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POLÍTICAS PÚBLICAS DE CULTURA E LAZER E A JUVENTUDE DAS


PERIFERIAS DA REGIÃO METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO1

Autor: Alex Rosa da Silva


e-mail: alexrosa@prof.educacao.rj.gov.br
Orientadora: Prof.ª Dra. Cléia Renata Teixeira de Souza
e-mail: cleia.souza@ufms.br

Resumo:
O presente artigo é resultado de estudos, baseados em pesquisas bibliográficas e dados oficiais
de órgãos públicos, que tem como objetivo investigar quais são as políticas públicas de cultura
e lazer promovidas pelo Estado, os governos e a sociedade civil organizada, em favor da
juventude oriunda da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, do desenvolvimento do cidadão
e do fortalecimento da democracia. A moratória social e a condição juvenil, no que diz respeito
ao direito de brincar de viver, enquanto se dá o preparo para a vida adulta, assim como, as
políticas públicas elencadas, foram mensuradas, a fim de entender se essas atendem os anseios
do recorte de jovens indicado. A juventude é uma etapa importante da vida, por isso, existe uma
série de regimentos, estatutos e leis que, balizadas pela Constituição Federal, trazem a reboque
um extenso e auspicioso arcabouço legal de direitos, garantias e proteção aos jovens brasileiros.

Palavras-chave:
Juventude. Políticas públicas. Moratória social. Condição juvenil.

Abstract:
This article is the result of studies, based on bibliographic research and official data from public
bodies, which aims to investigate what are the public policies of culture and leisure promoted
by the State, governments and organized civil society, in favor of youth from of the
Metropolitan Region of Rio de Janeiro, citizen development and strengthening of democracy.
The social moratorium and the juvenile condition, with regard to the right to play for a living,
while preparing for adult life, as well as the public policies listed, were measured in order to
understand if they meet the wishes of the clipping of young people indicated. Youth is an
important stage of life, therefore, there are a series of regulations, statutes and laws that, guided
by the Federal Constitution, bring in tow an extensive and auspicious legal framework of rights,
guarantees and protection for young Brazilians.

Key words:
Youth. Public policy. Social moratorium. Juvenile condition.

1. Introdução:
A juventude brasileira atravessa momentos de intensa complexidade, sobretudo, no que
diz respeito às perspectivas de vida, bem como, aos projetos desenvolvidos e disponibilizados

1
Artigo submetido ao corpo docente do curso de especialização em Ensino de Sociologia, da Universidade Federal
do Matogrosso do Sul - UFMS, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de pós-graduado em
ensino de Sociologia: Campo Grande-MS, fev/2022.
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pelos entes federativos, pelo Estado, pelos governos ou pela sociedade civil organizada, para
que concretamente e não somente na retórica, sejam os jovens o futuro da Nação. Há de se
questionar na contemporaneidade, que futuro é esse e quais são as ações postas em prática na
atualidade, a fim de atender e suprir a emergência das necessidades da juventude brasileira.

A Sociologia, como uma das disciplinas das Ciências humanas e sociais, possui
considerável acervo ferramental, que possibilita aos sociólogos, estudantes e entusiastas pela
área, se debruçarem sobre os saberes dos seus mais variados objetos e ramos de estudos. Groppo
(2017) advoga que a Sociologia e outras áreas do saber, tem elaborado desde o século passado,
teorias que trazem indícios que relacionam, entre outras coisas, ciência, educação e políticas
públicas, além de refletir concepções modernas e contemporâneas sobre juventude, pondo em
evidencia um intenso, tenso e por vezes contraditório diálogo retroalimentativo.

Com base nos estudos sociológicos, a metodologia utilizada foi uma pesquisa
bibliográfica, somada as informações oficiais disponibilizadas por órgãos públicos, com o
objetivo de saber quais são as políticas públicas disponibilizadas aos jovens da periferia da
Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ), voltadas à cultura e ao lazer, explicitando a
relevância de ambas as agendas para o avanço da cidadania e o acastelamento da democracia.

Nos debruçamos sobre o conceito de moratória social e da condição juvenil, a fim de


expor a relevância desse lapso temporal para o desenvolvimento das potencialidades humanas,
sem que haja muito compromisso com as demandas de ‘gente grande’, durante a preparação
dos jovens oriundos da periferia da RMRJ para a vida adulta. Em seguida, abordamos as
políticas públicas de cultura e lazer, explicitando a inexistência e retrocessos do governo federal
no tocante a essas questões, chefiado pelo presidente eleito em 2018. Por fim, realizamos breve,
mas auspiciosa explanação, sobre o aporte jurídico em face do direito e promoção da juventude.

2 – Brincar de viver e a moratória social:

A partir da sua concepção, ainda dentro do processo de gestação, o ser humano


inconscientemente assume compromissos com o país, com a sociedade do seu nascimento,
baseados em deveres, direitos e um profuso arcabouço legal. Naquilo que diversos autores
denominaram de contrato social, são trazidas a reboque cláusulas que, conforme Rousseau
(1983), se reduzem todas a uma só: a alienação total de cada signatário, com todos os seus
direitos individuais sendo postos em favor da comunidade, visto que se cada um agir em favor
do coletivo, não interessará a ninguém o egoísmo, pois uma alienação sem reserva, é um pacto
social que atende a coletividade, sem que qualquer indivíduo tenha mais nada a reclamar.
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Ocorre que nenhum indivíduo, salvo concepções de cunho religioso/espiritual, escolhe


onde quer nascer, de modo que o contrato social inerente ao respectivo ser, é celebrado e
avalizado por terceiros, sem a devida anuência do suposto beneficiado. Em outras palavras, a
aderência aos deveres, aos direitos, às normas sociais etc., as quais o indivíduo,
obrigatoriamente, terá que cumprir, foram decididas pelos adultos, sejam eles legalmente os
seus responsáveis ou os dirigentes constituídos da nação. A partir do corte do cordão umbilical,
o indivíduo se livra do ventre de sua progenitora para, incontinenti, ser preso socialmente.

Segundo o Código civil (2021), a cidadania brasileira é concedida a todos aqueles


nascidos no território nacional que, com até 15 (quinze anos), são considerados absolutamente
incapazes de assumirem atos jurídicos; entre os 16 (dezesseis anos) e 18 (dezoito anos) passam
a condição de relativamente incapazes; e somente depois de atingir a maioridade, a partir dos
18 (dezoito anos), cessa o poder familiar e o indivíduo se torna regente legal a todas as ações
da vida civil; existem outros casos previstos em lei, como a emancipação, entre outros eventos.

Enquanto vigora o poder familiar, cabe aos adultos de um modo geral (e não somente
àqueles com laços consanguíneos) a responsabilidade pelo amparo dos menores de idade,
inclusive quanto ao direito de brincar e viver experiências que contribuam com a sua formação
como indivíduo, como cidadão, embora existam ocasiões que Zagury (1999) denomina como
conflitos entre o dever e o prazer, uma vez que ocorre certa pressão familiar em favor dos
estudos ‘para ser alguém na vida’, que recai maiormente sobre os jovens desfavorecidos
economicamente. Esses jovens, muitas das vezes, também exercem tal pressão sobre si, em
busca da afirmação da sua individualidade e da sua existência na sociedade de consumo.

Por isso, a emergência da conquista da formação profissional, de emprego e renda, que


ocorre concomitantemente ao processo de globalização e do modo de produção capitalista, que
eleva as taxas de desemprego nos países de economia periférica e afeta drasticamente aqueles
que possuem menores níveis de estudos, baixa ou nenhuma qualificação profissional, como é o
caso dos jovens moradores das periferias (ZAGURY, 1999). Há certo apelo social para que
esses jovens busquem precocemente uma atividade remunerada, negando-os o direito:
[...] a um tempo de “moratória social”, de passagem entre a infância e o mundo adulto
e, assim, de preparação para a inserção no mundo do trabalho e para a constituição de
nova família [...] A ideia de “moratória social” tem sido entendida como um crédito
de tempo concedido ao indivíduo para que ele protele sua entrada na vida adulta,
favorecendo suas experiências e experimentações, formação educacional e aquisição
de treinamento, o que pressupõe a presença do Estado [...] (BRASIL, 2014, P. 14).

