Andreas Novy BRASIL: A DES-ORDEM DA PERIFERIA: Da sociedade de escravos à ditatura do dinheiro

para Beth

Traduzido por Peter Naumann

A tradução desse livro foi subvencionada pelo Ministerio de Educação, de Ciências e Cultura do Governo Austríaco

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Sobre a amizade
Esse livro não teria sido escrito sem as muitas brasileiras e os muitos brasileiros, com os quais travei amizade nos últimos anos. A brutal realidade político-econômica seria praticamente insuportável sem os estritos vínculos emocionais com o país, a sua gente e cultura. Por isso os meus agradecimentos vão em primeiro lugar para Beth, a quem dedico este livro. Devo à ela o amor pelo Brasil e o título desse trabalho, bem como o burilamento das dimensões cultural e poética das citações traduzidas. Agradeço à Sueli Costa Dantas, Claudia e Antonio Vitte, Ingo e Ana Luger, Ana C.Fernandes, Carlos Roberto Winckler, Luiz Augusto Faria, Paul Singer, Chico de Oliveira, Clélio Campolinas, Bertha Becker, Aurílio Caiado, Dercy e Bernadette Telles, Assis e Duda, Carlos Carvalho, Fernando Michelotti, Reginaldo Castela, Jacques Demajorovic, Valeria Oliveira, Zé Mario B.Carneiro, Camilotto, Patricia Cunha, e muitos outros. Na verdade, o ponto de partida do presente livro foi a necessidade de redigir uma tese de livre-docência [Habilitation], um trabalho solitário, uma vez que se trata do maior e último exame na carreira acadêmica. Em outono de 1998 concluí as pesquisas com um trabalho sobre o tema ”Poder, espaço e desenvolvimento no Brasil”. Nos meses subsequentes dediquei-me à elaboração de uma versão em livro. A empreitada aparentemente simples, de encurtar o texto original e deixá-lo mais claro, provou ser uma tarefa que demandou um tempo não muito inferior ao da redação da própria tese. A pergunta pela forma de veiculação dos resultados centrais revelou ser muito mais do que uma mera tarefa adicional de natureza didática. Pareceu-me uma necessidade política transmitir as descobertas sobre as estruturas de modo que as perspectivas de ação não se perdessem. Embora uma tese de livre-docência seja um trabalho isolado, os limites do esforço individual saltam aos olhos. Assim o presente trabalho foi, como qualquer discurso, essencialmente influenciado por outras pessoas, representando o produto de muitas e longas amizades. Quero agradecer especialmente a Joachim Becker,. A qualidade do presente trabalho ficou essencialmente melhorada pelo seu empenho em acompanhar o autor no desenvolvimento das suas idéias. Sua solidariedade e amizade me estimularam sempre a continuar a reflexão. Johannes Jäger, Werner Raza e Vanessa Redak também contribuíram decisivamente para a formulação do presente marco de reflexões. No âmbito do projeto ”Espaço econômico e territorialidade da regulamentação política”, fomentado pela FWF sob a sigla P12378-OEK, foram elaboradas idéias definidoras do marco conceitual de uma teoria do poder espacial. Meus agradecimentos vão também para o instituto no qual trabalho, entrementes denominado ”Departamento de Desenvolvimento Urbano e Regional”, e aos dois professores que o dirigiram nesses anos: Walter Stöhr e Ed Bergman. Eles criaram para mim o espaço de amadurecimento das idéias aqui apresentadas. A Universidade de Economia, que freqüentemente se vê e é vista como uma escola de quadros executivos ou como uma espécie de Escola de Altos Estudos do Comércio, concedeu-me um espaço que não precisei conquistar e reconquistar a cada dia, mas do qual dispus por um tempo mais longo e que me permitiu continuar as reflexões na sua dimensão espacial e temporal. Diante de uma racionalidade cada vez mais míope isso não deixa de ser um privilégio, do qual tenho muita consciência. O retrospecto me permite passar em revista um grande número de pessoas e eventos que contribuíram para que pudesse levar esse trabalho a termo e aos quais estou penhorado por gratidão: a Sra. Lehner pela leitura do texto final e o seu trabalho na montagem da bibliografia, Gunther Maier pela salvação dos meus arquivos infectados por vírus, Reginaldo Castela, Christof Parnreiter, Karin Fischer, Christine Mattl e Ana Fernandes pela elaboração conjunta de artigos que entraram nesse trabalho. Agradeço a Herwig Palme, Peter Feldbauer, Andrea Komlosy, Dieter Boris, Reinhard Pirker, Johanna Hofbauer, Manfred Lueger, Leonhard Bauer, Mick Dunford e Alex Hamedinger pela leitura de versões mais antigas. Agradeço a Angela Kemper, Peter Mesch e Laura Garcia Sobreira Majer ao apoio dado pela divulgação do livro. Devo aos meus familiares, à Beth, à Marília, ao Francesco e ao Bernardo o olhar além da Economia Política. Eles relativizaram o significado de reflexões intelectuais e das transformações político-econômicas e ampliaram o horizonte da vida e sua diversidade, que normalmente se estreita na excessiva leitura de livros: o espaço, o tempo e o poder configuram uma totalidade universalmente dominante, embora não perfaçam toda a vida. Gostaria de manifestar meu agradecimento especial à Peter Naumann, que fez o seu trabalho de tradução com muita intuição e competência, proporcionando ao texto uma incrível fluidez e clareza. Estendo também meu agradecimento a Paul Singer, que acompanhou este trabalho por anos e que se ofereceu para escrever o prefácio na edição brasileira. Meus agradecimentos se estendem a minha editora vienense, Promedia e a Hannes Hofbauer, que permitirem a tradução brasileira sem nenhuma exigencia. E, finalmente, agradeço a

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editor da coleção Zero a Esquerda. que lutou com muita dedicação para esse livro sair no Forum Social Mundial de 2002 em Porto Alegre. 4 .Paulo Arantes.

................4 Place and Space...................................................1914)...............................6 Território e espaço de entrelaçamento.........................................................1 Modo colonial de desenvolvimento sob dominação européia (1500 ..2................................7 1..............................2............................................................................................................................4 Destruição do modo de desenvolvimento centrado no estado-nação e dominação dos EUA (a partir de 1982)......................................................................88 3...............................................4 A metrópole necessita de uma região mundial (a partir de 1974)..........................................................................................................................................................................................1..........................88 3....................................................20 1.............................1 História dos campos regionais do poder............9 1.........................19 1..3 Regime de acumulação e modo de regulação.1.....96 5 ..................................3 A capital econômica do Brasil (1914 ...........................70 3 Espaço e poder no centro da periferia...................................................................................................................................................15 1...... sob dominação britânica (1822 .......3...........................1822)...39 2....3..............1 Ação e estrutura.......1......................18 1.................................................................................94 3..........................39 2....................................................................................85 3.....1.......25 1..................................................................91 3....................................1 História da estrutura profunda..........................................1 O dualismo do espaço de poder e do poder sobre o espaço...............................................29 2 Construção e destruição do fator nacional no Brasil..........11 1.......................................................................2................................2 Michel Foucault e o poder sobre o espaço..............................16 1.......................2 Espaço..1....................17 1.........................................................2..............................1...............1 Jogos de poder..33 2...................1 São Paulo pré-capitalista (1554 -1850)........................................ sob dominação dos EUA (1929-1982)............1929).........12 1. orientado segundo instâncias externas..........................................1 Thomas Hobbes e o espaço de poder..1.......................................................................................3.......................................................1974) ........................1..........................4 Tempo..........2 Receptáculo e rede...............2 Modo nacional de desenvolvimento.......................56 2...................3 Palco e campos..................................18 1........................................................................14 1..........2...........................................................5 Espaços político e econômico.....................................2 Da capital do café à cidade industrial (1850 ..............................................................................................................................1......................................1........................................3 Poder...Índice 1 Poder e espaço............................................................................................................43 2.............................................................21 1........................................3 Modo de desenvolvimento centrado no estado-nação................2 O palco nacional do poder.................................................................................2 Estado e capital.20 1........................2............................49 2......................

.....................116 4.......................................3 Globalização e fragmentação..........................3 O espaço de poder da cidade de São Paulo...........2 Centralização e descentralização................136 5....152 6 Bibliografia............1 As aparências enganam............................................2 O espaço de poder do Estado de São Paulo..........................1 Liberalismo e intervenção do Estado.....2.............................................................................................3.....2 A des-ordem do capital..............................3 Endereços da Internet utilizados com maior freqüência...........1..........................................2......................................................................... revistas e endereços de Internet utilizados....................................................185 7.....................1 Da des-ordem da periferia à des-ordem do capital......................................................................................151 5..................................................1............143 5............................................................................169 7...........................2.....2 Transformação e constância do poder sobre o espaço.......1 Tabelas.......................................4 Os oprimidos também fazem história e geografia........................146 5................................................................1..............3 Hegemonia social-liberal?..............................................................149 5.......................................146 5..............................................157 7 Anexo..................5 Siglas das organizações citadas........................................185 7...........................................................................................................105 4 O reordenamento da des-ordem...........................................................................................119 5 As pessoas fazem história e geografia..................................................................102 3........... dos instrumentos e de outros conceitos........2 A imponderabilidade do instante...............137 5...........................................................................................................................116 4...........................................................................................................186 7................2.............................................................169 7.....................141 5..................................................................4 Entrevistas gravadas em fita.............136 5.....2 Jornais...186 6 .............................1 A lenta transformação dos campos do poder ...........................................................................................

todos eles faziam estremecer as bases da velha ordem. em escala mundial. no nosso destino mandar. os projetos de ocupação de terras ou as reservas indígenas e extrativistas na Amazônia. o fenômeno da obesidade em crianças brasileiras e os recordes de venda no setor automobilístico. O preço disso é a eliminação da estrutura existente do foco da atenção. esses movimentos sociais. as pessoas perderam o interesse por esse palco. mas eis que chega a roda-viva e carrega o destino prá la (de ”Roda Viva” de Chico Buarque) Fazer a história e não apenas sofrer um destino: eis a esperança que o conhecido compositor brasileiro Chico Buarque provavelmente não é o único a nutrir. a renovada derrota eleitoral de Lula em 1994 foi um corte na história. Depois disso não houve mais outra campanha semelhante. Ocorreu uma destruição à la Pinochet. Lula perdeu por margem escassa. O orgulho estamental da mentalidade escravagista. Mas os desapoderados e oprimidos freqüentemente também preferem agir in loco a transformar as estruturas que transcendem os seus espaços. A periferia das cidades. tornarem-se sujeitos da transformação da sociedade. Movimentos de bairros periféricos 7 . Esse livro reflete a perda de uma ilusão. o país era cenário de transformações. Com o presente trabalho apresento um marco analítico para compreender esses processos. os melhores representantes do universo artístico e a oposição intelectualizada. por meio dos quais os oprimidos sobem ao palco da vida pública. de possibilidades e de mudanças. constituem os grandes momentos da história. evitando assim transformações radicais do status quo. Em 1989 tive oportunidade de acompanhar diretamente a campanha para as eleições presidenciais e sentir o entusiasmo com o qual milhões de brasileiros e brasileiras se valiam do palco dos embates eleitorais depois de décadas de ditadura. Dez anos mais tarde. ao qual ele foi arrastado por más colheitas? Na sua região ele domina. que passam por cima delas como um rolo compressor. ”campeão mundial da desigualdade da renda”. Como arrumar o dinheiro para que seus filhos possam freqüentar a universidade? Como sair do círculo diabolicamente vicioso dos juros usurários.1 Poder e espaço ”A gente quer ter voz ativa. O poder parecia crescentemente estar domiciliado alhures. Nesse momento. mas as estruturas lhe indicam. sobre a escravidão e frentes de trabalho diretamente ao lado do noticiário sobre telefones celulares. O Brasil. tal ação aparentemente irracional tem cabal racionalidade. Ainda hoje encontramos na mídia notícias sobre a fome que assola regiões inteiras. Trata-se da tentativa dos brasileiros que têm um lugar ao sol de continuarem como parceiros menores dos dominadores dos países centrais e de continuar assim participando do universo de mercadorias do capitalismo. Esse duplo papel de poder/impotência radica em uma dupla espacialidade: o latifundiário age in loco e está inserido em uma estrutura espacial (nacional e global) mais ampla. Por que não se pode mobilizar os recursos modestos para evitar ao menos as piores excrescências desse sistema? Vista na perspectiva dos dominadores locais. os anos 80 foram uma década de esperanças por transformações profundas em uma das sociedades mais injustas do mundo. E sempre de novo as suas esperanças são aplastadas pelo sistema. XX. No Brasil. os agricultores sem-terra do interior. da ilusão de poder promover a mudança dentro de espaços de tempo relativamente breves. mas perdeu. Quando descobri o Brasil. Como isso foi possível? Que poder logra produzir tais resultados? Aos meus olhos. testemunha isso de modo eloqüente. mas sem um Pinochet. resulta em uma forma especialmente ruim de dominação. na qual ele não tem vez nem voz. um lugar apenas subordinado. contaminado por um raciocínio capitalista orientado segundo o benefício individual. Os dominadores da periferia constróem as suas estratégias de poder in loco. Não obstante. a raiva se mistura à desilusão: nos anos 90 não houve nem necessidade de apelar aos militares para enterrar o sonho da transformação. pelas estruturas de poder. Exemplos disso são os quilombos. O próprio latifundiário na região da seca do Nordeste se vê constantemente ameaçado pelo descenso social. Gerenciam uma situação social sempre precária in loco. para tomarem o seu destino nas próprias mãos. na retrospectiva. ainda que seja apenas em áreas parciais ou no plano simbólico. Perguntamo-nos pelas razões pelas quais isso ainda é possível no fim do séc. no qual o torneiro mecânico Lula quase chegou à presidência. Reconheci que o establishment não deseja nenhuma mudança que afete a hierarquia social. muitas pessoas nutriam esperanças com vistas a uma transformação social profunda. As pessoas elevam sempre de novo a sua voz para determinarem o seu destino. conscientes da sua impotência no plano internacional.

radicalizaram a crítica do estruturalismo (Cardoso. baseada em pequenas transformações.estreita fortemente os espaços de ação in loco dos atores. as crises nas bolsas e as crises monetárias. faz-se necessário um olhar sobre o passado. sacodem a ordem brasileira tão regularmente que parece adequado falar de uma des-ordem. A crise orçamentária. a agricultura na periferia. Furtado (1997a) descreve na sua autobiografia a história dos primeiros anos da CEPAL. 3 A CEPAL. a América Latina começou depois da Segunda Guerra Mundial. A teoria da dependência ou o enfoque histórico-estrutural .no período da ditadura militar uma denominação cifrada da pesquisa em Economia Política ou da pesquisa marxista . A injustiça local é perceptível. Essa estrutura consolidada . No decorrer dos séculos cimentou-se na relação entre o Brasil e o mundo uma hierarquia espacial de centro e periferia. O cepalismo e as teorias latino-americanas que o criticaram3 distinguiram-se na sua concepção de espaço. O estado deve investir mais em escolas. como ” duro cimento” (Furtado 1997b: 50). mas simplesmente está em cada período histórico em uma posição distinta. Lehmann 1990. depois de séculos de obediente subordinação. os proprietários de terras. dominante nos tempos de então como da atualidade. a industrialização no centro. os banqueiros. a contestar a benção universal do modelo liberal de desenvolvimento. (cf. parece ser sedutora e não obstante é substancialmente responsável pela miséria atual. que trabalhou sob a direção de Raul Prebisch. no andar de baixo a população trabalhadora.uma des-ordem . A des-ordem tem raízes espaciais e sociais. O Brasil não se encontra uma etapa atrás. Como o Brasil não é apenas um território no qual os seus detentores do poder dominam soberanamente. Para compreender esse desastre contemporâneo. nesse enfoque teórico. que essa estrutura da periferia representa uma des-ordem comhífen. tempo e poder essencialmente do paradigma liberal e modernizador. 8 . a acumulação da riqueza no centro. Ela é de natureza estrutural. Faletto 1979: 21) e viram as raízes do subdesenvolvimento na estrutura capitalista da economia mundial. as trabalhadoras devem ter maiores direitos de cogestão e os agricultores devem receber créditos mais favoráveis. mas correlacionavam-no com uma estrutura sócio-econômica específica2. Karl Marx afirmou certa vez que ”o país industrialmente mais desenvolvido exibe ao menos desenvolvido apenas a imagem o próprio futuro” (Marx 1983: 13). and the evolution of its relations with the United States which.também lutam mais eficazmente por uma nova escola no seu bairro do que por uma nova política educacional. das coisas que saíram do prumo. então dominante: o que pode ser bom para o centro. Mas a história mostra. Os sismos que provocam a queda dos preços. de modo algum necessita sê-lo também para a periferia. in becoming a hegemonic world power. dotado de uma estrutura social estável: no andar de cima. mas também parte do espaço de entrelaçamentos da economia mundial capitalista. Em tais enfoques as estruturas são compreendidas como o ”fardo do passado”. No âmbito da Comissão da ONU para o Desenvolvimento da América Latina (CEPAL1) surgiram a partir dos anos 50 produções teóricas autônomas. drew up a special code for the region involving more direct and open control. mudam tão-somente a sua forma. Mas os dados econômicos desse território estão regularmente fora de prumo. while at the same time requiring increased co-operation among countries in the area” (Furtado 1976: 3). da tentativa de compreender o presente por meio da consideração do passado. ao passo que a estrutura global parece estar muito distante e opressivamente poderosa. Cedo instrumentalizada em periferia. A extração de ouro na periferia. Kay 1989). como relações sociais orgânicas que oneram o desenvolvimento presente. As relações de 1 Comisión Económica para America Latina. Por isso é um erro acreditar que só é necessário tomar essa ou aquela medida. ele encarna o outro lado da mesma moeda. a crise inflacionária e a crise do balanço de pagamentos acompanham a aparente estabilidade da estrutura social do Brasil. Mas na realidade os centros do mundo só exibem ao mundo restante a imagem muito parcial do seu próprio futuro: o Brasil de hoje de modo nenhum é a Áustria de 20 anos ou os EUA de 40 anos atrás. 2 ”Latin America” ceased to be a geographical term and became a historical reality as a result of the break in the traditional pattern of the international division of labour. é um escândalo que clama pela transformação. os atacadistas e os industriais. Elas não viam o espaço da América Latina apenas como uma região geográfica. Essa estratégia da transformação controlada. Justamente os últimos presidentes do Brasil assumiram seu cargo na intenção de superar a desordem e modernizar o Brasil. Tais desequilíbrios econômicos resultam da interação do Brasil com o sistema mundial capitalista. por meio das suas numerosas tentativas fracassadas de transformar duradouramente a desordem. englisch: ECLA – Economic Commission for Latin America. Trata-se. As relações de centro e periferia não se dissolvem no processo evolutivo. É certo que ela cria no Brasil um território ordenado. Ao mesmo tempo a crise. fundou o estruturalismo (também como cepalismo) como uma teoria econômica que questionou apenas hipóteses isoladas do mainstream. para que a desordem do Brasil seja superada. Em tais casos a ação se reduz à correção das desordens. the problems created by the belated process of industrialisation. conforme afirmou a crítica do ”falso universalismo” da teoria econômica (Furtado 1997c: 12). o caos e o acirramento da desordem foram as conseqüências. a estabilidade do país assenta em pés de barro.

O primeiro propósito da presente interpretação é mostrar a espacialidade do desenvolvimento histórico-estrutural4. mas este permanece estranhamente secundário. e da empreitada geográfica de uma pesquisa nas profundezas (Giddens 1988: 422). O respectivo contexto conduz também no caso dos mesmos desenvolvimentos globais a resultados concretos distintos: o desenvolvimento desigual é parte da dinâmica de economias capitalistas. A colocação da resistência e do empoderamento (empowerment) no centro da análise da sociedade exige uma análise do tempo e do espaço que seja ”radical” no sentido originário da palavra. à frente de todas a relação entre centro e periferia em escala mundial.).propriedade fundiária são um empecilho para a agricultura. esses enfoques contêm descobertas centrais da ciência do espaço.1 O dualismo do espaço de poder e do poder sobre o espaço Os dois conceitos centrais nesse trabalho. as fases do desenvolvimento sócio-econômico sobrepõem-se como camadas. A estrutura mais profunda do poder sobre o espaço pode impedir as medidas ”mais racionais” na área social. pois as teorias do espaço e do poder se correlacionam com duas áreas de pesquisa praticamente não4 Por um lado. No entanto. reduz o poder ao seu ”exercício”. por outro lado (Cardoso. a história determina a margem de ação na atualidade. Faletto 1979: 38) distingue o estruturalismo latino-americano do mainstream econômico: o tema central foi ”the distinctiveness of development paths in the periphery and the leading role of the state in an industrialization process” (Lehmann 1990: 3). mas também a sua própria geografia. mas deve ir até as ”raízes” dos problemas sociais. Há uma contradição entre a nação enquanto território com um sistema interno de poder. pois ”o morto agarra o vivo” (Marx 1983: 15). 5 Uma análise contextual (Cardoso. Assim um presidente bem assessorado poderia tomar medidas para reduzir a desordem no seu território. mas revela as profundezas.g. seria talvez difícil para ele perceber a sua produção teórica como um trabalho no campo da geografia econômica. Mas isso significa superestimar grandemente as margens da ação política. Como já indicia a imagem da raiz. e o processo global da inserção em uma estrutura dominada pelos centros. Embora Furtado considere a sua obra econômica claramente também como história econômica. trata-se de uma empreitada historiográfica. espaço e poder. O estruturalismo busca fixar a especificidade do desenvolvimento latino-americano e. uma reserva. uma política que investe nos âmbitos de um espaço de poder na infraestrutura. produzem uma inflexão no curso da história e criam simultaneamente um novo espaço. seja por via da fuga de capitais. Não obstante. por conseguinte. brasileiro. têm pouco a ver um com o outro na rotina concreta da ciência. não apenas como desvio de uma norma5. a uma mecânica simplista. o enfoque histórico-estrutural não elimina de foco o espaço. não poderemos fugir à necessidade de refletir novamente sobre as fronteiras entre a sociologia. na qual o desmatamento e a expulsão não são mais possíveis. Nesse sentido. O detentor do poder operaria assim a engrenagem da engenharia social e provocaria um resultado determinado. 1. Com base no grande número de estudos existentes efetua-se uma reinterpretação do Brasil que parte da hipótese de que as pessoas em determinadas estruturas não fazem apenas a sua história. por um lado. Uma análise histórico-geográfica do poder6 não se cinge à superfície dos fenômenos. seja pela da sonegação de impostos. as estruturas das estruturas sociais. pois a ação consciente dos detentores do poder produz conseqüências não-intencionais. 6 ”Se colocarmos a problemática do espaço e do tempo no centro da teoria social. Remete. portanto. Com isso está definido o marco conceitual de uma análise do espaço e do poder no Brasil. disponibiliza serviços sociais e possibilita uma modernização cultural. e. 9 . segundo a qual o detentor do poder ”dá ordens” aos seus subordinados. a uma idéia central da ciência do espaço: o mesmo progresso técnico e a mesma orientação da economia de mercado conduzem em espaços distintos a resultados distintos. Se os seringueiros resistem à derrubada da floresta tropical e impõem a criação de reservas extrativistas. em virtude de situações sociais específicas (Cardoso 1993: 38). mais especificamente. o escravismo impede o desenvolvimento democrático. Uma análise do poder não pode reproduzir tão-somente em termos objetivos a superfície do status quo. Faletto 1979: 37). de um rastreamento das origens. subtraindo ao detentor do poder os recursos necessários. um modo de ver o Estado que atribui a este o poder sobre um território. Uma política reformista seria. a dependência das importações trava a industrialização. Furtado (1997b: 21) distingue claramente entre um poder pessoal e um poder sistêmico e localiza o poder decisório sobre os desenvolvimentos estruturais no estado-nação. a historiografia e a geografia” (Giddens 1988: 34s. O segundo aspecto insuficientemente considerado pela teoria latino-americana é o problema do poder.

questões de poder são pensadas mediante a inclusão da perspectiva espacial8. o poderoso. Vitórias e derrotas freqüentemente dependiam essencialmente da constituição ou do esvaziamento das fronteiras. impõe às outras pessoas na sua área de influência a sua vontade. objetivismo e subjetivismo. 9 Não somente as teorias do poder. Hamedinger 1998). que permanece fixo. Comumente nunca encontramos referência a questões de poder em trabalhos de Ciência da Região. da nação. nem efetuar uma análise historicamente exaustiva a seu respeito (cf. Enquanto conflitos sobre a orientação segundo instâncias internas e a orientação segundo instâncias externas. Isso não parece habitual. Contrapôs ao Leviatã o panopticon de Bentham como imagem orientadora [Leitbild] do poder. 10 . para que no seu âmbito a ação possa transcorrer de acordo com regras determinadas. para tal Clegg 1989). quero contrastar em termos dualistas duas modalidades de acesso fundamentalmente distintas. Mas preliminarmente é mister ordenar as distintas concepções de espaço e poder. o poder pessoal é localizado ”bem em cima”. O soberano. Para facilitar a familiarização com a problemática de espaço e poder. Conflitos essenciais na história do Brasil tiveram por objeto a pergunta pelo significado que a fronteira tem para a troca de mercadorias. mas ela é também a concepção de poder e espaço em torno na qual se entrelaçam em grande parte a teoria econômica e a Ciência Política. Nos limites de um espaço. as disciplinas que se ocupam teoricamente com o poder dedicam-se só raramente aos fenômenos empíricos relevantes para a Ciência do Espaço. Descobertas na teoria do poder são confrontadas com a problemática do espaço. as fronteiras do espaço de poder no Brasil sempre foram altamente políticas. na esteira do Leviatã de Hobbes. A criação de um espaço de poder representa a tentativa de atores sociais de delimitar um determinado espaço. Ao passo que na Europa a fronteira enquanto barreira da migração de pessoas está em primeiro plano. no caso o Estado. conforme a tabela seguinte ilustra9. eis o modelo padrão da mecânica do poder. o poder atua por meio de campos e estruturas que normatizam a vida cotidiana. para tal Mann 1986). criar um marco teórico. para que se possa compreender melhor tanto a atuação do espaço como a do poder. Na contraposição dessas teorias as grandes tradições do pensamento são resumidas de forma simples e simplificada. A análise concreta do Brasil tratará sempre de novo de todas essas questões. De acordo com essa visão. mas o pensamento ocidental na sua totalidade caracterizam-se pelo seu raciocínio em dicotomias. a transferência de capitais e tecnologias e o mercado monetário e financeiro. Delimita-se um espaço para que a ação possa ter eficácia nele. a Sociologia e a Ciência Política. Tabela 1: O dualismo clássico de espaço e poder em Hobbes e Foucault ESPAÇO DE PODER Hobbes Quem tem poder onde? Território Receptáculo ”palco” PODER SOBRE O ESPAÇO Foucault Como o poder atua onde? espaço de entrelaçamento redes ”campo” Pergunta: Concepções fundamentais da teoria do espaço: Lugar do conflito: 7 De um lado. Não importa quem se localiza no ”topo” dessas estruturas. entre outros. 8 As explanações subseqüentes não cogitam oferecer uma visão de conjunto das teorias do poder (cf. Hobbes e a sua mecânica do poder. é. No sentido tradicional do termo. que posteriormente deverão ser encaminhadas em uma relação dialética (cf. Friedmann 1992). refere-se essencialmente à delimitação econômica da nação com relação ao mercado mundial. Mas na presente análise o espaço e o poder são conceitualizadas como unidade dialética. quantitativo e qualitativo determinam o pensamento científico. As dicotomias de estrutura e ação. à exceção de John Friedmann (ver.interligadas7. a Ciência da Região. Michel Foucault empenhou-se em toda a sua vida em criticar essa concepção do poder. de outro. universal e concreto. i. Thomas Hobbes é o primeiro pensador dos enfoques da teoria do poder que se orientam pela ação. Essa é a imagem clássica do Leviatã hobbesiano. um ator. O estado-nação é indubitavelmente o receptáculo clássico do poder. a fronteira no caso do Brasil. Bernstein (1983: 16) localiza a raiz desse pensamento dicotômico em Descartes e na sua busca do ponto arquimédico. Por sua vez. Foucault e os seus campos do poder representam de forma sensorialmente compreensível [anschaulich] dois enfoques opostos para a compreensão do poder. Michel Foucault é o grande pensador de enfoques da teoria do poder que se orientam segundo a estrutura. exerce soberanamente o poder. embora Arquimedes levante o universo. como poder sobre o espaço e espaço de poder. embora inconscientemente ocorra com muita freqüência.

A nação enquanto espaço e o Estado enquanto poder constituem o espaço clássico do poder enquanto concepção de mecânica. tomada em si. sendo que estas ocorrem na intenção de mover outros a uma determinada ação11.1 Thomas Hobbes e o espaço de poder Thomas Hobbes é o analista clássico do espaço de poder. A definição de poder de Dahl também se conforma pertinentemente à tradição liberal: ”A has power over B to the extent that he can get B to do something B would not otherwise do” (Dahl.)10. Mesmo nas dimensões miúdas do cotidiano as pessoas imitam esse poder. sejam eles dinheiro. Matis 1988: 399).. Uma relação de poder é como a relação entre bolas de bilhar: assim como uma bola de bilhar toca a outra e pode. ”tê”-lo. XX pode ser compreendida como variações sobre o modelo fundamental de Hobbes. ”Nas nossas sociedades. observável (Lukes 1977: 12). para continuar usando a imagem das bolas de bilhar. Os ricos ocupam o topo. indivisível e indelegável (Hobbes 1996: 136 ss. Ela provavelmente depende da distribuição dos traços distintivos fisiológicos e psicológicos dos seres humanos” (Pareto 1975: 111f. A forma da curva de modo nenhum é produto do acaso. as recompensas e a punição como os nervos e assim por diante. Para ele. Até hoje as teorias do poder na tradição hobbesiana são caudatárias da visão do poder como um lugar a partir do qual se domina soberanamente. uma espécie de pião. possuí-lo. por isso só poucos lograriam atingi-lo.1. Mas há no espaço do poder apenas um ator que pode agir soberanamente: o Estado é o poder. No centro de uma análise em termos de mecânica do poder estão os atores e o seu comportamento concreto. independente e claramente delimitado com relação ao mundo exterior. a curva da distribuição da riqueza apresenta muito poucas modificações entre uma época e outra. precisa-se controlar esse Estado. O seu modo de aproximação forma a base da compreensão do espaço e do poder enquanto espaço de poder. O Estado é uma poderosa máquina. uma bola que empurra e outra que é empurrada. o espaço afunda na desordem e no caos. sovereign political forces” (Clegg 1989: 159). Assim tiveram relevância as perguntas sobre quem detém o poder. Esse Estado é decomposto em seus elementos individuais e concebido como corpo: o soberano como a sua alma. Teóricos antidemocráticos como Pareto representam aqui a dominação de uma minoria como fenômeno inevitável (Clegg 1989: 46-48). o seu ”preço” no mercado de trabalho (Hobbes 1996: 7). os pobres estão na base. Para Hobbes o poder é tão central que o poder inerente a uma pessoa também determina o seu valor.concepções fundamentais da teoria do poder: Metódica Leviatã como corpo Mecânica do poder Atores Quantitativa panopticon como estrutura campos de poder estrutura/práticas pluralismo de métodos Fonte: Sistema desenvolvido pelo autor. Temos. as pessoas têm poder sobre outras (Clegg 1989: 41). na realidade. Por um lado. impeli-la em uma determinada direção. na linguagem cotidiana. popularidade. o poder é visto como ”something possessed by unitary. Citado in: Lukes 1977: 11). Para Pareto o lugar no topo da pirâmide social é reduzido. o poder é fundamentalmente inerente a todos os indivíduos.. Ocorrem. os funcionários como as suas articulações. para poderem impor a sua vontade aos outros. controle sobre empregos ou informação. isso é certo. Nesse modelo de causalidade os recursos têm um papel chave. Grande parte das discussões sobre o poder na teoria política do séc. na esteira de Clegg 1989: 34 1. se há um ou vários centros de poder e onde o poder está localizado. na ”guerra de todos contra todos” (Hobbes 1996: 96). 11 . Sem o poder do soberano. Para ter ”poder”. Os ricos são os poderosos e eles também são os que via de regra têm as necessidades mais exigentes. querem tão-somente influenciar os comandos do poder nesse espaço em seu benefício. 11 Cada átomo dispõe de poder. um animal artificial. ”contra a vontade desta”. o indivíduo é um átomo social. O que foi denominado pirâmide social é.. defensores progressistas da mecânica do poder como Bachratz e Baratz (1977) criticam essa concepção elitista. O poder parte então das ações de indivíduos. Tal centro soberano do poder ”deve ser instituído como construção teórica que canaliza a satisfação dos desejos e das paixões. o ”Leviatã” que pode domar o egoísmo dos indivíduos e produzir a unidade do Estado e do território.. é ator no jogo do poder.). O seu poder é absoluto. Mesmo os interessados na transformação da sociedade quase nunca tocam essa concepção de poder e espaço. resultaria um estado manifesto de guerra em uma sociedade sem centralização do monopólio do poder-violência. no 10 Como os seres humanos por sua natureza sempre buscam o poder. a causa e o efeito. baseadas no princípio do movimento” (Bauer.

entanto. Pareto se posiciona também criticamente diante da democracia que aposta em soluções consensuais de conflitos.nas margens da ação individual em meio a uma estrutura poderosa. não-decisões dizem respeito a tais campos que não puderam ser problematizados.vale dizer. de um espaço de poder no qual o soberano presumidamente governa. Por isso o interesse das investigações de Foucault concentrou-se . reconhecemos a importância que o espaço ocupa no pensamento dessa Grande Nation altamente centralizada. Foucault está profundamente enraizado na tradição francesa da preferência por metáforas espaciais. 14 Mas também com referência ao espaço não é simples obrigar Foucault a assumir uma posição inequívoca. rituais e procedimentos institucionais (”regras do jogo”) produzem efeitos sistemáticos e em si coerentes em benefício de determinadas pessoas e grupos (Bachrach. pois no interior da elite sempre há mudanças. a abstenção nas e a não-participação das decisões por parte dos oprimidos. pois a análise social é para ele a análise do espaço. Na discussão pública constata-se sempre uma unilateralidade (bias) na direção de determinadas questões ou na vontade de solucionar certos problemas. pois antes de um interesse ser desconsiderado há uma série de outras formas mais sutis que impedem a eclosão de um conflito aberto. Mas com isso ele não se desmascara como estruturalista.2 Michel Foucault e o poder sobre o espaço Michel Foucault tornou-se célebre como filósofo que proclamou a morte do sujeito. ”No fundo a representação do poder permaneceu por cima das diferentes épocas e dos diferentes objetivos sob a influência da monarquia. Assim o espaço é fundamental para toda e qualquer forma de vida em sociedade e para todo e qualquer exercício do poder (Schmid 1991: 203f. Somente depois da barreira da problematização ter sido transposta. Valores predominantes. Exemplos de não-decisões no caso de problemas em si importantes são a atitude social de ”não dar ouvidos” a exigências de grupos impotentes. Muito pelo contrário.supondo. Por essa razão é necessário desnudar num primeiro passo e sem quaisquer considerações o poder da estrutura. não em soluções baseadas na força das armas12: o galho progressista da mecânica do poder mantém-se por inércia contra a visão elitista edulcorante da existência de relações latentes de poder. existe apenas como desejo piedoso na cabeça dos teóricos” (Pareto 1975: 286).1. mas descreve o poder e o espaço . No pensamento político e na análise política a cabeça do rei ainda não rolou” (Foucault 1983: 110). 13 De acordo com essa visão. acontecimentos não-ocorridos podem pretender estatuto de causa. Assim se pode evitar que as pessoas tomem consciência das suas necessidades e articulem-nas enquanto interesses privados no espaço público. Depende muito das capacidades organizacionais dos indivíduos como eles se comportam diante de todos esses obstáculos.g. por meio da ”mobilização de preconceitos”. não se coloca contra a individualidade enquanto tal. por vezes também a formação de novas elites. O poder atua ubiquamente. mas parte essencial dessa ação. Como a estrutura do poder é uma ordem natural.freqüentemente como espaços de 12 ”Um regime ao qual o povo impõe a sua ‘vontade’ . mudanças com relação a quem concretamente ocupa a posição no topo da pirâmide social. uma dimensão da ação social. Embora ainda tributários da mecânica do poder. Quando Lévi-Strauss (1996: 113) afirma que ”o espaço possui o seu valor próprio. se eles apesar disso verbalizam problemas desagradáveis para os dominantes. percebidos como tais pelos dominantes. sem ‘máquina’ política. ele tem apenas reservas contra a superestimação errônea da pessoa enquanto independente do seu ambiente social. pois eles esperam uma resistência violenta (Clegg 1989: 83)13. Tal articulação é improvável. assim como os sons e os odores possuem cores e os sentimentos um peso” e Bourdieu (1997: 106) constata que ”o mundo social pode ser concebido como espaço multidimensional”. As numerosas tentativas de conquistar o poder . mas não concedendo-se que ele a tenha -. Por outro lado. A crítica da mecânica newtoniana por Foucault vai de mãos dadas com um interesse novo pelas diferentes dimensões e aspectos do espaço. o fator social significa essencialmente o espaço. o Estado . Contra tal visão do poder e do espaço Foucault mostra as vantagens de se pensar o espaço e o poder como poder sobre o espaço14. ao entrechoque das bolas de bilhar. chega-se ao confronto direto dos interesses. sem ser exercido. 1. intrigas e cliques. quando os dominados esperam que os dominantes reajam com medidas contrárias desagradáveis. como no discurso liberal da tradição anglo-saxã. à medida do seu envelhecimento . O pensamento de Foucault não pode ser imaginado sem o espaço.e cada vez mais. o que leva os oprimidos ao silêncio. Para ele o espaço não é. tais enfoques críticos já representam acessos que lançam uma ponte para um conceito estrutural do poder.). O ponto de partida dessa crítica é o modelo da mecânica do poder. mas também na falta de práxis política e na compreensão não-estruturada da sociedade (Clegg 1989: 109). As razões disso estão na apatia. e. Aqui ele não tem nenhuma definição a oferecer. no fatalismo e na resignação das camadas inferiores. Baratz 1977: 78). 12 .e dominar o espaço do poder constituem exemplos plásticos de tentativas fracassadas de implementação prática.

poder geograficamente concretos. este é constituído assim e não diferentemente.). forçar a vender a força de trabalho à uma empresa. Ele mobiliza. Schmid 1991: 56). As transformações não ocorrem em decorrência das posições de poder serem ocupadas por pessoas ”melhores”. pois o conhecimento produz um poder cada vez maior16. em utilizar a energia e criatividade em benefício de uma empresa.referido à disciplina médica. reforçam. Trata-se de um poder estrutural. O poder sobre o espaço atua como força normalizadora. Por isso a pergunta por quem exerce o poder é irrelevante. Por um lado. O conhecimento está assim indissoluvelmente ligado ao poder. padronizadora e disciplinadora. a escola enquanto aparelho examinador em função permanente” (Foucault 1977: 240) transforma-se no lugar de elaboração da pedagogia. Como Foucault rejeita o modelo da soberania. o primado cabe ao lugar. 16 Aqui podemos distinguir dois momentos. escola. No âmbito do presente trabalho falo de poder sobre o espaço quando me refiro às forças que criam. o conhecimento constitui um capital e com base nele a legitimação para abrir para si o acesso a outras áreas do conhecimento e campos ainda inexplorados ou a serem explorados mais detalhadamente” (Krasmann 1995: 246). 13 . Um panopticon pode desempenhar funções distintas (prisão. ele não admite mais a existência de um ”centro do poder” nem um centro das forças.)15. mas ele pode também solapar espaços de poder a tal ponto que o poder se parece dissolver: Getúlio Vargas teve poder. O espaço de poder é algo dado e as pessoas precisam adaptar-se a ele. José Sarney administrou uma estrutura. o ”poder de definição”. discursos” (Foucault 1977: 395). O poder do capital. ”Onde há poder. Por isso tanto a política do cotidiano como também a micropolítica entram mais no nosso campo de visão. O poder. instituições. mas é produtivo e estimula à ação (Foucault 1977: 250). o poder sobre o espaço é uma força estrutural que solapa sempre de novo esse empenho da territorialização. constitui esse novo tipo de espaço de poder (Foucault 1977: 256 ss. ou talvez precisamente por causa disso. nele fundamentado. diante de quem o detém (Deleuze 1992: 19). O panopticon. ”mas uma rede complexa de elementos distintos muros. há resistência. 17 Ao passo que a criação de espaços de poder é determinada pelo empenho em criar um espaço no qual se possa agir. tornado ”mais humano” ou ”adaptado às necessidades”. ”pois uma práxis discursiva forma o conhecimento. Foucault analisa as relações de poder nas quais o poder e o conhecimento atuam conjuntamente em práticas concretas (Foucault 1983: 113 s. Num jogo de vaivém o poder adquire um conhecimento que por sua vez fundamenta os direitos desse poder (cf. que fundamenta as relações de poder. não consiste tanto em ele oprimir as massas trabalhadoras. espaço. é. hospital ou fábrica). i. No ordenamento arquitetônico concreto do panopticon são atribuídos determinados espaços às pessoas que nele se movem (ou são obrigadas a se movimentar nele). Por isso Foucault critica a construção do sujeito da Idade Moderna como um ser que pensa e age com autonomia. compreendido como poder sobre o espaço. não é algo que proibe a ação alheia. encorajar. O poder é inerente à estrutura e é ela que produz as realidades. Foucault mostra as rupturas e casualidades que possibilitaram a formação de espaços de poder e do poder estrutural. uma torre com pequenas celas nas margens e uma sala de controle no centro. Diferentemente de Hobbes. E apesar disso. mas ele é determinado por forças estruturais não imediatamente reconhecíveis. regras. mas em ele estimular. Assim num acampamento enquanto espaço de poder militarmente determinado predomina uma determinada organização do espaço. O panopticon constitui um poder sobre o espaço que produz um efeito orientador da ação. e rejeita o individualismo metodológico. a 15 Assim o médico ganha em importância com a mudança da função do hospital e o hospital se transforma em lugar de formação do conhecimento . Ele não pode ser simplesmente redesenhado pelos detentores do poder. subjacente a essa formação de poder e conhecimento. Por um lado existe um espaço de poder. Qualquer pessoa pode chegar e cumprir uma função de controle na torre central do panopticon. que primeiro precisam ser trazidas à superfície. Foucault descreve os espaços e os poderes para pô-los a nu . Gráfico 1: O panopticon Fonte: Foucault 1977: Ilustr.e isso em muito mais áreas do que nas situaçõespadrão da opressão. desvalorizam e destroem os espaços de poder. inexiste dentro dos limites desse espaço de poder a possibilidade a ação autônoma. Por outro lado. Da mesma forma. muito pelo contrário. um poder especialmente poderoso sobre o espaço. O poder sobre o espaço pode criar as condições para que os detentores do poder possam dominar. constroem.

a alma da revolta. 1.). não desempenha nenhum papel no pensamento de Foucault. o próximo com o segundo. que só podem existir no campo estratégico das relações de poder. Em ambos. violentas. cristalizando-se ocasionalmente em de modo duradouro em grupos ou indivíduos” (Foucault 1983: 116 s.2 Espaço Até agora apresentei a relação entre espaço de poder e poder sobre espaço como um dualismo.g. nas suas margens os habitantes adaptam-se a uma norma previamente dada. A partir de agora um enfoque dialético deverá estar no primeiro plano. Assim também o poder sobre o espaço de Foucault não está inteiramente subtraído ao alcance da ação. Há resistências isoladas .. mas elas não foram dimensionadas ad aeternitatem.. interessadas ou dispostas ao sacrifício -. decerto não a menos importante. semelhante ao de uma rede17. Foucault refere-se também ao espaço geográfico concreto. Na torre de controle do panopticon juntam-se os fios do poder.possíveis. Esses pontos de resistência estão presentes em todos os lugares da rede do poder. sendo que essa dialética se referirá tanto ao vaivém entre um poder localizado e um poder translocal quanto ao vaivém entre espaço e poder. distribuídos em densidade maior ou menor sobre o espaço e o tempo. ele analisa o ordenamento das práticas em um campo de poder. e. Assim o poder resulta de distribuições e alcances diferentes de práticas discursivas e organizacionais. A torre de controle domina as celas à margem do panopticon. no panopticon ou nos acampamentos (Foucault 1977). A teorização sobre o poder bem como a sobre o espaço carecem de aprofundamento. necessárias. 14 . a lei pura do revolucionário. dispostas ao compromisso.. subalternas. Em conexão com isso.. Essa é uma das razões. inconciliáveis. Estruturas são formas consolidadas como prédios. Com isso o poder enquanto poder sobre o espaço dispõe do potencial de solapar todo e qualquer poder sobre o espaço que se queira constituir autonomamente diante do poder sobre o espaço. Por isso o trabalho presente não se referirá explicitamente nem a Hobbes nem a Foucault.de demolir as paredes ou incendiar o panopticon. que são pontos. pode-se falar quase de uma obsessão nesse tocante. Por isso inexiste na relação com o poder o lugar da Grande Recusa . 17 Foucault usa ocasionalmente metáforas espaciais apenas para tornar plausíveis determinados fenômenos. tão importante para conflitos em torno da mecânica do poder. O palco do poder. Além disso Foucault analisa no espaço de entrelaçamento as distribuições sem poder explicar a estrutura dessas distribuições. o ponto focal de todas as rebeliões.e Foucault não insiste suficientemente nisso . os habitantes têm inversamente a possilidade . O presente capítulo lida com o primeiro movimento em vaivém.resistência nunca está fora do poder. pela qual o trabalho de Foucault permanece excessivamente vago para análises concretas do poder. nós e focos de resistência. No entanto. Ao invés disso. O poder cria um espaço de entrelaçamento que correlaciona hierarquicamente diferentes espaços parciais. A perspectiva que provará ser mais útil nesse contexto refere-se a uma regulamentação do território e do espaço de entrelaçamento. o vaivém será apresentado sob diferentes facetas e com diferentes concepções. que nas suas análises consegue operar também sem o conceito do território como espaço delimitado de poder.

i. Caso o futebol perca influência diante do basquete. trata-se de uma passarela ou de um palco). atua eficazmente em observância das regras.à do poder e à do contrapoder. apresentada a seguir. será de pouca serventia ter o melhor time de futebol. em duas dimensões isso resulta em um campo (na unidimensionalidade. citemos um exemplo do universo do esporte. Jogos de poder têm semelhanças com jogos de futebol (gráfico 2). na esgrima. mas também outras modalidades de esporte em outros campos (gráfico 4). Para esclarecer isso. a posição dos jogadores se definirá pelo grau maior de estima social da respectiva modalidade esportiva. Mas essa imagem também ainda elimina do foco muitos aspectos dos jogos de poder na esfera político-econômica. se os jogos transcorrerem apenas em estádios vazios e os jogos de basquete forem transmitidos ao vivo. tem por base determinadas imagens e metáforas espaciais.1 Jogos de poder A análise do poder sobre o espaço. em jogo rápido com muitos intervalos para encartes publicitários . uma determinada topologia distribui as chances de modo desigual (gráfico 3). Caso se jogue futebol em um campo e basquete em outro. Caso nos queiramos aproximar da realidade.Gráfico 2: O campo de futebol como tipo ideal Gráfico 3: O plano inclinado Gráfico 4: Campo de poder ((Topologia) e palco Gráfico 5: Poder sobre o espaço como estrutura profunda Fonte: sistematização do autor 1.2. Essas quatro imagens mostram alguns dos processos que descreverei no curso do trabalho 15 . que por sua vez se expressará em maior número de espectadores e patrocinadores e mais dinheiro. Os agentes orientam-se segundo as regras que estruturam o jogo. faz gols e ganha a partida. remodelando-se a topologia do campo (gráfico 5). é. as regras do futebol também deverão ser adaptadas. Dois lados se enfrentam.g. e. pois não se joga apenas futebol em um campo. O campo é ondulado. Caso as transmissões televisivas assim o exijam. Quem tiver sido autorizado a jogar de cima para baixo terá as melhores chances de ganhar mesmo com regras ”leais”. Quem é melhor.influa no tipo de jogar futebol. precisaremos abandonar a idéia de um campo plano que dá chances iguais aos dois equipes . Pode acontecer até que o tipo de jogar basquete .no ginásio.

como territórios no sentido de receptáculos18. O poder sobre o espaço pode ser compreendido com ajuda da imagem das camadas histórico-geográficas. Por isso. Ele tem a competência para valorizar e desvalorizar espaços de poder e configurar especificamente os campos em espaços de poder. em uma compreensão do espaço enquanto espaço absoluto. com atores e regras claramente definidos. 16 . Tais como se apresentam. Nessa concepção. A ação orientada para a transformação e uma ciência crítica devem dar amplo espaço a esse processo histórico da produção de espaços de poder. mas não devemos perder de vista os elementos estruturantes mais profundos. 20 ”Reality may possess. Aqui as influências indiretas e não-intencionais ganham em importância. pois eles atuam para dentro da região sem nela estarem fisicamente presentes. o poder sobre o espaço como rede. É ”lógico” e ”evidente per se” que o poder é exercido dentro de um receptáculo e que ele não produz mais efeitos fora do mesmo. Campos aparentemente estáveis podem se deslocar com excessiva rapidez e fazer com que ações percam o seu caráter rotineiro. seu receptáculo de poder. assim como a física newtoniana. O vencedor galga os picos do poder para governar a partir de então sobre o seu território. i. Ocorre que espaços de poder devem ser constituídos por via da demarcação de uma fronteira e da imposição de uma ordem no interior das fronteiras. estruturalmente condicionadas.como dialética de espaço de poder e poder sobre o espaço. Mas esse espaço de poder está em relação com outros espaços de poder.2 Receptáculo e rede Hobbes fundamenta o espaço de poder como espaço absoluto. Massey 1984: 117 s. os espaços são vistos como receptáculos produzidos.). Por isso uma análise local deve considerar também os atores externos. O espaço de poder é compreendido aqui receptáculo. mas em um mundo crescentemente interligado o receptáculo se torna mais permeável. claramente delimitado. Com isso são examinados espaços de poder em um vácuo sem nenhuma referência a outros espaços parciais. os campos resultam das estratificações mais profundas. Perrons 1983: 9).cidades. ”Realism would have been greatly facilitated in the past if some conception of structural power had metaphorically skewed and made uneven and fissured that level table on which conceptual billiard balls from Hobbes to Dahl have moved so easily” (Clegg 1989: 209). O campo de futebol é um espaço de poder. one would want to propose instead that ordered totality is an achievement and resource of power rather than its tacit frame” (Clegg 1989: 64). Quando. preenchido por pessoas e coisas (Läpple 1991: 191). Augusto Pinochet se viu obrigado a reconhecer isso de forma dolorosa em Londres. reconfigurando e elevando-os ou provocando o seu colapso.2. O espaço de poder aparece prima facie como um receptáculo desse tipo. enquanto coisa independente ao lado dos objetos corpóreos (Dunford. que se situam nas profundezas e produzem a forma de manifestação contemporânea (cf. regiões ou nações . Durante a campanha eleitoral os candidatos no palco do poder lutam encarniçadamente pelo ”poder no Estado”. Por isso as lutas pelo poder buscam o controle sobre o receptáculo e os indivíduos e recursos nele contidos. Reflexões sérias não se podem satisfazer com a constatação superficial de que o poder atualmente é exercido em determinados palcos ou no interior de um determinado receptáculo20. O poder sobre o espaço designa todas aquelas forças estruturais que atuam abaixo dos campos e dos palcos do poder. as it were. pessoas residentes fora da comunidade podem ser atores centrais. Essa representação faz ver o espaço como um receptáculo. O modelo de Hobbes forma a pedra fundamental de uma teoria da regulação ou do monitoramento de processos econômicos por parte de um centro de poder político. é. sendo que isso é uma relação estrutural que denomino poder sobre o espaço. em contrapartida. as delimitações se tornam menos nítidas: a resposta à pergunta ‘quem pertence a uma comunidade local?’ depende da análise da situação e do problema e não deriva mais exclusivamente da localização no ou fora do receptáculo (Clegg 1989: 64). 1. both an apparent surface and a deep structure which cannot immediately be apprehended” (Clegg 1989: 120). Foucault remete a nossa 18 Em comunidades locais fechadas sobre si mesmas predomina o controle social in loco. Foucault descreve o poder sobre o espaço como um espaço de relações. Há 200 anos não havia nações. A teoria da mecânica do poder baseia-se. a dimensão histórica dos espaços passa para o primeiro plano. É certo que devemos perceber o que ocorre no palco. fenômenos espaciais têm importância secundária diante das coisas e dos processos sociais em si. o presente tipo de análise examina determinados mecanismos sociais que atuam em determinados espaços de poder . A redução do espaço à sua função de receptáculo leva também a não poder perceber o tempo como tempo histórico. Estas criam condições desiguais para os que usam esses campos. 19 ”Against the assumption that a given social space is a community displaying ordered totality. Isso não é nada fácil19. hoje não há mais espaços que não pertençam a nenhum estado-nação.

é. Bourdieu mobiliza quase que com evidência per se conceitos espaciais para referir-se à circunstância de uma situação social na qual a regulação. Que um ministério da agricultura seja assumido por um representante dos produtores rurais. enquanto o que se distribui. Enquanto lugares sem lugar. Esse princípio de movimentos incessantes que perpassa o campo não está sediado em qualquer primum movens não-movido . Um campo se define. produzida pelas estruturas constitutivas do campo. i. i. pois a superfície atualmente perceptível dos campos sociais se estrutura sobre camadas superpostas. Quando seringueiros se atam a árvores e impedem os lenhadores de desmatar a floresta tropical. Campos sociais. Na zona de penalidade todo e qualquer passo é observado. esconde-se na realidade um campo de lutas. ele se encontra no sentido mais verdadeiro do termo em um palco. o conceito de ”campo social”. Mas ao lado disso já há também regras que são observadas por serem de costume. mas além disso qualquer lugar se pode transformar em palco. o parlamento são palcospadrão. o pensamento de Foucault ainda se direciona para outros espaços. o que é eficaz e o que nem chama a atenção. Para ele o poder não é nenhum fenômeno monitorável da regulação de ações. i. O estado-nação representa um ponto nodal dessa espécie. Enquanto espaços que se procuram subtrair ao alcance das estruturas. Em uma análise que concebe o espaço. Fazem parte disso no esporte as regras oficiais do jogo. e o titular do ‘poder absoluto’ deve engajar-se nesse campo de lutas ao menos a tal ponto que as divisões e cisões. que surge apenas no campo” (Bourdieu 1997: 31). Quando um líder sindical proclama diante dos portões da fábrica a decisão de entrar em greve. 1. ubíquo. mais diretamente interessado nessa representação. gráfico 5). as hierarquias. a fábrica. ”Assim por trás de um ‘Estado’ que se tornou símbolo do absolutismo e que oferece ao próprio monarca (‘o Estado sou eu’). para além desses acessos referidos à mecânica e aos atores. é. Campos consistem de canais consolidados dos quais os agentes se servem regularmente. mas a fábrica e o lugar na frente da fábrica se transformam também no sentido figurado em espaço de elaboração de conflitos. contra a vontade do ser humano para atingir a verdade e o poder que torna o mundo dominável. Foucault dirige-se contra o poder disciplinador moderno. as heterotopias devem ser compreendidas tanto como programa político quanto como representação de um objetivo e ainda como espaços observáveis 17 . campos de futebol assim como campos de poder. na política. uma espécie de ”orquestração sem regente” está na pauta. Diante disso. pois trata-se essencialmente da relação entre os elementos do campo. Permitem compreender o que é permitido e o que é proibido. portanto. 21 Ao lado do espaço enquanto espaço de entrelaçamento. pelo fato das regras específicas da disciplina em questão colocarem determinados elementos no centro e outros à margem. surgidas em meio a processos de longa duração (cf.atenção. Campos constituem o mundo circundante do palco e estruturam o chão deste.no nosso caso. Mas enquanto rede de instituições. mas em outros contextos uma reserva extrativista ou a bolsa de matérias-primas podem desempenhar um papel decisivo. Foucault 1994: 15). o próprio campo. esta se transforma em palco do poder. definem o modo de ação dos atores e estruturam práticas e discursos. as lutas pelo poder subtraem-se à percepção coletiva. as utopias são essencialmente ”espaços irreais” (Foucault 1994: 14). os campos sociais são simultaneamente campos histórico-geográficos. Encontra-se nas ações e reações dos atores que. o tempo e o fator social como uma unidade. não têm outra opção senão lutar para manter ou melhorar a sua posição no campo. para o poder da economia.2. dos entrelaçamentos hierarquizados. mas não configura lei escrita. designa um espaço social estruturado como ”campo de forças”. o poder revela e libera forças que estimulam ações. do ordenamento no centro ou na margem. Em contraposição. o Rei Sol -. Os centros desse espaço de entrelaçamento .3 Palco e campos Há muitos campos nos quais se podem exercer o poder: a família. embora continuem significativas. sejam mantidas e a energia oriunda do equilíbrio de tensões seja mobilizada. no banco de reserva os jogadores podem enfiar o dedo no nariz. Muito pelo contrário. para conservar ou acumular o seu capital específico. O campo é uma concepção que relativiza o ordenamento fixo em um palco. O fato de uma bola ser chutada para o escanteio quando um jogador está ferido é regra de bom estilo. i. sobre o qual se age21. caso os atores consigam enfeixar nele forças estruturais. heterotopias são lugares reais que são diferentes do que os lugares da estrutura existente (cf. como são chamados freqüentemente conferem estabilidade ao campo. eles representam mais do que a mera soma das ações consolidadas. em grau supremo a aparência de um aparelho. é. é. sob pena de se excluirem do jogo e cairem no nada. reproduz as estruturas deste. tal como ele é amplamente utilizado na sociologia francesa.pontos nodais. Em ditaduras os palcos tendem a desaparecer da esfera pública. mas encontra-se na própria luta que. um ministério da família por uma mulher e um ministério da previdência social por um sindicalista é habitual. as leis cumprem esse papel.

pelas grandes empresas e bancos multinacionais. A política e a economia. investimentos. o empresário o poder econômico. já podem existir muitas possibilidades de melhores aplicações do dinheiro. como se ela se dirigisse contra coisas ou pessoas. Com efeito. Aparentemente. 24). todos eles solapam as estruturas orgânicas locais. o espaço econômico é controlado por aqueles que controlam os fluxos de mercadorias. O mal é localizado nos partidos que estão próximos do capital. um presidente da república exerce o poder político. Marx 1983: cap. A exploração. i.digamos. capitalistas foram seqüestrados ou assassinados. Cidades de garimpeiros de ouro transformam-se em cidades-fantasma. pois a realização desses lucros defronta os proprietários de capital com a circunstância de não poderem fugir duradouramente da necessidade de localização. Isso é mostrado de forma particularmente pertinente por David Harvey (Harvey 1996: 291-326). Mas a maior força propulsora da transformação é a busca de aplicações lucrativas do capital empregado. 18 . Essa estrutura de poder especificamente capitalista baseia-se na separação do poder econômico do capital do poder político do Estado. Space é o poder da uniformização que destrói o lugar enquanto local especial. industriais dispostos a emigrar. pois separam o próprio do outro. autores de inovações tecnológicas. atribuir igualmente um tal caráter duradouro e imutável. Harvey mostra que essa dialética reflete a contradição fundamental do capital: ele precisa localizar-se e busca constantemente encontrar novas formas e localidades mais atraente para a sua aplicação. seus costumes e suas tradições às quais no discurso público se pode. A conquista do poder [empowerment] no espaço do poder político afigura-se como um processo geográfico de galgar o topo da sociedade . as lojas típicas para cada bairro se vêem obrigadas a ceder aos shopping centers uniformizadores. de propriedades climáticas e ecológicas registra-se traços característicos presumidamente eternos e naturais de localidades. 1. que seduz a um comportamento político mecânico. Mas esta é uma análise limitada. a presidência da república. Embora espaços sempre sejam produzidos. é.2. A ”acumulação originária” privou partes da população dos seus meios de subsistência (cf. portanto na direita. pois este é visto como poder sobre o espaço.4 Place and Space Nos países de língua inglesa a dialética espacial freqüentemente é discutida como jogo de place (lugar) e space (espaço).2.5 Espaços político e econômico Para indagações político-econômicas a dialética do espaço se apresenta sob forma distinta. pois o capitalismo se caracteriza pelo fato do poder econômico estar separado do poder político. a sua reprodução forma a base do desenvolvimento social. Máquinas foram destruídas. Essa estrutura social surgiu em um processo de destruição criadora a partir de ordenamentos pré-capitalistas. Se a esquerda conquistasse o poder. Na dimensão sócio-cultural forma-se em torno de um lugar uma comunidade com as suas raízes históricas. Eles representam o Outro. Especuladores. Mas quando esses investimentos uma vez foram feitos em instalações e máquinas. A categoria central da Economia Política é o capital. em caso de necessidade. a luta de libertação de movimentos sociais freqüentemente se dirige contra o capital. Constituiu-se assim uma sociedade cindida em classes. O capital rege. As coisas se passam de maneira inteiramente distinta com space. Por sua vez. ele é ”o poder que tudo domina na sociedade burguesa” (Marx 1974: 27). dinheiro. A substituição do capital por forças progressistas é compreendida equivocadamente como um processo simplista da troca dos donos do poder. ricas regiões industriais em velhas zonas industriais e vilarejos indígenas abandonados em centros preferidos para passeios turísticos. Hotéis tradicionais são substituídos em todas as metrópoles mundiais por cadeias hoteleiras. o espaço político e o espaço econômico aparecem lado a lado. um ”exterior” ao status quo. Tal mecânica social seria simultaneamente uma dinâmica espacial. compreende-se por espaços freqüentemente o que é fixo e estável. concretos. se dá pelo processo produtivo e pela retirada da mais-valia. ao passo que o poder sobre o espaço pode ser compreendido como espaço econômico. Especialmente adequadas são nesse sentido as aplicações financeiras que aparentemente realizam o desejo do capital de não estar mais vinculado a nenhum lugar. No mundo inteiro. O processo de acumulação somente pode ser posto em marcha com a construção de fábricas e escritórios.1. Um espaço de poder afigura-se então como espaço político. como a força da alteração e transformação. compreendida como dominação econômica strictiore sensu. que dissolve no ar tudo o que é sólido. conforme poderia sugerir uma análise radicalizada do poder em perspectiva hobbesiana. Lugares instauram identidades. o poder do capital seria quebrado ou ao menos enfraquecido. Com definições de graus de longitude e latitude. Elas foram levadas pela coação muda das relações econômico-sociais ou pela coação por parte do poder de Estado a vender a sua força de trabalho aos proprietários dos meios de produção.

6 Território e espaço de entrelaçamento Altvater (1987) conceitualiza processos de desenvolvimento a partir de espaços de funções. a uma ”destruição do espaço” pelo tempo (Harvey 1996: 242 ss. a estrutura do espaço econômico resulta de uma pletora de regulamentações políticas. Saunders (1987) viu . No caso dos grandes grupos da mídia tal influência é exercida abertamente. os custos reduzidos da superação do espaço conduzem a uma ”compressão de espaço e tempo”. ainda. mas de modo contraditório-conflitivo)” (Altvater 1987: 88). Nesse último são institucionalizadas regras por parte do poder estatal que vinculam as pessoas que vivem num espaço geográfico claramente definido. como o mercado mundial. 19 . Cada espaço de funções teria o seu espaço e tempo próprios. é. 23 Tendencialmente as competências localizam-se nos planos estadual e municipal nas áreas da ecologia (sobretudo da regulamentação da estrutura fundiária) e da política social (sobretudo da disponibilização dos serviços sociais). riqueza. portanto. deve ser melhor apreendido com a concepção do território. Por outro lado o processo de circulação do capital seria breve e o espaço do capital global. tal como praticado atualmente. No plano federal estão tradicionalmente ancoradas a regulamentação das relações exteriores e as competências econômicas. i. O poder territorial é mais centralizado do que o poder no espaço de entrelaçamento. Disso resulta um significado duplo para o fator local: ele é tanto um resumo de lugares relativamente homogêneos quanto também o lugar no qual as contradições se concretizam (Altvater 1987: 80). é que a relação com outros territórios. 1. Isso por um lado é correto. educação e cultura. Por sua vez. a política à nação e a economia ao mundo. a interterritorialidade. O comércio mundial. A concepção dos espaços funcionais remete ao nexo de espaço e processo social. Em território idêntico22 entrelaçam-se assim a ecologia da região. A ecologia seria regional e o período ecológico da regeneração de recursos naturais seria longo. como fatores exógenos são endogeneizados” (Altvater 1987: 87). i. o território carece da fronteira. também os espaços político e econômico formam uma relação dialética. pois esse nexo só pode ser compreendido como uma correlação dialética de funções a espaços. tal concepção envolve uma compreensão a-histórica de padrões político-econômicos aparentemente estáveis. é. Nos nossos dias 22 A ampla discussão sobre o território não pôde ser levada em consideração nesse trabalho (cf. bem na linha do enfoque latinoamericano histórico-estrutural. O programa de pesquisas dessa análise dialética do espaço. concebido por Altvater como espaço funcional. o plano político colocado no meio faria a mediação entre os prazos curto e longo e entre região e mercado mundial. A fraqueza do seu enfoque reside no fato de não tematizar os atores no receptáculo. A crítica ao presente trabalho. nos seguintes termos: ”Deve-se esclarecer. Por sua vez. Concretamente há diferentes fronteiras políticas. Conheci demasiado tarde para poder incorporar sistematicamente as explanações muito interessantes de Tayloer (1984 e 1985) sobre o território enquanto receptáculo de poder. Ao passo que esse último é permeável. cultura e sociedade. A liberdade nos mercados das mercadorias industrias se defronta com o forte controle nos produtos agropecuários e a forte regulamentação de um mercado global de trabalho.2. resultante do seu enfoque. a nação e a região se articulam. Inversamente. o espaço político. As novas tecnologias da informação e dos transportes possibilitam a formação de redes mais extensas no espaço econômico. de resto o lobbyismo empresarial costuma operar sempre de forma mais indireta. não é suficientemente analisada. tal enfoque ignora que os economicamente poderosos exercem uma influência maciça sobre o processo das decisões políticas. políticos e econômicos estão submetidas a uma transformação que se acelera em tempos de crises. Por conseguinte. O próprio Altvater ultrapassa uma concepção estreita do espaço funcional ao registrar ”que em um espaço territorial idêntico espaços funcionais distintos coexistem (não pacificamente. Ao invés de falar de um espaço funcional econômico. sendo que a nacional é a mais importante. para ganhar dinheiro e influir nas regras. Resultaria assim um padrão que atribuiria funções às regiões: a ecologia à região.). é formulado pelo próprio Altvater. em outras palavras. a política do estado-nação e a economia do mercado mundial em um determinado ”padrão de articulação” (Altvater 1987: 94). a política e a ecologia social ou o mundo. tráfego) o campo de análises da Sociologia Urbana. é. habitação. que ultrapassa uma redução funcionalista. Mas como vale em princípio para o funcionalismo. é o resultado de muitas decisões nacionais no sentido de liberalizar e desregulamentar os mercados.em redução igualmente funcionalista -na disponibilização do ”consumo coletivo” (saúde. Nos planos espaciais inferiores há nos países com estrutura federativa estados e municípios com uma área de competências próprias23. mais adequado aduzir a concepção do espaço de entrelaçamento. por quais mecanismos de atuação as tendências do mercado mundial se transpõem para realidades nacionais e regionais. Sack 1986).aparentemente sem nexo. embora não a única. por outro ainda não suficientemente claro. Por conseguinte. A forma e a espacialidade de processos eco-sociais.

foram questionadas ainda há pouco tempo correlações evidentes per se de funções e espaços. força’. da sua valorização e desvalorização24. o processamento e a reinterpretação das análises existentes do desenvolvimento político-econômico brasileiro. influência. O que é.3 Poder No capítulo anterior o espaço foi o ponto de partida de uma análise dialética do espaço e do poder. embora vá muito além deles. Esse trabalho baseia-se nos resultados da tese de doutorado.que. localizadas.1 Ação e estrutura A pergunta pelo poder sempre é também uma pergunta pelas possibilidades de ação. portanto.embora a parte preponderante dos dados aqui utilizados ainda não tenha sido usada na minha dissertação de doutorado. Estado e capital e regulação e acumulação. Agora desloco o foco até o pólo do poder e com isso na direção de uma série de novas concepções dualistas que devem ser encaminhadas em um vaivém dialético.São Paulo . objeto de um estudo de caso. Mas o estudo do mesmo contexto espacial durante muitos anos facilitou também no campo da teoria a clarificação de vários problemas e o aprofundamento de algumas descobertas. O que vale para o espaço econômico. pois os governos nacionais iniciavam passos de liberalização e desistiam de regular os entrelaçamentos monetários e de investimentos. Existe uma dialética de espaço econômico e político e de produção de território e de produção do espaço de entrelaçamento. Quem tem poder pode agir. Poder significa em português tanto ‘domínio. um espaço relacional. a totalidade da regulamentação política do território nacional? Geograficamente as fronteiras entre o território do estado-nação são congruentes com as da totalidade da regulação política. A prefeita negocia com o governador. Referidas ao material empírico e à qualidade da pesquisa de campo. Conforme evidenciará a análise empírica. é 104 vezes maior do que a Áustria . 20 . ocorrem sobreposições e recobrimentos do território que transformam-no em espaço relacional.3. Mas ao mesmo tempo a continuidade na pesquisa de um país . a fundamentação da história político-econômica regional em uma recepção crítica da teoria da regulação e a análise orçamentária representam progressos essenciais na conceitualização. o espaço da sociedade civil e o estabelecimento de regras por meio de normas for incluído na análise da regulação. Se. 1. dos de ação e estrutura. Concretamente estão em pauta os diferentes aspectos dos dualismos de política e economia. Muitas das descobertas então feitas figuram também nesse trabalho. os conflitos se agudizam no sistema estatal em decisões centralizadas: na tomada ou não-tomada de decisões por parte de instâncias estatais competentes. diga-se de passagem. embora nunca em circunstâncias escolhidas por elas mesmas. as vantagens saltam aos olhos e não necessitam de menção espacial . a saber. O espaço político nunca é definitivo. mas uma manutenção da regulação antiga enfraquece as forças que insistem na internacionalização e bloqueia a ampliação do espaço de entrelaçamento econômico. 1. vale também para o político: existe constantemente a possibilidade da sua transformação profunda. Só uma análise empírica pode mostrar quão grandes são as margens de ação diante de estruturas crescidas no decurso de séculos25. O território é também um campo estruturado pelas relações. os vereadores se valem do seu cargo como plataforma para o salto na política nacional. quanto ‘ter condições’. Mas em termos de conteúdos há um excedente.e na pesquisa de uma região . ganhando o elemento relacional um significado ainda maior.apresenta vantagens decisivas para o trabalho científico. Mas diferentemente do espaço de entrelaçamento econômico. mesmo esse traço distintivo do espaço político perde a sua relevância. um 24 A partir dos anos 60 a extensão do espaço de entrelaçamento econômico conduziu a formas de regulação política crescentemente instáveis. no entanto. 25 O presente trabalho continua a minha tese de doutorado sobre o tema ”Resistência local e mudanças estruturais no Brasil” (Novy 1994). Já então ocupei-me com problemas similares com base na região de São Paulo. essa dialética determina substancialmente o desenvolvimento do Brasil. A clara distinção entre uma visão mecânica e uma visão topológica na análise do poder. entre um conceito unidimensional do espaço e um conceito de espaço orientado para a produção. mas sempre apenas fixado passageiramente como território (Jessop 1990: 268). As pessoas fazem a sua geografia. Eleições podem influenciar estruturas de poder? Existe um movimento inercial da estrutura. A partir de um determinado momento velhas regulações políticas bloqueiam o espaço econômico e exigem decisões sobre o encaminhamento de desenvolvimentos futuros: a liberalização das regulações nacionais permite a liberação do potencial transformador.

Aqui o debate esteve centrado na pergunta se a sociedade poderia ser explicada pela ação de indivíduos ou se esses indivíduos apenas seriam portadores de estruturas. Quando uma análise do poder sobre o espaço examina unicamente as formas institucionais. 1. Mattl 1999). diferentemente de Foucault. Mas desde o princípio as estruturas capitalistas surgiram juntamente com a criação de uma ordem estatal. Vale ao menos refletir sobre se por trás do instrumento de dominação ”língua portuguesa” não se esconde uma visão ocidental do mundo que pode ser separada da língua. as estruturas subtraem-se a essa apreensão simples graças à práxis humana. Poderia Lula. Exerceria.2 Estado e capital Estado Quando os europeus descobriram por volta de 1500 o mundo para si. mas não é nada claro se com isso as instituições da ”língua portuguesa” e do ”matrimônio” sofrem um abalo. Como muitas pessoas falaram português no Brasil durante muito tempo.)26. ele não se esquece de chamar a atenção ao fato de que isso somente é possível em meio a estruturas previamente dadas. apenas um desafio científico. Anthony Giddens fez na sua ”dualidade de estruturas” uma tentativa de pensar a estrutura e a ação em uma unidade. O poder é a capacidade humana de configurar alguma coisa. como se os agentes fossem meros marionetes em um drama que se afigura divino para uns e diabólico para outros. As duas ações produzem efeitos no debate social. pois.3. Como muitas pessoas casam. O Estado é comumente percebido como o detentor por excelência do poder. e questionadas por meio da resistência. sem o Estado não existe o capital e sem o capital não há Estado (na forma na qual o conhecemos hoje). fomentando com isso um sentimento de impotência (Novy. O que Giddens elimina assim do foco. embora o capital desempenhe nesse conceito. mas pressuposto de uma práxis política eficaz. Toda e qualquer ação atua sobre estruturas sociais. Em primeiro lugar. poderiam os movimentos de base fazer história? Teorias da ação ocupam-se. começaram também a criar um sistema que abrangeu todo o mundo e é denominado capitalismo. bem no 26 Essas relações. que Giddens denomina princípios estruturais (1988: 240). sendo que as últimas representam padrões consolidados. são essas estruturas profundas que estruturam a sociedade na sua totalidade (Hamedinger 1998: 208 ss. por meio da ação rotineira. mas também orientam a ação. um papel chave. são ”princípios da organização de totalidades sociais”. A elaboração de um conceito de estrutura não é. As estruturas que hoje encontramos no Brasil refletem o modo pelo qual esse capitalismo se concretizou no Brasil. Mas com isso o programa da transformação da estrutura se torna um processo simplista de recusa da reprodução da estrutura existente: falo novamente a língua indígena guarani ou não me caso. com as práticas in loco. portanto. Com isso determinadas práticas são generalizadas para além de segmentos de espaço e de tempo (Giddens 1988: 76). Quem lamenta mazelas em democracias pode estar defendendo ditaduras. Se Marx registra que os homens fazem a sua história. as estruturas influem na ação. a língua portuguesa se institucionalizou. Diante do enorme poder da ”globalização” não existiria mais nenhum espaço para a ação alternativa. mas não necessariamente do modo intencionado pelos dominantes. A defesa da liberdade de imprensa pode conduzir a monopólios da informação e a exigência de aumentos salariais pode resultar no fechamento da empresa. O Estado e o capital formam dois momentos dialéticos de um processo. de modo que um pragmatismo cínico se afiguraria como única saída. 21 . de fazer história e geografia. A ação social tem conseqüências nãointencionadas. Talvez a visão ocidental do mundo também seja transmitida pelas línguas indígenas faladas nas reservas. e talvez por trás do matrimônio exista uma estrutura profunda das relações entre os gêneros que ainda subsiste muito tempo depois dos registros civis terem desaparecido.destino ao qual ninguém escapa e que inibe toda e qualquer tentativa de configuração da sociedade? Nas ciências sociais o interesse pelas questões do espaço despertou nos anos 70 no curso das discussões sobre as teorias da estrutura e da ação. ao passo que as estruturas seriam regularidades transespaciais. Ao passo que instituições são cotidianamente renovadas com vistas à sua existência continuada. Aqui deve ficar claro que as estruturas não atuam apenas de forma proibitiva. Tenho duas coisas em mente. A instituição nesse sentido muitas vezes é equiparada erroneamente à estrutura. Ocorre que os discursos como o sobre a globalização muitas vezes transmitem justamente essa impressão da liberação das tecnologias e das forças produtivas enquanto estruturas coisificadas e todo-poderosas. rotinizados de ação. de agir. Trata-se de um vaivém de ação e instituições. perde-se a noção da totalidade. Por essa razão as reflexões de Foucault sobre o poder e o espaço continuarão significativas para o conceito político-econômico de estrutura. A seguir. quero sondar a extensão das margens de ação sem eliminar do foco o poder das estruturas. Por outro lado as estruturas não são coisas ”lá em cima” que definem a nossa ação ”aqui em baixo”. as duas formas fundamentais do capitalismo são examinadas mais detalhadamente. existe a instituição do matrimônio.

sentido da mecânica de Hobbes, a dominação sobre o seu território. Mas diferentemente dos reinos do passado, os Estados de hoje são formas complexas. No lugar do indivíduo isolado dominador - do rei - temos hoje uma divisão de poderes entre Executivo, Legislativo e Judiciário. O governo simboliza aqui o centro do poder, é o palco do poder por excelência. Quem rege nesse país, eis a questão política fundamental. Mas a luta pelo Executivo, pelo assim chamado poder no Estado, é apenas parte de lutas histórico-geográficas pelo poder. Sabemos à saciedade que a administração pública, encarregada da implementação nada neutra do poder, detém um poder cada vez maior. Os governos passam, os funcionários ficam, razão pela qual a administração pública responde em última instância pela permanência do Estado. Mas no âmbito da administração valem regras próprias e são perseguidos interesses próprios. Tudo isso só pode ser transformado lenta e indiretamente a partir de fora. Por sua vez, a legislação é tarefa de uma outra organização, do parlamento enquanto assembléia dos representantes do povo. Se o parlamento representa a sociedade com os seus múltiplos e contraditórios interesses, existe o risco de que também no parlamento seja defendida uma multiplicidade de interesses particularistas. Determinados deputados representam então os interesses de uma região o religião, de um setor da economia ou de um grupo populacional: a desordem está pré-programada, escancara-se o caminho para a compra dos votos. Sem o enfeixamento desses interesses no âmbito de partidos é difícil elaborar a partir desses múltiplos interesses estratégias para o Estado e a sociedade que sejam capazes de angariar o apoio da maioria dos eleitores (Jessop 1990: 364) Mas onde deve ser traçado o limite do Estado? O que faz parte dele, o que não entra? Imaginemos que o Departamento Municipal de Limpeza Urbana transforma-se na empresa ”Lixo Ltda.”, de propriedade do município, privatizada alguns anos depois e contratada pelo Estado. Será que o hospital administrado pelo governo é estatal, diferentemente do posto de saúde subsidiado integralmente e mantido por uma associação? Será que uma Câmara de Indústria e Comércio é parte do Estado pelo fato da filiação obrigatória ter sido fixada em lei, diferentemente de uma associação de industriais organizada segundo os princípios do Direito Privado? Segundo que critérios devemos traçar limites aqui? Mais uma vez faz-se necessário um exame mais aprofundado da estrutura do Estado. Aqui parece ser útil recorrer, na esteira do comunista italiano Antonio Gramsci (1971: 12), a uma tradição antiga da teoria política que distingue duas formas de dominação, o consenso e a coação. Compete ao Estado impor uma determinada ordem mediante coação. Especial importância têm aqui o monopólio da violência e da instituição de regras, sendo que os meios mais importantes aqui são as armas, o direito e o dinheiro. Um estado soberano luta para que exista somente um exército e uma polícia, um órgão legislador e uma instância emitente de moeda. Onde isso é questionado, o soberano se vê desafiado. À guisa de reação, ele combate a guerrilha e o crime organizado, sob pena da população perder a confiança no Estado. O soberano proibe a dolarização ou aceita o mercado paralelo. Mas ao lado do negócio central do Estado, baseado na coação, a geração do consenso desempenha no médio prazo um papel igualmente significativo. Aqui o sistema educacional desempenha um papel chave, mas a assistência social e mais tarde o Estado de Bem-Estar Social também foram importantes na estabilização da ordem existente. Acresce que os detentores do poder estatal freqüentemente são assistidos por atores não-estatais como as igrejas e os meios de comunicação para sacramentar o status quo e produzir a hegemonia social. Assim a hegemonia enquanto dominação não é apenas a posse do poder, mas descreve a conquista dos corações, a ”soberania sobre as mesas reservadas para a clientela fixa”*) e a concordância ativa daqueles, dessarte adquirida, dos quais se deveria supor que não tiram proveito da ordem existente. Esse âmbito é denominado sociedade civil, sendo que a falta de coação direta torna possível que atores isolados da sociedade civil se voltem também contra a ordem existente. A igreja pode ser local da resistência, os sindicatos podem tornar-se centros da oposição e às vezes os movimentos de base formam o núcleo de um movimento social que transforma toda a sociedade (cf. Novy 1996). Juntamente, o Estado e a sociedade civil formam o que Gramsci denomina o estado ampliado. Este abrange um campo de poder em torno do qual lutam todos os grupos sociais relevantes. Todos querem beliscar o orçamento e influir nas regras do jogo político. Isso vale também para os econômica e socialmente poderosos, pois se eles querem determinar o curso da política, são obrigados a garantir posições para si no campo de poder do Estado. O Estado deve sancionar projetos e estratégias sociais ou ao menos tolerá-los. Forças neoliberais não podem simplesmente praticar a liberdade do Estado, pois os sindicatos, os tribunais e outras instâncias não aceitariam isso. Elas podem ensaiar a desconsideração pura e simples das leis trabalhistas, mas isso poderia custar caro. Quando neoliberais não querem arriscar isso, eles precisam trilhar o caminho pelas instituições políticas e impor uma nova legislação
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A expressão refere-se a uma instituição emblemática da classe média alemã, ao Stammtisch. O termo é intraduzível na gama das suas associações e designa a mesa de um bar ou restaurante, reservada para uma clientela cativa e freqüentada periodicamente por pessoas de horizonte estreito e mentalidade chauvinista, que bebem cerveja e discutem assuntos políticos. (Nota do Tradutor).

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trabalhista. O sucesso ou malogro dessa estratégia depende da configuração organizacional do aparelho de estado, mas também da base social que determinados projetos de estado promovem (Jessop 1990: 161). No início dos anos 80 Thatcher e Reagan mudaram exitosamente as regras do jogo político, no que eles de modo nenhum diminuíram o Estado, mas tão-somente criaram uma outra estrutura estatal. Os arautos do neoliberalismo assumiram o comando da sociedade, pois sabiam o que queriam, i. é, tinham um projeto para o Estado e a sociedade. Por isso o papel dos intelectuais é de central importância, pois eles elaboram projetos sociais que orientam a ação de grupos e classes. Embora seja possível esboçar novos projetos de Estado e sociedade fora do Estado, tais esforços devem ecoar na estrurura do Estado para ganharem eficácia (Jessop 1990: 210). Projetos de Estado definem as fronteiras funcionais do Estado e conferem sentido, orientação e ordem à ação estatal. O Estado de Bem-Estar Social, que pretende estabilizar a acumulação por meio da homogeneização social, baseia-se num projeto de Estado fundamentalmente distinto do do Estado Concorrencial neoliberal, cuja tarefa reside no posicionamento ótimo de um espaço em meio à economia mundial. Projetos de Estado definem a finalidade do Estado e o lugar dos seus campos de atuação. Isso obviamente está estreitamente entremeado com representações da sociedade na sua totalidade. Projetos hegemônicos ocupam-se com tais propostas de organização da sociedade na sua totalidade. Aqui estão na pauta o estado ampliado, o estado e a sociedade civil. A hegemonia enquando estado social estável designa um período de desenvolvimento estável e estruturas de poder consolidadas. Ocorre que tal estabilização social e cultural é difícil em virtude da dinâmica capitalista. Por isso se pode constatar quase sempre projetos hegemônicos distintos e estratégicas hegemônicas conflitivas, que se entrechocam no disputado campo do estado ampliado. Assim o Estado não é apenas um espaço de poder claramente definido, ocupado pelos detentores do poder, mas também um poder sobre o espaço no sentido de um campo de relações, forças ou organizações. Capital A análise topológica chama a atenção ao fato de que o Estado não pode ser compreendido sem a análise da economia e da sociedade. O poder é excessivamente multi-estratificado para que um detentor do poder pudesse adonar-se dele. Enquanto processo político de conquista do poder estatal, a tomada do poder sempre é apenas um momento de uma dialética que é solapada por poderes oriundos da sociedade e da economia. Compreendido como força produtiva que pode mover montanhas, o capital representa a forma estrutural na qual se concentra o foco do presente trabalho27. Há quem afirme que o Brasil já esteve inserido no sistema mundial capitalista desde o início da produção de açúcar para a Europa. O sistema de dominação europeu, que consistia na drenagem da riqueza, constituiu efetivamente um poder estrutural sobre o espaço que atribuía ao Brasil uma posição periférica na hierarquia mundial. Mas essa é uma conceitualização excessivamente abstrata de capital, pois atribui à lógica do capital um poder demasiado inexorável. Essa análise simplificadora examina sobretudo o espaço de entrelaçamento econômico e nega a necessidade do capital de localizar-se. Ocorre que o capital precisa ser investido em plantações ou fábricas, i. é, in loco. Por isso o movimento em ponto morto da estrutura, o empenho constante do capital pela sua rentabilização ótima não dá conta de todo o processo. O fato de empresários sempre terem acumulado riquezas na história do Brasil é um enunciado excessivamente genérico para a compreensão de processos sociais, igualmente o fato da história do Brasil ser uma história da opressão. De resto, tal opinião também é defendida por pessoas claramente reacionárias e lastimado - ao menos em público. Essa análise da dominação, apresentada em perspectiva crítica, desemboca na afirmação de que ”de qualquer modo não se pode fazer nada”. Por isso, para não degradar as pessoas em meros portadores de estruturas, essa perspectiva não pode ficar inconteste. Há também pessoas que fazem história, à medida que se engajam em conflitos sociais. Mais especificamente, a luta de classes acompanha constantemente o movimento do capital. No fim do exercício os balanços exibem o lucro, mas por trás deste se escondem os conflitos para o arrocho ou a majoração salariais, as greves e os ‘lock-outs’, as instruções vexatórias ou as experiências com o trabalho em equipes. Por isso as teorias da ação enfatizam a dominância do fator político. Enquanto análise das lutas de classe, elas se concentram nas lutas sociais em lugares concretos. Essas lutas nos palcos do poder modificam a forma da valorização do capital; uma greve ganha aumenta a quota salarial. As estruturas mudam num processo de reordenamento espacial constante das relações comerciais e creditícias, assim como também devido a leis e intervenções militares territorialmente restritas. Por isso vejo o capitalismo como uma forma específica da dominação e da acumulação de riquezas. No capitalismo, a dominação baseia-se na separação do poder político e do poder econômico, produzida em um processo histórico. Mesmo ditadores não podem interferir a bel-prazer em direitos de propriedade sem por em risco a estrutura fundamental capitalista. O bom andamento dos negócios pode possibilitar aos empresários eludir as leis. Necessita-se, porém, do Legislativo
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Formas estruturais resultam de princípios genéricos de socialização e são objetivações do nexo social que se põe de modo fetichizado e coisificado diante dos indivíduos (Hirsch 1992: 212).

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para promulgar as leis. Embora o poder político esteja intimamente entrelaçado com o poder econômico, ambos só se unem excepcionalmente na mesma instância. Também no Brasil existem os Cidadãos Kanes que, como o mega-empresário Barão de Mauá, procuraram conquistar em vão todo o poder, i. é, também o poder político (Caldeira 1999). Atores econômicos precisam ”comprar” o poder político. Políticos precisam ”regular” o seu ganho de poder econômico. Em uma análise de economia política, o poder está coisificado no imperativo da acumulação. O capital é uma estrutura que os indivíduos não podem simplesmente agarrar. Ele é um processo, uma coação à busca sempre nova do lucro, não uma pessoa ou organização ”poderosa”. Dessa busca do lucro não parte nenhuma causalidade unívoca, generalizável; porém, as estratégias concretas de poder de vários grupos são maciçamente influenciadas em determinadas direções. O capital é um movimento social e não pode ser compreendido simplesmente como algo material, como a acumulação de dinheiro e propriedades. Historicamente, a forma mais habitual da acumulação da riqueza foi a apropriação política por parte dos dominantes. O processo de troca representa uma outra forma da apropriação possível da riqueza. Ambas as formas, a apropriação política e a apropriação por via da troca, podem ser observadas até hoje no Brasil, mas não são o cerne da acumulação capitalista de riquezas, pois este encontra-se no processo produtivo, onde pessoas em si livres se subordinam ao poder econômico. Lá se produz in loco por meio da produção concentrada e organizada um valor superior ao investido no processo. Pode se falar de um espaço de poder econômico onde se chega à produção de valores. Essa mais-valia é a base da acumulação e constitui a riqueza de um espaço. Tal conceitualização dialética do capitalismo permite admitir a dialética espacial de território e espaço de entrelaçamento, de conflitos políticos e dinâmicas econômicas, de ação e produção in loco e das estruturas transespaciais de crédito e comércio. As estruturas têm permanência, e apesar disso existe constantemente a possibilidade de que essa estrutura seja solapada pela ação ou não-ação. Deve-se reter ainda um ponto para compreender a essência da estrutura do capital. É certo que o capital, compreendido como direito à propriedade, exclui outros: da propriedade fundiária, dos meios de produção etc. Mas além disso o capital estimula à ação, é produtivo. Cria realidades, transmuda coisas, pessoas, paisagens e espaços. O capital produz uma sociedade que retroage sobre si mesma, educando as pessoas a agirem como empreendedores, comprar e vender constantemente - mesmo se for apenas a própria força de trabalho. As estruturas produzidas se defrontam com as pessoas como algo coisificado, inexorável, denominado ”excedente de objetividade” (Görg 1995: 628; Esser et al. 1994: 216). Aqui se evidencia a força de um conceito do capital em termos de economia política. De acordo com ele, o capital não é nenhuma coisa, nenhum acúmulo de recursos, mas uma relação social determinada pela forma (Jessop 1990: 197), um movimento, a saber a reprodução de uma sociedade (Oliveira 1989: 2). A força propulsora dessa sociedade consiste em interiorizar estímulos. Assim os trabalhadores promovem de moto próprio a reprodução de sociedades capitalistas, à medida que querem vender a sua força de trabalho. O brilho do universo das mercadorias seduz a uma identificação sempre maior com um mundo vivido baseado nas mercadorias. A destruição do abastecimento por produtores localizados na proximidades e da produção para o consumo próprio é aceita, pois simultaneamente se produz coisas novas e modernas nos supermercados e nas áreas de monoculturas. Trata-se de um poder mais sutil do que o poder de proibição, exercido por ditadores e pelos detentores do poder político. Estado e capital Enquanto formas fundamentais do capitalismo, o Estado e o capital surgiram em meio a um processo de muitos séculos. Assim como os conhecemos atualmente, os estados distinguem-se substancialmente dos diferentes sistemas políticos, como da pólis grega ou do império medieval (Rotermund 1997)28. Até a Idade Moderna os territórios sempre foram delimitados de modo apenas difuso. Os poderes espiritual e temporal sobrepunham-se e impediam toda e qualquer pretensão de vigência absoluta. As cidades medievais que começaram a subtrair-se da ordem feudal, foram os primeiros pontos espaciais nodais no capitalismo em vias de formação (Clegg 1989: 244). Contra as cidades enquanto espaços descentralizados de poder formou-se a corte dos monarcas como ponto nodal de um novo poder sobre o espaço. Os monarcas começaram a controlar o seu território e centralizar a cobrança de impostos. ”Simplificando grosseiramente, podemos designar os estados nacionais como os novos receptáculos do poder que assumem o lugar das cidades” (Giddens 1988: 252).
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Até séc. XVIII adentro havia na Inglaterra uma série de conceitos para designar o Estado: ”regnum”, ”res publica”, ”monarchia”, ”commonwealth”, ”nation”, ”civil society” (Jessop 1990: 348). Posteriormente o conceito serviu basicamente para distinguir entre o dominador e o seu aparelho. Ao passo que o primeiro é mortal, o Estado enquanto aparelho é duradouro. Mas o Estado serviu também para a distinção entre o aparelho e as pessoas sujeitas a ele, i. é, a sociedade. Conseqüentemente, o poder do Estado é duplamente impessoal: ele não é o poder do dominador nem o dos dominados.

