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A CONCEITUALIZAÇÃO

COGNITIVA NA
FORMULAÇÃO DE CASO

Autora: Maria de Fátima Gaspar Vasques

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INTRODUÇÃO

O processo terapêutico tem como primeiro passo a avaliação, cujo


objetivo é buscar a maior quantidade possível de dados a respeito do
paciente, do desenvolvimento dos problemas dele e do motivo da
procura pelo tratamento. Após a avaliação, é levantada a hipótese
diagnóstica, com base nas informações coletadas sobre o paciente.
Essa hipótese proporcionará um entendimento do caso para que o
terapeuta possa prosseguir o tratamento.

A formulação de caso é definida como um mapa para orientar o


trabalho com o paciente. Wright e colaboradores (2008) sugerem que
a formulação reúna informações de sete domínios:

• Diagnóstico e sintomas.
• Contribuições das experiências da infância e outras influências do
desenvolvimento (questões situacionais e interpessoais).
• Fatores médicos, biológicos e genéticos.
• Pontos fortes e qualidades.
• Padrões típicos de pensamentos automáticos (PAs).
• Emoções e comportamentos.
• Esquemas subjacentes (crenças centrais e crenças
intermediárias).

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ITENS DA FORMULAÇÃO DE
CASO

A seguir, são comentados sete domínios trabalhados na formulação de


caso.

1. Identificação do paciente

Ao identificar o paciente, podem-se ter muitos dados relevantes para a


formulação do caso. Na identificação, ter-se-ão nome completo, idade,
profissão, estado civil e número de dependentes, além da religião e da
escolaridade. Esses dois últimos dados podem ser importantes para a
compreensão de certos padrões de pensamento. O grau de instrução
pode influenciar não só os PAs como também o próprio plano
terapêutico, sendo necessário escolher técnicas ou adaptá-las de
acordo com a compreensão do paciente.

2. Lista de problemas

A lista de problemas deve ser composta de todos os problemas


relatados pelo paciente e também dos que são identificados pelo
terapeuta. Person e Davidson (2006) referem que a lista deve ser escrita
em termos concretos e conter problemas de diversos domínios além
do psicológico, como médicos, ocupacionais, habitacionais, legais,
interpessoais e de lazer.

Na lista, os problemas não devem ser apenas citados. É necessária uma


contextualização breve. Por exemplo: se um paciente tem problemas
relacionados à irritação, deve-se descrever que ele se sente irritado com
os colegas de trabalho, que tem pensamentos catastróficos quando se
sente desvalorizado pelos colegas, etc.

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3. Diagnóstico

O diagnóstico deve ser feito a partir da quinta edição do Manual


Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) ou da décima
edição da Classificação Estatística Internacional de Doenças e
Problemas Relacionados com a Saúde (CID-10). O diagnóstico pode
ajudar a levantar hipóteses iniciais importantes.

4. Conceitualização cognitiva

A conceitualização cognitiva está contida na formulação de caso e


difere desta, pois se trata de um retrato do processamento da
informação do paciente, exemplificado por situações no formato de um
registro de pensamentos disfuncionais (RPD).

A conceitualização cognitiva está embasada na premissa do modelo


cognitivo, a qual diz que o comportamento e as emoções das pessoas
são influenciados por suas percepções das situações. As interpretações
que o paciente faz das situações determinam como ele se sente, e não
a situação em si (Beck, 1997).

5. Hipótese de trabalho

A hipótese de trabalho é o coração da formulação (Person e Davidson,


2006). É a teoria que o terapeuta cria a respeito do caso que lhe foi
exposto. Como o profissional se baseia na teoria cognitivo-
comportamental, esta influenciará o modelo de hipótese de trabalho.

Aqui, é indispensável investigar os fatores que predispõem aos


problemas apresentados (fatos da história do paciente, bem como
fatores genéticos), os que os mantêm e os que os ativaram. A partir do
momento em que se consegue relacionar os problemas, inclusive
estabelecendo relações causais entre eles, fica mais fácil planejar o
tratamento.

