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Meszáros, I. (2011).

Estrutura social e formas de consciência: a determinação social do


método. São Paulo: Boitempo.

Introdução

Por isso as figuras representativas do horizonte social do capital têm de conceituar tudo
de uma determinada maneira, e não de outra. E, uma vez que os limites em questão são
estruturalmente instransponíveis – já que sua substituição requereria a instituição de um
modo de produção e distribuição radicalmente diferente -, as principais características
metodológicas das teorias sintetizadores que se originam nessa estrutura não podem ser
alteradas de maneira significativa, pois uma alteração radical dos limites em questão –
como fez o próprio Marx – equivaleria ao completo abandono do “ponto de vista da
economia política” que privilegia a perspectiva do capital (correspondente ao ponto de
vista que favorece o capital, adotado de maneira mais ou menos consciente pelos
principais pensadores). (p. 10)

No entanto, a verdadeira questão é que o ponto de vista do capital adota pelos principais
pensadores da época histórica discutida é, num certo sentido, verdadeiramente adotado
por eles por meio de seu envolvimento mais ativo nesse assunto de suma importância. A
determinação social do método não significa – e não pode significar – que a posição
metodológica e ideológica correspondente ao ponto de vista do capital seja imposta aos
pensadores em questão, incluindo figuras mais destacadas da economia política
burguesa e da filosofia. Eles próprios incorporam-na ativamente como sua, ao longo da
articulação – e do processo criativo dessa articulação – e da posição que integra seus
interesses fundamentais, bem como os valores, de uma ordem sociorreprodutiva com a
qual se identificam. (p. 12)

A análise legítima dos diversos discursos – por exemplo, os discursos morais, político e
este – é inconcebível sem que esteja dialeticamente inserida no quadro estrutural
apropriado no que se refere às determinações gerais. Pois os discursos particulares não
são inteligíveis sem que sejam apreendidos como formas específicas de consciência
histórica. Ou seja, como formas de consciência que são historicamente constituídas e, de
mesma maneira, historicamente transformadas em estreita conjunção com as
determinações gerais da estrutura social da qual não podem ser especulativamente
abstraídas. (p. 17)

1. Orientação programática para a ciência


1.1 O domínio do homem sobre a natureza

De acordo com essa perspectiva, os objetivos legitimamente factíveis da atividade


humana têm de ser concebidos segundo o progresso material alcançado mediante a
operação das ciências naturais, permanecendo cegos para a dimensão social da
existência humana a não ser em seus aspectos essencialmente funcionais/operacionais e
manipulativos. (p. 20)

1.2 Behavioristas e weberianos


Apologético = defesa, elogia (figurado).

1.3 A “sociologia da cultura científica” de Mannheim

(p. 44) Silogismo = Raciocínio dedutivo que envolve duas premissas, uma maior e outra
menor, para assim concluir.

Marx fala sobre o silogismo de Hegel demonstrando que a mediação de sua teoria
carregava um dualismo, no qual para o Estado haveria a necessidade da sociedade civil.
Ou seja, a ideia de unidade não tem relação o silogismo, não é junção das coisas.

Há uma relação entre o formalismo e as expressões irracionais da filosofia, de seu


método, pois o formalismo ao universalizar as condições à priori, ou seja, o natural é o
eterno e imutável – o irracionalismo, busca não se contrapor a ordem posta, sua crítica,
seu questionamento ao apriorismo, resulta em uma constrangedora crítica ao vazio, a
forma, não ao problema central do método e da problemática do capitalismo. Um
justifica o outro. (Parte 2.4, p. 44-45)

3.2 Elevação da particularidade ao nível da universalidade

A consciência passa a tomar o lugar das relações que estabelecem na realidade, ou seja,
o particular, a perspectiva do indivíduo toma forma na universalidade. Isso é muito
posto sobre as filosofias pós-modernas, a particularidade explica o universal.

3.3 A inversão das relações estruturais objetivas


Hipostatização = (Filosofia) atribuição de existência concreta e objetiva a realidade
abstrata ou fictícia;
Anistórica = ahistórico

Dessa forma, o comportamento “desastrado” de um grande pensador – a pressuposição


claramente circular daquilo que precisa ser traço e explicado historicamente – produz o
ideologicamente bem-vindo resultado de transformar as condições específicas do
processo de trabalho capitalista em eterna condições naturais da produção de riqueza
em geral. Ao mesmo tempo, uma necessidade sócio-histórica determinada – em
conjunção com uma temporalidade a ela apropriada – é transmutada em uma
necessidade natural e condição absoluta da vida social enquanto tal.
Ademais, já que a questão da origem do capital é circularmente evitada – a saber, a
dimensão exploratória de sua gênese na “apropriação do trabalho alienado”, em
permanente antítese em relação ao trabalho, é retirada de foco -, o caráter inerentemente
contraditório, e decerto definitivamente explosivo, desse modo de produção de riqueza
permanece oculto de maneira conveniente. Consequentemente, a concepção burguesa
do processo de trabalho capitalista, predicando a permanência absoluta das condições
“naturais” dadas, não pode ser perturbada pela percepção de sua dinâmica histórica e
suas contradições objetivas. (p. 54)
Pivotal = movimento giratório

