Rumo a uma democracia de cidadãs e cidadãos

Programa das Nações Unidas Para o Desenvolvimento

a democracia
na América Latina
Rumo a uma democracia de cidadãs e cidadãos

Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai, Venezuela

Preparado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

A análise e as recomendações políticas deste Relatório não refletem necessariamente as opiniões do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, de sua Junta Executiva nem de seus Estados Membros. O Relatório é uma publicação independente preparada a pedido do PNUD. É o fruto da colaboração entre um conjunto de prestigiosos consultores e assessores e a equipe do Relatório da Democracia na América Latina (PRODDAL). © Programa das Nações Unidas Para o Desenvolvimento, 2004 1 UN Plaza, New York, New York, 10017, Estados Unidos da América Este documento foi elaborado com a ajuda financeira da União Européia. As análises e recomendações deste documento não refletem a opinião oficial da União Européia. A tradução deste Relatório para o português foi dirigida pela Profa. Monica Hirst, coordenada por Miriam De Paoli e contou com a participação de Maria Adelina Guedes Chaves, Gértea Coeli de Macedo Oliveira e Ivone Tupinambá Pereira Lima. Da Primeira edição em español: Aguilar, Altea, Taurus, Alfaguara S.A., 2004. Idéia da capa: Fisher América Argentina Desenho de portada e interiores: Schavelzon-Ludueña. Estudio de Diseño © Desta edição: LM&X Ltda., 2004 Rua Calçada dos Antares, 264 2º andar Alphaville – Santana do Parnaíba – SP – Brasil www.lmx.com.br – livros@lmx.com.br

ISBN: 85-98887-01-3 Depósito Legal na Biblioteca Nacional conforme decreto nº 1825 de 20 de novembro de 1907 Direção editorial: Alessandra Machado Diagramação: Adalton Martins, Vanessa Thomaz, Verônica S. Martins Revisão: Ivan Garcia
Todos os direitos reservados. Esta publicação e seus materiais complementares não podem ser reproduzidos, no todo ou em parte, nem registrados em, ou transmitidos por um sistema de recuperação de informação, sob nenhuma forma nem por nenhum meio, seja mecânico, fotoquímico, eletrônico, magnético, eletroóptico, por fotocópia ou qualquer outro, sem a autorização prévia por escrito da editora.

Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)

Administrador

Mark Malloch Brown
Administrador Associado

Zéphirin Diabré

Administradora Auxiliar e Diretora Regional para a América Latina e o Caribe

Coordenador do Programa Regional

Freddy Justiniano

Elena Martínez
Representante Residente na Argentina Assessora de Governabilidade do Programa Regional

Carmelo Angulo Barturén (até Abril de 2004) Carlos Felipe Martínez (desde Maio de 2004)

Myriam Méndez Montalvo

Coordenador do Projeto

Dante Caputo

Alain Touraine e Laurence Whitehead. Leandro García Silva.■ Projeto sobre a Democracia na América Latina Coordenador do Projeto Dante Caputo Consultores por Áreas Marco teórico Guillermo O’Donnell. Elisabeth Ungar e Amalfy Fernández. González. Rodada de consultas Diego Achard. Jennifer McCoy. Pierre Rosanvallon. Augusto Ramírez Ocampo. Juan Méndez. Coordenador Países do Istmo Centro-americano e República Dominicana Edelberto Torres Rivas. Equipe técnica: Leandro García Silva. Catherine Conaghan. José Nun. Evelyn Villarreal e Lorena Kikut. Larry Diamond. para o projeto e análise da pesquisa Latinobarômetro / PRODDAL 2002. Adriana Redondo e María C. Céli Regina Jardim Pinto. Pesquisa de opinião Jorge Vargas coordenou a equipe integrada por Miguel Gómez Barrantes. Jay Verkuilen e Daniel Zovatto. Gonzalo Pérez del Castillo. Rodolfo Mariani e Thomas Scheetz. Gonzalo Kmeid. Claudia Dangond. com a colaboração de Claudia Dangond. Renato Boschi. Projeto sobre a Democracia na América Latina 5 . José Eisenberg. David Held. Tatiana Benavides. Luis E. Fernando Calderón. Rodríguez. Colaboradores especiais: Fabián Bosoer e Daniel Sazbón. Indicadores Gerardo Munck coordenou a equipe integrada por David Altman. Coordenadores Coordenador Países Andinos Augusto Ramírez Ocampo. Edelberto Torres Rivas. Adalberto Moreira Cardoso. e uma equipe dirigida por Hilda Herzer e integrada por Verónica De Valle. Coordenador institucional Gonzalo Pérez del Castillo. Manuel A. Raúl Alconada Sempé. Garretón. com os comentários de Bruce Ackerman. María M. Graciela Kisilesky. Bosworth. Rodolfo Mariani. Equipe de apoio: María Eugenia Bóveda e Fabián de Achaval. Di Virgilio. Julio Cotler. Coordenador Países do MERCOSUL Dante Caputo e Raúl Alconada Sempé. Andrew Arato. Pablo Da Silveira. com a colaboração de Claudio Luján. Equipe do Projeto em Buenos Aires Oficial de Programa PNUD: Rosa Zlachevsky. Adriana Raga. Jeffrey A.

Consultores Gloria Ardaya. Emilio Sampietro. Vicente Palermo. Norbert Lechner. Milagros Olivera. 6 A democracia na América Latina . Carlos F. Juan Carlos Herrera. Marta Lagos. Alberto Couriel. Fernando Calderón. Martín Santiago. Gerardo Noto. Assessores José Luis Barros Horcasitas. Manuel Antonio Garretón. Marcia de Castro. Marcos Novaro. William Orme. Gustavo Fernández Saavedra. Enrique Ganuza.Difusão do Relatório Milena Leivi. Freddy Justiniano (Coordenador). Edmundo Jarquín. Enrique Ganuza. Harold Robinson. Juan Rial. Carlos Ominami. Juan Pablo Corlazzoli. Luis Francisco Thais. Carlos Lopes. Luis Verdesoto. Joaquín Estefanía. Arturo O’Connell. Juan Alberto Fuentes. Sebastián Campanario. Eva Capece. Sandra Rojas. Guillermo O’Donnell. Julio Godio. Myriam Méndez-Montalvo. Horacio Boneo. Grupo de leitores do Relatório Carmelo Angulo. Thierry Lemaresquier. Magdy Martínez. Víctor Arango. Luis Eduardo González. Silvia Lospennato. Stefano Pettinato. Néstor Lavergne. Martínez.

pobreza e desigualdade: um triângulo latino-americano Balanço entre reformas e realidades Os organismos internacionais e a promoção da democracia 49 50 52 ■ Exploração sobre o desenvolvimento da democracia Um debate incompleto Fundamentos teóricos A idéia de democracia Os déficits da sociedade como déficit da democracia Alcances da democracia no Relatório Democracia. a democracia também Estado e cidadania 64 66 69 “Estatalidad” truncada e fragilidade democrática Especificidade histórica das democracias latino-americanas De quanta cidadania uma democracia precisa Índice 7 . democracia e política 25 25 26 26 28 29 31 ■ Resumo Introdução A democracia e a idéia de democracia na América Latina Balanço da cidadania integral Percepções e apoio de líderes e cidadãos Elementos para uma agenda Metodologia do Relatório primeira seção 33 35 38 41 45 O desenvolvimento da democracia na América Latina ■ O desafio: de uma democracia de eleitores a uma democracia de cidadãos Democracia. regime político e Estado Os cidadãos.Índice 13 17 21 21 ■ Prólogo do Administrador do PNUD ■ Prefácio da Diretora Regional para América Latina e Caribe do PNUD ■ Apresentação Liberdade. sujeito da democracia A cidadania excede os direitos políticos. fonte e justificativa da autoridade do Estado democrático O cidadão.

à integridade física e à segurança Administração de justiça Liberdade de imprensa e direito à informação Conclusões sobre a cidadania civil: conquistas e deficiências 122 Cidadania Social N ecessidades básicas Integração social A sociedade civil como promotora da cidadania social Conclusões sobre a cidadania social: conquistas e deficiências 139 140 ■ Como os latino-americanos vêem a sua democracia Três tendências em relação à democracia: democrática. civil e social Cidadania política Índice de democracia eleitoral Outros indicadores do regime democrático de acesso ao governo Participação eleitoral Concorrência eleitoral e seleção de candidatos Representação eleitoral 84 Balanço do regime de acesso democrático ao governo Outras dimensões da Cidadania Política Poderes constitucionais clássicos Agências especializadas de controle Mecanismos de democracia direta A corrupção na função pública Clientelismo 88 104 Conclusões sobre a cidadania política: conquistas e deficiências Cidadania civil Igualdade legal e proteção contra a discriminação Direito à vida. ambivalente e não-democrática Magnitude das tendências em relação à democracia Distância entre as tendências em relação à democracia Tendências em relação à democracia: perfil social Heterogeneidade 147 Formas de participação dos cidadãos na vida política Participação cidadã e tendências em relação à democracia Perfis de intensidade da cidadania 153 O índice de Apoio Cidadão à Democracia 157 157 157 ■ A percepção dos dirigentes latino-americanos Perfil dos atores consultados O ponto de partida conceitual 8 A democracia na América Latina .segunda seção 73 Bases empíricas do Relatório 75 75 76 ■ Indicadores de desenvolvimento da democracia Cidadania política.

158 Condições necessárias para a Democracia A expansão da participação política A expansão dos controles sobre o exercício do poder Opiniões sobre o caráter da democracia 162 Causas das limitações das democracias latino-americanas Poderes institucionais e poderes fáticos O papel dos partidos políticos Os poderes fáticos Empresas Os meios de comunicação Os fatores extraterritoriais As Igrejas O sindicalismo Os poderes ilegais Os poderes políticos formais O Poder Executivo As Forças Armadas 170 A visão dos presidentes e vice-presidentes Avaliação da figura do presidente no mapa de poder de cada região Pressões dos poderes fáticos sobre a autoridade presidencial O papel dos meios de comunicação Valoração das organizações sociais na vida política do país 172 O fortalecimento da democracia A construção da agenda pública na América Latina A agenda futura Os desafios 177 178 Alcances da democracia na América Latina. primeira condição A necessidade de uma nova “estatalidad” Uma economia para a democracia Poder e políticas democráticas na globalização Em síntese 203 203 ■ Reflexões finais O eterno desafio Índice 9 . Um balanço Como se exerce o poder nessas democracias? Síntese da rodada de consultas terceira seção 181 Rumo a uma democracia de cidadania 183 184 189 192 198 201 ■ Quatro temas para uma agenda de debate A política.

Funcionários do Escritório de Enlace do PNUD em Bruxelas Funcionários do Escritório do PNUD na Argentina Representantes Residentes.207 ■ Agradecimentos Instituições que colaboraram na elaboração e discussão do Relatório Autores de artigos sobre temas da agenda Participantes da Rodada de Consultas Participações especiais Funcionários do Escritório do Administrador do PNUD Funcionários da Direção para América Latina e Caribe do PNUD. Adjuntos e Auxiliares dos Escritórios do PNUD na América Latina Funcionários dos Escritórios do PNUD na América Latina 210 Participantes em seminários e reuniões Reunião com o Secretário Geral da ONU Reunião com o Administrador do PNUD Apoio na preparação de reuniões e seminários Produção e tradução 213 213 ■ Nota técnica sobre o Índice de Democracia Eleitoral (IDE) Construção do IDE A escolha dos componentes A medição dos componentes A geração de uma base de dados retangular com escalas normalizadas A escolha de regras de agregação 217 Testando o IDE Confiabilidade entre codificadores e estimativa de erro A solidez das regras de agregação O caráter dimensional dos elementos componentes 218 Interpretando e usando o IDE 219 219 219 ■ Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) Apresentação I.Pesquisa de opinião sobre a democracia Dados e metodologia Desenho das amostras Análises estatísticas Unidade de análise Precisão dos resultados Amostras totais. amostras válidas e não-respostas Apresentação de resultados O método de medição do apoio cidadão à democracia mais amplamente utilizado e suas fragilidades 227 O IAD e as tendências em relação à democracia As três dimensões do IAD 10 A democracia na América Latina .

Primeira dimensão: tamanho de uma tendência Segunda dimensão: ativismo político das tendências Classificação de modos de participação Terceira dimensão: distância entre as tendências A regra de agregação do IAD A Interpretação do IAD Validação e confiabilidade do IAD Pressupostos e limitações do IAD 239 255 257 260 262 263 ■ Bibliografia ■ Abreviaturas ■ Índice de quadros ■ Índice de tabelas ■ Índice de gráficos ■ Conteúdo do CD-ROM incluído no relatório Índice 11 .

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Prólogo do Administrador do PNUD A AMÉRICA LATINA APRESENTA ATUALMENTE UM EXTRAORDINÁRIO PARADOXO. ainda. Assim. por um amplo descontentamento popular) das cidadãs e dos cidadãos com essas democracias tem aumentado. pondo em risco os avanços registrados nos últimos 25 anos. O panorama torna-se ainda mais complexo quando se considera que diversos fatores indispensáveis para a governabilidade democrática. o PNUD e seus parceiros na busca pelo desenvolvimento nos meses e anos futuros. em alguns casos. suas raízes não são profundas. Ele oferece uma análise abrangente do estado da democracia na América Latina. o Relatório assinala que a proporção de latino-americanas e latino-americanos que estariam dispostos a sacrificar um governo democrático em favor do progresso socioeconômico real é superior a 50%. o Relatório não é. mais de duas décadas de governos democráticos. que são insuficientes para satisfazer as crescentes expectativas da cidadania. com grande orgulho. Assim. São várias as razões dessa tendência. O Relatório procura. em muitos lugares. existem níveis de pobreza elevados. conseqüentemente. Resultado do trabalho de um grupo de especialistas independentes. entrevistas. Por outro. um documento oficial sobre as políticas do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) ou das Nações Unidas. é grande a satisfação do PNUD em ter apoiado esta iniciativa. conseqüências desestabilizadoras. A mais importante é que a democracia é. enfrenta uma crescente crise social. O Relatório representa um significativo esforço para compreender e superar esse paradoxo. os governantes são culpados quando as coisas andam mal em matéria de emprego. pela primeira vez na história da América Latina. O coração do problema está em que. Essa circunstância tem gerado. atualmente. tais como liberdade Prólogo do Administrador do PNUD 13 . pesquisas e diálogo com grande número de líderes e formadores de opinião por toda a região. Por um lado. o crescimento econômico tem sido insuficiente e a insatisfação (expressa. renda e serviços básicos. ir além do simples diagnóstico dos problemas existentes e propõe novos enfoques para os desafios que estão. Consideramos que ele representa uma valiosa contribuição para a configuração de uma agenda ampliada para os países da América Latina. Por esse motivo. embora a democracia tenha-se propagado amplamente na América Latina. Persistem profundas desigualdades. a região pode mostrar. mediante a combinação de indicadores quantitativos. a forma de governo predominante.

