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CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Jones, Ernest, 1879-1958


f942j A vida e a obra de Sigmund Freud/ Ernest Jones; tradução
3 v. de Júlio Castafion Guimarães. - Rio de Janeiro: Imago Ed.,
1989.

(Série Analytica)

Tradução de: The life and work of Sigmund Freud.

Conteúdo: v.l. Os anos de formação e as grandes desco­


bertas (1856-1900) - v.2. A maturidade (1901-1939) - v.3.
Última fase (1919-1939).

ISBN 85-312-0030-X (obra completa) - 85-312-0031-8


(v.1)- 85-312-0032-6 (v.2)- 85-312-0033-4 (v.3)

1. Freud, Sigmund, 1856-1939. 2. Psicanálise. I. Título. II.


Série.

CDD-921.3
150.1952
CDU- 92 FREUD, S.
89-0003 92:158.964.2
ERNEST JONES

A VIDA E A OBRA DE
SIGMUND FREUD
VOLUME2

A MATURIDADE
1901-1919

(Série Analytica)

Direção de

JA YME SALOMÃO

IMAGO EDITORA
- Rio de Janeiro -
Título Jriginal
The life and work of Sigmund Freud

Copyright© 1953, 1955, 1957 by Ernest Jones


Copyright© 1981 by Mervyn Jones
Published by arrangement with Basic Books, Inc.,
New York, N.Y., U.S.A.
Copirraite da Tradução© Imago Editora, 1989

Coordenação e Revisão Técnica: Dr. Jayme Salomão


Produção editorial: Celso Fernandes
Tradução: Júlio Castaõon Guimarães
Copidesque: Paula Maria Rosas
Revisão: Pedrina Ferreira Faria,
Angela G. Castello Branco e
Carlos M. de S. Neto.
Capa: Jorge Cassol

Direitos adquiridos por IMAGO EDITORA LTDA.


Rua Santos Rodrigues, 201-A - Estácio
CEP 20250 - Rio de Janeiro - RJ
Tels.: 293-1092 - 293-1098

Todos os direitos de reprodução, divulgação e tradução são reservados.


Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida por fotocópia,
microfilme ou outro processo fotomecânico.

Impresso no Brasil
Printed in Brazil
A Anna Freud,
verdadeira filha de um pai imortal
SUMÁRIO

Prefácio l'l

Parte 1 - Vida

I A Saída do Isolamento (1901-1906) 19


II ·o Início do Reconhecimento Internacional (1906-1909) 42
III A Associação Psicanalítica Internacional (1910-1914) 80
IV Oposição 118
V Dissensões 136
VI O Comitê 161
VII O Período da Guerra 177

Parte 2 - Obra

Vlli Exposições 216


IX Contribuições Técnicas 233
X Contribuições Clínicas 247
XI Casos Clínicos 260
XII A Teoria da Libido 286
XIII Contribuições Teóricas 312
XIV Aplicações Não-Médicas da Psicanálise 333

Parte 3 - O 1-l:omem

XV Hábitos de Vida e de Trabalho 376


XVI Caráter e Personalidade 399
Apêndice 430
Cronologia 453
Índice das Abreviaturas de Títulos 456
Notas de Referência 457
Índice 478
ILUSTRAÇÕES

a partir da pág. 272

Sigmund Freud, 1906, aos 50 anos


Grupo de Worcester, Massachusetts, setembro de 1909: A.A. Brill,
Ernest fones, Sandor Ferenczi, Freud, Stanley Hall, C.G. Jung.
Sigmund Freud, 1913, aos 57 anos. Desenho de John Philipp.
Congresso de Weimar, setembro de 1911.
Sandor Ferenczi, 1913
Karl Abraham, 1912
Ernest fones, 1920
Otto Rank, 1924
Hanns Sachs, 1914
Max Eitingon, 1922
Ernst Freud, Martin Freud e Sigmund Freud, Salzburg, agosto de 1916
Sophie e Martha Freud, cerca de 1912
Minna Bernays, cerca de 1912
Consultório de Freud em Viena
Escritório de Freud em Viena
PREFÁCIO

A ÉPOCA QUE AQUI É ABORDADA PODE PERFEITAMENTE SER CON­


siderada como a maturidade de Freud. Ele tinha superado quaisquer inibi­
ções pessoais e corrigido enganos anteriores. Aperfeiçoara os instrumen­
tos de pesquisa que tinha idealizado e agora se encontrava livre para utili­
zá-los na exploração detalhada do novo mundo de conhecimento que eles
lhe tinham aberto - em uma palavra, o Inconsciente. As perplexidades da
juventude já tinham passado e a elas sucederam urna maior serenidade e
um julgamento mais crítico.
A vida emocional de Freud estava agora bem mais contida do que ti­
nha sido anteriormente. A agitação do passado tinha amainado bastante,
,. embora viesse a dar sinais de reemergir, sob forma intelectual, durante
a 1Htima fase de sua vida; e os acontecimentos, inclusive as relações pes­
soais, não o atingiam tão de perto como em épocas anteriores. Sua vida
interna, que não continha segredos, absorvia-se em um maior desenvolvi­
mento e aplicação das idéias que já havia formulado, enquanto sua vida
externa prosseguia harmoniosamente aos olhos do público, ou pelo menos
de um considerável círculo.
O problema técnico que julguei mais incômodo no presente volume
foi o da extensão das obras de Freud, pois afinal esta biografia pretende
tratar tanto de sua vida quanto de sua obra. Todavia, os textos desse pe­
ríodo são tão conhecidos e tão acessíveis, tanto no original quanto em
numerosas exposições a seu respeito, que pareceria inútil oferecer mais
uma exposição. Sempre sustentei que a obra de Freud é mais bem com­
preendida se estudada cronologicamente, embora isso se aplique mais
particularmente a seus textos iniciais. Poder-se-ia pensar que seria melhor
que a exposição sobre as obras desse período se fizesse interligada com a
cronologia de sua vida, na esperança de que o desenvolvimento de suas
idéias pudesse então ser acompanhado de modo mais exato. Mas, quanto a
isso, devo observar que as obras em questão representam muito mais um
desdobramento firmemente progressivo de suas idéias, com ramificação
das aplicações, do que urna grande etapa de um novo desenvolvimento.

-11 -
Isso iria ocorrer mais uma vez no último período de sua vida. Assim, de­
pois de muito refletir, penso que estarei fazendo o melhor por meus leito­
res ao agrupar de novo os temas, como no primeiro volume, sob títulos
distintos, sendo depois o conteúdo de cada uma exposto cronologicamen­
te. Toma-se possível considerar vários tópicos como um todo e observar
os desenvolvimentos que ocorrem, por exemplo, nas questões de técnicas,
teoria, etc., de uma maneira mais ordenada do que se cada item fosse in­
terposto no meio da história getal de sua vida; esta contém apenas uma
breve menção aos textos produzidos a cada ano. Além do mais, procurei
facilitar a leitura desse material conhecido selecionando apenas os pontos
altos de cada ensaio, acrescentando meus conhecimentos sobre as cir­
cunstâncias e datas de sua produção e citando comentários feitos pelo
próprio Freud sobre os vários trabalhos.
Naturalmente, as exposições condensadas aqui apresentadas não pre­
tendem substituir, especialmente para estudiosos sérios, as exposições
mais completas, encontráveis em outros trabalhos. Aqui também não há
necessidade de reproduzir a meticulosa Bibliografia dessas exposições
que o Sr. Strachey está preparando para a Standard Edition das obras de
Freud. Alguns dos assuntos discutidos por Freud nesse período, em espe­
cial os referentes a religião, serão abordados de forma mais extensa no
terceiro volume desta biografia.
Cabem aqui mais algumas observações sobre as obras de Freud desse
período. Em seu conjunto, dividem-se em três grupos gerais. Houve, em
primeiro lugar, vários trabalhos ocasionais, escritos a pedido ou para pre­
encher lacunas na agenda da Sociedade ou nas páginas de seus periódi­
cos; vários deles, em especial "Considerações sobre a Guerra", são de
interesse permanente. A seguir, houve os trabalhos inseridos em sua evo­
lução intelectual: a mudança teórica ocorrida com a concepção do narci­
sismo e, acima de tudo, os cinco artigos sobre metapsic-ologia que arre­
mataram uma época. Por último, houve uns poucos textos não-médicos
sobre temas que lhe diziam respeito pessoalmente, tais como seus livros
sobre Leonardo e totemismo, que abriram perspectivas ainda mais amplas
que os artigos psicológicos mais técnicos.
O material biográfico disponível para o presente volume é muito
maior do que aquele que serviu para o volume anterior. Não apenas temos
muitos relatos de testemunhas oculares, como a família de Freud, amigos
e alunos, como também tenho à minha disposição umas cinco mil cartas
de sua correspondência. Nesse período ocorreu apenas um holocausto da
correspondência, na primavera de 1908, quando Freud fez mudanças em
sua casa. As correspondências mais valiosas são as de Freud com Abra­
ham, com Ferenczi, com Jung e comigo; felizmente, foram preservadas as
cartas das duas partes, tornando assim mais inteligíveis várias alusões. O
número de cartas da correspondência que se acabou de mencionar é, res-

- 12-
pectivamente, o segumte: 495 (sendo 220 oe Freud); 1.234 (sendo 547 de
Freud); 368 (sendo 171 de Freud); e 1.347 (sendo 656 de Freud). As viú­
vas de meus amigos Karl Abraham, Max Eitingon e Sandor Ferenczi, de­
pois da morte destes, colocaram sua correspondência à minha disposição;
o inventariante da produção escrita de Ferenczi, Michael Balint, bondo­
samente organizou e tornou acessível o material em sua posse, o mesmo
tendo feito Hilda Abraham. O Professor Jung generosamente permitiu o
acesso à sua extensa correspondência com Freud. Pfarrer Pfister também
gentilmente permitiu-me ler sua correspondência muito interessante. Mar­
cando com um asterisco as cartas que Freud escreveu em inglês, distin­
guiu-as daquelas que foram traduzidas. Não me aventurei a emendar sua
gramática inglesa; se alguém começasse a fazer tais melhorias, acabaria
desfigurando o estilo original. Deixei até mesmo o "yours truly"* de
Freud nas cartas onde em alemão ele teria escrito "Ihr getreuer" (seu
verdadeiramente). Ernst Fedem e Hermann Nunberg permitiram-me ler a
valiosa coleção, que se encontra em sua posse, das Atas da Sociedade
Psicanalítica de Viena de 1906 a 1914. Li as cartas de Brill a Freud, mas
o primeiro estipulou, em seu testamento, que as cartas de Freud para ele
só poderiam ser lidas cinqüenta anos depois. Além dessas fontes, há um
grande número de cartas escritas para as mais diversas pessoas, pois
Freud era um correspondente incansável e respondia fielmente a todas as
cartas que lhe eram enviadas. Sou grato às várias pessoas que me envia­
ram essas cartas e àquelas que me ajudaram de muitos outros modos. De­
vo destacar em especial os nomes de Anna Freud, Marie Bonaparte, Kurt
Eissler, Edward Hitschmann, James Strachey, Alfred von Winterstein e,
naturalmente, minha cara esposa. Expresso também minha gratidão à Bol­
lingen Foundation pelo subsídio que facilitou materialmente o preparo
deste volume.

* Yours truly- "Sem atenciosamente" (N. do T.)


- 13 -
Feliz é aquele que pode alcançar as causas das coisas,
Pois assim domina todo medo e é posto acima do destino.
Alfred Noyes, a partir de Virgílio

-15 -
PARTE
1
VIDA

-17-
I

A SAÍDA DO ISOLAMENTO
(1901-1906)

EM 1901, FREUD, AOS 45 ANOS, ALCANÇOU A C OMPLETA MATURIDA­


de uma consumação do desenvolvimento que poucas pessoas atingem
realmente. Em termos intelectuais, ele fora bastante precoce, mas o equi­
llbrio na esfera emocional fora conquistado de forma muito mais lenta.
Durante pelo menos vinte anos, certamente a partir da época em que se
apaixonou, aos 26 anos, houve contínuos períodos de inquietação, incer­
teza, instabilidade e distúrbios ainda mais definidamente neuróticos. Uma
profunda autoconfiança fora mascarada por estranhos sentimentos de infe­
rioridade, mesmo na esfera intelectual, e ele tentara enfrentá-los projetan­
do seu senso inato de capacidade e superioridade em uma série de mento­
res, dos quais então curiosamente se tomou dependente para reafirmar-se.
Assim, idealizou seis figuras que desempenharam importante papel no iní­
cio de sua vida: Brücke, Meynert, Fleischl, Charcot, Breuer e Fliess, ten­
do todos sido bons amigos seus. Os quatro primeiros morreram no início
da década de 1890-1900, antes de Freud ter publicado qualquer coisa de
psicopatologia. Um deles, o altamente neurótico Meynert, no final volta­
ra-se contra Freud, enraivecido com a defesa do hipnotismo por Freud. Os
dois últimos, que Freud teve em altíssima conta por vários anos, abando­
naram-no, para seu grande desapontamento, quando persistiu em seu mal­
visto trabalho sobre sexualidade.
Em 1897, embarcou, inteiramente s6, no que sem dúvida foi o grande
feito de sua vida. Sua determinação, coragem e honestidade fizeram dele
o primeiro ser humano não apenas a entrever sua própria mente incons­
ciente - predecessores com freqüência tinham chegado a esse ponto -,
mas na verdade a penetrá-la e explorar suas prof undezas remotas. Esse
feito imorredouro o colocaria em posição única na história. Mas três ou

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quatro anos de lutas hercúleas com essas poderosas forças da mente, que
tão energicamente resistem a tal empenho, trouxeram sua recompensa. Ele
obteve a compreensão e o conhecimento que tornaram possível a obra de
sua vida, em virtude da qual seu nome se tornou famoso. Mas isso foi du­
ramente conquistado: no primeiro volume desta biografia já se deu uma
idéia da dor e dos sofrimentos que a grande realização de Freud lhe
custou.
De importância mais imediata para ele era a melhora da harmonia
mental, da integração de sua personalidade, o que lhe permitiria abrir ca­
minho através das várias tempestades, pressões e tribulações que viriam
pela frente - se não com equanimidade, pelo menos com inabalável forta­
leza. É verdade que nenhuma psicanálise, por mais implacavelmente de­
senvolvida, pode resolver completamente os conflitos inconscientes mais
profundos, mas tudo o que em anos posteriores ficou das antigas pertur­
bações de Freud foram umas poucas idiossincrasias pessoais, que mais
adiante teremos oportunidade de comentar, e alguns incômodos distúrbios,
provavelmente de natureza "psicossomática", no f uncionamento de seus
órgãos alimentares - muito pouco para dar idéia dos anos de tumulto
mental por que ele passara.
Quanto ao campo intelectual, houve muito o que registrar em relação
ao último quarto de século. Sob a influência de Brücke e Meynert, Freud
realizara um trabalho notável no campo da neurofisiologia. Por meio de
engenhosos e delicados métodos, finalmente estabelecera alguns dos
pontos mais difíceis da anatomia microscópica da área da ponte do cére­
bro. Mais importantes foram as contribuições que fez para a teoria da
evolução ao determinar o modo como os gânglios nervosos espinais e al­
guns dos sensórios (e sensoriais) cerebrais emergem do sistema nervoso
central para seus sítios adjacentes exteriores. Além do -mais, assinalara a
natureza unitária do neurônio, conclusão que é o fundamento de toda a
neurofisiologia posterior, embora estivesse reservado a outro neurologista,
Waldeyer, cunhar-lhe esse nome. Por meio de um estudo bastante abran­
gente, Freud chamou a atenção dos meios médicos para o valor medicinal
da cocaína, mas foi um amigo seu, a quem dera a idéia, que obteve o cré­
dito por seu principal emprego - anestesia locaL Assim, deixou em duas
ocasiões de alcançar a fama por pouco, ambas quando contava pouco mais
de vinte anos.
Todo esse trabalho ocupara cerca de sete anos. Depois dele, a neces­
sidade de ganhar a vida e manter uma família levara-o à prática clínica da
neurologia. Não gostava dessa ocupação, mas se tomou um neurologista
clínico competente e em um setor, o das paralisias infantis, era a principal
autoridade européia. Muito contra sua inclinação, teve de continuar a es­
crever monografias sobre esse assunto até 1897, que podemos considerar
o fim de seu período neurológico. Todavia, seu ponto alto nesse período

-20-
se deu em 1891, quando publicou um livro notável e original, Sobre a
Afasia,ª que de vários modos prenunciava as teorias psicológicas que em
breve ele desenvolveria.
Como ocorre com a maioria dos neurologistas, os clientes particulares
de Freud eram, em grande parte, pacientes neuróticos. Para ser bem-suce­
dido, ele tinha, portanto, de dar especial atenção à terapia. Depois de
tentar os métodos mais convencionais da época, começou, em fins de
1887, a empregar o hipnotismo, de que tivera alguma experiência na clí­
nica particular de Obersteiner, onde trabalhara por algum tempo em 1885,
e ainda quando pouco depois estudou sob a orientação de Charcot. Toda­
via, alguns meses desse monótono tratamento começaram a aborrecer
Freud; o que ele queria era compreender algo sobre o significado e a fonte
dos sintomas neuróticos. Então, lembrou-se, com algum atraso, de uma
experiência que Breuer lhe relatara cerca de sete anos antes. Tratava-se
do método "catártico" de tratamento que Breuer aprendera com sua famo­
sa paciente Anna O. Isso levou à colaboração com Breuer, tendo os dois
publicado em 1895 um livro que marcou época, intitulado Estudos sobre a
Histeria. Breuer, no entanto, não podia acompanhar Freud nas conclusões
que este estabelecia quanto à causação sexual dos distúrbios neuróticos, e
os velhos amigos começaram a se afastar. Para sua grande surpresa, e
contra suas tendências puritanas pessoais, Freud se via mais e mais com­
pelido pelos resultados de suas investigações a dar importância aos fatores
sexuais na etiologia - e os dez anos seguintes apenas confirmaram e am­
pliaram suas conclusões. Não se tratava de descoberta súbita e, a despeito
do que seus opositores sugeriram, era absolutamente desvinculada de
quaisquer preconcepções. Apenas muito gradualmente e-como nos pare­
ce agora - lentamente, Freud se convenceu do peso dos fatores sexuais e
do amplo papel que desempenham na vida mental inconsciente. Foi de
maneira curiosamente invertida que tomou conhecimento da importância
da sexualidade no início da infância e de sua natureza essencialmente in­
cestuosa, idéias que desencadearam uma tempestade em sua cabeça. Pri­
meiro aceitou as histórias de seus pacientes quanto às investidas sexuais
dos pais, a eles dirigidas quando eram crianças, mas veio a compreender
que as histórias eram simplesmente fantasias derivadas da própria infância
de seus pacientes.
Na década de 90, Freud escreveu vários artigos sobre esses assuntos
e indicou os complicados mecanismos de distorção que impulsos proibi­
dos sofrem quando mantidos fora da consciência por "repressão". E no
último ano do século foi publicado seu opus magnum, A Interpretação
dos Sonhos, sem qualquer dúvida a maior obra de Freud, contendo os
germes de toda sua obra posterior. Sua importância reside não apenas no
interessante fato de finalmente solucionar o velho enigma da vida onírica,
mas muito mais na capacidade de Freud de, por meio desse estudo parti-

-21-
cular, expor a até então desconhecida natureza da mente inconsciente com
todas as suas peculiaridades. O resto de sua vida seria dedicado a ampliar
detalhadamente esse conhecimento e a preparar as numerosas formas co­
mo ele pode ser usado para iluminar, de todos os modos, aspectos ante­
riormente obscuros da vida humana.

Por alguns anos - segundo ele, dez - Freud sofrera muito de solidão in­
telectual, aliviada apenas parcialmente pelo contato afetuoso de sua famí­
lia e da vida social. Não havia ninguém com quem pudesse discutir suas
novas descobertas, exceto, até certo ponto, com sua cunhada Minna Ber­
nays e, por correspondência e em encontros ocasionais, com seu grande
amigo Wilhelm Fliess, rinologista de Berlim. Foram anos do que mais tar­
de chamou de "esplêndido isolamento" ; aparentemente, foi Fliess quem,
para consolar seu amigo pela profunda solidão, adotou essa expressão de
Goschen, que Lorde Salisbury empregava para designar a política externa
britânica naquela época. 2
Freud posteriormente falou das vantagens desse período: 3 a total au­
sência de competição ou de "opositores mal informados", o fato de não
lhe ser necessário ler ou confrontar uma extensa literatura, como em seu
período neurológico, já que nada existia no novo campo que estava sendo
aberto por ele. Em seu comentário, ele certamente idealizou essa época:
"Quando olho para esses anos solitários, a partir da confusão e devasta­
ção do presente,b parece-me ter sido uma bela e heróica era". Os sofri­
mentos e contratempos que então suportou, como vemos na correspondên­
cia com Fliess, estavam agora aparentemente esquecidos ou então oblite­
rados em um róseo retrospecto. Talvez o principal resultado de suas dolo­
rosas experiências nesses dez anos tenha sido o de qu_e neles Freud de­
senvolveu ou consolidou uma atitude mental que permaneceria como uma
de suas características mais distintivas: independência em relação à opi­
nião de outras pessoas. Aprendera a estar só no mundo e, depois de rom­
pida a amizade com Fliess, realmente só.
Quando os dez anos chegaram ao fim? Como vários acontecimentos
na vida de Freud, a saída do isolamento foi um processo gradual. Um nú­
mero cada vez maior de resumos de seus textos apareciam nos periódicos
psiquiátricos, o que no final da primeira década do século se transformou
numa enxurrada de longas resenhas, algumas vezes com centenas de pági­
nas. Desde o início parecera haver sinais de interesse por seus métodos,
principalmente nos países anglo-saxões, mas a maioria deles parecia não
ter chegado a seu conhecimento. Alguns artigos solidários foram publica­
dos na Alemanha - serão mencionados mais adiante -, mas eram muito
elementares e se referiam aos métodos experimentais iniciais, que há
muito havia abandonado.

- 22 -
Na verdade, não fica claro quais dez anos Freud tinha em mente
quando fez o elogio deles. Na A utobiografia escreveu: "Por mais de dez
anos, depois de minha separação de Breuer, não tive seguidores. " 4 Sabe­
mos que a separação de Breuer ocorreu em 1894, um ano antes de sua
obra conjunta, Estudos sobre a Histeria, ter realmente sido publicada, o
que nos levaria até o ano de 1904. Em outro texto, no entanto, ele relatou
como vários jovens médicos se reuniam em torno dele para aprender a
prática da psicanálise "de 1902 em diante", o que é confirmado por 0u­
tras provas.
O início do que se tornaria depois a famosa Sociedade Psicana:ítica
de Viena, mãe de tantas outras subseqüentes, não tem sido de fácil eluci­
dação. Entre os que assistiam às conferências de Freud na Universidade
sobre psicologia das neuroses, na virada do século, havia dois homens,
ambos médicos, cujo interesse persistiu: Max Kahane e Rudolf Reitler.
Este veio a ser a primeira pessoa a praticar a psicanálise depois de Freud.
Kahane trabalhou em um sanatório para psiconeur6ticos, mas se limitou
ao uso de eletricidade e outros métodos convencionais de tratamento; dei­
xou a Sociedade em 1907. Em 1901, mencionou o nome de Freud para
Wilhelm Stekel, como o de um neurologista que concebera um método ra­
dical de tratamento das afecções neuróticas. Stekel havia escrito, em
1895, um trabalho sobre o coito na infância,5 mas então não ouvira falar
de Freud. Este mais tarde fez uma referência a esse trabalho, embora ci­
tando o ano errado. 6 Stekel nessa época sofria de um incômodo problema
neurótico, cuja natureza não preciso mencionar, e recorreu à ajuda de
Freud. A ajuda se apresentou e foi muito bem-sucedida. O próprio Stekel
disse que a análise durou apenas oito sessões, 7 mas isso parece muito im­
provável e tenho a impressão, a partir de Freud , de que foi muito mais
extensa. Stekel afirma que leu uma longa resenha, evidentemente a de
Burckhardt em Die 'Zeit,ª criticando de forma adversa a A Interpretação
dos Sonhos, recentemente publicada; ele imediatamente escreveu um& de­
fesa da obra no Neues Wiener Tagblatt. 9 Na verdade, isso se den d0is
anos depois, provavelmente após sua análise. Em 1913, Freud se referiu &
análise de Stekel dizendo que havia sido realizada "cerca de dez anos
atrás"; 1 º eu suporia que foi em 1901. O ensaio foi escrito no rnais florido
estilo de Stekel. Ele começou a exercer a psicanálise em 1903. 1 1 Era o
único membro da Sociedade que se refetia a Freud pelo sobrencme e não
como "Herr Professor".
Alfred Adler afirmou que prestou o mesmo serviço a Freud nessa
época, escrevendo para Neue Freie Presse, 1 2 mas verificou-se impossível,
mesmo após minuciosa pesquisa, confirmar tal afirmação ou mesmo a que
a acompanha, ou seja, o fato de ter havido uma resenha do livro de Freud
nesse jornal à qual Adler supostamente respondeu. Também não existe

-23 -
qualquer lembrança da família de que ele alguma vez tenha sido médico
da família de Freud.
No outono de 1902, Freud enviou um cartão a Adler, Kahane, Reitler
e Stekel, sugerindo que se encontrassem em sua residência para discuti­
rem sua obra. Stek_el disse que foi ele quem primeiro fez essa sugestão a
Freud, 1 3 o que é corroborado pela observação de Freud de que "o estí­
mulo veio de um colega que experimentara em si mesmo o efeito benéfico
da terapia analítica." 1 4 Assim, a Stekel pode càber a honra, juntamente
com Freud, de ter fundado a primeira sociedade psicanalítica. De qualquer
modo, a partir de então criaram o hábito de se encontrar toda quarta-feira
à noite para discussões na sala de espera de Freud, adequadamente mobi­
liada para esse fim com uma longa mesa . Aos encontros se deu a modesta
denominação de "Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras" . Stekel
costumava expor as discussões semanalmente na edição de domingo do
Neues Wiener Tagblatt.
Nos anos que logo se seguiram, outros aderiram ao c írculo, mas com
freqüência apenas temporariamente. Os únicos nomes que hoje seriam
lembrados sãos os de Max Graf; Hugo Heller, futuro editor de Freud; e
Alfred Meisl. A seguir aparecem outros mais conhecidos: em 1903, Paul
Fedem; em 1905, Eduard Hitschmann, apresentado por seu antigo colega
de escola Fedem; em 1906, Otto Rank, que procurou Freud com uma
apresentação de Adler e o manuscrito de seu pequeno livro A Arte e O
Artista, e Isidor Sadger; em 1907_, Guido Brecher, Maximilian Steiner e
Fritz Wittels,c que fora apresentado por seu tio, Sadger; em 1908, Sandor
Ferenczi, Oskar Rie e Rudolf Urbantschitsch; em 1909, J. K. Friedjung e
Viktor Tausk; em 1910, Ludwig Jekels, Hanns Sachs, Herbert Silberer e
Alfred von Winterstein.
Praticamente não preciso dizer que não tenho conhecimento de pro­
vas que atestem a afirmação, digna de nota, de que os famosos escritores
Karl Kraus, Hugo von Hofmannsthal, Arthur Schnitzler e Jakob Wasser­
mann "aderiram ao círculo psicanalítico e fizeram diferentes contribuições
para suas teorias" , 1 5 O primeiro deles era na verdade um dos mais ferre­
nhos opositores de Freud.
Os primeiros convidados da Sociedade foram: Max Eitingon, em 30
de janeiro de 1907; C. G. Jung e L. Binswanger, em 6 de março de 1907;
Karl Abraham, em 18 de dezembro de 1907; A.A. Brill e eu, em 6 de
maio de 1908; A. Muthmann, em 10 de fevereiro de 1909; M. Karpas, de
Nova Iorque, em 4 de abril de 1909; L. Jekels, em 3 de novembro de
1909; L. Karpinska, em 15 de dezembro de 1909. Como exemplo do mo­
do como as ocasiões podem ser retrospectivamente glorificadas, posso
mencionar a afirmação de Eitingon - quando trinta anos depois falou de
sua primeira visita à Sociedade - de que havia vinte ou 35 membros pre-

- 24 -
sentes; 1 6 na verdade, havia dez. Embora no início de 1908 houvesse 22
membros, era raro que mais de oito ou dez comparecessem às reuniões.
Na primavera de 1908, a pequena Sociedade começou a reunir uma
biblioteca. Esta já tinha assumido grandes proporções quando os nazistas
a destruíram em 1938. Na mesma época (15 de abril de 1908), a Socieda­
de passou a ter uma designação mais formal: a antiga "Sociedade Psica­
nalítica das Quartas-Feiras" tomou-se a "Sociedade Psicanalítica de Vie­
na", nome pelo qual ainda é conhecida.
Nos primeiros tempos, organizava-se um acontecimento social pouco
antes do Natal. Depois isso se transformou em uma refeição mais cuidada,
realizada no verão, primeiro no Schutzengel, no Hohe Warte, fora de Vie­
na, e a seguir no Konstantinhügel, no Prater.
Havia um aspecto da Sociedade que talvez seja único. Ilustra tão bem
a delicadeza de sentimentos e a consideração de Freud que citarei toda a
carta-circular em que ele fez a proposta; datava de Roma, 22 de setembro
de 1907.

"Desejo informar ao senhor que proponho, no início deste novo ano de


trabalho, dissolver a pequena Sociedade que costuma reunir-se às quartas­
feiras em minha casa e imediatamente a seguir trazê-la de novo à vida.
Uma pequena notificação enviada antes de 19 de outubro a nosso secretá­
rio, Otto Rank, será suficiente para garantir a renovação de sua participa­
ção; se até essa data nada recebermos do senhor, presumiremos que o se­
nhor não deseja renová-la. Não precisa enfatizar como eu ficaria satisfeito
com sua readmissão.
"Permita-me dar a razão para esse ato que pode muito bem parecer­
lhe supérfluo. Estamos apenas levando em conta as mudanças naturais nas
relações humanas, se supormos que, para um ou outro membro de nosso
grupo, pertencer a ele já não significa o que significou_ anos atrás - seja
porque seu interesse pelo assunto se exauriu, seja porque seu tempo de la­
zer e seu modo de vida já não são compatíveis com o comparecimento,
seja ainda porque relações pessoais ameaçam mantê-lo afastado. Prova­
velmente ainda permaneceria como membro, temendo que seu afastamento
fosse encarado como ato inamistoso. Para todos esses casos, a dissolução
e reorganização da Sociedade tem o propósito de restabelecer a liberdade
pessoal de cada indivíduo e tomar possível para ele afastar-se da Socie­
dade sem de forma alguma prejudicar suas relações com os restantes. De­
vemos ainda ter em mente que no correr dos anos assumimos obrigações
(financeiras), como nomear um secretário, o que não estava em questão no
princípio.
"Se o senhor concorda, depois desta explicação, com o expediente de
reconstituir a Sociedade dessa forma, provavelmente aprovará que isso se
repita a intervalos regulares-digamos, a cada três anos".

- 25 -
Essa maneira delicada de aceitar afastamentos repetiu-se, de fato, em
1910, mas não depois. Dela, no entanto, fizeram uso posteriormente ou­
tras sociedades, como a suíça e a britânica, quando se desejou restringir
seus membros a estudiosos de psicanálise sérios.
Em abril de 1910, o crescimento da Sociedade tornou pequena a sala
de espera de Freud, de modo que seus membros passaram a se reunir no
Doktoren Collegium (Colégio de Médicos) no n2 19 da Rothenturm-stras­
se, no mesmo prédio onde então vivia Max Steiner. Em fins de 1911, o
Colégio transferiu-se para o Franz-Josefs Quai.
Os vienenses logo começaram a publicar suas próprias contribuições
à psicanálise, ou pelo menos exposições da psicanálise. Em 1905, Adler
apresentou exemplos de como uma escolha aparentemente casual de nú­
meros podia ser inconscientemente determinada. 1 7 No mesmo ano, expôs a
importância dos problemas sexuais para a educação. 1 8 Seu primeiro livro,
que o tomou conhecido, surgiu em 1907. 1 9
Meisl expôs a importância da repressão em um artigo 2 0 e da teoria dos
sonhos em outro. 2 1 Sadger deu início, com uma exposição do método de
Freud, a uma série de valiosas contribuições.2 2 Stekel começou sua exten­
sa carreira como escritor com dois livros. O primeiro constituía uma apre­
ciação geral da hereditariedade e dos fatores ambientais na etiologia das
neuroses, enfatizando a importância dos fatores sexuais. 23 O outro era
uma sólida contribuição ao nosso conhecimento dos estados de ansiedade,
na qual ele pôs mais ênfase nos fatores psicológicos do que Freud. Surgiu
primeiro como pequeno artigo2 4 e um ano depois foi ampliado, tomando­
se um considerável livro com o mesmo título.

Os anos de que estamos falando foram muito produtivos, tanto interna


quanto externamente. Freud estava constantemente melhorando e refinan­
do sua técnica e assim adquirindo um domínio cada vez maior do método
psicanalítico. Além de escrever cinco valiosos artigos, de natureza sobre­
tudo expositiva, publicou um livro em 1901 e não menos que quatro ou­
tros em 1905 e 1906, um dos quais está perto apenas de A Interpretação
dos Sonhos em termos de importância. Consideraremos, nas seções ade­
quadas, o conteúdo e a origem desses textos, mas, a fim de não perdermos
de vista o progresso de Freud, aqui também se fará menção a eles.
Em primeiro lugar, pode-se mencionar o fato pouco conhecido de que
Freud publicou uma nota autobiográfica, em 1901, em uma compilação
feita pelo Professor Julius Pagel sob o título Biographisches Lexicon her­
vorragender Arzte des neunzehnten Jahrhunderts (Dicionário Biográfico
de Médicos Proeminentes do Século XIX). 2 5 Freud evidentemente a es­
crevera no outono de 1899, já que se refere ao fato de A Interpretação
dos Sonhos estar em impressão. Pesarosamente, registrou o fato de que em

- 26 -
1 897 tinha sido proposto para Professor Extraordinário da Universidade;
sabemos que foram precisos cinco anos para Freud ser aceito.
O primeiro dos livros, uma brochura intitulada Sobre os Sonhos, já
foi comentado no primeiro volume da presente obra. 26 O seguinte, intitu­
lado Psicopatologia da Vida Cotidiana, de 1904, talvez seja o mais co­
nhecido livro de Freud entre o público em geral. O texto fora publicado
em um periódico três anos antes.
No mesmo ano escreveu anonimamente o capítulo "O Método Psica­
nalítico de Freud" para um livro de Lõwenfeld. Era a exposição mais
completa sobre esse aspecto prático que já tinha escrito e assim apresen­
tava grande valor para os que já estavam tentando aplicar seu método de
tratamento.
O ano de 1905 foi um dos pontos altos da produtividade de Freud, o
que, como certa vez ele mesmo observou jocosamente, ocorria a cada sete
anos. Foram publicados quatro artigos e dois livros, sendo um destes de
importância excepcional:
Três dos quatro artigos também eram expositivos e dois deles eram
capítulos com que contribuiu para livros. Um, sobre "Tratamento Men­
tal", foi escrito para uma enciclopédia médica popular intitulada Die Ge­
sundheit (Saúde). Outro, "Sobre Psicoterapia", era uma comunicação que
tinha apresentado, em dezembro de 1904, a uma platéia médica em Viena,
tendo sido esta a última vez em que fez isso. Depois houve um capítulo
intitulado "Meus Pontos de Vista sobre o Papel Desempenhado pela Se­
xualidade na Etiologia das Neuroses", que fazia parte de outro livro de
Lõwenfeld.
Um dos dois livros publicados em 1905 foi O Chiste e suas Relações
com o Inconsciente, o que geralmente se refere, de modo não inteiramente
correto, como o livro de Freud sobre o humor. O livro, com seu título so­
bremodo surpreendente, trata dos mecanismos psicológicos e da significa­
ção do humor, tal como ilustrado no campo dos chistes. É o menos lido
dos livros de Freud, talvez porque seja o mais difícil de ser adequada­
mente apreendido. Mas contém alguns dos textos mais primorosos de
Freud. Tal como o que será mencionado a seguir, derivava de idéias ex­
pressas em A Interpretação dos Sonhos, de modo que percebemos uma
continuidade direta do pensamento e dos estudos de Freud nos primeiros
anos do século.
Esse livro foi escrito ao mesmo tempo que os Três Ensaios. Freud
mantinha o manuscrito de cada livro em duas mesas contíguas e escrevia
ora em uma ora em outra, de acordo com seu estado de espírito. Foi a úni­
ca ocasião, de que tenho conhecimento, em que Freud combinou tão es­
treitamente a redação de dois ensaios, o que mostra como os dois temas
estavam relacionados em sua mente.

-27 -
O outro livro, que causaria grande escândalo e que faria Freud cair
em desagrado quase universal, era os Três Ensaios sobre a Teoria da Se­
xualidade, um dos dois livros mais importantes de Freud. Nele Freud reu­
niu pela primeira vez, a partir do que tinha aprendido com análises de pa­
cientes e em outras fontes, tudo o que sabia sobre o desenvolvimento do
instinto sexual desde seus primórdios na infância. O livro fez dirigir-se
contra ele mais 6dio do que qualquer dos seus outros textos. A Interpreta­
ção dos Sonhos foi aclamado como fantástico e ridículo, mas os Três En­
saios eram chocantemente repulsivos. Freud tinha uma mente má e obsce­
na. Naturalmente, o principal opróbrio recaía sobre sua asserção de que as
crianças nascem com impulsos sexuais, que sofrem um complicado desen­
volvimento antes de atingirem a forma adulta conhecida, e de que seus
primeiros objetos sexuais são os pais. Esse ataque à inocência prístina da
infância era imperdoável. A despeito do furor e das invectivas da época,
que continuaram talvez por vinte anos, o tempo abriu caminho para o li­
vro e a predição de Freud de que suas conclusões não demorariam a ser
aceitas está próxima da realização. Hoje quem negar a existência de uma
vida sexual infantil correrá o risco de ser encarado simplesmente como
ignorante.
Mais ou menos na mesma época, Freud aumentou sua torpeza, aos
olhos da classe médica, quando, depois de quatro anos de hesitação, de­
cidiu publicar um caso clínico, a que em geral se faz referência como "ca­
so Dora". 27 Essa fascinante aplicação da análise de sonhos à elucidação
de um obscuro caso de histeria era mais uma vez um subproduto ele A In­
terpretação dos Sonhos. Seus colegas, no entanto, não podiam perdoar a
publicação desses detalhes íntimos de uma paciente sem a permissão dela
e ainda mais a imputação a uma jovem de tendências para perversões se­
xuais revoltantes.
Depois dessa irrupção de produção ensaística em 1905, Freud con­
tentou-se, no ano seguinte, em publicar apenas um novo artigo, uma con­
ferência que fizera para uma platéia de jovens juristas sobre a averiguação
da verdade. À parte seus livros sobre sonhos e chistes, este pode ser con­
siderado sua primeira incursão fora do campo puramente médico, mas es­
tava longe de ser a última. No mesmo ano, publicou o primeiro dos cinco
volumes intitulados Sammlung Kleiner Schriften zur Neurosenlehre (Co­
letânea de Pequenos Artigos sobre a Teoria das Neuroses). Compreen­
diam esses volumes os textos esparsos dos últimos dez anos sobre o as­
sunto, reunidos agora de forma apropriada e acessível.
Nesse período, Freud fez muito pouco trabalho jornalístico. Abando­
nara as resenhas e resumos que fizera regularmente, durante anos, para
periódicos neurológicos alemães. O único registro que localizo é o de
quatro resenhas de livros em Neue Freie Presse, sendo uma em 8 de feve-

- 28 -
reiro de 1903; duas em 4 de fevereiro de 1904; e a última em 31 de agosto
de 1905.

O único acontecimento importante na vida pessoal de Freud durante o pe­


ríodo de que estamos tratando foi o término definitivo de sua estreita ami­
zade com Fliess. À desagradável cena entre os dois em 190028 e ao caso
Swoboda-Weininger em 1904 seguiu-se em 1906 a denúncia pública de
Freud por Fliess, à qual, como revelam suas cartas à imprensa, Freud rea­
giu com considerável indignação. Em breve, porém, não apenas recuperou
a calma, mas alcançou uma visão de seu antigo amigo muito mais objetiva
do que até então tinha sido possível. Manteve sua admiração por sua mar.:.
cante personalidade e seus dons, bem como gratidão pelo inestimável
apoio que Fliess lhe dera em um período crítico de sua vida, mas se li.:.
bertou da antiga dependência em relação às opiniões e ao julgamento de
Fliess.
Em 1906, por ocasião de seu quinquagésimo aniversário, o pequeno
grupo de adeptos em Viena presenteou-o com um medalhão, desenhado
por um famoso escultor, Karl Maria Schwerdtner. Em uma face, havia seu
perfil em baixo-relevo e na outra um desenho grego de Édipo responden­
do à Esfinge. Em tomo do desenho havia um verso do Édipo Rei de Sófo­
cles:d
1 1
00" TO'. KÀELV O'.LVL'YfJ,O'.T 1]8E L KO'.L KpO'.TLO"TOO" l]V O'.Vl]p.

Quando o mostrou a mim alguns anos depois, pedi-lhe para traduzir a pas­
sagem, pois meu grego já estava consideravelmente enferrujado, mas ele
modestamente disse que eu devia pedir isso a outra pessoa. Graças à gen­
tileza do Dr. Hitschmann, tenho a felicidade de possuir uma réplica do
medalhão.
Quando da entrega do medalhão, houve um curioso incidente. Ao ler
a inscrição, Freud ficou pálido e agitado e com voz abafada perguntou
quem tinha pensado nela. Comportava-se como se tivesse encontrado um
revenant, o que de fato estava ocorrendo. Depois de Fedem ter.:.Jhe dito
que a inscrição fora escolhida por ele, Freud revelou que, quando estu­
dante da Universidade de Viena, costumava passear pelo grande pátio
com arcadas, examinando os bustos de antigos professores da instituição.
Tinha então a fantasia não apenas de ver aí seu próprio busto no futuro, o
que não constituiria nada digno de nota em um estudante ambicioso, mas
de na verdade ela ter uma inscrição idêntica à que agora via no medalhão.
Não há muito tempo, pude realizar seu desejo da juventude, entre­
gando à Universidade de Viena, para ser instalado no pátio, o busto de
Freud feito em 1921 pelo escultor Kõnigsberger, com a inscrição de Sófo­
cles. Foi descerrado em uma cerimônia a 4 de fevereiro de 1955. Trata-se

- 29 -
de um exemplo raríssimo de devaneio na adolescência que se torna verda­
de, em todos os detalhes, ainda que oitenta anos depois.
A prática clínica de Freud nesse período tinha aumentado a ponto de
ocupá-lo em tempo integral. Tanto nessa época quanto depois, poucos pa­
cientes eram de Viena. A maioria provinha da Europa oriental: Rússia,
Hungria, Polônia, Romênia, etc.
Freud deu continuidade a suas conferências na Universidade no de­
correr desses anos. Conseguimos uma lista dos que as freqüentaram no
ano de 1906. Eram, ao todo, oito: Carl Furtmüller, Franz Grüner, Gustav
Grüner, Paul Klemperer (que gentilmente me cedeu esta informação), H.
Oppenheim, Emmy Pisko (futura esposa de Sachs), Hanns Sachs e Ri­
chard Wagner. Quatro anos depois, todos estes, com exceção de Emmy
Pisko, se tornaram membros da Sociedade de Viena, mas em outubro do
mesmo ano ( 19 10) quatro deles afastaram-se juntamente com Adler, todos
à exceção de Sachs e Wagner.
Os primeiros anos do século foram relativamente calmos e felizes.
Foram um intervalo entre tormentas. Freud não conheceria de novo um
período tão tranqüilo e prazeroso. O curso invariável de sua vida dividia­
se entre o trabalho profissional, inclusive a redação de suas obras, e os
entretenimentos privados. Havia aos sábados o jogo semanal de cartas,
o tarock, jogo de sua predileção; depois de fazer sua conferência semanal
na Universidade, de sete às nove, ele tomava um carro de aluguel no hos­
pital e se dirigia à casa de seu amigo Kõnigstein para o jogo. Não podia
ver seus filhos muito, exceto durante as refeições e aos domingos, de mo­
do que todos aguardavam ansiosamente as longas férias de verão, que
passavam juntos. A família deixava Viena em junho, quando começava a
estação quente, e ele em geral se juntava a ela em meados de julho, du­
rante um mês ou mais.

Freud gostava muito das paisagens montanhosas e de escalar, embora não


se possa dizer que fosse um montanhista na acepção estrita do termo.
Contudo, quem podia subir o Dachstein devia ter boa condição para as
altitudes, bem como os outros atributos necessários. A família, nos pri­
meiros anos do século, passou suas férias ·de verão na Baviera: em 190 1 ,
em Thumsee, perto de Bad Reichenhall e de Salzburg; em 1902, 1 903 e
1904, na Vi/la Sonnenfels, perto de Berchtesgaden. Em 1905, as férias fo­
ram passadas em Alt-Aussee, no Salzkammergut. Em 1906, foram em La­
varone (Hotel du Lac ), "onde o laburno floresce em agosto", um local
montanhoso no Trentino ou o que então era chamado de Tirol do Sul.
Seu filho Martin relatou-me um incidente das primeiras dessas férias
que merece ser mencionado. Ao voltarem de um passeio, tomaram o ca­
minho para casa (o que implicava cruzar o Thumsee para alcançar o hotel)
mas o mesmo foi interrompido por um grande e barulhento grupo de pes-

- 30 -
soas que gritavam para eles slogans anti-semitas. Brandindo sua bengala,
Freud investiu sem hesitação contra as pessoas, com uma expressão em
seu rosto que fez com que abrissem caminho. Esta não foi de modo algum
sua primeira experiência do tipo. Relembro uma particularmente desagra­
dável em que ele atemorizou um grupo hostil em uma viagem de trem en­
tre Hamburgo e Viena durante a época de seu noivado. Freud, por vezes,
era capaz de causar uma impressão temível com um olhar severo e algo
ameaçador. A última vez que causou essa impressão, e com sucesso, foi
quando encarou os nazistas em sua casa em 1938.
Mas ele também gostava de fazer viagens mais longas para sua pró­
pria instrução. Como não era viável fazer-se acompanhar de toda família
em viagens longas, ele quase sempre escolhia alguma companhia, pois lhe
desagradava muito viajar sozinho. Sua mulher, ocupada com outros en.:.
cargos, raramente estava disponível para tais viagens, assim como não ti­
nha condições de acompanhar o ritmo incansável de Freud ou sua onívora
paixão de ver lugares. Algumas vezes ele pensava que era injusto que ti­
vesse essas experiências prazerosas sem ela e desejava que ela pudesse
acompanhá-lo. Assim, em uma carta de Sorrento,2 9 ele a consolava com a
promessa de levá-la à Inglaterra no ano seguinte, viagem que, porém, não
se realizou. Mas quase diariamente, nessas viagens, ele enviava um cartão
postal ou um telegrama para ela e com intervalos de alguns dias uma lon­
ga carta; todas essas comunicações foram fielmente guardadas. Sempre
havia um telegrama especial de felicitações no aniversário de casamento,
14 de setembro. Era muito importante para ele manter-se em constante
contato com ela, receber notícias de casa e relatar a ela detalhes do que
ele estava fazendo e de por onde andava. A partir dessas comunicações,
foi possível reconstruir uma narrativa das viagens.
No final do verão de 1901 ocorreu um fato que teve grande importân­
cia emocional para Freud, fato que ele considerou "o ponto alto da minha
vida". 30 Trata-se da visita a Roma, por tanto tempo esperada. Foi algo de
extrema importância para ele, de modo que sua apreciação pode fornecer
algum segredo de sua vida interna.
Da força duradoura do desejo não há a menor dúvida. Trata-se de te­
ma recorrente na correspondência com Fliess, 3 1 em especial no final da
década de 1890-1900; além disso, Freud escreveu aberta e longamente
sobre ele em A Interpretação dos Sonhos, já que desempenhava grande
papel mesmo em sua vida onírica.32 Começou, evidentemente, em sua in­
fância e, como ele mesmo disse, "Tornou-se o símbolo de muitos desejos
ardorosamente acalentados". 3 3 Em carta de 23 de outubro de 1898, 3 4
mencionou que estava gastando seu tempo livre com o estudo da topogra­
fia de Roma; quatro meses depois, falou de um desejo secreto que amadu­
receria se ele pqdesse ir a Roma.3 5 Acrescentava que para satisfazê-lo es­
tava preparado para renunciar à sua docência. Pode-se apenas supor que

- 31 -
desejo era esse. Minha suposição é de que mais uma vez se tratava de um
de seus numerosos desejos de afastar-se em definitivo de Viena, já que em
carta posterior a sua mulher sobre uma visita subseqüente a Roma ele ex­
primiu a esperança de que pudessem se instalar aí permanentemente. 3 6
Outra medida de sua força é a grande felicidade e mesmo exaltação
que experimentava a cada visita a Roma. Seu fascínio nunca empalideceu
sequer por um momento e,. carta após carta, fala dele na mais ardorosa das
linguagens.
Por outro lado, porém, há provas suficientes de que a realização des­
se grande desejo teve a oposição de algum misterioso tabu que o fazia du­
vidar de que o desejo pudesse algum dia realizar-se. Era algo muito bom
para ser verdade. Às vezes tentava racionalizar sua inibição, dizendo que
o clima de Roma no verão tornava-o impossível, mas o tempo todo sabia
que havia algo mais profundo que o retinha. Assim, em seus anos de
muitas viagens pela Itália do norte e central, o ponto a que chegou mais
perto de Roma foi Trasimeno (em 1897). Até aqui, e não mais adiante, di­
zia a voz interna, tal como dissera a Aníbal nesse local dois mil anos an­
tes. Mas ele pelo menos ultrapassou Aníbal, chegando a ver o Tibre.
Era inevitável que as pessoas se perguntassem sobre esse profundo
conflito da mente de Freud, tendo sido dadas várias explicações, tanto de
natureza analítica quanto de outras naturezas. Como discordo de todas
elas, sinto-me obrigado a apresentar a minha - e prometo não recorrer a
qualquer jogo de palavras especulativo, como o de que as crucíferas em
um sonho devem referir-se à cruz de Cristo; ou o de que o respeito por
seu professor Brücke ocultava temor do Papa, porque Brücke é a forma
alemã de ponte e ponte se relaciona com Pontífice; ou ainda o de que o
ágil hábito de subir escadas de três em três degraus era expressão de sua
secreta adoração pela Trindade ! 3 7 A afirmação de que_ o pensamento de
Roma recobria o de Jerusalém, como "terra prometida", é pouco confiá­
vel. É verdade que certa vez escreveu a Fliess: 38 "Se eu encerrasse minha
carta com 'próxima Páscoa em Roma' eu pareceria um piedoso judeu;e as­
sim, prefiro desejar um encontro no verão em Berlim". Mas Jerusalém
significava pouco para o não-ortodoxo Freud até depois da instalação de
sionistas na região, em seguida à Declaração de Balfour, o que ocorreu
vinte anos mais tarde. Ele certamente não tinha desejo de ir a essa cidade.
A seguir, há a mais espantosa das explicações: Freud supostamente
teria tido uma vontade secreta, que ele ocultava de si mesmo, de aderir à
Igreja Católica Romana e assim ampliar suas perspectivas de sucesso !
Como diz Velikovsky: "A fim de ir adiante, ele teria de concluir um pacto
fáustico; teria de vender a alma à Igreja". 3 9 Isso está vinculado à idéia de
que Freud se ressentia de ser judeu e desejava ser um gentio, idéia defen­
dida por Oehlschlegel4 º e Puner. 4 1 Considero ambas as idéias francamente
absurdas; são incompatíveis com tudo o que sabemos de Freud. Uma pro-

- 32 -
moção mundana significava muito pouco para ele e nunca lhe teria ocorri­
do sacrificar qualquer princ ípio por essa razão. Além disso, os judeus
vienenses "convertidos" por razões mundanas quase sempre se tomavam
protestantes, e não católicos. Desde que fossem batizados, as autoridades
católicas aceitavam-nos como cristãos; e ser protestánte era um passo
muito mais suave do que tornar-se católico. É verdade que Freud certa
vez, por cinco minutos, brincou com essa idéia, mas por razões anti-reli­
giosas ; 4 2 um protestante podia ter casamento civil e Freud detestava qual­
quer tipo de cerimônia religiosa, tanto j udaicas quanto cristãs. O quadro
de um Freud aceitando as cerimônias e crenças da Igreja católica provoca
apenas riso em quem quer que o tenha conhecido. Do mesmr; modo, não
há qualquer justificativa para torcer seu mais que natural ressentimento
pelo injusto tratamento imposto aos judeus em ressentimento por ser ju­
deu; toda sua personalidade estava identificada com o fato de ele ser ju­
deu, convictamente.
Examinemos os fatos mais de perto. Para Freud, como para todo
mundo, Roma significava duas coisas ; de fato, há duas Ramas (à parte a
Roma política atual). Há a Roma antiga, de cuja cultura e história Freud
estava profundamente impregnado, a cultura que deu origem à civilização
européia. Bastava isso para atrair vigorosamente o interesse de Freud, que
sempre se voltou para a questão das origens e primórdios. Há também a
Roma cristã, que destruiu e suplantou a anterior. Esta s6 podia ser para
ele uma inimiga, a fonte de todas as perseguições que o povo de Freud
suportou ao longo dos séculos. Mas um inimigo sempre está entre uma
pessoa e um objeto amado e, se possível, tem de ser vencido primeiro.
Mesmo depois de alcançar seu objetivo, Freud relatava como a visão des­
sa segunda Roma - com as evidências em torno dele daquilo que em sua
maneira franca chamou de "mentira da salvação" - prejudicava sua frui­
ção da primeira. 4 3
Não proponho reinterpretar quaisquer dos sonhos de Freud, procedi­
mento que eu estigmatizaria como, no mínimo, aleatório, mas um de seus
sonhos pode ser citado como pertinente neste contexto. Trata-se do sonho
intitulado "Meu filho, o Míope". Ao discuti-lo, Freud escreveu: "Aliás, a
situação no sonho de eu remover meus filhos da cidade de Roma para lo­
cal seguro era distorcida por estar relacionada, retrospectivamente, com
um evento análogo que ocorreu em minha infância; eu invejava alguns pa­
rentes que, muitos anos antes, tiveram oportunidade de remover seus fi­
lhos para outro país". 4 4 Freud estava se referindo simplesmente à mudan­
ça de seus dois meio-irmãos para a Inglaterra, quando ele tinha três anos
de idade. Nunca deixou de invejá-los por poderem criar os filhos em um
país muito mais livre de anti-semitismo que o seu. É claro, portanto, que
Roma continha duas entidades, uma amada, outra temida e odiada.
Temos de abordar dois outros fatos incontroversos. Um é que ele ci-

- 33 -
tou o estudo de Rank sobre o simbolismo das cidades e da Mãe Terra 45
onde há a frase que se segue:' 6 "A profecia feita aos tarquínios é igual­
mente bem conhecida, tendo dito que a conquista de Roma caberia àquele
que primeiro 'beijasse' sua mãe". Essa passagem, que Freud cita como
uma das variantes da lenda de Édipo, é evidentemente uma inversão da
idéia subjacente de que a fim de dormir com a mãe a pessoa tem primeiro
de conquistar um inimigo.
O segundo fato é a antiga e apaixonada identificação de Freud com o
semita Aníbal. 47 A tentativa de Aníbal para apossar-se de Roma, a "Mãe
das Cidades", foi frustrada por alguma inibição desconhecida quando ele
estava prestes a ter sucesso. Durante anos, o ponto mais perto de Roma a
que Freud chegou foi Trasimeno, o local onde Aníbal por fim se deteve.
Freud não tinha escrúpulo de admitir seu amor pela primeira Roma e
seu desagrado pela segunda, mas havia enormes resistências contra a vin­
culação dessas emoções às figuras primordiais correspondentes que elas
vieram a simbolizar. Foi somente depois de quatro anos de determinada e
inexorável auto-análise que Freud por fim conquistou essas resistências e
triunfantemente entrou em Roma. De forma atenuada, como lhe era ca­
racterístico, acrescentou uma nota de rodapé na segunda edição de A In­
terpretação dos Sonhos que diz o seguinte: "Descobri desde então que é
preciso apenas um pouco de coragem [ !] para realizar desejos que até en­
tão eram encarados como inatingíveis". 4 8
Um sinal da elevada autoconfiança anunciada pela entrada de Freud
em Roma foi sua disposição para tomar medidas adequadas a fim de ven­
cer as autoridades burocráticas anti-semitas qu�, por tantos anos negaram
sua merecida entrada para os quadros de professores da Universidade. Ao
anunciar ao amigo Fliess seu sucesso na empreitada, admitiu que fora um
burro por não tê-lo alcançado três anos antes, acresce_ntando: "Outras
pessoas são suficientemente sagazes para fazê-lo, sem primeiro terem de
conquistar Roma". H
Depois dessas preliminares, reencetemos a narrativa. Deixando a fa­
mília em Thumsee e acompanhado do irmão Alexander, Freud interrom­
peu a viagem em Trento, onde visitou o Castello e o museu; esta era uma
cidade de que sempre gostara, não lhe sendo agradável ter de deixá-la.
Tomaram, porém, o trem noturno e ao meio-dia de 2 de setembro de
1901/ uma segunda-feira, Freud alcançou seu grande desejo e se viu em
Roma. Foi a primeira de sete visitas à Cidade Santa. Imediatamente escre­
veu para casa dizendo que há uma hora tomara um banho e se sentia um
romano; era incompreensível que não tivesse ido a essa cidade anos atrás.
E o Hotel Milano tinha luz elétrica, cobrando apenas quatro liras por dia.
Na manhã seguinte, às sete e meia, começou as visitas por São Pedro
e pelo museu do Vaticano, onde considerou as obras de Rafael "um raro
prazer". "E pensar que durante anos temi vir a Roma." Logo jogou uma

- 34 -
moeda na fonte de Trevi, desejando que em breve voltasse a Roma, o que
de fato fez no ano seguinte. Também introduziu sua mão na Bocca della
Verità em Santa Maria de Cosmedin, gesto supérfluo para um homem de
tamanha integridade.
No dia seguinte, passou duas horas e meia no Museo Nazionale e de­
pois passeou de fiacre, a duas liras a hora, de três às sete, a fim de ter
uma impressão geral. Foi mais esplêndido do que o que pudesse dizer.
Nunca se sentira tão bem em sua vida. E no dia seguinte teve sua primeira
visão (primeira de quantas outras !) do Moisés de Michelangelo. Depois de
contemplá-lo por algum tempo, subitamente teve um lampejo de intuição -
ao refletir sobre a personalidade de Michelangelo - que lhe deu uma com­
preensão da obra, embora provavelmente não se tratasse absolutamente da
mesma explicação que trinta anos depois seria apresentada por ele. Foi um
dia movimentado, pois também visitou o Panteon e mais uma vez explo­
rou o Museu do Vaticano, onde lhe chamaram a atenção em especial o
Laocoonte e o Apolo do Belvedere. Ainda se encontrava em estado de
grande entusiasmo. No dia seguinte, viu o Palatino, que, disse-me ele, se
tornou seu ponto predileto em Roma. Alexander queria ir a Nápoles por
um dia, mas acharam que o museu de Pompéia estaria fechado em virtude
de uma comemoração, de modo que passaram um dia em Tívoli. Freud
nessa época já era de certo modo um connoisseur de vinho italiano e fez
ásperos comentários sobre o vinho local; tinha gosto de manganato de
potássio !
Em 10 de setembro, esteve novamente no Museu do Vaticano, de on­
de saiu inebriado pela beleza do que vira. Passou o dia seguinte nos
montes Albanos; pôde contar às crianças que por duas horas andou de
burro.
Seus antigos receios quanto ao clima de Roma no verão não eram in­
teiramente injustificados. Em sua terceira manhã, houve uma terrível tem­
pestade - "do tipo que Michelangelo podia ter criado"; os relâmpagos
ernm tão brilhantes que ele poderia ler os hieróglifos de um obelisco, ou
pelo menos teria sido capaz de fazê-lo, se não estivesse na posição do
camponês que pensava que só podia ler se estivesse usando óculos. Dois
dias antes de sair de Roma, houve um siroco que lhe deu a sensação de
estar terrivelmente cansado; além disso, ele também se sentia deprimido
por pensar que estava tão próximo o fim das maravilhosas férias.
Depois de doze inesquecíveis dias em Roma, Freud partiu no dia 14
de setembro e chegou a Viena depois de duas noites de trem.
Em fins de agosto de 1902, animado por seu triunfo sobre o calor de
Roma no ano anterior, planejou visitar Nápoles e suas cercanias, bem co­
mo, se possível, a Sicília . Seu amigo Paul Hammerschlag lhe dera infor­
mações sobre Nápoles. Tendo partido em 26 de agosto de Kõnigssee, en­
viou de Rosenheim, antes de cruzar a fronteira austríaca, uni cartão a sua

- 35 -
cunhada, Minna Bernays; Breuer e Fleischl estavam no mesmo trem. Uma
viagem noturna levou-o a Bozen, onde encontraria seu innão, Alexander,
novamente seu companheiro de viagem. Contou ter encontrado aí seu du­
plo (acrescentando: "outro, não Horch"g) e perguntou, em um de seus
momentos supersticiosos: "Será que isso significa Vedere Napoli e poi
morire?"h A morte raramente estava distante de seus pensamentos. Na
manhã seguinte, partiram, via Trento, para Veneza, que mais uma vez ele
achou "indescritivelmente bela;" ficaram aí de meio-dia às nove da noite.
Viajaram durante a noite para Orvieto, mas às duas e meia da madrugada,
quando tiveram de trocar de trens em Bolonha, para o expresso prove­
niente de Munique, houve tempo para outro cartão. Chegaram a Orvietto
às onze da manhã e aí passaram o dia, pois o trem para Roma s6 saía às
nove da noite. Passaram apenas 24 horas em Roma, onde dessa vez fica­
ram na Hotel Rosetta . Chegaram a Nápoles às duas da tarde do dia 31.
Nápoles, porém, mostrou-se "desumanamente quente", de modo que
se contentaram com uma visita ao famoso aquário e dois dias depois fo­
ram para Sorrento, onde o Hotel Cu,_· umella cobrava-lhes apenas dez liras
por dia, com tudo incluído. Aí também estava muito quente, o que os le­
vou a desistir da idéia da Sicília e decidir ficar uma semana sem progra­
mação e usufruir dos banhos. A carta que se segue dá suas impressões de
Sorrento.

"3 de setembro de 1902


"Meus Queridos:
' 'Kennst du das Land wo die Citronen blühen?i
"Se não, descreverei para vocês o que posso ver do terraço fronteiro
a nosso quarto no primeiro andar do Cocumella. À minha esquerda está a
sombra de outra ala do prédio, o que é uma boa coisa, pois de outro modo
eu não poderia estar sentado aqui. À direita, depois do fim do terraço, há
um emaranhado de copas de árvores, em meio às quais alteiam-se elegan­
temente três pinheiros. No conjunto, distingo altas nogueiras, figueiras (a
mais próxima das quais quase posso alcançar), castanheiras, etc. O verde
mais escuro, que não chega absolutamente ao alto da parede, pertence,
como sei bem, às laranjeiras e aos limoeiros carregados de frutos verdes, e
quando fico de pé e olho para o jardim embaixo vejo nas árvores mais
distantes os grandes balões amarelo-laranja 'im dunkeln Laube glühend' _ j
Uma dessas árvores adquiriu um estranho efeito de cor ao ser recoberta
por uma clematite com enormes flores azuis em fonna de sinos. Imaginem
tudo isso.
"Os bosques à esquerda alcançam uma montanha muito agradável,
em torno da qual se traçou uma estrada como um cinturão branco. Acima
há as brilhantes paredes brancas de um antigo castelo. Acredito que a
montanha seja o Monte San Angelo. Não proponho demorar em sua con-

- 36 -
templação, pois mais além de meu terceiro c mais alto pinheiro, vejo outra
montanha sobre a quai paira uma nuvenzinha. Em seu sopé há uma reu­
nião de pequenas casas, para além das quais se pode entrever o mar. Tra­
ta-se, naturalmente, de sua Majestade o Monte Vesúvio, com a Torre
Annunziata, perto da qual fica Pompéia. O Vesúvio está mais claro do
que habitualmente; nos últimos dias esteve encoberto. Por fim, logo em
frente preciso apenas olhar por sobre o telhado de uma villa russa para ver
o mar azul, cuja superfície está ligeiramente agitada. Termina em uma fai­
xa de terra longa e branca que pode ser alcançada de barco em uma hora e
quinze minutos. É aí que Nápoles está, um canil ou uma jaula de macacos,
onde é absolutamente impossível permanecer; à noite, porém, suas luzes
parecem quase tão belas quanto as de Viena vistas de Bellevue. O mais
belo dos pinheiros divide a vista em duas partes iguais . Bem à esquerda
encontra-se uma acidentada rocha, a ilha de Ischia, e se não fosse pela ca­
sa interposta eu teria de descrever Capri, distante 45 minutos.
"Tudo isso é muito belo, mas é diferente do que imaginávamos . É
impossível deslocar-se para ver as diferentes vistas ou para mudar o pro­
grama . É horrivelmente quente, embora todos digam que só esteve quente
por quatro ou cinco dias. De onze às quatro é simplesmente impossível
movimentar-se e mesmo antes ou depois desse perfodo só se pode andar
de carro ou banhar-se; ai de quem tenta andar. Nossos primeiros dias aqui
foram dedicados aos banhos e ao dolce far niente. k De qualquer modo,
e houve mais alguma coisa. Na noite passada, fomos ao teatro, onde assis­
timos a uma ópera leve de 9:45 até 0:45. Foi naturalmente ao ar livre, em
um pátio, e os bastidores eram formados por plantas como as que se alu­
gam para casamentos ou funerais. A melhor sociedade de Sorrento estava
presente, revelando as melhores maneiras. Pode-se ver que as pessoas da­
qui gostam de viver à noite."
(O resto da carta se ocupa de instruções para comunicação postal.)
Mas o ávido Freud não podia folgar por muito tempo, especialmente
quando havia tantas coisas maravilhosas a seu alcance. Logo no dia se­
guinte, embarcaram para Nápoles a fim de explorar os restos de Pompéia
existentes no museu local; passaram o dia seguinte na própria P9mpéia,
"uma experiência arrebatadora" . Nessa noite, 5 de setembro, estavam de
volta a Sorrento e no dia seguinte embarcaram para Capri. Aí passaram
uma noite e naturalmente a Gruta Azul foi adequadamente visitada. De­
pois de um dia inteiro de descanso em Sorrento, iniciaram uma excursão
de dois dias e meio a Amalfi, Salerno e aos famosos templos de Pesto.
Tendo havido mudança de tempo, voltaram a Nápoles no dia 1 2 e no dia
seguinte subiram o Vesúvio. Na noite do dia 1 4 partiram para Veneza,
onde encontraram Minna Bernays, e a seguir rumaram para Viena .

- 37 -
Em 1903, Minna Bemays foi a companheira de viagem de Freud, mas as
férias duraram apenas duas semanas. Passaram a primeira semana em Mu­
nique e Nurernberg, onde fazia tanto calor que eles ansiavam pelas mon­
tanhas e partiram para Bozen. Aí, no entanto, havia muitas tempestades e
Minna não se sentia bem de saúde, de modo que passaram os dias restan­
tes em Merano, urna estação de férias de predileção das mulheres da fa­
mília.
�rn 1904, Freud reuniu-se à família em Kõnigssee, em 12 de julho;
duas semanas depois sua mulher partiu para urna estada de cerca de quin­
ze dias em Hamburgo, junto à mãe. O irmão Alexander anunciou que nes­
se ano só poderia ter urna semana de folga. Planejaram passá-la em Corfu,
mas o destino reservava-lhes uma experiência mais empolgante. Freud
deixou a família em 28 de agosto, chegou a Graz no mesmo dia e daí par­
tiu à meia-noite para Trieste. Nesta cidade encontrou seu irmão no Hotel
Buon Pastore; tornaram o funicular para Opcina, a fim de aí almoçarem.
Alexander encontrou um amigo que os aconselhou a não irem a Corfu,
onde estaria insuportavelmente quente, mas em vez disso, fazerem uma
viagem a Atenas em um vapor que sairia na manhã seguinte.1 Ambos os
irmãos viram apenas dificuldades na idéia, relativas a passaportes, etc. ,
mas, chegando o momento, sem dizerem uma palavra um ao outro, foram
ao escritório de navegação e compraram bilhetes. Visitaram Miramar, o
palácio do imperador do México e se banharam em Barcola. Esse passeio
foi tão agradável que hesitaram em continuar, mas às dez e meia da manhã
seguinte, 30 de agosto, embarcaram para Brindisi, numa viagem de 24 ho­
ras. Entre os passageiros estava o Professor Dõrpfeld, assistente de
Schliemann, o famoso arqueólogo. Freud contemplou com admiração o
homem que ajudara a descobrir a antiga Tróia, mas a timidez impediu-o
de aproximar-se dele. No dia seguinte passaram três horas em Corfu, que
Freud comparou a Ragusa; teve tempo para visitar as duas antigas fortale­
zas venezianas aí existentes. O navio parou em Patras na manhã seguinte,
prosseguiu até o Pireu e ao meio-dia de 3 de setembro eles estavam em
Atenas. A primeira impressão foi urna impressão inesquecível e indescri­
tível do Templo de Teseu.
Na manhã seguinte, passaram duas horas na Acrópole, e para essa vi­
sita Freud se preparou colocando sua melhor camisa. Ao escrever para ca­
sa, relatou que essa experiência ultrapassara tudo o que ele tinha visto ou
imaginado. Quando lembramos a riqueza da cultura clássica armazenada
em sua mente desde a infância e sua sensibilidade diante da beleza, po­
demos compreender muito bem o que essas impressões significavam para
ele. Mais de vinte anos depois, ele disse que as colunas cor de âmbar da
Acrópole. foram as mais belas coisas que viu em sua vida,53 Quando esta­
va na Acrópole, teve uma curiosa experiência psicológica, experiência
que analisou muitos anos depois em urna carta a Romain Rolland. 54 Trata-

- 38 -
va-se de uma singular descrença na realidade do que estava perante seus
olhos, tendo ele intrigado seu irmão ao lhe perguntar se era verdade que
estavam realmente na Acrópole. Na delicada análise que publicou poste­
riormente, Freud vinculou essa sensação de descrença à incredulidade
com que ele teria recebido, em sua época de estudante pobre, a idéia de
que algum dia poderia visitar lugar tão maravilhoso, o que por sua vez
estava ligado ao desejo proibido de com suas realizações superar o pai.
Comparou o mecanismo em atuação com o que ele qualificara como sendo
atuante nas pessoas que não podem tolerar o sucesso,m, 55 mecanismo que
nos voltará a ocupar mais adiante. Se há alguém que sabia da importância
de um pai para uma criança, essa pessoa era Freud.
Nessa ocasião, Freud aprendeu como o grego antigo era diferente do
grego moderno. Ele conhecia tão bem o primeiro que na juventude escre­
vera seu diário em grego, mas agora, ao procurar orientar o condutor de
seu veículo para levá-lo ao Hotel Athena, não conseguiu, a despeito de
todas as variações de pronúncia, fazer-se compreender, vendo-se humi­
lhantemente reduzido a ter de escrever as palavras. 5 6
Freud passou todo o dia seguinte mais uma vez na Acrópole. Deixa­
ram Atenas na manhã de 6 de setembro, tomaram um trem para Corinto e
seguiram ao longo do Canal de Corinto para Patras, onde embarcaram no
navio que partia às dez da noite. Seguiram então para casa, via Trieste.
Na Páscoa de 1905, Freud empreendeu uma caminhada de poucos
.!. dias com seu irmão Alexander, evidentemente para explorar a possibilida­
de de uma residência de verão. De Bozen fizeram uma dura subida pelo
lado oeste do Vale do Ádige, por S. Barbian até Bad Dreikirchen, com
cerca de 1.200 metros de altitude, mas estava fechada a pensão que procu­
ravam. No dia seguinte, caminharam pelo Grõdner Thal (hoje Vai Garde­
na) por S. Ulrich até Wolkenstein. Voltaram então ao ponto de partida em
Waidbruck, no percurso principal, e a seguir rumaram pãra casa.
Para a viagem de verão, Freud deixou Alt-Aussee em 3 de setembro,
acompanhado por sua cunhada Minna, passando a noite no Hotel Europa,
em Innsbruck. Ao meio-dia do dia seguinte foram para Bozen e, depois de
uma parada de três horas, seguiram para Rovereto. No dia 5, visitaram
Verona e prosseguiram para Milão. No dia seguinte, navegaram pelo Lago
Como e ficaram na Villa Serbelloni, Bellagio, onde chegaram às oito da
noite. Aí passaram um agradável dia de repouso, mas à noite atravessaram
para Lugano. Sem fazerem uma pausa, voltaram para Bellagio no dia se­
guinte e chegaram a Pallanza, no Lago Maggiore. Isso implicava quatro
viagens, duas de trem e duas de barco, mas puderam ver duas "ilhas má­
gicas" , a Isola Madre e a Isola Bella. Em um cartão escrito na Isola dei
Pescatori, Freud mencionou que Minna, que não estava inteiramente bem
de saúde, suportara a cansativa viagem muito bem. No dia seguinte, 10 de
setembro, foram para Stresa. Passaram dois dias inteiros aí, ou melhor, no

- 39 -
Hotel Alpino, a cerca de 800 metros de altitude. A seguir prosseguiram a
viagem: visitaram Bérgarno e mais uma vez Milão. À noite chegaram a
Gênova, sem, porém, deixarem de passar pela Villa Pallavicini, em Pegli,
que fica no meio do trajeto. Havia muito o que ver em Gênova, onde fica­
ram oito dias, hospedados no Hotel Continental, antes de retomarem a
Viena, onde o trabalho se iniciava no dia 26.
Em 1906, Freud não se separol_l da família. Passaram as semanas ini­
ciais das férias em Lavarone, local encantador nos Dolomitas Inferiores,
cerca de 56 quilômetros a leste de Trento. Freud fixara essa localidade ao
descobri-la em 1900, 57 mas somente seis anos depois teve oportunidade de
visitá-la e nela ficar algum tempo.
O filho Martin escreveu, em estilo muito literário, um relato de uma
malfadada expedição em que acompanhou seu pai durante essa estada,
com sua permissi'i.o extrairei dele os seguintes aspectos da viagem. Às
quatro horas da tarde no dia 14 de agosto, safrarn de Lavarone e caminha­
ram, com p6 até os tornozelos, os 38 quilômetros até Caldonazzo, onde
tomaram um trem para Trento. Aí passaram o resto da tarde estudando as­
pectos arquitetônicos, em especial a Catedral, durante o que Freud expli­
cava a seu ávido filho de quinze anos as características estilísticas e as as­
sociações históricas dos vários prédios. Depois do frescor das montanhas,
acharam o ar em Trento sufocante, nem a perspectiva de sono melhorou
com o canto durante a noite sob a janela; na verdade, o pai dormiu apenas
uma hora e o filho nada. Sem se tolherem, porém, iniciaram antes do café
da manhã um passeio ambicioso. O plano era caminhar até o Monte Gaz­
za, subi-lo e descer até Molveno. O objetivo era verificar se Molveno ser­
viria como local adequado para as férias do ano seguinte. Prosseguiram
através de Cadine, onde tomaram o café da manhã, passando por Terlago
e, rodeando seu lago, até Covello - então começaram a subir a montanha.
Nessa época Monte Gazza é uma montanha particularmente árida, sem
vestígios de sombra ou água. Um bom caminhante pode cruzá-la em seis
horas em circunstâncias favoráveis, mas tentar fazê-lo sob o sol ardente
de agosto não revelava muito conhecimento das condições locais. Depois
de alguns momentos, Martin, que caminhava lentamente um pouco mais à
frente, notou que seu pai não o seguia - depois de uma pequena busca,
encontrou-o reclinado sobre urna pedra perto de um arbusto. Ele tinha o
rosto "vermelho, quase violeta" e só pôde fazer um gesto implorando al­
go para beber. O filho, habituado a não fazer observações supérfluas, não
lhe perguntou se estava se sentindo mal, mas passou-lhe o cantil de
Chianti. Seu pai tinha chegado a tal ponto que bebeu no cantil, sem usar o
copo de alumínio que levava no bolso, e até mesmo esqueceu as conven­
ções, abrindo o colarinho e tirando a gravata. Isso chocou seu filho, pelo
inusitado, indicando uma emergência séria. Todavia, não havia outros si­
nais de que sua costumeira calma estivesse perturbada. Depois de um re-

- 40 -
pouso, passou o distúrbio, provavelmente uma insolação, mas sensata­
mente resolveram deixar a montanha para o outro dia, voltaram a Terlago,
onde conseguiram um transporte que os levou de volta a Trento e depois,
por outro caminho, a Mezzo-Lombardo, através de San Michele. A f toma­
ram outra carruagem que subiu a Andalo e por fim a Malveno, objetivo
dos dois. S6 o percurso de carruagem demorara oito horas.
Depois de se terem refrescado do calor de Trento, deixaram Lavaro­
ne, indo para Riva, no Lago di Garda, numa bela viagem que levou todo o
dia. Aí ficaram até o trabalho chamar de novo.
Freud nessa ocasião começou a emergir de seus anos de isolamento.
Chegaria um tempo em que olharia nostalgicamente para a liberdade e a
calma desses dias solitários, mas, uma vez desatracada sua carreira de re­
conhecimento, não havia retorno. Os poucos que se haviam reunido em
torno dele em Viena se revelariam precursores de uma crescente legião de
seguidores que, antes do fim da vida de Freud, seriam encontrados em to­
das as partes do mundo.

NOTAS

ª Recentemente foi publicada uma tradução de E. Stengel. 1

b Primavera de 1 9 14.
e Wittels afastou-se da Sociedade em 1 9 1 0.
d "Quem adivinhou o famoso enigma e era um homem muito poderoso".
e Referência a uma sentença do final da cerimônia da páscoa judaica - " No próximo
ano em Jerusalém" -, empregada por muitos judeus para exprimir várias esperanças
genuínas ou ilusórias.
f Não em 19 13, como afinna a Sra. Puner. 50 Ela também não está certa ao afirmar que
em 1 9 1 3 ocorreu a primeira de várias visitas; houve apenas mais uma visita (em 1 923).
g Evidentemente, alguém muito parecido com Freud.
h Ver Nápoles e morrer.
i De Mig,wn, de Goethe. Thomas Carlyle traduziu esse trecho como "Know'st thou
the land where lemon- trees do bloom?' ["Conheces a terra onde os limoeiros flores­
cem?" (N. do T.)] 5 1
j Do mesmo poema de Goethe (Mignon). A tradução de Carlyle é "And oranges like
gole! in leafy gloom" . ["E laranjas como ouro em frondosa escuridão." (N. do T.)]
k Doce ócio.
1 Não na mesma tarde, como afirmou Freud ao relatar a história 32 anos depois. 52
m "Die am Erfolge scheitern".

- 41 -
II

O INÍCIO DO RECONHECIMENTO INTERNACIONAL


( 1906- 1909)

DURANTE ALGUNS ANOS, OS TEXTOS DE FREUD OU FORAM IGNO­


rados pelos periódicos alemães ou receberam comentários desdenhosos.
Todavia, algumas resenhas em países de língua inglesa foram amistosas e
respeitosas, ainda que por algum tempo não tenham levado a qualquer
aceitação definitiva de suas idéias.
O primeiro a fazer em inglês uma exposição do trabalho de Breuer e
Freud foi certamente F. W .H. Myers. Apenas três meses depois de ter sido
publicada no Neurologisches Centralblatt (janeiro de 1893), ele comentou
a "Comunicação Preliminar" 1 em um encontro geral da Sociedade de
Pesquisa Psíquica, tendo sido esse comentário publicado nas A tas de ju­
nho desse ano. Assim, as primeiras descobertas do que depois veio a ser a
psicanálise estavam acessíveis aos leitores de língua inglesa seis meses
após terem sido anunciadas. Quatro anos mais tarde (março de 1897),
Myers fez uma comunicação, perante a mesma sociedade, sobre "Histeria
e Gênio", na qual apresentou uma exposição dos Estudos sobre a Histe­
ria. Essa comunicação foi, na época, apresentada de forma resumida no
. Journal da Sociedade, vindo a ser publicada, de forma bem mais amplia­
da, em Personalidade Humana, livro do próprio Myers lançado em 1903,
dois anos após sua morte.
No ano anterior à resenha dos Estudos feita por Myers, o Dr. Mitchell
Clarke, neurologista de Bristol, publicara uma exposição completa em
Brain, 2 periódico para o qual o próprio Freud contribuíra com um estudo
neurológico muitos anos antes. 3 A maioria dos neurologistas não lhe deu
atenção, mas dois leitores, de forma séria, anotaram-na mentalmente. Um
foi Havelock Ellis. Dois anos depois ele publicou um artigo em um perió­
dico americano, no qual fazia uma apresentação dos Estudos e aceitava os
pontos de vista de Freud sobre a etiologia sexual da histeria.4 Foi republi-

- 42 -
cado oito ano:- depois no segundo volume de seus Estudos sobre a Psi­
cologia do Sexo. 5 Em 1904, no primeiro volume de seus Estudos sobre a
Psicologia do Sexo, dedicara várias páginas ao que considerou as "fasci­
nantes e realmente importantes pesquisas de Freud" . Também aludiu neste
e no volume seguinte ( 1906), embora sem oferecer quaisquer referências
bibliográficas, aos artigos de Freud sobre neurastenia e estados de ansie­
dade. Posteriormente, cuidou com freqüência da obra de Freud, em rela­
ção à qual desenvolveu uma atitude cada vez mais negativa.
O outro foi Wilfred Trotter, o famoso cirurgião cujo nome é conheci­
do dos psicólogos em virtude de seu livro Instintos da Horda na Paz e na
Guerra (que na verdade foi preparado em 1904, embora só tenha sido pu­
blicado em 1916).ª Ele chamou minha atenção para a resenha de Clarke
de 1903, quando eu estava começando a me especializar em psicopatolo­
gia, e no mesmo ano li o relato bem mais completo de Myers sobre os
Estudos, em A Personalidade Humana, então recentemente publicado. A
abordagem de Havelock Ellis das novas descobertas surgiu no ano se­
guinte - e então a continuação do estudo necessitava a aprendizagem do
alemão. O primeiro caso analisado fora dos países de língua alemã (1905-
1906) foi o de uma histeria de conversão. Um dos desfechos da análise foi
a decisão da paciente de divorciar-se do marido, um conhecido neurolo­
gista de Nova Iorque, pretextando crueldade. Para completar a história,
posso acrescentar que, quando mais tarde eu vivia na América, ele adqui­
riu o hábito de seguir-me nos congressos ou encontros médicos a fim de
exercer seus consideráveis poderes de vituperação e em certa ocasião o
Dr. James J . Putnam, professor de neurologia em Harvard, viajou magna­
nimamente milhares de quilômetros para apoiar-me; nós nos dávamos
muito bem. Foi o Dr. Putnam quem publicou, no primeiro número de The
Journal of A bnormal Psychology (fevereiro de 1906), o primeiro artigo
em inglês especificamente sobre psicanálise e a primeira exposição ade­
quada da psicanálise nessa língua; no conjunto, porém, ele se mostrava,
nessa época, adverso. No ano anterior, o Dr. Morton Prince, de Boston,
havia, em carta a Freud, falado do "conhecido trabalho" de Freud e lhe
pedira para escrever um artigo para o primeiro número de seu novo perió­
dico. Em Nova Iorque, dois psiquiatras suíços imigrantes, Adolf Meyer e
August Hoch, vinham acompanhando os textos de Freud, o último dos
dois até mesmo com simpatia; dificilmente teriam deixado de mencionar
esses textos a seus alunos.
Todavia, pouco de tudo isso chegou nessa época ao conhecimento de
Freud. Antes de 1906, os únicos acontecimentos fora de Viena de que ele
tomou conhecimento foram as breves e mordazes referências nos periódi­
cos neurológicos e psicológicos alemães e umas poucas tentativas ele­
mentares de testar algumas de suas idéias iniciais. A primeira dessas ten­
tativas foi a de W. Warda, de Blakenburg, que foi o primeiro não-austría-

- 43 -
co a emprestar algum apoio às idéias de Freud. Já em 1900, publicou um
estudo completo de um caso que chamou de "histeria hipnóide" e que
tratou pelo método catártico de Breuer; foi, portanto, o primeiro estrangei­
ro a comprovar as descobertas de Breuer-Freud por meio de i nvestigação
pessoal. 7 Nos três anos seguintes, publicou três estudos casuísticos sobre
neurose obsessiva, mas nunca aplicou o método psicanalítico propria­
mente dito. Não causou muita impressão a Freud; uma carta (inédita) diri­
gida a Fliess em 28 de abril de 1 900 fala depreciativamente do esforço de
Warda. "Ele cuida apenas do meu período i n icial Sturm und Drangb e até
mesmo traz à baila a antiga concepção hipnóide que me fora imposta"
(por Breuer). Em 1903, Wilhelm Strohmayer, de Jena, descreveu um caso
obsessivo em termos da antiga teoria da "defesa" de Freud8 e, cinco anos
depois, publicou um longo estudo com vários casos ilustrativos que con­
firmavam as opiniões de Freud sobre a relação da sexualidade com a an­
siedade e as obsessões. 9 Todavia, aqui, mais uma vez, não se tratava pro­
priamente de psicanálise. O mesmo se aplica a dois outros que escreveram
um pouco depois: Otto Juliusburger, que fez duas contribuições compro­
batórias em 1907 e 1909, 1 0 e Muthmann. Este foi recebido em casa por
Freud a 2 de fevereiro de 1 909. Escreveu o primeiro, e penso que único,
livro sobre o tratamento catártico de Breuer, 1 1 mas nunca se aventurou
além disso. Freud, a respeito dele, comentou secamente que nunca viveu à
altura de seu nome .e

1904

Em 1 904, porém, encontramos duas pessoas que foram mais longe. Otto
Gross, de Graz, um gênio que mais tarde infelizmente se tornou esquizo­
frênico, publicou um artigo 1 2 em que engenhosamente co_mparou a disso­
ciação de idéias descrita por Freud com a dissociação da atividade cons­
ciente mostrada na demência precoce ; em seguida a esse artigo, escreveu
um livro muito original em que era plenamente reconhecida a teoria freu­
diana da libido, junto com os conceitos de repressão, simbolismo, etc. 1 3
Foi meu primeiro instrutor na prática da psicanálise e eu costumava estar
presente quando ele tratava de algum caso. Mais tarde, impedi-o de levar
o grande K raepelin aos tribunais, onde se propunha desacreditá-lo, ex­
pondo sua ignorância da psicanálise ! Em 1908, foi tratado no Hospital de
Doenças Mentais Burghõlzli , em Zurique, onde Jung, depois de afastá-lo
do morfinismo, nutriu a ambição de ser o primeiro a curar um caso de es­
quizofrenia. Ele trabalhava arduamente e me contou que certa vez a ses­
são durou 24 horas até que ambas as cabeças estavam balançando como
mandari ns chineses. Certo dia, porém, Gross fugiu, pulando o muro do
hospital, e no dia seguinte enviou um bilhete a Jung pedindo dinheiro pa­
ra pagar sua conta do hotel. Na Primeira Guerra Mundial, alistou-se em

- 44 -
um regimento húngaro, mas antes do término da guerra cometeu homicí­
dio e suicidou-se.
O outro pesquisador era A. Stegmann, de Dresden. Em 1904, relatou
vários sucessos em casos de histeria e neurose obsessiva que ele tratara
pelo método psicanalftico. 14 Foi o primeiro a escrever sobre fatores in­
conscientes da asma. IS Morreu em 1912.

1 906

Tudo isso era um tímido começo. Mas, em 1906, o lado ocidental come­
çou a se iluminar. No outono de 1904, Freud foi informado por Eugen
Bleuler, professor de psiquiatria de Zurique, de que ele e todo seu pessoal
há algum tempo vinham se ocupando intensamente de psicanálise e des­
cobrindo várias aplicações para ela. A inspiração mais importante vinha
do principal assistente de Bleuler, C.G. Jung. Este lera A Interpretação
dos Sonhos logo depois da publicação e até mesmo fizera três referências
passageiras a ela em um livro que escreveu sobre ocultismo (absit omen !)
em 1902. 16 A partir de 1904, vinha aplicando as idéias de Freud em vá­
rios campos. Concebera alguns testes de associação engenhosos que con­
firmavam as conclusões de Freud sobre o modo como os fatores emocio­
nais podem interferir na rememoração 1 7 e por meio dos quais estava em
condições de demonstrar experimentalmente a presença de material repri­
mido sob a forma do que chamou de "complexos afetivos" - adaptando a
seus propósitos a palavra "complexo" de Theodor Ziehen. Em 1906, pu­
blicara Diagnostische A ssoziationsstudien (Estudos de Diagnóstico de As­
sociação) , coletânea de valiosos estudos de sua autoria e de autoria 'de
seus discípulos, e no ano seguinte um livro que fez história na psiquiatria,
A Psicologia da Demência Precoce, que estendeu várias das idéias de
Freud até o campo das psicoses propriamente ditas. Jung naturalmente en­
viou-lhe exemplares de ambos os livros, mas Freud estãva tão ansioso pa­
ra ler o primeiro deles que o comprara antes de o exemplar enviado por
Jung chegar.
Em abril de 1906, teve in ício entre Freud e Jung uma correspondên­
cia que durou quase sete anos. Durante alguns anos, foi uma troca amigá­
vel e mesmo íntima tanto de pensamentos pessoais quanto de reflexões
científicas.
As notícias de que suas pesquisas dos últimos treze anos, tão desde­
nhadas e desprezadas em outras partes, estavam encontrando aceitação
entusiástica em uma famosa cl ínica psiquiátrica do exterior sensibilizaram
Freud. Seu entusiasmo em relação a isso, bem como a impressão favorável
que logo depois teve da personalidade de Jung, tornava difícil manter um
julgamento frio. Como podia ele prever que as resistências que inevita­
velmente acompanham o trabalho da psicanálise, com as quais ele estava

- 45 -
suficientemente familiarizado em seus pacientes, também podiam embara­
çar e afastar os próprios analistas?
Sem dúvida incentivado pelo crescente interesse por sua obra, Freud
publicou nesse ano a primeira de suas cinco Sammlung kleiner Schrifren
zur Neurosenlehre. Depois da irrupção de atividade no ano anterior, não
houve, como seria de esperar, nenhum trabalho importante em 1906. Fez
duas conferências a pedido, uma sobre "Abstinência Sexual", para uma
sociedade sociológica, e uma sobre "Psicanálise e a Averiguação da Ver­
dade em Procedimentos Legais", para o corpo de juristas da Universida­
de; a última foi publicada em um periódico antropológico. Depois, apa­
rentemente para seu próprio prazer, já que nunca o publicou, escreveu um
pequeno ensaio com muitas idéias novas sobre "Personagens Psicopáticos
no Palco"; viu a luz pela primeira vez em uma tradução inglesa três anos
depois da morte de Freud.

1 907

Em 1907, Freud teve três visitantes de Zurique. Não havia apenas suíços
que trabalhavam sob a orientação de Jung em Zurique. E o primeiro emis­
sário proveniente de Zurique a visitar Freud foi um dos estrangeiros.
Tratava-se de Max Eitingon, então estudante de medicina que completava
seus estudos em Zurique, onde entrara em contato com a nova psicologia.
Nascido na Rússia, fora criado na Galícia e em Leipzig; depois de deixar
Zurique, estabeleceu-se em Berlim, conservando, porém, a nacionalidade
austríaca que seu pai adquirira. No futuro, ele se tornaria um dos amigos
mais próximos de Freud. A razão para sua visita foi consultar Freud sobre
um grave caso em que ele estava interessado. Escreveu a Freud sobre o
caso, que, porém, se mostrou inadequado a tratamento analítico, e acom­
panhou o paciente a Viena em fins de janeiro de 1907. Ele foi o primeiro
do que anos mais tarde se tornou um enorme grupo de visitantes. Eitingon
permaneceu em Viena por cerca de duas semanas e compareceu às reu­
niões das quartas-feiras do pequeno grupo em 23 e 30 de janeiro. Passou
três ou quatro noites com Freud, dedicadas a trabalho analítico pessoal
durante longos passeios pela cidade. Esta era a primeira análise didática !
Lembro o ritmo ágil e o fluxo rápido da fala nesses passeios. O caminhar
veloz costumava estimular o fluxo dos pensamentos de Freud, mas às ve­
zes era de tirar o fôlego de um companheiro que preferiria fazer uma pau­
sa e digeri-los. Em outubro de 1909, Eitingon passou três semanas em
Viena. Duas vezes por semana fazia uma caminhada noturna com Freud,
dando continuidade à sua análise didática. Em novembro desse ano, trans­
feriu-se de Zurique para Berlim, pretendendo ficar af um ano, mas acabou
ficando até ir para a Palestina em 1932. Foi intensamente leal a Freud,
que reconheceu isso em uma carta que lhe escreveu em 12 de janeiro de

- 46 -
1913: "O senhor foi o primeiro a aproximar-se do solitário e será o último
a afastar-se".
Em 22 de fevereiro de 1907, Freud anunciou ao seu pequeno grupo
que o Dr. Johannes Bresler, editor da Psychiatrisch-Neurologische Wo­
chenschrift, convidara-o para tornar-se co-editor de um novo periódico
que estava fundando, a Zeitschrift for Religionspsychologie. Freud acei­
tou e cedeu um artigo para o primeiro número, seu primeiro artigo sobre
religião . I S
Muito mais interessante, porém, foi a primeira visita de Jung a Freud,
ocorrida em 27 de fevereiro de 1907, às dez horas da manhã de um do­
mingo. No mês de julho seguinte, no Congresso Internacional de Neuro­
logia em Amsterdã, no qual ambos lemos contribuições, Jung me fez um
vívido relato desse primeiro encontro. Tinha muito a contar e a perguntar
a Freud, e com intensa animação descarregou uma torrente por três horas
completas. Então o paciente e absorto ouvinte interrompeu-o com a su­
gestão de que conduzissem a discussão de forma mais sistemática. Para
grande espanto de Jung, Freud começou a agrupar o conteúdo da arenga
sob vários títulos precisos que lhes permitiram passar as horas seguintes
em uma palestra mais proveitosa.
Jung compareceu à reunião semanal do grupo de Viena em 2 de mar­
ço, acompanhado por um aluno suíço, o Dr. Ludwig Binswanger, futuro
diretor do Hospital de Doenças Mentais Kreuzlingen. Já no 'ano anterior
B inswanger publicara um artigo em que apoiava as teorias de Freud. 19
Por dois ou três anos, como a correspondência entre eles mostra e
minhas lembranças confirmam, eram irrestritos a admiração de Jung por
Freud e seu entusiasmo pela obra deste. Encarava seu encontro com Freud
como o ponto alto de sua vida - e poucos meses depois de encontrá-lo
pela primeira vez disse-lhe que quem quer que adquirisse conhecimento
da psicanálise teria comido da árvore do Paraíso e alcança90 a visão.
Freud por sua vez não apenas estava muito grato pelo apoio que lhe
viera de longe, mas também estava muito atraído pela personalidade de
Jung. Logo decidiu que Jung seria seu sucessor e às vezes chamava-o de
seu "filho e herdeiro" . Expressou a opinião de que Jung e Otto Gross
eram as únicas mentes realmente originais entre seus seguidores. 20 Jung
seria o Josué destinado a explorar a terra prometida da psiquiatria que
Freud, como Moisés, s6 teve permissão de ver à distância. 21 Aliás, essa
observação tem interesse como indicadora da auto-identificação de Freud
com Moisés, a qual no futuro se tornou muito evidente.
Penso que o que mais lhe atraiu em Jung foi a vitalidade, a jovialida­
de e sobretudo a imaginação sem limites. Esta era uma qualidade que ra­
ramente deixava de cativar Freud, tal como nos casos de Fliess e Ferenc­
zi. Constituía o eco de algo de grande significação em sua própria perso­
nalidade, algo em relação a que sua capacidade bastante desenvolvida pa-

- 47 -
ra autocrítica tinha de exercer o mais rigoroso controle. Mas nem com
Jung nem com Ferenczi ele se envolveu emocionalmente, em sentido pes­
soal, como em relação a Fliess; apenas se entusiasmava com a presença
deles.
Era inteiramente natural que, quando a Associação Internacional foi
fundada em 1910, Freud designasse Jung para presidente e, como espera­
va, por um período indefinido. Em primeiro lugar, Jung, com sua presença
dominante e porte marcial, desempenhava o papel de líder. Com sua for­
mação psiquiátrica e sua posição, seu excelente intelecto e sua evidente
devoção ao trabalho, parecia muito mais qualificado para o posto do que
qualquer outra pessoa. No entanto, tinha duas desqualificações sérias.
Não se tratava de uma posição que se adequasse a seus próprios senti­
mentos, que eram mais os de um rebelde, um herético, em suma, um " fi­
lho", que os de um líder - e essa consideração logo se tornou manifesta
em sua falta de interesse pela consecução de seus encargos. Além disso,
sua mentalidade tinha a séria falha de falta de lucidez. Lembro-me de
certa vez ter encontrado alguém que estudara com Jung e ter ficado cho­
cado com a resposta que deu à minha pergunta sobre como era Jung em
criança: "Ele tinha uma mente confusa". Não fui a única pessoa a fazer a
mesma observação.
A admiração de Jung pela personalidade de Freud, com sua pene­
trante perspicácia, estava longe de se estender ao grupo de seguidores
deste. Jung falou deles para mim dizendo que eram uma mixórdia de ar­
tistas, decadentes e medíocres, e deplorou que Freud estivesse cercado
por eles. Sem dúvida eram um pouco diferentes, em seu procedimento, da
classe profissional a que Jung estava acostumado na Suíça, mas, certo ou
errado, não pude deixar de suspeitar que seu julgamento fora tingido por
algum preconceito "racial". De qualquer modo, a antipatia entre os suíços
e os vienenses era recíproca e apenas aumentou com õ tempo, circunstân­
cia que causaria a Freud muito sofrimento.
Freud e Jung se encontrariam em outras nove ou dez ocasiões, inclu­
sive nos quatro Congressos e na viagem em conjunto à América do Norte,
mas a novidade do primeiro encontro nunca mais pôde ser experimentada.
A última vez que se viram foi no Congresso de Munique, em setembro de
1913.
Antes do fim desse ano memorável, outro amigo, mais permanente ,
visitaria Freud, Karl Abraham. Tivera um cargo sob a direção de B leuler
e Jung, em Zurique, por três anos, mas como ·não era suíço não tinha
perspectivas de ser promovido, de modo que decidiu, em novembro de
1907, instalar-se em Berlim e trabalhar como psicanalista. Como Jung, vi­
nha estudando a obra de Freud desde 1904. Enviara a Freud em junho
uma separata da primeira das valiosas séries de artigos que escreveu sobre
Psicanálise,22 os quais lera perante a Deutscher Verein für Psychiatrie

- 48 -
(Sociedade Psiquiátrica Alemã) em Frankfurt a 27 de abril de 1 907 - e ela
causou impressão favorável em Freud. Iniciou-se uma correspondência
regular e Freud convidou-o para visitá-lo, o 4ue Abraham fez em 15 de
dezembro de 1907, tendo durante alguns dias animadas conversas com
Freud. Também compareceu a uma reunião do pequeno grupo de Freud no
dia 18. Os dois logo solidificaram o que seria uma amizade inabalável;
Abraham foi uma das três pessoas (as outras fomos Ferenczi e eu) cuja
correspondência constante com Freud trazia à tona os mais valiosos co­
mentários científicos.
O próximo visitante estrangeiro constituiu uma aquisição igualmente
valiosa. Sandor Ferenczi, de Budapeste, que se tornaria o amigo e colabo­
rador mais próximo de Freud, era um clínico geral que havia feito expe­
riências com hipnotismo. Lera A Interpretação dos Sonhos quando de seu
lançamento, mas a pôs de lado com um dar de ombros. Em 1907, porém, o
Dr. F. Stein, de Budapeste, psicopatologista que, por meio de uma apre­
sentação de Jung, conhecera Freucl pessoalmente, induziu Ferenczi a
dar-lhe outra oportunidade - e dessa vez o efeito foi elétrico. Escreveu a
Freud e, acompanhado por Stein, que o apresentou, visitou-o em um do­
mingo, 2 de fevereiro de 1908, pouco antes do Congresso de Salzburg. A
impressão que causou foi tamanha que se viu convidado a passar duas
semanas, em agosto, com a família de Freud - de quem logo se tornou
predileto -, durante as férias em Berchtesgaden.
Freud de início foi atraído pelo entusiasmo de Ferenczi e por sua
mente vivamente especulativa, qualidades que anterionnente o haviam
fascinado em seu grande amigo Fliess. Desta vez, porém, suas emoções
estavam menos envolvidas na amizade, embora ele sempre mantivesse um
intenso interesse paternal pela vida particular e pelas dificuldades de Fe­
renczi. Passaram muitas férias juntos e entre 1908 e 1933 trocaram mais
de mil cartas, todas preservadas. Desde a primeira Ferenczi discutia pro­
blemas científicos e os dois em suas conversas, assim como na correspon­
dência, estabeleceram várias conclusões importantes . em tennos de psica­
nálise.
Hanns Sachs, de Viena, já havia freqüentado as conferências de
Freud na Universidade por vários anos e em 1910ª aventurou-se a visi­
tá-lo pessoalmente para dar-lhe um pequeno livro que acabara de publicar.
Tratava-se de uma tradução de algumas das Baladas da Caserna de Ki­
pling - aliás, uma excelente tradução.
Nessa época, os membros do pequeno círculo que por vários anos se­
riam amigos chegados de Freud já o conheciam pessoalmente: Rank em
1906, Eitingon e Abraham em 1907, Ferenczi e eu em 1908 e Sachs em
1910.
A família tinha apreciado tanto as férias em Lavarone no ano anterior
que voltou em 1907. Em fins de agosto, foram primeiro para Wolkenstein

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(Selva in Gardena), nos Dolomitas, e depois para Annenheim, no Lago
Ossiacher, logo ao norte de Villach, na Caríntia, onde passaram duas se­
manas. Em 12 de setembro, Freud partiu para Bozen, tendo sua cunhada
tomado u trem no entroncamento de Franzensfeste. O resto da família foi
para Thalhof, Payerbach-Reichenau, onde esperaria sua volta. De Bozen,
Freud escreveu dizendo que ainda não fi zera planos. Sempre preferia
viajar da maneira mais livre possível. No dia seguinte, escreveu dizendo
que estavam indo para Roma na manhã seguinte e que lá chegariam à
noite, mas deve ter mudado de idéia visto que dois dias depois, dia 15,
chegou uma carta de Florença. No dia 16, depois de mostrar a Minna um
pouco de Florença e de sua amada Fiesole, anunciou que ela estava de
partida nessa noite a fim de continuar sua recuperação em Merano, pas­
sando a noite em Verona. Nesse ínterim, Freud seguiu para Orvieto e no
dia seguinte chegou a Roma. Queria ficar algum tempo sozinho nessa via­
gem para poder escrever.
Na primeira carta de Roma, Freud disse a sua mulher que não podia
compreender por que ela pensava que ele estava sendo aventureiro, já que
estava extremamente bem · no Hotel Milano e aí podia trabalhar. Passou
toda a manhã do primeiro dia no Forum e trabalhou à tarde. No dia se­
guinte visitou o monumento a Garibaldi, para ter sua vista favorita de
Roma. Ainda não tinha podido ir à Villa Borghese e visitara primeiro São
Pedro, pois no dia seguinte havia uma festa. Eitingon, que passava por
Roma, visitou-o nessa noite; mas se desencontraram; haviam se encontra­
do em Florença poucos dias antes. O dia seguinte foi dedicado às cata­
cumbas, onde Freud naturalmente estava mais interessado pelas catacum­
bas judias. Nas prateleiras ainda havia castiçais, "que penso serem cha­
mados menorás" , observação que exemplifica sua falta de familiaridade
com as sinagogas. A carta que se segue merece ser citada como exemplo
típico de suas cartas escritas durante viagens.

