Andreas Novy BRASIL: A DES-ORDEM DA PERIFERIA: Da sociedade de escravos à ditatura do dinheiro

para Beth

Traduzido por Peter Naumann

A tradução desse livro foi subvencionada pelo Ministerio de Educação, de Ciências e Cultura do Governo Austríaco

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Sobre a amizade
Esse livro não teria sido escrito sem as muitas brasileiras e os muitos brasileiros, com os quais travei amizade nos últimos anos. A brutal realidade político-econômica seria praticamente insuportável sem os estritos vínculos emocionais com o país, a sua gente e cultura. Por isso os meus agradecimentos vão em primeiro lugar para Beth, a quem dedico este livro. Devo à ela o amor pelo Brasil e o título desse trabalho, bem como o burilamento das dimensões cultural e poética das citações traduzidas. Agradeço à Sueli Costa Dantas, Claudia e Antonio Vitte, Ingo e Ana Luger, Ana C.Fernandes, Carlos Roberto Winckler, Luiz Augusto Faria, Paul Singer, Chico de Oliveira, Clélio Campolinas, Bertha Becker, Aurílio Caiado, Dercy e Bernadette Telles, Assis e Duda, Carlos Carvalho, Fernando Michelotti, Reginaldo Castela, Jacques Demajorovic, Valeria Oliveira, Zé Mario B.Carneiro, Camilotto, Patricia Cunha, e muitos outros. Na verdade, o ponto de partida do presente livro foi a necessidade de redigir uma tese de livre-docência [Habilitation], um trabalho solitário, uma vez que se trata do maior e último exame na carreira acadêmica. Em outono de 1998 concluí as pesquisas com um trabalho sobre o tema ”Poder, espaço e desenvolvimento no Brasil”. Nos meses subsequentes dediquei-me à elaboração de uma versão em livro. A empreitada aparentemente simples, de encurtar o texto original e deixá-lo mais claro, provou ser uma tarefa que demandou um tempo não muito inferior ao da redação da própria tese. A pergunta pela forma de veiculação dos resultados centrais revelou ser muito mais do que uma mera tarefa adicional de natureza didática. Pareceu-me uma necessidade política transmitir as descobertas sobre as estruturas de modo que as perspectivas de ação não se perdessem. Embora uma tese de livre-docência seja um trabalho isolado, os limites do esforço individual saltam aos olhos. Assim o presente trabalho foi, como qualquer discurso, essencialmente influenciado por outras pessoas, representando o produto de muitas e longas amizades. Quero agradecer especialmente a Joachim Becker,. A qualidade do presente trabalho ficou essencialmente melhorada pelo seu empenho em acompanhar o autor no desenvolvimento das suas idéias. Sua solidariedade e amizade me estimularam sempre a continuar a reflexão. Johannes Jäger, Werner Raza e Vanessa Redak também contribuíram decisivamente para a formulação do presente marco de reflexões. No âmbito do projeto ”Espaço econômico e territorialidade da regulamentação política”, fomentado pela FWF sob a sigla P12378-OEK, foram elaboradas idéias definidoras do marco conceitual de uma teoria do poder espacial. Meus agradecimentos vão também para o instituto no qual trabalho, entrementes denominado ”Departamento de Desenvolvimento Urbano e Regional”, e aos dois professores que o dirigiram nesses anos: Walter Stöhr e Ed Bergman. Eles criaram para mim o espaço de amadurecimento das idéias aqui apresentadas. A Universidade de Economia, que freqüentemente se vê e é vista como uma escola de quadros executivos ou como uma espécie de Escola de Altos Estudos do Comércio, concedeu-me um espaço que não precisei conquistar e reconquistar a cada dia, mas do qual dispus por um tempo mais longo e que me permitiu continuar as reflexões na sua dimensão espacial e temporal. Diante de uma racionalidade cada vez mais míope isso não deixa de ser um privilégio, do qual tenho muita consciência. O retrospecto me permite passar em revista um grande número de pessoas e eventos que contribuíram para que pudesse levar esse trabalho a termo e aos quais estou penhorado por gratidão: a Sra. Lehner pela leitura do texto final e o seu trabalho na montagem da bibliografia, Gunther Maier pela salvação dos meus arquivos infectados por vírus, Reginaldo Castela, Christof Parnreiter, Karin Fischer, Christine Mattl e Ana Fernandes pela elaboração conjunta de artigos que entraram nesse trabalho. Agradeço a Herwig Palme, Peter Feldbauer, Andrea Komlosy, Dieter Boris, Reinhard Pirker, Johanna Hofbauer, Manfred Lueger, Leonhard Bauer, Mick Dunford e Alex Hamedinger pela leitura de versões mais antigas. Agradeço a Angela Kemper, Peter Mesch e Laura Garcia Sobreira Majer ao apoio dado pela divulgação do livro. Devo aos meus familiares, à Beth, à Marília, ao Francesco e ao Bernardo o olhar além da Economia Política. Eles relativizaram o significado de reflexões intelectuais e das transformações político-econômicas e ampliaram o horizonte da vida e sua diversidade, que normalmente se estreita na excessiva leitura de livros: o espaço, o tempo e o poder configuram uma totalidade universalmente dominante, embora não perfaçam toda a vida. Gostaria de manifestar meu agradecimento especial à Peter Naumann, que fez o seu trabalho de tradução com muita intuição e competência, proporcionando ao texto uma incrível fluidez e clareza. Estendo também meu agradecimento a Paul Singer, que acompanhou este trabalho por anos e que se ofereceu para escrever o prefácio na edição brasileira. Meus agradecimentos se estendem a minha editora vienense, Promedia e a Hannes Hofbauer, que permitirem a tradução brasileira sem nenhuma exigencia. E, finalmente, agradeço a

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Paulo Arantes. editor da coleção Zero a Esquerda. 4 . que lutou com muita dedicação para esse livro sair no Forum Social Mundial de 2002 em Porto Alegre.

..............................11 1.....1 Thomas Hobbes e o espaço de poder......15 1...............12 1..........1.........39 2.........................88 3.................1...............2 Michel Foucault e o poder sobre o espaço......3 Poder.........................................................................2 Espaço....3 Regime de acumulação e modo de regulação.......91 3...................................................................................................................................70 3 Espaço e poder no centro da periferia................... orientado segundo instâncias externas.........................1974) .....................1 História dos campos regionais do poder...................9 1............................................25 1....17 1................................................................................................94 3...........................1 São Paulo pré-capitalista (1554 -1850)............................................................................................1...............................................1 Ação e estrutura........2........3 Palco e campos...............................6 Território e espaço de entrelaçamento...........3...............................4 Tempo..................................1914).................................................1............................................20 1..................................................................................................7 1..................................18 1..............................................................................................................................................2...........................1....................................Índice 1 Poder e espaço.2 Estado e capital....................................................3.......1 O dualismo do espaço de poder e do poder sobre o espaço................1.....2 Da capital do café à cidade industrial (1850 ...................................2.............................5 Espaços político e econômico......................................................... sob dominação britânica (1822 .......................................1...........................................................................88 3.................................1.............................................39 2.................................................1 Jogos de poder......................................16 1......................................................................................1......43 2...........14 1.................................................................................................4 A metrópole necessita de uma região mundial (a partir de 1974)........................................................1 História da estrutura profunda...........................................................29 2 Construção e destruição do fator nacional no Brasil..........................................................1929)........85 3.............96 5 ............................................4 Destruição do modo de desenvolvimento centrado no estado-nação e dominação dos EUA (a partir de 1982)..................2 Modo nacional de desenvolvimento.......................49 2...........................2 Receptáculo e rede...............................33 2...............................20 1...............................................................................................1...............21 1........................................3..............................................................................3 Modo de desenvolvimento centrado no estado-nação.......56 2.........18 1.................................................. sob dominação dos EUA (1929-1982)...........................3 A capital econômica do Brasil (1914 ....................................2............1 Modo colonial de desenvolvimento sob dominação européia (1500 ..........................4 Place and Space...................................................................1822)...............2............................................19 1................2 O palco nacional do poder.......................................2.........................................

..2.............119 5 As pessoas fazem história e geografia..............................185 7...............................4 Entrevistas gravadas em fita...............................................................................................................2...2 Transformação e constância do poder sobre o espaço...............105 4 O reordenamento da des-ordem.....................................................................1 Tabelas............................................3 Globalização e fragmentação..........................2......................................................................................146 5.....................151 5...................3 Hegemonia social-liberal?............141 5......185 7............................................................2 A des-ordem do capital............137 5..............169 7.....................2 Jornais..................................1 Da des-ordem da periferia à des-ordem do capital..........................................................................1................................................................................................................................2 Centralização e descentralização...............157 7 Anexo..............................................................2 A imponderabilidade do instante..................3 O espaço de poder da cidade de São Paulo......................................143 5.......................................................................................................186 6 ............................................................................4 Os oprimidos também fazem história e geografia..........5 Siglas das organizações citadas......................................1....................................2......................................................................................................................149 5..................................1 As aparências enganam........136 5................102 3.....................................................................3........................................1 Liberalismo e intervenção do Estado..........................................1 A lenta transformação dos campos do poder ................116 4...................................................116 4....................... revistas e endereços de Internet utilizados.....................................................................................................................136 5................169 7....................................................186 7............................................1..............2 O espaço de poder do Estado de São Paulo.........146 5.....152 6 Bibliografia.3 Endereços da Internet utilizados com maior freqüência......... dos instrumentos e de outros conceitos..............................................................

Dez anos mais tarde. Como isso foi possível? Que poder logra produzir tais resultados? Aos meus olhos. testemunha isso de modo eloqüente. Lula perdeu por margem escassa. mas eis que chega a roda-viva e carrega o destino prá la (de ”Roda Viva” de Chico Buarque) Fazer a história e não apenas sofrer um destino: eis a esperança que o conhecido compositor brasileiro Chico Buarque provavelmente não é o único a nutrir. muitas pessoas nutriam esperanças com vistas a uma transformação social profunda. O orgulho estamental da mentalidade escravagista. Esse duplo papel de poder/impotência radica em uma dupla espacialidade: o latifundiário age in loco e está inserido em uma estrutura espacial (nacional e global) mais ampla. a renovada derrota eleitoral de Lula em 1994 foi um corte na história.1 Poder e espaço ”A gente quer ter voz ativa. mas perdeu. conscientes da sua impotência no plano internacional. os melhores representantes do universo artístico e a oposição intelectualizada. contaminado por um raciocínio capitalista orientado segundo o benefício individual. Gerenciam uma situação social sempre precária in loco. ainda que seja apenas em áreas parciais ou no plano simbólico. O preço disso é a eliminação da estrutura existente do foco da atenção. Movimentos de bairros periféricos 7 . mas sem um Pinochet. para tomarem o seu destino nas próprias mãos. Com o presente trabalho apresento um marco analítico para compreender esses processos. tornarem-se sujeitos da transformação da sociedade. Ainda hoje encontramos na mídia notícias sobre a fome que assola regiões inteiras. O próprio latifundiário na região da seca do Nordeste se vê constantemente ameaçado pelo descenso social. Trata-se da tentativa dos brasileiros que têm um lugar ao sol de continuarem como parceiros menores dos dominadores dos países centrais e de continuar assim participando do universo de mercadorias do capitalismo. no qual o torneiro mecânico Lula quase chegou à presidência. resulta em uma forma especialmente ruim de dominação. As pessoas elevam sempre de novo a sua voz para determinarem o seu destino. No Brasil. Em 1989 tive oportunidade de acompanhar diretamente a campanha para as eleições presidenciais e sentir o entusiasmo com o qual milhões de brasileiros e brasileiras se valiam do palco dos embates eleitorais depois de décadas de ditadura. Reconheci que o establishment não deseja nenhuma mudança que afete a hierarquia social. O poder parecia crescentemente estar domiciliado alhures. Não obstante. na qual ele não tem vez nem voz. pelas estruturas de poder. A periferia das cidades. de possibilidades e de mudanças. da ilusão de poder promover a mudança dentro de espaços de tempo relativamente breves. por meio dos quais os oprimidos sobem ao palco da vida pública. Esse livro reflete a perda de uma ilusão. Por que não se pode mobilizar os recursos modestos para evitar ao menos as piores excrescências desse sistema? Vista na perspectiva dos dominadores locais. os agricultores sem-terra do interior. o fenômeno da obesidade em crianças brasileiras e os recordes de venda no setor automobilístico. todos eles faziam estremecer as bases da velha ordem. evitando assim transformações radicais do status quo. que passam por cima delas como um rolo compressor. esses movimentos sociais. as pessoas perderam o interesse por esse palco. a raiva se mistura à desilusão: nos anos 90 não houve nem necessidade de apelar aos militares para enterrar o sonho da transformação. Ocorreu uma destruição à la Pinochet. um lugar apenas subordinado. XX. na retrospectiva. em escala mundial. constituem os grandes momentos da história. Exemplos disso são os quilombos. E sempre de novo as suas esperanças são aplastadas pelo sistema. ”campeão mundial da desigualdade da renda”. Perguntamo-nos pelas razões pelas quais isso ainda é possível no fim do séc. O Brasil. Os dominadores da periferia constróem as suas estratégias de poder in loco. os projetos de ocupação de terras ou as reservas indígenas e extrativistas na Amazônia. ao qual ele foi arrastado por más colheitas? Na sua região ele domina. Quando descobri o Brasil. Mas os desapoderados e oprimidos freqüentemente também preferem agir in loco a transformar as estruturas que transcendem os seus espaços. sobre a escravidão e frentes de trabalho diretamente ao lado do noticiário sobre telefones celulares. o país era cenário de transformações. Como arrumar o dinheiro para que seus filhos possam freqüentar a universidade? Como sair do círculo diabolicamente vicioso dos juros usurários. Nesse momento. os anos 80 foram uma década de esperanças por transformações profundas em uma das sociedades mais injustas do mundo. mas as estruturas lhe indicam. no nosso destino mandar. Depois disso não houve mais outra campanha semelhante. tal ação aparentemente irracional tem cabal racionalidade.

Ela é de natureza estrutural. dominante nos tempos de então como da atualidade. as crises nas bolsas e as crises monetárias. depois de séculos de obediente subordinação. como relações sociais orgânicas que oneram o desenvolvimento presente. Essa estratégia da transformação controlada. como ” duro cimento” (Furtado 1997b: 50). que trabalhou sob a direção de Raul Prebisch. que essa estrutura da periferia representa uma des-ordem comhífen. Mas a história mostra.também lutam mais eficazmente por uma nova escola no seu bairro do que por uma nova política educacional. conforme afirmou a crítica do ”falso universalismo” da teoria econômica (Furtado 1997c: 12). mudam tão-somente a sua forma. Tais desequilíbrios econômicos resultam da interação do Brasil com o sistema mundial capitalista. os proprietários de terras. então dominante: o que pode ser bom para o centro.no período da ditadura militar uma denominação cifrada da pesquisa em Economia Política ou da pesquisa marxista . in becoming a hegemonic world power. A des-ordem tem raízes espaciais e sociais. Karl Marx afirmou certa vez que ”o país industrialmente mais desenvolvido exibe ao menos desenvolvido apenas a imagem o próprio futuro” (Marx 1983: 13). da tentativa de compreender o presente por meio da consideração do passado. Faletto 1979: 21) e viram as raízes do subdesenvolvimento na estrutura capitalista da economia mundial. Elas não viam o espaço da América Latina apenas como uma região geográfica. drew up a special code for the region involving more direct and open control. a acumulação da riqueza no centro. Em tais enfoques as estruturas são compreendidas como o ”fardo do passado”. englisch: ECLA – Economic Commission for Latin America. os atacadistas e os industriais. Em tais casos a ação se reduz à correção das desordens. mas correlacionavam-no com uma estrutura sócio-econômica específica2. fundou o estruturalismo (também como cepalismo) como uma teoria econômica que questionou apenas hipóteses isoladas do mainstream.uma des-ordem . a América Latina começou depois da Segunda Guerra Mundial. Os sismos que provocam a queda dos preços. a estabilidade do país assenta em pés de barro. ao passo que a estrutura global parece estar muito distante e opressivamente poderosa. o caos e o acirramento da desordem foram as conseqüências. para que a desordem do Brasil seja superada. as trabalhadoras devem ter maiores direitos de cogestão e os agricultores devem receber créditos mais favoráveis. parece ser sedutora e não obstante é substancialmente responsável pela miséria atual. a industrialização no centro. the problems created by the belated process of industrialisation. Para compreender esse desastre contemporâneo. dotado de uma estrutura social estável: no andar de cima. baseada em pequenas transformações. Furtado (1997a) descreve na sua autobiografia a história dos primeiros anos da CEPAL. As relações de centro e periferia não se dissolvem no processo evolutivo. Lehmann 1990. O cepalismo e as teorias latino-americanas que o criticaram3 distinguiram-se na sua concepção de espaço. A crise orçamentária. é um escândalo que clama pela transformação. O Brasil não se encontra uma etapa atrás. no andar de baixo a população trabalhadora. ele encarna o outro lado da mesma moeda. 3 A CEPAL. 8 . É certo que ela cria no Brasil um território ordenado. nesse enfoque teórico.radicalizaram a crítica do estruturalismo (Cardoso. faz-se necessário um olhar sobre o passado. mas também parte do espaço de entrelaçamentos da economia mundial capitalista. das coisas que saíram do prumo. Trata-se.estreita fortemente os espaços de ação in loco dos atores. (cf. Por isso é um erro acreditar que só é necessário tomar essa ou aquela medida. Como o Brasil não é apenas um território no qual os seus detentores do poder dominam soberanamente. and the evolution of its relations with the United States which. Essa estrutura consolidada . while at the same time requiring increased co-operation among countries in the area” (Furtado 1976: 3). As relações de 1 Comisión Económica para America Latina. sacodem a ordem brasileira tão regularmente que parece adequado falar de uma des-ordem. A extração de ouro na periferia. mas simplesmente está em cada período histórico em uma posição distinta. Cedo instrumentalizada em periferia. A injustiça local é perceptível. Ao mesmo tempo a crise. O estado deve investir mais em escolas. Mas na realidade os centros do mundo só exibem ao mundo restante a imagem muito parcial do seu próprio futuro: o Brasil de hoje de modo nenhum é a Áustria de 20 anos ou os EUA de 40 anos atrás. Justamente os últimos presidentes do Brasil assumiram seu cargo na intenção de superar a desordem e modernizar o Brasil. de modo algum necessita sê-lo também para a periferia. a crise inflacionária e a crise do balanço de pagamentos acompanham a aparente estabilidade da estrutura social do Brasil. No decorrer dos séculos cimentou-se na relação entre o Brasil e o mundo uma hierarquia espacial de centro e periferia. a contestar a benção universal do modelo liberal de desenvolvimento. Kay 1989). A teoria da dependência ou o enfoque histórico-estrutural . a agricultura na periferia. No âmbito da Comissão da ONU para o Desenvolvimento da América Latina (CEPAL1) surgiram a partir dos anos 50 produções teóricas autônomas. tempo e poder essencialmente do paradigma liberal e modernizador. Mas os dados econômicos desse território estão regularmente fora de prumo. por meio das suas numerosas tentativas fracassadas de transformar duradouramente a desordem. os banqueiros. 2 ”Latin America” ceased to be a geographical term and became a historical reality as a result of the break in the traditional pattern of the international division of labour.

a uma idéia central da ciência do espaço: o mesmo progresso técnico e a mesma orientação da economia de mercado conduzem em espaços distintos a resultados distintos. 5 Uma análise contextual (Cardoso. Há uma contradição entre a nação enquanto território com um sistema interno de poder. mas também a sua própria geografia. Mas isso significa superestimar grandemente as margens da ação política. subtraindo ao detentor do poder os recursos necessários. A estrutura mais profunda do poder sobre o espaço pode impedir as medidas ”mais racionais” na área social. O segundo aspecto insuficientemente considerado pela teoria latino-americana é o problema do poder. Como já indicia a imagem da raiz. portanto. Nesse sentido. 1. uma reserva. não apenas como desvio de uma norma5. produzem uma inflexão no curso da história e criam simultaneamente um novo espaço. Uma política reformista seria. seja por via da fuga de capitais. Embora Furtado considere a sua obra econômica claramente também como história econômica. Com base no grande número de estudos existentes efetua-se uma reinterpretação do Brasil que parte da hipótese de que as pessoas em determinadas estruturas não fazem apenas a sua história. Não obstante.g. a historiografia e a geografia” (Giddens 1988: 34s. em virtude de situações sociais específicas (Cardoso 1993: 38). Assim um presidente bem assessorado poderia tomar medidas para reduzir a desordem no seu território. por um lado. a dependência das importações trava a industrialização. de um rastreamento das origens. na qual o desmatamento e a expulsão não são mais possíveis. O detentor do poder operaria assim a engrenagem da engenharia social e provocaria um resultado determinado. Uma análise histórico-geográfica do poder6 não se cinge à superfície dos fenômenos. um modo de ver o Estado que atribui a este o poder sobre um território. mas deve ir até as ”raízes” dos problemas sociais. não poderemos fugir à necessidade de refletir novamente sobre as fronteiras entre a sociologia. por outro lado (Cardoso. A colocação da resistência e do empoderamento (empowerment) no centro da análise da sociedade exige uma análise do tempo e do espaço que seja ”radical” no sentido originário da palavra. as estruturas das estruturas sociais. a uma mecânica simplista. 6 ”Se colocarmos a problemática do espaço e do tempo no centro da teoria social. O respectivo contexto conduz também no caso dos mesmos desenvolvimentos globais a resultados concretos distintos: o desenvolvimento desigual é parte da dinâmica de economias capitalistas. Remete. Faletto 1979: 37). o escravismo impede o desenvolvimento democrático. seja pela da sonegação de impostos. Uma análise do poder não pode reproduzir tão-somente em termos objetivos a superfície do status quo. Faletto 1979: 38) distingue o estruturalismo latino-americano do mainstream econômico: o tema central foi ”the distinctiveness of development paths in the periphery and the leading role of the state in an industrialization process” (Lehmann 1990: 3). No entanto.1 O dualismo do espaço de poder e do poder sobre o espaço Os dois conceitos centrais nesse trabalho. disponibiliza serviços sociais e possibilita uma modernização cultural. mas este permanece estranhamente secundário.). e. seria talvez difícil para ele perceber a sua produção teórica como um trabalho no campo da geografia econômica. as fases do desenvolvimento sócio-econômico sobrepõem-se como camadas. Furtado (1997b: 21) distingue claramente entre um poder pessoal e um poder sistêmico e localiza o poder decisório sobre os desenvolvimentos estruturais no estado-nação.propriedade fundiária são um empecilho para a agricultura. uma política que investe nos âmbitos de um espaço de poder na infraestrutura. Se os seringueiros resistem à derrubada da floresta tropical e impõem a criação de reservas extrativistas. trata-se de uma empreitada historiográfica. pois ”o morto agarra o vivo” (Marx 1983: 15). por conseguinte. e da empreitada geográfica de uma pesquisa nas profundezas (Giddens 1988: 422). reduz o poder ao seu ”exercício”. esses enfoques contêm descobertas centrais da ciência do espaço. e o processo global da inserção em uma estrutura dominada pelos centros. têm pouco a ver um com o outro na rotina concreta da ciência. pois a ação consciente dos detentores do poder produz conseqüências não-intencionais. mas revela as profundezas. à frente de todas a relação entre centro e periferia em escala mundial. segundo a qual o detentor do poder ”dá ordens” aos seus subordinados. 9 . mais especificamente. brasileiro. O primeiro propósito da presente interpretação é mostrar a espacialidade do desenvolvimento histórico-estrutural4. Com isso está definido o marco conceitual de uma análise do espaço e do poder no Brasil. o enfoque histórico-estrutural não elimina de foco o espaço. a história determina a margem de ação na atualidade. pois as teorias do espaço e do poder se correlacionam com duas áreas de pesquisa praticamente não4 Por um lado. espaço e poder. O estruturalismo busca fixar a especificidade do desenvolvimento latino-americano e.

o poder atua por meio de campos e estruturas que normatizam a vida cotidiana. objetivismo e subjetivismo. o poder pessoal é localizado ”bem em cima”. as fronteiras do espaço de poder no Brasil sempre foram altamente políticas. Conflitos essenciais na história do Brasil tiveram por objeto a pergunta pelo significado que a fronteira tem para a troca de mercadorias. a Ciência da Região. Ao passo que na Europa a fronteira enquanto barreira da migração de pessoas está em primeiro plano. a fronteira no caso do Brasil. Tabela 1: O dualismo clássico de espaço e poder em Hobbes e Foucault ESPAÇO DE PODER Hobbes Quem tem poder onde? Território Receptáculo ”palco” PODER SOBRE O ESPAÇO Foucault Como o poder atua onde? espaço de entrelaçamento redes ”campo” Pergunta: Concepções fundamentais da teoria do espaço: Lugar do conflito: 7 De um lado. criar um marco teórico. Hobbes e a sua mecânica do poder. Hamedinger 1998). De acordo com essa visão. na esteira do Leviatã de Hobbes. exerce soberanamente o poder. Bernstein (1983: 16) localiza a raiz desse pensamento dicotômico em Descartes e na sua busca do ponto arquimédico. refere-se essencialmente à delimitação econômica da nação com relação ao mercado mundial. A análise concreta do Brasil tratará sempre de novo de todas essas questões. Michel Foucault empenhou-se em toda a sua vida em criticar essa concepção do poder. a transferência de capitais e tecnologias e o mercado monetário e financeiro. 8 As explanações subseqüentes não cogitam oferecer uma visão de conjunto das teorias do poder (cf. de outro. questões de poder são pensadas mediante a inclusão da perspectiva espacial8. nem efetuar uma análise historicamente exaustiva a seu respeito (cf. Isso não parece habitual. da nação. O soberano. a Sociologia e a Ciência Política. Contrapôs ao Leviatã o panopticon de Bentham como imagem orientadora [Leitbild] do poder. universal e concreto. Para facilitar a familiarização com a problemática de espaço e poder. Na contraposição dessas teorias as grandes tradições do pensamento são resumidas de forma simples e simplificada. para que no seu âmbito a ação possa transcorrer de acordo com regras determinadas. quantitativo e qualitativo determinam o pensamento científico. As dicotomias de estrutura e ação. eis o modelo padrão da mecânica do poder. impõe às outras pessoas na sua área de influência a sua vontade. que permanece fixo. Mas na presente análise o espaço e o poder são conceitualizadas como unidade dialética. é. Enquanto conflitos sobre a orientação segundo instâncias internas e a orientação segundo instâncias externas. como poder sobre o espaço e espaço de poder.interligadas7. à exceção de John Friedmann (ver. um ator. Mas preliminarmente é mister ordenar as distintas concepções de espaço e poder. no caso o Estado. i. Comumente nunca encontramos referência a questões de poder em trabalhos de Ciência da Região. o poderoso. Friedmann 1992). A criação de um espaço de poder representa a tentativa de atores sociais de delimitar um determinado espaço. embora Arquimedes levante o universo. quero contrastar em termos dualistas duas modalidades de acesso fundamentalmente distintas. Michel Foucault é o grande pensador de enfoques da teoria do poder que se orientam segundo a estrutura. que posteriormente deverão ser encaminhadas em uma relação dialética (cf. O estado-nação é indubitavelmente o receptáculo clássico do poder. Vitórias e derrotas freqüentemente dependiam essencialmente da constituição ou do esvaziamento das fronteiras. Essa é a imagem clássica do Leviatã hobbesiano. Não importa quem se localiza no ”topo” dessas estruturas. Thomas Hobbes é o primeiro pensador dos enfoques da teoria do poder que se orientam pela ação. embora inconscientemente ocorra com muita freqüência. para tal Clegg 1989). Por sua vez. 9 Não somente as teorias do poder. as disciplinas que se ocupam teoricamente com o poder dedicam-se só raramente aos fenômenos empíricos relevantes para a Ciência do Espaço. para que se possa compreender melhor tanto a atuação do espaço como a do poder. mas o pensamento ocidental na sua totalidade caracterizam-se pelo seu raciocínio em dicotomias. entre outros. conforme a tabela seguinte ilustra9. No sentido tradicional do termo. 10 . Foucault e os seus campos do poder representam de forma sensorialmente compreensível [anschaulich] dois enfoques opostos para a compreensão do poder. Nos limites de um espaço. para tal Mann 1986). mas ela é também a concepção de poder e espaço em torno na qual se entrelaçam em grande parte a teoria econômica e a Ciência Política. Descobertas na teoria do poder são confrontadas com a problemática do espaço. Delimita-se um espaço para que a ação possa ter eficácia nele.

baseadas no princípio do movimento” (Bauer. observável (Lukes 1977: 12).concepções fundamentais da teoria do poder: Metódica Leviatã como corpo Mecânica do poder Atores Quantitativa panopticon como estrutura campos de poder estrutura/práticas pluralismo de métodos Fonte: Sistema desenvolvido pelo autor. na esteira de Clegg 1989: 34 1. Tal centro soberano do poder ”deve ser instituído como construção teórica que canaliza a satisfação dos desejos e das paixões. o poder é fundamentalmente inerente a todos os indivíduos. a curva da distribuição da riqueza apresenta muito poucas modificações entre uma época e outra. indivisível e indelegável (Hobbes 1996: 136 ss. ”Nas nossas sociedades. Nesse modelo de causalidade os recursos têm um papel chave. ”contra a vontade desta”. possuí-lo.. sovereign political forces” (Clegg 1989: 159). defensores progressistas da mecânica do poder como Bachratz e Baratz (1977) criticam essa concepção elitista. o espaço afunda na desordem e no caos. para poderem impor a sua vontade aos outros. Para Pareto o lugar no topo da pirâmide social é reduzido. no 10 Como os seres humanos por sua natureza sempre buscam o poder. A forma da curva de modo nenhum é produto do acaso. na linguagem cotidiana. Temos. Por um lado. tomada em si. popularidade. uma espécie de pião. Para ele. Ela provavelmente depende da distribuição dos traços distintivos fisiológicos e psicológicos dos seres humanos” (Pareto 1975: 111f. por isso só poucos lograriam atingi-lo. sendo que estas ocorrem na intenção de mover outros a uma determinada ação11.1 Thomas Hobbes e o espaço de poder Thomas Hobbes é o analista clássico do espaço de poder. Mesmo os interessados na transformação da sociedade quase nunca tocam essa concepção de poder e espaço. Assim tiveram relevância as perguntas sobre quem detém o poder. na realidade. querem tão-somente influenciar os comandos do poder nesse espaço em seu benefício. as pessoas têm poder sobre outras (Clegg 1989: 41). 11 . controle sobre empregos ou informação. o indivíduo é um átomo social. um animal artificial. impeli-la em uma determinada direção. Uma relação de poder é como a relação entre bolas de bilhar: assim como uma bola de bilhar toca a outra e pode. Mesmo nas dimensões miúdas do cotidiano as pessoas imitam esse poder. 11 Cada átomo dispõe de poder. o seu ”preço” no mercado de trabalho (Hobbes 1996: 7).). é ator no jogo do poder. Sem o poder do soberano. A nação enquanto espaço e o Estado enquanto poder constituem o espaço clássico do poder enquanto concepção de mecânica. Ocorrem. as recompensas e a punição como os nervos e assim por diante. Esse Estado é decomposto em seus elementos individuais e concebido como corpo: o soberano como a sua alma. para continuar usando a imagem das bolas de bilhar. O seu poder é absoluto. se há um ou vários centros de poder e onde o poder está localizado. Os ricos ocupam o topo. a causa e o efeito. os funcionários como as suas articulações. O Estado é uma poderosa máquina. O poder parte então das ações de indivíduos. Grande parte das discussões sobre o poder na teoria política do séc. Para Hobbes o poder é tão central que o poder inerente a uma pessoa também determina o seu valor. Teóricos antidemocráticos como Pareto representam aqui a dominação de uma minoria como fenômeno inevitável (Clegg 1989: 46-48). ”tê”-lo. Mas há no espaço do poder apenas um ator que pode agir soberanamente: o Estado é o poder. Para ter ”poder”. sejam eles dinheiro. o poder é visto como ”something possessed by unitary. Matis 1988: 399). XX pode ser compreendida como variações sobre o modelo fundamental de Hobbes. O seu modo de aproximação forma a base da compreensão do espaço e do poder enquanto espaço de poder. No centro de uma análise em termos de mecânica do poder estão os atores e o seu comportamento concreto.. Os ricos são os poderosos e eles também são os que via de regra têm as necessidades mais exigentes. Citado in: Lukes 1977: 11). isso é certo.)10. A definição de poder de Dahl também se conforma pertinentemente à tradição liberal: ”A has power over B to the extent that he can get B to do something B would not otherwise do” (Dahl.1. na ”guerra de todos contra todos” (Hobbes 1996: 96)... os pobres estão na base. precisa-se controlar esse Estado. Até hoje as teorias do poder na tradição hobbesiana são caudatárias da visão do poder como um lugar a partir do qual se domina soberanamente. resultaria um estado manifesto de guerra em uma sociedade sem centralização do monopólio do poder-violência. uma bola que empurra e outra que é empurrada. o ”Leviatã” que pode domar o egoísmo dos indivíduos e produzir a unidade do Estado e do território. O que foi denominado pirâmide social é. independente e claramente delimitado com relação ao mundo exterior.

por vezes também a formação de novas elites. Valores predominantes. mas também na falta de práxis política e na compreensão não-estruturada da sociedade (Clegg 1989: 109). tais enfoques críticos já representam acessos que lançam uma ponte para um conceito estrutural do poder. existe apenas como desejo piedoso na cabeça dos teóricos” (Pareto 1975: 286). chega-se ao confronto direto dos interesses. sem ‘máquina’ política. Mas com isso ele não se desmascara como estruturalista. Embora ainda tributários da mecânica do poder. O poder atua ubiquamente.freqüentemente como espaços de 12 ”Um regime ao qual o povo impõe a sua ‘vontade’ .nas margens da ação individual em meio a uma estrutura poderosa. rituais e procedimentos institucionais (”regras do jogo”) produzem efeitos sistemáticos e em si coerentes em benefício de determinadas pessoas e grupos (Bachrach.entanto.e dominar o espaço do poder constituem exemplos plásticos de tentativas fracassadas de implementação prática.2 Michel Foucault e o poder sobre o espaço Michel Foucault tornou-se célebre como filósofo que proclamou a morte do sujeito. Depende muito das capacidades organizacionais dos indivíduos como eles se comportam diante de todos esses obstáculos. Aqui ele não tem nenhuma definição a oferecer.e cada vez mais. intrigas e cliques. sem ser exercido. Contra tal visão do poder e do espaço Foucault mostra as vantagens de se pensar o espaço e o poder como poder sobre o espaço14. Muito pelo contrário. Por essa razão é necessário desnudar num primeiro passo e sem quaisquer considerações o poder da estrutura. acontecimentos não-ocorridos podem pretender estatuto de causa. As numerosas tentativas de conquistar o poder . assim como os sons e os odores possuem cores e os sentimentos um peso” e Bourdieu (1997: 106) constata que ”o mundo social pode ser concebido como espaço multidimensional”. não-decisões dizem respeito a tais campos que não puderam ser problematizados. 12 . Somente depois da barreira da problematização ter sido transposta. mas descreve o poder e o espaço . As razões disso estão na apatia.).g. Como a estrutura do poder é uma ordem natural. 13 De acordo com essa visão. Para ele o espaço não é. não em soluções baseadas na força das armas12: o galho progressista da mecânica do poder mantém-se por inércia contra a visão elitista edulcorante da existência de relações latentes de poder. O ponto de partida dessa crítica é o modelo da mecânica do poder. No pensamento político e na análise política a cabeça do rei ainda não rolou” (Foucault 1983: 110).supondo. à medida do seu envelhecimento . quando os dominados esperam que os dominantes reajam com medidas contrárias desagradáveis. mas não concedendo-se que ele a tenha -. pois a análise social é para ele a análise do espaço. de um espaço de poder no qual o soberano presumidamente governa. Foucault está profundamente enraizado na tradição francesa da preferência por metáforas espaciais. por meio da ”mobilização de preconceitos”. a abstenção nas e a não-participação das decisões por parte dos oprimidos. pois antes de um interesse ser desconsiderado há uma série de outras formas mais sutis que impedem a eclosão de um conflito aberto. o fator social significa essencialmente o espaço. mudanças com relação a quem concretamente ocupa a posição no topo da pirâmide social. Tal articulação é improvável. Por isso o interesse das investigações de Foucault concentrou-se .vale dizer. e. no fatalismo e na resignação das camadas inferiores. se eles apesar disso verbalizam problemas desagradáveis para os dominantes. mas parte essencial dessa ação. 1. o Estado . como no discurso liberal da tradição anglo-saxã. Assim se pode evitar que as pessoas tomem consciência das suas necessidades e articulem-nas enquanto interesses privados no espaço público. A crítica da mecânica newtoniana por Foucault vai de mãos dadas com um interesse novo pelas diferentes dimensões e aspectos do espaço. pois no interior da elite sempre há mudanças. ”No fundo a representação do poder permaneceu por cima das diferentes épocas e dos diferentes objetivos sob a influência da monarquia. Pareto se posiciona também criticamente diante da democracia que aposta em soluções consensuais de conflitos. Assim o espaço é fundamental para toda e qualquer forma de vida em sociedade e para todo e qualquer exercício do poder (Schmid 1991: 203f. uma dimensão da ação social. O pensamento de Foucault não pode ser imaginado sem o espaço. não se coloca contra a individualidade enquanto tal. percebidos como tais pelos dominantes. Quando Lévi-Strauss (1996: 113) afirma que ”o espaço possui o seu valor próprio. ao entrechoque das bolas de bilhar.1. o que leva os oprimidos ao silêncio. Na discussão pública constata-se sempre uma unilateralidade (bias) na direção de determinadas questões ou na vontade de solucionar certos problemas. Por outro lado. 14 Mas também com referência ao espaço não é simples obrigar Foucault a assumir uma posição inequívoca. Baratz 1977: 78). Exemplos de não-decisões no caso de problemas em si importantes são a atitude social de ”não dar ouvidos” a exigências de grupos impotentes. pois eles esperam uma resistência violenta (Clegg 1989: 83)13. reconhecemos a importância que o espaço ocupa no pensamento dessa Grande Nation altamente centralizada. ele tem apenas reservas contra a superestimação errônea da pessoa enquanto independente do seu ambiente social.

subjacente a essa formação de poder e conhecimento. ou talvez precisamente por causa disso. O espaço de poder é algo dado e as pessoas precisam adaptar-se a ele. 13 . encorajar. O panopticon constitui um poder sobre o espaço que produz um efeito orientador da ação. E apesar disso. Ele não pode ser simplesmente redesenhado pelos detentores do poder. e rejeita o individualismo metodológico. mas ele é determinado por forças estruturais não imediatamente reconhecíveis. O poder. escola. não é algo que proibe a ação alheia. uma torre com pequenas celas nas margens e uma sala de controle no centro. Por um lado. instituições. Por outro lado. O poder sobre o espaço pode criar as condições para que os detentores do poder possam dominar. regras. ”Onde há poder. Ele mobiliza. este é constituído assim e não diferentemente. mas em ele estimular.)15. Um panopticon pode desempenhar funções distintas (prisão. As transformações não ocorrem em decorrência das posições de poder serem ocupadas por pessoas ”melhores”. O panopticon. i. Gráfico 1: O panopticon Fonte: Foucault 1977: Ilustr. forçar a vender a força de trabalho à uma empresa. Por isso Foucault critica a construção do sujeito da Idade Moderna como um ser que pensa e age com autonomia. mas é produtivo e estimula à ação (Foucault 1977: 250). diante de quem o detém (Deleuze 1992: 19).poder geograficamente concretos. Da mesma forma. ”pois uma práxis discursiva forma o conhecimento. não consiste tanto em ele oprimir as massas trabalhadoras. que primeiro precisam ser trazidas à superfície. Por um lado existe um espaço de poder. constitui esse novo tipo de espaço de poder (Foucault 1977: 256 ss.e isso em muito mais áreas do que nas situaçõespadrão da opressão. o poder sobre o espaço é uma força estrutural que solapa sempre de novo esse empenho da territorialização. é. Trata-se de um poder estrutural. muito pelo contrário. em utilizar a energia e criatividade em benefício de uma empresa. desvalorizam e destroem os espaços de poder. Por isso a pergunta por quem exerce o poder é irrelevante. espaço. o ”poder de definição”. mas ele pode também solapar espaços de poder a tal ponto que o poder se parece dissolver: Getúlio Vargas teve poder. inexiste dentro dos limites desse espaço de poder a possibilidade a ação autônoma. 16 Aqui podemos distinguir dois momentos. No âmbito do presente trabalho falo de poder sobre o espaço quando me refiro às forças que criam. Foucault descreve os espaços e os poderes para pô-los a nu . ”mas uma rede complexa de elementos distintos muros. Schmid 1991: 56). tornado ”mais humano” ou ”adaptado às necessidades”. a 15 Assim o médico ganha em importância com a mudança da função do hospital e o hospital se transforma em lugar de formação do conhecimento . há resistência.). que fundamenta as relações de poder. No ordenamento arquitetônico concreto do panopticon são atribuídos determinados espaços às pessoas que nele se movem (ou são obrigadas a se movimentar nele). padronizadora e disciplinadora. O poder sobre o espaço atua como força normalizadora. Por isso tanto a política do cotidiano como também a micropolítica entram mais no nosso campo de visão. compreendido como poder sobre o espaço. Como Foucault rejeita o modelo da soberania.referido à disciplina médica. ele não admite mais a existência de um ”centro do poder” nem um centro das forças. 17 Ao passo que a criação de espaços de poder é determinada pelo empenho em criar um espaço no qual se possa agir. constroem. a escola enquanto aparelho examinador em função permanente” (Foucault 1977: 240) transforma-se no lugar de elaboração da pedagogia. Num jogo de vaivém o poder adquire um conhecimento que por sua vez fundamenta os direitos desse poder (cf. um poder especialmente poderoso sobre o espaço. reforçam. Qualquer pessoa pode chegar e cumprir uma função de controle na torre central do panopticon. nele fundamentado. o primado cabe ao lugar. Assim num acampamento enquanto espaço de poder militarmente determinado predomina uma determinada organização do espaço. Foucault analisa as relações de poder nas quais o poder e o conhecimento atuam conjuntamente em práticas concretas (Foucault 1983: 113 s. O poder do capital. Diferentemente de Hobbes. O conhecimento está assim indissoluvelmente ligado ao poder. José Sarney administrou uma estrutura. discursos” (Foucault 1977: 395). Foucault mostra as rupturas e casualidades que possibilitaram a formação de espaços de poder e do poder estrutural. hospital ou fábrica). o conhecimento constitui um capital e com base nele a legitimação para abrir para si o acesso a outras áreas do conhecimento e campos ainda inexplorados ou a serem explorados mais detalhadamente” (Krasmann 1995: 246). O poder é inerente à estrutura e é ela que produz as realidades. pois o conhecimento produz um poder cada vez maior16.

interessadas ou dispostas ao sacrifício -. Além disso Foucault analisa no espaço de entrelaçamento as distribuições sem poder explicar a estrutura dessas distribuições.. que são pontos. violentas. Com isso o poder enquanto poder sobre o espaço dispõe do potencial de solapar todo e qualquer poder sobre o espaço que se queira constituir autonomamente diante do poder sobre o espaço.resistência nunca está fora do poder. subalternas. o próximo com o segundo. No entanto.. O palco do poder.possíveis..e Foucault não insiste suficientemente nisso . Há resistências isoladas . a lei pura do revolucionário. A partir de agora um enfoque dialético deverá estar no primeiro plano. Em ambos. Ao invés disso. Essa é uma das razões.g. pela qual o trabalho de Foucault permanece excessivamente vago para análises concretas do poder. Assim também o poder sobre o espaço de Foucault não está inteiramente subtraído ao alcance da ação. sendo que essa dialética se referirá tanto ao vaivém entre um poder localizado e um poder translocal quanto ao vaivém entre espaço e poder.2 Espaço Até agora apresentei a relação entre espaço de poder e poder sobre espaço como um dualismo. que só podem existir no campo estratégico das relações de poder. cristalizando-se ocasionalmente em de modo duradouro em grupos ou indivíduos” (Foucault 1983: 116 s. Em conexão com isso. Estruturas são formas consolidadas como prédios. 17 Foucault usa ocasionalmente metáforas espaciais apenas para tornar plausíveis determinados fenômenos. pode-se falar quase de uma obsessão nesse tocante. o ponto focal de todas as rebeliões. distribuídos em densidade maior ou menor sobre o espaço e o tempo. O poder cria um espaço de entrelaçamento que correlaciona hierarquicamente diferentes espaços parciais. tão importante para conflitos em torno da mecânica do poder. necessárias. mas elas não foram dimensionadas ad aeternitatem.de demolir as paredes ou incendiar o panopticon. A torre de controle domina as celas à margem do panopticon. dispostas ao compromisso.). A perspectiva que provará ser mais útil nesse contexto refere-se a uma regulamentação do território e do espaço de entrelaçamento.a alma da revolta. os habitantes têm inversamente a possilidade . 14 . O presente capítulo lida com o primeiro movimento em vaivém. A teorização sobre o poder bem como a sobre o espaço carecem de aprofundamento. Foucault refere-se também ao espaço geográfico concreto. nas suas margens os habitantes adaptam-se a uma norma previamente dada. semelhante ao de uma rede17. e. Por isso o trabalho presente não se referirá explicitamente nem a Hobbes nem a Foucault. nós e focos de resistência. Assim o poder resulta de distribuições e alcances diferentes de práticas discursivas e organizacionais. não desempenha nenhum papel no pensamento de Foucault.. no panopticon ou nos acampamentos (Foucault 1977). 1. inconciliáveis. Na torre de controle do panopticon juntam-se os fios do poder. ele analisa o ordenamento das práticas em um campo de poder. decerto não a menos importante. que nas suas análises consegue operar também sem o conceito do território como espaço delimitado de poder. o vaivém será apresentado sob diferentes facetas e com diferentes concepções. Esses pontos de resistência estão presentes em todos os lugares da rede do poder. Por isso inexiste na relação com o poder o lugar da Grande Recusa .

1 Jogos de poder A análise do poder sobre o espaço. Os agentes orientam-se segundo as regras que estruturam o jogo. Jogos de poder têm semelhanças com jogos de futebol (gráfico 2). que por sua vez se expressará em maior número de espectadores e patrocinadores e mais dinheiro. pois não se joga apenas futebol em um campo.2.g. i. atua eficazmente em observância das regras. mas também outras modalidades de esporte em outros campos (gráfico 4). será de pouca serventia ter o melhor time de futebol. se os jogos transcorrerem apenas em estádios vazios e os jogos de basquete forem transmitidos ao vivo. Para esclarecer isso. Caso se jogue futebol em um campo e basquete em outro. remodelando-se a topologia do campo (gráfico 5). em duas dimensões isso resulta em um campo (na unidimensionalidade. Caso as transmissões televisivas assim o exijam. O campo é ondulado. Essas quatro imagens mostram alguns dos processos que descreverei no curso do trabalho 15 . e. faz gols e ganha a partida. tem por base determinadas imagens e metáforas espaciais. Caso nos queiramos aproximar da realidade. uma determinada topologia distribui as chances de modo desigual (gráfico 3). Mas essa imagem também ainda elimina do foco muitos aspectos dos jogos de poder na esfera político-econômica. a posição dos jogadores se definirá pelo grau maior de estima social da respectiva modalidade esportiva. na esgrima. Pode acontecer até que o tipo de jogar basquete . é. trata-se de uma passarela ou de um palco).influa no tipo de jogar futebol. as regras do futebol também deverão ser adaptadas. citemos um exemplo do universo do esporte. Quem é melhor.Gráfico 2: O campo de futebol como tipo ideal Gráfico 3: O plano inclinado Gráfico 4: Campo de poder ((Topologia) e palco Gráfico 5: Poder sobre o espaço como estrutura profunda Fonte: sistematização do autor 1. Dois lados se enfrentam.à do poder e à do contrapoder. precisaremos abandonar a idéia de um campo plano que dá chances iguais aos dois equipes . em jogo rápido com muitos intervalos para encartes publicitários . apresentada a seguir.no ginásio. Caso o futebol perca influência diante do basquete. Quem tiver sido autorizado a jogar de cima para baixo terá as melhores chances de ganhar mesmo com regras ”leais”.

Essa representação faz ver o espaço como um receptáculo. O poder sobre o espaço pode ser compreendido com ajuda da imagem das camadas histórico-geográficas.como territórios no sentido de receptáculos18. Foucault remete a nossa 18 Em comunidades locais fechadas sobre si mesmas predomina o controle social in loco. Estas criam condições desiguais para os que usam esses campos. O espaço de poder é compreendido aqui receptáculo. sendo que isso é uma relação estrutural que denomino poder sobre o espaço. a dimensão histórica dos espaços passa para o primeiro plano. O espaço de poder aparece prima facie como um receptáculo desse tipo. A ação orientada para a transformação e uma ciência crítica devem dar amplo espaço a esse processo histórico da produção de espaços de poder. Reflexões sérias não se podem satisfazer com a constatação superficial de que o poder atualmente é exercido em determinados palcos ou no interior de um determinado receptáculo20. i. os campos resultam das estratificações mais profundas. É certo que devemos perceber o que ocorre no palco. O vencedor galga os picos do poder para governar a partir de então sobre o seu território. Durante a campanha eleitoral os candidatos no palco do poder lutam encarniçadamente pelo ”poder no Estado”. Ele tem a competência para valorizar e desvalorizar espaços de poder e configurar especificamente os campos em espaços de poder. Aqui as influências indiretas e não-intencionais ganham em importância. o poder sobre o espaço como rede. assim como a física newtoniana.2 Receptáculo e rede Hobbes fundamenta o espaço de poder como espaço absoluto. Há 200 anos não havia nações. em uma compreensão do espaço enquanto espaço absoluto. pessoas residentes fora da comunidade podem ser atores centrais. mas em um mundo crescentemente interligado o receptáculo se torna mais permeável. claramente delimitado.). A redução do espaço à sua função de receptáculo leva também a não poder perceber o tempo como tempo histórico. 20 ”Reality may possess. Nessa concepção. Com isso são examinados espaços de poder em um vácuo sem nenhuma referência a outros espaços parciais. as it were. preenchido por pessoas e coisas (Läpple 1991: 191). pois eles atuam para dentro da região sem nela estarem fisicamente presentes. hoje não há mais espaços que não pertençam a nenhum estado-nação. os espaços são vistos como receptáculos produzidos. O poder sobre o espaço designa todas aquelas forças estruturais que atuam abaixo dos campos e dos palcos do poder. 1. estruturalmente condicionadas. A teoria da mecânica do poder baseia-se. é.2. Por isso uma análise local deve considerar também os atores externos. both an apparent surface and a deep structure which cannot immediately be apprehended” (Clegg 1989: 120). Quando. 16 . reconfigurando e elevando-os ou provocando o seu colapso. 19 ”Against the assumption that a given social space is a community displaying ordered totality. one would want to propose instead that ordered totality is an achievement and resource of power rather than its tacit frame” (Clegg 1989: 64). Perrons 1983: 9). que se situam nas profundezas e produzem a forma de manifestação contemporânea (cf. Massey 1984: 117 s. Por isso as lutas pelo poder buscam o controle sobre o receptáculo e os indivíduos e recursos nele contidos. É ”lógico” e ”evidente per se” que o poder é exercido dentro de um receptáculo e que ele não produz mais efeitos fora do mesmo. com atores e regras claramente definidos. regiões ou nações . as delimitações se tornam menos nítidas: a resposta à pergunta ‘quem pertence a uma comunidade local?’ depende da análise da situação e do problema e não deriva mais exclusivamente da localização no ou fora do receptáculo (Clegg 1989: 64). Tais como se apresentam. o presente tipo de análise examina determinados mecanismos sociais que atuam em determinados espaços de poder . Mas esse espaço de poder está em relação com outros espaços de poder. fenômenos espaciais têm importância secundária diante das coisas e dos processos sociais em si. Isso não é nada fácil19. ”Realism would have been greatly facilitated in the past if some conception of structural power had metaphorically skewed and made uneven and fissured that level table on which conceptual billiard balls from Hobbes to Dahl have moved so easily” (Clegg 1989: 209). em contrapartida. O modelo de Hobbes forma a pedra fundamental de uma teoria da regulação ou do monitoramento de processos econômicos por parte de um centro de poder político. Campos aparentemente estáveis podem se deslocar com excessiva rapidez e fazer com que ações percam o seu caráter rotineiro. Foucault descreve o poder sobre o espaço como um espaço de relações. Ocorre que espaços de poder devem ser constituídos por via da demarcação de uma fronteira e da imposição de uma ordem no interior das fronteiras. Augusto Pinochet se viu obrigado a reconhecer isso de forma dolorosa em Londres. seu receptáculo de poder. enquanto coisa independente ao lado dos objetos corpóreos (Dunford. Por isso. mas não devemos perder de vista os elementos estruturantes mais profundos.como dialética de espaço de poder e poder sobre o espaço. O campo de futebol é um espaço de poder.cidades.

atenção. Permitem compreender o que é permitido e o que é proibido. as hierarquias. mas encontra-se na própria luta que. sejam mantidas e a energia oriunda do equilíbrio de tensões seja mobilizada. os campos sociais são simultaneamente campos histórico-geográficos. Bourdieu mobiliza quase que com evidência per se conceitos espaciais para referir-se à circunstância de uma situação social na qual a regulação. o parlamento são palcospadrão. embora continuem significativas. pois trata-se essencialmente da relação entre os elementos do campo. pelo fato das regras específicas da disciplina em questão colocarem determinados elementos no centro e outros à margem. no banco de reserva os jogadores podem enfiar o dedo no nariz. Esse princípio de movimentos incessantes que perpassa o campo não está sediado em qualquer primum movens não-movido . 21 Ao lado do espaço enquanto espaço de entrelaçamento. é. mas não configura lei escrita. Os centros desse espaço de entrelaçamento . i. Um campo se define. para conservar ou acumular o seu capital específico. ele se encontra no sentido mais verdadeiro do termo em um palco. um ministério da família por uma mulher e um ministério da previdência social por um sindicalista é habitual. as heterotopias devem ser compreendidas tanto como programa político quanto como representação de um objetivo e ainda como espaços observáveis 17 .pontos nodais. portanto. mais diretamente interessado nessa representação. as lutas pelo poder subtraem-se à percepção coletiva. O fato de uma bola ser chutada para o escanteio quando um jogador está ferido é regra de bom estilo. mas além disso qualquer lugar se pode transformar em palco. ubíquo. as leis cumprem esse papel. Quando seringueiros se atam a árvores e impedem os lenhadores de desmatar a floresta tropical.no nosso caso. 1. em grau supremo a aparência de um aparelho. Campos constituem o mundo circundante do palco e estruturam o chão deste. surgidas em meio a processos de longa duração (cf. é. Mas ao lado disso já há também regras que são observadas por serem de costume. definem o modo de ação dos atores e estruturam práticas e discursos. o que é eficaz e o que nem chama a atenção. eles representam mais do que a mera soma das ações consolidadas. enquanto o que se distribui. o pensamento de Foucault ainda se direciona para outros espaços. Na zona de penalidade todo e qualquer passo é observado. sob pena de se excluirem do jogo e cairem no nada. O campo é uma concepção que relativiza o ordenamento fixo em um palco. as utopias são essencialmente ”espaços irreais” (Foucault 1994: 14). é.2. é. ”Assim por trás de um ‘Estado’ que se tornou símbolo do absolutismo e que oferece ao próprio monarca (‘o Estado sou eu’). para o poder da economia. Fazem parte disso no esporte as regras oficiais do jogo. não têm outra opção senão lutar para manter ou melhorar a sua posição no campo. do ordenamento no centro ou na margem. a fábrica. i. Campos consistem de canais consolidados dos quais os agentes se servem regularmente. i. Enquanto lugares sem lugar. Em contraposição. produzida pelas estruturas constitutivas do campo. mas a fábrica e o lugar na frente da fábrica se transformam também no sentido figurado em espaço de elaboração de conflitos. o próprio campo. dos entrelaçamentos hierarquizados. Foucault 1994: 15). caso os atores consigam enfeixar nele forças estruturais. Foucault dirige-se contra o poder disciplinador moderno. Mas enquanto rede de instituições. pois a superfície atualmente perceptível dos campos sociais se estrutura sobre camadas superpostas. Encontra-se nas ações e reações dos atores que. mas em outros contextos uma reserva extrativista ou a bolsa de matérias-primas podem desempenhar um papel decisivo.3 Palco e campos Há muitos campos nos quais se podem exercer o poder: a família. que surge apenas no campo” (Bourdieu 1997: 31). designa um espaço social estruturado como ”campo de forças”. Enquanto espaços que se procuram subtrair ao alcance das estruturas. heterotopias são lugares reais que são diferentes do que os lugares da estrutura existente (cf. Em ditaduras os palcos tendem a desaparecer da esfera pública. reproduz as estruturas deste. esta se transforma em palco do poder. Quando um líder sindical proclama diante dos portões da fábrica a decisão de entrar em greve. como são chamados freqüentemente conferem estabilidade ao campo. gráfico 5). o tempo e o fator social como uma unidade. o conceito de ”campo social”. i. Muito pelo contrário. Que um ministério da agricultura seja assumido por um representante dos produtores rurais. contra a vontade do ser humano para atingir a verdade e o poder que torna o mundo dominável. o poder revela e libera forças que estimulam ações. para além desses acessos referidos à mecânica e aos atores. Diante disso. na política. e o titular do ‘poder absoluto’ deve engajar-se nesse campo de lutas ao menos a tal ponto que as divisões e cisões. Campos sociais. uma espécie de ”orquestração sem regente” está na pauta. o Rei Sol -. Em uma análise que concebe o espaço. campos de futebol assim como campos de poder. sobre o qual se age21. esconde-se na realidade um campo de lutas. Para ele o poder não é nenhum fenômeno monitorável da regulação de ações. tal como ele é amplamente utilizado na sociologia francesa. O estado-nação representa um ponto nodal dessa espécie.

o espaço econômico é controlado por aqueles que controlam os fluxos de mercadorias. portanto na direita. Se a esquerda conquistasse o poder. o empresário o poder econômico. Aparentemente.2. Marx 1983: cap. O mal é localizado nos partidos que estão próximos do capital. já podem existir muitas possibilidades de melhores aplicações do dinheiro. Embora espaços sempre sejam produzidos. A ”acumulação originária” privou partes da população dos seus meios de subsistência (cf. é. Com efeito. Mas esta é uma análise limitada. atribuir igualmente um tal caráter duradouro e imutável. Na dimensão sócio-cultural forma-se em torno de um lugar uma comunidade com as suas raízes históricas. que seduz a um comportamento político mecânico.1. Especialmente adequadas são nesse sentido as aplicações financeiras que aparentemente realizam o desejo do capital de não estar mais vinculado a nenhum lugar. Harvey mostra que essa dialética reflete a contradição fundamental do capital: ele precisa localizar-se e busca constantemente encontrar novas formas e localidades mais atraente para a sua aplicação. Essa estrutura de poder especificamente capitalista baseia-se na separação do poder econômico do capital do poder político do Estado. o poder do capital seria quebrado ou ao menos enfraquecido. Por sua vez. O capital rege. capitalistas foram seqüestrados ou assassinados. dinheiro. pois este é visto como poder sobre o espaço. investimentos. pois a realização desses lucros defronta os proprietários de capital com a circunstância de não poderem fugir duradouramente da necessidade de localização. compreende-se por espaços freqüentemente o que é fixo e estável. industriais dispostos a emigrar. A substituição do capital por forças progressistas é compreendida equivocadamente como um processo simplista da troca dos donos do poder. autores de inovações tecnológicas. Mas quando esses investimentos uma vez foram feitos em instalações e máquinas. seus costumes e suas tradições às quais no discurso público se pode. concretos. pois o capitalismo se caracteriza pelo fato do poder econômico estar separado do poder político. ricas regiões industriais em velhas zonas industriais e vilarejos indígenas abandonados em centros preferidos para passeios turísticos. todos eles solapam as estruturas orgânicas locais.2. um ”exterior” ao status quo. o espaço político e o espaço econômico aparecem lado a lado. se dá pelo processo produtivo e pela retirada da mais-valia. compreendida como dominação econômica strictiore sensu.5 Espaços político e econômico Para indagações político-econômicas a dialética do espaço se apresenta sob forma distinta.digamos. Mas a maior força propulsora da transformação é a busca de aplicações lucrativas do capital empregado. a presidência da república. Constituiu-se assim uma sociedade cindida em classes. a luta de libertação de movimentos sociais freqüentemente se dirige contra o capital. Essa estrutura social surgiu em um processo de destruição criadora a partir de ordenamentos pré-capitalistas. que dissolve no ar tudo o que é sólido. de propriedades climáticas e ecológicas registra-se traços característicos presumidamente eternos e naturais de localidades. Máquinas foram destruídas.4 Place and Space Nos países de língua inglesa a dialética espacial freqüentemente é discutida como jogo de place (lugar) e space (espaço). O processo de acumulação somente pode ser posto em marcha com a construção de fábricas e escritórios. As coisas se passam de maneira inteiramente distinta com space. Especuladores. Lugares instauram identidades. conforme poderia sugerir uma análise radicalizada do poder em perspectiva hobbesiana. Um espaço de poder afigura-se então como espaço político. Com definições de graus de longitude e latitude. em caso de necessidade. como a força da alteração e transformação. como se ela se dirigisse contra coisas ou pessoas. ele é ”o poder que tudo domina na sociedade burguesa” (Marx 1974: 27). Cidades de garimpeiros de ouro transformam-se em cidades-fantasma. Isso é mostrado de forma particularmente pertinente por David Harvey (Harvey 1996: 291-326). ao passo que o poder sobre o espaço pode ser compreendido como espaço econômico. pelas grandes empresas e bancos multinacionais. 18 . Space é o poder da uniformização que destrói o lugar enquanto local especial. as lojas típicas para cada bairro se vêem obrigadas a ceder aos shopping centers uniformizadores. Tal mecânica social seria simultaneamente uma dinâmica espacial. Hotéis tradicionais são substituídos em todas as metrópoles mundiais por cadeias hoteleiras. No mundo inteiro. A categoria central da Economia Política é o capital. um presidente da república exerce o poder político. i. 1. a sua reprodução forma a base do desenvolvimento social. A política e a economia. A conquista do poder [empowerment] no espaço do poder político afigura-se como um processo geográfico de galgar o topo da sociedade . Elas foram levadas pela coação muda das relações econômico-sociais ou pela coação por parte do poder de Estado a vender a sua força de trabalho aos proprietários dos meios de produção. 24). Eles representam o Outro. pois separam o próprio do outro. A exploração.

Mas como vale em princípio para o funcionalismo. habitação. embora não a única. a nação e a região se articulam. Ao passo que esse último é permeável. Nesse último são institucionalizadas regras por parte do poder estatal que vinculam as pessoas que vivem num espaço geográfico claramente definido. por outro ainda não suficientemente claro. Saunders (1987) viu . a interterritorialidade. a uma ”destruição do espaço” pelo tempo (Harvey 1996: 242 ss. O poder territorial é mais centralizado do que o poder no espaço de entrelaçamento. como o mercado mundial. que ultrapassa uma redução funcionalista. não é suficientemente analisada. bem na linha do enfoque latinoamericano histórico-estrutural.). riqueza. i. a política e a ecologia social ou o mundo. O comércio mundial.6 Território e espaço de entrelaçamento Altvater (1987) conceitualiza processos de desenvolvimento a partir de espaços de funções. a política à nação e a economia ao mundo. de resto o lobbyismo empresarial costuma operar sempre de forma mais indireta. O programa de pesquisas dessa análise dialética do espaço. A concepção dos espaços funcionais remete ao nexo de espaço e processo social. Inversamente. Por sua vez. é o resultado de muitas decisões nacionais no sentido de liberalizar e desregulamentar os mercados. o espaço político. Isso por um lado é correto. Conheci demasiado tarde para poder incorporar sistematicamente as explanações muito interessantes de Tayloer (1984 e 1985) sobre o território enquanto receptáculo de poder. políticos e econômicos estão submetidas a uma transformação que se acelera em tempos de crises. nos seguintes termos: ”Deve-se esclarecer. os custos reduzidos da superação do espaço conduzem a uma ”compressão de espaço e tempo”. o plano político colocado no meio faria a mediação entre os prazos curto e longo e entre região e mercado mundial. cultura e sociedade. 23 Tendencialmente as competências localizam-se nos planos estadual e municipal nas áreas da ecologia (sobretudo da regulamentação da estrutura fundiária) e da política social (sobretudo da disponibilização dos serviços sociais). a política do estado-nação e a economia do mercado mundial em um determinado ”padrão de articulação” (Altvater 1987: 94). a estrutura do espaço econômico resulta de uma pletora de regulamentações políticas. é formulado pelo próprio Altvater. Por sua vez. Nos nossos dias 22 A ampla discussão sobre o território não pôde ser levada em consideração nesse trabalho (cf. A crítica ao presente trabalho. A forma e a espacialidade de processos eco-sociais. sendo que a nacional é a mais importante. tal enfoque ignora que os economicamente poderosos exercem uma influência maciça sobre o processo das decisões políticas. Ao invés de falar de um espaço funcional econômico. No plano federal estão tradicionalmente ancoradas a regulamentação das relações exteriores e as competências econômicas. também os espaços político e econômico formam uma relação dialética. mas de modo contraditório-conflitivo)” (Altvater 1987: 88). A fraqueza do seu enfoque reside no fato de não tematizar os atores no receptáculo. em outras palavras. é. por quais mecanismos de atuação as tendências do mercado mundial se transpõem para realidades nacionais e regionais. deve ser melhor apreendido com a concepção do território. A liberdade nos mercados das mercadorias industrias se defronta com o forte controle nos produtos agropecuários e a forte regulamentação de um mercado global de trabalho. tráfego) o campo de análises da Sociologia Urbana. o território carece da fronteira. tal concepção envolve uma compreensão a-histórica de padrões político-econômicos aparentemente estáveis. Concretamente há diferentes fronteiras políticas. i. No caso dos grandes grupos da mídia tal influência é exercida abertamente. Por conseguinte.aparentemente sem nexo. Em território idêntico22 entrelaçam-se assim a ecologia da região. Disso resulta um significado duplo para o fator local: ele é tanto um resumo de lugares relativamente homogêneos quanto também o lugar no qual as contradições se concretizam (Altvater 1987: 80). 19 . é que a relação com outros territórios. pois esse nexo só pode ser compreendido como uma correlação dialética de funções a espaços. 1. para ganhar dinheiro e influir nas regras. educação e cultura.2. Nos planos espaciais inferiores há nos países com estrutura federativa estados e municípios com uma área de competências próprias23. portanto. O próprio Altvater ultrapassa uma concepção estreita do espaço funcional ao registrar ”que em um espaço territorial idêntico espaços funcionais distintos coexistem (não pacificamente. Resultaria assim um padrão que atribuiria funções às regiões: a ecologia à região. como fatores exógenos são endogeneizados” (Altvater 1987: 87). Por outro lado o processo de circulação do capital seria breve e o espaço do capital global. resultante do seu enfoque. é. tal como praticado atualmente. concebido por Altvater como espaço funcional. As novas tecnologias da informação e dos transportes possibilitam a formação de redes mais extensas no espaço econômico. Sack 1986). Cada espaço de funções teria o seu espaço e tempo próprios. ainda. mais adequado aduzir a concepção do espaço de entrelaçamento. A ecologia seria regional e o período ecológico da regeneração de recursos naturais seria longo. Por conseguinte. é.em redução igualmente funcionalista -na disponibilização do ”consumo coletivo” (saúde.

embora vá muito além deles. Poder significa em português tanto ‘domínio. O território é também um campo estruturado pelas relações. localizadas. essa dialética determina substancialmente o desenvolvimento do Brasil. a saber. A prefeita negocia com o governador. entre um conceito unidimensional do espaço e um conceito de espaço orientado para a produção. vale também para o político: existe constantemente a possibilidade da sua transformação profunda. 1. portanto. Muitas das descobertas então feitas figuram também nesse trabalho. 25 O presente trabalho continua a minha tese de doutorado sobre o tema ”Resistência local e mudanças estruturais no Brasil” (Novy 1994). Eleições podem influenciar estruturas de poder? Existe um movimento inercial da estrutura. influência. dos de ação e estrutura. mas uma manutenção da regulação antiga enfraquece as forças que insistem na internacionalização e bloqueia a ampliação do espaço de entrelaçamento econômico. Referidas ao material empírico e à qualidade da pesquisa de campo. Estado e capital e regulação e acumulação. Agora desloco o foco até o pólo do poder e com isso na direção de uma série de novas concepções dualistas que devem ser encaminhadas em um vaivém dialético. a totalidade da regulamentação política do território nacional? Geograficamente as fronteiras entre o território do estado-nação são congruentes com as da totalidade da regulação política. mas sempre apenas fixado passageiramente como território (Jessop 1990: 268). quanto ‘ter condições’. Concretamente estão em pauta os diferentes aspectos dos dualismos de política e economia. As pessoas fazem a sua geografia. pois os governos nacionais iniciavam passos de liberalização e desistiam de regular os entrelaçamentos monetários e de investimentos. A partir de um determinado momento velhas regulações políticas bloqueiam o espaço econômico e exigem decisões sobre o encaminhamento de desenvolvimentos futuros: a liberalização das regulações nacionais permite a liberação do potencial transformador. ganhando o elemento relacional um significado ainda maior. o processamento e a reinterpretação das análises existentes do desenvolvimento político-econômico brasileiro. O espaço político nunca é definitivo. Existe uma dialética de espaço econômico e político e de produção de território e de produção do espaço de entrelaçamento. no entanto.1 Ação e estrutura A pergunta pelo poder sempre é também uma pergunta pelas possibilidades de ação.embora a parte preponderante dos dados aqui utilizados ainda não tenha sido usada na minha dissertação de doutorado. diga-se de passagem. Esse trabalho baseia-se nos resultados da tese de doutorado. ocorrem sobreposições e recobrimentos do território que transformam-no em espaço relacional.que.foram questionadas ainda há pouco tempo correlações evidentes per se de funções e espaços. 1. Mas o estudo do mesmo contexto espacial durante muitos anos facilitou também no campo da teoria a clarificação de vários problemas e o aprofundamento de algumas descobertas. um espaço relacional. um 24 A partir dos anos 60 a extensão do espaço de entrelaçamento econômico conduziu a formas de regulação política crescentemente instáveis. a fundamentação da história político-econômica regional em uma recepção crítica da teoria da regulação e a análise orçamentária representam progressos essenciais na conceitualização.3. 20 . Se. os vereadores se valem do seu cargo como plataforma para o salto na política nacional.São Paulo . força’. é 104 vezes maior do que a Áustria . embora nunca em circunstâncias escolhidas por elas mesmas. mesmo esse traço distintivo do espaço político perde a sua relevância. Conforme evidenciará a análise empírica. o espaço da sociedade civil e o estabelecimento de regras por meio de normas for incluído na análise da regulação. da sua valorização e desvalorização24.apresenta vantagens decisivas para o trabalho científico. os conflitos se agudizam no sistema estatal em decisões centralizadas: na tomada ou não-tomada de decisões por parte de instâncias estatais competentes. objeto de um estudo de caso. Mas ao mesmo tempo a continuidade na pesquisa de um país .3 Poder No capítulo anterior o espaço foi o ponto de partida de uma análise dialética do espaço e do poder. as vantagens saltam aos olhos e não necessitam de menção espacial . Já então ocupei-me com problemas similares com base na região de São Paulo. Quem tem poder pode agir. Só uma análise empírica pode mostrar quão grandes são as margens de ação diante de estruturas crescidas no decurso de séculos25. Mas diferentemente do espaço de entrelaçamento econômico. A clara distinção entre uma visão mecânica e uma visão topológica na análise do poder.e na pesquisa de uma região . O que é. O que vale para o espaço econômico. Mas em termos de conteúdos há um excedente.

2 Estado e capital Estado Quando os europeus descobriram por volta de 1500 o mundo para si. embora o capital desempenhe nesse conceito. Ocorre que os discursos como o sobre a globalização muitas vezes transmitem justamente essa impressão da liberação das tecnologias e das forças produtivas enquanto estruturas coisificadas e todo-poderosas. Trata-se de um vaivém de ação e instituições. Se Marx registra que os homens fazem a sua história. Aqui o debate esteve centrado na pergunta se a sociedade poderia ser explicada pela ação de indivíduos ou se esses indivíduos apenas seriam portadores de estruturas. poderiam os movimentos de base fazer história? Teorias da ação ocupam-se. começaram também a criar um sistema que abrangeu todo o mundo e é denominado capitalismo. O Estado é comumente percebido como o detentor por excelência do poder. A defesa da liberdade de imprensa pode conduzir a monopólios da informação e a exigência de aumentos salariais pode resultar no fechamento da empresa. quero sondar a extensão das margens de ação sem eliminar do foco o poder das estruturas. e talvez por trás do matrimônio exista uma estrutura profunda das relações entre os gêneros que ainda subsiste muito tempo depois dos registros civis terem desaparecido. 21 . Mas desde o princípio as estruturas capitalistas surgiram juntamente com a criação de uma ordem estatal. são essas estruturas profundas que estruturam a sociedade na sua totalidade (Hamedinger 1998: 208 ss. fomentando com isso um sentimento de impotência (Novy. A seguir. O Estado e o capital formam dois momentos dialéticos de um processo. mas também orientam a ação. O que Giddens elimina assim do foco. Ao passo que instituições são cotidianamente renovadas com vistas à sua existência continuada. Mattl 1999). Vale ao menos refletir sobre se por trás do instrumento de dominação ”língua portuguesa” não se esconde uma visão ocidental do mundo que pode ser separada da língua. por meio da ação rotineira. que Giddens denomina princípios estruturais (1988: 240). como se os agentes fossem meros marionetes em um drama que se afigura divino para uns e diabólico para outros. mas não necessariamente do modo intencionado pelos dominantes. mas não é nada claro se com isso as instituições da ”língua portuguesa” e do ”matrimônio” sofrem um abalo. Como muitas pessoas casam. Toda e qualquer ação atua sobre estruturas sociais. rotinizados de ação. de agir. bem no 26 Essas relações. Por outro lado as estruturas não são coisas ”lá em cima” que definem a nossa ação ”aqui em baixo”. sem o Estado não existe o capital e sem o capital não há Estado (na forma na qual o conhecemos hoje). portanto. Quem lamenta mazelas em democracias pode estar defendendo ditaduras. as estruturas influem na ação. um papel chave.3. pois. 1. A instituição nesse sentido muitas vezes é equiparada erroneamente à estrutura. de fazer história e geografia.destino ao qual ninguém escapa e que inibe toda e qualquer tentativa de configuração da sociedade? Nas ciências sociais o interesse pelas questões do espaço despertou nos anos 70 no curso das discussões sobre as teorias da estrutura e da ação. Exerceria. apenas um desafio científico. Por essa razão as reflexões de Foucault sobre o poder e o espaço continuarão significativas para o conceito político-econômico de estrutura. a língua portuguesa se institucionalizou.)26. Como muitas pessoas falaram português no Brasil durante muito tempo. as duas formas fundamentais do capitalismo são examinadas mais detalhadamente. mas pressuposto de uma práxis política eficaz. ao passo que as estruturas seriam regularidades transespaciais. Em primeiro lugar. A ação social tem conseqüências nãointencionadas. Mas com isso o programa da transformação da estrutura se torna um processo simplista de recusa da reprodução da estrutura existente: falo novamente a língua indígena guarani ou não me caso. são ”princípios da organização de totalidades sociais”. diferentemente de Foucault. Aqui deve ficar claro que as estruturas não atuam apenas de forma proibitiva. ele não se esquece de chamar a atenção ao fato de que isso somente é possível em meio a estruturas previamente dadas. Anthony Giddens fez na sua ”dualidade de estruturas” uma tentativa de pensar a estrutura e a ação em uma unidade. perde-se a noção da totalidade. Talvez a visão ocidental do mundo também seja transmitida pelas línguas indígenas faladas nas reservas. Quando uma análise do poder sobre o espaço examina unicamente as formas institucionais. e questionadas por meio da resistência. existe a instituição do matrimônio. sendo que as últimas representam padrões consolidados. Com isso determinadas práticas são generalizadas para além de segmentos de espaço e de tempo (Giddens 1988: 76). A elaboração de um conceito de estrutura não é. Tenho duas coisas em mente. Diante do enorme poder da ”globalização” não existiria mais nenhum espaço para a ação alternativa. de modo que um pragmatismo cínico se afiguraria como única saída. com as práticas in loco. as estruturas subtraem-se a essa apreensão simples graças à práxis humana. Poderia Lula. As estruturas que hoje encontramos no Brasil refletem o modo pelo qual esse capitalismo se concretizou no Brasil. O poder é a capacidade humana de configurar alguma coisa. As duas ações produzem efeitos no debate social.

sentido da mecânica de Hobbes, a dominação sobre o seu território. Mas diferentemente dos reinos do passado, os Estados de hoje são formas complexas. No lugar do indivíduo isolado dominador - do rei - temos hoje uma divisão de poderes entre Executivo, Legislativo e Judiciário. O governo simboliza aqui o centro do poder, é o palco do poder por excelência. Quem rege nesse país, eis a questão política fundamental. Mas a luta pelo Executivo, pelo assim chamado poder no Estado, é apenas parte de lutas histórico-geográficas pelo poder. Sabemos à saciedade que a administração pública, encarregada da implementação nada neutra do poder, detém um poder cada vez maior. Os governos passam, os funcionários ficam, razão pela qual a administração pública responde em última instância pela permanência do Estado. Mas no âmbito da administração valem regras próprias e são perseguidos interesses próprios. Tudo isso só pode ser transformado lenta e indiretamente a partir de fora. Por sua vez, a legislação é tarefa de uma outra organização, do parlamento enquanto assembléia dos representantes do povo. Se o parlamento representa a sociedade com os seus múltiplos e contraditórios interesses, existe o risco de que também no parlamento seja defendida uma multiplicidade de interesses particularistas. Determinados deputados representam então os interesses de uma região o religião, de um setor da economia ou de um grupo populacional: a desordem está pré-programada, escancara-se o caminho para a compra dos votos. Sem o enfeixamento desses interesses no âmbito de partidos é difícil elaborar a partir desses múltiplos interesses estratégias para o Estado e a sociedade que sejam capazes de angariar o apoio da maioria dos eleitores (Jessop 1990: 364) Mas onde deve ser traçado o limite do Estado? O que faz parte dele, o que não entra? Imaginemos que o Departamento Municipal de Limpeza Urbana transforma-se na empresa ”Lixo Ltda.”, de propriedade do município, privatizada alguns anos depois e contratada pelo Estado. Será que o hospital administrado pelo governo é estatal, diferentemente do posto de saúde subsidiado integralmente e mantido por uma associação? Será que uma Câmara de Indústria e Comércio é parte do Estado pelo fato da filiação obrigatória ter sido fixada em lei, diferentemente de uma associação de industriais organizada segundo os princípios do Direito Privado? Segundo que critérios devemos traçar limites aqui? Mais uma vez faz-se necessário um exame mais aprofundado da estrutura do Estado. Aqui parece ser útil recorrer, na esteira do comunista italiano Antonio Gramsci (1971: 12), a uma tradição antiga da teoria política que distingue duas formas de dominação, o consenso e a coação. Compete ao Estado impor uma determinada ordem mediante coação. Especial importância têm aqui o monopólio da violência e da instituição de regras, sendo que os meios mais importantes aqui são as armas, o direito e o dinheiro. Um estado soberano luta para que exista somente um exército e uma polícia, um órgão legislador e uma instância emitente de moeda. Onde isso é questionado, o soberano se vê desafiado. À guisa de reação, ele combate a guerrilha e o crime organizado, sob pena da população perder a confiança no Estado. O soberano proibe a dolarização ou aceita o mercado paralelo. Mas ao lado do negócio central do Estado, baseado na coação, a geração do consenso desempenha no médio prazo um papel igualmente significativo. Aqui o sistema educacional desempenha um papel chave, mas a assistência social e mais tarde o Estado de Bem-Estar Social também foram importantes na estabilização da ordem existente. Acresce que os detentores do poder estatal freqüentemente são assistidos por atores não-estatais como as igrejas e os meios de comunicação para sacramentar o status quo e produzir a hegemonia social. Assim a hegemonia enquanto dominação não é apenas a posse do poder, mas descreve a conquista dos corações, a ”soberania sobre as mesas reservadas para a clientela fixa”*) e a concordância ativa daqueles, dessarte adquirida, dos quais se deveria supor que não tiram proveito da ordem existente. Esse âmbito é denominado sociedade civil, sendo que a falta de coação direta torna possível que atores isolados da sociedade civil se voltem também contra a ordem existente. A igreja pode ser local da resistência, os sindicatos podem tornar-se centros da oposição e às vezes os movimentos de base formam o núcleo de um movimento social que transforma toda a sociedade (cf. Novy 1996). Juntamente, o Estado e a sociedade civil formam o que Gramsci denomina o estado ampliado. Este abrange um campo de poder em torno do qual lutam todos os grupos sociais relevantes. Todos querem beliscar o orçamento e influir nas regras do jogo político. Isso vale também para os econômica e socialmente poderosos, pois se eles querem determinar o curso da política, são obrigados a garantir posições para si no campo de poder do Estado. O Estado deve sancionar projetos e estratégias sociais ou ao menos tolerá-los. Forças neoliberais não podem simplesmente praticar a liberdade do Estado, pois os sindicatos, os tribunais e outras instâncias não aceitariam isso. Elas podem ensaiar a desconsideração pura e simples das leis trabalhistas, mas isso poderia custar caro. Quando neoliberais não querem arriscar isso, eles precisam trilhar o caminho pelas instituições políticas e impor uma nova legislação
*)

A expressão refere-se a uma instituição emblemática da classe média alemã, ao Stammtisch. O termo é intraduzível na gama das suas associações e designa a mesa de um bar ou restaurante, reservada para uma clientela cativa e freqüentada periodicamente por pessoas de horizonte estreito e mentalidade chauvinista, que bebem cerveja e discutem assuntos políticos. (Nota do Tradutor).

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trabalhista. O sucesso ou malogro dessa estratégia depende da configuração organizacional do aparelho de estado, mas também da base social que determinados projetos de estado promovem (Jessop 1990: 161). No início dos anos 80 Thatcher e Reagan mudaram exitosamente as regras do jogo político, no que eles de modo nenhum diminuíram o Estado, mas tão-somente criaram uma outra estrutura estatal. Os arautos do neoliberalismo assumiram o comando da sociedade, pois sabiam o que queriam, i. é, tinham um projeto para o Estado e a sociedade. Por isso o papel dos intelectuais é de central importância, pois eles elaboram projetos sociais que orientam a ação de grupos e classes. Embora seja possível esboçar novos projetos de Estado e sociedade fora do Estado, tais esforços devem ecoar na estrurura do Estado para ganharem eficácia (Jessop 1990: 210). Projetos de Estado definem as fronteiras funcionais do Estado e conferem sentido, orientação e ordem à ação estatal. O Estado de Bem-Estar Social, que pretende estabilizar a acumulação por meio da homogeneização social, baseia-se num projeto de Estado fundamentalmente distinto do do Estado Concorrencial neoliberal, cuja tarefa reside no posicionamento ótimo de um espaço em meio à economia mundial. Projetos de Estado definem a finalidade do Estado e o lugar dos seus campos de atuação. Isso obviamente está estreitamente entremeado com representações da sociedade na sua totalidade. Projetos hegemônicos ocupam-se com tais propostas de organização da sociedade na sua totalidade. Aqui estão na pauta o estado ampliado, o estado e a sociedade civil. A hegemonia enquando estado social estável designa um período de desenvolvimento estável e estruturas de poder consolidadas. Ocorre que tal estabilização social e cultural é difícil em virtude da dinâmica capitalista. Por isso se pode constatar quase sempre projetos hegemônicos distintos e estratégicas hegemônicas conflitivas, que se entrechocam no disputado campo do estado ampliado. Assim o Estado não é apenas um espaço de poder claramente definido, ocupado pelos detentores do poder, mas também um poder sobre o espaço no sentido de um campo de relações, forças ou organizações. Capital A análise topológica chama a atenção ao fato de que o Estado não pode ser compreendido sem a análise da economia e da sociedade. O poder é excessivamente multi-estratificado para que um detentor do poder pudesse adonar-se dele. Enquanto processo político de conquista do poder estatal, a tomada do poder sempre é apenas um momento de uma dialética que é solapada por poderes oriundos da sociedade e da economia. Compreendido como força produtiva que pode mover montanhas, o capital representa a forma estrutural na qual se concentra o foco do presente trabalho27. Há quem afirme que o Brasil já esteve inserido no sistema mundial capitalista desde o início da produção de açúcar para a Europa. O sistema de dominação europeu, que consistia na drenagem da riqueza, constituiu efetivamente um poder estrutural sobre o espaço que atribuía ao Brasil uma posição periférica na hierarquia mundial. Mas essa é uma conceitualização excessivamente abstrata de capital, pois atribui à lógica do capital um poder demasiado inexorável. Essa análise simplificadora examina sobretudo o espaço de entrelaçamento econômico e nega a necessidade do capital de localizar-se. Ocorre que o capital precisa ser investido em plantações ou fábricas, i. é, in loco. Por isso o movimento em ponto morto da estrutura, o empenho constante do capital pela sua rentabilização ótima não dá conta de todo o processo. O fato de empresários sempre terem acumulado riquezas na história do Brasil é um enunciado excessivamente genérico para a compreensão de processos sociais, igualmente o fato da história do Brasil ser uma história da opressão. De resto, tal opinião também é defendida por pessoas claramente reacionárias e lastimado - ao menos em público. Essa análise da dominação, apresentada em perspectiva crítica, desemboca na afirmação de que ”de qualquer modo não se pode fazer nada”. Por isso, para não degradar as pessoas em meros portadores de estruturas, essa perspectiva não pode ficar inconteste. Há também pessoas que fazem história, à medida que se engajam em conflitos sociais. Mais especificamente, a luta de classes acompanha constantemente o movimento do capital. No fim do exercício os balanços exibem o lucro, mas por trás deste se escondem os conflitos para o arrocho ou a majoração salariais, as greves e os ‘lock-outs’, as instruções vexatórias ou as experiências com o trabalho em equipes. Por isso as teorias da ação enfatizam a dominância do fator político. Enquanto análise das lutas de classe, elas se concentram nas lutas sociais em lugares concretos. Essas lutas nos palcos do poder modificam a forma da valorização do capital; uma greve ganha aumenta a quota salarial. As estruturas mudam num processo de reordenamento espacial constante das relações comerciais e creditícias, assim como também devido a leis e intervenções militares territorialmente restritas. Por isso vejo o capitalismo como uma forma específica da dominação e da acumulação de riquezas. No capitalismo, a dominação baseia-se na separação do poder político e do poder econômico, produzida em um processo histórico. Mesmo ditadores não podem interferir a bel-prazer em direitos de propriedade sem por em risco a estrutura fundamental capitalista. O bom andamento dos negócios pode possibilitar aos empresários eludir as leis. Necessita-se, porém, do Legislativo
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Formas estruturais resultam de princípios genéricos de socialização e são objetivações do nexo social que se põe de modo fetichizado e coisificado diante dos indivíduos (Hirsch 1992: 212).

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para promulgar as leis. Embora o poder político esteja intimamente entrelaçado com o poder econômico, ambos só se unem excepcionalmente na mesma instância. Também no Brasil existem os Cidadãos Kanes que, como o mega-empresário Barão de Mauá, procuraram conquistar em vão todo o poder, i. é, também o poder político (Caldeira 1999). Atores econômicos precisam ”comprar” o poder político. Políticos precisam ”regular” o seu ganho de poder econômico. Em uma análise de economia política, o poder está coisificado no imperativo da acumulação. O capital é uma estrutura que os indivíduos não podem simplesmente agarrar. Ele é um processo, uma coação à busca sempre nova do lucro, não uma pessoa ou organização ”poderosa”. Dessa busca do lucro não parte nenhuma causalidade unívoca, generalizável; porém, as estratégias concretas de poder de vários grupos são maciçamente influenciadas em determinadas direções. O capital é um movimento social e não pode ser compreendido simplesmente como algo material, como a acumulação de dinheiro e propriedades. Historicamente, a forma mais habitual da acumulação da riqueza foi a apropriação política por parte dos dominantes. O processo de troca representa uma outra forma da apropriação possível da riqueza. Ambas as formas, a apropriação política e a apropriação por via da troca, podem ser observadas até hoje no Brasil, mas não são o cerne da acumulação capitalista de riquezas, pois este encontra-se no processo produtivo, onde pessoas em si livres se subordinam ao poder econômico. Lá se produz in loco por meio da produção concentrada e organizada um valor superior ao investido no processo. Pode se falar de um espaço de poder econômico onde se chega à produção de valores. Essa mais-valia é a base da acumulação e constitui a riqueza de um espaço. Tal conceitualização dialética do capitalismo permite admitir a dialética espacial de território e espaço de entrelaçamento, de conflitos políticos e dinâmicas econômicas, de ação e produção in loco e das estruturas transespaciais de crédito e comércio. As estruturas têm permanência, e apesar disso existe constantemente a possibilidade de que essa estrutura seja solapada pela ação ou não-ação. Deve-se reter ainda um ponto para compreender a essência da estrutura do capital. É certo que o capital, compreendido como direito à propriedade, exclui outros: da propriedade fundiária, dos meios de produção etc. Mas além disso o capital estimula à ação, é produtivo. Cria realidades, transmuda coisas, pessoas, paisagens e espaços. O capital produz uma sociedade que retroage sobre si mesma, educando as pessoas a agirem como empreendedores, comprar e vender constantemente - mesmo se for apenas a própria força de trabalho. As estruturas produzidas se defrontam com as pessoas como algo coisificado, inexorável, denominado ”excedente de objetividade” (Görg 1995: 628; Esser et al. 1994: 216). Aqui se evidencia a força de um conceito do capital em termos de economia política. De acordo com ele, o capital não é nenhuma coisa, nenhum acúmulo de recursos, mas uma relação social determinada pela forma (Jessop 1990: 197), um movimento, a saber a reprodução de uma sociedade (Oliveira 1989: 2). A força propulsora dessa sociedade consiste em interiorizar estímulos. Assim os trabalhadores promovem de moto próprio a reprodução de sociedades capitalistas, à medida que querem vender a sua força de trabalho. O brilho do universo das mercadorias seduz a uma identificação sempre maior com um mundo vivido baseado nas mercadorias. A destruição do abastecimento por produtores localizados na proximidades e da produção para o consumo próprio é aceita, pois simultaneamente se produz coisas novas e modernas nos supermercados e nas áreas de monoculturas. Trata-se de um poder mais sutil do que o poder de proibição, exercido por ditadores e pelos detentores do poder político. Estado e capital Enquanto formas fundamentais do capitalismo, o Estado e o capital surgiram em meio a um processo de muitos séculos. Assim como os conhecemos atualmente, os estados distinguem-se substancialmente dos diferentes sistemas políticos, como da pólis grega ou do império medieval (Rotermund 1997)28. Até a Idade Moderna os territórios sempre foram delimitados de modo apenas difuso. Os poderes espiritual e temporal sobrepunham-se e impediam toda e qualquer pretensão de vigência absoluta. As cidades medievais que começaram a subtrair-se da ordem feudal, foram os primeiros pontos espaciais nodais no capitalismo em vias de formação (Clegg 1989: 244). Contra as cidades enquanto espaços descentralizados de poder formou-se a corte dos monarcas como ponto nodal de um novo poder sobre o espaço. Os monarcas começaram a controlar o seu território e centralizar a cobrança de impostos. ”Simplificando grosseiramente, podemos designar os estados nacionais como os novos receptáculos do poder que assumem o lugar das cidades” (Giddens 1988: 252).
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Até séc. XVIII adentro havia na Inglaterra uma série de conceitos para designar o Estado: ”regnum”, ”res publica”, ”monarchia”, ”commonwealth”, ”nation”, ”civil society” (Jessop 1990: 348). Posteriormente o conceito serviu basicamente para distinguir entre o dominador e o seu aparelho. Ao passo que o primeiro é mortal, o Estado enquanto aparelho é duradouro. Mas o Estado serviu também para a distinção entre o aparelho e as pessoas sujeitas a ele, i. é, a sociedade. Conseqüentemente, o poder do Estado é duplamente impessoal: ele não é o poder do dominador nem o dos dominados.