Em outras palavras, a concessão do tempo para brincar, viver e brincar de viver, a fim
de que ocorra o devido processo de socialização, de vivências dos mais variados papeis sociais,
antes de atingir a maioridade, está intimamente ligado às instituições sociais, como a família, a
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escola e, maiormente, o Estado, o que nos instiga a interpelar quem são os jovens que
verdadeiramente conseguem acessar a moratória social, a democracia e cidadania plenas, bem
como, o constructo ético e de valores voltados para o comunismo (no seu real sentido
conceitual), ao invés de ver encurtada a sua infância e ver retirada a sua condição juvenil.

2.1 - A condição juvenil dos adolescentes das periferias da Região Metropolitana do Rio
de Janeiro (RMRJ):

A definição de juventude, do que vem a ser jovem, criança ou adolescente, não é um


consenso entre os pensadores sobre o tema, e muitas vezes está meramente associada anos de
existência do indivíduo, desconsiderando outros fatores, como o comportamental, por exemplo.
Como veremos mais adiante, por força de lei, existem documentos oficiais no Brasil que
definem as etapas da vida humana, recortada pelo tempo, contudo, a responsabilidade, o
discernimento, o bom senso, entre outras características atribuídas a um indivíduo maduro não
estão necessariamente atrelados a idade. Segundo Sandstron (1978, p.11):
[...] a maturidade do ser humano não significa apenas o processo psicológico, mas
também – e isso é quiçá mais importante – a incorporação à sociedade [...]. Tal fato
prolonga profundamente o prazo requerido para que os seres humanos atinjam a
maturidade [...]. A capacidade para enfrentar todas as responsabilidades de família e
da vida profissional raramente é alcançada antes dos vinte e poucos anos. Quanto mais
complexa é a sociedade, tanto maiores são as exigências feitas a essa capacidade [...].
O papel da escola nunca foi tão significativo [...].

Para Kehl (2004), não é tarefa simples determinar o que são os jovens do ponto de vista
da idade, pois todos os adultos estão na adultescência e a juventude é um estado de espírito,
que tem a ver com a mente, com o corpo, com a saúde, com a disposição físico-psicológica e
também com um perfil de consumo traçado pelo mercado, onde todos querem se incluir.
Bourdieu (2003) acrescenta que juventude é tão somente uma palavra, concebida
arbitrariamente, a fim de classificar os indivíduos, a partir da idade que possui. Desse modo, se
pode inferir que ser jovem, se trata de uma construção social, pois é experenciada e
experimentada de maneiras diferentes por todas e todos na sociedade.

A concepção de juventude no espaço e no tempo, ampara-se no conceito de condição


juvenil, que os pensadores clássicos das Ciências Humanas e Sociais divergiam, pois os
principais modelos de análise, conforme Groppo (2010), foram o funcionalista, que se baseava
no paradigma da integração social e na ideia de disfunção social (a rebeldia dos jovens era
entendida como uma disfunção e associada a delinquência), enquanto que o de moratória social
era alicerçado em paradigmas reformistas, voltado para o desenvolvimento e transformação
social (a rebeldia dos jovens era percebida como um impulso radical e revolucionário).
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Abramo (2005) acrescenta que juventude é um desses termos que parecem óbvios,
explicados neles mesmos e que é de certa forma dominado pelo senso comum, afinal, a
juventude esteve ou ainda está atrelada ao físico e/ou ao espírito dos indivíduos e que a noção
de condição juvenil está amparada por uma etapa do ciclo de vida, de ligação entre a infância,
o incremento físico, emocional, intelectual, associado as primeiras socializações e necessidade
de proteção antes da alcançar a idade adulta que, em tese, seria o ápice do desenvolvimento
pleno do cidadão, quanto a sua capacidade de reprodução, participação da vida social (tomada
de decisão, deveres e direitos), como cuidar de si e dos outros. Abramo (2005, p. 39) lembra que:
se em 1987, em dos primeiros artigos acadêmicos brasileiros a tratar do tema das
políticas públicas para os jovens, Maria das Graças Rua [...] chamava a atenção para
o fato de que o tema restava, no Brasil, ainda como estado de coisas, ou seja, como
demandas sentidas, mas ainda não inseridas no debate público e sem força par gerar
respostas por parte do Estado, o quadro mudou bastante de lá para cá e se expressa,
hoje, como um problema político, logrando obter maior espaço nas agendas
governamentais, a ponto de engendrar uma série de mobilizações para a posição de
espaços institucionais e planos de políticas públicas para o seguimento.

Desse modo, viver a condição juvenil, é uma experiência que nem todos os jovens
experimentam da mesma forma, devido a origem social, condições materiais oferecidas pela
família, acesso aos bens de consumo, influenciado pelo materialismo histórico de cada
sociedade. Desde a tenra idade, o indivíduo começa a perceber, mesmo sem entender o porquê,
as diferenças sociais entre ele e o filho do vizinho da rua, o colega da escola ou mesmo de um
primo, que ganham brinquedos, roupas e fazem passeios para lugares, enquanto ele, não.

Neste contexto, surgem questionamentos, dificuldades de compreensão e atos que vez


ou outra são enquadrados em estereótipos, os jovens são lembrados que não são mais criança
para picardias (mas também não tem a maioridade para resolver sozinho suas insatisfações).
Vivem em um limbo e se tenta convencê-los da efemeridade do momento. Segundo sociólogo
inglês Anthony Giddens, em entrevista a Sylvia Colombo2, por conta da exposição à mídia, das
intensas transformações físicas e sociais, os jovens estão em busca da definição de uma
identidade sólida e querem ser desassociados da ideia de que estão numa fase passageira e
indefinida, de forma a dar a cultura jovem um caráter permanente, sobretudo, porque cada vez
mais prolonga-se o tempo de vida e tardam-se as doenças, a velhice e a morte.

Os jovens são o futuro da Nação, e é senso comum que não querem nada com a vida,
em uma demonstração de desesperança dessa importante e cada vez menor parcela da
sociedade. Segundo Figueiredo (2016), a população brasileira vive um momento de declínio e,
segundo as projeções, a partir de 2050, será formada em grande parte por idosos, principalmente

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Disponível em < https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0201200028.htm > Acesso em: 05/12/2022, às 17:20.
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pela diminuição considerável dos jovens que se autodeclaram negros, devido aos mais variados
tipos de violências que atingem o respectivo público, moradores das comunidades e favelas
localizadas nas franjas do Rio de Janeiro, apontado pela Casa Fluminense, Mapa da
Desigualdade 20203. É o genocídio da juventude negra, apontado por muitos especialistas.

2.2 - Os arranjos para a vida adulta e os direitos dos jovens periféricos da Região
Metropolitana do Rio de Janeiro:

Como vimos anteriormente, a conceituação de juventude não é consensual entre os


pensadores sobre o assunto, de modo que vamos utilizar aqui a definição legal, que estabelece
recortes temporais para o enquadramento. No período demarcado como menoridade, os jovens
podem ser chamados de criança, pré-adolescente, adolescente, e dependem da figura de algum
adulto (seja familiar, responsável legal ou tutor determinado pelo Estado) para representá-lo
nas mais variadas situações da vida.

Há de se considerar que para cada recorte temporal, a percepção sobre a vida se dá de


maneira diferente, pois além do modo de enxergar os acontecimentos, são diferentes também a
maneira como as instituições sociais que representam o Estado se relacionam com cada público.
É preciso salientar que qualquer definição de juventude apresentada, se dará de maneira
arbitrária, pois os grupos são heterogêneos e alguns acabam sendo mais privilegiados por
políticas públicas, como é o caso dos jovens com até 17 anos de idade; aqueles que estão
concluindo os estudos da Educação básica, possuem demandas que nem sempre são
devidamente atendidas (BRASIL, 2004).

