficos, Moscou, 1947, p. 146).
Em resumo, o conhecimento começa e termina com a prática.
Pela prática se adquire um conhecimento teórico, que depois retorna
de novo sobre a prática. Assim a prática é o fundamento do conhe­
cimento em todos os seus degraus, do começo até o fim.
Eis como Mao-Tsé-Tung resume o movimento ascendente do
conhecimento: “ Descobrir as verdades pela prática, e confirmá-las e
desenvolvê-las também pela prática. Passar ativamente do conhe­
cimento sensível ao conhecimento racional e, em seguida, do co­
nhecimento racional à direção ativa da prática revolucionária, à trans­
formação do mundo subjetivo e objetivo” (Mao-Tsé-Tung, “ Acerca
de la pratica” , em Cinco tesis filosóficas, Ed. La Rosa Blindada, B.
Aires, p. 30).

160
Ressaltando a importância da prática no conhecimento, o fi­
lósofo marxista francês R. Garaudy escreve: “ O conhecimento cien­
tífico nasce*e cresce na atividade produtiva e social do homem em per­
pétuo desenvolvimento histórico. A prática técnica e social é a con­
dição da profundidade deste conhecimento: quanto maior é a ativi­
dade prática do homem, mais ele conhece profundamente o mundo e
suas leis. Quanto mais ele conhece o mundo, mais ele o transforma, e
em transformando o mundo e a sociedade, o homem se transforma a
si mesmo” . (Roger Garaudy, La Theorie Materialiste de la Connais-
sanee, Presses Universitaires de France, Paris, 1953, pp. 292 e 294).
É por isso que podemos dizer que a prática é ao mesmo tempo, a
fonte, o objetivo e o critério de nossos conhecimentos. A prática é a
força motriz, a razão primeira e última que origina a necessidade de
nossos conhecimentos.
11 — O CRITÉRIO DA TEORIA
O critério da prática, embora seja eficiente, nem sempre é o
único. Cada tese, que lemos ou defendemos, não vamos cònfrontá-la
com a prática. Na realidade, isso nem sempre é possível e necessário.
Seria absurdo querer testar na prática tudo que ouvimos e lemos. Des­
se modo o nosso progresso seria ínfimo.
Por isso o critério da prática precisa ser completado com o cri­
tério da teoria. Nesse sentido, podemos dizer que o critério máximo da
verdade é a prova pela prática e pela teoria.
, A esse respeito, o filósofo soviético Ivan Dmitrevitch Andreev
emite argumento muito ponderado que passamos a resumir:
A tese marxista da teoria do conhecimento sobre a prática como o
único critério objetivo da verdade, não é possível interpretar de tal
modo, que cada teoria científica deve ser imediatamente (ou dire­
tamente) comprovada pela prática. Se fosse assim, nenhuma ciência
seria possível, pois cada nova geração de pessoas seria obrigada a
comprovar (verificar) na prática todas as teorias elaboradas pelas
gerações anteriores, isto é, começar o conhecimento sempre do co­
meço.
A teoria científica considera-se provada também no caso em que
sua verdade é confirmada pela demonstração lógica, que representa a
fundamentação da verdade de alguns juízos por meio de outros juízos,
antes demonstrados e comprovados pela prática social.
O que é a demonstração lógica? Na demonstração lógica o papel
principal é desempenhado também pelo critério da prática, mas aqui
ela se apresenta não de modo imediato e sim de modo mediato.

161
No processo da demonstração de suas conclusões teóricas, a ciên­
cia não pode basear-se em fatos ou teses teóricas falsas, duvidosas ou
não comprovadas. Qualquer demonstração lógica pode se considerar
válida somente se todos os argumentos utilizados no processo de
demonstração são.verdades indiscutíveis e não são tomadas pela ciên­
cia na base da fé, dogmaticamente, sem demonstração. Todos os ar­
gumentos devem ser, de modo conseqüente, demonstrados e verifi­
cados pela experiência, pela vida, pela prática das pessoas.
A ciência parte freqüentemente de bases primeiras, tais como
axiomas, definições e, também, de teses, teorias e leis de natureza e da
sociedade. Mas isso só é válido se a verdade tanto de uns como de
outros já tiver sido previamente demonstrada e provada pela atividade
prática dos homens, isto é, pela sua atividade social — histórica —
politica e produtiva.
Assim, todas as proposições ou teses, tomadas como fundamento
na demonstração, não constituem verdades meta-empíricas, a priori,
contemplativas, mas sim juízos de verdades materiais comprovadas
pela prática, que correspondeu à realidade objetiva.
Nenhum fundamento não se toma na demonstração científica se
sua verdade objetiva não foi demonstrada, provada e verificada pela
prática humana.
Isto significa que na base de qualquer demonstração lógica ou
teórica se encontra a prática social, e que também nesse caso, numa
forma mediata, indireta, a prática aparece no final das contas, como o
critério da verdade. (Cf. I. D. Andreev, Fundamentos da Teoria do
Conhecimento (em russo), Moscou, 1959, pp. 317-322).
Já o filósofo iugoslavo-soviético Iovo Elez escreve: Do ponto de
vista da lógica dialética materialista, é insuficiente somente a demons­
tração teórica, como é insuficiente somente a demonstração prática,
tomada completamente independente da teoria. A demonstração de
verdade se alcança somente na unidade da demonstração lógica e
prática, no conjunto do processo da pesquisa científica e da análise
concreta (indutiva e dedutiva) da realidade, pois a demonstração cien­
tífica, deve sem falta, incluir os meios “ ...d e verificação de todos os
fatos, acontecimentos, lições da história universal” (Lenin, Obras, T.
27, pp. 75-76).
Na demonstração devem participar a teoria e a prática, pois cada
uma delas, na sua essência, contém o seu contrário: a prática se
manifesta como a teoria objetivizada e a teoria como prática “ es­
piritualizada” , já que em cada teoria científica acumulou-se a ex­
periência prática das gerações anteriores de pessoas.

162
A demonstração da verdade da teoria tem dois aspectos impor­
tantes:
1) O primeiro aspecto consiste em que toda teoria nova em suas
conclusões baseia-se em leis e princípios anteriormente estabelecidos,
em teses científicas já demonstradas pela prática.
Além disso, é necessário levar em consideração que os princípios
lógicos utilizados na dedução das teses da nova teoria também estão
ligados à prática.
2) Outro aspecto da demonstração consiste em que toda demons­
tração desta ou aquela teoria, mesmo tendo um caráter prático, “não
pode se realizar completamente isolada da teoria; toda demonstração
prática (p. exp. experimental) baseia-se em algumas leis e princípios
teóricos construídos anteriormente e aplicados praticamente, de modo
que nem uma demonstração metódica começa no vazio, mas parte de
alguma teoria mais ou menos verdadeira.
A prova ou demonstração científica pressupõe a unidade interior,
do teórico e do prático. (Cf. I. Elez, Verbete “ Demonstração” , em
Enciclopédia Filosófica (em russo), Moscou, T. 2, pp. 42-43).
Conclusão: Resumindo tudo que foi dito, podemos dizer que a
prática é, em última instância, direta ou indiretamente, o critério
supremo da verdade, tanto de um fato, como de uma proposição, tese
ou teoria.

12 — A UNIDADE DA TEORIA ED A PRÁTICA

Como já vimos, o termo gnosis significa teoria ou conhecimento


e o termo práxis significa ação, atividade.
O conhecimento é a atividade teórica dos homens e a ação é a sua
atividade prática.
A teoria e a prática, o conhecimento e a ação, são dois modos
diferentes, mas complementares de atividade humana.
A teoria por si só nos dá um conhecimento da realidade, mas não
está em condições de transformar a realidade. Isso é função da
prática, da práxis.
A teoria só reflete o mundo e generaliza a experiência humana de
modo que na teoria acumula-se a experiência prática das gerações
sucessivas da humanidade.

163
Mas ao generalizar a prática, a teoria exerce nela uma ação re­
cíproca e contribui para o desenvolvimento e enriquecimento ulterior
da prática.
Se a teoria é á generalização e a espiritualização da prática, a
prática, por sua vez, é a objetivação e a materialização da teoria. As­
sim como a teoria é a prática concentrada, a prática é a teoria concen­
trada. Assim como a teoria sem a prática é estéril, a prática sem a
teoria é cega.
Assim, a teoria é a luz que ilumina a prática, a vida, e mostra-lhe
o caminho mais certo, ajuda-a a encontrar os meios mais eficazes para
alcançar os fins práticos almejados.
Por exemplo: as ciências naturais, surgidas na base da prática,
sendo resultado da generalização da experiência produtiva do homem,
elas, ao mesmo tempo, prestam uma ajuda inestimável à produção:
ajudam a elaborar novos métodos de produção, a criação de novas
máquinas de maior rendimento, a produção de objetos artificiais (sin­
téticos) etc., tudo para satisfazer as necessidades cada vez mais cres­
centes do homem civilizado.
Embora sejam dois modos diferentes de atividade, a prática e a
teoria formam uma unidade dialética indissolúvel, pois uma depende
da outra. Se o homem não necessitasse de nada e não fizesse nada, não
haveria necessidade de conhecimentos, e se não houvesse conhecimen­
tos, o homem não poderia existir, viver e atuar com êxito.
Mas nessa unidade a dialética, a prática tem primazia sobre a
teoria. Como atividade sensível-material, “ a prática está acima do
conhecimento teórico, porque possui não só a dignidade da univer­
salidade, como também da realidade imediata” (Lenin, Cadernos
Filosóficos, “ Obras” , Moscou, 1958, T. 38, p. 205.).
“ No começo era a ação” diz Fausto, de Goethe, para sublinhar a
importância da ação, da prática, da atividade material, do trabalho
produtivo, no surgimento da linguagem, do pensamento, dos co­
nhecimentos e da humanização do homo naturalis.
Entretanto, se a prática está acima do conhecimento teórico, daí
não se segue que se deve desdenhar a teoria.

A teoria dá ao homem a possibilidade do êxito, mas é pela prática e


na prática que essa possibilidade de êxito se torna realidade.
É por isso que dissemos e repetimos que a prática é ao mesmo
tempo a fonte, a finalidade e o critério de nossos conhecimentos. A

164
práxis, a prática, é a força motriz, a razão primeira e suprema que
origina a necessidade de nossos conhecimentos sobre o microcosmos e
macrocosmos, com a finalidade de transformação revolucionária do
mundo natural em mundo humano e com isso a transformação do
próprio homem em benefício do próprio homem.

13 — O CARÁTER CONCRETO DA VERDADE

Não existem verdades abstratas; a verdade é sempre concreta.


Tudo depende das circunstâncias, das condições de lugar e tempo. Por
isso sempre é necessária uma análise concreta das condições. Como as
coisas mudam, muda também a verdade a respeito delas. O que é vêr-
dadeiro sob certas condições, pode deixar de sê-lo em outras condi­
ções. Vejamos alguns exemplos.
É o homem, por natureza, bom ou mau, veraz ou mentiroso?
Não se pode dar uma resposta absoluta, válida para todos os homens e
casos. Um homem bom pode, às vezes, praticar uma maldade, assim
como um homem mau pode, às vezes, praticar uma bondade. Um
homem conhecido como honesto e veraz pode, às vezes, mentir, assim
como um homem conhecido como mentiroso, pode, às vezes, falar a
verdade. Assim, não há bondade e maldade, bem e mal, genericamen­
te falando. Não há bens e males abstratos. Há somente bens e males
concretos, conforme o caso, o tempo e o local. Ademais, o que é bem
para um pode ser mal para outro.
Qual é o melhor fertilizante para o solo? Não se pode dar uma
resposta certa. É necessário, antes de tudo, fazer uma análise do solo,
é necessário saber qual a plantação, em que lugar, sob que condições.
Só depois disso é possível escolher o melhor fertilizante para esse
determinado solo.
A mesma coisa acontece na medicina. Qual o melhor remédio
para determinada doença? Não há um remédio que sirva para todos os
casos da mesma doença. Os sintomas podem ser os mesmos, mas os
doentes são diferentes. Por isso os bons médicos dizem que não há
doenças, e sim doentes, que devem ser tratados individualmente. Os
médicos atuais estabeleceram que 75% das doenças são de origem
psicogênica ou psicossomática, isto é, de origem psíquica, essencial­
mente individual. Logo, o tratamento também deve ser individual e
concreto. Não existem panacéias, remédios para todos os males.
O caráter concreto da verdade é mais evidente ainda nas ciências
sociais e humanas. Por exemplo: são certas e verdadeiras nossas idéias
sobre a virgindade, o divórcio, o aborto, as pílulas anticoncepcionais,
o homossexualismo etc.? Tudo depende das condições concretas do

165
país, da época, de sua evolução econômica e cultural, das tradições do
povo, da classe social, da concepção filosófica ou crença religiosa à
qual pertence a pessoa etc..
Alguns exemplos: Em alguns países superdesenvolvidos como a
França, EUA, Inglaterra, Suécia e nos países socialistas como a União
Soviética, jâ està parcialmente superado o tabu da virgindade; são
legais o uso de anticoncepcionais e a prática do aborto, do divórcio
etc..
Na Itália, durante séculos, o divórcio foi proibido pela lei e con­
siderado um ato imoral, contrário às normas da religião dominante,
que considerava o matrimônio como santificado e indissolúvel, segun­
do o dógma cristão “ O que Deus uniu, o homem não pode separar” .
Depois de muita luta, em dezembro de 1969, o parlamento italiano
aprovou a lei permitindo o divórcio.
Mas, em países em desenvolvimento, como o Brasil e os países
latino-americanos, o tabu da virgindade não está ainda superado na
fase atual de sua evolução; o divórcio está em discussão e a prática do
aborto é considerado crime.
Seria errôneo tirar, do que foi dito acima, a conclusão de que a
verdade não existe ou que ela tem caráter subjetivo, já que cada um
tem a sua verdade. A verdade existe e é uma só para cada caso con­
creto. O que não existe é a verdade abstrata, válida para tudo e todos
os casos.
Assim, na solução de qualquer problema, na aplicação das nor­
mas gerais, na explicação de fatos, sobretudo sociais, para não cair no
erro, é necessário uma abordagem científica, concreta, flexível e
criativa, levando em consideração as condições concretas que variam
no tempo e no espaço.

14 — A V E R D A D E R E L A T I V A E A V E R D A D E ABSOLUTA

Um problema muito importante consiste em saber se as verdades


que conhecemos têm valor absoluto ou relativo.
Verdade absoluta — é uma verdade completa, o reflexo abso­
lutamente exato do objeto, é o conhecimento totalmente idêntico ao
seu objeto. A verdade absoluta é válida para todos os homens e para
todos os tempos, e por isso, não pode ser refutada no desenvolvimen­
to ulterior do conhecimento.
Verdade relativa — é uma yerdade incompleta, o reflexo rela­
tivamente correto do objeto, passível de complementação ou retifi-

166
cação no futuro, inclusive de refutação. É válida dentro de certos
limites.
A respeito desse problema existem três pontos de vista principais:
1) ABSOLUTISMO: Os seus adeptos afirmam que só há ver­
dades absolutas. Verdades relativas não existem. As verdades que
caducam ou necessitam de serem completadas não são verdades. As
verdades “verdadeiras” não caducam. Elas são imutáveis, eternas,
dadas de uma vez para sempre. Para os dogmáticos ou absolutistas, as
verdades são como os dogmas: definitivos, imutáveis, eternos.
2) RELA TIVISMO: Seus adeptos, ao contrário dos absolutistas,
afirmam que não há verdades absolutas, mas somente verdades re­
lativas. Negam a possibilidade de conhecer a essência das coisas, o
númeno e a verdade absoluta. Dizem que só podemos conhecer os
fenômenos, a aparência das coisas.
Alguns relativistas vão mais longe e afirmam que todos os nossos
conhecimentos são relativos no sentido de subjetivos, parciais,
aparentes, ilusórios.
CRÍTICA: Nem os absolutistas, nem os relativistas conseguiram
solucionar corretamente o problema. A verdade mais uma vez se en­
contra no meio das duas teorias — teoria essa que chamaremos de Ab-
sòlutismo-Relativista — que é a posição defendida pela filosofia
diamática e que é aceita pelo autor.
3) ABSOLUTISMO-RELATIVISTA: Segundo essa teoria, as
possibilidades cognoscitivas dos homens estão limitadas pelas con­
dições históricas e pelo nível do desenvolvimento da ciência, da téc­
nica e da produção. Por isso, os nossos conhecimentos são relativos
em cada etapa e têm caráter de verdade relativa, mas objetiva e não
subjetiva como pensam os relativistas.
Se as verdades que conhecemos são relativas, será então possível
conhecer a verdade absoluta, total, perfeita de tudo?
Podemos sim, mas a verdade absoluta não pode ser conhecida de
modo imediato, direto, de um só golpe e por completo. Ela só pode
ser alcançada, paulatinamente, no processo infinito do conhecimento.
A humanidade se aproxima cada vez mais da verdade absoluta. Ao
conhecer as verdades relativas, conhecemos também parte da verdade
absoluta.
Por exemplo: a teoria atual do átomo. Embora ela corresponda à
realidade, não é completa. Não podemos dizer que esgotamos o as­
sunto. Há muito ainda por conhecer sobre a natureza e a quantidade

167
das “ partículas” elementares que formam o átomo, sobre as causas
que originam sua mutabilidade, a “ bola de fogo” de César Lates etc..
A atual teoria do átomo é uma verdade relativa, mas, ao mesmo tem­
po, ela contém graus.de verdade absoluta.
Assim, a verdade relativa que conhecemos contém partículas da
verdade absoluta, é um momento da verdade absoluta.
O pensamento humano é, por natureza, capaz de conhecer a ver­
dade absoluta que resulta da soma global das verdades relativas. Cada
fase do desenvolvimento da ciência adiciona novas partículas a essa
soma global de verdades relativas.
A verdade absoluta está para a verdade relativa como o todo está
para as partes. O todo não é uma soma aritmética de suas partes, mas
algo mais, pois é uma nova qualidade. (Segundo a teoria gestâltica, o
todo é algo diferente da soma mecânica das suas partes).
CONCLUSÃO: A soma gestâltica, a síntese dialética das ver­
dades relativas forma a verdade absoluta. É possível conhecer a ver­
dade absoluta de certos aspectos particulares da realidade, mas jamais
alcançaremos a verdade global total, absoluta de tudo que existe neste
universo eternamente cambiante, mutante. O homem individual
jamais alcançará um ponto em que possa dizer: Agora conheço todas
as leis e segredos do universo.
Por que o homem não pode esgotar realmente o conhecimento do
universo até o fim? Porque o universo é infinito, ele ininterruptamen-
te muda, se transforma, se renova. Quando conseguimos conhecer al­
guns aspectos do universo, este muda de aspecto e se transforma em
outro.
Por outro lado, junto com o universo, também se desenvolvem a
nossa capacidade cognitiva, os nossos órgãos sensoriais e as nossas
faculdades intelectuais e nossa capacidade intuitiva. Ora, se a nossa
capacidade cognitiva se desenvolve, se aperfeiçoa, significa que ela
ainda não é perfeita. É por isso que não há fundamento em afirmar
que nossos conhecimentos são definitivos e absolutos.
A contradição no processo do conhecimento consiste em que, por
um lado, a razão é capaz, por sua natureza, de conhecer todo o
universo, e, por outro, não pode esgotá-lo totalmente, porque o
universo está em permanente transformação. Essa contradição pode
ser resolvida somente na infinita série de gerações sucessivas da
Humanidade.
Assim, os conhecimentos humanos se alargam e se aprofundam
paulatinamente, aproximando-se cada vez mais da verdade absoluta.

