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Título: O uso do e-mail como ferramenta de apoio a produção

escrita em língua estrangeira.

Maria Janaina S. de Luna * e Ênio L. C. Tavares**

Considerações Iniciais

Há uma crescente importância dada aos estudos que relacionam


os gêneros digitais e o ensino de línguas. Faz-se necessário observar
que a utilização do computador e da internet pode servir tanto de
recurso didático como de instrumento de interação e integração entre
os aprendizes, professores e até mesmo os nativos da língua meta.

É preciso ter em mente que a internet pode ser um elemento


ampliador das possibilidades de uso da língua e cabe ao professor de
idiomas o papel de explorar essas possibilidades pedagógicas, em
especial, os gêneros digitais, transformando estes em ferramentas
eficazes para ensinar os alunos a se comunicarem em língua
estrangeira.

O e-mail se encaixa bem neste universo como o meio de


comunicação mais popular da Internet. Prático, funcional, versátil,
acessível, rápido e econômico, o e-mail conquistou milhões de pessoas
de todo o mundo, promovendo e fortalecendo laços de amizade e
relações profissionais, ao mesmo tempo em que, contribuiu
decisivamente para a difusão e partilha do conhecimento, tornando-se
uma ferramenta importante.

Gêneros Digitais

Vivemos, hoje, na chamada sociedade de informação na qual a


comunicação é mediada por computador e as questões de linguagem
assumem um papel fundamental na vida “pós-moderna”.

Os gêneros digitais podem ser grandes ferramentas educacionais


para o processo do ensino e aprendizagem.
O hipertexto ou gênero digital é um tipo de texto virtual que traz
consigo uma maneira diferente de se comunicar que envolve elementos
textuais, imagens, sons e links que transportam o leitor para diversos
tipos de textos, possibilitando uma participação e

* Especialista em Psicopedagogia Institucional * *Mestrando em Ciências


da Linguagem

colaborativa, dependendo do seu formato.

De acordo com Xavier o hipertexto pode ser entendido como uma


“forma híbrida, dinâmica e flexível de linguagem que dialoga com
outras interfaces semióticas, adiciona e condiciona à sua superfície
formas outras de textualidade”.

Esses gêneros merecem atenção porque já provocam polêmicas


quanto à natureza e proporção do seu impacto na linguagem e na vida
social do individuo.
Os tipos de gêneros mais conhecidos são: chat, lista de
discussões, vídeo conferência interativa, fórum de discussão, blog e o e-
mail.
Todos esses gêneros e os que ainda virão, nos remetem a uma
maior interação social e interpessoal, impulsionando o desenvolvimento
interativo de toda uma sociedade.

Características do e-mail

O e-mail é um sistema de transmissão rápida via Internet em que


os usuários se comunicam em questão de segundos. O correio
eletrônico, ou seja, a página da Internet é o suporte e o gênero é o e-
mail. O e-mail ou mensagem, geralmente é produzido e transmitido pela
mesma pessoa e o receptor é sempre o destinatário.

O e-mail surgiu em 1971 e seu criador foi Ray Tomlinson que


enviou sua primeira mensagem. Ele criou o SNDMSG para transmissão
do e-mail e o READMAIL para a leitura ou recepção do mesmo.
Inicialmente o e-mail foi considerado um serviço, mas em março
de 1972, nos Estados Unidos, foi considerado gênero. O e-mail surgiu
em 1971, quando Ray Tomlinson enviou a primeira mensagem de um
computador para outro, utilizando o programa SNDMSG que ele acabara
de desenvolver. Foi ele também que escolheu o símbolo @ para
sinalizar a localização do endereço de cada usuário.
Os e-mails efetivamente estão constituindo um novo gênero
tendo-se em vista suas peculiaridades formais e discursivas. Na
educação, o e-mail é uma ferramenta que propicia a formação de
inúmeras comunidades discursivas de diferentes culturas, promovendo
a construção de novos conhecimentos.
Segundo Marcuschi “o e-mail é, sobretudo um meio de
comunicação interpessoal com remessa e recebimento de
correspondência entre familiares, amigos, colegas de trabalho,
empresas, pesquisadores”.