Fazer. em todos os níveis de governo. Isso explica. um poder descentralizado. Para que a democracia não definhe e possa crescer. com que as instituições públicas tenham um desempenho efetivo é apenas uma parte do desafio. Não obstante. porém. Dessa forma. existem alguns sinais muito animadores por trás dessa situação. dado amplo apoio às instituições democráticas. tradicionalmente excluídos. que são capazes de responder a essas indagações e que estão sujeitos ao efetivo controle da cidadania quando não o fazem. Além disso. Nesse caminho não há atalhos: consolidar a democracia é um processo. o Poder Judiciário e o Executivo.de imprensa. não um ato isolado. os cidadãos estão começando a distinguir entre a democracia como sistema de governo e o desempenho dos governantes em particular. Em segundo lugar. por que os movimentos de oposição não tendem. Ao passo que os corpos legislativos e os partidos políticos têm apoio de menos de um quarto da população. muitos grupos. as populações diferenciam cada vez mais entre as diversas instituições. das legislaturas às autoridades locais. sejam eles líderes políticos. Assim. Além disso. Muitos desses cidadãos nada mais são do que “democratas insatisfeitos”. mas para líderes populistas que se apresentam como alheios ao poder tradicional e prometem perspectivas inovadoras. apesar das crises. 14 A democracia na América Latina . quando é hora de identificar responsáveis. fenômeno que é bastante conhecido em muitas democracias estabelecidas. o desafio implica também na construção de instituições legislativas e jurídicas capazes de proteger os direitos humanos e de gerar espaço para um debate político vigoroso e pacífico. O primeiro é que. parcialmente. Além disso. Isso significa que será preciso assegurar que o poder. Na prática. mostram uma imagem um pouco melhor. ao contrário. seja estruturado e distribuído de tal forma que dê voz e participação real aos excluídos. Ele inclui o desenvolvimento de uma força policial capaz de garantir ruas e fronteiras seguras. proteção sólida aos direitos humanos e poder judiciário independente e vigoroso ainda precisam ser substancialmente fortalecidos. tendo. a América Latina precisa trabalhar incansavelmente para que as instituições democráticas. empresários ou outros atores. os países da região não optaram por um retrocesso ao autoritarismo. sejam transparentes. é preciso demonstrar aos cidadãos que os governos democráticos estão cuidando dos problemas que verdadeiramente preocupam os povos. não raro por meio de expressões violentas. fiquem obrigados a prestar contas de suas ações. ele deve proporcionar mecanismos pelos quais os poderosos. não têm acesso ao poder por meio dos canais formais. eles manifestam suas frustrações por vias alternativas. prestem contas dos seus atos e desenvolvam as aptidões e capacidades necessárias para desempenhar suas funções fundamentais. para soluções militares. hoje em dia. assim como os serviços de segurança.

de forma que qualquer um possa compreendê-las e honrá-las. em face do compromisso assumido pelo mundo desenvolvido de apoiar os países em desenvolvimento que levam a cabo reformas de boa fé.para que a população de cada localidade possa mobilizar-se para garantir escolas com professores bem capacitados e hospitais com equipamento e medicamentos apropriados. e especialmente os líderes em todas as esferas. alívio da dívida e maior assistência. O desafio implica. Mark Malloch Brown Administrador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Prólogo do Administrador do PNUD 15 . porém. mensuráveis e enunciadas sinteticamente. Num sentido muito real. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) das Nações Unidas — que vão de reduzir à metade a pobreza extrema e a fome até assegurar que. ainda. será preciso. todas as meninas e meninos freqüentem escolas — oferecem um instrumento para ajudar a atender a essas questões no nível nacional e regional. que todos esses atores tenham plena participação na consolidação da democracia e estejam na vanguarda da luta contra a corrupção e a má administração de governos e empresas. por meio do qual o crescimento econômico renovado dê impulso aos ODM e ajude simultaneamente a construir e sustentar democracias mais efetivas e capazes de acelerar um progresso social e econômico eqüitativo. meninas e meninos de todo o mundo: um conjunto de questões concretas. existirá então possibilidade de se construir um novo círculo virtuoso. que os latino-americanos. Para fazer dessa visão uma realidade. mas como dois lados da mesma moeda. os ODM constituem o primeiro manifesto global para mulheres e homens. Se a América Latina e o mundo aproveitarem esta oportunidade. Como parte de um pacto global entre países ricos e pobres. no ano 2015. uma florescente sociedade civil e uma imprensa livre. os ODM oferecem uma oportunidade real para canalizar o apoio externo em termos de acesso a mercados. não como alternativas. enfrentem decididamente as questões críticas que afetam a governabilidade democrática e que possam assegurar que desenvolvimento e democracia continuem sendo entendidos. de que tantos países latino-americanos necessitam desesperadamente para impulsionar seus próprios esforços.

16 A democracia na América Latina .

portanto. contribui para a reinvenção da política como sustentáculo do desenvolvimento latino-americano. E a tecnologia não diz para quê nem para quem. Por sermos uma organização de conhecimento. acompanhamos diálogos que ajudam a construir consensos entre autoridades. há. para as opções e para os conflitos. a maioria dos programas nacionais de cooperação tem em vista esse propósito. a pedido dos governos. O Relatório procura levar a sério essa velha idéia. ao mesmo tempo. a reforma política. mediante a modernização do estado e de seus diferentes ramos. os economistas e os organismos de desenvolvimento voltaram os olhos para as instituições. nestes últimos anos. Em seu sentido mais elementar. para pô-la em diálogo com o presente e o futuro de nossa América: governo do povo significa que as decisões que nos afetam a todos sejam tomadas por todos. voltaram a descobrir a política (embora prefiram não dizer isso). Nesse contexto. O texto que tenho hoje a honra de apresentar é o primeiro resultado desse processo. Por isso. mas apenas como. Em outras palavras. democracia nada mais é do que “o governo do povo”. NÃO FAZ MUITO TEMPO. pressupõe a segurança jurídica dada pelas instituições. que se celebrar a existência de governos eleitos pelo voto popular e os progressos na representação e participação na esfera política duran- 1 Conselho Executivo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e do Fundo de População das Nações Unidas. Assim. De fato. em que participaram mais de 100 analistas. mais de 200 líderes políticos ou sociais e quase 19 mil cidadãos entrevistados em 18 países.Prefácio da Diretora Regional para América Latina e Caribe do PNUD HOUVE UM MOMENTO. ajudálo. O mercado. Em nada menos que 17 países. o PNUD vem dando cada vez mais atenção ao desafio de consolidar a democracia na América Latina e no Caribe. 32 presidentes ou ex-presidentes. O Relatório faz parte desse redescobrimento e quer. sociedade civil e atores não tradicionais. vários projetos regionais e nacionais empenharam-se ou estão empenhados em avaliar alternativas e difundir boas práticas no que tange à governabilidade. forças políticas. porém. Prefácio da Diretora Regional para América Latina e Caribe do PNUD 17 . o Conselho Executivo do PNUD aprovou o II Marco de Cooperação Regional para o período 2001-2005. em que muitos acreditaram que a política estava morta: o mercado impessoal e o saber tecnocrático se encarregariam de levar-nos ao desenvolvimento. Primeiro Período Ordinário de Sessões de 2002. No contexto da América Latina. a governança local e a adequada inserção na aldeia global. no qual está incluída “a preparação de um Relatório sobre o estado da democracia na América Latina [que] será resultado de atividades conjuntas de acadêmicos e agentes políticos e sociais da região1 “. Vale dizer.

Tercer Mundo. é aumentar as opções de caráter coletivo que incidem na qualidade de nossas vidas. é “o aumento das opções para que as pessoas possam melhorar sua vida2“ . que continuam sendo a nossa grande mancha e a grande ameaça a esse regime democrático? Como ampliar a política ou como recuperar o que é público para o debate e a participação das pessoas? Como devolver a economia à política. de submeter ao debate e à decisão coletiva todos os assuntos que afetam o destino coletivo. uma forma de organização que garante os direitos de todos: os direitos civis (garantias contra a opressão). O debate está aberto. Mas persiste o desafio de engrandecer a política. mas. Será necessário advertir que “política” não é só (e não é sempre) o que fazem os políticos. 2000. e sim ajudar a definir as perguntas. É a democracia da cidadania que o Relatório propõe e que serve de eixo ordenador de sua análise. eu diria que democracia é desenvolvimento humano na esfera pública. enfim. Bogotá. Assim. a idéia seminal e o convite essencial do texto que estou apresentando é avançar na direção de uma democracia de cidadãs e cidadãos mediante a ampliação da política. por sua vez. para que este possa cumprir os mandatos da cidadania. e sim o que fazem os cidadãos e suas organizações quando se ocupam da coisa pública? Ou haverá necessidade de acrescentar que a democracia assim entendida é uma forma de desenvolvimento humano? Se desenvolvimento humano. como reduzir a pobreza e a desigualdade. como mais de uma vez disseram os Relatórios do PNUD. 13. Uma forma. p. os direitos políticos (tomar parte nas decisões públicas ou coletivas) e os direitos sociais (acesso ao bem-estar).te as últimas décadas. direcionar o mercado para a cidadania e a serviço dela? Como fazer com que o Estado se empenhe em democratizar a sociedade? Como conseguir que ele se imponha aos poderes fáticos. um estado de cidadãos plenos. uma definição de democracia. o que acarreta. fazer com que a aldeia global seja governada e que esse governo represente também as latino-americanas e os latino-americanos? O Relatório não pretende dar as respostas. 3 Desarrollo y Libertad. 2 Esta definição foi proposta pela primeira vez no Informe Sobre Desarrollo Humano. p. isto é. Governo do povo significa. Ainda mais: o texto é apenas um pré-texto. sem populismos. 18 A democracia na América Latina . E assim. sem dúvida. 33. a afirmação de Amartya Sen —“desenvolvimento humano é o processo de expansão das liberdades reais de que goza um povo”3— vem a ser. ou de fato? Como. então. de eleger as autoridades. maior diversidade de opções e mais poder ao Estado. Planeta. ou como. 1990. Como manter a vigência e aperfeiçoar o regime democrático de que agora desfrutam nossos países? Como expandir a cidadania social. além disso. de fato. no sentido tanto de texto prévio que quer ser melhorado como no de desculpa ou ocasião para continuar um diálogo já iniciado. Madrid.

a rede de atores da governabilidade que acompanha o PRODDAL e.Esse diálogo é a razão de ser do Projeto sobre o Desenvolvimento da Democracia na América Latina (PRODDAL). mas sim. são: o livro no qual 26 destacados intelectuais procuram dar respostas a essas questões. certamente. A América Latina é múltipla e uma só. estimularão e enriquecerão um debate urgente (ao qual eu chamaria “debate sobre a democratização de nossas democracias”). evidentemente. agradecer. Um fruto de seus esforços é o Relatório. razão pela qual previmos encontros em cada um. que. que o PNUD leva a cabo com o generoso apoio da União Européia e de governos. Prefácio da Diretora Regional para América Latina e Caribe do PNUD 19 . esperamos. Uma série de eventos regionais. o debate político tem que ocorrer a partir das realidades e dos sonhos próprios de cada pais. a “e-comunicação” interativa são outros tantos cenários nos quais queremos prosseguir com este diálogo. Outros frutos. Por isso. instituições e pessoas a quem não me cabe enumerar. o compêndio estatístico que permite um escrutínio integral das cidadanias e os ensaios acadêmicos que sustentam nosso modo de entender a democracia. Bem-vindos! Elena Martínez Administradora Auxiliar e Diretora Regional do PNUD para a América Latina e o Caribe.

20 A democracia na América Latina .

Para esse fim. Nossa ambição é que ele venha a ser uma ferramenta para o debate das sociedades. Evidentemente. o relatório contém uma análise crítica da situação de nossas democracias. conhecendo suas limitações. Foram-se as histórias dos temores. para saber quais são nossas urgências e prioridades. prioritariamente. das torturas e do silêncio esmagador que tem a falta de liberdade. dos desaparecimentos. dos assassinatos. em parte. ficou para trás. Temos problemas. exercer a capacidade de reconhecer e decidir o que queremos fazer com nossas sociedades. em que uns poucos se apoderaram do direito de interpretar e decidir o destino de todos. Liberdade para dizer que o rei está nu e procurar compreender por quê. Fizemos esta exploração levando em conta. que chegue a elas e que lhes ajude a compreender melhor suas democracias e suas necessidades de aprimoramento. Liberdade para discutir o que perturba. é indispensável promover ativamente o debate e incorporar no quotidiano das decisões das organizações sociais os temas aqui propostos e outros que possamos ter omitido. mas guardamos a memória desse passado. as lacunas. Os déficits. para saber se o que discutimos é o que precisamos discutir ou o que outros nos impuseram. para que nossos filhos saibam que a liberdade não nasApresentação 21 . o que alguns prefeririam que ficasse oculto. porém. um perigo: esquecer o que temos. a demanda. mas há problemas na democracia. No exercício de exploração daquilo que falta existe. numerosos e alguns muito graves. antes de tudo. as ciladas que se lançam sobre nossas democracias não deveriam levar-nos a esquecer que deixamos para trás a longa noite do autoritarismo. Para resolvê-los. Faz-se necessário provocar uma nova discussão. feita a partir da própria democracia. e desejaríamos que ele não se esgotasse em nós. Além disso. é indispensável fazer uso do mais precioso instrumento que ela nos oferece: a liberdade. as indagações que nossas mulheres e homens formulam e que não estão sendo eficientemente tratadas no debate político. Não há problemas com a democracia. ou seja. Liberdade para saber por que um sistema que é quase sinônimo de igualdade convive com a mais alta desigualdade do planeta. trata-se de um Relatório para exercitar a liberdade. o que em política significa. Sem dúvida nenhuma.Apresentação Liberdade. democracia e política O RELATÓRIO SOBRE A DEMOCRACIA NA AMÉRICA LATINA propõe algumas respostas às incertezas e aos questionamentos das sociedades latino-americanas sobre sua democracia. o que exigir de nossos representantes. A história. Isso nos levou necessariamente a destacar déficits e carências. a crise de representação na política é atacada com mais eficácia quando sabemos o que pleitear. porque. não é um texto em si mesmo que atingirá esse objetivo.

uma advertência sobre as limitações do trabalho. Finalmente. as lutas reais. muitas vezes. É por meio da política que se plasma a construção democrática. uma maioria. é um esforço parcial. Mesmo aqueles que não são nem um nem outro precisam armar-se desde agora com essa fortaleza de ânimo que permite suportar a destruição de todas as esperanças. paixão e comedimento. o que se enfrenta não são grandes idéias. Muitos têm a simples valentia de lutar. Não existe aqui nada parecido com uma reivindicação sentimental dos políticos. que optaram entre custos. pensar e decidir. paixões e misérias.ceu espontaneamente. somente um homem construído dessa forma tem ‘vocação para a política’”. O Relatório sobre a Democracia na América Latina aborda a análise de nossa situação. Só quem está seguro de não se abater quando. se não quiserem ver-se incapacitados de realizar mesmo aquilo que hoje é possível. e assim o demonstra a história. Aqui ocorre algo semelhante ao que acabo de indicar: também a política tem graves carências. única atividade capaz de reunir a árdua e maravilhosa tarefa de lidar com a condição humana para construir uma sociedade mais digna. somente quem. Para ser capaz de fazer isso. do seu ponto de vista. foi uma conquista árdua e demorada. Eles não têm a pureza daqueles que só assumem o risco de opinar. vez por outra. perdem. alguns com êxito. Democracia se faz com política. o impossível. A democracia é um fenômeno cuja dimen- 22 A democracia na América Latina . Como disse Weber: “a política é uma dura e prolongada penetração através de resistências tenazes. o que tem produzido crescente repulsa em nossas sociedades à face daqueles que a praticam. sem dúvida. que são as lutas do poder. o mundo se mostra demasiadamente estúpido ou demasiadamente abjeto para o que ele oferece. mas. oferece uma ampla base empírica e propõe um temário sobre seus desafios centrais. pagam por eles. que protestar. sim. é necessário ser um caudilho e assim também um herói. em um ambiente em que. outros cometem erros e. é capaz de responder com um ‘apesar disso’. Alguns temem e abandonam a política. Ela requer mulheres e homens dispostos a lutar neste turbulento território em que se desenvolvem os interesses e as paixões. faz algo mais do que opinar sobre como as coisas deveriam ser feitas. Eles tentam. que pagaram com seu prestígio ou sua honra por seus defeitos ou falhas. mas simplesmente a advertência de que a democracia não é uma construção idílica. no sentido mais simples do termo. porém. com a dignidade de mulheres e homens livres. porém. em face de tudo isso. Estes políticos. e para isso são necessárias. O Relatório não é benigno quando trata de mostrar a gravidade da crise da política e dos políticos. que nunca se consegue o possível neste mundo se não se tentar. É certo. porém. falar. Não obstante. de um ou de outro modo. apostam. ao mesmo tempo. é que se lançaram às lutas. e muitos voltam a tentá-lo. Precisamos ser críticos com a nossa democracia. porque essas lembranças nos obrigam a custodiá-la e aperfeiçoá-la.

importante e necessário. A história que recebemos. os impulsos sociais suscitados pelas esperanças e frustrações. da vasta experiência que a democracia contém. Dante Caputo Coordenador do Relatório Apresentação 23 .são humana e cultural é central. Advertimos sobre essa ausência para indicar que estamos conscientes dela e para frisar nossa reticência em encerrar em categorias analíticas e em cifras a imensa complexidade dos fenômenos humanos. as paixões desencadeadas em torno das relações de poder. não raro contêm explicações ou indícios dos quais os dados e a análise não dão plena conta. Só trabalhamos sobre um segmento.