168
15 — VERDADES ABSOLUTAS

A humanidade já possui uma série de conhecimentos científicos


sobre diversos aspectos da realidade que têm caráter de verdades'
universais e que podem ser consideradas verdades mais ou menos ab­
solutas, isto é, irrefutáveis no futuro. Eis algumas delas:
— O princípio da razão suficiente, da causalidade e do deter­
minismo: Tudo que acontece tem sua razão de ser. Do nada não se
pode fazer algo. Nada acontece sem causa, mas tudo nasce e muda,
determinado pelas suas condições de existência.
— Os fenômenos têm sua explicação em causas reais e naturais.
— Uma proposição, tese, teoria etc., só pode ser aceita como
verdadeira se for cientificamente provada pela prática.
— A matéria e o movimento estão indissoluvelmente unidos.
Não há matéria pura sem movimento, como não há movimento puro
sem matéria.
— A matéria em movimento existe antes e independentemente da
consciência e da vontade dos homens (ou de qualquer outra consciên­
cia ou vontade sobrenatural).
As leis da conservação e transformação da energia.
— Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.
— Toda forma de movimento é capaz de, em certas condições, se
converter em qualquer outra forma de movimento.
— A matéria viva se originou da matéria inorgânica que, por sua
vez, se originou da matéria ou energia cósmica.
— O homem é produto superior de longa evolução de seres vivos
inferiores.
— A consciência é uma propriedade do cérebro. Portanto, não
há consciência nem pensamento sem o cérebro.
Também podem ser consideradas verdades mais ou menos ab­
solutas: os conhecimentos completos de determinados aspectos par­
ticulares dos objetos estudados (constatação dos fatos, que não é
idêntico ao conhecimento absoluto de todo o conteúdo desses fatos); o
conhecimento definitivo de determinados aspectos da realidade toda,
ou o conteúdo da verdade relativa que se conserva no processo do
conhecimento ulterior etc..

169
As chamadas verdades “ absolutas” , ou “ eternas” são tais so­
mente em limites relativos, tanto no sentido de sua aplicação em
domínios limitados, limites que em alguns casos podem alargar-se ou
estreitar-se posteriormente, como também em outros casos no sentido
de sua precisão. (Cf. Enciclopédia Filosófica (em russo), Moscou,
1962, T. 2, p. 347).
É necessário muito cuidado em não tomar por absolutas, defi­
nitivas e eternas, as verdades que são relativas e, em maior ou menor
grau, se aproximam das verdades absolutas.

16 — O DESENVOLVIMENTO DOS CONHECIMENTOS


HUMÁNOS

O conhecimento humano não é estático, não fica parado. Ele está


em constante desenvolvimento. O conhecimento é um processo in­
finito de aproximação do pensamento ao objeto, um movimento con­
tínuo da ignorância ao saber; do conhecimento incompleto e imper­
feito ao conhecimento mais completo e perfeito; do conhecimento dos
fenômenos ao conhecimento dos númenos ou das essências; do co­
nhecimento das essências de primeiro grau, ao conhecimento das es­
sências mais profundas; do conhecimento da verdade relativa ao
conhecimento da verdade absoluta.
Ao corrigir as teorias caducas e substituí-las por novas, o co­
nhecimento avança, descobrindo novos aspectos da realidade e do
universo infinito e eterno.
Vejamos essa marcha dos conhecimentos humanos no exemplo
das teorias sobre a luz, que foram aprofundando cada vez mais nossos
conhecimentos sobre a essência da irradiação luminosa, e no exemplo
do desenvolvimento social.

A) Teorias sobre a Natureza da Luz

1) Teoria Corpuscular: Em 1670, o físico inglês Newton for­


mulou a Teoria Corpuscular da Luz, segundo a qual os corpos lu­
minosos emitem pequenas partículas luminosas, corpúsculos sepa­
rados uns dos outros (processo descontínuo).
2) Teoria Ondulatória: Em 1690, o físico holandês Huyghens,
contemporâneo de Newton, propôs a Teoria Ondulatória da Luz,
segundo a qual a luz se irradia em forma de ondas (processo contí­
nuo).

170
3) Teoria Eletromagnética: Faraday, (em 1845), Maxwell (em
1870) e Hertz (em 1888), demonstraram que as ondas luminosas têm
uma essência eletromagnética e não mecânica (processo contínuo).
4) Teoria dos Quanta: Em 1900, Plank emitiu a idéia de que a
energia luminosa se irradia não como uma corrente contínua, mas sim
em forma descontínua, discreta, por partículas de natureza eletro­
magnética, que chamou de quantum ou quanta, isto é, quantidades
elementares de energia (processo descontínuo).
Em 1905, Einstein chamou esses quanta de átomos de energia
luminosa, isto é, fótons.
A teoria corpuscular dos quanta explica facilmente todos os
fenômenos vinculados com a emissão e absorção da energia luminosa.
Mas não explica toda uma série de fenômenos físicos, tais como a
refração, difração, dispersão, interferência e polarização da luz —
que são satisfatoriamente explicados pela teoria ondulatória da luz.
5) Teoria da Mecânica Ondulatória: Havia necessidade de fazer
uma síntese dialética da teoria corpuscular (descontínuá) com a teoria
ondulatória (contínua). Isso foi feito pela Mecânica Ondulatória de
Louis de Broglie, em 1923, associando a cada corpúsculo luminoso, a
cada fóton, uma onda de probabilidade. Assim, a luz, simultanea­
mente descontínua e contínua, representa uma irradiação de partí­
culas (quanta, fótons) em forma de ondas. É a unidade dialética dos
contrários.
Está claro que a teoria atual da luz ainda não é a verdade última,
' completa, absoluta, sobre o assunto. É uma verdade relativa que con­
tém partículas (graus) da verdade absoluta.

B) Teorias sobre a Natureza do Desen volvimento Social

Vejamos essa marcha dos conhecimentos humanos, desta vez


sobre a natureza do desenvolvimento social.
Nós já vimos que no mundo nada é imóvel. Tudo flui, tudo
muda, tudo evolui. O mesmo acontece com a vida social. A sociedade,
os grupos e as instituições sociais, estão em permanente processo de
mudança.
Costuma-se distinguir dois tipos de mudança:
Involução: mudança regressiva (decadência).
Evolução: mudança progressiva (progresso ou desenvolvimento).

171
Vejamos, brevemente, algumas dessas teorias sobre a mudança
social:
l . a) Teoria involucionista: Muitos filósofos e teólogos acham que
a sociedade está involuindo. Involução é o contrário de evolução e sig­
nifica que, em vez de progredir, a sociedade está regredindo, está em
decadência. Segundo os adeptos desse ponto de vista, o homem
primitivo era moral e espiritualmente superior ao homem civilizado.
Em vez de progredir, a humanidade estaria, pois, decaindo cada vez
mais, moral e espiritualmente.
A teoria da involução social, no fundo, é inspirado na concepção
religiosa judaico-cristã da sociedade. Os adeptos dessa teoria saem do
pressuposto da Biblia de que a história da sociedade começou com a
criação do primeiro casal (Adão e Eva) que viviam num paraíso ter­
restre, feliz, em paz, na maior ingenuidade e pureza. Como Deus os
teria feito à sua imagem e semelhança, eles deveriam ser perfeitos,
moral e espiritualmente.
Mas, como eles pecaram, comendo “ o fruto da árvore da ciência
do bem e do mal” e tornaram-se sábios como Deus, este os expulsou
do paraíso. Desde então teria começado a degradação moral do
homem. Para castigá-los, Deus condenou-os a obter o sustento com
seu próprio trabalho. Desde então, o trabalho foi tido pelos cristãos
como castigo e maldição, como ocupação suja, baixa, própria apenas
de gente “ inferior” : pária, escravo, índio, negro etc.. Nasceu assim
uma concepção muito errônea do trabalho como ocupação indigna.
Ora, hoje, a ciência antropológica tem dados e provas mais do
que necessárias e suficientes de que foi o trabalho que transformou o
Antropóide em Homem, que humanizou o símio e é ainda o traba­
lho que, além de dar ao homem todos os bens necessários para a sua
sobrevivência, continua aperfeiçoando o homem. Então, o trabalho,
longe de ser uma maldição, é a salvação da humanidade.
Vejamos um exemplo típico, não raro, nas famílias abasta­
das: o marido trabalha e ganha muito bem, monta uma casa para a
esposa, com empregadas que fazem comida, lavam a roupa, cuidam
das crianças e fazem todos os demais serviços domésticos. Com tantas
empregadas, a esposa fica sem fazer nada; também não lê, não estuda
e não se ocupa de algo útil. Resultado: definha-se como ser humano,
pois basta não trabalhar, como a pessoa deixa de ser humano, para se
tornar um ser sub-humano; aí aparece o tédio, a “ fossa” , a neurose e
a psicose, a pessoa começa a ingerir todos os tipos de psicotrópicos, de
drogas, entorpecentes. É a decadência moral e espiritual.

172
Assim, a decadência moral e espiritual vem mais em conseqüência
de não fazer nada do que de trabalhar, porque, como já dissemos, o
trabalho fez o homem e continua fazendo o homem e basta deixar de
trabalhar para que ele deixe de ser humano, para se tornar sub-
humano ou infra-humano.
De modo que essa concepção da involução é uma concepção cien­
tificamente errônea; não houve involução. Para começar, diremos que
a vida da sociedade não começou com homens perfeitos, vivendo no
paraíso terrestre, como se diz na Bíblia. Mas começou da animali­
dade. “ A não ser que a ciência toda esteja em erro, não somos anjos
decaídos, mas animais aperfeiçoados” — diz muito bem o antro­
pólogo Ralf Linton. (O Homem, Ed. Martins, S. Paulo, 1970, p. 23).
O homem de hoje é o resultado superior de uma longa evolução
que começou de animais muito inferiores. Os nossos antepassados
mais próximos foram seres rudimentares imperfeitos e irracionais e
desde então só houve evolução, progresso, isto é, marcha para frente.
Não queremos dizer que nós já sejamos totalmente racionais e per­
feitos, mas estamos bem acima do símio, bem acima do selvagem, do
bárbaro, embora na sociedade em que vivemos encontramos, às vezes,
indivíduos irracionais, selvagens e bárbaros, porque eles têm res­
quícios do período de selvageria e de barbarismo em que viveram nos­
sos antepassados durante tantos milênios.
2. a) Teoria evolucionista linear — horizontal ou vertical: É a
concepção segundo a qual o homem e a sociedade evoluem em linha
reta progressiva ilimitada, para frente (horizontal) ou para cima (ver­
tical). Qualquer mudança é um progresso. Só há progresso. Não há
regresso, involução, decadência. O homem e a sociedade se tornam
cada vez mais evoluídos moral e intelectualmente. Esta é a teoria
defendida sobretudo pelos pensadores franceses: os materialistas
franceses do século 18, A. Comte, Spencer, e outros.
3. a) Teoria cíclica ou circular: É a concepção defendida prin­
cipalmente por Spengler. Segundo essa teoria, a mudança não é linear,
mas circular ou cíclica. Depois da evolução, vem a involução, depois
do progresso vem o regresso, a decadência. O ciclo se fecha e o es­
pírito da nação se petrifica. Esse processo se repete com todas as cul­
turas e lembra ‘‘o eterno retorno” de Nietzsche.
4. a) Teoria espiroidal ou helicoidal: É a teoria defendida pelos
marxistas, por Bergson e outros pensadores contemporâneos. Segun­
do essa teoria, a mudança não é nem linear (isto é, uma linha reta
progressiva ilimitada), nem circular (isto é, depois de um certo tempo
volta ao ponto de partida, formando um ciclo fechado), mas espi­
roidal ou helicoidal.

173
Nós também somos adeptos dessa teoria do desenvolvimento, por
considerá-la mais próxima da verdade objetiva.
Segundo nossa opinião, a teoria espiroidal representa a unidade
dialética de ambas teorias, na fusão da linha reta ascendente ilimitada
com o círculo. Essa síntese pode ser representada pela figura geo­
métrica da espiral, que é uma linha curva não-fechada que faz certo
número de revoluções em torno do seu ponto de partida (centro, eixo
ou pólo), do qual se afasta, regularmente, cada vez mais. Popular­
mente, podemos facilmente representar a espiral na forma de caracol,
parafuso, mola ou batedeira de bolo, ou ainda como quem dá grandes
voltas ao subir um morro, por exemplo, de Santos para São Paulo.
Assim a humanidade progride vagarosamente, dando voltas, como
quem sobe um morro.
No processo do desenvolvimento do conhecimento, da cultura,
da nação ou da sociedade, a primeira espira representa o início da
evolução, do progresso. Note-se que a espiral não é um círculo fe­
chado. Parece que a espira retorna ao ponto de partida, mas, na
realidade, está pouco acima da espira anterior. E como as voltas da
espiral são infinitas e sempre acima da espira anterior, a evolução ou
o desenvolvimento da cultura, nação ou sociedade também se desen­
volve em forma de espiral, isto é, em linha curva espiroidal ascendente
e ilimitada, que inclui um regresso aparente e relativo.
Para compreender o desenvolvimento da sociedade é necessário
raciocinar não em escala e em termos individuais, mas em escala e em
termos históricos. Para o homem, 50 ou 100 anos é toda uma existên­
cia. Para a História da Humanidade isso não é nem uma milionésima
fração de segundo, nem um pingo de água na imensidão do Oceano.
Por isso, é necessário se acostumar a encarar o desenvolvimento social
em termos de escola histórica.
Na nossa opinião, o desenvolvimento social se faz sempre para
frente e num plano superior aos tempos anteriores, isto é, nós não só
mudamos, como também mudamos sempre para maior aperfei­
çoamento. Embora haja momentos de aparente e relativo regresso, de
retorno, estagnação ou decadência, o resultado final é sempre um pas­
so para a frente no caminho do aperfeiçoamento material, cultural e
espiritual do homem e da criação de uma sociedade mais justa, mais
livre e mais humana.
A melhor prova para se convencer da verdade dessa teoria é a
prática social. Basta comparar o homem civilizado de hoje, não com o
homem de 100, 200 ou 500 anos atrás (pois num pequeno período his­
tórico pode haver e há retrocessos em certos aspectos econômicos,

174
políticos e sociais), mas com os nossos antepassados de 1 milhão de
anos atrás, 100.000 anos ou mesmo 1.000 anos atrás, ou ainda os
povos-chamados primitivos da Austrália e da Amazônia de hoje, e
ver-se-á como é palpável o desenvolvimento em todos os sentidos.
Extrapolando esse desenvolvimento, podemos afirmar que o
homem do futuro, digamos daqui mil anos ou talvez menos, (hoje,
por causa da rapidez do progresso técnico-científico, é difícil prever
algo com tempo determinado), o homem do futuro, dizíamos, será tão
superior a nós como nós o somos em comparação com os nossos an­
tepassados hominídeos.
No futuro, chegará um momento em que o homem será tão
desenvolvido moral e espiritualmente, que não haverá mais guerras e
toda a espécie de crimes contra o homem, não haverá aquilo que
chamamos de imoralidade, depravação, não haverá egoísmo no sen­
tido estrito, que conhecemos. Chegará um dia em que os homens
viverão tal qual como prega a religião cristã. “Amai-vos uns aos
outros” — todo mundo como irmão, numa fraternidade total, todo
mundo ligado pelo amor, substituindo o egoísmo estúpido e estreito
de hoje pelo egoísmo inteligente e altruístico.
Por que hoje não é possível viver assim? Porque a maioria da
humanidade ainda vive com resquícios de selvageria e barbárie em que
viveram nossos antepassados. Nós fomos animais e, em todos nós, há
muitos elementos animalescos e, em determinadas circunstâncias,
reagimos zoologicamente, batendo, mordendo, matando, como faz o
animal. De modo que ainda são poucas as pessoas aperfeiçoadas
moral e espiritualmente; mas chegará um dia em que a maioria ab­
soluta da sociedade será constituída de seres humanos superiores. Será
o verdadeiro paraíso terrestre, onde todo mundo viverá mais feliz,
segundo o princípio humanista, numa sociedade verdadeiramente
democrática, na qual o livre desenvolvimento de cada um será a con­
dição do livre desenvolvimento de todos e vice-versa. Será o grande
salto do reino da necessidade para o reino da liberdade, em que,
depois de ter dominado a natureza, a sociedade e o próprio homem, a
humanidade tomará a rédea dé seu próprio destino.