"Roma, 22.9.1907
"Querida Família,
"Na Piazza Colonna, atrás da qual me encontro, como sabem, con­
gregam-se todas as noites alguns milhares de pessoas. O ar da noite é
realmente delicioso; em Roma mal se conhece vento. Atrás da coluna há
um coreto para uma banda militar que toca ali todas as noites, e no teto de
uma casa do outro lado da praça há uma tela na qual uma firma de publi­
cidade italiana projeta diapositivos. Na verdade, são anúncios, mas para
enganar o público e atrair sua atenção são intercaladas fotos de paisagens,
negros do Congo, escaladas de geleiras, etc. Mas, como isso não seria
bastante, o tédio é interrompido por filmes curtos pelos quais as crianças
(inclusive o pai de vocês) suportam quietas os anúncios e as monótonas
fotografias. São, porém, avarentos com esses petiscos, de modo que tive

- 50 -
l de ver a mesma coisa muitas e muitas vezes. Quando me viro para ir em­
bora percebo certa tensão na multidão, o que me faz olhar de novo, e de
fato começou um novo filme, de modo que continuo ali. Até às 21 horas,
em geral, fico enfeitiçado; então começo a sentir-me solitário demais na
multidão, por isso volto ao meu quarto para escrever a vocês depois de
pedir urna garrafa de água fresca. Os outros que passeiam em casais ou
undici, d.odiei permanecem enquanto duram a música e os diapositivos.
"Em outra esquina da praça, outro desses horríveis anúncios continua
a cintilar. Acho que o remédio se chama Fermentine. Quando estive em
Gênova com sua tia há dois anos atrás, chamava-se TOT; era um remédio
de estômago qualquer, realmente intolerável. Fermentine, por outro lado,
não parece perturbar as pessoas. Geralmente mostram-se dispostas a olhar
o que está sendo projetado na tela e, ao mesmo tempo, ouvir o que os
amigos estão dizendo atrás delas. Oaro que há muitas criancinhas entre
elas, e muitas mulheres diriam que elas já deveriam ter ido para a cama há
muito tempo. Os estrangeiros e os nativos se misturam da maneira mais
natural. Os fregueses do restaurante atrás da coluna e da confeitaria de um
dos lados da praça também se distraem; podem-se conseguir cadeiras de
vime perto da música e muitas pessoas gostam de sentar-se na balaustrada
de pedra em torno do monumento. Não tenho certeza, no momento, se es­
queci urna fonte da praça, pois ela é muito grande. Atravessa-a o Corso
Umberto (do qual, na verdade, ela é urna extensão) com suas carruagens e
um bonde elétrico, mas não fazem nenhum mal, pois um romano nunca
abre o caminho para um veículo e os motoristas não parecem dar-se conta
do seu direito de atropelar as pessoas. Quando a música pára, todo mundo
bate palmas estrepitosamente, mesmo os que não a escutaram. De tempos
em tempos, gritos horríveis são ouvidos no meio da multidão, em geral
quieta e bem distinta; esse barulho é causado por cerca de meia dúzia de
jornaleiros que, sem fôlego como o arauto da Maratona, se atiram na pra­
ça com as edições da noite, achando que com as notícias estão aliviando
uma tensão quase insuportável. Quando têm um acidente a oferecer, com
mortos ou feridos, realmente se sentem donos da situação. Conheço esses
jornais e compro dois deles todos os dias por 5 centesimi cada um; são ba­
ratos, mas devo dizer que nunca há nada neles que poderia interessar um
estrangeiro inteligente. De vez em quando há algo parecido com um tu­
multo, todos os meninos correm em determinada direção, mas não é preci­
so ter medo de que tenha acontecido algo; daí a pouco voltam tranqüila­
mente. As mulheres desta multidão são muito bonitas, exceto as estrangei­
ras ; as mulheres de Roma - veja que estranho - são belas mesmo quando
feias, mas não são muitas as feias.
"Do meu quarto posso ouvir claramente a música, mas é claro que
não consigo ver as figuras. Justamente agora a multidão está batendo pal­
mas de novo.
"Com meu carinho,
"Papai".

- 51 -
Imediatamente depois desta chegou uma carta para sua filha Mathilde,
desculpando-se por ter esquecido uma fonte da Piazza, "o que mostra
como é difícil observar acuradamente". O dia seguinte foi tomado por "ir­
resistíveis impressões" dos museus, a tal ponto que começou a se sentir
cansado de fazer turismo e a pensar em voltar para casa. Mas ficou satis­
feito por ter reconhecido a placa da Gradi va no Vaticano. Na última carta,
de 24 de setembro, ele faz uma divertida descrição de uma apresentação
da Carmen, em que, entre outras coisas, se mostra sua atitude em relação
à música. O primeiro da orquestra a chegar foi um violinista, que come­
çou a afinar seu instrumento, "tendo evidentemente esquecido de fazê-lo
em casa " . O regente permaneceu absolutamente imóvel por vários minu­
tos, mas isso era apenas "a calmaria antes da tempestade, que a segui r se
desencadeou". Roma estava celestial como sempre. Se ele pudesse viver
aí. No último dia, subiu ao Castelo de S. Angelo para ter uma vista de
Roma, visitou a capela Sistina mais uma vez e deleitou-se com as mara­
vilhosas antiguidades do Museu do Vaticano. Partiu no dia 26, depois de
apenas oito dias em Roma, e começou a trabalhar no dia 30.
Em 1907, o Dr. Fürst, editor de um periódico dedicado a medicina
social e higiene, pediu-lhe para exprimir seus pontos de vista sobre o que
então constituía uma nova questão , a da educação sexual das crianças.
Freud era, naturalmente, a favor dessa educação, na medida em que já ti­
nha visto muitos resultados dolorosos da sonegação de�sa informação às
crianças, e relatou alguns exemplos pungentes. Uma publicação mais im­
portante, porém, foi a primeira contribuição de Freud para o estudo da re­
ligião, na qual comparou e contrastou certas práticas religiosas com os
atos compulsivos desempenhados por pacientes obsessivos. A principal
produção do ano foi seu livro sobre o romance de Jensen, Gradiva. O
conteúdo , bem como o de outros textos de Freud, serão abordados mais
adiante, em capítulo apropriado. O livro era o primeiro de uma nova série
de publicações, o primeiro de vários que editaria, Schriften zur angewan­
dten Seelenkunde (Artigos sobre Psicologia Aplicada) (Deuticke). Foi
substituída por outra série em 1 920, quando se publicou o vigésimo volu­
me das Schriften. Isso em si mesmo é indicativo da mudança de perspecti­
vas de Freud em relação a dez anos antes, quando lhe parecia reservada
apenas uma vida solitária em seu trabalho científico.

1908

No final de novembro de 1907, eu passara uma semana com Jung em Zu­


rique, onde encontrei, entre outros que aí trabalhavam, Brill e Peterson,
de Nova Iorque. No início de um conhecimento, Jung podia ser muito en­
cantador. Como exemplo, posso citar a seguinte lembrança. Nessa época
estavam trabalhando, em Burghõlzli, com o fenômeno psicogalvânico de

- 52 -
Otto Veraguth, e Brill começou a explicá-lo a mim. Sabendo que eu esta­
va muito bem informado, Jung interrompeu-o com estas palavras: "Não
convidamos o Dr. Jones para ensinar-lhe, mas para consultá-lo". Este bi­
lhete escrito por ele, nessa época, ilustra a mesma característica.

"Burgholzli, Zurique, 23.XI. 1907


"Caro Dr. Jones,
"Eu ficaria muito satisfeito de vê-lo o mais breve possível. Se o se­
nhor chegar domingo à noite, informe-me por telefone segunda-feira de
manhã às 9 horas. Espero o senhor para almoço às onze. Se o senhor che­
gar segunda-feira à noite, eu o encontrarei no Hotel Baur au Lac entre 11
e 12. Espero que tenhamos muitas conversas i11teressantes.
"Com as melhores saudações,
Sinceramente,
"Dr. Jung"

Ele também era capaz de ser muito espirituoso. Lembro-me de ter-lhe per­
guntado certa vez se ele pensava que a voga do dadaísmo, que estava co­
meçando em Zurique, tinha uma bas.e psic6tíca. Respondeu: "É muito in­
sensato para qualquer insanidade decente " .
Nessa época, e m Zurique, tinha-se iniciado u m pequeno "Grupo
Freud", como era chamado. Com poucas exceções, como Edouard Clapa­
rede, de Genebra, e Binswanger, de Kreuzlingen, todos os membros pro­
vinham de Zurique. Jung era, naturalmente, o líder do grupo, que abran­
gia, entre outros, seu chefe, o Professor Bleuler, um parente de Jung cha­
mado Franz Riklin e Alphonse Maeder. Todos vinham fazendo úteis con­
tribuições para o conhecimento psicanalítico.
O pequeno grupo costumava encontrar-se no Hospital de Doenças
Mentais Burghõlzli a fim de discutir seu trabalho - e ··em geral havia um
ou mais convidados presentes. Lembro-me de ter comparecido a uma das
reuniões iniciais em novembro de 1907 - creio que foi a segunda das reu­
niões -, quando estava presente o famoso neurologista C. von Monakow .
Não sei o que ele fez com ela, mas imaginei que depois de escalar a
montanha ele deve ter temido estar em um sabá de bruxas. Sustentou, po­
rém, que vinha praticando a psicanálise há 25 anos, de modo que Freud
nada tinha de novo a ensinar-lhe.
Sugeri a Jung a conveniência de organizar um encontro geral dos in­
teressados pela obra de Freud - e ele organizou um encontro que se reali­
zou em Salzburg no mês de abril seguinte; pretendia-se realizá-lo em
Innsbruck, mas Salzburg era mais conveniente para os vienenses. Eu que­
ria intitulá-lo "Congresso Psicanalítico Internacional", como ele e todos
os subseqüentes ficaram desde então conhecidos, mas Jung insistiu em
encabeçar os convites que enviou com a denominação Zusammenkunft für

- 53 -
Freud' sche Psychologie (Encontro de Psicologia Freudiana), inusitado
título pessoal para um encontro científico. Representava uma atitude que a
seguir daria a seu chefe, B leuler, um ponto de apoio para críticas. Aliás,
quando mais tarde Abraham perguntou a Freud como deveria se referir ao
Congresso quando publicasse o artigo que lera nele,24 Freud respondeu
que tinha sido apenas um encontro privado e que Abraham não deveria
mencioná-lo.
No entanto, tratava-se de uma ocasião histórica, o primeiro reconhe­
cimento público da obra de Freud. Como não existe nenhum relato do
acontecimento, parece-me adequado fazer um aqui. O Congresso diferiu
de todos os subseqüentes por não ter presidente,e nem secretário, nem te­
soureiro, nem conselho, nenhum tipo de subcomitê e - o melhor de tudo -
nenhuma reunião administrativa! Durou apenas um dia.
No domingo, 26 de abril de 1908, reunimo-nos no Hotel Bristol, em
Salzburg. Freud chegara de Veneza nessa manhã. Entre os outros hóspe­
des que lá estavam havia o Dr. Aldren Turner, conhecido neurologista de
Londres, que deve ter indagado o que estava acontecendo, e o professor
Alfred E. Hoche, de Friburgo, que mais tarde encontraremos tanto como
secreto admirador quanto como implacável inimigo de Freud.
O encontro foi realmente internacional, como se verá a partir dos se­
guintes fatos. Foram lidos nove artigos: quatro da Áustria, dois da Suíça,
um da Inglaterra, um da Alemanha e um da Hungria. Havia 42 presentes,
metade dos quais eram ou se tomaram analistas atuantes. Na ocasião em
que escrevo, os únicos sobreviventes são, além de mim, Graf, Hitschmann
e Jung. Os nomes dos que estiveram presentes, conferidos por meio de in­
quéritos, eram:
Dos Estados Unidos
A.A. Brill, Nova Iorque
Da Áustria
Alfred Adler, Viena
D. J. Bach, Viena
Guida Brecher, Gastein-Merano
Frau Professor Erismann, Viena
Paul Fedem, Viena
Si gmund Freud, Viena
Josef K . Friedjung, Viena
Max Graf, Viena
Frieda Gross, Graz e Munique
Otto Gross, Graz e Munique
Eduard Hitschmann, Viena
Hugo Heller, Viena
Edwin Hollerung, Viena
Ludwig Jekels, B ielitz

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Max Kahane, Viena
Paul Klernperer, Viena
Professor Leopold Kõnigstein, Viena
Hans K õnigstein, Viena
Otto Rank, Viena
Von Redlich, Viena
Rudolf Reitler, Baden perto de Viena
Isidor Sadger, Viena
Maxirnilian Steiner, Viena
Wilhelm Stekel, Viena
Hugo Schwerdtner, Viena
Fritz Wittels, Viena
Da Inglaterra

Ernest Jones, Londres


Wilfred Trotter, Londresg
Da Alemanha
Karl Abraham, Berlim
Arend, Munique
Professor A. Lõwenfeld, Munique
A. Ludwig, Munique
A. Stegmann, Dresden
Da Hungria
Sandor Ferenczi, Budapeste
F. Stein, Budapeste
Da Suíça
Hans Bertschinger, Schaffhausen
Prof. E. Bleuler, Zurique
Edouard Claparede, Genebra
Max Eitingon, Zurique
C.G. Jung, Zurique
Franz Riklin, Zurique
Os artigos, na ordem em que foram apresentados, foram os seguintes:

Freud: "Caso Clínico"


Jones: "Racionalização na Vida Cotidiana"
Riklin: "Alguns Problemas da Interpretação de Mitos"
Abraham: "As Diferenças Psicossexuais entre a Histeria e a Demên-
cia Precoce"
Sadger: "A Etiologia da Homossexualidade"
Stekel: "Sobre a Histeria da Ansiedade"
Jung: "Sobre a Demência Precoce"
Adler: "Sadismo na Vida e na Neurose"

- 55 -
Ferenczi: "Psicanálise e pedagogia"
Além disso, Otto Rank leu uma passagem que ele havia descoberto na
correspondência25 de Schiller, na qual este aconselhava um amigo a libe­
rar sua imaginação da limitação da razão crítica pelo emprego de um fluxo
de associação livre.
A maioria dos artigos foi pubiicada posteriormente, mas o único que
nos interessa aqui é o de Freud. Jung lhe pedira para relatar um caso clí­
nico,26 de modo que descreveu a análise de um caso obsessivo, ao qual,
depois, passamos a nos referir como "O Homem dos Ratos" 27 Ele se
sentou na extremidade de uma longa mesa, em cujos lados nos reunimos,
e falou com sua voz baixa e clara, em tom de conversa. Iniciou às oito da
manhã, hora continental, e ouvimos com absorta atenção. Às onze, inter­
rompeu-se, alegando que já devíamos estar cansados. Mas estávamos tão
absorvidos que insistimos para que continuasse, o que fez até quase uma
hora. Uma pessoa que consegue manter uma platéia atenta por cinco horas
deve ter algo de muito valioso para dizer. O que nos prendia a atenção,
porém, não era apenas a novidade do que ele nos tinha a dizer, mas tam­
bém seu extraordinário dom para fazer urna apresentação ordenada.
Entre as idéias que expôs estava a alternância de amor e ódio em re­
lação à mesma pessoa, resultando a separação inicial entre as duas atitu­
des em repressão do ódio. A seguir, em geral, vem uma reação ao ódio
sob a forma de uma invulgar ternura, horror a efusão de sangue, etc.
Quando as duas atitudes têm força igual, resulta uma paralisia de pensa­
mento expressa no sintoma clínico conhecido como folie de doute. As
tendências obsessivas, a grande característica dessa neurose, significam
um esforço violento para superar a paralisia pela mais extrema insistência.
Outro aspecto interessante por ele comentado é a regressão, nessa neuro­
se, da ação para o puro pensamento, sendo isso auxiliado pela atração da
curiosidade primitiva. Isso, explica por que a maioria dos sintomas da
neurose permanecem em um nível exclusivamente mental.
Talvez seja pertinente incluir aqui algumas reminiscências e impres­
sões mais pessoais desse primeiro encontro com Freud. Sua primeira ob­
servação quando fui apresentado (por Jung) foi a de que, pela forma de
minha cabeça, eu não podia ser inglês, devendo ser galês.h Isso me es­
pantou, em primeiro lugar porque não é comum que uma pessoa do conti­
nente europeu saiba da existência de minha terra natal e depois porque eu
suspeitara que meu crânio dolicocefálico pudesse ser tanto teutônico
quanto celta. Durante nossa longa conversa à noite, ele instou para que eu
expusesse sua teoria dos sonhos em inglês; ela parecia significar para ele
mais do que outros aspectos de sua obra.
Aos 52 anos de idade, Freud estava apenas começando a mostrar pe­
quenos sinais de encanecimento. Tinha uma cabeça surpreendentemente
bem conformada, com cabelos espessos, escuros e bem penteados, um

- 56 -
belo bigode e uma barba cerrada e pontuda. Tinha cerca de um metro e
setenta de altura, sendo um pouco cheio - embora provavelmente sua
cintura não medisse mais que seu peito - e possuindo as marcas de uma
vida sedentária. Já que estou mencionando números, devo acrescentar que
a circunferência de sua cabeça era de 55 centímetros e meio, sendo os
diâmetros de 18 e 15 centúnetros e meio respectivamente. Assim, com um
índice cefálico de 86, ele era decididamente dolicocefálico. Tinha manei­
ras ativas, talvez algo inquietas ou mesmo ansiosas, com olhos que se
movimentavam rapidamente, produzindo um efeito sério e perspicaz. Per­
cebi vagamente um aspecto algo feminino em suas maneiras e movimen­
tos, o que talvez tenha feito com que eu desenvolvesse em relação a ele,
não a atitude filial mais característica de muitos analistas, mas uma espé­
cie de atitude de ajuda ou mesmo protetora. Ele falava com uma enuncia­
ção i11teirarr.ente clara, aspecto apreciado por um estrangeiro agradecido,
em um tom de voz amigável, mais agradável quando baixa do que nas ra­
ras ocasiões em que a elevava. Era hábil ao elucidar minha má pronúncia
de palavras alemãs, mas parecia sensível a erros de gênero;i lembro-me,
por exemplo, de sua impaciência quando eu falava "die Schnee" .
Era natural que Freud tirasse partido de seus novos adeptos suíços, os
primeiros estrangeiros e, aliás, os primeiros não-judeus. Depois de tantos
anos de desprezo, ridicularização e difamação, teria sido necessária uma
disposição excepcionalmente filosófica para não se ufanar quando conhe­
cidos professores universitários de uma famosa clínica psiquiátrica estran­
geira surgiram em cena apoiando convictamente sua obra. As chamas, po­
rém, sempre ardiam ocultas por trás do exterior calmo de Freud - e seu
júbilo possivelmente excessivo não era agradável aos vienenses, que no
fim das contas haviam sido os primeiros a se reunirem em torno dele
quando estava sozinho no mundo. O ciúme deles centrava-se evidente­
mente em Jung, em relação a quem Freud era especialmente entusiasta.
Essa atitude deles era acentuada pela suspeita judia em relação a não-ju­
deus em geral, com sua expectativa, que raramente falha, de anti-semitis­
mo. O próprio Freud tinha um pouco dessa suspeita, mas na ocasião ela
estava recolhida, diante do prazer de ser por fim reconhecido pelo mundo
externo. Os vienenses até mesmo predisseram, já nessa época, que Jung
não permaneceria por muito tempo no campo psicanalítico. Se nessa épo­
ca tinham alguma justificativa para i sso é outra questão, mas os alemães
têm um bom ditado: "der Hass sieht Scharf. "j
Aos artigos seguiu-se, à noite, um banquete de confraternização,
animado por um divertido discurso de Brecher, de Merano. Ele manteve
esse costume por uns anos, até que Hitschmann lhe sucedeu com igual su­
cesso. No meio do jantar, Freud viu alguém no saguão cujas costas lhe
pareciam familiares, tendo então se dirigido à pessoa para vê-la de perto.
Era seu meio-irmão Emmanuel, então com 74 anos, que estava lhe prepa-

- 57 -
rando uma surpresa. Freud passou o dia seguinte com ele e o viu quando
ele partiu para Berlim, antes de ele próprio tomar o trem noturno para
Viena. 29
Em uma pequena reunião depois dos artigos, decidiu-se a publicação
de um periódico, o primeiro dedicado à psicanálise; o número desses pe­
riódicos foi crescente até as catástrofes da Segunda Guerra Mundial, mas
ainda existem nove, à parte vários "simpatizantes". Tratava-se do Ja­
hrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen, in­
terrompido com a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Era dirigido por
Bleuler e Freud e editado por Jung. No ano anterior, Freud havia instado
junto a Jung para que este fundasse um periódico, para o qual Jung então
propôs o título A rchiv für Psychopathologie. 30 Sugeri que ele fosse inter­
nacional, aceitando artigos em três linguas, mas fracassaram as negocia­
ções com Morton Prince para uni-lo com The Journal of A bnormal Psy­
chology. Os vienenses se sentiram ofendidos por serem ignorados na pro­
dução do novo periódico e em especial por sequer serem consultados; ele
fora discutido com os suíços, bem como com a presença apenas de Abra­
ham, Brill, Ferenczi e minha. O ressentimento dos vienenses cresceu e
acabou se exprimindo abertamente dois anos depois, em Nuremberg.
Ter um periódico ao qual tinha livre acesso para suas publicações
significava muito para Freud. Isso o fazia sentir-se mais independente. Ele
agora podia permitir-se rir de seus opositores. Poucos meses depois escre­
veu a Jung: "Concordo inteiramente com o senhor. Muitos inimigos,
muita honra.k Agora que podemos trabalhar, publicar o que queremos e
desfrutar de nosso companheirismo, temos algo de muito bom, e espero
que continue assim por muito tempo. Se o tempo do 'Reconhecimento'
chegar, será em relação ao presente como o fantástico encanto do Inferno
em relação ao abençoado tédio do Paraíso. (Naturalmente, quero dizer o
contrário.)" 3 1
Depois do Congresso BriII e eu fomos a Viena, onde experimentamos
a deliciosa hospitalidade da família Freud, e a seguir a Budapeste, para
visitar Ferenczi. Comparecemos a um encontro da Sociedade de Viena no
dia 6 de maio, aniversário de Freud. Brill embarcou para Nova Iorque,
onde uma noiva o esperava, enquanto eu passei seis meses trabalhando em
Munique e Paris antes de assumir meu novo cargo no Canadá.
Foi dessa vez que Brill pediu a Freud os direitos de tradução de suas
obras, que Freud cedeu de bom grado, mas sobretudo impensadamente.
Isso, no futuro, seria fonte de infindáveis dificuldades pessoais e mesmo
legais. Minha própria reação foi de considerável alívio, pois eu estava to­
mado por meus planos de trabalho, em que já estava empenhado, e sabia,
por experiência, como o trabalho de tradução pode tomar tempo. O pró­
prio Freud era um rápido e excelente tradutor, mas traduzia de forma
muito livre e não creio que alguma vez tenha compreendido como seria

- 58 -
uma tarefa imensa e difícil apresentar criteriosamente e organizar ( ! ) seus
próprios textos . O conhecimento evidentemente imperfeito que Brill tinha
tanto do alemão quanto do inglês logo despertou minha apreensão, de
modo que me ofereci para ler seu manuscrito e submeter à sua considera­
ção quaisquer sugestões que me ocorressem; meu nome não seria mencio­
nado. Afinal de contas, o inglês era minha l íngua materna, enquanto Brill
o adquirira nos desfavoráveis ambientes de seus primeiros tempos em No­
va Iorque. Mas ele rejeitou o oferecimento, provavelmente porque o to­
mou como uma crítica a suas capacidades lingü ísticas; ele tinha algum co­
nhecimento de uma meia dúzia de l ínguas e tempos atrás ganhara a vida
dando aulas dessas línguas. Não preciso estigmatizar as traduções de
Brill; outros já o fizeram à vontade. Quando comentei com Freud, uns
anos depois, que era uma pena sua obra não estar sendo apresentada ao
público de l íngua inglesa de uma forma mais digna, ele respondeu: "Prefi­
ro ter um bom amigo a um bom tradutor", e chegou a me acusar de estar
com ciúmes de Brill. Eu não tinha necessidade disso, mas não era fácil
inudar a opinião de Freud sobre qualquer coisa, e não voltei a tocar no as­
sunto. Somente depois de anos de reclamações provenientes do exterior,
Freud reconheceu para si próprio a verdade de minha observação.
A relativa falta de refinamento de Brill em seus primeiros tempos não
podia ocultar o importantíssimo fato de que ele tinha um coração de ouro.
Desde o início percebi que deveríamos nos dar bem no trabalho comum
que tínhamos pela frente nos Estados Unidos e nunca encontrei um amigo
mais leal, como ele consistentemente provou ser.
No início de 1909, Freud fez outra amizade de tipo muito diferente;
perdurou, sem uma nuvem, até o fim de sua vida. Essa amizade foi com
Pfarre!" Oskar Pfister, de Zurique, com quem manteve extensa correspon­
dência. A primeira visita de Pfister a Freud foi num domingo, 25 de abril
de 1909. Freud gostava muito dele. Admirava seus elevados padrões éti­
cos, seu inabalável altruísmo e seu otimismo em relação à natureza huma­
na. Provavelmente, também o divertia pensar que podia ter uma amizade
irrestrita com um clérigo protestante, a quem podia dirigir cartas como
"Caro Homem de Deus" e com cuja tolerância por "um herético impeni­
tente" - como se referiu a si mesmo - podia contar. Pfister, por sua vez,
sentia ilimitada admiração e gratidão pelo homem que ele insistia ser um
verdadeiro cristão. 3 2 A única concessão que Freud podia fazer a essa
gentil denúncia era observar que seu amigo Christian von Ehrenfels, de
Praga, que acabara de escrever um livro sobre ética sexual, batizara a si
próprio e a Freud como "protestantes sexuais". 33
Houve alguns outros visitantes estrangeiros em Viena nesse período.
No início de julho de 1908, o Dr. Macfie Campbell, escocês que estava
indo para os Estados Unidos a fim de assumir o cargo de diretor do Insti­
tuto Psiquiátrico de Nova Iorque, visitou Freud. 34 Mais tarde juntou-se a

- 59 -
nosso grupo nos Estados Unidos, mas tinha um temperamento muito cau­
teloso para ir além de urna atitude benevolente em relação à psicanáli se.
No início do ano seguinte, o Dr. Muthrnann, um dos primeiros alemães a
seguir Freud , fez-lhe uma visita em Viena. 35 Depois houve um visitanre
menos bem-vindo, Moll, sexologista de Berlim, que procurou Freud em
abril desse mesmo ano. 3 6 Freud o tinha em má conta e disse que propor­
cionou maus momentos a Moll.
Os ecos do Congresso de Salzburg foram em sua maior parte agradá­
veis, mas houve um que não foi. Houve um choque entre Abraham e Jung
que revelava sua incompatibilidade pessoal e, em especial por parte de
Abraham, considerável antagonismo. Abraham passara anos felizes em
Zurique, mas nos últimos tempos estava descontente com o que conside­
rava tendências não científicas e místicas entre os que af trabalhavam. A
ocasião para o choque apresentou-se quando Freud, em conversas pes­
soais com Abraham e Jung, exprimiu sua opinião de que a demência pre­
coce diferia de qualquer neurose apenas por ter um ponto de fixação
muito anterior, que nessa época era chamado simplesmente de "auto-ero­
tismo", para o qual ocorria regressão no processo da doença. Tratava-se
de uma conclusão a que ele tinha chegado cerca de nove anos antes. 37 Os
dois leram artigos sobre demência precoce no Congresso, mas enquanto
Abraham levou inteiramente em conta as sugestões de Freud e até mesmo
chegou à conclusão de que o que era chamado "demência" nessa doença
se devia, não a qualquer destruição de capacidades intelectuais, mas a um
bloqueio maciço do processo de sentimento, Jung, por outro lado, apenas
repetiu sua opinião de que a doença era um estado orgânico do cérebro
produzido por uma hipotética "psicotoxina".
Era uma dessas pequenas e estúpidas disputas de prioridade que com
freqüência prejudicaram o progresso científico, de Newton e Leibnitz em
diante. Nasceu do fato de Abraham, em seu artigÕ do congresso, não
mencionar ou dar qualquer crédito a Bleuler e Jung por suas investigações
psicológicas da demência precoce, com o que Jung muito se ofendeu na
época. O único interesse do episódio é a luz que lança sobre a atitude de
Freud em relação a essas questões e às pessoas envolvidas. Isso pode ser
mais bem visto se citarmos as cartas trocadas entre Freud e Abraham.

"Lieber und geehrter Herr College,


"Fico satisfeito por saber que o senhor encara Salzburg como um
evento satisfatório. Eu próprio não posso julgar, já que estou no meio de
tudo, mas inclino-me também a considerar essa primeira reunião um teste
promissor.
"Em relação a ele, eu faria ao senhor um pedido de cuja realização
podem depender muitas coisas. Lembro que seu artigo levou a algum con­
flito entre o senhor e Jung, ou depreendi isso, pelo menos, de umas pou-

- 60 -
cas palavras que o senhor me disse posteriormente. Considero uma com­
petição entre os senhores inevitável e, dentro de certos limites, absoluta­
mente inócua. No caso em questão, julguei sem hesitação que o senhor
estava certo e atribuí a suscetibilidade de Jung à sua própria vacilação.
Mas eu não iria gostar se entre os senhores surgisse qualquer animosida­
de. Somos ainda tão poucos que a desarmonia, em especial por causa de
quaisyuer complexos pessoais, deve estar fora de questão entre nós. Tam­
bém é importante para nós que Jung retorne às concepções que acaba de
abandonar, das quais o senhor tem sido firme advogado. Acredito que
haja possibilidades para isso; o próprio Jung me escreve que Bleuler está
se mostrando acessível e quase inclinado a abandonar de novo a concep­
ção da natureza orgânica da demência precoce. Assim, o senhor me faria
um favor pessoal se se comunicasse com Jung antes de publicar seu artigo
e lhe pedisse para discutir as objeções dele com o senhor, de modo a que
o senhor possa levá-las em conta. Um gesto amigável como esse certa­
mente porá termo ao desentendimento nascente entre os senhores. Isso me
agradaria muito e mostraria que todos nós somos capazes de ganhar com a
psicanálise vantagens práticas para a condução de nossa própria vida. Não
torne muito difícil a pequena vitória sobre si próprio.
"Seja tolerante e não se esqueça de que realmente é mais fácil para o
senhor entender meu pensamento do que para Jung, já que, de início, o
senhor é completamente independente e, depois, o relacionamento racial
aproxima-o mais de minha constituição intelectual, ao passo que ele, sen­
do cristão1 e filho de um pastor, só pode encontrar seu caminho até mim
contra grandes resistências internas. A adesão dele, portanto, é sobremodo
valiosa. Eu já estava quase dizendo que foi apenas o surgimento dele na
cena que removeu da psicanálise o perigo de se tornar uma questão nacio­
nal judaica.
"Espero que o senhor dê atenção a meu pedido e o cumprimento
afetuosamente.

"Freud"

Não tendo recebido resposta a esta carta, Freud ficou ansioso e escreveu
de novo.

"9 de maio de 1908


"Sehr geehrter Herr College,
"Não tendo obtido resposta a meu pedido, escrevo mais uma vez para
reforçá-lo. O senhor sabe como de bom grado coloquei o que tenho à sua
disposição, como faço com outros, mas nada me seria mais doloroso se o
resultado fosse essa suscetibilidade quanto a prioridade entre meus amigos
e seguidores. Se cada um desempenhar seu papel, será possível evitar es-

- 61 -
sas coisas. Espero que o senhor se afaste delas tanto em benefício da cau­
sa quanto por minha pessoa.
"Com saudações cordiais,
"Freud"

"1 1 de maio de 1 908


"Sehr verehrter Herr Professor,
"Eu ia escrever para o senhor, quando chegou sua segunda carta.
Não lhe respondi antes por uma razão proveitosa a nossos interesses mú­
tuos. Quando li sua primeira carta, não concordei inteiramente com ela e
então a pus de lado por alguns dias. Então tive condições de lê-la sineira
et studio e convencer-me da correção de seus argumentos. Não demorei
mais a escrever para Zurique, mas não postei a carta de imediato. Eu que­
ria ter certeza, depois de alguns dias de intervalo, de que não havia nada
oculto nela que transformasse a proposta amigável em ataque. Sei como
me é difícil evitar inteiramente polêmicas e depois de ler a carta de novo
descobri que estava certo em minha suspeita. Ontem escrevi a carta de
novo em sua forma final e espero que ela sirva à nossa causa. Eu queria
escrever ao senhor apenas depois de cuidar da carta a Jung e estou certo
de que o senhor desculpará meu silêncio. Agora, que posso observar cal­
mamente a questão, tenho de lhe agradecer sua intervenção e também a
confiança que depositou em mim. O senhor não precisa temer que a
questão me tenha deixado qualquer espécie de animosidade.
"Na verdade, entrei no conflito de maneira absolutamente inocente.
Eu lhe perguntara em dezembro último se havia algum risco de eu me
chocar com Jung, já que o senhor comunicara suas idéias a nós dois. O
senhor dissipou minha suspeita. Meu manuscrito de Salzburg continha um
período que teria agradado a Bleuler e Jung, mas, seguindo um impulso
súbito, omiti-o quando apresentava o artigo. Iludi-me nã ocasião com um
motivo encobridor - economia de tempo -, embora a razão real residisse
em minha animosidade contra Bleuler e Jung. Isso adveio da natureza in­
devidamente apaziguadora das publicações recentes deles, da comunica­
ção de Bleuler em Berlim, na qual ele sequer mencionou o senhor, e de
várias trivialidades. Que eu não tenha mencionado Bleuler e Jung evi­
dentemente significava. 'Já que vocês estão se afastando da teoria sexual,
não os citarei quando estiver tratando dela'.

Sinceramente,
"Karl Abraham"

A proposta amigável de Abraham não teve o sucesso que merecia: nunca


recebeu qualquer resposta. Ele fez então algumas críticas a Jung, mas
Freud lhe disse que sua própria opinião a respeito de Jung era mais favo-

- 62 -
rável. Acrescentou: "N6s, judeus, temos menos preocupação, sem o ele­
mento m!stico"38 Em sua carta seguinte,39 escreveu: ••Farei tudo o que
puder para pôr as coisas em ordem quando for a Zurique em setembro.
Não me interprete mal: não tenho nada a lhe reprovar. Suponho que o an­
ti-semitismo reprimido dos suíços, do qual sou poupado, tem sido dirigido
contra o senhor com maior força. Mas minha opinião é a de que n6s ju­
deus, se queremos cooperar corr. outras pessoas, temos de desenvolver um
pequeno masoquismo e estar preparados para suportar certa quantidade de
injustiça. Não há outro modo de trabalhar junto. O senhor pode estar certo
de que , se meu nome fosse Oberhuber, minhas novas idéias, a despeito de
todos os outros fatores, teriam encontrado muito menos resistência.( . . . )
Por que não posso colocar lado a lado, os dois, com seu zelo e com o en­
tusia�mo de Jung?" Abraham então enviou-lhe as notícias desfavoráveis,
que vinha recebendo de Zurique, de que a psicanálise estava sendo posta
em segundo plano, como algo que já tinham superado. 40 Mas em setembro
Freud passou vários dias em Zurique e conversou com Jung oito horas por
dia. Falou a Jung - imprudentemente, como se poderia pensar - das dúvi­
das e boatos de Abraham, ao que Jung disse que lamentava muito tomar
conhecimento disso. Freud afirmou que Jung superara suas oscilações e
estava inteiramente entregue a sua (de Freud) obra. Afastara-se de Bleu­
ler, que era inteiramente negativo, e abandonara seu cargo de assistente.
De modo que Freud retornou exultante.
Em dezembro houve, porém, mais perturbações. Abraham ficou enfu­
recido diante da informação, que lhe foi dada por Jung, de que algumas
importantes resenhas que escrevera para o Jahrbuch teriam de aparecer,
por falta de espaço, no segundo e não no primeiro número. Abraham to­
mou isso em termos pessoais e mais uma vez suspeitou das boas intenções
de Jung. Freud dessa vez ficou do lado de Jung e admoestou Abraham de
maneira muito severa. Li todas as cartas que escreveu, no decorrer desses
anos, a seus seguidores e considero esta como a mais severa repreensão
que dirigiu a qualquer de n6s. Como muitas pessoas falaram sobre a atitu­
de ditatorial de Freud em relação a n6s, será interessante ver se a carta
que se segue corresponde a essas expectativas. Posso acrescentar que as
partes da carta omitidas foram escritas em seu costumeiro estilo amigável.

"26 de dezembro de 1908


"Lieber Herr College,
"Agora, a parte dolorosa. Lamento muito que o senhor esteja mais
uma vez em conflito com Jung. Em Zurique, insisti muito com ele e achei­
o muito acessível. Apenas recentemente ele escreveu dizendo como se
sentia satisfeito por ter alcançado um relacionamento tranqüilo com o se­
nhor. Desta vez, não acho que o senhor esteja certo. Jung tomou uma de­
cisão que simplesmente lhe compete como editor, e em minha opinião a

- 63 -
quem quer que assume responsabilidade e poderes adn:inistrativos deveria
ser concedido certo espaço de ação. O ato dele certamente nada tem de
hostil ao senhor. O senhor está representado no primeiro número com seu
artigo sobre casamento de parentes e o adiamento de sua resenha para o
segundo número não significa qualquer desconsideração pelo senhor. Te­
mo que o senhor revele excessiva suspeita em relação a ele. Eu lamentaria
muito se agora o senhor desse a ele bases que justificasserr: seu compor­
tamento anterior em relação ao senhor. Intencionalmente, impedi-me de
exercer qualquer influência na organização do Jahrbuch e penso que o
senhor podia muito bem fazer o mesmo sem qualquer rebaixamento. (. . .)
No fim das contas, nossos companheiros arianos nos são absolutamente
indispensáveis; de outro modo, a psicanálise se tornaria uma vítima do
anti-semitismo.
"Com saudações cordiais,
Amigavelmente,
"Freud"

Abraham, sendo um homem sensato, recebeu a crítica com boa disposi­


ção . Jung retribuiu a visita de Freud na primavera seguinte e, com sua es­
posa, permaneceu em Viena de 25 a 30 de março de 1909. 4 1
A mulher de Freud estava e m Hamburgo na época do congresso, vi­
sitando sua velha mãe, de modo que há várias cartas para ela durante esse
período. Nelas Freud disse que o congresso tinha sido "um grande suces­
so", mencionou a visita minha e de Brill a Viena e contou-lhe ter visto no
Karltheater, numa tarde de domingo, 10 de maio, a paródia (de Nestroy)
do Tannhauser, que ele achou muito divertida.
Mais ou menos na época do congresso, algumas alterações estavam
sendo feitas na casa de Freud. Em fins de 1907, sua irmã Frau Rosa Graf
desocupou seu apartamento, em frente ao de Freud, no mesmo andar. Este
planejou simplificar sua vida e também obter mais acomodações, ficando
com o apartamento de sua irmã. Isso significava sair do pequeno aparta­
mento de três cômodos no andar térreo, onde por quinze anos trabalhara e
recebera seus pacientes. Na limpeza geral, ele aproveitou a oportunidade,
pela segunda vez em sua vida, para destruir uma grande quantidade de
documentos e cartas, para nossa grande perda.
Depois de já estar vivendo em Viena por aproximadamente cinqüenta
anos, Freud decidiu tornar-se oficialmente "cidadão" dessa cidade. Isso
ocorreu em 4 de março de 1908. Deu-lhe direito de votar, o que eu supo­
nho que tenha sido a razão para o seu pedido; ele voltou apenas nas raras
ocasiões em que um candidato liberal se apresentou em seu distrito eleito­
ral, e eu não ficaria surpreso se viesse a saber que essa foi a primeira
oportunidade.
A família passou as férias de verão de 1908 em Diedfeld Hof, perto

- 64 -
de Be:rchtesgaden , na Baviera. Freud se reuniu ao grupo em 1 5 de julho, o
mesmo fazendo Ferenczi. Ele planejara uma viagem à Holanda, seguida
por uma visita a seu meio-irmão Emmanuel, em Manchester, mas teve de
renunciar à primeira. Partiu para a Inglaterra em 12 de setembro, viajando
na ida e na volta via Hook e Harwich. Todavia, modificou a viagemn de
modo a ver os Rembrandts em Haia - e eles lhe causaram uma "impressão
incomparável". Rembrandt e Michelangelo parecem ter sido os pintores
que mai s profundamente o emocionaram. Essa foi a primeira vez que es­
teve na Inglaterra desde a i nspiradora visita aos dezenove anos,4 3 e seria a
última antes de aí se estabelecer em 1938. Passou duas semanas na Ingla­
terra, de onde escreveu meia dúzias de longas cartas. Freud e Ernmanuel
foram primeiro a Blackpool e Southport e depois passaram quatro dias em
St. Anne's, pequeno balneário na costa do Lancashire. Era intenc,·ão deles
visitar a Isle of Man, mas o tempo não estava propício. Voltaram para
Manchester em 7 de setembro, de modo que Freud pudesse ver seu outro
meio-irmão, Philipp; prosseguiu sozinho para Londres nessa mesma noite.
Freud ficou no Ford's Hotel, na Manchester Street. Londres era sim­
plesmente esplêndida e ele só tinha elogios para o povo e tudo o que via;
mesmo a arquitetura da Oxford Street contou com sua aprovação ( ! ) .
Comprou u m cachimbo inglês e o s charutos eram maravilhosos. Houve
uma longa descrição do Hyde Park com a precisão e a minúcia de um
Baedeker; o que mais o tocou no Hyde Park foi a "beleza mágica" das
crianças. Naturalmente, o centro da cidade foi visitado, mas o que mais
importou para ele foi a coleção de antiguidades, em especial as egípcias,
do Museu Britânico. Não foi ao teatro, porque as noites eram dedicadas a
leituras preparatórias para a visita do dia seguinte aos museus.
Ele teria gostado de passar meses explorando Londres, mas estava
terrivelmente sozinho e se referia à quase insuportável solidão que expe­
rimentara na semana que passara em Roma, sem acompanhante, no ano
anterior. Também ansiava pelo sol do sul. Passou seu último dia em Lon­
dres na National Gallery, onde lhe i nteressou em especial a escola inglesa
de Reynolds e Gainsborough; afinal, ele já conhecia muito bem os qua­
dros italianos.
Deixou Londres em 15 de setembro, encontrando-se com Emmanuel
em Harwick. Viajaram juntos para Berlim, onde Emmanuel planejava
permanecer alguns meses, mas Freud, depois de um dia nessa cidade, se­
guiu para Zurique.
Ficou em Zurique quatro dias, como convidado de Jung em Burghol­
zli, tendo eles passado juntos momentos alegres e prazerosos. Jung levou­
o em um passeio de automóvel para ver o Monte Pilato e o Rigi; fizeram
também muitas caminhadas. Freud esperava vir a ser hóspede da nova ca­
sa que Jung estava construindo em K üsnacht. Nessa visita os dois estive-

- 65 -
ram mais próximos do que em qualquer outra ocasião, com exceção talvez
de seu primeiro encontro.
Depois da animação de todas essas conversas, em seguida às novas
impressões da Inglaterra, Freud sentia necessidade de alguns dias de puro
descanso ao sol. Assim, na noite de 21 de seterr:c ro tomou o trem noturno
para Milão, onde tomou outro para Besenzano. Chegou aí ao meio-dia e
encontrou Minna, com quem planejou passar alguns dias no Lago di Gar­
da. O local escolhido foi Saio, no lado oeste do lago. Era terça-feira à
noite e ele partiu de volta para casa na manhã do domingo seguinte. Na
sexta-feira houve uma viagem em barco a motor através do lago até San
Vigilio, passando pelas fascinantes ilhotas cuja posse invejava ao Príncipe
Borghese. De volta para casa, passou metade de um dia na conhecida Bo­
zen, chegando em Viena na manhã de terça-feira, 29 de setembro.
Em 1908, Freud publicou cinco artigos, o primeiro deles, e o mais
original, mostrou ser uma grande surpresa e provocou mais escárnio do
que qualquer outra coisa que escrevera até então. Tratava-se de um pe­
queno artigo, com poucas páginas, no qual indicava que as sensações
anais na infância, sobre cuja natureza erótica muito insistira, eram capazes
de afetar os traços de caráter de um modo absolutamente específico. Para'
o mundo externo parecia então inteiramente despropositado que qualquer
aspecto do caráter de uma pessoa pudesse provir dessas origens tão bai­
xas, embora hoje a verdade de tal conclusão esteja amplamente reconhe­
cida.
Um artigo sobre a relação entre moral sexual e civilização prenuncia­
va estudos mais profundos sobre a natureza da civilização, que vieram a
ser realizados mais de vinte anos depois.
Um dos artigos era uma exposição das curiosas hipóteses que as
crianças com freqüência formam quanto à natureza d_a atividade sexual,
inclusive da gravidez. Outro artigo cuidava da relação das fantasias histé­
. ricas com a bissexualidade. Em seguida, Freud abordou vigorosamente um
problema estético, numa explanação sobre a relação dos poetas com a
fantasia, onde chegou a algumas conclusões notáveis.
Nessa época, Freud escreveu um prefácio para o livro de Stekel sobre
estados de ansiedade, sendo o único interesse dele o de ter sido Freud
quem sugeriu a Stekel o termo "histeria de ansiedade", distinguindo-a as­
sim da conhecida neurose de angústia.

1909

Em dezembro de 1908 ocorreu um fato que iria introduzir a personalidade


e a obra de Freud em um círculo bem mais amplo e mais distante. Stanley
Hall, Presidente da Clark University, em Worcester, Massachusetts, con­
vidou-o para realizar uma série de conferências por ocasião da comemora-

- 66 -
ção do vigésimo aniversário de fu ndação da Universidade. As despesas de
viagem seriam pagas. Mas a data proposta foi a primeira semana de jtilh<;>
e Freud considerou que não era "rico o suficiente" para perder três sema-
nas de trabalho em Viena. "A América deveria trazer dinheiro, não custar
dinheiro". 4 4 Assim, evidentemente com relutância, ele declinou do con­
vite.
Uns meses depois, porém, Stanley Hall comunicou que a comemora­
ção fora adiada para a primeira semana de setembro, o que tornava possí­
vel a aceitação por parte de Freud; ele receberia três mil marcos (714,60
dólares). Convidou Ferenczi para acompanhá-lo e seu irmão Alexander
também expressou desejo de ir -embora depois isso se mostrasse impos­
sível. Freud disse que se sentia muito instigado diante da perspectiva. 4 5
Ferenczi estava ainda mais entusiasmado, começou a aprender inglês e
encomendou livros sobre os Estados Unidos para que tivessem uma
orientação adequada sobre essa terra misteriosa. Freud, no entanto, não
conseguiu se impor a léitura desses livros, mas tomou conhecimento, em
um livro em que estudava sobre Chipre, de que a melhor coleção de anti­
guidades cipriotas fora para Nova Iorque, onde ele esperava vê-la. Co­
mentando sua aversão a ler livros de viagem, disse: "O pensamento da
A mérica não parece importar para mim, mas espero ansiosamente por nos­
sa viagem juntos. É uma boa ilustração para as profundas palavras da
Flauta Mágica: 'Não posso compeli-lo a amar'. " 46 Tudo o que queria ver
lá, acrescentou ele, eram as Cataratas do Niágara. Penso que aqui havia
uma supressão da animação inicial, para que não levasse a alguma apreen­
são quanto à sua tarefa. Ele dava a impressão de que ela não era real­
mente importante. Não preparou nada para suas conferências, dizendo que
faria isso no navio. • 1
Os planos de viagem também eram muito complicados. Tentaram
muito garantir passagens em um navio de Trieste, com escala em Palermo,
de modo a usufrufrem do Mediterrâneo, mas a decisão final foi a de parti­
rem de Bremen por um navio do Norddeutscher Lloyd, o George Washin­
gton, em 21 de agosto. Ferenczi não sabia se devia levar uma cartola, mas
Freud lhe disse que seu plano era comprar uma lá e jogá-la no mar na via­
gem de volta.
Em meados de junho, Freud ficou sabendo que Jung também recebera
um convite -e comentou: "Isso aumenta a importância de todo o even­
to". 48 De imediato tomaram providências para viajar juntos.
Na primavera desse ano, houve um acontecimento doméstico que deu
grande prazer a Freud. Sua filha mais velha, Mathilde, muito chegada ao
pai, ficou noiva em Merano, onde estava há seis meses, de um jovem vie­
nense, Robert Hollitscher. 49 O casamento se realizou em 7 de fevereiro.
Ao agradecer a Ferenczi os cumprimentos pelo casamento de Mathilde,
Freud confessou que desejara, no verão anterior, quando Ferenczi visitou

-67 -
a família (pela primeira vez) em Berchtesgaden, que fosse ele o felizar­
do; 5 0 a atitude de Freud para com ele sempre foi muito paternal.
A famflia passou as férias de verão de 1909 em Ammerwald, em um
remoto vale do Tirol do Norte, perto dos Alpes bávaros. Freud partiu daí
em 19 de agosto, chegando a Munique, via Oberammergau, à tarde. De­
pois de sua partida, a família foi para Riva, no Lago di Garda. Na manhã
seguinte ele seguiu para Bremen, onde encontrou Jung e Ferenczi. Aí fez
um seguro de vida para a aventurosa viagem no valor de vinte mil marcos
(4.764 dólares) e Ferenczi fez o mesmo por dez mil. No dia seguinte es­
creveu quatro longas cartas para sua mulher, três de Bremen, cidade que
descreveu longamente, e uma de Southampton, onde chegou nessa noite.
Freud teve uma noite ruim no trem de Munique para Bremen, o que expli­
ca em parte um curioso incidente cuja importância será examinada mais
adiante. Ele era o anfitrião do almoço em Bremen e depois de alguma ar­
gumentação ele e Ferenczi persuadiram Jung a abandonar seu princípio de
abstinência e se unir a eles, bebendo vinho. Logo depois disso, porém,
Freud desmaiou, o primeiro desses ataques na presença de Jung. 5 1 À noi­
te, Jung foi o anfitrião e na manhã seguinte embarcaram em um navio.
Freud começou a fazer um diário de viagem, mas abandonou-o depois
de três dias. Todo dia, no entanto, escrevia longas cartas para sua mulher,
a serem postas no correio quando houvesse oportunidade. Evidentemente,
ele desfrutou da viagem; discutiam e riam ao longo dos dias. Tinham bom
tempo, não fosse o nevoeiro. Freud afirmou que era o melhor marinheiro
dos três. Durante a viagem, os três companheiros analisavam os sonhos
uns dos outros - primeiro exemplo de análise de grupo - e Ju ng depois
me contou que os sonhos de Freud pareciam estar relacionados sobretudo
com cuidados quanto ao futuro de sua família e de sua obra. Freud me
relatou que tinha encontrado seu camaroteiro lendo a Psicopatologia da,
Vida, Cotidiana, incidente que lhe deu a primeira idéia de que ele podia
vir a ser famoso.
Naturalmente, Brill estava no porto quando eles chegaram a Nova
Iorque na noite de 27 de setembro, um domingo, mas não teve permissão
para subir a bordo. Então enviou um amigo, o Dr. Onuf, que tinha um
cargo oficial, para saudar os viajantes. As entrevistas com repórteres cria­
ram algum contratempo, mas a única notícia de jornal na manhã seguinte
anunciava apenas a chegada de um certo "Professor Freund (sic) de Vie­
na". Ficaram no Hotel Manhattan, pagando dois dólares e meio. Em seu
primeiro dia em terra, Freud procurou seu cunhado, Eli Bemays, e seu
antigo amigo Lustgarten, mas ambos ainda estavam de férias. Então Brill
mostrou-lhes a cidade. Primeiro foram ao Central Park e depois aos bair­
ros chinês e judeu ; passaram a tarde em Cor.ey Island, "um Prater amplia­
do". Na manhã seguinte, foram ao local que Freud mais queria visitar em
Nova Iorque, o Metropolitan Museum, onde lhe interessavam sobretudo as

-68 -
antigu idades gregas. Brill também lhes mostrou a Columbia University.
Uni-me ao grupo no dia seguinte e jantamos juntos no Hamrnerstein's Ro­
of Garden, indo depois a um cinema para assistir a um dos primitivos fil­
mes daquela época, cheios de desenfreadas correrias. Ferenczi, com seu
jeito de garoto, ficou muito entusiasmado, mas Freud apenas se divertiu
t tranqüilamente; foi o primeiro filme que eles viram. Na manhã seguinte,
houv e visitas a outros mmeus, mas à tarde Freud decidiu que era tempo
de preparar sua primeira conferência. A essa altura a rica alimentação
americana já tinha mostrado seus efeitos nos três, que a trocaram por um
jejum de um dia.
Na noite de 4 de setembro, partimos para New Haven, uma viagem
noturna em uma curiosa combinação de navio e hotel, e daí seguimos de
trem para Boston e Worcester. Freud hospedou-se com Stanley Hall e nós
outros no Standish Hotel. Na manhã seguinte tiveram início as conferên­
cias.
A Nova Inglaterra não estava de modo algum despreparada para ouvir
as novas doutrinas de Freud. No outono de 1908, quando fiquei com
Morton Prince em Boston, compareci a dois ou três colóquios a que esta­
vam presentes dezesseis pessoas - entre outros, Putnam, professor de neu­
rologia na Universidade de Harvard ; E. W. Taylor, seu sucessor; Werner
Munsterberg, professor de psicologia na mesma universidade; Boris Sidis;
e G. W. Waterman. O único com que tive algum sucesso real foi Putnam.
Err maio do ano seguinte, pouco antes da visita de Freud, houve um im­
portante congresso em New Haven, no qual Putnam e eu lemos artigos
que provocaram muita discussão. De modo que a chegada de Freud era
esperada corr. grande dose de ansiedade.
Freud não tinha idéia do que falar, ou pelo menos assim ele disse, e
de início inclinava-se a aceitar a sugestão de Jung de que dedicasse as
conferências ao tema dos sonhos, 5 2 mas quando pediu minha opinião
aconselhei-o a escolher um tema mais amplo; depois de refletir, concor­
dou que os americanos podiam encarar o tema dos sonhos como não sen­
do suficientemente "prático", ou até mesmo como frívolo. Então decidiu
fazer uma apresentação mais geral da psicanálise. Elaborava cada uma das
conferências em uma caminhada de meia hora em companhia de Ferenczi
-exemplo de como devia ser harmonioso o fluxo de seus pensamentos.
Freud fez suas cinco conferências em alemão, sem quaisquer notas,
em um tom coloquial sério que causou profunda impressão. Uma senhora
da platéia estava muito ansiosa para ouvi-lo falar sobre temas sexuais,
tendo então me solicitado pata que eu lhe pedisse isso. Q,uando transmiti a
ele o pedido da senhora, respondeu: "ln Bezug auf die Sexualitat lasse ich
mich weder ab- noch zubringen" . Isso fica melhor em alemão, mas quer
dizer que ele não seria conduzido para o tema, assim como não seria
afastado dele.

- 69 -
As conferências forruu desde então publicàdas sob várias formas dife­
rentes.º A receptividade inicial foi muito variada. O pronunciamento -
que enviei a Freud - do Deão da Universidade de Toronto não era de mo­
do algum atípico: "Um leitor comum depreenderia que Freud advoga o
amor livre, a eliminação de todas as restrições e a volta à selvageria". 5 3
Um momento particularmente tocante se deu quando Freud se levan­
tou para agradecer à Universidade o doutorado que lhe fora conferido no
encerramento das cerimônias. Parecia um sonho ser tratado com honras
depois de tantos anos de ostracismo e desprezo, e ele estava visivelmente
comovido quando proferiu as primeiras palavras de seu breve discurso:
"Este é o primeiro reconhecimento oficial de nossos esforços."P
O próprio Freud relatou seu comovente encontro com William James,
então fatalmente doente. 5 4 William James, que sabia bem alemão, acom­
panhou as conferências com grande interesse. Foi muito amigável conosco
e nunca esquecerei suas palavras de despedida, ditas com o braço em
meus ombros: "O futuro da psicologia pertenée ao trabalho dos senhores"
- observação digna de nota quando se pensa em sua formação puritana.
O próprio Stanley Hall, fundador da psicologia experimental nos Es­
tados Unidos e autor de uma alentada obra sobre a adolescência, foi entu­
siasticamente cortês tanto com Freud quanto com Jung. Depois de sua
volta dos Estados Unidos, Freud escreveu sobre ele a Pfister: 55 "É uma
das mais agradáveis fantasias imaginar que em alguma parte distante, sem
se ter qualquer idéia disso, há pessoas decentes que procuram se aproxi­
mar de nossos pensamentos e esforços, os quais afinal de súbito apare­
cem. Isso foi o que me aconteceu com Stanley Hall. Quem poderia saber
que lá do outro lado, na América, e a apooas uma hora de Boston, havia
um velho e respeitável senhor esperando impacientemente pelo próximo
número do Jahrbuch, lendo-o e interpretando-o, e que então, como ele
próprio se expressou, 'tocaria os sinos para nós'?" Logo depois, consegui
que Hall aceitasse o cargo de presidente da nova Associação Psicopatoló­
gica Americana que eu estava fundando, mas seu interesse pela psicanáli­
se não perdurou. Poucos anos depois, tomou-se adepto de Adler, tendo
sido a notícia desse fato muito dolorosa para Freud. 5 6
Há um pequeno episódio, relacionado com Stanley Hall, que merece
ser registrado, pois parece que dele se fez a base para um insólito boato
de que Freud defendia o parracídio ! O trecho que se segue é a tradução de
uma carta escrita muitos anos depois em resposta a uma pergunta sobre a
possível origem desse boato. "Stanley Hall, que entendia muito pouco de
neurose, pediu-me para estudar um homem de suas relações cuja agorafo­
bia era tão grave que lhe tomava impossível ganhar a vida. Veio a saber­
se que ele não podia superar um desejo intenso de ser amparado pelo pai,
que, aliás, era um severo patriarca. Quando Stanley Hall me perguntou o
que ele podia fazer pelo pobre homem, eu, gracejando, respondi: 'matar

- 70 -
seu pai'. Hall ficou tão alarmado que tive de lhe garantir que não fizera a
mesma observação ao paciente". 57 Quantas vezes os chistes e ironias de
Freud foram mal compreendidos por serem levados a sério !
Nessa ocasião, porém, Freud fez uma amizade mais duradoura: J.J.
Putnam, professor de neurologia em Harvard. Eu havia tido longas con­
versas com ele anteriormente, quando eu estava em Boston como convi­
dado de Morton Prince, e consegui levá-lo a reconsiderar suas objeções
iniciais à psicanálise. Para um homem ilustre já na casa dos sessenta anos,
tinha a mente singularmente aberta, sendo o único homem que conheci a
admitir em uma discussão pública que se equivocara em algum ponto.
Uma coletânea de seus textos foi o primeiro volume de nossa série Bi­
blioteca Psicanalítica Internacional.
Durante o período em Worcester, Freud formou uma idéia exagerada
de minha independência e temeu, de modo absolutamente injustificável,
que eu pudesse não me tornar um adepto firme. Assim, teve o gesto espe­
cial de ir à estação para me ver em minha partida para Toronto no final da
estada e de expressar a ardorosa esperança de que eu me mantivesse unido
eles. Suas últimas palavras foram "O senhor achará isso pro eitoso" _q
Naturalmente, eu tive condições de lhe dar plenas garantias e ele nunca
mais duvidou de mim.
Em 13 de setembro, os três amigos - Brill e eu já havíamos partido -
visitaram as Cataratas do Niágara, que Freud achou ainda mais grandiosa
e maiores do que esperara. Mas na Caverna dos Ventos teve seus senti­
mentos feridos pelo guia, que fazia os outros visitantes recuarem, dizen­
do: "Deixem o velho companheiro ir primeiro". Era sempre sensível a es­
sas alusões à sua idade e ele mesmo citou um bom exemplo disso relacio­
nado com uma observação feita por Putnam mais ou menos nessa época. 5 8
Afinal, ele tinha na época apenas 53 anos. Fizeram um passeio no Maid of
the Mists* sob as Cataratas e também pisaram em terras canadenses, para
grande prazer de Freud.
Os três então prosseguiram para a casa de campo de Putnam, nas
Montanhas Adirondack, perto do Lago Placid, onde ficaram quatro dias.
Freud enviou à sua mulher uma longa descrição dos novos arredores, um
conjunto de cabanas na região desértica. Seu prazer com a visita foi algo
prejudicado por uma evidente, embora suave, crise de apendicite. 5 9 Não a
mencionou a ninguém, por não querer criar incômodos a seu anfitrião ou
deixar Ferenczi ansioso. Todavia, a ocasião por outro lado era alegre e
Jung animou-a cantando canções alemãs. Foi aí que, para grande satisfa­
ção de Freud, eles viram um porco-espinho selvagem, incidente em tomo
do qual há uma hist6ria. Freud fizera a interessante observação de que,
quando defrontado com uma tarefa provocadora de ansiedade, como esta

* Nome da embarcação. (N. do T.)

- 71 -
de apresentar suas surpreendentes conclusões para uma platéia estrangei­
ra, era útil fornecer às emoções um pára-raios, desviando a atenção para
um alvo secundário. Assim, antes de sair da Europa ele dizia que estava
indc à América na esperança de ver um porco-espinho selvagem e fazer
algumas conferências. A expressão "encontrar seu porco-espinho" tor­
nou-se conhecida em nosso círculo. Tendo alcançado seu duplo propósito,
ele estava pronto para voltar para casa.
Chegaram a Nova Iorque na noite de 19 de setembro e partiram no
navio Kaiser Wilhelm der Grasse no dia 21. Dessa vez, passaram por
tempestades equinociais e, embora não ficasse enjoado, Freud durante al­
guns dias foi deitar-se às sete da noite. Nunca ficou enjoado em sua vida.
Chegaram a Bremen ao meio-dia do dia 29.
A despeito de sua gratidão pela receptividade amistosa, com o reco­
nhecimento de sua obra e as honras que lhe foram prestadas, Freud não
partiu com uma impressão muito favorável dos Estados Unidos. Tais pre­
conceitos tendiam a perdurar nele - e este nunca desapareceu por com­
pleto; anos depois, foi suavizado por um maior contato com americanos
em visita a Viena. Ele era tão obviamente parcial quanto ao assunto que
somos tentados a procurar uma explicação para sua atitude. Houve várias
explicações superficiais, mas, como veremos depois, encobriam uma ex­
plicação pessoal mais fundamental, que na verdade nada tinha a ver com
os Estados Unidos em si. O próprio Freud atribuía seu desagrado pelos
Estados Unidos a uma duradoura perturbação intestinal acarretada, assim
ele afirmou de forma muito inconvincente, pela cozinha americana, tão di­
ferente daquela com que ele estava acostumado. Mas aí se ignora o im­
portante fato de que ele sofreu desse mal durante grande parte de sua vi­
da, muitos anos antes de ir aos Estados Unidos e muitos anos depois. To­
davia, seu mal teve muito significado, pois durante o período que lá pas­
sou sofreu constantemente de uma recorrência de sua antiga dor apendi­
cular, que de qualquer modo deve ter prejudicado sua fruição da grande
experiência. Outra perturbação física nessa mesma época foi o descon­
forto prostático. Isso era sem dúvida doloroso e incômodo, e naturalmente
a culpa cabia às instalações americanas. Lembro-me de ele se queixar a
mim da escassez e inacessibilidade de locais adequados para obtenção de
alívio: "Eles o acompanham por quilômetros de corredores e por fim você
é levado ao porão onde um palácio de mármore o esper�, em cima da ho­
ra". Por alguns anos Freud atribuiu vários de seus incômodos físicos à
sua visita aos Estados Unidos. Chegou a ponto de me dizer que sua cali­
grafia se deteriorara desde a visita à América. 60
Um divertido exemplo da . transpiração desse preconceito ocorreu
quando, em um de seus estados de espírito fantasistas, predisse a extinção
da raça branca em uns poucos milhares de anos e sua provável substitui­
ção pela raça negra. Acrescentou então jocosamente: "Os Estados Unidos

-72 -
já estão ameaçados pela raça negra. E é bem feito para eles.r Um país sem
sequer morangos silvestres !" 6 1
Uma razão mais pessoal para seu desagrado era sua dificuldade com a
língua, que repetia suas desagradáveis experiências em Paris anos antes. 6 2
Ele era sempre sensível quanto a fazer-se entender e entender os outros.
Lembro-me de uma ocasião em que um americano pediu a outro para re­
petir uma observação que ele não apreendera. Freud voltou-se para Jung
com este ácido comentário: "Essas pessoas não podem sequer compreen­
der umas às outras". Ele também achou difícil adaptar-se às maneiras li­
vres e desenvoltas do Novo Mundo, de que acabei de citar um exemplo.5
Era um bom europeu com um senso de dignidade e um respeito pelo saber
que nessa época era menos importante nos Estados Unidos. Mais tarde ele
me disse, de modo lapidar: "Os Estados Unidos são um erro; um erro gi­
gantesco, é verdade, mas de qualquer modo um erro".
Desde o início Freud manteve um grande interesse pelo desenvolvi­
mento da psicanálise nos Estados Unidos; de 1908 em diante manteve
uma correspondência regular com Brill e comigo, e depois também com
Putnam. Ele com freqüência se divertia com as histórias que tínhamos pa- ·
ra lhe contar. Por exemplo, quando li um artigo sobre sua teoria dos so­
nhos na Associação Psicológica Americana, no final de 1909, mencionei
o aspecto da egocentricidade, diante do que uma senhora se ergueu e in­
dignadamente protestou, dizendo que esse aspecto podia estar presente
nos sonhos vienenses, mas ela estava certa de que os sonhos americanos
eram altruístas. Isso foi suplantado por outro psicólogo, que insistia em
que as associações de um paciente dependiam muito da temperatura da
sala, e já que Freud omitira esse importante detalhe suas conclusões não
tinham valor ou crédito científico. Freud contava essas histórias com pra­
zer ao grupo de Viena.
Houve também um episódio com Munsterberg. Ele afirmou que Freud
desprezara o elemento traumático ( ! ) e relatou um caso de vômito histéri­
co que ele relacionara com o fato de o paciente ter engolido uma batata
quente. A platéia riu quando confessei que Freud inexplicavelmente omi­
tira as batatas quentes de sua lista de fatores etiológicos.
Ele também se divertiu com a seguinte passagem de uma de minhas
cartas: "Aqui a concepção corrente sobre histeria é a de que se trata de
uma vergonhosa forma de imitar doenças, em parte para tomar os diag­
nósticos médicos mais difíceis do que precisam ser, em parte a partir de
um repreensível desejo de obter solidariedade por meios abusivos. O tra­
tamento consiste em contar a essas pessoas que elas foram descobertas."
Também não posso resistir, nesse repertório de divertimentos para
Freud, à citação de um editorial do Interstate Medical Journal sobre meu
ensaio sobre Hamlet. "Ele afirma que a afeição natural pela mãe deve ser
cuidadosamente vigiada, para que não inicie inopinadamente uma marcha

- 73 -
:sobre nós(. . . ) Mas dessa nota de advertência, como depreendemos do en­
saio do Dr. Jones, nunca convenceram Hamlet seus amigos médicos; daí
ele levou o que no início era uma afeição natural a essa fase de sexualida­
de anormal, cujas amarguras são a única coisa que invariavelmente chama
a atenção dos psicólogos modernos(. .. ), que aumentam o peso da civiliza­
ção moderna, sobrecarregando-nos com teorias que destroem nossa fé na
natureza humana."
Um leve desentendimento entre nós surgiu a propósito da personali­
dade de Morton Prince, homem que eu conhecera através de correspon­
dência em Londres, anos antes, e com quem sempre fiquei em minhas vi­
sitas a Boston. Ele foi o primeiro pioneiro americano da psicopatologia,
fato que eu sentia que merecia algum reconhecimento. Além do mais,
abriu livremente seu periódico, The Journal of A bnormal Psychology, a
artigos sobre psicanálise, quase que o único disponível para esse fim nes­
sa época. Era um verdadeiro cavalheiro, um homem do mundo e um cole­
ga muito agradável, como observei ao colaborar com ele por alguns anos
na edição do seu Journal. Mas ele tinha um sério defeito. Era bastante
obtuso, o qu(; era para Freud sempre foi pecado imperdoável. Quando re­
jeitou um resumo de Brill, alegando, de forma absolutamente legítima,
que sua linguagem era muito inconveniente para seu público leigo, que
incluía muitos clérigos e senhoras, Freud ficou irado e quis que eu me
afastasse dele. Insistia em que Prince era um homem em relação ao qual
tínhamos de eruir preparados para "más intenções veladas por uma lin ­
guagem amistosa" (22 de fevereiro de 1 909) , e nada que eu pudesse dizer
abalaria sua opinião. Com todo o seu conhecimento dos complexos mean­
dros da mente, Freud tendia, quando era questão de julgamento conscien­
te, a ter uma visão inteiramente boa ou inteiramente má do caráter de uma
pessoa, e não era nada fácil modificá-Ia.
Como eu ainda não tinha adquirido a arte de decifrar a escrita gótica,
pedi-lhe para usar caracteres latinos. Aqui está sua resposta, com alguns
exemplos de seu antigo inglês, que mais tarde melhorou muito. t

"20 de novembro de 1909


"Meu caro Dr. Jones, *
"Como o senhor quer que eu evite os caracteres germânicos, posso tam­
bém tentar escrever-lhe em inglês; o senhor é responsável por meus erros.
"(l) Suas observações críticas sobre o livro de Steckel são obvia­
mente verdadeiras; o senhor acertou no alvo. Ele é fraco em teoria e pen­
samento, mas tem faro para o significado do oculto e inconsciente. Seu li­
vro não pode satisfazer-me pessoalmente, mas fará imenso bem entre os
leigos, estando seu nível tão mais próximo do deles. Fico satisfeito em sa­
ber que o senhor gosta muito mais do trabalho de Abraham; é um pensa­
dor mais percuciente e pisou em terreno fértil. O próximo número da co-

- 74 -
leção continuará a abordar o tema da mitologia, que prevejo deverá ser
conquistado por nossos pontos de vista.
"(2) Escreva 'Wunscherfüllung in Kinderspielen'ª para a série. Faça­
o em inglês. Mandarei traduzir aqui ou eu mesmo traduzirei, se atender a
meus propósitos, ·como certamente atenderá.
"(3) É interessante para mim que o senhor prefira os aspectos mais
amplos da teoria, as relações normais, psicológicas e culturais, aos pato­
lógicos. Às vezes sinto a mesma coisa.
"(4) Lamento a decepção que lhe causarão minhas respostas às per­
guntas que me fez. Quanto à Anestesia, inclino-me a pensar que é um
efeito secundário das alterações psíquicas acarretadas pela retirada de in­
teresse ('Besetzung'), estando talvez a zona erógena da pele particular­
mente envolvida nos complexos. Não conheço nada melhor, porque a
Anestesia nunca é um objeto direto da análise : não é 'sintoma', mas um
'estigma' .
"Quanto aos 'A ngsttrawne',v acho que não é preciso u m caráter espe­
cial para explicar a ocorrência deles. Encontro-os ocasionalmente em to­
tos os tipos de pessoas. Mas eu poderia afirmar que os sonhos de conteú­
dos dolorosos (não exatamente preenchidos por aflição) são muito fre­
qüentes em homens e mulheres masoquistas, como a punição é uma clara
'Wunscherfüllung ' para esses caracteres. Aludi a esse ponto na segunda
edição da Traumdeutung.
"Espero mais notícias sobre seu cargo e afazeres e como o senhor se
sente satisfeito com o novo lar.
"Sinceramente,
"Freud"

"2 de fevereiro de 1909


"Caro Dr. Jones, *
"Quanto à sua diplomacia, sei que o senhor está em excelentes con­
dições para ela e a desempenhará com maestria. Mas temo que seja fácil
fazer muito desse modo. Considere que se trata de um fragmento de psi­
canálise que o senhor está realizando com seus compatriotas. O senhor
não deve dizer muito de imediato ou em um momento muito antecipado,
mas a resistência não pode ser evitada; tem de vir mais cedo ou mais tar­
de, e é melhor provocá-la lenta e deliberadamente.
"Sinceramente,
"Freud"

"18 de maio de 1909


"Caro Dr. Jones,*
"Acuso cordialmente o recebimento de uma grande pilha de material
impresso contendo suas valiosas contribuições para a neuropatologia or-

- 75 -
gânica e anunciando outro tanto nem menor em tamanho nem menor em
valor de suas comunicações sobre neuroses e psicanálise que esperamos o
senhor venha a produzir nos próximos anos.
"Posso dar-lhe a informação de que nós - o Dr. Ferenczi e eu -pre­
tendemos sair de Bremen em 21 de agosto a bordo do George Washing­
ton, N. D. L. Não sei se essa data coincide com seu retomo à América.
De qualquer modo, o senhor sabe que estamos firmados.
"Ainda não decidi o assunto de minhas conferências em Worcester.
Às vezes me ocorre como o melhor expediente tratar dos sonhos e suas
interpretações. Estou pronto para considerar suas sugestões, se o senhor
for de outra opinião.
"Aqui fico com os melhores sentimentos
"Sinceramente,
"Freud' '

"10 de março de 1910


"Caro Dr. Jones,*
"Aprecio muito suas cartas e artigos. De fato seu artigo sobre Hamlet
é excelente. Não o reconheci, já que li o manuscrito em Worcester, como
o senhor se lembra, está muito melhorado.( ... ) Talvez seja novidade para
o senhor, como foi para mim, que Jung partiu para os Estados Unidos
ontem, a bordo do Kronprinzessin Caecilie. Depois de visitar Chicago,
tem de partir no dia 22 deste mês e estar presente no Congressow dia
30.(. . . ) O senhor leu o artigo de Bernard Hart sobre o inconsciente? A
primeira palavra arguta sobre a matéria.
"Sinceramente
"Freud"

"15.4.10
"Caro Dr. Jones*
"O senhor não deve esperar muito do Leonardo, que sairá no próxi­
mo mês, nem o segredo da Vierge aux Rochers nem a solução do enigma
da Mona Lisa. Mantenha suas esperanças em um nível mais baixo, de mo­
do que se tome mais provável que ele lhe agrade. Muito obrigado pela
página de Pater. Eu a conhecia e havia citado algumas linhas da bela pas­
sagem.
"Quanto ao artigo de Hart, achei-o o melhor, sobre o maldito assunto
do Inconsciente, que eu já lera nos últimos anos e muitíssimo superior ao
disparate de Morton Prince. Constitui um mérito tê-lo dirigido para essa
linha de trabalho. Quanto a Pearson e Clifford, os quais só conheço de
nome, tenho a intenção de conhecê-los melhor, mas tive de adiar a reali­
zação desse desejo até o verão, já que minha receptividade está exigida

- 76 -
até o extremo por onze casos de neuroses, de modo que tenho de reagir
com trabalho produtivo a fim de manter meu equilíbrio.(. . . )
"Retiro-me para o fundo da cena como convém a um velho cava­
lheiro.
''Sinceramente,
"Freud"

"22 de maio de 1910


"Caro Dr. Jones*
" . . . O Leonardo está para sair nos últimos dias deste mês. Estou
muito ocupado e de modo algum bem nestas semanas , sofrendo de gripe e
das conseqüências de minha dispepsia americana. Assim, não fiz muito
trabalho de valor. Quanto a seu pedido para escrever sobre formação de
caráter, devo confessar que não me sinto com competência para a tarefa.
Jung poderia fazê-lo melhor, j á que está estudando os homens das cama.:.
das superficiais para baixo, ao passo que eu caminho na direção oposta.
Além do mais, qualquer tipo de trabalho sistemático é incongruente com
meus dons e inclinações. Espero todos os meus impulsos a -partir das im­
pressões no trato com os pacientes .
"Sou, caro Dr. Jones, mit herzlichen Grüssen
' 'Ihr
"Freud"

Os três amigos voltaram a Bremen pela mesma rota. Jung foi para casa e
os outros dois prosseguiram para Berlim, onde ambos tinham parentes a
visitar, bem como Abraham. Foi aí que tiveram sua primeira sessão tele­
pática com um vidente, o que deixou Ferenczi especialmente entusiasma­
do. Este é um assunto que ressurgirá em um capítulo posterior.
E então, no dia 2 de outubro, retomaram a Viena, a única parte do
mundo civilizado que nunca o reconheceu.
Em novembro, Freud informou a Jung que estava aderindo ao que
chamou de " Verein de Farei", com o que se referia ao Congresso Interna­
cional de Psicologia Médica, do qual Farei era presidente.
Gustavo Modena, de Ancona, que levei a se interessar pela psicanáli­
se quando trabalhamos j untos na clínica de Kraepelin, em 1907, publicara
., uma excelente exposição em italiano sobre as teorias freudianas. 6 3
A despeito das movimentações de 1909, Freud conseguiu publicar
muita coisa. Organiwu um volume que é o segundo da série de cinco
Sammlung Kleiner Schriften e também escreveu dois novos pequenos ar­
tigos e outros dois bastante longos. Os primeiros foram: "O Romance
Familiar dos Neuróticos", que surgiu como parte do fascinante livro de
Otto Rank, O Mito do Nascimento do Herói; o outro continha várias afir­
mações gerais sobre a natureza essencial dos ataques histéricos.

-77 -
Os arti�os mais longos eram, ambos, contribuições clássicas à sua sé-
rie de casos clínicos. Um era geralmente conhecido como o "Casô do Pe­
queno Hans" e continha a primeira análise de uma criança. O outro era
um denso estudo dos mecanismos da neurose obsessiva.
Nessa época Freud estava em uma posição de onde podia antever uma
carreira de reconhecimento e fama com a qual nunca contara ao longo de
sua vida. A partir de então podia deparar-se com incompreensão, críticas,
oposição e até mesmo insultos, mas não podia mais ser ignorado. Estava
no ponto alto de suas capacidades e ávido para empregá-las em sua ple­
nitude. Tudo isso, juntamente com a harmonia do lar, onde havia a infin­
dável alegria do crescimento dos filhos, deve ter feito da primeira década
do século a mais feliz da vida de Freud. Mas seriam seus últimos anos de
felicidade. Foram imediatamente seguidos por quatro anos de dolorosas
dissensões com os colegas que lhe eram mais próximos; depois, pela afli­
ção, ansiedade e privação dos anos de guerra, acompanhados pelo colapso
total da moeda austríaca, com a perda de todas as suas economias e de seu
seguro ; e, um pouço depois, pelo início de sua torturante doença, que por
fim, depois de dezesseis anos de sofrimento, iria matá-lo.

NOTAS

ª Foi definido como "um intelecto de brilho insuperável em nosso século por qual­
quer pessoa na medicina, ciência e filosoíia". 6
b Tempestade e Ânimo.
e "Homem de coragem".
d E não 1909, data que Sachs dá em seu livro. 2 3
e Freud queria que Breuler presidisse, mas Jung estava tão certo de que ele recusa­
ria que sequer lhe fez o pedido.
f Jung conseguira que Peternson convidasse Morton Prince, de Boston, para com­
parecer ao congresso. Prince realmente anunciou um artigo sobre "Reações Psico­
galvânicas em um Caso de Personalidade Múltipla", mas não pôde comparecer.
g Esse famoso psicólogo cirurgião não encontrou mais Freud durante trinta anos,
quando então o recebeu para uma consulta em Londres.
h Só recentemente fiquei sabendo que Jung já lhe contara isso!
i Em A Interpret,ação dos Sonhos ele se referiu a seu próprio embaraço ao dizer em
inglês "he" em lugar de "it".2 8

-78-
j O ódio tem um olho penetrante.
k VieI' Feind, vief Ehr!
1 Expressão corrente judia para "não-judeus".

m Freud sempre usou a expressão "die Sache" para psicanálise.


n Freud mais tarde relatou como conseguiu fazer isso por meio de uma "ação sinto­
mática" que venceu sua intenção consciente.• 2
0
V. Cap. 8, nç, 4.
P "Dies ist die erste offizielle Anerkennung unserer Benmühungen".

q "Sie werden sehen, es wird sich lohnen".


r Esta frase estava em inglês.
s Pág. 72.
t Neste volume usou-se um asterisco para permitir ao leitor a identificação das car­
tas que Freud escreveu em inglês.
� Realização de Desejo no Brincar das Crianças.
v Sonhos de ansiedade.
w Em Nuremberg.

- 79 -
III

A ASSOCIA ÇÃO PSICANALÍTICA INTERNA CIONAL


(1910-1914)

NO CORRER DESSES ANOS LANÇOU-SE O QUE FOI CHAMADO DE


"Movimento Psicanalítico" -expressão não muito feliz, mas empregada
tanto por amigos quanto por inimigos. Foram anos penosos para Freud e
foi no decorrer deles que ele, olhando para trás, vendo o que lhe parecia
então, através de óculos róseos, os anos serenos do "esplêndido isola­
mento". O prazer do sucesso e do reconhecimento crescente era muito
prejudicado pelos sinistros sinais de crescente dissensão entre valiosos
adeptos, assunto que, sozinho, exige todo um capítulo. Freud ficou imen­
samente perturbado e também aturdido com os insoh1veis problemas a que
isso deu origem e pela perplexidade de ter de enfrentá-los. No entanto,
aqui nos limitaremos ao lado mais auspicioso da história: a difusão gra­
dual das novas idéias que, naturalmente , tanto significaya para Freud.

1910

Os pensamentos de Freud nessa época se dirigiam para uma organização


mais ampla que uma sociedade local. Escreveu a Jung dizendo que aca­
lentava a idéia de fazer seus adeptos perticiparem de "algum grupo maior
que trabalhasse por um ideal prático" . 1 Um farmacêutico de Berna cha­
mado Knapp visitara-o e tentara obter seu apoio para uma "Fraternidade
Internacional da Ética e Cultura" , que acabara de fundar e da qual Forel
era o presidente. Freud aconselhou-o a discutir a questão com Jung e pe­
diu a opinião deste sobre a conveniência de aderir. Escreveu : "O que me
atraiu foi o aspecto prático do programa, tanto agressivo quanto protetor:
a obrigação de lutar diretamente contra a autoridade do Estado e da Igreja
nos casos em que estiverem cometendo injustiça manifesta" . 2 Acrescen-

-80-
tou, porém, que de modo algum estaria disposto a aderir a qualquer mo­
vimento antialco61ico, como aquele de que Farei era tão zeloso. Nada re­
sultou desse empenho, que foi logo substituído pela formação de uma as­
sociação puramente psicanalítica.
Em geral, tínhamos como certo que o Congresso de Salzburg seria o
primeiro de uma série. No momento em que escrevo (1954), ele se situa
como o primeiro de _dezoito até agora realizados. Em 1909, tanto Freuà
quanto Jung, o organizador do primeiro congresso, estavam tão preocupa­
dos com as conferências de Worcester, nos Estados Unidos, que a realiza­
ção de um congresso nesse ano era uma questão que não chegava a ser se­
riamente levantada. Mas o grande desejo de realizar outro_ congresso tão
cedo quanto possível levou à programação de um para a primavera se­
guinte. Apenas um outro congresso (Salzburg, 1924) foi realizado nessa
estação do ano. Era uma época que seria mais adequada para Freud, pois
não interferia em suas longas férias de verão, mas era uma época impossí­
vel para os americanos viajarem; então o desejo de que comparecessem
nos fez atender à conveniência deles. Essa foi também a razão pela qual o
Congresso Internacional de 1910 foi o único a que não pude comparecer,
impedido pelas conferências que estava fazendo na Universidade de To­
ronto. O único americano presente era Trigant Burrow, que estava estu­
dando com Jung em Zurique. G. A. Young, de Omaha, que também esti­
vera estudando aí, já tinha retornado para os Estados Unidos.
As providências, como antes, foram confiadas a Jung, e o Segundo
Congresso Psicanalítico Internacional realizou-se em Nuremberg a 30 e·
31 de março de 1910. Freud chegou de ,::ianhã cedo, antes do início do
congresso, a fim de passar algumas horas com Abraham. 3 Em virtude de
algumas propostas administrativas, que serão mencionadas adiante, o se­
gundo congresso transcorreu em atmosfera menos amistosa que o primei­
ro. A parte científica propriamente dita foi muito bem-�ucedida e mostrou
como eram proveitosas as novas idéias. F· rcud fez uma interessante comu­
nicação sobre "As Perspectivas Futuras da Terapia Psicanal íoca· ', com
valiosas sugestões referentes tanto a seu desen,,ol vimento interno quanto
a sua influência externa. Seu antigo crítico e amigo Lõwenfeld, de Muni­
que, leu um artigo. As contribuições suíças de Jung e Honegger foram de
primeira ordem. Eu escrevera anteriormente a Freud sugerindo que se ins­
tituísse um estudo coletivo do simbolismo. Freud gostou da idéia e pro­
meteu instigar Stekel a levantar a questão no congresso. 4 Stekel fez a pro­
posta e se indicou para essa finalidade uma comissão formada por Abra­
ham, Maeder e Stekel. Posteriormente, o resultado foi muito pequeno, mas
ainda considero que se poderia aprender muito a partir de um estudo com­
parado de todas as fontes - sonhos, chístes, mitos, etc. -de modo a averi­
guar os pontos precisos de · semelhança sobre os quais se constroem os
símbolos.

- 81 -
Freud por algum tempo alimentara a idéia de estabelecer entre os
analistas um vínculo maior5 e encarregara Ferenczi da tarefa de fazer as
propostas necessárias no próximo congresso. Depois do programa cientí­
fico, Ferenczi pronunciou-se perante os participantes sobre a futura orga­
nização dos analistas e seu trabalho. Houve de imediato uma onda de
protestos. Em sua alocução ele fizera algumas observações bastante de­
preciativas sobre a qualidade dos analistas vienenses e sugerira que o
centro da futura administração só podia ser Zurique, com Jung como pre­
sidente. Ademais, Ferenczi, apesar de todo o seu encanto pessoal, tinha
um lado decididamente ditatorial, e algumas de suas propostas foram além
do que é costumeiro nos círculos científicos. Antes do congresso, ele já
informara Freud de que "o ponto de vista psicanalítico não leva à nivela­
ção democrática: deveria haver uma elite, nos moldes do governo de filó­
sofos de Platão". 6 Em sua resposta, Freud disse que já havia tido a mesma
idéia. 7
Depois de fazer a apreciável proposta da formação de uma associação
internacional, com sociedades filiadas em vários países, Ferenczi afirmou
a necessidade de que todos os artigos escritos ou comunicações proferidas
por qualquer psicanalista fossem primeiro submetidos à aprovação do pre­
sidente da associação, que assim teria inauditos poderes censoriais. Foi
essa atitude de Ferenczi que posteriormente causaria tanto desacordo entre
analistas europeus e americanos, desacordo que eu, em particular, levei
anos para sanar. A discussão que se desencadeou depois do artigo de Fe­
renczi foi tão acrimoniosa que teve de ser adiada para o dia seguinte.
Naturalmente, não havia como aceitar suas sugestões mais extremas, mas
os vienenses, especialmente Adler e Stekel , também se opuseram firme­
mente à indicação de analistas suíços para os cargos de presidente e se­
cretário, sendo ignorados seus próprios serviços, fiéis e duradouros. O
próprio Freud percebeu a vantagem de estabelecer para o trabalho uma
base mais ampla do que a que podia ser propiciada pelos judeus vienenses
e viu que era necessário convencer disso seus colegas vienenses. Toman­
do conhecimento de que vários deles estavam fazendo um encontro de
protesto no quarto de hotel de Stekel, Freud foi ao seu encontro e fez um
ardente apelo à adesão deles. Enfatizou a virulenta hostilidade que os cir­
cundava e a necessidade de apoio externo para contê-la. Então, pu xando
dramaticamente seu paletó, declarou: "Meus inimigos gostariam de me ver
morrendo de fome; arrancariam até meu paletó de minhas costas".
Freud então procurou medidas mais práticas para apaziguar os dois
líderes da revolta. Anunciou seu afastamento da presidência da Sociedade
de Viena, na qual seria substituído por Adler. Também concordou que ,
em parte de modo a contrabalançar o fato de Jung ser editor do Jahrbuch,
se fundasse um novo periódico, o mensário 'Zentral bl att für Psychoanaly­
se, que seria editado conjuntamente por Adler e Stekel. Então eles se

- 82 -
acalmaram, concordaram com que Jung se tornasse presidente da associa­
ção. Jung indicou Riklin para seu secretário e também editor da nova pu­
blicação oficial que se decidira lançar. Esta era o Correspondezblatt der
lnternationalen Psychoanalytischen Vereinigung (Boletim), que transmiti­
ria a todos os membros notícias de seu interesse, reuniões da sociedade,
publicações, etc. O primeiro número saiu em julho de 19 10. Houve ape­
nas cinco números, pois a publicação fundiu-se com o 'Zentralbl att no
Congresso de Weimar, em setembro de 1911. Atualmente são muito raros
os exemplares desses números.
Nenhuma dessas escolhas de ocupantes dos cargos mostrou-se muito
feliz, embora à época todas parecessem inevitáveis. Cinco meses depois,
Adler afastou-se e Stekel o acompanharia poucos anos depois . Riklin ne­
gligenciava seus encargos, de modo que as questões administrativas fica­
ram completamente confusas, e Jung, como é bem sabido, não estava des­
tinado a liderar por muito tempo seus colegas psicanalistas.
Tão logo voltou para casa, Freud enviou a Ferenczi o seguinte "epí­
logo", como ele o chamou, sobre o congresso.

"3 de abril de 1910


"Caro Amigo:
"Não há dúvida de que foi um grande sucesso. E no entanto n6s dois
tivemos a menor sorte. Evidentemente, minha comunicação obteve pouca
resposta; não sei por quê. Tinha muito para despertar interesse. Talvez eu
tenha mostrado o quanto estava cansado. Seu enérgico apelo teve a má
sorte de evocar tanta contradição que eles se esqueceram de lhe agradecer
as importantes sugestões que lhes foram apresentadas pelo senhor. Toda
sociedade é ingrata: isso não importa. Mas ambos fomos um pouco culpa­
dos por não contarmos com o efeito que teriam sobre os vienenses. Teria
sido fácil para o senhor omitir inteiramente as observações críticas e asse­
gurar-lhes sua liberdade científica; assim, teríamos privado o protesto de­
les de boa parte de sua força. Acredito que minha aversão pelos vienen­
ses, há muito contida,a combinou-se com seu complexo de innão de modo
a nos tornar míopes.
"Isso, porém, não é a coisa essencial. O que é mais importante é que
realizamos um trabalho meritório que terá profunda influência na confor­
mação do futuro . Fiquei feliz ao ver que o senhor e eu concordávamos
plenamente e quero agradecer-lhe afetuosamente seu apoio, que afinal foi
bem-sucedido.
"Agora os acontecimentos caminharão. Vi que agora é o momento
para levar a cabo a decisão que há muito tenho em mente. Abandonarei
a liderança do grupo de Viena e deixarei de exercer qualquer influência
oficial. Transferirei a liderança para Adler, não que eu goste disso ou me
sinta satisfeito, mas porque afinal ele é aí a única personalidade e porque

- 83 -
possivelmente nesse cargo ele se sentirá na obrigação de defender nosso
terreno comum. Já falei com ele a esse respeito e informarei os outros na
próxima quarta-feira. Não acredito que eles sequer lamentem muito. Eu
quase havia assumido o papel do velho insatisfeito e indesejado. Certa­
mente não quero isso, de modo que prefiro sair antes de precisar fazê-lo,
mas voluntariamente. Os líderes serão todos da mesma idade e nível; po­
dem desenvolver-se livremente e chegar a acordo entre eles.
"Cientificamente cooperarei, com certeza, até meu último suspiro,
mas serei poupado de todo o incômodo de dirigir e conter e poderei usu­
fruir de meu otium cum dignitate.

