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Na manhã seguinte à despedida de solteira de sua prima, Megan Scott

acorda coma pior ressaca do mundo. E não é só isso! Além de estar em


uma cobertura desconhecida, ao seu lado há um lindo, sensual e
arrogante… marido? Até agora, arrumar um namorado havia sido
praticamente impossível para ela. Ainda que tentasse, conquistava
apenas um coração partido. Mas depois de alguns martínis com Carter –
não, Connor Reed! – ela estava casada… Megan precisava de um
advogado. Para a sua surpresa, Connor não queria aceitar o divórcio!
Capítulo 1

FORÇADO A escutar uma pontada de náusea após outra reverberando


através do mármore polido, Connor Reed praguejou contra a própria
consciência.
Por falar em fardo inconveniente… Não importava o quanto sentisse o
estômago revirar ou a cabeça latejar, não havia a menor possibilidade de
disparar pela porta na parede oposta, que lhe acenava com a liberdade.
Forçando o olhar de volta à própria imagem levemente esverdeada,
fechou a torneira e torceu uma toalha. Em seguida, injetou um certo grau
de empatia em sua expressão e se preparou para encarar a situação.
– Ei, bela! – exclamou, cruzando na direção da criatura deprimente, meio
inclinada, meio se amparando sobre o vaso à frente. – Está se sentindo
melhor?
Olhos de guaxinim perscrutaram sob um ninho de rato loiro enquanto
ela esticava a mão para a toalha que Connor lhe oferecia.
– Carter…
– Connor – corrigiu ele, dividido entre o divertimento e o que devia ser
exatamente o oposto disso.
– Precisamos de um advogado – ofegou ela, mal conseguindo tempo para
demonstrar seu desgosto antes de a próxima náusea a atingir.
Um advogado. Aquele não era exatamente um começo espetacular para a
lua de mel dos dois. Mas, de qualquer forma, aquela também não era o que
podia se chamar de situação espetacular. Claro que, menos de quinze
minutos após aquele corpo quente esticado ao lado dele gemer de um
modo não muito agradável e se erguer de um salto em direção ao toalete,
Connor não conseguira juntar todas as nebulosas peças do quebra-cabeça
que compunha a noite anterior. Porém, baseado na chocante evidência à
mão… ou melhor, no dedo… e a aliança de diamantes faiscante que
adornava o dela, aquele era o pior dos cenários a ganhar vida. A
descontração acabara mal. A julgar pelas consequências. Sim, ao que tudo
indicava, aquela seria uma sujeira difícil de limpar.
Portanto, um advogado lhe pareceu o ponto de partida ideal. Assim que a
parte nauseante da manhã estivesse concluída.
– Uma coisa de cada vez, querida. Vamos resolver isto primeiro e mais
tarde nos arrependermos do restante.
Qualquer que fosse a resposta engrolada que ela lhe deu, Connor tinha a
impressão de que se tratava de algum tipo de concordância.
Droga, que desastre!
Esfregando a nuca com uma das mãos, ele percorreu a lívida esposa com
um olhar não muito sutil.
Doze horas atrás, aquela mulher lhe parecera “autêntica”, com seu
humor afiado e uma discreta aspereza. O sorriso excessivamente largo, um
sortimento de sardas e uma risada sexy. Agora, com os cabelos ameaçando
imergir em só Deus sabia o quê, parecia apenas… rude. Sem nenhuma
delicadeza.
Ainda assim, mesmo ao observar o caos que ela aparentava diante de
seus olhos, imagens fragmentadas lhe bombardeavam a mente, permitindo
vislumbres de quem ela fora na noite anterior. Uma garota comum, como
uma antiga vizinha, cedendo a uma travessura. Perfeita para o clima
travesso em que se encontrava na noite anterior. Pensara que aquela
mulher poderia lhe proporcionar algumas horas de divertimento.
Então, como diabos ela acabara atirada sobre seu ombro, dando
risadinhas e o chamando de louco, enquanto ele a carregava para uma
daquelas famosas capelas de casamento expresso em Las Vegas?
Megan girou, permitindo-lhe uma visão completa da parte frontal da
camiseta rosa-shoking muito apertada que ela estava usando quando
Connor cambaleara para dentro do banheiro atrás dela.
Estampadas sobre o busto, as letras de imprensa em tinta preta
formavam cinco palavras: “QUER ME DAR SEU SÊMEN?”
Oh, certo. Fora assim.
Diabos!
O QUE lhe dera na cabeça!
Megan ergueu o olhar para a expressão severa estampada no rosto de
Carter… não, Connor. Em seguida, baixou-o para o que devia ser um
conjunto de dez quilates de diamantes que lhe adornava o dedo anelar da
mão esquerda e se inclinou sobre o vaso outra vez.
Fizera sexo. Com um estranho. Alguém a quem tinha uma vaga
lembrança de ter conhecido. E depois… acabara se casando com ele.
Ou talvez tivessem resolvido esperar… seguindo pela rota mais
tradicional e se guardando para depois do casamento. Para que fosse algo
especial.
Argh!
Tão incrivelmente especial que o único detalhe de toda a consumação do
qual conseguia se lembrar era a suave fricção do tecido entre suas coxas, o
peso impetuoso daquele corpo sobre o dela e a intensa frustração de ficar
com o dedo do pé preso no ilhós da calça que ele usava, enquanto tentava
lhe afrouxar a gravata.
E agora se encontrava ajoelhada, colocando as entranhas para fora, ao
passo que aquele homem, um total estranho, ousava testemunhar um dos
mais íntimos dissabores que uma pessoa podia suportar. Gostaria que ele
tivesse se retirado como havia lhe pedido. Mas ele permanecera para se
certificar de que ela estava bem como o bom marido que era.
Aquilo foi quase o suficiente para fazê-la rir, não fosse o fato de não ter
nenhuma graça e seu corpo estar ocupado com outra coisa.
– Não pode ter restado muita coisa. – Soou a voz áspera atrás dela.
Quando os espasmos abrandaram, Megan arriscou um olhar ao homem
com quem se casara. Além da expressão contemplativa, aqueles olhos
escuros não transpareciam muita coisa.
– Não há… – Ela gemeu. – Por várias vezes não consegui colocar nada
para fora. Isso… é apenas meu estômago reclamando… acho eu.
– Hum. E com muita ênfase, pelo que posso ver. – O toque de humor seco
fez o foco de Megan se voltar mais uma vez a ele. Aos detalhes que deixara
escapar no primeiro olhar. Era um homem alto. E não apenas porque estava
olhando do chão. Alto o suficiente para se recostar ao batente da porta e,
com o braço dobrado, permitir que a mão livre segurasse a parte superior,
que ficava a apenas alguns centímetros do topo de sua cabeça. A
compleição corporal era vigorosa, com uma força esbelta refletida nos
músculos definidos do peito, abdome, ombros e braços, embora não fossem
exaltados como os de um fisiculturista. Aquele homem parecia estar
mesmo em forma. E, como se aquilo não bastasse, ele também era dotado
de uma beleza clássica. Um nariz reto, ossos malares salientes e um
sortimento de feições harmoniosas tão atraentes que, de repente, a fizeram
imaginar há quanto tempo o estava dissecando com o olhar.
Ali, do ponto onde se instalara no chão… ao lado do vaso sanitário… onde
estivera colocando todo o conteúdo do estômago para fora.
Argh!
De fato, não poderia se sentir mais humilhada. Mas não importava.
Aquele homem e toda sua beleza não faziam parte de seus planos. Portanto,
qual a importância daquele estranho ser lindo, ou de ela ter visto traços do
tipo do humor que costumava agradá-la, ou que estivesse, na verdade,
casada com ele? Tivera percalços suficientes com homens a quem de fato
conhecera e havia desistido de todo e qualquer relacionamento.
Ainda assim, o orgulho a fez se erguer em membros que se encontravam
dormentes pela combinação da desidratação e de ter ficado ajoelhada por
tanto tempo. Membros que quase não respondiam ao seu comando. De
repente, Megan se viu caindo outra vez, não fossem duas mãos fortes a
segurar pelas axilas, mantendo-a de pé até que ela recobrasse o equilíbrio.
O contato foi desajeitado. Megan tentando se equilibrar, e ele tentando
segurá-la, sem se aproximar demais.
– Obrigada.
– Não há o que agradecer. – E após uma pausa: – Apenas um dos
benefícios de ter um marido por perto, acho eu.
Megan anuiu, exausta, devastada, mas de alguma forma mais agradecida
do que as palavras poderiam expressar por aquele diálogo superficial. Por
mais que necessitassem, não estava preparada para conversar sobre o que
acontecera na noite anterior. Sobre como conseguiriam, naquela manhã ou
durante o tempo que demorasse, anular o casamento.
Não conseguiria manter nenhum diálogo até pelo menos tomar um
banho, escovar os dentes, passar fio dental e enxaguar a boca com o
primeiro antisséptico bucal que lhe caísse nas mãos. Baixando o olhar,
acrescentou uma troca de roupas à lista. Em seguida, comprometida a fazer
sua parte, retrucou com uma voz gentil:
– Sabia que havia uma razão para escolhê-lo.
A risada abafada que obteve em resposta a fez arriscar um outro olhar
por sobre o ombro.
Foi aquele sorriso que surtiu efeito. Que lhe trouxe as imagens da
discussão regada a vodca em uma sequência ordenada o suficiente para
fazê-la ter ao menos um vislumbre do homem da noite anterior, em vez do
quase estranho ao lado do qual acordara naquela manhã.
Oh, Deus! No que havia se metido… e com que rapidez seria capaz de se
livrar daquela situação?
Capítulo 2

Doze horas antes…

– ORA, VAMOS, que se dane o banco de sêmen. – Tina suspirou, adejando os


dedos pintados com esmalte vermelho para refutar tal ideia. – Qual a graça
nisso?
Megan Scott inclinou o corpo e bebeu as derradeiras gotas do martíni de
chocolate branco. Em seguida, afundou ainda mais no assento que ocupava
nos últimos quarenta minutos. Contemplando a possibilidade de tomar
outro drinque, esforçou-se para ignorar as críticas incessantes que as
outras duas damas de honra haviam aperfeiçoado durante uma vida inteira
de prática.
Era sobre seu útero que estavam discutindo à toa, já que Megan tinha um
plano do qual não abriria mão.
– Hum… a graça chega nove meses depois – respondeu Jodie para Tina. –
Pequenino e gracioso, vestindo um daqueles diminutos gorros infantis… e
sem nenhum dos efeitos colaterais transmissíveis oferecidos por seu
plano… – O plano de Tina, pelo que Megan entendia, girava em torno da
camiseta que acabara de ser confeccionada, com os dizeres “QUER ME DAR
SEU SÊMEN?”, e que estava dobrada com esmero sobre a mesa entre elas. –
Estou falando sério, quem pode dizer que esse total e aleatório estranho,
estimulado por sua camiseta personalizada de treze dólares clamando por
sêmen, não esteja nos estágios iniciais do Ebola ou algo pior? Sexo casual e
sem proteção é burrice. E você está tentando convencer Megan a fazer isso.
Pelo amor de Deus! Por que não enterra uma faca no coração dela?
Virando o copo de cabeça para baixo, Megan observou a última gota do
divino martíni deslizar até a borda e a aparou com a língua, esperando que
a garçonete interpretasse aquilo como a súplica por socorro e lhe trouxesse
outro drinque. E rápido.
– Você é uma puritana. Isso é patético.
Meu Deus!
– Eu sou muito educada para dizer o que você é.
– Meninas, por favor. – Megan interveio antes que a troca de farpas se
tornasse caótica. – Aprecio muito a preocupação de vocês comigo. – Está
bem. Ela não estava se atendo à verdade, mas de alguma forma sua língua
lhe permitiu escapar da sinceridade. Honestamente, Megan teria preferido
ser insignificante a ponto de aquelas duas esquecerem seu nome durante
todo o fim de semana e ignorá-la durante o jantar. Mas, graças à propensão
de sua mãe em espalhar segredos, os boatos familiares garantiram que sua
chegada a Las Vegas para o casamento de Gail fosse recebida com uma
tempestade de opiniões conflitantes sobre sua decisão de se submeter à
inseminação artificial dentro de dois meses. – Tina, eu amei. Realmente
amei essa camiseta, mas o único lugar onde a exibirei será no meu álbum
de retratos. E Jodie, obrigada pelo apoio, mas…
Jodie ergueu uma das mãos, interrompendo-a.
– Não a estou apoiando. Realmente não concordo com o que decidiu
fazer. Deve esperar até encontrar um marido, como todas nós.
Imagens de Barry e dos dois anos em que namoraram espocaram na
mente de Megan, ameaçando sugá-la para um vórtice de emoções
turbulentas, às quais não se permitiria render. Vergonha, constrangimento,
raiva, frustração e impotência.
“Juro que não havia percebido isso. Não até este instante… e, de repente,
tudo ficou claro. Eu nunca deixei de amar aquela mulher.”
Não voltaria àquele momento, não perderia nem mais um precioso
segundo pensando em um homem que partira para uma conferência,
falando em formar uma família com ela e retornara casado com outra
mulher.
Não precisava de Barry.
Não precisava de nenhum outro homem para ter o filho que sempre
desejara… Bem, ao menos não mais do que produtivos cinco minutos com
um recipiente plástico.
Jodie suspirou, com um olhar perdido estampado no semblante.
– Espere por seu Príncipe Encantado e terá alguém para dividir seu
momento especial na maternidade, tornando tudo mais prazeroso.
– Bem, na verdade… – começou Megan, mas Jodie não havia concluído.
– Você reflete o que há de errado em nossa sociedade. Quero dizer, a vida
não se resume em ter tudo que se deseja no momento que se quer. Vale a
pena esperar pelas coisas certas. Mas, entre se deitar com o próximo
desconhecido que encontrar ou comprar espermatozoides pré-
selecionados, defendo o banco de sêmen.
Megan sentiu a onda de calor traidora lhe corar as bochechas do rosto,
mas, pensando em Gail e no tipo de casamento que ela teria, com suas três
damas de honra se estrangulando, optou por colocar os proverbiais panos
quentes naquela discussão.
– Está bem. Obrigada… por sua opinião sobre esse assunto.
Tina resfolegou de maneira nada delicada ao seu lado. Megan esticou o
pescoço à procura da garçonete. Porém, em vez da mulher de pernas
compridas e atitude eficiente que servia às mesas, sua atenção foi atraída
para o homem que passava pela mesa que elas ocupavam. Ele erguia a mão
em um cumprimento casual e os olhos cor de mogno estavam fixados em
alguém do outro lado do salão. Era alto, moreno e belo de uma forma
tradicional. Estrutura larga e esbelta, bem talhado e acabado. Linhas
harmônicas e uma beleza clássica. A simetria equilibrada daquele homem
era tão impecável, que poderia tê-lo tornado insípido.
Se não fosse por aquela boca.
Os lábios estavam curvados em um daqueles sorrisos oblíquos. Tão
preguiçoso que apenas um dos cantos da boca fazia o trabalho. E, ainda
assim, algo na facilidade daquele sorriso sugeria uma quase permanência
no belo rosto onde se estampava, enquanto seu progresso atrofiado,
sugeria… bem, Megan supunha que aquilo era parte da sedução. Aquele
sorriso poderia de fato sugerir qualquer coisa.
Era o tipo de sorriso em que as mulheres se perdiam tentando decifrar
seu mistério.
Mas Megan havia desistido de interpretar sinais e compreender os
homens. E por esse motivo se forçou a desviar o olhar da mesa onde o
homem fora se sentar com um amigo, sócio ou quem quer que fosse. Megan
se concentrou outra vez em Tina e Jodie… que estavam totalmente focadas
nela.
Em um movimento sincronizado, as duas se inclinaram para a frente,
apoiando-se nos cotovelos.
– Observando a vitrine para ver se encontra um conjunto genético que
valha a pena? – perguntou Tina com uma expressão perspicaz. A
sobrancelha fina traçada com lápis se erguendo. – Viu alguma coisa que a
agradou?
Os olhos de Jodie se estreitaram.
– O terno é muito bem cortado para ser outra coisa, senão feito sob
medida. O terno, o relógio, as abotoaduras. Esse homem é a personificação
da caça de qualidade. Depressa, Megan, cruze as pernas, deixe à mostra
uma parte da coxa. Tina, atraia a atenção dele.
Os lábios de Megan se entreabriram em um protesto, mas Tina era uma
mulher de ação.
– Uau, Megan, eu sabia que você era uma ginasta, mas não tinha noção de
que as pernas de alguém pudessem fazer isso! – O rosto de Tina adotou
uma expressão benevolente enquanto ela se inclinava para trás na cadeira
com os braços cruzados. – Não precisa me agradecer.
Agulhadas de tensão espetavam todo o comprimento da espinha de
Megan, que lutava para respirar. Com o olhar fixo no tampo da mesa à sua
frente, ela ergueu o copo de martíni vazio, elevando uma prece aos deuses
do coquetel por outra dose. Quando julgou ser capaz de fazer mais do que
emitir um guincho, limpou a garganta e respondeu para todos que
estivessem a distância da audição a ouvissem.
– Não sou ginasta.
E naquele momento Tina e Jodie explodiram em uma gargalhada.

– PODE NÃO parecer agora, mas você está melhor sem ela…
Connor Reed mudou de posição na cadeira, irritado, girando o líquido
âmbar e o gelo no copo de uísque enquanto ouvia Jeff Norton comprometer
seu status de macho.
– É mesmo? Não diga!
Não era exatamente uma novidade.
– Você e Caro ficaram juntos por quase um ano, é natural estar
sofrendo…
Sofrendo? Connor sentiu uma contração involuntária em um dos olhos.
Aquela não era uma conversa de homem. Não era a prometida
descontração com a qual fora atraído para a Cidade do Pecado.
Não era nada divertido.
– … isso é um golpe no ego, e para alguém com um ego como o seu…
Fixando um olhar furioso no copo, Connor resmungou.
– Precisamos medir seu nível de testosterona.
– Seja o que for – respondeu Jeff, inabalável. O amigo estava tão seguro
de sua “consciência” emocional quanto de sua posição de mais antigo e
melhor amigo de Connor. – O que estou dizendo é que você estava disposto
a se casar com Caro duas semanas atrás. Não acredito que esteja tão
indiferente quanto aparenta.
– Sim, mas você sempre se recusa a acreditar na verdade sobre mim. –
Connor retrucou, com um sorriso impenitente. – Mas estou falando sério.
Como lhe disse antes, estou bem. Ela é uma ótima moça, mas depois de
ouvir o que Caro tinha a dizer… sinto-me mais aliviado do que qualquer
outra coisa.
O grunhido que se seguiu sugeria que Jeff não estava acreditando.
E até certo ponto, o amigo talvez estivesse certo. Apenas não da maneira
como imaginava.
Connor não estava sofrendo com o término do relacionamento porque
seu coração não estivera envolvido. Podia parecer insensível, mas era
verdade. E aquilo fora algo que Caro entendera desde o início.
Connor não se permitia amar. Conhecia muito bem o potencial destrutivo
daquele sentimento. Testemunhara seu alcance e experimentara a
devastação do efeito cascata que causava. Não, obrigado. Não se
candidataria a passar por aquilo outra vez.
Seu objetivo era formar uma família. Do tipo que sempre vira a distância,
mas que ainda assim cobiçara. A família que o pai não quisera que um filho
bastardo contaminasse e a que a mãe estivera muito enterrada no próprio
sofrimento para manter. Portanto, decidira construir uma.
Fora privado de muitas coisas quando criança. Coisas que fizera questão
de garantir quando adulto. Dinheiro, respeito, casa própria… e o bem-
sucedido negócio que ele dirigia com punho de ferro e que lhe
proporcionava todas essas coisas. Mas quanto a uma família… Para isso,
precisava de uma parceira. Pensara tê-la encontrado em Caro. Ela se
encaixava ao papel, uma angariadora de fundos feita sob medida, com
nome, educação e passado ilibados. Dona de uma tranquilidade fria e
desprovida da carência emocional que Connor passara a vida adulta
evitando. Ou assim pensou até o momento em que Caro dobrou seu
guardanapo e o pousou ao lado do prato, antes de calmamente lhe explicar
que desejava um casamento baseado em mais do que eles tinham. Nem ela
esperava por isso, mas chegara àquela conclusão. Muito justo. Connor teve
de lhe dar crédito por ter o bom senso de reconhecer que desejava algo que
não encontraria nele. E, mais importante, antes de fazerem seus votos.
Portanto, sofrendo? Não.
Aliviado? Diabos, sim.
– … Acho que está se sentindo sozinho. Triste… – Engolindo de uma só
vez o restante do uísque, Connor se regozijou com a trilha de ardência na
garganta e o calor que se espalhou por seu peito. Talvez a bebida fosse
capaz de lhe embotar a mente o suficiente para abrandar o desconforto
produzido por aquela conversa. Mas o amigo persistia. – … Lembre-se, há
outros peixes no mar…
– Pelo amor de Deus! O que virá em seguida? Uma princesa de conto de
fadas? – Erguendo o copo vazio, Connor olhou ao redor, à procura da
garçonete.
– … diabos, ao que parece aquela ali é ginasta.
Connor ergueu uma das sobrancelhas, inclinando a cabeça em um ângulo
que desse para ver melhor. – Qual delas?
Jeff piscou.
– Queria apenas me certificar de que estava prestando atenção. Eu me
preocupo com você, rapaz.
Embora nunca tivesse entendido por quê, Connor tinha ciência disso.
Aquele afeto fora a única coisa constante em sua vida, desde que fora
catapultado da pobreza e arremessado em um internato exclusivo na Costa
Leste, aos 13 anos. A criança ilegítima, com complexo de inferioridade, uma
rachadura entalhada no centro da alma e um rancor contra o nome do qual
não podia escapar. E Jeff fora o idiota sem sorte que ficara atrelado a ele
como colega de quarto. Connor não lhe dera nenhuma razão para que Jeff
fosse tolerante com ele, mas por alguma razão isso aconteceu.
E por esse motivo, mesmo tendo tornado a vida do amigo bastante difícil,
pelo fato de não ser uma pessoa receptiva… também o presenteou com a
verdade.
– Eu também me preocupo com você. E agora onde está a ginasta?
APÓS MAIS duas rodadas e quarenta e cinco minutos, Connor se recostou ao
espaldar da cadeira, observando Jeff reafirmar seu status de macho movido
a testosterona ao abordar a garçonete que estivera observando pela maior
parte da última hora. Connor não queria nem pensar sobre a lábia que o
amigo passara na moça para fazê-la adejar os cílios e colocar a bandeja de
lado com tanta rapidez. O que quer que tivesse sido, devia ser fenomenal.
Jeff lhe dirigiu uma saudação, e ele soube que não teria mais a companhia
do amigo.
Connor pegou a carteira no bolso interno do blazer, atirou algumas notas
sobre a mesa e, em seguida, pousou o copo sobre a pilha na mesa.
A noite se estendia diante dele com todas as suas infinitas… e exaustivas
possibilidades.
Poderia encarar mesas de blackjack.
Comer alguma coisa.
Arranjar companhia. Ou não. Com aquela patética indiferença da qual
estava sofrendo…
– Com licença.
Connor ergueu o olhar, esperando outra garçonete, pronta para limpar a
mesa, mas em vez disso se deparou com a loira, com um vestido de noite,
que se encontrava na outra mesa. A ginasta, que com certeza não devia ser
uma ginasta se sua altura e as curvas sinuosas da figura envolta em um
daqueles trajes justos fossem algum indicativo.
Muito bom.
– Olá. Em que posso ajudá-la?
O sorriso da loira se alargou enquanto os enormes olhos azuis se fixavam
nos dele.
– Isso pode parecer uma cantada barata. E das piores. Mas tem de
acreditar em mim. Não se trata disso.
Um dos cantos dos lábios de Connor se ergueu, e ele se preparou para o
inevitável “resto da cantada”. Entrando no clima, anuiu.
– Muito bem, com isso esclarecido, vá em frente.
A mulher assentiu, deixando escapar a respiração.
– Percebi que você estava prestes a partir. E não poderia imaginar o
quanto eu ficaria agradecida se pudesse sair em minha companhia. De
modo que pareça que estamos indo embora juntos.
Certo.
– Mas apenas pareça que estamos indo embora juntos?
Mais uma vez, ela abriu um sorriso, e Connor identificou nuances da
garota da vizinhança. Não era exatamente seu tipo, mas por alguma razão
desconhecida, havia algo no olhar daquela…
– Sim. Minhas… amigas perceberam que eu o observava mais cedo e…
bem… e você não iria gostar de saber o que se seguiu desde então. Eu disse
a elas que viria aqui ver se você estaria interessado porque queria me livrar
da perturbação daquelas duas. Mas posso ver, só de olhar para você, que
não sou o tipo de mulher em quem estaria interessado… e, na verdade, essa
foi a única razão que me fez decidir vir. Adoraria sair daqui sem tê-las como
sombra pelo resto da noite.
Então, ela o estivera observando?
Bem, já que era assim, Connor permitiu que os olhos a percorressem de
cima a baixo, detendo-se por mais tempo do que fizera da primeira vez que
a medira com o olhar. Muito, muito bom. Mesmo ao se deparar com o dedo
apontado para ele de maneira repreensiva, quando seus olhos percorriam o
caminho de volta.
– Nada disso. Você é lindo, mas sinceramente estou apenas tentado
escapar de uma fria.
Connor mudou de posição na cadeira, o sorriso que quase retrancara
minutos atrás se libertando, quando percebeu que ela estava falando sério.
Olhando além dela, notou as amigas com os olhares ansiosos
descaradamente fixos nos dois.
– Que sutileza!
A desconhecida deu de ombros com um gesto delicado.
– Até onde sei, a sutileza não é uma característica daquelas duas.
Connor ergueu uma das sobrancelhas.
– Até onde sabe? Que tipo de amigas são?
– Do tipo temporário até concluirmos nossas obrigações como damas de
honra, em algum momento antes da madrugada de domingo. Espero. Elas
são amigas de jardim de infância de minha prima.
Ah!
– E estão interessadas em sua vida amorosa porque…?
O nariz da loira se enrugou enquanto ela escaneava o teto com o olhar.
– Há alguma chance de você simplesmente sair daqui comigo?
Connor se inclinou para trás, empurrando com o pé a cadeira antes
ocupada por Jeff.
– Não se quiser que isso pareça convincente. Sairei com você… daqui a
dez minutos.
O olhar cético deixava claro que aquela desconhecida deduzira que ele
estava pensando em mais do que dez minutos.
Por mais diferente que ela fosse das mulheres que costumavam atrair
Connor, parecia o tipo exato de diversão que aquela noite pedia.
O tipo que geralmente não dava conversa a estranhos. O tipo corruptível,
pensou ele, menos apático a cada segundo.
– Dez minutos. Vamos conversar. Flertar. Você pode tocar meu braço
uma ou duas vezes para tornar isso real. Talvez eu possa colocar alguma
mecha de cabelos para trás de sua orelha. Suas voyeurísticas amigas vão
acreditar piamente. Depois, me inclinarei na direção de sua orelha e
sugerirei sairmos daqui. Talvez de uma forma que a faça corar até a raiz
dos cabelos. Você se mostrará nervosa e tímida, mas permitirá que eu
segure sua mão. E então sairemos.
A expressão dela era impagável. Era como se a tivesse afetado com
aquele pequeno roteiro.
– Isso é… umm… – Ela engoliu em seco, olhando ao redor, antes de se
fixar em seus lábios e desviar os olhos rapidamente para encará-lo. – Isso é
muito mais do que eu estava pedindo.
– Melhor para você.
– Sim, e o que você ganha com isso?
Um sorriso voraz curvou os lábios de Connor.
– Dez minutos para convencê-la a me dar vinte. E veremos no que isso
vai dar.
O ligeiro movimento negativo de cabeça da loira fez o foco de Connor se
afiar e suas habilidades críticas sintonizarem. Diabos! Ele estivera
pensando em quanto o agradaria ver o sorriso daquela garota comum se
tornar provocante e agora lá estava ela, fazendo-o se esforçar para
conquistá-la? Aquilo não estava progredindo bem.
– É melhor eu ir embora. Não sou o tipo de garota que aceita encontros
casuais. E, mesmo que esteja à procura de algo além do casual, não estaria
interessada.
Algo no modo que ela proferiu aquelas palavras aguçou a curiosidade de
Connor.
– Ah, é mesmo? Como assim?
A mão delicada se ergueu em um tipo de gesto negativo, que foi
interrompido, antes mesmo de começar. Em seguida, ela o encarou.
– Desculpe, mas é algo um tanto pessoal para um primeiro não encontro
irreal.
Connor sorriu, erguendo e baixando um dos ombros.
– Então porque não tornamos isso um primeiro não encontro não tão
irreal? Ou talvez um primeiro encontro irreal, embora, já que estamos
fingindo, teremos de ir para o segundo ou terceiro encontro… onde
começam as coisas boas.
O sorriso da mulher se alargou, dando lugar a uma risada em nada
condizente com a garota comum e tudo que se relacionava a ela. E, quando
os olhos azuis se semicerraram e os lábios atraentes se entreabriram para
deixar escapar aquele som sedutor e abandonado, ele se viu enfeitiçado.
Por um segundo.
Antes de recobrar o autocontrole.
– Sério, gostaria de saber.
Connor podia ver nos olhos dela, na forma como inclinava a cabeça e o
corpo começava a girar. Ela tomara aquela decisão na mente e já se
imaginava a meio caminho da porta de saída. Que pena!
Mas, de qualquer forma, ele não queria deixar de ajudá-la, depois de ela
ter reunido coragem para ter ido até ele.
– Eu sairei com você – disse Connor, mas ela recusou com um gesto de
cabeça e sorriu. – Obrigada, mas eu ficarei bem.
– É justo. A propósito, meu nome é Connor. – Ele lhe estendeu a mão,
sentindo-se como um idiota, oferecendo um aperto de mão, depois de tudo
que haviam dito. Mas por alguma razão queria testar como seria o contato
físico entre os dois.
– Megan. – Ela esticou o braço por sobre a mesa e aceitou a mão
estendida… e algo cor-de-rosa neon varou o ar, aterrissando no colo de
Connor.
A mão que ele segurava apertou a dele ao mesmo tempo que Connor
baixava o olhar às letras garrafais.
– Que diabos…?
Risadas ribombaram da mesa em que Megan estivera sentada. As damas
de honra de quem ela tentara escapar. Ou assim dissera.
Connor lhe segurou a mão com força, olhando-a nos olhos, antes de puxá-
la para a frente e em seguida para baixo, na direção da cadeira que ela
deixara vaga.
– Sente-se. Agora quero saber.
Megan o encarou, uma centena de pensamentos lhe revolvendo a mente,
antes de se deixar afundar na cadeira.
– Está bem, Carter…
– Connor.
Megan engoliu em seco.
– Muito bem. Aqui vai…
Capítulo 3

Nove horas antes…

– ACHO QUE você está tentando me dizer algo mesmo que


subconscientemente.
Megan sorriu contra a borda do copo, tentando não soltar uma risada,
enquanto tomava o próximo gole. O delicioso sabor doce do martíni lhe
revestiu a língua, fazendo-a imaginar como passara tanto tempo de sua
vida sem ter experimentado aquele drinque de chocolate branco. Era
delicioso.
Espere… subconscientemente…
– Está bem. O quê?
– Essa viagem a Las Vegas. É seu subconsciente gritando que algo
profundamente reprimido precisa se arriscar. Fazer alguma loucura.
Estavam de volta àquilo outra vez. Megan lhe dirigiu um olhar perspicaz,
apenas para encontrar o dele impenitente.
– Ou essa viagem é por causa do casamento da minha prima.
– A negação é uma coisa poderosa.
– Esqueça isso. Eu já disse. Não vou fugir e me casar com você, portanto
pare de insistir.
Carter… droga, Connor, por que nunca conseguia se lembrar?!, deixou
escapar uma risada rouca. Ambos sabiam que não era exatamente a um
casamento que ele estava querendo chegar. Assim como tinham plena
ciência de que ele não estava falando sério.
Connor sabia quais eram seus planos. Mostrara-se muito interessado
quando ela os revelou, explicando sua intenção de tentar uma inseminação
artificial através de um doador de sêmen. E, em vez de começar a se afastar,
ele decidiu que ambos necessitavam de uma noite para se libertar e se
divertir. Do tipo sem consequências. Do tipo que girava em torno de uma
conversação agradável, flerte inconsequente e mais drinques do que seria
sensato.
Sabendo que seria a última e encontrando um certo conforto na absoluta
falta de expectativa em relação ao homem com quem estava, Megan
concordara.
E desde então estivera quase sem fôlego de tanto rir, vagando pelo
enorme cassino, parando para ver uma atração ou outra, envolvida em um
tipo de diversão que nunca se permitira.
No final das contas, Connor estava certo. Era daquilo que estava
precisando.
A palma da mão longa pousou, suave, na base de sua espinha enquanto
ele a guiava na direção de uma fileira de caça-níqueis.
– Não sei, Megan. Acho que, para uma decisão tão grandiosa, você
deveria considerar todas as opções antes de descartá-las de pronto.
– Talvez tenha razão. – Em seguida, cedendo ao sorriso malicioso que
repuxava seus lábios, fez um gesto vago com a mão para indicar os homens
ao seu redor. – E aqui parece ter muitas opções a considerar.
Connor discordou com um gesto de cabeça.
– Se está procurando um homem para fechar negócio, eu me afastaria
das máquinas caça-níqueis – sugeriu ele, totalmente inexpressivo. – Nada
cheira mais a baixa autoestima do que um homem agarrado a uma haste de
metal de trinta centímetros.
Demorou mais do que ela imaginava, mas, tão logo conseguiu frear a
própria risada, Megan forjou uma careta falsa.
– Sério? Há quanto tempo nos conhecemos… e você acha que eu optaria
pelas máquinas caça-níqueis?
Agora foi a vez de Connor exibir o meio-sorriso que parecia ser seu
equivalente a uma risada de tirar o fôlego.
– Certo. Deveria ter tido mais fé em você.
Megan anuiu, olhando ao redor do cassino.
– É nas roletas que se encontram os peixes maiores.
Mais uma vez ele torceu os lábios.
– Sou forçado a discordar. Qualquer homem que se atenha a um jogo
baseado apenas na sorte é delirante. Provavelmente, acredita em Papai
Noel e em fadas. Não é um bom presságio de estabilidade mental. Quer
enfrentar a possibilidade de uma psicose espiralando no DNA do seu bebê?
Megan teve de suprimir mais uma risadinha.
– Não, definitivamente não. Como pude ser tão incauta?
– Às vezes, me pergunto o que será de você.
Megan não conseguia lembrar qual fora a última vez que se divertira
tanto. Tampouco de ter se sentindo instantaneamente tão à vontade ao
lado de um homem. Claro que a última parte tinha mais a ver com o fato de
ela saber que aquilo não ia levar a nada, o que subtraía a tensão daquela
equação. Podia simplesmente desfrutar da atenção daquele homem
incrivelmente atraente e charmoso, sem ter de se preocupar… com coisa
alguma.
– Blackjack, então?
Os dois haviam dado alguns passos quando Connor abordou uma
garçonete que passava e fez pedidos para os dois antes de retornar a
atenção a Megan.
– Também delirante. Esse tipo de homem pensa que está no controle
quando se trata de um jogo de azar. A não ser que ele esteja contando…
então, terá um elemento criminoso a considerar.
Bancando o advogado do diabo, Megan perguntou.
– Mas a contagem não seria um indicativo de um ótimo nível de
inteligência?
– Ora, você será uma mãe solteira, descapitalizada devido ao custo da
escola particular que a “genialidade” dele exigirá. Quanto tempo livre acha
que terá para visitar o pequeno no reformatório?
Megan simulou sua mais indignada tosse.
– Está insinuando que meu filho será algum tipo de delinquente?
Uma sobrancelha excessivamente arrogante se ergueu. Sexy e confiante.
– Não se souber jogar suas cartas.
– Está bem. Está bem. – Megan soltou uma risada, limpando as lágrimas
que se acumularam nos cantos dos olhos com os polegares.
– Então, descartamos as máquinas caça-níqueis, a roleta e o blackjack. Se
nenhum desses serve, então o que… apostas em corridas de cavalo?
Connor estacou de repente, girando para estudá-la mais de perto do que
a pergunta exigira. Tão próximo, que ela podia sentir o corpo responder ao
toque daquele olhar em cada ponto de contato. A resposta de Connor veio
acompanhada de um sorriso de pura arrogância.
– Se quer ganhar o prêmio máximo no âmbito da genética, então tem de
evitar uma passada pelos Jogadores Anônimos também. É óbvio que sua
melhor aposta sou eu.

MEGAN ATIROU a cabeça para trás e fechou os olhos, soltando outra


gargalhada. O som o atingiu no centro do peito. E, quando aqueles enormes
olhos azuis voltaram a se abrir e encontraram os dele, as bochechas do
rosto delicado se encontravam rubras. Uma onda quente e eletrizante de
atração varou o corpo de Connor, quase o fazendo perder a cabeça.
Felizmente, ela não parecia ter notado enquanto girava para aceitar o
drinque que a garçonete que se aproximava lhe oferecia.
– Bem a tempo! Com toda certeza precisarei de outro drinque antes de
concordar com essa última sugestão.
Empinando o queixo, ele estimulou:
– Então, esvaziemos as taças! – Tomando um grande gole da própria
bebida, Connor sorriu. – Tenho a noite toda.
Diabos! Aquela mulher tinha uma risada esplêndida. Mesmo depois de
lhe abandonar os lábios… os ecos ainda lhe iluminavam os olhos. Aquelas
íris azuis brilhantes que o fitavam como se ele pudesse ter a solução para
tudo. E, de repente, a ideia daquela mulher forte, obstinada e independente
necessitar algo dele o atraiu no mais primitivo dos níveis.
– O que foi? – perguntou ele, creditando o timbre baixo da própria voz à
secura em sua garganta, e remediou o problema com outro gole de uísque.
Megan esticou a mão para lhe segurar a lapela do terno, os dedos magros
se curvando no tecido em um movimento carente e íntimo… produzindo
um efeito que ele não sabia se deveria gostar tanto.
Os dentes brancos perolados de Megan se enterraram no lábio inferior
antes de libertá-lo, o que fez Connor prender a respiração por completo.
– Megan.
– Estou faminta – confessou ela após um suspiro.
Por uma fração de segundo, Connor baixou o olhar para encará-la. E
então aqueles dedos se fecharam com força e um leve tremor sobre sua
lapela.
– Fa… minta.
Megan repetiu com um sutil gesto positivo de cabeça.
Comida.
Sim, ele também estava com fome. De alguma coisa. Portanto, estava na
hora de parar de encarar aquele belo rosto sardento.
– Certo. – Tomando o restante do uísque em um só gole, ele entregou o
copo vazio a um garçom que passava. – Então, sou o homem que está
procurando.

Sete horas antes…

Connor pensou que não poderia haver coisa mais agradável do que aquele
riso. Mas então ouviu a risada acrescida dos guinchos de alegria de Megan e
teve uma visão completa das nádegas deslumbrantes cujos contornos se
encontravam perfeitamente evidentes, requebrando-se em algum tipo de
dança da vitória, enquanto a máquina vencedora fazia a contagem na
extremidade do bufê de waffles que um taxista surpreendentemente
confiável lhes havia indicado.
Megan o surpreendera. Mais uma vez. Envolveu em uma conversação
muito espontânea e, em seguida, lhe deu detalhes de sua vida com a mesma
facilidade que a máquina lhe entregara aquele prêmio. Bastara a pergunta
certa no momento certo e ela se abriu, revelando uma nova perspectiva da
criatura cativante que ele conseguira pescar para passar a noite.
Megan se autoproclamava uma romântica em recuperação. Uma mulher
que acreditava no amor, mas que descobrira, ao longo de uma vida inteira
de experiências, que o ápice daquela sublimidade romântica estava fora de
seu alcance.
E havia aceitado esse fato. Não estava interessada na inutilidade de uma
busca inatingível. Megan era uma beldade inteligente. Uma engenheira de
software que trabalhava por conta própria, bem-sucedida na profissão que
escolhera. Confiante na medida certa e tímida da forma mais atraente.
Independente ao extremo e não temia se opor às convenções quando se
tratava de atingir seus objetivos. Terna, engraçada e sexy.
Naquele momento, Connor se encontrava parado atrás dela, a última
rodada de drinques que haviam tomado, esquecida. O que talvez não fosse
de todo ruim, considerando o tipo de desvios que sua mente estava
tomando enquanto retirava o paletó, cedendo à absurda e inoportuna
insanidade possessiva que o deixava louco só de pensar em qualquer outra
pessoa admirando aquela perfeição em formato de coração.
– Tome. Coloque isto – disse ele, pendurando o paletó nos ombros de
Megan.
– Não posso acreditar nisso! – ofegou ela. – Nunca consegui ganhar.
Nunca, em nenhuma oportunidade, tive uma sorte como essa.
Connor sorriu, observando o comprimento desnudo dos braços elegantes
desaparecer sob o mar de tecido do seu paletó. Esticando os braços, ajustou
as lapelas, dizendo a si mesmo que ela parecia estar com frio. Em seguida,
antes que capitulasse à tentação de se deter próximo do atraente “V” de
pele feminina exposta ou, Deus o ajudasse, roçar as juntas dos dedos
naquela suavidade provocadora, se ocupou com as mangas do paletó.
Enrolou-as até que a pulseira fina do relógio que ela usava faiscasse,
refletindo as luzes da máquina vencedora. Era uma pulseira delicada, mas
um pouco comum. Da mesma forma que ele erroneamente a julgara ao
pousar os olhos nela pela primeira vez. Na verdade, Megan brilhava como
um diamante.
– Carter – disse ela, ofegante. Os olhos azuis observavam o polegar longo
lhe roçar a pele sensível da parte interna do punho.
– Connor. – Que diabos ele estava fazendo?
Megan ergueu o olhar lentamente, seguindo o contorno do braço longo,
do ombro largo até a parte superior da gravata e, em seguida, aos lábios
sensuais de Connor.
Teria ela ideia do quanto eram sedutoras aquelas frações de segundo em
que ele podia ver claramente a mente de Megan trabalhando nas
possibilidades existentes no ponto onde seu olhar se detinha?
Aquela mulher era extremamente sensual. E doce. Perspicaz. Divertida.
E tinha o olhar cravado em sua boca como se a achasse mais apetitosa do
que vodca de baunilha com licor de chocolate branco.
Como se talvez, por fim, quisesse saboreá-la.
Ou talvez mais.
Mais um segundo e os olhos azuis encontraram os dele.
– Connor – corrigiu ela, o bom senso travando uma batalha naquelas
piscinas azuis, quase não conseguindo vencer a tentação.
Droga! Gostava do modo como Megan dissera seu nome. Principalmente
por ela ter dito o nome certo.
Connor tinha uma excelente ideia para ajudá-la a se lembrar.
Repetição. E um belo reforço… do tipo ofegante, com gemidos de súplica.
Por horas a fio.
Poderia caprichar na sedução e a teria.
O flerte de que lançara mão até então fora apenas um aperitivo. Em cada
elogio casual, havia mantido a distância física entre os dois. Em cada
insinuação, evitara o contato visual. Porque desde o princípio soubera,
pressentira o que poderia acontecer entre os dois e decidira não investir.
Porém, agora… desejava mais.
Gesticulando negativamente a cabeça, Connor fixou o olhar no copo pela
metade sobre o balcão ao lado deles. Culpa sua.
Empurrando os pensamentos para o fundo da mente, decidiu manter o
braço de distância entre os dois e o sorriso fácil. A aparência de quem
estava encarando aquilo apenas como diversão.
Instantes depois, encontravam-se envoltos pelo ar da noite, as luzes
resplandecentes, o tráfego de pedestres sem destino e o fluxo de carros.
– Você acabou de depenar duas máquinas sucessivamente. Temos de
voltar e tentar o prêmio máximo. Ou prefere tentar algo diferente, como as
roletas?
Um profundo suspiro escapou pelos belos lábios de Megan.
– Acho que não. Para alguém que não tem sorte no jogo, estou feliz com
meu lucro. Não quero abusar da sorte.
– Mais alguma coisa em mente? – perguntou Connor, embora já soubesse
a resposta ao perceber a resignação naqueles olhos azuis.
Adeus.
Connor não queria pôr um fim à noite, mas afinal ela traçara um plano
para sua vida. E a respeitava por isso. Admirava o senso de prioridade, a
premeditação e o compromisso que Megan empregara naquela meta.
Diabos! Provavelmente aquele plano era responsável por metade da
atração que sentia por ela.
– Diverti-me muito esta noite. – Megan mudou o peso de um pé para o
outro, parada diante dele. O olhar se desviou enquanto os dedos delicados
subiam pela lapela de seu terno, onde se detiveram a brincar
distraidamente com o primeiro botão da camisa.
– Eu também. Claro que isto é Las Vegas. Portanto, a noite ainda é uma
criança.
Os olhos azuis voltaram a se fixar nos dele, brilhando por uma fração de
segundo em seus lábios.
– Tenho de acordar cedo. – E então os ombros de Megan se estreitaram e
as feições se acomodaram em uma expressão muito formal. – E terei um
grande dia pela frente.
– Um grande dia de festividade.
– Sim. E de engendrar elaboradas mentiras sobre nossa noite juntos. –
Dessa vez o sorriso que curvou os graciosos lábios de Megan era de pura
travessura. – Terei de dar a Jodie e Tina algo suculento para elas digerirem.
– Uau! Vai mentir sobre mim? – perguntou ele, pousando a mão na base
da espinha de Megan, enquanto se aproximavam da esquina, em busca de
um táxi. – Sinto-me lisonjeado.
Não havia nenhum táxi disponível, mas a qualquer momento apareceria
algum.
Megan lhe dirigiu um sorriso oblíquo.
– Na verdade, talvez não. É o que desejo. Seria muito divertido, mas
mentir me dá urticária. Mesmo que por uma boa causa, como manter a paz
de espírito durante o casamento de minha prima, não sei se seria capaz.
– Então você é um daqueles tipos letalmente francos? – perguntou ele
enquanto se encaminhavam na direção do cassino em que estavam
hospedados.
– Sem dúvida. O que nem sempre é conveniente. Mas acho que, na
maioria das vezes, me mantém longe de problemas.
Uh-huh, mas se ela não parasse de prender aquele lábio inferior sexy
entre os dentes… nada a manteria longe do problema que ele tinha em
mente.
Mas em seguida Megan se deu conta de como ele a olhava e virou o rosto.
Connor não queria perder a atenção dela. Não ainda.
– Com mulheres como Tina e Jodie, acho que não dizer nada seria tão
eficaz quanto dizer que sou um garanhão… o que, aliás, seria cem por cento
verdade. Deixe-as cozinhando no banho-maria da curiosidade. Não revele
nada.
– Oooh, isso as deixará enlouquecidas. – Ela ofegou, quase saltitando de
felicidade ao lado dele, fazendo-o imaginar a profundidade da veia perversa
de Megan e se alguma vez aquela mulher atravessava as fronteiras do
pecaminoso. – Deus sabe que a imaginação daquelas duas é bem mais fértil
do que a minha.
– Eu poderia ajudá-la com isso – ofereceu ele com outro sorriso
presunçoso.
Ele estava brincando. Sem dúvida.
Megan estacou e fez que não com a cabeça. As pontas lisas dos cabelos
roçando suavemente os ombros.
– Tenho certeza de que sim.
Mesmo sob as luzes e o brilho da Strip, Connor podia ver o rubor aflorar
naquele belo rosto, captar todos os sutis sinais de hesitação à medida que
surgiam. Podia vê-la lutando consigo mesma para não ceder a cada “talvez”,
“só mais um pouco” e “só desta vez” que espocavam em sua graciosa
cabeça. Podia sentir a tensão enquanto Megan travava uma batalha contra a
própria consciência sobre a possibilidade de esticar a noite que agradava a
ambos.
Sabia que ela desejava…
– Mas você tem um plano.
Sincera. Inteligente. Divertida. Independente. Megan era tudo aquilo e
mais um pouco. Connor não conseguia parar de pensar na abordagem
prática em relação ao amor que ela possuía. Com os olhos voltados para o
céu, Connor deixou escapar um longo suspiro, apenas para estacar
abruptamente quando se focou no letreiro neon brilhante sobre o ombro
direito de Megan.
Sim, ela traçara um plano… mas talvez não fosse somente um.

