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ISSN 1517-5545

2007, Vol. IX, nº 1, 27-44

A “consciência” como um suposto antídoto


para a violência1

The “conscience” as a supposed antidote


for the violence

Marcus Bentes de Carvalho Neto2


Universidade Federal do Pará
Ana Carolina Pereira Alves
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Marcelo Quintino Galvão Baptista
Universidade Federal do Pará

Resumo

Skinner sistematicamente descreveu o mentalismo como um obstáculo para a resolução dos problemas humanos.
Segundo ele, a adoção desse modelo explicativo acabaria por encobrir as variáveis críticas, acessíveis e manipuláveis,
que estariam na base da produção e/ou manutenção dos problemas sociais, especialmente os comportamentais. O
presente trabalho descreve um caso real no qual tal modelo explicativo mentalista foi usado por um Ministro da
Justiça brasileiro como referencial para tentar compreender um fenômeno comportamental complexo (a violência), e
de como a adoção desse modelo acabou por direcionar um tipo particular de política pública de intervenção
(aumentar a conscientização da população). Discutem-se os conceitos de violência e de consciência a partir do
instrumental teórico analítico-comportamental, contrastando diagnósticos e soluções indicadas por cada alternativa
teórica.

Palavras-chave: violência; consciência; análise do comportamento; behaviorismo radical; coerção

Abstract

Skinner sistematically described mentalism as an obstacle to the resolution of human problems. According to him,
the adoption of this explanatory model hides accessible and manipulable critical variables, which are responsible for
the production and for the maintenance of social problems, specially the behavioural ones. This paper presents a real
case where this mentalistic explanatory model was used by the Brazilian Minister of Justice in order to understand a
complex behavioural phenomenon (violence) and how the adoption of this model conducted to a particular kind of
public policy of intervention (increase of conscience in the population). The concepts of violence and conscience were
discussed using behavioral-analytic theoretical instrumental contrasting diagnose and indicated solutions by each
theoretical alternative.

Keywords: violence; conscience; behavior analysis; radical behaviorism; coercion

1 Uma versão preliminar do trabalho foi apresentada em setembro de 2000 no IX Encontro Brasileiro de Psicoterapia e Medicina

Comportamental realizado em Campinas (SP). Os autores agradecem: Andréa Rosin, Ana Carolina Villas Boas, Renata Zamperini,
Carol Vieira, Tuga Angerami, Amauri Gouveia Jr, Maria Amélia Matos (in memorian), Maria Amália Andery, Teresa Pires Sério,
Nilza Micheletto, Paola Almeida, Romariz Barros e Eveny Teixeira pelas críticas e sugestões. Agradecimentos especiais aos
pareceristas anônimos, que grandemente contribuíram para a melhoria do texto original. O trabalho é dedicado à Professora Maria
Amélia Matos.
2 Endereço: Rua Municipalidade, 1508, Ap. 705. Umarizal. Belém-PA. CEP: 66.050-350. E-mail: marcus_bentes@yahoo.com.br

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Skinner sistematicamente apontou a habitantes em Cali (Dimenstein, 2000a). O


linguagem mentalista como um dos Brasil encerrou o ano de 2000 com 45.343
principais obstáculos para a resolução dos homicídios registrados (Peres & Santos,
problemas humanos (Carvalho Neto, 2001). 2005). Parte desse aumento nos índices pode
Segundo ele, o uso de termos mentalistas ser atribuído ao desenvolvimento de um
acabaria por encobrir as variáveis críticas sistema mais amplo e preciso de coleta de
que estariam na base da produção e/ou informações sobre o tema (como o Sistema
manutenção das mazelas cotidianas. Uma de Informações Sobre Mortalidade, SIM,
linguagem analítico-comportamental deve- vinculado ao Ministério da Saúde).
ria ser capaz não só de explicitar, nas Entretanto, mesmo considerando apenas os
relações entre organismo/ambiente, as números atuais, sem comparação com
fontes de um problema, mas potencialmente registros anteriores, a situação é crítica. De
também apontar que caminhos deveriam acordo com o Mapa da Violência 2006
ser trilhados para uma solução. (Waiselfisz, 2006), o Brasil ocupa
O presente trabalho explora um caso atualmente a 4 posição mundial em
a

concreto no qual a linguagem mentalista número de homicídios, com uma taxa de 27


cotidiana foi tomada como referência na homicídios por 100 mil habitantes,
explicação de um fenômeno comportamen- perdendo apenas para Colômbia, Venezuela
tal complexo, e de como a adoção dessa e Rússia. Quando apenas os jovens são
linguagem acabou por direcionar um tipo considerados, o país sobe para a 3a
particular de política pública de inter- colocação (atrás de Colômbia e Venezuela),
venção. o que revela uma particular concentração de
vítimas de violência no país nessa faixa da
1- A Violência como Problema e a população: a taxa de mortalidade por
Consciência como Solução: Conseqüências homicídio entre os não-jovens é de 3%,
Políticas de um Diagnóstico Mentalista enquanto que entre os jovens o número
sobe para 39,7%.
Segundo Dimenstein (2000a), a Em 2000, o então Ministro da Justiça
violência é um fenômeno crescente na do Governo Fernando Henrique Cardoso,
sociedade brasileira. O número de José Gregori, declarou que não caberia ao
homicídios no país em 20 anos, até o Governo Federal e muito menos ao
primeiro semestre do ano 2000, era de Presidente da República, a responsabilidade
578.000. Em 1988, o número total de pelo combate à violência, e sim aos
assassinatos foi de 21.000, onze anos depois, Governos Estaduais (Freitas, 2000). Freitas
em 1999, dados mostram que esse número (2000) comentou a afirmativa indicando um
superou 42.000. Em 1975, a taxa de problema: segundo a própria Constituição,
homicídio na região metropolitana de São o Governo Federal seria responsável pelo
Paulo era de 8 por 100.000 habitantes, em combate ao narcotráfico e ao contrabando
1999 esse número aumentou para 66 por de armas, que juntos, seriam de grande
100.000 habitantes, chegando, em alguns influência no aumento do poderio dos
lugares como a Praça da Sé, a 102 por traficantes e, conseqüentemente, da cri-
100.000 habitantes. Superando em muito a minalidade urbana que os governos esta-
média de homicídios do Brasil no ano 2000 duais precisariam combater.
(25 por 100.000 habitantes) e até de lugares Em outra manifestação pública,
como a Colômbia, onde mesmo com o Gregori atribuiu uma parte da respon-
tráfico de drogas, grupos de guerrilhas e sabilidade pelo aumento da violência, à
ações para-militares, o número de falta de "consciência" dos cidadãos comuns,
assassinatos chegou a 88 por 100.000 assim como apontou como solução uma
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"conscientização de todos": "Certamente, o Determinantes do Comportamento Hu-