"Passei um dia muito agradável com Jung em Rothenburg. Ele está


no auge da forma e devemos esperar que dê provas de si mesmo. (. . . ) As
relações pessoais entre os membros de Zurique são muito mais satisfató­
rias do que em Viena, onde com freqüência temos de nos perguntar o que
foi feito da influência enobrecedora da psicanálise sobre seus seguidores.
"Com o Reichstag de Nuremberg encerra-se a infância de nosso mo­
vimento; esta é minha impressão. Espero agora por um rico e promissor
período de juventude.
"A u revoir,
"Freud"

Apenas uns poucos meses depois, qu.:ndo houve mais críticas à nova or­
ganização, Freud lamentou em parte ter feito com que ela se formasse tão
ced�. Pensou que talvez tivesse superestimado a compreensão da psicaná­
lise por parte de seus adeptos, mas ficou impaciente por ver Jung coloca­
do à frente do movimento e quis diminuir o peso de sua própria responsa­
bilidade. 9
Deuticke, que até então sempre fora o editor de -Freud, recusou-se a
publicar o 'Zentralblatt, afirmando que a associação com Stekel podia
prejudicar o caráter científico do periódico. 1 0 Assim, foi preciso recorrer a
Bergmann, de Wiesbaden. É possível que Stekel tenha conduzido essas
negociações, o que lhe deu mais tarde, como ele pensava, o direito a rei­
vindicar que se tratava de seu periódico. O primeiro número saiu em ou­
tubro de 1910.
Depois do Congresso de Nuremberg, os grupos psicanaHticos já
existentes inscreveram-se como sociedades filiadas à Associação Interna­
cional e não muito depois novos grupos se formaram. O primeiro grupo a
se inscrever foi o de Berlim, no último dia do congresso, em 31 de março.
Abraham, naturalmente, era o presidente e havia nove outros membros:
Eitingon, Magnus Hirschfeld, Juliusburger, Heinrich Koerber, J. Marci­
nowski, Simon, Stegmann, Strohmayer e Warda. O próximo a aderir foi o
de Viena, em abril. Adler acabara de se tornar presidente e havia outros

- 84 -
21 membros. Zurique aderiu em junho, com dezenove membros. Bins­
wanger era o presidente e Ewald Jung, secretário. Bleuler e alguns outros
afastaram-se da sociedade porque era contra seus princípios pertencer a
uma organização internacional - atitude precursora da atitude da Suíça em
relação à Liga das Nações e à Organização das Nações Unidas. Eviden­
temente, isso era apenas uma racionalização da parte de Bleuler.
A atitude vacilante de Bleuler aborrecia Freud consideravelmente.
Escrevia artigos ora apoiando a psicanálise, ora criticando-a. Corno disse
Freud, não era nada surpreendente que ele desse tanta importância ao
conceito de ambivalência que introduzira na psiquiatria. Em virtude da
posição cada vez mais destacada que Bleuler mantinha entre os psiquia­
tras, Freud tinha grande desejo de conservar seu apoio. No entanto,
Bleuler e Jung nunca se deram bem juntos e um ano depois dessa época
suas relações pessoais praticamente cessaram. Jung atribuiu a atitude ina­
mistosa de Bleuler para com sua pessoa, e conseqüentemente sua recusa
em participar da sociedade que Jung fundara, a seu aborrecimento por
Jung ter permitido que Freud o levasse a ingerir bebida alcoólica .b A abs­
tinência total era uma religião para Bleuler, tal como fora para seu prede­
cessor, Forel. Freud considerou essa interpretação de Jung "arguta e plau­
sível" . .. As objeções de Bleuler são inteligíveis aí, mas quando dirigidas
contra nossa Associação Internacional perdem completamente o sentido.
Não podemos, além do favorecimento da psicanálise, inscrever em nossa
bandeira coisas como o fornecimento de roupas a escolares enregelados.
Isso lembraria muito certos cartazes de hospedarias: Hotel Inglaterra e
Gálo Vermelho".
Com Bleuler, apesar dos constantes esforços de Freud através de cor­
respondência, as coisas se arrastavam. Perto do fim do ano, Freud escre­
veu a Pfister: "Tive muito trabalho com Bleuler. Não posso dizer que
quero mantê-lo conosco a qualquer preço, já que afinal Jung está bem
mais próximo de mim, mas eu sacrificaria de bom grado qualquer coisa
por Bleuler, desde que ele não prejudicasse nossa causa. Infelizmente, te­
nho poucas esperanças." 1 1
Convenceu então Bleuler a encontrá-lo em Munique durante os feria­
dos de Natal. Bleuler sugerira que o encontro fosse em Innsbruck, mas
Freud excluíra essa possibilidade por causa das "lembranças horrendas" ,e
que a cidade lhe trazia, de dolorosas experiências aí transcorridas; 1 2 isso
só pode se referir a suas discussões com Fliess em Innsbruck, na Páscoa
de 1899. Tiveram uma conversa longa e bastante pessoal, tendo como re­
sultados o estabelecimento de excelentes relações e a promessa de Bleuler
de aderir à Associação Internacional. Bleuler deve ter aberto seu coração
para Freud, pois em uma carta a Ferenczi lemos: "Ele também é apenas
um pobre diabo como nós e necessita de um pouco de amor, fato que pa­
rece ser negligenciado por alguns que são importantes para ele."d 1 3

- 85 -
Infelizmente, essa situação não perdurou e um ano depois Bleuler
mais uma vez se afastou, 1 4 dessa vez definitivamente. Seus interesses en­
tão se deslocaram da psiquiatria psicológica para a psiquiatria clínica.
Algo deve ser dito sobre o desenvolvimento inicial desses grupos,
pelos quais Freud tinha interesse permanente. Afinal, à parte sua própria
obra escrita, eles representavam a esperança no futuro para a dissemina­
ção de sua idéias.
Em Viena, onde a sociedade já tinha oito anos, a reunião administra­
tiva de 12 de outubro de 1912 elegeu Adler para presidente, Stekel vice­
presidente, Steiner tesoureiro, Hitschmann bibliotecário e Rank secretário.
Freud recebeu o título de presidente cient ífico e dedicou-se que os três
presidentes deveriam revezar-se na presidência de reuniões científicas. 1 5
Os atos da sociedade e o s artigos lidos foram registrados em publicações.
Em breve havia 36 membros .
O desenvolvimento em Berlim naturalmente foi muito mais lento. A
sociedade fora fundada por Abraham em 27 de agosto de 1908, com ou­
tros quatro membros: Ivan Bloch, Hirschfeld, Juliusburger e Koerber. Nos
primeiros anos, Eitingon preferiu permanecer sozinho em Berlim e só al­
gum tempo depois começou a prática analítica. Mesmo quatro anos mais
tarde, Abraham era o único analista ativo da sociedade. 1 6 Hirschfeld
afastou-se em 1911, 1 7 tal como dois novos membros, Warda e Strohmayer,
que foram contra o aumento da subscrição para pagar pelo órgão oficial
da Associação Internacional. 1 8 Nessa época, ainda havia outros quatro
membros além de Abraham. Freud tinha relações amigáveis com Hirsch­
feld, editor do Jahrburch für sexuelle Zwischenstufen, e há registros de
tê-lo convidado para almoçar em sua casa pelo menos em duas ocasiões. 1 9
A "Sociedade Freud" de Zurique existia desde 1907, tendo sido sua
primeira reunião realizada em 27 de setembro desse ai:io. 2 ° Começou sua
vida com vinte médicos, aos quais logo se juntaram os reverendos Keller
e Pfister. Em 1910, havia uns poucos não-suíços entre os membros: Assa­
gioli, de Florença, que eu interessara pela psicanálise quando estudáva­
mos com Kraepelin alguns anos antes; Trigant Burrow, de Baltimore;
Leonhard Seif, de Munique, também meu amigo da época de Kraepelin; e
Stockmayer, de Tübingen. Decidiu-se então realizar reuniões públicas pe­
riodicamente, de modo que pudesse ser despertado interesse por parte de
uma platéia mais ampla. Em novembro de 1910, Bleuler, Binswanger e
Riklin leram artigos perante a Sociedade Suíça de Alienistas.e Foram bem
recebidos e o presidente, Dr. Ris, saudou a apresentação de novas idéias.
Ferenczi leu um artigo sobre "Sugestão" perante a Sociedade Médica
de Budapeste, em 12 de fevereiro de 1911, mas a reação foi inteiramente
negativa. Por vários anos, a Hungria não pareceu solo favorável para a
psicanálise, mas posteriormente aiiviou Ferenczi de sua solidão, forne­
cendo vários analistas excelentes.

- 86 -
A psicanálise nessa época já era amplamente discutida em várias reu­
niões e congressos médicos na Europa, mas o único artigo a seu favor que
encontro nesse ano é um de minha própria autoria, sobre a teoria psicana­
l ítica da sugestão, lido no Congresso Internacional de Psicologia e Psico­
terapia Médicas de Bruxelas, no mês de agosto.
Nos Estados Unidos, por outro lado, as novas idéias já estavam sendo
mais amplamente recebidas. Manteve-se crescente o interesse despertado
pelas conferências de Freud e Jung em Worcester no ano anterior. Putnam
publicara um relato pessoal e muito favorável dessas conferências. 2 1 No
decorrer de sua exposição, fizera a infeliz observação de que Freud "não
era mais um jovem". Isso magoou Freud muito. Escreveu-me: "O senhor
é jovem e eu já invejo sua incansável atividade. Quanto a mim, o trecho
do ensaio de Putnam,'Ele já não é mais um jovem', magoou-me mais do
que todo o resto me agradou". 2 2 Quando o consolei com o pensamento de
que sua mente era mais jovem do que a de qualquer um de nós, ele res­
pondeu tristemente que Putnam tinha mais probabilidade do que eu de
estar certo quanto à sua idade. Vingou-se um pouco quando algum tempo
depois traduziu um artigo de Putnam para o Zentralblatt, dizendo em nota
de rodapé que Putnam estava "muito além dos anos da juventude ". 2 3 Ad­
mitiu esse motivo mais tarde, quando em um texto deu um exemplo de
"esquecimento" de um nome no qual ocorria a palavra "veterano". 2 4
Brill, Putnam e eu também tínhamos começado a fazer conferências e
escrever sobre psicanálise; o primeiro volume das traduções de Brill já ti­
nha aparecido em 1909. Além de seu trabalho de tradução , Brill realizou
uma brava luta em várias conferências expositivas e debates. ossas esfe­
ras de atuação sobrepunham-se muito pouco; ele se concentrava sobretudo
em Nova Iorque, e com grande sucesso, enquanto eu me estendia mais,
até Baltimore, Boston, Chicago, Detroit e Washington. enhum periódico
recusou nossos artigos; em particular, os editores de The Journal of ab­
normal Psychology e The American Journal of Psychology, respectiva­
mente Morton Prince e Stanley Hall, abriram suas páginas para nós livre­
mente e deram boas-vindas a nossas contribuições. O primeiro número de
1910 do segundo periódico continha meu ensaio sobre Hamlet; o número
seguinte trouxe traduções das conferências de Freud e Jung em Worcester,
um artigo de Ferenczi sobre sonhos e uma abrangente exposição, escrita
por mim, sobre a teoria freudiana dos sonhos, com exemplos ilustrativos.
O mesmo volume continha um valioso artigo de E.A. Acher sobre seme­
lhanças entre crianças e o homem primitivo. 25 É bem verdade que esse ar­
tigo não era escrito de um ponto de vista psicanalítico, mas no ano se­
guinte o mesmo autor publicou uma longa e favorável resenha de um tra­
balho psicanalítico. 26 O primeiro periódico continha um artigo de Bernard
Hart, de Londres, sobre a teoria do inconsciente. 2 7 Assim, nessa época os
americanos tinham acesso livre às novas idéias. As coisas estavam indo

- 87 -
bem e Freud comentou com Ferenczi minhas ''magníficas cartas, cheias de
vitórias e lutas". 2 8
Como a época ainda não era propícia para uma sociedade puramente
psicanalítica, propus a Putnam que fosse formada uma associação mais
ampla, onde as idéias psicanal íticas pudessem ser discutidas. Procurei
então Morton Prince, prometendo-lhe que ele seria o primeiro presidente;
enviaram-se circulares às pessoas adequadas. Como os psiquiatras nessa
época estavam ainda menos interessados por psicologia do que os neuro­
logistas, decidimos fazer nossa reunião imediatamente depois da reunião
anual da Associação Neurológica Americana. Assim, a 2 de maio de
1910, no Hotel Willard em Washington, passou a existir a Associação Psi­
copatológica Americana. Havia quarenta pessoas presentes na reunião.
Houve eleições para preenchimento dos cargos: presidente, Morton Prin­
ce; secretário, G.A. Watennan (seu assistente particular em Boston); con­
selho, A . G. Allen, da Filadélfia, August Hoch, de Nova Iorque, Adolf
Meyer, de Baltimore, J.J. Putnam, de Boston, e eu. Foram eleitos cinco
membros honorários: Claparede, de Genebra ; Forel, de Zurique; Freud, de
Viena; Janet, de Paris; e Jung, de Zurique. Assim, a. Suíça se saiu bem. Só
mais tarde fui eleito membro honorário. The Journal of A bnormal Psy­
chology tornou-se órgão oficial da associação.
Também apareciam sinais de interesse na Rússia. M.E. Ossipow e al­
guns outros colegas se dedicaram a escrever sobre as obras de Freud e a
traduzi-las; tomamos conhecimento de que a Academia de Moscou ofere­
cera um prêmio para o melhor ensaio sobre psicanálise. 2 9 Ossipow enviou
um trabalho em março de 1910, mas nunca cheguei a saber se foi bem-su­
cedido. Visitou Freud em junho desse ano e Freud comentou que ele era
"uma excelente pessoa. 3 0 M. Wulff, que estudara com Juliusburger em
Berlim, fora demitido do cargo que ocupava em uma instituição dessa ci­
dade em virtude de suas "concepções freudianas". 3 1 Transferiu-se então
para Odessa, onde estabeleceu contato por correspondência com Freud 3 2 e
Ferenczi. 3 3
Embora os nomes de Ossipow e WuJff sejam os que mais merecem
lembrança em relação aos primeiros tempos - e, também, como se veria,
aos últimos - da psicanálise na Rússia, aí também havia vários outros
pesquisadores. Um periódico especial, Psychotherapia, foi fundado em
Moscou, em 1909; nele apareceram váriqs artigos e resenhas psicanalíti­
cos. Pownizki, médico militar em Odessa, foi o primeiro a publicar uma
psicanálise real, embora de tipo elementar, em uma conferência que profe­
riu em São Petersburgo, em março de 1908;· subseqüentemente, escreveu
vários outros artigos. Wirubow, de Moscou, fez algumas contribuições
proveitosas; Berg e Assatiari, que visitaram Jung em Zurique, também es­
creveram.

- 88 -
A única notícia da França foi uma carta que Freud recebeu de R. Mo­
richau-Beauchant perto do fim do ano; 3 • durante alguns anos não se to­
mou conhecimento de nada mais nesse país, mas na Itália o primeiro arti­
go sobre psicanálise foi publicado por Baroncini já em 1908. 3 5 Aproxima­
damente na mesma época, Modena, de Ancona, cujo interesse eu também
despertara quando trabalhava em Munique e com quem continuei a me
corresponder por vários anos, enviou a Freud a separata de um artigo,3 6
que Freud teve em alta conta,3 7 e depois começou a traduzir os Três En­
saios sobre a Teoria da Sexualidade. Ferenczi mencionou uma agradável
visita dele em 1 9 1 0. 3 8 Assagioli, de Florença, leu um artigo sobre subli­
mação perante o Congresso Italiano de Sexologia em novembro de 1 9 1 0.
Mesmo em um local tão distante como a Austrália o interesse também
surgia. Em 1909, Freud informou ter recebido uma carta de Sydney con­
tando-lhe que havia um pequeno grupo estudando avidamente suas obras.
O Dr. Roy Winn, de Sydney, foi bastante atencioso para fazer algumas
laboriosas pesquisas e fornecer a seguinte informação sobre esse remoto
episódio: um Dr. Donald Fraser organizara um pequeno grupo e fizera vá­
rias conferências sobre psicanálise perante várias sociedades. Antes de se
tomar médico em 1909, ele fora ministro da Igreja presbiteriana, mas tive­
ra de abandonar seti cargo em virtude de suas "concepções freudianas " -
primeiro exemplo, mas de modo algum o último, desse tipo de imolação.
A fagulha extinguiu-se pouco depois, como ocorreria com a minha no Ca­
nadá.
Dois anos mais tarde, porém, o Dr. Andrew Davidson, secretário da
Seção de Medicina Psicológica e Neurologia, convidou Freud, Jung e Ha­
velock Ellis para lerem artigos perante o Congresso Médico Australásio
em 19 1 1. Todos enviaram artigos que foram lidos; o de Freud será men­
cionado no local apropriado.f Ele sugerira a Jung que enviassem um arti­
go conjunto, mas Jung preferiu que fossem artigos "independentes " . 39 O
artigo de Freud foi enviado em 1 3 de maio de 19 1 1 .
O leitor não precisa temer que eu esteja me envolvendo na gigantesca
tarefa de apresentar a história da Associação P sicanalítica Internacional
ou do "movimento" concomitante, exceto na medida em que isso diz res­
peito a Freud, mas julguei que aqui podiam ser registrados os momentos
realmente iniciais, pelos quais ele tanto se interessou. Já se disse o bas­
tante para mostrar que em torno de 1 9 1 0, apenas alguns anos depois de
Freud começar a sair de sua era de isolamento, sua obra estava sendo am­
plamente discutida em muitos países e que vários médicos já estavam ad­
quirindo experiência no uso de seus métodos. Por outro lado, como vere­
mos adiante, o interesse pela obra de Freud era mais do que contrabalan­
çado pela forte oposição que nessa época ela vinha se enfrentando.
Em 1 9 10, Freud publicou as conferências que pronunciara em Wor­
cester, as Cinco Lições de Psicanálise, o artigo que apresentara no Con-

- 89 -
gresso de Nuremberg e vários outros artigos menores. Além disso, houve
outras três publicações originais. Uma era sobre "O sentido Antitético das
Palavras Pnmevas", descoberta que ihe deu grande prazer ao confirmar
uma observação que ele fizera anos antes quanto a um aspecto misterioso
do inconsciente . Outra foi o primeiro de seus três ensaios sobre a " Psi­
cologia do Amor " . Mas o principal acontecimento de 1 9 1 0, em termos de
sua obra, foi o hvro sobre Leonardo da Vinci. Nesse ensaio ele não ape­
nas esclareceu a natureza interna do grande homem, com o conflito entre
as duas motivações principais de sua vida, mas também mostrou como ele
fora influenciado pelos acontecimentos do início da infância. Mais do que
isso, Freud realizou um grande estudo da motivação, que tem especial in­
teresse para nós . Como mostrarei mais adiante, ao realizar o estudo Freud
estava exprimindo conclusões que com toda probabilidade provinham de
sua auto-análise, sendo, portanto, de grande importância para o estudo de
sua personalidade. Suas cartas da época deixam bastante clara a excep­
cional intensidade com que ele próprio se lançou nessa investigação.
Em maio, Freud sentiu-se lisonjeado com o convite que lhe fez o
grande Wilhelm Ostwald para contribuir com um artigo sobre sua obra pa­
ra os Annalen der Naturphilosophie; disse a Jung que se fosse ambicioso
escreveria um artigo.4° Algumas semanas depois, aceitou o convite, 4 1 mas
nunca escreveu o artigo. Mais ou menos na mesma época, a Neue Freie
Presse fez pedido semelhante. Dessa vez ele recusou, pois sentia que já
era bastante proeminente em Viena.

Freud sentia-se muito cansado depois da tensão do Congresso de Nurem­


berg; as "férias" de Páscoa aí passadas não constituíram recreação. Na
época de Pentecostes, passou alguns dias com a mulher e a filha Sophie
em Karlsbad. Seus planos para o verão tinham sido, primeiro, ir a Karls­
bad, na esperança de dissipar os efeitos restantes da comida americana do
ano anterior;• 2 a seguir, levar a família para a Suíça francesa,º o que seria
inteiramente novo para todos; e, por fim, fazer uma visita a Jung em Zuri­
que . 4 4 Todos esses planos foram alterados pela perigosa doença da mãe de
sua mulher em Hamburgo, sendo considerado conveniente que não ficas­
sem longe deia.4 5 Ela morreu de câncer em 27 de outubro desse mesmo
ano. Providenciaram então para passar o verão na Holanda.
Freud e seus dois filhos mais novos prosseguiram - o mais velho es­
tava nos Dolomitas - e chegaram a Haia em 17 de j ulho. Ficaram no Ho­
tel Wittebrugh, em Scheveninge.n. Seu plano era passar seis semanas na
Holanda e então em 29 de agosto, j untamente com Ferenczi, embarca em
R otteràam com destino a Nápoles. Os três passaram dias muito agradáveis
na Holanda, e Freud elogiou a encantadora bondade com que seus filhos
tratavam o velho pai. Nadavam diariamente e Freud comemorou a segun­
da edição das suas Sammlung Kleiner Schriften gastando um florim e

- 90 -
meio em um passeio a cavalo para eles. Naturalmente, Freud tinha de vi­
sitar todos os museus a seu alcance, em Haarlem, Haia, etc. Sua cidade
favorita era Delft.
No entanto, ele sentia falta das mulheres da casa. Sua esposa tinha
ido de Viena para Hamburgo, a fim de estar com a mãe; pela primeira vez
em 24 anos estavam separados no aniversário dela (26 de julho). As filhas
solteiras, com Tante Minna, passavam férias no sanatório de Jekel, em
Bistra, na Silésia austríaca. As mulheres providenciaram para se encontra­
rem a 29 de julho, em Leyden, onde Freud as saudou . Foram então para a
Pensão Noordsee, na costa de Noordwijk, onde passaram um mês feliz.
Passei aí uns poucos dias com eles na segunda semana de agosto e tive
várias conversas interessantes com Freud. Foi uma experiência empol­
gante, tendo eu feito várias perguntas a que ele respondeu com muita pa­
ciência. Havia para discutir todo tipo de problemas técnicos relacionados
com os casos que eu estivera analisando; além disso, eu tinha de dar as
t1ltimas notícias dos Estados Unidos. Fiz também um relato sobre nosso
progresso no Congresso Internacional de Psicologia l\íédica em Bruxelas,
onde eu acabara de ler um artigo. Em nossas longas caminhadas à beira­
mar, ele andava a passos largos rapidamente, tendo eu observado que com
sua bengala ele mexia em todos os pedaços de algas e que seus olhos o
tempo todo se fixavam em algum ponto. Perguntei-lhe o que ele esperava
encontrar, mas obtive uma resposta indiferente : "Algo interessante . Nun­
ca se sabe." Freud esteve apenas três vezes à beira-mar em sua vida (com
exceção do Mediterrâneo); as outras ocasiões se deram em sua breve esta­
da em Lancashire, aos dezenove anos, e no ano anterior ( 1909). Seus fi­
lhos nunca tinham visto o mar aberto antes e por isso estavam entusias­
mados. Mas a planura da paisagem cansou Freud depois de algum tempo e
ele sentiu falta de suas amadas montanhas.
Entre as cartas que Freud deixou após sua morte, fiquei espantado de
encontrar minha corriqueira carta a sua mulher agradecendo-lhe a hospi­
talidade. Na primavera de 1908, quando alterou a arrumação de sua casa,
Freud destruiu toda sua correspondência anterior, mas depois disso pre­
servou quase tudo.
Nessa época, Gustav Mahler, o famoso compositor, encontrava-se
muito angustiado com o relacionamento com sua mulher; o Dr. Nepallek,
psicanalista vienense que era parente da mulher de Mahler, aconselhou-o
a consultar-se com Freud. Telegrafou do Tirol para Freud, pedindo-lhe
um encontro . Freud era sempre muito avesso a interromper suas férias pa­
ra qualquer trabalho profissional, mas não podia recusar-se a atender um
homem do valor de Mahler. Contudo, o telegrama pedindo o encontro foi
seguido por outro, do próprio Mahler, cancelando o pedido. Logo depois
veio outro pedido, com o mesmo resultado. Mahler sofria da folie de
doute de sua neurose obsessiva e repetiu essa atitude por três vezes. Por

- 91 -
fim, Freud teve de dizer-lhe que sua última oportunidade de vê-lo era an­
tes do fim de agosto, pois planejava viajar nessa ocasião para a Sicília.
Então os dois se encontraram em um hotel em Leyden e passaram quatro
horas passeando pela cidade e realizando uma espécie de psicanálise. Em­
bora Mahler não tivesse tido contato anterior com a psicanálise, Freud
disse que nunca tinha encontrado alguém que parecesse compreendê-la
tão rapidamente. Mahler ficou muito impressionado com uma observação
de Freud : "Presumo que sua mãe se chamava Marie. Posso supor isso a
partir de várias indicações em sua conversa. Como é possível que o se­
nhor se tenha casado com alguém que tem outro nome, Alma, já que sua
mãe evidentemente desempenhou papel dominante em sua vida?" Mahler
então lhe disse que o nome de sua mulher era Alma Maria, mas que ele a
chamava de Marie ! Ela era filha do famoso pintor g Schindler, de quem
há uma estátua no Stadpark em Viena; assim, presumivelmente, um nome
também teve um papel importante na vida dela. Essa conversa analítica
evidentemente produziu efeito, pois Mahler recuperou sua potência e o
casamento foi feliz até a morte dele, que infelizmente ocorreu apenas um
ano depois.
No decorrer da conversa, Mahler subitamente disse que então com­
preendia por que sua música sempre fora impedida de alcançar o nível
mais elevado através das passagens mais nobres, as inspiradas pelas mais
profundas emoções, sendo prejudicada pela intrusão de alguma melodia
banal. Seu pai, aparentemente uma pessoa brutal, tratava a mulher muito
mal e quando Mahler era garoto houve entre os pais uma cena especial­
mente dolorosa. Ela se tomou absolutamente insuportável para o menino,
que saiu correndo de casa. Nesse momento, porém, um realejo na rua es­
tava tocando a canção popular vienense "Ach, Du lieber Augustin". Na
opinião de Mahler, a conjunção de alta tragédia e divertimento leve estava
a partir de então inextricavelmente fixada em sua mente - e um estado de
espírito trazia inevitavelmente o outro. 4 6
Foi nesse mês de agosto que Freud, em Leyden, encontrou Van Em­
den pela primeira vez. Ele se mostraria outro dos vários discípulos e ami­
gos de Freud por toda a vida.
Durante esse período, Freud mantinha uma movimentada correspon­
dência com Ferenczi a propósito dos complicados planos de ambos para
uma viagem ao sul da Itália. Nenhum deles, sobretudo Ferenczi, era gran­
de especialista nesses assuntos. Freud sugerira convidar Brill para acom­
panhá-los na viagem a Nápoles e à Sicília; Ferenczi, depois de exprimir
seu receio por ter de partilhar a companhia de Freud com outra pessoa,
teve de concordar. Todavia, verificou-se que a programação de Brill na
Europa não se conformava ao plano italiano, de modo que nada resultou
da idéia. Em meados de agosto, acharam que o projeto de irem de navio
para Nápoles a partir da Holanda não era muito viável; decidiram, pois,

- 92 -
fazer a longa viagem de trem. Ferenczi chegou a Leyden em 28 de agosto
e passou uns dias com a família na Pensão Noordwijk.
O plano arquitetado consistia em viajar, durante a noite, de Leyden
para Basiléia e daí para Roma. Mas no último minuto, um filho de Freud,
Oliver, que era realmente prático, descobriu uma rota mais conveniente
via Paris e Milão. Assim, os dois passaram a noite de 19 de setembro em
Paris, no Hotel du Louvre. Paris era "muito mais magnífica que em minha
memória" . 4 7 Almoçaram no Café de Paris, 4 8 e Freud mostrou a Ferenczi,
que nunca estivera na cidade, o que lhe foi possível no breve espaço de
tempo de que dispunha. Era a terceira das visitas de Freud a Paris. O
p onto alto foi sem dúvida o Louvre, onde Freud, cujo espírito ainda esta­
va pleno de Leonardo, fez um minucioso exame de todos os seus quadros
aí existentes. 4 9
Nesse ínterim, a família transferiu-se para o Hotel Wittebrugh, perto
de Haia, onde, com exceção de Ernst e Anna, que tiveram de voltar para
Viena, passou outras duas semanas antes do retomo a Viena.
Depois de um dia inteiro em Paris, os dois amigos viajaram para Flo­
rença. Ficaram aí, no Grand Hotel, da noite do dia 3 até a tarde do dia 5.
Em seguida passaram 48 horas em Roma, onde havia muito o que mostrar
a Ferenczi. As cartas à sua mulher eram como sempre plenas da magia,
que Freud sempre sentia, dessa maravilhosa cidade. Nápoles estava tur­
bulenta como sempre, mas eles foram para o Monte Posilipo a fim de
apreciar o panorama de Ischia ao Capo Miseno. Na noite de sua chegada,
8 de setembro, embarcaram no S. S. Syracuse para uma viagem noturna
até Palermo. A( pagaram, cada um, no Hotel de France uma diária, com
todo o serviço incluído, de 15 liras (2,90 dólares), pelo que tinham três
cômodos e um banheiro. Mas havia muito o que ver. E ele simplesmente
não podia descrever a beleza do cenário e o aroma das flores. No dia 12
houve uma excursão para ver "algumas ruínas" e na _m anhã seguinte outra
mais longa. Visitaram o Templo de Segesta e passaram a noite em Castel­
vetrano, nome cujo esquecimento lhe deu trabalho em ocasião posterior. 5 0
No dia seguinte viram o templo de Minerva em Selinunte, "que fora pre­
servado por Anlbal", e à noite voltaram para Palermo.
No dia seguinte, 15, houve uma viagem em outra direção, ao templo
de Girgenti. No dia 17 foram a Siracusa, onde o hotel custava apenas 11
liras. Esse local era para Freud o principal objetivo de toda a viagem. To­
davia, depois de três dias maravilhosos o siroco se mostrava muito desa­
gradável, de modo que decidiram retornar antes do previsto. Para econo­
mizar tempo, viajaram de volta a Palermo, navegaram para Nápoles, onde
estiveram rapidamente para não ficarem de quarentena por causa da cóle­
ra, passaram apenas uma noite em Roma e alcançaram Viena na manhã do
dia 26. Aí Freud descansou durante alguns dias antes de começar a tra­
balhar. Passou esses dias traduzindo um artigo de Putnam para o Zentral-

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blatt. Não assinou a tradução porque o artigo continha algumas referên­
cias elogiosas a ele próprio. 5 1
O período que os dois passaram na Sicília foi decisivo para seu rela­
cionamento subseqüente. Como o v ínculo entre eles foi o mais importante
que Freud forjaria em seus anos posteriores, faz-se necessário mencionar
brevemente o início das dificuldades de ambos. O que na verdade aconte­
ceu na Sicília foi simplesmente que Ferenczi se mostrou inibido, esquivo
e pouco confiável nas providências do dia-a-dia; Freud qualificou a atitu­
de dele como de "tímida admiração e muda oposição" 5 2 Mas por trás des­
sas manifestações estava um grave problema nas profundezas de sua per­
sonalidade. Como eu sabia a partir de várias conversas íntimas com ele,
Ferenczi sentia falta do amor de seu pai, de um modo absolutamente in­
comum e insaciável. Essa era a paixão dominante de sua vida e, indireta­
mente, a fonte das desafortunadas alterações que vinte anos depois intro­
duziu em sua técnica psicanalítica, que tiveram como efeito afastá-lo de
Freud (embora não Freud dele). Suas exigências de intimidade não tinham
limites. Não poderia haver nem privacidade nem segredos entre ele e
Freud. Naturalmente, ele não podia exprimir isso abertamente, de modo
que esperou mais ou- menos com esperanças que Freud desse o primeiro
passo.
Freud, porém, não estava com tal disposição. Sentia-se apenas muito
satisfeito por se encontrar de férias e poder afastar de sua mente todos os
cansativos problemas de neuroses e conflitos psicológicos profundos, des­
cansando sua mente com os prazeres do momento. A maioria deles nessa
viagem eram os mesmos de hoje, isto é, novas e interessantes paisagens a
serem exploradas. Tudo o que ele queria era uma companhia agradável
com gostos semelhantes aos seus.
Depois de voltarem para casa, Ferenczi escreveu uma de suas longas
cartas explicativas de auto-análise, na qual exprimiu seu temor de que de­
pois de seu comportamento recente Freud pudesse não querer mais convi­
ver com ele. Mas Freud continuava amigo, como mostra a resposta que se
segue.

"6 de outubro de 1910


"Caro amigo,
"É notável como o senhor pode expressar-se muito mais claramente
quando escreve do que quando fala. Naturalmente, eu sabia muito ou boa
parte do que o senhor escreve e assim preciso dar-lhe apenas umas poucas
explicações. Por que não lhe fiz uma reprimenda e assim abri o caminho
para uma compreensão mútua? É verdade, foi uma fraqueza minha. Não
sou o super-homem psicanalítico que o senhor construiu em sua imagina­
ção, assim como não superei a contratransferência. Eu não podia tratá-lo

- 94 -
dessa forma, assim como não podia fazê-lo com meus três filhos, porque
gosto muito deles e sentiria pena deles.
"O senhor não apenas observou, mas também compreendeu, que não
tenho mais qualquer necessidade de revelar completamente minha perso­
nalidade, e o senhor ligou isso, corretamente, à sua razão traumática.
Desde o caso de Fliess, com cuja superação o senhor me viu recentemente
ocupado, essa necessidade se extinguiu. Uma parte da catexia homosse­
xual foi retirada e usada para ampliar meu próprio ego. Tive sucesso onde
o paranóico fracassa.
"Além do mais, o senhor deveria saber que eu estava menos bem e
sofria mais de meu problema intestinal do que eu estava disposto a admi­
tir. Com freqüência eu dizia para mim mesmo que quem não é senhor de
seu Konradh não deve empreender viagens. É aí que a franqueza devia ter
começado, mas o senhor não me parecia estável o suficiente para evitar
que ficasse excessivamente ansioso em relação a mim.
"Quanto ao dissabor que o senhor me causou, inclusive com uma
certa resistência passiva, ele sofrerá as mesmas mudanças que as lembran­
ças de viagens em geral: nós as refinamos, as pequenas perturbações se
apagam e o que foi belo permanece para nosso prazer intelectual.
"Que o senhor supunha que eu tinha grandes segredos e que estava
muito curioso quanto a eles era fácil de ver e também fácil de reconhecer
como infantil. Assim como lhe falava tudo sobre questões científicas,
ocultava-lhe muito pouco de natureza pessoal; o incidente do National­
geschenk i foi, penso, suficientemente indiscreto. MeNs sonhos nessa épo­
ca estavam inteiramente relacionados, como indiquei ao senhor, com o ca­
so Fliess, que pela natureza das coisas dificilmente despertaria sua atenção.
"Assim, se o senhor olhar mais atentamente, verá que não temos
tanto o que acertar entre nós, como talvez de início o senhor pensasse.
"Eu, antes, chamaria sua atenção para o presente.( . . )
' 'Herzlich
"Ihr Freud".
A generosidade e o tato que Freud constantemente revelava em rela­
ção a Ferenczi e seu grande afeto por ele preservaram uma valiosa amiza­
de por muitos anos, até que, muito depois desse episódio, a própria esta­
bilidade de Ferenczi começou a desmoronar .

191 1
Esse foi o ano do rompimento com Adler, doloroso episódio que será des­
crito em um capítulo posterior. Foi a principal preocupação de Freud nes­
se ano, que lhe trouxe grandes dissabores. Sua contínua amizade com
Jung e seu maior contato com Putnam foram características salientes desse
ano. O Congresso Internacional de Weimar, em setembro, foi um dos mais

- 95 -
bem-sucedidos. A psicanálise continuava a ganhar, em vários países , tanto
amigos quanto inimigos. Freud fundou um novo periódico , l11U1go. Não
passou férias longas distante da família. Escreveu muito pouco em 1911 .
Esse é um breve sumário do ano. O único incidente doméstico digno
de nota foi o fato de o filho mais velho de Freud, Martin, ter quebrado o
fêmur em uma localidade solitária, quando esquiava no Schneeberg, no
Salzkammergut. 5 3 Felizmente, estava em companhia de um amigo resis­
tente, que ficou cinco horas a seu lado, ao preço de ter dois dedos do pé
congelados. Então esse amigo, Jãger, conseguiu ajuda, mas foram neces­
sários dois dias e meio para levar o inválido para um hospital. Martin teve
uma recuperação sem transtornos, mas o acidente trouxe a Freud conside­
rável ansiedade. 5 4
O próprio Freud teve nessa época uma curiosa experiência que podia
ter sido fatal. Há um mês sofria de um atordoamento mental cada vez
maior, com dores de cabeça inusitadamente fortes , toda noite. Por fim,
descobriu-se uma fenda entre o tubo de gás e a conexão de borracha com
sua lâmpada, de modo que por várias horas toda noite ele inalava gás, que
a fumaça de seu charuto o impedia de detectar. Três dias depois de a fen­
da ter sido consertada , ele estava inteiramente bem. 5 5
No início do ano Freud anunciou que sua originalidade estava ine­
quivocamente desaparecendo. 56 A observação é interessante, já que pre­
cedeu de apenas poucos meses uma de suas contribuições mais originais,
o trabalho sobre psicologia da religião. Em agosto, mesmo nas férias, teve
de admitir que era "inteiramente totem e tabu". 5 7
O principal acontecimento do ano foi o Congresso de Weimar. Jung
de início pretendera que ele se realizasse em Lugano,5 8 mas Abraham jul­
gava Weimar mais central e mais interessante.5 9 Realizou-se a 21 e 22 de
setembro. Trouxe de volta a atmosfera amigável do primeiro congresso.
Nenhuma oposição vienense se impôs. Freud esteve a_ntes com Jung em
sua nova casa em Küsnacht e Putnam fora a Zurique para encontrá-los.
No congresso estavam presentes outros americanos - T . H. Ames, A.A.
Brill e Beatrice Hinkle. O total de participantes foi de 55 pessoas , in­
cluindo alguns visitantes. Estiveram presentes, entre estes, Bleuler; Mag­
nus Hirschfeld, autoridade berlinense em homossexualidade ; os reveren­
dos Keller e Pfister, da Suíça: Lou Andreas-Salomé, então em Gõttingen;
e, da Holanda, Van Emden, de Leyden (depois, Haia), e Van Renterghem,
de Amsterdã, este último Lm conhecido de Freud dos velhos tempos da
hipnose. Mas havia sobretudo a presença de Putnam,
Os artigos eram da mais elevada ordem. Entre eles estavam vários
clássicos da literatura psicanalítica, como o estudo de Abraham sobre a
insanidade maníaco-depressiva, a contribuição de Ferenczi para nossa
compreensão da homossexualidade e o artigo de Sachs sobre o inter-rela­
cionamento entre psicanálise e as ciências mentais. Houve ainda os notá-

-96 -
veis artigos de Bleuler sobre "Autismo" e de Jung sobre " Simbolismo"
nas psicoses e mitologia. O excelente artigo de Rank sobre "O Motivo da
Nudez na Poesia e nas Lendas" provocou um episódio divertido. Em um
pequeno informe sobre o congresso, no jornal local , lemos que "foram li­
dos interessantes artigos sobre nudez e outros assuntos atuais". Foi isso
que nos levou a desaconselhar a presença de repórteres nos congressos
subseqüentes.
O destaque do congresso foi certamente o comparecimento de Put­
nam. Os europeus sabiam de sua nobre luta nos Estados Unidos e da ele­
vada estima que Freud tinha por ele. Seu apoio de certo modo compensara
Freud pelo modo como era ignorado em Viena. Sua personalidade distinta
e modesta causou-lhes profunda i mpressão. O mesmo se deu com ele. No
decorrer de suas várias conversas com Freud, cumprimentou-o pela quali­
dade de seus seguidores. Freud respondeu secamente: "Aprenderam a to­
lerar um pouco de realidade". Putnam abriu o congresso com um artigo
sobre "A Importância da Filosofia para um Maior Desenvolvimento da
Psicanálise", artigo que depois ocasionou controvérsias no 'Zentralblatt.
Seu ardoroso apelo pela introdução da filosofia - mas apenas a sua pró­
pria tendência hegeliana - na psicanálise não teve muito sucesso. A maio­
ria de nós não via a necessidade de adotar qualquer sistema espec ífico.
Freud, naturalmente, foi muito polido na questão, mas depois comentou
comigo: "A filosofia de Putnam me lembra um enfeite de centro de mesa;
é admirado, mas ninguém o toca. "
Freud abriu o segundo dia de reunião com um artigo que ele chamou
modestamente de pós-escrito a seu famoso caso Schreber. 6 Tinha interes­
se histórico por ser a primeira ocasião em que tratou das tendências da
humanidade para criar mitos, fez referência ao totemismo e emitiu a pos­
tulação de que o inconsciente contém não apenas materia l infantil, mas
também resquícios do homem primitivo.
Freud e Jung ainda mantinham as melhores relações. Lembro-me de
alguém ter-se aventurado a dizer que as brincadeiras de Jung eram gros­
seiras, ao que Freud respondeu sem rodeios : "É uma grossura saudável".
Quando estávamos em Weimar, Sachs e eu aproveitamos a oportuni­
dade para visitar a irmã e biógrafa de Nietzsche, Frau Elisabeth Fõrster­
Nietzsche. Sachs falou-lhe sobre o congresso e comentou a semelhança de
algumas das idéias de Freud com as de seu famoso irmão.
Em seu Informe Administrativo ao congresso, Jung anunciou-nos que
a Associação Internacional tinha então 106 membros. Podemos acrescen­
tar algumas observações sobre os acontecimentos nos vários grupos .
A Sociedade de Viena estava dilacerada nesse ano por ciúmes e dis­
sensões. Depois do afastamento de Adler, em julho, houve os afastamen­
tos de Stekel, Sadger e Tausk, que causaram muitos dissabores a Freud.
Fedem e Hitschmann cresciam em envergadura e o último publicou nesse

- 97 -
ano uma excelente exposição sobre a obra de Freud. 6 1 Todavia, Freud era
da opinião de que, de todos eles, apenas o " pe queno Rank" tinha futuro
científico. 62 Hitschmann fora eleito vice-presidente e Sachs substituíra-o
como bibliotecário.
Na primavera, Freud ficou chocado ao saber que Honegger, em mui­
tos aspectos o mais promissor dos analistas suíços, se suicidara no dia 28
de março.
No início do ano, Leonard Seif fundou um pequeno grupo em Muni­
que, com seis membros, mas este não teve vida longa. A seguir Seif ade­
riu a Jung e Hans voo Hattingberg deu continuidade à tradição freudiana
em Munique.
Em 2 de maio, Drosnes, de Odessa, visitou Freud e lhe informou que,
juntamente com Ossipow e Wirubow, de Moscou, ele havia fundado uma
Sociedade Psicanalítica Russa. 63 Depois Drosnes se estabeleceu em São
Petersburgo, mas houve poucos progressos aí.
Sinais de vida estavam aparecendo esse ano em três outros países eu­
ropeus. No início de 1912 recebi uma carta entusiástica do Professor Mo­
richau-Beauchant, de Poitiers, com um exemplar do primeiro artigo psica­
nalítico escrito em francês, no final de 1911. 6 4 Tomei conhecimento então
de que ele mantivera correspondência com Freud durante alguns meses. 6 5
Na Suécia, Poul Bjerre iniciara sua carreira lendo um artigo sobre o
"Método Psicanalítico de Freud" perante a Associação de Médicos Sue­
cos em 17 de janeiro.
Em uma reunião, a 19 de março de 1910, da Seção Neurológico-Psi­
quiátrica da Sociedade Médica de Varsóvia, Jaroszynski leu um artigo so­
bre neuroses obsessivas e citou vários casos em que ele tivera condições
de confirmar a etiologia e os mecanismos dessa perturbação descrita por
Freud. Assim, a obra de Freud se tornava conhecida na Polônia.
Na Holanda também havia interesse. Em maio Freud recebeu dois vi­
sitantes provenientes da Holanda. 66 Van Emden fora a Viena para estudar
e tanto ele quanto August Stãrcke foram admitidos na Sociedade de Vie­
na. Freud ficou surpreso ao saber que o último vinha praticando a análise
desde 1905 e que já escrevera bastante sobre o assunto em periódicos ho­
landeses. 6 7 Van Renterghem entrara para a Sociedade de Berlim.
Nos Estados Unidos muita coisa estava acontecendo. Freud vinha
instando comigo para dar início a uma Sociedade Americana filiada à As­
sociação Internacional, de modo que discuti o assunto com Brill e Put­
nam. O último concordava em ser presidente se eu fosse secretário. 6 8 Meu
plano era que a nova sociedade abrangesse todos os analistas dos Estados
Unidos e que quaisquer sociedades locais que pudessem formar-se depois
com o propósito de realizar reuniões mais freqüentes se tornassem filiadas
à associação matriz. Todavia, foram necessários mais de vinte anos para
que esse plano fosse finalmente adotado, porque, apesar da pressão de

- 98 -
Freud em contrário, 69 Brill ansiava por ter o prestígio da sociedade que
ele planejava fundar em Nova Iorque, sendo esta uma sociedade filiada
diretamente à Associação Internacional; talvez ele não gostasse da idéia
de a "sua" sociedade ficar de alguma forma subordinada à "minha". As­
sim, de modo absolutamente amigável, concordamos em divergir. Ele fun­
dou a Sociedade de Nova Iorque em 12 de fevereiro de 1911, com vinte
membros, e ela de imediato foi admitida sob as leis do Estado. Ele se tor­
nou presidente; B. Onuf, vice-presidente; e H.W. Frink, secretário. C.P.
Oberndorf foi o último sobrevivente dos membros titulares que continua­
ram ligados à psicanálise.
Enviei então cartas circulares aos analistas fora de Nova Iorque e a
primeira reunião da Associação Psicanalítica Americana ocorreu em Bal­
timore, a 9 de maio de 1911. Havia oito pessoas presentes: Trigant Bur­
row, de Baltimore; Ralph Hamill, de Chicago; J.T. MacCurdy, de Balti­
more; Adolf Meyer, de Baltimore; J.J. Putnam, de Boston; G.L. Taney­
hill, de Baltimore; G.A. Young, de Omaha; e eu próprio, à época em To­
ronto. Metade dos membros vinha de Baltimore. Esse foi o modesto início
da atualmente poderosa organização ! No entanto, em nosso segundo en­
contro, no ano seguinte, já havia 24 membros, com vários pedidos de ins­
crição pendentes. Ambas as sociedades foram oficialmente aceitas pelo
Congresso de Weimar em setembro de 1911.
Em junho, Putnam foi convidado a fazer conferência em Harvey e lhe
pediram para que falasse de psicanálise. 70 Era Uma indicação do progres­
so que tínhamos feito nos últimos anos.
Da Inglaterra havia, como antes, pouco a informar. No início do ano,
Freud fora feito membro honorário da Sociedade de Pesquisa Psíquica) e
no ano seguinte contribuiu com um artigo bem conciso para um número
especial sobre psicologia médica. 72 Quando lhe anunciei minha intenção
de voltar do Canadá para a Inglaterra, ele escreveu: "O senhor conquistou
a América, por assim dizer, em menos de dois anos e não tenho certeza
alguma de como as coisas caminharão quando o senhor estiver longe. Mas
estou satisfeito com seu retorno à Inglaterra, pois espero que o senhor fa­
ça o mesmo por sua terra natal, que aliás se tornou terreno melhor desde
que o senhor a deixou. Tive de recusar não menos que três oferecimentos
para tradução da Traumdeutung [A Interpretação dos Sonhos] por parte
de ingleses, esperando, como o senhor sabe, que Brill a fizesse logo. Te­
nho respondido a cartas de cidades como Bradford, e um dos médicos
pelo menos, Osler,k na verdade me enviou um paciente, que ainda está
sob os cuidados de Federn. Assim, sua tarefa pode revelar-se menos dura
do que o senhor parece julgá-la" . 73 Além do mais, Brain, o famoso perió­
dico de neurologia, dedicou ao tema da histeria um número especial, no
qual apareceu um ensaio magistral de Bernard Hart sobre a "Concepção
de Freud da Histeria", com uma lista de 281 referências à literatura psica-

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nal ítica. M . D . Eder l e u um a11igo perante a Seção Neurológica da Asso­
ciação Médica Britânica em 28 de j u lho de 1911. 74 Foi o primeiro relato
de uma psicanálise publicado em inglês, embora de modo algum a primei­
ra a ser realizada. Eder teve urna platéia de oito pessoas, mas elas saíram
da sala quando ele chegou à etiologia sexual . Um interessante estudo
pormenorizado desse caso foi recentemente publ icado, 42 anos depois do
tratamento. 7 5
Outros continentes também se mani festavam. Em março, Freud escre­
veu a Ferenczi: " No último domingo, recebi a visita de nosso d istante ini- _
ciante Sutherland, de Sagar, na Índia, uma esplêndida pessoa. Está tradu­
zindo a Traumdeutung. Atrás dele vem outro mais jovem, Berkeley-Hill ,
que está psicanalisando hindus e confirmando tudo. Também está publi­
cando se u trabalho. Depois, há dois dias, um novo continente, a Austrália,
se anunciou . O secretário da Seção Neurológica do Congresso Australia­
no revela-se corno subscritor do Jahrbuch e pede uma pequena exposição
de minhas teorias para ser publicada nos Reports of the Congress, 1 j á que
ainda são inteiramente desconhecidas na Austrália. Ainda não há sinal de
vida da Áfric a ! " 7 6 Para isso seria preciso esperar quase quarenta anos.
No Congresso de Weimar, foi decidido que o Zentralhlatt seria o ór­
g ão oficial da Associação Internacional e que ele incorporaria o antigo
Correspondenzblatt. Na primavera desse ano, Freud decidiu, junto com
Rank e Sachs, i nic iar um novo periódico que deveria dedicar-se a aplica­
ções não médicas da psicanálise. 77 Esse era um aspecto de seu trabalho
que o atraía em especial e a razão pela qual essa proposta lhe ocorreu nes­
sa época foi que ele j á estava bastante voltado para o estudo da religião,
estudo que iria produzir os ensaios sobre totemismo no ano seguinte. Ele
me di sse que o novo periódico se chamaria Eros-Psyche, 1 8 _.nome que mais
tarde eu soube ter sido sugerido por Stekel . Foi depois substituído pelo
que Sachs propôs, Imago, inspirado no profundo romance de Spitteler
com esse título. Freud teve muita dificuldade para encontrar quem publi­
casse esse novo empreendimento ; os quatro primeiros que procurou, recu­
saram: Bergmann, Deuticke, Barth e Urban und Schwarzenberg. 79 Por
fim, persuadiu seu amigo Heller a fazer a publicação, que se revelou um
sucesso. O primeiro n úmero saiu em janeiro de 1912.
Além da controvérsia com Adler, que o fazia perder tempo, e talvez
em grande parte por causa dela, a mente de Freud estava ocupada esse
ano com planos para escrever artigos que expu sessem sua técnica. As re­
flexões sobre a psicologia da religião também estavam começando a fer­
mentar. Assim, houve muito pouca produção real em 1911. A principal
contribuição publ icada foi sua exposição sobre o relacionamento entre os
dois grandes princípios do funcionamento mental : o princípio de prazer e
o princ ípio <;1e realidade. s o

- 1 00 -
Houve férias muito prazerosas em 191 1 . Na Páscoa, Freud foi aos arredo­
res de Trento e Bozen, em busca de acomodações adequadas para o verão.
Saiu de Viena na manhã de 14 de abril , uma sexta-feira, e estava de volta
na terça-feira pela manhã. 8 1 Ferenczi encontrou-o em Bozen e ajudou na
j..
procura, que foi bem-sucedida.
Em 9 de julho partiu para Karlsbad a fim de obter al ívio para· o que
ele insistia em chamar de sua "colite americana". 82 Logo que chegou,
mandou uma carta com quatro grandes páginas para sua mulher. A família
tinha ido diretamente para Klobenstein. Em Karlsbad, Freud teve a com­
panhia de sua filha Sophie, que também estava em tratamento. Os Van
Emden, de quem ele gostava muito, também estavam na cidade. Freud não
estava com bom estado de espírito e não pôde escrever o que tinha espe­
rado fazer. 8 3 Escreveu amargamente para sua mulher: "O vazio de uma
vida dedicada ao cuidado de um intestino cheio está se tornando insupor­
tável" .
Viajando via Munique, Freud encontrou sua mulher no Hotel Post,
em Klobenstein (ou Collalbo), no início de agosto. Esta é uma pequena
aldeia nos Dolomitas, situada em um planalto escarpado de pórfiro cha­
mado Ritten ou Renon, cerca de dez quilômetros a nordeste de Bozen.
Tem soberbas vistas de toda a extensão montanhosa ao sul do Brenner.
Ferenczi reuniu-se ao grupo em 20 de agosto, por duas semanas. O clima
estava excepcionalmente quente, de modo que desistiram de seu plano
original de, no final do mês, descerem para o nível mais baixo de Caldo­
nazzo, no Trentino.
Ferenczi tinha de voltar para trabalhar, de modo que Freud iajou so­
zinho para Zurique, onde Jung o encontrou na manhã de 16 de setembro.
Freud desejara que sua mulher o acompanhasse, mas ela evidentemente se
furtou à longa viagem e continuou nas montanhas. Ele ficou em Küsnacht
quatro dias, antes de ir para o Congresso de Weimar. Houve, naturalmen­
te, seminários, visitantes e recepções, de modo que nâo foram de modo
algum puras férias. Putnam, que ficou em Zurique, e não em Küsnacht,
participou de todas essas atividades. Freud permaneceu em V eimar após o
congresso a fim de ter conversas com Abraham. Não era esperado em
Viena antes do dia 30.

1912

A separação de Adler s e completara no ano anterior. Foi um grande alívio


para Freud, pois as desagradáveis cenas nas reuniões da sociedade tinham
sido exasperantes. Depois da ruptura, permaneceu muito pouco, ou mes­
mo nenhum, sentimento pessoal em relação a Adler, mas por vários anos
Freud se preocupou em pôr à prova, de vários modos, as conclusões de .
Adler e finalmente em explicar a importância das diferenças científicas

101 -
entre Adler e ele próprio. Restou Stekel, de quem perto do fim desse ano
Freud foi forçado a separar-se também. Foi nesse mesmo ano de 1 9 12 que
as relações pessoais entre Freud e Jung começaram a ficar menos amigá­
veis que antes. Houve dois penosos anos pela frente antes que essa sepa­
ração também se efetivasse. Todos esses assuntos, no entanto, estão re­
servados para um capítulo especial.
Na época em que as providências para o congresso eram relativa­
mente simples , pretendera-se que ele se realizasse anualmente. A razão
pela qual não houve congresso em 1 9 1 2 foi que Jung assumira o compro­
misso de fazer uma série de conferências, no final do verão, em Nova Ior­
que - e um congresso sem seu presidente era considerado impensável. Is­
so mostra também a medida da importância pessoal de Jung nessa época.
Smith Ely Jelliffe levara a Fordharn University, urna instituição je­
suíta, a convidar Jung para fazer urna série de oito conferências em se­
tembro; um convite que eu mesmo recusara por se tratar de um local ina­
dequado para uma discussão sobre psicanálise. O serviço militar de Jung
era no início de agosto, de modo que a terceira semana desse mês teria si­
do a única possível para se realizar um congresso. Todavia, isso significa­
ria interromper as férias de verão de todos, de modo que se concordou em
adiar o congresso por um ano. Freud não ficou muito satisfeito com isso,
estando claramente hesitante quanto à propriedade da ida de Jung a Nova
Iorque nessa época. Na verdade, ela se mostrou ponto decisivo no rela­
cionamento entre os dois. Quando encontrei Freud em junho, perguntei­
lhe por que não providenciara para ele mesmo presidir o congresso. Dis­
se-me que não havia tido essa idéia, mas de qualquer modo caberia a Jung
fazer essa sugestão. 8 4
Freud considerava o ano de 1 9 1 2 um de seus anos mais produtivos, o
que se devia a sua grande obra Totem e Tabu. O novo periódico, Imago,
começou sua carreira em janeiro e antes do final do ano ele ainda fundara
outro, Zeitschrift. No conjunto, foi um ano cheio de ansÍedade e infeliz,
bem como um ano em que Freud teve muitos problemas de saúde. Talvez
todas essas questões estejam obscuramente inter-relacionadas.
Ao enviar cumprimentos de Ano-novo a Abraham, Freud disse:
"Quanto a mim, não tenho grandes expectativas. Temos um tempo som­
brio diante de nós. Somente a próxima geração irá colher a recompensa do
reconhecimento. Mas tivemos a incomparável alegria da primeira vi­
são."ª'
No ínicio do ano, ficamos sabendo por Jung que tinha havido uma
tempestuosa agitação nos jornais de Zurique; a psicanálise estava sendo
furiosamente atacada. Pfarrer Pfister foi chamado para prestar contas a
seus superiores e parecia que ele poderia ser expulso do ministério reli­
gioso; felizmente, isso não ocorreu. Riklin disse a Freud que a campanha
tivera efeito desastroso nas clínicas particulares de cada um deles, mesmo

- 1 02 -
na de Jung, e pediu-lhe para enviar-lhes alguns pacientes. 8 6 Freud sempre
considerou que essa campanha de vituperação foi urna das razões para a
mudança da disposição que ocorreu, logo depois, entre seus adeptos suí­
ços. É sempre difícil para um suíço ir contra seus compatriotas.
As férias de Páscoa, na encantadora ilha de Arbe, na Dalmácia, foram
breves mas bastante prazerosas. Freud partiu de Viena na noite de 5 de
abril, uma sexta-feira, encontrou-se com Ferenczi em Fiume na manhã se­
guinte e depois do desjejum tomaram o navio para Arbe, onde chegaram
depois de uma viagem de cinco boras. 8 7 Retornaram a Fiurne na terça-fei­
ra, de onde fizeram uma viagem noturna para Viena.
Rank fora em uma excursão de estudantes à Grécia, de onde voltou
"em estado de beatitude". Freud não menciona o fato, mas viro a saber
que ele tornou a viagem possível para Rank, pagando todas as suas despe­
sas.
Em maio, Freud ficou muito aborrecido com o ataque pessoal que
Allen Starr, o conhecido neurologista, lhe dirigira, citado em um jornal de
Nova Iorque. 8 8 Em casa as coisas não eram muito melhores. Freud co­
mentou que em Viena estava mais do que nunca sendo colocado em ostra­
cismo e Heller não ousava expor seu novo periódico, Imago, por medo de
ofender os fregueses. 89 Contudo, Imago garantira 194 assinantes depois
do primeiro número e o 'ZenJ:ralbl att tinha cerca de 500.
Na época de Pentecostes, Freud passou dois dias como hóspede de
Binswanger em Kreuzlingen, no Lago Constança. 90 Ele informara Jung da
visita, mas não recebeu notícias deste; a seguir veremos o que ocorreu.
Essa visita em Kreuzlingen mostrou-se decisiva no relacionamento de
Jung com Freud. No domingo, Binswanger levou Freud para um longo
passeio de automóvel em torno do lago, e Freud escreveu um de seus de­
talhados relatos desse passeio, naturalmente com associações literárias e
históricas. 9 1 Mencionou, entre outras coisas, que foram suntuosamente re­
cebidos pela "Rainha Viúva" em sua propriedade de Brunegg. atural­
mente, perguntei a mim mesmo quem podia ser essa, de modo que escrevi
ao Professor Meng e lhe perguntei quais membros da realeza moravam
naquelas redondezas à época. Ele só pôde mencionar a Imperatriz Eugénie
(em Arenberg), mas eu estava certo de que Freud não teria confundido
uma imperatriz com uma rainha. Depois fui informado pelo Dr. Binswan­
ger que o título era um título jocoso que Freud dava à madrasta de Bins­
wanger, a qual vivia na propriedade da família. Menciono tudo isso para
mostrar que mesmo um biógrafo fiel pode ser enganado ao levar a sério as
observações humorísticas de Freud -quantas vezes outros leitores fizeram
o mesmo !
Na viagem de volta, ele dispôs de duas horas entre trens em Munique, de
dez à meia-noite, aproveitando então o intervalo para tirar da cama, para uma
visita de uns poucos minutos, seu antigo amigo Hofrat Professor Lõwenfeld.

- 103 -
Eu estava em Viena durante o mês de _junho desse verão. Foi quando
t ive a idéia do "Comitê", que desempenhou importante papel na vida de
Freud nos quinze anos seguintes.m Freud viajou para se tratar em Karls­
bad a 14 de julho. Foi acompanhado por sua mulher e pelos Van Emden,
que trabalharam com ele aí como no ano anterior; ficaram no Goldener
Schl üssel. No dia seguinte houve um visitante de Hamburgo, do qual a
segunda filha de Freud, Sophie, acabara de ficar noiva. Um anúncio do
feliz evento apareceu em Neue Freie Presse do dia 28. Freud comentou
com Ferenczi que isso permitia uma sobredeterminação não intencional do
tema com que estava trabalhando - as três filhas de Lear.9 2 Para a filha
remanescente, Anna, as coisas não foram bem . Freud providenc iaria para
que ela, como recompensa pelo duro trabalho do ano anterior, passasse
alguns meses na Itália, "vendo algo belo enquanto é jovem" . 9 3 Mas os
preparativos para o casamento interferiram no plano, de modo que não
houve viagem à Itália. Freud, no entanto, compensou isso mais tarde para
Anna, levando-a ele próprio. A mãe de Sophie passou um bom tempo em
Hamburgo, ajudando a filha a mobiliar sua futura residência, de modo que
Tante Minna teve de ficar em Viena para cuidar da casa. Além disso, ha­
via muito o que costurar e bordar para o enxoval.
Freud costumava entremear em suas cartas observações meio jocosas.
Nessa ocasião, por exemplo, depois de mencionar a terrível fome que
sentia pela manhã após sua dose diária das águas de Karlsbad, acrescen­
tou: "Você nota o total abandono de uma sublimação ." 9 4
Freud e sua mulher partiram de Karlsbad a 1 4 de agosto, viajando,
via Munique, para Bozen, onde encontraram o resto da família. Instala­
ram-se então no Hotel Latimar, Karersee . Karersee ( Lago di Carezza), nos
Dolomitas do Norte, encontra-se cerca de 25 quilômetros a nordeste de
Bozen. Está a cerca de 1 .500 metros de altitude e fica perto dos escarpa­
dos penhascos do imponente Latemar, que é 1 .200 metros mais elevado.
Freud certamente tinha faro para belos locais .
Como não haveria congresso, Freud s e perguntou que e xcursão ele e
Ferenczi poderiam fazer em setembro . Antes de deixar Karlsbad, pensou
em passarem uma semana em Londres, onde prometi servir de guia, e em
convidar Abraham, Brill e Rank para acompanhá-los. Os dois primeiros,
porém, acharam impossível coadunar i sso com seus outros planos, mas
Freud escreveu-me e pediu que reservasse quartos para os três - Ferenczi,
Rank e ele - para o dia 1 0 de setembro. Depois da semana em Londres,
Freud e Ferenczi passariam uma semana na Escócia, país que mesmo
Freud teria achado difícil conhecer totalmente nesse tempo.
A família dei xou Karersee em 30 de agosto, seguindo para Bozen,
onde Ferenczi a encontrou no Erzherzog Heinrich Hotel. Viajariam então
para S. Cristoforo (Hotel Seehof), cidade do Lago di Caldonazzo, cerca
de vinte quilômetros a leste de Trento.

- 1 04 -
Eu estava na residência de Seif em Partenkirchen nessa época e fiquei
surpreso ao receber uma carta anunciando alterações nos planos de Freud.
Sua filha mais velha caíra doente em Viena, de modo que Freud e Ferenc­
zi part iram de Bozen para Viena, enquanto o resto do grupo seguira para
S. Cristoforo. 9 5 Eu ainda esperava que o plano londrino estivesse apenas
adiado por alguns dias ; u ma semana depois, porém, fui informado por ele
de que sua filha estava melhor, que ele estava indo se juntar a sua família
em S. Cristoforo, mas : "De modo que eu poderia manter meu encontro em
Londres caso eu próprio estivesse em melhores condições : sinto uma ina­
tividade e um cansaço crescente desde Karlsbad, dormindo mal e com es­
tado de espírito deprimido, e procurara Londres como analéptico. A mo­
vimentação desta última semana aumentou muito minha fraqueza, de mo­
do que sinto estar necessitado de repouso e incapaz de me apresentar co­
mo companhia simpática. Mesmo Ferenczi, gentil como é, que não me
deixaria por seu próprio prazer e recreação, é às veze demais para mim.
Ele está lendo no compartimento próximo e não deve aber di so. Não me
lembro de um estado semelhante, que estou propenso a atribuir à forte
ação das águas quentes, e espero alguma coisa do tempo e do oi". A falta de
domínio do seu inglês mostra como ele estava cansado, além de er difícil de
decifrar. No entanto, como ele disse , "Nenhum súbito ataque de velhice dei­
xa minha mão trêmula. Estou lhe escrevendo no trem de Viena para a Itálian e
minha mão desempenha o papel de u ma agulha de sismômetro' · . 9 6
Nesse ínterim, eu estava ocupado em Zurique, onde se realizava o
Segundo Congresso Internacional de Psicologia Médica, presidido por
Bleuler. A psicanálise tinha conseguido uma boa posição. poi dois dos
três membros do Conselho - Bernheim (o famoso hipnotizador), Sei f e eu
- eram analistas. Recebi a seguir uma carta, proveniente de S. Cristoforo,
anunciando uma nova e s úbita mudança de planos:

" 14 d€ setembro de I 9 1 2
" Meu caro Jones,*
" Durante alguns dias não estive nada bem de saúde. Agora sinto-me re­
cuperado e pretendo ir para Roma amanhã, a fim de tomar uma última dose de
beleza e serenidade. Recebi uma boa carta de Maeder sobre o congresso
e estou certo de que tenho de agradecer ao senhor sua influência no congres­
so. A Sra. Jung, que esteve silenciosa por bastante tempo, acrescentou algu­
mas palavras gentis para enviar o famoso artigo de seu marido em Seoara­
.)·
tahdruck. 0 Assim, parece que as perspectivas estão melhorando - se tudo is­
so não for efeito imediato de seu contato pessoal com as pessoas de Zurique.
" Espero encontrar Ferenczi a cami nho de Roma.
"Com meus melhores sentimentos,
"Sinceramente,
"Freud"

- 1 0."i -
Ddii dias depois chegou um cartão-postal mostrando que Roma tinha fim­
cionado com sua antiga magia.

"Roma
" 1 6 de setembro de 1912
" Caro Jones, *
"Estou satisfeito por estar aqui e me sinto inteiramente recuperado.
"Meus melhores sentimentos,
"Sinceramente,
" Freud"

Eu havia sugerido que essa perturbação era, em parte, pelo menos psico­
lógica e que sua ansiedade quanto à filha tinha despertado também sua
ansiedade, por causa de Jung, quanto ao destino de seu filho mental - a
psicanálise. Eis sua resposta:

"22 de set. de 1912


"Meu caro Jones, *
"Estou satisfeito por ter recebido todas as suas cartas, assim como o
senhor as minhas, e me apresso em responder às duas últimas de sua parte
antes que possamos trocar a escrita pela conversa. Estou, de fato, muito
sensibilizado pela gentileza que o senhor demonstrou durante meus últi­
mos dissabores e satisfeito por fazê-lo saber que minha filha melhora de­
vagar, ao passo que me sinto fortalecido e aliviado pelo ar e pelas impres­
sões desta maravilhosa cidade. Na verdade, tenho estado mais feliz do que
sadio em Roma, mas minhas forças estão voltando e sinto

wieder Lust mich in die Welt zu wagen,


der Erde Leid, der Erde Glück zu tragen.P

"O que o senhor explicou sobre a Verdichtungq das duas filhas pare­
ce tão engenhoso que não ouso contradizê-lo, tanto mais que a explicação
lhe deu oportunidade para promessas que tocan, meu ouvido como a mú­
sica tocaria o ouvido de outro homem. Naturalmente, há uma grande difi­
culdade, ou mesmo impossibilidade, de reconhecer processos psíquicos
em nossa própria pessoa. Para mim, o lado físico deve ser mais evidente,
a súbita intolerância do músculo cardíaco ao tabaco e, parece, ainda mais
ao vinho. Minha última melhora aqui se deve a uma grande restrição desse
delicioso vinho romano a que eu me entregava.(. .. ) Dentro de poucos dias ·
apertaremos nossas mãos.
"Sinceramente,
" Freud"

- 1 06 -
Em suas cartas à mulher, escritas do Hotel Eden em Roma, Freud expri­
miu a mesma felicidade por estar nessa cidade. "Parece-me absolutamente
natural estar em Roma; não tenho a sensação de ser estrangeiro aqui". 9 7
Alguns dias depois ele estava se sentindo tão alegre que passou a exibir
na lapela, a cada manhã, uma gardên1a. Até mesmo propôs a sua mulher
que quando eles se aposentassem deveriam ir para Roma, e não, como até )
então haviam planejado, para uma casa nos subúrbios de Viena, e expres-
sou a convicção de que isso agradaria à sua mulher e à irmã dela tanto
quanto a ele próprio - suposição muito otimista. 9 8 Visitava o Moisés dia­
riamente e escrevia algumas palavras ?obre ele. 99 Ferenczi passara um dia
em Nápoles e se preparavam para viajar para casa juntos, pelo menos até
Udine.
Sua filha Anna conservou vários cartões-postais dessa visita a Roma,
dirigidos a "minha futura companheira de viagem". Assim, em 1 9 1 2
Freud já tinha plano de levá-la com ele para visitar Roma, plano que s ó se
realizou onze anos depois.
Roma significava muito para Freud ! Alguns meses mais tarde, quando
eu passava várias semanas nessa cidade, ele escreveu: "Estou satisfeito
porque o senhor está tendo uma impressão profunda de Roma e tenho
certeza absoiuta de que o senhor se sentiu infeliz nos primeiros dias como
todo homem sincero tende a se sentir. Suas alegrias se tornarão a cada dia
mais claras. Conheço muito bem o restaurante do Aventino, mas há pon­
tos mais curiosos no Coelius, que fica nas proximidades. Meus locais pre­
diletos estão no Palatino, mas é melhor não começar a falar dessa mara­
vilhosa cidade. Quanto à beleza das mulheres, é preciso alguns dias para
detectá-la." 1 0 0
Havia muito trabalho à espera de Freud quando de seu retorno. Sua
lista de espera de pacientes estava sobrecarregada. A platéia de suas con­
ferências tinha aumentado para 50 ou 60 pessoas. 1 0 1 A questão com Stekel
tornou-se crítica em novembro e mais adiante será relatada com detalhes.r
A solução final chegou em um encontro em Munique, a 24 de novembro,
constituindo também em si mesma uma história completa.
O desânimo de Freud quanto a Stekel e Jung nessa época não impedia
seu humor de apresentar considerável variação. Assim, em outubro ele es­
creveu: "Estou em excelente estado de espírito e invejo o senhor por todo
esse passeio, mas especialmente pelo que está à sua espera em Roma." 1 º 2
No entanto, umas duas semanas depois o outro lado se manifesta na exul­
tante resposta com que ele saudou o primeiro livro sobre psicanálise em
inglês, Papers on Psycho-A nalysis [Artigos sobre Psicanálise]. 8 Era a coi­
sa mais natural do mundo que eu o dedicasse a ele. Todavia, não apenas
se sentiu impelido a me telegrafar para agradecer, como também me es­
creveu o seguinte: "Fiquei tão profundamente emocionado com sua última
carta, anunciando a dedicatória de seu livro, que resolvi não esperar o

- 1 07 -
aparec imento material dele para reagir com uma carta de orgu lho e amiza­
de . " 1 0 3 Nessa época, não havia muitos momentos bons em sua vida, e sem
dúvida a perda de col egas antigos o fez valorizar ainda mais o contato
com os remanescentes. Participou de u ma ju nta médica em B udapeste no
i n íc io de dezembro e naturalmente aproveitou a ocas ião para ver Ferenczi
e conhecer sua -futura esposa. 1 0 • Abraham e steve em Viena durante três
dias no fim de dezembro, 1 0 5 e eu passei o mês de _jane iro segui nte também
em Viena.
A Soc iedade de Pesqu isa Psíquica conv idou, nesse ano, primeiro
Freud e depois Ferenczi para escreverem artigos. O de Freud será apre­
sentado mais adiante ,t mas a Soc iedade recusou publicar o de Ferenczi em
virtude de seu conteúdo sexual. 1 0 6
Freud publicou vários pequenos artigos em 1 9 1 2, mas houve dois
pontos que dominaram seu pensamento nesse ano: a exposição de sua téc­
n ica e a psicologia da re l igião . Posso perceber u ma conexão entre esses
pontos aparentemente díspares. Ambos têm a ver com a crescente dissen­
são da escola su íça. Freud acreditava que muito disso, assim como o
afastamento de Adler e Stekel, provinha de um conhecimento imperfeito
da téc nica da psicanálise e que, portanto , l he cabia expô-la mais plena­
mente do que nunca tinha feito. Já o renascimento de seu interesse pela
religião estava em grande parte ligado à ampla i ncursão de Jung pela mi­
tologia e pelo misticismo . Chegaram a conclusões opostas a partir de seus
estudos : Freud mais do que nunca via confirmadas suas posições sobre
a importância dos impulsos incestuosos e do complexo de Édipo, ao passo
que Jung tendia cada vez mais a considerar que estes não ti nham o sentido
l iteral que pareciam ter, mas simbol izavam tendências mentais mais esoté­
ricas .

1913

O principal acontec ime nto da vida de Freud nesse ano foi seu rompimento
final com Jung, que ocorreu em setembro, no Congresso de Mun ique. Os
dois nunca mais se encontraram, embora até o ano segui nte ainda tenha
havido uma relação formal. Esse ano foi desalentador e pleno de ansie da­
de , e Freud disse isso de modo atenuado quando me escreveu em outubro:
"É di fíc il lembrar-me de u ma época tão cheia de mesquinhas maldades e
contrariedades como esta. É como uma chuva de mau tempo, você tem de
esperar quem irá melhorar, você ou o gênio mau desse tempo. " 1 º' No
mesmo mês, ele tinha descrito a si próprio para Pfister dizendo que era um
"alegre pessimista" . 1 0 8
O registro agora pode prossegui r de modo mais o u menos cronológi­
co, como nos anos anteriores. A primeira ocorrência foi a ida de Eder de
Londres a Viena, para uma análise de três semanas. 1 0 9 Freud não tinha ho-

- l 08 -
ra dispon íve l , de modo que o encaminhou a Tausk . No meio do mês , fi­
camos sabendo que tinha havido um escândalo em Boston . A polícia, sem
dúvida por instigação, havia ameaçado processar Moi1on Prince pelas
"obscenidades" que estava publicando em seu Journal of Abnormal Psy­
chology . 1 1 0 Assim, sua generosidade para com os psicanal istas foi mal re­
compensada e havia alguma justificativa para seus rece ios, que Freud
atribuíra equi vocadamente a sua "pudicícia puritana" . Mas Pri nce, que
não muito tempo antes fora prefeito da cidade, sabia como resistir a tais
tempestades sem ter de comparecer aos tribunais.
Em 14 de j aneiro, um fato i mportante ocorreu na famíl ia Freud. Hou­
ve o casamento de sua segunda fi lha, Soph ie, com Max Halberstadt, de
Hamburgo, genro que foi tão bem recebido pelos pais como o primeiro
genro tinha sido.
Em fevereiro Freud comprou uma máqui na de escrever, que ainda é
usada por sua filha. Mas não a comprou para si mesmo, pois não estava
em questão ele empregar um amanuense e abandonar sua amada caneta.
Foi simplesmente para ajudar Rank a enfrentar seus crescentes encargos
editoriais.
Ferenczi tinha desejado que Freud o acompanhasse, junto com outro
amigo, Schaechter, em viagem de três semanas a Corfu e Grécia na Pás­
coa, ampl iando a viagem que Freud fizera com seu irmão A le xander nove
anos antes, mas Freud d isse que não podia se permitir estar distante do
trabalho tanto tempo . Sua intenção era fazer uma pequena visita a seu
meio-i rmão Emmanuel na Inglaterra, retornando via Hamburgo; Emma­
nuel estava então com oitenta anos. 1 1 1 Todavia, preferiu levar sua filha
Anna a Veneza, como pequena recompensa pela viagem à Itália que e la
perdera em virtude do casamento da irmã . Ela estava em Merano com uma
cunhada de Mathilde desde novembro e encontrou seu pai em B ozen em
22 de março . Estiveram rapidamente em Verona e depois__ passaram quatro
dias em Veneza (no Hotel Britannia), cidade que Freud conhecia bem e de
que gostava muito. A seguir ainda tiveram tempo de visitar Trieste du­
rante a viagem de volta. Freud safra de Viena na noite de 2 1 de março e
voltou no dia 27.
A primeira metade do ano foi i nteiramente ocupada com a redação de
Totem e Tabu. Eu estava presente quando ele falou na Sociedade de Vie­
na sobre a terceira seção do l ivro em quinze de janeiro de 1 9 1 3 , tal como
estivera quando e le apresentara a segunda seção no ano anterior ( 1 5 de
maio de 1 9 1 2) . Em maio, quando estava terminando o l i vro, escreveu a
Abraham que o estava escrevendo apenas para quatro ou cinco home ns . 1 1 2
Suas dúvidas sobre suas conclusões e sua convicção fi nal da verdade de­
las serão narradas no local apropriado, quando o livro for apresentado.u
Em 29 de junho , houve a noite social anual no Konstantinhügel, no
Prater, e lembro-me de que uma ex-paciente presenteou Freud com uma

- 1 09 -
estátua egípcia, que ele manteve em frente de seu prato como um totem.
Foi provavelmente a última dessas agradáveis ocasiões.
Freud saiu de Viena em 1 3 de julho, mas dessa vez para Marienbad
(Villa Taube) e não para Karlsbad. Estavam com ele apenas as três mulhe­
res da família, já que ele não fazia mais trabalho analítico com os Van
Emden como antes. Sua filha me conta que essa foi a única ocasião de
que se lembra em que seu pai estava deprimido.
Freud continuava a insistir comigo para que eu melhorasse meu ale­
mão, mas meu progresso na leitura da escrita manuscrita gótica era lento.
Escreveu: "Sinto muito dever continuar a abusar de seu ótimo inglês, já
que o senhor manteve a Alexia Gótica enquanto abandonava a Afasia
mot. e sensória".v 1 1 3
Na primeira semana de agosto, houve um duelo entre Janet e eu no
Congresso Internacional de Medicina, o qual pôs fim a suas pretensões de
ter fundado a psicanálise e depois tê-la visto espoliada por Freud. Esta foi
a resposta de Freud diante das notícias:

"Marienbad
" 1 0 de agosto de 1 9 1 3
"Meu caro Jones *,
"Não posso dizer o quanto fiquei satisfeito com seu relato do con­
gresso e a derrota que, à vista de seus compatriotas, o senhor impôs a Ja­
net. O interesse pela psicanálise e o interesse por sua pessoa na Inglaterra
são idênticos e agora confio em que o senhor irá 'schmieden das Eisen
solange es warm ist' . w
" 'Fair play' é o que queremos e provavelmente conseguiremos isso
na Inglaterra melhor que em qualquer outro lugar.
"Brill não virá. Ele escreve, é sua família, mulher e filha, que quer
sua presença este ano. Foi nomeado chefe da clínica_ de psiquiatria da
Cohimbia University, e assim está instalado e por fim independente.
"Estou partindo de Marienbad para S. Martino di Castrozza, Hotel
des Alpes. Tivemos mau tempo aqui, estava muito frio e úmido. Mal pos­
so escrever por causa do reumatismo em meu braço direito. Talvez tenha­
mos mais gelo nas montanhas.
"Continue a me mandar suas boas notícias durante estas quatro sema­
nas. O senhor me faz sentir forte e esperançoso.
"Sinceramente,
"Freud"

Exatamente nessa ocasião Havelock Ellis pediu-me para escrever um livro


de quinhentas a seiscentas páginas sobre os aspectos não-médicos da psi­
canálise para a série Ciência Contemporânea, de que ele era organizador.

- 110 -
"22 de agosto de 1913
"Meu caro Jones, *
"Alegra-me que o senhor esteja entrando com todo pano na vida
científica inglesa. Como o senhor é bastante gentil para me consultar so­
bre o oferecimento de Havelock Ellis, não adiarei a resposta de que o se­
nhor não pode declinar dele, mas deve fazê-lo antes de tudo o mais. Na­
poleão pode esperar, mesmo a tradução de Ferenczi pode esperar; a tradu­
ção de Pfister não é trabalho para o senhor. Seu trabalho é suficiente para
um homem, mas sua capacidade de trabalhar é imensa; deve ser dirigida
para canais urgentes.
"Feliz por ver o senhor dentro de alguns dias.
"Sinceramente,
"Freud"

Assinei o contrato com Havelock Ellis e encontrei esse contrato outro dia,
mas não me lembro de como foi que nunca escrevi o livro. O livro sobre
Napoleão também nunca veio à luz. Como são poucos os planos de uma
pessoa que chegam a se concretizar !
San Martino di Castrozza, onde Freud chegou em 11 de agosto, está a
cerca de 1.500 metros de altitude; encontra-se no coração dos Dolomitas,
no final do vale Primiero. Ferenczi se juntou à família aí em 15 de agosto
- Abraham também esteve aí por alguns dias - e viajou junto com Freud
para o Congresso de Munique, chegando ao Bayerischer Hof na noite de
5 de setembro.
Ferenczi e eu tivemos, nesse verão, muitas conversas com Freud so­
bre a melhor maneira de enfrentar a situação que Jung criara ao renunciar
aos princípios fundamentais da psicanálise. Não havia mais sentimentos
amistosos entre ele e Freud, mas o problema era muito mais importante do
que qualquer questão pessoal. Freud continuava otimista quanto à possi­
bilidade de manter pelo menos uma cooperação formal e tanto ele quanto
Jung desejavam evitar tudo que pudesse ser considerado briga. Assim,
aproximamo-nos do congresso, que se realizaria em 7 de setembro, nesse
estado de espírito e na expectativa de que não houvesse rompimento
aberto.
Freud não se mostrou nada disposto a ler um artigo no congresso,
tendo custado a Abraham todo seu poder de persuasão para levá-lo a fazer
a leitura. O artigo era "A Predisposição para a Neurose Obsessiva", 1 1 4
importante contribuição em que estabeleceu a fase anal-sádica como um
estágio pré-genital no desenvolvimento da libido.
Meu artigo era o único que criticava diretamente as posições recentes
de Jung, de modo que o submeti antecipadamente a Freud. Ao fazê-lo, es­
crevi: "Não estou satisfeito com a s partes que tratam diretamente de Jung.
Quando digo que não posso compreender por que ele continua a analisar

- 111 -
fantasias que são de natureza puramente secundária, e não cau sal , ele po­
deria responder facilmente: porque a libido e a energia necessárias para o
desempenho da Auf_r;;ahex se ancoraram aí e têm de ser l iberadas por meio
da análise. Não é fácil enfrentar isso serr transgredir os li mites terapêuti­
cos e l idar com outras partes de sua teoria". Eis a resposta dele :

"29 de agosto de 1 9 1 3

"Meu caro Jones * ,


" Seu artigo é excelente , ge nerosamente claro, l úcido e justo. Sinto
alguma resistência contra escrever-lhe em i nglês depois de ler seu alemão.
O senhor deveria aprender as letras góticas também.
"O senhor está certo ao dizer que há alguma escassez em suas obser­
vações sobre um importante ponto contra Jung. O senhor deveria acres­
centar que há um interesse especial e m abster-se de decisões nos casos de
Zwangs, Y em que o paciente se deita à espera de renovar seu j ogo com os
preceitos fornecidos de fora, o qual ele real izara até então com os forne­
cidos de dentro. Quanto à questão da importância das fantasias incons­
cientes, não vejo por que deveríamos submeter ao j ul gamento arbitrário de
Jung err: vez do j u l gamento necessário do próprio paciente. Se c ú ltimo
valoriza -essas produções como seus segredos mais preciosos (o desabro­
char de seus devaneios), temo s de aceitar essa posição e devemos atribuir­
lhes um papel muito importante no tratamento . Deixe de l ado a questão de
essa importânc ia ser etiológica: isto está fora de l ugar aqu i , é antes prag­
mática.
"Sua9 observações sobre a estima de que a psicanálise, à distância,
usufru i na Inglaterra, me fez rir mu ito ; o senhor está absol utamente certo . 2
"Dentro de algu n s dias terei o prazer de conversar com o senhor so­
bre outros aspectos. Não se esqueça: é Bayerischer Hof. _
" Recebi um bom artigo sobre psicanál ise de um certo Becker, de
Mil waukee. Os prirr:eiros artigos daqueles que nos cercam sempre pare­
cem m u ito bons; vejamos depois o que o homem pode escrever dois anos
mais tarde.
"Au revoir
" Freu d "

N o congresso havia 87 membros e convidados. O nível científico d o s ar­


tigos era med íocre, embora h ou ves se dois artigos interessantes de Abra­
ham e de Ferenczi. Um dos artigos suíços, contendo muitas estatísticas,
era tão tedioso que Freud comentou comigo : "Todos os tipos de crítica
contra a psicanálise já foram fe itos , mas esta é à primeira vez que qual­
quer um podia tê-la cons iderado entediante". Jung dirigiu as reuniões de
tal modc- que se sentia que algum gesto de protesto poderia ocorrer.

- 1 12 -
Quandc seu nome surgiu para reeleição para presidente, Abraham sugeriu
que os que desaprovavam se abstivessem de votar, de modo que ele acei­
tou a reeleição com 52 votos contra 22. Dirigiu-se a mim depois, obser­
vando que eu era um dos dissidentes, e com um ar irritado disse: "Pensei
que o senhor fosse cristão" (isto é, não-judeu). Pareceu uma observação
irrelevante, mas possivelmente tinha algum significado.
Freud tinha ficado um pouco ansioso em relação a qual seria a atitude
de Putnam no tocánte à dissensão· com Jung. Enviei-lhe uma longa carta
que eu acabara de receber de Putnam; seu corr.entário sobre ela foi o se­
guinte� "A carta de Putnam era muito divertida. Todavia, temo, se ele se
afasta de Jung por causa do misticismo e da negação do incesto, que recue
em relação a nós (por outro lado) por defendermos a liberdade sexual. A
pergunta dele, reformulada e escrita a lápis, é muito sugestiva a esse res­
peito. Pergunto-me o que o senhor responderá. Espero que não haja nega­
ção de que nossas simpatias tomam o partido da liberdade individual e de
que não' vemos melhora na rigidez da castidade americana. Mas o senhor
podia lembrar-lhe que o conselho não desempenha papel importante em
nossâ linha de tratamento e que ficamos satisfeitos em deixar cada um de­
cidir questões delicadas para sua própria consciência e de sua responsabi­
lidade pessoal". 1 1 5 É bem sabido que Putnam permaneceu um adepto leal
e convicto até o fim da vida, de modc que tinha sido desnecessária a
apreensão de Freud.
Nesse fnterim, fundaram-se dois outtos grupos, aceitos corr.c socie­
dades filiadas à Associação Internacional. O primeiro grupo foi o de Bu­
dapeste; formado em 19 de maio de 1913, seus dirigentes eram: Ferenczi,
presidente; Ho116s, vice-presidente; Rado, secretário; e Levy, tesoureiro.
Eu estava presente à segunda reunião, quan�o Ferenczi me informou, com
sua habitual rr,aneira espirituosa, que o membro restante, Ignotus, funcio­
nava como platéia.
A outra sociedade foi fundada em Londres, em 30 de outubro de
1913, tendo eu como presidente, Douglas �ryan como vice-presidente e
M. D. Eder como secretário. Havia nove membros, dos quais, porém,
apenas quatro sempre praticaram a psicanálise (Bryan, Eder, Forsyth e
eu). Bernard Hart aderiu uma semana depois, mas William McDougall e
Havelock Elli_s declinaram do convite.
Imediatamente ap6s o congresso, Freud viajou para Roma, tendo sua
cunhada, Minna Bemays, tomado o trem em Bolonha. 1 1 6 Passou "dezes­
sete deliciosos dias" em Roma, 1 1 7 do dia 10 ao 27, visitando seus antigos
pontos preferidos e descobrindo outros, em especial "a deliciosa Tombe
Latine, à qual até então deixara de ir". Como sempre, recuperou instanta­
neamente seu estado de espírito e sua sadde. Como Minna s6 podia
agüentar passeios pequenos, Freud teve condições de trabalhar bastante.
Além de corrigir as provas de seu longo ensaio para Scientia, escreveu um

-113 -
prefácio para o Totem, escreveu e ampliou o artigo que apresentara em
Munique e, acima de tudo, escreveu um rascunho completo de seu longo
artigo sobre "Narcisismo". Enquanto estava em Roma, Freud recebeu
uma carta de Maeder, assegurando-lhe a permanência de suá veneração,
mas acrescentando, em alusão à mudança de suas concepções: "Como
Lutero, aqui fico; não posso fazer outra coisa". Freud comentou seca­
mente: "Observação adequada para alguém que assume um risco, mas di­
ficilmente para alguém que recua de um risco".
Em outubro Albert Moll convidou Freud para ingressar em uma so­
ciedade, a Gesellschaft für Sexualwissenschaft (Sociedade de Sexologia),
que ele acabara de fundar em Berlim. Freud teve muitas dúvidas a esse
respeito, mas a conselho de Abraham aceitou o convite. ! 1 8 Todavia, quan­
do pouco depois saiu o primeiro número do órgão oficial da sociedade,
'Zeitschrift für Sexualwissenschaft, as alusões à psicanálise não eram ani­
madoras o suficiente para que Freud desejasse continuar a ter alguma coi­
sa a ver com o empreendimento. A psicanálise evidentemente seria manti­
da em segu ndo plano. "A Sociedade está destinada a obter reconheci­
mento para Fliess; isso é absolutamente certo, já que ele é o único pensa­
dor!ll ativo entre eles e o detentor de uma parcela de verdade não reco­
nhecida. Mas subordinar nossa psicanálise a uma biologia sexual fliessia­
na não seria menor infortúnio que subordiná-la a uma metafísica de Elfitt,
etc. O senhor o conhece com sua incapacidade no campo psicológico e
sua coerência lógica no campo físico. O lado esquerdo nivela a mulher,
nivela o inconsciente, nivela a ansiedade. Devemos de qualquer modo
manter nossa independência e exigir direitos i gu ais. No final, podemos fi­
car juntos com todas as ciências paralelas. " 1 1 9
No Natal, Freud visitou sua filha Sophie em Hamburgo. Saiu de Vie­
na na noite de 24 de dezembro e voltou na manhã de 29. Interrompeu a
viagem em Berlim por seis ou sete horas no dia de Natal e assim teve
tempo para visitar Abraham, Eitingon e sua irmã Marie. Houve nessa épo­
ca muitas consultas, seja pessoalmente, seja por correspondência, com
membros do Comitê sobre a situação suíça e Freud estava tomado por sua
polêmica "História do Movimento Psicanalítico", que ele estava escre­
vendo exatamente nesse período .

1914

A dissensão com Jung chegou a um termo em 1914, com sua saída da


editaria do Jahrbuch, da presidência da Associação Internacional e por
fim ·da condição de membro da associação. Todos concordamos que
Abraham deveria atuar como presidente temporário e que ele deveria pro­
videnciar o próximo congresso. Inicialmente, cuidou-se para que se reali­
zasse em Dresden, a 4 de setembro, sendo a data modificada depois para

- 1 14 -
20 de setembro, 1 2 0 mas nessa época a maior parte da Europa estava em
guerra. Praticamente todos os suíços aderiram a Jung e Abraham suspeita­
va até mesmo das intenções de Pfister. Freud s6 podia dizer: "Fui adver­
tido para não contradizer o senhor em seu julgamento sobre as pes­
soas. "bb Mas nesse caso Abraham se mostrou equivocado, pois Pfister
permaneceu um dedicado defensor de Freud.
No início do ano, a filha de Freud que morava em Hamburgo presen­
teou-o com seu primeiro neto, o primeiro dos seis que ele viria a ter. 1 2 1
Esse neto é atualmente psicanalista.
Freud convidara Ferenczi para repetir a agradável estada do ano ante­
rior em Arbe e sugerira levar consigo sua filha Anna. 1 2 2 Ela vinha tendo
febre há algum tempo e ele estava preocupado com ela. Escolheu-se então
Brioni, por ser mais acessível (a partir de Pola). No último momento, veri­
ficou-se que Anna estava com coqueluche, de modo que Freud levou
Rank no lugar dela. Saíram de Viena na noite de 9 de abril e retornaram a
13 de abril, uma longa viagem para provar o ar marítimo.
Em fevereiro, Freud foi surpreendido por uma separata, proveniente
da Holanda, da alocução oficial do reitor por ocasião do 3392 aniversário
de fundação da Universidade de Leyden. Ocupava-se da teoria freudiana
dos sonhos, que o autor, G. Jelgersma, professor de psiquiatria, apoiava.
"Depois de 14 anos, o primeiro reconhecimento, em uma universidade, de
minha obra sobre sonhos !" 1 2 3 Foi acompanhada de uma caria delicada
convidando Freud para, no outono, fazer conferência na Universidade.
Freud ficou entusiasmado e escreveu: "Pense. Um psiquiatra oficial, rei­
tor de uma universidade, engole a psicanálise, com tudo. Que outras sur­
presas esperar!" 1 2 4
Em maio a s coisas não foram tão bem. Sua perturbação intestinal foi
tão grande que teve de se submeter a exame especial para descartar um
câncer do reto. Foi realizado pelo Dr. Walter Zweig, docente de proble­
mas intestinais. Freud comentou: "Ele me cumprimentou tão afetuosa­
mente que inferi que esperara, com toda certeza, encontrar um câncer. As­
sim, desta vez estou livre." 1 2 5
No mesmo mês houve tristes notícias dos Estados Unidos. Stanley
Hall proclamara sua adesão a Adler. Freud escreveu: "por razões pes­
soais, senti este acidente de maneira mais aguda que outros" 1 2 6 Afinal de
contas, Stanley Hall ficara muito entusiasmado com a obra de Freud ape­
nas cinco anos antes e fizera muito para levá-la ao conhecimento do mun­
do. Freud estava, evidentemente, muito desapontado e na mesma carta
acrescentou: "Quero muito umas poucas horas de conversa com o se­
nhor." Todavia, cerca de seis anos depois, Stanley Hall pagou um belo
tributo à obra de Freud e considerou-o "a mente mais original e criativa,
em termos de psicologia, da nossa geração.(. . . ) Suas concepções atraí­
ram e inspiraram um brilhante grupo de mentes não somente na psiquia-

-115 -
tria, mas em vários outros campos, que deram todas ao mundo da cultura
aperçus mais novos e fecundos do que os que provieram de qualquer ou­
tra fonte dentro do amplo domínio do humanismo. " 1 2 7
Por outro lado, houve boas notícias d a França. O Professor Régis, de
Bordeaux, tinha escrito, juntamente com seu -assistente, A. Hesnard, um
livro que fazia uma apresentação favorável da p sicanálise. 1 2 8 Hesnard,
dois anos antes, enviara uma carta a Freud pedindo desculpas pela des­
consideração por sua obra na França. 1 2 9
E m junho, Freud esteve e m Budapeste por uns poucos dias. Ele e
Rank foram a essa cidade para comparecer ao casamento de uma ex-pa­
ciente, Loe Kann . 1 3 0 Vale a pena mencionar esse fato, por ter sido um dos
dois únicos casamentos a que ele assistiu fora do círculo familiar.
Sachs ficou comigo em Londres, nesse mês de maio, durante umas
duas semanas de férias; Ferenczi e Rank programaram fazer o mesmo em
agosto. Mas em agosto de 1 9 14 não houve férias.

NOTAS

ª Apenas algumas semanas antes ele desabafara com Abraham: "Não tenho mais sa­
tisfação com os vienenses. Tenho uma pesada cruz a carregar no caso da geração
mais velha. S tekel, Adler, Sadger. Em breve eles · estarão sentindo que sou um obs­
táculo e me tratarão como tal, mas não posso acreditar que tenham alguém melhor
para me substituir." 8
b Ver Cap. 2, pág. 68.
e scheussliche.
d Isto é, Jung.
e Publicados no Correspondenzblattfür Schweizer Aerzte.
f Cap. 8, N� 5.
g Em alemão, "Mahler" .
h Palavra que Freud empregava para "intestino".
i Alusão jocosa a seu gosto pela aquisição de antiguidades.
j Considerou isso "o primeiro sinal de interesse da velha e querida Inglaterra" . 7 1
k Sir William Osler, então professor de medicina e m Oxford.
1 Ver pág. 89.

-116-
m Ver Cap. 6.
n Ele, evidentemente, já tinha essa intenção.
0 Separata.

P "Sinto a premência de encarar o mundo de novo,


Sentir a felicidade da vida, suportar sua dor."
q Condensação.
r Cap. 5.
s Livro que os editores pós-dataram na página de rosto.
t Cap. 13, n2 3.
u Cap. 1 4, n2 19.
v Eu aprendera a falar alemão e a compreender o alemão falado, mas ainda não a lê­
lo quando escrito em caracteres góticos.
w Forjar enquanto o ferro está quente.
x Tarefa.
Y Casos de neuroses obsessivas.
z Eu escrevera: "As referências à psicanálise nas revistas são, em geral, bastante
elogiosas, com esse respeito pelo distante que é passível de mudar quando as ques­
tões ficam mais próximas."
aa lngenieur.
bb Referência à antiga predição de Abraham sobre Jung.

- 117 -
IV

OPOSIÇÃO

NO CAPITULO ANTERIOR ABORDEI OS ASPECTOS FAVORÁVEIS DO


movimento psicanalítico e da gradual disseminação da obra de Freud. Te­
nho, a seguir, que apresentar a tempestade de oposição que ele teve de
suportar, em especial nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial, mas
em certa medida por todo o resto de sua vida.
Há duas grandes dificuldades na maneira de descrever, hoje, a natu­
reza e extensão dessa oposição. A primeira é que a maior parte não pode­
ria ser impressa; era simplesmente impublicável. Não que Freud fosse
poupado de ouvi-la. Pacientes em um estado de transferência negativa,
para não falar de "amigos amáveis", providenciavam para mantê-lo bem
informado. E, afinal, ser ofendido na rua, ser posto em ostracismo e ser
ignorado são manifestações de que não se pode escapar.
O nome de Freud tinha se tornado nessa época sinônimo de sensação
- ou antes de notoriedade - para psiquiatras e neurologistas alemães e
suas teorias estavam tendo um efeito profundamente perturbador para a
. paz mental deles. Algum dia um estudioso da história da ciência poderá
avançar através dos extravasamentos de ofensa e incompreensão que ser­
viram de vazão para as explosivas emoções que haviam sido despertadas.
Mas mesmo então ele terá um quadro muito imperfeito da quantidade de
ódio e desprezo com que esses círculos intelectuais se esforçavam para
cobrir as emoções mais angustiantes que os agitavam, já que apenas uma
pequena parte do fluxo vazava para os periódicos científicos, e então ape­
nas de uma forma relativamente civilizada. A maioria das invectivas seria
encontrada nas explosões não registradas em reuniões científicas e ainda
mais nas conversas particulares fora dessas reuniões. Ferenczi observou
hem que, se os oponentes negavam as teorias de Freud, eles certamente
sonhavam com elas.