DEUS, MEGAN não queria que a noite chegasse ao fim. Mas se continuasse só
haveria um lugar para onde aquela situação os levaria. E, por mais que a
ideia de acabar deitada na cama daquele homem lhe fosse atraente, não era
seu estilo de vida.
Não importava que ele parecesse mais sua alma gêmea do que um
desconhecido. Se ela cedesse, se arrependeria no dia seguinte.
E quando pensasse sobre aquela noite, não queria ser assolada por
nenhum arrependimento.
Portanto, engoliu em seco e fez o que devia fazer.
– Sim, tenho um plano. – As palavras abriram um vazio no íntimo de
Megan, diferente daquele que se transformara em uma parte de si mesma
ao longo do tempo. – Obrigada por esta noite extraordinária, Carter.
Os lábios de Connor se curvaram de leve em mais um daqueles meios
sorrisos.
Tentador. Muito tentador.
– Quanto ao seu plano. – Ele pousou as mãos sobre os ombros de Megan.
– Há algo que me deixa curioso.
– O quê? – perguntou ela, virada de frente para Connor.
Os dedos longos escorregaram pelos braços delicados em uma carícia
suave. Segurando-lhe uma das mãos, ele a prendeu atrás da base da
espinha de Megan. Em seguida, aproximou-se um passo, baixou o olhar aos
lábios tentadores e murmurou:
– Apenas isso.
E lhe capturou os lábios.
A princípio, tudo que Megan conseguiu registrar foi o choque daquele
contato. Em seguida, o movimento lento e sensual da boca experiente
contra a dela. A pressão firme. O suave sugar. A corrente elétrica produzida
em todos os pontos em que os corpos dos dois se tocavam.
Sim.
Apenas isso.
O fim perfeito para uma noite que ela desejava não ter de findar.
Segundos depois, sentiu um sopro do hálito quente e úmido entre os
dois.
– Connor – murmurou ele, tão perto que Megan pôde sentir a vibração
dos lábios sensuais.
Piscando, confusa, embora permanecesse no mesmo lugar, ela o olhou
nos olhos.
– O quê?
Um dos cantos dos lábios de Connor se ergueu.
– Queria apenas garantir que não esquecesse meu nome.
– Connor. – Megan suspirou, fechando os olhos e saboreando aquele
momento apenas um segundo a mais, antes de partir. – Isso foi
maravilhoso.
Erguendo-lhe o queixo com o dedo curvado, Connor a forçou a encará-lo.
Quando os olhares se encontraram, Megan teve de piscar várias vezes. Não
era o tipo de resignação doce e ao mesmo tempo amarga que brilhava
naqueles olhos escuros. Nem de longe. O que refletiam era uma arrogância
atrevida e explícita expectativa.
– Não muito – retrucou ele, envolvendo-lhe a mandíbula com a mão em
concha. – Isso foi para que você se acostumasse com a ideia.
Os lábios de Megan se entreabriram em um protesto, mas, antes que ela
tivesse a chance de contestar ou reformular sua resposta, ele os arrebatou
outra vez, fechando a distância que os separava sem hesitar. Connor se
apossou de sua boca como se fosse algo que lhe pertencesse, tornando-a
sua de uma forma que fez as mãos de Megan se erguerem em um gesto
involuntário, os dedos se enroscando na camisa feita sob medida. Um
gemido se desprendeu de seus lábios para ser absorvido pelos dele. Não
havia nada suave naquele beijo, mesmo que remotamente. Era quente.
Explosivo. Arrebatador e intenso.
O tipo de beijo que se dava a portas fechadas. Algo que Megan nunca
acreditara que um dia permitiria acontecer em plena calçada, repleta de
transeuntes. Mas, também, nunca se vira em face da necessidade de
interromper algo tão envolvente.
E então todos os pensamentos sobre onde estava, o que deveria estar
fazendo ou o que faria lhe desertaram a mente. Tudo que conseguia
registrar era a pressão quente do corpo de Connor quando ele a puxou
mais para perto. A exploração magistral de uma parte de seu corpo que, de
repente, parecia um continente desconhecido. A sensualidade com que
aquela língua ousada encontrava a dela.
Delicioso.
Muito bom.
Mais uma investida da língua e Megan se viu perdida. As mãos se moviam
sobre os planos rígidos do torço largo em uma frenética antecipação do que
mais ele poderia lhe oferecer.
Talvez se arrependesse no dia seguinte… mas não tanto quanto se
arrependeria se interrompesse aquela noite agora.
Quando Connor recuou, ela estava ofegante. Faminta. Desesperada.
Dessa vez, o meio-sorriso elusivo não estava presente. Ele deixou escapar
um suspiro lento. Os cílios pareciam baixar mais a cada segundo até os
olhos escuros se transformarem em profundezas insondáveis que a fizeram
imaginar se, uma vez mergulhando nelas, seria capaz de voltar à tona.
– Oh, está bem – murmurou ele, como se tivesse chegado a alguma
conclusão íntima.
– Sim, está bem – sussurrou ela, anuindo. – Mas temos de ir para seu
quarto. Estou dividindo o meu com Tina e Jodie.
Só então Connor baixou a cabeça na direção dela. Depois de pressionar
um único e lento beijo em seus lábios, moveu a boca na direção da orelha
de Megan.
– Tenho uma ideia melhor ainda.
Um segundo depois, as mãos firmes se espalmaram em torno dos quadris
de Megan, e ela se viu atirada por sobre o ombro de Connor. O corpo
oscilando com as passadas largas e decididas. Deliciada com aquela
demonstração de homem das cavernas, ela soltou uma gargalhada,
exigindo uma explicação.
– Tenho um plano… – respondeu ele, confiante e animado. – Pelo
caminho eu lhe explico. Fica logo aqui à direita.
Capítulo 4

O RUÍDO abafado do chuveiro cessou, deixando apenas o silêncio no


bangalô. Connor olhou para fora, além do terraço do quarto e da piscina
particular de um azul-caribenho, tentando antecipar o que teria de encarar
quando a esposa emergisse de seu refúgio de vapor.
Megan se mantivera firme durante aqueles primeiros minutos de plena
conscientização, conseguindo até mesmo fazer alguns comentários jocosos
entre uma náusea e outra. Mas, tão logo se vira com forças suficientes para
ficar de pé sozinha, pedira-lhe um pouco de privacidade para tomar banho.
E desde então Connor estava esperando. Ouvindo a maçaneta da porta
do toalete se fechar. Refletindo sobre o único soluço abafado que ouvira
antes que o eco da água corrente dissipasse qualquer outro som. Juntando
o quebra-cabeça dos eventos, revelações e resoluções da noite anterior.
Tentando conciliá-los ao presente momento, naquela manhã.
Megan queria um advogado.
Aquele fora o único comentário definitivo que fizera em relação ao
casamento dos dois naqueles poucos e caóticos instantes que passaram
abrigados em seu refúgio de mármore e bronze. Sem dúvida, Megan não se
recordava com nitidez dos detalhes da noite anterior, assim como ele, mas
algo possessivo no íntimo de Connor rugia, ultrajado, diante de tal
pensamento.
Aquela mulher era sua esposa.
Casara-se com ele. E não apenas de brincadeira, mas porque reconhecera
o potencial entre os dois, da mesma forma que ele também percebera.
E, sim, o álcool talvez tivesse algum papel no imediatismo de seus atos,
mas a cada minuto os detalhes daquelas horas decisivas que passaram
juntos e da mulher com quem havia se casado aguçavam em sua mente,
reafirmando a confiança de Connor de insistir na decisão.
E, não, não lhe passou despercebida a ironia de que, após o fracasso de
sua abordagem paciente e metódica de encontrar uma esposa em Caro,
Megan havia caído em seu colo por acaso. Claro que ele teve de lhe vender a
ideia quando percebera sentido naquilo. Mas ele era um homem com um
talento especial para identificar oportunidades e com a habilidade
necessária para transmitir os benefícios de tais oportunidades aos outros.
Era capaz de avaliar uma situação e destrinchar os fatores essenciais, sem
esperar pela proverbial batida à sua porta ou o manual de instruções dos
quais muitas pessoas dependiam antes de tomarem decisões. E o que vira
em Megan lhe dissera que ela era o tipo de oportunidade que não deveria
desperdiçar.
Era impossível ignorar o fato de que os objetivos dos dois estavam muito
bem alinhados. A cronologia, perfeita. A abordagem prática, ideal. E ela
tivera o mesmo bom senso de perceber isso e concordar.
Megan se encaixava com perfeição em seus objetivos, portanto, não
estava preparado para reconhecer que cometera um erro. Pelo menos não
ainda, embora achasse que os próximos minutos seriam cruciais para
confirmar isso. Um ataque de histerismo, por exemplo, o faria rever sua
posição.
A maçaneta se abriu com um clique, e Connor se preparou para o que iria
se seguir. Porém, a visão de Megan, enxugada, recém-lavada e quase
soterrada pelo enorme robe felpudo, tentando afastar, com um gesto
hesitante, uma mecha de cabelos da testa, era algo para o qual não havia se
preparado.
Aquela mulher era linda.
E a firmeza com que ela lhe sustentava o olhar provava que não parecia
prestes a desmoronar. Ainda assim, a julgar pela linguagem corporal, não
parecia disposta a começar de onde pararam na noite anterior. Os braços
estavam cruzados com uma das mãos, segurando as lapelas do robe na
altura do pescoço, enquanto a outra envolvia a cintura. Uma postura alerta.
E fria.
Megan parecia forte, e aquilo lhe fez a pulsação acelerar tanto quanto a
visão daquelas sensuais unhas dos pés pintadas de cor-de-rosa, que
perscrutavam sob a bainha do enorme robe.
– Está se sentindo melhor? – perguntou ele, recostando um dos ombros à
porta de deslizar, em vez de ceder ao desejo de se aproximar. Queria que
ela se sentisse à vontade. E faria tudo para que aquilo acontecesse o mais
rápido possível.
– Sim, obrigada. – Limpando a garganta, ela relanceou o olhar ao redor
antes de focar a atenção nele mais uma vez. – Precisava disso. De alguns
minutos para organizar meus pensamentos. Mas me desculpe por tê-lo
feito esperar.
Conscienciosa. Ótimo.
– Sem problemas. Está sendo uma manhã interessante e acho que
começou um pouco mais rápido do que qualquer um de nós esperava.
As sobrancelhas de Megan se arquearam, e um longo suspiro lhe escapou
dos lábios.
– De fato, mas considerando nossa situação foi melhor assim. Temos
muito a fazer em um curto prazo. – Antes que ele tivesse a chance de
perguntar, aquele olhar firme se encheu de determinação, e o polegar de
Megan se ergueu como uma bala quando ela começou a relacionar nos
dedos da mão. – Portanto, precisaremos de um advogado que nos guie nos
trâmites legais envolvidos na concessão de uma anulação. Mas sou capaz de
apostar que a recepção do hotel tem ao menos alguma informação
superficial sobre essa questão, já que aqui é Las Vegas. Perguntarei quando
descer para fazer cópias de qualquer documentação que nos deram na…
capela?
Connor anuiu, linhas profundas lhe vincando a testa, enquanto ela
enumerava a lista de afazeres nos dedos.
Independente. Connor admirava aquilo… mas ela estava agindo na
direção errada. Megan contara quatro afazeres antes de ele se desencostar
da parede e lhe segurar a mão.
– Ei, vá com calma.
Megan prendeu a respiração e arregalou os olhos.
– Em quarto lugar está isto – disse ela, a voz se tornando mais baixa
enquanto agitava o dedo anular no confinamento da mão de Connor. – Sua
aliança. Temi tirá-la até que pudesse devolvê-la a você.
As linhas na testa de Connor se tornaram ainda mais profundas à medida
que ela deslizava a aliança de platina e diamante pelo dedo.
– Espere. Deixe-me ver como fica em sua mão. – Megan ergueu um olhar
questionador e cauteloso para encará-lo. – Fica ótimo em você. – Valera
cada um dos vários mil dólares que dera pela joia na noite anterior.
Megan anuiu. Os lábios se curvaram em uma apreciação silenciosa.
– O mais lindo anel que jamais vi. Gostaria de poder me lembrar do
quanto deve ter ficado incrível refletindo as luzes fluorescentes do toalete
da capela.
Connor deixou escapar uma risada abafada, brincando com a aliança no
dedo de Megan. Mas de repente estacou, não achando graça alguma
naquelas palavras.
Baixando o olhar à pequena ruga que abria caminho entre as
sobrancelhas de Megan, ele disse:
– Não se lembra de eu ter lhe comprado esse anel?
Megan engoliu em seco, e a ruga se aprofundou.
– Não pode sequer imaginar o quanto gostaria de me lembrar. Mas não
consigo. Na verdade, não… – Ela pareceu pensar melhor no que iria dizer e
se calou com um movimento negativo de cabeça. – Não importa.
Uma ova!
– Importa para mim. Lembra-se de quando a pedi em casamento?
– Não. – Nem um piscar de olhos ou um hesitar.
– E do casamento?
– Desculpe, não.
Connor a encarou. A mente presa à aparente impossibilidade do que
estava escutando. Sim, era óbvio que Megan se excedera na bebida. Ambos
o fizeram. Diabos! O álcool também havia lhe embotado a mente. Também
precisara de alguns minutos para que todos os detalhes da noite anterior se
encaixassem no lugar, apesar de ser muito maior e mais forte do que ela…
mas ter um apagão?
– Megan – começou ele, esforçando-se para disfarçar a ansiedade na voz.
– O quanto exatamente se lembra da noite anterior?
– Alguns momentos espaçados.
O alerta o atingiu como uma conflagração, e Connor esperou que ela
prosseguisse. Aguardou que Megan terminasse a frase com “parecem ter
sumido de minha mente”. Mas no instante seguinte a aliança foi retirada e
colocada na palma de sua mão, ficando escondia sob os dedos que Megan
lhe fechou com certa dificuldade. Enquanto ela o encarava, aquelas duas
piscinas azuis procuravam por algo… qualquer coisa talvez.
– Lembro-me de tê-lo visto no bar e pensado o quanto você era bonito.
Recordo-me de ter rido… muito e, em outro momento, conversar sobre
waffles, embora não me lembre em que contexto, exceto que você parecia
sério. Lembro-me de você sugerindo em tom de brincadeira que
escolhêssemos as estampas de nossa porcelana, mas não sei o que
respondi, mas recordo que não acreditei que você estivesse falando sério.
Não havia nenhum “talvez” entre nós. Simplesmente não parecia haver
dúvidas. – As bochechas do rosto de Megan adotaram uma coloração
rosada enquanto ela desviava o olhar. – Eu me lembro de estar ciente de
que deveria ir mais devagar, porque não costumo beber muito, mas pedir
outra rodada porque não queria pôr um fim àquela diversão. E também me
recordo de assinar meu nome na capela, pensando… Deus! Eu nem sei o
quê. Portanto, presumo que eu não estivesse pensando.
Perplexo, ele observou Megan virar de costas. O rubor ainda lhe corava o
rosto, embora ela mantivesse os ombros empertigados. O ar abandonou os
pulmões de Connor em uma exclamação grosseira enquanto ela afastava
com o pé as almofadas decorativas e as fronhas espalhadas pelo chão.
Não era de se admirar que Megan estivesse encarando aquele casamento
como uma lembrança descartável de Las Vegas. Aquela mulher tinha um
plano e não se recordava de nenhuma das razões que ele lhe dera para
alterá-lo. Droga! Ela não se lembrava dele. E ainda assim conseguia se
manter controlada, calma e focada o tempo todo.
Megan era forte. Durona.
Tudo de que ele necessitava.
Um dos cantos da boca de Megan se curvou.
– Acho que não sabe me informar onde posso encontrar meu vestido?
Imagens daquela peça justa e superfina de seda azul atingindo-lhe em
cheio o rosto lhe espocaram na mente. Mas onde o vestido aterrissara
depois não fora prioritário naquele momento como era agora.
– Megan, sinto muito. Se eu tivesse percebido, estaria lhe contando todos
os detalhes, tentando remontar a noite passada, explicando o que
aconteceu. Por que não me perguntou?

FECHANDO OS olhos, Megan inspirou profundamente.


Por quê? Porque os detalhes não eram importantes e ela poderia decifrar
os acontecimentos mais importantes sozinha. Aquele homem estonteante e
tranquilo a tentara com todas as coisas com as quais jurara se privar na
vida… a atenção de um homem atraente, a chance de ser completamente
espontânea, a indulgência de viver uma noite de excessos imprudentes que
ela nunca consideraria possível quando fosse responsável por outra pessoa.
Portanto, sua mente conservadora havia racionalizado aquela última
aventura. Estilo Las Vegas.
Talvez o fato de ter bloqueado o tempo que passaram juntos não
passasse de algum mecanismo de defesa.
Bastava olhar para aquele homem para acreditar que, o que quer que
tivesse acontecido entre os dois, poderia muito bem ter sido o tipo de
fenômeno do qual uma mulher adulta não conseguia se recuperar, e seu
subconsciente estava tentando protegê-la.
– Megan? – O tom barítono profundo e empostado a arrancou daqueles
pensamentos um segundo antes de o calor das mãos longas entrar em
contato com seus ombros, fazendo-a se sobressaltar. – Por quê?
– Não importa.
E então aquelas mesmas mãos a giravam, segurando-a com mais força.
– Está enganada. Acho que você não está entendendo. A noite de ontem
não foi apenas um erro crasso a ser corrigido esta manhã.
Megan pestanejou várias vezes, tentando desviar o olhar, mesmo
enquanto cambaleava cada vez mais para a intensidade daquelas
profundezas escuras dos olhos de Connor. Será que ele achava que algo
fazia sentido entre os dois? Acreditava que tinham algum potencial?
Não era aquilo que ela precisava ouvir.
– Tem de ser. – Megan não poderia investir em algo em potencial outra
vez. Não tinha tempo nem vontade para isso. – Eu tenho um plano.
Megan esperava que ele desse um passo atrás, perguntasse sobre o que
ela estava falando, mas, em vez disso, um dos cantos dos lábios de Connor
se ergueu com o mais sutil dos movimentos. Era como se de repente ele se
descobrisse em melhores condições do que esperava.
– Sim, mas meu plano é melhor. Até mesmo você concordou.
Então, ela lhe contara?
Megan inclinou o queixo para trás ao sentir o golpe da autotraição e
praguejou contra seu subconsciente.
Não existia mais nada inviolável?
Imagens das risadas lhe vieram à mente em uma onda nauseante, e
Megan não pôde evitar se perguntar se todos os seus objetivos e propósitos
não haviam sido motivo de piada. Porém, ao olhar nos olhos de Connor,
alguma parte instintiva de seu ser soube que aquilo não era verdade.
Então do que se tratava…
– Oh, meu Deus! – A garganta de Megan se fechou, tentando estrangular
as palavras que ela não queria dizer. – Você se voluntariou para ser meu
doador de sêmen?
Connor era alto, lindo e desprovido de qualquer doença infecciosa
aparente.
– Não. – A testa já franzida de Connor se enrugou ainda mais,
obscurecendo qualquer chance remota que ela possuísse de tentar
interpretar um homem que, para começar, não era exatamente um livro
aberto. – Não do jeito que está pensando.
Não do jeito que ela estava pensando? Então, de que jeito?, pensou ela,
experimentando uma nova onda de pânico.
O olhar de Megan baixou ao dedo desprovido da aliança que ela retirara.
Então, talvez não se tratasse de uma simples doação. As doações eram
livres de qualquer vínculo, e aquele homem a prendera com algo realmente
significativo.
Connor queria reivindicar direitos sobre seu bebê.
De repente, a respiração de Megan saía mais acelerada do que deveria, e
o ar que entrava e saía de seus pulmões parecia ralo e inútil.
– Espere. Não sei o que está pensando, mas posso perceber por sua
expressão que está enganada. Deixe-me explicar.
– Você é homossexual. – Por que outro motivo um homem com aquela
aparência estaria com ela?
– Uh… – Aquele sorriso torto estava de volta, e Megan soube que estava
certa.
– Está bem. Então, não quer que seus pais saibam? Precisa de um
herdeiro ou algo parecido para manter seu fundo patrimonial?
– Não… uh… eu… uh…
Com movimento negativo de cabeça, ela fechou os olhos.
– Ouça, Carter, seja o que for, não importa. Qualquer que tenha sido o
trato que fechamos ontem à noite, está anulado.
Na noite anterior, ela estivera altamente embriagada. Mesmo que tivesse
assinado uma dúzia de documentos, não teriam valor algum. Poderia
escapar daquela situação, a menos que…
Os olhos azuis se arregalaram enquanto ela o encarava, horrorizada.
– Você tentou… me engravidar… ontem à noite?
Connor tossiu, a expressão divertida se metamorfoseando em choque,
confusão e algo que Megan se recusava terminantemente a acreditar ser
sentimento de culpa, não importava o quanto parecesse com isso.
Megan o viu erguer a mão, mas não se importava se ele precisava de um
tempo para inventar uma história ou para construir sua defesa. Girando
nos calcanhares, ela cruzou os braços sobre o abdome, nauseada com a
consciência do que fizera.
– De todas as coisas estúpidas, autossabotadoras e perigosas…
– Megan. – O nome soou com partes iguais de súplica e risada.
O que ela fizera? Mesmo que não estivesse grávida, fizera sexo sem
proteção com um homem que ela não conhecia.
… com o próximo desconhecido que encontrar…
Megan sentiu o estômago revirar.
– Ele poderia ter uma doença sexualmente transmissível. – Ela ofegou, a
ansiedade dando voz ao pensamento, antes que pudesse se conter.
– Megan. – Dessa vez a voz pareceu tensa. Era como se ele estivesse
perdendo a paciência.
Complicado. O que quer que ele estivesse pensando, teria de esperar,
pensou Megan. Tinha preocupações maiores do que se incomodar com a
paciência de Connor. Mesmo que não estivesse grávida ou infectada, ainda
teria de postergar seu plano por mais seis meses para garantir que não
tivesse contraído nenhuma doença sexualmente transmissível.
– Droga, Megan, olhe para mim. – Aquelas mãos estavam nela outra vez,
girando-a e segurando-a no lugar, enquanto ele a encarava. – Um. – Ele a
soltou para erguer o polegar. – Não tenho nenhuma doença sexualmente
transmissível. Sempre uso preservativo e logo após ter terminado meu
relacionamento fiz exames apenas para garantir. Dois. – O dedo indicador
longo foi o próximo a se erguer. – Não existe nenhum fundo patrimonial,
nem testamenteiro a satisfazer. Cada centavo que tenho, ganhei com meu
próprio esforço. Três. De onde diabos tirou isso? – Outro dedo se ergueu. –
Quatro. Não me casei com você para colocar as mãos no seu bebê. Casei-me
porque temos objetivos, prioridades e expectativas semelhantes… e, droga,
me casei porque gostei muito de você.
Megan negou com a cabeça, procurando aqueles olhos incríveis.
– Mas isso não faz sentido…
Connor dispensou o comentário com um gesto de mão.
– E cinco. Não tentei de forma alguma engravidá-la ontem à noite. Não
fizemos sexo.
Megan sentiu o queixo cair.
Connor era muito gay.
E por que aquela revelação a atingiu como um desapontamento quando
deveria estar dando saltos de alegria, ela não sabia explicar. Teria de lidar
com isso mais tarde.
Mas aqueles lampejos confusos de memória lá estavam outra vez,
erguendo-se com uma risada vitoriosa diante de um pensamento que
deveria suscitar ultraje.
– Mas eu estava nua – desafiou ela, recordando que tropeçara
literalmente sobre sua calcinha e camiseta indecente a caminho do toalete.
Um golpe de sorte, levando em consideração a velocidade com que Connor
a seguira.
Nua e devolvendo todo o conteúdo do estômago seria um cenário
degradante que ela não queria contemplar.
– Sim, mas eu não disse que nada aconteceu. – E, com essa concessão, os
olhos escuros traçaram um caminho ardente pelo corpo de Megan,
deixando-a com a sensação de que aquele robe gigantesco era invisível. Ele
a vira antes e agora a estava vendo outra vez.
– Connor!
Impenitente, ele lhe encontrou o olhar.
– Deus! Adoro quando você acerta o meu nome.
– Espere… o quê?
– Repita.
– Está bem. – Ela engoliu em seco. Acredito em você. Talvez não seja
mesmo gay.
“Definitivamente” seria a palavra certa, assim como definitivamente não
deveria ter tocado no assunto “sexo”. Porque agora aqueles olhos ilegíveis
não estavam mais tão indecifráveis. Encontravam-se repletos com algum
tipo de ardor predatório e possessivo… e cravados nela.
– Eu poderia convencê-la disso. Passar as próximas duas horas
sustentando minha argumentação. – Inclinando-se na direção dela,
acrescentou: – Sou um homem muito convincente quando me proponho a
isso.
– Connor – disse ela em tom de advertência, tentando não ceder à risada
que ameaçava escapar de sua garganta. Deveria estar aterrorizada.
Traumatizada. Então, por que logo após ter tomado a pior decisão de sua
vida, as provocações e insinuações totalmente inadequadas daquele
homem a estavam fazendo se sentir segura?
Como se tivesse lhe pressentido a tensão relaxar, algo mudou no homem
à sua frente. A brincadeira e a insinuação postas de lado. Connor se
mostrou totalmente sério, e a profunda sensibilidade de Megan à mudança
de humor dele era mais desconcertante do que ter acordado ao lado de um
estranho.
– A razão pela qual não fizemos sexo ontem à noite foi porque em um
momento você se encontrava risonha, sexy e envolvida. E no outro
começou a passar mal. Portanto, em vez de levá-la para a cama para fazer
sexo eu a coloquei para dormir. Simples.
Simples. De alguma forma, Megan não concordava com isso.
Connor lhe segurou a mão.
– Eu deveria ter percebido o quanto você havia bebido. Deveria ter nos
feito parar antes.
– Sou uma mulher adulta e com mais bom senso do que isso. Eu deveria
ter me feito parar. Óbvio. – Megan inspirou lentamente e pressionou as
mãos contra as têmporas latejantes. – Veja onde isso me levou.
– A se casar… – A palma quente de Connor lhe tocou a lateral do rosto
enquanto os olhos escuros procuravam os dela. Nenhuma insinuação do
sorriso elusivo. – … com um homem que é a melhor alternativa que poderia
conseguir para seu plano. E você nem ao menos se lembra por quê.
– Mas você se lembra? – perguntou ela, as palavras calmas soando muito
sinceras para o tom sarcástico pretendido.
De repente, Megan desejou ver de volta aquele sorriso malicioso que
insinuava apenas metade da história. Porque aquela franca intensidade que
gravitava na atmosfera entre os dois, pulsando contra sua pele como se
quisesse penetrá-la, era quase insuportável.
Connor era um estranho. Porém, aquele estranho a olhava nos olhos
como se soubesse exatamente quem ela era.
– Mais a cada minuto.
Capítulo 5

OS LÁBIOS de Megan estavam entreabertos, convidando-o a roçar o polegar


naqueles contornos carnudos. Mas Megan não se lembrava dele. Isso
significava que, embora ela tivesse feito seus votos, assinado o nome,
colocado a aliança que ele lhe dera e se abandonado em seus braços na
noite anterior… naquela manhã, Megan não mais lhe pertencia.
Connor era capaz de entender.
Porém, quando Megan o olhava nos olhos da forma como estava fazendo
naquele momento, com a respiração levemente alterada e a coloração que a
manhã lhe subtraíra de volta ao rosto, se parecia muito com quem ela
realmente era.
Era como se de certo modo soubesse o que eles haviam compartilhado e
quisesse vivenciar aquilo outra vez.
Connor poderia lhe mostrar como foi. Beijá-la até que ambos perdessem
os sentidos e ela estivesse suplicando como fizera…
Megan prendeu a respiração.
– Acho melhor eu tentar encontrar meu vestido.
Ou ele podia esperar. Droga!
Recuando, Connor enfiou as mãos nos bolsos da calça.
Aqueles enormes olhos azuis vagueavam outra vez, escaneando o quarto
como se pudesse encontrar salvação em algum canto escuro. Porém, em
seguida, se iluminaram ao mesmo tempo que um pequeno guincho lhe
escapou da garganta e Connor concluiu que ela havia encontrado o vestido.
– Graças a Deus! Acho que mereço a vergonha de ter de sair do quarto do
amante com a roupa da noite anterior, mas, sinceramente, não queria ter de
fazer isso de robe.
Mais uma vez, Connor sentiu um sorriso lhe repuxar os lábios. Aquela
mulher tinha um senso de humor que o agradava.
– Vergonha? Acho que isso não se aplica a uma mulher casada.
Connor a viu se encolher diante das palavras que ele estivera
saboreando.
Não as considerou ruins, amargas ou totalmente descabidas e se
perguntou se aquele não seria um gosto ao qual estava começando a se
acostumar. Algo a encorajá-la a tentar.
Megan mordeu de leve o lábio inferior.
– Levando em consideração a aparência desse vestido, isso
definitivamente se aplica a mim.
Por mais sexy e harmônica que tivesse parecido quando colada àquelas
belas curvas na noite anterior, a peça amarrotada parecia quase um trapo
naquela manhã.
– Posso telefonar para a recepção e pedir que lhe enviem outro…
Megan quase se engastou.
– Espere. Não faça isso… usarei uma de suas camisas ou algo do tipo.
– Gosto… e muito… da ideia de vê-la envolvida em uma das minhas
camisas. Mas primeiro vamos tomar o café da manhã.
Dessa vez, foi Megan a se descobrir sem palavras, e Connor saboreou
aquilo pelo segundo e meio que demorou para que ela encontrasse uma
nova desculpa.
– Não posso ficar para o café da manhã. Tenho um casamento hoje. Real.
Connor enrijeceu.
– Ao contrário do irreal, embora calcado na lei, da noite anterior.
Duas poças azuis penitentes se voltaram para ele.
– Quis apenas dizer que…
Connor ergueu uma das mãos, dispensando o pedido de desculpas.
– Sei o que quis dizer. Um casamento planejado. E você está aterrorizada
e mais do que desesperada para sair daqui e colocar os pensamentos em
ordem. Mas nós estamos casados. Precisamos discutir o assunto. Você tem
muitas horas antes do casamento de Gail. Vamos comer alguma coisa para
que seu estômago se acalme e depois conversar. Chamemos isso de um
encontro para conhecer melhor seu marido, certo? – E diante da hesitação
de Megan. – Ora, vamos, você é muito controladora para não ter nenhuma
pergunta.
O olhar de Megan dizia tudo. Tinha um milhão de perguntas a fazer. Mas
havia mais do que curiosidade naquelas profundezas cristalinas. Havia
medo também. Como se de alguma forma temesse o que iria escutar.
– Ora, Megan, não posso ser tão ruim assim.
– Não o acho ruim. Estou apenas confusa, chocada e… – Ela empertigou
os ombros. – Não estou certa de que qualquer tentativa de conhecê-lo
melhor faça muito sentido, levando tudo em consideração.
Levando tudo em consideração.
Uma insinuação aos advogados outra vez. Divórcio.
Connor inclinou a mandíbula para a esquerda e cruzou os braços, fixando
um olhar severo à mulher com quem se casara na noite anterior.
Sem dúvida, um divórcio seria a solução mais simples.
Poderia deixá-la ir. Colocar alguns advogados trabalhando naquela
questão e resolver tudo de forma rápida e tranquila.
Megan não se lembrava dele. De ambos como casal.
Portanto, pareceria que toda aquela situação nunca acontecera.
Porém, ele se lembrava. Ele teria o conhecimento.
Dando de ombros, Connor fingiu indiferença enquanto retirava um ás da
manga.
– Sim. Provavelmente tem razão. Além disso, se precisar conversar, estou
certo de que Jodie e Tina ficarão felizes em lhe emprestar seus ouvidos.
Você tem o quê? Quatro horas sobrando antes que as duas se distraiam
com o casamento?
O olhar perplexo de Megan disparou na direção dele.
– Elas sabem?
Ah, sim, sua esposa não iria a lugar algum. Ao menos não tão cedo.
– Elas sabem que nós saímos juntos do bar. E que você não retornou à
suíte que está dividindo com as duas. Portanto, eu diria que suas amigas
sabem o suficiente para me tornar o menor dos males que você possui esta
manhã.
– O menor dos males que você possui? – As sobrancelhas de Megan
arquearam com a insinuação do sorriso e da risada que os colocaram
naquele caos. – Você sabe se valorizar.
Connor desejou-a ainda mais.
– Não preciso disso – retrucou ele, cruzando o quarto. – Não quando a
concorrência são aquelas duas.
O olhar de Megan se estreitou enquanto o seguia.
– Está bem. Você venceu. Vamos brincar de conhecê-lo melhor.
Connor se esforçou ao máximo para frear o sorriso vitorioso que tentava
lhe curvar os lábios e abriu a porta do quarto.
A suíte master ficava localizada na extremidade do corredor do segundo
andar, com vista para a área de estar, onde o mármore e o vidro faiscavam
em contraste com os tecidos em tons de pedras preciosas, a madeira
esculpida de forma elaborada e as paredes revestidas de seda.
Os passos de Megan vacilaram. O choque estampado no rosto ainda mais
divertido do que na noite anterior.
– Muito bem. A primeira coisa que deve saber sobre mim…
– Uh-huh, sim?
– É que não quero me divorciar.

– QUER DAR uma chance ao casamento? – Megan perguntou, chocada com a


insanidade daquela sugestão, atirada ao acaso, enquanto ele examinava um
lauto café da manhã posto na sala de jantar. – Você é louco.
Erguendo o olhar da xícara de café com uma camada generosa de creme
que mexia com uma colher, Connor sorriu.
– Foi exatamente o que disse na noite anterior. Claro que juntamente
com muitos “sim, por favor” sussurrados antes do “você é louco”.
Megan revirou os olhos. Podia apenas imaginar aquelas circunstâncias.
Não queria evocar aquelas imagens, mas não conseguia se controlar. Na
verdade, toda vez que seu olhar encontrava aqueles lábios
pecaminosamente cativantes… começava a imaginar tudo outra vez.
Imaginar, não recordar.
– Ontem à noite quarenta por cento de mim era álcool. Portanto, isso não
conta.
Mais uma vez, ele deu de ombros.
– Para mim, conta. E, se você se sentar e comer alguma coisa, vou lhe
explicar por que conta para você também.
Entregando-lhe o café, Connor gesticulou com a cabeça na direção da
bandeja com doces, pães, frutas e queijos que ele trouxera para a mesa. –
Acredite, você precisa colocar alguma coisa no estômago primeiro.
Connor escolheu um croissant e colocou-o em um prato de porcelana
com um pequeno pote de cerâmica com manteiga e outro com geleia.
Acrescentou um garfo de prata e o empurrou na direção dela.
– Coma.
Megan olhou para aquele conjunto, cautelosa, não muito disposta a
comer nada depois da forma como aquela manhã começara.
Sentia-se nervosa. Frustrada. E levemente preocupada com o aparente
compromisso de Connor com aquele erro monumental.
Não conseguia entender. Ele não queria o divórcio. Aquilo não fazia
sentido.
– Você não me conhece – começou ela, movimentando lentamente a
cabeça em negativa. – Mesmo que eu tenha falado sem parar desde o
instante em que nos conhecemos até minha pequena peregrinação ao
santuário do toalete… não seria possível você me conhecer. Minhas crenças,
problemas emocionais e defeitos.
Connor deixou escapar um suspiro pesado e lhe encontrou o olhar.
– Sei que quer uma família convencional e que, embora se afeiçoe aos
homens que namora, nunca se apaixonou de fato. Assim como eu. Aquele
conto de fadas pelo qual as pessoas anseiam não faz parte do seu cenário.
Sei que está cansada de se tornar vulnerável, esperando que a cada vez as
coisas terminem de maneira diferente. E também sei que acabou por
concluir que o que de fato deseja é ter um filho e que não precisa de um
marido para isso.
Muito bem. Talvez ele a conhecesse um pouco.
Megan se reclinou para trás na cadeira, observando aquele estranho
esticar o braço na direção de seu prato, pegar o croissant, besuntá-lo de
manteiga. Em seguida, como se não tivesse acabado de relatar seus mais
profundos segredos e maiores fracassos, ofereceu-o a ela.
– Coma enquanto esclareço algumas coisas entre nós. – Hesitante, Megan
deu a primeira mordida no pão, permitindo que a massa leve e
amanteigada se dissolvesse na língua. – Para sua informação, há algum
tempo venho querendo me casar. Mas, ao contrário do que as evidências
possam sugerir, o casamento não é algo que encaro de maneira negligente
ou no qual mergulharia sem uma prévia e séria consideração. – Quando
Megan abriu a boca para contra-argumentar aquela última afirmação, ele a
impediu, erguendo uma das mãos. – O casamento é a base da família, e eu
quero que a minha seja sólida e robusta. Quero, para meus filhos e para nós
também, a segurança de saber que esse casamento não vai se desmoronar
diante de alguma carência, crise emocional ou caprichos de um coração
inconstante. Portanto, estava esperando por uma mulher que tenha
prioridades específicas. – Connor franziu a testa, baixou o olhar à mesa e,
em seguida, voltou a encará-la com expressão perceptiva. – Antes que
pense que ontem à noite eu estava em busca de sexo ou pescando uma
esposa, quero que saiba que não se tratava disso. Não tinha nenhuma
intenção, além de desfrutar dos bons momentos que estávamos tendo. E de
repente percebi que você era a mulher certa.
– Certa. – Aquele comentário carregava um grande peso. Maior do que o
que Megan esperara suportar naquela viagem a Las Vegas.
– Sim. Agora, deixe-me explicar como respeito seu plano de priorizar um
filho em detrimento do instinto de encontrar um homem. – Megan engoliu
em seco. Uau! Se ela lhe dissera aquilo, então realmente lhe contara tudo. –
A construção de um relacionamento leva tempo. Se você tiver um filho, não
estará dedicando esse tempo a ele. E se essa relação se tornar séria? –
perguntou Connor, passando manteiga em outro pedaço de croissant. –
Você apresenta a pequena Megan ao homem e depois as coisas entre vocês
não dão certo. Nesse caso, não será só você a se decepcionar, mas também a
criança. Além disso, há toda aquela crise emocional pós-separação com que
lidar. Muito desagradável para uma mãe solteira e para o pequeno ser que
vive em sintonia com seus sentimentos mais do que qualquer outra pessoa
no planeta. O fato de não querer esse tipo de gangorra emocional para seu
filho fala muito sobre que tipo de pessoa você é. E, como disse antes,
respeito isso.
Connor falava em tom casual, parecendo à vontade, mas ainda assim
refletia uma intensidade enquanto lançava luz sobre aquela perspectiva de
seu plano, demonstrando um nível de empatia que Megan não esperava.
Uma parte dela queria perguntar sobre o passado de Connor. Saber sobre
seus pais. Assuntos que imaginava se haviam discutido na noite anterior.
Porém, aquilo abriria mais portas, e ela já se encontrava confusa o
suficiente. Não precisava acrescentar imagens daquele homem poderoso
parecendo uma criança vulnerável ao caos que se encontrava sua mente.
Connor esticou o braço para lhe oferecer o próximo pedaço de croissant,
e ela lhe segurou o punho.
– Não entendo. Se respeita tanto o meu plano, por que acabamos
casados?
Os olhos escuros prenderam os dela.
– Porque o que lhe ofereci foi o melhor desses dois universos, sem o risco
de acontecer o pior.
– Como assim?
– É simples. O que há entre nós não se baseia em amor.
Megan empinou o queixo enquanto absorvia aquelas palavras. Sentiu-as
desabar sobre ela com o mesmo espectro de familiaridade intermitente que
sentia em relação a Connor, desde que acordara naquela manhã. Porém,
dessa vez, algo não lhe parecia confortador. Era quase como se uma peça do
quebra-cabeça do episódio que não conseguia lembrar tivesse sido
colocada ao contrário e não se encaixasse.
Talvez aquele não fosse o tipo de coisa que esperava ouvir de Connor,
embora não soubesse por quê. Certamente não acreditara que o homem
que se casara com ela em uma questão de horas após se conhecerem
tivesse se apaixonado. E por falar em loucura… Ainda assim, de alguma
forma, ouvi-lo dizer aquilo a deixou… confusa.
– Se não se trata de amor, o que é então?
Connor exibiu um sorriso de satisfação.
– De todos os componentes vitais que fazem um relacionamento dar
certo, sem nenhum tipo de caos emocional para miná-lo. Trata-se de
respeito, afeto e compromisso. De compartilhar objetivos e prioridades em
comum. De tratar o casamento como uma sociedade em vez de uma
fantasia romântica. Trata-se de duas pessoas gostando uma da outra.
Gostando uma da outra. O que aquele homem estava sugerindo era o que
ela tivera na maioria de seus relacionamentos. Com uma grande diferença.
Em suas ex-relações, nem ela nem o homem que estava namorando
acreditavam que aquilo fosse o suficiente. Enquanto com Connor…
– Então, está dizendo que tudo gira em torno das expectativas. Se as
limitarmos, ninguém ficará desapontado.
– Se as aceitarmos – corrigiu ele. – Porque essas expectativas nos são
convenientes.
Megan anuiu.
– Uma sociedade – repetiu aquelas palavras lentamente.
Claro que aquele homem não desejaria mais nada dela.
Connor franziu a testa quando a olhou nos olhos.
– Não estou me referindo a um relacionamento sem nenhum afeto e sim
sobre a construção de uma amizade. Sem transformar isso em algo que
nenhum de nós seja capaz de oferecer.
– Se uma amizade é o que tem em mente, certamente deve ter centenas
de opções. Mulheres a quem conheça mais. Em quem confie mais. Mulheres
que desejem isso.
Connor a encarou por um instante, medindo as palavras, antes de
proferi-las.
– Mas eu quero você. A verdade é que não há outra mulher que eu
conheça mais. Ao menos não no que se refere às crenças e às prioridades
essenciais. Você não tinha um motivo oculto quando nos conhecemos. Não
sabia quem eu era, o que eu possuía ou o que eu desejava. Na verdade,
desde o início, a coisa mais consistente em você tem sido sua inabalável
sinceridade, mesmo quando não serve aos seus propósitos. Conheci uma
parte de você que não quer um relacionamento. Gostei do que encontrei em
você. A independência. O humor sagaz. A risada fácil e a conversa
inteligente. A autenticidade. Claro que os fatos passados que a fizeram a
mulher que é hoje ainda são um mistério, mas o que você quer, quem é e
como nos demos bem… essas coisas eu sei. E me agradam.
Megan engoliu em seco.
– Por causa da noite de ontem.
Aquilo não lhe parecia o suficiente.
– Da noite de ontem, desta manhã. Até mesmo deste minuto. Gosto do
que estou vendo.
– Mas mesmo que eu seja o tipo de mulher que está procurando…
– A mulher.
Megan anuiu, sentindo-se mais insegura do que ficara quando acordara
sem nenhuma lembrança da noite anterior.
– O que o torna o homem certo para mim?
– Posso cuidar de você.
– Posso cuidar de mim mesma.
– Eu sei – retrucou ele com aquela insinuação de sorriso outra vez. – Essa
é uma das muitas coisas que aprecio em você. Sua independência e
autossuficiência. Sua felicidade não dependerá da quantidade de atenção
que eu possa lhe dispensar a cada semana. Sendo capaz como você é, minha
ajuda lhe permitiria ser mais do que uma mãe solteira com uma única
renda. Casada comigo, poderá ser mãe em tempo integral em vez de uma
escrava do mercado do trabalho. Poderá trabalhar ou não, o que preferir.
Tenho empregadas domésticas, portanto, suas horas livres não serão
esfregando rejunte. Meu trabalho requer viagens frequentes. Você e nossos
filhos seriam encorajados a me acompanhar. Teria a oportunidade de
conhecer o mundo e pessoas novas. Haveria muito pouco, senão nada,
exigindo seu tempo, a não ser algumas expectativas que tenho em relação à
minha esposa.
Megan sentiu a tensão nos músculos dos ombros.
– Que expectativas?
– Na minha área há uma parte social importante, e gostaria de uma
esposa que me ajudasse a equilibrar as conversas. Que fizesse o papel de
anfitriã e me acompanhasse nos compromissos que surgissem. Jantares,
festas, eventos beneficentes. Não mais do que umas duas vezes por semana.
Mas nossos filhos, quantos você desejar, estarão sempre em primeiro lugar.
Eles terão de ser sua prioridade. E, por fim, estou me referindo ao respeito
mútuo aos nossos votos de casamento.
Megan entendeu a que ele estava se referindo.
– Fidelidade.
– Fidelidade.
Não era nenhuma surpresa Connor não ser o tipo de homem que
suportava de maneira passiva o fato de a esposa se divertir com o treinador
do golfe do clube, mas daí ele ser fiel…
Os olhos de Megan vagaram para a mão com que segurava o pulso de
Connor. Ela o estivera tocando aquele tempo todo, e, ainda assim, aquela
era a primeira vez que se dava conta da suave corrente de eletricidade
entre os dois. Encontrando os olhos escuros, pôde ver naquelas
profundidades a resposta evidente àquele contato.
E prendeu a respiração.
– Não se sentirá sozinha comigo. Sei que o que estou sugerindo não está
dentro dos padrões da normalidade. Não se trata de um namoro tradicional
e de uma promessa de amor. Mas também não somos as pessoas mais
tradicionais do mundo. – Girando o punho, ele lhe segurou a mão. – Temos
algo muito bom. Tudo que estou pedindo é que dê uma chance a isso.
Uma chance.
Megan acreditava que aquilo poderia ser bom. Isso era parte do
problema. Porque seria difícil perder algo bom.
E já perdera tantas vezes. Aquele fora o motivo pelo qual traçara seu
plano. Não queria mais esperar por sua cara metade. Ansiar por algo que
jamais chegaria.
Mas com Connor o amor não fazia parte da equação. Tudo que ele
desejava era uma parceira. Alguém que compreendesse suas prioridades da
mesma forma que ele entendia as dela.
Connor desejava ser o pai dos filhos que eles tivessem.
Quantos ela quisesse.
Megan sempre sonhara com uma casa cheia de crianças. Porém, quando
se decidira por seu plano, aceitara que havia toda a probabilidade de só ter
uma. E se convencera de que seria suficiente.
Mas o que Connor estava lhe oferecendo não se tratava apenas do
suficiente. Estava propondo mais do que ela acreditara ser capaz de sonhar.
Ainda assim, havia um risco, por menor que fosse.
E se ela se apegasse… àquela família, como preferiu pensar, e ele
mudasse de ideia? E a deixasse.
Não poderia passar por isso outra vez.
– Preciso pensar – respondeu Megan, erguendo-se da mesa e
caminhando na direção das portas de vidro, onde o sol brilhava, brutal e
belo, sobre o oásis particular dos dois. Aproximando-se por trás, Connor
pousou as mãos em seus ombros, pressionando os polegares nos músculos
principais de cada lado da espinha. Uma parte de Megan desejava se soltar,
pedir para que lhe desse o espaço que ela pedira. Mas outra grande parte
dela reconheceu aquele gesto como um exemplo do apoio que Connor
estava lhe oferecendo. Uma lembrança sutil de que ela não estaria sozinha.
– Eu entendo. Pode acreditar. Você não lembra, e é assustador confiar
apenas em minha palavra em relação a algo tão importante.
E então não era apenas o toque daquelas mãos que Megan estava
experimentando, mas a pressão do corpo musculoso contra o dela. O
queixo de Connor pousado sobre o topo de sua cabeça, o peito rígido colado
às suas costas, enquanto ele continuava a massageá-la próximo ao pescoço.
E tudo em que Megan conseguia pensar era no quanto aquilo parecia certo.
– Portanto, não estou lhe pedindo para acreditar em mim agora. Mas sim
em si mesma.
Megan girou no círculo seguro daqueles braços fortes. As mãos pousando
nos planos perfeitos do peito largo, como se fosse a coisa mais natural do
mundo.
– Acreditar em mim?
As juntas dos dedos longos lhe roçaram a têmpora em um toque suave e
etéreo.
– Casou-se comigo. Não quer descobrir por quê?
Capítulo 6