24 El desarrollo na América Latina A democraciade la democracia em América Latina .

Esses fatos demonstram que a democracia não se reduz só ao ato eleitoral. Paralelamente ao que foi colocado. principalmente. Resumo 25 . não só como regime eleitoral. civil e social. reconheça os direitos de todos e advogue por eles. Sob esse enfoque. desde que as instituições públicas se fortaleçam e sejam mais eficientes. De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano 2002. a democracia é o marco propício para abrir espaços de participação política e social. uma pesquisa de opinião respondida por 19. analisam-se os dados obtidos mediante diversos instrumentos empíricos aplicados: indicadores e índices das cidadanias política. transparência e eqüidade nas instituições públicas e também uma cultura que aceite a legitimidade da oposição política. modificando as constituições nacionais em seu favor e intervindo nos processos eleitorais e/ou restringindo a independência dos poderes legislativo e judiciário. mas também como uma democracia de cidadãos. Na segunda seção. Essa contribuição organiza-se ao redor de três perguntas: Qual é o estado da democracia na América Latina? Quais são as percepções e quão forte é o apoio de líderes e cidadãos à democracia? Quais seriam os principais temas de um debate visando a um maior avanço na democracia de cidadãos? Buscou-se responder a elas ao longo das seções deste Relatório. no que se refere a reduzir a pobreza. é o primeiro insumo de um processo de maior fôlego e diálogo social. define-se a base conceitual utilizada no estudo e contextualiza-se o desenvolvimento da democracia em uma região com altos níveis de pobreza e desigualdade. e propõe-se uma agenda de reformas para fortalecer o desenvolvimento da democracia na região. principalmente para os que mais sofrem: os pobres e as minorias étnicas e culturais. Nesse sentido. é possível gerar condições mais eqüitativas e aumentar as opções das pessoas. paralelamente. limites e desafios. De fato. a crescente frustração pela falta de oportunidades e pelos altos níveis de desigualdade. Para o PNUD. Elaborado pelo Projeto sobre o Desenvolvimento da Democracia na América Latina (PRODDAL). em muitos casos. por exemplo. a governabilidade democrática é um elemento central do desenvolvimento humano. fatos esses que colocam em risco a estabilidade do próprio regime democrático.RESUMO Introdução O presente Relatório sobre A democracia na América Latina: Rumo a uma democracia de cidadãs e cidadãos faz parte da estratégia do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no sentido de fortalecer a governabilidade democrática e o desenvolvimento humano. Seu propósito é avaliar a democracia na América Latina.508 cidadãos dos 1 PNUD 2002. pobreza e exclusão social manifesta-se em mal-estar. como também um meio necessário para o desenvolvimento. será possível alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. perda de confiança no sistema político. ações radicalizadas e crises de governabilidade. e não só da economia. 10). porque por meio da política. a democracia não é apenas um valor em si mesmo. Embora 140 países do mundo estejam vivendo hoje sob regimes democráticos – fato valorizado como uma grande conquista – somente em 82 existe uma democracia plena1. Na medida em que a democracia possibilita o diálogo que inclui os diferentes grupos sociais e. identificam-se conquistas. Mundi-Prensa: Madrid (p. Na primeira seção. mas requer eficiência. muitos governos eleitos democraticamente tendem a manter sua autoridade com métodos não democráticos. Relatório do Desenvolvimento Humano 2002 .

Com base nos fundamentos teóricos. existem problemas regionais comuns e diversidade nacional nas respostas. que deve ser entendida e avaliada em sua especificidade. e identifica a desigualdade e a pobreza como suas principais deficiências. mas também aponta que. ar- Balanço da cidadania integral Para medir os avanços em cidadania política. em matéria de democracia. mas não se reduz às eleições. existem barreiras para a entrada de novos ato- 2 A informação contida no Relatório. enfrentam altos níveis de pobreza e a mais alta desigualdade do mundo. Os dados mostram que na região existem hoje “de mocracias eleitorais”. ocorreram importantes restrições à liberdade eleitoral em 10 de 70 eleições nacionais. O Relatório valoriza os principais avanços da democracia como regime político na América Latina. aponta a urgência de uma política geradora de poder democrático. Além disso. Mais pontualmente. ■ Nesse mesmo período. nas reformas estatais e estruturais da economia e no impacto da globalização na região. ela abrange um espaço substancialmente maior do que o do mero regime político e suas regras institucionais. foi utilizado o Índice de Democracia Eleitoral (IDE) que. apesar de. as eleições nacionais foram limpas entre 1990 e 20022. da cidadania civil e da cidadania social. e que todos eles formam um conjunto indivisível e articulado. sociais. e identifica a desigualdade e a pobreza como suas principais deficiências. só três deles viviam em democracia há 25 anos. eles indicam que: ■ Em todos os países se reconhece o direito universal ao voto. as diferenças marcantes entre os países da região. ■ Apesar de alguns problemas. Falar de cidadania integral é considerar que o cidadão de hoje deve ter acesso a seus direitos cívicos. os dados também demonstram que a participação eleitoral é irregular – em alguns países apresenta níveis muito baixos – e que.dezoito países considerados. 26 A democracia na América Latina . ■ tem no regime eleitoral um elemento fundamental. mas a tendência geral foi positiva. centrada na crise da política. como elementos importantes para a análise. utiliza dados atualizados até 2002. isto é. em geral. cujo objetivo seja a cidadania integral. O Relatório valoriza os principais avanços da democracia como regime político na América Latina. ■ Houve um avanço na questão das eleições serem um meio de acesso a cargos públicos: a passagem do mando eleitoral se converteu em uma prática comum. O que devemos entender por “cidadania integral”? Como terá inferido o leitor. gumenta-se que a democracia: ■ pressupõe uma idéia do ser humano e da construção da cidadania. o pleno reconhecimento da cidadania política. No entanto. ao mesmo tempo em que as latino-americanas e os latino-americanos consolidam seus direitos políticos. corresponde à dimensão ou condição mínima para que se possa falar de democracia. A terceira seção busca ampliar a agenda pública sobre o desenvolvimento da democracia. Contudo. O presente estudo assume e ressalta. ■ é uma experiência histórica particular na região. ■ é uma forma de organização do poder que implica a existência e o bom funcionamento do Estado. na disputa eleitoral. em alguns casos. A democracia e a idéia de democracia na América Latina Os 18 países da América Latina considerados neste Relatório cumprem hoje os requisitos fundamentais do regime democrático. ■ implica uma cidadania integral. indica-se que existem fortes tensões entre a expansão da democracia e a economia. econômicos e culturais em perfeita harmonia. Desse modo. a busca da eqüidade e a superação da pobreza. em geral. ter ocorrido em meio a complexas crises constitucionais. apesar de medir apenas um aspecto do sistema político. e uma rodada de consultas a 231 líderes sobre os desafios da democracia na América Latina.

Quanto aos mecanismos de controle político. pois grandes desigualdades são mantidas no tratamento dispensado a pessoas pertencentes a diferentes grupos. Contudo. a representação de povos originários e afro-descendentes no parlamento é. observa-se que a carência de recursos econômicos e humanos os torna frágeis. Um tema preocupante. tenham sido ratificadas as convenções internacionais relativas aos direitos civis e. como um ator indiferente e profissionalizado que não encarna um projeto de futuro compartilhado. inclusive. Não se registrou a queda esperada nesse tipo de violação dos direitos humanos. Com respeito à cidadania civil. Finalmente. Por conseguinte. que se traduz em desconfiança. a tal ponto que mais da metade dos presos carece de sentença. porém. porque as pessoas os sentem distantes. Em resumo. também. o Relatório detecta que a América Latina ainda se depara com graves falhas. Os partidos políticos enfrentam um momento de forte desconfiança como agentes de representação. e o comparecimento às urnas é irregular. Desse modo. cabe destacar que o Poder Executivo interfere diretamente na Corte Suprema de vários países. a representação de grandes grupos populacionais é. foram criados organismos especializados como controladorias públicas. Uma importante conquista é a abertura de espaços políticos para as mulheres. apesar dos avanços no que se refere ao funcionamento eleitoral e das conquistas em termos institucionais. em alguns casos. Os avanços quanto ao direito à informação são mais encorajadores. e sim por forças para-estatais que o Estado não foi capaz de controlar. promotorias e defensorias do povo. muito embora já não seja cometida por determinação da cúpula estatal. Os partidos políticos. o que é um desafio-chave para o desenvolvimento democrático. apesar de a ratificação da Convenção sobre os povos indígenas ter sido protelada. os dados mostram poucos avanços.res. a pouca autonomia do Poder Executivo limitam a eficácia desses organismos. à integridade física e à segurança. e também no que diz respeito aos direitos da mulher. pois o acesso às fontes públicas de dados é legalmente reconhecido na maioria dos países. Houve também um avanço na defesa dos direitos trabalhistas e nos direitos das crianças. baixa. Com relação aos sistemas de administração de justiça. Não ocorreu o mesmo com os tratados internacionais nem. Quanto à liberdade de imprensa. mediante uma porcentagem de vagas ou cotas nas listas dos partidos. fato que deveria ser um sinal de alerta. persistem sérias deficiências quanto ao controle da ação estatal que os cidadãos poderiam exercer. como agentes de representação. em especial. Entretanto. uma grande conquista a ser destacada é a menor influência ou gravitação política das Forças Armadas em quase todos os países. também atravessam uma severa crise. A maioria dos países ratificou os principais tratados internacionais e avançou na normativa nacional referente à igualdade legal e à proteção contra a discriminação. em geral. nos últimos anos. Uma conquista no âmbito trabalhista. Assim. as leis que protegem as crianças no trabalho são freqüentemente desobedecidas e os trabalhadores viram diminuir sua proteção social. registram-se importantes conquistas em matéria de legislação. embora tenha melhorado a situação dos direitos humanos em comparação com a do período não democrático. em geral. porém é preocupante a limitada capacidade dos Estados de garantir esses direitos na prática. não mencionando as eleições. O progresso das questões relaResumo 27 . Apesar dos avanços normativos. é o que se refere à população carcerária. Várias constituições reconheceram esses direitos. tenham sido criadas normativas nacionais nesse sentido. pois os direitos dos réus são pouco respeitados. ainda muito reduzida. apesar dos avanços nas reformas constitucionais para fortalecer a independência e a profissionalização do Poder Judiciário. a insuficiência de recursos e. é a tendência ao aumento na eqüidade de gênero. a nãodiscriminação ainda não está suficientemente garantida. com a vigência do direito à vida.

de concentração de riqueza e de internacionalização crescente da política. os países da região cumprirem os requisitos mí- .O desenvolvimento democrático depende de que se amplie de maneira decidida a cidadania social. pelo menos no plano formal. em 7 deles. ■ Nesse sentido. muito insuficiente. Em 15 dos 18 países estudados. mais de 25 por cento da população vive abaixo da linha de pobreza e. valorizam a democratização durante a última década e o fato de. em alguns casos. cabe destacar alguns avanços em termos de saúde (a desnutrição infantil diminuiu em 13 dos 18 países. Resumindo. Conseqüentemente. conseqüentemente. Os problemas centrais nesse plano são a pobreza e a desigualdade. e que corroem a inclusão social. Os indicadores mostram que todos os países da região são mais desiguais que a média mundial. a região está vivendo um momento de mudanças que em muitos casos assume as características de uma crise generalizada. em geral não qualificado e insuficiente para gerar uma integração social que garanta um mínimo de bem-estar. em 15. ■ A presença de uma ordem institucional que limita a capacidade dos Estados para agir com razoável autonomia. o desenvolvimento democrático depende de que se amplie de maneira decidida a cidadania social. como se pode constatar em vários pontos do Relatório. os líderes latino-americanos consultados coincidem em várias questões quando formulam seu diagnóstico sobre a democracia. à integridade física. inclusive em condições muito precárias. que tem um componente econômico. principalmente a partir da luta contra a pobreza e a desigualdade e da criação de postos de trabalho de qualidade. à segurança e à não-discriminação foi irregular e. Um tema central é o desemprego. tem grandes limitações e está em crise. ■ O aumento da complexidade das sociedades. Por outro lado. Por um lado. porque. Só será possível diminuir a pobreza de forma sustentável e melhorar as possibilidades de crescimento econômico se a desigualdade for reduzida. pois o trabalho é um mecanismo-chave de inclusão social e do próprio exercício da cidadania. A questão é que a política. A política tende a perder conteúdo em virtude da diminuição da soberania interior do Estado. mais da metade da população vive nessas condições. os grupos mais excluídos do exercício pleno da cidadania social são os mesmos que sofrem carências nas outras dimensões da cidadania. No entanto. a mortalidade infantil também se reduziu e a expectativa de vida aumentou) e de educação (a taxa de analfabetismo diminuiu em todos os países e o nível de escolaridade aumentou. que não permitem que os indivíduos se manifestem como cidadãos com plenos direitos e de maneira igualitária no âmbito público. o PIB per capita tenha aumentado entre 1991 e 2002. embora em 12 deles a pobreza até tenha diminuído e. as tendências detectadas no que se refere à cidadania social são realmente preocupantes e representam o principal desafio das democracias latino-americanas. tanto no plano da evolução democrática quanto no da dinâmica econômica e social. Essa crise se manifesta no divórcio entre os problemas para os quais os cidadãos exigem uma solução e a capacidade da política para enfrentá-los. principal28 A democracia na América Latina mente a partir da luta contra a pobreza e a desigualdade e da criação de postos de trabalho de qualidade. Percepções e apoio de líderes e cidadãos Apesar dos avanços. E ainda mais: a proteção social dos trabalhadores diminuiu e aumentou o trabalho informal. deve-se reconhecer que. em um contexto global também de mudança. que os sistemas de representação não podem processar. além disso. porém a qualidade da educação em geral é baixa). que pode ser atribuída a: O desequilíbrio na relação entre política e mercado. O aumento nos índices de desemprego durante a década de noventa é. inicia-se um período de transformação tanto nos conteúdos da democracia quanto em suas vinculações com a economia e com a dinâmica social. cionadas ao direito à vida. uma das maiores falhas das democracias latino-americanas.

geralmente. ■ Grande parte das latino-americanas e dos latino-americanos dá mais valor ao desenvolvimento do que à democracia e. ■ Os não-democratas pertencem. sua capacidade de criar opções para promover novos projetos coletivos viáveis. uma das principais dificuldades encontradas é que não conseguem canalizar completamente as demandas da cidadania. que oferece uma visão sintética sobre o apoio e a possível vulnerabilidade das democracias latino-americanas. Por sua vez. que a participação e os controles sobre o exercício do poder aumentaram e que as ameaças à democracia como regime diminuíram. Mark Malloch Brown. A melhor forma de conseguir esse resultado de maneira coerente com os objetivos do desenvolvimento humano é erigir formas sólidas e profundas de governabilidade democrática em todos os níveis da sociedade”3. Desse modo. elaborou-se o Índice de Apoio à Democracia (IAD). Concluindo. ■ Embora os democratas estejam distribuídos em diversos grupos sociais.nimos da democracia. e considera que deve ser recuperado um papel construtivo da política como ordenadora das decisões da sociedade. no prefácio do Relatório do Desenvolvimento Humano 2002 : “[. argumenta que as soluções para os problemas e desafios da democracia teriam que ser encontradas dentro e não fora das instituições democráticas. Como afirma seu Administrador. continua com a mesma linha argumentativa em que o PNUD vem insistindo. a grupos com menor educação. nos paí- ses com menores níveis de desigualdade os cidadãos tendem a apoiar mais a democracia. Quanto aos partidos políticos. visando a proporcionar uma estimativa do grau de respaldo cidadão à democracia. retiraria seu apoio a um governo democrático se ele fosse incapaz de resolver os seus problemas econômicos. a solução dessas dificuldades está dentro da política. que têm baixas expectativas de mobilidade social e uma grande desconfiança das instituições democráticas e dos políticos. Nesse sentido. quanto com a de valorizar o sentido da política.. Os dados obtidos indicam que: ■ A preferência dos cidadãos pela democracia é relativamente baixa. a relação entre partidos e organizações da sociedade civil costuma ser conflituosa. Contudo. Elementos para uma agenda O Relatório aponta que o ponto de partida para fortalecer a democracia passa pela revalorização do conteúdo e da relevância da política. No coração de tal confluência está instalado o fortalecimento da cidadania. Para os líderes consultados. também. os resultados da pesquisa de opinião pública e as opiniões de diversos líderes políticos registradas no Relatório coincidem tanto com a necessidade de reconhecer que a região vive um momento de inflexão e crise. Entendem. A revalorização da política pasResumo 29 . a pesquisa de opinião pública realizada para o Relatório apresenta uma tensão entre a opção pelo desenvolvimento econômico e a democracia. detectam problemas relacionados com os partidos políticos e com os poderes fáticos. cuja socialização ocorreu. fundamentalmente. A redução sustentável da pobreza não só requer um crescimento eqüitativo. inclusive. Entre as tensões com outros poderes fáticos. com o fortalecimento dos partidos. como também que os pobres tenham poder político. Quanto aos poderes fáticos (principalmente o setor econômico e financeiro e os meios de comunicação). ou seja. juntamente com os clássicos riscos de insubordinação militar.. são vistos como fatores que condicionam a capacidade dos governos de dar respostas à cidadania. Por outro lado. essas pessoas não se manifestam por meio de organizações políticas. em períodos autoritários.] a política é tão importante para o êxito do desenvolvimento quanto para o da economia. Com base nos dados da pesquisa. assim como coincidência no que se refere à ameaça representada pelo narcotráfico. existe uma preocupação com a perda da autonomia governamental em relação aos Estados Unidos e aos organismos multilaterais. a informação empírica encontrada.

