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Ema: Nesta apresentação iremos caracterizar Eusebiozinho e Dâmaso Salcede, personagens-

tipo da obra “Os Maias”. Começando por Eusébio Silveira, mais conhecido como referi
anteriormente como Eusebiozinho, surge na obra para retratar maioritariamente a educação
tradicional portuguesa. Fisicamente sabemos que ele era alguém mais velho que Carlos como
menciona a expressão “Tinha três ou quatro meses mais que Carlos (…)” e era fisicamente
débil. Através do uso dos diminutivos “Eusebiozinho, craniozinho,crescidinho, perninhas,
linguazinha, etc.”, para além de haver aspetos cómicos nestas expressões que nos transmitem
à ironia, podemos observar um pequeno destaque destes diminutivos no aspeto físico de
Eusebiozinho e uma ridicularização ao facto de ele ser considerado um “menino da mamã”.
Era bastante melancólico e mole mas também molengão e tristonho da vida que levou
enquanto criança. Tinha uma “facezinha trombuda” com um “amarelidão de manteiga”,
“olhinhos vagos e azulados, sem pestanas” e “perninhas flácidas”.

Mariana: Diante da infância e da educação a que esteve sujeito, que na verdade era bastante
semelhante a Carlos Maia, Eusebiozinho era uma pessoa com uma personalidade fraca, quase
inexistente. Consequentemente, ele era considerado um “pau-mandado” por todos (ou quase
todos) os personagens da obra como indica a expressão: “Oh, filho, diz tu aqui ao Sr. Vilaça
aqueles livros que sabes… Não sejas atado, anda!... Vá, Eusébio, filho, sê bonito…” e ainda a
expressão: “O Eusébio, coitado, veio só como embaixador… Que o Dâmaso e eu não vamos
muito na mesma bola”. Também era alguém com muito receio de errar como indica a
expressão: “Isto decidiu-o: abriu a boca, e como de uma torneira lassa veio de lá escorrendo,
num fio de voz, um recitativo lento e babujado (…)”. Eventualmente era humilhado, várias
vezes, ao longo da obra devido, em algumas situações, à sua falta de coragem: “ Pois senhores,
distraímo-nos, que o andava a rondar, apodera-se dele, leva-o para o sótão, e, meu caro
Vilaça… Em primeiro lugar ia-o matando porque embirra com os anjos… Mas o pior não foi
isso. Imagine você o nosso terror, quando nos aparece o Eusebiozinho aos berros pela titi, todo
desfrisado, sem uma asa, com a outra bater-lhe os calcanhares dependurada de um barbante
(…). Enfim, um anjo depenado e sovado…” e, ainda: “Diz que a mulher que o derreia de
pancada.” No entanto, era um viúvo feliz pois apesar do seu “luto carregado” é um grande
“amante de espanholas”: “Carlos correu, olhou… Era ele, o viúvo, acabando de almoçar com
duas raparigas espanholas”.

Francisco: Voltando ao assunto da educação tradicional portuguesa a que Eusebiozinho esteve


sujeito, vamos introduzir um pouco do capítulo 3 da obra para nos situarmos um pouco mais
nas vivências de Eusébio. O capítulo era iniciado com a chegada de Vilaça a Santa Olávia, onde
é recebido com muita alegria. Eventualmente chegaram as irmãs Silveira e a noiva de Carlos
juntamente com Eusébio ao jantar. Ao longo de todo este capítulo é possível entender o
contraste entre a educação à inglesa de Carlos da Maia e a educação tradicional de
Eusebiozinho. Afonso da Maia considerava que a educação de uma criança não se deveria
iniciar com o estudo do latim, na medida em que, na sua opinião, não fazia sentido ensinar
uma criança acontecimentos do passado numa língua morta sem o fazer compreender
primeiro a realidade que o rodeia. Além disso, também acreditava que a preparação inicial de
uma criança devia visar que esta se desenvolvesse de forma saudável a nível físico.
Eusebiozinho era alguém que permanecia sempre em casa como evidencia a expressão:
“Passava o dia nas saias da titi (…)”; era enriquecido por uma aprendizagem das línguas mortas
como o latim: “(…) a instrução de uma criança não é recitar Tityre, tu patulae recubans…”;
tinha bastante contacto com os velhos livros: “(…) Admirar as pinturas de um enorme e rico
volume, <<Os costumes de todos os povos do Universo>>; era alvo de superproteção: “(…)
levava ao colo o Eusebiozinho, que parecia um fardo escuro, abafado em mantas, com um xale
amarrado na cabeça…” e ainda: “(…) nunca o levavam para o não constiparem…”; era
valorizado pela sua grande capacidade de memória: “(…) Que memória! Que memória… É um
prodígio!...!”; tinha um estudo na cartilha: “(…) a decorar versos, páginas inteiras do
<<Catecismo de Perseverança>>; e, como já referido anteriormente, era débil e não tinha
atividade física: “(…) Não tem saúde para essas cavaladas…”.

Ema: Assim, ao contrário de Carlos, uma criança cheia de autoconfiança, Eusebiozinho era uma
pessoa marcada pela falta de energia, pela debilidade física e pelo gosto por um saber teórico
e absoluto. A vitalidade de Carlos decorre de uma educação que promove o exercício físico,
contrastando com a fragilidade de Eusebiozinho, que é uma consequência de a educação
portuguesa apenas valorizar o conhecimento teórico e de ser marcada pela superproteção.
Além disso, a autoconfiança de Carlos e o facto de falar inglês decorrem de uma método
educativo que promove o desenvolvimento da sua curiosidade natural e a aprendizagem de
línguas vivas. Em contrapartida, Eusebiozinho assume um papel passivo no seu processo
educativo, limitando-se a memorizar informações já ultrapassadas.

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