175
I
TERCEIRA PARTE
X — o CONHECIMENTO INTUITIVO OU CRIATIVO

Depois que examinamos vários problemas relacionados com o


conhecimento empírico e abstrato e depois que examinamos o que é
a verdade e como distingui-la do erro, agora podemos examinar o
conhecimento intuitivo ou criativo, que nos permite descobrir e
adivinhar a verdade e achar a solução dos problemas pessoais e profis­
sionais que nos preocupam.

1 — O CONHECIMENTO INTUITIVO

Além dos conhecimentos sensível e racional já estudados, há


outra espécie de conhecimento chamado intuitivo, infelizmente bas­
tante ignorado nos melhores livros de gnosiologia.
Devido à importância do tema e à falta quase absoluta de lite­
ratura sobre o assunto do ponto de vista gnosiológico, resolvemos dar
uma explanação mais completa sobre o conhecimento intuitivo —
elaborado por nós.1
No entanto, na História da Filosofia, a intuição vem sendo es­
tudada há muito tempo. A intuição e o conhecimento intuitivo ti­
veram muitos adeptos, desde Platão até os nossos dias. A maioria das

1. Esta parte é uma variante consideravelmente revista e ampliada do nosso opús­


culo “ Intuição Heurística” , publicado pela editora Alfa-Omega, 2.“ edição, 1973. Em
sua essência, este trabalho è um resumo de duas monografias do Autor: “ A Teoria do
Conhecimento do Intuitivismo Contemporâneo” e “ O Papel da Intuição no Processo
do Conhecimento” — trabalhos esses escritos de 1961 e 1965, em Moscou, onde o
Autor trabalhava como pesquisador científico no Instituto de Filosofia da Academia de
Ciências da URSS. Quando dispusermos de tempo, esperamos traduzi-las para publicá-
las em português.

179
escolas filosóficas do século 20 é intuicionista no sentido de que con­
sidera a intuição como “ órgão” ou “ faculdade” superior de co­
nhecimento, que nos dá direta e imediatamente a verdade absoluta.
Entre essas correntes podemos incluir:
O Neotomismo, doutrina filosófica oficial da Igreja Católica, o
Intuicionismo do filósofo francês Henry Bergson (1859-1941). A
Fenomenologia do filósofo alemão Edmund Husserl (1859-1938) e o
Existencialismo do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1977).
Somente poucas correntes filosóficas contemporâneas não são
intuicionistas nesse sentido, como por exemplo: O Marxismo, o Prag­
matismo e o Neopositivismo, embora não neguem a intuição como es­
pécie natural de conhecimento.
Apesar de haver vasta literatura filosófica a respeito da intuição,
infelizmente não existe uma concepção uniforme sobre a mesma. A
idéia ou noção da intuição é uma das mais confusas de todas as noções
filosóficas. Só em Bergson (que dedicou toda sua vida ao estudo da
intuição e escreveu vários trabalhos sobre o assunto) existem dezenas
de noções diferentes e nenhuma delas suficientemente clara e evidente,
apesar de que, segundo o próprio Bergson, a clareza e a evidência
sejam as qualidades intrínsecas da própria intuição.
Outros, como Husserl e Heidegger,-já pressupõem clara e eviden­
te a noção de intuição e por isso nem sequer tentam defini-la (no fun­
do, isso revela a incapacidade dos mesmos de dar uma noção clara e
precisa da intuição).
Uma das razões principais da confusão que existe a respeito da
intuição é que cada filósofo a entende a seu modo. Às vezes, um mes­
mo filósofo, como Bergson, por exemplo, a entende de maneiras
diferentes, o que aumenta ainda mais a confusão.
Nós vamos fazer, pela primeira vez na história da filosofia, uma
tentativa de análise científica e gnosiológica do que seja a intuição;
vamos, tentar revelar sua essência, descobrir seu mecanismo interno e
seus traços característicos, mostrar o papel que desempenha no pro­
cesso do conhecimento da verdade, bem como determinar seu valor
cognoscitivo, isto é, o seu valor do ponto de vista da verdade. Depois
disso, daremos as condições favoráveis à sua manifestação, bem como
as regras para desenvolver em nós a capacidade intuitiva.
a) O que a intuição não é
Antes de tudo vejamos, segundo o nosso ponto de vista, o que a
intuição não é:

180
A intuição não é “ órgão” sensorial (como visão, audição, olfato
etc.) como afirmam muitos filósofos.
A intuição não é afeto nem sentimento (como amor, a simpatia
etc.) como podemos ver nesta definição de Bergson: “ Chamamos de
intuição a simpatia por meio da qual nos transportamos para o in­
terior de um objeto a fim de coincidir com o que ele possui de único e,
pois, de inexprimível” .
A intuição não é tampouco um dom irracional, supra-racional,
sobrenatural, que seria privilégio de alguns “ eleitos” por um ser su­
perior, tal como afirmam certas doutrinas espiritualistas, místicas;
esotéricas etc..
b) Agora, vejamos o que a intuição é
Segundo nosso ponto de vista, a intuição é uma espécie, uma for­
ma, um modo de conhecimento, que completa as demais espécies e
modos de conhecimento (sensível e racional). A intuição é uma função
especial de nossa mente. A capacidade intuitiva é um fenômeno
psíquico natural que todos os homens têm, em maior ou menor grau,
conforme certas condições.
c) Conceito etimológico
A palavra intuição vem do latim in tueri = ver em, contemplar;
intuitus = visão, contemplação; intuitio = ato de ver, contemplar.
Assim, etimologicamente falando, a intuição é um conhecimento
direto, uma espécie de visão imediata dos objetos e de suas relações
com outros objetos, sem uso de raciocínio discursivo.
É nesse sentido que se diz que a intuição é uma percepção, visão ou
contemplação.

2 — A S FORMAS DE INTUIÇÃO

Nas literatura filosófica contemporânea fala-se de diferentes


tipos de intuição, de acordo com o objeto captado pela intuição, tais
como: intuição empírica, sensível, psicológica, racional, intelectual,
eidética, essencial, existencial, volitiva, emocional, supra-racional,
sobrenatural, metafísica, mística, divina etc. etc....
Para facilitar a compreensão do problema, agruparemos as mes­
mas em três formas fundamentais:
1) Intuição sensível ou empírica;
2) Intuição metafísica ou mística;

181
3) Intuição intelectual.
1) A intuição sensível ou empírica é o conhecimento direto, a sen­
sação, a percepção ou a visão do conjunto das propriedades sensíveis
dos objetos que se faz por intermédio dos sentidos. Exemplo: A per­
cepção que tenho da laranja, de sua cor, de sua forma etc..
Visto que essa forma de intuição coincide em tudo com a noção
de sensação e percepção sensível, não devemos jamais usar intuição
nesse sentido. Nesse caso, devemos substituí-la pela palavra percepção
(sensível) ou visão (sensível).
2) Intuição metafísica ou mística seria o conhecimento direto e
infálivel da verdade absoluta, sem o auxílio dos conhecimentos sen­
síveis e racionais, pelo qual o espírito atingiria os seres em si mesmos, a
existência e a essência dos objetos da realidade exterior e interior,
(matéria, espírito), do Absoluto ou dos seres transcendentais. Por
exemplo: a intuição, visão, ou contemplação da alma, da santidade, de
Deus, do Diabo etc.. Nesse caso devemos substituí-lo pela palavra con-,
templação mística.
Porquanto a existência de tal faculdade sobrenatural é duvidosa e
transcende os limites da filosofia científica, não nos ocuparemos dela.
3) Intuição intelectual é o conhecimento direto, imediato, de con­
junto das propriedades sensíveis e essenciais dos objetos e de suas re­
lações com outros objetos ou fenômenos, sem uso do raciocínio discur­
sivo . Exemplo: “ o todo é maior que qualquer uma de suas partes’’.
Conclusão: Eliminando a intuição sensível porque ela não é outra
coisa senão sinônimo de percepção, deixando de lado a intuição
metafísica ou mística, porque sua existência não tem fundamento
científico, nós pensamos que somente a intuição intelectual tem di­
reito a esse nome.
A classificação acima foi feita de acordo com o objeto captado
pela intuição, de acordo com o produto ou conteúdo do conhecimento
intuitivo. Do nosso ponto de vista, é mais fecundo analisar a intuição
como processo cognitivo. Assim distinguiremos duas formas fun­
damentais de intuição intelectual:
1. a) Intuição de evidência ou racional;
2. a) Intuição heurística ou divinatória.
1.a) Intuição de evidência ou racional é o conhecimento direto que
nos faz captar, sem dúvida nenhuma, a clareza de uma idéia ou a ver­
dade de um fato ou de uma relação entre os objetos do conhecimento.
Por exemplo: “ Duas quantidades iguais a uma terceira sao iguais entre

182
si” . “O todo é maior que qualquer uma de suas partes” . “Uma coisa
não pode ser e não ser ela mesma, ao mesmo tempo e do mesmo ponto
de vista” . Estas proposições são princípios evidentes, cuja verdade
constatamos pela intuição de evidência.
A intuição de evidência é chamada, às vezes, conforme o autor,
de intuição racional porque capta diretamente as relações de seme­
lhança e de diferença, de coerência e de contradição, de coincidência e
de sucessão etc.. É chamada também de intuição retrospectiva ou
recapituladora, porque capta sinteticamente, de um só golpe, a ligação
lógica das diferentes articulações de um raciocínio analítico. Nesse sen­
tido, é uma espécie de raciocínio concentrado, resumido, sintético.
2.a) Intuição heurística ou divinatória é o conhecimento direto
que nos faz pressentir a verdade, adivinhar a solução de um problema
ou descobrir algo novo. A intuição heurística pode ser também
chamada de antecipadora, prospectiva, adivinhadora, inventiva,
criativa, criadora, produtiva etc..
Diferença entre intuição de evidência e intuição heurística
É muito importante não confundir as duas formas de intuição in­
telectual:
A intuição de evidência vem depois da apercepção das relações e
apenas constata a verdade do fato, da idéia ou do juízo, mas não traz
nenhum conhecimento novo. Apenas resume, numa forma sintética e
concentrada, o já conhecido.
A intuição heurística vem antes e/ou depois da apercepção, mas
sua característica principal é que antecipa o resultado, descobre o até
então desconhecido, e dá novos conhecimentos sobre o objeto e suas
relações.
Na nossa opinião, a intuição heurística é mais valiosa, devido a
sua fecundidade no processo do conhecimento do desconhecido. Por
isso, só estudaremos essa forma de intuição, batizada por nós de in­
tuição heurística, para diferenciá-la das outras, e para salientar
melhor sua função, pois heurística vem do grego — “heureca” — que
significa achei, encontrei, descobri.
Ao adotar essa denominação tivemos várias razões:
Primeiro, foi uma homenagem ao genial sábio grego Arqui-
medes, nascido em Siracusa, no século 3 a.C., que, ao descobrir um
dos princípios fundamentais da hidrostática, exclamou: “ Heureca!”
“ Heureca!” que significa “ Achei!” Por ser muito interessante essa
história (ou lenda, não importa) vamos recordá-la:

183
Conta-se que Hierão, rei de Siracusa, desconfiou que um ourives
que lhe fabricara uma coroa de ouro, lhe tivesse misturado qualquer
porção de prata. Consultou Arquimedes sobre o modo de descobrir
essa fraude, conservando a coroa intacta. O sabio refletiu longamente
sem encontrar a solução. Um dia, ao entrar na banheira, notou,
maravilhado, que houve um desnível da água após sua imersão e per­
cebeu que seu corpo, mergulhado na água, perdia uma parte do peso.
Descobriu assim, a relação entre o peso e o volume do corpo flutuante
e os da água deslocada. E teve um lampejo de intuição. Por analogia
poderia comparar, pelo transbordamento da água, o peso da coroa
com o peso que deveria ter, se feita de ouro puro.
Assim, foi descoberto o famoso Princípio da Hidrostática,
chamado “ Princípio de Arquimedes” ; “ Todo corpo mergulhado num
fluído sofre uma impulsão vertical, de baixo para cima, igual ao peso
do volume do fluído deslocado” .
Conta a lenda que, no entusiasmo que lhe causou essa descober­
ta, Arquimedes saiu nu do banho e correu para a rua a gritar: Heu-
reca! Heureca!
Esta exclamação é freqüentemente citada, toda vez que alguém
descobre ou adivinha, de um modo repentino, a solução de um
problema que há muito o preocupava.
Em segundo lugar, em pedagogia, heurística é o método de en­
sino que leva o aluno a descobrir por si mesmo o que se pretende en­
sinar.
Aliás, esse era o método socrático de ensinar, chamado
maiêutica, cujo processo fundamental consistia em fazer perguntas,
até a pessoa atinar com a resposta certa. Sócrates se gabava de “par-
tejar” os espíritos, isto é, levá-los a descobrir a verdade que trazem em
si, a tomar consciência do que eles sabem implicitamente, a exprimi-lo
e a julgá-lo.
Em terceiro lugar, porque heurística é, atualmente, o método ou
a arte de descobrir ou adivinhar a verdade ou criar algo novo. Prin­
cípio heurístico é a hipótese ou suposição adotada, provisoriamente,
pela sua fecundidade, ainda que se duvide de seu valor absoluto.
Como se vê, a palavra heurística (que alguns escrevem eurística)
tem vários sentidos, mas todos eles ressaltam aquilo que temos em
mente: arte de adivinhar e descobrir a verdade ou inventar algo novo.

184
3 — INTUIÇÃO HEURÍSTICA

a) Definição: A intuição heurística é uma forma de conhecimento


direto, em que a solução de um problema teórico ou prático é encon­
trada de modo imediato, repentino, não-consciente e sem dados su­
ficientes.
A intuição heurística é a capacidade de penetrar na âmago do ser,
na essência das coisas e dos fenômenos, para captar sua quintessência
e descobrir as leis e os princípios pelos quais eles se regem.
b) A intuição heurística é um excelente meio ou método para
adivinhar ou descobrir a verdade e pressentir ou achar a solução de
problemas pessoais e profissionais que nos preocupam. É por isso que
ela pode, com razão, ser chamada de intuição antecipadora, adivi­
nhadora, divinatória, descobridora, inventiva, criadora, criativa,
produtiva etc..
Nesse sentido, a intuição heurística é uma capacidade bastante
desenvolvida nos gênios e inventores, embora todas as pessoas a te­
nham em maior ou menor grau.
A solução da intuição heurística pode aparecer em forma de
suposição, pressentimento, antecipação, adivinhação, que podem levar
a hipóteses científicas, a descobertas e previsões cientificas, a invenções
técnicas, à criação de novas obras ou personagens na arte e na litera­
tura.
Na história da filosofia, das ciências e da técnica, muitas des­
cobertas e invenções foram feitas graças à intuição heurística.
A célebre descoberta de Arquimedes da qual já falamos, é um
caso típico dessa “iluminação súbita” que dá imediatamente ao fi­
lósofo ou cientista a consciência de ter encontrado a solução do
problema procurada há muito tempo.
c) Na vida prática, cotidiana, deparamos frequentemente com a
manifestação da intuição heurística em vários tipos de intuição profis­
sional: É a intuição médica — do médico experiente que faz diagnós-1

1. Embora na literatura filosófica e cientifica encontrem-se inúmeras referências


isoladas sobre essa forma de intuição, infelizmente não há uma análise gnosiológica
profunda do problema, isto é, qual o mecanismo interno da intuição heurística e qual o
valor do conhecimento que ela nos dá. O que se segue é uma contribuição nossa para
melhor compreensão do problema. Como ê a primeira tentativa de análise gnosiológica
do problema da intuição, não está excluída a possibilidade de falhas e até de erros na in­
terpretação de alguns aspectos do problema. Qualquer sugestão crítica a esse respeito
será bem recebida pelo autor.