Por uma questão de lógica, os jovens representam a renovação, a continuidade do ciclo


da vida, a reposição das energias necessárias para permitir que mais velhos descansem, o
crescimento, a evolução e o desenvolvimento continuem, assim como, as transformações
também. No entanto, cabe o questionamento sobre o que a sociedade tem dado e o que espera
receber desses jovens. Segundo Brasil (2004, p. 1), “[...] há indicações de que uma parcela
importante dos jovens brasileiros está [...] experimentando uma série de fragilidades e
vulnerabilidades, o que leva a que se fale em uma ‘crise dos jovens’ [...]”.

Aqui cabe um breve, porém oportuno e imperioso recorte racial, devido a situação
alarmante enfrentada pela juventude negra que, quantitativamente, é a maior população
moradora das periferias. “O modus operandi da polícia do Rio de Janeiro é o confronto

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Disponível em < https://casafluminense.org.br/mapa-da-desigualdade/> Acesso em: 19 dez.2021, às 09:19.
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fundamentado no racismo: o uso indiscriminado da força letal com o emprego de fuzis,


helicópteros e veículos blindados por parte das forças policiais, em áreas densamente habitadas
em sua maioria por pessoas negras[...]" (RAMOS, 2020, P. 28).

São mortes por homicídio ou por confronto entre as forças policiais do Estado e
criminosos, quem nem sempre são contabilizados nas estatísticas, o que significa dizer, que
vidas negras estão sendo ceifadas por uma das polícias que mais mata e mais morre, famílias
estão sendo alijadas ao desespero pela perda de entes queridos, e às vezes, nem números se
tornam, são lançadas ao esquecimento. Weber (2012) nos ensina que todo o Estado se funda na
força, que a violência não é o único instrumento utilizado pelo Estado, mas é o seu instrumento
especifico, evidenciado uma intima ligação entre o Estado e a violência, que possui o monopólio
do uso legítimo da violência física. Em outros termos, o Estado detém o legalmente o direito
de matar, e com base na lei, ele está matando a juventude negra do Rio de Janeiro.

Ainda assim, os jovens negros precisam encontrar formas de sobreviverem, e a primeira


atitude é resistir. Na falta da estrutura familiar, que se perpetua na história do Brasil como
legado da escravização, que tudo indica, não foi abolida, carecem de ações especificas do poder
público, para deixarem de ser marginalizados, se inserirem na sociedade e acessarem os espaços
negados, por conta do engenhoso racismo estrutural. É dever do Estado, e não uma benesse,
promover políticas públicas afirmativas e de inserção social.

3. Políticas públicas de cultura e lazer e seus agentes, breves notas conceituais:

O ser humano possui as suas limitações naturais, que podem ser contornadas ou ao
menos abrandadas, a partir do uso da inteligência, da técnica, de ferramentas. Muitas das vezes,
no dia a dia da vida em sociedade, nos deparamos com dificuldades travestidas de barreiras que
se apresentam como intransponíveis e há quem (talvez por questões culturais) tenda a levantar
muros ao invés de construir pontes ou a empreender esforços ineficientes e ineficazes. Ações
do poder público podem facilitar a nossa trajetória e tornar os objetivos acessíveis.

Mas qual é a importância da cultura? Ou melhor, o que é cultura? De um modo geral,


pode se dizer que é tudo aquilo produzido pelo ser humano, independentemente da sua etnia,
crença ou origem social, o que significa dizer que não se deve empregar sistemas valorativos,
a fim de comparar ou tratar culturas como boa ou ruim, certa ou errada. Cabe ratificar que o ser
humano “[...] é o resultado do meio cultural em que foi socializado. Ele é um herdeiro de um
longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquiridas pelas
numerosas gerações que o antecederam [...]” (LARAIA, 2001, P. 24).
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Esse é o pensamento sobre cultura, que norteia este estudo. A herança cultural deixada
pelos nossos antepassados precisa ser preservada, conhecida e disseminada, pois as nossas
origens são refletidas no nosso jeito de ser e de viver. Muitas das questões que afligem o
indivíduo, podem de alguma forma ser melhor compreendida, através do conhecimento dos
costumes, das tradições e da cultura do país, do espaço geográfico, e o ponto de partida desses
saberes é sem dúvida alguma, o estudo do contexto sociocultural vivido e a história familiar.

Conforme Gomes (1999), o acesso à cultura já foi entendido como lazer, fração de
limitação da jornada de trabalho que se tornou tempo livre, conquistado pela classe
trabalhadora, de modo que tal momento deveria ser preenchido por atividades disponibilizadas
(algumas até então privilegio da burguesia), que fossem consideradas recreativas, saudáveis e
lícitas, daí o caráter coercitivo advindo dos grupos hegemônicos.

A importância do lazer começa no entendimento do que realmente ele significa, pois


segundo Silva et. al. (2011), foi a partir da preocupação com o bem-estar dos trabalhadores,
com a diminuição da jornada de trabalho, que o tempo para o lazer começou a ser valorizado,
pois lazer é um tempo, que é associado a ideia de recreação, ou seja, utilização para o
divertimento, renovação e recuperação das energias, em favor da melhoria da qualidade de vida.

Marcellino (1996) não discorda, mas expõe a visão limitada de recreação e descanso
dado à definição de lazer, uma vez que o tempo disponível também pode ser utilizado para
liberar a imaginação, higienizar a mente e até para o desenvolvimento social, pessoal e escolhas
de formas educativas no afã de aprender sobre a realidade, evidenciado a contradição entre
obrigação e prazer. “[...] Não é possível se entender o lazer isoladamente, sem relação com
outras esferas da vida social. Ele influencia e é influenciado por outras áreas de atuação, numa
relação dinâmica [...]” (MARCELLINO, 1996, P. 14). Daí a importância da cultura e do lazer,
denominadas de Políticas Públicas que, segundo Castro, Gontijo e Amabile (2012, p. 390):
[...] são decisões que envolvem questões de ordem pública com abrangência ampla e
que visam à satisfação do interesse de uma coletividade. Podem também ser
compreendidas como estratégias de atuação pública, estruturadas por meio de um
processo decisório composto de variáveis complexas que impactam na realidade. São
de responsabilidade da autoridade formal legalmente constituída para promovê-las,
mas tal encargo vem sendo cada vez mais compartilhado com a sociedade civil por
meio do desenvolvimento de variados mecanismos de participação no processo
decisório. As políticas públicas são a concretização da ação governamental.
Consideram atores formais e informais num curso de ação intencional que visa ao
alcance de determinado objetivo. Podem ser constituídas com uma função
distributiva, redistributiva ou regulatória e inspiram o constante debate sobre a
modernização do Estado e, por isso, estão contemporaneamente se fundando mais em
estruturas de incentivos e menos em estruturas de gastos governamentais [...].

Esse assunto até então não era uma prioridade, visto que é um tanto recente a inclusão
da discussão sobre juventude na agenda política do Brasil. Conforme Neri e Hecksher (2021),
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projeções indicam que o quantitativo populacional de jovens no Brasil nunca foi e nunca mais
será como o atual, por isso, é preciso surfar nessa onda jovem, a fim impulsionar as mudanças
socioeconômicas projetadas. Mas será que esse amontoado de privilegiados que se encontram
no topo da cadeia social, essa gentiaga, travestida de elite, quer que ocorra alguma mudança ou
a manutenção do status quo?