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contudo. referida às áreas da economia e da política. desenvolvida na França diante da crise do fordismo. Becker 1999). De um lado. Essa perspectiva dialética possibilita a superação de uma separação simplista de economia/sociedade/Estado. Funcionários públicos defendem a sua estabilidade. mas atua de forma estrategicamente seletiva. Mas na sua concepção fundamental. tem condições de efetuar uma conceitualização do meu problema central em termos de Economia Política: quando as estruturas são inflexíveis e quando elas começam a tremer? Quando a ação transformadora da sociedade se choca com a parede e quando as fortalezas provam ser meros castelos de cartas? A pergunta pela estabilidade de espaço e poder é uma pergunta-chave no processo de desenvolvimento. Essa teoria. Falando em termos genéricos. um modo de regulação uma fase de relações sociais estabilizadas. porque nela se cria a riqueza por meio do processo de valorização do capital.Juntamente com o Estado e o capital surgiu uma forma cindida de poder e espaço: aqui. apresentada a seguir. Na análise do regime de acumulação a representação de todo o processo de valorização está em pauta. Assim se pode refutar a afirmação de que o Estado seria o instrumento da classe dominante. não podendo. utilizada por pessoas e. independentemente da apropriação direta por parte do Estado. correto que a ação estatal se encontra num plano inclinado na direção dos interesses do capital. Estruturalmente. Por intermédio do sistema tributário o Estado depende do bom andamento dos negócios. Mas os donos do poder político exercem uma dominação apenas restrita sobre o seu território. manifesta-se em um determinado tipo de intervenção estatal na economia. O Estado é o lugar da luta de classes e simultaneamente o resultado da mesma. posicionando-se com isso talvez contra os funcionários de pequenas empresas que querem pagar contribuições menores à Previdência Social. O grande capital freqüentemente tem objetivos distintos dos das pequenas empresas. É. lá. o gerenciamento da demanda ou a política da oferta e da localização. sendo que a teoria da regulação examina concretamente fases de desenvolvimento estável na nação enquanto receptáculo30. no aparelho administrativo e judiciário. sistematizadas na sua tese de livre-docência (cf. Por conseguinte. A forma especificamente capitalista do Estado resulta da circunstância de que se pretende que o Estado paire acima das classes e frações de classes. A conceitualização do Estado como ”campo estratégico” destina-se a impedir a atribuição apressada de um caráter agente ao Estado (Demirovic 1997: 44). mas também os interesses de diferentes frações dentro de uma classe. 1. Este não possui uma essência universal ou uma identidade claramente delimitada. constituindo a sua forma” (Demirovic 1997: 39). o potencial de ameaças das greves de investimentos garante ao capital uma posição dominante diante dos trabalhadores: o ”Estado patriarcal” [Vater Staat] não representa apenas o interesse da coletividade.3 Regime de acumulação e modo de regulação A teoria que melhor consegue descrever a estrutura do Estado e do capital é a teoria da regulação. ele controla as armas. Com isso. O campo do Estado é excessivamente complexo e obedece também a regras internamente definidas. No modo de regulação as diferentes formas estruturais estão em primeiro 29 ”Apesar disso o Estado capitalista tem um caráter classista . expressão de como os diferentes grupos e frações estão em condições de ancorar os seus interesses próprios em várias partes do aparelho de Estado29. 30 A leitura crítica dos regulacionistas. No Estado entrechocam-se os interesses das diferentes classes. Um regime de acumulação designa aqui uma fase de acumulação estável. um equilíbrio de forças específico. a moeda e o direito. ele pode definir as regras do espaço de poder e sancionar as mudanças na regulação. podendo-se distinguir aqui. Se o Estado impõe a sua pretensão de soberania. o econômico. o Estado Mínimo ou o Estado Keynesiano de Bem-Estar Social. estando simultaneamente excluído do centro produtivo da economia. à guisa de formas concretas. o poder econômico da sociedade que possui o poder. ponto de partida do exercício do poder (Demirovic 1997: 45). a teoria da regulação concentra-se em fases de estabilidade. 25 .3. A estatalidade concreta. o poder do Estado: de outro. estruturalmente determinado e configurado em cada caso concreto por lutas sociais. uma estrutura estatal concreta e uma ação estatal concreta são sempre expressão de um compromisso social in loco e de um determinado posicionamento no sistema mundial. o espaço político. os bancos fazem exigências distintas das de empresas industriais. o Estado é por um lado uma grandeza consolidada e localizada. para que possa simplesmente seguir as necessidades de uma lógica imaginária do capital. No receptáculo a reprodução capitalista funciona por longos períodos como que sozinha. pois enfrentar com ”neutralidade” os vários interesses com os quais ele se defronta no processo democrático. para desembocar depois do transcurso de um determinado tempo em uma grande crise (Lipietz 1992: 49). Por outro lado.à medida que ele corporifica e organiza em um só processo o compromisso das classes sociais. deve idéias centrais a Joachim Becker. entre o Estado de Segurança e o Estado Concorrencial. ele é um campo do conflito social.

tal como esta se encontra formulada na economia política clássica e em Marx. Mas como no mero escambo não pode ocorrer nenhum aumento do valor. mas a análise da integração de normas de produção e de consumo perde importância diante de um exame da estrutura macro-econômica. mediante a utilização do homem e da natureza. O processo produtivo caracteriza-se pela cooperação simples. Uma acumulação estável baseia-se no comportamento rotinizado dos atores principais. A concepção da regulação continua a da reprodução. A acumulação enquanto acúmulo de valores processa-se das maneiras mais distintas imagináveis. que permite a reprodução dinâmica de classes e grupos sociais. 26 . Trata-se do ciclo D (dinheiro) . organizacionalmente vinculada aos meios de produção. Por isso transformações duráveis do processo produtivo conduzem também a padrões de consumo e estilos de vida duradouramente modificados. Por isso só se pode obter aumentos fracos da produção. abstração feita da mecanização.M . Empresas tomam constantemente decisões sobre investimentos. * a composição da demanda social. passando pela comercialização. da produção até o consumo. O processo de acumulação no ciclo D .D’ abrange todo o processo econômico.D’ (mais dinheiro). Mas a mera ação rotinizada das empresas ainda não cria nenhum regime de acumulação enquanto estrutura total estabilizada31. ambos possibilitados por estratégias de intensificação. No marxismo a fonte do poder radica nesse fenômeno. à medida que o empresário embolsa parte do valor gerado no trabalho. as operárias fazem greve ou o empresário torra o dinheiro. A mais-valia relativa pode ser aumentada mediante aumentos da produtividade ou mediante um barateamento dos bens de consumo.M (mercadoria) . À guisa de tipos ideais. produz um aumento do valor. De acordo com essa distinção. quer por um aproveitamento mais intenso do espaço ou do tempo. que apesar disso obedecem a um determinado padrão. porque sujeitos livres não-coagidos somente trocarão objetos de igual valor. um regime de acumulação caracteriza-se por regularidades do processo de acumulação. sem que houvesse uma 31 Hübner (1990:140) distingue na esteira de Boyer (1986: 46) as seguintes cinco dimensões de um regime de acumulação: * o tipo da organização da produção e a posição dos assalariados no processo produtivo. Pode-se diferenciar entre dois tipos distintos de apropriação da mais-valia absoluta e da mais-valia relativa. mas a exploração no sentido rigoroso do termo só ocorre no processo produtivo. No interior dos espaços nacionais de poder em vias de consolidação aumenta a massa dos trabalhadores assalariados. XX. Se o processo pára porque ninguém compra mercadorias. fala-se de estratégias de acumulação. da natureza ou das pessoas. O comerciante compra mercadorias para poder embolsar o lucro depois da sua venda. A regulação é um mecanismo que deve impedir tal acontecimento. A indústria de bens de consumo e de bens de capital desenvolvem-se em grande parte sem ligação. Quanto menor for a possibilidade de apoiar-se na economia de subsistência e produzir bens de uso por meio do trabalho próprio. em estratégias de extensificação. referida também ao desenvolvimento das capacidades de produção nos diferentes ramos. portanto. Nesse a mercadoria da força de trabalho. os operários trabalham e os empresários investem. podemos distinguir. que o capital deve percorrer para que ao fim o resultado seja maior do que o que o capitalista investiu inicialmente na sua empresa. Esse fenômeno perfaz em escala mundial o poder sobre o espaço do imperialismo. Quando a ação empresarial se desenvolve de forma rotinizada. especialmente também a questão do financiamento. todo o sistema entre em crise.plano. Aumenta o número de horas de trabalho prestadas por toda a sociedade. Regime de acumulação O processo de acumulação abrange o processo de trabalho no qual são produzidos. Por meio de padrões comportamentais rotinizados pretende se assegurar que todos os atores cumpram os seus papéis: os consumidores compram mercadorias. as técnicas de produção permanecem na sua maior parte inalteradas. que atingiu a sua dinâmica mais elevada na virada para o séc. À medida que cada vez mais pessoas produzem de modo capitalista. O processo de acumulação é significativo para as estruturas do poder precisamente porque nele são produzidos cada vez mais bens de uso necessários à vida. entre dois regimes de acumulação: o regime de acumulação dominantemente extensivo caracteriza-se por uma dinâmica da expansão social e espacial do capitalismo. tanto. * o modo de articulação com formas não-capitalistas. o aumento do valor deve ocorrer no processo produtivo. A mais-valia absoluta aumenta com a inserção de novos grupos populacionais no processo de valorização. mais significativa será a acumulação para a vida cotidiana no capitalismo. * a divisão do produto do valor em salários e lucros (bem como impostos). produz-se mais-valia em termos absolutos. * o horizonte temporal da formação e valorização do capital. um aumento da mais-valia absoluta baseia-se na extensão do capitalismo. bens de uso em um processo no qual o capital é aplicado de forma lucrativa.

o fato de que a ampliação das possibilidades de consumo não anda diretamente de mãos dadas com uma modificação das condições de vida dos assalariados. uma estratégia política baseada na intensificação. no entanto. Modo de regulação Um modo de regulação . a indústria de papel e a indústria eletrônica (cf. O capital é um poder sobre o espaço. Esse campo apresenta determinados pontos nodais.foi uma estratégia amplamente difundida de regulação fordista. No caso do regime de acumulação dominantemente extensivo. Caracteriza-se por taxas de aumento duradouramente elevadas da produtividade do trabalho. é. as decisões sobre o dinheiro ou os investimentos. segundo a qual esse é compreendido como campo de poder econômico. presente e futura * a forma do regime internacional decide sobre a articulação dos regimes nacionais de acumulação com a economia capitalista mundial * a relação salarial informa sobre a produção específica e apropriação do produto do valor. O automóvel e a urbanização rasante revolucionam nesse modo de desenvolvimento. Por isso não se pode mais produzir um esquema de reprodução enquanto soma de equações matemáticas. ao lado do regime de acumulação . A migração solapa o mercado nacional de trabalho e os investimentos diretos solapam o mercado nacional financeiro. he used a certain form of spatial organization to accelerate the turnover time of capital in production” (Harvey 1989: 266). como e. sobretudo em virtude da taylorização e da esteira mecânica33. Com isso ele alude à circunstância de que em uma fase de capitalização total de setores outrora não-capitalistas os ramos citados se revestem de grande importância. Do ponto de vista da mecânica do poder. 34 Exemplos típicos de regimes de acumulação intensiva são para Faria (1995: 10) as indústrias metalúrgica e química. assim se pode investir apenas o que foi poupado na economia interna. Como o capital é uma relação social. 33 ”[Ford] fragmented tasks and distributed them in space so as to maximize efficiency and minimize the friction of flow in production. específicas para cada caso * a relação concorrencial informa sobre o grau de concentração e centralização de capitais e sobre o modo da 27 . Esquemas de reprodução. que em contextos histórico-geográficos sempre produzem uma determinada combinação. O mercado de trabalho competitivo e o grande exército de reserva praticamente não permitem uma majoração dos salários para além do nível da subsistência. a indústria calçadista e moveleira. Mas esse acesso é extremamente deficiente e deve ser substituído por uma visão do regime de acumulação. sendo que a 32 Faria (1995: 10) denomina como ramos típicos da indústria. Como segundo tipo ideal. mas as suas fronteiras não são mais claramente definidas. ao que parece. Também no tocante ao espaço a dinâmica da acumulação é extensiva e consiste mais na ocupação de novos espaços do que em um aproveitamento mais intensivo dos existentes (na forma da urbanização). In effect. Um esquema de reprodução que analisa a produção e a reprodução está vinculado a um receptáculo fechado e abstrai do espaço de entrelaçamento internacional.o avanço econômico para novos espaços .estabiliza as relações sociais em um espaço de poder. fazem de conta que o capital age em um receptáculo. assim juros mais elevados aumentam o preço do dinheiro e reduzem assim o índice inflacionário. As condições de vida dos assalariados sofrem uma transformação radical.g. pode-se observar já na organização da fábrica elementos de intensificação. É importante reter aqui que no caso dos regimes de acumulação extensivo e intensivo se trata de tipos ideais. no entanto. a indústria têxtil e de confecções. Assim a valorização das periferias nacionais . sobre os quais se estrutura a acumulação extensiva. pois as condições tecnológicas e sociais de produção sofrem uma transformação. uma determinada causa conduz ao efeito sempre igual. Hübner 1990: 141). a análise do regime de acumulação é uma análise integral. Trata-se de auto-organização. que deve regular a temperatura interna em um prédio35. chamado fordismo. como no caso do regime dominantemente intensivo as estratégias extensivas não são inteiramente abandonadas. o cotidiano nos lares e aumentam a dependência de uma parcela crescente da população de uma renda monetária34. Uma grande parcela do consumo ainda é coberta com mercadorias do setor não-capitalista.e essa é a segunda concepção central da teoria da regulação.integração de todo o processo produtivo32. similarmente a um termostato. Mais decisivo do que a dinâmica específica dos ramos é. esse regime de acumulação se caracteriza pela intensificação dos usos do espaço e por um processo maciço de urbanização. o regime de acumulação dominantemente intensivo está orientado para dentro. 35 Um modo de regulação caracteriza-se comumente pelas cinco seguintes formas estruturais (institucionais): * o Estado e sua organização informam sobre o tipo da intervenção estatal na economia * a relação monetária produz a ligação entre as acumulações passada. i. a indústria de gêneros alimentícios e bebidas. pois a produção fordista em massa para o consumo das massas conduz a uma nova norma de consumo entre os assalariados. Tocante ao espaço.

Por conseguinte. já descrito em detalhe. Assim o sistema se torna suscetível a crises também nesse caso. oligopolistas ou monopolistas. Mas o valor do objeto de troca é determinado pela estabilidade interna e externa do valor da moeda.). é. i. A ele subjaz a apropriação privada da terra no processo da acumulação primitiva. em duas palavras. deve-se supor que as estruturas interna e externa não se coadunam. não são economias capitalistas. a relação entre capital e trabalho. i. a relação monetária e a relação concorrencial. Estas são utilizadas no processo produtivo. não há espaço para essa categoria em uma análise do poder sobre o espaço. muitas vezes é compreendida como a forma estrutural ”fundamental”. Becker 1999). o grande e o pequeno capital. 36 A rigor é costumeiro falar de cinco formas estruturais e analisar aqui a forma do regime internacional.M -D’ o dinheiro se torna mercadoria. da regulação. modos de negociação e normas sociais.). é. É certo que o escravismo é uma forma de acúmulo de riqueza. a saber. ”O regime internacional é uma configuração de espaços econômicos e do seu nexo. O regime monetário está assim estruturalmente vinculado à legitimidade” (Pereira 1998: 141). mas a regulação (Hübner 1990: 33 ss. é. para tornar-se D’. específicas em cada caso (Hübner 1990: 177-188) e está vinculada a um espaço concreto e à territorialização em virtude do caráter material do processo produtivo. A regulagem é apenas o setor parcial estatal. cria rotinas e normas.).). Faria 1998a: 171-175). formação dos preços.regulação social é um processo de estabilização de padrões de ação. Um modo de regulação pode ser definido como interligação de regras explícitas. A relação monetária permite a realização de valores e produz a ligação entre as acumulações passada. relações sociais estabilizadas. Mas a regulação [Regulation] é mais complexa do que a regulagem [Regulierung] na qual está em jogo apenas a utilização monitorada de meios. O dinheiro é a terceira forma estrutural do capitalismo. um modo de produção baseado no escravismo não é compatível com a estrutura capitalista fundamental. i. v. presente e futura (Görg 1994b: 121-127). asseguram que a ação individual seja compatível com as exigências estruturais e sistêmicas (Hübner 1990: 174): o Estado. sendo as crises o estado normal. Mas quando elas estão integradas na economia mundial capitalista. economias nas quais o trabalho assalariado não estrutura o processo produtivo. que concorrem em mercados atomizados. O valor é assim expressão da soberania dessa instância. por sua vez assegurada pela respectiva instância de regulação. territorial. a relação salarial. A relação concorrencial regula a concorrência entre os proprietários. ocorrendo também nesse caso crises ou um colapso das estruturas capitalistas. Na esteira de Joachim Becker (1999). Se o dinheiro não cumpre as suas funções. Aqui ocorre também uma distribuição dos potenciais de crescimento entre os respectivos espaços econômicos [. do qual participa uma multiplicidade de atores. por ocasião da análise das quatro outras formas estruturais (sobre a derivação das formas. O fator espaço forma uma unidade com o tempo e o fator social. No longo prazo. a regulação se subtrai em parte à apreensão direta pela ação e se afigura então como mão invisível. meio de produção e força de trabalho. Ela decide sobre a articulação de regimes nacionais de acumulação com a economia capitalista mundial (Arrighi 1993. Somente um governante soberano saberia regular processos sociais à maneira de um termostato.. Ele é a premissa da uniformização de valores sociais no processo de valorização (Aglietta 1987: 328 ss. Informa sobre o grau de concentração e centralização do capital e o tipo de formação de preços (Aglietta 1987: 215 ss. o capital internacional e nacional. que se baseia na existência de complementaridades estáveis. O poder produz comportamentos. o processo de acumuação pára. mais dinheiro do que o montante originalmente aplicado. 28 . A afirmação ”O Estado regula” seria uma aplicação dessa idéia de regulação. O pressuposto da estabilidade do regime internacional é a concordância do mapa da divisão internacional do trabalho com as formas da regulação internacional. que dizer. a posição econômica e política” (Nasr 1998: 36 e 39). o capital financeiro e produtivo. A relação salarial informa sobre a produção e apropriação do produto do valor. Como isso condiciona processos complexos. concretamente deve se distinguir entre o capital do Estado e o capital privado.. o poder não produz a regulagem.]. planejado. pois determina o status de todo e qualquer membro individual enquanto proprietário de mercadorias. assegura a acumulação progressiva do capital e possibilita a intensificação da divisão internacional do trabalho. mas a dependência direta dos escravos inibe a difusão de normas capitalistas de produção e consumo. Ocorre que a regulagem é um processo complexo. pois ele lhe permite adquirir o que quiser com o seu poder aquisitivo e lhe possibilita igualmente vender a sua força de trabalho. ”O dinheiro representa uma das formas principais de uma representação coletiva. Quatro36 formas estruturais distintas. No esquema de reprodução D . Deve-se fundamentalmente distinguir entre formas competitivas e formas corporativistas. Poder executar uma política monetária soberana é uma das competências nucleares dos estados nacionais modernos e contribuiu para a homogeneização do espaço nacional enquanto espaço da circulação de mercadorias. A dimensão espacial e também a inserção internacional devem ser incluídas na reflexão. A relação salarial. que necessita de sujeitos econômicos livres. pois decide sobre a distribuição da mais-valia (Aglietta 1987: 111 ss.

À guisa de conclusão. a assincronia das evoluções nas diferentes áreas dificulta a periodização.nem o plano subnacional são suficientemente reconhecidos na sua importância. portanto repetível a qualquer hora. Ao invés dela. 1. O desnudamento de camadas geológicas. gerar uma teoria da regulação espacial que leve em consideração a regionalização de processos sociais. independentemente do grau de estabilidade que outras áreas sociais logram atingir no curto prazo. a excavação em busca das raízes. integrar a espacialidade na análise nacional outrora não-espacial. Por isso se deve trazer à luz também a hierarquia das formas individuais. São importantes ainda a situação concorrencial na região e a inserção da região em regulações. i. Em terceiro lugar. Assim o regime de acumulação e os modos de regulação podem ser analisados em planos espaciais distintos. Quando e onde a estabilidade e as rupturas são 37 . Aqui se examina sobretudo a acumulação e regulação regionais concretas e a sua posição no espaço nacional de poder38. A regulação e a acumulação referem-se uma à outra. A teoria da regulação surgiu em oposição a uma concepção do tempo lógico. ela opera com a concepção do tempo histórico e baseia-se num modelo de fases da evolução histórica. Além disso devem ser analisados o Estado ampliado. a saber na nação. Do ponto de vista empírico. Devido às debilidades das estatísticas regionais não se pode fazer nenhum exame aproximadamente tão preciso como no plano nacional. Existe. Cada forma social possui a sua própria lógica e modifica-se segundo as suas próprias leis. mas deve examinar também os entrelaçamentos econômicos e políticos de sistemas regionais de produção e de regulações sociais. A regulação fixa por intermédio do Estado ou da sociedade civil regras para um território e conduz a padrões de ação territorialmente consolidados. Nesse sentido a teoria da regulação enquanto produção de teoria é marcada pelas condições gerais de matriz fordista. no entanto. O programa de pesquisa da teoria da regulação implica uma análise espacial. Nem o plano supra. quero mostrar ainda o que significa falar de regulação como produção de territórios. Por isso uma teoria da regulação regional deve concentrar-se no aspecto da organização e estrutura da produção regional. 29 .mesmo que esse recipiente tenha sido compreendido como permeável em virtude da forma institucional da ”inserção internacional”. por outro. Estes influem na acumulação e regulação nacionais e criam um determinado poder sobre o espaço. Como se trata da distribuição do produto do valor. Mas o componente de teoria da ação desse enfoque histórico enfatiza que o capitalismo não obedece a nenhuma lei própria da acumulação do capital. e datar as rupturas evolutivas nesse momento. como isso ocorre no quadro de uma análise do espaço e do poder. é. ela depende em partes substanciais do material estatístico do cálculo do rendimento da economia regional e de uma representação matemática. que impele na direção de transformações. A totalidade das formas sociais resulta em uma ordem social mais ou menos estável. uma viagem através dos tempos. identificar a forma estrutural dominante. o Estado e a sociedade civil. pois as manifestações concretas da coação à acumulação do capital são examinadas. Uma teoria espacial da regulação deve evitar tais reduções e cumprir dois objetivos: por um lado. uma coação estrutural que impele sempre de novo a configuração concreta das formas sociais na direção do seu limite (Görg 1994a: 56). Aqui a análise se concentra em um determinado espaço de poder. de modo que no novo o antigo subsiste em forma e intensidade distintas. 38 Com vistas ao regime de acumulação o marco geral da análise não pode ser simplesmente transferido ao plano regional. Mas as formas individuais possuem dimensões distintas. seria também desejável uma representação cronológica de momentos isolados. Uma análise regional debruça-se sobre um território nacional parcial. Em primeiro lugar uma apresentação do regime de acumulação deve forçosamente considerar as formas estruturais que conduzem a uma estabilização. exige também uma conceitualização específica do tempo. Esta seria um receptáculo no qual transcorrem determinados processos de Economia Política37. A análise nacional não está apenas localizada no plano nacional. Uma análise exata de processos de desenvolvimento quantitativo não é possível.4 Tempo Analisar por um período de 500 anos a evolução do Brasil é uma empreitada historiográfica. O colapso da(s) forma(s) dominante(s) inaugura quase sempre uma crise. pois o novo se sobrepõe por assim dizer como uma camada ao antigo. Disso resulta que na representação textual e gráfica as periodizações de toda a sociedade não são exatamente pertinentes para as formas sociais identificadas como não-determinantes. mas são apresentadas seqüencialmente no texto. No receptáculo ”nação” consumar-se-ia a reprodução do capital – a produção e o consumo. São áreas cronologicamente representadas que se interrelacionam enquanto processos. que percorre determinadas etapas na direção de um objetivo. uma representação histórico-geográfica do espaço e do poder é difícil por várias razões. Em segundo lugar. e o trabalho enquanto duas formas sociais fortemente diferenciadas em termos regionais. mercados e entrelaçamentos de capitais transregionais.

Análises contextuais de poder que tendem a superestimar o respectivo palco do poder e o ”exercício” do poder.de conflitos políticos e ideológicos concretos.localizadas é portanto uma questão de central importância para a teoria da regulação. mas todas as formas estruturais perdem a sua estabilidade. Ao lado dos momentos estruturais.). Uma análise do poder sobre o espaço é. 30 . uma caminhada na corda bamba. às quais essa ação história se vê submetida. Por isso as crises são fenômenos histórico-geográficos e desembocam freqüentemente em grandes conflitos sociais. Só quando se logra suportar essa tensão. a respeito Jessop 1990: cap. Justamente por causa disso essa análise deve aceitar a crítica de unilateralidade estrutural. Mas como eles desistem de efetuar uma análise estrutural. ainda continuam produzindo efeitos em tempos de crise. Uma análise do poder sobre o espaço pode tirar proveito da integração de análises marxistas da totalidade social e de uma análise foucaultiana da micropolítica e do poder atuante nas dimensões da organização e do discurso (cf. o futuro da estrutura pode ser percebido de forma pouco nítica. as estruturas de fases anteriores. Quando não apenas um ou outro arranjo institucional estão sendo questionados. Não em último lugar. e a superestimar o poder de leis sociais. Coisa semelhante vale para os atores locais concretos. Estruturas que em fases estáveis muitas vezes não são questionadas ou nem são percebidas. desaparecem do campo visual. em uma estrutura (Fiori 1995: 12ff. Nexos importantes dentre os percebidos. A regulação produz a estabilidade em uma formação social muito suscetível a crises.39 A consideração da inserção estrutural de acontecimentos concretos distingue uma análise da conjuntura enquanto trabalho científico do trabalho empírico freqüentemente excelente de jornalistas e de comentaristas políticos e econômicos. i. Inversamente. Em tais momentos a ação ganha importância a expensas das estruturas. efetuada simultaneamente com a análise concreta. é possível compreender o poder sobre o espaço. que distingue entre fases estáveis e fases inestáveis. Novy 1998. 4 que integra as análises que privilegiam ou a dimensão da estrutura ou a da ação. ganham a sua força explicativa apenas por meio de uma análise estrutural. não é um simples ”achado” (Lipietz 1992: 29). O antigo está desacreditado (Grasmci 1971: 276) e uma virada se afigura possível (Hirsch 1992: 230 s. Isso tem um significado decisivo para análise de poder sobre espaço. difunde-se a consciência de que ”os homens fazem a sua história” e as coações. A análise exclusiva de estados estáveis praticamente não deixa espaço para os atores. Nesse momento conjuntural do ”presente” a história está aberta. Estas encerram uma fase de estabilidade e conduzem talvez a uma nova fase de estabilidade com uma nova configuração das formas estruturais. no entanto. constantemente exposta ao risco de suspender [aufheben] a relação de tensão dialética em benefício de opções de ação ou da lógica da estrutura. 8 e 9). Muito pelo contrário. um tempo concreto. O lado forte de uma análise do regime de acumulação e do modo de regulação está em ela fornecer uma teoria praticável da estrutura. estáveis. A abertura de situações de crise torna estas interessantes para a ação política. superestimam o grau de liberdade dos atores e subestimam a inércia do status quo. mas perde-se a referência ao plano da ação. 39 Para tal. Resta. contudo. a teoria da regulação fala de ”grandes crises”. Nesse sentido o presente trabalho culmina na análise da conjuntura no cap. uma hierarquia entre a teoria marxista e a crítica de Foucault: a primeira oferece um arcabouço teórico para compreender a sociedade enquanto um todo. é.). 4). similarmente às instituições. Muita coisa parece possível. por conseguinte. o fator da ação. afiguram-se mutáveis em tempos de crise. mas a estrutura pouco clara de crises e o conflito em torno da atribuição de sentido a esses processos observáveis dificulta a produção teórica. Mas a solução dessas crises não representa nenhum acaso. seja porque estas se comportam mecanicamente e obedecem a rotinas. devem ser examinados com outras teorias sociológicas e com um enfoque metódico mais amplo no caso concreto (cf. os enfoques de Economia Política não bastam. em algumas áreas sociais mostram-se fenômenos de crise. seja porque só examina estruturas. crises. a seletividade estratégica do Estado favorece um fim da crise que assegura a continuidade da estrutura do poder. Esses últimos dispõem de um conhecimento factual insubstituível. de dados e informações sem as quais uma análise da conjuntura não é possível. sobretudo no tocante a problemas organizacionais e discursivos. ele admite também momentos concretos.seletiva . a abertura . É possível analisar estruturas mais profundas de poder sobre o espaço.) também considera o elemento de ação no quadro do seu enfoque ”estratégico-relacional”. os analistas de estruturas tendem a eliminar do seu foco de atenção justamente essa dimensão conjuntural. abertos à apreensão pela práxis. com eles. um ”presente” que se realiza em uma onda longa. Uma conjuntura é um tempo específico de espaço. Este é o tempo e o lugar no qual os homens ”fazem geografia e história”. cap. O elemento de teoria da ação deve ser assegurado no quadro de uma análise da conjuntura de um modo que vai além da teoria da regulação. Jessop (1996: 124 s. Mas em crises e durante a busca de novas ordens institucionais e estruturais ganham importância os atores e. Crises manifestam-se como rupturas na reprodução das relações sociais em um espaço geográfico (Boyer 1987: 61) que simultaneamente é um espaço concreto de poder. é. A ação transformadora nunca ocorre sincronicamente em todas as formas sociais. i. ao passo que outras preservam a sua estabilidade.

para analisar a economia e a política como uma unidade. precisamos desembaraçar-nos de vários dogmatismos e várias delimitações convencionais. contudo. pois resultam de uma estrutura social profunda. pelo evento aparentemente destituído de importância. No quadro de análises espaciais de estruturas são representadas as configurações [Ausformungen] concretas de estruturas que permanecem constantes durante um período no espaço e no tempo. 41 Para a compreensão da ”transformação estrutural” é necessário definir o alcance espacio-temporal de estruturas. interesse e posição sociais deveriam ser pensadas como contingentes. Nesse empenho. é. Inversamente uma análise estrutural tende a subestimar as margens de ação dos atores em situações concretas. Ao lado desse conceito de estrutura da ”longa duração”. o ”momento de indeterminação no movimento do tempo estrutural” (Fiori 1995: 11). isso ajuda para uma análise do poder sobre o espaço enquanto análise estrutural. inscritas profundamente no espaço e no tempo. Thus ´contingent´ means ´indeterminable within the terms of a single theoretical system´. A advertência de Scherrer contra adensamentos estruturalistas e a ênfase em uma abertura fundamental do futuro é correta. Embora ambos tenham sido temporariamente membros do Partido Comunista. Analisa-se em um tempo-espaço concreto processos estruturais e institucionais assim como eventos. é. assim como a maioria dos marxistas. O marxismo fala de estruturas específicas às formações. as necessidades e a 40 Análises de conjuntura visam a investigação de evoluções concretas na Economia Política. a análise opera simultaneamente em três níveis. i. Scherrer (1995: 462) constrói a partir disso. Não admira que um partido leninista pouco se tenha interessado por um tal crítico e vice-versa. Foucault alguns flashes. podemos observar diversos arranjos institucionais e lógicas distintas da ação. os dois foram companheiros de jornada nos conflitos políticos concretos (Schmid 1991: 109-111). tomada isoladamente. Foucault foi tachado de apolítico e como pessoa desinteressada na práxis transformadora. devendo ser complementada por outros enfoques interdisciplinares. especialmente. i. Becker 1998b). é. Não obstante. é. cuja forma se pode alterar rapidamente no processo de modernização. Quero tentar sobretudo tornar fecundo o potencial contido nos trabalhos de Foucault. mas ela é. que permanecem relativamente constantes durante várias décadas em um lugar. Uma leitura atenta sobretudo dos últimos escritos de Foucault lança uma nova luz sobre a sua relação com o marxismo e relativiza o seu ”estruturalismo”. pelas estruturas organizacionais internas. Durante muito tempo o conflito entre Jean-Paul Sartre e Michel Foucault sobre a ”morte do sujeito” foi visto como conflito entre duas posições inconciliáveis. de estruturas que são elementos constituintes do capitalismo. Por ocasião de uma alteração de todas as manifestações de formas estruturais falo igualmente de alteração estrutural. Foucault sempre se interessou mais pelas coisas miúdas.enquanto totalidade. A análise marxista fornece com o processo de valorização a estrutura unificadora do processo. it can properly be juxtaposed to the notion of ´necessity´. ”casualmente” uma ordem nova. i. falo também de manifestações concretas das formas estruturais em diversos modos de desenvolvimento. interessaram-se por coisas distintas: Sartre. pois um nova estrutura total está surgindo. i. de uma ordem antiga. é. 31 . insuficiente para compreender exaustivamente a conjuntura. Ele lança uma advertência contra o banimento da contingência de evoluções sociais para a ”pedreira” [”Fundgrube”] histórica (liepitzschiana). A compra de votos ou o paternalismo são instituições dessa natureza. uma crítica em termos de análise do discurso: todas as relações entre identidade. 42 ”Whereas ´contingency´ is a logical concept and concerned with theoretical indeterminability. a segunda fornece diante disso o aguilhão da crítica. Na esteira de Jessop defino a relação entre economia e política como ”contingentemente necessária”42. ”Muito pelo contrário. cujos alcances espacio-temporais são mais restritos (Görg 1994b: 111-115)41. o conflito aparentemente muito abstrato sobre se as formas sociais do capitalismo são institucionais ou estruturais tem um grande significado. Para a pergunta pelas margens de ação existentes. articulando todos os três planos entre si. which signifies the assumption underpinning any realist scientific enquiry that ´everything that happens is caused´” (Jessop 1990: 12). o questionamento criativo do modelo marxista e a compreensão aprofundada de lógicas e estratégias de ação. ´necessity´ is an ontological concept and refers to determination in the real world. Uma análise das ”formas estruturais” supõe para determinados tempos-espaço nexos constitutivos entre as diferentes formas sociais (Aglietta 1987. i. segundo a qual surgiria. Por sua vez. depois do que existiria novamente a coação à estrutura (Scherrer 1995: 473). Estruturas consolidadas em 500 anos subtraem-se à simples apreensão pela ação. interligando-os. Com isso evito igualar a estrutura com necessidade e a ação e o sujeito com contingência. Mas no interior dessa formas estruturais. Sartre representava aqui a defesa da política que carece do sujeito enquanto ator conscientemente agente. na esteira do conceito da ”contingência radical”. Isso se espelha também nesse trabalho. em contrapartida. da microfísica do poder40. Mas a sua negação da existência de estruturas profundas é falsa. estava interessado na evolução da totalidade social e nas relações de dominação nela atuantes. Marx fornece o fio condutor.

A importância desses atores resulta da análise das estruturas. Tais análises permitem unir o tempo histórico com os movimentos estruturais que se estendem pelo espaço e tempo (Fiori 1995: 10). A análise da conjuntura implica a abertura fundamental do futuro. 32 . equilíbrios sociais são estados de exceção. a ”contingência radical”: conjunturas também estão sujeitas a regras.). é. para reduzir o nível de abstração da análise e chegar à análise de situações concretas. A abertura não é gratuita. Com isso também as análises da conjuntura refutam a abertura radical da história. Como a ordem social contemporânea é conflitiva. Análises de conjunturas são importantes sobretudo na análise de transições (Fiori 1995: 54 s. No lugar disso. Estratégias de poder e acumulação são perseguidas por atores coletivos. à ordem da estrutura. a serem amplamente tratados no capítulo 4. uma alteração isolada de manifestações concretas de formas estruturais não pode ser mantida no longo prazo. a rigorous application of discourse-theoretical principles would question the necessary fixity of the macro-level as well as the apparent fluidity of the micro level” (Jessop 1990: 246). em consideração a vinculação da ação ao seu contexto e remete-se.contingência sempre estão interligadas em estruturas” (Görg 1995: 629). 1999). leva-se. Feldbauer et al. A crise econômica mundial de 1930 e a crise da globalização depois de 1980 representam tais momentos históricos abertos (cf.43 No enfoque de Economia Política as estratégias assumem um papel central sobretudo nas análises de conjunturas. 43 ”Indeed. embora estas sejam menos persistentes do que estruturas. com ajuda do conceito da contingência. i. Mas as estruturas mais além elaboradas limitam o espaço de possibilidades para a alteração dos campos sociais. com ajuda do conceito da necessidade. definidos essencialmente pelos seus interesses de classe. há sempre processos que atuam na direção da transformação.

A dimensão nacional está construída socialmente ou é descontruída socialmente. Mas o território da nação é um produto histórico-geográfico e não um receptáculo: foi produzido e pode ser destruído. podemos compreender porque esse plano foi uma cesura na formação da nação brasileira. o endividamento e a pobreza são um lado da moeda. mas extremamente intensos anos de destruição. ao lado do espaço concreto. A análise da produção de territórios é tão importante quanto a análise do território concreto. foram exportadas outras coisas que no espaço global se transformaram em matérias-primas e mercadorias. Com a chegada dos portugueses em 1500 a situação do receptáculo se alterou fundamentalmente. determinados padrões de ação. Um regime de acumulação e um modo de regulação fornecem a manifestação concreta das formas estruturais capital. O espaço se estruturou de tal forma que determinadas decisões tomadas pela instância central se revestiam de significado para todo o espaço. XX. para que possamos reconhecer instituições e estruturas duradouras. Somente após a consideração do outro lado. As suas fronteiras atuais somente foram estabelecidas definitivamente no séc. o Brasil já existe há muito tempo e serviu a distintas comunidades humanas como espaço de vida. Fernandes 1987: 27). mas transformações no espaço social. o poder sobre o espaço do desenvolvimento internacional. Mas o que interessa aqui são as transformações nesse receptáculo. Dessa forma o poder sobre o espaço que atuou a partir da Europa sobre a América constituiu liminarmente um espaço de entrelaçamento. constitui o ponto de partida da análise subseqüente. da dimensão profunda e estrutural do Plano Real. no qual uma parte da América do Sul se transformou no Brasil enquanto espaço de poder sui generis. atuantes durante períodos mais longos. há milhares de quilômetros de costa e um gigantesco planalto. também o seu campo circundante. tais como ordenamentos referentes a trajes e regras de boa conduta se unificaram nesse espaço assim como a maneira de processamento do comércio de longa distância ou a exploração do solo. políticos e econômicos. como El Niño ou o aquecimento global. cruzamentos de rotas comerciais e enclaves de produção. a produção de espaço. foi considerado um grande êxito. Em fases estáveis o 33 . vale dizer. o desemprego. mas o poder histórico-geográfico dos seus agentes produziu seus efeitos na ideologia da globalização. De início esse plano. lógicas rotinizadas de ação. Um modo de desenvolvimento é um campo de poder ao qual subjazem estratégias estabilizadas de acumulação. Por isso devemos incluir na análise. um espaço dotado de sentido para os que nele viviam (Furtado 1976: 1). a produção da nação enquanto território foi um processo multissecular. No receptáculo Brasil o clima predominante é tropical e subtropical. localidades individuais se transformaram em bases militares de apoio. depois da desvalorização de 1999 e da recessão de 1998 e 1999 a avaliação já foi bem menos eufórica. no qual e sobre o qual se exercia a dominação. Os efeitos de curto prazo sobre a inflação. com as quais esse modo de desenvolvimento é estabilizado. O espaço-receptáculo da nação. O Plano Real compreendeu-se como plano de estabilização e ajudou efetivamente a estabilizar uma determinada espécie de ordem que quero desmascarar como des-ordem. em meio a um processo histórico. o regime de acumulação e o modo de regulação constituem os três conceitos fundamentais com os quais se designa fases de estabilidade. A presente análise foi escrita quando o Brasil tinha implementado depois de 1994 um programa de estabilização. Por isso se faz mister dispor de conceitos claros. coisas e pessoas? Enquanto espaço geográfico na América. repleto de atores e processos sociais. nenhum espaço de poder claramente delimitado. vale dizer. regras normatizadas de produção e consumo e padrões políticos não-questionados. Muito pelo contrário. repleto de natureza. na qual diante de tanto progresso não mais parecia haver lugar para os pequenos. Estado e trabalho. O Brasil ainda não era nenhum terrritório. citado segundo Couto 2000: 416) O que é o Brasil? Um receptáculo. Novas pessoas e novas coisas chegaram ao Brasil. O modo de desenvolvimento. o Plano Real. isto é. subjaz a uma transformação permanente (cf. A construção multissecular da nação e do Estado foi seguida por poucos. E aqui não estão em primeiro plano acontecimentos da natureza. que reduziu por vários anos drasticamente a inflação. A partir de um espaço em si surgiu. dinheiro. Essa destruição foi um projeto estrutural.2 Construção e destruição do fator nacional no Brasil ”As ruínas de uma nação têm a sua origem na casa dos seus pequenos cidadãos” (Provérbio africano. Mas diante do pano de fundo de uma história de 500 anos de espaço e poder eles representam apenas as transformações na superfície.

Por isso a estabilidade não consiste na ausência total de quaisquer crises. mas na capacidade de um campo de poder de estabilizar os seus pontos nodais e as suas instituições por períodos mais longos e em espaços mais extensos. como dado de orientação prévia. pois as formas estruturais fornecem.desenvolvimento se processa em vias relativamente definidas. subdividido nos seus estados 34 . 7: O Brasil. Mas em uma sociedade conflitiva . Quando depois de 1980 um antigo campo de poder entrou em colapso. a crise e a estabilização passaram a ser os novos conceitos centrais da política. Ilustr.um tal campo estável precisa ser um tipo ideal cuja ordem é permanentemente solapada por processos contraditórios.e esse é o cerne da minha tese sobre a des-ordem . padrões de ação retomados rotineiramente e sem questionamento pelos indivíduos.

grandes regiões e suas siglas: BR – Brasil NO – Norte: RO .Ceará RN .Nordeste: MA.Paraná SC .Amapá TO .Minas Gerais ES .Amazonas RR .Sudeste: MG .Piauí CE .Espírito Santo RJ .Rio Grande do Norte PB .Tocantins NE .Alagoas SE .Rondônia AC .Goiás DF .Mato Grosso GO .São Paulo PR .Estados.Roraima PA .Rio de Janeiro SP .Maranhão PI .Pernambuco AL .Distrito Federal Fonte: Novy 1994: 161 35 .Bahia SE .Acre AM .Centro-Oeste: MS .Mato Grosso do Sul MT .Pará AP .Paraíba PE .Santa Catarina RS .Sergipe BA .Rio Grande do Sul CO .

36 . mas criaram os fundamentos do surto da economia cafeeira. Mas o tipo de acumulação e a espécie de harmonização de produção e consumo constituem também poder sobre o espaço. por um lado. 2 A deterioração dos preços do açucar encerrou o primeiro ciclo e criou o pressuposto da decadência do antigo centro do Brasil. A crise da exploração do ouro e os problemas da economia externa no início do séc. lançando os fundamentos de uma acumulação política. formas de organização e nichos de resistência têm uma duração muito menor do que as camadas mais profundas do campo de poder. O presente trabalho é uma crítica de Furtado no sentido de que as suas importantes descobertas são em parte revistas e em parte desenvolvidas para além das posições do autor. 3 Conceição (1989a: 204). pois o fundamento da minha própria periodização é a distinção entre o poder sobre o espaço. sejam elas o regime de acumulação ou formas estruturais. Depois ocorre uma acumulação intensiva. Não acompanho Furtado na minha periodização. 1930 (revolução varguista). no intuito de compreender melhor rupturas e continuidades. espaços de poder respectivamente específicos2. utilizados de forma fecunda para a análise do poder estrutural e de espaços de poder. Esse processo é paralelo ao fim da hegemonia britânica e do padrão ouro. pois os pontos nodais do campo de poder são aqui de forma multiplicada internos. pois a sua concepção se orienta demasiado segundo a demanda e não efetua uma análise suficiente do Estado e da sociedade. As suas opiniões. Por fim. A história política do Brasil recomendaria datar as rupturas em 1822 (independência). baseado na exportação de café. a crise econômica mundial de 1929 encerrou a fase da orientação para a exportação de bens primários. XIX e a economia de transição para a sociedade industrial no séc. pois atribui um significado demasiado reduzido aos processos da economia política interna. Com relação ao período de 1870 a 1930 ele fala de um regime de acumulação extensiva. As crises. Fiori (1995a: 73) fala de uma fase de centralização para a estabilização da economia escravista (1820 a 1870). ao passo que para a CEPAL as crises ocorrem em virtude de modificações da inserção na economia mundial3. A regulação. por suas vez. isto é. Via de regra. A minha análise histórica também não pode ser mais do que a de Furtado um ”esboço do processo histórico da formação da economia brasileira” (Furtado 1975: 1). XIX levaram a uma decadência do interior do país. XVIII. XX. do Nordeste. Esse fordismo periférico. A espécie do espaço de entrelaçamento econômico. Isso se dá mais facilmente em sistemas endógenos de produção. Em que pesem todas as suas vantagens. anos 80 (democratização). na qual Furtado se insere. Furtado (1975) distingue os quatro seguintes períodos: a economia escravista na agricultura tropical nos sécs. Mas a análise desses processos internos constitui justamente o cerne das reflexões fundamentadas na teoria da regulação. e os palcos do poder. que abrange todo o campo de poder e estrutura em profundidade o desenvolvimento social. por outro lado. e isso produz em sistemas de produção com orientação externa um efeito de polarização e fragmentação. baseada na industrialização substituidora de importações. situa a transição de um regime mercantil para um regime extensivo no ano de 1870. à ascensão dos militares e à fundação de partidos republicanos.esse enfoque apresenta um fraqueza essencial. O olhar em retrospectiva deverá permitir uma melhor compreensão do presente e do futuro da nação. devido à ascensão dos barões do café. 1964 (”Revolução de Abril” ou golpe militar). busca consolidar esses poderes sobre o espaço. Na terminologia de uma análise do poder sobre o espaço em termos de economia política o objetivo único é a análise dos palcos do poder. a transição ao trabalho assalariado no séc. em cuja superfície se travam os conflitos sociais. Internamente as fases de surto criaram no Brasil enquanto tempos de espaço específicos. uma produção em massa para um mercado de massas apenas restrito. como isso é necessário no quadro da teoria da regulação. ordená-los e territorializá-los. concentra-se precipuamente na endogeneização ou nacionalização do sistema produtivo. Nesse trabalho são retomados enfoques regulacionistas e cepalinos. que realizou primeiramente a tentativa de uma periodização nos termos da teoria de regulação. por sua vez. a sua endogeneização mais ou menos pronunciada é significativa para o poder sobre o espaço. mas também a sua atuação política podem ser consultadas na sua autobiografia em três volumes (Furtado 1997 a. da superfície dos conflitos sociais. ”Formação Econômica do Brasil” (publicado originalmente em 1959)1. monitorada pelo estado desenvolvimentista. esses conflitos e estratégias. XVI e XVII. pois o controle sobre decisões importantes é efetuado de fora. depois do breve ”milagre brasileiro” (1967-1973) amplia-se a crise da acumulação intensiva. depois ocorre um processo de descentralização (1870-1914). b e c). isto é. essas vitórias e derrotas concretas. resultam na teoria da regulação das rupturas na acumulação e regulação. à difusão do trabalho assalariado. 1889 (proclamação da república). O primeiro plano é ocupado aqui pela estabilização da economia e da política no plano interno. interno e externo. A estabilidade é alcançada mediante uma congruência de regime de acumulação e modos de regulação. que durou até 1980. Por isso a análise histórica de Furtado é também implicitamente uma análise geográfica das interações dos fatores nacional e internacional. discursos. já entra em crise no final dos anos 50. os espaços de poder. Não há como compreender a formação da nacionalidade brasileira sem a obra clássica de Celso Furtado. a economia escravista na mineração no séc. crises e estabilizações da atualidade. Mas a 1 Celso Furtado foi um dos fundadores da pesquisa em história econômica no Brasil e simultaneamente durante muitos anos ator no campo de poder no Brasil. pois a tradição cepalina.O presente trabalho re-interpreta a história do Brasil. que perdura até os dias atuais.

não consegue. Nesse sentido os capítulos 2 e 3 preparam o chão para a análise da conjuntura no capítulo 4. a sua vida não transcorre segundo um roteiro. reproduzir essa dialética. elaborada na esteira de Conceição (1989a: 204) e Faria (1995: 30) serve também apenas como ponto de partida e orientação da reflexão mais extensa. com o fim do padrão ouro e a industrialização em vias de dinamização nos anos 20. o Estado. que analisa simultaneamente a estrutura profunda e os palcos. O modo pelo qual o capital. 37 . Esses campos de poder sistematizados com ajuda de esquemas conceituais da teoria da regulação resultam da estrutura profunda da sociedade brasileira. empreendida a seguir. A análise do palco nacional do poder aproxima-se da pergunta pelo espaço e poder a partir do outro extremo e descreve a história como história de muitos grandes homens e algumas mulheres isoladas. a saber. assim como também a transformação profunda de formas estruturais concretas é o pressuposto necessário para preservar elementos essenciais da velha des-ordem. O estudo do caso nacional inicia com uma análise estrutural. as estruturas do poder sobre o espaço. Assim o Plano Real estabilizou uma des-ordem estruturalmente instável. e a Proclamação da República e conseqüentemente o fim do Império em 1889. As formas estruturais individuais modificaram-se com velocidade e intensidade distintas. Em 1930 foi novamente uma alteração da estatalidade que abriu para um ordenamento aqui e ali já germinalmente existente uma trilha cuja direção se tornou a seguir irreversível: a fase centrada no estado nacional. Por outro lado. A crise eclodiu somente em 1981. Não obstante. Os atores não são meros portadores de estruturas. A crise da acumulação extensiva iniciou-se antes do golpe militar de 1964. a ruptura de 1822 preservou inicialmente a velha rede de entrelaçamentos econômicos. XIX foi em ampla escala uma fase de transição. conduziu gradualmente também a uma re-estruturação do espaço de entrelaçamento. As análises de palco e da estrutura profunda distorcem a dinâmica da evolução que só logra explicitar seu potencial interpretativo integral em uma sinopse. uma transformação estrutural. enquanto representação seriada de regimes de acumulação e modos de regulação. É importante chamar de saída a atenção a essa circunstância. não é apenas o desempenho rotinizado de papéis em uma encenação previamente definida. durante um certo período dominantes. que se tornara dominante. Assim a Tabela 2. uma análise que compreende o desenvolvimento social como contraditório (Cardoso. o que. tornando assim compreensível o significado histórico dos conflitos políticos e sociais. Objetiva-se. o fim do estatuto colonial e. ou o mais tardar em 1974. O regime de acumulação extensiva. Por um lado.a Proclamação da República em 1889. Mas nas profundezas do campo de poder. e a regulação compatível com ele constituíram. as evoluções nacionais e regionais. conseqüentemente. Até o início dos anos 80 tais transformações profundas ainda não eram perceptíveis na superfície e o estado nacional continuou sendo o ponto nodal da regulação. Por fim. não em último lugar. o séc. a conquista da independência nacional em 1822. num primeiro momento. A seguir. Agir é parte de um processo que consolida ou transforma o campo de poder subjacente. Só uma análise da conjuntura consegue por em relevo essa dialética de poder sobre o espaço e espaço de poder. uma ordem relativamente estável porque eram garantidas pelo predomínio britânico.atuação em palcos. XIX ocorrem em si duas grandes rupturas políticas. na conseqüência. no qual podemos observar palcos principais e secundários do poder. No séc.). ela constituiu o Brasil como território independente. o dinheiro e o trabalho estão organizados e intervinculados é estruturado pelo campo de poder. tal como ela é empregada para estruturar a representação histórico-geográfica. A análise estrutural examina o Brasil como se não existissem atores. Faletto 1979: 139 ss. portanto. pretendemos visualizar as vantagens de uma análise dialética. pois uma periodização em termos de teoria regulacionista. na qual diversos modos evolutivos são representados como manifestações estabilizadas do capitalismo no Brasil. nos espaços geográficos e sociais concretos. a transição foi ratificada por uma alteração do regime . concentrado no dinâmico centro São Paulo. já se prenunciava. Ele mostrou o que perpassa toda a história do Brasil: na manutenção da ordem e estabilidade estão contidos os germes de rupturas.

b). em vias de internacionalização crise da acumulação intensiva.Tabela 2:Sinopse dos modos de desenvolvimento do Brasil de 1500 a 1998 regime de acumulação acumulação baseada na escravidão economia açucareira (mais tarde: mineração) capital comercial modo de desenvolvimento colonial ”renda escravista” sob dominação européia demanda concentrada do barão do açúcar por bens de importação comunidades indígenas (exército de reserva). Adaptação do autor BRASIL 1500 – 1822 modo de regulação regulação colonial colônia portuguesa. sem acesso à com continuação da hegemonia dos EUA produção de subsistência Fonte: Conceição (1989a. Faria (1995). ”tropicalmente fordista” nacional urbanização e complementação da estrutura produtiva asseguram sob a hegemonia dos EUA demanda interna (”fordismo periférico”) concentração fundiária assegura exército de reserva para a indústria a partir de 1982 acumulação estagnante. aumento das transações financeiras crise do modo de desenvolvimento centrado no estado deterioração da distribuição da renda esgotamento da urbanização e da ampliação da estrutura produtiva nacional sociedade inteiramente capitalista e urbanizada. custeado por investimentos de longo prazo e modo de desenvolvimento orientado para o endividamento de curto prazo exterior migração internacional dinamiza mercado de trabalho sob dominação britânica demanda maior das camadas médias urbanas (dependente de importações) acesso mais difícil à terra é um empecilho para a produção de subsistência 1929 – 1982 acumulação intensiva centrada no estado nacional empresas industriais modo de desenvolvimento centrado no estado financiamento estatal (e estrangeiro) de longo prazo distribuição injusta. política econômica mercantilista economia de escambo e do ouro escravidão (sistema da concessão de terras pelo rei) economia de enclave (falta do mercado interno) regulação nacional orientada para o exterior federação e crescente intervencionismo local padrão ouro (com instabilidades financeira e monetária) transição ao trabalho assalariado (depois que o livre acesso à terra não era mais possível) economia de enclave (germes de um mercado interno regionalizado) regulação nacional orientada para o estado desenvolvimentista estado desenvolvimentista nacional política nacional financeira e monetária autônoma corporativismo concorrência política no mercado interno enfraquecimento do estado nacional crise do estado desenvolvimentista nacional quase-dolarização do mercado de trabalho corporativista ao mercado de trabalho competitivo privatização e abertura do mercado interno 38 . fomento da acumulação extensiva. pecuária 1822 – 1929 acumulação extensiva plantação de café (germes de industrialização local) capital financeiro.

a Holanda e a Inglaterra controlavam o comércio e. ”Favores especiais foram concedidos [. o modo de economia mercantilista de Portugal baseava-se em uma forma de acumulação primitiva. Mas com o fim do escravismo se evidenciou o quanto de cultura e religião populares tinha sobrevivido no decorrer dos séculos. No entanto. ao passo que o número dos não-integrados caiu de cinco a um milhão (Ribeiro 1995: 151). A costa americana tornou-se assim parte do espaço de poder europeu. O controle político serviu aos interesses fiscais do centro.1 História da estrutura profunda 2. da sua cultura. O escravismo constituiu a norma fundamental de produção. passando pelo governador geral (vice-rei) e os capitães donatários (Faoro 1997: 176). religião e modo de condução da economia. Por isso os proprietários de patrimônios acumulavam valor na forma da propriedade de escravos. garantia contra a penhora dos instrumentos de produção. A organização da produção baseava-se no açúcar5. Isso inibiu a formação da propriedade privada da terra e com isso de uma base de poder econômico dos produtores locais. honrarias e títulos etc. Chegou-se sistematicamente à destruição do Outro. 4 Para Smith (1990: 206 ss.1 Modo colonial de desenvolvimento sob dominação européia (1500 . A civilização européia providenciou assim o fundamento da ordem territorial. a coroa portuguesa. o controle fiscal do comércio o modo pelo qual os excedentes eram apropriados. isto é. muito pelo contrário. Tratava-se. Na periferia. Aproximadamente 30% do preço final do açúcar iam para o tesouro real. Portos fortificados na costa atlântica da África serviram de pedra fundamental para a colonização da Ásia e da América.)4. Em 1800 o número de índios integrados ainda chegou a 500. O comércio transatlântico de açúcar. por via do endividamento. Egler 1992: 26).. XVII o complexo do poder sobre o espaço do Nordeste açucareiro foi um fator determinante. transferido de Portugal para o Brasil. O detentor do poder disponibilizava terras aos colonos. O estilo estamental de vida das pessoas situadas no topo da pirâmide social imitava o da nobreza européia. Em termos econômicos. Da mesma maneira os escravos importados foram impedidos de preservar uma cultura publicamente vivida. cuja causa radicava em privilégios e monopólios politicamente concedidos. Para a maioria da população situada na base a influência européia consistiu sobretudo na cristianização definidora do estilo de vida (Faoro 1997: 199). Egler 1992: 20).” (Furtado 1975: 41). a ”renda escravista”. Internamente Portugal era um soberano forte com um poderoso aparelho burocrático-militar: o poderio português difundia-se a partir do rei até as autoridades municipais. O novo poder in loco aniquilou os índios e destruiu os seus tradicionais modi vivendi.000. Em termos políticos. 39 . O sistema econômico brasileiro depois de 1500 foi um capitalismo comercial. enquanto elas fossem utilizadas no sentido previsto pela Coroa. taxas e monopólios de uma parte do excedente. uma parte do excedente de um processo organizado de produção.) é decisivo registrar que os escravos não representavam um capital fixo.. do direito de retirar a mais-valia produzida pelos escravos.] àqueles que instalassem engenhos: isenções de tributos.1. Compravam-se escravos para poder adquirir mais escravos ainda (Smith 1990: 151 ss. Por isso até o séc. 5 O modo de produção isolado dos camponeses em terras ”livres” e excessivamente disponíveis e a produção para a satisfação das próprias necessidades teriam sido um obstáculo para essa estratégia de acumulação e foram sistematicamente impedidos (Smith 1990: 268).2. pois a cultura africana continuou viva nas esferas privada e semi-pública. Esse aparelho assegurou o fluxo de riquezas das colônias para a metrópole. para a produção orientada para a exportação (Becker. Taxas alfandegárias. escravos e produtos beneficiados formou a base de uma acumulação fiscal baseada no escravismo. o Brasil se tornou parte da periferia de um sistema que cada vez mais abrangeu o mundo inteiro. Os entrelaçamentos com a Europa modificaram a tradicional estrutura social dos índios e a sua utilização do território. Um quarto dos gastos para importações era consumido por escravos (Becker.Em 1500 o português Pedro Álvares Cabral chegou durante uma navegação ao redor do mundo até o Brasil. Inserido num espaço relacional. isto é. no sentido econômico isso representava uma renda.1822) Portugal foi a força propulsora que abriu à Europa as portas ao mundo. Portugal apropriou-se pela via de impostos. impostos e taxas oneravam pesadamente os produtores brasileiros bem como as relações comerciais desiguais. ele foi inserido no sistema comercial capitalista sem que o modo de produção capitalista se impusesse. A instituição central era o sistema das sesmarias. baseadas no nomadismo sem pretensões territoriais definidas.

XX ele ficou em 9 libras. sobretudo a pecuária no interior do país. não carecem do capitalismo. 90% da renda gerada concentrava-se nas mãos dos proprietários de engenhos e plantações de açúcar (Furtado 1975: 35 ss. Por fim o cepalismo chama pertinentemente a atenção ao fato de que uma condensação espacial de atividades econômicas e circulações de capitais em um determinado espaço constituem um pressuposto importante para o regime de acumulação. o que levou em diversos planos ao surgimento de relações de endividamento e. retornou ao nível da economia de subsistência (Furtado 1975: 66)7. pois foram encontrados grandes reservas de ouro nos atuais estados de Mato Grosso e Minas Gerais. Ambas. Pretendia-se assim compensar o descenso da posição de potência central à de potência periférica por meio de rendas geradas na economia exportadora. A crescente demanda foi satisfeita pela extensão das áreas cultivadas. Para fora Portugal era nitidamente mais fraco do que para dentro. logrou-se iniciar um novo ciclo de produção mercantilista. pois o comércio com os bens necessários à sobrevivência assegurava grandes margens de lucro aos comerciantes portugueses. A metrópole envidou grandes esforços fiscais e comerciais para manter reduzido o fluxo de riquezas para a Europa Setentrional. o modo colonial de produção constitui um sistema de dominação pré-capitalista. esse modo de desenvolvimento foi capitalista quanto ao seu modo de circulação. diante do pano de fundo de reflexões cepalinas e regulacionistas.). O deslocamento estrutural de espaço e poder. Visto nessa perspectiva. 40 .g. não existiu desde o começo. caindo até 1720 a 72 libras e depois a 30 libras no início do séc. Nas plantações de açúcar produzia-se de acordo com determinados métodos. O Sudeste constituiu-se como centro do Brasil. não havendo mais de abdicar dessa posição mesmo sob o efeito de uma transformação da relação de poder sobre o espaço. Um primeiro argumento contrário de peso é o fato da norma de produção basear-se no escravismo. A decadência econômica conduziu à desvalorização do Nordeste enquanto espaço político. Desse modo espaços cada vez maiores foram integrados ao campo de poder europeu. Enquanto a economia açucareira era produtiva. manifestou-se em 1763 no deslocamento da sede do vice-reinado de Salvador da Bahia para Rio de Janeiro. Do ponto de vista meramente jurídico. que funcionava em ampla escala sem transformações da base tecnológica.Uma determinada forma do poder econômico ia de mãos dadas com a dominação do espaço no qual esses processos de produção se concentravam. isso não representava um problema. conseqüentemente. que abastecera as propriedades açucareiras com carne e animais de tração. por um lado. importou-lhe afirmar-se como potência mundial mercantilista. sendo por conseguinte précapitalista. XVII o preço do açúcar foi de 120 libras. Depois da decadência dos preços do açúcar6. Mas o espaço econômico brasileiro restringia-se nessa época à costa e as circulações relevantes consistiam de entrelaçamentos transatlânticos. XVIII com o surto da mineração. onde a arrecadação de impostos era mais significativa (Conniff et al. carga e montaria. Desde o princípio. Um campo de poder. A disponibilidade de terras levou a uma utilização extensiva do solo. à dominação do capital financeiro (Smith 1990: 241 s. precisando primeiramente ser criado. No entanto. Embora se tratasse de um modo de produção pré-capitalista. harmonizadas entre si. Mas como o país carecia de uma base produtiva própria. Justamente por esse motivo a fase é especialmente interessante do ponto de vista da produção de espaços e formas sociais. determinado pelo poder das potências européias em fixar os preços. cujo ponto nodal é o fator nacional e o Estado. o crédito desempenhou um papel importante. O Brasil constituiu-se a partir da sua costa como um território. Assim a territorialidade e o espaço de entrelaçamento desenvolveram-se desde o começo de modo paralelo. pois esses séculos desembocaram na constituição da nação enquanto espaço de poder.). 1971: 40). Tanto a opressão quanto a acumulação da riqueza se davam essencialmente por meio da dominação política. em uma troca entre o centro e a periferia. o estilo de vida dos barões do açúcar se assemelhava. 7 O setor de subsistência constituiu desde o começo uma espécie de exército de reserva de mão-de-obra e um potencial de produção que podia ser ativado sempre que a demanda do mercado mundial provocava um surto de desenvolvimento regional. Apesar disso. A conseqüência de tudo isso foi que o regime de acumulação de natureza fiscal. apenas rudimentarmente como regime de produção. escravos eram coisas e por isso inteiramente destituídos de liberdade. tanto a acumulação da riqueza quanto a dominação. Baseava-se. carecia de pressupostos essenciais para a sua estabilização. o modo de produção colonial pode ser compreendido. a extração do ouro ou a economia cafeeira. depois que ele foi inserido nos circuitos econômicos europeus. A acumulação estável define-se pelo jogo de normas de produção e consumo. Além disso a produção para a satisfação das necessidades próprias deveria ser impedida. baseado no escravismo. iniciado no séc. XIX. Em meados do século o preço era de 16 libras e no início do séc. 6 No séc. como e.

pois a estatalidade possuía o seu ponto nodal noutro continente. o estado português valeu-se de estratégias territoriais hábeis para controlar pontos importantes da costa atlântica. o soberano dominava durante o modo colonial de desenvolvimento por assim dizer para dentro do espaço brasileiro. A ausência de poderio econômico próprio de Portugal foi acrescida da perda das colônias asiáticas. O primeiro objetivo tinha por base interesses fiscais. antes da maior parte das rendas ser transferida para a Holanda ou Inglaterra. via de regra. A metrópole se viu assim obrigada a concentrar-se no Brasil8. deveria exportar ouro. XIX. O espaço de entrelaçamento econômico constituiu-se por meio do comércio de mercadorias. teriam ficado com a Espanha. por conseguinte. XVII Portugal dependeu do apoio da Inglaterra na defesa das suas colônias. tornando desnecessário até o séc. Tanto o Estado quanto os grandes comerciantes estavam endividados junto à Inglaterra. o segundo interesses comerciais em reservar para si parte do valor agregado produzido na colônia. 34). Portugal se empenhou muito em expulsar os holandeses do Nordeste. 41 . do Brasil para Portugal. Depois os portugueses conquistaram as bases holandesas.) e preparar-se assim para o regime do padrão ouro do séc.)..). Com ajuda de missões.). a amazônica e a platina. Mesmo a autonomia das igrejas era restrita. A acumulação fiscal baseou-se na transferência de riquezas por meio do comércio ou pela arrecadação de tributos. contra açúcar. Portugal começou a colonizar e explorar economicamente a região amazônica (Becker. Para dentro o Estado português estabilizou uma estrutura estamental cujo topo era formado pela burocracia estatal parasitária constituída por políticos.). De início os portugueses respeitaram o Tratado de Tordesilhas de 1494. No seu empenho em atingir o primeiro objetivo. A partir do séc. Nesse regime as coações da política econômica nacional eram sobretudo de natureza monetária (Vidal 1998: 30). No Sul a luta pela Bacia do Prata durou também vários séculos. As instituições centrais para a regulação dos processos econômicos eram determinadas pelo estatuto colonial. Diante de Portugal eles impuseram os seus interesses sobretudo por via da política creditícia. que definiu a fronteira com a América Espanhola. o que reduziria a circulação de dinheiro na economia doméstica. Como praticamente inexistiam trabalhadores livres. Egler 23 s. Mas com isso as duas grandes bacias hidrográficas do subcontinente. XVII os holandeses controlavam quase todo o comércio marítimo europeu. comercializados em operações de escambo. fenômeno 8 De 1580 a 1640 Portugal e Espanha estiveram unidos sob um soberano e se viram conjuntamente expostos à concorrência territorial e econômica da Holanda. um país que importasse mais do que exportasse e apresentasse. Egler 1992: 16 ss. Egler 1992: 21 s. Com esse tratado o papa dividira generosamente a América entre a Espanha e Portugal. por isso experimentos como o estado jesuítico na fronteira do Paraguai foram rapidamente abortados (Faoro 1997: 201). mesmo os grandes entre eles. França e Inglaterra. a Holanda prestou uma relevante contribuição para a ampliação da economia açucareira. Em 1750 o Rio Grande do Sul foi incorporado como região mais meridional ao reino português e em 1828 o Uruguai foi constituído como estado-tampão (Becker. a demanda de dinheiro como meio de pagamento era desconhecida in loco. As exportações inglesas eram pagas em ouro. juristas e funcionários do comércio. Os produtores. declarando o 50º meridiano como fronteira (Becker. Depois da expulsão dos holandeses os britânicos tornaram-se a potência dominante em escala mundial. À medida que os escravos vinham ao Brasil. tanto pelo aporte de capitais quanto pela organização do comércio e pelo beneficiamento nas refinarias de Antuérpia e Amsterdã (Furtado 1975: 10 s. A força de Portugal residia no seu controle politicamente implementado do espaço de entrelaçamento econômico. Na economia açucareira os fluxos de renda eram em grande escala de natureza meramente contábil. De acordo com a teoria do padrão ouro. o que permitiu à Inglaterra acumular consideráveis reservas desse metal (Furtado 1975: 93 s.Quanto à forma do Estado. Mas o ouro e as mercadorias migravam imediatamente do tesouro português e dos grandes comerciantes imediatamente para Londres (Faoro 1997: 143). que estes ocuparam de 1630 a 1654. somente conquistavam poder quando se inseriam na estrutura portuguesa do espaço de poder. Isso levaria a uma deterioração dos preços. No início do séc. XIX a formação de um sistema bancário nacional (Freyre 1951: 132 s. eles eram. uma balança comercial negativa. No Nordeste. onde ela perseguiu dois objetivos: proteger ou ampliar o território e ser intermediária no comércio com as potências econômicas européias. ficando assim subtraído o hinterland à colonização por parte da costa leste. Essa estrutura estatal dominou sobre os interesses territoriais locais. O capital comercial submeteu as plantações e os engenhos açucareiros à sua lógica orientada pela valorização no mercado mundial.

sendo que o comércio atingiu um ponto culminante entre 1701 e 1750. que a constância da des-ordem brasileira está fundamentada em um modo de produção que exigiu uma 42 . a apropriação da mais-valia se dava mediante coação direta. Mas no séc. A economia escravista permitia solucionar o problema central da falta de mão-de-obra.de forma combinada” (Wakefield. a forma da escravidão foi também diferente no Sul. Em termos genéricos. os constante conflitos bélicos nas fronteiras e o grande contingente da população indígena expulsa das missões jesuíticas que tinham sido dissolvidas. pois o dinheiro escasseava constantemente. em virtude da redução do valor da exportação. Egler 1992: 20).). desembocando assim em uma deterioração dos terms of trade. para subsistir sem trabalho escravo. resistiu maciçamente à abolição da escravatura.300 escravos embarcados (cf. o Brasil estava obrigado a canalizações regulares de ouro para a Inglaterra. uma produção organizada não era nem possível nem necessária. a questão da organização do trabalho estava estreitamente relacionada com a organização fundiária. Por outro lado. As crises agora foram transportadas de fora para dentro do país. ocorreu freqüentemente uma pronta deterioração da balança comercial. Por sua vez. Diferentemente das plantações de açúcar e café. Esse fenômeno se agravou devido à circunstância de que a involução dos preços de produtos manufaturados importados ocorria mais lentamente e com menor intensidade do que nas matérias-primas exportadas. Com isso as exportações seriam fomentadas e as importações reduzidas. seria necessário que os colonos se organizassem em comunidades dedicadas a produzir para autoconsumo. Somente os exportadores tinham poder aquisitivo.mediante um elevado preço da terra e o sistema do trabalho assalariado . Por essa razão. um escravo representava um valor. permitindo-se corrigir o desequilíbrio (Furtado 1975: 156). teórico de uma ”colonização organizada”. os grupos dominantes no Brasil se contentaram cedo com o papel do ”parceiro júnior” (Fernandes 1987: 93).correspondente ao encarecimento do ouro. diferentes formas históricogeográficas do escravismo apresentavam diferenças essenciais. ”À medida que pode ser combinado. remanesceu uma insegurança que restringia a possibilidade de comercializar a terra. Em contrapartida. a escravidão se tornou crescentemente um obstáculo para a continuada implementação de relações de mercado na periferia. a produção de subsistência dos pequenos camponeses teria sido baseada em outro sistema de produção. XVIII. Como a demanda de importação não regrediu imediatamente. Smith 1990: 143). atingindo-se o ponto culminante no séc. XIX. o modo econômico colonial do Brasil foi pré-capitalista do ponto de vista da regulação das relações de trabalho (Becker. ”Com efeito. citado ap. importando de acordo com as suas receitas advindas de exportações. Podemos registrar. o serviço dos capitais estrangeiros e o fluxo mais reduzido de capitais estrangeiros acirraram os problemas decorrentes do balanço de pagamentos (Furtado 1975: 159). Em virtude dessas dependências financeiras. Precisou primeiramente encontrar uma nova regulação do acesso à terra. em virtude da pecuária extensiva. Aproximadamente 1. Os escravos em nenhum momento chegaram a constituir a maioria da população. Mas para cimentar o seu poder. com 790. Como a mão-de-obra ainda não era mercadoria.” (Furtado 1975: 41 s. Essa visão desconsiderou o significado dos fluxos de capitais. por sua organização geral ela se diferencia amplamente da economia açucareira. Por fim.9 milhões de escravos sobreviveram à viagem transatlântica. Isso contra-arrestou a dinâmica econômica. ”Se bem que a base da economia mineira também seja o trabalho escravo. pois os padrões de consumo se alteraram. era decisivo distinguir entre uma produção organizada e uma produção individual. O trabalho do homem livre somente é mais produtivo do que o trabalho escravo se ele for utilizado . Como já foi explicado. portanto. o que só teria sido possível se a imigração houvesse sido organizada em bases totalmente distintas. pois permitia a produção de forma ”organizada”. Com isso estavam criados os pressupostos para que a maioria da população devesse trabalhar para outras pessoas. da concessão de créditos e das obrigações de reembolso. igualitário. Egler 1992: 26). Quando o capital industrial passou a ter influência na Inglaterra. No entanto. Na primeira metade do séc. XIX aumentou a demanda interna. Mas a oligarquia agrária.200. Embora a posse de terras antes de 1850 também já conferisse direitos semelhantes aos da propriedade. Já na produção de carne seca a escravidão foi muito importante (Targa 1996a). a forma como se organiza o trabalho permite que o escravo tenha maior iniciativa e que circule num meio social mais complexo” (Furtado 1975: 75). de resto uma estreita aliada da Inglaterra. Em contrapartida. o trabalho escravo é muito mais produtivo do que o trabalho de homens livres. Becker. e entre 1751 e 1780 com 495. que lhe assegurasse a continuidade da sua dominação. Segundo eles. a oligarquia agrária orientou-se fortemente segundos os argumentos do economista britânico Wakefield. Aproximadamente um terço de todos os escravos embarcados para a América ia para o Brasil. a oligarquia agrária empenhou-se em impedir na medida do possível a produção para a satisfação das necessidades próprias. em virtude da falta de meios de subsistência.

que fundamentavam. XIX o papel mediador de Portugal tornou-se crescentemente obsoleto. a pecuária do Sul concorria com a da região platina. Apesar disso. diretamente e in loco. A relação de concorrência era determinada pelo comércio transatlântico. Não importa quão ridículos possam parecer o grito da independência ou o novo papel de D. uma pecuária que ia além do Rio São Francisco e avançava muito para o hinterland. Por sua vez. Buenos Aires e Montevideo fomentavam o comércio do couro e outros derivados do gado. deve-se falar depois de 1822 de uma transformação qualitativa do campo de poder. É certo que o Brasil já estava integrado desde 1500 em uma posição periférica no espaço de entrelaçamento do mercado mundial. As contradições subjacentes sempre podiam ser solucionadas apenas no curto prazo. as transformações no plano do regime de acumulação já devem ser localizadas em tempos bem mais anteriores. orientado segundo instâncias externas. ademais. ambos. Mas as regiões individuais estavam em parte estruturadas complementarmente. Enquanto receptáculo do monarca a governar soberanamente. nem local nem nacionalmente.hierarquização social extremada. a colônia era uma soma de complexos de produção orientados para o exterior. a dialética de espaço e entrelaçamento e território ingressou em nova etapa. O “[. O Rio Grande do Sul ocupava uma posição especial não apenas politicamente.. definida pelas relações fiscais e pelo capitalismo comercial. Furtado identificou na falta de um mercado local ou na falta de um sistema integrado de produção local um dos principais obstáculos de um desenvolvimento regional dinâmico nas primeiras fases de surto do ciclo da cana e do ouro. A inserção na economia mundial era determinante. ela logrou. a pecuária no interior e no Sul. Mas esses enclaves não devem ser compreendidos equivocadamente como arquipélago ou grupo de ilhas. Por isso a região fronteiriça meridional era objeto de lutas de dois campos econômicos distintos. Em 1822. com 43 . por outro lado. pois havia. Essa des-ordem persistente está localizada mais profundamente e relativiza a contradição aparentemente fundamental entre escravismo e trabalho assalariado. o comércio de escravos. Ao passo que a regulação da organização do trabalho passava apenas lentamente ao trabalho assalariado livre e mesmo a estatalidade somente foi definida em 1891 em uma nova constituição federativa. de enclaves de exportação. No séc. Não obstante. ocorreu uma apropriação subreptícia na região amazônica (Novy 2000). muito lentamente. Enquanto espaço de entrelaçamentos econômicos. 1987). por um lado. Mas isso não significou que a estrutura do campo de poder tivesse mudado imediatamente. anulava as vantagens desse crescimento demográfico como elemento dinâmico do desenvolvimento econômico”: “esse crescimento se realizava sem que houvesse modificações sensíveis na estrutura econômica” (Furtado 1975: 51 s.).2 Modo nacional de desenvolvimento.1. 2. Produtos individuais formavam com regiões correspondentes um espaço de poder econômico com uma estrutura própria: o cultivo da cana de açúcar no Nordeste. embora se desse de forma mediada por meio da administração portuguesa.] mecanismo da economia. fundamentada em privilégios (Fernandes 1987: 191-197). o Nordeste teve de concorrer com as novas áreas de cultivo nas Antilhas e se viu crescentemente marginalizado. a nação praticamente não se transformou no decorrer da primeira metade do séc. O Brasil apresentava-se como uma série de pontos nodais que intercambiavam mercadorias com a África e a Europa.1929) Em 1822 a nação brasileira se constituiu mediante cisão de Portugal. As rupturas nas diferentes formas estruturais não ocorreram simultaneamente e processaram-se. isto é. A transição da colônia para a monarquia e finalmente para a república e a busca de um novo poder sobre o espaço foram árduas. Um apêndice passou a ser um espaço político sui generis. a relação de concorrência não se estruturava para dentro. entrelaçamentos de espaços econômicos que cobriam toda a região da colônia. a sua função econômica também era controvertida. XIX e depois se transformou apenas lentamente. ao passo que a região mineira no interior da região demandava animais de carga e de transporte (Targa 1996: 20). enquanto região fronteiriça. politicamente controlado. a mineração do ouro em Minas Gerais e o extrativismo na Amazônia. e.. sob dominação britânica (1822 . Em contrapartida. com a proclamação da monarquia e. que não permitia uma articulação direta entre os sistemas de produção e de consumo. Depois da expulsão dos holandeses. O século inteiro foi um período de transição. a constituição formal enquanto espaço político autônomo assinala uma cesura (Fernandes. Pedro I como ”defensor perpétuo do Brasil”. O novo parceiro da aliança com o capital inglês foi agora a oligarquia agrária.

5 26.2 21.5 1881–90 Fonte: Pessoa 1983: 96 9 Pode-se verificar a industrialização incipiente no número das patentes concedidas. A sua dinâmica se localiza no setor de bens de produção. De 1831-1840 a 1881-1890 ele logrou aumentar a sua participação no total das exportações de 43.6 7.1 0.0 7. Foi formada uma espécie de confederação dos diferentes grupos determinantes da ex-colônia . que aumentou de 1 (1831-1835) a 53 (1866-1870) e 955 (1881-1889) (Pessoa 1993: 105).6 3.3% a 8% (cf. embora a continuada dependência externa no setor de bens de produção não possibilitasse nenhuma reprodução integrada. Tabela 3). Por meio do soberano nacional o processo históricogeográfico da conversão de uma economia escravista em modo de produção capitalista com trabalho livre assalariado pôde ser dimensionado de modo a deixar inalterados em muitas áreas os detentores bem como o campo do poder. Tudo isso não impediu que o Estado e os comerciantes. dessem maior atenção ao seu território.0 3. agora nacional. Investimentos maciços na infraestrutura se faziam necessários para o aumento da produtividade na produção agropecuária e para a melhoria das relações comerciais. O café tornou-se o mais importante produto de exportação.6 3. Máquinas produzidas na Europa foram utilizadas no Brasil provavelmente em conseqüência da taxa alfandegária para têxteis. O Brasil não superou o estatuto periférico de uma economia imperfeitamente integrada.0 0.3 12.9 0.7 0. controlada pelo exterior.2 43. 44 . da independência.um pacto de senhores de escravos (Becker. A manutenção da velha estrutura de poder e espaço exigia transformações.2 2. que ia de mãos dadas com uma apropriação política do valor agregado.isso.5 1.4 1841-50 48.5 11. agora nacionais.e deram início a um primeiro processo de industrialização9. XIX definitivamente pelas plantações de café no Sudeste.5 1861-70 56. Egler 1992: 12).3 3. Os negócios de importação e exportação concentraram-se mesmo depois da eliminação de Portugal nas mãos de uma pequena minoria. Enquanto unidades centrais de produção.4 1.6 1.8 0.7 1. que ocorreu germinalmente em lento processo que se estendeu por todo o século. Nas plantações de café a organização da produção ainda se baseou por muito tempo em escravos. As camadas médias urbanas.5 1. Um regime de acumulação que num território nacional dá início à unificação das relações de trabalho é denominado regime dominantemente extensivo de acumulação (Aglietta 1987: 69). o couro e as peles perderam maciçamente a sua importância. elevada em 1844 . Em contrapartida. Tabela 3: Participação de produtos no total das exportações brasileiras (em %) década café Algodã Açúcar borracha cacau couros e tabaco erva o (em peles mate rama) 10.2 9.9%.8 24.3 0.8 5.0 8. a participação das exportações de açúcar caiu nesse período de 24% a 9. O fim furtivo da escravidão dinamizou também a urbanização no fim do século.2 9. sendo substituída lentamente pelo trabalho livre assalariado de imigrantes. ocorreu a imposição de relações entre capital e trabalho no processo produtivo. No Brasil esses processos podem ser observados a partir de 1850. No lugar de uma acumulação baseada no escravismo. Os superávits continuaram sendo parcialmente apropriados por um estamento de funcionários públicos.6 18. Deriva a sua dinâmica essencialmente da ”existence of an immense reserve of unappropriated agricultural land” (Aglietta 1987: 73).2 2. a plantação e o engenho açucareiros foram substituídos no séc.0 1. a borracha consignou um aumento vertiginoso de 0.9 6.5 7. Ao passo que o algodão. começaram a estabelecer-se como força social intermediária e adotaram um padrão de consumo em moldes europeus (Becker. sobretudo no fim do século.9 1. cuja expansão altera fundamentalmente a forma das economias capitalistas. Isso possibilitou teoricamente a formação de um regime nacional de acumulação.8% para 61.4 1.9 8.8 1851-60 45. manter um sistema de controle local sobre o sistema de produção orientado para a exportação.9 6.2 2. sobretudo os militares.2 5.8 1831-40 41. Sobretudo a ampliação da infraestrutura dinamizou a produção.5 4.3 1.0 1. Egler 1992: 37).5%.6 1871-80 61.

A supremacia britânica deslocou-se do comércio de mercadorias até o controle do financiamento do desenvolvimento. depois de 1889 numerosos bancos regionais foram dotados de direitos de emissão de moeda. a capacidade de financiamento do empresariado local. a teoria liberal ”ortodoxa” da neutralidade do dinheiro. Faletto 1976: 68 s. isto é. o conhecimento ecológico era considerado irrelevante. 11 ”Under the presidency of Afonso Pena (1906-09) the country´s policy was one of ´peopling the land. Tabela A-1). tornou-se novamente princípio diretor da política econômica. O elevado coeficiente de importação. por meio de crédito. Objetivava-se manter a heterogeneidade do fator local.11 Desde o início a estrutura da indústria brasileira era dominada genericamente por grandes empresas que utilizavam máquinas importadas (Herrlein. protective tariffs and a conversion fund which permitted greater exchange balance all gave incipient domestic industries encouragement.9 billion in 1914 and to US$ 2. this expanded to US$ 1.S. importantes para a economia agrária exportadora. Depois o Estado retornou rapidamente ao monopólio de emissão da moeda e implementou programas de estabilização (Cano 1998a: 161). A ortodoxia. As elevadas margens de lucro permitiram o financiamento de uma parte da produção com recursos próprios e além disso ainda investimentos na criação de uma infraestrutura local. libertando-se das peias de uma política monetária rígida. até São Paulo e de lá continuaram a sua marcha rumo ao Oeste e Norte.O financiamento dos esforços de desenvolvimento se deu sobretudo fora de São Paulo. 164). origin” (Baer 1989: 213 s. ameaçava constantemente a estabilidade da economia externa. 45 . e tão-somente nas reduzidas regiões urbanas. A tecnologia de produção da economia cafeeira estava em grande parte padronizada. como e. e no comércio de obrigações do tesouro nacional (Silva 1986: 91). partindo da Província do Rio de Janeiro e se estendendo pelo Vale do Paraíba. O campo de poder dominante até a crise econômica mundial permitiu manter o controle no espaço gigantesco e ao mesmo tempo maciçamente fragmentado. A indústria local tornou-se mais rentável. Além disso o regime nacional de acumulação também carecia de fontes internas de financiamento.). o que ultrapassou.). pois a camada média urbana consumia uma boa parte dos bens de consumo. O capital estrangeiro participou de investimentos maiores e por prazos mais longos. The increased rate of railway construction and the development of electric power. O consumo se estendeu lentamente. Mas o padrão e o estilo de consumo mudaram apenas um pouco. contanto o poder estamental de uma sociedade escravista permanecesse intocado in loco. In 1930 half of foreign capital was British and one-quarter was of U. nas ferrovias e nos portos.. Depois de 1822 atribuiu-se ao fator nacional o papel de poder moderador. The national exposition of 1908 in Rio de Janeiro at which 11.g. A conseqüência foi uma forte dinamização da economia. provocado pelos consumidores urbanos. isto é. developing industrial centres and reforming the monetary system´. A ”vocação” agrária do Brasil desenvolveu-se com maciço apoio externo. pois toda a política de fomento da produção cafeeira foi financiada com recursos extra-orçamentários. Depois de 1822 foi fundado o Banco do Brasil. Os elevados pagamentos do serviço da dívida consumiam uma grande parte do valor agregado.000 exhibitors displayed the nation ´s new manufactured products to a million visitors was a revelation to most Brazilians” (Henshall. Na esteira das mudanças de regimes em 1822 e 1889 os novos detentores do poder criaram para si até margens de ação na política monetária. 10 ”In 1880 the total stock of foreign capital was estimated at US$ 190 million. mas também a inflação e um aumento da dívida externa. limitando assim os investimentos no setor produtivo. Dias 1996: 146. em grande parte importados. Momsen 1974: 151 s. a emissão aumentou fortemente. O capital internacional concentrou-se na ampliação da rede ferroviária.6 billion in 1930. Before the 1930s Britain dominated foreign investment in Brazil. pois a importação de bens de consumo foi dificultada a partir de 1900 devido a problemas com o balanço de pagamentos (Silva 1986: 100). . O desenvolvimento em vias de dinamização desde 1850 criou formas atraentes de aplicação (Cardoso. Nos dois casos. Com isso a economia agrária bloqueava a divisão interna do trabalho e o financiamento interno.10 Investimentos diretos.. à exceção da zona cafeeira. essencialmente por meio de capital britânico (cf. A nova forma de dependência periférica caracterizou-se dessarte por entrelaçamentos mais intensos no comércio de capitais do que era costumeiro em negócios de importação e exportação.). a exportação de mercadorias industriais e a concessão de empréstimos governamentais pelos britânicos foram de grande importância para o Brasil. pois terras exauridas eram abandonadas e as plantações de café avançaram. pois a produção de bens de consumo in loco só estava esparsamente vinculada com a de bens de produção na Europa. o que levou a fortes oscilações na atividade econômica. Em 1907 todas as maiores empresas brasileiras e em 1920 ainda 85% dessas empresas atuavam na indústria de bens de consumo (Silva 1986: 107).

XIX (Vidal 1998: 30) e também no Brasil da República Velha (1889-1930) posições mais pragmáticas passaram a se impor cada vez mais. 1851-1900.300 contos na década de 1890. a criação de vários outros serviços públicos e industriais como energia elétrica.700 9. Tabela 4). que tiraram.100 1861-1870 16. Faletto 1976: 76).300 4.300 1891-1900 Fonte: Silva 1986: 28 A Lei de Terras de 1850 fundamentou a propriedade absoluta da terra nas áreas habitadas do Brasil e definiu o resto como regiões inabitadas. 46 . proveito das medidas estatais nas áreas da política de infraestrutura e migração.12 A posição britânica do laissez-faire no livre comércio já perdera a sua supremacia ideológica no fim do séc. serviço da dívida externa e novos empréstimos. isto é. Em termos de política econômica externa. o palco da política nacional adquiriu maior importância (Cardoso. a política tributária e alfandegária fomentou o protecionismo industrial. posteriormente na indústria. Por meio dos seus objetivos primacialmente fiscais. Os latifundiários perderam importância diante de bancos e atravessadores. Como a margem de ação de uma política tributária e alfandegária autônoma era reduzida. Tabela 4: Brasil. a modernização acabou por miná-lo. Considerada na sua totalidade. XIX. financiando. A forma concreta pela qual o mercado fundiário e de trabalho foram criados serviu à estabilização 12 De 1822 a 1850 os superávits e déficits orçamentários se alternaram.300 a 57.500 38. o Estado consolidou-se como instituição.em civilização urbana. Essa política de localizações exigia investimentos maiores e em parte também nacionalizações no setor da infraestrutura de produção. Esses empréstimos serviam ao fomento dos diferentes sistemas produtivos regionais. Para essas terras designadas fronteira decidiu-se que elas eram de propriedade do Estado e deveriam ser alienadas por ele. Foi desenvolvida uma política econômica que visava primacialmente a melhoria das condições de localização para a concorrência com outras regiões. a construção de estradas de ferro. Os empréstimos externos aumentaram de 4. XIX. pois ele não podia nem aumentar os impostos de exportação (o que era impedido pela oligarquia agrária) nem os impostos de importação (o que era impedido pela Inglaterra). um deslocamento do primado da esfera de produção em benefício da esfera de circulação (Oliveira 1987: 49). a estrutura local do Brasil transformou-se lentamente de sociedade dominada pelo padrão rural .de ”casa grande e senzala” (Freyre) . assim. a imigração maciça de mão-de-obra.100 1851-1860 12. quanto aos interesses do setor comercial urbano. gás e transportes públicos (Silva 1986: 280).100 contos na década de 1850 a 63. sob pena de marginalização na nova estrutura de poder.300 1871-1880 30.300 63. o governo central ficou de mãos amarradas na primeira metade do séc. em si disponível excessivamente: produziu-se assim a escassez de terra.000 10. depois o orçamento público tornou-se fortemente deficitário a partir de 1865 (Pessoa 1983: 102-104). ocorrendo. de forma respectivamente indireta.100 1881-1890 57. ele pôde assegurar que só poucas pessoas tivessem acesso à terra. por meio de pessoas. no espaço de poder. Com isso o governo conquistou uma certa independência dos setores domésticos que tinham sido a tradicional fonte de arrecadação de impostos. Os donos de escravos se viram obrigados a se transformar em latifundiários e exportadores de bens primários. na forma do trabalho assalariado. inicialmente nas plantações de café.300 contos (cf. entre outras atividades. em contos década serviço das dívidas Novos empréstimos 5. À medida que o Estado fixava um preço correspondentemente elevado. Escravos libertos e imigrantes se viram obrigados a vender a sua força de trabalho de forma ”organizada”. o Estado ampliou-a tomando empréstimos no exterior. Não obstante o empenho em preservar o velho poder político estamental sobre o espaço por meio de uma modernização puramente econômica. A partir de agora. A dívida externa aumentou continuamente na segunda metade do séc.Mesmo um país periférico como o Brasil pôde recorrer depois de 1850 a empréstimos no exterior. O serviço da dívida aumentou no mesmo período de 5. o Estado serviu tanto aos interesses conservadores da oligarquia agrária que dominava.

o que contribuiu para o seu fracasso. educacional. 47 . bancário etc. possibilitando a criação de novos latifúndios sem precisar concorrer com os antigos proprietários de terras. sem que os outros interesses exportadores. criou pela primeira vez o pressuposto de uma política estatal ativa que apoiava conscientemente nos diferentes estados da federação os respectivos interesses econômicos dominantes. A posição de supremacia do capital cafeeiro era tão forte que os conflitos em torno do poder central aconteceram até a Revolução de 30 menos entre classes e frações de classes. que buscavam uma centralização e modernização mais radicais. 13 Ao passo que a fronteira aberta para o Oeste. Mas o governo imperial demonstrava um interesse apenas reduzido por essas questões (Furtado 1975: 171). Egler 1992: 32). foi encontrada uma fórmula pela qual os grupos civis . A última década da República Velha caracterizou-se por uma política de desvalorização que significou um enfraquecimento do padrão ouro. tropical. Assim a sustentação do preço do café produziu o efeito não-intencionado de estabilizar simultaneamente a demanda. 122). Os superávits da balança comercial gerados nesse período e em parte consideráveis (cf. Depois de 1889 pôde ser implementada pela primeira vez uma política econômica e financeira autônoma. iniciado pelo governo paulista (Cano 1998a: 55 ss. cambial e de comércio exterior era grande. À medida que os produtores continuaram colhendo café. pois paralelamente aos aumentos das exportações registrava-se um crescimento quase igual da dívida externa. Aos poucos uma posição pragmática na política financeira e monetária passou a ter influência. 14 A destruição dos excedentes da safra de café no começo dos anos 30 deveria a rigor servir à proteção dos interesses do setor cafeeiro. portanto. que fomenta de forma muito desigual os diferentes grupos sociais enquanto demandantes.). sobretudo os dos latifúndios improdutivos. o gigantesco hinterland brasileiro permaneceu sob controle do Estado e reforçou os traços autoritários na estrutura social brasileira. Nos anos de 1927 a 1930 o montante do serviço atingiu o dobro do superávit da balança comercial (Oliveira 1989: 32 s. determinado pela estrutura de poder no Brasil (Decca 1997: 151 s. de saúde. de formação profissionalizante. ficassem excluídos (Fiori 1994). Não se tratou de um liberalismo ”puro”. das linhas de navegação e das redes de comunicação era administrada pelo Estado. ao passo que as oligarquias estavam interessadas na manutenção do seu poder local. A estatalidade regionalmente fragmentada não pode enganar com relação ao fato de que o Estado na sua totalidade já era em 1930 incomparavelmente mais importante do que se costuma afirmar. Boa parte dos bancos.condicionados sobretudo por demissões e pela queda da demanda privada (Furtado 1975: 154). produziu um efeito democratizador nos EUA.e precisava. Silva 1986: 58) eram cada vez menos suficientes para pagar o crescente serviço da dívida. XIX medidas nos setores do serviço público. mas ”real”. mas isso beneficiou em primeiro lugar não os produtores. Devido à constelação de interesses de oligarquia latifundiária no interior e interesses ingleses na metrópole a crise financeira crônica do estado brasileiro somente podia ser postergada mediante empréstimos ingleses. de início financiada regionalmente e com recursos extra-orçamentários e a partir de 1922 pelo governo federal. Esse pacto de dominação durou até 1930. concebida por Campos Salles. Seu ponto culminante foi a destruição de café durante a crise econômica mundial. Na ”política dos governadores”. Com isso o Estado se transformou nos 40 anos da República Velha em instância reguladora da economia e produtor de partes substanciais da infraestrutura econômica (Pereira 1996: 212). Em 1906 foi assinado o Acordo de Taubaté.com exceção do Rio Grande do Sul .2% (18901894) a 20.13 Apesar disso o fim da escravatura e da monarquia representaram um surto de modernização. podendo ser evitados efeitos cumulativos negativos . das ferrovias. Esse é um exemplo típico da essência do keynesianismo latino-americano: criação da demanda pelo Estado.3% (1922-1929) (Oliveira 1989: 33). Entre 1907 e 1919 a economia evoluiu dinamicamente.da des-ordem (Becker.pudessem subtrair-se à influência dos militares de orientação jacobinista-centralista (Fiori 1995a: 74). o lado da oferta foi estabilizado. A produção aumentava constantemente.). O poder local dos latifundiários teve de subordinar-se ao poder regional dos governadores que articulavam in loco os interesses das classes. Por volta do fim do séc. ser estocado e posteriormente destruído pelo estado -. cuja colonização por pequenos proprietários rurais foi fomentada. A disponibilidade de terras favoreceu alianças entre as oligarquias. mas o capital comercial e financeiro controlado a partir do exterior. A influência sobre as políticas creditícia.14 Aqui o Estado socializou as perdas da economia cafeeira. A regulação regionalmente fragmentada que se impôs como novo compromisso social.. A parcela do serviço da dívida nas despesas totais do governo federal aumentou continuamente de 10.). Seu objetivo foi uma política de sustentação do preço do café. tornaram-se cada vez mais necessárias. mas entre regiões (Fausto 1981: 90 s. que não podia ser comercializado . sendo determinantes os interesses cafeeiros do Sudeste.