185
tico, à primeira vista, adivinha rapidamente a doença, antes de ouvir
o doente ou fazer análise. É a intuição militar do comandante das
batalhas que adivinha as manobras do inimigo e concebe, imedia­
tamente, um novo plano de defesa ou ataque. É a intuição agrícola do
lavrador que prediz a qualidade da safra. É a intuição jurídica do juiz
que sente a inocência ou culpabilidade do réu. É a intuição policial do
detetive que descobre o autor do crime. É a intuição feminina da
mulher que encontra a solução de muitos problemas caseiros e fa­
miliares.
d) Na linguagem popular, a intuição heurística ou divinatória é,
muitas vezes, chamada de “olfato” , “ faro” , palpite, sexto sentido,
pressentimento, precognição, clarividência, visão interior, imaginação
criadora, presença de espírito, “Pespirit de finesse” (como diz Pas­
cal), etc., porque ela antecipa o resultado, pressente a verdade, des­
cobre o que os outros não vêem, e adivinha o que está oculto.
e) Antes de prosseguir, devemos fazer uma observação importan­
te. A maioria absoluta dos filósofos intuicionistas acha que a intuição
é a fonte de conhecimento legítimo e verdadeiro. Assim, por exemplo,
E. Husserl, fundador da Fenomenologia, escreve: “ Toda intuição
primordial é fonte legítima de conhecimento e tudo que se apresenta
na intuição deve ser aceito tal como se oferece e nos limites em que se
apresenta (Cf. Roland Corbisier, Enciclopédia Filosófica, Ed. Vozes,
Rio, 1974. p. 104).
Ao contrário da crença dominante de que o conhecimento in­
tuitivo é sempre legítimo e verdadeiro, nós somos de opinião que a
solução dada pela intuição heurística tem, em princípio, um valor
hipotético, isto é, pode ser verdadeira, mais ou menos verdadeira, ou
até errônea, apesar do sentimento subjetivo de certeza e clareza que a
acompanha. Por isso, se de um lado, não devemos desprezar, por
outro lado, não devemos tampouco absolutizar o pressentimento in­
tuitivo. Falaremos mais tarde com mais detalhes sobre esse ponto.

4 — TRAÇOS CARACTERÍSTICOS DA INTUIÇÃO


HEURÍSTICA

Eis, segundo nossa concepção da intuição heurística, seus 4


traços característicos:

1. °) Caráter imediato

A solução intuitiva aparece de modo direto, imediato, na cons­


ciência, isto é, sem elos intermediários do raciocínio.

186
Por exemplo: a simpatia e a antipatia. Ela é imediata; a gente
sente, sem pensar, mesmo antes de conhecer bem, que aquela pessoa
que está na nossa frente é-nos favorável ou hostil. Isto se torna pos­
sível porque a alma, o caráter, a personalidade da pessoa, o seu mun­
do interior se manifesta no seu aspecto exterior e que nós captamos de
modo imediato: na sua maneira de se vestir, de andar, agir, falar, na
sua fisionomia, sobretudo na expressão dos seus olhos.

2. °) Caráter repentino

Significa que a solução aparece na nossa consciência de repente,


por uma espécie de “ iluminação súbita” , sem saber de onde veio. É o
caso célebre de “ heureca” de Arquimedes que já vimos.
Outro caso conhecido é o “ estalo” do Padre Vieira. A respeito
dele conta-se o seguinte: “ Era o estudante grande devoto da virgem; e
um dia que, ajoelhado ante a sua imagem, e cheio do pesar e abati­
mento que lhe causava aquela natural incapacidade, a implorava em
fervorosa oração para que o ajudasse a vencer semelhante obstáculo,
de repente sentiu, como um estalo e dor aguda na cabeça, que lhe
pareceu que ali acabaria a vida” . (Padre João Francisco Lisboa, A
Vida do Padre Vieira, p. 5).
Todos nós conhecemos esses momentos de “ heureca” , de “ es­
talo” , de “ iluminação súbita” , que toma claro e compreensível o que
nos parecia obscuro ou enigmático, quando estamos procurando algo
ou querendo solucionar um problema, uma charada; um quebra-
cabeça etc..
Muitas pessoas, que não conhecem as causas reais e naturais des­
se fenômeno, procuram explicar essa iluminação súbita atribuindo-a a
poderes paranormais, parapsicológicos, a forças ocultas ou sobre­
naturais. Uns chamam isso de telepatia, clarividência, precognição.
Outros de “ iluminação divina” , “ revelaçãodivina” etc..
Como veremos, esses fenômenos podem ser explicados de modo
natural pela intuição heurística. A intuição nada tem de místico e
sobrenatural. É um fenômeno natural. A solução intuitiva é elaborada
no subconsciente, cujo trabalho o consciente ignora.

3. °) Caráter não-consciente

Nós, em geral e normalmente, agimos e pensamos consciente­


mente, utilizando os dados ou informações armazenadas na memória
consciente. Mas ao lado deste trabalho consciente, existe, outro, o

187
trabalho subconsciente (do qual não temos consciência) e que
aproveita as informações acumuladas na memória subconsciente.
O caráter não-cònsciente. da solução intuitiva deve ser compreen­
dida de dois modos: a) não-consciência do trabalho de reflexão do
subconsciente e, b) não-consciência dos dados (informações), na base
dos quais foi elaborada a solução (conclusão) intuitiva.
Cuidado para não confundir intuição com o subconsciente. Este
último é a região do nosso cérebro onde é elaborada a solução in­
tuitiva que, de modo imediato e repentino, irrompe no consciente.
a) Para explicar esse trabalho subconsciente, antes de tudo,
vamos fazer um ligeiro estudo em profundidade do nosso cérebro,
dividindo-o esquematicamente em região consciente e não-consciente.
Imaginem o nosso cérebro, o nosso hemisfério cerebral dividido em
três camadas.
A camada externa, de cima, nós chamaremos de consciente e a
camada interna, que fica logo abaixo, chamaremos de subconsciente. A
camada mais interna ainda, chamaremos de inconsciente.
Esta divisão do córtex cerebral em região consciente, subconscien­
te e inconsciente é convencional, para efeitos didáticos. Mas, do ponto
de vista fisiológico e psicológico não há dúvida nenhuma que existe cer­
to grau de conscientihilidade no nosso córtex cerebral e que, como
veremos adiante, pode ser medida pelo eletroencefalógrafo (instru­
mento que registra as oscilações elétricas dos neurônios do córtex
cerebral).
Como se sabe, o cérebro é coberto por uma substância cinzenta
que se chama córtex cerebral, formado por cerca de 15.000.000.000
(15 bilhões) de células nervosas chamadas neurônios.
Cada um desses 15 bilhões de neurônios fixa sensações do mundo
interior e exterior, inclusive idéias, isto é, informações de toda espécie.
Por aí podemos imaginar que quantidade fabulosa de conhecimentos
ou informações tem o nosso cérebro. Aqui usamos o termo infor­
mação como sinônimo de conhecimento em geral.
Informação — é um termo usado na cibernética para denominar
todo tipo de conhecimentos, sejam sensíveis ou abstratos, tais como:
quantidade, forma, cor, som, idéia, juízo etc..
No computador (máquina eletrônica de “ pensar” ) a unidade
mínima de informação chama-se “bit” , que é a quantidade obtida
quando a resposta é simplesmente “ sim” ou “ não” .

188
As mais complicadas espécies de informação podem ser, teori­
camente, calculados em número finito de “ bits” . Por exemplo, um
rosto ou um objeto qualquer pode ser feito em pontos brancos e
pretos, como numa fotografia de jornal, cada ponto sendo um “ bit” :
“ sim” para o ponto branco e “ não” para o preto. Nossa visão con­
siste em “ bits” . Cada célula da retina — respondendo “ sim” para a
luz e “ não” para as trevas — é um “ bit” . Nossos outros sentidos
também podem ser analisados na mesma base.
“ É fabulosa a capacidade mnemónica da mente humana, mesmp
sem genialidade alguma. Pode ser que não nos consideremos capazes
de lembrar-nos dos dados técnicos, por exemplo, porém, pensemos na
quantidade de fisionomias que conhecemos, de quantos nomes nos
recordamos, de quantas palavras podemos utilizar-nos e de quantas
minúcias tomamos conhecimento. Calculou-se que durante a vida in­
teira, um cérebro pode armazenar 1.000.000.000.000.000 (um qua-
trilhao) de “ bits” de informação” (Isaac Asimov, Nosso cérebro,
Ed. Boa Leitura, S. Paulo, s/d, p. 319.0 destaque em negrito é nosso).
b) Nós recebemos informações do mundo exterior, a cada mo­
mento, continuamente. Geralmente recebemos essas informações
conscientemente; mas além disso recebemos também informações
subconscientes, de “ contrabando” em relação ao consciente. Entre
elas estão as informações subliminares que ficam abaixo do limiar da
consciência e que vão se depositar na memória subconsciente.
Exemplo: quando fixamos o nosso olhar num determinado pon­
to, nosso campo visual alcança também outros pontos; mas rece­
bemos conscientemente só o ponto em que nos propusemos a fixar o
olhar. Os demais pontos (informações) entram ou se refletem no sub­
consciente, sem o controle do consciente.
Outro exemplo: Romeu e Julieta estão conversando; um pouco à
distância José e Maria estão também conversando. Julieta ouve cons­
cientemente o que diz Romeu, mas ouve também a conversa de José e
Maria. Como está concentrada no que fala Romeu, a conversa de José
e Maria não se grava no seu consciente, mas vai se depositar na sua
memória subconsciente.
c) O subconsciente tem muito mais informações que o consciente;
por isso ele resolve problemas que o consciente não pode resolver.
Depois de encontrar a solução, o subconsciente a envia para o cons­
ciente. Quando a solução irrompe subitamente no consciente, “ não se
sabe de onde” , logo a pessoa pensa em telepatia, precognição, cla­
rividência, “ iluminação divina” e outros fenômenos místicos. Mas
essa interpretação é errônea do ponto de vista científico.

189
Vejamos um exemplo: Duas pessoas, João e Paulo, passam às
oito horas da manhã em frente a um edifício público, no qual está
hasteada uma bandeira a meio-pau, com fita de luto. João pergunta
a Paulo qual será o motivo do luto. Paulo responde que é o fato de
haver falecido o Presidente Kennedy, muito embora não tenha lido os
jornais, nem ouvido comentários. Onde está a explicação?
Pode ter havido o seguinte: no dia anterior, jogando cartas com
um amigo, Paulo pode ter ouvido pelo aparelho de rádio ou TV vi­
zinho a noticia do falecimento de John Kennedy. Como estava muito
concentrado no jogo essa informação chegou até ele sem o controle do
seu consciente. Dai Paulo afirmar que nem mesmo ele sabe dizer o
porquê-da sua afirmação. É que embora a notícia tenha sido ouvida
não conscientemente, ela foi gravada na sua memória subconsciente.
d) Atenção para não confundir o pressentimento heurístico com,
o pressentimento vulgar, que temos freqüentemente.
O pressentimento heurístico parte de bases empíricas e lógicas
reais e científicas, e presente o resto, encontrando a solução do
problema que nos preocupa.
O pressentimento vulgar, não parte de nenhuma base empírica ou
lógica positiva. É fortuito, sem fundamento científico. É apenas
uma manifestação do nosso desejo subjetivo de que assim seja, ou do
nosso temor que algo aconteça. É simplesmente um palpite, uma sus­
peita, uma opinião sem fundamento.
Eis alguns exemplos de pressentimentos vulgares: temos “pal­
pite” ou sonhamos que vai dar determinado “ bicho” ou centena na
loteria de hoje; gostaríamos de ver alguma pessoa querida ou receber
carta dela e temos pressentimento que isso vai acontecer hoje, em tal
lugar, a tal hora; estamos viajando num carro, cujo motorista não
conhecemos bem e temos pressentimentos que algo perigoso vai acon­
tecer durante a viagem.
Em todos esses casos e semelhantes, nossos pressentimentos
podem acontecer ou não. Se em 100 casos de pressentimentos vul­
gares, um só é confirmado, ficamos impressionadíssimos com isso, es­
quecendo-nos, entretanto, dos 99 casos restantes em que não foram
confirmados os nossos pressentimentos.
O pressentimento vulgar só pela forma de manifestação se parece
com o pressentimento heurístico. Ambos são pré-sentimento, pré-
visão, pré-percepção, isto é, suposição intuitiva sem dados suficientes.
Às vezes há um misto de ambos.

190
Mas, enquanto o pressentimento heurístico baseia-se em fun­
damentos reais e científicos, e por isso tem caráter causal, necessário,
e, portanto, divinatório, o pressentimento vulgar e comum não se
baseia em tais fundamentos e por isso tem caráter casual, contingente
e, portanto, fortuito. A presença eventual da coincidência, da sorte ou
do azar, no pressentimento vulgar é que faz confundi-lo com o pres­
sentimento heurístico. A melhor prova de que o pressentimento vulgar
é casual e depende do acaso (da sorte ou do azar) é que ninguém pode
adivinhar com certeza os resultados dos jogos de azar, por exemplo, o
número do l.° prêmio da loteria. Se isso fosse possível, muita gente
estaria milionária.
e) Também é errado atribuir aos sonhos um caráter místico e
profético. Vejamos brevemente o que é o sono e o sonho.
O sono é a inibição da atividade dos neurônios da parte superior
do córtex cerebral, correspondente à região do consciente. Enquanto
estamos dormindo, esses neurônios estão descansando. Durante o
sono, a sensibilidade e a atividade estão suspensas e o indivíduo perde
a consciência do meio ambiente.
A atividade cerebral, como toda atividade celular, tanto do
homem como de qualquer animal é, de natureza elétrica. Em vigília ou
durante o sono, há uma alteração mais ou menos acentuada da ati­
vidade elétrica do cérebro: o potencial elétrico dos neurônios cerebrais
flutua ritmicamente em forma de “ ondas” , que podem ser registradas
pelo método chamado eletroencefalografia (escrita elétrica do cé­
rebro) descoberta pelo psiquiatra austríaco Hans Berger. O registro
gráfico destes potenciais flutuantes é o eletroencefalograma, obtido
por meio do aparelho chamado eletroencefalógrafo. Para designar o
processo é usado a abreviação EEG.
Há também mudanças nas ondas cerebrais, características de
vários estágios de adormecer ou despertar, incluindo possíveis mu­
danças quando a pessoa está dormindo. O ritmo ou a freqüência
cerebral pode ser medida pelo EEG em pulsações ou ciclos por segun­
do (CPS) de 0 a 60. Determinou-se quatro tipos fundamentais de rit­
mos (ou ondas ou níveis) que se batizaram convencionalmente de on­
das alpha, beta, delta e theta.
Ao ritmo mais pronunciado, Berger deu o nome de onda alpha.
Nesta onda, o potencial varia em torno de 20 microvolt (1 microvolt é a
milionésima parte de 1 volt), numa pulsação de 7 a 14 ciclos por
segundo (CPS). A onda alpha é mais clara e pronunciada quando o
paciente está descansado de olhos fechados A onda alpha é mais forte
na região occipital do crânio, isto é, na área em que está localizada o
centro visual.

191
Além das ondas alpha, existem as ondas beta, representando uma
pulsação mais rápida, de 14 a 50 ciclos por segundo (CPS). Depois
aparecem as lentas e grandes ondas theta, de 4 a 7 CPS, e as raras on­
das delta, de 0 a 4 CPS. (Cf. Jsaac Asimov, O Cérebro Humano, Ed.
Boa Leitura, S. Paulo, s/d, pp. 178-180).
Segundo certos autores, por exemplo, José Silva, do Instituto de
Psicorientologia, a onda beta corresponde ao nível consciente exterior
próprio da vigília; a onda alpha corresponde ao nível consciente in­
terior, a onda theta aos níveis subconscientes controlados conscien­
temente, e a onda delta aos níveis inconscientes.
Assim, a passagem da vigília ao sono representa a substituição do
ritmo ou nível beta e alpha por ritmos ou níveis mais lentos tipo theta
e delta que é de sono profundo (Cf. Material do Curso de “ Silva
Mind Control do Brasil” ).
Mas, se durante o sono os neurônios do nível consciente descan­
sam, o mesmo não se dá com os neurônios da região subconsciente
que continuam trabalhando ininterruptamente (provavelmente os
neurônios do subconsciente, como todas as coisas vivas, também
devem descansar, mas nós não sabemos ainda como).
Justamente essa atividade dos neurônios do subconsciente é que
produz os sonhos. Assim o sonho nada mais é que o resultado, o
produto, da atividade dos neurônios do subconsciente enquanto dor­
mimos. (Não confundir esse tipo de sonho com o devaneio que é
sonhar acordado).
O conteúdo do sonho nada mais é que a realização de desejos e
temores reprimidos, que se manifestam em forma de imagens, idéias
ou ocorrências. É necessário porém distinguir o conteúdo manifesto e
o conteúdo latente. O primeiro é tal qual apareceu ao indivíduo e tal
qual ele nos relata. O segundo constitui seu significado subjacente.
Os desejos e temores do indivíduo, quando não reprovados pela
censura social e pelo superego (censura moral interna ao sujeito) se
manifestam de forma direta e clara. Mas quando eles não contam com
a aprovação da censura social e individual então eles se manifestam
indiretamente, em formas fantásticas, confusas, incoerentes e defor­
madas.
Por exemplo, o desejo de comer um frango assado ou encontrar a
solução de um problema que nos preocupa aparece diretamente, mas
os desejos sexuais incestuosos, ou o desejo ou temor da morte de al­
gum parente só aparecerão em formas bem disfarçadas e deformadas.
Somente um psicanalista experiente e inteligente poderá interpretar
corretamente a significação real do conteúdo latente desses sonhos.