promovam um amplo debate sobre o Estado. reúna esforços e motivações individuais e crie poder democrático. preservar a segurança jurídica. A democracia integral de cidadãs e cidadãos requer uma “estatalidad” que garanta a universalidade dos direitos. Relatório do Desenvolvimento Humano 2002. Urge prosseguir a reforma das instituições. a economia e a globalização. principalmente.Com Estados fracos e mínimos. possam complementá-las e fortalecê-las. A democracia integral de cidadãs e cidadãos requer uma “ estatalidad” que garanta a universalidade dos direitos. A reforma do Estado teria que ser orientada no sentido de responder à pergunta sobre o tipo de nação que uma determinada sociedade aspira a construir. No entanto. os partidos políticos deveriam compreender melhor as mudanças nas sociedades contemporâneas. eles precisam é de se fortalecer para ampliar a eficácia. Elas são importantes protagonistas na construção democrática. Observa-se que é perigoso cair em uma espécie de fa- 3 PNUD 2002. o Relatório convida ao debate sobre a necessidade de um Estado capaz de conduzir o rumo geral da sociedade. o debate sobre a diversidade de formas de organização do mercado deve fazer parte da agenda de discussão pública. fortalecer sistemas de proteção social baseados nos princípios de universalidade e assumir a preeminência da democracia como princípio da organização social. Nesse sentido. os sistemas de partido tendem a ser instrumentais ou operativos. no controle da gestão governamental e no desenvolvimento do pluralismo. O tipo de economia deve estar no centro do debate público e não deve ser relegado a uma mera questão técnica. uma vez que não existiria uma democracia sustentável sem um Estado capaz de promover e garantir o exercício da cidadania. sa pela aplicação de medidas que promovam uma institucionalidade legítima. só é possível aspirar a conservar democracias eleitorais. Sob essa perspectiva. porém essas iniciativas precisam de um fio condutor que fortaleça a participação. propor novos projetos de sociedade e promover debates públicos. o que se propõe aqui é um Estado em função da cidadania. regular os mercados. Mundi-Prensa: Madrid (p. estabelecer equilíbrios macroeconômicos. a melhor maneira de reafirmar o papel indispensável de representação da sociedade que eles expressam. um aspecto institucional chave são as reformas eleitorais que garantam um melhor equilíbrio entre governabilidade e representação. O Relatório propõe ampliar o debate sobre o processo de globalização. Uma proposta central é construir uma nova legitimidade do Estado. o Estado e o mercado são passíveis de serem combinados de diversas maneiras. a transparência e a responsabilidade. A discussão sobre o futuro da democracia não pode ignorar as opções econômicas. O Relatório advoga por formas alternativas de representação que. Com Esta- dos fracos e mínimos. Outro tema central a ser debatido é o das possibilidades de uma economia congruente com a democracia. Só ela poderá tornar essas reformas mais legítimas. segundo o Relatório. Dessa forma. e. Muito embora tenham passado por importantes mudanças. processar os conflitos de acordo com regras democráticas. Existe uma importante relação entre a cidadania e as organizações da sociedade civil. v 30 A democracia na América Latina . Para torná-la sustentável é fundamental desenvolver uma política que materialize opções. tendo como resultado uma variedade de formas que podem ser adaptadas em função do desenvolvimento humano. Na perspectiva do Relatório. sem substituir as tradicionais. Por isso. A economia é chave porque dela depende a ampliação da cidadania social. garantir eficazmente o funcionamento do sistema legal. fortaleçam uma sociedade civil ativa. uma economia que promova a diversidade para fortalecer as opções cidadãs. A agenda proposta pelo Relatório está voltada para a expansão da cidadania. Esta é. É fundamental promover estratégias de fortalecimento da sociedade civil e de sua articulação com o Estado e com os partidos políticos. ou seja. Os avanços na democracia e no estabelecimento de normas macroeconômicas claras e legítimas devem ser considerados como complementares. Nesse sentido. só é possível aspirar a conservar democracias eleitorais.

■ Entrevistas com líderes e intelectuais da América Latina. os avanços alcançados em termos de desenvolvimento da democracia na América Latina não são suficientes. Peru. ■ Os materiais que alimentam o marco conceitual do Projeto e sua maneira de entender a democracia. Guatemala. em sua maioria estabelecidos por meio de processos de transição desenvolvidos durante os últimos vinte e cinco anos. até agora dispersa. Chile. 4 Estes países têm regimes democráticos. Para a elaboração do Relatório. Além disso. quanto. a cultura política que pressupõe a construção de espaços de participação eqüitativa. e cidadãs e cidadãos decididos a enfrentar os problemas e desafios para viver cada vez mais e melhor com democracia. reconhece-se a dificuldade de abordar os dilemas da democracia. embora muito valiosos. México. a partir de uma ampla revisão bibliográfica dos múltiplos estudos nacionais. Colômbia. nem elaborar nenhum tipo de ranking nacional da democracia. Metodologia do Relatório Para levar a cabo este Relatório. dirigentes comprometidos com seus países e com a região. O estudo abarcou dezoito países (Argentina. assim como de ex-presidentes e de muitas outras personalidades da região. É necessário aprofundar tanto a governabilidade democrática. discutir a respeito de seu real impacto sobre a soberania interior dos Estados e a respeito das melhores estratégias para fortalecer as nações latino-americanas no espaço da aldeia global. ■ A elaboração de indicadores sobre o estado da democracia. alguns dos quais. Honduras. os índices construídos para este Relatório e os resultados da pesquisa de opinião. partiu-se de uma análise conceitual e histórica das democracias latino-americanas. é preciso. a força que pode construir espaços autônomos. ■ Um Compêndio Estatístico que reúne informação. O Relatório não pretende avaliar os governos ou os países. E a política é. O marco conceitual foi amplamente consultado e orientou a busca de informação empírica que inclui: Uma pesquisa de opinião de alcance regional (em colaboração com Latinobarômetro). justamente. ou foram tratados de maneira muito preliminar. Além disso. Ademais do Relatório propriamente dito. econômicos e sociais. e acima de tudo. realizaram-se reuniões para discussão dos componentes do projeto. o PRODDAL contou com o patrocínio da Direção da América Latina e do Caribe do PNUD e com a colaboração de destacados intelectuais e acadêmicos. o Relatório demonstra que. sobre democracia e cidadania integral nos países da América Latina. nacionais e internacionais). sobretudo dos mais desfavorecidos nas sociedades latino-americanas. ao contrário. Bolívia. Panamá. além das opiniões críticas de importantes analistas. Para isso. é preciso decisão política. Equador. ■ Os resultados das rodadas de consulta a dirigentes latino-americanos. Paraguai. entendida como o fortalecimento institucional do regime. solicitaram-se a acadêmicos e personalidades políticas opiniões e textos sobre diversas facetas do desenvolvimento da democracia na região. pois ela está influenciada por múltiplos fatores (políticos. ■ interesse é identificar os grandes desafios e promover uma ampla discussão em torno deles. foram preparados para difusão em massa outros produtos complementares como: ■ Um livro com os artigos elaborados por políticos e destacados acadêmicos que contribuem com “idéias e posições para um debate sobre o desenvolvimento da democracia na América Latina”. Costa Rica. El Salvador. Nicarágua. e seus governos aceitaram ser incorporados ao PRODDAL. Resumo 31 . ou não foram tratados.talismo em face de fenômeno. República Dominicana. Brasil. seu Para finalizar. Uruguai e Venezuela4).

32 A democracia na América Latina .

avaliada e desenvolvida.7 por cento dos latino-americanos estariam dispostos a aceitar um governo autoritário desde que ele resolvesse a situação econômica (ver Segunda Seção “Como os latino-americanos vêem sua democracia”). dessa maneira. 3) o regime eleitoral é um componente básico e fundamental da democracia. Consta também desta seção uma referência aos fundamentos teóricos em que o Relatório se baseia. O Relatório inicia com uma definição do desenvolvimento da democracia e de suas principais carências na região. Estado e regime. a análise e as propostas com razões sistemáticas e rigorosas. no entanto. O desenvolvimento da democracia na América Latina 33 . A partir daí. 2) a democracia é uma forma de organização do poder na sociedade. porque sustentam as descrições. contrastando as reformas aplicadas com as realidades políticas e econômicas. para as quais o Relatório visa a contribuir. que deve ser. a realização de eleições não esgota seu significado e alcances. Os desafios da democracia na América Latina são historicamente singulares.primeira seção O desenvolvimento da democracia na América Latina Nesta seção apresenta-se o tema do Relatório a partir da conquista da democracia nos países considerados. reconhecida e valorizada. considerando a democracia do ponto de vista da democracia. cidadania e sujeitos na democracia. À primeira vista. As razões que explicam esse dado preocupante talvez se encontrem nos contrastes apontados. Para resolvê-los é preciso uma nova compreensão e uma discussão aberta. e 4) a democracia latino-americana é uma experiência histórica distintiva e singular. surge um conjunto de perguntas: quanta pobreza e quanta desigualdade as democracias são capazes de tolerar? como esses contrastes influem na coesão social das nações? qual a relevância da democracia para os latinoamericanos? Os resultados da pesquisa de opinião revelam que 54. As conseqüências práticas da abordagem teórica adotada são importantes. Isso requer a definição dos fundamentos teóricos: os conceitos de democracia. observa-se que muitos direitos civis básicos não estão assegurados e que a pobreza e a desigualdade colocam nossas sociedades entre as mais deficitárias do mundo. Os quatro argumentos centrais são: 1) a democracia implica uma concepção do ser humano e da construção da cidadania. dando-se destaque ao fato de que na América Latina a democracia se instala em sociedades com altos níveis de pobreza e desigualdade. que pressupõe a existência e o bom funcionamento de um Estado.

34 A democracia na América Latina .

mas é também. basicamente. em cuja construção entrarão em jogo sua própria sustentabilidade e perduração. aí nascerá a luta para alcançá-los e que. nessa luta. deram lugar a diversas formas de organização dos seres humanos. é também uma forma de construir. A democracia formula uma pergunta que permanece.democracia. da justiça e do progresso permeia toda a história social do ser humano. as fraturas. 2002. em suma. portanto. O listado completo de modificações pode ser consultado no site www. sobre seus desafios. ligadas. No entanto. organizando as tensões e os conflitos gerados pelas lutas de poder. os limites e as denegações que constituem a contrapartida da experiência da democracia. A democracia apresenta-se como um regime sempre marcado por formas não acabadas e incumpridas. para os homens e as mulheres. continuamente pendente: é como se jamais pudesse ser dada uma resposta perfeitamente adequada. o ritmo ou o resultado. justiça e progresso. Nossa busca de liberdade. ou para ampliar a cada dia o espaço da liberdade. as tensões. Contém. texto elaborado para o PRODDAL.org”. a justiça e o progresso.undp. Com períodos de expansão e A democracia é uma imensa experiência humana. Pierre Rosanvallon. Por isso é uma experiência permanentemente inconclusa. a luta renasceu e renascerá. se confrontarão interesses. apesar de prolongados períodos de inércia. uma série de procedimentos para o acesso e o exercício do poder. Uma delas é a democracia.O desafio: de uma democracia de eleitores a uma democracia de cidadãos1 ■ A democracia é uma imensa experiência humana. à idéia de democracia. Este é um Relatório sobre a tarefa inconclusa da democracia. justiça e progresso material e espiritual. Nessa perspectiva. Está ligada à busca histórica de liberdade. Independentemente de quais tenham sido a forma. a história revela que as aspirações no sentido de ampliar as fronteiras das liberdades cidadãs e de atingir maiores níveis de justiça e progresso sempre estiveram no coração das lutas sociais e políticas. Mesmo nas circunstâncias mais difíceis. possuímos também outro impulso tão vital quanto os anteriores. Em grande parte. com avanços e retrocessos. a democracia não é só um método para eleger quem governa. um fim e um instrumento. Independentemente das diferenças manifestadas no plano da teoria sobre os alcances da idéia de democracia. a busca da liberdade. seja para passar da condição de escravos à de pessoas livres. de certa forma. garantir e expandir a liberdade. 1 “A presente publicação é a tradução para português da segunda edição revisada em Espanhol do Relatório “La democracia en América Latina ”. Está ligada à busca histórica de liberdade. ao mesmo tempo. O desenvolvimento da democracia na América Latina 35 . justiça e progresso material e espiritual. e a luta pelo poder que se desencadeia quando todos nós procuramos impor nossos interesses e pareceres sobre esses asquadro 1 A democracia: uma busca permanente É necessário considerar os desrespeitos. suntos. justiça e progresso. É. A democracia se converteu em um sinônimo de liberdade e justiça. pareceres e métodos. com toda a diversidade de incidentes da qual nossa história está repleta. sobre quais deveriam ser as metas de uma nova etapa. nossa vida em sociedade se constrói na trama desses impulsos centrais: sabe-se que onde não houver liberdade. expresso de maneira diferente e nos distintos âmbitos da vida: o impulso de dominação e de obter o poder que permite exercê-la. Participamos dessa busca com maior ou menor consciência de nossos objetivos. o resultado desses procedimentos. Por isso é uma experiência permanentemente inconclusa.

atores que assumem seus desafios e seu desenvolvimento. debilita-se rapidamente. primeiro e acima de tudo. modeladas por lideranças e investidas do poder que se origina no apoio popular.retração. a Costa Rica e a Venezuela eram democráticos. […] Sem uma tendência idealista. Guerras. A primeira nos deu as liberdades e o direito de decidir por nós mesmos. essa é uma conquista que se deve ao impulso. A preservação da democracia e sua expansão não são fatos espontâneos. finalmente. p. Um Esta- 2 Dahl. por ela se lutou. até para a interromper invocando sua futura instauração. contra as leis inerciais que governam os grupos humanos. a região do mundo que mais reivindicou a democracia. a democracia parece ter sido inventada mais de uma vez e em mais de um lugar”. Requerem partidos políticos que construam opções fundamentais. Na América Latina. mas depois desapareceu. nos dois últimos séculos. em sua dimensão eleitoral e política.500 anos na Grécia. As liberdades que hoje possuímos são um bem de valor incomensurável. Agora se trata de avançar na democracia de cidadania. a pintura ou a escrita.2 Na América Latina alcançou-se a democracia eleitoral e suas liberdades básicas. as democracias são difíceis. É a que nos permite passar de eleitores a cidadãos. Giovanni Sartori. 36 A democracia na América Latina . Seu sujeito não é apenas aquele que vota. onde não havia justiça. a democracia vai contra a corrente. Traçou. Nós. A democracia é muito mais do que um regime de governo. só a Colômbia. somos agora. vimos como nos era negado ou arrebatado o anseio de ser parte da construção da democracia. formuladas em projetos. latino-americanos que. 15. todos os nossos países cumprem os critérios básicos do regime democrático. a história nos mostra que onde não havia liberdade. Esta forma de organização entrou e saiu de nossa história. na prática a destruíam. A segunda. muitas vezes. Após duas décadas de diversas formas de transição. ela se confunde com quadro 2 A democracia: um ideal A democracia é. as ditaduras são fáceis. “Como o fogo. em 200 anos de vida independente. p. como se verá neste Relatório. 1991. hoje plena de carências. a fronteira entre a vida e a morte. tiranias e breves primaveras compõem grande parte dessa história independente. em termos de liberdade. Independentemente dos retrocessos e das apatias. o reconhecimento da igualdade e a busca de sua realização social. se nasce. Mais do que qualquer outro regime político. em muitos de nossos países. A que utiliza as liberdades políticas como alavanca para construir a cidadania civil e social. Surgiu há 2. esperanças e decepções porque contribui para organizar suas vidas na sociedade. um ideal. a própria vida. durante a qual até as violações à democracia foram feitas em seu nome. Nas instituições a consagravam. Há vinte e cinco anos. Uma política que omite os problemas centrais torna as opções dos cidadãos vazias de conteúdo. Um quarto de século depois. A América Latina é. as autocracias. É mais que um método para eleger e ser eleito. de mobilização ou quietude. os regimes democráticos estão amplamente vigentes na América Latina. provavelmente. um Estado com poder para executá-las e uma sociedade capaz de participar de uma construção que excede as reivindicações setoriais. No entanto. é o cidadão. a democracia nasceu e morreu dezenas de vezes. é a que avança para que o conjunto de nossos direitos se torne efetivo. Somos testemunhas do avanço mais profundo e amplo que a democracia obteve desde a independência de nossas nações. dentre os dezoito países incluídos no Relatório. aparecem sozinhas. constituem um impulso histórico substancialmente ligado à idéia de democracia. São construções voluntárias. uma democracia não nasce e. também se brigou por ela e. o que foi conquistado não está assegurado. As monocracias. à luta e ao sofrimento de milhões de seres humanos. a democracia gera expectativas. 1999. 119. têm que ser promovidas e é preciso acreditar nelas. justiça e progresso. garante seus direitos e permite melhorar a qualidade de suas existências. Para as mulheres e os homens. a ele se tentou chegar. onde não havia progresso.