fim da violência só ocorrerá quando todos mano
se conscientizarem de seu papel na
sociedade e da necessidade de se respeitar Skinner (1981/1984) apresenta um
às leis" (citado por Freitas, 2000, p. A5). modelo explicativo geral para o
Nesse modo de pensar mentalista, a comportamento humano que consistiria
violência é explicada pela ausência de uma basicamente de dois processos comple-
suposta força motriz moral interna, mentares, variação e seleção, que atuariam
chamada consciência, que regularia as ações em três níveis distintos (filogênese,
humanas, direcionando-as para o bem ontogênese e práticas culturais). O primeiro
comum. Na sua ausência, prevaleceria um processo (variação) consistiria numa
padrão egoísta que resultaria em crimes. tendência à não repetição, à mutação e à
Freitas (2000) comenta ironicamente que: conseqüente coexistência de inúmeros
"(...) a criminalidade acabará quando os padrões (sejam eles caracteres de uma dada
bandidos também decidirem respeitar as espécie, classe de respostas operantes ou
leis." (p. A5). práticas culturais, respectivamente). O
A violência não tem interessado segundo processo (seleção), promovido pelo
apenas aos jornalistas. Historiadores, soció- ambiente, envolveria a retenção diferencial
logos, biólogos, filósofos, entre outros de certos padrões surgidos na variação,
profissionais, também tentaram (e tentam) enquanto outros declinariam gradualmente
entender esse fenômeno. Na psicologia, de freqüência (conseqüências de sobre-
muitos têm se dedicado ao tema. Na vivência, no caso da filogênese e das
Análise do Comportamento, autores como práticas culturais, e de reforçamento, no
Sidman (1989/1995), Skinner (1953/1998, caso da ontogênese). Este modelo causal
1981/1984, 1990/1992), Holland (1978 aparece também em outras obras de
/1983), Bandura e Iñesta (1978) e, mais Skinner, como, por exemplo, em 1953/1998
recentemente no Brasil, alguns trabalhos do (de forma embrionária e diluída) e em 1990
Grupo de Estudos da Violência da PUC-SP (sua última versão). Tal modelo estenderia a
(Andery & Sério, 1997; Amorim, 1999; noção de causalidade contida na seleção
Namo & Banaco, 1999; Capelari & Fazzio, natural de Darwin para os níveis on-
1999), vêm buscando também interpretar togenético e cultural. Apesar das espe-
esse fenômeno e contribuir para a com- cificidades de cada nível, o mecanismo geral
preensão e produção de estratégias capazes seria similar em cada um deles (Catania &
de modificar o quadro atual. Harnard, 1988).
O objetivo deste trabalho é, a partir O comportamento humano seria
do caso concreto descrito como exemplo, produzido, então, pela atuação conjunta dos
discutir as implicações da adoção de um três níveis de contingências (o nível
referencial mentalista na compreensão de filogenético, o ontogenético e o cultural).
um fenômeno comportamental, especial- Skinner (1990) argumenta, ainda, que o
mente quando tal referencial é adotado por fenômeno comportamental só será conhe-
autoridades responsáveis pelo estabele- cido em todas as suas dimensões, com a
cimento de políticas públicas. reunião dos saberes produzidos pela
Etologia, pela Análise do Comportamento e
2- O Modelo de Seleção pelas Conse- por uma parte da Antropologia (em-
qüências de B. F. Skinner e os Múltiplos carregadas dos acima citados três níveis de
contingências, respectivamente) e pela

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Fisiologia (encarregada do organismo que incondicional ou condicional, produzida


se comporta) (Skinner, 1990). Cada por uma determinada classe de resposta,
disciplina científica deveria, então, definir o ocasionando, então, um aumento na
recorte que melhor teria competência freqüência de membros desta mesma classe.
metodológico-instrumental para estudar. Ou seja, “(...) se a apresentação de um
Uma parte considerável dos deter- estímulo aversivo pune uma resposta,
minantes ontogenéticos do comportamento remover ou prevenir tal estímulo deve
humano é disposta e administrada pelo reforçar a resposta” (Catania, 1999, p. 117).
grupo, por meio de certas instituições, e A prevenção (ou evitação) de uma
envolveria comportamento verbal. Uma estimulação aversiva é denominada de
descrição mais detalhada desse ambiente esquiva. O responder, nesse caso, elimina
socialmente construído será feita adiante. ou adia a apresentação de um evento
aversivo condicional. A eliminação de um
3- O Que Seria Afinal "Violência"? evento aversivo incondicional, por sua vez,
No Dicionário Aurélio da Língua caracterizaria a resposta de fuga (Catania,
Portuguesa, violência tem como definições: 1999).
"Constrangimento físico ou moral; Uso da Segundo Sidman (1989/1995), a
força; Coação" (Ferreira, 2000, p. 2076). O coerção seria encontrada presente nas
termo coação encontra-se também no relações dos seres humanos com a própria
mesmo dicionário como sendo um dos natureza, seriam conseqüências aversivas
possíveis significados da palavra coerção naturais estabelecidas de maneira mecânica,
(Ferreira, 2000, p. 496). A violência poderia como no caso de algumas enchentes,
ser vista assim como um sinônimo de estiagens, escassez de alimentos, incêndios,
coerção. etc.
Coerção, por sua vez, é definida por A mesma relação coercitiva que os
Sidman (1989/1995), como o uso da seres humanos encontram na natureza
punição, ameaça de punição e reforçamento também vigora no ambiente especial
negativo na interação entre pessoas e destas chamado de sociedade. Desta forma,
com o ambiente físico não-social. A punição Sidman (1989 /1995) relata que a coerção
é uma relação funcional na qual certas pode ser observada em diversos segmentos
conseqüências que seguem o responder o dos relacionamentos em grupo, tais como: a
tornam menos provável de ocorrer no família, na qual os pais ameaçam e punem o
futuro (Catania, 1999). Sendo assim, é comportamento de seus filhos com castigos
tradicional e largamente usada para ou com a retirada de seu lazer, acreditando
eliminar comportamentos classificados estar dando com isso, uma boa educação; o
como indesejáveis por quem a aplica. É trabalho, no qual os empregados produzem
chamada popularmente de castigo para sob a ameaça da demissão ou redução
uma conduta considerada má (Skinner, salarial; as instituições educativas, onde
1953/1998). alunos tiram notas boas, evitando a
A ameaça de punição, por sua vez, é reprovação e com ela a punição dos pais; as
a sinalização ou aviso de uma contingência religiões, que tornam os males do inferno
aversiva (um pré-aversivo ou aversivo ou do purgatório (e mais diretamente a
condicionado). Ela é geralmente associada a exclusão do grupo) contingentes a certos
comportamentos de esquiva ou evitação. padrões de conduta classificados como
O reforçamento negativo caracteriza- pecaminosos ou mundanos; as leis, que
se pela retirada de um estímulo aversivo