192
Desde a mais remota antiguidade, os sonhos foram considerados
como premonições, presságios ou mensagens secretas e divinas, que
alguma força sobrenatural enviaria ao homem, prevenindo-o sobre
determinadas ocorrências. Assim, nasceu a oniromância, que é a in­
terpretação dos sonhos feitos pelos sacerdotes ou oniromantes. Ain­
da hoje, as crendices populares atribuem um papel premonitório aos
sonhos e muita gente ainda consulta os charlatães de toda a espécie.
Mas essa concepção mística dos sonhos não corresponde à
realidade. É por ignorarem a verdadeira natureza do sonho e o ver­
dadeiro mecanismo do trabalho subconsciente que as pessoas assim
pensam.
O que na realidade acontece é o seguinte: quando estamos vital­
mente preocupados com algum problema e temos necessidade pre­
mente e urgente em solucioná-lo, o consciente envia automaticamen­
te ao subconsciente uma ordem para tentar encontrar o mais rápido
possível a solução do problema que nos preocupa. E enquanto dor­
mimos, o subconsciente pode achar a solução do problema que nos
preocupa. Se o problema é de importância urgente para o indivíduo, a
solução achada pelo subconsciente pode-se manifestar durante o sono
em forma de sonho; se o problema não tem tanta urgência para a pes­
soa, a solução pode se manifestar logo ao acordar da pessoa ou durante
o dia seguinte ou os dias seguintes.
Isso torna-se possível porque nosso subconsciente é mais rico em
informações, pois nele entram muitas informações imperceptíveis e
desconhecidas para o consciente ou já esquecidas por ele.
f) Outra fonte de informações não-conscientes é a nossa vivência
passada. Por exemplo: a criança começa tomar consciência do seu
“ Eu” em geral depois dos três a cinco anos. Todas as informações que
seu cérebro recebe do mundo exterior, desde o momento do nascimen­
to até esta idade, ficam gravadas na memória do subconsciente, pois
seus órgãos sensoriais registraram essas informações.
O grande filósofo Ivan Pavlov demonstrou que todas as irritações
e todos os estímulos (sensações) anteriores deixam, nos neurônios,
rastros que podem ser renovados.
Freud mostrou que o homem não esquece nada das informações
recebidas consciente ou inconscientemente. Quando pensamos que es­
quecemos algo, na realidade esse algo passou para o subconsciente (ou
inconsciente).
Um exemplo elementar: às vezes não lembramos o nome de um
amigo, mas depois esse nome pode aflorar repentinamente no nosso

193
consciente. O nome estava esquecido apenas no consciente, mas es­
tava guardado no subconsciente.
É o que acontece também com as anedotas que ouvimos. Parece
que as esquecemos. Mas basta que alguém nos conte uma anedota
como já lembramos de outra parecida.
O mesmo acontece com a nossa vivência passada. Parece que es­
quecemos tudo ou quase tudo. Mas basta ver uma velha fotografia ou
um amigo de infância, ou alguma pessoa que nos faça perguntas sobre
o nosso passado, como começamos a nos lembrar de muitos fatos,
nomes e detalhes que pareciam estar esquecidos para sempre.
g) Aliás é nessa técnica de reminiscência que se baseia o tratamen­
to psicoanalítico: criar condições favoráveis para que o paciente
recorde sua vida regressa e procurar nela (em geral na infância) os
traumas que teriam condicionado a neurose ou psicose atual do pa­
ciente.
A cura psicanalítica consiste em induzir o paciente a tomar cons­
ciência desses traumas que estão no seu subconsciente para poder se
libertar da neurose ou psicose. Muitos pacientes conseguem essa cons­
cientização, mas como mostra a prática psicanalítica, poucas se liber­
tam de suas neuroses e psicoses, porque o paciente não está no mo­
mento interessado em libertar-se de suas neuroses e psicoses, que no
fundo nada mais são que fugas, derivações ou compensações para
garantir sua sobrevivência, pelo menos física.
É nessa base também que a pessoa hipnotizada ou que sonha,
pode regressar à idade anterior e se lembrar de coisas aparentemente
esquecidas.
Assim, o nosso subconsciente não esquece nada. Arquiva tudo.
Eis a razão porque a memória subconsciente é um fabuloso reposi­
tório (arquivo) de informações. E por ter mais informações do que o
consciente é que o subconsciente pode resolver problemas que o cons-,
ciente não consegue por falta de informações suficientes.
h) Quando nosso consciente não pode solucionar um problema
por falta de dados suficientes, ele manda uma ordem ao subconsciente
para resolvê-lo.
Cumprindo a ordem do consciente, o subconsciente mobiliza
todas as informações de que dispõe em torno do problema para resol­
vê-lo. As informações associam-se, combinam-se, sintetizam-se e en­
contram a solução que é enviada automaticamente para o consciente.
O resultado desse trabalho subconsciente irrompe de repente na
nossa consciência em forma de solução intuitiva. A intuição, assim

194
compreendida, nada mais é que o resultado da combinação e da sín­
tese das informações armazenadas no subconsciente.
Como não temos consciência desse trabalho de reflexão subcons­
ciente, na nossa consciência irrompe, repentinamente, “ não se sabe
como” , “ nem quando formada” , uma nova combinação de idéias, a
solução procurada que não foi deduzida nem consciente, nem logi­
camente.
É a ignorância desse trabalho subconsciente que leva muita gente,
às vezes séria, ao irracionalismo, ao misticismo e ao fideísmo, isto é, a
atribuir a solução intuitiva a forças mágicas, a “ espíritos protetores”*,
a seres sobrenaturais ou a poderes paranormais da própria pessoa.

4.°) Sem dados suficientes

Este é o traço característico mais importante da intuição heurís­


tica. Segundo a nossa concepção, a solução intuitiva surge justamente
quando não há dados (informações, conhecimentos) suficientes para
fazer essa conclusão.
Se tivéssemos consciência desses dados, o próprio consciente
poderia encontrar a solução com o auxilio dos conhecimentos sen­
síveis e racionais. Aliás, a todo momento resolvemos conscientemente
muitos problemas. Para ser mais justo, a maioria dos nossos pro­
blemas são resolvidos conscientemente.
Assim, a intuição heurística entra em função somente quando
nossos conhecimentos conscientes, sensíveis, ou racionais, não cons-
gúem resolver o problema por falta de dados.
Nesse sentido, a intuição heurística pode ser encarado como um
método intuitivo de conhecimento que difere radicalmente do método
empírico e do método racional (lógico) de solucionar problemas. Mas
que, ao mesmo tempo, completa outras formas ou métodos de co­
nhecimento.
Vamos ilustrar essa diferença com um caso policial típico:
O fato é: Maria foi assassinada por Pedro. A solução pode ser
encontrada de três modos diferentes:
a) Solução empírica: Várias pessoas viram como Maria foi assas­
sinada por Pedro. A solução é empiricamente evidente.
b) Solução raciona] ou lógica: Ninguém viu Maria ser assassinada
por Pedro. Mas, levando em consideração que eles eram inimigos e
Pedro já tinha publicamente ameaçado de matar Maria e que, no

195
momento da morte desta, Pedro estava com ela, a polícia faz uma in­
vestigação e descobre um revólver pertencente a Pedro, no qual falta
uma bala, justamente aquela que matou Maria. Não é necessário ser
Sherlock Holmes para deduzir logicamente que Maria foi assassi­
nada por Pedro.
c) Solução intuitiva: Ninguém viu Maria ser assassinada por
Pedro. Não há nenhuma prova de delito e Pedro tem um álibi quase
perfeito. Isto é, não há dados suficientes para julgar a culpabilidade
de Pedro. No entanto, por sinais pouco perceptíveis, dificilmente cap­
tados e levados em consideração pelos sentidos e pela razão da
maioria das pessoas, o detetive ou o advogado da vítima, se possuir a
intuição detetivesca ou o talento investigador de um Sherlock Holmes,
pode pressentir (no começo, de um modo vago e confuso e depois
mais claramente) a culpabilidade de Pedro, apesar do álibi. Esse pres­
sentimento intuitivo ainda não serve como prova de acusação. Mas.ele
serve ao detetive como guia para suas futuras investigações, que afinal
poderão dar as provas necessárias.
d) Assim, quando os dados não são suficientes para encontrar a
verdade por meios empíricos e racionais, entra em função nossa in­
tuição.
A solução intuitiva não é uma simples conseqüência dos co­
nhecimentos empíricos atuais, nem deduzida por via lógica dos co­
nhecimentos racionais. É algo inteiramente novo, um “ salto” através
do “ abismo” empírico e lógico. Mas sem esse “ salto” , não há des­
cobertas do novo, nem desenvolvimento dos nossos conhecimentos.
Vejamos alguns exemplos de descobertas científicas feitas por
meio da intuição heurística.
O astrônomo francês Le Verrier, estudando as perturbações no
movimento do planeta Urano, pressentiu e previu, em 1846, a existên­
cia de um outro planeta até então desconhecido que foi, logo depois,
descoberto por Galle e batizado com o nome de Netuno.
O químico russo Dimitri Mendeleiev descobriu em sonho e depois
formulou, em 1869, a Lei periódica dos elementos químicos, basean-
do-se no fato de que as propriedades físicas e químicas dos elementos
são funções de seus pesos atômicos. E que essas propriedades se re­
petem periodicamente quando dispostas em ordem crescente de seus
pesos atômicos. Esta lei forneceu-lhe os dados suficientes para cons­
truir sua famosa tabela periódica dos elementos.
Graças à sua lei periódica, Mendeleiev previu a existência de
muitos elementos até então totalmente desconhecidos. Em sua Tabela,

196
Mendeleiev deixou lugares vazios para os elementos que faltavam e in­
dicou os dados referentes aos elementos desconhecidos. Muitos desses
elementos vieram mais tarde a ser descobertos e identificados, como
por exemplo: o escânio, o gálio, o germânio etc..
No fim do século 19 e começo do século 20, vários físicos e
químicos (Roentgen, Becquerel, o casal Curie, Rutherford, Soddy e
outros) descobriram a radioatividade, fenômeno inteiramente novo
que não podia de modo algum ser deduzido dos nossos conhecimentos
empíricos e racionais existentes até então.
A descoberta feita pelos físicos contemporâneos de partículas in-
tra-atômicas (elétrons, prótons, nêutrons etc.) veio negar comple­
tamente a antiga teoria atômica de Demócrito que considerava o
átomo como uma unidade material indivisível, teoria essa que do­
minou durante 2.500 anos. Ora, a descoberta de um verdadeiro sis­
tema planetário no microcosmos atômico é algo inteiramente novo.
Todas essas descobertas científicas representam uma negação ou
um desvio da rotina, um salto através do abismo lógico, um co­
nhecimento novo que não poderia ser deduzido dos conhecimentos
existentes em nós. Isto é, não havia dados suficientes para deduzi-los
empírica ou logicamente.
Assim, a intuição heurística rompe a rotina, completa o incom­
pleto, alarga o horizonte dos nossos conhecimentos com novos co­
nhecimentos sobre nós mesmos e o mundo exterior.
A intuição permite adivinhar as relações encobertas — diz Henry
Poincaré.
A intuição permite adivinhar tudo aquilo que ainda não existe
senão como tendência — afirma Le Roy.
A intuição é a suposição que completa os elos que faltam, os elos
que ainda não foram encontrados na corrente dos fatos, permitindo
aos cientistas criar hipóteses e teorias — escreve Máximo Gorki.
Sem dúvida, é maravilhoso o poder da intuição, tão maravilhoso
que é difícil acreditar que seja algo humano, natural, normal. No en­
tanto, assim o é.
e) Queremos mais uma vez ressaltar que as soluções atribuídas a
poderes parapsicológicos (paranormais, transnormais, para-sensoriais
etc.) isto é, a certos fenômenos psíquicos que estão além do normal e
que, por isso mesmo, não encontram explicação na filosofia, psi­
cologia e fisiologia clássicas, tais como a telepatia, clarividência,
precognição, podem muito bem ser normalmente explicadas pela
atividade da intuição heurística, divinatória ou adivinhadora.

197
Nesse sentido, a capacidade intuitiva pode ser chamada de ca­
pacidade, habilidade, faculdade ou poder parapsicológico, e a intuição
heurística chamada de telepatia, clarividência e precognição, pois a
intuição heurística adivinha o pensamento dos outros (telepatia), des­
cobre relações encobertas (clarividência) e pressente os acontecimen­
tos ou resultados (precognição).
E toda pessoa que tem desenvolvida a capacidade intuitiva pode
ser chamada de sensitiva, hipersensível, percipiente, paranormal etc...
Mas, enquanto nós encaramos a capacidade intuitiva como uma
habilidade normal que todos têm, em maior ou menor grau, e mos­
tramos o seu mecanismo interno, certos adeptos dos poderes parap-
sicológicos os consideram como um dom extranormal, misterioso e
até sobrenatural.
f) Até agora temos falado da ausência de dados suficientes na
memória consciente, para a solução do problema, pressupondo a.exis-
tência dos mesmos na memória subconsciente. Na maioria dos casos é
assim.
Agora queremos ir mais adiante e afirmar algo mais importante
(e talvez bastante discutível). Na nossa opinião, a intuição heurística
pode encontrar a solução do problema até mesmo na ausência de
dados suficientes na memória subconsciente. A descoberta de novos
elementos químicos por Mendeleiev, a descoberta da radioatividade e
a descoberta das partículas intra-atômicas, das quais já falamos, são
os melhores exemplos disso.
É nisto que consiste a grande diferença e superioridade do cé­
rebro humano em relação ao “cérebro eletrônico” dos computadores.
Enquanto este só pode lidar com informações armazenadas, forne­
cidas pelo homem, e não pode solucionar problemas sem ter dados
suficientes, o cérebro humano, graças à intuição, pode encontrar a
solução sem dados suficientes, sem esperar até que sejam conhecidos
todos os dados.
g) Como é possível isso? Na nossa opinião, isso é possível porque
a nossa mente, o nosso espírito tem a capacidade de penetrar no íntimo
dos objetos e fenômenos e captar diretamente sua harmonia, sua
lógica interna, sua essência e as leis pelas quais se regem. É graças a
essa capacidade que adquirimos novos conhecimentos e alargamos
cada vez mais os limites de nossos conhecimentos a respeito do mun­
do e de nós mesmo. É a essa capacidade de nossa mente que cha­
mamos de intuição.
O fundamento filosófico e material dessa capacidade intuitiva de
penetrar no íntimo das coisas e captar sua essência reside no fato de

198
que nós também somos feitos da mesma substância e dos mesmos
elementos materiais que a Natureza. Afinal das contas somos um
produto da longa evolução da substância cósmica, eterna e infinita,
embora, sejamos um produto superior e totalmente diferente do pó
cósmico. E, justamente por não sermos estranhos à natureza é que a
nossa mente (ou nosso pensamento ou espírito) pode refletir corre­
tamente os objetos, os fenômenos e as leis pelas quais eles se regem. O
pensamento e o ser (objeto) concordam plenamente, pois ‘‘A ordem e a
conexão das idéias é a mesma que a ordem e a conexão das coisas”
(Spinoza).
Por isso podemos nos identificar e coincidir com ela. Assim como
a mãe diz de seu filho: é “ carne da minha carne” e “ sangue de meu
sangue” , assim também a Natureza pode dizer que o ser humano é
“ substância de minha substância” , “ energia de minha energia” .
A consciência, a mente, o pensamento ou espírito humano nada
mais é que o ponto culminante da lenta e multibilionária evolução da
matéria em movimento, mais exatamente, um produto superior da
matéria orgânica particular — o cérebro; o pensamento é um produto
da atividade cerebral, mais particularmente, dos 15 bilhões de neu­
rônios do nosso córtex cerebral.
Já o grande fisiólogo Ivan Pavlov havia demonstrado cientifi­
camente que “a atividade psíquica é o resultado da atividade fisio­
lógica de uma massa determinada de substância cerebral” .
Embora seja um resultado da atividade fisiológica, a atividade
psíquica não deve ser identificada ou reduzida aos processos pura­
mente fisiológicos, por ser qualitativamente diferente dele.
Para esclarecer melhor o assunto faremos uma analogia um
pouco imprópria: a luz emitida por uma lanterna é produto da ati­
vidade de suas pilhas elétricas; quando estas ficam descarregadas, não
hâ mais emissão de luz. Ninguém, que tenha um pouco de cultura, irá
identificar ou reduzir a luz às pilhas elétricas, embora haja uma re­
lação entre elas. A mesma relação existe entre o pensamento e os
neurônios cerebrais.
A prova decisiva da teoria materialista sobre o pensamento
demonstra-se da maneira mais simples: basta que os neurônios do
cérebro sejam destruídos, como desaparecerá qualquer sinal de ati­
vidade psíquica, mental ou pensante. É o que acontece com as pessoas
que sofrem lesões fatais no cérebro: após alguns minutos perdem
qualquer sinal de atividades psíquicas. O mesmo resultado se obtém
extirpando o córtex cerebral.