- 118 -
A intensa onda de hostilidade que saudou a obra de Freud nos anos
anteriores à Primeira Guerra Mundial agora parece r , tito remota, mas os
que a viveram não podem esquecê-la facilmente. Passei por ela não ape­
nas na América do Norte e depois na Inglaterra, mas também na Alema­
nha. Primeiro como pesquisador da Clínica Psiquiátrica de Kraepeiin em
Munique e depois em minhas visitas anuais do Canadá à Alemanha, onde
eu era membro de várias sociedades culturais, tive amplas oportunidades
de senti-la. Além do mais, por alguns anos compareci a todos os congres­
sos internacionais desses temas correlatos, nos quais as idéias maléficas
de Freud eram o elemento principal das conversas e com freqüência das
discussões oficiais também.
A segunda dificuldade é que a natureza do opróbrio deslocou muito
seu terreno na última metade de século e na verdade em grande parte co­
mo resultado da própria obra de Freud. Se hoje se dissesse de uma pessoa
eminente que ela era "obcecada por sexo", que tinha o hábito de ler os
aspectos mais sórdidos e repulsivos da sexualidade em cada pequeno
acontecimento ou ato, a maioria das pessoas iria considerar isso estranho
da parte dela, mas iria julgá-la em outras bases - se ela era agradável ou
se realizava trabalho valioso. Mesmo que fosse insinuado que ela mesma
se entregava a várias perversões sexuais, o mero boato dificilmente iria
excluí-la como urna pessoa insuportável, não adequada para com ela se
falar ou para ser admitida em companhia Je pessoas decentes. Não acho
que ela seria encarada como essencialmente maligna e perniciosa, um
inimigo da sociedade.ª
No entanto, isso é o que esse estigma teria significado quarenta ou
cinqüenta anos atrás e, de fato, durante a metade de século anterior. A re­
pugnância moral assim despertada puderia, talvez, encontrar sua contra­
partida hoje na atitude geral, em vários países, para com as notícias de
que um cidadão aparentemente responsável é na verdade um "comunista"
ou "trotskista". E, se tal pessoa for mais adiante e seguir seus princípios
até seu fim lógico de ajudar um país estrangeiro contra o seu, sabemos de
várias partes do mundo onde ela ser<:Í julgada literalmente imprópria para
viver. Assim, o conceito de maldade sofreu uma considerável alteração
nas duas últimas gerações.
Freud viveu numa época em que o odiun. theologicum tinha sido
substituído pelo odium sexicum e ainda não pelo odium politicum. Caberá
ao futuro determinar qual dos três é a fase mais vergonhosa da história
humana.
Nessa época, Freud e seus seguidores eram encarados não apenas
como pervertidos sexuais, mas também como psicopatas obsessivos ou pa­
ranóicos, e a combinação era considerada um perigo real para a comuni­
dade. As teorias de Freud eram interpretadas como incitamentos diretos à
renúncia a qualquer restrição, à reversão a um estado de licenciosidade

- 1 19 -
primitiva e selvageria. Nada menos do que a própria civilização estava em
perigo. Como ocorre em tais circunstâncias, o pânico despertado levava,
em si mesmo, à perda dessa própria contenção que os oponentes julgavam
estar defendendo. Todas as idéias de boas maneiras, de tolerância e mes­
mo um senso de decência -ainda mais qualquer pensamento de investiga­
ção ou discussão objetiva -simplesmente iam por água a baixo.
Num Congresso de Neurologistas e Psiquiatras Alemães, realizado
em Hamburgo em 1910, o Professor Wilhelm Weygandt, um Geheimer
Medizinalrat, deu violenta expressão ao estado de alarma, quando as teo­
rias de Freud estavam sendo mencionadas, batendo a mão fechada na me­
sa e gritando: "Este não é um assunto para discussão em uma reunião
científica; é uma questão de polícia". De modo semelhante, quando Fe­
renczi leu um artigo perante a Sociedade Médica de Budapeste, foi infor­
mado de que a obra de Freud não passava de pornografia e de que o lugar
apropriado para os psicanalistas era a prisão. 1 A única ação policial ja­
mais tomada, porém, a de Boston em 1913, foi evitada no último momento.
A vituperação não se limitou apenas às palavras. No Congresso Neu­
rológico de Berlim, em 1910, o Professor Oppenheim, o famoso neurolo­
gista e autor do principal manual sobre o assunto, propôs que se fizesse
um boicote a toda instituição onde as concepções de Freud fossem tolera­
das. Isso obteve reação imediata da platéia e todos os diretores de sanató­
rios presentes de ergueram para declarar sua inocência. Ao que o Profes­
sor Raimann foi mais adiante e declarou que "o inimigo devia ser buscado
em sua toca". Todos os casos tratados de forma malsucedida pela psica­
nálise deveriam ser coletados e publicados. 2 Raimann era assistente da
Clínica Psiquiátrica de Viena. Perseguiu Freud implacavelmente de 1904
a 1916, quando Freud por fim reclamou com seu chefe, Wagner-Jauregg,
que pôs fim à perseguição.
A primeira vítima material ocorreu, curiosamente, na distante Austrá­
lia, onde um clérigo presbiteriano, Donald Fraser, teve de deixar o minis­
tério religioso em virtude de sua simpatia pela obra de Freud. No mesmo
ano, 1908, fui obrigado a afastar-me de um cargo neurológico em Lon­
dres, por fazer indagações sobre a vida sexual dos pacientes. Dois anos
depois o governo de Ontário ordenou que o Asylum Bulletin interrompes­
se a publicação. Todos os artigos escritos pelos organizadores eram repu­
blicados; e os meus próprios artigos foram considerados "inadequados pa­
ra publicação mesmo em periódico médico". Em 1909, Wulff fÓi demitido
de uma instituição de Berlim e em agosto emigrou para a Rússia, que na
época era um país mais livre do que a Alemanha nessas questões. Pfister
mais de uma vez, em 1912 e em 1917, teve problemas com seus superio­
res, mas conseguiu sobreviver aos inquéritos eclesiásticos. Seu colega,
Schneider, foi menos feliz e foi demitido da direção de um seminário em
1916. 3 No mesmo ano, Sperber, o eminente filólogo sueco, teve negada a

-120 -
docência em virtude de um ensaio que escrevera sobre a·origem sexual da
fala, ficando com a carreira arruinada. 4

Um aspecto curioso nessa campanha de insultos era uma certa especiali­


zação dos alvos dos protagonistas. Freud, naturalmente, era o vilão prin­
cipal, que iniciara todo o mal, mas, talvez. por razões pessoais, vários dos
opositores concentravam seus ataques em óutros. Friedlãnder, Hoche e
Raimann dirigiam seus projétei� diretamente para Freud; Abraham tinha
de lutar com Oppenheim e Ziehen; Jung com Aschaffenburg e Isserlin; e
Pfister com Fõrster e Jaspers; enquanto Vogt e eu tínhamos nosso próprio
embate. Nos Estados Unidos, Brill tinha de enffentar os neurologistas de
Nova Iorque, Dercum, Allen Starr e Bernard Sachs; Putnam era persegui­
fo por Joseph Collins e Boris Sidis; enquanto eu tinha aí urna ampla mar­
gem de escolha, que logo se alargaría quando voltasse para a Inglaterra
-em 1913.
Nos primeiros anos do século, Freud e seus textos eram calmamente
ignorados ou então mencionados com uma ou duas frases de desdém, co­
mo se não merecessem atenção séria. No Congresso de Psiquiatras e Neu­
rologistas Centro-Alemães, realizado em Halle �m 1900, houve um sim-:
pósio de patogênese da histeria; mas o nome d� Freud não foi sequer
mencionado por qualquer dos oradores. Quando o mesmo congresso se
reuniu em ·1904, Stegmann fez um relato de casos que ele tratara pelo
método de Freudb e foi severamente repreendido pelo Professor Binswan­
ger,c de Jena, autor do manual padrão sobre histeria.
Mas depois de 1905, quando foram publicados os Três Ensaios sobre
a Teoria da Sexualidade e a análise de Dora, essa atitude de silêncio logo
se modificou e os críticos assumiram uma linha mais ativa. Se suas idéias
não morriam por si mesmas, tinham de ser exterminadas. Freud, eviden­
temente, ficou aliviado com essa mudança de tática. Comentou com um de
seus pacientes preferidos - ninguém mais que o "Homem dos Lobos"d -
que a oposição aberta, e mesmo o insulto, era muito preferível a ser silen­
ciosamente ignorado. "Era uma confissão de que tinham de lidar com um
sério opositor, com o qual tinham nolens valens de discutir as questões".
De vez em quando podia rir da indignação moral apresentada, como
quando contou ao mesmo paciente que uma reunião em que suas concep­
ções tinham sido denegridas como imorais acabou com a platéia contando
entre si as mais obscenas piadas.
Na primeira resenha da análisê de Dora, Spielmeyer clamou contra o
uso de um método que ele considerava "masturbação mental". 5 Bleuler
protestou dizendo que ninguém era competente para julgar o método sem
testá-lo, 6 mas Spielmeyer num revide irado cumulou-o com indignação
moral. 7
A primeira pessoa a tomar uma atitude independente foi Gustav As-

- 121 -
chaffenburg. Em um congresso em Baden-Baden, em maio de 1906, ex­
pressou-se vigorosamente. e chegou à conclusão de que "o método de
Freud está errado na maioria dos casos, é passível de objeções em muitos
e supérfluo em todos".8 Era um método imoral e, de qualquer modo, ba­
seado apenas na auto-sugestão. Hoche uniu-se ao ataque. Segundo ele, a
psicanálise era um método mau, proveniente de tendências místicas e
cheio de perigos para os médicos; era incorrigível e unilateral. Jung res­
pondeu a essa explosão no periódico que publicou o artigo de Aschaffen­
burg, mas de maneira não muito eficaz. 9
No mesmo ano, Ostwald Bumke 1 0 fez grande barulho, citando a pri­
meira dem1ncia devastadora contra Freud, que Rieger havia publicado dez
anos antes sobre a contribuição de Freud para a teoria da paranóia. 1 1 De
acordo com Rieger, as concepções de Freud eram tais que "nenhum alie­
nista podia lê-las sem sentir uma real sensação de horror". A base para
esse horror estava no modo como Freud dava grande importância a um
discurso paranóide sem nexo com alusões sexuais a incidentes puramente
acidentais que, mesmo que não inventados, eram inteiramente sem signifi­
cação. Tudo isso não podia levar a nada além de "uma psiquiatria sim­
plesmente horrível de velhas comadres". 1 2 Essa citação seria novamente
desencavada dentro de outros dez anos pelo Professor von Luschan, de
Berlim. Alguns anos depois Bumke transformou sua denúncia em um li­
vro, 1 3 cuja segunda edição serviria ao período nazista como obra de refe­
rência padrão sobre o assunto.
Em novembro desse ano, Jung e Hoche tiveram um confronto no
Congresso de Psiquiatras Alemães do Sudoeste, em Tübingen.
No ano seguinte, houve um duelo mais sério entre Aschaffenburg e
Jung no primeiro Congresso Internacional de Psiquiatria e Neurologia
realizado em Amsterdã, em setembro de 1907.
O próprio Freud fora convidado para participar do simpósio, mas re­
cusara sem hesitação. Escreveu a Jung sobre o convite: "Evidentemente,
esperavam que eu tivesse um duelo com Janet, mas odeio combates de
gladiadores perante a nobre multidão e acho difícil aceitar que uma massa
indiferente vote a favor de minhas experiências" . 1 4 Todavia, ele teve al­
gum receio mais tarde diante do pensamento de como ele estava usufruin­
do de agradáveis férias quando alguém estava lutando em seu benefício.
Assim, pouco antes do congresso, escreveu uma carta animadora a Jung:
1
' Não sei se o senhor será feliz ou infeliz, mas eu gostaria de estar com o

senhor agora, usufruindo da sens:1ção de que não estou mais sozinho. Se o


senhor precisasse de incentivo, eu podia falar-lhe sobre meus longos anos
de honrada mas dolorosa solidão, que começou para mim tão logo tive o
primeiro vislumbre do novo mundo; sobre a falta de interesse e compreen­
são por parte de meus amigos mais próximos; sobre os ansiosos momentos
em que eu próprio acreditei estar errado e perguntei como seria possível

- 122 -
seguir esses trajetos não convencionais e ainda assim sustentar minha fa­
mília; sobre minha convicção pouco a pouco fortalecida, que se apegou
a A Interpretação dos Sonhos como a um rochedo na rebentação; e sobre
a calma certeza que por fim alcancei e que me levou a esperar até que
uma voz além do meu alcance respondesse. Era a sua ! " Freud também ·
predisse que Jung encontraria algum simpatizante no congresso, predição
que minha inesperada presença realizaria.
Jung certamente podia sair-se bem com qualquer incentivo perante tal
provação. Aschaffenburg repetiu sua opinião anterior sobre a falta de va­
lidez do método de Freud, porque cada palavra isolada era interpretada
em sentido sexual. Isso era não apenas doloroso para o paciente mas com
freqüência diretamente prejudicial. A seguir, batendo no peito num gesto
de supremo decoro, asseverou como ele proibia seus pacientes de mencio­
narem qualquer aspecto sexual. No decorrer de sua alocução, Aschaffen­
burg cometeu esse revelador lapso da fala: "Como é bem sabido, Breuer e
eu publicamos um livro alguns anos atrás". Ele próprio não parece tê-lo
notado e talvez Jung e eu tenhamos sido as ónicas pessoas a notar ou pelo
menos a perceber sua significação; pudemos apenas sorrir um para o ou­
tro. Jung disse em sua alocução que tinha achado as conclusões de Freud
corretas em todos os casos de histeria que examinara e observou que o
tema do simbolismo, embora conhecido de poetas e criadores de mitos,
era novo para psiquiatras. Infelizmente, cometeu o erro de não calcular
o tempo de seu artigo e também de se recusar a obedecer aos repetidos si­
nais do presidente para encerrar. Por fim, foi compelido a encerrar, diante
do que saiu rápido da sala com o rosto ruborizado de raiva. Lembro-me da
infeliz impressão que seu comportamento causou na impaciente e já pre­
conceituosa platéia, de modo que não podia haver dúvida sobre o resulta­
do do debate. Ambos os artigos foram posteriormente publicados. 1 5 As­
chaffenburg não pôde estar presente no dia seguinte, quando houve a dis­
cussão, mas Konrad Alt e Karl Heilbronner secundaram seu ataque de um
modo que fez Jung sentir que era inútil responder. Alt disse que, indepen­
dentemente dos métodos de Freud, sempre se soube que os traumas se­
xuais influenciavam a gênese da histeria, "Muitos histéricos sofreram
gravemente com o preconceito de seus parentes de que a histeria só pode
surgir com uma base sexual. Nós, neurologistas alemães, tivemos infindá­
vel trabalho para destruir esse preconceito amplamente difundido. Assim,
se a opinião freudiana referente à gênese da histeria deve ganhar terreno,
os pobres histéricos serão desconsiderados como antes. Esse passo atrás
causaria grande dano." 1 6 Entre muitos aplausos, prometeu que nenhum de
seus pacientes jamais teria permissão para procurar qualquer dos seguido­
res de Freud, com sua degradação sem consciência para a corrupção ab­
soluta.e O aplauso se renovou quando Ziehen se levantou para cumpri­
mentar o orador pela posição firme que adotara.

- 1 23 -
Jung ficou, naturalmente, muito desgostoso com todo o episódio e
muito satisfeito por Freud não estar presente e, assim, exposto a essa
afronta.
Mesmo o trabalho de Jung sobre experiências de associação era enca­
rado como estando orientado para uma direção perigosa. Ziehen, de Ber­
lim, que tinha um interesse de proprietário pela palavra "complexo", a
qual ele fora o primeiro a empregar, protestou contra o uso desse método
para alcançar o inconsciente e afirmou que "os psicólogos tinham de ser
advertidos vigorosamente contra tais desvios da psicologia de associa­
ção". Aplicar seus resultados à demência precoce era errôneo, artificial e
mesmo perigoso. 1 7
Quando o livro de Jung sobre A Psicologia da Demência Precoce foi
publicado em 1907, M. Isserlin, de Munique, iniciou longa e violenta po­
lêmica contra ele. Negou qualquer conexão causal na associação livre e
definiu o processo como um processo de "enigmas para adivinhação".
Também achava que não podia haver algo como dissociação mental; "a
unidade da consciência era uma máxima fundamental" . 1 8
Nessa época fizeram-se ousadas tentativas para introduzir idéias psi­
canalíticas em Berlim. Em 14 de dezembro de 1907, Juliusburger leu um
artigo que as defendia perante a Psychiatrischer Verein (Associação Psi­
quiátrica) de Berlim e procurou superar a unânime oposição com que se
defrontou.f Um ano depois, em 9 de novembro de 1908, Abraham leu um
artigo, perante a mesma sociedade, sobre os aspectos eróticos da consan­
güinidade. 1 9 O artigo provocou uma reação furiosa por parte do famoso
neurologista Oppenheim, que declarou que não podia expressar-se de mo­
do suficientemente áspero ou decidido contra tais idéias monstruosas.
Ziehen também ficou chocado com "essas afirmações frívolas" e anun­
ciou que tudo que Freud escrevia era simplesmente desprovido de sentido.
Braatz, aludindo ao estudo de Sadger sobre a influência_da mãe na vida
de C.F. Meyer, clamou que os ideais alemães estavam em perigo e que al­
go drástico deveria ser feito para protegê-los. Pouco depois, Oppenheim
publicou um artigo em apoio a um ataque que Dubois, de Berna, fizera
contra a psicanálise. 20 As falsas generalizações de Freud tornavam seu
método perigoso e os relatos que ele e seus seguidores publicavam davam
a impressão de ser uma moderna forma de mania de feitiçaria.g Era dever
urgente deles combater essa teoria e suas conseqüências, pois estavam se
difundindo rapidamente e o público ficaria irremediavelmente confundido.
Wulff aventurou-se a enviar um::t resposta a Oppenheim para esse mesmo
periódico, mas ela lhe foi devolvida; poucos anos depois, eu passaria pela
mesma experiência nas mãos do British Medical Journal. Pouco depois
Wulff perdeu seu cargo em Berlim. Oppenheim então providenciou a rea­
lização de um simpósio, no próximo Congresso de Neurologistas Ale­
mães, sobre o tema dos estados de ansiedade, no qual ele desempenhou

-124 -
papel de destaque. 2 1 Sendo afecções do bulbo, eram inacessíveis a qual­
quer forma de psicoterapia. Aliás, sabia-se, em seu círculo em Berlim, que
Oppenheim recentemente sofrera de um grave estado de ansiedade, 22 de
modo que isso pode ter tanto estimulado seu interesse pelo assunto quanto
afetado suas conclusões científicas; além disso, sua mulher era um sério
caso de histeria.
Em 1908, Moll, sexologista de Berlim, publicou um livro intitulado A
Vida Sexual das Crianças. O livro era tão veemente em sua negação da
sexualidade infantil que Freud escreveu em uma carta: "Há várias passa­
gens que justificariam um libelo acusatório, mas o silêncio é a melhor res­
posta". 2 3
O infatigável Abraham leu outro artigo perante a mesma sociedade
em 8 de novembro de 1909, dessa vez sobre "Estados Oníricos". Foi re­
cebido com sorrisos de superioridade, e o Presidente, Professor Ziehen,
proibiu qualquer discussão, mas expressou suas próprias emoções numa
explosão de ira.
As qualificações de Ziehen para julgar a obra de Freud podem ser es­
timadas a partir do seguinte episódio. Um paciente chegou à Clínica Psi­
quiátrica de Berlim, de que Ziehen era diretor, queixando-se de um impul­
so obsessivo de levantar as saias das mulheres nas ruas. Ziehen disse a
seus alunos: "Esta é uma oportunidade para testar a suposta natureza se­
xual de tais obsessões. Perguntarei a ele se isso se aplica também a mu­
lheres mais velhas, e nesse caso evidentemente o impulso não pode ser
erótico". A resposta do paciente foi esta: "Oh, sim, a todas as mulheres,
mesmo minha mãe e minha irmã." Diante do que Ziehen triunfantemente
ordenou que a anotação no protocolo referisse o caso como "definitiva­
mente não-sexual". 2 4

Acompanhar as disputas sobre a psicanálise em todo o mundo nos levari<;1


muito longe, e aqui estamos preocupados apenas coin as que atingiram
Freud mais de perto. Talvez, com o passar do tempo, se escreva a história
do desenvolvimento inicial da psicanálise em cada país separadamente.
Mas, naturalmente, Freud acompanhava de perto tudo que ocorria e pare­
cia ter especial interesse pelo que acontecia na América do Norte - talvez
porque fosse o único lugar, em sua vida, onde ele havia falado para uma
platéia absolutamente sem restrições. Assim, devo relatar três incidentes
desse distante continente ocorridos em 1910, ano que agora alcançamos.
Na reunião da Associação Psicológica Americana, em dezembro de
1909, em Baltimore, Boris Sidis fez um violento ataque insultuoso à obra
de Freud e protestou contra "a louca epidemia de freudismo que agora in­
vade os Estados Unidos". A psicologia de Freud levava a pessoa para a
obscura Idade Média e o próprio Freud era apenas "outro desses pios se­
xualistas, dos quais havia muitos exemplos na própria América (Oneida

- 125 -
Creek, mormonismo, etc.). Putnam ficou tão iradô que não pôde confiar
em si para falar, mas procurei dar uma resposta bastante calma. Todavia,
,pouco depois, ainda na reunião, Putnam e Stanley Hall responderam-lhe
de uma maneira demolidora e definitiva.
Na reunião anual da Associação Neurológica Americana, em Washing­
ton, em maio de 1910, Joseph Collins, neurologista de Nova Iorque, dis­
tinguiu-se fazendo um pronunciamento, depois do banquete habitual, que
era um grosseiro ataque pessoal a Putnam, do pior gosto possível. Pro­
testou contra a Associação, por ter permitido que Putnam lesse o artigo
que acabara de ler, constituído de "histórias pornográficas sobre virgens
puras"; aliás, Collins era famoso por sua inclinação para piadas indecen­
tes. "Já é tempo de a Associação colocar-se contra o transcendentalismo e
o supranaturalismo e em definitivo aniquilar a Ciência Cristã, o freudismo
e todo esse disparate, tolice e insensatez". 2 5 Naturalmente, a fala ofendeu
o senso americano de fair play e na manhã seguinte, quando alguém se
levantou na reunião e disse o quanto a Associação deveria estar agradeci­
da por um homem da elevada postura ética do Dr. Putnam ter experimen­
tado e testado esse novo trabalho, houve intensos aplausos.
Poucos anos depois, outro neurologista de Nova Iorque, Allen Starr,
fez um ataque a Freud, pessoal e não provocado, perante a Academia de
Medicina de Nova Iorque.h
Em 29 de março de 1910, houve uma violenta explosão de afronta em
uma reunião da Sociedade Médica de Hamburgo. 26 Weygandt, o cavalhei­
ro que falara eITI chamar a polícia, foi particularmente virulento. As inter­
pretações de Freud estavam no nível dos livros de sonhos mais ordinários.
Seus métodos eram perigosos, pois simplesmente criavam idéias sexuais
em seus pacientes. Seu método de tratamento estava no mesmo nível que a
massagem dos órgãos genitais. Era importante expor essas coisas sempre
que possível. Embden, apoiado por Ernst Trõmner e Max Nonne, adverti­
ram todas as instituições contra a admissão de tais métodos. Trõmner fez a
original crítica de que não podia haver fatores sexuais na histeria, já que a
maioria dos histéricos era frígida. Nonne estava preocupado com o perigo
moral para o médico que empregasse esses métodos. Boettiger sustentou
que os únicos pacientes que se sentiram bem durante o tratamento foram
mulheres dadas a exibicionismo psíquico. Alfred 5acnger mostrou que,
com a menção ao erotismo anal, as teorias de Freud estavam assumindo a
forma mais grotesca e fantástica. Felizmente, porém, a população alemã
do norte estava muito longe de ser tão sensual quanto a de Viena.
O comentário de Freud foi o seguinte: "Aí se ouve exatamente o ar­
gumento que tentei evitar fazendo de Zurique o centro. A sensualidade
vienense não seria encontrada em nenhuma outra parte ! Nas entrelinhas
pode-se ler ainda que nós, vienenses, não somos apenas porcos, mas tam­
bém judeus. Mas isso não aparece impresso. " 2 7

- 126 -
Sob o título sensacionalista de "Uma Epidemia Psíquica entre Médi­
cos", Hoche leu um artigo muito citado em um congresso em Baden-Ba­
den, em 28 de maio de 1910. 2 8 Anunciou que a "psicanálise era um méto­
do maléfico, nascido de tendências místicas e cheio de perigos para a po­
sição da classe médica." Os psicanalistas estavam prontos para receber o
certificado de um manicômio. Freud achou isso simplesmente divertido e
disse a Ferenczi que era o maior reconhecimento q1:1e já tinha alcançado. 2 9
Escrevendo-me no mesmo dia, disse: "Trata-se de um valioso sintoma da
apreensão que nossos inimigos sentem diante do crescimento da psicanáli­
se. " 3 º Para Jung, considerou-o "uma magnífica advertência" 3 1 e um sinal •
de que estávamos quinze anos à frente do resto. 3 2
Outro oponente que nos causou mais diversão foi Friedlãnder, de
Frankfurt. Ele já tinha feito vários ataques à psicanálise. 3 3 O que publicou
nos Estados Unidos, no qual enumerava um grande m1mero de opiniões
desfavoráveis, causou-nos grande dano lá, pois deu a impressão de que as
autoridades continentais tinham feito amplas investigações sobre o as­
sunto e haviam-no condenado universalmente. Embora todas essas publi­
cações fossem extremamente adversas à psicanálise, esta parecia ter algum
fascínio singular para ele. Visitaria Jung, seria melifluamente delicado
com este e expressaria a esperança de que chegassem a uma compreensão.
O que mais o mortificou foi nenhum de nós ter respondido a seus textos.
Sabendo de seu grande desejo de reconhecimento, decidimos ignorá-lo
por completo e ele considerou isso muito penoso. Em um artigo que apre­
sentou em Budapeste, queixou-se amargamente do modo como foi despre­
zado. 3 4 "Meu exame da teoria freudiana foi anunciado há vários meses;
então, por que Freud, que não se opôs a viajar aos Estados nidos, não se
deu ao trabalho de vir a Budapeste para me refutar? Por que ele se desfaz
de seus oponentes apenas em uma nota de pé de página?"
Friedlãnder era um homem curioso, uma personalidade duvidosa com
um passado sombrio, de que Freud estava informado. Quando eu estava
com Freud na Holanda, no verão de 1910, ele me contou a seguinte histó­
ria. Num sábado, 28 de maio de 1910, o telefone tocou e um Professor
Schottlãnder, um psiquiatra, pediu uma entrevista. Freud disse que ele
podia vir naquela noite, mas ficou muito intrigado, pois sabia os nomes de
todos os psiquiatras alemães e não se lembrava deste. Às nove horas, o
Professor Friedlãnder apareceu e garantiu a Freud que este ouvira mal seu
nome ao telefone. A conversa prosseguiu e logo chegou à questão da
análise de Dora, a que Friedlãnder se referiu como análise de Anna.
Freud, procurando ouvir bem, inclinou-se para frente e disse: "Por favor,
Herr Professor não estamos ao telefone agora. Sugiro que analisemos
este lapso da fala". A partir daí, não poupou o visitante e manteve-o sob
tortura até uma hora da manhã. Admitiu para nós que o fez passar maus
momentos - tinha muito com que trabalhar e era uma rara oportunidade-

- 127 -
e sua conclusão final foi de que Friedlãnder era "um mentiroso, um tra­
tante e um ignorante". 3 5
Freud não pôde guardar sua opinião para si mesmo e Friedlãnder, ao
saber de uma opinião que ele omitira na Suíça, pou�os anos depois, amea­
çou processar Freud por difamação. 36 Todavia, nada ocorreu.
No mesmo ano, o Professor Robert Sommer, de Giessen, fez um vio­
lento protesto contra a idéia de as neuroses terem etiologia sexual, adver­
tindo urgentemente contra o perigo de se transferirem tais idéias para ou­
tros campos, em especial o da educação. 3 7
Oscar Vogt era outro áspero oponente. Entre 1899 e 1903, publicara
uma série de artigos em que sustentava a superioridade de sua "análise
causal" sobre o método psicanalítico de Freud. A auto-observação inte­
lectual era inteiramente suficiente, sem invocar quaisquer instâncias afeti­
vas; Freud foi simplesmente um tacanho fanático quando introduziu estas
últimas. 3 8 Vogt foi presidente do Congresso Internacional de Psicologia
Médica realizado em setembro de 1911, em Munique, quando Seif e eu ti­
vemos evidente embate com ele. Era uma pessoa tirânica e ficou vermelho
de raiva quando na discussão sobre hipnose expus a concepção de Feren­
czi sobre a regressão à situação de paciente-criança. Interrompeu-me com
esta observação: "É pura insensatez sugerir que meu poder de hipnotizar
pacientes está em meu complexo paterno - quero dizer, naturalmente, no
complexo paterno deles. " Diante do que, para benefício da platéia, expli­
quei cuidadosamente a significação do lapso; eu disse a Freud que, se eles
nos encontrassem com freqüência, aprenderiam alguma psicanálise por
experiência prática. 3 9
À noite, porém, na atmosfera mais amigável de uma cervejaria ao ar
livre, convivemos em termos menos tensos. Várias piadas obscenas esta­
vam na ordem do dia como forma de relaxamento das cansativas reuniões,
e Vogt contou algumas muito boas. Perturbei a harmonia com a observa­
ção de que as piadas não teriam alcançado sua graça se não fossem vários
significados simbólicos idênticos àqueles cuja existência ele negara vio­
lentamente naquela tarde. Ele ficou surpreso, mas prontamente deu a res­
posta, que lhe parecia inteiramente convincente: "Mas isso está fora da
ciência."
Em 12 de janeiro de 1910, Fritz Wittels leu um artigo perante a So­
ciedade de Viena, analisando o caráter do conhecido escritor e poeta Karl
Kraus. Freud achou-o lúcido e exato, mas pediu especial discrição no es­
tudo de uma pessoa viva, para que não se descambasse para a desumani­
dade. De uma forma ou de outra, 'Kraus tomou conhecimento çlo artigo de
Wittels e respondeu fazendo vários ataques violentos à psicanálise no ati­
vo periódico de que era editor, Die Fackel. Freud, no entanto, não os le­
vou a sério o suficiente para respondê-los. 4_0
Em fins de 1910, Freud pôde observar que "chovem insultos da Ale-

- 128 -
manha" 4 1 e poucos anos depois acrescentou: "É preciso um bom estôma­
go".•2 Esse tipo de coisa, de que dei alguma indicação, continuou por vá­
rios anos até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, mas seria
tedioso continuar a multiplicar exemplos. Não que a guerra em si tenha
posto um ponto final. Em 1 91 6, o Professor Franz von Luschan, de Ber­
lim, publicou um pronunciamento sob o título, hoje familiar, de "Psiquia­
tria de Velhas Comadres".4 3 Elogiava Riegcr, por ter sido o primeiro a
perceber o perigo e advertir contra ele vinte anos antes, e dirigia grave
censura a Bleuler, por seu espantoso comportamento ao ajudar a promul­
gar a epidemia. "Essa insensatez absoluta deveria ser combatida impiedo­
samente e com vassoura de ferro. Nos Grandes Tempos em que vivemos,
essa psiquiatria de velhas comadres é sem dúvida repulsiva. " Freud, es­
toicamente, fez este comentário: "Agora sabemos o que temos de esperar
dos Grandes Tempos. Não importa ! Um velho judeu é mais duro g1.:c: um
nobre teuto-prussiano. " 4 4
Muito se poderia escrever sobre a oposição que a psicanálise enfren­
tou na Inglaterra, mas isso pertence à minha autobiografia, se algum dia
for escrita, mais do que a uma biografia de Freud. É fácil predizer que a
oposição à psicanálise não se desfará ou mesmo diminuirá muito durante
nossa vida ou durante a de nossos descendentes imediatos. Quando escre­
via estas linhas, deparei com um livro recém-publicado nos Estados Uni­
dos que rivaliza em cegueira e estupidez com qualquer coisa que a Ale­
manha já tenha publicado, embora sua impertinência não degenere até o
mesmo grau de malignidade.

Até aqui, quase toda a "crítica" a que nos referimos poderia ser reduzida
a duas afirmações, constantemente reiteradas ex cathedra: as interpreta­
ções de Freud eram arbitrárias e artificiais e suas conclusões, sendo repul­
sivas, devem ser inverídicas. Mas havia um pequeno grupo de autores que
achava desejável uma compreensão mais plena de sua obra, ainda que
apenas com o propósito de desaprová-la por meio de argumentos que pa­
recessem objetivos. Aliás, Freud certa vez comentou comigo que era
curioso que seus opositores arrogassem tão tranqüilamente p:u-a si pró­
prios essa qualidade; a ele nunca se permitia ser objetivo. Os autores de
que estamos falando publicaram várias e longas exposições da obra de
Freud tal como eles a viam ; serão sucintamente mencionadas em sua orclem.
A primeira delas tinha pelo menos reivindicado que fosse considerada
objetiva. Foi uma resenha que Friedlãnder publicou em 1 907. 4 5 Estava
carregada de equívocos grosseiros, alguns deles evidentemente tendencio­
sos. Um exemplo típico destes últimos é dizer que a idade de Dora era 14
anos em vez de 18, invectivando contra a perversidade de falar sobre
questões sexuais com adolescentes.
Uma tentativa mais séria foi realizada em 1909 por J. H. Schultz. 4 6

- 129 -
, Trata-se de uma resenha, com alguma seriedade, das primeiras fases da
psicanálise e da oposição que ela enfrentou. Continha 172 referências. No
conjunto, abstinha-se de fazer qualquer julgamento final sobre os pontos
em questão, embora o tom geral fosse negativo. Mais tarde ele a ampliou,
fazendo da resenha um capítulo de um volume organizado por C. Adam. 4 7
No ano seguinte, Isserlin publicou uma resenha crítica completa,4 8 na qual
não teve dúvida quanto a um julgamento final. O conjunto dos procedi­
mentos de Freud, tanto em sua base quanto em seus objetivos, era abso­
lutamente insustentável. Suas conclusões referentes ao inconsciente só
podiam ser encaradas como "uma recaída nas fases pré-científicas de
compreensão".
A seguir temos duas outras contribuições mais valiosas. Em 1911,
Arthur Kronfeld publicou um resumo completo da psicanálise, considera­
da como um todo orgânico. 49 Abordou muito pouco os aspectos históricos
do assunto, mas apresentou um corte transversal dela no estágio a que
então tinha chegado. Os aspectos críticos eram de natureza filosófica e
abstrata, sendo as conclusões, no conjunto, mais do que céticas. Quando o
leu, Freud escreveu: "Kronfeld demonstrou, filosófica e matematicamen­
te, que todas as coisas com que nos atormentamos não existem porque não
podem existir. Então agora ficamos sabendo. "i'5 º Eis o que disse a Stãrc­
ke: "Também li o trabalho de Kronfeld. Apresenta a técnica filosófica
costumeira. O senhor sabe com que segurança os filósofos refutam um ao
outro depois de escaparem para bem longe da experiência. É isso exata­
mente o que Kronfeld faz. Ele afirma que nossa experiência não conta pa­
ra nada e então para ele é uma brincadeira de criança refutar-nos. " 5 1
Um ano depois, Kuno Mittenzwey escreveu uma resenha extrema­
mente longa de todo o assunto. 5 2 Apareceu, em capítulos, nos volumes da
'Zeitschrift, periódico de curta vida de Specht, que sucumbiu ao seu peso
antes que Mittenzwey chegasse ao fim. Assim, temos- apenas um conjunto
inacabado de 445 páginas do que talvez seja a melhor resenha histórica do
desenvolvimento inicial das idéias de Freud.
Assim, com as resenhas que acabamos de mencionar, a crescente lite­
ratura psicanalítica e as constantes discussões polêmicas e as diatribes
conduzidas por seus opositores em toda reunião de psiquiatras e em várias
reuniões médicas gerais, nenhuma pessoa culta da Alemanha podia ter
deixado de saber da existência da obra de Freud no período anterior à
Primeira Guerra Mundial e de ter talvez alguma idéia rudimentar de sua
natur�za.

O próprio Freud ficava fora desse tumulto, ao qual dava pouca atenção. A
única resposta que se dignou dar à enxurrada de críticas foi a mesma que
a de Darwin: simplesmente publicou mais provas em apoio de suas teo­
rias. Desprezava a estupidez de seus oponentes e deplorava suas maneiras

- 130 -
grosseiras, mas não acho que sentisse a oposição muito a fundo. Afinal de
contas, tivera então muitos anos para se endurecer e sua confiança em
suas próprias observações propiciava-lhe uma boa camada protetora. Mas
esta não melhorou sua opinião sobre o mundo à sua volta, em especial so­
bre a parte constituída por cientistas alemães. Muitos anos depois, em sua
Autobiografia, escreveria estas palavras: "Imagino que, quando a história
da fase que vivemos for escrita, a ciência alemã não terá motivo para or­
gulhar-se dos que a representavam. Não estou pensando no fato de terem
rejeitado a psicanálise ou no modo decidido como o fizeram; ambas as
coisas eram facilmente inteligíveis, só podiam ser esperadas e, de qual­
quer maneira, não lançaram nenhum descrédito sobre o caráter dos opo­
sitores da análise. Mas não podia haver desculpa para o grau de arrogân­
cia que exibiam, para seu desprezo sem consciência pela lógica e para a
grosseria e o mau gosto de seus ataques. Pode-se dizer que é infantil de
minha parte dar livre curso a sentimentos como estes de agora, depois de
passados quinze anos; mas eu não faria isso se não tivesse algo mais a
acrescentar. Anos atrás, durante a Grande Guerra, quando um coro de
inimigos acusava a nação alemã de barbarismo, acusação que resume tudo
o que escrevi acima, doía profundamente, porém, sentir que minha própria
experiência não me permitiria contradizê-la."5 3 Felizmente para ele, não
teve oportunidade de comentar sobre Ausschwitz e os outros "campos"
onde algumas de suas irmãs morreram.
Naturalmente, o assunto surgia com freqüência em nossas conversas,
de modo que posso. falar em primeira mão das reações de Freud a essas
várias "críticas". Era óbvio para ele que era completamente inútil respon­
der a essas diatribes e o pensamento de fazê-lo nunca passou por sua ca­
beça. Que houvesse incredulidade geral quanto a suas surpreendentes
descobertas era plenamente inteligível para quem quer que por muitos
anos tivesse lutado com a intensa oposição ("resistências") de seus pa­
cientes, e ele há muito compreendera que nesse aspecto eles não diferiam
das outras pessoas. Jung também observava que as pessoas normais "ti­
nham de lutar com os mesmos complexos que as neuróticas", afirmação
baseada na suposição otimista de que às vezes eram encontradas pessoas
normais. Também não surpreendia Freud que os ditos argumentos apre­
sentados por seus opositores fossem idênticos às defesas de seus pacientes
e pudessem mostrar a mesma falta de percepção ou até de lógica. Tudo is­
só, portanto, estava na ordem natural das coisas e não podia nem abalar as
convicções de Freud nem perturbá-lo pessoalmente. Afinal, durante anos
ele havia suposto que ao longo de sua vida ninguém acreditaria nele e que
as mesmas descobertas seriam feitas por outro, talvez muito depois de sua
morte. Pode até mesmo ser considerada uma surpresa agradável que o
contrário tenha ocorrido e que então ele tivesse em torno de_ si um cres­
cente grupo de adeptos convictos.

-131 -
A Pfister, que se solidarizara com ele em virtude de alguma oposição,
Freud escreveu: "Por favor, não suponha que o escárnio e as incompreen­
sões que aparecem na literatura especializada sejam um motivo de muita
preocupação de minha parte. Há dias em que a uniformidade das reações
afetam um pouco meu estado de espírito, mas nunca perco as esperanças
na percepção que por fim obtivemos." 5 4 Quando Ferenczi, ao saber que
ele não gostava de elogios, pediu desculpas por fazer algumas observa­
ções elogiosas, recebeu a seguinte resposta sucinta: "Só sou insensível à
censura, não ao reconhecimento". 55 Poucos anos depois, ao receber algu­
mas sugestões críticas que Ferenczi e eu, em conjunto, lhe enviamos no
manuscrito de seu livro sobre totemismo, ele escreveu: "Tive interesse em
observar que já não sou, como antes, inacessível aos julgamentos dos ou­
tros. De qualquer modo, quando os senhores são os críticos. " 5 6
Tudo o que acabei de dizer sobre a atitude de Freud para com a críti­
ca é verdade, mas não é de modo algum toda a verdade. Seria enganoso
retratar Freud como um modelo de calma olímpica. Diante da crítica, ele
era, geralmente, muito calmo e a derrubava com alguma boa piada ou al­
gum comentário irônico. Mas, com todo o seu autocontrole de ferro, era
mais capaz de emoções fortes do que a maioria das pessoas - e havia
certos aspectos das críticas que podiam afetá-lo profundamente. Assim,
ele se incomodava com crítica adversa ou equivocada de alguém de quem
ele gostava ou de quem tinha um bom conceito. Eis um exemplo: "Excep­
cionalmente, fiquei deprimidoi com o que Forel escreveu recentemente." 5 7
Outro exemplo foi sua depressão em virtude da defecção de Stanley Hall.
Assim, como mostra a citação de sua A utobiografia acima, ele devia achar
deprimente que seus colegas psiquiatras da Alemanha pudessem descer
até o ponto em que desceram. E ficou evidentemente chocado por encon­
trar um exemplo semelhante de maus modos nos Estados Unidos, onde
esperava um comportamento melhor. Em 4 de abril de 1912, um conheci­
do neurologista de Nova Iorque, Allen Starr, denunciara-o como um típi­
co "libertino vienense" perante a Seção Neurológica da Academia de
Medicina de Nova Iorque,5 8 e no dia seguinte o Times de Nova Iorque
relatou que Allen Starr dissera que tinha trabalhado no mesmo laboratório
que Freud todo um inverno e que, portanto, o conhecia bem, atribuindo
suas teorias à vida imoral que então levava. Apresentei as razões pelas
quais as duas primeiras afirmações não podiam ser verdadeiras, e também
não há a menor base para supor que haja alguma verdade na terceira. 5 9
A uma acusação ele parecia ser muito sensível: a idéia de que ele ti­
rava todas as suas conclusões a partir de sua consciência interna. Foi esse
o principal motivo que o levou a responder a Lõwenfeld, muitos anos an­
tes, na única resposta polêmica que ele deu a qualquer crítica. 60 Em carta
a Pfister escreveu: "Se ao menos conseguíssemos fazer nossos oponentes
compreender que todas as nossas conclusões derivam de experiências -

- 132 -
, XJJeriências que, no que me diz respeito, outros podem tentar interpretar
de outra forma - e que não são extraídas de nossos dedosk ou arranjadas
em uma escrivaninha. Isso é o que realmente todos eles pensam, lançando
uma luz peculiar, por meio de projeção, sobre a própria maneira deles de
trabalhar. " 6 1 Pode-se suspeitar que esse tipo de crítica atingia Freud por
causa de seu profundo temor ou culpa quanto ao lado imaginativo, e
mesmo especulativo, de sua natureza, que ele se esforçara tanto para su­
primir ou pelo menos controlar.
Outra área sensível era o ostracismo que ele tinha de suportar em sua
própria cidade. Com isso ele nunca se acostumava. Um dos resultados de
tal ostracismo foi tomá-lo especialmente grato ao reconhecimento no exte­
rior. Assim, certa vez ele me escreveu: "Os artigos de Putnam são exce­
lentes e seu Prefácio à 'Teoria Sexual' é muito gentil e apropriado.(. . . )
Todavia, espantou-me que as constantes depreciações que sofro aqui me
tivessem tornado tão sensível a ser conhecido por alguém ao mesmo tem­
po honesto e lúcido. É verdade que eu pensava ter mais resistência inter­
na. " 6 2
Mas o que ocasionalmente podia de fato enfurecê-lo era a hipocrisia
das soberbas pretensões éticas de alguns de seus oponentes. Ao responder
a uma carta à qual Pfister anexara as provas de uma resposta que ele es­
crevera para um ataque que Féirster lhe fizera, Freud escreveu: "Admiro o
modo como o senhor escreve, tão gentil, tão humano, tão pleno de consi­
deração, tão objetivo, muito mais para o leitor do que contra seu inimigo.
Esse é obviamente o modo correto de produzir um efeito educativo e tam­
bém é mais adequado a um homem na sua posição. Agradeço-lhe em es­
pecial por deixar minha personalidade o máximo possível no segundo pla­
no. Mas eu não poderia escrever assim; eu não escreveria de modo algum,
isto é, eu não escrevo de modo algum. Eu só poderia escrever para liber­
tar minha alma, para dar destino a meus afetos, e como isso não se revela­
ria muito edificante - daria algum prazer aos oponentes, que ficariam feli­
zes por verem minha irritação - não respondo à eles. Pense ! Um sujeito
tem desempenhado o papel de criatura ética e nobre que se volta contra as
coisas baixas e assim adquire o direito de balbuciar a maior insensatez, de
exibir sua ignorância e superficialidade, de destilar sua bile, de deturpar
tudo e de levantar todos os tipos de suspeitas. Tudo isso em nome da mais
elevada moralidade. Eu não podia manter a calma diante de tudo isso.
Mas já que não posso moderar artificialmente minha ira ou transmiti-la de
maneira agradavelmente contagiante, mantenho-me em silêncio. O que eu
nunca poderia fazer seria diminuir sua temperatura." 6 3 No entanto, logo
que se acalmava, Freud sabia perfeitamente bem que a única resposta efi­
caz era a de Darwin - e esta foi a que ele seguiu coerentemente.
Freud podia se permitir agir assim, mas a questão era diferente para
aqueles de nós cujo trabalho profissional nos colocava em inevitável

- 133 -
contato pessoal com opoo�üte:,. Nem sempre podíamos recusar convites
para ler artigos em reuniões e congressos; mesmo assim, éramos com
muita freqüência encarados como eremitas. O conselho de Freud nessas
ocasiões pode ser ilustrado com uma passagem de uma carta a Starcke,
que também ilustra a absoluta integridade de seu caráter.

"Sua tarefa no congresso holandês não será fácil. Permita que eu expresse
minha opinião de que ela poderá ser realizada de uma forma melhor do
que a que o senhor propõe. Sua idéia de convencer a sociedade, ou per­
suadi-la pela sugestão, tem duas coisas contra ela. Em primeiro lugar, ela
visa algo impossível e, em segundo, afasta-se do protótipo do tratamento
psicanalítico. Na verdade, temos de tratar os médicos da mesma maneira
como tratamos nossos pacientes; portanto, não por sugestão, mas provo­
cando suas resistências e o conflito. Além do mais, nunca se consegue
mais do que isso. Quem chegar a ultrapassar o primeiro "Não" das re­
pressões e, em seguida, o segundo e o terceiro, atingirá uma relação au­
têntica com as questões relevantes da psicanálise; o resto permanecerá
atolado nas resistências até que se modifique pela pressão indireta do
crescimento da opinião pública. Penso, portanto, que se deve ficar satis�
feito em expressar o ponto de. vista pessoal e relatar as próprias experiên­
cias de maneira tão clara e positiva quanto possível, e não se afligir muito
com as reações da platéia.
"Compilar estatísticas, como o senhor propõe, é impossível no mo­
mento. Seguramente o senhor mesmo sabe disso. Em primeiro lugar, tra­
balhamos com números muito menores do que os outros médicos, que de­
dicam um tempo muito menor aos indivíduos. Depois, não há a necessária
uniformidade que é a única base para quaisquer estatísticas. Devemos
realmente somar maçãs, pêras e nozes? O que consideramos um caso gra­
ve? Além disso, eu não poderia considerar meus próprios resultados, nes­
ses vinte anos, passíveis de comparação, uma vez que minha técnica mu­
dou fundamentalmente nesse período. E que o faríamos com os numerosos
casos que estão apenas parcialmente analisados e com os outros, em que o
tratamento teve de ser interrompido por razões externas?
"O ponto de vista terapêutico, no entanto, não é certamente o único
que a psicanálise considera de interesse, nem é o mais importante. Assim,
há muitas coisas a serem ditas sobre o assunto, mesmo que não se coloque
em primeiro plano a terapia." 6 4

- 1 34 -
NOTAS

ª É legítimo lembrar, porém, que um resquício dessa atitude ainda é reservado para
o caso de homossexualidade masculina, em especial quando envolve a sedução de
garotos.
b Ver Cap. 2, pág. 45.
e Ludwig Binswanger, psicanalista de Kreuzlingen, era seu sobrinho.
d Ver Cap. 1 1, Caso V.
e Schweinerei.

f Cap. 2.
g Hexenwahn
h V. pág. 1 32.
i Da haben wir's.
j verstimmt.
k Expressão idiomática alemã.

- 135 -
V

DISSENSÕES

E STE É UM ASSUNTO D OL OROSO E DIFÍCIL DE EXPOR; DOLOROSO


em virtude do sofrimento que as dissensões acarretaram na época e das
desagradáveis conseqüências que perduraram por muitos anof depois; di­
fícil porque é custoso transmitir seu significado interno para o mundo ex­
ternP e porque os motivos pessoais dos dissidentes ainda não podem ser
plenamente expostos. O mundo externo, de maneira absolutamente corre­
ta, procura julgar as diferenças entre as teorias de Freud e as de seus se­
guidores que se afastaram dele a partir dos méritos objetivos das respecti­
vas teorias, embora nem sempre seja bem-sucedido esse empenho louvá­
vel. Pela natureza das coisas, porém, está destinado a esquecer ou subes­
timar, um elemento essencial da situação.
A. investigação do inco11sciente, o que é uma justa definição da psica­
nálise, s6 pode ser realizada pela superação das "resist�ncias" que atuam
contra tal procedimento, como tem mostrado uma grande experiência. De
fato, como Freud obser ,ou, a psicanálise consiste em um exame dessas
resistências e das "transferências" que as acompanham - e de pouco
mais. 1 Quando as resistências são superadas, a pessoa tem um insight de
aspectos de sua personalidade em relação aos quais anteriormente estava
cega.
Contudo, poder-se-ia supor que esse é um ato realizado de uma vez
por todas, e essa foi a primeira expectativa de. Freud. Foi decepcionante
verificar que não é assim. As forças da mente não são estáticas, mas di­
nâmicas. Podem variar e deslocar-se de modo inesperado. Assim, pode
ocorrer que o insight obtido de início não seja necessariamente duradouro
e possa mais uma vez ser perdido; mostrou ter sido apenas um insight par­
cial. Somente quando as múltiplas resistências são elaboradas por com­
pleto é que o insight é de natureza duradoura.

- 136 -
Tudo isso é igualmente verdade tanto para o analista quanto para o
paciente, já que para o primeiro um insight claro e permanente é ainda
mais importante. Essa consideração é às vezes esquecida pelo público,
que com freqüência supõe que uma pessoa que pratica a análise e leu os
livros necessários sobre o assunto não estará propensa a quaisquer oscila­
ções em suas emoções pessoais e em seu insight. Os próprios analistas fo­
ram lentos para compreender isso e perceber a necessidade de uma "análi­
se didática" preliminar que esclarecesse os obstáculos presentes em toda
mente. Fui o primeiro analista a fazer uma análise didática, embora esta
fosse bem menos completa do que o que se exige hoje. O próprio Freud
foi capaz de realizar a difícil façanha de fazer uma ampla auto-análise,
mas nenhum dos outros pioneiros tinha tido grande experiência pessoal
com seu próprio inconsciente ou tinha tido apenas vislumbres. Teorica­
mente, devia ter sido possível prever a possibilidade de recaídas entre
analistas tal como estávamos familiarizados no caso de nossos pacientes,
mas as primeiras experiências do tipo foram inesperadas e surpreendentes.
Hoje ficamos menos espantados.
Quando um analista perde o insight que anteriormente tivera, a recor­
rente onda de resistência que causou a perda tende a se mostrar sob a
forma de explicações pseudocientíficas dos dados que ele tem à sua fren­
te, e isso é então dignificado com o nome de uma "nova teoria". Já que a
fonte disso está em um nível inconsciente, segue-se que a controvérsia em
um nível científico puramente consciente está fadada ao fracasso.
As "divergências" em relação à psicanálise ocorridas nos últimos
quarenta anos caracterizaram-se, todas, por dois aspectos: repúdio às des­
cobertas essenciais feitas por meio da psicanálise e exposição de uma ou­
tra teoria da mente. O último caso deve, naturalmente, ser julgado a partir
de seus méritos por psicólogos gerais e filósofos; o primeiro é o que diz
respeito especificamente aos psicanalistas.
Sendo este livro mais uma biografia do que uma discussão de dife­
renças científicas, é necessário comentar algumas considerações pessoais.
As divergências científicas em questão nem sempre se limitaram a pro­
blemas objetivos. Houve às vezes propensão a vincular diferenças de opi­
nião e de interpretação a reações pessoais ao próprio Freud. Assim, ouvi­
mos falar que esta ou aquela pessoa deixou Freud e seu círculo não ape­
nas por causa de uma diferença de opinião, mas por causa da personalida­
de tirânica de Freud e de sua insistência dogmática em que seus seguido­
res aceitassem os mesmos pontos de vista que ele. Pode-se demonstrar que
tais acusações são ridiculamente inverídicas a partir de sua correspondên­
cia, de seus textos e, acima de tudo, das lembranças dos que trabalharam
com ele. Posso citar uma passagem de uma carta escrita muitos anos de­
pois a Binswanger: 2 "Bem ao contrário de tantos outros, o senhor não
permitiu que o fato de o seu desenvolvimento intelectual estar mais e mais

- 137 -
�t a lastando de minha influência perturbasse nosso relacionamento pes­ .
soal, e o senhor não sabe como acho agradável esse comportamento de­
cente."ª
Aqueles que, como eu, permaneceram perto de Freud enquanto dis­
cordavam abertamente de várias de suas conclusões foram considerados
pessoas tímidas e dóceis, que se submeteram à autoridade do grande Pai.
Todavia, seria mais apropriado encará-los como homens que chegaram a
um acordo com seus complexos infantis e que assim podiam trabalhar em
harmonia tanto com uma geração mais velha quanto com uma mais nova,
ao passo que entre os dissidentes podem estar aqueles que ainda se sentem
obrigados a perpetuar a rebelião da infância e a continuar em busca de fi­
guras contra as quais se rebelar.
Eu diria expressamente que estas últimas observações se aplicam
muito mais a colegas que renunciaram à psicanálise nos últimos anos do
que aos três cuja dissensão será abordada a seguir. Alguns destes últimos
autores não apenas pintaram um retrato de Freud como se fosse um velho
irritável e desagradável, mas foram além: inventaram observações, atri­
bufdas a ele, tão fora de propósito que seria inteiramente impossível ele
tê-las feito. Faço uma advertência formal para não se acreditar em tudo
que possa ser publicado sobre Freud, mesmo que pretenda ser uma lem­
brança de conversa de Freud, pois grande parte é tão inverfdica que
transmite uma impressão absolutamente equivocada de sua personalidade.
Entre essas várias divergências, duas em particular chamaram a aten­
ção do público em geral; as estabelecidas por Adler e por Jung. É difícil
dizer se isso se deu em virtude de terem sido as primeiras ou de possuírem
alguma qualidade intrínseca. De qualquer modo, essas divergências foram
prontamente rotuladas como "escolas de psicanálise diferentes" e sua
existência foi amplamente explorada por todos os oponentes, leigos e pro­
fissionais, como razões para não levar a sério a psicanálise. Como podiam
levá-la a sério, insistiam, e como se podia depositar qualquer confiança
nas descobertas psicanalíticas, se seus supostos expoentes divergiam tanto
entre si, a ponto de acharem necessário estabelecer escolas diferentes? Pa­
ra os céticos e os oponentes ativos, era o repúdio das descobertas e teorias
de Freud que constituía a característica essencial das "novas teorias", e
de fato nesse julgamento talvez não estivessem muito equivocados.
Espera-se que essas observações preliminares tenham preparado o
leitor para o fato de que as dissensões referentes à psicanálise são ainda
de mais difícil resolução do que as verificadas em outros campos da ciên­
cia onde não é tão fácil continuar a reinterpretar dados em termos de al­
gum preconceito pessoal. Com essa base, podemos agora passar a consi­
derar mais friamente as histórias que tenho para apresentar.

- 138 -
Alfred Adler (1 870-1937)

A Freud desagradava muito ocupar qualquer posição proeminente, em es­


pecial se acarretasse obrigações que implicassem na direção de outras
pessoas. Eis o que comentou com Jung logo após o Congresso de Salz­
burg: "Certamente não sou apropriado para o papel de líder;b o 'esplêndi­
do isolamento' destes anos decisivos gravou-se em meu caráter. " 3 Eu
acharia difícil imaginar alguém de temperamento menos adequado para
parecer um ditador, como às vezes ele foi retratado. Mas, enquanto des­
cobridor de seus novos métodos e teorias, e com a riqueza de experiência
e conhecimento que possuía, sua posição no pequeno círculo de seguido­
res vienenses não podia deixar de ser excepcionalmente dominante. Tanto
que apenas anos depois alguém se sentiu à altura para rebelar-se contra
essa figura tão obviamente paterna. Quaisquer complexos infantis não re­
solvidos podiam encontrar expressão na rivalidade e no ciúme pela sua
predileção. Essa exigência de ser o filho favorito tinha também um im­
portante motivo material, já que a base econômica dos analistas mais no­
vos dependia em grande parte dos pacientes excedentes que Freud lhes
podia enviar. Assim, com o passar do tempo, a atmosfera tornava-se cada
vez mais desagradável. Havia maledicências, observações cáusticas, bri­
gas por prioridade em pequenas questões e assim por diante. A esse res­
peito os membros mais perturbadores eram Adler, Stekel, Sadger e Tausk.
A situação se exacerbou muito depois dos dois primeiros congressos,
nos quais ficou muito evidente a indisfarçada e talvez imprudentemente
extrema preferência pelo estrangeiro Jung. Por algum tempo, isso levou os
vienenses que discordavam a se reunirem em uma queixa comum contra
Freud. O momento decisivo ocorreu, provavelmente, quando seus antigos
ciúmes mútuos começaram a se desenvolver em rebelião contra ele. O re­
belde mais importante era, sem dúvida, Adler - e foi ele quem provocou a
primeira cisão no movimento psicanalítico.
Foi apenas parcial e temporariamente bem-sucedido o esforço de
Freud para apaziguar os vienenses descontentes, esforço que consistiu em
colocar Adler e Stekel, seus seguidores mais antigos, à frente do recém­
fundado Zentralblatt, no outono de 1910, e em dar a Adler, ao mesmo
tempo, a presidência da sociedade. Nessa época, ele tinha poucos colegas
ilustres para escolher, mas a escolha que fez certamente não foi feliz. Foi
nesse outono também que as reuniões da sociedade, que crescera muito
para as dimensões do apartamento de Freud, se transferiram para o auditó­
rio do Medizinisches Doktoren-Kollegium, que talvez levasse a uma at­
mosfera mais fria e formal. Eu mesmo observei que era muito diferente
daquilo que eu testemunhara nos primeiros anos da sociedade.
Há muitas provas a mostrar que depois da época dó Congresso de
Nuremberg, em 1910, Freud sentia a tensão das disputas e recriminações

- 139 -
de que ele era a causa involuntária. Desabafava particularmente com Fe­
renczi. Referindo-se à tensão entre Viena e Zurique, escreveu: "A falta de
tato e o comportamento desagradável de Adler e Stekel tornam difícil
continuarmos juntos. Estou cronicamente exasperado com ambos. Jung
também, agora que é presidente, podia pôr de lado sua suscetibilidade em
relação a antigos incidentes. "4 Queixava-se de que isso interferia em sua
dedicação a seus textos e prosseguia: "Estou passando por um período
atroz com Adler e Stekel. Tenho esperado que chegue a uma clara separa­
ção, mas ele se prolonga e, a despeito de minha opinião de que não há
nada a fazer a respeito, tenho de continuar trabalhando duramente. Muitas
vezes era mais agradável quando eu estava sozinho. "5 Ferenczi afirmara
que Freud estava vivendo de novo a desagradável experiência do afasta­
mento de Fliess dez anos antes, o que Freud confirmou: "Refiz-me intei­
ramente do episódio Fliess. Adler é um pequeno Fliess redivivo.e E seu
apêndice, Stekel, se chama Wilhelm. "d Depois do longo debate com Adler
na primavera seguinte, Freud queixou-se: "Sou continuamente incomoda­
do pelos dois - Max e Moritze - que estão rapidamente involuindo e que
logo acabarão por negar a existência do inconsciente. "6
Minha própria impressão de Adler era a de uma pessoa soturna e in­
tratável, cujo comportamento oscilava entre a controvérsia e o aborreci­
mento. Era evidentemente muito ambicioso e constantemente se desenten­
dia com outros por questões de prioridade de suas idéias. Todavia, quan­
do muitos anos depois o encontrei, observei que o sucesso lhe trouxera
certa benignidade, de que havia poucos sinais anos antes. No início,
Freud aparentemente o tinha em alta conta; não resta dúvida de que ele
era o membro mais vigoroso do pequeno grupo. Freud apreciou seu livro
sobre órgãos deficientes e também achava que ele tinha feito algumas
boas observações no estudo da formação do caráter. Mas a concepção de
Adler das neuroses tinha em vista apenas o lado do ego e podia ser defi­
nida essencialmente corno um quadro mal interpretado das defesas secun­
dárias contra os impulsos reprimidos e inconscientes. Além disso, toda a
sua teoria tinha urna base unilateral e muito estreita, surgindo a agressão a
partir do "protesto masculino". Os fatores sexuais, em especial os da in­
fância, eram reduzidos a um mínimo: um desejo incestuoso de um menino
de ter Íntimidade com a mãe era interpretado como o desejo masculino de
conquistar uma mulher, disfarçando-se como desejo sexual. Os conceitos
de repressão, sexualidade infantil e mesmo o do próprio inconsciente eram
descartados, de modo que pouco ficava da psicanálise.
A teoria de Adler era essencialmente urna teoria da psicologia do ego.
O modo como este pode ser manipulado e influenciado pelos processos
inconscientes, isto é, a contribuição dada pela psicanálise, era inteira­
mente negligenciado e em pouco foi inteiramente ignorado. Freud por vá-

- 140 -
rias vezes comparou o ego, tal como apresentado por Adler, ao palhaço
que reivindica ter ele próprio realizado todas as difíceis proezas do circo.
Adler nunca foi amigo íntimo de Freud, nem a história de ter sido
médico' pessoal de Freud pode ser confirmada por qualquer membro da
família; parece muito improvável.
As diferenças científicas de Adler em relação a Freud eram tão fun­
damentais que só posso me espantar, como me espantei no episódio
Fliess, diante da paciência de Freud para procurar trabalhar com ele por
tanto tempo. Adler teve duas boas idéias em termos das quais, porém, in­
terpretava tudo mais: uma tendência a compensar sentimentos de inferio­
ridade (o se ntime nt d'incomplétitude de Janet), sendo o estímulo para tal
reforçado por uma agressividade inata. Havia pouca indagação a respeito
desses sentimentos, que a investigação psicanalítica não teve grande difi­
culdade para apurar. De início Adler vinculou-os ao lado feminino dos se­
res humanos, dando à compensação subseqüente o conhecido nome de
"protesto masculino". Assim, todo conflito se verificava entre os compo­
nentes masculinos e femininos, uma concepção pansexual da mente hu­
mana que sobrepujava muito a ênfase que Freud tinha posto na sexualida­
de.f Em breve, porém, ele passou para o extremo oposto e interpretava tu­
do em termos da vontade de poder de Nietzsche. Mesmo a própria relação
sexual era motivada mais por pura agressividade do que apenas por desejo
sexual.
Freud levou a sério as idéias de Adler e examinou detidamente suas
possibilidades. Mesmo dez anos depois, quando tinha algum material cl í­
nico particularmente apropriado com que pô-las em prova, publicou uma
conscienciosa e completa crítica delas. 9 Outros membros da sociedade,
porém, eram mais veementes em sua crítica, ou mesmo demfocia, dessas
idéias; Hitschmann sugeriu que fizessem um debate exaustivo sobre o as­
sunto. As atas desse debate, incluindo as discussões,- foram guardadas e
em breve serão publicadas, mas Colby já divulgou a parte principal de­
las.1 ° As duas primeiras noites, 4 de j aneiro e 1 9 de fevereiro de 1 9 1 1, fo­
ram dedicadas a longas e xposições feitas por Adler. O primeiro artigo in­
titulava-se "Alguns Problemas da Psicanálise" e o segundo, "O Protesto
Masculino como Problema Nuclear das Neuroses". Duas outras noites, 8
e 22 de fevereiro, foram dedic�,ctas a discussões, que foram bastante fran­
cas. O próprio Freud foi impiedoso em sua ;· r!tica. Stekel apresentou sua
opinião de que não havia contradição entre as teorias de Freud e as de
Adler, ao que Freud respondeu que, infelizmente para essa posição, tanto
Adler quanto Freud pensavam que havia. Uma prova suficiente era a in­
sistência de Adler em que o complexo de Édipo era uma invenção. 1 1
Adler dissera, entre outras coisas, que, j á que segundo Freud a repressão
provém da civilização e também a civilização provém da repressão, toda
essa conversa sobre repressão não passava de um jogo de palavras. Freud

- 141 -
culdade para esclarecer essa caricatura de suas concepções, acrescentan­
do: "Sinto que os ensinamentos adlerianos são incorretos e, portanto, pe­
rigosos para o futuro desenvolvimento da psicanálise. São erros científi­
cos devidos a métodos falsos; todavia, são erros respeitáveis. Embora se
rejeite o conteúdo das concepções de Adler, pode-se reconhecer sua coe­
rência e importância."
Depois da última dessas reuniões, a 22 de fevereiro, houve uma reu­
nião do Comitê, na qual Adler e Stekel renunciaram a seus cargos de pre­
sidente e vice-presidente, respectivamente. Os outros membros da direção
também renunciaram imediatamente, tendo havido uma reunião especial
em 1 2 de março, com Hitschmann na presidência, a fim de esclarecer a
situação. Pediu-se a Freud para reassumir a presidência, com o que ele
concordou não sem alguma relutância.g Hitschmann tornou-se vice-presi­
dente e Sachs substituiu-o como bibliotecário. Rank e Steiner ficaram com
seus antigos cargos. Aprovou-se unanimemente uma resolução em que se
agradecia a Adler e Stekel seus serviços anteriores e se expressava a espe­
rança de que permanecessem na sociedade. Heller propôs uma cláusula
adicional, também aprovada, em que se afirmava que as concepções de
Adler não eram incompatíveis com a psicanálise, embora Freud mostrasse
que isso era uma crítica a Adler, na medida em que este renunciara com
base na incompatibilidade.
Adler permaneceu na sociedade por um pouco mais; seu último com­
parecimento a uma reunião foi em 24 de maio. Então, porém, Freud suge­
riu a ele que se afastasse de seu cargo de co-diretor do z.e ntralblatt e es­
creveu com a mesma finalidade ao responsável pela publicação do perió­
dico, Bergmann. 1 3 De início Adler relutou e pediu a seu advogado para
estabelecer condições que Freud considerou "reveladoras de ridículas
pretensões de natureza inteiramente inaceitável". 1 4 Ele e seus amigos
também pediram que se realizasse uma discussão em uma reunião extraor­
dinária. Todavia, afastou-se da sociedade e do z.entralblatt. 1 5 Freud, pou­
cas semanas depois, escreveu: "É muito enfadonho relatar detalhadamente
como o episódio Adler se desenrolou. Em Bozen falarei com o senhor so­
bre ele. Basta que ele esteja fora da sociedade e do z.entralblatt e que eu
esteja em bons termos com Stekel, que se mostrou coerentemente leal." 1 6
N a biografia de Adler, o autor afirma que Freud implorou a Adler pa­
ra reconsiderar sua decisão e que lhe pediu que tivessem um jantar em
particular para que pudessem buscar um campo comum. 1 7 A verdade sobre
isso é que Jekels com grande dificuldade persuadira Freud, que estava
convencido da inutilidade da sugestão, a ter um encontro à trois com
Adler e ele próprio, mas o encontro degenerou em acusações tão banais
da parte de Adler que não se chegou a resultado algum.1 8
A reação d e Adler foi explorar a situação, formando u m grupo sob a
denominação, um tanto de mau gosto, de "Sociedade de Psicanálise Li-

- 142 -
vre", com a ostensiva pretensão de que lutava pela liberdade da ciência.
Trata-se certamente de uma causa merit6ria. Provavelmente significa a li­
berdade de desenvolver qualquer investigação por quaisquer meios, de
formar quaisquer conclusões que se deseje a partir dos resultados e publi­
cá-las para o mundo. Poucos corpos científicos em qualquer parte, caso
haja algum, têm poder para interferir nessa liberdade, muito menos a mi­
núscula "Sociedade das Quartas-Feiras" de Viena. O único ponto em
questão era saber a conveniência de realizar discussões em comum quan­
do não havia concordância sobre os princípios básicos do assunto; uma
pessoa que sustenta que a terra é um plano dificilmente pode reivindicar o
direito de ser membro da Sociedade Geográfica Real e tomar todo o tem­
po dela manifestando suas opiniões. Adler chegara à conclusão correta,
renunciando. Acusar Freud de despotismo e intolerância pelo que ocorrera
tem um motivo muito 6bvio por trás para ser levado a sério.
A reunião extraordinária em questão ocorreu em 11 de outubro, no
início da nova sessão, e Freud anunciou o afastamento de Adler, Bach,
Máday e Baron Hye. O Comitê propôs que os membros decidissem a qual
das duas sociedades se filiariam, estando implícito que nenhum membro
pertenceria a ambas. Isso representava um forte desejo de uma completa
ruptura. Sachs e outros membros apoiaram a resolução, enquanto Furt­
müller fez um apaixonado pronunciamento contra. A resolução foi apro­
vada por onze votos a cinco, diante do que os adeptos de Adler remanes­
centes - Furtmüller, Franz Grüner, Gustav Grüner, Dra. Hilferding, Paul
K lemperer e Oppenheim - se afastaram da sociedade.
Merece ser lembrado que a maioria dos seguidores de Adler eram so­
cialistas, como ele pr6prio. A mulher de Adler, de nacionalidade russa,
era amiga próxima de líderes revolucionários russos; Trotsky e Joffe, por
exemplo, freqüentavam constantemente a casa dela. 1 9 Furtmüller, por sua
vez, teve ativa carreira política. Essa consideração toma mais inteligível o
fato de Adler concentrar-se mais nos aspectos sociol6gicos da consciência
do que no inconsciente reprimido.
Cerca de dois anos depois, Freud ficou sabendo que Stanley Hall
convidara Adler para fazer conferências nos Estados Unidos e comentou:
"Provavelmente, o objetivo é salvar o mundo da sexualidade e baseá-lo
na agressividade. " 2 º Os esforços de Adler nessa direção continuaram pelo
resto de sua vida, mas com sucesso limitado. Todavia, seu nome foi usado
nas numerosas tentativas de desacreditar a psicanálise.

Wilhelm Stekel (1868-1940)

Infelizmente, o alívio proporcionado pelas manifestações de lealdade por


parte de Stekel não durou muito. O dissabor que ele causou a Freud foi de
natureza diferente do acarretado por Adler. Stekel era muito diferente de

- 143 -
Adler. Não tinha nada da lentidão deste e, longe de ser absorvido apenas
pela teoria, tinha muito pouco interesse por ela. Era acima de tudo prático
e empírico, mas a diferença mais importante entre ele e Adler era que ele
tinha pronto acesso ao inconsciente, ao passo que Adler tinha tão pouco
que logo passou a não acreditar em sua existência. Stekel era um psicólo­
go naturalmente dotado, com inusitado faro para detectar material repri­
mido, e suas contribuições para nosso conhecimento do simbolismo, cam­
po em que tinha mais gênio intuitivo do que Freud, foram de considerável
valor nos primeiros estágios da psicanálise. . Freud admitiu isso franca­
mente. Afirmou que com freqüência contradissera a interpretação que
Stekel dera a determinado símbolo apenas para descobrir em estudo sub­
seqüente que Stekel estava certo da primeira vez. 2 1 Infelizmente, esses
talentos se acompanhavam de uma inusitada incapacidade de julgamento.
Stekel não tinha qualquer capacidade crítica e, uma vez afastado da disci­
plina imposta pelo trabalho em comum com colegas, sua intuição degene­
rou em um desordenado trabalho de suposições. Uma parte podia ser
perspicaz, grande parte obviamente não era e não havia nada confiável.
Na primavera de 1 9 1 1, publicou um alentado volume sobre sonhos. 2 2
Continha muitas idéias boas e brilhantes, mas muitas bastante confusas.
Freud considerou-:o "ofensivo para nós, a despeito das novas contribui­
ções que fornece". 23 Ferenczi estigmatizou-o como "vergonhoso e deso­
nesto" . Quando propôs que se pedisse a Putnam para resenhá-lo, Freud
lhe disse que ele próprio devia fazê-lo: "Pedimos tanto a Putnam que não
podemos, possivelmente, esperar que ele trate de nossa própria roupa su­
ja". 24 Na verdade, Putnam tinha formado sua própria opinião sobre o livro
e o classificou de "frívolo e desprezível" . 25 A verdade era que Stekel, um
escritor fluente ainda que descuidado, era um j ornalista nato no sentido
pejorativo, alguém para quem o efeito produzido era muito mais impor­
tante que as verdades comunicadas, e de fato ganhava em parte a vida es­
crevendo regularmente folhetins para a imprensa local.
A dificuldade de Freud para dar-se bem com Stekel residia não no
campo científico, onde Stekel produzia muitas especulações, ainda que
nenhuma teoria séria de sua responsabilidade, mas no campo do compor­
tamento pessoal, assunto que, como ele disse, não se prestava a apresen­
tação impressa. 26 Wittels lamentou esse comentário, pois "o leitor podia
imaginar que em uma das noites de quarta-feira ele tivesse sido apanhado
roubando colheres", 2 7 mas seus delitos eram bem diferentes. No fundo,
Stekel era, como Freud admitia, 28 uma boa pessoa e, como posso confir­
mar, um companheiro muito agradável. Ao contrário de Adler, era sempre
alegre, cordial e muito divertido. Certa vez Freud disse a respeito dele pa­
ra Hitschmann: "É apenas um fanfarrão, mas mesmo assim gosto dele". h2 9
Stekel tinha, porém, uma séria falha em seu caráter que o tornava
inadequado para trabalho no campo acadêmico: não tinha qualquer cons-

- 144 -
ciência científica. Assim, ninguém dava muito crédito às experiências que
ele relatava. Era seu costume, por exemplo, iniciar a discussão sobre
qualquer que fosse o assunto surgido no dia com a seguinte observação:
"Exatamente esta manhã vi um caso desse tipo", de modo que se tornou
proverbial o "paciente da quarta-feira" de Stekel.
Vale a pena registrar dois dos pronunciamentos de Stekel nas reu­
niões da sociedade, os quais causaram muita hilaridade. Quando lhe per­
guntaram como podia provar a verdade de alguma asserção surpreendente,
ele proclamou : "Estou aqui para descobrir coisas; outras pessoas podem
prová-las, se o quiserem". Em ocasião semelhante, quando o assunto se
referia ao corpo, ele anunciou sua intenção de comprar alguns porqui­
nhos-da- índia para alguém provar a verdade de sua asserção fazendo ex­
periências com os animais. Naturalmente, a expressão "porquinhos-da-ín­
dia de Stekel" tornou-se sinônimo de "prova".
-
Em um artigo que escreveu sobre a importância psicológica que os
sobrenomes das pessoas têm para elas, mesmo na escolha de uma carreira
e outros interesses, Stekel citou grande número de pacientes cujos nomes
haviam influenciado profundamente suas vidas. Quando Freud lhe per­
guntou como pôde publicar os nomes de tantos de seus pacientes, ele res­
pondeu com um sorriso tranqüilizador: "São todos inventados" , fato que
de alguma forma depreciava o valor comprobatório do materia!_i Freud re­
cusou-se a deixar que fosse publicado no Zentralblatt de modo que Ste­
kel teve de publicá-lo em outro órgão. 3-,
Talvez o que mais incomodasse Freud fosse o hábito que Stekel tinha
de citar, nas reuniões da sociedade, episódios e tendências de sua própria
vida que Freud sabia, por ter sido seu analista, serem inteiramente inverí­
dicos. E Stekel ainda olhava desafiadoramente para Freud, como que o
desafiando a quebrar o sigilo profissional e contradizê-lo. Certa vez per­
guntei a Freud se ele encarava um "ideal do ego" como atributo universal
e ele me respondeu com uma expressão perplexa: "O senhor acha que
Stekel tem um ideal do ego?"
Muito já se disse para mostrar que Stekel era um editor insatisfatório
de um periódico sério e que, para um homem com o bom gosto literário e
a integridade científica de Freud, só podia ser extremamente cansativo
trabalhar com um colaborador desse tipo. Mas o que acarretou a ruptura
foi algo mais indireto. Por alguma razão, Stekel e Tausk se odiavam e na
última reunião da sessão 1 9 1 1 - 1 9 1 2 (30 de maio de 19 1 2) houve entre
eles uma cena horrível. 32 Embora certa vez o tivesse considerado um "a­
nimal selvagem", Freud tinha em alta conta a capacidade de Tausk e nes­
sa ocasião queria que ele supervisionasse o setor de resenhas do Zentral­
blatt, que vinha sendo tristemente negligenciado. (Aliás, as únicas rese­
nhas que o próprio Freud escreveu para o periódico foram sobre um livro
popular de Neutra 33 e sobre um livro chileno. 3 4 ) Stekel imediatamente se

- 145 -
exaltou e declarou que não permitiria que uma umca linha da caneta de
Tausk aparecesse no seu Zentralblatt. 3 5 Freud lembrou a ele que se trata­
va do órgão oficial da Associação Internacional e que essas exigências
pessoais estavam fora de lugar. Mas Stekel estava em seu pedestal e não
queria ceder. Seu sucesso no campo do simbolismo o fez sentir que tinha
sobrepujado Freud. Gostava de expressar essa estima de si próprio, de
forma algo modesta, dizendo que um anão no ombro de um gigante podia
ver mais longe que o próprio gigante. Quando Freud ouviu isso, comentou
impiedosamente: "Isso pode ser verdade, mas não no caso de um piolho
na cabeça de um astrônomo."
Freud escreveu a Bergmann, responsável pela publicação, pedindo­
lhe que o editor fosse substituído. Contudo, Stekel também escreveu, e o
perplexo Bergmann respondeu que as coisas deveriam permanecer como
estavam até o fim do volume em questão, depois do que pretendia deixar
de publicar o periódicó. 3 6 Perguntei a Freud por que ele não exercia seu
direito como diretor de indicar outro editor, para o que ele teria tido todo
apoio. A desculpa que me deu foi a de que Stekel ti'µha muita influência
junto a Bergmann, mas é possível que ele tenha prefefido afastar-se a ter
uma luta aberta. Env�ou uma circular pedindo a todo� nós que retirásse­
mos nossos nomes do Zentralblatt; o que quase todos , fizemos, e conse­
guiu que Jung convocasse uma reunião de todos os presidentes disponí­
veis das sodedades filiadas, bem como dos dirigentes da Associação In­
ternacional, para expor-lhes toda a questão. Nesse ínterim, foi anunciado,
na reunião de 6 de novembro, o afastamento de Stekel da Sociedade de
Viena.
Reunimo-nos em Munique, a 24 de novembro de 1912, um domingo,
e, naturalmente, prometemos de bom grado nosso apoio a Freud. Assim, o
Zentralblatt foi deixado nas mãos de Stekel, mas a venda foi tão pouca
que mais ou menos um ano depois deixou de ser publicado. Em seu lugar
surgiu a Internationale Zeitschrift fü.r Psychoanalyse, sob a editaria de
Ferenczi, Rank e eu. A publicação sobreviveu à Primeira Guerra Mundial,
mas não à Segunda.
Escrevendo a Abraham, Freud disse: "Fico muito satisfeito por Stekel
agora estar seguindo seu caminho. O senhor não pode imaginar como so­
fri com o trabalho de ter de defendê-lo contra o mundo todo. É uma pes­
soa insuportável. "3 7 Muitos anos depois Freud referiu-se a ele, em uma
carta, como um caso de "insanidade moral". 3 8

C. G. Jung (1 876- )
A reação de Freud ao afastamento de Adler e Stekel foi puramente de alí­
vio das dificuldades e dissabores. No caso de Jung, a questão foi bem di­
ferente. A ruptura foi muito mais importante, tanto pessoal quanto cienti-

- 146 -
ficamente. O que Adler tinha a oferecer era tão superficial e mesmo banal
que raramente podia e.,ercer qualquer atração para pesquisadores sérios.
Ele simplesmente ignorava os métodos e descobertas da psicanálise, de
modo que era apenas uma questão de tempo para que a pretensão de uma
"escola rival" se tornasse por demais cediça para ser sustentada. Jung,
por outro lado, começou com um conhecimento de psicanálise muito mais
amplo do que o que Adler tinha e o que ele oferecia ao mundo era uma
explicação alternativa de pelo menos algumas das descobertas da psicaná­
lise. Sua capacidade intelectual e: a amplitude de sua bagagem cultural
transcendiam de muito as condições de Adler, de modo que em qualquer
circunstância ele tinha de ser levado mu ito mais a sério.
De 1906 a 1910, Jung dava a imp�essão de ser um adepto não apenas
sincero mas entusiasta do trabalho e das tt:orias de Freud. esse período
apenas um olho muito arguto poderia ter percebido quaisquer sinais da
futura brecha, e o próprio Freud tinha os mais fortes motivos para fazer
vista grossa para eles. A impressão que Jung causou no Congresso de
Salzburg, em abril de 1908, não foi inteiramente satisfatória. Foi decep­
cionante seu artigo sobre demência precoce, no qual ignorava as suges­
tões que Freud lhe fizera sobre o .assuntoi e as substituía pela idéia hipo­
tética de uma "toxina psíquica" que prejudicava o cérebro. Jung, recen­
temente, me escrevera que tinha descoberto que os mecanismos freudianos
eram comuns tanto ao normal quanto ao anormal, de modo que a essência
da "doença" só podia estar em algum pequeno distúrbio cerebral orgâni­
co, concepção com que eu não podia concordar. 3 9 Mas as suspeitas que
nessa época os vienenses tinham em relação a ele provavelmente tinham
fontes mais subjetivas do que objetivas. Abraham, que trabalhara sob a
orientação de Jung por alguns anos, já tinha ficado desconcertado com o
que considerou tendência para o ocultismo, a astrologia e o misticismo em
Zurique, mas sua crítica não causou impacto em Freud, que alimentava
grandes esperanças em relação a Jung. "Eu não gostaria de partilhar seu
diagnóstico desfavorável quanto à colaboração com Burghõlzli. A inter­
rupção das reuniões da sociedade aí, é verdade, também me chocou; não
sei se é definitiva. Concordo com o senhor quanto a Bleuler. Ele me cau­
sou uma impressão estranha em Salzburg; a situação não pode ser agradá­
vel para ele. Concordo com sua descrição do caráter dele. Mas o caso de
Jung é diferente. Temos vínculos pessoais, nos quais confio, e ele me es­
creveu sobre o chefe dele nos mesmos termos que o senhor. Além do
mais, dificilmente ele agora pode voltar atrás; não pode desmanchar seu
passado, mesmo que quisesse, e o Jahrbuch que ele edita é um laço in­
quebrantável. Espero que ele não tenha intenção de separar-se de mim e
que o senhor não veja acertadamente a partir das motivações de uma com­
petição que o senhor ainda não superou. " 4 0
Era visível que havia uma certa antipatia, de ambos os lados, entre

- 147 -
Viena e Zurique, mas todos esperávamos que fosse atenuada por nossos
interesses comuns. Nessa época Jung era muito cortês comigo pessoal­
mente e tínhamos uma intensa correspondência, que guardei. Acolheu
bem minha idéia nitidamente prematura de iniciar em Londres, em 1907,
uma sociedade freudiana semelhante à de Zurique e também minha su­
gestão, para a qual eu já tinha convencido Henri Flournoy e Claparede, de
Genebra, de fundar um periódico psicanalítico internacional em três lín­
guas. 4 1 No mês anterior, tínhamos discutido em Zurique a viabilidade de
realizar um congresso internacional.
Na visita a Worcester em 1909, Jung me surpreendeu ao dizer que
achava desnecessário entrar em detalhes de temas ofensivos com seus pa­
cientes; era desagradável quando depois os encontrava em um jantar so­
cial. Bastava mencionar superficialmente tais questões e os pacientes
compreenderiam sem que se usasse uma linguagem direta. Isso me pare­
ceu muito diferente do modo inflexível como vínhamos lidando com as­
suntos muito sérios; mas esta é a primeira vez que menciono a observa­
ção, apesar da profunda impressão que me causou. É interessante - como
Ira Progoff aponta em A Psicologia de Jung e seu Significado Social, pu­
blicado em 1953 - que o próprio Jung tenha dado essa visita aos Estados
Unidos como a data de sua primeira dissensão com a obra de Freud, em­
bora Freud só a percebesse alguns anos depois. No entanto, cerca de três
anos mais tarde, ficamos sabendo por Oberholzer que essa idéia de não
entrar em detalhes tornara-se parte regular dos ensinamentos de Jung. 4 2
Eu gostaria de confrontá-la com a seguinte passagem inflexível que Freud
escreveu pouco depois a Pfister, ao comentar sua análise do Conde von
Zinzendorf. "Sua análise sofre da fraqueza hereditária da virtude. É o tra­
balho de um homem excessivamente decente, que se sente obrigado a ser
discreto. Mas essas questões psicanalíticas precisam de plena exposição
para torná-las compreensíveis, assim como uma análise real só pode avan­
çar quando se desce a pequenos detalhes a partir das abstrações que os re­
cobrem. A discrição é, portanto, incompatível com uma boa apresentação
da psicanálise. É preciso tornar-se uma pessoa má, violar as regras, sacri­
ficar-se, trair e comportar-se como o artista que compra tintas com as eco­
nomias domésticas da mulher ou que queima os móveis para aquecer a
sala para seu modelo. Sem um pouco dessa criminalidade não há realiza­
ção verdadeira. " 4 3
Jung tocara uma nota diferente poucos meses antes: "Evidentemente,
seremos, aos poucos, afastados dos cientistas oficiais. Não se pode espe­
rar qualquer contato. Contudo, a juventude e o futuro nos pertencem, de
modo que caminharemos adiante." 4 4 No entanto, ele já estava preocupado
com o perigo de se dar ênfase aos fatores sexuais. "Não deveríamos colo­
car a teoria da sexualidade em primeiro plano. Tenho muitas idéias sobre
isso, especialmente sobre os aspectos éticos da questão. Acredito que ao

- 148 -
anunciar publicamente certas coisas nós serraríamos o galho em que a ci­
vilização repousa; solapamos o impulso para a sublimação. ( .. . ) A atitude
extrema representada por Gross é decididamente errada e perigosa para
todo o movimento. ( ... ) Tanto com os estudantes quanto com os pacientes
continuo a não dar proeminência ao tema da sexualidade. " 4 5
Em 1 9 19, houve a visita conjunta aos Estados Unidos, onde os três
amigos se deram muito bem.k Em março de 1 9 1 0, Jung foi a Chicago para
uma junta médica, mas ficou apenas sete dias nos Estados Unidos, retor­
nando a tempo de presidir, no dia 30, o Congresso de Nuremberg. Logo a
seguir tirou férias e junto com sua mulher visitou Freud, em Viena, no dia
1 9 de abril. Como relatamos, esse congresso se revelou o ponto de partida
dos piores problemas de Freud com os vienenses, mas com Jung ele ainda
tinha relações excelentes. Em agosto, e screveu: "Ontem recebi uma carta
de Jung que mostrou estar ele no melhor de sua forma e em plena posse
dessas qualidades que justificaram sua eleição. " 4 6 No final do ano, Freud
foi a Munique para conversar com B leuler. O encontro parece ter sido
muito bem-sucedido. "Cheguei a um total entendimento com ele e alcan­
cei um bom relacionamento pessoal. No fim das contas, ele é apenas um
pobre diabo como nós e necessitado de um pouco de amor, fato que talvez
tenha sido negligenciado em certos c írculos que são importantes para ele.
É quase certo que ele ingressará na Sociedade de Zurique e então a divi­
são aí será remediada. No dia seguinte à partida dele , estive com Jung.
Ele estava magnífico e me fez muito bem. Abri meu coração para ele, so­
bre o caso Adler, minhas próprias dificuldades e minha preocupação
quanto ao que fazer com a questão da telepatia.(. .. ) Estou mais convenci­
do do que nunca de que ele é o homem do futuro. Suas próprias investi­
gações levaram-no longe no campo da mitologia, que ele quer abrir com a
chave da teoria da libido. Por mais agradável que tudo isso seja, eu, no
entanto, solicitei que ele voltasse a tempo às neuroses. Aí está a terra na­
tal onde temos primeiro de fortalecer nosso domínio contra tudo e to­
dos. " 4 7 A última observação é característica da atitude de Freud. Inte­
ressado como ele próprio era pela história da humanidade , e desejoso às
vezes de dedicar-se aos tais estudos, reconhecia que esses outros campos
eram o que chamava de "colônias" da psicanálise, não a terra natal. Eu
próprio nessa época trabalhava muito no campo da mitologia, e ele me di­
rigiu a mesma advertência que dirigira a Jung. 48
Em 1 9 1 1 , de início as coisas iam bem. Jung estava fazendo outra vi­
sita à América do Norte, o que levou Freud a exprimir seu pesar de que o
"Príncipe Herdeiro" estivesse tanto tempo fora de seu país. 49 Jung convi­
dou-me para ficar com ele antes de ir para o Congresso de Weimar, o que
L infelizmente não pude fazer. 5 0 No outono, Freud ficou intrigado com uma
carta de Frau Jung a Ferenczi, expressando a esperança de que Freud não
estivesse ·aborrecido com seu marido. 51 Não havia bases concretas para is-

- 1 49 -
so na época, mas possivelmente ela estava começando a sentir tendências
divergentes nas concepções do marido, as quais não se podia esperar que
agradassem a Freud.

Os cinco anos felizes chegaram então ao fim, e no início de 19 12 as nu­


vens começaram a escurecer. Nesse ano Freud foi forçado a ver que suas
esperanças no · constante companheirismo de Jung estavam destinadas à
decepção e que Jung caminhava em uma direção que podia terminar em
separação tanto pessoal quanto científica. Os dois anos seguintes foram
tomados por suas preocupações sobre como enfrentar essa nova situação.
Acabara dei passar por dois anos penosos por causa de Adler e Stekel e ti­
nha então à sua frente quase outros três anos ainda mais_penosos.
O pano de fundo dessa mudança não pode �er inteiramente irrelevan­
te. Nos últimos dois anos as recriminações contra as teorias sexuais de
Freud vinham se difundindo também na ,-S uíça, onde não podiam deixar de
acarretar dificuldades práticas e morais para os analistas suíços. Na im­
prensa di:'.íria começaram a aparecer artigos que denunciavam a iniqüidade
proveniente de Viena e expressavam a esperança de que não corrompes­
sem os sQíços de espírito puro. 52 Isso porque uma peculiaridade notável
dos suíços é o vínculo estreito que subsiste entre eles; muito poucos es­
trangeiros conseguiram tornar-se suíços. Há poucas partes do mundo civi­
l izado ond.e seja mais difícil para uma pessoa manter-se à parte dos pa­
drões morais predominantes na comunidade do que na Suíça. Assim, os
analistas suíços logo tiveram sérios contratempos, de que dão amplo tes­
temunho as cartas de Pfister a Freud. De qualquer modo, temos de regis­
trar o fato de que err. üOis anos todos os analistas suíços, com duas ou três
cx.eeções, renunciaram a seus "erros" e abandonaram as teorias sexuais
oo Freud.
Muito mais importantes, p')rém, foram vários fatores pessoais. Jung
certamente esteve muito mais profundamente envolvido, em termos emo­
cionais, no relacionamento com Freud do que este com Jung, a despeito
de sua afeição por ele e de sua admiração por suas qualidades. Como com
freqüência ocorre em tais circunstâncias, foi o membro mais instável da
parceria que primeiro sentiu necessidade de retirar-se, e no último ano, ou
nos dois últimos anos, havia sinais de que isso vinha ocorrendo. Jung ti­
vera uma predileção pelos estudos arqueológicos e ainda em 1898 estivera
interessado por todos os ramos do ocultismo. Pelo final de 1909, anunciou
sua intenção de mergulhar em profundos estudos de mitologia, que ele le­
varia alguns anos para completar. Admitiu que lhe seria difícil trabalhar
ao lado do pioneiro nesse campo. Freud foi compreensivo em relação ao
plano, mas aconselhou Jung a se concentrar em algum tema determinado e
não vagar difusamente por todo o campo, conselho que infelizmente Jung
não seguiu. De início, Jung estava certo de que o impúlso para o incesto e

- 150 -
o medo dele revelariam ser a chave para todos os problemas da mitologia,
mas não muito depois emitiu vagas advertências de que talvez algo sur­
preendente resultasse de seus estudos e havia indícios de que isso se rela­
cionava com o conceito da libido.
Freud não levou muito a sério tais indícios. O que mais o afetou em
1 9 1 0, e em maior medida em 1 9 1 1 , foi a verificação de que a intensa ab­
sorção de Jung em suas pesquisas estava interferindo gravemente nos en­
cargos presidenciais que ele lhe atribuíra. Tinha pensado em Jung como
seu sucessor direto e o tinha retratado, além de continuador das contribui­
ções à psicanálise que ele já fizera, como um foco central para todas as
atividades psicanalíticas. Ele seria o elemento de ligação entre as várias
sociedades, aconselhando e auxiliando sempre que necessário e supervi­
sionando o variado trabalho administrativo dos congressos, o trabalho
editorial, etc. Freud, desse modo, seria aliviado da posição central ativa,
para a qual tinha propensão. Infelizmente, Jung também não tinha essa
propensão. Jung dizia, muitas vezes, que era por natureza um herético,
sendo por isso que fora atraído para a obra muito herética de Freud. Mas
trabalhava melhor sozinho e não tinha nada do talento especial exigido
para trabalho em colaboração ou de supervisão com outros colegas. Tam­
bém não tinha muito gosto por trabalhos administrativos, como corres­
pondência regular. Em suma, era inadequado para a posição que Freud
planejara para ele, de presidente da Associação e líder do movimento.
Os desejos mais pessoais de Freud também não seriam satisfeitos por
muito mais tempo. Jung sempre foi um correspondente algo irregular; sua
absorção em suas pesquisas tomavam-no cada vez mais relapso nesse as­
pecto. Era uma questão a que Freud sempre foi muito sensível. Ele não
apenas gostava de receber cartas e escrever profusamente, mas qualquer
atraso no recebimento de uma resposta podia provocar vários temores, de
doença, acidente, etc. A presente situação deve ter-lhe recordado - na
verdade, ele disse isso a Jung pouco depois - o mesmo curso de aconte­
cimentos com Fliess, quando o primeiro sinal do esfriamento de Fliess em
relação a ele foi sua demora em responder às cartas de Freud. Assim, teve
de enfrentar a dolorosa conclusão de que se aproximava do fim esse pe­
ríodo em que desfrutara de um contato afetuoso, pessoal, regular e har­
monioso com um companheiro de trabalho de que ele gostava muito. De­
cidiu, muito sensatamente, conformar-se com o inevitável, tendo sido
inúteis uns poucos protestos moderados: diminuir suas expectativas e reti­
rar uma parcela de seu sentimento pessoal anterior. E um psicólogo como
era Freud não podia ter se tranqüilizado com o hábito de Jung de, vez ou
outra, como já mesmo em 1 909, jurar que nunca o abandonaria como fize­
ra Fliess ou, depois, como Adler fizera; isso apenas lembrava muito Lady
Macbeth.

- 151 -
Freud nunca falou dessas questões antes do final de 1 9 1 1, quando
começou a dar a Ferenczi indícios de sua insatisfação com a conduta de
Jung. Todavia, mal se passara um ano desde que ele lhe dissera, confi­
dencialmente, que mais do que nunca estava convencido de que Jung era
o homem do futuro. 5 1
O famoso ensaio de Jung sobre "Símbolos da Libido", publicado de­
pois sob a forma de livro, apareceu em duas partes/' foi na segunda parte
que se tornou manifesta sua divergência das teorias de Freud. Este leu um
rascunho da primeira parte em junho de 1 9 1 0 e enviou a Jung várias pági­
nas de críticas e sugestões juntamente com algumas observações elogio­
sas. Mas Frau Jung observou que, quando Freud esteve com eles no ve­
rão, pareceu muito reservado em relação ao assunto. Evidentemente, ele
não nutria entusiasmo pelo ensaio. Este apareceu em julho de 1 9 1 1 .
E m maio d e 1 9 1 1 , Jung disse a Freud que encarava o termo "libido"
apenas como uma designação de tensão geral . Trocaram algumas cartas
sobre isso, mas em novembro ele anunciou que estava "ampliando" o
conceito de libido. Nesse mesmo mês, sua mulher escreveu a Freud ex­
pressando seu temor de que Freud não gostasse do que seu marido estava
escrevendo na segunda parte do ensaio. Essa era a parte em que a idéia de
incesto não seria mais tomada literalmente, mas como "símbolo" de idéias
mais elevadas. Outras divergências, como a crença em "tendências pros­
pectivas" e a necessidade de "psico-síntese", datavam de 1909. Li as
provas tipográficas dessa segunda parte do ensaio na casa de Seif e enviei
um relato completo dela a Freud em setembro de 1 9 1 2. Isso o deixou an­
sioso por lê-la, de modo que encomendou um exemplar do Jahrbuch, on­
de foi publicada, e escreveu-me que podia dizer exatamente a página em
que Jung se equivocava (pág. 1 74); tendo descoberto que havia perdido
maior interesse. 55 Não é minha intenção, porém, expor aqui as questões
técnicas das diferenças científicas entre Freud e Jung. São, em geral, bem
conhecidas e o leitor pode remeter-se aos comentários sobre o trabalho de
Jung que à época Abraham, Ferenczi e eu publicamos na Zeitschrift5 6 ou,
melhor ainda, a um livro recente de Edward Glover, que também trata de
trabalhos posteriores de Jung. 5 7

O ano de 1 9 1 2 foi decisivo na separação pessoal entre Freud e Jung. Nes­


se ano, três episódios contribu íram para a dissolução final do relaciona­
mento pessoal. O primeiro deles foi a visita de Freud, em Pentecostes, a
Binswanger, em Kreuzlingen, perto de Constança. Freud há muito pro­
metera essa visita em retribuição às visitas de Binswanger a Viena, mas a
razão para a presente visita foi uma perigosa operação deste último,
ameaçado de morte precoce, o que felizmente não ocorreu. O sentimento
de amizade de Freud era tal que não se furtou a duas longas e cansativas
jornadas para dar algum prazer a Binswanger. Em virtude da doença de

- 1 52 -
sua filha, até o último momento não estava certo de que poderia ir, mas
numa quinta-feira, 23 de maio, escreveu a Binswanger e a Jung dizendo
que estava de partida no dia seguinte. Tendo apenas 48 horas para a visi­
ta, não se propôs empreender a continuação da viagem para Zurique, mas
supôs que Jung aproveitaria a oportunidade para encontrá-los em Kreu­
_l-
zlingen. Esteve aí de meio-dia de sábado até meio-dia de segunda-feira.
Para sua surpresa e desapontamento, não houve notícias de Jung.
No mês seguinte, e por várias vezes depois, Jung fez comentários
sarcásticos, em cartas a Freud, sobre "compreender seu gesto de Kreu­
zlingen" , frase que deixou Freud completamente intrigado e que ele só
conseguiu elucidar seis meses depois.
Um sinal da degeneração do relacionamento foi a mudança de Freud
em sua maneira de encabeçar as cartas. Junho desse ano foi a última vez
em que escreveu "Lieber Freund" ; depois disso, voltou ao formal "Lie­
ber Herr Doktor" .
O acontecimento seguinte foi a série de conferências de Jung em No­
va Iorque no mês de setembro, convite que ele aceitara em março ao preço
de adiar o congresso para o ano seguinte. Informações provenientes de
Nova Iorque davam conta de sua atitude antagônica em relação às teorias
de Freud e mesmo a Freud pessoalmente, que era apresentado como pes­
soa ultrapassada, cujos erros Jung agora estava em condições de expor.
Em maio desse ano, Jung já dissera a Freud que, em sua opinião, os de­
sejos incestuosos não deviam ser tomados literalmente, mas como símbo­
los de outras tendências ; eram apenas uma fantasia para ustentar a moral.
A seguir houve um silêncio completo por cinco semanas . 5 � Freud disse a
Abraham que sua antiga predição sobre Jung , a que na época ele se recu­
sara a dar ouvidos, estava se tornando verdade, mas que ele próprio não
desejava provocar uma ruptura. 5 9 Quando voltou da América do Norte,
Jung enviou a Freud um longo relato de suas experiências e sobre como
ele fora bem-sucedido em tornar a psicanálise mais aceitável, mediante a
exclusão dos temas sexuais. Ao que Freud respondeu secamente que não
via nada de arguto nisso; tudo o que se tinha a fazer era excluir mais coi­
sas e ela se tornaria ainda mais aceitável. 60 No mês de junho anterior, dis­
sera a Jung que as diferenças entre eles em questões de teoria não preci­
savam perturbar suas relações pessoais, 6 1 mas estas se deterioravam de
maneira evidente mês a mês. Em setembro Freud expressou a opinião de
que não havia grande perigo de uma separação, mas que os antigos senti­
mentos pessoais não podiam ser restaurados. 62
O terceiro e decisivo acontecimento foi o encontro dos dois em Mu­
nique em novembro, o último com exceção do que houve no congresso do
ano seguinte na mesma cidade. Jung convocara uma reunião de colegas
eminentes para decidir formalmente o plano de deixar o Zentralblatt para
Stekel e fundar uma nova Zeitschrift em seu lugar. Além de nós três esta-

- 1 53 -
vam presentes Abraham, Ophuijsen (su,bstituindo Maeder), Riklin e Seif.
Eu estava passando o . mês em Florença, onde meu endereço seria desco­
berto com facilidade, mas Jung enviou a notificação da reunião para a ca­
sa de meu pai, em Gales, e também deu a data errada: 25 de novembro,
em vez de 24 de novembro. Nesse ínterim, tomei conhecimento da data
certa por informação proveniente de Viena e assim cheguei a tempo. A
expressão de espanto no rosto de Jung revelou-me que o engano pertencia
à classe das chamadas "parapraxias", mas quando falei a Freud do lapso
inconsciente de Jung, ele me respondeu: "Um cavalheiro não deveria fa­
zer tais coisas mesmo inconscientemente." Menciono o pequeno incidente
em virtude de sua relação com o que se · seguiu. Na reunião, às nove ho­
ras, Jung propôs que o plano de Freud de mudar os periódicos fosse
aceito sem discussão, mas Freud preferiu fazer primeiro uma exposição de
suas dificuldades com Stekel e das razões de seu ato. Todos concordaram
amigavelmente com os passos que ele propôs, e a reunião se encerrou an­
tes das onze.
Freud e Jung então fizeram uma caminhada durante as duas horas que
antecediam o almoço. Essa era a oportunidade para decifrar o misterioso
"gesto de Kreuzlingen". Jung explicou que não pudera superar seu res­
sentimento por Freud tê-lo notificado de sua visita aí em maio dois dias
depois; recebera a carta de Freud na segunda-feira, dia em que Freud es­
tava voltando para Viena. Freud concordou que isso teria sido uma ação
baixa de sua parte, mas esta_va certo de ter postado as duas cartas, para
Binswanger e para Jung, ao mesmo tempo na quinta-feira anterior. Então
Jung subitamente se lembrou de que estivera fora por dois dias nesse fim
de semana. Freud naturalmente lhe perguntou por que não olhara o carim­
bo do correio ou )Jão perguntara a sua mulher quando a carta tinha chega­
do, antes de lançar suas censuras; seu ressentimento devia, evidentemente,
provir de outra fonte, e ele procurara agarrar-se a uma desculpa sem con­
sistência para justificá-lo. Jung se mostrou extremamente arrependido e
admitiu os traços difíceis de seu caráter. Mas Freud também tinha o que
desabafar e não lhe poupou uma boa reprimenda paterna. Jung aceitou to­
das as críticas e prometeu corrigir-se.
Freud estava de muito bom humor no almoço, sem dúvida exultante
por vencer Jung mais uma vez. Houve uma pequena discussão sobre o re­
cente artigo de Abraham sobre o faraó egípcio Amenófis, com algumas di­
ferenças de opinião, e então Freud começou a criticar os suíços por suas
recentes publicações em Zurique, nas quais sua obra e mesmo seu nome
estavam sendo ignorados. Já relatei esse episódio, inclusive o desmaio, e
não preciso repeti-lo aqui, mas tenho algo a acrescentar à interpretação
que então forneci. 63 Ferenczi, ao saber do incidente, lembrou a Freud um
incidente semelhante que ocorrera em Bremen, quando os três estavam
planejando a viagem aos Estados Unidos em 1909. 64 Tal como agora,

- 154 -
Freud tinha obtido uma pequena vitória sobre Jung. Este fora educado na
fanática tradição antialcoólica de Burghõlzli (Forel, Bleuler, etc.), e Freud
fez o que pôde para demovê-lo pelo ridículo. Conseguiu mudar a atitude
anterior de Jung quanto ao álcool - aliás, com sérios efeitos posteriores
para as relações entre Jung e Bleuler - mas a seguir caiu desmaiado.1 Fe­
renczi via tão longe que se perguntou antecipadamente se isso não se re­
petiria com Freud em Munique, predição que foi confirmada pelo_ aconte­
cimento. Em sua resposta, Freud, que nesse ínterim analisara sua reação
de desmaio, expressou a opinião que todos os seus desmaios podiam ser
ligados ao efeito que tivera sobre ele, quando ele tinha um ano e sete me­
ses, a morte de seu irmãozinho. 6 5 Parecia, portanto, que Freud era um ca­
so leve do tipo que ele definiu como "aqueles que são arrasados pelo su­
cesso" - · no caso, o sucesso em de:r;rotar um adversário -, e o exemplo
mais antigo era seu bem-sucedido desejo de morte contra seu irmãozinho
Julius. Nesse contexto, lembramos o curioso ataque de ofuscação que
Freud sofreu na Acrópole em 1904 e que aos 81 anos analisou e relacio­
nou com o fato de ter satisfeito o desejo proibido de superar seu pai. 66 De .
fato, o próprio Freud mencionou a semelhanç::i entre essa experiência e
o tipo de reação que estamos considerando.
Uma confirmação da interpretação que Freud fez de seus desmaios
está no fato de que em ambas as ocasiões acabara de haver uma discussão
sobre o assunto dos desejos de morte e em ambas as ocasiões Jung o re­
provara por dar muita importância a eles. Em Bremen, Jung estivera dis­
correndo longamente sobre a importância de alguns cemitérios pré-históri­
cos que haviam sido descobertos nas vizinhanças. Freud ficou impaciente
e por fim afirmou que o fato de Jung continuar com o tema devia indicar a
atuação de alguns desejos de morte inconscim tes. Jung refutou isso com
veemência e afirmou que Freud estava muito propenso a fazer essas inter­
pretações. Em Munique, durante a discussão do ensaio de Abraham sobre
Amenófis, no qual Abraham relacionava a revolução do faraó egípcio com
uma profunda hostilidade por seu pai, Jung protestou, dizendo que estava
se dando excessiva importância ao fato de Amenófis apagar o nome e as
inscrições de seu pai em todos os lugares em que eram encontradas;
quaisquer desses desejos de morte eram insignificantes em comparação
com o grande feito de estabelecer o monoteísmo.
Ferenczi, otimistamente, esperava que então tudo estaria bem nas re­
lações com Zurique, 6 7 mas Freud não tinha essa ilusão. É verdade que, ao
se despedir, Jung mais uma vez assegurou-lhe sua lealdade e que ao re­
tornar a Zurique escreveu uma humilde carta expressando novamente seu
grande arrependimento e desejo de mudar. Mas na semana seguinte algo -
cuja natureza podemos apenas adivinhar - ocorreu em Zurique, já que
veio uma carta para a qual a palavra " insolente" seria uma designação le­
ve. Depois de tratarem de algumas questões administrativas, ocorreu outra

- 155 -
crise, a final, no relacionamento pessoal. Freud, algum tempo antes, havia
mostrado a Jung que sua concepção do complexo de incesto como algo
artificial mostrava alguma semelhança com a concepção de Adler de que
ele era "arranjado" internamente para cobrir outros impulsos de natureza
diferente. Outros também comentaram a semelhança, e Jung se ressentiu
da implicação de ter qualquer ligação com Adler, que, de fato, aparente­
mente ele não tinha; achou a comparação uma "pílula amarga" . Escreveu
então iradamente a Freud dizendo que "nem mesmo os companheiros de
Adler pensam que pertenço ao grupo do senhor", sendo isso um lapso da
escrita para "grupo deles" _ m Como ele vinha insistindo que sua atitude
quanto a suas novas idéias era puramente objetiva, Freud não pôde resistir
a, incautamente, lhe perguntar se ele era suficientemente objetivo para di­
zer sua opinião a respeito de seu lapso da escrita. Com um homem da sus­
cetibilidade de Jung, isso significava procurar problemas; na volta do cor­
reio veio uma resposta explosiva e muito insolente sobre a "neurose" de
Freud. 68 Este nos disse que se sentiu humilhado ao ser tratado desse modo
e que não conseguia decidir em que tom responder. Escreveu uma carta
em tom suave, mas nunca a enviou. Duas semanas depois, porém, quando
escrevia sobre uma questão administrativa, 6 9 propôs que deviam interrom­
per sua correspondência pessoal, com o que Jung concordou de imediato.
Continuaram a trocar correspondência sobre questões administrativas e
mesmo sobre alguns assuntos científicos por mais alguns meses, mas
mesmo esta cessou após a desagradável experiência do congresso de
1 9 1 3.