A eliminação dos mal-amados atravessadores portugueses fez da oligarquia agrária a beneficiária das relações desiguais de troca. por outro lado a descentralização do poder atendia ao seu propósito de ampliar in loco o seu controle sobre a esfera da circulação.15 A migração dirigida visava impedir a produção para fins de subsistência. após os vultosos gastos. A indústria estava relativamente descentralizada. a partir dessa data a imigração regrediu . Acresciam os impostos interestaduais (Cano 1998b: 178 s. Por um lado. 1978: 68). depois a imigração permaneceu até 1950 em nível elevado. a relação entre as esferas local e nacional se reorganizou. E. Neto 1986: 175). por sua vez. ela tendia a definhar.). Depois da proibição do tráfico de escravos em 1850 o governo central fomentou a imigração européia.).Com referência ao processo produtivo a introdução do trabalho livre assalariado tornou-se cada vez mais necessária. Inovações técnicas como novas máquinas. quase sempre. cujo exemplo mais típico foram os monopólios de compra e venda. A base da política econômica passou a ser crescentemente regional. Depois de algumas tentativas malogradas a migração passou a se dinamizar mais a partir de 1870. Inversamente essa liberdade possibilitou aos que agora já não são mais escravos que agissem diferentemente e se constituissem em sujeitos políticos e coletivos. no entanto.o Rio Grande do Sul . Pagavam-se transporte e gastos de instalação e promoviam-se obras públicas artificiais para dar trabalho aos colonos. 48 . durante e depois da 2ª Guerra Mundial (Singer 1987: 122). não deve ser confundido com falta de intervenção estatal. Na última década antes de 1900 mais de um milhão de pessoas emigrou para o Brasil. as províncias. impostos à força. Depois da proclamação da república em 1889. para assegurar os lucros mais altos possíveis à produção organizada (Silva 1986: 65). pois as empresas sempre podiam apoiar-se na cooperação com a polícia. após a reforma tarifária de 1844. Até 1930 a migração foi o elemento dinamizador da evolução econômica do Brasil. O Rio de Janeiro. pois uma integração nacional do mercado interno era impossível em virtude da falta de uma rede de transporte. Essa forte afluência de mão-de-obra permitiu que na região mais próspera não fossem pagos os salários mais elevados (Cano 1998a: 246 ss. Herrlein. ferrovias.“ (Furtado 1975: 124 s. as primeiras manufaturas têxteis modernas e ainda em 1910 o número de operários têxteis dessa região se assemelhava ao de São Paulo“ (Furtado 1975: 238). Foi no Nordeste que se instalaram. política de localização e com isso política dinâmica de concorrência entre as regiões com o objetivo do melhor posicionamento possível no campo do poder sobre o espaço. que reproduziam in loco a respectiva estrutura de dominação historicamente surgida. sobretudo a partir do Nordeste em vias de estagnação. O mercado de trabalho era competitivo e regulamentado de modo a estar ”livre” de quaisquer regras de proteção. apresentava ainda até 1907 a indústria mais diversificada e uma participação de 30% da produção nacional (Cano. para solucionar o problema cada vez mais urgente da ”falta de mão-deobra”. os espaços de poder descentralizado perseguiam. Dias 1996: 146): „O processo de industrialização começou no Brasil concomitantemente em quase todas as regiões. sobretudo os investimentos em infra-estrutura estavam direcionados para o comércio exterior. involuindo em simples economia de subsistência. o que. Nas regiões rurais continuava dominando a troca de mercadorias.) 16 Uma das diferenças entre São Paulo e o Rio Grande do Sul era o tamanho muito maior das empresas industriais em São Paulo (cf. A relação de concorrência inseriu-se também nos objetivos superiores da estabilização do poder.certamente reduzida pelos movimentos migratórios antes. Para substituir migrantes caros e freqüentemente sindicalizados.e com intensidade distinta a mesma política: garantia do poder e com isso estabilidade no próprio espaço de poder. quando. com uma única exceção . Nas regiões individuais algumas poucas empresas industriais detinham uma posição de oligopólio ou monopólio (Cano. A migração interna do Norte para o Sul e a concentração da população no Sul e Sudeste pôde ser observada a partir de 1870 (Baer et al. e o mercado de trabalho passou a ser nacional (Rolnik 1980: 53). No lugar de um poder central que mantinha a coesão dos espaços dispersos do território apareceram fortes espaços de poder descentralizado. ela se integrava na burocracia estatal. Neto 1986: 176 s. à medida que estes eram forçados a tomar o seu destino nas próprias mãos. Processos mais complexos de trabalho não podiam ser executados com escravos que não eram livres e portanto praticamente não podiam ser motivados.). São Paulo ainda não ocupava de modo algum a posição de supremacia em escala nacional. se deixava a colônia entregue a suas próprias forças. sem a mediação do dinheiro (Oliveira 1989: 16).16 Os esforços em prol do desenvolvimento. Embora dotados de grande autonomia. Isso se deu por intermédio de mecanismos político-sociais de controle. Formas mais sutis de dominação só podiam começar a produzir efeitos em sujeitos livres. forçou-se a partir dos anos 20 a migração interna. obras essas que se prolongavam às vezes de forma absurda. barcos a vapor e o 15 ”Era uma colonização amplamente subsidiada.

100 -0.500 1885/86 259.969 km (1889) (Pessoa 1983: 105 s.5 km em 1854 para 9.100 168. Essa rede de transportes consolidou uma estrutura espacial que se concentrou em enclaves na exportação de alguns poucos produtos agrários. carreando ao Brasil recursos para o financiamento do seu desenvolvimento.800 +51. já não era mais internacionalmente competitivo e concentrou-se por isso no abastecimento do mercado interno (Cano 1998b: 51 s.100 217.900 1850/51 123. a distinção entre ‘dentro’ e ‘fora’ passou a formar a linha divisória 17 A rede ferroviária expandiu-se de 14.500 +31.3 Modo de desenvolvimento centrado no estado-nação.300 +301. Assim os EUA evoluíram lentamente na direção de um papel de liderança na economia mundial. XIX resultaram essencialmente da evolução quantitativamente favorável do comércio de café. O cultivo de algodão. 2. Tabela 5: Comércio exterior do Brasil no séc. em vias de expansão no Nordeste. sobretudo pelo vapor.500 1829 33. A maior integração no mercado mundial foi facilitada por novos meios de transporte. Pode-se falar por várias razões de um regime nacional de acumulação.600 -7.300 548. O açúcar experimentou um declínio dos preços que só pôde ser compensado parcialmente por aumentos das quantidades exportadas. Depois de 1918 os EUA já dispunham de mais da metade das reservas mundiais de ouro.de um regime nacional completo e estável de acumulação e pela dominância do estado-nação enquanto ator central.) 49 . A fronteira do território adquiriu importância.000 197.800 76. de 65 km (1861) a 10. Em outros produtos de exportação a evolução foi menos positiva. A gestão das dividas permitiu transformar o dinheiro nacional em fundamento do esquema reprodutivo D – M – D´ (dinheiro – mercadoría .076.000 179. pois importações e exportações eram quantitativamente insignificantes.900 -9.700 1880/81 195.000 36.300 -2.).100 -3.500 1838/39 67.200 123.300 1869/70 231. anos selecionados. em contos ano exportações importações 33. reduziam os custos de transporte sobretudo do café e asseguraram a inserção no mercado mundial. Os superávits da balança comercial gerados na segunda metade do séc. Entrelaçamentos modestos no comércio exterior fundamentaram a nação enquanto espaço determinante da reprodução.1. 1829 . sob dominação dos EUA (1929-1982) O período que iniciou depois da 1ª Guerra Mundial ou com plena intensidade nos anos 30 foi caracterizado pela formação . XIX. As exportações aumentaram até a virada do século.17 As ferrovias.400 Em 1914 encerrou-se a fase da inserção internacional estável. pois a supremacia britânica no mundo entrou em colapso.mais dinheiro).pela primeira vez .1900. Ocorreu uma endogeneização da dinâmica econômica e uma valoração maior do fator político. em 1929 eles detinham uma parcela de 42% da produção mundial na indústria de processamento (Altvater 1987: 199 e 201).1 km em 1889: a rede telegráfica. que se expandiam em ritmo vertiginoso e eram preponderantemente ramais ferroviários.300 1834/35 41.900 1900 * erro no original Fonte: Pessoa 1983: 96 – 98 saldo -2.700 1860/61 197.500 +28.800 1889 850. que depois da 2ª Guerra Mundial era em ampla escala inconteste na América Latina.400 35.telégrafo chegaram ao Brasil pouco depois da sua introdução (Silva 1986: 52). Brasil.600 49.

concluída amplamente pela integração dos setores de bens de produção e bens de consumo em 1980. dos hábitos de consumo e dos estilos de vida. Como a cidade oferecia trabalho e direitos sociais de cidadania. A crise econômica mundial levou a uma queda da participação do valor das importações na renda nacional. A nação em vias de modernização. Gêneros alimentícios baratos e disponíveis em quantidade suficiente. as restrições externas se acirraram. fábricas de cimento não tinham compradores e a ampliação da infraestrutura urbana encontrava o seu limite na falta de poder aquisitivo dos moradores. acarretada pela depreciação cambial. Estabeleceu-se um novo esquema de reprodução. dominantemente endógeno (Conceição 1989b: 216 ss. Num segundo período de 1945 a 1954.. Na primeira. Cabia-lhe agora o papel de definir o valor da moeda no 18 „A produção industrial cresceu em cerca de 50 por cento entre 1929 e 1937 e a produção primária para o mercado interno cresceu em mais de 40 por cento.. 19 Maria da Conceição Tavares (1983: 37 ss. Aqui se revelou útil a circunstância de que o estado-nação foi libertado das amarras do padrão ouro.] Com efeito. agora produzidos em escala maior pela indústria de bens de consumo.) distingue três fases da substituição de importações. no mesmo período.19 O capital reproduzia-se crescentemente no espaço-receptáculo da própria nação.decisiva. No regime de acumulação intensiva as transformações na esfera do consumo desempenharam um papel proeminente. as estruturas rurais arcaicas contavam com proteção política.] O crescimento da procura de bens de capital. pois faltavam passageiros. e a forte elevação dos preços de importação desses bens. Dessa forma. caindo a capacidade de importação. A vertiginosa migração das regiões rurais para os centros urbanos conduziu a maciças transformações no estilo de vida dos brasileiros. mas esse padrão de consumo tornou-se dinâmico e um fenômeno socialmente amplo apenas depois de 1930. em 1980 esse número atingiu 66% e em 1997 ele chegou a 80% (IBRD 1999: 192. Ferrovias precisavam ser fechadas. sob as restrições maciças ao comércio mundial. reflexo da expansão da produção para o mercado interno. Baseadas na relação de dependência territorial do poder local.). de 1930 a 1945. o que representa um crescimento per capita de 7 por cento.2% da população vivia nas cidades. Novy 1994: 168). mais importante foi provavelmente a nacionalização gradual do sistema produtivo. sob condições abertas da economia mundial. freando por sua vez um aumento dos salários. fomentada pela política orçamentária norte-americana fortemente expansiva até o fim da Guerra da Coréia. não obstante a depressão imposta por fora. foram substituídos sobretudo bens de consumo. A inserção de contingentes populacionais cada vez maiores no processo de produção industrial exigiu uma alteração na reprodução da mão-de-obra. a renda nacional aumentou em 20 por cento entre aqueles dois anos. como se sabe. Somente uma dinamização do setor de bens de consumo que pressupôs uma mudança no padrão de consumo da mão-deobra logrou assegurar uma estabilização sustentável da acumulação. Em 1932. Porém. urbanização e industrialização carecia de um monitoramento político mais forte. aquela produção já havia aumentado em 60 por cento com respeito a 1929“ (Furtado 1975: 199 ss. corporificadas no latifundiário. de 14% (1929) a 8% (1932). Um tal regime intensivo de acumulação busca uma transformação da esfera de reprodução.18 Tornou-se inevitável construir uma indústria nacional de bens de produção (Tavares 1983: 41). criaram condições propícias à instalação no país de uma indústria de bens de capital. ao passo que a produção industrial nacional recebeu o impulso decisivo em meio à crise internacional.. Isso iniciou no Brasil com a urbanização e a difusão das relações de mercado já no séc. 50 . iniciou a substituição de importações de bens de consumo duráveis e em alguns setores também bens intermediários e bens de capital. O êxodo rural de camponeses sem terra aumentou o proletariado urbano. Se em 1940 31.. Ocorreu a concentração fundiária. O espaço de poder rural subtraía-se à ingerência soberana do estado-nação. ano mais baixo da depressão no Brasil. [. a expansão do setor de bens de produção chocava-se sempre de novo com limites que conduziam a crises. XIX (Fernandes 1987: 77). recomeçando a crescer já em 1931. a produção de bens de capital no Brasil (se a medirmos pela de ferro e aço e cimento) pouco sofreu com a crise. ela se tornou o novo espaço de poder econômico. de 1955 a 1961.permitiram até o fim da Guerra da Coréia a transição para um regime de acumulação dominantemente intensivo. Os anos subseqüentes de isolamento não-intencional . [.). Isso se concretizou no Brasil como industrialização substituidora de importações e como estratégias de desenvolvimento orientada para o mercado interno. e a estrutura fundiária dificultou o modelo da agricultura de subsistência. foram pressupostos importantes para a formação de uma reserva confiável de mão-de-obra que já não podia contar com a possibilidade de retorno ao setor de subsistência. A fraqueza da acumulação extensiva antes de 1930 consistira. Em virtude do reduzido setor de bens de consumo. Sem a intervenção estatal o empresariado brasileiro não tinha condições de efetuar sozinho a regulação complexa de um regime de acumulação intensiva. Mas em termos econômicos o país se modernizou e capitalizou.depois do espaço de entrelaçamento de um nexo de centro e periferia ter rompido em virtude das crises e guerras no centro . no fato de que os setores de bens de produção e de bens de consumo não eram vinculados (Aglietta 1987: 71). Na terceira fase.

40 19. uma justiça própria e um contingente de 600. por meio de novas formas estatais de financiamento. sendo que apenas entre 1971 e 1976 foram fundadas 67 empresas.80 40% inferiores (1º e 2º quintis) 13.81 9. o número total de empresas estatais aumentou nesse período de 13 a 328 (cf. Mas já a lei definia que no caso do salário mínimo se tratava de um salário de subsistência.70 23. monetária e creditícia ele influiu de múltiplas formas na distribuição do produto social: subsidiou investimentos. Isso tem a ver com o momento histórico do meu interesse incipiente pelo Brasil. As leis trabalhistas e as regulamentações do salário mínimo asseguraram nas áreas urbanas o fundamento do novo padrão de consumo de massas.56 10. as instituições da ditadura militar continuam existindo.90 1% superior Fonte: Rojas 1998.86 16. porque a produção se orientou para as classes alta e média (Lipietz 1986: 32 s. Nessa produção de massa para o consumo das massas consistiu a dinâmica da política econômica keynesiana. mas de fordismo periférico. Tratou-se.20 Com a criação de um mercado de capitais e a fundação de empresas estatizadas constituiu-se o capitalismo financeiro no Brasil.67 27. Num processo positivo de reforço o poder aquisitivo crescente conduziu a uma produção mais intensa e barata. com três ministérios próprios. Tabela 6). Além disso o país estava por lei excluído da modernização. O Estado assumiu a responsabilidade pelas condições de reprodução dos trabalhadores.10 37.07 6. favoreceu a importação de bens de produção e impediu a importação de bens de consumo. quando as ditaduras militares pareciam ser uma forma de governo ”superada”. o acesso democrático a elas é reduzido (Dreifuss 1989: 26-33). Além disso ele melhorou a infraestrutura. historicamente sempre foram um ator-chave e constituem até a atualidade um Estado no próprio Estado.). que funcionou sobretudo no centro. de uma forma de fordismo.50 40% médios (3º e 4º quintis) 53. a acumulação dominantemente intensiva beneficiou sobretudo a quinta parte mais rica da população. Mas apesar disso os elevados índices de crescimento permitiram um ganho de bem-estar para camadas mais amplas.94 16. sobretudo à criação de espaço habitacional e do transporte individual motorizado. Mas os militares.46 relação entre o 1º e o 5º quintil 28. chegando até o período de 1971 a 1976 a 138 empresas. isto é.000 homens.16 2.90 14. a saber.21 a ocupação na indústria aumentou até 1970. O consumo direcionavase a bens padronizados para as massas. O Estado financiou no longo prazo essa evolução e forçou a industrialização na direção da produção fordista em massa. Como também entre a população urbana se concentravam a renda e com isso as chances de consumo. Tabela A-8). A Constituição de 1988 não podou o poder dos militares.85 5.77 62. Assim a 20 Sem dúvida os militares não são suficientemente considerados nesse trabalho. Tabela 6: Distribuição da renda pessoal no Brasil no período de 1960 a 1980 (em %) 1960 1970 1980 3.00 2º quintil 11.90 5% superiores 11. o que reduziu o dinamismo da produção de massas. o que se tornou possível em virtude de vantagens de escala. mas também por meio da inflação e da política de indexação.75 26. Por meio da política financeira.espaço-receptáculo nacional (Fiori 1995a: 79).81 10.24 65.30 34. de um mínimo necessário para a sobrevivência.70 5º quintil 15. a ”conquista interna da terra” [”innere Landnahme”] era incompleta. Não estava previsto o acoplamento a aumentos da produtividade.49 3. Mas também na periferia podem ser registrados efeitos positivos de reforço.80 1º quintil 8. por conseguinte.90 4º quintil 34. tudo somado.01 7.70 16. os anos 80. Influiu no salário real não apenas por meio da fixação do salário mínimo. O número de empresas estatizadas aumentou vertiginosamente.60 3º quintil 20. Os 80% restantes se viram obrigados a aceitar entre 1960 e 1980 perdas na participação da renda nacional (cf. embora no Brasil o consumo de massas tenha ficado restrito à classe alta e à classe média. 21 Na esfera federal o número de empresas estatizadas aumentou no período de 1941 a 1950 em 7. a ”sociedade política armada”. que logrou aumentar a sua participação na renda nacional. Baseado no World Bank Development Report 1996 Foi a ditadura militar de 1964 a 1982/89 que colocou a acumulação em novas bases. 51 .

1 5.5 44.5 3.6 37.3 2.2 5. No âmbito da indústria ocorreu um deslocamento dos ramos industriais dominantemente expansivos até os ramos determinantes no regime de acumulação intensiva.7 6. a agroindústria. composta pela balança de serviços e pela balança comercial.0 12.6%. Os setores tradicionais perderam a sua posição dominante.).malha rodoviária aumentou de 3.2 6. Egler 1992: 130 ss.1%.permitiram completar a estrutura produtiva (Becker.5% a 37% (cf.3%.23 O Estado engajou-se na disponibilização da infraestrutura e da produção de bens intermediários.9 2. para se transformarem finalmente no setor inequivocamente dominante (Becker. Investimentos diretos reforçam os entrelaçamentos de capitais. A supremacia dos EUA nas décadas posteriores à 2ª Guerra Mundial favoreceu o comércio mundial.9 16. Franco 1991: 23).7 18. o complexo militarindustrial. O fluxo de investimentos diretos do exterior experimentou um primeiro crescimento no fim dos anos 50 e depois mais uma vez durante a ditadura militar no início dos anos 70 (Fritsch.5 6. a 22 1949 1967 1975 1980 65.4 63. Representam ativos na balança de capital e conduzem na balança de transações correntes a fluxos financeiros para o exterior em virtude da remessa de lucros.5 4.3 7.8 6. no setor dos bens de consumo de longa duração de 78.7 10. Disso resultou também uma estrutura de centro-periferia. devido às remessas de lucros. Mas a CEPAL cedo reconheceu que a mudança da potência hegemônica na economia mundial não era tão positiva para o continente. Podemos mostrar bem a constituição ou o enfraquecimento de fronteiras econômicas com base na evolução do balanço de pagamentos (cf. sua participação reduziu-se entre 1949 e 1980 de 65. Os EUA permaneceram durante muito tempo como economia orientada pelo comércio interno e dispunham de uma gama de produtos de exportação similar à da América do Sul. A estratégia dos EUA diante dos maiores países latino-americanos distinguia-se substancialmente da da Inglaterra no século anterior.4 60.4 12.22 com o aumento da utilização de máquinas e tecnologias modernas.0 7.8 9. na qual o comércio desempenhava um papel menor do que os entrelaçamentos de capitais.2 3. Aqui as empresas multinacionais em expansão desempenharam um papel de central importância.6 39.607 km (1973) (Robock 1975: 47). Senghaas 1980: 130).3 10.7% a 18.1 2.2% a 10.2 10.0 2.1 1.24 Nas duas vezes esses investimentos conduziram em seguida. Nela a balança de transações correntes.5 55.a petroquímica.minerais não-metálicos .). por fixar regras claras para o espaço de entrelaçamento econômico. caso as reservas cambiais não devam ser alteradas. muitas vezes controlados do exterior . Brasil. Tabela 7: Distribuição do valor agregado na indústria. O grande capital privado brasileiro controlava por sua vez as áreas do comércio e dos serviços (Senghaas 1980: 132). Tabela 8). Tabela 7). Numerosos complexos industriais novos. A Inglaterra orientava-se pelo comércio exterior e pelo comércio mundial e tinha uma estrutura complementar de comércio exterior.3 10.7% e a da construção de máquinas de 2.0 34.4 5. 24 Se nos investimentos diretos dos EUA no Brasil em 1929 ainda dominavam as instituições do poder público como as empresas produtoras e distribuidoras de energia elétrica e as empresas ferroviárias.6 A participação da indústria química subiu de 4. 1978: 278 Já por volta da virada do século teve início o afastamento do Brasil da Inglaterra e a aproximação aos EUA (Faria 1996: 62 ss. Egler 1992: 51. os investimentos na indústria de processamento passaram a ter mais peso a partir de 1946.beneficiamento de metais Química Máquinas instalações elétricas setor de transportes Fonte: Baer et al.133 km (1955) a 67.papel e celulose .7 2. 1949-1980 Ano setores tradicionais setores não-tradicionais .6 11. 23 A sua participação nas dez maiores empresas foi em 1968 no setor dos bens de capital de 72. Essas duas balanças devem compensar-se. 52 . se opõe à balança de capital na qual se contabilizam os créditos e os investimentos diretos. a indústria de alta tecnologia e de computadores .

Na constituição de um mercado financeiro nacional sob Juscelino Kubitschek e posteriormente sob os governos militares o Estado desempenhou um papel central. Uma nova fase das relações econômicas internacionais iniciou-se com o Acordo de Bretton Woods de 1944. No lugar de sindicatos independentes apareceram sindicatos subordinados ao Ministério do Trabalho. 27 A participação dos ativos monetários caiu em benefício dos não-monetários no período acima mencionado de 88.2% a 6.uma passivação da balança de serviços.9% a 14. A arrecadação tributária subiu de 11% (1955) para 17% (1961) (Bergsman 1973: 56 s. Forças conservadoras. mas visava também a exploração militar das regiões fronteiriças e a transformação do Brasil em potência hegemônica na Amazônia. Os bancos estatais de investimentos aumentaram a sua participação nos créditos privados de 1964 a 1970 de 6. estados periféricos também conquistaram um espaço de atuação que até então existira apenas nos centros. A classe trabalhadora recebeu no direito trabalhista consubstanciado em 1943 na CLT (Consolidação das Leis de Trabalho) direitos sociais claramente definidos. o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional como as novas organizações centrais. Na forma da industrialização realizada em 1956 o capital estrangeiro. os títulos do Tesouro Nacional foram a segunda fonte principal do financiamento de um novo surto de crescimento superador da crise. ligadas aos EUA e à oligarquia agrária orientada para a atividade exportadora. que fixou. 53 . que contudo não serviu incondicionalmente à democratização e uniformização das condições sócio-econômicas. apoiado pelo capital do Estado. à medida que se submetiam gradualmente aos interesses nacionais de desenvolvimento e industrialização.26 O estado-nação aprofundou os seus esforços em desenvolver e controlar de modo abrangente o espaço de poder.1% (Tavares 1983: 229). O regime de acumulação intensiva não poderia ter-se estabelecido duradouramente no Brasil. por meio da ”fuga para frente”. da estratégia de crescer e centralizar (Fiori 1995: 78).25 A industrialização conduzida pelo estado-nação possibilitou uma compensação específica de interesses no interior dos grupos dominantes. que aumentou muito.).4% a 61. O déficit na balança de serviços acirrou-se nos anos 70 e preparou o chão para a crise de endividamento dos anos 80. As oligarquias mantiveram o seu poder baseado no latifúndio.27 Ao lado da poupança maciçamente fomentada e em parte obrigatória. a saber. Nos anos 70 ficou evidente a contradição central: a industrialização orientada para o mercado interno foi sustentada por capital controlado a partir de fora. O Estado investiu no âmbito do seu projeto de integração nacional na valorização da Amazônia.). A moeda creditícia passou a ter maior importância em comparação com a moeda de papel. desempenhou um papel nitidamente maior. se na esteira da crise econômica mundial e da guerra mundial o comércio mundial não tivesse entrado em grande parte em colapso entre 1929 e 1945.6%. Mas o novo bloco de poder era maior do que o da ”República Velha”. pois contingentes populacionais maiores podiam ser integrados no novo regime de acumulação. Com ajuda de determinadas condições gerais internacionais enquanto regras de jogo. Juntamente com a crescente orientação doméstica do regime de acumulação intensiva o poder político se deslocou para os espaçosreceptáculos dos estados-nação. por um lado. hidrelétricas e álcool como combustível).g. A compensação de interesses divergentes se deu agora pela via do estado-nação. impediram a imposição dessa política. 26 Já antes da tomada do poder pelos militares em 1964. por outro lado. A ideologia do estadonação orientou-se e. obrigado a remessas periódicas de lucros e juros para o exterior. Os títulos públicos indexados puderam 25 Mesmo os oficiais reformistas e os liberais anti-oligárquicos foram marginalizados. Financiavam investimentos no setor produtivo e na melhoria da infra-estrutura. Pontos de estrangulamento no financiamento foram ”solucionados” mediante empréstimos no exterior. e a xenofobia serviu para alimentar o anticomunismo (Fausto 1981: 106 s. a não-ingerência nos assuntos internos de estados soberanos. Esta foi o ”ovo de Colombo” para compatibilizar as velhas alianças com novos objetivos: assim o Estado pôde aumentar os seus gastos sem financiar as suas receitas mediante títulos do Tesouro Nacional ou outros mecanismos (Fiori 1995a: 96). ao menos em termos de ‘Direito Internacional Público’.0 a 17. e com a institucionalização do dólar norte-americano como moeda padrão. Depois do aumento dos preços de energia em 1973 foi iniciado um amplo programa de substituição de importação de energia (energia nuclear. vendendo obrigações a particulares (Oliveira 1989: 94). cujos dirigentes foram integrados ao bloco de poder. A ONU complementou esse conjunto de organizações supranacionais. as transferências e os investimentos tinham aumentado de 7.9% (Tavares 1983: 224). nos anos 30 pelo fascismo (Fausto 1981: 110). os investimentos de todo o setor público tinham aumentado de 3. num projeto que não buscava apenas a exploração das jazidas e da energia hidrelétrica. fazendose sentir na economia doméstica sob a forma da inflação.7% e o consumo do Estado.

As tarefas das empresas diante dos seus funcionários reduziam-se ao pagamento do salário mínimo fixado em lei. Por fim a gestão de divisas objetivou possibilitar importações de bens de produção.aumentar a sua participação nos ativos financeiros de 0. 31 ”Liberal em sua primeira hora. diante da acumulação politicamente determinada. A representação dos interesses políticos se dava por lei com restrições setoriais e territoriais e a constituição de uma central sindical era proibida. ao regime mais centralizado e autoritário de nossa história republicana.000 órgãos públicos (Diniz 1997: 17). 28 Na esteira da 2ª Guerra Mundial. que ganhara influência nos anos 50 e no início dos anos 60. o valor do salário mínimo real caiu para quase a sua metade (Zenk 1982: 166).). O aumento por volta do fim dos anos 70 estava ligado ao incipiente movimento grevista. Faletto 1979: 112 s. sindicatos controlados pelo Estado (Fiori. A prática da troca de votos representava um mecanismo para cobrar melhorias concretas das condições de vida. Jaguaribe 1987: 36). Ainda em 1988 havia oito representações de interesses municipais em nível nacional e três representações de interesses rurais (Diniz 1997: 164). 29 Sobretudo depois das grandes greves dos metalúrgicos em 1953 o seu acesso ao sistema político se dava pelo Poder Legislativo via clientelismo. recebeu um último impulso dinâmico. corrigida apenas em 1953. Os sindicatos autônomos. propicia o maior surto de crescimento do aparelho econômico e produtivo do Estado [. Ela foi seguida entre 1953 e 1957 por um sistema de licenças que distinguia entre tipos de importações. Para as obrigações sociais restantes a responsabilidade cabia ao Estado que exigia em contrapartida a aceitação da estrutura existente (Cardoso. por via do populismo foi possível influir no Poder Executivo. Mas o Estado estava aberto aos empresários enquanto indivíduos e enquanto frações de classes que representavam interesses setoriais e territoriais. O Estado ou..7% (1964) a 10. Os trabalhadores foram coagidos à poupança mediante retenção de parte do salário no FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço).). Sob a ditadura militar os recursos e as decisões se concentravam no governo central. foram substituídos por sindicatos corporativistas. As exportações de produtos agrícolas serviam para atrair divisas necessárias ao processo de industrialização e desenvolvimento. e pelo Poder Executivo via populismo.28 Os interesses divergentes foram acomodados mediante a inserção de esferas sociais outrora autônomas no estado-nação. produz.).9% (1970). levando à fragmentação da ação estatal (Diniz 1997: 108). 54 .]. Patrono da desestatização. centralizada no estadonação.29 Por via do clientelismo foi possível influir no Poder Legislativo. O Poder Legislativo. diferentes órgãos públicos perseguiam interesses particularistas que estavam em contradição com outros interesses igualmente particularistas. Isso levou a uma articulação direta entre os setores público e privado por via do corporativismo. Apesar disso as organizações dos trabalhadores conquistaram uma certa independência e um acesso incipiente ao sistema político. para ser mais preciso. em seguida. perdeu-a novamente com o golpe de 1964. no longo prazo. um verdadeiro descalabro inflacionário“ (Fiori 1995a: 107). Advogado de um combate decidido contra a inflação. 30 Os salários reais regrediram claramente entre 1961 e 1974. Com isso o regime de acumulação. Essa política em benefício do setor cafeeiro foi implementada conscientemente sobretudo pelo governo liberal de Eurico Gaspar Dutra. de um surto de crescimento do setor exportador e de importações restritas foi possível efetuar uma supervalorização do cruzeiro.30 A centralização do poder no Executivo e em nível nacional caminhou de mãos dadas com a fragmentação interna do Estado. apesar das elevadas taxas de crescimento da economia como um todo. destinado a indenizações e ao financiamento habitacional. isto é. Foi aumentado o número dos órgãos consultivos nos quais a presença dos empresários era muito forte. Mas isso afetava sobretudo projetos individuais. em si já esgotado. o Poder Executivo não era um ator uniforme: os vários ministérios concorriam entre si.. [o ideário golpista de 1964] dá lugar. Ele era o palco no qual os interesses dos empresários podiam ser mobilizados e precisavam sê-lo.31 Em 1985 havia no nível federal 25. depois o governo passou a cobrar taxas alfandegárias. Permitiam aos grupos com capacidade de pagamento aplicações seguras a juros elevados. mas sem desistir de outras medidas protecionistas como a concessão de licenças (Baer 1989: 53 ss. A representação dos interesses empresariais. e os desentendimentos entre as chefias nomeadas sempre segundo critérios políticos e o funcionalismo de carreira forneciam constantemente matéria para conflitos internos. de modos respectivamente distintos. mas não de bens de consumo. O corporativismo brasileiro caracterizou-se. sem que os partidos desempenhassem aqui um papel mediador (Diniz 1997: 162 ss. foi igualmente suprimida como a da classe trabalhadora. na configuração de programas políticos e estratégias globais a classe trabalhadora continuou marginalizada. logo proibidos.

3% a 17. Em 1953 foi criada a empresa estatal de petróleo PETROBRÁS. a participação da população nordestina na população total do país reduziu-se no período de 1872 a 1970 de 46. do qual contudo também participava o setor dos bancos privados. os empresários apostavam no Estado protetor. Sob condições gerais ditatoriais. foram transferidas a regiões. Essa polarização foi percebida crescentemente como obstáculo ao desenvolvimento de toda a nação.a aliança ”de três pés” . por um estrutura fortemente fragmentada. Com a produção de bens de consumo duráveis.portanto. foi uma espécie de pacto de não-agressão. e pelo capital nacional. No lugar de programas assistenciais como e. pelo atendimento privilegiado de interesses empresariais no aparelho de Estado.: Oliveira 1989: 77). pelo primado do Executivo na definição das estratégias políticas e pela concentração do poder decisório na burocracia estatal. Mas como isso resultou na concentração do poder nas mãos da burocracia estatal. responsável pelos bens de consumo de pouca duração. pelo capital do Estado. a SUDENE (Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste) (Fernandes 1998: 194). A oligarquia agrária nordestina. A política regional tornou-se crescentemente mais importante para valorizar recursos ociosos (Cano 1998b: 19 ss.32 O tripé . A burguesia industrial em vias de formação organizou-se desde o começo em estreita simbiose com o Estado. a do Sul aumentou de 7. o combate ad hoc da seca e da fome previa-se um planejamento do desenvolvimento regional (cf. responsável pela infraestrutura e pela indústria de insumos básicos. Um papel-chave foi desempenhado pelo órgão de desenvolvimento regional do Nordeste.7% (Baer et al. 55 . a cada dia. Essa idéia foi apoiada pelas regiões industrializadas do Sul e combatida pelos grupos dominantes do Nordeste. Furtado 1997b). ela era ao mesmo tempo crescentemente politizada. Foi projetada a empresa energética ELETROBRÁS (fundada somente mais tarde) e foram feitos investimentos nos setores de aciaria e mineração (Becker.g. As idéias básicas da estratégia cepalina. desde o direito à sobrevivência até o ‘direito’ de manutenção de seus subsídios e rentabilidades diferenciados.7% a 30. o êxito e fracasso dessa ação política foi medido pelas medidas tomadas no campo das políticas financeira e fiscal. conseqüentemente reproduzidos. à medida que a legislação trabalhista se restringia aos trabalhadores nas cidades. O desenvolvimento regional polarizou-se. créditos baratos subsidiavam ramos da economia expostos à pressão internacional. pela construção civil e pela agricultura e pecuária -.). Isso continuou permitindo na zona rural o pagamento de salários abaixo do salário mínimo (pago nas cidades). Disputa responsável pela expansão muitas vezes desordenada da intervenção estatal e pela instabilidade cíclica das instituições políticas” (Fiori 1995a: 81). Já nos anos 50. foi protegida. as áreas gigantescas inexploradas da Bacia Amazônica e a estrutura econômica e social ainda arcaica do Nordeste bloqueavam um desenvolvimento maior orientado para o mercado interno. a política regional passou a ser um campo central da política. a deficiente homogeneização do território nacional.3%. mas a produção dos produtos localmente consumidos ocorria em empresas multinacionais localizadas no próprio país. cujas decisões influíam no sucesso ou fracasso da iniciativa privada. sendo que a partir de então a valorização da periferia no 32 Em 1952 foi fundado o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE). A centralização do estado-nação assegurava por meio de uma regulação nacional a sobrevida a frações de capitais que não poderiam ter se mantido por mais tempo no mercado internacional: um protecionismo radical fechava os mercados para empresas nacionais. A heterogeneidade desses capitais e seu grau distinto de modernização não eram questionados. Nessa ”internacionalização dos mercados domésticos” os mercados continuaram fechados às importações. À medida que se organizava a concorrência no espaço-receptáculo nacional. concebidas para nações inteiras. Por um lado. o capital internacional haveria de tornar-se o motor do desenvolvimento e em virtude dos seus recursos tecnológicos e financeiros o ponto nodal do poder. Assim essas empresas logravam embolsar subsídios de colonização pagos pelo Estado e explorar ao mesmo tempo as vantagens de uma estrutura oligopolística do mercado. responsável pelo mercado dinâmico dos bens de consumo duráveis. O conflito social deslocou-se para o interior das instituições do estado-nação: ”Ali se disputaria. conseqüentemente cimentadoras de poder.formado pelo capital internacional. por outro. pela exclusão dos trabalharores. Como o sistema era corporativista. Mas o golpe militar de 1964 mudou radicalmente a sua atitude diante da política regional. que produzia com métodos atrasados. nas prescrições jurídicas constituintes do território. a burguesia nutria simultaneamente um profundo ódio contra essa regulação feita pelo Estado autoritário (Fiori 1995a: 89). 1978: 68). Egler 1992: 49 s. mais tarde renomeado como Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

fomentou nos anos 60 o deslocamento de unidades de produção para a periferia (Cano 1998b: 242). o Brasil ainda logrou passar por um desenvolvimento dinâmico depois de 1973. Por isso os militares apostaram crescentemente também em estratégias de extensificação. mas de forma especialmente dura (cf. As economias dos países centrais. uma maior orientação para a atividade exportadora. Nos anos 60 o modo de desenvolvimento e com isso o campo de poder ainda permaneceram intocados. O ponto culminante dessa estratégia de homogeneização nacional foi o Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) nos anos 70.a partir de fora -. localizada nas diferentes partes do país e integrada funcionalmente (Oliveira 1989: 55). 2. Tentaram manter a sua dinâmica interna de acumulação e aplicar simultaneamente capitais excedentes em investimentos produtivos nos países emergentes (Lipietz 1986: 30 s. As fases do seu esgotamento foram seguidas por tentativas de adaptação. O poder físico dos militares transformou uma economia nacional composta por uma série de economias regionais e uma economia nacional abrangente. que ocorreu em meio a uma grave crise econômica. O golpe militar de 1964. A possibilidade.3%). a fuga para aplicações de capitais a curto prazo levou a uma expansão vertiginosa do capital financeiro. a produção de bens de capital no país regrediu e foi substituída em parte pelo aumento 56 . que completou a estrutura produtiva do país: tomando generosamente os créditos baratos no exterior. Não obstante o enfraquecimento do espaço econômico nacional e da crise internacional. a dinâmica da acumulação se esgotou. foi aqui uma cesura especial. Mas quando os esforços do estado-nação não mais puderam ser financiados . Mas a produção física estagnou. A virada monetarista sob os governos de Margareth Thatcher e Ronald Reagan provocou em 1980 uma recessão mundial que destruiu o antigo campo da acumulação. A recessão começou com a forte queda da renda nacional em 1981 (. nas quais igualmente se podia perceber fenômenos de crise. A nação enquanto estrutura profunda estava minada. Mais uma vez se pode falar como nos anos 30 de uma ”grande” crise. tal como ela formara durante décadas uma unidade em torno do estado-nação. Apesar disso os anos 70 já foram anos de crise nas economias dos países centrais.1. do colapso de uma ordem relativamente estável. Esforços intensos no setor de alta tecnologia completaram o pacote de investimentos. o Estado deslegitimado enquanto ator central. de investir lucros com incentivos fiscais no Nordeste. Uma alternativa possível era a transição ou o retorno a um regime de acumulação orientado para o exterior. relativamente tarde em comparação internacional. Tabela 9). mas na crise dos anos 80 o modo de desenvolvimento centrado no estado-nação também entrou em colapso.4 Destruição do modo de desenvolvimento centrado no estado-nação e dominação dos EUA (a partir de 1982) Seria uma simplificação grosseira querer descrever o regime de acumulação intensiva como fase uniforme e estável de evolução econômica de 1930 a 1982. apostaram nas duas estratégias.4. os militares sediaram ramos da indústria de insumos básicos na periferia e começaram a produzir nessas regiões também energia em larga escala. Com isso a dinâmica da acumulação intensiva só pôde ser preservada mediante um ampliação do consumo das classes média e alta. criada para as grandes empresas.).interesse do desenvolvimento nacional estava em primeiro plano. A expansão do capital paulista e do capital estatal para o Nordeste ensejou a formação de um espaço nacional de acumulação. Foram arquivadas a reforma agrária e a redistribuição da renda. vale dizer. cuja base era formada por um processo nacionalmente unitário de valorização do capital. Nessa situação de crise todas as estratégias de acumulação se caracterizaram por sua inconsistência. Rompeu-se estrutura profunda do poder sobre o espaço. Uma outra estratégia era a homogeneização e extensificação no âmbito das fronteiras nacionais e das fronteiras traçadas pelas estruturas de poder.

desintegrou-se. De 1980 a 1992 diminuiu sobretudo a produção de bens de capital.das importações. 57 . o território perdeu importância. as suas fronteiras se tornaram permeáveis.33 a estrutura produtiva nacional. As importações de bens de capital aumentaram de US$ 5.8 milhões de toneladas a 25411. um indicador confiável da atividade no setor da construção civil e conseqüentemente um indicador confiável da conjuntura. 33 Assim a produção de cimento. reduziu-se no período de 1980/82 a 1991/93 de 26523. quase completa.9 milhões de toneladas (Pacheco 1998: 143). A demanda de bens de capital ocorreu crescentemente no exterior. mais precisamente na razão de dramáticos 44%.9 bilhões (1990) para US$ 25.2 bilhões (1998). bem como a produção de bens de consumo duráveis (na razão de 8%) (Pacheco 1998: 108). Enquanto unidade política e econômica.

gov. Transações correntes F.0 243.0 114.079 49. v.9 200.6.1 DÍVIDA EXTERNA (2) (1)Em virtude de correções adicionais.578 132 887 2.301 59.845 54.480 9.437 -11. 43.8 60.881 19. Balança de capitais Investimentos diretos Empréstimo à médio e longo prazos Capitais à curto prazo I.326 2.253 -8405 -10.433 -13. com relação aos dados para os anos não-mencionados.540 20.310 -15. n.594 -20. n.881 13. n. n.0 74.137 -30. 1970 – 1999.254 12.4 148.520 30.209 -815 -2.483 -26.6 36.015 6.d.963 77 464 1.736 22.850 -10.554 -6.285 -10.Tabela 8: Balanço de pagamentos do Brasil.d. o excedente e déficit no balanço de pagamentos não correspondem exatamente às transformações das reservas cambiais. n.958 545 -936 625 -5.894 -16.3 RESERVAS INTERNACIONAIS (2) 5.140 48.351 -5.755 57.1.832 -6. 33.042 -562 -7. www.d.506 47.743 -18.798 -25.689 -17.343 12.gov.184 10.845 -17.443 6.103 -14.390 -11.611 -24. 2.bcb.591 -1.).135 -15.html (para 1970-1995).964 41.596 27.863 25.3 159. (3) Sempre em dezembro de 1971 Fonte:www.7 (3) 5.d.017 -7.662 20.8 51.545 46.1.3 20.202 19.939 13.773 -8.765 -6.198 n.338 -8.972 -23.122 -11.175 -1.161 -9.929 -27.130 1.229 447 909 18.111 -2.3 7.131 4.1.359 33.990 51.300 -5. anos selecionados 1970 1974 1981 1988 1994 1995 1996 1997 1998 1999 232 -4. Balança comercial Exportação Importação B.284 -28.1 52.158 -9.d. n.685 14.294 29.2 241.858 53.ipea. Serviços Juros Serviços diversos (remessa de lucros.734 4.d.833 -33.2 44.011 n.731 49. (2) Em bilhões de US$.747 52.3 179.832 14.663 15.5 9. viagens) E.886 28.br (tab.212 -234 -514 -9.466 -3.170 -119 -198 -1. Novy (1998: 191-193) 58 .d.br/ftp/tabelas/ltab88. Superávit(+) / déficit (-) (1) 1.690 1.358 -18.d.173 -10.948 -15.1 38.375 1.984 8.758 A.891 n.834 5.d. em milhões de US$.

Dezembro Fonte: www.2 2.6 .4 -0.6 -2.4 775.7 20.7 775.bcb.2 105.0 99.5 801.5 PIB per capita (%) 1476.192 6.9 4.4 4.9 23.9 2708.283 6.9 4.4 103.d.5 -0.0 -0.7 543.4 3.7 30. a preços correntes (2) em preços constantes.161 PIB per capita (2) -5.0.1 3.5 4. alteração no período em % (4) Desemprego oficialmente admitido. 1990 até 1999 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 n.8 PIB (1) -4.3 6.br 59 . segundo o IBGE (5) Selic/ Over.628 5.1 0.5 556. n.8 4.d.909 6.3 1.9 5.1 705.3 104.480 5.596 5.2 -1.0 106.gov.148 6.664 5.3 104.3 7.2 19.8 14.2 1093. FGV.0 107.8 1.0 Inflação (3) 3.4 38.1 Índice do nível de emprego -4.0 taxa de juros reais (5) (1)em bilhões de US$. Brasil.3 Desemprego (4) 110.8 6.8 9.9 42.3 2.7 3.2 2.8 6.4 4.2 7. 429.2 4.0 31.4 3. R$ (Real) 1999 (3) deflator IGP-DI Geral.6 480. n.2 1157.072 6.1 56.Tabela 9: Dados econômicos principais.5 4.7 100.8 PIB-crescimento (%) 5.2 102.d.5 1.

A estrutura industrial também tinha sido completada. um valor que ainda estava acima do de 1992. isto é.57. 35 No ápice da ditadura militar o índice Gini. em 1993 em 0.4% (1981) a 46. mas as remessas de lucros também são consideráveis.abstração feita de quedas em 1995 e 1998. o segundo decil conseguiu aumentá-la ligeiramente e os restantes 80% sofreram perdas.br. com o congelamento das cadernetas de poupança no primeiro ano de governo de Fernando Collor de Mello. Importações baratas serviram no Plano Real para reduzir o nível dos preços internos em mercados antes protegidos. e em 1990. isto é. Os diferentes fundos de investimentos. substancialmente a balança de capital.64! Em 1992 ele esteve em 0. Na esteira do Plano Real a distribuição da renda melhorou mais uma vez no curto prazo.57. a balança de serviços é cronicamente negativa. para deteriorar-se novamente mais tarde. a balança comercial foi tendencialmente negativa nos anos 70.97 bilhões. ela foi quase sempre positiva. Novy 1998: 180). em números arredondados. criado somente mais tarde pelo Plano Real.58. 34 Restrições às importações foram retiradas e as taxas alfandegárias foram reduzidas em média de 32. A sua maior parte é composta por pagamentos de juros. nos ativos financeiros e na propriedade fundiária. nos quais as formas estruturais do capital. Em 1992. Os investimentos diretos. Embora a estratégia política oficial tenha consistido na substituição das importações. aumentaram especialmente nos anos antes da eclosão da crise em 1981. Parte dos efeitos redistributivos positivos do Plano Real se deve também a uma crise da agricultura. ao lado dos empréstimos no exterior.8% em 1989 (cf. do dinheiro e do trabalho freqüentemente não se coadunam. Tabela 10).2 bilhões. A urbanização avançara a ponto de não mais poder ser um motor do crescimento. Estavam assim esgotadas a partir do lado da demanda as estratégias convencionais e também todas as estratégias tipicamente brasileiras de superação da crise. O patrimônio concentra-se sobretudo na propriedade empresarial. em 1989 em 0. para cair em 1995 para 0. para citar apenas um exemplo. os investimentos diretos atingiram o patamar de US$ 2.Países capitalistas periféricos. como em 1986. a uma transferência de renda das regiões rurais para as urbanas (cf. do Estado. profundamente inscrita no poder sobre o espaço. sendo que o déficit desde os anos 80 se localiza entre US$ 10 e 20 bilhões.g 1% da população controla. tendem a desequilíbrios na sua economia externa (cf. Apenas na esteira de programas de combate à inflação. A disponibilidade de capitais internacionalmente aplicáveis foi tão importante para o boom quanto o ambiente favorável aos aplicadores. as importações baratas possibilitaram a absorção local de padrões globais de consumo up to date. mas simultaneamente também num período recessivo nos países industrializados.35 O fundamento da deterioração da distribuição da renda no longo prazo é a distribuição do patrimônio. Isso mostra que as melhorias de 1995 devem ser creditadas sobretudo à situação dramaticamente negativa antes do início do Plano Real. Apesar disso os 10% mais ricos da população conseguiram em toda a década aumentar nitidamente a sua renda. uma medida para aferir a desigualdade da distribuição. Como é típico para uma economia periférica. Em 1988 ela atingiu um ponto culminante com US$ 19. sobretudo aos preços reduzidos. subindo depois sobretudo em virtude das grandes privatizações .59. isto é. Com o Plano Real ela entrou novamente no passivo em virtude da taxa cambial excessivamente alta e do surto de importações daí resultante. A deterioração daí resultante da distribuição da renda bloqueou a demanda maciça enquanto saída da crise de crescimento.5% (1995) (Calcagnotto 1996: 35). Nos anos 80 eles cairam continuamente até desaparecerem em grande parte nos anos de 1986 a 1991.gov. Nove nonos da população se viram obrigados a reduzir continuamente a sua participação na renda de 53. www. Em 1997 elas passaram da marca dos US$ 20 bilhões. quando ocorreu em virtude do reduzido crescimento econômico um colapso das importações e uma diversificação das exportações. que integram. aumentaram somente de 1994 até maio de 1997 o seu volume de US$ 54 bilhões para US$ 119 bilhões (Gonçalves 1999: 58 ss. já num ano de elevada ”ingovernabilidade”.). a metade do patrimônio. 60 . ano do Plano Cruzado. Assim e.60.34 No curto prazo.2% (1990) a 12. Em 1981 ele estava em 0. ocorreu uma distribuição da renda. Elevados índices de inflação foram acompanhados pela deterioração da distribuição da renda.ipeadata. foi de 0. Tabela 8). Nos anos 80.

8 1.4 48.3 * renda mensal de trabalhadores a partir dos 10 anos de idade Fonte: www.1 5.2 7.8% em 1995.5 2. que culminou em 1970 em 58.6% (cf.8 0. sem precisar abrir para todas as camadas o acesso ao consumo de massas.2 10. Tabela 11).2 2.6 3.1 12.3 10.2 10.1 32. pois aqui as perdas de participação da indústria foram suavizadas por ganhos de participação na economia agrícola e pecuarista e no setor de serviços.0 46.5 35. Brasil. para subir depois até1995 novamente a 36.6 1.0 11. mas não social.gov.3 48.3 16.5 35.6 4. Tabelas A-13 e A-14) 61 .0 1.9 51.4 15.5 7.5 48.4 49.7 2.8 12.4 37.9 50.5 5. Tabela 10).4 3.3 16.9 9.2 10. aumentou essa vantagem até 1970 para 100%.8 0.5 3.0 3. Tais medidas abriram novos mercados na periferia da nação e sustentaram a dinâmica fordista.8 1.8 48.0 0.2 10.1 5.7 11.4 51.7 51.4 7.9 1.8 7.5 16.3 3.0 5.2 33.8 2.9 0.8 15. caiu nos anos seguintes gradualmente até chegar em 49.4 2.2 1.1 46.6 13.7 6.0 34.4 31.9 5.3 10.1 4. cuja renda per capita em 1939 já estava 79% acima da média no Brasil.36 Tabela 12: Diferenças regionais da renda média por habitante.7 3. São Paulo.6 10.7 2.4 51.3 10. Brasil.1 15.4 7. 1981 – 1990* participação na renda (em %) DECIL até 10 de 10 a 20 de 20 a 30 de 30 a 40 de 40 a 50 de 50 a 60 de 60 a 70 de 70 a 80 de 80 a 90 de 90 a 100 ACUMULADO 50% mais pobres 80% mais pobres 90% mais pobres 1981 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 0.4 0.2 16.8 5.7 2.9 48.61 Tabela 10: Distribuição da renda pessoal.6 35. a distribuição da renda se tornou regionalmente mais (cf.br/ftp/tabelas/ltab80. 1939 – 1995 1939 79 33 61 62 239 179 96 78 1970 56 38 69 69 163 200 75 88 1995 68 49 88 90 123 165 119 109 NO NE MG ES RJ SP PR SC 36 A sua participação no valor agregado da indústria processadora.7 34.4 3.2 11.4 2. Em conseqüência dessa política de homogeneização espacial.html Por mais de uma década os militares estabilizaram mais uma vez o modo de desenvolvimento centrado no estadonação por meio de uma política keynesiana de demanda e do fomento da homogeneização territorial por meio de políticas regionais.4% (1990).7 1.6 3.3 53.6 2. mas a distribuição pessoal menos equilibrada (cf. A participação regional de São Paulo no PIB reduziu-se por isso apenas de 39.0 5.3 49.7 1.8 53.1 5.6 51.8 12.7 2.4 7.5 3.5 7.5% (1970) a 36.2 16.5 9. para cair depois até 1995 a uma vantagem de 65%.2 2.ipea.2 0.6 1.1 4.2 4.1 6.9 1.4 4.9 0.7 3.5 4.3 16.1 12. No PIB essa perda da participação é mais reduzida.2% depois de aumentos contínuos nas participações.8 51. Desde 1970 São Paulo pareceu perder crescentemente essa posição dominante na estrutura regional do Brasil.4 4.

62 127 119 119 RS 69 67 84 CO 175 206 DF Brasil =100 (siglas: v. gráfico 7) * NO compreende no período de 1985 a 1995 o Estado de Tocantins * CO compreende no período de 1939 a 1970 o Estado de Tocantins

Fonte: Cano 1998b: 316
As dimensões da crise até agora descritas evidenciam aspectos de uma crise de subconsumo. Mas também no lado da demanda os sintomas da crise se aprofundaram. O fenômeno está ligado ao enfraquecimento da indústria nacional, motor da dinâmica do crescimento fordista. Desde 1980 a indústria era essencialmente responsável pelas graves quedas e pelos surtos não suficientemente duradouros de crescimento da renda nacional. (cf. www.ipea.gov.br/ftp/tabelas). O estado-nação, devido aos investimentos estatais na infraestrutura e às empresas estatizadas substancialmente responsável pela formação de capital no longo prazo, não pôde mais preencher o seu papel no velho campo de regulação. A crise fiscal levou a uma forte redução dos investimentos estatais e com isso a uma redução dos índices de investimento.37 Os investidores privados também se mantiveram reticentes e desviaram, em virtude da insegurança e das opções lucrativas, para aplicações em capital financeiro. A partir daí as empresas geravam lucros no mercado financeiro, ao passo que os elevados juros sobre o capital estrangeiro motivavam as empresas a fazer investimentos produtivos principalmente com recursos próprios. Tudo somado, a evolução dos lucros permaneceu insatisfatória, embora os salários reais também praticamente não aumentassem depois do fim da ditadura.38 A explicação desse fenômeno deve ser buscada até 1990 no modesto aumento de produtividade39, pois enquanto a produção industrial estagnava, o número de horas trabalhadas se reduziu mais ainda. Embora a produtividade aumentasse claramente depois, não está claro até que ponto isso produziu um efeito dinamizador e até que ponto ocorreu apenas uma economia de mão-de-obra.40 A centralização do espaço de poder, levada ao ápice pela ditadura militar, criou um estadonação aparentemente todo-poderoso. Mas o campo do poder centralizado não impediu que o estado-nação permanecesse em grande escala impotente enquanto ponto nodal da rede de poder diante de influentes interesses da sociedade civil. Quando necessário, essas frações das classes dominantes agiam à margem do Estado, mas serviam-se dele enquanto instância garantidora da estabilização da estrutura de poder. O Estado perdeu essa função desde o fim da ditadura. Os diferentes grupos sociais promoveram, em parte consciente, em parte inconscientemente, o enfraquecimento do estado-nação e prepararam assim o chão para a sua reestruturação. A política fiscal e financeira desempenhou aqui um papel central. O saneamento do orçamento público era considerado desde a ditadura militar o objetivo político em grande parte inconteste.41 Isso se explica a partir da idéia de que o déficit público fomentaria a inflação. Com efeito os numerosos programas de estabilização sempre foram justificados com o argumento do combate ao déficit do orçamento público. Uma análise mais
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Ao passo que a quota de investimentos em 1980 ainda estava em 23%, ela caiu depois continuamente até 14%. Durante o Plano Real ela se recuperou no curto prazo para chegar em 18,5% no 2º trimestre de 1997, para regredir depois em fins de 1998 novamente a 17,1% (www.ipeadata.gov.br). 38 A participação dos salários no valor agregado, que tinha regredido continuamente desde 1949, aumentou na segunda metade dos anos 70 sobretudo em decorrência das greves nos ramos dinâmicos da indústria. Mas a recessão de 1980 a 1984 atingiu duramente os trabalhadores. Somente com o aumento do crescimento econômico em 1984 aumentou novamente a participação dos salários no valor agregado. 39 Comparada com a produção física por trabalhador, a análise da evolução da produtividade do trabalho, mostra que a acumulação esteve nos anos de 1976 a 1990 em uma crise maciça. A partir de 1990 a produtividade do trabalho começou a aumentar novamente, mas isso deve ser creditado essencialmente à involução dos índices de emprego; a produção e os índices de emprego foram desacoplados (Seade 1995b: 40). 40 Parte dos lucros de produtividade depois de 1990 resultou de processos de modernização que foram implementados como resposta à abertura do mercado. Em 1992 somente 38 empresas tinham adquirido o certificado ISO 9000, em 1993 esse número já chegou a 166 e em 1994 ele chegou a 400, mais do que toda a América Latina restante (Seade 195b: 28). Outra parte explica-se a partir de terceirizações para empresas autônomas prestadoras de serviços (Seade 1995b: 32-36). 41 Por ocasião da introdução do Plano Real o objetivo do saneamento do orçamento público esteve, no discurso oficial, até acima do da estabilização dos preços (www.fazenda.gov.br vom 16.8.1999).

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63 acurada evidencia nexos inteiramente distintos, pois o Estado pôde controlar bem as suas receitas e despesas correntes também nos anos 80 e 90. Ainda em 1994 foi alcançado um superávit considerável de 5,1%. Mas o cálculo das receitas e despesas correntes tornou-se cada vez mais insignificante para o Brasil. O déficit orçamentário operacional ou nominal explodiu sob o Plano Real em virtude dos juros elevados: em 1998 7,5% dos PIB tiveram de ser gastos no pagamento dos juros, o que equivaleu a uma sangria maciça do Estado (cf. Tabela 12). Esse endividamento da união deslocou-se da dívida externa para a dívida interna que se cifrou em 1998 em R$ 218,9 bilhões. A dívida pública externa atingiu apenas R$42 16,9 bilhões (www.seplan.gov.br/sof/orc98). A política dos juros elevados causou, por conseguinte, o aumento dramático do endividamento do setor público, de 29,9% (1995) a 47,o% (1999) (www.bcb.gov.br). Comparada com a renda nacional em escala internacional, esse endividamento do setor público continua não sendo elevado. Mas o aumento da dívida e os prazos curtos dos reembolsos são motivos de grande apreensão. Embora o saneamento do orçamento do Estado tenha sido o grande objetivo que o governo se fixou, justificando muitos cortes no Estado de Bem-Estar Social, o resultado foi extremamente negativo. Tabela 12: Necessidades de financiamento do setor público, Brasil, 1993-1999, em % do PIB, em números arredondados Tipo 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 58,1* 43,7* 7,2 5,9 6,1 8,0 5,6 Nominal -0,2 -1,3 4,9 3,8 4,3 7,5 3,2 Operacional -2,6 -5,1 -0,4 0,1 1,0 0 -3,1 Primário 2,4 3,8 5,2 3,8 3,3 7,5 6,3 Juros reais * os números elevados resultam, por razões de técnica de cálculo, do elevado índice inflacionário Fonte: www.bcb.gov.br Uma análise do orçamento, que pela primeira vez pôde ser efetuada com seriedade em 1995, não é empreitada fácil nem para esses anos. Assim uma grande parte das despesas está contabilizada no item ”Administração financeira”, isto é, na administração do serviço da dívida (cf. Tabela A-9). Trata-se, nessas despesas de itens de passagem [? Durchlauferposten; a tradução é literal e designa os montantes que, no caso, entram no caixa do governo, mas são transferidos integralmente a terceiros, não podendo, por conseguinte, ser lançados na contabilidade. O tradutor desconhece o termo técnico em português e remete a questão à decisão do revisor da editora.] e não é possível fazer inferências diretas sobre o ônus do serviço da dívida. Não obstante, algumas tendências podem ser reconhecidas. Assim uma estagnação se evidencia nos gastos sociais: os gastos para educação e saúde foram em 1998 em termos reais menores do que em 1995, o que significa que os gastos per capita sofreram uma nítida redução. Foram cortadas muitas atividades de investimento, com exceção do desenvolvimento regional. O único item na área dos gastos sociais que aumentou nitidamente foi o da Previdência Social. Aqui os gastos - aos quais se contrapõem também as receitas advindas das contribuições dos funcionários públicos federais - aumentaram em preços constantes de 66,42 a 82,95 bilhões de reais. No lado das receitas o Estado foi bem-sucedido nos anos 90 (cf. Tabela 14), e isso apesar da falta da reforma do sistema tributário extremamente regressivo e ineficiente. De acordo com estudos internos do Ministério da Fazenda nem os ”100 brasileiros mais ricos” nem as grandes empresas pagam impostos.43 No sistema tributário, em si uma área central para o saneamento das finanças públicas, só foram agudizadas estruturas negativas. Assim o limite de isenção de tributação estava, no imposto de renda, em R$ 1.800,00, atingindo duramente a classe média (Fritz 1996: 29). Sobretudo os latifundiários não pagavam os seus impostos ou estavam altamente endividados junto ao Banco do Brasil. No campo da cultura as propostas também se limitaram essencialmente a isenções tributárias concedidas para patrocínio cultural e redutoras da receita do Estado. A guerra fiscal para a atração de projetos
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R$ designa desde 1994 a moeda corrente, o Real, que passou a ocupar o lugar dos numerosos cruzeiros e cruzados. A sua taxa de câmbio com relação ao dólar norte-americano caiu até 1998 de 0,80 a 1,20. 43 Deve-se considerar que a alíquota máxima é de apenas 25%; a tributação de capital se cifra em 8,18% (28,43% na média dos países do G-7). Apenas os impostos sobre o consumo - de efeitos regressivos - são com 16,74% mais elevados do que nos países do G-7 (12,65%) (Fritz 1996: 28 s.).

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64 industriais, oficialmente lamentado pelo governo federal, mas efetivamente apoiado, também é muito custoso para os cofres públicos.44 O lado especialmente problemático dessas medidas está no fato de que o Estado não apenas concede subsídios no presente, mas abre mão de receitas também no futuro.45 Tabela 13: Programa Nacional de Desestatização, Brasil, 1991 - 1998, em milhões de US$ Setor Receita de Dívidas Total Vendas transferidas 8 5562 2.626 8.188 Aço 27 2.135 1.003 3.701 Petroquímica 3 3.828 1.670 5.498 Elétrico 6 1.491 1.491 Ferroviárioas 2 3.305 3.559 6.864 Mineração 22 26.557 2.125 28.682 Telecomunicações 16 1.401 343 1.744 Outras 1.039 1.039 Minoria 83 45.81 11.326 57.207 UNIÃO 21 22.367 5.223 27.590 ESTADO TOTAL 111 68.248 16.549 84.797 Fonte: www.bndes.gov.br/pndnew/sectors.htm, www.fazenda.gov.br A desestatização iniciada em 1991 foi essencialmente fundamentada com argumentos ideológicos.46 O Estado deveria separar-se do controle de ramos não-essenciais como a produção de aço, a petroquímica e a mineração, para poder voltar-se às suas tarefas mais precípuas nas áreas da educação e da saúde. Mas ao mesmo tempo a privatização deveria contribuir para o saneamento do orçamento público. Ora, a análise mostrou que a maior onda de privatizações andou de mãos dadas com o maior aumento do déficit orçamentário na história do Brasil. Essa circunstância torna plausível o argumento de que o Estado teve, em última instância, de gastar mais para a desestatização do que ele recebeu em pagamento. Biondi (1999: 41) calculou que o Estado contabilizou oficialmente R$ 85,2 bilhões de receitas, incluindo aqui ao lado do dinheiro recebido também a transferência das dívidas aos novos proprietários. A esse número, Biondi contrapôs, ao lado de outros custos não-calculáveis, os custos calculáveis da privatização no valor de R$ 87,6 bilhões.47 De início somente uma parte do preço de compra foi paga em dinheiro, os pagamentos restantes foram efetuados com títulos de dívida, entre outros do
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Nº de empresas

O Estado do Paraná subsidiou a fábrica da Renault em São José dos Pinhais com R$ 300 milhões, somados aos investimentos do grupo francês, no valor de R$ 700 milhões; o município isenta o grupo por dez anos dos impostos locais (Veja, 20 de março de 1996). Essa substituição destrutiva da falta de uma política industrial nacional custou aos estados nos primeiros três anos do Plano Real no mínimo 9 bilhões de reais (Folha de São Paulo, 14 de setembro de 1997). 45 Muitos governos estaduais concederam isenções fiscais ou créditos fortemente subsidiados. Um único projeto, o da fábrica da Mercedes-Benz em Juiz de Fora, que deverá criar 2.000 empregos diretos e 5.000 empregos indiretos, foi financiado pelo BNDES com R$ 325 milhões - em comparação com investimentos totais no valor de R$ 1,1 bilhões. As condições do financiamento não foram publicadas. A fábrica da Renault no Paraná recebeu do governo estadual subsídios no valor de US$ 1,5 bilhões, as montadoras da GM e da Ford no Rio Grande do Sul deverão receber redondamente US$ 4 bilhões (Novy 1998: 237). 46 Não estariam em jogo apenas receitas do Estado, mas também o interesse em ”evitar perdas futuras para o governo”. Sob esse ponto de vista o comentário do ex-ministro Roberto Campos perante a CPI das privatizações realizada pelo Congresso Nacional também se torna compreensível: ”Existe um outro processo de privatização [...] que já propus no ano de 1982 para ser aplicado no Brasil, e que consistiria simplesmente na doação das empresas” [REVISÃO: verificar citação no original] (cit. ap. Winckler, Pacheco 1994: 151). 47 Junte-se a isso R$ 28,5 bilhões de investimentos públicos pouco antes da privatização e os juros (R$ 8,9 bilhões) e R$ 16,1 bilhões de dívidas das empresas, assumidas pelo Estado, e seus juros (R$ 8,9 bilhões). Por fim o valor verdadeiro dos títulos de dívida, com os quais os compradores adquiriam as empresas, estava R$ 8,9 bilhões abaixo do seu valor nominal. Por meio da venda a prazo o Estado perdeu outros R$ 14,8 bilhões. R$ 1,7 bilhões foram deixados pelo Estado no dia da venda como recursos líquidos nos caixas das empresas.

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Foram criados dois programas especiais. que liga São Paulo com a Bolívia. De risíveis 1.723 km2 com jazidas de minérios estimadas em 41.34 milhões. que no decurso do séc. Essa foi uma nova forma de regime financeiro político. A Light reduziu depois da privatização o seu quadro de pessoal de 11.pagáveis em trinta anos.2 bilhões em dinheiro. Essa empresa estatal de orientação crescentemente transnacional criou dessarte no âmbito da área da qual é proprietária um território de seu próprio domínio. foram reprivatizadas. Em São Paulo a Imigrantes custou R$ 87 milhões.6% (193/94) ou 32. Se um governador não tivesse cedido à pressão do Banco Central. As receitas esperadas cifravam-se em R$ 220 milhões por ano.3 bilhões também a empresa de mineração CVRD (Companhia Vale do Rio Doce). XX em sua maior parte tinham sido compradas por empresas privadas.6 bilhões) e em 1997 (R$ 7.1. Em conseqüência disso as estatais.6% (1995). Um trecho adquirido por um grupo norteamericano.700 e conseguiu assim sair do vermelho.026 bilhões. O BNDES financiou também uma nova usina geradora de energia elétrica da recém-privatizada siderúrgica Companhia Siderúrgica Nacional com um valor de R$ 300 milhões. cujo valor de mercado no mercado paralelo estava muito abaixo do seu valor nominal. Mas três das cinco empresas ferroviárias privatizadas reduziram as suas quantidades de carga. o território também foi privatizado. um destinado aos bancos privados e outro destinado aos bancos públicos.000 a 6. De resto o BNDES disponibilizou linhas de crédito específicas para a privatização.303 funcionários). socializando os prejuízos.com.86%. Entrementes estes objetivos são considerados ”irreais” pelos novos proprietários.2 milhões no mesmo período em 1997). isso teria piorado as condições para a renegociação da dívida. Mas o resultado operacional das ferrovias nas empresas privatizadas é inferior ao das antigas empresas estatais e ficou abaixo dos objetivos fixados na licitação das privatizações. A empresa controla uma área de 351. Este consórcio adquiriu também a Eletropaulo Metropolitana. não muito mais do que o lucro gerado em um dia. A empresa tinha sido vendida em 2 de abril de 1993 ao preço de R$ 1. Em 1997 os lucros foram de R$ 450 milhões. Poder assumir a preço barato empresas dessarte saneadas passou a ser um negócio lucrativo.2 milhões (diante dos R$ 81.589 bilhões mudou de dono até o início de 1998.2 bilhões a União recebeu em títulos ”podres” de reduzido valor de mercado (FSP. Em conseqüência. R$ 2.2 bilhões) (cf. 65 .2000). respectivamente. O órgão fiscalizador impôs uma multa de R$ 2 milhões. O PROES (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Estadual) poderá custar até R$ 50 bilhões (FSP de 30 de janeiro de 1998).013 bilhões. pagáveis em 240 prestações mensais de R$ 0. outros R$ 13. Ao mesmo tempo a empresa entrou nas manchetes do noticiário em início de 1998 em virtude de grandes cortes de energia. Também as ferrovias. O grupo financeiro que comprou a grande usina siderúrgica Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda adquiriu por R$ 3. Em 1996 e sobretudo em 1997 a maior parte teve de ser paga em espécie (Tabela A-10). sobretudo na área do Projeto Carajás. pagáveis em cinco prestações anuais. é de propriedade de um consórcio do qual participa também a Electricité de France.495 milhões. tornando-se assim o maior produtor de energia elétrica da América Latina. assumindo o vendedor também dívidas no montante de R$ 533 milhões.466 e obteve em 1997 um lucro recorde no montante de R$ 756 milhões (indicação detalhada das fontes cf. auferiram lucros consideráveis em 1996 (R$ 2. 20 de janeiro de 1998). No primeiro trimestre de 1998 a empresa contabilizou um lucro de R$ 115. Tudo isso foi financiado por um consórcio de bancos internacionais.0% ou 5.48 Na reestruturação do setor bancário o Estado também desempenhou um papel central. Light. Tabela A-11).br de 10. R$ 600 milhões puderam ser pagos com títulos de dívida. o Estado investiu maciçamente nas suas empresas para torná-las mais atraentes. Todos os outros estados foram forçados no contexto das renegociações da sua dívida à venda dos seus respectivos bancos estaduais.3 bilhões de toneladas. e uma entrada no valor de R$ 10 milhões. A empresa de eletricidade do Estado do Rio de Janeiro. No entanto. Em fins de 1999 40% do capital dos bancos privados já se encontravam nas mãos de proprietários estrangeiros (www. o BNDES emprestou R$ 1. custou R$ 60 milhões . ao passo que a empresa consultora responsável pela licitação considera as orientações prévias ”perfeitamente possíveis” e ”muito conservadoras”. pagando adiantamentos aos estados (FSP de 4 de 48 Com a venda de 13 empresas geradoras de energia elétrica da União e dos estados.65 tesouro público.142 a 10. Do valor de venda. conseguiu-se realizar nas empresas privatizadas as demissões em massa previstas (10. um patrimônio no valor de R$ 15.2% de receitas em numerário (1991/92) a participação aumentou para 34. os bancos agora saneados foram vendidos aos grandes bancos nacionais e crescentemente também a bancos estrangeiros. Antes da privatização.996 de um total de 22. As empresas de pedágio também foram privatizadas. Em 2000 o BANRISUL no Rio Grande do Sul será o único banco estadual remanescente. A empresa privatizada reduziu o quadro de pessoal de 15. além disso foram concedidos em maio e agosto de 1998 aumentos das tarifas em 4. dos quais até início de 1998 somente foram devolvidos R$ 1. O PROER (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional) custou à União R$ 21 bilhões. Novy 1998: 205-212 e Biondi 1999). O BNDES contribuirá com R$ 730 milhões para investimentos. Estados que privatizaram receberam créditos subsidiados. Com a privatização. o que significou uma economia de fato no montante de R$ 50 milhões. outrora ”ineficientes”.zerohora.

41 1995 30. Os gastos crescentes serviram ao governo de argumento para minar a Previdência Social como direito universal de cidadania e abrir o caminho à privatização.43%). vê na moeda um ”lubrificante” neutro para o funcionamento da economia real. As teorias predominantes da inflação concentravam a atenção da opinião pública principalmente na questão da indexação salarial (espiral dos salários e preços) e na inflação inercial (baseada em expectativas de inflação) (Baer 1989: 134163).04 2. 50 Além disso os estados tiveram de abrir mão a partir de 1997 também das receitas do ICMS para a exportação de produtos primários ou pouco processados. a segunda foi estancada apenas transitoriamente com o congelamento de salários e preços do Plano Cruzado.14 alteração 1988/1995 8. Apesar da involução dos gastos na área social as transformações quantitativas foram menos relevantes do que as qualitativas.07 pontos percentuais. em percentuais do PIB.66 julho de 1998). uma espécie de anúncio publicitário em matéria de política social.50 Essa dependência política e econômica atingiu especialmente os estados e municípios pobres que praticamente não dispõem de uma arrecadação tributária.58% do PIB receitas nitidamente superiores às de 1988 (22. A crise fiscal era percebida como terceiro problema. o papel do setor público tendeu mais a aumentar. foi possível evitar tanto uma hiperinflação quanto uma dolarização total da economia. o dinheiro não cumpre a sua função de unidade de cálculo. mantendo-se a moeda nacional atraente 49 Se a Comunidade Solidária atendeu em 1995 a 1. todas as energias foram canalizadas para modificar a Previdência Social.35 2.39 5. A administração financeira gerou em 1995 com 30. 1988 – 1995 1988 Receitas disponíveis União Estados Municípios 22. Só quando a política comete erros.43 13.58 17. caracterizado como heterodoxo. As rupturas estruturais podem ser constatadas no plano da organização.15 3. A partir dos anos 70. o problema-chave da regulação da moeda passou a ser a inflação. cujo caráter religioso transluz na sua autodenominação ‘ortodoxia’ (a fé correta). 49 Direitos sociais ou ao menos assistência social enquanto direito de cidadania existem cada vez menos. Com ajuda do FEF (Fundo de Estabilização Econômica) o governo colocou a mão em recursos que segundo a constituição cabem aos estados e municípios. provocada por gastos demasiado generosos do Estado na esteira da democratização. Na verdade ele é um modelo assistencialista que continua minando o sistema de Previdência Social de orientação universal e fragmenta as contribuições de natureza social. Tabela 14: Receitas disponíveis por ente federativo. O projeto Comunidade Solidária.e uma sorrateira redução dos salários reais. celebrado como inovação e liderado pela esposa do Presidente da República. A política social do governo federal foi financiada por uma centralização de recursos que temporariamente declarou sem vigor a constituição.419 e em 1997 o número de famílias atendidas provavelmente ficou ainda mais reduzido. A primeira foi combatida com pactos sociais -sempre malogrados .087 família abaixo da linha de pobreza. Conseguiu-se assim que os estados e municípios se tornassem mais dependentes de medidas discricionárias.044. ela atendeu em 1998 somente 1. No entanto.98 6. Em conseqüência. O maior aumento em termos de participação no PIB foi consignado pela União com 3. negociações sobre o alongamento da dívida etc. Apesar de toda a retórica em torno do estado mínimo. mas a autorestrição da atuação estatal se refere sobretudo à capacidade do Estado de cumprir as suas obrigações nas áreas da saúde e da educação e efetuar os necessários investimentos na melhoria da infraestrutura. compreende-se como um modelo de cooperação entre Estado e Sociedade Civil.826.07 2. foi responsabilizada pela perda de valor da moeda. meio de pagamento e meio de preservação de valor (Schelkle 1995). Para os municípios as receitas disponíveis praticamente duplicaram. pode-se registrar que o Estado claramente continua desempenhando um papel ativo. À participação na execução contrapõe-se o controle por parte do Estado na estruturação.05 8.73 Fonte: Affonso 1996: 8 A análise do orçamento não revela quaisquer esforços de saneamento na Previdência Social. 66 . contribuições. identificado crescentemente como causa principal. Muito pelo contrário. Uma ”oferta excessiva” de moeda. A teoria econômica dominante.

A política de moeda forte . a evolução dos gastos públicos. A pressão determinante sobre os preços se dava indiretamente pela via do aumento da dívida pública. feita por organizações internacionais. Nessa forma da regulação da moeda as reservas cambiais desempenharam uma função central. por isso as pessoas efetivamente responsáveis por uma política de adaptação em benefício da população em bom situação econômica permaneciam incógnitas. Com isso o Brasil se submeteu depois de 60 anos novamente às regras de um regime financeiro internacional sem soberania nacional em matéria financeira (Fiori 1995a: 112). Eles eram emprestados a juros baixos à periferia. os juros subiam. Ao invés de se manter na periferia. A subvalorização da moeda foi instrumental para poder fazer arrancar a economia exportadora e pagar o serviço da dívida. Tabela 8). pela decisão de aplicação dos proprietários do patrimônio nas economias centrais. Juros reais. Os dois fenômenos iniciaram uma espiral de endividamento. Em primeiro plano estavam as condições favoráveis para os aplicadores. para crescerem depois num salto (cf. isto é. A análise do balanço de pagamentos mostrou que a dinâmica da economia mundial se apresentava nos últimos tempos. A indústria exportadora se beneficiou da política de moeda fraca e sofria com a política de moeda forte. Isso assegurou a transferência de capitais do Hemisfério Sul para o Norte. A crítica do Estado perdulário. Tanto nos países em desenvolvimento quanto nos ex-países socialistas do Leste Europeu era necessário assegurar a estabilidade e juros elevados. As exportações eram importantes. O único preço importante que era em larga escala calculado em cruzados era o salário. O Real foi ancorado no dólar americano. Os prazos de reembolso da dívida se tornaram mais curtos. para fomentar a economia exportadora. As reservas cambiais cifravam-se em 1971 em US$ 10 bilhões. Controles de circulação de capitais limitavam o comércio com dinheiro. pois ele precisava emitir a juros elevados títulos de dívida para adquirir papéis norte-americanos com juros baixos como reserva cambial. O mecanismo nuclear da dependência está no fato dos aportes e das saídas de capitais serem determinados por fatores externos à região. A regulação do trabalho caracterizou-se pelo fortalecimento de um movimento sindical livre nos anos 70. a saber. A acumulação de grandes reservas cambiais foi possibilitada internacionalmente por capital disponível em busca de oportunidades de aplicação e nacionalmente por uma política de juros altos. A inflação foi combatida em 1994 com uma receita tradicional: o acoplamento a um padrão monetário internacional. pois assim se assegurava a transferência de capitais do Sul para o Norte.2% (dezembro de 1998) só podiam ser obtidos em poucos mercados financeiros do mundo (cf. Tabela 9). Como a sua balança de capital tornou-se negativa.falava-se de uma estratégia de estabilização baseada nas taxas de câmbio (Fritz 1996: 32) . pois o traço distintivo central da crise estava fundamentado na forma específica do mercado de crédito no Brasil. Na época os interesses de produção ainda ocupavam o primeiro plano.4% depois do desconto do índice inflacionário (dezembro de 1994) e ainda de 37. tinha uma importância reduzida. o que era sinônimo de uma redistribuição maciça em benefício dos proprietários de capital financeiro. de 56. A valorização do dólar e a elevação da taxa dos juros depois de 1979 encareceu o capital e concentrou-o no centro. Aplicadores nacionais e internacionais em busca de lucros no curto prazo vinham ao Brasil. o que as distinguia fundamentalmente da gestão de divisas praticada no modelo orientado segundo o mercado interno. ”Mas o importante papel que as rendas de capital a partir de títulos da dívida pública desempenham com vistas à aceleração da inflação ficava fora da discussão.sempre muito caros para o Banco Central -. as reservas aumentaram. Depois do cruzado não estar mais em condições de cumprir as funções clássicas da moeda. o capital se deslocava da periferia de volta para o centro. Sobretudo nos anos 80 o Brasil desvalorizou a sua moeda. lhes era bem-vinda para que se subtraissem a sua própria responsabilidade pela desestabilização econômica durante os anos 80” (Pereira 1998: 143). considerada genericamente.67 para investidores mediante uma política de juros elevados. O Brasil tornou-se a partir de 1985 um exportador de capitais. Na época o Brasil não precisou proteger a sua taxa de câmbio com reservas cambiais caras. do ponto de vista da periferia da economia mundial. A luta de classes solucionada unilateralmente pela ditadura ganhou uma nova dinâmica quando a classe 67 . essencialmente como crise (Parnreiter et al. Nos anos 90 o serviço da dívida começou a perder importância na discussão da política econômica. Um impulso essencial do mercado partia dos investidores privados que compravam títulos de dívida do Estado brasileiro. Abstraindo dos ataques especulativos à moeda . Isso foi muito caro para o Estado. sem que o acoplamento alguma vez tivesse sido fixado. em consonância com as recomendações do Fundo Monetário Internacional. A estabilidade introduzida com o Plano Real fez com que os aplicadores internacionais descobrissem o Brasil como ”emerging market”. a balança de serviços se viu obrigada a gerar superávits. Diante disso.estava em oposição à forma anteriormente praticada da abertura para o mercado mundial. as Obrigações do Tesouro Nacional ocuparam o seu lugar e se transformaram em moeda paralela. porque mantidas com juros baixos. 1999). Nos anos 70 havia capitais excedentes nos centros.

A violência direta da repressão foi substituída pela liberdade e pela violência do dinheiro. No fim da ditadura o salário mínimo mensal encolheu de US$ 75 para US$ 50 (1985). certamente foi importante para atingir os efeitos redistributivos de curto prazo do Plano Real.ibge.de demissão. saúde etc. Mas nos ramos nos quais ainda não havia um movimento sindical reagia-se maciçamente a medidas de combate. Os trabalhadores sindicalizados. Aqui se tratava quase sempre de vínculos empregatícios que não observavam as prescrições dos Direitos Trabalhista e Social ou do direito regulamentador das empresas industriais e comerciais. Depois da desvalorização do real em 1999 o valor do salário mínimo.sidra. flexível e livre de constrangimentos legais. Em escala internacional. Em janeiro de 1996 o governo assinou a Convenção 158 da OIT. que mede apenas o número de pessoas com vínculos empregatícios formais. aumentou o número dos que trabalhavam no setor informal.5781 (1996) (www. O conflito entre empresas e sindicatos chegou a um ponto culminante na greve dos petroleiros de 1995. isto é. medido pelo dólar.). em sociedades capitalistas não-dotadas do Estado de Bem-Estar Social. nas cidades as relações empregatícias informais ganharam maior importância. sofreu uma forte queda. O campo democrático do Estado abriu aos trabalhadores de baixa renda opções de atuação que a política podia ignorar somente com dificuldade. o que por um lado não evitou as reduções dos salários reais e por outro suavizou os seus efeitos. revelou a evasão das relações disciplinadas pelo Direito do Trabalho e pelo Direito Social (cf. não importa quão precariamente? No começo dos anos 80 a legislação trabalhista estatal-corporativista ainda foi questionada no sentido de uma democratização abrangente da sociedade. A legislação trabalhista e social só podia regular o mercado formal de trabalho. reprimida com força militar (Fritz 1996: 40). sendo.5698 (1987) para 0. mas colocou ênfases no sentido de uma regulação própria das relações entre capital e trabalho. ilegais da perspectiva da soberania. igualmente acoplada ao salário mínimo. sempre teve especial importância. alegando que ela ia longe demais (Neto 1997: 38 s. Ocorre que este último era uma forma de organização econômica que minava o território. Sob o Plano Real o desemprego se tornou um problema social central.bov. Ao aumento de 10% do índice de emprego entre 1985 e 1990 contrapôs-se em 1997 uma involução para aquém do índice de 1984. Para os pobres o valor do salário mínimo. o índice oficial de 7. parte do setor de serviços e a maioria do funcionalismo público conquistaram a indexação dos salários. seja por meio de restrições legais do direito à greve em ”serviços essenciais” como transportes. Tabela 10). Durante um período mais longo os índices de distribuição permaneceram sempre estáveis. Ele aumentou de 1984 a 1990 em quase 13%. Assim o índice Gini da renda média familiar. cujas contas e salários estavam em larga escala indexados.51 Ao mesmo tempo se pode observar uma transformação fundamental nas relações de poder nas empresas.não pôde levar num país sem seguridade social básica a um aumento do desemprego no mesmo nível. O aumento do salário mínimo enquanto medida claramente não-neoliberal. Mesmo em ramos e regiões com boa organização sindical os assalariados abriam ”voluntariamente” mão dos seus direitos legais. Uma nova regulação unitária do mercado de trabalho deveria fomentar a homogeneização social do espaço de poder nacional. Assim o Brasil não se adaptou em todos os planos à modernidade dos países industrializados. o salário mínimo desempenha um papel importante por ser utilizado direta ou indiretamente como base de indexação para outros salários e prestações de natureza social (sobretudo aposentatorias). A classe média. aumentou de 0.6% (1998) é reduzido (Mattoso 1999: 128). uma grandeza de aferição da desigualdade social. mas no fundo sem força enunciativa.. Depois ele aumentou para redondamente US$ 100 no primeiro mandato presidencial de Fernando Henrique Cardoso. Nas regiões rurais a legislação social nunca lograra impor-se. Isso está essencialmente relacionado com o aumento do desemprego. dez meses depois ele revogou essa medida diante da OIT. O índice de emprego. abrir mão de vender a sua força de trabalho. pois quem pode. Essa forte regressão de vínculos empregatícios formais . O ataque aos empregos disponíveis criou uma assimetria tão grande na relação entre capital e trabalho que a repressão se tornou em larga escala desnecessária. Especialmente dramática foi a redução da mão-de-obra no setor da indústria de processamento. portanto. Somente a décima parte mais rica e. 68 . O princípio da validade universal do direito no âmbito das fronteiras do território foi minado. que trata dos direitos -individuais . O aumento do salário mínimo em 1995 produziu um efeito positivo em termos de política distributiva e estabilizou ao mesmo tempo a demanda. de modo restrito. também sofreu perdas (cf.da população conseguiu proteger-se eficazmente contra a inflação. seja por intervenção policial e militar. por medo de perderem os seus empregos (Jatobá. de um preço fixado pelo Estado. o segundo decil mais rico . Tabela A-16).68 trabalhadora reconquistou os seus direitos de cidadania. Como as pessoas precisam trabalhar. mas aumentou os problemas da Previdência Social. Mas depois de 1990 ele regrediu.br de 25 de junho de 1998). O aumento das relações de trabalho informal minou o poder da legislação trabalhista e social.sobretudo na indústria . Lopes 1996). A 51 Em uma economia de demanda de corte keynesiano.