MEGAN CONCORDARA.
Connor mal conseguia acreditar naquilo. E, sim, ainda não ganhara a
guerra. Havia vencido apenas uma modesta batalha, mas Megan passaria o
dia com ele, dando-lhe a chance de convencê-la de que os dois faziam
sentido juntos.
Isso significava que ele teria de ir ao casamento de Gail. Felizmente, a
distribuição das mesas do estilo Las Vegas tinha mais a ver com quem havia
chegado ao salão primeiro do que ser sorteado com a mesa próxima à
cozinha.
Servindo outra xícara de café para si mesmo e um copo de suco para
Megan, não pôde evitar escutar a conversa dela com Gail. Ela mal havia
cumprimentado a prima quando o silêncio suspeito que sucedeu os
cumprimentos, seguido por um gaguejar e mais instantes de silêncio,
confirmou o que ele soubera desde o início. Jodie e Tina haviam espalhado
a novidade, provavelmente desde a saída de Megan do bar, na noite
anterior.
– De fato fiquei com ele… Claro que estou bem, mas isso não é… Gail, hoje
é o dia do seu casamento… Sim, ele é muito bonito.
Aquela era a diferença entre os homens e as mulheres. Quando passara
uma mensagem de texto para Jeff, informando-o de que algo surgira e só
entraria em contato com ele na semana seguinte, o amigo lhe respondera
com duas palavras: Até mais. Fim de discussão. Certamente, Jeff não teria
sido tão conciso se tivesse lhe informado que o “algo” em questão se
tratava de uma troca de votos de casamento, seguido por uma crise aguda
de amnésia… mas isso não vinha ao caso.
– Sei que não costumo agir assim… Não! Não teve nenhuma droga
envolvida… Pare com isso! Gail, hoje é seu dia. Quando devo chegar para
ajudá-la?
Pousando o copo de suco ao lado dela, Connor roçou o polegar em seu
ombro para se certificar de que Megan notara.
Em seguida, envolvendo-lhe a base da espinha com uma das mãos, ele se
inclinou na direção da orelha de Megan.
– Se precisar de mais alguma coisa é só me dizer.
Os olhos azuis se encontravam arregalados quando ela se voltou para
encará-lo, e uma onda de pura satisfação masculina o atingiu diante do
evidente impacto que suas ações provocaram.
Megan queria ser convencida.
– Espere, o quê? – perguntou ela, a atenção se voltando imediatamente
para a ligação. – Não quer que eu…?
Connor ergueu o olhar, curioso.
– Por causa de Jodie e Tina. Certo… Não, tudo é válido para fazer este dia
perfeito para você.
Megan soava indecisa, mas resignada.
– Bem, vejo-a na limusine, então. E, Gail… poderia enviar meu vestido de
dama de honra para cá?
Após informar mais alguns detalhes, Megan desligou e estampou um
sorriso hesitante no rosto.
– Boas notícias. Temos mais algumas horas para nos conhecer melhor.
– É mesmo?
– Gail não quer ter de lidar com Jodie e Tina enquanto estiver se
arrumando e não posso ir sem que as duas também estejam presentes,
portanto vamos nos encontrar todas na limusine na hora de ir para a igreja.
– Venha cá – disse ele, dando palmadas leves no estofado ao lado dele.
Megan cruzou a sala até onde ele estava com um sorriso nervoso a lhe
curvar os lábios e a apreensão se refletindo no olhar.
Boas notícias uma ova! Ela estava à beira de um ataque de nervos.
Segurando-lhe a mão, Connor a puxou para que se sentasse a seu lado,
deixando espaço entre a curvatura de seu joelho e o quadril de Megan, mas
mantendo uma pressão leve nos dedos delicados.
– Ouça, vamos esquecer todas as razões pelas quais sou uma escolha
perfeita para marido e relaxar. Conversar.
Os olhos azuis se estreitaram nos lábios de Connor, enquanto ela recuava
com o mais sutil dos movimentos.
– Por que tenho a sensação de que você está prestes a me vender algum
tipo de óleo de cobra?
Connor não lhe soltou os dedos. Ao contrário, aumentou a pressão com
que os segurava, puxando-a de volta.
– Porque você é um pouco pessimista. Agora, pare com isso. Você não
lembra, mas se há algo que fazemos muito bem… é conversar. Sobre
qualquer assunto.
Para provar o que estava dizendo, Connor ergueu um dos jornais
entregues junto com o café da manhã e o atirou sobre o colo de Megan.
– Portanto, vamos começar. Leia as manchetes e depois me diga a
primeira coisa que vier em sua mente.

– VOCÊ É muito trapaceiro – acusou Megan, a risada não impedindo que ela
golpeasse o peito de Connor com o dedo.
Dedo esse que ele utilizou para a rebocá-la da posição de joelhos em que
se encontrava. E de repente Megan se viu presa entre o corpo meio
esparramado de Connor e o encosto do sofá. Mais uma vez.
E, mais uma vez, Megan espalmou uma das mãos no centro do peito largo
e se levantou, recusando-se a admitir como era tentador simplesmente
ficar ali.
Connor fez um movimento negativo com a cabeça, o semblante
esbanjando inocência fingida.
– Trapaceiro? Estamos conversando.
Megan lhe dirigiu um olhar cético, não acreditando nem por um segundo
naqueles olhos arregalados que tentavam vender uma pureza inexistente.
O fato de Connor sequer tentar, sendo dono de uma boca como aquela, era
demais para suportar.
– Claro que estamos. Conversando sobre nossas opiniões sobre
educação. Um tópico sobre o qual temos pontos de vista extremamente
similares.
Outro sorriso oblíquo curvou aqueles lábios sensuais.
– Eu gostaria que nossos filhos vivessem em casa e frequentassem
escolas particulares. E você concorda. Qual é o problema?
– Mmm-hum. E, antes da questão da educação, os esportes radicais. Um
assunto interessante para se tirar do nada. E coincidentemente você seria
da mesma opinião que riscos dessa natureza estariam fora de questão
quando uma criança entrar no cenário.
– Eu lhe disse. Temos muita coisa em comum.
– Sim, e você as colocou todas dentro desta conversa “casual” nas últimas
horas…
– Ora, vamos, querida. Coloquei muitas coisas dentro dessa conversa.
– … convenientemente omitindo qualquer coisa em que discordamos.
Os lábios de Connor se curvaram em mais um grau. Os olhos faiscavam
de uma forma que a princípio a surpreendeu, mas que agora ela procurava
encontrar.
– Eu já lhe disse o quanto essa sua esperteza é sexy?
Um inconveniente frio na barriga a fez desviar o olhar antes que Connor
pudesse mensurar o efeito de suas palavras.
– Eu o repreendi por tentar me manipular, e essa é sua resposta?
– Sim. – Com um dedo, ele lhe girou o queixo até que Megan o encarasse.
– Mas isso não torna o que conversamos menos verdadeiro. Sou um homem
motivado e determinado a não permitir que nada importante me
escorregue pelos dedos. Quero que saiba o que sei.
Megan deixou escapar um suspiro, detestando a forma como tudo que ele
estava dizendo fazia sentido. Produzia um clique, como se cada coisa que
Connor mencionasse estivesse trancada, aguardando, em algum lugar em
seu íntimo para se libertar.
Era loucura pensar em acreditar naquilo tudo, mesmo que por um
segundo.
Megan jurara nunca mais cometer aquele erro. Não se arriscaria outra
vez. E aquele… aquele era um risco diferente de todos que enfrentara antes.
Porém, olhando nos olhos castanho-escuros de Connor, tudo em que
conseguia pensar era: E se desta vez a recompensa valesse a pena?
Uma batida soou na porta da frente. Connor interrompeu o contato
visual para verificar a hora no relógio de pulso antes de se erguer do sofá.
– Deve ser seu vestido.
Um instante depois, um carrinho de bronze lustroso se encontrava
encostado na entrada e Connor verificava o horário em que o cabeleireiro
faria a maquiagem e o penteado de Megan. Ela tentara impedi-lo, mas seus
protestos não foram ouvidos. Connor dissera-lhe que aquele era um dos
privilégios de ser a sra. Reed e que devia se acostumar com isso. Ou, pelo
menos, aproveitar enquanto o tinha.
Era justo. Megan resolvera ceder. E agora tinha de admitir que estava
ansiosa por deixar alguém trabalhar em seus cabelos. Para ser
completamente sincera, já tinha preocupações suficientes com seu
casamento, e a hercúlea tarefa de deixar seus cabelos com uma aparência
decente era algo com que não podia perder tempo.
A porta se fechou, e Connor, com aquela estrutura deslumbrante e um
equilíbrio perfeito, estava se aproximando outra vez. A pele na altura dos
ombros de Megan começou a formigar em uma expectativa imprudente
daquela posição, que parecia ser uma das preferidas de Connor, em que
suas costas ficavam coladas ao peito musculoso. E então lá estava ele,
escorregando um dos polegares por seu pescoço.
– Iria se sentir melhor se eu partilhasse alguns pontos de discórdia?
Lançando um olhar por sobre o ombro, Megan percebeu os olhos
castanho-escuros muito sérios. E muito próximos.
– Sim.
Megan fixou mais uma vez o olhar no vestido antes que girasse e
cometesse alguma estupidez. Considerando seu estado civil atual, essa era
uma grande possibilidade. Em seguida, abriu o plástico fino protetor e
escorregou os dedos sobre a bainha prateada do traje que lhe chegava
acima dos joelhos.
Connor clareou a garganta.
– Acampamentos.
Megan girou para encará-lo.
– O quê?
– Não gosto da ideia de deixar as crianças fora de casa por longos
períodos de tempo.
– Mas o acampamento é algo interessante. Claro que apenas quando
tiverem idade suficiente. Eles têm programas incríveis por lá.
Acampamentos naturais, espaciais…
– Sim, artes, futebol, ginástica e tudo pelo que as crianças poderiam se
interessar. – Passando uma das mãos pelos cabelos escuros e sedosos, ele
deixou escapar um suspiro. – A ideia ainda não me agrada, mas estou
aberto a ela.
As sobrancelhas de Megan se ergueram, juntamente com os cantos de
seus lábios, enquanto ela girava completamente na direção dele.
– Uau. Alguma outra pequena vitória que devo saber?
– Natal em casa. Todos os anos. Todos juntos. Ponto.
Megan deixou escapar um suave arquejo, as mãos se movendo para o
coração em um choque genuíno.
– Você contestou o… Natal?
Aqueles olhos escuros se suavizaram, semicerrando nos cantos.
– Por favor, pode tirar essa expressão “ele é tão cruel” do rosto. Eu não
queria eliminar a possibilidade de uma viagem a algum lugar exótico. Mas
seus argumentos eram tão convincentes que foi uma concessão fácil de
fazer.
Uau! Ele era tão…
Espere.
Os olhos azuis se estreitaram enquanto o estudavam.
– E agora está me mostrando o quanto sabe ser sensato, com todas essas
concessões espontâneas. Nunca se corrige?
Sim, ela estava completamente ciente de que insensata era sua reação
àquele homem lhe concedendo exatamente o que ela pedira. Mas, a julgar
pelo sorriso torto que bailava naqueles lábios sensuais, Connor não parecia
se importar.
– Não até conseguir o que quero.
Megan estava se perdendo na profundidade escura daqueles olhos,
sentindo-se mais atraída a cada minuto que passavam juntos.
– E você me quer.
Connor se inclinou para a frente, fechando a distância entre os dois até
que o calor de seu corpo queimasse o dela como línguas de fogo. Megan
oscilou, de repente ofegante. A palma da mão esquerda de Connor lhe
envolveu a cintura.
– Eu a tenho. – A voz grave soou com um rumor baixo contra a orelha de
Megan. O contato entre os dois era quase como um beijo, antes de ele
recuar e lhe entregar o vestido. – O que quero é mantê-la ao meu lado.
Capítulo 7

COM OS cabelos penteados e a maquiagem feita, Megan emergiu mais uma


vez do toalete da suíte principal, ao mesmo tempo que Connor escorregava
os braços pelas mangas da camisa do smoking. Dessa vez, ela estava trajada
com o vestido cinza-metálico de dama de honra, que deixava uma boa parte
do comprimento daquelas pernas bem-torneadas à mostra.
Diabos!
Megan mudou o peso de um pé para o outro diante daquele escrutínio,
esfregando as mãos nos quadris com movimentos descendentes
provavelmente na intenção de acrescentar alguns milímetros de
comprimento ao vestido curto.
Mas aquilo era impossível.
– Não tive nenhuma participação na escolha deste vestido.
Como se ele precisasse daquela informação. Se Megan o tivesse
escolhido, com toda a certeza teria selecionado algo ilusoriamente
conservador. Como o vestido que estava usando na noite anterior. A
princípio, o traje lhe parecera modesto, mas, quando se permitiu uma
observação mais acurada, percebeu que os toques sedutores estavam todos
presentes. O corte das costas, o modelo cinturado, o caimento colado que
lhe enfatizava todas as curvas perfeitas. Megan sabia o que a valorizava,
mas fazia aquilo com elegância e discrição. Algo que o agradava.
Ora, diabos! Gostava daquele vestido também. Mas era um tipo diferente
de apreciação.
– Deixe-me adivinhar. Foi Tina? – perguntou ele, pensando que só
poderia ser a amiga que estava por trás daquela camiseta “QUER ME DAR
SEU SÊMEN?”.
Megan exibiu um sorriso malicioso.
– É o mais sensato de se deduzir, mas, acredite ou não, foi escolha única
de Jodie. Algo sobre o traje da dama de honra ser um presente para nós,
solteiras.
– Presente da dama de honra?
– Jodie acreditou que esses vestidos nos trariam os melhores partidos do
cassino.
Connor deixou escapar uma risada rouca.
– Bem, ela tem razão. E devo dizer o quanto estou feliz por ter decidido
me levar com você esta noite. Principalmente quando penso na dificuldade
que eu teria em deixá-la escapar de minhas vistas caso não me levasse.
Um rubor intenso se espalhou pelo rosto de Megan enquanto o mais
ínfimo dos sorrisos dançava em seus lábios.
– Você é do tipo ciumento?
– Chamemos de possessivo. – As pálpebras de Megan se ergueram, e, ao
perceber o prazer que suas palavras fizeram refletir naqueles olhos azuis,
ele acrescentou: – Mas apenas quando algo é muito importante para mim.
Os dentes brancos perolados se cravaram no exuberante lábio inferior de
Megan enquanto ela girava e bulia nas abotoaduras e alfinetes que ele havia
deixado sobre o tampo de mogno polido da cômoda. Devido ao penteado,
era impossível Megan disfarçar a coloração graciosa que se espalhava por
seu pescoço e orelhas. E Connor não conseguiu conter uma onda de pura
satisfação masculina por tê-la causado.
Após arrumar todos os pequenos objetos em uma fila perfeita, Megan
girou outra vez. As bochechas do rosto conservavam apenas uma
insinuação do rubor remanescente.
– Acho melhor calçar meus sapatos. E você…
Inclinando-se em um ângulo discreto, ela tentou pegar os calçados que se
estavam encostados à parede. Mas logo endireitou a coluna, mudou de
posição e tentou outra vez, puxando para baixo a bainha que se erguia a
cada tentativa.
Uau! Obrigada, Jodie.
Constrangida, Megan limpou a garganta em uma tentativa clara de
manter a pose.
– Você deveria terminar de se vestir – disse ela, gesticulando para a
camisa aberta de Connor. Os olhos se detiveram no peito exposto mesmo
enquanto desviava o rosto. – Logo teremos de sair.
– Mmm-hum – concordou ele, fazendo uma anotação mental para, depois
que aquela exibição mais atraente do que um filme adulto acabasse e os
dois deixassem o bangalô, não permitir que Megan se abaixasse em
nenhuma hipótese.
Percebendo o olhar de Connor perdido em suas pernas, ela lhe lançou
um olhar furioso que logo se transformou em uma risada.
– Isso é ridículo. Pare de olhar para que eu possa pegar meus sapatos. –
Em seguida, revirou os olhos ao teto e resmungou algo adoravelmente
suave sobre os homens, Jodie e o desejo de ter uma parca naquele
momento.
– Está bem. Isso foi baixo de minha parte – concedeu ele, nem ao menos
se esforçando para parecer sincero. – Sinto muito.
– Certo. – Megan soltou uma risada. Porém, o som abafado morreu em
sua garganta quando ele se aproximou e lhe cingiu os quadris com as duas
mãos, cedendo à tentação de flexionar os dedos… só uma vez.
Os olhos azuis se arregalaram diante do contato inegavelmente íntimo, e
ele esperou, avaliando a resposta de Megan.
Quando ela não o afastou, Connor a recuou na direção da beirada da
cama.
– Por que não se senta e eu ajudarei com os sapatos?

MEGAN SE empoleirou na beirada da cama, ainda se recuperando do impacto


do contato das mãos de Connor com seus quadris, atritando o tecido do
vestido contra sua pele, enquanto a guiava para onde queria que ela ficasse.
Não deveria ter permitido aquilo. Deveria ter feito mais do que se limitar a
encará-lo, impotente. Mas algo em seu íntimo não reagia a Connor como a
um estranho.
Seu corpo se lembrava dele… mesmo que a mente não conseguisse. Ela o
desejava. Aquele homem sexy descalço, vestido com a calça preta do
smoking e uma camisa branca engomada pendendo perigosamente aberta
enquanto ele a provocava. E pela primeira vez entendeu o tipo de fascínio
entorpecente que levava as mulheres a tomar as piores decisões de suas
vidas. E sorrir ao se recordar delas depois.
Connor ergueu os calçados com um dedo enganchado nas tiras e, em
seguida, se ajoelhou diante dela.
– Por acaso a estão incomodando depois de toda aquela caminhada de
ontem? – perguntou, escorregando um polegar pelo contorno do calcanhar
de Megan e subindo pelo arco do pé.
Paralisada, ela observou, presa ao impacto da intimidade daquela cena e
de como seria agradável responder com mais do que um discreto gesto
negativo de cabeça.
– Ótimo. – Com o olhar cravado no dela, ele deslizou o pé delicado para
dentro do sapato, encaixando suavemente o calcanhar. Em seguida, traçou
um círculo preguiçoso com a ponta do polegar em torno do tornozelo de
Megan. Ela observou, ofegante, enquanto as mãos longas trabalhavam com
extrema habilidade na tira de contas de cristal.
Tão inacreditavelmente sexy.
Aquilo era irreal.
Lembrava um… conto de fadas. O que não era nada bom.
Aquele homem estava lhe dizendo que o casamento dos dois se basearia
na franqueza direta e no realismo pragmático que dissipava qualquer
expectativa. E, ainda assim, tudo nele, aquela beleza incrível, a riqueza, a
capacidade de dizer exatamente o que Megan queria ouvir e, acima de tudo,
suas abordagens românticas gritavam: Isso é muito bom para ser verdade.
Então, por que estava entrando naquela charada?
Permitindo-se visualizar os dois, anos adiante, conversando enquanto se
arrumavam juntos para algum evento?
Um dos dedos de Connor escorregou sob a tira do sapato.
– Está bem assim?
– Perfeito. – Como tudo que ele lhe mostrara. Porém, nada, nem ninguém,
era de fato perfeito.
Os lábios de Connor se curvaram em uma insinuação de sorriso
tristonho.
– Você faz “perfeito” soar como algo não muito bom. E como se não
estivesse se referindo ao sapato.
Mas ela estava falando do sapato, apenas não da forma como se adaptava
ao seu pé.
– Você me disse que nosso casamento dará certo porque não estamos
trazendo nenhuma expectativa de um conto de fadas para nosso
relacionamento. Mais aí está você, ajoelhado, calçando um sapato de cristal
no meu pé. Tudo que faz ou diz é como uma fantasia ganhando vida… o que
torna difícil saber como a realidade será.
Concordando com um aceno pensativo, ele pousou o pé calçado com o
sapato.
– Admito que estou me esforçando para envolvê-la. Quero que você ceda.
– Connor lhe ergueu o outro pé, dispensando-lhe o mesmo tratamento do
outro. – Mas, se isso a tranquiliza, tenho certeza de que o Príncipe
Encantado não usou a velha desculpa do sapato para colocar as mãos nas
pernas da esposa. – Com a fivela atada, ele permitiu que a mão subisse pela
panturrilha bem-torneada, acariciando a parte posterior do joelho de
Megan, enquanto prosseguia. – Além do mais, tomando por base o público-
alvo dessas histórias, sinceramente espero que ele não estivesse
alimentando o tipo de pensamentos que passavam em minha mente
enquanto você estava batalhando com o comprimento do seu vestido.
Porque não havia nada de puro neles.
– É mesmo?
Connor anuiu.
– Apenas pensamentos censurados para menores. Juro.
– Connor. – O nome soou como uma súplica nos lábios de Megan. E no
mesmo instante o humor abandonou os olhos castanho-escuros e as linhas
do belo rosto másculo se aprofundaram.
– Somos bons juntos. Não se trata de sapatos de cristal, de contos de fada
ou amor de qualquer tipo. Tampouco de escolas particulares, objetivos em
comum ou quaisquer das outras coisas sobre as quais conversamos hoje.
Trata-se de nos encaixarmos perfeitamente. Desse sentimento de perfeição
que você mencionou ontem à noite. O mesmo que tive quando a conheci e
do qual continuo percebendo os sinais hoje. Diga-me. Diga-me que sente o
mesmo.
– Sinto. – A conexão estava lá, inegável, entre os dois.
Mas como saber se a sensação de perfeição de um dia juntos se
perpetuaria pelo resto de suas vidas?
– Apenas não sei se… – As palavras ficaram presas em sua garganta
diante das labaredas no olhar de Connor. O desejo ardente que refletia. Por
ela.
O mesmo desejo abrasador que lhe lambia o corpo, que a queimava por
dentro e lhe deixava a mente entorpecida. De repente, Megan desejou que
aquelas mãos longas a estivessem explorando. Não queria se preocupar
com o bom senso ou com as consequências no longo prazo. Apenas
desejava que aquele homem, cujas promessas pareciam muito boas para
serem reais, cumprisse o que se refletia em seus olhos naquele momento.
– Connor – sussurrou Megan, puxando a perna e trazendo junto o homem
que a segurava. – Você me faz desejar…
Deus! Ela não conseguia dizer aquilo. Nem mesmo se permitir refletir
sobre aquilo. Todos os seus pensamentos racionais estavam enroscados na
sensibilidade crescente entre os dois, no deslizar lento do toque de Connor
por sua pele, no desejo que ardia entre ambos.
E então ele se ergueu. Uma das mãos se movendo da perna de Megan
para se apoiar no colchão ao lado de seu quadril. A outra subiu para a
lateral do ombro delicado, não dando outra escolha a Megan senão se
deitar, com o olhar preso ao dele, enquanto o corpo forte a cobria. Ele
substituiu a mão pousada na lateral do quadril pelo joelho, e Megan se viu
cercada.
Connor estava tão próximo que ela podia sentir o calor irradiando
daquele corpo musculoso, o soprar do hálito quente contra sua mandíbula,
o roçar da camisa aberta em seus braços. Pecaminoso. Íntimo. Muito
sedutor para resistir. Os dedos de Megan se fecharam em torno do tecido
da camisa pendente, puxando-o na sua direção até que restasse apenas um
ínfimo espaço entre os corpos.
E puxou outra vez. Um movimento sutil. Em seguida, com mais força, mas
tudo que conseguiu foi outro daqueles meios sorrisos devastadores
enquanto Connor negava lentamente com a cabeça e enfiava a mão no
bolso para retirar a aliança que lhe dera.
Pairando sobre ela, com o peso do corpo sustentado em um dos braços e
nos joelhos, Connor rolou o anel de diamantes faiscante por sua pele até
posicioná-lo acima da ponta do dedo anular esquerdo de Megan, tão
próximo que a fez sentir uma atração quase magnética, inspirada pelo
desejo.
Seria tão fácil ceder. Dar a Connor o que ele queria, o que, de alguma
forma, ela também desejava.
Permitir que ele escorregasse aquele anel de platina em seu dedo, dizer
“sim” para o que inevitavelmente pareceria ótimo no momento, mas que
tinha um potencial devastador se não tomasse cuidado.
Forçando o ar para dentro dos pulmões, Megan conseguiu pronunciar
uma única palavra.
– Espere.
Um dos cantos dos lábios de Connor se ergueu em um sorriso sugestivo.
– Nervosa? Prometo ser gentil. Já fiz isso antes.
Megan fechou os olhos, mais uma vez aliviada pelo senso de humor e a
habilidade daquele homem em tornar o clima mais leve sem minar a
seriedade do que estava em jogo.
Conseguindo respirar com mais facilidade, ela sussurrou:
– Não podemos. Ainda não.
– Por que não? Estamos casados. – A voz grave se tornou baixa enquanto
ele encostava de leve a aliança de diamantes contra a ponta do dedo de
Megan. – Estou vendo que você quer.
Sim, naquele instante, queria. Mas usar a aliança que ele lhe dera
significava abrir mão de seus planos. Da segurança de um futuro sobre o
qual teria total controle. Da promessa que fizera a si mesma… pela
possibilidade de algo muito maior.
Connor estava sobre ela, o olhar sagaz lhe estudando cada minúscula
reação. Hesitação. Pestanejar, rubor e tremor.
Hesitante, Megan pousou a mão livre contra o centro do peito largo. A
pele exposta era um pouco mais escura do que a dela. Quente. Firme.
Atraindo-a para uma ação imprudente, apenas para garantir um pouco
mais de tempo para saborear aquele contato.
Mas ela simplesmente não era assim. Se Connor a conhecesse de fato,
entenderia.
– Não estou preparada. Não sei se serei capaz de lhe dar o que está
pedindo.
Um aceno em concordância. E em seguida:
– Use a aliança mesmo assim. Por enquanto, ainda é minha esposa. Por
que não tentar o pacote completo para ver como se sente?
O olhar de Megan vagou para a aliança de diamantes que estava a ponto
de escorregar para seu devido lugar. Cada pedra perfeita emitia luz em
todas as direções. Era uma peça soberba.
Nada poderia competir com aquela aliança.
Engolindo em seco, ela voltou o olhar a Connor, que esperava, pairando
acima dela. O brilho possessivo em seus olhos a deixava ansiosa por
concordar. Mas não poderia fazer aquilo.
– É melhor que eu não o faça. – E, tentando incutir na voz o mesmo tom
leve que Connor costumava usar, fechou a mão e se esquivou. – E quanto ao
fato de estarmos casados, estava pensando que é melhor não
mencionarmos isso. Deixe que todos pensem que sou apenas uma mulher
vulgar em vez da pessoa respeitável que você fez de mim.
Capítulo 8

CONNOR ENGOLIU em seco. O corpo paralisado.


– Não quer que eles saibam.
Um par de olhos sinceros encontraram os dele.
– Prefiro que não saibam.
E em seguida Megan se contorceu para sair de debaixo dele e se arrastou
para um dos lados da cama enquanto ele saía pelo outro e guardava o anel
de volta no bolso.
Megan estacou diante do espelho da cômoda, franzindo a testa para os
cabelos que haviam se desprendido do penteado durante aquele interlúdio
sobre o colchão. Logo teriam de partir e, considerando o fato de que
Connor contratara um profissional para lhe fazer um penteado perfeito, era
melhor tentar dar um jeito naquela aparência.
Mas de repente tudo que ele podia ver era uma mulher preocupada com
a própria aparência e imaginou se de fato a conhecia.
Connor fez um movimento negativo com a cabeça. Aquilo não estava
certo.
– Pensei que não mentisse.
Aquela era a qualidade que mais apreciava em Megan. A franqueza era
importante para Connor.
Com uma das sobrancelhas erguidas, ela girou abruptamente para
encará-lo.
– E não minto. Mas isso não significa que ando por aí regurgitando cada
detalhe pessoal de minha existência sem ser questionada. Prefiro que não
toque no assunto, porque, obviamente, ninguém irá perguntar.
Uma mentira por omissão. Bem, aquilo era irônico.
Connor sabia tudo sobre aquele assunto. Ele fora uma mentira por
omissão durante a primeira década de sua vida e jurara nunca mais voltar a
ser. E ainda assim, lá estava ele, casado com uma mulher que fizera dele seu
pequeno segredo sujo desde o início.
Freud teria um prato cheio com ele.
Muito bem, aquilo não era o mesmo que surpreender Megan escondendo
a aliança no cinzeiro do carro enquanto se divertia pelos bares. Estavam
casados a menos de vinte e quatro horas e ela não estava certa se desejava
esperar mais vinte e quatro antes de entrar com um pedido de divórcio.
Mas, ainda assim, o fato de ela não querer que as pessoas soubessem não o
agradou nem um pouco. Em parte, porque uma das primeiras coisas que o
atraíra em Megan fora a forma como ela geria a própria vida. Suas ações.
Megan não inventara desculpas ou mesmo se esquivara de uma explicação.
Nas primeiras horas em que a conhecera, antes de convencê-la a alterar os
planos que mudariam o destino de ambos, Megan o fizera acreditar em
quem ela era. Como vivia. E aquilo… aquele segredo não combinava com o
que ela lhe mostrara.
Isso o fez colocar em dúvida tudo mais em que acreditara.
– Eu lhe disse que a sinceridade era importante para mim. Conversamos
sobre isso hoje. – E assim como na noite anterior ela concordara que a
confiança era primordial em qualquer casamento, mas principalmente em
um que não se baseava no amor.
– Connor… – A voz havia adotado uma tonalidade austera, como se fosse
ela a estar insatisfeita com aquela conversa. – É por causa da minha prima.
Embora não sejamos extremamente próximas, se eu aparecer ostentando
sua aliança, ninguém prestará atenção ao casamento de Gail. Não seria
justo com ela. Sinto muito, mas espero que respeite meus sentimentos.
A cabeça de Connor se ergueu abruptamente. A angústia dentro dele se
desfez diante daquelas palavras.
– Não está escondendo algo do qual se envergonha?
Megan inclinou a cabeça para o lado, como se não estivesse certa do que
acabara de escutar.
– Está se referindo ao fato de você ser um homem desinteressante e
insuportável que vai depenar tudo que tenho… e eu não ter sido esperta o
suficiente para escapar?
A risada estava de volta, encorajada por um alívio maior do que ele
jamais pensara experimentar.
– Algo do gênero.
Megan exibiu um breve sorriso antes de se mostrar pensativa.
– Acho, para ser totalmente sincera, que me sinto um pouco
envergonhada com isso. Quero dizer, tomei uma das mais sérias decisões
de minha vida em uma noite em que me embebedei de tal forma que não
consigo sequer lembrar. Mas não tenho a ilusão de manter nosso
casamento em segredo. Todos nesse casamento saberão sobre nós…
aproximadamente dois segundos após eu contar para minha mãe. Por isso
ainda não telefonei para ela.
– E se decidirmos nos divorciar? Você poderia varrer isso para debaixo
do tapete.
Megan soltou uma risada.
– Talvez você conseguisse, mas não eu. Apesar de saber que minha mãe
não é capaz de guardar uma confidência, mesmo que disso dependa sua
vida, não guardo segredos dela. Vou ligar para ela e contar tudo tão logo eu
chegue em casa. E então no minuto que eu desligar o telefone… – Megan
fechou os olhos e deixou escapar um suspiro baixo. – Acredite. Terei de
suportar comentários sobre isso para o resto da vida. Não importa qual seja
o desfecho.
Connor lhe ofereceu a mão.
– É capaz de lidar com isso?
Megan balançou a cabeça de leve, os olhos voltados para o teto.
– Trata-se da minha vida. Portanto, sim. Sou capaz de lidar com isso.
Diabos! Connor gostava das coisas que escapavam pelos lábios daquela
mulher. Gostava do modo como ela pensava. O jeito com que se importava
com as coisas. Seu modo de viver. Como se agarrava às escolhas em que
acreditava. E, apesar de sua reação inicial à recusa de Megan em usar a
aliança, gostava do modo como ela conseguia enxergar além da situação
presente para considerar os sentimentos dos que estavam ao seu redor.
Aquela força de caráter era exatamente o que Connor queria para sua
família.
– E comigo? – perguntou ele. – Se eu prometer não mencionar o
casamento, ainda está bem comigo?
Os olhos azuis se mostravam firmes e suaves quando encontraram os
dele.
– Sim, estou bem com você também.

O CASAMENTO transcorreu sem nenhum percalço. Gail e Roy se casaram em


uma capela não muito diferente, na opinião de Connor, daquela em que os
dois haviam se casado na noite anterior. Os votos foram feitos, as alianças
trocadas, e, no final, a união foi selada com um beijo. Uma cerimônia bonita,
apesar das piadas que Jodie e Tina faziam às custas de Megan durante toda
a cerimônia. As duas sugeriam, às risadinhas, que devido à sua falta de
experiência ela conseguira estragar sua aventura de apenas uma noite,
fazendo-a durar até o dia seguinte.
Megan havia se preparado para aquela enxurrada de provocações.
Prevenira Connor para fazer o mesmo. Mas o que não esperava era
descobrir o quanto seu marido era protetor e a forma com que ele
conseguia sabotar quase todas as picuinhas que aquela dupla tentava lhes
atirar. Ainda assim, as duas eram a personificação da insistência.
– Connor, o que de fato está fazendo aqui? – perguntou Jodie, esforçando-
se para ser ouvida acima da música estrondosa da boate. – Quero dizer, sei
que Megan o fisgou ontem à noite, mas não está ansioso por cortar o anzol
e escapar?
Se estava tentando flertar ou se pretendia apenas fazer uma piada, a
pergunta refletia uma total falta de tato. E Megan lembrou a si mesma que
martínis de chocolate branco não eram a solução, mesmo porque só de
pensar nos drinques sentia o estômago revirar.
Connor esticou o braço sobre o espaldar da cadeira de Megan, emanando
um calor que penetrava o casaco do smoking que, desde o instante em que
terminara a cerimônia, se encontrava pendurado nos ombros de Megan.
– Nem um pouco. Megan é uma mulher incrível e acho que nosso
relacionamento será duradouro.
Tina se inclinou para a frente, colocando à mostra seus melhores
atributos.
– Relacionamento?
Um rubor lento começou a se espalhar pelo rosto de Megan quando
todos os olhos se desviaram para o polegar com que Connor lhe acariciava
o ombro. Ele se mostrara atencioso, sem ser muito óbvio durante toda a
noite. Era evidente que ele se esforçava para lhe respeitar a vontade e
manter o casamento em segredo, ao menos até que a tinta na certidão de
casamento de Gail secasse. Mas aquele tipo de pergunta poderia levá-los
rapidamente ao encontro da verdade se algo não mudasse.
Os olhos astutos de Tina se alternaram entre ambos por duas vezes antes
de ela se inclinar para trás com um sorriso frio.
– Oh, Megan, diga-me que você não fez isso? – Com o coração apertado,
ela concluiu que Tina havia descoberto. Gail, que estava esperando tão
ansiosa quanto todos os outros, jamais a perdoaria. – Diga-me que você não
se esforçou tanto para arranjar apenas mais um amigo? – A última palavra
foi lançada com tamanho desdém que Megan precisou de um segundo para
perceber que seu segredo não havia sido descoberto. Não precisava se
sentir envergonhada por desviar as atenções do casamento da prima. Uma
onda de alívio a atingiu, elevando-lhe o humor o suficiente para forçar um
sorriso largo.
– A que ela está se referindo? – perguntou Connor com estudada
casualidade. Porém, algo no tom da voz grave destoou, e, quando Megan
girou para encará-lo, não gostou da aparência daquele meio-sorriso.
– Nada. Não é nada – respondeu ela, esperando que Connor reconhecesse
a súplica em seu olhar e esquecesse o assunto. A súplica e a promessa de
uma posterior explicação quando não estivessem envoltos no brilho da
festa de casamento de Gail. – Adoraria tomar outra água tônica. Gostaria de
me acompanhar até o bar?
Após um breve instante, o sorriso de Connor se tornou mais genuíno e
ele se levantou, oferecendo-lhe a mão.
– Que tal uma dança primeiro?
Porém, antes que Megan pudesse resmungar um protesto, ele a tinha
colada ao peito, guiando-a com maestria com mãos, coxas e quadris entre
os demais casais na pista de dança. Ele movia-se com um ritmo perfeito,
que refletia confiança no próprio físico. Não havia nada de amigável
naquilo.
Dentro de poucos minutos, Megan estava de volta àquele estado que
oscilava entre risadas, desejo sexual e que pertencia exclusivamente à sua
experiência com Connor. Aquilo transformou Tina, Jodie e todas as suas
farpas em uma lembrança distante.

CONNOR ASSINOU o boleto de consumação de open-bar do grupo em que


estavam. Em seguida, pegou a água tônica com gelo que Megan lhe pediu,
observando a mesa que ocupavam como um homem prestes a enfrentar o
patíbulo. Megan ainda estava no toalete feminino, mas algo lhe dizia que
esperar por ela do lado de fora da porta do recinto reservado às mulheres
pareceria assédio. Portanto, em vez disso, Connor se encaminhou à mesa,
preparando-se para se esquivar das perguntas inconvenientes sobre sua
conta bancária, o valor das indústrias Reed e se Megan conseguira fisgar
um pouco do seu sêmen.
Estava ansioso por sair dali. Primeiro, porque a risada de sua esposa, que
refletia um abandono sexy, estava se provando uma tentação à qual não
conseguiria resistir por muito tempo. Segundo, porque Tina, Jodie e Gail
estavam jogando pesado. Abusando de uma paciência que ele desconhecia
possuir.
Gail havia retirado os sapatos e descansava os pés em uma cadeira vaga,
deixando apenas uma disponível, entre Tina e Jodie, cujas piadas variavam
de um tanto irritantes a francamente desagradáveis.
Não, obrigado.
Roy e seus dois padrinhos se viam empenhados no mesmo tipo de
conversa tranquila à qual estiveram se dedicando durante toda a noite, com
exceção da duração da cerimônia, claro. Do tipo monossilábica, entremeada
de longos silêncios.
Optando por parar a pouca distância da mesa, observou a pista de dança
enquanto aguardava por Megan.
A explosão de uma gargalhada o fez enrijecer os músculos das costas. E
logo se seguiu a reprimenda de Gail.
– Vocês duas são terríveis!
Connor não queria saber do que se tratava. Não deveria sequer ter sido
capaz de ouvir acima do som da música.
Em seguida, soou o nada delicado resfolgar de Tina.
– Por favor, isso é patético.
Mas as vozes daquelas mulheres.
Foi a vez de Jodie.
– Ela não consegue parar de colecionar esses caras. – Aquilo o fez girar a
cabeça na direção delas. As três não haviam notado que ele se encontrava
parado logo atrás da mesa e mais uma vez estavam falando de sua esposa.
A mulher que discutira com ele em um esforço para respeitar aquele dia. –
Não sei quem ela pensa estar enganando com esse aí. Não há a menor
possibilidade…
– De jeito algum – interrompeu Tina.
– … ele não passa de um próximo “amigo”, tentando lhe fazer algum tipo
de favor. Provavelmente, fazer com que nós não caçoemos dela.
Gail ergueu uma das mãos para calar as amigas. Ótimo. A prima
provavelmente exigiria um pouco de respeito. Porém, quando ela começou
a falar, a visão de Connor se turvou.