se ela se divorciar de suas necessidades. mas por meio da análise teórica. ao mesmo tempo. mais cedo ou mais tarde. ou – ainda mais grave – não se deve falar. que deixa de expressar as necessidades dos cidadãos. requer que a matéria da opção esteja presente. A liberdade garantida pela democracia é. identificando-as não por uma mera intuição. entre a liberdade e a busca da igualdade. Na América Latina. A falta de informação e de debate constitui uma carência grave. em muitos casos. como nos propomos. 3 Segundo os dados da pesquisa Latinobarômetro 2002. a desconfiança da sociedade para com a política? Por que a esperança democrática não se traduziu em avanços nos direitos civis e sociais da mesma dimensão que as expectativas que gerou? Por que o Estado não possui o poder necessário? Por que o direito de escolher governantes não se traduziu. mas surgem outros perigos: a democracia aparenta perder vitalidade. A sociedade está nas ruas. a não ser que se esteja disposto a pagar o preço do enfraquecimento paulatino da democracia latino-americana. a uma perigosa autonomia do poder. dá-se preferência a ela porém se desconfia de sua capacidade para melhorar as condições de vida. o desenvolvimento da democracia na América Latina. mas a liberdade. porque a democracia – que se baseia na reflexão e no debate dos cidadãos e de seus líderes – é a única forma de organização política que tem capacidade para retificar-se a si mesma. Isso está ocorrendo no período de maior difusão da democracia e em um mundo em que a globalização torna cada vez mais peremptório saber o que queremos como sociedades e como nações. enfim. a reflexão e o debate políticos requerem ser renovados e promovidos. ao mesmo tempo. E também nos conduz a indagar sobre a sustentabilidade da democracia. a reflexão e o debate políticos requerem ser renovados e promovidos. em muitas ocasiões. Qual a gravidade dessas novas fragilidades? Se a democracia perder relevância para os latino-americanos. entre as demandas públicas manifestadas livremente e as reformas econômicas que exigem ajustes e sacrifícios? Quais são as chaves que explicam a crise de representação. poderá resistir aos novos perigos. O desenvolvimento da democracia na América Latina 37 . Atacar esses dilemas demanda a maior informação possível para iluminar os critérios com que as políticas são formuladas. ou melhor. como demonstra a nossa própria história recente. mas sem um objetivo que unifique as suas reivindicações e demandas. Parece que nos afastamos dos riscos dos golpes militares de Estado. apenas 14 por cento dos latino-americanos têm confiança nos partidos políticos. Como se resolvem as tensões entre a expansão democrática e a economia. Na América Latina. com expectativa e apreensão e. da observação empírica e do pensamento de intelectuais e políticos. O silêncio da política e dos que constroem a agenda do debate público não pode continuar ignorando. leva-nos a identificar os desafios da democracia. Infelizmente. o ímpeto democrático que caracterizou as últimas décadas do século passado está se debilitando. em mais liberdade. às frustrações? Analisar. indefinidamente. E não poderão ser resolvidos se não forem colocados no centro do debate público e das opções que os partidos oferecem. e uma sociedade sem participação ativa leva. Este Relatório trata dessas questões. isto é. e as ameaças que sobre ela pairam. em alguns casos. Questões sobre as quais é inconveniente falar. entre crescimento e pobreza. mais justiça e maior progresso? Esses são dilemas cuja solução é complexa. os partidos políticos estão no nível mais baixo da estima pública. porque perderam vitalidade e conteúdo.do sem poder transforma o mandato eleitoral em uma expressão de desejos sem conseqüências.3 o Estado é visto. e o nível de concretização das esperanças que depositam em seus representantes. sobre sua capacidade para perdurar e aperfeiçoar-se. a capacidade de optar. a partir da legitimidade que gera em seus cidadãos. parece que existe um debate proibido na América Latina. porque perderam vitalidade e conteúdo. leva-nos a sondar a vigência dos direitos dos latino-americanos. aos seus adversários. Essa é a principal vantagem para fazer da democracia um sistema justo e eficaz. o clamor de milhões de pessoas. o principal instrumento que ela tem para se aperfeiçoar como sistema.

comparada com as outras grandes regiões democráticas do mundo. por sua vez.9 por cento) com renda abaixo do nível de pobreza. ao mesmo tempo. capaz de gerar idéias que orientem a observação da realidade e a coleta de dados que. da soma desses dois componentes. democracia e pobreza são duas combinações que geram necessidades. da pobreza e da desigualdade. A partir desse triângulo – democracia eleitoral. uma região em desenvolvimento e com sociedades profundamente desiguais está completamente organizada politicamente sob regimes democráticos. define-se na América Latina uma nova realidade. como a aposta está no caminho a seguir para passar da democracia eleitoral à de cidadania. um início. Apesar dessas diferenças. O Relatório é o começo de uma tarefa. Nos últimos vinte anos. É só o primeiro passo para que a construção de alternativas e de políticas concretas seja assumida pelos atores sociais e políticos que devem relançar e regenerar nossas democracias. sem precedentes4: o triângulo da democracia. observações e conseqüências partirão de um reconhecimento inicial: a singular realidade da democracia em nossa região. 4 Não afirmamos aqui que não se verifica a existência conjunta de democracia. Pela primeira vez na história. em toda a sua região. Democracia e riqueza. Assim. O que apontamos é que a democracia latino-americana convive. O segundo vértice é a pobreza . se regenere e se expanda. que constituem a razão desta obra. de um debate que o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) procura promover entre os latino-americanos. construam a base empírica do Relatório. Estas reflexões. Seus déficits não representam seu fracasso. as sociedades latino-americanas e as desses países são profundamente diferentes. urgentemente. pobre e desigual. é inevitável uma séria reflexão conceitual. Este é o fio condutor que deveria guiar a leitura dos materiais propostos pelo Relatório: a busca dos temas cruciais nos quais será testada a nossa capacidade de passar da democracia eleitoral à democracia de cidadania. construir e ampliar os direitos cidadãos é uma tarefa que se desenvolve em um novo contexto. Na América Latina. O que ainda não alcançamos é o que deve constituir a essência das políticas que permitirão o nascimento da segunda etapa da democracia latino-americana. po- breza e desigualdade – iniciamos nossa exploração. pobreza e desigualdade: um triângulo latino-americano Para entender as necessidades de expansão da democracia na América Latina e perceber suas fragilidades. a região contava com 218 milhões de pessoas (ou 42. Esses objetivos. com níveis amplamente difundidos de pobreza e situações de desigualdade extremas. É certo que essa situação varia de país para país. 38 A democracia na América Latina . A partir daí. uma região em desenvolvimento e com sociedades profundamente desiguais está completamente organizada politicamente sob regimes democráticos. no entanto. são seus desafios. encontrarão aqui uma primeira aproximação. Nessa transformação se definirá a questão da capacidade latino-americana de fazer da democracia um sistema que se estabilize. Apenas os países agrupados na Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE) compartilham essa característica. a América Latina oferece a singularidade da coabitação das liberdades políticas com as severas privações materiais de muitas pessoas. produziu-se um conjunto de grandes transformações. Na América Latina. retomar o impulso inicial. O leque de desafios é novo porque também é nova a realidade que expõe uma região que é democrática e. é indispensável fazer uma apreciação do que a democracia possui de próprio e original nessa região. as regras e instituições do regime são semelhantes às dos países democraticamente mais maduros. Todos os países que a integram satisfazem os requisitos básicos do regime democrático. Nossa proposta é demonstrar que. Em 2002. Democracia.Pela primeira vez na história. O primeiro vértice do triângulo é a difusão da democracia eleitoral na região. pobreza e desigualdade em outros países ou regiões do planeta. Nossas democracias precisam. sairá a proposição do núcleo de temas que configuram os desafios da agenda ampliada para o desenvolvimento da democracia na América Latina.

(5) Fontes: OCDE 2002. observa-se na região não apenas a profundidade do grau de desigualdade. cujos homens e mulheres. Isso significa ignorar que esses programas se aplicam em sociedades em que as demandas cidadãs e a opinião sobre essas políticas se expressam livremente. 2004. dezembro de 2002. Como no caso da pobreza. 2004 (em dólares constantes). (8) Fonte: US Census Bureau 2001. atingir maiores níveis de desenvolvimento em seus países é uma aspiração tão importante que muitos estariam dispostos a apoiar um regime autoritário que pudesse atender suas demandas de bem-estar. Na realidade. O desenvolvimento da democracia na América Latina 39 . (10)Europa ocidental (EU15) e EUA.6 43. As cifras mais altas do coeficiente de Gini correspondem a um grau mais alto de desigualdade.290 (4) 0.7 73. Poverty in the United States 2002. (3) Média simples para a década de 90. mas também sua persistência ao longo das três últimas décadas. (2) Coeficiente de Gini. Essas são democracias pobres e desiguais. em comparação com o resto do mundo. (6) Média ponderada por população dos dados de pobreza entre 1998-2002. A limitada compreensão dessa realidade singular pode levar a duas conseqüências graves para a democracia. Como se os difíceis e dolorosos processos de ajuste estrutural não influíssem nas decisões tomadas pelas maiorias – submetidas a condições de pobreza e de alta desigualdade – no momento de votar ou de expressar seu apoio ou rejeição a um gover- TABELA 1 DEMOCRACIA.dificuldades e riscos diferentes. é habitual que se pense na América Latina sob a perspectiva da experiência histórica das democracias desenvolvidas.344 (5) Pobreza 42. para muitos cidadãos latino-americanos. p.552 (3) 0.0 (7) 11. precisam também completar suas cidadanias civil e social. Social Indicators and Tables. (9) Elaboração própria com base nos dados da CEPAL. apesar dessa experiência ter um caráter particular. (7) Eurostat PCM-BDU. 2004. CEPAL.7 (8) PIB per capita 3792 (9) 22600 (10) 36100 Notas: (1) Votantes com base na população com direito a voto 1990-2002. não desapareceram totalmente. também é comum tender ao erro de pensar em termos de reforma econômica como se não houvesse democracia. resultados de sua própria originalidade. POBREZA E DESIGUALDADE Região América Latina Europa EUA Participação eleitoral (1) 62.57. Perry et al. Pela primeira vez. Ver tabela 8. O terceiro vértice é a desigualdade . Isso significa ignorar a necessidade de construir bases sólidas de uma economia que torne possível atacar a pobreza e a desigualdade. por outro lado. A primeira é ignorar a necessidade da viabilidade econômica da democracia. Por exemplo. A segunda é desconhecer a viabilidade política dos programas econômicos. ao mesmo tempo em que consolidam seus direitos políticos. As sociedades latino-americanas são as mais desiguais do mundo. dezembro de 2002. PIB per capita 2002. Fonte: OCDE (em dólares correntes) Dada a multiplicidade de fontes e as diversas metodologias de elaboração de dados sugere-se usar os dados desta tabela como referências indicativas. coexistindo com os desafios da pobreza e da desigualdade.. No entanto.8 (6) 15. essas três características convivem e a democracia enfrenta o desafio de sua própria estabilidade. Os riscos que derivam dessa situação são diferentes e mais complexos do que os riscos tradicionais do golpe militar de Estado que. (4) Eurostat PCM-BDU.3 Desigualdade (2) 0. desconhecendo que a estabilidade e a expansão democráticas têm aqui conteúdos e dilemas distintos.

em que as demandas sociais se expressam livremente e a economia se organiza em torno do mercado. as sociedades latino-americanas passam a ser sociedades em vias de desenvolvimento. seria preciso atingir um certo nível mínimo de riqueza para ter acesso à democracia. porque – reiteramos – o grande desafio é combater a pobreza e a desigualdade.Só com mais e melhor democracia as sociedades latino-americanas poderão ser mais igualitárias e desenvolvidas. se considerarmos a experiência das últimas décadas na América Latina. somente na democracia. Esses não foram anos só de transformações políticas. É provável que um debate que ignore uma questão tão elementar termine levando a recomendações simplesmente impraticáveis. Supostamente. A combinação entre liberdade política e liberdade econômica. ocorreram processos de reforma no plano político e econômico. pobres e desiguais. assumiu as reformas econômicas orientadas no sentido da ampliação das esferas do mercado como sua própria agenda”. também passou por um processo de profundas mudanças. pensar sua economia separadamente de sua democracia. A razão é que. especialmente na década de 90. parece um erro ingênuo. Dessa forma. apresenta complexas dificuldades que requerem um pensamento renovado. ou como se fosse possível levar adiante um plano econômico sem o apoio da população. Em várias ocasiões. “Assumimos o governo para criar as condições para que a democracia se instale solidamente no futuro”. ou pior ainda. para criar as bases de coesão e estabilidade social que são os requisitos do crescimento econômico. Surge daí o desafio de resolver as tensões entre economia e democracia. o debate sobre a estabilidade democrática não deve ignorar a pobreza e a desigualdade. com os instrumentos da democracia. “a nova onda de democratização na região. que se tornou conhecido com a denominação genérica de ajustes estruturais. Na América Latina. este Relatório sustenta que só com mais e melhor democracia as sociedades latino-americanas poderão ser mais igualitárias e desenvolvidas. os cidadãos exercem sua liberdade para aceitar ou rejeitar essas políticas. de abertura. Contra essa visão. que teve início em meados dos anos oitenta. 40 A democracia na América Latina . Embora esses processos tenham ocasionado alguns progressos importantes. Conseqüentemente. independentemente de sua economia. Para que isso se concretize. sobretudo na expansão da democracia eleitoral. ou. Essa maneira de pensar a democracia latino-americana. mas não por isso menos recorrente e preocupante para o destino da democracia e da economia. demandas sociais manifestadas em um contexto de liberdade política (democracia) e liberdade econômica (mercado) formam outro triângulo singular. aqueles que não gozam de níveis mínimos de bem-estar e que sofrem as injustiças da desigualdade podem reivindicar. 2003 (texto preparado para o Relatório). A economia. no. simetricamente. Dessa maneira. regimes autoritários instalaram-se com um discurso “restaurador” do regime democrático. mobilizar-se e eleger em defesa de seus direitos. nem as políticas de crescimento devem esquecer que. apesar de sua manifesta hostilidade.5 Como conseqüência dessas transformações. à luz dos últimos vinte anos. Esse desafio parte da necessidade de não pensar a economia como se não houvesse democracias pobres. reformas e desregulamentações. subsiste um evidente contraste entre as reformas realizadas durante as duas últimas décadas e uma realidade que continua marcada por grandes carências no plano das diferentes cidadanias. particularmente a social. é indispensável indagar caminhos não explorados e abrir novos debates na América Latina. com algumas exceções. Um triângulo que deveria ser virtuoso e que. e de não atacar os problemas da estabilidade democrática independentemente das necessidades de resolver as questões do crescimento. em contextos de po- 5 José Antonio Ocampo. Essas características da América Latina foram utilizadas como argumento para concluir que a democracia seria inviável enquanto não fossem resolvidos os problemas da pobreza e não fosse alcançado um mínimo aceitável de igualdade.

o índice era de 0. no ano 2000. os cidadãos têm expectativas quanto ao funcionamento da economia. que subiu de 0. tendo-se avançado consideravelmente na aplicação das reformas. Esse índice está composto de cinco subíndices: “políticas de comércio internacional”.920. a porcentagem de pobres6 ponderada pelo tamanho da população representava 46 por cento para os dezoito países. é necessário fazer alguns esclarecimentos. Os processos de democratização e reforma de mercado. a concentração de renda e a situação trabalhista. Em 1990. que os cidadãos latino-americanos sentiram os efeitos dessas variáveis de forma mais ou menos simultânea. sua capacidade para satisfazer – por meio da compra de bens e serviços – um conjunto de necessidades alimentícias e não alimentícias consideradas essenciais O desenvolvimento da democracia na América Latina 41 .58 nos anos oitenta para uma média de 0. O índice de reforma econômica indica um avanço sustentado dessas reformas. um avanço quase irrelevante. 2. medido entre 0 e 1. entre 1998 e 2002 esse percentual tinha caído para 42. Em terceiro lugar. Afirma. todos relacionados com o Consenso de Washington. na democracia. Esta é também uma primeira fotografia do déficit democrático da América Latina. porém. instalou-se. assim denominado posteriormente. o PIB per capita era de U$S 3. a evolução do produto interno bruto (PIB) per capita. uma evidência da urgência de construir a democracia de cidadania. mostra-se uma fotografia que contrasta reformas e realidades.83 entre 1998 e 2002. a pobreza. no discurso dos políticos nacionais. pobreza e desigualdade crescentes e agravamento da situação trabalhista (com seu conseqüente impacto sobre a desigualdade e os rendi- 6 A medição da pobreza com o método da “Linha de Pobreza” (LP) elaborado pela CEPAL consiste em estabelecer. Na América Latina hoje se reconhece o direito ao voto universal. “políticas financeiras”. a partir da renda dos domicílios. sem restrição alguma de peso significativo. de U$S 3. as reformas democráticas. Vinte anos mais tarde.83. avançaram de maneira sustentada.8 Balanço entre reformas e realidades Para este balanço foram utilizados sete indicadores básicos: as reformas estruturais na economia. Antes de iniciar a apresentação da tabela que mostra um resumo desses indicadores básicos (tabela 2). O índice de democracia eleitoral (IDE). Em primeiro lugar. um indício da chave das frustrações. provocando uma grande expectativa que contrastou visivelmente com a evolução dos fatos. 3. 1. demonstra que. Nas páginas seguintes. a percepção de uma grande parte dos cidadãos é de que as políticas implementadas “produziram” insuficiente crescimento aceitável.breza e desigualdade. nos meios de comunicação. Essa é uma conquista notável e extremamente importante. e o PIB per capita. Durante a década de 90. “privatizações” e “contas de capital”. a democracia teve uma melhora constante ao longo do período considerado. pode não gerar como resultado o fortalecimento da democracia e o desenvolvimento da economia. “políticas impositivas”. elaborado pelo Projeto sobre o Desenvolvimento da Democracia na América Latina (PRODDAL). em termos eleitorais. como promessa de desenvolvimento.55. Os níveis de pobreza tiveram uma leve diminuição em termos relativos. o Relatório não afirma que existe necessariamente uma relação causal entre as variáveis que serão utilizadas. 4. um modelo econômico que defraudou a muitos. Elas têm origem na ideologia igualitária subjacente à democracia.734 a valores constantes de 1995. mentos futuros da previdência). embora de natureza distinta. Em 1980. Em segundo lugar. A média regional do PIB per capita não variou de maneira significativa nos últimos vinte anos. nas organizações internacionais etc. enquanto o índice de reforma econômica era de 0. a indigência.