69 CLT, legislação trabalhista de 1943 já subtraíra aos assalariados nas regiões rurais direitos fundamentais, mas agora também o setor informal nas cidades se tornou parte desse espaço ”sem lei” dentro do território. A reprodução nacionalmente diferenciada da mão-de-obra sempre foi um traço distintivo essencial da regulação internacional. Nos anos 90, o estado-nação reconhecia como sua tarefa adaptar as leis às realidades efetivas das empresas. Nestas o Direito Trabalhista era solapado com conseqüências cada vez mais amplas. Com referência à regulação do trabalho, o espaço de poder não estava homogeneizado a nível interno nem se distinguia fundamentalmente dos mercados de trabalho igualmente liberalizados de outros países emergentes. Na regulação da concorrência o pacto entre o capital estatal, o capital nacional e o capital internacional foi definitivamente rompido. Enquanto o capital privado não era suficientemente forte, o Estado tinha de desempenhar um papel importante na industrialização, assegurando a necessária centralização do capital e dos recursos. Nos anos 80 a política econômica usou as empresas estatais por meio de uma política de preços baixos para fins de pagamentos de subsídios ao setor privado e para reduzir a inflação. A forte influência do establishment político fomentou em áreas parciais o desperdício de recursos e conduziu a um quadro de pessoal excessivamente extenso, em boa parte formado por apaniguados de políticos. As alterações na organização do capital nacional brasileiro e os novos entrelaçamentos de capitais nacionais e internacionais que ocorriam nos mercados financeiros possibilitaram um novo estágio de centralização que foi objetivado pela privatização. O capital financeiro associou-se ao capital internacional - um processo, no qual as grandes empresas do setor automotivo jogavam na linha de frente -, e ambos conquistaram uma inequívoca posição de supremacia diante do capital industrial nacional.52 Em uma primeira fase foram privatizadas sobretudo as empresas do setor produtivo, em uma segunda fase sobretudo a infraestrutura e os serviços públicos. O ator central da privatização foi o BNDES que estatizou muitas empresas privadas nos anos 80, modernizou as empresas estatizadas nos anos 90 antes da sua venda e mais tarde concedeu também créditos generosos às empresas privatizadas. Além disso os estados receberam pagamentos adiantados sobre privatizações planejadas. Surgiram mercados oligopolistas em vários ramos, nos quais foram privatizadas empresas.53 Se anteriormente bancos estatizados eram responsáveis pela maior parte da concessão de créditos, o negócio agora era partilhado pelos bancos privados e o mercado financeiro internacional (aplicações patrimoniais, bolsa de valores, comércio de divisas). Formaram-se conglomerados financeiros que participaram maciçamente do negócio das privatizações e constituíram oligopólios em setores importantes.54 Para o comércio de mercadorias a fronteira do território era uma grandeza constitutiva. Taxas alfandegárias elevadas e outros obstáculos comerciais inibiam a importação de mercadorias. Durante a ditadura militar a troca de mercadorias com os países vizinhos caiu cada vez mais. A democratização implementou lentamente uma política comercial mais aberta. Mas a quota de importação, que em 1990 regredira a 4,6%, subiu apesar do ”surto das importações” em 1996 para meros 7,1%. A quota de exportações, cifrada em 1990 em 7%, oscilou depois entre 9,6% (1992) e 6,4% (1996) (cf. Tabela A-12). Mas esses reduzidos entrelaçamentos com a economia exterior do receptáculo continental de poder se relativizam em um exame mais detalhado55 , pois ramos fracos e organizados apenas nacionalmente foram atingidos em cheio.56 Um exemplo dramático é a Metal
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Na listagem das maiores empresas privadas de 1997, dois grupos oriundos do setor financeiro, o Bradesco e o Itaúsa estavam na linha de frente, e com o grupo Moreira Salles um outro grupo do mercado financeiro ocupou o 6º lugar. As posições 2ª, 3ª e 5ª foram ocupadas respectivamente por grupos do setor automotivo, Fiat, Volkswagen e GM (Exame 1998: 86). 53 Isso se evidenciou de modo especialmente crasso no setor da indústria de fertilizantes, mas também nos setores siderúrgico e petroquímico (Winckler, Pacheco 1994: 145 ss.). O Grupo Odebrecht controlava em 1998 60% da produção de termoplásticos e a empresa se encontra em virtude de joint-ventures com a ainda estatal Petrobrás em uma posição praticamente dominadora do mercado (FSP de 7 de abril de 1998). 54 Em 1997 o Itaúsa ocupou a posição de 372ª maior empresa mundial; o Bradesco ficou em 345º lugar e o Banco do Brasil, de propriedade do estado, o 178º lugar (www.zerohora.com.br de 27 de julho de 1998). 55 A quota de exportação em si reduzida, mostrada na Tabela A-12 (d/a), já aumenta nitidamente quando se considera as oscilações da taxa de câmbio ((e/b na Tabela A-12). Se desconsiderarmos os serviços praticamente não-exportáveis, uma quota de exportações dessarte depurada cifrou-se em 1970 em 18,7, para subir até 1995 a 30,4 ((e/c na Tabela A-12). 56 Em determinados ramos (e.g. na indústria têxtil e de confecções) as importações aumentaram fortemente, ao passo que a abertura em outros ramos (e.g. no setor automotivo) se deu de forma muito mais lenta. O forte aumento das importações de bens de capital se reveste de especial importância. Ele se deve a duas causas. Por um lado, sinaliza a compra de novas

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70 Leve, um fornecedor brasileiro. Cedo Amaral já examinou (1977: 182-189) essa empresa média que então estava começando a exportar. No início dos anos 90 a CEPAL citou-a mais uma vez como exemplo bemsucedido da adaptação de empresas nacionais à pressão da economia mundial (Cepal 1992: 125 ss.). Tanto maior foi o choque, quando essa empresa modelo foi vendida por US$ 65 milhões a uma empresa alemã (Veja, de 19 de junho de 1996). O único setor que conseguiu impor regulamentações excepcionais contra a abertura vertiginosa do mercado depois de 1990 foi a indústria automobilística, estabelecida em rede internacional. Ela logrou preservar elementos importantes das antigas relações de concorrência. Já desde os anos 50 os grupos multinacionais conseguiam viver muito bem com a política protecionista. Os seus carros produzidos no país eram vendidos no mercado protegido por um preço mais caro e com um padrão tecnológico obsoleto. Desde os anos 80 e a crise do mercado interno foi possível constatar aqui uma mudança e os grupos começaram cada vez mais a produzir com novas tecnologias e fornecer para o mercado internacional. Mas o mercado nacional ainda continuava em grande parte muito fechado.57 Ao mesmo tempo houve transformações maciças no processo produtivo, o que conduziu a ganhos de produtividade e demissões em massa. Desde 1985 esse setor em si próspero reduziu a sua mão-de-obra na razão de quase um quinto. Ao mesmo tempo ele atraiu também os maiores investimentos diretos do exterior. Outra faceta da internacionalização é a formação de um bloco regional na América do Sul. Em 1995 entrou em vigor o MERCOSUL (Mercado Comum do Sul)58, formado pelo Brasil, pela Argentina, pelo Uruguay e pelo Paraguay. Desde 1996 o Chile e a Bolívia são membros associados. Essa integração econômica visa criar um espaço intermediário entre o espaço globalizante do mundo e o território das nações (Faria 1998: 188). Ao passo que o capital financeiro tinha uma orientação inequivocamente global, o MERCOSUL desempenhou um papel central para a indústria automobilística. As estratégias de acumulação dos grupos visavam todo o espaço sulamericano; vantagens comparativas, tais como subsídios ou diferenças na taxa de câmbio eram rapidamente aproveitadas (Pacheco 1998: 154). Enquanto bloco comercial, o MERCOSUL foi bem-sucedido. O comércio exterior com os Estados-membros aumentou nitidamente, mas também o comércio com países não-membros. No setor automobilístico foi também possível observar decisões crescentemente integradas dos grupos, no tocante a investimentos. O grande problema foi a falta de harmonização das políticas econômicas. O processo de integração foi sempre de novo ameaçado pela oscilação das taxas cambiais. Também não foi possível delimitar o MERCOSUR como projeto da Zona Interamericana de Livre Comércio ALCA, propagada pelos EUA. O Brasil oscilou entre a formação de um bloco e a prática de uma política mundial de livre comércio (cf. JEP 2/98)

2.2 O palco nacional do poder
Num primeiro passo, aproximei-me do poder sobre o espaço do Brasil com uma análise estrutural em termos de evolução da economia política, mas essencialmente em termos de evolução da economia. Essa análise tende a descrever desenvolvimentos aparentemente inevitáveis e incontornáveis (Fiori 1995a: 18). Contrariando essa redução da história à explicitação de necessidades estruturais, a política ganha maior peso na análise a seguir. Com o espaço de possibilidades da ação política a dimensão do concreto, os eventos, as estratégias e lógicas de ação passam para o primeiro plano. Uma análise dos palcos do poder ocupa-se sobretudo com o espetáculo oferecido no palco. Em cartaz estão o jogo, seus atores e o resultado da peça encenada. Não obstante será necessário conceder também à descrição da arquitetura e estática do palco o seu devido lugar, pois do contrário a peça em cartaz e o jogo que nela se faz [was gespielt wird] não serão compreendidos. Assim se faz mister logo no início explicar a forma específica do Estado brasileiro, fortemente apoiada no patrimonialismo. Este forma até hoje por assim dizer o esqueleto do sistema político brasileiro. Ele constituiu um poder sobre o espaço, cujo ponto nodal é o Estado. Como o controle do Estado se reveste de tão grande importância, os conflitos políticos
tecnologias e com isso de aumentos de produtividade na indústria, por outro, as importações crescentes refletem a crise da indústria nacional de bens de capital. Entre 1993 e 1995 as exportações do setor aumentaram em 25%, ao passo que as importações cresceram em 157% (FSP de 16 de janeiro de 1997). 57 Assim a taxa alfandegária para a importação de automóveis foi aumentada em 1995 para 63% (FSP de 23 de outubro de 1997). 58 Em espanhol: MERCOSUR (Mercado Comun del Sur)

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71 se processam também diferentemente do que em países com uma sociedade civil forte. No modelo social anglo-saxão a sociedade civil, na qual cidadãos dotados de patrimônio se organizam, representa o contrapeso do poder estatal.59 Nesse sistema os cidadãos podem em parte tornar-se poderosos também sem o Estado, o que é impossível no Brasil. Como no Brasil o Estado é o ponto nodal mais importante do poder, uma parte da sociedade civil - a dominante - está firmemente entrelaçada com o poder estatal e a outra - a oprimida - é mantida longe do acesso ao poder político e econômico. Nesse sentido Fiori não está equivocado ao estabelecer uma distinção entre um partido da ordem ou um ”partido do Estado”, que representa os interesses dominantes do capital, e um ”partido da sociedade civil”, a oposição, excluída desse bloco de poder (Fiori 1995a: 101)60. Denominar-se sociedade civil seria nessa perspectiva uma expressão da fraqueza, do fato de não fazer parte do Estado. Tal perspectiva é complementada por um enfoque, segundo o qual a força ou fraqueza de uma organização civil não se mede em programas ideológicos e também não pelo seu simples tamanho. Muito pelo contrário, ela resulta da capacidade de poder controlar partes do aparelho de Estado. A hierarquia do poder na economia política se reflete também na sociedade civil, na qual existem segmentos poderosos e oprimidos. Tal análise estrutural ajuda a relativizar o uso muitas vezes exageradamente positivo do conceito de sociedade civil, pois esse uso ignora a estrutura histórica do sistema político e econômico no Brasil, baseado em uma hierarquização radical e consolidado no decorrer de muitos séculos. O capital comercial e a coroa portuguesa controlaram o espaço de entrelaçamento econômico. Ao passo que o feudalismo se baseava em uma nobreza de sustentação fortemente territorial e em um sistema de direitos e deveres, no patrimonialismo o rei exercia a dominação irrestrita sobre os seus súditos. A sua base de poder assentava na posse da terra e no controle do comércio. Como esse poder não podia ser exercido apenas por uma pessoa, a corte real era o lugar no qual o poder se centralizava. Diante dos funcionários e da nobreza da corte os poderes territoriais se encontravam em uma posição mais fraca; o rei governava, enquanto que os senhores locais somente exerciam a dominação no âmbito do poder nacionalmente estruturado sobre o espaço (Faoro 1997: cap. 1). Isso constituía uma clara hierarquia da dominação. Politicamente o rei era soberano; economicamente, um parasita. O poder nacional, o Estado, por sua vez passou a ser uma empresa do rei; poder público e privado, propriedade pública e privada se misturavam. Os patriarcas, inicialmente o barão do açúcar, mais tarde os barões do café e da borracha e os coronéis do Nordeste, eram politicamente subordinados e extraíam, enquanto sujeitos econômicos, à força o excedente dos seus subordinados, necessário para a continuidade do sistema global. A monetarização dessa extração forçada da mais-valia cedo tornou-se necessária, pois os donos do poder local ainda estavam muito mais do que a nobreza obrigados a fazer fornecimentos ao rei. O poder local, os municípios, formaram-se na colônia portuguesa como filiais obedientes do rei (Faoro 1997: 7). Em âmbito local, nas distantes empresas açucareiras do Nordeste brasileiro, o poder político, econômico e religioso estava concentrado na rotina cotidiana em uma só mão. O espaço de poder local da sociedade escravista fundamentavase na separação de casa grande e senzala. Cada casa era uma república, econômica e politicamente autônoma. Fora dos dois espaços sociais locais da casa grande e da senzala, por um lado, e do Estado com estrutura estamental, por outro lado, praticamente não havia nenhuma vida organizada, muito menos ainda uma sociedade civil (Holanda 1989: 49). A burguesia urbana, que se formou apenas lentamente e contra muitas resistências, permaneceu estreitamente entrelaçada com as famílias nobres e os latifundiários. Com a formação da nação surgiu a política nacional enquanto palco autônomo do poder; mas os atores que deveriam atuar nesse palco precisavam primeiro desenvolver-se para poderem assumir os seus papéis. Passo a passo esses novos senhores emergentes assumiram a administração do Estado e formaram uma sociedade civil entrelaçada com a velha estrutura estamental. A burguesia emergente não chegou a formar um estilo de vida próprio, mas absorveu os velhos modos comportamentais dos senhores agrários, baseados em privilégios. Esses novos senhores, e só eles formaram no séc. XIX a sociedade civil e a nação (Fernandes 1987: 40 ss.). Atuavam no palco do poder, fosse em ministérios ou no parlamento. O resto, isto é, a maioria, ficava excluído.61 O Estado, a sociedade e a
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A concepção hoje amplamente difundida da sociedade civil como esfera autônoma com relação ao Estado tende a encobrir o forte nexo entre poder econômico e capacidade de ação política (Cardoso 1993: 117 s.). 60 Fernando Henrique Cardoso tencionou gastar em 1998 R$ 73 milhões na campanha eleitoral. Ciro Gomes mencionou R$ 23 milhões, Lula R$ 15 milhões. Um fomento dos partidos por parte do Estado fracassou diante da resistência de Fernando Henrique Cardoso. 61 Nas unidades de produção essa estrutura social hierarquizada se reproduziu. A proibição da impressão de livros, a inexistência de universidades e a falta quase total de organizações civis impediam o surgimento de uma vida urbana moderna. Isso começou a mudar somente no fim do séc. XVIII, quando as cidades conquistaram uma certa independência

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Por meio da criação de órgãos e corporações controlados pelo poder central e atuando de forma descentralizada. minou a monarquia e com isso o sistema bipartidário. o Partido Republicano. a centralização apoiou igualmente. Mas muito distantes de representar a vontade de um ”povo”. as interventorias. O campo de poder se tornou mais complexo. o Estado Novo fortaleceu o governo central a expensas das regiões. 72 . Inversamente. 62 Estruturas federativas serviam no Brasil tanto para harmonizar os desejos conflitantes do establishment quanto para atenuar as diferenças regionais. criando assim os prérequisitos do golpe militar.1945) o palco democrático se alargou. os grupos dominantes recorreram às mais diferentes estratégias. sustentaram o projeto de modernização dos anos 50 e proveram-no de uma base de legitimação. as eleições transcorriam similarmente às da monarquia. XVI todas as esferas da vida política. Porém nem a proclamação da república em 1889 mudou qualquer traço do estilo elitista da política. por sua vez. Depois de 1930 a oligarquia agrária perdeu a sua posição política de natureza monopolista e teve de dividir o poder com os novos interesses industriais e urbanos. A crise econômica e política que causou a ruptura da aliança entre o PTB e o PSD trouxe pela primeira vez uma polarização entre direita (UDN e PSD) e esquerda (PTB e os novos partidos urbanos) (Souza 1985). Os que dominavam desde o séc. A eles se contrapunha a UDN (União Democrática Nacional). os interesses escravistas (Faoro 1997: 341 s. (Holanda 1989: 57). O segundo partido que sustentava o Estado era o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). no âmbito de um sistema bipartidário. os 20 governadores representavam o seu respectivo estado e se apoiavam reciprocamente contra a oposição interna. Depois de 1945 houve um retorno à democracia. igualmente ancorado nas regiões rurais (Santos 1978: 40 ss.). a oposição ficava inteiramente excluída. Na esteira de subseqüentes derrotas eleitorais a UDN tornouse oposição subversiva que contornava. em 1930 5. O presidente era fornecido alternadamente por Minas Gerais e São Paulo. não importa quão estreitamente definido. Não obstante os partidos se assemelhassem muito em termos programáticos e não questionassem o campo do poder. A autoridade eleitoral era instituída pelo Presidente da Província. que se apoiava na classe trabalhadora nas cidades.7% da população tinham o direito ao voto (Cano 1997: 249). Já no séc. Em 1898 2. Esse novo sistema estabilizou em nova composição a estrutura patrimonialista do Estado. Era dotada de todos os poderes e sua composição determinava o resultado das eleições (Faoro 1997: 370). por conseguinte. sempre existente.7%. o PSD (Partido Social Democrático) foi o partido do Estado e esteve ao mesmo tempo firmemente enraizado nas áreas rurais. os conflitos foram muito duros. só interesses regionais unificados atuavam no plano nacional. seja por intermédio do Estado ou por outras vias.). Na República Velha. que fizeram coalizações praticamente até o golpe de 1964. Os liberais estavam entrelaçados mais fortemente com os interesses produtivos territoriais e defendiam. sem anulação da centralização antes efetuada. ensejando o surgimento germinal de uma sociedade civil urbana. Os anos 30 caracterizaram-se por um violento. as regras do jogo político. Um palco importante para os conflitos foram as eleições. em constelações variadas. A possibilidade de dispor da burocracia estatal se revestia de importância decisiva para os respectivos membros dos partidos. Para manter o seu poder. por sua vez nomeado pelo ministério. mas o fascismo e o comunismo rapidamente minaram a legitimidade de um sistema liberal-democrático. Em duas tentativas . Assim os grupos dominantes nas regiões acertavam de antemão o predomínio de determinados interesses. liberalidade e democracia.62 Os conservadores. mas breve relampejo de pluralismo. com isso.72 sociedade civil estavam estruturados por um poder específico sobre o espaço. Um dos dois partidos sustentadores do sistema. sempre que possível.interrompidas pelo Estado Novo (1937 . Assim 19 governos liberais e 15 governos conservadores se sucederam no decorrer de cinqüenta anos (Faoro 1997: 354).). Como a oligarquia agrária controlava o aparelho político em todos os lugares e o governador centralizava regionalmente o poder. reformas federativas na direção de uma descentralização. os dois processos supramencionados (Souza 1996: 104 ss. lograram em boa parte manter esse poder até os dias atuais. Uma terceira força. XIX os conflitos ocorriam no palco nacional do poder em vias de constituição. instituição nuclear do espaço de poder. o partido liberal. social e econômica. representavam preponderantemente os interesses dos comerciantes e. Por isso a estratégia oficialmente denominada ”política dos estados” tornou-se conhecida como ”política dos governadores”. O grupo regionalmente dominante impunha seus candidatos. o imperador e a cúpula do Estado eram os que manipulavam as eleições locais de acordo com os seus interesses. Esses dois partidos.

Seu programa político tem uma clara orientação direitista. A sua figura central é Paulo Maluf. a bancada ruralista. mais ainda do que a direita tradicional. e Luís Antônio Medeiros. o número de deputados federais regrediu continuamente depois de 1986. Mas os interesses contraditórios por ele representados não lhe permitiram traduzir as suas amplas maiorias em medidas políticas consistentes. O PSDB é um partido de classe média alta.63 Mas a sua defesa de interesses estava sempre fixada especificamente em necessidades do respectivo ramo. No contexto da democratização e da elaboração de uma nova constituição novas estruturas organizacionais se fizeram necessárias. O PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) foi concebido pelo futuro presidente Fernando Henrique Cardoso no início dos anos 80 como ”partido ônibus”.). Uma grande parte dos ministros de Fernando Henrique Cardoso. 73 . isto é. líder da associação sindical de orientação direitista Força Sindical. mais uma vez só foram permitidos dois partidos: a governista ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e a oposição oficial. é composta por intelectuais atuantes em empresas. 65 Depois que Maluf desistiu da sua candidatura à presidência em 1998. como e. Em 1998 esse partido elegeu cinco senadores e 60 deputados federais. voltaram a reaproximar-se. Informalmente grupos como e. Foi um meio que procurou.g. O elemento ”Social Democracia” no nome do partido. No setor das revistas uma única editora publicava 9 das 10 revistas de tiragem mais elevada. no início ele foi de orientação mais social liberal. Moreira. o presidente da FIESP. Pratica com maior habilidade a tradicional política do ”é dando que se recebe”. prorrogações de prazos de pagamentos de dívidas para os (grandes) agricultores. 66 Em 1997 o governador do Paraná e o governador do Acre se filiaram ao PFL. na esteira de acusações de corrupção. para cair em 1998 a 81.g.73 A partir de 1964. tal como ele se configura na atualidade. as concessões para a operação de emissoras radiofônicas (bem como de televisão) eram dadas pelo governo quase sempre com base em critérios políticos. sob a ditadura militar. pertencentes ao PSDB. O núcleo da sociedade civil empresarial foi formado durante muito tempo pelos ”sindicatos” orientados por ramos da economia. o PPB representa os interesses do empresariado nacional. Em 1986 ele conquistou nas eleições para os governos estaduais e para o Congresso efetivamente uma vitória eleitoral surpreendente. Estava altamente concentrada e em larga escala privatizada (Costa 1997: 56 s. exercendo a dominação sobretudo na Bahia e no Paraná. nos jornais nacionais havia um oligopólio. quando o grupo em torno de Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso se viu crescentemente marginalizado no ”ônibus” do PMDB.g.64 A seguir apresentaremos o espectro partidário brasileiro. MDB (Movimento Democrático Brasileiro). baseando-se na sociedade civil tradicional. isto é. deve ser compreendido basicamente como tentativa de delimitação contra concepções sociais e socialistas mais radicais. igualmente o ex-prefeito do Rio de Janeiro. A sua decadência acompanhou a destruição do velho modo de desenvolvimento centrado no estadonação. O PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) foi fundado em 1988 como uma cisão do PMDB. o Presidente do Senado e alguns ministros importantes.66 O PFL é hoje um partido moderno de direita com presença nacional. estreitamente vinculados a organizações internacionais como o 63 64 O termo português não distingue entre sindicatos de trabalhadores e sindicatos patronais. sustentatora do Estado. Pertencem a ele o Vice-Presidente da República. sobretudo de São Paulo. César Maia. o PPB integrou-se no plano nacional na coalização governamental. que era o aglutinador ideológico e institucional do partido. Em 1982 a ARENA mudou o seu nome para PDS (Partido Democrático Social) e atua depois de outras alterações do seu nome hoje como PPB (Partido Progressista Brasileiro). como partido supraclassista. Por isso associações empresariais orientadas para toda a sociedade. ambos oriundos do partido da ditadura. que remete a um espectro político ainda mais à esquerda no Brasil. uma associação suprapartidária de 134 dos 513 deputados federais e de 30 dos 81 senadores sempre tiveram importância. os interesses do capital financeiro e do capital internacional. Nos últimos tempos o PFL e o PPB. quatro redes de televisão controlavam praticamente todo o mercado.65 O liberal PFL (Partido da Frente Liberal) abandonou no início dos anos 80 a aliança com os militares e desde então só teve de abandonar por períodos muito breves os espaços do poder. razão pela qual o PPB é naquela cidade. da ARENA. A bancada ruralista foi um grupo central de lobistas que conseguiu e. defende hoje o liberalismo na economia e. Aqui a mídia enquanto parte importante da sociedade civil no poder. Em 1998 ele controlava 32 assentos no Senado e 106 cadeiras na Câmara dos Deputados. mas também apenas nela um poder determinante. ex-prefeito de São Paulo. Marco Maciel. desempenhou um papel importante. a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) adquiriram importância. O palco do poder ficou reservado aos atores fiéis ao sistema vigente sob a ditadura militar. Na esteira da democratização houve uma abertura do sistema político e a estabilização da des-ordem existente precisou agora ser assegurada de forma indireta. no qual deveria haver espaço para todos. monopolizar a política no Brasil.

por conseguinte. formado pelos excluídos do núcleo do poder estatal. sem liderança clara e sem programa claro. Cristalizado durante as grandes greves no ABC68. São Bernardo e São Caetano. IBRD 1993. Em Brasília . via de regra em algum lugar ”lá em cima”. Ele foi o braço parlamentar de um movimento social de amplas dimensões. Durante todos os anos 80 foram grandes o seu potencial de ameaça e a sua capacidade de promover greves e minar a política governamental. Com o passar dos anos o PT se aproximou dos partidos convencionais. O número de deputados aumentou continuamente e o partido governou muitas cidades importantes do Brasil e alguns estados menores.69 Seu maior êxito foi até agora a vitória eleitoral nas eleições de 1998 para o governo do Estado do Rio Grande do Sul. a expensas do trabalho de organização nos movimentos sociais. conforme o qual o detentor do poder exerce o poder (Dreifuss 1989: 34). como já há séculos. membros de partidos de esquerda não-filiados aos partidos comunistas e outros grupos da sociedade civil (cf. Esse poder localizado está nas mãos do presidente ou de um pequeno número de pessoas que têm acesso direto a ele. Boris 1998). As mulheres empenharam-se no local com meios políticos por melhorias do seu entorno de vida.no Planalto. Ottmann 1995). sustentado por operários e politicamente organizado por um partido próprio. movimentos alternativos da classe média (sobretudo ecologistas e feministas). A seguir trataremos da perspectiva ”de cima” do poder. surgiu um outro bloco social alternativo. 74 .num Estado eficiente. como o Rio de Janeiro. pois estados importantes. o papel de oposição. os ex-comunistas de Moscou no PPS (Partido Popular Socialista) e o partido comunista PCdB (Partido Comunista do Brasil). enquanto espaço geográfico determinado.74 Banco Mundial (Oliveira 1998a: 177). A força inequivocamente mais forte da esquerda era o PT que se compreendia como partido da sociedade civil e quis. Sobretuto os três primeiros distinguem-se do PT por uma disciplina partidária interna menor e um programa mais moderado. o partido populista de esquerda PDT (Partido Democrático Trabalhista). Ficou célebre uma nova forma de atuação política criada por mulheres pobres na periferia das grandes cidades (Castela. no topo do Estado. no palácio presidencial. concebido como símbolo do progresso. que simplesmente aceitava a des-ordem. 69 Em análise crítica o jornal liberal Folha de São Paulo escreveu sobre o PT: ”Dos tempos de um partido que liderou as greves e contribuiu nos anos 80 para a organização da sociedade civil passaram quase 20 anos até a formação de um partido que hoje se candidata com chances de êxito aos cargos mais importantes. Via de regra o município de Diadema também é incluído na região do ABC.como se diz nas linguagens cotidiana e jornalística .cidade projetada pelo comunista Oscar Niemeyer e concluída sob a ditadura militar . mas como sujeitos (Sader 1988. baseia-se em um determinado ritual. Mas de fato o poder se concentra . Os pobres entraram no palco da esfera pública política não apenas como objetos. o Banco Mundial concentrou a sua atenção cada vez mais no Estado . Novy 1996: 79 s.67 Com o presidente da república. Coube à esquerda. isto é. que segue o padrão sociológico típico do desenvolvimento de aparelhos administrativos” (FSP de 28 de maio de 1997). 68 ABC é sigla dos municípios Santo André. representa uma das maiores inovações sociais do Brasil. tal como ele se corporificou nos governos dos quatro 67 Nos últimos anos. mas absolutamente não no Estado Mínimo (cf.). representar os interesses subrepresentados no aparelho de estado. Aumentou a importância da sobrevivência dos seus funcionários e dos interesses institucionais do partido. canalizações e creches (Novy 1994: 403-410). Assim uma sociedade civil não-tutelada pelo Estado. Mas nos estados. os outros partidos maiores de esquerda são o PSB (Partido Socialista Brasileiro). ao qual pertenciam grupos tão diferentes como sindicatos autônomos. 1997).a Praça dos Três Poderes forma na prancheta do urbanista o centro de um traçado urbano que imita os contornos de um avião. como já tantas vezes na história do Brasil. Os sindicatos começaram a libertar-se do controle por parte do Estado e passaram a orientar-se segundo modelos de representação de interesses com autonomia diante do Estado. ele perdeu influência em 1998. sobretudo a CUT (Central Única dos Trabalhadores). o PT (Partido dos Trabalhadores). o Rio Grande do Sul e Minas Gerais passaram para a oposição.70 O poder tende a ser localizado. Nesse tempo o PT se burocratizou. com manifestações e listas de assinaturas em benefício de escolas. Nos anos 90 o centro e a direita se consolidaram. como ”partido do Estado” ou partido da ordem. 14 senadores e 99 deputados federais o PSDB é ao lado do PFL a força determinante em Brasília. O fortalecimento desse campo social que se subtraiu ao sistema bipartidário da ditadura. Tratou-se de uma atuação coletiva que não pode ser caracterizada nem como privada nem como pública. desafiou os atores clássicos do estado desenvolvimentista nacional. 70 Ao lado do PT. movimentos populares.

mas não alterado na sua estrutura fundamental.72 A parte conservadora da sociedade civil age de forma inteiramente distinta. pretendia-se criar uma nova relação entre Estado e sociedade civil.e a sua propriedade. teme a luminosidade própria da esfera pública e atua em simbiose com o Estado. pois uma parte do partido saiu e votou. Mas no curso do esgotamento da ditadura o discurso liberal da autonomia de Estado e sociedade civil passou a ganhar em importância. Egler 1992: 60). a Cabanagem e Canudos também foram levantes populares importantes (Ribeiro 1995: 319 ss.73 Foi esse o momento histórico no qual o movimento de democratização passou para o centro dos acontecimentos políticos. as pessoas passaram a votar ‘com os pés’. como poderíamos esperar de uma ditadura militar. a base da sociedade começou a fermentar. o candidato dos militares. mas não apenas nela. Mas a Balaiada.. Mas Neves faleceu ainda antes da sua posse e José Sarney. Gramsci diria que essa sociedade civil resp. não em último lugar por medo da repressão.territórios livres de escravos fugidos . Em grande parte nem houve uma troca do pessoal que representava esse bloco de poder. contrariando a vontade da maiora absoluta da população. A participação no Estado determinava as chances de poder dispor dos seus próprios recursos privados ou recorrer a recursos públicos. Palmares tornouse o emblema da resistência negra (Ribeiro 1995: 295). Foi criada e vinculada ao Estado uma sociedade civil simpática ao regime . Assim Tancredo Neves foi eleito presidente em 1984. como já em momentos anteriores de crises da história brasileira. Nos anos 70. Isso levou a uma regulação ad hoc (Oliveira 1996: 94) que não foi nenhuma regulação centralizada e forte. interesses privados lograram utilizar em seu benefício partes do aparelho de estado. orientada segundo concepções estamentais do Estado. Num passo adicional um amplo movimento de massas exigiu a eleição direta do presidente. sob a nova legenda do PFL. eleger indiretamente o presidente por meio de um colégio eleitoral. para que possamos compreender a estrutura hierárquica e personalizada do poder no Brasil. herdada de Portugal. os seus sindicatos foram integrados em um ”Estado ampliado” (Gramsci 1971: 160). e não Paulo Maluf. Nesses anéis burocráticos localizam-se segmentos sociais em comissões. Especialmente a sociedade civil conservadora agrupa-se como ”anéis burocráticos” (Cardoso 1993: 119) ao redor do aparelho de estado no sentido mais estrito. decidiu. José Sarney. tornou-se o primeiro presidente civil. 72 O exemplo histórico mais conhecido de uma organização social alternativa durante o período colonial foram os quilombos . 356). Fernando Collor de Mello. O empresariado exerceu a sua influência desse modo. 75 . Em matéria de reforma agrária. a Constituição de 1988 é mais conservadora do que a da ditadura militar. conselhos. As ruas tornaram se palco da política. No curto prazo os planos do bloco majoritário do PDS não vingaram. institutos e conselhos de sábios com o fim de harmonizar os interesses políticos com as necessidades econômicas. sindicatos. A sua resistência contra a demolição dos bairros operários nas proximidades do centro foi igualmente abafada com violência (Novy 1995: 26-29). Essa organização social era bem compatível com a estrutura patrimonial do Estado. Houve uma mudança de regime sem alteração do bloco de poder. Um dos traços distintivos mais significativos e trágicos da des-ordem brasileira reside no fato de que todas as formas de organização da parcela oprimida da sociedade sempre foram desapiedadamente combatidas. Depois das eleições de 1982 governadores da oposição ascenderam ao poder nos estados mais importantes. que continuou sendo institucionalmente o centro do poder. vicepresidente e um homem da ditadura militar. 73 As associações dos latifundiários defenderam sobretudo na questão da reforma agrária a autonomia da sociedade civil . Assim as repetidas proibições do partido comunista sempre obrigaram o movimento operário a defrontar-se com novos problemas de organização (Oliveira 1999). A maior crise econômica desde os anos 30 deslegitimara os militares.75 últimos presidentes civis. Ele simbolizou a ”transição pactuada” da ”Nova República”. Mas o congresso. Sob governos ditatoriais a sociedade civil conservadora não tinha dificuldades em ser parte do Estado ampliado. Muito pelo contrário. sobretuto durante a ditadura militar.74 O leitmotiv da ”Nova República” 71 Dois desses presidentes foram vice-presidentes e se beneficiaram da morte (José Sarney) ou da destituição (Itamar Franco) do presidente. Desde 1974 e mais ainda depois de 1979 ocorreu um afrouxamento do regime ditatorial. A oposição sempre insiste no seu status de sociedade civil. XX os imigrantes europeus organizaram-se em São Paulo em sindicatos e associações vicinais anarquistas e buscaram a autonomia do Estado. múltiplos experimentos de organização social foram testados.no hinterland das plantações açucareiras (Becker. de forma privada e direta (Dreifuss 1989: 40-44).em especial.71 Mas antes se faz mister esboçar a relação específica com a sociedade civil. juntamente com a oposição. No séc. Sob o governo de Getúlio Vargas surgiu depois de 1930 uma nova forma de organização da sociedade civil. Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. 74 Sob o governo de Sarney 93% dos 2000 funcionários supremos responsáveis pelo exercício do poder presidencial provinham da ditadura militar (Dreifuss 1989: 40). Com isso o modelo social hierarquizado foi modificado.

dessa vez exitosamente. o outro dez meses. membro do PT e ex-prefeita de São Paulo. mas segmentos importantes dos grupos dominantes nutriam grandes reservas quanto a uma eleição direta. o Plano Real. Os intelectuais descontentes com a sua própria marginalização e a apropriação do governo Sarney por parte dos conservadores formaram o meio a partir do qual se constituiu em 1988 o PSDB. prevêem também intervenções no mercado como congelamentos de salários e preços. O protesto de centenas de milhares de brasileiros engajados foi importante para a deslegitimação de Collor. potencial candidato oponente a Fernando Henrique Cardoso. O estilo excêntrico de liderança de Collor levou à subestimação dos seus feitos políticos. o Real. foi constituído sob a liderança do vice-presidente Itamar Franco um governo de ”consenso nacional”. a transição de uma retórica do livre comércio. isto é. conhecido como ACM.gov. Depois de 1987 políticos tradicionais que também se tinham tornado conhecidos durante a ditadura militar ganharam influência no Executivo. 77 O feijão com arroz é o prato padrão no Brasil. Em 1992 formou-se um movimento de massas para a sua destituição. As revelações foram especialmente constrangedoras para Paulo Maluf. ligados ao PSDB e marginalizados por curto prazo no fim do governo Sarney reconquistaram a sua influência já durante o governo Collor e depois mais ainda no de Itamar Franco.senado.O Tradutor] 78 Por um lado. ao dólar norte-americano. ganhou o populista de direita Fernando Collor de Mello. Ortodoxas são via de regra as doutrinas que crêem na onipotência do mercado para a regulação da sociedade. a campanha de 1984. que pela primeira vez apostou expliticamente no acoplamento da moeda nacional. O congelamento de salários e preços do Plano Cruzado levou a um aumento do poder aquisitivo e a uma melhoria da distribuição da renda76. O fracasso dos planos heterodoxos de estabilização foi creditado a um excesso de intervencionismo e . realizadas em 1989. 76 . simples e sem grandes surpresas para o consumidor. [A nota foi escrita para a edição alemã .apesar da deterioração da distribuição da renda . que na sua condição de Ministro das Comunicações era responsável pela concessão de licenças de operação de emissoras de rádio e televisão.a uma ”ênfase excessiva nos programas sociais” Ao invés disso foi perseguida então uma ”política feijão-com-arroz”77.76 foi a continuidade. Depois os trabalhos da comissão estagnaram e ela não chegou a nenhum resultado concreto (www. como o Plano Cruzado.htm. em prol das eleições diretas para a presidência encontrou um amplo respaldo pro forma. não a mudança. feita segundo critérios políticos.br/web/cpif/cpi. 76 O plano foi implementado pelos mesmos tecnocratas do Rio que elaboraram posteriormente o Plano Real (Bresser Pereira 1987). heterodoxos.78 Quando a destituição do cargo foi decidida em fins de 1992 pelo parlamento com maioria avassaladora. ofereceram uma oportunidade para derrotar o establishment. e a moratória da dívida aliviou o orçamento. Mas sem o apoio do empresariado paulista e de quase todos os meios importantes de comunicação as coisas não teriam chegado a esse ponto. Peritos do PFL substituíram crescentemente os do PMDB. A equipe do Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso elaborou um plano de estabilização. deve-se supor que interesses concretos de grupos influentes são responsáveis pela publicidade. Porém. até que Maluf renunciou à sua candidatura. Isso fortaleceu o PFL diante do PMDB. desta vez até com a participação de Luiza Erundina. Mas já pouco tempo depois da sua posse começaram a circular boatos de que Collor estaria praticando a corrupção de forma mais desmedida do que os presidentes anteriores. A campanha fracassou. A euforia subsistente até fins de 1986 assegurou ao PMDB e com isso ao governo de Sarney uma maioria folgada no Congresso Nacional e nos estados. Mais uma vez as ruas tornaram-se palco do poder. As primeiras eleições livres para a presidência da república. Sempre que no Brasil a corrupção generalizada chega ao conhecimento público. são os instrumentos de política econômica que. Depois o plano desmoronou em virtude da sua inconsistência econômica e política. Um dos ministros mais importantes de Sarney foi Antônio Carlos Magalhães. 6 de julho de 1998). um plano heterodoxo de estabilização75. da privatização e da economia de mercado para uma política concreta. e com a moratória da dívida Sarney deu inicialmente passos que lhe granjearam popularidade.Os tecnocratas dos escalões dirigentes. Esse foi um instrumento central utilizado pelo governo para assegurar-se da ou ”comprar” a lealdade de congressistas. com o Plano Cruzado de 1986. Correspondentemente há doutrinas da fé correta (ortodoxas) e doutrinas contrárias à fé correta (heterodoxas). Ele receitou com o Plano Collor um pacote econômico inesperadamente radical e congelou todas as cadernetas de poupança. candidato do PT. heréticos. já praticada em 75 A visão de mundo da economia se assemelha a uma religião. Em 1996/97 uma comissão de inquérito chamou a atenção por revelar um esquema complexo de corrupção (Senado 1997). até então uma pessoa amplamente desconhecida. o que levou a um fim de curto prazo da inflação e a uma profunda recessão. Um funcionou quatro anos. Ao invés do sindicalista Luís Inácio Lula da Silva. de corte ortodoxo. A comissão descobriu cada vez mais irregularidades. Sob ele começou o ataque sistemático à estrutura do Estado.

Suportado por amplo apoio. é declarada ”impossível” pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e pelo STF (Supremo Tribunal Federal). da Previdência Social e das aposentadorias puderam ser implementadas nos quatro anos do seu mandato. Brasil 1989 (1) 8. 82 A observância de mecanismos de controle para evitar que titulares de cargos se valham de modo ilegítimo da sua função.3 4. 81 De todas as leis aprovadas entre 1989 e 1993 78% tinham a sua origem no Poder Executivo (Diniz 1997: 182).7 8. E a partir desse momento esquecemos também de falar de ‘democracia’” (Cardoso 1998 [REVISÃO: verificar citação no original]).2 15. ”Durante a campanha eleitoral Cardoso se referiu sem ambigüidades ao principal traço distintivo com relação ao seu principal concorrente: ela era intelectual. Ao passo que o Poder Legislativo não cumpre a sua tarefa propriamente dita de deliberar e aprovar leis81. da reforma administrativa.4 27. Depois de anos de insegurança Cardoso prometia estabilidade e competência. José Sarney promulgou a cada décimo terceiro dia uma medida provisória. Foram subtraídos aos estados recursos constitucionalmente assegurados e a base financeira dos governos estaduais continuou sendo estreitada. não importa de que maneira.0 PPB (2) PFL diversos partidos de direita PSDB PMDB PT diversos partidos de esquerda (1) no primeiro turno (2) 1989: PDS Fonte: Nicolau (1998) A divisão dos poderes. Uma medida tão importante como a do PROER (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional). razão pela qual preferem retornar aos métodos ilegais (FSP 77 . A emissão excessiva de medidas provisórias. ao passo que o outro não passava de um simples metalúrgico” (Oliveira 1998b: 95). pilar fundamental de uma democracia liberal e do federalismo.9 0. Todas essas reformas foram apresentadas até 1998 como incondicionalmente necessárias para a consolidação das finanças públicas. Sob o governo de Fernando Henrique Cardoso foram promulgados em 1995/96 a cada segundo dia duas medidas provisórias (Suassuna 1996). cf. Collor a cada quinto dia. que só no longo prazo mostraria os seus efeitos positivos. Tabela 15: Eleições presidenciais.7 17. de leis promulgadas pelo Executivo. Apesar da crise econômica Fernando Henrique Cardoso ganhou as eleições mais uma vez no primeiro turno.79 Depois se afirmou que as reformas criariam um novo modelo de Estado e economia.77 outros países latino-americanos. ”Mas uma coisa é certa: ou o Congresso põe. dos governadores e dos 79 80 Para um balanço crítico dos quatro primeiros anos de governo de Fernando Henrique Cardoso.0 3. Transformações importantes no campo da privatização.4 54.2 1998 2.4 1994 2. isto é.1 53.80 Quando ainda era senador. Lesbaupin (1999).8 11. o programa para o apoio da reestruturação do sistema bancário. o governo se vale da sua folgada maioria no Congresso para impor emendas constitucionais. e a prática da compra de votos enfraqueceram o Legislativo. Durante o seu período de cinco anos. o do presidente da república. ele ganhou as eleições. 24 dos grupos que deram uma boa parte das doações oficialmente registradas para a campanha opinaram que doações legais trariam mais problemas do que vantagens em virtude da grande publicidade. um termo ao continuado desrespeito praticado contra ele e a constituição ou é melhor reconhecer que somente há um poder no país.0 4.0 31. O direito eleitoral foi adaptado um ano antes das eleições aos desejos da maioria (FSP de 12 de setembro de 1997).9 28. Ocorreu uma recentralização por via da política econômica.82 A reeleição do presidente. o próprio Cardoso criticou duramente essas medidas. foi reeditada a cada 30 dias na forma de medida provisória. foi sistematicamente minada no governo de Fernando Henrique Cardoso.5 9. de vigência temporalmente limitada. Tal medida festejou em novembro de 1996 o seu ”aniversário” sem ter sido aprovada (ou rejeitada) pelo Poder Legislativo (Freitas 1996).

foi maior em virtude do comportamento não-unitário do centro e da direita nas votações. Mais uma vez perderam importância os muitos partidos pequenos de direita. Brasil. Com 58 deputados. 10/94 und 10/98).br (24 de abril de 1998) Tabela 17: Distribuição das cadeiras na Câmara dos Deputados. 78 . representada por apenas 25 senadores. muitos ex-governadores ou políticos que consideram o Senado como plataforma para outros cargos no Executivo nacional ou regional. a influência do PT.senado. Tabela 16: Distribuição das cadeiras no Senado. portanto o dobro do tempo de mandato dos deputados. está em quinto lugar. proibida como medida de proteção contra o constitucional.78 prefeitos. O PSDB aumentou a sua influência. o Senado e a Câmara dos Deputados. Se durante o Império os senadores eram vitalícios. Na Câmara dos Deputados pode-se constatar desenvolvimentos semelhantes aos do Senado. foi possibilitada por uma emenda O Congresso brasileiro é formado por duas câmaras. o maior partido de esquerda. Durante o processo de elaboração da constituição em 1987 e 1988. permitindo ao PSDB aumentar a sua influência. Cada estado elege três senadores. ela não elege praticamente mais de um quinto dos deputados. Freitas 1998. patrimonialismo. Nessa casa encontram se muitos dos políticos mais influentes.TOTAL 8 13 13 TOTAL GERAL 68 81 81 (1) Até 1990 PDS Fonte: Brasilienausschnittdienst (10/90. consubstanciada hoje em 99 deputados.gov. A cada quatro anos são eleitos em cada estado alternadamente um ou dois senadores segundo o sistema de eleição majoritária no primeiro turno. Tabela 17). o PT. embora algumas tendências sejam mais pronunciadas (cf. hoje eles têm um mandato de oito anos. embora o PFL com seus apenas 20 senadores não constitua o maior clube na casa. O crescimento contínuo não aumentou a influência da esquerda. Brasil. FSP de 14 de abril de 1998). Deve-se ressaltar a perda da posição determinante amargada pelo PMDB. A presidência do Senado está nas mãos de ACM. 1986 – 1998 1986 PPB (1) PFL diversos partidos de direita DIREITA – TOTAL 32 118 29 180 1990 42 83 132 227 1994 52 89 92 233 1998 60 106 52 218 de 16 de setembro de 1997. então visivelmente menor. ao passo que o PPB representa com 60 deputados o quarto maior grupo e o PFL com 106 deputados é o maior grupo. Nos últimos anos o Senado ganhou uma influência cada vez maior.TOTAL 34 33 43 1 5 7 PT 7 8 6 diversos partidos de esquerda ESQUERDA . O crescimento da esquerda diminuiu em 1998. pois desde 1994 os parlamentares do centro votam sistematicamente com a direita. 1990 – 1998 1990 1994 1998 0 6 5 PPB (1) 18 18 20 PFL 8 11 0 diversos partidos de direita DIREITA . mas isso ainda é apenas um quinto (cf. Entrementes a esquerda dispõe de 13 cadeiras. o centro no Senado teve mais peso do que a direita. Isso se deve fundamentalmente ao fato de que os pequenos partidos de direita perderam influência em virtude do sistema de eleição majoritária. Tabela 16). www.TOTAL 26 35 25 10 10 16 PSDB 24 23 27 PMDB CENTRO. Com 43 senadores. basicamente a expensas do PMDB.

1% dos deputados mudaram uma vez. a ”casa” na ”rua” no sentido de Da Matta (1991). Esse direcionamento para o curto prazo e o enraizamento local dos deputados representa um obstáculo para medidas relevantes para setores ou a totalidade da sociedade. constróem relações de lealdade e ”trocam votos por favores”.TOTAL TOTAL GERAL (1) Até 1990 PDS Fonte: Nicolau (1998) 260 260 16 31 47 487 38 108 146 35 65 100 503 62 107 169 49 62 111 513 99 82 181 58 56 114 513 As queixas sobre a forma fragmentada e irracional da política brasileira não têm fim.79 PSDB PMDB ESQUERDA . Mas o seu modo básico de funcionamento não se alterou. Enquanto ente legislativo. Por essa razão não surpreende o elevado percentual de deputados que não conseguem reeleger-se. aos interesses de curto prazo da organização de uma rede complexa de ”dar e receber”.2% duas vezes e 24% três ou várias vezes de partido (Limongi.000 dólares e outras vantagens para votar a favor da emenda constitucional que permite a reeleição do presidente da república. diante do Congresso. Na eleição do presidente.84 O clientelismo é tão difundido e resistente a transformações por encarnar o elemento relacional na política. Por conseguinte. pois ela possibilita aos economicamente poderosos comprar votos no processo político e construir dessarte relações pessoais. que de facto prescreve um sistema misto entre presidencialismo e parlamentarismo. como e.86 Em três outros houve fortes indícios. a troca de favores por votos (Banck 1990). Embora a filiação partidária de no mínimo um ano seja pré-requisito da candidatura. esta é quase sempre de importância secundária diante das qualidades e capacidades pessoais. do que a um ”forum” no qual se define racionalmente a via de desenvolvimento da nação. Trata-se de uma ”familiaridade perversa”. dos governadores e dos prefeitos reflexões atinentes à política em geral referindo-se as grandes temas da nação desempenham um papel maior do que nas eleições parlamentares.83 Faz parte das tarefas do deputado operar como mediador entre o Poder Executivo e a população.85 Com a fixação em interesses micropolíticos os poderosos impedem que o sistema político questione o seu poder econômico e sobretudo a sua propriedade. A base eleitoral de deputados normalmente se restringe a uma região na qual eles se empenham por melhorias da infraestrutura. o Congresso se assemelharia mais a uma ”feira” para a implementação de interesses particularistas de curto prazo.g. 84 ”Quem será contra a ‘modernização’ do parlamento? Ninguém. De acordo com o Direito Eleitoral brasileiro são eleitas pessoas que se candidatam em uma chapa do partido. isto é. No entrelaçamento atual do capital e do Estado ela assume formas sempre novas. Figueiredo 1996: 42). Depois de eleito. mas não provas. Um ápice dramático dessa forma conservadora da ação política foi um escândalo em início de 1997. Por isso mudanças de partido praticamente não afetam a honorabilidade e são perfeitamente habituais. em virtude do sistema presidencialista. toda a estrutura do Poder Legislativo está direcionada a um processo de trocas políticas. Ele subordina interesses de longo prazo. 6. pois a continuação 83 Entre 1987 e 1994 25. 85 Aqui os candidatos constróem uma rede complexa de cabos eleitorais que vão na sua respectiva vizinhança de casa em casa. 86 Com oito deputados federais. Explica-se isso com o clientelismo amplamente difundido. o Executivo busca obter a necessária maioria no Legislativo. É certo que este ganhou de iure uma importância muito maior com a Constituição de 1988. mas impede que as leis da igualdade e da restrição do poder sejam implementadas no espaço público. Mas isso não infunde ao sistema político o calor e a sensação de se estar abrigado na ”casa”. a inserção universalizada de consultores empresariais em processos decisórios de natureza política. Isso se deve ao fato de que os primeiros mandatários dominam. das Assembléias Legislativas e das Câmaras de Vereadores. pois pode contar amplamente com a anuência dos por ele prejudicados no longo prazo. Inerente a essas lealdades quase sempre de curto prazo é a fraqueza delas estarem constantemente ameaçadas pela revogação. tais como são representados pelos partidos. O clientelismo é uma forma duradoura e consensual de dominação. comprar a anuência a projetos que tramitam no Congresso mediante concessões feitas à sua clientela eleitoral. o Acre está bem mais representado do que os estados com um contingente populacional 79 .TOTAL PT diversos partidos de esquerda ESQUERDA . Quem acredita que possa partir dele um controle efetivo das decisões cotidianas? Ninguém” (Fernando Henrique Cardoso 1991: 168). A Folha de São Paulo pôde comprovar mediante fitas gravadas que dois (de oito) deputados federais do Acre tinham recebido respectivamente 200.

dependia para a implementação dessa ”modernização” do apoio das forças políticas mais retrógradas do Brasil. Ele desejava a descentralização e fragmentação do Estado. As tarefas foram delegadas a ”organizações sociais” (OS) e ”Agências Executivas” definidas em lei. possam administrar de forma descentralizada.89 A nova Constituição Federal de 1988 se inseria na tradição do modelo do Estado racional e burocrático e impôs um direito unitário do funcionalismo público e da sua remuneração.80 das investigações foi abortada. Em 1994 o PMDB conquistou quatro. Osmir Lima: PMDB (1982-1994). para ocupar o lugar da estrutura patrimonial do Estado. Presidente do Banco do Estado do Acre (1983-1986). (Lins 1997). A descentralização ocorreu tanto como deslocamento do plano nacional para o plano regional e local quanto como terceirização feita pelo Estado (Mare 1997). 80 . escolas que não fundam uma Associação de Pais recebem menos recursos do Estado. na qual este era percebido como propriedade de quem exercia a dominação. um senador acreano representa 139. Nesta a participação dos cidadãos era desejada. em São Paulo 450. As organizações sociais são responsáveis pelos serviços nãoexclusivos. cobrando resultados dos servidores públicos (Bresser Pereira 1997). em que os políticos eleitos e uma alta burocracia profissional. XIX e depois no plano dos estados. 1994 candidato pelo PMDB. referindo-se à assunção das despesas de pessoal do Estado do Amapá pelo governo federal (cf. da cultura etc. 87 A troca de votos no Acre não foi a única transação do governo.g.000 cargos contra um voto”.88 O esforço modernizador das partes do establishment brasiliense interessadas na transformação encontrou seu limite nas alianças necessárias para o apoio de uma tal política.055. também Damé 1997). em 1994 eleição como candidato do PP. As idéias do presidente Cardoso caminhavam na direção contrária. inspirada pelo ideário positivista. que abrangem uma grande parte dos serviços públicos nas áreas da saúde. um deputado representa 52. tal como ela já tinha sido iniciada pelo presidente Kubitschek e pelos militares. desembocou depois de 1930 no centralismo do estado-nação. Os deputados federais do pequeno Estado do Acre são um bom exemplo disso. assim e. eis a manchete da FSP em 4 de março de 1997. deputado federal (1987-1990). PFL (1997). ”FHC troca 6. mas autonomizadas em termos organizacionais. mudança de partido para o PP (1992-1994). da educação. Em 1997 somente um era membro do PMDB. partindo do Estado do Rio Grande do Sul. Afirma-se que essas compras de voto teriam sido coordenadas pelo governador do Amazonas. os seus atores dependem em elevado grau de contribuições legais e ilegais de instâncias externas. que se formou. São responsáveis pelas atividades exclusivamente disponibilizadas pelo Estado. instituições e cargos que administravam os assuntos públicos ao lado da hierarquia estatal. coordenadora de política agrícola no Vale do Juruá (1986). deputada federal (1990-1994). depois mudança para o PFL. chefe de gabinete (1987-1990). Chicão Brígido: PMDB (1992-1997): vereador em Rio Branco (1993-1994). 400. Assim e. Assim os grupos conservadores estão representados muito acima da média na Câmara dos Deputados e no Senado (no Acre. deputado federal (1995-1997). A estrutura administrativa burocrática do Estado brasileiro. Por sua vez o presidente da república. depois mudança para o PSDB e depois para o PFL. Esse modelo foi introduzido em 1935.491 pessoas). o INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social). No maior. Ronivon Santiago: PMDB (1990-1994). PMDB (1983-1992): deputado federal. 90 ”Dessa forma será possível estabelecer uma administração pública gerencial. que também elegeu dois dos três senadores. Os cinco deputados suspeitos de corrupção percorreram carreiras políticas típicas: Zilá Bezerra (1982-1994: PMDB). 89 Já durante o Estado Novo surgiu uma pletora de instituições do Estado central.145 pessoas. um senador paulista 10.87 Como estados pequenos como o Acre não possuem força econômica própria e sua arrecadação tributária direta é praticamente inexistente. Elas recebem um encargo legal para produzir um serviço para o Executivo. mas não estatais de direito privado. João Maia: PT (1980-1983). criando uma série de novos órgãos. cujo discurso político gira em torno do conceito da ”modernização”. depois das eleições mudança para o PFL. O modelo oficial era o estado centralista francês e a burocracia racional de Max Weber. a não-participação era punida. Em 1967 uma reforma administrativa dos militares levou a uma maior autonomização e flexibilização da administração pública pela criação de fundações e autarquias. O Estado criou assim para si no seu entorno uma sociedade civil própria para fins de disponibilização de serviços públicos.664.90 A reforma administrativa constituía um elemento central da reforma do Estado na direção de um Estado ”enxuto”. PPR (1995-1996). 88 O caráter contraditório da política brasileira é testemunhado pelo fato desse estado especialmente retrógrado estar sendo governado desde 1999 pelo PT.g. responsável pela política de meios de comunicação do governador (1982-1985). os três restantes e o deputado do PP migraram para o PFL que no Acre colaborava com o governador.515. Juscelino Kubitschek reforçou essa tendência. recrutada e treinada de forma impessoal. As ”agências executivas” são organizações públicas.000 funcionários de organizações estatais terceirizadas tornaram-se funcionários públicos federais sujeitos a regras administrativas uniformes (Bresser Pereira 1998a: 4). o PPB três e o PP (Partido Popular) uma cadeira na Câmara dos Deputados. timidamente no séc.

o aumento salarial concedido por ele.2 143.47 531.91 No núcleo estratégico do Estado o direito do funcionalismo público continua sendo mantido juntamente com a estabilidade (www. esse percentual subiu a 41. conduziu.42 628. 93 Ao lado dos funcionários federais civis há redondamente 600. vale dizer.06 583.137 pessoas no setor educacional.5 526.4 174.93 Tabela 18: Gastos de pessoal da União. Em 1997 o número de funcionários públicos ativos na administração federal mais estrita era ligeiramente superior a 500. De qualquer modo 121. 81 .1999): isso abrange as áreas da segurança. No centro da reforma administrativa estavam objetivos de natureza fiscal.0 116.43 545.305 1990 28.26 705. sua quarta função.3 4. Novy 1998: 235).0 3.br vom 12.000 funcionários durante o governo Sarney. O primeiro escalão da burocracia é reestruturado em termos de administração empresarial.725 1997 45.6 bilhões a um ápice. O quadro de pessoal.58 620. em 1998 este foi nitidamente superior.7 6.2 122.150 pessoas atuam na área da saúda e 171.8. também em números absolutos com R$ 46.000.81 caso dos monopólios sobre a exploração de recursos naturais. da arrecadação de impostos. Itamar Franco aumentou os gastos com pessoal.6 6. Uma disponibilização de serviços competitivamente organizada deve possibilitar a criação de um Estado enxuto e eficiente .76 567.9 181. do Banco Central e do Judiciário.mare.46 1987 24.zerohora. reduziu-se nos anos subseqüentes em todos os governos. foi até terceirizada a empresas privadas.166 (3) 1998 (2) (1)1987 =100 (2) acumulado de maio de 1997 até abril de 1998 (3) Março de 1998 Fonte: www.9 5.870 1992 31.897 1993 35.3% de todo o funcionalismo civil federal era formado por aposentados.3 229. Por isso a legitimação para a tomada de decisões sobre o bem-estar público reduz-se para os titulares dos cargos decisórios na burocracia estatal à legitimação indiretamente democrática pelo presidente.46% a 6.br/Publicacoes/Boletim/index.8 232. que chegara a um ponto culminante com 700.9 151.7% em 1998.5 5.740 1989 34.000 militares (inclusive a Polícia Militar) (Dreifuss 1989: 26). Pretende-se impedir a participação direta do cidadão nas decisões do núcleo estratégico do Estado.656 1996 45.58%.548 1988 29. As despesas estagnaram ligeiramente abaixo desse nível sob o governo de Fernando Henrique Cardoso.68% do PIB. é lícito duvidar diante da redução do funcionalismo se a qualidade dos serviços poderá continuar sendo assegurada. pois um excesso de regras e sobretudo de cogestão sindical configuraria um impedimento ao monitoramento eficiente.1 157.7 231.7 4.020 1994 46.92 Ao passo que os gastos com pessoal não mais oneram o orçamento. a produção de bens e serviços antigamente efetuada pelo Estado.8 5. a redução dos gastos com pessoal.htm (27 de julho de 1998) 91 As inovações tecnológicas na área das telecomunicações e o controle estatal pela via de um órgão de regulamentação visam impedir a formação de monopólios. Com isso elas estavam em 1997 um pouco inferiores ao serviço da dívida (cf.com.7 4.7 5.689 1995 45.68 712.83 592.89 592.6 236. que produziu seus plenos efeitos no orçamento apenas em 1995.375 1991 23. 92 Ao passo que em 1987 somente 23. em bilhões de reais (dezembro de 1997) e situação do funcionalismo R$ índice em % situação do (bilhões) (1) do PIB funcionalismo 19.bem na linha de ”Reinventing Government” (Osborne Gaebler 1992) (Bresser Pereira 1998: 11).7 4. A Tabela 18 mostra que estes subiram durante o governo de José Sarney de 3. Durante o governo Collor eles caíram para 4.gov.7 100.

mas aqueles que monopolizavam esse poder. 82 .82 A democratização. como a reforma agrária. Ao lado da destruição de algumas caixas de pensão que funcionavam bem. As idéias fundamentais desse sistema foram integradas em 1988 na nova Constituição Federal. o ”populismo econômico” pela ingovernabilidade desde o fim da ditadura militar (cf. em número crescente. ela colocou algumas ênfases importantes em áreas isoladas. a ”sobrecarga de demandas” (Mare 1998: 3) ou. a saúde passou a ser um direito de todos os brasileiros. Com base na constituição (Ministério da Educação 1988: 88) o sistema de saúde baseia-se nos princípios da universalidade. Não se questionava a concepção do poder soberano. Em 1967 as diferentes caixas de pensões foram unificadas na criação de um instituto próprio. O sistema de saúde pública tem a sua origem em caixas de pensão criadas em 1923 por empresas. independentemente deles contribuirem ou não. os municípios puderam aumentar entre 1980 e 1992 a sua participação nos gastos sociais do Estado de 11 a 17%. intensamente acompanhado pela sociedade civil. que ofereciam também assistência social e cuidados médicos. O pagamento dos juros empurrou alguns bancos públicos estaduais à falência ou conduziu à sua liquidação ou privatização. Em virtude da sua concepção explicitamente liberal dos direitos de cidadania e do federalismo. as forças que pretendiam fortalecer um sistema privado de saúde ganharam influência com a eleição de Fernando Collor de Mello. colocou-se contra essas idéias e obstaculizou o SUS. No âmbito de um segmento cada pessoa tinha os mesmos direitos. Por meio do SUS (Sistema Unificado de Saúde). Até o início do séc. foi elaborada em 1988 pela Assembléia Constituinte eleita em meio à vertigem consumista do Plano Cruzado e claramente determinada pelo predomínio das forças conservadoras. cuja atenção se concentrava sobretudo no combate às epidemias. O PSDB votou em 1988 de modo quase unânime em favor da constituição (Oliveira 1998a: 175). A primeira medida eficaz de Collor foi retardar a introdução do SUS. Com o Plano Real os municípios e os estados se defrontaram com uma redução dramática das suas margens de ação. Ao mesmo tempo.assim como o orçamento da União . Na sua estrutura. As pessoas com renda maior começaram a contratar. essa ampliação maciça do círculo de beneficiários resultou num grande ônus financeiro e na redução dos serviços prestados. em cópia de argumentações conservadoras dos países industrializados. Ao mesmo tempo foi criado o Ministério da Saúde. em perfeita continuidade com constituições anteriores. XX existia somente uma previdência privada no plano da saúde. Em 1930 elas foram substituídas por caixas de pensão sujeitas ao controle estatal e estruturadas segundo segmentos profissionais. Depois de alguns outros passos na direção da unificação do sistema os estados e municípios foram inseridos em 1983 por meio de contratos intraestatais na política nacional de saúde pública. Embora ela estivesse em muitas áreas. Em 1987 foram dados passos na direção de um sistema unificado. Depois de um longo processo. igualdade e integração de atividades. que funcionou sobretudo nos anos 80 fundamentalmente por via dos bancos públicos estaduais. compreendida num sentido muito abrangente. o INPS (Instituto Nacional de Previdência Social). seguros particulares. Tratava-se de dar à nação enquanto receptáculo de poder regras que permitissem uma cogestão mais ampla da população. não com referência ao seu público-alvo e sua qualidade.atingidos de forma especialmente dura pela política de juros elevados. na sua maioria quase absoluta. a política econômica e a posição dos militares.94 Isso está relacionado à estrutura de financiamento dos estados. mas descentralizado. tentou-se unificar o sistema de pensões. Mas as numerosas exigências constitucionais no campo da política social não foram. A dispensa de cuidados médicos a todos os integrados no mercado formal de trabalho transformou-se igualmente em direito do trabalhador. Em 1947. ela foi denominada ”constituição cidadã”. uma nova Constituição Federal. sendo agora . com a criação do Ministério da Previdência Social. Já cedo formou-se a resistência a essa concepção cidadã de saúde. os estados também aumentaram a sua participação de 24 a 27% (Medici 1995: 291). Estes eram utilizados para alavancar os esforços no desenvolvimento regional. o sistema de saúde percorreu no Brasil uma evolução similar à do sistema de saúde na Europa. No lugar de planos de saúde local e regionalmente integrados apareceu a lógica centralizada da contabilização de ou do pagamento por serviços 94 Com referência à estrutura federativa. Desde o princípio a estrutura do sistema público de saúde era fragmentada e altamente centralizada. como variante latinoamericana. O sistema brasileiro de saúde é um bom exemplo da construção e destruição da dimensão nacional. o que levou a uma padronização nacional dos direitos de aposentadoria. num país com uma das distribuições mais injustas da renda e do patrimônio e diante de um aumento da desigualdade nos anos 80. Apesar disso responsabilizou-se. ocupou desde a resistência contra a ditadura militar um papel central em todos os esforços reformistas. implementadas em dispositivos de regulamentação por via de leis ordinárias. cuja dissolução estava prevista na constituição. Pereira 1998: 142). mas os direitos sociais também foram nela ancorados como direitos universais de todos os cidadãos. A burocracia nacional da previdência social.

000 em 1989 (Arretche 1998: 83). levada às últimas conseqüências durante o governo Collor.2% dos recursos se concentraram também nas áreas da saúde. competindo à União tão-somente a elaboração da legislação geral (Arretche 1998: 86-90). estão crescendo muito os seguros de doença privados. Esse estado de coisas deteriorou-se ainda mais a partir de 1994.83 prestados. que reteve parte da arrecadação tributária destinada pela constituição aos estados e municípios. o BNH (Banco Nacional de Habitação). Com isso o sistema foi paralisado por mais de dois anos (Arretche 1998: 84). As COHABs (Companhia Metropolitana de Habitação) eram encarregadas da implementação dos programas habitacionais. A desmontagem da burocracia central. nada menos de 25% de todo o orçamento federal para o setor de saúde” (Frankfurter Rundschau. 6 de julho de 1998: 6). Em 1994 86. Formalmente o sistema era federativo. Em contrapartida. o governo Cardoso considerou muito positiva a idéia de uma descentralização. Em 1964 foi criado o SFH (Sistema Financeiro de Habitação) e um banco para o financiamento da casa própria. entre 1979 e 1983 foram concedidos em média 230. O plano de descentralização do governo já estava concluído apenas cinco meses após a posse do presidente. subsidiados com isenções tributárias. o número dos empréstimos concedidos caiu também de aproximadamente 230. os estados e municípios. durante o curso do processo de impeachment. A democratização evidenciou as graves falhas da falta de mecanismos para dirimir conflitos entre a União. para terminar finalmente como Secretaria de Estado junto ao Ministério de Planejamento (Arretche 1998: 82). 96 Entre 1975 e 1982 foram disponilizados aproximadamente US$ 2. Sob o governo de Fernando Henrique Cardoso foi iniciada a reformulação da política habitacional. Em 1996 esse índice foi de apenas 70. em junho de 1995. O ministério competente alterou várias vezes o seu nome.97 O espaço habitacional era financiado agora essencialmente pelo mercado creditício privado. esses subsídios cifraram-se em 1995 em 1.96 Correspondeu à concepção de Estado da ditadura militar de deixar executar o fornecimento do serviço a ser prestado de modo descentralizado e centralizar a competência decisória.5 bilhões de dólares norte-americanos. financiamentos dimensionados até meados de 1995. a causa principal da crise. a dissolução do Ministério da Previdência Social e dos departamentos competentes na CEF ajudaram a quebrar o poder da burocracia num só golpe. por sua vez designado pelo governador. Em 1966 entrou em vigor o FGTS. ao passo que a produção do serviço é descentralizada e privatizada. por meio do estímulo da criação de órgãos colegiados nos estados. mas no seu funcionamento real ele era unitário-centralista (Arretche 1998: 75). Esse sistema misto centralizado-descentralizado funcionou apesar da sua estrutura básica autoritária. O BNH foi dissolvido em 1986 e as suas funções foram transferidas a um banco estatal. Segundo dados do Banco Mundial. a CEF (Caixa Econômica Federal). Seus representantes eram designados pelo prefeito. quando o governo federal criou para fins de saneamento do orçamento o FSE (Fundo de Estabilização Econômica).000 empréstimos novos por ano (Arretche 1998: 73). acessível aos trabalhadores em caso de demissão e para fins de construção ou aquisição da casa própria (Arretche 1998: 70). Esse efeito é apenas reduzido no FPM (Fundo de Participação dos Municípios) (Couto 1996: 44). As receitas auferidas pela União a partir desse fundo devem ser utilizadas ”prioritariamente” na área social. Até 1986 foram construídas cerca de 4 milhões de habitações. A instituição política central é agora o governo estadual.5 bilhões por ano. O lugar do financiamento centralizado por via da União foi ocupado por uma forma aberta de estatalidade que recorre tanto a meios do setor privado quanto aos municípios e estados. ”Membros de sistemas de previdência privados são essencialmente pessoas com renda alta e muito alta. pois uma grande parte das habitações foi construída para famílias cuja renda mensal era superior a 12 salários mínimos (Aguerre 1995: 112).000 no final dos anos 70 e início dos anos 80 para 32. Como se identificava na corrupção. da previdência social e da educação. 95 A compensação financeira produz um efeito regionalmente redistributivo no plano estadual via FPE (Fundo de Participação dos Estados). Pelo pagamento dos seus prêmios elas recebem incentivos fiscais e subsídios do estado em volume considerável.4 bilhões para menos da metade em 1993. necessário porque as reformas necessárias não eram executadas com suficiente rapidez e só assim seria possível reduzir a ”vinculação excessiva dos gastos”. sendo que a camada baixa só se beneficiou disso em grau restrito. conforme argumentou o governo. 83 .95 O seu prolongamento no âmbito do FEF tornou-se. 97 Um ponto culminante triste da crise o sistema experimentou no governo Collor cujo ministério concedeu em 1992.92%. A política habitacional do Estado também evidencia o papel central do Estado no fordismo periférico. A descentralização do sistema de saúde começou a estagnar e os municípios e estados se viram sem apoio nacional. A burocracia gestora desse sistema complexo foi sistematicamente destruída. As receitas do FGTS caíram de redondamente US$ 2. o que foi uma das razões da atividade reduzida de investimentos do setor privado.

situados na proximidade do bloco de poder. Adache 1998). Os grandes empresários nacionais e internacionais. Empresas estatais e a burocracia estatal foram privatizadas. Eduardo Suplicy se elegeu senador por São Paulo e sua esposa Marta quase atingiu o índice de 24% nas eleições para o governo estadual (Brasilienausschnittdienst 10/98). é consultor de uma das empresas interessadas (FSP de 10 de outubro de 1997). O presidente do banco extremamente lucrativo BBA. reuniu-se com o presidente do Banco Central. tiveram de renunciar simultaneamente devido a conversas telefônicas duvidosas. seja na condição de novos proprietários. em 1998. administradores. a relação da sociedade civil com o Estado também se alterou.84 À guisa de resumo. Falta vontade política para que os órgãos de fiscalização possam cumprir a sua função de controle. O poder pessoal e controle pelo establishment freqüentemente foi mantido. proprietários. embora a fragmentação de instâncias estatais andasse de mãos dadas com uma concentração privada do poder. seja por encargo do Estado. Muitas das mesmas pessoas que tinham ocupado posições no topo do Estado passaram a atuar no setor terceirizado.5% (FSP de 8 de setembro de 1997). Magalhães. 22 de março de 1995). mas continuou trabalhando ativamente na aquisição de empresas estatais. Isso dificultou a capacidade de ação política do bloco dominante. Laços familiares também desempenham um papel central. podemos registrar que a política anti-estatal apoiou-se nos anos 90 nas forças que nos anos 60 tinham subordinado os direitos de cidadania a uma forma ditatorial de governo e promovido a estatização da economia. ex-presidente do Banco Central. nomeado presidente do Banco Central. Seguros de aposentadoria privada podiam ser descontados do imposto de renda (Carvalho. O que mudou foi a fragmentação progressiva de uma regulação política em si já não mais homogênea. é igualmente consultor. chegando mesmo a ser percebido como obstáculo do desenvolvimento da liberdade do consumidor. Pérsio Arida. o Presidente da Comissão de Reforma do Estado. várias isenções tributárias custaram em 1997 ao erário da União o valor de R$ 17. Até a sua morte surpreendente em 1998 o filho do presidente do Senado ACM. no mesmo ano.3 bilhões. 84 . o ex-ministro Mailson da Nóbrega. burocratas e consultores parece ser demasiado estreito e o poder do mercado parece ser demasiado forte. nomeou por sua vez um amigo do setor privado Diretor de Assuntos Internacionais. puderam continuar fazendo valer maciçamente a sua influência. Ministro das Telecomunicações. Para a parcela economicamente bemsituada da burguesia o Estado de Bem-Estar Social tornou-se crescentemente menos relevante. 99 De acordo com um prognóstico. Com a crise fiscal e a dificuldade crescente de mobilizar recursos estatais para fins próprios. sendo que apenas a Zona Franca de Manaus ficou com 14. Gustavo Franco. e seu irmão José Roberto Mendonça de Barros. No setor dos órgãos de regulação redes informais e privadas parecem desempenhar um papel importante. No PT os irmãos Viana ganharam as eleições no Acre para o governo do Estado e o Senado.99 98 Um coordenador da política no setor petroquímico. Luís Eduardo Magalhães.98 O entrelaçamento de financiadores. foi o candidato com maiores chances de êxito para as eleições presidenciais em 2002. Secretário de Comércio Exterior. Arida renunciou depois ao seu cargo (Veja. Os irmãos Luiz Carlos Mendonça de Barros. na véspera de uma inesperada alteração da política do Banco Central. Fernão Bracher.

mas nos dois momentos as contradições nacionais do velho poder sobre o espaço já se refletiam nitidamente em São Paulo. São Paulo é um espaço parcial do Brasil. São Paulo teve uma pletora de detentores do poder. milhões de automóveis e aproximadamente dez milhões de pessoas encontram-se num espaço estreito. seu centro. Analogamente ao exame do Brasil. Essas datas não parecem indicar um momento exato de uma transformação radical. porque esse espaço ocupa uma posição nacionalmente significativa. exibe uma arquitetura impressionante: milhares de edifícios. referidas a uma forma estrutural. Os diferentes planos. a nação lograva postergar por meio do monitoramento político a eclosão da respectiva crise. Uma metrópole. que se sobrepõem à cidade de São Paulo. inserida em um estado que hoje é o centro econômico inconteste do Brasil e há cem anos ainda apresentava extensas áreas cobertas de mata e uma densidade demográfica muito reduzida. o nosso objetivo será também agora colocar a produção de São Paulo enquanto espaço de poder no primeiro plano da nossa análise. posteriormente dominante. na indústria e no setor de serviços. a partir de São Paulo foram traçadas e derrubadas fronteiras econômicas e político-administrativas. Nas últimas décadas São Paulo é denominada a ”Califórnia do Brasil”. Definirei a seguir as rupturas na evolução mais recente de São Paulo em 1914 e 1973. de uma posição peculiar no âmbito do espaço nacional de poder. nacionalmente dominante. Na realidade as transições de um campo a outro se dão lentamente e na forma de um processo. E como já aconteceu no capítulo precedente. A Tabela 19 nos apresenta uma primeira sinopse a respeito disso. É certo que a região não tem nenhuma influência na política financeira. província e mais tarde como estado da federação. em uma segunda fase. O seu poderio derivou em uma primeira fase de uma inserção específica na economia mundial e. a saber. a deselengância discreta das suas meninas” (”Sampa” de Caetano Veloso) São Paulo. por não dividir estados-nação. Na 1ª Guerra Mundial o padrão ouro entrou em colapso. a restrição do meio monetário. os anos de 1914 e 1973 assinalam uma ruptura. O mesmo vale para a crise desse regime de acumulação. a cidade estende-se sobre o planalto logo atrás da costa íngreme. isto é.85 3 Espaço e poder no centro da periferia ”E quando eu cheguei por aqui eu nada entendi: a dura poesia concreta de suas esquinas. Mas mesmo esse espaço maior precisou ser primeiramente construído na sua estrutura atual. São Paulo tornou-se um espaço de poder econômico que abrange todo o estado. mas como São Paulo era o ponto nodal do campo nacional de poder. isso levou ao colapso do velho campo de poder e à estruturação rudimentar de um novo campo. o regime dominantemente intensivo tem em São Paulo o seu ponto de partida. Velha e aparentemente ahistórica. Como capitania. dura”. desempenharam papéis distintos nas 85 . refiro-me em primeiro lugar à cidade enquanto município e com isso enquanto unidade territorialadministrativa no nível mais inferior da federação. Tabelas A-34 e A-35). As respectivas rupturas políticas ocorreram posteriormente. cujo charme efetivamente não salta aos olhos de imediato. a mais importante metrópole da América do Sul. em larga escala dominante. Mas a periodização do desenvolvimento regional afasta-se da periodização do desenvolvimento nacional. No entanto. ela reagiu com maior rapidez e sensibilidade à crise da moeda. em 1973 foi a vez do sistema de Bretton Woods. XX produziu a sua peculiar ”poesia concreta. Ao passo que São Paulo foi antes um retardatário na sua transição ao regime de acumulação extensiva. Enquanto espaço de poder político. Enquanto locomotiva que impulsiona o Brasil inteiro. são os conteúdos espaciais de um receptáculo que não deixa de ter importância também no jogo das forças globais da atualidade. e isso simultaneamente na agricultura. Se a seguir falo de São Paulo. foram tempos de intranqüilidades políticas que se concentraram em São Paulo. originariamente irrelevante. Periodizações efetuadas conforme rupturas refletem um pensamento comparatista-estático. De outro lado também chamo São Paulo a região e o estado inteiro. Denomina-se Região Metropolitana de São Paulo (Grande São Paulo) o espaço de aglomeração com seus aproximadamente 16 milhões de habitantes (Cf. O espaço nacional foi estruturado e hierarquizado a partir de São Paulo. Foi um território cuja fronteira adquiriu importância apenas aos poucos. A última década do antigo poder sobre o espaço. os anos 20 e o período de 1973 a 1982. com seus quase 10 milhões de habitantes. Trata-se de uma cidade cujo crescimento vertiginoso no séc. Juntamente com a crise da antiga forma de acumulação e regulação. orientar-me-ei também nesse capítulo pela teoria da regulação.

seade.br ).898 (1980) a R$ 5.657 (1992). 86 . A renda anual per capita caiu de R$ 6.292 (1997) (www. O estado respondeu por um terço do Produto Nacional. XX. atingindo assim quase o PIB argentino e ultrapassando o de qualquer outro país sulamericano.86 diferentes constelações de poder sobre o espaço. XX a região ultrapassava a cidade em importância e essa relação de dependência se inverteu no curso do séc. para mais tarde aumentar para R$ 6. seu PIB ultrapassou em 1997 o limiar dos R$ 211 bilhões.gov. XIX para o séc. sendo que até a virada do séc.

1554 – 1998 Sistema regional de produção * subsistência * saques Trabalho Relações de concorrência * posição periférica na colônia portuguesa * dominância do capital cafeeiro orientado para o exterior * mercado local Estado ampliado regional * Bandeirantes * estamentos Estado ampliado local * Bandeirantes 1554 – 1850 cidade pré-capitalista 1850 – 1914 da capital do café à cidade industrial * trabalho para fins de sobrevivência * expedições para saques * escravismo * germes de um sistema * transição para o trabalho de produção local assalariado.87 Tabela 19: Sinopse dos modos paulistanos de desenvolvimento. baseado na * plantação cafeeira imigração * início da acumulação * reduzidas inovações no dominantemente extensiva processo de trabalho 1914 – 1974 centro econômico do Brasil * ”política dos governadores” * fomento da produção de café * política regional de localização * complementação da * mercado de trabalho * dominância do capital * subordinação política ao estrutura produtiva em corporativista.e recentralização * alianças locais para o crescimento * embelezamento da cidade * ampliação da infraestrutura * controle da classe operária * municipalização da infraestrutura * aliança para o crescimento * hierarquização do espaço urbano * democratização do Estado local * modelo liberal de Estado a partir de 1974 A metrópole necessita de uma região mundial Fonte: adaptação do autor 87 . industrial orientado para a estado-nação e à cidade de nível regional nacionalmente estruturado economia doméstica São Paulo *empresas industriais * intensificação da * monopólios ou * acumulação produção oligopólios nacionalmente dominantemente intensiva determinantes * metrópole dos serviços (financeiros) * crise da indústria * elementos de acumulação intensiva e extensiva * mercado de trabalho competitivo com germes de um corporativismo local * dominância do capital internacional e do capital financeiro * abertura para o mercado mundial e centralização desconcentrada * democratização do Estado regional * des.

1 História dos campos regionais do poder Gráfico 8: Estado de São Paulo. Embora a capitania distasse apenas 70 km do porto. As cinzas serviam como húmus para o cultivo de um grande número de frutas e hortaliças.3. localidades centrais e regiões vicinais Fonte: Novy 1997b: 261. cinqüenta anos mais tarde 12. partindo da cidade portuária de São Vicente. pois a agricultura só podia ser desenvolvida com dificuldade na costa íngreme. 3 Habitantes da cidade de São Paulo. . Momsen 1974: 40). o cultivo da cana-de-açúcar não era nem aproximadamente tão produtivo como no Nordeste do país. Cada pessoa ou família precisava cuidar da produção dos seus alimentos. Na região de São Paulo. A economia de subsistência. Mas já em 1554 ocorreram as primeiras fundações de localidades no hinterland da Capitania de São Vicente.). Habitantes do Estado de São Paulo.1 São Paulo pré-capitalista (1554 -1850) A costa de São Paulo formou a fronteira sul da colonização portuguesa. Os colonizadores portugueses agarraram-se ”como caranguejos à costa” (PMSP et al.Os primeiros paulistas2 e paulistanos3 produziam seus próprios objetos de uso. com exceção da exportação de trigo no séc. a pequena colônia jesuítica de São Paulo ficaram em larga escala isoladas durante muitos séculos. que seguia o modo indígena de produção. baseava-se na pecuária e na agricultura. 3. Uma parte da floresta subtropical úmida era derrubada e preparada para a agricultura mediante queimada. que se concentrou ao redor da região equatorial do Nordeste. os extensos e interessantes relatos de viagem de Lévi-Strauss (1996: 80 e 102 ss. pois o espaço de entrelaçamento transatlântico privilegiou a colonização da costa. conseqüentemente.1. em nível de subsistência.000 (Henshall. Depois de exaurido o 1 2 Cf.000 cristãos. o caminho era penoso: precisava-se vencer a serra íngreme para chegar à planície ondulada a 750 m acima do nível do mar. Por isso a região e. e viviam. XVII. 1992: 13)1. Em 1600 havia 6.

nas quais objetivos missionários e estratégias racionais de colonização no longo prazo estavam acima da busca do lucro no curto prazo. a língua portuguesa acabou por prevalecer (Holanda 1989: 96). Denominava-se bandeirantes os grupos organizados que avançavam rumo ao interior para capturar mãode-obra indígena. obtido mediante pressão maciça de muitos lados. Alguns grupos mantinham também animais domésticos. O fechamento das reduções indígenas em 1767. desmatava-se um novo pedaço e o velho campo podia recompor-se. Quão retirados viviam os paulistas. abriu aos bandeirantes grandes áreas novas para as suas expedições saqueadoras e criou assim a primeira riqueza em São Paulo (PMSP et al. no fato de que a linguagem do cotidiano era o tupi. na sua maioria índios (PMSP et al 1992: 16). pois Portugal sempre tentara impedir o surgimento de uma sociedade urbano-burguesa independente e. foram construídos os primeiros canais. Pouco a pouco a vila se transformou em cidade. Como São Paulo não podia prestar uma contribuição à economia mercantil de Portugal. Pela sua presença física constante na economia local. Isso ocorreu com atraso.89 solo. A disciplina substituía a escravidão. mas o sistema de abastecimento local transformou-se radicalmente com a introdução do transporte ferroviário (Dias 1995: 30. Havia uma clara divisão do trabalho fundada no gênero. Mas os paulistas se especializaram cedo na captura de escravos indígenas que eram vendidos às plantações açucareiras do Nordeste. o que levou a progressiva colonização do interior do Brasil. pois estes tinham criado no vizinho Paraguai grandes missões. que só nos fins do século XVIII. portanto. a casa que ligou a essa paisagem não foi a grande e estável. o casebre quase de cigano.). a região só estava inserida fracamente em processos supraregionais (Fernandes 1987: 119). Uma vez enriquecidos. de pedra e cal. as mulheres pela agricultura de subsistência. mesmo aquelas comunidades que aparentemente tiveram um desenvolvimento autônomo nessa etapa da colonização. 244). deveram sua existência indiretamente ao êxito da economia açucareira” (Furtado 1975: 42).). Havia um conselho municipal. análogo ao sistema administrativo de Portugal . ‘isto he’ – explica Casal – ‘de terra’ e ‘branqueada com tabatinga’. que exigiam melhorias da infraestrutura urbana (PMSP et al. as assim chamadas reduções. feita em São Paulo. assumissem os seus costumes e criassem uma cultura mestiça. elas ocupavam uma posição especial. ganhando assim pela primeira vez importância como colônia. Surgiram ainda teatros e diversas associações. de forma especial na cultura indígena.). Ao lado da agricultura os moradores asseguravam a sua subsistência por meio da caça. por exemplo. absolutamente disciplinadas. Com a economia mineradora em Minas Gerais a inserção de São Paulo na economia colonial sofreu uma 4 Eram ”colônias excelentes. a de São Paulo ainda mais tarde. 89 . É evidente que os paulistas se envolveram em pesados conflitos com os seus pais-fundadores. Estavam também em contato permanente com os escravos e se integravam. No decorrer do séc. sobretudo urbana. potencialmente oposicionista. mas a palhoça quase de caboclo. Essa rede fluvial desempenhou um papel decisivo na integração do hinterland (Furtado 1975: 41 s. Os sacerdotes ou funcionários da administração vindos de fora muitas vezes se viam obrigados a recorrer a um intérprete para comunicar-se com os moradores do lugar. Mas embora os portugueses se mesclassem séculos a fio com os aborígines. Um segundo elemento importante de uma sociedade urbano-burguesa em vias de formação foram a partir de meados do século os primeiros jornais. ”O Paulista. Egler 1992: 60). no séc. ocorreu uma modernização político-cultural. evidencia-se. 1992: 38). Ainda na época da Independência. saquear e capturar escravos fugidos. “Portanto. os jesuítas.inicialmente para 80 moradores.” (Freyre 1951<1936>: 158). A partir de 1674 a descoberta de ouro em Minas Gerais deu início ao próximo surto de desenvolvimento. XVIII a população cresceu de 2.000. Entre 1777 e 1819 São Paulo era a quarta maior cidade do Brasil. 1992: 26 s. época de relativa sedentariedade para aqueles nômades se europeizaria na habitação urbana de taipa. 1992: 38). esses bandeirantes muitas vezes não retornavam mais a São Paulo. Muitas delas trabalhavam como vendedoras de rua. figura que dramatizou como nenhuma a paisagem sertaneja dos primeiros dois séculos de colonização. fontes públicas e calçadas. não em último lugar.4 Assim as missões localizadas na fronteira com a América Espanhola cedo se viram ameaçadas pelo lado dos paulistas e pelo lado argentino. Foi fundada em São Paulo em 1827 a Academia de Direito no Largo de São Francisco (PMSP et al. Em 1560 São Paulo foi elevada oficialmente à categoria de vila. o mucambo quase de negro. São Paulo servia-lhes de base para as suas ações. não o português (Holanda 1989: 88 ss. A urbanização do Brasil começou muito tardiamente. Depois da proclamação da monarquia. imprimindo-lhe traços profundos de sua ação criadora. iniciando-se um processo de valorização do solo urbano que expulsou do centro as mulheres pobres que outrora tinham definido o perfil da cidade (Dias 1995: 242). Ao lado da subsistência os paulistas viviam da economia baseada em expecições de saques. 40% das moradoras eram mulheres que viviam sozinhas. XIX ela perdeu essa posição com a ascensão de Belém (Morse 1971: 5a). por conseguinte. em 1822. nas quais a perfeição humana efetivamente foi atingida” (Foucault 1994: 19). da pesca e da coleta de frutas. na direção do interior (Becker. Os homens respondiam pelas expedições de saque para o hinterland.500 para 8. As expedições de saque eram facilitadas por uma densa rede fluvial cujas águas fluíam para o Norte.

a mão-de-obra e as mulas . mas guardava a sua estrutura. Criou-se. As terras eram simplesmente ocupadas e utilizadas para a produção. essas terras eram consideradas propriedade do Estado. Nessa região espacialmente restrita surgiu o capitalismo brasileiro moderno. a acumulação se deu de forma espacialmente extensiva: ”diante deles a terra virgem. Das vinte ferrovias de São Paulo. A população escrava aumentou na região entre 1813 e 1836 com o dobro da rapidez do aumento da população livre (Smith 1990: 294). O Estado institucionalizou o mercado fundiário em São Paulo. dispersa e em região montanhosa. reunidos em São Paulo e vendidos aos comerciantes da região mineira. XIX. A produção cafeeira do Brasil aumentou de 0. Por volta do fim do século o mercado fundiário experimentou um surto. XVIII ocorreu na região oeste em São Paulo também o cultivo crescente da cana de açúcar. vendendo ou transferindo essas terras aos produtores . 1988: 11) 90 . XIX cada vez mais profundamente no Estado de São Paulo. depois de café. Egler 1992: 33). pois o sistema das sesmarias tinha entrado em colapso. XVIII do Rio de Janeiro.do gigantesco hinterland brasileiro. Essa população relativamente numerosa encontrará espaço para expandir-se dentro de um regime de subsistência e virá a constituir um dos principais núcleos demográficos do país.duas premissas centrais da produção organizada . Dessa forma.com base no novo Lei de Terras.6 milhões de sacas na década de 1860 e a 7. Para o transporte dessa colheita de café a ferrovia foi concluída em 1867 a ferrovia de Santos para Jundiaí. A perda maior foi para aqueles que haviam invertido grandes capitais em escravos e viam a rentabilidade destes baixar dia a dia. assim. Estes se desvencilharam dos moradores dessas regiões em lutas freqüentemente sangrentas (Silva 1986: 64). a 2.90 transformação.). Quando as principais regiões produtoras finalmente atingiram o noroeste do Estado de São Paulo. o café produzido nessa zona não era mais embarcado no porto do Rio de Janeiro. decaindo os núcleos urbanos e dispersandose grande parte de seus elementos numa economia de subsistência. Os campos que não mais podiam ser utilizados para o cultivo do café serviram crescentemente à plantação de gêneros alimentícios (Cano 1998a: 73 s. novo produto de exportação. ocorrendo um aumento maciço dos preços da terra. a grande distância por terra que deviam percorrer todas as mercadorias importadas. “Dessa forma. uma região cujo povoamento se fizera dentro de um sistema de alta produtividade. não eram proprietários de direito. Como os índios e os pequenos agricultores não dispunham de títulos de propriedade. na década de 1820. duas eram em 1910 de propriedade da União.que defendia até certo ponto sua rentabilidade conservando uma produção relativamente elevada . Ao contrário do que ocorria no caso da economia açucareira . e em que a mão-de-obra fora um fator extremamente escasso. a expansão democráfica se prolongará num processo de atrofiamento da economia monetária. Depois de 1850 o Estado era . Muitos dos antigos empresários transformavam-se em simples faiscadores e com o tempo revertiam à simples economia de subsistência. uma de propriedade estadual. Muito pelo contrário.3 milhões de sacas por ano.na mineração a rentabilidade tendia a zero e a desagregação das empresas produtivas era total. Essa produção organizada tornava necessária a maior utilização de mão-de-obra. que o colapso da produção de ouro criasse fricções sociais de maior vulto. atrás deles os campos exauridos” (Lévi-Strauss 1996: 84 s. Através do Vale do Paraíba o café começou a expandir-se no séc.). O sistema se descapitalizava lentamente.2 milhões de sacas por ano na década de 1890 (Silva 1986: 43).Uns poucos decênios foi o suficiente para que se desarticulasse toda a economia da mineração. a necessidade de vencer grandes caminhadas em região montanhosa para alcançar os locais de trabalho.). involuiu numa massa de população totalmente desarticulada. No curso das vertiginosas ampliações da produção foram ocupadas regiões sempre novas. no interior (Becker. trabalhando com baixíssima produtividade numa agricultura de subsistência” (Furtado 1975: 85 s. como no da economia pecuária do Nordeste. mas em Santos. A produção local atingiu seu ápice entre 1836/37 e 1846/47. no caso brasileiro. ”A existência do regime de trabalho escravo impediu.). a primeira fase da expansão cafeeira se realiza com base num aproveitamento de recursos preexistentes e subutilizados” (Furtado 1975: 114).responsável pela venda de ”terras devolutas” . al. O café. Desde o fim do séc. A tropa de mulas constitui autêntica infra-estrutura de todo o sistema. uma de propriedade do capital estrangeiro e as dezesseis restantes de propriedade do empresariado nacional (Cano 1998a: 63). A economia cafeeira partiu no séc. ”Localizada a grande distância do litoral. levou a uma nova inserção da região na economia mundial. a população mineira dependia para tudo de um complexo sistema de transporte. A quase inexistência de abastecimento local de alimentos. mas a importação de escravos também foi aumentada. condicionados pela especulação (Negri et.existiam em quantidade suficiente. Os animais de carga eram criados no Sul. espalhados por uma vasta região em que eram difíceis as comunidades e isolando-se os pequenos grupos uns dos outros. Na década de 1880 a produção paulista começou a superar a fluminense (Silva 1986: 43).inicialmente de cana de açúcar. Neste caso. Em parte essas pessoas vieram da produção de subsistência. o porto de São Paulo. um grande mercado para animais de carga” (Furtado 1975: 76 s. Quando o espaço e o poder se reestruturaram no séc. tudo contribuía para que o sistema de transporte desempenhasse um papel básico no funcionamento da economia.

comercialização nos portos. mudaram lentamente. que a indústria paulistana atingiu uma diversificação e integração locais como nenhuma outra região: já nos anos 20 investia-se em São Paulo.6%. organização e direção da produção. associaram-se à camada dirigente tradicional. ao proclamar-se a República.000 (Negri et al. uma grande vantagem para os dirigentes da economia cafeeira. destruiu a antiga infraestrutura de transportes. os barões do café diversificaram cedo os seus negócios (cf. mas aumentou até 1940 para 18. Essa dinâmica foi deslanchada por fatores externos. As técnicas de produção.). sobretudo no Oeste dinâmico de São Paulo. além do setor da indústria de bens de consumo. baseada no grande excedente a ser gerado nelas. evidentemente. Seu pressuposto foi a consolidação da rede ferroviária e fluvial. A estrutura empresarial foi desde o princípio ainda mais concentrada do que nas outras regiões.000 paulistanos. a transformações fundamentais (Fernandes 1987: 87).5% das empresas industriais ocuparam em 1919 64. 3. Desde cedo eles compreenderam a enorme importância que podia ter o governo como instrumento de ação econômica. A ferrovia revolucionou o uso do espaço.). em ramos como a produção de cimento. controlado pelo capital internacional.). O capital cafeeiro desenvolveu uma dinâmica que não o limitava apenas à geração de mais-valia na produção cafeeira.000 (PMSP et al. em 1919 em 32% e em 1939 em 41% (Negri et al. Imigrantes proprietários de grandes capitais . a indústria paulistana inicialmente não foi excelente. de um sistema regional de produção. contatos oficiais. Isso providenciou. mas São Paulo e sobretudo a importante indústria de gêneros alimentícios lideravam no tocante à concentração do capital e às margens de lucro.1914) A economia cafeeira dinamizou a formação de cidades e assentamentos que serviam de ponto de partida para o avanço posterior em direção ao Oeste. Em 1907 a participação de São Paulo na produção industrial nacional cifrou-se em 16%. Essas maciças transformações demográficas só foram possíveis com base na formação de um regime antes inexistente de acumulação dominantemente extensiva e de uma regulação estabilizadora. latifundiários. As novas máquinas permitiram uma ecomomia aproximada de 10% do preço final (Cano 1998a: 42 ss. A proximidade da capital do país constituía.). Em 1929 já existiam 245 municípios (Bizelli 1995: 38 s. produtividade e intensidade do capital.2 Da capital do café à cidade industrial (1850 . Esse número aumentou em 1890 para 65. Por ocasião do primeiro censo da população em 1872 foram contados 32. diminuiu os custos de produção na razão de 20% do preço de exportação e reduziu os rejeitos por meio de um armazenamento mais breve. O governo central estava submetido a interesses demasiadamente heterogêneos para responder com a necessária prontidão e eficiência aos chamados dos interesses locais” (Furtado 1975.2 trabalhadores por empresa (Herrlein. Em 1910 7 dos 14 bancos de São Paulo eram de propriedade estrangeira. possibilitado pela expansão da rede ferroviária. reduziu os tempos de transporte. recrutamento de mão-de-obra. banqueiros. que inicialmente ganhavam a vida no comércio importador. 1990: 33: Seade 1993: 30). 1988: 6). 1988: 7).91 3. As cidades. De acordo com critérios como nível salarial. Em 1920. o crescimento foi atingido mediante a inclusão de novos grupos populacionais. substituía os intermediários e estava bem desenvolvido no plano local. 115 s. Essa tendência à subordinação do instrumento político aos interesses de um grupo econômico alcançará sua plenitude com a conquista da autonomia estadual. Ele investia no sistema ferroviário e de comunicações e financiava o comércio exterior (Pereira 1996: 230). Quando por volta do fim do século . ”A nova classe formou-se numa luta que se estende em uma frente ampla: aquisição de terras. do sistema bancário e do comércio.forçado por 91 . o que favoreceu a acumulação (Cano 1998a: 131). O regime de acumulação foi extensivo. o fundamento da urbanização. Dias 1996: 146). Os capitais comercial e financeiro influiram muito nesse processo produtivo. tornaram-se centros nos quais se comercializava tanto café quanto as mercadorias importadas (Aguerre 1995: 109). O capital cafeeiro economicamente poderoso buscava vias para adquirir também o controle da regulação política das suas atividades econômicas. À diferença dos latifundiários em outras regiões do país. Fernandes 1987: 104-113). sobretudo pela demanda do mercado mundial pelo café. De decisiva importância para a conquista da posição de supremacia nacional foi. O horizonte temporal da valorização do capital era de longo prazo. Ao lado das suas funções econômicas. Uma fração de capital crescentemente dominante em escala nacional constituiu-se ao redor das plantações. 1992: 45) e em 1920 para 580. essa camada dirigente também desempenhava papéis centrais na política. a parcela da população da cidade de São Paulo no total de habitantes do estado era baixa com 12. interferência na política financeira e econômica. transporte interno. detinham 70% dos ativos e concediam 70% dos créditos (Cano 1998a: 85). o processamento de metais e aparelhos elétricos (Almeida 1996: 137 s. o sistema bancário.1. à frente de todas elas São Paulo. O crescimento vertiginoso da população na virada do século andou de mãos dadas com a formação de uma estrutura econômica local independente. determinadas em larga escala por máquinas importadas.5% (Rolnik et al. Mas esse impulso induzido pelo mercado mundial conduziu também internamente. A unidade produtiva central do regime de acumulação orientado para o exterior foi a plantação de café. Os cafeicultores foram sócios das primeiras fábricas. no mercado interno. A produção era espacialmente extensiva. ademais. industriais e comerciantes (Cano 1998b: 49).4% dos trabalhadores com uma dimensão média de 368.