OS PASSOS de Megan vacilaram enquanto ela se aproximava da mesa.


– … o que não posso deixar de imaginar, com base em todos esses
“amigos”, é o seguinte: se ela é tão maravilhosa para conversar, então o que
tem de tão ruim que os faz se afastar?
Megan prendeu a respiração enquanto Gail especulava com sarcasmo
sobre sua vida, com Connor parado logo atrás.
Ele ouvira.
Megan percebeu pela total falta de reação dele. A imobilidade de uma
estrutura que esbanjava energia.
Jodie anuiu, solene, e Tina ergueu o olhar. Quando encontrou o de Megan,
soltou uma risada. Ela e Connor já haviam ficado por tempo suficiente.
Poderiam partir.
Talvez ele não fizesse nenhum comentário e os dois pudessem esquecer
aquele episódio desagradável.
Porém, quando Megan abriu os olhos, Connor havia girado e estava
parado diante da mesa, sem dúvida pronto para colocar um ponto-final na
participação dos dois na festa, assim como ela. Mais do que ela, afinal, Gail
não era parente dele.
Ou… bem, pelo menos não consanguínea. Sorte dele.
E então Connor se encontrava ao lado dela, envolvendo-lhe a cintura com
uma das mãos e a puxando para perto. Mais perto. E mais perto ainda até
que os olhos de Megan se arregalassem ao sentir a mão ousada escorregar
sobre sua nádega em uma carícia lenta e descarada antes de pousar na
parte superior de sua coxa. Com o rosto enterrado na lateral do pescoço de
Megan, ele inspirou profundamente, roçando o nariz na pele sensível, atrás
da orelha.
Connor estava deixando algo claro, deixando-as ver o que Megan havia
pedido para que ele refreasse no intuito de não apagar o brilho do
casamento de Gail. E, para ser sincera, aquilo não o depreciava em nada. Na
verdade, tornava-o uma espécie de seu herói particular.
Deixando-a recuar apenas para que não parecerem indecentes, Connor
lhe dirigiu um sorriso.
– O que acha de partirmos?
O queixo de Tina empinou, e Jodie revirou os olhos. As feições de Gail se
contraíram em uma expressão de desagrado.
– Não. Vocês têm de ficar. Isso é um privilégio da noiva. Este é meu dia.
Portanto, fiquem.
O meio-sorriso ameaçador de Connor lhe curvava os lábios quando ele
dirigiu o olhar à mesa. Todo indiferença, com uma das mãos ainda
perigosamente espalmada abaixo do quadril de Megan e a outra
displicentemente enfiada no bolso da calça.
– Privilégio da noiva – murmurou ele. – Sem dúvida.
Megan deveria ter previsto. Saber o que ele faria. Mas só quando Connor
lhe capturou a mão esquerda foi que notou o que ele estava segurando.
O chão pareceu lhe sair dos pés.
– Megan – começou ele com um sorriso amoroso e o brilho do aço nos
olhos. – Sei que queria que eu esperasse para fazer o anúncio, mas
sinceramente não posso esperar. Nem. Mais. Um. Segundo. – Megan se viu
demasiado perplexa para reagir quando ele escorregou a valiosa e faiscante
aliança em seu dedo, erguendo as mãos dos dois unidas para que todos
vissem. – Sei que foi rápido, mas não havia a menor probabilidade de eu
deixar esta mulher escapar.
Gail foi a primeira a erguer o queixo do chão. Os olhos marejados de
lágrimas agora alternando entre a aliança que se encontrava no próprio
dedo e a de Megan.
– Você se casou. – Ela ofegou. – No dia do meu casamento?
Megan começou a procurar algo para dizer, um pedido de desculpas
talvez, mas aquilo não lhe pareceu certo. Abriu a boca apenas para sentir o
ar lhe abandonar os pulmões pressionados pelos braços de Connor, que lhe
envolviam o torso com força.
– Não, claro que não – garantiu ele com toda a sensibilidade de um
assassino. – Nós nos casamos primeiro. Esta manhã. – Tina e Jodie faziam
que não com a cabeça, como se fosse impossível acreditar. – Sei que é cedo,
mas acho que já esperamos o suficiente para voltarmos à nossa lua de mel.
Portanto, se nos dão licença… – E diante dos olhos de todos Megan se
descobriu erguida nos braços fortes. – As bebidas são por minha conta esta
noite. Parabéns.
Capítulo 9

– QUE DIABOS pensa que está fazendo? – Megan exigiu saber entocada no
fundo do elevador, as mãos nos quadris e os olhos o incinerando como as
labaredas do inferno.
Connor tirou a foto com o celular e o colocou de volta no bolso do casaco
do smoking antes que o dispositivo acabasse derretido pelo olhar feroz que
a esposa lhe dirigia ou ainda esmagado sob o salto agulha do sapato com
apliques em cristal que ela usava.
– Documentando nossa primeira briga.
Por um instante, toda a raiva canalizada na direção de Connor se
transformou em uma perplexidade que a deixou gaguejando de uma forma
que ele não podia deixar de achar divertida. Mas em um piscar de olhos ela
voltou ao estado de fúria, inclinando-se para a frente, com um tom baixo e
letal na voz.
– Não acredito que você fez isso.
– Ora, vamos, é para nosso álbum de recortes. Mais tarde me agradecerá.
– Você sabe muito bem que não estou me referindo à foto.
Sim, ele sabia. Da mesma forma que tinha plena convicção de que tirar
uma foto quando Megan se encontrava tão irritada era provavelmente uma
atitude suicida. Porém, assim como a decisão que tomara na boate de
quebrar a promessa que lhe fizera, aquilo era algo do qual não iria se
arrepender.
– Tínhamos um trato – sibilou ela, os olhos se alternando como flechas
entre ele e o mostrador digital do elevador. – Mas talvez tenha esquecido.
Ou nosso acordo não servia aos seus anseios no momento, então
simplesmente mudou de ideia.
O elevador diminuiu de velocidade, emitindo um sinal sonoro que
indicava o andar desejado. As portas se abriram, deslizando em silêncio e
Megan se projetou para a frente. O rosto, uma máscara de calma, traída
apenas pela pulsação acelerada do pescoço. Com a mão longa envolvendo a
base da espinha de Megan, os dois saíram para o andar térreo.
– Sem dúvida, a última opção – sussurrou-lhe ao ouvido Connor.
Uma provocação, quase a desafiando a perder a compostura diante de
todas aquelas pessoas. Mas não Megan. Ela se manteve calma,
impressionando-o mais a cada momento, confirmando mais uma vez como
era talhada para o papel de sua esposa. Não que Connor pretendesse ter
como hábito irritá-la em público ou quando estivessem a sós. Não esperava
muitos desentendimentos entre os dois, mas era importante saber até que
ponto Megan conseguia se controlar.
De lá, os dois caminharam em silêncio pelo hotel antes de chegar ao
bangalô privativo onde se encontravam.
Connor estava mais do que disposto a confrontá-la naquela questão, não
importava o quanto ela estivesse furiosa. Aquela cena na boate transpusera
os limites do aceitável.
No instante em que entraram, Megan girou na direção dele.
– Você me prometeu.
Era verdade, mas as circunstâncias não foram as que ele esperava.
Exigiram uma tomada de decisão, e fora o que ele fez. Firmando sua
postura, Connor cruzou os braços.
– Ouviu o que elas estavam dizendo? – perguntou, cedendo à própria
raiva. – Não iria permitir que aquelas traiçoeiras, difamadoras…
A mão de Megan cortou o ar.
– Não me importo com o que elas disseram. O que me interessa é o que
você disse. A palavra que você empenhou. O que vale a pena. No que posso
acreditar.
Connor lhe sustentou o olhar sem recuar.
– Você pode acreditar que eu a recebi como minha esposa. Para honrá-la,
respeitá-la e protegê-la durante todos os dias de nossas vidas.

MEGAN PESTANEJOU várias vezes, de repente se vendo sem palavras.


– Foram esses nossos votos?
– Esses foram os meus. E eu estava falando sério. Não sou o tipo de
marido que cruza os braços enquanto a esposa é caluniada. Gostaria de ter
podido atender seu pedido esta noite. Era o que pretendia fazer. Mas, entre
quebrar uma promessa para proteger minha esposa e quebrar minha
promessa para proteger o “dia especial” de sua prima, pode apostar que
sempre vou priorizar você.
– Oh! – Megan engoliu em seco o nó de emoção que se formou em sua
garganta, tentando forçá-lo a descer. Tentando não permitir que algumas
poucas palavras tivessem o poder de torná-la vulnerável.
E então, após um instante, Connor fechou a distância entre os dois,
puxando-a contra o peito.
– Desculpe por ter de quebrar a promessa que lhe fiz, mas estava falando
sério quanto a cuidar de você. Não ficarei passivo quando alguém lhe
causar algum mal.
– Eu poderia ter lidado com aquela situação. – Megan estivera fazendo
aquilo durante toda sua vida.
– E por que deveria?
– Gail merecia ter seu dia de casamento perfeito. – E mais do que isso,
porque Connor havia concordado em deixá-la ter!
– Sim, mas você também. – Connor lhe segurou o rosto, inclinando-o para
trás de modo que ela o encarasse. – Só porque não se lembra não quer dizer
que não conta.
Tudo que ele dizia parecia tão coerente. Incitando-a a confiar. A saltar de
cabeça. Porém, o precipício que se estendia abaixo era demasiado profundo
para ser ignorado.
Procurando-lhe o olhar, Megan fez a pergunta crucial para aplacar seus
temores e relutância.
– E se você mudar de ideia?
– Essa é a questão. Não mudarei. Compromisso… – disse ele, esfregando
o dorso do nariz, enquanto ela deixava escapar um suspiro pensativo. – …
isso é muito importante para mim. Não estou procurando alguém para
ocupar um cargo temporário. Quero uma esposa que me apoie durante o
percurso. – Porém, no instante seguinte, algo na expressão de Connor se
alterou. O olhar se tornou distante por uma fração de segundo antes de
voltar a se fixar nela. Aguçado. E mais intenso. – Talvez se você tivesse mais
tempo…
– Está se referindo a namorar? – perguntou ela, sabendo que não seria
capaz de levar aquilo adiante. Não estava mais disposta a esperar para ver
se algo iria dar certo. Não desejava mais falsas esperanças e anos de
indecisão…
– Não – respondeu ele com um vigoroso movimento negativo de cabeça,
confirmando que os dois estavam de acordo em não namorar. Connor se
inclinou para a frente, nivelando os rostos dos dois para que a sinceridade
em seus olhos ficasse mais evidente. – Entenda uma coisa. Você é minha
esposa, e quero que continue assim. Mas sei que as coisas não se
encaixaram com perfeição para você, como aconteceu ontem à noite e o que
estou pedindo significa um grande passo. Mas ainda assim estou certo de
que, em breve, isso acontecerá. Portanto, proponho um período de
experiência. Dê-me três meses. Se achar que não servimos um para o outro,
eu lhe concederei o divórcio e você retorna à vida que havia planejado.
Enquanto isso, começamos como se fosse para valer. Você morando
comigo… como minha esposa.
Megan sentiu a garganta seca e o coração batendo como um tambor
contra as costelas.
Aquilo era loucura. O que Connor estava sugerindo…
– Você me apresentaria aos seus amigos e sócios? E se eu não me
sentisse feliz e quisesse me afastar?
– É livre para ir. Estou pedindo para dar uma chance ao nosso
casamento, não para se trancar em algum tipo de prisão da qual não possa
escapar. Não acredito que você se afastaria sem nos dar uma chance. Não
quando assumiu um compromisso… quero dizer, um que se lembra. Além
do mais, você não vai querer se afastar.
Connor fazia tudo parecer tão simples. Durante todo aquele dia ela se
vira tentada por diversas vezes… mas suas dúvidas tinham um grande
peso.
– Finalmente encontrei uma forma de ser feliz – disse ela. – Sei que pensa
que pelo fato de não haver amor esse acordo que está sugerindo não
envolve nenhum risco, mas isso não é verdade. Não para mim. Não posso
colocar toda minha confiança em alguém outra vez. E isso é exatamente o
que está pedindo que eu faça. Dói… dói muito ser decepcionada. Sinto
muito.
– Não acha que a recompensa valeria o risco?
– Não sei. E talvez essa dúvida por si só deveria nos dizer alguma coisa –
sussurrou ela.
– Sim, diz. Isso me diz que, em vez de ficar esperando que você se lembre,
que tenha uma visão do todo quando não lhe forneci todas as partes, eu
deveria fazer isto.
E, antes que Megan pudesse reagir, ele lhe capturou os lábios com um
beijo.
Megan se encontrava pressionada ao corpo forte. As mãos, presas entre
os dois, tentaram se erguer em uma defesa frágil que cessou antes de
começar… diante da estranha familiaridade da intimidade de que nem ao
menos conseguia se lembrar, em face do até então desconhecido calor
ardente que espiralava por seu corpo e se tornava mais intenso a cada
movimento dos lábios e língua de Connor.
Não era de se admirar que ela tivesse bloqueado aquilo.
O beijo de Connor era ainda melhor do que imaginara. Tão bom que ela
sentiu a determinação resistente abandonando seu corpo, mesmo que
tentasse agarrá-la. Mas não conseguiu impedir que a resolução se
dissipasse, levando em seu encalço o traço de agressividade nas
profundezas escuras dos olhos de Connor. As mãos longas escorregaram de
seus ombros para lhe envolverem a cintura e se enterrarem em seus
cabelos. A pressão dos seus lábios contra os dela aumentou, e Megan se
abriu para ele.
Temendo perder sequer um segundo, Megan não conseguia nem ao
menos pestanejar. O olhar preso no dele, antecipando o sabor e a textura
daquele homem misturados aos dela.
Porém, em vez de se apossar outra vez de sua boca, Connor apenas
traçou o contorno interno de seu lábio inferior com um movimento lento e
agonizante da língua. Tão instigante que temporariamente lhe sobrepujou
o instinto de respirar.
Utilizando a mão imersa nos cabelos sedosos, ele lhe girou a cabeça no
ângulo desejado e aprofundou o beijo. Incitando-a a responder… a língua
hesitante de Megan roçando contra a dele.
Connor não precisou mais do que aquele convite. Contraindo as mãos no
quadril e nos cabelos de Megan, ele deixou escapar um gemido baixo de
prazer, que ela sorveu, antes de a língua ousada lhe penetrar mais uma vez
a boca. Aquela invasão possessiva suscitou uma resposta forte, imediata e
profunda demais para ser negada. E, em seguida, Megan estava colada a ele,
pressionando-o, ao mesmo tempo que Connor a esmagava contra o corpo.
Mas aquilo não era o suficiente.
Para nenhum dos dois.
Connor espalmou as duas mãos nas nádegas macias com um aperto firme
e excitante. Em seguida, moveu uma delas para a coxa de Megan,
suspendendo-a sobre a lateral da própria perna. Em seguida, investiu o
quadril para a frente, fazendo-a sentir a ereção contra a barriga e a rigidez
dos músculos da coxa de Connor entre as pernas.
Em algum ponto no fundo da mente, Megan tinha uma vaga ideia de
todas as razões pelas quais aquela não era uma boa ideia… mas não se
importava.
Não conseguia parar.
Outra investida forte e a boca devoradora se movia por sua mandíbula e
pescoço, saboreando-a com a língua, sugando-a até que ela atirasse a
cabeça para trás. As mãos delicadas trabalhando, frenéticas, entre os
corpos excitados, na tentativa de agarrar a lapela da camisa de Connor para
abri-la com um puxão.
– Megan, Megan… – gemeu ele. A lufada de hálito quente era tão
intoxicante quanto a fricção daqueles lábios hábeis nos dela. – Querida, isso
será tão bom. Diga-me que deseja isso tanto quanto eu.
– Sim – respondeu Megan com um gemido. – Sim, sim, sim, por favor. Eu
o quero.
Connor suspendeu o joelho entre as coxas macias, erguendo-lhe a saia,
enquanto roçava a extensão da própria coxa contra a intimidade úmida de
uma forma que fazia o baixo-ventre de Megan se contrair com as correntes
elétricas produzidas com aquela fricção.
Traçando o contorno de um dos cantos da boca carnuda com a língua, ele
murmurou:
– Diga-me que sim… que será minha esposa.
O momento não era apropriado para aquele tipo de discussão. Não era
hora de terem qualquer tipo de conversa.
– Mais tarde. Por favor, vamos conversar sobre isso mais tarde.
Os quadris de Connor pressionaram ainda mais contra os dela,
presenteando-a com um vislumbre da rigidez vigorosa de sua ereção.
Uma vez.
Oh, Deus… tão excitante.
Duas.
Os dedos de Megan se enterraram na massa espessa dos cabelos escuros
enquanto o que parecia ser um jato de lava incandescente se espalhava por
seu ventre.
E mais uma vez.
Um ofego agudo lhe escapou dos lábios diante do forte espasmo de
desejo no centro de sua feminilidade.
– Diga-me que irá comigo para minha casa amanhã.
– Connor, por favor – suplicou ela com o corpo em chamas.
– Você não tem ideia do quanto gosto do som disso – murmurou ele
contra os lábios entreabertos de Megan. – O quanto desejo ouvir essas
palavras sussurradas contra meu ouvido enquanto a penetro… bem fundo.
– Um soluço escapou da garganta de Megan diante das imagens eróticas
que aquela voz rouca suscitou. – … levando-a cada vez mais alto… até que
exploda de prazer em meus braços.
– Sim… – Megan já estava prestes a explodir.
– Sim, o quê? – perguntou ele, traçando uma linha de fogo com as pontas
dos dedos desde a parte posterior do joelho de Megan até a curva das
nádegas arredondadas e perfazendo o caminho de volta. – Sabe o que quero
ouvir.
Capítulo 10

ESPERE. O quê?
– Você está me… chantageando com… sexo?
– Não sei. – Os quadris de Connor recuaram uma fração de centímetro. –
Surtiria efeito?
Surtiria.
Mesmo sabendo o tipo de jogo que ele fazia, Megan estava a ponto de
prometer qualquer coisa que Connor quisesse… se aquilo o fizesse
terminar o que começou.
Porém, conforme se passaram os segundos, de alguma forma a mente
repressora de Megan voltou à vida. Embora frágil, refletia sobre os eventos
que se desenrolavam ao redor dela. Eventos que moldariam o restante de
sua vida.
– Não – disse ela com a voz estrangulada, forçando as mãos à
imobilidade. Os olhos se abriram para encontrar as labaredas naquelas
profundidades cor de mogno.
– Droga!
Megan podia ver a indecisão nos olhos castanho-escuros… a batalha
entre tentar outra vez, com mais afinco, ou desistir.
Um tremor de esperança varou o ventre de Megan diante do
pensamento. Um que ela afastou, implacável.
– O que é isso? – perguntou ela, agitando uma das mãos entre eles.
Connor fez um movimento negativo com a cabeça, com uma expressão
quase perplexa em seu rosto arrogante.
– É excitante.
Era mais que excitante.
– É entorpecedor. Não consigo pensar.
– Ótimo, então concorde em me dar três meses.
Mas, antes que Megan considerasse sequer lhe dar três minutos, a boca
ávida havia capturado a dela outra vez. A língua quente abria caminho por
seus lábios com investidas lentas e sedutoras. Mais uma vez, instigavam as
restrições de Megan a abandonar seus postos.
Com o coração disparando e a respiração alterada, Megan fez que não
com a cabeça. As mãos se espalmaram no centro do peito musculoso e o
empurraram de leve. Não poderia concordar com nada. Não importava o
estado em que estivera na noite anterior; naquele momento, sua
incapacidade de julgamento estava em nível recorde.
– Megan – murmurou ele, observando-a sob as pálpebras semicerradas.
Oh, diabos, aquele olhar! Ela engoliu em seco, dando um passo atrás. E
depois outro. Precisava se afastar. Necessitava de espaço para respirar.
Para pensar.
– Ora, vamos, querida. Não fuja. Vamos sentar no sofá e conversar.
O olhar de Megan disparou na direção do sofá. Em um piscar de olhos,
aquele acolchoado se tornou matéria-prima para mais cenários do que sua
experiência poderia imaginar… um covil de sedução, abundante em
potencial erótico.
Ultimamente, sua imaginação andava fértil.
– Manterei minhas mãos longe de você. – Soou outra promessa baixa e
rouca, arrastando o foco de sua atenção de volta para Connor. Parado onde
ela o deixara. A camisa cujos botões Megan tentara arrebentar, aberta para
revelar os músculos definidos do abdome e os discos perfeitos dos mamilos
planos.
Megan sentiu a boca encher de água enquanto outro cenário que tinha
por base o sofá lhe invadiu a mente.
– Claro que manterá. – Bem, talvez ele mantivesse. Talvez não fossem as
mãos de Connor que a preocupavam.
– Não acredita em mim? Se quiser pode atar minhas mãos. – Connor
segurou uma das extremidades da gravata que pendia solta sobre seu
pescoço, torcendo-a entre os dedos e oferecendo-a a Megan. O sorriso
pecaminoso se expandiu até novos limites. – A não ser que prefira…
– Não! – Muito bem. Definitivamente não eram as mãos de Connor que a
preocupavam. Com as cenas que se desdobravam em sua mente, Megan
duvidava que fosse capaz de se sentar em qualquer outro sofá em sua vida,
quanto mais naquele.
Forçando os pés a se mover um após o outro, ela subiu a escada e se
encaminhou à suíte master outra vez. Cruzando os braços, segurou a
bainha do vestido e o tirou pela cabeça. Em seguida, entrou no boxe e abriu
a torneira da água fria, preparando-se para a clareza que ansiava conseguir
com o jato de água gelada.
– Uhh! – guinchou ela ao sentir as agulhadas da água ártica contra a pele
superaquecida, banhando-a com a frieza da racionalidade recuperada.
Estivera a ponto de concordar com… qualquer coisa.
Casamento.
Viajar pelo país.
E, Deus a ajudasse, mesmo com a frieza da realidade a inundando… tudo
que conseguia pensar era na forma como o beijo de Connor a consumira
por inteiro.
Um gemido baixo de desejo relutante lhe escapou dos lábios, e Megan
posicionou a cabeça sob o jato de água, esperando que o impacto gelado lhe
penetrasse o crânio duro e lhe dissipasse os pensamentos nebulosos, bem
como o fogo que lhe queimava as veias.
– Droga, Megan. Gosto quando emite esses sons.
A fechadura. Não lhe passara pela cabeça trancar a porta. Pestanejando
para dispersar a água dos olhos, Megan girou para ver, através do vidro
transparente do boxe, Connor recostado à parede na outra extremidade do
toalete. O meio-sorriso a todo o vapor, sedutor e faminto.
– O que está fazendo aí, querida?
– Tentando clarear a mente.
Uma das sobrancelhas espessas arqueou quando ele se desencostou da
parede. O olhar predador lhe percorreu o corpo.
Por que ela não se sentia constrangida com aquele escrutínio? Não que
tivesse onde se esconder. O vidro transparente funcionava como uma
vitrine para olhares curiosos. E, ainda assim, o olhar de Connor nela lhe
parecia natural. Tranquilo.
Em nada parecido com o que sentira com outros homens, mas também
estivera agindo de maneira incomum desde o início daquela manhã. Era
melhor parar de fazer comparações.
– Hum. A clareza lhe cai bem. Eu poderia tentar um pouco disso também.
Dessa vez foram os lábios de Megan a se curvarem em uma fração de
centímetro. Sem dúvida. Aquele homem precisava abrandar o fogo dentro
dele.
– Acha mesmo?
As mãos de Connor se encontravam na braguilha parcialmente aberta,
finalizando a tarefa que ela começara na porta de entrada. Em seguida, ele
estava se livrando da calça do smoking e a deixando em um monte no chão,
enquanto se aproximava do boxe.
O queixo de Megan caiu quando ela se deu conta do convite que acabara
de fazer.
Seria seu cérebro capaz de voltar a funcionar direito outra vez?
As mãos longas se moveram para a cueca boxer que confinava a potência
de sua ereção. E quando se livrou daquela peça, ficou deslumbrantemente
nu. O corpo de Connor era ainda mais belo que suas fantasias sexuais
poderiam imaginar. E ele estava fechando a distância entre os dois. Vindo
em sua direção. Deslizando a porta de vidro do boxe. Os olhos brilhavam
com um fogo quente o suficiente para fazê-la arder mesmo sob…
– Que diabos…? – exclamou ele enquanto se afastava para a extremidade
oposta do boxe.
Megan sabia que não deveria ter rido, mas havia algo definitivamente
satisfatório naquilo. Ao menos uma vez, não fora ela a ser pega de surpresa.
E o semblante perplexo que congelara no rosto de Connor era
simplesmente irresistível.
Porém, a expressão estupefata logo se dissipou.
– Fez isso de propósito – acusou ele, permanecendo longe do jato de
água.
– Você disse que queria clareza – respondeu Megan. O corpo entrando
em estado de alerta quando o foco daqueles olhos semicerrados se
concentrou em seus seios e, em seguida, mais abaixo. Os dois estavam
despidos. Parados em lados opostos do enorme boxe. No segundo em que
Connor ameaçou segurá-la, ela disparou pela porta de vidro, rindo. – Quem
sou eu para impedi-lo.
Um rosnado grave soou atrás de Megan quando ela esticou a mão para
pegar o tecido quente e felpudo do robe dobrado sobre a lateral da
banheira. Envolvendo-se na peça monstruosa, ela girou na direção do boxe
e paralisou. Com as mãos espalmadas acima da torneira e os músculos
flexionados e tensos, Connor se encontrava parado sob o jato de água
gelada. Em seguida, sacudindo a cabeça, focou o olhar onde ela estava, além
da porta de vidro.
– Para ser sincero, isso não está funcionando do jeito que eu esperava.
– Concordo plenamente – respondeu ela, meio que mesmerizada com a
visão diante dela.
– Estou me esforçando ao máximo para permanecer onde estou neste
momento, mas, se você não sair por aquela porta, vou sair deste boxe e
pressioná-la contra a parede.
Megan se viu boquiaberta.
Primeiro o sofá. E agora a parede. Era como se aquele homem tivesse
superpoderes sedutores que o possibilitavam infundir um potencial erótico
aos mais comuns componentes de uma casa.
– Ou talvez seja isso que está esperando. – A promessa na voz grave foi a
força propulsora que fez os pés de Megan transporem a soleira da porta do
toalete, de onde ousou um último olhar a Connor. Ele estava imóvel,
observando-a, com expressão fechada, sem nenhuma sombra de um
sorriso.

A MÃO longa atingiu os ladrilhos com uma pancada úmida ao mesmo tempo
que ele deixou escapar um suspiro.
Por mais tentada que estivesse, Megan não iria correr o risco.
Connor pegou o sabonete e o esfregou na pele com movimentos bruscos,
usando aquela tarefa para ganhar o tempo necessário para analisar suas
opções.
Mas diabos! Nenhuma delas lhe daria o que desejava: Megan voltar para
casa com ele.
Claro que, embora contra seus preceitos morais, tinha certeza de que, se
lhe oferecesse a opção de não criar laços, a teria sob ele antes que seu
corpo secasse. Mas não queria apenas uma noite com Megan. E também não
estava disposto a entrar na rotina de um namoro. Mesmo com alguém
como Megan, não queria perder mais um ano em um relacionamento que
não tinha a autenticidade de pessoas que sabiam que era para valer e não
apenas para passar três ou quatro horas divertidas. Não queria ver Megan
em sua melhor forma. Arrumada e preparada para uma noite de romance.
Não queria esperar para a realidade começar.
Queria a realidade agora.
E a teve. Até que escorregasse entre seus dedos como um drinque
derramado.
Agora, não importava o quanto tentasse mostrar a Megan como fora, o
que aprendera sobre ela, fazê-la sentir a insanidade da ligação entre os
dois… não era o mesmo. Não era o suficiente.
No dia seguinte, ela partiria. E nada que ele fizesse a impediria.
Fechando a torneira, ele limpou a água dos olhos e sacudiu os cabelos.
Em seguida, envolveu os quadris com uma toalha e se preparou para o
adeus que certamente o aguardava do outro lado da porta. Ou mais
provavelmente lá embaixo, na sala de estar. Mas definitivamente não no
sofá.
Não iria mais protelar.
Escancarou a porta do toalete, determinado a enfrentar o desfecho
daquela situação como homem, e estacou onde estava, tomado de assalto
pela visão de Megan, afogada em seu roupão gigante, com os pés enfiados
sob o corpo em uma poltrona acolchoada na extremidade da suíte máster.
– Está bem – disse ela, retorcendo as mãos em um gesto nervoso. – Serei
sua esposa.
Megan continuara a falar, mas ele não entendeu uma só palavra do que
viera depois do “serei sua esposa”. No tempo de uma batida do coração,
Connor cruzou o quarto e a envolveu nos braços. Os lábios carnudos ainda
estavam se movendo quando ele os capturou em um beijo, silenciando-lhe
as palavras que não conseguia discernir. Megan poderia dizer o que
quisesse depois, quando baixasse o nível de adrenalina, que o ensurdecia
para tudo que não fosse o urro da vitória. Até lá, ele manteria aquela boca
carnuda ocupada com algo mais produtivo do que conversar.
Com as mãos espalmadas no peito musculoso, ela se afastou, rindo
quando Connor tentou seguir seu recuo.
– Espere – suplicou Megan. As mãos se moveram dos músculos peitorais
para lhe envolver a mandíbula. – Espere. Precisamos deixar algumas coisas
claras antes de seguirmos adiante.
Guiando os dois na direção da cama, ele fez que não com a cabeça.
– Mais tarde. Acordo pós-nupcial ou o que for, resolveremos depois.
Amanhã.
– Não, não é isso que… – E então, girando a cabeça, ela olhou para trás. –
Connor, estou falando sério. Na cama não…
Mas ele já a estava deitando sobre o colchão.
– Sei que você gostou da ideia da parede, mas dê uma chance à cama. Não
ficará desapontada.
E então a boca ávida estava sobre a dela outra vez. Uma das mãos longas
seguindo a curva suave da coxa de Megan até lhe alcançar o quadril nu. E
diabos, sim, ela estava arqueando na direção de seu corpo, gemendo com as
investidas de sua língua, se agarrando aos seus ombros e, em seguida, aos
cabelos. Abrindo os lábios para receber e corresponder à invasão erótica de
sua língua.
Megan era tão sexy! E lhe pertencia.
Saborearia cada centímetro dela naquela noite.
Abandonando-lhe a boca, os lábios de Connor rumaram para o pescoço
delicado, onde escorregou a língua sobre a pulsação acelerada e a ouviu
deixar escapar um xingamento abafado enquanto contorcia o corpo para se
soltar. Aquilo o fez recuar para encará-la.
– Droga.
A expressão de Megan se transformou em uma máscara de frustração,
fazendo-o recuar ainda mais, surpreso ao observá-la se erguer da cama.
– Agora. Temos de conversar agora. Porque não posso concordar com
tudo. Temos de estabelecer algumas regras básicas.
– Regras básicas. – Connor não estava gostando daquilo. – Tais como?
Apertando a faixa que prendia o robe à cintura, Megan mudou o peso de
um pé para o outro e o olhou de soslaio.
– Nada de sexo.
Os dentes de Connor cerraram enquanto ele deixava escapar um longo
suspiro pelo nariz.
– Quer dizer… esta noite?
Mas, mesmo enquanto fazia a pergunta, já sabia a resposta.
– Não. Estou me referindo a todo o período de três meses.
Forçando-se a rir em vez de xingar, Connor fez que não com a cabeça.
– Esqueça. Estamos experimentando um casamento real, e o sexo é uma
parte saudável e normal desse contexto.
– É dispersante – protestou ela. – Não consegui nem ao menos raciocinar
quando estávamos… – Megan agitou uma das mãos entre os dois. – … na
cama. E estamos falando sobre mudar meus planos para o resto da minha
vida. Preciso estar apta a pensar.
Connor franziu a testa.
– Terá muito tempo para pensar, querida. Que tal eu prometer não a
distrair quando estivermos discutindo algo importante?
– Sim, mas não tenho certeza se essa sua concessão será suficiente.
Quando estamos juntos… até mesmo nos beijando… não consigo pensar
claro o suficiente para mandá-lo parar, mesmo quando é o meu futuro que
está em jogo.
Está bem, pensou Connor. Rir como um tolo provavelmente não
transmitiria a melhor mensagem, mas droga!, gostava do que estava
ouvindo.
– Provou ser capaz disso… e mais de uma vez.
– Ficou por pouco!
– Já mencionei o quanto estou feliz por você ter se casado comigo?
– Estou falando sério…
– Eu também – contrapôs ele, erguendo-se da cama e a segurando pelos
ombros. – No que se refere à gravidez, obviamente esperaremos até que
você esteja confiante de que esta é a vida que deseja. Mas quanto ao sexo?
Sem chances. Vou seduzi-la.
– Eu direi “não” – sussurrou ela, o olhar já vagando para a boca sensual
de Connor.
– É um aviso justo… – Ele moveu o polegar ao longo da pele pálida sob o
lábio inferior de Megan. – Se fizer isso, eu pararei.
Fechando os olhos, ela anuiu, e o movimento permitiu que a carícia de
Connor se movesse para o lábio. Tão apetitoso.
– Sei que o fará.
Megan abriu os olhos e, dessa vez, os deixou percorrer a estonteante
estrutura masculina, desde a cabeça úmida, passando pelo local onde a
toalha se encontrava precariamente situada até o pé, antes de perfazer o
caminho de volta. Era como se estivesse se testando diante da tentação.
Aquela era a sua esposa!
Os músculos do pescoço de Megan se moveram para cima e para baixo
enquanto ela engolia em seco. Duas vezes. Em seguida, aqueles
deslumbrantes olhos azuis pestanejaram antes de encará-lo. A
determinação lutava para se refletir neles.
– Posso resistir a você.
Connor cedeu ao sorriso lento que lhe repuxava os lábios.
– Você pode tentar.
Capítulo 11

– PERDEU SUA maldita cabeça? – perguntou Jeff. O ultraje soava tão claro
pela linha do telefone quanto se o amigo em pessoa tivesse rastejado
através do fio para segurá-lo pelos braços e sacudi-lo.
– Acreditaria se eu dissesse que perdi a cabeça, subi à lua e estou
totalmente apaixonado? – perguntou Connor, carregando sua bagagem de
mão enquanto saía da banca de jornal do aeroporto.
– Não. – Soou a resposta direta e destituída de humor.
– Bem, então você está certo. – Desviando-se de um casal atracado em
um abraço apaixonado, Connor olhou ao redor dos portões e verificou a
hora no relógio de pulso. – Estou em meu juízo perfeito. Com os pés
firmemente plantados no chão da realidade e casado com uma mulher
estonteante, sexy e inteligente, que por acaso é tudo que eu estava
procurando em uma esposa.
– Uau, não sabia quer você estava procurando por alguma caça-dotes
perita em lavagens cerebrais ou teria lhe indicado uma dentre as hordas
das interesseiras que se atiraram aos seus pés na última década. Que
diabos aconteceu, homem. Essa mulher o drogou?
Connor contraiu a mandíbula e trincou os dentes.
Imaginara o que as pessoas iriam pensar. As conclusões que tirariam. E
dissera a si mesmo que não se importaria. Que nenhum dos dois se
incomodaria. Diabos, seu temor em ir contra as convenções não era menor
do que o de Megan. Mas, assim como no casamento de Gail, o instinto
protetor o preparou para contestar aqueles comentários absurdos.
– Nem de longe. Na verdade, suponho que tenha sido eu que realmente a
droguei.
Lá estava ela. Retornando da cafetaria, com uma bandeja lotada com dois
copos de café e um saco de pães doces. A outra segurava a mochila do
laptop pela alça. Ele diminuiu o passo, preferindo ficar longe do alcance da
audição de Megan.
– Hum… Connor, a que está se referindo?
– Deixei que ela se embebedasse, o que a fez esquecer a maior parte da
noite.
– Deixe-me adivinhar – disse Jeff em tom de voz seco. – Ela se lembra da
parte em que se casaram.
– Sim, mas infelizmente não se lembra por que, no momento, pensou que
aquela era uma excelente ideia. Foi necessário um pouco de esforço de
minha parte para fazê-la se recordar. Até mesmo agora, ela ainda está
reticente, mas disposta a dar uma chance ao casamento. Estamos voando
para Denver a fim de que ela faça as malas.
– Você está falando sério?
Connor não conseguia se lembrar se algum dia ouvira a voz de Jeff tão
estridente, e aquele som trouxe de volta aos seus lábios o sorriso com que
iniciara aquela ligação.
– Claro. Você terá de confiar em minha palavra, mas, Jeff, eu a conheço. E
gosto muito dela. – Em seguida, por simplesmente não conseguir deixar de
provocar um velho amigo quando a oportunidade se apresentava,
acrescentou: – De volta à ativa, como você mesmo disse.
– Por falar no assunto… ela sabe sobre Caro?
– Sim. Eu lhe contei na primeira noite. – Connor limpou a garganta e
olhou para a pista adiante. – E ontem também. – Tivera uma sorte dos
diabos por Megan ter lhe perguntado sobre algum relacionamento sério
enquanto se dedicavam ao curso “conheça seu companheiro”. Caroline fora
a última mulher em sua vida, e algo lhe dizia que não seria muito
interessante para a confiança que estavam construindo ele não colocar a
esposa a par do assunto. E até mesmo agora percebia que deveria ter sido
mais detalhista em seu relato. Determinados pormenores que não
alteravam nada, mas, diabos!, Megan estivera muito próximo de não dar
uma chance àquele casamento. Muito próximo. Não estava disposto a
arriscar que ela se aborrecesse por alguma lamentável cronologia, ao
menos não até que estivessem em terreno mais sólido.
– Não posso acreditar que não me tenha apresentado a ela ontem. Queria
ter conhecido essa mulher… agora que sei que ela não o arrastou pela nave
da igreja com uma faca apontada para suas costas – disse Jeff.
Connor sorriu e retomou a caminhada, acenando quando Megan girou na
direção dele. Aquele sorriso largo lhe provocava todos os tipos de reações
ao mesmo tempo.
– Em breve. Por enquanto, estou pronto para levá-la para casa.
– É bom ouvir isso, mas quero detalhes. Comece do início.
– Trinta segundos depois que você partiu, a “ginasta” apareceu em minha
mesa, com uma cantada pouco original.
– A ginasta? Rapaz!
Megan o alcançou no meio do caminho e, parecendo ter ouvido aquela
parte da conversa, ergueu as sobrancelhas em uma expressão divertida. Em
seguida, inclinou-se na direção do telefone.
– Não sou ginasta.
Connor se inclinou e lhe depositou um beijo breve na têmpora,
deliciando-se com o leve rubor que corou as bochechas do rosto de Megan.
– Mas ela não é ginasta e não foi exatamente uma cantada…

MEGAN DESPERTOU com as batidas firmes do coração de Connor sob sua


orelha, o peso do braço musculoso em torno de sua cintura e o redemoinho
de uma mente ansiosa por despertar.
Após dois dias de intensa atividade em Denver, os dois haviam embalado
a maior parte do que havia em seu apartamento, deixando apenas o mais
elementar para trás. Risadas e piadas do tipo que Megan nunca desfrutara
haviam pontuado uma intensa negociação, os limites estritos e os prazos,
enquanto planejavam como seriam os três próximos meses. Acordos sobre
como dormiriam, obrigações sociais e viagens, os respectivos
compromissos profissionais e uma miríade de outros detalhes que
comporiam a vida na qual estavam embarcando tiveram de ser acertados.
Com tantas coisas a fazer e decisões a tomar… passava da meia-noite
quando Connor finalmente transpôs a soleira da porta de sua espaçosa casa
em San Diego com ela nos braços. E cinco minutos depois os dois
colapsaram na cama.
Agora, Megan piscava os olhos sonolentos, com um sorriso tolo a lhe
curvar os lábios e a frase “hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas” na
mente. Olhando ao redor do quarto desconhecido, localizou um relógio em
um canto afastado e franziu a testa ao constatar que o “hoje” estava
começando no incrédulo horário de quatro horas da manhã.
Megan escorregou de maneira furtiva para fora da cama e desceu a
escada, acendendo uma luz após outra, para se familiarizar com a casa que
ainda não considerava seu lar. Ao longo do caminho, procurava indícios
que revelassem mais do homem com quem se casara. O que descobriu foi
um lugar decorado com elegância, que mais parecia algo exposto em um
salão de exibição, onde cada cômodo possuía uma peça de obra de arte
central, inspirando tudo ao redor. Cavalos pintados a carvão correndo por
uma planície aberta no imponente escritório. Uma estatueta de bronze que
captava a essência de um cavaleiro cansado em cima de sua montaria era a
obra central de uma sala de leitura. E o couro envelhecido por trás do vidro
na sala de estar revelou que seu marido tinha o coração de um caubói.
Um forte contraste com as linhas elegantes e o corte impecável de tudo
feito sob medida que ele usava. Ao menos tudo que ela vira até o momento.
Mas talvez aquilo fosse apenas para Las Vegas.
Havia tanto a aprender. As palavras que a mãe lhe dissera na despedida,
após a conversa que tiveram na manhã do dia anterior, lhe sussurraram ao
ouvido.
“Você terá de jogar alto se quiser permanecer com esse…”
Megan fez um movimento negativo com a cabeça. Que conselho!
Não havia nenhum jogo. E nunca houvera.
Não era afeita a ilusões, graças às lições aprendidas na convivência com a
mãe.
Afastando-se da relíquia do Velho Oeste, o olhar de Megan se deparou
com as portas de vidro do teto ao chão que compunham a parede sudoeste.
As nuances escuras das primeiras horas da manhã davam lugar ao azul, e a
paisagem ao redor começava a ganhar forma. Palmeiras se estendiam em
contornos escuros contra o céu da manhã, e elusivas estrias brancas no mar
corriam de encontro às costas.
Megan se aproximou lentamente, desejando enterrar no fundo da mente
as palavras da mãe e as lembranças. Perder-se na beleza revelada pela
aproximação da luz do dia. Porém, o passado já havia dominado o presente.
Todos os “papais” que haviam passado por sua vida. Os homens
maravilhosos que Gloria Scott estivera disposta a fazer, ou ser, qualquer
coisa para mantê-los ao seu lado. As mudanças radicais na personalidade e
objetivos pessoais da mãe, que prenunciavam a chegada de cada novo
homem. A própria determinação de Megan em não permitir que esse novo
homem se aproximasse demais, não importava o quanto fosse bom ou
divertido, porque aquilo não seria permanente. Nunca era. Seu nervosismo
infantil quando as coisas começavam a dar errado. Os olhares de
desaprovação, as expressões contrariadas. A esperança de que talvez
estivesse errada. Que talvez, se fosse uma menina boa e se esforçasse o
suficiente, aquele não fosse embora.
Mas todos partiam.
Eugene, Charlie, Pete, Rubin, Zeke, Jose e Dwayne. Sete maridos e todos
se foram. Ainda assim, a mãe ainda não percebera. Ninguém podia fazer
algo durar quando não estava predestinado. Da mesma forma, ninguém
podia ser algo que não era. E tentar apenas prolongava o inevitável.
Alguns eram fáceis de esquecer. Mas outros… Megan deixou escapar um
suspiro pesado enquanto a lembrança de um par de olhos semicerrados
pela luz do sol piscando para ela através de uma doca desgastada lhe fez o
coração contrair. Os ecos daquelas ausências estavam profundamente
arraigados em seu cérebro e influenciavam todos os relacionamentos que
ela tentara.
Os dedos de Megan escorregaram pela moldura de madeira das portas
deslizantes enquanto um frio de ansiedade lhe agitou o íntimo. Apesar de
sua determinação em contrário, não estaria repetindo os mesmos erros da
mãe?
Casara-se com um homem que conhecera havia menos de um dia. Um
homem que acreditara tanto no valor da mulher que conhecera na noite da
qual ela nem sequer se lembrava, que estava determinado a não a perder.
Claro que Connor pensava que a conhecia. Mas e se estivesse errado? E se
ela não tivesse sido a Megan genuína e ele estivesse tão focado na vitória
conquistada a duras penas que não tivesse percebido isso ainda?
Quanto tempo levaria até que Connor enxergasse além da ilusão da
pessoa que desejava que ela fosse e a visse como realmente era?
Aquilo aconteceria dentro do prazo da experiência de três meses ou
depois que ela de fato se permitisse acreditar…
– Acordou cedo.
Megan girou com um movimento abrupto para encontrar Connor a
observando do corredor. Ele trajava uma calça de pijama de algodão cinza
que caía perigosamente pelos quadris retos. A largura nua daquele peito
perfeito enfatizada pela forma casual com que ele recostara um dos braços
no batente da porta aberta.
– Você também.
Deus! Aquele homem estava estonteante com a massa de cabelos sedosos
apontando para todas as direções e a barba de um dia ao longo da linha
perfeita da mandíbula quadrada. Aquilo lhe emprestava uma aparência
maliciosa que também se refletia em seu sorriso e no olhar.
– Minha cama ficou solitária de repente – retrucou ele com uma
piscadela que fez loucuras nas entranhas de Megan e a lembrou da
impossibilidade de não acreditar nas convicções daquele homem quando
estavam juntos.
Connor acreditava nos dois. Estava mais do que disposto a dar aquele
enorme salto de cabeça no futuro deles como casal. Fazia parecer tão
simples.
Apenas salte.
Quando ele a olhava da maneira como o fazia agora, a estimulava a
querer saltar. Fazia Megan querer tudo que ele estava lhe oferecendo. Mas
desejar algo não significava necessariamente que aquilo era o melhor.
Tinha de manter isso em mente.
– Solitária.
Connor sorriu.
– Sim. Bem, também deduzi que talvez você desejasse fazer um tour por
sua nova casa. Quem sabe tomar um pouco de café?
Megan deixou escapar um gemido involuntário.
– Sim, café, por favor.
Com uma risada, Connor lhe segurou a mão.
– Meu ego está exigindo que da próxima vez que fizer esse som não seja
por causa do café. Venha.
Na cozinha, Megan vasculhou o freezer enquanto ele ligava a cafeteira.
– Não sou boa cozinheira, no caso de ainda não ter mencionado isso, mas
sei preparar waffles congelados – ofereceu ela por sobre o ombro.
Connor se aproximou por trás, um dos braços se esticando sobre o
ombro de Megan para fechar a porta do freezer.
– Daqui a um minuto.
Megan sentiu o coração perder uma batida e o ventre formigar.
– Connor – advertiu ela, dando um passo atrás.
– Relaxe, querida. – Ele a tranquilizou, cingindo-a pelos quadris e a
empurrando para trás até recostá-la à mesa impecavelmente arrumada da
cozinha. Em seguida, ergueu-a para sentá-la sobre o tampo. – Tudo que
estou querendo é meu previamente combinado beijo de bom-dia.
A concessão que haviam acordado no que se relacionava à intimidade.
Aquele fora um ponto de discórdia entre os dois, com Megan
determinada a não deixar que a sedução modificasse sua forma de pensar
sobre aquele casamento e Connor desejando… bem… tudo. Por fim,
nenhum dos dois pareceu interessado naquele tipo de acordo prévio de
três meses puramente platônicos, quer fosse de experiência ou não.
Portanto, optaram por quatro beijos diários. Um de bom-dia, um de tenha-
um-bom-dia, um de seja bem-vindo a casa e outro de boa-noite concedidos
nesses respectivos momentos.
Quatro. Ela poderia lidar com quatro beijos.
O corpo de Megan aqueceu diante do pensamento de que estava na hora
de arcar com as consequências de tal acordo.
Afastando-lhe os joelhos um para cada lado, Connor se posicionou entre
eles. Em seguida, aproximou-se. E depois um pouco mais. E mais até que
uma de suas mãos estivesse apoiada sobre o tampo de madeira atrás dela e
a outra envolvendo a cintura de Megan, que não teve outra opção a não ser
ficar pressionada contra os ombros largos.
– Um beijo – sussurrou ela, sentindo-se drogada pela fragrância da pele
masculina.
– Um beijo. Da forma que eu quiser.
Ofegante, Megan o olhou nos olhos.
– E você quer fazer isso na mesa do café da manhã.
Deixando escapar um gemido baixo, Connor roçou o dorso do nariz
contra a mandíbula delicada até o ponto abaixo da orelha de Megan.
– Deus, sim! Mas me contentarei apenas com um beijo se for o que
estiver preparada para me dar.
– Apenas o beijo. – Megan tentou afastar a entonação de súplica da voz,
mas queria ser lembrada daquela química. Da mágica. Para onde aquilo
estava se encaminhando se tudo desse certo. Ou talvez tudo que desejava
era a boca de Connor na sua.
O familiar sorriso arrogante se alargou um milímetro. As pálpebras de
Connor baixaram como em câmera lenta.
– Veremos.
E então Megan sentiu. O primeiro leve roçar dos lábios sensuais contra
os dela. A insinuação suave e persuasiva do que estava por vir.
Deus! Ela queria que aquilo durasse muito tempo.
Capítulo 12