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fazem parte de um código penal e (efeito de frustração) e o reforçamento


descrevem contingências de punição para positivo (a oportunidade de atacar como
comportamentos considerados inadequados um reforçador positivo incondicional e
ou nocivos para a boa convivência em condicional). Um padrão agressivo pode ter
grupo; etc. Sendo assim, a coerção é aceita, sido produzido e estar sob controle direto
como uma prática natural e eficiente de das contingências em vigor ou pode ser
controle comportamental utilizada em aprendido via ambiente social por meio de
quase todas as sociedades humanas mecanismos como a imitação e o controle
contemporâneas (e, inclusive, em socieda- por regras (Bandura & Iñesta, 1978; Catania,
des concebidas como “primitivas”, com- 1999).
forme discute Durkheim, 1893/1999). Exis- Assim como gera agressão, a coerção
tem, no entanto, algumas conseqüências ou gera também o contracontrole, na forma de
efeitos colaterais do uso de controle coer- um ataque à possível fonte agressora, ou
citivo. Alguns estudos na Análise do outra estratégia qualquer que venha a
Comportamento tratam desses efeitos. reduzir a probabilidade do aversivo ou pré-
Sidman (1989/1995) descreve alguns aversivo ser apresentado (Sidman, 1989
resultados do uso de controle aversivo com /1995). O contracontrole caracteriza-se,
sujeitos experimentais (animais não- então, por uma reação por parte do
humanos, especialmente ratos e pombos). controlado, que consiste numa tentativa de
Numa situação de laboratório com dois evitar e/ou fugir de punições ou ameaças
sujeitos (ratos), na qual apenas um deles de punição, “(...) aprendendo como
recebe choques, o que recebe tal estimulação controlar seus controladores” (Sidman,
passa a atacar com maior probabilidade o 1989/1995, p. 224).
outro. Se este outro sujeito for retirado e em O contracontrole é assim um outro
seu lugar for colocado um objeto elemento a ser considerado numa análise do
inanimado, o sujeito que recebeu o choque fenômeno da violência. Em uma sociedade
continuará atacando esse objeto. O na qual o controle coercitivo prevalece,
comportamento agressivo é, então, obser- tende-se, então, a esperar que o contra-
vado nesta situação como um produto ou controle ocorra. Em alguns lugares mais, em
“efeito colateral” da punição. Esse tipo de outros menos acentuadamente. De qualquer
agressão foi denominada por Azrin, forma, sua probabilidade é grandemente
Hutchinson e Sallery (1964) de pain aumentada nesse contexto coercitivo.
aggression (algo como “agressão induzida
por estimulação dolorosa”) e seria um 4- O Ambiente Socialmente Construído e
respondente comumente eliciado por As Agências Controladoras
estimulação elétrica. Outra forma também
descrita por Sidman (1989/1995) como Skinner (1953/1998) propõe um modelo
produtora de comportamento agressivo é a para explicar a dinâmica de controle do
privação. Experimentos com pombos comportamento de membros de uma
demonstraram como um sujeito passa a sociedade. Em princípio, esse controle social
atacar um outro animal presente, assim que pode ser considerado como uma forma de o
um estímulo sinaliza que o alimento grupo afetar o comportamento de seus
(reforçador administrado para suas bicadas membros. Desse modo, o grupo exerce um
no disco até então) não estará mais controle ético administrando reforçadores e
disponível. Outras contingências também punidores para os comportamentos dos
geram padrões agressivos, como a extinção indivíduos (Skinner, 1953/1998). A admi-

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nistração de reforçadores e punidores que ficariam então responsáveis pela tarefa


caracteriza o controle ético, o qual leva em de forma mais imediata. Esses podem ser os
conta a sobrevivência da cultura como um grupos familiares, os grupos éticos, as
bem dela mesma, na medida em que o instituições religiosas (aos quais as agências
controle toma, como sua referência, as governamentais atribuem a tarefa de
normas reguladoras do comportamento; monitoramento do seguimento das leis) e,
estas, por sua vez, remetem aos costumes de num Governo de um Estado Moderno,
um determinado grupo social (para uma podem ser também a polícia e/ou as forças
discussão mais aprofundada, ver Abib, militares.
2002, e Vázquez, 1989). O Governo apresenta seus proce-
De maneira geral, o grupo como um dimentos controladores de forma codi-
todo – entendido em termos de ação ficada, expressa em leis, escritas e
integral das práticas de uma cultura – falha agrupadas numa Constituição ou Código
em sua função de controlar coerente e Penal. As leis especificam, em sua grande
consistentemente a ação dos indivíduos, maioria, que tipo de comportamento deve
devido especialmente à quantidade de ser punido e qual a punição a ele
variáveis envolvidas e à relativa indepen- contingente. Não há nem uma ampla
dência das instâncias de poder que especificação dos padrões aceitáveis e suas
constituem o grupo maior, chamadas por possíveis conseqüências reforçadoras e
Skinner de agências controladoras. tampouco uma descrição topográfica
Skinner (1953/1998) analisou cinco detalhada dos comportamentos a serem
agências principais de controle: a Educação, punidos em certos contextos, apenas a
a Religião, a Psicoterapia, a Economia e o consideração genérica de suas conse-
Governo; este último será aqui tratado por qüências no ambiente. Os comportamentos
sua relevância em relação aos objetivos podem, então, de acordo com suas
deste trabalho, e por ser a principal agência conseqüências, ser classificados como
destacada por Skinner. “legais” ou “ilegais”, o que corresponderia
A agência governamental “(...) utiliza-se do aos conceitos de “certo” e “errado”
poder para punir” (Skinner, 1953/1998, p. atribuídos no controle ético do grupo
365), poder que, segundo Durkheim (Skinner, 1953/1998).
(1893/1999), em menção à origem do poder Além da punição, reduzindo a
governamental para exercer o controle probabilidade de certas ações, uma outra
social (por exemplo, de punir atos técnica utilizada pelo Governo para
considerados criminosos), é tido como controlar comportamentos consistiria no
determinado pela sociedade ou exercido reforçamento negativo, tornando mais
com a anuência ou concordância desta. provável o padrão comportamental legal
Usando-se uma interpretação skinneriana por meio da remoção da ameaça de punição
da concepção de controle social em a ele contingente. É, então, este tipo de
Durkheim, pode-se dizer que essa anuência comportamento, caracterizado por um
é traduzida como disposição, por parte do mecanismo constante de esquiva da ameaça
grupo, em manter as contingências descritas de punições descritas nas leis como
na lei, dando sustentação ao controle contingentes aos comportamentos consi-
governamental (Skinner, 1969/1984). A derados “ilegais”.
agência pode recorrer também a outras A influência das leis e códigos
formas de controle indireto, tais como a estabelecidos de conduta acontece de
atribuição do poder a grupos específicos maneira indireta, ou seja, uma pessoa