Os jovens oriundos das classes trabalhadoras, dependem de toda uma conjuntura


necessária à melhoria da qualidade de vida, no entanto, nem sempre se observa vontade política
para realizá-las, às vezes surgem em doses homeopáticas. Prado Jr. e Fernandes (2012),
chamam a atenção para o caráter contrarrevolucionário utilizado pelas classes burguesas, a fim
de frear ou impedir mudanças sociais significativas, que permanecem em um horizonte
longínquo e que Furtado (1999), chamou de o longo amanhecer, devido as potencialidades
existentes no País que, meramente conduzido pela roda da história, anseia por um profícuo
projeto político de desenvolvimento econômico e social.

Para Simões e Darbilly (2007), é crescente o interesse e o debate na sociedade, sobre


quem deveria ser o responsável, o Estado ou a iniciativa privada, pela promoção de políticas
públicas de cultura e lazer, pois com a expansão do Capitalismo e da agenda Neoliberal, a lógica
mercadológica, a privatização dos serviços e dos espaços públicos se encontram na ordem do
dia, além disso, o grande capital passou a ver e a fazer da cultura uma mercadoria, e o lazer
como momentos voltados para o consumo de alimentos, serviços etc.

3.1 - Políticas públicas de estado:

Ao se estudar a constituição das antigas sociedades tribais, é possível observar a


inexistência da figura soberana e controladora do Estado, que das mais variadas maneiras,
influencia ou mesmo determina, a vida do indivíduo e as relações sociais da coletividade na
contemporaneidade. Os mais variados autores se debruçaram sobre a sua origem, que aqui não
cabe o aprofundamento, apenas destacar que “[...] os primeiros Estados, ao que se tem apurado
por indução dos sábios, teriam surgido, originalmente, como decorrência natural da evolução
das sociedades humanas. Emergiram do seio das primitivas comunidades e caminharam,
paulatinamente, para a instauração de forma política especifica [...] (MALUF, 1993, P. 39).

A partir da Modernidade, o controle exercido pelo Estado e suas instituições foi se


enveredando pelos mais variados campos da sociedade, estabelecendo regras, normas e padrões
de comportamento, que devem ser seguidos por todos, sob pena de algum tipo de punição. Ou
seja, ainda que os indivíduos tenham assegurados os seus direitos como cidadão, existem
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inúmeros deveres que também devem ser cumpridos, uma vez que vivemos em sociedade,
consequência da reunião de indivíduos e dos grupos sociais, que não podem agir ao bel prazer
das suas vontades singulares. Conforme Bourdieu (2012, p. 14):
[...] a dimensão moral da atividade estatal” implica a feitura e a imposição de um
conjunto de representações e valores comuns em meio à empreitada de domesticação
dos dominados. Deriva daí a ambivalência das estruturas estatais associadas ao Estado
do bem-estar, sobre as quais nunca se sabe ao certo se constituem instituições de
controle ou de serviço; sendo de fato as duas coisas ao mesmo tempo, só conseguindo
controlar na medida em que prestam serviços ou distribuem recursos [...].

Seguindo o raciocínio do autor, a passagem do monopólio privado vigente no Estado


dinástico-absolutista, onde a figura do Rei era soberana, ao Estado moderno de bem-estar social,
colocou o Estado no papel regulatório da sociedade. O Estado se utiliza de ferramentas de
domesticação para manter o controle sobre os dominados, que aqui podemos denominar de
políticas públicas, e pode se dizer que esse controle advém do oferecimento com qualidade,
precariedade ou mesmo a ausência das ações do poder público.

Sendo a vida em sociedade controlada pelo Estado, na ausência de ações ou de uma rede
de proteção social, os jovens, principalmente os oriundos das camadas populares, desassistidos
de atividades de cultura e lazer, continuarão a buscar os meios necessários de sobrevivência e
utilização do tempo livre. Wacquant (1999) enfatiza que o crescimento vertiginoso da repressão
e a política de confronto das forças policiais nos últimos anos, permanece sem efeito, pois esses
embates influenciam tão somente o local e não os motores da criminalidade, acentua a
capacidade do Estado, via agentes de segurança, de levar insegurança a esses espaços
geográficos, caracterizados pelas ausências, e confirma a ideologia de que é através da violência
simbólica e legítima que o Estado mais se faz presente em lugares previamente determinados.

3.2 - Políticas públicas de governo:

É comum no Brasil que antes dos pleitos, os candidatos apresentem aos eleitores o seu
programa de governo, ou seja, o conjunto de ideias, ‘as bandeiras’ que o nortearão, caso seja
eleito. Os partidos políticos também possuem suas ideologias, logo, é provável que as ideias do
candidato, filiado ao partido, tenha de alguma forma algum embasamento naquilo que é
defendido pela entidade partidária. Mas nem sempre é assim, não é incomum que após eleito,
o candidato discorde do posicionamento dos demais colegas, se distancie de suas ideologias, se
desligue ou seja expulso dos quadros do colegiado.

A importância da abordagem supracitada, se expressa em se considerar se haverá


honestidade e manutenção das ideias defendidas pelo até então candidato, ou seja, aquilo que
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foi dito ao eleitor, que acreditou, votou e contribuiu com seu voto à eleição do postulante ou se,
depois eleito, essas serão alteradas, e não ser efetivamente postas em prática. É inegável que
muitas das ações que deveriam ser promovidas como políticas públicas pelo Estado voltadas à
coletividade, são arrogadas pelos políticos, de modo a atender somente o seu reduto eleitoral.
De certo é que quando o tempo democrático do governo chega ao fim, quase sempre findam
também as políticas públicas praticadas pelos seus representantes.

Bobbio (1998) lembra que ao longo da História do Brasil, que se manteve como uma
sociedade tradicionalmente agrária e atrasada, a prática do clientelismo se tornou corriqueira,
quando notáveis de origem nobre, grandes proprietários de terras e de riquezas e que exerciam
funções políticas mais importantes, em troca da fidelização, do apoio político e do voto,
assumiam pra si a tutela de estruturas familiares desvalidas social e economicamente,
prestando-lhes toda a ordem de favores, acesso aos serviços públicos, resolução de questões
jurídicas, entres outras benesses.
Outra prática tradicional de controle social é o malsinado Coronelismo que, conforme
Pang (1979), está alicerçado nos aspectos sócio-políticos do monopólio do poder através das
oligarquias dominantes, cuja a legitimidade se baseiam no status patriarcal, como elemento de
influencias nas instituições sociais, econômicas e políticas.
[...] Não é um fenômeno simples, pois envolve um complexo de características da
política municipal, [...] resultado da superposição de formas desenvolvidas do regime
representativo a uma estrutura econômica e social inadequada. Não é, pois, mera
sobrevivência do poder privado, cuja hipertrofia constituiu fenômeno típico de nossa
história colonial. É antes uma forma peculiar de manifestação do poder privado, ou
seja, uma adaptação em virtude da qual os resíduos do nosso antigo e exorbitante
poder privado têm conseguido coexistir com um regime político de extensa base
representativa. Por isso mesmo, o “coronelismo” é sobretudo um compromisso, uma
troca de proveitos entre o poder público, progressivamente fortalecido, e a decadente
influência social dos chefes locais, notadamente dos senhores de terras [...].
Paradoxalmente, entretanto, esses remanescentes de privatismo são alimentados pelo
poder público, e isso se explica justamente em função do regime representativo, com
sufrágio amplo, pois o governo não pode prescindir do eleitorado rural, cuja situação
de dependência ainda é incontestável. Desse compromisso fundamental resultam as
características secundárias do sistema “coronelista”, como sejam, entre outras, o
mandonismo, o filhotismo, o falseamento do voto, a desorganização dos serviços
públicos locais [...] (LEAL, 2012, P. 23).
Esses tipos de prevaricações renderam algumas famosas frases ao longo do tempo, todas
provavelmente cunhadas pelos seus autores em momentos singulares da vida pública, tais como
o ‘toma lá, dá cá’, ‘aos amigos tudo, aos inimigos os rigores da Lei’ e a célebre, ‘rouba, mas
faz’, explicada por Laranjeiras (1999) como expressão destinada ao deputado Adhemar de
Barros, nos meandros bastidores da política brasileira durante o período da Revolução de 1930,
da Era Vargas, do Estado Novo etc.
12

3.3 – Políticas públicas advindas da sociedade civil organizada:

As ausências muitas das vezes observadas pelo Estado e não contempladas pelos
governos, podem acabar sendo ocupadas de outras maneiras, no que diz respeito a produção de
políticas públicas nas mais diferentes áreas. Uma das formas que Estado e governos utilizam
para amenizar a falta das suas ações, é promover parcerias e com empresas, organizações não
governamentais e sem fins lucrativos, através da adoção de incentivos ficais, desconto ou
isenção de impostos, entre outros subsídios, que se utilizam o dinheiro público.