à frente de todos o Estado de Minas Gerais. São Paulo beneficiou-se especialmente da descentralização da arrecadação dos impostos sobre a exportação (7% do valor da exportação). a de feijão a 331. razão pela qual a participação de São Paulo na arrecadação tributária de todos os estados subiu de 29% (1901-1910) a 36% (1921-30).000 japoneses concentraram se como agricultores independentes no cultivo de plantas não-cafeeiras.09 7. sobretudo os aprox. A participação da arrecadação tributária encolheu correspondentemente (Carvalho 1996: 205). a de arroz a 689 e a de café apenas a 192. esse foi também um sistema que permitiu estabilizar o poder político da oligarquia agrária. sobretudo os referentes ao café. Mais tarde do que no Rio Grande do Sul.00 1.01 16.Outros Impostos Indiretos IMPOSTOS DIRETOS .6 O endividamento de São Paulo respondia por mais da metade da dívida externa de todas as unidades federativas do Brasil (Carvalho 1996: 191: Cano 1998a: 94).15 5. 85.01 21. a produção local . Impostos diretos.74 5.93 97. A 1ª Guerra Mundial jogou a estratégia de desenvolvimento orientada para o exterior em uma séria crise e deu um impulso adicional aos esforços locais de produção. os orçamentos estaduais da República Velha foram.73 48.25 0. sempre deficitários.22 23. A partir da virada do século foram importados crescentemente bens de produção (Cano 1998a: 66-75).54 45. O estado paulista procurou incentivar a acumulação local por meio do fomento da imigração.35 10.02 0. a estrutura da arrecadação deslocou-se também em São Paulo cada vez mais da arrecadação tributária na direção de receitas de empresas transferidas para o patrimônio público estadual (ferrovias.13 34. Isso exigiu um Estado crescentemente ativo.69 92.22 1.14 94. o imposto sobre exportações estava sujeito a oscilações maciças.sobre o capital e rendimentos Subtotal 5 Tavares (1983: 38-41) restringe o conceito da substituição de importações ao período depois de 1930. que agora era canalizada diretamente para o erário estadual.36 64.90 25.91 10.os preços de importação aumentaram. 92 .). Porém a industrialização substituidora de importações5 não reduziu a dependência de importações.60 89.59 34. embora isso fosse mais difícil do que nos bens de consumo.passou a ser uma alternativa rentável (Silva 1986: 99 ss. Não tardou que a dinâmica da acumulação conduzisse também no setor dos bens de produção a processos de substituição. água. quando o capital industrial adquiriu um peso decisivo. para 48% (1929). Tabela 20).96 8.567 58. De 1901/06 a 1925/30 a produção média de açúcar subiu do valor-índice de 100 a 328.47 9.99 20.92 75.sobre a propriedade . Tabela 20: Participação percentual das categorias Impostos Indiretos e Impostos Diretos e de seus subgrupos no total da Receita dos Impostos do Estado de São Paulo.industrial e de gêneros alimentícios .92 elevadas taxas alfandegárias e pela protecionista Lei dos Similares (Cano 1998a: 164) . Depois do fim do Império o Partido Republicano de São Paulo detinha no plano estadual em larga escala um monopólio de representação. da regulação do mercado fundiário e da estabilização do mercado de café. em números redondos. Juntamente com os partidos republicanos dos outros grandes estados.26 0. mais precisamente como regime extensivo que introduziu princípios capitalistas em setores outrora não-capitalistas.24 69. No processamento de metais os bens de produção perfaziam em 1919 34% da produção global paulistana.10 20.17 33. A homogeneidade do capital e a hegemonia regional do capital cafeeiro facilitou também uma atuação unitária do Estado. A produção agrícola em vias de diversificação reduziu a demanda de importação de gêneros alimentícios.77 68.Ligados ao consumo .16 19. sobre o patrimônio bem como sobre o capital e as rendas aumentaram nesse período de 20 a 34% (cf. no entanto.34 70. onde o imposto territorial cedo cumpriu uma função central.06 44. Em todos os estados. isto é. canais).66 4. devido às exigências de tamanho e da tecnologia mais complexa. Isso significou sobretudo para os estados em boas condições financeiras um fortalecimento econômico e a possibilidade de um desenvolvimento local independente.Ligados às exportações . com exceção do Rio Grande do Sul. foi possível impor os interesses paulistanos. mas alterou apenas a estrutura das mesmas. Os outros se viram obrigados a subordinar-se às estratégias de Minas Gerais e São Paulo. Tais receitas industriais perfaziam em 1893 1% de todas as receitas e 22% em 1929.44 IMPOSTOS INDIRETOS . A estrutura da arrecadação tributária favorecia as regiões orientadas para a exportação.85 97. No âmbito dos impostos reduziu-se a dominância dos impostos indiretos. 6 Como. Começou a industrialização substituidora de importações. Esse valor subiu até 1928 a 38% e quase duplicou nos anos 30 (Cano 1998a: 207). com exceção de seis anos.87 1. 1893 – 1929 1893 1905 1914 1923 1929 77.00 5. Sobretudo os impostos de exportação caíram de 71% (1893).

Mas em virtude do grande crescimento foram feitos mesmo assim investimentos na infraestrutura produtiva.00 As receitas tributárias serviam sobretudo à política para fortalecer a localização. embora ocorresse. a Firestone.). a segregação das classes sociais não carecia de expressão espacial. a presença de escravos era insubstituível para a qualidade de vida da camada superior. sobretudo das cidades de São Paulo. a GM. O conflito central da época dizia respeito ao uso da terra na cidade. 11 das 79 maiores empresas eram controladas por grupos estrangeiros e detinham 17% do capital (Cano 1998a: 241). A economia do café manteve a economia paulista orientada para o exterior. A economia cafeeira exigia investimentos que só produziam resultados depois de alguns anos.2 milhões de pessoas e a infraestrutura social. Uma transformação duradoura desse período caracterizado por uma grande autonomia do município foi o surgimento de um sistema administrativo municipal (PMSP et al. a construção das primeiras pequenas siderúrgicas e fábricas de cimento (Mello 1998: 176 s. o crescimento vertiginoso se deu de forma desordenada e conduziu a uma mistura de bairros comerciais. o capital estatal era aqui menos necessário do que em outros estados da federação.00 10. assim sobretudo a rede elétrica local construída por uma empresa multinacional constituiu uma vantagem concorrencial para a indústria paulistana (Cano 1998a: 206 e 221 s. devido à deficiente infraestrutura de transportes. Celso Furtado explica a ascensão de São Paulo à posição de metrópole nacional a partir da formação de um mercado local que no caso concreto não se baseava apenas no consumo de luxo da camada superior. Nesse setor os gastos aumentaram em 10% ao ano. a integração nacional dos mercados existia apenas germinalmente. Muito pelo contrário. a concentração patrimonial. isto é. mecânica e materiais de transporte a indústria de São Paulo concentrava mais de 50% do valor agregado (Cano 1998a: 258). ao fomento do desenvolvimento econômico. Apesar disso o significado dos investimentos na infraestrutura social diminuiu continuamente nos anos subseqüentes.56 100. Por isso o âmbito das tarefas do Estado pôde ser estendida relativamente cedo a outras atividades. a com o Brasil restante negativa (Cano 1998a: 94). mas também mercados abertos surgiram nas primeiras décadas do séc. em comparação com os investimentos no transporte ferroviário e marítimo (Pereira 1996: 238). No âmbito estadual o processo de eliminação de pequenas empresas do mercado já começou cedo. A balança comercial de São Paulo com o exterior foi nitidamente positiva. Linhas de bondes. Somente a indústria produtora de bens de capital não conseguiu acompanhar essa expansão. que trabalhavam com tecnologias mais complexas.40 100. como a Rhodia.). a Unilever. química. A classe trabalhadora foi expulsa dos bairros próximos ao centro e recebeu espaço habitacional na periferia da cidade (cf. seus excedentes foram transferidos para a economia local. a Pirelli. a Ford. Ficou sendo mais atraente para os importadores produzir ao invés de importar. 93 . Mas em uma sociedade de trabalhadores assalariados livres o desejo de segregação espacial aumentou nitidamente por parte da burguesia. Com base nos argumentos dos urbanistas.00 7. A camada superior buscava uma hierarquização do espaço com uma clara estrutura local de centro e periferia. Os primeiros prefeitos ocuparam-se mais em embelezar e europeizar São Paulo do que em encontrar uma resposta ao crescimento rápido. De início. alamedas. em números redondos (Pereira 1996: 217 s. também fomentava a formação de monopólios regionais (Cano 1998a: 215 s. tais como o fomento da imigração de 1.). a Nestlé e a Kodak começaram a fundar filiais em São Paulo (Cano 1997: 245).07 100. a Philips. De início.93 Outros tributos Receita dos Impostos Fonte: Carvalho 1996: 206 2.00 2. Santos e Campinas. Como o capital privado investia em projetos estratégicos de infraestrutura para a economia. os produtos foram comercializados crescentemente também no mercado nacional. Novy 1994: 206-208). não obstante. Em setores tão importantes como materiais elétricos. industriais e residenciais. mas levava a investimentos em atividades produtivas (Furtado 1975: 123). Demais. O conflito urbano transformou-se essencialmente em um conflito sobre o modo de uso privado e público da cidade e a forma da intervenção do planejamento do Estado no nível local. Já nos anos 20 empresas internacionais modernas. XX. o que estabilizava todo o sistema em virtude do longo prazo dos compromissos assumidos pelos sujeitos econômicos.). a GE. pois elas não estavam em condições de acompanhar as reduções de preços típicas para a acumulação intensiva (Cano 1998a: 231). 1992: 46-50). Mas com a crise depois de 1929 essa situação se reverteu em pouco tempo. de modo que São Paulo gerou superávits inequívocos no comércio interno (Cano 1998a: 129). chamava-se a atenção à situação sanitária e higiênica deficiente nos cortiços dos bairros operários e lamentava-se a corrupção dos costumes nesses bairros ”perigosos”. O cultivo de plantas para gêneros alimentícios e a produção industrial serviram ao fornecimento para o mercado local. Em uma economia escravista.00 5. Depois da concorrência estrangeira desaparecer na esteira de 1929. os gastos estavam concentrados fortemente no setor de canalização. historicamente surgida.31 100.86 100.

nas quais no início do séc. Os conflitos sociais urbanos puderam acirrar-se a tal ponto porque as estruturas desiguais e arcaicas no interior fomentavam o êxodo rural. seu nível salarial era menos claramente inferior ao dos homens do que em outros estados (Cano 1998a: 142). a participação dos escravos aumentou entre 1836 e 1886 em virtude da grande demanda de mão-de-obra de 4. de início executada por escravos. os custos salariais no Rio Grande do Sul eram 10. Eram estrangeiros e por conseguinte não se interessavam por terras. organizava os trabalhadores. de 15. que ocorreram na esteira de perdas salariais maciças (Herrlein. XIX a imigração de não-africanos. 94 . em 1919 essa fração ainda foi de 54. aumentando a migração interna. Aqui o emprego crescente de mulheres desempenhou um papel importante no achatamento do nível salarial global. tentaram também salvar os seus bairros residenciais da ameaça de demolição. chegando a 30.3 A capital econômica do Brasil (1914 . Diferentemente dos barões do café fixados no status.1974) A região constituiu-se crescentemente como espaço integrado de poder dotado de identidade própria. Com a lei dos ”dois terços” que previa que dois terços dos funcionários devessem ser brasileiros. impediam aumentos salariais. crescentemente orientado segundo o dinheiro. Seu centro era indubitavelmente a cidade de São Paulo. A rígida Lei de Terras e a concentração da propriedade das terras impediram o surgimento de uma agricultura minifundiária. As práticas muito repressivas. Em 1901 estimava-se que 90% dos trabalhadores do Estado de São Paulo eram estrangeiros (Silva 1986: 38 e 92). Apesar desse papel sócio-culturalmente progressista. sobretudo nas grandes empresas. por conseguinte. O número de imigrantes europeus que entram nesse Estado sobe de 13 mil. Seu estilo de vida. Na costa a participação dos escravos na população total caiu. a acumulação foi assegurada mediante a extensão da produção com um maior número de assalariados e.6% a 2.7%. A produção em vias de expansão exigia o aproveitamento pragmático de toda e qualquer forma possível de produção (Cano 1998a: 51).1% a 25. Como transformavam conscientemente trabalho em dinheiro.5% da população não tinha emprego fixo em 1919 um índice quase duas vezes tão grande quanto o do Rio Grande do Sul (Herrlein. O índice de participação das mulheres foi elevado.8% (Herrlein 1996: 158). O movimento sindicalista de orientação anarquista. Em São Paulo. A ameaça do fim da escravatura fez explodir a imigração européia. no Leste e no Vale do Paraíba de 31. Targa 1996a: 69). uma boa parte dos imigrantes estava interessada na ascensão social. sendo 577 mil provenientes da Itália” (Furtado 1975: 128. para 184 mil no decênio seguinte e 609 mil no último decênio do século.1.4%. com um aumento da mais-valia absoluta. Serviu de estágio prévio da formação de um mercado de trabalho o fomento da imigração ”que tornaria possível a expansão da produção cafeeira no Estado de São Paulo. eles se adaptaram politicamente ao status quo. mas pelo acúmulo de um pequeno patrimônio.). possibilitou a lenta e controlada transição ao trabalho assalariado ”livre”.1% mais elevados (Herrlein 1996: 155). O processo de urbanização aumentou genericamente a possibilidade do trabalho informal e criou um espaço social aproveitado sobretudo pelas mulheres para a sua economia cotidiana e para o comércio nas ruas (Dias 1995: 19). no período de 1836 a 1886. Dias 1996: 163). São Paulo tornou-se uma ”região para si” (Lipietz 1998: 157 ss. além disso. Isso relativiza a afirmação freqüente de que São Paulo tenha sido o motor da transição para o trabalho livre assalariado. assumiram um papel de arautos dos processos de modernização e capitalização. independente do Estado. uma produção organizada.3% (Herrlein. Nas áreas de expansão no Oeste e Norte. Em 1920 20% de mulheres trabalhavam como autônomas (Aguerre 1995: 109). Por isso 15. 3. o emprego de mão-de-obra estrangeira tornou-se mais difícil. A partir de meados do séc.8% (Targa 1996a: 71). Ao invés de introduzir novas tecnologias e aumentar a mais-valia relativa com o contingente disponível de mão-de-obra por meio da intensificação da produção. posteriormente pelo governo estadual. XIX praticamente não se plantava café. nos anos setenta. Dias 1996: 151). Mas os trabalhadores não se defendiam apenas contra as más condições de trabalho. Assumiram uma cultura política baseada em privilégios. Mas essa transição ocorreu mais cedo nas antigas áreas de cultivo do que nas regiões dinâmicas. O total para o último quartel do século foi de 803 mil. A transformação econômica e a constância política evoluíram de mãos dadas (Fernandes 1987: 125-146). Dias 1996: 156). os barões do café só tomaram o trem do trabalho assalariado ”progressista” quando não lhes restou mais outra opção. O ponto culminante dos conflitos sociais foram as greves de 1917 e 1918. conseqüentemente. subsidiada pelo governo central. A economia cafeeira baseava-se em grandes plantações e exigia. Isso mostra que a dinâmica regional estava na acumulação extensiva. Sobretudo os italianos encontraram trabalho na indústria e agricultura de São Paulo (Novy 1994: 167). cf.5% para 39.94 A constituição de um mercado de trabalho se fez acompanhar da formação de um mercado fundiário. tinha características de ‘consumo conspícuo’ e convidava à imitação de costumes europeus. Perseguindo uma estratégia de preservação inercial do poder.

com uma queda de mais de 16 a pouco menos de 12%.8 A estrutura nacional de produção se complementou. estagnando depois durante uma década. Quando São Paulo se tornou predominante na economia e o ponto nodal econômico do espaço de entrelaçamento econômico. na qual eram utilizados métodos de produção crescentemente modernos. Tabela A-15 e para 1919: Cano. embora permanecesse na periferia a mais importante fração de capital. Nos anos 70 começou a inversão da polarização (Cano. O comércio. o número de assalariados na indústria de processamento aumentou de 1928 a 1937 de 100. Os governos federal e estadual 7 Um índice anual de crescimento de 5. 10 141 dos 512 bancos tinham a sua sede na capital brasileira de então. 29 dos 90 bancos tinham em 1985 a sua sede em São Paulo.). Além disso. Durante a República Velha.5% a 33.95 Os processos de urbanização e industrialização avançaram vertiginosamente. a rede rodoviária regional abrangia em 1946 6 e em 1968 9. a participação da população urbana na capital do total da população do estado subira continuamente de 18. O regime de acumulação dominantemente intensiva difundiu-se no Brasil a partir de São Paulo. os imóveis e a agroindústria foram os segmentos nos quais as empresas fora do Sudeste se alinhavam entre as maiores empresas nacionais (Cano 1998b: 245 ss. Mas nas décadas seguintes a cidade assistiu a uma forte redução dos bancos autônomos.10 A evolução política do Brasil caracteriza-se por um divórcio do poder político e do poder econômico.000 (Aguerre 1995: 109). do fato da primeira fase de industrialização ter provocado uma concentração urbana. 50% dos quais devidos à afluência de habitantes de outros lugares. Depois de 1930 esse acesso direto de São Paulo ao espaço de poder nacional desapareceu. com uma queda de mais de 16 para menos de 6%.000 habitantes (Caiado 1995: 47). Das 15. A participação das maiores empresas nacionais era claramente menor em São Paulo.3%.18% entre 1950 e 1960 significa que a população aumentou somente nos anos 50 em 65%. A distribuição regional do valor agregado na indústria de processamento mostra a concentração crescente das atividades econômicas em São Paulo. sendo que esse processo foi especialmente doloroso depois de 1930 para o Nordeste já incipientemente industrializado. sobretudo do comércio. isso não resultou na valorização do espaço de poder político. Foi por meio do poder econômico atribuído ao espaço propulsor do processo de industrialização que São Paulo começou a influir na política nacional no seu sentido e destruir a diversidade de outros modos de produção (Ianni 1995: 17). 9 Das 3.070 filiais 6. que superava a das oligarquias cafeeiras. 1989: 25). o que tem a ver com a reduzida participação de empresas estatais (22 das 100 maiores) (Brant et al.).443 empresas estrangeiras no Brasil 2.) 95 . implementando melhorias na estrutura produtiva na direção de processos de produção tecnologicamente mais complexos. Mesmo no campo da sociedade civil se pôde observar um deslocamento para longe do Nordeste. Com seu desenvolvimento dinâmico por volta da virada do século São Paulo construíra o fundamento para assumir em um mercado nacional em vias de integração a posição-chave (Cano 1998b: 242). entre elas todos os grandes bancos privados. A dinâmica do regime local de acumulação resultou também em um desenvolvimento demográfico extremamente dinâmico. XX a unidade central de produção passou a ser a empresa industrial. Essa posição regionalmente dominante derivou. Para o desenvolvimento de um centro nacional e internacional os serviços prestados aos produtores se revestiam de um interesse especial. São Paulo assumiu também qualitativamente o papel de arauto. Neto 1986: 181. Não obstante. De1940 a 1970.9 Em 1941 o Rio de Janeiro ainda era o centro bancário do Brasil.267 quilômetros de estradas asfaltadas (Bizelli 1995: 40). Mas a aparente derrota de São Paulo inverteu-se logo mais em uma supremacia política indireta do capital industrial paulistano. Neto 1986: 181).000 a 157. 8 São Paulo reduziu a sua participação em bens de consumo não-duráveis de 62% (1939) a 37% (1970) e aumentou nesse mesmo período a sua participação nos bens intermediários de 26% a 34% e dos bens de consumo duráveis e dos bens de produção de 12% a 29% (Cano 1998b: 291).7 Durante o séc. já havia em 1970 fora da Região Metropolitana de São Paulo 10 cidades que tinham mais de 100.069 (60%) já tinham em 1978 a sua sede na Região Metropolitana de São Paulo. De 1919 a 1970 o Estado de São Paulo logrou aumentar a sua participação na produção industrial nacional de 32% a 58% (cf. São Paulo recuperou-se rapidamente da crise econômica mundial. a posição nacional e internacional da cidade esteve determinada nessa fase de desenvolvimento orientada para o mercado interno essencialmente pela sua posição no âmbito do estado-nação. O capital comercial estava subordinado. surgiu um pensamento modernizador supraclassista cujo núcleo econômico era a industrialização . No resto do estado estavam sediadas ainda outras 147 empresas (4%).208 estavam localizadas em São Paulo (Correa 1995: 237 s. e para o Sul. Corporificado na Universidade de São Paulo (USP). ocorrendo uma concentração do setor bancário em São Paulo. Com isso o capital industrial de São Paulo determinou a dinâmica da acumulação. O crescimento industrial conduziu a um aumento de determinados serviços. o Partido Republicano de São Paulo dominou o estado e juntamente com Minas Gerais a presidência da república. sendo que a maioria dos ramos centrais estavam localizados na Região Metropolitana de São Paulo.entrementes também propagada no âmbito da camada superior paulistana (Ianni 1995: 20 ss. por um lado. Diniz 1995).

A Câmara dos Vereadores assumiu um papel importante de introduzir os desejos da população no processo político. Surpreendente foi a estagnação dos serviços financeiros em torno de 10% (cf. Chegou-se a uma centralização do controle e da propriedade.sobretudo o café . Em 1960 essa tendência já se invertera: 84% das exportações . Em 1928 a Região Metropolitana de São Paulo ocupava o dobro de assalariados do restante do estado (Negri et al. Em 1974 encerrou-se o ”milagre econômico brasileiro” e o campo nacional de poder sofreu uma erosão a partir do centro. Já nos anos 20 foi dado um passo importante na direção de uma estrutura industrial completa com a instalação da indústria química. Com numerosos grandes projetos em regiões periféricas. Como a base eleitoral dos vereadores quase sempre era localmente restrita. E). As comunidades eclesiais de base foram o lugar privilegiado da resistência contra a ditadura (Novy 1995: 31). Neto 1986: 179 s. A indústria de São Paulo não exportava para outras nações.1. 3. isto é.iam para outras regiões do país e apenas 16% se destinavam para o exterior. Sucediam-se prefeitos que investiam mais na infraestrutura física e outros que preferiam ampliar os serviços de natureza social. A participação da agricultura e da pecuária aumentou fortemente na primeira metade dos anos 80 e acabou naquela época se fixando aos poucos em torno da marca dos 5%. Mas como esse espaço era o centro da economia nacional.96 apoiaram a modernização da infraestrutura de São Paulo. da indústria processadora de metais e da indústria de papel e celulose (Negri et al. A participação das mercadorias industriais nas exportações regionais de São Paulo aumentou continuamente na primeira metade do séc. De início os grupos locais dominantes do Nordeste não estavam interessados nessa integração subordinada na economia nacional. mas conquistou os outros mercados locais da própria nação. Até 1964 foram articulados localmente os problemas sociais e a falta de instalações de infraestrutura por intermédio do processo político.sobretudo produtos industriais . Enquanto o capital paulistano deslocava a sua produção para fora de São Paulo. XX. foi o instrumento essencial para a distribuição de recursos públicos. Cano 1998b: 318. 1992: 72). XX São Paulo se apresentava como uma cidade rica cuja riqueza se mostrava na sua ”enorme coleção de mercadorias” (Marx 1983: 49). cujo centro econômico era São Paulo.). que se tornou assim o centro de um sistema de produção crescentemente integrado no plano nacional. 1998: 13). A partir das iniciativas locais dos pobres surgiram fortes movimentos sociais como o movimento dos sem-terra ou o movimento em prol da saúde (cf. cap. junto ao prefeito para criar nesse bairro fiel uma escola ou creche ou construir um canal ou uma rua. Devido à redução dos custos de transporte e da elevada produtividade da indústria paulistana. A estrutura da produção regional alterou-se nitidamente a partir de 1980. A fase da conquista de outros mercados locais foi seguida pela fase da conquista dos outros capitais locais. em todo o PIB regional os índices oscilaram desde então em torno da marca dos 37% (cf. Depois de 1964 formou-se no seio da igreja católica uma nova sociedade civil. à homogeneização dos processos produtivos e com isso a um processo de valorização nacionalmente unitário. apenas 15% se destinavam para os outros estados brasileiros. Tabela A-14).4 A metrópole necessita de uma região mundial (a partir de 1974) No fim do séc. O clientelismo. A associação organizava o voto de um bairro em um candidato. Entre 1900 e 1910 85% das exportações do Estado de São Paulo . levando numerosas empresas à falência (Cano. Na indústria a participação de São Paulo na geração do valor agregado nacional se estabilizou a partir de 1987 em 42%. Tabela 21). No início do século a indústria de São Paulo orientava-se pelo mercado local. Essa estratégia endógena cedeu a partir dos anos 30 a uma estratégia direcionada para o mercado nacional. o seu trabalho se concentrava em esforços de obter justamente no espaço geográfico da base o maior número possível de melhorias. A integração nacional do Brasil se deu sob a supremacia econômica de São Paulo. Um instrumento refinado de política clientelista foi a criação de SABs (Sociedades de Amigos do Bairros) que passou a atuar ao lado da Sociedade dos Amigos da Cidade. as funções de controle concentravam-se crescentemente em São Paulo. 1988: 66). O processo de acumulação concentrou no espaço mais estreito pessoas e mercadorias. 96 . Uma vez eleito. a política regional brasileira criou um espaço national claramente hierarquizado. A indústria de processamento caiu na razão de quase 7%. esta última passou a destruir a indústria local dos outros estados no curso de uma integração interregional. a crise do desenvolvimento de São Paulo com vistas ao mercado interno também se fez sentir cedo. que tinha sido fundada em 1934 e era uma associação de profissionais liberais e da camada superior (PMSP et al. a título de contrapartida. Novy 1994. No âmbito do estado a cidade de São Paulo assumiu a liderança inconteste na produção industrial. a troca de votos por melhorias locais. O capital paulistano diversificava-se em todo o país. este se empenhava.ainda iam para o exterior. Os interesses paulistanos defenderam a grande concepção de desenvolvimento regional para o Nordeste (Fernandes 1998: 194-196).

5% (1989). a produção de bens de consumo não-duráveis. Com isso o processo de concentração tinha avançado mais na indústria paulistana do que nos países industrializados. 58 dos 100 maiores grupos privados e 430 das 1000 maiores empresas tinham a sua sede em São Paulo.05 10. no ramo do sabão a mesma empresa detinha uma fatia de 62%.689 maiores empresas paulistanas.1%) e da indústria moveleira (de 1. segundo setores. mas embolsavam 40% dos lucros (Oliveira 1998a: 140). nacionais ou estaduais. No setor do processamento de metais (regressão de 13. dos produtos mecânicos (de 8. a indústria mecânica. tradicionalmente fabricados por produtores menores. a saber.7% do produto total regional.11 O centro de poder da ecomomia paulistana era formado por grupos empresariais. Respondiam apenas por 27% da produção das 2.60 36.42 1995 4. O processo de concentração em São Paulo reforçara-se claramente nas maiores empresas privadas. foi possível observar uma centralização da propriedade. O padrão não-unitário de produção regional era perfeitamente compatível com processos concentradores de poder econômico. O ramo dos gêneros alimentícios pôde aumentar a sua participação do produto total regional de 7.82 10.17 28.60 59. 15 paulistanos. 1980-1996. sobretudo a expensas do Rio de Janeiro.4% para 3. foram observadas maciças transformações na estrutura industrial paulistana (cf.37 52.36 1996 4. cuja participação nos lucros de 4. Em 1989 os dois maiores conglomerados eram estatais.44 10. nos quais geravam 60% a 70% do seu faturamento: a indústria de gêneros alimentícios.4%). Mas mesmo em produtos menos complexos. nada menos de 1. pois eram sempre restringidas no seu poder de fixação dos preços e de mercado.3% para 9.6% para 8.44 1990 4.8% (1980) aumentou para 35.0%).5% e em 1989 quase 10% dos lucros (Oliveira 1990: 127 ss.80 10.12 35.85 36. ao passo que o segmento norte-americano regrediu e o alemão permaneceu estável (Oliveira 1998a: 142). Alguns ramos encolheram visivelmente. Além disso havia os monopólios institucionais e naturais nos setores dos serviços públicos e da infraestrutura. pois no âmbito do estado podia-se observar um grande processo de concentração na indústria com referência a estruturas de propriedade. Muito pelo contrário. Em 1993 uma empresa (Unilever) detinha uma fatia de 74% do mercado no ramo do sabão em pó.33 Em 1990.1% do faturamento e ocupavam quase 30% dos assalariados.50 29.60 57. à diferença das empresas privadas.46 1985 5. Unicamp 1998: 10). via de regra vinculados por causa das suas dimensões com o capital financeiro. Dez conglomerados eram internacionais.126 das 2.38 54. As empresas estrangeiras concentravam-se sobretudo em quatro ramos. Isso era compreensível nos mercados de produtos de alta tecnologia como computadores e a indústria de veículos automotores. 12 Nas empresas internacionais ocorreu um deslocamento na direção das empresas japonesas.06 39. das quais dez concentravam em 1980 7.689 maiores empresas. da eletrônica e do material de comunicações (de 9.75 29. evoluiu de forma dinâmica. do Brasil restante não havia grandes conglomerados que atuassem em São Paulo (Oliveira 1998a: 150). ao passo que nas 1000 maiores empresas fora possível constatar um processo de descentralização (cf. em % (números arredondados) Setores e Subsetores de Atividade Econômica Agropecuária Indústria transformação serviços Serviços financeiros Fonte: Unicamp 1998: 5 1980 3.60 37.60 43. 97 .47 58. possuíam em comparação com os 50 conglomerados pouco mais de 15% do patrimônio. Mas os lucros concentravam-se nas grandes empresas.3% para 6. e precisavam também no tocante a outras questões tomar decisões que fossem palatáveis ao bloco de poder enquanto contrários aos princípios da gestão empresarial.70 32. Mas a sua participação nos lucros caiu de 25% (1980) para redondamente 20% (1989).6% 11 As empresas não-organizadas em grandes grupos.13 No entanto.3% para 1%) a evolução também foi regressiva.97 Tabela 21: PIB a Custo de fatores no Estado de São Paulo. Apesar disso não se observou nos anos 80 nenhum deslocamento maior das relações de força entre os conglomerados. As empresas estatais apresentaram déficits crônicos até o seu saneamento antes das privatizações. considerada na sua totalidade.64 10. 13 A participação da indústria têxtil caiu entre 1980 e 1995 de 6. A organização dos mercados era oligopolista.).12 A desindustrialização de São Paulo também não foi nenhum processo unitário. respondiam por 22. Tabelas A-36 e A-37). a indústria química e os materiais de transporte (Oliveira 1998a: 144). no do presunto duas empresas controlavam 68% do mercado (Oliveira 1998a: 138). produzidos em parte crescente no âmbito da agroindústria no interior do estado.

mas o desemprego crescente e a opção das empresas pela transferência das suas unidades produtivas provou um deslocamento cada vez maior do poder para o pólo do capital. O Estado também se fez notar com iniciativas como o programa de combustível de origem biológica Pró-Álcool.64% das operações de créditos do estado foram efetuados em São Paulo.1%. quanto em virtude da Bolsa de Valores e de outros serviços financeiros locais. Durante a industrialização a Região Metropolitana de São Paulo era dominante.quarta maior aglomeração do mundo .br de 30 de julho de 1997). Entre 1988 e 1995 a participação das filiais de bancos na cidade da totalidade das filiais no estado aumentou de 29% a 32. A participação dos depósitos aumentou em 1988 de 54% para 56%.9 (1986) a R$ 18.2% (Souza 1996: 544).34% dos depósitos e 88.2%. estagnou e em 1994 até caiu a participação nas operações de crédito (www. dos bens de consumo duráveis e dos bens de capital.98 para 10. aos seus acionistas majoritários (Souza 1996: 546).14 Depois dos duros anos da ditatura de 1968 a 1974. A participação dos depósitos aumentou de forma ainda mais visível. que pôde aumentar a sua participação de 12. estavam direcionadas desde o começo dos anos 90 para o consenso. Se tomarmos São Paulo como região-cerne. 1990). tinham sofrido mais sob a política centralizadora da ditadura militar. Em 1988 conquistaram novamente competências e autonomia financeira16. Com um índice de filiação de 90%. A participação de São Paulo no setor financeiro. tanto em virtude das empresas paulistanas do setor produtivo.seade. Sobretudo a região do ABC.7%). no qual a Região Metropolitana de São Paulo se concentrava em ramos de alto valor e o interior no setor agroindustrial (Unicamp 1998: 10). Mas nas áreas das funções de controle econômico e dos serviços financeiros a importância da cidade de São Paulo . Sob a ditadura as atividades coletivas transcorriam clandestinamente. Mas no setor da mídia e da cultura o Rio de Janeiro continuou desempenhando um papel central. a dos créditos de 30% a 43%. Os governadores administravam o endividamento crescente ”trocando” a sua anuência a determinados projetos do governo federal contra uma moratória ou repactuações das dívidas. a antiga grande região industrial ao Sul da cidade de São Paulo. era uma das metrópoles internacionais nas quais nenhuma das 500 maiores empresas do mundo tinham a sua sede (Feagin. as políticas regional e local recobraram a sua autonomia.3% (Rolnik et al. Couto 1996: 42). os sindicatos constituíam um fator de poder local.2%. Isso está ligado ao fato de que empresas tão importantes como o Citibank ou o Chase Manhattan transferiram a sua sede. A grande exceção foi aqui a produção de meios de transporte.9% a 13. portanto. valendo o mesmo para a indústria de bebidas e de vinagre (de 1. o ABC tornou-se célebre pelas greves dos metalúrgicos no fim dos anos 70.2% para 3. Isso se deu a expensas dos bens intermediários. do qual 25% precisavam ser repassados aos municípios (Souza 1996: 543). os homens. a renda disponível per capita caiu. constataremos que em 1993 90.2% para 18. Só a igreja oferecia um espaço que não era imediatamente destruído. a industrialização do interior não foi uma simples extensão do espaço de aglomeração da cidade de São Paulo. Durante muito tempo o conflito entre o capital e o trabalho dominou a região. em 1990 somente 3. Com isso os católicos progressistas . mas o estado foi um espaço de aglomeração especializado segundo funções.15 Mas o governo federal encorajou os estados com a reforma fiscal de 1966 a um endividamento maior. Iniciativas autônomas organizaram-se em torno de especificidades temáticas contra o estado ditatorial. A estrutura espacial do estado se transformou.4% para 61. bancário e de securitário aumentou em escala nacional de 13.no topo. Com a democratização. Somente a participação das filiais caiu ligeiramente (cf.1% a 36%. Os municípios aumentaram a sua participação até ligeiramente de 12.aumentou. A cidade era portanto a metrópole financeira inconteste do Brasil. 16 Em 1988. Os bancos estaduais podiam conceder créditos aos estados. Smith 1987: 8). 15 O governo central aumentou a sua participação nas receitas do Estado no período de 1965 a 1974 de 39% para 50. de 60. as mulheres prestaram uma contribuição substancial à resistência dos movimentos sociais. mas as receitas financeiras encolheram em virtude da crise econômica.).17 O imposto mais importante continuou sendo o ICMS.1 bilhões (1994).gov. Ela desenvolveu funções de uma metrópole internacional. Na cidade de São Paulo a estrutura de produção melhorou qualitativamente (Rolnik et al. Tabela A-20).5% para 16.5%. a democracia teve de ser conquistada penosamente. ao passo que os estados se viram obrigados a restringir a sua participação de 48. Por isso as estratégias dos representantes dos trabalhadores.8% e em escala estadual de 54. Isso ficou reservado ao governo estadual. na base. Sobretudo nos anos 80 São Paulo aproveitou a sua margem de ação para promover uma política de descentralização das localizações econômicas (Cano 1998b: 325 s. fossem eles sindicatos ou o PT. Nesse sentido. o que se expressava no aumento da capacidade econômica e da população. Surgiram atores no ABC como o Fórum da 14 Em termos microregionais as atividades se concentravam na cidade de São Paulo. tornou-se um importante espaço de poder no Brasil sem enquadrar-se na estrutura federativa tradicional.5%.). 1990). 17 Nos preços de 1995 as rendas disponíveis se reduziram de R$ 19. Mas não existia praticamente nenhuma grande empresa que não tivesse uma filial ou um escritório em São Paulo. 22% de todos os repasses da União eram negociadas. isto é.5% (Abrucio. Por um lado. Os estados. 98 . isto é. do Rio para São Paulo (Seade 1995a: 63 ss. Em termos regionais o sistema bancário estava concentrado no Estado de São Paulo. espaço intermediário de poder.7% e em 1991 novamente 9.4% para 73. claramente de R$ 694 para R$ 545 (Arretche 1998: Tabela 5). Aqui os grandes conglomerados desempenharam um papel central na ascensão de São Paulo à posição de segundo maior produtor de suco de laranja do mundo.

têxtil e de confecções concentra-se no interior do estado.3%.5% (1970) a 25. mas também agrário do Brasil (Novy 1994: 196 ss. Uberlândia (MG). cidade com 150. na relação entre a capital e o estado. Além disso fomentava maciçamente o cultivo da soja e a produção conexa de azeite. Nele se concentrava o agrobusiness (Oliveira 1998a: 134). a Região Metropolitana de São Paulo também estava liderando (Seade 1998: 101). Em todas essas áreas a concentração da propriedade aumentara vertiginosamente (Oliveira 1998a: 134). 1990: 26). 99 . Minas Gerais e Rio de Janeiro.7% na capital. A indústria de gêneros alimentícios. A política desenvolvida contraarrestava uma estratégia de achatamento dos salários na esteira da argumentação sobre os ”custos de localização do ABC” (Daniel 1996: 141 s.6% e no interior do estado em 12. Porto Alegre e até Montevideo e Buenos Aires. havia empresas de alta tecnologia e desde 1996 uma moderna fábrica de motores da Volkswagen.). Se excluirmos a Região Metropolitana de São Paulo. Com isso o estado não era apenas o centro industrial. mas essa regressão foi aproximativamente compensada por ganhos de participação dos Estados do Rio Grande do Sul. localizada na rodovia São Paulo-Brasília.000 habitantes que abriga duas grandes universidades. Em termos espaciais isso se expressou na dominância de cidades na dimensão de 50. em cuja região circundante se produzia 20% da cana de açúcar. Assim o Estado de São Paulo beneficiou-se especialmente da criação do Pró-álcool em 1975. O fenômeno certamente tem a ver também com a integração no âmbito do Mercosul e com o espaço de aglomeração e acumulação que dele resulta germinalmente. Em São Carlos. Na Região Metropolitana de São Paulo ele ficou em 14. recorrendo ao mesmo tempo a incentivos maciços dos Estados do Paraná. O terceiro tipo de região que se beneficiou da inversão da polarização em São Paulo foi a grande região que se estende do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte a São Paulo. Essa posição de liderança de São Paulo se deve. a participação dos investimentos planejados situa-se claramente abaixo da participação no PIB regional. Tabela 11). formaram-se apenas poucas aldeias ao redor de São Paulo.000 habitantes. fazem parte do segundo cinturão também cidades dos estados lindeiros. Com 23%. O desafio consistia aqui em aproveitar as sinergias subregionais para defender no arcabouço do poder nacional a posição do ABC como uma das regiões comparativamente mais abastadas. Curitiba. Com 14%. não em último lugar. Em 1994. a indústria de São Paulo reduziu a sua participação na produção nacional de 58. nas quais havia freqüentemente um entrelaçamento forte entre áreas de agricultura intensiva e indústria. Como em amplas partes do Brasil nunca existira um campesinato livre.8%. seu perfil de pólo oposto ao núcleo urbano da região. porém. O centro agro-industrial mais importante foi Ribeirão Preto. era compatível com uma concentração nacional continuada num plano espacial mais elevado. São Paulo detinha a parcela maior de toda a produção agrícola no Brasil (Rolnik et al.000 a 500. à circunstância de que o estado investiu mais dinheiro na pesquisa e no desenvolvimento do que o governo federal. Nos ramos industriais modernos.).4% (1995). Sobretudo nos últimos anos essas regiões fronteiriças lograram tirar proveito das vantagens resultantes da aglomeração no setor da infraestrutura e no tocante à mão-de-obra qualificada em São Paulo.5% 18 Se tomarmos como critério as intenções de investimento nos anos seguintes.8% no estado e 13. diluiu-se em virtude do elevado grau de urbanização e industrialização. a Volkswagen construiu em 1996 uma nova fábrica de caminhões. poucos quilômetros além da fronteira. sempre distantes 10 a 50 quilômetros. Foram também responsáveis pelo crescimento da produção de bens industriais de alto valor no interior do estado a indústria petroquímica e a refinaria em Paulínia e São José dos Campos (cf. Esse segundo cinturão ganhou importância como localização industrial sem abandonar a sua produção agrícola. baseada numa concepção inteiramente nova de fornecedores. Persistiram.1% (Seade 1998: 92). 43. Isso explica porque uma desconcentração da Região Metropolitana de São Paulo. capital paranaense.2% a 49. Em Rezende (RJ). Entre 1970 e 1995. Os dados para o mercado de trabalho no Estado de São Paulo aproximaram-se cada vez mais dos da Região Metropolitana de São Paulo ou da cidade. as diferenças visíveis nos índices de emprego no setor industrial. a de processamento de metais no ABC e a indústria química e de borracha na Região Metropolitana de São Paulo. Santa Catarina. pode-se observar uma tendência a uma difusão mais ampla dos investimentos por todo o território nacional. Paraná e Minas Gerais (cf. de 43. 70% do suco de laranja destinado à exportação e 60% da produção de soja de todo o estado. Um segundo cinturão ao redor da cidade de São Paulo abrangia algumas cidades mais distantes. classificados em grande parte no item ”outros”.). O traço distintivo típico do interior do estado.18 No entanto. De grande importância foram também as plantações de laranja. esteve também entre as regiões urbanas em crescimento. O índice de desemprego atingiu em 1995 13. sobre a qual recai o ônus principal da desindustrialização no tocante à redução da indústria de transformação. Juiz de Fora (MG) foi escolhida em abril de 1996 para sediar uma montadora dos carros Classe A da Mercedes-Benz.6% a 51.99 Cidadania e o Consórcio Intermunicipal que pretendiam fazer da subregião um espaço de poder autônomo. as regiões supracitadas aumentaram nesse período a sua participação na produção nacional de 33. conseguiu apenas desde 1994 atrair três montadoras de automóveis para sua região metropolitana (Pivetta 1996). Novy 1994: 200 ss. Mas os investimentos continuam se concentrando em São Paulo sobretudo no setor de alta tecnologia e nos ramos do futuro (informática e reciclagem).

0 100. Se somarmos os que trabalham em relações precárias e os desempregados.5%20 (cf.23 Tabela 22: Distribuição dos Ocupados.5% e em 1998 21.gov.6 48. os outros. seja sem carteira assinada ou mediante emprego intrafamiliar.9 a 1.5 comércio 40.e isso apesar dos empregos na indústria terem entrementes.5% (1997) (www.7 0.1 milhões para 1.0 52.0 100.6 pontos percentuais.b/egi-bin/mulherv98r de 30 de novembro de 1998).2 milhões.4 2. No setor industrial o número de trabalhadores na economia formal caiu entre 1986 e 1995 de 2.0 100. Em contrapartida.7 7. 100 .2%.2 milhões (1997) .7% (1985) para 50. a inserção seletiva e subalterna das mulheres no mercado de trabalho desempenhou um importante papel em estratégias de acumulação extensiva.br/cgi-bin de 14 de maio de 1999).2 milhões.4 construção civil 14.22 Em termos quantitativos. pois esse setor era tradicionalmente um espaço de trabalho remunerado feminino menos fortemente discriminado. Aumentou a marginalização das mulheres nesse segmento do mercado de trabalho com remuneração acima da média.5 indústria de transformação 3.5 0. os programas de desestatização atingiram com especial dureza as mulheres.1% dos trabalhadores estavam na indústria de transformação.5 milhões (1985) a redondamente 7. ao passo que a dos homens reduziu-se apenas em aproximadamente um terço.7 16.4 7.8 para 1. Tais perdas de empregos eram compensadas pelo setor comercial.7 para 1. esse número tinha caído em 1998 para apenas 19. O crescente número de desempregados e o aumento dos vínculos empregatícios informais. Como nas primeiras décadas do séc. poderemos constatar no breve período de 1989 até 1996 um aumento da população em idade economicamente ativa de 32.5 0.9 19.2% não possuiam esse documento (Seade 1998: 96).8% (www. pois nelas o índice de desempregados foi em 1985 15.gov.1% respectivamente 16% entre os homens.2% das pessoas economicamente ativas estavam desempregados.0 ocupados 33.7% para 52.1 milhões e na agricultura de 0.1 a 03 milhões (Unicamp 1998: 10).6 23.3 6.br/cgi-bin de 14 maio de 1999 19 Aqui. Em 1985 12.19 Assim a legislação trabalhista e social continuou tendo grande relevância para as condições de trabalho dos assalariados. sofrido uma redução de 2. Tabela 22).3 para 3.seade. 23 As mulheres perderam de 1992 a 1997 2. da ampliação da produção sem aumento da produtividade.5 0. o índice de empregos no setor de serviços aumentou de 40. no entanto.seade. podem ser constatadas dinâmicas distintas. em 1998 esse índice já chegou a 49.5 milhões (1993) (Singer 1996: 127). 21 As mulheres foram aqui mais fortemente afetadas do que os homens.1 3.0 15.21 Ao passo que uns eram coagidos à inatividade. depois de um ápice em 1989.5 46.3 pontos percentuais.6% para 41.7 3. diante de 10. Apesar desses empregos adicionais.6 milhões. e no setor de serviços. trabalharam crescentemente mais.6 2.7 serviços domésticos 0. A involução dos assalariados contrastou com um nítido aumento dos autônomos (www. o desemprego aumentou de 0. Se em 1985 ainda 33. Tabela A-24). 1985-98 1985 1989 1992 1995 1998 100. Entre os homens aumentou tanto o desemprego aberto quanto o camuflado. de 5. na esteira da implementação da Constituição Federal.9 para 2. O desemprego camuflado não aumentou entre as mulheres.brcgibin/mulherv98 de 30 de novembro de 1998). XX. 22 Na Região Metropolitana de São Paulo os vínculos empregatícios formais também diminuiram de 3. o que é um indício dos processos de informalização. A dinâmica da acumulação deslocou-se novamente na direção da extensão.9 milhões (1985) para 3.gov. Em 1985 somente 35% das pessoas economicamente ativas trabalhavam além da jornada de trabalho definida em lei.5%.4 Outros Fonte: www.gov. no qual ele aumentou de 2. no setor de serviços elas subiram ligeiramente. no comércio ele subiu de 0.seade.4 25.2 17. em 1997 16% e em 1998 18.2 16.3% (Cf. 20 A participação das mulheres no setor industrial reduziu-se por mais da metade.8%. mas o aberto de modo correspondentemente mais nítido. Na indústria as relações formais de trabalho encolheram. Região Metropolitana de São Paulo. e na agricultura (bem como na construção civil) ocorreu um surto de formalização. A informalização avançara menos do que se supusera.7 40. No caso do índice da população economicamente ativa foi observado um ligeiro aumento. Assim o processo de desindustrialização foi muito claro com referência ao nível de emprego.100 dos trabalhadores do setor privado tinham uma carteira de trabalho. atribuível ao claro aumento do índice das mulheres economicamente ativas de 43. evidencia o aumento do assim chamado exército de reserva da indústria. no qual o nível de emprego aumentou no período acima mencionado de 0. segundo Setor de Atividade Econômica do Trabalho Principal.5 milhões.2 8. Na Região Metropolitana deSão Paulo o emprego subiu continuamente.1 33.seade.5 serviços 8.3 milhões (cf. somente 11. os homens no mesmo período também 2. Tabela 31). que continuaram nos seus empregos.0 100.

os assalariados remanescentes não tenham mais atingido o nível de 1989. mas também mal pagos. devido ao efeito distributivo condicionado pelo fim da inflação .1 Empregador 8.2 4. em virtude da crise econômica. Nos anos 90 o movimento sindical autônomo.5 11.3 43.3 6. Houve em seguida uma queda dramática no período de 1989 a 1992. Tabela 24: Rendimento Médio Real dos Ocupados no Trabalho Principal (1). A fuga para a informalidade permitiu às empresas oferecer empregos não apenas precários.2 61.6 Setor privado 60. Durante esse período.9 19.3 Sem carteira 8.7 9. de um só salto. 1985-1998 1985 1988 1992 65.seade.3 Autônomos 4.4 54. Em 1985.2 5.0 15. O crescimento arrastado da economia levou. segundo Posição na Ocupação. os trabalhadores com vínculo empregatício formal ganhavam 45% mais do que em 1998. em Reais (novembro de 1996) 1985 1989 1992 1995 1998 1211 1102 706 907 857 ocupados 1255 1104 752 857 876 assalariados 971 1030 522 798 662 autônomos com carteira 1320 1139 809 892 912 sem carteira 448 482 351 487 547 assalariados .2 40. Apesar disso a renda continuou apresentando desequilíbrios dramáticos.2 assalariados Com carteira 51. Região Metropolitana de São Paulo.7 1995 64.7 8. mesmo quando objetivavam apenas defender os salários.setor privado 1204 1050 733 813 826 assalariados . segundo Posição na Ocupação. De 1995 a 1998 a tendência foi novamente negativa. os conflitos trabalhistas.setor público 1554 1462 853 1100 1177 Assalariados – indústria 1360 1187 886 938 903 Assalariados – comércio 874 843 533 642 614 Assalariados – serviços 1153 954 663 778 850 Fonte: www.3 52. pois o índice de desempregados estava aumentando constantemente (cf. As câmaras setoriais foram um exemplo bem-sucedido dessa estratégia de compensação de interesses. a uma melhoria perversa da distribuição entre os assalariados (Mattoso 1999: 125). que não lograra institucionalizar estruturas nacionais de parceria com o empresariado.4 12.2 1998 61.4 19. mesmo com esse salto. os trabalhadores na economia informal cerca de 19% menos. Os sindicatos engajavam-se justamente no cinturão industrial do ABC com grande intensidade também fora do trabalho.0 15. Desde 1985 os salários reais diminuíram visivelmente. Entre os assalariados a situação dos grupos mais pobres permaneceu igual durante o Plano Real. sendo que de início só se constatou uma ligeira tendência à diminuição.gov.9 Setor público 10.5 8. tentou salvar mediante o recurso a formas de corporativismo local a Região Metropolitana de São Paulo enquanto localização industrial.seade.9 9.101 Tabela 23: Distribuição dos Ocupados.gov.4 72.5 21. Tabela 25).br (14 de maio de 1999) O trabalho dos sindicatos enfrentou dificuldades cada vez maiores.7 ocupados 70. seguida por uma recuperação na primeira fase do Plano Real. A situação de renda de todos os grupos melhorou visivelmente em 1995. por meio das reduções de renda dos ricos e a demissão desproporcional dos assalariados nãoqualificados e com isso mal-remunerados.3 4. perderam o seu vigor (Singer 1996: 131).7 53.4 Domésticos Fonte: www.7 7. entre os que ganhavam mais a involução da renda se acentuou.6 54. 1985-1998.não obstante. mas estão em uma posição fraca para negociar.1 10. Os mais pobres encontram-se no exército crescente de desempregados.3 10.6 8.br (14 de maio de 1999) 101 .9 7.1 5.3 44. Região Metropolitana de São Paulo.

em Reais (novembro de 1998) 1985 1989 1992 1995 1998 204 207 112 168 164 371 337 219 300 307 681 659 426 501 512 1350 1283 788 1003 924 2666 2399 1469 2043 1846 10% mais pobres quarto mais pobre metade com renda menor quarto mais rico 10% mais ricos Fonte: www. os estados e os municípios estavam desacreditados por representarem os traços provincianos. de espaço geográfico-material em espaço de poder com estruturas sócio-econômicas e políticas concretas. Região Metropolitana de São Paulo. O mesmo aconteceu com os lugares e as regiões concretas do Brasil. lançou as bases da primeira região desse tipo no Brasil. a soma desses espaços de poder regional constitui a topologia do campo do poder brasileiro. Montoro.102 Tabela 25: Rendimento Médio Real dos Ocupados no Trabalho Principal. Isso vale até hoje para a ciência. entrelaçamentos e distribuições. não lograram superar o seu caráter de enclaves. à medida que ele criou hierarquias. Esse papel foi cumprido sempre de novo pelos governadores em situações de crise. sucessor de Montoro.gov. Por isso o capital de café. o atraso e conseqüentemente as oligarquias. que freqüentemente foram também crises do federalismo. a atenção se deslocou bem mais fortemente para o plano local do que para o estadual. Serviços sociais foram municipalizados onde isso era possível. Assim os municípios foram valorizados enquanto poder local. Estruturas democráticas pareciam ser mais facilmente implementáveis in loco do que no plano nacional. As análises regionais e locais são necessárias para a compreensão tanto da parte quanto da totalidade. Mas os governadores enquanto detentores do poder no plano intermediário da federação têm a tarefa importante de serem articuladores de espaços de poder. Embora o plano intermediário sempre tenha tido significância histórica. quando a dinâmica da acumulação foi endogeneizada. A região é um lugar de conflitos em torno da constituição de um espaço de poder e a influência por meio de forças estruturais. e ignoravam assim os entrelaçamento do poder sobre o espaço. arcaicos. segundo faixas de renda dos ocupados. sendo que essas intervenções serviam amiúde à estabilização do poder local. Mas ele iniciou um programa de descentralização política. 1985-1998. vencidas por Franco Montoro. As estratégias políticas direcionavam-se para o espaço do poder local e regional. Para Cano (1998a: 29) ocorreu a formação de regiões econômicas integradas. 3. A análise regional de São Paulo permitiu mostrar o significado de vias concretas de desenvolvimento. Depois de 1930. mas foi em grande parte impedido de realizar esse projeto em virtude da crise econômica. Juntamente com o espaço do poder nacional. Como São Paulo foi um centro da resistência contra a ditadura militar. Prefeitos simpáticos ao governo 102 . o estado-nação exerceu com maior intensidade a sua função moderadora-controladora.seade. o poder sobre o espaço que estrutura esses espaços. A delegação de competências e recursos às entidades territorial-administrativas se deu segundo critérios clientelistas. Apenas lentamente a nação se transformou. ele procurou implementar medidas sociais reformistas. Quando no curso do movimento democratizante dos anos 70 o protesto se dirigiu contra o estado central ditatorial. que em 1988 se transferiu para o PSDB.2 O espaço de poder do Estado de São Paulo No curso da formação da nação depois de 1930. mas promoveu simultaneamente um deslocamento substancial das ênfases. por sua vez. A fraqueza dessa política de democratização por meio de descentralização consistiu na insuficiente atenção aos problemas sócio-econômicos da democratização. Respaldado por uma esfera pública ampla e radicalizada. Interveio também mais fortemente no plano local.não lograram por em marcha nenhuma dinâmica interna e. que se reproduzia regionalmente. As outras regiões orientadas para o exterior . Isso desacreditou as medidas ou levou a interpretações da descentralização que só pouco tinham a ver com democratização. o grande partido de oposição PMDB obteve uma clara vitória nas eleições para governador em 1982. continuou a política de Montoro no papel. Orestes Quércia (PMDB).a região mineradora e a região açucareira . isso se refletiu apenas parcialmente na atenção científica que lhe foi devotada. Sob a superfície desse campo operou. por conseguinte. distinguiu-se de todos os governadores antes e depois dele pela vontade de uma democratização abrangente.br (14 de maio de 1999) Nessa seção foi mostrado quão importante é uma análise do espaço e do poder que vai além de um estudo do espaço-receptáculo nacional e desvela assim a estrutura espacial concreta do Brasil. como se fossem receptáculos de poder. Disso fazem parte sobretudo os setores de saúde e da educação.

pois o interior assegurou ao seu correligionário Luís Fleury. no montante de R$ 1. até então marginal em São Paulo. a crise fiscal de São Paulo. destinando assim 62% das receitas correntes para gastos com pessoal (Mare. na esteira da vitória eleitoral do candidato do PSDB ao governo estadual. Em 1997 o governo estadual começou a tomar as primeiras medidas direcionadoras de uma política econômica e social. os partidos de esquerda conquistaram em 1982 apenas 9 e em 1998 já 29 cadeiras. um isomorfismo das reformas propagadas por ele. mas uma razão nada secundária foi também a dívida contraída por Quércia para implementar seus ambiciosos projetos de modernização da infraestrutura. a primeira assumiu R$ 50. em % 1982 1986 1990 1994 1998 23. O PFL.fazenda. Em 1998 ela recuperou o terreno político perdido.3 bilhões. o reembolso de dívidas contraídas de repente ficou desproporcionalmente caro. O superávit orçamentário anual primário de 1996. levando a um deslocamento de atividades para fora da capital e na direção do interior. O banco estadual BANESPA. Tabela 26: Eleições para governador.24 A atividade de investimentos foi reduzida. Tabela 27). tais como especialmente a privatização e a redução do funcionalismo. Mas ao lado das causas por assim dizer de fabricação caseira. 25 Os bancos estaduais de São Paulo respondiam por 60% das dívidas dos dez maiores bancos regionais do Estado brasileiro. O centro chegou mesmo a eleger depois de 1994 o maior número de deputados. Em 1995 o recém-eleito Mário Covas (PSDB) declarou o ”estado de emergência fiscal”.5 bilhões (Gentile 1998). celebrado em 1997. 4 de agosto de de 1997).3 34. Assim Quércia colocou quase todos os prefeitos do interior na sua dependência. Apesar disso a dívida do estado aumentou de R$ 40 bilhões no início do governo Covas para R$ 75 bilhões em março de 1997.25 Em virtude da radical elevação da taxa dos juros. a ampliação do metrô foi suspensa por quatro anos.4 bilhões de dívidas. Em 1995 o Banco Central interveio em todo o país em onze bancos estaduais.000 funcionários públicos.9 bilhões para R$ 20 bilhões.2 PPB (3) 24 A dívida do estado aumentou sob o governo de Quércia em 43. sem poder oferecer uma regulação consistente de um regime de acumulação regional. Juntos. Em 1992 as dívidas ultrapassavam em 60% os seus haveres. O próprio Mário Covas praticamente não contraíra dívidas novas.3 32. a vitória nas eleições para governador em 1990. o governo precisava a partir de agora pagar juros reais de apenas 6% ao ano. A gestão de Fleury (1991-1994) se caracterizou por uma política de expedientes.gov. essa política deu resultados. Em termos de tática eleitoreira. Saõ Paulo. 148 escolas foram fechadas (FSP de 2 de agosto de 1997). sobretudo do BANESPA. De início a ação política de Covas consistiu em fazer cortes e realizar privatizações nas mais diversas áreas.28 Essa renegociação foi um mecanismo de troca política que permitiu ao governo federal alcançar dois objetivos: por um lado. que elegeu Covas para o governo. durante um período de 30 anos.000 funcionários públicos. Sob Fleury ela explodiu na razão de 122. segundo estimativas otimistas. estradas e outras instalações foram privatizadas. Em 1994 a direita foi claramente enfraquecida em benefício do centro. na época um homem totalmente desconhecido. um mecanismo para aprovar projetos concretos de lei e emendas constitucionais no Congresso. A infraestrutura foi maciçamente ampliada no interior. em virtude do seu endividamento excessivo (Souza 1996: 547).6 bilhões aos cofres públicos. foi colocado em 1995 sob controle do Banco Central. por outro lado.8%. dos quais 40. 1982 – 1998 (1) (2). bem como de todos os outros estados brasileiros. embora as receitas correntes fossem em 1996 superiores às despesas correntes.5% para R$ 44. A população dedica ainda menos atenção à Assembléia Legislativa do que ao Congresso e à Câmara de Vereadores. Mas o PMDB conservou apenas 8 das suas antigas 42 cadeiras (1982). Quércia se dedicou também à descentralização da produção e fomentou o interior do estado a expensas da capital.103 estadual recebiam verbas. elegeu também a bancada mais numerosa (cf. altamente endividado.27 Com o contrato entre a União e o estado. Decerto isso se deveu em parte à inexperiência do próprio Fleury. 26 Em dezembro de 1996 o governo estadual tinha 932. tinha as suas raízes na política de juros altos do governo federal (Melo 1996: 17). 103 . O valor do dinheiro foi negociado politicamente nessa compensação federativa de interesses e fomentou um processo de recentralização de poder (Melo 1996: 16). Ao passo que a descentralização política dessarte praticada não tinha mais nada em comum com democratização. pôde se posicionar em 1998 pela primeira vez como força de peso. prefeitos da oposição não. Apesar disso Covas ganhou com clara vantagem as eleições para o governo no segundo turno em 1998. precisava ser pago mensalmente a título de serviço da dívida. além do plano nacional. foram demitidos (FSP de 3 de agosto de 1997)26. Ao invés de 2% ao mês. 27 Esse aumento vertiginoso teve sua origem nos juros elevados.000 no setor educacional.br/release5e de 2 de julho de 1998). 28 A diferença entre taxa de juros de mercado e taxa de juros politicamente negociada foi assumida pela União (www. de R$ 13. Por isso os deslocamentos contínuos para a esquerda em grande parte não foram percebidos. O governador encarna o poder do estado da federação. o PSDB. o que custou R$ 15. 116.5 17.

ele dominou em São Paulo bem como em outros estados esse grêmio (Arretche 1998: 132).seade. associações de produtores rurais e de empresários.0 4. 1982 – 1998 1982 1986 1990 1994 1998 22 11 11 13 11 PPB (1) 9 8 5 11 PFL 11 14 18 13 14 diversos partidos de direita DIREITA . de caso para caso. Seu poder consistia essencialmente em trocar favores contra favores com os municípios. 30 Em 1980 91 das 123 instituições municipais de saúde estavam localizadas na Grande São Paulo e 32 no interior.6 1. por um lado.1 9. Em 1985 o número dessas instituições aumentara na Grande São Paulo para 144 e no interior para 215 (Silva 1996: 85).9 9.8 12. o aumento dos recursos disponíveis e. dos prefeitos e da sociedade civil. sendo possível aumentar nitidamente os gastos para a construção de habitações e o número de habitações financiadas.6 11.7 35. os gastos na construção de habitações aumentaram de R$ 3. No setor de saúde o governo estadual também foi ativo. esse número chegou em 1992 a 36.br (30 de julho de 1997).SOMA 42 37 28 41 28 9 10 14 16 14 PT 3 5 6 15 diversos partidos de esquerda ESQUERDA . Apesar disso o processo de municipalização iniciara em 1996 em 55% dos municípios (Silva 1996: 86). os engenheiros e agrônomos.0 22. as grandes cooperativas. Como havia apenas em São Paulo 636 municípios (Affonso 1996: 7).5 44.3 16.gov.704 e em 1994 ainda a 23. é compreensível que uma parte relativamente grande dos municípios não dispusesse da necessária capacidade de organização para assumir campos de atividades do governo central.104 PFL diversos partidos de direita PSDB PMDB PT diversos partidos de esquerda 12.099 habitações com recursos do governo estadual.2 9.3 22. um aparelho administrativo em boas condições de funcionamento (Arretche 1998: 104-106).7 8. O órgão colegiado em nível estadual compunha se paritariamente de representantes do governo estadual.seade.9 - 23. Brasilienausschnittsdienst 10/98 Tabela 27: Eleições para a Assembléia Legislativa.8 36.44 per capita (1991) (Arretche 1998: Tabelas 12 e 13).SOMA 9 13 19 22 29 (1) até 1992: PDS Fonte: www. destinado à política habitacional e aprovado a cada ano pelo Legislativo estadual. pois o governo estadual estava pouco interessado em uma municipalização. No setor habitacional o governo financiava os seus próprios gastos com um aumento de 1% do ICMS.gov.29 Em resumo.1 (1) sempre depois do primeiro turno (2) os vencedores do segundo turno sempre estão assinalados em negrito (3) até 1992: PDS Fonte: www.935. Como tão somente o governo estadual era um bloco homogêneo.5 17. São Paulo.30 Em termos gerais. as razões do êxito da política habitacional eram. Essa medida lhe permitiu uma certa independência do ministério.39 per capita (1987) para até R$ 17. os funcionários dirigentes de empresas privadas e sobretudo estatais começaram a manifestar-se como sociedade 29 Se em 1987 foram construídas 3.9 23. a descentralização funcionou lentamente em São Paulo. tarefas cada vez mais amplas de prestação de serviços públicos. Mais ou menos ligados a esses interesses do capital. O processo de modernização econômica levou também a uma modernização da sociedade civil e ao surgimento de grupos lobistas tipicamente modernos. por outro lado.br (13 de abril de 1999) No decorrer dos anos 80 o governo estadual assumiu em resposta à falência da política habitacional nacional.SOMA 33 34 37 28 36 9 18 20 PSDB 42 37 19 23 8 PMDB CENTRO . embora o processo de descentralização fosse dificultado pela preferência generalizada de uma municipalização (Melo 1996: 19). Estes atuavam sobre o Estado nos planos local e regional no sentido de apoiar o processo de valorização do capital. O ponto de partida foi a introdução de novas formas federativas de organização. 104 .

A modernização econômica afetou a sociedade civil de modo bem mais reduzido do que seria de se supor. especialmente no ABC. Formavam uma rede de modernização que juntamente com as empresas do setor imobiliário e de construção civil faziam concorrência à elite tradicional dos funcionários públicos. os grupos populacionais em desvantagem praticamente não dispunham de instituições por meio das quais pudessem representar os seus interesses. A população na periferia queria uma infraestrutura mínima.3 O espaço de poder da cidade de São Paulo No plano dos municípios pôde se observar no Brasil dos anos 80 genericamente um ganho de importância e nos anos 90 uma perda de importância. pois 50 grupos eram proprietários das terras utilizadas para fins de produção no estado (Bizelli 1995: 44). denominados atrasados. As numerosas universidades.198 (1985) para 65. Eles representavam o novo poder econômico e o seu discurso. Um papel importante foi desempenhado sempre pela igreja. A Constituição de 1988 fixou competências ampliadas dos municípios e fortaleceu com isso a sua posição no arcabouço do poder nacional. girava em torno das idéias da racionalidade e modernidade (Bizelli 1995: 45). próxima ao governo. Não em último lugar devido a conflitos internos. Na esteira da internacionalização e da desindustrialização ela pertencia às instituições que foram enfraquecidas . A CUT como central sindical estava concentrada em São Paulo. caracterizadas como monolíticas. que foi muito ativo justamente no Estado de São Paulo. a Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP) cumpriu um papel importante na articulação dos interesses da produção regional. São Paulo era sabidamente o lugar do surgimento de um movimento sindical e democrático independente. na sua maiora estatais. sendo que as simpatias se dividiam de forma relativamente harmônica pelas alternativas radical e reformista. No interior do aparelho de estado eles dependiam da benevolência de governos locais ou deputados progressistas. 105 . As ambivalências do desenvolvimento brasileiro revelam-se a partir do seu centro: São Paulo foi uma região moderna.juntamente com os sindicatos fortemente estruturados no setor industrial. Os dois jornais tinham um extenso caderno local. Somente sob o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso a esquerda acadêmica entrou em uma grave crise.000 ha aumentou de 29 para 36 (Esposito 1998). Ocupações de áreas eram iniciativas importantes para chamar a atenção às precárias condições de vida na periferia. Nos últimos anos os meios de comunicação de maior qualidade como a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo começaram a informar mais sobre assuntos de interesse local. pequenos comerciantes e proprietários de terras. Essa circunstância contém explicações substanciais de paradoxos aparentes do desenvolvimento em termos de Economia Política. No plano regional. 3. Nos anos 80 predominou no plano municipal o conflito sobre o acesso à cidade. Somente as associações de vizinhança em nível local e o movimento dos sem-terra como movimento de massas. Desde então centros do pensamento crítico como o Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) ficaram politicamente paralisados e cindidos.31 Desde a sua fundação em 192832. A mídia regionalizada era formada em São Paulo pelo rádio e pela imprensa marrom que representavam maciçamente os interesses dominantes. pois as comunidades eclesiais de base definiram nos anos 70 e no início dos anos 80 ao lado dos sindicatos. Em 1983 Mário Covas assumiu o governo da 31 Ao passo que o número das empresas agrícolas com menos de 10 ha de área agricultável baixou de 100. como o Estado a disponibilizava aos bairros de localização mais central. Sem dúvida isso expressa a oposição de interesses entre os grupos dominantes. o dos metalúrgicos da cidade de São Paulo (Rodrigues 1995: 116). o comportamento eleitoral conservador-retrógrado teve as suas raízes em uma sociedade civil cuja vida não teve um perfil muito mais pronunciado e múltiplo do que nas regiões atrasadas.303 (1995) e também o número dos que possuem entre 10 e 100 ha diminuiu em 17%. pois um importante segmento dos intelectuais aceitou cargos no governo.105 civil regional. o perfil do palco do Brasil democrático (Eder 1988). profissionais liberais. ofereceram aos oprimidos possibilidades de organização. 32 Na época ainda como CIESP. Esse grupo defendeu a posição de que não haveria alternativa ao processo de globalização. A Tabela A-19 mostra que a filiação a organizações civis em São Paulo foi menor do que em estados meridionais economicamente menos desenvolvidos (Paraná e Rio Grande do Sul) e praticamente não maior do que nos estados nordestinos. eram um espaço tradicional de poder da oposição. enquanto novos atores. mas não de civilização burguesa. Luís Antônio Medeiros e a sua Força Sindical. apoiado pela imprensa e pelas emissoras radiofônicas locais. acabou por impor-se. Mas ela não conseguiu assumir o maior sindicato de industriários. Mas o poder tradicional da propriedade fundiária não pode ser subestimado. o número dos proprietários de terras com mais de 10.

Em 1988 a deputada estadual Luiza Erundina (PT). Assim o grande problema do governo de Jânio Quadros foi a deterioração qualitativa do abastecimento da população com serviços sociais. No seu estilo de governo.SOMA 13 18 26 29 6 8 8 PSDB 15 6 5 4 PMDB CENTRO .gov. 1985 – 1996 1982 1988 1992 1996 6 6 20 19 PPB (1) 4 0 2 PFL 7 8 6 8 diversos partidos de direita DIREITA . contra a administração e setores do seu próprio partido. Em virtude de elevados subsídios por parte da União e do governo estadual ele conseguiu não ficar demasiado para trás no tocante aos indicadores sociais dos governos Covas e Luiza Erundina.5 34. o candidato do establishment de centro-esquerda.5 37.5 14.8 7.2 9. sob direção do PSDB.seade.8 29. pois a Câmara de Vereadores boicotava.8 23. Jânio fomentou megaprojetos a expensas dos serviços sociais. A sua desvantagem foi que segmentos do seu próprio partido . Mas a vantagem de Covas foi a certeza de podercontar com o apoio do governador.3 44.SOMA 5 23 16 14 (1) Até 1992: PDS Fonte: www. Depois de erros iniciais o PT reconheceu que precisava chegar a um consenso com a câmara.5 14. oriunda das iniciativas de base.br (28 de julho de 1997) Em 1985 o populista de direita Jânio Quadros ganhou surpreendentemente as eleições contra Fernando Henrique Cardoso. São Paulo. inexistiam canais institucionalizados de cogestão cidadã. A autodenominação ”governo democrático popular”. mas não em uma aliança dos 106 . O PT via princípios políticos como não-negociáveis e foi nesse tocante um simpático contrapeso ao modo tradicional de fazer política.1 Fonte: www. com 30%. Na área social. Baseado no clientelismo. mostrou a proximidade à exigência de democratização com participação popular. Era estimado na periferia. O governo municipal sentiu isso na carne. que fora presidente da república em 1960.4 22.7 - 1988 1992 1996 24. São Paulo. Mas a intensa atividade no setor de construção civil prejudicou a qualidade da infraestrutura existente.106 cidade como prefeito nomeado pelo governador Montoro. candidatos mais importantes 1985 PPB(1) PFL diversos partidos de direita PSDB PMDB PT diversos partidos de esquerda (1) Até 1992: PDS 37.9 4.SOMA 15 12 13 12 5 15 13 10 PT 8 3 4 diversos partidos de esquerda ESQUERDA . a contratação de funcionários foi feita a expensas dos seus salários. levou São Paulo de volta aos tempos do autoritarismo e da negligência da questão social. em números redondos.9 0. 1985 – 1996.fizeram oposição a ele e sabotaram a sua política reformista. 1992: 120).gov. com o objetivo de ”reduzir a distância entre o centro e a periferia” (PMSP et al.5 0. o trabalho do governo municipal.8 1.br (28 de julho de 1997) Tabela 29: Vereadores. Covas capitalizou em benefício do seu governo a pressão da população na luta intra-organizacional pelo poder. caso não quisesse criar graves obstáculos ao seu trabalho. Tabella 28: Eleições para prefeito. Colocou a questão social e o problema da periferia no centro da sua atividade administrativa. o governo de Covas definiu critérios de aferição para os governos subseqüentes. Ao passo que as iniciativas informais de base se fortaleceram durante o seu governo. Mas ao mesmo tempo ele se tornou incapaz para fazer acordos. foi eleita surpreendentemente prefeita de São Paulo.o PMDB . adotada pela administração petista. na qual ele freqüentemente ajudava pessoalmente em mutirões.2 19. Quadros. menos visíveis.seade.

inteiramente dependente do seu padrinho Maluf (FSP de 8 de maio de 1998). o candidato próximo de Maluf. medidas de urbanização como pavimentação de vias públicas. sucessor de Luiza Erundina. os eleitores já se segmentaram de forma claramente mais simétrica: Cardoso recebeu 38.). Com exceção de 1992 foi observado um forte declive entre ricos e pobres. Mas em 1996 Maluf conseguiu quebrar essa regra e eleger seu Secretário da Fazenda para a prefeitura.1 14. As associações de amigos do bairro. Não se deve esquecer nesse contexto que os diferentes grupos também eram. Ao passo que Fernando Henrique Cardoso e José Serra.4 41. Além disso. em corrupção. F). Vila Maria. sendo que a proporção de votos era. sucessor de Quércia.0 57. o primeiro plano era ocupado nos bairros ricos por questões de qualidade de vida. Em uma cidade dessarte cindida. descentralizar e aproximar do cidadão a administração municipal e o planejamento urbano. era um partido da periferia. mas com publicidade maciça. Pitta acabou sendo um dos prefeitos mais impopulares. Em virtude da circunstância de não poder tomar nenhuma medida de impacto. A rejeição da des-ordem estava amplamente difundida. O mesmo vale para o centro.0 19. a sociedade civil paulistana necessariamente deve estar fortemente fragmentada em virtude da separação sócio-espacial das várias classes.4 53. via de regra. Este continuava sendo de modo apenas restrito um ponto de encontro da sociedade política e civil. Sobretudo antes da posse de Fernando Henrique Cardoso. dos ricos. A maior parte dessas medidas foi inicialmente boicotada pela Câmara dos Vereadores e depois abandonada ou revogada a partir de 1993 por Paulo Maluf. O governo local tentou em vão institucionalizar determinadas formas de cogestão dos cidadãos. o que reflete o aumento da sua orientação na direção do eleitor culto e com isso. indubitavelmente apoiado sem reservas pela classe alta. Em Jardim Paulista.g. em números redondos.4%. que continuava orientado para o desenvolvimento. 1989: 188 ss. serviam para obter melhorias para o respectivo bairro. o dobro nos bairros pobres do que nas regiões ricas. ele conseguiu obter maiorias na Câmara de Vereadores. 1994. eram populares entre os ricos. bairro da periferia. nas eleições de 1996. Pitta saiu do PPB. embora devessem ser classificados quanto à sua ideologia como partidos de centro (cf. Santana. em grandes obras. visível em muitos lugares estratégicos da cidade. Maluf e Pitta puderam vencer quando a direita eliminou essa fraqueza (cf. primeiro turno Cardoso Lula 72. implicitamente. Ao passo que nos bairros pobres estavam em pauta. Sob o governo do PT as fronteiras entre o Estado local e a sociedade civil progressista desapareceram por quatro anos. em São Paulo. desde 1988 no PSDB. No entanto. foi a razão principal da vitória de Celso Pitta. Lula 27. Santo Amaro e Cidade Ademar são exemplos de cinco tipos distintos de bairros.3 Jardim Paulista Santana Vila Maria Itaquera 107 . um dos bairros residenciais mais ricos. Com efeito. pequenos. projetos na área social (setores da saúde e habitacional). capazes de articular ou impor os seus interesses. o PT cortejou com intensidade bem mais nítida o PSDB. A direita era mais forte nos bairros de classe média do que nos bairros ricos e mais fraca nos bairros pobres. 72. Mas Pitta teve o mesmo destino do que outrora Fleury. Tabela 33). sendo que Jardim Paulista representa o tipo de bairro mais rico.1% dos eleitores votaram em Fernando Henrique Cardoso e apenas 14% em Lula. A base eleitoral do PT continuou claramente estruturada em termos de espaço social (cf. Os baluartes da esquerda são os bairros pobres. O grau de polarização da cidade de São Paulo se evidencia também na rejeição dramática do metalúrgico Lula nos bairros residenciais ricos de São Paulo. e. As muitas mudanças de poder na cidade eram explicadas com a insatisfação com o sistema político e a tendência dos paulistanos de votar sempre na oposição. escolas ou hospitais. a orientação para o tráfego individual motorizado e a criminalidade crescente levaram a um esvaziamento do espaço público. o PMDB populista.7 19. o que é um indício da sua pronunciada consciência de classe (Tabela 30). Depois de repetidas críticas de Maluf ao governo municipal. assim por exemplo na área da tributação e da descentralização. Os bairros Jardim Paulista. por fim. a ruptura se deu em 1998. segundo bairros selecionados do município de São Paulo. Novy 1994: cap. Tabela 30: Resultados de Fernando Henrique Cardoso e Lula nas eleições presidenciais. que não pôde impedir a eleição do seu arqui-inimigo Paulo Maluf (PPB). existentes em todos os bairros residenciais. Mário Covas (PMDB) foi sucedido por Jânio Quadros (PTB) que teve de passar a prefeitura a Luiza Erundina (PT). Os movimentos sociais foram incluídos nos processos decisórios (cf. cada qual à sua maneira. independentemente da sua orientação ideológica (Brant et al. Pretendeu-se e.7 25. Tabela 32). nas eleições para a prefeitura venceram sempre candidatos que eram oposição ao governo municipal. Isso mostra que o PSDB e o PMDB pertenciam a meios políticos fundamentalmente distintos. ruído e proteção contra a ocupação excessiva das áreas por prédios. Por isso o projeto para o Estado de Fernando Henrique Cardoso foi.107 partidos de centro-esquerda. a distribuição dos resultados da eleição por bairros relativiza a tese da gratuidade ideológica no comportamento eleitoral dos paulistanos. Em São Miguel Paulista. era um ”fantasma políticoadministrativo”. Mas projetos importantes fracassaram diante da resistência da câmara. A sua política populista de direita consistiu na privatização de empresas municipais. Tabela 31). A atividade de construção. canais.4%.

6 27.5 8. segundo bairros selecionados do município de São Paulo.7 15.7 18.seade.8 Cidade Ademar 29.7 42.1 26.5 24.6 8.0 46.7 23.0 Vila Maria 48.1 9. a Câmara de Vereadores de São Paulo é uma organização extremamente centralizada.5 17. 1985-1996 Cardoso Leiva Aloysio Serra PMDB PMDB PMDB PSDB 1985 1988 1992 1996 Jardim Paulista 36.8 23. segundo bairros selecionados do município de São Paulo.gov.9 29.7 48.0 Cidade Ademar 26.5 18.0 50.2 27.9 31.0 18.seade.8 14.2 Total 50. 1985-1996 Quadros Maluf Maluf Pitta PTB PDS PDS PPB 1985 1988 1992 1996 Jardim Paulista 38.7 22.6 Fonte: www.3 18.6 Santo Amaro 19.5 37.5 Fonte: www.8 14. 1985-1996 Suplicy Erundina Suplicy Erundina PT PT PT PT 1985 1988 1992 1996 Jardim Paulista 11. ele perdeu cada vez mais em importância.5 Total 19.7 8. Por outro lado.4 Cidade Ademar 29.gov. tendo.8 13. Se compararmos os dez candidatos respectivamente mais 108 .3 23.gov. na de Luiza Erundina.5 Vila Maria 16.2 Santo Amaro 35.3 27.9 53. o PT elegera um candidato muito popular para a Câmara.7 27.9 Fonte: www.3 28. o PPB preencheu esse vácuo.br (14 de abril de 1999) Tabela 32: Resultados dos candidatos da esquerda nas eleições para a prefeitura. ele foi desde 1992 a força determinante no Executivo e Legislativo.0 24.3 44.7 27.8 27. a prefeita. Embora o PT continuasse sendo sem contestação o segundo partido mais forte. Mas esse deslocamento em benefício da esquerda não foi duradouro.1 Santo Amaro 35.4 Total 37.seade.gov.3 11.4 Total 34.4 18.3 41.1 Santana 17.108 Cidade Ademar 44. muita influência.2 40.8 20. Apoiado na popularidade de Paulo Maluf. por conseguinte.2 9. Em termos de legislativos municipais.6 13.4 Vila Maria 26.2 9.5 31.2 16.6 Santana 34. pois um vereador ou uma vereadora representa 181.3 Santana 40.1 43.br (14 de abril de 1999) Tabela 33: Resultados dos candidatos do centro nas eleições para a prefeitura.seade.br (14 de abril de 1999) Na Câmara dos Vereadores a esquerda contabilizou uma vitória à maneira de uma avalanche em 1988.br (14 de abril de 1999) Tabela 31: Resultados dos candidatos da direita nas eleições para a prefeitura. segundo bairros selecionados do município de São Paulo.1 28.3 42.4 12.4 22.7 29. Na pessoa de Eduardo Suplicy.8 Fonte: www.640 votos (Melo 1996: 17).7 20.2 22.2 14.2 12.

julho de 1997). atualmente PPB. Ele impulsionou a municipalização do setor de saúde. Por sua vez. foi grande. e a grande diferença com relação ao passado esteve na sua homogeneidade regional. A criação do PAS foi uma medida que tomou como ponto de partida a crítica generalizada do status quo intolerável e de exigências feitas cedo pela esquerda no sentido de uma descentralização e autogestão. Apoiados pelo governo estadual e no âmbito de um programa nacional.109 votados em cada região conforme a sua filiação partidária. Mas a intenção do governo municipal era precisamente mostrar isso. Na campanha de 1996 Maluf pôde vangloriar-se com a inovação organizacional de uma iniciativa orientada para a qualidade e provar a sua competência na área social. O sistema funcionava analogamente aos seguros privados contra doenças. fomentado e também controlado pela sociedade civil. isto é. Do lado da sociedade civil o movimento pela saúde. Havia um conselho municipal de saúde para cada cidade.000 pessoas participaram das eleições para esses conselhos (cf. foi constatado de forma mitigada nas eleições para o Legislativo. Ao passo que a preferência acabou se impondo com 11-16-16-13-10 nos velhos bastiões da pequena-burguesia. Essa execução descentralizada fomentou a participação de conselhos de saúde e possibilitou aos cidadãos a participação in loco. As medidas de economia no setor de saúde levaram em 1994 a situações insuportáveis. deve-se mencionar nesse contexto o programa de descentralização do governador Montoro. as cooperativas de saúde estavam obrigadas a assumir os cuidados integrais do membro. A argumentação afirmava que o sistema não seria financiável na sua forma atual. Com 3-5-3-8-7 a tendência aumentava na direção das regiões pobres. as fraquezas do partido puderam ser reduzidas nos bairros pobres (www. os municípios eram responsáveis pela execução. Maluf ganhou as eleições com a promessa de reduzir a burocracia do setor público. cumpriu um papel importante.seade. No âmbito da cooperativa os médicos eram pagos por serviço. Na seqüência. o pessoal do PAS. mas a partir de 1991 os municípios sentiram a diminuição dos repasses do governo central.br. portanto. Tratava-se. a amostragem escolhida revelará que o PSDB venceu nas regiões ricas 17 vezes e nas três outras regiões somadas apenas 10 vezes. o PMDB não venceu nas regiões mais ricas e aumenta depois a sua presença continuamente. Mas a implementação concreta estava em contradição crassa com o espírito da Constituição Federal de 1988 e o direito à saúde. Na práxis as cooperativas funcionavam como empresas e eram controladas por grupos privados. só que nesse caso o município assumiu o financiamento. eram de fato assalariados. na quinta. Na primeira região (mais rica) classifiquei Vila Mariana. Os cooperativados. no qual o governo assumiu a co-responsabilidade também nesse setor.00 por mês. o município recebia mais uma verba. Indianópolis. que não pôde ser observado no PT nas eleições para o Executivo. De início a satisfação da população diante desse seguro ”público” contra doenças. criado pelo PMDB e exigido. Comissões de saúde enquanto organizações da sociedade civil. Pessoas não-domiciliadas em São Paulo não tinham nenhum direito ao serviço. Em 1989 200. na terceira. apoiado por médicos engajados e pela Pastoral da Saúde da Igreja Católica.34 Pouco depois da vitória nas eleições. para obter com 11 candidatos nas regiões mais pobres a pontuação mais elevada. Em 1995 o governo apresentou finalmente um projeto de saúde radicalmente novo. 109 . Novy 1998: 367.seade. correlacionei quinze bairros a cinco tipos de regiões e registrei em cada um desses bairros a filiação partidária dos dez vereadores localmente mais votados. razão pela qual o PT tentou contra-arrestar essa tendência por meio de uma contribuição mais elevada com recursos da própria prefeitura. o PAS (Plano de Atendimento de Saúde). 34 No entanto. na segunda. que concedia os mesmos direitos de um seguro privado. Do lado do Estado. foram elaborados no plano local juntamente com esses postos regionais ”planos municipais de saúde”. Novy 1994: 373). A população podia inscrever-se em uma cooperativa da sua escolha. Com o PAS objetivava-se possibilitar aos grupos privados o acesso ao sistema de saúde pública e institucionalizar a concorrência entre os ofertadores privados e públicos. A cada trimestre os resultados e as contas eram examinados pelo governo estadual. A Secretaria de Estado da Saúde assumiu os postos regionais e criou 65 unidades novas. que atuavam regionalmente. Tanto os atores estatais quanto os da sociedade civil eram importantes no setor de saúde. Jardim Paulista. Os estados e municípios reconquistaram a sua importância apenas nos anos 80. Tatuapé e Moóca.br. de uma forma de descentralização e da combinação de elementos privados e públicos de disponibilização do serviço. que a partir disso tinha o direito de receber por pessoa o valor de R$ 10. serviu de arcabouço organizacional sobre o qual o governo do PT trabalhou nos anos de 1989 a 1992. Para uma interpretação detalhada cf. o que visava a minimização de faltas no trabalho. O declive entre as regiões. Esse sistema. Capela do Socorro. A falência do Estado assim documentada justificou abrir também os setores da educação e saúde à iniciativa privada. com 33 Baseado em www. Quando tudo estava em dia. O segredo do sucesso do PDS. Ipiranga e Santo Amaro. no curso da democratização. Butantã e Santana. os juízes declararam a compatibilidade do PAS com o SUS em termos puramente formais.) institucionalizaram os canais de participação. Do ponto de vista quantitativo o sistema de saúde melhorou sensivelmente. Itaim Paulista e Guaianases.33 Nos bairros mais ricos. Lapa. Vila Maria. São Miguel Paulista. e conselhos de saúde como órgãos de cogestão no interior das unidades organizacionais (postos de saúde.gov.gov. começaram a aumentar as queixas sobre o tratamento deficiente dos pacientes e do pessoal e as queixas sobre as dificuldades financeiras da administração municipal de cumprir os seus compromissos diante das cooperativas. isto é. Sob o seu sucessor Paulo Maluf a situação se agravou dramaticamente. hospitais etc. na quarta.