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aprende a seguir a lei sem ter, na maioria como objeto de estudo da psicologia. Com o
das vezes, um contato sequer com o Código advento da proposição da psicologia, por
Penal. O aprendizado acontece por meio do parte de J. B. Watson, como “uma ciência
controle ético exercido pelo grupo, durante geral do comportamento” de todas as
o contato com familiares, amigos e espécies, o termo “consciência” (assim como
instituições educativas juntamente com “mente”) passou a ser refutado (Baum,
outras, que “(...) estabelecem contingências 1999, p. 28). Uma argumentação para isso
menores que mantêm o comportamento era o fato de que o uso do termo, com sua
dentro dos limites legais” (Skinner, conotação mental, não se sustentava, dada a
1953/1998, p. 370). lógica subjacente, exigida e necessária, ao
O Governo divide seu poder caráter “objeti-vamente observável” que
deixando para outros uma atribuição que deveria assumir o objeto de estudo da
seria inicialmente sua exclusiva responsa- psicologia científica. A argumentação não
bilidade na manutenção de um controle escondia, entretanto, a falta de clareza
efetivo. Contudo, pode acontecer que a quanto à definição do significado da
construção de um padrão comportamental expressão “objetivamente observável”
(a ser produzida pelas contingências (Baum, 1999, p. 28), para designação desse
menores administradas nos subgrupos) não objeto.
ocorra de acordo com as diretrizes Skinner não refuta a consciência,
estabelecidas como éticas e morais pelo apesar do fato de esta ter tido sua
grupo maior. Isso pode acontecer quando o vinculação tradicional à mente cartesiana.
subgrupo é afetado por outras condições, Contudo, sua posição é diferente da
geridas pelo grupo maior, que dificultam ou assumida pelo behaviorismo metodológico,
impedem sua missão inicial. Ou seja, se que admite a existência da consciência,
uma criança vive numa família na qual as “mas propõe sua exclusão das formulações
condições são tais que seus pais passam o científicas em virtude de sua subjetividade e
dia todo fora trabalhando para conseguir impos-sibilidade de observação direta” (de
um mínimo de sustento e, conseqüen- Rose, 1982, p. 68). Skinner posiciona-se no
temente, desde pequena, passa o dia na rua sentido de descartar enunciados sobre os
do bairro vendo traficantes armados eventos ditos mentais, o que pode ser
vendendo drogas, aparecendo com roupas entendido como uma interpretação alter-
caras, carros importados, comendo em nativa para esses eventos: a de que são
restaurantes da moda, merecendo a atenção materiais e, assim, entendidos em sua
e até o respeito e o medo dos membros do relação com o ambiente. Parece ser o caso
grupo e da mídia, ela não está tendo da consciência.
exemplos ou modelos presentes de como as Skinner (1974/1976) descreve a
leis funcionam. Apesar de a família ter o consciência, em parte, como um repertório
papel de prover um repertório ético verbal de autodescrição do próprio com-
específico, o grupo maior, ao forçá-la a portamento (ou da descrição do compor-
diminuir o contato com os filhos por razões tamento para os outros) e de identificação
econômicas, está sabotando sua função das suas variáveis de controle (“raci-
educacional básica. onalidade”). Cabe a referência à noção de
“racionalidade”, por Skinner, em termos de
5- O Que Seria Então "Consciência"? identificação, pelo indivíduo (para si ou
A consciência tem sido tradicional-mente para os outros), das variáveis de controle
considerada por abordagens mentalistas

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dos comportamentos reveladores da físico material, não obstante possuidor de


chamada “consciência”, pois, conforme o um estatuto especial; ou seja, essas variáveis
autor, os comportamentos, em sua maioria, seriam históricas e presentes no ambiente
são “inconscientes”, no sentido de nem externo do organismo. Ao assinalar, por-
sempre ser possível descrevê-los, o que tanto, a natureza de tais variáveis, Skinner
indica, assim, não se estar sabendo de sua refuta categoricamente a explicação men-
ocorrência. Além disso, demonstra-se, em talista para esse fenômeno, explicação essa
geral, incapacidade de identificar as que abunda na psicologia e em outras áreas
variáveis de controle desses comporta- do conhecimento e que acabam reper-
mentos, e isso indica sua “irracionalidade” cutindo nas políticas públicas adotadas.
(ver Carvalho Neto, 1999). Vale ressaltar, contudo, que esse ambiente
A consciência é inferida com base no seria em grande parte verbal e envolveria
comportamento de um indivíduo, par- aquelas contingências de reforçamento
ticularmente em resposta a eventos organizadas pelo grupo, como uma prática
ambientais (ver Baum, 1999) e não acessível cultural (Skinner, 1957/1992).
diretamente. Seria, para Skinner, como Sidman (1989/1995) descreve a
todos os outros comportamentos, mais um consciência como um produto espe-
produto de contingências de reforçamento, cificamente da coerção (como Skinner,
ou seja, um produto das interações entre 1957/1992). Seria, segundo ele, um
organismo e ambiente (social, mais preci- repertório comportamental de esquiva e
samente, do tipo de comunidade verbal ou fuga, resultante do controle coercitivo
cultural na qual a consciência tem sua sofrido pelo indivíduo na forma de punição
gênese). Num nível mais elementar, ser ou ameaça de punição. Estímulos aversivos,
consciente ou ter consciência é ser capaz de ao serem pareados com alguns outros
relatar ou descrever suas ações ou estímulos (inclusive outras respostas)
sentimentos que as antecedem e “num nível dentro de uma cadeia comportamental,
mais elaborado e mais difícil de atingir, o transferem a eles sua função aversiva,
dar-se conta das ações do próprio transformando-os em “(...) sinais de aviso
comportamento” (de Rose, 1982, p. 80. Ver que chamamos de consciência (...)" (p. 203).
também a análise de Machado, 1997). Dizer O controle coercitivo geraria também
que um indivíduo tem consciência de algo padrões de esquiva que nossa cultura
ou de uma dada situação equivale a dizer denominou moralidade ou civilização.
que é capaz de responder nessa situação “de Sidman (1989/1995) afirma que “(...)
modo adequado para produzir um certo não sentimos uma coisa chamada
tipo de conseqüência reforçadora” (de Rose, consciência, sentimos tendências para agir”
1982, p. 87). (p. 198). Ou seja, o que se descreve quando
A consciência, na abordagem de Skinner, se menciona uma "consciência" são os pré-
não seria, então, um determinante, final correntes, aversivos condicionados, de uma
pelo menos, do comportamento do in- ação previamente punida. Sidman acrescen-
divíduo, nem mesmo seria suficiente para ta que ela não é a determinante principal de
alterá-lo diretamente ou mantê-lo de forma uma ação moral, no sentido de dirigir ou
estável ou duradoura. As variáveis res- suprimir tais comportamentos. A consciên-
ponsáveis pela alteração ou mudança de um cia seria um produto da cultura, um
repertório comportamental qualquer seriam “fenômeno social” (Sidman, 1989/1995, p.
as mêsmas responsáveis pelo fenômeno da 199), pois seria o resultado da interação do
"consciência", como uma parte do universo indivíduo com outros indivíduos em

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sociedade. Ponto de vista parecido é de dendo do contexto específico (competição