– NADA DE sexo? – perguntou Jeff com uma voz estrangulada do outro lado
da linha.
Apertando o volante com as mãos até que as juntas dos dedos se
tornassem brancas, Connor não perdeu o divertimento implícito na voz de
Jeff, não importava o quanto o amigo tentasse disfarçar.
Era bom saber que alguém achava aquilo engraçado.
– Sim, também não consigo acreditar nisso. Mas Megan… – Connor
inspirou lentamente, relanceando o olhar além dos desfiladeiros para o
oceano que se descortinava adiante, antes de retornar a atenção à estrada.
Tivera tanta certeza de que a teria com aquela cota diária de intimidade,
porque quando se beijavam… Connor escorregou um dedo por dentro do
colarinho, abriu o primeiro botão da camisa e afrouxou a gravata… se
beijavam para valer. Mas, como prometera, Megan se mostrara
determinada.
– Ela não quer que nada lhe embote o bom senso até chegar a uma
conclusão.
– Certo. Entendi. Sessões de sexo selvagem têm a tendência de confundir
prioridades. Dar significado ao insignificante. Tornar as coisas “especiais”
quando na realidade não são. Garota inteligente. – Connor trincou os dentes
molares, sem saber exatamente que tipo de resposta desejara do amigo…
mas certamente não fora aquela. – Então, fora o fato de sua esposa o achar
totalmente resistível, como está o restante da vida de casado?
– Bom. Sem surpresas. – Não muitas. – Megan é mais reservada do que se
mostrou em nossa primeira noite. E está meio preocupada em se certificar
de que eu saiba no que estou me metendo. Sabe como é, mostrando uma
lista de defeitos para se revelar por completo. Megan teme que eu tropece
em alguma decepção depois que ela esteja comprometida.
Após alguns segundos de pausa, o tom de brincadeira abandonou a voz
de Jeff.
– Alguma decepção?
– Relaxe – respondeu Connor. – Coisas pequenas. Na maioria, bobagens.
Afinal, ele não se importava nem um pouco que Megan não fosse uma
cozinheira de mão cheia ou que tivesse a tendência de se exceder quando
adotava um novo hobby. Mas certamente fazia questão de saber se a
mulher com quem se casara seria sincera com ele. E todas as vezes que
estavam juntos Megan lhe dava provas disso.
No entanto, queria a confiança de Megan de volta. A fé que ela colocara
nos dois quando recitara seus votos. Mas todas as vezes que ela revelava
outro defeito, aguardando um instante para medir sua reação ou se o
abalaria, Connor se lembrava de como aquela fé se esvaíra de Megan da
noite para o dia.
Não importava. Em breve, ela veria. E até lá… bem, não podia reclamar.
Megan era uma mulher forte. Inteligente. Sabia se proteger.
– Ela me faz rir e é uma pessoa excepcionalmente fácil de conviver.
Agradável de conversar. – Agradável aos olhos e lhe ocupava a mente com
facilidade. Talvez com muita facilidade.
Mas isso era de se esperar.
Megan era um desafio. E, embora tivesse conseguido que ela desse uma
chance ao casamento dos dois, Connor sabia que ela não estava totalmente
entregue. Isso significava que Megan era um projeto inacabado. Um negócio
prestes a ser fechado. Droga! Era um prurido a ser coçado. Ele a queria e
até ter certeza de que a possuía Megan lhe estaria ocupando a mente mais
do que ele normalmente permitia que um relacionamento o fizesse.
– Cara, fico feliz que tenha encontrado uma mulher com quem possa
conversar. Sei que sempre imaginou um casamento que fosse mais como
uma fusão de empresas. E depois de Caro…
– Ouça, estou quase chegando em casa. – Connor diminuiu a velocidade
ao atravessar o caminho que levava à garagem da casa, esperando que o
portão se abrisse. – Está na hora de vencer a resistência da esposa.
– Entendi. – Jeff soltou uma risada, não se ofendendo com a interrupção
abrupta do telefonema. Se tivesse alguma coisa para dizer, estava certo que
teria outra chance de fazê-lo. – E boa sorte… parece-me que vai precisar.
Connor desligou e saltou para fora do carro. Um sorriso lento se
estampou nos lábios enquanto a mente se focava na última imagem que
tivera da esposa, antes de sair para o trabalho. Sabia que ela não se
pareceria em nada com a felina sexy daquela manhã, que ronronara com o
beijo que ele pressionara em seus lábios, antes de despertar por completo.
Sonolenta e quente. O pijama de seda, que lhe marcava o contorno dos
mamilos, erguido na altura das costelas.
Não era de se admirar que Megan ocupara seus pensamentos nas últimas
onze horas.
Agora, ela estaria vestida. Provavelmente limpa e arrumada. Ainda assim,
Connor não conseguia afastar os acontecimentos picantes que lhe
assombravam os cantos não tão ocultos da mente. Acontecimentos que
envolviam seda e sonolência, embalados em um tipo de beijo seja-bem-
vindo-ansiei-por-você-o-dia-todo.
Sim, grande chance!, pensou ele, sarcástico.
Fechando a porta ao entrar, ele gritou o jocoso “querida, cheguei” ao
cruzar o corredor.
O silêncio ecoou de volta para Connor enquanto ele largava as chaves na
mesa com tampo de vidro e seguia na direção da escada. O segundo andar
se encontrava escuro e vazio, com exceção da luz frouxa da luminária no
hall, acima do lance de escada. O terceiro andar também. Connor franziu a
testa e verificou se havia alguma mensagem no telefone celular. Nenhuma.
Não que retornar a uma casa vazia fosse uma experiência nova para ele,
mas com Megan vivendo ali, esperara… algo diferente.
Não que estivesse desapontado. Desejara uma mulher independente, que
não o fizesse se sentir culpado por sua agenda de trabalho atribulada ou
agisse como se sua vida estivesse atrelada à dele.
Desejo concedido!
Porém, caminhando por aquela casa vazia, que nunca lhe parecera
solitária antes, teve de admitir que, em uma semana de casamento, não
esperava que ter seu desejo concedido o deixaria tão incomodado.
No meio do corredor escuro, Connor estacou em frente à porta do
escritório de Megan. Um feixe de luz prateada se insinuava pela fresta
juntamente com o som indistinto de teclas de computador sendo digitadas.
Megan estava ali.
Girando a maçaneta, abriu a porta do santuário da esposa… e descobriu
sua fantasia coberta com a mesma seda daquela manhã. O olhar
concentrado no monitor enquanto os dedos trabalhavam ligeiros no
teclado à frente.
A sensualidade da aparência sonolenta de Megan esmaecera ao longo do
dia, mas, ainda assim, ele não conseguia desviar o olhar dela. Parecia
intensa e focada. E sacudia levemente a cabeça no ritmo do que quer que
estivesse tocando naqueles fones de ouvido rosa-shoking.
Nunca, nem em um milhão de anos, Connor esperara voltar para casa e
encontrar uma cena como aquela se tivesse se casado com Caro. A ex-noiva
estaria a postos e toda arrumada. Atenciosa daquela maneira distante à
qual ele se acostumara. Fazendo comentários corriqueiros como faziam
com estranhos durante os coquetéis. E ele nunca saberia… para ser sincero,
nunca se importaria com o rumo dos pensamentos de Caro.
Nada parecido com aquilo, pensou ele com um sorriso estupefato.
Naquele momento, sabia exatamente onde estavam os pensamentos de
Megan. Imersos no trabalho. O projeto que ela estivera esperando
finalmente havia chegado.
Despercebido, Connor permaneceu parado à soleira da porta,
considerando suas alternativas.
Poderia entrar e tirar vantagem da distração de Megan. Afastar aquela
massa de cabelos loiros para o lado e começar pelo pescoço sedoso,
aproximando os lábios do ponto extremamente sensível que ela possuía
atrás da orelha, antes de seguir adiante…
Ou poderia pedir o jantar, porque baseado no que estava vendo aquilo
nem passara pela cabeça de Megan. E, quando tivesse seu beijo de boas-
vindas, queria que ela estivesse focada.
Esfregando a nuca, ele virou para se retirar.
– Connor.
A voz de Megan soou alta, e ela o encarava com uma adorável expressão
confusa.
Connor indicou a própria orelha, e ela retirou os fones de ouvido.
– Olá, bela. Como foi seu dia?
O cumprimento fora sincero, mas Megan parecia tê-lo interpretado como
sarcástico. O semblante empalideceu ao mesmo tempo que as mãos
rumavam para os cabelos loiros e depois para o pijama de seda, que
revelava mais segredos do que ocultava.
Porém, logo em seguida aconteceu a coisa mais admirável. A expressão
de constrangimento se dissipou, e algo que se parecia muito com desafio se
estampou no belo rosto da esposa.
– Fiquei envolvida com este trabalho durante todo o dia… e perdi a noção
do tempo. Isso pode ser irritante para algumas pessoas.
Ah, mais uma das revelações. O que fosse necessário para tranquilizá-la.
– Acha que está em um ponto em que pode parar se eu pedir comida
chinesa? – perguntou ele, sentindo que o tempo que Megan teria para
concluir o que estava fazendo até chegar o jantar lhe permitiria não
retornar ao trabalho naquela noite. Costumava ser assim com ele.
– Você não se importaria? – O olhar de Megan voltou a se concentrar
nele, infinitamente mais suave do que segundos atrás.
– É melhor não me importar… em breve será minha vez. – Sem
questionamentos. – Ligarei para o restaurante e tomarei um banho rápido.
Encontre-me no térreo quando estiver pronta. – E diante da testa franzida
de Megan. – Algo errado?
– Não quer seu beijo?
– Oh, quero – assegurou ele, cedendo ao sorriso que estivera pairando
em seus lábios. – Mas só quando tiver sua total atenção. Portanto,
concentre-se para concluir seu trabalho.

A PORTA se fechou, e Megan voltou o olhar ao monitor, aliviada com a


tranquila aceitação de Connor em relação ao fato de ela ter se distraído com
o trabalho, mas ainda incapaz de se livrar das dúvidas. A sensação de que,
se não era aquilo que abriria os olhos de Connor para um futuro não muito
promissor, então seria outra coisa. Fatalmente aconteceria.
Megan não queria pensar daquela forma. Havia muita harmonia entre os
dois, mas ainda assim uma parte dela não conseguia crer. Essa parte
percebia a máscara de calma que Connor estampava no rosto toda vez que
ela lhe mostrava algo que tinha todo o potencial de ser desagradável. Isso
fazia Megan imaginar o que haveria por trás daquela aparente
tranquilidade.
Claro que o fato de ter ficado envolvida com o trabalho até a noite não
era algo tão grave. Mas o que ela falava ou fazia parecia não importar. Era
como se nenhum mau hábito ou defeito pessoal fosse registrado. Parecia
que Connor estava tão determinado a provar o quanto os dois eram
perfeitos um para o outro, que decidira fazer vista grossa para tudo que
não se encaixasse… Até o dia que não fosse mais capaz de ignorar.
E então o que aconteceria?
Deus! Megan queria acreditar. Mas com tanta coisa em jogo, precisava
que ele tivesse mais do que uma ilusão de perfeição. Precisava saber se
Connor a estava vendo de fato como ela era.
Capítulo 13

– O QUE ela preparou para você? – Jeff guinchou do outro lado da linha.
Connor fez um movimento negativo com a cabeça, recordando a última
tentativa de Megan de confrontá-lo com a realidade. A última tentativa
fracassada.
– Atum ao molho branco sobre purê de batatas. Com ervilhas. – Enlatado,
em caixa, congelado. Connor sabia porque vira as embalagens deixadas
estrategicamente expostas no balcão. – Ao que parece é alguma preferência
familiar antiga que ela tem de comer de vez em quando.
– Não brinca.
A última vez que Connor ouvira aquele tipo de admiração na voz do
amigo fora quando uma modelo famosa piscara e atirara um beijo para Jeff,
antes de pular de bungee jumping na barragem da Usina Hidrelétrica de
Verzasca em Ticino, Suíça. – Diabos, essa mulher está levando a sério a
tarefa de decepcioná-lo.
Connor sentiu um arrepio enquanto controlava um rosnado que no
momento ameaçava sua calma.
– Se está levando a sério, deveria recorrer a algo mais substancial do que
um jantar. Como se eu fosse desistir por ela não me servir uma refeição
cinco estrelas. Essa não!
Aquilo era um insulto para ambos.
– Você comeu aquele grude?
– Claro que sim. – Connor resfolegou, surpreso com a pergunta do amigo.
– Megan fez especialmente para mim. – E comera até a última garfada,
como se fosse um banquete dos deuses, embora nem mesmo Megan tivesse
conseguido comer. E então, cedendo a uma relutante risada abafada,
acrescentou: – Mas tenho de admitir que aquela foi a pior coisa que já
experimentei.
– Rapaz!
Meia hora depois, os pensamentos sobre os testes e as frustrações foram
postos de lado. Connor adentrou a cozinha, afrouxando a gravata e
desabotoando o colarinho, com o olhar fixo nas curvas graciosas das
nádegas de Megan, delineadas por uma calça de ioga colada ao corpo e ela…
oh, diabos!, estava verificando o ponto do que parecia ser uma lasanha no
forno… mas o aroma nada tinha a ver com a iguaria italiana.
Não. Outra. Vez.
– Olá, bela – disse ele, anunciando sua presença um segundo antes de
escorregar as mãos pelas doces curvas dos quadris de Megan. Precisava de
um lembrete que justificasse por que ele teria de digerir a próxima
atrocidade culinária. Uma espécie de incentivo.
Com as mãos espalmadas no quadril e na cintura de Megan, ele a
observou fechar a porta do forno e começar a girar.
– Que tal meu beijo de boas-vindas… Argh!
Connor atirou a cabeça para trás quando se deparou com o rosto
sorridente coberto com algum tipo de máscara com aparência de matéria
orgânica em decomposição ressecada… sem mencionar o odor.
– Seu beijo? – Megan soltou uma risada, dando-lhe palmadas leves no
peito e, em seguida, piscando, maliciosa, enquanto se afastava. – Desculpe
por surpreendê-lo com essa máscara com aparência de vegetais em
decomposição, mas eu a aplico toda semana – justificou ela, dando de
ombros.
– Toda semana? – Deus! Não poderia nem imaginar ter de enfrentar
aquele odor regularmente. Ousando olhar mais de perto, Connor se
inclinou para a frente e escorregou o dedo ao longo da bochecha do rosto
pegajoso.
– Que efeito tem isso?
Megan deu de ombros.
– Uh… bem, fecha seus poros. E remove as impurezas. Mantém a pele
com uma aparência mais suave. Jovial. Mais saudável.
Hum. Metade do tempo em que estivera com Megan não a vira usar
nenhum tipo de maquiagem e a achara linda de qualquer jeito. A pele
impecável, pontuada por graciosas sardas. Talvez fosse o efeito da
máscara?
– Interessante. – E, gesticulando com a mão em frente ao próprio rosto,
perguntou: – Que outros segredos de beleza devo esperar?
Connor nunca questionara nenhuma outra mulher com quem se
relacionara sobre os misteriosos rituais femininos, mas também nunca
tivera tal curiosidade. E, claro, nunca tivera uma relação tão íntima e
pessoal com alguém.
Com os braços cruzados, Megan lhe lançou um olhar especulador.
– Depilação com cera – respondeu após um instante.
– É mesmo? – O olhar de Connor deslizou pelo corpo de curvas graciosas,
a curiosidade sobre cada centímetro de pele macia aumentando.
Dessa vez, foi Megan a gesticular a mão em torno do próprio rosto, o
sorriso desafiador a todo o vapor.
– Sim.
A princípio lhe pareceu confuso, mas logo Connor entendeu e empinou o
queixo.
– É mesmo?
Megan ergueu uma das sobrancelhas delicadas.
– Por quê? Isso não o incomoda, certo?
Connor poderia ter julgado aquele olhar brincalhão, não fosse pelo brilho
de aço nas profundezas azuis.
O bom humor e a curiosidade divertida de Connor se dissiparam.
Outro teste.
Havia passado três semanas, e ele não conseguira provar nada para
Megan. Não fizera nenhum progresso em aliviar as preocupações que a
atormentavam. E aquilo estava começando a irritá-lo. Minando os limites
de sua natureza até o ponto em que algo teria de ceder.
Mas não ele.
– Sei o que está fazendo.
Megan o encarou alarmada, preparando-se para o que vinha a seguir.
Boa ideia. Seria necessário, porque ele estava prestes a pôr um ponto
final naqueles estratagemas.
Connor caminhou na direção dela, permitindo que a mente descascasse
as camadas de defesa que Megan erguera entre ambos. A máscara, os
testes, até ver apenas a mulher que lhe dirigira o olhar naquela primeira
noite.
– Sei o que quero. – Megan havia se recostado à bancada, a respiração
escapando pelos lábios de uma forma que incitava a parte mais primitiva
de Connor. – E se está pensando que a ameaça de alguma máscara
fedorenta ou o ritual não muito sexy de se depilar a cera irá me impedir de
conseguir isto… – Ele lhe acariciou a orelha, afastando para trás algumas
mechas de cabelos soltas naquele ponto e prosseguiu com a carícia pelo
pescoço delicado. Em seguida, inclinou-se na direção dela e se permitiu um
tom levemente rude na voz. – … está muito enganada. – Dois olhos azuis
arregalados envoltos pela máscara verde pútrida o encararam. Disposto
não só a sustentar o desafio de Megan, mas também estimulá-lo, ele se
aproximou ainda mais, respirando apenas pela boca. – Quero meu beijo
agora.

MUITO BEM. Aquilo não saíra exatamente como ela pretendera. Nem de longe.
Ofegante e trêmula pelo desejo não saciado, a camiseta enrolada em um
dos cotovelos, Megan baixou o olhar ao próprio corpo estendido no granito
polido da ilha central da cozinha com absoluta descrença, enquanto Connor
se retirava, impassível. Assobiando para si mesmo!
Como se tivesse experimentado uma espécie de vitória, em vez de ter
rastejado para fora daquela bancada, coberto de repugnantes flocos de
máscara de alga. A camisa feita sob medida sem metade dos botões e
ostentando uma ereção que ameaçava arrebentar o zíper da braguilha.
Conseguira resistir a ele!
Claro que levara algum tempo até que Megan voltasse a si. E
provavelmente apenas porque, no meio da tempestade de paixão, ela
tivesse aberto os olhos e se deparado com o reflexo de seu rosto verde no
metal reluzente da tigela pendurada acima da bancada. Mas ainda assim,
após algumas tentativas ofegantes, conseguira pronunciar o nome de
Connor. E alguns minutos depois fora capaz até mesmo de desenroscar os
tornozelos que enroscara na cintura dele e dizer “não”.
Determinada. Mais ou menos.
Connor lhe capturara os lábios em um último e ardente beijo antes de…
desmontar.
Assobiando.
Aff!
Então, aquela máscara revoltante que ela mal podia aguentar, mas que
usava porque, apesar do odor desagradável, era extremamente eficiente,
não fora o suficiente para fazer Connor desistir daquele jogo. Na verdade,
ela não esperara que fosse.
O homem com quem se casara não era fraco. Era motivado por seus
objetivos. Não temia o confronto, fosse em face do trabalho duro ou de um
pungente odor de pântano.
Megan engoliu em seco.
Embora o desejasse, todas as vezes que se confrontava com a segurança
tranquila e imperturbável, a lábia e olhar obstinado de Connor, não
conseguia deter os pensamentos que lhe invadiam a mente.
Aquele homem sabia influenciá-la, fazer todas as promessas certas e
deixá-la se sentindo mais vulnerável do que antes. Connor não admitia
nada que não estivesse alinhado com seu objetivo. Não respondia de
nenhuma forma crível. Isso a aterrorizava. Porque, se recusando a enxergar
quem ela de fato era e moderando todas as suas respostas, Connor também
a estava impedindo de ver quem ele realmente era.
Mas Megan não conseguia se forçar a desistir. Porque para cada defeito
facilmente relevável havia centenas de exemplos de sinceridade. Momentos
muito puros e intensos para não serem genuínos.
Deus! Tinha de tomar cuidado.

MEGAN NÃO conseguia acreditar que chegara àquele ponto.


Sabia que tipo de waffles Connor preferia. E isso não era o bastante.
Importava-se com os waffles que ele preferia. E, pior, passara os últimos
dez minutos parada diante da porta aberta da seção de congelados para
café da manhã, determinada a encontrar waffles ainda melhores, para que
dessa forma fosse ela a preparar o melhor maldito waffle que ele jamais
experimentara.
Oh, aquilo não era um bom sinal. Nada bom.
E desconcertante, agora que parara para pensar. Tratava-se apenas de
waffles, pelo amor de Deus!
Sentindo-se de repente em evidência, relanceou o olhar pelo corredor do
supermercado, esperando encontrar uma multidão de bisbilhoteiros rindo
e fazendo apostas sobre a marca pela qual optaria. Mas, em vez disso, seu
foco captou uma massa de cachos grisalhos que encimavam um rosto que
ela não vira durante as duas décadas que o envelheceram.
A respiração lhe escapou pelos lábios em um sussurro gelado.
– Pete.
Megan pestanejou várias vezes e deu um passo à frente antes que fosse
capaz de conter o impulso. Não poderia ser ele. Durante todos aqueles
anos, nunca fora ele. Mas dessa vez… podia jurar que era Pete.
Com o coração martelando as costelas, Megan sentiu a bolha do riso lhe
subir pelo peito. Deveria abraçá-lo? Apenas lhe dar um aperto de mão?
Dizer que até mesmo naquele momento podia perceber o quanto sentira
sua falta durante todos aqueles anos?
Pete deveria morar naquele bairro, embora, do jeito que ele adorava
viajar, talvez estivesse apenas de passagem. De qualquer forma, estava a
ponto de tocá-lo quando ele disse:
– Diga, broto, o que acha de chocolate com manteiga de amendoim e
marshmallows?
Megan estacou, muito confusa para encontrar sentido nas palavras que
ouvia.
Porém, em seguida, ele lhe relanceou o olhar, soltou uma risada
estrondosa de surpresa e recuou um passo rapidamente.
– Oh, Deus, perdoe-me, minha jovem. Por um instante, pensei que você
era a minha filha. – Os olhos semicerraram nos cantos. – Tenho uma
péssima mania de não prestar atenção com quem estou falando!
E então uma mulher em estágio avançado de gravidez virou para aquele
corredor, acariciando a barriga com uma das mãos, enquanto verificava a
lista de compras que segurava na outra.
– Nada de marshmallows, papai, mas vou querer a manteiga de
amendoim.
Pete anuiu e esticou a mão para pegar outra caixa na prateleira. Em
seguida, atirou-a no carrinho e voltou um olhar expectante a Megan.
Porque ela o estava encarando e Pete não tinha a menor ideia de quem se
tratava.
Claro que não poderia saber. Embora Pete estivesse bem conservado,
doía-lhe o coração revê-lo. Ela era uma criança na última vez que ele a vira.
– Pete, sou Megan Scott. Quero dizer, não mais. Eu me casei. Agora sou
Megan Reed.
Um calor lhe subiu ao rosto ao perceber como era prazeroso dizer a Pete
que se casara. Pensar que talvez pudesse apresentá-lo a Connor. Os dois
simpatizariam um com o outro. Sabia que sim. Nunca pensara sobre o
assunto até aquele instante, mas os dois tinham muita coisa em comum.
Porém, os pensamentos ligeiros estacaram com um solavanco, e toda
aquela energia feneceu quando linhas profundas vincaram a testa de Pete.
– Megan… Scott? – Pete olhou por sobre o ombro para a filha, parada a
alguns centímetros de distância, com um sorriso simpático estampado no
rosto. Em seguida, estalou os dedos, voltando a atenção outra vez a Megan.
– Do banco, na First?
Capítulo 14

CONNOR TINHA de admitir que estivera procurando uma briga. Contornando


a esquina, em direção à casa, sentiu a tensão concentrada nas costas e no
pescoço. O tipo de pulsação acelerada que experimentava quando entrava
em uma grande negociação. E o fato de seu organismo estar se predispondo
ao conflito diante da expectativa de ver sua esposa apenas piorava as
coisas.
Não houve nenhum “teste” novo, mas o distanciamento emocional, os
olhares defensivos e a especulação quando Megan pensava que ele não
estava prestando atenção – às vezes, mesmo sabendo que ele estava vendo
– haviam apenas aumentado. Algo estava a caminho.
Porém, quando transpôs o portão de segurança, viu a garagem aberta, o
carro de Megan estacionado e ela sentada atrás do volante. Um alerta
silencioso começou a soar no fundo de sua mente enquanto ele desligava o
motor e saía do carro. Toda aquela pulsação e disposição para o confronto
se metamorfosearam em instinto protetor.
Algo não estava certo.
Contornando o carro, ele se aproximou da janela de vidro e estacou
diante da visão do rosto inundado de lágrimas e do olhar sombrio de
Megan. E, pela primeira vez desde que se conheceram, Connor viu algo
além da mulher forte com quem se casara. Sob aquela carapaça de aço
havia algo frágil. Algo que Megan não mostrava ao mundo, mas no
momento, parada dentro do carro, não podia ocultar dele.
Uma garra invisível lhe comprimiu o peito ao mesmo tempo que a
primeira pergunta lhe martelou a mente.
Teria sido ele o culpado? Será que a teria pressionado muito? Pedido
muito? Feito com que ela desabasse?
Com o coração em disparada, Connor se forçou a bater no vidro em vez
de arrancar a porta do carro para ter acesso a ela. Descobrir o que
aconteceu, se a culpa era dele. Certificar-se de que Megan não estivesse
ferida. Fisicamente.
Megan se sobressaltou no banco quando ele abriu a porta. Os olhos azuis
vasculharam o interior do carro antes de se focarem nele. E então os braços
que segundos antes se encontravam flácidos no colo de Megan se ergueram
para limpar as bochechas do rosto ao mesmo tempo que ela resmungava
algum pedido de desculpas ao emergir do transe melancólico.
Pousando uma das mãos no ombro delicado, Connor se agachou ao lado
dela, em busca de alguma pista no rosto que a esposa tentava rapidamente
limpar. Porém, à medida que os polegares escorregavam sob os olhos, mais
lágrimas eram produzidas.
– O que está acontecendo, querida?
Megan deixou escapar um suspiro trêmulo, engoliu em seco e, em
seguida, baixou a cabeça.
– Sou tão boba. Desculpe. Não deveria estar assim. É que… encontrei
alguém com quem convivi.
Os músculos de Connor se contraíram. Então, ele não era culpado por
aquele choro. Um alívio imensurável o invadiu. Mas não foi nada
comparado ao ultraje que experimentou pelo fato de outra pessoa ter feito
aquilo com Megan.
Alguém com quem ela convivera.
– Barry? – O idiota fugira e se casara com outra mulher quando estava
fazendo planos com Megan. O mesmo que Connor acreditara não ser
importante o suficiente para causar aquele tipo de tristeza. Teria o ex-
namorado a capacidade de ferir o coração de Megan e ele não se dera conta
disso?
Estaria ele na Califórnia para tentar reconquistá-la?
Megan fez um movimento negativo com a cabeça, esforçando-se ao
máximo para estampar um sorriso nos lábios incapazes de sustentá-lo.
– Não, o nome dele é Pete. E durante um ano, muito tempo atrás, foi meu
pai.
Pai de Megan.
Connor não podia estar mais confuso. Sabia que Megan fora criada pela
mãe, uma esposa serial, que não tinha uma ficha muito encantadora no que
se referia a manter casamentos. Megan nunca comentara sobre nenhum
dos homens com quem a mãe se casara, e ele ficara com a impressão de que
nenhum deles fora importante em sua vida. Porém, agora se perguntava o
quanto estivera enganado.
– O que aconteceu?
– Ele não se lembrou de mim. – Megan contraiu as feições e fechou os
olhos. Quando voltou a abri-los, pestanejou rapidamente e sacudiu a cabeça
como se quisesse atirar aquela emoção pela janela. Queria parecer forte. E,
diabos, ele a admirava por isso. Mas as lágrimas continuavam a escorrer, o
sofrimento nos olhos, inconfundível. Diabos! Connor vira aquele tipo de dor
antes. Conhecia a ferida profunda da qual parecia germinar. E a temia.
Megan era forte.
– Querida, sinto muito.
– Faz muito tempo. Não sei por que achei que ele se lembraria de mim,
mas eu estava praticamente a ponto de envolvê-lo em um abra… – A voz de
Megan falhou, e ela desviou o olhar.
Droga! Connor não podia suportar a forma como ela parecia vulnerável e
perdida. Tinha de fazer algo. Apoiá-la de alguma forma.
Segurando-lhe a mão, ele roçou o polegar sobre as juntas dos dedos
delicados.
– Vamos entrar.
Megan anuiu, e ele se afastou para ajudá-la a sair do carro. Os olhos azuis
se desviaram para a casa, e Connor se preparou para vê-la se erguer e se
afastar. Recolher-se a um lugar em que ele não pudesse alcançá-la.
Porém, Megan fechou os olhos e se recostou a ele, pressionando o rosto
no centro do peito largo, não deixando alternativa a Connor senão lhe
envolver os ombros trêmulos com os braços e a colar ao próprio corpo,
observando com olhar incrédulo enquanto ela se apoiava totalmente nele.
Puxando-a o máximo possível para perto, ele recostou a lateral do rosto
contra o topo da cabeça de Megan e lhe acariciou as costas.
– Está tudo bem, querida. Eu estou com você – prometeu ele, abalado
com a profundidade do significado por trás das próprias palavras. Queria
protegê-la de uma forma que nunca experimentara antes. E o fato de Megan
desejar sua proteção e conforto, de conseguir aceitá-los, era extremamente
gratificante.
– Eu lhe disse meu nome e ele não conseguiu ligá-lo a mim. Só quando
mencionei o nome de minha mãe foi que ele fez a conexão. Mas foi tão…
estranho.
Connor se apressou em levá-la para dentro da casa até o quarto que
ocupavam, onde se deitaram, juntos, na cama, com a cabeça de Megan
apoiada na curva de sua axila. Conversavam em tons sussurrados,
observando as sombras do fim da tarde se moverem ao redor do cômodo à
medida que a luz do ocaso fenecia e a noite silenciosa substituía a cacofonia
do dia.
– Eles eram todos bons homens – sussurrou Megan em resposta à
pergunta que ele acabara de lhe fazer. O hálito aquecendo o ponto abaixo
do coração de Connor ainda úmido pelas lágrimas que ela derramara. – A
questão era essa. Mamãe nunca se envolvia com idiotas dos quais
queríamos nos livrar o mais rápido possível. Todos eram homens legais,
que esperávamos que ficassem, embora no fundo eu soubesse que não
permaneceriam.
– Foram sete.
– Sete com os quais ela se casou.
Isso significava que havia outros, com quem a mãe de Megan não se
casara.
Connor não podia imaginar como teria sido para uma menina ter uma
porta giratória de figuras paternas se alternando em sua vida daquela
forma, ou como a mãe dela fora capaz de permitir aquilo. Mas ele sabia
tudo sobre mulheres que não conseguiam controlar os próprios corações…
mesmo que para o bem de seus filhos. Ou de si mesmas. Ao menos a mãe de
Megan fora resiliente o bastante para se recuperar. E seguir em frente.
– Quando ela trouxe Pete para nossa casa, eu mal falava com ele. Foi
terrível, mas acho que não havia se passado nem dois meses desde que o
último partira e eu não queria… me apegar, acho eu. Mas ele se mostrou
incansável. Queria conquistar minha amizade… fazer tudo que pudesse
para que aquela nova família desse certo. Por isso me contava piadas e
histórias, levava-me para pescar. Conversava comigo escutando de fato o
que eu tinha a dizer. Fazia com que eu me sentisse… especial. Como se eu
não fosse apenas a criança que viera de brinde com a mulher com quem ele
se casara. Era como se eu também fosse sua amiga. Pensando melhor agora,
talvez fosse mais o caso de eu ser a desculpa perfeita para encontrar algo
em comum com uma esposa com quem ele não tinha muitas afinidades. –
Connor contraiu o braço com que lhe envolvia os ombros, dando-lhe o
tempo que fosse necessário para que ela prosseguisse. – Quando ele partiu,
pensei que seria… diferente. Pensei que voltaria para se despedir de mim.
Talvez telefonar para me dizer que sentia saudades ou que sentia muito por
ter partido. Mas Pete não fez nada disso, e eu pensei que fosse por causa
das regras de minha mãe sobre cortar os laços. Mas, ainda assim, pelo fato
de ele ter dito que me amava, continuei aguardando, esperançosa. E talvez
nunca tenha deixado de esperar, porque quando o vi no supermercado esta
tarde fiquei tão… Oh, Deus, Connor, fui tão tola.
– Não. Não foi.
O fato de ela pensar assim… Ele amaldiçoou Pete e a mãe de Megan pelo
que a fizeram passar. Por negligenciarem o impacto que suas ações
descuidadas teriam. Aquele homem dissera a Megan que a amava. Fizera-a
acreditar naquele sentimento e depois partira. Uma criança, cujo delicado
coração era ferido constantemente.
E o pior: o que mais fazia fervilhar o sangue de Connor era a certeza de
que, em grande parte, tinha com Gloria Scott e com sua horda de homens
desleais um débito de gratidão. Se as repetidas decepções que ela e seus
maridos causaram não tivessem destruído a capacidade de Megan em
acreditar no amor a ponto de se render a tal sentimento, ela nunca teria
concordado com a sociedade que havia lhe proposto. Megan teria
encontrado alguém, anos atrás, para amá-la da forma que merecia e os dois
estariam casados com meia dúzia de filhos.
Podia não ser capaz de lhe dar um romance de contos de fada, com amor
eterno, mas se certificaria de que ela tivesse tudo mais. Seria constante. Um
homem com quem Megan poderia contar. Passariam por aquele período de
experiência, e o tempo se encarregaria de lhe mostrar. Megan veria com os
próprios olhos.

MEGAN DESPERTOU com um ofego, arregalando os olhos, enquanto se sentava


ereta na cama. Em seguida, escaneou a cama vazia e o quarto ao seu redor.
Tentava se agarrar à realidade do momento, mesmo com o pesadelo do
qual fugira ainda lhe assombrando a mente.
Ela estivera fugindo, perdida em um tipo de nevoeiro que apenas o mundo
dos sonhos era capaz de conjurar. Procurando por Connor, sabendo que
aquilo era um erro, mas incapaz de se conter.
E então, ele estava lá. Envolvendo-a nos braços, a voz sussurrada indistinta
tendo o efeito de um confuso consolo aos seus ouvidos.
Ao erguer o olhar para encará-lo e perguntar o que ele estava dizendo,
deparou-se com o rosto de Pete falando com a voz de Connor.
– Não se preocupe. Eu a conquistarei.
Desesperada, ela olhou ao redor, encontrando Connor mais uma vez do
outro lado de um precipício, e gritou o nome dele.
Connor sorriu, as linhas que lhe vincavam os cantos dos olhos se
aprofundando, enquanto ela o observava. – Não me lembro de você.
Atirando as cobertas para o lado, Megan afastou o pesadelo para o fundo
do cérebro, dizendo a si mesma que era apenas sua mente processando o
caos que fora o dia anterior. Porém, em vez de se dissipar, o pânico que
experimentara no pesadelo estava aumentando.
Precisava encontrar Connor. Precisava…
– Ei, você está acordada.
Megan girou na direção da porta, onde ele estacara naquela mesma
posição relaxada com o braço pendendo da parte superior do batente da
porta. O jeans e a camiseta fina a tentavam com vislumbres do corpo
musculoso escondido sob o tecido. Mas foi o meio sorriso elusivo que a
deteve, fazendo-a sentir a perda iminente bem no centro do peito. Megan
engoliu em seco, observando a postura tranquila de Connor enrijecer e o
sorriso desaparecer de seus lábios, levando consigo todo o calor que se
refletia nos olhos escuros.
– Não. – A voz grave de Connor soou dura.
– Sinto muito. – Retorcendo as mãos, Megan deu um passo hesitante na
direção dele. – Não posso fazer isso.
– Bobagem – retrucou Connor, a centelha de raiva inflamando tão
completamente o ultraje que sentia, que era como se o pavio sempre
estivesse preparado, esperando ser aceso. – Nem ao menos tentou!
– Isso não é verdade. Tentei. Há um mês venho tentando. Mas é inútil.
Não estou conseguindo me adaptar a uma vida que sinto que não posso
manter. Eu não… – Ela se calou, desviando o rosto do olhar acusatório de
Connor.
Deus! Não queria que ele a olhasse daquela forma… não queria merecer
aquilo.
– Você não, o quê? Se esse é o fim, então sejamos diretos. Diga.
Com os punhos cerrados nas laterais do corpo, Megan lutou contra a dor
que se agigantava em seu peito e fez o que ele pediu.
– Não confio em você.
– Claro que não. Tenho sido sincero, direto e verdadeiro com você desde
o início. – Connor se desencostou da porta, escorregando uma das mãos
pelos cabelos em um gesto bruto. – Eu também não confiaria em mim.
Desesperada, Megan o observou caminhar como um animal enjaulado de
uma extremidade do quarto à outra, a ofensa que ele parecia sentir a
açoitando como um furacão.
– O problema não é você – afirmou ela. – Sou eu.
Dirigindo-lhe um olhar condenatório, ele deixou escapar um suspiro
áspero.
– Então é isso? Não há nada que eu possa fazer?
– Não. – Connor já fizera muito. Fora muito perfeito. Demasiado perfeito
para ela acreditar que ele fosse real.
Connor cruzou os braços e baixou o olhar para encará-la.
– Você nunca quis ser convencida. Desde o início, procurou por qualquer
desculpa cabível para se afastar antes de ter de arriscar… qualquer coisa.
O queixo de Megan despencou. Aquilo não era verdade. Ela apenas… ela…
De repente se viu irritada. Muito irritada.
Consigo mesma. Com Connor. Com Pete, com a mãe e com todos os
acontecimentos que a levaram àquele terrível momento.
– Como posso arriscar tudo com alguém que não é real?!
– A que diabos está se referindo?
– Você não reage a nada! Não fica furioso. Não se mostra frustrado. Não
importa o que eu faça com você, o que lhe diga, é como se seu único foco
fosse a linha de chegada. Garantir uma esposa e o resto não interessa.
Nunca vi nenhuma faceta sua, a não ser uma calma imperturbável e um
charme encantador. Sempre se mostra tão sensato. Nunca abre mão da
abordagem racional. Tem sempre a solução perfeita para qualquer
problema. E é impossível acreditar nisso porque ninguém é tão perfeito
assim. É por isso que não consigo confiar em você. E por que tenho de
partir!
Capítulo 15

CONNOR BAIXOU o olhar à esposa, absorvendo aquela última revelação.