as colunas sobre Pobreza e Indigência abarcam a porcentagem maior do território oferecida na base de dados CEPAL.92 0.8 10.85 0.3% 21.1% 48. diretor da Divisão de Desenvolvimento Econômico da CEPAL.5% 52.81 0. e se dividiu pelo número de anos do período.1 0.1% 52.00 1. As cifras de crescimento real do PIB per capita foram calculadas com base em dólares 1995. a 1.83 0. indigência e o coeficiente de Gini são médias de somente alguns anos.0 0.02 0. Uruguai) 1981-90 0.4 17.9% 50.7 12.546 8.7% 0.527 0. (3) De período a período. que indica uma falta de reformas orientadas para o mercado.89 -3.79 0.2% 47. Lora 2001. Chile.1 5.82 0.3 12.0 2.84 0.6 0.521 0. Nicarágua. Paraguai. Panamá. Rep.6 1991-97 0.4 0. 4 de fevereiro de 2003.53 0.8% 25.1 1991 . isso se refletiu em todos os dados ponderados por população e nos dados per capita.6% 1.551 0.TABELA 2 REFORMAS E REALIDADES Índice de Reforma Econômica (1) Índice de Democracia Eleitoral (1) Crescimento do PIB Real per capita anualizado (3) % Pobreza (2) % Indigência (2) % Coeficiente de Desemprego Gini (2) Urbano (1) Sub-Região “Cone Sul” (Argentina. Notas do Quadro atualizado em maio de 2004.70 1.8 20. CEPAL 1999.558 8.82 0. a raiz geométrica. A atualização deste quadro foi feita com base nos novos dados fornecidos pela CEPAL e nos novos dados populacionais do CELADE. Fontes: Os dados sobre o Índice de Reforma Econômica são de Morley.79 1998-02 0.00 1.6 42.86 0.00 1.1 1998-02 0.58 1991-97 0. que indica a aplicação de reformas fortemente orientadas para o mercado.3 22. Honduras. A partir dos censos mais recentes.1 15. foram utilizadas séries com cobertura espacial diferente.8 42.1 Sub-Região Andina (Bolívia. conforme o número de anos do período analisado.59 4. As cifras sobre pobreza. e para certos países.3 17.4 8.603 0.3 35.97 0.7 25. O “Índice de Democracia Eleitoral” vai de 0 (igual a falta de democracia eleitoral) a 1 (indica que os requisitos de democracia eleitoral são cumpridos). extraindo.9 0.1 0. Venezuela) 1981 . no caso desses países.524 9.1% 55. A metodologia e os dados do Índice de Democracia Eleitoral são apresentados no Compêndio Estatístico.1 1998 .5 18. 42 A democracia na América Latina .640 5. Rica.2 5.97 2. Este exercício acrescentou vários milhões de pessoas aos dados oficiais anteriores.8% 54. Colômbia.577 8.55 0.88 1.545 8. cuja fonte é Deininger e Squire 1998. Guatemala.76 0. e comunicação com Manuel Marfán. A taxa de crescimento do PIB real per capita anualizado foi calculada da seguinte maneira: a) foram somados os PIB reais (base dólares 1995) dos anos do período analisado.6% 52. Os outros dados são de várias publicações da CEPAL.7% 0. Nesse sentido. Machado e Pettinato. O índice vai de 0.0 27.75 0.574 0. Peru. o CELADE reestimou os dados populacionais da década de 90.528 4.78 0. Isto implica que os dados de Pobreza e Indigência podem estar subestimados e.83 -0. políticas financeiras.1 13.497 0. com exceção dos dados sobre o coeficiente de Gini antes de 1990.4% 2.0 40.80 0.87 0.6 37.8 Região Latino-americana 1981-90 0.4 (1) Média simples.8 48.2 1998-02 0.31 0.66 0. privatizações e contas de capitais. (2) Ponderada por população.) 1981-90 0.4% 1.0 México 1981-90 1991-97 1998-02 0.0 29. El Salvador. os saltos da série podem não refletir necessariamente os saltos nos níveis de Pobreza e Indigência. políticas impositivas.70 1. para a segunda edição.0% 32. Por conseguinte.7% 0.44 -0.3 7.6 Sub-Região América Central (C.7 12.4 18. b) dividiu-se pela população média do período. O índice de reforma econômica é composto por cinco componentes: políticas de comércio internacional.2% 46.64 0.8 19. com o critério de utilizar o dado mais abrangente.502 0.91 1.8 8.0 42. Em todos os casos.544 0.52 0.539 0.4 18.90 0.532 9.1 1991-97 0.61 0.8 0. c) o PIB per capita desse período foi dividido pelo do período anterior.83 0.7 0.5 23. Dom. Equador.7 0. em seguida.2 4.638 0.3 Brasil Brasil 1981-90 1991-97 1998-02 7.8 8.

Em 2002.3 por cento). em termos absolutos. Em 2002. Entretanto. árdua e incerta. ao mesmo tempo. Um coeficiente de Gini de 0. 8 Esses dados foram retirados de uma versão agregada da tabela 2. pensões e sindicalização). As páginas seguintes iniciam a exploração destas questões. Hoje. fundamentalmente. Em 2002.4 vezes superior à renda de 10 por cento da população de renda mais baixa. regenerar seu conteúdo. A região possui os níveis de desigualdade mais altos do mundo na distribuição da renda.3 a 53. configurando um quadro cujos efeitos terão conseqüências muito negativas a médio e longo prazo. Isso está vinculado a um agravamen- to da distribuição da renda e a um aumento da pobreza atual. A alta desigualdade também se expressa na relação entre os níveis superiores e inferiores de renda.7 por cento. a quantidade de pobres chegava a 218 milhões. Esse avanço se produziu. 6. enquanto 20 por cento do setor de mais baixa renda.2 por cento da renda total. de fratura social e de inserção secundária e desvantajosa no sistema internacional. 5. Ninguém tinha dúvidas sobre a agenda da democracia. é claro. Os níveis de desigualdade não diminuíram. em virtude das melhorias relativas do Brasil. A média mundial para os anos noventa foi de 0. a proteção social dos trabalhadores sofreu uma queda (saúde. A primeira condição. Para o coeficiente de Gini. a região tinha um desafio difícil e. o coeficiente de Gini7 (média regional ponderada por população) era de 0. vida-morte.55 representa uma desigualdade extrema. inclusive em termos relativos. Há vinte e cinco anos.25-0. da centralidade dos direitos do cidadão para a etapa que se inicia. a necessidade de enfrentar o legado histórico de atraso econômico e tecnológico. 20 por cento da população da região de mais alta renda recebeu quase 54. a renda de 10 por cento da população latino-americana de mais alta renda era 25. uma tarefa difícil. dar impulso a uma nova etapa é uma meta muito mais ampla e plena de incertezas. e de alguns temas – a própria noção de democracia e do papel do Estado – que constituem o ponto de partida Hoje. Em 1990. Era preciso audácia e imaginação para alcançá-lo. Em 1990.554. Mobilizar a imaginação.por cento.3 por cento) e nos países andinos (de 52. O que quer dizer realmente ir rumo à democracia de cidadania? Quais são os temas centrais? Que condições nos são requeridas para resolvê-los? Quem são os novos adversários da democracia ampliada? Nenhuma dessas questões tem a clareza daquela opção binária dos anos setenta: democracia-ditadura. superar as guerras e alcançar a democracia e a paz. durante esse período houve um crescimento da pobreza no Cone Sul (de 25. Poderia se acrescentar que. apenas 4. o conhecimento e a política é.6 a 32. essa relação era de 40 vezes. a situação trabalhista agravou-se em quase toda a região . é tomar consciência sobre até que ponto não existem desculpas para não encará-la. Além disso. 191 milhões de latino-americanos eram pobres.381 e a dos países desenvolvidos de 0. simples. a desigualdade absoluta. 7 Este coeficiente é uma medida que surge de uma representação gráfica da distribuição da renda chamada Curva de Lorenz. 0 representa a igualdade perfeita de distribuição e 1.576.35 pode ser considerado como uma distribuição “razoável” e um coeficiente de Gini de 0.8 Em 2002. o número de habitantes que se situava abaixo da linha de pobreza aumentou. do Chile e do México. quando a população era de 508 milhões de habitantes. Durante os últimos quinze anos. regenerar seu conteúdo. como nos ilustram esses contrastes que terminamos de mostrar. esse coeficiente subiu para 0. liberdade-opressão. A tarefa inclui. Em 1990. da natureza dos desafios para o desenvolvimento da democracia. O desenvolvimento da democracia na América Latina 43 . porém não havia dúvidas quanto ao seu conteúdo: vencer as ditaduras. dar impulso a uma nova etapa é uma meta muito mais ampla e plena de incertezas.337. Esta primeira visão é um indício da imensidade e da complexidade das tarefas que a América Latina deveria assumir. à qual visamos nessa obra. O desemprego e a informalidade aumentaram significativamente.

o descrédito do regime democrático “realmente existente” propicia que amplos setores sociais. haveria políticas recomendáveis para assegurar as boas condições de funcionamento do regime de- quadro 3 A democracia e a promessa dos direitos cidadãos Apesar da instauração do regime democrático. que essa conduta acarreta. mas plenamente democrática. sujeita historicamente a condições de “pobreza” e de “exclusão” – denominações tecnocráticas que escondem as relações sociais geradoras dessas situações. inclusive. as expectativas depositadas em tal ordenamento viramse frustradas. à visão do Estado e suas transformações. Como dizia há pouco tempo um dirigente sindical peruano: “a democracia não assegura a justiça social.de nossas proposições. apesar de tudo. porém. Outra conseqüência importante. 44 A democracia na América Latina . observa-se a presença de atores que. à maneira como certas políticas públicas são vistas e formuladas. Em outras palavras. que o Estado é incapaz de controlar Julio Cotler. causa desconcerto e intranqüilidade geral. às vezes ilegais. não é de se estranhar a existência de vozes que prognosticam desenlaces dramáticos. Por tais motivos. Dessa forma. Conseqüentemente. texto elaborado para o PRODDAL. agrava os problemas da ação coletiva. mais ainda porque nas novas circunstâncias internacionais. não foi possível modificar a natureza e o funcionamento do Estado por causa da presença de fatores internos e externos que obstaculizaram o cumprimento dos direitos cidadãos. mas é o único espaço que permite lutar para consegui-la”. Ingressamos nesse campo não porque o objetivo do Relatório seja uma indagação acadêmica sobre a democracia. pobre. Essas diferenças se referem às condições de expansão da democracia. 2002. mesmo com os obscuros presságios. Nessa conjuntura. ou ao papel da política e suas organizações. A fragmentação dos interesses sociais e das representações políticas. aos seus riscos de desaparecimento. dependendo da visão de democracia por nós adotada. para satisfazer suas aspirações individuais e coletivas. assumam comportamentos “informais”. porque o desempenho das representações políticas e das instituições públicas não correspondiam às expectativas da maioria da população. e sim porque as conseqüências práticas das diferentes concepções são fundamentais no momento de pensar as políticas e as estratégias de sustentabilidade democrática. existirão diferenças contundentes em relação ao que esperamos de outra forma de organização da sociedade: a economia . é a visão segmentada das políticas públicas. tanto do imaginário como da ação político-estatal. em seus direitos civis básicos. que de maneira irresponsável se oferecem para resolver as demandas sociais por meio de propostas oportunistas de curto prazo. particularmente os pobres e os excluídos. se a democracia fosse apenas um regime. derivada de uma compreensão da democracia limitada a seu regime. em direção contrária à dos discursos democráticos e liberais. Não se trata de um desenvolvimento teórico no sentido estrito. mas de alguns pontos-chave básicos que estão nos fundamentos teóricos de nosso trabalho. poderíamos chegar ao paradoxo extremo da existência de uma sociedade pobre no tocante aos direitos sociais e econômicos de seus cidadãos. e das promessas dos dirigentes políticos. Além disso. o regime e o Estado reforçam tais condições. alegando que esse regime constitui o único marco para nacionalizar e democratizar o Estado e a sociedade. ao mesmo tempo em que a proliferação de “aproveitadores” (free-riders). por não contar com os recursos materiais nem com o respaldo da população. persistem obstinadamente em defender a validade do regime democrático. às diferenças socioculturais e de gênero.

Com a Declaração do Milênio. de 1993. ■ A promoção do direito à democracia foi proclamada pela Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. 1948. É destacável também. promove o respeito pelos direitos humanos e a realização de eleições livres e limpas. estabelece uma concepção ampla de cidadania. sua fé nos direitos fundamentais do homem. para o fortalecimento do estado de direito e para o desenvolvimento sustentável. em última instância. avaliadas por maiorias que medem seus resultados em termos do progresso de suas vidas ou de uma maior justiça na distribuição de bens. Nesse sentido. uma forma política que assegure tudo isso. Para o PNUD. inclui a promoção de diálogos democráticos. em sua resolução 1999/57. por meio de todos os seus organismos e programas. estabelece que: “não mediremos esforços para promover a democracia e reforçar o cumprimento da lei. outras aconselháveis para o adequado funcionamento da economia. por meio da Organização de Estados Americanos (OEA). a opinião cidadã é uma parte fundamental da viabilidade das políticas de reforma. Por essa razão. por exemplo. expandindo as oportunidades de cada pessoa de chegar a ter uma vida respeitável e valiosa. Tampouco se observariam fatos como o de que as políticas de reforma do Estado ou da economia sejam. incluindo o direito ao desenvolvimento. O desenvolvimento da democracia na América Latina 45 . humanos internacionalmente reconhecidos e liberdades fundamentais. democracia e desenvolvimento humano compartilham uma visão e um propósito comum: o desenvolvimento humano é um processo para fortalecer as capacidades do ser humano. ■ Adicionalmente. o papel de vários organismos e iniciativas regionais que deram prioridade à defesa e ao fortalecimento da democracia. no ano 2000. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). a organização estatal. como correlato. é notável o compromisso que os países da região assumiram com a democracia. A OEA deu um passo fundamental em sua Os organismos internacionais e a promoção da democracia O Relatório se inspira na letra e no espírito de diferentes documentos das Nações Unidas: ■ A Declaração Universal dos Direitos Humanos. políticos e sociais. a ONU e outros organismos internacionais de cooperação e financiamento reforçaram seu chamamento para a promoção da democracia. a saber. aprovada pelas Nações Unidas em 1948. na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos dos homens e das mulheres. assim como o respeito por todos os direitos quadro 4 Declaração Universal de Direitos Humanos As Nações Unidas reafirmaram. por exemplo. e é necessário. e outras que indicassem as reformas apropriadas para. por meio de seus programas de governabilidade. abrangendo direitos civis. Com essa visão fragmentada se julgaria estar fortalecendo a democracia com o simples recurso de melhorar o funcionamento de seu regime. estabelece que “a comunidade internacional deve apoiar o fortalecimento e a promoção da democracia e o desenvolvimento e respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais no mundo inteiro”. programas de reforma do Estado e de promoção do desenvolvimento econômico.” O Sistema das Nações Unidas.mocrático. na sua Carta. ■ A Declaração e Programa de Ação de Viena. na Declaração do Milênio. e declararam-se decididas a promover o progresso social e a elevar o nível de vida dentro de um conceito mais amplo de liberdade. e se estaria ignorando o impacto que. a Assembléia Geral das Nações Unidas. ONU. a democracia. as reformas do Estado ou as reformas estruturais na economia teriam sobre ela.