Agir em favor do bem comum, se mostra como poderoso agente na promoção de ações
em prol dos menos favorecidos e são muitas as iniciativas que trazem em seu bojo a intenção
de levar a quem precisa aquilo que carecem ter, principalmente, no que diz respeito a
atendimento das necessidades básicas. Caridade e solidariedade, são substantivos femininos,
mas não são sinônimos. Enquanto que a caridade é o amor que move alguém em favor de
outrem, através da beneficência, da filantropia, que pode se dá à distância, a solidariedade
requer participação efetiva, envolvimento, vínculo com reciprocidade (FERREIRA, 2010).

É observável ações filantrópicas nas áreas mais vulneráveis, que procuram saciar as
necessidades básicas e/ou especificidades que não são atendidas pelo poder público, porém,
como são ações da iniciativa privada, possuem limitações orçamentárias e dificilmente
compreendem toda a juventude local. Existem políticas que são pontuais em determinadas
comunidades, tem sua validade, mas há considerações a se fazer quanto a sua efetividade na
promoção da mudança social e melhoria na qualidade de vida, por conta da sua continuidade.

Assim como é questionável também quando empresas se apropriam das políticas


públicas de cultura e lazer e transformam esses em produtos e serviços a serem comercializados
a quem puder e quiser pagar. “[...] É impossível negar a já existência de uma indústria da cultura
que incorpora lógicas mercantis e busca cada vez mais racionalizar sua forma de gestão em
busca da eficiência [...]” (SIMÕES E DARBILLY, 2007, P. 141). Isto é, por mais que haja
espirito humanitário nessas ações, o Estado não tem as suas obrigações constitucionais, é seu
dever promover políticas públicas de cultura e lazer as jovens de todo o Brasil, ainda que essas
ações possam ser de alguma forma complementadas por iniciativas privadas.

4. Juventude, políticas públicas de Cultura e Lazer e o papel dos entes federativos:


Me dê a mão / Eu preciso de você
Seu coração / Sei que pode entender
E o calçadão / É meu lar, meu precipício
Mesmo sendo sacrifício
Faça alguma coisa pra me socorrer
13

Eu não quero ser / Manchete em jornal


Ibope na TV
Se eu ficar por aqui / O que vou conseguir
Mais tarde será um mal pra você
Não ser escravo do vício / Um ofício do mal
Nem ser um profissional / Na arte de furtar
Quero estudar, me formar / Ter um lar pra viver
E apagar / Esta má impressão
Que em mim você vê
(ZECA PAGODINHO, MENOR ABANDONADO, 1987).

O Brasil é uma república, sob a égide do estado democrático de direito, onde cada ente
federativo possui suas obrigações. Conforme a Constituição Federal de 1988, é dever do Estado,
da família e da sociedade, assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o
direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à
dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a
salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

A Carta magna estabelece também que cabe ao Estado a provisão dos recursos
(financeiros, material, humanos etc.) e a promoção de políticas públicas gratuita e para todos,
de maneira descentralizada, sob a coordenação da esfera federal e a execução pelas esferas
estadual e municipal. É imperativo enfatizar que as ações do Estado elencadas acima não se
trata de favores, nem tampouco condescendência e, sim, obrigações, previstas em lei, como já
vimos anteriormente, mas que muitas das vezes são utilizadas para fins eleitoreiros e escusos.

É axiomático que para um indivíduo se desenvolver de maneira plena, necessita da vida


e de elementos correspondentes, e cabe ao Estado a promoção de políticas públicas para a
democratização desses subsídios, como já aclarado. A manutenção do Estado de bem-estar
social em contraponto às políticas neoliberais de estado mínimo, de livre mercado e privatização
dos serviços oferecidos pelo Estado, é vital principalmente para os jovens oriundos das classes
trabalhadoras, que não dispõem de recursos econômicos para alimentar a sanha do capital.

O que salta aos olhos, é o Estado investir parte relevante do erário público em políticas
públicas, não voltados para o desenvolvimento e qualidade de vida da juventude (embora o
discurso seja esse) e, sim, para uma escalada de violência policial. Para Wacquant (1999), existe
um paradoxo neoliberal, que pretende remediar com “mais Estado” policial e presídios, tendo
“menos Estado” socioeconômico, sendo essas ações a própria causa do aumento da insegurança
objetiva e subjetiva, uma vez que o Leviatã demonstra a sua incapacidade de manter da ordem
pública, sobretudo, da delinquência juvenil. Wacquant (1999, p. 4), acrescenta que,
[...] isso não é uma simples coincidência: é justamente porque as elites do Estado,
tendo se convertido à ideologia do mercado total [...], diminuem suas prerrogativas na
frente econômica e social que é preciso aumentar e reforçar suas missões em matéria
14

de "segurança", subitamente relegada à mera dimensão criminal. No entanto, e,


sobretudo, a penalidade neoliberal ainda é mais sedutora e mais funesta quando
aplicada em países ao mesmo tempo atingidos por fortes desigualdades de condições
e de oportunidades de vida e desprovidos de tradição democrática e de instituições
capazes de amortecer os choques causados pela mutação do trabalho e do indivíduo
no limiar do novo século [...]. Isso é dizer que a alternativa entre o tratamento social
da miséria e de seus correlatos – ancorado numa visão de longo prazo guiada pelos
valores de justiça social e de solidariedade e seu tratamento penal – que visa às
parcelas mais refratárias do subproletariado e se concentra no curto prazo dos ciclos
eleitorais e dos pânicos orquestrados por uma máquina midiática fora de controle [...].

A mídia corporativa tenta passar a ideia de isenção, mas não deixa de expor sua análise
dos fatos em editoriais opinativos, sem constrangimento em apoiar as ações dos grandes
conglomerados econômicos, das instituições sociais e dos governos, se lhe convier. Ainda
assim, os meios de comunicação de massa, particularmente, aqueles advindos da internet e da
expansão das novas tecnologias, possuem um papel vigoroso nas sociedades contemporâneas,
em especial, ao facilitar o acesso dos jovens ao mundo virtual e todas as suas potencialidades.

4.1 - As políticas públicas de Cultura e Lazer e o retrocesso do atual Governo Federal


como projeto à juventude das periferias da Região Metropolitana do Rio de Janeiro:

Antes de tudo, se faz oportuno enfatizar o caráter do texto a seguir: não se pretende aqui
realizar um escarnio político-partidário, mas sim uma análise das realizações ou não realizações
do governo do presidente eleito em 2018, em prol dos jovens moradores das periferias da
RMRJ, uma vez que este trabalho pode vir a ser acessado por todas e todos, independentemente
das suas crenças e convicções. As informações aqui descritas são de domínio público.

É imperativo sublinhar que não se trata de um estudo apolítico, isento e nem tampouco
neutro, pois como nos ensinou Aristóteles (1999), o ser humano é um animal político, que tem
o dom da palavra (que não pode ser confundido com o mero som da voz) e tende a expor o
conveniente e o inconveniente, assim como o justo e o injusto, pois é o único do reino animal
com a capacidade de raciocinar. Ademais, “[...] não existe neutralidade em história. [...] toda
opinião é política. O que um determinado grupo quer é [..] impor um monopólio de uma visão
conservadora de história [...]” – disse Leandro Karnal, filósofo brasileiro4. Nas relações
humanas, a escolha por não se envolver é o mesmo que apoiar o opressor.