Durkheim (1893/1999), ao estabelecer com outras contingências, privação severa,
relação entre consciência (coletiva) e crime, etc.), os pré-aversivos perderiam o efeito ou
propondo-a como social e abarcando “o não seriam bastante eficazes para suprimir
conjunto das crenças e dos sentimentos o comportamento criminoso.
comuns (...) dos membros de uma mesma Para nenhum desses dois autores,
sociedade” (p. 50), e refletida em atividades portanto, a consciência teria status causal
da vida social: “funções jurídicas, (final) e condições de alterar por si só, de
governamentais, científicas, industriais...” forma autônoma, ou manter um
(p. 50). Em outras palavras, o comporta- determinado repertório considerado dentro
mento social revela a consciência dos seus dos padrões aceitos socialmente como
membros, como, por exemplo, quando ideais. Seria, antes, mais um repertório
ocorre um crime num determinado meio e comportamental construído por meio de
as pessoas se comportam de modo a contingências de reforçamento, como os
demonstrar-se igualmente afetadas por ele: próprios comportamentos éticos e morais.
buscam aproximação, tendo o crime como Numa perspectiva analítico-compor-
motivo; marcam encontros para analisar o tamental, a consciência não seria consi-
acontecimento; indignam-se perante o fato derada uma entidade autônoma interna a
(p. 75). cada sujeito, que “diria” (gerenciaria) como
A consciência seria, nesse contexto, ele deveria se comportar a cada momento.
construída a partir desta interação, e Sua função deveria ser entendida dentro de
também deste modo poderia ser uma cadeia causal mais ampla que iniciaria
“desconstruída” ou "destruída", à medida fora do indivíduo que se comporta (Baum,
que reforçadores poderosos, porém ilegais, 1999; Carvalho Neto, 1999). Sua construção
passam a controlar o comportamento de um via cultura igualmente não poderia ser
indivíduo, de modo a transformar uma desconsiderada, especialmente seu estreito
conduta que antes se encontrava dentro da vínculo com o comportamento verbal
moralidade, em uma conduta ilegal, imoral. (Machado, 1997). Simonassi (1997; 1999) tem
Volte-se ao caso do exemplo da criança sugerido, a partir de resultados experi-
referido em parágrafos anteriores. Pode-se mentais com humanos, a independência
dizer que a “consciência” dela sobre o crime entre (a) uma ação solucionadora de um
e o criminoso, seria reflexo de sua exposição problema e (b) a descrição da própria ação
a aspectos de um contexto social que, solucionadora. Haveria diferença entre
provavelmente, exerce mais fortemente “saber fazer” e “saber descrever o que se
controle para a construção dessa consci- fez”. Ou seja, haveria dois repertórios
ência, do que o contexto familiar (controle distintos, sob controle de um conjunto
ético reduzido ou enfraquecido, pelas igualmente distinto de variáveis. “Saber
razões já consideradas). Seriam estes os descrever” o que se fez e as razões para tal
aspectos caracterizadores do primeiro fazer (comportamentos cônscios ou consci-
contexto: a presença, no bairro, de trafi- ência) comporiam, assim, um repertório
cantes portando armas, ostentando roupas comportamental verbal auto-descritivo
caras, carros importados; seu status social diferente de um repertório comportamental
adquirido, indicado pelo acesso a restau- sob controle direto das contingências de
rantes da moda, pela obtenção, para si, de reforçamento. Portanto, a consciência não
atenção e respeito, além do medo imposto seria um pré-requisito para a ação.
aos membros do grupo e da mídia. Depen-

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6- Alguns Trabalhos Recentes na Análise sua manutenção e (b) a geração de contra-


Comportamental Aplicada ao Fenômeno controle, na maioria das vezes, também
da Violência no Brasil agressivo, punindo o comportamento do
Existem alguns trabalhos em Análise punidor.
do Comportamento que apresentam resul- O segundo efeito da violência seria a
tados relevantes para uma discussão sobre o generalização de sua feição, fazendo com
tema da violência no país. Essas pesquisas que estímulos neutros e até mesmo os
foram realizadas por Andery e Sério (1997), reforçadores positivos, ao serem pareados
Amorim (1999), Namo e Banaco (1999), com violência (eventos aversivos), se
Capelari e Fazzio (1999) e integram a linha transfor-massem em estímulos pré-
de investigação desenvolvida pelo Grupo aversivos ou punidores condicionados.
de Estudos Sobre Violência da PUC-SP. Alguns exemplos selecionados pelas
Alguns destes, mais relacionados ao proble- autoras em reportagens de jornal mostram
ma aqui discutido, serão apresentados a essa generalização nos comportamentos de
seguir para subsidiar a discussão final. pessoas que sofreram algum tipo de
Andery e Sério (1997) fazem uma violência no passado, e que agora relatam
análise da coerção como método preferen- sentir "medo" quando expostas a situações
cial de controle do comportamento em que sejam semelhantes às originalmente
nossa sociedade. Através do uso de prevalecentes, mesmo que em apenas
manchetes e notícias publicadas em jornais algumas propriedades.
de grande circulação (Folha de S. Paulo e O terceiro efeito que as autoras
Estado de São Paulo), identificam e fazem descrevem seria a produção de indivíduos
uma análise da presença da coerção no impotentes diante da violência, pois
cotidiano, nas questões sociais e de seus estando o indivíduo num mundo cercado
efeitos colaterais. por controle aversivo, as únicas alternativas
As autoras discutem a violência restantes seriam a fuga e a esquiva, nas
analisando o indivíduo que está sendo quais este se engajaria com uma alta
produzido na interação com o ambiente probabilidade na primeira oportunidade.
(histórico e social) e as condições presentes Desta forma, o indivíduo atribuiria a
nesta interação. Haveria um uso predomi- responsabilidade a outros e/ou manteria
nante de controle coercitivo em todas as um distanciamento do contato social. Em
relações humanas, sendo estas entre os suma, ignoraria tudo que acontece ao seu
próprios homens ou entre eles e a natureza, redor ou, por outro lado, desistiria do que
e isso faria com que não fossem conside- está à sua volta, abandonando a família, a
radas outras maneiras de relacionamento, o escola, a sociedade, etc.
que resultaria numa banalização (uso Um quarto efeito envolveria o
generalizado) da violência, refletida na contracontrole. Se puder, a pessoa
ausência de estranhamento diante de suas submetida ao controle coercitivo buscará
manifestações cotidianas. Porém, os efeitos destruir a fonte punidora, ou em casos
e conseqüências desse uso indiscriminado extremos, torna-se, ele mesmo, seu próprio
da coerção, seriam amplos e mereceriam, alvo, como no suicídio, eliminando
portanto, tratamento adequado. finalmente a estimulação aversiva.
O primeiro dos efeitos colaterais do No quinto efeito descrito por
controle coercitivo, seria subdividido em (a) Andery e Sério (1997), o uso da violência
uma necessidade de um aumento da tornaria os sujeitos mais “amargos” diante
intensidade da estimulação aversiva para da vida, pois estariam constantemente