Isso representa uma forma de renda básica local e teria ajudado sobretudo os pobres. Como a maioria das medidas que visam uma redistribuição.). No quadro de uma política de espaço habitacional integrada. 36 Slum Clearing é a melhoria de um bairro degradado (slum). sobretudo a construção em regime de mutirão. a saber. A administração da CMTC era um dos maiores desafios do governo do PT. No curso da democratização acirrou-se a crítica a uma política fundiária que privilegiava os titulares de rendas. Por meio da contribuição própria. as empresas vendiam os terrenos remanescentes por um preço muitas vezes acima do original. Maluf prometeu 120. foi um dos movimentos sociais mais importantes na periferia de São Paulo. Esse projeto. A crítica ao Projeto Cingapura dirigiu-se também aqui contra o estilo autoritário que não envolvia os moradores afetados na tomada das decisões. A expulsão das camadas baixas do centro da cidade deslocou os problemas sociais para a periferia. sobretudo ao lado das principais vias de tráfego e na proximidade dos Shopping Centers e de outros pontos muito freqüentados. Criaram-se habitações alternativas para o período da construção. Um elemento decisivo da estratégia malufista baseou-se. Em meados dos anos 90 havia 1. Pitta construiu em 1997 3.35 As empresas imobiliárias vendiam apenas alguns lotes e retinham outros. Por um lado. Por fim Luiza Erundina aproveitou uma estratégia de Mário Covas e uma antiga exigência do movimento pela casa própria. Nos anos 80 o movimento dos sem-terra. Nesse tocante a urbanização das favelas foi a estratégia mais importante. concebido em analogia a experiências feitas em Cingapura. O planejamento urbanístico da década de 1920 optara pela mesma estratégia também para os cortiços no centro da cidade. Possibilitava-se aos moradores das favelas a aquisição de um título de propriedade de terra. a verticalização tinha por objetivo aumentar o espaço habitacional disponível. teria sido necessário subsidiar apenas um valor bem mais reduzido. O ”Projeto Cingapura” retomou uma exigência central do movimento pela casa própria e da esquerda. mas sem a proteção das leis trabalhistas. consubstanciada no trabalho. o direito de não ser expulso.00. cujo financiador mais importante foi o setor de construção civil. O ”Projeto Cingapura”. a saber. no princípio do primado da qualidade sobre a quantidade.000 habitações e construiu 10.450 habitações: não havia nenhum nexo entre o problema e a sua solução (Bonfim 1998)! O PT fez a tentativa de introduzir a tarifa zero nos transportes públicos. visava a urbanização de 47 das 1900 favelas de São Paulo (em números redondos. evitando-se assim o método muito criticado do slum clearing36.803 favelados em São Paulo.. O programa da ”construção habitacional em regime de mutirão” foi violentamente criticado por Maluf. O resultado é a entrada de novos moradores e a expulsão dos moradores do bairro para outras áreas. para as quais a solução do problema das favelas quase sempre consistira na demolição das mesmas. Esse projeto distinguia-se das estratégias convencionais de governos conservadores em São Paulo. 3% de todas as favelas do município). Num segundo passo as condições de vida na favela eram melhoradas.479. Depois disso ter ocorrido. Aqui o governo municipal propôs um financiamento por meio do aumento do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano). Foram realizadas várias greves que 35 Na época do primeiro crescimento espectacular da cidade (1900 a 1922) a densidade demográfica caiu na parte urbanizada da cidade de 110 habitantes/ha para 47 habitantes/ha. na qual fora propagada. Já que até 24% do custo total correspondiam à despesa com a arrecadação das passagens. Por isso 9000 unidades habitacionais estavam construídas apenas pela metade. o governo dedicou também atenção ao espaço público. que utilizam especialmente os meios de transporte público. em seguida os novos moradores exerciam pressão sobre o governo municipal para que este disponibilizasse a infraestrutura. Também aqui uma política habitacional própria constatava inicialmente que o velho sistema fracassara e inovações radicais. justamente sob a ditadura militar. Além disso havia no transporte público uma concorrência entre a empresa municipal CMTC (Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo) e as empresas particulares de ônibus. 368 ss. para cair até 1960 para 24 habitantes/ha (Aguerre 1995: 110).110 presença obrigatória e a inserção em uma hierarquia rígida. Para habitações de 42 m2 os moradores tinham de pagar uma espécie de aluguel no valor de R$ 57. O PT ocupou-se com os diferentes aspectos do problema habitacional. 110 . a construção da casa própria como solução dos problemas habitacionais da maioria pobre da população. Ao mesmo tempo o governo municipal interrompera todos os outros programas de construção de habitações. esta também não foi implementada (Singer 1996: 137-160). Muito pelo contrário. reformas qualitativas estavam na ordem do dia. a construção da casa própria sob o lema da ”ajuda para a auto-ajuda”. No tocante à situação habitacional os proprietários de terrenos lograram maximizar os seus ganhos de valorização e socializar os custos da urbanização. foi apresentado como solução do problema das favelas. Antes do levantamento das casas de vários andares eram realizadas as necessárias obras de infraestrutura e urbanização da favela. os custos por unidade habitacional foram reduzidos em até 40% (Novy 1994: 309 ss. fortemente apoiado pela Igreja Católica. denominado ”maior projeto social do país”. Em virtude da crise do PAS alguns módulos começaram a reduzir os salários dos cooperativados (FSP 8 de agosto de 1997) e um hospital inaugurado durante a campanha eleitoral foi fechado (Muggiati 1998). buscou-se legalizar as habitações já existentes. em virtude da ocupação fragmentada e da retenção de numerosas áreas. A relação com o sindicato controlado pelo PT sempre foi conflitiva. Ele foi essencialmente responsável pela vitória eleitoral de Luiza Erundina.901. à criação de parques e praças. como no governo federal.

A Secretaria Municipal de Planejamento (Sempla) do governo petista viu com razão que um reordenamento da destinação das áreas desempenharia um papel central em uma estratégia voltada para a inversão das prioridades. Mas como os dois planos formulavam os objetivos visados e fixavam os zoneamentos. Apesar de esforços intensos nesse sentido. que recebeu um forte impulso com a construção de grandes projetos de avenidas. Justamente esse mecanismo foi assimilado por Maluf. não foi aprovado pela Câmara de Vereadores. em números redondos. por parte do Legislativo. Por isso ela partiu de uma concepção de planejamento que incluía a questão da implementação de medidas. definições de regras interessam menos do que medidas concretas. ”Via de regra”.39 Nos anos subseqüentes o alcance do mecanismo de uma simplificação radical do aproveitamento do solo foi compreendido mais pela direita do que pela esquerda. mas procurou realizar uma cidade melhor (cf. 111 . Em uma conjuntura nova. A ligação orgânica dessas empresas com Maluf estava amplamente documentada (FSP de 6 de agosto de 1997). pois ele permitia uma flexibilização das regras. apresentado por Jânio Quadros. No lugar da fixação de zoneamentos deveria entrar em ação um mecanismo que permitisse utilizar o solo de forma mais intensa. foram concedidas licenças especiais para os investidores contra uma contribuição especial ao erário municipal ou contra investimentos privados adicionais de interesse público. simplificando assim radicalmente a política de zoneamento38. mas os empresários. Com isso ele pôs termo ao arranjo institucional introduzido no setor de saúde com a criação do PAS. a flexibilidade com a qual o novo mecanismo foi tornado palatável para o setor imobiliário foi apresentada como inovação social. Mas valia ainda a regulamentação do tempo da ditadura militar. tiveram a significativa vantagem indireta de provocar uma valorização dos imóveis nas áreas abertas ao tráfego. se a administração municipal fosse indenizada pelos custos infraestruturais advenientes. depois de feitas pequenas adaptações. em meio a uma nova relação das forças políticas no município. Com isso visava-se reduzir a superlotação dos ônibus. o então Secretário Municipal do Planejamento Paul Singer (1997: 27) credita isso menos à resistência do setor imobiliário. isto é. ele aproveitou a oportunidade para privatizá-la. Isso não foi atraente para os moradores já estabelecidos. porque destinações individuais eram adaptadas em cada caso. Mas as medidas fomentadoras do tráfego de automóveis. Ao invés de impulsionar a difícil tarefa de uma reforma da CMTC. Os direitos de utilização para um aproveitamento mais intensivo seriam vendidos pela administração municipal a particulares interessados. pois em fins de 1988 a nova constituição tinha sido promulgada. o pagamento das empresas por quilômetro rodado. Com a sua crítica do transporte público e especialmente também da CMTC. O modelo implicava um único coeficiente aproveitamento para toda a cidade. O velho Plano Diretor datava de 1971. Na seqüência. de acordo com a qual a não-ocupação de iniciativas legislativas apresentadas pelo Executivo. Com as receitas assim arrecadadas deveria ser criado espaço habitacional para as camadas baixas. Assim teria surgido um mercado para o aproveitamento intensivo de terras urbanas. cujos efeitos em termos de técnica do tráfego foram visivelmente catastróficos. No decorrer das ”operações urbanas” já introduzidas pelo PT. Castells 1983: 335-337). o abandono do transporte público por parte da administração municipal evidenciou-se no maior interesse em fomentar o transporte individual motorizado. mas para as empresas imobiliárias interessadas na implementação de grandes projetos.111 paralisaram a cidade. 39 Em sua retrospectiva. cabia ao órgão de planejamento urbano criar um espaço público no qual se pudesse discutir sobre a configuração da cidade. depois que a administração municipal atrasou os pagamentos (Huertas 1997). pois este último tinha pensado em embolsar. o novo plano. conduziam automaticamente à sua aprovação. Com a privatização o sindicato dos motoristas perdeu em grande parte o seu potencial de ameaça. Em 1997 não foram os motoristas que ameaçaram entrar em greve. O modelo do PT consistiu em um reordenamento e uma simplificação integrais da destinação das áreas. mas à resistência vinda das próprias fileiras. nem o princípio como tal (Singer 1996: 161-194). Maluf podia contar com o respaldo de amplas partes da população. Além disso.não em último lugar. A partir desse período as empresas receberam somente 20% do seus custos reembolsados em proporção ao número de passageiros transportados e 80% do pagamento total em proporção à distancia percorrida. De acordo com essa concepção. mas não obstante entrou em vigor37. O mix institucional de ofertadores privados e públicos foi refinado por uma municipalização do transporte público. mas ainda não tinha entrado em vigor. Mas as concessões exigidas por Maluf do setor imobiliário não se aproximavam nem de longe dos montantes que o governo petista tinha objetivado reter. Esse enfoque de planejamento não se ocupou mais com a utopia da cidade boa. tais como a instalação de uma praça. a administração municipal definiu uma quantidade de área a ser construída por região. Eis um exemplo de como técnicas sociais podem suscitar um efeito contrário. 70% dos lucros de valorização obtidos na especulação imobiliária. a melhoria do arruamento vicinal etc. a sua eficácia foi extremamente reduzida . Mas ele preservou a municipalização. não foi possível implementar nem a versão originária com o seu efeito redistributivo claro. 38 O coeficiente de aproveitamento expressa a relação entre a área coberta e a área total. 37 Isso foi possível. A administração municipal petista de 1989 a 1992 estava comprometida com um planejamento democrático e não queria repetir os erros de um planejamento tecnocrático.

A concessão de cargos segundo critérios puramente pessoais produziu em toda a estrutura administrativa uma fragmentação e ”privatização do Estado”. Mas no governo do seu sucessor Jânio Quadros esses enfoques participativos acabaram sendo esquecidos. SABs etc. empenhando-se por modelos organizacionais de natureza centralista. bem situadas e próximas ao centro.40 Alterações nessa esfera da estatalidade eram sistematicamente impedidas pelo bloco de poder. A partir de 1997 os conselhos comunitários deveriam controlar as administrações regionais. Nas tabelas a seguir os dados referentes aos diferentes governos municipais são apresentados alternadamente com fundo sombreado e fundo claro. O interesse central do governo petista foi institucionalizar a cogestão e descentralizar o poder. e depois de cada eleição se negociava duramente sobre quem poderia nomear que administrador regional. pois o poder dos vereadores não consistia tanto na sua influência na Câmara. 1990). foi responsável por importantes ênfases na política em prol da democracia. mas ”à altura dos tempos” e ”empresarialmente eficientes”. mais uma vez. Paiva (liberal) recebera em Penha em 1992 661 votos e em 1996 12. A sociedade civil estava inserida nos processos decisórios por meio de comissões e conselhos. Por outro lado. As administrações regionais eram um elemento importante das estruturas clientelistas e serviam como esteios do sistema centralizado de poder. A oposição criticou a falta de uma discussão pública e o fato de que se estaria.112 O governo petista iniciou já em 1990 um amplo processo de discussão sobre o desenvolvimento da cidade e o Plano Diretor. Mas à diferença do governo petista. O orçamento paulistano é ’política fundida em números‘. Mas os vereadores faziam valer a sua influência por meio do envio de pessoas de confiança a posições centrais da administração municipal. pois o zoneamento rigoroso podia. Publicou um livro próprio (Rolnik et al. Uma parte da sociedade civil.41 Em contrapartida. se desejado.729 votos e em 1996 34. ao passo que essa tendência era menos nítida nos setores da saúde e habitação. mas eram escolhidos pelo prefeito a partir de listas propostas por organizações locais da sociedade civil (clubes. A repartição dos gastos totais evidencia uma clara diferença entre o governo petista (1989-1992) e os dois governos de direita antes (Jânio Quadros 1986-1988) e depois dela (Paulo Maluf. Por isso as administrações regionais também eram tão importantes. que se subordinava em ampla escala aos desejos do Executivo. Se no plano discursivo freqüentemente é difícil compreender os interesses dos atores e as estratégias do poder. estas se tornam meridianamente claras na análise do orçamento no caso de São Paulo. Abstração feita de um locutor de rádio. esses conselhos não se compunham de representantes eleitos pela população. diante de uma lista de desejos cuja realização não seria possível sem mecanismos para dirimir conflitos. no qual apresentou um diagnóstico da cidade que deveria servir de base para a discussão. na qual as pessoas importantes da região precisavam ser atendidas.). 6116 votos nas eleições de 1996 (Novy 1998: 354 s. a partir de 1993). depois de ter sido administrador regional.). cujo argumento central era utilizar as regiões centrais de modo ainda mais intenso. simpática ao Estado. A maioria dos vereadores se apoiava em uma base eleitoral com forte concentração regional. o valor atingia R$ 327 milhões e teria sido suficiente para construir todas as escolas e creches previstas no orçamento e não-realizadas (Huertas 1998). promovendo por assim dizer uma política de guetos exclusivos (Bógus.767 votos. Maluf rompeu abertamente com a tradição do PT nas áreas da democracia e da cogestão. Paradoxalmente Mário Covas. Zonas residenciais tradicionais. aceitando a sociedade civil como ator local autônomo. Se a administração regional trabalhava bem. tinha o direito de controlar o conselho. ser substituído por um processo de barganha. mediante medidas de zoneamento. Faria Lima recebera em 1992 em Jabaquara 455 votos e conquistou. pois elas ainda conteriam infraestrutura livre.572. temiam ser rodeadas por arranha-céus. Nas administrações regionais praticava-se abertamente a política do ”é dando que se recebe”. as possibilidades da troca política com o setor imobiliário também se flexibilizaram. Estes não foram apresentados como autoritários e pertencentes à tradição da ditadura. O setor imobiliário deveria. A política orçamentária de Mário Covas (1983-1985) apresentou semelhanças com a de Luiza Erundina. Tudo somado. para efeitos de maior compreensibilidade. Sob o governo de Maluf a discussão morreu. segundo esse plano. 112 . a reeleição não enfrentava nenhum obstáculo. e apenas em 1997 Celso Pitta apresentou um novo Plano Diretor. Montali 1994: 167). fortemente criticado. os vereadores mais votados nas eleições de 1996 detinham o controle sobre uma administração regional. No setor educacional as despesas proporcionais apresentavam uma tendência para a queda tanto no governo de Jânio Quadros como no de Maluf. Mas com a apresentação do plano o governo municipal criou para si possibilidades de uma atuação flexível: por um lado a política convencional de zoneamento permite assegurar a elevada qualidade de vida de bairros residenciais simpáticos ao governo. Esses gastos ficaram abaixo dos 25% de gastos no setor educacional prescritos na Constituição Federal ou dos 30% de gastos no mesmo setor definidos como obrigatórios na Lei Orgânica do Município. o prefeito não eleito da transição a um regime democrático. poder comprar da administração municipal um coeficiente de aproveitamento mais elevado (Sempla 1997). 41 Os gastos totais para manutenção e construção de escolas cifraram-se apenas em 4% dos gastos para a construção e pavimentação de ruas (Nardi 1998). no setor ”construções e instalações” esses dois governos apresentavam uma tendência ao aumento 40 Estina (PPB) recebera em Capela do Socorro em 1992 6.

4 14.1 16.0 39.473 3.7 31.1 12.3 28.3 31.9 21.1 15.4 13.4 14.1995 1980 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 12.8 20.7 10.8). segundo tipos de gastos.9 6.8 21.3 3.5 16.5 12.d.7 26.2 15.6 38.0 juros + amortizações 23.6 14.2 26.1 15.d.gov.6 24.5 20.0 13.908 4. Município de São Paulo.7 Financiamento do crédito Fonte: www.7 51.7 7.535 5.479 5. 1980 .4 15. saúde e habitação a proporção aumentou e durante o governo petista os valores ficaram claramente acima dos dos governos direitistas.9 36.291 construções e instalações Fonte: www.109 6.1995.7 10.1 Construções e instalações Fonte: www. A fama de ”construtor” de Maluf foi tão justificada como a do PT de ter sido o governo ”em prol da educação e da saúde”.5 13. em % das receitas totais.9 33. A política orçamentária do PT foi inversa.6 15. em milhões de R$ (1996) 1980 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 3.6 31. no governo de Maluf já se pôde constatar no ano anterior à eleição um aumento para 21.2 IPTU 32.8 16.6 336. Município de São Paulo.5 15.5 29.9 18.0 26. posições selecionadas 1980 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 50.1 11.9 31.0 60.0 9.1995.7 51.8 14. 1980 .5 receitas tributárias 17.2 habitação 14.1 pessoal e encargos sociais n.3 13. Em números absolutos.seade.3 53.3 14.3 24.1 40.469 425 649 451 639 760 762 1.seade.6 20.1 12.0 19.113 dos gastos.4 investimentos Fonte: www.gov.6 28.786 3.9 18. em % dos gastos totais. segundo setores. 35.5 16.7 48.4 7. 37.4 27.3 15. No governo de Jânio Quadros a participação percentual no ano das eleições aumentou para 31 (de 15.3 34.1 14.2 35.4 9.473 gastos totais 449 509 652 536 501 678 795 903 830 635 723 829 educação 353 386 460 489 658 607 903 888 929 736 802 981 saúde 665 486 590 633 738 648 785 798 731 670 741 985 habitação 514 411 379 616 1.9 43.7 cota-parte do ICMS n.br (28 de julho de 1997) 113 .2 32.8 receitas próprias 40. segundo setores.gov.4 16.2 10. a queda nos setores de saúde e educação durante o governo de Maluf não é tão nítida.2 15.6 16.6 30.br (28 de julho de 1997) Tabela 35: Despesas.d.535 4. As empreiteiras estavam entre as empresas que deram as maiores contribuições para as campanhas eleitorais de Maluf.6 28.6 31.8 23. 1980 .5 6.0 14.4 28.9 38.1 17.8 31.1 28. em % dos gastos totais.3 14.0 21.7 8. posições selecionadas.2 19.seade.2 13.2 35.9).6 11.8 14.9 27.357 3.0 8.2 28.1 (de 14.4 12. Município de São Paulo.5 18.744 4.8 7.br (28 de julho de 1997) Tabela 37: Receitas.291 milhões de reais é impressionante.5 15.3 9.5 n.5 17.2 saúde 19.1995 1980 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 23.9 13.6 33.2 42.gov. Tabela 34: Despesas.5 42.5 23.1 14.3 7.1 16.1 39.6 16.6 32.6 8.5 cota-parte do Fundo de Participação dos Municípios 14.2 53.6 8.0 15. Município de São Paulo.9 16.6 7. já nas obras públicas o aumento de 726 milhões para 1.9 15. n.br (28 de julho de 1997) Tabela 36: Despesas.7 12.2 6.7 4.5 33.1 12.7 39. 16.092 5.6 30.1 11.6 2. 1980 . Nos setores da educação.7 16.5 4. Uma primeira referência ao estilo orçamentário populista da direita se pode ver na evolução do item ”construções e instalações”.1 14.8 38.2 25.9 21.seade.d.8 educação 10.338 4.6 6.

42 A recessão no início dos anos 90 atingiu duramente a administração municipal. razão pela qual os gastos de pessoal aparecem agora em termos meramente contábeis como pagamentos por serviços prestados por empresas privadas. O PT foi o único governo que logrou reduzir o serviço da dívida. foram efetuados sempre por meio de endividamento. R$ 235 milhões oriundos do governo Maluf. 44 A cidade pagava 156. caso o governo municipal não pagasse. 43 As empresas privadas de ônibus.44 Mas com base na reforma constitucional de 1988 valia sobretudo para os municípios que o custo crescente do funcionalismo estava relacionado com a responsabilidade crescente dos municípios (Melo 1996: 19). mas eles se revelaram cada vez mais como crise de insolvência. os gastos com pessoal do governo petista foram nitidamente superiores aos dos outros.1%. foi muito baixo (Mare. com investimentos em áreas-chave do Estado. sobretudo no fim dos seus mandatos. para evitar uma greve. Com 41. egresso da tradição de governos conservadores. A ocultação de dados orçamentários é parte essencial de uma política orçamentária irresponsável.964 milhões! Já não admira mais que o governo Maluf também não tenha mais fornecido dados sobre o montante do seu endividamento ao instituto estadual Seade a partir de 1995. anulou apenas a forte preferência dada antes aos municípios menores (cf. Elas estão estreitamente relacionadas com gastos nas áreas da educação e da saúde. embora tivesse herdado um endividamento elevado de Jânio Quadros. Maluf conseguiu iludir os eleitores. Mas mesmo em outras posições pode-se constatar diferenças importantes. De início eles eram considerados problemas de liquidez. Maluf terceirizou muitos setores (sobretudo os transportes). Mas nesse caso há uma diferença entre Jânio Quadros e Paulo Maluf. Até 1991 as receitas tributárias aumentaram nitidamente. combatido pelos governos federal e estadual e pela parte conservadora da sociedade civil. o indicador dos custos de pessoal da cidade de São Paulo.000 maiores terrenos. Durante o governo de Maluf ocorreu somente do segundo para o terceiro ano um aumento de R$ 575 milhões para R$ 1. que faz exigências ao Estado.). os operadores privados do PAS e as empresas privadas de coleta de lixo ameaçaram tomar medidas de combate. isto é. Como era de se esperar. Essa é a estratégia típica de destruição do Estado e da sua capacidade de cumprir os seus compromissos.Além disso existe uma política de terceirização. considerado de central importância pelo governo federal.1% a 25. ao lado de problemas de ordem fiscal. embora façam negócios razoáveis com ele. entre outras também as do ”Projeto Cingapura”. Essa estratégia foi extremamente perigosa diante da política de juros elevados do governo federal. 113. para que o ”Projeto Cingapura” não parasse e as empresas de coleta de lixo R$ 30 milhões. foi que a reforma constitucional conduziu inicialmente a montantes mais elevados de pagamentos obrigatórios de transferência. as empreiteiras R$ 13 milhões. ele não alterou em nada a política tributária de Luiza Erundina.000 na administração pública. Em 1996 o governo municipal pagou apenas 67. Por isso Maluf se viu obrigado a recorrer na realização dos seus programas ambiciosos de obras públicas ao financiamento por créditos. foi responsável por uma redução da arrecadação tributária de 38. as cooperativas do PAS R$ 135 milhões. 33. As empresas de ônibus receberam R$ 20 milhões para não entrar em greve. razão pela qual o número de creches diretamente administradas caiu de 400 (1992) a 293 (1997). também substancialmente para a deslegitimação do PT (Eder 1997: 168-172).2 bilhões. até dezembro de 1997 apenas 42. têm créditos a receber de R$ 330 milhões. Desde 1997 Celso Pitta se defronta com sérios problemas financeiros.103 milhões. Municípios que não aumentavam o seu quadro de pessoal não eram necessariamente eficientes. Em 1992 foi realizada uma campanha da mídia contra a proposta da administração municipal de tributar mais os 50. deveriam ser pagos (Novy 1998: 360 s. O Secretário da Fazenda do Município indicou como razões da crise que as receitas do ICMS teriam regredido e que compromissos de curto prazo no montante de R$ 1. Durante o governo de Jânio Quadros o financiamento com créditos aumentou nos três anos de R$ 234 milhões a R$ 976 milhões e finalmente a R$ 1. A sorte do PT. pode-se inferir as causas dessas despesas elevadas. mas os problemas atingiram o seu sucessor com toda a dureza. revelou-se catastrófica durante a acumulação estagnante combinada com a política de juros altos. o aumento dos municípios foi em média apenas de 31%. Jânio Quadros. perfeitamente costumeira em tempos de evolução dinâmica da economia. Maluf apoiou esse boicote e beneficiou-se dele. Creches são obrigadas a fechar ou rescindem os seus contratos com o município por causa do atraso de pagamentos.43 As relações de poder sofreram um deslocamento fundamental: da sociedade civil composta por cidadãos. A administração municipal fundamenta isso com a flexibilidade maior. Mas uma vez eleito.4%.114 A distribuição segundo tipos de gastos também revela diferenças claras. 4 de outubro de 1997). Tal política.6% das receitas globais do município. O PT tentou ampliar o espaço de atuação local. São Paulo conseguiu assim aumentar a sua participação em 45%. A participação dos impostos nas receitas chegou até a aumentar fortemente no governo de Maluf. Novy 1998: 359). Durante o governo do PT não houve nenhum ciclo eleitoral. herdados da administração de Paulo Maluf. Mesmo se o levantamento dos gastos com pessoal é difícil. na direção de algumas empresas que vêem o Estado como cliente mau pagador. 114 . A campanha desembocou em um boicote tributário extremamente eficaz que contribuiu. mas 42 No Estado de São Paulo. no entanto.000 funcionários.000 nas empresas municipais ou em empresas terceirizadas (Huerta 1998). o que.000 pensionistas e 10.9% dos recursos previstos no orçamento. A estrutura das receitas apenas complementa o quadro já obtido. Os investimentos maciços feitos pelas administrações de direita. o financiamento com créditos permaneceu em nível baixo. As empreiteiras. possibilitada por essa política. Mas em 1995 as receitas caíram em decorrência do ICMS na esteira da centralização pelo FES. A política fiscal rigorosa da esquerda contrastou com o ”populismo econômico” da direita.

Não apenas no plano do governo federal. Depois as irregularidades foram registradas.7 bilhões (1992) e R$ 2.seade. A administração petista reduziu-a a R$ 2.7 milhões aos cofres da cidade. 45 Paulo Maluf e Celso Pitta estão enredados em uma longa lista de acusações que foram em boa parte confirmadas ou nãorefutadas. mas os responsáveis pelas decisões foram exonerados das acusações mais graves (Novy 1998: 361). 115 .2 bilhões (1993) (www.br de 14 de abril de 1999).3 bilhões (1989).gov. Uma CPI do Congresso ocupou-se com a fraude dos títulos da dívida municipal que trabalhou com eficiência até o momento de Maluf retirar a sua candidatura à presidência.3 bilhões (1986) a R$ 8. a dívida consolidada do município de São Paulo saltou de R$ 2.45 Sob o governo de Jânio Quadros. A gama se estende de fraudes com títulos da dívida municipal. ultrapassando assim o montante do orçamento municipal. até a compra superfaturada de galinhas de parentes de Maluf pela prefeitura e uma declaração de renda falsa de Pitta.115 podem simplesmente ter negligenciado o setor da prestação de serviços públicos. Em 1997 toda a dívida do município se cifrava em R$ 9 bilhões. que custaram R$ 10. mas também na cidade de São Paulo os governos de direita forçaram o Estado para a armadilha do endividamento.

Os atores in loco não dispuseram nem política. seriam apenas fenômenos de superfície. isto é. 4. Nas profundezas da estrutura ocorreria apenas um ”desenvolvimento do subdesenvolvimento” (Frank 1969). fenômenos de superfície conexos com o campo de poder construído sobre fundamentos incertos. De início lançaremos um olhar sistêmico sobre a estabilidade do Brasil. concebida como empreendimento político-econômico. o ouro brasileiro da economia mineradora aliviou Portugal de medidas de adaptação na esteira da crise da cana de açúcar e seduziu o país a continuar desistindo de uma política de industrialização protecionista. A coroa portuguesa tentou deixar intocado o campo de poder. em outros momentos enfraquecia esses espaços. Esse espaço de entrelaçamento econômico era dominado pelo capital comercial internacional que monopolizava a importação e exportação de mercadorias. nem na Europa nem na América. O colonialismo constituiu a dependência política de Portugal e da sua nobreza. Nos diferentes sistemas de produção organizados à maneira de um arquipélago e orientados para a exportação. de que sempre os mesmos grupos estariam estabilizando com recursos sempre iguais o seu poder por séculos a fio. Mas o olhar sobre as crises e os seus atores exige uma análise da conjuntura. o preço do açúcar.116 4 O reordenamento da des-ordem ”A burguesia quer ficar rica. Os excedentes gerados na colônia oxigenaram os centros do capital comercial da Europa Ocidental e financiaram o consumo de luxo dos favoritos da corte lisboeta. Por um lado. que canalizou o excedente produzido in loco para a Europa.periférica . o comércio mundial dominado pelas potências do centro determinou as estruturas locais de poder. Como o Brasil só podia influir de forma muito restrita no preço das matérias-primas e como além disso os preços oscilavam fortemente. organizados de modo autoritário-hierárquico e lugares da produção na colônia.na economia mundial. Controlar tais redes era mais importante do que trabalhar no próprio processo produtivo. por conseguinte. A posição periférica do Brasil parece ainda reforçar as instabilidades do desenvolvimento capitalista. restringiu-se a organizar o espaço de entrelaçamentos políticos necessário para o redirecionamento . Assim as mudanças. Mas a fraqueza externa de Portugal fez com que a supremacia territorial não se consubstanciasse na consolidação duradoura de seu espaço de poder. Enquanto espaço de entrelaçamento.1 A lenta transformação dos campos do poder Antes da Independência em 1822 não há como falar de um campo autônomo de poder no Brasil. O palco local era formado pela fazenda e pelo engenho de açúcar. O freqüente recurso à violência e coerção e a repetida mudança de regime seriam. relevando uma dialética de estabilidade e instabilidade na estrutura fundamental da des-ordem. que apesar disso podem ser constatadas. atribuiu-se ao Brasil uma posição subordinada . surgiu a impressão de que nada estaria mudando no Brasil. No curto prazo. Também aqui valia que o grande poder para dentro da unidade de produção açucareira enfrentava o reduzido poder para fora. Como Portugal era fraco demais para realizá-lo apenas com suas próprias forças. taxas e monopólios. A Inglaterra tornou-se potência dominante. A análise em termos de teoria da regulação proveu-nos dos fundamentos necessários para tal fim. não haverá poesia” (”Burguesia” de Cazuza ) As explanações dos capítulos precedentes representaram os poderes sobre o espaço e os espaços de poder no Brasil. de acordo com o princípio de que alguma coisa deveria mudar para que tudo permanecesse como está.mediante impostos. do ouro e do café era um ponto nodal determinado por uma instância externa: às vezes fortalecia. Por outro lado. Os dois capítulos seguintes retomam a discussão sobre o desenvolvimento do Brasil e resumem-na com vistas à dialética de ordem e des-ordem. no processo de comercialização no mercado mundial. Como a forma estrutural da concorrência estava orientada para e 116 . assegurar a ”ordem” dos privilégios estamentais hierarquicamente definidos. Enquanto houver burgesia. a integração da análise da estrutura e da ação. nem economicamente de uma margem de ação digna de menção. foi necessário constatar a permanente sensibilidade a crises de acumulação e regulação. A conquista da América serviu à transferência transcontinental de riquezas.

a segunda adaptou os entrelaçamentos transatlânticos à realidade pós-colonial. São Paulo ficava à margem dessas evoluções. bem como foi impedido o surgimento de um modo de regulação estável. XIX. Em 1822 a Independência lançou as bases para que a dinâmica política começasse doravante a separarse da dinâmica econômica. São Paulo era mais pobre e por isso tinha menos a perder em crises. Durante séculos. O estado-nação era o ponto nodal da regulação. Na base da fragmentação política havia uma continuidade da dominância social e econômica do velho bloco de poder. com o açúcar e o café. um fordismo periférico. Por um lado a Europa desempenhava. seja para capturar índios ou para manter os escravos trabalhando. Mesmo na sua metamorfose em capital industrial e comercial. estavam harmonizadas com a forma social e a sua posição na totalidade da estrutura capitalista. Ao lado do comércio. Ele era controlado pelos barões do café. um grupo de homens de famílias influentes exerceu a dominação local em São Paulo. A influência política de fora para dentro do território precisava agora exercer-se de forma mediada por intermédio dos detentores nacionais do poder. pois os entrelaçamentos transatlânticos se concentravam no espaço que era capaz de produzir excedentes. um papel-chave também nessa fase. mas também com a burocracia estatal. Isso se coadunava às mil maravilhas com a estrutura global. As empresas harmonizavam as suas próprias estratégias não somente com o mercado. o poder permaneceu personalizado por muito tempo. baseou o seu poder nos planos local e regional cada vez mais na propriedade fundiária. Com a evolução das estruturas capitalistas no Brasil e a expansão territorial das relações de mercado aprofundou-se também a dependência dos centros capitalistas. mas elas perderam em importância diante dos entrelaçamentos de capitais. Pode-se falar de um bloco de poder regionalmente dominante somente no séc. aumentou a dependência dos estados do capital britânico. Isso facilitava o controle político. No curso do séc. por sua vez.117 dominada por fora. Bens de produção e instalações de infraestrutura foram criados. no poder das armas. Com o fim do Império a estrutura territorial do antigo bloco de poder se alterou. estas. mas não produzidos no Brasil . A visão do Estado enquanto protetor de interesses empresariais consolidou-se em forma institucional. na região açucareira do Nordeste. Essa dependência foi mais reduzida na região cafeeira. Com isso mudou a estrutura da dependência. A ação reproduzia-se em lógicas institucionalizadas de ação. O capitalismo comercial dos séculos precedentes transformou-se crescentemente num regime de acumulação dominantemente extensivo. A relação salarial foi igualmente regulamentada de forma essencialmente estatal. já não mais proprietária de escravos. Devido à reduzida complexidade do assentamento dos colonos portugueses. Os governadores e os estados eram o ponto nodal político do poder. Entre 1930 e 1980 constituiu-se um regime de acumulação estável e um modo de regulação relativamente estável. aumentou o papel do capital estrangeiro no financiamento do desenvolvimento. pois o grande excedente regionalmente produzido ensejava uma margem de ação. A dependência externa deslocou-se do capital comercial comprador e vendedor de mercadorias na direção do capital financeiro que financiava o endividamento do Estado e investia diretamente na ampliação da infraestrutura. Isso levou a uma mudança da forma concreta do capitalismo. XIX. Por essa razão o campo regional de poder em São Paulo organizou-se menos econômica. O regime de acumulação extensiva permaneceu incompleto. Só tardiamente o mercado mundial passou a ganhar importância como instituição econômica central. no plano interno a acumulação foi dificultada. No Brasil a regulação nunca esteve 117 . aumentou a influência da Inglaterra nos orçamentos regional e nacional. Ao ingressarem na produção industrial nacional. o fortalecimento do plano nacional postergado por 40 anos. Os conflitos salariais tendiam à politização. os bandeirantes eram o grupo mais dinâmico. tanto por parte das empresas quanto por parte dos trabalhadores. quando a sociedade começa a diferenciar-se. de acordo com a qual a influência internacional direta devia se dar de forma primacialmente econômica. A forma concreta era o corporativisimo estatal e a ocupação de posições no aparelho de estado por atores não-estatais. Para esse tipo de acumulação política ele precisava atuar como Estado ampliado. o capital cafeeiro permaneceu em elevado grau regionalmente controlado. pela via das exportações e importações de mercadorias e do controle político de Portugal. Subsistiram as relações comerciais que o grande comércio controlava e o Estado beliscava. seja por intermédio do salário mínimo ou por intermédio do controle pelos sindicatos. As relações capitalistas de produção in loco aumentaram.configurando uma causa adicional da dependência externa. A partir de agora a oligarquia agrária. mas a dependência de São Paulo era menor do que a do Nordeste. Com isso aumentou a dependência ”externa” dos atores no plano ”interno”. mas primordialmente militar e politicamente. igualmente os entrelaçamentos creditícios mais estreitos com o exterior. a formação de um bloco nacional foi impedida pela descentralização. em virtude do grande setor de subsistência. baseou-se no exercício direto da violência. os barões do café construíram regionalmente a sua posição dominante e lograram também subordinar a política do governo federal aos seus interesses. a primeira levou à constituição da nação em estado-nação.

Os entrelaçamentos econômicos em vias de internacionalização abriram à cidade de São Paulo a possibilidade de constituir-se em centro de controle e decisões. Ambas as vezes São Paulo fortaleceu a sua posição central. pela primeira vez na história brasileira. apenas da imitação de uma ruptura já efetuada em todos os outros países latino-americanos. A relação de concorrência era determinada nacionalmente mesmo para as empresas multinacionais. que lograram formar-se na esteira da abertura unilateral do mercado. mostrava-se e. e a partir dos anos 50 cada vez mais a indústria estrangeira.g. A ”internacionalização do mercado interno” e o deslocamento conexo do controle para o exterior foram uma ameaça constante à reprodução da estrutura produtiva nacional. Ganharam influência os interesses de capital orientados para o mercado interno. transferência de tecnologias e remessas de lucros. A partir de 1974 o campo de poder econômico do mercado interno. No entanto. depois como sistema de produção. Essa regulação estatalmente controlada prestava-se sobretudo a regimes ditatoriais. que no entanto concorriam entre si no mercado nacional. acoplado aos interesses da burocracia estatal nacional. Esse foi um modo de regulação que se distinguia fundamentalmente do fordismo periférico e foi implementado nos últimos anos com uma rapidez insuspeitada. a expensas de outros capitais regionais. típico para países industrializados. sobretudo a paulistana. sobretudo do capital industrial representado pela FIESP. Com o Plano Real o bloco dominante encontrou um novo arranjo institucional que abrangia todas as formas sociais da regulação. Isso levou a uma homogeneização da produção industrial no espaço nacional. Com a ”internacionalização do mercado interno” adquiriram importância aquelas empresas multinacionais que tornavam permeável o recipiente do poder autônomo nacional. Desde 1956. entrou no jogo. Pôde tornar-se centro do espaço do poder nacional. Sobretudo o populismo ampliou as margens de ação para processos de trocas políticas das classes baixa e média. o seu papel foi meramente defensivo. no entanto. mas produziu em grande parte um deslocamento do poder na direção do capital. mas em regimes democráticos a regulação estatal sempre provocou resistências maciças do empresariado. Nessas décadas São Paulo voltou-se de ”fora” para ”dentro”. começou a perder importância. Por fim o valor do dinheiro foi fixado nacionalmente. No seu lugar estabeleceu-se um modelo competitivo. Promovia a integração nacional. do mercado mundial para o mercado interno. A concorrência não foi mais determinada pelos oligopólios nacionais no mercado fechado. praticamente inexistiu no Brasil. mas adquiriram. por meio de investimentos diretos. A lógica de ação das empresas. Mais uma vez a oligarquia agrária pôde garantir o seu lugar nesse bloco social concebido como pacto de não-agressão. estruturado de forma oligopolista. mas por oligopólios dominados de fora. o acoplamento de aumentos de produtividade e evolução do salário real. um lugar no jogo do poder. O campo dos serviços financeiros tornou-se cada vez mais importante. isto é. 1 Se a moeda não cumpre as suas funções de guardar valores e ser critério de aferição do valor. dominado pelo regime financeiro. A classe trabalhadora e a camada média não faziam parte do bloco de poder. afastando-se do mercado interno na direção do mercado externo. de modelo burocrático de government para modelo descentralizado de governance.118 vinculada unicamente a relações fordistas de trabalho. o Brasil usou assim o seu espaço de ação para desistir de uma estratégia autônoma e inserir-se num movimento mais amplo. essa lógica da produção e do comércio de mercadorias para o mercado interno foi gradualmente minada pela transferência de tecnologia e sobretudo pelo financiamento externo. O capital paulistano logrou consolidar a sua supremacia no mercado nacional tanto sob regimes democráticos quanto sob regimes ditatoriais. no qual a indústria de São Paulo era dominante. mas não a composição do bloco de poder que se servia desse campo. encontrando-se para a inflação uma resposta institucionalizada na indexação. quando a moeda nominal já não pode mais fazê-lo. São Paulo começou mais uma vez a redirecionar o seu comércio exterior regional. A fixação do salário mínimo assegurava apenas um salário de subsistência. O mercado interno estagnou e o comércio exterior não aumentou suficientemente para dinamizar o desenvolvimento industrial. na dominação maior do mercado nacional pelas empresas paulistanas. A moeda foi regulada privadamente pelos mercados financeiros internacionais e o Estado foi reestruturado. Tratava-se. Mas no Brasil se viu que a moeda indexada também pode cumprir essa função. primeiro como mercado interno.1 Com o modo de desenvolvimento centrado no estado-nação alterou-se a hierarquia. Esta foi a forma irracional da luta de classes que era compatível com a estrutura concreta da des-ordem. que foi em parte abertamente repressivo. São Paulo continuou dando as cartas. orientada para o mercado interno. por meio da violência estrutural do desemprego. Como novo grupo determinante a indústria nacional. No campo nacional. ela impediu uma transformação na distribuição da terra. 118 . a forma social corre perigo. Por fim o modelo corporativista-autoritário da organização do trabalho entrou em colapso. porque controlava o setor-chave do capital industrial.

Por isso os donos do poder em Portugal especializaram-se cedo no campo do poder político. para tornar consciente a multiplicidade espacial de um momento histórico.2 A imponderabilidade do instante Numa primeira rodada examinei. permaneceu restrito. tornou-se o ator-chave do desenvolvimento econômico. artesãos ou simples camponeses. Cedo ficou evidente a necessidade de uma ordem militar-administrativa para organizar a 119 . Por sua vez. Portugal encontrava-se em posição vantajosa diante dos países mediterrâneos. que beneficiaram a burocracia palaciana. eventos regionais e nacionais.). comerciantes. A América forneceu os recursos materiais.se revelasse um negócio altamente lucrativo. A estrutura do capitalismo europeu em vias de formação ameaçou Portugal similarmente à América. As análises de estruturas e de ações e a representação separada dos diferentes planos espaciais são traduzidos para uma análise simultânea. Com suas espadas e caravelas eles abriam caminho para o intercâmbio transatlântico. não os produtores portugueses. a ação e a estrutura. cap. Devido ao seu estatuto perifério. por meio da análise estrutural. O Estado. Essa técnica do poder constituiu o patrimonialismo como forma de Estado distinta do feudalismo (Faoro 1997. que se tornaram o estamento dominante em Portugal (Faoro 1997: 45). quando a inserção da África e da América na economia européia estava na ordem do dia. Qualquer poder duradouro somente podia ser constituído em termos econômico-políticos. A civilização européia e a cultura ideal e material foram embarcados para ultramar. os comerciantes portugueses e aqueles comerciantes que atuavam em Portugal perceberam logo que sem a sua inserção na corte o seu sucesso econômico não seria duradouramente exitoso. no rei e nos funcionários e nobres palacianos. 115 anos antes da conquista do Brasil. mas não a posse da terra. Florestan Fernandes se vê inclusive levado a não reconhecer na história mais moderna do Brasil rupturas estruturais. A aristocracia territorialmente enraizada foi marginalizada.119 4. o capitalismo brasileiro é de difícil regulação. amparada no argumento da defesa da soberania nacional. Assim uma análise da conjuntura une momentos aparentemente separados. A primeira grande cesura que influiu na via evolutiva brasileira por vários séculos foi a revolução portuguesa de 1383/85. fundando-se a Dinastia de Avis (1385-1580). Este. fossem eles banqueiros. Era necessário adiantar grandes somas de capital para financiar uma expedição que depois do seu retorno talvez . Em uma guerra de dois anos a nobreza rural foi derrotada. A força de Portugal sempre foi de natureza militar-política. Tirou partido dessa posição para dinamizar o comércio. Geograficamente. A Lei de Sesmarias de 1375. mas apenas crises conjunturais (Fernandes 1987: 262). o poder sobre o espaço e o espaço de poder em termos cronológicos. em uma palavra. destinados ao processo de produção na Europa. representado por esse novo estamento palaciano. Nesse dado está a raiz da sua periferização na Europa. como fases evolutivas subseqüentes. Mas essa impressão perdurou pouco (Faoro 1997: 99-104). No plano econômico Portugal praticamente não conseguia opor nada ao processo da ”destruição criadora”. com os governados (Faoro 1997: 93 s. O rei governava soberanamente e controlava os pontos nodais do poder sobre o espaço. foi utilizada agora para enfraquecer duradouramente a nobreza rural. Mas como o poder estatal estava concentrado nas mãos do estamento palaciano. Contra tal se armou a resistência. A nobreza rural buscou estender seu poder econômico ao campo político. razão pela qual os eventos e as estruturas descritas nos capítulos precedentes agora podem ser representados de forma integrada. Desenvolveram aqui técnicas de dominação que fizeram afigurar-se suportável aos grupos dominantes in loco o seu papel periférico em termos mundiais. os produtos primários e os metais preciosos. O poder dos agentes da economia. Isso explica em parte por que os grupos dominantes se aferram teimosamente a privilégios e por que existe uma grande solidariedade entre as diferentes frações do capital. Ao foco econômico da análise estrutural foi contraposta a ênfase em processos políticos na análise do palco do poder construído sobre um campo de poder. que era em si contraditória e subtraía à nobreza rural a propriedade. A primeira impressão dos portugueses foi a de um universo idílico. Os navegadores portugueses eram guerreiros e aventureiros. Nos séculos da dominação portuguesa essa des-ordem foi também implementada no Brasil. por sua vez. obedecia cada vez mais a uma lógica do capitalismo comercial. A demanda de financiamento e o elevado risco exigiam uma organização desse empreendimento em termos de capitalismo de Estado. a aparente irracionalidade dos atores e os resultados irracionais.frise-se: talvez . a des-ordem da periferia. 1). Agora esses dois enfoques serão reunidos em uma análise da conjuntura. Quis transformar em nova rainha a sucessora legítima ao trono. Assim o aparelho burocrático de Estado institucionalizou-se como minoria alheada da nação. Na pauta estão sempre a contraditoriedade do desenvolvimento. este precisava participar das receitas do comércio ultramarino. os senhores locais dominavam o espaço de poder das suas propriedades rurais e eram de resto periféricos na topologia do poder. o nó do poder estava agora na corte. que no entanto era aparentada à casa real espanhola. com regras próprias e sem ligação com o povo. as viagens de descobrimento e o colonialismo tornaram-se um empreendimento estatal. pois uma conjuntura é um determinado tempo espacial no qual coincidem a política e a economia.

O cordão umbilical das relações monetárias para a Europa fazia-se sentir de forma inequívoca. correspondeu aos interesses mais intrínsecos da corte que fugira de Portugal (Pessoa 1983: 24). XIX. Em 1548 foi instituído na Bahia o Governo-geral com o objetivo da unificação territorial e jurídica (Faoro 1997: 144). os representantes dessa classe se tornaram os atores centrais no séc. acompanhado da corte inteira. Em Portugal. herdeiro do trono português. pois eles importavam todos os bens de consumo importantes. O endividamento do rei junto às casas comerciais estrangeiras tornava-o dependente delas. A decadência da economia colonial na segunda metade do séc. o que lhe permitiu a transferência do estilo opulento de vida da aristocracia européia para a América. o governador se transformou em vice-rei. a velha ordem colonial desmoronou. Quando o Brasil se tornou cada vez mais importante para Portugal. Além disso funcionários públicos específicos tinham competência para cobrar taxas e impostos alfandegários. Não obstante. pagos com a exportação do seu produto principal.000 a 110. No período de florescimento da economia açucareira ele foi rico.120 colonização dos trópicos como grande empreendimento comercial. mas por D. meros ajudantes de ordens dos reis. sua população aumentou em apenas dez anos de 50. que interrompeu o desenvolvimento industrial de Portugal (Furtado 1975: 78 s. Já em 1808 a abertura dos portos brasileiros para os navios ingleses e a conseqüente concessão de direitos de extraterritorialidade e uma tarifa alfandegária preferencial extremamente reduzida.000 (Faoro 1997: 249). Mas uma participação mais ampla do povo. Portugal era um parceiro júnior que só podia beliscar os lucros. Os interesses locais de produção. No plano local os municípios surgiam freqüentemente antes do início da colonização efetiva. O liberalismo do movimento independentista não tardou em esbarrar nos seus limites estruturais (Fernandes 1987: 34 ss. O preço de escravos. No comércio internacional. 120 . A Inglaterra estava interessada no livre comércio e atingiu a sua maior influência no Tratado de Methuen. formou-se um bloco de poder nacional no âmbito do mesmo campo de poder. Quando a corte retornou depois do fim das guerras napoleônicas a Lisboa.000 pessoas.). A aristocratização vertiginosa foi típica para a rápida mudança de mentalidade da burguesia (Faoro 1997: 287). O zelo revolucionário orientado nessa direção logo se volatilizou. fixada em 15%. uma variante de democratização era praticamente incompatível com um ordenamento estamental.2 O comércio exterior era de decisiva importância para os latifundiários e comerciantes de escravos. Por meio da doação grandes áreas de terras foram transferidas como unidades administrativo-burocráticas ou capitanias aos favoritos para fins de utilização. Posições antiportuguesas e liberais passaram a ser influentes nos grupos dominantes. por sua vez. era ditado pelo comércio e sua lógica. à qual o barão do açúcar não tinha acesso.). comerciantes portugueses. esse eficiente empreendimento da transferência de recursos para a Europa serviu apenas para fortalecer a des-ordem estamental parasitária. tinha muita importância para a colônia. O governador era a primeira representação territorial do poder político no plano espacial que haveria de ser mais tarde a nação. Mas o comércio local com sua grande extensão geográfica abriu também campos de atividades para monopolistas locais que eram. Na esteira do movimento independentista norte-americano a liberdade e democracia se afiguraram os fundamentos adequados do desenvolvimento americano. celebrado com Portugal em 1703. não obstante o seu monopólio político. Em 1807 o príncipe regente fugiu de Napoleão Bonaparte para o Brasil. O rei necessitava dos financistas para poder manter o estilo de vida da corte lusitana. Como barões do café. cuja sede passou a ser a partir de 1756 o Rio de Janeiro. XVIII reforçou os conflitos sociais e políticos. receberam apenas uma posição subordinada no campo de poder. os mercados britânicos não foram abertos aos produtos brasileiros que concorriam com os das Antilhas Inglesas (Furtado 1975: 95). Senhores absolutos in loco. No campo de poder dado. autogerida dos habitantes era algo desconhecido nesse ordenamento do espaço (Faoro 1997: 146 ss.).). ditada de cima para baixo. os capitães e governadores eram. Também aqui a unidade político-administrativa formou-se de acordo com uma lógica do controle sobre o espaço. organizados como espaço de poder local. mesmo se o próprio país praticamente não gerava riqueza (Faoro 1997: 116 s. quase sempre. O grito de independência porém não foi dado pelo povo brasileiro. Estavam localizados no exterior tanto os mercados de comercialização mais importantes quanto também o 2 Em contrapartida. não como cidadãos. O Rio de Janeiro se transformou em centro do poder. Pedro. O tamanho do Brasil. nas relações com o exterior. sem. Sem as lideranças antigas e com uma série de atores locais novos. contudo poder influir no poder sobre o espaço. O barão do açúcar dominava seu respectivo espaço de poder como proprietário de escravos e patriarca.000 e 15. a liberdade de comércio e a eliminação dos intermediários portugueses eram possíveis. as grandes distâncias e o afastamento dos produtores dos centros da administração portuguesa permitiram uma autonomia da plantação e do engenho açucareiros que sempre era registrada com desagrado. pois por meio dele se organizava a sujeição direta dos escravos e dos indígenas. que fundou uma monarquia em 1822 sem esperar muito tempo pelo sancionamento por uma assembléia constituinte. Um espaço de poder enquanto unidade autônoma. A riqueza dos barões do açúcar era medida pela sua propriedade de escravos. aproximadamente entre 10. O capital comercial transferiu os lucros para o Noroeste Europeu. Mas em tempos ruins ele só conseguia sobreviver por meio da exploração ainda maior dos seus subordinados. A nova des-ordem assentava no fundamento do patrimonialismo estamental.

Os republicanos combatiam a monarquia e negavam o problema da escravidão. Sobretudo a oligarquia agrária paulistana assumiu o ideário liberal-federativo. No plano da economia. impondo-o também em uma nova constituição. fortemente reduzido e desvalorizado depois da Guerra do Paraguai.121 mercado de aquisição dos bens de consumo. Sem despedir-se discursivamente do liberalismo. Durante muito tempo ele dependeu quase exclusivamente das receitas alfandegárias. concedido em 1898. ao invés de se aliarem às forças conservadoras (Furtado 1975: 115 s. mantidas em patamares baixos pela Inglaterra até 1844 (Furtado 1975: 42). Diante das contradições maciças entre as diferentes regiões e o poder central e dentro das regiões. As últimas tinham apostado nos laços unificadores da economia escravista e do crédito. com ela também as forças centrífugas. uma série de medidas deflacionistas 121 . As causas eram variadas. Ao lado do crédito de consolidação.).) Mas em resposta à pressão britânica e diante de uma crise econômica. que estruturava o poder sobre o espaço e intervinha no espaço do poder. A reivindicação de uma república e da descentralização estavam relacionadas com o deslocamento da dinâmica econômica para o Sul. opunham-se declaradamente à monarquia. submetida à pressão crescente da Inglaterra. Como ela de início não estava inserida na estrutura burocrática do Estado. a nação consolidou-se como espaço de poder. em 1889 os militares deram um golpe e proclamaram a república. Assim os processos de centralização implementados sob o governo de D. Mas os barões do café também optaram pela república. a política econômica foi redirecionada para uma política de fortalecimento da moeda. entre as várias frações do capital e os outros grupos paulatinamente emergentes. feita por expedientes. a profissão de fé entusiasta da liberdade econômica era subrepticiamente desmentida no importante setor cafeeiro. As fronteiras da nação podiam também ser usadas por grupos regionais como instrumentos para defender interesses provinciais. Os grupos urbanos e o exército. Na economia. O poder sobre o espaço era controlado pelo comércio e crédito que forneciam ao espaço do poder os seus recursos. O que ficou foi a destituição do imperador e a liberdade dos escravos de vender a sua força de trabalho. Pedro II não esbarraram em resistência radical. um abastecimento em escala mais larga e melhores condições de crédito. A ”política dos governadores” estabilizou a estrutura descentralizada do poder. Esse espaço de poder estava vinculado ao imperialismo britânico. dos quais os grupos economicamente dominantes necessitavam para satisfazer as suas exigências genericamente maiores do que no passado. A política monetária expansiva da década de 1890 . Mas a euforia liberal durou pouco tempo (Faoro 1997: 468). e desde 1850 também a Guarda Nacional. não em último lugar. As bordas do império faziam-se ouvir com levantes e rebeliões.).também não se ateve ao dogma do padrão-ouro e da neutralidade da moeda (Furtado 1975: 160). Uma nação estamentalmente dirigida parecia ser a forma mais eficaz para defender a economia escravista. o potencial revolucionário dos modernizadores se dissipou rapidamente (Fernandes 1987: 116). A eliminação do comércio intermediário português estava no interesse dos latifundiários para poder negociar preços menores de importação. Egler 1992: 38 ss. a oposição ficava excluída. Mas isso praticamente não equivaleu a uma abertura social. mas uma maior participação na nação (Faoro 1997: 316 ss. Ela via na autonomia dos estados a chance de poder seguir estratégias independentes. o Império (1822-1889) estabilizou um período de transição para um regime de acumulação extensiva. ao passo que os liberais radicais queriam abolir a escravidão e excetuavam a monarquia das suas críticas ao sistema (Santos 1978: 31). O imperador era mais poderoso quando se tratava de preservar estruturas historicamente surgidas do que quando se tratava de implementar novas regulações. Isso se deveu. A polícia e os tribunais. uma cláusula de ouro introduzida na cobrança do imposto de importação (1900). a regulação foi quase que forçosamente um muddling through. tornou-se o freio institucional das ocasionais tentativas reformistas empreendidas pela Câmara dos Deputados. pois os grupos dominantes impediram esforços maiores na direção da democratização. a sua preservação não lhe foi tão importante. também à precária situação financeira do governo central. A partir de 1870 a crítica ao Império cresceu.). O governador e o grupo regionalmente dominante impunham os seus candidatos nas eleições. então potência dominante. não reivindicaram a independência. O Brasil independente defrontava-se com uma elevada dívida externa e interna. cujo poder moderador consistia na compensação dos interesses dos grupos dominantes. Os grupos regionalmente dominantes apoiavam-se reciprocamente contra a eventual oposição interna. o que resultou num surto de desenvolvimento (Cano 1998a: 158 s. ao passo que os primeiros pretendiam colocar o capitalismo em novas bases. foram subordinadas ao poder central: o Conselho de Estado. formado por membros vitalícios nomeados pelo imperador. diretamente com a Inglaterra. no da política. A preservação da unidade territorial era a tarefa principal do monarca. Mas mesmo quando as províncias passaram a constituir-se como espaço de poder próprio. o Brasil praticou de fato uma política pragmática da regulação do mercado e da construção de um estado regional fomentador da acumulação (Becker.conhecida sob o nome de encilhamento . Mas como ambos estavam interessados em uma transição ordeira. A confiança na força da economia capitalista de mercado era tão grande que não se necessitava mais do monarca como poder moderador: em 1888 a escravidão foi abolida. A constituição da monarquia parlamentarista com uma segunda câmara formada por senadores vitalícios assegurava institucionalmente a dominação das forças mantenedoras do status quo.

3 Mais uma vez a libra esterlina fixava o valor da moeda. Com a 1ª Guerra Mundial abriram-se campos de ação nacional em quase todos os países maiores da periferia (Feldbauer et al. em parte. O interesse dos comerciantes pela ”tranqüilidade e ordem” e pelos produtos importados baratos opunha-se diametralmente ao dos industriais. devido ao fortalecimento da posição brasileira no mercado mundial na esteira da guerra mundial. Em 1923 foram promulgadas uma lei de proteção contra demissão e uma lei que instituía uma caixa de pensão para os ferroviários.6 Um comércio operado em vias organizadas importava mais aos comerciantes do que a exploração incontida no processo produtivo. Depois a taxa de câmbio despencou para uma relação de 9:1. os estados puderam subordinar os municípios inteiramente aos seus interesses.).1. realizado em 1906. 4 À guisa de ilustração: ”Em política. mediante o abandono da luta de classes. mas tornaram-se em muitos casos também transmissores do ideário sindicalista. em 1925 foi promulgada uma lei para os comerciários e em 1927 foi regulamentado.122 e um aumento considerável do valor das exportações (de 26 milhões de libras esterlinas nos anos de 1896 a 1899. 5 As greves de 1917 e 1918 foram um primeiro ponto culminante de uma série de movimentos sociais de protesto e conduziram a um deslocamento da relação de forças (Fiori 1995: 79).). o coronel era um intermediário político. Não só o comércio. para subir em 1916 mais uma vez a mais de 16. A associação comercial cindiu-se em 1927 e em 1928 surgiu o Centro de Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP) (Decca 1997: 135 ss. Num primeiro congresso nacional. No lugar de uma ordem localmente fragmentada deveria surgir uma forma centralizada da regulação no plano nacional. mas eu não mudo: fico com o governo” (Faoro 1997: 631). Os industriais assustaram-se diante do que se lhes afigurava falta de capacidade de imposição do Estado (Decca 1997: 176). Os imigrantes europeus já tinham. a regulamentação do mercado de trabalho pelo estado policial provou ser crescentemente ineficaz. Os representantes dos trabalhadores esperavam. Em 1916 foi introduzido no Brasil o primeiro Código Civil que fixou as regras do Direito de Contratos. Ao invés de substituir revolucionariamente o velho bloco de poder. Na década de 1920 ele abandonou cada vez mais o seu papel moderador. Diferentemente do barão do café. Quanto à representação dos interesses. a política dos governadores e o Partido Republicano conseguiam manter apenas penosamente a unidade das forças dominantes. Mas os industriais emergentes não eram suficientemente fortes para impor os seus interesses contra os trabalhadores. Ou: ”O governo mudou. Já durante a guerra ocorreram algumas transformações importantes. os empresários dispunham desde 1904 do Centro Industrial do Brasil (CIB). o trabalho infantil (Novy 1998: 152). os trabalhadores começaram a se formar lentamente como força política.5 A nação foi. na moeda e no direito.). Seu detentor era o presidente eleito por quatro anos. Mas ela foi também percebida como força unificadora que se pode opor ao passado particularista. 1995). O fortalecimento do estadonação adotou essa perspectiva e ofereceu assim a possibilidade de produzir a coesão social. isto é. Por necessidade aumentou não apenas a produção de bens de consumo. na qual a esfera pública desempenharia um papel importante. Silva 1986: 99s. Nos anos 20 ela despencou definitivamente e atingiu em 1928 um ponto baixo na relação de 5:1 (Silva 1986: 29). por uma revolução ”burguesa” contra a oligarquia. Estar na oposição era sinônimo de exclusão do campo de poder do Estado e do sistema das trocas políticas. Para ele o poder assentava no poder e na violência legais e ilegais (Oliveira 1987: 49). O coronel enquanto dono do poder local extraía o seu poder unicamente da delegação do poder pelo governador. mas também a produção de bens de 3 Uma primeira desvalorização maciça ocorreu em 1891 de aprox. 15 pence por mil-réis. associaram-se a ele e absorveram a sua forma de dominação política (Fernandes 1987: 203 ss. sem ajuda da oligarquia rural.). 6 Em 1919 foi promulgada uma primeira lei sobre acidentes no trabalho. o Estado buscou assegurar a ordem pública por meio de uma série de leis sociais. para 37 milhões nos anos de 1900 a 1903) ensejou a reconquista do equilíbrio da economia externa (Furtado 1975: 172. passando a atuar no sentido da centralização do poder. 27 a aprox. Com efeito. mas também o padrão-ouro organizado pela Grã-Bretanha entraram em colapso. percebida como plano de estabilização do poder. trabalhado na indústria. Por isso o poder local subordinou-se com muito oportunismo ao poder regional respectivamente dominante (Faoro 1996: 625 ss. o coronel não tinha nada de aristocrático. rural-local (Decca 1997: 73).). contra a resistência maciça do empresariado (Decca 1997: 195). Pedia-se a mão forte do presidente para suprimir os conflitos sociais e políticos. Num campo de poder no qual o Estado burocrático podia conceder em larga escala recursos públicos a particulares sem prestar contas. por conseguinte. embora sua organização partidária continuasse difícil em virtude das fortes correntes anarco-sindicalistas (Decca 1997: 201). Como os conflitos políticos se radicalizavam. por uma aliança de modernização com os industriais nacionais. A soberania do estado-nação baseou-se nessas duas colunas.4 Mas a nação continuou como um espaço central de poder. Num processo de centralização regional. eu sou intransigente: voto no governo”. o imperialismo e o feudalismo” (Decca 1997: 102 s. 122 . tornando evidente a crise da hegemonia britânica. O Estado assumiu funções de política econômica e tomou uma série de medidas que fomentaram a indústria (Cano 1998a: 200).

123 produção, em ramos como o processamento de metais e ferro.7 Na esteira dos aumentos de preços ocorreram em 1916 e 1917 reduções do salário real e lucros elevados, posteriormente em parte reinvestidos (Cano 1998a: 172 e 192). Os trabalhadores reagiram às perdas do poder aquisitivo com os primeiros grandes movimentos grevistas. O centro dessa nova dinâmica foi São Paulo, que pôde durante a guerra aumentar a sua participação, na produção geral, na exportação de mercadorias industriais para outras regiões do país de22,7 % (1914) para 39,5% (1917). Depois da guerra essa participação caiu para 24,2%, mas o potencial regional para a substituição das importações já existia (Cano 1998a: 187). Se o grande salto quantitativo da indústria paulistana iniciou-se nos anos de 1905 a 1907, os anos 20 assistiram às necessárias transformações qualitativas, à medida que a produção se diversificava e se formava, ainda que rudimentarmente, o setor de bens de produção (Cano 1998a: 269). A regulação acompanhava de modo claudicante as transformações fundamentais da dinâmica da acumulação. Ainda nos anos 20 o estado central procurou manter o padrão-ouro, mas perdeu em 1929 em três meses, devido à fuga de capitais, todas as suas reservas de ouro acumuladas nos anos anteriores (Furtado 1975: 185). Estava subtraída a base ao velho campo de poder. Os preços do café caíram de 22,5 cents/libra para 8 cents/libra em 1931 (Altvater 1987: 204). Em decorrência disso, o pagamento dos juros e da amortização da dívida foi interrompido e a dívida externa renegociada.8 Mas com isso a oligarquia agrária não entrava automaticamente em crise. Estavam previstas eleições para 1930 e a pauta dos grupos dominantes era business as usual, isto é, ocorreu uma luta pelo controle do espaço de poder nacional com as conhecidas e reconhecidas regras de jogo da manipulação. Sob a liderança de Washington Luis, o Partido Republicano de São Paulo quis impor o seu candidato Júlio Prestes contra a vontade de Minas Gerais e setores importantes da opinião pública. Mas a intranqüilidade na esfera pública até então raras vezes tinha logrado obter êxitos políticos. Tivesse tudo transcorrido normalmente, o poder econômico de São Paulo ter-se-ia constituído também como poder político. Talvez tivesse ocorrido assim uma autêntica centralização dos poderes econômico e político, iniciando-se uma revolução burguesa no sentido europeu (Fiori 1995a: 83 s.). De início os industriais paulistanos apoiaram esses esforços. Mas a Aliança Liberal, que era oposição em São Paulo, quis abolir a ordem dos partidos republicanos, com o apoio de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul. Seu candidato Getúlio Vargas, político dirigente do Rio Grande do Sul e ex-ministro de Washington Luis, perdeu as eleições. Mas em outubro ele chegou ao poder num golpe sem violência, com apoio dos militares. Assim o levante sem derramamento de sangue de 1930, a ”revolução burguesa” do Brasil, não foi respaldado pelos industriais; tampouco foi uma revolução contra a oligarquia agrária. Ele foi uma revolução que favoreceu a modernização conservadora. O fim da República Velha já se prenunciara com o levante militar de 1922 e a marcha dos militares orientados para a transformação pelo Brasil. Um novo campo de poder evidenciou ser necessário para estar à altura dos desafios dos tempos. A modernização foi concebida aqui como uma tarefa nacional, isto é, direcionada para dentro, visando a aproximação com o povo. Daí o estreito acoplamento de modernismo e nacionalismo no Brasil (Lahuerta 1997: 114). Oito anos mais tarde, a constante pressão das ruas e o meio urbano crítico em vias de surgimento foram suficientemente fortes para derrubar um regime, mas demasiado fracos para participar da configuração da nova ordem. Essa foi a única mudança de regime na qual o ideário liberal não foi ponto de referência utópico central de uma ordem melhor, embora a organização mantenedora fosse a Aliança Liberal. Em oposição à des-ordem existente, o povo apoiou os rebeldes, não importando o que estes pudessem representar (Faoro 1997: 683 ss.). Ao lado do liberalismo, o positivismo com sua lógica modernizadora centralista, tal como ele já tinha sido praticado exitosamente no Rio Grande do Sul na República Velha, foi um fator determinante (Bosi 1999: cap. 9). As formas radicalizadas da oposição foram o fascismo, de um lado, e o socialismo, de outro. O élan originariamente anti-oligárquico de Vargas dissipou-se imediatamente, pois ninguém queria enfraquecer efetivamente o setor que gerava as divisas. Por isso Vargas também nunca rompeu com os ”velhos” interesses cafeeiros. Como a aliança na qual ele se baseou, a sua política econômica foi contraditória.9 Os passos exitosos na direção da industrialização lhe foram impostos pelas condições gerais protecionistas da economia mundial. De início, a política industrial serviu para apoiar a agricultura e era desenvolvida ad hoc (Fausto 1981: 48 s.). Baseado na poupança interna, Vargas quis ampliar o setor de bens de produção. A participação do café no total das exportações caiu de 68,8% a 42,1%, mas continuou tendo uma importância central (Fausto 1981: 105).
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A produção de ferro aumentou de modestas 4.267 toneladas para 11.748 toneladas (1918); 5.936 novas empresas surgiram entre 1915 e 1919 (Cano 1998a: 182 s.). 8 Quando o Brasil repetiu essa medida em 1937, não houve nenhuma sanção por parte dos credores, o que se explica basicamente a partir da composição da dívida externa: 65% dos créditos estrangeiros vinham da Grã-Bretanha e apenas 30% dos EUA. Para os últimos, o Brasil era mais importante como parceiro comercial do que como devedor. Acrescia ainda o interesse norte-americano em não perder o Brasil como aliado militar. 9 No longo prazo ela consistia em uma estratégia de industrialização, mas no curto prazo a política monetária e fiscal foi restritiva (Fiori 1995a: 93).

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124 Em 1932 a oligarquia agrária e os industriais de São Paulo rebelaram-se contra o estado central e a sua política econômica pouco clara, que levaria, conforme pensavam, a degradação de São Paulo. São Paulo julgou-se mais uma vez suficientemente forte para assumir ao lado da supremacia econômica também o mando político. Mas Vargas impôs, na tradição da estratégia clássica do establishment brasileiro, preservadora do status quo, uma compensação de interesses. O estado burocrático deveria preservar-se diante do poder econômico uma certa margem de ação, para poder continuar deixando participar do bloco hegemônico membros regional e socialmente periféricos do bloco de poder. Mas Vargas também incluiu os grupos dominantes de São Paulo no novo velho sistema do poder, abrindo-lhes um acesso privilegiado à burocracia. O Estado continuou se empenhando na tarefa de desorganizar a classe trabalhadora e, caso necessário, oprimi-la. Mas não houve nenhuma hegemonia social e política do capital paulistano, em que pese a sua dominância econômica. Embora economicamente cada vez mais insignificante, a oligarquia agrária pôde estabilizar o seu poder político, formando um bastião contra as tentativas de São Paulo de impulsionar a homogeneização da nação nas dimensões espacial e social. Ao invés de um fordismo da produção de massa para o consumo das massas, dominado por São Paulo, a oligarquia agrária logrou introduzir um fordismo periférico, cujos esforços de homogeneização esbarravam nos interesses vitais da oligarquia agrária. A ”revolução conservadora” de 1930 antecipou-se a duas outras evoluções possíveis. A primeira era a assunção total do poder por São Paulo e a concentração do poder naquela parte do Brasil que estava se modernizando vertiginosamente. A opção magnificada no plano ideológico, mas de fato destituída de realismo, era uma revolução comunista. Não obstante, a classe trabalhadora e os oficiais reformistas foram marginalizados gradualmente no decorrer dos anos 30. A luta de classes foi solucionada com meios coercitivos. Isso também não foi minimamente mudado com a introdução do sufrágio universal na Constituição de 1934, ocorrida pela primeira vez na história do Brasil, pois já em 1937 o estado de emergência entrou em vigor. O estado-nação autoritário possibilitou em 1935 depois de um golpe malogrado a proibição do Partido Comunista, o desmantelamento das organizações autônomas da classe trabalhadora e de outras organizações progressistas da sociedade civil. Getúlio Vargas governou ditatorialmente no Estado Novo. No lugar dos governadores eleitos estavam os ”interventores” nomeados pelo presidente. No plano local as capitais estaduais reconquistaram a sua autonomia apenas a partir de 1953, pois até então os prefeitos eram nomeados pelos governadores. Mas as câmaras de vereadores já se constituiram em 1948 e tornaram-se canais de diálogo entre associações de bairro e o Poder Executivo (PMSPet al. 1992: 72). Jânio Quadros tornou-se o primeiro prefeito eleito de São Paulo e introduziu uma nova forma da ação política, o populismo de direita. Nas ondas da derrota do fascismo, o Brasil experimentou em 1945 uma nova euforia liberal. O governo de orientação liberal (1945-1950) proibiu novamente o Partido Comunista e acreditava poder colocar no lugar da des-ordem periférica multissecular uma ordem ocidental: uma economia democrática de mercado em aliança com os EUA. Mas mais uma vez Vargas cruzou os sonhos do establishment. Em 1950 ele chegou ao poder com o seu PTB, por via democrática, abandonando o poder apenas em 1954 ao suicidar-se. Permitiu assim a entrada em cena do populismo enquanto estratégica política irracional, mas poderosa. Diant da des-ordem do Brasil, essa era a única alternativa historicamente viável à política do establishment. Vargas, Quadros e Collor foram todos políticos que permaneceram corpos estranhos no establishment, embora a sua política servisse perfeitamente aos interesses dos grupos dominantes. A política de industrialização foi financiada sob o regime de Vargas com a poupança existente no próprio Brasil e realocações de recursos, o que a distinguiu da maioria das estratégias anteriores e posteriores; germinalmente, ela também foi financiada já por via inflacionária. O setor privado deveria ser fomentado por serviços e produtos subsidiados da indústria nacionalizada, na qual se esperava elevados aumentos de produtividade do trabalho (Oliveira 1989: 80). Mas essa estratégia esbarrou em uma resistência maciça. Acresceu o fim da Guerra da Coréia e, paralelamente, o fim do surto exportador para produtos brasileiros no período do pós-guerra. Isso levou a protestos da classe trabalhadora e em 1953 à grande greve dos metalúrgicos em São Paulo, o que facilitou a desmoralização de Vargas. Extensos segmentos do bloco dominante e sobretudo os EUA minaram a sua política econômica nacionalista. As restrições externas, concretizadas em dificuldades do balanço de pagamentos, acirraram-se a partir de 1954 (Tavares 1983: 35 ss.). Depois do suicídio de Vargas o establishment achou que teria chegado a hora para assumir a administração do Estado. Mas após dois anos de governos de transição de orientação liberal e de uma política do laissez-faire Juscelino Kubitschek (1956-1960) assumiu o poder. O seu governo continuou a aliança do PSD, partido da oligarquia agrária, e do PTB, partido do trabalhismo, e com isso a estratégia de desenvolvimento centrada no estado-nação, mas optou por caminhos bem distintos dos de Vargas: a saber, pelo endividamento externo e pelo financiamento por via da inflação, o que representou uma forma de financiamento flexível no curto prazo. Kubitschek pretendeu realizar em cinco o desenvolvimento de cinqüenta anos e recorreu para tal fim ao tripé, à trípode aliança entre os capitais internacional, nacional e estatal. A solidariedade entre os diferentes grupos de capitais deveria permitir um desenvolvimento nacional harmônico. Com a ”internacionalização do mercado interno” as empresas multinacionais tornaram-se atores principais da exploração do mercado doméstico por meio de bens de consumo duráveis. Conexamente as organizações financeiras internacionais e os EUA tornaram-se os

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125 atores que diante de dificuldades crônicas com o balanço de pagamentos podiam demarcar as fronteiras de caminhos possíveis de desenvolvimento. Kubitschek se viu repetidas vezes obrigado a tomar conhecimento do poder do Fundo Monetário Internacional, que quis impedir o financiamento da estratégia de desenvolvimento nacional (Oliveira 1989: 82-90). Mas o seu governo transcorreu sem grandes confrontos internos ou externos. Não obstante, ele não conseguiu impor o seu candidato para a sucessão e o carismático Jânio Quadros, um político populista não-convencional de São Paulo, foi eleito presidente como candidato da UDN. Quadros usou o cargo de governador de São Paulo como trampolim para a presidência da república em 1960. Tinha chegado ao governo de São Paulo graças à sua posição de prefeito da capital do estado (Furtado 1997b: 192-196). Quando o crescimento econômico arrefeceu nos anos 60, o pacto baseado no desenvolvimento nacional começou a esboroar-se pela primeira vez. Depois da renúncia de Quadros e sob a presidência de João Goulart os conservadores tentaram fazer tudo para fechar os canais da participação política e econômica dos trabalhadores e posteriormente também do movimento dos trabalhadores rurais, que tinham sido criados pelo populismo varguista. Os progressistas, por sua vez, pareceram poder participar pela primeira vez do poder nacional. Mas as reivindicações radicais referentes à reforma agrária e ao controle do capital estrangeiro não estavam - não em último lugar devido à manifesta fraqueza de Goulart enquanto líder político - nem integrados em um projeto de Estado (que Estado queremos?) nem em um projeto hegemônico (que sociedade queremos?) (Oliveira 1989: 90 ss.). As diferentes medidas de estabilização, todas fracassadas (1954/55, 1958/59, 1961 e 1963) foram momentos decisivos dos conflitos sociais, pois visavam a distribuição do valor adicionado (Fiori 1995: 97). A dinâmica industrial determinava os espaços da ação política. Kubitschek dispunha desses espaços e fazia uso deles, Goulart dispunha deles em grau muito menor e não fazia nenhum uso deles. Os conservadores passaram a preparar coerentemente um golpe. Quando este não foi possível com meios constitucionais, pois João Goulart reconquistou os seus direitos presidenciais por via de um referendo, o golpe militar foi a única alternativa. Com o golpe militar de 1964 atingiu-se uma nova, última e agora antidemocrática etapa da centralização do poder do estado-nação. A ”Revolução de Abril” realizou o que os conservadores quase tinham atingido em 1954. Os militares e os seus suportes civis assumiram o poder para reduzir a influência do Estado e realizar reformas liberais. Na realidade ocorreu, no entanto, uma modernização conservadora comandada pelo Estado e a ascensão do Brasil à condição de poder regional (Becker, Egler 1992: cap. 4). Contrariando o ideário liberal, isso levou no tocante à estrutura espacial do Estado a um enfraquecimento do federalismo, pois os governadores, à frente de todos Leonel Brizola no Rio Grande do Sul e Miguel Arraes em Pernambuco, tinham criado espaços de poder regional da oposição. Por isso os militares se interessaram especialmente pelo enfraquecimento do plano estadual. De resto, os militares também cimentaram a estrutura burocrática do Estado e cuidaram unicamente para que os canais de acesso permanecessem fechados ao povo e facilitassem a imposição dos interesses do capital. Partes do capital nacional caíram para fora do bloco dominante na recessão provocada pelos militares nos anos de 1964 a 1967. Institucionalmente, os militares lançaram as bases de um capitalismo financeiro. Em 1967/73, com o ”milagre brasileiro”, foi empreendida pela última vez a tentativa de salvar por meio do crescimento e da centralização o velho poder sobre o espaço (Oliveira 1989: 91-107). Mas dessa vez os militares não deviam apenas assumir o papel do árbitro, mas além disso participar do jogo, mais precisamente na condição de atores decisivos. O fordismo periférico não se baseou em um novo bloco de poder, mas o velho bloco de poder foi preservado em uma nova hierarquia. O capital industrial dominava, mas a oligarquia agrária cuidou de garantir a sua posição nesse bloco social concebido como pacto de não-agressão. Ela agiu de modo exclusivamente defensivo, isto é, impediu uma transformação da distribuição da terra. A classe trabalhadora e a classe média não faziam parte do bloco de poder, mas conquistaram pela primeira vez na história do Brasil um lugar no jogo do poder. Sobretudo o populismo ampliou as margens de ação para os processos de trocas políticas das camadas baixa e média. Como novo grupo determinante entrou a indústria nacional, sobretudo paulistana, e a partir dos anos 50 também a indústria estrangeira. Por intermédio do capital produtivo e financeiro o espaço ”externo”, que tinha perdido a sua importância no universo das mercadorias, começou novamente a fazer valer a sua dinâmica determinadora. O fracasso do fordismo periférico esteve vinculado a essa vulnerabilidade de ”fora”; não foi possível impulsionar um processo de acumulação autônomo, internamente financiado. A dependência externa de investimentos diretos e créditos provou ser fatal na nova crise. O campo do poder nacional sofreu uma erosão. ”Fomos felizes e não sabíamos”, eis uma afirmação freqüentemente usada à saciedade nos anos 80 por adeptos da ditadura militar. Um olhar sobre os dados macro-econômicos permite compreender essa nostalgia, pois os mortos da repressão não figuram nas estatísticas oficiais. Mas é estranho que hoje, 25 anos depois, mesmo opositores veementes do regime militar se lembram com certa melancolia dos últimos anos da ditadura, dos anos de uma resistência heróica, dos tempos nos quais as utopias de um mundo melhor orientavam

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A aliança das classes média e baixa desenvolveu uma força produtiva insuspeitada. A abertura do momento impeliu quase todos os críticos do sistema à ação. 1978 e 1980 as grandes greves dos metalúrgicos. Entre 1967 e 1973 a indústria automobilística cresceu anualmente na razão de 24%. em si um esteio do Estado. do Estado e da economia no Brasil foi 126 . O liberalismo e a desestatização pareciam vir ao encontro dos seus interesses. as lutas entre os grupos dominantes se acirraram. que sempre cultivara uma atitude pragmática diante de valores democráticos (Costa 1997: 34 s. 42% eram proprietários de terras (Dreifuss 1989: 40). A igreja católica. Formou-se um bloco de poder alternativo e segmentos importantes do bloco dominante simpatizaram. O crescimento e a crise concentraram-se na região industrial do ABC e permitiram à classe trabalhadora local fazer se ouvir mais uma vez de forma perceptível. 11 Mas com a popularização do conceito de ”sociedade civil” ocorreu aos poucos uma mudança organizacional maciça. tornou-se cada vez mais portavoz da sociedade e ponto de aglutinação da oposição. No curso do ”movimento antiditadura” parecia fazer sentido seguir a tradição liberal e falar de sociedade civil como setor autônomo com relação ao Estado. O establishment subestimara a raiva acumulada diante do sistema vigente e a radicalidade do desejo de mudança. conseqüentemente. e isso justamente no ramo central do desenvolvimento industrial. Por isso a exigência de eleições diretas para a presidência da república organizou-se num poderoso movimento. os aumentos salariais demasiado baixos da indústria metalúrgica paulistana provocaram o primeiro grande protesto público contra a ditadura militar (Novy 1994: 28-31).126 poderosamente a ação e serviam de estímulo. em uma central sindical e em iniciativas de base. para que tantas esperanças fossem decepcionadas? No Brasil.). Estagnou a reflexão sobre a sociedade brasileira. Os movimentos sociais viam na questão social o problema principal e a maioria deles advogava implicitamente uma ou outra variante do socialismo. os índices inflacionários falsificados pelo governo e. cujo leitmotiv passou a ser a continuidade. isto é. em parte financiado e em parte executado o golpe de 1964 foram transformados em bode expiatório. Em 1974 a fase mais dura da ditadura e repressão chegou ao fim. Em 1977. O que aconteceu no palco do poder e nas profundezas da estrutura do poder. Na visão de muitos empresários. Isso é quase sempre o melhor pré-requisito para a apropriação de conceitos. Foram os nordestinos. não a mudança. Mas ao invés da eleição direta. Repentina e inesperadamente evidenciou-se a existência de uma dinâmica social considerável. em ligação orgânica com esse partido. tornaram-se pontos de cristalização da resistência. Esse movimento foi basicamente apoiado por migrantes. A interpretação dos acontecimentos foi deixada a cargo de outros agentes. pois a atualidade política exigia o engajamento. A ditadura militar estava deslegitimada. Mas o bloco de poder que assumiu o Executivo com Sarney sabia que só teria chances de ser reconhecido como legítimo com um governo que se mostrasse aberto às reivindicações da sociedade civil. A des-ordem tradicional foi questionada pelos trabalhadores e pelo movimento em prol da democracia. Ao mesmo tempo a classe trabalhadora começou .tão logo a repressão arrefeceu . pois a luta de classes por enquanto tinha sido ganha. A inserção do fenômeno das organizações de bairros em uma análise global da política. O oponente era claramente identificável: os militares e os grupos a eles aliados. desenvolvidas pelos sindicados em si oficiais. contra os salários. na indústria estatizada e nos bancos estatais. Por fim.). Com isso a distribuição extremamente desigual tornou-se um tema prenhe de conflitos. mas como espaços sociais de poder de classes conflitantes (Oliveira 1998a: 119 s. Métodos distintos de medição nas indexações serviam genericamente para beneficiar determinados valores. mas necessária do milagre econômico em São Paulo. que conquistara nas décadas anteriores uma maturidade considerável.10 Mas muitos peritos. pois a classe trabalhadora organizou-se pela primeira vez em um partido próprio e. Os grupos responsáveis pela saída dos militares queriam também estar representados no novo governo. que começaram a questionar a des-ordem da ditadura. José Sarney tornou-se presidente depois da morte de Tancredo Neves. a aliança das camadas média e baixa: eis a receita do sucesso dos movimentos sociais dos anos 80. para encolher nos anos subseqüentes (Pacheco 1998: 58). os tecnocratas e militares no aparelho de estado estavam ficando demasiado poderosos. entre o pobre Nordeste e o rico Sudeste. nelas se efetuava uma ponderação dos interesses conflitantes. a mão-de-obra desprezada. Os anos 70 e 80 foram caracterizados no Brasil pela consciência de viver em uma sociedade conflitiva. sobretudo os do setor financeiro. Os militares e não a burguesia liberal que tinha em parte desejado. facilitou o ataque ao estado desenvolvimentista e deu poder ao empresariado. eleito por um colégio eleitoral. Dois terços dos deputados federais tinham como fonte principal da sua receita as suas empresas. se não com a forma alternativa de organização. Nas instituições do Estado os diferentes atores se encontravam. e isso mais ainda na esteira da crise do endividamento. Sarney era um político da ditadura militar e simbolizava a ”transição pactuada” para a ”Nova República”.11 10 Sete ministérios eram ocupados por militares. Empresários assumiram posiçõeschave em ministérios. Democracia e socialismo. A luta de classes atingiu uma nova dinâmica e uma nova qualidade. Tudo isso ficou cada vez mais difícil na ditadura militar. intelectuais e professores universitários quiseram prestar uma contribuição ao primeiro governo democrático. Mas infelizmente esse termo apresentou um perfil conceitual apenas muito difuso. ao menos com uma boa parte das reivindicações desse movimento. Os guetos dos nordestinos trouxeram a questão regional como uma questão social a São Paulo e redefiniram o problema do espaço e do poder: não como luta entre espaços geográficos.a manifestar-se publicamente. o estado-nação foi o palco central da luta pela hegemonia entre 1930 e 1980.

Depois dos liberais. Por outro. Uma exceção saliente foi a tese de doutorado de José Luís Fiori de 1985. processos nacionais de negociação de interesses. as lideranças regionais e o próprio capital estrangeiro. dolarize-se. Mas dessa vez já se fez necessária uma impedida pelo conceito liberal de sociedade civil. eram rechaçadas crescentemente com a menção dos cofres vazios. referidos ao Estado. e como não tinham representantes fortes dos seus interesses. Talvez o único ”porta-voz” dos pobres seja hoje o MST (Movimento Sem-Terra). portanto. e diante de um futuro incerto. No limite. publicada apenas dez anos depois. progressivamente. orientado segundo o consenso. o regime perde. combatiam diretamente aumentos do salário nominal. baseada no modelo do estado desenvolvimentista burocrático-autoritário. 12 José Luís Fiori (1995: 112) reconhecera já em 1984 quão fundamental fora a crise dos anos 80: “[. a economia nacional. cuja lei de valorização teve sua raiz mais profunda na liberdade de decisão estatal sobre o valor do dinheiro e do direito. Medidas de política social e democrática. no aspecto do autoritarismo estatal. e os direitos fundamentais sociais elementares. Eles centraram a sua crítica. em nosso entender. aquecendo a inflação. que pecaria pelo simplismo. foram implementadas pragmaticamente. cujos elementos nucleares eram. a análise sistêmica da margem de ação não estava na agenda imediata. Forçado pelos fatos. depois de 60 anos. Renasce a luta interna da classe dominante com uma virulência inédita e por suas brechas cresce. Esse vácuo foi preenchido pelos assim chamados pós-marxistas que fizeram com que uma interpretação da conjuntura de orientação liberal de esquerda fosse considerada socialmente aceitável. igrejas e organizações de bairros estão enfraquecidas. isso foi simples para o empresariado (Pereira 1998: 142 s. estavam sempre em posição de inferioridade diante de peritos da administração pública. o desafio de um ciclo que parece exaurido e de uma tendência que aponta para sua implosão ou reformulação integral. que mal chegara ao poder. Em virtude da estrutura oligopolista do mercado. pois o país estava mergulhado em uma crise econômica e fiscal. tão determinantes no início dos anos 80. assistimos à implosão do Estado desenvolvimentista.” (Heins 1992: 239). de forma autônoma. eles minaram o valor desses aumentos do salário nominal. Mas os governos dispostos a reformas assumiram as administrações estaduais num momento extremamente desfavorável. mas igualmente uma questão de ‘referência aos destinatários’.127 O meio científico do fim dos anos 70 era fortemente cunhado pelo marxismo.] a crise interna se acentua no âmbito de uma crise geral do sistema capitalista e da hegemonia norte-americana. enfrentando. Por meio da democratização do Estado e da descentralização de processos decisórios parecia possível no início dos anos 80 construir um belo novo palco: a classe trabalhadora reivindicava o seu lugar no sistema político nacional. A crise não permitiu que essas medidas fossem muito bem-sucedidas. suas principais lealdades. Na hora da crise. Em 1982 o PMBD obteve um grande sucesso nas eleições para governador. Apesar disso as vitórias eleitorais do PMDB foram mais uma vez continuadas.). Mas assim foi possível. desativando seus gastos e investimentos em obediência a um novo plano estabilizador. Os empresários resistiam contra os iminentes aumentos salariais. de fraca presença.. ameaçado de implodir com a crise fiscal do Estado. Foram intelectuais paulistanos moderados em torno de Fernando Henrique Cardoso (Lehmann 1990: 71-76) que descobriram a suposta originalidade do liberalismo e internacionalismo. obrigatoriamente. Tudo isso levou a uma perda de importância das organizações de bairro e com isso a uma renovada marginalização dos pobres. O campo discursivo estruturava-se dessarte em torno de uma crítica genérica do palco do estado desenvolvimentista. Como os pobres muitas vezes não dispunham de uma formação escolar suficiente.. Hoje são reduzidas as possibilidades dos pobres de defender o Estado de Bem-Estar Social. que recua ante as condições de insolvência interna e externa do Estado desenvolvimentista. As exigências de melhorias da infraestrutura. perderam influência política no final dos anos 80. no âmbito do PMDB. Sindicatos.“ 127 . quis assumir um papel construtivo depois de duas décadas de crítica.12 O Estado não dispunha mais de dinheiro para servir de mediador entre interesses conflitantes. ”Depois dessa crítica a radicalidade de um discurso democrático não é apenas uma questão de ‘alcance temático’. é que o Estado desenvolvimentista levou ao seu limite suas potencialidades e contradições. Por um lado. Sem alternativas. construir uma ampla aliança em prol da democratização sem provocar a resistência aberta dos militares. referidos à sociedade civil. Como a oposição. em cuja inexistência se identificava a fraqueza principal da ditadura militar. da Igreja e da classe média desertam os empresários. Extingue-se esse poder na hora em que. uma legislação trabalhista e social nacionalmente unitária e. O que parece certo. Os esforços do movimento sindical visavam uma regulação territorial nova das relações de trabalho. hoje. Sem nenhuma pretensão explicativa. em 1995. parece-nos contudo significativo que. nosso dinheiro volta a submeter-se a um padrão monetário internacional. A administração do espaço de poder substituiu a reflexão sobre o poder sobre o espaço. muito provavelmente. um movimento social amplo que exige melhores condições de vida e maior participação política. os movimentos ambientalista e feminista restringem-se a segmentos da classe média. o próprio Estado recua. Desse modo eles lançaram uma névoa sobre a desordem da periferia e localizaram de forma grosseiramente superficial o Estado como fonte única de todos os males. conforme mostrava o grande número de greves. que no entanto se subtrai ao conceito de sociedade civil. Apesar disso faltaram no fim da ditadura análises de economia política que interpretassem a conjuntura específica. Na confluência dos desencantos dos vitoriosos de ontem com o sofrimento dos derrotados de sempre germina uma realidade de contornos ainda imprecisos. extingue-se a eficácia do principal suporte dessa longa e heterodoxa ‘acumulação politizada‘. cujas causas devem ser buscadas na estrutura profunda do campo de poder. especialmente no tocante a contratos coletivos de trabalho.