Isto posto, a primeira análise realizada, foi com base no plano de governo apresentado
pelo então candidato à presidência, em 2018. Com o título de “O caminho da prosperidade5”, o

4
Disponível em < https://revistatrip.uol.com.br/tpm/entrevista-com-o-historiador-e-professor-leandro-karnal >
Acesso em: 02/01/2022, às 14:47h.
5
Disponível em < https://divulgacandcontas.tse.jus.br/candidaturas/oficial/2018/BR/BR/2022802018/280000614
517/proposta_1534284632231.pdf > Acesso em: 02/01/2022. Às 15:40h.
15

documento tinha 81 páginas, zero menção ao lazer, três à cultura, zero à juventude, nove à
jovem e uma à adolescente, que ocorreu atrelada a divulgação de dados sobre a evasão escolar
e destacava a importância da qualificação crescente dos professores, para que o Brasil obtenha
destaque entre as nações desenvolvidas. O uso dos termos, em momento algum se deu
contextualizada, conforme a proposta deste estudo.

A utilização da palavra cultura ocorreu sempre em contexto de críticas: em um primeiro


momento, ao chamado marxismo cultural e suas derivações como o gramscismo, atribuindo a
essas correntes de pensamento a degradação dos valores da Nação e da família; em seguida,
decretando a transformação cultural da sociedade, o fim da impunidade, da corrupção etc.; e,
por último, destacou a nova composição do Itamaraty e do Ministério das Relações Exteriores,
ressaltando que alguns países foram preteridos por razões ideológicas e outros tiveram
estreitamento de laços por terem muito a oferecer ao Brasil em termos de comércio, ciência,
tecnologia, educação e cultura. As aparições da palavra jovem seguiram a seguinte ordem:

• crítica ao desempenho dos jovens na educação, em contraponto ao montante gasto pelo


Ministério da Educação;
• utilização de dados quantitativos para expor números alarmantes de que quase a metade
dos jovens no Brasil, entre 14 e 29 anos, não completaram o Ensino Médio;
• defesa do empreendedorismo, que deve ser posto em prática nas universidades, a fim que
os jovens terminem o Ensino Superior com a ideia de abrir uma empresa;
• crítica aos sistemas educacionais do País, que deveriam trabalhar integrados, para que os
jovens (a palavra aparece duas vezes) pudessem ser melhor preparados para a vida;
• menção de ações de outros países, que estimulam o desenvolvimento de projetos
tecnológicos nas universidades, constatado pessoalmente pelo candidato;
• entendimento que o jovem deve sair da universidade com o pensamento empreendedor e
de transformar o conhecimento obtido em produtos, negócios e riquezas;
• ideia de que cada brasileiro tenha uma renda igual ou superior ao Bolsa Família, diz que
programas de renda mínima são de origem liberal (cita o autor estadunidense, Milton
Friedman) e defende que os jovens possam escolher entre um vínculo empregatício com
carteira assinada e direitos ou aderir ao um contrato individual sem os direitos trabalhistas.
• na última menção, diz que o objetivo do governo será resgatar a fraternidade, a proteção
dos mais fracos e vulneráveis e brigar para que os jovens tenham um futuro.

Acabou. Esse é o programa de governo do presidente eleito no ano de 2018 no Brasil,


no que diz respeito a cultura, ao lazer e a juventude brasileira. Nenhuma proposta
16

consubstancializada, apenas conjecturas, com análises rasas e sem ações efetivas, ainda que em
alguns momentos tenham ocorridas críticas diretas, demonstrando certo conhecimento dos
envolvidos sobre as questões apontadas. Com o slogan “Brasil acima de tudo Deus acima de
todos”, a ideologia do governo eleito não apresenta qualquer intenção, pelo menos por escrito,
de agir para atender às demandas dos milhões de jovens de todos os cantos do País, que são
considerados o futuro de qualquer Nação.

Mas que futuro é esse? Ao se analisar a formação dos ministérios do governo eleito,
uma das primeiras ações do presidente foi o de extinguir as pastas do Trabalho, da Cultura, do
Esporte e do Desenvolvimento social, que se tornaram meras secretarias ligadas ao recém criado
Ministério da cidadania, numa clara intenção de enfraquecer as atribuições das respectivas
áreas. Sempre cercado de polêmicas, por conta das ações do presidente e daqueles escolhidos
como secretários, principalmente em relação à Cultura, de nada adiantou o apelo dos artistas,
atores, atrizes e da sociedade civil de um modo geral.

Reportagem do Le Monde Diplomatique Brasil6, “Primeiro ano de governo eleito em


2018 no Brasil é marcado por ataques à cultura”, afirma que o “[...] fundamentalismo religioso
e discurso moral são usados como justificativa para ataques à classe artística, nomeação a
cargos públicos e a prática da censura [...]”. Foram várias ações do governo em relação a Lei
Rouanet, de incentivo à cultura, impeditivos em lançamentos de filmes, cancelamento de editais
de projetos culturais e de lazer, chegando ao ponto do Secretário especial da Cultura dizer que
a classe artística propagava ideias nefastas e progressistas, contra a herança sagrada judaico-
cristã e que, por conta disso, seria impossível o diálogo.

Já com relação ao lazer, o ministério da Cidadania lançou quase no final do segundo


semestre de 2021, através da Secretaria Nacional de Esporte, Educação, Lazer e Inclusão Social
(SNELIS), o Programa Vem Ser7, com o objetivo de promover o desenvolvimento integral
principalmente dos jovens entre oito e dezessete anos, tendo como princípio a inclusão social,
com uma metodologia focada na iniciação esportiva. A ideia é que o programa entre em vigor
em 2022, em parceria com as secretarias de esportes e lazer do Distrito Federal, estados e
municípios. Coincidência ou não, ano é de eleições.

Outro ponto a se destacar, nesse caso, relacionado a juventude negra, foi a nomeação
para a presidência da fundação cultural Palmares, criada no final dos anos de 1980, no afã de

6
Disponível em < https://diplomatique.org.br/primeiro-ano-de-governo-bolsonaro-e-marcado-por-ataques-a-
cultura/ > Acesso em: 30/12/2021, às 7:41h.
7
Disponível em < https://www.gov.br/cidadania/pt-br/noticias-e-conteudos/esporte/noticias_esporte/ministerio-
da-cidadania-lanca-o-programa-vem-ser > Acesso em: 03/01/2022, às 8:46h.
17

promover a manutenção dos valores, devido da influência de negras e negros formação cultural,
social e econômica da sociedade brasileira. Entretanto, no governo atual, foram inúmeras
contradições, intervenções jurídicas e reclamações dos mais variados setores da sociedade, por
conta do desvio de função da entidade pública. Em matéria publicada no site Agência Senado8,
debatedores concluíram que a fundação Palmares passa por desmonte, é usada para a prática de
racismo e se tornou instrumento com o objetivo de silenciar e apagar da memória nacional as
contribuições da população negra para o País.

Divulgar, conforme Rabaça e Barbosa (2001, p. 237), é o “[...] ato ou efeito de tornar
público ou levar ao conhecimento do maior número possível de pessoas um determinado um
determinado produto ou serviço de caráter comercial ou não [...]”, sendo assim, não se tem aqui
a pretensão de esgotar e afirmar que todas as ações do governo federal atual, voltadas para a
juventude, cultura e lazer tenham sido aqui elencadas, todavia, a falta de alguma, não se deve
configurar como negligência ou má-fé. A divulgação, a publicidade e a propagação de
informações não tem sido uma marca do governo, sobretudo, por conta das intensas rusgas com
determinados veículos de comunicação de massa.