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A “consciência” como um suposto antídoto para a violência

vigilantes, diminuindo as chances ou cadeia, na qual os mais fortes agrediriam os


mesmo impedindo a aprendizagem de mais fracos e assim sucessivamente. Os
qualquer outra coisa. Deixariam de explorar autores descrevem um trabalho experi-
o mundo, o que os limitaria a serem pessoas mental de Calhoun (1973, citado por Namo
temerosas de novidades e que só se dariam & Banaco, 1999), que relaciona patologias
conta de uma rotina preestabelecida, pois sociais a ambientes super-populosos. Este
não poderiam correr o risco de alterar a estudo traz uma possível hipótese para
estratégia que sempre os livrou das entender o fenômeno da violência nos
conseqüências aversivas. grandes centros urbanos, por serem estes,
As autoras discutem ainda que o caracteristicamente, "(...) conglomerados de
último efeito da violência seria o apa- pessoas, não tendo infra-estrutura básica
recimento de comportamentos supersti- para que se possa viver em condições
ciosos, pois as respostas que, ao acaso, mínimas de saúde física e mental" (Namo &
foram associadas com respostas de esquiva Banaco, 1999, p.195). Essa hipótese,
efetivas, seriam fortalecidas na repetição juntamente com a teoria do reforço, deveria
constante desta esquiva, mesmo em então, segundo os autores, ser considerada
situações nas quais ela não seria necessária, na análise da violência, pois
dando origem a comportamentos de difícil "(...) é mais fácil, em várias circunstâncias,
extinção e a subprodutos destes, tais como encontrarem-se culpados ou motivos que
redimam de responsabilidade instituições,
reações fisiológicas de ansiedade, medo do países, pessoas, governos. É difícil, em
contato com o ambiente físico e social, etc. contraposição, que governantes e instituições
A respeito da "consciência", Andery admitam sua incapacidade de lidar com
e Sério (1997) discutem a geração de um problemas causados, muitas vezes, pelas
relações que eles próprios estabeleceram com
duplo padrão relacionado à distribuição de
quem está se entendendo culpado pelos atos
poder na sociedade, segundo o qual, que cometeu." (Namo & Banaco, 1999, p.195).
indivíduos submetidos a controle aversivo Os autores analisaram a possível
mais do que poderiam controlar aversiva- existência de relações entre as alterações de
mente, teriam mais a perder por burlar a lei índices de violência e os fatos políticos,
do que aqueles com maiores possibilidades econômicos e sociais entre 1985 e 1995 e
de utilizá-lo. Este duplo padrão estaria que, de alguma forma, retiravam benefícios
refletido nas diferenças entre o tratamento da população. Namo e Banaco (1999)
dispensado por autoridades aos indivíduos identificam que entre 1987 e 1990, houve
de baixo e alto poder aquisitivo. uma alta generalizada nos índices oficiais
Em outro trabalho, Namo e Banaco de violência, sendo possível correlacioná-la
(1999) analisam a violência na cidade de São ao contexto do país nessas ocasiões. Em
Paulo durante os anos de 1985 a 1995, 1987, os índices obtidos refletiam a
relacionando-a aos acontecimentos sociais, realidade de 1986, quando a população
políticos e econômicos da época. Segundo estava mais pobre após dois planos
os autores, através da história, a forma mais fracassados de estabilização econômica. No
imediata de se alcançar ordenação social contexto em questão, cidadãos se engajaram
tem sido o uso de coação e punição, e estes na participação ativa dos planos
métodos mostram-se presentes nas mais econômicos e não obtiveram os reforçadores
diferentes culturas. O controle coercitivo é previstos, arcando, ainda, com o empo-
analisado como gerador de violência que brecimento que seria uma punição para o
aconteceria na forma de contra-agressão e comportamento participativo. O conceito de
por meio de uma espécie de reação em incontrolabilidade, proposto na teoria

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comportamental, aponta para efeitos como autores discutem o aumento do número de


agressão e depressão resultantes de respos- civis mortos por PMs, que, dada a
tas que não foram reforçadas (extinção) ou proporção em relação aos outros números,
foram punidas, num esquema em que deveria apontar um aumento da eficiência
nenhuma resposta seria capaz de modificar da polícia e conseqüentemente, uma
as contingências coercitivas em vigor diminuição da criminalidade, que, por sua
(Catania, 1999). vez, não ocorre, segundo os dados. Outros
Os autores trabalham também com números mostram a morte de 111 presos
uma outra hipótese alternativa à incontro- dentro do Presídio do Carandiru em São
labilidade. Esta hipótese refere-se à Paulo; a chacina de Vigário Geral, na qual
privação, tanto de reforçadores primários 21 pessoas foram mortas por homens
(comida, sexo, descanso, etc.) quanto de encapuzados, e a chacina da Igreja da
reforçadores condicionados generalizados Candelária, na qual oito crianças de rua
(dinheiro, bens de consumo, etc.). A foram mortas por policiais, ambas no Rio de
privação, sendo também uma forma de Janeiro, em 1993.
agressão aos que são submetidos a ela O aumento registrado da violência
(através do desemprego, falta de segurança, foi tal que a própria expectativa de vida do
etc.), poderia ser então relacionada aos brasileiro chegou a diminuir de 66 para 65
crimes que objetivam a obtenção de bens anos. Ela (a violência), é a causa de 70% das
materiais e também a contra-agressão à mortes de homens entre 15 e 29 anos, que
comunidade, como os saques seguidos de cresceu 51%, e destes, 54% foram causadas
depredação ocorridos na cidade de São por assassinatos. Esses números principais
Paulo em ocasião de um dos planos atestam, segundo Namo e Banaco, "(...) a
econômicos citados (Namo & Banaco, 1999). incompetência da sociedade em lidar com
Em 1990, com a eleição direta do Presidente os ‘desajustados’, que podem ser iden-
Fernando Collor de Melo, a mesma análise tificados pelos presidiários, doentes mentais
aplicada aqui foi feita pelos autores, visto e pobres" (p. 204). Por fim, concluem que o
que as promessas de mudança e do fim da procedimento em relação à violência
inflação não se concretizaram, além do alto deveria ser mudado; afinal, reforçadores
custo pago pelos cidadãos de terem suas imediatos são mais poderosos do que a
economias retiradas pelo Governo, o que longo prazo, sendo mais fácil imobi-
acabou por agravar a pobreza, o lizar/isolar os problemáticos do que
desemprego e a desigualdade social. Consi- investir a longo prazo em soluções reais
derando-se o crescimento da população, para o problema, como estruturas que
que foi de 20% de 1985 a 1995, índices como diminuam o surgimento de diferenças
o furto, diminuíram 8%; os roubos sociais.
cresceram 21%; os homicídios dolosos Como já mencionado, parte do
aumentaram 109%; furto e roubo de aumento identificado poderia ser atribuído
veículos subiram 87%. Roubos a instituições ao desenvolvimento de sistemas de
financeiras (de 1984 a 1992) subiram 44%; informação mais amplos e precisos sobre a
índices que também se referem ao período violência no país, o que não comprometeria
de 1984 a 1992, como o de civis mortos por a conclusão dos autores de que prevalece
PMs que subiu 282% e de PMs mortos por hoje uma situação urgente a ser enfrentada,
civis, que aumentou 25%. Pelos índices, venha ela aumentando como indicam os
observa-se um aumento nos episódios índices ou não.
violentos registrados nesse período. Os