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1. A forma especificamente capitalista do Estado resulta da circunstância de que se pretende que o Estado paire acima das classes e frações de classes. A conceitualização do Estado como ”campo estratégico” destina-se a impedir a atribuição apressada de um caráter agente ao Estado (Demirovic 1997: 44). correto que a ação estatal se encontra num plano inclinado na direção dos interesses do capital. 30 A leitura crítica dos regulacionistas. O Estado é o lugar da luta de classes e simultaneamente o resultado da mesma. para desembocar depois do transcurso de um determinado tempo em uma grande crise (Lipietz 1992: 49). estando simultaneamente excluído do centro produtivo da economia.3 Regime de acumulação e modo de regulação A teoria que melhor consegue descrever a estrutura do Estado e do capital é a teoria da regulação. expressão de como os diferentes grupos e frações estão em condições de ancorar os seus interesses próprios em várias partes do aparelho de Estado29. tem condições de efetuar uma conceitualização do meu problema central em termos de Economia Política: quando as estruturas são inflexíveis e quando elas começam a tremer? Quando a ação transformadora da sociedade se choca com a parede e quando as fortalezas provam ser meros castelos de cartas? A pergunta pela estabilidade de espaço e poder é uma pergunta-chave no processo de desenvolvimento. Por conseguinte. contudo. o poder econômico da sociedade que possui o poder. a moeda e o direito. Na análise do regime de acumulação a representação de todo o processo de valorização está em pauta. pois enfrentar com ”neutralidade” os vários interesses com os quais ele se defronta no processo democrático. Por outro lado. manifesta-se em um determinado tipo de intervenção estatal na economia. a teoria da regulação concentra-se em fases de estabilidade. para que possa simplesmente seguir as necessidades de uma lógica imaginária do capital. desenvolvida na França diante da crise do fordismo. o Estado Mínimo ou o Estado Keynesiano de Bem-Estar Social. O grande capital freqüentemente tem objetivos distintos dos das pequenas empresas. o espaço político. No modo de regulação as diferentes formas estruturais estão em primeiro 29 ”Apesar disso o Estado capitalista tem um caráter classista . porque nela se cria a riqueza por meio do processo de valorização do capital. Assim se pode refutar a afirmação de que o Estado seria o instrumento da classe dominante. No Estado entrechocam-se os interesses das diferentes classes. Essa perspectiva dialética possibilita a superação de uma separação simplista de economia/sociedade/Estado. um equilíbrio de forças específico. constituindo a sua forma” (Demirovic 1997: 39). Um regime de acumulação designa aqui uma fase de acumulação estável.à medida que ele corporifica e organiza em um só processo o compromisso das classes sociais.3. No receptáculo a reprodução capitalista funciona por longos períodos como que sozinha. sendo que a teoria da regulação examina concretamente fases de desenvolvimento estável na nação enquanto receptáculo30. mas também os interesses de diferentes frações dentro de uma classe. De um lado. Se o Estado impõe a sua pretensão de soberania. o gerenciamento da demanda ou a política da oferta e da localização. A estatalidade concreta. o Estado é por um lado uma grandeza consolidada e localizada. posicionando-se com isso talvez contra os funcionários de pequenas empresas que querem pagar contribuições menores à Previdência Social. no aparelho administrativo e judiciário. um modo de regulação uma fase de relações sociais estabilizadas. utilizada por pessoas e. entre o Estado de Segurança e o Estado Concorrencial. apresentada a seguir. É. Funcionários públicos defendem a sua estabilidade. ele é um campo do conflito social. estruturalmente determinado e configurado em cada caso concreto por lutas sociais. Estruturalmente. Por intermédio do sistema tributário o Estado depende do bom andamento dos negócios.Juntamente com o Estado e o capital surgiu uma forma cindida de poder e espaço: aqui. o potencial de ameaças das greves de investimentos garante ao capital uma posição dominante diante dos trabalhadores: o ”Estado patriarcal” [Vater Staat] não representa apenas o interesse da coletividade. não podendo. Mas os donos do poder político exercem uma dominação apenas restrita sobre o seu território. o econômico. sistematizadas na sua tese de livre-docência (cf. Com isso. referida às áreas da economia e da política. Becker 1999). Falando em termos genéricos. podendo-se distinguir aqui. o poder do Estado: de outro. ele pode definir as regras do espaço de poder e sancionar as mudanças na regulação. independentemente da apropriação direta por parte do Estado. ponto de partida do exercício do poder (Demirovic 1997: 45). à guisa de formas concretas. Essa teoria. os bancos fazem exigências distintas das de empresas industriais. lá. uma estrutura estatal concreta e uma ação estatal concreta são sempre expressão de um compromisso social in loco e de um determinado posicionamento no sistema mundial. mas atua de forma estrategicamente seletiva. Este não possui uma essência universal ou uma identidade claramente delimitada. ele controla as armas. 25 . deve idéias centrais a Joachim Becker. O campo do Estado é excessivamente complexo e obedece também a regras internamente definidas. Mas na sua concepção fundamental.

26 . O processo de acumulação é significativo para as estruturas do poder precisamente porque nele são produzidos cada vez mais bens de uso necessários à vida. A regulação é um mecanismo que deve impedir tal acontecimento. mediante a utilização do homem e da natureza. sem que houvesse uma 31 Hübner (1990:140) distingue na esteira de Boyer (1986: 46) as seguintes cinco dimensões de um regime de acumulação: * o tipo da organização da produção e a posição dos assalariados no processo produtivo. * o modo de articulação com formas não-capitalistas. Se o processo pára porque ninguém compra mercadorias.D’ (mais dinheiro). Por isso transformações duráveis do processo produtivo conduzem também a padrões de consumo e estilos de vida duradouramente modificados. da produção até o consumo. um aumento da mais-valia absoluta baseia-se na extensão do capitalismo. que apesar disso obedecem a um determinado padrão. fala-se de estratégias de acumulação. mas a exploração no sentido rigoroso do termo só ocorre no processo produtivo. O comerciante compra mercadorias para poder embolsar o lucro depois da sua venda. produz um aumento do valor. Esse fenômeno perfaz em escala mundial o poder sobre o espaço do imperialismo. Por isso só se pode obter aumentos fracos da produção. um regime de acumulação caracteriza-se por regularidades do processo de acumulação. A indústria de bens de consumo e de bens de capital desenvolvem-se em grande parte sem ligação. referida também ao desenvolvimento das capacidades de produção nos diferentes ramos. tanto. à medida que o empresário embolsa parte do valor gerado no trabalho. À guisa de tipos ideais. mais significativa será a acumulação para a vida cotidiana no capitalismo. os operários trabalham e os empresários investem. * o horizonte temporal da formação e valorização do capital. De acordo com essa distinção. da natureza ou das pessoas. podemos distinguir. * a divisão do produto do valor em salários e lucros (bem como impostos). * a composição da demanda social. em estratégias de extensificação. porque sujeitos livres não-coagidos somente trocarão objetos de igual valor. que atingiu a sua dinâmica mais elevada na virada para o séc. as técnicas de produção permanecem na sua maior parte inalteradas. Aumenta o número de horas de trabalho prestadas por toda a sociedade. passando pela comercialização. o aumento do valor deve ocorrer no processo produtivo. Uma acumulação estável baseia-se no comportamento rotinizado dos atores principais. A mais-valia absoluta aumenta com a inserção de novos grupos populacionais no processo de valorização. À medida que cada vez mais pessoas produzem de modo capitalista. todo o sistema entre em crise. Regime de acumulação O processo de acumulação abrange o processo de trabalho no qual são produzidos. Por meio de padrões comportamentais rotinizados pretende se assegurar que todos os atores cumpram os seus papéis: os consumidores compram mercadorias. Pode-se diferenciar entre dois tipos distintos de apropriação da mais-valia absoluta e da mais-valia relativa. especialmente também a questão do financiamento. portanto. que permite a reprodução dinâmica de classes e grupos sociais. Quanto menor for a possibilidade de apoiar-se na economia de subsistência e produzir bens de uso por meio do trabalho próprio. entre dois regimes de acumulação: o regime de acumulação dominantemente extensivo caracteriza-se por uma dinâmica da expansão social e espacial do capitalismo. Quando a ação empresarial se desenvolve de forma rotinizada. O processo de acumulação no ciclo D . produz-se mais-valia em termos absolutos. tal como esta se encontra formulada na economia política clássica e em Marx. quer por um aproveitamento mais intenso do espaço ou do tempo. mas a análise da integração de normas de produção e de consumo perde importância diante de um exame da estrutura macro-econômica. Mas como no mero escambo não pode ocorrer nenhum aumento do valor. Mas a mera ação rotinizada das empresas ainda não cria nenhum regime de acumulação enquanto estrutura total estabilizada31. que o capital deve percorrer para que ao fim o resultado seja maior do que o que o capitalista investiu inicialmente na sua empresa. No marxismo a fonte do poder radica nesse fenômeno. Empresas tomam constantemente decisões sobre investimentos. A acumulação enquanto acúmulo de valores processa-se das maneiras mais distintas imagináveis. abstração feita da mecanização. No interior dos espaços nacionais de poder em vias de consolidação aumenta a massa dos trabalhadores assalariados.M (mercadoria) . as operárias fazem greve ou o empresário torra o dinheiro.D’ abrange todo o processo econômico. O processo produtivo caracteriza-se pela cooperação simples. Trata-se do ciclo D (dinheiro) . bens de uso em um processo no qual o capital é aplicado de forma lucrativa. organizacionalmente vinculada aos meios de produção. ambos possibilitados por estratégias de intensificação. Nesse a mercadoria da força de trabalho. A concepção da regulação continua a da reprodução.plano.M . XX. A mais-valia relativa pode ser aumentada mediante aumentos da produtividade ou mediante um barateamento dos bens de consumo.

Por isso não se pode mais produzir um esquema de reprodução enquanto soma de equações matemáticas. a indústria calçadista e moveleira. A migração solapa o mercado nacional de trabalho e os investimentos diretos solapam o mercado nacional financeiro. 35 Um modo de regulação caracteriza-se comumente pelas cinco seguintes formas estruturais (institucionais): * o Estado e sua organização informam sobre o tipo da intervenção estatal na economia * a relação monetária produz a ligação entre as acumulações passada. O mercado de trabalho competitivo e o grande exército de reserva praticamente não permitem uma majoração dos salários para além do nível da subsistência.e essa é a segunda concepção central da teoria da regulação. que deve regular a temperatura interna em um prédio35. 34 Exemplos típicos de regimes de acumulação intensiva são para Faria (1995: 10) as indústrias metalúrgica e química. Mais decisivo do que a dinâmica específica dos ramos é. presente e futura * a forma do regime internacional decide sobre a articulação dos regimes nacionais de acumulação com a economia capitalista mundial * a relação salarial informa sobre a produção específica e apropriação do produto do valor. que em contextos histórico-geográficos sempre produzem uma determinada combinação. chamado fordismo.o avanço econômico para novos espaços . Mas esse acesso é extremamente deficiente e deve ser substituído por uma visão do regime de acumulação. Trata-se de auto-organização. Com isso ele alude à circunstância de que em uma fase de capitalização total de setores outrora não-capitalistas os ramos citados se revestem de grande importância. i. ao que parece. segundo a qual esse é compreendido como campo de poder econômico. 33 ”[Ford] fragmented tasks and distributed them in space so as to maximize efficiency and minimize the friction of flow in production. específicas para cada caso * a relação concorrencial informa sobre o grau de concentração e centralização de capitais e sobre o modo da 27 .foi uma estratégia amplamente difundida de regulação fordista. Hübner 1990: 141). Modo de regulação Um modo de regulação . o regime de acumulação dominantemente intensivo está orientado para dentro. como e. assim juros mais elevados aumentam o preço do dinheiro e reduzem assim o índice inflacionário. a indústria de papel e a indústria eletrônica (cf. he used a certain form of spatial organization to accelerate the turnover time of capital in production” (Harvey 1989: 266). sobretudo em virtude da taylorização e da esteira mecânica33. Como o capital é uma relação social. Um esquema de reprodução que analisa a produção e a reprodução está vinculado a um receptáculo fechado e abstrai do espaço de entrelaçamento internacional. É importante reter aqui que no caso dos regimes de acumulação extensivo e intensivo se trata de tipos ideais. sobre os quais se estrutura a acumulação extensiva. Tocante ao espaço. Assim a valorização das periferias nacionais . pode-se observar já na organização da fábrica elementos de intensificação. O automóvel e a urbanização rasante revolucionam nesse modo de desenvolvimento. Uma grande parcela do consumo ainda é coberta com mercadorias do setor não-capitalista. similarmente a um termostato. Esse campo apresenta determinados pontos nodais. o fato de que a ampliação das possibilidades de consumo não anda diretamente de mãos dadas com uma modificação das condições de vida dos assalariados. Também no tocante ao espaço a dinâmica da acumulação é extensiva e consiste mais na ocupação de novos espaços do que em um aproveitamento mais intensivo dos existentes (na forma da urbanização). o cotidiano nos lares e aumentam a dependência de uma parcela crescente da população de uma renda monetária34. In effect. O capital é um poder sobre o espaço. Esquemas de reprodução. uma determinada causa conduz ao efeito sempre igual. no entanto. no entanto. as decisões sobre o dinheiro ou os investimentos. Do ponto de vista da mecânica do poder. Como segundo tipo ideal. pois as condições tecnológicas e sociais de produção sofrem uma transformação. fazem de conta que o capital age em um receptáculo.estabiliza as relações sociais em um espaço de poder. Caracteriza-se por taxas de aumento duradouramente elevadas da produtividade do trabalho. pois a produção fordista em massa para o consumo das massas conduz a uma nova norma de consumo entre os assalariados. uma estratégia política baseada na intensificação. ao lado do regime de acumulação . a indústria têxtil e de confecções. é. sendo que a 32 Faria (1995: 10) denomina como ramos típicos da indústria. a indústria de gêneros alimentícios e bebidas. No caso do regime de acumulação dominantemente extensivo. mas as suas fronteiras não são mais claramente definidas. esse regime de acumulação se caracteriza pela intensificação dos usos do espaço e por um processo maciço de urbanização.integração de todo o processo produtivo32.g. assim se pode investir apenas o que foi poupado na economia interna. As condições de vida dos assalariados sofrem uma transformação radical. como no caso do regime dominantemente intensivo as estratégias extensivas não são inteiramente abandonadas. a análise do regime de acumulação é uma análise integral.

Se o dinheiro não cumpre as suas funções. muitas vezes é compreendida como a forma estrutural ”fundamental”. economias nas quais o trabalho assalariado não estrutura o processo produtivo. i. já descrito em detalhe. planejado. da regulação. específicas em cada caso (Hübner 1990: 177-188) e está vinculada a um espaço concreto e à territorialização em virtude do caráter material do processo produtivo. que se baseia na existência de complementaridades estáveis. modos de negociação e normas sociais. v. A relação salarial.). presente e futura (Görg 1994b: 121-127). i. O fator espaço forma uma unidade com o tempo e o fator social. um modo de produção baseado no escravismo não é compatível com a estrutura capitalista fundamental. No esquema de reprodução D . O regime monetário está assim estruturalmente vinculado à legitimidade” (Pereira 1998: 141). A dimensão espacial e também a inserção internacional devem ser incluídas na reflexão. que necessita de sujeitos econômicos livres.regulação social é um processo de estabilização de padrões de ação. por ocasião da análise das quatro outras formas estruturais (sobre a derivação das formas. Somente um governante soberano saberia regular processos sociais à maneira de um termostato. sendo as crises o estado normal.M -D’ o dinheiro se torna mercadoria. 28 . que concorrem em mercados atomizados.. Quatro36 formas estruturais distintas. Mas o valor do objeto de troca é determinado pela estabilidade interna e externa do valor da moeda. não são economias capitalistas. ”O dinheiro representa uma das formas principais de uma representação coletiva. do qual participa uma multiplicidade de atores. pois decide sobre a distribuição da mais-valia (Aglietta 1987: 111 ss. Faria 1998a: 171-175).]. o grande e o pequeno capital. A relação salarial informa sobre a produção e apropriação do produto do valor. O pressuposto da estabilidade do regime internacional é a concordância do mapa da divisão internacional do trabalho com as formas da regulação internacional. ”O regime internacional é uma configuração de espaços econômicos e do seu nexo. territorial. é. mas a regulação (Hübner 1990: 33 ss. o capital financeiro e produtivo. Ele é a premissa da uniformização de valores sociais no processo de valorização (Aglietta 1987: 328 ss. A relação monetária permite a realização de valores e produz a ligação entre as acumulações passada. concretamente deve se distinguir entre o capital do Estado e o capital privado. A relação concorrencial regula a concorrência entre os proprietários. Por conseguinte. oligopolistas ou monopolistas. a regulação se subtrai em parte à apreensão direta pela ação e se afigura então como mão invisível. Ela decide sobre a articulação de regimes nacionais de acumulação com a economia capitalista mundial (Arrighi 1993. formação dos preços. a relação entre capital e trabalho. mas a dependência direta dos escravos inibe a difusão de normas capitalistas de produção e consumo. Deve-se fundamentalmente distinguir entre formas competitivas e formas corporativistas. é. É certo que o escravismo é uma forma de acúmulo de riqueza. por sua vez assegurada pela respectiva instância de regulação. em duas palavras. Mas quando elas estão integradas na economia mundial capitalista. A afirmação ”O Estado regula” seria uma aplicação dessa idéia de regulação. cria rotinas e normas. A regulagem é apenas o setor parcial estatal. 36 A rigor é costumeiro falar de cinco formas estruturais e analisar aqui a forma do regime internacional. a posição econômica e política” (Nasr 1998: 36 e 39). o poder não produz a regulagem. relações sociais estabilizadas. Assim o sistema se torna suscetível a crises também nesse caso.). i. Como isso condiciona processos complexos.. pois determina o status de todo e qualquer membro individual enquanto proprietário de mercadorias. asseguram que a ação individual seja compatível com as exigências estruturais e sistêmicas (Hübner 1990: 174): o Estado. a relação salarial. assegura a acumulação progressiva do capital e possibilita a intensificação da divisão internacional do trabalho. Becker 1999). o capital internacional e nacional. Estas são utilizadas no processo produtivo. que dizer.). meio de produção e força de trabalho. a relação monetária e a relação concorrencial. o processo de acumuação pára. O valor é assim expressão da soberania dessa instância. Ocorre que a regulagem é um processo complexo. ocorrendo também nesse caso crises ou um colapso das estruturas capitalistas. O dinheiro é a terceira forma estrutural do capitalismo. O poder produz comportamentos. Na esteira de Joachim Becker (1999). Informa sobre o grau de concentração e centralização do capital e o tipo de formação de preços (Aglietta 1987: 215 ss. A ele subjaz a apropriação privada da terra no processo da acumulação primitiva. pois ele lhe permite adquirir o que quiser com o seu poder aquisitivo e lhe possibilita igualmente vender a sua força de trabalho. Um modo de regulação pode ser definido como interligação de regras explícitas. deve-se supor que as estruturas interna e externa não se coadunam. para tornar-se D’. Mas a regulação [Regulation] é mais complexa do que a regulagem [Regulierung] na qual está em jogo apenas a utilização monitorada de meios. é.). Poder executar uma política monetária soberana é uma das competências nucleares dos estados nacionais modernos e contribuiu para a homogeneização do espaço nacional enquanto espaço da circulação de mercadorias. não há espaço para essa categoria em uma análise do poder sobre o espaço. Aqui ocorre também uma distribuição dos potenciais de crescimento entre os respectivos espaços econômicos [. mais dinheiro do que o montante originalmente aplicado. a saber. No longo prazo.

mas deve examinar também os entrelaçamentos econômicos e políticos de sistemas regionais de produção e de regulações sociais. que percorre determinadas etapas na direção de um objetivo. 1. O desnudamento de camadas geológicas. A análise nacional não está apenas localizada no plano nacional. pois o novo se sobrepõe por assim dizer como uma camada ao antigo. Nem o plano supra. Disso resulta que na representação textual e gráfica as periodizações de toda a sociedade não são exatamente pertinentes para as formas sociais identificadas como não-determinantes. São importantes ainda a situação concorrencial na região e a inserção da região em regulações. uma representação histórico-geográfica do espaço e do poder é difícil por várias razões. Em segundo lugar. a assincronia das evoluções nas diferentes áreas dificulta a periodização. Do ponto de vista empírico. como isso ocorre no quadro de uma análise do espaço e do poder. Quando e onde a estabilidade e as rupturas são 37 . O colapso da(s) forma(s) dominante(s) inaugura quase sempre uma crise. São áreas cronologicamente representadas que se interrelacionam enquanto processos. mas são apresentadas seqüencialmente no texto. A regulação fixa por intermédio do Estado ou da sociedade civil regras para um território e conduz a padrões de ação territorialmente consolidados. ela depende em partes substanciais do material estatístico do cálculo do rendimento da economia regional e de uma representação matemática. i. de modo que no novo o antigo subsiste em forma e intensidade distintas. a saber na nação. que impele na direção de transformações. e o trabalho enquanto duas formas sociais fortemente diferenciadas em termos regionais. Aqui se examina sobretudo a acumulação e regulação regionais concretas e a sua posição no espaço nacional de poder38. Uma análise regional debruça-se sobre um território nacional parcial.À guisa de conclusão. A teoria da regulação surgiu em oposição a uma concepção do tempo lógico. gerar uma teoria da regulação espacial que leve em consideração a regionalização de processos sociais. Ao invés dela. uma viagem através dos tempos. Como se trata da distribuição do produto do valor. Devido às debilidades das estatísticas regionais não se pode fazer nenhum exame aproximadamente tão preciso como no plano nacional. Esta seria um receptáculo no qual transcorrem determinados processos de Economia Política37.4 Tempo Analisar por um período de 500 anos a evolução do Brasil é uma empreitada historiográfica. é. seria também desejável uma representação cronológica de momentos isolados. Nesse sentido a teoria da regulação enquanto produção de teoria é marcada pelas condições gerais de matriz fordista. Mas as formas individuais possuem dimensões distintas. Cada forma social possui a sua própria lógica e modifica-se segundo as suas próprias leis. portanto repetível a qualquer hora. integrar a espacialidade na análise nacional outrora não-espacial. identificar a forma estrutural dominante. e datar as rupturas evolutivas nesse momento. 38 Com vistas ao regime de acumulação o marco geral da análise não pode ser simplesmente transferido ao plano regional. A totalidade das formas sociais resulta em uma ordem social mais ou menos estável. mercados e entrelaçamentos de capitais transregionais. por outro. pois as manifestações concretas da coação à acumulação do capital são examinadas. exige também uma conceitualização específica do tempo. a excavação em busca das raízes. A regulação e a acumulação referem-se uma à outra. Em primeiro lugar uma apresentação do regime de acumulação deve forçosamente considerar as formas estruturais que conduzem a uma estabilização. Por isso se deve trazer à luz também a hierarquia das formas individuais. quero mostrar ainda o que significa falar de regulação como produção de territórios.nem o plano subnacional são suficientemente reconhecidos na sua importância. No receptáculo ”nação” consumar-se-ia a reprodução do capital – a produção e o consumo. independentemente do grau de estabilidade que outras áreas sociais logram atingir no curto prazo. Uma análise exata de processos de desenvolvimento quantitativo não é possível. Mas o componente de teoria da ação desse enfoque histórico enfatiza que o capitalismo não obedece a nenhuma lei própria da acumulação do capital. uma coação estrutural que impele sempre de novo a configuração concreta das formas sociais na direção do seu limite (Görg 1994a: 56). Existe. 29 . o Estado e a sociedade civil. Aqui a análise se concentra em um determinado espaço de poder. Por isso uma teoria da regulação regional deve concentrar-se no aspecto da organização e estrutura da produção regional. Assim o regime de acumulação e os modos de regulação podem ser analisados em planos espaciais distintos. Estes influem na acumulação e regulação nacionais e criam um determinado poder sobre o espaço. no entanto.mesmo que esse recipiente tenha sido compreendido como permeável em virtude da forma institucional da ”inserção internacional”. Em terceiro lugar. Além disso devem ser analisados o Estado ampliado. O programa de pesquisa da teoria da regulação implica uma análise espacial. Uma teoria espacial da regulação deve evitar tais reduções e cumprir dois objetivos: por um lado. ela opera com a concepção do tempo histórico e baseia-se num modelo de fases da evolução histórica.

às quais essa ação história se vê submetida. difunde-se a consciência de que ”os homens fazem a sua história” e as coações. Não em último lugar. não é um simples ”achado” (Lipietz 1992: 29). ao passo que outras preservam a sua estabilidade. estáveis. por conseguinte. efetuada simultaneamente com a análise concreta. os enfoques de Economia Política não bastam. sobretudo no tocante a problemas organizacionais e discursivos. Jessop (1996: 124 s. devem ser examinados com outras teorias sociológicas e com um enfoque metódico mais amplo no caso concreto (cf. Nesse sentido o presente trabalho culmina na análise da conjuntura no cap. Estas encerram uma fase de estabilidade e conduzem talvez a uma nova fase de estabilidade com uma nova configuração das formas estruturais. Muita coisa parece possível. seja porque só examina estruturas.). em algumas áreas sociais mostram-se fenômenos de crise. i. 8 e 9). abertos à apreensão pela práxis. Este é o tempo e o lugar no qual os homens ”fazem geografia e história”. 39 Para tal. um tempo concreto. Nesse momento conjuntural do ”presente” a história está aberta. Ao lado dos momentos estruturais. mas todas as formas estruturais perdem a sua estabilidade. afiguram-se mutáveis em tempos de crise. cap. uma caminhada na corda bamba. a seletividade estratégica do Estado favorece um fim da crise que assegura a continuidade da estrutura do poder. 4 que integra as análises que privilegiam ou a dimensão da estrutura ou a da ação. Muito pelo contrário. mas perde-se a referência ao plano da ação. Inversamente. Esses últimos dispõem de um conhecimento factual insubstituível. A abertura de situações de crise torna estas interessantes para a ação política.39 A consideração da inserção estrutural de acontecimentos concretos distingue uma análise da conjuntura enquanto trabalho científico do trabalho empírico freqüentemente excelente de jornalistas e de comentaristas políticos e econômicos. Uma análise do poder sobre o espaço pode tirar proveito da integração de análises marxistas da totalidade social e de uma análise foucaultiana da micropolítica e do poder atuante nas dimensões da organização e do discurso (cf. Resta. O lado forte de uma análise do regime de acumulação e do modo de regulação está em ela fornecer uma teoria praticável da estrutura. desaparecem do campo visual. e a superestimar o poder de leis sociais. com eles. O antigo está desacreditado (Grasmci 1971: 276) e uma virada se afigura possível (Hirsch 1992: 230 s. constantemente exposta ao risco de suspender [aufheben] a relação de tensão dialética em benefício de opções de ação ou da lógica da estrutura. é. i. as estruturas de fases anteriores. 4). a teoria da regulação fala de ”grandes crises”. Isso tem um significado decisivo para análise de poder sobre espaço.de conflitos políticos e ideológicos concretos. Uma conjuntura é um tempo específico de espaço. Justamente por causa disso essa análise deve aceitar a crítica de unilateralidade estrutural. Quando não apenas um ou outro arranjo institucional estão sendo questionados. Só quando se logra suportar essa tensão. é possível compreender o poder sobre o espaço. A ação transformadora nunca ocorre sincronicamente em todas as formas sociais. de dados e informações sem as quais uma análise da conjuntura não é possível. o futuro da estrutura pode ser percebido de forma pouco nítica. uma hierarquia entre a teoria marxista e a crítica de Foucault: a primeira oferece um arcabouço teórico para compreender a sociedade enquanto um todo. em uma estrutura (Fiori 1995: 12ff. A regulação produz a estabilidade em uma formação social muito suscetível a crises. similarmente às instituições.seletiva . A análise exclusiva de estados estáveis praticamente não deixa espaço para os atores.) também considera o elemento de ação no quadro do seu enfoque ”estratégico-relacional”. Uma análise do poder sobre o espaço é. O elemento de teoria da ação deve ser assegurado no quadro de uma análise da conjuntura de um modo que vai além da teoria da regulação. os analistas de estruturas tendem a eliminar do seu foco de atenção justamente essa dimensão conjuntural. crises. Nexos importantes dentre os percebidos. seja porque estas se comportam mecanicamente e obedecem a rotinas. Mas em crises e durante a busca de novas ordens institucionais e estruturais ganham importância os atores e. contudo. a abertura . no entanto. um ”presente” que se realiza em uma onda longa. ele admite também momentos concretos. a respeito Jessop 1990: cap. que distingue entre fases estáveis e fases inestáveis.). Novy 1998. é. Por isso as crises são fenômenos histórico-geográficos e desembocam freqüentemente em grandes conflitos sociais.localizadas é portanto uma questão de central importância para a teoria da regulação. Em tais momentos a ação ganha importância a expensas das estruturas. 30 . É possível analisar estruturas mais profundas de poder sobre o espaço. Coisa semelhante vale para os atores locais concretos. Análises contextuais de poder que tendem a superestimar o respectivo palco do poder e o ”exercício” do poder. Estruturas que em fases estáveis muitas vezes não são questionadas ou nem são percebidas. mas a estrutura pouco clara de crises e o conflito em torno da atribuição de sentido a esses processos observáveis dificulta a produção teórica. superestimam o grau de liberdade dos atores e subestimam a inércia do status quo. Mas a solução dessas crises não representa nenhum acaso. Crises manifestam-se como rupturas na reprodução das relações sociais em um espaço geográfico (Boyer 1987: 61) que simultaneamente é um espaço concreto de poder. o fator da ação. ainda continuam produzindo efeitos em tempos de crise. Mas como eles desistem de efetuar uma análise estrutural. ganham a sua força explicativa apenas por meio de uma análise estrutural.

Foucault sempre se interessou mais pelas coisas miúdas. ”Muito pelo contrário. Para a pergunta pelas margens de ação existentes. precisamos desembaraçar-nos de vários dogmatismos e várias delimitações convencionais. A compra de votos ou o paternalismo são instituições dessa natureza. No quadro de análises espaciais de estruturas são representadas as configurações [Ausformungen] concretas de estruturas que permanecem constantes durante um período no espaço e no tempo. Nesse empenho. o questionamento criativo do modelo marxista e a compreensão aprofundada de lógicas e estratégias de ação. which signifies the assumption underpinning any realist scientific enquiry that ´everything that happens is caused´” (Jessop 1990: 12). i. Mas a sua negação da existência de estruturas profundas é falsa. Estruturas consolidadas em 500 anos subtraem-se à simples apreensão pela ação. i. i. Embora ambos tenham sido temporariamente membros do Partido Comunista. contudo. Foucault alguns flashes. Na esteira de Jessop defino a relação entre economia e política como ”contingentemente necessária”42. Não obstante. cuja forma se pode alterar rapidamente no processo de modernização. pois resultam de uma estrutura social profunda. é.enquanto totalidade. 42 ”Whereas ´contingency´ is a logical concept and concerned with theoretical indeterminability. podemos observar diversos arranjos institucionais e lógicas distintas da ação. mas ela é. é. Scherrer (1995: 462) constrói a partir disso. assim como a maioria dos marxistas. de uma ordem antiga. Por ocasião de uma alteração de todas as manifestações de formas estruturais falo igualmente de alteração estrutural. ”casualmente” uma ordem nova. o ”momento de indeterminação no movimento do tempo estrutural” (Fiori 1995: 11). i. é. de estruturas que são elementos constituintes do capitalismo. it can properly be juxtaposed to the notion of ´necessity´. uma crítica em termos de análise do discurso: todas as relações entre identidade. Uma leitura atenta sobretudo dos últimos escritos de Foucault lança uma nova luz sobre a sua relação com o marxismo e relativiza o seu ”estruturalismo”. Thus ´contingent´ means ´indeterminable within the terms of a single theoretical system´. Becker 1998b). é. Por sua vez. Ele lança uma advertência contra o banimento da contingência de evoluções sociais para a ”pedreira” [”Fundgrube”] histórica (liepitzschiana). segundo a qual surgiria. Não admira que um partido leninista pouco se tenha interessado por um tal crítico e vice-versa. Marx fornece o fio condutor. a análise opera simultaneamente em três níveis. devendo ser complementada por outros enfoques interdisciplinares. Com isso evito igualar a estrutura com necessidade e a ação e o sujeito com contingência. Uma análise das ”formas estruturais” supõe para determinados tempos-espaço nexos constitutivos entre as diferentes formas sociais (Aglietta 1987. interligando-os. para analisar a economia e a política como uma unidade. depois do que existiria novamente a coação à estrutura (Scherrer 1995: 473). que permanecem relativamente constantes durante várias décadas em um lugar. cujos alcances espacio-temporais são mais restritos (Görg 1994b: 111-115)41. Isso se espelha também nesse trabalho. inscritas profundamente no espaço e no tempo. a segunda fornece diante disso o aguilhão da crítica. 31 . O marxismo fala de estruturas específicas às formações. os dois foram companheiros de jornada nos conflitos políticos concretos (Schmid 1991: 109-111). da microfísica do poder40. tomada isoladamente. em contrapartida. Foucault foi tachado de apolítico e como pessoa desinteressada na práxis transformadora. 41 Para a compreensão da ”transformação estrutural” é necessário definir o alcance espacio-temporal de estruturas. A advertência de Scherrer contra adensamentos estruturalistas e a ênfase em uma abertura fundamental do futuro é correta. as necessidades e a 40 Análises de conjuntura visam a investigação de evoluções concretas na Economia Política. Mas no interior dessa formas estruturais. pois um nova estrutura total está surgindo. A análise marxista fornece com o processo de valorização a estrutura unificadora do processo. interessaram-se por coisas distintas: Sartre. na esteira do conceito da ”contingência radical”. Sartre representava aqui a defesa da política que carece do sujeito enquanto ator conscientemente agente. Analisa-se em um tempo-espaço concreto processos estruturais e institucionais assim como eventos. falo também de manifestações concretas das formas estruturais em diversos modos de desenvolvimento. Inversamente uma análise estrutural tende a subestimar as margens de ação dos atores em situações concretas. o conflito aparentemente muito abstrato sobre se as formas sociais do capitalismo são institucionais ou estruturais tem um grande significado. insuficiente para compreender exaustivamente a conjuntura. pelas estruturas organizacionais internas. isso ajuda para uma análise do poder sobre o espaço enquanto análise estrutural. estava interessado na evolução da totalidade social e nas relações de dominação nela atuantes. articulando todos os três planos entre si. Quero tentar sobretudo tornar fecundo o potencial contido nos trabalhos de Foucault. interesse e posição sociais deveriam ser pensadas como contingentes. pelo evento aparentemente destituído de importância. Durante muito tempo o conflito entre Jean-Paul Sartre e Michel Foucault sobre a ”morte do sujeito” foi visto como conflito entre duas posições inconciliáveis. i. especialmente. é. ´necessity´ is an ontological concept and refers to determination in the real world. Ao lado desse conceito de estrutura da ”longa duração”.

). à ordem da estrutura. em consideração a vinculação da ação ao seu contexto e remete-se. com ajuda do conceito da necessidade. há sempre processos que atuam na direção da transformação. 43 ”Indeed. Mas as estruturas mais além elaboradas limitam o espaço de possibilidades para a alteração dos campos sociais. leva-se. 1999). Com isso também as análises da conjuntura refutam a abertura radical da história. Estratégias de poder e acumulação são perseguidas por atores coletivos. a serem amplamente tratados no capítulo 4. Análises de conjunturas são importantes sobretudo na análise de transições (Fiori 1995: 54 s. a rigorous application of discourse-theoretical principles would question the necessary fixity of the macro-level as well as the apparent fluidity of the micro level” (Jessop 1990: 246). A crise econômica mundial de 1930 e a crise da globalização depois de 1980 representam tais momentos históricos abertos (cf.43 No enfoque de Economia Política as estratégias assumem um papel central sobretudo nas análises de conjunturas. equilíbrios sociais são estados de exceção. Como a ordem social contemporânea é conflitiva. A análise da conjuntura implica a abertura fundamental do futuro. i.contingência sempre estão interligadas em estruturas” (Görg 1995: 629). definidos essencialmente pelos seus interesses de classe. Feldbauer et al. com ajuda do conceito da contingência. é. No lugar disso. para reduzir o nível de abstração da análise e chegar à análise de situações concretas. A importância desses atores resulta da análise das estruturas. 32 . A abertura não é gratuita. embora estas sejam menos persistentes do que estruturas. a ”contingência radical”: conjunturas também estão sujeitas a regras. uma alteração isolada de manifestações concretas de formas estruturais não pode ser mantida no longo prazo. Tais análises permitem unir o tempo histórico com os movimentos estruturais que se estendem pelo espaço e tempo (Fiori 1995: 10).

A presente análise foi escrita quando o Brasil tinha implementado depois de 1994 um programa de estabilização. Muito pelo contrário. para que possamos reconhecer instituições e estruturas duradouras. Somente após a consideração do outro lado. o Plano Real. o endividamento e a pobreza são um lado da moeda. mas o poder histórico-geográfico dos seus agentes produziu seus efeitos na ideologia da globalização. No receptáculo Brasil o clima predominante é tropical e subtropical. o regime de acumulação e o modo de regulação constituem os três conceitos fundamentais com os quais se designa fases de estabilidade. O espaço-receptáculo da nação. nenhum espaço de poder claramente delimitado. O modo de desenvolvimento. Por isso se faz mister dispor de conceitos claros. na qual diante de tanto progresso não mais parecia haver lugar para os pequenos. O Plano Real compreendeu-se como plano de estabilização e ajudou efetivamente a estabilizar uma determinada espécie de ordem que quero desmascarar como des-ordem. regras normatizadas de produção e consumo e padrões políticos não-questionados. As suas fronteiras atuais somente foram estabelecidas definitivamente no séc. mas transformações no espaço social. atuantes durante períodos mais longos. que reduziu por vários anos drasticamente a inflação. como El Niño ou o aquecimento global. também o seu campo circundante. Um modo de desenvolvimento é um campo de poder ao qual subjazem estratégias estabilizadas de acumulação. lógicas rotinizadas de ação. A análise da produção de territórios é tão importante quanto a análise do território concreto.2 Construção e destruição do fator nacional no Brasil ”As ruínas de uma nação têm a sua origem na casa dos seus pequenos cidadãos” (Provérbio africano. repleto de atores e processos sociais. podemos compreender porque esse plano foi uma cesura na formação da nação brasileira. um espaço dotado de sentido para os que nele viviam (Furtado 1976: 1). há milhares de quilômetros de costa e um gigantesco planalto. Mas o que interessa aqui são as transformações nesse receptáculo. Com a chegada dos portugueses em 1500 a situação do receptáculo se alterou fundamentalmente. dinheiro. da dimensão profunda e estrutural do Plano Real. citado segundo Couto 2000: 416) O que é o Brasil? Um receptáculo. políticos e econômicos. determinados padrões de ação. Um regime de acumulação e um modo de regulação fornecem a manifestação concreta das formas estruturais capital. O espaço se estruturou de tal forma que determinadas decisões tomadas pela instância central se revestiam de significado para todo o espaço. cruzamentos de rotas comerciais e enclaves de produção. Essa destruição foi um projeto estrutural. a produção de espaço. A partir de um espaço em si surgiu. foi considerado um grande êxito. Fernandes 1987: 27). Em fases estáveis o 33 . localidades individuais se transformaram em bases militares de apoio. O Brasil ainda não era nenhum terrritório. A dimensão nacional está construída socialmente ou é descontruída socialmente. a produção da nação enquanto território foi um processo multissecular. o poder sobre o espaço do desenvolvimento internacional. no qual uma parte da América do Sul se transformou no Brasil enquanto espaço de poder sui generis. isto é. repleto de natureza. A construção multissecular da nação e do Estado foi seguida por poucos. ao lado do espaço concreto. com as quais esse modo de desenvolvimento é estabilizado. Por isso devemos incluir na análise. Novas pessoas e novas coisas chegaram ao Brasil. vale dizer. coisas e pessoas? Enquanto espaço geográfico na América. foram exportadas outras coisas que no espaço global se transformaram em matérias-primas e mercadorias. em meio a um processo histórico. vale dizer. Mas diante do pano de fundo de uma história de 500 anos de espaço e poder eles representam apenas as transformações na superfície. Mas o território da nação é um produto histórico-geográfico e não um receptáculo: foi produzido e pode ser destruído. mas extremamente intensos anos de destruição. o Brasil já existe há muito tempo e serviu a distintas comunidades humanas como espaço de vida. tais como ordenamentos referentes a trajes e regras de boa conduta se unificaram nesse espaço assim como a maneira de processamento do comércio de longa distância ou a exploração do solo. De início esse plano. XX. Os efeitos de curto prazo sobre a inflação. depois da desvalorização de 1999 e da recessão de 1998 e 1999 a avaliação já foi bem menos eufórica. Dessa forma o poder sobre o espaço que atuou a partir da Europa sobre a América constituiu liminarmente um espaço de entrelaçamento. E aqui não estão em primeiro plano acontecimentos da natureza. constitui o ponto de partida da análise subseqüente. Estado e trabalho. no qual e sobre o qual se exercia a dominação. o desemprego. subjaz a uma transformação permanente (cf.

Ilustr. como dado de orientação prévia. subdividido nos seus estados 34 .e esse é o cerne da minha tese sobre a des-ordem . pois as formas estruturais fornecem.desenvolvimento se processa em vias relativamente definidas. Quando depois de 1980 um antigo campo de poder entrou em colapso. a crise e a estabilização passaram a ser os novos conceitos centrais da política. padrões de ação retomados rotineiramente e sem questionamento pelos indivíduos. 7: O Brasil. Mas em uma sociedade conflitiva . mas na capacidade de um campo de poder de estabilizar os seus pontos nodais e as suas instituições por períodos mais longos e em espaços mais extensos.um tal campo estável precisa ser um tipo ideal cuja ordem é permanentemente solapada por processos contraditórios. Por isso a estabilidade não consiste na ausência total de quaisquer crises.

Centro-Oeste: MS .Rio de Janeiro SP .Rio Grande do Norte PB .Amazonas RR .Ceará RN .Espírito Santo RJ .Bahia SE .Nordeste: MA.Pará AP .Piauí CE .Maranhão PI .Paraná SC .Pernambuco AL .Distrito Federal Fonte: Novy 1994: 161 35 .Amapá TO .Tocantins NE .Acre AM .Rondônia AC .Rio Grande do Sul CO .Santa Catarina RS .Sergipe BA .Mato Grosso do Sul MT .Estados. grandes regiões e suas siglas: BR – Brasil NO – Norte: RO .Goiás DF .Roraima PA .Mato Grosso GO .Paraíba PE .Alagoas SE .Sudeste: MG .São Paulo PR .Minas Gerais ES .

em cuja superfície se travam os conflitos sociais. A espécie do espaço de entrelaçamento econômico. concentra-se precipuamente na endogeneização ou nacionalização do sistema produtivo. Esse fordismo periférico. e os palcos do poder.O presente trabalho re-interpreta a história do Brasil. O primeiro plano é ocupado aqui pela estabilização da economia e da política no plano interno. que abrange todo o campo de poder e estrutura em profundidade o desenvolvimento social. pois atribui um significado demasiado reduzido aos processos da economia política interna. As crises. Na terminologia de uma análise do poder sobre o espaço em termos de economia política o objetivo único é a análise dos palcos do poder. pois a sua concepção se orienta demasiado segundo a demanda e não efetua uma análise suficiente do Estado e da sociedade. A estabilidade é alcançada mediante uma congruência de regime de acumulação e modos de regulação. os espaços de poder. por suas vez. uma produção em massa para um mercado de massas apenas restrito. 3 Conceição (1989a: 204). Por isso a análise histórica de Furtado é também implicitamente uma análise geográfica das interações dos fatores nacional e internacional. Não acompanho Furtado na minha periodização. formas de organização e nichos de resistência têm uma duração muito menor do que as camadas mais profundas do campo de poder. 1889 (proclamação da república). As suas opiniões. Mas o tipo de acumulação e a espécie de harmonização de produção e consumo constituem também poder sobre o espaço. por outro lado. pois os pontos nodais do campo de poder são aqui de forma multiplicada internos. a economia escravista na mineração no séc. XIX e a economia de transição para a sociedade industrial no séc. Por fim. lançando os fundamentos de uma acumulação política. XVIII. sejam elas o regime de acumulação ou formas estruturais. pois o controle sobre decisões importantes é efetuado de fora. na qual Furtado se insere. como isso é necessário no quadro da teoria da regulação. 36 . baseada na industrialização substituidora de importações. essas vitórias e derrotas concretas. que durou até 1980. A regulação. A minha análise histórica também não pode ser mais do que a de Furtado um ”esboço do processo histórico da formação da economia brasileira” (Furtado 1975: 1). Fiori (1995a: 73) fala de uma fase de centralização para a estabilização da economia escravista (1820 a 1870). da superfície dos conflitos sociais. a crise econômica mundial de 1929 encerrou a fase da orientação para a exportação de bens primários. por sua vez. que realizou primeiramente a tentativa de uma periodização nos termos da teoria de regulação. Internamente as fases de surto criaram no Brasil enquanto tempos de espaço específicos. XVI e XVII. isto é. anos 80 (democratização). utilizados de forma fecunda para a análise do poder estrutural e de espaços de poder. O olhar em retrospectiva deverá permitir uma melhor compreensão do presente e do futuro da nação. que perdura até os dias atuais. à difusão do trabalho assalariado. Isso se dá mais facilmente em sistemas endógenos de produção. e isso produz em sistemas de produção com orientação externa um efeito de polarização e fragmentação. depois do breve ”milagre brasileiro” (1967-1973) amplia-se a crise da acumulação intensiva. por um lado.esse enfoque apresenta um fraqueza essencial. XIX levaram a uma decadência do interior do país. Não há como compreender a formação da nacionalidade brasileira sem a obra clássica de Celso Furtado. A crise da exploração do ouro e os problemas da economia externa no início do séc. ordená-los e territorializá-los. mas também a sua atuação política podem ser consultadas na sua autobiografia em três volumes (Furtado 1997 a. ”Formação Econômica do Brasil” (publicado originalmente em 1959)1. à ascensão dos militares e à fundação de partidos republicanos. interno e externo. ao passo que para a CEPAL as crises ocorrem em virtude de modificações da inserção na economia mundial3. situa a transição de um regime mercantil para um regime extensivo no ano de 1870. no intuito de compreender melhor rupturas e continuidades. 2 A deterioração dos preços do açucar encerrou o primeiro ciclo e criou o pressuposto da decadência do antigo centro do Brasil. Furtado (1975) distingue os quatro seguintes períodos: a economia escravista na agricultura tropical nos sécs. isto é. Mas a 1 Celso Furtado foi um dos fundadores da pesquisa em história econômica no Brasil e simultaneamente durante muitos anos ator no campo de poder no Brasil. A história política do Brasil recomendaria datar as rupturas em 1822 (independência). Em que pesem todas as suas vantagens. esses conflitos e estratégias. busca consolidar esses poderes sobre o espaço. Nesse trabalho são retomados enfoques regulacionistas e cepalinos. a transição ao trabalho assalariado no séc. 1964 (”Revolução de Abril” ou golpe militar). monitorada pelo estado desenvolvimentista. já entra em crise no final dos anos 50. b e c). pois a tradição cepalina. O presente trabalho é uma crítica de Furtado no sentido de que as suas importantes descobertas são em parte revistas e em parte desenvolvidas para além das posições do autor. 1930 (revolução varguista). Esse processo é paralelo ao fim da hegemonia britânica e do padrão ouro. baseado na exportação de café. espaços de poder respectivamente específicos2. XX. devido à ascensão dos barões do café. Mas a análise desses processos internos constitui justamente o cerne das reflexões fundamentadas na teoria da regulação. a sua endogeneização mais ou menos pronunciada é significativa para o poder sobre o espaço. resultam na teoria da regulação das rupturas na acumulação e regulação. Depois ocorre uma acumulação intensiva. discursos. crises e estabilizações da atualidade. pois o fundamento da minha própria periodização é a distinção entre o poder sobre o espaço. Com relação ao período de 1870 a 1930 ele fala de um regime de acumulação extensiva. mas criaram os fundamentos do surto da economia cafeeira. Via de regra. depois ocorre um processo de descentralização (1870-1914). do Nordeste.

num primeiro momento. ela constituiu o Brasil como território independente. o séc. não em último lugar. as estruturas do poder sobre o espaço. O regime de acumulação extensiva. A análise do palco nacional do poder aproxima-se da pergunta pelo espaço e poder a partir do outro extremo e descreve a história como história de muitos grandes homens e algumas mulheres isoladas. Ele mostrou o que perpassa toda a história do Brasil: na manutenção da ordem e estabilidade estão contidos os germes de rupturas. A crise da acumulação extensiva iniciou-se antes do golpe militar de 1964. Esses campos de poder sistematizados com ajuda de esquemas conceituais da teoria da regulação resultam da estrutura profunda da sociedade brasileira. o que.a Proclamação da República em 1889. Por um lado. O estudo do caso nacional inicia com uma análise estrutural. e a regulação compatível com ele constituíram. Faletto 1979: 139 ss. as evoluções nacionais e regionais.). na qual diversos modos evolutivos são representados como manifestações estabilizadas do capitalismo no Brasil. Assim a Tabela 2. Os atores não são meros portadores de estruturas. a sua vida não transcorre segundo um roteiro. já se prenunciava. na conseqüência. a conquista da independência nacional em 1822. Em 1930 foi novamente uma alteração da estatalidade que abriu para um ordenamento aqui e ali já germinalmente existente uma trilha cuja direção se tornou a seguir irreversível: a fase centrada no estado nacional. pois uma periodização em termos de teoria regulacionista. Mas nas profundezas do campo de poder. Agir é parte de um processo que consolida ou transforma o campo de poder subjacente. XIX ocorrem em si duas grandes rupturas políticas. ou o mais tardar em 1974. enquanto representação seriada de regimes de acumulação e modos de regulação. Até o início dos anos 80 tais transformações profundas ainda não eram perceptíveis na superfície e o estado nacional continuou sendo o ponto nodal da regulação. concentrado no dinâmico centro São Paulo. A análise estrutural examina o Brasil como se não existissem atores. não consegue. A seguir. com o fim do padrão ouro e a industrialização em vias de dinamização nos anos 20. pretendemos visualizar as vantagens de uma análise dialética. elaborada na esteira de Conceição (1989a: 204) e Faria (1995: 30) serve também apenas como ponto de partida e orientação da reflexão mais extensa. reproduzir essa dialética. Não obstante. tal como ela é empregada para estruturar a representação histórico-geográfica.atuação em palcos. o dinheiro e o trabalho estão organizados e intervinculados é estruturado pelo campo de poder. que analisa simultaneamente a estrutura profunda e os palcos. Por outro lado. empreendida a seguir. É importante chamar de saída a atenção a essa circunstância. durante um certo período dominantes. Só uma análise da conjuntura consegue por em relevo essa dialética de poder sobre o espaço e espaço de poder. portanto. o Estado. A crise eclodiu somente em 1981. XIX foi em ampla escala uma fase de transição. uma análise que compreende o desenvolvimento social como contraditório (Cardoso. 37 . no qual podemos observar palcos principais e secundários do poder. As análises de palco e da estrutura profunda distorcem a dinâmica da evolução que só logra explicitar seu potencial interpretativo integral em uma sinopse. conduziu gradualmente também a uma re-estruturação do espaço de entrelaçamento. assim como também a transformação profunda de formas estruturais concretas é o pressuposto necessário para preservar elementos essenciais da velha des-ordem. a saber. nos espaços geográficos e sociais concretos. Assim o Plano Real estabilizou uma des-ordem estruturalmente instável. e a Proclamação da República e conseqüentemente o fim do Império em 1889. Por fim. uma ordem relativamente estável porque eram garantidas pelo predomínio britânico. a ruptura de 1822 preservou inicialmente a velha rede de entrelaçamentos econômicos. tornando assim compreensível o significado histórico dos conflitos políticos e sociais. No séc. a transição foi ratificada por uma alteração do regime . As formas estruturais individuais modificaram-se com velocidade e intensidade distintas. uma transformação estrutural. não é apenas o desempenho rotinizado de papéis em uma encenação previamente definida. Objetiva-se. o fim do estatuto colonial e. Nesse sentido os capítulos 2 e 3 preparam o chão para a análise da conjuntura no capítulo 4. O modo pelo qual o capital. conseqüentemente. que se tornara dominante.

custeado por investimentos de longo prazo e modo de desenvolvimento orientado para o endividamento de curto prazo exterior migração internacional dinamiza mercado de trabalho sob dominação britânica demanda maior das camadas médias urbanas (dependente de importações) acesso mais difícil à terra é um empecilho para a produção de subsistência 1929 – 1982 acumulação intensiva centrada no estado nacional empresas industriais modo de desenvolvimento centrado no estado financiamento estatal (e estrangeiro) de longo prazo distribuição injusta. Adaptação do autor BRASIL 1500 – 1822 modo de regulação regulação colonial colônia portuguesa. em vias de internacionalização crise da acumulação intensiva.b). Faria (1995). sem acesso à com continuação da hegemonia dos EUA produção de subsistência Fonte: Conceição (1989a. política econômica mercantilista economia de escambo e do ouro escravidão (sistema da concessão de terras pelo rei) economia de enclave (falta do mercado interno) regulação nacional orientada para o exterior federação e crescente intervencionismo local padrão ouro (com instabilidades financeira e monetária) transição ao trabalho assalariado (depois que o livre acesso à terra não era mais possível) economia de enclave (germes de um mercado interno regionalizado) regulação nacional orientada para o estado desenvolvimentista estado desenvolvimentista nacional política nacional financeira e monetária autônoma corporativismo concorrência política no mercado interno enfraquecimento do estado nacional crise do estado desenvolvimentista nacional quase-dolarização do mercado de trabalho corporativista ao mercado de trabalho competitivo privatização e abertura do mercado interno 38 .Tabela 2:Sinopse dos modos de desenvolvimento do Brasil de 1500 a 1998 regime de acumulação acumulação baseada na escravidão economia açucareira (mais tarde: mineração) capital comercial modo de desenvolvimento colonial ”renda escravista” sob dominação européia demanda concentrada do barão do açúcar por bens de importação comunidades indígenas (exército de reserva). aumento das transações financeiras crise do modo de desenvolvimento centrado no estado deterioração da distribuição da renda esgotamento da urbanização e da ampliação da estrutura produtiva nacional sociedade inteiramente capitalista e urbanizada. ”tropicalmente fordista” nacional urbanização e complementação da estrutura produtiva asseguram sob a hegemonia dos EUA demanda interna (”fordismo periférico”) concentração fundiária assegura exército de reserva para a indústria a partir de 1982 acumulação estagnante. pecuária 1822 – 1929 acumulação extensiva plantação de café (germes de industrialização local) capital financeiro. fomento da acumulação extensiva.

baseadas no nomadismo sem pretensões territoriais definidas. Na periferia. Egler 1992: 20). enquanto elas fossem utilizadas no sentido previsto pela Coroa.) é decisivo registrar que os escravos não representavam um capital fixo. do direito de retirar a mais-valia produzida pelos escravos.1. Isso inibiu a formação da propriedade privada da terra e com isso de uma base de poder econômico dos produtores locais. O controle político serviu aos interesses fiscais do centro. a ”renda escravista”.1 História da estrutura profunda 2. Por isso até o séc. ao passo que o número dos não-integrados caiu de cinco a um milhão (Ribeiro 1995: 151). ”Favores especiais foram concedidos [. Da mesma maneira os escravos importados foram impedidos de preservar uma cultura publicamente vivida. transferido de Portugal para o Brasil. taxas e monopólios de uma parte do excedente. isto é. No entanto. religião e modo de condução da economia.1 Modo colonial de desenvolvimento sob dominação européia (1500 . A organização da produção baseava-se no açúcar5.” (Furtado 1975: 41). pois a cultura africana continuou viva nas esferas privada e semi-pública.)4. uma parte do excedente de um processo organizado de produção. O sistema econômico brasileiro depois de 1500 foi um capitalismo comercial. garantia contra a penhora dos instrumentos de produção.Em 1500 o português Pedro Álvares Cabral chegou durante uma navegação ao redor do mundo até o Brasil. Esse aparelho assegurou o fluxo de riquezas das colônias para a metrópole. muito pelo contrário. 4 Para Smith (1990: 206 ss. O detentor do poder disponibilizava terras aos colonos. Portugal apropriou-se pela via de impostos. o Brasil se tornou parte da periferia de um sistema que cada vez mais abrangeu o mundo inteiro. O escravismo constituiu a norma fundamental de produção. Chegou-se sistematicamente à destruição do Outro. Para a maioria da população situada na base a influência européia consistiu sobretudo na cristianização definidora do estilo de vida (Faoro 1997: 199). por via do endividamento.. Em termos políticos. Egler 1992: 26).000. passando pelo governador geral (vice-rei) e os capitães donatários (Faoro 1997: 176). Um quarto dos gastos para importações era consumido por escravos (Becker. cuja causa radicava em privilégios e monopólios politicamente concedidos. Taxas alfandegárias. A civilização européia providenciou assim o fundamento da ordem territorial. no sentido econômico isso representava uma renda. Tratava-se. Os entrelaçamentos com a Europa modificaram a tradicional estrutura social dos índios e a sua utilização do território. escravos e produtos beneficiados formou a base de uma acumulação fiscal baseada no escravismo. 39 . Portos fortificados na costa atlântica da África serviram de pedra fundamental para a colonização da Ásia e da América.2. A instituição central era o sistema das sesmarias. o controle fiscal do comércio o modo pelo qual os excedentes eram apropriados. ele foi inserido no sistema comercial capitalista sem que o modo de produção capitalista se impusesse. Internamente Portugal era um soberano forte com um poderoso aparelho burocrático-militar: o poderio português difundia-se a partir do rei até as autoridades municipais. o modo de economia mercantilista de Portugal baseava-se em uma forma de acumulação primitiva.] àqueles que instalassem engenhos: isenções de tributos. da sua cultura. Por isso os proprietários de patrimônios acumulavam valor na forma da propriedade de escravos. 5 O modo de produção isolado dos camponeses em terras ”livres” e excessivamente disponíveis e a produção para a satisfação das próprias necessidades teriam sido um obstáculo para essa estratégia de acumulação e foram sistematicamente impedidos (Smith 1990: 268). honrarias e títulos etc. impostos e taxas oneravam pesadamente os produtores brasileiros bem como as relações comerciais desiguais. O estilo estamental de vida das pessoas situadas no topo da pirâmide social imitava o da nobreza européia. XVII o complexo do poder sobre o espaço do Nordeste açucareiro foi um fator determinante.. Aproximadamente 30% do preço final do açúcar iam para o tesouro real. isto é. Inserido num espaço relacional. Mas com o fim do escravismo se evidenciou o quanto de cultura e religião populares tinha sobrevivido no decorrer dos séculos. a Holanda e a Inglaterra controlavam o comércio e. A costa americana tornou-se assim parte do espaço de poder europeu. O comércio transatlântico de açúcar. para a produção orientada para a exportação (Becker. Compravam-se escravos para poder adquirir mais escravos ainda (Smith 1990: 151 ss. Em termos econômicos. O novo poder in loco aniquilou os índios e destruiu os seus tradicionais modi vivendi. Em 1800 o número de índios integrados ainda chegou a 500.1822) Portugal foi a força propulsora que abriu à Europa as portas ao mundo. a coroa portuguesa.

esse modo de desenvolvimento foi capitalista quanto ao seu modo de circulação. onde a arrecadação de impostos era mais significativa (Conniff et al. harmonizadas entre si. diante do pano de fundo de reflexões cepalinas e regulacionistas. importou-lhe afirmar-se como potência mundial mercantilista.g. Baseava-se. depois que ele foi inserido nos circuitos econômicos europeus. 40 . pois esses séculos desembocaram na constituição da nação enquanto espaço de poder. 90% da renda gerada concentrava-se nas mãos dos proprietários de engenhos e plantações de açúcar (Furtado 1975: 35 ss. o modo de produção colonial pode ser compreendido. O Sudeste constituiu-se como centro do Brasil.). o estilo de vida dos barões do açúcar se assemelhava. O deslocamento estrutural de espaço e poder. sendo por conseguinte précapitalista. em uma troca entre o centro e a periferia. manifestou-se em 1763 no deslocamento da sede do vice-reinado de Salvador da Bahia para Rio de Janeiro. Depois da decadência dos preços do açúcar6.). Ambas. Embora se tratasse de um modo de produção pré-capitalista. não existiu desde o começo. cujo ponto nodal é o fator nacional e o Estado. não havendo mais de abdicar dessa posição mesmo sob o efeito de uma transformação da relação de poder sobre o espaço. pois foram encontrados grandes reservas de ouro nos atuais estados de Mato Grosso e Minas Gerais. Justamente por esse motivo a fase é especialmente interessante do ponto de vista da produção de espaços e formas sociais. como e. iniciado no séc. isso não representava um problema. Tanto a opressão quanto a acumulação da riqueza se davam essencialmente por meio da dominação política. conseqüentemente. Desse modo espaços cada vez maiores foram integrados ao campo de poder europeu. sobretudo a pecuária no interior do país. Por fim o cepalismo chama pertinentemente a atenção ao fato de que uma condensação espacial de atividades econômicas e circulações de capitais em um determinado espaço constituem um pressuposto importante para o regime de acumulação. Mas como o país carecia de uma base produtiva própria. não carecem do capitalismo. baseado no escravismo. XIX. carga e montaria. XX ele ficou em 9 libras. Um primeiro argumento contrário de peso é o fato da norma de produção basear-se no escravismo. XVII o preço do açúcar foi de 120 libras. escravos eram coisas e por isso inteiramente destituídos de liberdade. tanto a acumulação da riqueza quanto a dominação. por um lado. Visto nessa perspectiva. o modo colonial de produção constitui um sistema de dominação pré-capitalista. A conseqüência de tudo isso foi que o regime de acumulação de natureza fiscal. 6 No séc. caindo até 1720 a 72 libras e depois a 30 libras no início do séc. A metrópole envidou grandes esforços fiscais e comerciais para manter reduzido o fluxo de riquezas para a Europa Setentrional. Assim a territorialidade e o espaço de entrelaçamento desenvolveram-se desde o começo de modo paralelo. Enquanto a economia açucareira era produtiva. 7 O setor de subsistência constituiu desde o começo uma espécie de exército de reserva de mão-de-obra e um potencial de produção que podia ser ativado sempre que a demanda do mercado mundial provocava um surto de desenvolvimento regional. Desde o princípio. Para fora Portugal era nitidamente mais fraco do que para dentro. logrou-se iniciar um novo ciclo de produção mercantilista. O Brasil constituiu-se a partir da sua costa como um território. Um campo de poder. carecia de pressupostos essenciais para a sua estabilização. o que levou em diversos planos ao surgimento de relações de endividamento e. Em meados do século o preço era de 16 libras e no início do séc. que abastecera as propriedades açucareiras com carne e animais de tração. pois o comércio com os bens necessários à sobrevivência assegurava grandes margens de lucro aos comerciantes portugueses. a extração do ouro ou a economia cafeeira. precisando primeiramente ser criado. Além disso a produção para a satisfação das necessidades próprias deveria ser impedida. Mas o espaço econômico brasileiro restringia-se nessa época à costa e as circulações relevantes consistiam de entrelaçamentos transatlânticos. Pretendia-se assim compensar o descenso da posição de potência central à de potência periférica por meio de rendas geradas na economia exportadora. à dominação do capital financeiro (Smith 1990: 241 s. Do ponto de vista meramente jurídico. Apesar disso. retornou ao nível da economia de subsistência (Furtado 1975: 66)7. apenas rudimentarmente como regime de produção. o crédito desempenhou um papel importante. A disponibilidade de terras levou a uma utilização extensiva do solo. A acumulação estável define-se pelo jogo de normas de produção e consumo.Uma determinada forma do poder econômico ia de mãos dadas com a dominação do espaço no qual esses processos de produção se concentravam. XVIII com o surto da mineração. 1971: 40). determinado pelo poder das potências européias em fixar os preços. A decadência econômica conduziu à desvalorização do Nordeste enquanto espaço político. No entanto. A crescente demanda foi satisfeita pela extensão das áreas cultivadas. que funcionava em ampla escala sem transformações da base tecnológica. Nas plantações de açúcar produzia-se de acordo com determinados métodos.

Para dentro o Estado português estabilizou uma estrutura estamental cujo topo era formado pela burocracia estatal parasitária constituída por políticos. Portugal começou a colonizar e explorar economicamente a região amazônica (Becker. eles eram. XVII Portugal dependeu do apoio da Inglaterra na defesa das suas colônias. pois a estatalidade possuía o seu ponto nodal noutro continente. o segundo interesses comerciais em reservar para si parte do valor agregado produzido na colônia. tanto pelo aporte de capitais quanto pela organização do comércio e pelo beneficiamento nas refinarias de Antuérpia e Amsterdã (Furtado 1975: 10 s.). fenômeno 8 De 1580 a 1640 Portugal e Espanha estiveram unidos sob um soberano e se viram conjuntamente expostos à concorrência territorial e econômica da Holanda. Egler 1992: 16 ss. Mesmo a autonomia das igrejas era restrita.) e preparar-se assim para o regime do padrão ouro do séc. um país que importasse mais do que exportasse e apresentasse.. onde ela perseguiu dois objetivos: proteger ou ampliar o território e ser intermediária no comércio com as potências econômicas européias. As exportações inglesas eram pagas em ouro. Nesse regime as coações da política econômica nacional eram sobretudo de natureza monetária (Vidal 1998: 30). deveria exportar ouro.). por conseguinte. o estado português valeu-se de estratégias territoriais hábeis para controlar pontos importantes da costa atlântica. contra açúcar. O capital comercial submeteu as plantações e os engenhos açucareiros à sua lógica orientada pela valorização no mercado mundial. Com ajuda de missões. De acordo com a teoria do padrão ouro. A metrópole se viu assim obrigada a concentrar-se no Brasil8. De início os portugueses respeitaram o Tratado de Tordesilhas de 1494. o soberano dominava durante o modo colonial de desenvolvimento por assim dizer para dentro do espaço brasileiro. uma balança comercial negativa. por isso experimentos como o estado jesuítico na fronteira do Paraguai foram rapidamente abortados (Faoro 1997: 201). Os produtores. o que reduziria a circulação de dinheiro na economia doméstica. que definiu a fronteira com a América Espanhola. teriam ficado com a Espanha. A partir do séc.Quanto à forma do Estado. via de regra. comercializados em operações de escambo. O espaço de entrelaçamento econômico constituiu-se por meio do comércio de mercadorias. juristas e funcionários do comércio. Egler 1992: 21 s. A força de Portugal residia no seu controle politicamente implementado do espaço de entrelaçamento econômico. Depois os portugueses conquistaram as bases holandesas. Com esse tratado o papa dividira generosamente a América entre a Espanha e Portugal. As instituições centrais para a regulação dos processos econômicos eram determinadas pelo estatuto colonial.). À medida que os escravos vinham ao Brasil. No início do séc. Depois da expulsão dos holandeses os britânicos tornaram-se a potência dominante em escala mundial. Egler 23 s. Como praticamente inexistiam trabalhadores livres. Na economia açucareira os fluxos de renda eram em grande escala de natureza meramente contábil. a amazônica e a platina. 34). declarando o 50º meridiano como fronteira (Becker. mesmo os grandes entre eles. XVII os holandeses controlavam quase todo o comércio marítimo europeu. a demanda de dinheiro como meio de pagamento era desconhecida in loco. tornando desnecessário até o séc. Tanto o Estado quanto os grandes comerciantes estavam endividados junto à Inglaterra. A ausência de poderio econômico próprio de Portugal foi acrescida da perda das colônias asiáticas. Diante de Portugal eles impuseram os seus interesses sobretudo por via da política creditícia. que estes ocuparam de 1630 a 1654. A acumulação fiscal baseou-se na transferência de riquezas por meio do comércio ou pela arrecadação de tributos.). a Holanda prestou uma relevante contribuição para a ampliação da economia açucareira. 41 . XIX a formação de um sistema bancário nacional (Freyre 1951: 132 s. No Sul a luta pela Bacia do Prata durou também vários séculos. Portugal se empenhou muito em expulsar os holandeses do Nordeste. antes da maior parte das rendas ser transferida para a Holanda ou Inglaterra. Em 1750 o Rio Grande do Sul foi incorporado como região mais meridional ao reino português e em 1828 o Uruguai foi constituído como estado-tampão (Becker. somente conquistavam poder quando se inseriam na estrutura portuguesa do espaço de poder. Essa estrutura estatal dominou sobre os interesses territoriais locais. do Brasil para Portugal. Mas o ouro e as mercadorias migravam imediatamente do tesouro português e dos grandes comerciantes imediatamente para Londres (Faoro 1997: 143). O primeiro objetivo tinha por base interesses fiscais. ficando assim subtraído o hinterland à colonização por parte da costa leste. Mas com isso as duas grandes bacias hidrográficas do subcontinente. XIX. No seu empenho em atingir o primeiro objetivo. No Nordeste. França e Inglaterra. Isso levaria a uma deterioração dos preços. o que permitiu à Inglaterra acumular consideráveis reservas desse metal (Furtado 1975: 93 s.

Como já foi explicado. Mas para cimentar o seu poder. Mas no séc. Somente os exportadores tinham poder aquisitivo. era decisivo distinguir entre uma produção organizada e uma produção individual. Mas a oligarquia agrária. Em termos genéricos. citado ap. sendo que o comércio atingiu um ponto culminante entre 1701 e 1750.” (Furtado 1975: 41 s. os grupos dominantes no Brasil se contentaram cedo com o papel do ”parceiro júnior” (Fernandes 1987: 93). Aproximadamente 1. Em virtude dessas dependências financeiras.). a forma da escravidão foi também diferente no Sul. Na primeira metade do séc. a questão da organização do trabalho estava estreitamente relacionada com a organização fundiária. Os escravos em nenhum momento chegaram a constituir a maioria da população. Essa visão desconsiderou o significado dos fluxos de capitais. resistiu maciçamente à abolição da escravatura. Com isso as exportações seriam fomentadas e as importações reduzidas. XIX.200. Podemos registrar. com 790. por sua organização geral ela se diferencia amplamente da economia açucareira. Egler 1992: 26). uma produção organizada não era nem possível nem necessária. para subsistir sem trabalho escravo. pois os padrões de consumo se alteraram. os constante conflitos bélicos nas fronteiras e o grande contingente da população indígena expulsa das missões jesuíticas que tinham sido dissolvidas. Como a mão-de-obra ainda não era mercadoria. que a constância da des-ordem brasileira está fundamentada em um modo de produção que exigiu uma 42 . igualitário. As crises agora foram transportadas de fora para dentro do país. ”Se bem que a base da economia mineira também seja o trabalho escravo.9 milhões de escravos sobreviveram à viagem transatlântica. Becker. o trabalho escravo é muito mais produtivo do que o trabalho de homens livres. remanesceu uma insegurança que restringia a possibilidade de comercializar a terra. Em contrapartida. pois permitia a produção de forma ”organizada”. da concessão de créditos e das obrigações de reembolso. Isso contra-arrestou a dinâmica econômica. O trabalho do homem livre somente é mais produtivo do que o trabalho escravo se ele for utilizado . atingindo-se o ponto culminante no séc. Por sua vez. em virtude da falta de meios de subsistência. portanto.de forma combinada” (Wakefield. permitindo-se corrigir o desequilíbrio (Furtado 1975: 156). teórico de uma ”colonização organizada”. ocorreu freqüentemente uma pronta deterioração da balança comercial. a oligarquia agrária orientou-se fortemente segundos os argumentos do economista britânico Wakefield. Como a demanda de importação não regrediu imediatamente. diferentes formas históricogeográficas do escravismo apresentavam diferenças essenciais. Por fim.correspondente ao encarecimento do ouro. Com isso estavam criados os pressupostos para que a maioria da população devesse trabalhar para outras pessoas. um escravo representava um valor. Diferentemente das plantações de açúcar e café.mediante um elevado preço da terra e o sistema do trabalho assalariado . seria necessário que os colonos se organizassem em comunidades dedicadas a produzir para autoconsumo. Quando o capital industrial passou a ter influência na Inglaterra. o serviço dos capitais estrangeiros e o fluxo mais reduzido de capitais estrangeiros acirraram os problemas decorrentes do balanço de pagamentos (Furtado 1975: 159). XIX aumentou a demanda interna. Esse fenômeno se agravou devido à circunstância de que a involução dos preços de produtos manufaturados importados ocorria mais lentamente e com menor intensidade do que nas matérias-primas exportadas. Por essa razão. pois o dinheiro escasseava constantemente. ”Com efeito. a produção de subsistência dos pequenos camponeses teria sido baseada em outro sistema de produção. a oligarquia agrária empenhou-se em impedir na medida do possível a produção para a satisfação das necessidades próprias. em virtude da redução do valor da exportação. em virtude da pecuária extensiva. ”À medida que pode ser combinado. desembocando assim em uma deterioração dos terms of trade. Já na produção de carne seca a escravidão foi muito importante (Targa 1996a). o que só teria sido possível se a imigração houvesse sido organizada em bases totalmente distintas. A economia escravista permitia solucionar o problema central da falta de mão-de-obra. que lhe assegurasse a continuidade da sua dominação. de resto uma estreita aliada da Inglaterra. importando de acordo com as suas receitas advindas de exportações. XVIII.300 escravos embarcados (cf. No entanto. a forma como se organiza o trabalho permite que o escravo tenha maior iniciativa e que circule num meio social mais complexo” (Furtado 1975: 75). e entre 1751 e 1780 com 495. Em contrapartida. a escravidão se tornou crescentemente um obstáculo para a continuada implementação de relações de mercado na periferia. o modo econômico colonial do Brasil foi pré-capitalista do ponto de vista da regulação das relações de trabalho (Becker. Por outro lado. a apropriação da mais-valia se dava mediante coação direta. Aproximadamente um terço de todos os escravos embarcados para a América ia para o Brasil. Smith 1990: 143). Segundo eles. Precisou primeiramente encontrar uma nova regulação do acesso à terra. o Brasil estava obrigado a canalizações regulares de ouro para a Inglaterra. Embora a posse de terras antes de 1850 também já conferisse direitos semelhantes aos da propriedade. Egler 1992: 20).

por outro lado. a dialética de espaço e entrelaçamento e território ingressou em nova etapa. a relação de concorrência não se estruturava para dentro. Enquanto espaço de entrelaçamentos econômicos. 1987). Não importa quão ridículos possam parecer o grito da independência ou o novo papel de D. Furtado identificou na falta de um mercado local ou na falta de um sistema integrado de produção local um dos principais obstáculos de um desenvolvimento regional dinâmico nas primeiras fases de surto do ciclo da cana e do ouro. Depois da expulsão dos holandeses. sob dominação britânica (1822 . fundamentada em privilégios (Fernandes 1987: 191-197). A relação de concorrência era determinada pelo comércio transatlântico. O novo parceiro da aliança com o capital inglês foi agora a oligarquia agrária. a sua função econômica também era controvertida. No séc. que fundamentavam. ao passo que a região mineira no interior da região demandava animais de carga e de transporte (Targa 1996: 20). Por sua vez. Essa des-ordem persistente está localizada mais profundamente e relativiza a contradição aparentemente fundamental entre escravismo e trabalho assalariado. com 43 . O Brasil apresentava-se como uma série de pontos nodais que intercambiavam mercadorias com a África e a Europa. que não permitia uma articulação direta entre os sistemas de produção e de consumo. XIX o papel mediador de Portugal tornou-se crescentemente obsoleto. Não obstante. a pecuária do Sul concorria com a da região platina. Em contrapartida.1. XIX e depois se transformou apenas lentamente. as transformações no plano do regime de acumulação já devem ser localizadas em tempos bem mais anteriores. o Nordeste teve de concorrer com as novas áreas de cultivo nas Antilhas e se viu crescentemente marginalizado.2 Modo nacional de desenvolvimento. por um lado. O Rio Grande do Sul ocupava uma posição especial não apenas politicamente. O século inteiro foi um período de transição. a colônia era uma soma de complexos de produção orientados para o exterior. diretamente e in loco. de enclaves de exportação. Ao passo que a regulação da organização do trabalho passava apenas lentamente ao trabalho assalariado livre e mesmo a estatalidade somente foi definida em 1891 em uma nova constituição federativa. Mas isso não significou que a estrutura do campo de poder tivesse mudado imediatamente.] mecanismo da economia. Pedro I como ”defensor perpétuo do Brasil”. Um apêndice passou a ser um espaço político sui generis. ocorreu uma apropriação subreptícia na região amazônica (Novy 2000). As rupturas nas diferentes formas estruturais não ocorreram simultaneamente e processaram-se. entrelaçamentos de espaços econômicos que cobriam toda a região da colônia. Mas as regiões individuais estavam em parte estruturadas complementarmente. a nação praticamente não se transformou no decorrer da primeira metade do séc. deve-se falar depois de 1822 de uma transformação qualitativa do campo de poder. politicamente controlado. Por isso a região fronteiriça meridional era objeto de lutas de dois campos econômicos distintos. a pecuária no interior e no Sul. As contradições subjacentes sempre podiam ser solucionadas apenas no curto prazo. nem local nem nacionalmente. É certo que o Brasil já estava integrado desde 1500 em uma posição periférica no espaço de entrelaçamento do mercado mundial. definida pelas relações fiscais e pelo capitalismo comercial. A inserção na economia mundial era determinante. e. Em 1822. A transição da colônia para a monarquia e finalmente para a república e a busca de um novo poder sobre o espaço foram árduas. 2. enquanto região fronteiriça. muito lentamente. isto é. ademais. anulava as vantagens desse crescimento demográfico como elemento dinâmico do desenvolvimento econômico”: “esse crescimento se realizava sem que houvesse modificações sensíveis na estrutura econômica” (Furtado 1975: 51 s. Enquanto receptáculo do monarca a governar soberanamente. O “[. o comércio de escravos... uma pecuária que ia além do Rio São Francisco e avançava muito para o hinterland. embora se desse de forma mediada por meio da administração portuguesa. ela logrou. ambos. Apesar disso.).1929) Em 1822 a nação brasileira se constituiu mediante cisão de Portugal. a constituição formal enquanto espaço político autônomo assinala uma cesura (Fernandes. Produtos individuais formavam com regiões correspondentes um espaço de poder econômico com uma estrutura própria: o cultivo da cana de açúcar no Nordeste. Mas esses enclaves não devem ser compreendidos equivocadamente como arquipélago ou grupo de ilhas. orientado segundo instâncias externas. Buenos Aires e Montevideo fomentavam o comércio do couro e outros derivados do gado.hierarquização social extremada. pois havia. com a proclamação da monarquia e. a mineração do ouro em Minas Gerais e o extrativismo na Amazônia.

dessem maior atenção ao seu território. ocorreu a imposição de relações entre capital e trabalho no processo produtivo. Isso possibilitou teoricamente a formação de um regime nacional de acumulação.9 0.2 2.8% para 61.5 1.0 8. o couro e as peles perderam maciçamente a sua importância. embora a continuada dependência externa no setor de bens de produção não possibilitasse nenhuma reprodução integrada.2 2. Os negócios de importação e exportação concentraram-se mesmo depois da eliminação de Portugal nas mãos de uma pequena minoria. As camadas médias urbanas.4 1. De 1831-1840 a 1881-1890 ele logrou aumentar a sua participação no total das exportações de 43. sobretudo os militares.9 8.5%.3 1.3 0. Foi formada uma espécie de confederação dos diferentes grupos determinantes da ex-colônia .0 3.8 0.9 6. agora nacionais.7 0. Enquanto unidades centrais de produção. que ocorreu germinalmente em lento processo que se estendeu por todo o século. Ao passo que o algodão. Investimentos maciços na infraestrutura se faziam necessários para o aumento da produtividade na produção agropecuária e para a melhoria das relações comerciais.8 1831-40 41.5 7.6 1. Egler 1992: 12).9 6.9%. Tabela 3).5 4.isso. XIX definitivamente pelas plantações de café no Sudeste. agora nacional.2 9.4 1841-50 48.0 7. O café tornou-se o mais importante produto de exportação. da independência. Egler 1992: 37). que aumentou de 1 (1831-1835) a 53 (1866-1870) e 955 (1881-1889) (Pessoa 1993: 105). Um regime de acumulação que num território nacional dá início à unificação das relações de trabalho é denominado regime dominantemente extensivo de acumulação (Aglietta 1987: 69). cuja expansão altera fundamentalmente a forma das economias capitalistas.1 0.2 9. Sobretudo a ampliação da infraestrutura dinamizou a produção. No Brasil esses processos podem ser observados a partir de 1850.5 26. a participação das exportações de açúcar caiu nesse período de 24% a 9.3 3. elevada em 1844 . Deriva a sua dinâmica essencialmente da ”existence of an immense reserve of unappropriated agricultural land” (Aglietta 1987: 73).6 7.6 18.e deram início a um primeiro processo de industrialização9.3% a 8% (cf. Máquinas produzidas na Europa foram utilizadas no Brasil provavelmente em conseqüência da taxa alfandegária para têxteis. Por meio do soberano nacional o processo históricogeográfico da conversão de uma economia escravista em modo de produção capitalista com trabalho livre assalariado pôde ser dimensionado de modo a deixar inalterados em muitas áreas os detentores bem como o campo do poder.0 0.0 1.5 1. 44 . sendo substituída lentamente pelo trabalho livre assalariado de imigrantes.4 1.6 3. A sua dinâmica se localiza no setor de bens de produção.2 2.8 1851-60 45.0 1. controlada pelo exterior.3 12.5 1861-70 56. a plantação e o engenho açucareiros foram substituídos no séc. A manutenção da velha estrutura de poder e espaço exigia transformações.um pacto de senhores de escravos (Becker. Os superávits continuaram sendo parcialmente apropriados por um estamento de funcionários públicos. Em contrapartida. O fim furtivo da escravidão dinamizou também a urbanização no fim do século. sobretudo no fim do século.2 5.5 1881–90 Fonte: Pessoa 1983: 96 9 Pode-se verificar a industrialização incipiente no número das patentes concedidas. Tudo isso não impediu que o Estado e os comerciantes. Nas plantações de café a organização da produção ainda se baseou por muito tempo em escravos.2 43.2 21.6 3.9 1.7 1.8 24. Tabela 3: Participação de produtos no total das exportações brasileiras (em %) década café Algodã Açúcar borracha cacau couros e tabaco erva o (em peles mate rama) 10. manter um sistema de controle local sobre o sistema de produção orientado para a exportação. começaram a estabelecer-se como força social intermediária e adotaram um padrão de consumo em moldes europeus (Becker.5 11. que ia de mãos dadas com uma apropriação política do valor agregado. No lugar de uma acumulação baseada no escravismo.8 5.6 1871-80 61. a borracha consignou um aumento vertiginoso de 0. O Brasil não superou o estatuto periférico de uma economia imperfeitamente integrada.

e no comércio de obrigações do tesouro nacional (Silva 1986: 91). libertando-se das peias de uma política monetária rígida. . pois a importação de bens de consumo foi dificultada a partir de 1900 devido a problemas com o balanço de pagamentos (Silva 1986: 100). a emissão aumentou fortemente. O capital estrangeiro participou de investimentos maiores e por prazos mais longos. tornou-se novamente princípio diretor da política econômica. por meio de crédito.. As elevadas margens de lucro permitiram o financiamento de uma parte da produção com recursos próprios e além disso ainda investimentos na criação de uma infraestrutura local. até São Paulo e de lá continuaram a sua marcha rumo ao Oeste e Norte. 164). pois terras exauridas eram abandonadas e as plantações de café avançaram. o que ultrapassou. Depois o Estado retornou rapidamente ao monopólio de emissão da moeda e implementou programas de estabilização (Cano 1998a: 161).O financiamento dos esforços de desenvolvimento se deu sobretudo fora de São Paulo. Na esteira das mudanças de regimes em 1822 e 1889 os novos detentores do poder criaram para si até margens de ação na política monetária. protective tariffs and a conversion fund which permitted greater exchange balance all gave incipient domestic industries encouragement. Os elevados pagamentos do serviço da dívida consumiam uma grande parte do valor agregado. essencialmente por meio de capital britânico (cf. ameaçava constantemente a estabilidade da economia externa. Em 1907 todas as maiores empresas brasileiras e em 1920 ainda 85% dessas empresas atuavam na indústria de bens de consumo (Silva 1986: 107). O capital internacional concentrou-se na ampliação da rede ferroviária. origin” (Baer 1989: 213 s. Depois de 1822 foi fundado o Banco do Brasil. A ortodoxia. Faletto 1976: 68 s. Tabela A-1). O desenvolvimento em vias de dinamização desde 1850 criou formas atraentes de aplicação (Cardoso. partindo da Província do Rio de Janeiro e se estendendo pelo Vale do Paraíba.11 Desde o início a estrutura da indústria brasileira era dominada genericamente por grandes empresas que utilizavam máquinas importadas (Herrlein. The national exposition of 1908 in Rio de Janeiro at which 11. como e.g.9 billion in 1914 and to US$ 2. Objetivava-se manter a heterogeneidade do fator local.. 11 ”Under the presidency of Afonso Pena (1906-09) the country´s policy was one of ´peopling the land. pois a produção de bens de consumo in loco só estava esparsamente vinculada com a de bens de produção na Europa. provocado pelos consumidores urbanos. A ”vocação” agrária do Brasil desenvolveu-se com maciço apoio externo. Momsen 1974: 151 s. O consumo se estendeu lentamente. Dias 1996: 146. O campo de poder dominante até a crise econômica mundial permitiu manter o controle no espaço gigantesco e ao mesmo tempo maciçamente fragmentado. A indústria local tornou-se mais rentável. e tão-somente nas reduzidas regiões urbanas. contanto o poder estamental de uma sociedade escravista permanecesse intocado in loco. Depois de 1822 atribuiu-se ao fator nacional o papel de poder moderador. a exportação de mercadorias industriais e a concessão de empréstimos governamentais pelos britânicos foram de grande importância para o Brasil. In 1930 half of foreign capital was British and one-quarter was of U.6 billion in 1930. isto é. nas ferrovias e nos portos. em grande parte importados.). o que levou a fortes oscilações na atividade econômica. limitando assim os investimentos no setor produtivo. pois a camada média urbana consumia uma boa parte dos bens de consumo.). o conhecimento ecológico era considerado irrelevante.).000 exhibitors displayed the nation ´s new manufactured products to a million visitors was a revelation to most Brazilians” (Henshall. Mas o padrão e o estilo de consumo mudaram apenas um pouco. a capacidade de financiamento do empresariado local.S. pois toda a política de fomento da produção cafeeira foi financiada com recursos extra-orçamentários.10 Investimentos diretos. A nova forma de dependência periférica caracterizou-se dessarte por entrelaçamentos mais intensos no comércio de capitais do que era costumeiro em negócios de importação e exportação. A tecnologia de produção da economia cafeeira estava em grande parte padronizada. importantes para a economia agrária exportadora. Nos dois casos. Com isso a economia agrária bloqueava a divisão interna do trabalho e o financiamento interno. isto é. Além disso o regime nacional de acumulação também carecia de fontes internas de financiamento. 45 . A conseqüência foi uma forte dinamização da economia. O elevado coeficiente de importação. The increased rate of railway construction and the development of electric power. developing industrial centres and reforming the monetary system´. 10 ”In 1880 the total stock of foreign capital was estimated at US$ 190 million. mas também a inflação e um aumento da dívida externa. a teoria liberal ”ortodoxa” da neutralidade do dinheiro. A supremacia britânica deslocou-se do comércio de mercadorias até o controle do financiamento do desenvolvimento. à exceção da zona cafeeira. Before the 1930s Britain dominated foreign investment in Brazil. depois de 1889 numerosos bancos regionais foram dotados de direitos de emissão de moeda. this expanded to US$ 1.

300 contos na década de 1890.700 9. pois ele não podia nem aumentar os impostos de exportação (o que era impedido pela oligarquia agrária) nem os impostos de importação (o que era impedido pela Inglaterra).300 1891-1900 Fonte: Silva 1986: 28 A Lei de Terras de 1850 fundamentou a propriedade absoluta da terra nas áreas habitadas do Brasil e definiu o resto como regiões inabitadas. XIX. o Estado consolidou-se como instituição. À medida que o Estado fixava um preço correspondentemente elevado.300 1871-1880 30. assim. Para essas terras designadas fronteira decidiu-se que elas eram de propriedade do Estado e deveriam ser alienadas por ele. em contos década serviço das dívidas Novos empréstimos 5. entre outras atividades. o Estado ampliou-a tomando empréstimos no exterior. Por meio dos seus objetivos primacialmente fiscais. um deslocamento do primado da esfera de produção em benefício da esfera de circulação (Oliveira 1987: 49). Faletto 1976: 76).500 38. Os donos de escravos se viram obrigados a se transformar em latifundiários e exportadores de bens primários. Como a margem de ação de uma política tributária e alfandegária autônoma era reduzida.Mesmo um país periférico como o Brasil pôde recorrer depois de 1850 a empréstimos no exterior. por meio de pessoas.300 a 57. Considerada na sua totalidade. a estrutura local do Brasil transformou-se lentamente de sociedade dominada pelo padrão rural . 1851-1900. ocorrendo. depois o orçamento público tornou-se fortemente deficitário a partir de 1865 (Pessoa 1983: 102-104). em si disponível excessivamente: produziu-se assim a escassez de terra. a imigração maciça de mão-de-obra. financiando.300 4. serviço da dívida externa e novos empréstimos.000 10. XIX (Vidal 1998: 30) e também no Brasil da República Velha (1889-1930) posições mais pragmáticas passaram a se impor cada vez mais.100 1861-1870 16. que tiraram. Tabela 4). a construção de estradas de ferro. A partir de agora. proveito das medidas estatais nas áreas da política de infraestrutura e migração. a criação de vários outros serviços públicos e industriais como energia elétrica. Esses empréstimos serviam ao fomento dos diferentes sistemas produtivos regionais. A dívida externa aumentou continuamente na segunda metade do séc. Os latifundiários perderam importância diante de bancos e atravessadores.100 1881-1890 57. Os empréstimos externos aumentaram de 4. posteriormente na indústria.de ”casa grande e senzala” (Freyre) .300 contos (cf. ele pôde assegurar que só poucas pessoas tivessem acesso à terra.100 contos na década de 1850 a 63. XIX.em civilização urbana. no espaço de poder. o Estado serviu tanto aos interesses conservadores da oligarquia agrária que dominava. Escravos libertos e imigrantes se viram obrigados a vender a sua força de trabalho de forma ”organizada”. quanto aos interesses do setor comercial urbano. sob pena de marginalização na nova estrutura de poder.12 A posição britânica do laissez-faire no livre comércio já perdera a sua supremacia ideológica no fim do séc. Essa política de localizações exigia investimentos maiores e em parte também nacionalizações no setor da infraestrutura de produção. A forma concreta pela qual o mercado fundiário e de trabalho foram criados serviu à estabilização 12 De 1822 a 1850 os superávits e déficits orçamentários se alternaram. isto é. na forma do trabalho assalariado. o palco da política nacional adquiriu maior importância (Cardoso. a modernização acabou por miná-lo.300 63. 46 . Em termos de política econômica externa. o governo central ficou de mãos amarradas na primeira metade do séc. Não obstante o empenho em preservar o velho poder político estamental sobre o espaço por meio de uma modernização puramente econômica. O serviço da dívida aumentou no mesmo período de 5. a política tributária e alfandegária fomentou o protecionismo industrial. gás e transportes públicos (Silva 1986: 280). Foi desenvolvida uma política econômica que visava primacialmente a melhoria das condições de localização para a concorrência com outras regiões.100 1851-1860 12. Tabela 4: Brasil. inicialmente nas plantações de café. Com isso o governo conquistou uma certa independência dos setores domésticos que tinham sido a tradicional fonte de arrecadação de impostos. de forma respectivamente indireta.