Esse método rápido, prático e quase universal em que quase


todos têm acesso, ou pelo menos a maioria da população tem, tem suas
vantagens e desvantagens.

Vantagens no uso do e-mail

• O e-mail é assíncrono.

• A mensagem é praticamente instantânea;

• Os participantes se encontram em um ciberespaço educativo


com poucos limites para a participação por status ou
problemas pessoais;

• A comunicação pode ser entre grupos ou entre indivíduos.

• Uma maneira de promover a inclusão digital;

• O uso de arquivos digitais como forma mais ecológica e


sustentável;
• A mensagem pode ser arquivada, impressa, copiada,
reencaminhada, re-usada;

• Arquivos de formatos diversos podem ser anexados;

• O usuário é facilmente conectado.

Desvantagens no uso do e-mail

• Arquivos anexados podem bloquear a transmissão de outras


mensagens ou conter vírus spams, scams, hoaxes;

• A expectativa de feedback imediato;

• Problemas de incompatibilidade de softwares podem dificultar


ou impedir a leitura do e-mail;

O e-mail educacional

. Muitos professores de todo o mundo tem se preocupado com a


integração de ferramentas tecnológicas e de comunicação em práticas
educacionais, a partir do uso de um processador de texto, a distribuição
de materiais em blogs, fóruns ou por e-mail.

O e-mail educacional é uma interação com número limitado de


alunos. Quando o professor faz uso desse e-mail, ele permite a prática
de alguns trabalhos interessantes para enriquecer a prática docente. O
e-mail educacional é uma ferramenta que pode facilitar a aprendizagem
da língua estrangeira quando utilizado de forma complementar das
aulas, na prática de produção textual, na indicação de sites de pesquisa,
entre outros.

A importância do aprendizado de uma língua estrangeira por


meio de gêneros digitais

Com base em algumas citações dos PCNs temos:


• As novas tecnologias da comunicação e informação permeiam o cotidiano,
independente do espaço físico, e criam necessidades de vida e convivência
que precisam ser analisadas no espaço escolar;

• (...) entender o impacto das tecnologias da comunicação e da informação


na sua vida, e nos processos de produção, no desenvolvimento do
conhecimento e na vida social;

• (...) aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no


trabalho e em outros contextos relevantes para a sua vida.

Apesar de não fazerem referências explicitas aos gêneros digitais,


o que é justificável pelo fato de que na época que foram elaborados, os
gêneros digitais eram ainda muito incipientes, eles demonstram
preocupações com a importância do uso de novas tecnologias no
ensino, o que já seria suficiente para a inclusão dos gêneros digitais no
contexto de aprendizado da língua estrangeira.
Diante disso, a escola hoje tem um novo desafio que é utilizar
adequadamente a tecnologia associada à construção do conhecimento.
A tecnologia entra na relação professo-aluno como um meio valioso e
necessário para propagação do conhecimento possibilitando ao
professor uma visão holística do processo ensino aprendizagem e
possibilitando ao aluno a percepção do seu potencial como autor de sua
própria história.
Do ponto de vista educacional, ao aprender uma língua
estrangeira o aluno faz uso da linguagem para agir no mundo social.
Para ser um participante atuante na sociedade é preciso ser capaz de se
comunicar, não apenas na língua materna, mas também em uma ou
mais línguas.
Para que as pessoas tenham acesso mais igualitário ao mundo
acadêmico, ao mundo dos negócios e ao mundo da tecnologia, é
indispensável que o ensino de Língua Estrangeira seja entendido e
concretizado como o ensino que oferece instrumentos indispensáveis de
trabalho.