Embora esse lobby empresarial fosse muito poderoso no Congresso. O establishment.g. por parte da direita. mas apoiou-o como única alternativa a Lula. Mas os grupos dominantes permaneceram cindidos. Reformas estruturais seriam. Ao mesmo tempo ganharam influência os esforços discursivos em prol da inversão semântica: os ”verdadeiros” progressistas seriam os que se empenhariam pela mudança do status quo. Mas a maior parte temia ainda mais um ganho decisivo de poder para o bloco alternativo. de resto. brindou a esquerda com uma vitória enorme e inesperada nas eleições municipais de 1988. Isso levou à negligência diante da camada baixa. Foram quase sempre ações concertadas de atores da sociedade civil. o novo velho prefeito de São Paulo. convidando os segmentos organizados da população para a participação. Questões sociais e democráticas eram importantes para a população. A administração municipal de São Paulo certamente não foi responsável pela derrota apertada de Lula. por sua vez marcado pela excessiva presença do Estado.) opina que ao lado da fixação no Estado a tarefa de governos de esquerda deveria estar também na ”socialização do poder” e num processo de conscientização. um candidato amplamente desconhecido. No Congresso 3 a 12% dos deputados eleitos se viam em 1986 como representantes dos interesses dos trabalhadores. Orestes Quércia. era um direitista tradicional.certamente teriam sido de serventia. No curto prazo não foi possível fazer com que camadas mais amplas da população experimentassem a melhoria das condições materiais de vida. Ambos defendiam uma política oportunista-pragmática de aliança com o governo federal e consolidaram a aliança com os conservadores. Assim São Paulo se transformou na vitrine da política nacional. Sobretudo em São Paulo abriram-se perspectivas de um projeto alternativo de Estado. Setores importantes do empresariado temiam o programa de Collor. Assim os esforços em emendá-la iniciaram. Ubiratan 1997. Novy 1994: cap. dificilmente organizável. duas concepções de mudança se enfrentaram: a do messiânico e autoritário Fernando Collor de Mello. Sader (1997: 178 ss. campo no qual os grupos dominantes estariam privilegiados. No interior do PMDB a ala liberal de esquerda amargou um duro golpe com a derrota de Fernando Henrique Cardoso nas eleições para a prefeitura de São Paulo em 1985. e o novo governador de São Paulo. seja no conflito com os camelôs. sobretudo a inserção da população pobre não-organizada . no ”Orçamento Participativo” em Porto Alegre. De início. candidato do PT e apoiado pelas organizações da sociedade civil. Mas os êxitos naturalmente foram modestos no primeiro ano do governo: a dívida deixada pelo prefeito anterior era tão grande quanto a inexperiência administrativa do PT. que parecia envelhecida depois de pouco tempo. Luiza Erundina começou a governar em São Paulo quando a campanha eleitoral para as primeiras eleições livres para a presidência depois de 29 anos estava por iniciar.). representante dos eternos perdedores reunidos na autonomeada ”sociedade civil” e portador de um programa democrático-socialista. capital meridional do Brasil (Genro. produzindo resultados negativos nas eleições municipais de 1992. realizadas em 1989. Mas a administração de Luiza Eruindina não foi tão convincente a ponto de demonstrar sem sombra de dúvidas a competência administrativa do PT. no sistema de transporte. formadas via de regra por parceiros da sociedade e membros do governo. Seu conteúdo refletia ainda outra conjuntura. disposta a transformações e tributária do modelo do estado desenvolvimentista nacional. o ”partido do Estado” não se entusiasmou com Collor. Medidas locais causaram um impacto nacional. A decepção diante do PMDB e da Nova República. ele não estava organizado em termos partidários. No plano da liderança da opinião pública podia-se falar em 1989 ainda de um certo equilíbrio. Atingiu esse objetivo em parte. A Constituição de 1988 mereceu com razão o apelido ”constituição cidadã”. nas negociações sobre um novo Plano Diretor ou no Foro da Cidade (Singer 1996). Collor ganhou a eleição com os votos dos pobres. Jânio Quadros. Mesmo os 45% dos votos obtidos por Lula foram um forte choque para o establishment.como e. A administração petista buscou a ”institucionalização da cogestão dos cidadãos” (cf. e a do sindicalista Lula. Apoiado pela mídia para a qual ACM tinha sido responsável como Ministro das Comunicações nos anos precedentes.128 manipulação maciça. os canais de participação secaram. 128 . as que reduzissem a influência do Estado e contribuissem dessarte para a maior justiça social. 32 a 45% dos deputados como representantes do empresariado (Diniz 1997: 94 s. a esquerda criticou veementemente essa constituição e ignorou que ela já continha mais reformas do que o establishment estava disposto a conceder. como ela se configurou na manipulação do Plano Cruzado para além das eleições de 1986. Schwaiger 1996) . Importava prioritariamente impedir as reformas e ainda não importava impor contrareformas. nas quais a administração municipal moderou entre interesses conflitantes. F). por conseguinte. Havia uma preferência por comissões paritárias. o Legislativo boicotou esse processo. Essa análise em termos de Economia Política não foi além da superfície. Isso estabilizou o poder do PMDB e desacreditou o sistema democrático. mas distribuía-se pelos diferentes partidos de centro e direita. mediante a criação de comissões e conselhos. já no momento da sua entrada em vigor. não era nenhum político de esquerda. Aqui processos mais amplos de participação. Nas primeiras eleições livres para a presidência da república depois de 29 anos. O zelo reformista do establishment recebeu uma ducha igualmente fria como o radicalismo dos liberais de esquerda. A estrutura profunda do poder não entrou no seu foco. antiestatizante e orientado para o exterior. Com a derrota. embora sobretudo São Paulo tenha votado claramente em Collor.

pela queda do muro e a crise do Estado de Bem-Estar Social na Europa. que as relações de trabalho seriam desenvolvidas conforme critérios de parceria dos diferentes atores sociais (empresários. reformas democráticas e keynesianas afiguravam-se inevitáveis. Ela deu foros de credibilidade à idéia de que o assim chamado insucesso do combate à inflação nos anos 80 seria devido sobretudo a uma certa tradição de ”populismo econômico” do qual as democracias latino-americanas não se tinham conseguido libertar” (Pereira 1998: 142). Diante da inflação. foi até anos 80 adentro o modelo determinante para a América Latina de orientação democrática. No interior do bloco de poder nacional ocorreu nos anos 80. Que soluções estavam disponíveis no início dos anos 80? No plano internacional o modelo do Estado de Bem-Estar Social. Se houve um ”populismo econômico”. supra). mas a política de juros elevados lançou as bases para uma reestruturação de corte neoliberal. A autonomia nacional da política financeira domesticara a violência do dinheiro e permitira o ganho de significado de outros campos. Todos os outros tentaram proteger-se ruidosamente. primeiro um fortalecimento dos exportadores. podendo-se constatar uma alteração da estatalidade. por força de uma política de desvalorização. Uma estratégia de desenvolvimento de orientação social e responsável em termos de política orçamentária teria significado que o estado desenvolvimentista democrático estaria no centro da regulação. Mas o conflito em torno da hegemonia tomou outro rumo nos anos 90. pois era minada pela política financeira. assalariados e Estado). ”O dinheiro é uma arma que confunde o adversário. sobretudo as contribuições estatais de natureza social eram um elemento central dessa modernização. O nacionalismo e o Estado de Bem-Estar Social eram perfeitamente compatíveis com a modernização. Quis servir-se do estado-nação mediante a democratização. Em duas palavras: o fordismo periférico deveria se transformar em fordismo ”verdadeiro”. contra a erosão da sua renda real. no plano político. Nos anos 90 o consenso inicial para a reforma e democratização do campo do poder estatal cedeu a uma política empenhada em deslocar esse campo de poder. o Estado era colocado cada vez mais no pelourinho (Pereira 1998: 148). mas em ampla escala sem eficácia. torce a realidade mediante a inversão das responsabilidades. e a busca pode demorar muitos anos. Tabela 10. A crise da ditadura militar rompeu os laços unificadores de um poder sobre o espaço nacional. Mas desde 1973. O campo de poder estruturado em torno do estado-nação perdeu seu ponto nodal claramente localizado. a opção liberal de um anti-Estado de Bem-Estar Social passou a ter uma influência crescente. baseado no keynesianismo. com a presença dos Chicago Boys no Chile e depois com as vitórias eleitorais de Margareth Thatcher e Ronald Reagan. No início dos anos 80. os conservadores boicotaram no plano nacional toda e qualquer tentativa construtiva de restabelecer novamente a capacidade de atuação do estado nacional. da qual os especialistas nas universidades bem como nas organizações internacionais se serviram. Isso explica também o fracasso dos diferentes políticos reformistas no decorrer dos anos 80. a direita passou a deslocar o campo e subtrair assim o chão ao palco. As propostas de privatização e cortes das despesas do setor público só puderam ser implementadas tímida e assistematicamente nos anos 80. pela concentração do capital na esteira da desregulamentação dos mercados financeiros.129 Encontrar outro arranjo estrutural consistente é uma questão de ”achado”. A esquerda tentou adaptar e ”reformar” o velho campo nacional. Em virtude da sua incapacidade na política econômica. com vistas aos seus interesses. conseqüentemente da indústria nacional e multinacional em boas condições de competitividade. fortemente influenciado por fatores externos: no plano ideológico. Mas a atuação no campo da política econômica e social de orientação nacional e democrática tornou-se cada vez mais difícil. as esperanças depositadas nesse caminho de desenvolvimento centrado no estado-nação e no Estado de Bem-Estar Social. o quintil mais rico foi o único segmento ”populista” bem-sucedido da população (cf. com a perda de legitimidade do establishment. Ao passo que a esquerda hiperativa fazia operações miúdas de conserto do palco. No plano nacional brasileiro esse processo ocorreu com defasagem temporal. mesmo no final dos anos 80. A política dos juros elevados concentrou o poder 129 . Mas com a perda dessa autonomia estiolaram-se também as fontes tradicionais do poder. A espiral inflacionária impedia que a concentração patrimonial pudesse ser afetada em virtude de reivindicações e exigências sociais. o que lhe rendeu a perda da legitimidade. A Constituição de 1988 testemunha quão fortes foram ainda. Registremos aqui tão-somente que no início dos anos 90 um modelo de desenvolvimento nacional centrado no Estado de Bem-Estar Social ainda teria sido perfeitamente compatível com a estrutura vigente. como foi efetivamente o caso no Brasil. Essa retórica econômica. toda e qualquer medida de política social e salarial provou ser uma vitória aparente. Os responsáveis pelas decisões chegaram ao consenso de tirar proveito dessa confusão. Ao passo que foi possível realizar alguns experimentos interessantes nos planos local e regional durante os anos 80. como o da intervenção estatal e da política salarial. apresentando com sucesso a inflação como resultado de um política econômica que em tempos de recessão se aferrara a idéias exageradas com relação ao orçamento e aos salários. Mas a política financeira inflacionária foi atribuída ao Estado. que a estrutura oligopolista do mercado seria quebrada por uma abertura seletiva dos mercados e que o dinheiro nacional seria utilizado para a redistribuição e para o monitoramento da atividade creditícia. mais ainda.

A partir de agora mesmo as ONGs e boa parte da esquerda colocaram a crítica das estruturas entre parênteses. Dois projetos sociais. O modelo da tecnocracia neutra desembocou num isolamento do processo decisório. Desde 1993 o PSDB formava juntamente com o PT. Essa batalha na luta de classes foi vencida e o PT foi impedido em São Paulo de transformar a maior cidade do país em projeto piloto de uma política alternativa. pois quantitativamente insignificante. A desideologicização dos debates políticos. os temas outrora associados com a esquerda mudaram de lado. Com isso a sociedade civil outrora progressista e oposicionista foi incluída no poder sobre o espaço ou sobreviveu à sombra e à margem desse poder. o que configurou em primeiro plano um subsídio ao capital. preços e outros índices de gestão empresarial eram negociados entre os empresários e a classe trabalhadora (Diniz 1996: 25). O governo municipal do PPB apoiou politicamente o governo federal formado pela coalizão entre o PSDB e o PFL. Paulo Maluf implementou um projeto hegemônico com dois objetivos. apresentando em tática ofensiva programas sociais inovadores. Por um lado ele queria combater o PT e os trabalhadores organizados. mas não conseguiu impedir sua própria marginalização na política municipal. O ”milagre econômico” (Oliveira 1998a: 178-187) politicamente negociado deveu-se em parte à assunção dos custos por toda a população e à circunstância de que a indústria automobilística continuava sendo o ramo central da indústria brasileira. O projeto hegemônico de Maluf consistia em impossibilitar a cogestão ativa dos cidadãos. Couto 1996: 41). Somente o PT permaneceu na oposição. Sob Fernando Henrique Cardoso as câmaras setoriais. o velho campo de poder a uma erosão em tempo recorde. Por isso ele tinha uma especial ojeriza contra o Estado e a nação enquanto pontos nodais consubstanciados na Constituição de 1988. Essa forma corporativista de compensação de interesses foi marginalizada e os incentivos foram concedidos agora diretamente nas formas do fomento do estabelecimento de empresas. Maluf logrou evitar nas eleições de 1996 justamente esse confronto. quando havia uma discussão ideológica entre a esquerda e a direita sobre maiores investimentos na área social ou em ”obras”. que já se prenunciara com a eleição de Collor. Maluf conseguiu assim desideologicizar o discurso político.2. No plano local. Com efeito.). pois o seu programa de forte inspiração socialdemocrata assustava menos do que 130 . foi acoplada a uma política assistencial e de bem-estar social meramente simbólica. ao invés do PPB. Collor contribuiu de modo relevante para a manutenção da des-ordem. enquanto oposição ”razoável” e ”disposta à cooperação” (Fernandes 1987: 212). Uma outra tentativa de cogestão da regulação foram as câmaras setoriais. A desmontagem do poder sobre o espaço. mesmo depois da crise do fordismo periférico. A condução do Estado. não se deu apenas no plano nacional. mas registraram com alegria a irracionalidade da estabilização da des-ordem dos últimos quinhentos anos. A direita tinha uma clara consciência do potencial poder de irradiação de uma ”São Paulo vermelha”. em benefício de sucessos pragmáticos no curto prazo. muito menor e menos importante. As diferenças estruturais entre os modelos de Estado eram extremamente reduzidas nos planos nacional e local.6 milhões. Ela teve o mesmo destino dos anos 30. À diferença de antigamente. isto é. ajudou substancialmente. que desde 1989 estava trabalhando abertamente na direção de uma alteração fundamental do modo de regulação. em números arredondados (1994). A produção de automóveis subiu de um milhão (1992) para 1. isenções de impostos e política alfandegária. 6. O seu lema tecnocrático ”O povo quer menos discussão. Aqui o PSDB local.3. organizações de compensações de interesses. foi na realidade uma despolitização. Por isso a direita investiu maciçamente na destituição do PT nas eleições. saudada por todos os lados. menos política e mais resultados” formava o centro de um discurso antidemocrático (cf. nas quais os salários. a bancada da oposição na Câmara de Vereadores. exerce essa função germinalmente. Os setores que içaram Collor à presidência envergonharam-se diante do seu presidente ”irracional”. que facilitou com a sua política nãodiferenciada de oposição a destituição do PT do governo municipal nas eleições de 1992. Em 1994 ocorreu no plano nacional o colapso definitivo do velho campo de poder. embora o PPB e o PSDB fossem concorrentes nos planos local e regional. Novy 1998: cap.130 crescentemente no capital financeiro de orientação internacional. com sua má administração e os cortes no orçamento. Foi possível negociar reduções da carga tributária com o governo federal e definir objetivos de produtividade para estimular o consumo de automóveis. mesmo a cidade de Porto Alegre. submetendo. que tinham beneficiado tanto os grupos de empresas quanto os trabalhadores. orientada por padrões de centralismo e eficiência. A direita conseguiu ocupar ”temas sociais”. foram definidos como não-conformes ao mercado. o projeto de Estado de Maluf consistia em assumir partes importantes de modelos esquerdistas de organização. centrado no Estado. A legitimação do complexo hierárquico-autoritário de poder e saber se deu apenas de forma indiretamente democrática. dificultando o acesso à informação e com isso a realização de uma discussão pública racional. A campanha do conhecido sociólogo Betinho pelo combate à fome é paradigmática desse novo estilo de política. À primeira vista parecia em 1994 que o establishment estaria agora finalmente disposto a aceitar Lula como presidente. Depois da deposição de Collor o seu vice Itamar Franco governou ad interim durante dois anos com um governo respaldado por amplo consenso. o PAS e o ”Projeto Cingapura” permitiram a Maluf impor o seu sucessor (Abrucio. Por outro lado. embora um membro do PT fosse para o governo.

cujo represamento fora outrora o objetivo supremo da política econômica do governo. já se protegeu novamente em 1995 mediante uma elevada taxa alfandegária. Por seu lado ele se subordinou incondicionalmente ao sistema internacional financeiro ou está estreitissimamente entrelaçado com ele desde o fim dos controles dos fluxos de capitais. Desde então era possível observar um processo de desindustrialização que transcorria simultaneamente a uma internacionalização das estruturas de propriedade. ao passo que Fleury encerrou o seu mandato como membro do PMDB e Quércia continuou dominando o PMDB de São Paulo. chegasse quase que sem esforço ao poder. que via de regra conseguia impor-se em decisões de política econômica na concorrência com o capital industrial. pois a 131 . Por ocasião da segunda ”crise asiática” o governo reagiu com barreiras comerciais nãoalfandegárias. A quota tributária que já aumentara nos anos 90. A defesa da rentabilidade das aplicações financeiras foi o objetivo principal. Todos os quatro governadores paulistas do período pós-autoritário saíram das fileiras do PMDB. menores do capital nacional do bloco de poder. Essa parte da classe média apoiou o modelo garantidor do patrimônio. juntamente com o modelo de desenvolvimento nacional. Dessa continuidade resultou também a reduzida autonomia dos campos discursivos e organizacionais da região. O estabelecimento de indústrias e a compra de empresas estatais foram subsidiados. assim como a posse de títulos de dívida do tesouro. pois proprietários de empresas de produção se tornaram rentiers no mercado financeiro. Só assim o Estado conseguia atender as reivindicações que lhe eram apresentadas. foi aumentada ainda mais para defender o Real. Enquanto centro da resistência contra a ditadura. necessariamente. Ao mesmo tempo alguns novos executivos sonhavam com uma forma de política econômica nacional. como genericamente o pragmatismo na política comercial se opunha ao dogmatismo na política monetária. Em uma economia em vias de estagnação. aumentou fortemente apesar da venda das grandes estatais. controlado por grandes conglomerados internacionais. A indústria automobilística. as margens de lucro só podiam ser aumentadas mediante uma redução ainda maior da quota salarial. é possível identificar alguns elementos específicos do campo regional. Assim a desindustrialização enfraqueceu a indústria nacional diante dos importadores e dos grupos orientados segundo o mercado de capitais. A política fiscal serviu ao financiamento da política da moeda forte. A distribuição da renda se deteriorou. O financiamento da des-ordem exigiu impostos tão ”irracionais” como o imposto sobre o cheque. sua base de poder era a indústria. ou o aumento do imposto de renda na razão de 10%. quão subordinados eram os outros objetivos. O crescimento econômico extremamente modesto dos últimos anos assinalou um limite do modelo. Mas a dianteira nas pesquisas dissolveu-se com a queda do índice da inflação na esteira da introdução do Plano Real. com ajuda da qual foi possível hierarquizar o espaço nacional. Com o Plano Real os grupos dominantes se despediram definitivamente do velho campo de poder. o que acelerou a eliminação de frações mais fracas. Por isso as taxas de câmbio estáveis e os juros elevados formaram o núcleo da regulação.131 o programa muito mais radical de 1989. pois só esse modelo poderia produzir a estabilidade do valor da moeda (Pereira 1998: 148). mas nenhuma força social dispunha de um projeto hegemônico que abrangesse o Estado e o setor privado. O resultado do êxito da política de dolarização e liberalização foi que o seu inventor. As oscilações e inseguranças foram correspondentemente fortes. ramo industrial central do Brasil. Não obstante. pelo qual o Plano Real foi defendido. violentamente criticado pela burguesia e pelos empresários. defendido pelo Plano Real. O déficit orçamentário. Abriram assim mão das vantagens desse campo orientado para a compensação de interesses. Sem dúvida a regulação da moeda está no centro das novas reformas estruturais. que assegurou para si os setores mais lucrativos da economia paulistana e fortaleceu a sua posição-chave mediante a compra de empresas estatais. A estabilidade da moeda consolidou a legitimidade do novo modelo político de um Estado mínimo. São Paulo beneficiou-se do fato de ser centro da estratégia de desenvolvimento nacional. A abertura para o mercado mundial esteve também em segundo plano diante da regulação da moeda. A conseqüência quase que forçosa foi a necessidade de cortar os recursos para gastos sociais por ocasião de cada crise nova. Evidenciou-se no modo. Seu parceiro era o capital financeiro nacional. O governo local estava nas mãos da direita. em parte foi também observada uma metamorfose entre os proprietários de capitais. centrada no monopólio estatal. As transformações no campo da regulação do trabalho tinham levado em primeiro lugar a um enfraquecimento dos trabalhadores organizados e a uma maior dependência de todos os assalariados das suas respectivas empresas. A fração dominante do capital foi a internacional. Fernando Henrique Cardoso. ofereceu-se a esses grupos no curto prazo uma fonte alternativa de receita por meio dos lucros elevados propiciados pelo mercado financeiro. Nos anos 80 esses interesses industriais entraram em crise crescente. da Eletropaulo Metropolitana e da CVRD afirmou que o processo de concentração ainda está longe de ter sido concluído. diretor-presidente da CNS. Franco Montoro e Mário Covas mudaram-se mais tarde para o PSDB. devido a desregulamentação no direito trabalhista e o aumento do desemprego. para citar um exemplo. São Paulo oscilou nos anos 80 entre projetos de Estado comprometidos com o populismo de direita e de esquerda e projetos de Estado de esquerda. Assim Benjamin Steinbruch. o regional era controlado pelo centro. respaldado pela aliança entre o PSDB e o PFL. À guisa de compensação pela eliminação do núcleo do bloco de poder.

Nos anos 80 o PT era considerado radical por não aceitar a ”transição pactuada” e a conexa restauração da des-ordem enquanto estrutura antisocial. alguns de seus grupos não perderam o controle do sistema de poder. de um país do Terceiro Mundo. Nos últimos dez anos foram constatadas transformações maciças no seio da esquerda. pois os candidatos de centro-direita se aliavam regularmente.132 indústria nacional ainda não é realmente competitiva em escala internacional. quando ele constatou a falta de capacidade do empresariado para realizar uma revolução burguesa nacional autônoma. Faletto 1979: 13). Para dominar o seu próprio espaço de poder. pois desde 1994 os partidos de centro votam regularmente ao lado da direita.assim como nos cinco séculos transcorridos . O PDT e o PT chegaram no plano nacional a um consenso quanto à chapa formada por Lula (presidente . fossem elas a ”crise asiática” ou a ”crise russa”. dando assim ao governo e ao presidente uma base muito ampla no Legislativo. Mas o contrário é o caso. 16 Nas eleições municipais de 1996 a esquerda obteve êxitos no primeiro turno. regionais e nacionais do poder sobre o espaço olharam mais uma vez ”para fora” para reconhecer a sua posição no arcabouço do poder interno. que se caracterizava pela sujeição ao regime internacional.1996). Com isso eles defenderiam os interesses dos grupos favorecidos pelo sistema vigente: dos funcionários e dos assalariados na economia formal. mas ganhou somente uma vez (FSP 17. privada de instrumentos autônomos de poder. portanto. contém sempre elementos do velho. poder-se-ia supor que a sua influência sobre a tomada das decisões tivesse aumentado. Os ”radicais de outrora” oscilavam entre a assunção da posição da terceira via à la Tony Blair e a defesa recalcitrante de uma velha ordem que eles mesmos nem tinham criado e que no fundo era uma des-ordem.ou da Áustria: dependente. A mensagem central era: nem tudo está cor-de-rosa no momento. A classe dominante brasileira continuou sendo o ”parceiro júnior”13 do capital internacional. e disso ninguém mais tem dúvidas.PDT). “Os nossos gigantes empresariais. destinados a realizar objetivos nacionais que são maiores e mais fortes que os meros objetivos empresariais” (Steinbruch 1998). Uma das regras fundamentais da estabilização da dominação é a inexistência de uma mera seqüência de grupos e sistemas produtivos dominantes.PT) e Leonel Brizola (vice-presidente . dentro e fora do país.16 13 Esse conceito foi introduzido por Fernando Henrique Cardoso já no início dos anos 60. em termos mundiais. Hoje a esperança deveria consistir em ascender. dependendo.” (Cardoso. muito mais do que no passado. a um estatuto comparável ao do Canadá . Essa linha de argumentação ajudou Collor a ganhar as eleições e ganhou desde então muita força. Mas isso praticamente não era possível. precisamente por causa da regulação que abria fissuras no espaço de poder. minimizem as suas diferenças e se engajem em megaprojetos. 14 Os assim chamados ”progressistas de outrora” pretendiam conservar o Estado enquanto Estado ativo.14 Nos últimos anos esse bloco perdeu a dimensão da utopia. da benevolência dos parceiros internacionais na execução da sua política nacional. fazia-se mister a liderança ideológica na formação da opinião pública local.em grau bem mais elevado no enfraquecimento do adversário do que no fortalecimento da própria posição. É por isso que o nosso novo capitalismo deve estimular que esses grupos se unam. A esquerda não encontrou nenhuma estratégia para sair do isolamento provocado por esse pacto. Alterações externas. Seriam. O novo campo atribuiu o papel-chave à regulação da moeda que era definida ”externamente” e se operava de forma crescentemente privada. afirmou: ”O poder desgasta a quem não o tem”. corporativistas. membro de um partido que esteve 40 anos no governo. o novo. no vocabulário dos seus críticos. por conseguinte. por serem contra as planejadas reformas estruturais.11. Os atores nos campos locais. contudo. devendo-se distinguir aqui basicamente entre duas correntes. apesar de terem sido obrigados a estabelecer um sistema complexo de alianças com os novos grupos que surgiram. sinônimo de consolidação do status quo.15 Como a esquerda conquistou cada vez mais mandatos nos diferentes legislativos. da CUT e de setores dos movimentos sociais. mas nos anos 90 esses grupos ”progressistas” foram crescentemente etiquetados ”conservadores”. Em sete capitais estaduais o PT entrou no segundo turno. como as teorias gradualistas de procedência liberal e marxista freqüentemente sugerem. Mas ela se viu. mas desenvolvido (cf. Foram implementadas contrareformas que novamente faziam da distinção entre ”interno” e ”externo” uma fronteira definidora. 15 Para ela parece comprovar-se a verdade do que Giulio Andreotti. a solução recém-encontrada. o que era. 132 . as possibilidades da criação de uma hegemonia para dentro eram extremamente difíceis. Fiori 1997: 181). Por isso a essência da hegemonia visada baseou-se também . ”Isso levou a pensar que ainda quando a ‘sociedade tradicional’ haja transformado em grande medida sua face econômica. a velha raposa da política italiana. pois não foi possível ancorar o socialismo no campo discursivo e organizacional da atualidade. O primeiro grupo organizou-se de forma mais ou menos orgânica em torno do PT. Muito pelo contrário. Em conseqüência disso os partidos de esquerda tentaram em 1998 na medida do possível apresentar candidatos que expressassem alianças. ainda são pequenos. tornaram-se mais uma vez os fatores definidores do espaço do poder interno. Nesse modo de regulação. mas de outro modo tudo seria muito pior.

Mattl 1999). mas aceitava-a como inevitável.. 133 . isto é. era a preservação da estrutura social por meio de uma dinamização do desenvolvimento capitalista. em São Paulo concretamente o PPB. Assim o conflito entre o PSDB e o PPB em torno do governo estadual de São Paulo foi em parte unicamente um conflito entre grupos distintos do mesmo bloco de poder. sobretudo a da classe média. ”regulador” e de uma prestação de serviços públicos realizada pela sociedade civil e pelo setor privado. no qual toda a sociedade ganharia. Por isso o modelo progressista de cogestão no plano regional. a assistência seria ao menos organizada de forma mais eficiente. A opção de longo prazo de um ”jogo de soma mais”. era determinado exclusivamente pelo mercado. A direita. As contrareformas implementaram transformações institucionais que estabilizaram a estrutura atrasada do poder nos novos tempos. desde que o quadro geral da ordem social não fosse colocado em cheque. apesar das tensões iniciais uma coalização de interesses entre o PSDB e o PPB no plano nacional.133 O segundo grupo que se organizou no PMDB e posteriormente no PSDB e que foi engrossado sempre de novo por simpatizantes do PT17 foi a ala reformista que não gostava da globalização. Isso produziu em algumas pessoas a sensação de viver numa época de possibilidades ilimitadas. Ao invés de defender esse desenvolvimento das forças produtivas em nome do empresariado nacional. Justamente no PSDB os interesses do capital financeiro estão fortemente representados. Por várias razões. porta-voz do PPB em assuntos econômicos. ainda que com dificuldade. Juntamente com os velhos donos do poder. No fundo esse grupo defendia uma posição muito convencional e em parte dogmaticamente marxista do economicismo. O PSDB regional seguia aqui uma concepção do Estado que se orientava mais segundo o modelo nacional de um Estado enxuto. permitindo a participação de cidadãos economicamente protegidos. Mas infelizmente ela se colocou na tradição de uma ”vanguarda do atraso” (Oliveira 1998b). A esquerda justificou seu pragmatismo com a ética da responsabilidade de Max Weber ou com a ”paixão pelo possível” (Cardoso. e seu secretário José Álvaro Moisés são apenas alguns exemplos conhecidos. Já que a experiência ensinava que as grandes transformações não seriam possíveis. Já que a pobreza não podia ser abolida. ao invés de depender do Estado. A crítica permanente ao governo não impediu o PPB de cosustentar em larga escala as contrareformas. A única revolução para a qual os grupos dominantes sempre se podiam mobilizar. com menos consideração dos interesses particularistas no bloco de poder. o Secretário do Trabalho de São Paulo Walter Barelli. freqüentemente sem segurança com referência aos direitos trabalhistas e sociais. e empurrou simultaneamente a maioria da população para empregos precários. A única diferença residia no fato de que agora o desenvolvimento das forças produtivas. Faletto 1976: 212). A utopia da qual esse grupo era tributário não era mais o socialismo. a crítica do quadro estrutural da des-ordem do poder sobre o espaço foi considerada ilusória. no sentido de conquistar direitos sociais de cidadania. Os proprietários de patrimônios estavam interessados em uma moeda forte e nos juros elevados. desenvolvida. concentrado em São Paulo. Por isso Antônio Delfim Netto. mas consistia no fato dele ser implementado de modo ”mais honesto”. ao passo que generalizou na maioria absoluta um sentimento generalizado de insegurança (Novy.. não sendo. defendido pelo PSDB. Ele parecia adaptar-se à circunstância de que a sua clientela mais importante se transformava cada vez mais em grupo de rentiers ligados aos interesses do capital financeiro. Isso explica porque ocorreu. O modelo do PSDB procurou assegurar a concordância das grandes massas por meio de uma política social liberal de participação sem redistribuição. sem inclusão da sociedade civil. Aqui o PSDB via de forma antes positiva a participação em si. A visível elitização da política estava relacionada com a polarização no mercado de trabalho que criou um pequeno número de empregos altamente qualificados no setor de alta tecnologia. com sua política da moeda forte e dos juros elevados. explicitamente comprometido com ideais tecnocráticos e a democracia plebiscitária. Maluf defendeu um modelo mais fortemente centralista. muitos dos que implementaram as contrareformas em Brasília vinham de São Paulo. aqueles que tinham sido convertidos de radicais em contrareformadores entronizaram o pragmatismo no lugar das visões da transformação das estruturas. hoje Ministro da Cultura. não estava em oposição ao modelo do governo federal. foi também um dos principais críticos do Plano Real que enfraqueceu a indústria nacional no mercado doméstico. o sociólogo Francisco Weffort. São Paulo representava a modernidade econômica. isso foi feito em nome da globalização do capital. Mas o paradoxo do poder consiste no 17 O atual Ministro do Planejamento Antônio Kandir. que promovia a terceirização exclusivamente para o setor privado. também do PSDB. defendeu os interesses do capital produtivo nacional. A falta de uma base material fomentou a individualização e a tentativa de garantir-se no curto prazo. os esforços contrareformadores estariam contribuindo para amenizar a desordem. por conseguinte. mas uma modernidade abstrata em delimitação contra o velho e o atraso (Jaguaribe 1990). Assim a democratização e a capitalização se tornaram incompatíveis (Oliveira 1998b: 88). que se revelava difícil em virtude da taxa de câmbio desfavorável. A indústria nacional dependia do crescimento das exportações. Nesse sentido se pode afirmar também que o governo federal em Brasília era ocupado por uma vanguarda brasileira. Inversamente. foi destruída nos últimos anos e os defensores dessa posição foram marginalizados. Todas as capacidades intelectuais disponíveis dos governantes foram mobilizadas para compatibilizar o progresso econômico e a inércia na política social (Fernandes 1987: 360).

A inserção isonômica mediante a garantia de direitos sociais de cidadania não estava na agenda. devido à contraditoriedade da des-ordem. À medida que a classe baixa era marginalizada. O espaço social de uma sociedade civil alternativa que ainda fez de Mário Covas um prefeito progressista entre 1983 a 1985. Num momento de crise de legitimação da direita tradicional. mesmo alterações estruturais individuais em um modo de regulação não estão infensas a produzirem efeitos de estabilização do bloco de poder. é outro fato a ensejar graves preocupações: em 1991 40 pessoas morreram em conflitos fundiários. Em todas essas áreas. Em si a aliança entre o PSDB e o PFL. Por isso o governador Covas prestou uma contribuição muito limitada no sentido de abrir o tradicional espaço de poder para baixo. sobretudo na zona rural. Em decorrência disso. o desenvolvimento nos últimos anos enseja graves preocupações. e de liberais com tinturas sociais. Durante séculos a fio os grupos dominantes sempre se aliaram quando a participação da sociedade era reivindicada mais maciçamente ”a partir de baixo”. mas na crítica da des-ordem estrutural e na composição do bloco de poder. Mas em ambos os casos . um fortalecimento da concentração nacional do capital privado serve à soberania nacional etc. www. Mas uma fraqueza maior e efetiva derrota da esquerda foram registradas em São Paulo no campo da sociedade civil. Para Krebs (1997) o pragmatismo constatável na política é expressão da perplexidade. ele e o seu PSDB forneceram a renovação necessária para o autoritarismo antisocial do establishment (Fiori 1997: 21). como natural. pois a afinidade a posições ideológicas é reduzida. A crise dramática das iniciativas de base e o aburguesamento do setor acadêmico da sociedade civil enfraqueceram o campo organizacional e discursivo para um projeto contra-hegemônico. entre paulistas e nordestinos. entre a alta burguesia industrial e os latifundiários não representa nada de novo no Brasil. Fernandes 1987: 50). O PSDB tinha sido fundado em 1988 como partido reformista de esquerda que inscreveu a democratização nas suas diferentes facetas na sua bandeira. como e. foi até criticada como um dos principais males da ”constituição cidadã”. Reivindicou no seu programa. parece plausível falar de socialdemocratas liberais.134 fato de que o resultado da eliminação da des-ordem do foco de atenção é que mesmo os objetivos modestos que os contrareformadores se propõem não são atingidos. Maluf representou em São Paulo a política do clientelismo e populismo no sentido clássico. a descentralização das decisões até as unidades administrativas menores. não apenas na política econômica. um controle maior da polícia e o combate à corrupção. um fortalecimento do Judiciário. 134 . em 1994 36. O ”idealismo liberal” uniu-se ao ”realismo conservador” (Cf. conseqüentemente a importância das ideologias. liberais conservadores vestiram a fantasia socialdemocrata.jb. em 1992 35. no caso do PSDB.e aqui residem as semelhanças estruturais . 4 de agosto de 1999). a racionalidade oficialmente aplaudida se desmascara como medularmente irracional: pagamentos de bilhões a título de serviço da dívida servem ao saneamento das finanças públicas. O semanário alemão Die Zeit reporta na sua edição de 26 de abril de 1996 21. entre outras coisas. em 1995 39 e em 1997 47 (Brasilienausschnittdienst 6/96: 26. cortes na área social servem para calçar no longo prazo os serviços sociais. No fundo os dois grupos apenas estavam interessados em preservar o poder em uma situação historicamente aberta. na qual as implicações da ação não podiam ser bem avaliadas.394 casos de trabalho escravo. Mesmo estruturas da regulação. reduziram-se as diferenças entre administradores de esquerda e direita. pois. Como ele legitima a des-ordem. tampouco em fazer pequenas concessões de ordem material a partir de uma posição de poder. Assim Fernando Henrique Cardoso possibilitou aos grupos dominantes tão-somente implementar a velha fórmula da estabilização do poder em um novo contexto. No caso do Brasil. surgida no decorrer de muitos séculos.tratou-se de projetos hegemônicos que incluíam a população pobre apenas esporádica ou simbolicamente.com. Mas não se recomenda fundamentar demais a crítica dessa política dominante em princípios. esse espaço de poder faltou em 1994. Maluf mostrou isso com especial clareza ao questionar o significado de direita e esquerda. Um bloco de poder nunca encontra dificuldades em configurar medidas institucionais em conformidade com os interesses. à medida que se exercia uma pressão de baixo para cima. entre intelectuais e políticos provincianos. o sistema político ficou ameaçado de ser governado 18 O número crescente de conflitos e atos de violência politicamente motivados e denunciados por organizações de defesa dos direitos humanos. No novo campo dominante da racionalidade toda e qualquer ação política se reduziu à administração da des-ordem. Socialdemocratas tornaram-se liberais. um planejamento racional dessarte limitado não logra ultrapassar uma modernização da desordem. Por isso a perda das eleições para a prefeitura de São Paulo em 1992 e 1996 e para o governo do Estado de São Paulo em 1998 foram uma autêntica derrota para a esquerda. ao passo que o PSDB encarnou a direita moderna que tentou desvencilhar-se dessas formas da política. nos casos do PPB e do PFL. o fortalecimento do parlamento diante do Poder Executivo.18 A estabilização da des-ordem esteve em primeiro plano. em 1993 42. A resposta à desideologicização não deve ser buscada no plano das técnicas sociais. Pode-se imaginar perfeitamente que o papel do Estado será submetido nos próximos anos a uma transformação fundamental e que a re-estatização seja promovida novamente pelos grupos que até pouco tempo atrás entoaram hinos de louvor ao estado mínimo.g.br. na fixação no mercado ou na política em defesa da moeda forte.

dominado pelos homens e orientado segundo a idéia do progresso. Dependendo da honorabilidade dos governantes. Mesmo a idéia da igualdade enquanto ideal político foi esquecida por esse gerenciamento pragmático da política. o establishment se empenhava mais ou menos vigorosamente por uma política assistencialista de natureza compensatória. Mas o grande mérito do MST reside na problematização das estruturas profundas e na compreensão da práxis como uma atividade transformadora das estruturas.135 por segmentos concorrentes do establishment. que criticava ruidosamente a des-ordem e organizava os oprimidos. Mas mesmo a resistência à desordem permanece vinculada à estrutura irracional profunda. os pobres administravam a sua pobreza. em lugares reais. próprio do sistema dominante. Muitas dimensões da práxis do movimento estão comprometidas com o pensamento hierárquico. As elites gerenciavam a ”estrutura do conhecimento e do poder”. 135 . Tanto mais significativo foi o fortalecimento do MST (Movimento Sem Terra). a utopia de uma sociedade socialista. Ele procura tornar realidade. O círculo de destinatários da participação se estreitou (Heins 1992).

estruturados de modo muito assimétrico. com ênfase nas suas implicações conceituais para pesquisas em outros contextos. apenas uma forma de regulação ao lado de outras. Por isso os produtores estão separados do seu produto. a sua força de trabalho se transforma em mercadoria. o Estado criou em 1850 os mercados fundiário e de trabalho. discussões acaloradas revelam levar a equívocos. os mercados não podem ser ”livres” do seu entorno social e do Estado e são. Ao passo que no trabalho realizado até agora o objetivo era gerar teoria. produz-se mais-valia. Foram criadas duas ”mercadorias fictícias” (Polanyi 1978: 183). 136 . as palavras no início de ”O 18º Brumário de Louis Bonaparte” (Marx 1965) remetem à integração de estrutura e ação. mas em circunstâncias presentes sem mediação. os mercados estavam via de regra. tem como objeto o par de termos opostos mercado e Estado. Uma análise do poder sobre o espaço vai um passo além e enfatiza que as pessoas não fazem apenas história. Analisar o mercado isoladamente seduz a vê-lo como ”um verdadeiro Eden dos direitos humanos inatos”. as normas de consumo fornecem o fundamento de chances e estilos de vida. igualdade.1 Para o mercado mais importante. Sob o modo de desenvolvimento orientado para fora.136 5 As pessoas fazem história e geografia ”Os homens (e as mulheres (AN)) fazem a sua própria história. A forma concreta da regulação orientou-se na história do Brasil sempre segundo as relações de força respectivamente predominantes. tão difundida quão simultaneamente superficial. em circunstâncias que eles mesmos escolheram. O livre acesso à terra foi abortado. A presente análise do poder sobre o espaço mostrou que os mercados foram e são criados e regulados pelo Estado. dadas e transmitidas pela tradição” (Marx 1965: 9). Röttger 1997: 33-39). como a sociedade enquanto totalidade. ”[a] única coisa que domina aqui é liberdade. A relevância prática de análises do espaço de poder não se mede em recomendações de ação. Contradições pomposas evidenciam-se então como meramente aparentes. por essa razão. 5. Vistas de perto. chamo a atenção à limitação das análises sociológicas que não vão além da superfície. por sua vez apropriada privadamente (cf. A força de trabalho deve ser vendida para que os trabalhadores possam consumir. Isso se deu de um modo que não colocou em risco. Por sua vez. isto é. propriedade e Bentham” (1983<1867>: 189). o de trabalho. mas até consolidou a estrutura dominante do poder e da produção. mas também geografia. Como Marx enfatiza.1... Vamos agora sistematizar esses argumentos mais uma vez. mas em descobertas [Einsichten] acerca das margens de ação que ultrapassam o bom senso superficial. A desordem da periferia somente pode ser reconhecida por uma análise em profundidade que opera em nível mais elevado de abstração. No entanto. a distribuição desta transformada em 1 Em princípio os mercados são capitalistas nas sociedades capitalistas. Como praticamente nenhuma outra citação.1 As aparências enganam. Gintis 1986: 72). quando reconhecemos o poder sobre o espaço como fator propulsor da des-ordem na periferia. vale adicionalmente que ele fundamenta uma relação de autoridade que estabelece um limite ao reino da liberdade e ao ideal burguês da igualdade (Bowles. mas eles não a fazem de livre e espontânea vontade. Com isso foram encerradas décadas de insegurança nas transações econômicas de mão-de-obra e terras. 5. Grandes construções teóricas como a da teoria da estruturação de Anthony Giddens foram inspiradas pela idéia de que os homens e as mulheres agem no quadro de estruturas organicamente surgidas no passado. desenvolve-se aqui também uma crítica do discurso dominante nas ciências sociais e regionais. Ao proceder assim.1 Mercado e Estado A primeira discussão. mais especificamente na síntese do material empírico. No capítulo conclusivo os resultados mais importantes são mais uma vez resumidos. Assim o ponto forte da re-interpretação do desenvolvimento brasileiro aqui efetuada reside no enfoque explicitamente histórico-geográfico.

A força autodestrutiva inerente aos mercados foi atenuada pela política de sustentação do café. o que explica a sua reduzida eficácia prática. a educação e a saúde. an example of ‘ideas out of place’ (Schwarz): the slave owners were liberals. Apesar disso o liberalismo desempenhou no séc. A oligarquia agrária dominava os espaços do poder descentralizado e reprimia os germes de uma sociedade civil e da divisão dos poderes. 5. na estabilização do preço do café. razão pela qual o ”liberalismo real”2 brasileiro é tão contraditório e irracional como a realidade à qual se refere. que o liberal peruano Hernando de Soto (1987: 201 ss. os escravos não se tornaram agricultores. Ao invés de um fracasso do mercado.conception of political development espoused by the Cardoso family is.) utilizou para caracterizar o sistema econômico latino-americano da década de 1980. to quote a famous article. Destituídos de qualquer acesso à terra e aos meios de produção. Como nacionalismo antilusitano ele se jogou sem delongas nos braços do imperialismo britânico. XVIII.). e reformas estruturais significam hoje o contrário do que os estruturalistas da CEPAL tinham em mente nos anos 50. Hoje a desmontagem de instituições impeditivas do mercado está na ordem do dia (Fiori 1995a: XIV). O sistema de mercado e o intervencionismo não se excluem de modo nenhum. Atualmente estão na agenda o seguro-aposentadoria. O intervencionismo estatal pode ser interpretado como resposta pragmática ao fracasso da regulação pelo mercado. O plano de frente foi ocupado pela inserção de novas áreas na esfera da lógica da mercadoria. mas por força da coerção. Mas a estrutura de poder no Brasil adaptou essas influências externas de forma autônoma. Ele sempre foi parte da ideologia oficial.reforma agrária. Já no séc. Ele é também o ”liberalismo real” enquanto liberalismo daquele partido que como Partido da Frente Liberal (PFL) atualmente é a maior força na aliança governamental: ”The modernizing . A libertação liberal do Estado português não desembocou em nenhuma democratização da sociedade nacional. No regime de acumulação dominantemente intensivo o empresariado assegurou para si com um discurso liberal e uma prática intervencionista as suas margens de lucro pela via dos incentivos concedidos pelo Estado. mas foram implementadas apenas fragmentariamente. O modo pelo qual a qualidade do seguro-aposentadoria. que são claramente também ”mercadorias fictícias” percebidas durante o modelo orientado para o desenvolvimento e até há pouco tempo como tarefas nucleares do Estado. próprio dessas contrareformas. A socialização dos custos e das perdas permaneceu um traço distintivo estrutural de uma camada dirigente que sempre foi apenas parcialmente liberal. da educação e da saúde estão atualmente vinculados à renda financeira revela o caráter cimentador do poder. mão-de-obra nas grandes plantações capitalistas de café e nas grandes fábricas. A estatalidade brasileira fundamentou-se nacionalmente no patrimonialismo enquanto forma estamental autoritária de Estado e localmente na dominância da plantação e do engenho de açúcar enquanto dominação político-econômica total exercida pelo barão açucareiro. pois os isomorfismos discursivo e organizacional sempre desempenharam um papel importante.1. XIX um papel construtivo no processo de formação da nacionalidade (Fernandes 1987: 34 ss. o Brasil imitou a potência dirigente também no plano ideológico. As reformas estruturais do Estado do pós-guerra . A intervenção no mercado se deu nas primeiras três décadas do séc. Na atual fase de abertura para o mercado mundial os problemas e reflexões dos anos 30 parecem ter caído no esquecimento. Santos (1978) reflete sobre a ”práxis do liberalismo”.and modernist . O liberalismo inspirou os escravagistas na sua luta contra Portugal. XX sobretudo no setor que era importante para os grupos dominantes. os liberais nunca lograram criar um espaço autônomo da sociedade civil e cedo se viram obrigados a recorrer ao intervencionismo estatal para sustentar o café. Ocorre que o Estado neoliberal é tudo menos um laissez-faire ou um estado mínimo. XIX o ”liberalismo real” acabou se impondo definitivamente com a República Velha. eles conclamarão por intervenções estatais para o fim de preservá-lo” (Polanyi 1978: 206). mas é simultaneamente uma ”idéia fora do lugar”. industrialização . and now the modernizers wish to bring citizenship under the aegis of a political system which guarantees rights only to those endowed with wealth and power” (Lehmann 1990: 75). Cidadãos-proprietários [Besitzbürger] livres e interagentes não formam o fundamento da sociedade brasileira. pois a escravidão somente foi substituída pelo mercado livre de trabalho. política redistribucionista.1 Liberalismo e intervenção do Estado Nenhuma outra ideologia ocupou com tanta renitência um papel-chave no discurso oficial e dominante do Brasil como o liberalismo. Nesse tocante os barões do café não se distinguiram dos industriais que a partir de 1930 ocuparam o seu lugar no topo da hierarquia do bloco de poder. Apesar da sua retórica antiestatal. A transformação em mercadorias de áreas até agora subtraídas a essa lógica deverá ajudar a impedir uma iminente crise de valorização do capital. parece que estamos agora diante de um fracasso do Estado.137 monopólio do Estado. os liberais devem conclamar e conclamarão sem hesitar por intervenções estatais para fins de seu estabelecimento. ”Enquanto o sistema não estiver estabelecido. the bringers of foreign capital were nationalists. No fim do séc. cidadãos ou empresários.foram reações adicionais a esse fracasso do mercado. e tão logo isso tenha ocorrido. Os políticos e o estamento do funcionalismo público garantiram para si a sua renda mediante o pagamento de receitas que se manifestavam na 2 Termo cunhado na esteira de ”socialismo real” e para estabelecer uma distinção contra a denominação ”mercantilismo”. 137 .

do poder de normatização e do 3 As conferências de Foucault sobre esse tema infelizmente existem apenas em forma de fitas (cf. o clientelismo no Legislativo reduziu-se unicamente em virtude da falta de recursos públicos a serem distribuídos. ocorrida poucos anos mais tarde. pois trata-se.governance . O ”liberalismo real” foi finalmente levado às últimas conseqüências pela ditadura militar: recheada de defensores do liberalismo econômico. dessa vez na forma da privatização do estado-nação. Nos anos 80 o liberalismo foi proposto mais uma vez como solução. Mas ao mesmo tempo trata-se apenas daquelas reformas que não põem em cheque nem a estrutura fundamental do poder nem o bloco de poder.). mas pública. razão pela qual competiria ao Estado enquanto regulador definir as regras no sentido de que a eficiência econômica global ficasse assegurada. Nos últimos anos. do que as formas anteriores do liberalismo brasileiro. A implementação é terceirizada a organizações sociais semi-estatais ou semi-sociais nas quais imperam as mesmas condições precárias do mercado de trabalho restante. eficaz e em elevado nível de qualidade. a tarefa de dirigir o Estado.em parte arcaicas. Isso não em último lugar. isto é. Muitas das mais variadas críticas do modelo burocrático-estatal são levados em consideração nesse novo arranjo institucional: a participação da sociedade civil deve ser assegurada mediante a inserção das ONGs. estabilidade ou promoções etc. pois genericamente o Congresso é dominado pelas mesmas forças que tinham refinado o clientelismo durante muitas décadas. Finalmente os liberais e suas idéias acerca de uma economia de mercado chegaram por um breve período ao poder em 1945.3 O neoliberalismo inaugura novas liberdades. Collor foi um ”liberal social” e Fernando Henrique Cardoso obviamente não é um neoliberal. As organizações sociais são uma forma organizacional que o governo denomina nãoestatal. como se costuma dizer. de estatuto privado. em parte modernas. em virtude da composição do conselho administrativo. O mandato de quatro anos foi pontuado por uma pletora de escândalos cujo ponto culminante foi a compra de votos para a emenda constitucional que assegurou ao presidente a possibilidade de recandidatura. pois ofereceriam serviços de forma eficiente. A parte militarizada do Estado. somente permitido a uma ditadura de direita que não sofreu sanções internacionais. mas também por parcerias entre o Estado e a sociedade civil no sentido de uma nova governance. Mas o setor privado otimizaria apenas a eficiência individual. Por esse motivo desistiu-se nesse trabalho na medida do possível denominar determinadas políticas econômicas neoliberais. 138 . os atores competentes seriam o setor privado e em algumas áreas parciais também as ONGs. mas de perfil claro [prägnant] de neoliberalismo. enquanto essas negociações se moverem apenas no chão de cálculos de custos e benefícios. tal como ele foi desenvolvido por Michel Foucault. o Estado de Segurança. No Executivo foi possível desacoplar em larga escala o núcleo duro da política econômica e o technopol que o implementou da sociedade civil e dos acontecimentos políticos em geral (Fiori 1997: 13). conduzida agora como em uma gestão empresarial. Por essa razão pretendo orientar-me na argumentação a seguir segundo um enfoque estreito. o que se dá por via da privatização. Atualmente está em pauta uma capitalização integral da sociedade. O ”liberalismo real” dos anos 90 é sem dúvida mais ambicioso está mais próximo ao liberalismo ”puro”. Neles. uma forma mista entre o Estado e a sociedade. mas um ”socialdemocrata”. Menos democracia permitiria uma condução mais eficiente do Estado. O núcleo duro ou. tais como altos ordenados. as regras burocráticas rígidas são substituídas por um modus operandi mais descentralizado. Compete à alta burocracia. No setor da prestação de serviços públicos a administração é reestruturada na direção do tipo organizacional da empresa. Depois da sua destituição por via eleitoral. estratégico do Estado continua sendo dirigido segundo formas autoritárias . Pode-se falar de tudo. Mas a configuração concreta define a sua eficácia. porque todos os últimos presidentes se distanciaram dele. Sarney quis fazer ”tudo pelo social”. O novo discurso autoritário vê agora na excessiva participação democrática um risco de ”governabilidade” (Becker 1998a: 13). pois abandona tudo a processos sociais de negociação. Mas essa modernização do Estado foi extremamente seletiva. Schmid 1991).138 distribuição política do dinheiro.define as diferentes áreas da disponibilização de serviços públicos como mercados. eles minaram a estratégia nacional-populista de Getúlio Vargas sem poderem oferecer uma alternativa. ao liberalismo desejado por Hayek e Friedman. a reestruturação organizacional do Estado transcorreu analogamente à reestruturação do discurso como uma combinação de transformação e constância. Mas os militares conduziram o Estado a uma crise fiscal da qual ele ainda não se recuperara duas décadas mais tarde. mais flexível e orientado por resultados. ”Neoliberalismo” é uma palavra cujo núcleo pode ser desmascarado somente com dificuldade. O novo modelo de estatalidade . Isso não causa admiração. Lemke 1997. Esse modelo de ”direção” e ”implementação” é a inovação institucional que define o perfil da discussão da reforma do Estado. e a alta administração enquanto núcleo estratégico do bloco de poder preservam-se partes substanciais dos privilégios amplamente criticados dos ”servidores públicos”. Por meio da restrição ao que é ”realista” essas novas liberdades possibilitam novas formas de controle que não funcionam nem pela via da repressão nem pela da inserção hegemônica (Lemke 1997: 254 s. ela realizou um processo maciço de estatização. Sob um governo obsessionado com a modernização como o de Fernando Henrique Cardoso.

um detentor do poder. estão sujeitos crescentemente ao mesmo cálculo. ‘uma espécie de tribunal econômico permanente’” (Lemke 1997: 248). o sistema de coordenadas econômicas possui também um caráter programático.]. nessa concepção. a economia não é uma área claramente delimitada e bem caracterizada da existência humana. Muito pelo contrário. Chega-se a uma ampliação conseqüente da forma econômica para a dimensão do social. that those small development organizations can operate on a grass-roots level. o Estado e sociedade civil. those often considered to be the most effetive and certainly the most sensitive to local populations. Isso assinala o aparecimento e a imposição de um modelo. o que não exige incondicionalmente um centro unitário de decisões . isto é. mas para sujeitar simultaneamente essa mesma concretude. mas abrange em princípio todas as formas da ação e do comportamento humanos” (Lemke 1997: 248). criticá-las por excesso e abuso e filtrá-las segundo o jogo de oferta e demanda.a uma estrutura unitária do poder -. se monitora a si mesmo e considera o respectivo contexto. de problemas. Elimina-se a diferença entre a economia e a dimensão social. é encarregada da disponibilização dos serviços públicos e se torna assim parte oficial do Estado ampliado. O que o professor de sociologia realizou no Brasil. por conseguinte. À guisa de resumo. Mas. then. burocrático.139 monopólio de recursos. ”Deve-se registrar que esquemas de análise econômica e critérios decisórios de natureza econômica são transferidos aqui a áreas que não são ou não são exclusivamente áreas econômicas ou que se credenciam até pela sua diferença com relação a uma racionalidade econômica [. Não está simplesmente vinculado a um detentor localizado do poder. o poder é atualmente mais eficaz do que sob a ditadura. em escala mundial e nas áreas mais distintas imagináveis: do fim do tratamento central. foi realizado em outros países latino-americanos por bonvivants. militares ou empresários. 4 ”It is a peculiar twist. Esse isomorfismo conduz a programas e formas organizacionais unitárias .consiste na valorização positiva do concreto. ”O ‘preço’ dessa participação é que as próprias pessoas precisam assumir a responsabilidade por essas atividades . mas penetram nas cabeças das pessoas para adaptar e instrumentalizá-las.4 Em última instância.. O desejo de ter espaços de configuração individual do trabalho e da vida e os empenhos em ter autonomia são respondidos com uma oferta de participação. Chega-se à aplicação generalizada de princípios de utilitarismo individual que passam a determinar o estilo de vida. orientado segundo regras e por conseguinte sempre igual e universalmente aplicável. por outro. Mas uma análise do poder sobre o espaço ultrapasssa a dicotomia mercado-Estado e desvela as forças estruturais. A perda de popularidade de Fernando Henrique Cardoso não abalou a estrutura do poder. autonomia e variedade a um princípio universalmente válido: o da lógica do mercado capitalista.e pelo seu fracasso” (Lemke 1997: 254). essa forma de estatização da sociedade fomenta a simultânea economicização do Estado e da sociedade. de uma estatização da sociedade. 139 . Organizações estatais e da sociedade civil são tratadas como empresas. Tal tratamento é substituído por um gerenciamento de problemas que se orienta segundo resultados.e esta é simultaneamente uma das contradições . ser simplesmente combatido. ”A generalização da forma econômica preenche duas tarefas importantes: em primeiro lugar ela funciona como princípio analítico. Elas não estacam junto aos municípios e às ONGs. podemos registrar que as discussões liberais tradicionais em torno de mais ou menos Estado e mercado e as diferentes variações de um mix de Estado e mercado continuam aferradas ao plano institucional. o mercado. sem referir-se ao plano estrutural. o Estado ampliado. o poder sobre o espaço se subtrai ao acesso da ação individual. mas o princípio que se volta contra o governo. ”Se essa hipótese for correta e a estratégia neoliberal consistir na substituição dos tradicionais mecanismos rígidos de regulamentação pelo desenvolvimento de técnicas de autoregulação. Ao passo que o liberalismo clássico instou o governo a respeitar a forma do mercado. Trata-se de uma ”homogeneização da política” que abrange toda a América Latina. argumentando na esteira de Foucault. As relações sociais e o comportamento individual são decifrados segundo critérios econômicos e no âmbito de um horizonte de inteligibilidade econômica. As forças produtivas do atual poder sobre o espaço impulsionam a intensificação da produção capitalista e a interiorização do cálculo do lucro. forças fragmentadamente descentralizadas passam a atuar hoje. do automonitoramento e do contexto. A sociedade civil. Nessa perspectiva. O poder exerce uma influência especialmente profunda para dentro dessas organizações de base. a configuração concreta da estrutura adquire maior multiplicidade. à frente de todas a do capital. já não é mais o princípio da autolimitação do governo. Por um lado. da diferença. à medida que ele permite a avaliação crítica das práticas governamentais com base em conceitos de mercado: ele permite examiná-las. Depois da capitalização integral dos espaços físicos do território. juntamente com o princípio da concorrência. outrora independente e freqüentemente oposicionista no curso da democratização. O neoliberalismo encoraja os indivíduos à ação empreendedora. Em segundo lugar. será imprescindível para a análise política transformar em objeto da análise as capacidades de automonitoramento de um ‘indivíduo autônomo’ e o seu acoplamento a formas de dominação política e exploração econômica” (Lemke 1997: 256). examinando áreas e formas de ação não-econômicas por meio de categorias econômicas. O consenso atual . appear to be potentially the most dangerous if a Foucauldian sense of power is used do exame development” (DuBois 1991: 19). do qual ele emana e pode..

organizado à semelhança do mercado e academicizado. pois a sua posição privilegiada nunca está duradouramente assegurada. pela destruição da identidade cultural dos oprimidos. sendo que a lógica do primeiro domina o processo de desenvolvimento. a educação se transformaria em caderneta de poupança. advogados ou médicos. O campo do saber estatal é constituído como um mercado. o que contradiz a natureza de processos de desenvolvimento (Novy 1997a).partiu de uma visão instrumental do Estado. 140 . Como essas estruturas podem ser rompidas no curto prazo por um gerenciamento de projetos que pode ser extremamente profissional. intermediários em situação bem mais precária. A ala radical dos intelectuais. no qual o Poder Executivo dá as regras referentes ao valor de mercado do saber. A lógica da implementação racional do projeto está em contradição com a opressão multissecular à qual os ”grupos-alvo” de projetos quase sempre estiveram expostos no âmbito da governance. capital humano. No caso da prestação do serviço público o governo busca decididamente a participação da sociedade civil e de atores descentralizados. isso não é uma lei da natureza. Nessa conjuntura muitos desses intelectuais foram advogados da base. fomenta a atuação rotinizada e reproduz injustiças. Talvez esse respeito quase ”reverente” pelos intelectuais seja o traço distintivo de uma nação subdesenvolvida (Tavares 1998: 45).1. Sobretudo nos anos 80 quase todos eram politicamente ativos. basicamente todos os intelectuais à exceção do PT e dos sindicatos próximos a ele .140 5. Esse campo de saber-poder remontava a Paulo Freire e à teologia da libertação. Com isso elas sujeitam aspectos não-monetários e oposicionistas a uma lógica quantitativa. não-burocrática e descentralizada. os elementos nucleares dessa inovação originam-se no Brasil de iniciativas de base que se formaram nos anos 70 na resistência contra o Estado autoritário e reivindicaram uma forma de Estado não-tecnocrática. Isso aumenta a insegurança individual e com isso a pressão ao conformismo. absorvidos com adaptações e transformados em pontos nodais no novo campo de saber-poder. mas inclinado e repleto de obstáculos que alguns podem vencer com maior facilidade do que outros. O poder sobre o espaço pesa sobre os ombros dos atores. seja como arquitetos. o que explica a concordância de importante parcela dos intelectuais com a reforma atual do Estado. pela sua redução à existência de animais domésticos. Esses intermediários são oriundos do mesmo meio cultural que nos anos 80 estava orientado na direção das iniciativas de base. a profissionalização aumentou a dependência dos financiadores. Esse campo que se baseia em recursos ”de baixo” usa o potencial criativo da base para vivificar um saber acadêmico exangüe. Alguns dos elementos discursivos de Freire foram aceitos pela direita como crítica. conseqüentemente quase sempre lento. que então estavam surgindo poderosamente. nessa perspectiva. Fato é que os intelectuais sempre se interessaram fortemente pela política. indefesos. inconscientes. No entanto. A consciência coletiva dos oprimidos se caracteriza pela cultura do silêncio. apoiou os movimentos sociais na construção de um contrapoder. destituídos de esperança” (Lange 1984: 11). Poder e saber deverão.3 Poder e saber Os intelectuais sempre foram de grande importância na evolução do Brasil. O presente trabalho mostrou o poder desse processo. partir de baixo e utilizar os recursos locais e o saber local para a solução do respectivo problema. Ao mesmo tempo ele marginaliza a base. centrada no Estado . Mas essa multiplicidade local de situações e propostas de solução é avaliada segundo critérios unitários que sobrevalorizam a dimensão monetário-financeira e se concentram em soluções técnicas. não discriminava o saber popular e dava aos atores das camadas inferiores tempo e espaço para que articulassem o seu saber e deixassem que ele adquirisse eficácia (Novy 1988). os intermediários podem assumir o papel dos funcionários de carreira cujo número está regredindo substancialmente diante do número de funcionários durante o regime de government. No reordenamento atual da estatalidade. O novo campo de saber-poder não é neutro. razão pela qual extensos segmentos de potenciais prestadores de serviços se vêem liminarmente excluídos. dever de responsabilidade e prestação de contas. de uma visão que via no Estado um ator neutro que utilizava os instrumentos que os detentores de posições no Estado queriam ver utilizados. Os mediadores com formação acadêmica (intermediários) entre os grupos-alvo da prestação do serviço público e das instâncias decisórias estatais são valorizados. ”pelo roubo da linguagem. mas atua apenas na superfície? O desenvolvimento como intervenção temporalmente limitada opõe-se assim ao desenvolvimento compreendido como processo histórico-geográfico. à diferença do funcionalismo público. o campo do saber e do poder está experimentando uma transformação maciça na direção de um campo de governance. plano e aberto. De resto eles são. até ”hiperativos” (Fiori 1995a: XI). Os pobres seriam apenas receptáculos a serem preenchidos pelo docente (Freire 1984: 57). No regime de governance. A configuração discursiva e organizacional do novo campo. No âmbito de uma ”cultura de projetos” predomina a coerção à apresentação de êxitos no curto prazo. Projetos opõem-se a processos. orientada para a participação.isto é. Quanto aos aspectos da organização e do discurso. A ala moderada. O enfraquecimento da base ensejou o desaparecimento da identificação com os setores inferiores. Mas estas são obrigadas a submeter-se a critérios rigorosamente acadêmicos de prestação do serviço. Em Porto Alegre essa cooperação de Estado e sociedade civil foi organizada diferentemente. Em analogia à compreensão do espaço Freire identificava em uma concepção do saber como receptáculo a estrutura fundamental de um campo repressivo de saber-poder. mas precisa ser constantemente conquistada. mas resultado do ordenamento de instituições e técnicas sociais no âmbito de uma estrutura de poder. fomenta a ”elitização” na era da ”Nova Renascença”.

Com isso os intermediários entram no mesmo beco sem saída do saber tecnocrático muitas vezes criticado. No campo discursivo. de pessoas oriundas de um espaço social que precisou ser constituído a duras penas na luta contra o Estado autoritário: da sociedade civil enquanto espaço de poder com uma lógica de ação germinalmente distinta da do Estado e do capital e com um certo potencial emancipatório.2 Centralização e descentralização Por volta da virada do séc. a lógica excludente da disponibilização descentralizada dos serviços também podia ser mantida dentro de certos limites. no qual os novos intermediários da prestação do serviço se movem normalmente. Do mesmo modo como a burocracia estatal no passado. assim uma revolução ”rumo à descentralização começou com igual força desde os anos 70. ora para o outro. O ponto de gravidade dessas duas forças se desloca em meio a um eterno vaivém. predominante no planejamento urbano e territorial nos tempos da ditadura militar. Mas estas facilmente acabam sendo apropriadas pelos interesses da estrutura do poder. De acordo com um esquema político simples. XIX para o séc. Mas assim como as tendências de centralização foram fortíssimas sobretudo depois da 2ª Guerra Mundial e da vitória dos bolcheviques na Rússia em 1917. Tabela 38: Dinâmica espacial como ”eterno retorno” de centralização e descentralização dinâmica espacial 1822 – 1889 CENTRALIZAÇÃO 1889 – 1930 DES-CENTRALIZAÇÃO 1930 – 1980 CENTRALIZAÇÃO a partir de 1980 DES-CENTRALIZAÇÃO Fonte: Adaptação do autor * centralização monárquica para a defesa da economia escravista assegura a unidade do Estado * deslocamento do centro econômico (Nordeste: açúcar. No Brasil as coisas não se passaram diferentemente. relativamente sem influências bélicas. Muito pelo contrário tudo gira em torno de técnicas sociais. mas conforme a época de modo diferente. descrevendo um traço distintivo estrutural que parece ser pertinente para uma compreensão precisa do desenvolvimento do Brasil: ”Em toda e qualquer sociedade humana duas forças se antagonizam: uma. Não há dúvida que durante extensos períodos do séc. teleologicamente uma fase de centralização é seguida por outra de descentralização. sobretudo porque se trata hoje.1. os novos intermediários da sociedade civil partem de um saber ”neutro” e de uma competência profissional ”neutra”. As conseqüências para o processo de desenvolvimento são fatais. 5. a outra. que poderíamos denominar centrífuga. a fase de consolidação do poder central (1822-1889) foi seguida por uma fase de descentralização (1889-1930). Sudeste: café) * descentralização e aumento da autonomia financeira dos estados da federação * centralização econômica crescente em São Paulo * centralização do poder decisório no estado-nação * supremacia econômica. mas não política de São Paulo * germes de uma integração territorial e social * preservação da autonomia regional dos grupos dominantes * descentralização e fortalecimento do federalismo * fragmentação do território e heterogeneização da estrutura social * globalização e homogeneização das frações de capitais (subordinação ao capital internacional) * deslocamento da dinâmica econômica na direção do Sul (Mercosul) 141 . XX Vilfredo Pareto elaborou uma concepção de estrutura espacial de ordenamentos sociais. ora para um lado.141 Como a elaboração do Orçamento Participativo foi democratizada enquanto ponto nodal no campo do poder local. e essas oscilações manifestam-se por meio de muitos e multiplicíssimos fenômenos” (Pareto 1975: 311). no caso desses intermediários. que conduziu em uma medida até então desconhecida à centralização no plano do estado-nação (1930-1980) (Ianni 1996: 160). impele na direção da sua divisão. falta um conceito de estrutura. Centro: mineração. conforme resume a tabela a seguir. XX houve uma centralização em escala mundial. impele à concentração do poder central. Para Pareto a alternância entre regulação centralista e descentralizada constitui uma ordem natural. nem sempre de modo igual e regular. que poderíamos denominar centrípeta.

eram via de regra os da oligarquia agrária. Mas esse acesso ignorou a circunstância de que o plano central sempre se posicionou funcionalmente em favor da desordem descentralizada. A centralização em um plano pode perfeitamente andar de mãos dadas com descentralizações em outros planos. Competia ao estadonação a implementação dos direitos democráticos fundamentais. iniciou-se um processo crescentemente mais nítido de descentralização econômica no espaço. Uma situação similar vale com referência à espacialidade da estrutura social. não obstante o processo de desconstrução ao qual ela vem sendo submetida. A descentralização política da República Velha significou a subordinação completa dos municípios e de todas as forças políticas locais e regionais divergentes ao poder central do governador. A falta de uma política social unitária fomenta a heterogeneização da estrutura social. orientados para fora. e com isso a subordinação do espaço político de São Paulo ao poder central reforçou os processos de centralização econômica pelo capital industrial paulistano. Isso orientou a Revolução de 30 assim como a marcha dos militares revolucionários e o planejamento regional. Estado de Bem-Estar Social rudimentarmente existente . Em alguns pontos importantes . que no entanto não excluiu a continuação da concentração do capital nacional. As reformas constitucionais de 1894 e 1988 fortaleceram os elementos federativos e com isso os estados. Na sua fase final. Os efeitos sobre a estrutura local e nacional do capital também são diferentes. urbanização. um conceito relativo que carece de algumas especificações e demanda uma análise dialética (Ianni 1996: 51-86). possibilidades de participação da sociedade civil. Justamente num país como o Brasil o poder local sempre foi autoritário.a estrutura nacional que atualmente está sendo enfraquecida é. por assim dizer natural. mas como ”irrepetível”. os municípios. Na República Velha a oligarquia agrária dominava. deve-se clarificar o alcance da validade. depois por via da guerra. sobretudo do espaço rural. A centralização política. XIX e do incipiente séc. pois em áreas importantes o processo atual se distingue do do séc. que iniciou com a criação da SUDENE em 1959. De início isso se deu pela via da crise econômica mundial. O acoplamento de democracia e descentralização. Mas isso não conduziu ao equilíbrio regional muitas vezes discutido.industrialização. A estrutura do estado-nação nunca se libertou do patrimonialismo português e abriu 142 . Com efeito o poder sobre o espaço se assemelha. Centralização é. Os interesses locais. assim como os estados. mas produzida. Ao mesmo tempo muitos dados sugerem que a história não deve ser vista como processo cíclico. efetuado nos anos 80 em oposição à ditadura militar. a fase atual de descentralização deveria conter elementos da fase de 1889 a 1930. que na verdade tinham um interesse central em comum: preservar a estrutura social. O parlamento era uma coleção de tais interesses regionais. A descentralização definida na Constituição de 1988 fortaleceu o poder local. Em primeiro lugar. Ambas enfraqueceram o nexo de relações do mercado mundial. Com referência ao Estado de São Paulo evidencia-se que a concentração na Grande São Paulo entre 1920 e 1980 foi devida a uma condensação do espaço de entrelaçamento. expande-se o espaço de aglomeração.g. como e. A desconcentração concentrada conduz a uma redução quantitativa da importância e a uma desindustrialização na Grande São Paulo. Isso implica o ”eterno retorno” de uma ordem aparentemente incontestável. Nessa contradição baseava a convicção de que o progresso e a democratização deveriam ser implementados contra os interesses locais. pois trata-se do mesmo padrão básico. A descentralização política dos anos 80 fomentou finalmente as atividades de política econômica das unidades descentralizadas. De acordo com essa posição. Sob a coordenação de Celso Furtado iniciou-se no âmbito da SUDENE o planejamento racional do desenvolvimento regional do Nordeste. Mas o regime de Bretton Woods também se baseou na soberania dos estados nacionais e limitou o poder do mercado e da moeda mundiais sobre o espaço. Pareto quis mostrar os elementos de preservação do desenvolvimento social além dos tempos.). Os empenhos de centralização por parte dos estados nacionais no quadro do fordismo periférico só foram possíveis em meio a uma estrutura descentralizada da economia mundial. Hoje como no passado há sistemas de produção locais. inequivocamente mais poderosa do que a estrutura nacional do Império. Ao mesmo tempos os cinturões ao redor da capital e sobretudo da Região Metropolitana se expandem. de modo nenhum é uma alternativa cogente. cuja estrutura é perpassada pela lógica local autoritário-hierárquica (Fernandes 1987: 58 s. O maior proprietário de terras falava em nome da e pela região. por conseguinte. De início foram os representantes da coroa juntamente com os barões do açúcar. o que reforça a tendência à fragmentação do território. Ele é um dispositivo formado pela dominação local dos senhores de engenho e dos fazendeiros e por um receptáculo nacional de poder. Sob a Velha República a descentralização significava o impedimento da democracia local. isto é. do sufrágio universal. predominando nacionalmente o capital cafeeiro e internacionalmente os capitais comercial e financeiro. Mas atualmente o capital internacionalmente competitivo. A descentralização política sob a República Velha lançou os fundamentos da consolidação da centralização econômica em São Paulo.142 Os campos sombreados na representação acima mostram a dinâmica espacial como processo cíclico. Muito pelo contrário. assumiu a posição de supremacia. XX. pode-se constatar uma desconcentração concentrada em benefício dos estados vizinhos ao Estado de São Paulo e a expensas da periferia. A lógica descentralizadora da República Velha baseou-se em uma estrutura distinta dos esforços de descentralização na década de 1980. posteriormente os latifundiários. apoiado por um capital financeiro (restritamente) nacional. representados no plano central como interesses territoriais gerais da unidade descentralizada. e que a geografia não como dada.

v. O pensamento de Furtado gira em torno da formação da nação. dissolve-se a concepção de direitos sociais de cidadania. mas se enraíza em coincidências de interesses das classes dominantes local e internacional e é claramente questionada pelos grupos e classes localmente dominados” (Cardoso. 5. A discussão com essa conceitualização regionalista do estruturalismo de Celso Furtado é importante. observar um engajamento mais intenso. O acréscimo de importância da dimensão local é atestado por evoluções como a descentralização política e a ”especialização flexível” de sistemas produtivos locais e regionais. Mas o que caracteriza o enfoque especificamente espacial na citação acima é a utilização de ‘local’ no sentido de ‘nacional’.processos de centralização ou descentralização. conforme testemunham a ”guerra fiscal” entre os estados e municípios. 143 .) situa o problema na ”falência do estado-nação”. O campo discursivo da UNICAMP e em ampla escala de toda a pesquisa regional brasileira concentrase em torno da pergunta pelas distribuições espaciais a que isso leva. Uns temem maiores disparidades regionais e outros chamam a atenção à relevância da dinâmica na região dominante. Por essa razão o pêndulo de Pareto e os fenômenos cíclicos conexos somente podem ser ponto de partida da pesquisa. Atribuise. ao Estado o papel de intervir nessa distribuição. No plano regional se pode. Recorre a conceitos 5 ”Compreendemos a relação entre fatores externos e internos como uma totalidade complexa. Cano 1998b: 309) e Cano (1998b: 349 ss.3 Globalização e fragmentação Durante as três últimas décadas a UNICAMP foi um centro de reflexão crítica. nacionalmente vigentes. Na concepção cepalina isso é complementado pela concepção do planejamento territorial científico neutro enquanto forma de intervenção racional. Situado nessa tradição. Furtado e Frank encontra-se. Esse discurso ideológico coisifica o poder produtivo do capital e redefine-o como poder de mercados globais. à medida que estados e municípios se tornam participantes ativos na concorrência continental. Assim a centralização é um fenômeno a ser diferenciado segundo processo e planos. Assim como a dialética de internacional e nacional é constitutiva para eles. Mas em outros autores como Faoro. ocorreu no Brasil uma recentralização por via da política monetária. e com isso a concepção do território como espaço socialmente homogeneizador (Bava 1996: 54). Depois de 1994. constituiu-se assim uma escola independente de economia regional.143 portanto ao establishment e ao empresariado um acesso privilegiado ao Estado. Estamos aqui diante da representação hobbesiana de um detentor soberano do poder. A estratégia conservadora de descentralização combina a centralização política com a descentralização administrativa. embora uma análise do poder sobre o espaço permita mostrar as fraquezas dessa teorização dos dois momentos da dialética. O enfraquecimento da dimensão nacional é hoje percebido amplamente como um problema e parece andar de mãos dadas com um fortalecimento de outros planos .5 Na esteira da tradição cepalina e ampliando essa tradição. com o Plano Real. Atinge-se melhor o objetivo integrando esses fenômenos cíclicos em um modelo dialético de produção do espaço. cuja unidade estrutural não se fundamenta apenas em formas externas de exploração e coerção. o vaivém entre os pólos interno e externo enquanto dialética de fatores nacionais e internacionais.do local e do global. assim a aplicação análoga da dialética ao vaivém entre a nação e a região é desconhecida. A nação enquanto receptáculo fornece a referência do discurso espacial. sempre de novo. Mas todas essas discussões permanecem no plano superficial da distribuição espacial. assim como a competência de ação se localiza no estado nacional. No Brasil atual os dois processos podem ser observados. As suas análises sempre tiveram uma orientação implicitamente geográfica. Pacheco 1998: 208 ss. Mas as conseqüências espaciais do fenômeno designado com o conceito espacial ”globalização” são muito mais complexas do que parecem ser à primeira vista. A concepção cepalina padece do defeito de eliminar o poder do foco da análise. Por fim a formação de uma associação supranacional como o MERCOSUL pode fomentar . A citação extensa de autores como Cano. No plano nacional chega-se a uma centralização do poder junto ao Executivo (a expensas do Legislativo e da sociedade civil). Keen 1984). uma análise regionalizada. para uma crítica.nos planos espaciais inferiores . que não pode ser apreendido com uma dinâmica espacial simplificadora. pois correlaciona dois planos espaciais. Cardoso e Faletto não conhecem nenhuma geografia subnacional. por sua vez. Pacheco se ocupa da ”fragmentação da nação” (Pacheco 1998. a sua crítica da política econômica das últimas décadas aponta para a circunstância desse processo de construção ter sido ”interrompido” (Furtado 1992). mas privilegiavam sem exceção uma análise especificamente espacial. outros de um processo de ”desconcentração concentrada” (cf. Isso assegura a coesão do governo e focaliza ao mesmo tempo a administração. O estado-nação transfere a regulação dos conflitos sociais e a administração da escassez ao plano local.). Para análises espaciais esse procedimento é muito interessante do ponto de vista metódico. Faletto 1976: 216). no qual se examina a contraditoriedade da (des)centralização. assim como a concepção do poder padece por pensar unilateralmente o espaço. Sobretudo o modelo malufista e em parte também o do governo central se orientaram por essa estratégia. Alguns falam aqui de uma inversão da polarização (Townroe. a saber. por sua vez. Pacheco ou Negri evidencia a importância desse grupo para o presente trabalho.1.

o controle e a decisão de ações econômicas. Mattl 1999). Cada espaço ativa os recursos com os quais ele pode concorrer na concorrência global. we should not consider one as an emergent and another as a residual tendency. reflecting new articulations of global mobility and local fixity. O sujeito da história é tão-somente o capital e aqueles que agem em seu nome. Em meio a um processo de descontextualização os métodos e instrumentos utilizados foram inseridos na práxis do planejamento autoritário. A SUDENE. da tomada de decisões sobre investimentos e financiamentos. Krätke 1996).6 Vale o princípio ”Anything goes”. Por isso as tendências modernas da sociedade mundial são antes uma ‘glocalização’ do que uma ‘globalização’” (Altvater. Os pressupostos dessa intervenção política específica se dissolveram e se tornaram apesar disso o fundamento da formação científica de planejadores. É certo que a endogeneização do campo econômico . enquanto der lucro. Disso resulta freqüentemente a exigência de uma repolitização ou de um desejável primado da política sobre a lógica unificadora do capital ou do 6 ”The point is that these different spatial dynamics are not contradictory or incompatible. Elas identificam a distribuição injusta das terras e da renda como uma mazela. Em uma conjuntura específica. Essa tecnocracia usou a ideologia do planejamento neutro com o ônus restritivo irracional de não tematizar o poder. as Ligas Camponesas e outros movimentos de base na periferia nacional não foram nenhuma farsa (Oliveira 1987: 18). também o fundamento do saberpoder racional. de resto condenado à marginalidade. para desistir com isso da regulação política racional. REVISÃO DA EDITORA: aqui e a seguir a distinção entre ‘desordem’ e ‘des-ordem’ deve ser rigorosamente mantida. dados como grandezas de orientação pela estrutura. Tanto a CEPAL quanto a UNICAMP somente conhecem a desordem [Unordnung] e nenhuma desordem [Un-Ordnung] [ATENÇÃO. O tradutor].144 foucauldianos para glorificar esse poder como intocável (cf. a dinâmica econômica produz um espaço de entrelaçamento que extrai as suas regras da lógica do sistema econômico. De fato. Por isso é mais adequado ”apreender a contraditoriedade da concorrência global e da competitividade local (ou regional) como uma relação de ”articulação” de relações globais e locais. desestruturaram-se a regulação democrática do estado-nação e. À medida que a dinâmica da acumulação é interiorizada. Uma outra conceitualização do espaço e do poder é igualmente necessária para superar esses desvios teóricos e políticos. A acumulação e regulação ocorrem no mesmo espaço e reagem ao mesmo centro de comando do poder. A concepção da glocalização sugere a desimportância da nação.do estado-nação como bloco homogêneo do fator político.permeável. concentram-se no espaço-receptáculo nacional. dominante depois de 1964. Mas as duas perspectivas compartilham uma visão . os pontos nodais da regulação da moeda e do trabalho. A desordem é um problema ”estrutural” que poderia ser solucionado mediante uma boa intervenção. They are all contemporaneous. new geographical options in the present corporate repertoire” (Amin. na sua esteira.sobretudo para o financiamento. Na UNICAMP o Estado é visto como detentor do poder e a nação é percebida como um receptáculo . que ainda permanecem substancialmente preservados. A expansão para novos espaços geográficos ainda não integralmente dominados pelo capital e a valorização de espaços sociais nas regiões nucleares do capitalismo são estratégias perfeitamente compatíveis. mas o palco no qual elas atuavam foi o estatuto provisório de uma situação exceçional. são produzidos cada vez mais nas mais distintas partes do país produtos individuais em regime de especialização. Mas esse modo de apreciação ignora o fato de que os campos histórico-geográficos têm a sua inércia também na área da produção.a orientação para o mercado doméstico . Robins 1990: 28). Sob a ditadura. Num espaço de entrelaçamento econômico global resta-lhes apenas a adaptação aos mecanismos de coerção inerentes à realidade [Sachzwänge]. sempre que surgir. deverá ser respeitada. À medida que todas as decisões passam pela esfera do estado nacional. da região e da economia. Isso resulta em um padrão espacial que se assemelha à estrutura de arquipélago do Brasil colonial. Foi possível acomodar os conflitos entre a acumulação e a regulação nessa constelação histórica concreta de um campo do estado-nação. possibilitando a sua critica.em parte nostálgica . mas ela pode reduzir a desordem. Lá houve durante a evolução orientada para o mercado interno a formação de entrelaçamentos fortes dominados por São Paulo. Nos casos anteriores a grafia ‘des-ordem’. Em conseqüência da crise dos anos 60. Novy. Tanto na localização quanto na globalização estão em pauta apenas aspectos parciais de um processo econômico abrangente (cf. os planejadores ainda precisavam ser forçados a deixar o poder sobre o espaço fora do foco do seu trabalho. sob pena de confusão. esse campo de poder possibilitou um papel progressista de saber-poder que definiu a desordem da periferia como des-ordem. Não são poucos os funcionários ”esquerdistas” da UNICAMP que trabalham no governo de Fernando Henrique Cardoso. Mahnkopf 1996: 30).não conduz automaticamente a uma ordem estável e muito menos ainda a uma ordem justa na periferia. Tenta-se tirar o poder do território ou dissolver o território. chega-se à valorização do espaço local. torna-se nele também possível um planejamento do desenvolvimento. No decorrer dos anos 80 e 90 o saber acerca da des-ordem da periferia se perdeu sem nenhuma coerção e informalmente. Seguindo o discurso da globalização. Assim o conceito da glocalização parece adequado para compreender as transformações espaciais. Se esses recursos são valiosos. Por isso as localizações em São Paulo ou nos estados vizinhos continuam especialmente atraentes . A maioria da população deve assim perder o seu estatuto de sujeitos políticos e ser degradada em meros suportes de estruturas. 144 .