6. Dualismo dicotomista na filosofia e teoria social

6.1 A premissas ocultas dos sistemas dicotômicos

Os filósofos que compartilham “o ponto de vista da economia política” (ou seja, o ponto
de vista do capital, de acordo com Marx) tendem a nos apresentar dicotomias e
“soluções” dualisticamente articuladas para os problemas em exame. No caso de
Hannah Arendt, por exemplo, “compreender” é o oposto de “fazer”, “teoria” é o oposto
de “prática”, “político” é o oposto de “social, “julgamento” é o oposto de “raciocínio
técnico” da “esfera estritamente econômica” etc. O fato de que os imperativos técnicos
da produção – tanto em uma dada fábrica como na organização do aparato produtivo
como um todo – se baseiam na premissa social fundamental e capitalisticamente mais
vital da separação forçada entre o trabalho e os meios de produção deve
necessariamente permanecer fora da estrutura dessa argumentação. (p. 103)

Não é difícil ver que a metodologia dualística e a articulação dicotômica das categorias
são armas muito úteis a serviço dos interesses ideológicos dominantes. Pois o seu efeito
combinado é a imposição de linhas extremamente problemáticas de demarcação da
forma como os problemas identificados podem ser avaliados.
Essas linhas categóricas e metodológicas de demarcação, nas suas funções estipulativas
mais ou menos explícitas, são equivalentes ao estabelecimento de tabus rígidos (tal
como a alegada impossibilidade categórica de derivar “dever-ser” de “ser”, “valores” de
“fatos” etc.). O resultado é o completo ofuscamento da ligação dinâmica entre, de um
lado, a estrutura da totalidade social e, de outro, sua constituição histórica original e
transformações correntes. (p. 105)

6.2 O imperativo funcional do exclusivismo operacional

Dá para usar muitos trechos da fala do Meszáros (p. 105)

Na própria totalidade social, os pressupostos herdados e rigidamente reafirmados do


sistema produtivo, e suas características transitórias, são reproduzidos de forma
simultânea. São reproduzidos como elementos inseparavelmente unidos de um processo
orgânico unificado. De fato, o caráter orgânico da autorreprodução da sociedade se
afirma em virtude da inseparadabilidade prática de suas várias dimensões em
circunstâncias normais.
Dito de outra forma, em qualquer totalidade social historicamente dada as
determinações valorativas (ou “axiológicas”) e funcionais (na sociedade capitalista,
geralmente “técnicas/tecnológicas”) são entrelaçadas de forma tão estreita que nem
mesmo teoricamente elas podem ser separadas de maneira clara sem que se adote um
ponto de vista em relação ao sistema estabelecido. Pois, como resultado do processo
incansável de confusão prática, os valores institucionalizados e estruturalmente
dominantes tendem a aparecer em uma roupagem técnico-instrumental (sobretudo por já
serem institucionalizados), fixando apenas os adversários no território dos valores
contestáveis.
Assim, uma vez que a ordem estabelecida já se coloca sem discussão como algo “acima
de qualquer contestação” em sua articulação estrutural fundamental, seus valores já
institucionalizados podem facilmente assumir o manto da pura instrumentalidade. Ao
mesmo tempo, valores críticos – ou seja, valores que aparecem abertamente como tal,
sem o disfarce da instrumentalidade incontestável – devem ser condenados como
“heresia” ou, mais recentemente, como “irracionalidade oposicional”, “emotivismo”
etc. (p.105)

Assim, o dualismo prevalece na forma de invenção da individualidade abstrata e sua


oposição à realidade do indivíduo social, e no divórcio das determinações de valor do
complexo social em relação às suas manifestações funcionais e instrumentais. E, é claro,
nos dois casso os remédios filosóficos dualísticos surgem em resposta a intranscendíveis
contradições das práticas socioeconômicas do capital, oferencendo-lhes uma solução
imaginária que racionaliza o mundo da aparência reificada e da fragmentação
individualística. Graças ao “fetichismo da mercadoria” e à estrutura do maquinário
produtivo subdivido de forma mistificadora – ainda que mais misteriosamente unificado
-. A aparência de “neutralidade” operacional e funcional/instrumental é dominante no
mundo da reprodução social, contaminando a consciência social com as ilusões da
“funcionalidade racional vazia de valor” pela qual a ordem dada estabelece com sucesso
suas reinvindicações de legitimidade absoluta. (p. 109)

Graças a imposição bem-sucedida dessas premissas metodológicas, os valores e as


estratégias sociais correspondentes em questão podem ser debatidos à exaustão com
referência a um “domínio de valor” e sua “razão prática”, contrapondo
metodologicamente este ao “domínio dos fatos”, ao mundo da “racionalidade
técnica/administrativa/instrumental” etc., mas o resultado não poderá, por definição,
afetar o “domínio do que é”. E, enquanto isso, é claro, os pressupostos práticos
necessários da ordem dominante podem se reproduzir no curso da autorreprodução
ampliada do capital, sem serem perturbados nem mesmo pela possibilidade de
interrogações teóricas relativas ao destino das relações de produção estabelecidas. (p.
115)

Tonet, I. (2018). Método Científico: Uma abordagem ontológica. Maceió: Coletivo


Veredas.