Tudo isso criou uma situação bastante incômoda. Jung ainda era presi­
dente da Associação Psicanalítica Internacional e editor do Jahrbuch .
Ainda tinha a função de manter j untas as várias sociedades e constituir
novas sociedades. A cooperação em um campo de trabalho necessaria­
mente emocional está longe de ser fácil nas épocas mais propícias; assim,
era desalentador imaginá-la na desagradável atmosfera que então predo­
minava. Além do mais, a crescente divergência entre o novo ponto de
vista de Jung e o de Freud chegava a tal ponto e era tão fundamental que
começamos a indagar o que havia de comum no trabalho científico dos
dois grupos, que para abreviar poderíamos chamar o vienense e o suíço, e
por quanto tempo mais poderia ter sentido qualquer tipo de colaboração.
Freud logo se refez quanto à perda da amizade pessoal de Jung, ape­
sar de tê-la apreciado por vários anos, e voltou-se para outros amigos, em
especial Ferenczi. Mas censurou-se por seu j u ízo errôneo em relação à
personalidade de Jung e nos disse que depois de verificar que era capaz
de cometer tal erro, o melhor que tinha a fazer era deixar para nós, isto é,
o "Comitê" , a escolha do próximo presidente. 7 0 Mas sua trajetória futura
parecia-lhe muito obscura. Não havia maneira de dizer por quanto tempo

- 1 56 -
se sustentaria o frágil relacionamento oficial com Jung, nem qual era a
melhor atitude a tomar quanto ao problema como um todo. Uma coisa, po­
rém, era clara para Freud. Ele faria tudo o que pudesse para evitar uma
briga aberta e sobretudo qualquer "cena" com que nossos opositores se
rejubilassem. Isso era ditado não apenas por considerações políticas, mas
em especial pela grande aversão de Freud pelas brigas pessoais.
Ao anunciar a Ferenczi o rompimento de relações pessoais com Jung,
Freud acrescentou: "Penso que não há esperanças de retificação dos erros
do pessoal de Zurique e acredito que em dois ou três anos estaremos nos
deslocando em duas direções inteiramente diferentes sem compreensão
mútua. ( . . . ) O melhor modo de precaver-se contra qualquer amargura é
uma atitude de não esperar nada, isto é, o pior. Recomendo-a ao senhor.
Cumpriremos nosso destino dando continuidade a nosso trabalho tão tran­
qüilos em relação ao barulho quanto o ourives de Éfeso. " 1 1
Na primavera de 1 9 1 3 , havia incerteza a respeito do que ocorreria no
próximo congresso e se a Associação Internacional sobreviveria à divisão.
Ao exprimir sua ansiedade , Freud escreveu: "Naturalmente, tudo que pro­
cura afastar-nos de nossas verdades encontrará aprovação entre o público
em geral. É bem possível que desta vez consigam realmente sepultar-nos,
depois de tantos hinos fúnebres entoados sobre nós em vão. Isso mudará
muito nosso destino pessoal, mas nada o da Ciência. Temos a verdade ;
estou tão certo disso quanto há quinze anos .n Quando fones vier, pensa­
remos em como nos defender. Os senhores terão muito mais a ver com is­
so do que eu, pois nunca tomei parte em polêmicas. Meu hábito é repudiar
em silêncio e continuar meu caminho. " 7 2
Maedar escreveu a Ferenczi que as diferenças científicas entre os
vienenses e os suíços resultavam de os primeiros serem judeus e os últi­
mos "arianos" . Freud aconselhou Ferenczi a responder nos seguintes ter­
mos : "Certamente há grandes diferenças entre o espíritoº judeu e o aria­
no. Podemos observar isso diariamente. Daí haveria seguramente, aqui e
ali, diferenças de ponto de vista sobre a vida e a arte . Mas não deveria
haver algo como ciência ariana ou judia. Os resultados na ciência devem
ser idênticos, embora a apresentação deles possa variar. Se essas diferen­
ças se refletem na apreensão das relações objetivas da ciência, algo deve
estar errado." 7 3
Em nossas discussões preliminares sobre o próximo congresso, todos
concordamos que nosso objetivo deveria ser o de manter a colaboração
com os suíços e fazer tudo para evitar um rompimento. Fizemos questão
de ficar no mesmo hotel que os suíços para evitar a impressão de relações
tensas. 74 Em agosto Freud escreveu a Ferenczi: "Tenho receio de que de­
pois de tudo passemos a nos dar pior [com os suíços] do que está em nos­
sa intenção. Mas. obedeceremos a essas intenções na medida do possí­
vel. " 7 5 Relatei anteriormente o desenrolar desse desagradável congresso

- 157 -
em Munique, em setembro de 1913, quando 2/5 dos presentes se abstive­
ram de votar a favor da reeleição de Jung. P Depois dele, restaram apenas
formalidades.
Jung escreveu a Ferenczi reprovando-o por não apoiar sua candidatu­
ra à presidência no congresso e Ferenczi respondeu com sua característica
incisividade: "É inteiramente inverídico quando o senhor atribui nossa
atitude à reação de Freud às suas 'próprias concepções científicas.' Tanto
não é este o caso que apesar de nossas profundas diferenças decidíramos,
de acordo com a própria sugestão de Freud, votar novamente a favor do
senhor para presidente. Foram apenas a maneira absolutamente imprópria
como o senhor, enquanto presidente do congresso, tratou as sugestões por
nós apresentadas, os comentários inteiramente unilaterais e parciais que o
senhor fez sobre todos os artigos lidos e também o comportamento pessoal
de seu grupo, que nos levaram a protestar por meio de voto em branco. " 7 6
Em outubro, Freud relatava em uma conferência que Breuer se afasta->
ra dele por causa de sua relutância em aceitar a etiologia sexual das neu­
roses e pela primeira vez ocorreu-lhe a analogia com a situação presen­
te. 7 7
Jung, em outubro, escreveu a Freud dizendo que tomara conheci­
mento , por intermédio de Maeder, de que Freud colocava em dúvida sua
"bona fides" . Renunciou, então; à editaria do Jahrbuch e anunciou que
não era mais possível qualquer colaboração com Freud. 7 8 Essa foi a última
carta. Freud estava temeroso de qu� Jung mantivesse o co�trole do Jahr­
buch e ficou tão aliviado quando chegou a um arranjo satisfatório com o
responsável pela publicação, Deuticke, que me enviou um telegrama
triunfante. 7 9 Mais ou menos na mesma época, Jung escreveu-me dizendo
que a situação era "absolutamente irremediável", o que infelizmente não
era mais do que a verdade.
Havia então apenas a questão técnica da forma que a separação deve­
_ria tomar oficialmente. Ferenczi propôs um plano extremado, que obteve a
aprovação de Freud. Os grupos de Viena, Berlim e Budapeste solicitariam
a Jung a dissolução da Associação Internacional e eu levaria as socieda- .
des britânica e americana ao mesmo gesto. Apontei os inconvenientes
desse plano. Jung ainda não havia reconhecido a Sociedade Britânica, de
modo que ela não podia agir, e era extremamente improvável que os ame­
ricanos tomassem a atitude planejada. Brill era a única pessoa em contato
com a situação européia e o� restantes não veriam razão para esse passo
extremo. Além do mais, se Jung recusasse a dissolução, teríamos de nos
afastar e ele ficaria no poder. Eu não via razão para uma ação precipitada
sem maiores entendimentos. 80 Abraham também fazia críticas ao plano.
Freud de imediato me telegrafou: "Acabo de receber carta. Excelente. Te­
rá efeito moderador e será logo enviada a nossos amigos. Abraham se ma­
nifesta de modo semelhante." Na carta seguinte escreveu: "Como o se-

- 158 -
nhor vê, seu conselho e o de Abraham nos persuadiram. Só pedi uma reu­
nião por ter incertezas nessas questões políticas. Ferenczi era a pessoa ar­
rebatada, mas também está cedendo. Não queremos perder qualquer posi­
ção por motivos afetivos." 8 1
Todos nos encontramos em Viena no Natal e concordamos em esperar
os acontecimentos.
Em abril de 1914, afastou-se inesperadamente Jung do cargo de pre­
sidente, provavelmente em resposta ao que Ferenczi chamou de "restri­
ção" das resenhas adversas na 'Zeitschrift. Decidimos por unanimidade
que Abraham deveria ficar como presidente interino até o congresso se­
guinte, que ocorreria em setembro em Dresden. 82 Eu disse a Freud que
"nossa política .fabiana fora justificada." 8 3 Pouco antes da eclosão da
guerra, Jung anunciou sua saída da Associação Internacional e ficamos
sabendo que nenhum dos suíços se propunha a comparecer ao congres­
so. 84 Isso parece ter sido uma reação ao polêmico ensaioq de Freud pu­
blicado em junho e que Ferenczi qualificou de "bomba". 8 5
Freud não tinha ilusão quanto ao malefício que a defecção de Jung
traria para a psicanálise. Em uma carta a mim dirigida, escreveu: "Pode
ser que superestimemos Jung e seus feitos futuros. Ele não está em posi­
ção favorável perante o público quando se volta contra mim: isto é, seu
passado. Mas seu juízo geral sobre a questão é semelhante ao do senhor.
Não espero sucesso imediato, mas luta constante. Quem quer que prometa
à humanidade libertação da provação do sexo será aclamado como herói,
mesmo que fale os absurdos que escolher. " 8 6 A predição de Freud veio a
se mostrar correta. Já em janeiro de 1914 a conversão de Jung foi saudada
pelo British Medical Journal como "um retorno a uma visão mais sensata
da vida". Até hoje se fala de Jung em certos meios como o homem que
limpou as doutrinas de Freud de sua obscena preocupação com assuntos
sexuais. Os psicólogos gerais e outros aproveitaram com satisfação a
oportunidade para proclamar que, como havia três ''escolas de psicanáli­
se" - Freud, Adler e Jung -que não chegavam a acordo entre si quanto a
seus próprios dados, não havia necessidade de ninguém mais levar o as­
sunto a sério; ele se compunha de incertezas.
Foi a última consideração, a de que supostamente havia vários tipos
conflitantes de psicanálise, que impeliu Freud a defender o título para seu
trabalho escrevendo a polêmica "História do Movimento Psicanalítico"r
em janeiro e fevereiro de 1914. Aí ele afirmou que, melhor do que nin­
guém, tinha o direito de saber o que era psicanálise e quais eram seus
métodos característicos e teorias que a distinguiam de outros ramos da
psicologia. Nos últimos anos esse direito tem sido cada vez mais ampla­
mente atribuído a Freud.

-159 -
NOTAS

ª wie sehr eine solche Feinheit einem Menschen wohl tut.

b !eh tauge gewiss nicht zum Chef


e Redivivo.

d Prenome de Fliess.

e Os dois meninos malcomportados de Die bosen Buben, de Wilhelm Busch.

f Na verdade, Freud pensou nessa idéia quinze anos antes e a pôs de lado depois de
testá - la cuidadosamente em seus casos.ª

g A memória de Stekel estava equivocada quando disse que ele sucedeu a Adler
nessa função, embora ele possa ter ocupado a presidência na reunião intermediá­
ria. 1 2

h "Er ist nur ein Trompeter und doch hab' ich ihn lieb".

Naturalmente, Stekel fornece um relato diferente em sua A utobiografia. 3 0

Ver Cap. 2, pág. 60.


k Ver Cap. 2.
1 Ver Cap. 2, pág. 68.

m Esse tipo de lapso é muito fácil em alemão: tem-se apenas de escrever uma
maiúscula em lugar da minúscula inicial em "ihrer" .

n Data da redação de A Interpretação dos Sonhos.


0 Geist.
P Cap. 3, pág. 84.
q Ver adiante.

r Ver pág. 159.

- 160 -
VI

O COMITÊ

.
FIQUEI ANGUSTIADO COM AS TRÊS DEFECÇÕES NARRADAS NO CA­
p!tulo anterior e previ a probabilidade de outras no futuro.ª As duas pri­
meiras defecções (Adler e Stekel) tinham sido muito desagradáveis e era
perturbador ouvir de Freud, em julho de 1912, que suas relações com
Jung estavam começando a ficar tensas. Nesse mês, enquanto Freud esta­
va em Karlsbad, eu estava em Viena e conversei com Ferenczi sobre a ·
situação. Ele observou, com propriedade, que o plano ideal seria a pre­
sença, em diferentes centros ou países, de vários homens que tivessem si­
do analisados completamente por Freud em pessoa. Contudo, parecia não
haver perspectivas para isso, de modo que propus que, nesse ínterirn, for­
mássemos um pequeno grupo de analistas dignos de confiança, como uma
espécie de "Velha Guarda" em torno de Freud. O grupo daria a ele a se­
gurança que só poderia ser dada por um corpo estável de amigos firmes, e
poderíamos prestar auxílio prático respondendo a críticas, fornecendo-lhe
a literatura necessária, exemplos r,ara sua obra retirados de nossa própria
experiência, etc. Assumiríamos entre nós apenas uma obrigação definida,
ou seja, se um de nós desejasse afastar-se de algum dos princípios fu nda­
mentais da teoria psicanalítica - por exemplo, o conceito de repressão, de
inconsciente, de sexualidade infantil, etc. -, prometeria não fazê-lo publi­
camente _ antes de primeiro discutir seus pontos de vista com os restantes.
Toda a idéia de um grupo corno este tinha, naturalmente, sua pré-história
em minha mente: histórias dos paladinos de Carlos Magno em minha in­
fância e várias sociedades secretas sobre as quais eu havia lido.
Ferenczi concordou entusiasticamente com minha sugestão e a seguir
expusemos a questão a Otto Rank; também escrevi a Freud sobre ela. 1
Rank, naturalmente, concordou, mas na conversa ocorreu um curioso epi­
sódio que ficou em minha mente. Ferenczi, com sua habitual franqueza,

- 161 -
perguntou a Rank se ele pensava que permaneceria leal à psicanálise.
Pensei comigo que se tratava de umá pergunta ofensiva para ser feita a al­
guém tão dedicado como então era Rank, tendo ele ficado um pouco em­
baraçado para encontrar uma resposta adequada. Menciono o episódio
agora por causa da estranha coincidência de que os dois foram, anos de­
pois, os únicos que não permaneceram fiéis ao nosso compromisso de
consulta mútua. Mas Ferenczi devia estar em um estado de espírito mais
apreensivo e desconfiado do que eu percebi, pois poucos dias depois es­
crevia a Freud nestes termos: "Raramente ficou tão clara para mim como
agora a vantagem psicológica que significa ter nascido judeu e ter sido
poupado na infância de todos os disparates atávicos. É bem possível que
Putnam também nos abandone; o senhor deve manter Jones constante­
mente sob suas vistas e eliminar sua linha de retirada. "2 No entanto, al­
guns meses depois sentiu que podia assegurar a Freud que "Jones e Abra­
ham são inflexivelmente firmes". 3
Depois falei com Sachs, meu mais antigo e mais chegado amigo em
Viena, e logo depois Ferenczi e Rank entraram em contato com Abraham
durante uma visita a Berlim. 4 Por uma observação em carta a mim dirigida
seis meses mais tarde pode-se ver que Freud nos deixou inteiramente à
vontade e não se imiscuiu em nossos arranjos: "Abraham esteve aqui du­
rante três dias. Não estou informado sobre até que ponto Rank foi bem­
sucedido em conseguir que ele aderisse a nosso bando. " 5
Freud estava entusiasmado e respondeu de imediato minha carta. "O
que logo tomou conta de minha imaginação foi sua idéia de um conselho
secreto composto dos melhores e mais dignos de confiança dos nossos
homens para cuidar do desenvolvimento da psicanálise quando eu não
existir mais.( . . . ) Sei que há também um elemento infantil e talvez românti­
co nessa concepção, mas talvez ele pudesse ser adaptado para ir ao en­
contro das necessidades da realidade. Darei livre curso à minha fantasia e
deixarei para o senhor o papel de censor.
"Ouso afirmar que a vida e a morte me seriam mais fáceis se eu sou­
besse da existência dessa associação para velar por minha criação.
"Em primeiro lugar: Esse comitê teria de ser estritamente secreto em
sua existência e em suas ações. Podia ser composto pelo senhor, Ferenczi
e Rank, entre os quais a idéia nasceu. Sachs, em quem minha confiança é
ilimitada apesar do nosso pouco conhecimento, e A braham odiam ser
chamados a seguir, mas apenas com a condição de que todos vocês con­
sentissem. O melhor para mim é ser deixado fora de suas condições e
compromissos: para estar certo de que guardarei o mais profundo segredo
e serei grato por tudo o que me comunicarem. Não me pronunciarei sobre
a questão antes que me responda, nem mesmo a Ferenczi. Seja o que o
tempo vindouro trouxer, o futuro mestre do movimento psicanalítico po­
derá sair desse círculo pequeno mas seleto, no qual ainda estou pronto a

-162 -
confiar, apesar de minhas últimas decepções com os homens. Esse plano
seria outro motivo para minha ida a Londres. "b 6
O sempre esperançoso Freud saudou a formação desse grupo com
alegria. Um ano depois escreveu a Abraham: "O senhor não sabe a ale­
griac que me proporciona a colaboração com meu trabalho por parte des­
sas cinco pessoas. " 7
Em outubro de 1919, Freud propôs Max Eitingon como sexto membro
do Comitê, ficando este completo. Substituía Anton von Freund, cuja
doença e subseqüente morte impediram-no de tornar-se membro. O Co­
mitê começou a atuar antes da guerra, mas foi depois da guerra que adqui­
riu sua plena importância para Freud, em termos administrativos, científi­
cos e, acima de tudo, pessoais. Na carta em que anunciava a Eitingon que
este se tornaria membro, escreveu: "O segredo desse Comitê é que ele ti­
rou de cima de mim o enorme peso da preocupação com o futuro, de mo­
do que posso tranqüilamente seguir minha trajetória até o fim."ª Em outra
carta ao mesmo, escreveu: "A preocupação que me acabrunha quanto ao
futuro, posso transmiti-la melhor ao senhor geneticamente. Vem da época
em que a psicanálise dependia apenas de mim e em que eu me sentia
muito apreensivo a respeito do que a turba humana iria fazer dela quando
eu já não mais estivesse vivo. Em 1912, quando vimos um exemplo dessas
possibilidades, o Comitê foi formado e assumiu a tarefa da continuação
segundo as linhas corretas. Desde então, tenho me sentido mais sereno e
r... despreocupado quanto à duração de minha vida. " 9
No verão seguinte, o Comitê reuniu-se pela primeira vez com todos
presentes. Em 25 de maio de 1913, Freud comemorou o acontecimento
presenteando cada um de nós com um entalhe grego antigo de sua cole­
ção, que a seguir adaptamos a um anel de ouro. O próprio Freud por
muito tempo usou um anel desse tipo, com um entalhe greco-romano com
a cabeça de Júpiter, e quando cerca de sete anos depois Eitingon também
recebeu um, passou a haver os "Sete Anéis"
·
do· título do capítulo do livro
de Sachs. 1 0
Como fundador, foi-me atribuído o encargo de atuar como presidente
do Comitê, do que continuei a desincumbir-me durante a maior parte de
sua existência.
Freud, ao longo de toda a sua vida, teve muitos amigos não ligados à
psicanálise, tendo todos eles, ao que me consta, permanecido fiéis a ele.
Teve três amigos próximos que compartilharam de seu trabalho científico,
Breuer, Fliess e Jung, e os três se afastaram dele. Fomos os últimos que
ele veio a fazer. Dos cinco membros anteriores à guerra, era fácil dizer
como as afeições de Freud se distribuíam. Ferenczi vinha facilmente em
primeiro lugar, depois Abraham, eu, Rank e Sachs, nesta ordem. Posso
. também mencionar nossas idades. Ferenczi era o mais velho, tendo nasci­
do em 1873; Abraham, 1877; eu, 1879; Sachs, 1881; Rank, 1885. Rank

-163 -
foi o primeiro a conhecer Freud, em 1 906, Abraham em 1907, Ferenczi e
eu em 1 908, e Sachs em 191 0 (embora tenha freqüentado suas conferên­
cias muitos anos antes).
Por muitos anos Freud manteve uma correspondência regular e exten­
sa com aqueles de nós que não estavam em Viena e ambas as partes dela
foram preservadas. Ao lê-la por completo (várias vezes !), muitos pontos
nos chamam a atenção. Um deles é que Freud não mencionava com fre­
qüência os outros amigos em suas cartas; é como se cada relacionamento
fosse distinto e pessoal. Tampouco repetia qualquer notícia nos mesmos
termos; era apresentada a partir de ângulos diferentes. As cartas de Freud,
como sua fala e seus textos, tinham sempre algo que as distinguia; nunca
empregava uma expressão óbvia. No apêndice deste volume poderão ser
vistas algumas das cartas mais características de Freud dirigidas a cada
um dos correspondentes.
O conteúdo das cartas também difere muito mais do que seria de es­
perar. Mesmo os temas científicos que discutia eram apresentados de for­
ma diferente em cada caso. Falo, a seguir, das diferenças no conteúdo das
cartas.
As cartas que escreveu a sua noiva e a Fliess, nos primeiros anos, ex­
pressavam, entre outras coisas; a necessidade de aliviar tensões internas.
Nenhuma de suas cartas, em sua vida posterior, apresentam esse caráter.
Os sentimentos nela expostos dizem respeito essencialmente aos destinatá­
rios. Embora ele certamente gostasse de escrever-lhes, e desse modo
mantinha contato mais próximo, era nas necessidades deles que ele estava
essencialmente pensando e em como ele podia melhor ajudar seus amigos.
As cartas a Ferenczi eram de longe as mais pessoais. Havia, é verda­
de, uma parte de discussão científica e da parte de Freud alguns interes­
santes conselhos técnicos. Enviavam pacientes, um para o outro, cujos ca­
sos tinham naturalmente de ser discutidos. Havia ainda .planos para férias
juntos ou para visitas mútuas. Os comentários científicos eram com fre­
qüência de caráter bastante especulativo sobre vários temas que nunca
chegaram a ser impressos e que, portanto, são de especial interesse para
um biógrafo. Mas havia dois temas principais que ocuparam grande parte
de toda a correspondência, de mais interesse para um estudioso da perso­
nalidade de Ferenczi do que para um da de Freud. Um era a constante
discussão dos problemas domésticos pessoais de Ferenczi, que eram muito
complicados, mas que pouco nos interessam. Basta dizer que ele levou
dezoito anos para decidir-se a casar com a mulher que escolhera, passo
para o qual Freud muito contribuiu. Não que Freud se permitisse instar
com qualquer outra pessoa para que tomasse alguma decisão particular,
que deveria ser apenas da própria pessoa. Mas Freud entrava na conside­
ração das dificuldades dele da melhor maneira paternal. Sentia-se tão pa­
ternal em relação a Ferenczi que não apenas desejou que se casasse com

- 164 -
sua filha como às vezes de fato se dirigia a ele como "Meu querido fi­
lho". Esforçou-se muito para que Ferenczi vencesse suas dificuldades
neuróticas e para ensinar-lhe a enfrentar a vida a um ponto que nunca se
sentiu impelido com seus próprios filhos. Incentivou Ferenczi a analisar
seu forte "complexo fraterno" e o advertiu quanto a sua antipatia por
"estranhos". Nisso teve grande sucesso, e durante os vários anos em que
esteve sob sua influência Ferenczi mostrou-se um excelente irmão e um
amigo com quem era fácil conviver. O segundo tema principal da corres­
pondência era o relato detalhado e monotonamente tedioso de uma hipo­
condria inusitadamente grave que sempre afligiu Ferenczi. Freud revelou
profunda paciência ao examinar detidamc nte esses detalhes, rindo dos te­
mores que Ferenczi tinha de uma doença orgânica e incentivando-o em
seus esforços de auto-análise. Ferenczi era excelente analista, saindo-se
muito bem ao se analisar. Mas tinha a infeliz peculiaridade de não se be­
neficiar adequadamente da auto-análise, que sempre permanecia num pla­
no muito intelectual, com freqüência brilhantemente intelectual. Tanto ele
quanto Freud aprenderam muitas coisas de importância geral a partir des­
ses esforços.
A correspondência com Abraham era totalmente diferente. O tom era
invariavelmente gentil, mas muito menos pessoal. O conteúdo científico
era objetivo e é o mais valioso de todas as correspondências. A atitude de
Abraham era a de um aluno muito superior que podia discutir questões de
modo sério e não emocional. Estava aprendendo, mas não hesitava em di­
zer quando ainda não estava em condições de confirmar este ou aquele
ponto a partir de sua própria experiência. Freud deve ter tido uma opinião
mais elevada das capacidades intelectuais de Abraham do que de qualquer
dos outros, e em minha opinião com justiça (eu era apenas inteligente !).
Ele, portanto, acolhia com prazer acima de tudo as confirmações prove­
nientes de Abraham. Não que estas viessem sempre imediatamente, como
acontecia com alguns dos outros. Abraham certa vez comentou comigo
que quando Freud produzia uma nova teoria, custava-lhe algum tempo as­
similá-la e nunca ficava satisfeito até que pudesse relacioná-la com o tema
central, o complexo de Édipo. Não que raciocinasse lentamente, mas não
tinha o poder de adivinhação de Ferenczi, rápido como um relâmpago.
As cartas de Freud a mim dirigidas também eram diferentes. Eram
gentis, até mesmo afetuosas, e elogiavam minha atividade. Grande parte
compunha-se de relatos de um tratamento, que ele estava realizando, de
um caso muito difícil, com uma mistura de sintomas orgânicos e mentais,
o de uma senhora que eu conhecia. Havia vários comentários, com fre­
qüência divertidos, sobre os extensos relatos que eu lhe enviava sobre o
progresso nos Estados Unidos e na Inglaterra. Não fazia sempre exposi­
ções voluntárias de novas teorias, mas respondia plenamente as numerosas
perguntas técnicas que eu lhe fazia. Todavia, nas cartas a todos nós sem-

- 1 65 -
pre havia notícias sobre o que estava escrevendo no momento, sobre pu­
blicações, novas edições, dificuldades com editores, etc.
A personalidade de Freud, como a de qualquer outra pessoa, não po­
de ser estudada in vacuo, mas apenas em seus relacionamentos com outras
pessoas e para isso é preciso conhecer algo das outras pessoas também.
Como o grupo em questão significava muito para Freud, mesmo em seu
início, é desejável que se diga algo sobre seus membros, não tanto com
respeito a suas atividades científicas, cujos resultados estão incorporados
à literatura psicanalítica, mas sobretudo em termos pessoais. É sempre
uma tarefa delicada falar dos próprios amigos, mas tentarei desempenhá-la
com fidelidade, de acordo com os ideais que me propus em toda a biogra­
fia.
Ferenczi - para usar o nome que ele e sua família adotaram em lugar
do sobrenome original, Fraenkel - era o membro mais velho do grupo, o
membro mais brilhante e o mais próximo de Freud. Portanto, devemos
considerá-lo em primeiro lugar. Já falei alguma coisa sobre sua história
passada e sobre como ele se aproximou de Freud.d Sobre o lado mais obs­
curo de sua vida, a que aludimos acima, sabíamos pouco até muitos anos
depois, quando já não podia mais ser ocultado. Até então era um segredo
compartilhado apenas com Freud. O que víamos era o líder e amigo ra­
diante, benevolente e inspirador. Tinha um grande encanto para os ho­
mens, embora o tivesse menos para as mulheres. Tinha uma personalidade
viva e cativante e uma natureza generosa. Tinha um entusiasmo e uma de­
voção que ele, por sua vez, esperava e despertava nas outras pessoas. Era
um analista altamente dotado, com notável faro para adivinhar as mani­
festações do inconsciente. Era, acima de tudo, um estimulante conferen­
cista e professor. Perante uma platéia, mesmo que de uma pessoa, sua
imaginação funcionava da melhor forma possível e todos os temas flores­
ciam e se desenvoiviam em direções bastante amplas. Tinha urna imagina­
ção audaciosa que rapidamente o levava para além dos limites do conhe­
cido. Sua natureza era de tal forma sincera e franca que ele era extraordi­
nariamente propenso a cometer lapsos, da fala ou outros "atos sintomáti­
cos", de maneira auto-reveladora, os quais ele então analisava alegre­
mente em público. Entre nós, era chamado, por essa razão, de "Rei da Pa­
raprática" .
Ferenczi durante anos foi a figura central da Associação Psicanalítica
Internacional. Citarei um trecho da comunicação que dirigi a um congres­
so posterior, a qual dará urna idéia do que ele significava. "Meu primeiro
pensamento ao abrir este congressoe e se refere, inevitavelmente, à dolo­
rosa circunstância de que pela primeira vez em nossa história de 26 anos
não ternos entre nós o fundador de nossa Associação. Custa muito conce­
ber um congresso psicanalítico sem Ferenczi. Mesmo nos últimos anos,
quando eram inequívocos os sinais de sua penosa doença, ele era a pró-

- 166 -
pria vida de todos os congressos. Quando era sua vez de fazer uma alocu­
ção, a sala sempre estava lotada e ele nunca desapontava sua platéia. Não
preciso lembrar-lhes a inesquecível vivacidade de seu pronunciamento,
seu estilo inspirado, nem o aspecto caracteristicamente franco e auto-re­
velador de seu discurso. Sua personalidade irradiava seu interesse por seu
trabalho, bem como seu entusiasmo por ele. Estava sempre à inteira dis­
posição de quem quer que julgasse poder ajudar."
Contudo, como todos os outros seres humanos, tinha suas fraquezas.
A única que nos era aparente era sua falta de juízo crítico. Ele propunha
projetos visionários, geralmente idealistas, sem pensar muito em sua via­
bilidade, mas quando seus colegas o traziam de volta à terra ele aceitava
isso afavelmente. Duas outras características, das quais então pouco sa­
bíamos, estavam provavelmente inter-relacionadas. Ele tinha uma insaciá­
vel ecessidade de ser amado e quando anos depois essa necessidade se
deparou com a inevitável frustração ele recuou sob tensão. Então, talvez
como encobrimento para seu excessivo amor pelos outros e para o desejo
de ser amad' por eles, adquirira uma aparência algo dura em certas situa­
ções, que tendia a degenerar-se em uma atitude autoritária ou mesmo do­
I minadora. Isso se tornou mais manifesto nos últimos anos.
Ferenczi, com sua natureza abertamente infantil, suas dificuldades
internas e suas soltas fantasias, exercia grande atração sobre Freud. Ele
era, de várias formas, um homem conforme ao gosto de Freud. Uma ima­
ginação ousada e sem limites sempre empolgou Freud . Ela o prendera no
caso de Fliess, anos antes, e em alguma medida no de Jung. Tratava-se de
uma parte integrante de sua própria natureza a que ele raramente cedeu as
rédeas, já que fora subjugada por uma veia cética, inteiramente ausente
em Ferenczi, e um juízo muito mais equilibrado do que o que seu amigo
possuía. No entanto, a visão dessa imaginação incontida nos outros era
algo a que Freud raramente podia resistir -e os dois devem ter tido mo­
mentos agradáveis juntos, quando não havia platéia a fazer críticas.
Quando isso ocorria, sempre havia o risco de seu juízo cético natural ce­
der à sedução da especulação, como certamente ocorria no caso de Fliess
e provavelmente, em certa medida, no de Ferenczi. Tratava-se de um lado
de sua natureza que às vezes ele me mostrava depois de meia-noite, quan­
do descansávamos após o tempo despendido em discussões mais sóbrias.
Às vezes isso me chocava um pouco, como sem dúvida chocava a Abra­
ham, pois éramos pessoas sempre próximas à realidade.
Abraham certamente era o membro mais normal do grupo. No estudo
biográfico que escrevi após sua morte, tracei um amplo esboço de seu ca­
ráter e de suas realizações, e a ela o leitor pode se remeter. 1 1 Dentro do
presente contexto, seus atributos distintivos eram firmeza, bom senso,
perspicácia e perfeito autocontrole. Por mais tumultuada ou difícil que
fosse a situação, ele sempre conservava sua inabalável calma. Abraham

- 1 67 -
nunca empreendia nada irrefletido ou incerto; éramos ele e eu - que em
geral concordávamos um com o outro - que fornecíamos o elemento de
juízo em nossas decisões. Ele era, não direi exatamente o mais reservado, .
mas o menos expansivo de nós. Não tinha nada do modo de ser fulgurante
e cativante de Ferenczi. Para falar dele, dificilmente se empregaria a pala­
vra "encanto" ; na verdade, Freud costumava dizer-me às vezes que o
achava "muito prussiano". Mas Freud tinha o maior respeito por ele. In­
telectualmente independente, era também emocionalmente contido e pare­
cia não ter necessidade de qualquer amizade especialmente afetuosa. Não
era mais próximo de algum de nós do que dos outros. Embora não hou­
vesse nada semelhante a uma "panelinha" no Comitê, podia-se notar a
proximidade de Freud e Ferenczi e, do mesmo modo, de Rank e Sachs,
enquanto Abraham e eu ficávamos mais à parte.
Se Abraham tinha alguma fraqueza, esta era seu invariável otimismo.
Este o tornava um pouco insensível para o efeito que certos atos podiam
ter sobre os sentimentos das outras pessoas; ele sempre confiava e espera­
va que reagissem tão objetivamente quanto ele.
Sempre demos a impressão de associar os nomes de Rank e Sachs. Is­
so não se deve apenas ao livro que escreveram juntos,1 2 nem ao fato de te­
rem sido, juntos, editores de Imago. Eram grandes amigos e sempre tra-
. balharam juntos harmoniosamente. Eram os únicos membros do Comitê
que, sendo leigos, não praticavam a psicanálise (até depois da guerra).
Sendo os únicos vienenses do Comitê, foram os únicos que cheguei a co­
nhecer melhor em minhas numerosas visitas a Viena. No entanto, apesar
disso tudo, eram personalidades muito diferentes.
Uma dificuldade para apresentar Otto Rank, cujo sobrenome original
era Rosenfeld, é que ele apresentou duas personalidades bem diferentes
antes e depois da Primeira Guerra Mundial; nunca conheci alguém que te­
nha mudado tanto. Suas experiências pessoais durante a guerra desenca­
dearam um vigor e outras manifestações de sua personalidade de que nun­
ca suspeitáramos. Limitar-me-ei aqui ao Rank anterior à guerra, deixando
para o momento adequado um relato das alterações subseqüentes.
Rank provinha de um estrato social evidentemente inferior ao dos
outros e isso talvez explique sua atitude, nessa época, visivelmente tímida
e mesmo respeitosa. Mais provavelmente, tinha a ver com suas inequívo­
cas tendências neuróticas que mais tarde se mostraram tão desastrosas.
Sempre lamentei que a guerra tenha interferido nas providências que ele
tomara para ir para Londres a fim de se analisar comigo; posteriormente
ele não pôde deixar Viena. Recebera formação em uma escola técnica e
podia lidar habilmente com qualquer instrumento. Freud incentivou-o a
fazer um curso universitário. Eu nunca soube como ele vivia e suspeito
que Freud, pelo menos em parte, deve tê-lo ajudado; era hábito de Freud
fazer essas coisas discretamente, sem deixar que mais ninguém soubesse.

- 168 -
Com freqüência disse que, se algum de nós ficasse rico, teria como pri­
meiro encargo o de ajudar Rank. Certa vez ele me disse que na Idade Mé­
dia um jovem talentoso como Rank teria encontrado um protetor, acres­
centando, porém: "Poderia não ter sido fácil, j á que ele é tão feio" .
Aconteceu que ninguém do Comitê foi favorecido pela sorte. Rank teria
sido um secretário particular ideal e de fato atuava como tal para Freud
em muitos aspectos. Estava sempre disposto, nunca se queixava de qual­
quer obrigação que lhe fosse atribuída; era homem de qualquer trabalho
para assumir qualquer tarefa e era extraordinariamente inteligente e pers­
picaz. Tinha especial faro analítico para interpretar sonhos, mitos e len­
das. Sua grande obra sobre os mitos de incesto, 1 3 que hoje não é sufi­
cientemente lida, é um tributo a sua erudição verdadeiramente vasta; é um
verdadeiro mistério como ele achou tempo para ler tudo o que leu. Um
dos elogios que aprecio em minha vida foi quando ele perguntou onde eu
havia encontrado todo o material de um de meus ensaios não-médicos;
que o onisciente Rank pudesse impressionar-se era algo que significava
muito. Rarik também tinha um olho sagaz para questões práticas e certa­
mente teria sido muito bem-sucedido se tivesse entrado para o mundo das
finanças; há boatos de que ele empregou essa habilidade com bons resul­
tados em seus últimos anos em Paris. Durante anos Rank teve um contato
próximo, quase diário, com Freud e no entanto os dois nunca se aproxi­
maram realmente um do outro. Rank não tinha o encanto, entre outras coi­
sas, que parecia significar muito para Freud .
Hanns Sachs era o menos intimamente ligado aos outros membros do
Comitê. Era companheiro agradável, a mais espirituosa das companhias, e
tinha um infindável estoque das melhores piadas judias. Seus interesses
eram basicamente literários. Quando t ínhamos, o que ocorria com fre­
qüência, de discutir os aspectos mais políticos da administração, ele sem­
pre ficava entediado e permanecia distante, atitude que the foi útil quando
mais tarde emigrou para os Estados Unidos, onde argutamente se limitou a
seu trabalho técnico. Era completamente leal a Freud, mas seus períodos
de apatia não agradavam a Freud, de modo que era o membro com menor
contato pessoal com ele.
Eitingon destacava-se, entre outros aspectos, por ser o único psicana­
lista no mundo que contava com posses próprias. Tinha, assim, condições
de prestar grande assistência em vários empreendimentos psicanalíticos,
no que sempre foi generoso. Era inteiramente devotado a Freud, cujo me­
nor desejo ou opinião eram decisivos para ele. Em outros termos, era fa- ·
cilmente influenciado, de modo que nem sempre se podia estar certo de
qual era sua própria opinião. Ressentia-se de sua origem judia mais agu­
damente do que os outros, com exceção possivelmente de Sachs, e era
muito sensível ao preconceito anti-semita. Sua visita à Palestina em 1910
prenunciou sua retirada final para esse país no primeiro momento da as-

- 169 -
censão de Hitler, mais de vinte anos depois. Eitingon tinha três motivos
para contar com a gratidão de Freud, que nunca pôde esquecê-los . Foi a
primeira pessoa de outro país que o visitou em virtude de seu interesse
pela psicanálise_ f Em segundo lugar, prestou inestimável ajuda material
aos empreendimentos de Freud, em especial a "Verlag". Por fim, a dedi­
cação pessoal de Eitingon era tal que Freud podia confiar em sua amizade
em quaisquer circunstâncias. Por outro lado, não se pode supor que Freud
tivesse em alta consideração suas capacidades intelectuais.
Dos cinco membros do Comitê - posteriormente seis, com Eitingon -,
eu consideraria que Abraham e Ferenczi foram os melhores analistas.
Abraham tinha um juízo muito seguro , ainda que lhe faltasse um pouco da
penetração intuitiva de Ferenczi. Nessa época, nem se pensava em análise
didática. Penso que fui o primeiro psicanalista a decidir fazer uma análise
pessoal. Como Freud não estava disponível por razão que apresentei ante­
riormente, procurei Ferenczi em Budapeste e em 1913 tive alguns meses
de análise intensa, na qual despendia duas ou três horas diárias. Ela me
ajudou muito em minhas dificuldades pessoais e me propiciou a insubsti­
tuível experiência da "situação analítica" ; propiciou-me também a opor­
tunidade de apreciar diretamente as valiosas qualidades de Ferenczi. Ele
próprio aprendera muito com os comentários de Freud sobre sua auto­
análise e tanto em 1914 quanto em 1916 passou três semanas em Viena
sendo analisado por Freud, antes de em ambas as vezes ser abruptamente
reconvocado para o serviço militar. Nenhum dos outros membros jamais
teve qualquer análise pessoal regular. É digno de nota que Abraham saiu­
se muito bem sem qualquer espécie de ajuda, o que mostra que o caráter e
o temperamento originais de uma pessoa são da maior importância para o
sucesso.
À parte minha ajuda para amortecer o otimismo de Abraham e as ex­
travagâncias de Ferenczi, minha contribuição para o Comitê consistia es­
sencialmente em fornecer uma visão mais ampla do mundo externo. O cír­
culo vienense tinha uma visão algo limitada, que em alguns casos era
muito provinciana. Nessa época eu viajava muito pela América do Norte e
pela Europa e tinha o hábito de freqüentar todos os tipos de congressos
· internacionais, onde se aprende muito sobre personalidades e opiniões
predominantes, à margem dos artigos lidos. Tornei-me membro da Asso­
ciação Neurológica Americana, da Gesellschaft der deutschen Nervenar­
zte (Sociedade de Neurologista:, Alemães), da Gesellschaft fü.r experi­
mentelle Psychologie (Sociedade de Psicologia Experimental) e de outras
entidades, como também conhecia as principais figuras nos vários setores
e países. Isso me dava oportunidade de avaliar o progresso das idéias psi-
. canalíticas em vários locais e a variedade de resistências que estavam en­
frentando. A reação às idéias não era de modo algum idêntica nos dife­
rentes países, assim como variavam as dificuldades experimentadas pelos

- 170 -
analistas. Assim, eu tinha condições de ocasionalmente levar um pouco de
ar fresco para a atmosfera como que de estufa, provocada por não se sair
de casa. Essa posição de mediador entre o Leste e o Oeste, sendo acusado
pelos dois lados de ser advogado do outro, deixou-me em grandes dificul­
dades mais tarde, mas olho para trás com satisfação por ter, no final das
contas, evitado a divisão que por várias vezes pareceu iminente.
Éramos todos livres-pensadores, de modo que não havia barreira reli­
giosa entre nós . Também não lembro de ter tido qualquer dificuldade por
ser o único não-judeu no círculo. Como eu era proveniente de uma raça
oprimida, era-me fácil identificar-me com a visão judia, que anos de inti­
midade me permitiram absorver em alto grau. Meu conhecimento de histó­
rias, ditos sábios e piadas judias tornou-se tão grande sob essa tutela que
causava espanto a outros analistas, não pertencentes a nosso círculo. Para
meus leitores judeus, citarei um exemplo divertido, embora se relacione
com uma situação trágica. Quando os nazistas entraram em Viena, tenta­
mos salvar o que fosse poss ível e eles decretaram que apenas um "ariano"
teria permissão de dirigir a Clínica Psicanalítica. Infelizmente, o único
membro da Sociedade de Viena que cabia nessa descrição acabara de fu­
gir para a Itália através das montanhas . Ao ouvir isso, exclamei: "O weh;
unser einziger Sabbat-Goy ist fort' ' , * observação que dispersou por um
momento a sombria atmosfera da reunião.
Naturalmente, um pouco para meu espanto, fiquei sabendo que os ju­
deus podiam ficar extraordinariamente desconfiados diante do menor sinal
de anti-semitismo e que várias observações ou atos podiam er interpreta­
dos nesse sentido. Os membros mais sensíveis eram Ferenczi e Sachs ;
Abraham e Rank eram menos. O próprio Freud era, nesse aspecto, bas­
tante sensível . Ele deve ter-se indagado como o único estrangeiro - o úni­
co, por exemplo, cuja l íngua materna não era o alemão - se misturaria
com um grupo tão compacto, mas (referindo-se a Rankl tranqüilizou-me:
· •o senhor pode imaginar o prazer que me dá ver seu amigável relaciona­
mento com ele, com Ferenczi e com os outros membros do Comitê que o
senhor próprio fundou." 1 4
O s meus defeitos são provavelmente bem conhecidos, de modo que
não haverá necessidade de expô-los aqui. Creio que o principal deles,
nessa época, era uma indevida atitude crítica com relação às deficiências
dos outros, tendo eu aprendido muito ao observar a encantadora tolerância
de Freud.
Todos nós tínhamos um bom senso de humor, em especial Freud.
Lembro como ele nos divertia ao dizer que o melhor sinal da aceitação da

* "Ai de mim; foi-se nosso único Sabbat- Goy!" Para acender o fogo e realizar outras tarefas
proibidas no dia de sábado, o judeu ortodoxo utiliza os serviços de um não-judeu (gay), que por
essa razão é chamado Sabbat-Goy. (N. do T.)

- 171 -
psicanálise seria quando as lojas vienenses anunciassem: "brindes para
todos os estágios da transferência" . Isso não aconteceu em Viena, mas fui
informado de que ocorreu em Nova Iorque.
Os títulos acadêmicos significavam tanto em Viena que Freud tinha a
impressão de que o mesmo ocorria em outras partes. Quando recebi o tí­
tulo de Professor, ele me disse que isso lhe deu mais prazer do que quan­
do ele o recebeu e acalentava a esperança de que algum dia Abraham, Fe­
renczi e Rank se tornariam docentes. 1 5
O Comitê, sem dúvida, preencheu sua função básica de fortalecer
Freud contra os ferozes ataques de que era alvo. Era mais fácil dissolvê­
los em chistes quando em companhia de amigos; pudemos repelir em nos­
sos textos alguns desses ataques de uma forma que ele não cuidaria de as­
sumir; ele, portanto, ficava livre para seu trabalho construtivo. À medida
que o tempo passava outras funções também se tomaram importantes. As
reuniões freqüentes, tanto com todos presentes quanto somente com al­
guns membros, juntamente com uma correspondência regular mantida en­
tre nós, nos punham em condições de manter-nos em contato com o que se
passava no mundo da psicanálise. Além do mais, uma política unitária,
formulada por aqueles que eram mais bem informados e que possuíam in­
fluência considerável, era inestimável para enfrentar os inumeráveis pro­
blemas que sempre surgiam - desentendimentos dentro de uma sociedade,
a escolha de membros adequados, as oposíções locais, e assim por diante.
O Comitê funcionou perfeitamente bem durante pelo menos dez anos,
o que é notável para um organismo tão heterogêneo. Depois, surgiram di­
ficuldades internas que, de certo modo, o prejudicaram. O destino dos
membros - morte, exílio ou dissensão - surgirá à medida que este relato
se desenvolver; reflete a imprevisibilidade da vida em geral. Mas, como
único sobrevivente, tenho uma grata recordação desses anos em que for­
mávamos um grupo feliz de irmãos.

Já citei algumas cartas a mim dirigidas por Freud. Aqui estão três cartas
típicas, uma dirigida a Abraham e duas dirigidas a Ferenczi.

"16 de dezembro de 1910


" Caro Amigo:
"Fico feliz por receber notícias suas de novo, em especial algo bom e
muito promissor. Com isso refiro-me ao seu Segantini,g que espero ansio­
samente ler no recesso das férias. Mas não se apresse em seu trabalho.
Quase não tenho férias. Com exceção dos dois dias no Natal, todo dia é a
mesma coisa, e apenas domingo é realmente dia de folga. Não posso en­
viar de imediato seu manuscrito para impressão, pois no momento têm o
estudo sobre Hamlet de Jones (traduzido para o alemão) e como próximo
na série aceitei um ensaio jurídico, o primeiro de um talentoso jovem suí-

- 172 -
ço chamado Storfer. Contudo, depois deste o seu Segantini virá logo que
possível.
"Devo encontrar Bleuler em Munique. Pelo menos fiz essa proposta,
embora ainda não tenha tido resposta dele. É uma pessoa curiosa. Espero
ler sua Apologia no Jahrbuch esta semana.
"Nosso Zentralblatt gostaria de ter um bom artigo do senhor.
"Meu próprio trabalho, há pouco concluído, trata no livro de Schre­
ber e procura resolver o enigma da paranóia. Como o senhor pode muito
bem imaginar, segui na direção indicada por seu trabalho sobre as dife­
renças psicossexuais entre histeria e demência precoce. Quando me entre­
gava a esses pensamentos em Palermo, senti-me especialmente satisfeito
com a fórmula segundo a qual a megalomania significa uma superestima­
ção sexual do ego. Ao voltar a Viena, vi que o senhor dissera o me·smo da
maneira mais clara. Naturalmente, terei de plagiá-lo amplamente em meu
trabalho.
"Creio que também posso explicar a diferença entre demência preco­
ce e a verdadeira paranóia.
"Seria com satisfação que eu teria outra conversa com o enhor sobre
todas essas questões, mas a necessidade de ganhar a vi.da não nos dá des­
canso.
"As coisas vão bem na América do Norte. Brill agora traduziu os
Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade e Putnam escreveu um es­
plêndido prefácio para eles. Esse velho senhor é de fato uma aquisição
maravilhosa.
"Espero que sua esposa e seus filhos estejam bem.
"Saudações cordiais,
"Freud"

"26.XI.1908
"Lieber Herr Kollege,
"Lamento muito, de fato, ter de adiar sua visita do domingo, o que
faço muito contra a vontade de minha família,h de modo que devo pelo
menos dizer-lhe as várias razões para isso. Em primeiro lugar, temos um
paciente de cama; em segundo, esperamos uma demorada visita de novos
parentes; e em terceiro, sinto-me tão cansado por não tomar meu banho
matinal, que me manteve disposto e renovado por 22 anos, que me vejo
obrigado a descansar durante todo o Sabá. Mas eu gostaria de passar al­
gumas horas com o senhor conversando sobre nossa ciência. Assim, pro­
ponho que adie sua visita para um dos próximos domingos, quando tudo
deverá estar melhor, ou o mais tardar para a época do Natal, quando cer­
tamente esperaremos pelo senhor. Suponho que sua decisão de adiar sua
visita de quarta-feirai não seja decisiva.

-173 -
"O senhor não precisa lamentar ter sido rude com Salg6; em minha
opinião, não seria fácil ser injusto com ele. O aplauso que o saudou na
Gesellschaft der A erzte [Sociedade de Médicos] foi, sem dúvida, mais por
sua personalidade do que pelo assunto, mas tudo é favorável. Um livro
sobre sonhos em uma língua estrangeira é muito desejável e seria muito
interessante. EsLou constantemente instando com os ingleses para produzi­
rem um, mas até agora ninguém abraçou a idéia. Mas algum dia ele deverá
surgid
"No momento estou trabalhando - se é possível chamar de trabalho
meu ritmo, já que, com exceção de domingo, mal escrevo umas poucas li­
nhas - em uma ' Exposição Gerai do Método Psicanalítico', de que já te­
nho prontas, até o presente momento, 24 páginas. Penso que seria de
grande valor para quem já está realizando análises. Aqueles que não estão
não terão condições de compreender uma única palavra.k
"Brill publicou uma excelente análise de um caso de demência preco­
ce no Journal de Morton Prince; data da época em que esteve em Zurique.
Ele, Jones, Abraham e Jung mantêm, naturalmente, correspondência re­
gular comigo. Espero ter logo notícias do meio volume,1 que deveria apa­
recer em janeiro, mas que dificilmente sairá a tempo. Por outro lado, a
corrente de trabalho flui suavemente sem eu ter tempo de notar os resulta­
dos.m Geralmente é no outono que aprecio o que aprendi. Uma atitude in­
diferente em relação a meus pacientes foi certamente por muito tempo
uma das questões. Jung observou, com muita justeza, que temos de curar
a histeria com uma espécie de demência.
"A técnica e a mitologia compartilham, em minhas poucas horas li­
vres, o rudimento de interesse que ainda tenho. O verão, com suas ricas
impressões, está anos atrás de mim e acho inteiramente incrível que de­
pois deste ano de trabalho seja possível outro verão.
"Com cordiais saudações,
"Freud"

"17 de novembro de 1911


"Caro Filho:n
"O senhor pede uma resposta rápida para sua carta emotiva, e hoje eu
gostaria muito de trabalhar, pois estou satisfeito com uma notícia que a
seguir lhe transmitirei. Responderei ao senhor brevemente e não direi
muita coisa nova. Naturalrrcente , conheço bem seus 'problemas comple­
xos' e devo admitir que preferiria ter um amigo autoconfiante, mas quan­
do o senhor cria essas dificuldades tenho de tratá-lo como um filho. Sua
luta por independência não precisa assumir a forma de alternância entre
rebelião e submissão. Acho que o senhor também sofre do temor de com­
plexos que foram associados com a mitologia dos complexos de Jung. Um
homem não deve esforçar-se para eliminar seus complexos, mas para en-

- 174 -
trar em acordo com eles: eles são legitimamente o que dirige sua conduta
no mundo.
"Além do mais, o senhor está cientificamente no melhor caminho pa­
ra tornar-se independente. Uma prova disso está em seus estudos sobre
ocultismo, que, talvez por causa desse esforço, contêm um elemento de
indevida impaciência. Não se envergonhe de, na maioria das vezes, ser da
mesma opinião que eu e não exija de mim pessoalmente mais do que estou
disposto a dar. Devemos ficar satisfeitos quando, como grande exceção,
alguém consegue ficar bem consigo mesmo sem qualquer ajuda. O senhor
certamente conhece o velho ditado: 'As coisas adversas que não ocorrem
devem ser computadas como crédito.'º
"Agora as notícias:
"Karger está pedindo uma quarta edição da Psicopatologia da Vida
Cotidiana para 1912.
"Nosso francês de Poitiers, que não se manifestava desde janeiro,
enviou-me uma carta, uma contribuição para o 'Ze ntralblatt (sobre homos­
sexualidade e paranóia, com referência a dois colaboradores do Jahrbuch
que o senhor conhece),P e uma separata de um admirável artigo da Ga­
zette des Hospitaux (pág. 1845, 84 Année; N'! não evidente). Intitula-se
'Le Rapport affectiv dans la cure des Psycho-névroses'. É de nível eleva­
do e elogia em especial um ensaio de Ferenczi. Procure ler logo que pos­
sa. Escreverei a ele e pedirei para lhe enviar um exemplar.
"Agora adeus e acalme-se. Com saudações paternais,
"Freud"

NOTAS

ª Predi.ção que por várias vezes se verificou nos subsequentes quarenta anos.
b Nessa época Freud estava providenciando uma visita junto com Ferenczi e Rank, a
Londres, onde eu então estava.
e welche Freude.

d Cap. 2, pág. 48.


e Lucerna, 1 934.
f Ver Cap. 2, pág. 46.
g Livreto de Abraham sobre o pintor suíço Giovanni Segantini.
h Carona (idi0matismo vienense).

- 175 -
i Para a reunião da Sociedade.
j Predição ainda não cumprida, pelo menos da forma pretendida por Freud.
k Ver Cap. 9, pág. 235.
1 Do Jahrbuch.

m Niederschliige.

n Freud por duas vezes dirigiu-se a Ferenczi desse modo, meio jocosamente, meio
analiticamente.
0 Was einem nicht zukommt, ist Rebach.
P Ele pr6prio e Ferenczi.

- 176 -
VII

O PERÍODO DA G UE RRA

EM SEU JULGAMENTO DOS ACONTECIMENTOS POLÍTICOS, FREUD


não era nem mais nem menos perspicaz que outro homem. Acompanhava­
os, mas por -eles não tinha especial interesse, a menos que colidissem com
o progresso de seu ,trabalho. Isso se deu pela primeira vez em 19 14.
· Para compreender a atitude de Freud em relação ao que as pessoas
mais velhas ainda chamam de Grande Guerra, é preciso lembrar as princi­
pais c-ircunstâncias de sua eclosão, o que farei, ainda que sumariamente,
em consideração a uma geração mais jovem. Os croatas foram por muito
tempo oprimidos por seus dominadores húngaros, empenhados em magia­
rizá-los. Muitos deles olhavam Gom ansiedade para seus irmãos, ou pri­
mos, eslavos, que viviam em um Estado independente do outro lado da
fronteira . Esse Estado, então chamado Sérvia, estava na ocasião inflama­
do com suas triunfantes vitórias nas duas recentes guerras balcânicas e
seu sentimento nacionalista, em alto grau, solidariza-se fortemente com
seus parentes oprimidos. O governo austríaco por algum tempo ficou
alarmado com essa atração mútua, temendo que, se ela fosse adiante, pu­
desse pressagiar o início da dissolução da antiga Monarquia Austro-Hún­
gara, o que de fato acabou ocorrendo, de uma maneira que não podia ser
prevista. O próprio Freud parecia compartilhar essa opinião. Em 8 de de­
zembro de 19 12, escreveu-me que a situação política na Áustria estava
conturbada e que eles deviam estar preparados para maus tempos pela
frente. Eu sabia que ele se referia às relações com a Sérvia e talvez tam­
bém coi:n a Rússia - sempre o bicho.:papão, então como agora, dos aus­
tríacos. Mas, provavelmente, ele tinha uma visão das dificuldades que era
a visão convencional dos vienenses, pois recordo que um pouco depois
ele me disse: "Os sérvios são muito atrevidos."ª Como eu estava estudan­
do a história da Croácia, achei a observação unilateral.

- 177 -
Em 28 de junho, o mundo ficou estupefato com a notícia de que o
herdeiro do trono, o arquiduque Francisco Ferdinando, fora assassinado
por um bosniano, súdito austríaco que fora instigado por conspiradores da
Sérvia. Essa era a oportunidade que o governo austríaco esperava, premi­
do por seus exaltados conselheiros militares, para acertar as contas de
uma vez por todas com o país que instintivamente culpavam pelo ato. O
próprio Francisco Ferdinando vinha planejandc extintuir as esperanças
sérvias de união com os croatas, concedendo a estes últimos autonomia, o
que eliminava seus ressentimentos e ressuscitava sua antiga lealdade ao
regime dos Habsburgos. Em uma carta a Ferenczi, 1 deste dia, Freud es­
creveu: "Estou escrevendo ainda sob o impacto do surpreendente assassi­
nato de Sarajevo , cujas conseqüências são imprevisíveis." Quando o cor­
po do arquiduque foi transportado através de Viena, na calada da noite e
com poucas cerimônias, Freud comentou sabiamente: "Há algo podre por
trás disso"..b Menos sábia foi a observação, que fez a um pacientec no
mesmo dia, de que, se Francisco Ferdinando chegasse ao trono, isso cer­
tamente teria significado guerra com a Rússia, dando a entender que agora
esse perigo era menor.
Todavia, durante algumas semanas seguiu-se apenas um silêncio omi­
noso. Freud parece ter sido enganado por este, pois de outra forma difi­
cilmente teria permitido que sua filha mais nova fosse para Hamburgo no
dia 7 de julho e certamente não teria permitido que, a 18 de julho, prosse­
guisse viagem para a Inglaterra, onde ela pretendia passar alguns meses.
Por fim, dirigiu-se um ultimato à Servia em 23 de julho. O Ministro das
Relações Exteriores, conde Berchtold, esperava dessa vez enganar seu
colega de São Petersburgo, Sazanov, e assim repetir a derrota que seu
predecessor, Aehrenthal, infligira ao russo Isvolsky apenas seis anos an­
tes. Foi uma imperdoável e temerária brincadeira coni fogo.d
A aceitação por parte da Sérvia do ultimato, que Sir Edward Grey
considerou o mais formidável documento que ele já viu dirigido por um
Estado soberano a outro, não foi inteiramente completa, de modo que a
Áustria declarou guerra imediatamente e bombardeou Belgrado. A Rússia,
o irmão maior, mobilizou-se de modo a levar a Áustria a retirar-se. A
Alemanha encarou esse ato como um c.asus belli � logo declarou guerra à
Rússia e à França. Para esmagar rapidamente esta última, atravessou a
Bélgica, cuja neutralidade a Prússia prometera respeitar - e isso decidiu a
inevitabilidade da entrada da Grã-Bretanha.
Nos dois ou três primeiros anos da guerra, Freud certamente simpati­
zava por completo com as Potências Centrais, os países com os quais es­
tava tão intimamente ligado e pelos quais seus filhos estavam lutando; es­
se sentimento, no entanto, misturava-se com um crescente ceticismo
quanto à sua vitória final. Ele até mesmo se voltou contra sua amada In­
glaterra, que se tornara "hipócrita". Aceitava, evidentemente, a versão

-178 -
alemã de que a Alemanha estava sendo "cercada" por vizinhos invejosos,
que haviam planejado destruí-la. Foi somente mais tarde, no decorrer da
guerra, que a "propaganda" dos Aliados despertou suas suspeitas quanto
aos aspectos morais envolyidos, de modo que então ficou indeciso quanto
a ambas as versões e pôde c.�locar-se au dessus de la mêlée.
Durante toda a guerra púde .manter-me em contato com ele, pois en­
viava cartas a amigos na Holand'r, Suécia,,.,Suíça e mesmo Itália, as quais
eles então remetiam pl Viena. Putnam também ine enviava regularmente as
cartas que Freud pôd'e.��1-:�ver-lhe antes da entrada dos Estados Unidos,
em 1917. Desde essa época veio à luz uma grande quantidade de informa­
ções sobre como ele passou o período de guerra e quais foram suas várias
reações. Examinemos essa questão cronologicamente.
Como tantas pessoas da época, Freud e seu círculo, apesar de uma
carta de advertência que lhe escrevi, demoraram a perceber a gravidacie da
situação internacional. O pensamento deles era absorvido pelo congresso
seguinte, em setembro, e pela questão do possível afastamento dos suíços
da Associação Internacional antes da realização do congresso. Somente
em 27 de julho Ferenczi achou que tinha de desistir de sua projetada via­
gem à Inglaterra, porque, estando na lista de oficiais da ativa, não tinha
permissão para sair da Hungria. Somente então ele começou a ter dúvidas
sobre o congresso, com base em que os estrangeiros talvez pudessem não
gostar de vir ! Quanto ao sempre otimista Abraham, em 29 de julho ele
ainda contava com a realização do congresso e em 31 de julho estava
certo de que nenhuma grande potência declararia guerra a outra (dia em
que a Alemanha o fez). Conseqüentemente, sua família ficou retida, em
má situação, em uma aldeia da costa do Báltico, sem poder sair. Ludwig e
Boehm foram prontamente de Munique para Berlim, a fim de comparece­
rem ao congresso. Em 26 de julho Freud começara a ter dúvidas sobre a
viabilidade de se realizar o congresso. No dia 29 escreveu a Eitingon:
"Há sombras que também pairam sobre nosso congresso, mas não se pode
predizer como estarão as coisas dentro de dois meses. Talvez nessa oca­
sião a maior parte delas esteja de novo em ordem." No mesmo dia, porém,
escreveu a Abraham que "dentro de duas semanas ou estaremos envergo­
nhados por causa de nosso atual entusiasmo ou ainda perto de uma deci­
_são hist6rica que há décadas vem se fazendo ameaçadora".
A reação imediata de Freud à declaração de guerra foi inesperada.
Teríamos suposto que um pacífico savant de 58 anos a teria recebido sim­
plesmente com horror, como tantos fizeram. Sua primeira reação, ao con­
trário, foi de entusiasmo juvenil, aparentemente um redespertar dos ardo­
res militares de sua meninice. 3 Até mesmo se referiu à irresponsável ação
de Berchtold como "liberação de tensão por meio de um feito corajoso"e
e disse que pela primeira vez em trinta anos sentia-se um austríaco. 3 D-;:­
pois que a Alemanha distribuíra suas três declarações de guerra, ele es-

- 179 -
creveu: "Eu estaria de todo coração com ela, se pudesse pensar que a In­
glaterra não está do lado errado. " 4 Ele ficou inteiramente empolgado, não
podia pensar em qualquer trabalho e passava seu tempo discutindo os
acontecimentos do dia com seu irmão Alexander. 5 Afirmou: "Toda minha
libido está entregue à Austro-Hungria." Estava excitável, irritável e co­
metia lapsos da fala o dia todo. · Estranbpmente, Ferenczi também apre­
sentou o último sintoma e, . '.'como hipocondríaco com formação médica,
encarava-o como o início de uma P.G.I. (paralisia geral do insano)".
Desde o começo, porém, havia alguma duvida sobre o resultado da
guerra. Freud escreveu a Hitschmann: " Ganhamos a campanha contra os
suíços, mas me pergunto se os alemães terminarão a guerra de modo vita-
l
rioso e se teremos condições de resistir até então. Devemos esperar inten-
samente por isso. O furorf dos ·alemães parece ser uma garantia disso e o
renascimento austrfacog é pronússor." 6 Afirmou que estava muito inquieto
para escrever e que não tinha pacientes para ocupá-lo. Havia apena­
atestados a serem escritos. Mas Freud não ajudou prontamente neuróticos
a evitarem a convocação. Era da opinião de que todos deveriam procurar
ajudar no interesse comum e que seria bom para eles fazê-lo. Contentava­
se em atestar um diagnóstico particular.
Esse estado de espírito, no entanto, durou menos de quinze dias e
então Freud caiu em si. De modo bastante característico, descreveu o fato
por meio de uma história judia, na qual um judeu que morara durante anos
na Alemanha e adotara hábitos alemães retoma à sua família, onde o ve­
lho avô, pelo exame de suas roupas de baixo, conclui que a parte alemã
era apenas superficial. Curiosamente, o que acarretou a mudança dos sen­
timentos de Freud foi a abominação da incompetência que sua terra natal
recém-adotada mostrava na campanha contra os sérvios. Ser enfrentada e
mesmo derrotada pelo próprio povo que a Á ustria insolentemente se dis­
pusera a aniquilar mostrava mais uma vez a desesperança dessa pátria, à
qual não valia a pena pertencer. Restava apenas a esperança de que o ir­
mão maior, a Alemanha, os salvasse e a partir de então esta permaneceu
como a única esperança. Depois das esmagadoras derrotas austríacas na
Galícia, nesse mesmo mês, Freud comentou: "A Alemanha já nos sal­
vou". 7 Uma semana depois, ele se rejubilava novamente com as vitórias
alemãs, mas confessava que estava "abalado até o ceme"h por sua decep­
ção com o desempenho do exército austríaco. 8 Já havia abandonado a es­
perança de um fim rápido para a guerra, de modo que a "persistência se
torna a principal virtude". 9 Em resposta, Abraham alegou que a França e
a Rússia já estavam derrotadas, de modo que só restava a Inglaterra e "aí
podemos confiar no Krupp e no Zeppelin". Um pouco antes, Freud fizera
a pesarosa reflexão de que depois da guerra demoraria muito até que se
pudesse visitar a Inglaterra e talvez também a Itália; seria até mesmo de-

- 1 80 -
sagradável visitar a Alemanha, onde seria difícil suportar a arrogância,
"infelizmente justificada" . 1 0
E m julho de 19 14, Freud se sentia esgotado, depois de u m ano de
muito trabalho e desagradáveis complicações. Sentia necessidade em es­
pecial de reclusão, na qual pudesse concentrar-se nos artigos que há muito
prometera para o. Handbuch de Krauss. 1, 1 Assim, sentiu-se aliviado por
Ferenczi, que nos últimos seis anos passara suas férias com ele, ter-se de­
cidido dessa vez passá-las comigo em Londres, para onde iria na primeira
semana de agosto. Os planos de verão de Freud tinham sido ir a Karlsbad
para tratamento intestinal em 1 2 de julho e daí seguir para Seis, nos Do­
lomitas do sul, para as férias propriamente ditas, seguindo então para o
Congresso Psicanalítico que Abraham estava preparando em Dresden, a
20 de setembro, e depois indo para a Holanda a fim de fazer uma confe­
rência na Universidade de Leyden a 24 de setembro. Sua filha o encontra­
ria aí, em seu regresso da Inglaterra, e ele a acompanharia de volta para
casa.
Naturalmente, apenas a primeira etapa desse programa pôde er cum­
prida. Freud ficou com sua mulher na Villa Fasolt, no Schlo sberg, perto
de Karlsbad, até 5 de agosto, quando voltou a Viena via \1unique. Era a
primeira vez que ele aí ficava sem a companhia de Van Emden de modo
que passou uma temporada completamente tranqüila, com exceção dos
fatos do mundo exterior. Eitingon deveria ter-lhe feito uma visita em
Karlsbad, mas a 29 de julho Freud aconselhou-o a não se arriscar na difí­
cil viagem a partir de Berlim.
Na segunda semana da guerra, seu filho mais velho, \lartin , apre­
sentou-se ao exército como voluntário, entrando para a artilharia. Com
seu humor característico, deu como motivo o desejo de isitar a Rússia
sem mudar de "confissão" _i Estava em Salzburg e foi enviado para trei­
namento em Innsbruck, onde seu pai lhe fez uma visita na primeira sema­
na de set�mbro. 1 2 Anna, a filha de Freud que parecia que iria ficar insula­
da na Inglaterra, voltou para casa a salvo na terceira semana de agosto,
tendo viajado via Gilbratar e Gênova sob os cuidados do embaixador
austríaco. Vejo por uma de minhas cartas da época que me dispusera a
acompanhá-la até a fronteira austríaca "por uma das numerosas rotas dis­
poníveis", tal era a inocência das pessoas, nesses dias felizes, quanto ao
que os governos podiam fazer para bloquear a antiga liberdade de viajar.
Fedem, que estivera fazendo conferências nos Estados Unidos, passou
por momentos mais perigosos. Quando o navio em que retomava, o Kron­
prinzessin Caecilie, se aproximava da França, foi advertido por rádio para
voltar para Nova Iorque. Quando por fim chegou a Trieste em um navio
neutro, Fedem estava tão impressionado com a maneira eficiente como a
marinha britânica revistou o navio em Gibr;1ltar que se tornou o único do
círculo de Viena que desde o início não acreditava na vitória da Alemanha.

- 18 1 -
Esse foi o primeiro agosto que, em trinta anos, Freud passou em Vie­
na e, naturalmente, ele estava sem ocupação definida. Decidiu, porém,
não começar a atender pacientes antes de 1 2 de outubro, como era seu
costume. Escreveu a Abraham 1 3 que agora tinha todo o tempo livre em
seu escritório, pelo qual freqüentemente ansiara, mas acrescentou ironi­
camente: "É com isso que se parecem os desejos realizados" .i Passava
o tempo examinando e descrevendo minuciosamente sua coleção de anti­
guidades, enquanto Otto Rank fazia um catálogo de sua biblioteca.
Em 16 de setembro, Freud deixou Viena por 12 dias, a fim de visitar
sua filha Sophie em Hamburgo. Ao anunciar essa próxima viagem a Ei­
tingon, exprimiu a esperança de compartilhar o júbilo pela esperada queda
de Paris enquanto estivesse na Alemanha. 1 4 E de Hamburgo, cidade que
conhecia bem, escreveu que pela primeira vez não sentiu que estava em
uma cidade estrangeira; podia falar de "nossas" batalhas, "nossas" vitó­
rias, etc. 1 5- Na viagem de volta, passou cinco horas com Abraham em Ber­
lim: não se encontrariam de novo durante exatamente os quatro anos se­
guintes.
No último dia do mês, Ferenczi foi a Viena para ser analisado por
Freud, mas a análise infelizmente foi interrompida depois de três semanas,
em virtude da convocação de Ferenczi. Este serviu como médico nos hus­
sardos húngaros, onde teve de aprender a cavalgar. Nos primeiros ;:,nos fi­
cou sitiado em Pápa, com apenas visitas muito ocasionais a Budapeste.
Em outubro veio a "esplêndida notícia" da queda de Antuérpia. Nes­
sa época Freud já havia retomado a clínica, mas com apenas dois pacien­
tes, ambos húngaros; no mês seguinte o número caiu para um. Foi nessa
ocasião que escreveu o longo caso clínico, desde então conhecido como
"Caso do Homem dos Lobos".k Todavia, só pôde ser publicado quatro
anos depois.
Nos primeiros meses da guerra, várias das cartas que Freud e eu tro­
camos não chegaram e a primeira que recebi dele datava de 3 de outubro.
Dois dias depois de declarada a guerra, eu lhe falara da opinião geral , na
Inglaterra, de que a Alemanha no fim perderia e até mesmo me aventurei a
repetir isso em uma carta posterior. Ao comentar essa notícia com Ferenc­
zi, ele disse que eu falara sobre a guerra "com a visão estreita do in­
glês" . 1 6 Uma carta de 22 de outubro foi por ele confiada a um amigo,
um professor de arqueologia em Roma, que podia levá-la para um país
neutro sem que fosse censurada. Nessa carta, dava todas as suas notícias:
que Anna chegara a salvo, que seus filhos mais velho e mais novo tinham
entrado para a ai.tilharia, que estava escrevendo um caso clínico e que a
perda de Eder (que nessa época passara para o lado de Jung) não era de
modo algum lamentável. Estava surpreso por saber que eu tinha sete aná­
lises diárias e não achava que em tc..o o continente houvesse tantas. Fez
então a sábia advertência: "Não se esqueça de que agora há muita menti-

- 182 -
ra" ,1 máxima resumida na afirmação de que na guerra a primeira vítima é
a verdade, agora bastante conhecida em todo o mundo.
Em 1 1 de novembro, escreveu a Ferenczi dizendo que tinha acabado
de tomar conhecimento da morte de seu querido irmão Emmanuel em um
acidente ferroviário. Esse acontecimento deve ter causado grande dor a
Freud, pois sua afeição por esse meio-irmão permanecera intacta desde a
primeira infância. Alguns meses mais tarde fez a Abraham um comentário
característico sobre isso: 1 7 "Tanto meu pai quanto meu meio-irmão vive­
ram até 8 1 anos, de modo que minhas perspectivas são sombrias. "m Havia
também a ser lamentada a perda do famoso navio de combate Emden;
Freud disse que tinha se apegado muito a ele. Duas semanas depois en­
viou a Ferenczi uma carta que contém várias afirmações interessantes, a
respeito das quais se daria mqito para saber algo. Uma é a de que por fim
resolvera satisfatoriamente 0 problema psicológico de espaço e tempo!
Creio que isso se refere à noção de que o primeiro conceito está relacio­
nado com a natureza topográfica da mente, em particular do inconsciente,
ao passo que o último está ausente do inconsciente e confinado às cama­
das mais conscientes. Também resolvera o das condições sob as quais a
emoção da ansiedade se torna manifesta.n A seguir há uma alusão a sua
crença supersticiosa quanto à data de sua morte, sobre a qual posterior­
mente transpiram mais coisas.
Freud disse a Eitingon, nessa época, que estava escrevendo muito,
sem dúvida os artigos publicados em 1 9 1 5 , que mais adiante comentare­
mos. Mas evidentemente ele também estava pensando muito; tratava-se de
um de seus períodos muito produtivos, que ocorriam de tempos em tempos.
O polêmico ensaioº que levou Jung a se afastar da Associação inter­
nacional fora publicado antes da eclosão da guerra. Freud se preocupara
com a receptividade que o ensaio teria em diferentes meios, tendo ficado
satisfeito ao receber a seguinte carta de Putnam, a quem enviara antecipa­
damente um exemplar.

"7 de julho de 1 9 1 4
"Caro Dr. Freud:
"Julgo que seu sumário histórico, com sua exposição caracteristica­
mente digna da situação presente, é de alta qualidade e notável. É, para
todos n6s, um modelo de clareza de pensamento e de expressão inteli­
I gente.
"Sinceramente,
"James J. Putnam"

A carta aplacava os temores que tinha Freud de que o puritanismo de Put­


nam pudesse fazê-lo simpatizar com Jung em sua atitude de rejeição da
sexualidade.

- 183 -
O ensaio teve uma lamentável repercussão nos Estados Unidos. Jung
publicara em The Journal of Ner-vous and Mental Disease uma tradução
de seu longo artigo que apresentava sua divergência das postulações de
Freud, de modo que escrevi a Jelliffe, o editor, sugerindo que pedisse a
Brill para publicar o ensaio de Freud no mesmo periódico, a fim de que
alcançasse o mesmo público. Fiz também a mesma sugestão a Brill. Apa­
rentemente, ele pensara em publicá-lo em The Journa[ of Abnormal Psy­
chology; quando Jelliffe lhe disse, equivocadamente, que eu lhe cedera os
direitos de tradução e que ele estava se valendo de outra pessoa - o Dr.
Payne, de Rochester-, Brill escreveu uma carta de queixa a Freud. 1 8 Por
alguma razão Brill não estava num bom período e se mostrava muito des­
confiado. Imaginou que Freud não estava satisfeito com ele por não ex­
pressar sua satisfação com a "História" - a carta em que Brill o fizera
nunca chegou a Freud - e então o punia dando a tradução a Payne; a1ém
do mais, eu estava de algum modo no fundo disso tudo. Ambos tentamos
tranqüilizá-lo, reafirmando-lhe que ele tinha todos os direitos e que tam­
bém era o melhor juiz de onde publicar, mas esse foi o começo de um in­
tratável silêncio que durante anos aborreceu Freud.
E -n 11 de novembro, Ferenczi enviou a Freud a surpreendente "notí'­
cia" de que o filho de Garibaldi, com um pequeno exército, invadira o Ti­
rol, fora capturado e enviado de volta à Itália, de modo a não perturbar
sua neutralidade. De seu lado, Freud expressou a opinião de que, a menos
que a Alemanha ganhasse a guerra antes do Natal, os ingleses enviariam
um exército japonês para a França e então ela certamente perderia. No
início do mês seguinte, foi muito satírico e mesmo amargo quanto aos es­
forços austríacos para capturar Belgrado depois de três meses. Mas Abra­
ham tentou animá-lo dizendo que os austríacos há muito teriam esmagado
os sérvios se estes não tivessem recebido poderosa ajuda (imaginária) do
exterior: além do mais, ele achava que a situação da guerra, era muito mais
favorável do que eles tinham condições de saber e que a proposta de paz
da Entente podia ser esperada para qualquer momento.
Em dezembro, o estado de espírito de Freud estava ruim e ele pediu a
Abraham que o visitasse e o animasse. Não melhorou com uma oferta de
asilo por parte de Tringant Burrow, de Baltimore, que, como me eséreveu,
"mostra o que os americanos pensam de nossas chances" . 1 9 A· Abraham
ele escreveu que o desamparo e a pobreza eram as duas coisas que ele
sempre mais odiara e que pareciam não estar muito distantes. 2 0 Todavia,
não estava sozinho; Hanns Sachs fora rejeitado pelos militares em virtude
de sua miopia, enquanto Otto Rank, seu outro assistente literário, estava
tentando evitar a convocação, "lutando como um leão contra sua Pá­
tria". 2 1
Com freqüência havia na vida d e Freud alguma mulher intelectual,
geralmente paciente ou estudante, cuja companhia lhe era especialmente

- 184 -
agradável . Nessa época, havia Lou Andreas-Salomé, que estudara com ele
antes da guerra. Era uma mulher com faro notável para grandes homens;
entre seus amigos estavam vários deles, de Turgueniev, Tolstoi e Strind­
berg a Rodin, Rainer Maria Rilke e Arthur Schnitzler. Dela se disse que
se ligara aos maiores homens do século XIX e do século XX: Nietzsche e
Freud, respectivamente. Freud admirava muito seu caráter elevado e sere­
no, que ele julgava muito acima do seu, e ela tinha uma visão plena das
realizações de Freud. Assim, nesse outono desalentador, ele escreveu a
ela um cartão: "A senhora ainda acredita que todos os grandes irmãosP
são tão bons? Uma palavra de alento para mim?" Ela fazia o melhor de si
para enfrentar a ocasião e Freud falou a Abraham do "otimismo realmente
comovedor" da carta dela. 2 2 Ele respondeu como se segue: "O que a se­
nhora escreve me dá coragem para assumir outro tom. Não duvido que a
humanidade superará mesmo esta guerra, mas sei com certeza que eu e
meus contemporâneos nunca mais veremos de novo um mundo alegre.
É tudo tão odiento. E a coisa mais triste disso é que se apresentou tal co­
mo a partir de nossas expectativas psicanalíticas devíamos ter imaginado o
homem e seu comportamento. Por causa dessa atitude, nunca pude con­
cordar com seu otimismo jovial. Minha conclusão secreta foi: já que só
podemos encarar a mais elevada civilização do presente como desfigurada
por uma gigantesca hipocrisia, segue-se que somos organicamente inade­
quados para ela. Temos de abdicar, e o Grande Desconhecido, oculto
atrás do Destino, algum dia repetirá essa experiência com outra raça . " 2 3
A produtividade de Freud, n o entanto, ainda estava e m seu auge, co­
mo com freqüência ocorria quando ele se sentia mal de saúde ou estava
num estado de espírito ruim. Ele não apenas estava escrevendo muito, mas
também pensando muito. A concentração interna estava tomando o lugar
do interesse pelos desoladores acontecimentos do mundo externo. Depois
de mencionar a Ferenczi algumas de suas novas id_éias, acrescentou:
"Mesmo sem estas, posso dizer de mim mesmo que dei ao mundo mais do
que ele me deu. Agora estou mais isolado do mundo do que nunca e espe­
ro estar também mais tarde, como resultado da guerra. Sei que estou es­
crevendo para apenas cinco pessoas no presente, o senhor e os outros
poucos. q A Alemanha não obteve minha simpatia como analista e, quanto
a nossa Pátria, o melhor é dizer o menos possível. " 2 4
Apresentaremos as idéias em questão com a linguagem algo militar de
Freud. " Vivo, como diz meu irmão, em minha trincheira primitiva: espe­
culo e escrevo e depois de várias batalhas passei pela primeira série de
enigmas e dificuldades. Ansiedade, Histeria e Paranóia capitularam. Resta
ver até onde os sucessos podem ser acompanhados. Mas muitas belas
idéias surgiram: a escolha das neuroses, por exemplo. As regressões estão
inteiramente estabelecidas. Algumas progridem nas fases de desenvolvi­
mento do ego. A importância de toda a questão depende de ser possível

- 185 -
dominar o realmente dinâmico, isto é, o problema do prazer-desprazer, al­
go de que minhas tentativas preliminares me levam a duvidar. " 2 5 Ferenczi
visitou Freud aproximadamente por um dia uma semana depois e não há
dúvida de que os dois discutiram exaustivamente alguns desses proble­
mas.
No dia seguinte a essa conversa, Freud escreveu a Abraham: "A úni­
ca coisa satisfatória em andamento é minha obra, que de fato está levan­
do, a despeito de pausas recorrentes, a novas idéias e conclusões dignas
de nota. Recentemente fui bem-sucedido na definição de uma característi­
ca dos dois sistemas Bw (consciência). e Ubw (inconsciente) que quase
torna ambos compreensíveis e que reconhece que o que penso é uma sim­
ples solução da relação entre a demência precoce e a realidade.Todas as
catexias de objetos compõem o inconsciente. O sistema Bw significa a
conexão dessas idéias inconscientes com os conceitos de palavras: é isto
· que dá a possibilidade de algo se tornar consciente. A repressão nas neu­
roses de transferência consiste na retirada de libido do sistema Bw, isto é,
na separação entre as idéias de objetos e palavras. Nas neuroses narcísi­
cas,r a repressão retira libido das idéias inconscientes de objetos, natural­
mente um distúrbio muito mais profundo. Daí as alterações de fala na de­
mência precoce·, que em geral trata as idéias de palavras como a histeria
trata as de objetos, isto é, subordina-as ao 'processo primário', com suas
condensações, deslocamentos e descarga. Eu poderia agora escrever um
tratado completo sobre a teoria das neuroses com capítulos sobre o desti­
no dos instintos, sobre repressão e sobre o inconsciente, se o prazer do
trabalho não fosse perturbado por meu mau estado de espírito. " 2 6
Freud esboçara essa interessante teoria antes5 e sempre aderiu a ela.
Ferenczi perguntou-lhe como ela podia aplicar-se a surdos-mudos congê­
nitos, que não têm noção de palavras. Sua resposta foi que devemos am­
pliar a conotação de "palavras" nesse contexto, de modo a incluir quais­
quer gestos de comunicação. 27
Seguem-se excertos (em tradução) da última carta desse ano.

"25 de dezembro de 1914


"Caro Jones,
"Sua carta chegou exatamente na véspera do Natal e, como seus es-
. forços anteriores para manter-se em contato, comoveu-me rr. uito e deu-me
grande prazer. Por várias vezes usei a gentileza do Dr. Van Emden para
fazer chegar minhas respostas ao senhor, mas não sei se as recebeu. As­
sim, quando o senhor não recebe uma resposta, não posso sequer fazer
com que saiba que não é por minha culpa.( ... )
Não tenho ilusões quanto ao fato de que o período de floraçãot de
nossa ciência foi violentamente interrompido, de que à nossa frente há
uma época difícil e de que a 11nica coisa que podemos fazer é manter

-186 -
uma incandescência em umas poucas lareiras até que um vento mais favo­
rável permita que arda de novo. O que Jung e Adler deixaram do movi­
mento está sendo arruinado pela contenda entre nações. Nossa Associação
mal pode ser mantida um pouco unida como qualquer outra coisa que de­
nomine a si própria Internacional. Nossos periódicos parecem estar che­
gando ao fim; talvez consigamos manter o Jahrbuch. Temos agora de dei­
xar sem controle tudo aquilo que tentamos cultivar e de que tentamos cui­
dar. Naturalmente, não estou ansioso quanto ao futuro definitivo da causa
pela qual o senhor revela comovente devoção, mas o futuro próximo, dni­
co em que posso estar interessado, parece-me estar irremediavelmente nu­
blado e eu não deveria ofender-me com qualquer rato que eu visse aban­
donando o navio a naufragar. Estou agora empenhado em reunir em uma
espécie de síntese o que ainda posso oferecer como contribuição, um tra­
balho que já apresentou muitas coisas novas.( .•• )
"Agüente firme até nos encontrarmos de novo.
"Lealmente,
"Freud''

1915
Na parte continental da Europa, ainda parecia que as Potências Centrais
ganhariam a guerra. A Alemanha rechaçou todas as ofensivas no oeste e
obteve grandes vitórias contra os russos. Freud estava bastante esperanço­
so. No início do ano, observou que a guerra podia ser prolongada, che­
gando mesmo até outubro. 28 "Nosso estado de espírito aqui não é tão ra­
diante quanto na Alemanha e o futuro nos parece imprevisível, mas a
energia e a confiança alemãs exercem sua influência. m 9 Abraham, natu­
ralmente, não tinha ddvidas: "A tensão é muito elevada por causa do blo­
queio da Inglaterra.O Nossa experiência anterior leva-aos a esperar que,
um dia, algo espantoso será publicado." 3 0 Por essa época, Freud expres­
sou-se uma vez de forma otimista quanto à vitória nas próximas batalhas,
a que se seguiria a paz; 3 1 um mês depois escreveu: "Meu coração está nas
montanhas; meu coração não está aqui. Ou sej a, está nos Dardanelos, on­
de se decide o destino da Europa. A Grécia nos declarará guerra dentro de
poucos dias e então não poderemos visitar as cidades que mais amei de
quantas j á conheci. " 3 2 Achava que a paz com a Itália seria mantida com a
condição de a Áustria renunciar a algum território: ..Teremos de visitar
San Martino em um país estrangeiro, mas mantemos Karersee, que, parti­
cularmente, prefiro entre as duas." 3 3
Mas as cínicas piadas aushíacas estavam começando e Freud citou a
., que falava que as retiradas na Galícia destinavam-se apenas a cansar o
inimigo. 3 4
Na primavera, ele refletiu: '"É um pensamento consolador que talvez

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a guerra não possa durar tanto quanto já durou.( ... ) É grande a tensão
quanto aos acontecimentos esperados. O senhor acha que tudo será satis­
fatório ?" 3 5 No verão, achava que a guerra podia durar mais um ano,3 6 mas
ainda tinha esperanças de vitória. "Como muitas outras pessoas, acho
que, quanto mais insuportável a guerra, melhores são suas perspecti­
vas. " 3 7 No outono, o estado de espírito tomou-se mais sombrio. "Não
acredito que a paz esteja perto. Pelo contrário, no próximo ano haverá um
aumento de rancor e crueldade." 3 8 "A longa duração da guerra nos esma­
ga e as infindáveis vitórias, combinadas com as crescentes dificuldades,
levam a indagar se todo o pérfido cálculo inglêsv pode estar correto." 3 9
Ele evidentemente não deparara com a carta d e Abraham d e dez dias an­
tes, a qual anunciava que a guerra já tinha sido ganha e que tudo o que
restava era fazer o inimigo admiti-lo; Abraham comparou-a a uma análise
onde a resistência à verdade foi por fim quebrada.
Naturalmente, havia considerável ansiedade quanto aos dois filhos
que estavam lutando: Martin, o mais velho, na Galícia e na Rússia; Ernst,
o mais novo, contra a Itália, depois da entrada desta na guerra, em abril .
Martin já recebera uma condecoração por especial bravura. Oliver, o ou­
tro filho, trabalhou em obras de engenharia durante toda a guerra, cons­
tru indo túneis, quartéis, etc.; formara-se em engenharia no mesmo dia em
que Anna se formara professora primária. Freud teve Yários sonhos sobre
calamidades com seus filhos, que ele interpretou como inveja de sua ju­
ventude. Certa ocasião houve um sonho particularmente intenso com
Martin que levou Freud a se indagar se não se tratava de um exEmplo de
clarividência, de modo que escreveu para fazer perguntas. Então ocorreu
que poucos dias depois Martin comentou sobre balas que passavam por
sua manga e seu boné. 4 0 Há pouco tempo perguntei a Martin se ele se
lembrava do incidente e ele respondeu concisamente: "Como poderia?
Você recebia uma bala através do boné toda vez que mostrava a cabeça
sobre as trincheiras."
Freud fez esforços desesperados para salvar os periódicos psicanalíti­
cos, de modo a conservar, em alguma medida, a continuidade no trabalho.
Foi bem-sucedido no caso da 'Zeitschrift e da Imago, ao preço de sacrifi­
car um livro projetado publicando seus capítulos nelas, mas o Jahrbuch
nunca apareceu de novo depois de 1914. Ele tinha de fazer a maior parte
do trabalho de editoração, pois Abraham e Ferenczi eram inacessíveis. Em
junho, Rank foi convocado, bem como Sachs em agosto; no entanto, de­
pois de doze dias de treinamento em Linz, Sachs foi liberado. Freud es­
creveu dizendo que parecia estar repetindo seu antigo período de grande
produtividade, mas de completa solidão. 4 1 A Sociedade de Viena deixou
de reunir-se quando eclodiu a guerra, mas as reuniões foram retomadas no
inverno e se realizavam a cada três semanas. 42 A clínica, naturalmente,
era pobre. Nó início do ano, havia ainda dois ou três pacientes, 4 3 todos

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aristocratas húngaros. Freud comentou sobre o notável fato de eu ter on­
ze, mas no fim do ano ele próprio tinha seis.
Com exceção de Ferenczi, que conseguiu ir a Viena duas ou três ve­
zes, Freud recebeu poucas visitas nesse ano, assim como nos anos se­
guintes. Contudo, uma visita especialmente interessante foi a de Rainer
Maria Rilke, que fazia treinamento militar em Viena. Freud apreciou a
noite que Rilke passou com a família.4 4
Em 3 de julho, Freud informou a Abraham que tinha estado fora por
vários dias, examinando uma casa em Berchtesgaden. Anteriormente pas­
sara aí três verões e agora gostava das cercanias mais do que nunca, pro­
vavelmente "pela transferência para esse local da libido que costumava
pertencer à Itália, agora perdida". Daí ele foi, a 17 de julho, para Ruof­
shof, Karlsbad, mais apreciável do que nunca por estar vazia e tranqüila.
Em 12 de agosto voltou a Berchtesgaden para não estar longe de sua mãe,
que se encontrava em Ischl, onde estava perto de comemorar oitenta anos.
Ele passou aí várias semanas, na Pensão Hofreit, Schõnau. Partindo em
13 de setembro, viajou via Munique e Berlim para Hamburgo, a fim de fi­
car com sua filha Sophie e usufruir da companhia de seu primeiro neto.
Depois de duas semanas aí, voltou para Viena, fazendo no caminho uma
visita a Frau Abrahamw em Berlim, em parte para de novo er-lhe os fi­
lhos, dos quais sempre gostou muito.
A correspondência de Freud nesse ano, embora menor em quantidade
que anteriormente, continha vários aspectos de interesse, de modo que
citarei alguns excertos. Há duas cartas de especial interesse pessoal diri­
gidas a Putnam, que depois as passou para mim. Os dois parágrafos que
se seguem fazem parte da primeira das duas, datada de 7 de junho de
1915. A segunda será citada mais à frente.x
"Minha principal impressão é a de que sou muito mais primitivo,
mais humilde e menos sublimado que meu caro amigo de Boston. Percebo
sua nobre ambição, seu vivo desejo de conhecimento e comparo com isso
meu modo de restringir-me ao que está mais próximo, mais acessível e no
entanto realmente pequeno, e minha inclinação para contentar-me com o
que está ao alcance. Não acredito que me falte a apreciação daquilo pelo
qual o senhor se empenha, mas o que me apavora é a grande incerteza
disso tudo; tenho um temperamento ansioso, e não audacioso, e de boa
vontade sacrifico muita coisa para ter a sensação de estar em terreno firme.
"A indignidade dos seres humanos, mesmo dos analistas, sempre me
causou profunda impressão, mas por que as pessoas analisadas seriam
completamente melhores do que as outras? A análise favorece a unidade,
mas não necessariamente a bondade. Não concordo com Sócrates e Put­
nam quando dizem que todas as nossas faltas provêm da confusão e da ig­
norância. Acho que se impõe uma carga muito pesada à análise quando se
pede a ela que possa realizar todos os preciosos ideais. "

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É interessante pensar que a predição de Freud (na segunda carta) de que
um maior conhecimento poderia lançar luz sobre a gênese de sentiment.os
mais nobres foi em ampla medida confirmada apenas alguns anos depois,
na investigação da gênese da consciência e do superego. O próprio Put­
nam deve ter ficado muito desapontado com a resposta de Freud, já que
em uma carta a mim dirigida, não muito depois, escreveu, em termos bem
tristes, que não achava ninguém disposto a aceitar as idéias que conside­
rava tão preciosas. 4 5
As passagens seguintes são da correspondência com Ferenczi. Ele
relatou a Freud a experiência de realizar uma análise com seu comandante
enquanto cavalgavam juntos, o que chamou de primeira "análise hípica"
de que se tem conhecimento. 4 6 Depois, subitamente concebeu a idéia de
que Freud se assemelhava muito a Goethe e acrescentou várias caracterís­
ticas comuns, tal como o amor pela Itália - comum, como se poderia su­
por, a muitos habitantes do norte. Trata-se de uma opinião que foi longa­
mente exposta também por Wittels. 4 7 A resposta de Freud tem seu interes­
se: "Acho realmente que o senhor me concede muita honra, de modo que
sua idéia não me dá prazer. Não conheço nenhuma semelhança entre eu
próprio e o grande cavalheiro que o senhor cita, e isso não se deve a mo­
déstia. Gosto muito da verdade - ou, digamos melhor, da objetividade -
para prescindir dessa virtude. Uma parte de sua idéia eu explicaria a partir
da impressão semelhante que temos quando, por exemplo, vemos dois
pintores usando o pincel e a paleta; mas isso nada diz sobre o igual valor
dos quadros. Uma outra parte provém de alguma semelhança em sua ati­
tude emocional em relação a ambos os homens. Deixe-me admitir que en­
contrei em mim mesmo apenas um atributo de primeira qualidade: uma es­
pécie de _coragem que não é afetada por convenções. A propósito, o se­
nhor também pertence ao tipo produtivo e deve ter observado o mecanis­
mo de produção no senhor mesmo: a sucessão de fantasia audaciosamente
em movimento e de crítica impiedosamente realista. " 4 8
Ferenczi, no entanto, não seria dissuadido e apresentaria outros pon­
tos de semelhança. Diante do que Freud respondeu: "Como o senhor per­
siste nessa comparação com Goethe, posso eu próprio dar a ela algumas
contribuições, positivas e negativas. Entre as primeiras, há o fato de am­
bos termos estado em Karlsbad; há ainda nosso respeito por Schiller, que
considero uma das personalidades mais nobres da nação alemã. Do se­
gundo tipo, há minha atitude em relação ao tabaco, que Goethe simples­
mente abominava, ao passo que de minha parte é a única desculpa para
• a iniqüidade de Colombo. No todo, não sou oprimido por qualquer senti­
mento de grandeza. " 4 9
A seguir há uma observação pessoal sobre o quanto Freud estava es­
crevendo nessa época: "Minha produtividade provavelmente tem a ver
com a enorme melhora no funcionamento de meus intestinos. Deixarei em

- 190 -
aberto se devo isso a um fator mecânico, à dureza do pão de hoje em dia
ou a um fator psíquico, a nova relação com o dinheiro que nos é imposta.
De qualquer modo, a guerra já significou para mim uma perda de 40.000
coroas (8. 104 dólares). Se obtenho saúde por meio disso, posso citar o
mendigo que disse ao Barão que para sua saúde nada era muito caro". so
Selecionarei agora, dessa correspondência, algumas passagens sobre
questões científicas. Proponho incorporar, em um capítulo posterior que
trata do tema geral da pré-história, uma interessante discussão sobre a re­
lação entre as experiências humanas na época glacial e as várias neuroses
que historicamente podem ser relacionadas com elas.
Alguns de nós criticaram o uso que Freud fazia do termo "parafre­
nia", com base em que Kahlbaum o empregara em outro sentido, mas
Freud disse que estava resolvido a manter seu uso. 5 1
Mencionou de passagem que uma intuição havia revelado que a cen­
sura da neurose obsessiva funciona mais entre o pré-consciente e a cons­
ciência do que entre o inconsciente e o pré-consciente. 5 2
Em outra carta perguntou a Ferenczi se ele sabia que havia algo que
se pudesse denominar de criminalidade devida a sentimento de culpa,Y e
que a gagueira podia ser causada por um deslocamento para cima de con­
flitos relativos a funções excrementícias. 5 3
A comunicação com Abraham era menos fácil. Com freqüência uma
carta levava quinze dias de Berlim a Viena e em abril Abraham foi trans­
ferido para Allenstein, em uma parte distante do leste da Prússia. Perma­
neceria aí até o fim da guerra e no final do ano sua família se reuniu a ele.
A questão mais importante que Freud discutiu com Abraham em 1915
foi um tema de interesse para ambos, a psicologia da melancolia. Esse
ponto será abordado na seção apropriada.z Tiveram também troca de .
idéias sobre o ensaio de Freud sobre a guerra.ªª
Freud comentou com Abraham a curiosa periodicidade de seus esta­
dos de trabalho: "No momento encontro-me em uma noite polar e estou à
espera de que o sol nasça." 5 4
O comentário mais intrigante, porém, foi o de que ele por fim obtive­
ra um insight da base primai da sexualidade infantil. 5 5 Nada mais foi dito
sobre isso, mas talvez se possa indagar se ele já estava pensando na mu­
dança de suas concepções sobre o sadismo e o masoquismo por ele anun­
ciada nove anos depois e que acompanhava sua teoria de uma pulsão de
morte.
Em seu ensaio sobre "Repressão", que acabara de aparecer, Freud
falava de uma repressão secundária ocasionada tanto pela ação do ego
quanto pela atração do material inconsciente associado com a· idéia em
questão: um empurrão e um puxão. Achando isso um pouco ambíguo,
propus-lhe as seguintes questões: "O senhor descreve a ação do incons­
·ciente como causadora de parte da repressão de uma maneira diferente

-191 -
daquela como eu a concebera, que era a seguinte: a atração do material
inconsciente e primitivo prévio envolve o material associado mais novo na
mesma órbita de sentimento, investindo-o assim com esse sentimento e le­
vando-o conseqüentemente a se sujeitar às mesmas forças de repressão
que o material mais antigo. Em outras palavras, -o mais antigo envolve o
material mais novo em seu próprio destino, isto é, repressão, mas em am­
bos os casos a verdadeira força repressora atua a partir de cima, a partir
das instâncias 'superiores' (embora, é claro, não necessariamente a partir
das conscientes). Estou errado neste ponto ou ele pode reconciliar-se- com
sua fraseologia sobremodo diferente?" 5 6 Em sua carta seguinte, ele con­
cordou que minha formulação era mais precisa e, como desde então houve
às vezes incompreensões quanto a essa questão, julgo que vale a pena re­
gistrá-la.
Freud estava com sessenta anos e sempre lhe pesava pensar na velhi­
ce. Acreditava supersticiosamente que tinha apenas mais uns poucos anos
de vida. Estava, portanto, disposto a tentar algo como uma síntese de suas
concepções psicológicas mais profundas e acrescentar o que ainda sentia
que tinha para dar ao mundo; a intenção vinha germinando em seu espírito
há uns poucos anos. Quatro anos antes, dissera a Jung que estava "prenhe
de uma grande síntese" e que planejava começar a escrevê-la naquele ve­
rão. 5 2 O estado de ânimo atual deve ter sido acentuado pelas experiências
de uma guerra indefinidamente longa, a cujas agruras ele poderia muito
bem não sobreviver. A isso atribuo seu plano, que anunciou para todos
nós, de escrever doze ensaios e incorporá-los em um livro que presumi­
velmente seria publicado depois da guerra. Apresentou diferentes títulos
para o livro: Zur Vorbereitung der Metapsychologie (Introdução à Metap­
sicologia), 5 8 A bhandlungen zur Vorbereitung der Metapsychologie (En­
saios Introdutórios sobre Metapsicologia) 5 9 e Uebersicht der Uebertra­
gungsneurosen (Um Exame Geral das Neuroses de Transferência). 6 0
A concepção "metapsicologia" desempenha papel central na teoria
freudiana da mente. Por ela Freud desejava designar uma descrição
abrangente de quaisquer processos mentais que incluiria uma exposição
de (a) seus atributos dinâmicos, (b) seus aspectos topográficos e (c) sua
significação econômica. O próprio termo, que até onde sei foi inventado
por Freud, ocorre primeiro em uma carta a Fliess em 18966 1 e em uma
carta que dois anos depois escreveu para justificar seu uso. 6 2 Sua primeira
ocorrência em publicação se deu em 1901, 6 3 mas só ocorreu de novo em
1915, no grande ensaio sobre "Repressão".
Freud começou a escrever uma série em 15 de março de 1915 e nesse
dia escreveu a Abraham anunciando o fato. Em três semanas completara
os dois primeiros, sobre "Os Instintos e suas Vicissitudes" e sobre "Re­
pressão". 6 4 O seguinte, sobre "O Inconsciente", que afirmou ser seu fa­
vorito, ocupou-o por mais duas semanas. 65 Os dois últimos, sobre "O Su-

- 192 -
plemento Metapsicológico à Teoria dos Sonhos" e "Luto e Melancolia",
foram completados em mais onze dias. 6 6
Esses cinco ensaios estão entre os mais profundos e importantes de
todas as obras de Freud. Neles a originalidade de sua penetração na teoria
da mente era tão nova que eles precisam de um estudo muito cuidadoso. É
difícil acreditar que tenham tódos sido escritos no espaço de seis semanas;
no entanto, foi o que aconteceu. Tal furor de atividade dificilmente seria
igualado na história da produção científica.
Mas Freud não descansou. Nas seis semanas seguintes, tinha escrito
mais cinco ensaios, embora dois deles, sobre "Consciência" e "Ansieda­
de", ainda precisassem de uma pequena revisão. Contou a Ferenczi que
tinha acabado de completar o ensaio sobre "Histeria de Conversão" e que
iria começar a escrever um ensaio sobre "Neurose Obsessiva", a que se
seguiria uma "Síntese Geral das Neuroses de Transferência". 6 7 Quinze
dias depois ele me disse que todos os doze da série estavam "quase
prontos", 6 8 e no início de agosto estavam completamente prontos. 6 9
Quando consideramos essa tremenda explosão de produtividade e le­
vamos em conta as outras contribuições que escreveu nesse ano, fica claro
que a guerra estimulara muito sua capacidade de trabalho. Todavia, à me­
dida que prosseguiu, teve necessariamente o efeito oposto.
Agora vem a história triste. Nenhum dos sete últimos ensaios foi pu­
blicado e seus manuscritos não sobreviveram. E a única referência a eles,
na correspondência, ocorreu dois anos depois, quando ele mencionou sua
intenção original de publicar todos os ensaios sob a forma de li_vro, "mas
agora não é o momento", 7 0 (evidentemente em virtude das dificuldades,
durante a guerra, para publicar). Não posso compreender agora por que
nenhum de nós perguntou a ele, depois da guerra, o que tinha sido feito
deles. E por que ele os destruiu? Minha própria suposição é que repre­
sentavam o fim de uma época, o resumo final da obra de sua vida. Foram
escritos numa época em que não havia sinais do terceiro grande período
de sua vida, que se iniciaria em 1 919. Provavelmente guardou-os até o
fim da guerra e então, quando novas idéias revolucionárias começaram a
despontar, o que teria significado refundi-los por completo, ele simples­
mente os rasgou. Só podemos esperar que as idéias neles contidas não te­
nham ficado completamente perdidas e que muitas delas tenham sido in­
corporadas em textos posteriores.
A atitude de Freud, nesse ano, de desejar resumir a obra de sua vida é
confirmada por seu comportamento, na mesma época, em relação a suas
conferências anuais na Universidade.bb Decidiu fazê-las pela última vez.
Tudo parecia estar se encerrando.
Em 1915 foram publicados quatro outros artigos. 7 1 O primeiro era
uma pequena exposição de um caso que parecia ir contra a explicação da
paranóia anteriormente apresentada por Freud. O seguinte, intitulado

-193 -
"übservac;ões sobre o Amor Transferencial" , 7 2 era o terceiro e último da
série " Novas Recomendações sobre a Técnica da Psicanálise. "cc U m arti­
go mais original, embora talvez menos útil para o terapeuta, intitulava-se
" Alguns Tipos de Caráter Encontrados no Trabalho Psicanalítico " _dd 7 3
Os ú ltimos eram dois ensaios, "Reflexões para o s Tempos de G uerra e
7\ lorte",ee 74 que foram reeditados sob várias formas e tiveram um conside­
rável sucesso também entre os leigos. Esse trabalho foi escrito, como os
úutros artigos há pouco mencionados, no início do ano.
No conj unto, o ano de 1 9 1 5 foi pleno de acontecimentos, verdade i­
ramente terrível , mas também estimulante . Foi sem dúvida um dos ano�
mais produtivos de Freud.