quando realizamos eleições. Instituições de governo transparentes e b. Comissão de Direitos Humanos. Mais es- quadro 6 A democracia requer mais do que eleições A democratização verdadeira é algo mais do que as eleições. Indubitavelmente. na mesma medida. O direito de acesso. assim como a procedimentos livres de votação e a eleições periódicas livres. 1999. As eleições livres e justas são necessárias.quadro 5 Os direitos democráticos A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas afirma que dentre os direitos a uma gestão pública democrática figuram os seguintes: e. pelas Cúpulas Ibero-americanas dos Chefes de Estado e de Governo. Outro passo-chave foi dado pela aprovação da Carta Democrática Interamericana em 2001. de pensamento. quando seus países membros adotaram mecanismos para reagir diante de situações em que a democracia fosse interrompida. em 1991. especialmente por meio de organizações internacionais. o princípio “uma pessoa. c. é um marco que fortalece as democracias na América Latina. Os desequilíbrios de recursos e de poder político minam. freqüentemente. Além disso. 2002c. incluindo a. nem uma capacidade igual de todos em influir nos resultados. O direito à liberdade de investigar e de receber e difundir informações e idéias por qualquer meio de expressão. O direito à participação política. a coordenação de esforços em prol da democracia por parte de líderes latino-americanos. O império da lei. h. PNUD. a vontade ou a capacidade de participar nos processos políticos. em condições de igualdade. reunião de Santiago do Chile. O direito à liberdade de opinião e de expressão. O direito dos cidadãos a eleger seu sistema de governo por meios constitucionais ou outros meios democráticos. e a finalidade das instituições democráticas. g. responsáveis. cabe destacar o trabalho realizado pelo Grupo do Rio. e pela OEA por meio da Unidade para a Promoção da Democracia. ONU. Kofi Annan. Administrador do PNUD. d. […] O fato de conceder a todas as pessoas uma igualdade política oficial não é suficiente para criar. incluída a proteção jurídica dos direitos. Secretário Geral da ONU 2003. 2002. um voto”. f. de consciência e de religião. de associação e de reunião pacíficas. 46 A democracia na América Latina . assim como a independência do Poder judiciário. acerca de temas-chave para a democracia. mas não são suficientes. pp. Não apreciamos plenamente o valor da democracia.4 e 14. a igualdade de oportunidades de todos os cidadãos para apresentarem-se como candidatos. à função pública no próprio país. interesses e segurança pessoal dos cidadãos e a eqüidade na administração da justiça. O direito ao sufrágio universal e igual. Mark Malloch Brown. As eleições não são eventos isolados. mas sim parte de um processo mais amplo. como evidência de que existe uma democracia.

proposta por este Relatório. mas como parte do marco das cidadanias política. da cultura democrática. é necessário analisar o regime democrático não isoladamente. É importante destacar que essas iniciativas internacionais não se restringem a promover a democracia em seu aspecto eleitoral. O grande desafio reside em consolidar este consenso emergente e traduzi-lo em apoio a reformas que fortaleçam as democracias latino-americanas. O desenvolvimento da democracia na América Latina 47 . os organismos internacionais globais e regionais incluem em suas metas tanto o estado de direito quanto o desenvolvimento econômico. das organizações da sociedade civil e da participação cidadã nos diversos processos da vida pública. da governabilidade democrática. que ressalta a importância da política e dos partidos políticos. a comunidade internacional está convergindo para a visão mais ampla de democracia. Pelo contrário. da redução da pobreza. das instituições que garantem a transparência e a eficácia governamental. e do impacto da nova economia sobre o desenvolvimento econômico. do estado de direito. levando em con- sideração as preocupações dos cidadãos.pecificamente. para prevenir retrocessos no processo democrático. e para a idéia de que. essas iniciativas vêm impulsionando a definição de uma agenda política para a região. civil e social. Cada vez mais.

48 A democracia na América Latina .

Quanto maior o grau de democracia. No entanto. os limites da política. entre outras coisas. da democracia e do Estado se reduziram. No entanto. é somente com o advento da modernidade que o traçado dos limites da política transforma-se em um dos maiores foci da luta e da contestação política aberta”. Essa redução da capacidade criadora da democracia é produto. como. N. Na verdade. O desenvolvimento da democracia na América Latina 49 . S. trata. ele não resolve a discussão teórica e política sobre duas questões: quanta democracia e onde? A que esferas deveriam ser ampliados os mecanismos democráticos de tomada de decisão e os princípios e direitos de cidadania? Que custos. por conseqüência. melhor. especificamente a política democrática. Essa é a idéia que guia nossa exploração sobre o desenvolvimento da democracia na América Latina. p. Quais os males que podem Na história recente da América Latina. a política. também sobre os do Estado10. de uma deficiência conceitual: julgar a de- 9 Esta seção se baseia principalmente nos documentos preparados por Guillermo O’Donnell para este Relatório: “Notas sobre el estado de la democracia en América Latina” e “Acerca del Estado en América Latina contemporánea: Diez tesis para su discusión”. 14) faz a importante observação de que um dos “aspectos centrais do processo político democrático […] [é] uma luta contínua sobre a definição do âmbito da política. in dubio pro democratia. Grande parte da teoria contemporânea da democracia se limita a caracterizá-la como um regime político. Este último documento é também de grande importância na Terceira Seção do Relatório. de qualquer relação ativa diante da grande injustiça social que se manifesta na ampla carência de direitos sociais e civis. especialmente a política democrática. quem deveria decidir este tipo de questão e por meio de que processos? Os democratas sinceros de diversas escolas e tradições sempre debaterão sobre onde. os mecanismos e princípios da democracia? E. organizações internacionais e famílias? Podem existir critérios razoavelmente consistentes e amplamente aceitos sobre onde aplicar e onde não. em termos de outros objetivos sociais. digamos. na história recente da América Latina. A política. Tais visões expulsam a democracia e. mesmo assim. 10 Do mesmo modo. funcionamento interno dos partidos e sindicatos. e também na anemia de um Estado que se mostra ineficaz e que perde credibilidade perante maiorias flutuantes de suas respectivas sociedades. Esta restrição reflete e reforça uma concepção geral daquilo que a política. os limites da política. Embora este seja um critério geral válido. debate centralmente sobre os seus próprios limites e. mas não a empresas. principalmente na parte intitulada: “A necessidade de uma nova “Estatalidad”. quando e por quem devem ser colocados os limites da democracia. universidades. da democracia e do Estado se reduziram. em geral.■ Exploração sobre o desenvolvimento da democracia9 ser prevenidos? Quais deles deveriam ser resolvidos pela política e pelo Estado adequado? Quais são os fatos inelutáveis ou que devem ser deixados à mercê do mercado ou da boa vontade de alguns atores sociais? Estas perguntas não admitem ser tratadas independentemente das circunstâncias específicas de cada país. talvez ainda mais enigmático. no contexto do presente Relatório não podemos deixar de registrar como. Eisenstadt (2000. estamos dispostos a pagar para avançar na democratização? Deveriam os mecanismos democráticos e os princípios de cidadania se estender ao.

na modernização burocrática e na diminuição de sua interferência na economia. portanto. ■ A participação nos frutos do progresso científico. mocracia como a democracia do eleitor. pela corrupção ou pelos regimes eleitorais. social e política das mulheres e dos homens que integram uma Nação. “Discurso das Quatro Liberdades”. o debate marginalizou outros que. Elas são: ■ A igualdade de oportunidade para os jovens e os demais. social e política. suas conquistas e carências. particularmente nos anos noventa. das reformas estruturais da economia e do impacto da globalização na região. da crise da política. A medida do desenvolvimento de uma democracia é dada. interroga-se sobre o sistema que possibilita o acesso aos cargos públicos. das reformas do Estado. quando este Relatório analisa o grau de desenvolvimento da democracia. A noção de cidadania implica um status para cada pessoa como membro de pleno direito de uma comunidade. No entanto. em um padrão de vida constantemente crescente e amplamente compartilhado. As coisas básicas que nosso povo espera de seus sistemas políticos e econômicos são simples. o poder – e sobre a qualidade da cidadania civil. deveriam ser colocados no centro da discussão. pelas estruturas clientelistas. a economia teve como tema quase exclusivo a questão de seus equilíbrios e as reformas estruturais supostamente necessárias para atingi-los. portanto. Em síntese. A medida do desenvolvimento de uma democracia é dada. A democracia foi observada essencialmente em sua dimensão eleitoral. os partidos. sobre a organização social gerada pela democracia – o Estado. Quando a cidadania é colocada como fundamento da democracia. colocando inclusive em dúvida o sentido da continuidade dos Estados nacionais em um mundo que marchava a 50 A democracia na América Latina . ■ A preservação das liberdades civis para todos. ■ A segurança (social) para os que dela precisam. A expansão da cidadania é uma condição do êxito de uma sociedade e da realização de suas aspirações. a agenda e as políticas públicas na América Latina trataram da questão do fortalecimento democrático. a globalização foi considerada ou como a origem de males inevitáveis ou como fonte de benefícios imensos. a política foi examinada sob o prisma da crise expressa pelos partidos. por sua capacidade de dar vigência aos direitos dos cidadãos e constituir seus cidadãos em sujeitos das decisões que a eles se referem. à luz da análise apresentada neste Relatório.quadro 7 Os alicerces da democracia Não há nada misterioso quanto aos alicerces de uma democracia saudável e forte. apesar de terem sido abordados aspectos fundamentais dessas questões. A qualidade da democracia deve ser julgada sobre essa base. Um debate incompleto Durante quase duas décadas. Na verdade. A força interior e duradoura de nossos sistemas econômico e político depende do grau em que cumprem essas expectativas. ■ O fim do privilégio especial para alguns. Essas são as coisas simples e básicas que seria necessário nunca se perder de vista no tumulto e na incrível complexidade de nosso mundo moderno. Franklin Delano Roosevelt. muda a forma de avaliá-la. ■ Um trabalho para os que podem trabalhar. e abrange diversas esferas que se expressam em direitos e obrigações. abre-se uma dimensão diferente de reflexão e de ação. e. a problemática do Estado centrou-se na questão do equilíbrio das contas fiscais. finalmente. se o desenvolvimento da democracia for medido por sua capacidade de garantir e expandir a cidadania em suas esferas civil. por sua capacidade de dar vigência aos direitos dos cidadãos e constituir seus cidadãos em sujeitos das decisões que a eles se referem. janeiro 1941.

TABELA 3

PERCEPÇÕES SOBRE AS RAZÕES DE DESCUMPRIMENTO DE PROMESSAS ELEITORAIS POR PARTE DOS GOVERNANTES 2002.
Cumprimento de promessas Os governantes cumprem suas promessas eleitorais Não cumprem porque ignoram como os problemas são complicados Não cumprem porque aparecem outros problemas mais urgentes Não cumprem porque o sistema não os deixa cumprir Não cumprem porque mentem para ganhar as eleições Nenhuma das anteriores
Nota: n = 19.279. Fonte: Pergunta P25U da Seção Proprietária do PNUD, pesquisa Latinobarômetro 2002.

Pessoas (%) 2,3 10,1 9,6 11,5 64,7 1,7

caminho da “aldeia global”. Como dissemos, esses debates eram, naquele momento, imprescindíveis. Agora, são insuficientes. O desenvolvimento da democracia é muito mais do que a perfeição de seu sistema eleitoral. A crise da política se manifesta tanto na baixa credibilidade e prestígio dos partidos quanto na pouca eficácia dos governos para abordar as questões centrais detectadas como déficit de cidadania, em particular, os déficits que dizem respeito aos direitos civis e sociais (tabela 3). Ambas as dimensões da crise da política – instituições e conteúdos – são vitais, pois é a política que deve formular opções, representar os cidadãos e criar os nexos entre Estado e sociedade para gerar poder democrático. Grande parte das questões consideradas carências centrais está situada no plano da “estatalidad” – que entendemos como a capacidade do Estado para cumprir suas funções e objetivos, independentemente do tamanho e da forma de organização de suas burocracias. Ultimamente, o tema do Estado reduziu-se, no momento da discussão e das propostas públicas, a questões relacionadas

com sua capacidade burocrática e sua estrutura de gastos e recursos, ou seja, à questão do déficit fiscal. Ficou fora da discussão a existência de Estados com legalidades truncadas, incapazes de monopolizar a coerção, carentes do poder necessário para colocar em prática o mandato eleitoral e que, geralmente, encontram sérias dificuldades para cumprir sua crucial responsabilidade de construir democracia.11 A questão econômica tem caminhos e uma diversidade de opções que o pensamento único ignora, e a relação entre economia e democracia é apresentada no debate atual a partir do impacto da segunda sobre a primeira. Desse modo, a democracia ocupa na análise uma posição subordinada aos objetivos do crescimento econômico. É preciso inverter os termos e perguntar qual é a economia necessária para fortalecer a democracia. Desse modo poderemos debater tanto o papel da economia no desenvolvimento da democracia, a partir de seu impacto nos direitos sociais, quanto a capacidade da democracia para influir na organização da economia e possibilitar a diversidade de opções da economia de mercado.

O desenvolvimento da democracia é muito mais do que a perfeição de seu sistema eleitoral.

11 Do ponto de vista de George Soros (2001), esta questão se expressa assim: “O capitalismo cria riqueza, mas não se pode depender dele para garantir a liberdade, a democracia e o Estado de direito. As empresas estão motivadas pelo benefício, não têm por objetivo salvaguardar os princípios universais. Até a proteção do mercado requer muito mais que o benefício próprio: os participantes no mercado competem para ganhar, e se pudessem eliminariam a concorrência” (Soros, 2001).
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Finalmente, mesmo não ignorando suas importantes conseqüências, a globalização não deveria conduzir a conclusões fatalistas. Os espaços de participação e decisão democráticas são essencialmente nacionais e, embora a globalização imponha grandes restrições à capacidade de ação dos Estados nacionais, em vez de sucumbir à impotência, é preciso focar o debate na forma de gerar novos espaços de autonomia nacional a partir dos âmbitos regionais de cooperação e integração. Portanto, para discutir as condições do desenvolvimento da democracia, propomos ampliar os conteúdos da agenda que predominou ultimamente. Obviamente, o objeto deste Relatório não é propor políticas nacionais; cada país tem tempos e situações diferentes. Essas especificidades, porém, dizem respeito ao tipo de solução a ser aplicada em cada caso, e não à relevância dos problemas. As diversas respostas possíveis a esses problemas não alteram o conjunto de interrogações que apresentamos, em especial, a que se refere à necessidade de elaborar uma nova agenda de reformas democráticas para a América Latina. Assim sendo, de que estamos falando quando nos referimos à democracia? A partir de que marco conceitual aprequadro 8

sentamos a idéia de desenvolvimento da democracia? Que democracia temos nós, latino-americanos? E, fi nalmente, qual é a agenda de debate necessária para desenvolver nossas democracias e expandir nossas cidadanias?

Fundamentos teóricos
Nesta seção, são apresentados alguns dos conceitos, argumentos e questões de debate que pertencem ao campo teórico do Relatório,12 partindo da base de que a definição dos sentidos da democracia também faz parte das tarefas que possibilitam transformá-la e enriquecê-la. Quando nos deparamos com a complexidade das questões em jogo, quando observamos novas realidades impossíveis de serem abordadas por meio da mera intuição, tomamos consciência de nossa insuficiente base teórica. Evidentemente, não estamos afirmando que a prática da política é o corolário de uma teoria apropriada; só estamos enfatizando a necessidade de sérios e fundados conhecimentos e debates para que a prática política possa orientar com êxito o futuro de nossos países. A teoria não é uma maneira de encerrar-se em um mundo distante da prática, ela é utilizada para entender como estamos, para onde vamos e o que seria prioritário transformar. A teoria política e, dentro dela, a teoria democrática deram importantes contribuições para a análise da nossa realidade. Entretanto, é provável que não haja exemplo mais eloqüente da distância entre teoria e prática do que o mundo da política. Por um lado, freqüentemente se discutem idéias sobre o complexo desenvolvimento político das sociedades e por outro – quase como se essas idéias pertencessem a outro universo – pratica-se a política. Desvalorizar a análise teórica, mais do que um afã de tratar imediatamente de

Cidadania e comunidade de cidadãos
A cidadania caracteriza uma situação de inclusão em uma “comunidade de cidadãos”. Mas esta última não pode ser definida simplesmente pelo direito de voto e pela garantia de ver protegido um certo número de liberdades individuais. A cidadania se caracteriza também pela existência de um mundo comum. Em outros termos, possui, necessariamente, uma dimensão social. Tocqueville foi o primeiro a destacar que a democracia caracterizava uma forma de sociedade e não apenas um conjunto de instituições e de princípios políticos. Pierre Rosanvallon, texto elaborado para o PRODDAL, 2002.

12 Os dados estatísticos e de opinião pública que constam neste Relatório têm origem em um marco conceitual. Sem esse marco, não poderíamos ter identificado os indicadores relevantes para interpretar o desenvolvimento da democracia. Os indicadores e a pesquisa utilizados neste Relatório são o resultado de uma determinada concepção da democracia. Essa teoria justifica e explica o método adotado em sua elaboração.