Durante o tempo em que estiveram juntos, vinha prometendo lhe dar
tudo que possuía… mas nada seria suficiente.
Pensara que nada poderia ser pior do que a sensação impotente do
fracasso e da inadequação que marcara os primeiros treze anos de sua vida.
Quando nenhuma nota excelente, dente perdido ou objetivo atingido era
suficiente para dissipar o sofrimento dos olhos da mãe… não quando cada
importante estágio alcançado suscitava recordações de um homem que
estava perdendo aquilo tudo. Quando a dependência de Connor e sua
própria existência não tinham importância suficiente para competir com o
frasco de calmantes que ela ingeria para mitigar o sofrimento. Mas agora a
consciência de que simplesmente trocara uma mulher assolada por uma
dor que ele não conseguia abrandar por outra com uma dúvida que ele não
era capaz de mitigar… Droga!, o que ele estava fazendo? Que tipo de caos
psíquico o fazia voltar àquela posição torturante… quando passara toda sua
vida adulta lutando para evitá-la?
Deveria deixá-la partir.
Porém, pensou na expressão desolada nos olhos de Megan, na noite
anterior. Naquele instante, em que tivera certeza de que ela lhe viraria as
costas, sentiu-a colada ao seu corpo, chorando contra seu peito.
Desfrutando do conforto que ele lhe oferecia. De sua força.
Para acordar na manhã seguinte, decidida a partir.
Para o diabo com aquilo.
– Quer ver uma reação? Deseja algo real? – Connor se aproximou com
passos lentos, permitindo que a raiva emanasse dele em ondas. – Estou
furioso. Porém, não fiquei assim porque minha esposa me fez um jantar. Na
verdade, por nenhuma dessas bobagens triviais que tem feito. Porque,
sinceramente, em minha escala de significância, esse tipo de coisa nem ao
menos pontua. O que me faz fervilhar de raiva, o que me deixa realmente
muito irritado, é saber que a mulher que julguei tão forte, com quem decidi
me casar no mesmo instante… na realidade é uma fraca que foge de
desafios, uma covarde demasiado temerosa para sequer tentar, uma
mentirosa que faz promessas que não irá cumprir e uma cínica, muito
amarga para acreditar no que está bem diante de seus olhos. Isso é real o
suficiente para você?
Os lábios de Megan se entreabriram em um ofego, os olhos pestanejando
repetidas vezes, como se não conseguisse acreditar no que acabara de
presenciar. No que ele dissera.
– Você está enganado. – Megan conseguiu dizer em um quase sussurro.
Connor fez que não com a cabeça, desejando estar.
– Acho que não. Mas lhe direi com quem estou… enlouquecido como o
diabo. Com você. Neste momento. Mais enraivecido do que jamais estive
com nenhuma outra mulher com quem me relacionei. Mas… e essa é a parte
importante, querida, portanto escute com atenção. Não sou eu que estou
pronto para partir. Sou aquele que a está estimulando a lutar. A atirar as
luvas ao chão, pôr o dedo em meu rosto e provar que estou errado. Quero
que fique porque o que poderíamos ter justifica a luta para conseguir. E se
isso não for real o suficiente, droga, quero que fique por isto também… –
Agarrando-lhe os ombros, ele a puxou para um beijo ousado e incinerador.
Porém, breve. Não satisfez a mais básica das exigências. E, quando
Connor interrompeu o beijo, a raiva ainda correndo como lava em suas
veias sustentou-lhe o olhar, desafiando a próxima reação de Megan.
Encarando-o através da atmosfera eletrizada pela tensão, a expressão
confusa, ela deixou as mãos descansarem no peito e no abdome de Connor.
– Está mesmo furioso.
– Fervendo – assegurou ele, não apenas tentando envolvê-la com sua
lábia, mas sendo totalmente sincero.
– E você ainda me quer. – Os dedos magros se fecharam contra o tecido
da camiseta que ele usava. – A nós. – As pupilas de Megan se dilataram, a
respiração escapando por seus lábios para formar um sussurro. – Isto.
Labaredas de fogo lambiam todo o espaço entre eles, queimando a
resistência de Connor até que nada sobrasse, exceto a mais profunda
verdade que estivera no centro daquilo tudo desde o início.
– Além do racional ou sensato.
E então havia apenas a forte pressão de um corpo contra o outro. Os
lábios de Megan esmagados contra os dele. As mãos delicadas lutando para
galgar altura e se enterrar nos cabelos escuros e espessos ao mesmo tempo
que ele a empurrava contra a parede, enroscando as pernas sedosas em
torno de seus quadris.
Aquele era o beijo que trocaram naquela primeira noite. A realidade, a
resposta faminta, arrasadora, que fazia o sangue de Connor ferver e o
tornava capaz de caminhar sobre carvão em brasa para obtê-la.
Aquela era a mulher com quem se casara.
Sem interromper o contato dos lábios de ambos, Megan disse o que ele
estivera ansiando ouvir.
– Não sou covarde nem mentirosa.
O doce sabor daquela objeção se espalhou pela língua de Connor, cuja
resposta foi uma ordem gutural.
– Prove.
Outro beijo. Dessa vez, a língua de Megan atritou contra a dele, macia,
úmida e tão ávida, que elevou o desejo que os consumia a um ponto
insuportável. As mãos frenéticas desceram pelas costas largas de Connor,
fechando-se em torno do algodão da camiseta e a puxando para cima, ao
passo que ele a mantinha colada à parede ao mesmo tempo que puxava a
camiseta enrolada pela cabeça. Precipitando-se para o beijo do qual não
conseguia se saciar, estacou diante da barreira dos dedos delicados de
Megan entre os lábios de ambos.
Baixando-os de modo que só restasse aquele esparso centímetro e meio
entre os dois, ela voltou a falar.
– Não sou uma fraca.
Connor lhe envolveu a nuca com uma das mãos e lhe imobilizou a cabeça
para olhá-la nos olhos.
– Então fique. Fique e nos dê a chance que merecemos.
Os braços delgados se fecharam atrás do pescoço largo.
– Desculpe – sussurrou ela em um tom ofegante contra a orelha de
Connor. – Tem razão quanto ao que eu estive fazendo. Focando-me no que
poderia dar errado em vez de apreciar o que está dando certo. Pensei que
se conseguisse lhe mostrar o pior de mim… – Ela se calou, com um
movimento negativo de cabeça, antes de lhe dirigir um olhar suplicante. –
Estive tentando ser esperta, mas tudo que consegui foi ser estúpida e
medrosa.
As mãos longas se moveram para a cintura de Megan, segurando-a com
força, como se ela já não o estivesse segurando. Como se não conseguisse
acreditar… Megan estava de fato lutando por eles.
– Diga-me o que você quer. – Ele poderia lhe dar. O que Megan
precisasse. Qualquer coisa.
Os olhos azuis, arregalados, francos e intensos, procuraram os dele e
escureceram ao se fixarem nos lábios de Connor, detendo-se lá por um
agonizante segundo.
– Quero você.

A CABEÇA de Megan pendeu para o lado enquanto ele lhe devorava o


pescoço. A boca se movia com uma intensidade carnal da qual ele se
protegera durante todos os contatos prévios que tiveram. Durante todo
aquele tempo, Megan estivera certa de que ele a seduzia com todo o seu
potencial quando na verdade Connor estava se refreando. Àquilo… ela
nunca teria sido capaz de resistir.
De pé, ao lado da cama, usando apenas a calcinha e Connor, aquela cueca
sexy que a fazia salivar, Megan estremeceu com a sensação inebriante que
experimentava ao escorregar as mãos sobre os músculos do peito nu. Os
contornos rígidos do abdome definido, retesando sob as pontas de seus
dedos.
O corpo de Connor era tão perfeito, que a deixava em dúvida sobre onde
tocá-lo primeiro, o que saborear.
Todo ele.
Era aquilo que desejava.
O que precisava.
– Vou fazer amor com você… – As palmas das mãos longas exploravam as
linhas de seu corpo, deixando uma trilha de fricção quente por onde
passavam. – Com as minhas mãos… – Deus! O toque daquele homem era
extasiante. – Com minha boca… – Os lábios quentes se fecharam sobre a
depressão sensível da clavícula de Megan, a sucção suave a fazendo gemer
e se contorcer.
– Por favor.
– Com meu corpo…
E então ele a guiou na direção da cama. A rigidez do peito largo
encontrou os seios macios em um beijo provocante de pele contra pele
antes de pairar sobre ela. A boca experiente traçou um caminho de fogo e
desejo desde o pescoço delicado até um dos seios de Megan.
– Tão linda – murmurou ele, os lábios roçando de leve o mamilo
enrijecido, antes de circundá-lo lentamente com a ponta da língua e rumar
para baixo.
Sobre as costelas de Megan.
Em torno da minúscula depressão do umbigo.
Pela saliência do osso ilíaco.
E, em seguida, ao longo da borda rendada da calcinha.
Megan observava todo aquele percurso, cativa da visão daquele homem
estonteante desfrutando de seu corpo sem restrições.
As mãos fortes vagando por seus quadris, joelhos, panturrilhas, tocando-
a com reverência, como se quisesse cobrir cada centímetro de pele. Com os
dedos longos escorregando em torno de seus tornozelos e perfazendo o
caminho de volta, Megan só percebeu a mudança estratégica dos braços
musculosos da parte externa de sua perna para a interna quando as mãos
exploradoras se encontravam em seus joelhos. Ela observou os joelhos
sendo afastados enquanto Connor a abria para receber os beijos que
depositava no “V” rendado no centro da calcinha, provocando-a através do
tecido com o hálito quente e a pressão firme dos lábios.
– Oh, Deus, Connor – gemeu ela, sentindo o estímulo da língua ousada
contra a proteção tênue que lhe cobria a intimidade.
Roçando os lábios para cima e para baixo ao longo do tecido úmido da
calcinha, ele gemeu.
– Adoro quando você acerta o meu nome.
Megan cedeu a uma risada ofegante diante daquelas palavras, mas
perdeu a linha de pensamento com a próxima investida da língua de
Connor.
Um desejo avassalador crescia em seu baixo-ventre, uma tensão sem
limites.
Enterrando os dedos nos cabelos escuros e espessos, Megan tentou lhe
puxar a cabeça para cima.
– Quero…
Connor lhe segurou os punhos e os guiou para a posição prévia, acima da
cabeça de Megan, mantendo-os lá por um instante. O gesto ordenava que
ficasse imóvel, mais do que as palavras teriam sido capazes.
Os dedos longos se engancharam no elástico da calcinha minúscula para
baixá-la pelos quadris e pernas de Megan. Os olhos castanhos, ainda mais
escurecidos pelo desejo e brilhando pela determinação, estavam
mesmerizados quando encontraram os dela.
– Vou beijá-la desta forma, querida… como desejei desde o início. Longa,
lenta e profundamente… – acrescentou ele. A ameaça sensual refletida
naquele sorriso pecaminoso produzia um efeito que os dedos não
conseguiram. Em seguida, com um olhar tão dissoluto que a fez estremecer,
ele acrescentou: – Exatamente assim…
– Connor! – Ela ofegou quando se submeteu à primeira investida
aveludada da língua experiente. Mas a única resposta que conseguiu foi
outra investida. As mãos pequenas voaram para os cabelos de Connor,
espalmando-se, em seguida, nos ombros largos, apertando-os, desesperada,
sob o efeito do mais extraordinário beijo íntimo que jamais experimentara.
Era perfeito. Espetacular. Megan sentia o corpo em chamas sob as
investidas lentas, os movimentos circulares e lânguidos da língua que lhe
explorava a feminilidade. E então ele a estava tocando ao mesmo tempo.
Circundou-lhe a abertura com o dedo, antes de penetrá-la com um
movimento lento e firme, enquanto o beijo se concentrava no ponto mais
sensível da intimidade de Megan.
– Oh, Deus! – gritou ela, sentindo-o dentro e fora de seu corpo.
Fazia tanto tempo que não desfrutava de nenhuma intimidade com um
homem, mas nunca fora daquela forma.
O desejo abrasador espiralou em seu vente. Cada investida do polegar de
Connor intensificava a sensação até que os quadris de Megan arquearam
para encontrar o ritmo que ele imprimia, o prazer se agigantando.
A respiração de Megan saía em arquejos agonizantes.
Estava quase lá. Cravando os dentes no lábio inferior para se impedir de
gritar, ela fechou os punhos em torno da manta sob seu corpo.
– Libere-se, Megan. Quero ouvi-la. – Mais uma investida deliberada da
língua no centro de sua feminilidade a levou a espiralar em torno de um
desejo tão primitivo e a fez duvidar se poderia suportar o prazer tão
avassalador que a carícia erótica produzia.
Gritos desesperados de desejo lhe escapavam pelos lábios, ecoavam
contra as paredes do quarto e os inundavam. Libertar-se daquela forma
com Connor era tão delicioso, tão intenso. Tão melhor do que ela jamais
sonhara ser possível.
A tensão sexual que crescia dentro dela lhe tocava todas as células do
corpo, roçava contra os confinamentos de sua estrutura e lhe estimulava
lugares que Megan nunca esperara que aquele ato fosse alcançar. Lugares
muito profundos, mais sensíveis e totalmente secretos para um homem
encontrar. Lugares cuja existência até mesmo ela desconhecia.
Megan sentia a cabeça explodir. Os sons que lhe escapavam da garganta
soavam como súplicas incoerentes.
E então Connor fechou os lábios contra aquele ponto sensível e o sugou
de leve.
Por trás dos olhos de Megan, uma explosão estelar a estilhaçou. A mente
esvaziou, e o corpo estremeceu com fortes espasmos sob o toque de
Connor. As coxas comprimiram os ombros largos enquanto ela se submetia
a uma onda após outra de êxtase.
Aquilo parecia interminável. Uma satisfação que nunca antes
experimentara. Um ato de amor que nunca tivera. E ainda assim não era o
suficiente. O corpo, embora saciado de prazer, continuava a zunir com o
desejo sexual. Tudo dentro dela a empurrava na direção do homem que
desafiava qualquer lógica.
Esticando a mão, ela envolveu a mandíbula de Connor quando ele se
inclinou na direção dela, deslizando as mãos firmes sob suas nádegas,
erguendo-a e a posicionando no centro da cama.
Um instante depois, ele estava colocando um preservativo. Em seguida,
acomodou-se entre as coxas macias antes de penetrá-la lentamente.
Ofegando diante da sensação de estiramento que a potente ereção
provocava, Megan se agarrou aos ombros largos.
Aquilo era maravilhoso.
Connor recuou os quadris e voltou a investir, imprimindo um ritmo que
lhe permitia se afundar cada vez mais naquele casulo quente, úmido e
aconchegante até que estivesse totalmente enterrado dentro dela, unindo-
os completamente da forma mais íntima que dois corpos poderiam estar.
Buscando-lhe o olhar, Connor determinou:
– Nada de se conter, Megan. Isso serve para os dois. Eu quero tudo.
Tão preenchida que mal conseguia respirar, ela ofegou a única palavra
que ecoava em seu coração.
– Qualquer coisa.
A boca de Connor capturou a dela com um beijo ardente antes de recuar.
– Tudo, Megan.

MEGAN ABRIU os olhos para se deparar com uma longa mão masculina
engolfando a dela, próximo ao seu rosto. Músculos rígidos e uma força
potente lhe aqueciam as costas e se entrelaçavam em seus membros
enquanto uma respiração ritmada lhe acariciava a pele dos ombros.
Era como estar no céu.
E ela quase jogara aquilo tudo fora.
O braço pesado atirado sobre a lateral de seu corpo se contraiu,
alertando-a de que Connor havia acordado. Girando o rosto para encará-lo,
Megan foi atingida pelo impacto da intimidade das duas cabeças dividindo
um único travesseiro enquanto o sol do fim da manhã banhava a cama.
– Ainda está com raiva de mim? – perguntou ela com o olhar fixo na
perfeição simétrica do rosto do marido.
Connor rolou para se deitar de costas, mas manteve a cabeça virada na
direção dela, de modo que Megan pôde ver aquele meio-sorriso decretar a
resposta.
– Não. Não sou rancoroso. E nem um lutador ferrenho. Se quer mesmo
saber, essa é a primeira vez que lutei por uma mulher.
– Primeira vez? – perguntou ela, indecisa do que fazer com aquela
revelação. – É tão despreocupado assim?
Connor desviou o olhar ao teto.
– Sim e não. – E voltando a encará-la, esclareceu: – É verdade que as
coisas pequenas não me incomodam. Quero dizer, há coisas com as quais
devemos nos preocupar e outras que não têm muita importância. Mas antes
de você… nunca investi em um relacionamento assim.
– É tão diferente assim conosco?
– Sim. E quanto a você… ainda temerosa?
Foi a vez de Megan desviar o olhar para o teto.
– Sim. Mas você vale o risco.
Puxando a mão delicada para pousá-la sobre o peito, Connor brincou
com a aliança que ela usava por um instante. A expressão do belo rosto
másculo deixava claro que havia mais em sua mente. Talvez algo que não
fosse fácil colocar em palavras.
Connor franziu a testa, e o foco na aliança se intensificou, como se
observar a joia funcionasse como uma âncora contra os próprios
pensamentos. E então, após um instante, limpou a garganta.
– Eu entendi. O que a assusta neste relacionamento. Nós. Eu. Não quer
investir confiança em um cara como aqueles com quem sua mãe se casava.
Que lhe fará promessas e depois se afastará. Não quer se submeter àquele
sofrimento outra vez. E o fato de estar confiando em mim… Megan, eu
prometo, nunca a decepcionarei.
– Eu sei – sussurrou ela, sentindo a tensão crescente de Connor, mas não
conseguindo captar a causa. – O que está acontecendo?
Mais uma vez, Connor limpou a garganta e, em seguida, girou na direção
dela. Os olhos escuros se abriram dolorosamente para ela.
– Quero que saiba que eu entendo o que você passou, porque sei como é
ser negligenciado. Sei como é se permitir precisar de alguém e ver essa
pessoa se afastar.
Seguiu-se uma longa pausa, e Megan se perguntou se ele prosseguiria.
Por fim, não conseguiu aguentar mais.
– Por quê?
– Acho… eu acho que lhe contei sobre minha mãe – começou ele.
O coração de Megan começou a martelar as costelas.
– Ela morreu quando você era garoto.
Connor anuiu.
– O que não lhe contei… o que não contei… a ninguém é que ela se
suicidou.
Megan se sentou na cama, enfiando os joelhos embaixo do corpo ao
mesmo tempo que espalmava uma das mãos sobre o peito largo.
– Oh, sinto muito. Muito mesmo!
Connor lhe deu palmadas leves na mão, anuiu em um gesto de
agradecimento e a puxou outra vez contra o peito.
– Obrigado, querida. Ela viveu infeliz por um longo tempo. E, por fim, não
conseguiu suportar.
– Mas você era um menino de apenas 13 anos.
Megan sentiu um nó no peito. De repente, muitas peças se encaixaram no
quebra-cabeça. O laço de Connor com Jeff. O ressentimento contra um
homem que não merecia o título de “pai”. Por que motivo ele entendia sua
dificuldade em confiar.
Havia muitas formas de abandono. E seu marido havia vivenciado uma
das piores.
– Levei muito tempo para superar isso. E, como disse, evito falar sobre
esse assunto. Mas você está depositando sua confiança em mim.
Acreditando em mim. Portanto, merece saber que eu compreendo o que
isso significa para você.
Com o nó na garganta cada vez mais apertado, Megan anuiu contra o
peito musculoso. Connor estava se referindo à confiança que ela depositara
nele, mas naquele momento o que lhe chamava a atenção era a confiança
que ele acabara de depositar nela.
E ela faria por merecê-la.
Capítulo 16

O JATO quente do chuveiro lhe açoitava o rosto enquanto, com as mãos


espalmadas contra a parede de mármore, Connor tentava retirar os
pensamentos de baixo do edredom e da ninfa sexy que deixara na cama.
Cinco horas era muito cedo para acordá-la com o tipo de beijo que tinha em
mente. Principalmente quando ela o acordara por volta de duas horas da
manhã com uma versão personalizada daquele que tinha em mente.
Deus o ajudasse, ela era incrível!
Melhor ainda, insaciável.
E o nível de compatibilidade entre os dois era fora do comum quando
não diluído pela vodca de baunilha e livre das dúvidas que Megan
conseguira pôr de lado durante aquela semana. Superava qualquer
expectativa.
Connor já havia percebido o quanto ela era sagaz. Ficara impressionado
com a habilidade de Megan em discutir de maneira inteligente qualquer
tópico que fosse levantado, acrescentando seu ponto de vista e
encontrando o lado humorístico da situação. Mas agora que ela estava mais
relaxada em relação ao período de experiência, fora capaz de se abrir… e
aquele cérebro dela o deixava perplexo.
Megan o fazia desejar mais do que havia imaginado que poderia em
relação a uma esposa. E por ela ser quem era e como era, Connor sabia que
poderia relaxar e desfrutar… sem se preocupar em guiá-la.
Porque sua doce, perspicaz e sensual esposa tinha as mesmas limitações
que ele.
E nenhum deles se apaixonara.
Nenhum dos dois desejava mais do que existia entre ambos.
Está bem. Aquela não era a verdade absoluta. Ele queria mais.
Queria deixar aquele período de experiência para trás, bem como mitigar
quaisquer dúvidas residuais que impedissem Megan de desejar o mesmo.
Queria que ela engravidasse.
O pensamento em si o fez gemer. O ventre de Megan crescendo e se
abaulando com um filho dele. Tão excitante!
Está bem, a porção DNA daquela fusão e aquisição teria de esperar, mas o
resto…
Com a água escorrendo pelo rosto, Connor dirigiu um olhar ao quarto
que dividiam. Ela o acordara primeiro. De acordo com suas regras, pagar na
mesma moeda fazia parte do jogo limpo. A mão estava girando a torneira
quando lembrou que Megan tinha de trabalhar naquele dia.
Ao menos um deles poderia desfrutar de mais três horas de sono.
Uma lufada de ar frio penetrou a nuvem de vapor no instante em que os
braços magros de Megan se fecharam em torno de sua cintura, e os seios
quentes, com os mamilos enrijecidos, lhe pressionaram as costas.
– Bom dia, sr. Reed – murmurou ela, calando-se apenas enquanto
escorregava a língua ao longo da espinha de Connor. – Pensou que iria
escapar daqui sem meu beijo de bom-dia?
Connor girou, envolvendo-a nos braços de modo que a água a inundasse
também.
Megan se encontrava amarfanhada pelo sono, sexy e macia. A pele
exposta e úmida era tão tentadora, que ele se perguntou se seria capaz de
resistir.
– Sem chances. – Mergulhando em um beijo lento e profundo, Connor
sentiu o corpo enrijecer e a mente apagar tudo que não fossem as formas
criativas com que poderia levá-la a sussurrar seu nome durante a próxima
hora.
O trabalho poderia esperar.

– UMA NOITE em Las Vegas? E vocês tiveram certeza? – Soou a pergunta


extasiada de Georgette Houston. Os olhos brilhantes se alternavam entre
Megan e Connor.
Em quase seis semanas de casamento baseado, ao menos em parte, no
desejo de Connor de ter à mão uma esposa angariadora de fundos para
contrabalançar a vida social com seus negócios, aquela era a primeira noite
que passavam em companhia de outras pessoas. O jantar íntimo fora
encaixado na brecha que surgira antes da viagem de Connor para Ontário e
o iminente prazo final de Megan. Estavam em companhia de Larry e
Georgette Houston. Um casal de meia-idade que tratava Connor e Megan
mais como parentes do que como um sócio de longa data e a esposa a
tiracolo enquanto fechavam um negócio.
Megan entreabriu os lábios para responder, disposta a fornecer uma
versão mais asseada de como se conheceram… ao menos como lhe fora
contada… quando Connor se adiantou com um meio-sorriso tolo
estampado no rosto.
– Nenhum de nós estava à procura de romance, mas acabamos
conversando por muito tempo. Uma coisa levou a outra e… bem… aqui
estamos. – Connor se inclinou para a frente, com um braço atirado sobre o
espaldar da cadeira da esposa em um tipo de postura possessiva e
confortável que fez borboletas baterem asas no estômago de Megan. –
Larry está de prova que, quando uma oportunidade espetacular como essa
se apresenta, não costumo me arriscar a perdê-la. Não queria perder
Megan de vista até garantir um encontro para o resto de nossas vidas.
A mão de Georgette flutuou na direção do peito, suspirando diante do
romantismo daquilo tudo.
Larry trocou um olhar divertido com Connor, resmungando algo em tom
alto e claro sobre ter entendido e prometendo analisar os números que
Connor lhe enviaria no dia seguinte.
O jantar se prolongou por mais algumas horas, a conversação fácil e
animada. Megan percebeu que Connor respeitava o homem mais velho e
apreciava sua companhia. As risadas em torno da mesa soavam genuínas e
calorosas, e, no final da noite, Megan sentia como se tivesse ganhado dois
amigos.
Amigos que esperava manter para o resto da vida, porque era
exatamente esse tempo que pretendia desfrutar com Connor. O que
desejava. O que agradecia à sorte por lhe dado uma segunda chance de ter.
Baixar as defesas fora uma das coisas mais difíceis que jamais fizera.
Porém, forçada a aceitar o que aqueles temores estavam fazendo com ela,
viu-se estimulada a tentar.
E quando Connor a instigou a soltar a confiança que ela mantinha presa
com punho de ferro… abrir mão dela fora incrível. Algo extraordinário e
viciante. Uma libertação que nunca se permitira experimentar
verdadeiramente antes.
E se sentia… livre.
Segura.
Era como se os contos de fadas pudessem acontecer de forma que ela
não imaginava existir. E aquele era dela.
Enquanto os homens buscavam seus agasalhos, Georgette segurou as
mãos de Megan nas dela, apertando-as de maneira afetuosa.
– Não imagina o quanto ficamos felizes por Connor tê-la encontrado. Ele
teve uma infância difícil com aquele pai e merece a felicidade que
obviamente estão vivendo.
– Obrigada, Georgette.
A mulher mais velha fez um movimento negativo com a cabeça,
franzindo as sobrancelhas.
– E pensar no quanto estiveram perto de não chegarem a se conhecer.
A cabeça de Megan se inclinou para o lado. Ela e Connor haviam
concordado em não contar a parte daquela “história de amor” em que ela
acordara com amnésia alcoólica e tentara se afastar, portanto não sabia
exatamente a que Georgette estava se referindo.
– Devido à pequena margem de oportunidades desse tipo em Las Vegas?
O sorriso nos lábios de Georgette vacilou, o olhar se voltando na direção
de Connor e tornando a se fixar em Megan. Algo muito sutil antes de um
sorriso menos sincero e menos confortador substituir o anterior.
– Claro. – Puxando-a para um abraço, a mulher mais velha sussurrou: –
Nunca o vi olhar para nenhuma outra mulher como olha para você. Pode
ter certeza de que você é especial.
Dessa vez, foi Megan a franzir a testa. A mente zunia com aquele instante
de hesitação de Georgette e com as palavras que fizeram disparar alarmes
silenciosos no fundo de sua mente. Estava sendo paranoica. Cínica.
Procurando problemas inexistentes por trás de palavras que haviam sido
ditas apenas para tranquilizá-la. Portanto, optou por responder com uma
verdade absoluta.
– Connor me faz sentir assim.
E então Larry envolveu os ombros da esposa com o casaco. Seguiram-se
as despedidas e promessas para um outro jantar, e a noite com os amigos
chegou ao fim.
Mas bastou um olhar a Connor e ao meio-sorriso que ela não tinha
nenhuma dificuldade em interpretar para saber que, para eles, a noite
estava apenas começando.

CONNOR FECHOU a porta do quarto do hotel e, atirando os sapatos para o lado,


deixou-se afundar nas almofadas nada acolhedoras do sofá com um
gemido. Agora era oficial. Megan o estragara completamente.
Viciara-se nas relaxantes conversas noturnas na companhia de uma
mulher cuja mente o mantinha estimulado e ansioso por mais. E agora, pela
primeira vez durante todo o tempo em que as viagens de negócios fizeram
parte de sua vida, encontrava-se totalmente ciente do que estava perdendo
em casa.
E aquilo era desagradável.
Sim, ainda sentia prazer nas negociações, na agressividade do mundo dos
negócios, na busca de seus objetivos, mas ao final de cada dia… algo estava
faltando.

COM OS olhos colados no monitor à sua frente, Megan tentou se focar na


última linha de código. Porém, algo em seu íntimo a empacou, fincando um
calcanhar mental no solo de sua concentração.
Precisava de um intervalo. E de comer alguma coisa.
O tilintar e chacoalhar das moedas escorrendo por uma máquina caça-
níqueis, que fora o tom da última mensagem de texto de Connor, lhe fez os
lábios se curvarem em um sorriso e a letargia que pesava em seus ombros
evaporar.

23:37 CONNOR: Está acordada?

Deliciada, Megan respondeu perguntando como foram as reuniões.


Sentia uma saudade imensa do marido. Não importava o quanto dissesse e
si mesma para colocar rédeas naquele sentimento, não conseguia se conter.
E agora…
A campainha da porta da frente tocou. Estaria ele de volta? Ali, para
surpreendê-la?
Megan se precipitou pela escada, esperando encontrar Connor a
aguardando. Porém, quando chegou ao andar térreo, seu telefone tocou
outra vez. Atendendo a ligação, ela escancarou a porta e sentiu o coração
dar uma cambalhota no peito.
– Oh, meu Deus, eu o amo. – Ela ofegou, piscando para dispersar as
lágrimas.
O entregador anuiu.
– Na verdade, costumo ouvir muito isso.
Divertido, Connor perguntou do outro lado da linha.
– Vocês dois precisam de algum tempo sozinhos ou está pronta para
jantar?

VINTE MINUTOS e metade de uma pizza de massa fina de linguiça e cogumelos


depois, Megan se encontrava enroscada no sofá da sala de estar, com o
telefone colado à orelha enquanto observava as chamas da lareira a gás
faiscarem.
Podia ouvir o farfalhar de tecido através da linha, o gemido exausto… e,
mais do que qualquer outra coisa, desejou estar lá.
– Fico feliz que tenha telefonado.
– Acho que me acostumei com nossas conversas no fim do dia. Gosto
disso.
Megan fechou os olhos, aconchegando-se ao som da voz grave e sensual.
– Sim, eu também.
– Então, essa coisa de casamento… está dando certo para você?
Um sorriso repuxou os cantos dos lábios de Megan.
– Sim. Você provou ser um grande provedor.
– Não era isso… Está bem, ótimo.
Os olhos de Megan estavam completamente abertos agora, algo em seu
coração preso no anzol das palavras que ele deixara morrer.
– Está dando certo para mim. Como você previu. – A voz de Megan
diminuiu algumas oitavas. – Talvez melhor ainda.
Uma parte de Megan esperou por algum tipo de resposta arrogante, mas
em vez disso um longo suspiro soou a milhas de distância.
– Para mim também.
Capítulo 17

– ESTOU LHE dizendo, é negócio fechado. – Connor girou a cadeira ao


contrário, deixando o olhar vagar pelos contornos familiares do centro de
San Diego, que se estendiam diante da janela de seu escritório na lateral do
último andar.
– É mesmo? – perguntou Jeff. – O período de experiência acabou? Vocês
já deram início à produção do Connor 2.0?
– É uma questão de tempo – respondeu ele, anuindo.
Diabos! Provavelmente naquela noite, a julgar pelo modo como Megan o
atraíra de volta para a cama naquela manhã. Duas vezes.
Felizmente, a primeira reunião de negócios estava marcada para as dez
horas da manhã. Nada o teria impedido de aceitar as promessas devassas
refletidas nos olhos da esposa quando se inclinara sobre ela para lhe dar
um beijo de despedida e teve sua gravata puxada de um modo que o fez
desabar sobre aquele corpo macio de curvas deliciosas. Ou depois que
tomara banho e saíra do toalete para encontrar Megan trajada com sua
camisa, com apenas dois botões fechados, além da gravata na qual dera um
nó frouxo e deixara pender sobre o vale entre os seios.
Aquele ardil lhe custara uma hora inteira… e a gravata, pensou Connor
com um sorriso extasiado.
– Foi o que ouvi dizer. É incrível que você tenha mantido isso em segredo
por tanto tempo. Mas nas últimas semanas, em todos os lugares a que vou,
a esposa de alguém comenta sobre seu casamento.
Os olhos escuros semicerraram, a tensão espiralando da base de seu
crânio.
– E?
– E surge todo o tipo de especulação natural nessas circunstâncias. Caro.
A mudança de rumo repentina. Mas as pessoas com quem vocês saíram
ultimamente, os Clausen, Stalick, Houston, estão afirmando para todos que
é um casamento real. Comentam que nunca o viram desse jeito.
– Eu?
– Ao que parece, você está apaixonado. Todos percebem. Isso me deixa
emocionado.
Forçando uma risada breve através do nó que se formara em sua
garganta, Connor rebateu com cinismo.
– Acho que voltou a assistir Steel Magnolias, certo?
– Nunca abre mão das piadas.
– Sou um homem. É assim que funciona. Qualquer noite dessas, dê uma
passada lá em casa, após o clube de tricô, e eu lhe explicarei.
Jeff resfolegou, divertido.
– Por falar nisso, estou aprendendo. E alguém terá um Natal muito
especial em breve.
Foi a vez de Connor soltar uma risada, porque era bem possível
encontrar alguma atrocidade feita à mão em sua meia naquele ano.
– Não estou negando que há algo incrível entre mim e Megan. Mas
nenhum dos dois tem a ilusão de que isso é amor. E quanto aos outros?
Diabos! As pessoas veem o que querem e tiram conclusões baseadas em
suas expectativas. Prefiro que pensem que estamos apaixonados a
sugerirem algo menos lisonjeiro.
– Entendi. Estava apenas curioso para saber se algo havia mudado.
– Claro que não! – afirmou Connor com toda a certeza. – Aquela total
aniquilação de limites não faz parte de nosso jogo. Megan e eu temos um
acordo, e o amor não faz parte dele, graças a Deus!
Mesmo subtraindo os pais da equação, Connor testemunhara muitas
vezes o que acontecera com seus amigos e sócios. O amor mudava as coisas.
Expectativas. Os relacionamentos deixavam de funcionar dentro do âmbito
em que foram estabelecidos, e, de repente, tudo se tornava fluido… um
cenário que mudava constantemente com base em emoções que haviam se
libertado das correntes. A razão deixava de existir, restando apenas uma
vulnerabilidade que, na melhor das hipóteses, era mútua.
– Não se preocupe. Megan e eu conhecemos as regras. Deixei-as claras
desde o início. Você sabe que eu não seria capaz de magoá-la. – E em tom
zombeteiro acrescentou: – Portanto, vá procurar sua própria esposa e pare
de se preocupar com a minha.
– Sim, mas quem disse que é com sua esposa que estou preocupado?

APÓS DEIXAREM mais uma noite de brindes com champanhe e obras de


caridade para trás, Megan se encontrava parada em frente ao espelho do
closet, tentando desprender o fecho do colar de safiras com que Connor a
presenteara na noite anterior. As pedras, aquecidas por sua pele, faiscavam,
refletindo as luzes artificiais. Pareciam suplicar para que ela não as
retirasse.
A mão escorregou do fecho quando Connor surgiu atrás dela no espelho.
As mãos longas lhe traçaram os contornos dos ombros, seguindo o corte
das costas do vestido e subindo outra vez por sua espinha, onde desatou o
fecho do colar.
Baixando o zíper do traje de noite ao longo das costas delicadas,
depositou um beijo no topo do ombro desnudo e, em seguida, se moveu
para o lado, aplicando o mesmo tratamento ao outro.
– Estive… pensando em nossa lua de mel.
O tecido grosso do vestido de noite pendeu para a frente, criando uma
fenda, com um tipo de sensualidade que Megan associara à sua pessoa até
aquele momento.
– O que tem nossa lua de mel? – perguntou ela, tentando se concentrar
no que Connor estava dizendo, embora tudo que parecia conseguir
registrar era a sensação dos polegares longos sobre a pele que o vestido
acabara de expor.
As mãos hábeis escorregaram para a cintura de Megan por dentro do
tecido solto e rumaram para o abdome macio. As palmas largas e os dedos
fortes lhe exploraram os quadris e a barriga antes de subirem lentamente e
lhe capturar os seios.
– Estava pensando que eu deveria levá-la em uma lua de mel de verdade.
– Megan sentiu uma suave sucção atrás da orelha antes de aquelas palavras
reverberarem em um lugar sensível em seu interior. – Não se lembra de
nosso casamento. Ou de nosso namoro… por mais breve que tenha sido.
Quero lhe proporcionar uma lua de mel da qual possa se recordar.
UMA LEMBRANÇA para guardar.
Um fluxo quente de emoção ebuliu do poço que ela julgara estar seco,
abrindo caminho pelos lábios de Megan e fazendo brotar gotas salgadas em
seus olhos, que ela se apressou em piscar para dispersar. Girando no
círculo seguro dos braços fortes, Megan segurou o belo rosto do marido
entre as palmas das mãos e o beijou. Em seguida, sentiu o vestido
despencar, formando uma poça aos seus pés, enquanto as mãos fortes se
espalmavam em suas nádegas, puxando-a para perto e a erguendo até que
ficassem alinhados nos pontos certos.
As pernas de Megan se enroscaram na cintura reta, e ele a carregou para
o quarto. A boca ousada fazia maravilhas sobre a pele que cobria seu peito,
pescoço e parte posterior das orelhas. A língua quente espalhava
promessas que o corpo de Connor logo cumpriria.
Como poderia ser assim com ele? Como conseguira viver até então sem
Connor ao seu lado? Megan se apressou em deixar as perguntas de lado,
sabendo que nunca mais teria de viver longe dele.
Connor não a abandonaria. Não mudaria de ideia.
O tipo de compromisso que firmara com ela fora diferente de todas as
promessas que ela ouvira no passado. Connor havia lhe mostrado o tipo de
homem que era. Fizera questão de deixar claro o valor de sua palavra.
Megan sabia que, com aquele homem em sua vida, teria alguém com quem
poderia contar.
Poderia abandonar todas as defesas e ansiedades com Connor.
Poderia confiar nele. Com toda a força de seu ser. Enquanto vivessem.
O eco daquelas palavras sussurrou em sua mente enquanto ela sentia as
costas encontrarem a macia resistência da cama. O rosto afogueado de
Connor, com os cabelos desgrenhados de um modo suspeito, como se
alguém tivesse passado um bom tempo escorregando os dedos entre os fios
sedosos e espessos, espocou em sua mente. A expressão dos olhos
castanho-escuros… não se podia comparar a nada que Megan vira antes.
Era um misto de alívio, reverência, divertimento e vitória revelados para
que ela pudesse ver. Focados nela enquanto ela dizia as palavras “enquanto
nós vivermos”.
Não era fantasia. Nem imaginação.
Uma lembrança.
A realidade.
Uma noite que pensara ter perdido para sempre.
Nos olhos de Connor encontrara a resposta para o enigma que tentara
decifrar. A resposta que ela encontrara através de um outro caminho, mas
agora… Deus! O modo como ele a olhara. A confiança que ela sentira ao lhe
sustentar aquele olhar… O tipo de confiança que durava para sempre.
Fora esse o motivo que a levara a tomar uma decisão em apenas uma
noite e que foram necessários quase dois meses para descobrir.
– Não preciso de uma lua de mel – sussurrou Megan, escorregando os
dedos pela sedosidade dos cabelos do marido enquanto ele lhe explorava
os contornos do corpo.
– Claro que precisa. – A língua sensual mergulhou na depressão de seu
umbigo, por um breve instante, embotando-lhe a mente para qualquer
coisa, além daquele contato úmido e provocante. – Turcos e Caicos, Taiti,
Veneza, Cataratas de Niágara? – Connor prosseguiu com a trilha de beijos
mais para baixo, prendendo com cuidado o elástico da calcinha entre os
dentes antes de segurá-lo com os dedos e escorregar a peça íntima pelas
coxas macias e as pernas bem-torneadas da esposa.
O brilho travesso nos olhos de Connor havia se dissipado quando ele se
ergueu ao pé da cama, observando-a deitada, esperando por ele. Megan se
encontrava completamente despida, com exceção do magnífico colar que
lhe adornava o pescoço e os sapatos de salto fino em seus pés.
Sustentando o peso do tronco nos cotovelos, Megan se entregou ao
impulso devasso de provocá-lo. Esfregou um joelho no outro enquanto o
observava desabotoar a camisa com uma determinação que nunca vira
antes.
Connor estava no quarto botão quando ela esticou a perna e, utilizando o
bico fino do sapato, prendeu-o pela tira de couro do cinto que ele usava e o
puxou. As duas chamas escuras nos olhos de Connor encontraram os dela
ao mesmo tempo que Megan prendia o lábio inferior entre os dentes.
Por um instante, tudo pareceu paralisar.
– Você é uma fantasia.
E então o restante dos botões voou pelo ar quando ele abriu a camisa
com um puxão. Os ombros largos se livraram das lapelas da peça agora
arruinada. O cinto foi o próximo a ser descartado, e, em seguida, Connor
estava na cama, arrastando-se pelo corpo de Megan ao mesmo tempo em
que as mãos fortes escorregavam sob as nádegas dela e a puxavam de
encontro ao corpo excitado.
CONNOR TINHA de possuí-la.
Megan não ostentava aquilo para todo mundo ver, graças a Deus, mas era
a coisa mais sexy em que ele jamais pusera os olhos.
Se tivesse lhe restado um mínimo de paciência, teria retirado a calça
comprida antes de montar sobre ela. Porém, o que Megan fizera com seu
cinto e a forma como mordera o lábio o haviam enlouquecido. Necessitava
do contato daquela pele quente e macia. Agora. Precisava sentir aqueles
sapatos de salto fino deslumbrantes em suas costas e a suave pressão das
coxas macias em torno de seus quadris. Ansiava pelo santuário úmido
daquela boca carnuda e por sentir o puxão dos dedos delgados de Megan
em seus cabelos.
Mais uma vez, ele a puxou contra o corpo, atritando contra o ponto
sensível entre as pernas macias. Torturava-se com as camadas de tecido
que permaneciam entre eles, porque não conseguia se afastar daquele tão
necessário contato.
Mas em seguida Megan se incumbiu de lhe abrir a braguilha. A
concentração se refletia nos olhos enquanto ela enganchava o salto do
sapato na cintura da calça do smoking e sob o elástico da cueca boxer para
escorregá-las pelas pernas musculosas.
Quando as afastou o máximo possível, ele se livrou das peças e lhe
encontrou o olhar.
– Impressionante.
O sorriso que bailou nos lábios de Megan era impagável. Como se ela
tivesse conseguido o maior feito que se podia imaginar… ou a mais difícil
das tarefas por tê-lo desvestido sem usar as mãos.
Com a ponta da língua, Megan umedeceu o lábio inferior enquanto os
olhos azuis se cravavam nos dele.
– Tenho habilidades mágicas – afirmou ela, ofegante.
– Sem dúvida. – O sorriso que curvava os lábios de Connor parecia
deslocado em meio àquele tipo de ansiedade sexual, mas o divertimento
sempre conseguia encontrar um espaço quando os dois estavam juntos.
Os olhos azuis se fixaram nos lábios de Connor, e, em seguida, os dedos
de Megan se encaminharam para o mesmo lugar, acariciando-lhe a pele
sensível naquele ponto.
– Lindos.
Connor se acostumara aos elogios femininos durante toda sua vida
adulta, mas nunca uma afirmação tão simples tivera impacto tão profundo.
Quando os olhos escuros encontraram os dela, ele teve vontade de se
perder naquelas profundezas azuis, perguntando-se por que não tivera de
lutar com uma centena de homens em Las Vegas para chegar até ela.
E então percebeu. Aquele olhar no qual desejava se perder para sempre…
era destinado a ele. Apenas a ele. Precisava estar dentro dela da mesma
forma que precisava respirar. Mais ainda.
Ajoelhando-se na cama, Connor se inclinou na direção do criado-mudo ao
lado da cama e segurou o puxador da gaveta… apenas para sentir a mão
delicada lhe seguir o contorno do braço e se fechar sobre seu punho para
detê-lo.
Connor girou a cabeça para encará-la.
– Vou pegar preservativos, querida.
– Espere. – Sustentando-lhe o olhar, a palma da mão de Megan flutuou
para o peito musculoso, estacando sobre o coração de Connor. – Apenas
você. Não quero nada entre nós. – Ela engoliu em seco, soltando a
respiração lentamente. – Não preciso de mais tempo para decidir. Para
saber.
Connor pestanejou várias vezes. Lá estava.
O que ele estivera esperando.
Megan lhe pertencia. Finalmente.
Ela estava… chorando?
A lava quente da satisfação que lhe percorria as veias congelou quando
Connor percebeu a mancha ainda brilhante sob os olhos azuis. A única gota
faiscante que lhe traía a emoção presa nas pontas escuras dos cílios
perfeitos que emolduravam aqueles olhos estonteantes e confiantes… e que
o encaravam com tanto…
– Megan. – A voz grave saiu em um grasnido. Em seguida, Connor deixou
escapar um xingamento, fechando os olhos quando o corpo flexível e sexy
sob o dele enrijeceu.
Não. Não, aquilo não era amor. Megan lhe garantira que não se
apaixonaria.
Nenhum dos dois se apaixonaria.
O que estava vendo era afeição. A mesma que ele estivera conquistando,
cultivando desde o primeiro dia, com o objetivo de garantir o
comprometimento de Megan. Porém, de repente, diante do brilho dos olhos
confiantes da esposa, enquanto ela lhe oferecia exatamente o que Connor
lutara para conseguir, garantindo-lhe o acesso irrestrito ao seu corpo que
cimentaria aquela união para sempre, ele reconheceu o sentimento
exatamente como era.
Muito intenso.
Megan não deveria olhar daquele jeito para ele. Como se tivesse lhe
confiando uma parte da própria alma. Tornando-se vulnerável de uma
forma que ele não podia suportar.
– Pensei que fosse isso o que desejava – disse ela, todo o prazer ofegante
de segundos atrás substituído pela incerteza, a dor e a confusão.
– E quero. Sabe que quero… é só que… – Droga! Connor não podia
acreditar que estava dizendo aquilo. Não podia crer que tinha de dizer.
Forçando uma risada que não sentia, enterrou o rosto contra a orelha
macia. – Você bebeu muito champanhe esta noite… e depois do que
aconteceu no casamento… Acho que devemos tomar nossas decisões mais
importantes após tomar café com torradas.
– Mas…
– Shh. – Segurando-lhe os braços delgados que o haviam tentado impedir
momentos atrás, ele os ergueu acima da cabeça de Megan, prendendo-os
com apenas uma das mãos, enquanto com a outra alcançava a gaveta do
criado-mudo.
Um instante depois, encontrava-se enterrado dentro dela… esforçando-
se para convencer a ambos a esquecer as barreiras, tanto físicas quanto
emocionais, que ele colocara entre os dois.
Capítulo 18

À MEDIDA que os minutos se esvaíam com as sombras da noite, o sono não


chegava. Megan não conseguia dormir, embora Connor tivesse feito de seu
corpo uma área de recreação, saciando-a repetidas vezes até que ela não
tivesse forças para mais nada, além de se fundir ao calor daquele contato.
Havia oferecido a Connor o que ele estava querendo. O que dissera
desejar.
Oferecera-lhe seu corpo e sua alma. O futuro de ambos.
E ele recusara.
Não. Não se tratava de uma rejeição. Foi essa a conclusão a que chegara
durante aquelas horas de insônia. Mas sim de proteção.
Connor sentia como se tivesse falhado com ela na noite em que se
casaram. Não arriscaria deixá-la tomar uma decisão monumental como
aquela se houvesse alguma possibilidade de sua capacidade de
discernimento estar comprometida.
Não se tratava de rejeição de jeito algum. Aquele era um bom sinal.
Era mais uma evidência do tipo de cuidado que o homem com quem se
casara estava mostrando que ela poderia contar.
Um sorriso lhe curvou os lábios quando ouviu as passadas rápidas de
Connor descendo a escada. Definitivamente havia coisas piores do que ter
um homem comprometido com seu bem-estar. Conferindo o próprio
reflexo na porta do micro-ondas, Megan colocou algumas mechas de cabelo
para trás da orelha. Em seguida, alisou o abdome, em uma tentativa
desesperada de acalmar as agitadas borboletas em seu estômago.
Com a garrafa de café na mão, encaminhou-se ao cantinho do aconchego
e serviu duas xícaras.
Segundos depois, Connor surgiu, impecavelmente vestido e com todos os
fios de cabelo no lugar. Dirigiu-lhe um sorrio e pegou um pedaço de torrada
do prato que ela servira.
– Perfeito, estou atrasado.
Antes que ela pudesse fazer mais do que abrir a boca, Connor depositou-
lhe um beijo na bochecha e tomou metade do conteúdo de sua xícara de
café.
Levando a xícara consigo, estacou à soleira da porta, os olhos faiscando
para a garrafa de café que ela segurava e a metade da torrada em sua mão.
Quando os olhos escuros finalmente entraram os dela, Megan
reconheceu o que estava refletido lá. O coração que estivera demasiado
confuso para bater, de repente, retornou ao seu ritmo, aquecendo o frio em
seu peito.
– Torradas e café – disse ela com um breve sorriso
Connor pousou a xícara na bancada com expressão reservada.
– Tem de acreditar em mim quando lhe digo o quanto me sinto honrado
por você se sentir preparada para esse tipo de compromisso. E eu desejo
isso. Pode ter certeza.
Mas ele não desejava. Megan podia ver aquela verdade estampada no
belo rosto do marido. Ouvi-la na tensão da voz grave. Sentia-a no frio em
sua barriga.
– Não entendo. – As palavras lhe escaparam dos lábios, suplicantes e
trêmulas, antes que Megan tivesse tempo de analisá-las. Calá-las em uma
tentativa de salvar o próprio orgulho. – Parece que está me dizendo “não”.
É como…
Como se todo o medo e preocupação que se convencera a abandonar na
noite anterior fossem mais justificados do que se permitira imaginar.
Connor cruzou a cozinha até onde ela estava e pousou as mãos nos
ombros delicados.
– Eu quero. Mas, quanto mais reflito sobre a situação, mais acho
importante que você espere até terminar o período de experiência para
decidir.
Megan lhe procurou olhar, recusando-se a ceder às lágrimas que
ameaçavam lhe inundar os olhos.
– Estava tão decidido antes. Não parecia haver nenhuma dúvida.
– No que me diz respeito, não tenho. Mas quanto a você… Diabos! Sei o
quanto se encaixará perfeitamente em minha vida. Mas não tenho tanta
certeza de que você teve tempo o suficiente para saber se me encaixarei
perfeitamente na sua.
Megan negou com a cabeça.
– Como pode dizer isso? Tive dois meses…
– O primeiro não conta. Deve esperar mais dois. Até ter certeza. – Ele
depositou um beijo na testa de Megan e a afastou, mudando de assunto
como se estivessem conversando sobre o tempo. – Tenho uma reunião, à
noite, que se estenderá até tarde e outra, amanhã bem cedo, portanto, não
me espere acordada. Provavelmente acabarei dormindo no escritório.
E em seguida Connor se foi.