4.2 - As políticas públicas de cultura de lazer do governo do estado a juventude das


periferias da Região Metropolitana do Rio de Janeiro:

O estado do Rio de janeiro vive momentos turbulentos na política. Embora o foco aqui
seja no que tem sido feito ou não quanto aos assuntos que norteiam este estudo, é preciso
ressaltar que entre os últimos chefes do Executivo, tivemos governadores presos, afastados,
cassados e vices assumindo, a fim de cumprirem mandatos-tampão e evitarem maiores
instabilidades política. Na atual estrutura de governo, o estado do Rio possui uma Secretaria de
Cultura e Economia Criativa, mas não há uma secretaria de lazer que, como já observado em
outros momentos desse estudo, está quase sempre vinculado com a área do desporto, nesse caso,
a Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude.

Chama muito a atenção as denominações das respectivas secretariais, visto que no caso
da pasta de cultura, existe a expressão ‘economia criativa’, e a explicação para esse despautério
está no site: “é um ambiente de negócios em constante evolução, divididos em cadeias
produtivas diversas, que dão origem a bens, produtos e serviços”9. Qualquer desavisado que se

8
Disponível em < https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/09/02/para-debatedores-fundacao-
palmares-passa-por-desmonte-e-e-usada-para-pratica-de-racismo > Acesso em: 15/11/2021, às 00:28h.
9
Disponível em < http://cultura.rj.gov.br/economia-criativa/ > Acesso em: 07/01/2022, às 15:20h.
18

depare com essa descrição, dificilmente irá associá-la à cultura, no sentido aqui empregado.
Quanto a associação entre a juventude ao esporte e ao lazer, podemos aqui recuperar a ideia de
que juventude é uma palavra, é um estado de espírito, logo, os jovens não contemplados dentro
do conceito legal, também tem o direito ao lazer e à prática de esportes, sem dúvida.

A priori, as informações contidas nos sites tanto da Secretaria de Cultura, quanto na de


Esporte, Lazer e Juventude, principalmente na de Cultura, indicam em um primeiro momento,
que diversas atividades são promovidas pelas respectivas pastas. Considerando que o Estado
do Rio de Janeiro possui 92 municípios e é um dos menores estados da federação em termos
territoriais, a grande questão é saber se tais ações são efetivamente políticas públicas de cultura
e lazer e se contemplam todos os municípios, sobretudo, os jovens das regiões periféricas.

Segue sucinta análise dos eventos de políticas públicas patrocinados pelas duas pastas,
em 2021 (e as realizadas ou programadas para 2022, se tiver), ainda em tempos de pandemia
do COVID-19, voltadas à cultura e ao lazer, da juventude periférica do estado do Rio de Janeiro:

- Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude:


• Jogos da Baixada, considerado o maior evento socioesportivo da Baixada Fluminense,
Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que reuniu 14 municípios, com a participação
de mais de 3 mil jovens em diversas modalidades;
• Atividades de leitura com do jovens internos do DEGASE - Departamento Geral de
Ações Socioeducativas, ligado à Secretaria de Estado de Educação;
• Fórum de esporte, lazer e juventude, realizado na Baixada Fluminense e na Costa Verde
do Rio, com a participação dos municípios das respectivas regiões, que tem como
objetivo, entender as necessidades e mapear as possibilidades e investimento em
projetos sociais e melhoria de qualidade de vida da população, sobretudo, os jovens.

- Secretaria de Cultura:
• LER Caleidoscópio da Cultura, projeto com atividades multiculturais (circo, teatro,
leitura de clássicos da literatura), para os jovens dos municípios da Baixada Fluminense
e de bairros do subúrbio do Rio;
• Escola da cultura, programa que visa promover a capacitação e inclusão, através de
subprojetos, Cursos Sebrae, Literatura acessível, atendeu mais de 40 mil pessoas, de
cerca de 30 municípios do estado.
• Depois de 22 anos de inatividade, em 2020 o Fundo Estadual de Cultura foi reativado,
agora é observar e se os recursos serão destinados à cultura ou à ‘economia criativa’.
19

5. Perfunctórias considerações sobre o aporte jurídico em face do direito ao acesso às


políticas públicas de promoção da juventude e de acesso à cultura e ao lazer:

Alguns arcabouços legais, são alicerces dos deveres e dos direitos da juventude,
emanados da Constituição Federal de 1988, apelidada de Constituição Cidadã. A alcunha
advém das possibilidades elencadas em seu conjunto de leis, que entre títulos, capítulos e
artigos, revisam a história de um país fundamentada na negação de direitos e na exclusão das
mais variadas formas da maior parte da sua população a começar pelos Povos Nativos.

No seio das Grandes Navegações, as Terras Brasilis foram invadidas pelos Povos
Ibéricos em 1500, conquistada através do genocídio dos Povos Originários, expropriada das
suas riquezas naturais e, depois, instituído o sistema de colônia de exploração que, de algum
modo, perdura. Mesmo depois do Brado de Independência em 1822, da Proclamação da
República em 1889 e de sete Constituições Federais (oito se for considerada Emenda nº 1 de
1969, outorgada pela junta militar, junto à Constituição Federal de 1967), o grito dos excluídos
ecoa por todo o País, mas não encontra os ouvidos e a sensibilidade dos dirigentes da Nação.

Séculos se passaram e até a atualidade (se é que existe vontade política para isso)
questões substanciais que deveriam estar na agenda do debate público, tais como: os direitos
dos Povos Originários, o acesso à terra, o autoritarismo como resquício dos regimes ditatoriais,
o fim da escravização pós-moderna, do Racismo entranhado na estrutura do Estado e a inserção
irrestrita dos Povos Negros na sociedade, as desigualdades socioeconômicas, os Direitos
Humanos, a Democracia e Cidadania plenas, foram resolvidos plenamente.

Documentos legais, como o Estatuto da criança e do adolescente, a Lei de Diretrizes e


Bases da Educação, o Estatuto da juventude, são alguns exemplos dos esforços (ainda que na
letra fria das leis), a fim de garantir o acesso da juventude aos seus direitos como cidadão, de
modo que a democracia seja de fato o retrato da soberania popular. É possível inferir que talvez
o problema não esteja na falta de leis.

5.1 – Fundo Nacional de Apoio à Cultura:

Criado em meado dos anos de 1980 com o nome de Fundo de Promoção Cultural, Lei
7.505, o FNC – Fundo Nacional de Apoio à cultura, tem como objetivo, captar e destinar
recursos para projetos culturais compatíveis com as finalidades do PRONAC – Programa
Nacional de Apoio a Cultura, através da Lei 8.313, de Incentivo à Cultura, também conhecida
como Lei Rouanet, alvo constante de debates acalorados por parte de vários integrantes do
Governo Federal atual.
20

5.2 - Estatuto da criança e do adolescente:

É importante refletir sobre o momento histórico que norteia a promulgação da Lei nº


8.069/1990, denominada de ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente10, conjunto de leis
que tem como princípio básico, resguardar a integridade juvenil brasileira, que veio a reboque
do processo de redemocratização. Com o respaldo da Constituição Federal de 1988, o ECA foi
promulgado há mais de trinta anos, em uma sociedade que já não é mais a mesma, por conta do
dinamismo social. Assim como a sociedade mudou, as demandas dos jovens brasileiros também
são outras, por isso, é preciso estar atento quanto ao seu atendimento às especificidades atuais.

O estatuto está em voga. No título I, Das disposições Preliminares, o Art. 4º lembra que
é um dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar,
com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à
educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura. Aqui cabe um adendo sobre a
função do Estado, enquanto representante do poder público, em assegurar o acesso à cultura e
ao lazer aos jovens brasileiros, através de parcerias firmadas pela União, estados e municípios.