Esse pacto de dominação durou até 1930. O poder local dos latifundiários teve de subordinar-se ao poder regional dos governadores que articulavam in loco os interesses das classes. produziu um efeito democratizador nos EUA. tornaram-se cada vez mais necessárias.).14 Aqui o Estado socializou as perdas da economia cafeeira. iniciado pelo governo paulista (Cano 1998a: 55 ss. de saúde. sobretudo os dos latifúndios improdutivos. Seu objetivo foi uma política de sustentação do preço do café. criou pela primeira vez o pressuposto de uma política estatal ativa que apoiava conscientemente nos diferentes estados da federação os respectivos interesses econômicos dominantes. Silva 1986: 58) eram cada vez menos suficientes para pagar o crescente serviço da dívida. Depois de 1889 pôde ser implementada pela primeira vez uma política econômica e financeira autônoma. Seu ponto culminante foi a destruição de café durante a crise econômica mundial. Esse é um exemplo típico da essência do keynesianismo latino-americano: criação da demanda pelo Estado. que fomenta de forma muito desigual os diferentes grupos sociais enquanto demandantes. mas ”real”. A regulação regionalmente fragmentada que se impôs como novo compromisso social. 47 .condicionados sobretudo por demissões e pela queda da demanda privada (Furtado 1975: 154). A posição de supremacia do capital cafeeiro era tão forte que os conflitos em torno do poder central aconteceram até a Revolução de 30 menos entre classes e frações de classes. ao passo que as oligarquias estavam interessadas na manutenção do seu poder local. Na ”política dos governadores”. bancário etc. foi encontrada uma fórmula pela qual os grupos civis . Mas o governo imperial demonstrava um interesse apenas reduzido por essas questões (Furtado 1975: 171). A produção aumentava constantemente. Com isso o Estado se transformou nos 40 anos da República Velha em instância reguladora da economia e produtor de partes substanciais da infraestrutura econômica (Pereira 1996: 212). Entre 1907 e 1919 a economia evoluiu dinamicamente. pois paralelamente aos aumentos das exportações registrava-se um crescimento quase igual da dívida externa. podendo ser evitados efeitos cumulativos negativos . Não se tratou de um liberalismo ”puro”. Nos anos de 1927 a 1930 o montante do serviço atingiu o dobro do superávit da balança comercial (Oliveira 1989: 32 s. mas entre regiões (Fausto 1981: 90 s.da des-ordem (Becker. mas o capital comercial e financeiro controlado a partir do exterior. 122). Boa parte dos bancos. mas isso beneficiou em primeiro lugar não os produtores. Os superávits da balança comercial gerados nesse período e em parte consideráveis (cf. possibilitando a criação de novos latifúndios sem precisar concorrer com os antigos proprietários de terras. determinado pela estrutura de poder no Brasil (Decca 1997: 151 s.).pudessem subtrair-se à influência dos militares de orientação jacobinista-centralista (Fiori 1995a: 74). que buscavam uma centralização e modernização mais radicais. o que contribuiu para o seu fracasso. A última década da República Velha caracterizou-se por uma política de desvalorização que significou um enfraquecimento do padrão ouro. A estatalidade regionalmente fragmentada não pode enganar com relação ao fato de que o Estado na sua totalidade já era em 1930 incomparavelmente mais importante do que se costuma afirmar. ficassem excluídos (Fiori 1994). XIX medidas nos setores do serviço público.2% (18901894) a 20.e precisava. Assim a sustentação do preço do café produziu o efeito não-intencionado de estabilizar simultaneamente a demanda. ser estocado e posteriormente destruído pelo estado -. cuja colonização por pequenos proprietários rurais foi fomentada. o lado da oferta foi estabilizado. educacional. de início financiada regionalmente e com recursos extra-orçamentários e a partir de 1922 pelo governo federal. Devido à constelação de interesses de oligarquia latifundiária no interior e interesses ingleses na metrópole a crise financeira crônica do estado brasileiro somente podia ser postergada mediante empréstimos ingleses. cambial e de comércio exterior era grande. A parcela do serviço da dívida nas despesas totais do governo federal aumentou continuamente de 10. tropical. 13 Ao passo que a fronteira aberta para o Oeste. sendo determinantes os interesses cafeeiros do Sudeste. A influência sobre as políticas creditícia. Aos poucos uma posição pragmática na política financeira e monetária passou a ter influência.com exceção do Rio Grande do Sul . o gigantesco hinterland brasileiro permaneceu sob controle do Estado e reforçou os traços autoritários na estrutura social brasileira. A disponibilidade de terras favoreceu alianças entre as oligarquias. das linhas de navegação e das redes de comunicação era administrada pelo Estado. portanto.13 Apesar disso o fim da escravatura e da monarquia representaram um surto de modernização. Por volta do fim do séc. sem que os outros interesses exportadores. À medida que os produtores continuaram colhendo café. 14 A destruição dos excedentes da safra de café no começo dos anos 30 deveria a rigor servir à proteção dos interesses do setor cafeeiro. das ferrovias. concebida por Campos Salles.. Em 1906 foi assinado o Acordo de Taubaté.3% (1922-1929) (Oliveira 1989: 33).). Egler 1992: 32). de formação profissionalizante. que não podia ser comercializado .

Para substituir migrantes caros e freqüentemente sindicalizados. com uma única exceção . cujo exemplo mais típico foram os monopólios de compra e venda.“ (Furtado 1975: 124 s. a relação entre as esferas local e nacional se reorganizou. Foi no Nordeste que se instalaram.). Formas mais sutis de dominação só podiam começar a produzir efeitos em sujeitos livres. por sua vez. Isso se deu por intermédio de mecanismos político-sociais de controle.16 Os esforços em prol do desenvolvimento. pois as empresas sempre podiam apoiar-se na cooperação com a polícia. não deve ser confundido com falta de intervenção estatal.e com intensidade distinta a mesma política: garantia do poder e com isso estabilidade no próprio espaço de poder. que reproduziam in loco a respectiva estrutura de dominação historicamente surgida. Nas regiões individuais algumas poucas empresas industriais detinham uma posição de oligopólio ou monopólio (Cano. involuindo em simples economia de subsistência. obras essas que se prolongavam às vezes de forma absurda. por outro lado a descentralização do poder atendia ao seu propósito de ampliar in loco o seu controle sobre a esfera da circulação. 1978: 68). 48 . as províncias.o Rio Grande do Sul . Na última década antes de 1900 mais de um milhão de pessoas emigrou para o Brasil. Nas regiões rurais continuava dominando a troca de mercadorias.Com referência ao processo produtivo a introdução do trabalho livre assalariado tornou-se cada vez mais necessária. Depois da proclamação da república em 1889. pois uma integração nacional do mercado interno era impossível em virtude da falta de uma rede de transporte. quase sempre. as primeiras manufaturas têxteis modernas e ainda em 1910 o número de operários têxteis dessa região se assemelhava ao de São Paulo“ (Furtado 1975: 238). Essa forte afluência de mão-de-obra permitiu que na região mais próspera não fossem pagos os salários mais elevados (Cano 1998a: 246 ss. política de localização e com isso política dinâmica de concorrência entre as regiões com o objetivo do melhor posicionamento possível no campo do poder sobre o espaço. para assegurar os lucros mais altos possíveis à produção organizada (Silva 1986: 65). os espaços de poder descentralizado perseguiam. Inversamente essa liberdade possibilitou aos que agora já não são mais escravos que agissem diferentemente e se constituissem em sujeitos políticos e coletivos. Dias 1996: 146): „O processo de industrialização começou no Brasil concomitantemente em quase todas as regiões. ferrovias. ela tendia a definhar. Até 1930 a migração foi o elemento dinamizador da evolução econômica do Brasil. Processos mais complexos de trabalho não podiam ser executados com escravos que não eram livres e portanto praticamente não podiam ser motivados. São Paulo ainda não ocupava de modo algum a posição de supremacia em escala nacional. E. Neto 1986: 175). A base da política econômica passou a ser crescentemente regional. apresentava ainda até 1907 a indústria mais diversificada e uma participação de 30% da produção nacional (Cano. após os vultosos gastos. no entanto. e o mercado de trabalho passou a ser nacional (Rolnik 1980: 53). O mercado de trabalho era competitivo e regulamentado de modo a estar ”livre” de quaisquer regras de proteção. impostos à força. Pagavam-se transporte e gastos de instalação e promoviam-se obras públicas artificiais para dar trabalho aos colonos. O Rio de Janeiro. A relação de concorrência inseriu-se também nos objetivos superiores da estabilização do poder. A indústria estava relativamente descentralizada. Embora dotados de grande autonomia. à medida que estes eram forçados a tomar o seu destino nas próprias mãos. sem a mediação do dinheiro (Oliveira 1989: 16). forçou-se a partir dos anos 20 a migração interna. sobretudo os investimentos em infra-estrutura estavam direcionados para o comércio exterior. Inovações técnicas como novas máquinas. barcos a vapor e o 15 ”Era uma colonização amplamente subsidiada.) 16 Uma das diferenças entre São Paulo e o Rio Grande do Sul era o tamanho muito maior das empresas industriais em São Paulo (cf. após a reforma tarifária de 1844. Herrlein. depois a imigração permaneceu até 1950 em nível elevado. o que. a partir dessa data a imigração regrediu . A migração interna do Norte para o Sul e a concentração da população no Sul e Sudeste pôde ser observada a partir de 1870 (Baer et al.certamente reduzida pelos movimentos migratórios antes. No lugar de um poder central que mantinha a coesão dos espaços dispersos do território apareceram fortes espaços de poder descentralizado.). Depois da proibição do tráfico de escravos em 1850 o governo central fomentou a imigração européia. Depois de algumas tentativas malogradas a migração passou a se dinamizar mais a partir de 1870. sobretudo a partir do Nordeste em vias de estagnação. quando. durante e depois da 2ª Guerra Mundial (Singer 1987: 122). Por um lado. Neto 1986: 176 s. Acresciam os impostos interestaduais (Cano 1998b: 178 s. para solucionar o problema cada vez mais urgente da ”falta de mão-deobra”. se deixava a colônia entregue a suas próprias forças.15 A migração dirigida visava impedir a produção para fins de subsistência.). ela se integrava na burocracia estatal. A eliminação dos mal-amados atravessadores portugueses fez da oligarquia agrária a beneficiária das relações desiguais de troca.

A fronteira do território adquiriu importância. A gestão das dividas permitiu transformar o dinheiro nacional em fundamento do esquema reprodutivo D – M – D´ (dinheiro – mercadoría . A maior integração no mercado mundial foi facilitada por novos meios de transporte.000 179. de 65 km (1861) a 10. sobretudo pelo vapor. que se expandiam em ritmo vertiginoso e eram preponderantemente ramais ferroviários. O açúcar experimentou um declínio dos preços que só pôde ser compensado parcialmente por aumentos das quantidades exportadas.5 km em 1854 para 9.900 1850/51 123.500 1885/86 259. sob dominação dos EUA (1929-1982) O período que iniciou depois da 1ª Guerra Mundial ou com plena intensidade nos anos 30 foi caracterizado pela formação . em vias de expansão no Nordeste. em contos ano exportações importações 33. carreando ao Brasil recursos para o financiamento do seu desenvolvimento.400 35.) 49 . anos selecionados.000 36. a distinção entre ‘dentro’ e ‘fora’ passou a formar a linha divisória 17 A rede ferroviária expandiu-se de 14.000 197. Em outros produtos de exportação a evolução foi menos positiva. 2.800 1889 850.100 168.700 1880/81 195.3 Modo de desenvolvimento centrado no estado-nação. Assim os EUA evoluíram lentamente na direção de um papel de liderança na economia mundial. já não era mais internacionalmente competitivo e concentrou-se por isso no abastecimento do mercado interno (Cano 1998b: 51 s.600 -7.de um regime nacional completo e estável de acumulação e pela dominância do estado-nação enquanto ator central.pela primeira vez . que depois da 2ª Guerra Mundial era em ampla escala inconteste na América Latina.100 -0.300 -2.400 Em 1914 encerrou-se a fase da inserção internacional estável. Depois de 1918 os EUA já dispunham de mais da metade das reservas mundiais de ouro. Tabela 5: Comércio exterior do Brasil no séc.500 1829 33.17 As ferrovias. em 1929 eles detinham uma parcela de 42% da produção mundial na indústria de processamento (Altvater 1987: 199 e 201). pois a supremacia britânica no mundo entrou em colapso. Essa rede de transportes consolidou uma estrutura espacial que se concentrou em enclaves na exportação de alguns poucos produtos agrários. reduziam os custos de transporte sobretudo do café e asseguraram a inserção no mercado mundial.500 +28.telégrafo chegaram ao Brasil pouco depois da sua introdução (Silva 1986: 52).100 217. pois importações e exportações eram quantitativamente insignificantes.300 1869/70 231.100 -3.900 1900 * erro no original Fonte: Pessoa 1983: 96 – 98 saldo -2. XIX resultaram essencialmente da evolução quantitativamente favorável do comércio de café. Brasil.300 +301.500 1838/39 67. As exportações aumentaram até a virada do século.600 49. O cultivo de algodão. 1829 .076. Entrelaçamentos modestos no comércio exterior fundamentaram a nação enquanto espaço determinante da reprodução.800 +51.900 -9.500 +31.1 km em 1889: a rede telegráfica.).800 76.1.200 123. Ocorreu uma endogeneização da dinâmica econômica e uma valoração maior do fator político.1900. Os superávits da balança comercial gerados na segunda metade do séc. Pode-se falar por várias razões de um regime nacional de acumulação.969 km (1889) (Pessoa 1983: 105 s.mais dinheiro).300 548.700 1860/61 197.300 1834/35 41. XIX.

iniciou a substituição de importações de bens de consumo duráveis e em alguns setores também bens intermediários e bens de capital. ao passo que a produção industrial nacional recebeu o impulso decisivo em meio à crise internacional. de 1955 a 1961. corporificadas no latifundiário. ano mais baixo da depressão no Brasil. dominantemente endógeno (Conceição 1989b: 216 ss. de 14% (1929) a 8% (1932). Sem a intervenção estatal o empresariado brasileiro não tinha condições de efetuar sozinho a regulação complexa de um regime de acumulação intensiva. No regime de acumulação intensiva as transformações na esfera do consumo desempenharam um papel proeminente. Dessa forma. aquela produção já havia aumentado em 60 por cento com respeito a 1929“ (Furtado 1975: 199 ss. fomentada pela política orçamentária norte-americana fortemente expansiva até o fim da Guerra da Coréia. caindo a capacidade de importação.2% da população vivia nas cidades. foram substituídos sobretudo bens de consumo. mas esse padrão de consumo tornou-se dinâmico e um fenômeno socialmente amplo apenas depois de 1930. criaram condições propícias à instalação no país de uma indústria de bens de capital. Isso se concretizou no Brasil como industrialização substituidora de importações e como estratégias de desenvolvimento orientada para o mercado interno. pois faltavam passageiros. Em 1932. foram pressupostos importantes para a formação de uma reserva confiável de mão-de-obra que já não podia contar com a possibilidade de retorno ao setor de subsistência. Em virtude do reduzido setor de bens de consumo. Como a cidade oferecia trabalho e direitos sociais de cidadania.) distingue três fases da substituição de importações...18 Tornou-se inevitável construir uma indústria nacional de bens de produção (Tavares 1983: 41). Se em 1940 31. Num segundo período de 1945 a 1954. e a estrutura fundiária dificultou o modelo da agricultura de subsistência.depois do espaço de entrelaçamento de um nexo de centro e periferia ter rompido em virtude das crises e guerras no centro . as estruturas rurais arcaicas contavam com proteção política. dos hábitos de consumo e dos estilos de vida. no fato de que os setores de bens de produção e de bens de consumo não eram vinculados (Aglietta 1987: 71). A inserção de contingentes populacionais cada vez maiores no processo de produção industrial exigiu uma alteração na reprodução da mão-de-obra. as restrições externas se acirraram. Os anos subseqüentes de isolamento não-intencional . Ferrovias precisavam ser fechadas. ela se tornou o novo espaço de poder econômico. A crise econômica mundial levou a uma queda da participação do valor das importações na renda nacional. Mas em termos econômicos o país se modernizou e capitalizou. a renda nacional aumentou em 20 por cento entre aqueles dois anos. Baseadas na relação de dependência territorial do poder local. Estabeleceu-se um novo esquema de reprodução. agora produzidos em escala maior pela indústria de bens de consumo. no mesmo período.). Cabia-lhe agora o papel de definir o valor da moeda no 18 „A produção industrial cresceu em cerca de 50 por cento entre 1929 e 1937 e a produção primária para o mercado interno cresceu em mais de 40 por cento. 19 Maria da Conceição Tavares (1983: 37 ss. não obstante a depressão imposta por fora. O espaço de poder rural subtraía-se à ingerência soberana do estado-nação. Na terceira fase. [. mais importante foi provavelmente a nacionalização gradual do sistema produtivo. a produção de bens de capital no Brasil (se a medirmos pela de ferro e aço e cimento) pouco sofreu com a crise. o que representa um crescimento per capita de 7 por cento. em 1980 esse número atingiu 66% e em 1997 ele chegou a 80% (IBRD 1999: 192. 50 . sob as restrições maciças ao comércio mundial. fábricas de cimento não tinham compradores e a ampliação da infraestrutura urbana encontrava o seu limite na falta de poder aquisitivo dos moradores.permitiram até o fim da Guerra da Coréia a transição para um regime de acumulação dominantemente intensivo. sob condições abertas da economia mundial. Somente uma dinamização do setor de bens de consumo que pressupôs uma mudança no padrão de consumo da mão-deobra logrou assegurar uma estabilização sustentável da acumulação. [.. recomeçando a crescer já em 1931. Um tal regime intensivo de acumulação busca uma transformação da esfera de reprodução. a expansão do setor de bens de produção chocava-se sempre de novo com limites que conduziam a crises. Gêneros alimentícios baratos e disponíveis em quantidade suficiente. Porém. Isso iniciou no Brasil com a urbanização e a difusão das relações de mercado já no séc. de 1930 a 1945. concluída amplamente pela integração dos setores de bens de produção e bens de consumo em 1980. e a forte elevação dos preços de importação desses bens. como se sabe.. Aqui se revelou útil a circunstância de que o estado-nação foi libertado das amarras do padrão ouro.decisiva. A vertiginosa migração das regiões rurais para os centros urbanos conduziu a maciças transformações no estilo de vida dos brasileiros. acarretada pela depreciação cambial.] Com efeito. reflexo da expansão da produção para o mercado interno. Ocorreu a concentração fundiária. Novy 1994: 168). A nação em vias de modernização. A fraqueza da acumulação extensiva antes de 1930 consistira. urbanização e industrialização carecia de um monitoramento político mais forte. XIX (Fernandes 1987: 77).19 O capital reproduzia-se crescentemente no espaço-receptáculo da própria nação. O êxodo rural de camponeses sem terra aumentou o proletariado urbano. freando por sua vez um aumento dos salários.] O crescimento da procura de bens de capital.). Na primeira.

com três ministérios próprios.80 1º quintil 8.70 23. os anos 80. Isso tem a ver com o momento histórico do meu interesse incipiente pelo Brasil. porque a produção se orientou para as classes alta e média (Lipietz 1986: 32 s. sendo que apenas entre 1971 e 1976 foram fundadas 67 empresas. 21 Na esfera federal o número de empresas estatizadas aumentou no período de 1941 a 1950 em 7. Tabela 6: Distribuição da renda pessoal no Brasil no período de 1960 a 1980 (em %) 1960 1970 1980 3. o número total de empresas estatais aumentou nesse período de 13 a 328 (cf. tudo somado. de uma forma de fordismo.60 3º quintil 20.70 16.).espaço-receptáculo nacional (Fiori 1995a: 79). Tabela A-8).90 14. as instituições da ditadura militar continuam existindo. o acesso democrático a elas é reduzido (Dreifuss 1989: 26-33). As leis trabalhistas e as regulamentações do salário mínimo asseguraram nas áreas urbanas o fundamento do novo padrão de consumo de massas. a acumulação dominantemente intensiva beneficiou sobretudo a quinta parte mais rica da população.30 34. quando as ditaduras militares pareciam ser uma forma de governo ”superada”. a saber. uma justiça própria e um contingente de 600. Nessa produção de massa para o consumo das massas consistiu a dinâmica da política econômica keynesiana.86 16. que logrou aumentar a sua participação na renda nacional.90 1% superior Fonte: Rojas 1998. sobretudo à criação de espaço habitacional e do transporte individual motorizado.75 26. Além disso o país estava por lei excluído da modernização. Mas os militares.90 4º quintil 34. de um mínimo necessário para a sobrevivência. historicamente sempre foram um ator-chave e constituem até a atualidade um Estado no próprio Estado.40 19. mas também por meio da inflação e da política de indexação.85 5. Num processo positivo de reforço o poder aquisitivo crescente conduziu a uma produção mais intensa e barata. Mas já a lei definia que no caso do salário mínimo se tratava de um salário de subsistência.90 5% superiores 11.00 2º quintil 11. o que se tornou possível em virtude de vantagens de escala. 51 . O Estado assumiu a responsabilidade pelas condições de reprodução dos trabalhadores. a ”sociedade política armada”.20 Com a criação de um mercado de capitais e a fundação de empresas estatizadas constituiu-se o capitalismo financeiro no Brasil. Além disso ele melhorou a infraestrutura. Os 80% restantes se viram obrigados a aceitar entre 1960 e 1980 perdas na participação da renda nacional (cf. por meio de novas formas estatais de financiamento. Influiu no salário real não apenas por meio da fixação do salário mínimo. O número de empresas estatizadas aumentou vertiginosamente.81 10. O Estado financiou no longo prazo essa evolução e forçou a industrialização na direção da produção fordista em massa. que funcionou sobretudo no centro.50 40% médios (3º e 4º quintis) 53.21 a ocupação na indústria aumentou até 1970.77 62. chegando até o período de 1971 a 1976 a 138 empresas.67 27.81 9.000 homens. Como também entre a população urbana se concentravam a renda e com isso as chances de consumo.01 7.46 relação entre o 1º e o 5º quintil 28. A Constituição de 1988 não podou o poder dos militares. monetária e creditícia ele influiu de múltiplas formas na distribuição do produto social: subsidiou investimentos. o que reduziu o dinamismo da produção de massas.24 65. embora no Brasil o consumo de massas tenha ficado restrito à classe alta e à classe média. Por meio da política financeira. a ”conquista interna da terra” [”innere Landnahme”] era incompleta. por conseguinte. O consumo direcionavase a bens padronizados para as massas. Mas também na periferia podem ser registrados efeitos positivos de reforço. isto é.49 3.80 40% inferiores (1º e 2º quintis) 13.07 6. favoreceu a importação de bens de produção e impediu a importação de bens de consumo. mas de fordismo periférico. Tabela 6). Mas apesar disso os elevados índices de crescimento permitiram um ganho de bem-estar para camadas mais amplas. Tratou-se.56 10. Assim a 20 Sem dúvida os militares não são suficientemente considerados nesse trabalho. Baseado no World Bank Development Report 1996 Foi a ditadura militar de 1964 a 1982/89 que colocou a acumulação em novas bases.70 5º quintil 15.10 37.94 16. Não estava previsto o acoplamento a aumentos da produtividade.16 2.

a 22 1949 1967 1975 1980 65. Os EUA permaneceram durante muito tempo como economia orientada pelo comércio interno e dispunham de uma gama de produtos de exportação similar à da América do Sul.3 7.4 5.9 2. Numerosos complexos industriais novos. 52 . Tabela 8). a agroindústria.8 6. para se transformarem finalmente no setor inequivocamente dominante (Becker. A supremacia dos EUA nas décadas posteriores à 2ª Guerra Mundial favoreceu o comércio mundial. muitas vezes controlados do exterior . composta pela balança de serviços e pela balança comercial.9 16.6 37.permitiram completar a estrutura produtiva (Becker.607 km (1973) (Robock 1975: 47). O grande capital privado brasileiro controlava por sua vez as áreas do comércio e dos serviços (Senghaas 1980: 132). no setor dos bens de consumo de longa duração de 78. A estratégia dos EUA diante dos maiores países latino-americanos distinguia-se substancialmente da da Inglaterra no século anterior.5 55. Brasil.5 6.7 2.4 12. Aqui as empresas multinacionais em expansão desempenharam um papel de central importância.6%. Representam ativos na balança de capital e conduzem na balança de transações correntes a fluxos financeiros para o exterior em virtude da remessa de lucros. Senghaas 1980: 130).2 6.beneficiamento de metais Química Máquinas instalações elétricas setor de transportes Fonte: Baer et al.5% a 37% (cf.2% a 10.6 A participação da indústria química subiu de 4. devido às remessas de lucros.2 3.23 O Estado engajou-se na disponibilização da infraestrutura e da produção de bens intermediários.3 10. Investimentos diretos reforçam os entrelaçamentos de capitais. Tabela 7). caso as reservas cambiais não devam ser alteradas. Os setores tradicionais perderam a sua posição dominante.3 2. 1978: 278 Já por volta da virada do século teve início o afastamento do Brasil da Inglaterra e a aproximação aos EUA (Faria 1996: 62 ss.2 10.3%. No âmbito da indústria ocorreu um deslocamento dos ramos industriais dominantemente expansivos até os ramos determinantes no regime de acumulação intensiva.1 1. Egler 1992: 130 ss. O fluxo de investimentos diretos do exterior experimentou um primeiro crescimento no fim dos anos 50 e depois mais uma vez durante a ditadura militar no início dos anos 70 (Fritsch. Franco 1991: 23).1 5.3 10. A Inglaterra orientava-se pelo comércio exterior e pelo comércio mundial e tinha uma estrutura complementar de comércio exterior.).24 Nas duas vezes esses investimentos conduziram em seguida.1 2. Egler 1992: 51.2 5.7 18.7 6. Nela a balança de transações correntes. 23 A sua participação nas dez maiores empresas foi em 1968 no setor dos bens de capital de 72. Tabela 7: Distribuição do valor agregado na indústria.malha rodoviária aumentou de 3.0 34. o complexo militarindustrial.a petroquímica.papel e celulose .22 com o aumento da utilização de máquinas e tecnologias modernas. Mas a CEPAL cedo reconheceu que a mudança da potência hegemônica na economia mundial não era tão positiva para o continente.4 60. os investimentos na indústria de processamento passaram a ter mais peso a partir de 1946.7 10.7% e a da construção de máquinas de 2.5 3.7% a 18.0 7.). Podemos mostrar bem a constituição ou o enfraquecimento de fronteiras econômicas com base na evolução do balanço de pagamentos (cf. 24 Se nos investimentos diretos dos EUA no Brasil em 1929 ainda dominavam as instituições do poder público como as empresas produtoras e distribuidoras de energia elétrica e as empresas ferroviárias.1%.6 39.5 44. na qual o comércio desempenhava um papel menor do que os entrelaçamentos de capitais.5 4. Essas duas balanças devem compensar-se.minerais não-metálicos . por fixar regras claras para o espaço de entrelaçamento econômico.133 km (1955) a 67. se opõe à balança de capital na qual se contabilizam os créditos e os investimentos diretos.0 2. 1949-1980 Ano setores tradicionais setores não-tradicionais . sua participação reduziu-se entre 1949 e 1980 de 65. a indústria de alta tecnologia e de computadores . Disso resultou também uma estrutura de centro-periferia.4 63.8 9.0 12.6 11.

No lugar de sindicatos independentes apareceram sindicatos subordinados ao Ministério do Trabalho. ligadas aos EUA e à oligarquia agrária orientada para a atividade exportadora. e com a institucionalização do dólar norte-americano como moeda padrão. Esta foi o ”ovo de Colombo” para compatibilizar as velhas alianças com novos objetivos: assim o Estado pôde aumentar os seus gastos sem financiar as suas receitas mediante títulos do Tesouro Nacional ou outros mecanismos (Fiori 1995a: 96). nos anos 30 pelo fascismo (Fausto 1981: 110). A ideologia do estadonação orientou-se e. impediram a imposição dessa política. A arrecadação tributária subiu de 11% (1955) para 17% (1961) (Bergsman 1973: 56 s. Os bancos estatais de investimentos aumentaram a sua participação nos créditos privados de 1964 a 1970 de 6. da estratégia de crescer e centralizar (Fiori 1995: 78). 53 . o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional como as novas organizações centrais. A moeda creditícia passou a ter maior importância em comparação com a moeda de papel.25 A industrialização conduzida pelo estado-nação possibilitou uma compensação específica de interesses no interior dos grupos dominantes.7% e o consumo do Estado. hidrelétricas e álcool como combustível). vendendo obrigações a particulares (Oliveira 1989: 94). por um lado. 27 A participação dos ativos monetários caiu em benefício dos não-monetários no período acima mencionado de 88. Juntamente com a crescente orientação doméstica do regime de acumulação intensiva o poder político se deslocou para os espaçosreceptáculos dos estados-nação. Na constituição de um mercado financeiro nacional sob Juscelino Kubitschek e posteriormente sob os governos militares o Estado desempenhou um papel central. A classe trabalhadora recebeu no direito trabalhista consubstanciado em 1943 na CLT (Consolidação das Leis de Trabalho) direitos sociais claramente definidos. por meio da ”fuga para frente”.1% (Tavares 1983: 229). as transferências e os investimentos tinham aumentado de 7. Financiavam investimentos no setor produtivo e na melhoria da infra-estrutura. 26 Já antes da tomada do poder pelos militares em 1964. que aumentou muito. Forças conservadoras.9% a 14. mas visava também a exploração militar das regiões fronteiriças e a transformação do Brasil em potência hegemônica na Amazônia. à medida que se submetiam gradualmente aos interesses nacionais de desenvolvimento e industrialização. os investimentos de todo o setor público tinham aumentado de 3. O Estado investiu no âmbito do seu projeto de integração nacional na valorização da Amazônia. A ONU complementou esse conjunto de organizações supranacionais. num projeto que não buscava apenas a exploração das jazidas e da energia hidrelétrica.). apoiado pelo capital do Estado. Uma nova fase das relações econômicas internacionais iniciou-se com o Acordo de Bretton Woods de 1944.9% (Tavares 1983: 224).uma passivação da balança de serviços.27 Ao lado da poupança maciçamente fomentada e em parte obrigatória. cujos dirigentes foram integrados ao bloco de poder. a não-ingerência nos assuntos internos de estados soberanos. os títulos do Tesouro Nacional foram a segunda fonte principal do financiamento de um novo surto de crescimento superador da crise. que contudo não serviu incondicionalmente à democratização e uniformização das condições sócio-econômicas. estados periféricos também conquistaram um espaço de atuação que até então existira apenas nos centros. O déficit na balança de serviços acirrou-se nos anos 70 e preparou o chão para a crise de endividamento dos anos 80. Na forma da industrialização realizada em 1956 o capital estrangeiro. O regime de acumulação intensiva não poderia ter-se estabelecido duradouramente no Brasil. obrigado a remessas periódicas de lucros e juros para o exterior. Os títulos públicos indexados puderam 25 Mesmo os oficiais reformistas e os liberais anti-oligárquicos foram marginalizados. Mas o novo bloco de poder era maior do que o da ”República Velha”.26 O estado-nação aprofundou os seus esforços em desenvolver e controlar de modo abrangente o espaço de poder.0 a 17. por outro lado. Depois do aumento dos preços de energia em 1973 foi iniciado um amplo programa de substituição de importação de energia (energia nuclear. e a xenofobia serviu para alimentar o anticomunismo (Fausto 1981: 106 s. As oligarquias mantiveram o seu poder baseado no latifúndio. Com ajuda de determinadas condições gerais internacionais enquanto regras de jogo. A compensação de interesses divergentes se deu agora pela via do estado-nação. se na esteira da crise econômica mundial e da guerra mundial o comércio mundial não tivesse entrado em grande parte em colapso entre 1929 e 1945. desempenhou um papel nitidamente maior.4% a 61. que fixou. Pontos de estrangulamento no financiamento foram ”solucionados” mediante empréstimos no exterior. Nos anos 70 ficou evidente a contradição central: a industrialização orientada para o mercado interno foi sustentada por capital controlado a partir de fora.). ao menos em termos de ‘Direito Internacional Público’. pois contingentes populacionais maiores podiam ser integrados no novo regime de acumulação.2% a 6.g. fazendose sentir na economia doméstica sob a forma da inflação. a saber.6%.

de um surto de crescimento do setor exportador e de importações restritas foi possível efetuar uma supervalorização do cruzeiro. foram substituídos por sindicatos corporativistas.]. Sob a ditadura militar os recursos e as decisões se concentravam no governo central. levando à fragmentação da ação estatal (Diniz 1997: 108). Com isso o regime de acumulação. centralizada no estadonação. Mas o Estado estava aberto aos empresários enquanto indivíduos e enquanto frações de classes que representavam interesses setoriais e territoriais. logo proibidos. depois o governo passou a cobrar taxas alfandegárias. e os desentendimentos entre as chefias nomeadas sempre segundo critérios políticos e o funcionalismo de carreira forneciam constantemente matéria para conflitos internos. em seguida. o valor do salário mínimo real caiu para quase a sua metade (Zenk 1982: 166). no longo prazo. destinado a indenizações e ao financiamento habitacional. um verdadeiro descalabro inflacionário“ (Fiori 1995a: 107).). O Poder Legislativo. 31 ”Liberal em sua primeira hora. Ele era o palco no qual os interesses dos empresários podiam ser mobilizados e precisavam sê-lo. mas sem desistir de outras medidas protecionistas como a concessão de licenças (Baer 1989: 53 ss. Isso levou a uma articulação direta entre os setores público e privado por via do corporativismo.000 órgãos públicos (Diniz 1997: 17). Patrono da desestatização. Por fim a gestão de divisas objetivou possibilitar importações de bens de produção.9% (1970).29 Por via do clientelismo foi possível influir no Poder Legislativo. A representação dos interesses empresariais. o Poder Executivo não era um ator uniforme: os vários ministérios concorriam entre si.).30 A centralização do poder no Executivo e em nível nacional caminhou de mãos dadas com a fragmentação interna do Estado. 28 Na esteira da 2ª Guerra Mundial. Apesar disso as organizações dos trabalhadores conquistaram uma certa independência e um acesso incipiente ao sistema político. [o ideário golpista de 1964] dá lugar. Ela foi seguida entre 1953 e 1957 por um sistema de licenças que distinguia entre tipos de importações. Foi aumentado o número dos órgãos consultivos nos quais a presença dos empresários era muito forte. Ainda em 1988 havia oito representações de interesses municipais em nível nacional e três representações de interesses rurais (Diniz 1997: 164). A prática da troca de votos representava um mecanismo para cobrar melhorias concretas das condições de vida. Os trabalhadores foram coagidos à poupança mediante retenção de parte do salário no FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço).aumentar a sua participação nos ativos financeiros de 0. por via do populismo foi possível influir no Poder Executivo. Jaguaribe 1987: 36). sem que os partidos desempenhassem aqui um papel mediador (Diniz 1997: 162 ss. 30 Os salários reais regrediram claramente entre 1961 e 1974.31 Em 1985 havia no nível federal 25. Para as obrigações sociais restantes a responsabilidade cabia ao Estado que exigia em contrapartida a aceitação da estrutura existente (Cardoso. Essa política em benefício do setor cafeeiro foi implementada conscientemente sobretudo pelo governo liberal de Eurico Gaspar Dutra. em si já esgotado. As tarefas das empresas diante dos seus funcionários reduziam-se ao pagamento do salário mínimo fixado em lei. A representação dos interesses políticos se dava por lei com restrições setoriais e territoriais e a constituição de uma central sindical era proibida. O corporativismo brasileiro caracterizou-se. corrigida apenas em 1953. que ganhara influência nos anos 50 e no início dos anos 60. apesar das elevadas taxas de crescimento da economia como um todo. mas não de bens de consumo.. perdeu-a novamente com o golpe de 1964. O aumento por volta do fim dos anos 70 estava ligado ao incipiente movimento grevista. 29 Sobretudo depois das grandes greves dos metalúrgicos em 1953 o seu acesso ao sistema político se dava pelo Poder Legislativo via clientelismo. diante da acumulação politicamente determinada. foi igualmente suprimida como a da classe trabalhadora. para ser mais preciso. sindicatos controlados pelo Estado (Fiori. recebeu um último impulso dinâmico.).28 Os interesses divergentes foram acomodados mediante a inserção de esferas sociais outrora autônomas no estado-nação. Advogado de um combate decidido contra a inflação. As exportações de produtos agrícolas serviam para atrair divisas necessárias ao processo de industrialização e desenvolvimento. produz. isto é. e pelo Poder Executivo via populismo. 54 . de modos respectivamente distintos. Mas isso afetava sobretudo projetos individuais..7% (1964) a 10. ao regime mais centralizado e autoritário de nossa história republicana. Permitiam aos grupos com capacidade de pagamento aplicações seguras a juros elevados. propicia o maior surto de crescimento do aparelho econômico e produtivo do Estado [. Faletto 1979: 112 s. na configuração de programas políticos e estratégias globais a classe trabalhadora continuou marginalizada. Os sindicatos autônomos. O Estado ou. diferentes órgãos públicos perseguiam interesses particularistas que estavam em contradição com outros interesses igualmente particularistas.

por um estrutura fortemente fragmentada. O conflito social deslocou-se para o interior das instituições do estado-nação: ”Ali se disputaria. Foi projetada a empresa energética ELETROBRÁS (fundada somente mais tarde) e foram feitos investimentos nos setores de aciaria e mineração (Becker. conseqüentemente cimentadoras de poder. cujas decisões influíam no sucesso ou fracasso da iniciativa privada. Um papel-chave foi desempenhado pelo órgão de desenvolvimento regional do Nordeste. À medida que se organizava a concorrência no espaço-receptáculo nacional. a do Sul aumentou de 7. que produzia com métodos atrasados. créditos baratos subsidiavam ramos da economia expostos à pressão internacional. foi uma espécie de pacto de não-agressão.32 O tripé . responsável pelos bens de consumo de pouca duração. Sob condições gerais ditatoriais. As idéias básicas da estratégia cepalina. A centralização do estado-nação assegurava por meio de uma regulação nacional a sobrevida a frações de capitais que não poderiam ter se mantido por mais tempo no mercado internacional: um protecionismo radical fechava os mercados para empresas nacionais. foram transferidas a regiões. mais tarde renomeado como Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Mas o golpe militar de 1964 mudou radicalmente a sua atitude diante da política regional. pela exclusão dos trabalharores. responsável pelo mercado dinâmico dos bens de consumo duráveis. do qual contudo também participava o setor dos bancos privados. Assim essas empresas logravam embolsar subsídios de colonização pagos pelo Estado e explorar ao mesmo tempo as vantagens de uma estrutura oligopolística do mercado. conseqüentemente reproduzidos. a burguesia nutria simultaneamente um profundo ódio contra essa regulação feita pelo Estado autoritário (Fiori 1995a: 89). ela era ao mesmo tempo crescentemente politizada. A política regional tornou-se crescentemente mais importante para valorizar recursos ociosos (Cano 1998b: 19 ss. A burguesia industrial em vias de formação organizou-se desde o começo em estreita simbiose com o Estado. Egler 1992: 49 s. à medida que a legislação trabalhista se restringia aos trabalhadores nas cidades. responsável pela infraestrutura e pela indústria de insumos básicos.formado pelo capital internacional. O desenvolvimento regional polarizou-se. Nessa ”internacionalização dos mercados domésticos” os mercados continuaram fechados às importações. Essa polarização foi percebida crescentemente como obstáculo ao desenvolvimento de toda a nação. Já nos anos 50. e pelo capital nacional.). as áreas gigantescas inexploradas da Bacia Amazônica e a estrutura econômica e social ainda arcaica do Nordeste bloqueavam um desenvolvimento maior orientado para o mercado interno. por outro. pelo primado do Executivo na definição das estratégias políticas e pela concentração do poder decisório na burocracia estatal. o combate ad hoc da seca e da fome previa-se um planejamento do desenvolvimento regional (cf. a deficiente homogeneização do território nacional. Disputa responsável pela expansão muitas vezes desordenada da intervenção estatal e pela instabilidade cíclica das instituições políticas” (Fiori 1995a: 81). pelo capital do Estado. a SUDENE (Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste) (Fernandes 1998: 194).3% a 17.7% a 30. A heterogeneidade desses capitais e seu grau distinto de modernização não eram questionados. desde o direito à sobrevivência até o ‘direito’ de manutenção de seus subsídios e rentabilidades diferenciados.g. 55 . mas a produção dos produtos localmente consumidos ocorria em empresas multinacionais localizadas no próprio país. Como o sistema era corporativista. A oligarquia agrária nordestina. foi protegida.portanto. concebidas para nações inteiras. Em 1953 foi criada a empresa estatal de petróleo PETROBRÁS. Essa idéia foi apoiada pelas regiões industrializadas do Sul e combatida pelos grupos dominantes do Nordeste. o capital internacional haveria de tornar-se o motor do desenvolvimento e em virtude dos seus recursos tecnológicos e financeiros o ponto nodal do poder.7% (Baer et al. nas prescrições jurídicas constituintes do território. No lugar de programas assistenciais como e. a participação da população nordestina na população total do país reduziu-se no período de 1872 a 1970 de 46. a política regional passou a ser um campo central da política. 1978: 68). Furtado 1997b). os empresários apostavam no Estado protetor.: Oliveira 1989: 77).a aliança ”de três pés” . sendo que a partir de então a valorização da periferia no 32 Em 1952 foi fundado o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE).3%. pelo atendimento privilegiado de interesses empresariais no aparelho de Estado. Isso continuou permitindo na zona rural o pagamento de salários abaixo do salário mínimo (pago nas cidades). Com a produção de bens de consumo duráveis. o êxito e fracasso dessa ação política foi medido pelas medidas tomadas no campo das políticas financeira e fiscal. a cada dia. pela construção civil e pela agricultura e pecuária -. Por um lado. Mas como isso resultou na concentração do poder nas mãos da burocracia estatal.

o Brasil ainda logrou passar por um desenvolvimento dinâmico depois de 1973. a fuga para aplicações de capitais a curto prazo levou a uma expansão vertiginosa do capital financeiro. mas na crise dos anos 80 o modo de desenvolvimento centrado no estado-nação também entrou em colapso. que completou a estrutura produtiva do país: tomando generosamente os créditos baratos no exterior. do colapso de uma ordem relativamente estável. Não obstante o enfraquecimento do espaço econômico nacional e da crise internacional. a dinâmica da acumulação se esgotou. A possibilidade. que ocorreu em meio a uma grave crise econômica. fomentou nos anos 60 o deslocamento de unidades de produção para a periferia (Cano 1998b: 242). Mas quando os esforços do estado-nação não mais puderam ser financiados . apostaram nas duas estratégias. Por isso os militares apostaram crescentemente também em estratégias de extensificação. os militares sediaram ramos da indústria de insumos básicos na periferia e começaram a produzir nessas regiões também energia em larga escala.3%). criada para as grandes empresas. mas de forma especialmente dura (cf.4. uma maior orientação para a atividade exportadora.a partir de fora -. 2.4 Destruição do modo de desenvolvimento centrado no estado-nação e dominação dos EUA (a partir de 1982) Seria uma simplificação grosseira querer descrever o regime de acumulação intensiva como fase uniforme e estável de evolução econômica de 1930 a 1982. Nos anos 60 o modo de desenvolvimento e com isso o campo de poder ainda permaneceram intocados. A expansão do capital paulista e do capital estatal para o Nordeste ensejou a formação de um espaço nacional de acumulação. vale dizer. O golpe militar de 1964. Com isso a dinâmica da acumulação intensiva só pôde ser preservada mediante um ampliação do consumo das classes média e alta. o Estado deslegitimado enquanto ator central. A nação enquanto estrutura profunda estava minada. nas quais igualmente se podia perceber fenômenos de crise. a produção de bens de capital no país regrediu e foi substituída em parte pelo aumento 56 .). Mais uma vez se pode falar como nos anos 30 de uma ”grande” crise. Rompeu-se estrutura profunda do poder sobre o espaço. tal como ela formara durante décadas uma unidade em torno do estado-nação. foi aqui uma cesura especial. relativamente tarde em comparação internacional. localizada nas diferentes partes do país e integrada funcionalmente (Oliveira 1989: 55). A virada monetarista sob os governos de Margareth Thatcher e Ronald Reagan provocou em 1980 uma recessão mundial que destruiu o antigo campo da acumulação. Apesar disso os anos 70 já foram anos de crise nas economias dos países centrais. Uma alternativa possível era a transição ou o retorno a um regime de acumulação orientado para o exterior.1. cuja base era formada por um processo nacionalmente unitário de valorização do capital. Mas a produção física estagnou. O poder físico dos militares transformou uma economia nacional composta por uma série de economias regionais e uma economia nacional abrangente. de investir lucros com incentivos fiscais no Nordeste. A recessão começou com a forte queda da renda nacional em 1981 (. Tabela 9).interesse do desenvolvimento nacional estava em primeiro plano. As economias dos países centrais. Nessa situação de crise todas as estratégias de acumulação se caracterizaram por sua inconsistência. Foram arquivadas a reforma agrária e a redistribuição da renda. Esforços intensos no setor de alta tecnologia completaram o pacote de investimentos. Uma outra estratégia era a homogeneização e extensificação no âmbito das fronteiras nacionais e das fronteiras traçadas pelas estruturas de poder. As fases do seu esgotamento foram seguidas por tentativas de adaptação. O ponto culminante dessa estratégia de homogeneização nacional foi o Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) nos anos 70. Tentaram manter a sua dinâmica interna de acumulação e aplicar simultaneamente capitais excedentes em investimentos produtivos nos países emergentes (Lipietz 1986: 30 s.

As importações de bens de capital aumentaram de US$ 5. Enquanto unidade política e econômica.8 milhões de toneladas a 25411. quase completa.9 milhões de toneladas (Pacheco 1998: 143).33 a estrutura produtiva nacional. A demanda de bens de capital ocorreu crescentemente no exterior. desintegrou-se.das importações. o território perdeu importância. mais precisamente na razão de dramáticos 44%. as suas fronteiras se tornaram permeáveis.9 bilhões (1990) para US$ 25. 57 . um indicador confiável da atividade no setor da construção civil e conseqüentemente um indicador confiável da conjuntura. 33 Assim a produção de cimento. De 1980 a 1992 diminuiu sobretudo a produção de bens de capital. bem como a produção de bens de consumo duráveis (na razão de 8%) (Pacheco 1998: 108). reduziu-se no período de 1980/82 a 1991/93 de 26523.2 bilhões (1998).

d.596 27.011 n.294 29. Serviços Juros Serviços diversos (remessa de lucros.351 -5. 2.0 114.3 159.254 12.gov.d.443 6.834 5.1 DÍVIDA EXTERNA (2) (1)Em virtude de correções adicionais. n.611 -24.958 545 -936 625 -5. Superávit(+) / déficit (-) (1) 1.984 8.0 243.4 148.881 13. n.845 54.1.964 41.594 -20.2 241.285 -10.480 9.175 -1.685 14.894 -16.042 -562 -7.747 52. anos selecionados 1970 1974 1981 1988 1994 1995 1996 1997 1998 1999 232 -4.506 47. v.972 -23.122 -11.886 28. com relação aos dados para os anos não-mencionados.773 -8. 33.d.209 -815 -2. em milhões de US$.736 22.7 (3) 5. 43.466 -3.798 -25.850 -10.d.9 200. o excedente e déficit no balanço de pagamentos não correspondem exatamente às transformações das reservas cambiais.591 -1.229 447 909 18.326 2.184 10.858 53.1 52.540 20.390 -11. viagens) E.554 -6. Transações correntes F.130 1.690 1.520 30.173 -10.743 -18. Balança comercial Exportação Importação B.891 n.). (2) Em bilhões de US$. n.881 19.483 -26.731 49.017 -7.300 -5.990 51.3 7.310 -15.137 -30.338 -8.6 36.111 -2.963 77 464 1.ipea. n. 1970 – 1999.0 74.140 48.301 59.103 -14.359 33.863 25.212 -234 -514 -9.3 179. n.161 -9.d.845 -17.d. n.198 n.3 20.170 -119 -198 -1.433 -13.135 -15.663 15.Tabela 8: Balanço de pagamentos do Brasil.929 -27. Novy (1998: 191-193) 58 .202 19.343 12.d.131 4.8 51.948 -15.253 -8405 -10.833 -33.939 13.1 38.689 -17.284 -28.1.bcb. (3) Sempre em dezembro de 1971 Fonte:www.662 20.755 57.545 46.832 -6.158 -9.015 6.2 44.br (tab.437 -11.734 4.br/ftp/tabelas/ltab88.1.578 132 887 2.html (para 1970-1995).358 -18.832 14.765 -6.d. www.6. Balança de capitais Investimentos diretos Empréstimo à médio e longo prazos Capitais à curto prazo I.d.375 1.079 49.3 RESERVAS INTERNACIONAIS (2) 5.758 A.8 60.gov.5 9.

7 100.9 4. 1990 até 1999 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 n.1 Índice do nível de emprego -4.4 38.4 3.8 6.3 Desemprego (4) 110.5 556.9 5.4 -0.161 PIB per capita (2) -5.1 705.7 543.d.8 9. alteração no período em % (4) Desemprego oficialmente admitido.br 59 .7 30.664 5.4 4.5 801.3 1.4 775. R$ (Real) 1999 (3) deflator IGP-DI Geral.0 107.4 4.5 PIB per capita (%) 1476.9 4.3 2.8 14.5 -0.283 6.2 1093.2 7.d.0 99.9 2708.0 taxa de juros reais (5) (1)em bilhões de US$.9 23.3 6.1 56.gov.2 2.192 6.3 104.2 2.7 775.596 5. segundo o IBGE (5) Selic/ Over.0 Inflação (3) 3.5 4. 429.480 5.1 0.0 -0.8 4.8 PIB (1) -4.0.4 3.2 102. n.8 PIB-crescimento (%) 5.5 4. Brasil.4 103.8 6.2 19. n.148 6.2 1157.0 31.Tabela 9: Dados econômicos principais.bcb. a preços correntes (2) em preços constantes.d.072 6.0 106. FGV.628 5. Dezembro Fonte: www.2 105.1 3.6 480.7 3.7 20.9 42.3 104.909 6.3 7.6 -2.5 1.8 1.6 .2 -1.2 4.

ano do Plano Cruzado.2% (1990) a 12.60. Embora a estratégia política oficial tenha consistido na substituição das importações. Nove nonos da população se viram obrigados a reduzir continuamente a sua participação na renda de 53. ocorreu uma distribuição da renda. já num ano de elevada ”ingovernabilidade”.8% em 1989 (cf. quando ocorreu em virtude do reduzido crescimento econômico um colapso das importações e uma diversificação das exportações. Assim e. Apenas na esteira de programas de combate à inflação. uma medida para aferir a desigualdade da distribuição. mas as remessas de lucros também são consideráveis. Em 1992.58. Tabela 8). Novy 1998: 180). A deterioração daí resultante da distribuição da renda bloqueou a demanda maciça enquanto saída da crise de crescimento. Elevados índices de inflação foram acompanhados pela deterioração da distribuição da renda.Países capitalistas periféricos. Isso mostra que as melhorias de 1995 devem ser creditadas sobretudo à situação dramaticamente negativa antes do início do Plano Real. Na esteira do Plano Real a distribuição da renda melhorou mais uma vez no curto prazo. sendo que o déficit desde os anos 80 se localiza entre US$ 10 e 20 bilhões. Os diferentes fundos de investimentos. aumentaram especialmente nos anos antes da eclosão da crise em 1981. a balança de serviços é cronicamente negativa. 34 Restrições às importações foram retiradas e as taxas alfandegárias foram reduzidas em média de 32. com o congelamento das cadernetas de poupança no primeiro ano de governo de Fernando Collor de Mello. A sua maior parte é composta por pagamentos de juros.57. a metade do patrimônio. os investimentos diretos atingiram o patamar de US$ 2. em 1989 em 0. isto é. Parte dos efeitos redistributivos positivos do Plano Real se deve também a uma crise da agricultura. Em 1997 elas passaram da marca dos US$ 20 bilhões. um valor que ainda estava acima do de 1992. Em 1988 ela atingiu um ponto culminante com US$ 19. para deteriorar-se novamente mais tarde. do dinheiro e do trabalho freqüentemente não se coadunam. isto é. para citar apenas um exemplo. profundamente inscrita no poder sobre o espaço. como em 1986. do Estado. tendem a desequilíbrios na sua economia externa (cf. Como é típico para uma economia periférica. as importações baratas possibilitaram a absorção local de padrões globais de consumo up to date.br. aumentaram somente de 1994 até maio de 1997 o seu volume de US$ 54 bilhões para US$ 119 bilhões (Gonçalves 1999: 58 ss.abstração feita de quedas em 1995 e 1998. em números arredondados. Estavam assim esgotadas a partir do lado da demanda as estratégias convencionais e também todas as estratégias tipicamente brasileiras de superação da crise. criado somente mais tarde pelo Plano Real. Com o Plano Real ela entrou novamente no passivo em virtude da taxa cambial excessivamente alta e do surto de importações daí resultante.gov. Em 1981 ele estava em 0. para cair em 1995 para 0.34 No curto prazo. Tabela 10). foi de 0. que integram. Nos anos 80 eles cairam continuamente até desaparecerem em grande parte nos anos de 1986 a 1991. e em 1990.64! Em 1992 ele esteve em 0. 60 . O patrimônio concentra-se sobretudo na propriedade empresarial.59. a balança comercial foi tendencialmente negativa nos anos 70.g 1% da população controla. ao lado dos empréstimos no exterior.). A estrutura industrial também tinha sido completada. o segundo decil conseguiu aumentá-la ligeiramente e os restantes 80% sofreram perdas.5% (1995) (Calcagnotto 1996: 35). substancialmente a balança de capital.97 bilhões. Apesar disso os 10% mais ricos da população conseguiram em toda a década aumentar nitidamente a sua renda. nos ativos financeiros e na propriedade fundiária. sobretudo aos preços reduzidos. 35 No ápice da ditadura militar o índice Gini.57. mas simultaneamente também num período recessivo nos países industrializados. isto é. a uma transferência de renda das regiões rurais para as urbanas (cf.ipeadata. ela foi quase sempre positiva. Os investimentos diretos. nos quais as formas estruturais do capital.4% (1981) a 46. A urbanização avançara a ponto de não mais poder ser um motor do crescimento.35 O fundamento da deterioração da distribuição da renda no longo prazo é a distribuição do patrimônio. Nos anos 80. subindo depois sobretudo em virtude das grandes privatizações .2 bilhões. A disponibilidade de capitais internacionalmente aplicáveis foi tão importante para o boom quanto o ambiente favorável aos aplicadores. em 1993 em 0. Importações baratas serviram no Plano Real para reduzir o nível dos preços internos em mercados antes protegidos. www.

36 Tabela 12: Diferenças regionais da renda média por habitante.61 Tabela 10: Distribuição da renda pessoal.6 3. cuja renda per capita em 1939 já estava 79% acima da média no Brasil.2 10.6 51.0 1.3 * renda mensal de trabalhadores a partir dos 10 anos de idade Fonte: www.6 35.2 16.8 0.1 5. São Paulo.5 7. 1981 – 1990* participação na renda (em %) DECIL até 10 de 10 a 20 de 20 a 30 de 30 a 40 de 40 a 50 de 50 a 60 de 60 a 70 de 70 a 80 de 80 a 90 de 90 a 100 ACUMULADO 50% mais pobres 80% mais pobres 90% mais pobres 1981 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 0.6 3. que culminou em 1970 em 58.6 2.3 53.br/ftp/tabelas/ltab80. pois aqui as perdas de participação da indústria foram suavizadas por ganhos de participação na economia agrícola e pecuarista e no setor de serviços.4% (1990). sem precisar abrir para todas as camadas o acesso ao consumo de massas.2 16.4 7.8 15.8 7. Em conseqüência dessa política de homogeneização espacial.7 3.0 34.1 5.9 1. mas a distribuição pessoal menos equilibrada (cf.7 2.5% (1970) a 36.6 1.2 0.8% em 1995.0 5.8 1.3 49.4 2.2% depois de aumentos contínuos nas participações.3 10.5 5.9 0.2 7.4 3.5 2.5 3.3 10.3 3.4 7.8 12.4 51.ipea.7 1.8 53.7 2. Tabela 10). 1939 – 1995 1939 79 33 61 62 239 179 96 78 1970 56 38 69 69 163 200 75 88 1995 68 49 88 90 123 165 119 109 NO NE MG ES RJ SP PR SC 36 A sua participação no valor agregado da indústria processadora. para cair depois até 1995 a uma vantagem de 65%.9 1.7 1. Tabelas A-13 e A-14) 61 .4 15.5 7.5 35.9 51.3 16. Brasil.6 1.8 0.2 2.2 10.7 2.5 16.0 11.7 34.4 7.0 46. Tais medidas abriram novos mercados na periferia da nação e sustentaram a dinâmica fordista.5 48.4 37.7 6.6 10.7 2.2 10. aumentou essa vantagem até 1970 para 100%.5 4.2 10.1 4. mas não social.3 16.1 12.2 1.9 5.1 15.8 51.4 49.9 48. a distribuição da renda se tornou regionalmente mais (cf. Desde 1970 São Paulo pareceu perder crescentemente essa posição dominante na estrutura regional do Brasil.8 12. A participação regional de São Paulo no PIB reduziu-se por isso apenas de 39.2 11.6 13.html Por mais de uma década os militares estabilizaram mais uma vez o modo de desenvolvimento centrado no estadonação por meio de uma política keynesiana de demanda e do fomento da homogeneização territorial por meio de políticas regionais.4 0.5 9.3 16.4 48.8 1. caiu nos anos seguintes gradualmente até chegar em 49.4 3.0 5.2 2.8 48.4 4.7 3. para subir depois até1995 novamente a 36.1 32. Tabela 11).gov.0 3.1 4.9 0.1 46.4 51.1 6.5 3.1 12. No PIB essa perda da participação é mais reduzida. Brasil.3 10.6% (cf.2 4.6 4.4 31.9 50.4 4.5 35.8 5.9 9.2 33.3 48.1 5.7 51.4 2.8 2.0 0.7 11.

62 127 119 119 RS 69 67 84 CO 175 206 DF Brasil =100 (siglas: v. gráfico 7) * NO compreende no período de 1985 a 1995 o Estado de Tocantins * CO compreende no período de 1939 a 1970 o Estado de Tocantins

Fonte: Cano 1998b: 316
As dimensões da crise até agora descritas evidenciam aspectos de uma crise de subconsumo. Mas também no lado da demanda os sintomas da crise se aprofundaram. O fenômeno está ligado ao enfraquecimento da indústria nacional, motor da dinâmica do crescimento fordista. Desde 1980 a indústria era essencialmente responsável pelas graves quedas e pelos surtos não suficientemente duradouros de crescimento da renda nacional. (cf. www.ipea.gov.br/ftp/tabelas). O estado-nação, devido aos investimentos estatais na infraestrutura e às empresas estatizadas substancialmente responsável pela formação de capital no longo prazo, não pôde mais preencher o seu papel no velho campo de regulação. A crise fiscal levou a uma forte redução dos investimentos estatais e com isso a uma redução dos índices de investimento.37 Os investidores privados também se mantiveram reticentes e desviaram, em virtude da insegurança e das opções lucrativas, para aplicações em capital financeiro. A partir daí as empresas geravam lucros no mercado financeiro, ao passo que os elevados juros sobre o capital estrangeiro motivavam as empresas a fazer investimentos produtivos principalmente com recursos próprios. Tudo somado, a evolução dos lucros permaneceu insatisfatória, embora os salários reais também praticamente não aumentassem depois do fim da ditadura.38 A explicação desse fenômeno deve ser buscada até 1990 no modesto aumento de produtividade39, pois enquanto a produção industrial estagnava, o número de horas trabalhadas se reduziu mais ainda. Embora a produtividade aumentasse claramente depois, não está claro até que ponto isso produziu um efeito dinamizador e até que ponto ocorreu apenas uma economia de mão-de-obra.40 A centralização do espaço de poder, levada ao ápice pela ditadura militar, criou um estadonação aparentemente todo-poderoso. Mas o campo do poder centralizado não impediu que o estado-nação permanecesse em grande escala impotente enquanto ponto nodal da rede de poder diante de influentes interesses da sociedade civil. Quando necessário, essas frações das classes dominantes agiam à margem do Estado, mas serviam-se dele enquanto instância garantidora da estabilização da estrutura de poder. O Estado perdeu essa função desde o fim da ditadura. Os diferentes grupos sociais promoveram, em parte consciente, em parte inconscientemente, o enfraquecimento do estado-nação e prepararam assim o chão para a sua reestruturação. A política fiscal e financeira desempenhou aqui um papel central. O saneamento do orçamento público era considerado desde a ditadura militar o objetivo político em grande parte inconteste.41 Isso se explica a partir da idéia de que o déficit público fomentaria a inflação. Com efeito os numerosos programas de estabilização sempre foram justificados com o argumento do combate ao déficit do orçamento público. Uma análise mais
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Ao passo que a quota de investimentos em 1980 ainda estava em 23%, ela caiu depois continuamente até 14%. Durante o Plano Real ela se recuperou no curto prazo para chegar em 18,5% no 2º trimestre de 1997, para regredir depois em fins de 1998 novamente a 17,1% (www.ipeadata.gov.br). 38 A participação dos salários no valor agregado, que tinha regredido continuamente desde 1949, aumentou na segunda metade dos anos 70 sobretudo em decorrência das greves nos ramos dinâmicos da indústria. Mas a recessão de 1980 a 1984 atingiu duramente os trabalhadores. Somente com o aumento do crescimento econômico em 1984 aumentou novamente a participação dos salários no valor agregado. 39 Comparada com a produção física por trabalhador, a análise da evolução da produtividade do trabalho, mostra que a acumulação esteve nos anos de 1976 a 1990 em uma crise maciça. A partir de 1990 a produtividade do trabalho começou a aumentar novamente, mas isso deve ser creditado essencialmente à involução dos índices de emprego; a produção e os índices de emprego foram desacoplados (Seade 1995b: 40). 40 Parte dos lucros de produtividade depois de 1990 resultou de processos de modernização que foram implementados como resposta à abertura do mercado. Em 1992 somente 38 empresas tinham adquirido o certificado ISO 9000, em 1993 esse número já chegou a 166 e em 1994 ele chegou a 400, mais do que toda a América Latina restante (Seade 195b: 28). Outra parte explica-se a partir de terceirizações para empresas autônomas prestadoras de serviços (Seade 1995b: 32-36). 41 Por ocasião da introdução do Plano Real o objetivo do saneamento do orçamento público esteve, no discurso oficial, até acima do da estabilização dos preços (www.fazenda.gov.br vom 16.8.1999).

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63 acurada evidencia nexos inteiramente distintos, pois o Estado pôde controlar bem as suas receitas e despesas correntes também nos anos 80 e 90. Ainda em 1994 foi alcançado um superávit considerável de 5,1%. Mas o cálculo das receitas e despesas correntes tornou-se cada vez mais insignificante para o Brasil. O déficit orçamentário operacional ou nominal explodiu sob o Plano Real em virtude dos juros elevados: em 1998 7,5% dos PIB tiveram de ser gastos no pagamento dos juros, o que equivaleu a uma sangria maciça do Estado (cf. Tabela 12). Esse endividamento da união deslocou-se da dívida externa para a dívida interna que se cifrou em 1998 em R$ 218,9 bilhões. A dívida pública externa atingiu apenas R$42 16,9 bilhões (www.seplan.gov.br/sof/orc98). A política dos juros elevados causou, por conseguinte, o aumento dramático do endividamento do setor público, de 29,9% (1995) a 47,o% (1999) (www.bcb.gov.br). Comparada com a renda nacional em escala internacional, esse endividamento do setor público continua não sendo elevado. Mas o aumento da dívida e os prazos curtos dos reembolsos são motivos de grande apreensão. Embora o saneamento do orçamento do Estado tenha sido o grande objetivo que o governo se fixou, justificando muitos cortes no Estado de Bem-Estar Social, o resultado foi extremamente negativo. Tabela 12: Necessidades de financiamento do setor público, Brasil, 1993-1999, em % do PIB, em números arredondados Tipo 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 58,1* 43,7* 7,2 5,9 6,1 8,0 5,6 Nominal -0,2 -1,3 4,9 3,8 4,3 7,5 3,2 Operacional -2,6 -5,1 -0,4 0,1 1,0 0 -3,1 Primário 2,4 3,8 5,2 3,8 3,3 7,5 6,3 Juros reais * os números elevados resultam, por razões de técnica de cálculo, do elevado índice inflacionário Fonte: www.bcb.gov.br Uma análise do orçamento, que pela primeira vez pôde ser efetuada com seriedade em 1995, não é empreitada fácil nem para esses anos. Assim uma grande parte das despesas está contabilizada no item ”Administração financeira”, isto é, na administração do serviço da dívida (cf. Tabela A-9). Trata-se, nessas despesas de itens de passagem [? Durchlauferposten; a tradução é literal e designa os montantes que, no caso, entram no caixa do governo, mas são transferidos integralmente a terceiros, não podendo, por conseguinte, ser lançados na contabilidade. O tradutor desconhece o termo técnico em português e remete a questão à decisão do revisor da editora.] e não é possível fazer inferências diretas sobre o ônus do serviço da dívida. Não obstante, algumas tendências podem ser reconhecidas. Assim uma estagnação se evidencia nos gastos sociais: os gastos para educação e saúde foram em 1998 em termos reais menores do que em 1995, o que significa que os gastos per capita sofreram uma nítida redução. Foram cortadas muitas atividades de investimento, com exceção do desenvolvimento regional. O único item na área dos gastos sociais que aumentou nitidamente foi o da Previdência Social. Aqui os gastos - aos quais se contrapõem também as receitas advindas das contribuições dos funcionários públicos federais - aumentaram em preços constantes de 66,42 a 82,95 bilhões de reais. No lado das receitas o Estado foi bem-sucedido nos anos 90 (cf. Tabela 14), e isso apesar da falta da reforma do sistema tributário extremamente regressivo e ineficiente. De acordo com estudos internos do Ministério da Fazenda nem os ”100 brasileiros mais ricos” nem as grandes empresas pagam impostos.43 No sistema tributário, em si uma área central para o saneamento das finanças públicas, só foram agudizadas estruturas negativas. Assim o limite de isenção de tributação estava, no imposto de renda, em R$ 1.800,00, atingindo duramente a classe média (Fritz 1996: 29). Sobretudo os latifundiários não pagavam os seus impostos ou estavam altamente endividados junto ao Banco do Brasil. No campo da cultura as propostas também se limitaram essencialmente a isenções tributárias concedidas para patrocínio cultural e redutoras da receita do Estado. A guerra fiscal para a atração de projetos
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R$ designa desde 1994 a moeda corrente, o Real, que passou a ocupar o lugar dos numerosos cruzeiros e cruzados. A sua taxa de câmbio com relação ao dólar norte-americano caiu até 1998 de 0,80 a 1,20. 43 Deve-se considerar que a alíquota máxima é de apenas 25%; a tributação de capital se cifra em 8,18% (28,43% na média dos países do G-7). Apenas os impostos sobre o consumo - de efeitos regressivos - são com 16,74% mais elevados do que nos países do G-7 (12,65%) (Fritz 1996: 28 s.).

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64 industriais, oficialmente lamentado pelo governo federal, mas efetivamente apoiado, também é muito custoso para os cofres públicos.44 O lado especialmente problemático dessas medidas está no fato de que o Estado não apenas concede subsídios no presente, mas abre mão de receitas também no futuro.45 Tabela 13: Programa Nacional de Desestatização, Brasil, 1991 - 1998, em milhões de US$ Setor Receita de Dívidas Total Vendas transferidas 8 5562 2.626 8.188 Aço 27 2.135 1.003 3.701 Petroquímica 3 3.828 1.670 5.498 Elétrico 6 1.491 1.491 Ferroviárioas 2 3.305 3.559 6.864 Mineração 22 26.557 2.125 28.682 Telecomunicações 16 1.401 343 1.744 Outras 1.039 1.039 Minoria 83 45.81 11.326 57.207 UNIÃO 21 22.367 5.223 27.590 ESTADO TOTAL 111 68.248 16.549 84.797 Fonte: www.bndes.gov.br/pndnew/sectors.htm, www.fazenda.gov.br A desestatização iniciada em 1991 foi essencialmente fundamentada com argumentos ideológicos.46 O Estado deveria separar-se do controle de ramos não-essenciais como a produção de aço, a petroquímica e a mineração, para poder voltar-se às suas tarefas mais precípuas nas áreas da educação e da saúde. Mas ao mesmo tempo a privatização deveria contribuir para o saneamento do orçamento público. Ora, a análise mostrou que a maior onda de privatizações andou de mãos dadas com o maior aumento do déficit orçamentário na história do Brasil. Essa circunstância torna plausível o argumento de que o Estado teve, em última instância, de gastar mais para a desestatização do que ele recebeu em pagamento. Biondi (1999: 41) calculou que o Estado contabilizou oficialmente R$ 85,2 bilhões de receitas, incluindo aqui ao lado do dinheiro recebido também a transferência das dívidas aos novos proprietários. A esse número, Biondi contrapôs, ao lado de outros custos não-calculáveis, os custos calculáveis da privatização no valor de R$ 87,6 bilhões.47 De início somente uma parte do preço de compra foi paga em dinheiro, os pagamentos restantes foram efetuados com títulos de dívida, entre outros do
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Nº de empresas

O Estado do Paraná subsidiou a fábrica da Renault em São José dos Pinhais com R$ 300 milhões, somados aos investimentos do grupo francês, no valor de R$ 700 milhões; o município isenta o grupo por dez anos dos impostos locais (Veja, 20 de março de 1996). Essa substituição destrutiva da falta de uma política industrial nacional custou aos estados nos primeiros três anos do Plano Real no mínimo 9 bilhões de reais (Folha de São Paulo, 14 de setembro de 1997). 45 Muitos governos estaduais concederam isenções fiscais ou créditos fortemente subsidiados. Um único projeto, o da fábrica da Mercedes-Benz em Juiz de Fora, que deverá criar 2.000 empregos diretos e 5.000 empregos indiretos, foi financiado pelo BNDES com R$ 325 milhões - em comparação com investimentos totais no valor de R$ 1,1 bilhões. As condições do financiamento não foram publicadas. A fábrica da Renault no Paraná recebeu do governo estadual subsídios no valor de US$ 1,5 bilhões, as montadoras da GM e da Ford no Rio Grande do Sul deverão receber redondamente US$ 4 bilhões (Novy 1998: 237). 46 Não estariam em jogo apenas receitas do Estado, mas também o interesse em ”evitar perdas futuras para o governo”. Sob esse ponto de vista o comentário do ex-ministro Roberto Campos perante a CPI das privatizações realizada pelo Congresso Nacional também se torna compreensível: ”Existe um outro processo de privatização [...] que já propus no ano de 1982 para ser aplicado no Brasil, e que consistiria simplesmente na doação das empresas” [REVISÃO: verificar citação no original] (cit. ap. Winckler, Pacheco 1994: 151). 47 Junte-se a isso R$ 28,5 bilhões de investimentos públicos pouco antes da privatização e os juros (R$ 8,9 bilhões) e R$ 16,1 bilhões de dívidas das empresas, assumidas pelo Estado, e seus juros (R$ 8,9 bilhões). Por fim o valor verdadeiro dos títulos de dívida, com os quais os compradores adquiriam as empresas, estava R$ 8,9 bilhões abaixo do seu valor nominal. Por meio da venda a prazo o Estado perdeu outros R$ 14,8 bilhões. R$ 1,7 bilhões foram deixados pelo Estado no dia da venda como recursos líquidos nos caixas das empresas.

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o Estado investiu maciçamente nas suas empresas para torná-las mais atraentes. O BNDES financiou também uma nova usina geradora de energia elétrica da recém-privatizada siderúrgica Companhia Siderúrgica Nacional com um valor de R$ 300 milhões. Do valor de venda.2% de receitas em numerário (1991/92) a participação aumentou para 34. Essa foi uma nova forma de regime financeiro político. não muito mais do que o lucro gerado em um dia. A empresa tinha sido vendida em 2 de abril de 1993 ao preço de R$ 1. Este consórcio adquiriu também a Eletropaulo Metropolitana.495 milhões. 20 de janeiro de 1998).3 bilhões também a empresa de mineração CVRD (Companhia Vale do Rio Doce). Essa empresa estatal de orientação crescentemente transnacional criou dessarte no âmbito da área da qual é proprietária um território de seu próprio domínio.700 e conseguiu assim sair do vermelho. respectivamente.6 bilhões) e em 1997 (R$ 7.013 bilhões. R$ 2. As receitas esperadas cifravam-se em R$ 220 milhões por ano. os bancos agora saneados foram vendidos aos grandes bancos nacionais e crescentemente também a bancos estrangeiros. o que significou uma economia de fato no montante de R$ 50 milhões. XX em sua maior parte tinham sido compradas por empresas privadas. De risíveis 1. Tudo isso foi financiado por um consórcio de bancos internacionais. tornando-se assim o maior produtor de energia elétrica da América Latina. além disso foram concedidos em maio e agosto de 1998 aumentos das tarifas em 4. isso teria piorado as condições para a renegociação da dívida.65 tesouro público. R$ 600 milhões puderam ser pagos com títulos de dívida. Estados que privatizaram receberam créditos subsidiados.996 de um total de 22.303 funcionários). que liga São Paulo com a Bolívia.026 bilhões. O PROER (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional) custou à União R$ 21 bilhões. Novy 1998: 205-212 e Biondi 1999). A empresa controla uma área de 351. o território também foi privatizado. As empresas de pedágio também foram privatizadas. O grupo financeiro que comprou a grande usina siderúrgica Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda adquiriu por R$ 3. Se um governador não tivesse cedido à pressão do Banco Central.2 milhões (diante dos R$ 81. e uma entrada no valor de R$ 10 milhões. que no decurso do séc. um patrimônio no valor de R$ 15.2 bilhões) (cf. sobretudo na área do Projeto Carajás.142 a 10. Tabela A-11). A empresa privatizada reduziu o quadro de pessoal de 15. Também as ferrovias. Antes da privatização. Todos os outros estados foram forçados no contexto das renegociações da sua dívida à venda dos seus respectivos bancos estaduais. 65 .pagáveis em trinta anos.2 milhões no mesmo período em 1997). pagando adiantamentos aos estados (FSP de 4 de 48 Com a venda de 13 empresas geradoras de energia elétrica da União e dos estados. ao passo que a empresa consultora responsável pela licitação considera as orientações prévias ”perfeitamente possíveis” e ”muito conservadoras”. custou R$ 60 milhões . outros R$ 13.6% (1995). Ao mesmo tempo a empresa entrou nas manchetes do noticiário em início de 1998 em virtude de grandes cortes de energia. A empresa de eletricidade do Estado do Rio de Janeiro. O BNDES contribuirá com R$ 730 milhões para investimentos.2 bilhões em dinheiro. O PROES (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Estadual) poderá custar até R$ 50 bilhões (FSP de 30 de janeiro de 1998).2 bilhões a União recebeu em títulos ”podres” de reduzido valor de mercado (FSP. No primeiro trimestre de 1998 a empresa contabilizou um lucro de R$ 115. foram reprivatizadas. pagáveis em cinco prestações anuais.com.466 e obteve em 1997 um lucro recorde no montante de R$ 756 milhões (indicação detalhada das fontes cf. Entrementes estes objetivos são considerados ”irreais” pelos novos proprietários.48 Na reestruturação do setor bancário o Estado também desempenhou um papel central. assumindo o vendedor também dívidas no montante de R$ 533 milhões. Em conseqüência disso as estatais.0% ou 5. Mas três das cinco empresas ferroviárias privatizadas reduziram as suas quantidades de carga. O órgão fiscalizador impôs uma multa de R$ 2 milhões. Em 1996 e sobretudo em 1997 a maior parte teve de ser paga em espécie (Tabela A-10).br de 10.589 bilhões mudou de dono até o início de 1998. Em 2000 o BANRISUL no Rio Grande do Sul será o único banco estadual remanescente. o BNDES emprestou R$ 1.34 milhões. Light.1. um destinado aos bancos privados e outro destinado aos bancos públicos.2000). Com a privatização. Foram criados dois programas especiais. socializando os prejuízos. A Light reduziu depois da privatização o seu quadro de pessoal de 11. dos quais até início de 1998 somente foram devolvidos R$ 1.723 km2 com jazidas de minérios estimadas em 41. Um trecho adquirido por um grupo norteamericano. De resto o BNDES disponibilizou linhas de crédito específicas para a privatização. Em conseqüência. conseguiu-se realizar nas empresas privatizadas as demissões em massa previstas (10. outrora ”ineficientes”. No entanto. Em 1997 os lucros foram de R$ 450 milhões. pagáveis em 240 prestações mensais de R$ 0. auferiram lucros consideráveis em 1996 (R$ 2. Poder assumir a preço barato empresas dessarte saneadas passou a ser um negócio lucrativo.000 a 6.zerohora. Em fins de 1999 40% do capital dos bancos privados já se encontravam nas mãos de proprietários estrangeiros (www.6% (193/94) ou 32. cujo valor de mercado no mercado paralelo estava muito abaixo do seu valor nominal. Mas o resultado operacional das ferrovias nas empresas privatizadas é inferior ao das antigas empresas estatais e ficou abaixo dos objetivos fixados na licitação das privatizações. é de propriedade de um consórcio do qual participa também a Electricité de France.3 bilhões de toneladas.86%. Em São Paulo a Imigrantes custou R$ 87 milhões.

Em conseqüência. meio de pagamento e meio de preservação de valor (Schelkle 1995). Apesar da involução dos gastos na área social as transformações quantitativas foram menos relevantes do que as qualitativas. mas a autorestrição da atuação estatal se refere sobretudo à capacidade do Estado de cumprir as suas obrigações nas áreas da saúde e da educação e efetuar os necessários investimentos na melhoria da infraestrutura.826.98 6. A teoria econômica dominante. Só quando a política comete erros.04 2.14 alteração 1988/1995 8. pode-se registrar que o Estado claramente continua desempenhando um papel ativo. compreende-se como um modelo de cooperação entre Estado e Sociedade Civil. Tabela 14: Receitas disponíveis por ente federativo. Os gastos crescentes serviram ao governo de argumento para minar a Previdência Social como direito universal de cidadania e abrir o caminho à privatização. 50 Além disso os estados tiveram de abrir mão a partir de 1997 também das receitas do ICMS para a exportação de produtos primários ou pouco processados. Muito pelo contrário. provocada por gastos demasiado generosos do Estado na esteira da democratização.58% do PIB receitas nitidamente superiores às de 1988 (22. Apesar de toda a retórica em torno do estado mínimo. Conseguiu-se assim que os estados e municípios se tornassem mais dependentes de medidas discricionárias. Com ajuda do FEF (Fundo de Estabilização Econômica) o governo colocou a mão em recursos que segundo a constituição cabem aos estados e municípios.41 1995 30. celebrado como inovação e liderado pela esposa do Presidente da República.087 família abaixo da linha de pobreza.50 Essa dependência política e econômica atingiu especialmente os estados e municípios pobres que praticamente não dispõem de uma arrecadação tributária. A primeira foi combatida com pactos sociais -sempre malogrados . vê na moeda um ”lubrificante” neutro para o funcionamento da economia real. À participação na execução contrapõe-se o controle por parte do Estado na estruturação. o problema-chave da regulação da moeda passou a ser a inflação.05 8.35 2. caracterizado como heterodoxo.15 3. identificado crescentemente como causa principal. uma espécie de anúncio publicitário em matéria de política social. No entanto. foi possível evitar tanto uma hiperinflação quanto uma dolarização total da economia. A crise fiscal era percebida como terceiro problema. As rupturas estruturais podem ser constatadas no plano da organização. Uma ”oferta excessiva” de moeda. o dinheiro não cumpre a sua função de unidade de cálculo. negociações sobre o alongamento da dívida etc. O maior aumento em termos de participação no PIB foi consignado pela União com 3.39 5.58 17.07 pontos percentuais. mantendo-se a moeda nacional atraente 49 Se a Comunidade Solidária atendeu em 1995 a 1. 66 .419 e em 1997 o número de famílias atendidas provavelmente ficou ainda mais reduzido. Na verdade ele é um modelo assistencialista que continua minando o sistema de Previdência Social de orientação universal e fragmenta as contribuições de natureza social. O projeto Comunidade Solidária. As teorias predominantes da inflação concentravam a atenção da opinião pública principalmente na questão da indexação salarial (espiral dos salários e preços) e na inflação inercial (baseada em expectativas de inflação) (Baer 1989: 134163). o papel do setor público tendeu mais a aumentar. A política social do governo federal foi financiada por uma centralização de recursos que temporariamente declarou sem vigor a constituição. foi responsabilizada pela perda de valor da moeda. 1988 – 1995 1988 Receitas disponíveis União Estados Municípios 22. ela atendeu em 1998 somente 1. todas as energias foram canalizadas para modificar a Previdência Social. 49 Direitos sociais ou ao menos assistência social enquanto direito de cidadania existem cada vez menos.43 13. contribuições.73 Fonte: Affonso 1996: 8 A análise do orçamento não revela quaisquer esforços de saneamento na Previdência Social.43%). a segunda foi estancada apenas transitoriamente com o congelamento de salários e preços do Plano Cruzado.07 2.e uma sorrateira redução dos salários reais. em percentuais do PIB. Para os municípios as receitas disponíveis praticamente duplicaram. A administração financeira gerou em 1995 com 30.66 julho de 1998).044. cujo caráter religioso transluz na sua autodenominação ‘ortodoxia’ (a fé correta). A partir dos anos 70.

A luta de classes solucionada unilateralmente pela ditadura ganhou uma nova dinâmica quando a classe 67 . os juros subiam. o que era sinônimo de uma redistribuição maciça em benefício dos proprietários de capital financeiro. A regulação do trabalho caracterizou-se pelo fortalecimento de um movimento sindical livre nos anos 70.falava-se de uma estratégia de estabilização baseada nas taxas de câmbio (Fritz 1996: 32) . para fomentar a economia exportadora. A estabilidade introduzida com o Plano Real fez com que os aplicadores internacionais descobrissem o Brasil como ”emerging market”. A acumulação de grandes reservas cambiais foi possibilitada internacionalmente por capital disponível em busca de oportunidades de aplicação e nacionalmente por uma política de juros altos. Isso foi muito caro para o Estado. Depois do cruzado não estar mais em condições de cumprir as funções clássicas da moeda. considerada genericamente.4% depois do desconto do índice inflacionário (dezembro de 1994) e ainda de 37. A inflação foi combatida em 1994 com uma receita tradicional: o acoplamento a um padrão monetário internacional. tinha uma importância reduzida. sem que o acoplamento alguma vez tivesse sido fixado. A pressão determinante sobre os preços se dava indiretamente pela via do aumento da dívida pública. Nos anos 90 o serviço da dívida começou a perder importância na discussão da política econômica. Abstraindo dos ataques especulativos à moeda . Um impulso essencial do mercado partia dos investidores privados que compravam títulos de dívida do Estado brasileiro. em consonância com as recomendações do Fundo Monetário Internacional. Os dois fenômenos iniciaram uma espiral de endividamento. Tabela 8). Eles eram emprestados a juros baixos à periferia.sempre muito caros para o Banco Central -. A crítica do Estado perdulário. A valorização do dólar e a elevação da taxa dos juros depois de 1979 encareceu o capital e concentrou-o no centro. do ponto de vista da periferia da economia mundial. as Obrigações do Tesouro Nacional ocuparam o seu lugar e se transformaram em moeda paralela. feita por organizações internacionais. As reservas cambiais cifravam-se em 1971 em US$ 10 bilhões. Os prazos de reembolso da dívida se tornaram mais curtos. A indústria exportadora se beneficiou da política de moeda fraca e sofria com a política de moeda forte. Tabela 9). o que as distinguia fundamentalmente da gestão de divisas praticada no modelo orientado segundo o mercado interno. O único preço importante que era em larga escala calculado em cruzados era o salário. Sobretudo nos anos 80 o Brasil desvalorizou a sua moeda. pela decisão de aplicação dos proprietários do patrimônio nas economias centrais. a saber. Aplicadores nacionais e internacionais em busca de lucros no curto prazo vinham ao Brasil. lhes era bem-vinda para que se subtraissem a sua própria responsabilidade pela desestabilização econômica durante os anos 80” (Pereira 1998: 143). o capital se deslocava da periferia de volta para o centro. Controles de circulação de capitais limitavam o comércio com dinheiro. a balança de serviços se viu obrigada a gerar superávits. Nessa forma da regulação da moeda as reservas cambiais desempenharam uma função central. Tanto nos países em desenvolvimento quanto nos ex-países socialistas do Leste Europeu era necessário assegurar a estabilidade e juros elevados. ”Mas o importante papel que as rendas de capital a partir de títulos da dívida pública desempenham com vistas à aceleração da inflação ficava fora da discussão. isto é. Em primeiro plano estavam as condições favoráveis para os aplicadores. as reservas aumentaram.67 para investidores mediante uma política de juros elevados. A análise do balanço de pagamentos mostrou que a dinâmica da economia mundial se apresentava nos últimos tempos. Juros reais. essencialmente como crise (Parnreiter et al. pois o traço distintivo central da crise estava fundamentado na forma específica do mercado de crédito no Brasil. O mecanismo nuclear da dependência está no fato dos aportes e das saídas de capitais serem determinados por fatores externos à região. A subvalorização da moeda foi instrumental para poder fazer arrancar a economia exportadora e pagar o serviço da dívida. Ao invés de se manter na periferia. a evolução dos gastos públicos. pois ele precisava emitir a juros elevados títulos de dívida para adquirir papéis norte-americanos com juros baixos como reserva cambial. Com isso o Brasil se submeteu depois de 60 anos novamente às regras de um regime financeiro internacional sem soberania nacional em matéria financeira (Fiori 1995a: 112). de 56. O Real foi ancorado no dólar americano. pois assim se assegurava a transferência de capitais do Sul para o Norte. O Brasil tornou-se a partir de 1985 um exportador de capitais. Isso assegurou a transferência de capitais do Hemisfério Sul para o Norte.2% (dezembro de 1998) só podiam ser obtidos em poucos mercados financeiros do mundo (cf. para crescerem depois num salto (cf. 1999). por isso as pessoas efetivamente responsáveis por uma política de adaptação em benefício da população em bom situação econômica permaneciam incógnitas.estava em oposição à forma anteriormente praticada da abertura para o mercado mundial. Nos anos 70 havia capitais excedentes nos centros. Diante disso. Na época o Brasil não precisou proteger a sua taxa de câmbio com reservas cambiais caras. porque mantidas com juros baixos. A política de moeda forte . Na época os interesses de produção ainda ocupavam o primeiro plano. As exportações eram importantes. Como a sua balança de capital tornou-se negativa.

Assim o índice Gini da renda média familiar. aumentou de 0. Depois ele aumentou para redondamente US$ 100 no primeiro mandato presidencial de Fernando Henrique Cardoso. cujas contas e salários estavam em larga escala indexados. No fim da ditadura o salário mínimo mensal encolheu de US$ 75 para US$ 50 (1985). Aqui se tratava quase sempre de vínculos empregatícios que não observavam as prescrições dos Direitos Trabalhista e Social ou do direito regulamentador das empresas industriais e comerciais. sempre teve especial importância. A violência direta da repressão foi substituída pela liberdade e pela violência do dinheiro. O aumento das relações de trabalho informal minou o poder da legislação trabalhista e social. 68 . que mede apenas o número de pessoas com vínculos empregatícios formais.68 trabalhadora reconquistou os seus direitos de cidadania. Ao aumento de 10% do índice de emprego entre 1985 e 1990 contrapôs-se em 1997 uma involução para aquém do índice de 1984. A legislação trabalhista e social só podia regular o mercado formal de trabalho. Os trabalhadores sindicalizados. Tabela A-16).ibge. O aumento do salário mínimo em 1995 produziu um efeito positivo em termos de política distributiva e estabilizou ao mesmo tempo a demanda. Especialmente dramática foi a redução da mão-de-obra no setor da indústria de processamento. flexível e livre de constrangimentos legais. Tabela 10). uma grandeza de aferição da desigualdade social. o índice oficial de 7. Mas nos ramos nos quais ainda não havia um movimento sindical reagia-se maciçamente a medidas de combate. O campo democrático do Estado abriu aos trabalhadores de baixa renda opções de atuação que a política podia ignorar somente com dificuldade. seja por meio de restrições legais do direito à greve em ”serviços essenciais” como transportes. Assim o Brasil não se adaptou em todos os planos à modernidade dos países industrializados. Mas depois de 1990 ele regrediu.não pôde levar num país sem seguridade social básica a um aumento do desemprego no mesmo nível. Como as pessoas precisam trabalhar.sidra. pois quem pode.. O aumento do salário mínimo enquanto medida claramente não-neoliberal. Essa forte regressão de vínculos empregatícios formais . aumentou o número dos que trabalhavam no setor informal. isto é. o salário mínimo desempenha um papel importante por ser utilizado direta ou indiretamente como base de indexação para outros salários e prestações de natureza social (sobretudo aposentatorias). o segundo decil mais rico . mas no fundo sem força enunciativa.5698 (1987) para 0.51 Ao mesmo tempo se pode observar uma transformação fundamental nas relações de poder nas empresas. abrir mão de vender a sua força de trabalho. Em escala internacional. A 51 Em uma economia de demanda de corte keynesiano. Para os pobres o valor do salário mínimo. A classe média. Somente a décima parte mais rica e. O conflito entre empresas e sindicatos chegou a um ponto culminante na greve dos petroleiros de 1995. dez meses depois ele revogou essa medida diante da OIT. seja por intervenção policial e militar. mas colocou ênfases no sentido de uma regulação própria das relações entre capital e trabalho. O princípio da validade universal do direito no âmbito das fronteiras do território foi minado. Em janeiro de 1996 o governo assinou a Convenção 158 da OIT. reprimida com força militar (Fritz 1996: 40). O índice de emprego. Durante um período mais longo os índices de distribuição permaneceram sempre estáveis. nas cidades as relações empregatícias informais ganharam maior importância. revelou a evasão das relações disciplinadas pelo Direito do Trabalho e pelo Direito Social (cf. também sofreu perdas (cf.5781 (1996) (www. de modo restrito. Lopes 1996). Ocorre que este último era uma forma de organização econômica que minava o território. não importa quão precariamente? No começo dos anos 80 a legislação trabalhista estatal-corporativista ainda foi questionada no sentido de uma democratização abrangente da sociedade. O ataque aos empregos disponíveis criou uma assimetria tão grande na relação entre capital e trabalho que a repressão se tornou em larga escala desnecessária.br de 25 de junho de 1998). sofreu uma forte queda.bov. Sob o Plano Real o desemprego se tornou um problema social central. Mesmo em ramos e regiões com boa organização sindical os assalariados abriam ”voluntariamente” mão dos seus direitos legais.da população conseguiu proteger-se eficazmente contra a inflação. Depois da desvalorização do real em 1999 o valor do salário mínimo. em sociedades capitalistas não-dotadas do Estado de Bem-Estar Social. por medo de perderem os seus empregos (Jatobá. medido pelo dólar. de um preço fixado pelo Estado. ilegais da perspectiva da soberania. Nas regiões rurais a legislação social nunca lograra impor-se. saúde etc. Uma nova regulação unitária do mercado de trabalho deveria fomentar a homogeneização social do espaço de poder nacional. que trata dos direitos -individuais . igualmente acoplada ao salário mínimo. parte do setor de serviços e a maioria do funcionalismo público conquistaram a indexação dos salários.).de demissão. alegando que ela ia longe demais (Neto 1997: 38 s. Isso está essencialmente relacionado com o aumento do desemprego.sobretudo na indústria .6% (1998) é reduzido (Mattoso 1999: 128). certamente foi importante para atingir os efeitos redistributivos de curto prazo do Plano Real. o que por um lado não evitou as reduções dos salários reais e por outro suavizou os seus efeitos. mas aumentou os problemas da Previdência Social. Ele aumentou de 1984 a 1990 em quase 13%. sendo. portanto.