199
Sabe-se, pela prática da vida, que o homem pode viver sem comer
de 40 a 80 dias; sem beber de 5 a 10 dias; sem dormir de 3 a 5 dias; mas
o máximo que pode agüentar sem respirar é de 5 a 10 minutos. Depois
disso ele morre.
O que acontece é o seguinte: deixando de respirar, o organismo
não recebe oxigênio. Não recebendo oxigênio, as células morrem. E as
células mais sensíveis à falta de oxigênio são justamente os 15 bilhões
de neurônios do cérebro. Logo, quando a pessoa morre, os neurônios
do cérebro são os primeiros a serem destruídos.
Mesmo no caso de um enfarte ou de uma síncope cardíaca, quan­
do o coração pára de funcionar, as células desse órgão ainda viverão
por algum tempo. Mas os neurônios do córtex cerebral, não sendo
mais alimentados pelo oxigênio levado pelo sangue, bombeado pelo
coração, fenecem depois de alguns minutos.
É por essa razão que é muito difícil de fazer transplante do
cérebro. Enquanto após a morte clinica do indivíduo os demais órgãos
(coração, fígado, rins etc.) continuam ainda vivos por certo tempo, e
por isso é possível transplantá-los para outras pessoas, o cérebro já es­
tá inutilizado nos primeiros 10 minutos.
E com a morte dos neurônios do córtex cerebral provém a morte
de toda atividade psíquica: a sensibilidade, a consciência, a mente, a
inteligência, a razão, o pensamento, o espírito, a alma etc..
A conclusão é óbvia: não existe e nem pode existir nenhuma cons­
ciência, nenhum pensamento, espírito ou alma independente da subs­
tância cerebral. Portanto, o espiritismo e outras doutrinas espiri­
tualistas e místicas, que acreditam na sobrevivência ou reencarnação
do espírito ou na imortalidade da alma após a morte física do indi­
víduo, não têm fundamento científico nenhum.
A atividade psíquica não é exclusiva do homem, mas existe tam­
bém nos animais. Já que ela é o resultado da atividade fisiológica do
cérebro, todo animal que tem substância cerebral, tem consequente­
mente, atividade psíquica, proporcional ao tamanho do cérebro e à,
quantidade de circunvoluções cerebrais. Portanto, animais, como o
cão pastor e o chimpanzé, também possuem rudimentos da capacidade
intuitiva.
h) Aqui cumpre fazer algumas observações: Embora a intuição dê
a solução do problema sem dados suficientes, ela não pode dar a
solução se a falta de informações for total ou demasiada. Nesse caso,
o subconsciente pede informações complementares ao consciente.
Depois de colher estas informações, o consciente as envia ao subcons-

200
ciente. Se estas forem ainda insuficientes demais, o problema con­
tinua “ aberto” , sem solução, até que o subconsciente receba as infor­
mações fundamentais necessárias para a solução do problema.
E é por isso que, freqüentemente, a solução do problema é en­
contrada muito tempo depçis: às vezes leva um dia, um mês, um ano
ou até vinte ou mais anos. É o caso de Newton que levou muitos anos
até descobrir as leis da gravitação universal.
Outro exemplo: Mendeleiev levou quinze anos até encontrar a
solução verdadeira de sua Tabela Periódica dos elementos químicos.
As soluções encontradas por ele anteriormente, também por intuição,
e até em sonho, não foram satisfatórias.
Como vemos, a intuição faz várias tentativas até acertar ple­
namente no alvo, até encontrar a solução verdadeira.
Por isso estão completamente enganados aqueles pensadores mís­
ticos que afirmam que o nosso subconsciente ou inconsciente pode en­
trar em contato direto com o subconsciente de outras pessoas, ou com
o inconsciente coletivo, para haurir todos os ricos e profundos co­
nhecimentos ali acumulados.
Se isso fosse verdadeiro, não haveria necessidade de estudar as
ciências e qualquer pessoa analfabeta e ignorante poderia pôr-se em
contato com o espírito (subconsciente ou inconsciente, individual ou
coletivo), por exemplo, de um Einstein, para conhecer profundamente
toda a Teoria da Relatividade (que muita gente culta não a conhece
porque não compreende).
Aqui cumpre repetir o que já dissemos. Na nossa opinião, estão
enganados os filósofos que, como Bergson, Husserl e outros adeptos da
intuição metafísica ou mística, afirmam que a intuição nos dá sempre e
de um só golpe, o conhecimento absoluto da verdade, isto é, o co­
nhecimento da verdade absoluta, sem o auxílio dos conhecimentos em­
píricos e racionais.
Como já dissemos, segundo nosso ponto de vista, a solução
ditada pela intuição heurística é, em princípio, hipotética, o que vale
dizer que ela pode ser verdadeira, mais ou menos verdadeira ou er­
rada.
A solução intuitiva pode ser errada porque os dados ou as pre­
missas em que se baseia a intuição, são eles mesmos errados. Isso sig­
nifica, por outro lado, que a intuição funciona mesmo com premissas
erradas.

201
Por isso, a verdade da suposição intuitiva não pode ser deter­
minada pela intuição da evidência, mas somente pela prática e pela
lógica, isto é, peia prática imediata e mediata.
Toda suposição intuitiva, para obter o valor de uma verdade ob­
jetiva, deve ser expressa em conceitos, verificada pela prática e de­
monstrada logicamente.

5 — INTUIÇÃO, SENTIDOS, RAZÃO ELÓGICA

1 — UNIDADE DIALÉTICA ENTRE INTUIÇÃO, SENTI­


DOS E RAZÃO: Desde os tempos de Platão até aos nossos dias, cos­
tuma-se divorciar o conhecimento intuitivo do conhecimento sensível e
racional, considerando a intuição como uma espécie de conhecimento
independente e superior aos conhecimentos sensíveis e racionais.
Esta opinião é, até certo ponto, compreensível. De fato, à pri­
meira vista, a intuição aparece como algo inexplicável, como uma es­
pécie de sexto sentido, uma faculdade irracional, um poder hipersen-
sível ou parapsicológico, uma força misteriosa, mística, e até so­
brenatural.
Mas essa opinião é errônea e superficial. Do nosso ponto de vista,
é impossível tal divórcio e infundada tal oposição.
Na realidade, não existe conhecimento intuitivo independente das
demais espécies de conhecimento. A intuição não funciona sem o
auxílio dos sentidos e da razão, sem os conhecimentos sensíveis e
racionais.
Assim como a razão é vazia sem os dados empíricos, e a experiên­
cia é cega sem a razão, a intuição é, ao mesmo tempo, vazia e cega sem
os dados empíricos e racionais.
Embora dependa dos dados fornecidos pelos sentidos e pela
razão entrementes, a intuição tem a sua especificidade, como também
os sentidos e a razão têm sua especificidade.
Por isso, é mais correto dizer (como já mostramos) que a in­
tuição heurística é uma terceira espécie ou forma de conhecimentos
que completa as duas espécies já bastante conhecidas.
Cada uma dessas formas de conhecimento desempenha um papel
diferente no processo do conhecimento. Cada uma delas capta algo
que as outras não podem captar. Por exemplo, o conceito de mor­
talidade não pode ser conhecido pelos sentidos porque não tem forma,
nem cheiro, nem cor. Ele só pode ser conhecido pela razão. Já a razão

202
não pode sentir a cor e o cheiro agradável de uma flor. Isso é feito
através dos sentidos.
Do mesmo modo, a intuição heurística tem o seu campo espe­
cífico de conhecimento, do qual já falamos exaustivamente nas pá­
ginas precedentes. A intuição heurística capta aquele “ algo mais” que
nem os sentidos, nem a razão podem captar.
A diferença principal entre o conhecimento intuitivo e o conhe­
cimento sensível e racional é que, enquanto estes trabalham com
dados conscientes e perceptíveis, aquele trabalha com dados subcons­
cientes, subliminares, imperceptíveis ou quase imperceptíveis aos sen­
tidos e à razão. O conhecimento intuitivo é diferente dos outros jus­
tamente porque a intuição trabalha com dados subconscientes, quase
que totalmente ignoradores pelos sentidos e pela razão.
E como toda sua atividade se passa na região subconsciente, a
solução intuitiva aparece para os sentidos e para a razão como algo in­
teiramente novo, que não se sabe de onde veio, como algo “ estra­
nho” , “ misterioso” , “ irracional” , “ místico” , “ sobrenatural” .
Mas, assim pensam somente aqueles que ignoram a verdadeira
natureza da intuição, que, apesar de ser maravilhosa, é apenas uma
forma de conhecimento tão natural e normal como o sensível e o
•racional.
Já mostramos que a maioria dos nossos conhecimentos e des­
cobertas é feita pelos sentidos e pela razão, pelo pensamento discur­
sivo. Mas como esses novos conhecimentos são adquiridos conscien­
temente, na base de dados conscientes, não ficamos nem impres­
sionados, nem intrigados com isso.
Todas essas reflexões nos permitem concluir que o conhecimento
intuitivo não é nem independente, nem superior aos conhecimentos
sensíveis e racionais. Ele é apenas diferente e complementar. Sentidos,
razão e intuição (heurística) ajudam-se reciprocamente, completam-
se mutuamente e formam uma unidade dialética. Eles estão sempre
presentes em qualquer ato cognitivo, desde o mais simples até o mais
complexo, em qualquer pessoa, independente, do sexo, idade e nível
mental ou cultural.
Por exemplo, ao nos apresentarem uma pessoa, totalmente des­
conhecida para nós, e pela qual nos interessamos, entram em ação
todas as nossas “ faculdades” cognoscitivas: pelos sentidos procu­
ramos conhecer suas qualidades sensíveis, como tamanho, sexo, cor,
idade etc.; pela razão procuramos conhecer suas idéias políticas, fi­
losóficas, artísticas, religiosas etc.; e pela intuição heurística procu-

203
ramos descobrir ou adivinhar suas qualidades “ ocultas” , seu ver­
dadeiro caráter, sua personalidade íntima, seus princípios morais,
suas intenções secretas e outras coisas que a pessoa procura em geral
esconder dos outros.

2 — UNIDADE DIALÉTICA ENTRE INTUIÇÃO E LÓGICA,


ENTRE MÉTODO INTUITIVO E DISCURSIVO: Os filósofos in-
tuicionistas costumam também contrapor a intuição à lógica, o
método intuitivo e imediato ao método discursivo e mediato, como se
fossem duas coisas antagônicas e contraditórias. E consideram o
primeiro como independente e superior ao segundo.
Esta oposição é, até certo ponto, compreensível. Como já mos­
tramos a intuição aparece de repente e sem raciocínio discursivo. A
solução intuitiva representa uma quebra da lógica, um “ crime” , um
desrespeito contra a lógica existente, pois pela intuição pode-se chegar
a determinada conclusão, que não seria possível pela lógica existente.
Esse é o motivo porque Bergson, Husserl, Heidegger e outros
filósofos contemporâneos contrapõem a intuição à lógica, o método
intuitivo ao método discursivo, considerando a intuição superior à
lógica, como uma faculdade supra-racional e, alguns, até irracional
ou sobrenatural.
Do nosso ponto de vista essa concepção é errônea.
O que acontece é o seguinte: Os nossos conhecimentos não são
absolutos, mas limitados, motivo pelo qual a lógica existente que
conhecemos é também limitada, embora essa lógica também possa
descobrir novos conhecimentos, como de fato descobre. Aliás, como
já dissemos, e insistimos mais uma vez, a maioria das descobertas de
novos conhecimentos se faz de modo consciente, racional e lógico,
pelo método discursivo (indução e dedução).
A intuição se manifesta quando a lógica existente não está èm
condições de encontrar a solução. A intuição penetra no íntimo dos
objetos e capta sua lógica interna, a lógica da realidade. O novo
conhecimento, descoberto pela intuição, vem enriquecer os conhe­
cimentos já existentes, vem alargar os horizontes, os limites da lógica
existente.
O conhecimento intuitivo pode ser diferente e até contrário do
existente em nossa mente. Se não somos muito dogmáticos, compren-
demos logo o novo que nos traz a intuição e o aceitamos. Assim, a
lógica existente vai paulatinamente sendo enriquecida pela lógica da
realidade.

204
É nesse sentido, e só nesse, que a intuição é o contrário da lógica e
superior a ela. Mas, no fundo a intuição é tão lógica como a própria
lógica existente, pois ambas são reflexos da realidade objetiva.
Pela intuição se encontra, se descobre, se inventa, se cria o novo,
mas é pela lógica, pelo raciocínio e pela prática que se prova, se de­
monstra seu valor, seu caráter verdadeiro ou errado. Sem essa com­
provação pela prática e pela lógica, a solução intuitiva permanece no
ar, com caráter hipotético.
O papel da intuição é o de antecipar ao raciocínio, ao pensamento
discursivo. Como regra, a intuição dá somente o germe da descoberta;
depois trabalhado pelo pensamento discursivo (lógico).
Aliás, no processo do conhecimento, na solução de um problema
qualquer de ordem teórica ou prática, intuição e lógica participam
igualmente, se revesam, em todos os momentos, desde o começo até o
fim.
Assim, a intuição e lógica, método intuitivo e método discurso,
não devem ser contrapostos como antagônicas, nem consideradas
uma superior à outra. Intuição e lógica se completam.
Na verdade há uma unidade dialética entre o conhecimento in­
tuitivo e o conhecimento sensível e racional, entre o método intuitivo
e o método discursivo.
Unidade simples — significa a união mecânica dos opostos: o
preto ao lado do branco.
Unidade dialética — significa que os opostos se entrosam, se in­
terpenetram e se transformam no seu contrário.
No caso em questão, o conhecimento intuitivo e imediato se torna
conhecimento discursivo e mediato, e vice-versa; o conhecimento sub­
consciente se torna consciente, e vice-versa. O que estava no subcons­
ciente, quando necessário, aflora no consciente, assim como o que es­
tava no consciente, quando não é mais necessário, para o subcons­
ciente.
Assim, as descobertas feitas pela intuição, depois de devidamente
comprovadas pela prática e pela lógica, se tornam patrimônio do pen­
samento racional, lógico ou discursivo, e este por sua vez, torna-se
patrimônio do pensamento intuitivo e imediato. Por exemplo: os
axiomas e os princípios lógicos e racionais, inicialmente discursivos,
tornaram-se intuitivos, evidentes, para o homem adulto e culto,
depois de repetidos milhares e milhares de vezes pelo pensamento
humano.

205
6 — CONDIÇÕES.FA VORÁ VEIS PARA A MANIFESTA ÇÃODA
INTUIÇÃO HEURÍSTICA

É preciso abandonar a concepção mística e elitista da intuição,


que considera a intuição um dom divino, um privilégio somente de
certas personalidades eleitas por um ser superior. Quem assim pensa
ou é mal-intencionado ou ignorante, que não conhece como é ela­
borada a solução intuitiva.
Na nossa opinião, a intuição nada tem de divino, místico ou
sobrenatural. A intuição é um fenômeno natural e todas as pessoas,
sem exceção, têm capacidade intuitiva, só que uns mais, outros menos
desenvolvida.
Entretanto, para sua manifestação é necessária uma série de con­
dições, algumas das quais veremos abaixo. Antecipando, diremos que
o conhecimento e a aplicação consciente dessas condições permitirá
desenvolver a nossa capacidade intuitiva.

1. a) Problema não resolvido

Isto é, ausência de explicação científica do problema, por falta de


dados suficientes para resolver o problema pelos meios sensíveis e
racionais.
A intuição só entra em ação quando há um problema que não en­
contra solução satisfatória pelos conhecimentos empírico-lógicos.

2 . a) Desejo imperioso de solucionar o problema, de conhecer a causa e


o porquê das coisas, de conhecer ou descobrir a verdade

Essa condição é tão importante quanto a primeira.


Uma pergunta insistente é do que precisa o subconsciente para
trabalhar, a fim de encontrar uma resposta que seja satisfatória. Basta
perguntar e terá a resposta.
Essa lei psicológica, expressa por nós pela formula P = R (Per­
gunta e obterá a resposta), era bem conhecida desde a Antiguidade. Já
na Bíblia encontramos as célebres frases: “ Peçae receberá” , “ Procure
e achará” , “ Bata e a porta se abrirá” .
Aliás, essa lei psicológica sempre foi amplamente utilizada por
todas as religiões, sobretudo pela religião cristã, em forma de preces,
expediente recomendado a todos aqueles que querem alcançar uma

206
graça. O melhor exemplo disso é a prece conhecida com o nome de
“ Novena ao Menino Jesus de Praga” , que reproduzimos abaixo na ín­
tegra. Chamamos a atenção do leitor para os trechos sublinhados por
nós, sobretudo a palavra “ mencione o pedido” — repetido três vezes.

NOVENA AO MENINO JESUS DE PRAGA

“ Oh! Jesus que dissestes: Peça e receberá, procure e achará, bata


e a porta se abrirá, por intermédio de Maria, Vossa Sagrada Mãe, eu
bato, procuro e vos rogo que minha prece seja atendida (mencione o
pedido) Oh! Jesus que dissestes: Tudo que pedires ao pai, em meu
nome, Ele atenderá, por intermédio de Maria, Vossa Sagrada Mãe,
eu, humildemente, rogo ao Vosso Pai, em Vosso nome, que minha
oração seja ouvida (mencione o pedido).
Oh! Jesus que dissestes: O Céu e a terra passarão, mas minha
palavra não passará, por intermédio de Maria, Vossa Sagrada Mãe, eu
confio que minha oração seja ouvida, (mencione o pedido).
Reze 1 Padre Nosso, 3 Ave-Marias, 1 Salve Rainha. Em caso ur­
gente, esta novena deve ser feita em 9 horas.”