6. Pontos fortes e recursos do paciente

Deve-se listar tudo que pode ser considerado apoio para o tratamento
do paciente. Por exemplo: habilidades sociais, inteligência, talento
musical ou outros, fatores ambientais e sociais, etc.

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Segundo Person e Davidson (2006), a boa avaliação dos pontos fortes e
dos recursos do paciente ajuda o terapeuta no estabelecimento de
objetivos mais realistas para o tratamento.

7. Plano de tratamento

O plano de tratamento não é simplesmente a relação dos objetivos do


tratamento e das técnicas que o terapeuta supõe que usará. Devem-se
levar em conta todas as sessões anteriores para formular um
tratamento eficaz. A lista de intervenções é o caminho que o terapeuta
pretende usar para alcançar os objetivos, conhecendo os problemas e
as características do paciente.

A formulação de caso começa a ser construída assim que o


contato do terapeuta com o paciente é iniciado e será avaliada
e reavaliada até o final do processo terapêutico. A formulação
sempre influenciará o tratamento e deve ser revista tanto pelo
terapeuta quanto pelo paciente. A formulação de caso serve
para que terapeuta e paciente acompanhem o processo e está
ligada diretamente aos princípios básicos da terapia cognitivo-
comportamental (TCC).

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Quadro 1

Itens da formulação de caso

1. Identificação do paciente

Nome: Idade: Profissão:

Religião: Estado civil: Nº de dependentes:

Grau de
Genetograma: Uso de medicações:
escolaridade:

Motivo da busca de
Forma de encaminhamento:
atendimento:

a. História familiar:
Informações históricas
b. História escolar:
relevantes:
c. História social:

Diagnóstico ateórico (DSM5/CID10):

2. Lista de problemas:

3. Diagnóstico:

4. Conceitualização cognitiva:

a. Visão de si:

Tríade cognitiva: b. Visão de mundo:

c. Visão de futuro:

Crenças Estratégias
Crenças centrais:
intermediárias: compensatórias:

Situação 1: Situação 2: Situação 3:

a. Pensamentos a. Pensamentos a. Pensamentos


automáticos: automáticos: automáticos:

b. Emoções: b. Emoções: b. Emoções:

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c. Comportamentos: c. Comportamentos: c. Comportamentos:

a. Fatores predisponentes:

5. Hipótese de trabalho: b. Fatores precipitantes:

c. Fatores perpetuadores:

6. Pontos fortes e recursos:

Objetivos e metas:

7. Plano de tratamento: a. Intervenções:

b. Obstáculos:

Fonte: Andretta e Oliveira (2012).

7
CONCLUSÃO

A formulação de um caso é importante para que se possa ter uma visão


ampla do paciente. Assim, a conceitualização cognitiva vai ficando
clara e pode ser revista ao longo do tratamento. As técnicas utilizadas
também podem ser refinadas.

A formulação de caso é, portanto, um instrumento fácil de ser


construído pelo terapeuta, mas requer um entendimento profundo
sobre o paciente em atendimento. Isso exige do profissional
habilidades com o engajamento no pensamento clínico, teste de
hipóteses e análise eficaz dos dados.

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REFERÊNCIAS

Andretta I, Oliveira MS, organizadores. Manual prático de terapia


cognitivo comportamental. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2012.

Beck JS. Terapia cognitiva: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed; 1997.

Person JB, Davidson J. A formulação de caso cognitivo-


comportamental. In: Dobson KS, organizador. Manual de Terapias
Cognitivo-Comportamentais. 2. ed. Porto Alegre: Artmed; 2006.

Wright JH, Basco MR, Thase ME. Aprendendo a Terapia Cognitivo-


Comportamental. Porto Alegre: Artmed; 2008.

Referências recomendadas

Freeman A. O desenvolvimento da conceitualização de tratamento na


terapia cognitiva. In: Freeman A, Datillio FM. Compreendendo a
terapia cognitiva. São Paulo: Psy; 1998. p. 29–40.

Freeman A, Datillio FM. Introdução a terapia cognitiva. In: Freeman A,


Datillio FM. Compreendendo a terapia cognitiva. São Paulo: Psy; 1998.
p. 19–28.

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