COM OS punhos cerrados até que as juntas dos dedos se tornassem


esbranquiçadas sobre a mesa do escritório, mais uma vez a imagem da
expressão arrasada de Megan lhe assombrou a consciência.
Droga! Deveria ter esperado por aquilo. Mas estivera tão dedicado a
convencê-la a se comprometer, a enxergar que ele era o homem que Megan
desejava, que na essência se tornara um homem que não era. E aquelas
lágrimas originadas da emoção que inundaram os olhos da esposa… eram
toda a evidência de que necessitava para saber que aquela sedução fugira
de controle.
Uma breve batida na porta precedeu a entrada da secretária no
escritório.
– Desculpe, mas a conferência por telefone com Zurique começará dentro
de cinco minutos. Precisa que eu envie aqueles relatórios…?
A secretária se calou, deixando subentendidas as palavras que ambos
conheciam. Eram os arquivos em que ele estivera trabalhando e que
prometera enviar a ela meia hora antes. Os mesmos que não conseguira
concluir.
Diabos! Aquele não era ele.
Precisava manter a cabeça no lugar. Conseguir um pouco de perspectiva.
E tinha de se certificar de que o homem que estava vendendo para Megan
era o mesmo com quem ela passaria o resto da vida.
Tinha certeza de que ela ainda desejaria aquele casamento.
Mesmo após alguns ajustes em suas expectativas. Não havia nenhuma
possibilidade de o plano inicial de Megan competir com aquele.
Mas tinha de priorizar o que vinha em primeiro lugar. O escritório.
Sempre fora assim e sempre seria.
– Stella, veja se eles podem aguardar mais meia hora. Eu lhe enviarei
esses arquivos dentro de vinte minutos. Peço desculpas pelo inconveniente.
O seu e o deles.
Estava na hora de concentrar o foco em seu devido lugar.

A PORTA de frente bateu com o som abafado que Megan fingia não ouvir
desde a manhã do dia anterior. Connor havia avisado que não voltaria para
casa, mas uma parte dela o aguardara.
Esperançosa.
Tentando não pensar em todas as noites insones que tivera quando
criança, avaliando cada rangido ou gemido, os ouvidos apurados para um
retorno que nunca acontecia. Porque, apesar da mudança abrupta de
opinião de Connor a respeito da evolução daquele casamento, Megan sabia
que ele voltaria para casa.
Connor não havia partido. Não a estava abandonando.
Aquele não era o mesmo tipo de decepção inesperada. Era
surpreendente, sem dúvida, mas não devastador.
Connor estava se preocupando com ela. Aproveitando aquele tempo a
mais para garantir que não tivessem de enfrentar as dúvidas que fizeram
parte daquele primeiro mês que viveram juntos.
E agora Connor chegara em casa. Pendurou o blazer no closet e atirou as
chaves sobre o tampo da mesa antes de saudá-la do mesmo modo como
fazia todas as noites.
– Olá, sra. Reed.
Uma onda de alívio a engolfou enquanto Megan fechava a distância entre
os dois e lhe oferecia o beijo que se tornara parte da rotina do casal desde o
início. Tudo estava bem. Nada havia mudado.
Megan teve vontade de enterrar a cabeça no peito do marido, pressionar
a testa à depressão entre os peitorais rígidos e ceder à emoção que estivera
ameaçando sufocá-la. Queria aqueles braços fortes a envolvendo, palavras
tranquilizadoras ao seu ouvido. Ansiava por toda aquela racionalidade
sensata de Connor para abrandar a insegurança indomável que lhe abalara
a serenidade desde o instante em que ele saíra por aquela porta no dia
anterior.
Porém, a insegurança era algo que não podia suportar. Um sentimento
indesejado na vida que ela estava construindo. Portanto, em vez de
colapsar sobre o homem pelo qual estirava aguardando ansiosamente,
Megan se satisfez com a visão daquele sorriso suave. Contentou-se em
acariciar os ombros de Connor enquanto perguntava como fora seu dia.
Conformou-se em perguntar se ele havia dormido bem na suíte do
escritório e com a resposta afirmativa quando ele lhe garantiu que passara
tantas noites lá que considerava aquelas acomodações o seu segundo lar.
Em seguida, ele abriu a pasta executiva tipo carteiro e de lá retirou um
envelope pardo, exibindo o mesmo sorriso que trazia estampado no rosto
quando transpusera a porta de entrada. O mesmo que lhe chamara a
atenção, mas que não durara o suficiente para que ela descobrisse o
motivo.
Talvez ele estivesse cansando, não obstante o que dissera sobre as
acomodações confortáveis do escritório.
– Está com tempo para conversar sobre luas de mel? – perguntou ele,
passando por Megan em direção à sala de estar.
Uma risada de alívio explodiu dos pulmões de Megan enquanto ela o
seguia com uma euforia vertiginosa borbulhando em seu íntimo.
Nada mudara.
Talvez ela é que devesse ter dormido um pouco mais.
Acomodando-se no sofá, Connor abriu a pasta e começou a analisar os
folders que estavam dentro.
Megan se sentou com os pés sob o corpo.
– Estou vendo que tem algumas ideias.
Porém, em seguida, viu de onde eram: Zurique, Munique, Taiwan.
– Acho que não se tratam de praias paradisíacas isoladas, certo? –
perguntou ela, um entorpecimento a invadindo ao perceber o que aqueles
lugares significavam.
Connor deu de ombros, dispondo os folders em pilhas e, em seguida,
alterando a ordem.
– Gosto muito de praia, mas estava pensando se não seria mais sensato
matar dois coelhos com uma só cajadada. – Matar dois coelhos…? Megan
voltou o olhar às pilhas mais uma vez. – Preciso estar em cada um desses
lugares a negócios no próximo mês… – Connor deixou o restante da frase
morrer enquanto lhe acariciava um dos ombros. – Ei! Sei que conversamos
sobre fazer dessa lua de mel algo mais romântico e fantasioso, mas depois
das reuniões que tive ontem e hoje achei que estava na hora de tirar minha
cabeça das nuvens e voltar à realidade. Gostaria de levá-la em uma viagem.
Mas, vendo pelo prisma da praticidade, um desses lugares seria mais
proveitoso. Enquanto compareço às minhas reuniões de trabalho, você
aproveita para conhecer os lugares. Fazer turismo e compras.
O entorpecimento começou a se dissolver sob o calor da raiva crescente
de Megan. Que diabos…?
Fora ele a sugerir uma lua de mel. Os destinos românticos. Mas, claro,
aquilo fora antes de ela se oferecer em uma bandeja. Megan observou o
sorriso tranquilo e a expressão indulgente do marido, pela primeira vez
sentindo como se o homem à sua frente fosse um estranho.
“… na hora de voltar à realidade…”
Então era isso? Algum tipo de advertência antes que ela se
comprometesse? O modo de Connor se certificar de que ela entendesse que
a vida que tinham pela frente nem sempre seria um mar de rosas?
– Ei, se faz muita questão de alguma praia, poderia fazer uma viagem ao
Havaí. Ou talvez se hospedar em algum spa. Leve uma amiga com você.
Megan ergueu uma das mãos.
– Eu entendi.
A lua de mel estava descartada. E ela estava prestes a ver uma faceta do
marido que até então lhe fora ocultada.
Capítulo 19

TRAJADA COM outro vestido de grife famosa, Megan se acomodou no banco


de trás da limusine, observando as luzes e as janelas passando em uma
névoa. Ao arriscar um olhar ao banco oposto, encontrou Connor folheando
a papelada de trabalho que trouxera consigo quando foram buscá-lo no
trabalho, minutos antes.
O marido a saudara com um beijo casto antes de fazer elogios ao seu
traje e cabelos e lhe perguntar sobre seu dia.
E nada daquilo parecera verdadeiro a Megan.
Sim, ele escutara suas respostas, catalogando as informações para usá-
las mais tarde. Mas a ligação que possuíam no início – aquela coisa invisível
emprestando valor, significado e muito mais a cada comentário, pergunta,
cada pequeno sorriso ou olhar sutil – havia evaporado quando ela ofertara
algo que Connor havia apregoado desejar.
Claro que ele ainda era agradável. Charmoso. Ainda se mostrava
disponível para responder às perguntas que ela lhe fazia ou para dispor de
uma hora ou mais em sua companhia no fim de cada noite. Mas aquela
interação não passava de uma sombra do que fora semanas antes.
O marido se transformara na lista de qualidades que ele lhe fornecera
naquele primeiro dia que passaram juntos.
Seria a esse tipo de casamento que ele estava se referindo desde o início?
O romance, as risadas, a intensidade da conexão entre ambos… teria sido
aquilo tudo apenas uma forma de convencê-la a ficar naquele casamento?
Conquistar sua afeição e interesse para que considerasse a proposta que
ele lhe fizera?
Megan não conseguia acreditar nisso, não era capaz de entender por que
Connor teria se esforçado tanto para lhe dar o aperitivo de algo que ela não
teria.
A não ser que aquele fosse um tipo de teste. Connor se certificando de
que ela entendesse do que estava se comprometendo a abrir mão?
Não, ele não seria tão cruel. Conhecia o marido e sabia que ele jamais
faria algo intencional para feri-la daquela forma.
Além disso, o tipo de conexão que possuíam não podia ser forjada. Não
era algo fabricado. E não fora unilateral.
Então, de que se tratava?
Os olhos de Megan voltaram a vagar para o banco oposto. Connor estava
focado nos papéis espalhados à frente. As feições perfeitas, concentradas. E,
ainda assim, em nada parecido com a forma como ele a olhara.
Seria possível que Connor, assim como ela, tivesse sentido o impacto
profundo da conexão inexplicável que existia entre os dois e achado
demasiado intenso para tão pouco tempo? Que não conseguira se sentir à
vontade com aquilo e se forçara a recuar?
Talvez tudo de que ele necessitasse fosse tempo.
E talvez ela fosse uma tola que gostasse de se iludir. Mas uma vez dissera
a Connor que ele valia o risco e, depois de experimentar o encantamento
que podia haver entre os dois, ainda pensava assim.
Sim, a ideia de que o homem com quem se casara fosse capaz de desligar
as próprias emoções tão repentina e completamente era aterrorizante…
mas não conseguia aceitar que Connor fosse capaz de tão cruel indiferença.
Talvez tudo que ele precisasse fosse de um tempo para se ajustar. Tempo
e um pouco de espaço para discernir o que estava acontecendo em seu
coração. E então a inegável ligação entre os dois faria o resto.
Poderia esperar. Por ele… por ambos. Seria a mulher que Connor
desejava até que ele descobrisse do que precisava. Sim. Aquela relação valia
a espera.
Megan girou a cabeça na direção da janela, piscando para dispersar as
lágrimas que ameaçavam brotar com aquela conclusão e com a certeza
profunda de que tudo acabaria bem.
De repente, sentiu-se muito mais leve.
Instantes depois, o carro estacou diante do toldo dourado do hotel.
Connor colocou os documentos de lado, indicando com o dedo o telefone
recostado ao ouvido.
– Chegamos ao hotel. Portanto, o restante disso terá de esperar. Você irá
esta noite?
Os olhos escuros faiscaram nos dela, conferindo como Megan havia
recebido a notícia de que ele estava marcando uma reunião para o meio
daquela noite com um de seus gerentes.
Com um sorriso tranquilo, ela retirou o pó compacto e um gloss da
carteira de contas e começou a retocar a maquiagem.
A única mudança era a compreensão do que acontecera com seu
casamento ao longo da última semana… e como ela pretendia seguir a
partir dali.
Juntos.
Podia esperar por Connor. Porque aquela união valia a pena.
Um longo minuto depois, ele deixou escapar uma tosse ligeira.
– Desculpe, estou escutando. Esta noite, então. Falo com você daqui a
algumas horas.
Devolvendo a maquiagem à bolsa, ela lhe sorriu, recusando-se a levar em
conta a testa levemente franzida do marido ou a forma como aqueles olhos
escuros semicerraram enquanto a encaravam.
Talvez ele estivesse sentindo que algo estava diferente?
Um fluxo renovado de confiança percorreu as veias de Megan com aquela
prova da conexão existente entre eles, da profunda percepção que tinham
um do outro. Tudo acabaria bem.
– Pronto? – perguntou ela quando a porta se abriu e o ar frio da noite os
envolveu.
Connor saltou do carro e se inclinou para ajudá-la a sair.
– Sempre.

MEGAN ERA perfeita.


Àquela altura, ele deveria ter se acostumado com a facilidade com que a
esposa se encaixava com perfeição à matéria-prima de sua vida.
Minutos após a chegada dos dois, Megan havia cativado todos os
presentes à mesa. O sorriso contagiante e o manancial aparentemente
ilimitado de informações que possuía. A autenticidade que ele achara tão
atraente, o magnetismo que exercia em todos ao seu redor.
Encantadora.
Temera destruir tudo aquilo, permitindo que a emoção fugisse de
controle entre os dois, preocupara-se com a possibilidade de não haver um
caminho de volta do ponto onde estavam. Mas, depois de alguns dias
testando essa representação mais acurada da vida que teriam juntos,
Megan tomara sua decisão. Naquela noite, no carro… ele percebera.
Aceitação.
Connor ficara supresso e aliviado ao mesmo tempo. Diabos! Sentira-se de
fato aliviado. Porque não queria abrir mão de Megan. Não queria perdê-la.
Agora, tudo que precisava era manter a cabeça focada para não estragar
tudo.
Risadas explodiram, vindas do grupo em que Megan se encontrava, a
musicalidade do riso da esposa se destacando aos seus ouvidos, acima das
outras. Ameaçando invadir o lugar que ele chamava de “inalcançável”.
Com os dedos delicados pressionados à nuca, os olhos fechados e com a
cabeça inclinada para trás, ela ria de alguma história que Lenny contava
para o grupo.
Linda.
Quando Megan voltou a abrir os olhos, ele virou de costas.
Havia esgotado as segundas chances que teria com aquela mulher,
portanto bastava de abrir a guarda e criar expectativas irreais que não
seria capaz de corresponder. Que não queria corresponder.
– Então é verdade?
Connor girou abruptamente em direção ao sotaque modulado da Costa
Leste. Mesmo em tom de acusação, a voz controlada era tão polida quanto
se estivesse perguntando sobre a saúde de uma tia-avó.
Caro.
O instinto quase o fez virar na direção de Megan para conferir se estavam
em sua linha de visão, mas Connor conseguiu controlar o impulso.
Se por acaso Megan estivesse olhando naquela direção, ele atrairia
menos atenção se simplesmente trocasse algumas palavras corteses antes
de se afastar. E sair dali.
Era isso que faria.
Pegaria Megan e sairia dali.
A esposa estava ciente de seu noivado com Caro e sabia que a separação
fora recente.
Claro que os detalhes… ele os havia revelado na noite em que se
conheceram. E tivera a intenção de colocá-la a par deles depois. Mas no
início estivera muito ocupado lutando para mantê-la a seu lado. E mais
tarde fora tudo muito maravilhoso para arriscar arruinar o que tinham. E
na última semana não quisera acrescentar mais um contratempo no clima
melindroso entre os dois.
Connor não vira nenhuma urgência naquilo, porque não esperava que
Caro aparecesse. Porém, lá estava ela, parada a pouca distância, encarando-
o com olhos que não revelavam nada de seus verdadeiros sentimentos. O
sorriso costumeiro lhe curvavam os lábios. O mesmo que ele vira todas as
vezes que se encontraram durante aquele relacionamento. Suave. Polido.
– Caro! Não sabia que estava de volta à cidade. Como tem passado?
– Como tenho passado? – Uma voz fria, um sorriso agradável. –
Humilhada.
Connor sentiu um aperto no peito. Deveria ter entrado em contato com
ela. Ter lhe contado pessoalmente.
– Não deveria se sentir assim – retrucou. E na esperança de aliviar aquela
mágoa acrescentou: – Todo mundo sabe que foi você quem me deixou.
Quem terminou nosso relacionamento…
– Nosso noivado. Você ia se casar comigo.
Connor anuiu, sentindo a tensão lhe contrair os músculos dos ombros e
lhe percorrer a espinha.
– Sim, você terminou nosso noivado – concedeu, mantendo a voz no
mesmo tom baixo de Caro. Ainda assim, podia sentir olhos curiosos fixos
nos dois. A atenção que aqueles poucos instantes de diálogo haviam
atraído. Um rápido olhar à área onde ficava a mesa que ocupavam, revelou
que Megan não estava mais lá.
Ótimo.
Resolveria aquele contratempo e a tiraria dali. Com Caro de volta,
precisava contar tudo a Megan. A cronologia dos acontecimentos talvez não
a agradasse, mas Megan havia entendido quando ele lhe explicara tudo
naquela primeira noite. Tinha de acreditar que faria o mesmo agora.
A voz de Caro adotou uma entonação áspera, que ele nunca detectara
antes, atraindo ainda mais atenção para os dois.
– Como pôde fazer isso comigo?
Connor lhe sustentou o olhar, sincero em sua justificativa.
– Nunca tive intenção de magoá-la. Terminamos nosso relacionamento, e
você partiu. Voltou para o Leste…
– Porque eu queria mais de você. Queria que percebesse o que tinha. Do
que estava abrindo mão. Fiquei esperando… – Ela se calou, a emoção na voz
vazando para o olhar.
– Você disse que queria algo que não tínhamos. Algo que não havia entre
nós. Nunca insinuou que…
– Eu achei que você descobriria por si mesmo. Que lhe dando tempo
suficiente você perceberia que desejava mais do que um simples “acordo”.
Pensei que iria me procurar.
Não. Aquilo não era possível. Caro não poderia estar parada no meio
daquele salão de festas com lágrimas escorrendo pelo rosto. Não aquela
mulher, que ele nunca vira com um fio de cabelo fora do lugar, que nunca
erguera a voz ou fora qualquer coisa que não a mais educada, encantadora
e impenetrável peça de beleza porcelanizada diante dele.
Não queria ser a causa da dor de Caro. Nunca fora essa sua intenção.
– Quando conheci Megan…
Connor sabia o que parecia. Tinha ciência de que provavelmente nunca a
faria entender.
– Apaixonou-se por ela? – As palavras escaparam dos lábios de Caro
como uma espécie de acusação cortante que ele jamais esperara. Mas a ex-
noiva estava ferida, e a verdade era que não a conhecia bem. Nunca quisera
olhar além do exterior de socialite que ela lhe mostrara. – Não. Acho que
não. Ela é apenas mais um acessível conjunto de qualificações ambulante
que caiu em seu colo, despois de meros três dias após ter proposto que
fôssemos a Bali para nossa lua de mel? Muito conveniente para deixar
passar. Uma oportunidade imperdível. Sabia que você era um homem frio.
Mas até mesmo para seus padrões… Ela tem alguma ideia disso?
Provavelmente não, considerando a rapidez com que se casou com ela. Mas
aposto que não levará muito tempo até que sua esposa consiga ver através
do sorriso e do charme, que sua atenção, afeição… ver como o marido é
capaz de ligá-las e desligá-las como se acionasse um interruptor. Sua
capacidade de se afastar sem nem ao menos olhar para trás. Ou talvez ela
não se importe. Talvez seja a bela embalagem e o peso de seu talão de
cheques que lhe interesse.
Connor sentiu o fogo da raiva se misturar ao sentimento de culpa. Sabia
que Caroline ficara magoada e sentia muito por isso. Se as farpas que
estivesse lançando se destinassem apenas a ele, as aceitaria com
resignação, mas não eram.
– Caro – começou ele, baixando o tom de voz e se inclinando mais para
perto. – Não faça isso. As pessoas estão olhando.
Caro escaneou o salão, empertigando a coluna. Em seguida, encarou-o
com amarga satisfação brilhando no olhar.
– Sim, estão.
E, naquele instante, ele soube.
Estreitando a coluna para olhar além da mulher que poderia ter sido sua
esposa, encontrou Megan parada, imóvel, à margem das pessoas que os
rodeavam. Parecia congelada no lugar. Detida em seu caminho em direção a
ele. Uma das mãos semiestendida, os lábios ainda curvados em um
arremedo do sorriso terno que sempre exibia.
– Megan – disse ele, dando um passo na direção da esposa. – Vamos
pegar nossos agasalhos.
Os olhos azuis o observaram se aproximar enquanto ela pestanejava uma
vez. Duas.
Atrás dele, soavam palavras de conforto quando algumas mulheres
intervieram para contornar a situação com Caroline… Mas ela ainda não
terminara.
Elevando a voz acima do burburinho, Caro disse:
– Tinha a intenção de dar à sua esposa o conselho que gostaria de ter
recebido de alguém: para não se apaixonar por você. Mas, a julgar pela
expressão do rosto dela, é tarde demais.
Droga!
– Basta, Caro.
Os lábios de Megan se entreabriram para a inspiração que devia
preceder uma resposta ou uma negação… Mas voltaram a se fechar ao
mesmo tempo que ela fazia um discreto movimento negativo com a cabeça
e os lábios se curvavam em um sorriso impotente.
Connor espalmou uma das mãos na curva do quadril de Megan e se
aproximou o suficiente para protegê-la dos olhares curiosos.
– Conversaremos em casa.
Capítulo 20

MEGAN CRUZOU a sala de estar. Os passos curtos e destituídos de qualquer


graciosidade. A mente, um redemoinho de pensamentos fragmentados,
perplexidade e emoções indesejadas.
A porta se fechou.
O trinco girou, e os passos de Connor ecoaram no mármore do hall de
entrada.
Atirando o xale sobre o encosto do sofá, ela dirigiu o olhar além da porta
de vidro, ao vácuo negro do Pacífico mais adiante, desejando estar em
qualquer lugar, menos ali.
– Eu sei… – Um xingamento abafado soou, ao mesmo tempo que a mão de
Connor escorregava sobre a boca através do reflexo do vidro. – Sei que não
estava… preparada para isso.
Megan negou com a cabeça.
Não. Nem um pouco.
– Sinto-me uma tola – admitiu ela, concluindo que ao menos um dos dois
tinha de oferecer a verdade absoluta.
Connor fechou a distância entre eles, envolvendo-lhe a cintura com um
dos braços e a puxando contra o calor sólido de seu corpo.
– Não. Se alguém foi tolo esta noite, fomos eu e Caroline. Ainda não
consigo acreditar… Diabos, tem de entender que eu nunca esperava isso de
Caro. Se eu tivesse…
– O quê? – perguntou ela, soltando-se dos braços fortes para encará-lo. –
Importa-se de me dizer a verdade? Contar-me os mais sórdidos detalhes…
para que eu tenha a chance de me preparar se algum dia passar por
situação semelhante?
A expressão de Connor endureceu.
– Nunca menti para você.
– Por favor. Treze dias? E quanto à alegação de que vocês tinham
aspirações diferentes? A percepção de que não eram certos um para o
outro. Você fez parecer como se fosse uma perda de interesse quando na
verdade foi o oposto. Ela se apaixonou por você!
– Eu não sabia… Droga! Ela disse…
– Esqueça o que ela disse! Qualquer um que olhasse para aquela mulher
perceberia como ela estava se sentindo. Da mesma forma que qualquer
pessoa que olhe para mim é capaz de ver o que sinto. Ela certamente viu.
Os lábios de Connor se fecharam, os olhos perdendo por completo o
brilho do conflito ao mesmo tempo que ele começou a negar com um gesto
de cabeça.
– Megan. Não…
– Relaxe. Já percebi que cometi um erro.
– Megan… – Ele passou uma das mãos pelos cabelos, fechando-a sobre
um punhado de fios na base do crânio e depois esfregou as mãos. O que
poderia dizer?
Droga! O semblante de Megan horas antes, naquela noite. Ela se
esforçara tanto para manter a compostura, para se controlar, mas ele
percebera a dor que emanava daqueles olhos azuis… Era similar à emoção
que lhe fizera brotar lágrimas nos olhos na noite em que ela lhe oferecera
seu comprometimento. Aquilo era tudo que Connor desejava evitar. Tudo
que ele lhe dissera para evitar.
– O que houve entre mim e Caroline havia acabado antes de nos
conhecermos.
– Eu ouvi. Treze dias antes.
– Sim. Não que tivesse tido alguma importância se fossem treze horas –
retrucou ele. – Este casamento é um acordo entre duas pessoas similares.
Uma sociedade, não um caso de amor. Nunca menti para você ou lhe ocultei
algo importante.
Megan o encarou, quase perplexa, como se não o reconhecesse.
Aquilo não o agradou. Nem um pouco. Megan já o conhecia,
compreendia-o. O que estava acontecendo naquela noite não mudava nada.
– Não. De fato, não. Eu é que não fui sincera.
– A que está se referindo? – disparou ele.
– Não se preocupe. A única pessoa para quem menti foi para mim.
Connor devia tê-la deixado ir, mas, quando ela girou para se afastar, não
conseguiu se impedir de lhe segurar o braço.
– Isso não muda nada. Todas as razões pelas quais nossa união faz
sentido permanecem as mesmas.
Os olhos azuis se fixaram no ponto onde a mão longa lhe tocava a pele
exposta do braço.
– Por acaso parou para pensar que você, no afã de me mostrar todas as
razões que fariam este casamento dar certo, não se permitiu ver as razões
pelas quais talvez não desse?
– Não – respondeu Connor de modo mais áspero do que pretendia. –
Você está aborrecida. Ferida. Envergonhada. Entendo isso. Mas é muito
inteligente para permitir que uma noite dite seu futuro.
– Tem razão. Sou muito inteligente para permitir que uma única noite de
constrangimento se interponha no caminho de algo verdadeiro. Mas é
óbvio que não estamos falando de uma única noite, assim como não
estamos falando de algo verdadeiro. Portanto, não se atreva a fingir que
estamos.
Enrijecendo a postura, Connor deu um passo atrás.
– Pode dizer.
Queria que Megan desse voz ao que estava pretendendo fazer para
começar a desviá-la da direção que ele os impediria de tomar.
Megan empertigou os ombros.
– Não posso ser sua esposa.
Tarde demais.
– Você é minha esposa.
– Então, talvez não seja eu. Talvez seja você. Talvez você não seja o
marido que eu desejo.
A mão longa lhe soltou o braço. Todos os argumentos que Connor estava
preparado para lhe atirar de repente o desertaram.
Os dois eram tão certos juntos. Faziam tanto sentido.
Tratava-se apenas daquela maldita emoção, que ele fizera questão de
evitar durante toda sua vida, estragando tudo.
O que precisavam era de um pouco de perspectiva.
– Não vamos tomar nenhuma atitude precipitada, está bem? Você precisa
de espaço. Que tal eu vestir um terno e ir para o escritório? Estava com um
compromisso marcado para esta noite de qualquer forma. Ficarei lá. Reflita.
E amanhã à noite conversaremos.
Megan lhe dirigiu um olhar desolado e, após uma pausa, anuiu com um
gesto sutil.

ELES FICARIAM bem.


Megan era uma mulher racional. Realista, Connor tranquilizou a si
mesmo enquanto retirava um terno do closet e rapidamente fazia uma
pequena mala. Ela precisava de um pouco de espaço para superar a mágoa.
E no dia seguinte faria o controle dos danos.
Mudança de planos. Não podia suportar a distância que colocara entre
eles no momento. Voltaria a se aproximar. Apenas um pouco. O suficiente.
Com a maleta feita, dirigiu-se ao andar térreo.
Megan estava na cozinha. Connor sabia que ela queria distância dele, mas
ainda assim não conseguiu se impedir de seguir os sons da porta da
geladeira se fechando, o clique do vidro contra o granito, o suave gorgolejar
do vinho sendo servido.
Contornando um dos cantos, ele a encontrou recostada contra a bancada,
a taça intocada de lado, como se ela estivesse esperando por ele.
– Está levando tudo de que necessita? – perguntou ela. Educada. Distante.
O tipo exato da pergunta atenciosa que sua esposa ideal ofereceria.
Superficial. Malditamente superficial para ter vindo da mulher que com
quem se casara.
– Quase. – Connor cruzou na direção dela com uma única passada. Em
seguida, puxou-a para perto, tirando vantagem do que inevitavelmente
pretendia ser um protesto.
O rosto virado para cima.
Os lábios entreabertos.
O beijo de boa-noite que ele não conseguiria partir sem receber.
Porém, os lábios de Megan se encontravam rígidos e inflexíveis, embora
ela não tentasse se soltar. Talvez fosse melhor que o tivesse feito. Mas em
vez disso permitiu que o beijo acontecesse, recebendo-o com o mesmo
distanciamento frio que suas palavras haviam oferecido.
Não era assim entre eles e talvez estivesse sendo vil em pressioná-la
naquele momento, mas, se lhe daria espaço para pensar, queria garantir
que a deixara com algo para refletir.
Connor roçou os lábios de um lado para outro sobre os dela, sabendo que
Megan pensava apenas suportar aquele contato. Tolerar a intimidade. Mas
em vez de desistir ele a puxou ainda mais para perto, escorregando uma
das mãos pela extensão aveludada das costas expostas até o pescoço
delicado, onde enterrou os dedos nas mechas sedosas cor de ouro,
inclinando-lhe a cabeça para trás de modo suave e aprofundando o beijo.
Invadiu-lhe o interior da boca, abrindo caminho contra os dentes, os
cantos dos lábios, até encontrar a língua suave e úmida que ele tanto
desejava.
Megan não queria corresponder. Não desejava lhe dar nada. Mas ainda
assim Connor podia sentir o ofego contra os próprios lábios. O sugar suave
quando, com um gemido fraco, ela se rendeu.
– Megan – gemeu ele, apertando-a contra o corpo.
A língua macia rolou suavemente contra a dele, a boca carnuda o
correspondendo. Recebendo. Dando. Até que toda a atmosfera fria
estivesse carregada da eletricidade que gravitara entre eles desde a
primeira noite… até que Connor se certificasse de que, embora estivesse
partindo, aquilo ficaria com ela.
Quando ele interrompeu o beijo, Megan não lhe sustentou o olhar, mas
ele percebeu o leve rubor no rosto delicado.
Levando a mão aos lábios carnudos, ela fez um movimento negativo com
a cabeça. Os olhos azuis faiscavam com a raiva que sentia de si mesma.
– Algum dia se furtou a tomar mais do que alguém estava disposto a lhe
dar?
Aquelas palavras o chocaram.
– Isso não…
Mas ela ergueu uma das mãos, interrompendo-o, ao mesmo tempo que a
primeira maldita lágrima rolava por seu rosto… E de repente Connor se viu
sem palavras. Sem defesa. Tudo que conseguiu fazer foi observá-la
desaparecer por um dos cantos da cozinha em um redemoinho de seda
cinza-clara, sabendo que aquela apatia o faria perder um grande terreno.

NÃO TINHA defesas contra ele.


Mesmo vendo Connor se aproximar e se preparando contra aquele
avanço, não tivera chance alguma.
Desmoronara sob o ataque daquele beijo, colando-se ao homem que
necessitava desesperadamente deixar e rezando para que ele dissesse algo
que a fizesse se sentir melhor, que a convencesse de que aquilo era
diferente do que parecia.
Porém, Connor era exatamente como ela o julgara ser.
Um homem capaz de ligar e desligar seus sentimentos como se acionasse
um interruptor.
Um homem capaz de partir sem nem ao menos olhar para trás.
Um homem capaz de deixar uma mulher e, dentro de poucos dias, se
comprometer com outra.
Connor era exatamente o tipo de homem a quem ela jurara nunca mais
se tornar vulnerável. E, como se tivesse um imã que a atraísse para aquele
tipo especial de tortura, casara-se com ele horas após tê-lo conhecido.
Os sinais sempre estiveram lá. Avisos por todos os lados. A mente de
Megan retrocedeu àquele primeiro compromisso social com Georgette. O
momento embaraçoso quando o silêncio da mulher mais velha
praticamente gritara que havia coisas que ela não sabia. Mas, em vez de dar
ouvidos ao instinto, resolvera ignorá-lo por completo.
Por que não quisera ser cínica? Ora!
O que não quisera fora encarar a verdade.
Desgostosa, Megan fechou uma caixa com fita adesiva. Retirou a tampa
da caneta com os dentes e escreveu o endereço de seu apartamento em
Denver no topo.
Em seguida, empilhando a caixa junto com outras duas, olhou ao redor
da casa que julgara ser seu lar. Passara a noite desmontando a vida que
começara a construir ali. Dividindo seus pertences em duas categorias: as
de sua vida antes e as de sua vida com Connor.
Levaria apenas as da primeira categoria. E, quanto a essas, havia apenas
um punhado de coisas que poderia embalar sozinha e ainda conseguir
pegar o voo. O restante coordenaria com Connor quando estivesse em seu
próprio espaço.
Não tinha nenhuma ilusão de que seria capaz de partir e se ver livre dele
para sempre.
Estavam casados, afinal.
Legalmente unidos.
Precisariam conversar. Mas não naquela casa. Não naquele dia.
O sentimento de culpa fervilhou em seu íntimo ao imaginá-lo retornando
para descobrir que ela havia partido.
Connor ficaria lívido e se sentiria traído.
Mas ele havia se tornado demasiado proficiente em manipulá-la. A
evidência fora aquele beijo irritante, ao qual ela se mostrara muito fraca
para resistir. O que significava que aquele era o único jeito.
Não conseguiria permanecer em uma situação em que se tornaria uma
casualidade dos desejos de Connor.
Construíra a própria vida com base na filosofia das decisões inteligentes.
Ser prática. Responsável.
Aquela era uma das características que a tornaram atraente aos olhos de
Connor.
Mas, com ele por perto, não sabia tomar uma decisão inteligente. Não
fazia a coisa certa.
No que se relacionava ao marido, Megan costumava atirar a cautela pela
janela e se arriscar no campo da satisfação. Tentar se convencer de que
sabia o que estava fazendo, mesmo quando não tinha a menor ideia.
Aquela não era a vida que queria para si. Tampouco a que desejava para
a criança que pretendia ter. Devia a ambas algo muito melhor.
E por isso estava partindo. Antes que Connor tivesse a chance de fazê-la
mudar de ideia.

MEGAN HAVIA partido. Eram nove horas da manhã e ela havia partido. A casa
se encontrava silenciosa e estática sob o som enferrujado da respiração
dificultosa de Connor.
Danação!
Pensara que ela o esperaria. A consciência de respeito e sensibilidade de
Megan seriam suficientes para garantir que não partisse sem conversar
com ele. Para que dissesse, olhando em seus olhos, que estava tudo
acabado.
Para que ao menos tentasse.
Mas, por mais sensível e respeitosa que Megan fosse, sob toda aquela
suavidade, havia a inteligência. Era muito inteligente para lhe dar a chance
de convencê-la a fazer qualquer coisa.
Portanto, havia agido durante a noite. Embalando apenas o que podia
levar com ela. Organizando o restante para que ele despachasse quando lhe
fosse conveniente.
Connor tinha vontade de derrubar cada peça da mobília da casa.
Não conseguia acreditar que Megan de fato fizera aquilo.
Não deveria ter partido. Deveria ter se acalmado o suficiente para deixá-
lo racionalizar com ela. Lembrá-la do tipo de vida que poderiam ter juntos.
Mas em vez disso pegara algum voo noturno, deixando que ele
descobrisse a vida que planejara para os dois desmantelada em pilhas de
caixotes rotulados com a caligrafia dela.
Para o diabo com aquilo!
Cerrando os punhos nas laterais do corpo, Connor saiu pisando duro do
escritório escuro que ainda guardava a essência da luz do sol.
Aquilo não estava terminado.
Megan podia ter partido, mas não estava fora de alcance. A única razão
que a fizera partir sem antes terem uma conversa fora o medo de que ele a
convencesse a ficar se estivessem face a face.
Provaria que ela estava certa.
Iria atrás de Megan. E a faria ouvir a voz da razão. Ele a convenceria a
voltar para casa e a esquecer aquele beijo indiferente que terminara antes
mesmo de começar. Ele a seduziria. Por completo. Começaria com seus
lábios e língua. Em seguida, a pressionaria à parede, porque aquilo a
deixava enlouquecida de desejo… e, sim, não tinha nenhum pudor em usar
o próprio corpo para explorar a fraqueza de Megan.
E quando a tivesse descontrolada, com a respiração ofegante contra sua
orelha, as mãos delicadas enterradas em seus cabelos e ouvindo as súplicas
que ela deixava escapar preencher toda a atmosfera, usaria aquela
alavanca…
Não pode me deixar. Não a deixarei escapar…
O eco daquelas palavras com décadas de existência, ditas por um homem
que Connor odiava para uma mulher que não fora capaz de resistir ao ouvi-
las, fez seus passos estacarem e o sangue que lhe fervia nas veias congelar.
Ele era igual ao pai.
Não importava o quanto jurara jamais se permitir, aquele bastardo fazia
parte de seu DNA.
Quantas vezes a mãe tinha tentando deixá-lo? Tentado pôr um fim àquela
relação e começar de novo, separada do homem que nunca a deixaria fazer
parte de sua vida?
Connor refletiu sobre aquela manhã, muitos anos antes. A figura muito
pequena e imóvel da mãe enroscada no meio da cama. A certeza, mesmo
antes de esticar a mão para tentar acordá-la…
O que teria significado para eles se o pai lhe tivesse respeitado os desejos
e permitido que ela começasse uma nova vida longe dele?
Teria a mãe conseguido superar aquele sofrimento? Encontrar a vontade
de… simplesmente viver?
Relaxando o punho que cerrara desde que entrara em casa e não
encontrara Megan, Connor baixou o olhar à aliança de diamantes na palma
de sua mão.
Aquela era a segunda vez que Megan a devolvia.
A segunda vez que lhe ignorara a vontade completamente.
Passando as mãos pelos cabelos, uniu-as atrás da nuca e olhou além da
janela para o oceano adiante.
Não era como o pai. Passara a vida toda provando isso para si mesmo e
para qualquer pessoa que ousasse ligá-los devido ao sobrenome. Naquele
último dia, estivera parado à porta do escritório do pai, recusando seu
dinheiro, emprego e reconhecimento relutante.
Disse a si mesmo que jamais aceitaria nada daquilo. A única coisa que
levaria consigo seriam as lembranças de como aquele homem arruinara a
curta vida da mãe com seu egoísmo.
E apenas porque, por mais que tentasse, não as conseguiria esquecer.
Uma dor terrível se acomodou no fundo da alma de Connor. Tinha de
deixar Megan partir.
Seria melhor para ambos.
Forçando a respiração a voltar ao normal, girou na direção do escritório
de Megan. Uma vez que aquele espaço estivesse vazio, ficaria bem. Seguiria
em frente, como sempre fizera.
Mesmo que o “sempre” nunca tivesse sido como dessa vez.
Capítulo 21

MEGAN ACHARA incômodo o telefonema de Connor, duas noites antes.