69 CLT, legislação trabalhista de 1943 já subtraíra aos assalariados nas regiões rurais direitos fundamentais, mas agora também o setor informal nas cidades se tornou parte desse espaço ”sem lei” dentro do território. A reprodução nacionalmente diferenciada da mão-de-obra sempre foi um traço distintivo essencial da regulação internacional. Nos anos 90, o estado-nação reconhecia como sua tarefa adaptar as leis às realidades efetivas das empresas. Nestas o Direito Trabalhista era solapado com conseqüências cada vez mais amplas. Com referência à regulação do trabalho, o espaço de poder não estava homogeneizado a nível interno nem se distinguia fundamentalmente dos mercados de trabalho igualmente liberalizados de outros países emergentes. Na regulação da concorrência o pacto entre o capital estatal, o capital nacional e o capital internacional foi definitivamente rompido. Enquanto o capital privado não era suficientemente forte, o Estado tinha de desempenhar um papel importante na industrialização, assegurando a necessária centralização do capital e dos recursos. Nos anos 80 a política econômica usou as empresas estatais por meio de uma política de preços baixos para fins de pagamentos de subsídios ao setor privado e para reduzir a inflação. A forte influência do establishment político fomentou em áreas parciais o desperdício de recursos e conduziu a um quadro de pessoal excessivamente extenso, em boa parte formado por apaniguados de políticos. As alterações na organização do capital nacional brasileiro e os novos entrelaçamentos de capitais nacionais e internacionais que ocorriam nos mercados financeiros possibilitaram um novo estágio de centralização que foi objetivado pela privatização. O capital financeiro associou-se ao capital internacional - um processo, no qual as grandes empresas do setor automotivo jogavam na linha de frente -, e ambos conquistaram uma inequívoca posição de supremacia diante do capital industrial nacional.52 Em uma primeira fase foram privatizadas sobretudo as empresas do setor produtivo, em uma segunda fase sobretudo a infraestrutura e os serviços públicos. O ator central da privatização foi o BNDES que estatizou muitas empresas privadas nos anos 80, modernizou as empresas estatizadas nos anos 90 antes da sua venda e mais tarde concedeu também créditos generosos às empresas privatizadas. Além disso os estados receberam pagamentos adiantados sobre privatizações planejadas. Surgiram mercados oligopolistas em vários ramos, nos quais foram privatizadas empresas.53 Se anteriormente bancos estatizados eram responsáveis pela maior parte da concessão de créditos, o negócio agora era partilhado pelos bancos privados e o mercado financeiro internacional (aplicações patrimoniais, bolsa de valores, comércio de divisas). Formaram-se conglomerados financeiros que participaram maciçamente do negócio das privatizações e constituíram oligopólios em setores importantes.54 Para o comércio de mercadorias a fronteira do território era uma grandeza constitutiva. Taxas alfandegárias elevadas e outros obstáculos comerciais inibiam a importação de mercadorias. Durante a ditadura militar a troca de mercadorias com os países vizinhos caiu cada vez mais. A democratização implementou lentamente uma política comercial mais aberta. Mas a quota de importação, que em 1990 regredira a 4,6%, subiu apesar do ”surto das importações” em 1996 para meros 7,1%. A quota de exportações, cifrada em 1990 em 7%, oscilou depois entre 9,6% (1992) e 6,4% (1996) (cf. Tabela A-12). Mas esses reduzidos entrelaçamentos com a economia exterior do receptáculo continental de poder se relativizam em um exame mais detalhado55 , pois ramos fracos e organizados apenas nacionalmente foram atingidos em cheio.56 Um exemplo dramático é a Metal
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Na listagem das maiores empresas privadas de 1997, dois grupos oriundos do setor financeiro, o Bradesco e o Itaúsa estavam na linha de frente, e com o grupo Moreira Salles um outro grupo do mercado financeiro ocupou o 6º lugar. As posições 2ª, 3ª e 5ª foram ocupadas respectivamente por grupos do setor automotivo, Fiat, Volkswagen e GM (Exame 1998: 86). 53 Isso se evidenciou de modo especialmente crasso no setor da indústria de fertilizantes, mas também nos setores siderúrgico e petroquímico (Winckler, Pacheco 1994: 145 ss.). O Grupo Odebrecht controlava em 1998 60% da produção de termoplásticos e a empresa se encontra em virtude de joint-ventures com a ainda estatal Petrobrás em uma posição praticamente dominadora do mercado (FSP de 7 de abril de 1998). 54 Em 1997 o Itaúsa ocupou a posição de 372ª maior empresa mundial; o Bradesco ficou em 345º lugar e o Banco do Brasil, de propriedade do estado, o 178º lugar (www.zerohora.com.br de 27 de julho de 1998). 55 A quota de exportação em si reduzida, mostrada na Tabela A-12 (d/a), já aumenta nitidamente quando se considera as oscilações da taxa de câmbio ((e/b na Tabela A-12). Se desconsiderarmos os serviços praticamente não-exportáveis, uma quota de exportações dessarte depurada cifrou-se em 1970 em 18,7, para subir até 1995 a 30,4 ((e/c na Tabela A-12). 56 Em determinados ramos (e.g. na indústria têxtil e de confecções) as importações aumentaram fortemente, ao passo que a abertura em outros ramos (e.g. no setor automotivo) se deu de forma muito mais lenta. O forte aumento das importações de bens de capital se reveste de especial importância. Ele se deve a duas causas. Por um lado, sinaliza a compra de novas

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70 Leve, um fornecedor brasileiro. Cedo Amaral já examinou (1977: 182-189) essa empresa média que então estava começando a exportar. No início dos anos 90 a CEPAL citou-a mais uma vez como exemplo bemsucedido da adaptação de empresas nacionais à pressão da economia mundial (Cepal 1992: 125 ss.). Tanto maior foi o choque, quando essa empresa modelo foi vendida por US$ 65 milhões a uma empresa alemã (Veja, de 19 de junho de 1996). O único setor que conseguiu impor regulamentações excepcionais contra a abertura vertiginosa do mercado depois de 1990 foi a indústria automobilística, estabelecida em rede internacional. Ela logrou preservar elementos importantes das antigas relações de concorrência. Já desde os anos 50 os grupos multinacionais conseguiam viver muito bem com a política protecionista. Os seus carros produzidos no país eram vendidos no mercado protegido por um preço mais caro e com um padrão tecnológico obsoleto. Desde os anos 80 e a crise do mercado interno foi possível constatar aqui uma mudança e os grupos começaram cada vez mais a produzir com novas tecnologias e fornecer para o mercado internacional. Mas o mercado nacional ainda continuava em grande parte muito fechado.57 Ao mesmo tempo houve transformações maciças no processo produtivo, o que conduziu a ganhos de produtividade e demissões em massa. Desde 1985 esse setor em si próspero reduziu a sua mão-de-obra na razão de quase um quinto. Ao mesmo tempo ele atraiu também os maiores investimentos diretos do exterior. Outra faceta da internacionalização é a formação de um bloco regional na América do Sul. Em 1995 entrou em vigor o MERCOSUL (Mercado Comum do Sul)58, formado pelo Brasil, pela Argentina, pelo Uruguay e pelo Paraguay. Desde 1996 o Chile e a Bolívia são membros associados. Essa integração econômica visa criar um espaço intermediário entre o espaço globalizante do mundo e o território das nações (Faria 1998: 188). Ao passo que o capital financeiro tinha uma orientação inequivocamente global, o MERCOSUL desempenhou um papel central para a indústria automobilística. As estratégias de acumulação dos grupos visavam todo o espaço sulamericano; vantagens comparativas, tais como subsídios ou diferenças na taxa de câmbio eram rapidamente aproveitadas (Pacheco 1998: 154). Enquanto bloco comercial, o MERCOSUL foi bem-sucedido. O comércio exterior com os Estados-membros aumentou nitidamente, mas também o comércio com países não-membros. No setor automobilístico foi também possível observar decisões crescentemente integradas dos grupos, no tocante a investimentos. O grande problema foi a falta de harmonização das políticas econômicas. O processo de integração foi sempre de novo ameaçado pela oscilação das taxas cambiais. Também não foi possível delimitar o MERCOSUR como projeto da Zona Interamericana de Livre Comércio ALCA, propagada pelos EUA. O Brasil oscilou entre a formação de um bloco e a prática de uma política mundial de livre comércio (cf. JEP 2/98)

2.2 O palco nacional do poder
Num primeiro passo, aproximei-me do poder sobre o espaço do Brasil com uma análise estrutural em termos de evolução da economia política, mas essencialmente em termos de evolução da economia. Essa análise tende a descrever desenvolvimentos aparentemente inevitáveis e incontornáveis (Fiori 1995a: 18). Contrariando essa redução da história à explicitação de necessidades estruturais, a política ganha maior peso na análise a seguir. Com o espaço de possibilidades da ação política a dimensão do concreto, os eventos, as estratégias e lógicas de ação passam para o primeiro plano. Uma análise dos palcos do poder ocupa-se sobretudo com o espetáculo oferecido no palco. Em cartaz estão o jogo, seus atores e o resultado da peça encenada. Não obstante será necessário conceder também à descrição da arquitetura e estática do palco o seu devido lugar, pois do contrário a peça em cartaz e o jogo que nela se faz [was gespielt wird] não serão compreendidos. Assim se faz mister logo no início explicar a forma específica do Estado brasileiro, fortemente apoiada no patrimonialismo. Este forma até hoje por assim dizer o esqueleto do sistema político brasileiro. Ele constituiu um poder sobre o espaço, cujo ponto nodal é o Estado. Como o controle do Estado se reveste de tão grande importância, os conflitos políticos
tecnologias e com isso de aumentos de produtividade na indústria, por outro, as importações crescentes refletem a crise da indústria nacional de bens de capital. Entre 1993 e 1995 as exportações do setor aumentaram em 25%, ao passo que as importações cresceram em 157% (FSP de 16 de janeiro de 1997). 57 Assim a taxa alfandegária para a importação de automóveis foi aumentada em 1995 para 63% (FSP de 23 de outubro de 1997). 58 Em espanhol: MERCOSUR (Mercado Comun del Sur)

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71 se processam também diferentemente do que em países com uma sociedade civil forte. No modelo social anglo-saxão a sociedade civil, na qual cidadãos dotados de patrimônio se organizam, representa o contrapeso do poder estatal.59 Nesse sistema os cidadãos podem em parte tornar-se poderosos também sem o Estado, o que é impossível no Brasil. Como no Brasil o Estado é o ponto nodal mais importante do poder, uma parte da sociedade civil - a dominante - está firmemente entrelaçada com o poder estatal e a outra - a oprimida - é mantida longe do acesso ao poder político e econômico. Nesse sentido Fiori não está equivocado ao estabelecer uma distinção entre um partido da ordem ou um ”partido do Estado”, que representa os interesses dominantes do capital, e um ”partido da sociedade civil”, a oposição, excluída desse bloco de poder (Fiori 1995a: 101)60. Denominar-se sociedade civil seria nessa perspectiva uma expressão da fraqueza, do fato de não fazer parte do Estado. Tal perspectiva é complementada por um enfoque, segundo o qual a força ou fraqueza de uma organização civil não se mede em programas ideológicos e também não pelo seu simples tamanho. Muito pelo contrário, ela resulta da capacidade de poder controlar partes do aparelho de Estado. A hierarquia do poder na economia política se reflete também na sociedade civil, na qual existem segmentos poderosos e oprimidos. Tal análise estrutural ajuda a relativizar o uso muitas vezes exageradamente positivo do conceito de sociedade civil, pois esse uso ignora a estrutura histórica do sistema político e econômico no Brasil, baseado em uma hierarquização radical e consolidado no decorrer de muitos séculos. O capital comercial e a coroa portuguesa controlaram o espaço de entrelaçamento econômico. Ao passo que o feudalismo se baseava em uma nobreza de sustentação fortemente territorial e em um sistema de direitos e deveres, no patrimonialismo o rei exercia a dominação irrestrita sobre os seus súditos. A sua base de poder assentava na posse da terra e no controle do comércio. Como esse poder não podia ser exercido apenas por uma pessoa, a corte real era o lugar no qual o poder se centralizava. Diante dos funcionários e da nobreza da corte os poderes territoriais se encontravam em uma posição mais fraca; o rei governava, enquanto que os senhores locais somente exerciam a dominação no âmbito do poder nacionalmente estruturado sobre o espaço (Faoro 1997: cap. 1). Isso constituía uma clara hierarquia da dominação. Politicamente o rei era soberano; economicamente, um parasita. O poder nacional, o Estado, por sua vez passou a ser uma empresa do rei; poder público e privado, propriedade pública e privada se misturavam. Os patriarcas, inicialmente o barão do açúcar, mais tarde os barões do café e da borracha e os coronéis do Nordeste, eram politicamente subordinados e extraíam, enquanto sujeitos econômicos, à força o excedente dos seus subordinados, necessário para a continuidade do sistema global. A monetarização dessa extração forçada da mais-valia cedo tornou-se necessária, pois os donos do poder local ainda estavam muito mais do que a nobreza obrigados a fazer fornecimentos ao rei. O poder local, os municípios, formaram-se na colônia portuguesa como filiais obedientes do rei (Faoro 1997: 7). Em âmbito local, nas distantes empresas açucareiras do Nordeste brasileiro, o poder político, econômico e religioso estava concentrado na rotina cotidiana em uma só mão. O espaço de poder local da sociedade escravista fundamentavase na separação de casa grande e senzala. Cada casa era uma república, econômica e politicamente autônoma. Fora dos dois espaços sociais locais da casa grande e da senzala, por um lado, e do Estado com estrutura estamental, por outro lado, praticamente não havia nenhuma vida organizada, muito menos ainda uma sociedade civil (Holanda 1989: 49). A burguesia urbana, que se formou apenas lentamente e contra muitas resistências, permaneceu estreitamente entrelaçada com as famílias nobres e os latifundiários. Com a formação da nação surgiu a política nacional enquanto palco autônomo do poder; mas os atores que deveriam atuar nesse palco precisavam primeiro desenvolver-se para poderem assumir os seus papéis. Passo a passo esses novos senhores emergentes assumiram a administração do Estado e formaram uma sociedade civil entrelaçada com a velha estrutura estamental. A burguesia emergente não chegou a formar um estilo de vida próprio, mas absorveu os velhos modos comportamentais dos senhores agrários, baseados em privilégios. Esses novos senhores, e só eles formaram no séc. XIX a sociedade civil e a nação (Fernandes 1987: 40 ss.). Atuavam no palco do poder, fosse em ministérios ou no parlamento. O resto, isto é, a maioria, ficava excluído.61 O Estado, a sociedade e a
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A concepção hoje amplamente difundida da sociedade civil como esfera autônoma com relação ao Estado tende a encobrir o forte nexo entre poder econômico e capacidade de ação política (Cardoso 1993: 117 s.). 60 Fernando Henrique Cardoso tencionou gastar em 1998 R$ 73 milhões na campanha eleitoral. Ciro Gomes mencionou R$ 23 milhões, Lula R$ 15 milhões. Um fomento dos partidos por parte do Estado fracassou diante da resistência de Fernando Henrique Cardoso. 61 Nas unidades de produção essa estrutura social hierarquizada se reproduziu. A proibição da impressão de livros, a inexistência de universidades e a falta quase total de organizações civis impediam o surgimento de uma vida urbana moderna. Isso começou a mudar somente no fim do séc. XVIII, quando as cidades conquistaram uma certa independência

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XVI todas as esferas da vida política. que fizeram coalizações praticamente até o golpe de 1964. sustentaram o projeto de modernização dos anos 50 e proveram-no de uma base de legitimação. os grupos dominantes recorreram às mais diferentes estratégias. O presidente era fornecido alternadamente por Minas Gerais e São Paulo. Como a oligarquia agrária controlava o aparelho político em todos os lugares e o governador centralizava regionalmente o poder. os conflitos foram muito duros. os dois processos supramencionados (Souza 1996: 104 ss. seja por intermédio do Estado ou por outras vias. Em duas tentativas . não importa quão estreitamente definido. Depois de 1930 a oligarquia agrária perdeu a sua posição política de natureza monopolista e teve de dividir o poder com os novos interesses industriais e urbanos.62 Os conservadores. Esse novo sistema estabilizou em nova composição a estrutura patrimonialista do Estado. Era dotada de todos os poderes e sua composição determinava o resultado das eleições (Faoro 1997: 370). por conseguinte. A crise econômica e política que causou a ruptura da aliança entre o PTB e o PSD trouxe pela primeira vez uma polarização entre direita (UDN e PSD) e esquerda (PTB e os novos partidos urbanos) (Souza 1985). igualmente ancorado nas regiões rurais (Santos 1978: 40 ss. o PSD (Partido Social Democrático) foi o partido do Estado e esteve ao mesmo tempo firmemente enraizado nas áreas rurais. no âmbito de um sistema bipartidário. o imperador e a cúpula do Estado eram os que manipulavam as eleições locais de acordo com os seus interesses. Para manter o seu poder. mas breve relampejo de pluralismo. instituição nuclear do espaço de poder. Os liberais estavam entrelaçados mais fortemente com os interesses produtivos territoriais e defendiam.7%. Em 1898 2. as regras do jogo político.interrompidas pelo Estado Novo (1937 . Porém nem a proclamação da república em 1889 mudou qualquer traço do estilo elitista da política. A eles se contrapunha a UDN (União Democrática Nacional). Os anos 30 caracterizaram-se por um violento. reformas federativas na direção de uma descentralização.). em 1930 5. Assim 19 governos liberais e 15 governos conservadores se sucederam no decorrer de cinqüenta anos (Faoro 1997: 354).).7% da população tinham o direito ao voto (Cano 1997: 249). minou a monarquia e com isso o sistema bipartidário. só interesses regionais unificados atuavam no plano nacional. o partido liberal. Já no séc. as eleições transcorriam similarmente às da monarquia. Por meio da criação de órgãos e corporações controlados pelo poder central e atuando de forma descentralizada. por sua vez.1945) o palco democrático se alargou. Na República Velha. Esses dois partidos. as interventorias. Um dos dois partidos sustentadores do sistema. que se apoiava na classe trabalhadora nas cidades. a centralização apoiou igualmente. 72 . XIX os conflitos ocorriam no palco nacional do poder em vias de constituição. Depois de 1945 houve um retorno à democracia. representavam preponderantemente os interesses dos comerciantes e.). Assim os grupos dominantes nas regiões acertavam de antemão o predomínio de determinados interesses. (Holanda 1989: 57). social e econômica. Não obstante os partidos se assemelhassem muito em termos programáticos e não questionassem o campo do poder. A possibilidade de dispor da burocracia estatal se revestia de importância decisiva para os respectivos membros dos partidos. os interesses escravistas (Faoro 1997: 341 s. liberalidade e democracia. o Partido Republicano. sempre que possível. ensejando o surgimento germinal de uma sociedade civil urbana.72 sociedade civil estavam estruturados por um poder específico sobre o espaço. lograram em boa parte manter esse poder até os dias atuais. A autoridade eleitoral era instituída pelo Presidente da Província. a oposição ficava inteiramente excluída. por sua vez nomeado pelo ministério. 62 Estruturas federativas serviam no Brasil tanto para harmonizar os desejos conflitantes do establishment quanto para atenuar as diferenças regionais. Por isso a estratégia oficialmente denominada ”política dos estados” tornou-se conhecida como ”política dos governadores”. O campo de poder se tornou mais complexo. sem anulação da centralização antes efetuada. o Estado Novo fortaleceu o governo central a expensas das regiões. mas o fascismo e o comunismo rapidamente minaram a legitimidade de um sistema liberal-democrático. criando assim os prérequisitos do golpe militar. Uma terceira força. Mas muito distantes de representar a vontade de um ”povo”. O segundo partido que sustentava o Estado era o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). os 20 governadores representavam o seu respectivo estado e se apoiavam reciprocamente contra a oposição interna. Um palco importante para os conflitos foram as eleições. com isso. Os que dominavam desde o séc. Na esteira de subseqüentes derrotas eleitorais a UDN tornouse oposição subversiva que contornava. O grupo regionalmente dominante impunha seus candidatos. Inversamente. sempre existente. em constelações variadas.

deve ser compreendido basicamente como tentativa de delimitação contra concepções sociais e socialistas mais radicais. Em 1998 ele controlava 32 assentos no Senado e 106 cadeiras na Câmara dos Deputados. que era o aglutinador ideológico e institucional do partido. No setor das revistas uma única editora publicava 9 das 10 revistas de tiragem mais elevada. O núcleo da sociedade civil empresarial foi formado durante muito tempo pelos ”sindicatos” orientados por ramos da economia. monopolizar a política no Brasil. sustentatora do Estado.73 A partir de 1964. Em 1998 esse partido elegeu cinco senadores e 60 deputados federais. MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Por isso associações empresariais orientadas para toda a sociedade. como e.g. igualmente o ex-prefeito do Rio de Janeiro. o PPB integrou-se no plano nacional na coalização governamental. mas também apenas nela um poder determinante. na esteira de acusações de corrupção. 73 . Pertencem a ele o Vice-Presidente da República. mais ainda do que a direita tradicional. O PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) foi fundado em 1988 como uma cisão do PMDB.66 O PFL é hoje um partido moderno de direita com presença nacional. líder da associação sindical de orientação direitista Força Sindical.65 O liberal PFL (Partido da Frente Liberal) abandonou no início dos anos 80 a aliança com os militares e desde então só teve de abandonar por períodos muito breves os espaços do poder. nos jornais nacionais havia um oligopólio. pertencentes ao PSDB. para cair em 1998 a 81. quatro redes de televisão controlavam praticamente todo o mercado. No contexto da democratização e da elaboração de uma nova constituição novas estruturas organizacionais se fizeram necessárias. no início ele foi de orientação mais social liberal. A sua decadência acompanhou a destruição do velho modo de desenvolvimento centrado no estadonação. sob a ditadura militar. ambos oriundos do partido da ditadura. prorrogações de prazos de pagamentos de dívidas para os (grandes) agricultores. Pratica com maior habilidade a tradicional política do ”é dando que se recebe”. da ARENA. isto é. os interesses do capital financeiro e do capital internacional. no qual deveria haver espaço para todos. uma associação suprapartidária de 134 dos 513 deputados federais e de 30 dos 81 senadores sempre tiveram importância. é composta por intelectuais atuantes em empresas. o número de deputados federais regrediu continuamente depois de 1986. e Luís Antônio Medeiros. Informalmente grupos como e.). Mas os interesses contraditórios por ele representados não lhe permitiram traduzir as suas amplas maiorias em medidas políticas consistentes. Em 1986 ele conquistou nas eleições para os governos estaduais e para o Congresso efetivamente uma vitória eleitoral surpreendente. isto é. 66 Em 1997 o governador do Paraná e o governador do Acre se filiaram ao PFL. a bancada ruralista. Estava altamente concentrada e em larga escala privatizada (Costa 1997: 56 s. razão pela qual o PPB é naquela cidade. a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) adquiriram importância. tal como ele se configura na atualidade. sobretudo de São Paulo. mais uma vez só foram permitidos dois partidos: a governista ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e a oposição oficial. Seu programa político tem uma clara orientação direitista. A sua figura central é Paulo Maluf. O elemento ”Social Democracia” no nome do partido. quando o grupo em torno de Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso se viu crescentemente marginalizado no ”ônibus” do PMDB. desempenhou um papel importante. o PPB representa os interesses do empresariado nacional. exercendo a dominação sobretudo na Bahia e no Paraná. César Maia. O palco do poder ficou reservado aos atores fiéis ao sistema vigente sob a ditadura militar.g. ex-prefeito de São Paulo. Moreira. Nos últimos tempos o PFL e o PPB. como partido supraclassista. 65 Depois que Maluf desistiu da sua candidatura à presidência em 1998. defende hoje o liberalismo na economia e. O PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) foi concebido pelo futuro presidente Fernando Henrique Cardoso no início dos anos 80 como ”partido ônibus”. Aqui a mídia enquanto parte importante da sociedade civil no poder. Em 1982 a ARENA mudou o seu nome para PDS (Partido Democrático Social) e atua depois de outras alterações do seu nome hoje como PPB (Partido Progressista Brasileiro). voltaram a reaproximar-se. Uma grande parte dos ministros de Fernando Henrique Cardoso. o presidente da FIESP. o Presidente do Senado e alguns ministros importantes. A bancada ruralista foi um grupo central de lobistas que conseguiu e. Na esteira da democratização houve uma abertura do sistema político e a estabilização da des-ordem existente precisou agora ser assegurada de forma indireta.63 Mas a sua defesa de interesses estava sempre fixada especificamente em necessidades do respectivo ramo. O PSDB é um partido de classe média alta. Marco Maciel. as concessões para a operação de emissoras radiofônicas (bem como de televisão) eram dadas pelo governo quase sempre com base em critérios políticos. que remete a um espectro político ainda mais à esquerda no Brasil. Foi um meio que procurou. estreitamente vinculados a organizações internacionais como o 63 64 O termo português não distingue entre sindicatos de trabalhadores e sindicatos patronais.64 A seguir apresentaremos o espectro partidário brasileiro. baseando-se na sociedade civil tradicional.g.

como o Rio de Janeiro. que simplesmente aceitava a des-ordem. desafiou os atores clássicos do estado desenvolvimentista nacional. Ficou célebre uma nova forma de atuação política criada por mulheres pobres na periferia das grandes cidades (Castela. no palácio presidencial. mas como sujeitos (Sader 1988. com manifestações e listas de assinaturas em benefício de escolas. Novy 1996: 79 s. Assim uma sociedade civil não-tutelada pelo Estado. mas absolutamente não no Estado Mínimo (cf. Ottmann 1995). Em Brasília . baseia-se em um determinado ritual. São Bernardo e São Caetano.70 O poder tende a ser localizado. tal como ele se corporificou nos governos dos quatro 67 Nos últimos anos. 70 Ao lado do PT. Os pobres entraram no palco da esfera pública política não apenas como objetos. representa uma das maiores inovações sociais do Brasil. por conseguinte. 1997). Boris 1998).como se diz nas linguagens cotidiana e jornalística . canalizações e creches (Novy 1994: 403-410). As mulheres empenharam-se no local com meios políticos por melhorias do seu entorno de vida. representar os interesses subrepresentados no aparelho de estado. Durante todos os anos 80 foram grandes o seu potencial de ameaça e a sua capacidade de promover greves e minar a política governamental. o Rio Grande do Sul e Minas Gerais passaram para a oposição. 14 senadores e 99 deputados federais o PSDB é ao lado do PFL a força determinante em Brasília.num Estado eficiente. Nos anos 90 o centro e a direita se consolidaram. 69 Em análise crítica o jornal liberal Folha de São Paulo escreveu sobre o PT: ”Dos tempos de um partido que liderou as greves e contribuiu nos anos 80 para a organização da sociedade civil passaram quase 20 anos até a formação de um partido que hoje se candidata com chances de êxito aos cargos mais importantes. a expensas do trabalho de organização nos movimentos sociais. Nesse tempo o PT se burocratizou. sustentado por operários e politicamente organizado por um partido próprio. sobretudo a CUT (Central Única dos Trabalhadores). surgiu um outro bloco social alternativo. movimentos populares. Tratou-se de uma atuação coletiva que não pode ser caracterizada nem como privada nem como pública. concebido como símbolo do progresso. sem liderança clara e sem programa claro. ele perdeu influência em 1998. Mas nos estados. o papel de oposição. 74 . o PT (Partido dos Trabalhadores).cidade projetada pelo comunista Oscar Niemeyer e concluída sob a ditadura militar . Esse poder localizado está nas mãos do presidente ou de um pequeno número de pessoas que têm acesso direto a ele. Com o passar dos anos o PT se aproximou dos partidos convencionais. os outros partidos maiores de esquerda são o PSB (Partido Socialista Brasileiro).69 Seu maior êxito foi até agora a vitória eleitoral nas eleições de 1998 para o governo do Estado do Rio Grande do Sul. movimentos alternativos da classe média (sobretudo ecologistas e feministas). o Banco Mundial concentrou a sua atenção cada vez mais no Estado . como já tantas vezes na história do Brasil.a Praça dos Três Poderes forma na prancheta do urbanista o centro de um traçado urbano que imita os contornos de um avião. A força inequivocamente mais forte da esquerda era o PT que se compreendia como partido da sociedade civil e quis.no Planalto. formado pelos excluídos do núcleo do poder estatal. o partido populista de esquerda PDT (Partido Democrático Trabalhista). 68 ABC é sigla dos municípios Santo André. os ex-comunistas de Moscou no PPS (Partido Popular Socialista) e o partido comunista PCdB (Partido Comunista do Brasil). Sobretuto os três primeiros distinguem-se do PT por uma disciplina partidária interna menor e um programa mais moderado.67 Com o presidente da república. isto é. Coube à esquerda. no topo do Estado. conforme o qual o detentor do poder exerce o poder (Dreifuss 1989: 34). membros de partidos de esquerda não-filiados aos partidos comunistas e outros grupos da sociedade civil (cf.74 Banco Mundial (Oliveira 1998a: 177). Mas de fato o poder se concentra . pois estados importantes. O número de deputados aumentou continuamente e o partido governou muitas cidades importantes do Brasil e alguns estados menores. Os sindicatos começaram a libertar-se do controle por parte do Estado e passaram a orientar-se segundo modelos de representação de interesses com autonomia diante do Estado. via de regra em algum lugar ”lá em cima”. Ele foi o braço parlamentar de um movimento social de amplas dimensões. Via de regra o município de Diadema também é incluído na região do ABC. enquanto espaço geográfico determinado. como já há séculos. como ”partido do Estado” ou partido da ordem. Aumentou a importância da sobrevivência dos seus funcionários e dos interesses institucionais do partido. ao qual pertenciam grupos tão diferentes como sindicatos autônomos. que segue o padrão sociológico típico do desenvolvimento de aparelhos administrativos” (FSP de 28 de maio de 1997). A seguir trataremos da perspectiva ”de cima” do poder. Cristalizado durante as grandes greves no ABC68.). IBRD 1993. O fortalecimento desse campo social que se subtraiu ao sistema bipartidário da ditadura.

Nesses anéis burocráticos localizam-se segmentos sociais em comissões. para que possamos compreender a estrutura hierárquica e personalizada do poder no Brasil. a base da sociedade começou a fermentar. o candidato dos militares. A oposição sempre insiste no seu status de sociedade civil. que continuou sendo institucionalmente o centro do poder. Ele simbolizou a ”transição pactuada” da ”Nova República”. Especialmente a sociedade civil conservadora agrupa-se como ”anéis burocráticos” (Cardoso 1993: 119) ao redor do aparelho de estado no sentido mais estrito. Em matéria de reforma agrária. os seus sindicatos foram integrados em um ”Estado ampliado” (Gramsci 1971: 160). No séc. Assim Tancredo Neves foi eleito presidente em 1984. a Constituição de 1988 é mais conservadora do que a da ditadura militar. 72 O exemplo histórico mais conhecido de uma organização social alternativa durante o período colonial foram os quilombos . mas não alterado na sua estrutura fundamental. sindicatos. contrariando a vontade da maiora absoluta da população. Mas Neves faleceu ainda antes da sua posse e José Sarney. juntamente com a oposição.territórios livres de escravos fugidos . sob a nova legenda do PFL. José Sarney.no hinterland das plantações açucareiras (Becker.75 últimos presidentes civis. herdada de Portugal. a Cabanagem e Canudos também foram levantes populares importantes (Ribeiro 1995: 319 ss. sobretuto durante a ditadura militar. Sob governos ditatoriais a sociedade civil conservadora não tinha dificuldades em ser parte do Estado ampliado. Mas a Balaiada. múltiplos experimentos de organização social foram testados. Gramsci diria que essa sociedade civil resp. pretendia-se criar uma nova relação entre Estado e sociedade civil. Palmares tornouse o emblema da resistência negra (Ribeiro 1995: 295). 356).em especial. Com isso o modelo social hierarquizado foi modificado. eleger indiretamente o presidente por meio de um colégio eleitoral. No curto prazo os planos do bloco majoritário do PDS não vingaram. Um dos traços distintivos mais significativos e trágicos da des-ordem brasileira reside no fato de que todas as formas de organização da parcela oprimida da sociedade sempre foram desapiedadamente combatidas. Num passo adicional um amplo movimento de massas exigiu a eleição direta do presidente. Nos anos 70. O empresariado exerceu a sua influência desse modo. Essa organização social era bem compatível com a estrutura patrimonial do Estado. 75 . Mas o congresso. como poderíamos esperar de uma ditadura militar.. interesses privados lograram utilizar em seu benefício partes do aparelho de estado. decidiu. vicepresidente e um homem da ditadura militar. Assim as repetidas proibições do partido comunista sempre obrigaram o movimento operário a defrontar-se com novos problemas de organização (Oliveira 1999).72 A parte conservadora da sociedade civil age de forma inteiramente distinta. orientada segundo concepções estamentais do Estado. conselhos. Em grande parte nem houve uma troca do pessoal que representava esse bloco de poder.71 Mas antes se faz mister esboçar a relação específica com a sociedade civil. institutos e conselhos de sábios com o fim de harmonizar os interesses políticos com as necessidades econômicas. pois uma parte do partido saiu e votou. Egler 1992: 60). XX os imigrantes europeus organizaram-se em São Paulo em sindicatos e associações vicinais anarquistas e buscaram a autonomia do Estado.73 Foi esse o momento histórico no qual o movimento de democratização passou para o centro dos acontecimentos políticos. A maior crise econômica desde os anos 30 deslegitimara os militares. Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Isso levou a uma regulação ad hoc (Oliveira 1996: 94) que não foi nenhuma regulação centralizada e forte. As ruas tornaram se palco da política. teme a luminosidade própria da esfera pública e atua em simbiose com o Estado. de forma privada e direta (Dreifuss 1989: 40-44). Sob o governo de Getúlio Vargas surgiu depois de 1930 uma nova forma de organização da sociedade civil. não em último lugar por medo da repressão. as pessoas passaram a votar ‘com os pés’. Depois das eleições de 1982 governadores da oposição ascenderam ao poder nos estados mais importantes. tornou-se o primeiro presidente civil. como já em momentos anteriores de crises da história brasileira. A participação no Estado determinava as chances de poder dispor dos seus próprios recursos privados ou recorrer a recursos públicos.74 O leitmotiv da ”Nova República” 71 Dois desses presidentes foram vice-presidentes e se beneficiaram da morte (José Sarney) ou da destituição (Itamar Franco) do presidente. Muito pelo contrário. mas não apenas nela. Fernando Collor de Mello. e não Paulo Maluf. 73 As associações dos latifundiários defenderam sobretudo na questão da reforma agrária a autonomia da sociedade civil . Foi criada e vinculada ao Estado uma sociedade civil simpática ao regime . 74 Sob o governo de Sarney 93% dos 2000 funcionários supremos responsáveis pelo exercício do poder presidencial provinham da ditadura militar (Dreifuss 1989: 40). A sua resistência contra a demolição dos bairros operários nas proximidades do centro foi igualmente abafada com violência (Novy 1995: 26-29).e a sua propriedade. Houve uma mudança de regime sem alteração do bloco de poder. Desde 1974 e mais ainda depois de 1979 ocorreu um afrouxamento do regime ditatorial. Mas no curso do esgotamento da ditadura o discurso liberal da autonomia de Estado e sociedade civil passou a ganhar em importância.

e a moratória da dívida aliviou o orçamento. [A nota foi escrita para a edição alemã . membro do PT e ex-prefeita de São Paulo. o outro dez meses. em prol das eleições diretas para a presidência encontrou um amplo respaldo pro forma. ao dólar norte-americano. prevêem também intervenções no mercado como congelamentos de salários e preços. A comissão descobriu cada vez mais irregularidades. Esse foi um instrumento central utilizado pelo governo para assegurar-se da ou ”comprar” a lealdade de congressistas. com o Plano Cruzado de 1986. Mais uma vez as ruas tornaram-se palco do poder. realizadas em 1989. Ortodoxas são via de regra as doutrinas que crêem na onipotência do mercado para a regulação da sociedade. A euforia subsistente até fins de 1986 assegurou ao PMDB e com isso ao governo de Sarney uma maioria folgada no Congresso Nacional e nos estados. Depois o plano desmoronou em virtude da sua inconsistência econômica e política. o Plano Real. Em 1996/97 uma comissão de inquérito chamou a atenção por revelar um esquema complexo de corrupção (Senado 1997). o Real. A campanha fracassou. simples e sem grandes surpresas para o consumidor. Sempre que no Brasil a corrupção generalizada chega ao conhecimento público. até então uma pessoa amplamente desconhecida. e com a moratória da dívida Sarney deu inicialmente passos que lhe granjearam popularidade. já praticada em 75 A visão de mundo da economia se assemelha a uma religião.76 foi a continuidade.htm. potencial candidato oponente a Fernando Henrique Cardoso. a transição de uma retórica do livre comércio. Porém. que na sua condição de Ministro das Comunicações era responsável pela concessão de licenças de operação de emissoras de rádio e televisão. candidato do PT. isto é.O Tradutor] 78 Por um lado. As revelações foram especialmente constrangedoras para Paulo Maluf. Ao invés do sindicalista Luís Inácio Lula da Silva. Isso fortaleceu o PFL diante do PMDB. até que Maluf renunciou à sua candidatura.apesar da deterioração da distribuição da renda . 76 . Mas sem o apoio do empresariado paulista e de quase todos os meios importantes de comunicação as coisas não teriam chegado a esse ponto. Depois de 1987 políticos tradicionais que também se tinham tornado conhecidos durante a ditadura militar ganharam influência no Executivo.br/web/cpif/cpi. O fracasso dos planos heterodoxos de estabilização foi creditado a um excesso de intervencionismo e . Em 1992 formou-se um movimento de massas para a sua destituição. Mas já pouco tempo depois da sua posse começaram a circular boatos de que Collor estaria praticando a corrupção de forma mais desmedida do que os presidentes anteriores. o que levou a um fim de curto prazo da inflação e a uma profunda recessão. 6 de julho de 1998). O congelamento de salários e preços do Plano Cruzado levou a um aumento do poder aquisitivo e a uma melhoria da distribuição da renda76.78 Quando a destituição do cargo foi decidida em fins de 1992 pelo parlamento com maioria avassaladora. foi constituído sob a liderança do vice-presidente Itamar Franco um governo de ”consenso nacional”. Peritos do PFL substituíram crescentemente os do PMDB. como o Plano Cruzado.gov. a campanha de 1984.Os tecnocratas dos escalões dirigentes. desta vez até com a participação de Luiza Erundina. são os instrumentos de política econômica que.a uma ”ênfase excessiva nos programas sociais” Ao invés disso foi perseguida então uma ”política feijão-com-arroz”77. heréticos. que pela primeira vez apostou expliticamente no acoplamento da moeda nacional. feita segundo critérios políticos. A equipe do Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso elaborou um plano de estabilização. Um funcionou quatro anos. 77 O feijão com arroz é o prato padrão no Brasil. As primeiras eleições livres para a presidência da república. deve-se supor que interesses concretos de grupos influentes são responsáveis pela publicidade. mas segmentos importantes dos grupos dominantes nutriam grandes reservas quanto a uma eleição direta. ganhou o populista de direita Fernando Collor de Mello. Os intelectuais descontentes com a sua própria marginalização e a apropriação do governo Sarney por parte dos conservadores formaram o meio a partir do qual se constituiu em 1988 o PSDB. ligados ao PSDB e marginalizados por curto prazo no fim do governo Sarney reconquistaram a sua influência já durante o governo Collor e depois mais ainda no de Itamar Franco. não a mudança. Ele receitou com o Plano Collor um pacote econômico inesperadamente radical e congelou todas as cadernetas de poupança. Um dos ministros mais importantes de Sarney foi Antônio Carlos Magalhães. O protesto de centenas de milhares de brasileiros engajados foi importante para a deslegitimação de Collor. da privatização e da economia de mercado para uma política concreta. Correspondentemente há doutrinas da fé correta (ortodoxas) e doutrinas contrárias à fé correta (heterodoxas). Sob ele começou o ataque sistemático à estrutura do Estado. de corte ortodoxo. um plano heterodoxo de estabilização75. Depois os trabalhos da comissão estagnaram e ela não chegou a nenhum resultado concreto (www. O estilo excêntrico de liderança de Collor levou à subestimação dos seus feitos políticos.senado. heterodoxos. 76 O plano foi implementado pelos mesmos tecnocratas do Rio que elaboraram posteriormente o Plano Real (Bresser Pereira 1987). conhecido como ACM. dessa vez exitosamente. ofereceram uma oportunidade para derrotar o establishment.

2 1998 2.9 0. Apesar da crise econômica Fernando Henrique Cardoso ganhou as eleições mais uma vez no primeiro turno. da reforma administrativa. de vigência temporalmente limitada. Lesbaupin (1999).0 4. Collor a cada quinto dia.5 9. o programa para o apoio da reestruturação do sistema bancário.8 11. razão pela qual preferem retornar aos métodos ilegais (FSP 77 . Tabela 15: Eleições presidenciais. Suportado por amplo apoio. Depois de anos de insegurança Cardoso prometia estabilidade e competência. 82 A observância de mecanismos de controle para evitar que titulares de cargos se valham de modo ilegítimo da sua função.0 31. e a prática da compra de votos enfraqueceram o Legislativo. não importa de que maneira. 81 De todas as leis aprovadas entre 1989 e 1993 78% tinham a sua origem no Poder Executivo (Diniz 1997: 182). que só no longo prazo mostraria os seus efeitos positivos. 24 dos grupos que deram uma boa parte das doações oficialmente registradas para a campanha opinaram que doações legais trariam mais problemas do que vantagens em virtude da grande publicidade. pilar fundamental de uma democracia liberal e do federalismo. da Previdência Social e das aposentadorias puderam ser implementadas nos quatro anos do seu mandato.3 4. Ocorreu uma recentralização por via da política econômica. dos governadores e dos 79 80 Para um balanço crítico dos quatro primeiros anos de governo de Fernando Henrique Cardoso. E a partir desse momento esquecemos também de falar de ‘democracia’” (Cardoso 1998 [REVISÃO: verificar citação no original]). ”Mas uma coisa é certa: ou o Congresso põe. O direito eleitoral foi adaptado um ano antes das eleições aos desejos da maioria (FSP de 12 de setembro de 1997).82 A reeleição do presidente. o próprio Cardoso criticou duramente essas medidas. Sob o governo de Fernando Henrique Cardoso foram promulgados em 1995/96 a cada segundo dia duas medidas provisórias (Suassuna 1996).0 3. cf.7 8.0 PPB (2) PFL diversos partidos de direita PSDB PMDB PT diversos partidos de esquerda (1) no primeiro turno (2) 1989: PDS Fonte: Nicolau (1998) A divisão dos poderes.4 54.9 28. foi reeditada a cada 30 dias na forma de medida provisória. Durante o seu período de cinco anos. um termo ao continuado desrespeito praticado contra ele e a constituição ou é melhor reconhecer que somente há um poder no país. A emissão excessiva de medidas provisórias.80 Quando ainda era senador.7 17.4 27. Transformações importantes no campo da privatização. Foram subtraídos aos estados recursos constitucionalmente assegurados e a base financeira dos governos estaduais continuou sendo estreitada. de leis promulgadas pelo Executivo. ele ganhou as eleições. Todas essas reformas foram apresentadas até 1998 como incondicionalmente necessárias para a consolidação das finanças públicas. foi sistematicamente minada no governo de Fernando Henrique Cardoso. José Sarney promulgou a cada décimo terceiro dia uma medida provisória. é declarada ”impossível” pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e pelo STF (Supremo Tribunal Federal).77 outros países latino-americanos.4 1994 2. ”Durante a campanha eleitoral Cardoso se referiu sem ambigüidades ao principal traço distintivo com relação ao seu principal concorrente: ela era intelectual. o governo se vale da sua folgada maioria no Congresso para impor emendas constitucionais. ao passo que o outro não passava de um simples metalúrgico” (Oliveira 1998b: 95). o do presidente da república.2 15. Tal medida festejou em novembro de 1996 o seu ”aniversário” sem ter sido aprovada (ou rejeitada) pelo Poder Legislativo (Freitas 1996).1 53. Ao passo que o Poder Legislativo não cumpre a sua tarefa propriamente dita de deliberar e aprovar leis81.79 Depois se afirmou que as reformas criariam um novo modelo de Estado e economia. Uma medida tão importante como a do PROER (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional). Brasil 1989 (1) 8. isto é.

muitos ex-governadores ou políticos que consideram o Senado como plataforma para outros cargos no Executivo nacional ou regional. Com 43 senadores. a influência do PT. Com 58 deputados. Tabela 16: Distribuição das cadeiras no Senado. o Senado e a Câmara dos Deputados. então visivelmente menor.78 prefeitos.TOTAL 26 35 25 10 10 16 PSDB 24 23 27 PMDB CENTRO. Isso se deve fundamentalmente ao fato de que os pequenos partidos de direita perderam influência em virtude do sistema de eleição majoritária. ela não elege praticamente mais de um quinto dos deputados. A presidência do Senado está nas mãos de ACM. está em quinto lugar. Cada estado elege três senadores. Freitas 1998. ao passo que o PPB representa com 60 deputados o quarto maior grupo e o PFL com 106 deputados é o maior grupo. Se durante o Império os senadores eram vitalícios. Mais uma vez perderam importância os muitos partidos pequenos de direita. 1990 – 1998 1990 1994 1998 0 6 5 PPB (1) 18 18 20 PFL 8 11 0 diversos partidos de direita DIREITA . patrimonialismo. basicamente a expensas do PMDB. 10/94 und 10/98). Tabela 16). hoje eles têm um mandato de oito anos. A cada quatro anos são eleitos em cada estado alternadamente um ou dois senadores segundo o sistema de eleição majoritária no primeiro turno. permitindo ao PSDB aumentar a sua influência. 1986 – 1998 1986 PPB (1) PFL diversos partidos de direita DIREITA – TOTAL 32 118 29 180 1990 42 83 132 227 1994 52 89 92 233 1998 60 106 52 218 de 16 de setembro de 1997. O crescimento contínuo não aumentou a influência da esquerda. o centro no Senado teve mais peso do que a direita. Na Câmara dos Deputados pode-se constatar desenvolvimentos semelhantes aos do Senado. Deve-se ressaltar a perda da posição determinante amargada pelo PMDB.senado. mas isso ainda é apenas um quinto (cf. embora algumas tendências sejam mais pronunciadas (cf. portanto o dobro do tempo de mandato dos deputados. FSP de 14 de abril de 1998). consubstanciada hoje em 99 deputados. Durante o processo de elaboração da constituição em 1987 e 1988. O PSDB aumentou a sua influência.gov. O crescimento da esquerda diminuiu em 1998. foi maior em virtude do comportamento não-unitário do centro e da direita nas votações.TOTAL 34 33 43 1 5 7 PT 7 8 6 diversos partidos de esquerda ESQUERDA . foi possibilitada por uma emenda O Congresso brasileiro é formado por duas câmaras. www.br (24 de abril de 1998) Tabela 17: Distribuição das cadeiras na Câmara dos Deputados. Tabela 17). pois desde 1994 os parlamentares do centro votam sistematicamente com a direita. proibida como medida de proteção contra o constitucional. Nessa casa encontram se muitos dos políticos mais influentes.TOTAL 8 13 13 TOTAL GERAL 68 81 81 (1) Até 1990 PDS Fonte: Brasilienausschnittdienst (10/90. o PT. 78 . Brasil. Nos últimos anos o Senado ganhou uma influência cada vez maior. embora o PFL com seus apenas 20 senadores não constitua o maior clube na casa. Entrementes a esquerda dispõe de 13 cadeiras. o maior partido de esquerda. Brasil. representada por apenas 25 senadores.

O clientelismo é uma forma duradoura e consensual de dominação. aos interesses de curto prazo da organização de uma rede complexa de ”dar e receber”. Figueiredo 1996: 42). 6. Por conseguinte. Esse direcionamento para o curto prazo e o enraizamento local dos deputados representa um obstáculo para medidas relevantes para setores ou a totalidade da sociedade. 85 Aqui os candidatos constróem uma rede complexa de cabos eleitorais que vão na sua respectiva vizinhança de casa em casa. Inerente a essas lealdades quase sempre de curto prazo é a fraqueza delas estarem constantemente ameaçadas pela revogação. Explica-se isso com o clientelismo amplamente difundido. Mas isso não infunde ao sistema político o calor e a sensação de se estar abrigado na ”casa”. tais como são representados pelos partidos. a inserção universalizada de consultores empresariais em processos decisórios de natureza política.84 O clientelismo é tão difundido e resistente a transformações por encarnar o elemento relacional na política. constróem relações de lealdade e ”trocam votos por favores”. o Acre está bem mais representado do que os estados com um contingente populacional 79 . Enquanto ente legislativo. A base eleitoral de deputados normalmente se restringe a uma região na qual eles se empenham por melhorias da infraestrutura. Embora a filiação partidária de no mínimo um ano seja pré-requisito da candidatura.79 PSDB PMDB ESQUERDA . mas não provas. É certo que este ganhou de iure uma importância muito maior com a Constituição de 1988. a ”casa” na ”rua” no sentido de Da Matta (1991).83 Faz parte das tarefas do deputado operar como mediador entre o Poder Executivo e a população. a troca de favores por votos (Banck 1990). que de facto prescreve um sistema misto entre presidencialismo e parlamentarismo. Isso se deve ao fato de que os primeiros mandatários dominam. Trata-se de uma ”familiaridade perversa”. pois pode contar amplamente com a anuência dos por ele prejudicados no longo prazo.1% dos deputados mudaram uma vez. 86 Com oito deputados federais. pois a continuação 83 Entre 1987 e 1994 25.TOTAL TOTAL GERAL (1) Até 1990 PDS Fonte: Nicolau (1998) 260 260 16 31 47 487 38 108 146 35 65 100 503 62 107 169 49 62 111 513 99 82 181 58 56 114 513 As queixas sobre a forma fragmentada e irracional da política brasileira não têm fim.2% duas vezes e 24% três ou várias vezes de partido (Limongi. Depois de eleito. dos governadores e dos prefeitos reflexões atinentes à política em geral referindo-se as grandes temas da nação desempenham um papel maior do que nas eleições parlamentares.g. Na eleição do presidente. Ele subordina interesses de longo prazo. isto é. o Executivo busca obter a necessária maioria no Legislativo. Por isso mudanças de partido praticamente não afetam a honorabilidade e são perfeitamente habituais. A Folha de São Paulo pôde comprovar mediante fitas gravadas que dois (de oito) deputados federais do Acre tinham recebido respectivamente 200. como e. De acordo com o Direito Eleitoral brasileiro são eleitas pessoas que se candidatam em uma chapa do partido. do que a um ”forum” no qual se define racionalmente a via de desenvolvimento da nação.000 dólares e outras vantagens para votar a favor da emenda constitucional que permite a reeleição do presidente da república. pois ela possibilita aos economicamente poderosos comprar votos no processo político e construir dessarte relações pessoais. Um ápice dramático dessa forma conservadora da ação política foi um escândalo em início de 1997. 84 ”Quem será contra a ‘modernização’ do parlamento? Ninguém.TOTAL PT diversos partidos de esquerda ESQUERDA . Quem acredita que possa partir dele um controle efetivo das decisões cotidianas? Ninguém” (Fernando Henrique Cardoso 1991: 168). o Congresso se assemelharia mais a uma ”feira” para a implementação de interesses particularistas de curto prazo. Mas o seu modo básico de funcionamento não se alterou. toda a estrutura do Poder Legislativo está direcionada a um processo de trocas políticas. em virtude do sistema presidencialista. No entrelaçamento atual do capital e do Estado ela assume formas sempre novas. Por essa razão não surpreende o elevado percentual de deputados que não conseguem reeleger-se. diante do Congresso. das Assembléias Legislativas e das Câmaras de Vereadores.86 Em três outros houve fortes indícios.85 Com a fixação em interesses micropolíticos os poderosos impedem que o sistema político questione o seu poder econômico e sobretudo a sua propriedade. esta é quase sempre de importância secundária diante das qualidades e capacidades pessoais. comprar a anuência a projetos que tramitam no Congresso mediante concessões feitas à sua clientela eleitoral. mas impede que as leis da igualdade e da restrição do poder sejam implementadas no espaço público.

eis a manchete da FSP em 4 de março de 1997. Assim os grupos conservadores estão representados muito acima da média na Câmara dos Deputados e no Senado (no Acre. Assim e. deputado federal (1987-1990).664. 89 Já durante o Estado Novo surgiu uma pletora de instituições do Estado central. 88 O caráter contraditório da política brasileira é testemunhado pelo fato desse estado especialmente retrógrado estar sendo governado desde 1999 pelo PT.88 O esforço modernizador das partes do establishment brasiliense interessadas na transformação encontrou seu limite nas alianças necessárias para o apoio de uma tal política. o PPB três e o PP (Partido Popular) uma cadeira na Câmara dos Deputados. PMDB (1983-1992): deputado federal. A estrutura administrativa burocrática do Estado brasileiro.89 A nova Constituição Federal de 1988 se inseria na tradição do modelo do Estado racional e burocrático e impôs um direito unitário do funcionalismo público e da sua remuneração.80 das investigações foi abortada. 87 A troca de votos no Acre não foi a única transação do governo. Afirma-se que essas compras de voto teriam sido coordenadas pelo governador do Amazonas. Ele desejava a descentralização e fragmentação do Estado. ”FHC troca 6. assim e. que se formou.000 funcionários de organizações estatais terceirizadas tornaram-se funcionários públicos federais sujeitos a regras administrativas uniformes (Bresser Pereira 1998a: 4). também Damé 1997). que abrangem uma grande parte dos serviços públicos nas áreas da saúde.491 pessoas).87 Como estados pequenos como o Acre não possuem força econômica própria e sua arrecadação tributária direta é praticamente inexistente. mas não estatais de direito privado.g. em 1994 eleição como candidato do PP. um senador paulista 10. Os deputados federais do pequeno Estado do Acre são um bom exemplo disso. Elas recebem um encargo legal para produzir um serviço para o Executivo. PPR (1995-1996). Por sua vez o presidente da república. Ronivon Santiago: PMDB (1990-1994). da educação.055. 1994 candidato pelo PMDB. Nesta a participação dos cidadãos era desejada. referindo-se à assunção das despesas de pessoal do Estado do Amapá pelo governo federal (cf.90 A reforma administrativa constituía um elemento central da reforma do Estado na direção de um Estado ”enxuto”. As ”agências executivas” são organizações públicas. São responsáveis pelas atividades exclusivamente disponibilizadas pelo Estado. dependia para a implementação dessa ”modernização” do apoio das forças políticas mais retrógradas do Brasil. Em 1997 somente um era membro do PMDB. Esse modelo foi introduzido em 1935. recrutada e treinada de forma impessoal. Em 1967 uma reforma administrativa dos militares levou a uma maior autonomização e flexibilização da administração pública pela criação de fundações e autarquias. Osmir Lima: PMDB (1982-1994). chefe de gabinete (1987-1990). Presidente do Banco do Estado do Acre (1983-1986). As tarefas foram delegadas a ”organizações sociais” (OS) e ”Agências Executivas” definidas em lei. 80 . XIX e depois no plano dos estados.000 cargos contra um voto”. que também elegeu dois dos três senadores. possam administrar de forma descentralizada. 90 ”Dessa forma será possível estabelecer uma administração pública gerencial. cobrando resultados dos servidores públicos (Bresser Pereira 1997). Chicão Brígido: PMDB (1992-1997): vereador em Rio Branco (1993-1994). mas autonomizadas em termos organizacionais. As organizações sociais são responsáveis pelos serviços nãoexclusivos. escolas que não fundam uma Associação de Pais recebem menos recursos do Estado. deputado federal (1995-1997). o INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social). deputada federal (1990-1994). O modelo oficial era o estado centralista francês e a burocracia racional de Max Weber. depois das eleições mudança para o PFL. Em 1994 o PMDB conquistou quatro. responsável pela política de meios de comunicação do governador (1982-1985). mudança de partido para o PP (1992-1994). partindo do Estado do Rio Grande do Sul. um senador acreano representa 139. depois mudança para o PFL. PFL (1997). O Estado criou assim para si no seu entorno uma sociedade civil própria para fins de disponibilização de serviços públicos.515. (Lins 1997). desembocou depois de 1930 no centralismo do estado-nação. criando uma série de novos órgãos. cujo discurso político gira em torno do conceito da ”modernização”. 400. para ocupar o lugar da estrutura patrimonial do Estado. instituições e cargos que administravam os assuntos públicos ao lado da hierarquia estatal. em São Paulo 450.g. na qual este era percebido como propriedade de quem exercia a dominação. em que os políticos eleitos e uma alta burocracia profissional. da cultura etc. um deputado representa 52. tal como ela já tinha sido iniciada pelo presidente Kubitschek e pelos militares. A descentralização ocorreu tanto como deslocamento do plano nacional para o plano regional e local quanto como terceirização feita pelo Estado (Mare 1997). os seus atores dependem em elevado grau de contribuições legais e ilegais de instâncias externas. timidamente no séc. No maior. Os cinco deputados suspeitos de corrupção percorreram carreiras políticas típicas: Zilá Bezerra (1982-1994: PMDB). a não-participação era punida. As idéias do presidente Cardoso caminhavam na direção contrária. coordenadora de política agrícola no Vale do Juruá (1986). depois mudança para o PSDB e depois para o PFL. os três restantes e o deputado do PP migraram para o PFL que no Acre colaborava com o governador. inspirada pelo ideário positivista.145 pessoas. Juscelino Kubitschek reforçou essa tendência. João Maia: PT (1980-1983).

0 116.9 5.740 1989 34.76 567. sua quarta função.com.47 531.89 592. esse percentual subiu a 41. No centro da reforma administrativa estavam objetivos de natureza fiscal.897 1993 35.8 232.000 funcionários durante o governo Sarney.7% em 1998.91 No núcleo estratégico do Estado o direito do funcionalismo público continua sendo mantido juntamente com a estabilidade (www.0 3.3% de todo o funcionalismo civil federal era formado por aposentados.7 4. em 1998 este foi nitidamente superior.93 Tabela 18: Gastos de pessoal da União. que chegara a um ponto culminante com 700.58 620. O quadro de pessoal.6 6.1 157. a redução dos gastos com pessoal.7 231.43 545.68% do PIB. foi até terceirizada a empresas privadas.8 5. A Tabela 18 mostra que estes subiram durante o governo de José Sarney de 3.58%.83 592. Novy 1998: 235). da arrecadação de impostos. em bilhões de reais (dezembro de 1997) e situação do funcionalismo R$ índice em % situação do (bilhões) (1) do PIB funcionalismo 19. 81 .06 583.7 5. a produção de bens e serviços antigamente efetuada pelo Estado. Durante o governo Collor eles caíram para 4. Pretende-se impedir a participação direta do cidadão nas decisões do núcleo estratégico do Estado.2 143.br vom 12. também em números absolutos com R$ 46. 93 Ao lado dos funcionários federais civis há redondamente 600.000.7 6.1999): isso abrange as áreas da segurança. pois um excesso de regras e sobretudo de cogestão sindical configuraria um impedimento ao monitoramento eficiente.gov.375 1991 23.305 1990 28. Por isso a legitimação para a tomada de decisões sobre o bem-estar público reduz-se para os titulares dos cargos decisórios na burocracia estatal à legitimação indiretamente democrática pelo presidente.548 1988 29.26 705. o aumento salarial concedido por ele.4 174. Com isso elas estavam em 1997 um pouco inferiores ao serviço da dívida (cf.2 122. Uma disponibilização de serviços competitivamente organizada deve possibilitar a criação de um Estado enxuto e eficiente .zerohora.020 1994 46. De qualquer modo 121.92 Ao passo que os gastos com pessoal não mais oneram o orçamento.870 1992 31.42 628. Itamar Franco aumentou os gastos com pessoal.7 100.5 5. O primeiro escalão da burocracia é reestruturado em termos de administração empresarial.166 (3) 1998 (2) (1)1987 =100 (2) acumulado de maio de 1997 até abril de 1998 (3) Março de 1998 Fonte: www.5 526. Em 1997 o número de funcionários públicos ativos na administração federal mais estrita era ligeiramente superior a 500.6 236.9 151.000 militares (inclusive a Polícia Militar) (Dreifuss 1989: 26).6 bilhões a um ápice.br/Publicacoes/Boletim/index.9 181. do Banco Central e do Judiciário. que produziu seus plenos efeitos no orçamento apenas em 1995.htm (27 de julho de 1998) 91 As inovações tecnológicas na área das telecomunicações e o controle estatal pela via de um órgão de regulamentação visam impedir a formação de monopólios. vale dizer.8.3 4.7 4.68 712.3 229.46% a 6. 92 Ao passo que em 1987 somente 23.656 1996 45.46 1987 24.bem na linha de ”Reinventing Government” (Osborne Gaebler 1992) (Bresser Pereira 1998: 11).mare.7 4. As despesas estagnaram ligeiramente abaixo desse nível sob o governo de Fernando Henrique Cardoso.81 caso dos monopólios sobre a exploração de recursos naturais.725 1997 45. reduziu-se nos anos subseqüentes em todos os governos.689 1995 45. é lícito duvidar diante da redução do funcionalismo se a qualidade dos serviços poderá continuar sendo assegurada.150 pessoas atuam na área da saúda e 171.137 pessoas no setor educacional. conduziu.

que funcionou sobretudo nos anos 80 fundamentalmente por via dos bancos públicos estaduais. No lugar de planos de saúde local e regionalmente integrados apareceu a lógica centralizada da contabilização de ou do pagamento por serviços 94 Com referência à estrutura federativa. independentemente deles contribuirem ou não. o INPS (Instituto Nacional de Previdência Social). Embora ela estivesse em muitas áreas. implementadas em dispositivos de regulamentação por via de leis ordinárias. uma nova Constituição Federal. Em 1987 foram dados passos na direção de um sistema unificado. XX existia somente uma previdência privada no plano da saúde. ela colocou algumas ênfases importantes em áreas isoladas. Não se questionava a concepção do poder soberano. Ao mesmo tempo. Já cedo formou-se a resistência a essa concepção cidadã de saúde. mas aqueles que monopolizavam esse poder. intensamente acompanhado pela sociedade civil. a política econômica e a posição dos militares. os municípios puderam aumentar entre 1980 e 1992 a sua participação nos gastos sociais do Estado de 11 a 17%. ela foi denominada ”constituição cidadã”. Pereira 1998: 142). 82 . colocou-se contra essas idéias e obstaculizou o SUS. Desde o princípio a estrutura do sistema público de saúde era fragmentada e altamente centralizada. tentou-se unificar o sistema de pensões. Até o início do séc. Com o Plano Real os municípios e os estados se defrontaram com uma redução dramática das suas margens de ação. O sistema brasileiro de saúde é um bom exemplo da construção e destruição da dimensão nacional. mas os direitos sociais também foram nela ancorados como direitos universais de todos os cidadãos. A dispensa de cuidados médicos a todos os integrados no mercado formal de trabalho transformou-se igualmente em direito do trabalhador. cuja dissolução estava prevista na constituição. na sua maioria quase absoluta. Em 1967 as diferentes caixas de pensões foram unificadas na criação de um instituto próprio. não com referência ao seu público-alvo e sua qualidade.atingidos de forma especialmente dura pela política de juros elevados. Depois de alguns outros passos na direção da unificação do sistema os estados e municípios foram inseridos em 1983 por meio de contratos intraestatais na política nacional de saúde pública. O sistema de saúde pública tem a sua origem em caixas de pensão criadas em 1923 por empresas. num país com uma das distribuições mais injustas da renda e do patrimônio e diante de um aumento da desigualdade nos anos 80. o que levou a uma padronização nacional dos direitos de aposentadoria. mas descentralizado. As pessoas com renda maior começaram a contratar. Com base na constituição (Ministério da Educação 1988: 88) o sistema de saúde baseia-se nos princípios da universalidade.82 A democratização. Na sua estrutura. sendo agora . com a criação do Ministério da Previdência Social. Em 1947. que ofereciam também assistência social e cuidados médicos. O pagamento dos juros empurrou alguns bancos públicos estaduais à falência ou conduziu à sua liquidação ou privatização. em número crescente. em perfeita continuidade com constituições anteriores. Ao mesmo tempo foi criado o Ministério da Saúde. Mas as numerosas exigências constitucionais no campo da política social não foram. compreendida num sentido muito abrangente. o ”populismo econômico” pela ingovernabilidade desde o fim da ditadura militar (cf.assim como o orçamento da União . Tratava-se de dar à nação enquanto receptáculo de poder regras que permitissem uma cogestão mais ampla da população. as forças que pretendiam fortalecer um sistema privado de saúde ganharam influência com a eleição de Fernando Collor de Mello. essa ampliação maciça do círculo de beneficiários resultou num grande ônus financeiro e na redução dos serviços prestados. O PSDB votou em 1988 de modo quase unânime em favor da constituição (Oliveira 1998a: 175). ocupou desde a resistência contra a ditadura militar um papel central em todos os esforços reformistas. Em 1930 elas foram substituídas por caixas de pensão sujeitas ao controle estatal e estruturadas segundo segmentos profissionais. os estados também aumentaram a sua participação de 24 a 27% (Medici 1995: 291). As idéias fundamentais desse sistema foram integradas em 1988 na nova Constituição Federal. foi elaborada em 1988 pela Assembléia Constituinte eleita em meio à vertigem consumista do Plano Cruzado e claramente determinada pelo predomínio das forças conservadoras. A burocracia nacional da previdência social. como variante latinoamericana. igualdade e integração de atividades. A primeira medida eficaz de Collor foi retardar a introdução do SUS. Estes eram utilizados para alavancar os esforços no desenvolvimento regional. Por meio do SUS (Sistema Unificado de Saúde). Depois de um longo processo.94 Isso está relacionado à estrutura de financiamento dos estados. No âmbito de um segmento cada pessoa tinha os mesmos direitos. a saúde passou a ser um direito de todos os brasileiros. o sistema de saúde percorreu no Brasil uma evolução similar à do sistema de saúde na Europa. cuja atenção se concentrava sobretudo no combate às epidemias. a ”sobrecarga de demandas” (Mare 1998: 3) ou. em cópia de argumentações conservadoras dos países industrializados. Apesar disso responsabilizou-se. Ao lado da destruição de algumas caixas de pensão que funcionavam bem. como a reforma agrária. seguros particulares. Em virtude da sua concepção explicitamente liberal dos direitos de cidadania e do federalismo.

competindo à União tão-somente a elaboração da legislação geral (Arretche 1998: 86-90). A descentralização do sistema de saúde começou a estagnar e os municípios e estados se viram sem apoio nacional. quando o governo federal criou para fins de saneamento do orçamento o FSE (Fundo de Estabilização Econômica). A burocracia gestora desse sistema complexo foi sistematicamente destruída. os estados e municípios. ”Membros de sistemas de previdência privados são essencialmente pessoas com renda alta e muito alta. ao passo que a produção do serviço é descentralizada e privatizada. Esse estado de coisas deteriorou-se ainda mais a partir de 1994. a dissolução do Ministério da Previdência Social e dos departamentos competentes na CEF ajudaram a quebrar o poder da burocracia num só golpe.92%. necessário porque as reformas necessárias não eram executadas com suficiente rapidez e só assim seria possível reduzir a ”vinculação excessiva dos gastos”. O plano de descentralização do governo já estava concluído apenas cinco meses após a posse do presidente. conforme argumentou o governo. A política habitacional do Estado também evidencia o papel central do Estado no fordismo periférico. O lugar do financiamento centralizado por via da União foi ocupado por uma forma aberta de estatalidade que recorre tanto a meios do setor privado quanto aos municípios e estados.95 O seu prolongamento no âmbito do FEF tornou-se. 96 Entre 1975 e 1982 foram disponilizados aproximadamente US$ 2. A democratização evidenciou as graves falhas da falta de mecanismos para dirimir conflitos entre a União. por meio do estímulo da criação de órgãos colegiados nos estados. pois uma grande parte das habitações foi construída para famílias cuja renda mensal era superior a 12 salários mínimos (Aguerre 1995: 112). O BNH foi dissolvido em 1986 e as suas funções foram transferidas a um banco estatal. mas no seu funcionamento real ele era unitário-centralista (Arretche 1998: 75). Até 1986 foram construídas cerca de 4 milhões de habitações. sendo que a camada baixa só se beneficiou disso em grau restrito. 97 Um ponto culminante triste da crise o sistema experimentou no governo Collor cujo ministério concedeu em 1992.5 bilhões de dólares norte-americanos. Em 1966 entrou em vigor o FGTS. 83 . durante o curso do processo de impeachment. As COHABs (Companhia Metropolitana de Habitação) eram encarregadas da implementação dos programas habitacionais. que reteve parte da arrecadação tributária destinada pela constituição aos estados e municípios. entre 1979 e 1983 foram concedidos em média 230.000 em 1989 (Arretche 1998: 83).4 bilhões para menos da metade em 1993.5 bilhões por ano. Em 1996 esse índice foi de apenas 70. 95 A compensação financeira produz um efeito regionalmente redistributivo no plano estadual via FPE (Fundo de Participação dos Estados). da previdência social e da educação. a causa principal da crise. Em 1964 foi criado o SFH (Sistema Financeiro de Habitação) e um banco para o financiamento da casa própria. Sob o governo de Fernando Henrique Cardoso foi iniciada a reformulação da política habitacional. Esse sistema misto centralizado-descentralizado funcionou apesar da sua estrutura básica autoritária. o governo Cardoso considerou muito positiva a idéia de uma descentralização. Em contrapartida.2% dos recursos se concentraram também nas áreas da saúde. Formalmente o sistema era federativo. Em 1994 86. nada menos de 25% de todo o orçamento federal para o setor de saúde” (Frankfurter Rundschau. por sua vez designado pelo governador.000 empréstimos novos por ano (Arretche 1998: 73). 6 de julho de 1998: 6). o número dos empréstimos concedidos caiu também de aproximadamente 230. levada às últimas conseqüências durante o governo Collor. para terminar finalmente como Secretaria de Estado junto ao Ministério de Planejamento (Arretche 1998: 82). Pelo pagamento dos seus prêmios elas recebem incentivos fiscais e subsídios do estado em volume considerável. A instituição política central é agora o governo estadual. Como se identificava na corrupção. Esse efeito é apenas reduzido no FPM (Fundo de Participação dos Municípios) (Couto 1996: 44). a CEF (Caixa Econômica Federal).83 prestados. Com isso o sistema foi paralisado por mais de dois anos (Arretche 1998: 84). A desmontagem da burocracia central. As receitas auferidas pela União a partir desse fundo devem ser utilizadas ”prioritariamente” na área social.000 no final dos anos 70 e início dos anos 80 para 32. As receitas do FGTS caíram de redondamente US$ 2. Seus representantes eram designados pelo prefeito. o que foi uma das razões da atividade reduzida de investimentos do setor privado. o BNH (Banco Nacional de Habitação). subsidiados com isenções tributárias. esses subsídios cifraram-se em 1995 em 1. financiamentos dimensionados até meados de 1995. Segundo dados do Banco Mundial. O ministério competente alterou várias vezes o seu nome. estão crescendo muito os seguros de doença privados. acessível aos trabalhadores em caso de demissão e para fins de construção ou aquisição da casa própria (Arretche 1998: 70).96 Correspondeu à concepção de Estado da ditadura militar de deixar executar o fornecimento do serviço a ser prestado de modo descentralizado e centralizar a competência decisória. em junho de 1995.97 O espaço habitacional era financiado agora essencialmente pelo mercado creditício privado.

o Presidente da Comissão de Reforma do Estado.3 bilhões. mas continuou trabalhando ativamente na aquisição de empresas estatais. na véspera de uma inesperada alteração da política do Banco Central. No PT os irmãos Viana ganharam as eleições no Acre para o governo do Estado e o Senado. Para a parcela economicamente bemsituada da burguesia o Estado de Bem-Estar Social tornou-se crescentemente menos relevante. Fernão Bracher. Luís Eduardo Magalhães. 99 De acordo com um prognóstico. puderam continuar fazendo valer maciçamente a sua influência. chegando mesmo a ser percebido como obstáculo do desenvolvimento da liberdade do consumidor. Pérsio Arida. seja por encargo do Estado. Gustavo Franco. várias isenções tributárias custaram em 1997 ao erário da União o valor de R$ 17. o ex-ministro Mailson da Nóbrega. em 1998. Empresas estatais e a burocracia estatal foram privatizadas. Os grandes empresários nacionais e internacionais.84 À guisa de resumo. Eduardo Suplicy se elegeu senador por São Paulo e sua esposa Marta quase atingiu o índice de 24% nas eleições para o governo estadual (Brasilienausschnittdienst 10/98). Ministro das Telecomunicações. Falta vontade política para que os órgãos de fiscalização possam cumprir a sua função de controle. Secretário de Comércio Exterior. Muitas das mesmas pessoas que tinham ocupado posições no topo do Estado passaram a atuar no setor terceirizado. proprietários. No setor dos órgãos de regulação redes informais e privadas parecem desempenhar um papel importante. Arida renunciou depois ao seu cargo (Veja. O presidente do banco extremamente lucrativo BBA. O que mudou foi a fragmentação progressiva de uma regulação política em si já não mais homogênea. Com a crise fiscal e a dificuldade crescente de mobilizar recursos estatais para fins próprios. administradores. Os irmãos Luiz Carlos Mendonça de Barros.5% (FSP de 8 de setembro de 1997). Magalhães. nomeado presidente do Banco Central. situados na proximidade do bloco de poder. a relação da sociedade civil com o Estado também se alterou. é consultor de uma das empresas interessadas (FSP de 10 de outubro de 1997). e seu irmão José Roberto Mendonça de Barros. embora a fragmentação de instâncias estatais andasse de mãos dadas com uma concentração privada do poder. podemos registrar que a política anti-estatal apoiou-se nos anos 90 nas forças que nos anos 60 tinham subordinado os direitos de cidadania a uma forma ditatorial de governo e promovido a estatização da economia. nomeou por sua vez um amigo do setor privado Diretor de Assuntos Internacionais. Adache 1998). Seguros de aposentadoria privada podiam ser descontados do imposto de renda (Carvalho. burocratas e consultores parece ser demasiado estreito e o poder do mercado parece ser demasiado forte. Isso dificultou a capacidade de ação política do bloco dominante. 84 .99 98 Um coordenador da política no setor petroquímico. reuniu-se com o presidente do Banco Central. Até a sua morte surpreendente em 1998 o filho do presidente do Senado ACM. seja na condição de novos proprietários. no mesmo ano. Laços familiares também desempenham um papel central. foi o candidato com maiores chances de êxito para as eleições presidenciais em 2002. 22 de março de 1995). tiveram de renunciar simultaneamente devido a conversas telefônicas duvidosas.98 O entrelaçamento de financiadores. O poder pessoal e controle pelo establishment freqüentemente foi mantido. ex-presidente do Banco Central. sendo que apenas a Zona Franca de Manaus ficou com 14. é igualmente consultor.

a nação lograva postergar por meio do monitoramento político a eclosão da respectiva crise. Como capitania. A última década do antigo poder sobre o espaço. isso levou ao colapso do velho campo de poder e à estruturação rudimentar de um novo campo. que se sobrepõem à cidade de São Paulo. O espaço nacional foi estruturado e hierarquizado a partir de São Paulo. a restrição do meio monetário. em 1973 foi a vez do sistema de Bretton Woods. os anos 20 e o período de 1973 a 1982. Denomina-se Região Metropolitana de São Paulo (Grande São Paulo) o espaço de aglomeração com seus aproximadamente 16 milhões de habitantes (Cf. posteriormente dominante. o nosso objetivo será também agora colocar a produção de São Paulo enquanto espaço de poder no primeiro plano da nossa análise. referidas a uma forma estrutural. seu centro. Juntamente com a crise da antiga forma de acumulação e regulação. em larga escala dominante. cujo charme efetivamente não salta aos olhos de imediato. o regime dominantemente intensivo tem em São Paulo o seu ponto de partida. dura”. Na 1ª Guerra Mundial o padrão ouro entrou em colapso. originariamente irrelevante. nacionalmente dominante. desempenharam papéis distintos nas 85 . Mas a periodização do desenvolvimento regional afasta-se da periodização do desenvolvimento nacional. refiro-me em primeiro lugar à cidade enquanto município e com isso enquanto unidade territorialadministrativa no nível mais inferior da federação. província e mais tarde como estado da federação. O seu poderio derivou em uma primeira fase de uma inserção específica na economia mundial e. por não dividir estados-nação. São Paulo tornou-se um espaço de poder econômico que abrange todo o estado. No entanto. Os diferentes planos. a deselengância discreta das suas meninas” (”Sampa” de Caetano Veloso) São Paulo. a saber. milhões de automóveis e aproximadamente dez milhões de pessoas encontram-se num espaço estreito. Velha e aparentemente ahistórica. E como já aconteceu no capítulo precedente. e isso simultaneamente na agricultura. Definirei a seguir as rupturas na evolução mais recente de São Paulo em 1914 e 1973. Foi um território cuja fronteira adquiriu importância apenas aos poucos. Se a seguir falo de São Paulo. São Paulo teve uma pletora de detentores do poder. São Paulo é um espaço parcial do Brasil. Enquanto espaço de poder político. os anos de 1914 e 1973 assinalam uma ruptura. de uma posição peculiar no âmbito do espaço nacional de poder. a cidade estende-se sobre o planalto logo atrás da costa íngreme. Trata-se de uma cidade cujo crescimento vertiginoso no séc. orientar-me-ei também nesse capítulo pela teoria da regulação. Ao passo que São Paulo foi antes um retardatário na sua transição ao regime de acumulação extensiva. isto é. Analogamente ao exame do Brasil. a partir de São Paulo foram traçadas e derrubadas fronteiras econômicas e político-administrativas. De outro lado também chamo São Paulo a região e o estado inteiro. Essas datas não parecem indicar um momento exato de uma transformação radical.85 3 Espaço e poder no centro da periferia ”E quando eu cheguei por aqui eu nada entendi: a dura poesia concreta de suas esquinas. Mas mesmo esse espaço maior precisou ser primeiramente construído na sua estrutura atual. foram tempos de intranqüilidades políticas que se concentraram em São Paulo. O mesmo vale para a crise desse regime de acumulação. com seus quase 10 milhões de habitantes. Nas últimas décadas São Paulo é denominada a ”Califórnia do Brasil”. É certo que a região não tem nenhuma influência na política financeira. em uma segunda fase. As respectivas rupturas políticas ocorreram posteriormente. na indústria e no setor de serviços. porque esse espaço ocupa uma posição nacionalmente significativa. mas nos dois momentos as contradições nacionais do velho poder sobre o espaço já se refletiam nitidamente em São Paulo. a mais importante metrópole da América do Sul. inserida em um estado que hoje é o centro econômico inconteste do Brasil e há cem anos ainda apresentava extensas áreas cobertas de mata e uma densidade demográfica muito reduzida. Uma metrópole. Na realidade as transições de um campo a outro se dão lentamente e na forma de um processo. XX produziu a sua peculiar ”poesia concreta. Periodizações efetuadas conforme rupturas refletem um pensamento comparatista-estático. são os conteúdos espaciais de um receptáculo que não deixa de ter importância também no jogo das forças globais da atualidade. mas como São Paulo era o ponto nodal do campo nacional de poder. A Tabela 19 nos apresenta uma primeira sinopse a respeito disso. exibe uma arquitetura impressionante: milhares de edifícios. Tabelas A-34 e A-35). ela reagiu com maior rapidez e sensibilidade à crise da moeda. Enquanto locomotiva que impulsiona o Brasil inteiro.

A renda anual per capita caiu de R$ 6.br ).898 (1980) a R$ 5. XIX para o séc. sendo que até a virada do séc. 86 . XX. para mais tarde aumentar para R$ 6.gov.292 (1997) (www. O estado respondeu por um terço do Produto Nacional. seu PIB ultrapassou em 1997 o limiar dos R$ 211 bilhões.86 diferentes constelações de poder sobre o espaço. XX a região ultrapassava a cidade em importância e essa relação de dependência se inverteu no curso do séc.657 (1992). atingindo assim quase o PIB argentino e ultrapassando o de qualquer outro país sulamericano.seade.

baseado na * plantação cafeeira imigração * início da acumulação * reduzidas inovações no dominantemente extensiva processo de trabalho 1914 – 1974 centro econômico do Brasil * ”política dos governadores” * fomento da produção de café * política regional de localização * complementação da * mercado de trabalho * dominância do capital * subordinação política ao estrutura produtiva em corporativista.87 Tabela 19: Sinopse dos modos paulistanos de desenvolvimento. industrial orientado para a estado-nação e à cidade de nível regional nacionalmente estruturado economia doméstica São Paulo *empresas industriais * intensificação da * monopólios ou * acumulação produção oligopólios nacionalmente dominantemente intensiva determinantes * metrópole dos serviços (financeiros) * crise da indústria * elementos de acumulação intensiva e extensiva * mercado de trabalho competitivo com germes de um corporativismo local * dominância do capital internacional e do capital financeiro * abertura para o mercado mundial e centralização desconcentrada * democratização do Estado regional * des. 1554 – 1998 Sistema regional de produção * subsistência * saques Trabalho Relações de concorrência * posição periférica na colônia portuguesa * dominância do capital cafeeiro orientado para o exterior * mercado local Estado ampliado regional * Bandeirantes * estamentos Estado ampliado local * Bandeirantes 1554 – 1850 cidade pré-capitalista 1850 – 1914 da capital do café à cidade industrial * trabalho para fins de sobrevivência * expedições para saques * escravismo * germes de um sistema * transição para o trabalho de produção local assalariado.e recentralização * alianças locais para o crescimento * embelezamento da cidade * ampliação da infraestrutura * controle da classe operária * municipalização da infraestrutura * aliança para o crescimento * hierarquização do espaço urbano * democratização do Estado local * modelo liberal de Estado a partir de 1974 A metrópole necessita de uma região mundial Fonte: adaptação do autor 87 .

partindo da cidade portuária de São Vicente. baseava-se na pecuária e na agricultura. Depois de exaurido o 1 2 Cf. Na região de São Paulo.Os primeiros paulistas2 e paulistanos3 produziam seus próprios objetos de uso. Em 1600 havia 6. conseqüentemente. 1992: 13)1. A economia de subsistência. Uma parte da floresta subtropical úmida era derrubada e preparada para a agricultura mediante queimada. pois o espaço de entrelaçamento transatlântico privilegiou a colonização da costa. cinqüenta anos mais tarde 12. Mas já em 1554 ocorreram as primeiras fundações de localidades no hinterland da Capitania de São Vicente. os extensos e interessantes relatos de viagem de Lévi-Strauss (1996: 80 e 102 ss. em nível de subsistência. .1 São Paulo pré-capitalista (1554 -1850) A costa de São Paulo formou a fronteira sul da colonização portuguesa.000 (Henshall. com exceção da exportação de trigo no séc. o cultivo da cana-de-açúcar não era nem aproximadamente tão produtivo como no Nordeste do país.1 História dos campos regionais do poder Gráfico 8: Estado de São Paulo. 3 Habitantes da cidade de São Paulo.1. pois a agricultura só podia ser desenvolvida com dificuldade na costa íngreme.000 cristãos. que seguia o modo indígena de produção. XVII. Habitantes do Estado de São Paulo. 3. que se concentrou ao redor da região equatorial do Nordeste. Embora a capitania distasse apenas 70 km do porto. Momsen 1974: 40). e viviam.3. As cinzas serviam como húmus para o cultivo de um grande número de frutas e hortaliças. Por isso a região e. o caminho era penoso: precisava-se vencer a serra íngreme para chegar à planície ondulada a 750 m acima do nível do mar. Os colonizadores portugueses agarraram-se ”como caranguejos à costa” (PMSP et al. a pequena colônia jesuítica de São Paulo ficaram em larga escala isoladas durante muitos séculos. Cada pessoa ou família precisava cuidar da produção dos seus alimentos.). localidades centrais e regiões vicinais Fonte: Novy 1997b: 261.

na direção do interior (Becker. foram construídos os primeiros canais.000. os jesuítas. fontes públicas e calçadas. imprimindo-lhe traços profundos de sua ação criadora.). as mulheres pela agricultura de subsistência. Os homens respondiam pelas expedições de saque para o hinterland. deveram sua existência indiretamente ao êxito da economia açucareira” (Furtado 1975: 42). ocorreu uma modernização político-cultural. da pesca e da coleta de frutas. ‘isto he’ – explica Casal – ‘de terra’ e ‘branqueada com tabatinga’. XVIII a população cresceu de 2. potencialmente oposicionista. por conseguinte. Um segundo elemento importante de uma sociedade urbano-burguesa em vias de formação foram a partir de meados do século os primeiros jornais. 1992: 38). O fechamento das reduções indígenas em 1767. desmatava-se um novo pedaço e o velho campo podia recompor-se. o mucambo quase de negro. absolutamente disciplinadas. Foi fundada em São Paulo em 1827 a Academia de Direito no Largo de São Francisco (PMSP et al. sobretudo urbana. Havia um conselho municipal. Alguns grupos mantinham também animais domésticos. nas quais objetivos missionários e estratégias racionais de colonização no longo prazo estavam acima da busca do lucro no curto prazo. assumissem os seus costumes e criassem uma cultura mestiça. Como São Paulo não podia prestar uma contribuição à economia mercantil de Portugal. As expedições de saque eram facilitadas por uma densa rede fluvial cujas águas fluíam para o Norte. Pela sua presença física constante na economia local. a região só estava inserida fracamente em processos supraregionais (Fernandes 1987: 119). 244).89 solo. ganhando assim pela primeira vez importância como colônia. de pedra e cal. Essa rede fluvial desempenhou um papel decisivo na integração do hinterland (Furtado 1975: 41 s. de forma especial na cultura indígena. 1992: 38).inicialmente para 80 moradores. Surgiram ainda teatros e diversas associações. a língua portuguesa acabou por prevalecer (Holanda 1989: 96). análogo ao sistema administrativo de Portugal . abriu aos bandeirantes grandes áreas novas para as suas expedições saqueadoras e criou assim a primeira riqueza em São Paulo (PMSP et al. por exemplo. que só nos fins do século XVIII. A partir de 1674 a descoberta de ouro em Minas Gerais deu início ao próximo surto de desenvolvimento. feita em São Paulo. saquear e capturar escravos fugidos. mesmo aquelas comunidades que aparentemente tiveram um desenvolvimento autônomo nessa etapa da colonização. Havia uma clara divisão do trabalho fundada no gênero. na sua maioria índios (PMSP et al 1992: 16). Egler 1992: 60). a de São Paulo ainda mais tarde. A disciplina substituía a escravidão. elas ocupavam uma posição especial.500 para 8. Entre 1777 e 1819 São Paulo era a quarta maior cidade do Brasil. 40% das moradoras eram mulheres que viviam sozinhas. mas a palhoça quase de caboclo. evidencia-se. no séc. as assim chamadas reduções. Mas embora os portugueses se mesclassem séculos a fio com os aborígines. pois Portugal sempre tentara impedir o surgimento de uma sociedade urbano-burguesa independente e. 1992: 26 s. Em 1560 São Paulo foi elevada oficialmente à categoria de vila. nas quais a perfeição humana efetivamente foi atingida” (Foucault 1994: 19). Ao lado da subsistência os paulistas viviam da economia baseada em expecições de saques. que exigiam melhorias da infraestrutura urbana (PMSP et al.” (Freyre 1951<1936>: 158). em 1822. Quão retirados viviam os paulistas. ”O Paulista. Isso ocorreu com atraso. a casa que ligou a essa paisagem não foi a grande e estável. “Portanto. Depois da proclamação da monarquia. No decorrer do séc. Pouco a pouco a vila se transformou em cidade. iniciando-se um processo de valorização do solo urbano que expulsou do centro as mulheres pobres que outrora tinham definido o perfil da cidade (Dias 1995: 242). época de relativa sedentariedade para aqueles nômades se europeizaria na habitação urbana de taipa. Uma vez enriquecidos. pois estes tinham criado no vizinho Paraguai grandes missões. não o português (Holanda 1989: 88 ss. esses bandeirantes muitas vezes não retornavam mais a São Paulo. A urbanização do Brasil começou muito tardiamente. Denominava-se bandeirantes os grupos organizados que avançavam rumo ao interior para capturar mãode-obra indígena. Com a economia mineradora em Minas Gerais a inserção de São Paulo na economia colonial sofreu uma 4 Eram ”colônias excelentes. Os sacerdotes ou funcionários da administração vindos de fora muitas vezes se viam obrigados a recorrer a um intérprete para comunicar-se com os moradores do lugar. Muitas delas trabalhavam como vendedoras de rua. XIX ela perdeu essa posição com a ascensão de Belém (Morse 1971: 5a). o casebre quase de cigano.4 Assim as missões localizadas na fronteira com a América Espanhola cedo se viram ameaçadas pelo lado dos paulistas e pelo lado argentino. Ao lado da agricultura os moradores asseguravam a sua subsistência por meio da caça. 89 . Estavam também em contato permanente com os escravos e se integravam. Mas os paulistas se especializaram cedo na captura de escravos indígenas que eram vendidos às plantações açucareiras do Nordeste. São Paulo servia-lhes de base para as suas ações. figura que dramatizou como nenhuma a paisagem sertaneja dos primeiros dois séculos de colonização. não em último lugar. Ainda na época da Independência. o que levou a progressiva colonização do interior do Brasil. no fato de que a linguagem do cotidiano era o tupi.). É evidente que os paulistas se envolveram em pesados conflitos com os seus pais-fundadores. obtido mediante pressão maciça de muitos lados. portanto. mas o sistema de abastecimento local transformou-se radicalmente com a introdução do transporte ferroviário (Dias 1995: 30.).

mas guardava a sua estrutura. Criou-se.que defendia até certo ponto sua rentabilidade conservando uma produção relativamente elevada .2 milhões de sacas por ano na década de 1890 (Silva 1986: 43). uma de propriedade estadual. a população mineira dependia para tudo de um complexo sistema de transporte. depois de café. essas terras eram consideradas propriedade do Estado.6 milhões de sacas na década de 1860 e a 7. Como os índios e os pequenos agricultores não dispunham de títulos de propriedade. a mão-de-obra e as mulas . mas a importação de escravos também foi aumentada.). Por volta do fim do século o mercado fundiário experimentou um surto. A quase inexistência de abastecimento local de alimentos. As terras eram simplesmente ocupadas e utilizadas para a produção.). e em que a mão-de-obra fora um fator extremamente escasso. Depois de 1850 o Estado era . Das vinte ferrovias de São Paulo.90 transformação. uma região cujo povoamento se fizera dentro de um sistema de alta produtividade. tudo contribuía para que o sistema de transporte desempenhasse um papel básico no funcionamento da economia. Dessa forma. A economia cafeeira partiu no séc. a expansão democráfica se prolongará num processo de atrofiamento da economia monetária. Na década de 1880 a produção paulista começou a superar a fluminense (Silva 1986: 43). como no da economia pecuária do Nordeste. Essa produção organizada tornava necessária a maior utilização de mão-de-obra. pois o sistema das sesmarias tinha entrado em colapso. novo produto de exportação. Desde o fim do séc. Os animais de carga eram criados no Sul. no caso brasileiro. Quando o espaço e o poder se reestruturaram no séc. ocorrendo um aumento maciço dos preços da terra. Muitos dos antigos empresários transformavam-se em simples faiscadores e com o tempo revertiam à simples economia de subsistência.na mineração a rentabilidade tendia a zero e a desagregação das empresas produtivas era total. Através do Vale do Paraíba o café começou a expandir-se no séc. levou a uma nova inserção da região na economia mundial. 1988: 11) 90 .). ”Localizada a grande distância do litoral. a primeira fase da expansão cafeeira se realiza com base num aproveitamento de recursos preexistentes e subutilizados” (Furtado 1975: 114). a necessidade de vencer grandes caminhadas em região montanhosa para alcançar os locais de trabalho.duas premissas centrais da produção organizada . não eram proprietários de direito. A produção local atingiu seu ápice entre 1836/37 e 1846/47. A produção cafeeira do Brasil aumentou de 0. A tropa de mulas constitui autêntica infra-estrutura de todo o sistema. dispersa e em região montanhosa. O Estado institucionalizou o mercado fundiário em São Paulo. duas eram em 1910 de propriedade da União.Uns poucos decênios foi o suficiente para que se desarticulasse toda a economia da mineração. O café. XVIII do Rio de Janeiro. trabalhando com baixíssima produtividade numa agricultura de subsistência” (Furtado 1975: 85 s. no interior (Becker. No curso das vertiginosas ampliações da produção foram ocupadas regiões sempre novas. Estes se desvencilharam dos moradores dessas regiões em lutas freqüentemente sangrentas (Silva 1986: 64). Nessa região espacialmente restrita surgiu o capitalismo brasileiro moderno.inicialmente de cana de açúcar.com base no novo Lei de Terras.do gigantesco hinterland brasileiro. assim. reunidos em São Paulo e vendidos aos comerciantes da região mineira. Muito pelo contrário. espalhados por uma vasta região em que eram difíceis as comunidades e isolando-se os pequenos grupos uns dos outros. XIX.3 milhões de sacas por ano. condicionados pela especulação (Negri et.responsável pela venda de ”terras devolutas” . A população escrava aumentou na região entre 1813 e 1836 com o dobro da rapidez do aumento da população livre (Smith 1990: 294). a grande distância por terra que deviam percorrer todas as mercadorias importadas. na década de 1820. vendendo ou transferindo essas terras aos produtores . ”A existência do regime de trabalho escravo impediu. mas em Santos. o café produzido nessa zona não era mais embarcado no porto do Rio de Janeiro. Em parte essas pessoas vieram da produção de subsistência. involuiu numa massa de população totalmente desarticulada. Quando as principais regiões produtoras finalmente atingiram o noroeste do Estado de São Paulo. A perda maior foi para aqueles que haviam invertido grandes capitais em escravos e viam a rentabilidade destes baixar dia a dia. decaindo os núcleos urbanos e dispersandose grande parte de seus elementos numa economia de subsistência. Ao contrário do que ocorria no caso da economia açucareira . XVIII ocorreu na região oeste em São Paulo também o cultivo crescente da cana de açúcar. XIX cada vez mais profundamente no Estado de São Paulo.existiam em quantidade suficiente. Neste caso. a acumulação se deu de forma espacialmente extensiva: ”diante deles a terra virgem. al. Para o transporte dessa colheita de café a ferrovia foi concluída em 1867 a ferrovia de Santos para Jundiaí.). “Dessa forma. Essa população relativamente numerosa encontrará espaço para expandir-se dentro de um regime de subsistência e virá a constituir um dos principais núcleos demográficos do país. o porto de São Paulo. a 2. um grande mercado para animais de carga” (Furtado 1975: 76 s. Egler 1992: 33). O sistema se descapitalizava lentamente. atrás deles os campos exauridos” (Lévi-Strauss 1996: 84 s. Os campos que não mais podiam ser utilizados para o cultivo do café serviram crescentemente à plantação de gêneros alimentícios (Cano 1998a: 73 s. que o colapso da produção de ouro criasse fricções sociais de maior vulto. uma de propriedade do capital estrangeiro e as dezesseis restantes de propriedade do empresariado nacional (Cano 1998a: 63).

latifundiários. Isso providenciou. Em 1910 7 dos 14 bancos de São Paulo eram de propriedade estrangeira. Mas esse impulso induzido pelo mercado mundial conduziu também internamente. produtividade e intensidade do capital.). Uma fração de capital crescentemente dominante em escala nacional constituiu-se ao redor das plantações. 1990: 33: Seade 1993: 30). ao proclamar-se a República. a indústria paulistana inicialmente não foi excelente. o que favoreceu a acumulação (Cano 1998a: 131). recrutamento de mão-de-obra. A estrutura empresarial foi desde o princípio ainda mais concentrada do que nas outras regiões. As técnicas de produção. controlado pelo capital internacional. determinadas em larga escala por máquinas importadas. mas São Paulo e sobretudo a importante indústria de gêneros alimentícios lideravam no tocante à concentração do capital e às margens de lucro.5% das empresas industriais ocuparam em 1919 64. 3. Essa tendência à subordinação do instrumento político aos interesses de um grupo econômico alcançará sua plenitude com a conquista da autonomia estadual. comercialização nos portos.). Desde cedo eles compreenderam a enorme importância que podia ter o governo como instrumento de ação econômica.000 (PMSP et al.2 trabalhadores por empresa (Herrlein. no mercado interno. banqueiros. A unidade produtiva central do regime de acumulação orientado para o exterior foi a plantação de café. associaram-se à camada dirigente tradicional. em ramos como a produção de cimento. diminuiu os custos de produção na razão de 20% do preço de exportação e reduziu os rejeitos por meio de um armazenamento mais breve. reduziu os tempos de transporte. Imigrantes proprietários de grandes capitais . transporte interno. evidentemente. A produção era espacialmente extensiva. O governo central estava submetido a interesses demasiadamente heterogêneos para responder com a necessária prontidão e eficiência aos chamados dos interesses locais” (Furtado 1975. baseada no grande excedente a ser gerado nelas. De decisiva importância para a conquista da posição de supremacia nacional foi. de um sistema regional de produção. O capital cafeeiro desenvolveu uma dinâmica que não o limitava apenas à geração de mais-valia na produção cafeeira. As novas máquinas permitiram uma ecomomia aproximada de 10% do preço final (Cano 1998a: 42 ss.forçado por 91 . o fundamento da urbanização.1914) A economia cafeeira dinamizou a formação de cidades e assentamentos que serviam de ponto de partida para o avanço posterior em direção ao Oeste.4% dos trabalhadores com uma dimensão média de 368.91 3. contatos oficiais. Essa dinâmica foi deslanchada por fatores externos. Fernandes 1987: 104-113). Esse número aumentou em 1890 para 65.1. O horizonte temporal da valorização do capital era de longo prazo.5% (Rolnik et al.). Dias 1996: 146). que inicialmente ganhavam a vida no comércio importador. De acordo com critérios como nível salarial. Em 1929 já existiam 245 municípios (Bizelli 1995: 38 s. Ao lado das suas funções econômicas. industriais e comerciantes (Cano 1998b: 49). Os cafeicultores foram sócios das primeiras fábricas. os barões do café diversificaram cedo os seus negócios (cf. mudaram lentamente. destruiu a antiga infraestrutura de transportes. 115 s. 1988: 7). uma grande vantagem para os dirigentes da economia cafeeira. Por ocasião do primeiro censo da população em 1872 foram contados 32. sobretudo pela demanda do mercado mundial pelo café. À diferença dos latifundiários em outras regiões do país. tornaram-se centros nos quais se comercializava tanto café quanto as mercadorias importadas (Aguerre 1995: 109). A proximidade da capital do país constituía. essa camada dirigente também desempenhava papéis centrais na política. O capital cafeeiro economicamente poderoso buscava vias para adquirir também o controle da regulação política das suas atividades econômicas.2 Da capital do café à cidade industrial (1850 . interferência na política financeira e econômica. a parcela da população da cidade de São Paulo no total de habitantes do estado era baixa com 12. 1992: 45) e em 1920 para 580. além do setor da indústria de bens de consumo. substituía os intermediários e estava bem desenvolvido no plano local. ”A nova classe formou-se numa luta que se estende em uma frente ampla: aquisição de terras. possibilitado pela expansão da rede ferroviária.). em 1919 em 32% e em 1939 em 41% (Negri et al. Os capitais comercial e financeiro influiram muito nesse processo produtivo. organização e direção da produção. o crescimento foi atingido mediante a inclusão de novos grupos populacionais. Em 1907 a participação de São Paulo na produção industrial nacional cifrou-se em 16%. 1988: 6). o sistema bancário. mas aumentou até 1940 para 18. o processamento de metais e aparelhos elétricos (Almeida 1996: 137 s. Quando por volta do fim do século . Essas maciças transformações demográficas só foram possíveis com base na formação de um regime antes inexistente de acumulação dominantemente extensiva e de uma regulação estabilizadora. As cidades. sobretudo no Oeste dinâmico de São Paulo.000 paulistanos. detinham 70% dos ativos e concediam 70% dos créditos (Cano 1998a: 85).000 (Negri et al. A ferrovia revolucionou o uso do espaço. ademais. O crescimento vertiginoso da população na virada do século andou de mãos dadas com a formação de uma estrutura econômica local independente. O regime de acumulação foi extensivo. à frente de todas elas São Paulo. Seu pressuposto foi a consolidação da rede ferroviária e fluvial. do sistema bancário e do comércio. que a indústria paulistana atingiu uma diversificação e integração locais como nenhuma outra região: já nos anos 20 investia-se em São Paulo. Em 1920. a transformações fundamentais (Fernandes 1987: 87).6%. Ele investia no sistema ferroviário e de comunicações e financiava o comércio exterior (Pereira 1996: 230).

razão pela qual a participação de São Paulo na arrecadação tributária de todos os estados subiu de 29% (1901-1910) a 36% (1921-30). devido às exigências de tamanho e da tecnologia mais complexa. Tabela 20).567 58.01 16.10 20. A partir da virada do século foram importados crescentemente bens de produção (Cano 1998a: 66-75). para 48% (1929).36 64. foi possível impor os interesses paulistanos.14 94.02 0. 6 Como. em números redondos. Depois do fim do Império o Partido Republicano de São Paulo detinha no plano estadual em larga escala um monopólio de representação.85 97.87 1. a produção local .Ligados às exportações . Juntamente com os partidos republicanos dos outros grandes estados. A estrutura da arrecadação tributária favorecia as regiões orientadas para a exportação. Tais receitas industriais perfaziam em 1893 1% de todas as receitas e 22% em 1929.74 5. onde o imposto territorial cedo cumpriu uma função central.13 34. o imposto sobre exportações estava sujeito a oscilações maciças.47 9.09 7. da regulação do mercado fundiário e da estabilização do mercado de café. Os outros se viram obrigados a subordinar-se às estratégias de Minas Gerais e São Paulo.25 0.93 97.000 japoneses concentraram se como agricultores independentes no cultivo de plantas não-cafeeiras. Mais tarde do que no Rio Grande do Sul. com exceção do Rio Grande do Sul.sobre a propriedade .01 21. Em todos os estados. sobretudo os referentes ao café. mas alterou apenas a estrutura das mesmas.35 10. sempre deficitários. De 1901/06 a 1925/30 a produção média de açúcar subiu do valor-índice de 100 a 328.06 44.6 O endividamento de São Paulo respondia por mais da metade da dívida externa de todas as unidades federativas do Brasil (Carvalho 1996: 191: Cano 1998a: 94).Ligados ao consumo . sobre o patrimônio bem como sobre o capital e as rendas aumentaram nesse período de 20 a 34% (cf. os orçamentos estaduais da República Velha foram. A produção agrícola em vias de diversificação reduziu a demanda de importação de gêneros alimentícios. quando o capital industrial adquiriu um peso decisivo. a de arroz a 689 e a de café apenas a 192.24 69. Tabela 20: Participação percentual das categorias Impostos Indiretos e Impostos Diretos e de seus subgrupos no total da Receita dos Impostos do Estado de São Paulo.60 89.passou a ser uma alternativa rentável (Silva 1986: 99 ss. O estado paulista procurou incentivar a acumulação local por meio do fomento da imigração.92 75.69 92. a de feijão a 331.26 0. Começou a industrialização substituidora de importações. 1893 – 1929 1893 1905 1914 1923 1929 77. A participação da arrecadação tributária encolheu correspondentemente (Carvalho 1996: 205).54 45.sobre o capital e rendimentos Subtotal 5 Tavares (1983: 38-41) restringe o conceito da substituição de importações ao período depois de 1930.22 23.15 5.industrial e de gêneros alimentícios . Esse valor subiu até 1928 a 38% e quase duplicou nos anos 30 (Cano 1998a: 207).00 5.92 elevadas taxas alfandegárias e pela protecionista Lei dos Similares (Cano 1998a: 164) . embora isso fosse mais difícil do que nos bens de consumo.00 1.77 68. São Paulo beneficiou-se especialmente da descentralização da arrecadação dos impostos sobre a exportação (7% do valor da exportação). sobretudo os aprox. água. canais).Outros Impostos Indiretos IMPOSTOS DIRETOS . no entanto.). 85. mais precisamente como regime extensivo que introduziu princípios capitalistas em setores outrora não-capitalistas.91 10. No âmbito dos impostos reduziu-se a dominância dos impostos indiretos. Sobretudo os impostos de exportação caíram de 71% (1893). a estrutura da arrecadação deslocou-se também em São Paulo cada vez mais da arrecadação tributária na direção de receitas de empresas transferidas para o patrimônio público estadual (ferrovias.44 IMPOSTOS INDIRETOS . 92 .96 8.59 34. que agora era canalizada diretamente para o erário estadual. Isso exigiu um Estado crescentemente ativo. esse foi também um sistema que permitiu estabilizar o poder político da oligarquia agrária.16 19. A 1ª Guerra Mundial jogou a estratégia de desenvolvimento orientada para o exterior em uma séria crise e deu um impulso adicional aos esforços locais de produção. Impostos diretos. Isso significou sobretudo para os estados em boas condições financeiras um fortalecimento econômico e a possibilidade de um desenvolvimento local independente. com exceção de seis anos. Não tardou que a dinâmica da acumulação conduzisse também no setor dos bens de produção a processos de substituição. isto é.66 4.22 1.17 33.os preços de importação aumentaram. A homogeneidade do capital e a hegemonia regional do capital cafeeiro facilitou também uma atuação unitária do Estado.73 48. No processamento de metais os bens de produção perfaziam em 1919 34% da produção global paulistana. à frente de todos o Estado de Minas Gerais.90 25.99 20. Porém a industrialização substituidora de importações5 não reduziu a dependência de importações.34 70.