Entre outras aparições no referido conjunto de Leis, o ECA chama a atenção para o
respeito a identidade sociocultural, os costumes e tradições, aos valores culturais, a promoção
das atividades como lazer e evidencia a necessidade de proporcionar à criança, antes e após seu
nascimento, em virtude de sua falta de maturidade física, como prevê diversos tratados
internacionais, aos quais o Brasil é signatário, como a Declaração de Genebra de 1924 sobre os
Direitos da Criança, a Declaração universal dos Direitos humanos, entre outros.

O ECA também aborda a importância do CONANDA – Conselho Nacional dos Direitos


da Criança e do Adolescente, criado a partir do Decreto nº 5.089, de 20 de maio de 2004. É um
órgão colegiado de caráter deliberativo, legado à Presidência da República, que tem por
finalidade elaborar normas gerais para a formulação e implementação da política nacional de
atendimento dos direitos da criança e do adolescente.

5.3 - Leis de Diretrizes e Bases da Educação:

No conjunto de Constituições promulgadas no Brasil, a educação pública e gratuita para


todos de modo algum fora tratada como uma prioridade, surgiu pela primeira vez na Carta de
1934, mas o marco inicial da LDB – Lei de Diretrizes e bases da Educação se deu somente em

10
Disponível em < http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1990/lei-8069-13-julho-1990-372211publicacao
original-1-pl.html> Acesso em: 05/01/2022, às 12:07h.
21

1961. A LDB em vigor atualmente foi publica sob a Lei n.º 9.394/1996, fruto de intenso debate
político e de parca participação popular e, de lá pra cá, foram diversos adendos, como
supressões. Mas esse não é o assunto que orienta este trabalho.

A palavra cultura muitas as vezes é associada com a educação, com os estudos, com a
obtenção e retenção de conhecimentos, não por um acaso, diz-se que aqueles que estudam,
acabam tendo cultura. Sendo assim, a LDB11 no Título I, Da Educação, o Art. 1º explica que a
educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência
humana, entre outras esferas, incluindo as manifestações culturais. Em outros momentos, faz
menção sobre o dever da família e do Estado em respeitar a liberdade do indivíduo de aprender
e de divulgar a sua cultura, assim como ocorre no ECA.

A valorização da cultura local também é lembrada pela LDB, enaltecendo o ensino da


história e cultura afro-brasileira e indígena, e ratificando que uma das nossas maiores
características enquanto povo, é a diversidade cultural. As especificidades culturais
relacionadas a LIBRAS - Língua Brasileira de Sinais, e as necessidades daqueles que possuem
alguma necessidade diferenciada por conta de alguma deficiência, também são elencadas,
porém, não há qualquer abordagem sobre o lazer.

5.4 - Estatuto da juventude:

O início e o meado dos anos de 1990, marcam o surgimento do Estatuto da Criança e do


Adolescente e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, respectivamente. Como dito
anteriormente, o dinamismo que é próprio das sociedades contemporâneas, possivelmente
contribuiu para que fosse observado a necessidade de atualização do arcabouço legal que trata
dos deveres e dos direitos da juventude brasileira, de maneira melhor estruturada e direta.

Assim, com a promulgação da Lei 12.852/2013, foi instituído o Estatuto da Juventude,


que dispõe sobre os direitos, os princípios e diretrizes das políticas públicas para os jovens e o
SINAJUVE – Sistema Nacional de Juventude. O referido Estatuto é estacado pela Constituição
Federal de 1988, mas é oriundo de pleitos internacionais, visto que 1985 foi proclamado pela
ONU – Organização das Nações Unidas, como o ano internacional da juventude e desencadeou
diversas conferências e grupos de trabalhos em muitos países, no afã de debater sobre tema.

O estatuto da juventude, ao se apresentar como um documento específico voltado para


os jovens brasileiros, tem expressões previstas nos conjuntos de leis supracitados, e traz como

11
Disponível em < https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm > Acesso em: 05/01/2022, às 15:30h
22

novidade no Título I – Dos Direitos e das Políticas Públicas de Juventude, Capítulo I – Dos
Princípios e Diretrizes das Políticas Públicas de Juventude, a promoção da cultura da paz, da
vida segura, da solidariedade, entre outras corroborações.

A Seção VI, é integralmente dedicada ao direito à cultura, no que diz respeito a livre
criação, o acesso aos bens e serviços culturais, a participação nas decisões de política cultural,
e impõe ao poder público a incumbência de provisionar recursos financeiros junto ao orçamento
anual para o fomento de projetos culturais destinados aso jovens e por eles produzidos.
Observa-se que a gratuidade, meia entrada ou ingressos com preços populares, para o acesso a
casas de espetáculos, cinemas e shows afins, não são dádivas concedidas por quem quer que
seja, são ações previstas em lei, que devem ser cumpridas.

O Estatuto também apregoa que deve o poder público prover o direito dos jovens à
comunicação e à liberdade de expressão, através do incentivo de programas educativos e
culturais que atendam seus anseios, em programas veiculados nos meios de comunicação de
massa, bem como, assegurar a inclusão digital e às novas tecnologias. Essas são algumas das
questões que estão na crista as discussões cotidianas, mas que o referido conjunto de leis não
dá conta de explicar como essas devem ser postas em prática e nem a quem os jovens podem
recorrer para que sejam efetivadas.

No que diz respeito ao lazer, o Estatuto da Juventude é mais comedido. O lazer acaba
sendo associado à pratica de desporto, a oferta de equipamentos comunitários que permitam a
prática desportiva, cultural e de lazer e, no mais, se assemelha ao que está determinado nos
regimentos aqui já mencionados, o que se pode concluir é que não é por falta de leis que a
juventude brasileira padece pelo acesso à cultura e ao lazer.

6. Considerações finais

O mito de Janus ou Jano, o Deus romano, que nomeia janeiro, o primeiro mês do ano,
foi caracterizado com duas faces, de maneira que fisicamente estaria no presente, com uma das
faces virada para o passado e a outra para o futuro. É como um jovem que não é mais criança,
que logo será adulto, mas que tem como presente o agora, para experienciar, experimentar e
brincar de viver. É no jovem o início da vida e a confirmação de que a vida pode continuar.

Aqui, elencamos alguns dos aspectos importantes da vida social, como as políticas
públicas de cultura e lazer, voltadas para os jovens da periferia da Região Metropolitana do Rio
de Janeiro. Embora tenha sido constatada ações advindas do poder público e da iniciativa
23

privada, é possível observar que essas são diminutas, insuficientes para atender a todas e todos,
de maneira ampla e que contribua para ocorra verdadeiramente a participação popular das filhas
e filhos da classe trabalhadora.

É preciso avançar sobre esse tema, com políticas públicas de Estado, com um projeto
nacional de integração entre as instituições sociais e os entes federativos, para que os jovens, o
futuro da Nação, não se tornem dependentes de ações eleitoreiras ou aliciados por atos escusos.
A população brasileira está envelhecendo, o potencial juvenil não vem sendo aproveitado pelo
País, ao contrário, as violências, a falta de perspectivas, de um plano amplo, estruturado e
contínuo é que tem sido fomentado.

De uma maneira direta e objetiva, não se pode afirmar indubitavelmente a existência de


macros políticas públicas de cultura e lazer, fomentadas pelo Estado, pelas esferas federal e
estadual, voltadas para atender os anseios da massa juvenil periférica. Daí a ambiguidade em
de se dizer que os jovens não querem nada ou que devem procurar um trabalho para ser alguém
na vida. Pensar assim, é se deixar levar por uma ideologia que perpetua pensamentos e
comportamentos excludentes, enraizados na estrutura da sociedade brasileira. Grande parte
dessa juventude que vive nas franjas da RMRJ, é formada por negras e negros, que trazem em
sua origem a história da exclusão social, por isso, é preciso que sejam postar em prática ações
afirmativas de inclusão social baseadas na equidade, para que esses jovens se sintam parte e
possam atuar em conjunto com o todo, em favor do desenvolvimento do Brasil.
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