1916

Esse ano mostrou-se muito monótono e m comparação com o anterior.


Começou de maneira nada auspiciosa para Freud, tendo em vista a trans­
ferência de Otto Rank, em janeiro, para Cracóvia, a fim de aí editar o
principal jornal. 7 5 Com exceção de um mês de férias em Constantinopla,
no mês de agosto seguinte, 7 6 Rank ficou insulado em Cracóvia pelo resto
::la guerra, tento podido fazer apenas urnas poucas e rápidas visitas a Vie­
n a. Contou-me mais tarde que se tornara conhecido como especialista em
ofensa a Lloyd George e com freqüência era consultado a esse respeito.
Esses anos em Cracóvia foram deci sivos para o resto de sua vida. Sofreu
consideráveis mudanças de caráter e também duas graves crises de de­
:>ressão que prenu nciaram seu distúrbio posterior.
A ausência de Rank foi um sério golpe para Freud, pois, estando
Abraham e Ferenczi distantes, era dele que Freud dependia em termos de
m· xílio essencial em suas atividades de editoração e publicação. Restava
apenas Hanns Sachs, mas este esteve à altura da situação e Freud o elo­
giúu mu ito. A principal preocupação de Freud, nos anos restantes da
guerra, era de um modo ou outro manter em funcionamento pelo menos
dois dos três periódicos psicanal íticos. Eles representavam tudo o que ha­
via ficado do movimento psicanalítico. Por mei o de artigos que ele pró­
prio escrevia para suprir a falta de material , da redução do tamanho dos
periódicos e - quando as coisas estavam piores - de um espaço de tempo
maior entre os números, Freud conseguiu seu objetivo. Ferenczi insistiu
para que a palavra "Internacional" fosse omitida da Zeitschrift, já que não
era mais apropri_;:1do, mas roguei para que isso não ocorresse e meu pró­
prio nome figurou como co-editor durante toda a guerra. No final, Freud
sentia-se orgulhoso ao pensar que esse foi o único periódico científico
que mantivera hasteada a bandeira internac ionalff a despeito do terrível
rancor entre as nações nessa época.
No primeiro dia do ano Freud enviou cu mprimentos a Eitingon,

- 1 94 -
acrescentando: "É difícil dizer algo sobre a guerra. Parece haver uma
calmaria antes da tempestade. Ninguém sabe o que vem a seguir, a que ela
levará e quanto tempo durará. Não é impossível que a predição inglesa se
mostre correta, embora se espere que apenas no tocante à duração da
guerra e não ao seu resultado . O estado de esgotamento aqui já é muito
grande e mesmo na Alemanha não mais se mostram resolutamente otimis­
tas. " Mencionava que seu filho mais velho se tornara tenente e o mais no­
vo cadete; ambos estavam lutando na frente italiana. O outro filho, Oliver,
estava construindo um túnel nos Cárpatos, para onde levara a mulher com
quem acabara de se casar. Um mês mais tarde, Freud disse a Ferenczi que
estava lendo quatro jornais por dia.7 7 Estava então à espera da guerra com
os Estados Unidos. Nessa primavera mencionei que eu tinha onze pa­
cientes, havendo três à espera de uma vaga, e que eu comprara um carro e
uma casa de campo. Ao relatar essas notícias para Ferenczi, Freud co­
mentou: "Feliz Inglaterra. Isso não parece um fim próximo da guerra. "7 8
Em carta a Sachs, nesse verão, tranqüilamente dei minha opinião de que
estávamos mais ou menos na metade da guerra, predição que se mostrou
quase exatamente verdadeira. Depois que a guerra terminou, disseram-me
que minha opinião causara sensação, pois a todo instante estavam à espera
do término. O sempre esperançoso Abraham tentou organizar um congres­
so err Munique, no mês de setembro. Nessa época, porém, a fronteira en­
tre a Áustria e a Alemanha foi fechada, e Freud desprezou usar o pretexto
de um congresso para passar. 7 9
Abraham era então diretor de um hospital com 75 leitos e no fim da
guerra teve satisfeito seu desejo de mudar do serviço cirúrgico para a psi­
copatologia. Ferenczi também foi transferido de Pápa para Budapeste, on­
de ficou encarregado de uma clínica neurológica. Eitingon, felizmente pa­
ra Freud, como mais tarde se veria, ficou servindo na Hungria. Max Hal­
berstadt, genro de Freud, fora ferido na França 8 0 e posteriormente dispen­
sado do exército.
Em fevereiro, Freud teve uma forte gripe 8 1 e nessa época sofria tam­
bém de problemas na próstata.
Em maio, Freud completou sessenta anos. Lamentou com Eitingon 8 2
estar no limiar da velhicegg e escreveu a Abraham: "Como resultado das
notícias nos jornais de Berlim, meu aniversário no fim das contas não pô­
de ser mantido em segredo como eu desejava. Em especial os que estão
distantes, que não sabiam de meus desejos, se movimentaram e me deram
muito trabalho para lhes agradecer. Mesmo de Viena recebi tantas flores
que não posso mais esperar receber quaisquer coroas funerárias e Hitsch­
mann enviou-me um 'discurso' tão comovente que posso pedir, quando
chegar o momento, que seja enterrado sem qualquer oração fúnebre." 8 3
Quando me coube pronunciar essa oração, mais de vinte anos depois, eu
nada sabia do antigo discurso de Hitschmann.

- 195 -
A escassez de alimentos já estava tomando difícil ter férias na Áus­
tria, e o fechamento da fronteira excluía tanto a querida Berchtesgaden de
Freud como qualquer visita à sua filha em Hamburgo. Todavia, ela foi a
Viena em meados de novembro e passou seis meses com os pais. O pró­
prio Freud foi, a 16 de julho, para Bad Gastein, 3 4 bela localidade no sopé
das montanhas Tauren. Pretendera passar a! todas as suas férias de yerão,
mas as condições eram tão insatisfat6rias que depois de uma semana ele
foi para Salzburg, onde ficou cinco semanas no Hotel Bristol, local do
primeiro congresso. No fim de agosto, porém, voltou a Gastein por duas
semanas, retomando a Viena em 15 de setembro, mais cedo do que era
seu costume. 3 5 No meio das férias, escreveu: "Temos de usar todos os
meios possíveis para nos afastarmos da terrível tensão do mundo externo;
não se pode suportá-la." 86
A correspondência com Ferenczi nesse ano se ocupou sobretudo com
a discussão da neurose deste último, que foi narrada com detalhes e que
estava interferindo em algumas decisões vitais em sua vida. Os comentá­
rios de Freud eram breves e simplesmente mais incentivadores do que
analíticos. De fato, ele dava o conselho de que uma pessoa deve tomar
decisões importantes independentemente de qualquer análise, que deve ou
preceder ou seguir tais decisões, mas não acompanhá-las. 87 Em meados de
junho, Ferenczi foi a Viena por três semanas e foi analisado por duas ho­
ras diariamente; contudo, mais uma vez a análise foi abruptamente inter­
rompida por causa de suas obrigações militares.
A única observação geral de interesse, na correspondência entre os
dois, foi a que Freud fez ao dizer a Ferenczi que a cocaína, "se usada em
excesso", podia produzir sintomas paran6ides e que a interrupção do uso
da droga podia ter o mesmo efeità.hh No conjunto, os viciados em drogas
não eram muito adequados para tratamento analítico, porque qualquer re­
caída ou dificuldade na análise levavam-nos a recorrer nõvamente à dro­
ga.,8 8 Outra observação, que talvez possa ser relacionada com a anterior,
foi o reconhecimento de que sua paixão pelo fumo o impedia de elaborar
certos problemas psicológicos. 89
Em 1915, Freud mencionou a questão do Prêmio Nobel. "A conces­
são do Prêmio Nobel a Bárány, que recusei como aluno alguns anos atrás
porque me pareceu muito anormal, tem despertado tristes pensamentos so­
bre como uma pessoa é impotente para obter o respeito da massa. O se­
nhor sabe que apenas o dinheiro me importaria e talvez a maldosa satisfa­
ção de irritar alguns de meus compatriotas. Mas seria ridículo esperar um
sinal de reconhecimento quando sete oitavos do mundo são contra vo­
cê. " 9 1, Um ano depois Abraham informou a Freud que Bárány propusera
o nome de Freud para o próximo Prêmio Nobel. 9 1 Freud admitiu que o di­
nheiro seria muito bem-vindo, já que seu último paciente estava acabando
o tratamento. 92 Quando tomou conhecimento de que Bárány fora nomeado

.-196 -
para uma cátedra na Suécia (em Upsala), disse que isso podia elevar suas
chances de 5 para 6 por cento, mas não faria diferença quanto ao resulta­
do final; 9 3 infelizmente, estava certo em sua predição.
Poucos dias depois disse a Ferenczi que não tinha nenhum paciente e
não via perspectivas de ter outros. 9 4 Todavia, seu estado de espírito era
bom, o que ele atribuía à démarche do Presidente Wilson, que ele achava
que devia ser levada a sério.ii
Os três liltimos dos cinco ensaios que, segundo dissemos, foram es­
critos em 19 1 5jj foram publicados nesse ano. A única outra publicação foi
a primeira parte das Conferências Introdutórias. A única atividade cientí­
fica de Freud nesse ano foi o preparo das outras conferências a serem
feitas na sessão de inverno de 1916-1917. Acabou de escrevê-las no iní­
cio de novembro. 9 5 O único sinal de outras idéias foi seu anúncio, no final
do ano, de que havia começado a estudar a obra de Lamarck. 96 O resulta­
do disso seria visto em anos vindouros. Comparado com o ano anterior,
esse foi um ano quase estéril.

1917
O ano d e 1917 se mostraria ainda mais desolador e mesmo menos produ­
tivo que o anterior. O entusiasmo inicial de Freud por uma vitória alemã
se desfizera e ele se tomava cada vez mais pessimista quanto ao resultado
da guerra.
Foram os seguintes seus comentários sobre as acusações contra a
Alemanha que a Entente fez em sua resposta à nota do Presidente Wilson:
"A primeira impressão do novo ano foi um resumo da resposta da Enten­
te. É difícil saber o que fazer com ela. Se são capazes de manter essas
mentiras por dois anos e meio, as coisas não parecem tão más, pois então
sua rejeição dos termos de paz também pode ser enganosa. Trata-se de
questão diferente se estão certos em suas acusações, pois isso significaria
que nossos governos nos mentiram tanto que não nos é possível julgar a
questão". 97 Abraham, porém, ainda tinha esperanças de os submarinos
derrotarem a Inglaterra e assim trazerem a paz. 9 8
Ocorreu então a primeira revolução russa. "Até que ponto se teria
entrado nessa gigantesca mudança, se nossa primeira consideração não
fosse a questão da paz." 9 9 Em abril, escreveu a Ferenczi: "Acredito que,
se os submarinos não dominarem a situação até setembro, as pessoas na
Alemanha irão despertar de suas ilusões e isso levará a terríveis conse­
qüências. " 1 0 0 Poucos meses depois, tinha certeza de que não havia espe­
rança de paz em 19 17 e que a guerra iria continuar até a chegada dos
t americanos. ! 0 1 Mais tarde informou ter rec�bido uma carta minha "no
costumeiro estilo inglês" dizendo que a resistência alemã era tão forte que
ainda se poderia levar algum tempo para vencê-la. 1 0 2

- 1 97 -
No outono ele deve ter sentido que a guerra estava perdida. 1 03 "Julgo
a situação com extremo pessimismo e acredito que, a menos que haja uma
revolução parlamentar na Alemanha, temos de esperar que a guerra pros­
siga até uma completa derrota. Acho que deveríamos levar a sério as ga­
rantias dos ingleses quanto a suas intenções e que também temos de ad­
mitir o fracasso da guerra submarina. Assim, o futuro é bem negro para
nós." Abraham, ao contrário, achava que depois da vitória de Caporetto a
paz podia ser esperada para breve. 1 0•
No final do ano, havia claros sinais de que a verdade estava afloran­
do e de que Freud havia perdido toda a simpatia pela Alemanha - não que
tivesse passado a ter muita pelo outro lado. Escrevendo a Abraham, disse:
"Sinto-me amargamente hostil à idéia de escrever como me sinto em rela­
ção a muitas outras coisas. A estas pertence sua cara Pátria Alemanha. Di­
ficilmente posso imaginar-me viajando à Alemanha, mesmo quando isso
se tornar fisicamente possível. Na disputa entre a Entente e as Potências
Centrais, cheguei decididamente à posição da Dona Bianca, de Heine, na
Disputa em Toledo :
Doch es wil! mich schier bedünken ... kk
"A única notícia alegre é a captura de Jerusalém pelos ingleses e a
experiência que eles propõem quanto a uma morada para os judeus. " 1 º 5
Rosa, a irmã preferida de Freud, perdeu seu único filho, Hermann
Graf, um jovem de vinte anos, que morreu durante o verão na frente ita­
l iana. 1 0 6 Foi a única perda que a família sofreu nesse ano. Apesar de vá­
rias aventuras arriscadas e agruras, os dois filhos de Freud que participa­
ram da guerra voltaram sãos e salvos.
Mas a população por trás da frente também sofria muito, especial­
mente na Áustria. Em suas cartas, Freud muitas vezes queixava-se do frio
excessivo e da dificuldade de obter alimentos suficientes-para manter a
saúde; nesses anos havia muita subnutrição. De vez em quando, Ferenczi
e Von Freund conseguiam contrabandear da Hungria, por meio de várias
manobras complicadas, farinha de trigo, pão e ocasionalmente algumas
guloseimas, mas essa ajuda era muito precária. Jacobus Kann, irmão de
um ex-paciente, também se esforçou para fornecer-lhes alimentos da Ho­
landa. O escritório de Freud não podia ser aquecido, de modo que as car­
tas só podiam ser escritas com dedos enregelados e qualquer idéia de es­
crever trabalho científico tinha de ser abandonada nos meses de inverno.
Vários outros tipos de dificuldades, que não precisam ser especificadas
aqui, tornavam muito dura a vida em Viena. Contudo, depois de mencio­
nar algumas delas, Freud podia acrescentar: "De modo bastante curioso,
com tudo isso, estou bastante bem e meu estado de espírito está inabalado.
Trata-se de uma prova de como uma pessoa precisa de pouca justificação
na realidade para o bem-estar interno. '' 1 º 2 A seus problemas de próstata

- 198 -
acrescenta-se então o reumatismo, 1 0 8 de modo q u e ele se sentia afortLtnado
por ter os recursos i nternos a que fizera alusão.
No final do ano, ocorreu algo que, em função do que viemos a saber
mais tarde , poderíamos ser tentados a c l assificar de sin istro . Freud t inha
cada vez menos dos seus aprec iados c harutos, o que natural mente era pe­
noso . "Ontem fume i meu últ imo charuto e desde então tenho estado mal­
humorado e cansado. /\pareceu uma palpitação e houve piora de uma do­
lorosa inchação no palat o , de que me apercebi desde que começou a es­
cassez I câncer? J. Então um paciente me trouxe c inqüenta charutos, acendi
um, fiquei alegre e a afecção do palato l ogo desapareceu. Eu não teria
acreditado n isso, se não t i vesse sido tão e vidente . Bem à la C iroddeck . " 1 0 9
I sso s e deu seis anos antes d o verdadeiro câncer at acá-lo nesse local , e
sabe-se que os ciru rg i ões falam de um "estágio pré-canceroso " . A l igação
com o fumo é inequ ívoca.
A questão do a l ívio do calor e da poeira de Viena no verão foi extre­
mamente difíc i l nesse ano. Era impossível obter acomodação no campo
austríaco , fosse em Gastein, fosse mais perto, em Semmeri ng. Depois de
esforços muito compl icados, Ferenc7 i resolveu o problema ao encontrar
um l ocal nas montanhas do Tatra, onde ho_ie é a Eslováquia. Assim, a fa­
m ília viajou na noite de :?.O de _j unho, mais cedo do que era o costume de
Freud , e passou dois meses na Viffa Maria Theres ia, em Csorbató, a cerca
de 1 . 200 metros de al titude . Fazia fr io e o tempo esteve bastante rui m,
mas Freud ap reciou as cercanias e pôde até mesmo entregar-se à sua ocu­
pação pred i leta durante as féri as : procurar cogumelos. Ferenczi ficou com
a família Freud por duas semanas e Sachs por três semanas. Eitingon e
Rank também consegu i ram fazer uma vis ita de um ou dois d i as . Uma irn1ã
ele mi nha mulher, G rete f i m , conhec ida atri z, também part ic ipou do grupo
e guarda várias lembranças cio interessante período aí passado. Freud
voltou a Viena no último dia de agosto, detendo-se em Budapeste durante
a viage m .
N o decorrer desse ano o número ele pacientes el e Freud, naturalmente ,
variou mu ito. No i n íc io não havia um paciente sequer. 1 1 0 Em abril , a si ­
tuação era me l hor, mas em junho havia apenas três pac iente s . 1 1 1 Depois
das férias , porém, o núme ro chegou a nove , assim ficando pelo resto do
ano . 1 1 2 No entanto, os ganhos ele Freud não acompanhavam ele modo al­
gum a al armante alta de preços. Tudo o que pod iam fazer era protelar "a
r i nevitável banc arrota" . 1 1 3
Em maio Freud sofreu mu ito ao saber ela morte de Johann Starcke na
Holanda. 1 1 ' Era um dos analistas mais promissores e sua morte foi consi­
derada u ma grande perda. Além d isso, Ran k , que no verão se refizera de
sua depressão do i nverno, v iu-se no fim do ano sofrendo de outro grave
ataque. 1 1 5 Ferenczi também era uma fonte de ansiedade . Em fevereiro,
descobriu que sofria de tubercul ose pulmonar e da doença de G raves (b6-

- 1 99 -
cio exoftálmico ), tendo tido de passar três meses em um sanatório em
Semmering. 1 1 6
Por outro lado, chegaram notícias de três valiosas adesões. Urna foi a
de Anton von Freund, rico cervejeiro de Budapeste, a quem tanto Freud
quanto Ferenczi ficaram muito ligados; adiante se falará dele. A seguir
Groddeck entrou em cena e enviou a Freud seus escritos. Freud teve im­
pressão favorável de Groddeck; Ferenczi, de início, teve impressão menos
favorável, embora mais tarde tenha chegado a tê-lo em alta conta. Uma
grande surpresa foi o anúncio de que Otto Põtzl faria na Universidade
uma conferência em que apresentaria um trabalho experimental sobre so­
nhos que confirmava as teorias de Freud. Este foi ouvi-Ia e comentou a
estranha sensação que teve ao estar mais uma vez no auditório de Wagner­
Jauregg e dessa vez para ouvir um dos assistentes dele defender a psica­
nálise. 1 1 7 Freud convidou Põtzl para comparecer às reuniões da Sociedade
de Viena. Mais tarde Põtzl sucedeu ao Professor Pick em Praga e cerca de
dez anos depois sucedeu a Wagner-Jauregg como Professor de Psiquiatria
em Viena.
Não era de se esperar que nas desalentadoras circunstâncias desse
ano Freud estivesse com ânimo para trabalhar. Às vezes ele se queixava
de que a tensão causada pela guerra era muito grande para deixá-lo pensar
em escrever. As perspectivas cada vez mais sombrias às vezes chegavam a
afetar sua alegria de viver. Em uma carta à noiva de Ferenczi, escreveu:
"Tenho, ocasionalmente, períodos de desgosto pela vida e de alívio diante
do pensamento de que há um fim para esta dura existência. Nesses mo­
mentos impõe-se a mim o pensamento de que nosso amigo está tão neces­
sitado de cuidados . " 1 1 8 Naturalmente, a aproximação do inverno, com a
tristeza dos cômodos sem aquecimento, constituía o pior período. Quando
parecia que a escassez de papel estava levando seus periódicos ao fim, es­
creveu a Abraham: "Seria bom se sua resenha das Conferências Introdu­
t6rias pudesse ver a luz do dia antes de o mundo acabar. Quando a Zeits­
chrift deixar de aparecer, nossa função está temporariamente encerra­
da. " 1 1 9 "Tenho trabalhado muito, sinto-me esgotado e estou começando a
achar o mundo repelentemente abominável . A superstição de que minha
vida deve chegar a um termo em fevereiro de 1918 com freqüência me pa­
rece uma idéia inteiramente propícia. Às vezes tenho de lutar muito para
recuperar o domínio de mim mesmo." 1 2 0 Mas, quando Ferenczi protestou
contra essa idéia, Freud respondeu: "Quando li sua carta, desprezei seu
otimismo com um sorriso. O senhor parece acreditar em uma 'eterna re­
corrência do mesmo'11 e querer não ver a inequívoca direção do destino.
Não há realmente nada de estranho em que um homem da minha idade
perceba o gradual e inevitável declínio de sua pessoa. Espero que logo o
senhor possa convencer-se de que isso não •significa que estou em mau
estado de espírito. Trabalho esplendidamente todo o dia com nove tolos e

- 200 --
praticamente não posso controlar meu apetite, mas não desfruto mais do
sono que costumava ter. "_1 2 1
A produção d e Freud em 1917, em termos de trabalhos escritos, não
foi muito grande, como era de esperar. No início do ano escrevera um ar­
tigo intitulado "Uma dificuldade no Caminho da Psicanálise". 1 2 2 Descre­
via os três grandes golpes que o orgulho do homem sofrera nas mãos da
ciência: seu deslocamento do centro do universo, depois seu deslocamento
de uma posição única no mundo animal e, por fim, a descoberta de que
não era senhor de sua própria mente.
A principal publicação do ano foi a da segunda metade das Conferên­
cias Introdutórias. Estas foram completadas no início da primavera e o li­
vro apareceu em junho. Depois, na viagem de trem de Csorbató para Vie­
na, n 3 Freud escreveu o pequeno artigo sobre Goethe: "Uma Lembrança
de Infância de Dichtung und W arheit". n4 Em setembro, estava escreven­
do 1 2 5 o ensaio antropológico sobre "O Tabu da Virgindade", que iniciara
no mês de janeiro anterior; 1 2 6 foi publicado no ano seguinte.
Mas as publicações não são indício completo da produtividade de
Freud nesse ano. Havia um tema importante que, a intervalos, ocupou seu
pensamento ao longo do ano. Tratava-se de um estudo, que ele e Ferenczi
estavam empreendendo em conjunto, sobre a relação do lamarckismo com
a psicanálise. Abraham nada sabia a respeito, de modo que Freud lhe en­
viou o resumo que se segue: "Nossa intenção é colocar Lamarck inteira­
mente em nossa base e mostrar que sua 'necessidade' que cria e transfor­
ma órgãos não é outra coisa senão o poder das idéias inconscientes sobre
o corpo, do que vemos resquícios na Histeria: em suma, a 'onipotência
dos pensamentos'. O propósito e a utilidade seriam então explicados psi­
canalíticamente; seria a conclusão da psicanálise. Dois grandes princípios
de mudança ou progresso emergiriam: um através da adaptação (autoplás­
tica) do próprio corpo e mais tarde outro (heteroplástico) através da
transmutação do mundo extemo.''t! 2? Esse modo de pensar percorre grande
parte do período mais especulàtivo de Freud na última parte de sua vida.

1918

No verão desse ano, dois acontecimentos animaram muito Freud e redimi­


ram o ano de ser inteiramente triste e sombrio. Deles falaremos a seguir.
Antes do último mês dá guerra, há apenas uma menção a ela na cqrres­
pondência desse ano. Evidentemente, Freud se resignara, como muitos
austríacos, a ser arrastado pela Alemanha para o doloroso fim. A grande
ofensiva de março, que os ingleses chamaram de "avanço Ludendorf'',
despertou uma momentânea esperança de outra vitória, mas não de paz
propriamente dita. "Suponho que temos de desejar uma vitória alemã e

-201 -
isto é (1) uma idéia desagradável e (2) ainda improvável. " 1 2 3 Pedia des­
culpas por não estar mais animado, dizendo estar cansado da vida.
As privações acarretadas pela guerra continuavam aumentando. Além
das sérias questões da alimentação e do aquecimento, havia infindáveis
outras questões menores que impediam constantemente as atividades da
vida cotidiana. A família Freud estava em melhor situação que a maioria
Jos vienenses, em termos de alimentos, em virtude dos constantes esfor­
ços de Ferenczi e Von Freund para, de um modo ou outro, obter-lhe al­
gum alimento; para esse fim, usavam, ou abusavam, de sua posição militar
ele várias maneiras engenhosas. A carne sempre fora o principal prato de
Freud e sua grande escassez o incomodava; passavam- se semanas ou me­
ses en�� que pouqufssima carne aparecia à mesa. Repetidas vezes ele ex­
pressou sua gratidão pela ajuda que recebia e seu prazer diante do pensa­
mento de que tinha amigos tão leais. Essa ajuda, porém, cessou em outu­
bro, quando a Hungria se separou da Áustria e todas as comunicações fo­
ram cortadas.
Em fevereiro, um paciente que ele curara lhe deixou em seu testa­
mento dez mil coroas, soma nominalmente equivalente a dois milhões e 2 ( 1
mil dólares, mas que nesse momento valia apenas uma quarta parte disso.
Ue "bancou o rico", distribuindo o dinheiro entre seus filhos e paren­
tes. 1 2 9
O estado de espírito de Freud continuava oscilando na primeira meta­
de do ano. Evidentemente, ele sentia que havia pouco o que aguardar.
"Só nos resta uma dolorosa resignação. " 1 3 0 A idéia da firmeza de Abra­
ham sempre o animou. "Minha alternância de coragem e resignação busca
abrigo em seu temperamento imutável e em seu indestrutível senso de vi­
talidade. " 1 3 1 Três meses depois escreveu : " Minha mãe completará 83 anos
este ano e já não está muito forte. Às vezes penso que me sentirei um
pouco mais livre quando ela morrer, pois a idéia de que ela possa saber
que morri é aterradora. "mm Por muito tempo alimentara a convicção de
que morreria em fevereiro de 1918 e com freqüência se referiu a ela em
tom resignado.
Em maio, um artista, Schmutzer, um paciente tratado com sucesso,
fez um desenho de Freud. Ele admirou o trabalho, mas, como é comum
nessas ocasiões, não ficou satisfeito com a semelhança. 1 3 3
Depois das animadoras experiências do verão, a que vamos referir­
nos em seguida, o estado de espírito de Freud tornou-se mais alegre e
continuou assim. A história do primeiro dos dois acontecimentos anima­
dores é a que se segue. O húngaro Anton von Freund, Doutor em Filoso­
fia, cujo nome foi mencionado anteriormente, pouco tempo antes tivera de
retirar um sarcoma do testículo e naturalmente temia que houvesse recor­
rência. Isso provocou uma neurose, da qual Freud o tratou com sucesso.
Todavia, incerto quanto à sua vida, voltou seu pensamento para planos

- 202 -
filantrópicos, a fim de dispor de sua grande fortuna, e decidiu dedicá-la
ao progresso da psicanálise. Freud encaminhou-o a Ferenczi e nesse verão
os planos começaram a tomar forma concreta. Freud tivera infindáveis
problemas com suas publicações, tanto de livros quanto de periódicos.
Provinham não apenas da extrema escassez de papel para impressão, ti­
pos, mão-de-obra, etc . , mas também de seu editor, Heller, ser urna pessoa
bastante difícil. Assim, concebeu a idéia de fundar urna editora sua, inde­
pendente, a que me referirei corno Verlag, que lhe daria controle indepen­
dente de tais projetos. Era isso que Von Freund estava então organizando,
primeiro em conjunto com Ferenczi e depois com o auxílio mais prático
de Rank. De início, a idéia era estabelecê-la em Budapeste, onde estava o
dinheiro, mas depois da guerra Freud insistiu para que ficasse em Vie­
na. 1 34 Nessa ocasião, 250 mil coroas foram transferidas para a conta de
Freud em Viena, mas começou a parecer muito duvidoso que as autorida­
de s húngaras fossem permitir que a parte principal da fortuna saísse do
país .
Isso deu a Freud a sensação de que, afinal d e contas, havia algo no
futuro pelo qual viver e sua mente começou a se ocupar com diversos pla­
nos concernentes à literatura psicanalítica.
Freud também elaborou um plano menos importante, a ser executado
a partir dos juros do dinheiro que ele tinha. Consistia em criar um prix
d' honneur a ser concedido anualmente aos melhores ensaios, um médico e
outro não-médico. O primeiro prêmio foi dividido entre Ernst Simmel e
Abraham pelo ensaio médico e dado a Theodor Reik, homem a quem
Freud se referia como "uma de nossas melhores esperanças" , pelo ensaio
não-médico. No ano seguinte, os prêmios foram atribuídos a August Stãr­
cke e Géza Róheim, respectivamente, mas a praxe logo desapareceu.
O outro evento animador desse ano foi a decisão de. realizar um con­
gresso nas férias de verão. Nesse ano, o problema das férias fora ainda
mais desorientador do que no ano anterior, mas por fim Ferenczi conse­
guiu obter acomodações no mesmo lugar, nas montanhas do Tatra. Freud,
com sua filha Anna, embarcou em um navio, a 5 de julho, para Steinbru­
ch, na Hungria, onde ficaram uns poucos dias com parentes de Von
Freund. Nesse meio-tempo, sua mulher empreendera uma arriscada via­
gem a Schwerin, a fim de visitar sua segunda filha, Sophie. As acomoda­
ções em Csorbató estavam disponíveis apenas até o fim de agosto, mas
outras foram então encontradas na Villa Vidor, em Lomnicz, não muito
distante, e no fim de setembro houve uma mudança para Budapeste.
O espírito propulsor da organização do congresso a ser realizado em
tempo de guerra era, naturalmente, o operoso Abraham, que começou a
preparar seu próprio artigo já em março. 1 3 5 De início foi planejado para
ocorrer em Breslau, mas no começo de setembro decidiu-se realizá-lo em

- 203 -
Budapeste, que Freud então declarou ser o "centro do movimento psica­
nalítico" . 1 3 6
O Quinto Congresso Psicanalítico Internacional realizou-se n o salão
da Academia Húngara de Ciências em 28 e 29 de setembro de 1918.
Apresentou vários aspectos peculiares. Em virtude da guerra, não pôde
ser verdadeiramente internacional, mas subseqüentemente concordamos
em dar-lhe oficialmente esse caráter e aceitar suas decisões. A mulher de
Freud e seu filho Ernst participaram como convidados, única ocasião em
que pessoas da família de Freud (com exceção naturalmente de Anna
Freud, uma profissional) participaram de um congresso psicanalítico. Foi
o primeiro congresso em que estiveram presentes representantes oficiais
de algum governo, nesse caso dos governos austríaco, alemão e húngaro.
A razão de sua presença foi a crescente observação do papel desempe­
nhado pelas "neuroses de guerra" nos cálculos militares. Um livro de
Simmel publicado no início desse ano 1 3 7 e o excelente trabalho prático
realizado por Abraham, Eitingon e Ferenczi impressionaram bastante, se
não o público médico em geral, pelo menos os oficiais médicos dos altos
escalões do exército, e falou-se em criar clínicas psicanalíticas em vários
centros, para o tratamento de neuroses de guerra. A primeira seria em Bu­
dapeste. 1 3 8 Não havia ainda percepção da iminente perda da guerra,
acontecimento que naturalmente mudou toda a situação.
O prefeito e os magistrados de Budapeste se excederam em demons­
trações de hospitalidade. O novo Hotel Termal, Gellért-fürdõ, foi reserva­
do para os participantes do congresso, um vapor especial no Danúbio foi
colocado à sua disposição e foram oferecidos vários jantares e recepções.
No conjunto, a atmosfera era bastante estimulante e animadora. Ferenczi
foi escolhido como próximo presidente da Associação Internacional. No
mês seguinte, mais de mil estudantes pediram ao reitor da Universidade
que Ferenczi fosse convidado para fazer conferências sobre psicanálise. 1 3 9
Budapeste estava em seu ponto mais alto.
Quarenta e dois analistas e simpatizantes participaram do congresso.
Os dois únicos de países neutros eram os Drs. Van Emden e Van Ophuij­
sen, da Holanda; não havia suíços. Três vieram da Alemanha e o resto da
Austro-Hungria. Freud leu um artigo sobre "Linhas de Avanço na Terapia
Psicanalítica". 1 4 0 Por alguma razão curiosa, Freud realmente leu esse arti­
go, assim se afastando de seu invariável costume de fazer suas conferên­
cias ou alocuções sem recorrer a nenhuma anotação. Por isso ele incorreu
em grande desaprovação por parte dos membros de sua família que esta­
vam presentes; sustentavam que ele os havia desonrado ao quebrar uma
tradição familiar.
Embora se mantivesse o mais distante possível das cerimônias for­
mais, Freud não pôde deixar de ficar comovido pelo entusiasmo reinante e
pelas brilhantes perspectivas que inesperadamente se abriam para a difu-

- 204 -
são de sua obra. Poucos dias depois escreveu a Ferenczi: "Estou me rego­
zijando de satisfação e meu coração está leve, pois sei que meu 'Sorgen­
kind', a obra de minha vida, está protegido por sua cooperação e pela dos
outros e seu futuro assegurado. Verei a chegada de tempos melhores,
mesmo que o faça de longe." 1 4 1 Ferenczi respondeu que já havia ouvido
essa história de ver de longe dez anos antes, quando Freud se retirou para
dar lugar a Jung.
Um incidente perturbador logo antes do congresso foi a séria doença
que acometeu Sachs. Ele foi levado para um hospital de Budapeste e só
pôde viajar para Viena em 1 5 de outubro. Ao vê-lo, Freud achou que ele
era um homem condenado, 1 4 2 mas uma prolongada cura em Davos salvou
sua vida, depois do que ele se estabeleceu por um período na Suíça.
Freud tivera poucas notícias de Pfister durante a guerra, mas nesse
outubro a correspondência foi retomada por ocasião da publicação de um
novo livro de Pfister. 1 4 3 Depois de elogiá-lo, Freud disse que discordava
de dois pontos: a crítica a suas concepções sobre sexualidade infantil e
sobre ética. "Quanto ao último ponto, darei lugar ao senhor; o assunto
está longe de meus interesses e o senhor tem o cuidado das almas. Não me
preocupo muito com o problema do bem e do mal, mas no todo não en­
contrei muito 'bem' nas pessoas. A maioria é, em minha experiência,
gentalha, quer proclamem abertamente esta ou aquela doutrina ética, quer
não proclamem nenhuma. O senhor não pode dizer, talvez nem mesmo
pensar, isso, embora sua experiência de vida dificilmente possa ter sido
diferente da minha. Se temos de falar de ética, admito ter um ideal eleva­
do, do qual é triste dizer que a maioria das pessoas que conheço diver­
ge.( . . . ) De um ponto de vista terapêutico, só posso invejar sua possibili­
dade de efetuar a sublimação na religião. Mas a beleza da religião certa­
mente não tem lugar na psicanálise. Naturalmente, nossos caminhos na te­
rapia se separam neste ponto; e isso pode ficar assim. A propósito, por
que nenhuma pessoa religiosa descobriu a psicanálise? Por que tiveram de
esperar que um judeu ímpio o fizesse?" 1 4 4 Pfister deu a essa carta uma
longa resposta, proclamando uma->visão mais favorável da humanidade e
chegando então à última pergunta de Freud. "Em primeiro lugar, o senhor
não é um judeu, o que minha infinita admiração por Amós, Isaías, Jere­
mias, bem como pelos homens que criaram o livro de Jó e os Profetas, me
leva a lamentar muito; e em segundo lugar o senhor não é tão ateu, pois
aquele que vive para a verdade vive em Deus e aquele que luta pela li­
bertação do amor 'habita em Deus'. Se o senhor fundisse sua própria con­
tribuição com a grande harmonia universal, como a síntese de notas em
uma sinfonia de Beethoven em um todo musical, eu poderia dizer do se­
nhor que 'Nunca houve melhor cristão'." 1 4 5
Na primeira parte d o ano, o trabalho clínico de Freud foi muito bem;
de fato, em certo momento ele estava tratando de dez pacientes por dia. 1 4 6

-205 -
No final da guerra com as incertezas da época. essa atividade quase de
sapareceu por algum tempo. 1 4 7 As privações gerais também aumentaram, a
tal ponto que ele as achava "apenas suportáveis". 1 4 8
No último ano ou nos últimos dois anos, Freud tivera razão para te­
mer, com a queda do valor de seus ganhos, que sua situação financeira
terminasse em bancarrota. Seu cunhado, Eli Bernays, suspeitando que sua
situação financeira não fosse boa, enviou-lhe de Nova Iorque uma consi­
derável soma de dinheiro, antes de os Estados Unidos entrarem na guerra,
em 1 9 1 7; foi uma bem-vinda recompensa pelo modo como Freud o ajuda­
ra quando de sua ida para os Estados Unidos mais de 25 anos antes. Esta
soma, porém, há muito se tinha esgotado.
Veio então a derrota com a divisão do Império Austro-Húngaro.
Freud disse que não podia conter sua satisfação diante desse resultado.
Quinze dias depois escreveu: "Os tempos estão espantosamente tensos. É
uma boa coisa que o velho morra, mas o novo ainda não está aqui. Esta­
mos esperando de Berlimnn as notícias que deverão anunciar o começo do
novo. Mas não derramarei uma única lágrima pelo destino da Áustria ou
da Alemanha." 1 4 9 Freud não esperava nada de bom da parte de Wilson 1 5 0
e sei que depois muito se indignou com ele por enganar a Europa, ao fa­
zer muitas promessas que não estava em condições de cumprir.
A Abraham escreveu : "Naturalmente, esperamos alguns progressos
dentro de poucas semanas ou meses. Quando não se tem meios de prever
o futuro, seria erro não esperar em vez de temer. Duvido que nos torne­
mos compatriotas.ºº Vederemo." 1 5 1
Freud tinha muito o que dizer a Ferenczi sobre o futuro da Hungria,
país com que tinha tantas ligações. "Sei que o senhor é um patriota hún­
garo e que por isso tem de esperar algumas experiências dolorosas. Parece
que os húngaros estão se enganando ao pensarem que eles sozinhos esca­
parão da diminuição de seu país porque o mundo externo tem especial
amor ou respeito por ele - em suma, que são 'exceções'. Donde sua in­
digna pressa em dissolver o vínculo com a Áustria e romper com a Ale­
manha, embora as tropas alemãs por duas vezes nesta guerra tenham salvo
a Hungria; donde também sua presteza em aderir à Entente. A decepção
certamente virá e trará maus tempos. Todos os defeitos que os húngaros
mostram enquanto políticos ameaçam trazer vingança. Assim, retire sua
libido em bom tempo de sua terra natal e coloque-a à disposição da psica­
nálise, pois do contrário o senhor está destinado a se sentir desgraça­
do." 1 5 2 "Agradou-me de forma especial que a Hungria tenha decidido
não encar:ar o encanto místico da Coroa de Santo Estêvão corno a coisa
mais elevada na vida de uma nação. Mais urna vez, um pouco menos de
romantismo; a humanidade já está muito cheia disso." 1 5 3
"Espero coisas terríveis na Alemanha - muito piores do que no seu
caso ou no nosso. Pense na horrível tensão desses quatro anos e meio e na

- 206 -
amarga decepção, agora que essa tensão é subitamente liberada. Haverá
resistência lá, uma sangrenta resistência. Esse Guilherme é uma pessoa
incuravelmente romântica; ele se engana a respeito da revolução, assim
como se enganou a respeito da guerra. Não sabe que a época da cavalaria
se encerrou com Dom Quixote. Não se preocupe muito com o destino da
Hungria; talvez ele leve a um renascimento dessa nação bem- dotada e vi­
ril. Quanto à queda da antiga Áustria, só posso sentir profunda satisfação. In­
felizmente, não me considero nem germano-austríaco, nem pangermânico. 1 5 4
"Eu gostaria de sentir muita simpatia pelos húngaros, mas não consigo.
Não posso esquecer a ferocidade e a falta de sensatez nesse povo absoluta­
mente incivilizado. Eu certamente não era adepto do antigo regime, mas du­
vido que seja sinal de sabedoria política matar o mais hábil dos muitos condes
e fazer do mais estúpido deles presidente.PP Nossa psicanálise também teve
má sorte. Tão logo começou a interessar ao mundo por causa das neuroses de
guerra, a guerra chega ao fim, e quando por uma vez alcançamos uma fonte
de riqueza, ela imediatamente seca. Mas a má sorte é uma companheira
constante da vida. Nosso Reino evidentemente não é deste mundo: 1 5 5
Ferenczi fez um esforço para superar seu patriotismo local e encarar
as coisas a distância. "Quando vistos sub specie psicanálise todos esses
terríveis acontecimentos aparecem apenas como episódios em uma organi­
zação social ainda muito primitiva. E, mesmo que nossas esperanças nos
enganem e os seres humanos continuem sendo vítimas de eu próprio in­
consciente até o fim, tivemos o privilégio de entrever por trás da cortina;
o conhecimento da verdade pode compensar-nos pelo muito que nos pode
faltar e mesmo pelo muito que temos de sofrer. " 1 5 6
A revolução austríaca não foi uma questão muito tempestuosa. Sachs
a parodiou para mim, descrevendo cartazes imaginários: "A Re olução
será amanhã às duas e trinta; em caso de tempo desfavorável será feita
dentro de casa". Mas deu margem à única ocasião de _ sua vida em que
Freud esteve sob fogo. Isso se deu na Hõrlgasse, quando ele passeava
com sua filha Mathilde. Correram e logo estavam fora de perigo. Lembro
que o mesmo me ocorreu em uma tentativa de revolução em Zurique pou­
cos meses depois. Menciono os incidentes em contraposição à época pre­
sente, quando poucas pessoas na Europa não estiveram expostas ao tiro
dos canhões ou às bombas.
Freud escreveu-me o seguinte no dia anterior ao armistício final:"Tu­
do se deu tal como o senhor tinha predito no início . " 1 5 7 Poucas semanas
depois, seguiu outra carta.

"22 de dezembro de 1918


"Caro Jones,*
Extremamente feliz por ter recebido sua carta. Confio em que o se­
nhor ficou sabendo de tudo o que ocorreu em Budapeste e no Congresso.

- 207 -
Prefiro escrever em inglês, por mais enferrujado que este esteja, ao lem­
brar que o senhor nunca conseguiu ler caligrafia alemã, que desde então
não melhorou. O senhor não deve esperar-me ou algum dos nossos na In­
glaterra na próxima primavera. Estou certo de que o senhor não pode con­
ceber qual é realmente nossa situação. Mas o senhor deve vir tão logo
possa, ver o que era a Áustria e trazer com o senhor as caixas de minha
filha. Nem preciso dizer que todos estamos impacientes para receber suas
contribuições para a 2.eitschrift e vê-lo tomando parte ativa na nova car­
reira aberta para 'ela' ('Zeitschr).( ... ) A vida é dura, como o senhor já sa­
be. Adeus, caro Jones.
"Afetuosamente,
"Freud"

No último dia do ano, coube-me a dolorosa tarefa de informar a Freud a


morte de um caro amigo, J.J. Putnam, no mês anterior. Eles não puderam
entrar em comunicação um com o outro durante alguns anos. Freud tinha
o maior respeito pelo caráter e pela personalidade de Putnam, tendo senti­
do sua morte como uma grande perda.
As coisas pareciam tão más na Áustria, e de fato o eram, que Freud
foi aconselhado, não pela primeira vez em sua vida, a emigrar para outro
país. Ferenczi estava otimista quanto às perspectivas da psicanálise na
Hungria, onde cinco analistas ( ! ) recentemente se haviam reunido para
reiniciar a Sociedade, tendo ele insistido com Freud para instalar-se lá . 1 5 8
Sachs aconselhou-o a ir para a Suíça. 1 5 9 Pfister, embora apoiasse esta úl­
tima sugestão, fez-lhe chegar uma carta minha em que eu assegurava a
Freud que podia garantir-lhe a existência na Inglaterra. 1 6 0 Uma ex-pa­
ciente ofereceu-lhe uma casa em Haia, desocupada pelo irmão que fora
estabelecer-se na Palestina. Freud, porém, nunca sequer considerou qual­
quer uma dessas propostas. Seu posto ainda era em Viena.
A guerra havia deixado uma ansiedade pessoal bastante considerável.
Por várias semanas não se teve qualquer notícia de Martin, o filho mais
velho de Freud, de modo que todas as espécies de possibilidade estavam
abertas. Por fim, surgiu o boato de que toda sua tropa fora capturada pe­
los italianos, mas apenas em 3 de dezembro chegou a Viena um cartão­
postal anunciando singelamente sua presença em um hospital italiano.
Somente no final do mês de agosto seguinte recebeu alta.
Como a principal ansiedade de Freud durante a guerra estava ligada à
segurança de seus filhos, justifica-se que apresentemos um breve relato de
seus feitos no decorrer desses anos. Martin, que se alistara logo no início,
serviu na artilharia montada. Passou a maior parte do tempo na Galfcia,
onde passou por várias experiências perigosas e desgastantes, participou
de muitas batalhas e distinguiu-se por bravura. Foi condecorado várias
vezes e logo se tornou oficial. Por diversas vezes foi transferido para a

-208 -
frente italiana e trazido de volta; estava nessa frente no último ano da
guerra, quando tomou parte nas batalhas de Caporetto e Piave. Toda sua
tropa foi feita prisioneira depois da derrota do exército austríaco, quando
a luta cessara.
Oliver, o segundo filho, não fora aceito no exército quando do exame
físico, mas em vez de continuar com seus estudos de engenharia, pensou
que deveria tentar suplementar a renda de seu pai, muito diminuída, ar­
ranjando um trabalho remunerado. O primeiro estava relacionado com a
construção de anexos de um hospital nos arredores de Viena, tendo ele
durante esse período vivido em casa. A seguir conseguiu outro emprego,
em março de 1915, na construção de um acampamento em Purgstall, cerca
de três horas distante de Viena, mas em maio, quando estava de folga, seu
pai teve com ele uma séria conversa, aconselhando-o a retomar seus estu­
dos. Ele assim o fez e em junho realizou os exames, nos quais teve pleno
êxito. Empregou-se então na construção de um tónel sob o solo de Jablo­
nica, nos Cárpatos do leste da Silésia. Tratava-se de uma tarefa de excep­
cional dificuldade e de grande importância militar, tendo ele trabalhado
muito durante quinze meses. Enquanto esteve aí, seu pai fez-lhe urna vi­
sita na Páscoa de 1916. A viagem levou doze horas e Freud ficou dois
dias e uma noite. Acompanhou seu filho em uma inspeção do túnel inaca­
bado, o que era uma verdadeira ginástica, com a subida de numerosas es­
cadas, etc. Em dezembro de 1916, Oliver entrou para o exército, ficando
em um batalhão de sapadores. Durante três meses ficou sediado em Cra­
cóvia, onde também estava Otto Ran�, e depois em Krems, no Danúbio,
de onde era possível fazer visitas a Viena. Tomou-se cabo em julho e re­
cebeu alguma instrução, que se mostrou útil mais tarde em sua vida. Em
novembro foi designado para uma companhia de campanha da Galícia,
mas nessa época a guerra com a Rússia estava terminando. Aí seu traba­
lho foi a construção de uma ponte sobre um afluente do Dniester. Em ju­
nho de 1918, sua companhia foi transferida para o outro extremo do impé­
rio austríaco, entre Trieste e Conegliano, na frente de Piave, agradável
viagem que durou dez dias. Assistiu aí a algumas lutas sérias, depois do
que sua companhia foi retirada. Chegara a cadete e estava para tomar-se
oficial quando ocorreu o colapso final; mais tarde, quando vivia na Fran­
ça, sentiu-se satisfeito por não ter alcançado uma patente mais elevada,
pois nesse país havia muitas restrições contra antigos oficiais inimigos.
No final de outubro de 1918, estavam sendo embarcados para a Bulgária,
onde se faria uma última e desesperada resistência, mas os soldados hún­
garos tomaram o trem e o fizeram voltar para a Áustria.
Ernst, o filho mais novo, foi o que teve as experiências mais agradá­
veis e que usufruiu por completo da guerra. Alistou-se em outubro de
1914 e foi recebido com esta censura: "O senhor se alista quando a guerra
já está para acabar!" Ao saber disso, Freud comentou que o oficial deve-

- 209 -
riá ser transferido para o Alto Comando ! Ernst passou o inverno em Kla­
genfurt, onde amigos de seu pai o introduziram em uma rica vida social.
A seguir foi transferido para Neunkirchen, onde recebeu a visita de seu
pai e seu tio. No outono seguinte, em 1915, foi transferido para Bukowina
e até mesmo passou algumas horas em solo russo. Depois de um mês, po­
rém, foi deslocado para Karst (o platô do Carso, na Istria), onde passou o
resto de seu serviço ativo. Af escapou por um triz, quando todo o resto de
seu pelotão foi morto. Foi condecorado por bravura e logo depois enviado
para Lavarone, em uma região que ele conhecia bem das épocas de férias.
Em seguida à batalha de Assiago, tornou-se Ajudante, posto em que ficou
até o fim da guerra. Depois de servir na frente por 24 meses, deixou o
serviço em virtude de uma úlcera duodenal e de tuberculose. Passou o
resto do tempo em vários hospitais, inclusive um sanatório no Tatra, na
época em que seus pais af estavam de férias. Foi por isso que ele teve a ·
oportunidade de assistir ao Congresso de Budapeste de 1918. Estavf em
casa quando eclodiu a revolução de outubro. Encontrou-se com seu irmão
Martin apenas uma vez quando a serviço e uma vez quando de licença,
ocasião em que foi tirada a fotografia incluída neste volume.
Os três filhos pisaram em solo russo durante a guerra.

Apesar da extrema carência de papel para impressão e de tipos, Freud


conseguiu publicar em 1918 o quarto volume de suas Sammlung Kleiner
Schriften; com suas 717 páginas, igualava os três anteriores juntos. Conti­
nha dois longos estudos que não haviam aparecido em outro lugar. Um
era a extremamente importante "História de uma Neurose Infantil", parte
de sua série de longos casos clínicos. O outro, "O Tabu da Virginidade",
era a continuação de seus estudos antropológicos iniciados com Totem e
Tabu. Voltaremos a esses trabalhos mais à frente.
Tal como os dois anos anteriores, esse foi um ano estéril para Freud,
no que diz respeito a idéias originais. Não havia qualquer sinal da próxi­
ma recrudescência que nos surpreendeu a todos no ano seguinte. Tal co­
mo ocorre com a maioria dos pensadores originais, a periodicidade fazia
parte da natureza de Freud.

1919

A paz só foi estabelecida no verão seguinte, d e modo que nesse fnterim as


condições continuaram piorando na Alemanha e em especial na Áustria,
ou no que então sobrara dela. Freud lamentou com tristeza que "todos os
quatro anos de guerra foram uma brincadeira, comparados com o triste
horror destes meses e sem dúvida também dos meses vindouros". 1 6 1 Al­
guns dias depois escreveu-me o seguinte:

- 210 -
"15 de janeiro de 1919
"Caro Jones, *
"Concordo que todas as suas predições sobre a guerra e suas conse­
qüências se tomaram verdade, mas vou lamentar se não pudermos nos en­
contrar antes de junho.( . . . )
"Não tenho tido notícias dos Estados Unidos nestes dois anos e sinto
imensamente a perda do caro Putnam. Ele era um pilar da psicanálise em
seus país e se comportava de maneira muito sincera e elegante em relação
a mim, em oposição ao excêntrico e inconstante Stanley Hall. Eu não ti­
nha noção do que fora feito do movimento além-mar e não sabia se a psi­
canálise não fora destronada pelo adlerismo ou alguma outra invenção, de
modo que tive algum consolo com seu relato favorável.
"Estes últimos meses estão se tomando os piores que tivemos de su­
portar desde o começo desta guerra. Meu filho mais velho ainda está pri­
sioneiro na Itália. Todos nós estamos lentamente decaindo em saúde e
constituição, não apenas nesta cidade, garanto-lhe. As perspectivas são
negras. Estou pronto a confessar que o destino não mostrou injustiça e
que a vitória alemã podia ter-se revelado um golpe mais duro para os inte­
resses da humanidade em geral. Mas não é alívio termos nossa simpatia
pelo lado vencedor quando nosso bem-estar está escorado no lado perdedor.
"Sinceramente,
"Freud"

Eu tinha apenas relatos favoráveis para enviar sobre o progresso da psica­


nálise na Inglaterra e mencionei que estava tratando de dez pacientes por
dia, com dezesseis à espera de uma vaga. Infelizmente, prometi que logo a
alimentação e o dinheiro seriam abundantes, ao que Freud replicou ceti­
camente: "Quanto à sua promessa de abundância de alimento e dinheiro
em pouco tempo, tentarei acreditar no senhor, já que todas as suas profe­
cias durante esta guerra se tomaram verdade. Mas surpreende-me que o
senhor não tenha dito com clareza onde estaria essa abundância, aqui ou
na Inglaterra." 1 6 2
A única alteração na situação à medida que o tempo passava era para
pior. Em março surgiu a história de que as semanas sem carne seriam
substituídas por meses sem carne, o que Freud estigmatizou como uma
piada sem graça. 1 6 3
Nessa época a atividade clínica de Freud tinha renascido e ele estava
tratando de nove ou dez pacientes por dia. 1 6 ' Mas as mil coroas que eles
traziam estavam valendo um décimo do antigo valor. No primeiro dia do
ano, escreveu a Ferenczi: "Temos falado com freqüência sobre a alterna­
tiva de auto-adaptação contra a alteração do mundo externo. Agora minha
capacidade de adaptação está inativa e, quanto ao mundo, não tenho po-

-21 1 -
der algum. Continuo mal-humorado e devo evitar contagiar outras pes­
soas, na medida em que são jovens e fortes."
De início ele estava desprovido de novas idéias, mas logo surgiram
algumas boas idéias sobre a questão do masoquismo. 1 6 5 Ficou entusiasma­
do com um artigo de Ferenczi sopre técnica, 1 6 6 chegando a considerá-lo
"puro ouro analítico" . 1 6 7 Ficou feliz ao saber do casamento de Ferenczi
no início de março; agora ficaria aliviado da ansiedade de cuidar dele. 1 6 8
Por outro lado, havia más notícias sobre o outro amigo húngaro, Von
Freund, que por fim apresentara uma recorrência de seu sarcoma e cujos
dias estavam contados.
Em março Freud deu a notícia de que subitamente se tornara produti­
vo. Vários anos antes dissera a Ferenczi que seus períodos reais de pro­
dutividade se davam a cada sete anos. O tempo estava amadurecido para
outro ressurgimento de suas capacidades produtivas, ressurgimento que
em alguns aspectos foi o mais espantoso de todos. Este, portanto, é o
ponto adequado para interromper a história cronológica.
Apesar das condições extremamente difíceis na Viena da época,
Freud se recuperara por completo do pessimismo provocado pela guerra.
Durante a guen'a, em seguida às defecções de Adler, Stekel e do grupo
suíço, ele sentira que o movimento psicanalítico se reduzira às dimensões
de uma meia dúzia de adeptos sérios e que suas perspectivas futuras pare­
ciam bastante negras. Mas as possibilidades abertas pelo empreendimento
da nova Verlag e a atmosfera entusiasta do Congresso de Budapeste fo­
ram, no fim da guerra, seguidas por empolgantes notícias de grande pro­
gresso ocorrido em Berlim, Nova Iorque e Londres. As cartas que estava
recebendo de minha parte e de Abraham mostravam que as notícias não
eram ilusórias e que o mundo, por fim, estava abrindo os braços para re­
ceber Freud e sua obra. Veremos, no próximo volume, como Freud reagiu
a essa ampliação das perspectivas.

NOTAS

ª frech.
b Da ist was Faules dahinter.

e O "Homem dos Lobos".


d Quando falei com o Conde Berchtold cerca de vinte anos mais tarde, em seu cas­
telo na Morávia, ele não demonstrou qualquer sinal de sua esmagadora responsabili­
dade pelo ruinoso golpe aplicado na civilização européia.

- 212 -
e Das Befreiende der mutigen Tat.
f Furor.
g Wiedergeburt.
h aufs heftigste erschüttert.
i Na época czarista, todos podiam visitar a R ússia, com exceção dos judeus.
j So sehen erfüllte Wünsche aus.
k Ver Cap. 1 1 , Caso V .
1 jetzt viel gelogen wird.

m Outros 23 anos de vida dura a serem suportados!


n Angstentbindung.
o Cap. 14, N2 23.
P Alusão aos seis irmãos dela, que eram todos muito bons para ela, e também às
Grandes Potências.
q Abraham, Ferenczi, Rank, Sachs e eu.
r Psicoses.
s Ver Cap. 13, N2 6.
t B lütezeit.
u Por submarinos.
v A predição, feita por Lorde Kitchener no início, de que a guerra duraria três anos.
w Abraham já estava cumprindo seu serviço.
x Cap. 16.
Y Ver Cap. 14, N2 27.
z Cap. 13, N 2 8.
aa Cap. 14, N2 26.
bb Ver Cap. 8, pág. 224.
cc Ver Cap. 9.
dd Ver Cap. 14, N2 27.
ee Ver Cap. 14, N2 26.
ff Não posso garantir que isso seja inteiramente verdade.

gg Greisenalter, expressão mais forte.

, -2 1 3 -
hh Para evitar quálquer possível equívoco, devo dizer que aí não há qualquer refe­
rência pessoal a Ferenczi.
ii Alusão à sugestão de Wilson de que ambos os lados deviam expor seus objetivos
de guerra essenciais.
jj Ver pág. 1 92.
kk Alusão à passagem final da longa controvérsia religiosa em que a Rainha resume:
"Tudo o que posso dizer sobre isso é gue ambas as partes fedem."
11 Citação de Nietzsche.

mm etwas, wovor man zurückschreckt. 1 3 2


nn Sobre a conclusão de paz.
00
Aludindo à tentativa de união da Áustria e Alemanha.
PP K arólyi.

- 214 -
r
'--

PARTE
2
OBRA

NO PERÍODO AQUI AB ORDADO, QUE FOI O DA PRODUÇÃO MAIS VO­


iumosa de Freud, ele escreveu cerca de 75 artigos, ensaios, livros e prefá­
cios. No conjunto, caracterizam-se mais por uma detalhada elaboração das
teorias fundamentais que ele já apresentara do que pelas novas descober­
tas do período anterior e pela visão filosófica do período final. A teoria da
libido é ampliada até sua plena extensão e suas aplicações são investiga­
das em diversos campos. As contribuições clínicas são de excepcional im­
portância. Mas Freud já estava caminhando além da esfera clínica e fa­
zendo estudos nos campos da religião, da estética, da pré-história e da
psicologia pura. Em uma recensão da produção total, talvez as contribui­
ções mais importantes sejam os longos casos clínicos e os livros sobre a
teoria da sexualidade e sobre totemismo.
Pareceu útil para uma apreciação mais fácil dessa vasta produção
agrupar os itens em sete capítulos, de acordo com seu tema principal, sen­
do então os conteúdos considerados cronologicamente. Naturalmente, é
inevitável que haja uma pequena superposição neste tipo de classificação,
já que um mesmo artigo pode estar relacionado com mais de um tema.

- 2-15 -
VIII

E XPOSIÇÕES

TODOS OS TEXTOS DE FREUD CONTÊM ALGUNS ELEMENTOS DE EX­


posição de suas teorias ou métodos, mas em alguns deles esse tipo de ex­
posição predomina sobre a nova contribuição que ele está dando para o
conhecimento. Para citar um exemplo ao acaso: seu pequeno artigo (19 10)
sobre distúrbios psicogênicos da visãoª tem, além da contribuição técnica,
uma excelente exposição de suas concepções sobre a natureza dinâmica
do inconsciente e a significação da repressão em geral. Há, porém, um
pequeno conjunto de ensaios ou conferências que não tinham outro obje­
tivo além do de expor para um público mais amplo as idéias gerais da psi­
canálise. Via de regra, foram escritos para atender a determinado convite,
sendo um exemplo seu pequeno livro Sobre os Sonhos, 1 escrito, a pedido
de Lõwenfeld, com o propósito de transmitir para o público culto, de uma
forma mais simples, a essência de sua grande obra sobre o assunto.
Freud atendia prontamente a esses convites. Teria feito eco, solida­
riamente, ao que Servetus disse em 153 1 : "Para não negar aos outros o
que possuo e gratamente reconheço, e que pode ser útil para meus seme­
lhantes, ponho de lado o temor e proclamo que aquilo em que acredito é a
verdade. " 2
Freud tinha um dom bastante especial para a exposição. O que provo­
ca admiração não é apenas sua extraordinária capacidade de arrumar em
frases simples o material mais complexo. Nem seu belo domínio da lín­
gua, com sua percepção do mot juste, embora a graça e flexibilidade do
idioma vienense muito contribuíssem para o encanto de seu estilo. É aci­
ma de tudo a sinceridade e simplicidade do escritor. Suas exposições con­
seguem persuadir em grande parte porque não buscam deliberadamente
persuadir. Ele adivinha com uma infalível compreensão as dificuldades na
mente do leitor, a natureza exata de sua crítica ou oposição e pode colocar

-216-
tudo isso em palavras de maneira mais clara do que o próprio leitor. Isso é
feito com tal eqüidade, com tal franca admissão dos pontos duvidosos na­
quilo que ele tem de apresentar, que sua completa honestidade arrebata as
pessoas e elas se sentem inclinadas a dar crédito ao que quer que seja que
esse homem pode ter a dizer. Se Willian James escreveu manuais de psi­
cologia como se fossem romances e seu irmão Henry escreveu romances
como se fossem manuais de psicologia, de Freud pode-se dizer que com­
binou os dois objetivos em grau fascinante.
(1) Nos anos aqui em consideração, a primeira publicação que se in­
sere nesse conjunto é o pequeno livro já mencionado, Sobre os Sonhos. 3
Publicado em 190 1 , foi reimpresso em 1 9 1 1 e 192 1 , sendo a primeira
reimpressão uma versão ampliada e contendo material especialmente novo
sobre a questão do simbolismo. O livro ainda causa uma impressão de no­
vidade, mesmo àqueles que conhecem a obra maior sobre o assunto.
(2) Em 1905, Freud colaborou com um ensaio de 26 páginas sobre
"Tratamento Mental"• para uma obra coletiva em dois volumes editada
por Kossmann e Weiss e intitulada Die Gesundheit Como se dirigia a um
público leigo, ele teve de começar do início e explicar como é possível
que simples palavras exerçam influência em um estado de saúde. Mas as
palavras, originalmente, se ligavam à magia e a moderna psicologia recu­
pera a verdade existente na antiga crença. São, afinal, o meio mais pode­
roso de uma pessoa influenciar outra. A seguir ele discutia longamente
a inter-relação entre processos mentais e físicos. As expressões físicas
comuns da emoção são bastante conhecidas, mas Freud sustentava duas
outras menos conhecidas: ein primeiro lugar, que as emoções também po­
dem influenciar involuntariamente os processos físicos, como por exemplo
a digestão, que não estão sob controle da vontade; e, em segundo lugar,
que nenhum processo mental, mesmo o pensamento "puro", está inteira­
mente livre do afeto e, portanto, sem alguma delicada_ influência sobre o
corpo. Quando essas influências são usadas de forma terapêutica, isto é,
na psicoterapia, a personalidade do médico é de inegável importância.
Nesse sentido, há uma frase que Freud considerou tão importante a ponto
de colocá-la em itálico e que tem um alcance profético com respeito às
tendências administrativas modernas da medicina: "Se a livre escolha do
médico por parte do paciente viesse a ser abolida., isso significaria a eli­
minação de uma importante condição para influenciar mentalmente o pa­
1 ciente. ''
Freud escreveu algumas páginas sobre curas realizadas sob a influên­
cia de crença religiosa e emoção coletiva de massa. É inteiramente errado
negar sua realidade, mas elas são explicáveis por meios naturais. A seguir
vinha uma longa explanação sobre o hipnotismo, seus efeitos e seus in­
convenientes. Os últimos estimularam uma busca de meios mais radicais e
confiáveis, mas essa é a única alusão que ele faz à existência da psicanálise.

- 21 7 -
Todo o ensaio ainda poderia ser lido com proveito hoje pela grande
maioria dos médicos, desde que levassem em conta a sabedoria simples
que ele expressa com tanta clareza.
(3) Embora só em parte tenha por objeto a simples exposição, também
pode ser mencionada dentro desse gênero uma série de volumes intitulada
Sammlung Kleiner Schriften zur Neurosenlehre. Havia cinco volumes
nessa série, publicados em 1906, 1909, 1913, 1918 e 1922. A maioria
deles teve várias edições subseqüentes, mas sem alterações. Do primeiro
da série venderam-se apenas 340 exemplares nos dois primeiros anos, mas
todos os mil exemplares de sua segunda edição (1909) foram vendidos no
mesmo tempo, tal como os da terceira edição (1920). Freud recebeu 900
coroas (182,34 dólares) pelo primeiro da série, 936 (189,63 dólares) pelo
segundo e 1.400 (283,64 dólares) pelo terceiro. Eram, na maior parte,
coletâneas de artigos publicados anteriormente, mas o quarto volume con­
tinha dois importantes artigos que estavam sendo publicados pela primeira
vez.
(4) Em setembro de 1909, Freud fez cinco conferências na Clark
University, em Massachusetts, por ocasião do vigésimo aniversário de sua
fundação. 5 Quando publicadas, com o título de Cinco Lições de Psicaná­
lise, mostraram-se bastante populares: tiveram oito edições em alemão e
foram traduzidas para outras dez línguas. A edição alemã de 1.500 exem­
plares foi vendida nos dois primeiros anos. Freud recebeu por ela 432 co­
roas (87 ,52 dólares). No conjunto, cerca de 33.000 exemplares foram
vendidos e 1.9� foram destruídos pelos nazistas.
As conferências foram feitas extempore, sem a ajuda de quaisquer
notas, e Freud as preparara mentalmente apenas com poucas horas de an­
tecedência. Freud relutou em escrevê-las posteriormente - pareciam então
vieux }eu e sua mente já se voltara para a preocupação C_?m o fascinante
problema de Leonardo -, mas Deuticke, seu editor, insistira em tê-las,
apesar da afirmação de Freud de que não tinham nada de novo. 6 Em fins
de outubro, havia escrito apenas uma página e um mês depois apenas três
páginas. 7 Foram completadas na segunda semana de dezembro. 8 Sua me­
mória nessas questões, porém, era tão boa que os textos escritos não se
afastaram muito da apresentação original.
As lições foram apresentadas nos termos mais simples possíveis e
avivadas com algumas histórias e analogias características. Em uma das
analogias, Freud comparou as emoções extemporâneas de um histérico re­
ferentes a algum episódio traumático da infância com a idéia de um mo­
derno londrino a olhar para a estátua da Rainha Eleonora, em Charing
Cross, e a lamentar a morte, celebrada pela estátua, da rainha que morreu
há mais de seis séculos; aqui é citada a célebre frase de seus Estudos so­
bre a Histeria: "os histéricos sofrem de reminiscências."

- 218 -
A primeira conferência era sobretudo histórica e nela Freud apresen­
tou um reconhecimento algo exagerado ao papel que Breuer desempenha­
ra. Fez um breve relato do caso de Anna O., com suas lições de catarse,
a conversã,o de afeto não descarregado em sintomas somáticos e sua rela­
ção com a consciência. Na segunda conferência, tratou dos primórdios da
p sicanálise propriamente dita e de sua emergência a partir do período em
que o hipnotismo fora o principal instrumento empregado para recuperar
lembranças perdidas. Seguia-se uma apresentação dos fenômenos da re­
sistência e da repressã,o. Expôs a teoria dos sintomas como produtos
substitutivos de impulsos reprimidos, mas sendo ao mesmo tempo conci­
liações entre estes e as instâncias repressoras. A terceira conferência era
dedicada à técnica da psicanálise. Nela Freud apresentou a semelhança
entre sintomas neuróticos e os pensamentos em associação livre de um pa­
ciente, ocorrendo em ambos os casos a presença de elementos tanto do
material reprimido quanto das instâncias repressoras. O analista tem de
detectar as alusões ao primeiro assim como o minério bruto tem de ser re­
finado para obtenção do metal precioso. Os dois outros instrumentos téc­
nicos são a interpretação dos sonhos, que Freud considerava "a base mais
segura da psicanálise", e a observação dos vários tipos de lapsos - da fa­
la, etc. - que ele havia descrito em seu pequeno livro Psicopatologia da
Vida Cotidianab e que hoje se inserem na denominação genérica de "pa­
rapraxias". Ele comparou o valor da psicanálise para o psiquiatra com a
da histologia para o anatomista e criticou os opositores que emitiam jul­
gamento sem se incomodarem em aprender seus métodos, tal como um
anatomista que repudiasse nosso conhecimento de estruturas mais finas
recusando-se a usar um microscópio.
Na quarta conferência, Freud cuidou da delicada questão da sexuali­
dade. Fez uma clara apresentação da sexualidade infantil, inclusive do já
famoso complexo de Édipo, e observou que a sexualidade na infância era
de observação suficientemente evidente para quem quer que abrisse os
olhos, que de fato era necessário uma certa arte para que se fosse capaz
de não vê-la. Admitiu que usava o termo "sexualidade" com uma conota­
ção mais ampla do que o habitual, mas levantou a questão acerca de se o
seu uso era muito amplo ou o uso comum muito estreito (por razões de re­
pressão). Em resposta à questão retórica sobre por que não haveria outras
causas essenciais, que não as sexuais, para os sintomas neuróticos, Freud
disse - de forma mais coloquial que na versão posteriormente publicada9
- "Não sei também. Eu não teria nada contra. Não arrumei a coisa toda.
Mas o fato persiste . . . "e A seguir explicou a ocorrência de fixação em vá­
rios pontos do desenvolvimento e comparou os resultados encontrados na
psicopatologia com as conseqüências mórbidas encontradas na patologia
geral de inibições no processo do desenvolvimento orgânico, tal como a
fenda palatina.

- 219 -
A última conferência era de natureza mais geral. Ele começou por
discutir a fuga para a fantasia que tão comumente tenta compensar a falta
de satisfação proporcionada pela realidade. A seguir tratou da questão dos
vários resultados das fantasias. Esta compreende o problema da melhor
adaptação à realidade ou sua alternativa na criação de sintomas neuróti­
cos ; chamou atenção para o caso excepcional do artista que retém as fan­
tasias mas usa seus talentos especiais para alcançar uma relação indireta
com o mundo externo. A seguir, havia uma explicação da transferên­
cia, tanto no tratamento psicanalítico como fora dele. Ele afirmava que em
sua opinião o estudo dos fenômenos de transferência fornecia as provas
mais convincentes para a teoria da psicanálise. Isso levava à questão da
sublimaçiio, e Freud indicava as limitações desse processo. Ilustrou o te­
ma com a história dos camponeses que procuravam acostumar um cavalo a
prescindir cada vez mais de alimento até que um dia, quando estavam
quase tendo sucesso, ele inexplicavelmente morreu. Do mesmo modo, ne­
nhuma máquina pode transformar toda sua energia em calor ou eletricida­
de disponíveis; alguma coisa se perde, necessariamente, na fricção inter­
na. Também tratou de certos temores ou críticas referentes à psicanálise:
por exemplo, o temor de que impulsos proibidos, se admitidos à consciên­
cia, possam desenfrear-se. Explicou as razões pelas quais esses impulsos
perdem necessariamente força na consciência e pelas quais, passando a fi­
car sob maior controle, têm menos poder para criar distúrbios do que
quando em seu estado dissociado inacessível a qualquer influência. Freud
considerava que havia duas dificuldades intelectuais principais no cami­
nho da aceitação das descobertas psicanalíticas. Uma era que não estáva­
mos acostumados a aplicar as leis do determinismo estrito a processos
mentais da maneira como deveria fazer qualquer investigação científica
desses processos. A outra era o temor, a que já se fez alusão, de que a
admissão de processos inconscientes pudesse rebaixar nossos padrões
culturais.
(5) Na primavera de 1911, Freud escreveu um pequeno artigo para o
Congresso Australásio em Sydney, 1 0 em circunstâncias que foram men­
cionadas anteriormente.d No Congresso havia também artigos de Jung,
"Sobre a Doutrina dos Complexos", e Havelock Ellis, "As Doutrinas da
Escola de Freud".
Freud conseguiu comprimir uma quantidade espantosa de informação
sobre psicanálise em algumas poucas páginas, mas o conteúdo é tão bem
conhecido e será encontrado em tantas outras publicações que não há ne­
cessidade de resumi-lo aqui. Freud aproveitou a oportunidade para mos­
trar três aspectos em que sua obra entrava em nítido antagonismo com a
de Janet: (a) Ela se recusava a relacionar a histeria diretamente com uma
degeneração hereditária congênita. (b) Oferecia, em lugar de uma mera
descrição, uma explicação dinâmica por um jogo de forças mentais. (c)

- 220 -
Relacionava a dissociação psíquica não com uma incapacidade congênita,
mas com um processo especial chamado "repressão" .
(6) E m 1912, Freud foi convidado por Scientia, importante periódico
internacional publicado na Itália e dedicado ao estudo das relações entre
os diferentes ramos da ciência, a expor as razões por que a psicanálise
podia atrair o interesse do público culto, bem como a influência que ela
poderia ter sobre outros ramos da ciência. Esse ensaio, "Os Direitos da
Psicanálise ao Interesse Científico", 1 1 com trinta páginas, é muito mais
abrangente que o último mencionado. Só apareceu em publicação alemã
quando foi incorporado, em 1924, nas Gesammelte Schriften (Obras Coli­
gidas). 1 2 Estranhamente, aparecerá em inglês pela primeira vez na Stan­
dard Edition de James Strachey.
Nele, Freud insistia em que, embora a psicanálise tivesse começado
como um método para investigar e tratar afecções neuróticas, era também
aplicável aos chamados fenômenos normais, onde· podia valer-se de seus
direitos e não devia ser encarada como algo simplesmente transplantado
da psicopatalogia. Ao contrário, ele afirmava o valor que o estudo dos so­
nhos normais tinha para a psicopatologia, onde tinha conquistado para a
psicologia um campo que anteriormente se pensara pertencer à fisiologia.
Havia até mesmo certo tom de triunfo sobre o modo como a psicanálise
"restringira o modo fisiológico de pensar", em agudo contraste com as
posições de vinte anos antes, quando a fisiologia era para ele a Ciência
par excellence e quando ele fizera desesperadas tentativas para descrever
processos mentais em linguagem fisiológica - mais exatamente ffsica.
Comentando o ponto de vista médico mais antigo, segundo o qual os so­
nhos são de origem puramente somática, sem qualquer significado nem
importância, ele observou: "O que fala contra a concepção fisiológica é
sua esterilidade; quanto à concepção psicanalítica, pode-se dizer que foi
capaz de fazer uma interpretação inteligível de milhares de sonhos e os
tem usado para alcançar um conhecimento da vida mental íntima." 1 3 Fez
então a afirmação algo surpreendente de que foi com a interpretação dos
sonhos que se iniciou para a psicanálise um "destino de opor-se à ciência
oficial", afirmação que teríamos esperado que fizesse em relação à ques­
tão da sexualidade infantil e à origem sexual das neuroses. Mas Freud
nunca deixou de dar - e com razão - posição de destaque à análise dos
sonhos. "Há um consenso geral (entre analistas) de que a interpretação
dos sonhos é a pedra fundamental do trabalho psicanalítico e de que seu
resultado constitui a mais importante contribuição que a psicanálise fez
para a psicologia." 1 4 "Pode-se muito bem dizer que o estudo psicanalítico
dos sonhos nos deu o primeiro vislumbre do até então insuspeito reino de
uma psicologia profunda. Serão necessárias mudanças revolucionárias na
psicologia normal a fim de pô-la em acordo com essas novas descober­
tas." 1 s

-221 -
Das inúmeras conclusões da psicanálise que se mostraram importantes
para a psicologia geral, Freud selecionou dois pontos em particular: a
primazia dos processos afetivos na vida mental e a insuspeitada medida
em que interferem no intelecto, tanto em pessoas saudáveis quanto em
pessoas doentes.
Nessa parte do ensaio, Freud naturalmente fizera uma exposição dos
principais princípios da psicanálise. Chamou especial atenção para as se­
melhanças entre sonhos e processos psicopatológicos; conflito mental; re­
pressão de certos impulsos; formações reativas por parte das instâncias
repressoras, com formações substitutivas por parte dos impulsos reprimi­
dos; onipresença dos processos de condensação e deslocamento.
A segunda parte do ensaio era dedicada ao interesse que a psicanálise
tem para certos ramos não psicológicos do conhecimento; Freud conside­
rou oito possibilidades.
(a) Interesse para a Filologia: Aqui Freud chamou atenção para as
espantosas semelhanças entre o que pode ser chamado de linguagem do
inconsciente e as características de línguas antigas. Em ambos os casos,
não hã meios de expressar negação, as idéias são ambivalentes na medida
em que a mesma palavra pode exprimir qualquer um de dois significados
opostos, o simbolismo desempenha papel preponderante e o modo de pen­
sar é curiosamente elíptico, com a omissão dos vínculos de conexão. Am­
bos os casos podem ser qualificados como "arcaicos" . A seguir chamou
atenção para as conclusões do filólogo sueco Sperber, referentes à enorme
importância das expressões sexuais no desenvolvimento inicial da lingua­
gem e às extraordinárias ramificações provenientes delas. A linguagem
inconsciente não é apenas verbal, mas pode exprimir-se de forma física.
Como exemplos de sua grande variedade, ele citou o exemplo da idéia in­
consciente de gravidez, que pode expressar-se na histeria por meio de
vômito persistente, na neurose obsessiva como temor d� infecção e na
demência precoce como desconfiança de ser envenenado.
(b) Interesse para a Filosofia: Os filósofos conceberam o incons­
ciente seja em termos ou místicos ou transcendentais, seja como questão
de fisiologia que não lhes dizia respeito. Assim, o estudo de sua natureza
real e de seus conteúdos pode levantar de novo o antigo problema da rela­
ção entre o corpo e a mente de uma maneira diferente da anterior. As filo­
sofias são muito mais individuais e pessoais do que qualquer outro ramo
do conhecimento, de modo que um profundo conhecimento do desenvol­
vimento individual inicial, com sua influência sobre o pensar adulto, de­
veria lançar uma luz sobre várias apresentações, ainda que apenas tornan­
do-as mais facilmente compreensíveis. Mas Freud tinha o cuidado de evi­
tar dizer que desse modo se poderia emitir qualquer juízo sobre qualquer
concepção filosófica específica; isso só podia ser feito a partir de seus
próprios méritos.

- 222 -
(c) Interesse para a Biologia: O importante papel atribuído pela psi­
canálise ao instinto sexual deve ser de interesse para os biólogos. Aqui
Freud fez duas considerações importantes: em primeiro lugar, destacou a
concepção de que esse instinto transcende o simples objetivo de procria­
ção em sua busca de gratificação, assinalando ao mesmo tempo o vasto
alcance das atividades eróticas para além dos próprios órgãos genitais. Em
segundo lugar, comparou o conceito psicanalítico de sexualidade, en­
quanto algo com vida independente freqüentemente oposta à personalida­
de principal, com a idéia de Vv'eismann de um plasma germinativo imortal
a que corpos animais se ligam temporariamente. Mencionou que sua pala­
vra preferida, "Trieb" (impulso), era um conceito de transição entre mo­
dos de expressão psicológico e biológico, e que a distinção biológica en­
tre "macho" e "fêmea" se torna em psicologia uma distinção entre "ati­
vo" e "passivo", características que não se referem ao instinto em si mas
apenas a seus objetivos. A questão da bissexualidade naturalmente não foi
omitida.
(d) Interesse Genético: A psicanálise não decompõe simplesmente
produtos complexos em seus elementos, tal como faz a química, mas os
relaciona com atividades anteriores a partir das quais eles derivaram; não
é estática, mas dinâmica e genética. Freud assinalou que a psicanálise to­
ma muito mais a sério do que em geral o velho adágio "a criança é o pai
do homem". A descoberta da importância vital que as primeiras impres­
sões de vida têm para tudo mais depois apresenta o paradoxo, que Freud
há muito resolvera, de como justamente essas importantes lembranças fi­
cam perdidas para a consciência. Uma descoberta ainda mais espantosa
foi a de que os processos mentais iniciais continuam a existir lado a lado
com os produtos mais complexos que posteriormente se desenvolvem a
partir deles, bem como a de que em qualquer época pode haver uma "re­
gressão" a eles, dando-lhes nova vida.
(e) Interesse para a Hist6ria da Civilização: A primeira aplicação do
conhecimento psicanalítico aqui foi na elucidação de mitos e contos de
fadas, os sonhos dos primórdios da humanidade. Mas ela podia ser usada
para lançar luz sobre as grandes instituições da civilização: religião, mo­
ral, direito e filosofia. Há uma estreita relação entre as realizações mentais
do indivíduo e as da comunidade, já que ambas provêm das mesmas fon­
tes dinâmicas. A principal atividade da mente é a obtenção de liberação
para a tensão. Um pouco dessa liberação é obtida por gratificação direta,
mas permanece uma proporção considerável que tem de buscar quaisquer
formas indiretas disponíveis. De acordo com Freud, foi esse volume livre
de energia que criou nossas várias instituições sociais. A crença primitiva
na "onipotência dos pensamentos", de que ainda há muitos remanescen­
tes, tem de ser modificada por um crescente contato com a realidade; te­
mos aí a passagem da fase anímica, através da religiosa, para a científica.