Sim, tivera plena ciência de que precisariam conversar, dizer as coisas
que sua ausência se antecipara em anunciar, combinar a devolução de seus
pertences e discutir o divórcio. E assim o fizeram. Mas o que ela não
esperara fora a forma como se dera aquele telefonema.
Tranquilo. Pacífico. Educado.
O tom causal de Connor…
“Tem algum advogado em mente ou quer que eu providencie um?”
“Ao que parece, o prazo mais rápido da transportadora é na sexta-feira.
Poderá esperar até lá?”
“Tem certeza de que não quer nenhuma dessas roupas? Aquele vestido
azul era pura dinamite em você.”
Tratando-a de uma forma que não deixava margem a nenhum vestígio de
hostilidade, acusação ou insultos. Ter de partir quase a matara, mas a dor
de saber que aquela decisão quase não o afetara fora ainda pior. Connor
havia desligado toda e qualquer emoção… em um único dia. Mostrara-se
tão indiferente que o telefonema se desdobrara mais como uma conversa
amigável do que o primeiro passo para o fim daquele casamento.
Na casa que dividiam, Connor se mostrara determinado a convencê-la a
não partir, mas naquele momento ainda estava disposto a lutar. Uma vez
que ela partiu e a perda foi confirmada… era como se simplesmente tivesse
lavado as mãos. E Megan ficara destruída ao ver suas suspeitas
confirmadas com tanta rapidez.
Mas, por mais brutal que fosse ter seu coração esmagado outra vez, a dor
recente era exatamente o que precisava para diminuir suas dúvidas sobre a
inseminação artificial e a escolha de esquecer os relacionamentos no
futuro.
Nunca mais duvidaria.
Portanto, o telefonema, por mais incômodo que tivesse sido, valera a
pena.
Ou assim pensara até sessenta segundos antes, quando abriu a porta
esperando encontrar os transportadores à soleira de sua porta, mas em vez
disso se deparou com o rosto de Connor, aquele sorriso provocante tendo a
ela como alvo.
– Ei, bela, traga alguma coisa com que aqueles caras possam escorar a
porta de segurança. Isso não deve demorar muito…
– O que está fazendo aqui? – disparou ela, muito chocada para suavizar a
pergunta.
Connor deu de ombros em um gesto casual.
– Não sabia se tinha alguém para ajudá-la e pensei que seria mais fácil
com mais duas mãos. Queria me certificar de que não haveria nenhum
problema.
Com a garganta se fechando com uma emoção que não queria encarar e
que precisava descartar, Megan fez um movimento negativo com a cabeça.
– Não deveria ter vindo. Eu parti porque…
– Considere isso um privilégio conjugal. – O sorriso de Connor
permanecia exatamente como era, mas os olhos tinham uma expressão
endurecida ao observar os rapazes da transportadora descarregarem uma
caixa após outra do caminhão. – Ainda sou seu marido, portanto é melhor
desempenhar esse papel enquanto possuo esse título.
Privilégio conjugal… a quem ele estava querendo enganar?
Megan teve vontade de argumentar, dizer o quanto a irritava sua
aparição ali, depois de ela ter partido com as primeiras horas do dia para
evitar ter de vê-lo outra vez. Porém, Connor não era tolo. Sabia muito bem
o quanto aquilo a aborreceria e escolhera vir assim mesmo, porque ele
sempre fazia o que tinha vontade.
– De qualquer forma, estou aqui – prosseguiu ele, esticando a mão sobre
a cabeça de Megan e a fechando sobre a grade da porta de segurança que
ela estivera segurando como a uma tábua de salvação. – Então, o que me diz
de levarmos isso tudo até seu apartamento para podermos dispensar esses
caras?
Megan anuiu, tentando ignorar a forma como a blusa informal se esticava
sobre a largura musculosa daquele peito. Ou como a fragrância do sabonete
que Connor usava a provocou quando ele se inclinou para a frente a fim de
segurar a porta que ela ainda não havia largado.
Incapaz de resistir, Megan inspirou profundamente e guardou aquela
deliciosa fragrância dentro dela. Saboreando-a como fazia com as
lembranças que aquela essência suscitava. Lembranças de fins de noite,
peles nuas e um prazer que lhe embotava todos os sentidos.
Apaixonara-se tão profundamente. E tão rápido.
A mão livre de Connor se fechou em torno de sua cintura, e ela encontrou
aqueles olhos escuros profundos. Foi um erro. Não deveria estar tão
próxima dele. Não deveria ter se permitido fisgar com a isca destinada a
capturá-la.
A mão longa em sua cintura se moveu para a base da espinha, suscitando
fagulhas elétricas que se alastravam por sua pele, ameaçando reacender a
chama.
– Megan – disse Connor, puxando-a na direção do calor do próprio corpo.
– Megan sabia que devia se soltar, porque aquela proximidade significava
sair chamuscada, mas… – Cuidado, querida, os rapazes têm de passar.
A cabeça de Megan girou para se deparar com o primeiro transportador,
que tentava contorná-la com um caixa marcada como “ESCRITÓRIO” nos
braços.
– Obrigado, senhora.
Megan anuiu, a vergonha fazendo-lhe as bochechas do rosto queimar
enquanto ela tentava se afastar do braço de Connor e se inclinar na direção
da porta. Porém, ele a segurou firme, até que Megan não tivesse alternativa
senão olhá-lo nos olhos de novo.
Mas dessa vez manteve o controle.
– Solte-me para que eu mostre onde ele deve colocar as coisas. – A fim de
que pudesse respirar, pensar e ter alguma chance de se lembrar de todas as
razões pelas quais precisava manter distância daquele homem que causara
estragos em sua capacidade de julgamento.
O POLEGAR de Connor se moveu na mais ínfima das carícias na base da
espinha de Megan, e, em seguida, sua atenção se dirigiu aos homens, ao
caminhão e ao retorno da vida de Megan ao modo como era antes de
conhecê-lo.
Que diabos ele estava fazendo ali? Havia decidido deixá-la seguir em
frente.
Passara o maldito dia em que ela partira controlando aquela parte
possessiva de seu ser, determinado a mantê-la ao seu lado para que
pudesse ser capaz de lhe telefonar. Para conversar com Megan sem tentar
convencê-la a fazer qualquer coisa. Apenas se certificar de que fizera uma
viagem segura até Denver e de que estava bem.
E conseguira.
Tratara da logística em relação à devolução das coisas de Megan e
desligara o telefone, dando palmadas leves nas próprias costas
mentalmente por enfim ter feito a coisa certa.
E então fora para a cama e ficara olhando para o teto até, por fim, desistir
e mergulhar no trabalho. Onde passara as últimas dezoito horas.
Quando a equipe de transportadores chegou, supervisionara o
encaixotamento dos pertences de Megan. Imaginara que, uma vez que
aquelas constantes lembranças do que ele havia desejado e perdido
estivessem longe de sua casa, seria capaz de relaxar. Que a força daquela
garra que lhe comprimia os pulmões afrouxaria. Que o persistente nó no
peito se desfaria. Mas, quando a última caixa foi levada, Connor se
descobriu a seguindo. Verificando as condições do caminhão, interrogando
o entregador responsável sobre o prazo de chegada. Que precauções
haviam tomado para que os pertences de Megan chegassem nas mesmas
condições nas quais partiram. Se os homens que descarregariam seriam os
mesmo que carregaram a mudança. Havia quanto tempo ele trabalhava
com aquela equipe.
Quando percebeu que não importava o que dissessem, não se sentiria
seguro o suficiente, resolveu pegar um avião e encontrar o caminhão em
Denver.
Certificar-se de que entregariam os pertences de Megan em boas
condições e sairiam do apartamento dela sem nenhum percalço.
Simples assim. Sem motivos ulteriores.
Sim, claro que as fantasias de tê-la sob e sobre seu corpo, enroscada
deliciosamente em torno dele, passaram por sua mente em uma velocidade
alucinante. Mas tinha planos de agir para tornar aquelas fantasias reais?
Não.
Ao menos não até que ela erguesse o olhar para encará-lo em uma
proximidade tão tentadora. Os olhos tão cheios de raiva quando o viram
parado à porta se suavizando e aquecendo enquanto ele a afastava do
caminho do rapaz da mudança.
Ótimo. Ainda assim não agiria. O fato de ela ter lhe dirigido aquele olhar,
quando ele tinha certeza de que Megan não queria mais nada, deixava clara
a influência que exercia sobre ela.
E a emoção refletida naquelas duas poças azuis? Sim, nenhuma
massagem em seu ego se comparava com aquela… mas ele não queria um
relacionamento com aquele tipo de emoção. Aquele tipo de
responsabilidade. O que desejava era que Megan o quisesse… mas não
necessitasse dele. Não fosse vulnerável em relação a ele. E certamente não
ficasse tentando deixá-lo repetidas vezes… para simplesmente não
conseguir.
Não queria nada daquilo.
Não. Iria apenas se certificar de que ela estava bem e então seria capaz
de partir sem olhar para trás.
Quando a última caixa foi entregue, Connor assinou as notas, deu
gorjetas aos rapazes e, em seguida, fechou a porta de Megan.
O apartamento parecia menor do que se lembrava. Mas havia caixas
empilhadas no centro de cada um dos quatro cômodos, ocupando espaço.
Ela não levara tudo que possuía para San Diego. Nenhuma mobília. Apenas
suas lembranças. Livros. Quinquilharias.
Coisas que lhe renderam risadas quando vira Megan desencaixotar, mas
que agora se perguntava se não sentiria falta de ter por perto.
Abrindo uma caixa com formato esquisito, Megan retirou de lá um abajur
com cúpula de contas, e Connor se viu observando com olhar atento
enquanto ela devolvia o objeto ao lugar que antes ocupava. Era curioso ver
a vida dela se encaixando sem sua presença.
Após colocar o abajur sobre a pequena mesa ao lado de uma poltrona
para leitura, Megan ligou o fio à tomada e recuou com uma expressão
ilegível estampada no rosto.
Connor não sabia definir se ela estava feliz ao ver o objeto de volta ao seu
lugar ou não.
Quando ela girou na direção dele, Connor percebeu o que viria a seguir.
Não estava preparado para aquilo, portanto a cortou antes que Megan
pudesse dizer adeus.
– Por qual cômodo deseja começar? – perguntou, enfiando as mãos fundo
nos bolsos da calça comprida, para que Megan não visse seus punhos
cerrados, ao mesmo tempo que estampava um sorriso tranquilo no rosto.
– Obrigada por ter enviado minhas coisas com tanta rapidez, mas posso
fazer o restante sozinha.
– Estou aqui – disse ele, ciente de que sua voz soara uma oitava mais
baixa, adotando um tom austero. – Então a ajudarei. Avisei no escritório
que ficarei fora uns dois dias…
– O quê? – Ela ofegou.
– Pediremos pizza e escolheremos uma garrafa de vinho para esta noite.
Podemos ver um filme. – Connor fazia aquilo parecer casual. Nem um
pouco intimidante. Sem exigências. Sem pressão. Nenhuma.
– Uma pizza? Ficou louco ou está sendo intencionalmente cruel? – Megan
vibrava com a tensão. E, de repente, ele estava ao seu lado.
– Estou tentando ajudar. Quero…
– Não se trata do que você quer! Como não conseguiu entender isso? Não
posso ser sua amiga!
E então Connor estava de frente para ela, as mãos fechadas sobre seus
antebraços, ao mesmo tempo que respondia no mesmo tom alto:
– Não quero que sejamos amigos!
Megan pestanejou, tão chocada com a quebra da reserva de Connor
quanto ele.
– O que você quer? – perguntou ela, muito calma para a proximidade em
que se encontravam.
Segundos se passaram, e, por fim, o ar que ele estivera prendendo lhe
escapou da garganta com a única resposta possível.
– Quero você. Quero o que deveríamos ter. Quero a esposa, a parceira
que encontrei em Las Vegas. Quero que admita que posso lhe dar mais do
que pode ter sozinha.
– Isso não dará certo.
– Por que não?
– Porque… – Megan ergueu as duas mãos em um gesto impotente. Os
olhos azuis repletos de dor e emoção para ser qualquer coisa que não fosse
o que ela disse a seguir. – Eu o amo.
Não era exatamente uma surpresa, depois do que Megan lhe dissera,
antes de partir. Ou ao menos não deveria ser. Connor percebera a prova
daquele sentimento em seus olhos. Na dor que ela sentira. Em um milhão
de pequenas coisas que ele desistira de tentar negar. Mas ouvir aquelas
palavras nos lábios dos quais não conseguia se saciar… a confissão o atingiu
como um soco no peito, roubando-lhe o ar dos pulmões e o deixando
perplexo.
E então Megan se encaminhou para a porta e a abriu. Os olhos em algum
ponto além de seus pés, no chão.
– Por favor, vá embora.
Capítulo 22

MEGAN SALVOU seus arquivos e, em seguida, olhou para o monitor. Muitas


noites insones e a necessidade desesperada de se distrair com alguma coisa
a fizeram terminar a fase final de seu projeto muito antes do prazo
estabelecido.
O que faria agora para afastar aqueles pensamentos indesejados?
Aqueles sussurros insidiosos que se infiltravam com uma velocidade
alarmante em sua mente?
… bom dia, sra. Reed… Vou querer meu beijo agora…
Alguns dias, Megan se entregava a eles, afogando-se em um mar de
lembranças. No prazer que encontrara naqueles momentos. Em outros dias,
como aquele, lutava para afastá-los, para evitar a dor que vinha atrelada à
percepção do que havia perdido.
O monitor se tornou embaçado.
Mais lágrimas. Quanto tempo levaria para derramar a última? A julgar
pela dor aguda em seu coração, imaginou que seria uma eternidade.
O som do telefone a arrancou dos pensamentos melancólicos. Fechando
os olhos para se livrar da última de suas lágrimas, esticou a mão para o
fone, acolhendo de bom grado qualquer distração que aguardasse do outro
lado da linha.
Talvez uma oferta de cartão de crédito?
Uma pesquisa?
Quem quer que fosse o pobre chato do outro lado da linha, conseguiria
sua total atenção. Megan os manteria ocupados pela próxima hora e meia,
no mínimo.
– Megan Scott – atendeu, ainda com dificuldade de fazer o nome romper
a barreira de seus lábios.
Seguiu-se uma pausa que ela presumiu ser o sistema registrando que a
ligação fora atendida e a encaminhando para um atendente.
Porém…
– Scott? Sei que faz algum tempo que não nos falamos, mas acho que
alguém teria me avisado se eu tivesse me divorciado.
Connor.
Como era possível o coração de uma pessoa subir às nuvens e descer ao
centro da Terra ao mesmo tempo?
– Pode não ser oficial ainda, mas será.
– Certo. Claro. – Connor limpou a garganta. – Estive alguns dias em Nova
York, mas estava querendo saber se teve a chance de desencaixotar suas
coisas para me certificar se houve algum estrago. Está tudo aí?
Uma pergunta sensata. Connor levava suas responsabilidades e
compromissos muito a sério. Era apenas isso. Inspirando profundamente
para se recompor, Megan respondeu com igual sensatez.
– Está tudo na mais perfeita ordem. Mais uma vez, muito obrigada por
sua ajuda.
– Fico feliz em saber disso. Avise-me se perceber alguma coisa faltando.
– Acho que não será necessário.
– Ótimo. Agora que está acomodada de volta em seu apartamento, quais
são seus planos?
Megan olhou para o fone por um instante. Como ele poderia fazer uma
pergunta como aquela?
– Você sabe quais são meus planos. Tudo que aconteceu… nada mudou. –
Nada, exceto o fato de seu coração estar quebrado em mil pedaços e de
toda vez que escutava a voz de Connor, questionando-a de maneira tão
casual, quebrar-se em mais mil pedaços. – Eu… realmente preciso que você
não me procure mais. Acho melhor que nossos advogados assumam daqui
em diante.

VOCÊ SABE quais são meus planos…


As palavras martelavam o crânio de Connor com o mesmo impacto de
uma britadeira. Desde o início, soubera que Megan tinha um caminho
traçado para seu futuro. Uma família sem as complicações de um
casamento ou de um homem. E não se importara. Porque acreditara que
não se realizaria.
Precisava de tempo. Tempo para reconquistá-la. Tempo para engendrar
uma estratégia que a deixasse incapaz de resistir. Megan se apaixonara por
ele. Isso significava que era capaz do sentimento que, por antes não existir,
a levara a considerar a inseminação artificial.
Megan se apaixonara por ele. Então, talvez pensasse que isso seria
possível com outro homem. Algum dia. E esperasse.
Porém, agora ela estava disposta a ir adiante com seu plano.
Nada mudou…
Uh-huh. Nem uma maldita coisa. Exceto que ele estava doente de tanto
pensar em Megan grávida do filho de outro homem. Refletir sobre aquela
ligação inquebrantável, a união íntima… mesmo que o doador não soubesse
da existência dela, a ideia em si era suficiente para enlouquecê-lo de raiva.
E quanto aos meses seguintes? A relação de Megan com a mãe era
delicada, na melhor das hipóteses. Quem estaria lá para ajudá-la nos
momentos difíceis? Quando enjoasse, se sentisse fraca, com fome… ou
assustada.
Droga! Detestava quase tanto ou mais do que detestava a ideia de alguma
pequena parte de outro homem se misturando à essência de quem Megan
era.
A mãe não costumava conversar com ele sobre como fora criá-lo sozinha.
Não quisera que o filho se sentisse um fardo. Mas Connor se recordava de
uma noite em que ela estava chorando e conversando com seu pai.
Perguntando-lhe se ele tinha ideia de como fora para ela acordar em
trabalho de parto, sem entender o que estava acontecendo. Tendo de
chegar ao hospital e passar todas aquelas horas esperando por um homem
que a enchera de promessas, mas não apareceu para apoiá-la. Um homem
que deixou que ela desse à luz seu filho, sozinha e assustada, enquanto
dava uma festa de Natal com a esposa.
Megan nem ao menos teria a esperança de que alguém estaria ao seu
lado.
Diabos! Por que Megan simplesmente não permitia que ele ficasse ao seu
lado?
Afastando a cadeira para trás, Connor se encaminhou ao bar e se serviu
de um copo de uísque. Engoliu o conteúdo em apenas um gole, na
esperança de que a queimação produzida abrandasse aquela dor profunda
que vinha com todos os “e se” e “por que não” rodopiando constantemente
em torno do nome de Megan em sua mente.
Porém, de nada adiantou. Portanto, serviu-se de outro drinque,
imaginando que, se não conseguisse abrandar a dor que lhe revolvia as
entranhas, talvez fosse capaz ao menos de amortecer o latejar na cabeça.
Uma hora mais tarde, pensando com mais clareza do que nunca,
empurrou a garrafa vazia para o lado e pegou o telefone.
– Preciso de você…

CONNOR ACORDOU com o que parecia ser uma boa parte de um aterro sanitário
em seus olhos e a quase certeza de que, de alguma forma, pelo curso da
noite, acabara se juntando a um cruzeiro. O oscilar suave e indolente do
espaço ao seu redor fazendo coisas bem desagradáveis com seu estômago.
Porém, logo em seguida, o colchão ao seu lado cedeu com o peso de alguém.
Não. Estava. Sozinho.
Uma onda de entusiasmo o atingiu enquanto tentava forçar as pálpebras
a se abrir. Diante da pontada de dor que a invasão da luz provocou, tornou
a fechá-las.
Não importava.
Não estava sozinho. De alguma forma, com algum argumento, conseguira
atrair Megan de volta à sua cama. Deus abençoasse o que quer que
estivesse pensando na noite anterior.
Tateando pelo colchão, fechou a mão sobre o primeiro calor humano que
encontrou e o puxou para perto. Ou tentou, porém…
– Não sei o que ouviu dizer… – Soou a voz extremamente baixa e muito
próxima. – … mas não sou esse tipo de garota.
Jeff.
Dessa vez, Connor abriu os olhos de uma só vez, forçando-os a suportar a
dor cruciante que a luz do dia provocava. E se deparou com a visão
burlesca de sua mão fechada sobre a coxa do amigo, protegida pelo jeans,
que se encontrava pousada sobre o edredom que cobria a cama.
Sua cama.
Não um navio.
Então por que toda aquela oscilação… oh, Diabos!
– Sim. Tem uma bacia bem ao lado da cama, companheiro – informou Jeff,
utilizando a perna para empurrá-lo na direção oposta. – Sirva-se.
Trinta minutos depois, Connor estava de banho tomado e vestido. O
frescor da menta fazendo o que podia para disfarçar o hálito desagradável
dos excessos da noite anterior.
O que estivera pensando?
Arrastando os pés na direção da cozinha, Connor se deixou afundar em
uma cadeira ao lado da mesa e arriscou um olhar a Jeff, que estava
cozinhando bife e ovos, com um sorriso pretencioso no rosto presunçoso.
– Não quero que pense que não fiquei extasiado em encontrá-lo em
minha cama esta manhã, mas o que está fazendo aqui?
Um giro presunçoso com a espátula. Droga!
– Meu telefone está em cima da mesa. Há uma mensagem de voz que lhe
dará ideia do que aconteceu, mas acho que as mensagens de texto
esclarecerão tudo. Veja por si mesmo.
A massa que revolvia seu estômago se solidificou em uma bola de
chumbo. Oh, droga! Acessando as mensagens de texto a bola de chumbo se
avolumou a cada palavra.

20:42 REED: Preciso que me acompanhe até Denver.


20:46 JEFF: Estou em uma reunião. Dê-me 1h.
20:53 REED: Não posso. Quero minha esposa de volta. Estou indo agora. Acho
que posso convencê-la com meu sêmen.

Deus! Por favor, faça com que ele não tenha ligado para Megan, pensou
Connor.

20:53 JEFF: Está bebendo?


20:55 REED: Tenho o que ela quer. Um plano sólido. Melhor do que o dela.
20:56 JEFF: Saindo agora. Espere por mim.
21:02 REED: Não se preocupe com isso.
21:02 JEFF: ESPERE POR MIM.
21:04 JEFF: ATENDA SEU TELEFONE.
21:57 JEFF: Deveria parar para tomar um drinque naquele bar no terminal
que vende azeitonas grandes antes de pegar o voo.
22:22 REED: Ei. Você está no bar. E parece furioso.
Connor dirigiu o olhar ao amigo. Seu melhor amigo naquele mundo.
– Como fez isso?
– Com um pouco de sorte. E algum dinheiro. Liguei para o serviço de
carros que você contrata e consegui que um dos motoristas bloqueasse a
saída de sua casa… só para garantir. Sei que você não dirige quando bebe,
mas… bem, você não estava em seu juízo perfeito. Quando você telefonou
para pedir um carro, ele já estava lá. Levou-o ao aeroporto pelo caminho
mais longo. Enquanto isso, peguei o atalho e o encontrei no bar.
– E ficou comigo… na minha cama… para se certificar de que eu não me
afogasse em meu próprio vômito? – Passando uma das mãos pelos cabelos,
Connor fez um movimento negativo com a cabeça. Nunca esperara afundar
tanto.
– Sim, mas na verdade fiquei mais para impedi-lo de ligar para Megan,
seu idiota. Por falar nisso, seu telefone ficou meio prejudicado quando
recebeu um banho de amaciante de carne, ontem à noite. Desculpe. – Jeff
escorregou um prato com bifes e ovos na direção de Connor e se sentou na
cadeira de Megan à mesa, atacando seu próprio prato. – Então, conte-me o
que aconteceu.
Nada mudou…
– Ela está planejando engravidar.
– Ah, e você pensou em ajudá-la. Certo. Porém, pensando bem, se ela não
queria que você a engravidasse antes, então onde achou que seus
nadadores iriam levá-lo na noite passada?
– Se tivesse de arriscar, diria que imaginava poder convencê-la a
reconsiderar. Fazê-la ver o que poderia lhe oferecer. Do que ela estava
abrindo mão.
– E com isso estaria se referindo aos confortos materiais e segurança
financeira?
– Ao menos alguém consegue enxergar alguma coisa – resmungou
Connor.
– Sim. Consigo enxergar alguma coisa. Mas não sei se a mesma coisa que
você.
Connor não estava com disposição para decifrar enigmas ou mensagens
sutis.
– Vá direto ao ponto.
Jeff fez que não com a cabeça e franziu a testa.
– Faça essa pergunta a si mesmo: o que o está afetando tanto? Quero
dizer… o que há em Megan que você não quer perder?
Connor abriu a boca para responder, pronto a explicar como eram feitos
um para o outro. Como aquela relação era tranquila. Porém, de repente,
conseguiu enxergar os últimos meses com uma clareza que nunca tivera
antes. E uma tensão, diferente daquela de que se tornara íntimo, lhe
percorreu a espinha.
Aquele casamento fora um trem descarrilado desde o início.
Sua noiva tão embriagada a ponto de acordar na manhã seguinte incapaz
de lembrar o nome do marido quanto mais do motivo pelo qual se casara
com ele.
Megan fora uma pedra no sapato desde o começo. O tipo de esforço que
Connor nunca investia nos relacionamentos. Fora necessário tempo e
romance para conquistá-la. Ela o mantivera alerta, se esforçando,
adivinhando. Megan o deixara furioso e confuso.
E ele exultando com cada minuto.
Aquilo não fazia sentido.
Pensando em retrospectiva, Megan trouxe consigo todas as complicações
e frustrações características dos relacionamentos amorosos que ele
afirmava odiar e o fizera suplicar para que lhe desse mais.
Megan o afetava como nenhuma mulher que jamais conhecera. E mesmo
sabendo o tipo de caos que ela traria para sua vida… a ideia de perdê-la o
estava matando.
Voltando a dirigir o olhar ao rosto extremamente presunçoso do amigo,
ele anuiu.
– Está bem. Acho que entendi.
Capítulo 23

SEIS HORAS depois, Connor desceu a escada, dando palmadas nos bolsos
para conferir o conteúdo.
Carteira? Sim.
A caixa da aliança? Queimando o bolso interno do paletó. Sim.
Um rápido olhar ao relógio de pulso fez sua adrenalina saltar. Podia fazer
aquilo.
O voo partiria dentro de quarenta minutos, e ele estaria naquele avião
mesmo que isso significasse ter de comprar a companhia área para garantir
sua viagem. E quando chegasse em Denver… Connor sentiu um frio na
barriga diante dos milhares de cenários que lhe invadiram o cérebro.
Porém, apenas um seria capaz de trazer o “felizes para sempre”, que,
apenas algumas horas antes, havia concluído que desejava.
Afastando todos os outros desfechos da mente, com exceção daquele,
Connor segurou a maçaneta da porta da frente e…
A passagem! Ele não imprimira aquela maldita coisa e, após o fim trágico
de seu telefone, precisava daquele papel.
Na cozinha havia acesso à internet!
Disparando pelo corredor, Connor quase derrapou ao virar para a
cozinha.
Precisava chegar lá.
Precisava estar com sua esposa.
Precisava lhe dizer que tudo poderia dar certo entre eles. E não por todas
as razões que ele alegara desde o início, mas pelas que descobrira quando
ela partiu. Todas as coisas que concluiu não poder viver sem.
Ligando o computador, o monitor veio à vida, com a foto dos dois em um
jantar beneficente, no mês anterior, como imagem de fundo.
Estavam sorridentes. Os dedos de Connor brincavam com uma mecha
dos cabelos loiros da esposa enquanto se olhavam nos olhos.
E a forma como ele a olhava… como diabos poderia não ter percebido
aquilo?
Teria de esperar pelo voo para descobrir. Não havia tempo agora.
Ao abrir o navegador, reparou, por acaso, que Megan deixara sua caixa
de e-mail aberta desde a última vez que utilizara a máquina. Prestes a abrir
uma nova aba para acessar a companhia área, Connor estacou quando uma
das mensagens em negrito lhe chamou a atenção, e, ao visualizá-la seus
planos, desmoronaram.
Era do banco de sêmen, datado de cinco dias atrás.

Assunto: Conforme sua solicitação, doador nº 43409089RS1 disponível para


retirada imediata.

Fora ela quem atraíra aquilo.


Pestanejando para o tablet empoleirado sobre o balcão que dividia a
cozinha da sala de estar, Megan se encontrava sentada, em silêncio,
observando a conferência em vídeo que representava o comício de apoio de
Gail, Jodie e Tina.
– Oh! E de fato a surpreendeu o fato de ele ter ido embora?
O que ela estava pensando quando concordara com aquilo?
– Cale a boca. Você viu o jeito como ele a olhava durante a recepção.
– Cale a boca. Você tem razão, Tina.
Bem, estava pensando que talvez uma dose tripla de tortura na forma de
discussão irritante pudesse distraí-la. Afastar-lhe a mente da tristeza que se
apossara primeiro de seu coração e que de forma lenta e uniforme se
espalhara até consumir todo seu ser.
Mas não tivera tal sorte.
Onde estava o martíni de chocolate branco quando se precisava dele?
Uma taça de martíni de chocolate com as proporções de uma fonte para
pássaros, com um canudo do tamanho de uma mangueira de regar jardim
para agilizar o consumo.
– Está brincando? – Tina se inclinou, contornando Gail para encarar Jodie
com a testa franzida.
Não que fosse capaz de beber o drinque, mesmo que se materializasse do
nada. O simples pensamento lhe causava uma náusea que a fez fechar os
olhos e respirar e expirar várias vezes.
Além disso, só Deus sabia em que tipo de confusão se meteria se mais
uma vez seguisse o caminho dos drinques para esquecer. Uma confusão de
lençóis e cobertas… e as pernas de Connor entrelaçadas às dela?
Não.
Não devia desejar aquilo. Tinha de parar de desejar aquilo. Ou, ao menos,
parar de fantasiar formas de fazer aquilo acontecer.
– Quer ter uma conversa agradável? Que tal…
– Garotas. – Gail cortou as amigas. – Estamos falando sobre Megan. A vida
dela está um caos. Mais uma vez. Outro relacionamento fracassado. Desta
vez, um casamento. Claro que todas sabíamos da rapidez com que
aconteceu e formulamos nossas teorias sobre a probabilidade de dar
certo…
Jodie ofegou, a mão voando para quase ocultar o sorriso que lhe curvava
os lábios.
– Gail!
Mas a prima de Megan se limitou a baixar a cabeça uma fração de
centímetro e erguer as mãos como se dissesse: Todas estávamos pensando a
mesma coisa.
E então as três deram início a uma discussão acalorada repleta de
teorias, especulações e os mais patéticos tópicos sobre o passado amoroso
de Megan. Depois houve uma mudança de rumo para comentarem sobre
Jodie ter comprado um par de sapatos mesmo sabendo que Tina já os havia
reservado, algo sobre um suéter no ensino fundamental… um rapaz no
ensino médio… os livros de Laura Ingalls Wilder da primeira série…
Megan devia tê-las interrompido, mas a triste verdade era que
simplesmente não se importava. Aquele minuto de fraqueza em que se
rendera às fantasias proibidas abrira a porta para algo muito pior…
infinitamente mais devastador.
Lembranças. Fragmentos do que de fato fora. Connor… adoro quando
você acerta o meu nome… Eu a tenho. O que quero é mantê-la… Tudo,
Megan… Então, essa coisa de casamento… está dando certo para você?… Você
é uma fantasia… Não quero que sejamos amigos…
Oh, aquilo doía tanto!
– Ótimo, Jodie. Veja o que fez… ela está chorando…
– Eu?
– Oh, não, Megan, querida, não chore. Talvez essa coisa de amor não seja
para você. E daí? Pense em algo agradável.
– Sim. Pense em seu bebê do banco de sêmen!
Megan fez um movimento negativo com a cabeça, esfregando a ponta dos
polegares sob os olhos e detestando aquela aparente inabilidade em conter
as lágrimas.
– Estou bem. Ficarei bem. – Um dia, talvez. – Preciso apenas de um
drinque.
Saltando do banco alto onde estava sentada, Megan circundou a pia e se
serviu de um copo de água. Pensou na forma como Connor costumava
aparecer em seu escritório com um refrigerante e algum petisco saudável.
Como fora tão atencioso e dedicado a ela, ainda mais quando ela conseguia
se esquecer de ser atenciosa consigo mesma.
Connor a percebia de uma forma como ninguém antes.
Mas não era amor.
Como era irônico o fato de que sua inabilidade em se apaixonar tivesse
sido a causa da destruição de todos seus outros relacionamentos. E, quando
conseguira, destruíra seu relacionamento com Connor.
Por que agora?
Por que não conseguiu ser a esposa que ele precisava que fosse?
Megan agradeceu quando as três batidas rápidas à porta a arrancaram da
espiral descendente de pensamentos destrutivos.
Os olhos se voltaram para a porta, o coração dando saltos no peito até
perceber que a campainha da porta de segurança não tocara. A sra. Gandle
do apartamento 2C provavelmente havia assinado o recebimento de outra
encomenda.
Repreendendo-se por aquela estúpida onda de esperança, encaminhou-
se para atender e escancarou a porta…
– Connor? – Megan quase se engasgou com o nome, a incredulidade a
fazendo negar com um movimento de cabeça, diante do homem que tinha a
testa franzida e uma sacola plástica em uma das mãos.
– Nem um trinco de segurança? – perguntou ele. O ultraje intenso e
possessivo. – Primeiro encontro uma senhora pequena no andar térreo,
segurando a porta para que eu entrasse e depois você escancarando essa
porta, sem nem ao menos perguntar quem era? Sei que este é um bairro
tranquilo, mas que diabos?
Megan fez outro movimento negativo com a cabeça, demasiado perplexa
para registrar qualquer coisa além da presença de Connor.
Ele voltara.
Mais uma vez.

CONNOR PASSOU a mão livre pelos cabelos, completamente ciente do papel de


bobo que estava fazendo, mas ainda assim incapaz de ir embora como
deveria.
– O que está fazendo aqui? – perguntou ela em um quase sussurro.
Connor abriu a boca para responder, mas tudo que conseguiu foi devorá-
la com o olhar, perdido na visão daquela coleção de sardas e nos lábios
estonteantes que ele não via esboçarem um sorriso havia muito tempo.
O rosto de Megan parecia mais magro, e não lhe agradaram as sombras
escuras sob os olhos azuis. Mas, ainda assim, nunca ninguém estivera tão
belo quanto ela estava naquele momento.
Limpando a garganta, Connor se fixou nos olhos que o assombravam
havia semanas e, em seguida, na mão magra de Megan que rumou para o
abdome em um gesto defensivo.
– Por que esperei tanto? – perguntou a si mesmo, totalmente ciente da
futilidade daquele questionamento.
Megan pestanejou, confusa, a dor e milhares de outros sentimentos
cintilando naqueles belos olhos. E depois a determinação.
– Você tem de parar com isso. Por que fica telefonando, aparecendo? Isso
é… – Megan engoliu em seco e aquele simples gesto pareceu lhe consumir
muito esforço. – … está me fazendo sofrer.
Connor detestava saber que ela estava dizendo a verdade. Desejou ter
sido perspicaz o suficiente desde o início e, desse modo, impedido que os
dois passassem por aquele tipo de sofrimento.
– Desculpe.
– Então, vá embora – sussurrou ela. Uma única e grossa lágrima rolou
por seu rosto até o lábio superior, fazendo o coração de Connor se contrair
com uma dor que nunca antes experimentara. – Por favor. Não posso ser o
que você precisa que eu seja. Nunca serei capaz disso. Deixe-me em paz.
– Não. – Connor negou com um gesto austero de cabeça. – Eu tentei, mas
não consigo.
– Você tem de…
– Nunca a deixarei em paz! – As palavras escaparam dos lábios de Connor
sem lhe dar chance de moderá-las. Mas aquela era a verdade.
Megan congelou onde estava. A boca sensual se entreabriu no meio de
um protesto. A testa estava cortada por linhas profundas em uma
expressão de pura e impotente incredibilidade.
Mas nenhuma exultação. Nenhuma rendição.
Quando ela pestanejou, dando o primeiro sinal de que estava saindo
daquele estado de torpor, uma onda de pânico o atingiu. Não dissera o
suficiente, não explicara, não podia deixá-la responder sem que dissesse
tudo que Megan precisava saber.
Portanto, lançou mão do truque mais baixo que possuía em seu arsenal.
Aquilo era muito importante para ele. Megan era muito importante para ele
para arriscar ser ético. E, pela primeira vez em sua vida, não amaldiçoou
aquela pequena porção de DNA inescrupulosa que espiralava nos cantos
sombrios de sua personalidade.
Ao contrário, abraçou aquela pequena parte de sua genética.
Dando um passo à frente, segurou-a com uma das mãos sob a cascata de
cabelos loiros, silenciando qualquer negativa que ela pudesse fazer com um
beijo que dissipava toda a ansiedade, saudade não saciada, sofrimento e
desejo que sentira desde que Megan partira. Dizendo-lhe com os lábios que
sentira sua falta. Mostrando com a língua o quanto a queria. E, com
mordidas leves, o poder que Megan exercia sobre ele.
E, quando os dedos delicados se fecharam sobre o tecido de sua camisa, a
respiração quente a lhe fustigar os lábios e a bochecha do rosto, os olhos
azuis mais uma vez presos nos dele… Connor continuou. Deixando-a ciente
do ele que acabara de descobrir.
– Eu nunca quis amar. Testemunhei o que isso fez com minha mãe e não
queria nenhuma parte desse sentimento. Durante toda minha vida adulta,
evitei esse tipo de intimidade, mantendo-me a um braço de distância e
traçando limites intransponíveis em todos os meus relacionamentos. Foi
fácil. Até conhecê-la. Em uma questão de poucas horas, casei-me com você
e todas as normas que regiam minha vida eram coisa do passado. Jurei para
mim mesmo que teríamos um casamento controlado, no qual nenhum dos
dois sofreria, mas não fui capaz de controlar nem a mim mesmo. Com você,
nada pela metade era suficiente. Arranjei todas as desculpas possíveis e
imagináveis porque não consegui admitir o que de fato estava acontecendo.
– Connor… – O nome escapou dos lábios carnudos em um suspiro que
mal tomou contornos de voz.
– Disse que não queria ser seu amigo, mas não é verdade. Quero ser seu
amigo, seu amante, seu marido e o pai do seu filho… – Ele se calou,
engolindo em seco um poço de arrependimento sem fundo. – Sei que me
dirá que é tarde demais, mas não é.
Connor se ajoelhou, observando os olhos azuis se arregalarem. Em
seguida, segurou o galão de leite integral orgânico em uma das mãos e com
a outra retirou a caixa de joias do bolso interno do paletó. Abriu-a,
revelando os dois anéis que se aninhavam no veludo preto. Um era a
aliança de casamento encrustada de diamantes que ela lhe devolvera por
duas vezes, mas ele não conseguia acreditar que Megan não a queria. E o
outro, um solitário tão pesado quanto a promessa que encerrava. – Vou
amar esse bebê como se fosse meu. Não haverá um único minuto de dúvida,
porque juro que o amarei tanto quanto a amo. – Megan ofegou diante
daquela confissão. Da revelação. Da libertação de Connor. – Sei que não se
lembra da primeira vez que a pedi em casamento, mas espero que esta
permaneça em sua mente. Eu a amo. Estou lhe pedindo para permitir que
eu lhe ofereça uma vida toda do que você me mostrou ser o mais
importante. Riso, amor, conversas de fim de noite. Estou lhe pedindo para
ser minha esposa no sentido mais convencional, tradicional e comprovado
da palavra, para o resto de nossas vidas.
Com o coração martelando a caixa torácica, a respiração presa, ele
aguardou enquanto aquelas palavras ficavam suspensas no ar.
Capítulo 24

AQUILO NÃO podia estar acontecendo. Não era real. Não era possível. Devia
se tratar de algum colapso nervoso em curso. Tinha de ser. Algo que ela
deveria ter pressentido… porém, o galão de leite era o tipo de detalhe
surreal que seu cérebro normalmente não conjurava.
O que significava que…
– Oh, meu Deus!
Megan soltou o ar em um soluço baixo e esticou a mão para agarrar o
tecido da camisa de Connor e puxá-lo para cima até erguê-lo. Retirando o
galão de leite das mãos dele, ela o pousou sobre a mesa com um sutil gesto
negativo de cabeça.
– Não estou grávida.
Connor a encarou por um longo instante. Os músculos do pescoço
trabalhavam como se em um esforço de conjurar as palavras às quais não
conseguia dar voz. E então ele a puxou para os braços, o corpo forte a
envolvendo, enquanto um suspiro pesado soava acima da cabeça de Megan.
Um alívio, potente o suficiente para subjugar um homem tão forte quanto
Connor, se derramou sobre ela. Era humilhante testemunhar.
– Seu e-mail ficou aberto no computador da cozinha – explicou ele, as
palavras saindo roucas. – Vi a mensagem sobre o doador solicitado pronto
para fornecer.
Megan espalmou as mãos no peito largo, o único gesto de conforto que
podia fazer, presa no confinamento dos braços fortes.
– Aquela mensagem era a resposta a um pedido que eu tinha feito meses
atrás. Antes de nos conhecermos. Ainda não estava me sentindo preparada
para seguir adiante com meus planos.
Para começar, porque eles ainda estavam casados. E o que sentia por
Connor… Megan não se viu capaz de começar algo tão importante com o
coração ainda despedaçado. Decidira que seus planos ficariam suspensos
por um ano ou dois.
Afrouxando a força férrea com que a segurava, Connor lhe ergueu o
rosto, inclinando o queixo delicado, para que ela o encarasse.
– Não me importo. – A calma daquelas palavras contrastava com a
intensidade ardente dos olhos castanho-escuros. – Megan ergueu uma das
sobrancelhas em uma expressão inquisidora. – Quero você de qualquer
maneira. Mesmo que não esteja levando um bebê na barganha.
Uma risada suave escapou dos lábios carnudos. Como Connor conseguia
fazer aquilo? Fazê-la rir quando seu mundo estava virado de cabeça para
baixo.
– Você me quer de qualquer maneira?
Connor anuiu.
– Eu a amo. Achei que não possuía esse sentimento em mim, mas era
porque nunca o havia experimentado antes de conhecê-la.
Connor a amava.
Procurando-lhe o olhar, com um dos cantos dos lábios erguido em um
sorriso voraz, ele escorregou as mãos do queixo para os cabelos de Megan.
Com um leve puxão, inclinou-lhe a cabeça para trás e lhe capturou os lábios
com um beijo suave e profundo, que tinha o sabor de cada promessa que
ela nunca se permitira sonhar. Em seguida, mudando o ângulo da cabeça,
Connor lhe invadiu a boca com movimentos ousados, até que as mãos
delicadas se fechassem com força contra o tecido de sua camisa, enquanto
Megan se colava a ele com toda a intensidade de que era capaz.
Sem interromper o beijo, as mãos longas começaram a rumar pelos
contornos perfeitos do corpo macio, seguindo-lhe a curva da cintura fina e
os comprimentos dos braços. Entrelaçando os dedos aos de Megan e lhe
fazendo todo o mundo rodar até que ela estivesse pressionada contra a
resistência inflexível da porta. Sentindo os punhos prensados contra a
madeira maciça e o peso desorientador do corpo musculoso em um
delicioso contato com o dela.
– Eu a amo – sussurrou ele contra os lábios carnudos.
– Oh, meu Deus, sim. – Soou uma voz distante.
Os dois congelaram diante da ilusão destruída de que eram as duas
únicas pessoas no planeta. Na sala.
– Shhh!
O rosto de Connor recuou para se deparar com o rubor que se espalhou
rapidamente pelo rosto de Megan.
– Desculpe… esqueci. – Como fora capaz de esquecer?
Juntos, os dois dirigiram o olhar à fonte das palavras invasivas: o tablet
que se encontrava pousado sobre o balcão. Três descarados rostos, com
olhares ansiosos, preenchiam a tela.
Connor aprumou a coluna, afastando-se para se encaminhar ao
dispositivo eletrônico.
– Desculpem-me, meninas. O show acabou.
– Não, espere.
– Droga, Jodie! Viu o que você fe…
Fechando o aparelho com a capa, ele interrompeu a conexão e girou para
encarar Megan.
Que não deveria ter rido.
– Achou engraçado? – perguntou ele, com um sorriso no rosto.
– Foi sem querer – jurou ela, erguendo as duas mãos para cima. – Eu me
distraí.
– É o que parece – respondeu Connor, gesticulando com a cabeça na
direção da mão esquerda que ela ainda mantinha erguida.
O olhar de Megan seguiu até seu dedo anular, onde a aliança de
casamento faiscava em conjunto com o novo anel que estava aninhado no
veludo preto da caixa de joias na última vez que o vira.
– Sorrateiro – sussurrou ela, mal conseguindo forçar a palavra a passar
pelo nó de emoção que se alojou em sua garganta diante da visão da aliança
de casamento de volta ao seu dedo.
– Tinha a esperança de que, se você visse o conjunto em seu dedo, seria
mais fácil me dar a resposta que estou esperando.
– Eu o amo. E quero tudo que está me oferecendo. Quero ser sua esposa e
mãe de seus filhos. Mas…
Connor deu um passo à frente. Toda aquela segurança presunçosa se
dissipando.
– Mas?
Megan escorregou a mão sobre a superfície levemente áspera da
mandíbula quadrada antes de deixá-la descer para os botões da camisa que
ele usava.
– Mas o que acha de esperarmos um pouco mais para termos um bebê?
Talvez alguns meses ou um ano…
– Um período de experiência? – perguntou ele, anuindo rapidamente. A
determinação e certeza se sobrepujando ao desapontamento e à dor que se
refletiu em seu rosto. – Qualquer coisa que a faça se sentir segura.
Confiante.
Abrindo o primeiro botão da camisa, Megan fez que não com a cabeça.
– Não. Não preciso de nenhum período de experiência.
Connor lhe procurou o olhar.
– Então, por quê?
– Talvez porque durante algum tempo tudo que eu quero seja você.
– Sim?
Libertando o outro botão, ela anuiu.
– Afinal, passaremos nossa vida inteira juntos. Agora, sr. Reed, estou
pronta para receber meu beijo de “eu a amo”.
Aquele meio-sorriso curvou os lábios deslumbrantes de Connor com uma
amplitude que abrangeu toda a boca e, em seguida, o rosto.
– Com todo o prazer, sra. Reed – respondeu ele. A emoção lhe emprestou
rouquidão à voz enquanto ele a puxava para os braços e lhe arqueava as
costas. – Eu a amo.
E lhe capturou os lábios com o beijo que tinha a pretensão de ser o
primeiro daquele tipo. Porém, tinha um sabor tão familiar, que não havia
como negar que a propensão ao amor, embora oculta, estivera presente o
tempo todo… apenas esperando para ser reconhecida. Mas naquele beijo
seu marido estava transmitindo todo o sentimento que possuía. Sem
reservas. Sem limites.
Uma promessa de eternidade… e ela acreditou.

FIM

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