Já nos anos 20 empresas internacionais modernas. o capital estatal era aqui menos necessário do que em outros estados da federação. o que estabilizava todo o sistema em virtude do longo prazo dos compromissos assumidos pelos sujeitos econômicos. também fomentava a formação de monopólios regionais (Cano 1998a: 215 s. mas levava a investimentos em atividades produtivas (Furtado 1975: 123).2 milhões de pessoas e a infraestrutura social. XX.00 7. assim sobretudo a rede elétrica local construída por uma empresa multinacional constituiu uma vantagem concorrencial para a indústria paulistana (Cano 1998a: 206 e 221 s. embora ocorresse.07 100. a segregação das classes sociais não carecia de expressão espacial. a GE. os produtos foram comercializados crescentemente também no mercado nacional. Novy 1994: 206-208). a Philips. a presença de escravos era insubstituível para a qualidade de vida da camada superior.00 2.00 10. a Unilever. O conflito urbano transformou-se essencialmente em um conflito sobre o modo de uso privado e público da cidade e a forma da intervenção do planejamento do Estado no nível local. Como o capital privado investia em projetos estratégicos de infraestrutura para a economia. Demais. ao fomento do desenvolvimento econômico. Apesar disso o significado dos investimentos na infraestrutura social diminuiu continuamente nos anos subseqüentes. Mas em virtude do grande crescimento foram feitos mesmo assim investimentos na infraestrutura produtiva.). sobretudo das cidades de São Paulo. A camada superior buscava uma hierarquização do espaço com uma clara estrutura local de centro e periferia. A classe trabalhadora foi expulsa dos bairros próximos ao centro e recebeu espaço habitacional na periferia da cidade (cf. não obstante. a integração nacional dos mercados existia apenas germinalmente. 93 .40 100. Muito pelo contrário. chamava-se a atenção à situação sanitária e higiênica deficiente nos cortiços dos bairros operários e lamentava-se a corrupção dos costumes nesses bairros ”perigosos”. Por isso o âmbito das tarefas do Estado pôde ser estendida relativamente cedo a outras atividades.86 100. como a Rhodia. pois elas não estavam em condições de acompanhar as reduções de preços típicas para a acumulação intensiva (Cano 1998a: 231). tais como o fomento da imigração de 1. A economia cafeeira exigia investimentos que só produziam resultados depois de alguns anos. A balança comercial de São Paulo com o exterior foi nitidamente positiva. Em setores tão importantes como materiais elétricos. alamedas. a concentração patrimonial.93 Outros tributos Receita dos Impostos Fonte: Carvalho 1996: 206 2. 1992: 46-50). Celso Furtado explica a ascensão de São Paulo à posição de metrópole nacional a partir da formação de um mercado local que no caso concreto não se baseava apenas no consumo de luxo da camada superior. a construção das primeiras pequenas siderúrgicas e fábricas de cimento (Mello 1998: 176 s. a com o Brasil restante negativa (Cano 1998a: 94). Em uma economia escravista. O conflito central da época dizia respeito ao uso da terra na cidade. Mas com a crise depois de 1929 essa situação se reverteu em pouco tempo. de modo que São Paulo gerou superávits inequívocos no comércio interno (Cano 1998a: 129). Mas em uma sociedade de trabalhadores assalariados livres o desejo de segregação espacial aumentou nitidamente por parte da burguesia. isto é.56 100. industriais e residenciais. mecânica e materiais de transporte a indústria de São Paulo concentrava mais de 50% do valor agregado (Cano 1998a: 258). os gastos estavam concentrados fortemente no setor de canalização. devido à deficiente infraestrutura de transportes. Ficou sendo mais atraente para os importadores produzir ao invés de importar. Nesse setor os gastos aumentaram em 10% ao ano.00 As receitas tributárias serviam sobretudo à política para fortalecer a localização. De início.31 100. química. em números redondos (Pereira 1996: 217 s. historicamente surgida. Linhas de bondes. Com base nos argumentos dos urbanistas. O cultivo de plantas para gêneros alimentícios e a produção industrial serviram ao fornecimento para o mercado local.). mas também mercados abertos surgiram nas primeiras décadas do séc. a Ford. Somente a indústria produtora de bens de capital não conseguiu acompanhar essa expansão. em comparação com os investimentos no transporte ferroviário e marítimo (Pereira 1996: 238). 11 das 79 maiores empresas eram controladas por grupos estrangeiros e detinham 17% do capital (Cano 1998a: 241).). Os primeiros prefeitos ocuparam-se mais em embelezar e europeizar São Paulo do que em encontrar uma resposta ao crescimento rápido. a Pirelli. que trabalhavam com tecnologias mais complexas. Depois da concorrência estrangeira desaparecer na esteira de 1929. Santos e Campinas. a Firestone.). De início. o crescimento vertiginoso se deu de forma desordenada e conduziu a uma mistura de bairros comerciais. a Nestlé e a Kodak começaram a fundar filiais em São Paulo (Cano 1997: 245). A economia do café manteve a economia paulista orientada para o exterior. seus excedentes foram transferidos para a economia local.00 5. a GM. Uma transformação duradoura desse período caracterizado por uma grande autonomia do município foi o surgimento de um sistema administrativo municipal (PMSP et al. No âmbito estadual o processo de eliminação de pequenas empresas do mercado já começou cedo.

nos anos setenta. de 15. para 184 mil no decênio seguinte e 609 mil no último decênio do século. O índice de participação das mulheres foi elevado. O processo de urbanização aumentou genericamente a possibilidade do trabalho informal e criou um espaço social aproveitado sobretudo pelas mulheres para a sua economia cotidiana e para o comércio nas ruas (Dias 1995: 19). A transformação econômica e a constância política evoluíram de mãos dadas (Fernandes 1987: 125-146).1% a 25. Sobretudo os italianos encontraram trabalho na indústria e agricultura de São Paulo (Novy 1994: 167).5% da população não tinha emprego fixo em 1919 um índice quase duas vezes tão grande quanto o do Rio Grande do Sul (Herrlein. 3. XIX a imigração de não-africanos. Targa 1996a: 69). Nas áreas de expansão no Oeste e Norte. tinha características de ‘consumo conspícuo’ e convidava à imitação de costumes europeus. crescentemente orientado segundo o dinheiro. eles se adaptaram politicamente ao status quo. em 1919 essa fração ainda foi de 54. os barões do café só tomaram o trem do trabalho assalariado ”progressista” quando não lhes restou mais outra opção. São Paulo tornou-se uma ”região para si” (Lipietz 1998: 157 ss. sendo 577 mil provenientes da Itália” (Furtado 1975: 128. Mas os trabalhadores não se defendiam apenas contra as más condições de trabalho. Dias 1996: 163).6% a 2. A produção em vias de expansão exigia o aproveitamento pragmático de toda e qualquer forma possível de produção (Cano 1998a: 51). por conseguinte. A partir de meados do séc. A ameaça do fim da escravatura fez explodir a imigração européia. O movimento sindicalista de orientação anarquista. A rígida Lei de Terras e a concentração da propriedade das terras impediram o surgimento de uma agricultura minifundiária. Em 1920 20% de mulheres trabalhavam como autônomas (Aguerre 1995: 109). O número de imigrantes europeus que entram nesse Estado sobe de 13 mil. Ao invés de introduzir novas tecnologias e aumentar a mais-valia relativa com o contingente disponível de mão-de-obra por meio da intensificação da produção. O ponto culminante dos conflitos sociais foram as greves de 1917 e 1918. Por isso 15. Mas essa transição ocorreu mais cedo nas antigas áreas de cultivo do que nas regiões dinâmicas.5% para 39. independente do Estado. tentaram também salvar os seus bairros residenciais da ameaça de demolição.1% mais elevados (Herrlein 1996: 155). subsidiada pelo governo central.1974) A região constituiu-se crescentemente como espaço integrado de poder dotado de identidade própria. Na costa a participação dos escravos na população total caiu.8% (Targa 1996a: 71).). Como transformavam conscientemente trabalho em dinheiro. os custos salariais no Rio Grande do Sul eram 10. a acumulação foi assegurada mediante a extensão da produção com um maior número de assalariados e. no período de 1836 a 1886. Seu centro era indubitavelmente a cidade de São Paulo.3 A capital econômica do Brasil (1914 . impediam aumentos salariais. conseqüentemente. aumentando a migração interna. que ocorreram na esteira de perdas salariais maciças (Herrlein. assumiram um papel de arautos dos processos de modernização e capitalização. Eram estrangeiros e por conseguinte não se interessavam por terras. Com a lei dos ”dois terços” que previa que dois terços dos funcionários devessem ser brasileiros. Os conflitos sociais urbanos puderam acirrar-se a tal ponto porque as estruturas desiguais e arcaicas no interior fomentavam o êxodo rural. cf. sobretudo nas grandes empresas. XIX praticamente não se plantava café. com um aumento da mais-valia absoluta. A economia cafeeira baseava-se em grandes plantações e exigia.7%. Perseguindo uma estratégia de preservação inercial do poder. Dias 1996: 156). Em 1901 estimava-se que 90% dos trabalhadores do Estado de São Paulo eram estrangeiros (Silva 1986: 38 e 92). uma produção organizada. Dias 1996: 151). O total para o último quartel do século foi de 803 mil. além disso. posteriormente pelo governo estadual. Seu estilo de vida. possibilitou a lenta e controlada transição ao trabalho assalariado ”livre”. seu nível salarial era menos claramente inferior ao dos homens do que em outros estados (Cano 1998a: 142). Assumiram uma cultura política baseada em privilégios.3% (Herrlein. Apesar desse papel sócio-culturalmente progressista. Diferentemente dos barões do café fixados no status. 94 .8% (Herrlein 1996: 158). no Leste e no Vale do Paraíba de 31. uma boa parte dos imigrantes estava interessada na ascensão social. As práticas muito repressivas. Serviu de estágio prévio da formação de um mercado de trabalho o fomento da imigração ”que tornaria possível a expansão da produção cafeeira no Estado de São Paulo. mas pelo acúmulo de um pequeno patrimônio.1. Isso mostra que a dinâmica regional estava na acumulação extensiva. organizava os trabalhadores. o emprego de mão-de-obra estrangeira tornou-se mais difícil. Aqui o emprego crescente de mulheres desempenhou um papel importante no achatamento do nível salarial global. de início executada por escravos. Em São Paulo. nas quais no início do séc.94 A constituição de um mercado de trabalho se fez acompanhar da formação de um mercado fundiário.4%. chegando a 30. a participação dos escravos aumentou entre 1836 e 1886 em virtude da grande demanda de mão-de-obra de 4. Isso relativiza a afirmação freqüente de que São Paulo tenha sido o motor da transição para o trabalho livre assalariado.

Corporificado na Universidade de São Paulo (USP). sendo que esse processo foi especialmente doloroso depois de 1930 para o Nordeste já incipientemente industrializado. Tabela A-15 e para 1919: Cano. Com seu desenvolvimento dinâmico por volta da virada do século São Paulo construíra o fundamento para assumir em um mercado nacional em vias de integração a posição-chave (Cano 1998b: 242). Não obstante. A distribuição regional do valor agregado na indústria de processamento mostra a concentração crescente das atividades econômicas em São Paulo. Quando São Paulo se tornou predominante na economia e o ponto nodal econômico do espaço de entrelaçamento econômico. XX a unidade central de produção passou a ser a empresa industrial. São Paulo recuperou-se rapidamente da crise econômica mundial. O crescimento industrial conduziu a um aumento de determinados serviços.069 (60%) já tinham em 1978 a sua sede na Região Metropolitana de São Paulo. O comércio. O capital comercial estava subordinado.267 quilômetros de estradas asfaltadas (Bizelli 1995: 40).entrementes também propagada no âmbito da camada superior paulistana (Ianni 1995: 20 ss.95 Os processos de urbanização e industrialização avançaram vertiginosamente. Neto 1986: 181). que superava a das oligarquias cafeeiras. implementando melhorias na estrutura produtiva na direção de processos de produção tecnologicamente mais complexos. embora permanecesse na periferia a mais importante fração de capital. O regime de acumulação dominantemente intensiva difundiu-se no Brasil a partir de São Paulo. 29 dos 90 bancos tinham em 1985 a sua sede em São Paulo.208 estavam localizadas em São Paulo (Correa 1995: 237 s.443 empresas estrangeiras no Brasil 2. do fato da primeira fase de industrialização ter provocado uma concentração urbana. o número de assalariados na indústria de processamento aumentou de 1928 a 1937 de 100.000 (Aguerre 1995: 109).).000 a 157. o Partido Republicano de São Paulo dominou o estado e juntamente com Minas Gerais a presidência da república. Além disso. Os governos federal e estadual 7 Um índice anual de crescimento de 5. com uma queda de mais de 16 a pouco menos de 12%. A dinâmica do regime local de acumulação resultou também em um desenvolvimento demográfico extremamente dinâmico. A participação das maiores empresas nacionais era claramente menor em São Paulo. Nos anos 70 começou a inversão da polarização (Cano. sendo que a maioria dos ramos centrais estavam localizados na Região Metropolitana de São Paulo. estagnando depois durante uma década. 9 Das 3. com uma queda de mais de 16 para menos de 6%. Mas nas décadas seguintes a cidade assistiu a uma forte redução dos bancos autônomos. surgiu um pensamento modernizador supraclassista cujo núcleo econômico era a industrialização .8 A estrutura nacional de produção se complementou. Das 15.3%. 8 São Paulo reduziu a sua participação em bens de consumo não-duráveis de 62% (1939) a 37% (1970) e aumentou nesse mesmo período a sua participação nos bens intermediários de 26% a 34% e dos bens de consumo duráveis e dos bens de produção de 12% a 29% (Cano 1998b: 291). Com isso o capital industrial de São Paulo determinou a dinâmica da acumulação. São Paulo assumiu também qualitativamente o papel de arauto. isso não resultou na valorização do espaço de poder político. No resto do estado estavam sediadas ainda outras 147 empresas (4%). 1989: 25). a rede rodoviária regional abrangia em 1946 6 e em 1968 9. já havia em 1970 fora da Região Metropolitana de São Paulo 10 cidades que tinham mais de 100. sobretudo do comércio. entre elas todos os grandes bancos privados. Durante a República Velha.) 95 .). por um lado. 10 141 dos 512 bancos tinham a sua sede na capital brasileira de então. Para o desenvolvimento de um centro nacional e internacional os serviços prestados aos produtores se revestiam de um interesse especial. De1940 a 1970. ocorrendo uma concentração do setor bancário em São Paulo. a posição nacional e internacional da cidade esteve determinada nessa fase de desenvolvimento orientada para o mercado interno essencialmente pela sua posição no âmbito do estado-nação. na qual eram utilizados métodos de produção crescentemente modernos.9 Em 1941 o Rio de Janeiro ainda era o centro bancário do Brasil. Foi por meio do poder econômico atribuído ao espaço propulsor do processo de industrialização que São Paulo começou a influir na política nacional no seu sentido e destruir a diversidade de outros modos de produção (Ianni 1995: 17). Diniz 1995).000 habitantes (Caiado 1995: 47).070 filiais 6. Essa posição regionalmente dominante derivou.10 A evolução política do Brasil caracteriza-se por um divórcio do poder político e do poder econômico. o que tem a ver com a reduzida participação de empresas estatais (22 das 100 maiores) (Brant et al. Neto 1986: 181. De 1919 a 1970 o Estado de São Paulo logrou aumentar a sua participação na produção industrial nacional de 32% a 58% (cf.7 Durante o séc. e para o Sul. Mesmo no campo da sociedade civil se pôde observar um deslocamento para longe do Nordeste. Mas a aparente derrota de São Paulo inverteu-se logo mais em uma supremacia política indireta do capital industrial paulistano.18% entre 1950 e 1960 significa que a população aumentou somente nos anos 50 em 65%. a participação da população urbana na capital do total da população do estado subira continuamente de 18. Depois de 1930 esse acesso direto de São Paulo ao espaço de poder nacional desapareceu. 50% dos quais devidos à afluência de habitantes de outros lugares.5% a 33. os imóveis e a agroindústria foram os segmentos nos quais as empresas fora do Sudeste se alinhavam entre as maiores empresas nacionais (Cano 1998b: 245 ss.

Cano 1998b: 318.). Neto 1986: 179 s. Com numerosos grandes projetos em regiões periféricas. 96 . XX São Paulo se apresentava como uma cidade rica cuja riqueza se mostrava na sua ”enorme coleção de mercadorias” (Marx 1983: 49). Até 1964 foram articulados localmente os problemas sociais e a falta de instalações de infraestrutura por intermédio do processo político. da indústria processadora de metais e da indústria de papel e celulose (Negri et al. Em 1974 encerrou-se o ”milagre econômico brasileiro” e o campo nacional de poder sofreu uma erosão a partir do centro. que tinha sido fundada em 1934 e era uma associação de profissionais liberais e da camada superior (PMSP et al. E). Entre 1900 e 1910 85% das exportações do Estado de São Paulo . este se empenhava. apenas 15% se destinavam para os outros estados brasileiros. em todo o PIB regional os índices oscilaram desde então em torno da marca dos 37% (cf. Tabela A-14). A integração nacional do Brasil se deu sob a supremacia econômica de São Paulo. No âmbito do estado a cidade de São Paulo assumiu a liderança inconteste na produção industrial. 1992: 72).ainda iam para o exterior. A associação organizava o voto de um bairro em um candidato. 1998: 13). Um instrumento refinado de política clientelista foi a criação de SABs (Sociedades de Amigos do Bairros) que passou a atuar ao lado da Sociedade dos Amigos da Cidade. junto ao prefeito para criar nesse bairro fiel uma escola ou creche ou construir um canal ou uma rua.96 apoiaram a modernização da infraestrutura de São Paulo. a política regional brasileira criou um espaço national claramente hierarquizado. Devido à redução dos custos de transporte e da elevada produtividade da indústria paulistana. a título de contrapartida.iam para outras regiões do país e apenas 16% se destinavam para o exterior. Em 1960 essa tendência já se invertera: 84% das exportações . De início os grupos locais dominantes do Nordeste não estavam interessados nessa integração subordinada na economia nacional. foi o instrumento essencial para a distribuição de recursos públicos. A fase da conquista de outros mercados locais foi seguida pela fase da conquista dos outros capitais locais. Depois de 1964 formou-se no seio da igreja católica uma nova sociedade civil. cap.1. Surpreendente foi a estagnação dos serviços financeiros em torno de 10% (cf. levando numerosas empresas à falência (Cano. As comunidades eclesiais de base foram o lugar privilegiado da resistência contra a ditadura (Novy 1995: 31). A participação da agricultura e da pecuária aumentou fortemente na primeira metade dos anos 80 e acabou naquela época se fixando aos poucos em torno da marca dos 5%. A partir das iniciativas locais dos pobres surgiram fortes movimentos sociais como o movimento dos sem-terra ou o movimento em prol da saúde (cf. Já nos anos 20 foi dado um passo importante na direção de uma estrutura industrial completa com a instalação da indústria química. A participação das mercadorias industriais nas exportações regionais de São Paulo aumentou continuamente na primeira metade do séc. esta última passou a destruir a indústria local dos outros estados no curso de uma integração interregional. Como a base eleitoral dos vereadores quase sempre era localmente restrita. A indústria de São Paulo não exportava para outras nações.4 A metrópole necessita de uma região mundial (a partir de 1974) No fim do séc. A estrutura da produção regional alterou-se nitidamente a partir de 1980. Enquanto o capital paulistano deslocava a sua produção para fora de São Paulo. A Câmara dos Vereadores assumiu um papel importante de introduzir os desejos da população no processo político. Os interesses paulistanos defenderam a grande concepção de desenvolvimento regional para o Nordeste (Fernandes 1998: 194-196). isto é. O processo de acumulação concentrou no espaço mais estreito pessoas e mercadorias. 1988: 66). XX. Mas como esse espaço era o centro da economia nacional. a crise do desenvolvimento de São Paulo com vistas ao mercado interno também se fez sentir cedo. Novy 1994. que se tornou assim o centro de um sistema de produção crescentemente integrado no plano nacional. Tabela 21).sobretudo o café . Em 1928 a Região Metropolitana de São Paulo ocupava o dobro de assalariados do restante do estado (Negri et al. Na indústria a participação de São Paulo na geração do valor agregado nacional se estabilizou a partir de 1987 em 42%. mas conquistou os outros mercados locais da própria nação. as funções de controle concentravam-se crescentemente em São Paulo. O clientelismo. 3. Chegou-se a uma centralização do controle e da propriedade. Uma vez eleito. No início do século a indústria de São Paulo orientava-se pelo mercado local.sobretudo produtos industriais . a troca de votos por melhorias locais. O capital paulistano diversificava-se em todo o país. cujo centro econômico era São Paulo. à homogeneização dos processos produtivos e com isso a um processo de valorização nacionalmente unitário. Sucediam-se prefeitos que investiam mais na infraestrutura física e outros que preferiam ampliar os serviços de natureza social. Essa estratégia endógena cedeu a partir dos anos 30 a uma estratégia direcionada para o mercado nacional. o seu trabalho se concentrava em esforços de obter justamente no espaço geográfico da base o maior número possível de melhorias. A indústria de processamento caiu na razão de quase 7%.

). do Brasil restante não havia grandes conglomerados que atuassem em São Paulo (Oliveira 1998a: 150).85 36. evoluiu de forma dinâmica. Respondiam apenas por 27% da produção das 2. Com isso o processo de concentração tinha avançado mais na indústria paulistana do que nos países industrializados. 97 .5% e em 1989 quase 10% dos lucros (Oliveira 1990: 127 ss. O ramo dos gêneros alimentícios pôde aumentar a sua participação do produto total regional de 7. Unicamp 1998: 10). Alguns ramos encolheram visivelmente.33 Em 1990.8% (1980) aumentou para 35.12 35.11 O centro de poder da ecomomia paulistana era formado por grupos empresariais. 58 dos 100 maiores grupos privados e 430 das 1000 maiores empresas tinham a sua sede em São Paulo. mas embolsavam 40% dos lucros (Oliveira 1998a: 140). respondiam por 22. da eletrônica e do material de comunicações (de 9.44 10.60 57. A organização dos mercados era oligopolista.75 29. Tabelas A-36 e A-37).4% para 3. nacionais ou estaduais. em % (números arredondados) Setores e Subsetores de Atividade Econômica Agropecuária Indústria transformação serviços Serviços financeiros Fonte: Unicamp 1998: 5 1980 3.60 59.64 10. O processo de concentração em São Paulo reforçara-se claramente nas maiores empresas privadas.6% 11 As empresas não-organizadas em grandes grupos.50 29.60 37. e precisavam também no tocante a outras questões tomar decisões que fossem palatáveis ao bloco de poder enquanto contrários aos princípios da gestão empresarial. produzidos em parte crescente no âmbito da agroindústria no interior do estado. nos quais geravam 60% a 70% do seu faturamento: a indústria de gêneros alimentícios.13 No entanto.05 10. O padrão não-unitário de produção regional era perfeitamente compatível com processos concentradores de poder econômico. à diferença das empresas privadas. 1980-1996. sobretudo a expensas do Rio de Janeiro.3% para 6. via de regra vinculados por causa das suas dimensões com o capital financeiro.1%) e da indústria moveleira (de 1.0%). Em 1993 uma empresa (Unilever) detinha uma fatia de 74% do mercado no ramo do sabão em pó. a produção de bens de consumo não-duráveis.7% do produto total regional.46 1985 5. No setor do processamento de metais (regressão de 13. possuíam em comparação com os 50 conglomerados pouco mais de 15% do patrimônio. segundo setores. foi possível observar uma centralização da propriedade. Isso era compreensível nos mercados de produtos de alta tecnologia como computadores e a indústria de veículos automotores. Além disso havia os monopólios institucionais e naturais nos setores dos serviços públicos e da infraestrutura. 15 paulistanos.38 54.3% para 9.60 36.6% para 8.42 1995 4. pois eram sempre restringidas no seu poder de fixação dos preços e de mercado. As empresas estatais apresentaram déficits crônicos até o seu saneamento antes das privatizações.5% (1989). a saber. nada menos de 1. 13 A participação da indústria têxtil caiu entre 1980 e 1995 de 6.37 52.82 10. a indústria mecânica.17 28. das quais dez concentravam em 1980 7. Mas os lucros concentravam-se nas grandes empresas. no do presunto duas empresas controlavam 68% do mercado (Oliveira 1998a: 138). As empresas estrangeiras concentravam-se sobretudo em quatro ramos.126 das 2.689 maiores empresas.47 58.689 maiores empresas paulistanas.36 1996 4.97 Tabela 21: PIB a Custo de fatores no Estado de São Paulo. considerada na sua totalidade. pois no âmbito do estado podia-se observar um grande processo de concentração na indústria com referência a estruturas de propriedade. 12 Nas empresas internacionais ocorreu um deslocamento na direção das empresas japonesas. Mas mesmo em produtos menos complexos.1% do faturamento e ocupavam quase 30% dos assalariados. foram observadas maciças transformações na estrutura industrial paulistana (cf. ao passo que nas 1000 maiores empresas fora possível constatar um processo de descentralização (cf.4%). ao passo que o segmento norte-americano regrediu e o alemão permaneceu estável (Oliveira 1998a: 142).3% para 1%) a evolução também foi regressiva. no ramo do sabão a mesma empresa detinha uma fatia de 62%. a indústria química e os materiais de transporte (Oliveira 1998a: 144). Dez conglomerados eram internacionais. Mas a sua participação nos lucros caiu de 25% (1980) para redondamente 20% (1989). Apesar disso não se observou nos anos 80 nenhum deslocamento maior das relações de força entre os conglomerados. cuja participação nos lucros de 4. dos produtos mecânicos (de 8. Em 1989 os dois maiores conglomerados eram estatais.44 1990 4. Muito pelo contrário.60 43.80 10. tradicionalmente fabricados por produtores menores.06 39.12 A desindustrialização de São Paulo também não foi nenhum processo unitário.70 32.

1990).2% (Souza 1996: 544). do qual 25% precisavam ser repassados aos municípios (Souza 1996: 543). de 60. que pôde aumentar a sua participação de 12.15 Mas o governo federal encorajou os estados com a reforma fiscal de 1966 a um endividamento maior.). na base. a antiga grande região industrial ao Sul da cidade de São Paulo. Sobretudo nos anos 80 São Paulo aproveitou a sua margem de ação para promover uma política de descentralização das localizações econômicas (Cano 1998b: 325 s. aos seus acionistas majoritários (Souza 1996: 546). Iniciativas autônomas organizaram-se em torno de especificidades temáticas contra o estado ditatorial. 98 . Em 1988 conquistaram novamente competências e autonomia financeira16.64% das operações de créditos do estado foram efetuados em São Paulo. Em termos regionais o sistema bancário estava concentrado no Estado de São Paulo. a renda disponível per capita caiu. os sindicatos constituíam um fator de poder local.aumentou.1%. os homens.1 bilhões (1994). no qual a Região Metropolitana de São Paulo se concentrava em ramos de alto valor e o interior no setor agroindustrial (Unicamp 1998: 10). Com isso os católicos progressistas . Se tomarmos São Paulo como região-cerne. espaço intermediário de poder. Os governadores administravam o endividamento crescente ”trocando” a sua anuência a determinados projetos do governo federal contra uma moratória ou repactuações das dívidas. A participação de São Paulo no setor financeiro. portanto.2% para 3. 15 O governo central aumentou a sua participação nas receitas do Estado no período de 1965 a 1974 de 39% para 50. bancário e de securitário aumentou em escala nacional de 13. Sobretudo a região do ABC.). Tabela A-20). 17 Nos preços de 1995 as rendas disponíveis se reduziram de R$ 19.2%. era uma das metrópoles internacionais nas quais nenhuma das 500 maiores empresas do mundo tinham a sua sede (Feagin. dos bens de consumo duráveis e dos bens de capital. Com um índice de filiação de 90%. Entre 1988 e 1995 a participação das filiais de bancos na cidade da totalidade das filiais no estado aumentou de 29% a 32.17 O imposto mais importante continuou sendo o ICMS. isto é. A participação dos depósitos aumentou de forma ainda mais visível.8% e em escala estadual de 54. isto é. Os bancos estaduais podiam conceder créditos aos estados.4% para 61.5%. Somente a participação das filiais caiu ligeiramente (cf.1% a 36%. estavam direcionadas desde o começo dos anos 90 para o consenso. as políticas regional e local recobraram a sua autonomia. Sob a ditadura as atividades coletivas transcorriam clandestinamente. Isso ficou reservado ao governo estadual.9 (1986) a R$ 18. mas o desemprego crescente e a opção das empresas pela transferência das suas unidades produtivas provou um deslocamento cada vez maior do poder para o pólo do capital. Por um lado. a democracia teve de ser conquistada penosamente. Só a igreja oferecia um espaço que não era imediatamente destruído. A cidade era portanto a metrópole financeira inconteste do Brasil. 16 Em 1988. Aqui os grandes conglomerados desempenharam um papel central na ascensão de São Paulo à posição de segundo maior produtor de suco de laranja do mundo. a industrialização do interior não foi uma simples extensão do espaço de aglomeração da cidade de São Paulo.gov. A grande exceção foi aqui a produção de meios de transporte.quarta maior aglomeração do mundo . 1990). estagnou e em 1994 até caiu a participação nas operações de crédito (www. Os estados.4% para 73. 22% de todos os repasses da União eram negociadas.5% (Abrucio. Surgiram atores no ABC como o Fórum da 14 Em termos microregionais as atividades se concentravam na cidade de São Paulo. A participação dos depósitos aumentou em 1988 de 54% para 56%. Ela desenvolveu funções de uma metrópole internacional. quanto em virtude da Bolsa de Valores e de outros serviços financeiros locais. Durante a industrialização a Região Metropolitana de São Paulo era dominante. claramente de R$ 694 para R$ 545 (Arretche 1998: Tabela 5). O Estado também se fez notar com iniciativas como o programa de combustível de origem biológica Pró-Álcool. tornou-se um importante espaço de poder no Brasil sem enquadrar-se na estrutura federativa tradicional. tinham sofrido mais sob a política centralizadora da ditadura militar. valendo o mesmo para a indústria de bebidas e de vinagre (de 1. Durante muito tempo o conflito entre o capital e o trabalho dominou a região.7%).5% para 16. Isso se deu a expensas dos bens intermediários.br de 30 de julho de 1997).3% (Rolnik et al. do Rio para São Paulo (Seade 1995a: 63 ss. Os municípios aumentaram a sua participação até ligeiramente de 12.14 Depois dos duros anos da ditatura de 1968 a 1974. o que se expressava no aumento da capacidade econômica e da população.2% para 18. mas o estado foi um espaço de aglomeração especializado segundo funções. Mas nas áreas das funções de controle econômico e dos serviços financeiros a importância da cidade de São Paulo . Mas não existia praticamente nenhuma grande empresa que não tivesse uma filial ou um escritório em São Paulo. constataremos que em 1993 90. Na cidade de São Paulo a estrutura de produção melhorou qualitativamente (Rolnik et al. Isso está ligado ao fato de que empresas tão importantes como o Citibank ou o Chase Manhattan transferiram a sua sede. Couto 1996: 42).34% dos depósitos e 88. A estrutura espacial do estado se transformou.seade.7% e em 1991 novamente 9. tanto em virtude das empresas paulistanas do setor produtivo. em 1990 somente 3. Com a democratização. o ABC tornou-se célebre pelas greves dos metalúrgicos no fim dos anos 70. Por isso as estratégias dos representantes dos trabalhadores.9% a 13.5%. Nesse sentido. Smith 1987: 8). as mulheres prestaram uma contribuição substancial à resistência dos movimentos sociais. mas as receitas financeiras encolheram em virtude da crise econômica. ao passo que os estados se viram obrigados a restringir a sua participação de 48.no topo. fossem eles sindicatos ou o PT.98 para 10. a dos créditos de 30% a 43%. Mas no setor da mídia e da cultura o Rio de Janeiro continuou desempenhando um papel central.2%.

Foram também responsáveis pelo crescimento da produção de bens industriais de alto valor no interior do estado a indústria petroquímica e a refinaria em Paulínia e São José dos Campos (cf. A política desenvolvida contraarrestava uma estratégia de achatamento dos salários na esteira da argumentação sobre os ”custos de localização do ABC” (Daniel 1996: 141 s. 70% do suco de laranja destinado à exportação e 60% da produção de soja de todo o estado. têxtil e de confecções concentra-se no interior do estado. esteve também entre as regiões urbanas em crescimento. capital paranaense.3%. baseada numa concepção inteiramente nova de fornecedores. localizada na rodovia São Paulo-Brasília. O fenômeno certamente tem a ver também com a integração no âmbito do Mercosul e com o espaço de aglomeração e acumulação que dele resulta germinalmente.5% (1970) a 25.2% a 49. 43. Tabela 11). Em todas essas áreas a concentração da propriedade aumentara vertiginosamente (Oliveira 1998a: 134). Minas Gerais e Rio de Janeiro.000 a 500. Os dados para o mercado de trabalho no Estado de São Paulo aproximaram-se cada vez mais dos da Região Metropolitana de São Paulo ou da cidade. 1990: 26).99 Cidadania e o Consórcio Intermunicipal que pretendiam fazer da subregião um espaço de poder autônomo. Com 23%. Além disso fomentava maciçamente o cultivo da soja e a produção conexa de azeite. sempre distantes 10 a 50 quilômetros.000 habitantes que abriga duas grandes universidades. Uberlândia (MG). formaram-se apenas poucas aldeias ao redor de São Paulo. mas essa regressão foi aproximativamente compensada por ganhos de participação dos Estados do Rio Grande do Sul. Porto Alegre e até Montevideo e Buenos Aires. à circunstância de que o estado investiu mais dinheiro na pesquisa e no desenvolvimento do que o governo federal. Como em amplas partes do Brasil nunca existira um campesinato livre. sobre a qual recai o ônus principal da desindustrialização no tocante à redução da indústria de transformação. 99 . O terceiro tipo de região que se beneficiou da inversão da polarização em São Paulo foi a grande região que se estende do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte a São Paulo.). a de processamento de metais no ABC e a indústria química e de borracha na Região Metropolitana de São Paulo. classificados em grande parte no item ”outros”. havia empresas de alta tecnologia e desde 1996 uma moderna fábrica de motores da Volkswagen.8% no estado e 13. Sobretudo nos últimos anos essas regiões fronteiriças lograram tirar proveito das vantagens resultantes da aglomeração no setor da infraestrutura e no tocante à mão-de-obra qualificada em São Paulo. Com 14%. a indústria de São Paulo reduziu a sua participação na produção nacional de 58. seu perfil de pólo oposto ao núcleo urbano da região. A indústria de gêneros alimentícios. Santa Catarina. de 43. De grande importância foram também as plantações de laranja. conseguiu apenas desde 1994 atrair três montadoras de automóveis para sua região metropolitana (Pivetta 1996). as diferenças visíveis nos índices de emprego no setor industrial. Um segundo cinturão ao redor da cidade de São Paulo abrangia algumas cidades mais distantes. O índice de desemprego atingiu em 1995 13. Em São Carlos. diluiu-se em virtude do elevado grau de urbanização e industrialização. cidade com 150. Em termos espaciais isso se expressou na dominância de cidades na dimensão de 50. Curitiba. era compatível com uma concentração nacional continuada num plano espacial mais elevado. não em último lugar. O desafio consistia aqui em aproveitar as sinergias subregionais para defender no arcabouço do poder nacional a posição do ABC como uma das regiões comparativamente mais abastadas.5% 18 Se tomarmos como critério as intenções de investimento nos anos seguintes.6% e no interior do estado em 12. pode-se observar uma tendência a uma difusão mais ampla dos investimentos por todo o território nacional. Em Rezende (RJ). em cuja região circundante se produzia 20% da cana de açúcar. Persistiram. Isso explica porque uma desconcentração da Região Metropolitana de São Paulo. Juiz de Fora (MG) foi escolhida em abril de 1996 para sediar uma montadora dos carros Classe A da Mercedes-Benz. Mas os investimentos continuam se concentrando em São Paulo sobretudo no setor de alta tecnologia e nos ramos do futuro (informática e reciclagem).1% (Seade 1998: 92). Em 1994. Nos ramos industriais modernos. Se excluirmos a Região Metropolitana de São Paulo. O traço distintivo típico do interior do estado. nas quais havia freqüentemente um entrelaçamento forte entre áreas de agricultura intensiva e indústria. a Região Metropolitana de São Paulo também estava liderando (Seade 1998: 101). recorrendo ao mesmo tempo a incentivos maciços dos Estados do Paraná.). Novy 1994: 200 ss.4% (1995).8%. Nele se concentrava o agrobusiness (Oliveira 1998a: 134).18 No entanto. a participação dos investimentos planejados situa-se claramente abaixo da participação no PIB regional. Na Região Metropolitana de São Paulo ele ficou em 14. Assim o Estado de São Paulo beneficiou-se especialmente da criação do Pró-álcool em 1975. Com isso o estado não era apenas o centro industrial. mas também agrário do Brasil (Novy 1994: 196 ss. a Volkswagen construiu em 1996 uma nova fábrica de caminhões. Essa posição de liderança de São Paulo se deve. Entre 1970 e 1995. na relação entre a capital e o estado.000 habitantes.7% na capital. São Paulo detinha a parcela maior de toda a produção agrícola no Brasil (Rolnik et al.). O centro agro-industrial mais importante foi Ribeirão Preto. Paraná e Minas Gerais (cf. as regiões supracitadas aumentaram nesse período a sua participação na produção nacional de 33.6% a 51. fazem parte do segundo cinturão também cidades dos estados lindeiros. Esse segundo cinturão ganhou importância como localização industrial sem abandonar a sua produção agrícola. porém. poucos quilômetros além da fronteira.

5 0. da ampliação da produção sem aumento da produtividade. no qual ele aumentou de 2.7% (1985) para 50. A informalização avançara menos do que se supusera.4 2. Na Região Metropolitana deSão Paulo o emprego subiu continuamente. Tabela 22).19 Assim a legislação trabalhista e social continuou tendo grande relevância para as condições de trabalho dos assalariados. A dinâmica da acumulação deslocou-se novamente na direção da extensão.5 0.1 3. os homens no mesmo período também 2.7 16.0 100.5 milhões (1985) a redondamente 7. Entre os homens aumentou tanto o desemprego aberto quanto o camuflado. Tabela 31).7 3. Tabela A-24).6 milhões.1 33.0 100.9 19. Em 1985 somente 35% das pessoas economicamente ativas trabalhavam além da jornada de trabalho definida em lei.9 para 2.7% para 52.5 comércio 40.3% (Cf. e no setor de serviços.5% e em 1998 21.1 milhões para 1.9 milhões (1985) para 3.5 46. Apesar desses empregos adicionais.5 serviços 8.4 construção civil 14. atribuível ao claro aumento do índice das mulheres economicamente ativas de 43. Assim o processo de desindustrialização foi muito claro com referência ao nível de emprego.5 0.gov. No caso do índice da população economicamente ativa foi observado um ligeiro aumento. pois nelas o índice de desempregados foi em 1985 15. em 1998 esse índice já chegou a 49. esse número tinha caído em 1998 para apenas 19. no comércio ele subiu de 0. pois esse setor era tradicionalmente um espaço de trabalho remunerado feminino menos fortemente discriminado.7 7. A involução dos assalariados contrastou com um nítido aumento dos autônomos (www. depois de um ápice em 1989. Em contrapartida.1% respectivamente 16% entre os homens. Região Metropolitana de São Paulo.0 52.8%. 20 A participação das mulheres no setor industrial reduziu-se por mais da metade. o que é um indício dos processos de informalização.2 milhões.1 a 03 milhões (Unicamp 1998: 10).2 16.23 Tabela 22: Distribuição dos Ocupados.3 milhões (cf. os outros.7 serviços domésticos 0. em 1997 16% e em 1998 18.seade.0 100.gov.6 pontos percentuais. sofrido uma redução de 2. 1985-98 1985 1989 1992 1995 1998 100. a inserção seletiva e subalterna das mulheres no mercado de trabalho desempenhou um importante papel em estratégias de acumulação extensiva.5%.6 48. que continuaram nos seus empregos.100 dos trabalhadores do setor privado tinham uma carteira de trabalho. O desemprego camuflado não aumentou entre as mulheres.0 15.6% para 41.gov.4 7. o desemprego aumentou de 0. No setor industrial o número de trabalhadores na economia formal caiu entre 1986 e 1995 de 2. Tais perdas de empregos eram compensadas pelo setor comercial. o índice de empregos no setor de serviços aumentou de 40.7 40. Aumentou a marginalização das mulheres nesse segmento do mercado de trabalho com remuneração acima da média.22 Em termos quantitativos. segundo Setor de Atividade Econômica do Trabalho Principal.5 milhões (1993) (Singer 1996: 127).3 para 3. Como nas primeiras décadas do séc.0 100.21 Ao passo que uns eram coagidos à inatividade. no setor de serviços elas subiram ligeiramente. na esteira da implementação da Constituição Federal. XX.0 ocupados 33. 21 As mulheres foram aqui mais fortemente afetadas do que os homens. seja sem carteira assinada ou mediante emprego intrafamiliar.7 para 1. somente 11. os programas de desestatização atingiram com especial dureza as mulheres.brcgibin/mulherv98 de 30 de novembro de 1998). Se em 1985 ainda 33.3 pontos percentuais.seade.6 2. podem ser constatadas dinâmicas distintas. diante de 10.gov. 23 As mulheres perderam de 1992 a 1997 2. no entanto.2 17.e isso apesar dos empregos na indústria terem entrementes.br/cgi-bin de 14 maio de 1999 19 Aqui.7 0.1 milhões e na agricultura de 0. 100 . Se somarmos os que trabalham em relações precárias e os desempregados.2%.5 milhões. O crescente número de desempregados e o aumento dos vínculos empregatícios informais.seade. Na indústria as relações formais de trabalho encolheram.5% (1997) (www.5 indústria de transformação 3. de 5.br/cgi-bin de 14 de maio de 1999). evidencia o aumento do assim chamado exército de reserva da indústria.2 milhões. ao passo que a dos homens reduziu-se apenas em aproximadamente um terço. poderemos constatar no breve período de 1989 até 1996 um aumento da população em idade economicamente ativa de 32. trabalharam crescentemente mais.2% das pessoas economicamente ativas estavam desempregados. e na agricultura (bem como na construção civil) ocorreu um surto de formalização. mas o aberto de modo correspondentemente mais nítido.8% (www.b/egi-bin/mulherv98r de 30 de novembro de 1998).4 Outros Fonte: www.2 milhões (1997) .9 a 1. 22 Na Região Metropolitana de São Paulo os vínculos empregatícios formais também diminuiram de 3.2% não possuiam esse documento (Seade 1998: 96).6 23.5%20 (cf.8 para 1.2 8. no qual o nível de emprego aumentou no período acima mencionado de 0.3 6.4 25. Em 1985 12.1% dos trabalhadores estavam na indústria de transformação.seade.

Tabela 25). As câmaras setoriais foram um exemplo bem-sucedido dessa estratégia de compensação de interesses.7 1995 64.6 8. em virtude da crise econômica. os trabalhadores na economia informal cerca de 19% menos.seade. perderam o seu vigor (Singer 1996: 131).3 4.4 Domésticos Fonte: www.9 19. Entre os assalariados a situação dos grupos mais pobres permaneceu igual durante o Plano Real.5 21.1 Empregador 8.2 40. segundo Posição na Ocupação.3 44.7 7. Houve em seguida uma queda dramática no período de 1989 a 1992. os trabalhadores com vínculo empregatício formal ganhavam 45% mais do que em 1998. em Reais (novembro de 1996) 1985 1989 1992 1995 1998 1211 1102 706 907 857 ocupados 1255 1104 752 857 876 assalariados 971 1030 522 798 662 autônomos com carteira 1320 1139 809 892 912 sem carteira 448 482 351 487 547 assalariados .setor público 1554 1462 853 1100 1177 Assalariados – indústria 1360 1187 886 938 903 Assalariados – comércio 874 843 533 642 614 Assalariados – serviços 1153 954 663 778 850 Fonte: www. entre os que ganhavam mais a involução da renda se acentuou.2 61.br (14 de maio de 1999) O trabalho dos sindicatos enfrentou dificuldades cada vez maiores.7 53. seguida por uma recuperação na primeira fase do Plano Real.7 ocupados 70. os conflitos trabalhistas. Nos anos 90 o movimento sindical autônomo. tentou salvar mediante o recurso a formas de corporativismo local a Região Metropolitana de São Paulo enquanto localização industrial.4 12. 1985-1998 1985 1988 1992 65.0 15.seade.5 8.3 52. Apesar disso a renda continuou apresentando desequilíbrios dramáticos. os assalariados remanescentes não tenham mais atingido o nível de 1989.3 43. segundo Posição na Ocupação. Tabela 24: Rendimento Médio Real dos Ocupados no Trabalho Principal (1).1 10.2 assalariados Com carteira 51. Região Metropolitana de São Paulo. A situação de renda de todos os grupos melhorou visivelmente em 1995.3 10.9 9.7 9.6 Setor privado 60.não obstante. mesmo quando objetivavam apenas defender os salários. mas também mal pagos. Os mais pobres encontram-se no exército crescente de desempregados. O crescimento arrastado da economia levou.3 Sem carteira 8.gov.3 6. por meio das reduções de renda dos ricos e a demissão desproporcional dos assalariados nãoqualificados e com isso mal-remunerados. 1985-1998.4 19.gov. que não lograra institucionalizar estruturas nacionais de parceria com o empresariado.br (14 de maio de 1999) 101 . Os sindicatos engajavam-se justamente no cinturão industrial do ABC com grande intensidade também fora do trabalho.2 1998 61.101 Tabela 23: Distribuição dos Ocupados.1 5.2 5.0 15.4 72.6 54.7 8. a uma melhoria perversa da distribuição entre os assalariados (Mattoso 1999: 125).2 4. pois o índice de desempregados estava aumentando constantemente (cf. de um só salto. Região Metropolitana de São Paulo.5 11.9 Setor público 10. Em 1985.3 Autônomos 4. devido ao efeito distributivo condicionado pelo fim da inflação .4 54.setor privado 1204 1050 733 813 826 assalariados . A fuga para a informalidade permitiu às empresas oferecer empregos não apenas precários. mas estão em uma posição fraca para negociar. Durante esse período.9 7. Desde 1985 os salários reais diminuíram visivelmente. mesmo com esse salto. De 1995 a 1998 a tendência foi novamente negativa. sendo que de início só se constatou uma ligeira tendência à diminuição.

Respaldado por uma esfera pública ampla e radicalizada. segundo faixas de renda dos ocupados. o estado-nação exerceu com maior intensidade a sua função moderadora-controladora. a atenção se deslocou bem mais fortemente para o plano local do que para o estadual. O mesmo aconteceu com os lugares e as regiões concretas do Brasil. a soma desses espaços de poder regional constitui a topologia do campo do poder brasileiro. como se fossem receptáculos de poder. A região é um lugar de conflitos em torno da constituição de um espaço de poder e a influência por meio de forças estruturais. os estados e os municípios estavam desacreditados por representarem os traços provincianos. Estruturas democráticas pareciam ser mais facilmente implementáveis in loco do que no plano nacional. Para Cano (1998a: 29) ocorreu a formação de regiões econômicas integradas.102 Tabela 25: Rendimento Médio Real dos Ocupados no Trabalho Principal. Quando no curso do movimento democratizante dos anos 70 o protesto se dirigiu contra o estado central ditatorial. A delegação de competências e recursos às entidades territorial-administrativas se deu segundo critérios clientelistas. As outras regiões orientadas para o exterior . entrelaçamentos e distribuições. Orestes Quércia (PMDB). que freqüentemente foram também crises do federalismo. Disso fazem parte sobretudo os setores de saúde e da educação. isso se refletiu apenas parcialmente na atenção científica que lhe foi devotada. lançou as bases da primeira região desse tipo no Brasil. vencidas por Franco Montoro. As análises regionais e locais são necessárias para a compreensão tanto da parte quanto da totalidade. ele procurou implementar medidas sociais reformistas.não lograram por em marcha nenhuma dinâmica interna e. As estratégias políticas direcionavam-se para o espaço do poder local e regional. que se reproduzia regionalmente. 3. Esse papel foi cumprido sempre de novo pelos governadores em situações de crise. sendo que essas intervenções serviam amiúde à estabilização do poder local. Mas os governadores enquanto detentores do poder no plano intermediário da federação têm a tarefa importante de serem articuladores de espaços de poder. o atraso e conseqüentemente as oligarquias. Interveio também mais fortemente no plano local. Região Metropolitana de São Paulo. Montoro. Apenas lentamente a nação se transformou. por conseguinte.2 O espaço de poder do Estado de São Paulo No curso da formação da nação depois de 1930. Depois de 1930. mas promoveu simultaneamente um deslocamento substancial das ênfases. Embora o plano intermediário sempre tenha tido significância histórica. Por isso o capital de café. Isso desacreditou as medidas ou levou a interpretações da descentralização que só pouco tinham a ver com democratização. continuou a política de Montoro no papel. e ignoravam assim os entrelaçamento do poder sobre o espaço. não lograram superar o seu caráter de enclaves. Isso vale até hoje para a ciência. que em 1988 se transferiu para o PSDB.br (14 de maio de 1999) Nessa seção foi mostrado quão importante é uma análise do espaço e do poder que vai além de um estudo do espaço-receptáculo nacional e desvela assim a estrutura espacial concreta do Brasil. o poder sobre o espaço que estrutura esses espaços. mas foi em grande parte impedido de realizar esse projeto em virtude da crise econômica. à medida que ele criou hierarquias. quando a dinâmica da acumulação foi endogeneizada. Sob a superfície desse campo operou. o grande partido de oposição PMDB obteve uma clara vitória nas eleições para governador em 1982. Juntamente com o espaço do poder nacional. Prefeitos simpáticos ao governo 102 . por sua vez. de espaço geográfico-material em espaço de poder com estruturas sócio-econômicas e políticas concretas.seade. arcaicos. em Reais (novembro de 1998) 1985 1989 1992 1995 1998 204 207 112 168 164 371 337 219 300 307 681 659 426 501 512 1350 1283 788 1003 924 2666 2399 1469 2043 1846 10% mais pobres quarto mais pobre metade com renda menor quarto mais rico 10% mais ricos Fonte: www.a região mineradora e a região açucareira . Serviços sociais foram municipalizados onde isso era possível. 1985-1998. sucessor de Montoro. Assim os municípios foram valorizados enquanto poder local.gov. A análise regional de São Paulo permitiu mostrar o significado de vias concretas de desenvolvimento. Mas ele iniciou um programa de descentralização política. A fraqueza dessa política de democratização por meio de descentralização consistiu na insuficiente atenção aos problemas sócio-econômicos da democratização. distinguiu-se de todos os governadores antes e depois dele pela vontade de uma democratização abrangente. Como São Paulo foi um centro da resistência contra a ditadura militar.

000 no setor educacional.3 34. 116. bem como de todos os outros estados brasileiros. tinha as suas raízes na política de juros altos do governo federal (Melo 1996: 17). O PFL. A gestão de Fleury (1991-1994) se caracterizou por uma política de expedientes. durante um período de 30 anos. elegeu também a bancada mais numerosa (cf.2 PPB (3) 24 A dívida do estado aumentou sob o governo de Quércia em 43. foi colocado em 1995 sob controle do Banco Central. Mas o PMDB conservou apenas 8 das suas antigas 42 cadeiras (1982).28 Essa renegociação foi um mecanismo de troca política que permitiu ao governo federal alcançar dois objetivos: por um lado. os partidos de esquerda conquistaram em 1982 apenas 9 e em 1998 já 29 cadeiras. De início a ação política de Covas consistiu em fazer cortes e realizar privatizações nas mais diversas áreas. Juntos.br/release5e de 2 de julho de 1998). destinando assim 62% das receitas correntes para gastos com pessoal (Mare. embora as receitas correntes fossem em 1996 superiores às despesas correntes. tais como especialmente a privatização e a redução do funcionalismo. um isomorfismo das reformas propagadas por ele.9 bilhões para R$ 20 bilhões.8%. o reembolso de dívidas contraídas de repente ficou desproporcionalmente caro. foram demitidos (FSP de 3 de agosto de 1997)26. até então marginal em São Paulo. que elegeu Covas para o governo. O governador encarna o poder do estado da federação. Tabela 26: Eleições para governador. 26 Em dezembro de 1996 o governo estadual tinha 932. precisava ser pago mensalmente a título de serviço da dívida. Quércia se dedicou também à descentralização da produção e fomentou o interior do estado a expensas da capital. Ao passo que a descentralização política dessarte praticada não tinha mais nada em comum com democratização. 25 Os bancos estaduais de São Paulo respondiam por 60% das dívidas dos dez maiores bancos regionais do Estado brasileiro. a ampliação do metrô foi suspensa por quatro anos.6 bilhões aos cofres públicos.103 estadual recebiam verbas. na esteira da vitória eleitoral do candidato do PSDB ao governo estadual. 1982 – 1998 (1) (2). pois o interior assegurou ao seu correligionário Luís Fleury. Por isso os deslocamentos contínuos para a esquerda em grande parte não foram percebidos. a vitória nas eleições para governador em 1990. O valor do dinheiro foi negociado politicamente nessa compensação federativa de interesses e fomentou um processo de recentralização de poder (Melo 1996: 16).5 bilhões (Gentile 1998).25 Em virtude da radical elevação da taxa dos juros. na época um homem totalmente desconhecido.5 17. Em 1997 o governo estadual começou a tomar as primeiras medidas direcionadoras de uma política econômica e social. a crise fiscal de São Paulo. no montante de R$ 1. além do plano nacional. A infraestrutura foi maciçamente ampliada no interior. dos quais 40. um mecanismo para aprovar projetos concretos de lei e emendas constitucionais no Congresso. o que custou R$ 15. O banco estadual BANESPA. Tabela 27). em % 1982 1986 1990 1994 1998 23.000 funcionários públicos. estradas e outras instalações foram privatizadas. o PSDB. Em 1992 as dívidas ultrapassavam em 60% os seus haveres. Em termos de tática eleitoreira. a primeira assumiu R$ 50. Assim Quércia colocou quase todos os prefeitos do interior na sua dependência. Decerto isso se deveu em parte à inexperiência do próprio Fleury. Ao invés de 2% ao mês. 148 escolas foram fechadas (FSP de 2 de agosto de 1997). celebrado em 1997. sem poder oferecer uma regulação consistente de um regime de acumulação regional. Em 1998 ela recuperou o terreno político perdido. pôde se posicionar em 1998 pela primeira vez como força de peso.4 bilhões de dívidas. O centro chegou mesmo a eleger depois de 1994 o maior número de deputados. 27 Esse aumento vertiginoso teve sua origem nos juros elevados. Sob Fleury ela explodiu na razão de 122.27 Com o contrato entre a União e o estado. o governo precisava a partir de agora pagar juros reais de apenas 6% ao ano. prefeitos da oposição não. essa política deu resultados. levando a um deslocamento de atividades para fora da capital e na direção do interior.24 A atividade de investimentos foi reduzida. altamente endividado. Apesar disso Covas ganhou com clara vantagem as eleições para o governo no segundo turno em 1998. Apesar disso a dívida do estado aumentou de R$ 40 bilhões no início do governo Covas para R$ 75 bilhões em março de 1997. em virtude do seu endividamento excessivo (Souza 1996: 547). 103 .3 bilhões. 4 de agosto de de 1997). segundo estimativas otimistas. por outro lado.fazenda.gov. Em 1995 o recém-eleito Mário Covas (PSDB) declarou o ”estado de emergência fiscal”. O superávit orçamentário anual primário de 1996. sobretudo do BANESPA.5% para R$ 44. Em 1994 a direita foi claramente enfraquecida em benefício do centro. O próprio Mário Covas praticamente não contraíra dívidas novas.000 funcionários públicos. A população dedica ainda menos atenção à Assembléia Legislativa do que ao Congresso e à Câmara de Vereadores. 28 A diferença entre taxa de juros de mercado e taxa de juros politicamente negociada foi assumida pela União (www. de R$ 13. mas uma razão nada secundária foi também a dívida contraída por Quércia para implementar seus ambiciosos projetos de modernização da infraestrutura. Mas ao lado das causas por assim dizer de fabricação caseira.3 32. Saõ Paulo. Em 1995 o Banco Central interveio em todo o país em onze bancos estaduais.

seade.39 per capita (1987) para até R$ 17. Essa medida lhe permitiu uma certa independência do ministério.0 4. 104 . Apesar disso o processo de municipalização iniciara em 1996 em 55% dos municípios (Silva 1996: 86). embora o processo de descentralização fosse dificultado pela preferência generalizada de uma municipalização (Melo 1996: 19). a descentralização funcionou lentamente em São Paulo.44 per capita (1991) (Arretche 1998: Tabelas 12 e 13).30 Em termos gerais.5 44.SOMA 33 34 37 28 36 9 18 20 PSDB 42 37 19 23 8 PMDB CENTRO .0 22.br (30 de julho de 1997).8 36. associações de produtores rurais e de empresários.704 e em 1994 ainda a 23. as razões do êxito da política habitacional eram. os funcionários dirigentes de empresas privadas e sobretudo estatais começaram a manifestar-se como sociedade 29 Se em 1987 foram construídas 3.gov. No setor habitacional o governo financiava os seus próprios gastos com um aumento de 1% do ICMS.gov.9 - 23. de caso para caso. O ponto de partida foi a introdução de novas formas federativas de organização. O processo de modernização econômica levou também a uma modernização da sociedade civil e ao surgimento de grupos lobistas tipicamente modernos.5 17. o aumento dos recursos disponíveis e.935.29 Em resumo.9 9.8 12. dos prefeitos e da sociedade civil. 30 Em 1980 91 das 123 instituições municipais de saúde estavam localizadas na Grande São Paulo e 32 no interior.SOMA 9 13 19 22 29 (1) até 1992: PDS Fonte: www.6 11. Mais ou menos ligados a esses interesses do capital.1 9. um aparelho administrativo em boas condições de funcionamento (Arretche 1998: 104-106). por outro lado. Como tão somente o governo estadual era um bloco homogêneo.br (13 de abril de 1999) No decorrer dos anos 80 o governo estadual assumiu em resposta à falência da política habitacional nacional. destinado à política habitacional e aprovado a cada ano pelo Legislativo estadual. por um lado.6 1. 1982 – 1998 1982 1986 1990 1994 1998 22 11 11 13 11 PPB (1) 9 8 5 11 PFL 11 14 18 13 14 diversos partidos de direita DIREITA . Seu poder consistia essencialmente em trocar favores contra favores com os municípios.2 9. tarefas cada vez mais amplas de prestação de serviços públicos. sendo possível aumentar nitidamente os gastos para a construção de habitações e o número de habitações financiadas.3 16. No setor de saúde o governo estadual também foi ativo. pois o governo estadual estava pouco interessado em uma municipalização.seade.9 23. Como havia apenas em São Paulo 636 municípios (Affonso 1996: 7). as grandes cooperativas.099 habitações com recursos do governo estadual. Em 1985 o número dessas instituições aumentara na Grande São Paulo para 144 e no interior para 215 (Silva 1996: 85). esse número chegou em 1992 a 36.7 35. Brasilienausschnittsdienst 10/98 Tabela 27: Eleições para a Assembléia Legislativa. São Paulo. ele dominou em São Paulo bem como em outros estados esse grêmio (Arretche 1998: 132).3 22. é compreensível que uma parte relativamente grande dos municípios não dispusesse da necessária capacidade de organização para assumir campos de atividades do governo central.SOMA 42 37 28 41 28 9 10 14 16 14 PT 3 5 6 15 diversos partidos de esquerda ESQUERDA . O órgão colegiado em nível estadual compunha se paritariamente de representantes do governo estadual.7 8. os gastos na construção de habitações aumentaram de R$ 3. os engenheiros e agrônomos. Estes atuavam sobre o Estado nos planos local e regional no sentido de apoiar o processo de valorização do capital.104 PFL diversos partidos de direita PSDB PMDB PT diversos partidos de esquerda 12.1 (1) sempre depois do primeiro turno (2) os vencedores do segundo turno sempre estão assinalados em negrito (3) até 1992: PDS Fonte: www.

especialmente no ABC. Desde então centros do pensamento crítico como o Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) ficaram politicamente paralisados e cindidos.303 (1995) e também o número dos que possuem entre 10 e 100 ha diminuiu em 17%. pois 50 grupos eram proprietários das terras utilizadas para fins de produção no estado (Bizelli 1995: 44). 32 Na época ainda como CIESP. As ambivalências do desenvolvimento brasileiro revelam-se a partir do seu centro: São Paulo foi uma região moderna. Formavam uma rede de modernização que juntamente com as empresas do setor imobiliário e de construção civil faziam concorrência à elite tradicional dos funcionários públicos.31 Desde a sua fundação em 192832. Nos últimos anos os meios de comunicação de maior qualidade como a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo começaram a informar mais sobre assuntos de interesse local. denominados atrasados. No interior do aparelho de estado eles dependiam da benevolência de governos locais ou deputados progressistas. A Tabela A-19 mostra que a filiação a organizações civis em São Paulo foi menor do que em estados meridionais economicamente menos desenvolvidos (Paraná e Rio Grande do Sul) e praticamente não maior do que nos estados nordestinos. Somente sob o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso a esquerda acadêmica entrou em uma grave crise. Ocupações de áreas eram iniciativas importantes para chamar a atenção às precárias condições de vida na periferia. o dos metalúrgicos da cidade de São Paulo (Rodrigues 1995: 116). 105 . ofereceram aos oprimidos possibilidades de organização. pois um importante segmento dos intelectuais aceitou cargos no governo.198 (1985) para 65. enquanto novos atores. Eles representavam o novo poder econômico e o seu discurso. o número dos proprietários de terras com mais de 10. na sua maiora estatais. A mídia regionalizada era formada em São Paulo pelo rádio e pela imprensa marrom que representavam maciçamente os interesses dominantes. caracterizadas como monolíticas. A CUT como central sindical estava concentrada em São Paulo. Os dois jornais tinham um extenso caderno local.juntamente com os sindicatos fortemente estruturados no setor industrial. Mas o poder tradicional da propriedade fundiária não pode ser subestimado.000 ha aumentou de 29 para 36 (Esposito 1998). Em 1983 Mário Covas assumiu o governo da 31 Ao passo que o número das empresas agrícolas com menos de 10 ha de área agricultável baixou de 100. sendo que as simpatias se dividiam de forma relativamente harmônica pelas alternativas radical e reformista. pois as comunidades eclesiais de base definiram nos anos 70 e no início dos anos 80 ao lado dos sindicatos. apoiado pela imprensa e pelas emissoras radiofônicas locais. eram um espaço tradicional de poder da oposição. profissionais liberais. Somente as associações de vizinhança em nível local e o movimento dos sem-terra como movimento de massas. As numerosas universidades. pequenos comerciantes e proprietários de terras. Na esteira da internacionalização e da desindustrialização ela pertencia às instituições que foram enfraquecidas . A Constituição de 1988 fixou competências ampliadas dos municípios e fortaleceu com isso a sua posição no arcabouço do poder nacional. Nos anos 80 predominou no plano municipal o conflito sobre o acesso à cidade. Essa circunstância contém explicações substanciais de paradoxos aparentes do desenvolvimento em termos de Economia Política. A população na periferia queria uma infraestrutura mínima. o perfil do palco do Brasil democrático (Eder 1988). mas não de civilização burguesa. Um papel importante foi desempenhado sempre pela igreja. os grupos populacionais em desvantagem praticamente não dispunham de instituições por meio das quais pudessem representar os seus interesses. Luís Antônio Medeiros e a sua Força Sindical. próxima ao governo. Esse grupo defendeu a posição de que não haveria alternativa ao processo de globalização. o comportamento eleitoral conservador-retrógrado teve as suas raízes em uma sociedade civil cuja vida não teve um perfil muito mais pronunciado e múltiplo do que nas regiões atrasadas. No plano regional.105 civil regional. Sem dúvida isso expressa a oposição de interesses entre os grupos dominantes.3 O espaço de poder da cidade de São Paulo No plano dos municípios pôde se observar no Brasil dos anos 80 genericamente um ganho de importância e nos anos 90 uma perda de importância. A modernização econômica afetou a sociedade civil de modo bem mais reduzido do que seria de se supor. Não em último lugar devido a conflitos internos. 3. acabou por impor-se. como o Estado a disponibilizava aos bairros de localização mais central. girava em torno das idéias da racionalidade e modernidade (Bizelli 1995: 45). que foi muito ativo justamente no Estado de São Paulo. São Paulo era sabidamente o lugar do surgimento de um movimento sindical e democrático independente. Mas ela não conseguiu assumir o maior sindicato de industriários. a Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP) cumpriu um papel importante na articulação dos interesses da produção regional.

Tabella 28: Eleições para prefeito. Era estimado na periferia.seade. Colocou a questão social e o problema da periferia no centro da sua atividade administrativa. Mas a vantagem de Covas foi a certeza de podercontar com o apoio do governador. Em 1988 a deputada estadual Luiza Erundina (PT). 1985 – 1996. o trabalho do governo municipal. contra a administração e setores do seu próprio partido. em números redondos. Covas capitalizou em benefício do seu governo a pressão da população na luta intra-organizacional pelo poder. inexistiam canais institucionalizados de cogestão cidadã. candidatos mais importantes 1985 PPB(1) PFL diversos partidos de direita PSDB PMDB PT diversos partidos de esquerda (1) Até 1992: PDS 37.3 44. 1985 – 1996 1982 1988 1992 1996 6 6 20 19 PPB (1) 4 0 2 PFL 7 8 6 8 diversos partidos de direita DIREITA . A sua desvantagem foi que segmentos do seu próprio partido .seade.SOMA 15 12 13 12 5 15 13 10 PT 8 3 4 diversos partidos de esquerda ESQUERDA . Em virtude de elevados subsídios por parte da União e do governo estadual ele conseguiu não ficar demasiado para trás no tocante aos indicadores sociais dos governos Covas e Luiza Erundina.7 - 1988 1992 1996 24.SOMA 5 23 16 14 (1) Até 1992: PDS Fonte: www. mostrou a proximidade à exigência de democratização com participação popular. com 30%.br (28 de julho de 1997) Em 1985 o populista de direita Jânio Quadros ganhou surpreendentemente as eleições contra Fernando Henrique Cardoso. na qual ele freqüentemente ajudava pessoalmente em mutirões. caso não quisesse criar graves obstáculos ao seu trabalho.106 cidade como prefeito nomeado pelo governador Montoro.9 0. levou São Paulo de volta aos tempos do autoritarismo e da negligência da questão social. o governo de Covas definiu critérios de aferição para os governos subseqüentes. Ao passo que as iniciativas informais de base se fortaleceram durante o seu governo. Quadros.5 37.br (28 de julho de 1997) Tabela 29: Vereadores. mas não em uma aliança dos 106 . Depois de erros iniciais o PT reconheceu que precisava chegar a um consenso com a câmara.SOMA 13 18 26 29 6 8 8 PSDB 15 6 5 4 PMDB CENTRO .8 29.gov. A autodenominação ”governo democrático popular”. com o objetivo de ”reduzir a distância entre o centro e a periferia” (PMSP et al. foi eleita surpreendentemente prefeita de São Paulo. São Paulo.5 34.8 7.gov. adotada pela administração petista.8 23. O governo municipal sentiu isso na carne. Mas a intensa atividade no setor de construção civil prejudicou a qualidade da infraestrutura existente. Baseado no clientelismo. sob direção do PSDB. Na área social.o PMDB .9 4. 1992: 120). menos visíveis.4 22.5 14.2 19.8 1. Assim o grande problema do governo de Jânio Quadros foi a deterioração qualitativa do abastecimento da população com serviços sociais. pois a Câmara de Vereadores boicotava.2 9. Mas ao mesmo tempo ele se tornou incapaz para fazer acordos. O PT via princípios políticos como não-negociáveis e foi nesse tocante um simpático contrapeso ao modo tradicional de fazer política.5 14. São Paulo.1 Fonte: www. oriunda das iniciativas de base. No seu estilo de governo. a contratação de funcionários foi feita a expensas dos seus salários.fizeram oposição a ele e sabotaram a sua política reformista. que fora presidente da república em 1960. o candidato do establishment de centro-esquerda.5 0. Jânio fomentou megaprojetos a expensas dos serviços sociais.

Sobretudo antes da posse de Fernando Henrique Cardoso. e. Além disso. visível em muitos lugares estratégicos da cidade.7 19. o PMDB populista. em São Paulo. As muitas mudanças de poder na cidade eram explicadas com a insatisfação com o sistema político e a tendência dos paulistanos de votar sempre na oposição. No entanto. cada qual à sua maneira. ele conseguiu obter maiorias na Câmara de Vereadores. embora devessem ser classificados quanto à sua ideologia como partidos de centro (cf. Mas em 1996 Maluf conseguiu quebrar essa regra e eleger seu Secretário da Fazenda para a prefeitura. Não se deve esquecer nesse contexto que os diferentes grupos também eram. segundo bairros selecionados do município de São Paulo. Com efeito. o primeiro plano era ocupado nos bairros ricos por questões de qualidade de vida. Em uma cidade dessarte cindida. inteiramente dependente do seu padrinho Maluf (FSP de 8 de maio de 1998). Pretendeu-se e. Lula 27.1 14. projetos na área social (setores da saúde e habitacional).1% dos eleitores votaram em Fernando Henrique Cardoso e apenas 14% em Lula. dos ricos. Santana. Por isso o projeto para o Estado de Fernando Henrique Cardoso foi. Em São Miguel Paulista. Sob o governo do PT as fronteiras entre o Estado local e a sociedade civil progressista desapareceram por quatro anos. em corrupção. O grau de polarização da cidade de São Paulo se evidencia também na rejeição dramática do metalúrgico Lula nos bairros residenciais ricos de São Paulo. Pitta saiu do PPB. ruído e proteção contra a ocupação excessiva das áreas por prédios. 1994. canais. A base eleitoral do PT continuou claramente estruturada em termos de espaço social (cf. indubitavelmente apoiado sem reservas pela classe alta. bairro da periferia. os eleitores já se segmentaram de forma claramente mais simétrica: Cardoso recebeu 38. Tabela 30: Resultados de Fernando Henrique Cardoso e Lula nas eleições presidenciais. que continuava orientado para o desenvolvimento. Os movimentos sociais foram incluídos nos processos decisórios (cf. 72. serviam para obter melhorias para o respectivo bairro. Novy 1994: cap.3 Jardim Paulista Santana Vila Maria Itaquera 107 . Os bairros Jardim Paulista. sendo que a proporção de votos era. primeiro turno Cardoso Lula 72.0 19. Mas projetos importantes fracassaram diante da resistência da câmara. foi a razão principal da vitória de Celso Pitta. capazes de articular ou impor os seus interesses. desde 1988 no PSDB. Ao passo que nos bairros pobres estavam em pauta. Ao passo que Fernando Henrique Cardoso e José Serra. pequenos. o dobro nos bairros pobres do que nas regiões ricas. As associações de amigos do bairro. eram populares entre os ricos. O governo local tentou em vão institucionalizar determinadas formas de cogestão dos cidadãos. a orientação para o tráfego individual motorizado e a criminalidade crescente levaram a um esvaziamento do espaço público. sucessor de Quércia.107 partidos de centro-esquerda. a sociedade civil paulistana necessariamente deve estar fortemente fragmentada em virtude da separação sócio-espacial das várias classes. independentemente da sua orientação ideológica (Brant et al.0 57. Maluf e Pitta puderam vencer quando a direita eliminou essa fraqueza (cf. a ruptura se deu em 1998. implicitamente. a distribuição dos resultados da eleição por bairros relativiza a tese da gratuidade ideológica no comportamento eleitoral dos paulistanos. descentralizar e aproximar do cidadão a administração municipal e o planejamento urbano.4%. F). era um partido da periferia.7 25. por fim. Tabela 31). sucessor de Luiza Erundina. nas eleições de 1996. A rejeição da des-ordem estava amplamente difundida. A sua política populista de direita consistiu na privatização de empresas municipais. Tabela 33).4%. um dos bairros residenciais mais ricos. Isso mostra que o PSDB e o PMDB pertenciam a meios políticos fundamentalmente distintos. Mas Pitta teve o mesmo destino do que outrora Fleury. em grandes obras. A maior parte dessas medidas foi inicialmente boicotada pela Câmara dos Vereadores e depois abandonada ou revogada a partir de 1993 por Paulo Maluf. Pitta acabou sendo um dos prefeitos mais impopulares. assim por exemplo na área da tributação e da descentralização. o PT cortejou com intensidade bem mais nítida o PSDB. nas eleições para a prefeitura venceram sempre candidatos que eram oposição ao governo municipal. 1989: 188 ss. via de regra. o que é um indício da sua pronunciada consciência de classe (Tabela 30). Santo Amaro e Cidade Ademar são exemplos de cinco tipos distintos de bairros. Mário Covas (PMDB) foi sucedido por Jânio Quadros (PTB) que teve de passar a prefeitura a Luiza Erundina (PT). que não pôde impedir a eleição do seu arqui-inimigo Paulo Maluf (PPB).4 53.4 41. existentes em todos os bairros residenciais. Em Jardim Paulista. o que reflete o aumento da sua orientação na direção do eleitor culto e com isso. O mesmo vale para o centro. medidas de urbanização como pavimentação de vias públicas. Os baluartes da esquerda são os bairros pobres. sendo que Jardim Paulista representa o tipo de bairro mais rico. Depois de repetidas críticas de Maluf ao governo municipal.). A atividade de construção. A direita era mais forte nos bairros de classe média do que nos bairros ricos e mais fraca nos bairros pobres. Em virtude da circunstância de não poder tomar nenhuma medida de impacto. mas com publicidade maciça. Tabela 32). escolas ou hospitais. era um ”fantasma políticoadministrativo”. o candidato próximo de Maluf. em números redondos. Com exceção de 1992 foi observado um forte declive entre ricos e pobres.g. Vila Maria. Este continuava sendo de modo apenas restrito um ponto de encontro da sociedade política e civil.

9 Fonte: www.2 27. Embora o PT continuasse sendo sem contestação o segundo partido mais forte.2 40.7 48. segundo bairros selecionados do município de São Paulo.8 13.2 9.0 18.gov. ele perdeu cada vez mais em importância.2 Total 50.0 50.3 28. segundo bairros selecionados do município de São Paulo.3 Santana 40. Apoiado na popularidade de Paulo Maluf.8 20. a Câmara de Vereadores de São Paulo é uma organização extremamente centralizada.8 Cidade Ademar 29.7 15.2 9. Por outro lado.6 Santo Amaro 19.8 14.gov.9 29.5 Vila Maria 16.3 23. a prefeita.7 27.1 43.1 28. 1985-1996 Cardoso Leiva Aloysio Serra PMDB PMDB PMDB PSDB 1985 1988 1992 1996 Jardim Paulista 36.5 Total 19.4 Cidade Ademar 29.gov.9 31.1 Santo Amaro 35.0 Vila Maria 48. tendo.3 41.3 27. Se compararmos os dez candidatos respectivamente mais 108 .gov. Em termos de legislativos municipais.4 Total 37. por conseguinte. muita influência.9 53.2 14.6 13.640 votos (Melo 1996: 17).4 18.br (14 de abril de 1999) Tabela 33: Resultados dos candidatos do centro nas eleições para a prefeitura.6 27.br (14 de abril de 1999) Tabela 31: Resultados dos candidatos da direita nas eleições para a prefeitura.0 24.7 22.108 Cidade Ademar 44.4 Vila Maria 26.5 37.2 22.br (14 de abril de 1999) Na Câmara dos Vereadores a esquerda contabilizou uma vitória à maneira de uma avalanche em 1988.3 42.4 Total 34.7 42.8 Fonte: www. Na pessoa de Eduardo Suplicy. Mas esse deslocamento em benefício da esquerda não foi duradouro.2 16.br (14 de abril de 1999) Tabela 32: Resultados dos candidatos da esquerda nas eleições para a prefeitura.7 23.5 24.5 17.3 18.seade.8 23.8 27.8 14.3 11. o PPB preencheu esse vácuo.6 Santana 34.7 29.1 Santana 17.5 Fonte: www.6 Fonte: www.2 Santo Amaro 35. segundo bairros selecionados do município de São Paulo. pois um vereador ou uma vereadora representa 181. 1985-1996 Quadros Maluf Maluf Pitta PTB PDS PDS PPB 1985 1988 1992 1996 Jardim Paulista 38.2 12.seade.1 9.3 44.6 8. ele foi desde 1992 a força determinante no Executivo e Legislativo. na de Luiza Erundina.7 20.0 Cidade Ademar 26.4 22.seade.seade. 1985-1996 Suplicy Erundina Suplicy Erundina PT PT PT PT 1985 1988 1992 1996 Jardim Paulista 11.4 12.7 27.1 26.5 8.0 46.5 18.5 31.7 18.7 8. o PT elegera um candidato muito popular para a Câmara.

Comissões de saúde enquanto organizações da sociedade civil. serviu de arcabouço organizacional sobre o qual o governo do PT trabalhou nos anos de 1989 a 1992. No âmbito da cooperativa os médicos eram pagos por serviço.109 votados em cada região conforme a sua filiação partidária. portanto. Para uma interpretação detalhada cf. foram elaborados no plano local juntamente com esses postos regionais ”planos municipais de saúde”. A população podia inscrever-se em uma cooperativa da sua escolha. no qual o governo assumiu a co-responsabilidade também nesse setor. Tatuapé e Moóca. Novy 1994: 373). Com 3-5-3-8-7 a tendência aumentava na direção das regiões pobres. para obter com 11 candidatos nas regiões mais pobres a pontuação mais elevada. Em 1989 200. o PAS (Plano de Atendimento de Saúde). os municípios eram responsáveis pela execução. de uma forma de descentralização e da combinação de elementos privados e públicos de disponibilização do serviço. Itaim Paulista e Guaianases. começaram a aumentar as queixas sobre o tratamento deficiente dos pacientes e do pessoal e as queixas sobre as dificuldades financeiras da administração municipal de cumprir os seus compromissos diante das cooperativas. Por sua vez. que concedia os mesmos direitos de um seguro privado. Mas a implementação concreta estava em contradição crassa com o espírito da Constituição Federal de 1988 e o direito à saúde. que a partir disso tinha o direito de receber por pessoa o valor de R$ 10. Indianópolis. foi grande. apoiado por médicos engajados e pela Pastoral da Saúde da Igreja Católica. O segredo do sucesso do PDS.br. o PMDB não venceu nas regiões mais ricas e aumenta depois a sua presença continuamente. O declive entre as regiões. fomentado e também controlado pela sociedade civil. A Secretaria de Estado da Saúde assumiu os postos regionais e criou 65 unidades novas. Na primeira região (mais rica) classifiquei Vila Mariana. Sob o seu sucessor Paulo Maluf a situação se agravou dramaticamente. julho de 1997). Do lado do Estado. isto é. A argumentação afirmava que o sistema não seria financiável na sua forma atual. Essa execução descentralizada fomentou a participação de conselhos de saúde e possibilitou aos cidadãos a participação in loco.gov. Com o PAS objetivava-se possibilitar aos grupos privados o acesso ao sistema de saúde pública e institucionalizar a concorrência entre os ofertadores privados e públicos. na terceira. na quarta. Os cooperativados. Apoiados pelo governo estadual e no âmbito de um programa nacional.seade. mas a partir de 1991 os municípios sentiram a diminuição dos repasses do governo central. Pessoas não-domiciliadas em São Paulo não tinham nenhum direito ao serviço. Do lado da sociedade civil o movimento pela saúde. o município recebia mais uma verba. A criação do PAS foi uma medida que tomou como ponto de partida a crítica generalizada do status quo intolerável e de exigências feitas cedo pela esquerda no sentido de uma descentralização e autogestão. no curso da democratização. que não pôde ser observado no PT nas eleições para o Executivo. os juízes declararam a compatibilidade do PAS com o SUS em termos puramente formais. Jardim Paulista. Ao passo que a preferência acabou se impondo com 11-16-16-13-10 nos velhos bastiões da pequena-burguesia. Capela do Socorro. que atuavam regionalmente. As medidas de economia no setor de saúde levaram em 1994 a situações insuportáveis. isto é. São Miguel Paulista.33 Nos bairros mais ricos. deve-se mencionar nesse contexto o programa de descentralização do governador Montoro. Ipiranga e Santo Amaro. Ele impulsionou a municipalização do setor de saúde. eram de fato assalariados. Butantã e Santana. Na seqüência. Novy 1998: 367. Em 1995 o governo apresentou finalmente um projeto de saúde radicalmente novo. De início a satisfação da população diante desse seguro ”público” contra doenças. 109 .gov. Quando tudo estava em dia. na quinta. Do ponto de vista quantitativo o sistema de saúde melhorou sensivelmente. com 33 Baseado em www. Na campanha de 1996 Maluf pôde vangloriar-se com a inovação organizacional de uma iniciativa orientada para a qualidade e provar a sua competência na área social. o que visava a minimização de faltas no trabalho. Tratava-se. 34 No entanto. cumpriu um papel importante. Na práxis as cooperativas funcionavam como empresas e eram controladas por grupos privados. O sistema funcionava analogamente aos seguros privados contra doenças. atualmente PPB.000 pessoas participaram das eleições para esses conselhos (cf. A falência do Estado assim documentada justificou abrir também os setores da educação e saúde à iniciativa privada. A cada trimestre os resultados e as contas eram examinados pelo governo estadual. Tanto os atores estatais quanto os da sociedade civil eram importantes no setor de saúde. foi constatado de forma mitigada nas eleições para o Legislativo. Vila Maria.seade. e conselhos de saúde como órgãos de cogestão no interior das unidades organizacionais (postos de saúde. Havia um conselho municipal de saúde para cada cidade. Esse sistema. as cooperativas de saúde estavam obrigadas a assumir os cuidados integrais do membro.) institucionalizaram os canais de participação. o pessoal do PAS. criado pelo PMDB e exigido. Mas a intenção do governo municipal era precisamente mostrar isso.00 por mês. só que nesse caso o município assumiu o financiamento.br. a amostragem escolhida revelará que o PSDB venceu nas regiões ricas 17 vezes e nas três outras regiões somadas apenas 10 vezes.34 Pouco depois da vitória nas eleições. Maluf ganhou as eleições com a promessa de reduzir a burocracia do setor público. razão pela qual o PT tentou contra-arrestar essa tendência por meio de uma contribuição mais elevada com recursos da própria prefeitura. hospitais etc. correlacionei quinze bairros a cinco tipos de regiões e registrei em cada um desses bairros a filiação partidária dos dez vereadores localmente mais votados. Os estados e municípios reconquistaram a sua importância apenas nos anos 80. e a grande diferença com relação ao passado esteve na sua homogeneidade regional. na segunda. Lapa. as fraquezas do partido puderam ser reduzidas nos bairros pobres (www.