- 223-
Mitos, religião e moral podem ser encarados como tentativas de obter
compensação para as satisfações que não são encontradas na realidade.
(f) Interesse para a Teoria e a História da Arte: A arte é uma forma
especial da tentativa de satisfazer - tanto para o artista quanto para o pú­
blico - os desejos que não encontram satisfação por outros meios. " A arte
contitui um território intermediário entre a realidade negadora de desejos
e o mundo de fantasia realizador de desejos." A psicanálise, via de regra,
tem condições de determinar a fonte desses desejos a partir do conteúdo
manifesto da forma artística, mas, de acordo com Freud, ela não pode lan­
çar luz sobre a natureza do talento artístico em si mesmo. "De onde o ar­
tista retira suas capacidades criadoras não constitui questão para a psico­
logia".
(g) Interesse para a Sociologia: Grande parte de nosso sentimento
social deriva da sublimação de determinados desejos eróticos não satis­
feitos. A repressão indevida leva a atitudes não sociais; esse é o estado fi­
nal de toda a neurose e Freud o comparou à vida monástica de épocas an­
tigas. Por outro lado, as exigências sociais desempenham importante papel
na criação de neuroses, por imporem restrições sempre maiores à gratifi­
cação direta. Essas restrições então se tomam intemalizadas, herdadas e
auto-impostas - ponto de vista que se tomou mais saliente nos trabalhos
posteriores de Freud sobre sociologia.
(h) Interesse para a Pedagogia: Somente alguém que tem compreen­
são da mente infantil pode tomar-se bom educador, mas tem de superar a
dificuldade interposta pela amnésia da parte mais importante de sua pró­
pria vida infantil. A psicanálise fornece acesso a esta e portanto deveria
ser de inestimável valor para professores. Freud enfatizou a tolerância ne­
cessária na educação de crianças pequenas e esta só pode se basear na
compreensão do fato de que manifestações repugnantes aos padrões
adultos estão com freqüência relacionadas com estágios do desenvolvi­
mento pelos quais a criança tem inevitavelmente de passãr. Nossas virtu­
des mais refinadas são freqüentemente derivadas dessas origens inferiores.
(7) Em 1917, apareceu o que se revelou, e merecidamente, como o li­
vro mais popular de Freud, conhecido em inglês como Introductory Lec­
tures on Psychoanalysis (Conferências Introdutórias sobre Psicanálise). 1 6
Houve cinco edições alemãs, além de várias em formato de bolso, tendo
sido vendidos mais de 50 mil exemplares. O livro foi publicado pela pri­
meira vez em três partes separadas - a primeira em julho de 1916 e as ou­
tras duas em maio de 1917; Freud o revisou por duas vezes, mas sem fa­
zer qualquer alteração fundamental. Foi traduzido para dezesseis l ínguas,
entre as quais sérvio, húngaro, hebraico e chinês; foi até mesmo impresso
em Braille. Houve cinco edições inglesas e duas americanas.
A história de seu início é a que se segue. Em 23 e 30 de outubro de
1915, Freud começou a fazer suas costumeiras conferências sobre "Uma

- 224-
Introdução à Psicanálise". Encontrou, evidentemente com grande surpre­
sa, um público de setenta pessoas, um grande contraste com as três pes­
soas de quando ele fez sua primeira conferência sobre sonhos, apenas
quinze anos antes; no mês seguinte, o público crescera para mais de cem
pessoas. 1 7 Então ele decidiu prepará-las de maneira mais cuidada que o
habitual; depois de refletir um pouco, resolveu publicá-las sob a forma de
livro. O perspicaz Rank imediatamente interpretou isso como um plano
para tornar desnecessárias futuras conferências - e estava certo. 1 8 Freud
fazia conferências há trinta anos e sem dúvida sentia que tinha cumprido
sua obrigação para com a ingrata Universidade; essas conferências foram
as últimas.
As quatro primeiras conferências foram escritas antecipadamente. As
onze seguintes, sobre sonhos, foram escritas imediatamente depois de
pronunciadas. 1 9 Todavia, quando chegou à questão mais difícil das neuro­
ses, ele as escreveu por completo com alguma _antecedência e a seguir as
confiou à sua memória; em setembro de 1916, já tinha escrito nove das
trinta para a sessão seguinte. 2 0
Nessas conferências Freud mostrou-se no auge de seu dom para a ex­
posição e o livro iria angariar admiração apenas por elas. Ele conduzia
sua platéia de maneira tão suave e persuasiva, com a mais plena e clara
discussão de qualquer possível objeção, que todos devem ter achado difí­
cil não serem conquistados. Há urna encantadora passagem em que ele su­
bitamente os adverte de que, aceitando alguma proposição aparentemente
impecável, estavam inadvertidamente se entregando a conclusões de um
alcance maior do que podiam ter percebido, conclusões que então aos
poucos ele tornou mais aceitáveis por meio de uma exposição mais alen­
tada.
O livro compõe-se de três ' seções, mas na verdade consiste em duas
metades. A primeira metade, com duas partes que trata� respectivamente
da psicopatologia da vida cotidiana e dos sonhos, foi pronunciada no in­
verno de 1915-1916. O tema, tirado da vida mental normal, consistia em
material de um tipo acessível para a platéia a partir da própria experiência
desta. Pressupondo seu desapontamento por ter de considerar essas trivia­
lidades como lapsos da fala, Freud mostrou que muitas questões impor­
tantes na vida têm de ser percebidas a partir de leves indícios. Um olhar
ou uma leve pressão involuntária da mão podem dizer muito para uma
pessoa apaixonada. No campo da jurisprudência, uma prova circunstancial
a partir de um acúmulo de indícios, cada um deles sendo talvez insignifi­
cante em si mesmo, é com freqüência muito mais concludente do que a
prova direta mais duvidosa de testemunhas. E repreendeu o suposto obje­
tor que afirmava que esses lapsos são acidentes sem significado que po­
diam muito bem ter ocorrido de outro modo, pois dessa forma se estaria
;, jogando fora toda a concepção científica baseada no determinismo estrito;

- 225 -
mesmo a crença religiosa era mais coerente quando ensinava que sequer
um pardal cairia no chão sem a expressa vontade do Pai Celeste. Assim,
Freud levava sua platéia, através da comprovação desses vários lapsos, a
reconhecer a existência da dissociação mental. Por fim, assinalou que o
efeito desses lapsos não era de modo algum sempre trivial, tal como no
caso de autoferimentos, "acidentes" fatais e mesmo catástrofes maiores.
A parte seguinte, sobre sonhos, também é uma obra-prima de exposi­
ção. Freud apresentou sua teoria dos sonhos tantas vezes que para nós era
uma constante curiosidade saber como a cada vez ele conseguia infun­
dir-lhe novidade. Mesmo psicanalistas inteiramente familiarizados com o
assunto podiam ler cada nova apresentação com grande interesse, como se
a estivessem lendo pela primeira vez. Freud dedicou onze conferências a
esse tema, depois das quatro sobre os lapsos cotidianos, mas mesmo assim
sentiu que tinha feito apenas uma apresentação imperfeita desse assunto
extraordinariamente rico. Seu pequeno livro S,Jbre os Sonho� é uma in­
trodução mais simples e mais didática ao assunto, mas essa exposição tal­
vez seja a mais instrutiva. Isso se deve a ela se desenvolver por meio de
discussões nas quais as várias dificuldades de apreensão são cuidadosa e
pacientemente examinadas em detalhe. A primeira conferência foi dedica­
da às dificuldades preliminares, como a imprecisão e as incertezas do pró­
prio material. Seguem-se os principais temas: a técnica de interpretação, o
contraste entre conte.1do manifesto e conteúdo latente, a natureza e a fun­
ção da censura, os aspectos simples dos sonhos na infância, os vários me­
canismos de distorção empregados na "elaboração do sonho", as fontes
dos estímulos e os desejos inconscientes que eles colocam em ação, etc.
Há também uma pequena abordagem dos desejos reprimidos do incons­
ciente, dos desejos incestuosos e de morte da infância, etc.
A última conferência foi dedicada às dificuldades remanescentes,
tendo Freud cuidado de quatro delas em particular. A primeira diz res­
peito às incertezas de interpretação - se um dado elemento deve ser lido
literal ou simbolicamente, se uma frase tem de ser invertida ou não - e às
várias possibilidades de interpretação arbitrária e subjetiva. Freud admitia
que esse trabalho não alcança a certeza encontrada na matemática, mas
assinalava que todas as conclusões em trabalho científico são, por nature­
za, de graus variáveis de probabilidade, em vez de um grau absoluto, e
que na maioria dos trabalhos a fidedignidade dos resultados dependia em
ampla medida da capacitação e experiência do pesquisador. No caso da
interpretação dos sonhos, sustentava que um analista competente alcança
elevado nível de probabilidade em suas interpretações. Fez analogia com
a incerteza original na decifração dos hieróglifos cuneiformes e também
observou que em certas línguas, como o chinês e o egípcio antigo, peque­
nas indicações se fazem necessárias para a compreensão de qual dos vá­
rios significados possíveis é o pretendido. Outro tipo de hesitação é pro-

- 226 -
vocada pela impressão dada por tantas interpretações de serem forçadas e
de dependerem de um jogo de palavras de um tipo estranho para nossa
consciência nas horas de vigília. Tudo isso, porém, é da natureza do sis­
tema inconsciente, que em essência é estranho.
A seguir vinha a infeliz constatação de que certas pessoas, até então
encaradas como psicanalistas, haviam apresentado idéias diferentes sobre
o significado dos sonhos. Havia a afirmação de Maeder, segundo a qual a
vida onírica representa uma tentativa de adaptação a tarefas atuais e futu­
ras, o que ele chamou de "tendência prospectiva" dos sonhos; a convic­
ção de Silberer de que todos os sonhos têm dois significados, o psicanalí­
tico e o "anag6gico", em que objetivos mais elevados da mente estão re­
presentados; a afirmação de Adler de que todos os sonhos têm uma inter­
pretação tanto masculina quanto feminina. Na opinião de Freud, o ele­
mento de verdade em todas essas afirmações fora injustificavelmente ge­
neralizado e a falácia em tais casos está em uma compreensão imperfeita
da profunda diferença entre o conteúdo manifesto e o latente de um so­
nho.
Por fim, ele discutia a objeção de que os sonhos de um paciente mui­
tas vezes dependiam de qual analista ele freqüentava, de que havia uma
semelhança nos sonhos dos pacientes de determinado analista. Isso tam­
bém pode ocorrer, mas a inferência às vezes feita a partir disso era mais
uma vez devida à mesma confusão entre conteúdo manifesto e latente. As
observações feitas por um analista podiam, com freqüência, constituir es­
tímulo para um sonho, assim como as feitas por qualquer outra pessoa ou,
quanto a isso, qualquer estímulo físico. Mas saber como a atividade cria­
dora de sonhos do paciente elaborava tais estímulos já era uma questão
puramente interna, não suscetível de qualquer influência externa. "Muitas
vezes pode-se influenciar uma pessoa que sonha quanto ao que ela sonha­
rá, mas nunca o que ela realmente sonha."
A terceira parte, que é de fato a segunda metade do livro, consistia
em treze conferências pronunciadas no inverno seguinte. Diferem do pri­
meiro conjunto por lidarem com material inacessível aos membros da pla­
téia e por terem, assim, de assumir uma forma mais didática. Mantinham,
porém, as discussões das supostas objeções e dificuldades por parte da
platéia que tornaram as conferências anteriores tão atraentes. O assunto
não é a teoria da psicanálise propriamente dita, e menos ainda uma expli­
cação de como empregar o método, mas uma apresentação da teoria psi­
canalítica das psiconeuroses. Essas conferências provavelmente consti­
tuem a melhor introdução a esse assunto.
Nelas Freud abordou amplamente, e às vezes profundamente, todos
os aspectos das psiconeuroses; aqui s6 é possível comentar umas poucas
de suas afirmações características. Começava, por exemplo, por negar sua
crença no antigo provérbio segundo o qual a rivalidade é a mãe das coisas

- 227 -
e por expressar sua aversão por polêmicas científicas, que em geral são
infrutíferas e pessoais. Assinalava que descobrir o significado dos sinto­
mas neuróticos por meio da análise envolvia o passo decisivo de reconhe­
cer a existência do inconsciente. A seguir, falando de terapia, mostrava
que há mais de um tipo de conhecimento; pode-se conhecer algo com uma
parte da mente e no entanto não conhecê-lo com outra. Comentou sobre a
tendência dos neuróticos para estarem dispostos, a longo prazo, a revelar
tudo, exceto alguma parte especial de sua mente que seria mantida em re­
serva, e sobre a importância de opor-se implacavelmente a isso, já que
nessa área poderiam germinar mais tarde novos sintomas. Nenhum setor
especial - como, talvez, segredos de Estado - podia ser eximido como ex­
ceção; se fosse anunciado que criminosos estariam livres de serem presos
em alguma área determinada, seria impossível prendê-los.
Freud tratou longamente dos problemas de etiologia e repetidamente
insistia na necessidade de que vários fatores convergissem antes que um
sintoma neurótico pudesse formar-se. Os elementos dessa soma, porém,
são recíprocos; se um fator é especialmente forte, os outros não precisam
ser, e vice-versa. Havia, para começar, a predisposição hereditária, que
em uns poucos casos é preponderante e em outros é quase nada. Consiste
no depósito de experiências ancestrais. Esta sempre foi a concepção freu­
diana da hereditariedade: "Se nada é adquirido, nada pode ser herda­
do". 2 1 O que hoje é chamado de "fantasias primárias", isto é , imagens
de coito parental, medos de castração, etc., foram há muito tempo realida­
des. Vem então o fator do desenvolvimento inibido em determinado está­
gio. Pode ser inato, como com freqüência ocorre no desenvolvimento or­
gânico, levando, por exemplo, a incidentes como a não descida de um
testículo ou um canal inguinal patente. Pode ainda ser aumentado por ex­
periências reais nesses estágios, levando à situação bastante semelhante
que Freud chamou de "fixação". Esses pontos de fixãção permanecem
por toda a vida como focos de atração especial, pontos a que a energia li­
bidinal pode facilmente "regredir" quando ocorrem dificuldades ou obs­
truções. A regressão era um aspecto a que Freud dava especial importân­
cia, mas ele tinha o cuidado de insistir em uma questão que às vezes é es­
quecida: que a regressão de energia não pode ocorrer a menos que haja
algo a que regressar, algo que a atraia para trás. A obstrução que bloqueia
a libido e põe em andamento a regressão foi denominada por Freud priva­
ção sexual no sentido amplo, mas ele incluía sob esse termo não apenas
privações externas, mas acima de tudo privações- internas devidas a re­
pressão prévia.
Embora sustentasse que todo sintoma neurótico é um substituto dis­
farçado para a gratificação sexual, deixava claro que i�o é apenas metade
da história. Falando em termos estritos, um sintonia �1 -em particular na
histeria, uma formação de conciliação entre o de�. Iibidinal e a força

- 228 -
repressora exercida a partir do ego. Além do mais, o desejo em questão é,
tipicamente, não um desejo adulto de relação sexual, mas um desejo dos
componentes parciais iniciais que vão compor o instinto adulto. Em outras
palavras, é um impulso pertencente à infância - razão adicional para que
seu significado seja facilmente deixado de lado. Fora a existência desses
numerosos componentes na infância que levara Freud a definir a sexuali­
dade da infância como "perversa polimorfa", expressão que deu origem a
muita indignação. Nesse sentido, expressou sua famosa afirmação de que
todo sintoma neurótico era o negativo de uma perversão sexual ; qual dos
dois ocorrerá depende muito do grau de repressão presente. As neuroses
sempre significam um conflito entre o grupo de instintos do ego e o grupo
dos instintos sexuais. Quando parecem ser um conflito entre dois impulsos
sexuais diferentes, isto é, o masculino e o feminino, isso se deve ao ego
ter aceito um dos dois mais do que o outro; em linguagem técnica, um im­
pulso é mais "egossintônico" que o outro.
Outro fator ainda entra na formação, ou mais especialmente na ma­
nutenção, de sintomas neuróticos - a vantagem que a pessoa ganha com
ele. Freud fez aqui uma distinção entre "ganho primário" (ganho paranó­
sico) e "ganho secundário" (ganho epinósico). O primeiro é a vantagem
que o ego tem a partir de sua fuga para a doença, em vez de suportar a
dor de alguma situação. O ganho secundário é a vantagem que a persona­
lidade pode subseqüentemente obter por meio da exploração da doença
neurótica uma vez que esteja estabelecida. Este último aspecto é às vezes
tão óbvio, em especial na vida doméstica, que à primeira vista pode ser
equivocadamente tomado como motor de toda a neurose.
Freud esboçou um interessante contraste entre sonhos e neuroses,
cujos mecanismos internos são quase idênticos: os processos de distorção,
a apresentação de um desejo infantil reprimido como realizado, etc. No
caso de uma neurose, porém, o ego tem de impor uma negativa muito mais
forte a esses desejos do que a que impõe na vida onírica. Aqui ele pode
permitir-se uma maior tolerância porque no sono há pouco ou nenhum
acesso à motilidade e, portanto, nenhum perigo de os desejos serem tradu­
zidos em ação.
Uma conferência especial foi dedicada ao problema fundamental da
ansiedade mórbida (A ngst). Empenhou-se em distinguir entre ansiedade
"real" ou objetiva, relacionada com um perigo externo verdadeiro, e an­
siedade "mórbida". O estado saudável é o de prontidão para perceber pe­
rigo e de preparação para enfrentá-lo. Isso normalmente deveria levar a
decisões sobre a proteção mais conveniente: a fuga, a defesa ou o ataque.
Quando, porém, o processo conduz ao surgimento de um estado pleno de
ansiedade, as vantagens biológicas são diminuídas ou perdidas, de modo
bastante evidente no caso de pânico. Ffeud ainda estava intrigado quanto
à fonte do afeto da ansiedade mórbida, problema que resolveu anos mais

- 229 -
tarde. Por um lado, ele ainda insistia em sua antiga opinião de que a an­
siedade era simplesmente libido transformada e não sabia como combinar
essa idéia com a noção de ela significar uma fuga do ego a partir de sua
libido. 2 2 Além do mais, ao usar a expressão "transformação da libido em
ansiedade", em certo momento ele a definiu um pouco melhor, acrescen­
tando "ou, melhor, descarga de libido sob a forma de ansiedade" . 2 3 mas
ainda af permaneceu o fato de que a "ansiedade real" é, evidentemente,
uma expressão do instintC' de autopreservação do ego e portanto tinha em
,
aparência uma fcnte diferente da que tinha a "ansiedade mórbida. . Freud
confessou que havia uma lacuna em sua teoria que até então ele não tinha
condições de preencher. 2 4
O último capítulo era dedicado à questão da terapia, não à técnica de
realizá-la, mas ao problema de como a psicanálise produzia resultados te­
rapêuticos. Ocupava-se sobretudo de uma discussão da transferência e
sugestão, com um longo debate sobre a diferença entre esta última e a psi­
canálise. Na época, afirmava-se habitualmente - e a objeção ainda é oca­
sionalmente levantada por desinformados - que a análise era meramente
uma forma mais sutil de sugestão e que produz seus resultados da mesma
forma. Não existe resposta mais completa a essa crítica do que a que
Freud deu longamente em sua conferência final, a última que iria fazer em
sua vida, e ela pode ser recomendada àqueles que desejam examinar a
questão com mente aberta.
Freud concluiu com uma expressão muito comovente de sua insatisfa­
ção com o modo como tentara realizar sua tarefa. Admitiu com franqueza
e enumerou as várias deficiências em sua apresentação, sendo sua única
desculpa a enorme complexidade dos vários tópicos que abordara. Era
uma medida reveladora de sua verdadeira humildade e também dos eleva­
dos padrões que ele acalentava no trabalho e no ensino científicos.
(8) A obra de Freud que ainda nos resta considerar no presente con­
texto é um pequeno ensaio publicado em 1 9 1 7 em Imago, o periódico de­
dicado a aplicações não médicas da psicanálise. Foi escrito porque Igno­
tus, um amigo húngaro, havia pedido um artigo que ele pudesse publicar
em sua revista húngara, Nyugat. Hanns Sachs persuadiu Freud a publi­
cá-lo meses depois em alemão. 2 5 Tinha o título de "Uma Dificuldade no
Caminho da Psicanálise", referindo-se · a uma dificuldade no modo de
aprender a aceitar seus principais dogmas. A parte expositiva principal era
uma apologia de sua teoria da libido, mais especialmente em relação com
sua concepção do narcisismo recentemente postulada. Contrapôs-se à re­
provação de unilateralidade no estudo detalhado dos processos sexuais
com a asserção de que isso não implicava negação ou desprezo dos outros
múltiplos interesses que dizem respeito à humanidade, embora eles não se
encontrassem diretamente em seu próprio percurso. "Nossa unilateralida­
de é como a do químico que l iga todos os compostos à força da afinidade

- 230 -
química. Co m iss o , ele não e s tá negand o a força de gravidade, q uestão
q u e deixa para o fís ico " . 2 6
Freud ent ão expunha o s três pe s ad os g olpe s que o narci s ismo , o u
amor-próprio, da humanidade sofrera nas m ãos da ciência. Tratava-se de
um conj u n to de idéias q u e e l e havia menci o nado brevemente n o decurso
das c o nfe rências : 2 1
(a) Cosmológico: O primeiro s ério g o lpe a ferir o orgulho do homem
pro veio dos astrôno mos e está vinc u lado ao n o me d e C opérnic o . Até en­
tão , a de sp e ito de umas pou cas s uge s tõe s d o s antigo s grego s , em partic u ­
lar de Aristarc o , era tido como certo q ue no s so lar te rre stre era o c e ntro
d o u nivers o , em torno d o q u al giravam o so l , a lua e as estre las - c o mo
devia ser, em reco nhecimento de nos sa impo rtânc ia. Q u ando no s éc ul o
XVI te ve de se reco nhecer que habi távamos um minúscul o fragmento de
matéria, um dentre u m número incontável de o utros que também giravam,
o h o mem s o freu o primeiro g o lpe em s eu orgulho .
(b) Biológico: O a s pecto d o orgulho do ho mem a s er ferid o pe las de s­
co bertas bio lógica s , a s desc oberta s ligada s a o nome de Darwin, foi sua
c o nvicção de que havia sid o c o nferido um status únic o no re ino animad o .
E s sa não era u ma crença primordial c o mo a anteri or. A o c o ntrári o , tanto
os s elvagen s c o m o a s crianças acei tam facilmente a pro ximidade c o m ou ­

tro s animais, o q u e é mostrado nas idéias de de scender de animais , de


partilhar s u a linguagem, etc . C o m o de senvo l vimento da civil izaç ão , po­
rém, o h o mem vei o n ão apenas a assumir uma p o sição de dominação s o­
bre o utros animais, mas fundamentalmente a negar qualquer comunh ão
inata com ele s : o poder da razão , a p o sse de uma alma imo rtal , eram prer­
ro gativas apenas su a s . A demo nstraç ão de s ua afinidade e s s encial com
o utro s animais e d e sua descendência deles foi o segundo grande go lpe n o
o rgulh o d o h o mem. (Aliás , essa admi s são fora e m geral feita apenas n o

tocante ao corpo do h o mem, não à sua mente; foi a obra de Freud que aos
po ucos a estendeu à me n te . )
( c ) Psicológico: O último bal u arte d o org u l ho do ho mem também foi
a s s altado . Tratava-se da cre nça de que no centro de sua personalidade re­
side algo , seja chamad o de ego ou de alma, que e stá informado s obre tudo
que o c o rre dentro dele e que tem pleno c o nhecimento de seu s mo tivo s e
interes se s ; e que além d o mai s po s s u i um instru mento, "poder de vo nta­
de " , que ex erce c o mando e c o ntro le sobre o re s to de s ua personalidade. A
psicanálise tem mostrado irrefutavelmen te qu e amba s essas crenças têm
apenas u ma validade muit o parcial. A c o n s ciência está l onge de saber tu­
d o o que se passa ,n a mente, mesmo os aspecto s mais impo rtantes de la, e a
capacidade d o h o mem d e c o ntrolar seus pen s amentos ou seus impulsos é
mui to menor do que ele ilusoriamente j ulgara.
E s s a conclu s ão, é verdade, fora várias ve ze s enunc iada por filóso fos.
Schopenhau er, em parti�ular, in s i s tira na impo rtância da "vo ntade inc on s-

- 23 1 -
ciente" e também da insuspeitada significação dos instintos sexuais. Mas
foi somente quando a psicanálise substituiu proposições abstratas por de­
monstração material que começou a despontar para o homem que ele não
é "senhor em sua própria casa". O reconhecimento dos processos incons­
cientes, que mal havia começado, iria se mostrar de extraordinária impor­
tância tanto para a ciência quanto para a vida.
Abraham insinuou que esse artigo tinha a aparência de documento
pessoal, ao que Freud respondeu: "O senhor está certo ao dizer que a
enumeração em meu último artigo pode dar a impressão de reivindicar um
lugar ao lado de Copérnico e Darwin. Mas eu não quis abandonar a inte­
ressante linha de pensamento por esse motivo e, assim, pelo menos colo­
quei Schopenhauer em primeiro plano."ª

NOTAS

ª Cap. 10, N!? 4.


b Ver Cap. 14.
e "!eh weiss es auch nicht. !eh hiitte nichts dagegen. lch habe die ganze Sache nicht
gemacht. Aber Tatsache bleibt..."
d Cap. 3, pág. 89.
e Ver pág. 217.

- 232 -
IX

CONTRIBUIÇÕES TÉCNICAS

A TÉCNICA DE CONDUZIR UMA PSICANÁLI SE É EM AMPLA MEDIDA


uma questão de experiência. A complexidade da mente humana é tal que é
impossível enumerar todas as situações e dificuldades específicas que po­
dem surgir no decorrer de uma análise. Contudo, um pré-requisito para a
capacidade de fazer bom uso de tal experiência é liberdade e harmonia
pessoais, alcançáveis apenas através da experiência pessoal de análise,
que habilita uma pessoa a detectar em si mesma pelo menos um eco de
qualquer reação emocional apresentada pelo paciente e assim compreen­
der sua significação. Freud certa vez comentou, já em 1882, que experi­
mentava uma sensação estranha sempre que era incapaz de avaliar as
emoções de alguém através das suas próprias, notável premonição de sua
futura capacidade analítica.
Com essa liberdade, a mente do analista deveria ser flexível o sufi­
ciente para apreender toda a infinita variedade de atitudes emocionais com
que ele pode deparar. O analista trabalha, porém, não apenas com sua
mente inconsciente, mas também com sua mente consciente, e mostrou-se
possível auxiliá-lo em seu trabalho por meio de uma instrução mais ou
menos didática referente a princípios gerais, assim como um químico pode
· aprender pela suplementação, embora não pela substituição, de sua neces­
sária experiência de laboratório com conferências e leituras. Naturalmen- .
te, Freud sentiu ser sua obrigação ajudar aqueles que estavam adotando
seus métodos pela partilha com eles do conhecimento que penosamente
adquirira por meio da experiência. Sua própria técnica mudara muito des­
de suas tentativas iniciais, no começo da década de 1890-1900. Em mui­
tos aspectos a técnica foi refinada, estabeleceu-se uma diferença entre os
dados mais importantes e os menos importantes e foram eliminados os
elementos desnecessários e mesmo perniciosos.ª

- 23 3 -
Freud já havia, é claro, oferecido muitos dados acerca da natureza de
sua técnica. Três valiosos artigos dos anos 1904-1905 haviam exposto o
suficiente dela para capacitar aqueles de nós que estavam distantes a nos
aventurarmos a aplicá-Ia.
(1) O primeiro desses artigos, de 1904, intitulava-se "O Método Psi­
canalítico de Freud" ; foi escrito em meados de 1903. Apareceu anonima­
mente como capítulo do livro Psychische Zwangserscheinungen ( Fenôme­
nos de Compulsão Psíquica), de Lowenfeld, livro notável por si mesmo,
mas dois anos depois Freud republicou seu artigo, dessa vez com seu no­
me, na primeira série de suas Sanunlungen. 2 Foi o único que ele escreveu
com um título tão abrangente, pois nunca mais se dispôs a dar a impressão
de que estava abarcando todo esse campo. De fato, esse artigo consiste
apenas em uma descrição muito geral e contém a seguinte frase sobre a
parte mais importante do método: "Freud ainda não publicou os detalhes
de sua técnica de interpretação."
Iniciando com uma apresentação do antigo método catártico, Freud
indicava as alterações fundamentais que havia feito nele, principalmente a
substituição da hipnose pela investigação das "associações livres". Enfa­
tizava a importância da repressão e da resistência, mas não o curioso e
importante fenômeno da transferência. Afirmava o seguinte: "A objeção à
hipnose é que ela oculta a resistência e por essa razão obstrui o insight,
por parte do médico, do jogo das forças psíquicas. A hipnose não extin­
gue as resistências: o que faz é evitá-las, e assim produz apenas uma in­
formação imperfeita e êxitos terapêuticos transitórios". Agora ele já não
pedia a seus pacientes nem mesmo para fecharem os olhos, como fizera
apenas quatro anos antes. 3 Concluía com várias contra-indicações que
proibiam o uso do método, algumas das quais desde então perderam seu
valor.
(2) Em 12 de dezembro de 1904, Freud proferiu uma alocução no
Colégio de Médicos de Viena sobre o tema da "Psicoterapia" ,4 que ele
incluiu no mesmo volume. Freud lembrou que oito anos antes havia falado
nesse colégio sobre o tema da histeria. No entanto ele estava confundindo
duas ocasiões: uma, quando pronunciou três conferências sobre histeria
nesse Colégio nove anos antes, em 14, 21 e 28 de outubro de 1895 (nunca
publicadas por ele, mas relatadas longamente pela imprensa médica de
Viena) ; outra, uma conferência sobre a "Etiologia da Histeria" oito anos
antes, em 2 de maio de 1896, na Verein für Psychiatrie und Neurologie
(Sociedade de Psiquiatria e Neurologia). A presente ocasião constituiu
a última vez em que ele se dirigiu a uma platéia médica em Viena.
Tratava-se de uma incitação, bastante convincente, ao estudo do mo­
do de ação da psicoterapia, que ele expôs mais plenamente no artigo sobre
"Tratamento Mental"b publicado pouco depois; mas não há razão para
pensar que o artigo teve qualquer reação positiva por parte da platéia. Ele

- 234 -
refutava a idéia de que a psicanálise é uma forma de sugestão, afirmando
que há "a maior antítese possível" entre as duas. Para ilustrar isso, citou
o contraste que Leonardo da Vinci havia feito entre pintura e escultura. A
primeira trabalha per via di porre, acrescentando algo - tinta - à tela
branca, assim como a sugestão consiste em acrescentar algo que se espera
vá contrapor-se às idéias mórbidas. Por outro lado, a escultura trabalha
per via di levare retirando da pedra bruta tudo o que oculta a superfície
da futura estátua nela contida, assim como a análise revela o que ante­
riormente estava oculto. Explicava o método de ação da psicanálise com­
parando o estado de _idéias inconscientes com o das conscientes, que estão
sujeitas a controle. As várias objeções à psicanálise - os aspectos sexuais,
o medo de um dano, etc. - foram fielmente abordadas. O artigo em seu
conjunto é esclarecedor e ainda pleno de interesse.
Freud expressou nessa conferência a opinião de que futuros avanços
na técnica deveriam tornar possível atuar terapeuticamente sobre certas
psicoses - predição que agora, por fim, está sendo realizada. Também ob­
servou que até então (fins de 1904) nenhum colega havia indagado a ele
como realizar uma psicanálise. Nessa época ele tinha, é verdade, uns pou­
cos alunos, mas estava provavelmente se referindo a colegas de sua pró­
pria posição.
(3) De longe, porém, a mais valiosa contribuição para a técnica que
Freud fez nestes anos foi seu relato da célebre análise de Dora. Esta é
comentada mais extensamente em outro capítulo,c mas aqui há que se en­
fatizar seus aspectos puramente técnicos. Pela primeira vez, foi-nos per­
mitido ver Freud em atuação, observar como ele enfrenta as várias situa­
ções na análise, como e quando interpreta o material a ele apresentado e,
acima de tudo, o hábil e indispensável uso que ele faz da interpretação de
sonhos.
(4) "Notas sobre um Caso de Neurose Obsessiva", Esse ensaio faz
parte de uma série de casos clínicos que será apresentada mais adiante.d É
aqui mencionado pela razão que se segue. Era costume de Freud destruir
tanto o manuscrito de todo artigo que publicava, quanto as notas em que
se baseara. Por algum estranho acaso, porém, as anotações diárias desse
caso, escritas toda noite, foram conservadas, pelo menos as referentes à
maior parte dos primeiros quatro meses do tratamento; James Strachey as
organizou e publicou uma tradução delas juntamente com o caso clínico. 5
Esse material é valiosíssimo, por permitir uma oportunidade única de ver
Freud, por assim dizer, em seu trabalho diário: sua escolha do momento
para as interpretações, seu uso característico de analogias para ilustrar um
conceito que expunha as suposições preliminares que fazia para si mesmo
e que depois poderiam ser confirmadas ou não e, no conjunto, a maneira
experimental, e gradual como esse trabalho se desenvolvia. Para quem
exerce a psicanálise, essa visão por trás das cenas é de enorme interesse.

- 235 -
Alguns aspectos da técnica de Freud a essa época são de especial in­
teresse. Ele fazia para seus pacientes exposições sobre a teoria da psica­
nálise muito mais completas do que as que passou a fazer depois ou do
que as que são feitas atualmente, mas em seu ensaio ele deixou claro que
seu objetivo ao fazer isso não era, por pouco que seja, convencer o pa­
ciente, mas simplesmente induzi-lo a produzir material mais relevante.
Então, a partir das notas não publicadas, ficamos sabendo que Freud ad­
mitia uma atitude mais familiar para com seus pacientes do que depois
veio a permitir ou do que tem sido o método usado desde então pelos
analistas. É verdade que ele já não os convidava mais para refeições com
sua família, como havia feito na década de 1890-1900, mas ocasional­
mente ainda fazia servir refrescos, durante a sessão, para ele e para o pa­
ciente.
(5) A ampliação do interesse por sua obra, de que o Congresso de
Salzburg em 1908 deu mostras, evidentemente estimulou o desejo de
Freud de fazer uma nova apresentação de seu método e assim ajudar
aqueles que estavam começando a usá-lo. Então, cerca de seis meses de­
pois do congresso iniciou uma exposição sistemática da técnica, que ele
propôs publicar com o título Allgemeine Technik der Psychoanalyse (Ex­
posição Geral da Técnica Psicanalítica). Escreveu a Abraham dizendo que
ainda não tinha decidido onde publicá-la, talvez na segunda série da
Scunmlung que apareceria no ano seguinte. 6 No mês seguinte informou
que já havia escrito 36 páginas algumas semanas antes, mas estava tão
cansado do trabalho cotidiano que o ensaio não estava progredindo. 7 A
Ferenczi disse que deveria chegar a cinqüenta páginas até o Natal, quando
então o submeteria à sua aprovação. "Deverá ser muito valioso para os
que estão exercendo a psicanálise; os que não a exercem não entenderão
uma única palavra".ª Poucos dias depois disse a Jung que o ensaio já ha­
via sido recusado e que, se ninguém mais o aceitasse, iria publicá-lo no
primeiro meio-volume do novo Jahrbuch, 9 mas em fevere1ro viu que não
poderia aprontá-lo . a tempo e decidiu adiar seu término para agosto, quan­
do apareceria no segundo meio-volume. 1 0 Essa era ainda sua intenção em
junho, quando disse que, depois de escrever o caso do "Homem dos Ra­
tos" ,e dedicaria algumas semanas das férias para acabar o trabalho sobre
técnica. 1 1 Chegada a época, porém, ele estava tão cansado e seus pensa­
mentos tão ocupados com a próxima visita aos Estados Unidos que deci.:
diu não escrever mais nada naquele ano. 1 2 Outra razão para adiá-lo para o
ano seguinte era que ele queria que o artigo de Ferenczi sobre transferên­
cia 1 3 tivesse prioridade. 1 4 No ano seguinte, porém, anunciou que não seria
possível publicá-lo no Jahrbuch e que o melhor seria deixá-lo esquecido
em uma gaveta. 1 5
Quando visitei Freud n o verão d e 1 909, ele me disse que estava pre­
tendendo escrever um pequeno memorando de máximas e regras de técni-

- 236 -
ca que tencionava distribuir privadamente apenas entre os analistas mais
chegados a ele. A notícia naturalmente despertou minhas expectativas,
mas de novo nada resultou do projeto. Pode-se suspeitar de alguma inse­
gurança ou insatisfação de Freud quanto à questão, cuja natureza é difícil
de perceber.
A partir desse momento, nada mais se ouviu falar do proj eto, nem es­
sas preciosas páginas foram preservadas. "Subitamente, como ocorre com
raras coisas, desvaneceu-se". Um ano depois, anunciou sua intenção de
desencavar seu "antigo trabalho" sobre técnica, 16 mas nessa época já não
estava disposto a tentar expor todo o assunto e concebeu um novo plano
de escrever uma meia dúzia de ensaios sobre aspectos especiais do as­
sunto. Como veremos, ele realizou esse plano.
(6) Retomou o assunto pela primeira vez na interessante comunica­
ção, que fez no Congresso de Nuremberg em abril de 1910, sobre "As
Perspectivas Futuras da Terapia Psicanalítica". 1 7 Comentava que o trata­
mento tinha sido muito mais árduo, tanto para o paciente quanto para o
analista , nos começos do método, quando se limitava a uma insistência
para que o paciente expressasse seus pensamentos. As artes da interpreta­
ção no momento adequado e do estudo das manifestações de transferência
já o haviam tornado mais fácil. Mostrava ainda que o objetivo do trata­
mento tinha passado da mera elucidação dos sintomas para a elucidação
dos complexos em geral e depois para a investigação direta das resistên­
cias. O conhecimento dos símbolos típicos fora um acréscimo recente. Ele
agora chamava a atenção para a ocorrência de contratransferências e exi­
gia uma auto-análise completa e constante delas. Exprimiu a esperança de
que quando a psicanálise obtivesse mais reconhecimento e respeito a tare­
fa terapêutica seria um pouco mais fácil. Retratou pesarosamente s�us
primeiros tempos, quando era encarado sobretudo como um jogador dota­
do de um sistema secreto. "Não era realmente agradável estar operando
nas mentes das pessoas enquanto os colegas, cuja obrigação deveria ser
ajudar, tinham prazer em cuspir no campo de operação e enquanto, aos
primeiros sinais de sangue ou inquietação nele, os parentes do paciente
faziam ameaças". Tudo o que um ginecologista pode fazer em certos paí­
ses orientais é tomar o pulso de um braço esticado para ele através de um
buraco na parede. "E seus resultados de cura estão na proporção do aces­
so a seu objeto; nossos opositores no Ocidente desejam restringir nosso
acesso às mentes de nossos pacientes a algo muito semelhante."
Concluiu com algumas importantes observações sobre a atitude da
sociedade diante das perturbações neuróticas e a profilaxia que poderia
efetuar-se por meio de um conhecimento mais genuíno de seu significado.
Mas advertia contra o fanatismo terapêutico. Também havia um lugar para
a neurose no mundo e alguns pacientes ficariam piores se privados do be­
nefício secundário que sua doença lhes dá.

-237 -
(7 ) Poucos meses depois, também em 1910, Freud publicou um arti­
go que infelizmente ainda é muito oportuno. Tratava do que ele chamava
de "análise selvagem" . 1 8 Ele abordava, ilustrando com um bem escolhido
exemplo, a confusão e o preju ízo que podem ser produzidos por médicos
que aplicam suas teorias sem se darem ao trabalho de compreendê-las ou
que tentam realizar uma psicanálise sem primeiro aprender como fazê-lo.
Como ele disse, a técnica da psicanálise não pode ser aprendida em livros,
mas apenas, como outras intervenções médicas, com aqueles que a domi­
naram. Ele teria ficado triste se soubesse que hoje em dia centenas de
"práticos" necessitam dessa exortação óbvia.
Entre 1911 e 1915, Freud publicou uma série de seis artigos sobre
técnica que depois agrupou quando os republicou como parte de sua
quarta série das Sammlung Kleiner Schriften zur Neurosenlehre (1918).
(8) O primeiro dos seis, publicado em dezembro de 1911, intitulava­
se "O Emprego da Interpretação dos Sonhos na Psicanálise". 1 9 Se um pa­
ciente sabe que os sonhos são muito importantes, sua resistência pode fa­
zer uso do conhecimento de dois modos opostos. Ele pode não trazer ne­
nhum sonho, com a idéia de que então a análise não pode prosseguir; é
preciso mostrar a ele que o progresso dela pode ser independente do mate­
rial onírico, depois do que ele trará algum sonho no devido tempo. Ou ele
pode cumular o analista com uma quantidade de sonhos muito superior ao
que é possível analisar no tempo dado. O ponto mais importante era que o
analista não deveria colocar seu interesse científico pela interpretação de
qualquer sonho à frente da regra terapêutica de manter contato com os
pensamentos e as emoções que ocupam a mente do paciente a cada mo­
mento. Ele pode estar confiante de que qualquer material onírico, que pa­
receria perdido por não se ter interpretado completamente um sonho inte­
ressante, certamente recorrerá de uma forma ou outra.
(9) Um artigo sobre "A Dinâmica da Transferência" ,2� publicado um
mês depois Qaneiro de 1912), ajudou os analistas a terem uma compreen­
são mais clara dos obscuros problemas desse fenômeno regular. Depois de
comparar as manifestações de transferência na psicanálise com as de ou­
tras situações médicas, Freud ocupou-se do enigma de elas em ambos os
casos serem uma ajuda indispensável no tratamento e ao mesmo tempo o
maior obstáculo para seu progresso. Dissecou os vários elementos de hos­
tilidade, afeição e sexualidade inconsciente e explicou como a transferên­
cia pessoal é sempre usada como resistência quando se toca em um com­
plexo reprimido.
Nesse artigo, Freud fez duas importantes afirmações. Expressou a
opinião, que o expôs a muitas críticas, de que todos os sentimentos positi­
vos - de simpatia, amizade, confiança, etc. - derivam de fontes sexuais,
por mais que tenha sido completamente ocultado ou alterado o objetivo di­
reto dos impulsos. "Originalmente conhecíamos apenas objetos sexuais."

- 238 -
A outra questão era que muitas vezes, ao emergir, o material incons­
ciente revela aspectos típicos do "Processo Primário", que Freud desco­
brira no contexto de sua investigação dos sonhos. 21 Em vez de simples­
mente rememorar as lembranças - ou melhor, os impulsos - reprimidas, o
paciente tenta repeti-las em ação: nesse nível, pensamento e comporta­
mento são uma coisa só. Foi a inclinação de Ferenczi para incentivar in­
devidamente essa tendência dos pacientes que, muitos anos depois, levou
à sua divergência quanto aos ensinamentos de Freud.
Nessa época, em 1912, o desejo de Freud de dar uma instrução mais
plena àqueles .que empregavam seus métodos foi fortalecido pelas infeli­
zes dissensões que haviam ocorrido recentemente, as quais ele tinha cer­
teza de que se deviam em ampla medida a uma não-adesão à técnica cor­
reta. Todavia, ele ainda se sentia incapaz de fazer uma exposição com­
pleta e de fato, em essência, isso não é mais possível do que descrever em
um artigo todos os detalhes dos hábeis desempenhos de um engenheiro ou
de um laboratorista; a quase infinita variedade de situações o proíbe. Só
se podem expor princípios gerais ou linhas mestras, cuja aplicação fica
para a prática e a experiência. Foi isso que então Freud tentou em uma sé­
rie especial de quatro artigos; uma parte da série de seis acima menciona­
da. Publicou-os entre 1912 e 1915, dando-lhes o título geral de "Reco­
mendação aos Médicos que Exercem a Psicanálise". São todos do maior
valor prático.
(10) O primeiro destes, 2 2 publicado em junho de 1912, abordava a
questão fundamental do estado mental do analista durante seu trabalho,
tema sugerido a Freud por Ferenczi. 2 3 , essencial que sua atenção seja a
que os psicólogos distinguem como passiva ou receptiva; Freud empregou
a adequada expressão "atenção uniforme e flutuante". O analista não de­
ve dar mais atenção a um elemento do material do que a outro, ou encarar
um como mais importante do que o outro; na maioria das vezes, sua im­
portância aparece apenas bem depois, de modo que se deve evitar pré-jul­
gamentos. Pela mesma razão, não deve tomar notas durante a análise, seja
para os propósitos do tratamento, seja para propósitos científicos, nem
deve incentivar o paciente a tomar notas ou pensar antecipadamente sobre
algum ponto especial. O ideal para ambas as partes é a espontaneidade
sem prevenções, sendo a atitude do analista o complemento das tentativas
de associação livre feitas pelo paciente.
Freud mais uma vez enfatizou a importância da análise do próprio
analista e com todo acerto afirmou que se ele a negligencia, "será penali­
zado não apenas com uma incapacidade de ficar conhecendo de seu pa­
ciente mais do que um pouco, mas com o risco de um perigo mais sério,
que pode se tornar um perigo para os outros. Ele sucumbirá facilmente
à tentação de projetar como teoria científica de aplicabilidade geral algu­
mas das peculiaridades de sua própria personalidade que ele percebeu va-

-239 -
gamente; levará o método psicanalítico ao descrédito e desencaminhará os
inexperientes". Quantas vezes essa predição não se realizou desde que es­
sas palavras foram escritas !
Freud também advertiu contra outros erros que podem ser cometidos.
O analista não deve incentivar o paciente narrando parte de sua própria
vida interna; uma análise mútua desse tipo tomaria impossível a investi­
gação posterior da transferência. Em outras palavras, o analista deve agir
simplesmente como um espelho para o paciente. Além disso, deve imitar a
atitude do cirurgião durante uma operação, mantendo seus sentimentos
pessoais em segundo plano e concentrando-se na realização de sua tarefa
com o melhor de sua capacidade. Outro perigo é a ambição excessiva,
seja de natureza terapêutica, seja de natureza cultural. Não se deve nunca
exigir do paciente algo que esteja além de sua capacidade natural.
(11) O artigo seguinte, "Sobre o Início do Tratamento" , 2 4 publicado
em janeiro e março do ano seguinte (1913), tratava dos vários problemas
que surgem no começo do tratamento. Esse artigo revela o grande conhe­
cimento da vida acumulado durante muitos anos de experiência. O que di­
zer ao paciente na primeira entrevista, o quanto explicar, o que combinar
quanto a horário e preço, a adequação de cada caso ao tratamento - estas
estão entre as várias questões tratadas. Freud sempre foi muito dado a
analogias e nesse texto obervou que aqueles que estão aprendendo "o no­
bre jogo" de xadrez logo descobrem que apenas as aberturas e a jogada
final podem ser ensinadas de forma sistemática; quase o mesmo se aplica
a uma psicanálise. Admitia, porém, que mesmo aqui as variações entre os
pacientes são tão grandes que nenhuma das re&ras que ele propõe tem va­
lidade absoluta; todas podem ter de ser alteradas de acordo com o caso.
Só se pode expor um procedimento de caráter geral.
Era costume de Freud aceitar um paciente novo inicialmente apenas
por algumas semanas, durante as quais o paciente deveria sujeitar-se às
regras analíticas, embora o médico se abstivesse de interpretar. A razão
para agir assim era não apenas decidir se o caso podia ser submetido a
análise, mas também assegurar-se, na medida do possível, de que os sin­
tomas neuróticos não encobriam uma psicose mais séria. Sustentava que
isso lhe dava uma maior oportunidade de fazer um diagnóstico correto do
que qualquer número de entrevistas comuns. Para o psiquiatra, um erro
nessa área só tem interesse acadêmico, mas para o psicanalista pode desa­
creditar seu trabalho. Longas conversas antes do tratamento ou relação
pessoal anterior com o analista são perniciosos, pois favorecem o rápido
surgimento de uma transferência, de modo que o analista não tem oportu­
nidade de estudar seu desenvolvimento gradual. Deve-se desconfiar de
pacientes que desejam adiar o início do tratamento, por mais plausível que
pareça ser sua razão. Se o analista, como sua obrigação às vezes exige,

- 240-
decide tratar a mulher ou o filho de um amigo, ele deve contar com a per­
da dessa amizade, qualquer que seja o resultado da análise. f
Seguiam-se observações judiciosas e caracteristicamente honestas so­
bre as difíceis questões de dinheiro e demora do tratamento. Freud relata­
va que por dez anos tratara um ou dois pacientes por dia sem qualquer
pagamento e enumerava as dificuldades que isso acarretava para a análise.
Deu um divertido exemplo das despropositadas expectativas por parte dos
pacientes, bem como dos médicos, quanto à suposta duração do trata­
mento, atribuindo essas expectativas à ignorância reinante quanto ao vigor
e à profundidade das forças mentais e à total obscuridade que circunda
uma afecção neurótica. É encarada como a "jovem que veio de lon­
ge" ,g e, como ninguém sabe de onde ela veio, todos estão preparados pa­
ra vê-la partir de maneira igualmente misteriosa. A psicanálise tem nect;;f
sariamente uma longa duração em virtude não apenas de sua dificuldBde
inerente, mas também da "atemporalidade" do inconsciente e da lentidão
com que mudanças profundas podem ocorrer. De modo semelhante, é
despropositado exigir que apenas certos sintomas sejam analisados e que
o resto seja deixado de lado. Como disse Freud, qualquer homem pode
gerar um bebê inteiro, mas nenhum pode criar apenas uma cabeça ou um
braço.
A seguir ele explicava por que aderiu ao "cerimonial" de pedir ao
paciente para deitar em vez de sentar, 2 5 questão que causou dificuldades
nos primeiros tempos, quando pacientes americanos acharam isso de certo
modo humilhante. Mencionou que a fonte histórica do costume datava da
época do hipnotismo e que também havia o aspecto pessoal de ele não
gostar de ser encarado de perto por várias horas do dia. Estes, porém, são
fatores extrínsecos. Mais importante é a necessidade para o analista de
estar em posição de dar rédea solta a seus pensamentos sem o p -·•�nte
detectá-los a partir de suas feições, o que prejudicaria a pureza dos fenô­
menos de transferência. Não mencionou nessa ocasião a outra vantagem
da posição deitada de costas, ou seja, a de ajudar o estado de elaxamento
que é tão desejável. Aliás, não é verdade, como vários críticos sugeriram
recentemente, que foi o embaraço de Freud ao abordar temas sexuais que
o levou a insistir na posição deitada de costas para seus pacientes; sua
sinceridade direta dava-lhe aqui completa liberdade.
Naturalmente, enfatizava-se a regra fundamental de nunca reter
quaisquer pensamentos sob pretexto algum. É absolutamente indiferente o
material com que se começa; isso pode ser deixado por inteiro a cargo do
paciente.
Para terminar, confessava seu completo desamparo em uma difícil
questão: como tratar os parentes dos pacientes. É preciso contar, em qual­
quer caso, com sua invariável hostilidade e insatisfação.

- 241 -
(12) Um artigo mais difícil, publicado em dezembro de 1914, tratava
de " Recordar, Repetir e Elaborar" . 26 Ocupava-se da constante Juta, em
toda análise, entre o empenho do analista, de um lado, para que o paciente
rememore lembranças e impulsos sepultados e os assimile mentalmente e a
tendência do paciente, por outro lado, para substituir isso por uma repeti­
ção na ação, tendência que quando efetivada na vida diária pode resultar
em conduta prejudicial aos interesses do paciente. O melhor modo de lidar
com o problema é concentrar a repetição na situação de transferência, on­
de está sob controle. Freud então estabeleceu a importante distinção entre,
de um lado, simplesmente descobrir a natureza de determinada resistência,
transmitindo-a ao paciente, e, de outro, permitir-lhe "elaborar" o conhe­
c imento e assimilá-lo por completo. Essa é uma das principais razões para
a extensão do trabalho analítico, mas Freud disse que ele não podia ser
reduzido, já que estava ligado a um curioso aspecto da mente inconscien­
te, sua "atemporalidade".
(13) O último artigo dessa série extremamente útil, publicado em ja­
neiro de 1915, o qual na opinião de Freud era o melhor deles, 2 7 tratava do
"Amor de Transferência", 2 8 assunto em relação ao qual há vários equívo­
cos muito difundidos. Freud abordou essa questão delicada com maestria.
Sem cair em qualquer moral convencional, expôs com grande clareza as
princípios que deveriam guiar o analista e as razões precisas desses prin­
cípios. A clareza mental proporcionada pela integridade de caráter em ne­
nhum outro lugar podia ser mais bem ilustrada que nesse pequeno artigo.
Por exemplo, outra pessoa podia ter negado à paciente que seu amor fosse
real, com base em sua cegueira diante da realidade, seu caráter compulsi­
vo e sua origem, fácil de demonstrar, em modelos de sua infância. Mas
Freud admitiu abertamente que esses são aspectos aplicáveis a todos os
exemplos do ato de se apaixonar, o que é a razão pela qual ele beira o
anormal, de modo que não se pode nessas bases negar a realidade dos
sentimentos do paciente. O problema prático tem de ser abordado a partir
de outra base.
Em carta a Abraham, Freud mencionou que tinha completado os dois
últimos artigos a que acabamos de nos referir, estando perturbado pela
notícia da eclosão da guerra. 2 9
(14) Em 28 de setembro de 1918, Freud falou em outro Congresso
Psicanalítico, em Budapeste, sobre um tema tão amplo quanto o do Con­
gresso de Nuremberg. Intitulava-se "Linhas de Progresso na Terapia Psi­
canalítica". 30 Escrevera-o em Steinbruch, na Hungria, enquanto aí passa­
va alguns dias com a família de seu amigo Anton von Freund, em seu ca­
minho para as férias de verão nas montanhas do Tatra. 3 1
Freud começava justificando sua escolha da palavra análise pela
analogia com a análise química. Os sintomas neuróticos são produtos ex­
tremamente complicados que é preciso decompor em seus elementos. AI-

- 242 -
guns escritores - Bezzola era,o mais importante deles - concluíram que
uma análise deveria logicamente ser seguida por uma síntese, exigência
ainda feita ocasionalmente pelos desinformados, mas Freud criticou isso
asperamente. Estigmatizou essa pretensão como uma idéia destituída de
pensamento, uma extensão vazia de uma analogia e uma injustificável ex­
ploração de um nome. O nome era pouco mais do que um rótulo adequado
para fins de distinção, e não uma definição ou um programa. Não era pos- ·
sível, mediante uma ·simples analogia, descrever a natureza complexa dos _
processos mentais, embora, diga-se de passagem, fosse possível observar
que mesmo os elementos químicos que foram isolados artificialmente pro­
curam em sua maioria outras afinidades. Além do mais, a psicanálise na
verdade promovia a síntese pela remoção das repressões que atuaram co­
mo bloqueios entre diferentes partes da mente e assim impediam uma uni­
dade harmoniosa; o elemento dinâmico nelas automaticamente cuidava ,-pa­
ra que novos meios de expressão fossem buscados e encontrados, uma vez
que tivessem sido liberados para tal.
A parte principal da alocução foi dedicada à discussão de. um artigo
recente de Ferenczi, 3 2 artigo este que Freud apreciava muito. Freud há
muito substituíra a atividade da sugestão hipnótica pela técnica mais pas­
siva da psicanálise, mas Ferenczi levantara a questão da possibilidade de .
essa técnica ser melhorada pela introdução de várias formas muito dife­
rentes de atividade. Freud concordava qúe se podia fazer muito nesse
sentido. Conhecendo o papel essencial desempenhado pela privação na
gênese dos sintomas neuróticos, afirmou que era importante tomar cuida­
do para que algum elemento de privação ou abstinência continuasse ao
longo do tratamento como um estímulo constante para os motivos de re­
cuperação, mas ele foi muito cauteloso ao explicar o que queria dizer com
isso. Não se tratava de modo algum de privação geral e de modo algum
necessariamente de uma privação na esfera da sexualidade, mas de priva­
ções específicas a serem cuidadosamente escolhidas de acordo com a ne­
cessidade do indivíduo e com os aspectos particulares da análise em cada
estágio. Uma grande melhoria era, em geral, seguida de uma busca de sa­
tisfação (que de modo algum tem de ser sempre uma satisfação sexual)
que, quando bem-sucedida, tende a neutralizar a instigação do paciente
para progredir. Quando certa quantidade de libido foi liberada pelo trata­
mento analítico, ela automaticamente procura algum modo alternativo de
gratificação em lugar dos sintomas neuróticos e isso tem o efeito de dimi­
nuir os motivos do paciente para m&is progresso, a não ser que o analista des­
cubra os novos caminhos e os obstrua. Ou o paciente pode descobrir alguma
outra forma de sofrer que alivie seu sentimento de culpa e também diminua
suas motivações. Freud observou que um casamento infeliz e uma doença fí­
sica eram as maneiras mais comuns de manter uma neurose em xeque; satis-•
fazem a necessidade de sofrimento e autopunição exigidas pelas repressões.

- 243 -
O outro perigo é que o paciente procure gratificação na situação de
transferência da própria análise e Freud assinalou a necessidade de evitar
ser indulgente como o paciente em qualquer dos vários modos diferentes
possíveis. Se a vida se toma muito cômoda, como ocorre com freqüência
nos sanatórios para doenças nervosas, o paciente não está mais bem pre­
narado para enfrentar a vida do que antes. Freud criticou aqui a tendência
de certos analistas suíços para orientarem as vidas de seus pacientes em
determinadas direções, para instruí-los acerca de quais deveriam ser seus
objetivos na vida ou para fazer com que adotem como modelo a persona­
lidade do analista. Fez também objeção ao empenho de Putnam para im­
pingir determinada filosofia a seus pacientes.
Há outras formas de atividade a que Freud fez alusão. Uma era instar
com alguns !Jacientes fóbicos para suportarem a ansiedade provocada por
certas situações temidas, em vez de esperar pelo fim da análise, a qual, de
outro modo, podia ser indefinidamente adiada. Além disso, casos graves
de neurose obsessiva pedem certas mudanças na técnica que permitam que
a próprin análise se tome parte da tendência obsessiva e então intervenha
de forma enérgica.
Freud concluiu imaginando o futuro, quando o Estado tomaria conhe­
cimento a sério do custo e da extensão do sofrimento e ineficiência resul­
tantes das neuroses, os quais superam, por exemplo, os causados pela tu­
berculose, e assumiria a mesma responsabilidade pelo tratamento de
doentes pobres que assume no caso de outros distúrbios. Hoje, 35 anos
dep0is, há leves indícios na Grã-Bretanha de medidas nesse sentido, sen­
do muito interessante refletir sobre as sugestões feitas por Freud naquela
época.
Freud escreveu quatro textos sobre o uso prático dos sonhos no de­
correr do tratamento.
(15) O primeiro, publicado em 1 9 1 1, 3 3 intitulava-se "Observações
Complementares sobre a Interpretação dos Sonhos". Não foi reeditado em
nenhuma das coletâneas alemãs das obras de Freud e na Standard Edition,
em inglês, foi incorporado ao texto principal sobre o assunto. 3 4 Ocupava­
se sobretudo da elucidação de vários símbolos.
O segundo, um artigo muito mais importante que foi publicado em
dezembro de 191 1 , 3 5 iniciou a série de seis artigos sobre técnica anterior­
mente mencionados (N2 8).
(16) A seguir há um pequeno mas interessante artigo 3 6 sobre um so­
nho que dava testemunho de um acontecimento real que a pessoa que o
sonhou havia negado. Tratava-se de um sonho de outra pessoa relatado a
Freud por um paciente, sendo instrutivo comparar as interpretações dadas
por ambos.
( 1 7) Uma contribuição mais séria pode ser mencionada aqui, embora
só tenha sido escrita em 1923. Intitulava-se "Observações sobre a Teoria

- 244 -
e Prática da Interpretação dos Sonhos" : 3 7 Consistia em dez partes que
tratavam de temas distintos. Freud primeiro distinguiu vários métodos de
começar a interpretação de um sonho de acordo com as circunstâncias. A
seguir descreveu vários modos como diferentes tipos de sonhos surgem
durante um tratamento e examinou a importante questão do uso clínico a
ser feito de um sonho que se foi capaz de interpretar. Passou para o pro­
blema do grau a que pode chegar a sugestiva influência do analista sobre
os sonhos e fez aqui uma nítida distinção entre o efeito disso no material
pré-consciente e no inconsciente propriamente dito; trata-se de um tema
que ele esgotou completamente. O artigo também continha algumas ob­
servações importantes sobre a "compulsão à repetição", um novo con­
ceito que estava ocupando muito sua mente na época.h
Dois outros pequenos artigos podem ser mencionados ainda dentro
dessa série de trabalhos sobre a técnica.
(18) Um é um conjunto de pequenos exemplos de ir,ciden�es durante
o tratamento analítico. 3 8
(19) O outro contém alguns exemplos do que Freud denominou déjà
raconté om base na analogia do conhecido fenômeno chamado déjà vu . 3 9
Ocorre às vezes que u m paciente esteja completamente convencido de que
já contou ao analista algo que ele não podia ter feito. A intenção de fazer
isso fora tão forte, e no entanto obstruída por alguma resistência, que e,n
sua lembrança está confundida com o próprio ato de narração. Trata-se de
)'"
algo próximo da explicação que Freud anos antes fornecera sobre o fenô­
meno do dtjà vu. Ele acrescentou a notável observação de que, quando
um paciente diz de algum material inconsciente que o conhecera desde o
princípio, a análise está concluída; alguma parte da mente do paciente o
conhecera realmente desde o princípio.
Podemos concluir este capítulo com uma carta que Freud escreveu em
4 de janeiro de 1928, cumprimentando Ferenczi por um artigo sobre téc­
nica que ele acabara de escrever. • 0

"Caro amigo,
"O . correio de ontem trouxe duas coisas raras: um informe de São
Paulo, no Brasii, de que aí foi formado um grupo psicanalítico que quer
. ser aceito na Associação Internacional, e sua carta com os cumprimentos
de Ano-Novo que há vinte anos tenho retribu ído cordialmente. Ambos
temos consciência da impotência de nossos pensamentos e da influência
de nossa atitude em relação um ao outro.
"O trabalho que acompanha sua carta, e que o senhor encontrará em
anexo a esta, revela a judiciosa maturidade que o senhor adquiriu nos úl­
timos anos, no âmbito da qual ninguém se aproxima do senhor. O título é
excelente e merece uma proveniência mais ampla, já que as 'Recomenda­
ções sobre Técnica' que escrevi há muito eram essencialmente de nature.la

- 245 -
negativa. Considerei que a coisa mais importante era enfatizar o que não
se deve fazer e indicar as tentações em direções contrárias à análise. Qua­
se tudo de positivo que se deve fazer, deixei para o 'tato', cuja discussão
o senhor está apresentando. O resultado foi que os analistas dóceis não
perceberam a elasticidade das regras que ·expus e se submeteram a elas
como se fossem tabus. Algum dia tudo isso deve ser revisto, sem, é ver­
dade, se pôr de lado as obrigações que eti
mencionara.
"A única crítica que tenho ao seu artigo . é que . ele não é três vezes
maior e dividido em três partes. N&o há. dúvida de que o senhor tem muito
mais a dizer em moldes semelhantes, e seria muito benéfico se o fizesse.
"Tudo o que o senhor diz -sobre 'tato' é· certamente verdadeiro, mas
tenho algumas desconfianças quanto à rrianeira como o senhor faz essas
concessões. Todos os que não têm tato verão no que o senhor escreve
uma justificação para arbitrariedade, isto é , subjetividade, isto é, a in­
fluência de seus próprios complexos não dominados, O que encontramos
na realidade é um delicado equilíbrio - principalmente no n ível precons­
ciente - das várias reações que esperamos de nossas intervenções. O re­
sultado depende acima de tudo de uma estimativa quantitativa dos fatores
dinâmicos da situação. Naturalmente, não se pode formular regras para
medir isso; a decisão depende da experiência e da normalidade do analis­
ta. Mas, no caso dos principiantes, é preciso retirar da idéia de 'tato' seu
caráter místico.
"Sinceramente,
"Freud"

NOTAS

ª Um exemplo dos últimos é o fato de na década de 1 890- 1900 Freud ter-se permi­
tido um contato social sem limites com seus pacientes.
b Cap, 8 , N2 2.
e Cap. 1 1, N2 I.
d Cap. 1 1, N2 III.
e Cap. 1 1, N2 III.
f A partir de uma experiência pessoal desse tipo, com o próprio Freud, fico satis­
feito em dizer que essa afirmação não se sustenta invariavelmente.
g Alusão a Das Madchen aus der Fremde, de Schiller.
h Isso será examinado no V olume III.

- 246 -
X

CONTRIBUIÇÕES CLÍNICAS

NO DECORRER DOS ANOS FREUD APRESENTOU VÁRIOS PEQUEN OS


trabalhos, incluindo descrições de seus casos, na Sociedade de Viena.
Poucos foram publicados, mas há planos de se publicarem todas as "A­
tas" dessa sociedade da época de Freud e elas incluirão também as contri­
buições de Freud às várias discussões.
As mais importantes contribuições clínicas de Freud no presente pe­
ríodo são os casos clínicos clássicos que serão discutidos no próximo ca­
pítulo.
( 1 ) Das mais breves, a primeira foi um artigo escrito em 1908, a pe­
dido, para o primeiro número da nova Zeitschrift für Sexualwissenscha.ft
de Hirschfeld, intitulado "Fantasias Histéricas e sua Relação com a Bis­
sexualidade". 1 Nele Freud enfatizou a importância básica das fantasias
para a criação de sintomas histéricos. Tais fantasias pode-m ser devaneios
íntimos que sofreram repressão ou podem nunca ter sido conscientes. So­
mente fantasias inconscientes podem produzir sintomas. Os sintomas his­
téricos são fantasias inconscientes que chegaram à expressão através de
"conversão". Em casos duradouros, um sintoma pode vir a representar
várias dessas fantasias, desde que estas estejam interligadas.
A investigação psicanalítica pode regularmente atribuir a origem des­
sas fantasias à vida sexual. Originalmente acompanhavam atos masturba­
tórios, mas podem persistir quando estes são abandonados. São intima­
mente relacionadas, embora de modo inverso, com perversões sexuais
porque nascem dos componentes infantis, até então dissociados, do ins­
tinto sexual.
Freud resúmiu sua experiência sobre o assunto nas seguintes formula­
ções:

- 247 -
(a) Um sintoma histérico é o símbolo mnêmico de certas impressões e
experiências ativas (traumáticas).
(b) Os sintomas histéricos são substitutos , produzidos por meio de
"conversão", para a revivescência dessas experiências traumáticas por as­
sociação.
(c) Os sintomas histéricos são, como outros produtos mentais, a ex­
pressão de realizações de desejos.
(d) Um sintoma histérico é a realização de uma fantasia inconsciente
que gratifica o cumprimento de um desejo.
(e) Um sintoma histérico serve ao propósito de gratificação sexual e
representa uma parte da vida sexual de uma pessoa (correspondente a um
dos componentes de seu instinto sexual).
(f) Os sintomas histéricos são equivalentes à recorrência de uma for­
ma de gratificação sexual que foi realmente experimentada na vida infantil
e desde então reprimida.
(g) Os sintomas histéricos surgem de uma conciliação entre duas ten­
dências opostas afetivas ou instintuais, uma das quais se esforça por en­
contrar e pr ssão para um impulso ou componente parcial da constituição
sexual, enquan o a outra se incumbe de suprimi-lo.
(h) Um sintoma histérico pode vir a representar vários impulsos não
sexuais inconscientes, mas não pode prescindir de alguma significação
sexual.
"Entre essas várias definições, a sétima [g] é a que apresenta de for­
ma mais exaustiva a essência de um sintoma histérico como a realização
de uma fantasia inconsciente e, junto com a oitava [h], reconhece a signi­
ficação do fator sexual".
É digno de nota que Freud, já em 1896, em uma carta a seu amigo
Fliess, tenha indicado claramente a estrutura dos sintomas histéricos como
u,na conciliação e tre forças opostas, sexuais e não sexuais,2 e um ano
depois tenha apresentado uma exposição completa do importante papel
desc . 1penhado nesse contexto pelas fantasias. 3 No manuscrito em que as
examinava, concluiu que as fantasias têm a função ou de bloquear as lem­
bnmças mais antigas, substituindo-as, ou de refiná-las, dando-lhes uma
f rma mais aceitável. Aliás, ele também indicara a analogia entre amnésia
ir fantil e amnésia histérica. 4
(2) Em 1909, Freud escreveu um capítulo para o Mito do Nascimento
"10 Her6i, 5 de Otto Rank, que só foi reeditado isoladamente quando as
Gesammelte Schriften saíram em 1924. Ocupa-se d · uma fantasia especial
que, em virtude de sua natureza sexual, será considerada no capítulo so­
br a teoria da libido. Mas também tem sua importância clínica, já que a
'.'antasia em questão é mais acentuada nos neuróticos.
(3) No mesmo ano Freud escreveu, a pedido, um artigo para o pri­
meiro número da Zeitschrift fü.r Psychotherapie und medizinische Psy-

-248 -
chologie, um novo periódico que Moll estava fundando. Esses pedidos
eram prova do crescente reconhec.:imeotu aa obra de Freud. Este havia
feito, anteriormente, uma apresentação do tema para a Sociedade de Viena
em 8 de abril de 1908, onde ele foi discutido. O artigo tratava de "Ata­
ques Histéricos", 6 e é um de seus trabalhos mais elegantes e cuidados,
onde cada frase contém algo digno de nota. Começava por comparar as
fantasias, que tais ataques sempre representam, com devaneios e sonhos, e
assinalava que a mesma repressão faz uso de mecanismos semelhantes:
condensação, identificação múltipla, inversão na cronologia e aqui tam­
bém o mecanismo especial da inversão antagônica da inervação motriz. Se
tais ataques são relacionados com sua origem última, pode-se determinar
uma ordem regular do desenvolvimento: (a) atividade auto-erótica sem
acompanhamento ideativo; (b) o mesmo, com acompanhamento de uma
fantasia que se expressa na ação; (c) renúncia da ação enquanto a fantasia
é retida; (d) repressão da fantasia, mas sua recorrência disfarçada em um
ataque histérico; (e) repetição disfarçada sob forma motriz do ato erótico.
Ao contrário do ensinamento neurológico habitual, ele sustentava,
confiantemente, que o urinar involuntário e a mordida da língua podem
ocorrer em tais ataques, que portanto não podem ser distinguidos da epi­
lepsia por meio dessas manifestações.
(4) No ano seguinte, também escreveu um pequeno artigo de tipo
semelhante, como parte de um número especial organizado por um perió­
dico médico em honra do Prof. Kõnigstein, velho amigo de Freud. Escre­
vendo a Ferenczi, Freud comentou que ele não tinha valor,ª pois foi es­
crito apenas para uma ocasião, 7 mas aqui discordamos dessa opinião.
Como Kõnigstein era conhecido oftalmologista, era apropriado que
Freud contribuísse com algo nesse campo, tendo ele escolhido o tema da
concepção psicanalítica da "Perturbação Psicogênica da Visão". 8 Na ver­
dade, ele se limitou a um exemplo de amaurose, cegueira histérica. Nesses
casos há incomum repressão do desejo de ver coisas proibidas. Também
há, provavelmente, um grau incomum de erotização do próprio olho, de
modo que as outras funções não eróticas do olho também são afetadas
pela repressão. Freud ilustrou o tema com a lenda de Lady Godiva e co­
mentou que essa não era a primeira ocasião em que a neurose servia para
esclarecer a mitologia. A maior parte do artigo é uma apologia expositiva
do ponto de vista psicanalítico geral, coisa que Freud sempre fazia com
grande habilidade.
(5) Em 20 e 27 de abril de 1910, houve uma discussão, na Sociedade
Psicanalítica de Viena, sobre "Suicídio de Crianças". A discussão foi, a
seguir, publicada sob a forma de brochura. 9 Oppenheim, um professor de
latim, leu um artigo e Freud abriu a discussão. Comentou que as escolas,
ao cumprirem sua função de afastar as crianças de sua vida familiar ini­
cial, com freqüência erravam ao expô-las muito bruscamente a todas as

- 249 -
severidades da vida adulta e com freqüência não eram suficientemente
tolerantes no tocante ao direito de indivíduos imaturos se deterem em
certos estágios do desenvolvimento - mesmo que sejam de tipo desagra­
dável. Encerrando a discussão, admitiu que pouca luz fora lançada sobre
as causas fundamentais do suicfdio : se apenas a libido decepcionada era
suficiente para ser responsável por ele ou se havia alguma renúncia à vida
por parte do ego (a última observação parece prenunciar a idéia posterior
de Freud acerca de um instinto de morte). Só podíamos ir adiante com o
problema depois de realizado um estudo completo da melancolia e do pe­
sar prolongado. Sete anos depois o próprio Freud fez isso .b
(6) Um pouco depois, três noites da Sociedade foram dedicadas à
discussão dos problemas da masturbação. Esse assunto sexual será apre­
sentado no capítulo apropriado.e
(7) Em 19 1 1, Freud relatou no recém-fundado Zentralblatt für Psy­
choanalyse dois exemplos de pacientes que inadvertidamente traíam fan­
tasias incestuosas reprimidas. 1 0 Em ambos os casos fizeram isso atribuin­
do essa idéia ao médico.
(8) Em 30 de outubro de 1 9 1 2, Freud fez um pequeno relato de um
caso clínico perante a Sociedade de Viena. Esse relato ainda permanece
inédito. Tratava-se de um grave caso psicótico de uma jovem esposa; de­
pois de quatro meses de análise, um sonho, infelizmente não registrado,
revelou os principais aspectos de suas atividades sexuais infantis. Freud
recorreu aos dados do caso a fim de argumentar contra a explicação do
"protesto masculino" de Adler para as neuroses e a fim de expor seu fun­
damento em idéias de castração, como no "complexo de inferioridade".
Fez este significativo comentário: "No homem, um complexo de castração
quase regularmente instiga o desejo de ser mulher".
(9) Chegamos agora a dois artigos de natureza mais densa. Um deles,
publicado em 19 1 2 e intitulado "Tipos de Desencadeam�nto da Neuro­
se", 1 1 tratava dos vários modos como uma pessoa pode vir a ser afligi­
da por uma neurose. Para esclarecer o problema, Freud classificou os fa­
tores em quatro grupos, embora admitisse que são excepcionais os exem­
plos puros de cada um.
(a) O tipo mais simples é aquele em que a neurose se dá como resul­
tado de uma privação libidinal mais ou menos súbita.
(b) Ela pode se dar não por meio de uma mudança no mundo exter­
no, mas porque a pessoa não foi capaz de atender a certas exigências da
realidade que levariam à satisfação.
(c) A fixação infantil pode ser tão forte que a pessoa nunca real­
mente sai da infância e assim nunca se pode dizer que usufrui de um pe­
ríodo de saúde mental.
(d) Neste tipo não houve mudança no mundo externo, nem novas
exigências especiais por parte dele, nem fixação infantil especial, mas

-250 -
uma mudança, puramente interna, provavelmente determinada organica­
mente, na economia libidinal, tal como sempre ocorre na puberdade ou
durante o climatério. O que é comum a todos os tipos é um represamento
da libido além da capacidade de o· ego enfrentá-lo.
Freud cõm"êntou aqui que as .neuroses não são devidas à aparição de
qualquer "causa de · doença" externa e que não há diferença ·qualitativa
entre pessoas saudáveis e pessoas neuróticas, pois todas se defrontam com
a mesma tarefa :--: ó controle da libido-.
Freud criticou o hábito prevalecente de dividir os fatores etiológicos
das neuroses em endógenos e exógenos. O verdadeiro estado de coisas é
mais complexo e é inais bem descrito como certa situação psíquica que
pode ser atingida de vários modos, com os diferentes fatores variando em
sua força relativa.
É interessante observar que Freud prenunciara vários desses pontos,
em outro contexto, em um artigo anterior.d 1 2 Uma maneira simples de en­
globar toda a questão é que a neurose se dá sempre que, por qualquer ra­
zão, a realidade é sentida como insuportável. 1 3
(10) O outro artigo também tratava da etiologia: " A Disposição à
Neurose Obsessiva". 1 4 Foi lido no Congresso de Munique, em setembro
de 1913. Freud relatou um interessante caso em que uma fase de sintomas
histéricos foi seguida por uma neurose obsessiva inteiramente distinta, e o
usou para ilustrar a diferença de etiologia das duas afecções. Essa foi uma
das várias ocasiões em que Freud admitiu um erro: sua convicção anterior
de que a histeria era o resultado de experiências passivas na infância e a
neurose obsessiv�, de experiências ativas. 1 5 Então relacionou esta última
afecção com uma fixação em - ou uma regressão a - um estágio especial
no desenvolvimento da libido que ele aqui descreveu pela primeira vez.
Tratava-se da agora conhecida "fase anal-sádica", fase pré-genital carac­
terística. Em sua opinião, embora uma relação objetal esteja presente nes­
sa fase, há ainda pouca diferenciação entre homem e mulher.
O artigo contém várias formulações estimulantes que vieram a ser de­
senvolvidas por outros estudiosos. Por exemplo, Freud afirmou que, entre
aqueles que subseqüentemente sofrem de uma neurose obsessiva, o de­
senvolvimento do ego, incluindo a capacidade intelectual, prossegue à
frente do desenvolvimento libidinal. Então indagou se isso não era uma
importante característica da humanidade em geral, que poderia ser respon­
sável por sua natureza moral. Sua razão para essa idéia era a evidência de
que no desenvolvimento da criança o ódio surge antes do amor, de modo
que reações morais contra ele são desencadeadas para tomar possíveis
relações amistosas.
No mesmo ano, Freud publicou dois pequenos artigos que continham
material proveniente de sua prática clínica.
(11) Um se intitulava "Duas Mentiras Contadas por Crianças". 1 6

- 251 -
Começava com a cínica observação de que é compreensível que as crian­
ças mintam por imitação das mentiras dos adultos, mas ele estava voltado
aqui para situações mais complexas e patéticas em que uma criança é im­
pelida por um conflito interno profundo a mentir e assim prejudicar seu
relacionamento com as pessoas de que gosta. Com sua característica obje­
tividade, relatou duas histórias que eram realmente tragédias. Em cada ca­
so a criança fora compelida, a partir de dificuldades internas, a recorrer à
mentira de uma maneira que se mostrou decisiva para todo o desenvolvi­
mento posterior. Freud mostrou como as crianças podiam ser poupadas
desse sofrimento e de prejuízo mental posterior, se fosse mais difundida
uma compreensão psicológica de suas mentes complexas - tal como a que
ele próprio revelou aqui.
(12) O outro artigo era uma pequena coleção de exemplos analíticos
esparsos selecionados de seu trabalho cotidiano. 1 7 Um exemplo era o de
uma paciente que se mostrava suscetível a quem quer que olhasse seus
pés. Isso foi relacionado com uma experiência da infância, quando ela ha­
via tentado imitar o modo de urinar do irmão, tendo molhado os pés e
sendo objeto do riso do irmão. Em outra parte do artigo, Freud comenta
inesperadas autocríticas por parte de um paciente. Essa atitude provém de
uma identificação com outra pessoa que o paciente não ousa criticar, ou
então do encobrimento de um desejo de vangloriar-se de alguma outra
qualidade, tal como quando uma mulher, secretamente orgulhosa de seus
encantos, deplora uma suposta falta de inteligência. Então Freud faz a im­
portante afirmação de que, quando em um sonho há alusão a sintomas, o
resto desse sonho conterá alguma explicação da causa do sintoma.
Em 1912, o Professor Krauss, de Berlim, convidou Freud para escre­
ver as partes referentes à "Histeria" e à "Neurose Obsessiva" para uma
nova e ampla enciclopédia de medicina que ele e o Professor Brugsch,
também de Berlim, estavam planejando. 1 8 Freud disse-nos qu!;.! deveríamos
manter essa notícia em segredo - não posso atinar por quê. Mas ele disse
que ela fazia da psicanálise, por fim, parte oficial da medicina geral -
"extremamente oficial,"e 1 9 e isso evidentemente significava muito para
ele. Abraham informou que Krauss estava amistosamente disposto em re­
lação à psicanálise. 20 Aparentemente , não havia urgência de escrever os
artigos para essa enorme enciclopédia, que demoraria muitos anos. Em
outubro, porém, Freud ficou desconcertado ao descobrir, talvez em algum
prospecto, que um neurologista de Berlim, Kutzinski, também fora convi­
dado para escrever artigos sobre os dois mesmos temas. 2 1 Essa atitude pa­
recia muito estranha e irregular, tendo Freud escrito ao Professor Brugs­
ch, que se ocupava dos detalhes da preparação da obra, para lhe perguntar
o que isso significava e como ele imaginava a cooperação entre os dois
autores sobre os mesmos assuntos. Não obtendo resposta, escreveu mais
uma vez doze dias depois, desta vez uma carta registrada. Mesmo assim

- 252 -
não houve resposta, de modo que ele escreveu a Krauss. Isso fez Brugsch
escrever uma carta muito vaga, dizendo que várias teorias da histeria ti­
nham de estar representadas, donde a escolha de dois homens. 22 Abraham
supôs que Krauss fora influenciado pelo Professor Bonhéiffer, adversário
da psicanálise e cujo assistente era Kutzinski. 23 Freud fez então duas pro­
postas a Brugsch e pediu-lhe para escolher entre elas. Ou ele se retiraria
por completo, ou os dois temas podiam ser entregues a Kutzinski e Freud
escreveria um extenso estudo intitulado "Uma Abordagem Psicanalítica
das Psiconeuroses". 24 Brugsch aceitou a última proposta e Freud escreveu
para anunciar a boa notícia. 2 5 Tudo então parecia em ordem e Freud se
voltou para a tarefa, que antes ele nunca tentara, de fazer uma exposição
realmente abrangente de todo o assunto, quase de toda a obra de sua vida.
Seu espírito nessa época estava preocupado com as dificuldades referentes
a Jung e foi apenas no verão de 1914 que ele se dedicou ao texto. Em fins
de julho desse ano, escreveu dizendo que estava satisfeito por não estar
sendo perturbado em suas férias em Karlsbad, seja por Van Emden, seja
por Ferenczi, que costumavam passar esse período com ele, já que neces­
sitava de isolamento para se concentrar na difícil tarefa que tinha à sua
frente. 26 Nessa semana, porém, eclodiu a Primeira Guerra Mundial, que
ocupou todos os pensamentos. Quatro meses depois, foi informado de que
o manuscrito, que deveria ser entregue em 12 de abril de 1915, só seria
necessário, sem dúvida por causa da guerra, no fim do ano ou início de
1916. 2 7
Como o trabalho não era mais urgente, Freud parece tê-lo adiado. O
estímulo que ele no entanto constituíra para seu pensamento, no esforço
de pensar sobre todos os problemas fundamentais envolvidos, deve ter si­
do o que desencadeou seu grande ímpeto produtivo, que durou até fins de
1915 e que o levou a escrever os doze importantes ensaios sobre teoria.f
Assim o convite de Krauss teve valiosa conseqüência.
O que então aconteceu com o artigo prometido é um pouco obscuro.
Não temos sequer certeza se chegou a ser escrito; o certo é que nunca foi
publicado. Os dois artigos em questão foram escritos por Kutzinski. 28 Em
meados de 1915, Freud informou que tinha acabado de escrever uma "ex­
posição das neuroses de transferência," 2 9 mas não fica claro se ele se re­
fere ao artigo em questão ou a um dos ensaios sobre teoria que mais tarde
ele destruiu. Em um momento já avançado de 1917 há várias alusões algo
sarcásticas a Krauss, 3 0 a quem ele então escrevia em nome da postulação
de Abraham à docência, e um comentário sobre "o curso tomado pelas
negociações para a Enciclopédia", que tem um tom sinistro. Logo depois
da guerra, Freud mencionou a Abraham que Krauss e Brugsch lhe haviam
lembrado sua promessa de escrever o ensaio em questão, mas ele ia pedir­
lhes para lhe darem mais espaço que as 48 páginas que lhe haviam desti­
nado; queriam o ensaio para a primavera (de 1920). 3 1 Seis meses depois

- 253 -
pediram-lhe que assinasse um contrato que o obrigava a entregar o ma­
nuscrito no outono. Isso exigia uma decisão e ele disse a Abraham que
estava inclinado a abandonar todo o plano; podia apenas resumir as Con­
ferências Introdutórias, já que reescrever todo o assunto era tarefa que já
não podia prender seu interesse. 3 2 Como sugeri, as publicações de
1 9 1 5- 1 9 1 7 representavam o fim de uma época; ele estava então tomado
pelas novas idéias que vinha desenvolvendo. Portanto, podemos julgar
com bastante certeza que o ensaio nunca foi escrito ou pelo menos nunca
foi além de um primeiro rascunho.
Freud então propôs a Abraham que, em seu lugar, realizasse a tarefa,
no que ele consentiu, com alguma apreensão. Não sei mais nada sobre a
história, mas suponho que os editores decidiram que devia ser Freud ou
ninguém mais. Assim, não chegou a ocorrer a incorporação "extrema­
mente oficial" da psicanálise em uma prestigiosa enciclopédia médica. Em
1920, porém, essa era uma questão bem menos importante do gue teria si­
do em 19 1 2.
Na primeira parte da guerra, Freud escreveu outros três importantes
artigos que podem se considerados clínicos.
( 1 3) O primeiro era uma descrição de um interessante caso de para­
nóia em uma mulher de trinta anos. 3 3 Anteriormente ele chegara à conclu­
são de que a paranóia dependia de uma homossexualidade reprimida, mas
não tinha experiência suficiente para propô-la como regra geral. Disse em
uma -carta que aprendera isso com Fliess, 3 4 sem mencionar se diretamente
ou ao cabo de reflexão. Apenas dois anos antes dessa carta, apresentara
um caso de paranóia feminina perante a Sociedade de Viena e então não
mencionou a questão da homossexualidade. g
O presente caso, de fato, parecia contradizer a conclusão, já que a
queixa da paciente era a de que um homem, seu amante, estava tentando
prejudicá-la. O cauteloso Freud, porém, não ficou satisfeito com o primei­
ro relato e foi mais fundo na história. Descobriu então que ã perseguidor
real era, no fim das contas, uma mulher, um óbvio substituto da mãe, e
que o homem, que ela suspeitava estar apaixonado pela velha mulher, ti­
nha sua significação patológica derivada dessa fonte. Freud aproveitou a
oportunidade para indicar alguns delicados mecanismos de deslocamento
que ele julgara característicos da paranóia.
(14) No mesmo ano, 19 1 5, surgiu um original artigo de interesse
tanto geral quanto clínico, que levava o título de "Alguns Tipos de Cará­
ter Encontrados no Trabalho Psicanalítico". 3 5 Há três deles, que Freud
intitulou: "As Exceções"; "Os Arruinados pelo Êxito"; "Criminosos em
Conseqüência de um Sentimento de Culpa". Serão apresentados em um
capítulo posterior.h
( 15) Em 1 91 6 , houve um breve artigo intitulado "Uma Ligação entre
um Símbolo e um Sintoma". 3 6 Os analistas conheciam bem o significado

- 254 -
simbólico que uma cabeça - por exemplo, em sonhos de decapitação - ou
um chapéu podem ter nos sonhos, onde podem representar a idéia do ge­
nital masculino. Nesse trabalho Freud se ocupou de alguns sintomas em
que o mesmo simbolismo é usado. Um era o caso de um paciente obsessi­
vo cuja cabeça, deitada no sulco de um pequeno travesseiro artificial­
mente ajeitado para imitar o órgão genital feminino, tinha esse mesmo
significado. A seguir há os pacientes obsessivos que entrelaçam os mais
complicados significados no simples ato de cumprimentar levantando o
chapéu.
(16) Temos agora de mencionar dois trabalhos surgidos em 19 17,
sendo que ambos são tratados mais extensamente em outros capítulos, mas
que têm importantes relações com o trabalho clínico. O primeiro deles era
a última parte das Conferências Introdut6rias, dedicada ao estudo das
psiconeuroses. i É a mais ampla exposição que Freud escreveu sobre esse
enorme assunto e, embora feita de forma didática, provavelmente seguia
as linhas em que pretendera escrever para a enciclopédia de Krauss. No
final da série de conferências, Freud expressou sua grande insatisfação
com o modo como cumprira a tarefa. Isso poderia ser atribuído não tanto a
qualquer inibição pessoal quanto a seu reconhecimento dos diversos pro­
blemas nesse campo que até então tinham sido resolvidos de maneira im­
perfeita. Evidentemente, ele sentiu que a tentativa de apresentar uma re­
senha realmente abrangente do assunto ainda era prematura e sem dúvida
teria continuado a sentir o mesmo durante o resto de sua vida. Um maior
conhecimento apenas levava à descoberta de mais problemas cuja existên­
cia havia passado despercebida até então.
Esse trabalho é, no entanto, a melhor introdução que temos para o
estudo das psiconeuroses. Mais do que isso, contém várias considerações,
por exemplo, sobre o tema da ansiedade, que na época eram novas contri-
buições.
(17) A outra das duas obras é "Luto e Melancolia". 37 O próprio
Freud considerava esse ensaio como parte de s_ua série sobre metapsicolo­
gia, de modo que cuidaremos dele no capítulo sobre teoria. Mas ele tem
óbvias relações clínicas e ainda é a melhor apresentação de que dispomos
sobre a psicologia da insanidade maníaco-depressiva. Foi a luz que Freud
aqui lançou sobre a natureza interna das várias formas de depressão pa­
tológica que abriu o caminho para os sucessos terapêuticos com essa pe­
nosa doença.
Na primeira Guerra Mundial, a atenção se dirigiu intensamente para o
problema das "neuroses de guerra", então chamadas com mais freqüência
de "choque de granadas" ou "choque de guerra", e os vários milhares de
casos chegaram a ter até mesmo aspectos puramente militares. Nos primei­
ros anos, prevaleceu a concepção neurológica de que a condição se devia
simplesmente a pequenos distúrbios no córtex do cérebro, mas as investi-

-255 -
gações clínicas aos poucos revelaram um estado de coisas mais complexo.
As ocorrêndas dessas neuroses entre soldados que não estiveram perto da
frente de batalha tornava certa essa conclusão. Com freqüência era possí­
vel perceber uma relação entre a neurose e conflitos mentais envolvendo
motivos inconfessados. Essa era uma parte essencial da teoria psicanalíti­
ca e se poderia supor que aqueles que eram inamistosos ao assunto admiti­
riam agora que, se uma parte da teoria era correta, era possível que a ou­
tra também - ou seja, a etiologia sexual - pudesse ser correta. Em vez
disso, tornou-se corrente anunciar - já que os fatores sexuais não eram
óbvios, ao passo que o fator etiológico da tensão de guerra o era em sua
maioria -que se havia demonstrado a inexatidão da teoria de Freud.
Abraham, Ferenczi e eu, embora sem contato um com o outro, che­
gamos, de forma inteiramente independente, a conclusões bastante seme­
lhantes quanto à natureza psicológica dessas neuroses de guerra. Diferiam
das mais conhecidas dos tempos de paz, nas quais há conflitos quanto a
ligações libidinais com outras pessoas ("libido objetal"), na medida em
que os conflitos internos afetavam os aspectos narcísicos (amor-próprio)
da libido.
(18) Nossas contribuições foram pubücadas no final da guerra em .
uma brochura coletiva, 3 8 para a qual Freud escreveu um prefácio. 3 9 Disse
que não o teria escrito se não fosse por Ferenczi e Jones. 40 O volume é
facilmente encontrável, mas acrescentarei aqui uma passagem de uma
carta a Ferenczi e de uma carta de interesse mais geral dirigida a mim, que
expõem. suas concepções de maneira mais plena. É digno de nota que,
embora não tivesse experiência pessoal desses casos (exceto quanto às
neuroses traumáticas dos tempos de paz), Freud mostrou uma compreen­
são da natureza dessas condições mais profunda do que a mostrada por
qualquer de nós.

"27.X.1918
"Caro Amigo,
". . . No momento, estou e geral sem idéias, mas algumas me ocor­
rem pela manhã, ao despertar. Colocarei à sua disposição a última delas,
ligada às neuroses de guerra traumáticas. Provavelmente é apenas um sonho.
"Trata-se de um conflito entre dois ideais do ego, o costumeiro e
aquele que a guerra levou a pessoa a construir. O último tem a ver com
relações com novos objetos (oficiais superiores e colegas) e assim é equi­
valente à catexia de um objeto; poderia ser tudo como uma escolha de
objeto não consoante com o ego_j Assim, um conflito pode ocorrer tal co­
mo nas psiconeuroses comuns. Sua teoria seria a de que um novo ego se
desenvolveu com base em uma catexia libidinal de um objeto e o ego an­
terior se esforça para deslocá-lo. Há então uma luta dentro do ego em vez de
uma luta entre ego e libido, mas fundamentalmente isso vem a dar no mesmo.

- 256 -
"Há um certo paralelismo com a melancolia, na qual um novo ego
também se instituiu, mas não ideal - simplesmente um novo ego com base
em uma catexia objetal que foi abandonada.
"Freud"

"18 de Fevereiro de 1919


"Caro Jones, *
" . . . Eu também aprecio sinceramente nossa correspondência depois
de um período tão longo de interrupção. Sua última carta tocava em tantos
p"ontos de interesse que não sei com qual começar.
"Quanto ao velho Putnam, agi exatamente como sua carta propunha.
O N2 2 terá uma pequena nota sobre seu falecimento, agora retificada
graças ao fato de o senhor ter dado a data exata, e prometerá todo um ar­
tigo sobre sua vida e seus méritos, acompanhado de uma foto que já man­
damos reproduzir. O senhor é o homem mais indicado para escrever o ar­
tigo. Não se esqueça de mencionar como ele resistiu às investidas de
Adler. (. . . )
"Minha saúde não está nada perfeita. Estou envelhecendo e estou
preparado para morrer pobre. A prisão de Martin oprime meu estado de
espírito. O senhor não conhece alguém que esteja viajando para Gênova,
onde ele está detido?
"Tive grande prazer com a leitura cuidadosa de seus novos artigos
nesta segunda edição. Sachs está ocupado com o "Simbolismo"; foram
revistas hoje as provas de "Traços Anais" (a sair no N2 2) e o artigo so­
bre choque de guerra foi entregue ao tradutor como acréscimo muito va­
lioso para a "Discussion über Kriegsneurosen" que sairá como primeira
publicação da nova Internationale Psychoanalytische Verlag. Assumi a
responsabilidade de tomar uma decisão nesse sentido já que não temos
tempo de esperar pela resposta das cartas. É claro e inteligente e merece­
ria ter tido êxito na Inglaterra. A primeira parte, a teoria do "Ichkonflikt"
é coerente com minha manifestação sobre esse assunto no último encontro
da Psa Vereinigung. Mais adiante parece que o senhor está perdendo o
contato com o tema da "neurose traumática". O que o senhor diz sobre a
relação com a ansiedade narcísica é excelente, toca na tecla certa, mas é
muito breve e pode não impressionar suficientemente o leitor. Proponho
ao senhor a seguinte fórmula: primeiro, considere o caso da neurose trau­
mática de tempos de paz. Trata-se de uma afecção narcísica como a de­
mência precoce, etc. O mecanismo pode ser conjeturado. A ansiedade é
uma proteção contra o choque (Schreck). Assim, a condição da Neurose
Tr. parece ser a de que a mente não tinha tempo de recorrer à sua prote­
ção, sendo tomada pelo trauma despreparada. Seu "Reizschutz"k é abati­
do e a função principal e primária de manter-se livre de quantidades ex­
cessivas de "Reiz" 1 é frustrada. A libido narcísica é liberada sob a forma

-257-
dos sinais de ansiedade. Esse é o mecanismo de todo caso de repressão
primária, assim, uma neurose traumática deverá ser descoberta no fundo
de todo caso de "Neurose de Transferência".
"No caso de neurose de guerra há um conflito entre o ideal habitual e
o novo ideal bélico. O primeiro é subjugado, mas quando a "bomba"
chega, este ego mais antigo compreende que pode ser morto pelo modo de
atuar do Alter-ego. Sua posição deixa esse novo senhor do ego fraco e
impotente, e então ele, o Ego como um todo, fica sob a etiologia da neu­
rose traumática. A diferença entre paz e guerra é que na primeira o ego é
forte mas surpreendido, na última é preparado mas enfraquecido. Desse
modo, a neurose de guerra é um caso de conflito narcísico interno dentro
do ego, análogo de certa maneira ao mecanismo da Melancolia, exposto
no 42 Volume das Schriften que lhe enviei a� cuidados de Emden. Mas
não fiz nenhuma análise de um caso de choque de guerra.
"Sua intenção de expurgar a Sociedade de Londres dos membros
junguianos é excelente.
"Seus planos sobre o periódico inglês parecem bem razoáveis. Mas a
questão não pode ser discutida por carta. Tente por todos os meios en­
contrar Rank na Suíça na primeira metade de março. Ele não pode mais
adiar essa viagem.
"Sem dúvida seria melhor, e eu até diria bom demais, se pudéssemos
esperar o senhor aqui em Viena no correr de abril.
"Aceite meus melhores sentimentos e esperemos um futuro melhor.
"Sinceramente,
"Freud"

NOTAS

ª Es taugt nichts.
b Ver Cap. 13, N2 8.
e Ver Cap. 12, N2 16.
d Cap. 1 3, N2 2.
e hochst offiziell.

f ver Cap. 13, pág. 318.


g 21 de novembro de 1906.

- 258 -
h Cap. 14, N2 27.
i Ver Cap. 8, N2 7.
j Isto é, o ego anterior.
k Defesa contra estímulos.
1 Estimulação.

- 259 -
XI

CASOS CLÍNICOS

FREUD PUBLICOU SEIS LONGOS CAS OS CLÍNICOS, TODOS NO DE­


correr dos anos a que estamos nos referindo aqui. Não se pode publicar
nenhum relato completo de um caso analisado; ocuparia vários volumes e
seria inteiramente ilegível. Mas esses seis ensaios de Freud superam, tanto
na apresentação como no conteúdo original, qualquer coisa que outro
analista tenha tentado . Estão na primeira linha dos clássicos da literatura
psicanalftica.