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A “consciência” como um suposto antídoto para a violência

Um outro trabalho que também essas condições. Ademais, esse conheci-


aborda a violência com base na Análise do mento poderá contribuir para esclarecer as
Comportamento, embora desvinculado do variáveis de controle do comportamento
grupo de estudos mencionado no início violento em outros contextos, ressalvadas as
desta seção, merece ser considerado, em especificidades destes.
decorrência de sua importância. Trata-se de
um programa de intervenção, que também 7- Diagnóstico e Tratamento da Violência:
envolve a pesquisa como um de seus Considerações Finais
objetivos, iniciado em 1988 e voltado para a
área de violência doméstica (Williams, Em 2000, o então Ministro da Justiça
2001). Originou-se no Laboratório de do governo Fernando Henrique Cardoso,
Análise e Prevenção da Violência José Gregori, sugeriu, entre outras coisas,
(LAPREV), vinculado ao Departamento de que a falta de consciência do cidadão
Psicologia da Universidade Federal de São comum estaria na base do aumento da
Carlos - São Paulo (UFSCar). O programa violência no país e seu estabelecimento
tem contado desde então com a participação (tomada de consciência ou conscientização)
de estagiários do curso de graduação em seria a solução para reduzi-la. O caso foi
Psicologia, sob a forma de prestação de tomado apenas como exemplo de como o
atendimento psicológico a vítimas de modo explicativo mentalista, adotado
violência, junto à Delegacia em defesa da majoritariamente para explicar as relações
Mulher de São Carlos. Williams (2001) cotidianas, pode produzir um efeito
descreve como sendo os objetivos do particularmente nocivo quando passa a
programa: a) realizar uma análise das servir de base confiável para diagnosticar
múltiplas variáveis responsáveis pelo problemas sociais e para orientar políticas
vínculo da mulher ao parceiro com públicas de intervenção.
persistência, mesmo em casos de ela ser De um ponto de vista analítico-
vítima de violência por parte deste, e das comportamental, a consciência não seria um
variáveis geradoras da tomada de decisão, determinante autônomo interno da ação dos
ao longo do processo terapêutico, pela indivíduos. Não poderia ser a causa do
separação; b) oferecer consultoria a aumento da violência (ausência) e nem de
profissionais atuantes na área de violência; sua solução (presença). Mais do que isso, a
c) formar psicólogos para intervenção na consciência estaria entre os produtos da
área de violência doméstica; d) implementar própria violência, entendida como uma
pesquisa nessa área. Além do âmbito de forma de interação coercitiva entre o
graduação pelo qual o LAPREV se articula à indivíduo e a sociedade. Seria apenas mais
UFSCar, o grupo abarca a pós-graduação um dos repertórios de esquiva (auto-
(em educação especial). Esses vínculos são controle) gerados por certas práticas
importantes na medida em que possibilitam culturais (Sidman, 1989/1995 e Skinner,
condições propícias ao desenvolvimento de 1957/1992). Poderia ser entendida também
pesquisa na área da violência doméstica, como "ser capaz de descrever o que se está
com a probabilidade crescente de produção fazendo" e "porquê", identificando as
de conhecimento útil acerca das condições variáveis de controle (racionalidade)
sob as quais ocorre o comportamento (Skinner, 1974/1976). Nesse sentido, a
violento nesse contexto e, conseqüente- consciência seria um repertório compor-
mente, a programação de ações de tamental a ser explicado e não uma
intervenção passíveis de alterá-lo, mudando explicação última para as demais ações. O

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exercício da consciência como agora (legais ou ilegais). A posição social (status)


definida aponta para uma direção bem define-se pela riqueza e por níveis de
consumo. O sistema competitivo valoriza
diferente da sugerida pelo modelo aqueles que fazem aquisições, ainda que às
mentalista adotado por Gregori. Nesse expensas de outros. Há diferenças de
último, a responsabilidade pelos problemas privação e de acessibilidade que explicam as
acabaria por recair sobre as próprias diferenças de classes nos crimes. O pobre e o
desempregado não têm oportunidade de
pessoas mais diretamente afetadas por eles,
sonegar impostos ou de dar desfalques. O
ou melhor, recairiam sobre as capacidades nível de suas necessidades básicas força-os a
internas inferidas que supostamente cometer os crimes de rua, mais perigosos,
estariam ausentes nessas pessoas. porém acessíveis, que são públicos e,
O que seria a violência? Em última conseqüentemente, resultam, com maior
freqüência, em prisão. Pessoas com melhores
análise, seria um conjunto de relações condições sócio-econômicas não precisam se
organismo/ambiente (comportamentos) en- envolver em pequenos furtos. Seus crimes
volvendo algum tipo de função coercitiva. são mais seguros e podem ocorrer na
Quem administra a maior parte das privacidade de seus lares ou escritórios." (p.
66-67).
contingências em vigor para um grupo? O
Governo, que seria a principal agência de
No Brasil, as políticas econômicas
controle e se utilizaria amplamente de
implantadas, aliadas a uma ausência de
coerção para estabelecer e manter certos
estratégias amplas, sistemáticas, racionais e
padrões comportamentais. Entenda-se Go-
efetivas de curto e longo prazo em
verno como um conceito que abarcaria as
educação, saúde, habitação e saneamento,
instâncias de poder dos Municípios, Estados
impedem que a maior parte da população
e da União. Contudo, o Poder Executivo
tenha acesso aos reforçadores primários e
Federal afeta, direta ou indiretamente, os
secundários (especialmente os continua-
demais. Ele é responsável pelas contin-
mente anunciados como indispensáveis
gências mais globais que afetam pra-
pelos mais diversos meios de propaganda).
ticamente todos os membros do grupo. O
Além dos trabalhos interpretativos
Governo Federal representaria esse poder
realizados por Andery e Sério (1997) e
principal no Brasil hoje. As chamadas
Namo e Banaco (1999), há alguns dados
variáveis macroeconômicas, as políticas
recentes esclarecedores sobre a situação no
nacionais (ou ausência delas) de educação,
país. Dimenstein (2000b) aponta, por
saúde e cultura, o planejamento de uma
exemplo, um igual crescimento dos índices
infra-estrutura eficiente de um país, entre
de desemprego na faixa de 15 a 24 anos e
outras, seriam suas atribuições diretas. A
dos números de homicídios ocorridos na
privação socialmente imposta é uma forma
região metropolitana de São Paulo: ambos
de coerção, e o Governo Federal a tem
cresceram sete vezes nos últimos vinte anos.
aplicado de forma generosa por décadas.
Coincidência? Não há uma demonstração
Holland (1978/1983), falando da
relacional direta entre os eventos, mas o alto
situação dos EUA nos anos 1970, sugere que
padrão correlacional aconselharia ao menos
as razões econômicas parecem estar na base
uma investigação mais cuidadosa da
da quase maioria dos crimes:
"Tanto pobres quanto ricos cometem atos hipótese.
ilegais em busca de vantagens econômicas. Outro dado publicado na Folha de
Nossa sociedade é acentuadamente São Paulo em 16 de Julho de 2000 indica que
estratificada e em qualquer nível há uma luta doenças provocadas pela falta de
para aumentar a posição social e a felicidade,
saneamento básico mataram, no país inteiro,
através de esforços competitivos individuais