Foram realizadas várias greves que 35 Na época do primeiro crescimento espectacular da cidade (1900 a 1922) a densidade demográfica caiu na parte urbanizada da cidade de 110 habitantes/ha para 47 habitantes/ha. Muito pelo contrário. Nesse tocante a urbanização das favelas foi a estratégia mais importante. No curso da democratização acirrou-se a crítica a uma política fundiária que privilegiava os titulares de rendas. O planejamento urbanístico da década de 1920 optara pela mesma estratégia também para os cortiços no centro da cidade.450 habitações: não havia nenhum nexo entre o problema e a sua solução (Bonfim 1998)! O PT fez a tentativa de introduzir a tarifa zero nos transportes públicos. foi apresentado como solução do problema das favelas. Para habitações de 42 m2 os moradores tinham de pagar uma espécie de aluguel no valor de R$ 57. buscou-se legalizar as habitações já existentes. na qual fora propagada. Em meados dos anos 90 havia 1. Pitta construiu em 1997 3.000 habitações e construiu 10. concebido em analogia a experiências feitas em Cingapura. Por meio da contribuição própria. o governo dedicou também atenção ao espaço público.). Maluf prometeu 120. Isso representa uma forma de renda básica local e teria ajudado sobretudo os pobres. evitando-se assim o método muito criticado do slum clearing36. O ”Projeto Cingapura”.901. Um elemento decisivo da estratégia malufista baseou-se. Criaram-se habitações alternativas para o período da construção. sobretudo a construção em regime de mutirão.479. O PT ocupou-se com os diferentes aspectos do problema habitacional. a saber. A relação com o sindicato controlado pelo PT sempre foi conflitiva. Num segundo passo as condições de vida na favela eram melhoradas. o direito de não ser expulso. no princípio do primado da qualidade sobre a quantidade. Por isso 9000 unidades habitacionais estavam construídas apenas pela metade. para cair até 1960 para 24 habitantes/ha (Aguerre 1995: 110). como no governo federal. em seguida os novos moradores exerciam pressão sobre o governo municipal para que este disponibilizasse a infraestrutura. consubstanciada no trabalho. cujo financiador mais importante foi o setor de construção civil. Em virtude da crise do PAS alguns módulos começaram a reduzir os salários dos cooperativados (FSP 8 de agosto de 1997) e um hospital inaugurado durante a campanha eleitoral foi fechado (Muggiati 1998). esta também não foi implementada (Singer 1996: 137-160). reformas qualitativas estavam na ordem do dia. Também aqui uma política habitacional própria constatava inicialmente que o velho sistema fracassara e inovações radicais. os custos por unidade habitacional foram reduzidos em até 40% (Novy 1994: 309 ss. Por um lado. A crítica ao Projeto Cingapura dirigiu-se também aqui contra o estilo autoritário que não envolvia os moradores afetados na tomada das decisões. sobretudo ao lado das principais vias de tráfego e na proximidade dos Shopping Centers e de outros pontos muito freqüentados. em virtude da ocupação fragmentada e da retenção de numerosas áreas. A expulsão das camadas baixas do centro da cidade deslocou os problemas sociais para a periferia. Possibilitava-se aos moradores das favelas a aquisição de um título de propriedade de terra. a verticalização tinha por objetivo aumentar o espaço habitacional disponível. 110 . 36 Slum Clearing é a melhoria de um bairro degradado (slum). O ”Projeto Cingapura” retomou uma exigência central do movimento pela casa própria e da esquerda. Já que até 24% do custo total correspondiam à despesa com a arrecadação das passagens. O resultado é a entrada de novos moradores e a expulsão dos moradores do bairro para outras áreas. Esse projeto distinguia-se das estratégias convencionais de governos conservadores em São Paulo. as empresas vendiam os terrenos remanescentes por um preço muitas vezes acima do original.110 presença obrigatória e a inserção em uma hierarquia rígida. Depois disso ter ocorrido.00. a construção da casa própria sob o lema da ”ajuda para a auto-ajuda”. mas sem a proteção das leis trabalhistas.35 As empresas imobiliárias vendiam apenas alguns lotes e retinham outros. a construção da casa própria como solução dos problemas habitacionais da maioria pobre da população. a saber. Além disso havia no transporte público uma concorrência entre a empresa municipal CMTC (Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo) e as empresas particulares de ônibus. Como a maioria das medidas que visam uma redistribuição. 368 ss. para as quais a solução do problema das favelas quase sempre consistira na demolição das mesmas. Por fim Luiza Erundina aproveitou uma estratégia de Mário Covas e uma antiga exigência do movimento pela casa própria. O programa da ”construção habitacional em regime de mutirão” foi violentamente criticado por Maluf. No tocante à situação habitacional os proprietários de terrenos lograram maximizar os seus ganhos de valorização e socializar os custos da urbanização. denominado ”maior projeto social do país”. Esse projeto. fortemente apoiado pela Igreja Católica. teria sido necessário subsidiar apenas um valor bem mais reduzido. 3% de todas as favelas do município). que utilizam especialmente os meios de transporte público. Ao mesmo tempo o governo municipal interrompera todos os outros programas de construção de habitações. A administração da CMTC era um dos maiores desafios do governo do PT. foi um dos movimentos sociais mais importantes na periferia de São Paulo.. visava a urbanização de 47 das 1900 favelas de São Paulo (em números redondos. à criação de parques e praças. Ele foi essencialmente responsável pela vitória eleitoral de Luiza Erundina. Nos anos 80 o movimento dos sem-terra. Aqui o governo municipal propôs um financiamento por meio do aumento do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano). justamente sob a ditadura militar. No quadro de uma política de espaço habitacional integrada. Antes do levantamento das casas de vários andares eram realizadas as necessárias obras de infraestrutura e urbanização da favela.803 favelados em São Paulo.

definições de regras interessam menos do que medidas concretas. depois que a administração municipal atrasou os pagamentos (Huertas 1997). a flexibilidade com a qual o novo mecanismo foi tornado palatável para o setor imobiliário foi apresentada como inovação social. Com a privatização o sindicato dos motoristas perdeu em grande parte o seu potencial de ameaça. pois ele permitia uma flexibilização das regras. Mas ele preservou a municipalização. simplificando assim radicalmente a política de zoneamento38. Isso não foi atraente para os moradores já estabelecidos. em meio a uma nova relação das forças políticas no município. Mas as medidas fomentadoras do tráfego de automóveis. não foi possível implementar nem a versão originária com o seu efeito redistributivo claro. por parte do Legislativo. O modelo do PT consistiu em um reordenamento e uma simplificação integrais da destinação das áreas. O modelo implicava um único coeficiente aproveitamento para toda a cidade. 111 . Em 1997 não foram os motoristas que ameaçaram entrar em greve. depois de feitas pequenas adaptações. o novo plano. tais como a instalação de uma praça. mas à resistência vinda das próprias fileiras. que recebeu um forte impulso com a construção de grandes projetos de avenidas. Ao invés de impulsionar a difícil tarefa de uma reforma da CMTC. Os direitos de utilização para um aproveitamento mais intensivo seriam vendidos pela administração municipal a particulares interessados. 38 O coeficiente de aproveitamento expressa a relação entre a área coberta e a área total. 39 Em sua retrospectiva. A administração municipal petista de 1989 a 1992 estava comprometida com um planejamento democrático e não queria repetir os erros de um planejamento tecnocrático. a melhoria do arruamento vicinal etc. A Secretaria Municipal de Planejamento (Sempla) do governo petista viu com razão que um reordenamento da destinação das áreas desempenharia um papel central em uma estratégia voltada para a inversão das prioridades. Em uma conjuntura nova. o abandono do transporte público por parte da administração municipal evidenciou-se no maior interesse em fomentar o transporte individual motorizado. Na seqüência. Mas valia ainda a regulamentação do tempo da ditadura militar. Mas as concessões exigidas por Maluf do setor imobiliário não se aproximavam nem de longe dos montantes que o governo petista tinha objetivado reter. pois este último tinha pensado em embolsar. a administração municipal definiu uma quantidade de área a ser construída por região. se a administração municipal fosse indenizada pelos custos infraestruturais advenientes. Com isso visava-se reduzir a superlotação dos ônibus. nem o princípio como tal (Singer 1996: 161-194). conduziam automaticamente à sua aprovação. Com a sua crítica do transporte público e especialmente também da CMTC. Esse enfoque de planejamento não se ocupou mais com a utopia da cidade boa. tiveram a significativa vantagem indireta de provocar uma valorização dos imóveis nas áreas abertas ao tráfego. mas não obstante entrou em vigor37. Assim teria surgido um mercado para o aproveitamento intensivo de terras urbanas. de acordo com a qual a não-ocupação de iniciativas legislativas apresentadas pelo Executivo.não em último lugar. Maluf podia contar com o respaldo de amplas partes da população. mas para as empresas imobiliárias interessadas na implementação de grandes projetos. a sua eficácia foi extremamente reduzida . Castells 1983: 335-337). Com isso ele pôs termo ao arranjo institucional introduzido no setor de saúde com a criação do PAS. mas os empresários. mas ainda não tinha entrado em vigor.111 paralisaram a cidade. em números redondos. No decorrer das ”operações urbanas” já introduzidas pelo PT. ”Via de regra”. O velho Plano Diretor datava de 1971. cujos efeitos em termos de técnica do tráfego foram visivelmente catastróficos. mas procurou realizar uma cidade melhor (cf. Com as receitas assim arrecadadas deveria ser criado espaço habitacional para as camadas baixas. O mix institucional de ofertadores privados e públicos foi refinado por uma municipalização do transporte público. Além disso. o pagamento das empresas por quilômetro rodado. No lugar da fixação de zoneamentos deveria entrar em ação um mecanismo que permitisse utilizar o solo de forma mais intensa. pois em fins de 1988 a nova constituição tinha sido promulgada. não foi aprovado pela Câmara de Vereadores. A partir desse período as empresas receberam somente 20% do seus custos reembolsados em proporção ao número de passageiros transportados e 80% do pagamento total em proporção à distancia percorrida. ele aproveitou a oportunidade para privatizá-la. Mas como os dois planos formulavam os objetivos visados e fixavam os zoneamentos.39 Nos anos subseqüentes o alcance do mecanismo de uma simplificação radical do aproveitamento do solo foi compreendido mais pela direita do que pela esquerda. 70% dos lucros de valorização obtidos na especulação imobiliária. isto é. Apesar de esforços intensos nesse sentido. cabia ao órgão de planejamento urbano criar um espaço público no qual se pudesse discutir sobre a configuração da cidade. Por isso ela partiu de uma concepção de planejamento que incluía a questão da implementação de medidas. A ligação orgânica dessas empresas com Maluf estava amplamente documentada (FSP de 6 de agosto de 1997). porque destinações individuais eram adaptadas em cada caso. o então Secretário Municipal do Planejamento Paul Singer (1997: 27) credita isso menos à resistência do setor imobiliário. Eis um exemplo de como técnicas sociais podem suscitar um efeito contrário. apresentado por Jânio Quadros. De acordo com essa concepção. Justamente esse mecanismo foi assimilado por Maluf. foram concedidas licenças especiais para os investidores contra uma contribuição especial ao erário municipal ou contra investimentos privados adicionais de interesse público. 37 Isso foi possível.

mas ”à altura dos tempos” e ”empresarialmente eficientes”. mediante medidas de zoneamento. pois elas ainda conteriam infraestrutura livre. ser substituído por um processo de barganha.). o prefeito não eleito da transição a um regime democrático. que se subordinava em ampla escala aos desejos do Executivo. temiam ser rodeadas por arranha-céus. Mas à diferença do governo petista. cujo argumento central era utilizar as regiões centrais de modo ainda mais intenso. se desejado. O interesse central do governo petista foi institucionalizar a cogestão e descentralizar o poder. mas eram escolhidos pelo prefeito a partir de listas propostas por organizações locais da sociedade civil (clubes. Tudo somado. A partir de 1997 os conselhos comunitários deveriam controlar as administrações regionais. Paradoxalmente Mário Covas. pois o zoneamento rigoroso podia. Abstração feita de um locutor de rádio.41 Em contrapartida. pois o poder dos vereadores não consistia tanto na sua influência na Câmara. Zonas residenciais tradicionais.767 votos.). A maioria dos vereadores se apoiava em uma base eleitoral com forte concentração regional. SABs etc. e depois de cada eleição se negociava duramente sobre quem poderia nomear que administrador regional. Uma parte da sociedade civil. simpática ao Estado. esses conselhos não se compunham de representantes eleitos pela população. Maluf rompeu abertamente com a tradição do PT nas áreas da democracia e da cogestão. segundo esse plano. promovendo por assim dizer uma política de guetos exclusivos (Bógus. as possibilidades da troca política com o setor imobiliário também se flexibilizaram. empenhando-se por modelos organizacionais de natureza centralista. diante de uma lista de desejos cuja realização não seria possível sem mecanismos para dirimir conflitos.40 Alterações nessa esfera da estatalidade eram sistematicamente impedidas pelo bloco de poder. A repartição dos gastos totais evidencia uma clara diferença entre o governo petista (1989-1992) e os dois governos de direita antes (Jânio Quadros 1986-1988) e depois dela (Paulo Maluf. As administrações regionais eram um elemento importante das estruturas clientelistas e serviam como esteios do sistema centralizado de poder. Paiva (liberal) recebera em Penha em 1992 661 votos e em 1996 12. Estes não foram apresentados como autoritários e pertencentes à tradição da ditadura. 1990). para efeitos de maior compreensibilidade. e apenas em 1997 Celso Pitta apresentou um novo Plano Diretor.112 O governo petista iniciou já em 1990 um amplo processo de discussão sobre o desenvolvimento da cidade e o Plano Diretor. No setor educacional as despesas proporcionais apresentavam uma tendência para a queda tanto no governo de Jânio Quadros como no de Maluf. A concessão de cargos segundo critérios puramente pessoais produziu em toda a estrutura administrativa uma fragmentação e ”privatização do Estado”. depois de ter sido administrador regional. Se a administração regional trabalhava bem. no setor ”construções e instalações” esses dois governos apresentavam uma tendência ao aumento 40 Estina (PPB) recebera em Capela do Socorro em 1992 6. A política orçamentária de Mário Covas (1983-1985) apresentou semelhanças com a de Luiza Erundina.729 votos e em 1996 34. Por outro lado. Mas com a apresentação do plano o governo municipal criou para si possibilidades de uma atuação flexível: por um lado a política convencional de zoneamento permite assegurar a elevada qualidade de vida de bairros residenciais simpáticos ao governo. O orçamento paulistano é ’política fundida em números‘. Publicou um livro próprio (Rolnik et al. poder comprar da administração municipal um coeficiente de aproveitamento mais elevado (Sempla 1997). estas se tornam meridianamente claras na análise do orçamento no caso de São Paulo. aceitando a sociedade civil como ator local autônomo. os vereadores mais votados nas eleições de 1996 detinham o controle sobre uma administração regional. Nas administrações regionais praticava-se abertamente a política do ”é dando que se recebe”. Esses gastos ficaram abaixo dos 25% de gastos no setor educacional prescritos na Constituição Federal ou dos 30% de gastos no mesmo setor definidos como obrigatórios na Lei Orgânica do Município. Sob o governo de Maluf a discussão morreu. A oposição criticou a falta de uma discussão pública e o fato de que se estaria. 41 Os gastos totais para manutenção e construção de escolas cifraram-se apenas em 4% dos gastos para a construção e pavimentação de ruas (Nardi 1998). Montali 1994: 167). o valor atingia R$ 327 milhões e teria sido suficiente para construir todas as escolas e creches previstas no orçamento e não-realizadas (Huertas 1998). tinha o direito de controlar o conselho. A sociedade civil estava inserida nos processos decisórios por meio de comissões e conselhos. na qual as pessoas importantes da região precisavam ser atendidas. 112 . a reeleição não enfrentava nenhum obstáculo. ao passo que essa tendência era menos nítida nos setores da saúde e habitação. mais uma vez. Por isso as administrações regionais também eram tão importantes. a partir de 1993). Mas os vereadores faziam valer a sua influência por meio do envio de pessoas de confiança a posições centrais da administração municipal. 6116 votos nas eleições de 1996 (Novy 1998: 354 s.572. Nas tabelas a seguir os dados referentes aos diferentes governos municipais são apresentados alternadamente com fundo sombreado e fundo claro. fortemente criticado. foi responsável por importantes ênfases na política em prol da democracia. no qual apresentou um diagnóstico da cidade que deveria servir de base para a discussão. Se no plano discursivo freqüentemente é difícil compreender os interesses dos atores e as estratégias do poder. Faria Lima recebera em 1992 em Jabaquara 455 votos e conquistou. Mas no governo do seu sucessor Jânio Quadros esses enfoques participativos acabaram sendo esquecidos. O setor imobiliário deveria. bem situadas e próximas ao centro.

2 26.2 28.1 40. em milhões de R$ (1996) 1980 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 3.5 receitas tributárias 17.7 26.8 7.7 10.6 28.7 48.8 16.7 4.1 11.8 educação 10.7 7.5 16. em % dos gastos totais.479 5.5 18.1 12. já nas obras públicas o aumento de 726 milhões para 1. segundo tipos de gastos. 16.gov.9 38.4 16.6 11.8 14.1995 1980 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 12.6 8. A fama de ”construtor” de Maluf foi tão justificada como a do PT de ter sido o governo ”em prol da educação e da saúde”. Tabela 34: Despesas.1 39.5 20.9 21.0 39.1 17.1995.6 16.0 19.br (28 de julho de 1997) Tabela 35: Despesas. 1980 .d.2 19.8 31.9 21.6 16.469 425 649 451 639 760 762 1.2 saúde 19.0 juros + amortizações 23.4 9.6 31.5 42.3 3.2 35.1 Construções e instalações Fonte: www.gov.5 12.9 43.1995.908 4.5 cota-parte do Fundo de Participação dos Municípios 14.3 14.5 15.2 35. As empreiteiras estavam entre as empresas que deram as maiores contribuições para as campanhas eleitorais de Maluf.1 pessoal e encargos sociais n.5 33.8). Uma primeira referência ao estilo orçamentário populista da direita se pode ver na evolução do item ”construções e instalações”.3 24.5 13.1 16.6 20.1 12.357 3.786 3.3 31.2 25.3 34. a queda nos setores de saúde e educação durante o governo de Maluf não é tão nítida.d.7 51.2 10. Município de São Paulo.seade.9 15.109 6.9 6.5 16.0 26.6 24.8 20. Município de São Paulo.0 21.7 31.6 8.0 13.7 16.9 27.113 dos gastos.1 15.br (28 de julho de 1997) Tabela 36: Despesas.7 Financiamento do crédito Fonte: www.3 53. saúde e habitação a proporção aumentou e durante o governo petista os valores ficaram claramente acima dos dos governos direitistas. segundo setores.291 milhões de reais é impressionante. 35.6 7.4 14.2 13.6 33. posições selecionadas 1980 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 50.9 31.1 (de 14.535 5.1 28.0 8.1 11.6 14.gov.4 15.seade.2 53.9 13.2 6.2 IPTU 32.6 6.4 28.0 14.5 17.7 39.7 51.8 38.9 36.3 15.9 16.9 18.7 10. 1980 .291 construções e instalações Fonte: www.3 9. No governo de Jânio Quadros a participação percentual no ano das eleições aumentou para 31 (de 15.2 habitação 14.473 gastos totais 449 509 652 536 501 678 795 903 830 635 723 829 educação 353 386 460 489 658 607 903 888 929 736 802 981 saúde 665 486 590 633 738 648 785 798 731 670 741 985 habitação 514 411 379 616 1.4 13. 1980 .br (28 de julho de 1997) 113 .1 15.0 15.744 4.1 14.5 23. em % das receitas totais.2 15.8 receitas próprias 40. Em números absolutos.9).1995 1980 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 23.6 38.4 investimentos Fonte: www.br (28 de julho de 1997) Tabela 37: Receitas.8 21.seade.gov.473 3.6 31.0 9.535 4.1 16.8 14.seade.1 12.4 27.1 14.9 33.3 13.338 4.6 336. Nos setores da educação. Município de São Paulo.d. Município de São Paulo. posições selecionadas.6 2. segundo setores.6 32. 1980 .3 7.6 15.2 42.7 12.4 14.4 7.3 28. no governo de Maluf já se pôde constatar no ano anterior à eleição um aumento para 21.5 29.2 32.8 23.5 n. n.3 14. em % dos gastos totais.9 18.7 cota-parte do ICMS n.092 5.2 15.5 15.4 12. 37.5 4.1 14.0 60.6 28.6 30.5 6.7 8.d.6 30. A política orçamentária do PT foi inversa.

A ocultação de dados orçamentários é parte essencial de uma política orçamentária irresponsável. Mas em 1995 as receitas caíram em decorrência do ICMS na esteira da centralização pelo FES. o indicador dos custos de pessoal da cidade de São Paulo. pode-se inferir as causas dessas despesas elevadas. Com 41.4%. Jânio Quadros. para evitar uma greve. considerado de central importância pelo governo federal. Desde 1997 Celso Pitta se defronta com sérios problemas financeiros. Por isso Maluf se viu obrigado a recorrer na realização dos seus programas ambiciosos de obras públicas ao financiamento por créditos. ele não alterou em nada a política tributária de Luiza Erundina.1% a 25. A participação dos impostos nas receitas chegou até a aumentar fortemente no governo de Maluf.000 na administração pública. Mas nesse caso há uma diferença entre Jânio Quadros e Paulo Maluf. São Paulo conseguiu assim aumentar a sua participação em 45%. Maluf conseguiu iludir os eleitores. foi responsável por uma redução da arrecadação tributária de 38. Durante o governo de Maluf ocorreu somente do segundo para o terceiro ano um aumento de R$ 575 milhões para R$ 1. 43 As empresas privadas de ônibus. O PT tentou ampliar o espaço de atuação local. Os investimentos maciços feitos pelas administrações de direita.44 Mas com base na reforma constitucional de 1988 valia sobretudo para os municípios que o custo crescente do funcionalismo estava relacionado com a responsabilidade crescente dos municípios (Melo 1996: 19). que faz exigências ao Estado.Além disso existe uma política de terceirização. Essa estratégia foi extremamente perigosa diante da política de juros elevados do governo federal.2 bilhões. A sorte do PT. Até 1991 as receitas tributárias aumentaram nitidamente. isto é. deveriam ser pagos (Novy 1998: 360 s. Elas estão estreitamente relacionadas com gastos nas áreas da educação e da saúde. razão pela qual o número de creches diretamente administradas caiu de 400 (1992) a 293 (1997). foi que a reforma constitucional conduziu inicialmente a montantes mais elevados de pagamentos obrigatórios de transferência. Creches são obrigadas a fechar ou rescindem os seus contratos com o município por causa do atraso de pagamentos.114 A distribuição segundo tipos de gastos também revela diferenças claras. os gastos com pessoal do governo petista foram nitidamente superiores aos dos outros.000 funcionários. Em 1992 foi realizada uma campanha da mídia contra a proposta da administração municipal de tributar mais os 50. mas 42 No Estado de São Paulo.9% dos recursos previstos no orçamento. Mas uma vez eleito. A política fiscal rigorosa da esquerda contrastou com o ”populismo econômico” da direita.42 A recessão no início dos anos 90 atingiu duramente a administração municipal. Maluf terceirizou muitos setores (sobretudo os transportes). anulou apenas a forte preferência dada antes aos municípios menores (cf. herdados da administração de Paulo Maluf.000 maiores terrenos. os operadores privados do PAS e as empresas privadas de coleta de lixo ameaçaram tomar medidas de combate. As empresas de ônibus receberam R$ 20 milhões para não entrar em greve. Durante o governo de Jânio Quadros o financiamento com créditos aumentou nos três anos de R$ 234 milhões a R$ 976 milhões e finalmente a R$ 1. Novy 1998: 359).000 pensionistas e 10.). mas eles se revelaram cada vez mais como crise de insolvência. De início eles eram considerados problemas de liquidez. sobretudo no fim dos seus mandatos. combatido pelos governos federal e estadual e pela parte conservadora da sociedade civil. 44 A cidade pagava 156. têm créditos a receber de R$ 330 milhões. Como era de se esperar.6% das receitas globais do município. A campanha desembocou em um boicote tributário extremamente eficaz que contribuiu. o aumento dos municípios foi em média apenas de 31%. entre outras também as do ”Projeto Cingapura”. A administração municipal fundamenta isso com a flexibilidade maior. na direção de algumas empresas que vêem o Estado como cliente mau pagador. Mesmo se o levantamento dos gastos com pessoal é difícil.1%. perfeitamente costumeira em tempos de evolução dinâmica da economia.103 milhões. embora façam negócios razoáveis com ele. As empreiteiras. as cooperativas do PAS R$ 135 milhões. A estrutura das receitas apenas complementa o quadro já obtido. 4 de outubro de 1997). R$ 235 milhões oriundos do governo Maluf. Tal política. mas os problemas atingiram o seu sucessor com toda a dureza. 113. embora tivesse herdado um endividamento elevado de Jânio Quadros. no entanto. as empreiteiras R$ 13 milhões. Em 1996 o governo municipal pagou apenas 67. para que o ”Projeto Cingapura” não parasse e as empresas de coleta de lixo R$ 30 milhões. possibilitada por essa política. 114 . revelou-se catastrófica durante a acumulação estagnante combinada com a política de juros altos. 33. razão pela qual os gastos de pessoal aparecem agora em termos meramente contábeis como pagamentos por serviços prestados por empresas privadas. Mas mesmo em outras posições pode-se constatar diferenças importantes. Maluf apoiou esse boicote e beneficiou-se dele. com investimentos em áreas-chave do Estado. caso o governo municipal não pagasse. foi muito baixo (Mare. até dezembro de 1997 apenas 42. O Secretário da Fazenda do Município indicou como razões da crise que as receitas do ICMS teriam regredido e que compromissos de curto prazo no montante de R$ 1. O PT foi o único governo que logrou reduzir o serviço da dívida. Durante o governo do PT não houve nenhum ciclo eleitoral. ao lado de problemas de ordem fiscal.964 milhões! Já não admira mais que o governo Maluf também não tenha mais fornecido dados sobre o montante do seu endividamento ao instituto estadual Seade a partir de 1995.43 As relações de poder sofreram um deslocamento fundamental: da sociedade civil composta por cidadãos.000 nas empresas municipais ou em empresas terceirizadas (Huerta 1998). Municípios que não aumentavam o seu quadro de pessoal não eram necessariamente eficientes. também substancialmente para a deslegitimação do PT (Eder 1997: 168-172). o que. egresso da tradição de governos conservadores. foram efetuados sempre por meio de endividamento. Essa é a estratégia típica de destruição do Estado e da sua capacidade de cumprir os seus compromissos. o financiamento com créditos permaneceu em nível baixo.

Uma CPI do Congresso ocupou-se com a fraude dos títulos da dívida municipal que trabalhou com eficiência até o momento de Maluf retirar a sua candidatura à presidência. Não apenas no plano do governo federal.115 podem simplesmente ter negligenciado o setor da prestação de serviços públicos. 45 Paulo Maluf e Celso Pitta estão enredados em uma longa lista de acusações que foram em boa parte confirmadas ou nãorefutadas.45 Sob o governo de Jânio Quadros.gov. A gama se estende de fraudes com títulos da dívida municipal. Em 1997 toda a dívida do município se cifrava em R$ 9 bilhões.2 bilhões (1993) (www.br de 14 de abril de 1999). mas os responsáveis pelas decisões foram exonerados das acusações mais graves (Novy 1998: 361).seade.7 milhões aos cofres da cidade. A administração petista reduziu-a a R$ 2.3 bilhões (1989). Depois as irregularidades foram registradas.3 bilhões (1986) a R$ 8. 115 . a dívida consolidada do município de São Paulo saltou de R$ 2.7 bilhões (1992) e R$ 2. mas também na cidade de São Paulo os governos de direita forçaram o Estado para a armadilha do endividamento. ultrapassando assim o montante do orçamento municipal. que custaram R$ 10. até a compra superfaturada de galinhas de parentes de Maluf pela prefeitura e uma declaração de renda falsa de Pitta.

A conquista da América serviu à transferência transcontinental de riquezas. O colonialismo constituiu a dependência política de Portugal e da sua nobreza. de que sempre os mesmos grupos estariam estabilizando com recursos sempre iguais o seu poder por séculos a fio. Os atores in loco não dispuseram nem política.116 4 O reordenamento da des-ordem ”A burguesia quer ficar rica.mediante impostos. De início lançaremos um olhar sistêmico sobre a estabilidade do Brasil. Como o Brasil só podia influir de forma muito restrita no preço das matérias-primas e como além disso os preços oscilavam fortemente. concebida como empreendimento político-econômico. em outros momentos enfraquecia esses espaços. restringiu-se a organizar o espaço de entrelaçamentos políticos necessário para o redirecionamento . Enquanto houver burgesia. Os dois capítulos seguintes retomam a discussão sobre o desenvolvimento do Brasil e resumem-na com vistas à dialética de ordem e des-ordem. foi necessário constatar a permanente sensibilidade a crises de acumulação e regulação. assegurar a ”ordem” dos privilégios estamentais hierarquicamente definidos. Assim as mudanças. de acordo com o princípio de que alguma coisa deveria mudar para que tudo permanecesse como está. surgiu a impressão de que nada estaria mudando no Brasil. no processo de comercialização no mercado mundial. Esse espaço de entrelaçamento econômico era dominado pelo capital comercial internacional que monopolizava a importação e exportação de mercadorias. o comércio mundial dominado pelas potências do centro determinou as estruturas locais de poder. o preço do açúcar. Os excedentes gerados na colônia oxigenaram os centros do capital comercial da Europa Ocidental e financiaram o consumo de luxo dos favoritos da corte lisboeta. fenômenos de superfície conexos com o campo de poder construído sobre fundamentos incertos. Mas o olhar sobre as crises e os seus atores exige uma análise da conjuntura. A posição periférica do Brasil parece ainda reforçar as instabilidades do desenvolvimento capitalista. Enquanto espaço de entrelaçamento. No curto prazo. A Inglaterra tornou-se potência dominante. Também aqui valia que o grande poder para dentro da unidade de produção açucareira enfrentava o reduzido poder para fora. Por outro lado. Nos diferentes sistemas de produção organizados à maneira de um arquipélago e orientados para a exportação. que apesar disso podem ser constatadas. A análise em termos de teoria da regulação proveu-nos dos fundamentos necessários para tal fim. 4. que canalizou o excedente produzido in loco para a Europa. isto é. relevando uma dialética de estabilidade e instabilidade na estrutura fundamental da des-ordem. não haverá poesia” (”Burguesia” de Cazuza ) As explanações dos capítulos precedentes representaram os poderes sobre o espaço e os espaços de poder no Brasil. taxas e monopólios. seriam apenas fenômenos de superfície. Por um lado.1 A lenta transformação dos campos do poder Antes da Independência em 1822 não há como falar de um campo autônomo de poder no Brasil. O palco local era formado pela fazenda e pelo engenho de açúcar. Controlar tais redes era mais importante do que trabalhar no próprio processo produtivo.na economia mundial. do ouro e do café era um ponto nodal determinado por uma instância externa: às vezes fortalecia. A coroa portuguesa tentou deixar intocado o campo de poder. nem na Europa nem na América. nem economicamente de uma margem de ação digna de menção. Nas profundezas da estrutura ocorreria apenas um ”desenvolvimento do subdesenvolvimento” (Frank 1969). Como a forma estrutural da concorrência estava orientada para e 116 . atribuiu-se ao Brasil uma posição subordinada . por conseguinte. organizados de modo autoritário-hierárquico e lugares da produção na colônia. O freqüente recurso à violência e coerção e a repetida mudança de regime seriam. Como Portugal era fraco demais para realizá-lo apenas com suas próprias forças.periférica . a integração da análise da estrutura e da ação. o ouro brasileiro da economia mineradora aliviou Portugal de medidas de adaptação na esteira da crise da cana de açúcar e seduziu o país a continuar desistindo de uma política de industrialização protecionista. Mas a fraqueza externa de Portugal fez com que a supremacia territorial não se consubstanciasse na consolidação duradoura de seu espaço de poder.

aumentou a dependência dos estados do capital britânico. de acordo com a qual a influência internacional direta devia se dar de forma primacialmente econômica. Isso se coadunava às mil maravilhas com a estrutura global. bem como foi impedido o surgimento de um modo de regulação estável. No Brasil a regulação nunca esteve 117 . Com isso aumentou a dependência ”externa” dos atores no plano ”interno”. As relações capitalistas de produção in loco aumentaram. a formação de um bloco nacional foi impedida pela descentralização. estas. aumentou a influência da Inglaterra nos orçamentos regional e nacional. igualmente os entrelaçamentos creditícios mais estreitos com o exterior. seja por intermédio do salário mínimo ou por intermédio do controle pelos sindicatos. a segunda adaptou os entrelaçamentos transatlânticos à realidade pós-colonial. mas não produzidos no Brasil . baseou-se no exercício direto da violência. No curso do séc. o fortalecimento do plano nacional postergado por 40 anos. Para esse tipo de acumulação política ele precisava atuar como Estado ampliado. Durante séculos. Por um lado a Europa desempenhava. no plano interno a acumulação foi dificultada. A influência política de fora para dentro do território precisava agora exercer-se de forma mediada por intermédio dos detentores nacionais do poder. Isso levou a uma mudança da forma concreta do capitalismo. Entre 1930 e 1980 constituiu-se um regime de acumulação estável e um modo de regulação relativamente estável. pois os entrelaçamentos transatlânticos se concentravam no espaço que era capaz de produzir excedentes. Devido à reduzida complexidade do assentamento dos colonos portugueses. com o açúcar e o café. aumentou o papel do capital estrangeiro no financiamento do desenvolvimento. pois o grande excedente regionalmente produzido ensejava uma margem de ação. mas elas perderam em importância diante dos entrelaçamentos de capitais. Ele era controlado pelos barões do café. Essa dependência foi mais reduzida na região cafeeira. A partir de agora a oligarquia agrária. quando a sociedade começa a diferenciar-se. já não mais proprietária de escravos. um papel-chave também nessa fase. seja para capturar índios ou para manter os escravos trabalhando. XIX. Subsistiram as relações comerciais que o grande comércio controlava e o Estado beliscava. O estado-nação era o ponto nodal da regulação. Por essa razão o campo regional de poder em São Paulo organizou-se menos econômica. A relação salarial foi igualmente regulamentada de forma essencialmente estatal. mas também com a burocracia estatal. Mesmo na sua metamorfose em capital industrial e comercial. Ao ingressarem na produção industrial nacional. tanto por parte das empresas quanto por parte dos trabalhadores. a primeira levou à constituição da nação em estado-nação. A visão do Estado enquanto protetor de interesses empresariais consolidou-se em forma institucional. o capital cafeeiro permaneceu em elevado grau regionalmente controlado. por sua vez. Ao lado do comércio. Na base da fragmentação política havia uma continuidade da dominância social e econômica do velho bloco de poder. A dependência externa deslocou-se do capital comercial comprador e vendedor de mercadorias na direção do capital financeiro que financiava o endividamento do Estado e investia diretamente na ampliação da infraestrutura. os bandeirantes eram o grupo mais dinâmico. um fordismo periférico. baseou o seu poder nos planos local e regional cada vez mais na propriedade fundiária. Com o fim do Império a estrutura territorial do antigo bloco de poder se alterou. Só tardiamente o mercado mundial passou a ganhar importância como instituição econômica central. O capitalismo comercial dos séculos precedentes transformou-se crescentemente num regime de acumulação dominantemente extensivo.117 dominada por fora. na região açucareira do Nordeste. os barões do café construíram regionalmente a sua posição dominante e lograram também subordinar a política do governo federal aos seus interesses. pela via das exportações e importações de mercadorias e do controle político de Portugal. Bens de produção e instalações de infraestrutura foram criados. no poder das armas. Os conflitos salariais tendiam à politização. As empresas harmonizavam as suas próprias estratégias não somente com o mercado. Em 1822 a Independência lançou as bases para que a dinâmica política começasse doravante a separarse da dinâmica econômica. estavam harmonizadas com a forma social e a sua posição na totalidade da estrutura capitalista. A forma concreta era o corporativisimo estatal e a ocupação de posições no aparelho de estado por atores não-estatais. Com isso mudou a estrutura da dependência. XIX. um grupo de homens de famílias influentes exerceu a dominação local em São Paulo. São Paulo ficava à margem dessas evoluções. o poder permaneceu personalizado por muito tempo. mas primordialmente militar e politicamente. Pode-se falar de um bloco de poder regionalmente dominante somente no séc. Os governadores e os estados eram o ponto nodal político do poder. em virtude do grande setor de subsistência. Com a evolução das estruturas capitalistas no Brasil e a expansão territorial das relações de mercado aprofundou-se também a dependência dos centros capitalistas.configurando uma causa adicional da dependência externa. Isso facilitava o controle político. mas a dependência de São Paulo era menor do que a do Nordeste. São Paulo era mais pobre e por isso tinha menos a perder em crises. A ação reproduzia-se em lógicas institucionalizadas de ação. O regime de acumulação extensiva permaneceu incompleto.

e a partir dos anos 50 cada vez mais a indústria estrangeira. na dominação maior do mercado nacional pelas empresas paulistanas. no entanto. mas por oligopólios dominados de fora. primeiro como mercado interno.g. de modelo burocrático de government para modelo descentralizado de governance. mostrava-se e. que foi em parte abertamente repressivo. típico para países industrializados. Essa regulação estatalmente controlada prestava-se sobretudo a regimes ditatoriais. ela impediu uma transformação na distribuição da terra. Com o Plano Real o bloco dominante encontrou um novo arranjo institucional que abrangia todas as formas sociais da regulação. Como novo grupo determinante a indústria nacional. São Paulo continuou dando as cartas. orientada para o mercado interno. O mercado interno estagnou e o comércio exterior não aumentou suficientemente para dinamizar o desenvolvimento industrial. praticamente inexistiu no Brasil. começou a perder importância. que lograram formar-se na esteira da abertura unilateral do mercado. quando a moeda nominal já não pode mais fazê-lo. A classe trabalhadora e a camada média não faziam parte do bloco de poder. O capital paulistano logrou consolidar a sua supremacia no mercado nacional tanto sob regimes democráticos quanto sob regimes ditatoriais. a expensas de outros capitais regionais. 1 Se a moeda não cumpre as suas funções de guardar valores e ser critério de aferição do valor. A concorrência não foi mais determinada pelos oligopólios nacionais no mercado fechado. acoplado aos interesses da burocracia estatal nacional. que no entanto concorriam entre si no mercado nacional. porque controlava o setor-chave do capital industrial. A partir de 1974 o campo de poder econômico do mercado interno. São Paulo começou mais uma vez a redirecionar o seu comércio exterior regional. A fixação do salário mínimo assegurava apenas um salário de subsistência. o acoplamento de aumentos de produtividade e evolução do salário real. isto é. No entanto. Pôde tornar-se centro do espaço do poder nacional. pela primeira vez na história brasileira. Ganharam influência os interesses de capital orientados para o mercado interno. do mercado mundial para o mercado interno. Com a ”internacionalização do mercado interno” adquiriram importância aquelas empresas multinacionais que tornavam permeável o recipiente do poder autônomo nacional. um lugar no jogo do poder. A lógica de ação das empresas. Esta foi a forma irracional da luta de classes que era compatível com a estrutura concreta da des-ordem. O campo dos serviços financeiros tornou-se cada vez mais importante. a forma social corre perigo. A moeda foi regulada privadamente pelos mercados financeiros internacionais e o Estado foi reestruturado. depois como sistema de produção. apenas da imitação de uma ruptura já efetuada em todos os outros países latino-americanos. Promovia a integração nacional. o Brasil usou assim o seu espaço de ação para desistir de uma estratégia autônoma e inserir-se num movimento mais amplo. mas em regimes democráticos a regulação estatal sempre provocou resistências maciças do empresariado. No seu lugar estabeleceu-se um modelo competitivo. Sobretudo o populismo ampliou as margens de ação para processos de trocas políticas das classes baixa e média. Desde 1956. Por fim o valor do dinheiro foi fixado nacionalmente. essa lógica da produção e do comércio de mercadorias para o mercado interno foi gradualmente minada pela transferência de tecnologia e sobretudo pelo financiamento externo. mas não a composição do bloco de poder que se servia desse campo. o seu papel foi meramente defensivo. Ambas as vezes São Paulo fortaleceu a sua posição central. dominado pelo regime financeiro. Tratava-se. sobretudo do capital industrial representado pela FIESP.1 Com o modo de desenvolvimento centrado no estado-nação alterou-se a hierarquia. Nessas décadas São Paulo voltou-se de ”fora” para ”dentro”. Isso levou a uma homogeneização da produção industrial no espaço nacional. sobretudo a paulistana. mas produziu em grande parte um deslocamento do poder na direção do capital. entrou no jogo. Por fim o modelo corporativista-autoritário da organização do trabalho entrou em colapso.118 vinculada unicamente a relações fordistas de trabalho. Mais uma vez a oligarquia agrária pôde garantir o seu lugar nesse bloco social concebido como pacto de não-agressão. Esse foi um modo de regulação que se distinguia fundamentalmente do fordismo periférico e foi implementado nos últimos anos com uma rapidez insuspeitada. Os entrelaçamentos econômicos em vias de internacionalização abriram à cidade de São Paulo a possibilidade de constituir-se em centro de controle e decisões. por meio da violência estrutural do desemprego. por meio de investimentos diretos. encontrando-se para a inflação uma resposta institucionalizada na indexação. Mas no Brasil se viu que a moeda indexada também pode cumprir essa função. A ”internacionalização do mercado interno” e o deslocamento conexo do controle para o exterior foram uma ameaça constante à reprodução da estrutura produtiva nacional. no qual a indústria de São Paulo era dominante. afastando-se do mercado interno na direção do mercado externo. estruturado de forma oligopolista. transferência de tecnologias e remessas de lucros. No campo nacional. A relação de concorrência era determinada nacionalmente mesmo para as empresas multinacionais. 118 . mas adquiriram.

foi utilizada agora para enfraquecer duradouramente a nobreza rural. que era em si contraditória e subtraía à nobreza rural a propriedade. Assim uma análise da conjuntura une momentos aparentemente separados. amparada no argumento da defesa da soberania nacional. A força de Portugal sempre foi de natureza militar-política. 115 anos antes da conquista do Brasil. os comerciantes portugueses e aqueles comerciantes que atuavam em Portugal perceberam logo que sem a sua inserção na corte o seu sucesso econômico não seria duradouramente exitoso. cap. O Estado. Nesse dado está a raiz da sua periferização na Europa. o nó do poder estava agora na corte. A civilização européia e a cultura ideal e material foram embarcados para ultramar. Mas como o poder estatal estava concentrado nas mãos do estamento palaciano. mas apenas crises conjunturais (Fernandes 1987: 262). Ao foco econômico da análise estrutural foi contraposta a ênfase em processos políticos na análise do palco do poder construído sobre um campo de poder. fundando-se a Dinastia de Avis (1385-1580). As análises de estruturas e de ações e a representação separada dos diferentes planos espaciais são traduzidos para uma análise simultânea. a ação e a estrutura. Desenvolveram aqui técnicas de dominação que fizeram afigurar-se suportável aos grupos dominantes in loco o seu papel periférico em termos mundiais. A primeira grande cesura que influiu na via evolutiva brasileira por vários séculos foi a revolução portuguesa de 1383/85. que se tornaram o estamento dominante em Portugal (Faoro 1997: 45). fossem eles banqueiros. A nobreza rural buscou estender seu poder econômico ao campo político. A Lei de Sesmarias de 1375. Mas essa impressão perdurou pouco (Faoro 1997: 99-104). Tirou partido dessa posição para dinamizar o comércio. eventos regionais e nacionais. por sua vez. Isso explica em parte por que os grupos dominantes se aferram teimosamente a privilégios e por que existe uma grande solidariedade entre as diferentes frações do capital. os senhores locais dominavam o espaço de poder das suas propriedades rurais e eram de resto periféricos na topologia do poder. com regras próprias e sem ligação com o povo. a aparente irracionalidade dos atores e os resultados irracionais. Por sua vez. Com suas espadas e caravelas eles abriam caminho para o intercâmbio transatlântico. A estrutura do capitalismo europeu em vias de formação ameaçou Portugal similarmente à América. representado por esse novo estamento palaciano. a des-ordem da periferia. destinados ao processo de produção na Europa.2 A imponderabilidade do instante Numa primeira rodada examinei. razão pela qual os eventos e as estruturas descritas nos capítulos precedentes agora podem ser representados de forma integrada. este precisava participar das receitas do comércio ultramarino. Por isso os donos do poder em Portugal especializaram-se cedo no campo do poder político. Florestan Fernandes se vê inclusive levado a não reconhecer na história mais moderna do Brasil rupturas estruturais. O poder dos agentes da economia. Contra tal se armou a resistência. o capitalismo brasileiro é de difícil regulação. Os navegadores portugueses eram guerreiros e aventureiros. Qualquer poder duradouro somente podia ser constituído em termos econômico-políticos. A demanda de financiamento e o elevado risco exigiam uma organização desse empreendimento em termos de capitalismo de Estado. não os produtores portugueses. Essa técnica do poder constituiu o patrimonialismo como forma de Estado distinta do feudalismo (Faoro 1997. comerciantes. tornou-se o ator-chave do desenvolvimento econômico. artesãos ou simples camponeses. A primeira impressão dos portugueses foi a de um universo idílico.se revelasse um negócio altamente lucrativo. Este. permaneceu restrito. mas não a posse da terra. pois uma conjuntura é um determinado tempo espacial no qual coincidem a política e a economia. obedecia cada vez mais a uma lógica do capitalismo comercial. A América forneceu os recursos materiais. Quis transformar em nova rainha a sucessora legítima ao trono. como fases evolutivas subseqüentes. Assim o aparelho burocrático de Estado institucionalizou-se como minoria alheada da nação. as viagens de descobrimento e o colonialismo tornaram-se um empreendimento estatal. que no entanto era aparentada à casa real espanhola. Agora esses dois enfoques serão reunidos em uma análise da conjuntura. com os governados (Faoro 1997: 93 s. quando a inserção da África e da América na economia européia estava na ordem do dia. Devido ao seu estatuto perifério. Cedo ficou evidente a necessidade de uma ordem militar-administrativa para organizar a 119 .119 4. no rei e nos funcionários e nobres palacianos. Geograficamente. Era necessário adiantar grandes somas de capital para financiar uma expedição que depois do seu retorno talvez . os produtos primários e os metais preciosos. em uma palavra. O rei governava soberanamente e controlava os pontos nodais do poder sobre o espaço.). Na pauta estão sempre a contraditoriedade do desenvolvimento. No plano econômico Portugal praticamente não conseguia opor nada ao processo da ”destruição criadora”. Nos séculos da dominação portuguesa essa des-ordem foi também implementada no Brasil.frise-se: talvez . A aristocracia territorialmente enraizada foi marginalizada. 1). por meio da análise estrutural. Em uma guerra de dois anos a nobreza rural foi derrotada. o poder sobre o espaço e o espaço de poder em termos cronológicos. para tornar consciente a multiplicidade espacial de um momento histórico. que beneficiaram a burocracia palaciana. Portugal encontrava-se em posição vantajosa diante dos países mediterrâneos.

). por sua vez. o que lhe permitiu a transferência do estilo opulento de vida da aristocracia européia para a América. Pedro. cuja sede passou a ser a partir de 1756 o Rio de Janeiro. pois eles importavam todos os bens de consumo importantes.2 O comércio exterior era de decisiva importância para os latifundiários e comerciantes de escravos. as grandes distâncias e o afastamento dos produtores dos centros da administração portuguesa permitiram uma autonomia da plantação e do engenho açucareiros que sempre era registrada com desagrado.). No plano local os municípios surgiam freqüentemente antes do início da colonização efetiva. O governador era a primeira representação territorial do poder político no plano espacial que haveria de ser mais tarde a nação. contudo poder influir no poder sobre o espaço. A aristocratização vertiginosa foi típica para a rápida mudança de mentalidade da burguesia (Faoro 1997: 287). A riqueza dos barões do açúcar era medida pela sua propriedade de escravos. No comércio internacional. fixada em 15%. Sem as lideranças antigas e com uma série de atores locais novos. Mas uma participação mais ampla do povo. O preço de escravos. Na esteira do movimento independentista norte-americano a liberdade e democracia se afiguraram os fundamentos adequados do desenvolvimento americano.000 e 15. Estavam localizados no exterior tanto os mercados de comercialização mais importantes quanto também o 2 Em contrapartida. Posições antiportuguesas e liberais passaram a ser influentes nos grupos dominantes.120 colonização dos trópicos como grande empreendimento comercial. acompanhado da corte inteira. celebrado com Portugal em 1703. XIX. Quando a corte retornou depois do fim das guerras napoleônicas a Lisboa. a liberdade de comércio e a eliminação dos intermediários portugueses eram possíveis. os capitães e governadores eram. uma variante de democratização era praticamente incompatível com um ordenamento estamental. A decadência da economia colonial na segunda metade do séc. Também aqui a unidade político-administrativa formou-se de acordo com uma lógica do controle sobre o espaço.). comerciantes portugueses. A Inglaterra estava interessada no livre comércio e atingiu a sua maior influência no Tratado de Methuen. os mercados britânicos não foram abertos aos produtos brasileiros que concorriam com os das Antilhas Inglesas (Furtado 1975: 95). herdeiro do trono português. Já em 1808 a abertura dos portos brasileiros para os navios ingleses e a conseqüente concessão de direitos de extraterritorialidade e uma tarifa alfandegária preferencial extremamente reduzida. Senhores absolutos in loco. mas por D. Portugal era um parceiro júnior que só podia beliscar os lucros. quase sempre. O zelo revolucionário orientado nessa direção logo se volatilizou.000 pessoas. O barão do açúcar dominava seu respectivo espaço de poder como proprietário de escravos e patriarca. Os interesses locais de produção. correspondeu aos interesses mais intrínsecos da corte que fugira de Portugal (Pessoa 1983: 24). O tamanho do Brasil. Não obstante. Em 1807 o príncipe regente fugiu de Napoleão Bonaparte para o Brasil. tinha muita importância para a colônia.000 a 110. autogerida dos habitantes era algo desconhecido nesse ordenamento do espaço (Faoro 1997: 146 ss. XVIII reforçou os conflitos sociais e políticos. meros ajudantes de ordens dos reis. O Rio de Janeiro se transformou em centro do poder. Em 1548 foi instituído na Bahia o Governo-geral com o objetivo da unificação territorial e jurídica (Faoro 1997: 144). O cordão umbilical das relações monetárias para a Europa fazia-se sentir de forma inequívoca. pois por meio dele se organizava a sujeição direta dos escravos e dos indígenas. No período de florescimento da economia açucareira ele foi rico. No campo de poder dado. ditada de cima para baixo. sem. pagos com a exportação do seu produto principal. Por meio da doação grandes áreas de terras foram transferidas como unidades administrativo-burocráticas ou capitanias aos favoritos para fins de utilização. a velha ordem colonial desmoronou. Mas o comércio local com sua grande extensão geográfica abriu também campos de atividades para monopolistas locais que eram. sua população aumentou em apenas dez anos de 50. O capital comercial transferiu os lucros para o Noroeste Europeu.000 (Faoro 1997: 249). Um espaço de poder enquanto unidade autônoma. o governador se transformou em vice-rei. Como barões do café. formou-se um bloco de poder nacional no âmbito do mesmo campo de poder. Mas em tempos ruins ele só conseguia sobreviver por meio da exploração ainda maior dos seus subordinados. Em Portugal. A nova des-ordem assentava no fundamento do patrimonialismo estamental. os representantes dessa classe se tornaram os atores centrais no séc. à qual o barão do açúcar não tinha acesso. nas relações com o exterior. não obstante o seu monopólio político. receberam apenas uma posição subordinada no campo de poder. que interrompeu o desenvolvimento industrial de Portugal (Furtado 1975: 78 s. O endividamento do rei junto às casas comerciais estrangeiras tornava-o dependente delas. que fundou uma monarquia em 1822 sem esperar muito tempo pelo sancionamento por uma assembléia constituinte. Quando o Brasil se tornou cada vez mais importante para Portugal. O liberalismo do movimento independentista não tardou em esbarrar nos seus limites estruturais (Fernandes 1987: 34 ss. era ditado pelo comércio e sua lógica.). O rei necessitava dos financistas para poder manter o estilo de vida da corte lusitana. aproximadamente entre 10. Além disso funcionários públicos específicos tinham competência para cobrar taxas e impostos alfandegários. mesmo se o próprio país praticamente não gerava riqueza (Faoro 1997: 116 s. esse eficiente empreendimento da transferência de recursos para a Europa serviu apenas para fortalecer a des-ordem estamental parasitária. não como cidadãos. organizados como espaço de poder local. O grito de independência porém não foi dado pelo povo brasileiro. 120 .

formado por membros vitalícios nomeados pelo imperador. Como ela de início não estava inserida na estrutura burocrática do Estado. Mas os barões do café também optaram pela república. e desde 1850 também a Guarda Nacional. impondo-o também em uma nova constituição. mas uma maior participação na nação (Faoro 1997: 316 ss. a profissão de fé entusiasta da liberdade econômica era subrepticiamente desmentida no importante setor cafeeiro. concedido em 1898. uma série de medidas deflacionistas 121 . Mas isso praticamente não equivaleu a uma abertura social. não reivindicaram a independência. A partir de 1870 a crítica ao Império cresceu. Uma nação estamentalmente dirigida parecia ser a forma mais eficaz para defender a economia escravista. entre as várias frações do capital e os outros grupos paulatinamente emergentes. Os republicanos combatiam a monarquia e negavam o problema da escravidão. O imperador era mais poderoso quando se tratava de preservar estruturas historicamente surgidas do que quando se tratava de implementar novas regulações. Esse espaço de poder estava vinculado ao imperialismo britânico. Mas a euforia liberal durou pouco tempo (Faoro 1997: 468). ao invés de se aliarem às forças conservadoras (Furtado 1975: 115 s. No plano da economia. Os grupos regionalmente dominantes apoiavam-se reciprocamente contra a eventual oposição interna. A confiança na força da economia capitalista de mercado era tão grande que não se necessitava mais do monarca como poder moderador: em 1888 a escravidão foi abolida. A ”política dos governadores” estabilizou a estrutura descentralizada do poder. O poder sobre o espaço era controlado pelo comércio e crédito que forneciam ao espaço do poder os seus recursos. então potência dominante. As bordas do império faziam-se ouvir com levantes e rebeliões. uma cláusula de ouro introduzida na cobrança do imposto de importação (1900). em 1889 os militares deram um golpe e proclamaram a república. Diante das contradições maciças entre as diferentes regiões e o poder central e dentro das regiões. ao passo que os liberais radicais queriam abolir a escravidão e excetuavam a monarquia das suas críticas ao sistema (Santos 1978: 31). feita por expedientes.conhecida sob o nome de encilhamento . Sem despedir-se discursivamente do liberalismo.). a oposição ficava excluída. Os grupos urbanos e o exército. tornou-se o freio institucional das ocasionais tentativas reformistas empreendidas pela Câmara dos Deputados. no da política. Assim os processos de centralização implementados sob o governo de D. A constituição da monarquia parlamentarista com uma segunda câmara formada por senadores vitalícios assegurava institucionalmente a dominação das forças mantenedoras do status quo. o potencial revolucionário dos modernizadores se dissipou rapidamente (Fernandes 1987: 116). a regulação foi quase que forçosamente um muddling through. O que ficou foi a destituição do imperador e a liberdade dos escravos de vender a sua força de trabalho. opunham-se declaradamente à monarquia. o Brasil praticou de fato uma política pragmática da regulação do mercado e da construção de um estado regional fomentador da acumulação (Becker.) Mas em resposta à pressão britânica e diante de uma crise econômica. O governador e o grupo regionalmente dominante impunham os seus candidatos nas eleições. Ela via na autonomia dos estados a chance de poder seguir estratégias independentes. não em último lugar.).também não se ateve ao dogma do padrão-ouro e da neutralidade da moeda (Furtado 1975: 160). com ela também as forças centrífugas. Mas mesmo quando as províncias passaram a constituir-se como espaço de poder próprio. Pedro II não esbarraram em resistência radical. o que resultou num surto de desenvolvimento (Cano 1998a: 158 s. a nação consolidou-se como espaço de poder. que estruturava o poder sobre o espaço e intervinha no espaço do poder. diretamente com a Inglaterra. mantidas em patamares baixos pela Inglaterra até 1844 (Furtado 1975: 42). A política monetária expansiva da década de 1890 . a política econômica foi redirecionada para uma política de fortalecimento da moeda. Egler 1992: 38 ss. pois os grupos dominantes impediram esforços maiores na direção da democratização. dos quais os grupos economicamente dominantes necessitavam para satisfazer as suas exigências genericamente maiores do que no passado. cujo poder moderador consistia na compensação dos interesses dos grupos dominantes. ao passo que os primeiros pretendiam colocar o capitalismo em novas bases. A eliminação do comércio intermediário português estava no interesse dos latifundiários para poder negociar preços menores de importação. fortemente reduzido e desvalorizado depois da Guerra do Paraguai. foram subordinadas ao poder central: o Conselho de Estado. o Império (1822-1889) estabilizou um período de transição para um regime de acumulação extensiva.). A reivindicação de uma república e da descentralização estavam relacionadas com o deslocamento da dinâmica econômica para o Sul. Isso se deveu. Sobretudo a oligarquia agrária paulistana assumiu o ideário liberal-federativo. Mas como ambos estavam interessados em uma transição ordeira.121 mercado de aquisição dos bens de consumo. a sua preservação não lhe foi tão importante. A preservação da unidade territorial era a tarefa principal do monarca. Ao lado do crédito de consolidação. As fronteiras da nação podiam também ser usadas por grupos regionais como instrumentos para defender interesses provinciais. também à precária situação financeira do governo central. O Brasil independente defrontava-se com uma elevada dívida externa e interna. um abastecimento em escala mais larga e melhores condições de crédito. submetida à pressão crescente da Inglaterra. As causas eram variadas. Durante muito tempo ele dependeu quase exclusivamente das receitas alfandegárias. A polícia e os tribunais. As últimas tinham apostado nos laços unificadores da economia escravista e do crédito. Na economia.

associaram-se a ele e absorveram a sua forma de dominação política (Fernandes 1987: 203 ss. rural-local (Decca 1997: 73). percebida como plano de estabilização do poder. Os imigrantes europeus já tinham. O interesse dos comerciantes pela ”tranqüilidade e ordem” e pelos produtos importados baratos opunha-se diametralmente ao dos industriais. Mas os industriais emergentes não eram suficientemente fortes para impor os seus interesses contra os trabalhadores. a política dos governadores e o Partido Republicano conseguiam manter apenas penosamente a unidade das forças dominantes. mediante o abandono da luta de classes. Depois a taxa de câmbio despencou para uma relação de 9:1. Diferentemente do barão do café. os estados puderam subordinar os municípios inteiramente aos seus interesses. o coronel não tinha nada de aristocrático. o trabalho infantil (Novy 1998: 152). para subir em 1916 mais uma vez a mais de 16. 27 a aprox. Ou: ”O governo mudou. Silva 1986: 99s. contra a resistência maciça do empresariado (Decca 1997: 195). O Estado assumiu funções de política econômica e tomou uma série de medidas que fomentaram a indústria (Cano 1998a: 200). Num processo de centralização regional. Estar na oposição era sinônimo de exclusão do campo de poder do Estado e do sistema das trocas políticas. o coronel era um intermediário político. mas também a produção de bens de 3 Uma primeira desvalorização maciça ocorreu em 1891 de aprox.1. na moeda e no direito. Os representantes dos trabalhadores esperavam. Já durante a guerra ocorreram algumas transformações importantes.3 Mais uma vez a libra esterlina fixava o valor da moeda. mas eu não mudo: fico com o governo” (Faoro 1997: 631). Pedia-se a mão forte do presidente para suprimir os conflitos sociais e políticos. Quanto à representação dos interesses. os trabalhadores começaram a se formar lentamente como força política. A soberania do estado-nação baseou-se nessas duas colunas. 6 Em 1919 foi promulgada uma primeira lei sobre acidentes no trabalho. 5 As greves de 1917 e 1918 foram um primeiro ponto culminante de uma série de movimentos sociais de protesto e conduziram a um deslocamento da relação de forças (Fiori 1995: 79). Ao invés de substituir revolucionariamente o velho bloco de poder. Em 1923 foram promulgadas uma lei de proteção contra demissão e uma lei que instituía uma caixa de pensão para os ferroviários. na qual a esfera pública desempenharia um papel importante. Com efeito. eu sou intransigente: voto no governo”. Com a 1ª Guerra Mundial abriram-se campos de ação nacional em quase todos os países maiores da periferia (Feldbauer et al. Num campo de poder no qual o Estado burocrático podia conceder em larga escala recursos públicos a particulares sem prestar contas. Na década de 1920 ele abandonou cada vez mais o seu papel moderador. Seu detentor era o presidente eleito por quatro anos.). mas tornaram-se em muitos casos também transmissores do ideário sindicalista. 1995). o imperialismo e o feudalismo” (Decca 1997: 102 s. devido ao fortalecimento da posição brasileira no mercado mundial na esteira da guerra mundial. tornando evidente a crise da hegemonia britânica. 4 À guisa de ilustração: ”Em política. 122 . Por necessidade aumentou não apenas a produção de bens de consumo. a regulamentação do mercado de trabalho pelo estado policial provou ser crescentemente ineficaz. Para ele o poder assentava no poder e na violência legais e ilegais (Oliveira 1987: 49). por uma revolução ”burguesa” contra a oligarquia. embora sua organização partidária continuasse difícil em virtude das fortes correntes anarco-sindicalistas (Decca 1997: 201). Por isso o poder local subordinou-se com muito oportunismo ao poder regional respectivamente dominante (Faoro 1996: 625 ss. O coronel enquanto dono do poder local extraía o seu poder unicamente da delegação do poder pelo governador. 15 pence por mil-réis. realizado em 1906.122 e um aumento considerável do valor das exportações (de 26 milhões de libras esterlinas nos anos de 1896 a 1899. os empresários dispunham desde 1904 do Centro Industrial do Brasil (CIB).). mas também o padrão-ouro organizado pela Grã-Bretanha entraram em colapso. Não só o comércio. Em 1916 foi introduzido no Brasil o primeiro Código Civil que fixou as regras do Direito de Contratos. em 1925 foi promulgada uma lei para os comerciários e em 1927 foi regulamentado.4 Mas a nação continuou como um espaço central de poder. por uma aliança de modernização com os industriais nacionais. sem ajuda da oligarquia rural. Nos anos 20 ela despencou definitivamente e atingiu em 1928 um ponto baixo na relação de 5:1 (Silva 1986: 29). No lugar de uma ordem localmente fragmentada deveria surgir uma forma centralizada da regulação no plano nacional. passando a atuar no sentido da centralização do poder.6 Um comércio operado em vias organizadas importava mais aos comerciantes do que a exploração incontida no processo produtivo. por conseguinte. O fortalecimento do estadonação adotou essa perspectiva e ofereceu assim a possibilidade de produzir a coesão social.). para 37 milhões nos anos de 1900 a 1903) ensejou a reconquista do equilíbrio da economia externa (Furtado 1975: 172. o Estado buscou assegurar a ordem pública por meio de uma série de leis sociais. Mas ela foi também percebida como força unificadora que se pode opor ao passado particularista. Como os conflitos políticos se radicalizavam. Num primeiro congresso nacional.5 A nação foi. A associação comercial cindiu-se em 1927 e em 1928 surgiu o Centro de Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP) (Decca 1997: 135 ss. em parte.). trabalhado na indústria. Os industriais assustaram-se diante do que se lhes afigurava falta de capacidade de imposição do Estado (Decca 1997: 176). isto é.).

123 produção, em ramos como o processamento de metais e ferro.7 Na esteira dos aumentos de preços ocorreram em 1916 e 1917 reduções do salário real e lucros elevados, posteriormente em parte reinvestidos (Cano 1998a: 172 e 192). Os trabalhadores reagiram às perdas do poder aquisitivo com os primeiros grandes movimentos grevistas. O centro dessa nova dinâmica foi São Paulo, que pôde durante a guerra aumentar a sua participação, na produção geral, na exportação de mercadorias industriais para outras regiões do país de22,7 % (1914) para 39,5% (1917). Depois da guerra essa participação caiu para 24,2%, mas o potencial regional para a substituição das importações já existia (Cano 1998a: 187). Se o grande salto quantitativo da indústria paulistana iniciou-se nos anos de 1905 a 1907, os anos 20 assistiram às necessárias transformações qualitativas, à medida que a produção se diversificava e se formava, ainda que rudimentarmente, o setor de bens de produção (Cano 1998a: 269). A regulação acompanhava de modo claudicante as transformações fundamentais da dinâmica da acumulação. Ainda nos anos 20 o estado central procurou manter o padrão-ouro, mas perdeu em 1929 em três meses, devido à fuga de capitais, todas as suas reservas de ouro acumuladas nos anos anteriores (Furtado 1975: 185). Estava subtraída a base ao velho campo de poder. Os preços do café caíram de 22,5 cents/libra para 8 cents/libra em 1931 (Altvater 1987: 204). Em decorrência disso, o pagamento dos juros e da amortização da dívida foi interrompido e a dívida externa renegociada.8 Mas com isso a oligarquia agrária não entrava automaticamente em crise. Estavam previstas eleições para 1930 e a pauta dos grupos dominantes era business as usual, isto é, ocorreu uma luta pelo controle do espaço de poder nacional com as conhecidas e reconhecidas regras de jogo da manipulação. Sob a liderança de Washington Luis, o Partido Republicano de São Paulo quis impor o seu candidato Júlio Prestes contra a vontade de Minas Gerais e setores importantes da opinião pública. Mas a intranqüilidade na esfera pública até então raras vezes tinha logrado obter êxitos políticos. Tivesse tudo transcorrido normalmente, o poder econômico de São Paulo ter-se-ia constituído também como poder político. Talvez tivesse ocorrido assim uma autêntica centralização dos poderes econômico e político, iniciando-se uma revolução burguesa no sentido europeu (Fiori 1995a: 83 s.). De início os industriais paulistanos apoiaram esses esforços. Mas a Aliança Liberal, que era oposição em São Paulo, quis abolir a ordem dos partidos republicanos, com o apoio de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul. Seu candidato Getúlio Vargas, político dirigente do Rio Grande do Sul e ex-ministro de Washington Luis, perdeu as eleições. Mas em outubro ele chegou ao poder num golpe sem violência, com apoio dos militares. Assim o levante sem derramamento de sangue de 1930, a ”revolução burguesa” do Brasil, não foi respaldado pelos industriais; tampouco foi uma revolução contra a oligarquia agrária. Ele foi uma revolução que favoreceu a modernização conservadora. O fim da República Velha já se prenunciara com o levante militar de 1922 e a marcha dos militares orientados para a transformação pelo Brasil. Um novo campo de poder evidenciou ser necessário para estar à altura dos desafios dos tempos. A modernização foi concebida aqui como uma tarefa nacional, isto é, direcionada para dentro, visando a aproximação com o povo. Daí o estreito acoplamento de modernismo e nacionalismo no Brasil (Lahuerta 1997: 114). Oito anos mais tarde, a constante pressão das ruas e o meio urbano crítico em vias de surgimento foram suficientemente fortes para derrubar um regime, mas demasiado fracos para participar da configuração da nova ordem. Essa foi a única mudança de regime na qual o ideário liberal não foi ponto de referência utópico central de uma ordem melhor, embora a organização mantenedora fosse a Aliança Liberal. Em oposição à des-ordem existente, o povo apoiou os rebeldes, não importando o que estes pudessem representar (Faoro 1997: 683 ss.). Ao lado do liberalismo, o positivismo com sua lógica modernizadora centralista, tal como ele já tinha sido praticado exitosamente no Rio Grande do Sul na República Velha, foi um fator determinante (Bosi 1999: cap. 9). As formas radicalizadas da oposição foram o fascismo, de um lado, e o socialismo, de outro. O élan originariamente anti-oligárquico de Vargas dissipou-se imediatamente, pois ninguém queria enfraquecer efetivamente o setor que gerava as divisas. Por isso Vargas também nunca rompeu com os ”velhos” interesses cafeeiros. Como a aliança na qual ele se baseou, a sua política econômica foi contraditória.9 Os passos exitosos na direção da industrialização lhe foram impostos pelas condições gerais protecionistas da economia mundial. De início, a política industrial serviu para apoiar a agricultura e era desenvolvida ad hoc (Fausto 1981: 48 s.). Baseado na poupança interna, Vargas quis ampliar o setor de bens de produção. A participação do café no total das exportações caiu de 68,8% a 42,1%, mas continuou tendo uma importância central (Fausto 1981: 105).
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A produção de ferro aumentou de modestas 4.267 toneladas para 11.748 toneladas (1918); 5.936 novas empresas surgiram entre 1915 e 1919 (Cano 1998a: 182 s.). 8 Quando o Brasil repetiu essa medida em 1937, não houve nenhuma sanção por parte dos credores, o que se explica basicamente a partir da composição da dívida externa: 65% dos créditos estrangeiros vinham da Grã-Bretanha e apenas 30% dos EUA. Para os últimos, o Brasil era mais importante como parceiro comercial do que como devedor. Acrescia ainda o interesse norte-americano em não perder o Brasil como aliado militar. 9 No longo prazo ela consistia em uma estratégia de industrialização, mas no curto prazo a política monetária e fiscal foi restritiva (Fiori 1995a: 93).

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124 Em 1932 a oligarquia agrária e os industriais de São Paulo rebelaram-se contra o estado central e a sua política econômica pouco clara, que levaria, conforme pensavam, a degradação de São Paulo. São Paulo julgou-se mais uma vez suficientemente forte para assumir ao lado da supremacia econômica também o mando político. Mas Vargas impôs, na tradição da estratégia clássica do establishment brasileiro, preservadora do status quo, uma compensação de interesses. O estado burocrático deveria preservar-se diante do poder econômico uma certa margem de ação, para poder continuar deixando participar do bloco hegemônico membros regional e socialmente periféricos do bloco de poder. Mas Vargas também incluiu os grupos dominantes de São Paulo no novo velho sistema do poder, abrindo-lhes um acesso privilegiado à burocracia. O Estado continuou se empenhando na tarefa de desorganizar a classe trabalhadora e, caso necessário, oprimi-la. Mas não houve nenhuma hegemonia social e política do capital paulistano, em que pese a sua dominância econômica. Embora economicamente cada vez mais insignificante, a oligarquia agrária pôde estabilizar o seu poder político, formando um bastião contra as tentativas de São Paulo de impulsionar a homogeneização da nação nas dimensões espacial e social. Ao invés de um fordismo da produção de massa para o consumo das massas, dominado por São Paulo, a oligarquia agrária logrou introduzir um fordismo periférico, cujos esforços de homogeneização esbarravam nos interesses vitais da oligarquia agrária. A ”revolução conservadora” de 1930 antecipou-se a duas outras evoluções possíveis. A primeira era a assunção total do poder por São Paulo e a concentração do poder naquela parte do Brasil que estava se modernizando vertiginosamente. A opção magnificada no plano ideológico, mas de fato destituída de realismo, era uma revolução comunista. Não obstante, a classe trabalhadora e os oficiais reformistas foram marginalizados gradualmente no decorrer dos anos 30. A luta de classes foi solucionada com meios coercitivos. Isso também não foi minimamente mudado com a introdução do sufrágio universal na Constituição de 1934, ocorrida pela primeira vez na história do Brasil, pois já em 1937 o estado de emergência entrou em vigor. O estado-nação autoritário possibilitou em 1935 depois de um golpe malogrado a proibição do Partido Comunista, o desmantelamento das organizações autônomas da classe trabalhadora e de outras organizações progressistas da sociedade civil. Getúlio Vargas governou ditatorialmente no Estado Novo. No lugar dos governadores eleitos estavam os ”interventores” nomeados pelo presidente. No plano local as capitais estaduais reconquistaram a sua autonomia apenas a partir de 1953, pois até então os prefeitos eram nomeados pelos governadores. Mas as câmaras de vereadores já se constituiram em 1948 e tornaram-se canais de diálogo entre associações de bairro e o Poder Executivo (PMSPet al. 1992: 72). Jânio Quadros tornou-se o primeiro prefeito eleito de São Paulo e introduziu uma nova forma da ação política, o populismo de direita. Nas ondas da derrota do fascismo, o Brasil experimentou em 1945 uma nova euforia liberal. O governo de orientação liberal (1945-1950) proibiu novamente o Partido Comunista e acreditava poder colocar no lugar da des-ordem periférica multissecular uma ordem ocidental: uma economia democrática de mercado em aliança com os EUA. Mas mais uma vez Vargas cruzou os sonhos do establishment. Em 1950 ele chegou ao poder com o seu PTB, por via democrática, abandonando o poder apenas em 1954 ao suicidar-se. Permitiu assim a entrada em cena do populismo enquanto estratégica política irracional, mas poderosa. Diant da des-ordem do Brasil, essa era a única alternativa historicamente viável à política do establishment. Vargas, Quadros e Collor foram todos políticos que permaneceram corpos estranhos no establishment, embora a sua política servisse perfeitamente aos interesses dos grupos dominantes. A política de industrialização foi financiada sob o regime de Vargas com a poupança existente no próprio Brasil e realocações de recursos, o que a distinguiu da maioria das estratégias anteriores e posteriores; germinalmente, ela também foi financiada já por via inflacionária. O setor privado deveria ser fomentado por serviços e produtos subsidiados da indústria nacionalizada, na qual se esperava elevados aumentos de produtividade do trabalho (Oliveira 1989: 80). Mas essa estratégia esbarrou em uma resistência maciça. Acresceu o fim da Guerra da Coréia e, paralelamente, o fim do surto exportador para produtos brasileiros no período do pós-guerra. Isso levou a protestos da classe trabalhadora e em 1953 à grande greve dos metalúrgicos em São Paulo, o que facilitou a desmoralização de Vargas. Extensos segmentos do bloco dominante e sobretudo os EUA minaram a sua política econômica nacionalista. As restrições externas, concretizadas em dificuldades do balanço de pagamentos, acirraram-se a partir de 1954 (Tavares 1983: 35 ss.). Depois do suicídio de Vargas o establishment achou que teria chegado a hora para assumir a administração do Estado. Mas após dois anos de governos de transição de orientação liberal e de uma política do laissez-faire Juscelino Kubitschek (1956-1960) assumiu o poder. O seu governo continuou a aliança do PSD, partido da oligarquia agrária, e do PTB, partido do trabalhismo, e com isso a estratégia de desenvolvimento centrada no estado-nação, mas optou por caminhos bem distintos dos de Vargas: a saber, pelo endividamento externo e pelo financiamento por via da inflação, o que representou uma forma de financiamento flexível no curto prazo. Kubitschek pretendeu realizar em cinco o desenvolvimento de cinqüenta anos e recorreu para tal fim ao tripé, à trípode aliança entre os capitais internacional, nacional e estatal. A solidariedade entre os diferentes grupos de capitais deveria permitir um desenvolvimento nacional harmônico. Com a ”internacionalização do mercado interno” as empresas multinacionais tornaram-se atores principais da exploração do mercado doméstico por meio de bens de consumo duráveis. Conexamente as organizações financeiras internacionais e os EUA tornaram-se os

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125 atores que diante de dificuldades crônicas com o balanço de pagamentos podiam demarcar as fronteiras de caminhos possíveis de desenvolvimento. Kubitschek se viu repetidas vezes obrigado a tomar conhecimento do poder do Fundo Monetário Internacional, que quis impedir o financiamento da estratégia de desenvolvimento nacional (Oliveira 1989: 82-90). Mas o seu governo transcorreu sem grandes confrontos internos ou externos. Não obstante, ele não conseguiu impor o seu candidato para a sucessão e o carismático Jânio Quadros, um político populista não-convencional de São Paulo, foi eleito presidente como candidato da UDN. Quadros usou o cargo de governador de São Paulo como trampolim para a presidência da república em 1960. Tinha chegado ao governo de São Paulo graças à sua posição de prefeito da capital do estado (Furtado 1997b: 192-196). Quando o crescimento econômico arrefeceu nos anos 60, o pacto baseado no desenvolvimento nacional começou a esboroar-se pela primeira vez. Depois da renúncia de Quadros e sob a presidência de João Goulart os conservadores tentaram fazer tudo para fechar os canais da participação política e econômica dos trabalhadores e posteriormente também do movimento dos trabalhadores rurais, que tinham sido criados pelo populismo varguista. Os progressistas, por sua vez, pareceram poder participar pela primeira vez do poder nacional. Mas as reivindicações radicais referentes à reforma agrária e ao controle do capital estrangeiro não estavam - não em último lugar devido à manifesta fraqueza de Goulart enquanto líder político - nem integrados em um projeto de Estado (que Estado queremos?) nem em um projeto hegemônico (que sociedade queremos?) (Oliveira 1989: 90 ss.). As diferentes medidas de estabilização, todas fracassadas (1954/55, 1958/59, 1961 e 1963) foram momentos decisivos dos conflitos sociais, pois visavam a distribuição do valor adicionado (Fiori 1995: 97). A dinâmica industrial determinava os espaços da ação política. Kubitschek dispunha desses espaços e fazia uso deles, Goulart dispunha deles em grau muito menor e não fazia nenhum uso deles. Os conservadores passaram a preparar coerentemente um golpe. Quando este não foi possível com meios constitucionais, pois João Goulart reconquistou os seus direitos presidenciais por via de um referendo, o golpe militar foi a única alternativa. Com o golpe militar de 1964 atingiu-se uma nova, última e agora antidemocrática etapa da centralização do poder do estado-nação. A ”Revolução de Abril” realizou o que os conservadores quase tinham atingido em 1954. Os militares e os seus suportes civis assumiram o poder para reduzir a influência do Estado e realizar reformas liberais. Na realidade ocorreu, no entanto, uma modernização conservadora comandada pelo Estado e a ascensão do Brasil à condição de poder regional (Becker, Egler 1992: cap. 4). Contrariando o ideário liberal, isso levou no tocante à estrutura espacial do Estado a um enfraquecimento do federalismo, pois os governadores, à frente de todos Leonel Brizola no Rio Grande do Sul e Miguel Arraes em Pernambuco, tinham criado espaços de poder regional da oposição. Por isso os militares se interessaram especialmente pelo enfraquecimento do plano estadual. De resto, os militares também cimentaram a estrutura burocrática do Estado e cuidaram unicamente para que os canais de acesso permanecessem fechados ao povo e facilitassem a imposição dos interesses do capital. Partes do capital nacional caíram para fora do bloco dominante na recessão provocada pelos militares nos anos de 1964 a 1967. Institucionalmente, os militares lançaram as bases de um capitalismo financeiro. Em 1967/73, com o ”milagre brasileiro”, foi empreendida pela última vez a tentativa de salvar por meio do crescimento e da centralização o velho poder sobre o espaço (Oliveira 1989: 91-107). Mas dessa vez os militares não deviam apenas assumir o papel do árbitro, mas além disso participar do jogo, mais precisamente na condição de atores decisivos. O fordismo periférico não se baseou em um novo bloco de poder, mas o velho bloco de poder foi preservado em uma nova hierarquia. O capital industrial dominava, mas a oligarquia agrária cuidou de garantir a sua posição nesse bloco social concebido como pacto de não-agressão. Ela agiu de modo exclusivamente defensivo, isto é, impediu uma transformação da distribuição da terra. A classe trabalhadora e a classe média não faziam parte do bloco de poder, mas conquistaram pela primeira vez na história do Brasil um lugar no jogo do poder. Sobretudo o populismo ampliou as margens de ação para os processos de trocas políticas das camadas baixa e média. Como novo grupo determinante entrou a indústria nacional, sobretudo paulistana, e a partir dos anos 50 também a indústria estrangeira. Por intermédio do capital produtivo e financeiro o espaço ”externo”, que tinha perdido a sua importância no universo das mercadorias, começou novamente a fazer valer a sua dinâmica determinadora. O fracasso do fordismo periférico esteve vinculado a essa vulnerabilidade de ”fora”; não foi possível impulsionar um processo de acumulação autônomo, internamente financiado. A dependência externa de investimentos diretos e créditos provou ser fatal na nova crise. O campo do poder nacional sofreu uma erosão. ”Fomos felizes e não sabíamos”, eis uma afirmação freqüentemente usada à saciedade nos anos 80 por adeptos da ditadura militar. Um olhar sobre os dados macro-econômicos permite compreender essa nostalgia, pois os mortos da repressão não figuram nas estatísticas oficiais. Mas é estranho que hoje, 25 anos depois, mesmo opositores veementes do regime militar se lembram com certa melancolia dos últimos anos da ditadura, dos anos de uma resistência heróica, dos tempos nos quais as utopias de um mundo melhor orientavam

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O liberalismo e a desestatização pareciam vir ao encontro dos seus interesses. Os anos 70 e 80 foram caracterizados no Brasil pela consciência de viver em uma sociedade conflitiva.126 poderosamente a ação e serviam de estímulo.tão logo a repressão arrefeceu . que conquistara nas décadas anteriores uma maturidade considerável. Estagnou a reflexão sobre a sociedade brasileira. O que aconteceu no palco do poder e nas profundezas da estrutura do poder. A luta de classes atingiu uma nova dinâmica e uma nova qualidade. isto é. Os grupos responsáveis pela saída dos militares queriam também estar representados no novo governo. Os militares e não a burguesia liberal que tinha em parte desejado. intelectuais e professores universitários quiseram prestar uma contribuição ao primeiro governo democrático. do Estado e da economia no Brasil foi 126 . tornaram-se pontos de cristalização da resistência. Foram os nordestinos. Ao mesmo tempo a classe trabalhadora começou . Formou-se um bloco de poder alternativo e segmentos importantes do bloco dominante simpatizaram. Nas instituições do Estado os diferentes atores se encontravam. pois a classe trabalhadora organizou-se pela primeira vez em um partido próprio e. na indústria estatizada e nos bancos estatais. 42% eram proprietários de terras (Dreifuss 1989: 40). Repentina e inesperadamente evidenciou-se a existência de uma dinâmica social considerável. as lutas entre os grupos dominantes se acirraram. sobretudo os do setor financeiro. Em 1974 a fase mais dura da ditadura e repressão chegou ao fim. não a mudança. Com isso a distribuição extremamente desigual tornou-se um tema prenhe de conflitos. Métodos distintos de medição nas indexações serviam genericamente para beneficiar determinados valores. O oponente era claramente identificável: os militares e os grupos a eles aliados. Tudo isso ficou cada vez mais difícil na ditadura militar. A ditadura militar estava deslegitimada. Esse movimento foi basicamente apoiado por migrantes. A des-ordem tradicional foi questionada pelos trabalhadores e pelo movimento em prol da democracia. Democracia e socialismo. 1978 e 1980 as grandes greves dos metalúrgicos.). que sempre cultivara uma atitude pragmática diante de valores democráticos (Costa 1997: 34 s. e isso mais ainda na esteira da crise do endividamento. Na visão de muitos empresários. se não com a forma alternativa de organização. Por fim.10 Mas muitos peritos. cujo leitmotiv passou a ser a continuidade. Entre 1967 e 1973 a indústria automobilística cresceu anualmente na razão de 24%. para encolher nos anos subseqüentes (Pacheco 1998: 58). os tecnocratas e militares no aparelho de estado estavam ficando demasiado poderosos. pois a atualidade política exigia o engajamento. desenvolvidas pelos sindicados em si oficiais. facilitou o ataque ao estado desenvolvimentista e deu poder ao empresariado. A inserção do fenômeno das organizações de bairros em uma análise global da política. O establishment subestimara a raiva acumulada diante do sistema vigente e a radicalidade do desejo de mudança. nelas se efetuava uma ponderação dos interesses conflitantes. Mas o bloco de poder que assumiu o Executivo com Sarney sabia que só teria chances de ser reconhecido como legítimo com um governo que se mostrasse aberto às reivindicações da sociedade civil. os índices inflacionários falsificados pelo governo e. Por isso a exigência de eleições diretas para a presidência da república organizou-se num poderoso movimento. em parte financiado e em parte executado o golpe de 1964 foram transformados em bode expiatório. a aliança das camadas média e baixa: eis a receita do sucesso dos movimentos sociais dos anos 80. No curso do ”movimento antiditadura” parecia fazer sentido seguir a tradição liberal e falar de sociedade civil como setor autônomo com relação ao Estado.11 10 Sete ministérios eram ocupados por militares. Os movimentos sociais viam na questão social o problema principal e a maioria deles advogava implicitamente uma ou outra variante do socialismo. Mas infelizmente esse termo apresentou um perfil conceitual apenas muito difuso. e isso justamente no ramo central do desenvolvimento industrial. para que tantas esperanças fossem decepcionadas? No Brasil.a manifestar-se publicamente. o estado-nação foi o palco central da luta pela hegemonia entre 1930 e 1980. contra os salários.). O crescimento e a crise concentraram-se na região industrial do ABC e permitiram à classe trabalhadora local fazer se ouvir mais uma vez de forma perceptível. Dois terços dos deputados federais tinham como fonte principal da sua receita as suas empresas. a mão-de-obra desprezada. os aumentos salariais demasiado baixos da indústria metalúrgica paulistana provocaram o primeiro grande protesto público contra a ditadura militar (Novy 1994: 28-31). 11 Mas com a popularização do conceito de ”sociedade civil” ocorreu aos poucos uma mudança organizacional maciça. José Sarney tornou-se presidente depois da morte de Tancredo Neves. A interpretação dos acontecimentos foi deixada a cargo de outros agentes. em ligação orgânica com esse partido. A igreja católica. entre o pobre Nordeste e o rico Sudeste. A abertura do momento impeliu quase todos os críticos do sistema à ação. Isso é quase sempre o melhor pré-requisito para a apropriação de conceitos. mas necessária do milagre econômico em São Paulo. pois a luta de classes por enquanto tinha sido ganha. eleito por um colégio eleitoral. Empresários assumiram posiçõeschave em ministérios. conseqüentemente. mas como espaços sociais de poder de classes conflitantes (Oliveira 1998a: 119 s. Em 1977. que começaram a questionar a des-ordem da ditadura. Sarney era um político da ditadura militar e simbolizava a ”transição pactuada” para a ”Nova República”. Mas ao invés da eleição direta. em si um esteio do Estado. Os guetos dos nordestinos trouxeram a questão regional como uma questão social a São Paulo e redefiniram o problema do espaço e do poder: não como luta entre espaços geográficos. ao menos com uma boa parte das reivindicações desse movimento. em uma central sindical e em iniciativas de base. tornou-se cada vez mais portavoz da sociedade e ponto de aglutinação da oposição. A aliança das classes média e baixa desenvolveu uma força produtiva insuspeitada.

cujas causas devem ser buscadas na estrutura profunda do campo de poder. Como os pobres muitas vezes não dispunham de uma formação escolar suficiente. construir uma ampla aliança em prol da democratização sem provocar a resistência aberta dos militares. Por meio da democratização do Estado e da descentralização de processos decisórios parecia possível no início dos anos 80 construir um belo novo palco: a classe trabalhadora reivindicava o seu lugar no sistema político nacional. eles minaram o valor desses aumentos do salário nominal. perderam influência política no final dos anos 80. Tudo isso levou a uma perda de importância das organizações de bairro e com isso a uma renovada marginalização dos pobres. Na hora da crise. Renasce a luta interna da classe dominante com uma virulência inédita e por suas brechas cresce. As exigências de melhorias da infraestrutura. baseada no modelo do estado desenvolvimentista burocrático-autoritário. Os esforços do movimento sindical visavam uma regulação territorial nova das relações de trabalho. cujos elementos nucleares eram. quis assumir um papel construtivo depois de duas décadas de crítica. que recua ante as condições de insolvência interna e externa do Estado desenvolvimentista. o regime perde. e como não tinham representantes fortes dos seus interesses. pois o país estava mergulhado em uma crise econômica e fiscal. extingue-se a eficácia do principal suporte dessa longa e heterodoxa ‘acumulação politizada‘. isso foi simples para o empresariado (Pereira 1998: 142 s. dolarize-se. Sindicatos. os movimentos ambientalista e feminista restringem-se a segmentos da classe média. portanto. Esse vácuo foi preenchido pelos assim chamados pós-marxistas que fizeram com que uma interpretação da conjuntura de orientação liberal de esquerda fosse considerada socialmente aceitável. no âmbito do PMDB. desativando seus gastos e investimentos em obediência a um novo plano estabilizador.] a crise interna se acentua no âmbito de uma crise geral do sistema capitalista e da hegemonia norte-americana. um movimento social amplo que exige melhores condições de vida e maior participação política. em nosso entender. Desse modo eles lançaram uma névoa sobre a desordem da periferia e localizaram de forma grosseiramente superficial o Estado como fonte única de todos os males. combatiam diretamente aumentos do salário nominal. progressivamente. que pecaria pelo simplismo. A administração do espaço de poder substituiu a reflexão sobre o poder sobre o espaço. hoje. nosso dinheiro volta a submeter-se a um padrão monetário internacional. 12 José Luís Fiori (1995: 112) reconhecera já em 1984 quão fundamental fora a crise dos anos 80: “[.” (Heins 1992: 239). estavam sempre em posição de inferioridade diante de peritos da administração pública. Apesar disso as vitórias eleitorais do PMDB foram mais uma vez continuadas. Mas assim foi possível.12 O Estado não dispunha mais de dinheiro para servir de mediador entre interesses conflitantes. eram rechaçadas crescentemente com a menção dos cofres vazios. Uma exceção saliente foi a tese de doutorado de José Luís Fiori de 1985.. Medidas de política social e democrática. ameaçado de implodir com a crise fiscal do Estado. de fraca presença. tão determinantes no início dos anos 80. em 1995. Extingue-se esse poder na hora em que. o desafio de um ciclo que parece exaurido e de uma tendência que aponta para sua implosão ou reformulação integral. é que o Estado desenvolvimentista levou ao seu limite suas potencialidades e contradições. aquecendo a inflação. referidos ao Estado. foram implementadas pragmaticamente. cuja lei de valorização teve sua raiz mais profunda na liberdade de decisão estatal sobre o valor do dinheiro e do direito. especialmente no tocante a contratos coletivos de trabalho.“ 127 . Sem nenhuma pretensão explicativa.. Em 1982 o PMBD obteve um grande sucesso nas eleições para governador. de forma autônoma. mas igualmente uma questão de ‘referência aos destinatários’. Forçado pelos fatos. Os empresários resistiam contra os iminentes aumentos salariais. A crise não permitiu que essas medidas fossem muito bem-sucedidas. enfrentando. Por um lado. referidos à sociedade civil. ”Depois dessa crítica a radicalidade de um discurso democrático não é apenas uma questão de ‘alcance temático’. Por outro. orientado segundo o consenso. suas principais lealdades. Eles centraram a sua crítica. em cuja inexistência se identificava a fraqueza principal da ditadura militar. Mas dessa vez já se fez necessária uma impedida pelo conceito liberal de sociedade civil. obrigatoriamente. Sem alternativas. muito provavelmente. processos nacionais de negociação de interesses. Depois dos liberais. e os direitos fundamentais sociais elementares. Apesar disso faltaram no fim da ditadura análises de economia política que interpretassem a conjuntura específica. que mal chegara ao poder. O campo discursivo estruturava-se dessarte em torno de uma crítica genérica do palco do estado desenvolvimentista.). a economia nacional. depois de 60 anos. publicada apenas dez anos depois.127 O meio científico do fim dos anos 70 era fortemente cunhado pelo marxismo. Mas os governos dispostos a reformas assumiram as administrações estaduais num momento extremamente desfavorável. igrejas e organizações de bairros estão enfraquecidas. assistimos à implosão do Estado desenvolvimentista. o próprio Estado recua. as lideranças regionais e o próprio capital estrangeiro. no aspecto do autoritarismo estatal. parece-nos contudo significativo que. No limite. Talvez o único ”porta-voz” dos pobres seja hoje o MST (Movimento Sem-Terra). que no entanto se subtrai ao conceito de sociedade civil. conforme mostrava o grande número de greves. da Igreja e da classe média desertam os empresários. Em virtude da estrutura oligopolista do mercado. Hoje são reduzidas as possibilidades dos pobres de defender o Estado de Bem-Estar Social. uma legislação trabalhista e social nacionalmente unitária e. e diante de um futuro incerto. Na confluência dos desencantos dos vitoriosos de ontem com o sofrimento dos derrotados de sempre germina uma realidade de contornos ainda imprecisos. a análise sistêmica da margem de ação não estava na agenda imediata. Como a oposição. Foram intelectuais paulistanos moderados em torno de Fernando Henrique Cardoso (Lehmann 1990: 71-76) que descobriram a suposta originalidade do liberalismo e internacionalismo. O que parece certo.