8 Nesse sentido a virada fundamental da política keynesiana desde 1930 consistiu no fato de que a intervenção do Estado se dava ex ante e não ex post. os ricos têm hoje as mãos livres para promover a ”evasão de capitais”. transforma-se na antítese do estado-nação (Oliveira 1989: 5). Mas a correspondente territorialidade. quão pouco ela está desacoplada do espaço. mas talvez ao aumento indireto do bem-estar local. que fala de um capitalismo financeiro. De decisiva importância para a crítica da teoria econômica do cepalismo foi a falsa separação de economia e política. Pode-se observar essa fragmentação também no plano microregional: se no passado a regulação local da economia local era possível. Isoladamente.9 Hoje o fundo público disponibiliza os seus recursos mais exclusivamente para a valorização do capital do que nos tempos do fordismo orientado para o mercado doméstico. que arrecada tributos da população para subsidiar o processo de acumulação. e não inversamente a coletividade enquanto nação como fonte da sua riqueza. mormente sem o Estado (Oliveira 1998b: 95).tem maior peso na concorrência entre as localizações. A taxa de câmbio e a taxa de juros configuram dois instrumentos centrais de política que. pela via do apoio do processo de valorização: a infraestrutura econômica necessária. parece ser menor. 1998). Oliveira chama a atenção à crescente dependência da valorização do capital do ” fundo público” (1989: 94 s. Por isso os liberais apressam-se em retornar com demasiada rapidez ao regaço do Estado.). que consiste em sondar constantemente os limites dos subsídios pagos ao capital a expensas dos trabalhadores sem que se chegue a uma crise de subconsumo. O estado-nação enquanto capitalista financeiro. por outro lado. Disso resulta o aspecto da irracionalidade da des-ordem. Não existe um fim da des-ordem. 1997). Mas como a reprodução do capital se dá em nível global. Em virtude dos mercados desregulamentados de divisas.145 mercado. e procura novamente a mão protetora do Estado. definem o valor de um país. Na esteira da argumentação de Tavares. dos donos do espaço. mas que. como ela afetou em 1997 quase todos os ”mercados emergentes”. ser colocado sobre pés novos. Esse argumento vale sobretudo para a política maciça de subsídios estatais que atingiu todos os planos da federação brasileira e mina o estado fiscal. A moeda e o fundo público . Sua riqueza se lhe afigura como fonte financeira da coletividade e do Estado. na forma da ”guerra fiscal”. para além das regiões centrais. a nação enquanto soma dos seus habitantes passa a ser a perdedora. Em uma tal crise maciça.. de Estado e capital. A valorização do capital freqüentemente não é rentável sem subsídios maciços por parte do Estado.8 O capital necessita de um Estado forte para poder saber de antemão de modo confiável quão elevados serão os seus subsídios. no âmbito do ”local Socialism” (Becker. Se num primeiro passo de ”desestatização” o território foi destituído de poder. Fazem isso tão mais à vontade. nas últimas décadas o espaço da economia local estendeu-se na maioria das grandes cidades e em todas as global cities definitivamente além das fronteiras políticas (cf. 7 Não muito distante disso está também a nova orientação ideológica defendida pelo Banco Mundial. A política não serve ao aumento direto. isto é. Uma crise da moeda se torna assim rapidamente uma crise de um espaço de poder.ambos inteiramente vinculados a um território . Mas em uma área o estado-nação assumiu um novo papel. na direção de um ”Estado forte” (IBRD 1997). Novy 1999). a empreitada liberal de uma autonomização do processo de valorização capitalista e de uma redução da influência do Estado está condenada ao fracasso. Por isso o território político clássico da cidade perdeu uma parcela grande do seu poder. A burguesia reconhece então. um desaparecimento do ”Terceiro Mundo”. Uma nova forma de território. como isso foi praticado exitosamente na ”Viena vermelha” do entre-guerras e já bem menos exitosamente na Inglaterra do início dos anos 80. parece ser mais fraca do que as estruturas territoriais que se consolidam ao longo de 500 anos. 9 Os donativos fiscais foram em parte usados para lucros extraordinários. por essa razão a demanda de regulação por via dos territórios. só podem ser definidos com autonomia restrita no atual regime da desregulamentação dos mercados de capitais. quanto mais as forças oposicionistas estão marginalizadas no Estado.assim por exemplo a Grande São Paulo . Sobretudo os aplicadores nacionais e internacionais do capital de curto prazo são atores políticos que lograram impor a desregulamentação dos mercados de divisas e podem atuar hoje em meio a um espaço global de entrelaçamento. um espaço delimitado de poder com competências claras. Feldbauer et al. As outras áreas têm uma relação muito menos direta com a estabilidade do processo de valorização. que implode territórios. por um lado. todo o espaço de aglomeração . Vale genericamente a regra de que empresas multinacionais estão em grande parte isentas do pagamento de impostos. A dinâmica dos espaços de entrelaçamento. outrora ilegal. Os bancos centrais dão hoje garantias do patrimônio que se encontra no território do Estado e defendem o seu valor por meio de uma política de juros elevados e do fortalecimento da moeda. evidenciase a hierarquia dos espaços de poder na economia mundial. A fragmentação do espaço político expressa-se na descentralização do estado-nação e no fortalecimento de instâncias reguladoras supranacionais em um sistema global de governance (Jessop 1997).7 Mas na realidade o espaço político também se transforma na direção do espaço de entrelaçamento. 145 . a pesquisa e o desenvolvimento devem ser disponibilizados in loco. Disso resulta a crença egocêntrica e errônea da burguesia de poder viver sem os outros. falta em larga escala ou baseia-se em mecanismos informais e freqüentemente ineficazes. ele deve. tornando-se assim parte do cálculo de valorização do capital (Oliveira 1987: 102 ss.criam uma hierarquia global que impede redes dispersas do espaço de entrelaçamento e externalizações ainda maiores dos espaços centrais de poder. o mais tardar. num segundo passo.

para que se pudesse falar de um regime de acumulação. Nesse novo espaço de entrelaçamento econômico as cidades . do detentor ditatorial e personalizado do poder (aqui também a semelhança com Vargas). não representando o espaço único de poder. mas também sobre a territorialidade enquanto produção de territórios definidos sempre apenas por tempo limitado: fluxo e definição de processos sociais no espaço. Politicamente. mas abrange o mundo inteiro. O fator nacional foi construído como modernidade e progresso sem que se percebesse que os fatores arcaicos se apropriaram desse novo poder sobre o espaço e transferiram toda a carga de ”reacionarismo e atraso do local” para o plano nacional. centros e bordas. 146 . isto é. Concentrações de empresas e 10 A distinção entre regime de acumulação e sistema produtivo baseia-se nos diferentes enfoques da Escola de Paris e da Escola de Grenoble . Não há limites fixos no espaço econômico da economia capitalista mundial: a economia interage potencialmente de modo a abranger o mundo inteiro. O espaço econômico tornou-se maior. formam-se pontos nodais. Refere-se assim a uma região claramente delimitável na qual um determinado poder governa soberanamente. A fronteira é um aspecto importante do território. Cano 1998b: 309). o espaço econômico do comércio. que a partir dos anos 50 e 60 os investimentos produtivos (sobretudo transferências de unidades industriais e investimentos diretos) foram o primeiro passo. Na base disso está mais uma vez a concepção hobbesiana do detentor soberano do poder. Trata-se então de um regime de acumulação ou de um sistema produtivo com entrelaçamentos econômicos espacialmente condensados. sem efetuar uma análise do poder sobre o espaço. Num território o poder de prefeitos. Becker 1999). enquanto dialética. aparentemente separadas dos seus respectivos territórios. O presente trabalho mostrou que a nação brasileira foi construída em um processo multissecular.2 A des-ordem do capital 5.1 Da des-ordem da periferia à des-ordem do capital Assim como extensos setores da Sociologia e da Economia. O financiamento do desenvolvimento espacial também deveria ser controlado in loco. o poder produtivo do capital que enquanto estrutura profunda é responsável pela des-ordem da periferia? Na parte final do presente trabalho tentaremos examinar agora a estrutura dessa desordem do capital que não é apenas periférica. O controle in loco será maior se as indústrias de bens de consumo e de bens de produção estiverem fortemente entrelaçadas em termos espaciais e não dependerem do exterior. 5. da produção e do consumo podem ser melhor compreendidos como espaço de entrelaçamento. o que só pode ser interpretado como simplificação economicista. Por isso também o espaço de entrelaçamento tende a ter fronteiras. Ocorrem contudo condensações nesse espaço de entrelaçamento. em parte até global. ambas regulacionistas(cf. embora elas possam permanecer difusas e determinadas atividades sempre se possam difundir. governadores e presidentes se sobrepõe crescentemente a poderes supranacionais que definem as regras de um território.. estava na pauta a destituição do poder de detentores locais do poder.world e global cities -.10 Do ponto de vista quantitativo. No fordismo enquanto modo de desenvolvimento orientado para o mercado interno os espaços político e econômico coincidiram em grande parte (Becker 1998b: 122). a esse propósito. Depois da degradação do fator local a dialética de ‘local’ e ‘nacional’ caiu novamente no esquecimento. que se preocupa com o seu espaço-receptáculo. Mas num exame mais acurado mesmo as fronteiras do territórios são bem menos nítidas e delimitadas do que parece. o enfraquecimento dos espaços de poder subnacionais também foi uma estratégia política para ”criar um poder soberano capaz de dominar um território extenso e governar um povo” (Nunes 1996: 32). dominada pelo estado-nação (Cano 1997: 253 s. Com os mercados de eurodólares o capital financeiro começou a internacionalizar-se nos anos 70 (Novy et al.2. a saber. Por um lado. Sob pontos de vista qualitativos o controle sobre o processo produtivo tem importância decisiva. esta permancece à margem da ordem global. a maior parte das interações deve ocorrer em um espaço concreto. dos investimentos. mas não foi efetuada uma análise de vários planos. quando o espaço econômico começou a expandir-se além das fronteiras nacionais. Por outro lado. Por isso é também enganoso ver os fatores nacional ou local como o plano espacial ”melhor”. o pensamento cepalino padece de grosseiras simplificações com referência ao espaço. constituem pontos nodais centrais. Por isso dever-se-ia falar não apenas sobre o território.146 mesmo depois da modernização da periferia. Mas é verdade afirmar que a des-ordem somente aparece na periferia? Será que as diferentes seções desse capítulo não evidenciaram uma estrutura constante. Não esqueçamos. O cepalismo define comumente o espaço político enquanto espaço de poder com ajuda do conceito de território. Nas economias centrais o espaço político entrou em crise. Freqüentemente deparamo-nos com uma certa nostalgia da ”Era Vargas”. 1999).

para tal se faz mister superar a lógica da acumulação.). Depois o campo de poder desmoronou. os dois tipos do regime de acumulação atingem limites sócio-econômicos da ampliação do mercado interno. Sociedades capitalistas constituem uma des-ordem. à qual subjazem formas respectivamente distintas da luta de classes. pois ele não efetua nenhuma análise das classes e elimina assim também do foco o conflito entre o capital e o trabalho. Ao mesmo tempo a estrutura interna do espaço econômico é mais fragmentadora do que na fase do fordismo. Por isso todo e qualquer modo de regulação é no fundo um ordenamento específico de regulações em planos espaciais distintos. atribuiu à questão da endogeneização da dinâmica econômica um papel-chave. A acumulação. feito pela CEPAL. Mas na estrutura atual esse enfeixamento historicamente incomum se dissolve. isso significa uma combinação de extensificação e intensificação. centro-periferia. como reação à crise de acumulação de 1964. podendo. Aqui iniciam também as tendências de intensificação. 11 A regulação sempre é um fenômeno de vários planos. Oliveira (1987: 24) criticou o acoplamento do poder ao espaço. para a esfera privada a ser organizada na sua maior parte pelas mulheres. Tal como efetuada pela CEPAL. a conceitualização da periferia concentrou-se em espaços e situou a des-ordem na periferia. mas simultaneamente. colocam-se então fundamentalmente duas alternativas: a maior orientação da acumulação segundo a economia externa ou o deslocamento dos limites sócio-econômicos. portanto. após o fim do financiamento externo.147 mercados globais financeiros conduzem a entrelaçamentos espacialmente mais extensos. trabalho e concorrência. aumentando a multiplicidade dos atores intervenientes. ser melhor apreendida com o conceito mais 147 . A política industrial regional praticada sob os militares possibilitou a manutenção do campo de poder do estadonação até a crise do endividamento.” (Becker 1999). Essa crítica do pensamento cepalino se prolonga. a endogeneização da dinâmica econômica na América Latina em geral e a constituição de um sistema econômico local em São Paulo constituíram a ruptura mais importante na história econômica da América Latina. A primeira consiste na relocação de prestações sociais. trata-se de uma superação [Aufhebung] num quadro conceitual mais abrangente e crítico. A acumulação extensiva busca a apropriação da mais-valia absoluta e o aumento da mais-valia relativa por meio de aumentos de produtividade. Isso tem a ver com o fato de que a concepção do modo de regulação se baseia. Referi-me no presente trabalho muitas vezes a formas estruturais. Aqui a periodização cepalina prova ser útil. ”A partir de um determinado ponto. Como ela examinou o vaivém dos fatores interno e externo. normatizando e disciplinando estilos de vida. em uma análise do poder sobre o espaço. feita em termos de economia política. Argumentando em termos de imanência sistêmica. moeda. da apropriação da mais-valia. Mas a mera endogeneização do desenvolvimento não supera a des-ordem da periferia. A velada orientação externa do capital paulistano assumiu um caráter aberto. É certo que no seu centro não está a superação do capitalismo. Diferentes planos espaciais influem na regulação.11 Já no modo de desenvolvimento descentralizado da República Velha. Mas a urbanização. a acumulação intensiva baseia-se no barateamento dos bens salariais e em uma nova norma de consumo da classe trabalhadora (Aglietta 1987: 68 ss. Com referência à acumulação. A teoria da regulação fornece aqui o ponto de partida. depois a regulação começou a decompor-se. Num país de dimensões continentais como o Brasil a exportação nunca pode substituir inteiramente o consumo doméstico. mas na hierarquia de classes sociais. No Brasil pôde ser observado uma combinação. e a complementação do setor de bens de produção também foram concluídas. mas utilizei o conceito de modo de regulação mais raramente. O critério decisivo de periodização passou a ser a pergunta se um regime de acumulação seria orientado para fora ou para dentro. pois o cálculo dos benefícios encontra aplicação em áreas sempre novas. Os recursos da política regional se encolhem devido à crise fiscal do Estado. Atividades distintas enfeixamse em planos respectivamente distintos. central na periferia. Primeiro a acumulação parou. outrora de competência do Estado de Bem-Estar Social. mas a transição a formações capitalistas respectivamente novas. Para ele. Várias estratégias de acumulação ocuparam o lugar de um regime dominante de acumulação. que continuou funcionando até 1982. Além disso chega-se a uma extensão da lógica do capital e do mercado a áreas até há pouco tempo subtraídas ao mercado. Um modo de regulação designa a combinação estabilizada de manifestações concretas das formas estruturais Estado. constitutiva da intensificação no fordismo periférico. Nessa situação representações hobbesianas de soberania não são inteiramente erradas. com vistas ao aspecto do controle. De acordo com essa visão. significou a estabilização da des-ordem. portanto. A natureza e o corpo humano são valorizados pela biotecnologia e pela tecnologia genética. pois a renovada orientação externa obriga a constatar uma nova fase de desenvolvimento. Tal análise de modo nenhum significa a negação das importantes descobertas do cepalismo em muitas áreas. Mas Aglietta define diferentes formas de acordo com a forma da apropriação da maisvalia. no campo de estado-nação do fordismo. Ocorreu uma orientação regional externa da acumulação dominada por São Paulo no sentido de uma dominação integral da periferia nacional. muito pelo contrário. Essas contradições só se manifestam mais maciçamente na periferia. pois a força produtiva do capital é inerentemente contraditória. assim como o do regime de acumulação. mais estreitos. a des-ordem da periferia não reside apenas na hierarquia de espaços.

e casualmente também a homogeneização regional analisada por Pacheco. Na realidade. a não-intervenção de atores globais no período de 1930 a 1953 evidenciou ser de importância decisiva. pois este é tanto parte da regulação quanto a instância que deve sancionar o conjunto de regras e normas. muito pelo contrário.M . Muito pelo contrário. se refere a algo inteiramente distinto do que a distribuição no espaço. Em Oliveira podemos encontrar idéias semelhantes. Mas a partir de um determinado momento da integração do capital. O núcleo do período depois de 1930 consiste no fato de que a moeda nacional se torna o equivalente geral de toda a economia nacional. tanto da acumulação do capital quanto da luta de classes (Oliveira 1987: 29). é expressão de compromissos de classe estabilizados em termos espacio-temporais. XIX como ”moeda. ele atribui o primado à moeda (Becker 1999). Por isso pode haver diferentes regiões num espaço monetário. pode-se falar de um regime de acumulação. Becker. Assim ele vê a libra britânica no séc. Estamos aqui diante de abstrações da economia política que são estranhas à visão de mundo da CEPAL. por conseguinte . Se a crise do estado-nação incluía a esperança por modelos políticos descentralizados e plurais. Mais especificamente. Por meio dos reduzidos entrelaçamentos externos constitui-se um espaço autônomo de reprodução do capital. seja nos automóveis ou na Coca-Cola. A sua valorização do capital está sujeita a uma lógica que integra o mundo inteiro e conduz.seguindo a argumentação de Oliveira . Enquanto ator nacional. As opiniões divergem no tocante à hierarquia das diferentes formas estruturais que constituem um modo de regulação. A realização da apropriação da mais-valia se dá ex post e por via do dinheiro. a crise da acumulação e a crise fiscal conduziram a uma homogeneização radical. Com isso não se encerra toda e qualquer especificidade regional.) 148 . e isso segundo a lógica de um poder global sobre o espaço. a nação foi homogeneizada politicamente. Os investimentos diretos efetuados nos anos 90 no Brasil por grupos industriais estrangeiros fizeram com que estes agora determinem o processo de acumulação. Mas esta baseou-se em uma fusão dos capitais estatal e privado e na assunção de tarefas de capitalismo financeiro por parte do estado nacional. centrado no estado nacional. presente na concepção do poder sobre o espaço. Como sugere o conceito de fordismo.148 orientado para fora. como foi o caso com a região do açúcar e do algodão no Nordeste e a região cafeeira no Sudeste. muito menos ainda são superadas as diferenças regionais.). os regulacionistas atribuem à relação salarial uma posição determinante entre as formas sociais (Hübner 1990: 177 ss. Essa análise baseou-se no conceito foucauldiano de dispositivo (cf. Já Becker (1998b: 120 s. não deve ser confundido apressadamente com determinados governos ou regimes. colocada em primeiro plano por Pacheco. o plano nacional enquanto elemento unificador desempenhou um papel mais importante para a estrutura global do que comumente se admitiu. uma tendência ao predomínio de uma determinada lógica de valorização do capital. Foucault 1978: 119 s. que criam complexos regionalizados de produção fora de São Paulo. Um exemplo atual são os subsídios concedidos às montadoras de automóveis. por assim dizer”. implementada no curtíssimo prazo. Raza.à dissolução da nação. Esses esçaços perdem então a sua forma regionalmente específica e submetem-se ao poder da fração dominante do capital. A homogeneização da acumulação e regulação significa. o que. No início e no fim desse processo está o dinheiro. essas explanações sobre a dissolução das regiões e a homogeneização nacional no ápice do fordismo periférico podem ser continuadas em grau mais abstrato. Se a apropriação da mais-valia e a determinação do valor da moeda ocorrem no mesmo espaço. D . E mesmo na fase atual de esvaziamento do estado-nação a perda de poder do mesmo em benefício dos municípios e dos atores globais de modo nenhum é irrevogável. a homogeneização em termos de economia política. O campo do estado-nação da ditadura militar criou uma tal homogeneização . Na condição de campo. observam critérios idênticos e operam com as mesmas tecnologias. Em termos econômicos. mas também para a luta de classes e a regulação. Mas essa descentralização da produção significa a inserção das regiões favorecidas no processo global de valorização dessas empresas multinacionais. trata-se de espaços de poder com uma forma própria. o Banco Central dispõe do recurso-chave moeda e regulamenta o acesso às fontes de financiamento.D’ (dinheiro . Já tentei algo semelhante em uma análise do discurso: procurei valer-me da concepção do dispositivo para por de manifesto as estruturas do discurso (Novy. em vias re publicação). Mattl 1999). para a relativização da tese cf. o que veio acompanhado de um elevado índice de financiamento externo (Oliveira 1989: 17.passou a sobrepor-se às diversas lógicas dos outros planos espaciais.mercadoria – mais dinheiro) é o caminho que o capital precisa percorrer para reproduzir-se.a do capital industrial paulistano . Ocorre que a homogeneização não vale apenas para a acumulação. Diante da globalização. A concepção da homogeneização não é ”demasiado” abstrata. que no Brasil chegara com a política regional da SUDENE. como critica Pacheco (1998: 26). do modelo de Estado em todos os planos espaciais. sobretudo no Rio Grande do Sul. Cano 1998a: 241). uma lógica . Para o modo de desenvolvimento do fordismo tropical. Abstração feita de ”aldeias gaulesas” isoladas. destituída do elemento ‘poder’. no entanto. o que não significa outra coisa senão que o consumo e a produção nesses espaços seguem uma lógica unificadora. Oliveira (1987: 27) vê uma região como um espaço no qual ocorre uma forma específica de reprodução do capital. pode-se observar tendências à recentralização.) atribui a posição dominante ao Estado. A partir de outra aberto do dispositivo (cf.

faz-se mister contrapor a esse pessimismo um otimismo da ação. que grupos importantes viram o golpe de 1964 como única saída. contudo.2. apenas germinalmente pelo Brasil. Sem o conhecimento desse poder sobre o espaço não há como compreender os processos de desenvolvimento. a acumulação e a escassez do capital. o subdesenvolvimento e a impotência. se ele não for criticamente reflexivo. por outro lado a estrutura fundamental capitalista permaneceu intocada. Essa pluralidade de opções resulta de uma determinada estrutura. Permite realizar tão-somente transformações institucionais ou transformações estruturais parciais (técnicas sociais) que assegurem a permanência das estruturas de poder na sua totalidade. a Rússia. A raiz da fragmentação está na circunstância de que o valor da moeda é definido em lugar distinto do do processo produtivo. 149 . Competências decisórias fluem para fora do país assim como o capital em fuga. Necessita do espaço para utilizá-lo. pois o regime ditatorial e com ele o establishment estavam desacreditados. isso produz justificativas ex post e enseja a elaboração de uma simplória história dos vencedores. o Brasil e a Venezuela só os detentores locais do poder e os fatores endógenos seriam responsáveis. Com a SUDENE o governo central brasileiro apoiou a partir de fins dos anos 50 uma tentativa amplamente dimensionada de modernização reformista da sociedade nordestina.149 perspectiva.a tal ponto. a pobreza persiste e as injustiças aumentam. Ignorou-se aqui.). revela-se inócua a esperança por uma política industrial e regional nacional que um esclarecido detentor do poder deve realizar com um ”projeto nacional” (Pacheco 1998: 268). da possibilidade de transformação.2 Transformação e constância do poder sobre o espaço A força das estruturas evidenciou as dificuldades simplesmente incomensuráveis de iniciar mudanças que transformem as instituições e estruturas de modo a melhorar as condições de vida da maioria da população. O poder concretiza-se no espaço. algumas reformas foram possíveis em esferas parciais da estrutura social. significa o acoplamento a um espaço monetário estrangeiro que se desmascara como espaço de poder. No plano local foram implementadas numerosas reformas consideráveis da estatalidade. que formas estruturais somente se estabilizam se a estrutura total for transformada. disponíveis aos diferentes atores. por um lado. Nas fases áureas da discussão democrática. Sobretudo na onda de um movimento de massas. pois a internacionalização da moeda e do financiamento produz um efeito idêntico. O economicismo tende a explicações funcionalistas que ex post facto subordinam tudo a uma lógica funcional . A cogestão dos cidadãos. a elaboração do Orçamento Participativo e investimentos maciços na infraestrutura pública abriram o Estado local para camadas mais amplas da população. No entanto. As estruturas multisseculares de uma sociedade escravagista e latifundiária começaram a se por em movimento . destruí-lo e produzi-lo. Sob a camuflagem de uma ciência crítica. Mas a história reserva uma lição: a des-ordem da periferia e do capital não exclui a possibilidade da simultaneidade da fragmentação e do crescimento. A autonomia nacional se dissolve. mas insuficiente. efetuada radicalmente pela Argentina e. por um lado. genericamente pelo subdesenvolvimento e especificamente pela crise de 1997/98 (cf. nos anos 50 e 80. Contra teorias apressadas da crise e do colapso se deve registrar com Cardoso e Faletto (1977: 225): ”No curso da sua explicitação. O caso brasileiro mostra o espaço restrito aberto para a modificação das relaçoes de poder pela via da técnica social. Krugman 1999: 158 ss. Nos anos 80 os esforços socialreformistas experimentaram um renovado incentivo. Mas ao mesmo tempo esse conhecimento é um instrumento de poder. por prudência. Sem uma análise dos regimes financeiro e monetário. Ao invés disso procurei oferecer no âmbito da análise da conjuntura uma explicação estrutural-estratégica que explica o poder com o número de opções muito desigualmente distribuídas. um amplo consenso social quanto à necessidade de superar a pobreza. Em algumas áreas isoladas houve tentativas de reduzir a dominação corporificada na forma centralista-tecnocrática do estadonação. essa forma de desenvolvimento gera tanto na periferia quanto no centro periodicamente o bem-estar e a pobreza. Por um lado. empregos para uns e desemprego para os outros”. por prudência. para não cairmos em uma postura cínica deslavada.12 Além disso não quis sucumbir nem a simplificações politicistas nem a simplificações economicistas. a convicção de que a mera constatação da desigualdade para a qual os sociólogos apontam com referência a tempos e espaços sempre novos era imprescindível. 5. A dolarização. Havia. Uma razão essencial do resultado problemático das 12 Uma análise estrutural é importante porque estamos diante do paradoxo de que há. Por outro lado. a análise da economia política chega ao mesmo resultado. Esse trabalho se orientou pelo empenho em evitar deficiências elementares nas explicações convencionais da desigualdade no Brasil. a totalidade das configurações estruturais concretas se alterou. Esse conhecimento ensina a ser sempre pessimista com vistas a transformações. à do capital. os reformistas tinham uma posição socialmente reconhecida.à frente de todas as lógicas. Já a simplificação politicista consiste na afirmação de que em países tão distintos como a Indonésia. mais uma vez na onda de um amplo movimento de massas.

Esse foi o ponto decisivo. Isso permite estabelecer uma distinção entre tipos de lógicas consolidadas da ação. Instituições. à democratização das relações de trabalho e da distribuição do produto social (eficiência versus justiça) e ao plano espacial (nação versus região/dimensão local).150 transformações em vias de realização está na avaliação errônea da hierarquia das formas estruturais. Toda e qualquer tentativa de transformação . Instituições são lógicas e rotinas de ação consolidadas que extraem a sua força estruturante apenas da reprodução da ação. No sentido do enfoque estrutural-estratégico a tese da abertura vale apenas para tais casos nos quais a estratégia desenvolvida também considera a estrutura.conservadora . entendendo-se por isso a aceitação da estrutura do poder. podemos falar no Brasil de estruturas cimentadas do poder sobre o espaço. de uma unificação organizacional. no entanto. que tem uma forte inclinação a reduções economicistas na sua visão dos problemas. O primado da política dominava o campo discursivo. transformáveis com maior ou menor dificuldade. Por isso o Brasil é um exemplo triste de consolidação do poder. No início dos anos 80. as segundas instituições. O Brasil copiou o modelo unitário de regulação mundialmente vigente. Atribuiu-se excessiva importância à inserção internacional (mercado interno versus mercado externo). que atrás de estruturas pode haver ainda estruturas mais profundas. não obstante as distinções são importantes. Mas a partir daí a estrutura do poder foi deslocada tão maciçamente que os conflitos acima mencionados se tornaram secundários. Do mesmo modo puderam ser constatadas modificações nas outras formas estruturais. Mas a inflação foi um preceptor que golpeou duramente o élan progressista. da instituição e da estrutura. estruturas e estruturas profundas indicam sempre graus de consolidação de lógicas de ação. Vimos. Em escala internacional. Tal procedimento é mais fácil quando se copia outros casos. No primeiro capítulo efetuei uma transição da dualidade de estrutura e ação de Anthony Giddens para uma análise da ação. de uma modernização . a eficácia das reformas sociais também se alterou. na esteira da democratização em curso tanto no Brasil quanto em escala mundial a abertura dos campos de poder foi avaliada como muito grande. ao passo que estruturas .Giddens fala de princípios estruturais .de abrangência distinta nos diferentes contextos espacio-temporais -. pois indicam graus distintos de abertura ao enfoque transformador de estruturas. Mas essa afirmação não pretende advogar um voluntarismo ou politicismo simplório. A partir desse momento empenhos socialreformistas passaram a ter cada vez mais um gosto duvidoso. As primeiras são estruturas no sentido supramencionado. A regulação brasileira no final dos anos 90 distinguese radicalmente da do final dos anos 80. Isso resultou da desconsideração de nexos das estruturas profundas e não obstante representou uma ação transformadora da estrutura.subtraem-se ao simples acesso mediante ações. Com referência às estruturas capitalistas e ao bloco de poder. ao Estado (Estado versus mercado). Por fim. a velha regulação deve estar em uma crise ”grande”.quer contemplasse salários mais elevados. a abertura tem uma amplitude diferente para os diferentes tipos de transformações. Por outro lado. desenvolvida em três etapas. Mas o processo de concentração maciça pela via das empresas multinacionais e dos mercados financeiros foi colocado entre parênteses. a transformação do regime monetário nem foi percebida. Instituições são reflexivamente referidas à ação. sobretudo do ordenamento extremamente desigual da propriedade e da renda. tratase de isomorfismo.era minada pela perda do valor da moeda. O mais tardar desde 1994 as reformas sociais estão subordinadas ao primado da factibilidade. Em boa parte. As transições são fluidas. Por um lado. foi implementada depois de 1994 de forma inesperadamente vertiginosa. quer tivesse em mente maiores prestações de serviços sociais . em razão do qual o bloco de poder logrou conservar a sua dominância em meio aos conflitos dos anos 80 e 90. pois manifestavam-se como estratégias superficiais de transformação que preservavam ou consolidavam a profundidade da estrutura. Melhor ainda do que numa análise em três etapas. Com isso Fernando Henrique Cardoso.da des-ordem. ”estruturas profundas” em níveis mais elevados de abstração. para transformar estruturas existentes. por conseguinte. profunda. Sobretudo na área da estatalidade pode se falar de uma transformação duradoura da estrutura. Deve-se. O plano da ação descreve aqui práticas concretas. Comprova-se a veracidade da tese de que existe uma margem de possibilidades políticas . uma análise histórico-geográfica deveria ser uma análise de estruturas realizada em várias etapas. ocorrida até então apenas germinalmente. Justamente no momento no qual a dinâmica dos movimentos sociais arrefeceu. para que sejam possíveis transformações de tão longo alcance e tanta radicalidade como as implementadas no Brasil nos últimos anos. A estratégia desenvolvida deve efetuar as transformações individuais das formas estruturais de tal modo que elas ao menos sejam compatíveis no curto prazo. A abertura dos campos sociais é seletiva sob vários aspectos. examinar sempre até que profundidade que transformação avança ou em que nível se deve falar de constância. dependente do exterior. comprovou a pertinência da tese da abertura dos campos sociais e do espaço existente de possibilidades da política. A reconfiguração do modo de regulação na direção de um modelo flexível. o primado da política começou a produzir seus plenos efeitos justamente no momento no qual um presidente ”pragmático” insistiu enfaticamente nos limites da ação política diante da globalização. as transformações que se afiguram radicais e novas no caso do Brasil nem o são. nos quais 150 .

na linha de frente os problemas com o balanço de pagamentos revelaram a superficialidade e vida breve da modernização e do progresso sob o Plano Real. não uma missão histórica da modernização e capitalização da economia e sociedade. Em tais situações extremas o imperador se desmascarou como homem nu e revelou que as suas novas vestes eram uma fraude. Essa dependência significa uma restrição das opções abertas aos grupos nacionalmente dominantes. mesmo segmentos substanciais da esquerda aceitaram o campo discursivo da crítica liberal do Estado. o que é um claro indício da consolidação da hegemonia neoliberal. A estratégia hegemônica social-liberal baseia-se em não restringir procedimentos formalmente democráticos. O espaço de poder denominado Brasil é regulado hoje por um conjunto inteiramente novo de instituições. Por isso os elementos de hegemonia que atualmente podem ser identificados têm muito a ver com a destruição de alternativas . É lícito falar aqui de uma dominação estabilizada? Diferentemente de blocos anteriores de poder. ocupava o primeiro plano. Por essa razão não admira que a transformação que se afigura radical em perspectiva nacional seja uma mera cópia em perspectiva internacional.um expediente sempre usado com extrema eficácia no decorrer da história. Quem continua falando de direitos sociais. diante de crises continuadas? Hegemonia é um estado de supremacia que deve abranger a política. Tornase crescentemente mais fácil para ele empurrar a camada baixa e a camada média cada vez mais para fora do do campo da cidadania social. Com o seu desmonte liberal do Estado. a burguesia se caracteriza por uma clara consciência do seu interesse próprio.151 isso já foi praticado. esse novo campo político está estruturado de tal modo que a política praticada é em grande parte destituída de alternativas. Isso é diferente com referência aos grupos politicamente dominantes com a sua experiência de 500 anos de estabilização da dominação. Uma ordem capitalista de mercado foi imposta também em áreas nas quais isso há dez anos ainda parecia impossível. Mas a participação ampla da população leva forçosamente a crises estruturais. baseada na coação. orientada segundo os interesses particularistas. Precisamente aqui reside o grande. De resto o rolo compressor da contrareforma revogou partes substanciais da constituição cidadã. mas minimizar a margem de ação democrática por meio de um espartilho fiscal e jurídico. que os grupos oprimidos alcançaram apenas em situações históricas 151 . O campo dos conflitos sociais deslocou-se duradouramente. chamando as forças da ordem para o campo de batalha.3 Hegemonia social-liberal? O feito do governo Fernando Henrique Cardoso parece consistir em ter estabilizado a des-ordem num novo arcabouço institucional. a direita logrou fazer algumas conquistas de grande impacto. na América Latina e no espaço anglosaxão como inconteste e natural. Os grupos dominantes quiseram governar com a anuência de partes importantes da sociedade civil (Oliveira 1998a: 159 ss. mas também a hegemonia. o governo criou um novo quadro no qual um retorno à política do Estado de Bem-Estar Social à maneira do fordismo ficou impossibilitado. As velhas fronteiras da des-ordem brasileira. Com efeito. Se a preservação da estrutura do poder é o princípio universalmente determinante do bloco de poder. um fóssil de eras há muito passadas. No caso de crises e outras instabilidades não resta aos senhores supremos da nação. Mas até que ponto se pode falar de hegemonia. No ponto culminante da campanha eleitoral o establishment se preocupava mais com Washington e os mercados financeiros internacionais do que com o adversário político nacional.com. A nova regulação estatal de governance ficou inequivocamente sujeita ao regime da moeda. quase insuperável problema de economias periféricas dependentes de tecnologias e financiamentos externos.). como Fernando Henrique Cardoso teve de fazer poucas semanas antes das eleições (www. a aliança em torno de Fernando Henrique Cardoso não quis somente a dominação.br de 11 de setembro de 1998). aos donos do poder nacional. a supremacia política parece novamente estabilizada. Na sua realização. a democracia e a participação só podem ser uma concessão aceita em fases de conjuntura econômica favorável.jb. 5. Como o poder burocrático do Estado é reprimido em benefício de uma lógica do mercado capitalista. Por isso a estabilização econômica é sempre apenas precária. Por isso. Não há imagem melhor do irracionalismo dessa des-ordem. Um projeto político carece tanto de legitimação no processo político quanto da garantia da acumulação. A luta de classes orientou a ação da burguesia brasileira.2. Por isso a democracia pode ser abolida por uma ditadura ou restringida radicalmente no seu âmbito de vigência. esta última sempre foi cumprida apenas parcialmente e sempre foi interrompida quando membros centrais do bloco de poder estavam correndo perigo. Depois de anos de confusão e insegurança. Estado de Bem-Estar Social e indústria nacional é considerado um dinossauro. a preservação do poder no curto prazo. As suas vitórias eleitorais em todos os níveis da federação marginalizaram a esquerda e remeteram-na a alguns pequenos espaços de poder em alguns municípios maiores e em alguns poucos estados. nada senão apelar à comunidade mundial e à sua solidariedade. mas também a economia e sociedade. O fato desse novo campo entrementes ser administrado nos países vizinhos da Argentina e do Chile por governos de centro-esquerda reforça o poder da hegemonia social-liberal. Ora. o bloco de poder se vale de outras instituições para impor o seu poder. Essa regra básica é aceita hoje crescentemente no Brasil.

Mas essa capacidade está sendo crescentemente negada à gente simples do povo. Mas a ”falsa consciência” da burguesia brasileira não deseja que os dominados se assemelhem a ela. Enquanto não se formarem outras forças no plano internacional que implodam essa supremacia. ele fala de totalitarismo ao invés de hegemonia. o que levou Krebs a constatar um fracasso do neoliberalismo.” O Plano Real preparou o solo para essa nova estatalidade. Na perspectiva do eixo espacial. Assim o novo projeto de Estado deve ser considerado bem-sucedido enquanto projeto de destruição. Esses grupos continuam dispondo da capacidade de fazer história e geografia.). A hegemonia pressuporia uma integração dos oprimidos no campo semântico dos dominandores. ”não obstante.no mercado de consumo. com hierarquias minuciosamente graduadas. 5. um regime social-liberal. A argumentação acima focalizou a discussão política oficial e a derrota de um projeto oposicionista de sociedade.com simultânea contração às assim chamadas áreas nucleares do Estado (políticas interna e externa. que é orquestrada pela mídia e sugere um consenso social. fragmentado em sistemas procedurais de negociação de governance . divergências de opinião somente são desejadas com referência a detalhes e a liberdade de opinião é privada do seu fundamento material.está a raiz da compreensão dos processos sociais. embora controvertidas.152 excepcionais. que se subtrai aos efeitos da ação e é aceito como evidente e destituído de alternativas. que segue a política de crise induzida pelo Estado e característica do neoliberalismo. a crítica do status quo é considerada antidemocrática. valeu no Brasil também para a aliança do PFL e do PSDB: ”Novas camadas de lideranças devem ser incorporadas ao bloco dominante junto ao poder por meio de cooptações e recrutamentos. mas modificou a sua argumentação nos últimos tempos (Oliveira 1998a). Mesmo a esquerda age hoje em grande parte no campo do liberalismo social.) constatou com vistas à Europa. A integração das massas na sociedade se dá por meio da sua participação . cristalizam-se uma desintegração territorial aparentemente anárquica e a difusão em redes geográficas. em que pesem as muitas intervenções associadas a uma multiplicação das linhas de cisão que atravessam a sociedade. Esse é o sentido profundo da exclusão e a causa do apartheid social no Brasil. podendo ditar os limites de reformas. a análise da estrutura evidenciou as dificuldades de projetos hegemônicos na periferia. descentralizado. Apesar disso não foi possível. a busca de novos 152 . que apresenta várias rachaduras.) chama dessarte a atenção ao perigo de um apartheid social e de uma elitização cultural. Mesmo na ”Nova Renascença” na era da globalização. Oliveira também avaliou durante algum tempo como fortes as chances do atual bloco de poder de se tornar hegemônico. Deseja mantê-los na sua alteridade.4 Os oprimidos também fazem história e geografia Por um lado. sem posses e aparentemente sem poder . Manter consciente essa descoberta ameaçada de cair no esquecimento é uma das tarefas centrais do pensamento teórico. Oliveira (1998: 95 s. A nova ordem institucional de uma governance social-liberal adquire um caráter crescentemente estrutural. Na perspectiva qualitativa o Estado Provedor [Fürsorgestaat] antecipativo. O que Krebs (1997: 13 s. Além disso os proprietários de patrimônios dispõem de uma função de veto. À medida que ele dirige a sua atenção às classes oprimidas. Qualquer dinossauro que se posicione fora do campo social-liberal é declarado imediatamente out. pois os dominantes não estariam interessados em hegemonia no sentido da combinação de pressão e consenso com relação às classes dominadas. Na perspectiva do eixo temporal. eu falaria de uma fase de re-estatização ou de rearticulação da estatalidade. restringe as margens de ação mais nitidamente do que em outras épocas. A desuniversalização da dominância desdemocratiza e se transmuda em totalitarismo. duradouro. uma fase de desarticulação seletiva de práticas estatais é seguida agora pela tentativa de uma rearticulação da ação estatal.2. isto é. Já na Renascença o progresso social e cultural foi possível a expensas da maioria da população. Na afirmação do poder de todas as pessoas . estabelecer um regime coerente de acumulação com um correspondente modo de regulação social e política.apenas marginalizada . uma grande parte da população é excluída e a elite cultural é sustentada por uma classe patrimonial relativamente grande. contribuindo dessarte à consolidação do projeto hegemônico do neoliberalismo.também das incultas. Elementos totalitários podem ser claramente identificados na democracia das elites. do consumo na prisão de uma ordem totalitária. Trata-se de uma integração passiva. é multiplicado. esses portadores da cultura permaneceram uma pequena elite cujas idéias continuaram estreitamente vinculadas aos interesses sociais e políticos da classe dominante” (Deppe 1987: 346 ss. Mas hoje a supremacia da compreensão liberal de regulação que hipostasia ideologicamente e absolutiza o setor privado e a economia de mercado. A política enquanto reflexão fundamental sobre o bem-estar da coletividade é vista como traição de esforços pragmáticos. política monetária). Estimulado por reflexões de Bob Jessop. sempre que necessário. dotado de competências decisórias. da geração de uma mercadoria sem a ilusão da liberdade.

o outro a criação de novos espaços de poder. Essa esquerda aceitou a estrutura de poder dada e tentou possibilitar uma mudança social por meio de reformas institucionais com simultânea constância da estrutura profunda do poder.é mais negativa do que a de muitos dos seus precedessores. Em segundo lugar toda e qualquer alternativa ao status quo foi apresentada como carente de credibilidade. a avaliação do político Fernando Henrique Cardoso .na sua auto-avaliação um homem de centro-esquerda . mesmo quando compreendida como processo gradual e demorado. Gramsci. mas claramente um processo profundamente enraizado nas nossas sociedades.. O conflito entre o PSDB e o PFL ocorreu no interior do próprio governo (Leite 1996: 32 s. Esser e outros (1994) denominam essa estratégia política ”reformismo radical”. 1994: 226 s. insistindo.] ‘O termo ‘radical’ significa que uma política emancipadora.. a força do bloco dominante residiu em duas coisas: em primeiro lugar num discurso público e publicado que se caracterizou por um grau de uniformidade digno de espanto em uma democracia. naturalmente sem otimismo ingênuo. Mas essa radicalização do PSDB para a direita não encontrou uma delimitação clara no PT. deve visar liminarmente a superação das formas sociais e das suas manifestações institucionais e reconhece como seu princípio fundamental a prática crítica dessas formas e manifestações. Trata-se de um movimento social que se coloca em oposição radical ao bloco de poder existente. Atualmente. Um outro grande clássico. Porém a análise dos espaços de poder mostrou quão problemática é a cooperação com o bloco de poder existente e quão reduzida é a margem de ação de um governo de centro-esquerda que faz coalizão com a direita. vale dizer. resultou nesse último partido nos últimos anos em uma aproximação crescente às contrareformas neoliberais do PSDB. no sentido de cobrar também o que o conceito promete: no caso em exame. mas dissolver relações institucionalizadas de poder. A crítica do ”pensamento único” parte hoje essencialmente dos que continuam efetuando análises de economia política e receberam muito espaço no presente trabalho. ”Em tempos históricos como esse a responsabilidade do intelectual está na radicalização da crítica. Já chamei a atenção à circunstância determinante no Brasil de que a capacidade de inércia vale mais para o bloco de poder e a estrutura fundamental capitalista do que para estruturas e instituições concretas. está intrinsecamente cindida.). ”O termo ‘reformismo’ aponta para o fato de que transformações sociais que objetivam a superação da dominação e exploração não podem ser atingidas mediante a conquista de posições na estrutura do poder dominante. Apesar da pressão maciça na direção do conformismo e do raciocínio no curto prazo. Quando a burguesia brasileira se sente ameaçada. Com isso a esquerda liberal entrou em concorrência com a direita quanto à melhor forma de efetuar essa modernização. que não pode ser elaborado sem a crítica da economia política” (Esser et al. mas apenas mediante transformações fundamentais do modo dominante de vida e de socialização. Passaram os tempos da vontade eufórica de transformação quando tudo girava em torno das questões ‘reforma ou revolução’. pois a avalanche neoliberal não é de natureza meramente retórica. De acordo com a lição de Adorno a nossa tarefa consiste em radicalizar. [. Restringiu seu campo de ação a mudanças institucionais e estruturais autorizadas pelo bloco de poder. no fato das sociedades serem histórico-geograficamente contingentes. no qual o Estado atuava como capitalista geral [Gesamtkapitalist]. Isso pressupõe em última instância que os atores possuam um conceito teórico das relações sociais existentes. Isso vale tanto mais para as estratégias antihegemônicas de ‘empoderamento’ [Ermächtigung. a direita empreendeu uma política econômica e social nacionalista com um regime de acumulação relativamente consistente. Durante o primeiro mandato presidencial de Fernando Henrique Cardoso. ela sempre assume imediatamente uma clara posição de classe 153 .. a dimensão nacional se reduz como espaço de poder em larga escala à garantia do patrimônio dos nacionais e estrangeiros que já são ricos. Sobretudo depois do golpe militar. que não afetou a estrutura de poder mas apesar disso se interessou pelo desenvolvimento da produção nacional. devido à política de fortalecimento da moeda e juros elevados. No âmbito da esquerda liberal. mas influir sobre a configuração concreta dos desafios formulados pela globalização. Um é a crítica dos espaços de poder existente. O consenso que se formou em torno da política da estabilidade fundamentou um ”pensamento único” (Fiori 1997: 100) que abortava todo e qualquer debate e eliminava o poder estrutural do foco da percepção pública. ‘empowerment’]. recomendou ativar em tempos de crise o ‘pessimismo da razão’ para ajudar o ‘otimismo da vontade’ que só pode surgir por meio da ação das classes dominadas” (Oliveira 1998b: 96). e isso tanto na esfera do Estado quanto na da sociedade ‘civil’. executado por medo de uma esquerda demasiado forte. Estas devem ser dimensionadas no sentido de não trocar.). Apesar disso quero mostrar no fim desse trabalho dois campos de ação nos quais práticas antihegemônicas são possíveis e podem surgir projetos antihegemônicos. A oposição. Apesar dos efeitos sociais extremamente problemáticos. O poder concreto sobre o espaço restringe as opções da oposição. embora no fundo aliviada do ônus da responsabilidade pela crise. portanto.153 projetos hegemônicos deve ser empreendida com uma elevada dose de modéstia.deve ser avaliada mais positivamente do que a estratégia econômica atual determinada pelos rentiers desinteressados pela produção nacional. acabou por imporse com Fernando Henrique Cardoso a convicção de que a esquerda não deveria mais trabalhar na elaboração de uma alternativa. Em comparação com os governos precedentes. passíveis de transformação nos seus fundamentos. cuja pátria é o PSDB. considerada incontestavelmente necessária na sua essência. as promessas contidas na democracia. essa estratégia voltada para o lucro. os membros desse movimento preservaram um horizonte mais longo e mais largo.

Müller 1977: 204). Muito mais pertinente seria uma análise dos campos. Muito pelo contrário evidenciou-se que existem formas da ação política que reforçam voluntária ou involuntariamente . isto é. quase tão velha como a Sé de Braga. de acampamentos políticos definidos por oposições fundamentais entre si. era formada por jovens acadêmicos politicamente inexperientes. Os primeiros representam o Brasil moderno. sempre vulnerável à ditadura. Já os donos do poder do primeiro plano dominavam a arte de preservar a estrutura profunda do espaço do poder e sobretudo a dominância do bloco de poder mediante modificações aparentemente miúdas das propostas de soluções tecnocráticas. No plano local a análise do orçamento mostrou quão importante é ser dono do poder. é a grande conquista dos movimentos sociais. que hoje estão todos reunidos no e em torno do bloco de poder. Foucault ainda escreveu contra a concepção do poder que localizava o poder simploriamente no seu detentor soberano.e enquanto houver burguesia. assim. dos que elaboravam as reformas em detalhe. canalizou-a muitas vezes para canais reacionários. da posse do poder. Foi necessário o governo de Fernando Henrique Cardoso para implementar também no Brasil as contrareformas. o poder estaria localizado ”lá em cima” e corporificado na sua posse. Aqui se ignora por um lado a produção dessa ordem global e. A segunda estratégia antihegemônica deve consistir no fortalecimento de espaços alternativos de poder. Apesar da retórica economicista.154 e localiza um claro inimigo de classe. pior ainda.a des-ordem. a circunstância de que o postulado auto-movimento global-economicista é a astúcia de um poder que se quer tornar irreconhecível. O acesso à ação fomentado por uma formação universitária tecnicista e neutra nega as estruturas do poder. Quem exerce o poder sobre um território estabelece uma distinção com vistas ao desenvolvimento institucional e estrutural. A análise do orçamento e de setores permite inferir que um governo petista durante uma década sem dúvida teria mudado São Paulo para melhor. as transformações estruturais dos últimos anos são um indício do ”primado da política”. Nos anos 90 uma boa parte dos donos do poder do segundo plano. Ela domina as estratégias da luta de classes para a eliminação de todo e qualquer questionamento da des-ordem vigente ”a partir de baixo”. pois o poder é exercido em espaços físicos e sociais. Mas isso não significa simplesmente que a ação política sempre seja determinante. A visão convencional de esquerda e direita. não haverá poesia”. a acumulação privada beneficiada pelos incentivos do Estado e pela exploração de uma mão-deobra carente de quase todas as condições capazes de fazer dela algo mais que o velho e sofrido instrumentum vocale dos tempos de escravidão”(Cardoso. essa margem de configuração de detentores do poder é significativa. Essa foi a estratégia predominante no plano nacional. pois o bloco social dominante é tão reacionário no Brasil que a defesa da democracia e dos direitos de cidadania contra o ”liberalismo real”. mas não houve nenhuma descentralização política. O engajamento político é importante também no conflito em torno de detentores de poder em determinados espaços e tempos políticos. os últimos o Brasil retrógrado. uma orientação da classe média nacional segundo os padrões da classe média global e uma desvalorização da classe trabalhadora. Eles elaboraram inovações ”puras” sem consideração nem conhecimento da subjacente estrutura de poder. Uma medida consistiu na disponibilização de recursos demasiado reduzidos. Por essa razão ocorreram lá terceirizações e privatizações maciças na administração pública. O presente trabalho enfatizou em muitas passagens o significado da política. não perdeu a sua atualidade. Ocorreu uma valorização do empresariado. ”Fecha-se. Em São Paulo a gestão dos governos esquerdistas e direitistas revelou diferenças fundamentais. nenhuma partilha do poder por meio da partilha do espaço. Por um lado é imprescindível ocupar determinadas posições para implementar determinadas políticas. o governo de esquerda investiu sem endividamento nos setores educacional e de saúde. A luta de classes é feita por pessoas. das estruturas do poder. e postulou uma visão do poder enquanto força. será a ‘mentalidade empresarial’. Mas hoje o contrário parece estar na agenda: a aparente fluidez e atopia [Ortlosigkeit] do poder no sentido de um foucauldianismo vulgar é tão amplamente aceita e presta um serviço tão relevante à des-ordem vigente que parece ser necessário lembrar que o poder não se consolida apenas em estruturas. Cazuza ainda pôde cantar nos anos 80: ”A burguesia fede . Só na perspectiva de uma ultrapassada posição soberana. no estado desenvolvimentista. Michel Foucault desclassifica a posse do poder enquanto objetivo político. Governos de direita contraíam dívidas para construir ruas. Mattl 1999). o ‘empoderamento’ e o ‘desapoderamento’ são meios e resultados das lutas sociais. Por isso a pergunta pelos donos do poder não desempenha um papel irrelevante. Mas antes disso importa defender a democracia enquanto condição geral central da ação transformadora. o ciclo: A vítima passa a ser causadora dos males da região e a ”nova solução”. o que impediu a reforma ou. rede e movimento. de resto já efetuadas na América Latina. A segunda medida foi a concentração das competências decisórias junto aos velhos donos do poder. Mas esse discurso desafiador antiburguês perdeu-se nos anos 80. o que foi a estratégia predominante na cidade de São Paulo. deve ser um 154 . A análise nacional fornece um quadro mais diferenciado dos detentores do poder. Ela é sempre também uma pergunta pelo território dominado pelos donos do poder: quem tem poder onde. por outro. Essa inversão de prioridades ampliou as opções de ação dos pobres. Esse espaço democrático-público que o movimento democrático apoiado pela base arrancou desde o final dos anos 70 aos simpatizantes dos militares. mas é também feito por atores (Novy.

Não importa iniciar a luta de classes. Em meio a esse entusiasmo generalizado diante da felicidade que as tecnologias. na qual se age em diferentes planos espaciais. pois desinculada de qualquer lugar . isto é. em comissões. O modo de lidar com o consenso assinala a última relação de tensão que deve ser apresentada nesse trabalho comprometido com a argumentação dialética. em instâncias intermediárias semi-estatais e da sociedade civil. muito pelo contrário. concretamente de defender a nação e a soberania (Becker 1995. Eis a lição a ser extraída tanto de uma análise gramsciana quanto de uma análise foucauldiana do poder. fortalece as forças reacionárias e os projetos antidemocráticos. A luta multissecular pela constituição da nação explica os vínculos racionais e emocionais dos brasileiros com esse plano espacial. Ela foi a forma mais eficaz de um esforço coletivo de fazer história e geografia. Mais claramente do que Foucault. Lutar contra essa supremacia ideológica é tudo menos fácil. me parece mais provável. Deveriam ser criados espaços de liberdade para outras formas de vida e de pensamento. No quadro da des-ordem existente. Apesar disso devemos dirigir a um nacionalismo fundamentado em argumentos de economia política a pergunta se a história da libertação. No final dos anos 90. inalienável da busca de alternativas é a elaboração de uma contracultura no campo da sociedade civil. Para tal fim ela depende da cooperação dos empresários. conforme mostra o exemplo de São Paulo. A aliança que surgiu nos ”outros espaços” da ditadura militar . Essa nova visão do mundo . Importa. a música popular. a esquerda pensa cada vez menos sobre o grande passo para frente. a formação da nação sempre foi mais do que apenas uma concepção culturalista e chauvinista. Só depois de uma análise conjuntural saberemos dizer com pertinência em qual dos diferentes planos espaciais a ação 155 . Por isso a esquerda não deve perder de vista a defesa da democracia como programa reformista mínimo. Assim nos anos 80 o fortalecimento das margens de ação na esfera local e a experimentação na cidade ocuparam o primeiro plano da política emancipadora. o diálogo e a comunicação constituem concepções-chave nos territórios dominados por forças antihegemônicas. de resistir. o cinema novo. Fiori 1999) Em ambos os casos. também permanecerá forçosamente localizada nesse plano. desiludida quanto às possibilidades de uma transformação em profundidade. efetivar em áreas parciais um modelo distinto do ”liberalismo real” predominante.enraizou-se profundamente na autocompreensão intelectual. Só se estiver claro que não se busca uma solução de compromisso a qualquer preço e que medidas essenciais em caso de emergência também serão impostas contra a resistência. Mas para poder negociar eficazmente com os grupos dominantes.especialmente o Rio Grande do Sul. Um primeiro passo nessa direção é não seguir o pensamento único. razão pela qual faz sentido que os governos de esquerda apostem em soluções negociadas. seja nas inovações sociais locais dos anos 80 ou na defesa do fator nacional nos anos 90. Mas o que une as inovações sociais locais e a defesa da dimensão nacional é o objetivo de fomentar a autodeterminação e participação da população. pois a constituição de uma forma política estruturada em rede. mas também os oprimidos foram atores importantes que participavam da configuração concreta do espaço social do território. Esses espaços sociais. poderiam ser germes de uma alternativa social. ”São Paulo para todos” foi também o lema do governo petista. Gramsci chama a atenção ao fato de que essa aliança deve englobar os intelectuais e a classe trabalhadora. Historicamente. governos de esquerda.levípede. Depois de 1990. Para tal fim se oferecem no campo político. as classes dominantes já operam uma luta não-declarada de exclusão há muito tempo.155 objetivo essencial mínimo dos movimentos sociais e democráticos. Embora o consenso recentemente tenha sido desmascarado como um campo problemático do saber-poder. do capitalismo. todos esses movimentos populares dos anos 70 e 80 conferiram ao Brasil uma identidade. A cultura popular alternativa no Brasil. A história de 500 anos de espaço e poder torna compreensível a freqüente mudança dos planos espaciais que se afigura apropriada para uma política progressista. culturas e o capital trouxeram de fora ao país. um orgulho e foram os primeiros passos de uma revolução cultural. traçar um limite à desmedida dos dominadores. Trata-se. as classes média e baixa. que se subtraem a uma coação à valorização e ao sucesso no curto prazo.no sentido temporal e espacial de ‘além’. Nesse conflito não só os donos do poder. mas pensar ”além” . que não funciona bem.nas comunidades de base e nos sindicatos . sobretudo os grandes municípios e alguns estados . historicamente vinculada à nação.constituiu a ”inovação social” mais duradoura do Brasil. Paul Singer (1996) chama com razão a atenção ao fato de que no âmbito de uma estrutura global capitalista um governo de esquerda não deve governar para a sua clientela. a criação de um espaço de poder autônomo esteve na agenda. Com efeito. os grupos dominantes podem ser levados a negociações sérias. em virtude das relações de poder no plano nacional e quase sempre também no plano regional. a esquerda não pode abrir mão do seu potencial de ameaça. Essa espécie de política consensual oferece um campo de ação para um reformismo radical. o capitalismo brindou o Brasil com uma coleção inimaginada de mercadorias: tinha-se a impressão de que tudo podia ser comprado. Além disso ela deve. os movimentos estudantis e sindicais e as comunidades eclesiais de base. A acumulação. o consenso. muito pelo contrário e num primeiro passo. dever-se-ia fomentar a autonomia. aproveitando a multiplicidade de espaços de poder que a sociedade civil conquistou no transcurso da democratização. o pensamento crítico e com ele também a ocupação com os que vivem na base da sociedade se perderam por algum tempo. mas para toda a população do território. puderam iniciar uma série de desenvolvimentos positivos. a esquerda deve melhorar a qualidade de vida da população. Mas uma parte integrante.

nos espaços nacionais. mas também nos espaços locais e regionais de poder. Embora um olhar competente sobre o Brasil só seja possível se ele abarcar vários planos ao mesmo tempo. 1930 ou 1970 não compreendeu a respectiva conjuntura. na conformação de uma nova estrutura social. a gente simples. mas do entrechoque de interesses dominantes e oprimidos.156 política é especialmente promissora. Para que as mudanças ocorram. o empowerment. sem idealizá-la de forma culturalista e ingênua: as forças sociais da mudança não virão apenas dos espaços virtuais da Internet. e é justamente em situações de crise que os diferentes planos espaciais devem ser reordenados e relacionados entre si. o ‘empoderamento’ (Friedmann 1992) surgiu como alternativa ao desenvolvimento. Justamente os intelectuais oriundos da classe média deveriam hoje levar novamente a sério a cultura das pessoas simples. A ação social resulta do jogo de espaço e poder. 156 . Quem não quis tomar conhecimento da insatisfação que vinha ”de baixo” nas décadas de 1920. relativiza as derrotas mais recentes na esteira do novo surto de democratização. sejam elas favelas. Das Ciências Sociais espera-se hoje que elas compreendam esses espaços para transformar a sociedade. desse novo espaço global da classe média. projetos alternativos de sociedade e ameaças concretas. Assim os movimentos sociais influenciam. são necessárias as margens da sociedade. comunidades indígenas ou grupos de hip hop. podemos extrair uma lição substancial da reflexão sobre a nação brasileira: na análise de processos econômicos se deve pensar sempre também ao mesmo tempo na participação de toda a população da vida social e dos seus frutos (Sampaio 1999: 416). que preparou o caminho para melhorias duradouras. Mas parece estar fora de dúvida para a América do Sul que um grau maior de autodeterminação nacional é o pressuposto para impulsionar o esforço coletivo de fazer história e geografia nos diferentes planos. Justamente a dinâmica social das décadas de 1920 e 1930. Só porque os grupos em desvantagem praticamente não conseguem estabelecer-se no bloco de poder não pode surgir a impressão de que a sua atuação não produziria nenhuma influência no curso do mundo. foi percebido como vítima de estruturas e simultaneamente como sujeito da transformação social. No entanto. essa nova estrutura duradoura não resulta unicamente do desejo dos grupos dominantes. diante da gente simples do povo. O fundamento de uma alternativa social deveria ser buscado justamente num enfoque de respeito diante do povo brasileiro. por conseguinte. Na reflexão sobre a nação o povo. Projetos dominantes de Estado e sociedade formam-se apenas em reação a inquietações sociais.

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772 Saldo -1. 1823 .135 148. respectivamente média de cinco (ou sete) anos.246 -1.554 18.275 1850 – 1855 45.629 -18. em contos Exercício (média anual) Receita Despesa 10.627 -7.584 1845 – 1850 35.591 1860 – 1865 75.750 +2.067 26.521 47.0 1825 6. 1825 – 1913 Ano Investimentos totais 4.449 140.436 9.9 1905 254.1 Tabelas Tabela A-1: Investimentos britânicos.858 -64. 169 .335 +125 -1.278 1865 – 1870 105.855 1840 – 1845 26.336 1880 – 1885 Fonte: Pessoa 1983: 102-104.440 1835 – 1840 18.3 1865 30.114 1823 – 1830 17.460 -3.169 7 Anexo 7.190 26.864 14.014 1830 – 1835 14.1885.886 -7.539 60.173 149.8 1913 Fonte: Silva 1986: 30 Tabela A-2: Demonstrativo da Receita e despesa geral do Império.506 1875 – 1880 130. em milhões de libras esterlinas.6 1885 93.9 1875 47.459 36.0 1895 122.873 -38.300 1870 – 1875 110.653 1855 – 1860 52.243 114. média por quinquênio.965 -8.9 1840 20.

1 13.0 6.3 -325.6 bens de capital 78.6 semi-acabados 72.9 .3 bens de consumo duráveis 53.5 233.6 459.1 52.4 capital privado 9. Brasil.4 37. In: Senghaas 1980: 132 capital estatal 73.2 275.2 infraestrutura 34.170 Tabela A-3: Balanço comercial – saldos.0 9.0 17.3 SFH (4) 1.8 Tabela A-4: Participação das 10 maiores empresas nos setores da economia brasileira.7 sistema bancário 54.8 91.2 Serviços Fonte: Serra.9 56. em 1968 (in %) capital estrangeiro 17.4 21.9 45. 1964 – 1970 Tipo 1964 (1) 1970 (1) crescimento (2) 79.6 13.7 13.8 Tabela A-5: Créditos privado por instituição.0 comércio 8.bancos comerciais 25.9 Organizações de desenvolvimento 6.0 645.0 21.4 230.4 37.5 19.4 27.6 outros (sobretudo caixas econômicas) 100.5 205.7 40.5 16. em contos Ano Taxa de câmbio* 14 29/32 1891 9 15/16 1895 9½ 1900 15 7/64 1905 16 13/64 1910 12 29/64 1915 14 15/32 1920 6 1/6 1925 5 18/32 1928 * Mil-Reis para pence Fonte: Silva 1986: 29 Saldo 6.0 100. 1891-1928.0 .6 14.4 TOTAL (1) participação dos créditos privados em % (2) crescimento anual médio (3) bancos de investimentos + empresas financiadoras de investimentos (4) Sistema Financeiro de Habitação Fonte: Tavares 1983: 224 170 .2 91.Banco do Brasil 14.6 bancos de investimentos (3) 14.4 bens de consumo não-duráveis 7.

0 36.9 50.moeda-papel .4 1964 88.971 8.0 0.349 Tabela A-8: Número das empresas estatais fundadas no Brasil entre 1941 e 1976 Período União Estados 7 6 1941-50 1951-60 12 24 1961-65 19 46 1966-70 33 42 1971-76 67 59 Total 138 177 Fonte: Becker.depósitos à vista ativos não-monetários poupança depósitos a prazo Letras de Importacão Aceites Cambiais Empréstimos hipotecários ORTN títulos da dívida pública TOTAL Fonte: Tavares 1983: 229 Tabela A-7: Investimentos estrangeiros diretos no Brasil.6 12.336 22.2 7.9 3.404 1978-82 2. 1964 – 1970 crescimento anual 1964/70 5.7 4. em milhões de US$ correntes [???] Ano Afluência reinvestimentos 107 366 1947-54 716 251 1955-61 177 262 1962-65 388 236 1966-69 1.908 4.548 3.6 11.520 26.4 18.171 Tabela A-6: ´Haveres financeiros em poder do público.3 13.600 30. Egler 1992: 96 Municípios 30 1 3 4 5 13 Total 13 37 68 79 131 328 171 .698 20.7 2.1 100. Franco 1991: 23 estoque [??] (1) 5.016 1974-77 4.198 1.6 2.610 9.5 33.0 1970 61.090 1987-88 (1) a preços de 1986 Fonte: Fritsch. 1947 -1988.1 10.4 37.0 ativos monetários .7 100.2 38.262 1970-73 3.558 1.9 1.659 1.8 10.936 14.2 4.795 1983-86 2.4 78.5 6.8 69. Brasil.6 2.548 10.

34 0.60 3.512 1.590 4.br Tabela A-10: Resultados das privatizações.902 8.17 1.11 1.88 425.15 155. Brasil.096 17.172 Tabela A-9: Gastos da União entre 1994 e 1998.92 3.629 7.3% 1997 7.45 5.073 4.6 1993/94 8 327 1.29 401.214 6.63 0.32 0. em bilhões de US$.003 32.3 1994 565.8 1980 237.08 0.42 2.93 1.17 31. valores arredondados 1995 27.1 254.6 Gesamt Fonte: www.000 -36.73 25.98 24.27 0.89 5.00 348.80 10. em milhões de US$ Período Empresas Receitas Receitas Receitas privatizada líquidas totais líquidas/ s Receitas totais 18 49 415 1. de 1992 a 1997 1992 -4.27 178.813 10.956 50.20 0.2 (a) PIB em US$ correntes (1) (b) PIB em US$ correntes de 1985 172 .61 2.30 258.9 210.bndes.080 74.52 9.50 15.265 95.05 0.467 -94. valores arredondados 1970 42.51 0.67 0.6 1995 11 3.38 82.211 4.12 0.89 2.83 2.668 34.9 1990 437.83 0.10 5.97 27.864 105.11 0.09 1.77 0.24 6.54 15.34 629.2 1991/92 15 1.14 0.94 523.98 0.gov.06 2.3% 1994 1.593 34.55 72.88 4.1 139.18 6.3 86.10 87.br/pndnew Tabela A-11: Lucros de diferentes tipos de capital.50 0.9% 1995 -2.5 1975 129.gov. em bilhões de R$ (junho de 1999).camara.59 1998 29.70 1.93 4.34 0.057 4.96 1997 28.3 198.236 581 -729.01 3. segundo períodos e espécies de resultados.0 1985 210.41 74.64 3.28 1996 25.14 0.18 3.51 15.32 66.12 0.048 3.95 3.61 10.28 91.29 0.48 9.9 1996 4 4.5 1997 56 9.97 Administração Administração fiscal Planejamento Ciência e Tecnologia Agricultura Telecomunicações Defesa Desenvolvimento Regional Educação Cultura Energia Desenvolvimento Urbano e Habitação Fomento da economia Política externa Saúde Proteção no trabalho Assistência Social Previdência Social Transportes Outros gastos Total Fonte: www. Brasil.16 0.52 3.13 1.59 5.87 1.80 96.76 101.1% 50 maiores empresas estatais 500 maiores empresas privadas relação estatais/privadas Fonte: Exame 1998: 18 Tabela A-12: Exportações brasileiras de 1970 a 1994.83 0.068 1.53 14.1% 1993 -4.3% 1996 2.04 3.2 231.

7 36.7 6.1 12.8 21.1 23.6 10.4 173 .5 7.5 11.0 27.4 108.7 7.2 120.4 30.7 25.1 25.9 18.5 8.9 31.3 42.6 12.9 100.5 8.6 25.1 6.7 71.0 2.6 7.1 11.6 15.173 (c) PIB agricultura e indústria de 1985 (d) Exportações em US$ correntes (e) Exportações em US$ de 1985 coeficiente de exportações I d/a em % (2) coeficiente de exportações II e/b em % coeficiente de exportações III e/c em % (1) em bilhões (2) Erro de arredondamento Fonte: Pacheco 1998: 87 41.6 20.6 14.9 25.2 100.1 8.7 22.

0 4.6 49.4 51.3 0.6 3.8 6.9 0.5 20. INT = Interior de São Paulo (outras siglas v.4 2.2 SP 26.1 7. ES 25.4 4.d.5 4.9 5.4 5.6 17.4 INT(1) 2.1 8.9 50.d. n.0 1.2 8.3 32.0 43.9 5.1 NE 7.3 PR 2. = dados não disponíveis GSP = Grande São Paulo. Fonte: Cano 1998b: 327 1995 n.5 14.3 7.6 0.6 8. CO(1) Brasil = 100.2 n.3 0. 8.2 MG 0.8 25.5 7.1 8. Brasil.8 GSP(2) 14.4 n.0 6.5 10.9 1.6 15.2 2.4 16.1 3. NO 10.1 19.1 6.4 24.174 Tabela A-13: Indústria de transformação: participação regional no VTI.6 9.6 8.4 28.d.9 7.6 58.3 4.6 0.0 SC 9.6 5.6 6.5 38.1 3.3 2. 8.5 0.1 1.8 n.9 9.9 53.5 13.6 29.4 2.8 1.4 8.8 33.5 6.5 n.d.8 RS 0.8 22.d. 174 .5 0.7 17.4 41.2 55.8 1.d.5 21.3 2.1 7.3 RJ 40.1 4.7 48.9 3. 1939 a 1995 1939 1949 1959 1970 1975 1980 1985 1989 1.9 4.d.4 0.4 0. Gráfico 7).3 7.7 8.1 2.2 n.5 10.7 6.6 14.9 7.3 7.0 0.9 55.

7 2.3 7.8 6.1 1.2 NO* 16.3 36.3 36.8 1.1 RS 2.6 RJ 31.9 14.3 0.7 11.3 7.5 16.5 5.7 13.9 4.0 1.0 12.5 2.2 1.7 1.2 4.6 6.4 MG 1.5 DF Brasil =100% (siglas: v Gráfico 7) * NO: incluio Estado do Tocantins em 1985-1995 * CO: inclui o Estado do Tocantins em 1939-1985.7 3.1 13. 1939 a 1995 PIB total 1939 1949 1959 1970 1980 2.4 13.8 3.5 12.1 13.2 2.7 SP 2.6 10.4 8. exclui o DF Fonte: Cano 1998b: 318 1985 4.2 6.6 9.6 13.4 3.3 9.0 2.9 39.7 8.1 1. Brasil.1 1995 4.4 7.7 2.9 4.6 CO 1.7 3.2 8.4 37.5 37.9 PR 2.9 8.6 8.6 35.2 3.6 1.0 1.0 10.2 1.2 36.3 SC 10.3 1990 4.4 9.2 NE 10.5 ES 20.4 5.4 175 .7 2.7 2.4 2.2 3.5 18.3 4.4 5.4 12.3 2.175 Tabela A-14: Participação regional na produção econômica.9 3.9 19.0 5.7 9.

1 2.7 1.9 13.4 3.2 3.0 1.8 SP 2.9 30. exclui o DF Fonte: Cano 1998b: 318 176 .2 4.9 10.0 4.9 7.7 13.0 1985 4.1 2.5 11.6 4.2 2.0 14.4 NE 7.8 20.4 2.4 0.5 3.5 12.6 11.5 16.3 CO* 2.8 35.1 1.8 7.0 8.2 12.5 1995 7.4 4.5 20.8 8.0 9.3 2.6 4.4 0.1 8.9 1. Gráfico 7) * NO: incluio Estado do Tocantins em 1985-1995 * CO: inclui o Estado do Tocantins em 1939-1985.9 1.9 32. Brasil.2 8.5 9.4 15.4 35.7 19.8 2.1 1.0 47.5 20.8 8.9 4.9 2.4 MG 0.7 1.0 19.6 6.9 3.7 7.1 1.1 8.5 1.9 2.0 12.2 7.6 4.6 18.0 1990 4.2 2.4 15.5 1995 4.7 4.2 11.8 1970 4.0 5.0 8.9 1.4 27.4 3.0 6.6 36.3 2.5 10.0 15.4 41.0 1.3 17.9 2.1 11.6 17.6 8.9 0.0 0.5 RS 1.4 3.4 12.9 5.1 3.0 1970 1.4 33.3 0.5 9.6 4.3 5.0 1949 1.9 7.8 NO* 14.5 20.2 SC 8.1 12.3 17.5 15.7 1959 1.2 RJ 32.0 0.5 1939 2.0 8.6 8.8 8.9 3.0 8.0 7.2 4.3 23.4 11.0 9.5 8.9 0.9 11.8 23.7 5.1 20.5 1985 6.8 13.9 1.9 36.6 22.1 0.4 9.7 33.4 4.9 4.6 2.1 9.1 4.6 26.9 3.4 0.0 3.0 2.8 2.2 1.0 4.1 7.0 1980 3.3 2.2 4.0 0.7 2.3 7.8 44.3 0.2 11.1 21.0 34.5 6.9 47.8 1.2 4.1 5.5 1.2 56.9 4.4 54.4 PR 1.2 5.7 13.7 1.9 11.3 6.8 2.9 0.9 9.9 8.3 1985 3.8 1.7 1.8 3.0 8.4 18.7 6.4 1.8 24.0 24.0 6.7 0.9 7.2 7.4 6.5 13.1 8.5 43.6 5.9 10.0 14.5 1990 3.2 1949 0.3 12.6 0.3 2.7 1959 2.5 DF Brasil =100% (siglas: v.7 1.2 12.7 11.1 2.1 1995 4.6 1990 8.9 0.0 2.4 2.4 1.9 2.176 Tabela A-15: Participação regional na produção econômica.0 12.1 1980 5.3 2.7 5.0 12.5 ES 27.8 8.0 0.1 0.1 0.2 3.4 26.0 2.0 2. 1939 a 1995 PIB agricultura NO* NE MG ES RJ SP PR SC RS CO* DF PIB indústria NO* NE MG ES RJ SP PR SC RS CO* DF 1939 3.7 13.9 PIB serviços 1939 1949 1959 1970 1980 2.6 8.9 7.9 3.7 24.4 3.3 10.3 2.3 5.8 16.0 4.0 6.6 6.

88 1991 Dez 109.1 13.87 101.63 116.834 PROMOÇÃO DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO Agricultura Indústria e comércio Infraestrutura e Serviços Energia e Recursos Minerais Habitação e Urbanismo Saneamento Público Comunicações DESPESA GERAL DO ESTADO Fonte: Pereira 1996: 238 177 .gov.497 39 11.190 1929 39.Receita does Impostos 1.99 100.46 82.07 0.14 1997 Nov 106.8 40.00 1984 Dez 100.51 72. 1836 .5 17.Receitas Industriais 0.90 97.10 2.10 1992 Dez 106.70 121.30 1995 Dez 107.177 Tabela A-16: Índice de nível de emprego.02 42.13 115.589 165 16.319 7. 1984 a 1997 Indústria de comércio transformação 100.htm de 7.522 1912 23.46 94.23 1989 Dez 117.59 115.343 348 4.549 0 2.bcb.00 119.940 1.76 114.409 0 96.022 162.1886 Jahr Leste e Litoral Paraíba 15.643 1916 10.60 98.84 Tabela A-17: Distribuição percentual da população escrava pelas sub-regiões de São Paulo.50 92.28 93.30 61.2 1854 28.91 115.18 construção civil 100.746 2. Brasil.317 1.13 0.096 796 0 7.92 Receitas Extraordinárias (1) 100.86 116.02 .00 100.0 100.39 115.71 117.37 124.970 4.07 95.6 1836 31.02 .0 100.052 25 8.369 0 49.06 114.54 5.8 Oeste e Norte 4.64 91.798 0 48.8 Tabela A-18: Participação percentual dos grupos e subgrupos da Receita Total do Estado de São Paulo de 1893 a 1929 1893 1905 1914 1923 1929 97. de 1893 a 1929.00 114.24 116.46 118.83 1994 Dez 108.744 0 62.50 103.784 219 31.4 1886 25.00 120.61 89.49 1990 Dez 112.56 27.08 Receitas Ordinárias 96.1998 Total serviços 100.98 69.36 0.18 1993 Dez 107.9 2.198 478 0 9.39 10.0 100.04 0.668 1.83 1996 Dez 105.15 19.0 100.Receitas patrimoniais 2.7.br/htms/histbole.08 95.70 38.81 105.260 5.2 39.7 Fonte: Targa 1996a: 71 Central 48.31 112.850 7.6 31.900 1897 17.77 95.93 97.79 115.08 6.76 113.0 Receita Total (1) Sobretudo a partir de compensações em casos de cancelamento de dívidas ou a partir de lucros cambiais Fonte: Carvalho 1996: 205 Tabela A-19: Gastos por funções do Estado de São Paulo.72 Fonte: www. em Contos (1912) 1893 15.49 110.433 421 0 9.86 105.94 98.91 22.05 116.30 31 12.04 .60 102.

879 31.6 56.62 1992 56.268 4.094. 1988 .3 69.481.5 1991 1.654 305.1 101.595.0 76.667 304.664 1.7 80.76 28.4 72.666 3.2 58.gov.21 27.158.8 75.528 0 57.3 83.546 4.444 2.4 82.684. por setores Ano 1986 1990 1994 1995 Indústria 2.8 74.3 68.28 34.33 1991 54.3 69.6 82.570 Ignorado 0 0 276.0 1995 1.4 51. 1988 a 1995 1988 Agências Bancárias Capital Estado % Depósitos Totais (1) Capital Estado % Operações de Crédito (1) Capital Estado % (1) em bilhões de R$ 1989 1.397 982. Operações Totais.0 1993 1.1 1.351 7.050 3.353.681 363.201.960 Agricultura e outros Pecuária 103.74 40.66 28.85 36.043 1.633.1 79.572 4.1997) Tabela A-22: Trabalhadores com carteira assinada no Estado de São Paulo.256 347.2 38.504 2.6 54.8 77.489 4.7 60.42 1988 51.2 60.416.718 30.0 55.9 73.708.447 4.87 Tabela A-21: Setor bancário em São Paulo (Capital e Estado).021 2.778 31.1 73.5 71.seade.027 57.319 Construção civil 277.7.5 49.7 65.001 32.3 81.89 Agências Bancárias 29.9 71.550 30..977 32.6 70.9 104.4 69.25 1993 Fonte: Seade 1995: 62 Operações de Crédito 30.837.396 7.3 68.955 323.5 58.1 67.601 4.62 28.178 Tabela A-20: Participação Regional do Estado de São Paulo em Relação ao Brasil nos Depósitos Totais.377 4.8 73.46 42.085 3.1993 Anos Depósitos Totais 54.2 106.47 1990 53. de 1986 a 1995. Operações de Crédito e Agências Bancárias.373 129.057 3.br (30.8 51.096 Comércio Serviços 907.744 436.984 7.2 82.186.2 111.1 91.277 Fonte: Unicamp 1998: 14 178 .7 82.7 36.247 46.0 1994 1.26 28.570 Total 7.48 1989 53.6 1990 1.925 31.4 52.922.5 51.8 64.6 Fonte: www.378 29.2 70.8 1992 1.88 36.3 71.057.610 5.

102 3.731 1.438 2.220 1.703 1.082 2.744 7. economicamente ativa.078 15.052 6.891 13.7 8.841 7.2 1995 13.2 9.771 10.277 846 431 321 110 5.642 15.162 6.004 1.2 9.459 7.133 710 423 319 104 5.369 ativa Ocupados 5.3 1991 11.976 7.358 15. em % 1985 1986 1987 1988 1989 Total 12.309 16.228 8.028 2. segundo Posição na Ocupação .seade.017 741 1.205 6.490 834 1.733 6.847 1.424 2.157 3.254 11.2 1993 14.762 1.515 6.089 834 2.182 1.1999 1990 10.732 1.6 9.br (27.596 755 670 484 186 124 62 4. Grande São Paulo. de 1989 a 1996.020 2.489 7.179 Tabela A-23: Estimativa da população total.085 740 345 271 74 5.259 12.211 746 1.7.659 6.979 11.453 13.125 953 2.070 16.687 13.758 10.365 884 481 129 129 5.0 1998 18. em Reais (Novembro de 1996) 1989 874 Ocupadas 857 Indústria Com carteira assinada 898 Sem carteira assinada 444 888 Comércio 1080 Serviços Com carteira assinada (setor 992 privado) Sem carteira assinada (setor 438 privad) Assalaridadas do setor público 1477 306 Serviços Domésticos Fonte: www.834 788 2.636 1.235 3.6 1994 14.099 6.545 16.233 8.562 10. Grande São Paulo.3 Tabela A-25: Rendimento Médio Real Anual (1) das Mulheres Ocupadas no Trabalho Principal.659 701 614 459 155 106 49 4.804 15.156 681 475 372 103 4. de 1985 a 1998.980 6. em milhares Populações População Total População em idade ativa 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 14.7 Fonte:www.915 6.seade.523 1.1 1997 16.730 662 738 530 208 143 65 4.175 711 464 356 108 4.541 11.135 1.759 1.774 6.558 1.2 1996 15.166 8.gov.574 12.193 (1) compreende serventes e empregadas Fonte: Unicamp 1998: 12 Tabela A-24: Taxa de Desemprego na Grande São Paulo.735 7.396 736 1. em idade ativa.146 13.624 853 1.213 3.220 7.372 716 639 399 240 133 107 4.220 3.585 7.914 6.241 2.1997) 1992 597 636 726 336 547 740 738 328 987 222 1996 585 596 656 344 523 721 683 399 852 275 179 .345 7.gov.151 2.7 1992 15.897 12.623 1.1.980 696 879 594 285 218 67 4.454 726 623 427 196 115 81 4. ocupada e desempregada.878 1.224 730 1.897 16.079 892 2.911 6.329 População economicamente 6.592 Indústria Comércio Serviços Outros (1) Desempregados aberto oculto Pelo trabalho precário Pelo desalento Inativos 1.069 3. de 1985 a 1997.276 694 777 484 293 185 108 4.010 880 2.br/cgi-bin de 22.

943 30.729 29. administração pública.000 hab.657 21.gov. em Reais (Nov. n. 28..39 210 188. 19...131 0.901 25. 2 14..71 6.144 7.br (27.903 3. 1986-94.13 0. 199.517 7..529 31.1997) Tabela A-27: Rendas disponíveis do Estado de São Paulo.183 32.43 32.772 .d.7.480 184.648 32.135 3.27 0.398 18.9 . 98 193.24 0.. 73 0.. a municípios * Rec. 97 895 057 0.343 29.) Rec. 4.050 23.803 0..16 . Estadual disponível População (1.44 15.821 4.478 18.823 26.7 181.529 3. São Paulo.572 5.202 18..57 .072 21.94 Gastos em habitação(1) PIB (1) Percentual do PIB.097 31. Orçamentária Despesas com transf.26 .180 Tabela A-26: Rendimento Médio Real Anual (1) dos Homens Ocupados no Trabalho Principal.10 33.. 190.30 0.319 22.1 32.1 12. Disponível per capita (R$) Média 198794 24.6 6 03 69 17.937 18..d. em % População Gastos per capita 95 n.393 16. Grande São Paulo.21 30. n. . 1986-94.13 233 196...572 4.207 ..117 4..73 248 187.d.783 8. 0..05 31..05 28. n...386 0.d.seade.701 33. 694 627 563 674 659 581 580 648 545 610 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 Fonte: Arretche 1998: Tabela 5 Tabela A-28: Gastos em habitação.244 4.. de 1989 a 1996.087 . 14. em R$ (dezembro de 95) 1986 1987 1988 1989 1990 1991 199 2 548 487 1993 1994 Médi Média a 1991-4 198790 407 488 .11 29.859 .853 20.255 5.568 20.425 25.96) 1989 1607 1718 1718 703 1466 1633 1434 1992 1075 1264 1298 580 839 1068 1006 458 1394 811 1996 995 1063 1046 549 858 1042 863 578 1291 755 Ocupados Indústria Com carteira assinada Sem carteira assinada Comércio Serviços Com carteira assinada (setor privado) Sem carteira assinada (setor 671 privado) Assalariados do setor público 2006 1220 Construção civil Fonte: www. segundo Posição na Ocupação.922 20.219 22.12 30. em milhões de R$ (valores arredondados) 1986 Rec.4 7 4 (1) em milhões de R$ Fonte: Arretche (1998): Tabela 12 180 .

649 Total de declarantes siglas: v.07 3.57 2.17 3. n. 1995 n.7.28 2.83 6.63 5.55 9. ativas em uma ou várias associações.45 1.78 2.535 830 929 731 639 1993 4.30 3.d.181 Tabela A-29: Participação das pessoas acima de 18 anos de idade. de Bairro ou de Moradores Filiados a As.11 3.893.62 2.38 2.551 852 1992 2. posições selecionadas 1980 1985 1986 1.574 2. 1994 n.291 Tabela A-31: Endividamento do Município de São Paulo nos anos de 1980 a 1995.7.19 4.337 1991 4.092 795 903 785 649 1991 5.d.76 PR 12.13 2.36 3.42 1.109 723 802 741 762 1995 6. de Empregados Filiados a Partidos Políticos Filiados a As.061.722 950 1993 n.d.gov.46 6.71 27.204 BA 8.seade.45 2. Relig.61 20.738 PE 11.d.357 Gastos totais 449 509 Educação 353 386 Saúde 665 486 Habitação 411 Obras e instalações 514 Fonte: www. posições selecionadas dos anos de 1980 a 1995.276 878 1990 4. em diferentes estados brasileiros em 1988 RS 12.83 1.744 501 658 738 1.d.908 536 489 633 616 1988 4.880 1.015 Filiados a Sindicatos Filiados a As.18 3. Esportivas ou Culturais Taxa média de filiação 15.473 829 981 985 1.br (28.89 4.seade.685. Cidade de São Paulo.08 4.479 678 607 648 425 1990 5. segundo setores. em milhões de R$ (1996).25 4.305 SP 8. 181 .359.59 2.953.77 20.397 1989 8.786 652 460 590 379 1987 3.58 2.77 3.137 816 1988 5.31 5.00 5.535 635 736 670 760 1994 5.gov.91 5.55 8.545 1.br (28.830 CE 9.338 903 888 798 451 1992 4.473 3.1997) 1987 4.04 4.140. ou Filantrópicas Filiados a As.67 9.397 2.d.27 5.79 2.43 9.37 2.352 Dívida fundada 576 738 879 Dívida flutuante Fonte: www.1997) 1986 3. Gráfico 7 Fonte: Arretche 1998: Tabela 4 Tabela A-30: Gastos.66 2.469 1989 4. em milhões de R$ (1996) 1980 1985 3. n. n.

407 1.61 42.16 1995 13.89 38.40 42. segundo setores.42 1991 15.70 36.008 1989 4.88 1994 14.87 38.786 1.510 1985 3.87 37.908 900 367 457 824 728 2.416 1994 5.103 21 274 295 948 3.44 38.13 36.105 1987 3.84 40.144 2.d.535 1.7.48 38.685 2. em % Ano Agricultura e pecuária 1980 13.99 1981 14.253 1.689 164 250 414 737 4.321 1.182 Tabela A-32: Despesas do Município de São Paulo. 808 2.1997) Tabela A-33: Participação do Estado de São Paulo no PIB nacional. 1980 a 1995.78 42.976 1992 4.374 1.40 38.744 914 379 300 679 1.28 38.72 182 .05 36.57 42.932 1.899 2.23 43.59 1987 17.90 36.354 1990 5.473 1.845 1.353 1.50 39.913 873 2.709 3.712 2.947 Fonte: www.51 38.487 869 1.65 39.479 1.90 1986 15.11 43.287 2.761 2.gov.47 42.23 37.99 44.389 58 269 327 928 3.336 1.15 39.93 1982 15. n.38 1990 15.597 1995 6.92 39.854 1988 4.357 981 321 227 548 504 2.61 38.87 43.99 43.02 1983 16.473 817 186 n.402 104 541 645 530 3.092 1.72 1993 14.18 Serviços 40.36 42.81 42.780 1991 5.363 106 931 1037 1.89 36.357 195 326 521 513 2.97 1989 14.seade.83 37.338 1.587 1.55 1984 15.756 2.48 1992 14. de 1980 a 1996.25 1988 14.100 1.77 43.61 38.09 38.324 2.28 39.10 36. posições selecionadas.109 1.89 40.535 1.br (28.15 36.695 1986 3.72 39.61 Total 40.014 1.d. em milhões de R$ (1996) Despesas totais Com pessoal Encargos da divida Amortização da divida Encargos e amortização Investimentos Despesas correntes Despesas de capital Manutenção 1980 3.78 44.228 187 651 838 955 3.91 44.98 1985 16.96 19961 (1) dados provisórios Fonte: Unicamp 1998: 3 Indústria 45.942 1993 4.547 2.461 76 295 371 833 3.91 39.282 2.48 36. por tipos de gastos.83 37.

Tabela A-36: Os 100 maiores grupos privados.339 0.588.045 2.78% 17.52% Migratório 49.416 SP (Estado) 4.924.416. Município de São Paulo.89% 4.20% 72. em1978 e 1990 Região Sudeste .185 0.033 1.18% 16. 1990:32.226 9. SEADE 1993:30.126 0. 1990/2000 Anos 1940/50 1950/60 1960/70 1970/80 1980/90 Período Decenal Anual Decenal Anual Decenal Anual Decenal Anual Decenal Anual Total 68.241 0.139.188 7.85% 1.14% 43.730 12.180.285 0.493.Rio de Janeiro Sul Nordeste Norte Centro-Oeste Total Fonte: Neto 1995: 379 1978 81 48 27 12 7 100 1990 82 58 15 10 7 1 100 183 .786 4. por região.11% 2.74% 5.66% 3.134.57% 43.35% 3.948 25.17% 19.040.701 5.666.37% 5.99% 2.592.771.37% 4.60% 56.198.546.473 capital/estado 0.49% 21.69% 24.25% 1.568.894 Grande SP 1.406 8. 1940/50.806 17.26% 3.615 8.316 9.97. 1990: 43.64% Fonte: Rolnik et al.33% 1. Tabela A-35: Evolução da população da Cidade de São Paulo.183 Tabela A-34: Taxa de Crescimento – vegetativo e migratório.48% 28.096 3.712 31.66% 1.333 0.739.626.423 12.326.76% 35.823.745 15.71% 2.662. de 1940 a 1991 Ano 1920 1940 1950 1960 1970 1980 1991 SP (capital) 579.São Paulo .305 Fonte: Rolnik et al.261 2.67% 33.10% 2. da Região Metropolitana de São Paulo e do Estado de São Paulo.97% Vegetativo 15.

em % Região Sudeste .184 Tabela A-37: As 1000 maiores empresas. em 1975 e 1990. por região.Rio de Janeiro Sul Nordeste Norte Centro-Oeste Total Fonte: Neto 1995: 379 1978 80 54 21 11 6 1 2 100 1990 68 43 16 15 11 3 3 100 184 .São Paulo .

uy/mercosur (Mercosul.zaz.br/exame (Exame) www.br (Ministério da Fazenda) www.gov.gov.fazenda.com.worldbank.gov.2 Jornais.Mare) www.3 Endereços da Internet utilizados com maior freqüência www.br/ft (FT – Folha da Tarde) home.br/veja (Veja) www2.com.gov.br (Zero Hora) www.br (Jornal do Brasil) www.br (IPEA.gov.com.br (Prefeitura Municipal de São Paulo) 185 .jb.t-online.br (O Estado de São Paulo) gwww.sp. Homepage) www.br/bernardo (Deputado Paulo Bernardo.html (Die Zeit) www. www.br (Ministério do Planejamento) www.ft.prodam.gov.gov.sp.com.gov.bndes.fr (Le Monde Diplomatique) www.seade.emprego.gov.gov.br (Instituto de Pesquisas Econômicas dos Sindicatos) www.uol.com (Financial Times) www.economist.Instituto Estadual de Pesquisa) www.br ) www.senado. revistas e endereços de Internet utilizados www.gov.htm (Brasilienausschnittsdienst – monatlicher Pressedienst) www.br (Ministério da Reforma Administrativa .brazil.sercomtel.br (Secretaria de Planejamento do Estado de São Paulo) www.br (IBGE) www.gov.bcb.SP) www.monde-diplomatique.gov.br (Banco Central.com.br (Governo Federal) www.de/home/brasilien/aktuell.br/fsp (FSP – Folha de São Paulo) www.uol.com. especialmente Boletim do Banco Central) www.185 7.glpnews.br (Congresso) www.br (Senado) www.ipea. PT-PR) www.br (SEADE .gov.com/TP/DieZeit.com (The Economist) 7. especialmente.com.com.estado.br (Gazeta Mercantil) www2.camara.rau.dieese.org.br (BNDES) www.ibge.br (Informações sobre o mercado de trabalho .zerohora.uol.gazeta.br/istoe (Istoe) www.mare.ipeadata.org (Banco Mundial) www.sep.com.edu.uol.com.gov.fr-aktuell.planejamento.sp.de (Frankfurter Rundschau) www.

7. Vereador.10. Presidente da AMBS -Xapuri (26. USP (11.1996) João Batista. Secretário Municipal de Planejamento de São Paulo de 1989 a 1992 (10.1997) Raimundo Mendes de Barros. religiosa de Xapuri (21.6. 186 . ativista na Região Leste de São Paulo (19. Pimenteira-Acre (25. Secretário Municipal de Cultura de Rio Branco (1993-1996) (5. Agente cultural. Funcionária do Departamento de Urbanismo de São Paulo e Rio Branco (12.1996) Jorge Viana. Presidente do Senado Aliança pela Renovação Nacional Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social Produto Interno Bruto Banco Nacional da Habitação Comisión Económica para América Latina Para as siglas dos estados brasileiros. com museu particular (24.11. Doutorando da Universidade de São Carlos (18.1996) Regina Kipper.11. Engenheiro agrônomo.6.1996) Cláudia Pimenta.12.1996) Marina Teles.1996. Secretário Municipal da Fazenda de Rio Branco (1993 .186 7. 4.1996) Carlos Strabelli. Secretária de Planejamento (1. gráfico 7.5 Siglas das organizações citadas.7. Professor de Sociologia. Cooperativa Agroextrativista de Xapuri (24.6.1996) Dercy Telles. Urbanista.1996) Antonio Monteiro Neto. Vereador de Xapuri (24.1997) Simone Martinolli.1997) Manuel Estébio.1997) Roberto Ferres.7.12. funcionário da CMTC. ex-consultor da CAEX Iraiton de Lima. Rio Branco (5. Comerciante em Xapuri. dos instrumentos e de outros conceitos45 ABC ACM ARENA BNDES BIP BNH CEPAL 45 Grande Santo André.3.1996) (30.1996) Irma Ignes Boff. Assessor da Câmara dos Vereadores de São Paulo.Rio Branco (4. Professor de Economia. v.11. Cooperativa Agroextrativista de Xapuri (29.1997) 7.1997) José Antonio Fialho Alonso.1996) (3.1996) Fernando Michelotti.11.1996) Antônio Zaire.12.12.12.10. assessor da senadora Marina da Silva (PT-AC) (23.1996) Raimundo. Museu da Borracha.1996 Francisco de Oliveira. Seringueira. Secretário Municipal da Agricultura . Membro fundador do CTA . ativista na Região Leste de São Paulo (15. Assessora da Câmara dos Vereadores de São Paulo.11.11. São Bernardo und São Caetano Antonio Carlos Magalhães. Prefeito de Rio Branco (1993.4 Entrevistas gravadas em fita Antonio Alves.1997) Gomercindo Rodrigues. assessor do Prefeito de Porto Alegre (24.11.Rio Branco (1993-1996) Paul Singer. assessor da Câmara de Vereadores para assuntos de transportes e assessor do sindicato dos motoristas de ônibus João Jorge. USP.11.1997) Mancio Lima Cordeiro.

187 CEF CIB CIESP CGT CLT CMTC CNI CNS COHAB CUT CVRD FEF FGTS FHC FIESP FSE ICMS ILO INPS IPTU ISEB MARE MST NGO OS PAS PCdoB PDS PDT PFL PMDB Proer PP PPB PRN PSB PSD PSDB PT Caixa Econômica Federal Centro Industrial do Brasil Centro de Indústrias do Estado de São Paulo Central Geral dos Trabalhadores Consolidação das Leis do Trabalho Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo Confederação Nacional de Indústrias Companhia Nacional Siderúrgica. maior empresa mineradora do Brasil Fundo de Estabilização Econômica Fundo de Garantia do Tempo de Serviço Fernando Henrique Cardoso Federação das Indústrias do Estado de São Paulo Fundo Social de Emergência Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços International Labour Organisation Instituto Nacional de Previdência Social Imposto Predial e Terrenos Urbanos Instituto Superior de Estudos Brasileiros Ministerio de Administração e de Reforma do Estado Movimento Sem Terra Nongovernmental Organisation Organização Social Plano de Atendimento de Saúde Partido Comunista do Brasil Partido Democratico Social Partido Democrático Trabalhista Partido da Frente Liberal Partido do Movimento Democrático Brasileiro Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional Partido Popular Partido Progressista Brasileiro Partido da Renovação Nacional Partido Socialista Brasileira Partido Social Democrático Partido da Socialdemocracia Brasileira Partido dos Trabalhadores 187 . primeira grande usina siderúrgica em Volta Redonda Companhia Metropolitana de Habitação Central Unica dos Trabalhadores Companhia da Vale do Rio Doce .

Reais –moeda brasileira desde 1994 Sociedade de Amigos de Bairro Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados Sistema Financeiro de Habitação Supremo Tribunal Federal Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste Sistema Unificado de Saúde Tribunal Superior Eleitoral Universidade de Campinas Universidade de São Paulo 188 .188 PTB R$ SAB SEADE SFH STF SUDENE SUS TSE Unicamp USP Partido Trabalhista Brasileiro Real.

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