Na moderna psicologia, essa lei que expomos foi chamada de


“ Lei da Finalidade Subconsciente” pelo psicólogo Charles Baudoin,
que, no seu livro Psicologia da Sugestão e Auto-sugestão, gene­
ralizou o método da cura pela sugestão praticada pelo seu mestre, o
psicoterapeuta Emile Coué, cujo livro O Domínio de Si Mesmo pela
Auto-sugestão Consciente corre o mundo desde 1913.
Aliás há centenas de livros escritos pelos norte-americanos desde
O Poder da Vontade e Querer é Poder de Orison Sweet Marden, até A
Lei do Triunfo de Napoleon Hill e centenas de outros mais recentes
sobre como “ Vencer na vida” , “ Como solucionar seus problemas” e
“ Como alcançar seu objetivo” . Todos eles podem, em sua essência,
ser resumidos na fórmula que propusemos acima: P = R — Pergunte e
obterá a resposta — o que mostra quão importante é o desejo imperioso
de solucionar o problema.
De fato, se não existe uma forte motivação, um desejo imperioso
de encontrar a solução do problema, a intuição não funciona. É o
caso das pessoas apáticas, indiferentes, passivas.
A pergunta insistente vai do consciente para o subconsciente e daí
vem a resposta ao consciente. Se o subconsciente tiver elementos ffun-

207
damentais para a solução, ele dá a resposta na hora; em caso con­
trário, o subconsciente só dá a solução quando tiver esses elementos.1

3.a) Colocação correta e concreta do problema

É necessário colocar o problema para o subconsciente, de modo


correto e concreto, a fim de não desorientá-lo. O nosso subconsciente
é muito crente e servil (como o Gênio da Lâmpada de Aladim). Isto
quer dizer que ele cumpre servilmente as ordens do consciente.
Mas se o problema for mal colocado, de modo errôneo e abs­
trato, o subconsciente não pode dar a solução procurada. Por exem­
plo: Umâ"pessoa não tem êxito na conquista de outra pessoa. Em vez
de perguntar quais as causas reais (de ordem econômica, social ou
psicológica) do insucesso, ela pergunta qual será a incompatibilidade
entre seus respectivos signos zodíacos, como se nisso consistisse a
causa real do insucesso. Resultádo: não obtém a solução do problema
que a preocupa, pois os signos zodíacos nada têm a ver com a incom­
patibilidade de gênios, nem com o destino humano. A astrologia não
passa de um mero passatempo, sem fundamento científico, e de meio
fácil de enriquecimento para os forjadores de horóscopos e charlatães
de toda laia.
As perguntas devem ser claras, concisas e precisas, isto é, isentas
de ambigüidade, pois não pode haver resposta clara a uma pergunta
obscura, do mesmo modo que não pode haver uma resposta científica
a uma pergunta anticientífica.
Se o sujeito não sabe como colocar correta e concretamente o
problema, então deve enviar um pedido preliminar ao subconsciente,
perguntando como fazê-lo. A fórmula no caso é PP = R, isto é, Per­
gunte qual o Problema e obterá a Resposta. E depois de saber correta e
concretamente qual é o problema, passar para a formula P = R.
Um outro expediente muito bom, que ajuda a colocar correta e
concretamente o problema que o preocupa é discuti-lo ou expô-lo aos
outros.
A presença de um ouvinte obriga a gente a exteriorizar suas idéias
a respeito, a colocar de modo mais objetivo e claro o problema, para
que o outro possa compreender em que consiste a coisa.

1. Mais detalhes sobre a Lei da Finalidade Subconsciente, vide “A arte de obter o


que se deseja” , Cap. 1, do livro de nossa autoria A Arte de Aprender e Passar nos
Exames, Livraria Nobel, São Paulo, 1972.

208
Isso nos leva a considerar certos aspectos que de outro modo
poderiam passar despercebidos, fornece um poderoso mecanismo de
realimentação que revela pontos obscuros e errôneos em nosso ra­
ciocínio.
O ouvinte sendo bom, culto e experiente, poder-nos-á dar várias
dicas e até mesmo solucionar nosso problema. Mas, mesmo que ele
seja passivo e não nos dê nenhuma dica, só o fato de termos que expor
objetiva e claramente o problema poderá nos levar a colocá-lo correta
e concretamente e até mesmo encontrar a solução do problema que
nos preocupa.
Tais fatos acontecem freqüentemente com os professores e pes­
quisadores, que dão aulas ou proferem palestras com debates, ou
diretores de empresas que discutem o problema com seus assessores e
subalternos.
É como reza o provérbio popular: “ Duas ou mais cabeças pen­
sam melhor que uma só” . Ou este outro: “ É da discussão que nasce a
verdade.”
Um problema bem colocado já é meio caminho andado na sua
solução. A colocação do problema é tão importante, que mesmo na
impossibilidade de colocá-lo correta e concretamente, é necessário
fazê-lo como se pode. “ É melhor ter uma hipótese, que pode, com o
tempo, revelar-se errônea do que nenhuma” — como dizia Men-
deelev. “ Equacionar o problema já constitui metade da solução —
dizia Einstein.

4.a) Ricos conhecimentos práticos e teóricos

A suposição intuitiva pode ser mais ou menos frutífera, mais ou


menos verdadeira, de acordo com a presença de uma reserva maior ou
menor de conhecimentos práticos e teóricos no campo estudado.
Essa condição é evidente por si mesma, mas é necessário levar em
consideração certos aspectos do problema:
A intuição aparece, igualmente, tanto em pessoas cultas como em
ignorantes de ambos os sexos, tanto em jovens como adultos.
Como a intuição aparece quando não temos uma explicação cien­
tífica do problema, justamente por isso encontramos uma atividade
mais intensa da intuição nos adolescentes e nos indivíduos incultos,
mas curiosos e desejosos de compreender as coisas. Eles procuram
resolver todos os problemas com auxílio da intuição, com a qual ten­
tam compensar a falta de conhecimentos científicos.

209
É por este motivo também que o homem primitivo usava mais a
intuição do que a razão, pois sua razão estava pouco desenvolvida,
como aliás acontece com os homens primitivos que ainda existem em
várias partes do nosso planeta.
É conhecida a asserção de que a mulher é mais intuitiva do que o
homem. E isso é verdade. A intuição se manifesta nas mulheres com
mais intensidade do que nos homens, por dois motivos principais:
a) Por razões de ordem fisiológica e psicológica, a mulher, com­
parada ao homem, tem mais desenvolvida a sensibilidade e menos
desenvolvida a razão. Ela mais sente do que pensa. Pela natureza e
desenvolvimento do seu hemisfério cerebral, a mulher pertence mais
ao tipo artístico, intuitivo, concreto e prático, do que ao tipo pen­
sador, racional, abstrato e teórico — próprio de alguns homens,
segundo a tipologia dos hemisférios cerebrais de Pavlov e Deglin. É
por esse motivo que ela recorre mais à intuição — o que, por sua vez,
desenvolve a sua capacidade intuitiva. A mulher é mais sutil, mais
perspicaz, ela enxerga mais depresa do que o homem do tipo teórico-
racional.
b) Na sociedade ocidental a mulher está relegada ao plano ca­
seiro, tem pouca oportunidade de adquirir cultura, isto é, tem poucos
conhecimentos teórico-racionais e, por isso, recorre mais à intuição
para solucionar os problemas que a preocupam, enquanto que os
conhecimentos teorico-racionais do homem fazem com que ele recorra
menos à intuição.
A capacidade intuitiva é independente do quociente de inteligên­
cia (QI) e do tipo de inteligência, isto é, da quantidade e qualidade de
inteligência.
Porém, aqui cabe uma advertência muito importante: não con­
fundir duas coisas bem diferentes; atividade intensiva da intuição e a
probabilidade de acerto. Umas pessoa pode ter uma intensa atividade
intuitiva (e, portanto, desenvolvida capacidade intuitiva) e, no entan­
to, seus pressentimentos intuitivos terem pouca probabilidade de
acerto.
Os pressentimentos intuitivos têm diferentes graus de probabi­
lidade, de acordo com os nossos conhecimentos práticos e teóricos.
Quanto mais conhecimentos práticos e teóricos, tanto maior é a
probabilidade de acertar. E, ao contrário: quanto menos conhecimen­
tos práticos e teóricos, tanto menor é a probabilidade de acertar. É o
que acontece com os homens primitivos, com as crianças adolescentes,
com as mulheres relegadas ao plano caseiro e, em geral, com as pes­
soas analfabetas e ignorantes.

210
Por outro lado, o homem culto, o sábio, o cientista e o artista
(criador) também têm muito desenvolvida sua capacidade intuitiva,
apesar de terem muitos conhecimentos práticos e teóricos. É que,
quanto mais conhecimentos adquirimos, mais novos problemas, não
resolvidos, se descortinam diante de nosso espírito. E, como já sa­
bemos, a primeira condição necessária para a manifestação da in­
tuição é justamente a presença do problema não resolvido, ou melhor
a ausência de explicação científica do problema. Mas os pressentimen­
tos intuitivos dos homens cultos diferem radicalmente dos pressen­
timentos das pessoas pouco cultas pelo seu elevado grau de proba­
bilidade de acerto, devido a sua rica bagagem cultural.
Não confundir o homem erudito com o culto.
O homem erudito é aquele que tem muitos conhecimentos, mas
esses conhecimentos estão alienados da vida, não têm função prática,
não estão relacionados com a vida. Por isso, seus conhecimentos são
abstratos, estéreis e pouco úteis. Ele amontoa conhecimentos des­
conexos, baralha idéias heterogêneas e, por fim, confundindo eru­
dição com cultura, acaba por convencer-se de que é profundo pen­
sador porque leu muitos livros.
O homem culto é aquele que também tem muitos conhecimentos
(talvez não tantos como os do erudito) mas seus conhecimentos são
verdadeiros e sistematizados, eles estão ligados com a vida de hoje,
com problemas existenciais do homem, são concretos, férteis, eficazes
e úteis.
Um homem pode ser culto sem ser erudito, assim como pode ser
erudito, sem ser culto. “A paciência da erudição nada tem que ver
com a paciência científica” , diz Bachelard. “ A cultura é o que resta,
quando nada fica” , diz Cossio.
Non multa sed multum, diziam os latinos, para frisar que não se
trata de saber muitas coisas, mas de saber coisas muito importantes.
“ A cultura é um índice de qualidade e não de quantidade. É o que
fica em nós, aparentemente esquecido pela memória, mas conservado
pelo instinto e pela intuição.
Pois o homem verdadeiramente culto não é o que armazena o
saber, mas o que o transforma em criação original. Saber ler, saber ver,
saber esquecer, são condições essenciais para saber criar. Eis o que nos
ensina a sabedoria da cultura” . (Tristão de Athayde, “ A Sabedoria da
Cultura” , em jornal Leia Livros de 15/9/78).
Por exemplo: o erudito pode ter lido muitas obras sobre teorias
educacionais, desde Sócrates até aos nosso dias. Mas se sua esposa lhe

211
perguntar se deve ou não deixar a filha adolescente pernoitar na casa
de seu namorado, o erudita não saberá encontrar uma solução rápida,
concreta e satisfatória-. Já o culto pode não conhecer tantas teorias
educacionais, mas dará uma solução rápida concreta e satisfatória. Is­
so porque seus conhecimentos teóricos estão ligados à prática, à vida
de hoje.
Já vimos que na unidade entre a prática e teoria, a prática tem
primazia sobre a teoria. A prática, a práxis1, a experiência da vida, os
conhecimentos práticos, num determinado campo, valem mais do que
os conhecimentos teóricos.
Isso porque a prática é ao mesmo tempo: a) a fonte de nossos
conhecimentos; b) o objetivo de nossos conhecimentos e c) o critério
da verdade de nossos conhecimentos.
Se a teoria aparece como uma prática generalizada, espiritua­
lizada, então a prática, por sua vez, aparece como teoria objetivada,
materializada. Em resumo: a teoria é a prática concentrada, como a
prática é a teoria concentrada.
Assim, como atividade sensível-material, o conhecimento prático
é superior ao conhecimento teórico, pois ele tem não somente a dig­
nidade do universal, como também da realidade imediata (Lenin).
Por isso não é de se admirar que a intuição tenha maior pro­
babilidade de ser verdadeira nas pessoas que têm rica experiência
prática num domínio determinado, embora não tenham ricos co­
nhecimentos teóricos do problema.
Estão errados, portanto, aqueles que pensam que a intuição é um
dom divino, com o qual estão dotados somente os gênios e eleitos por
um ser sobrenatural. Qualquer pessoa tem intuição mais ou menos
verdadeira no campo de sua especialização. É a chamada intuição
profissional, tais como: intuição médica, pedagógica, técnica, cien­
tífica, artística, poética, política, detetivesca, comercial, pescadora,
paqueradora etc....
Vejamos o exemplo do agricultor prático e do agrônomo teórico:
o agricultor tem intuição superior à do agrônomo recém-formado no
campo de sua atividade. Isso acontece porque, como já foi dito, quem
está mais próximo da prática, tem intuição mais fecunda de quem es-

1. O termo prático, práxis, não deve ser entendido no sentido pejorativo de útil,
vantajoso, lucrativo, como acontece no pragmatismo, mas no sentido de práxis, prática
social, de atividade produtiva dos homens. Vide mais detalhes sobre o conceito de
práxis no capítulo sobre o problema da verdade e seu critério.

212
tá longe dela. No entanto, quando o agrônomo juntar aos seus co­
nhecimentos teóricos os conhecimentos práticos do agricultor, aí en­
tão ele se torna superior ao agricultor; isso porque o agrônomo tem a
teoria e a prática, enquanto o agricultor só tem a prática. E vice-versa:
se o agricultor prático adquirir a teoria, ele será superior ao agrônomo
que só tem a teoria.
Isso significa: quando a pessoa une a prática com a teoria, a
probabilidade de ter intuições verdadeiras é muito maior e ela se torna
invencível na sua especialidade.

5.a) Concentração de todas as forças psíquicas, isto é, trabalho cons­


ciente longo e intensivo.

Para obter a solução intuitiva do problema que nos preocupa é


absolutamente necessário que ela seja antecedida por um trabalho
consciente longo e intensivo: observação e estudo atento dos fatos,
reflexão multilateral sobre o problema etc. etc....
Numa palavra, é necessária a concentração de todas as forças
psíquicas sobre a solução do problema. As soluções intuitivas nunca
aparecem sem esse prévio esforço voluntário intensivo.
Depois de aparecer a solução intuitiva, de novo é necessário o
trabalho consciente para verificar o seu caráter verdadeiro ou falso.
Assim, o trabalho da intuição é precedido e seguido por um trabalho
consciente, longo e intensivo.
Nada mais falso do que essas historietas vulgares em que as des­
cobertas científicas e as criações artísticas são feitas sem ricos co­
nhecimentos, sem prévio esforço, sem prévia reflexão e sem prévio
trabalho, simplesmente por uma espécie de inspiração quase sobre­
natural. “ Eu preciso de 90% de transpiração para ter 10% de ins­
piração” — dizia o grande Tomás Edison, inventor do fonógrafo, da,
lâmpada elétrica e de muitas outras coisas.
A história das grandes descobertas e criações desmente essa con­
cepção passiva do pensamento criativo. Todos os grandes pensadores,
poetas, inventores e artistas foram trabalhadores ativos, persistentes e
incansáveis.
O grande físico inglês Newton sublinhava que ele pôde descobrir
sua famosa Lei da Gravitação Universal graças somente a um “ tra­
balho paciente e muitas reflexões” . “ Durante muito tempo eu pen­
sava sobre isto” — dizia Newton, e acrescentava: “ Eu levava o objeto
pesquisado constantemente na mente, virava-o de todos os lados, até

213
que enfim foi possível encontrar a linha que me levou a uma noção
clara” .
Ou o exemplo de Mendeleiev, quinze anos trabalhando e refletin­
do até descobrir e elaborar sua célebre Tabela Periódica.
O grande poeta alemão Goethe escreveu o seguinte, a propósito
de suas obras poéticas: “ Pensei sobre elas durante um tempo terrivel­
mente longo, passaram-se muitos anos até que pudesse fazer algo que
me satisfizesse” .
Assim, as idéias geniais, as descobertas científicas, as invenções
técnicas e as criações artísticas aparecem somente nas pessoas que
pensam constantemente nelas e trabalham intensivamente, até encon­
trarem o que irresistivelmente desejaram. Se a gente acha, é porque
longamente procurou. Lembrem-se das palavras da Bíblia: “ Procure e
achará” . “Peça e ser-lhe-á dado” . “ Bata e a porta ser-lhe-á aberta!’.

6.a) Desconcentração psíquica ou passagem para outro tipo de ati­


vidade.