O establishment. no sistema de transporte. dificilmente organizável. campo no qual os grupos dominantes estariam privilegiados. Reformas estruturais seriam. No curto prazo não foi possível fazer com que camadas mais amplas da população experimentassem a melhoria das condições materiais de vida. Questões sociais e democráticas eram importantes para a população. por parte da direita. Havia uma preferência por comissões paritárias. produzindo resultados negativos nas eleições municipais de 1992. Apoiado pela mídia para a qual ACM tinha sido responsável como Ministro das Comunicações nos anos precedentes. um candidato amplamente desconhecido. o novo velho prefeito de São Paulo. Assim os esforços em emendá-la iniciaram. capital meridional do Brasil (Genro. Jânio Quadros. Sobretudo em São Paulo abriram-se perspectivas de um projeto alternativo de Estado. No plano da liderança da opinião pública podia-se falar em 1989 ainda de um certo equilíbrio. já no momento da sua entrada em vigor. as que reduzissem a influência do Estado e contribuissem dessarte para a maior justiça social. A administração petista buscou a ”institucionalização da cogestão dos cidadãos” (cf. De início. Mas a administração de Luiza Eruindina não foi tão convincente a ponto de demonstrar sem sombra de dúvidas a competência administrativa do PT. Mesmo os 45% dos votos obtidos por Lula foram um forte choque para o establishment. o ”partido do Estado” não se entusiasmou com Collor. realizadas em 1989. Collor ganhou a eleição com os votos dos pobres. que parecia envelhecida depois de pouco tempo. a esquerda criticou veementemente essa constituição e ignorou que ela já continha mais reformas do que o establishment estava disposto a conceder. sobretudo a inserção da população pobre não-organizada . antiestatizante e orientado para o exterior. Ao mesmo tempo ganharam influência os esforços discursivos em prol da inversão semântica: os ”verdadeiros” progressistas seriam os que se empenhariam pela mudança do status quo. Aqui processos mais amplos de participação. seja no conflito com os camelôs.certamente teriam sido de serventia. o Legislativo boicotou esse processo. Medidas locais causaram um impacto nacional. os canais de participação secaram. No interior do PMDB a ala liberal de esquerda amargou um duro golpe com a derrota de Fernando Henrique Cardoso nas eleições para a prefeitura de São Paulo em 1985. nas negociações sobre um novo Plano Diretor ou no Foro da Cidade (Singer 1996). Sader (1997: 178 ss. Mas os êxitos naturalmente foram modestos no primeiro ano do governo: a dívida deixada pelo prefeito anterior era tão grande quanto a inexperiência administrativa do PT. e a do sindicalista Lula. não era nenhum político de esquerda. mediante a criação de comissões e conselhos. Atingiu esse objetivo em parte. A decepção diante do PMDB e da Nova República. Foram quase sempre ações concertadas de atores da sociedade civil. por sua vez marcado pela excessiva presença do Estado. Luiza Erundina começou a governar em São Paulo quando a campanha eleitoral para as primeiras eleições livres para a presidência depois de 29 anos estava por iniciar. Setores importantes do empresariado temiam o programa de Collor. nas quais a administração municipal moderou entre interesses conflitantes. A Constituição de 1988 mereceu com razão o apelido ”constituição cidadã”.) opina que ao lado da fixação no Estado a tarefa de governos de esquerda deveria estar também na ”socialização do poder” e num processo de conscientização. A administração municipal de São Paulo certamente não foi responsável pela derrota apertada de Lula. A estrutura profunda do poder não entrou no seu foco. de resto. no ”Orçamento Participativo” em Porto Alegre. O zelo reformista do establishment recebeu uma ducha igualmente fria como o radicalismo dos liberais de esquerda.). embora sobretudo São Paulo tenha votado claramente em Collor. representante dos eternos perdedores reunidos na autonomeada ”sociedade civil” e portador de um programa democrático-socialista. Com a derrota. candidato do PT e apoiado pelas organizações da sociedade civil. Mas a maior parte temia ainda mais um ganho decisivo de poder para o bloco alternativo. brindou a esquerda com uma vitória enorme e inesperada nas eleições municipais de 1988. Nas primeiras eleições livres para a presidência da república depois de 29 anos. Ambos defendiam uma política oportunista-pragmática de aliança com o governo federal e consolidaram a aliança com os conservadores. Isso estabilizou o poder do PMDB e desacreditou o sistema democrático. Novy 1994: cap. mas distribuía-se pelos diferentes partidos de centro e direita. Essa análise em termos de Economia Política não foi além da superfície. por conseguinte. como ela se configurou na manipulação do Plano Cruzado para além das eleições de 1986. formadas via de regra por parceiros da sociedade e membros do governo. 128 . Schwaiger 1996) . ele não estava organizado em termos partidários. Importava prioritariamente impedir as reformas e ainda não importava impor contrareformas. No Congresso 3 a 12% dos deputados eleitos se viam em 1986 como representantes dos interesses dos trabalhadores. disposta a transformações e tributária do modelo do estado desenvolvimentista nacional. e o novo governador de São Paulo. Assim São Paulo se transformou na vitrine da política nacional.como e. convidando os segmentos organizados da população para a participação. Isso levou à negligência diante da camada baixa. F). Mas os grupos dominantes permaneceram cindidos. Ubiratan 1997. 32 a 45% dos deputados como representantes do empresariado (Diniz 1997: 94 s. Orestes Quércia. era um direitista tradicional. duas concepções de mudança se enfrentaram: a do messiânico e autoritário Fernando Collor de Mello. Seu conteúdo refletia ainda outra conjuntura.g. mas apoiou-o como única alternativa a Lula.128 manipulação maciça. Embora esse lobby empresarial fosse muito poderoso no Congresso.

as esperanças depositadas nesse caminho de desenvolvimento centrado no estado-nação e no Estado de Bem-Estar Social. Mas com a perda dessa autonomia estiolaram-se também as fontes tradicionais do poder. a opção liberal de um anti-Estado de Bem-Estar Social passou a ter uma influência crescente. Essa retórica econômica. O nacionalismo e o Estado de Bem-Estar Social eram perfeitamente compatíveis com a modernização. que as relações de trabalho seriam desenvolvidas conforme critérios de parceria dos diferentes atores sociais (empresários. A espiral inflacionária impedia que a concentração patrimonial pudesse ser afetada em virtude de reivindicações e exigências sociais. Uma estratégia de desenvolvimento de orientação social e responsável em termos de política orçamentária teria significado que o estado desenvolvimentista democrático estaria no centro da regulação. mas a política de juros elevados lançou as bases para uma reestruturação de corte neoliberal. Que soluções estavam disponíveis no início dos anos 80? No plano internacional o modelo do Estado de Bem-Estar Social. e a busca pode demorar muitos anos. O campo de poder estruturado em torno do estado-nação perdeu seu ponto nodal claramente localizado. A política dos juros elevados concentrou o poder 129 . Quis servir-se do estado-nação mediante a democratização. apresentando com sucesso a inflação como resultado de um política econômica que em tempos de recessão se aferrara a idéias exageradas com relação ao orçamento e aos salários. como foi efetivamente o caso no Brasil. com a perda de legitimidade do establishment. A esquerda tentou adaptar e ”reformar” o velho campo nacional. A Constituição de 1988 testemunha quão fortes foram ainda. podendo-se constatar uma alteração da estatalidade. como o da intervenção estatal e da política salarial. No início dos anos 80. mesmo no final dos anos 80. Registremos aqui tão-somente que no início dos anos 90 um modelo de desenvolvimento nacional centrado no Estado de Bem-Estar Social ainda teria sido perfeitamente compatível com a estrutura vigente. que a estrutura oligopolista do mercado seria quebrada por uma abertura seletiva dos mercados e que o dinheiro nacional seria utilizado para a redistribuição e para o monitoramento da atividade creditícia. primeiro um fortalecimento dos exportadores. foi até anos 80 adentro o modelo determinante para a América Latina de orientação democrática. No interior do bloco de poder nacional ocorreu nos anos 80. mas em ampla escala sem eficácia. reformas democráticas e keynesianas afiguravam-se inevitáveis. Mas desde 1973.129 Encontrar outro arranjo estrutural consistente é uma questão de ”achado”. Isso explica também o fracasso dos diferentes políticos reformistas no decorrer dos anos 80. Ela deu foros de credibilidade à idéia de que o assim chamado insucesso do combate à inflação nos anos 80 seria devido sobretudo a uma certa tradição de ”populismo econômico” do qual as democracias latino-americanas não se tinham conseguido libertar” (Pereira 1998: 142). torce a realidade mediante a inversão das responsabilidades. com vistas aos seus interesses. por força de uma política de desvalorização. pela concentração do capital na esteira da desregulamentação dos mercados financeiros. a direita passou a deslocar o campo e subtrair assim o chão ao palco. baseado no keynesianismo. toda e qualquer medida de política social e salarial provou ser uma vitória aparente. fortemente influenciado por fatores externos: no plano ideológico. Ao passo que a esquerda hiperativa fazia operações miúdas de conserto do palco. supra). Mas a atuação no campo da política econômica e social de orientação nacional e democrática tornou-se cada vez mais difícil. Ao passo que foi possível realizar alguns experimentos interessantes nos planos local e regional durante os anos 80. Se houve um ”populismo econômico”. o quintil mais rico foi o único segmento ”populista” bem-sucedido da população (cf. Em duas palavras: o fordismo periférico deveria se transformar em fordismo ”verdadeiro”. no plano político. pela queda do muro e a crise do Estado de Bem-Estar Social na Europa. Mas o conflito em torno da hegemonia tomou outro rumo nos anos 90. A crise da ditadura militar rompeu os laços unificadores de um poder sobre o espaço nacional. contra a erosão da sua renda real. Nos anos 90 o consenso inicial para a reforma e democratização do campo do poder estatal cedeu a uma política empenhada em deslocar esse campo de poder. As propostas de privatização e cortes das despesas do setor público só puderam ser implementadas tímida e assistematicamente nos anos 80. Em virtude da sua incapacidade na política econômica. Diante da inflação. Todos os outros tentaram proteger-se ruidosamente. com a presença dos Chicago Boys no Chile e depois com as vitórias eleitorais de Margareth Thatcher e Ronald Reagan. ”O dinheiro é uma arma que confunde o adversário. os conservadores boicotaram no plano nacional toda e qualquer tentativa construtiva de restabelecer novamente a capacidade de atuação do estado nacional. da qual os especialistas nas universidades bem como nas organizações internacionais se serviram. o Estado era colocado cada vez mais no pelourinho (Pereira 1998: 148). conseqüentemente da indústria nacional e multinacional em boas condições de competitividade. mais ainda. Os responsáveis pelas decisões chegaram ao consenso de tirar proveito dessa confusão. No plano nacional brasileiro esse processo ocorreu com defasagem temporal. pois era minada pela política financeira. assalariados e Estado). o que lhe rendeu a perda da legitimidade. Mas a política financeira inflacionária foi atribuída ao Estado. A autonomia nacional da política financeira domesticara a violência do dinheiro e permitira o ganho de significado de outros campos. Tabela 10. sobretudo as contribuições estatais de natureza social eram um elemento central dessa modernização.

ajudou substancialmente. embora um membro do PT fosse para o governo. em números arredondados (1994). embora o PPB e o PSDB fossem concorrentes nos planos local e regional. Paulo Maluf implementou um projeto hegemônico com dois objetivos. Couto 1996: 41).3. foi na realidade uma despolitização. apresentando em tática ofensiva programas sociais inovadores. 6. que desde 1989 estava trabalhando abertamente na direção de uma alteração fundamental do modo de regulação. Dois projetos sociais. A desmontagem do poder sobre o espaço. em benefício de sucessos pragmáticos no curto prazo. Uma outra tentativa de cogestão da regulação foram as câmaras setoriais. Por outro lado.130 crescentemente no capital financeiro de orientação internacional. Desde 1993 o PSDB formava juntamente com o PT. o velho campo de poder a uma erosão em tempo recorde. nas quais os salários. A produção de automóveis subiu de um milhão (1992) para 1. foram definidos como não-conformes ao mercado. submetendo. isto é. enquanto oposição ”razoável” e ”disposta à cooperação” (Fernandes 1987: 212). Maluf logrou evitar nas eleições de 1996 justamente esse confronto. não se deu apenas no plano nacional. que facilitou com a sua política nãodiferenciada de oposição a destituição do PT do governo municipal nas eleições de 1992. No plano local. Foi possível negociar reduções da carga tributária com o governo federal e definir objetivos de produtividade para estimular o consumo de automóveis. saudada por todos os lados. Em 1994 ocorreu no plano nacional o colapso definitivo do velho campo de poder. orientada por padrões de centralismo e eficiência. o PAS e o ”Projeto Cingapura” permitiram a Maluf impor o seu sucessor (Abrucio. À primeira vista parecia em 1994 que o establishment estaria agora finalmente disposto a aceitar Lula como presidente. Somente o PT permaneceu na oposição. A campanha do conhecido sociólogo Betinho pelo combate à fome é paradigmática desse novo estilo de política. organizações de compensações de interesses. À diferença de antigamente. exerce essa função germinalmente. que tinham beneficiado tanto os grupos de empresas quanto os trabalhadores. Com isso a sociedade civil outrora progressista e oposicionista foi incluída no poder sobre o espaço ou sobreviveu à sombra e à margem desse poder. A condução do Estado. Os setores que içaram Collor à presidência envergonharam-se diante do seu presidente ”irracional”. com sua má administração e os cortes no orçamento. pois quantitativamente insignificante. menos política e mais resultados” formava o centro de um discurso antidemocrático (cf. Por isso a direita investiu maciçamente na destituição do PT nas eleições. os temas outrora associados com a esquerda mudaram de lado. O seu lema tecnocrático ”O povo quer menos discussão. o que configurou em primeiro plano um subsídio ao capital. A direita tinha uma clara consciência do potencial poder de irradiação de uma ”São Paulo vermelha”. Sob Fernando Henrique Cardoso as câmaras setoriais. que já se prenunciara com a eleição de Collor. muito menor e menos importante. O ”milagre econômico” (Oliveira 1998a: 178-187) politicamente negociado deveu-se em parte à assunção dos custos por toda a população e à circunstância de que a indústria automobilística continuava sendo o ramo central da indústria brasileira. mesmo depois da crise do fordismo periférico. pois o seu programa de forte inspiração socialdemocrata assustava menos do que 130 . mesmo a cidade de Porto Alegre. Essa forma corporativista de compensação de interesses foi marginalizada e os incentivos foram concedidos agora diretamente nas formas do fomento do estabelecimento de empresas. Maluf conseguiu assim desideologicizar o discurso político. Collor contribuiu de modo relevante para a manutenção da des-ordem. Essa batalha na luta de classes foi vencida e o PT foi impedido em São Paulo de transformar a maior cidade do país em projeto piloto de uma política alternativa.). Novy 1998: cap. dificultando o acesso à informação e com isso a realização de uma discussão pública racional. o projeto de Estado de Maluf consistia em assumir partes importantes de modelos esquerdistas de organização. A partir de agora mesmo as ONGs e boa parte da esquerda colocaram a crítica das estruturas entre parênteses. a bancada da oposição na Câmara de Vereadores. Aqui o PSDB local. O projeto hegemônico de Maluf consistia em impossibilitar a cogestão ativa dos cidadãos. Por isso ele tinha uma especial ojeriza contra o Estado e a nação enquanto pontos nodais consubstanciados na Constituição de 1988.6 milhões. A desideologicização dos debates políticos. foi acoplada a uma política assistencial e de bem-estar social meramente simbólica. Por um lado ele queria combater o PT e os trabalhadores organizados. isenções de impostos e política alfandegária. A direita conseguiu ocupar ”temas sociais”. Com efeito. mas não conseguiu impedir sua própria marginalização na política municipal. A legitimação do complexo hierárquico-autoritário de poder e saber se deu apenas de forma indiretamente democrática. centrado no Estado. mas registraram com alegria a irracionalidade da estabilização da des-ordem dos últimos quinhentos anos. Depois da deposição de Collor o seu vice Itamar Franco governou ad interim durante dois anos com um governo respaldado por amplo consenso. ao invés do PPB. Ela teve o mesmo destino dos anos 30. As diferenças estruturais entre os modelos de Estado eram extremamente reduzidas nos planos nacional e local. quando havia uma discussão ideológica entre a esquerda e a direita sobre maiores investimentos na área social ou em ”obras”. preços e outros índices de gestão empresarial eram negociados entre os empresários e a classe trabalhadora (Diniz 1996: 25).2. O governo municipal do PPB apoiou politicamente o governo federal formado pela coalizão entre o PSDB e o PFL. O modelo da tecnocracia neutra desembocou num isolamento do processo decisório.

Dessa continuidade resultou também a reduzida autonomia dos campos discursivos e organizacionais da região. diretor-presidente da CNS. em parte foi também observada uma metamorfose entre os proprietários de capitais. O estabelecimento de indústrias e a compra de empresas estatais foram subsidiados. que via de regra conseguia impor-se em decisões de política econômica na concorrência com o capital industrial. Abriram assim mão das vantagens desse campo orientado para a compensação de interesses. À guisa de compensação pela eliminação do núcleo do bloco de poder. já se protegeu novamente em 1995 mediante uma elevada taxa alfandegária. A abertura para o mercado mundial esteve também em segundo plano diante da regulação da moeda. pois só esse modelo poderia produzir a estabilidade do valor da moeda (Pereira 1998: 148). A quota tributária que já aumentara nos anos 90. devido a desregulamentação no direito trabalhista e o aumento do desemprego. pois a 131 . Mas a dianteira nas pesquisas dissolveu-se com a queda do índice da inflação na esteira da introdução do Plano Real. A distribuição da renda se deteriorou. O déficit orçamentário. aumentou fortemente apesar da venda das grandes estatais. com ajuda da qual foi possível hierarquizar o espaço nacional. A defesa da rentabilidade das aplicações financeiras foi o objetivo principal. que assegurou para si os setores mais lucrativos da economia paulistana e fortaleceu a sua posição-chave mediante a compra de empresas estatais. Por seu lado ele se subordinou incondicionalmente ao sistema internacional financeiro ou está estreitissimamente entrelaçado com ele desde o fim dos controles dos fluxos de capitais. São Paulo beneficiou-se do fato de ser centro da estratégia de desenvolvimento nacional. Só assim o Estado conseguia atender as reivindicações que lhe eram apresentadas. o regional era controlado pelo centro. Em uma economia em vias de estagnação. chegasse quase que sem esforço ao poder. o que acelerou a eliminação de frações mais fracas. A indústria automobilística. é possível identificar alguns elementos específicos do campo regional. A política fiscal serviu ao financiamento da política da moeda forte. as margens de lucro só podiam ser aumentadas mediante uma redução ainda maior da quota salarial. Não obstante. As oscilações e inseguranças foram correspondentemente fortes. juntamente com o modelo de desenvolvimento nacional. ou o aumento do imposto de renda na razão de 10%. quão subordinados eram os outros objetivos. controlado por grandes conglomerados internacionais. As transformações no campo da regulação do trabalho tinham levado em primeiro lugar a um enfraquecimento dos trabalhadores organizados e a uma maior dependência de todos os assalariados das suas respectivas empresas. A fração dominante do capital foi a internacional. Fernando Henrique Cardoso. Sem dúvida a regulação da moeda está no centro das novas reformas estruturais. defendido pelo Plano Real. A estabilidade da moeda consolidou a legitimidade do novo modelo político de um Estado mínimo. Essa parte da classe média apoiou o modelo garantidor do patrimônio. Todos os quatro governadores paulistas do período pós-autoritário saíram das fileiras do PMDB.131 o programa muito mais radical de 1989. cujo represamento fora outrora o objetivo supremo da política econômica do governo. São Paulo oscilou nos anos 80 entre projetos de Estado comprometidos com o populismo de direita e de esquerda e projetos de Estado de esquerda. centrada no monopólio estatal. Por isso as taxas de câmbio estáveis e os juros elevados formaram o núcleo da regulação. ao passo que Fleury encerrou o seu mandato como membro do PMDB e Quércia continuou dominando o PMDB de São Paulo. mas nenhuma força social dispunha de um projeto hegemônico que abrangesse o Estado e o setor privado. da Eletropaulo Metropolitana e da CVRD afirmou que o processo de concentração ainda está longe de ter sido concluído. Ao mesmo tempo alguns novos executivos sonhavam com uma forma de política econômica nacional. necessariamente. O governo local estava nas mãos da direita. Desde então era possível observar um processo de desindustrialização que transcorria simultaneamente a uma internacionalização das estruturas de propriedade. como genericamente o pragmatismo na política comercial se opunha ao dogmatismo na política monetária. menores do capital nacional do bloco de poder. ofereceu-se a esses grupos no curto prazo uma fonte alternativa de receita por meio dos lucros elevados propiciados pelo mercado financeiro. O resultado do êxito da política de dolarização e liberalização foi que o seu inventor. Com o Plano Real os grupos dominantes se despediram definitivamente do velho campo de poder. para citar um exemplo. assim como a posse de títulos de dívida do tesouro. Assim a desindustrialização enfraqueceu a indústria nacional diante dos importadores e dos grupos orientados segundo o mercado de capitais. A conseqüência quase que forçosa foi a necessidade de cortar os recursos para gastos sociais por ocasião de cada crise nova. sua base de poder era a indústria. O crescimento econômico extremamente modesto dos últimos anos assinalou um limite do modelo. Seu parceiro era o capital financeiro nacional. Assim Benjamin Steinbruch. respaldado pela aliança entre o PSDB e o PFL. Evidenciou-se no modo. violentamente criticado pela burguesia e pelos empresários. Enquanto centro da resistência contra a ditadura. Por ocasião da segunda ”crise asiática” o governo reagiu com barreiras comerciais nãoalfandegárias. ramo industrial central do Brasil. Franco Montoro e Mário Covas mudaram-se mais tarde para o PSDB. foi aumentada ainda mais para defender o Real. O financiamento da des-ordem exigiu impostos tão ”irracionais” como o imposto sobre o cheque. Nos anos 80 esses interesses industriais entraram em crise crescente. pelo qual o Plano Real foi defendido. pois proprietários de empresas de produção se tornaram rentiers no mercado financeiro.

o que era.16 13 Esse conceito foi introduzido por Fernando Henrique Cardoso já no início dos anos 60.14 Nos últimos anos esse bloco perdeu a dimensão da utopia. como as teorias gradualistas de procedência liberal e marxista freqüentemente sugerem. Faletto 1979: 13). em termos mundiais. ainda são pequenos. Mas isso praticamente não era possível. 15 Para ela parece comprovar-se a verdade do que Giulio Andreotti. a um estatuto comparável ao do Canadá . quando ele constatou a falta de capacidade do empresariado para realizar uma revolução burguesa nacional autônoma. devendo-se distinguir aqui basicamente entre duas correntes. que se caracterizava pela sujeição ao regime internacional. Por isso a essência da hegemonia visada baseou-se também . da CUT e de setores dos movimentos sociais. dando assim ao governo e ao presidente uma base muito ampla no Legislativo. pois os candidatos de centro-direita se aliavam regularmente. ”Isso levou a pensar que ainda quando a ‘sociedade tradicional’ haja transformado em grande medida sua face econômica. precisamente por causa da regulação que abria fissuras no espaço de poder. dependendo. as possibilidades da criação de uma hegemonia para dentro eram extremamente difíceis. Nos últimos dez anos foram constatadas transformações maciças no seio da esquerda. o novo.” (Cardoso. 132 . A classe dominante brasileira continuou sendo o ”parceiro júnior”13 do capital internacional. Foram implementadas contrareformas que novamente faziam da distinção entre ”interno” e ”externo” uma fronteira definidora. A mensagem central era: nem tudo está cor-de-rosa no momento. mas ganhou somente uma vez (FSP 17. destinados a realizar objetivos nacionais que são maiores e mais fortes que os meros objetivos empresariais” (Steinbruch 1998). fossem elas a ”crise asiática” ou a ”crise russa”. no vocabulário dos seus críticos. Os ”radicais de outrora” oscilavam entre a assunção da posição da terceira via à la Tony Blair e a defesa recalcitrante de uma velha ordem que eles mesmos nem tinham criado e que no fundo era uma des-ordem. minimizem as suas diferenças e se engajem em megaprojetos. Nos anos 80 o PT era considerado radical por não aceitar a ”transição pactuada” e a conexa restauração da des-ordem enquanto estrutura antisocial. da benevolência dos parceiros internacionais na execução da sua política nacional. contém sempre elementos do velho. O primeiro grupo organizou-se de forma mais ou menos orgânica em torno do PT. muito mais do que no passado. por serem contra as planejadas reformas estruturais. corporativistas. Hoje a esperança deveria consistir em ascender. Para dominar o seu próprio espaço de poder. Mas o contrário é o caso. portanto. “Os nossos gigantes empresariais. 16 Nas eleições municipais de 1996 a esquerda obteve êxitos no primeiro turno. e disso ninguém mais tem dúvidas. Mas ela se viu. Em conseqüência disso os partidos de esquerda tentaram em 1998 na medida do possível apresentar candidatos que expressassem alianças. mas desenvolvido (cf. a velha raposa da política italiana. Uma das regras fundamentais da estabilização da dominação é a inexistência de uma mera seqüência de grupos e sistemas produtivos dominantes. Com isso eles defenderiam os interesses dos grupos favorecidos pelo sistema vigente: dos funcionários e dos assalariados na economia formal. O novo campo atribuiu o papel-chave à regulação da moeda que era definida ”externamente” e se operava de forma crescentemente privada. A esquerda não encontrou nenhuma estratégia para sair do isolamento provocado por esse pacto. O PDT e o PT chegaram no plano nacional a um consenso quanto à chapa formada por Lula (presidente .ou da Áustria: dependente. mas de outro modo tudo seria muito pior.PT) e Leonel Brizola (vice-presidente . a solução recém-encontrada.PDT). apesar de terem sido obrigados a estabelecer um sistema complexo de alianças com os novos grupos que surgiram. regionais e nacionais do poder sobre o espaço olharam mais uma vez ”para fora” para reconhecer a sua posição no arcabouço do poder interno.11. alguns de seus grupos não perderam o controle do sistema de poder. Nesse modo de regulação. fazia-se mister a liderança ideológica na formação da opinião pública local. membro de um partido que esteve 40 anos no governo. poder-se-ia supor que a sua influência sobre a tomada das decisões tivesse aumentado.15 Como a esquerda conquistou cada vez mais mandatos nos diferentes legislativos. contudo. Em sete capitais estaduais o PT entrou no segundo turno.132 indústria nacional ainda não é realmente competitiva em escala internacional. 14 Os assim chamados ”progressistas de outrora” pretendiam conservar o Estado enquanto Estado ativo. de um país do Terceiro Mundo.assim como nos cinco séculos transcorridos .em grau bem mais elevado no enfraquecimento do adversário do que no fortalecimento da própria posição. por conseguinte. pois desde 1994 os partidos de centro votam regularmente ao lado da direita. dentro e fora do país. pois não foi possível ancorar o socialismo no campo discursivo e organizacional da atualidade. tornaram-se mais uma vez os fatores definidores do espaço do poder interno.1996). Seriam. Muito pelo contrário. mas nos anos 90 esses grupos ”progressistas” foram crescentemente etiquetados ”conservadores”. É por isso que o nosso novo capitalismo deve estimular que esses grupos se unam. Essa linha de argumentação ajudou Collor a ganhar as eleições e ganhou desde então muita força. afirmou: ”O poder desgasta a quem não o tem”. Fiori 1997: 181). sinônimo de consolidação do status quo. Alterações externas. Os atores nos campos locais. privada de instrumentos autônomos de poder.

no sentido de conquistar direitos sociais de cidadania. porta-voz do PPB em assuntos econômicos. foi também um dos principais críticos do Plano Real que enfraqueceu a indústria nacional no mercado doméstico. Justamente no PSDB os interesses do capital financeiro estão fortemente representados. desde que o quadro geral da ordem social não fosse colocado em cheque. Mas o paradoxo do poder consiste no 17 O atual Ministro do Planejamento Antônio Kandir. os esforços contrareformadores estariam contribuindo para amenizar a desordem. A direita. que promovia a terceirização exclusivamente para o setor privado. Assim o conflito entre o PSDB e o PPB em torno do governo estadual de São Paulo foi em parte unicamente um conflito entre grupos distintos do mesmo bloco de poder. A indústria nacional dependia do crescimento das exportações. sobretudo a da classe média. Por isso o modelo progressista de cogestão no plano regional. no qual toda a sociedade ganharia. concentrado em São Paulo. ”regulador” e de uma prestação de serviços públicos realizada pela sociedade civil e pelo setor privado. sem inclusão da sociedade civil. Os proprietários de patrimônios estavam interessados em uma moeda forte e nos juros elevados. não estava em oposição ao modelo do governo federal. apesar das tensões iniciais uma coalização de interesses entre o PSDB e o PPB no plano nacional. desenvolvida. foi destruída nos últimos anos e os defensores dessa posição foram marginalizados. o sociólogo Francisco Weffort. era a preservação da estrutura social por meio de uma dinamização do desenvolvimento capitalista. ao passo que generalizou na maioria absoluta um sentimento generalizado de insegurança (Novy.. defendeu os interesses do capital produtivo nacional. No fundo esse grupo defendia uma posição muito convencional e em parte dogmaticamente marxista do economicismo. A esquerda justificou seu pragmatismo com a ética da responsabilidade de Max Weber ou com a ”paixão pelo possível” (Cardoso. 133 . São Paulo representava a modernidade econômica. a crítica do quadro estrutural da des-ordem do poder sobre o espaço foi considerada ilusória. permitindo a participação de cidadãos economicamente protegidos. e seu secretário José Álvaro Moisés são apenas alguns exemplos conhecidos. A falta de uma base material fomentou a individualização e a tentativa de garantir-se no curto prazo.133 O segundo grupo que se organizou no PMDB e posteriormente no PSDB e que foi engrossado sempre de novo por simpatizantes do PT17 foi a ala reformista que não gostava da globalização. e empurrou simultaneamente a maioria da população para empregos precários. Ao invés de defender esse desenvolvimento das forças produtivas em nome do empresariado nacional. A utopia da qual esse grupo era tributário não era mais o socialismo. Aqui o PSDB via de forma antes positiva a participação em si. explicitamente comprometido com ideais tecnocráticos e a democracia plebiscitária. Mas infelizmente ela se colocou na tradição de uma ”vanguarda do atraso” (Oliveira 1998b). A crítica permanente ao governo não impediu o PPB de cosustentar em larga escala as contrareformas. Mattl 1999). A opção de longo prazo de um ”jogo de soma mais”. ainda que com dificuldade. A única revolução para a qual os grupos dominantes sempre se podiam mobilizar. em São Paulo concretamente o PPB. O PSDB regional seguia aqui uma concepção do Estado que se orientava mais segundo o modelo nacional de um Estado enxuto. Todas as capacidades intelectuais disponíveis dos governantes foram mobilizadas para compatibilizar o progresso econômico e a inércia na política social (Fernandes 1987: 360). Inversamente. Já que a pobreza não podia ser abolida. Juntamente com os velhos donos do poder. Isso explica porque ocorreu. que se revelava difícil em virtude da taxa de câmbio desfavorável. As contrareformas implementaram transformações institucionais que estabilizaram a estrutura atrasada do poder nos novos tempos. A visível elitização da política estava relacionada com a polarização no mercado de trabalho que criou um pequeno número de empregos altamente qualificados no setor de alta tecnologia. por conseguinte. ao invés de depender do Estado. muitos dos que implementaram as contrareformas em Brasília vinham de São Paulo. isto é. aqueles que tinham sido convertidos de radicais em contrareformadores entronizaram o pragmatismo no lugar das visões da transformação das estruturas. Assim a democratização e a capitalização se tornaram incompatíveis (Oliveira 1998b: 88). era determinado exclusivamente pelo mercado. Já que a experiência ensinava que as grandes transformações não seriam possíveis. com menos consideração dos interesses particularistas no bloco de poder. Isso produziu em algumas pessoas a sensação de viver numa época de possibilidades ilimitadas. Por várias razões. A única diferença residia no fato de que agora o desenvolvimento das forças produtivas. mas uma modernidade abstrata em delimitação contra o velho e o atraso (Jaguaribe 1990). isso foi feito em nome da globalização do capital. o Secretário do Trabalho de São Paulo Walter Barelli. Faletto 1976: 212). não sendo. freqüentemente sem segurança com referência aos direitos trabalhistas e sociais. Maluf defendeu um modelo mais fortemente centralista. O modelo do PSDB procurou assegurar a concordância das grandes massas por meio de uma política social liberal de participação sem redistribuição. com sua política da moeda forte e dos juros elevados. Por isso Antônio Delfim Netto. mas aceitava-a como inevitável. a assistência seria ao menos organizada de forma mais eficiente. mas consistia no fato dele ser implementado de modo ”mais honesto”. também do PSDB. Ele parecia adaptar-se à circunstância de que a sua clientela mais importante se transformava cada vez mais em grupo de rentiers ligados aos interesses do capital financeiro.. Nesse sentido se pode afirmar também que o governo federal em Brasília era ocupado por uma vanguarda brasileira. hoje Ministro da Cultura. defendido pelo PSDB.

Durante séculos a fio os grupos dominantes sempre se aliaram quando a participação da sociedade era reivindicada mais maciçamente ”a partir de baixo”. Fernandes 1987: 50). Como ele legitima a des-ordem. A crise dramática das iniciativas de base e o aburguesamento do setor acadêmico da sociedade civil enfraqueceram o campo organizacional e discursivo para um projeto contra-hegemônico. um fortalecimento do Judiciário. O espaço social de uma sociedade civil alternativa que ainda fez de Mário Covas um prefeito progressista entre 1983 a 1985. a descentralização das decisões até as unidades administrativas menores. e de liberais com tinturas sociais. o fortalecimento do parlamento diante do Poder Executivo. Em decorrência disso. pois a afinidade a posições ideológicas é reduzida.com. A resposta à desideologicização não deve ser buscada no plano das técnicas sociais. na fixação no mercado ou na política em defesa da moeda forte. Para Krebs (1997) o pragmatismo constatável na política é expressão da perplexidade.br. à medida que se exercia uma pressão de baixo para cima. entre intelectuais e políticos provincianos. Mas uma fraqueza maior e efetiva derrota da esquerda foram registradas em São Paulo no campo da sociedade civil. na qual as implicações da ação não podiam ser bem avaliadas. Assim Fernando Henrique Cardoso possibilitou aos grupos dominantes tão-somente implementar a velha fórmula da estabilização do poder em um novo contexto. Por isso a perda das eleições para a prefeitura de São Paulo em 1992 e 1996 e para o governo do Estado de São Paulo em 1998 foram uma autêntica derrota para a esquerda. Um bloco de poder nunca encontra dificuldades em configurar medidas institucionais em conformidade com os interesses. Em todas essas áreas.g. em 1992 35.jb. Por isso o governador Covas prestou uma contribuição muito limitada no sentido de abrir o tradicional espaço de poder para baixo. nos casos do PPB e do PFL. liberais conservadores vestiram a fantasia socialdemocrata. em 1993 42. Em si a aliança entre o PSDB e o PFL. tampouco em fazer pequenas concessões de ordem material a partir de uma posição de poder. À medida que a classe baixa era marginalizada. Num momento de crise de legitimação da direita tradicional. No novo campo dominante da racionalidade toda e qualquer ação política se reduziu à administração da des-ordem. devido à contraditoriedade da des-ordem. Pode-se imaginar perfeitamente que o papel do Estado será submetido nos próximos anos a uma transformação fundamental e que a re-estatização seja promovida novamente pelos grupos que até pouco tempo atrás entoaram hinos de louvor ao estado mínimo. em 1995 39 e em 1997 47 (Brasilienausschnittdienst 6/96: 26. um fortalecimento da concentração nacional do capital privado serve à soberania nacional etc. como e. pois. o desenvolvimento nos últimos anos enseja graves preocupações. O PSDB tinha sido fundado em 1988 como partido reformista de esquerda que inscreveu a democratização nas suas diferentes facetas na sua bandeira.tratou-se de projetos hegemônicos que incluíam a população pobre apenas esporádica ou simbolicamente. no caso do PSDB. Mas não se recomenda fundamentar demais a crítica dessa política dominante em princípios. surgida no decorrer de muitos séculos. o sistema político ficou ameaçado de ser governado 18 O número crescente de conflitos e atos de violência politicamente motivados e denunciados por organizações de defesa dos direitos humanos. conseqüentemente a importância das ideologias. a racionalidade oficialmente aplaudida se desmascara como medularmente irracional: pagamentos de bilhões a título de serviço da dívida servem ao saneamento das finanças públicas. Maluf representou em São Paulo a política do clientelismo e populismo no sentido clássico. reduziram-se as diferenças entre administradores de esquerda e direita. A inserção isonômica mediante a garantia de direitos sociais de cidadania não estava na agenda. entre a alta burguesia industrial e os latifundiários não representa nada de novo no Brasil. O semanário alemão Die Zeit reporta na sua edição de 26 de abril de 1996 21. 134 . Mesmo estruturas da regulação. em 1994 36. parece plausível falar de socialdemocratas liberais. mas na crítica da des-ordem estrutural e na composição do bloco de poder. esse espaço de poder faltou em 1994. não apenas na política econômica. foi até criticada como um dos principais males da ”constituição cidadã”. Reivindicou no seu programa. é outro fato a ensejar graves preocupações: em 1991 40 pessoas morreram em conflitos fundiários. um controle maior da polícia e o combate à corrupção. um planejamento racional dessarte limitado não logra ultrapassar uma modernização da desordem. Mas em ambos os casos . como natural. ele e o seu PSDB forneceram a renovação necessária para o autoritarismo antisocial do establishment (Fiori 1997: 21). entre paulistas e nordestinos.134 fato de que o resultado da eliminação da des-ordem do foco de atenção é que mesmo os objetivos modestos que os contrareformadores se propõem não são atingidos. sobretudo na zona rural. No fundo os dois grupos apenas estavam interessados em preservar o poder em uma situação historicamente aberta. entre outras coisas. mesmo alterações estruturais individuais em um modo de regulação não estão infensas a produzirem efeitos de estabilização do bloco de poder. cortes na área social servem para calçar no longo prazo os serviços sociais. O ”idealismo liberal” uniu-se ao ”realismo conservador” (Cf.394 casos de trabalho escravo. www.e aqui residem as semelhanças estruturais . 4 de agosto de 1999). No caso do Brasil. Maluf mostrou isso com especial clareza ao questionar o significado de direita e esquerda. Socialdemocratas tornaram-se liberais. ao passo que o PSDB encarnou a direita moderna que tentou desvencilhar-se dessas formas da política.18 A estabilização da des-ordem esteve em primeiro plano.

dominado pelos homens e orientado segundo a idéia do progresso. o establishment se empenhava mais ou menos vigorosamente por uma política assistencialista de natureza compensatória. que criticava ruidosamente a des-ordem e organizava os oprimidos. Ele procura tornar realidade. Mesmo a idéia da igualdade enquanto ideal político foi esquecida por esse gerenciamento pragmático da política. As elites gerenciavam a ”estrutura do conhecimento e do poder”. Dependendo da honorabilidade dos governantes.135 por segmentos concorrentes do establishment. O círculo de destinatários da participação se estreitou (Heins 1992). Mas o grande mérito do MST reside na problematização das estruturas profundas e na compreensão da práxis como uma atividade transformadora das estruturas. a utopia de uma sociedade socialista. os pobres administravam a sua pobreza. 135 . próprio do sistema dominante. Mas mesmo a resistência à desordem permanece vinculada à estrutura irracional profunda. Tanto mais significativo foi o fortalecimento do MST (Movimento Sem Terra). Muitas dimensões da práxis do movimento estão comprometidas com o pensamento hierárquico. em lugares reais.

1 As aparências enganam. igualdade. Por isso os produtores estão separados do seu produto. Isso se deu de um modo que não colocou em risco. tem como objeto o par de termos opostos mercado e Estado. apenas uma forma de regulação ao lado de outras. Vistas de perto.1 Para o mercado mais importante. No entanto. a distribuição desta transformada em 1 Em princípio os mercados são capitalistas nas sociedades capitalistas. A desordem da periferia somente pode ser reconhecida por uma análise em profundidade que opera em nível mais elevado de abstração. Grandes construções teóricas como a da teoria da estruturação de Anthony Giddens foram inspiradas pela idéia de que os homens e as mulheres agem no quadro de estruturas organicamente surgidas no passado. por sua vez apropriada privadamente (cf. mas em descobertas [Einsichten] acerca das margens de ação que ultrapassam o bom senso superficial. 136 . Como praticamente nenhuma outra citação.136 5 As pessoas fazem história e geografia ”Os homens (e as mulheres (AN)) fazem a sua própria história. Como Marx enfatiza. Foram criadas duas ”mercadorias fictícias” (Polanyi 1978: 183). o de trabalho. estruturados de modo muito assimétrico. O livre acesso à terra foi abortado. A forma concreta da regulação orientou-se na história do Brasil sempre segundo as relações de força respectivamente predominantes. quando reconhecemos o poder sobre o espaço como fator propulsor da des-ordem na periferia. o Estado criou em 1850 os mercados fundiário e de trabalho.. No capítulo conclusivo os resultados mais importantes são mais uma vez resumidos. os mercados não podem ser ”livres” do seu entorno social e do Estado e são. vale adicionalmente que ele fundamenta uma relação de autoridade que estabelece um limite ao reino da liberdade e ao ideal burguês da igualdade (Bowles. Com isso foram encerradas décadas de insegurança nas transações econômicas de mão-de-obra e terras. A força de trabalho deve ser vendida para que os trabalhadores possam consumir. as palavras no início de ”O 18º Brumário de Louis Bonaparte” (Marx 1965) remetem à integração de estrutura e ação. Por sua vez.1 Mercado e Estado A primeira discussão. dadas e transmitidas pela tradição” (Marx 1965: 9). desenvolve-se aqui também uma crítica do discurso dominante nas ciências sociais e regionais. como a sociedade enquanto totalidade.. mas também geografia. A relevância prática de análises do espaço de poder não se mede em recomendações de ação. mais especificamente na síntese do material empírico.1. mas até consolidou a estrutura dominante do poder e da produção. 5. Assim o ponto forte da re-interpretação do desenvolvimento brasileiro aqui efetuada reside no enfoque explicitamente histórico-geográfico. Contradições pomposas evidenciam-se então como meramente aparentes. Uma análise do poder sobre o espaço vai um passo além e enfatiza que as pessoas não fazem apenas história. mas em circunstâncias presentes sem mediação. em circunstâncias que eles mesmos escolheram. Vamos agora sistematizar esses argumentos mais uma vez. A presente análise do poder sobre o espaço mostrou que os mercados foram e são criados e regulados pelo Estado. por essa razão. isto é. a sua força de trabalho se transforma em mercadoria. Ao passo que no trabalho realizado até agora o objetivo era gerar teoria. produz-se mais-valia. 5. propriedade e Bentham” (1983<1867>: 189). Gintis 1986: 72). Röttger 1997: 33-39). mas eles não a fazem de livre e espontânea vontade. tão difundida quão simultaneamente superficial. as normas de consumo fornecem o fundamento de chances e estilos de vida. Analisar o mercado isoladamente seduz a vê-lo como ”um verdadeiro Eden dos direitos humanos inatos”. com ênfase nas suas implicações conceituais para pesquisas em outros contextos. Sob o modo de desenvolvimento orientado para fora. Ao proceder assim. chamo a atenção à limitação das análises sociológicas que não vão além da superfície. os mercados estavam via de regra. discussões acaloradas revelam levar a equívocos. ”[a] única coisa que domina aqui é liberdade.

Como nacionalismo antilusitano ele se jogou sem delongas nos braços do imperialismo britânico.137 monopólio do Estado. O modo pelo qual a qualidade do seguro-aposentadoria. política redistribucionista.1 Liberalismo e intervenção do Estado Nenhuma outra ideologia ocupou com tanta renitência um papel-chave no discurso oficial e dominante do Brasil como o liberalismo. and now the modernizers wish to bring citizenship under the aegis of a political system which guarantees rights only to those endowed with wealth and power” (Lehmann 1990: 75). to quote a famous article. A socialização dos custos e das perdas permaneceu um traço distintivo estrutural de uma camada dirigente que sempre foi apenas parcialmente liberal.and modernist . Ocorre que o Estado neoliberal é tudo menos um laissez-faire ou um estado mínimo.) utilizou para caracterizar o sistema econômico latino-americano da década de 1980. que são claramente também ”mercadorias fictícias” percebidas durante o modelo orientado para o desenvolvimento e até há pouco tempo como tarefas nucleares do Estado. a educação e a saúde. da educação e da saúde estão atualmente vinculados à renda financeira revela o caráter cimentador do poder. No fim do séc. os escravos não se tornaram agricultores. A intervenção no mercado se deu nas primeiras três décadas do séc. XX sobretudo no setor que era importante para os grupos dominantes. industrialização . O liberalismo inspirou os escravagistas na sua luta contra Portugal. cidadãos ou empresários. mão-de-obra nas grandes plantações capitalistas de café e nas grandes fábricas. e reformas estruturais significam hoje o contrário do que os estruturalistas da CEPAL tinham em mente nos anos 50. Apesar da sua retórica antiestatal. mas é simultaneamente uma ”idéia fora do lugar”.conception of political development espoused by the Cardoso family is. próprio dessas contrareformas. Cidadãos-proprietários [Besitzbürger] livres e interagentes não formam o fundamento da sociedade brasileira. ”Enquanto o sistema não estiver estabelecido. A estatalidade brasileira fundamentou-se nacionalmente no patrimonialismo enquanto forma estamental autoritária de Estado e localmente na dominância da plantação e do engenho de açúcar enquanto dominação político-econômica total exercida pelo barão açucareiro. As reformas estruturais do Estado do pós-guerra . e tão logo isso tenha ocorrido. eles conclamarão por intervenções estatais para o fim de preservá-lo” (Polanyi 1978: 206). Mas a estrutura de poder no Brasil adaptou essas influências externas de forma autônoma. A oligarquia agrária dominava os espaços do poder descentralizado e reprimia os germes de uma sociedade civil e da divisão dos poderes. os liberais devem conclamar e conclamarão sem hesitar por intervenções estatais para fins de seu estabelecimento. XIX um papel construtivo no processo de formação da nacionalidade (Fernandes 1987: 34 ss. O plano de frente foi ocupado pela inserção de novas áreas na esfera da lógica da mercadoria. Ao invés de um fracasso do mercado. A transformação em mercadorias de áreas até agora subtraídas a essa lógica deverá ajudar a impedir uma iminente crise de valorização do capital. Os políticos e o estamento do funcionalismo público garantiram para si a sua renda mediante o pagamento de receitas que se manifestavam na 2 Termo cunhado na esteira de ”socialismo real” e para estabelecer uma distinção contra a denominação ”mercantilismo”. Destituídos de qualquer acesso à terra e aos meios de produção. Apesar disso o liberalismo desempenhou no séc. que o liberal peruano Hernando de Soto (1987: 201 ss. O intervencionismo estatal pode ser interpretado como resposta pragmática ao fracasso da regulação pelo mercado. parece que estamos agora diante de um fracasso do Estado. XVIII.). XIX o ”liberalismo real” acabou se impondo definitivamente com a República Velha. A libertação liberal do Estado português não desembocou em nenhuma democratização da sociedade nacional. Santos (1978) reflete sobre a ”práxis do liberalismo”. Já no séc. O sistema de mercado e o intervencionismo não se excluem de modo nenhum. pois os isomorfismos discursivo e organizacional sempre desempenharam um papel importante. the bringers of foreign capital were nationalists. o que explica a sua reduzida eficácia prática. an example of ‘ideas out of place’ (Schwarz): the slave owners were liberals. razão pela qual o ”liberalismo real”2 brasileiro é tão contraditório e irracional como a realidade à qual se refere. pois a escravidão somente foi substituída pelo mercado livre de trabalho. os liberais nunca lograram criar um espaço autônomo da sociedade civil e cedo se viram obrigados a recorrer ao intervencionismo estatal para sustentar o café. 5. Atualmente estão na agenda o seguro-aposentadoria.reforma agrária. A força autodestrutiva inerente aos mercados foi atenuada pela política de sustentação do café. na estabilização do preço do café. 137 . mas foram implementadas apenas fragmentariamente. o Brasil imitou a potência dirigente também no plano ideológico.1. Ele sempre foi parte da ideologia oficial. mas por força da coerção. Hoje a desmontagem de instituições impeditivas do mercado está na ordem do dia (Fiori 1995a: XIV). Na atual fase de abertura para o mercado mundial os problemas e reflexões dos anos 30 parecem ter caído no esquecimento. No regime de acumulação dominantemente intensivo o empresariado assegurou para si com um discurso liberal e uma prática intervencionista as suas margens de lucro pela via dos incentivos concedidos pelo Estado. Nesse tocante os barões do café não se distinguiram dos industriais que a partir de 1930 ocuparam o seu lugar no topo da hierarquia do bloco de poder. Ele é também o ”liberalismo real” enquanto liberalismo daquele partido que como Partido da Frente Liberal (PFL) atualmente é a maior força na aliança governamental: ”The modernizing .foram reações adicionais a esse fracasso do mercado.

Finalmente os liberais e suas idéias acerca de uma economia de mercado chegaram por um breve período ao poder em 1945. mais flexível e orientado por resultados. uma forma mista entre o Estado e a sociedade. como se costuma dizer. porque todos os últimos presidentes se distanciaram dele. o Estado de Segurança. Por esse motivo desistiu-se nesse trabalho na medida do possível denominar determinadas políticas econômicas neoliberais. Mas ao mesmo tempo trata-se apenas daquelas reformas que não põem em cheque nem a estrutura fundamental do poder nem o bloco de poder. pois abandona tudo a processos sociais de negociação.138 distribuição política do dinheiro. Schmid 1991).em parte arcaicas. a tarefa de dirigir o Estado. somente permitido a uma ditadura de direita que não sofreu sanções internacionais. eficaz e em elevado nível de qualidade. O novo modelo de estatalidade . Lemke 1997. ”Neoliberalismo” é uma palavra cujo núcleo pode ser desmascarado somente com dificuldade. pois genericamente o Congresso é dominado pelas mesmas forças que tinham refinado o clientelismo durante muitas décadas. A parte militarizada do Estado. Por essa razão pretendo orientar-me na argumentação a seguir segundo um enfoque estreito. O ”liberalismo real” dos anos 90 é sem dúvida mais ambicioso está mais próximo ao liberalismo ”puro”. ao liberalismo desejado por Hayek e Friedman. Atualmente está em pauta uma capitalização integral da sociedade. O mandato de quatro anos foi pontuado por uma pletora de escândalos cujo ponto culminante foi a compra de votos para a emenda constitucional que assegurou ao presidente a possibilidade de recandidatura. pois ofereceriam serviços de forma eficiente. Menos democracia permitiria uma condução mais eficiente do Estado. conduzida agora como em uma gestão empresarial. pois trata-se. razão pela qual competiria ao Estado enquanto regulador definir as regras no sentido de que a eficiência econômica global ficasse assegurada. Depois da sua destituição por via eleitoral. Por meio da restrição ao que é ”realista” essas novas liberdades possibilitam novas formas de controle que não funcionam nem pela via da repressão nem pela da inserção hegemônica (Lemke 1997: 254 s. eles minaram a estratégia nacional-populista de Getúlio Vargas sem poderem oferecer uma alternativa. de estatuto privado. dessa vez na forma da privatização do estado-nação. Esse modelo de ”direção” e ”implementação” é a inovação institucional que define o perfil da discussão da reforma do Estado. mas também por parcerias entre o Estado e a sociedade civil no sentido de uma nova governance. Mas essa modernização do Estado foi extremamente seletiva. Pode-se falar de tudo. Isso não causa admiração. estabilidade ou promoções etc.define as diferentes áreas da disponibilização de serviços públicos como mercados.governance . Sob um governo obsessionado com a modernização como o de Fernando Henrique Cardoso. a reestruturação organizacional do Estado transcorreu analogamente à reestruturação do discurso como uma combinação de transformação e constância. O núcleo duro ou. No Executivo foi possível desacoplar em larga escala o núcleo duro da política econômica e o technopol que o implementou da sociedade civil e dos acontecimentos políticos em geral (Fiori 1997: 13). mas um ”socialdemocrata”. Neles. Mas o setor privado otimizaria apenas a eficiência individual.). em virtude da composição do conselho administrativo. ocorrida poucos anos mais tarde. enquanto essas negociações se moverem apenas no chão de cálculos de custos e benefícios. isto é. A implementação é terceirizada a organizações sociais semi-estatais ou semi-sociais nas quais imperam as mesmas condições precárias do mercado de trabalho restante. mas de perfil claro [prägnant] de neoliberalismo. O novo discurso autoritário vê agora na excessiva participação democrática um risco de ”governabilidade” (Becker 1998a: 13). Compete à alta burocracia. os atores competentes seriam o setor privado e em algumas áreas parciais também as ONGs. em parte modernas. Nos anos 80 o liberalismo foi proposto mais uma vez como solução. estratégico do Estado continua sendo dirigido segundo formas autoritárias . Isso não em último lugar. do poder de normatização e do 3 As conferências de Foucault sobre esse tema infelizmente existem apenas em forma de fitas (cf. o clientelismo no Legislativo reduziu-se unicamente em virtude da falta de recursos públicos a serem distribuídos. ela realizou um processo maciço de estatização. e a alta administração enquanto núcleo estratégico do bloco de poder preservam-se partes substanciais dos privilégios amplamente criticados dos ”servidores públicos”. Collor foi um ”liberal social” e Fernando Henrique Cardoso obviamente não é um neoliberal. Mas os militares conduziram o Estado a uma crise fiscal da qual ele ainda não se recuperara duas décadas mais tarde. tal como ele foi desenvolvido por Michel Foucault.3 O neoliberalismo inaugura novas liberdades. O ”liberalismo real” foi finalmente levado às últimas conseqüências pela ditadura militar: recheada de defensores do liberalismo econômico. Muitas das mais variadas críticas do modelo burocrático-estatal são levados em consideração nesse novo arranjo institucional: a participação da sociedade civil deve ser assegurada mediante a inserção das ONGs. tais como altos ordenados. as regras burocráticas rígidas são substituídas por um modus operandi mais descentralizado. As organizações sociais são uma forma organizacional que o governo denomina nãoestatal. o que se dá por via da privatização. Mas a configuração concreta define a sua eficácia. Sarney quis fazer ”tudo pelo social”. mas pública. Nos últimos anos. do que as formas anteriores do liberalismo brasileiro. No setor da prestação de serviços públicos a administração é reestruturada na direção do tipo organizacional da empresa. 138 .

autonomia e variedade a um princípio universalmente válido: o da lógica do mercado capitalista. essa forma de estatização da sociedade fomenta a simultânea economicização do Estado e da sociedade. mas abrange em princípio todas as formas da ação e do comportamento humanos” (Lemke 1997: 248). do qual ele emana e pode. ”Deve-se registrar que esquemas de análise econômica e critérios decisórios de natureza econômica são transferidos aqui a áreas que não são ou não são exclusivamente áreas econômicas ou que se credenciam até pela sua diferença com relação a uma racionalidade econômica [. appear to be potentially the most dangerous if a Foucauldian sense of power is used do exame development” (DuBois 1991: 19). Tal tratamento é substituído por um gerenciamento de problemas que se orienta segundo resultados. Não está simplesmente vinculado a um detentor localizado do poder. mas penetram nas cabeças das pessoas para adaptar e instrumentalizá-las. O consenso atual . As relações sociais e o comportamento individual são decifrados segundo critérios econômicos e no âmbito de um horizonte de inteligibilidade econômica.4 Em última instância.e esta é simultaneamente uma das contradições . já não é mais o princípio da autolimitação do governo. por conseguinte. é encarregada da disponibilização dos serviços públicos e se torna assim parte oficial do Estado ampliado. orientado segundo regras e por conseguinte sempre igual e universalmente aplicável. À guisa de resumo. de uma estatização da sociedade. juntamente com o princípio da concorrência. those often considered to be the most effetive and certainly the most sensitive to local populations. em escala mundial e nas áreas mais distintas imagináveis: do fim do tratamento central. ”O ‘preço’ dessa participação é que as próprias pessoas precisam assumir a responsabilidade por essas atividades .. por outro. mas o princípio que se volta contra o governo. isto é. 4 ”It is a peculiar twist. Mas. O que o professor de sociologia realizou no Brasil. militares ou empresários. o Estado ampliado. foi realizado em outros países latino-americanos por bonvivants. se monitora a si mesmo e considera o respectivo contexto. à frente de todas a do capital. o que não exige incondicionalmente um centro unitário de decisões . forças fragmentadamente descentralizadas passam a atuar hoje. o poder sobre o espaço se subtrai ao acesso da ação individual. Depois da capitalização integral dos espaços físicos do território. estão sujeitos crescentemente ao mesmo cálculo.a uma estrutura unitária do poder -.].consiste na valorização positiva do concreto. Elimina-se a diferença entre a economia e a dimensão social. that those small development organizations can operate on a grass-roots level. a economia não é uma área claramente delimitada e bem caracterizada da existência humana. da diferença. Organizações estatais e da sociedade civil são tratadas como empresas. podemos registrar que as discussões liberais tradicionais em torno de mais ou menos Estado e mercado e as diferentes variações de um mix de Estado e mercado continuam aferradas ao plano institucional. o Estado e sociedade civil. ‘uma espécie de tribunal econômico permanente’” (Lemke 1997: 248). Isso assinala o aparecimento e a imposição de um modelo. à medida que ele permite a avaliação crítica das práticas governamentais com base em conceitos de mercado: ele permite examiná-las. criticá-las por excesso e abuso e filtrá-las segundo o jogo de oferta e demanda. a configuração concreta da estrutura adquire maior multiplicidade. Ao passo que o liberalismo clássico instou o governo a respeitar a forma do mercado. Chega-se a uma ampliação conseqüente da forma econômica para a dimensão do social. de problemas. A perda de popularidade de Fernando Henrique Cardoso não abalou a estrutura do poder. O poder exerce uma influência especialmente profunda para dentro dessas organizações de base. o mercado. Esse isomorfismo conduz a programas e formas organizacionais unitárias . do automonitoramento e do contexto. examinando áreas e formas de ação não-econômicas por meio de categorias econômicas. o sistema de coordenadas econômicas possui também um caráter programático. o poder é atualmente mais eficaz do que sob a ditadura. burocrático. ser simplesmente combatido.139 monopólio de recursos. Por um lado. A sociedade civil. O desejo de ter espaços de configuração individual do trabalho e da vida e os empenhos em ter autonomia são respondidos com uma oferta de participação. será imprescindível para a análise política transformar em objeto da análise as capacidades de automonitoramento de um ‘indivíduo autônomo’ e o seu acoplamento a formas de dominação política e exploração econômica” (Lemke 1997: 256). argumentando na esteira de Foucault. mas para sujeitar simultaneamente essa mesma concretude. 139 . As forças produtivas do atual poder sobre o espaço impulsionam a intensificação da produção capitalista e a interiorização do cálculo do lucro. sem referir-se ao plano estrutural. Nessa perspectiva.e pelo seu fracasso” (Lemke 1997: 254). ”Se essa hipótese for correta e a estratégia neoliberal consistir na substituição dos tradicionais mecanismos rígidos de regulamentação pelo desenvolvimento de técnicas de autoregulação. Mas uma análise do poder sobre o espaço ultrapasssa a dicotomia mercado-Estado e desvela as forças estruturais. O neoliberalismo encoraja os indivíduos à ação empreendedora. Elas não estacam junto aos municípios e às ONGs. Muito pelo contrário. then. ”A generalização da forma econômica preenche duas tarefas importantes: em primeiro lugar ela funciona como princípio analítico. nessa concepção. Trata-se de uma ”homogeneização da política” que abrange toda a América Latina. outrora independente e freqüentemente oposicionista no curso da democratização. Chega-se à aplicação generalizada de princípios de utilitarismo individual que passam a determinar o estilo de vida.um detentor do poder. Em segundo lugar..

O presente trabalho mostrou o poder desse processo. Com isso elas sujeitam aspectos não-monetários e oposicionistas a uma lógica quantitativa. até ”hiperativos” (Fiori 1995a: XI). no qual o Poder Executivo dá as regras referentes ao valor de mercado do saber. de uma visão que via no Estado um ator neutro que utilizava os instrumentos que os detentores de posições no Estado queriam ver utilizados. Nessa conjuntura muitos desses intelectuais foram advogados da base.isto é. partir de baixo e utilizar os recursos locais e o saber local para a solução do respectivo problema. Isso aumenta a insegurança individual e com isso a pressão ao conformismo. nessa perspectiva. plano e aberto. Esse campo de saber-poder remontava a Paulo Freire e à teologia da libertação. Em Porto Alegre essa cooperação de Estado e sociedade civil foi organizada diferentemente.partiu de uma visão instrumental do Estado. No caso da prestação do serviço público o governo busca decididamente a participação da sociedade civil e de atores descentralizados. Mas estas são obrigadas a submeter-se a critérios rigorosamente acadêmicos de prestação do serviço.140 5. No entanto. seja como arquitetos. a profissionalização aumentou a dependência dos financiadores. No reordenamento atual da estatalidade. os intermediários podem assumir o papel dos funcionários de carreira cujo número está regredindo substancialmente diante do número de funcionários durante o regime de government. Fato é que os intelectuais sempre se interessaram fortemente pela política. inconscientes. organizado à semelhança do mercado e academicizado. Ao mesmo tempo ele marginaliza a base. Projetos opõem-se a processos. No âmbito de uma ”cultura de projetos” predomina a coerção à apresentação de êxitos no curto prazo. A lógica da implementação racional do projeto está em contradição com a opressão multissecular à qual os ”grupos-alvo” de projetos quase sempre estiveram expostos no âmbito da governance. os elementos nucleares dessa inovação originam-se no Brasil de iniciativas de base que se formaram nos anos 70 na resistência contra o Estado autoritário e reivindicaram uma forma de Estado não-tecnocrática. ”pelo roubo da linguagem. absorvidos com adaptações e transformados em pontos nodais no novo campo de saber-poder. No regime de governance. mas atua apenas na superfície? O desenvolvimento como intervenção temporalmente limitada opõe-se assim ao desenvolvimento compreendido como processo histórico-geográfico. Como essas estruturas podem ser rompidas no curto prazo por um gerenciamento de projetos que pode ser extremamente profissional. A ala moderada. centrada no Estado .1. pela sua redução à existência de animais domésticos. fomenta a atuação rotinizada e reproduz injustiças. mas resultado do ordenamento de instituições e técnicas sociais no âmbito de uma estrutura de poder. mas precisa ser constantemente conquistada. conseqüentemente quase sempre lento. A consciência coletiva dos oprimidos se caracteriza pela cultura do silêncio. orientada para a participação. não discriminava o saber popular e dava aos atores das camadas inferiores tempo e espaço para que articulassem o seu saber e deixassem que ele adquirisse eficácia (Novy 1988). basicamente todos os intelectuais à exceção do PT e dos sindicatos próximos a ele . Talvez esse respeito quase ”reverente” pelos intelectuais seja o traço distintivo de uma nação subdesenvolvida (Tavares 1998: 45). o que contradiz a natureza de processos de desenvolvimento (Novy 1997a). pela destruição da identidade cultural dos oprimidos. isso não é uma lei da natureza. mas inclinado e repleto de obstáculos que alguns podem vencer com maior facilidade do que outros. A configuração discursiva e organizacional do novo campo. sendo que a lógica do primeiro domina o processo de desenvolvimento. Mas essa multiplicidade local de situações e propostas de solução é avaliada segundo critérios unitários que sobrevalorizam a dimensão monetário-financeira e se concentram em soluções técnicas. não-burocrática e descentralizada. à diferença do funcionalismo público. O campo do saber estatal é constituído como um mercado. Esses intermediários são oriundos do mesmo meio cultural que nos anos 80 estava orientado na direção das iniciativas de base. 140 . fomenta a ”elitização” na era da ”Nova Renascença”.3 Poder e saber Os intelectuais sempre foram de grande importância na evolução do Brasil. Os pobres seriam apenas receptáculos a serem preenchidos pelo docente (Freire 1984: 57). o campo do saber e do poder está experimentando uma transformação maciça na direção de um campo de governance. Sobretudo nos anos 80 quase todos eram politicamente ativos. razão pela qual extensos segmentos de potenciais prestadores de serviços se vêem liminarmente excluídos. Esse campo que se baseia em recursos ”de baixo” usa o potencial criativo da base para vivificar um saber acadêmico exangüe. A ala radical dos intelectuais. Em analogia à compreensão do espaço Freire identificava em uma concepção do saber como receptáculo a estrutura fundamental de um campo repressivo de saber-poder. O novo campo de saber-poder não é neutro. indefesos. apoiou os movimentos sociais na construção de um contrapoder. dever de responsabilidade e prestação de contas. destituídos de esperança” (Lange 1984: 11). que então estavam surgindo poderosamente. capital humano. Poder e saber deverão. Quanto aos aspectos da organização e do discurso. pois a sua posição privilegiada nunca está duradouramente assegurada. o que explica a concordância de importante parcela dos intelectuais com a reforma atual do Estado. De resto eles são. Os mediadores com formação acadêmica (intermediários) entre os grupos-alvo da prestação do serviço público e das instâncias decisórias estatais são valorizados. Alguns dos elementos discursivos de Freire foram aceitos pela direita como crítica. O poder sobre o espaço pesa sobre os ombros dos atores. O enfraquecimento da base ensejou o desaparecimento da identificação com os setores inferiores. intermediários em situação bem mais precária. a educação se transformaria em caderneta de poupança. advogados ou médicos.

No Brasil as coisas não se passaram diferentemente. Muito pelo contrário tudo gira em torno de técnicas sociais. ora para um lado. O ponto de gravidade dessas duas forças se desloca em meio a um eterno vaivém. que conduziu em uma medida até então desconhecida à centralização no plano do estado-nação (1930-1980) (Ianni 1996: 160). ora para o outro. no caso desses intermediários. Mas assim como as tendências de centralização foram fortíssimas sobretudo depois da 2ª Guerra Mundial e da vitória dos bolcheviques na Rússia em 1917. mas não política de São Paulo * germes de uma integração territorial e social * preservação da autonomia regional dos grupos dominantes * descentralização e fortalecimento do federalismo * fragmentação do território e heterogeneização da estrutura social * globalização e homogeneização das frações de capitais (subordinação ao capital internacional) * deslocamento da dinâmica econômica na direção do Sul (Mercosul) 141 . impele na direção da sua divisão. relativamente sem influências bélicas. Não há dúvida que durante extensos períodos do séc. Centro: mineração. a lógica excludente da disponibilização descentralizada dos serviços também podia ser mantida dentro de certos limites. Tabela 38: Dinâmica espacial como ”eterno retorno” de centralização e descentralização dinâmica espacial 1822 – 1889 CENTRALIZAÇÃO 1889 – 1930 DES-CENTRALIZAÇÃO 1930 – 1980 CENTRALIZAÇÃO a partir de 1980 DES-CENTRALIZAÇÃO Fonte: Adaptação do autor * centralização monárquica para a defesa da economia escravista assegura a unidade do Estado * deslocamento do centro econômico (Nordeste: açúcar. e essas oscilações manifestam-se por meio de muitos e multiplicíssimos fenômenos” (Pareto 1975: 311). descrevendo um traço distintivo estrutural que parece ser pertinente para uma compreensão precisa do desenvolvimento do Brasil: ”Em toda e qualquer sociedade humana duas forças se antagonizam: uma. Sudeste: café) * descentralização e aumento da autonomia financeira dos estados da federação * centralização econômica crescente em São Paulo * centralização do poder decisório no estado-nação * supremacia econômica. XX houve uma centralização em escala mundial. a outra.141 Como a elaboração do Orçamento Participativo foi democratizada enquanto ponto nodal no campo do poder local. XIX para o séc. sobretudo porque se trata hoje. predominante no planejamento urbano e territorial nos tempos da ditadura militar. de pessoas oriundas de um espaço social que precisou ser constituído a duras penas na luta contra o Estado autoritário: da sociedade civil enquanto espaço de poder com uma lógica de ação germinalmente distinta da do Estado e do capital e com um certo potencial emancipatório.1. no qual os novos intermediários da prestação do serviço se movem normalmente. conforme resume a tabela a seguir. que poderíamos denominar centrífuga. 5. No campo discursivo. que poderíamos denominar centrípeta. Do mesmo modo como a burocracia estatal no passado. impele à concentração do poder central. a fase de consolidação do poder central (1822-1889) foi seguida por uma fase de descentralização (1889-1930). Mas estas facilmente acabam sendo apropriadas pelos interesses da estrutura do poder. teleologicamente uma fase de centralização é seguida por outra de descentralização. Com isso os intermediários entram no mesmo beco sem saída do saber tecnocrático muitas vezes criticado. mas conforme a época de modo diferente.2 Centralização e descentralização Por volta da virada do séc. os novos intermediários da sociedade civil partem de um saber ”neutro” e de uma competência profissional ”neutra”. As conseqüências para o processo de desenvolvimento são fatais. falta um conceito de estrutura. XX Vilfredo Pareto elaborou uma concepção de estrutura espacial de ordenamentos sociais. assim uma revolução ”rumo à descentralização começou com igual força desde os anos 70. nem sempre de modo igual e regular. Para Pareto a alternância entre regulação centralista e descentralizada constitui uma ordem natural. De acordo com um esquema político simples.

A falta de uma política social unitária fomenta a heterogeneização da estrutura social. Em primeiro lugar. pode-se constatar uma desconcentração concentrada em benefício dos estados vizinhos ao Estado de São Paulo e a expensas da periferia. urbanização. assumiu a posição de supremacia. Ele é um dispositivo formado pela dominação local dos senhores de engenho e dos fazendeiros e por um receptáculo nacional de poder. XX. a fase atual de descentralização deveria conter elementos da fase de 1889 a 1930. possibilidades de participação da sociedade civil. cuja estrutura é perpassada pela lógica local autoritário-hierárquica (Fernandes 1987: 58 s. por conseguinte. eram via de regra os da oligarquia agrária. Isso implica o ”eterno retorno” de uma ordem aparentemente incontestável.g.a estrutura nacional que atualmente está sendo enfraquecida é. Sob a coordenação de Celso Furtado iniciou-se no âmbito da SUDENE o planejamento racional do desenvolvimento regional do Nordeste. apoiado por um capital financeiro (restritamente) nacional. Ao mesmo tempos os cinturões ao redor da capital e sobretudo da Região Metropolitana se expandem. XIX e do incipiente séc. Mas isso não conduziu ao equilíbrio regional muitas vezes discutido. Mas o regime de Bretton Woods também se baseou na soberania dos estados nacionais e limitou o poder do mercado e da moeda mundiais sobre o espaço. Nessa contradição baseava a convicção de que o progresso e a democratização deveriam ser implementados contra os interesses locais. depois por via da guerra. O maior proprietário de terras falava em nome da e pela região. Os efeitos sobre a estrutura local e nacional do capital também são diferentes. mas como ”irrepetível”. por assim dizer natural. posteriormente os latifundiários. De início isso se deu pela via da crise econômica mundial. A descentralização política da República Velha significou a subordinação completa dos municípios e de todas as forças políticas locais e regionais divergentes ao poder central do governador. iniciou-se um processo crescentemente mais nítido de descentralização econômica no espaço. assim como os estados. O acoplamento de democracia e descentralização. Ambas enfraqueceram o nexo de relações do mercado mundial. Mas esse acesso ignorou a circunstância de que o plano central sempre se posicionou funcionalmente em favor da desordem descentralizada. Competia ao estadonação a implementação dos direitos democráticos fundamentais. Estado de Bem-Estar Social rudimentarmente existente . não obstante o processo de desconstrução ao qual ela vem sendo submetida. De acordo com essa posição. que no entanto não excluiu a continuação da concentração do capital nacional. Centralização é.). pois em áreas importantes o processo atual se distingue do do séc. orientados para fora. Sob a Velha República a descentralização significava o impedimento da democracia local.industrialização. Uma situação similar vale com referência à espacialidade da estrutura social. o que reforça a tendência à fragmentação do território. Ao mesmo tempo muitos dados sugerem que a história não deve ser vista como processo cíclico. A descentralização política dos anos 80 fomentou finalmente as atividades de política econômica das unidades descentralizadas. predominando nacionalmente o capital cafeeiro e internacionalmente os capitais comercial e financeiro. A centralização em um plano pode perfeitamente andar de mãos dadas com descentralizações em outros planos. Na República Velha a oligarquia agrária dominava. Isso orientou a Revolução de 30 assim como a marcha dos militares revolucionários e o planejamento regional. e que a geografia não como dada. os municípios. do sufrágio universal. que iniciou com a criação da SUDENE em 1959. inequivocamente mais poderosa do que a estrutura nacional do Império. que na verdade tinham um interesse central em comum: preservar a estrutura social. expande-se o espaço de aglomeração. um conceito relativo que carece de algumas especificações e demanda uma análise dialética (Ianni 1996: 51-86). Os interesses locais. deve-se clarificar o alcance da validade. A lógica descentralizadora da República Velha baseou-se em uma estrutura distinta dos esforços de descentralização na década de 1980. representados no plano central como interesses territoriais gerais da unidade descentralizada. Na sua fase final. A centralização política. Os empenhos de centralização por parte dos estados nacionais no quadro do fordismo periférico só foram possíveis em meio a uma estrutura descentralizada da economia mundial. como e. efetuado nos anos 80 em oposição à ditadura militar. pois trata-se do mesmo padrão básico. Em alguns pontos importantes . sobretudo do espaço rural. Pareto quis mostrar os elementos de preservação do desenvolvimento social além dos tempos. Com efeito o poder sobre o espaço se assemelha. de modo nenhum é uma alternativa cogente. Muito pelo contrário. A descentralização definida na Constituição de 1988 fortaleceu o poder local. A estrutura do estado-nação nunca se libertou do patrimonialismo português e abriu 142 . Com referência ao Estado de São Paulo evidencia-se que a concentração na Grande São Paulo entre 1920 e 1980 foi devida a uma condensação do espaço de entrelaçamento. Hoje como no passado há sistemas de produção locais. isto é. A descentralização política sob a República Velha lançou os fundamentos da consolidação da centralização econômica em São Paulo.142 Os campos sombreados na representação acima mostram a dinâmica espacial como processo cíclico. mas produzida. As reformas constitucionais de 1894 e 1988 fortaleceram os elementos federativos e com isso os estados. Mas atualmente o capital internacionalmente competitivo. De início foram os representantes da coroa juntamente com os barões do açúcar. Justamente num país como o Brasil o poder local sempre foi autoritário. e com isso a subordinação do espaço político de São Paulo ao poder central reforçou os processos de centralização econômica pelo capital industrial paulistano. O parlamento era uma coleção de tais interesses regionais. A desconcentração concentrada conduz a uma redução quantitativa da importância e a uma desindustrialização na Grande São Paulo.

No Brasil atual os dois processos podem ser observados. O campo discursivo da UNICAMP e em ampla escala de toda a pesquisa regional brasileira concentrase em torno da pergunta pelas distribuições espaciais a que isso leva. conforme testemunham a ”guerra fiscal” entre os estados e municípios. Pacheco ou Negri evidencia a importância desse grupo para o presente trabalho. sempre de novo. Recorre a conceitos 5 ”Compreendemos a relação entre fatores externos e internos como uma totalidade complexa. Alguns falam aqui de uma inversão da polarização (Townroe.). ocorreu no Brasil uma recentralização por via da política monetária. Atribuise. à medida que estados e municípios se tornam participantes ativos na concorrência continental. O pensamento de Furtado gira em torno da formação da nação. Assim a centralização é um fenômeno a ser diferenciado segundo processo e planos. O acréscimo de importância da dimensão local é atestado por evoluções como a descentralização política e a ”especialização flexível” de sistemas produtivos locais e regionais. Mas em outros autores como Faoro. por sua vez. Depois de 1994. a saber. no qual se examina a contraditoriedade da (des)centralização. A discussão com essa conceitualização regionalista do estruturalismo de Celso Furtado é importante. Isso assegura a coesão do governo e focaliza ao mesmo tempo a administração.3 Globalização e fragmentação Durante as três últimas décadas a UNICAMP foi um centro de reflexão crítica. Assim como a dialética de internacional e nacional é constitutiva para eles. A nação enquanto receptáculo fornece a referência do discurso espacial. assim como a concepção do poder padece por pensar unilateralmente o espaço.nos planos espaciais inferiores . ao Estado o papel de intervir nessa distribuição. A citação extensa de autores como Cano. Para análises espaciais esse procedimento é muito interessante do ponto de vista metódico. assim como a competência de ação se localiza no estado nacional. Pacheco se ocupa da ”fragmentação da nação” (Pacheco 1998. Esse discurso ideológico coisifica o poder produtivo do capital e redefine-o como poder de mercados globais. 143 .1. Mas as conseqüências espaciais do fenômeno designado com o conceito espacial ”globalização” são muito mais complexas do que parecem ser à primeira vista. No plano regional se pode. 5. A concepção cepalina padece do defeito de eliminar o poder do foco da análise.do local e do global. outros de um processo de ”desconcentração concentrada” (cf. O estado-nação transfere a regulação dos conflitos sociais e a administração da escassez ao plano local. Mas o que caracteriza o enfoque especificamente espacial na citação acima é a utilização de ‘local’ no sentido de ‘nacional’. Sobretudo o modelo malufista e em parte também o do governo central se orientaram por essa estratégia.processos de centralização ou descentralização. v. que não pode ser apreendido com uma dinâmica espacial simplificadora. Cano 1998b: 309) e Cano (1998b: 349 ss. pois correlaciona dois planos espaciais. Pacheco 1998: 208 ss. As suas análises sempre tiveram uma orientação implicitamente geográfica. Atinge-se melhor o objetivo integrando esses fenômenos cíclicos em um modelo dialético de produção do espaço. o vaivém entre os pólos interno e externo enquanto dialética de fatores nacionais e internacionais. por sua vez. Faletto 1976: 216). Por fim a formação de uma associação supranacional como o MERCOSUL pode fomentar . No plano nacional chega-se a uma centralização do poder junto ao Executivo (a expensas do Legislativo e da sociedade civil).5 Na esteira da tradição cepalina e ampliando essa tradição. Furtado e Frank encontra-se. observar um engajamento mais intenso. constituiu-se assim uma escola independente de economia regional. cuja unidade estrutural não se fundamenta apenas em formas externas de exploração e coerção. Mas todas essas discussões permanecem no plano superficial da distribuição espacial. Keen 1984). embora uma análise do poder sobre o espaço permita mostrar as fraquezas dessa teorização dos dois momentos da dialética. dissolve-se a concepção de direitos sociais de cidadania. O enfraquecimento da dimensão nacional é hoje percebido amplamente como um problema e parece andar de mãos dadas com um fortalecimento de outros planos . e com isso a concepção do território como espaço socialmente homogeneizador (Bava 1996: 54). Cardoso e Faletto não conhecem nenhuma geografia subnacional. uma análise regionalizada. com o Plano Real. Estamos aqui diante da representação hobbesiana de um detentor soberano do poder. mas privilegiavam sem exceção uma análise especificamente espacial. para uma crítica. mas se enraíza em coincidências de interesses das classes dominantes local e internacional e é claramente questionada pelos grupos e classes localmente dominados” (Cardoso.) situa o problema na ”falência do estado-nação”. assim a aplicação análoga da dialética ao vaivém entre a nação e a região é desconhecida. Por essa razão o pêndulo de Pareto e os fenômenos cíclicos conexos somente podem ser ponto de partida da pesquisa. a sua crítica da política econômica das últimas décadas aponta para a circunstância desse processo de construção ter sido ”interrompido” (Furtado 1992). Situado nessa tradição. nacionalmente vigentes. Na concepção cepalina isso é complementado pela concepção do planejamento territorial científico neutro enquanto forma de intervenção racional. Uns temem maiores disparidades regionais e outros chamam a atenção à relevância da dinâmica na região dominante.143 portanto ao establishment e ao empresariado um acesso privilegiado ao Estado. A estratégia conservadora de descentralização combina a centralização política com a descentralização administrativa.

Elas identificam a distribuição injusta das terras e da renda como uma mazela. Num espaço de entrelaçamento econômico global resta-lhes apenas a adaptação aos mecanismos de coerção inerentes à realidade [Sachzwänge].do estado-nação como bloco homogêneo do fator político. Robins 1990: 28). Disso resulta freqüentemente a exigência de uma repolitização ou de um desejável primado da política sobre a lógica unificadora do capital ou do 6 ”The point is that these different spatial dynamics are not contradictory or incompatible. Por isso é mais adequado ”apreender a contraditoriedade da concorrência global e da competitividade local (ou regional) como uma relação de ”articulação” de relações globais e locais.144 foucauldianos para glorificar esse poder como intocável (cf. o controle e a decisão de ações econômicas. de resto condenado à marginalidade. Nos casos anteriores a grafia ‘des-ordem’. Mas as duas perspectivas compartilham uma visão . concentram-se no espaço-receptáculo nacional. A desordem é um problema ”estrutural” que poderia ser solucionado mediante uma boa intervenção. na sua esteira. O sujeito da história é tão-somente o capital e aqueles que agem em seu nome. Krätke 1996). Lá houve durante a evolução orientada para o mercado interno a formação de entrelaçamentos fortes dominados por São Paulo. Isso resulta em um padrão espacial que se assemelha à estrutura de arquipélago do Brasil colonial. Assim o conceito da glocalização parece adequado para compreender as transformações espaciais. os planejadores ainda precisavam ser forçados a deixar o poder sobre o espaço fora do foco do seu trabalho.em parte nostálgica .sobretudo para o financiamento. Não são poucos os funcionários ”esquerdistas” da UNICAMP que trabalham no governo de Fernando Henrique Cardoso. dados como grandezas de orientação pela estrutura. sob pena de confusão. Em uma conjuntura específica. No decorrer dos anos 80 e 90 o saber acerca da des-ordem da periferia se perdeu sem nenhuma coerção e informalmente. Por isso as tendências modernas da sociedade mundial são antes uma ‘glocalização’ do que uma ‘globalização’” (Altvater. Tanto a CEPAL quanto a UNICAMP somente conhecem a desordem [Unordnung] e nenhuma desordem [Un-Ordnung] [ATENÇÃO. we should not consider one as an emergent and another as a residual tendency. dominante depois de 1964. Tanto na localização quanto na globalização estão em pauta apenas aspectos parciais de um processo econômico abrangente (cf. Essa tecnocracia usou a ideologia do planejamento neutro com o ônus restritivo irracional de não tematizar o poder. Na UNICAMP o Estado é visto como detentor do poder e a nação é percebida como um receptáculo . desestruturaram-se a regulação democrática do estado-nação e. também o fundamento do saberpoder racional. da região e da economia. A maioria da população deve assim perder o seu estatuto de sujeitos políticos e ser degradada em meros suportes de estruturas. Novy. Em conseqüência da crise dos anos 60. reflecting new articulations of global mobility and local fixity. são produzidos cada vez mais nas mais distintas partes do país produtos individuais em regime de especialização. À medida que a dinâmica da acumulação é interiorizada. They are all contemporaneous. para desistir com isso da regulação política racional. O tradutor]. os pontos nodais da regulação da moeda e do trabalho. Mahnkopf 1996: 30). as Ligas Camponesas e outros movimentos de base na periferia nacional não foram nenhuma farsa (Oliveira 1987: 18). Sob a ditadura. possibilitando a sua critica. A expansão para novos espaços geográficos ainda não integralmente dominados pelo capital e a valorização de espaços sociais nas regiões nucleares do capitalismo são estratégias perfeitamente compatíveis. que ainda permanecem substancialmente preservados. A SUDENE. De fato. Os pressupostos dessa intervenção política específica se dissolveram e se tornaram apesar disso o fundamento da formação científica de planejadores. Mattl 1999). Mas esse modo de apreciação ignora o fato de que os campos histórico-geográficos têm a sua inércia também na área da produção. deverá ser respeitada.a orientação para o mercado doméstico . A acumulação e regulação ocorrem no mesmo espaço e reagem ao mesmo centro de comando do poder. Em meio a um processo de descontextualização os métodos e instrumentos utilizados foram inseridos na práxis do planejamento autoritário.não conduz automaticamente a uma ordem estável e muito menos ainda a uma ordem justa na periferia. Foi possível acomodar os conflitos entre a acumulação e a regulação nessa constelação histórica concreta de um campo do estado-nação. enquanto der lucro. À medida que todas as decisões passam pela esfera do estado nacional. É certo que a endogeneização do campo econômico . REVISÃO DA EDITORA: aqui e a seguir a distinção entre ‘desordem’ e ‘des-ordem’ deve ser rigorosamente mantida. esse campo de poder possibilitou um papel progressista de saber-poder que definiu a desordem da periferia como des-ordem. da tomada de decisões sobre investimentos e financiamentos. A concepção da glocalização sugere a desimportância da nação. torna-se nele também possível um planejamento do desenvolvimento.permeável. Seguindo o discurso da globalização. Cada espaço ativa os recursos com os quais ele pode concorrer na concorrência global. a dinâmica econômica produz um espaço de entrelaçamento que extrai as suas regras da lógica do sistema econômico. Se esses recursos são valiosos.6 Vale o princípio ”Anything goes”. 144 . new geographical options in the present corporate repertoire” (Amin. Por isso as localizações em São Paulo ou nos estados vizinhos continuam especialmente atraentes . mas ela pode reduzir a desordem. sempre que surgir. Uma outra conceitualização do espaço e do poder é igualmente necessária para superar esses desvios teóricos e políticos. chega-se à valorização do espaço local. mas o palco no qual elas atuavam foi o estatuto provisório de uma situação exceçional. Tenta-se tirar o poder do território ou dissolver o território.