I
Fragmento da Análise de um Caso de Histeria1

O primeiro deles já foi mencionado em outro contexto2 e de certo modo já


se falou das circunstâncias em que foi completado. Tratava-se do conhe­
cido "Caso Dora", como em geral é chamado. O ensaio foi corretamente
denominado "Um Fragmento", já que a análise imperfeita durou apenas
onze semanas, em fins de 1900. 3 Mas nenhum analista deixaria de ficar
orgulhoso por decifrar tanto de um caso difícil · nesse breve espaço de
tempo. _
À incomum hist6ria de sua publicação, que relatei anteriormente,4 a
qual depois foi exposta com maiores detalhes por James Strachey,5 posso
agora acrescentar um curioso detalhe que acaba de vir à luz. Em 1909,
Freud disse a Ferenczi que Brodmann, editor do Journal für Psychologie
und Neurologie, se recusara a publicar o caso Dora. 6 _Sabemos que, quan­
do, em janeiro de 1901, Freud ofereceu o artigo a Ziehen e Wernicke, os
editores da Monatsschrift für Psychiatrie und Neurologie, em que por fim
foi publicado, ele foi imediatamente aceito, e quando Freud lhes enviou o
manuscrito no mês de junho seguinte foi com a expectativa de que ele

- 260 -
apareceria naquele outono. Ele deve então tê-lo pedido de volta e guarda­
do durante quatro anos antes de decidir-se a correr o risco de ser acusado
de indiscrição profissional. É um mistério por que ele o ofereceu a outro
periódico depois que já tinha sido aceito. A única hipótese que me ocorre
é que Freud tinha dúvidas se Ziehen e Wemicke, ambos severos críticos
de sua obra, o aceitariam depois de lerem realmente o manuscrito; ele de
fato se indagava por quanto tempo eles continuariam a permitir que ele
"botasse ovos de cuco" no ninho deles. 7 E se ele provocasse sua desa­
provação , iria pôr em perigo a Psicopatologia da Vida Cotidiana que es­
tava prestes a lhes enviar. Assim, talvez possamos supor que ele o tenha
enviado a Brodmann, como uma segunda opção, entre janeiro e junho.
Então depois de sua recusa e depois da garantia de a Psicopatúlogia ter
sido assegurada (ele corrigiu as provas em maio) , podia deixar o manus­
crito com Ziehen. Portanto, é possível que tenham sido as dúvidas expres­
sas por Ziehen quanto à propriedade de publicar tais indiscrições, combi­
nadas com a franca recusa de Brodmann, que o fizeram colocar o manus­
crito novamente na gaveta por mais quatro anos.
A história do caso parece um romance, embora Freud comentasse que
se estivesse fazendo um romance omitiria, por razões estéticas, vários
pontos perturbadores que mostram como a vida é muito mais complicada
do que a arte, que faz necessariamente abstrações. Tratava de dois casais
infelizes no casamento, sendo um . os pais de Dora. Sua mãe desenvolveu
uma neurose de Hausfrau como forma indireta tanto de gratificação para
si própria quanto de incômodo vingativo para seu marido. Ele resolveu a
situação estabelecendo uma ligação com a mulher de seu amigo. A mulher
enriquecia sua vida nutrindo um relacionamento homossexual ardente,
mas platônico, com Dora. Esta, portanto, tinha duas razões para ter ciú­
mes da ligação de seu pai, ciúme tanto dele quanto da outra mulher. O
marido desta, aqui chamado de Herr K., estava apaixonado por Dora,
cortejou-a por alguns anos e então, quando ela completou dezoito anos,
começou um discurso com intenção de confessar seu amor por ela e a es­
perança de casar com ela depois de conseguir divorciar-se, o que não teria
sido difícil. Dora, porém, deu-lhe uma bofetada, f ugiu, queixou-se a seus
pais e clamou para que as relações com o outro casal fossem inteiramente
rompidas.
Dora era uma pessoa desagradável, que invariavelmente punha a vin­
gança acima do amor; foi um motivo dessa natureza que a levou a inter­
romper prematuramente o tratamento e a conservar sintomas histéricos,
tanto físicos quanto mentais.
· Freud, aliás, havia anteriormente tratado o pai de uma afecção luética
do sistema nervoso e com muita firmeza expressou a opinião de que a sí­
filis paterna é um importante fator de predisposição para a neurose dos

- 26 1 -
filhos. Esse é um dos aspectos em que ele não foi corroborado por inves­
tigações posteriores.
Além do estudo do caso particular, o ensaio contém um grande núme­
ro de interessantes exposições das concepções de Freud sobre vários as­
suntos de psicopatologia: uma descrição dos vários motivos da histeria,8
sua base orgânica sob a forma do que chamou de "complacência do cor­
po, " 9 a relação negativa dos sintomas neuróticos com as perversões se­
xuais reprimidas, 1 0 etc.
O principal objetivo de Freud, porém, ao publicar o caso, era ilustrar
o valor que a interpretação dos sonhos tem para o tratamento analítico. De
fato, ele afirmou que, a menos que se tenha aprendido essa arte, não se
pode esperar penetrar na estrutura de uma neurose. Aqui são relatados
dois sonhos, analisados até onde a resistência da paciente permitiria. For­
necem brilhantes ilustrações tanto da habilidade de Freud, mesmo nesse
estágio relativamente inicial de sua obra, quanto de sua delicada perspicá­
cia e seu uso corajoso, embora talvez nem sempre correto, de sua inco­
mum capacidade de intuição. A análise dos sonhos revelou em Dora amor
sexual pelo pai, por Herr K. e pela esposa deste, todo ele tão reprimido a
ponto de lhe ser totalmente desconhecido. Também trouxe à luz o jogo
extraordinariamente complicado de várias emoções à parte o amor, espe­
cialmente 6dio, repugnância e ciúme.
O primeiro caso clínico de Freud serviu de modelo, durante anos, pa­
ra os estudantes de psicanálise e, embora nosso conhecimento tenha pro­
gredido muito desde então, ele ainda continua sendo uma interessante
leitura. Foi o primeiro dos textos p6s-neurol6gicos com que me deparei,
na época de sua publicação, e lembro-me bem da profunda impressão que
me causaram a intuição e a estreita atenção ao detalhe mostradas pelo
texto. Ali estava um homem que não apenas ouvia atentamente cada pala­
vra que sua paciente dizia, mas que encarava cada uma dessas manifesta­
ções como pouco definida e necessitadas de correlação como os fenôme­
nos do mundo físico. Hoje é difícil dar uma idéia de o quanto era espanto­
so o fato de tomar tão a sério os dados da psicologia. Todavia, o fato de
menos de meio século depois parecer um lugar-comum constitui uma me­
dida da revolução efetuada por um s6 homem.
A neurose de Dora não foi, é verdade, dissipada por esse breve tra­
tamento; Dora, porém, nunca teve uma recaída. Casou-se, como Freud
mencionou depois, 1 1 e morreu há poucos anos em Nova Iorque.
Na segunda edição da Psicopatologia da Vida Cotidiana (1907),
Freud relatou um incidente que ilustrava não apenas a questão de que es­
tava tratando aí, ou seja, o determinismo estrito, mas também o quanto sua
aversão pela conciliação e pelas concessõ.es podia entrar em conflito com
sua consideração natural pelos outros. Ele estava fazendo uma conferên­
cia sobre o caso Dora e uma das duas mulheres da platéia tinha o mesmo

- 262 -
nome (Dora Teleki). A delicadeza de Freud o fez procurar outro nome pa­
ra aplicar à paciente cuja vida sexual íntima ele ia descrever. Mas, sem se
dar conta na ocasião, saiu da frigideira para cair no fogo, ao automatica­
mente usar outro nome, dessa vez retirado do sobrenome da segunda mu­
.r lher da platéia. 1 2

II
Análise de uma Fobia em um Menino de Cinto Anos 1 3

O segundo caso clínico era muito diferente e talvez igualmente surpreen­


dente, já que foi o primeiro relato da análise de uma criança a ser publi­
cado. É conhecido, em geral, como o "Caso do Pequeno Hans". Os pais
do menino de cinco anos tinham sido adeptos de Freud por alguns anos -
na verdade, foram dos primeiros adeptos. Freud havia tratado da mulher
antes de ela se casar e o marido fora antigo freqüentador das conferências
de Freud. Foi o pai, e não Freud, quem conduziu a análise. Durante esta,
Freud teve apenas uma entrevista com o menino, mas tinha freqüentes
reuniões com o pai, que consentiu na publicação do caso. 1 4 Dois anos
1 antes, Freud havia publicado um breve relato de dois aspectos do caso.
Em um, no qual o menino se chama Herbert, trata da curiosidade sexual
das crianças; 1 5 no outro, escrito um ano depois, um menino de três anos
adivinha corretamente a verdade sobre o nascimento observando a gravi­
dez de sua mãe. 1 6 Este é um ensaio longo, com 134 páginas, e há algumas
longueurs no relato, correspondentes às anotações estenográficas do pai,
mas o comentário fluente de Freud e ainda mais seu capítulo conclusivo
dão ao ensaio um interesse mais do que histórico.
O próprio interesse histórico é certamente grande, pois foi não apenas
a primeira aplicação terapêutica da psicanálise em uma criança, mas tam­
bém a primeira oportunidade de aferir, por observação direta de uma
criança, as novas conclusões a que Freud chegara sobre o desenvolvi­
mento infantil a partir de suas análises de pacientes adultos. Desses estu­
dos, ele fizera inferências sobre a ocorrência geral do complexo de Édipo
na infância, dos medos de castração e da importância das zonas erógenas
extragenitais do corpo. Tudo isso era claramente ilustrado na análise do
menino de cinco anos.
O próprio caso, que aqui não precisa ser detalhado, era o de uma fo­
bia que logo se seguiu a um estado de ansiedade que se manifestou aos
quatro anos e nove meses, cerca de nove meses depois do nascimento de
uma irmã. A fobia era a impossibilidade de sair de casa, por medo de en­
contrar um cavalo que o morderia. Freud, de passagem, comenta como
muitas vezes é difícil determinar o conteúdo preciso de uma fobia. A re­
pressão na neurose pode estender-se ao próprio sintoma, que fica circun­
dado por uma aura de vaguidão. Antes que se possa curá-la, é preciso en-

- 263 -
focá-la bem de perto, ter clara sua natureza precisa. O resultado desse pas­
so preliminar é, com freqüência, exacerbar o sofrimento do paciente de um
modo que nos desinformados provoca descrédito quanto ao tratamento.
Todavia, não era essa uma dificuldade que surgia nesse caso específico.
O pai usava o método não ortodoxo de interrogar detalhadamente o
menino e, assim, com freqüência tinha de ajudá-lo a pôr em palavras o
que ele achava difícil expressar. Freud, portanto, tinha de enfrentar a ób­
via objeção de que as conclusões alcançadas se deviam simplesmente às
sugestões do pai. Freud comentou a curiosa mudança que ocorrera quanto
à importância da sugestão. Em seus primeiros tempos, entre 1 88 7 e 1889,
ele se opusera, ao insistir na importância da sugestão, à opinião médica
então reinante; agora passara para o extremo oposto, atribuindo tudo à su­
gestão. Na verdade, ele vinha fazendo uma pequena experiência na ques­
tão. Deixara de falar ao pai sobre importantes ligações que ele próprio
antevira, de modo que o pai tinha de procurá-las às tontas, até que a pró­
pria criança as tornasse claras. Houve então uma fase em que a criança
apresentou importantes idéias que foram uma surpresa tanto para o pai
quanto para Freud. No todo, Freud comportou-se com extrema cautela e
repetidas vezes insistiu em evitar interpretações até que houvesse mais
material disponível. Surpreendentemente, evitou até mesmo aconselhar o
pai a esclarecer para o menino o papel masculino na procriação, embora
tenha dito que ele próprio o teria feito.
Mais tarde, Freud postularia a existência de uma fase fálica no desen­
volvimento, fase em que tanto os meninos quanto a meninas imaginam a
diferença de sexo como uma diferença entre presença e ausência de pênis,
e não em termos de dois conjuntos de órgãos; 1 7 trata-se ainda de um con­
ceito bastante discutido. Ele poderia ter citado em seu apoio o presente
caso. O Pequeno Hans estava convencido de que todos os seres vivos
possuíam um pênis - era sua distinção entre o animado e s, inanimado - e
ao examinar sua irmãzinha só podia esperar que o "pipi" dela, embora
fosse muito pequeno, iria crescer. Freud aqui não pôde deixar de zombar
dos filósofos da escola de Wundt, que insistiam em que a consciência era
o único critério distintivo entre o mental e o físico e que, quando defron­
tados com dados a partir dos quais se é obrigado a inferir a atividade de
processos mentais absolutamente ignorados pelos respectivos indivíduos,
caem na evasiva descrição dos mesmos como "subconscientes" ;ª ao que
Freud secamente replicava: "O pipi crescerá". A ausência total de cons­
ciência não podia ser admitida.
Freud classificava o "Caso do Pequeno Hans" como de histeria de
ansiedade, termo que ele recomendara a Stekel recentemente, quando este
estava escrevendo um livro sobre estados de ansiedade. O resultado tera­
pêutico foi excelente. Deve ter sido muito favorecido pela personalidade
do pequeno paciente; era uma criança excepcionalmente cativante, inteli-

- 264 -
J.. gente e fundamentalmente de mente saudável . Gostava realmente do pai e
tinha uma forte transferência positiva para o Professor, estando convenci­
do de que este podia aliviá-lo de sua perturbação se seu pai escrevesse o
bastante para ele. Freud não só ficou satisfeito com os resultados imedia­
tos da análise, que conseguiu curar a fobia, mas expressou a esperança de
que ela beneficiaria o menino em sua vida posterior. Essa predição foi
plenamente confirmada. Uma das mais agradáveis surpresas da vida de
Freud foi quando, quatorze anos depois, um alto e robusto jovem chamou-
o e se apresentou com estas palavras: "lch bin der Kleine Hans" (Eu sou
o Pequeno Hans). O que o intrigou, porém, foi que estava apagada por
completo toda lembrança referente à análise. Tudo o que restava era uma
fraca lembrança das férias em Grr.unden, onde ocorrera um episódio que
foi o ponto de partida da neurose.
A despeito do sucesso da experiência, é digno de nota que por uma
vez Freud tenha deixado de fazer uma generalização. Em vez de perceber
que um campo novo e profícuo para a terapia psicanalítica tinha sido
aberto e que, precisamente por sua natureza profilática, a análise de crian­
ças devia encerrar grandes possibilidades, ele evidentemente encarou o
caso como uma feliz exceção, a partir da qual não se podiam tirar conclu­
sões terapêuticas gerais. No parágrafo inicial, escreveu : "Ninguém rr ais,
em minha opinião, podia possivelmente ter convencido a criança a fazer
essas confissões. O conhecimento especial por meio do qual o pai foi ca­
paz d·� interpretar as observações feitas por seu filho de cinco anos era in­
dispensável e sem ele as dificuldades técnicas na maneira de conduzir a
psicanálise de uma criança tão nova teriam sido insuperáveis. Foi apenas
porque a autoridade de um pai e a de um médico estavam reunidas em
uma única pessoa e porque nela estavam combinados o cuidado afetuoso e
o interesse científico, que se tomou possível neste único casob aplicar o
método em um uso para o qual de outro modo ele não se prestaria." Os
brilhantes sucessos da análise de crianças desde então .::.. iniciadas, de fato,
a partir do estudo deste caso - provam que aqui Freud foi abandonado por
sua costumeira percepção. É curioso dizer do próprio homem que explo­
rou a mente infantil numa extensão que antes nunca fora possível que
conservou, não obstante, certa inibição que o impediu de se aproximar
muito do tema. É como se alguma voz interna tivesse dito "até aqui e não
mais longe". Comentamos anteriormente 1 8 a lentidão com que Freud foi
admitindo a existência da sexualidade infantil, particularmente em seus
aspectos aloeróticos ; no fim de sua vida, ele mostrou certas reservas
quanto aos limites e possibilidades da análise de crianças e à exploração
das regiões mais remotas e ocultas dos primeiros processos mentais.
Há várias outras afirmações dignas de nota relacionadas com o "Caso
do Pequeno Hans". Uma se refere à freqüência com que a análise das
brincadeiras espontâneas do menino foi usada na interpretação e compre-

- 265 -
ensão do que se passava em sua mente . Esse aspecto foi aproveitado, mais
tarde, por Herrrúne von Hug-Hellmuth e depois, de forma bem mais pro­
veitosa, por Melanie Klein, como instrumento cardeal na aplicação da psi­
canálise a crianças .
Freud fez duas i mportantes observações sobre os medos de castração.
Uma, acrescentada em 1 923, era a de que eles podiam surgir sem jamais
ter havido quaisquer ameaças diretas dessa espécie. 1 9 A outra era sua opi­
nião de que constituíam a fonte mais profunda de anti-semitismo, em vir­
tude da prática j udaica da c ircuncisão. 2 0
Uma frase que tem a ver com várias concepções de Freud referentes a
instinto é a que diz que "a sede de conhecimento parece ser inseparável
da curiosidade sexual" . 2 1
Umas poucas fantasias bissexuais do pequeno paciente deram margem
a uma digressão geral sobre a questão da homossexualidade . 2 2 Freud ex­
pressou a opinião de que não se podia falar de um instinto (Frieb) homos­
sexual e que a essênc ia da homossexualidade está simplesmente em um
deslocamento do sexo do objeto. Ele responsabilizava por isso uma fixa­
ção no que depois chamaria de fase fálica, a crença em que a existência
de um pênis era necessária para a integridade física.
A explicação de que nesse caso a ansiedade mórbida resultara da re­
pressão das tendências agressivas do menino, hostilidade em relação ao
pai e sadismo em relação à mãe, estava em acordo, Freud admitia, com a
recente afirmação de Adler, que postulava a existência de um instinto
agressivo especial ; no entanto, ele se recusou a seguir Adler nessa con­
clusão. Julgava que Adler tinha se equivocado ao selecionar um aspecto,
a agressividade, comum a toda a vida instintual, e então encará-lo como a
única chave para a compreensão de todos os problemas psicológicos. So­
mente muitos anos depois Freud postulou um instinto do tipo, instinto
que, porém, diferia em pontos essenciais do de Adler e que foi inferido
em bases muito diferentes.e
No final Freud examinava se trazer os complexos reprimidos à cons­
ciência (talvez em especial nas crianças) pode ser danoso. Comparava as
advertências de seus oponentes com o conselho que Dogberry em Much
Ado About Nothing (Muito Barulho por Nada) dá a seus condestáveis para
não terem nada a ver com essa ralé, como ladrões e arrombadores, que
não são companhia adequada para homens honestos. E em uma nota de pé
de página há ainda outra estocada neles: pergunta onde conseguiram o
conhecimento de que estão tão confiantes, ou seja, que a sexualidade não
desempenha nenhum papel na etiologia das neuroses ; se consideram im­
próprio permitir a pacientes falar sobre esses assuntos, então sua única
fonte de informação deve estar l imitada aos próprios textos de Freud.
Logo depois que o caso foi publicado no primeiro número do novo
Jahrbuch, Freud ao responder a uma carta minha, escreveu: "Estou satis-

- 266 -
feito com o fato de o senhor ver a importância do Klein Hans. Nunca con­
segui uma percepção mais apurada da alma de uma criança. 2 3

m
Notas sobre um Caso de Neurose Obsessiva2 •

O terceiro ensaio dessa série é muito mais do que um caso clínico. Ba­
seando-se em um relato condensado e algo fragmentário de um difícil ca­
so, Freud ocupou-se longamente dos aspectos peculiares da intrigante
afecção denominada neurose obsessiva. Freud expressou a opinião de
que, para o estudo dos processos inconscientes, a investigação dessa neu­
rose era mais instrutiva do que a da histeria.
O paciente era um advogado com cerca de trinta anos de idade . So­
frera de impulsos obsessivos e temores desde a mais tenra infância, mas
eles se tomaram mais graves nos últimos quatro anos. Naturalmente, pre­
judicaram muito seu progresso na vida, tanto profissional quanto pessoal­
mente. Alguns dos sintomas correntes relacionavam-se com episódios que
haviam ocorrido durante recentes manobras do exército em que tomara
parte como oficial da reserv,;_ Em virtude de um sintoma peculiar do caso,
costumávamos nos referir ao paciente como "O Homem dos Ratos" .
A análise começou e m J 9 de outubro de 1 907 e durou apenas onze
meses. O resultado foi brilhante e a partir de então o paciente foi muito
bem-sucedido na vida e no trabalho. Infelizmente , morreu durante a Pri­
meira Guerra Mundial.
A capacidade analítica de Freud mostrou-se em seu ponto alto na so­
lução deste caso. Delicadas e engenhosas, sua interpretação e sua elucida­
ção dos mais tortuosos processos mentais, com seus sutis jogos de pala­
vras e pensamentos, provocam admiração e dificilmente foram superadas
em algum de seus outros textos.
Depois de um mês de tratamento, Freud ocupou duas noites da Socie­
dade de Viena, em 30 de outubro e 6 de novembro, com a apresentação
do quadro inicial do caso. Fedem mais tarde publicou as atas dessas reu­
niões. 25 Durante a discussão, Freud falou de novo e, entre outras coisas,
disse: " Em geral um ser humano não pode suportar extremos opostos em
justaposição , sejam eles em sua personalidade ou em suas reações. É esse
esforço de unificação que chamamos de caráter. Em relação a pessoas
próximas de nós, as emoções extremamentes opostas podem ser tão fortes
a ponto de se tornarem completamente insuportáveis" .
De tempos em tempos, Freud informava à Sociedade de Viena sobre
o progresso da análise, sendo o caso então já bem conhecido pelos mem­
bros. Em 20 de novembro de 1 907, apresentou a explicação do extraordi­
nário método de rezar do paciente; em 22 de janeiro de 1 908, descreveu a
solução do sintoma do pince-nez; e por fim, em 8 de abril de 1 908, o mais

- 267 -
complicado de todos os sintomas, a obsessão com ratos que deu ao caso
seu conhecido título .
Cerca de seis meses depois do início do tratamento, Freud apresentou
um relato bem mais completo do caso, dessa vez no Congresso de Salz­
burg, em 27 de abril de 1 908 . Aí ele pôde falar sobre detalhes pessoais do
caso mais livremente do que lhe era possível fazer numa publicação, mas
naturalmente não era viável, na época, fazer seu registro. d
Em capítulo anterior, mencionei que , numa notável exceção em seu
costume habitual, Freud guardou as anotações diárias que fez sobre o caso
durante os primeiros meses e indiquei o valor delas para o estudo da téc­
nica de Freud nesse período.e
Freud estava empenhado em escrever seu trabalho sobre técnica f
quando percebeu que não podia completá-lo a tempo para o próximo vo­
lume do Jahrbuch, de modo que subitamente teve a idéia de escrever o
presente caso clínico para o volume em questão, 26 cerca de um ano após o
fim do tratamento. Não era coisa fácil dê escrever, em virtude tanto da
inevitável condensação quanto da necessidade de maior discrição em se
tratando de uma publicação. Freud disse que ele exigiu o máximo de sua
capacidade de apresentação. "Como são estropiadas nossas tentativas de
reproduzir uma análise; como despedaçamos lamentavelmente essas gran­
des obras de arte que a Natureza criou na esfera mental. " 2 7 Todavia, aca­
bou o texto em um mês e o despachou em 7 de julho de 1 909. Ainda esta­
va completamente insatisfeito com seu esforço e ficou muito aliviado
quando Jung o elogiou. 2 8 Foi publicado no segundo número do primeiro
volume do Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische
Forschungen, que estava sob responsabilidade de Jung e que se decidiu
fundar na época do Congresso de Salzburg .
Em seus comentários iniciais, Freud pediu algumas modestas descul­
pas pela exposição necessariamente incompleta que ele podia fazer do ca­
so, não apenas em virtude de sua extraordinária complexidade, mas tam­
bém por motivos de discrição, pois o paciente era muito conhecido em
Viena. Explicou como segredos íntimos podiam ser mais facilmente men­
cionados do que detalhes triviais da personalidade, pelos quais uma pes­
soa podia ser prontamente identificada, e que nó entanto são justamente
esses detalhes que desempenham papel essencial na descriçãó dos passos
em uma análise.
Freud intercalou o relato da análise com comentários gerais , alguns
dos quais serão mencionados wais adiante, e acrescentou um capítulo teó­
rico geral que constitui · uma contribuição do maior valor para nossa com­
preensão dessa desconcertante neurose. Quando o comparamos com o co­
nhecimento anterior sobre o assunto, que fora expresso em termos pura­
mente intelectuais, ele bem pode ser considerado um progresso revolucio­
nário.

- 268 -
Estabeleceu-se uma comparação entre a forma de repressão que impe­
ra na neurose obsessiva e a da histeria. No último caso, a amnésia dos
complexos importantes é a regra, quer os sintomas subseqüentes sejam fí­
sicos, quer sejarr mentais. Mais característico da neurose obsessiva é a
retenção do complexo na consciência, mas com uma dissociação de· seu
afeto. Os pontos de partida da neurose, e mesmo seu motivo, são mencio­
nados pelo paciente em um tom de completa indiferença, já que não tem
nenhuma idéia de sua importância. Em termos estritos, esses pacientes não
sofrem de idéias obsessivas tanto quanto de uma maneira obsessiva de
pensar. Outro mecanismo típico, semelhante ao _empregado com freqüên­
cia no chiste, é o da elipse, em que um pensamento intermediário impor­
tante é omitido. Isso rompe a conexão entre dois pensamentos e os torna
incompreensíveis.
Freud tomou élara uma distinção muito útil entre as defesas primárias
e secundárias erguidas no decorrer áo desenvolvimento da neurose. O
processo neurótico não cessa com a dissociação original, mas continua em
confusas séries de pensamentos, onde idéias puramente racionais se mistu­
ram com idéias ilógicas características do inconsciente. Para esses produ­
tos secundários Freud propôs a denominação de "delfrios", usando a pa­
lavra mais em seu sentido francês do que em seu sentido inglês. Deu belos
exemplos deles a partir do presente caso.
Essas defesas são responsáveis não apenas pelo elemento de confusão
dos próprios sintomas, tornando difícil tanto para o analista quanto para o
paciente defini-los com clareza, mas também pela incerteza geral que im­
pregna a vida mental dos pacientes. Eles dão a impressão de serem ativa­
mente atraídos para a incerteza, o que é uma razão pela qual seu pensa­
mento obsessivo é tão propenso a se ocupar com pontos que contêm ele­
mentos inerentes de incerteza, como a morte e a imortalidade. Freud re­
gistrou dois instrumentos úteis para averiguar a forma prncisa dos pensa­
mentos obsessivos quando estes estão toldados pela incerteza. Um é que o
texto deles geralmente ocorre em sonhos sob uma forma inalterada. O ou­
tro é que quando vários pensamentos obsessivos se seguem no tempo são
essencialmente idênticos no significado, por mais sem relação que possam
parecer, e que o primeiro deles a ocorrer tem condições de ser a forma
original.
De modo correspondente, as oportunidades de certeza são evitadas, e
Freud aqui citou os casos em que os relógios são abolidos para que não
introduzam esse elemento em uma parte da vida do paciente.
A tendência para duvidar é um dos dois sintomas cardeais da neurose
obsessiva, sendo o outro a sensação recorrente de compulsão. Freud ex­
plicou de maneira convincente como um é a contrapartida do outro. A dú­
vida é resultado não apenas das medidas defensivas a que se aludiu acima,
mas mais fundamentalmente da profunda ambivalência entre amor e ódio

- 269 -
que domina a vida do paciente. De fato, Freud viu na nitidez com yu..: es­
sas duas atitudes são separadas uma das principais característ icas Jessa
neurose. A dúvida é, em última instância, a dúvida do paciente sobre sua
capacidade de amar, tão constantemente esta sofre interferência de seu
oposto. Freud fez comentários sobre o componente sádico do ódio, mas
somente quatro anos depois este foi localizado nas tendências "sádico­
anais" em particular. A sensação de compulsão provém de uma tentativa
de supercompensar a dúvida e a incerteza. Quando um impulso consegue
encontrar expressão , ainda que de forma disfarçada, toda a energia encer­
rada por trás das incertezas inibidoras fornece sua força e tem de ser rea­
lizada a qualquer custo; a alternativa seria um estado de ansiedade insu­
portável. Os impulsos, mentais ou físicos, sempre representam ou um ato
erótico ou sua proibição direta, e essa é outra razão para sua força pre­
mente. Bastante característica dessa neurose é urna regressão da ação para
o pensamento, e o próprio ato de pensar se toma sexualizado, de modo
que representa urna parte da atividade sexual do paciente.
Como habitualmente ocorria em seus estudos especializados, Freud
conseguiu selecionar um aspecto especial que se prestava a uma investi­
gação intensiva e então, com base nesse conhecimento, lançar luz sobre
características humanas mais gerais. Dois exemplos desse procedimento
dignos de nota serão encontrados no ensaio em questão. Ele observara
que pacientes obsessivos sentem terror diante da possibilidade de seus
pensamentos - mais estritamente, de seus desejos - se tomarem verdade
no mundo externo e que uma parte importante de sua mentes acredita em
seu poder de fazer isso. Assim, "pensar" na morte de alguém põe essa
pessoa em extremo perigo. Freud deu a essa convicção a denominação de
"onipotência de pensamentos. "g Todavia, não demorou muito para que
pudesse correlacioná-la com várias crenças primitivas na eficácia da ma­
giah e também com atitudes correspondentes na mente inconsciente. As­
sim, há em todas as mentes uma camada onde essa curiosa crença se
mantém, embora suas expressões variem infinitamente.
O outro exemplo é assemelhado a este, como observou Freud, e o pa­
ciente em questão ilustrou-o de maneira pródiga: os pacientes obsessivos
são muito supersticiosos, embora via de regra cada um à sua maneira.
Acreditam, por exemplo, que, se pensam numa pessoa e logo a seguir a
encontram, há uma conexão inerente entre os dois fatos. Freud relacionou
essa tendência com a dissociação característica mencionada acima, que
rompe a conexão entre dois pensamentos, de modo a apagar sua significa­
ção. A "percepção endopsíquica" - como ele a denominou - da conexão
reprimida é proj etada no mundo externo, onde se acredita perceber cone­
xões significativas em ocorrências puramente acidentais. Esse aspecto, tão
altamente desenvolvido nessa neurose específica, lança luz sobre a natu­
reza e a gênese de superstição em geral.

- 270 -
O fato de o sentido do olfato ser inusitadamente muito desenvolviuo
nesse determinado paciente deu a Freud oportunidade de fazer algumas
observações sobre um tema que por várias vezes reapareceu em seus tex­
tos: a importância de o homem ter assumido a postura ereta. Baseando-se
no que conhecemos sobre a grande importância do sentido do olfato na
vida sexual dos animais, mas talvez também influenciado pela ênfase que
seu amigo Fliess dava à mesma vinculação,3° Freud sugeriu que a ampla
deterioração desse sentido no homem, resultante de sua adoção da postura
ereta, deve desempenhar um grande papel para predispor os seres huma­
nos a perturbações neuróticas e, en:: termos mais gerais, para explicar por
que a civilização escolhe para repressão o instinto sexual. Temos aqui um
exemplo de que, ao se entregar a especulações para além dos dados reais,
Freud era muito menos t ímido do que fora nos primeiros anos. Trata-se de
uma propensão a que ele deu cada vez mais espaço à medida que envelhe­
cia. A própria idéia que apresentou aqui pode, naturalmente, mostrar-se
de considerável importância no futuro, mas ele certamente foi além da­
quilo que de fato conhecia.
Outro tema a propósito do qual Freud tinha algo digno de nota a dizer
era o do auto-erotismo. Observou que a maioria dos neuróticos inclinam­
se a atribuir seus problemas à masturba.._,, ão na adolescência, ao passo que
a maioria dos médicos são c éticos quanto a esse respeito. Em sua opinião,
os pacientes estão mais próximos da verdade, mas descuidam de duas
considerações essenciais. Uma é que tais práticas reanimam o efeito da
masturbação infantil - tipicamente na idade de três a cinco anos -, na qual
Freud via a fonte do distúrbio neurótico. A outra é que a masturbação não
deve ser encarada como urna entidade simples, mas como a expressão de
diversos componentes sexuais, inclusive as fantasias a que dão origem, de
modo que qualquer efeito danoso não deve ser atribuído ao simples ato
em si.
Um pouco depois ele deu grande ênfase à distorção regressiva oca­
sionada pela masturbação na adolescência. Ela leva a uma reinterpretação
das lembranças de infância em termos do presente, de modo que as más
condutas desse período recebem um significado sexual que na época não
tinham e, mais, as simples atividades auto-eróticas de então são agora in­
vestidas de um significado aloerótico (amor pessoal) através da identifica­
ção delas com as emoções atuais do adolescente. Não se pode aqui deixar
de sentir uma certa timidez da parte de Freud, à qual já nos referimos mais
de uma vez, em dar todo o peso que cabe à sexualidade infantil. Ele re­
sumiu seus pontos de vista na época da seguinte forma: "O conteúdo da
vida sexual na infância consiste em atividade auto-erótica por parte dos
componentes sexuais dominantes, em traços de amor objetal e na forma­
ção desse complexo que merece ser chamado complexo nuclear das neu­
roses: é o complexo que abrange os impulsos primordiais da criança, ao

- 27 1 -
mesmo tempo delicados e hostis, em relação a seus pais, irmãos e irmãs
depois de sua curiosidade ter sido despertada - na maioria das vezes pela
chegada de um recém-nascido. " 3 1

IV
Observações Psicana.líticas sobre um Relato Autobiográfico de um Caso
de Paranóia3 2

O quarto estudo longo, publicado em 19 1 1, é notável n a medida em que


Freud nunca viu o paciente. Baseia-se quase inteiramente em um livro
autobiográfico escrito por um paciente que havia se recuperado parcial­
mente de um grave ataque de paranóia. Era um homem inteligente, do
mais elevado caráter, que chegou à posição de Senatsprasident na Saxô­
nia; esse título, aliás, não tinha nada a ver com qualquer senado político,
mas significava que ele era j uiz-presidente de uma divisão de Corte de
Apelação. A teoria referente ao caso, porém, não provinha de modo al­
gum desse estudo particular., mas fora anteriormente formulada por Freud
a partir de sua experiência clínica. Quanto ao segredo da paranóia, disse
que o havia aprendido com seu amigo Aiess. 3 3
Depois d e haver feito suas importantes contribuições para nosso co­
nhecimento da histeria e da neurose obsessiva, Freud agora se voltava pa­
ra os problemas ainda mais obscuros das psicoses. Quinze anos antes ha­
via feito uma tentativa de abordagem do estudo da paranóia, embora suas
conclusões então só pudessem ser formuladas em termos psicológicos ge­
,ais. 3 4 A presente incursão no campo da psiquiatria, porém, era, segundo
palavras do próprio Freud, a mais audaciosa que havia empreendido. 3 5
Esperava dela "riso zombeteiro ou imortalidade, ou ambos. " 3 6
Freud conheceu a autobiografia d e Schreber n o verão �e 19 10, sete
anos depois de ela ter sido publicada, e a discutiu, mais ou menos longa­
mente , com Ferenczi, durante as férias que passaram juntos na Sicília.
Logo que voltou para casa, pediu ao Dr. Stegmann, de Dresden, para en­
viar-lhe mais detalhes que ele pudesse averiguar sobre a vida de Schre­
ber, 3 7 e continuou a estudar o l ivro nesse outono. Escreveu o ensaio na
primeira parte de dezembro. 3 8
Além de seu conteúdo, esse ensaio tem interesse histórico. Foi du­
rante a discussão dele com Ferenczi, a que há pouco me referi, que fica­
ram visíveis os primeiros sinais de insatisfação mútua, embora esta só se
tenha tornado manifesta cerca de vinte anos depois. O ensaio também foi
o ponto de partida das diferenças entre Freud e Jung. Havia algumas pas­
sagens ligeiramente ambíguas, ocorrência não infreqüente nos textos de
Freud, na medida em que o alemão é uma língua menos precisa do que
o inglês ou o francês, e Jung compreendeu uma delas em um sentido que

- 272 -
Sigmund Freud, 1906, aos 5 O anos.
Grupo çle Worcester, M assachusetts, setembro de 1909.
A . A . Brill, Ernest Jones, Sandor Ferenczi, Freud,
Stanley Hall, C. G. Jung.
I\

Sigmun,d Freud, 1913, aos 57 anos. Desenho de John Philipp.


CON G R E S S O DE WEIM A R , S ETEMBRO DE 1 9 1 1

1 Sigmund Freud, Viena 14 Frh. von Winterstein, Viena 29 Von Stack, Berlim
2 Otto Rank, Viena 15 J. Marcinowski 30 Antonia Wolff, Zurique
3 Ludwig Binswanger, 16 J . Sadger, Viena 31 Martha Bõddinghaus,
Kreuzlingen 17 Oskar Pfister, Zurique Munique
4 O. Rothenhãusler 18 Max Eitingon, Berlim 32 Franz Riklin, Küsnacht
5 Jan Nelken 19 Karl Abraham, Berlim 33 Sandor Ferenczi, Budapeste
6 R. Fõrster, Berlim 20 James J. Putnam, B oston 34 C. G. Jung, Küsnacht
7 Ludwig Jekels, Bistrai 21 Ernest Jones, Toronto 35 L. Seif, Munique
(Oesterreich) 22 Wilhelm Stekel, Viena 36 J. Honegger, Zurique
8 A. A. Brill 23 Paul B jerre, Estocolmo 37 K. Landauer, Frankfurt
9 Edward Hitschmann 24 Eugen B!euler, Zurique 38 A. Stegrnann, Dresden
10 J. E. G. van Emden, Leiden 25 Schwester Moltzer, Zurique 39 E. Oberholzer, Zurique
11 Alphons Maeder . 26 Mira Gineburg, Schaffhausen 40 W. Wittenberg, Zurique
12 Paul Fedem 27 Lou Andreas-Sa!omé 41 G . Brecher, Meran
13 Adolf Keller, Zurique 28 Emma J ung, K üsnacht
Sandor Ferenczi, 1913 .

Ernest Jones, 1920.

Karl Abraham, 1912 .


Otto Rank, 1924 .

H anns Sach, 1914.

· Max Eitingon, 1922.


Ernst Freud, Martin Freud e Sigmuna Freud
em Salzburg, agosto de 1916.
Sophie e M artha Freud, por volta de 1912 .
Minna Bernays, por vo lta de 1912 .
Cortesia de Edmund Engelman
Consultório de Freud em Viena.
Cortesia de Edmund Engelman

Escritório de Freud em Viena.


não era o que Freud tinha querido dar-lhe. Com base nela, iniciou um ra­
ciocínio sem de início perceber que estava se desviando do raciocínio de
Freud. Assim, esse ensaio teve associações fatídicas.
O paciente, Dr. Schreber, teve um distúrbio nervoso em 1885 e ficou
por quinze meses em uma clínica sob os cuidados de um renomado psi­
quiatra, Professor Flechsig, de Leipzig. Ao fim desse período, teve alta
pleno de gratidão e afeição, completamente curado, e assim ficou pelos
dez anos seguintes. A afecção de que padeceu durante esse ataque foi ro­
tulada de "hipocondria".
Então, apenas três semanas depois de assumir sua posição plena de
responsabilidade, a de Senatspriisident, caiu doente com uma afecção
muito mais séria. Dessa vez foi tratado durante seis anos, quando teve alta
em um estado mental perfeitamente normal, com exceção de certos delí­
rios arraigados. Essa séria doença teve duas fases distintas. Na primeira.
que durou cerca de um ano, sofria de delírios de perseguição extrema­
mente incôroodos. Ele imaginava que estava sendo vítima de horríveis
ataques homossexuais nas mãos de seu antigo médico, Flechsig, que logo
era ajudado e instigado por Deus. Na segunda fase, aceitara voluptuosa­
mente esse destino, mas nas mãos de Deus. Esta era acompanhada por vá­
rias idéias religiosas e megalomaníacas segundo as quais ele se tornaria
um salvador feminino do mundo e engendraria uma raça nova e superior
de seres humanos.
O trabalho de Freud, no qual chegou a decifrar minuciosamente vá­
rios aspectos dessas idéias, é extremamente fascinante. Nele, oferece-nos
um quadro de sua significação e gênese tão completo quanto lhe permi­
tiam os dados imperfeitos de que dispunha. A parte realmente valiosa do
ensaio, porém, está em um capítulo final que ele escreveu sobre "O Me­
canismo da paranóia". Além da teoria geral que propôs, e que será resu­
mida a seguir, o capítulo contém várias observações férteis, cada uma das
quais serviria, como algumas já serviram, como ponto de partida para am­
plas investigações. Como exemplo delas, podemos citar uma única frase
na qual ele disse: "A paranóia decompõe, enquanto a histeria conden­
sa'.'. 39 Com isso, ele queria dizer que na histeria cada sintoma provém de
uma acumulação condensada de impressões relativas a vários aspectos de
diversas pessoas em relação às quais o paciente tivera alguma atitude afe­
tiva importante. Na paranóia, por outro lado, cada uma delas se torna uma
vez mais desembaraçada e apresentada como idéia ou alucinação separa­
da. Este último procedimento é idêntico ao que Rank mostrou ser caracte­
rístico de mitos e lendas, bem como de várias religiões, como a grega, em
que um conjunto de sentimentos diferentes em relação a uma pessoa ou
um deus importante é apresentado com diversas aparências, cada uma re­
presentando um dos sentimentos em questão.
Outro exemplo é encontrado em uma nota de pé de página onde

- 273 -
Freud expressa a opinião de que qualquer teoria completa da paranóia de­
ve incluir outra sobre a hipocondria, que a acompanha regularmente.
Afirmou que a hipocondria mantém com a paranóia a mesma relação que a
neurose de ansiedade tem com a histeria 4 0 - observação instigante.
Freud inferiu em todos os seus casos uma conexão clara entre homos­
sexualidade reprimida e paranóia, mas como sua experiência não era ex­
tensa pediu a Ferenczi e Jung para examinarem o material clínico deles, a
fim de verem se podiam confirmar sua conclusão. Ambos puderam fazê-lo
de uma maneira absoluta, mas evidentemente o próprio Freud se sentia
bem seguro na questão. Na verdade, havia informado Ferenczi de sua
conclusão sobre essa conexão essencial em uma das primeiras cartas da
correspondência entre os dois. 4 1
A seguir fez uma brilhante análise . do modo como os quatro delírios
paranóicos típicos se relacionam com o complexo subjacente. Represen­
tam, naturalmente, negações dele ou defesas contra ele. Começando com a
fórmula simples (no caso de um homem) "Eu o amo", ele mostrou que
cada uma das três palavras podia ser negada separadamente, produzindo
três das mais típicas idéias delirantes paranóicas. Se o verbo da sentença é
negado, temos "Eu não o amo -eu o odeio". Mesmo essa atitude, porém,
não é admitida diretamente na consciência. Pelo mecanismo de projeção
tão comum na paranóia, é exteriorizada sob a forma de "Ele me odeia (e
persegue)", depois do que o paciente se sente justificado em seu próprio
ódio. Aí temos o mais freqüente delírio da paranóia, o de perseguição. Se
o objeto da sentença é negado, temos "Eu não o amo - Eu a amo". A
projeção transforma isso em "Ela me ama", onde temos o conhecido delí­
rio de erotomania, a convicção de que toda mulher está apaixonada por
ele. Freud observou, agudamente, que tais pacientes podem induzir uma
pessoa ao erro, fazendo-a crer que se trata de uma heterossexualidade
exagerada, a menos que ela note como o amor deles depende estritamente
de primeiro serem amados. Se o sujeito da sentença é negado, temos
"Não sou eu quem o ama - é elo."; em outras palavras, os penosos delí­
rios de ciúme. Aqui a projeção não precisa atuar, porque o que fazem ou­
tras duas pessoas é uma questão externa, enquanto nos dois primeiros ca­
sos o paciente está ocupado com sua própria percepção interna, insupor­
tável, tendo então de projetá-la. Há ainda outra possibilidade, a de todas
as três palavras serem negadas, o que significa "Não amo de modo algum;
não amo ninguém". Como, porém, o instinto erótico tem de encontrar al­
guma expressão, ele recorre ao sujeito e o investe de libido. O resultado é
a megalomania que em um grau ou outro está presente em todos os casos
de paranóia. Freud emprega aqui o termo "narcisismo". 4 2 O termo ocor­
reu pela primeira vez na redação de seu livro sobre Leonardo (1910), 4 3
mas antes ainda (10 de novembro de 1909) ele dissera na Sociedade de
Viena que o narcisismo era um estágio intermediário necessário na passa-

- 274 -
gem do auto-erotismo para o aloerotismo. Pouco depois introduziu-o para
designar um estágio regular no desenvolvimento erótico.i
Freud era da opinião de que a retração paranóica do amor, que se
afasta de seu antigo objeto, era sempre acompanhada de uma regressão e
definiu esta como uma regressão da homossexualidade (sentimento social)
anteriormente sublimada para o narcisismo. O estágio intermediário de
homossexualidade manifesta é, portanto, omitido.
Foi nesse ensaio que Freud começou a fazer distinção entre diferentes
formas de repressão ou, como foram depois chamadas, defesas. Ele sus­
tentava que o tipo de repressão atuante nesse caso estava mais intima­
mente relacionado com as fases do desenvolvimento libidinal do que a
sintomatologia de uma neurose, que depende de outros fatores também.
Afirmou que nenhuma repressão podia ocorrer, a não ser em conexão com
uma "fixação" prévia" ,4• ou seja, uma falha por parte do impulso instin­
tual para passar por determinado estágio no desenvolvimento. Dividiu os
estágios de repressão em três: (a) a fixação inicial, (b) a repressão pro­
priamente dita e (c) o esboroamento desta repressão com o "retomo do
. reprimido". Naturalmente, esta última fase é muito importante em psico­
patologia.
Embora o mecanismo de projeção seja tão proeminente na paranóia,
Freud hesitou em encará-lo como o mais importante, lembrando a f re­
qüência con: que se apresenta em outras afecções e mesmo na atividade
mental normal. Prometeu ocupar-se mais plenamente do problema em ou­
tra ocasião, mas, como no caso de todos os cientistas, suas esperanças se
realizaram apenas parcialmente. Quanto ao status nosológico da paranóia,
Freud concordava com Kraepelin que ela deveria ser agrupada com as vá­
rias formas de demência precoce, em vez de ser considerada uma entidade
distinta. A probabilidade de suas formas mais puras se agravarem e se
tornarem "demência" é, porém, muito variável. Freud ~expressou, nesse
ponto, seu desagrado pela nomenclatura. Achava o termo "demência pre­
coce" particularmente inepto e a substituição por "esquizofrenia", feita
por Bleuler, só permissível na medida em que se esquece o significado da
palavra, isto é, que ela descreve um estado de coisas normal. Propôs então
a palavra "parafrenia" e talvez seja uma infelicidade que não tenha sido
adotada.
Freud chegou a conclusão de que os sintomas mais destacados da pa­
ranóia - por exemplo, os vários delírios - não são, estritamente falando,
parte da dqença propriamente dita, mas representam tentativas mais ou
m�nos bem-sucedidas de um processo de cura. Por outro lado, essa idéia
tem sido em geral aceita.
Há um interessante comentário acerca do terrível sintoma em que o
paciente acredita numa destruição iminente, ou mesmo recentemente ocor­
rida, do mundo. 45 Freud não sabia ao certo se isso podia ser explicado

- 275 -
simplesmente por meio da total retirada, por parte do paciente, de senti­
mento libidinal do mundo externo, isto é, das pessoas, e sugeriu a possi­
bilidade de também estar envolvida uma retirada de interesse por parte do
ego.
Freud escreveu um apêndice breve, mas significativo, ao ensaio sobre
Schreber, em que vinculava a capacidade adquirida por Schreber de olhar
fixamente sem sofrer dano para o sol à antiga crença de que as águias po­
dem fazer isso e repudiam qualquer filhote que não o possa fazer. Muitas
crenças populares semelhantes mostram que a idéia se baseia na fé de que
o ancestral de uma pessoa (na realidade, seu pai) não o prejudicará se ela
o tratar bem; os filhos de um totem cobra não devem ferir esse animal e
ele não os morderá. Esse elemento do caso "mostra como é bem fundada
a asserção de Jung de que a capacidade de criar mitos não está extinta,
mas ainda produz nas neuroses os mesmos produtos psíquicos que em
épocas mais antigas. Gostaria aqui de mencionar uma afirmação que fiz
algum tempo atrás, ou seja, de que o mesmo vale para os poderes criativos
da religião. Logo teremos de ampliar uma conclusão que nós psicanalistas
há muito temos sustentado e acrescentar a seu conteúdo ontogenético in­
dividual um conteúdo filogenético antropológico. Afirmamos que em so­
nhos e neuroses encontramos mais uma vez a criança com todos os as­
pectos peculiares de seu modo de pensar e sentir. Agora podemos acres­
centar: também o homem selvagem, primitivo, tal como é revelado à luz
da arqueologia e da etnologia". 46
Vários outros estudos interessantes do caso Schreber foram feitos
posteriormente por outros autores. As contribuições mais notáveis são as
de M. Katan,4 7 duas das quais foram lidas em congressos psicanalíticos
internacionais. Ele explicuu muito claramente a função defensiva das alu­
cinações, dizendo que eram, em parte, um fenômeno de descarga, e pôde
relacionar algumas das fontes das psicoses com certos indícios do período
pré-psicótico. Herman Nunberg examinou o problema dos diferentes mo­
dos como nas neuroses e psicoses o ego lida com o mais antigo material
infantil.4 8 Melanie Klein correlacionou a multiplicação de almas de
Schreber com sua ciissociação interna e sugere que a redução do número
delas é parte de um processo curativo.4 8 Recentemente, Ida Macalpine
e R.A. Hunter publicaram uma crítica feroz às conclusões de Freud, na
qual afirmam que o que Freud confundiu com homossexualidade era um
impulso assexual para procriação. 50 O Instituto de Psicanálise está prepa­
rando uma tradução do livro original de Schreber, junto com uma republi­
cação de todos os textos sobre o caso.

- 276 -
V
História de uma Neurose Infantil 5 1

O quinto caso clínico é notável sob vários aspectos. Também tem sua as­
sociação fatídica, uma vez que anos depois contribuiu para a separação
entre Freud e Rank_j Era único, na medida em que o paciente submeteu-se
a uma outra análise subseqüente nas mãos de outro analista e na medida
em que o paciente estava disposto a prestar a mais plena cooperação
quanto à história de sua vida. Ainda mantenho correspondência regular
com ele. Ele tem muitas coisas instrutivas a dizer sobre a técnica e a per­
sonalidade de Freud, bem como sobre os comentários ocasionais de Freud
a propósito de assuntos gerais. O próprio paciente publicou trabalhos so­
bre outras questões de um ponto de vista psicanal ítico.
O paciente sofria de uma neurose extremamente grave que o tomava
totalmente incapaz de lidar até mesmo com as questões mais simples de
sua vida. Submetera-se a vários tratamentos, como hidroterapia e eletrici­
dade, e visitara sanatórios - tudo em vão. Consultou então o Professor
Zichen, em Berlim, e o Professor Kraepelin, em Munique, os dois psi­
quiatras mais famosos da época. Quando viu que também não podiam fa­
zer nada por ele, voltou para casa, em Odessa, desesperado. Felizmente aí
encontrou um certo Dr. Drosnes, entusiasta de psicoterapia, cujo otimismo
despertou de novo suas esperanças. Drosnes tratou-o por um breve perío­
do, mas, vendo como o caso era grave, aconselhou-o a procurar Dubois,
em Berna, e se ofereceu para acompanhá-lo na viagem. Durante esta, fica­
ram por duas semanas em Viena, onde lhes foi sugerido que fizessem uma
tentativa com Freud antes de prosseguirerr:. Freud causou de imediato pro­
funda impressão no paciente, mas na ocasião não dispunha de horário va­
go. Disse, porém, que se o paciente fosse para determinado sanatório, por
algum tempo, poderia atendê-lo aí, pois toda tarde tinha de visitar um pa­
ciente nesse sanatório. Depois de alguma hesitação por causa de sua
grande aversão por sanatórios, o paciente concordou e a análise teve início.
O caso clínico conhecido como o do "Homem dos Lobos" é certa­
mente o melhor da série. Freud estava então no auge de sua capacidade,
era um confiante senhor de seu método e a técnica que ele revela na inter­
pretação e s íntese do material incrivelmente complexo só pode conquistar
a admiração de todos os leitores. Somente aqueles que tentaram podem
avaliar como é difícil apresentar uma longa análise de modo coerente e
interessante. Poucos são os analistas que conseguiram prender a atenção
de seus leitores ·_além das primeiras páginas. O incomum talento literário
de Freud e sua capacidade para coordenar enormes quantidades de fatos o .
fizeram triunfar facilmente nesse empreendimento.
Além do interesse geral do caso, havia dois aspectos especiais no en­
saio de Freud. Em primeiro lugar, era essencialmente o estudo de uma

- 277 -
neurose de infância feito por meio da psicanálise de uma neurose poste­
rior de um adulto. Ilustrava como as lembranças infantis podem ser recu­
peradas por meio de uma análise na vida adulta, embora aqui pouco se di­
ga sobre a neurose da vida adulta pela qual o paciente estava na verdade
sendo tratado. Em segundo lugar, o ensaio foi escrito quando Freud ainda
estava sob as impressões produzidas pelas dissensões de Adler e Jung e
tinha uma referência direta a elas. No ano anterior, Freud havia publicado
um ensaiok muito sincero em que insistia na extensão das divergências de
seus antigos adeptos em relação a ele. Agora sua intenção era, mais obje­
tivamente, testar e comparar os dois conjuntos de conclusões em face de
dados clínicos concretos. Ao submeter, assim, conclusões em debate ao
arbítrio de dados factuais, estava seguindo o único procedimento legítimo
em ciência.
O caso era de complexidade e dificuldade excepcionais, não sendo de
surpreender que o paciente tivesse uma carreira analítica muito acidenta­
da. Submeteu-se a quatro análises distintas: duas com Freud e depois duas
com uma discípula deste, Ruth Mack Brunswick.
Quando procurou Freud pela primeira vez, no início de fevereiro de
1910, era um desamparado jovem de 23 anos, acompanhado por um médi­
co particular e por um criado e incapaz até mesmo de se vestir ou enfren­
tar qualquer aspecto da vida. Sabemos pouco de seus vários sintomas neu­
róticos na época, mas sua história revelou que ele havia sofrido de uma
fobia temporária de lobos aos quatro anos de idade, logo seguida por uma
neurose obsessiva que durou até os dez anos. A partir dos seis anos, havia
sofrido de uma necessidade obsessiva de dizer blasfêmias contra o Todo­
Poderoso, tendo iniciado a primeira sessão de tratamento oferecendo-se
para ter relações anais com Freud e depois defecar em sua cabeça ! 52 De­
pois dos dez anos, sentiu-se relativamente livre de sofrimento, embora ti­
vesse uma conduta consideravelmente inibida e excêntrica, até um ataque
de gonorréia aos dezessete anos,1 época em que sucumbiu à sua doença
atual.
Por mais de quatro anos, Freud lutou sem fazer qualquer progresso. O
paciente prosseguia fielmente no tratamento, mas sua resistência interna
era tão grande que o trabalho feito não exercia impressão sobre ele. Es­
colhendo o momento certo, porém, Freud anunciou que pretendia inter­
romper o tratamento, fosse qual fosse o estágio em que estivesse, na épo­
ca de suas férias de verão, em julho (1914), e resolveu cumprir sua pala­
vra. Era um procedimento arriscado, procedimento de que com freqüência
se tem abusado desde então, mas nesse caso seu efeito foi quebrar a re­
sistência do paciente, e a principal parte da análise foi completada em
poucos meses, no início de julho. O paciente voltou para a Rússia em urr
estado de saúde mental que nunca antes conhecera e estava em condições
de enfrentar as várias exigências que o esperavam.

-278 -
O paciente era filho de um advogado russo, de Odessa, que era tam­
bém rico proprietário de terras e que morrera em 1907. A revolução bol­
chevique tirou-lhe todas as suas posses e o deixou sem dinheiro. Na pri­
mavera de 1919, fugiu com sua mulher e retornou a Viena. Freud anali­
sou-o por mais quatro meses (de novembro de 1919 a fevereiro de 1920,
inclusive) por causa de uma obstinada prisão de ventre histérica que então
cedeu para sempre. Nessa ocasião Freud não apenas o tratou sem cobrar,
mas também coletou regularmente de seus colegas e alunos quantias de
dinheiro que sustentaram o paciente e sua mulher inválida pelos seis anos
seguintes, época em que ganhar a vida na combalida Viena era um empre­
endimento extremamente precário.
O paciente permaneceu livre de qualquer neurose séria por doze anos
depois do primeiro tratamento de Freud e então manifestou uma neurose
de tipo inteiramente diferente, na verdade uma psicose paranóica. Dessa
vez Ruth Brunswick tratou-o por quatro ou cinco meses (de outubro de
1926 a fevereiro de 1927) e o que ela então encontrou formava uma ins­
trutiva contrapartida à análise anterior de Freud. 54 O paciente, no entanto,
voltou a ela dois anos depois e ela o tratou em várias ocasiões por sete
anos. A última informação de Ruth Brunswick sobre ele data de 1940,
quando ele se encontrava em excelente saúde; informação semelhante foi
recentemente publicada por Muriel Gardiner. 5 5
Freud comentou , sobre a análise direta de uma criança, tal como no
"caso do Pequeno Hans", que ela provavelmente era mais convincente
para aqueles que haviam duvidado da importância da sexualidade infantil,
mas que ela não alcançava as camadas mais profundas tal como podia
ocorrer com a maior cooperação de um adulto; a análise da infância feita
por um adulto era, portanto, muito mais instrutiva. Todavia, no presente
caso, mesmo Freud ficou espantado com algumas das conclusões que foi
obrigado a aceitar. "No conjunto, os resultados da análise ç_oincidiam sa­
tisfatoriamente com nosso conhecimento prévio ou podiam ser incorpora­
dos a ele prontamente. Muitos detalhes, porém, pareciam mesmo para mim
tão extraordinários e incríveis que hesitei um pouco em pedir a outras
pessoas que acreditassem neles. Pedi ao paciente que fizesse a mais seve­
ra crítica de suas lembranças, mas ele não podia achar nada de improvável
nestas e se apegava firmemente a elas. O leitor, em todo caso, pode ficar
certo de que estou apenas relatando o que encontrei como experiência in­
dependente, não influenciada por qualquer expectativa minha. Assim, só
restava lembrar a sábia frase de que há mais coisas no céu e na terra do
que sonha nossa vã filosofia. E quem quer que conseguisse eliminar suas
convicções preexistentes de modo ainda mais completo poderia sem dúvi­
da descobrir mais coisas desse tipo. " 5 6
Embora tenha chegado a uma decisão final, amplamente confirmada
por outras experiências de casos semelhantes, Freud estava evidentemente

- 279 -
em um estado de considerável dúvida sobre alguns pontos essenciais ao
escrever esse ensaio. É interessante que ele atribuísse esse estado mental,
em parte, a "uma secreta dúvida sobre se ganharemos a guerra". 5 7 Isso se
dava, vale a pena observar, em novembro de 1914.
Uma importante influência no desenvolvimento inicial do paciente foi
o fato de presenciar relações sexuais entre os pais, com vários detalhes
peculiares, quando tinha dezoito meses. O paciente não podia lembrar-se
do incidente, que desde então recebeu o nome de "cena primai", mas a
grande quantidade de provas coincidentes era tão convincente que no juí­
zo de Freud a reconstrução alcançava o mesmo grau de certeza que uma
lembrança real. É interessante que aí ele tenha depositado a maior con­
fiança na análise dos sonhos, sempre seu principal recurso quando em to­
dos os casos havia dúvida. Investigou longamente se essa cena primai era
uma lembrança inconsciente de um acontecimento real ou uma fantasia do
paciente e concluiu que o efeito é idêntico em ambos os casos. Essa é uma
conclusão de grande alcance.
Grande parte da discussão do caso por Freud se atinha ao problema
de os traumas ou fantasias iniciais datarem do início da vida ou de fanta­
sias posteriores que foram projetadas para o passado. Esta é uma questão
de fundamental importância para o conjunto da teoria freudiana do desen­
volvimento. Tem também inúmeras ramificações. Por exemplo, a possibi­
lidade de que essas instâncias patogênicas datem de uma época posterior
de vida, sendo então projetadas para o passado, abre a porta para todas as
variações e influências culturais, enfatizadas particularmente nos últimos
tempos por Karen Homey, as quais podem na maior parte ser excluídas se
nos ocuparmos apenas dos primeiros anos de vida. A partir de um estudo
meticuloso dos dados apresentados por esse caso, Freud mostrou de ma­
neira irrefutável que as teorias há pouco expostas por Adler e Jung eram
contraditas no teste crucial de experiência fatual. 5 8
Um aspecto cardeal do caso consistia em complicadas reações defen­
sivas contra uma tendência inusitadamente forte a uma solução homosse­
xual da situação edipiana. Freud analisou os vários produtos neuróticos
desse conflito tão completamente que eles nunca reocorreram. Mas doze
anos depois do fim do tratamento, começaram a aparecer outros sintomas,
ocasionados pela notícia da séria doença de Freud, tendo eles sido o mo­
tivo para a subseqüente análise com Ruth Mack Brunswick. Em essência,
representavam uma tentativa bem diferente de expressar a antiga inclina­
ção homossexual, dessa vez uma manifestação paranóica. Porém, esta
também cedeu ao tratamento e a analista teve condições de fazer algumas
interessantes reflexões sobre a relação entre essa fase e os complexos com
que Freud lidara em sua análise anterior.
Como os outros, esse ensaio contém várias afirmações e sugestões
cuja importância transcende sua aplicação imediata ao próprio caso. Por

-280 -
exemplo, Freud disse que muitos pacientes cujo caso é diagnosticado co­
mo insanidade maníaco-depressiva na verdade sofrem de deficiências dei­
xadas depois de uma neurose obsessiva espontaneamente curada; em sua
opinião, o sentimento de vergonha está especialmente ligado ao aprendi­
zado do controle sobre a função urinária; e em uma nota de rodapé dis­
creta, dentro do mesmo contexto, ele dá uma indicação da concepção, que
desenvolveu muitos anos depois, sobre a conquista do fogo pelo homem
primitivo. 5 9
Freud comentou como era difícil falar com precisão sobre a mente in­
consciente de uma criancinha, já que a distinção entre os dois sistemas
mentais se desenvolve apenas gradualmente.
Segundo a experiência de Freud, toda neurose adulta constrói-se so­
bre uma neurose infantil, mas ele não fez a generalização, agora ampla­
mente aceita, de que tcda criança passa necessariamente por um estágio
de neurose.
Freud exprimiu a convicção de que o conhecimento instintivo dos
fundamentos da vida, inclusive o conhecimento sexual, não se limitava
aos animais i nferiores, mas deve também ser admitido para o homem. Ele
até mesmo aplicou essa idéia clinicamente no presente caso. Assim, a ten­
dência hereditária a ligar o medo de castração à imagem do pai pode com­
petir com a experiência pessoal, como aqui, de a meaças de castração pro­
venientes da mãe ou de seu substituto. Há uma interação entre as duas ex­
periências, a individual e a herdada, e o resultado varia nas diferentes
pessoas, de acordo com a força relativa dos dois fatores.
Freud começou a escrever seu relato do caso no início de outubro de
1 9 1 4, apenas três meses depois de terminada a análise. 60 No final do mês
tinha escrito 54 páginas 6 1 e no início de novembro, o total de 1 1 6 pági­
nas.62 Pretendera publicá-lo no Jahrbuch, mas as dificuldades da guerra
levaram esse periódico a um fim prematuro. O ensaio era muito grande
para a ?.eitschrift, de modo que Freud o guardou numa gaveta, esperando,
contra todas as probabilidades aparentes que o Jahrbuch pudesse reapare­
cer. Essa esperança se desvanecera no final da guerra, de modo que Freud
publicou o ensaio na quarta série de suas Sammlung Kleiner Schriften, em
1 9 1 8.

VI
A Psicogênese de um Caso de Homossexualismo numa Mulher6 3

O último caso parecia com o primeiro na medida em que o paciente era


uma jovem de dezoito anos e a análise foi curta. Mas dessa vez foi Freud,
mais atento para a importância da resistência do que vinte anos antes,
quem interrompeu o tratamento. A história é digna de nota na medida em
que a paciente estava determinada a conservar o único "sintoma" pelo

- 28 1 -
qual estava senõo analisada e que podia permitir que a análise prosseguis­
se livremente: sua resistência não era contra a análise propriamente dita,
mas apenas contra qualquer efeito que ela tivesse. Conseqüentemente,
Freud teve condições de obter um insight completo da gênese do caso, e
foi a partir desse ponto de vista que ele registrou a história.
Freud assinalou que a homossexualidade masculina desempenha no
mundo, social e legalmente, um papel mais conspícuo do que a homosse­
xualidade feminina e, talvez por essa razão, os psicólogos lhe deram
muito mais atenção. Ele então aproveitou a oportunidade de desvendar um
caso de homossexualidade feminina para fazer uma importante contribui­
ção ao nosso conhecimento dessa afecção.
A paciente estava desesperadamente apaixonada por uma senhora
muitos anos mais velha; quando uma rejeição por parte desta levou a uma
séria tentativa de suicídio, os pais, alarmados, persuadiram a jovem a con­
sultar Freud. Ela não era neurótica e não considerava seu caso como pa­
tológico, mas aquiesceu ao pedido dos pais. Freud comentou como um
motivo desse tipo é desfavorável para desenvolver uma psicanálise e tanto
por essa razão quanto por causa da natureza do caso ele se expressou
muito cautelosamente aos pais. Parecia cético, em geral, quanto às pers­
pectivas de ocasionar mudanças em um caso de homossexualidade. Ele
havia sido bem-sucedido apenas em casos especialmente favoráveis, nos
quais os impulsos heterossexuais também estavam presentes ou nos quais
a pessoa tinha fortes motivos para desejar uma mudança em sua situação.
Nos casos em que a atitude homossexual é completa, é muito difícil per­
suadir o paciente de que o prazer que poderia obter numa relação heteros­
sexual poderia chegar a se comparar ao que ele já havia experimentado no
outro tipo de relação. Muito se ganha se o caminho para a gratificação
heterossexual é aberto, mesmo se a pessoa permanece bissexual; então ela
tem pelo menos a escolha.
Em alguns casos, tal como neste, uma psicanálise passa por fases bem
distintas. Na primeira, o analista é a pessoa mais ativa, interpretando o
material e chamando a atenção do paciente para a natureza e o significado
de seus conflitos, ao passo que na segunda fase é o paciente que se encar­
rega do progresso no trabalho e desempenha o papel realmente ativo. Es­
crevendo em 1920, Freud teve condições de esboçar uma analogia com as
duas fases de uma viagem, analogia válida sobretudo hoje. A primeira é
ocupada com os complicados preparativos - passaportes, visto, etc. -,
mas, mesmo quando tudo isso está feito e a pessoa ocupa seu lugar no
trem, não está, de um ponto de vista físico, nem um pouco distante do
ponto de partida. Todavia, a pessoa fez muito do que é essencial para a
viagem em si. No presente caso, a primeira fase desenrolou-se com êxito e
tanto Freud quanto a paciente obtiveram um claro insight da natureza es­
sencial e da gênese do problema dela. Todavia, a partir daqui houve ape-

- 282 -
nas um progresso muito pequeno. Freud percebeu que um poderoso moti­
vo que a paciente tinha para conservar sua homossexualidade era o impul­
so para ela se vingar do pai, de modo que interrompeu o tratamento e
aconselhou a paciente, depois de pensar sobre a questão, a ser analisada
por uma mulher. Não sabemos se ela seguiu o conselho.
Os agentes causadores no caso eram bastante conhecidos; para um
analista, eram quase banais. O estranho era a reação pessoal da paciente a
eles. Ela havia passado por uma acentuada fase edipiana na infância, mas
não havia saído dela pelo conhecido modo de transferir seu amor para
outro homem que não o pai e de elaborar a rivaiidade com a mãe ou a
hostilidade em relação a ela. Em vez disso, ela reagiu, mas de modo exa­
gerado, da maneira como muitas pessoas reagem quando sofrem uma de­
cepção amorosa, ou seja, pela identificação com o objeto perdido. De
acordo com Freud, esse é um modo de regredir ao narcisismo. Tinha a
vantagem de evitar o conflito com a mãe. Freud considerou que não se ti­
nha dado suficiente atenção a essa evasão, motivo que desempenha im­
portante papel na gênese da homossexualidade. Aproveitando a circuns­
tância, disse que não via necessidade de introduzir o termo "Complexo de
Electra" para descrever essa reação específica à situação edipiana.
Ao comentar essa análise, Freud fez algumas interessantes reflexões
sobre o determinismo. Tal como em vários outros casos, sentiu-se satis­
feito por ter podido estabelecer de modo bem completo, e a partir do pro­
duto final, os fatores causais do caso em sua própria origem, mas também
deixou claro que se alguém fosse seguir na direção inversa não haveria
essa certeza. Mais uma vez se podia ver que determinada instância etioló­
gica podia ter levado a vários efeitos diferentes e a única coisa que se po­
dia dizer, em cada caso particular, era que ela levava ao efeito que de fato
havia levado. Ninguém podia dizer por que havia atuado assim em vez de
levar a qualquer das outras direções possíveis. A explicação da dificulda­
de, porém, é bastante simples. É que nosso conhecimento das instâncias
causais é puramente qualitativo e não temos no momento nenhuma pers­
pectiva de torná-lo quantitativo. Se um dado conflito acaba de determina­
do modo, pode-se dizer que um lado dele era mais forte que o outro, mas
não há meio de predizer isso antecipadamente, já que não temos método
para medir a intensidade das "forças" mentais.
Freud pôde desvendar os vários motivos que impeliram essa paciente
... à sua tentativa de suicídio e aproveitou a oportunidade para fazer uma
afirmação geral sobre o suicídio, afirmação que já insinuara em outro de
seus textos.m "Talvez ninguém possa encontrar a energia psíquica para
matar-se, a menos que em primeiro lugar esteja, assim, matando ao mesmo
tempo alguém com quem se tenha identificado e esteja dirigindo contra si
um desejo de morte que anteriormente fora dirigido contra a outra pes­
soa" . 6 4

- 28 3 -
Até que a paciente tivesse cometido esse ato desesperado, nem ela
nem naturalmente seus pais tinham qualquer idéia da força da paixão que
a impulsionava. Freud comentou aqui a freqüência com que ocorrem esses
casos em que muitas vezes as pessoas não têm ciência da força de seu
amor, até que algum incidente relativamente pouco importante a revela
pela intensidade da reação das próprias pessoas .
Nessas observações finais sobre a homossexualidade em geral, Freud
insistiu na necessidade de distinguir entre inversão de uma atitude sexual
e inversão do sexo do objeto, duas coisas diferentes que podem ou não
estar juntas em um determinado caso. Embora tenha ficado impressionado
com o então recente trabalho experimental de Steinach, que desde então
não foi muito bem fundamentado, Freud não deu muita importância à pre­
sença de alterações somáticas na direção do sexo oposto. Não pensava
que houvesse qualquer correlação estreita entre elas e as tendências ho­
mossexuais, embora no caso das mulheres pudesse ser l igeiramente mais
estreita que no dos homens. Quanto ao conceito de um "terceiro sexo"
inato, considerava que não estava suficientemente fundado nos fatos e que
tinha sido formulado por razões tendenciosas. O equívoco cometido na
maior parte da literatura sobre o assunto era o isolamento de um fator de
cada vez, em prejuízo da verdadeira complexidade etiológica. Quaisquer
c:eonclusões gerais devem levar em conta pelo menos a descoberta psica­
nalítica de que os homossexuais têm sempre, para começar, uma acentua­
da fixação no genitor do sexo oposto. Devem também basear-se em um
axioma que Freud recebera de seu amigo Fliess e em relação ao qual nun­
ca vacilou: a bissexualidade natural não apenas de todos os seres huma­
nos, mas de todos os seres vivos.

NOTAS

ª dunkelhewusat.

b Aqui sublinhado.
e Isso será tratado no Volume III.
d Ver Cap.2, pág. 55.
e Cap.9, pág. 235.
f Cap.9, n2 5.
g Freud observou alguns anos depois29 que foi a partir do "Homem dos Ratos" que
ele tomou conhecimento da importância desse. aspec_to. De . fato, disse então que o
- - _/ .

-- 284 -
próprio termo provinha de tal paciente, mas no relato original, a ser publicado em
breve, lia-se "onipotência de desejos", que na verdade é a mais precisa das duas ex­
pressões.
h Ver Cap. 14, n 2 1 9 .

i Ver Cap. 1 2 , n2 1 9.
j Isso será tratado no Volume III .

k Ver Cap. 14, n 2 23.


1 Ruth Brunswick diz, equivocadamente, que ele tinha dezenove anos. 5 3

m Ver Cap. 10, n 2 5 .

- 285 -
XII

A TEORIA DA LIBIDO

EM PRIMEIRO LUGAR, CABE E SCLARECER AQUI O QUE FREUD QUE­


ria dizer precisamente com a palavra "libido" e com a "teoria da libido" .
Ele encarava o instinto sexual, tal como todo mundo, como u m processo
psicofísico, tendo manifestações tanto físicas quanto mentais. Por "libi­
do" ele se referia, em essência, às últimas, sob qualquer forma com que se
possam apresentar.
Eis as próprias palavras de Freud sobre o assunto. "A concepção po­
pular distingue entre fome e amor, vendo-os como representantes dos ins­
tintos que visam à autopreservação e à reprodução da espécie, respecti­
vamente. Ao nos associarmos a essa distinção tão evidente, postulamos
em psicanálise uma distinção semelhante entre, de um lado, os instintos de
autopreservação ou do ego e, de outro, os instintos sexuais; a essa força
pela qual o instinto sexual é representado na mente chamamos 'libido' -
desejo sexual -e a encaramos como análoga à força da fome ou à vontade
de poder e a outras inclinações, entre as tendências do ego." 1
Mas Freud raramente era meticuloso ao abraçar definições precisas,
de modo que há passagens que dão a impressão de que às vezes "libido"
podia ser equivalente a "instinto sexual", em seus aspectos tanto físicos
quanto mentais. Assim, em certo ponto é definida simplesmente como "a
força pela qual o instinto sexual se expressa. " 2 E em uma passagem es­
crita em 1915 : "Definimos o conceito de libido como uma força quantita­
tivamente variável que podia servir como uma medida de processos e
transformações que ocorrem no campo da excitação sexual. Distinguimos
essa libido, no tocante a sua origem especial, da energia que se deve su­
por subjacente aos processos mentais em geral e, assim, atribuúnos a ela
um caráter qualitativo. " 3 Ele podia até mesmo falar da base orgânica da
libido. Assim, aludindo aos "distúrbios dos processos sexuais, os proces-

- 286 -
sos que determinam no organismo a formação e utilização da libido se­
xual", ele acrescenta "É pouco possível deixar de retratar esses processos
como sendo, em última instância, de natureza química. "4 Essa idéia de
Freud pode ser remontada a 1894. 5
Já em 1 909, Jung queixava-se a Freud de sua dificuldade para expli­
car a seus alunos o conceito de libido e lhe pedia urna definição mais
completa. Freud respondeu secamente que não podia dar uma definição
mais clara do que aquela que já tinha dado. Apenas dois anos depois Jung
equiparou o conceito com o élan vital de Bergson, com a energia vital em
geral, e assim despojou-o de sua conotação sexual distintiva.
Surge então a discutida questão do que Freud incluiu no termo "se­
xualidade". Ele foi muito criticado por usá-lo em um sentido indevida­
mente amplo e por aplicá-lo a processos que outras pessoas não conside­
ram sexuais. Mesmo autores simpatizantes de seu trabalho, como Sir Ar­
thur Tansley ,6 lamentaram o incômodo de que ele poderia ter-se poupado
se empregasse apenas expressões como "amor" ou "desejo de união", em
lugar da palavra mais forte. Freud costumava observar, porém, que, quan­
do começamos por concordar com essas conciliações para velar o signifi­
cado real por deferência à opinião externa, colocamo-nos em um caminho
escorregadio e já não sabemos onde vamos parar. Por "sexual" Freud
queria dizer "sexual" no sentido corrente, mas ampliou a concepção usual
de quais são as coisas sexuais. O estudo psicanalítico do início da infân­
cia e o conhecimento das perversões adultas levaram-no a reconhecer que
a sex 1alidade tem muitas manifestações além da simples união genital do
coito. O instinto não começa dessa forma acabada, forma em que obvia­
mente serve à finalidade de reprodução. Ao contrário, tem de passar por
um complicado desenvolvimento antes de ser alcançado esse estágio que
Freud chamou de "primazia genital". Começa difusamente a partir da ex­
citabilidade de muitas "zonas erógenas" do corpo. Ele sustentou, por
exemplo, tal como o fizera vinte anos antes dele um pediatra húngaro,
Lindner, 7 que o bebê é impelido a sugar não apenas por fome, pela neces­
sidade de alimento, mas também pelo desejo de gratificação erótica, mes­
mo quando não está faminto. Isso continua mais tarde, quando se chupa o
dedo ou outros objetos, como canetas, e na vida adulta sob a forma de
beijo amoroso ou, em casos pervertidos, da felação. Há uma linha ininter­
rupta nesse desenvolvimento, de modo que Freud não via razão para dei­
xar de aplicar a denominação de "sexual" para todo o processo. Assim
como ampliara a concepção de "mental", a partir de sua conotação cor­
rente de "consciente", ampliou a escala em que o termo "sexual" podia
ser justificadamente aplicado. Certa vez usei a analogia com o oxigênio
para ilustrar isso. Quando foi descoberto, o oxigênio foi considerado ape­
nas certo gás com propriedades especiais. Um maior conhecimento levou
o termo a ser aplicado também ao ozônio, um gás com peso molecular di-

- 287 -
ferente. De fato, posteriormente teve de se admitir que o oxigênio podia
existir de forma não gasosa, até mesmo em sólidos como o salitre.
Com a "teoria da libido" Freud se referia à investigação de todas es­
sas manifestações e dos complicados trajetos que podem seguir no decor­
rer do desenvolvimento. Algumas vezes empregou a expressão em um
sentido mais restrito, especialmente em seus primeiros tempos, como refe­
rente apenas ao exame do papel desempenhado pela libido nas psiconeu­
roses.
Os primórdios da teoria da libido remontam aos primeiros anos da dé­
cada de 90 do século passado, quando Freud se deparou com a importân­
cia da sexualidade em relação com as "neuroses atuais", a neurastenia e a
neurose de angústia. Nessa época a base fisiológica da sexualidade ocu­
pava lugar de destaque nas preocupações de Freud e na verdade nunca
deixou esse lugar. Mas logo a seguir sua descoberta do papel essencial
desempenhado por processos sexuais na psicologia das outras neuroses, as
psiconeuroses de histeria, etc., voltou sua atenção para os aspectos mais
mentais do instinto. A teoria foi então ampliada passo a passo, de acordo
com sua crescente experiência. Houve o papel desempenhado pelo auto­
erotismo na infância com a concepção de "zonas er6genas" em partes do
corpo não genitais, a importância da estimulação precoce por adultos e -
o mais importante de tudo - o reconhecimento da rica vida de fantasia se­
xual das crianças, que de início ele pensou que começasse logo depois da
puberdade, sendo projetada para a infância, mas que depois viu que se
originava na própria infância.
A cronologia do gradual aprofundamento do conhecimento de Freud
nesse campo foi apresentada em uma parte anterior desta biografia,8
quando se enfatizou o que parece para nós agora, com nossa percepção
tardia, o ritmo vagaroso do progresso de Freud e a quase túnida relutân­
cia, encobrindo uma ousadia revolucionária, com que ele aceitou sua gra­
dual acumulação de conhecimento e insight. Chegou-se à- conclusão de
que Freud, antes da virada do século, havia descoberto todas as fases es­
senciais do desenvolvimento sexual, embora suas exposições até essa
época ainda fossem experimentais e imperfeitas. Ele foi certamente o pri­
meiro não apenas a afirmar que as crianças normalmente experimentam
sensações sexuais, mas a fornecer uma descrição completa de sua diversi­
dade. Mas, por alguma razão, somente em 1905 publicou para o mundo
uma exposição completa de suas surpreendentes descobertas e conclusões
nesse campo. Mesmo então restaram sinais de suas hesitações anteriores.
Nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), há uma simples
nota de rodapé dizendo que as crianças entre três e cinco anos são capa­
zes de escolher um objeto de amor; é verdade que esse tema é repetido no
texto, mas com pouca elaboração. Nas pnmeiras duas edições de A Inter­
pretação dos Sonhos ( 1 900 e 1909), há uma estranha passagem em que se

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supõe que as crianças não têm desejos sexuais ; 9 foi Jung quem chamou a
atenção de Freud para ela e o persuadiu a retirá-la na terceira edição
(1911).
Logicamente, teria sido de esperar que Freud publicasse um livro so­
bre esse assunto logo depois de acabar A Interpretação dos Sonhos, já
que os dois temas estavam estreitamente ligados, haviam sido elaborados
juntos e constituíam as duas mais importantes descobertas de Freud. De
fato, esta parece ter sido sua intenção de início. Em 11 de outubro de
1899, um mês antes da publicação do livro sobre sonhos, ele escreveu a
seu amigo Fliess: "É provável que uma teoria da sexualidade seja o su­
cessor imediato do livro sobre sonhos", 1 0 e três meses depois escreveu:
"Estou reunindo material para a teoria da sexualidade e esperando até que
alguma faísca inflame o qt1e coligi. " 1 1 Não sabemos por que a faísca de­
morou tanto a chegar. Provavelmente, tinha apenas de esperar por uma
daquelas explosões de atividade que parecem ter sido periódicas no caso
de Freud: oito anos depois ele de fato se referiu a 1905 como um de seus
anos periódicos. 1 2 Ou ele pode ter desejado acumular mais experiência pa­
ra confirmar suas novas conclusões. De qualquer modo, ele se desviou pa­
ra trabalhar também no material que iria produzir seu livro sobre chistes,
tema que fora sugerido pelo curioso jogo de palavras que com tanta fre­
qüência ocorre nos sonhos. Houve, afinal, uma continuidade em seus inte­
resses ao longo desses anos. Em 1905, os dois livros estavam prontos para
impressão.
( 1 ) Nesse anos houve dois pronunciamentos de Freud sobre o tema da
sexualidade: o famoso Três Ensaios e um pequeno capítulo em um livro
de seu amigo Lõwenfeld. Esse livro, Sexualleben und Nervenleiden (Vida
Sexual e Sofrimento Neurótico), já havia exposto alguma coisa das con­
cepções de Freud em suas edições anteriores, mas para a quarta edição o
autor persuadiu Freud a apresentá-las em um capítulo especial intitulado
"Meus Pontos de Vista sobre o Papel Desempenhado pela Sexualidade na
Etiologia das Neuroses". 1 3
Nesse capítulo Freud faz uma exposição histórica de suas concep­
ções. O fato de terem mudado consideravelmente, em concordância com
uma maior experiência, distinguia-as de mera especulação que não precisa
dessa mudança. Começou por uma exposição sobre as "neuroses atuais",
a neurastenia e a neurose de angústia, que inicialmente lhe chamaram a
atenção para a importância dos fatores sexuais na etiologia e abriram seus
olhos para a possibilidade de esses fatores também atuarem nas psiconeu­
roses. Breuer e ele combinaram as concepções de Charcot sobre histeria
traumática depois de acidentes físicos com sua experiência de traumas
psíquicos no início da vida. Primeiramente, Freud pensara que os sinto­
mas derivavam diretamente desses traumas, mas, ao descobrir que com
freqüência eles não haviam realmente ocorrido, veio a reconhecer a im-

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portância das fantasias para a patogênese. Daí se seguia que a forma dos
supostos traumas, quer ativos quer passivos, não podia mais ser encarada
como determinante do tipo de psiconeurose, como ele pensara anterior­
mente, e que mais importância tinha de ser dada à própria constituição.
Todavia, em vez de empregar o conceito geral de "constituição hereditá­
ria", Freud o substituiu pelo conceito mais específico de "constituição
sexual", que evidentemente varia em diferentes indivíduos. Ao mesmo
tempo, havia reconhecido a importância da repressão, que pode afetar em
diferentes casos vários componentes do instinto sexual.
Em todas as mudanças nas concepções freudianas da etiologia, dois
fatores se mantiveram invariáveis: o "sexual" e o "infantil" . Mas ele en­
fatizou a complexidade da patogênese em acréscimo a esses fatores inva­
riáveis, de modo que uma psiconeurose pode ser acarretada por uma soma
de várias instâncias alcançada de muitos modos diferentes.
(2) Em 1905, foi publicada uma das obras mais fundamentais de
Freud, os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. 1 4 Foi esse livro
que provocou o máximo de ódio contra seu nome; ainda resta muito dele,
em especial entre pessoas não instruídas. O livro foi sentido como uma
calúnia contra a inocência da infância. No entanto, como bem afirma Ja­
mes Strachey, 1 5 "Ele fica, não pode haver dúvida, ao lado de sua Inter­
pretação dos Sonhos, como sua contribuição mais importante e original ao
conhecimento humano. "
A primeira edição teve mil exemplares, que levaram mais de quatro
anos para serem vendidos, embora se tratasse apenas de livretos bem ba­
ratos. As duas edições seguintes (1910 e 1915) foram duas vezes maiores
e se venderam no mesmo período de tempo. Freud recebeu por seu traba­
lho 262 coroas (53,08 dólares). O livro foi traduzido para nove línguas,
entre as quais tcheco, húngaro e japonês; houve várias traduções inglesas.
Houve seis edições publicadas em vida de Freud, que nesse livro fez mais
alterações do que em qualquer outro, com exceção talvez da própria A
Interpretação dos Sonhos. A notável editoração de James Strachey so­
mente agora tornou possível distinguir e avaliar essas alterações nas vá­
rias edições. Ele chama a atenção para o surpreendente fato, que passa fa­
cilmente despercebido para o leitor desatento, de que partes inteiras sobre
as teorias sexuais das crianças, sobre a organização pré-genital da libido e
sobre a própria teoria da libido, inclusive em especial a nova idéia de li­
bido do ego (narcisismo), aparecem pela primeira vez na terceira edição,
dez anos depois da publicação original.
Em seu Prefácio, Freud insistia em que as conclusões que apresentava
eram todas baseadas apenas em investigações psicanalíticas e assim de­
viam ser encaradas como contribuições para um assunto que necessitaria
ser ampliado por estudos em outras esferas: biológica, fisiológica e so­
ciológica.

- 290 -
O livro dividia-se em três partes. A primeira tratava dos vários des­
vios do instinto sexual. Estes com freqüência estão tão dissociados de
possibilidades de reprodução ou mesmo de atividade genital que por si sós
justificariam a extensão do con-:eito de "sexual" para além do uso cor­
rente da palavra. Freud dividiu a massa aparentemente heterogênea desses
desvios em dois grandes grupos, segundo se trate de um desvio no objeto
do instinto ou em seus objetivos. O primeiro compreende mudanças no
sexo, na idade ou mesmo na espécie do objeto. No caso da homossexuali­
dade, que preferia chamar de "inversão", Freud discutia plenamente o
problema de fatores congênitos ou adquiridos, protestando contra a ten­
dência a uma ênfase unilateral na questão. Aceitava plenamente o con­
ceito de bissexualidade inata, que havia tomado de Fliess. O que desco­
brira no caso da inversão foi que os sujeitos tinham passado muito cedo
por um estágio de fixação em suas mães e então se identificaram com elas.
Os objetos com que depois obtêm gratificação são espelhos narcísicos
deles próprios, amados tal como desejaram que suas mães os amassem.
Os desvios nos objetivos do instinto também se dividem em dois sub­
grupos: transgressão anatômica e fixações em estágios preliminares. Em
relação ao primeiro, onde outras partes do corpo, boca, ânus, etc . , ou
mesmo peças do vestuário (fetichismo) tomam o lugar dos órgãos genitais,
Freud dava muita importância à superestimação do objeto que com tanta
freqüência acompanha a atração sexual. Se essa superestimação é excessi­
l va, não é facilmente compatível com a atividade genital, que portanto tea­
de a ser trocada por substitutos.
Aqui Freud, em uma simples nota de rodapé, apresentou a tese, que
Ferenczi e eu desenvolvemos mais tarde, de que o relacionamento pecu­
liar entre um hipnotizador e seu sujeito depende de uma atitude sexual in­
consciente, especialmepte uma atitude masoquista, por parte do último. A
sugestão fora formulada de forma bem mais completa, no mesmo ano, em
um artigo que permaneceu desconhecido até depois de sua morte. Portan­
to, vale a pena citá-lo aqui: "Pode ser observado, a propósito, que, fora
da hipnose e na vida real, a credulidade tal como o sujeito tem em relação
a seu hipnotizador é mostrada apenas por uma criança em relação a seu
amado genitor, e que uma atitude de sujeição semelhante por parte de uma
pessoa em relação a outra tem apenas um paralelo, embora seja um para­
lelo completo: certos relacionamentos amorosos em que há extrema devo­
ção. Uma combinação de vínculo exclusivo e obediência crédula encon­
tra-se em geral entre as características do amor." 1 6
No segundo subgrupo, certos componentes d o instinto sexual que são
normalmente apenas instâncias auxiliares que levam ao ato final são es­
colhidos entre os demais para substituí-lo. Há uma permanência em um
estágio preliminar de todo o processo e uma tal acentuação dele que ele
pode constituir a ação inteira. Aqui o par de fatores mais proeminentes

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são: em primeiro lugar, o desejo de olhar e o desejo de ser olhado, que
quando constituem perversões são denominados, respectivamente, "esco­
pofilia" e "exibicionismo"; e, em segundo lugar, o par mais conhecido, o
sado-masoquismo_ É digno de nota que quando um desses pares é acen­
tuado, seu oposto sempre também o será, com manifestações conscientes
ou inconscientes_
A maioria dos "desvios" funciona de forma moderada na vida nor­
maL Os aspectos que justificam que sejam tidos como patológicos são ex­
clusividade e fixação- São, então, mais perversões do que meras perversi­
dades.
Segue-se uma abordagem da sexualidade nas psiconeuroses, onde
Freud mais uma vez insistiu que o papel que ela desempenha é o único
fator constante nessas afecções e sua fonte mais importante de energia. Os
sintomas são, por um lado, funcionamento sexual disfarçado e, por outro,
expressões da resistência do ego. Uma descoberta inesperada foi a de que
os impulsos sexuais que criam e mantêm os sintomas são apenas em pe••
quena parte de tipo "normal"; com maior freqüência, são impulsos "per­
versos" e a maioria das perversões mencionadas acima podem ser encon­
tradas por trás de sintomas neuróticos. Isso levou-o a formular sua conhe­
cida proposição: "As neuroses são o negativo das perversões." Não se
segue, porém, como se poderia supor apressadamente, que os neuróticos e
os pervertidos sejam estreitamente relacionados. Uma explicação mais
provável para a descoberta é que nas neuroses há uma repressão tão inu­
sitadamente forte que a libido é -forçada a buscar canais colaterais de ex­
pressão. No entanto, as duas condições, neurose e perversão, podem coe­
xistir no mesmo indivíduo.
Em uma breve passagem sobre instintos (Triebe), Freud afirmou que
o que distingue um do outro e lhes dá sua qualidade específica é sua fonte
e seu objetivo. A fonte é sempre uma estimulação que surge em alguma
parte do corpo e o objetivo é o apaziguamento desse estímulo. Nesse
ponto, ele introduziu o conceito de "zonas er6genas",ª isto é, áreas do
corpo que têm a capacidade de dar origem a sensações eróticas. Tais zo­
nas podem cobrir uma área ampla_, mas em algumas áreas são muito mais
sensíveis do que em outras: os órgãos genitais e os orifícios alimentares
destacam-se nesse sentido.
A segunda parte, a mais original, é dedicada à questão da "sexuali­
dade infantil". Freud viu na amnésia infantil a razão pela qual a própria
existência da sexualidade infantil passou por tanto tempo despercebida:
poucas pessoas conseguem lembrar muita coisa dos primeiros três anos de
vida, tão decisivos para a formação da personalidade, anos em que a
criança pode exibir as mais complicadas emoções. É por isso também que
se tinha muito mais interesse pela herança de uma ancestralidade distante,
enquanto o período pré-histórico mais próximo, o da infância, é ignorado.

- 292 -
Freud expressou o ponto de vista, então surpreendente mas agora am­
plamente aceito, de que a criança é capaz de sensações eróticas desde o
início da vida e de que seus instintos sexuais passam por um desenvolvi­
mento progressivo até cerca de quatro anos de idade, depois do que não
há mais progresso até a puberdade. Os anos de pausa, dos quatro aos onze
anos, ele chamou de "período de latência", expressão que Fliess lhe suge­
rira. Ele é aqui com freqüência mal interpretado, supondo-se que ele que­
ria dizer que não há manifestações sexuais durante esses anos, o que pode
ocorrer ou não, de acordo com o desenvolvimento individual. As primei­
ras manifestações de sexualidade caracterizam-se por surgirem em ligação
com importantes funções físicas não sexuais, tais como alimentação ou
defecação, por sua atividade ser auto-erótica e por seu objetivo ser a satis­
fação de estímulos provenientes de uma zona erógena. Nessas atividades
iniciais ou pré-genitais, Freud distinguia duas fases: a oral e a sádico­
anal ; mais tarde, Abraham dividiu cada uma delas em duas. 1 7
De acordo com Freud há três fases de atividade masturbatória: a da
primeira infância, a do ponto mais alto do desenvolvimento sexual infantil
(por volta dos quatro anos de idade) e a da puberdade, respectivamente.
Freud considerava que o desejo instintivo de adquirir conhecimento,
que em geral se mostra ativo em torno dos três ou quatro anos, tinha ori­
gem em várias fontes, mas uma das mais importantes é a necessidade de
obter informação sexual. Aqui ele mencionou as conclusões a que as
crianças na maioria das vezes chegam: a teoria cloacal do nascimento e a
concepção sádica das relações sexuais parentais.
A sexualidade infantil contém outros elementos além da atividade
auto-erótica. A atração erótica por determinada pessoa é comum entre os
dois e os cinco anos, podendo não ocorrer de novo até a época da puber­
d ade.
Essa parte termina com uma passagem muito sugestiva sobre a intera­
ção de processos sexuais e não sexuais. A zona dos lábios e da boca serve
a ambos os casos. Conseqüentemente, quando há uma repressão excessiva
do componente erótico, podemos encontrar uma incapacidade de comer ou
uma recusa em fazê-lo - sintoma neurótico freqüente. A constatação de
que a intensa concentração no trabalho intelectual, ·especialmente no estu­
do, é com freqüência acompanhada de excitação _sexuál · explica por que a
última, quando forte, é .tão perturbadora para . esse tipo de trabalho. Aliás,
esse é o cerne da verdade na crença popular de que as. .neuroses provêm
de excesso de trabalho. Grande parte dos sintc>más neuróticos não está na
esfera sexual, mas na de outras funções; a explicação é a interação comum
das duas, de modo que a repressão de uma pode afetar o funcionamento
da outra. Um exemplo notável é o da cegueira histérica, em que o distúr­
bio do elemento escopofílico pode inibir toda a capacidade visuaJ.b
A terceira parte é dedicada às mudanças que ocorrem na época da

- 293 -
puberdade. Aqui, mais uma vez, Freud insistiu na natureza complicada do
desenvolvimento sexual, em como o estágio final da primazia genital é al­
cançado apenas através de muitas alterações evolutivas nos componentes
elementares que compreendem os primórdios do instinto. Essas alterações
são influenciadas tanto pela constituição sexual inata quanto pelas expe­
riências da vida, especialmente do início da vida, sendo, portanto, sujeitas
a muitas inibições, fixações e desvios no decorrer do desenvolvimento.
Tudo issc explica a extraordinária variedade que se observa na índole se­
xual e nos hábitos dos seres humanos.
Muitos dos componentes iniciais, então separados, encontram uma
função na vida adulta, propiciando o que Freud chamou de "prazer preli­
minar" ou "prazer prévio", que ele distinguia do "prazer final", que bus­
ca satisfação final e completa. Exemplos óbvios são os atos de olhar, to­
car com a mão ou lábios (beijar). Esses fatos comuns apresentavam para
Freud um problema que, na época, ele só pôde resolver parcialmente.
Como esses atos, por exemplo beijar, criam um ímpeto para uma excitação
posterior mais intensa, Freud concluiu que eles devem implicar um estado
de tensão. A tensão, como ele sempre sustentou, significa "desprazer", já
que impele à descarga e ao alívio. Por outro lado, não há dúvida de que
os atos em si são prazerosos e ninguém quer que o prazer tenha fim. Co­
mo resolver essa antinomia? Somente vinte anos depois Freud pôde en­
contrar alguma solução.
Nesse ponto, Freud voltou à base orgânica da excitação. A idéia de
que a pressão física nas paredes das vesículas seminais constitui uma ex­
plicação é insuficiente ante sua inaplicabilidade às crianças, às mulheres e
aos eunucos, nos quais essa pressão não existe. Assim, Freud estendeu
sen conceito de uma base química da excitação a todo o corpo, inclusive
os órgãos internos. Essa foi uma especulação que o levou para além do
conhecimento que tínhamos na época.
Havia a seguir urna parte sobre a diferenciação entre homem e mu­
lher, diferenciação que só é completada na puberdade ou após esta. A ên­
fase recai, como sempre em seus textos, na importância do impulso mas­
culino. Freud sustentava que a libido da menina é mais masculina que fe­
minina, porque sua atividade auto-erótica diz respeito predominantemente
ao clitóris. Ele fez até mesmo a obscura afirmação de que talvez toda libi­
do, sendo de natureza ativa como todos os impulsos, seja essencialmente
masculina. 1 8 Nas meninas, a nova onda de repressão que a puberdade traz
consigo afeta em particular a sexualidade clitoridiana, e o pudor e a reser­
va resultantes dela exercem especial atração sobre os homens, cuja supe­
restimação da preciosidade do objeto amado é proporcional a ela. O fato
de, no caso dos homens, o principal órgão sexual permanecer sempre o
mesmo, enquanto nas mulheres tem de ser efetuada uma transição do cli­
tóris para a vagina - transição essa que com freqüência deixa de ocorrer

- 2 94 -
-, é a razão pela qual as mulheres, tendo um desenvolvimento mais com­
plicado, são mais propensas do que os homens a problemas sexuais e a
neuroses.
Segue-se uma relevante parte sobre a importância, para a vida poste­
rior, das primeiras atitudes e experiências sexuais referentes aos pais.
Freud enfatizou o dano que pode ser acarretado por se mimar ou superex­
citar uma criança. Isso é descrito sobretudo em termos físicos e é digno de
nota como pouco se fala da importância da fantasia infantil. Sobre o co­
nhecido complexo de Édipo, Freud comentou: "o reconhecimento dele
tornou-se o ponto que distingue os adeptos da psicanálise de seus adver­
sários" . 1 9
No final do livro, há um longo resumo das partes principais de seu
conteúdo. Nele Freud chamou a atenção para um tema que o ocupou
muito em anos posteriores: a oposição entre civilização e liberdade de de­
senvolvimento sexual. Comentou também um fator de etiologia que a in­
vestigação subseqüente não confirmou. Ele observara que, em mais de
metade dos casos de psiconeurose de que tratou, o pai sofrera de sífilis .
Essa elevada proporção levou-o à conclusão de que a sífilis em um dos
pais, mesmo quando não -produzia sintomas nos filhos, afetava pernicio­
samente sua constituição sexual" e os tornava mais predispostos à neuro­
se. io
Em edições subseqüentes, foram acrescentadas extensas passagens,
entre as quais deve ser especialmente mencionada a inserção sobre "Libi­
do do Ego" na terceira edição, de 1915.
Depois de nos termos ocupado desse importante livro, podemos agora
nos voltar para vários artigos de menor importância, muitos dos quais
eram pieces d' occasion escritas a pedido.
(3) Em 12 de novembro de 1906, Freud fez uma palestra sobre "Abs­
tinência Sexual" na Sozialwissenschaftlicher Bildungsverein (Sociedade
de Educação em Ciências Sociais).c Freud expressou-se tão raramente so­
bre a interessante questão do que ele achava sobre o modo como suas no­
vas pesquisas influenciariam costumes e instituições sociais comuns que
seria muito bom conhecer o conteúdo desse pronunciamento. Infelizmen­
te, porém, tudo o que sabemos é o mero fato de ter havido a conferência.
(4) O primeiro dos artigos escritos a aparecer, sobre "O Esclareci­
mento Sexual das Crianças," 2 1 foi publicado em 1907, no periódico So­
ziale Medizin und Hygiene, a pedido de um colega de Hamburgo. 2 2 Nele
Freud foi muito duro com aqueles que duvidavam da conveniência desse
esclarecimento e citou alguns exemplos tocantes de infortúnio quando o
esclarecimento foi recusado. Seu conselho era de que ele deveria ser con­
tínuo desde o início, acompanhando a curiosidade e a inteligência da
criança. Foi nesse artigo que Freud pela primeira vez mencionou o Pe-

- 295 -
queno Hansd (com o nome de Herbert); isso foi antes de o menino ter ma­
nifestado a neurose que Freud estudou.
(5) Dois anos depois, em 12 de maio de 1909, Freud teve oportunida­
de de fazer urna exposição mais extensa de suas concepções sobre esse
assunto, no decorrer de urna discussão na Sociedade de Viena, cujos de­
talhes serão em breve publicados. Ele enfatizou determinado dano que
pode resultar do fato de se ignorar a necessidade que a criança tem de es­
clarecimento, pois desse modo a questão da sexualidade se toma em geral
inextricavelmente associada à idéia de proibição, com conseqüências de­
cisivas na vida conjugal.
(6) O artigo seguinte, intitulado "Moral Sexual Civilizada e Doença
Nervosa Moderna", foi publicado em 1908 em Sexualprobleme, continua­
ção do periódico Mutterschutz. 2 3 Foi quase a primeira incursão de Freud
no campo da sociologia, sendo inspirado em toda a sua extensão por um
temo sentimento humanitário. Era, em essência, um protesto contra exi­
gências exorbitantes da sociedade, especialmente na esfera sexual, im­
postas à vida dos indivíduos. As bases de seu protesto são tão válidas
hoje quanto na época, mas em alguns aspectos o artigo tem interesse so­
bretudo histórico. Retrata uma civilização em muitos pontos diferente da
atual e pode-se dizer que algumas das importantes mudanças no último
meio século são resultado direto do trabalho de Freud.
O ponto de partida do artigo foi um livro de Von Ehrenfels intitulado
Sexualethik (Ética Sexual). Duas de suas opiniões mais importantes são
citadas, aparentemente com aprovação: (a) A moral sexual dominante na
civilização caracteriza-se pela transferência de exigências femininas para
a vida sexual do homem, com a condenação de toda relação sexual extra­
conjugal. Isso leva a uma dupla vida moral, com más conseqüências para
a sinceridade e a humanidade. (b) A glorificação da monogamia paralisa o
processo de seleção, que é a única esperança de melhorar a constituição
humana, esperança que o humanitarismo e a higiene já reduziram a um
mínimo.
Freud então citava vários autores que se sentiam alarmados diante do
aumento de afecções neuróticas. Pintavam um quadro terrível das graves
condições de vida no início do século, o que parece estranho para aqueles
de nós que olhamos para essa época como uma época de ouro. Aparente­
mente, o mundo estava cheio de incerteza e inquietação, e a ansiedade es­
preitava por toda parte. O problema essencial era a incrível velocidade da
comunicação nessa época !
Nesse ponto Freud impôs-se a tarefa de expor um aspecto do dano
causado pela civilização que raramente era mencionado: os efeitos das
restrições à atividade sexual. No que dizia respeito às neuroses, essa era a
causa essencial. Freud admitia que as conquistas da civilização tinham si­
do alcançadas graças à supressão dos instintos, mas levantou a seguinte

- 296 -
questão: se o limite desse processo já não tinha sido atingido e se o ganho
para a civilização não estava sendo mais do que contrabalançado pela
perda por ela sofrida através do dano que ele causa. Sustentou que a ca­
pacidade de sublimação diferia consideravelmente entre pessoas diferen­
tes, mas que nunca era ilimitada; como na física, a conversão de um tipo
de energia podia produzir apenas certa quantidade da outra em que foi
transformada.
Freud falou de três fases no desenvolvimento sexual: primeiro, a fase
indiferenciada, sem relação com o processo reprodutivo; depois, a restri­
ção dele a uma atividade (genital) que pode levar à reprodução; por fim, a
restrição até mesmo desta à reprodução legítima (no casamento). Muitas
pessoas não conseguem suportar nem mesmo a primeira dessas restrições,
sendo as perversões ou as neuroses o resultado de seus esforços. A se­
gunda e a terceira são suportadas sem dano apenas por uma minoria.
Freud considerava que a abstinência total não podia ser suportada
pela maioria das pessoas sem dano a suas capacidades de iniciativa, sua
energia, sua autoconfiança ou sua saúde mental. Assim como não lhe sa­
tisfazia que apenas o casamento fornecesse uma solução satisfatória. A
perda de potência por parte do homem e a frigidez por parte da mulher
são muito mais comuns do que em geral se crê e a necessidade de medidas
anticoncepcionais leva a insatisfação ou a verdadeiro dano, de acordo
com o método usado. A existência de uma dupla moral, mesmo quando
não oficialmente reconhecida, é um reconhecimento desse estado de coi­
sas. As mulheres sofrem com a moral dominante mais do que os homens.
Apenas uma mulher mentalmente saudável pode suportar o casamento de
forma bem-sucedida. E ele não explicaria por alguma diferença biológica,
como Moebius fez, qualquer inferioridade intelectual mostrada pelas mu­
lheres como um todo, mas pela moral mais rígida imposta a elas, a qual
leva à inibição geral da capacidade de pensar, tão certamente como as
crenças religiosas.
Em suma, Freud era favorável a mudanças :revolucionárias na socie­
dade, embora assinalasse que era difícil efetuar reformas radicais em uma
única esfera. Não fez sugestões detalhadas sobre quais reformas deveriam
ser realizadas, por não ser esse o terreno de um médico, mas insistiu em
que sua experiência com as neuroses constituía poderoso argumento em
defesa da necessidade dessas reformas.
(7) O artigo seguinte, "Teorias Sexuais das Crianças" , foi publicado
no mesmo periódico e no mesmo ano. 2 • Nele Freud descrevia certas '. ' teo­
rias" típicas que as crianças são capazes de criar para satisfazer sua curio­
sidade sexual. Em sua opinião, o principal estímulo para essa curiosidade
é o medo de se ver deslocado pelo aparecimento de novos rivais e o de­
sejo de descobrir como este ocorre, de modo a ser possível evitá-lo. A ob­
servação da vida animal e das mulheres grávidas ensina às crianças que o

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bebê cresce dentro do corpo, restando então duas questões: como ele entra
e como sai. A resposta mais comum à última é a de que ele sai do reto,
resposta que com freqüência é substituída depois pela idéia mais respeitá­
vel do umbigo. Portanto, não há razão pela qual os homens não possam
ter filhos como as mulheres. De acordo com Freud, a maioria dos mer.inos
acredita, de início, que as mulheres são feitas como eles, e a descoberta
de que não é isso o que ocorre comumente se liga a seu medo de castra­
ção.
Os insistentes impulsos para diante que se verificam no pênis são
baldados pela ignorância da vagina . Do mesmo modo, a ignorância quanto
ao sêmen frustra a tentativa de descobrir o que é posto dentro das mulhe­
res para iniciar a concepção, recorrendo-se então seja à idéia de urina,
seja a algo que é engolido. Quanto à idéia de que a concepção possa re­
sultar apenas de um beijo parece ser exclusivamente feminina.
Freud então tratou um tanto extensamente da "concepção sádica do
coito" por parte da criança. Essa concepção é com freqüência confirmada
por resistências de uma mãe pouco disposta, quando a relação sexual pa­
rental é vista ou ouvida, por brigas durante o dia e pela observação de
sangue menstrual nos lençóis ou roupas.
Algumas crianças pensam que o parto se segue quase imediatamente à
relação sexual e Freud cita uma divertida história de Marcel Prévost que
ilustra isso . e
Nesse artigo Freud estava preocupado sobretudo em mostrar os efei­
tos que têm sobre a vida posterior essas frustradas especulações da infân­
cia, tendo ilustrado o tema com vários casos clínicos.
(8) O artigo seguinte, "Fantasias Histéricas e sua Relação com a Bis­
sexualidade", apareceu, também em 1908, na 'Zeitschrift für Sexualwis­
senschaft, de Hirschfeld. 2 5 Foi escrito na verdade para o Jahrbuchfür se­
xuelle Zwischenstufen, 2 6 mas justamente então o editor, Hirschfeld, fun­
dou seu novo periódico. Nele Freud enfatizou brevemenfe a importância
das fantasias na criação de sintomas psiconeuróticos. Expôs suas conclu­
sões em oito formulações, cujo conteúdo já foi comentado em outra parte
deste volume.f Acrescentou que com muita freqüência tais sintomas são
alimentados por fantasias tanto masculinas quanto femininas, embora isso
ocorra apenas em casos de longa duração. Quando isso acontece, nenhum
progresso terapêutico é alcançado até que ambos os componentes tenham
sido abordados. Freud, porém, não concordava com a postulação de Sad­
ger de que essa etiologia se apresenta em todos os casos.
(9) No mesmo ano, Freud fez sua primeira incursão na caracterologia,
com um pequeno artigo intitulado "Caráter e Erotismo Anal", publicado
na Psychiatrisch-Neurologische Wochenschrift. 27 Certamente produziu
efeito, sobretudo indesejável. A própria idéia de relacionar a excitabilida­
de erótica de determinada parte do corpo, e uma tão desprezível como

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o ânus, com aspectos espirituais como os traços de caráter parecia ser a
coisa mais ultrajante que Freud já havia feito. Nessa época, eu trabalhava
na Clínica Psiquiá