A importância do e-mail no ensino de uma língua estrangeira


Os últimos anos o ensino de uma língua estrangeira tem dado
maior importância à habilidade de falar, deixando de lado, em certos
momentos, a produção escrita. Claro que a fala tem o seu papel
importante na aprendizagem de uma língua estrangeira, mas a escrita é
igualmente importante e necessária para o complexo ato de se
comunicar. Ensinar uma língua estrangeira não requer só o
conhecimento profundo do conteúdo do objeto de ensino, mas vários
outros fatores que estão ligados a ele. Deve-se levar em consideração a
questão cultural que representa o povo cuja língua será ensinada e
estudada. O método utilizado também é importante. É preciso que esse
método esteja voltado para as necessidades e objetivos do aluno em
aprender uma nova língua.
Ao usar os gêneros digitais nas aulas de língua estrangeira, o
professor traz um atrativo que leva o aluno a um melhor nível de
aprendizado.
Ao utilizar o e-mail como ferramenta pedagógica, as
oportunidades de comunicação e interação entre professor e alunos
aumentarão significativamente.
Outro aspecto a ser explorado pelo e-mail como ferramenta
pedagógica é que o aluno em suas produções pode demonstrar um alto
nível de criatividade em relação aos modelos existentes em todos os
níveis de organização textual.
Quando o professor utiliza o e-mail, ele proporciona a
oportunidade para aquele aluno que não possui desenvoltura oral a se
engajar na comunicação.
O próprio professor também pode desenvolver estratégias de
correção das produções escritas pedidas em sala de aula, como
ortografia, pontuação, enviar handouts que possam esclarecer melhor
as dúvidas dos alunos, enviar um link interessante que possa ajudar
ainda mais o desenvolvimento dos alunos no aprendizado da língua
estrangeira.
Os alunos por sua vez podem utilizar o e-mail como um “tira-
dúvidas”, comunicar ao professor uma falta ou atraso, sugerir uma
atividade, entre outros.
O fato de utilizar o computador não garante a aprendizagem, é
preciso que o professor crie um ambiente em que o aluno tome
iniciativa, resolvam problemas e criem soluções pessoais garantindo um
contexto significativo de aprendizagem e participação ativa do aluno.

A importância da prática da escrita e reescrita no aprendizado


de uma língua estrangeira

O desafio do trabalho com gêneros textuais tem sido motivo de


muitos estudos no campo de ensino/aprendizagem de línguas.
A escrita eletrônica veio para substituir e complementar, mas não
eliminar a escrita convencional.
Segundo RAIMES (1983) e WHITE & ARNDT (1991), a escrita
permite o desenvolvimento da capacidade cognitiva do aluno, ou seja,
do seu raciocínio, sendo uma constante luta para se fazer compreendido
na comunicação com o leitor. Cada vez que o texto é reescrito, há um
aprofundamento do trabalho de elaboração textual. Os momentos de
reescrita podem ser parciais, referindo-se a um nível de análise ou a um
pedaço do texto. Dessa forma continua e pontual os alunos passam a
considerar o texto como resultado de um trabalho consciente,
deliberado, planejado e repensado. Também segundo esses autores, a
escrita em língua estrangeira permite o desenovimento da capacidade
cognitiva do aluno.
Ao escrever em língua estrangeira, o aluno está livre das pressões
da comunicação face a face, permitindo que ele se arrisque no novo
sistema lingüístico, na procura por sentido.
A reescrita de textos possibilita ao aluno refletir sobre a língua e
sua forma própria de sistematizá-la. O ato de reescrever provoca um
diálogo entre o “sujeito-autor” com o seu “produto criado”. O aluno sai
do estágio emocional que gera a primeira escrita e passa para o estágio
de maior racionalização sobre o que foi materializado.
Assim a reescrita passa a ser vista como um processo de
significação, que para ocorrer, precisa reconhecer a importância da
geração, formulação e refinamento das idéias. Como conseqüência
dessa visão, há um comprometimento por parte do aluno e uma revisão
e interferência do professor ao longo do processo e conscientização da
existência de um leitor.