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A “consciência” como um suposto antídoto para a violência

em 1998, 10.844 pessoas. Dessas mortes, seqüestrar o tal ônibus (uma honrosa
53% eram crianças até 4 anos de idade. Para exceção foi o artigo "Guga poderia virar um
se ter idéia do que isso significa, esses assassino?" de Dimenstein, 2000c). Esta tem
números superam o total de homicídios sido, em geral, a atitude da imprensa, ao
naquele mesmo ano na Grande São Paulo fazer cobertura de eventos criminosos:
(10.116 mortes violentas). O Plano Nacional omissão da informação pertinente que leve
de Segurança, criado às pressas no ano 2000 à causa ou às causas reais do crime. A
para supostamente combater efetivamente a imprensa procede de forma diferente, em
violência, previa 755 milhões de reais além casos excepcionais, como foi constatado em
dos recursos já orçados para o setor naquele relação ao artigo citado, e isso é louvável.
ano. Em comparação, "(...) Até junho [de Aquele rapaz foi satanizado e raras foram
2000], todos os projetos de saneamento do as menções de que ele foi uma das crianças
país juntos haviam recebido apenas 0,33% que sobreviveram à "Chacina da
dos recursos previstos no orçamento, Candelária", alguns anos antes. Apesar da
segundo dados oficiais" (Dimenstein, 2000a, repercussão internacional daquele crime, a
p.C1, colchetes acrescentados). Esse criança pôde seguir tranqüilamente seu
orçamento foi cortado, passando de 1,16 caminho de abandono nas ruas para exercer
bilhões, para 233 milhões de reais. Em 1999, seu último papel dessa lamentável, evitável
o Governo Federal gastou apenas 9,46% dos e vergonhosa tragédia em horário nobre.
valores previstos para o setor, naquele Os comportamentos violentos são
período. gerados por ambientes coercitivos. A
A violência não é causa, é produto. punição é usada para tentar, por definição,
Se, numa cadeia de eventos longa, complexa reduzir a freqüência desses padrões. Mas
e de difícil visibilidade (inclusive, por sua tais padrões foram gerados previamente e
dimensão histórica), for observado apenas continuam a ser gerados. O combate à
um fragmento com dois elos, um deles, em violência por meio do aumento e eficiência
geral o antecedente, tomará a função das vias de repressão mascara o problema
explicativa do outro por mera contigüidade. original: De onde vêm os marginais? Qual a
O todo será perdido pela tomada simplista gênese de um crime? Qualquer combate
dos eventos imediatamente disponíveis ao sério ao problema deveria começar com um
exame. As discussões realizadas na amplo e rigoroso diagnóstico dos diferentes
imprensa escrita e televisiva gastam uma tipos de crime, suas fontes e suas variáveis
parte significativa do tempo argumentando ambientais históricas e imediatas de
a necessidade de uma política eficiente de controle. Esse mapeamento funcional deve-
punição, como uma maior agilidade da ria ser usado para uma política preventiva,
justiça e uma polícia mais numerosa, bem na qual mudanças reais e profundas nos
preparada e equipada para coagir os crimes. arranjos sociais e econômicos fossem imple-
Durante o trágico episódio do seqüestro do mentadas. Leiam-se: melhores condições de
ônibus 174 em 12 de junho de 2000 no Rio saúde, educação, emprego, moradia, sanea-
de Janeiro, que acabou com a morte de uma mento básico, lazer, etc. para todos.
professora e o assassinato por asfixia do Funcionalmente, acesso aos reforçadores
seqüestrador pelos policiais de elite, a primários e condicionados disponíveis em
chamada opinião pública centralizou a um grupo.
discussão na incompetência explícita das Mas, então, por que ainda se recorre
forças policiais, mas poucos se perguntaram a explicações como consciência para tratar
as razões que teriam levado aquele rapaz a de assuntos tão graves e gritantemente

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Marcus Bentes de Carvalho Neto - Ana Carolina Pereira Alves
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externos? Holland (1978/1983) fez uma entre ambas. Desse ponto de vista, mudar o
sugestão: comportamento implicaria mudar o mundo
“O mito das causas internas é alimentado (e não apenas representações internas sobre
devido ao reforçamento fornecido à elite e ele). A análise comportamental entendida
também ao papel que ele desempenha na
manutenção do presente sistema. As pessoas desse modo parece estar irremediavelmente
que ocupam alta hierarquia no poder vinculada a um engajamento político e
afirmam que atingiram essa posição elevada social, pois o seu diagnóstico conduzirá a
devido a um grande mérito pessoal. Os ricos um intrincado conjunto de relações entre
têm liberdade de usar seus recursos internos,
contingências filogenéticas, ontogenéticas e
sua vontade, determinação, motivação e
inteligência de forma a alcançarem seu alto especialmente no caso do ser humano,
nível. As causas internas servem como sociais/culturais (Luna, 1981). O ambiente
justificativa para aqueles que tiram mais relevante para a compreensão do ser
proveito da desigualdade. Aos pobres é
humano envolve outros seres humanos e
reservado um conjunto especial de causas
internas. Diz-se que eles são preguiçosos, seus produtos. Envolve, portanto, práticas
sem ambição, sem talento. Aqueles que sociais administradas por agências
extraem o máximo de nosso sistema social controladoras. O ambiente do qual o
podem considerar punitivo encarar sua boa
behaviorista tanto fala seria, então, o
sorte como resultado de um sistema que
explora as pessoas menos privilegiadas e cultural. Fazer behaviorismo seria fazer,
que cria a pobreza e a infelicidade. (...) E é mesmo que indiretamente, política.
especialmente importante para os que Implicaria desvelar controles culturais e
‘estão por cima’, convencer aos que estão
determinações sociais sutis. Seria indicar
em posições inferiores que eles próprios
são os culpados das suas dificuldades.” caminhos alternativos que levariam a
(p.69, negrito acrescentado). implementações de mudanças estruturais
na sociedade. As contribuições que
Uma análise behaviorista radical poderiam ser feitas nesse sentido ainda são
implica olhar para o mundo concreto tímidas e incompletas diante principal-
público na busca das explicações para as mente da complexidade enfrentada, mas
ações igualmente reais e concretas das não parece haver outra alternativa partindo-
pessoas (públicas ou privadas). Isso vale se dos princípios partilhados nesta abor-
tanto para a análise da consciência e da dagem.
violência, como para a análise da relação

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Recebido em: 23/11/2005


Primeira decisão editorial em: 19/03/2007
Versão final em: 29/10/2007
Aceito para publicação em: 23/04/2007

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