~v Por mais importante e necessário que sejam a concentração de


todas as forças psíquicas, a reflexão e o trabalho longo e intensivo, a
solução intuitiva aparece somente na ausência de tensão consciente,
isto é, quando deixamos de pensar no problema, quando não estamos
mais preocupados com ele (por mais paradoxal que isso possa pa­
recer).
“ Eu penso 99 vezes e nada descubro; deixo de pensar e eis que a
verdade me é revelada por intuição” — costumava dizer Einstein.
A solução intuitiva jamais aparece num cérebro cansado e tenso.
É porque, nesse caso, no consciente forma-se uma espécie de couraça
intransponível, que não deixa aflorar no consciente a solução intuitiva
que já está pronta no subconsciente. Quando desaparecer essa tensão,
essa couraça, então a “ porta” de comunicação entre o consciente e o
subconsciente se abre e a solução intuitiva aparece de modo espon­
tâneo e repentino.
Daí a grande importância da desconcentração e do afrouxamento
do trabalho consciente. A solução intuitiva surge, de preferência, nos
momentos de relativa distensão ou afrouxamento da tensão psíquica
consciente.
A base psicofisiológica da necessidade de distensão reside no
seguinte: a concentração de todas as forças psíquicas necessárias para
solucionar o problema gera uma tensão psíquica, que, por sua vez,

214
gera uma tensão física-muscular (base, aliás, de muitas doenças
chamadas psicogênicas ou psicossomáticas, como, por exemplo, dores
de coluna, úlcera gástrica, insônia etc.).
Para conseguir a desconcentração ou distensão psíquica existem
vários meios, entre os quais lembramos os seguintes:
1. a) através do lazer, isto é, descansar ou distrair a mente de
modo ativo com uma ocupação suave, agradável e repousante;
2. °) através das várias técnicas de relaxe (relaxação, relaxamen­
to), bem como de meios fisioterapêuticos (sauna, banho turco, mas­
sagem etc.);
3. °) através de exercícios fisicos aeróbicos etc..
Vejamos com mais detalhes alguns desses meios de distensão
psíquica, que favorecem a manifestação da intuição heurística.
O segredo principal de todos esses meios consiste na passagem de
um tipo de atividade para outro, sobretudo ao passar da atividade in­
telectual para a atividade física ou manual, como, por exemplo, duran­
te o passeio a pé; na hora das refeições; durante a toalete no banheiro;
na hora do descanso ativo (não passivo) como na jardinagem; durante
uma audição musical, durante um espetáculo no teatro ou no cinema,
durante a leitura recreativa ou durante outros tipos de divertimento e de
lazer. O isolamento, a solidão, mesmo na multidão, quando a pessoa
está só consigo mesma, também ajuda muito a distensão psíquica e com
ela a manifestação da intuição.
Os diversos tipos de esportes tais como: caçar, pescar ou jogar
baralho, o golfe, ou assistir a um jogo de futebol, basebol, voleibol
etc., também favorecem o relaxe da tensão mental. Porqueagente des­
cansa ao assistir um jogo de futebol? Os cientistas soviéticos mostraram
que, durante a torcida, os movimentos dos jogadores, assim como os
movimentos da bola, são reproduzidos no nosso cérebro e dão relaxe ao
consciente.
Para obter a aptidão psíquica e a criatividade necessária, são
também excelentes os exercícios aeróbicos de aptidão física, recomen­
dados pelo método Cooper, tais como: caminhar, correr, nadar, an­
dar de bicicleta, pular e correr no mesmo lugar etc..
A palavra aeróbico significa “que vive do ar” , isto é, do oxigênio
do ar, e, na terminologia esportiva, refere-se a atividade físicas que
ativam bastante a respiração, levando o oxigênio às células, aos te­
cidos e aos órgãos.

215
Para obter desses exercícios físicos aeróbicos o efeito de trei­
namento, isto é, efeito positivo, é necessário que eles sejam feitos com
certo ritmo e duração, como mostram as tabelas elaboradas por
Cooper.
O segredo da ação benéfica dos exercícios físicos aeróbicos con­
siste no fato de que esses movimentos estimulam a atividade muscular,
que, por sua vez, oxigena as células, inclusive os neurônios do cérebro
e estimula a atividade psíquica, e, como consequência, traz um relaxe
psíquico. Em resumo: a atividade físico-muscular provoca a atividade
das idéias e a fluidez da atividade mental.
“ O cprrer parece acabar com o pensamento puramente lógico, tal
como o faz a meditação. Inúmeras pessoas acham que encontram
soluções bastante criativas para seus problemas enquanto correm” —
diz Bernard Gutin, que gosta de correr e é professor de fisiologia
aplicada no Columbia Teachers College (Cf. “ Vamos suar a camisa?”
em “Seleções” do Reader’s Digest, Janeiro de 1978, p. 32).
A atividade física expulsa a inércia e a preguiça mental, tornando
a mente fresca, ativa e alerta para o novo. Devido a longas medi­
tações, muitos monges budistas sofrem de preguiça mental — escreve
Suzuki (Cf. D.T. Suzuki, Introdução ao Zen-Budismo, Ed. Zahar,
Rio, 1971, p. 97).
“ Os intelectuais do Ocidente são tolos “ viciados em cadeiras...
Em Pala, os professores e os funcionários do governo trabalham pelo
menos duas horas por dia, cavando oucavocando” (Aldous Huxley, A
Ilha, Ed. Civilização Brasileira, Rio, 1965, p. 181).
Mas, aqui cumpre fazer uma importante advertência:
Se essas atividades físicas foram intensivas ou exigirem muita
tensão consciente, então a solução intuitiva do problema que nos
preocupa não tem oportunidade de aparecer. Por exemplo: se andar
ou correr demais e ficar fatigado, a mente também fica fatigada; se
durante muitas horas jogar xadrez ou pôquer, ou assistir a um interes­
sante e intensivo programa de televisão, que exigem muita concen­
tração consciente, a pessoa passa de uma tensão consciente para outra
e a intuição não tem vez de aparecer.
Afinal, cada pessoa deve encontrar, pela prática, o tipo e o
“quantum satis” de atividade que lhe dá a necessária distensão psí­
quica. Todo o segredo está em distrair o espírito, desviando-o da idéia
fixa, por meio de uma atividade suave, agradável e relaxante.
O melhor dos meios é, sem duvida, passear a pé, sozinho, durante
uns 30 minutos.

216
Muitos pensadores, cientistas, artistas, políticos, industriais,
executivos e homens de profissões liberais, conhecem, por experiên­
cia, esse fenômeno e se utilizam conscientemente dele. Depois de um
longo dia de árduo trabalho e reflexão consciente sobre um problema,
passam com a consciência tranqüila para outro tipo de atividade, ou
vão passear, divertir-se ou dormir, após o que acabam encontrando o
que procuravam. Ou então trabalham em duas ocupações ou ativi­
dades diferentes, o que permite descansar de uma, quando se passa
por outra.
Aliás, a intersecção de duas ocupações ou atividades diferentes —
uma teórica, outra prática — além de permitir o revesamento do
trabalho pelo descanso, é muito fértil em criatividade. Por exemplo:
o médico que faz pesquisas, o agrônomo que cultiva, o político que
leciona, ou o professor que tem atividade política etc. etc..
A esse propósito, é interessante o depoimento do grande cientista
norte-americano William Lipscomb, da Universidade de Harvard, que
ganhou o Prêmio Nobel de Química de 1976. Ele declarou para An-
dreas de Rhoda que as idéias novas podem vir de qualquer lado: de
outros campos, de experiências passadas, do trabalho de outra pessoa
e, surpreendentemçnte, de estudantes calouros. “ Ensinar, diz ele, éim-
portante porque mantém arejada a minha pesquisa. ’’
Muitas das idéias que impulsionaram a pesquisa dos compostos do
boro e hidrogênio que lhe valeu o Prêmio Nobel, surgiram repenti-
, namente, quando ele não estava trabalhando em nada.
“ Com freqüência, elas me acodem quando eu realmente não estou
fazendo nada” , disse ele quando entrevistado em seu gabinete de
trabalho, no último andar do Laboratório Gibbs em Cambridge, Mas-
sachusetts. “ Às vezes, chegam associadas a mudanças na minha rotina
diária, por exemplo, depois de eu ter dificilmente conseguido dormir,
coisa que raramente me acontece, porque durmo muito bem” .
“ Estou inteiramente consciente, é claro, que meu cérebro continua
trabalhando inconscientemente no problema, quando eu o deixo de
lado. Especialmente quando estou completamente absorvido fazendo
outra coisa” .
“ Tudo o que você pode dar ao seu trabalho é interesse obses­
sivo pelo assunto, paciência e trabalho duro... Na alteração de trabalho
intenso e intenso “ fazer nada” , os intervalos de ociosidade que se mos­
traram mais férteis, foram os de maior duração” . (Cf. Andreas de
Rhoda, O processo da descoberta, Suplemento Cultural de “ O Estado
de São Paulo” , 1978).
Em outras palavras, nós temos que mudar de atividade, temos que
nos desligar do problema que nos preocupa, para que a solução in-

217
tuitiva do problema possa se manifestar. Ê necessário mudar de
“ canal” como se diria hoje.
Aí é bem útil relembrar o provérbio russo: “A manhã é mais
sábia do que a noite” . Todos nós sabemos que pela manhã é mais fácil
resolver as coisas; geralmente, é ao acordar que encontramos a so­
lução de um problema que nos havia ocupado a mente o dia anterior.
Por isso, depois de despertar, é conveniente ficar mais alguns minutos
na cama à espera de alguma possível solução brilhante.
O sono permite o relaxamento do consciente, da estafa diária.
Durante o sono, o consciente tem uma atividade diminuta, mas o sub­
consciente,-como já sabemos, continua trabalhando.
Durante o dia, o consciente “ manda” para o subconsciente
dados para a elaboração da solução de um determinado problema. Às
vezes o subconsciente dá a solução do problema durante a noite, em
forma de sonho. Isso porém, só acontece se o problema é muito im­
portante e urgente; caso contrário, a solução aflora ao consciente ao
acordar, ou durante o dia.
Conclusão: Devemos trabalhar e meditar muito, mas devemos
também saber descansar. Trabalho, meditação e lazer — eis o tri-
nômio do sucesso. Se não conseguimos .encontrar a solução do
problema, não fiquemos desesperados. Passemos para outro tipo de
atividade e a solução virá, justamente quando menos o estávamos es­
perando, quando nem estávamos mais pensando nela.
Para dar um exemplo elementar: às vezes não conseguimos nos
lembrar o nome de uma pessoa, por mais esforço que façamos. Não
fiquemos insistindo. É desnecessário e talvez até inútil. É melhor con­
fiar a tarefa ao subconsciente dizendo “ logo me lembrarei” e con­
tinuar a narração. Depois de um certo tempo (breve ou longo), o
nome da pessoa surge, repentinamente, no nosso consciente, quando
menos o esperamos, quando menos estávamos pensando nele. Todas
as pessoas conhecem esse tipo de fenômeno. Se ainda alguém não o
conhece, basta fazer experiência consigo mesmo.
Aqui vai outra advertência importante: Essa suspensão do esfor­
ço consciente funciona somente se a pessoa estiver realmente moti­
vada e tiver minuciosamente explorado todas as possibilidades para
encontrar a solução do problema que o preocupa e cumprir todas as
condições até aqui enumeradas. Mas se não fizer isso, essa interrupção
do trabalho mental de nada lhe poderá adiantar. A descoberta e a
criação não podem ser fruto da apatia, da preguiça mental e da va­
diagem.

218
7.a) Mente flexível, espírito crítico e aberto para aceitar o novo

O maior inimigo da intuição é o dogmatismo e seus adeptos: o


fanático, o sectário, o formalista, o escolástico, o talmudista, o
burocrata, o rotineiro.
O que é dogmático? É uma pessoa que se apega ao dogma e con­
sidera-o verdade absoluta. Não admite crítica e opinião diferente. No
fundo, o dogmático é uma pessoa honesta e bem intencionada (mas
dizem que o inferno, está cheio de pessoas bem intencionadas).
O dogmático é seco e estéril. É um verdadeiro cadáver ambulan­
te. É necessário que a pessoa deixe de ser dogmática, pois o dogmatis­
mo estrangula o pensamento criador, impede o afloramento da in­
tuição por causa do seguinte fato: ele não admite outras verdades
diferentes de seu dogma, e nós já vimos que a solução intuitiva é a
quebra do dogma, da rotina.
O dogmatismo é fruto da falsa concepção estática da vida. Ora,
na realidade, o mundo é dinâmico por excelência, as coisas não são
eternas, elas mudam, estão em permanente mudança e desenvolvi­
mento. Assim, não existem verdades eternas, imutáveis, absolutas
pelos menos nas ciências sociais humanas.
Na sociedade, nada existe de eterno e imutável; logo a essência
dos valores e instituições sociais também não é eterna. O que é ver­
dadeiro em determinada época, para uma determinada sociedade,
■pode deixar de ser verdadeiro em outros tempos, em outras circuns­
tâncias. Nossos conhecimentos não são, eternos, mas relativos.
Por exemplo: muitas verdades que se escreveram nos últimos três
mil anos sobre a essência da mulher ocidental já não são mais válidas
hoje para uma parte das mulheres que trabalham fora do lar, as
chamadas mulheres emancipadas.
Antes a mulher era economicamente dependente dos pais ou do
marido e, em consequência disso, era moral e juridicamente depen­
dente dos mesmos. Era a serva, a criatura passiva, escrava dos quatro
“ C” : Casa, Cama, Cozinha e Criança. Agora é cada vez maior o
número de mulheres (solteiras ou casadas) que trabalham fora do lar e
se tornam economicamente independentes dos pais ou dos maridos,
em consequência do que se torna independentes e emancipadas moral
e juridicamente.
A mulher que trabalha e se torna emancipada é um ser igual ao
homem, tem a mesma dignidade, os mesmos direitos porque tem os
mesmos deveres. Portanto, o que foi dito antes a respeito da essência

219
da mulher já não vale para a mulher moderna, economicamente in­
dependente, porque esta mudou de essência.
O mesmo se pode dizer de outros valores que mudaram com os
tempos. Os conceitos tradicionais sobre a indissolubilidade do ma­
trimônio, a proibição do divórcio, a proibição do aborto, o tabu da
virgindade e da liberdade sexual pré-conjugal já não são mais con­
siderados verdadeiros e sagrados nos países que sofrem os efeitos da
explosão demográfica (superpopulação). Até a Igreja Católica — que
durante séculos foi a mais dogmática nesses assuntos — hoje está re­
considerando e reformulando suas posições e concepções a respeito.
Ela está rentando tornar-se mais flexível e dinâmica.
Se o dogmatismo mata a intuição criativa, a flexibilidade do pen­
samento, já o espírito crítico e a abordagem criativa, livre de dogmas e
de preconceitos, favorece a manifestação da intuição heurística, pois
esta representa, na maioria das vezes, uma quebra da rotina e das
noções tradicionais sobre o problema.
Tudo isto mostra o significado importante da união da teoria com
a prática, a necessidade de uma abordagem concreta e viva das coisas, a
necessidade de ter um espírito crítico, flexível, realístico e aberto para
novas combinações de idéias.
Em uma palavra, é necessário aprender a ver as coisas tais quais
elas são na realidade, livres de dogmas e preconceitos. E se a realidade
contradiz a teoria, tanto pior para a teoria; então é necessário aban­
donar a teoria e encontrar outra que seja reflexo mais fiel da realidade.
É necessário convencer-se de uma vez por todas que a realidade é
mudança permanente. Já dizia, há 2.500 anos atrás, o filósofo grego
Heráclito: Tudo flui, tudo muda. De fato, Heráclito tinha razão. Neste
mundo, nada é permanente a não ser a própria mudança.

7 — REGRAS PARA DESENVOLVER A CAPACIDADE IN­


TUITIVA

Desde a antiguidade até os nossos dias, os filósofos e cientistas


procuraram encontrar um método infalível para ensinar a advinhar a
verdade. Infelizmente tal método infalível não existe, pelo menos não
nos é conhecido. Entretanto, é possível desenvolver a capacidade in­
tuitiva que permite achar a solução de problemas pessoais ou profis­
sionais que nos preocupam, adivinhar ou descobrir a verdade, e criar
ou inventar algo novo.

220
Como vimos, a intuição heurística é o conhecimento imediato e
repentino, pelo qual se conhece, se descobre ou se adivinha o que é ou
deve ser a solução de um problema que nos preocupa.
Atenção para não confundir esta forma de intuição, da qual
vimos falando até agora, de outra forma de intuição, da qual falam
em geral os demais autores e que nós denominamos de intuição de
evidência.
A intuição de evidência é o conhecimento, a percepção clara e
direta da verdade, sem auxílio do raciocínio. Como já dissemos, en­
quanto a intuição de evidência apenas constata a verdade dos objetos
ou idéias, (por exemplo, os axiomas e os princípios lógicos e racio­
nais), e não traz nenhum conhecimento novo, a intuição heurística é a
capacidade de descobrir novos conhecimentos.
Tudo que se falou até agora sobre a intuição, refere-se à intuição
heurística.
Pois bem, para desenvolver a capacidade intuitiva de solucionar
os problemas que nos preocupam, com grande probabilidade de acer­
to, é necessário criar todas as condições favoráveis para a sua ma­
nifestação, condições essas já estudadas e que poderemos resumir as­
sim:
1. a) Ter um problema pessoal ou profissional para resolver.
2. a) Desejar imperiosamente solucionar o problema.
3. a) Colocar correta e concretamente o problema.
4. a) Acumular ricos conhecimentos práticos e teóricos sobre o
problema que nos preocupa.
5. a) Concentrar todas as forças psíquicas, trabalhando e me­
ditando longa e intensivamente na solução do problema.
6. a) Desconcentrar a mente, passando para outro tipo de ati­
vidade.
7. a) Ter mente flexível e aberta para o novo.
Em resumo: para merecer a visita da intuição — a musa da
adivinhação, da descoberta e da criação, é preciso saber trabalhar,
meditar e descansar.

221
B IBLIOG RAFIA

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NB: N o texto hâ citações de outras fontes que não constam da bibliografia acima.

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