Com a aplicação da prática de reescrita, o professor passa a


auxiliar o aluno no entendimento de seu processo de composição, na
construção de repertórios de estratégias para a pré-escrita, revisão,
reescrita, deixa o aluno descobrir qual a sua intenção ao escrever, no
feedback ao aluno fazendo com que ele busque termos
apropriados,expressões e estruturas aceitáveis, comentários não só no
produto final do aluno, mas no processo. Com tudo isso, o professor não
só investigará o que o aluno escreve.

A possibilidade de reescrever e organizar seu texto permite que o


aluno trabalhe com as informações contidas no seu texto e pode
ampliar seu desejo de obter sucesso na comunicação, ou seja, ser
compreendido claramente pelo leitor e manter uma comunicação
efetiva com ele.

O ensino da produção escrita deve levar em consideração a idade,


o interesse e o nível de conhecimento do aluno. A palavra escrita é o
instrumento que o aluno dispõe para relatar sua realidade, suas
experiências, seus medos, seus sentimentos.

Considerações finais

Hoje em dia, ter acesso ao correio eletrônico é uma questão de


inclusão social. As mensagens eletrônicas são hoje, possivelmente, o
tipo de texto mais produzido nas sociedades letradas. O e-mail tem
contribuído para a formação de inúmeras comunidades discursivas
multiculturais. Especialmente na área educacional, o e-mail gerou uma
revolução nas relações humanas e é preciso estar atento ao leque de
possibilidades que este novo gênero tem para oferecer no ensino-
aprendizagem de uma língua estrangeira.

A convivência com os gêneros eletrônicos só tem a acrescentar na


aprendizagem da leitura e escrita, desde que não se tornem únicos,
mas estejam lado a lado dos outros tantos gêneros que sempre
estiveram presentes na escola, na sociedade e no lar.

Com a prática de produção textual e reescrita de textos, o aluno


aprende que a escrita é um processo, pelo qual eles podem explorar e
descobrir seus pensamentos e idéias, e assim, produzir um texto de
melhor qualidade porque estão envolvidos pessoalmente nos textos que
produzem.

O produto de qualquer produção escrita será cada vez mais


significativo quanto mais reflexivo tiver sido o processo do ato de
escrever.

Referências

ANTONIO, José Carlos. Uso pedagógico do E-mail, Professor Digital,


SBO, 26 ago. 2009. Disponível em:
<http://professordigital.wordpress.com/2009/08/26/uso-
pedagogico-do-e-mail/>. Acesso em: 24.05.2011
• CARVALHO, de Lourenço Tatiana. O e-mail como ferramenta no
apoio do ensino de espanhol: uma experiência no núcleo de
línguas da Universidade Estadual do Ceará. III Encontro
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• CÔRREA, Félis Ediléa. Gêneros textuais no contexto digital &
Educacional.
http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/cd/Port/44
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• MARCUSCHI, Antônio Luiz. Gêneros textuais emergentes no
contexto da tecnologia. Texto da Conferência pronunciada na
50ª Reunião do GEL – Grupo de Estudos Lingüísticos do Estado
de São Paulo, USP, São Paulo, 23-25 de maio de 2002.
• MARCUSCHI, L. E XAVIER, A. C (org.). Hipertexto e gêneros
digitais: novas formas de construção do sentido. Rio de Janeiro:
Lucerna, 2005, p.13-67.
• PAIVA, V.L.M.O. E-mail: um novo gênero textual. In:
MARCUSCHI, L.A. & XAVIER, A.C. (Orgs.) Hipertextos e gêneros
digitais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004.p.68-90.
• GARCIA, Silvestre Helena Maria. Gêneros Textuais no contexto
das inovações
tecnológicas.http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde
/arquivos/2166-8.pdf acesso em 31.05.2011