Vale enfatizar que não se trata de desconhecer, negar, desqualificar ou menosprezar os


ganhos obtidos a partir dos outros paradigmas. Trata-se de compreender cada um deles
em sua configuração histórica e social; compreender a sua origem, a sua natureza e a
função que cada um deles exerceu e exerce na reprodução do ser social. Reforça-se,
assim, a ideia de que nenhum deles é a forma definitiva de produzir ciência, mas, ao
contrário, todos eles são uma forma, histórica e socialmente determinada, de construir o
conhecimento. (p. 10)

Como se sabe, gnosiologia é o estudo da problemática do conhecimento. Nesse


caso, portanto, o conhecimento é o objeto a ser estudado, assim como poderia ser
qualquer outro objeto. Deste modo, o próprio conhecimento (gnosis, em grego) pode ser
abordado de um ponto de vista gnosiológico ou de um ponto de vista ontológico.
Por sua vez, a ontologia é o estudo do ser, isto é, a apreensão das determinações
mais gerais e essenciais daquilo que existe. A ontologia poder ter um caráter geral,
quando se refere a todo e qualquer existente ou um caráter particular, quando diz
respeito a uma esfera determinada do ser, como, por exemplo, o ser natural ou o ser
social. (p. 12)

A nosso ver, porém, a correta compreensão da problemática do conhecimento não deve


desqualificar nenhuma dessas abordagens, antes deve compreendê-las no interior do
processo histórico. Quando examinadas sob essa luz, poderão ser melhor compreendidas
a sua origem, a sua natureza, a sua função social e, com isso, tanto os seus aspectos
positivos como as suas possíveis limitações. (p. 15)

Sujeito da história são as classes sociais em luta

É importante acentuar que as classes sociais são compostas por indivíduos e que,
portanto, eles também, como indivíduos singulares, são sujeitos da história. Contudo,
não o são no mesmo nível e importância das classes sociais. Alguns deles, por suas
qualidades, podem ter um papel mais destacado no processo histórico. No entanto, por
maior que seja a sua importância, não são eles que determinam o curso da história. Ao
realizarem as suas ações, eles estão expressando, quer de modo consciente ou não
consciente, interesses que os ultrapassam como indivíduos e que são os interesses das
classes sociais. Há, pois, uma articulação entre sujeito coletivo e sujeito individual no
interior do processo histórico, sendo o primeiro o momento predominante. (p. 16)

Ora, a conquista e a manutenção do domínio de uma classe sobre outras exige que a
classe que quer dominar lance mão não apenas de forças materiais, mas também de
forças não materiais (ideias e valores). E, para isso, ela deve dar origem a determinada
concepção de mundo que fundamente o seu domínio. Deste modo, conhecer e explicar o
mundo de determinada forma são condições imprescindíveis para que uma classe
conquiste e mantenha o seu domínio sobre outras. Mesmo no caso em que o objetivo de
uma classe seja a eliminação de todas as classes, e inclusive de si mesma como classe, a
elaboração de uma concepção de mundo que justifique esse objetivo é uma condição
necessária para atingi-lo. (p. 17)

Por isso, também no âmbito do conhecimento, podemos afirmar que o sujeito


fundamental são as classes sociais. São elas que, pela sua natureza fundada no processo
de produção, põem determinadas exigências e determinada perspectiva. Porém, de novo,
são os indivíduos que elaboram teorias, explicações e concepções de mundo. Ao
elaborarem suas teorias, porém, os indivíduos, expressam, ao nível teórico, de modo
consciente ou não, os interesses mais profundos das classes sociais4. Isto significa que
também no processo de construção do conhecimento existe uma articulação entre
sujeito coletivo (classes sociais) e sujeito individual (indivíduo singular), sendo o
primeiro o momento predominante. (p. 17)
Valha observar que os projetos históricos da burguesia e do proletariado não se
equivalem em termos de abertura dos horizontes para a humanidade. O projeto burguês
não pode, por sua própria natureza, ultrapassar a sociedade de classes; não pode superar
a exploração do homem pelo homem. Isso implica a impossibilidade de que todos os
indivíduos possam se realizar plenamente como seres humanos. Por sua natureza é,
pois, um projeto, de caráter essencialmente particular. Pelo contrário, o projeto do
proletariado implica, também por sua própria natureza, a superação de toda forma de
exploração do homem pelo homem e a possibilidade de plena realização humana de
todos os indivíduos. É, pois, um projeto de caráter essencialmente universal. (p.18-19)

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