Por isso o território político clássico da cidade perdeu uma parcela grande do seu poder. mormente sem o Estado (Oliveira 1998b: 95). o mais tardar. só podem ser definidos com autonomia restrita no atual regime da desregulamentação dos mercados de capitais. parece ser mais fraca do que as estruturas territoriais que se consolidam ao longo de 500 anos. O estado-nação enquanto capitalista financeiro.assim por exemplo a Grande São Paulo . todo o espaço de aglomeração . Oliveira chama a atenção à crescente dependência da valorização do capital do ” fundo público” (1989: 94 s. definem o valor de um país. 7 Não muito distante disso está também a nova orientação ideológica defendida pelo Banco Mundial. Uma nova forma de território. Na esteira da argumentação de Tavares. falta em larga escala ou baseia-se em mecanismos informais e freqüentemente ineficazes.tem maior peso na concorrência entre as localizações. Feldbauer et al. que arrecada tributos da população para subsidiar o processo de acumulação. na forma da ”guerra fiscal”. A dinâmica dos espaços de entrelaçamento. Uma crise da moeda se torna assim rapidamente uma crise de um espaço de poder. na direção de um ”Estado forte” (IBRD 1997). outrora ilegal. Pode-se observar essa fragmentação também no plano microregional: se no passado a regulação local da economia local era possível. Vale genericamente a regra de que empresas multinacionais estão em grande parte isentas do pagamento de impostos. parece ser menor. num segundo passo. Se num primeiro passo de ”desestatização” o território foi destituído de poder. 1997). mas que. ele deve. transforma-se na antítese do estado-nação (Oliveira 1989: 5). A fragmentação do espaço político expressa-se na descentralização do estado-nação e no fortalecimento de instâncias reguladoras supranacionais em um sistema global de governance (Jessop 1997).9 Hoje o fundo público disponibiliza os seus recursos mais exclusivamente para a valorização do capital do que nos tempos do fordismo orientado para o mercado doméstico.. para além das regiões centrais. por outro lado. As outras áreas têm uma relação muito menos direta com a estabilidade do processo de valorização. Os bancos centrais dão hoje garantias do patrimônio que se encontra no território do Estado e defendem o seu valor por meio de uma política de juros elevados e do fortalecimento da moeda. por um lado. Em uma tal crise maciça. Disso resulta o aspecto da irracionalidade da des-ordem. como isso foi praticado exitosamente na ”Viena vermelha” do entre-guerras e já bem menos exitosamente na Inglaterra do início dos anos 80. que consiste em sondar constantemente os limites dos subsídios pagos ao capital a expensas dos trabalhadores sem que se chegue a uma crise de subconsumo. A valorização do capital freqüentemente não é rentável sem subsídios maciços por parte do Estado. quão pouco ela está desacoplada do espaço. que fala de um capitalismo financeiro. Em virtude dos mercados desregulamentados de divisas. os ricos têm hoje as mãos livres para promover a ”evasão de capitais”. evidenciase a hierarquia dos espaços de poder na economia mundial. no âmbito do ”local Socialism” (Becker.7 Mas na realidade o espaço político também se transforma na direção do espaço de entrelaçamento. isto é. Mas a correspondente territorialidade. de Estado e capital. e procura novamente a mão protetora do Estado. Mas como a reprodução do capital se dá em nível global. Sua riqueza se lhe afigura como fonte financeira da coletividade e do Estado. pela via do apoio do processo de valorização: a infraestrutura econômica necessária. Mas em uma área o estado-nação assumiu um novo papel. que implode territórios. 8 Nesse sentido a virada fundamental da política keynesiana desde 1930 consistiu no fato de que a intervenção do Estado se dava ex ante e não ex post. A burguesia reconhece então. Sobretudo os aplicadores nacionais e internacionais do capital de curto prazo são atores políticos que lograram impor a desregulamentação dos mercados de divisas e podem atuar hoje em meio a um espaço global de entrelaçamento. A política não serve ao aumento direto. Disso resulta a crença egocêntrica e errônea da burguesia de poder viver sem os outros. Não existe um fim da des-ordem. a nação enquanto soma dos seus habitantes passa a ser a perdedora. Novy 1999). Fazem isso tão mais à vontade. dos donos do espaço. Isoladamente.8 O capital necessita de um Estado forte para poder saber de antemão de modo confiável quão elevados serão os seus subsídios. 145 . um desaparecimento do ”Terceiro Mundo”. quanto mais as forças oposicionistas estão marginalizadas no Estado. como ela afetou em 1997 quase todos os ”mercados emergentes”.). ser colocado sobre pés novos. A moeda e o fundo público .ambos inteiramente vinculados a um território . mas talvez ao aumento indireto do bem-estar local. De decisiva importância para a crítica da teoria econômica do cepalismo foi a falsa separação de economia e política.145 mercado. e não inversamente a coletividade enquanto nação como fonte da sua riqueza.criam uma hierarquia global que impede redes dispersas do espaço de entrelaçamento e externalizações ainda maiores dos espaços centrais de poder. um espaço delimitado de poder com competências claras. Por isso os liberais apressam-se em retornar com demasiada rapidez ao regaço do Estado. a empreitada liberal de uma autonomização do processo de valorização capitalista e de uma redução da influência do Estado está condenada ao fracasso. 1998). A taxa de câmbio e a taxa de juros configuram dois instrumentos centrais de política que. tornando-se assim parte do cálculo de valorização do capital (Oliveira 1987: 102 ss. Esse argumento vale sobretudo para a política maciça de subsídios estatais que atingiu todos os planos da federação brasileira e mina o estado fiscal. a pesquisa e o desenvolvimento devem ser disponibilizados in loco. por essa razão a demanda de regulação por via dos territórios. 9 Os donativos fiscais foram em parte usados para lucros extraordinários. nas últimas décadas o espaço da economia local estendeu-se na maioria das grandes cidades e em todas as global cities definitivamente além das fronteiras políticas (cf.

a saber. que a partir dos anos 50 e 60 os investimentos produtivos (sobretudo transferências de unidades industriais e investimentos diretos) foram o primeiro passo.10 Do ponto de vista quantitativo. Nas economias centrais o espaço político entrou em crise. o poder produtivo do capital que enquanto estrutura profunda é responsável pela des-ordem da periferia? Na parte final do presente trabalho tentaremos examinar agora a estrutura dessa desordem do capital que não é apenas periférica.1 Da des-ordem da periferia à des-ordem do capital Assim como extensos setores da Sociologia e da Economia. mas também sobre a territorialidade enquanto produção de territórios definidos sempre apenas por tempo limitado: fluxo e definição de processos sociais no espaço. isto é. dos investimentos. constituem pontos nodais centrais. O espaço econômico tornou-se maior. Por outro lado. que se preocupa com o seu espaço-receptáculo. enquanto dialética. O controle in loco será maior se as indústrias de bens de consumo e de bens de produção estiverem fortemente entrelaçadas em termos espaciais e não dependerem do exterior. Por um lado. Freqüentemente deparamo-nos com uma certa nostalgia da ”Era Vargas”. da produção e do consumo podem ser melhor compreendidos como espaço de entrelaçamento. sem efetuar uma análise do poder sobre o espaço. não representando o espaço único de poder. Becker 1999). governadores e presidentes se sobrepõe crescentemente a poderes supranacionais que definem as regras de um território. 146 . estava na pauta a destituição do poder de detentores locais do poder.2. Mas num exame mais acurado mesmo as fronteiras do territórios são bem menos nítidas e delimitadas do que parece. O financiamento do desenvolvimento espacial também deveria ser controlado in loco. Com os mercados de eurodólares o capital financeiro começou a internacionalizar-se nos anos 70 (Novy et al. Politicamente. esta permancece à margem da ordem global. mas abrange o mundo inteiro. Ocorrem contudo condensações nesse espaço de entrelaçamento. Sob pontos de vista qualitativos o controle sobre o processo produtivo tem importância decisiva. Por isso dever-se-ia falar não apenas sobre o território. O fator nacional foi construído como modernidade e progresso sem que se percebesse que os fatores arcaicos se apropriaram desse novo poder sobre o espaço e transferiram toda a carga de ”reacionarismo e atraso do local” para o plano nacional. embora elas possam permanecer difusas e determinadas atividades sempre se possam difundir. Não esqueçamos. A fronteira é um aspecto importante do território. Nesse novo espaço de entrelaçamento econômico as cidades . No fordismo enquanto modo de desenvolvimento orientado para o mercado interno os espaços político e econômico coincidiram em grande parte (Becker 1998b: 122). o pensamento cepalino padece de grosseiras simplificações com referência ao espaço. centros e bordas. Num território o poder de prefeitos. formam-se pontos nodais. quando o espaço econômico começou a expandir-se além das fronteiras nacionais. Concentrações de empresas e 10 A distinção entre regime de acumulação e sistema produtivo baseia-se nos diferentes enfoques da Escola de Paris e da Escola de Grenoble . dominada pelo estado-nação (Cano 1997: 253 s.2 A des-ordem do capital 5. Depois da degradação do fator local a dialética de ‘local’ e ‘nacional’ caiu novamente no esquecimento. O presente trabalho mostrou que a nação brasileira foi construída em um processo multissecular. mas não foi efetuada uma análise de vários planos. Mas é verdade afirmar que a des-ordem somente aparece na periferia? Será que as diferentes seções desse capítulo não evidenciaram uma estrutura constante. Não há limites fixos no espaço econômico da economia capitalista mundial: a economia interage potencialmente de modo a abranger o mundo inteiro. 5.146 mesmo depois da modernização da periferia. em parte até global. Cano 1998b: 309). o espaço econômico do comércio. Refere-se assim a uma região claramente delimitável na qual um determinado poder governa soberanamente. a esse propósito. do detentor ditatorial e personalizado do poder (aqui também a semelhança com Vargas). ambas regulacionistas(cf. para que se pudesse falar de um regime de acumulação. Por isso também o espaço de entrelaçamento tende a ter fronteiras. O cepalismo define comumente o espaço político enquanto espaço de poder com ajuda do conceito de território. 1999). Na base disso está mais uma vez a concepção hobbesiana do detentor soberano do poder. o que só pode ser interpretado como simplificação economicista. Trata-se então de um regime de acumulação ou de um sistema produtivo com entrelaçamentos econômicos espacialmente condensados. aparentemente separadas dos seus respectivos territórios. o enfraquecimento dos espaços de poder subnacionais também foi uma estratégia política para ”criar um poder soberano capaz de dominar um território extenso e governar um povo” (Nunes 1996: 32).world e global cities -.. a maior parte das interações deve ocorrer em um espaço concreto. Por isso é também enganoso ver os fatores nacional ou local como o plano espacial ”melhor”.

no campo de estado-nação do fordismo. Ocorreu uma orientação regional externa da acumulação dominada por São Paulo no sentido de uma dominação integral da periferia nacional.” (Becker 1999). pois o cálculo dos benefícios encontra aplicação em áreas sempre novas. mais estreitos. Mas a urbanização. A política industrial regional praticada sob os militares possibilitou a manutenção do campo de poder do estadonação até a crise do endividamento. Um modo de regulação designa a combinação estabilizada de manifestações concretas das formas estruturais Estado. após o fim do financiamento externo. Mas a mera endogeneização do desenvolvimento não supera a des-ordem da periferia. Ao mesmo tempo a estrutura interna do espaço econômico é mais fragmentadora do que na fase do fordismo. pois a força produtiva do capital é inerentemente contraditória. aumentando a multiplicidade dos atores intervenientes. 11 A regulação sempre é um fenômeno de vários planos. Como ela examinou o vaivém dos fatores interno e externo. Referi-me no presente trabalho muitas vezes a formas estruturais. central na periferia. a des-ordem da periferia não reside apenas na hierarquia de espaços. portanto. pois a renovada orientação externa obriga a constatar uma nova fase de desenvolvimento. os dois tipos do regime de acumulação atingem limites sócio-econômicos da ampliação do mercado interno. trabalho e concorrência. colocam-se então fundamentalmente duas alternativas: a maior orientação da acumulação segundo a economia externa ou o deslocamento dos limites sócio-econômicos. para tal se faz mister superar a lógica da acumulação. A natureza e o corpo humano são valorizados pela biotecnologia e pela tecnologia genética.11 Já no modo de desenvolvimento descentralizado da República Velha. outrora de competência do Estado de Bem-Estar Social. Tal como efetuada pela CEPAL. ”A partir de um determinado ponto. A acumulação extensiva busca a apropriação da mais-valia absoluta e o aumento da mais-valia relativa por meio de aumentos de produtividade. mas simultaneamente. A teoria da regulação fornece aqui o ponto de partida. Argumentando em termos de imanência sistêmica. ser melhor apreendida com o conceito mais 147 . A acumulação. depois a regulação começou a decompor-se. Além disso chega-se a uma extensão da lógica do capital e do mercado a áreas até há pouco tempo subtraídas ao mercado. da apropriação da mais-valia. para a esfera privada a ser organizada na sua maior parte pelas mulheres. Várias estratégias de acumulação ocuparam o lugar de um regime dominante de acumulação. Nessa situação representações hobbesianas de soberania não são inteiramente erradas. Atividades distintas enfeixamse em planos respectivamente distintos. como reação à crise de acumulação de 1964. pois ele não efetua nenhuma análise das classes e elimina assim também do foco o conflito entre o capital e o trabalho. Aqui iniciam também as tendências de intensificação. De acordo com essa visão. A velada orientação externa do capital paulistano assumiu um caráter aberto. normatizando e disciplinando estilos de vida. que continuou funcionando até 1982. constitutiva da intensificação no fordismo periférico. com vistas ao aspecto do controle. É certo que no seu centro não está a superação do capitalismo. a conceitualização da periferia concentrou-se em espaços e situou a des-ordem na periferia. Isso tem a ver com o fato de que a concepção do modo de regulação se baseia. Para ele. a endogeneização da dinâmica econômica na América Latina em geral e a constituição de um sistema econômico local em São Paulo constituíram a ruptura mais importante na história econômica da América Latina. centro-periferia. A primeira consiste na relocação de prestações sociais. Os recursos da política regional se encolhem devido à crise fiscal do Estado. trata-se de uma superação [Aufhebung] num quadro conceitual mais abrangente e crítico. muito pelo contrário. Diferentes planos espaciais influem na regulação. portanto. podendo. Com referência à acumulação. mas na hierarquia de classes sociais. O critério decisivo de periodização passou a ser a pergunta se um regime de acumulação seria orientado para fora ou para dentro. feita em termos de economia política. Essas contradições só se manifestam mais maciçamente na periferia. Depois o campo de poder desmoronou. a acumulação intensiva baseia-se no barateamento dos bens salariais e em uma nova norma de consumo da classe trabalhadora (Aglietta 1987: 68 ss. à qual subjazem formas respectivamente distintas da luta de classes. Primeiro a acumulação parou. moeda. Por isso todo e qualquer modo de regulação é no fundo um ordenamento específico de regulações em planos espaciais distintos. Sociedades capitalistas constituem uma des-ordem. atribuiu à questão da endogeneização da dinâmica econômica um papel-chave. mas a transição a formações capitalistas respectivamente novas. mas utilizei o conceito de modo de regulação mais raramente. significou a estabilização da des-ordem. feito pela CEPAL. isso significa uma combinação de extensificação e intensificação. Essa crítica do pensamento cepalino se prolonga. Tal análise de modo nenhum significa a negação das importantes descobertas do cepalismo em muitas áreas. No Brasil pôde ser observado uma combinação.147 mercados globais financeiros conduzem a entrelaçamentos espacialmente mais extensos. em uma análise do poder sobre o espaço. Mas Aglietta define diferentes formas de acordo com a forma da apropriação da maisvalia.). Num país de dimensões continentais como o Brasil a exportação nunca pode substituir inteiramente o consumo doméstico. Mas na estrutura atual esse enfeixamento historicamente incomum se dissolve. e a complementação do setor de bens de produção também foram concluídas. Aqui a periodização cepalina prova ser útil. assim como o do regime de acumulação. Oliveira (1987: 24) criticou o acoplamento do poder ao espaço.

que no Brasil chegara com a política regional da SUDENE. o que veio acompanhado de um elevado índice de financiamento externo (Oliveira 1989: 17.seguindo a argumentação de Oliveira .a do capital industrial paulistano . o que não significa outra coisa senão que o consumo e a produção nesses espaços seguem uma lógica unificadora.). tanto da acumulação do capital quanto da luta de classes (Oliveira 1987: 29). Enquanto ator nacional. o que. E mesmo na fase atual de esvaziamento do estado-nação a perda de poder do mesmo em benefício dos municípios e dos atores globais de modo nenhum é irrevogável. Esses esçaços perdem então a sua forma regionalmente específica e submetem-se ao poder da fração dominante do capital. implementada no curtíssimo prazo. muito menos ainda são superadas as diferenças regionais. A homogeneização da acumulação e regulação significa.e casualmente também a homogeneização regional analisada por Pacheco. muito pelo contrário. D . por conseguinte . o plano nacional enquanto elemento unificador desempenhou um papel mais importante para a estrutura global do que comumente se admitiu. XIX como ”moeda. Ocorre que a homogeneização não vale apenas para a acumulação. o Banco Central dispõe do recurso-chave moeda e regulamenta o acesso às fontes de financiamento. Na realidade. Essa análise baseou-se no conceito foucauldiano de dispositivo (cf. por assim dizer”. Estamos aqui diante de abstrações da economia política que são estranhas à visão de mundo da CEPAL. Como sugere o conceito de fordismo. como critica Pacheco (1998: 26). os regulacionistas atribuem à relação salarial uma posição determinante entre as formas sociais (Hübner 1990: 177 ss. destituída do elemento ‘poder’. trata-se de espaços de poder com uma forma própria. Foucault 1978: 119 s.mercadoria – mais dinheiro) é o caminho que o capital precisa percorrer para reproduzir-se. Para o modo de desenvolvimento do fordismo tropical. do modelo de Estado em todos os planos espaciais. uma lógica . é expressão de compromissos de classe estabilizados em termos espacio-temporais. em vias re publicação). Os investimentos diretos efetuados nos anos 90 no Brasil por grupos industriais estrangeiros fizeram com que estes agora determinem o processo de acumulação. O campo do estado-nação da ditadura militar criou uma tal homogeneização . Já tentei algo semelhante em uma análise do discurso: procurei valer-me da concepção do dispositivo para por de manifesto as estruturas do discurso (Novy. Oliveira (1987: 27) vê uma região como um espaço no qual ocorre uma forma específica de reprodução do capital.passou a sobrepor-se às diversas lógicas dos outros planos espaciais. ele atribui o primado à moeda (Becker 1999). Muito pelo contrário. presente na concepção do poder sobre o espaço. Em Oliveira podemos encontrar idéias semelhantes. centrado no estado nacional. mas também para a luta de classes e a regulação. Assim ele vê a libra britânica no séc. essas explanações sobre a dissolução das regiões e a homogeneização nacional no ápice do fordismo periférico podem ser continuadas em grau mais abstrato. a nação foi homogeneizada politicamente. no entanto. O núcleo do período depois de 1930 consiste no fato de que a moeda nacional se torna o equivalente geral de toda a economia nacional. Abstração feita de ”aldeias gaulesas” isoladas. A partir de outra aberto do dispositivo (cf. como foi o caso com a região do açúcar e do algodão no Nordeste e a região cafeeira no Sudeste. colocada em primeiro plano por Pacheco. A realização da apropriação da mais-valia se dá ex post e por via do dinheiro. Mattl 1999). para a relativização da tese cf. Na condição de campo. pois este é tanto parte da regulação quanto a instância que deve sancionar o conjunto de regras e normas. pode-se falar de um regime de acumulação. Mas a partir de um determinado momento da integração do capital. Cano 1998a: 241). a homogeneização em termos de economia política. se refere a algo inteiramente distinto do que a distribuição no espaço. seja nos automóveis ou na Coca-Cola. Com isso não se encerra toda e qualquer especificidade regional. Diante da globalização. As opiniões divergem no tocante à hierarquia das diferentes formas estruturais que constituem um modo de regulação.à dissolução da nação. Um exemplo atual são os subsídios concedidos às montadoras de automóveis. Raza. observam critérios idênticos e operam com as mesmas tecnologias. sobretudo no Rio Grande do Sul. Já Becker (1998b: 120 s. A concepção da homogeneização não é ”demasiado” abstrata. Becker. Mas essa descentralização da produção significa a inserção das regiões favorecidas no processo global de valorização dessas empresas multinacionais. Por meio dos reduzidos entrelaçamentos externos constitui-se um espaço autônomo de reprodução do capital.D’ (dinheiro . não deve ser confundido apressadamente com determinados governos ou regimes.M . Se a apropriação da mais-valia e a determinação do valor da moeda ocorrem no mesmo espaço. No início e no fim desse processo está o dinheiro. a não-intervenção de atores globais no período de 1930 a 1953 evidenciou ser de importância decisiva. pode-se observar tendências à recentralização. A sua valorização do capital está sujeita a uma lógica que integra o mundo inteiro e conduz. Mais especificamente.) 148 . Em termos econômicos. e isso segundo a lógica de um poder global sobre o espaço. a crise da acumulação e a crise fiscal conduziram a uma homogeneização radical. Mas esta baseou-se em uma fusão dos capitais estatal e privado e na assunção de tarefas de capitalismo financeiro por parte do estado nacional. que criam complexos regionalizados de produção fora de São Paulo. Se a crise do estado-nação incluía a esperança por modelos políticos descentralizados e plurais. Por isso pode haver diferentes regiões num espaço monetário.) atribui a posição dominante ao Estado. uma tendência ao predomínio de uma determinada lógica de valorização do capital.148 orientado para fora.

Esse conhecimento ensina a ser sempre pessimista com vistas a transformações. por um lado. No entanto. Em algumas áreas isoladas houve tentativas de reduzir a dominação corporificada na forma centralista-tecnocrática do estadonação. Sem uma análise dos regimes financeiro e monetário. disponíveis aos diferentes atores. nos anos 50 e 80. o Brasil e a Venezuela só os detentores locais do poder e os fatores endógenos seriam responsáveis. empregos para uns e desemprego para os outros”. Essa pluralidade de opções resulta de uma determinada estrutura. apenas germinalmente pelo Brasil. isso produz justificativas ex post e enseja a elaboração de uma simplória história dos vencedores. Havia. mais uma vez na onda de um amplo movimento de massas. As estruturas multisseculares de uma sociedade escravagista e latifundiária começaram a se por em movimento . a Rússia. Ao invés disso procurei oferecer no âmbito da análise da conjuntura uma explicação estrutural-estratégica que explica o poder com o número de opções muito desigualmente distribuídas. pois o regime ditatorial e com ele o establishment estavam desacreditados. a análise da economia política chega ao mesmo resultado.12 Além disso não quis sucumbir nem a simplificações politicistas nem a simplificações economicistas. Mas a história reserva uma lição: a des-ordem da periferia e do capital não exclui a possibilidade da simultaneidade da fragmentação e do crescimento.2 Transformação e constância do poder sobre o espaço A força das estruturas evidenciou as dificuldades simplesmente incomensuráveis de iniciar mudanças que transformem as instituições e estruturas de modo a melhorar as condições de vida da maioria da população. 149 . da possibilidade de transformação. a convicção de que a mera constatação da desigualdade para a qual os sociólogos apontam com referência a tempos e espaços sempre novos era imprescindível. A raiz da fragmentação está na circunstância de que o valor da moeda é definido em lugar distinto do do processo produtivo. Sobretudo na onda de um movimento de massas. A cogestão dos cidadãos. por outro lado a estrutura fundamental capitalista permaneceu intocada.a tal ponto. à do capital. a elaboração do Orçamento Participativo e investimentos maciços na infraestrutura pública abriram o Estado local para camadas mais amplas da população. o subdesenvolvimento e a impotência. Por outro lado. que grupos importantes viram o golpe de 1964 como única saída. revela-se inócua a esperança por uma política industrial e regional nacional que um esclarecido detentor do poder deve realizar com um ”projeto nacional” (Pacheco 1998: 268). por prudência. Mas ao mesmo tempo esse conhecimento é um instrumento de poder. pois a internacionalização da moeda e do financiamento produz um efeito idêntico.à frente de todas as lógicas. 5. por um lado. Sob a camuflagem de uma ciência crítica. um amplo consenso social quanto à necessidade de superar a pobreza. para não cairmos em uma postura cínica deslavada. faz-se mister contrapor a esse pessimismo um otimismo da ação. Já a simplificação politicista consiste na afirmação de que em países tão distintos como a Indonésia. Uma razão essencial do resultado problemático das 12 Uma análise estrutural é importante porque estamos diante do paradoxo de que há. No plano local foram implementadas numerosas reformas consideráveis da estatalidade. Necessita do espaço para utilizá-lo. Com a SUDENE o governo central brasileiro apoiou a partir de fins dos anos 50 uma tentativa amplamente dimensionada de modernização reformista da sociedade nordestina. O economicismo tende a explicações funcionalistas que ex post facto subordinam tudo a uma lógica funcional . algumas reformas foram possíveis em esferas parciais da estrutura social. Competências decisórias fluem para fora do país assim como o capital em fuga. Nos anos 80 os esforços socialreformistas experimentaram um renovado incentivo. Sem o conhecimento desse poder sobre o espaço não há como compreender os processos de desenvolvimento. Esse trabalho se orientou pelo empenho em evitar deficiências elementares nas explicações convencionais da desigualdade no Brasil. Permite realizar tão-somente transformações institucionais ou transformações estruturais parciais (técnicas sociais) que assegurem a permanência das estruturas de poder na sua totalidade. significa o acoplamento a um espaço monetário estrangeiro que se desmascara como espaço de poder.149 perspectiva. se ele não for criticamente reflexivo. Nas fases áureas da discussão democrática.2. a pobreza persiste e as injustiças aumentam. a totalidade das configurações estruturais concretas se alterou. essa forma de desenvolvimento gera tanto na periferia quanto no centro periodicamente o bem-estar e a pobreza. destruí-lo e produzi-lo. O poder concretiza-se no espaço. Contra teorias apressadas da crise e do colapso se deve registrar com Cardoso e Faletto (1977: 225): ”No curso da sua explicitação. a acumulação e a escassez do capital. efetuada radicalmente pela Argentina e. A dolarização. mas insuficiente. Ignorou-se aqui. genericamente pelo subdesenvolvimento e especificamente pela crise de 1997/98 (cf. O caso brasileiro mostra o espaço restrito aberto para a modificação das relaçoes de poder pela via da técnica social. Por um lado. que formas estruturais somente se estabilizam se a estrutura total for transformada.). A autonomia nacional se dissolve. por prudência. Krugman 1999: 158 ss. contudo. os reformistas tinham uma posição socialmente reconhecida.

subtraem-se ao simples acesso mediante ações. uma análise histórico-geográfica deveria ser uma análise de estruturas realizada em várias etapas. Por fim. O plano da ação descreve aqui práticas concretas. nos quais 150 . A regulação brasileira no final dos anos 90 distinguese radicalmente da do final dos anos 80. pois indicam graus distintos de abertura ao enfoque transformador de estruturas. para que sejam possíveis transformações de tão longo alcance e tanta radicalidade como as implementadas no Brasil nos últimos anos. comprovou a pertinência da tese da abertura dos campos sociais e do espaço existente de possibilidades da política. O Brasil copiou o modelo unitário de regulação mundialmente vigente.conservadora . As primeiras são estruturas no sentido supramencionado. dependente do exterior. da instituição e da estrutura. na esteira da democratização em curso tanto no Brasil quanto em escala mundial a abertura dos campos de poder foi avaliada como muito grande. Isso resultou da desconsideração de nexos das estruturas profundas e não obstante representou uma ação transformadora da estrutura. de uma modernização . As transições são fluidas.Giddens fala de princípios estruturais . Mas o processo de concentração maciça pela via das empresas multinacionais e dos mercados financeiros foi colocado entre parênteses. foi implementada depois de 1994 de forma inesperadamente vertiginosa. ”estruturas profundas” em níveis mais elevados de abstração. quer tivesse em mente maiores prestações de serviços sociais . Do mesmo modo puderam ser constatadas modificações nas outras formas estruturais. que tem uma forte inclinação a reduções economicistas na sua visão dos problemas. as segundas instituições.de abrangência distinta nos diferentes contextos espacio-temporais -. Mas a partir daí a estrutura do poder foi deslocada tão maciçamente que os conflitos acima mencionados se tornaram secundários. sobretudo do ordenamento extremamente desigual da propriedade e da renda. No início dos anos 80. tratase de isomorfismo. entendendo-se por isso a aceitação da estrutura do poder. O mais tardar desde 1994 as reformas sociais estão subordinadas ao primado da factibilidade. ocorrida até então apenas germinalmente. Comprova-se a veracidade da tese de que existe uma margem de possibilidades políticas . estruturas e estruturas profundas indicam sempre graus de consolidação de lógicas de ação. podemos falar no Brasil de estruturas cimentadas do poder sobre o espaço. Instituições são lógicas e rotinas de ação consolidadas que extraem a sua força estruturante apenas da reprodução da ação. Com referência às estruturas capitalistas e ao bloco de poder. Por outro lado. no entanto.quer contemplasse salários mais elevados.150 transformações em vias de realização está na avaliação errônea da hierarquia das formas estruturais. de uma unificação organizacional. Justamente no momento no qual a dinâmica dos movimentos sociais arrefeceu. Em boa parte. pois manifestavam-se como estratégias superficiais de transformação que preservavam ou consolidavam a profundidade da estrutura. profunda. a eficácia das reformas sociais também se alterou. não obstante as distinções são importantes. Instituições. ao Estado (Estado versus mercado).da des-ordem. o primado da política começou a produzir seus plenos efeitos justamente no momento no qual um presidente ”pragmático” insistiu enfaticamente nos limites da ação política diante da globalização. Melhor ainda do que numa análise em três etapas.era minada pela perda do valor da moeda. a abertura tem uma amplitude diferente para os diferentes tipos de transformações. Tal procedimento é mais fácil quando se copia outros casos. para transformar estruturas existentes. desenvolvida em três etapas. O primado da política dominava o campo discursivo. a velha regulação deve estar em uma crise ”grande”. Toda e qualquer tentativa de transformação . à democratização das relações de trabalho e da distribuição do produto social (eficiência versus justiça) e ao plano espacial (nação versus região/dimensão local). por conseguinte. Isso permite estabelecer uma distinção entre tipos de lógicas consolidadas da ação. No primeiro capítulo efetuei uma transição da dualidade de estrutura e ação de Anthony Giddens para uma análise da ação. transformáveis com maior ou menor dificuldade. em razão do qual o bloco de poder logrou conservar a sua dominância em meio aos conflitos dos anos 80 e 90. Atribuiu-se excessiva importância à inserção internacional (mercado interno versus mercado externo). a transformação do regime monetário nem foi percebida. A partir desse momento empenhos socialreformistas passaram a ter cada vez mais um gosto duvidoso. Com isso Fernando Henrique Cardoso. Mas essa afirmação não pretende advogar um voluntarismo ou politicismo simplório. Em escala internacional. Esse foi o ponto decisivo. Vimos. No sentido do enfoque estrutural-estratégico a tese da abertura vale apenas para tais casos nos quais a estratégia desenvolvida também considera a estrutura. Deve-se. Mas a inflação foi um preceptor que golpeou duramente o élan progressista. as transformações que se afiguram radicais e novas no caso do Brasil nem o são. Por um lado. Sobretudo na área da estatalidade pode se falar de uma transformação duradoura da estrutura. A abertura dos campos sociais é seletiva sob vários aspectos. examinar sempre até que profundidade que transformação avança ou em que nível se deve falar de constância. A reconfiguração do modo de regulação na direção de um modelo flexível. que atrás de estruturas pode haver ainda estruturas mais profundas. A estratégia desenvolvida deve efetuar as transformações individuais das formas estruturais de tal modo que elas ao menos sejam compatíveis no curto prazo. Instituições são reflexivamente referidas à ação. ao passo que estruturas . Por isso o Brasil é um exemplo triste de consolidação do poder.

Em tais situações extremas o imperador se desmascarou como homem nu e revelou que as suas novas vestes eram uma fraude. na linha de frente os problemas com o balanço de pagamentos revelaram a superficialidade e vida breve da modernização e do progresso sob o Plano Real. Os grupos dominantes quiseram governar com a anuência de partes importantes da sociedade civil (Oliveira 1998a: 159 ss. Com o seu desmonte liberal do Estado. esse novo campo político está estruturado de tal modo que a política praticada é em grande parte destituída de alternativas. Mas até que ponto se pode falar de hegemonia.151 isso já foi praticado. Ora. As velhas fronteiras da des-ordem brasileira. não uma missão histórica da modernização e capitalização da economia e sociedade. como Fernando Henrique Cardoso teve de fazer poucas semanas antes das eleições (www. a direita logrou fazer algumas conquistas de grande impacto.jb. O fato desse novo campo entrementes ser administrado nos países vizinhos da Argentina e do Chile por governos de centro-esquerda reforça o poder da hegemonia social-liberal. Por isso os elementos de hegemonia que atualmente podem ser identificados têm muito a ver com a destruição de alternativas . Depois de anos de confusão e insegurança. o governo criou um novo quadro no qual um retorno à política do Estado de Bem-Estar Social à maneira do fordismo ficou impossibilitado.um expediente sempre usado com extrema eficácia no decorrer da história.). a democracia e a participação só podem ser uma concessão aceita em fases de conjuntura econômica favorável. A estratégia hegemônica social-liberal baseia-se em não restringir procedimentos formalmente democráticos. Não há imagem melhor do irracionalismo dessa des-ordem.br de 11 de setembro de 1998). É lícito falar aqui de uma dominação estabilizada? Diferentemente de blocos anteriores de poder. o bloco de poder se vale de outras instituições para impor o seu poder. O campo dos conflitos sociais deslocou-se duradouramente. Estado de Bem-Estar Social e indústria nacional é considerado um dinossauro. a aliança em torno de Fernando Henrique Cardoso não quis somente a dominação. mas também a hegemonia. a supremacia política parece novamente estabilizada. Por essa razão não admira que a transformação que se afigura radical em perspectiva nacional seja uma mera cópia em perspectiva internacional.3 Hegemonia social-liberal? O feito do governo Fernando Henrique Cardoso parece consistir em ter estabilizado a des-ordem num novo arcabouço institucional. O espaço de poder denominado Brasil é regulado hoje por um conjunto inteiramente novo de instituições. a burguesia se caracteriza por uma clara consciência do seu interesse próprio. Mas a participação ampla da população leva forçosamente a crises estruturais. Como o poder burocrático do Estado é reprimido em benefício de uma lógica do mercado capitalista. Por isso a estabilização econômica é sempre apenas precária. Uma ordem capitalista de mercado foi imposta também em áreas nas quais isso há dez anos ainda parecia impossível. diante de crises continuadas? Hegemonia é um estado de supremacia que deve abranger a política. Se a preservação da estrutura do poder é o princípio universalmente determinante do bloco de poder. que os grupos oprimidos alcançaram apenas em situações históricas 151 . esta última sempre foi cumprida apenas parcialmente e sempre foi interrompida quando membros centrais do bloco de poder estavam correndo perigo. mas também a economia e sociedade. Na sua realização.com. Com efeito. mesmo segmentos substanciais da esquerda aceitaram o campo discursivo da crítica liberal do Estado. chamando as forças da ordem para o campo de batalha. um fóssil de eras há muito passadas. ocupava o primeiro plano. Um projeto político carece tanto de legitimação no processo político quanto da garantia da acumulação. No ponto culminante da campanha eleitoral o establishment se preocupava mais com Washington e os mercados financeiros internacionais do que com o adversário político nacional. o que é um claro indício da consolidação da hegemonia neoliberal. Tornase crescentemente mais fácil para ele empurrar a camada baixa e a camada média cada vez mais para fora do do campo da cidadania social. Por isso. A luta de classes orientou a ação da burguesia brasileira. 5. Essa regra básica é aceita hoje crescentemente no Brasil. De resto o rolo compressor da contrareforma revogou partes substanciais da constituição cidadã. aos donos do poder nacional. na América Latina e no espaço anglosaxão como inconteste e natural. Precisamente aqui reside o grande. quase insuperável problema de economias periféricas dependentes de tecnologias e financiamentos externos. orientada segundo os interesses particularistas. mas minimizar a margem de ação democrática por meio de um espartilho fiscal e jurídico. baseada na coação.2. nada senão apelar à comunidade mundial e à sua solidariedade. Essa dependência significa uma restrição das opções abertas aos grupos nacionalmente dominantes. No caso de crises e outras instabilidades não resta aos senhores supremos da nação. As suas vitórias eleitorais em todos os níveis da federação marginalizaram a esquerda e remeteram-na a alguns pequenos espaços de poder em alguns municípios maiores e em alguns poucos estados. Isso é diferente com referência aos grupos politicamente dominantes com a sua experiência de 500 anos de estabilização da dominação. Quem continua falando de direitos sociais. Por isso a democracia pode ser abolida por uma ditadura ou restringida radicalmente no seu âmbito de vigência. A nova regulação estatal de governance ficou inequivocamente sujeita ao regime da moeda. a preservação do poder no curto prazo.

política monetária). 5. cristalizam-se uma desintegração territorial aparentemente anárquica e a difusão em redes geográficas. A política enquanto reflexão fundamental sobre o bem-estar da coletividade é vista como traição de esforços pragmáticos. Elementos totalitários podem ser claramente identificados na democracia das elites.4 Os oprimidos também fazem história e geografia Por um lado. Mesmo a esquerda age hoje em grande parte no campo do liberalismo social. ele fala de totalitarismo ao invés de hegemonia. Na perspectiva qualitativa o Estado Provedor [Fürsorgestaat] antecipativo. que se subtrai aos efeitos da ação e é aceito como evidente e destituído de alternativas. Oliveira (1998: 95 s.está a raiz da compreensão dos processos sociais. divergências de opinião somente são desejadas com referência a detalhes e a liberdade de opinião é privada do seu fundamento material.no mercado de consumo. A hegemonia pressuporia uma integração dos oprimidos no campo semântico dos dominandores. embora controvertidas. Trata-se de uma integração passiva. um regime social-liberal.com simultânea contração às assim chamadas áreas nucleares do Estado (políticas interna e externa. À medida que ele dirige a sua atenção às classes oprimidas. esses portadores da cultura permaneceram uma pequena elite cujas idéias continuaram estreitamente vinculadas aos interesses sociais e políticos da classe dominante” (Deppe 1987: 346 ss.” O Plano Real preparou o solo para essa nova estatalidade. em que pesem as muitas intervenções associadas a uma multiplicação das linhas de cisão que atravessam a sociedade. Estimulado por reflexões de Bob Jessop. ”não obstante. Apesar disso não foi possível. da geração de uma mercadoria sem a ilusão da liberdade. Na perspectiva do eixo temporal. A integração das massas na sociedade se dá por meio da sua participação .). sempre que necessário. uma grande parte da população é excluída e a elite cultural é sustentada por uma classe patrimonial relativamente grande. contribuindo dessarte à consolidação do projeto hegemônico do neoliberalismo. mas modificou a sua argumentação nos últimos tempos (Oliveira 1998a). restringe as margens de ação mais nitidamente do que em outras épocas. a crítica do status quo é considerada antidemocrática. sem posses e aparentemente sem poder . Esses grupos continuam dispondo da capacidade de fazer história e geografia. Na afirmação do poder de todas as pessoas .também das incultas.2. Oliveira também avaliou durante algum tempo como fortes as chances do atual bloco de poder de se tornar hegemônico.) chama dessarte a atenção ao perigo de um apartheid social e de uma elitização cultural. A argumentação acima focalizou a discussão política oficial e a derrota de um projeto oposicionista de sociedade. Mas hoje a supremacia da compreensão liberal de regulação que hipostasia ideologicamente e absolutiza o setor privado e a economia de mercado.apenas marginalizada . que apresenta várias rachaduras. A desuniversalização da dominância desdemocratiza e se transmuda em totalitarismo. o que levou Krebs a constatar um fracasso do neoliberalismo.) constatou com vistas à Europa. com hierarquias minuciosamente graduadas. Qualquer dinossauro que se posicione fora do campo social-liberal é declarado imediatamente out. isto é. dotado de competências decisórias. podendo ditar os limites de reformas. Manter consciente essa descoberta ameaçada de cair no esquecimento é uma das tarefas centrais do pensamento teórico. A nova ordem institucional de uma governance social-liberal adquire um caráter crescentemente estrutural. Mesmo na ”Nova Renascença” na era da globalização. Já na Renascença o progresso social e cultural foi possível a expensas da maioria da população. a análise da estrutura evidenciou as dificuldades de projetos hegemônicos na periferia. Mas essa capacidade está sendo crescentemente negada à gente simples do povo. Na perspectiva do eixo espacial. que é orquestrada pela mídia e sugere um consenso social. estabelecer um regime coerente de acumulação com um correspondente modo de regulação social e política. do consumo na prisão de uma ordem totalitária. a busca de novos 152 . Assim o novo projeto de Estado deve ser considerado bem-sucedido enquanto projeto de destruição. fragmentado em sistemas procedurais de negociação de governance . O que Krebs (1997: 13 s. valeu no Brasil também para a aliança do PFL e do PSDB: ”Novas camadas de lideranças devem ser incorporadas ao bloco dominante junto ao poder por meio de cooptações e recrutamentos.152 excepcionais. duradouro. eu falaria de uma fase de re-estatização ou de rearticulação da estatalidade. Deseja mantê-los na sua alteridade. Além disso os proprietários de patrimônios dispõem de uma função de veto. Esse é o sentido profundo da exclusão e a causa do apartheid social no Brasil. é multiplicado. que segue a política de crise induzida pelo Estado e característica do neoliberalismo. Enquanto não se formarem outras forças no plano internacional que implodam essa supremacia. Mas a ”falsa consciência” da burguesia brasileira não deseja que os dominados se assemelhem a ela. uma fase de desarticulação seletiva de práticas estatais é seguida agora pela tentativa de uma rearticulação da ação estatal. pois os dominantes não estariam interessados em hegemonia no sentido da combinação de pressão e consenso com relação às classes dominadas. descentralizado.

mas influir sobre a configuração concreta dos desafios formulados pela globalização. as promessas contidas na democracia. Em comparação com os governos precedentes. devido à política de fortalecimento da moeda e juros elevados.). pois a avalanche neoliberal não é de natureza meramente retórica. o outro a criação de novos espaços de poder. os membros desse movimento preservaram um horizonte mais longo e mais largo. O consenso que se formou em torno da política da estabilidade fundamentou um ”pensamento único” (Fiori 1997: 100) que abortava todo e qualquer debate e eliminava o poder estrutural do foco da percepção pública. Essa esquerda aceitou a estrutura de poder dada e tentou possibilitar uma mudança social por meio de reformas institucionais com simultânea constância da estrutura profunda do poder.na sua auto-avaliação um homem de centro-esquerda . recomendou ativar em tempos de crise o ‘pessimismo da razão’ para ajudar o ‘otimismo da vontade’ que só pode surgir por meio da ação das classes dominadas” (Oliveira 1998b: 96). que não afetou a estrutura de poder mas apesar disso se interessou pelo desenvolvimento da produção nacional. vale dizer.. ”O termo ‘reformismo’ aponta para o fato de que transformações sociais que objetivam a superação da dominação e exploração não podem ser atingidas mediante a conquista de posições na estrutura do poder dominante. De acordo com a lição de Adorno a nossa tarefa consiste em radicalizar. essa estratégia voltada para o lucro. Durante o primeiro mandato presidencial de Fernando Henrique Cardoso. O conflito entre o PSDB e o PFL ocorreu no interior do próprio governo (Leite 1996: 32 s. a dimensão nacional se reduz como espaço de poder em larga escala à garantia do patrimônio dos nacionais e estrangeiros que já são ricos. mas claramente um processo profundamente enraizado nas nossas sociedades. Isso vale tanto mais para as estratégias antihegemônicas de ‘empoderamento’ [Ermächtigung. resultou nesse último partido nos últimos anos em uma aproximação crescente às contrareformas neoliberais do PSDB. A crítica do ”pensamento único” parte hoje essencialmente dos que continuam efetuando análises de economia política e receberam muito espaço no presente trabalho. que não pode ser elaborado sem a crítica da economia política” (Esser et al. Apesar dos efeitos sociais extremamente problemáticos. 1994: 226 s. ela sempre assume imediatamente uma clara posição de classe 153 . passíveis de transformação nos seus fundamentos. Estas devem ser dimensionadas no sentido de não trocar.] ‘O termo ‘radical’ significa que uma política emancipadora. Já chamei a atenção à circunstância determinante no Brasil de que a capacidade de inércia vale mais para o bloco de poder e a estrutura fundamental capitalista do que para estruturas e instituições concretas.é mais negativa do que a de muitos dos seus precedessores. ‘empowerment’].. Gramsci. a força do bloco dominante residiu em duas coisas: em primeiro lugar num discurso público e publicado que se caracterizou por um grau de uniformidade digno de espanto em uma democracia. Um é a crítica dos espaços de poder existente. e isso tanto na esfera do Estado quanto na da sociedade ‘civil’. Mas essa radicalização do PSDB para a direita não encontrou uma delimitação clara no PT. mas dissolver relações institucionalizadas de poder. cuja pátria é o PSDB. Apesar da pressão maciça na direção do conformismo e do raciocínio no curto prazo. Atualmente. Isso pressupõe em última instância que os atores possuam um conceito teórico das relações sociais existentes. A oposição. no qual o Estado atuava como capitalista geral [Gesamtkapitalist]. Quando a burguesia brasileira se sente ameaçada. no sentido de cobrar também o que o conceito promete: no caso em exame. Trata-se de um movimento social que se coloca em oposição radical ao bloco de poder existente. Apesar disso quero mostrar no fim desse trabalho dois campos de ação nos quais práticas antihegemônicas são possíveis e podem surgir projetos antihegemônicos. a avaliação do político Fernando Henrique Cardoso .).. embora no fundo aliviada do ônus da responsabilidade pela crise.153 projetos hegemônicos deve ser empreendida com uma elevada dose de modéstia. a direita empreendeu uma política econômica e social nacionalista com um regime de acumulação relativamente consistente. Passaram os tempos da vontade eufórica de transformação quando tudo girava em torno das questões ‘reforma ou revolução’. mesmo quando compreendida como processo gradual e demorado. acabou por imporse com Fernando Henrique Cardoso a convicção de que a esquerda não deveria mais trabalhar na elaboração de uma alternativa. considerada incontestavelmente necessária na sua essência. Com isso a esquerda liberal entrou em concorrência com a direita quanto à melhor forma de efetuar essa modernização. No âmbito da esquerda liberal. Em segundo lugar toda e qualquer alternativa ao status quo foi apresentada como carente de credibilidade. no fato das sociedades serem histórico-geograficamente contingentes. está intrinsecamente cindida. mas apenas mediante transformações fundamentais do modo dominante de vida e de socialização. naturalmente sem otimismo ingênuo. insistindo. Sobretudo depois do golpe militar. Restringiu seu campo de ação a mudanças institucionais e estruturais autorizadas pelo bloco de poder. Porém a análise dos espaços de poder mostrou quão problemática é a cooperação com o bloco de poder existente e quão reduzida é a margem de ação de um governo de centro-esquerda que faz coalizão com a direita. [. executado por medo de uma esquerda demasiado forte.deve ser avaliada mais positivamente do que a estratégia econômica atual determinada pelos rentiers desinteressados pela produção nacional. ”Em tempos históricos como esse a responsabilidade do intelectual está na radicalização da crítica. deve visar liminarmente a superação das formas sociais e das suas manifestações institucionais e reconhece como seu princípio fundamental a prática crítica dessas formas e manifestações. portanto. Um outro grande clássico. Esser e outros (1994) denominam essa estratégia política ”reformismo radical”. O poder concreto sobre o espaço restringe as opções da oposição.

quase tão velha como a Sé de Braga. Uma medida consistiu na disponibilização de recursos demasiado reduzidos.154 e localiza um claro inimigo de classe. Mas hoje o contrário parece estar na agenda: a aparente fluidez e atopia [Ortlosigkeit] do poder no sentido de um foucauldianismo vulgar é tão amplamente aceita e presta um serviço tão relevante à des-ordem vigente que parece ser necessário lembrar que o poder não se consolida apenas em estruturas. No plano local a análise do orçamento mostrou quão importante é ser dono do poder. Eles elaboraram inovações ”puras” sem consideração nem conhecimento da subjacente estrutura de poder. Governos de direita contraíam dívidas para construir ruas. essa margem de configuração de detentores do poder é significativa.a des-ordem. de acampamentos políticos definidos por oposições fundamentais entre si. a acumulação privada beneficiada pelos incentivos do Estado e pela exploração de uma mão-deobra carente de quase todas as condições capazes de fazer dela algo mais que o velho e sofrido instrumentum vocale dos tempos de escravidão”(Cardoso. o poder estaria localizado ”lá em cima” e corporificado na sua posse. por outro.e enquanto houver burguesia. Müller 1977: 204). A segunda medida foi a concentração das competências decisórias junto aos velhos donos do poder. o ‘empoderamento’ e o ‘desapoderamento’ são meios e resultados das lutas sociais. era formada por jovens acadêmicos politicamente inexperientes. mas não houve nenhuma descentralização política. pior ainda. Muito mais pertinente seria uma análise dos campos. não perdeu a sua atualidade. o que foi a estratégia predominante na cidade de São Paulo. mas é também feito por atores (Novy. rede e movimento. dos que elaboravam as reformas em detalhe. Mas antes disso importa defender a democracia enquanto condição geral central da ação transformadora. o que impediu a reforma ou. Por essa razão ocorreram lá terceirizações e privatizações maciças na administração pública. de resto já efetuadas na América Latina. as transformações estruturais dos últimos anos são um indício do ”primado da política”. Mas esse discurso desafiador antiburguês perdeu-se nos anos 80. Ocorreu uma valorização do empresariado. deve ser um 154 . Mas isso não significa simplesmente que a ação política sempre seja determinante. A luta de classes é feita por pessoas. Cazuza ainda pôde cantar nos anos 80: ”A burguesia fede . sempre vulnerável à ditadura. A análise do orçamento e de setores permite inferir que um governo petista durante uma década sem dúvida teria mudado São Paulo para melhor. O presente trabalho enfatizou em muitas passagens o significado da política. pois o poder é exercido em espaços físicos e sociais. a circunstância de que o postulado auto-movimento global-economicista é a astúcia de um poder que se quer tornar irreconhecível. e postulou uma visão do poder enquanto força. Por isso a pergunta pelos donos do poder não desempenha um papel irrelevante. A análise nacional fornece um quadro mais diferenciado dos detentores do poder. A visão convencional de esquerda e direita. Mattl 1999). Ela é sempre também uma pergunta pelo território dominado pelos donos do poder: quem tem poder onde. Quem exerce o poder sobre um território estabelece uma distinção com vistas ao desenvolvimento institucional e estrutural. Em São Paulo a gestão dos governos esquerdistas e direitistas revelou diferenças fundamentais. O acesso à ação fomentado por uma formação universitária tecnicista e neutra nega as estruturas do poder. Por um lado é imprescindível ocupar determinadas posições para implementar determinadas políticas. é a grande conquista dos movimentos sociais. A segunda estratégia antihegemônica deve consistir no fortalecimento de espaços alternativos de poder. Esse espaço democrático-público que o movimento democrático apoiado pela base arrancou desde o final dos anos 70 aos simpatizantes dos militares. canalizou-a muitas vezes para canais reacionários. Os primeiros representam o Brasil moderno. no estado desenvolvimentista. assim. Essa inversão de prioridades ampliou as opções de ação dos pobres. das estruturas do poder. da posse do poder. Só na perspectiva de uma ultrapassada posição soberana. pois o bloco social dominante é tão reacionário no Brasil que a defesa da democracia e dos direitos de cidadania contra o ”liberalismo real”. nenhuma partilha do poder por meio da partilha do espaço. O engajamento político é importante também no conflito em torno de detentores de poder em determinados espaços e tempos políticos. Foucault ainda escreveu contra a concepção do poder que localizava o poder simploriamente no seu detentor soberano. Apesar da retórica economicista. Aqui se ignora por um lado a produção dessa ordem global e. não haverá poesia”. ”Fecha-se. Nos anos 90 uma boa parte dos donos do poder do segundo plano. o ciclo: A vítima passa a ser causadora dos males da região e a ”nova solução”. Ela domina as estratégias da luta de classes para a eliminação de todo e qualquer questionamento da des-ordem vigente ”a partir de baixo”. Michel Foucault desclassifica a posse do poder enquanto objetivo político. Foi necessário o governo de Fernando Henrique Cardoso para implementar também no Brasil as contrareformas. o governo de esquerda investiu sem endividamento nos setores educacional e de saúde. Já os donos do poder do primeiro plano dominavam a arte de preservar a estrutura profunda do espaço do poder e sobretudo a dominância do bloco de poder mediante modificações aparentemente miúdas das propostas de soluções tecnocráticas. Essa foi a estratégia predominante no plano nacional. uma orientação da classe média nacional segundo os padrões da classe média global e uma desvalorização da classe trabalhadora. será a ‘mentalidade empresarial’. que hoje estão todos reunidos no e em torno do bloco de poder. os últimos o Brasil retrógrado. Muito pelo contrário evidenciou-se que existem formas da ação política que reforçam voluntária ou involuntariamente . isto é.

pois desinculada de qualquer lugar .especialmente o Rio Grande do Sul. todos esses movimentos populares dos anos 70 e 80 conferiram ao Brasil uma identidade. a criação de um espaço de poder autônomo esteve na agenda. em comissões. os movimentos estudantis e sindicais e as comunidades eclesiais de base. a esquerda pensa cada vez menos sobre o grande passo para frente. Importa. historicamente vinculada à nação. Por isso a esquerda não deve perder de vista a defesa da democracia como programa reformista mínimo. Fiori 1999) Em ambos os casos. razão pela qual faz sentido que os governos de esquerda apostem em soluções negociadas. as classes dominantes já operam uma luta não-declarada de exclusão há muito tempo. A acumulação. Depois de 1990.nas comunidades de base e nos sindicatos . muito pelo contrário e num primeiro passo. sobretudo os grandes municípios e alguns estados .constituiu a ”inovação social” mais duradoura do Brasil. aproveitando a multiplicidade de espaços de poder que a sociedade civil conquistou no transcurso da democratização. Não importa iniciar a luta de classes. Mas para poder negociar eficazmente com os grupos dominantes. mas também os oprimidos foram atores importantes que participavam da configuração concreta do espaço social do território. o consenso. inalienável da busca de alternativas é a elaboração de uma contracultura no campo da sociedade civil.enraizou-se profundamente na autocompreensão intelectual. Essa espécie de política consensual oferece um campo de ação para um reformismo radical. puderam iniciar uma série de desenvolvimentos positivos. A cultura popular alternativa no Brasil. A luta multissecular pela constituição da nação explica os vínculos racionais e emocionais dos brasileiros com esse plano espacial.no sentido temporal e espacial de ‘além’. Essa nova visão do mundo . fortalece as forças reacionárias e os projetos antidemocráticos. culturas e o capital trouxeram de fora ao país. desiludida quanto às possibilidades de uma transformação em profundidade. a esquerda deve melhorar a qualidade de vida da população. Embora o consenso recentemente tenha sido desmascarado como um campo problemático do saber-poder. Só se estiver claro que não se busca uma solução de compromisso a qualquer preço e que medidas essenciais em caso de emergência também serão impostas contra a resistência. muito pelo contrário. O modo de lidar com o consenso assinala a última relação de tensão que deve ser apresentada nesse trabalho comprometido com a argumentação dialética. o cinema novo. Assim nos anos 80 o fortalecimento das margens de ação na esfera local e a experimentação na cidade ocuparam o primeiro plano da política emancipadora. No final dos anos 90. efetivar em áreas parciais um modelo distinto do ”liberalismo real” predominante. Deveriam ser criados espaços de liberdade para outras formas de vida e de pensamento. Ela foi a forma mais eficaz de um esforço coletivo de fazer história e geografia. conforme mostra o exemplo de São Paulo. um orgulho e foram os primeiros passos de uma revolução cultural. Com efeito. Além disso ela deve. governos de esquerda. também permanecerá forçosamente localizada nesse plano. A aliança que surgiu nos ”outros espaços” da ditadura militar . concretamente de defender a nação e a soberania (Becker 1995. em virtude das relações de poder no plano nacional e quase sempre também no plano regional. mas pensar ”além” . Esses espaços sociais. Eis a lição a ser extraída tanto de uma análise gramsciana quanto de uma análise foucauldiana do poder. Mas o que une as inovações sociais locais e a defesa da dimensão nacional é o objetivo de fomentar a autodeterminação e participação da população. Um primeiro passo nessa direção é não seguir o pensamento único. me parece mais provável. Lutar contra essa supremacia ideológica é tudo menos fácil. ”São Paulo para todos” foi também o lema do governo petista. Apesar disso devemos dirigir a um nacionalismo fundamentado em argumentos de economia política a pergunta se a história da libertação. em instâncias intermediárias semi-estatais e da sociedade civil. traçar um limite à desmedida dos dominadores. os grupos dominantes podem ser levados a negociações sérias.155 objetivo essencial mínimo dos movimentos sociais e democráticos. Gramsci chama a atenção ao fato de que essa aliança deve englobar os intelectuais e a classe trabalhadora. seja nas inovações sociais locais dos anos 80 ou na defesa do fator nacional nos anos 90.levípede. Para tal fim se oferecem no campo político. isto é. A história de 500 anos de espaço e poder torna compreensível a freqüente mudança dos planos espaciais que se afigura apropriada para uma política progressista. mas para toda a população do território. a formação da nação sempre foi mais do que apenas uma concepção culturalista e chauvinista. Historicamente. Só depois de uma análise conjuntural saberemos dizer com pertinência em qual dos diferentes planos espaciais a ação 155 . a esquerda não pode abrir mão do seu potencial de ameaça. No quadro da des-ordem existente. dever-se-ia fomentar a autonomia. Nesse conflito não só os donos do poder. pois a constituição de uma forma política estruturada em rede. que se subtraem a uma coação à valorização e ao sucesso no curto prazo. de resistir. na qual se age em diferentes planos espaciais. Mas uma parte integrante. as classes média e baixa. o capitalismo brindou o Brasil com uma coleção inimaginada de mercadorias: tinha-se a impressão de que tudo podia ser comprado. que não funciona bem. do capitalismo. Para tal fim ela depende da cooperação dos empresários. a música popular. Em meio a esse entusiasmo generalizado diante da felicidade que as tecnologias. o diálogo e a comunicação constituem concepções-chave nos territórios dominados por forças antihegemônicas. Paul Singer (1996) chama com razão a atenção ao fato de que no âmbito de uma estrutura global capitalista um governo de esquerda não deve governar para a sua clientela. Mais claramente do que Foucault. Trata-se. poderiam ser germes de uma alternativa social. o pensamento crítico e com ele também a ocupação com os que vivem na base da sociedade se perderam por algum tempo.

1930 ou 1970 não compreendeu a respectiva conjuntura. a gente simples. Só porque os grupos em desvantagem praticamente não conseguem estabelecer-se no bloco de poder não pode surgir a impressão de que a sua atuação não produziria nenhuma influência no curso do mundo. comunidades indígenas ou grupos de hip hop. que preparou o caminho para melhorias duradouras. mas do entrechoque de interesses dominantes e oprimidos. essa nova estrutura duradoura não resulta unicamente do desejo dos grupos dominantes. na conformação de uma nova estrutura social.156 política é especialmente promissora. Mas parece estar fora de dúvida para a América do Sul que um grau maior de autodeterminação nacional é o pressuposto para impulsionar o esforço coletivo de fazer história e geografia nos diferentes planos. 156 . O fundamento de uma alternativa social deveria ser buscado justamente num enfoque de respeito diante do povo brasileiro. projetos alternativos de sociedade e ameaças concretas. mas também nos espaços locais e regionais de poder. No entanto. desse novo espaço global da classe média. relativiza as derrotas mais recentes na esteira do novo surto de democratização. e é justamente em situações de crise que os diferentes planos espaciais devem ser reordenados e relacionados entre si. Quem não quis tomar conhecimento da insatisfação que vinha ”de baixo” nas décadas de 1920. foi percebido como vítima de estruturas e simultaneamente como sujeito da transformação social. sem idealizá-la de forma culturalista e ingênua: as forças sociais da mudança não virão apenas dos espaços virtuais da Internet. o empowerment. o ‘empoderamento’ (Friedmann 1992) surgiu como alternativa ao desenvolvimento. Embora um olhar competente sobre o Brasil só seja possível se ele abarcar vários planos ao mesmo tempo. diante da gente simples do povo. sejam elas favelas. Assim os movimentos sociais influenciam. nos espaços nacionais. por conseguinte. Das Ciências Sociais espera-se hoje que elas compreendam esses espaços para transformar a sociedade. são necessárias as margens da sociedade. Na reflexão sobre a nação o povo. A ação social resulta do jogo de espaço e poder. podemos extrair uma lição substancial da reflexão sobre a nação brasileira: na análise de processos econômicos se deve pensar sempre também ao mesmo tempo na participação de toda a população da vida social e dos seus frutos (Sampaio 1999: 416). Justamente os intelectuais oriundos da classe média deveriam hoje levar novamente a sério a cultura das pessoas simples. Projetos dominantes de Estado e sociedade formam-se apenas em reação a inquietações sociais. Para que as mudanças ocorram. Justamente a dinâmica social das décadas de 1920 e 1930.

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9 1840 20.440 1835 – 1840 18.653 1855 – 1860 52.335 +125 -1. média por quinquênio.627 -7.6 1885 93.460 -3.965 -8.772 Saldo -1.3 1865 30.9 1875 47.750 +2.591 1860 – 1865 75.0 1895 122.173 149.506 1875 – 1880 130.855 1840 – 1845 26.300 1870 – 1875 110.629 -18.554 18.459 36.873 -38.169 7 Anexo 7.584 1845 – 1850 35.336 1880 – 1885 Fonte: Pessoa 1983: 102-104.190 26.1 Tabelas Tabela A-1: Investimentos britânicos.0 1825 6. 1825 – 1913 Ano Investimentos totais 4.521 47.436 9. 169 .1885. 1823 .135 148.9 1905 254.864 14.8 1913 Fonte: Silva 1986: 30 Tabela A-2: Demonstrativo da Receita e despesa geral do Império. em contos Exercício (média anual) Receita Despesa 10.275 1850 – 1855 45.114 1823 – 1830 17.539 60.243 114.449 140. respectivamente média de cinco (ou sete) anos.886 -7. em milhões de libras esterlinas.246 -1.014 1830 – 1835 14.067 26.278 1865 – 1870 105.858 -64.

6 outros (sobretudo caixas econômicas) 100.4 37.6 bancos de investimentos (3) 14.0 100.0 21.7 13.0 .Banco do Brasil 14.4 230.5 16. 1964 – 1970 Tipo 1964 (1) 1970 (1) crescimento (2) 79.0 6.7 sistema bancário 54.8 Tabela A-5: Créditos privado por instituição.7 40.1 13. em contos Ano Taxa de câmbio* 14 29/32 1891 9 15/16 1895 9½ 1900 15 7/64 1905 16 13/64 1910 12 29/64 1915 14 15/32 1920 6 1/6 1925 5 18/32 1928 * Mil-Reis para pence Fonte: Silva 1986: 29 Saldo 6.9 56.6 459.2 91.9 45.2 infraestrutura 34.0 645.6 semi-acabados 72.4 21.6 14.6 bens de capital 78.9 Organizações de desenvolvimento 6. In: Senghaas 1980: 132 capital estatal 73.2 Serviços Fonte: Serra.4 bens de consumo não-duráveis 7.0 9.0 17.170 Tabela A-3: Balanço comercial – saldos.5 19.0 comércio 8.4 37. em 1968 (in %) capital estrangeiro 17.5 205.8 91.9 .1 52.8 Tabela A-4: Participação das 10 maiores empresas nos setores da economia brasileira.2 275.3 SFH (4) 1.bancos comerciais 25. 1891-1928.3 -325.3 bens de consumo duráveis 53.5 233.6 13.4 27.4 TOTAL (1) participação dos créditos privados em % (2) crescimento anual médio (3) bancos de investimentos + empresas financiadoras de investimentos (4) Sistema Financeiro de Habitação Fonte: Tavares 1983: 224 170 . Brasil.4 capital privado 9.

795 1983-86 2.0 ativos monetários .404 1978-82 2. Brasil.4 78.4 1964 88.349 Tabela A-8: Número das empresas estatais fundadas no Brasil entre 1941 e 1976 Período União Estados 7 6 1941-50 1951-60 12 24 1961-65 19 46 1966-70 33 42 1971-76 67 59 Total 138 177 Fonte: Becker.6 2.198 1.7 100.262 1970-73 3.2 38.520 26.2 7. Egler 1992: 96 Municípios 30 1 3 4 5 13 Total 13 37 68 79 131 328 171 .610 9.698 20.936 14. 1947 -1988. em milhões de US$ correntes [???] Ano Afluência reinvestimentos 107 366 1947-54 716 251 1955-61 177 262 1962-65 388 236 1966-69 1.5 33.336 22.548 3.0 1970 61.558 1.depósitos à vista ativos não-monetários poupança depósitos a prazo Letras de Importacão Aceites Cambiais Empréstimos hipotecários ORTN títulos da dívida pública TOTAL Fonte: Tavares 1983: 229 Tabela A-7: Investimentos estrangeiros diretos no Brasil.9 3.548 10.6 12.6 2.4 18.1 100.6 11. 1964 – 1970 crescimento anual 1964/70 5.8 10.0 36.3 13.8 69.7 4.090 1987-88 (1) a preços de 1986 Fonte: Fritsch.171 Tabela A-6: ´Haveres financeiros em poder do público.9 50.0 0.908 4.016 1974-77 4.moeda-papel .5 6.2 4. Franco 1991: 23 estoque [??] (1) 5.4 37.1 10.7 2.600 30.9 1.659 1.971 8.

em bilhões de US$.88 425.05 0.5 1997 56 9.096 17.64 3.18 3.50 15.48 9.63 0.01 3. valores arredondados 1970 42.00 348.068 1. Brasil.80 96.80 10.97 Administração Administração fiscal Planejamento Ciência e Tecnologia Agricultura Telecomunicações Defesa Desenvolvimento Regional Educação Cultura Energia Desenvolvimento Urbano e Habitação Fomento da economia Política externa Saúde Proteção no trabalho Assistência Social Previdência Social Transportes Outros gastos Total Fonte: www.12 0.902 8.08 0.32 0.94 523.41 74.27 178.50 0.83 2.6 Gesamt Fonte: www.76 101.52 9.camara.956 50.42 2.3 1994 565.5 1975 129.14 0.55 72.28 91.10 5.9 1996 4 4.2 231.3% 1996 2.br Tabela A-10: Resultados das privatizações.14 0.29 0.512 1.10 87.467 -94.590 4.8 1980 237.2 1991/92 15 1.172 Tabela A-9: Gastos da União entre 1994 e 1998.34 629.1 254.09 1.59 1998 29.593 34.20 0.92 3.057 4.048 3.668 34.45 5.236 581 -729.06 2.17 1.67 0.87 1.98 0.93 4. Brasil.080 74.214 6.04 3.6 1993/94 8 327 1.93 1.3% 1994 1.73 25.27 0.003 32.83 0.61 2.52 3.77 0.1 139.9% 1995 -2.70 1.073 4.51 0. de 1992 a 1997 1992 -4. valores arredondados 1995 27.1% 1993 -4.9 210.15 155.59 5.gov.34 0.gov.61 10.51 15.17 31. em milhões de US$ Período Empresas Receitas Receitas Receitas privatizada líquidas totais líquidas/ s Receitas totais 18 49 415 1. segundo períodos e espécies de resultados.211 4.98 24.3 86.3% 1997 7. em bilhões de R$ (junho de 1999).813 10.bndes.83 0.629 7.89 5.000 -36.28 1996 25.265 95.89 2.12 0.30 258.2 (a) PIB em US$ correntes (1) (b) PIB em US$ correntes de 1985 172 .6 1995 11 3.11 0.br/pndnew Tabela A-11: Lucros de diferentes tipos de capital.9 1990 437.54 15.864 105.13 1.97 27.88 4.16 0.11 1.1% 50 maiores empresas estatais 500 maiores empresas privadas relação estatais/privadas Fonte: Exame 1998: 18 Tabela A-12: Exportações brasileiras de 1970 a 1994.53 14.95 3.34 0.29 401.24 6.38 82.96 1997 28.18 6.0 1985 210.3 198.32 66.60 3.

4 108.5 8.9 25.7 7.1 23.6 12.0 27.1 11.7 6.4 30.7 71.5 8.7 36.4 173 .2 120.6 10.1 25.6 7.1 8.5 11.1 12.6 15.7 25.8 21.9 31.6 20.0 2.1 6.173 (c) PIB agricultura e indústria de 1985 (d) Exportações em US$ correntes (e) Exportações em US$ de 1985 coeficiente de exportações I d/a em % (2) coeficiente de exportações II e/b em % coeficiente de exportações III e/c em % (1) em bilhões (2) Erro de arredondamento Fonte: Pacheco 1998: 87 41.9 100.3 42.9 18.6 14.7 22.6 25.2 100.5 7.

NO 10.4 24. 174 .1 1.9 7.4 41.3 7.174 Tabela A-13: Indústria de transformação: participação regional no VTI.9 0.3 7.9 3.3 4. Brasil.1 8.6 8. n.1 3.1 4.4 0.8 RS 0.3 PR 2.9 5.2 n.5 7.6 17.3 0.d.d.0 SC 9.9 4.5 21.d.9 9.6 9.8 22.9 50.2 2.6 5.2 MG 0.3 RJ 40. = dados não disponíveis GSP = Grande São Paulo.8 6.4 INT(1) 2. CO(1) Brasil = 100.7 6.3 32.9 7.5 10.1 2.3 2.1 8.5 6.4 4.8 n.6 6.6 29.5 20.0 43.1 NE 7.1 3.0 4.8 GSP(2) 14.2 8.7 8.3 0.2 n.4 28.6 15.6 14.5 4.2 55. 8.4 8.1 7.8 33.8 1.5 14. INT = Interior de São Paulo (outras siglas v.4 n.9 55.0 0.4 2.1 7.6 0.5 n.7 48.6 0.4 5.6 3.0 6.8 25.d.7 17.1 19.3 2.5 0.0 1.6 8. Gráfico 7).8 1.5 0.d.6 58.4 0.4 16.d.4 2. 1939 a 1995 1939 1949 1959 1970 1975 1980 1985 1989 1.3 7.d.2 SP 26. Fonte: Cano 1998b: 327 1995 n.9 5.9 53.6 49.5 38.5 10. ES 25.1 6.9 1.5 13.4 51. 8.

2 1.3 7.4 13.7 2.3 4.1 1.0 1.9 4.3 1990 4.7 9.4 MG 1.2 36.7 3.0 1.1 1995 4.0 2.7 3.2 3.4 2.6 35.5 2.6 1.2 8.4 5.5 12.6 RJ 31.3 SC 10.9 14.4 12.3 36.7 13.4 9.4 37.3 2.2 1.6 9.5 5.5 18.9 3.7 2.6 10.9 PR 2.9 19.1 RS 2.7 11.5 ES 20.6 8.2 6.1 1.5 16.7 2.4 5.5 DF Brasil =100% (siglas: v Gráfico 7) * NO: incluio Estado do Tocantins em 1985-1995 * CO: inclui o Estado do Tocantins em 1939-1985.9 4.2 NE 10.9 39.4 175 .3 9.4 3.7 SP 2.7 2.8 3. 1939 a 1995 PIB total 1939 1949 1959 1970 1980 2.0 10.6 CO 1.2 2.4 8.0 12. exclui o DF Fonte: Cano 1998b: 318 1985 4.1 13.1 13.2 3.7 8.7 1.5 37.6 13.175 Tabela A-14: Participação regional na produção econômica.4 7.6 6. Brasil.0 5.2 NO* 16.8 1.3 7.2 4.3 0.9 8.3 36.8 6.

0 6.5 9.7 1959 2.9 3.5 8.3 5.1 2.6 11.7 24.5 1995 7.5 3.8 8.9 1.0 8.4 4.5 1995 4.5 1939 2.8 3.0 6.5 DF Brasil =100% (siglas: v.4 1.3 6.1 21.2 1949 0.2 3.1 7.7 2.4 15.0 12.0 1985 4.4 6.5 10.1 8.0 9.1 9.3 0.0 8.8 35.7 0.2 2.0 5.2 7.1 1.5 16.9 13.0 4.5 20.7 4.9 9.9 1.9 11.6 4.0 4.9 4.0 0.0 7.9 10.8 2.9 2.3 17.6 17.5 9.7 13.4 11.9 0.7 19. Brasil.1 2.4 0.4 12.9 4.2 4.2 56.6 1990 8.4 2.5 12.7 1.8 23.8 1.2 3.9 47.5 15.9 0.4 2.9 10.2 4.1 1980 5.6 8.1 1995 4.0 12.2 7.1 5.3 23.3 17.4 1.8 SP 2.9 3.1 0.4 33.0 1980 3.9 1.2 4.6 18.8 44.6 8.8 2.4 15.8 7.4 9.2 12.4 27.4 PR 1.9 32.6 26.3 10.0 3.0 1.3 2.3 2.5 11.6 36.2 2.1 0.8 13.9 11.4 3.0 2. 1939 a 1995 PIB agricultura NO* NE MG ES RJ SP PR SC RS CO* DF PIB indústria NO* NE MG ES RJ SP PR SC RS CO* DF 1939 3.4 3.5 ES 27.9 7.2 5.1 12.8 8.9 7.4 35.2 RJ 32.0 0.0 9.5 43.0 8.9 3.1 20.0 1949 1.2 8.8 1.4 3.9 2.1 4.4 0.0 14.3 0.9 0. exclui o DF Fonte: Cano 1998b: 318 176 .2 1.6 6.2 12.0 12.4 NE 7.5 1990 3.7 1.6 5.3 2.9 3.2 SC 8.6 4.1 11.9 0.7 33.0 1970 1.8 1970 4.1 8.176 Tabela A-15: Participação regional na produção econômica.2 11.5 1.9 7.7 1.3 2.8 16.5 13.3 5.9 8.6 0.4 3.0 2.7 6.4 18.0 6.3 2.7 5.9 4.9 7.0 19.3 7.1 0.9 2.8 20.5 1.5 20.6 4.6 4.3 1985 3.5 20.5 6.4 MG 0.1 1.5 1985 6.3 2.8 24.3 CO* 2.7 1959 1.1 2.1 3.0 24.6 8.1 1.9 30.4 41.0 1990 4.8 8.4 54.6 6.0 2. Gráfico 7) * NO: incluio Estado do Tocantins em 1985-1995 * CO: inclui o Estado do Tocantins em 1939-1985.0 0.9 PIB serviços 1939 1949 1959 1970 1980 2.9 2.0 2.4 26.7 13.8 NO* 14.2 11.7 1.6 22.0 47.9 1.7 1.7 11.9 36.0 0.8 8.0 8.0 1.0 4.0 34.4 4.1 8.3 12.9 5.8 2.7 5.0 8.7 7.7 13.2 4.4 0.0 14.5 RS 1.0 15.6 2.

4 1886 25.76 113.052 25 8.549 0 2.06 114.8 Oeste e Norte 4.50 92.13 115.0 Receita Total (1) Sobretudo a partir de compensações em casos de cancelamento de dívidas ou a partir de lucros cambiais Fonte: Carvalho 1996: 205 Tabela A-19: Gastos por funções do Estado de São Paulo.940 1.2 1854 28.343 348 4.2 39.0 100.23 1989 Dez 117.71 117.00 1984 Dez 100.022 162.04 0.834 PROMOÇÃO DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO Agricultura Indústria e comércio Infraestrutura e Serviços Energia e Recursos Minerais Habitação e Urbanismo Saneamento Público Comunicações DESPESA GERAL DO ESTADO Fonte: Pereira 1996: 238 177 .409 0 96.433 421 0 9.46 94.9 2.94 98.39 115.317 1.8 Tabela A-18: Participação percentual dos grupos e subgrupos da Receita Total do Estado de São Paulo de 1893 a 1929 1893 1905 1914 1923 1929 97.70 38.04 .bcb. em Contos (1912) 1893 15.0 100.15 19.91 115.70 121.gov.02 .744 0 62.Receita does Impostos 1.08 6.08 Receitas Ordinárias 96.60 98.00 120.90 97.1998 Total serviços 100. 1984 a 1997 Indústria de comércio transformação 100.79 115.369 0 49.522 1912 23.46 82.88 1991 Dez 109.91 22.13 0.1 13.49 110.64 91.00 114.198 478 0 9.81 105.72 Fonte: www.14 1997 Nov 106.83 1996 Dez 105.02 42.6 1836 31.30 1995 Dez 107.6 31.798 0 48.htm de 7.00 100.87 101.59 115.970 4.07 95. de 1893 a 1929.497 39 11.37 124.18 construção civil 100.60 102.589 165 16.0 100.49 1990 Dez 112.7.0 100.10 1992 Dez 106.92 Receitas Extraordinárias (1) 100.30 31 12.10 2.56 27.46 118.18 1993 Dez 107.93 97.54 5.86 116.28 93.30 61.190 1929 39.07 0. Brasil.668 1.5 17.77 95.31 112.900 1897 17.643 1916 10.76 114.39 10.51 72.86 105.Receitas Industriais 0.Receitas patrimoniais 2.784 219 31.61 89.05 116.08 95. 1836 .83 1994 Dez 108.36 0.50 103.99 100.84 Tabela A-17: Distribuição percentual da população escrava pelas sub-regiões de São Paulo.1886 Jahr Leste e Litoral Paraíba 15.br/htms/histbole.98 69.63 116.746 2.00 119.02 .7 Fonte: Targa 1996a: 71 Central 48.8 40.260 5.850 7.24 116.319 7.177 Tabela A-16: Índice de nível de emprego.096 796 0 7.

6 70.955 323.gov.8 1992 1.925 31.397 982.186.837.001 32.47 1990 53. 1988 .76 28.094.2 111.5 51.7.050 3.48 1989 53.2 82.88 36.570 Total 7.62 1992 56.4 52.021 2.2 60.1 101.21 27.595.601 4.057 3.87 Tabela A-21: Setor bancário em São Paulo (Capital e Estado).62 28.351 7.28 34.572 4.654 305.489 4.319 Construção civil 277.8 51.26 28.096 Comércio Serviços 907.42 1988 51.3 71.201.6 82.447 4.546 4.3 83.684.178 Tabela A-20: Participação Regional do Estado de São Paulo em Relação ao Brasil nos Depósitos Totais.7 36.0 1994 1.3 68.3 81..681 363.25 1993 Fonte: Seade 1995: 62 Operações de Crédito 30.1 67.481.744 436.89 Agências Bancárias 29.268 4.718 30.5 58.46 42.984 7.378 29.247 46.4 82.5 49.633. Operações de Crédito e Agências Bancárias.2 70.1 91.6 1990 1.33 1991 54.4 51.9 73.66 28.8 64.778 31.5 71.2 38. Operações Totais.353.960 Agricultura e outros Pecuária 103. por setores Ano 1986 1990 1994 1995 Indústria 2.550 30.7 80.1 79.373 129.7 60.7 82.504 2.5 1991 1.4 72.3 69.158.416.3 69. 1988 a 1995 1988 Agências Bancárias Capital Estado % Depósitos Totais (1) Capital Estado % Operações de Crédito (1) Capital Estado % (1) em bilhões de R$ 1989 1.0 76.528 0 57.667 304.0 1993 1.027 57.6 54.1 1.085 3.256 347.570 Ignorado 0 0 276.1 73.057.2 106.922.277 Fonte: Unicamp 1998: 14 178 .0 1995 1.8 75.377 4.74 40.444 2.7 65.85 36.666 3.664 1.3 68.4 69.2 58.8 77.br (30.977 32.8 73.0 55.6 56.6 Fonte: www.708.610 5.879 31.9 71. de 1986 a 1995.1993 Anos Depósitos Totais 54.seade.8 74.9 104.043 1.396 7.1997) Tabela A-22: Trabalhadores com carteira assinada no Estado de São Paulo.

085 740 345 271 74 5.220 7.0 1998 18.7 8.seade.099 6. segundo Posição na Ocupação .277 846 431 321 110 5.211 746 1. em idade ativa.730 662 738 530 208 143 65 4.489 7.228 8.774 6.179 Tabela A-23: Estimativa da população total.358 15. economicamente ativa.735 7.562 10.146 13.166 8.329 População economicamente 6.369 ativa Ocupados 5.010 880 2.454 726 623 427 196 115 81 4.841 7.624 853 1.220 3.438 2.1 1997 16.878 1.133 710 423 319 104 5.028 2.3 Tabela A-25: Rendimento Médio Real Anual (1) das Mulheres Ocupadas no Trabalho Principal.6 1994 14.759 1.6 9.seade.151 2.276 694 777 484 293 185 108 4.541 11.396 736 1.914 6.078 15.7.744 7.205 6.758 10.459 7.558 1.193 (1) compreende serventes e empregadas Fonte: Unicamp 1998: 12 Tabela A-24: Taxa de Desemprego na Grande São Paulo.182 1.642 15.976 7.069 3.585 7.070 16. de 1985 a 1997.2 1995 13.213 3.596 755 670 484 186 124 62 4.020 2.1999 1990 10.br (27.224 730 1. Grande São Paulo.254 11.162 6.771 10.7 Fonte:www.911 6.592 Indústria Comércio Serviços Outros (1) Desempregados aberto oculto Pelo trabalho precário Pelo desalento Inativos 1.980 696 879 594 285 218 67 4.241 2.7 1992 15.687 13.125 953 2.979 11.897 16.574 12.2 9.372 716 639 399 240 133 107 4.br/cgi-bin de 22.490 834 1.2 1996 15.804 15.2 1993 14.259 12.365 884 481 129 129 5.052 6. em % 1985 1986 1987 1988 1989 Total 12.079 892 2.659 701 614 459 155 106 49 4.891 13.847 1.156 681 475 372 103 4. de 1985 a 1998.017 741 1.235 3. ocupada e desempregada.636 1.175 711 464 356 108 4.2 9.980 6.3 1991 11.703 1.135 1.834 788 2. em milhares Populações População Total População em idade ativa 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 14.731 1.345 7.623 1.004 1.220 1.233 8.082 2.545 16. em Reais (Novembro de 1996) 1989 874 Ocupadas 857 Indústria Com carteira assinada 898 Sem carteira assinada 444 888 Comércio 1080 Serviços Com carteira assinada (setor 992 privado) Sem carteira assinada (setor 438 privad) Assalaridadas do setor público 1477 306 Serviços Domésticos Fonte: www. Grande São Paulo.089 834 2. de 1989 a 1996.523 1.515 6.157 3.453 13.1997) 1992 597 636 726 336 547 740 738 328 987 222 1996 585 596 656 344 523 721 683 399 852 275 179 .915 6.gov.732 1.424 2.897 12.309 16.659 6.733 6.gov.1.762 1.102 3.

087 . 14.) Rec.648 32.319 22. Orçamentária Despesas com transf.821 4.135 3..13 0..657 21..1997) Tabela A-27: Rendas disponíveis do Estado de São Paulo..d. em Reais (Nov..202 18..24 0.05 28.729 29.072 21.701 33.517 7. em % População Gastos per capita 95 n. 190.393 16.4 7 4 (1) em milhões de R$ Fonte: Arretche (1998): Tabela 12 180 . Disponível per capita (R$) Média 198794 24. n.529 31. administração pública.901 25.050 23. São Paulo..44 15.529 3.853 20.seade.1 32..94 Gastos em habitação(1) PIB (1) Percentual do PIB.13 233 196.823 26.. 2 14.16 .244 4.772 .386 0...39 210 188. .144 7.943 30..572 4. em milhões de R$ (valores arredondados) 1986 Rec.30 0.180 Tabela A-26: Rendimento Médio Real Anual (1) dos Homens Ocupados no Trabalho Principal. 1986-94.br (27.gov. 98 193.131 0. Estadual disponível População (1.12 30. 694 627 563 674 659 581 580 648 545 610 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 Fonte: Arretche 1998: Tabela 5 Tabela A-28: Gastos em habitação.26 . a municípios * Rec.922 20.21 30. 97 895 057 0.478 18.568 20. 28.859 .d.d.207 . 4. 0.10 33.783 8. em R$ (dezembro de 95) 1986 1987 1988 1989 1990 1991 199 2 548 487 1993 1994 Médi Média a 1991-4 198790 407 488 .183 32.6 6 03 69 17.803 0.480 184.000 hab.71 6.219 22.903 3.d.7..572 5.11 29.097 31.. segundo Posição na Ocupação.398 18. de 1989 a 1996. 73 0. 1986-94...937 18.343 29.9 .57 .7 181.73 248 187..117 4...255 5..43 32.27 0.1 12. 19. n.96) 1989 1607 1718 1718 703 1466 1633 1434 1992 1075 1264 1298 580 839 1068 1006 458 1394 811 1996 995 1063 1046 549 858 1042 863 578 1291 755 Ocupados Indústria Com carteira assinada Sem carteira assinada Comércio Serviços Com carteira assinada (setor privado) Sem carteira assinada (setor 671 privado) Assalariados do setor público 2006 1220 Construção civil Fonte: www. 199.05 31. Grande São Paulo. n.425 25.

473 3.55 8.36 3.535 830 929 731 639 1993 4.seade.545 1. em diferentes estados brasileiros em 1988 RS 12.479 678 607 648 425 1990 5.830 CE 9.061.seade.78 2.352 Dívida fundada 576 738 879 Dívida flutuante Fonte: www.092 795 903 785 649 1991 5.893.140. em milhões de R$ (1996) 1980 1985 3.109 723 802 741 762 1995 6.18 3.d.13 2.76 PR 12. segundo setores.37 2.25 4.015 Filiados a Sindicatos Filiados a As.08 4.77 3.07 3.27 5.359.649 Total de declarantes siglas: v. em milhões de R$ (1996).d.58 2. ativas em uma ou várias associações.43 9.7.57 2.19 4. 181 .953. 1995 n.397 2.66 2.181 Tabela A-29: Participação das pessoas acima de 18 anos de idade. Cidade de São Paulo.83 1.276 878 1990 4. Relig. ou Filantrópicas Filiados a As.880 1.738 PE 11.d. de Bairro ou de Moradores Filiados a As.d.45 1.46 6. n.71 27.722 950 1993 n.469 1989 4.305 SP 8.574 2.45 2.137 816 1988 5. Gráfico 7 Fonte: Arretche 1998: Tabela 4 Tabela A-30: Gastos.1997) 1986 3.83 6.204 BA 8. de Empregados Filiados a Partidos Políticos Filiados a As.535 635 736 670 760 1994 5.908 536 489 633 616 1988 4. posições selecionadas 1980 1985 1986 1.685. posições selecionadas dos anos de 1980 a 1995.d.28 2.77 20. 1994 n.17 3.63 5.gov. n.62 2.11 3.89 4.31 5.30 3.00 5. Esportivas ou Culturais Taxa média de filiação 15.7. n.gov.67 9.338 903 888 798 451 1992 4.744 501 658 738 1.42 1.d.551 852 1992 2.786 652 460 590 379 1987 3.473 829 981 985 1.04 4.1997) 1987 4.291 Tabela A-31: Endividamento do Município de São Paulo nos anos de 1980 a 1995.357 Gastos totais 449 509 Educação 353 386 Saúde 665 486 Habitação 411 Obras e instalações 514 Fonte: www.38 2.59 2.397 1989 8.79 2.br (28.br (28.337 1991 4.91 5.61 20.55 9.

15 36.72 1993 14.38 1990 15.854 1988 4.br (28.05 36.182 Tabela A-32: Despesas do Município de São Paulo.389 58 269 327 928 3.510 1985 3. em milhões de R$ (1996) Despesas totais Com pessoal Encargos da divida Amortização da divida Encargos e amortização Investimentos Despesas correntes Despesas de capital Manutenção 1980 3.91 39.87 37.324 2.84 40.89 38.61 38.d.96 19961 (1) dados provisórios Fonte: Unicamp 1998: 3 Indústria 45.008 1989 4.947 Fonte: www.89 36.90 36.47 42.28 38.689 164 250 414 737 4.83 37.756 2.61 38.712 2.899 2.695 1986 3.253 1.535 1.1997) Tabela A-33: Participação do Estado de São Paulo no PIB nacional.100 1.59 1987 17.761 2.78 44.105 1987 3.23 43. 808 2.103 21 274 295 948 3.535 1.88 1994 14.87 38.407 1.402 104 541 645 530 3.353 1.09 38. 1980 a 1995.89 40.93 1982 15.786 1.7.gov.587 1.144 2.357 195 326 521 513 2.83 37.709 3.99 43. em % Ano Agricultura e pecuária 1980 13.81 42.336 1.597 1995 6.78 42.72 39.357 981 321 227 548 504 2.473 817 186 n.99 44.908 900 367 457 824 728 2.d.461 76 295 371 833 3.109 1.780 1991 5.845 1.18 Serviços 40.90 1986 15.416 1994 5.685 2. posições selecionadas.932 1.11 43.48 36.36 42.228 187 651 838 955 3. n.321 1.61 42. de 1980 a 1996.913 873 2.61 Total 40.40 38. por tipos de gastos.479 1.02 1983 16.23 37.44 38. segundo setores.014 1.48 38.287 2.57 42.25 1988 14.seade.092 1.374 1.547 2.282 2.942 1993 4.744 914 379 300 679 1.354 1990 5.72 182 .42 1991 15.40 42.65 39.48 1992 14.51 38.28 39.70 36.10 36.87 43.338 1.92 39.487 869 1.16 1995 13.976 1992 4.99 1981 14.50 39.91 44.77 43.97 1989 14.55 1984 15.15 39.363 106 931 1037 1.13 36.473 1.98 1985 16.

339 0.546.924.823.316 9.126 0. Tabela A-36: Os 100 maiores grupos privados.806 17.406 8.333 0.67% 33.78% 17.71% 2.326.17% 19.188 7.97.89% 4.894 Grande SP 1. 1990: 43.730 12. Município de São Paulo.033 1.33% 1.180.134.97% Vegetativo 15.592.18% 16.37% 5.São Paulo .26% 3.662.588.701 5.185 0.20% 72.10% 2.52% Migratório 49. 1990/2000 Anos 1940/50 1950/60 1960/70 1970/80 1980/90 Período Decenal Anual Decenal Anual Decenal Anual Decenal Anual Decenal Anual Total 68.64% Fonte: Rolnik et al.85% 1.416.183 Tabela A-34: Taxa de Crescimento – vegetativo e migratório. da Região Metropolitana de São Paulo e do Estado de São Paulo.69% 24.139.666.48% 28.99% 2.615 8.14% 43.771.626.66% 1.74% 5.37% 4.241 0.040. de 1940 a 1991 Ano 1920 1940 1950 1960 1970 1980 1991 SP (capital) 579.66% 3.423 12.416 SP (Estado) 4.568.096 3.948 25.25% 1.473 capital/estado 0.739. SEADE 1993:30.786 4.305 Fonte: Rolnik et al.57% 43. 1990:32.76% 35. 1940/50.35% 3.261 2.60% 56.712 31.285 0. Tabela A-35: Evolução da população da Cidade de São Paulo.Rio de Janeiro Sul Nordeste Norte Centro-Oeste Total Fonte: Neto 1995: 379 1978 81 48 27 12 7 100 1990 82 58 15 10 7 1 100 183 .226 9.11% 2.745 15. em1978 e 1990 Região Sudeste .49% 21.198. por região.045 2.493.

184 Tabela A-37: As 1000 maiores empresas. em 1975 e 1990. por região. em % Região Sudeste .São Paulo .Rio de Janeiro Sul Nordeste Norte Centro-Oeste Total Fonte: Neto 1995: 379 1978 80 54 21 11 6 1 2 100 1990 68 43 16 15 11 3 3 100 184 .

com.de/home/brasilien/aktuell.gov.ipeadata.br (Ministério do Planejamento) www.gov.com.gov.zerohora.rau. revistas e endereços de Internet utilizados www.de (Frankfurter Rundschau) www.com.ipea.uol.com.br (Prefeitura Municipal de São Paulo) 185 .monde-diplomatique.org.sp.gov.br (Ministério da Fazenda) www.br ) www.br (Congresso) www. Homepage) www.zaz.gov.com.gov.gov.jb.sercomtel.com.br (IPEA.mare.emprego.3 Endereços da Internet utilizados com maior freqüência www.fr-aktuell.br (Ministério da Reforma Administrativa .estado.bndes.SP) www.br/istoe (Istoe) www.br (IBGE) www.gov.org (Banco Mundial) www.Instituto Estadual de Pesquisa) www.economist.fazenda.com/TP/DieZeit.br (Banco Central.prodam. PT-PR) www.gazeta.html (Die Zeit) www.br/fsp (FSP – Folha de São Paulo) www.ibge. especialmente Boletim do Banco Central) www.br (Instituto de Pesquisas Econômicas dos Sindicatos) www.185 7.gov.gov.gov.br/exame (Exame) www.uy/mercosur (Mercosul.gov.sp.com (Financial Times) www. especialmente.com.gov.br/ft (FT – Folha da Tarde) home.2 Jornais.seade.ft.com.com.planejamento.uol.br (Informações sobre o mercado de trabalho .glpnews.sep. www.br (Gazeta Mercantil) www2.uol.uol.fr (Le Monde Diplomatique) www.br (Senado) www.br (Jornal do Brasil) www.camara.brazil.br/bernardo (Deputado Paulo Bernardo.dieese.br (Governo Federal) www.br (SEADE .gov.br/veja (Veja) www2.gov.br (O Estado de São Paulo) gwww.Mare) www.edu.senado.worldbank.com.sp.com (The Economist) 7.bcb.t-online.br (Zero Hora) www.br (Secretaria de Planejamento do Estado de São Paulo) www.htm (Brasilienausschnittsdienst – monatlicher Pressedienst) www.br (BNDES) www.

1996) (30. Doutorando da Universidade de São Carlos (18. Secretário Municipal da Fazenda de Rio Branco (1993 . Funcionária do Departamento de Urbanismo de São Paulo e Rio Branco (12.1996) João Batista.Rio Branco (4.1997) 7. Agente cultural. Secretária de Planejamento (1. funcionário da CMTC. gráfico 7. assessor do Prefeito de Porto Alegre (24.6. ex-consultor da CAEX Iraiton de Lima.1996) Cláudia Pimenta.11.1996) (3.1997) Gomercindo Rodrigues.186 7. Membro fundador do CTA . Vereador de Xapuri (24.1996 Francisco de Oliveira. Rio Branco (5.11.3.11. Professor de Economia.1997) Manuel Estébio. Assessor da Câmara dos Vereadores de São Paulo.1997) José Antonio Fialho Alonso. Secretário Municipal da Agricultura . ativista na Região Leste de São Paulo (15.1997) Simone Martinolli. assessor da Câmara de Vereadores para assuntos de transportes e assessor do sindicato dos motoristas de ônibus João Jorge.12.1996) Raimundo.1996) Jorge Viana.7.11. Presidente da AMBS -Xapuri (26.11. com museu particular (24. Assessora da Câmara dos Vereadores de São Paulo. Vereador.1997) Raimundo Mendes de Barros. Seringueira.1996) Antonio Monteiro Neto. Secretário Municipal de Cultura de Rio Branco (1993-1996) (5.12.1996) Antônio Zaire.1996) Irma Ignes Boff. USP (11.10.11.4 Entrevistas gravadas em fita Antonio Alves.1996) Marina Teles.12. 4. dos instrumentos e de outros conceitos45 ABC ACM ARENA BNDES BIP BNH CEPAL 45 Grande Santo André. Museu da Borracha.6.5 Siglas das organizações citadas. assessor da senadora Marina da Silva (PT-AC) (23.1996. Professor de Sociologia. Prefeito de Rio Branco (1993.1996) Carlos Strabelli.11. Secretário Municipal de Planejamento de São Paulo de 1989 a 1992 (10. ativista na Região Leste de São Paulo (19.7. Urbanista. Cooperativa Agroextrativista de Xapuri (29. Comerciante em Xapuri. religiosa de Xapuri (21. Cooperativa Agroextrativista de Xapuri (24.12. USP. São Bernardo und São Caetano Antonio Carlos Magalhães.1997) Mancio Lima Cordeiro. v.7.11.Rio Branco (1993-1996) Paul Singer.6.12.1996) Fernando Michelotti. Pimenteira-Acre (25.10.1997) Roberto Ferres. Engenheiro agrônomo.1996) Dercy Telles.1996) Regina Kipper. 186 . Presidente do Senado Aliança pela Renovação Nacional Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social Produto Interno Bruto Banco Nacional da Habitação Comisión Económica para América Latina Para as siglas dos estados brasileiros.

maior empresa mineradora do Brasil Fundo de Estabilização Econômica Fundo de Garantia do Tempo de Serviço Fernando Henrique Cardoso Federação das Indústrias do Estado de São Paulo Fundo Social de Emergência Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços International Labour Organisation Instituto Nacional de Previdência Social Imposto Predial e Terrenos Urbanos Instituto Superior de Estudos Brasileiros Ministerio de Administração e de Reforma do Estado Movimento Sem Terra Nongovernmental Organisation Organização Social Plano de Atendimento de Saúde Partido Comunista do Brasil Partido Democratico Social Partido Democrático Trabalhista Partido da Frente Liberal Partido do Movimento Democrático Brasileiro Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional Partido Popular Partido Progressista Brasileiro Partido da Renovação Nacional Partido Socialista Brasileira Partido Social Democrático Partido da Socialdemocracia Brasileira Partido dos Trabalhadores 187 .187 CEF CIB CIESP CGT CLT CMTC CNI CNS COHAB CUT CVRD FEF FGTS FHC FIESP FSE ICMS ILO INPS IPTU ISEB MARE MST NGO OS PAS PCdoB PDS PDT PFL PMDB Proer PP PPB PRN PSB PSD PSDB PT Caixa Econômica Federal Centro Industrial do Brasil Centro de Indústrias do Estado de São Paulo Central Geral dos Trabalhadores Consolidação das Leis do Trabalho Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo Confederação Nacional de Indústrias Companhia Nacional Siderúrgica. primeira grande usina siderúrgica em Volta Redonda Companhia Metropolitana de Habitação Central Unica dos Trabalhadores Companhia da Vale do Rio Doce .

Reais –moeda brasileira desde 1994 Sociedade de Amigos de Bairro Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados Sistema Financeiro de Habitação Supremo Tribunal Federal Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste Sistema Unificado de Saúde Tribunal Superior Eleitoral Universidade de Campinas Universidade de São Paulo 188 .188 PTB R$ SAB SEADE SFH STF SUDENE SUS TSE Unicamp USP Partido Trabalhista Brasileiro Real.

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