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coisas práticas, pode ser, às vezes, uma maneira de evitar o cotejo das decisões com as razões que as fundamentam, ou uma forma de encobrir as verdadeiras motivações dos que exercem o poder, público ou privado. A desvalorização da teoria costuma ser um recurso que abre caminho para o pensamento mágico, entendido como um conjunto de idéias que, por seu fascínio, parecem prescindir de demonstração. Este Relatório se propõe a basear suas descrições, análises e propostas em razões sistemáticas e rigorosas. Sua intenção não é abranger a totalidade do debate sobre a democracia, mas sim fundamentar as afirmações e propostas que apresenta. A idéia de democracia Parte-se aqui de uma idéia básica e geral de democracia, mas não se utiliza uma definição taxativa e rígida; procura-se encontrar nas diferentes esferas da vida social o que, sendo próprio delas, afeta e é afetado pela democracia. Nesse sentido, a democracia é o resultado da história das sociedades e não só de si mesma. A democracia é o resultado de uma intensa e corajosa experiência social e histórica que se constrói dia-a-dia nas realizações e frustrações, ações e omissões, ocupações, intercâmbios e aspirações de seus protagonistas: cidadãos, grupos sociais e comunidades, que lutam por seus direitos e edificam incessantemente sua vida em comum. A democracia implica uma forma de conceber o ser humano e de garantir os direitos individuais. Por conseguinte, ela contém um conjunto de princípios, regras e instituições que organizam as relações sociais, os procedimentos para eleger governos e os mecanismos para controlar seu exercício. A democracia é também o modo como a sociedade concebe o Estado e com o qual pretende fazê-lo funcionar. Mas isso não é tudo. A democracia também é um modo de conceber e resguardar a memória coletiva e de acolher, celebrandoas, diversas identidades de comunidades locais e regionais. A democracia é cada uma dessas definições e tarefas, assim como as diversas manei-

quadro 9

A democracia: uma construção permanente
Devemos relembrar que, depois dos seus princípios promissores, a evolução da democracia até nossos dias não seguiu um caminho ascendente. Houve altos e baixos, movimentos de resistência, rebeliões, guerras civis, revoluções. Durante alguns séculos […] inverteram-se alguns dos avanços anteriores. Olhando para trás, para a ascensão e queda da democracia, é evidente que não podemos contar com as forças sociais para assegurar que a democracia continue sempre avançando. […] A democracia, tal como parece, é um pouco incerta, mas suas possibilidades dependem também do que nós fizermos. Inclusive, ainda que não possamos contar com impulsos benignos que a favoreçam, não somos meras vítimas de forças cegas sobre as quais não temos nenhum controle. Com uma adequada compreensão do que a democracia exige e com a determinação de satisfazer seus requerimentos, podemos agir no sentido de satisfazer as idéias e práticas democráticas e, ainda mais, avançar nelas. Robert Dahl, 1999, pp. 32-33.

ras em que elas se materializam em regras e instituições. Sustentamos que a democracia é mais do que um conjunto de condições para eleger e ser eleito, que chamamos de democracia eleitoral. É também, como já dissemos, uma maneira de organizar a sociedade com o objetivo de garantir e expandir os direitos que os indivíduos possuem. Este segundo aspecto é o que define a democracia de cidadania. Essas duas caras da democracia estão intimamente vinculadas e o grau de desenvolvimento de ambas incide substancialmente em sua qualidade e sustentabilidade. A diferença entre democracia eleitoral e de cidadania contém quatro argumentos básicos que guiam este Relatório: 1. A democracia encontra seu fundamento filosófico e normativo em uma concepção do ser humano como sujeito portador de direitos. Nela se distingue a idéia do ser humano como um ser autônomo, razoável e responsável. Esta concepção subjaz a toda e qualquer noção de cidadania, inclusive à de cidadania política. 2. A democracia é uma forma de organização da sociedade que garante o exercício
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A democracia implica uma forma de conceber o ser humano e de garantir os direitos individuais.

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e promove a expansão da cidadania; estabelece regras para as relações políticas e para a organização e o exercício do poder, que são coerentes com a já mencionada concepção do ser humano. 3. As eleições livres, competitivas e institucionalizadas, e as regras e os procedimentos para a formação e o exercício do governo (conjunto que denominamos democracia eleitoral) são componentes essenciais da democracia e constituem sua esfera básica. No entanto, no que se refere a seus alcances e a suas possibilidades de realização, a democracia não se esgota nessa esfera. 4. O desenvolvimento da democracia na América Latina constitui uma experiência histórica única, caracterizada por especificidades intimamente relacionadas com os processos de construção da Nação e das sociedades latino-americanas, incluindo suas diversas identidades culturais. Os déficits da sociedade como déficit da democracia Um corolário relevante desta maneira de entender a democracia e seu desenvolvimento é observar os déficits sociais como carências da democracia. Dessa forma, a pobreza e a desigualdade não são somente “problemas sociais”, mas também déficits democráticos. Portanto, resolvê-los é atacar uma das questões básicas da sustentabilidade democrática. Daí se derivará, em nossa

quadro 10

Democracia e igualdade
Nenhuma teoria da democracia que omita dar à idéia igualitária um lugar central pode oferecer uma representação fidedigna do peso extraordinário da democracia na imaginação política moderna. […] Devemos ter em mente que, historicamente, um dos principais objetivos dos movimentos democráticos foi procurar compensação na esfera política para os efeitos das desigualdades na economia e na sociedade. C.R. Beitz, 1989, pp. xi, xvi.

quadro 11

Democracia e soberania
O exercício da democracia é uma afirmação da soberania de uma nação: É necessário um marco democrático que devolva à reduzida noção de soberania seu sentido político prístino: não existe nação soberana no concerto internacional que não seja soberana na ordem nacional, isto é, que não respeite os direitos políticos e culturais da população concebida não como simples número, mas como complexa qualidade, não como quantidade de habitantes, mas como qualidade de cidadãos. Carlos Fuentes, 1998, p. 9.

análise, uma crítica à perigosa cisão entre “política econômica”, “política social” e fortalecimento da democracia que, freqüentemente, são tratados como compartimentos estanques. O principal corolário desta crítica é que não deve haver uma agenda econômica social divorciada da agenda democrática. Como fundamento dos seus mecanismos e instituições, a democracia apela a uma certa visão da condição humana e de seu desenvolvimento: todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos, dotados de razão e consciência.13 Os princípios que daí emanam projetam-se sobre o conjunto da sociedade. A escola, a família, a economia e, em geral, todas as formas de organizar a sociedade além das instituições próprias da democracia, são atingidos pelos princípios inerentes a ela. O desenvolvimento da democracia está relacionado com a intensidade com que esses princípios são capazes de impregnar os diferentes campos da vida social. É por essa razão que a democracia não aparece somente em sua dimensão institucional; é também uma promessa civilizadora que instala a expectativa de expansão da liberdade, da igualdade, da justiça e do progresso.

13 Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas.

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quadro 12

Uma definição de poliarquia
Poliarquia deriva das palavras gregas que significam “muitos” e “governo”. Distinguese assim o “governo de muitos” do governo de um, ou monarquia, ou do governo de poucos, aristocracia ou oligarquia. […] Uma democracia poliárquica é um sistema político dotado das instituições democráticas [descritas]. A democracia poliárquica é, pois, diferente da democracia representativa com sufrágio restrito, como a do século XIX. É também diferente das democracias e repúblicas mais antigas, que tinham sufrágio restrito, e não possuíam muitas das outras características cruciais das democracias poliárquicas, tais como: partidos políticos, direito a formar organizações políticas para influir em ou opor-se a governos existentes, grupos de interesse organizados etc. É também diferente das práticas democráticas próprias de unidades tão pequenas que possibilitem a realização de uma assembléia direta de seus membros e a decisão (ou recomendação) direta das políticas ou leis. Robert Dahl, 1987, p. 105.

Alcances da democracia no Relatório Conforme a perspectiva que adotamos, a democracia pressupõe um conjunto de características essenciais que definem suas condições necessárias. Essas características, raras vezes, existem plenamente, freqüentemente combinam-se em diversos graus e alcances.14 O que importa é colocar em evidência que a análise do grau de realização de cada um desses elementos é irrefutável no momento de avaliar o grau de desenvolvimento de uma democracia. A democracia inclui, como um de seus elementos centrais, uma livre delegação da soberania popular em um governo, para executar a opção majoritária da cidadania. Para que esse procedimento atinja seu objetivo é preciso que exista o conjunto de condições que serão descritas a seguir. 1. A democracia pressupõe como condição necessária a existência de um regime político que se desenvolve em um Estado e em uma Nação delimitados por uma população, por um território e pelo poder exercido em seu interior. Esse regime contém um conjunto de instituições e procedimentos que

definem as regras e os canais de acesso às principais posições do Estado, ao exercício do poder estatal e ao processo de tomada de decisões públicas. Na ciência política contemporânea, existe consenso sobre as condições que devem ser cumpridas para que o acesso ao governo de um Estado possa ser considerado democrático:15 Autoridades públicas eleitas. Eleições livres e limpas. ■ Sufrágio universal. ■ Direito a competir por cargos públicos. ■ Liberdade de expressão. ■ Acesso à informação alternativa. ■ Liberdade de associação. ■ Respeito pela duração dos mandatos, segundo prazos constitucionalmente estabelecidos. ■ Um território que define claramente o demos votante. ■ A expectativa generalizada de que o processo eleitoral e as liberdades contextuais serão mantidos em um futuro indefinido.
■ ■

2. A democracia implica o real acesso ao poder do Estado, ou seja, que não exista

14 Essas características, resumidas na seqüência, foram apresentadas e discutidas com um amplo conjunto de personalidades acadêmicas. 15 Segundo os aportes de Robert Dahl e Guillermo O’Donnell.
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encontrar os meios – econômicos e organizativos – necessários para o cumprimento de seus fins e executar as políticas decididas. 5. A agenda identifica. A opinião acerca dessa relação entre poder e direitos deve ser objetiva. a definição e as opções de políticas da opinião pública. atributo que implica: o monopólio do uso efetivo e legítimo da força. 4. A essência de uma democracia é que o poder – público ou privado – esteja organizado de 56 A democracia na América Latina modo que. poderíamos ter regras de concorrência perfeitas. Essa agenda contém o conjunto de questões prioritárias em torno do qual se centram o debate público. civis e sociais de maneira tal que a imposição de uma conduta (império do poder) não vulnere esses direitos. O regime tenderia. Esse temário eleitoral ou agenda pública excede o regime. as organizações e os cidadãos. ótimas condições para a eleição. constitui um componente central da organização democrática. para o cidadão. de maneira que os objetivos estabelecidos pela sociedade em exercício de suas opções só poderão ser substancialmente alterados por imposições de outros poderes fora do território como conseqüência da livre delegação de soberania a órgãos multilaterais. A democracia também implica a vigência do estado de direito. protege os direitos civis do conjunto da população e estabelece redes de responsabilidade e de prestação de contas por meio das quais os funcionários públicos. Nessas condições. Pressupõe também a submissão da ação do Estado e de seus poderes às normas que emanam de poderes designados democraticamente. são somente uma parte do necessário para o desenvolvimento da cidadania e excluem outras essenciais? Se este fosse o caso. a capacidade para aplicar justiça de modo efetivo e definitivo. entendida como o leque real de opções de que os cidadãos dispõem de acordo com as referências citadas acima. a girar em falso. Ela contém o temário dos problemas que uma sociedade deve resolver e os métodos para encará-los. Isso define a soberania interior. A democracia requer que as opções cidadãs abordem as questões substantivas. normatizar as condutas dos indivíduos e organizações. Determinam o leque real de opções do cidadão. mas é fundamental para a democracia. porém temas de eleição parciais ou limitados. a tornar-se irrelevante. isto é. As regras e condições de concorrência procuram garantir uma eleição livre entre candidatos e programas de governo. incluindo os cargos mais altos do Estado. a capacidade de soberania do Estado deriva da renovada legitimidade outorgada pelos membros da sociedade. além de não vulnerar os direitos. definida pela própria maioria dos membros de uma sociedade. para garantir e expandir a cidadania em um momento dado? Ou essas opções. é parte de sua organização. Supondo a ausência de limitações sobre a capacidade de eleger. e entre o Estado. as relações de poder. Em uma democracia. devem estar ajustadas ao exercício dos direitos políticos. interessa-nos indagar qual é o leque real de opções e como se constrói. A democracia pressupõe uma certa forma de organizar o poder na sociedade. a agenda pública. estejam sujeitos a controles apropriados sobre a legalidade de seus atos. Eleger sobre o quê e entre quê? Essa eleição contém todas as opções necessárias. 3. Isso pressupõe a independência de poderes e um sistema legal que é democrático em três sentidos: protege as liberdades políticas e as garantias da democracia política. os cidadãos entre si. entre o Estado e os cidadãos. reais. as metas desejáveis de um governo e o caminho para atingi-las. a separar-se do desenvolvimento da cidadania. talvez o essencial esteja fora da eleição e o marginal centralize o debate da decisão eleitoral. Este acesso ao real poder estatal requer também uma certa forma de inter-relação com os outros Estados soberanos. então. Portanto. A agenda deveria conter os desafios . possa ser um instrumento central para sua expansão. submetidas a eleições. Essa é a função da agenda pública.no território outra organização (formal ou não) com poder igual ou superior ao próprio Estado. Em democracia.

não só por meio de eleições. é uma condição necessária das reformas democráticas de que nossa região precisa. em segundo lugar. Por outro lado.centrais para os interesses individuais. em um regime democrático as eleições estão institucionalizadas: para a grande maioria dos cidadãos é indiscutível que. de sua agenda. A relação entre regime democrático e Estado se fundamenta na existência de um sistema legal estatal que. eventualmente. 17 A inclusividade é uma conquista bastante recente dos trabalhadores urbanos. livres. seja de forma conjunta ou individual. A agenda define o campo da opção. é um de seus componentes intrínsecos. das organizações e do conjunto da sociedade. é um dos interesses centrais deste Relatório. o requisito de inclusividade das eleições em um regime democrático indica que todos os adultos que satisfazem o critério de cidadania têm direito de participar nessas eleições. o acesso às principais posições governamentais (com exceção do poder judiciário. é importante indagar acerca do caráter democrático do Estado e não só sobre o do regime. O Estado não é um elemento alheio ou extrínseco à democracia. ignoradas ou. Por eleições limpas se entende aqui as que são competitivas. Sob esse prisma. e 4) um sistema legal que prescreve que nenhuma pessoa ou instituição retenha o arbítrio de eliminar ou suspender os efeitos da lei ou de evadir-se a seu alcance. ou se há questões omitidas. Entretanto esta agenda não se constrói idealmente. Escolhe-se a política econômica? Debatem-se as reformas fiscais? Estão claras as opções para combater a pobreza e a desigualdade? E se esses temas estiverem fora da oferta eleitoral. no futuro. sanciona e respalda os direitos e liberdades decorrentes do regime democrático. vinculatório em todo o território. proibidas é a primeira condição para utilizar nossas capacidades de evitar os perigos e de desenvolver nossa democracia. igualitárias. ver Diamond (1999). as formas de abordá-lo e recuperar o que se escamoteia e ignora. associação e acesso à informação de caráter pluralista. em primeiro lugar. independentemente das relações de poder. e nas quais são respeitadas as liberdades políticas. 16 De acordo com Dahl (1989 e 1999). O que se pode eleger está dentro da agenda. como também nos períodos entre elas. Democracia. para saber se ela contém nossos problemas. o governo no poder poderia facilmente manipular ou cancelar eleições futuras. segundo o esquema conceitual que aqui propomos. Por isso. continuem sendo realizadas eleições limpas nas datas ou ocasiões legalmente preestabelecidas.17 Além disso. 2) inclusividade. Para uma lista detalhada.16 Essas liberdades são essenciais não só durante as eleições. como também nos períodos entre elas. como também por meio da tomada de decisões. A relevância ou não do conteúdo da agenda pública é determinante para nosso futuro democrático. coloca sob esse sistema legal a totalidade das instituições e dos funcionários do Estado. enquanto os dois primeiros aspectos correspondem ao regime. as liberdades políticas relevantes são as de expressão. dos camponeses. Promover um debate sobre nossa agenda. O desenvolvimento da democracia na América Latina 57 . das forças armadas e. Os indivíduos que gozam dessas liberdades estão habilitados e protegidos para o exercício de seus direitos de participação. se organiza o Estado segundo o princípio da Essas liberdades são essenciais não só durante as eleições. de participar no Estado e no governo. que. Discutir os alcances do debate público. o que deve ser debatido em uma sociedade e em uma região. e. Caso contrário. diluídas. os dois últimos correspondem ao Estado. 3) um sistema legal que sanciona e respalda os direitos e as liberdades políticas. regime político e Estado Em um regime democrático. simplesmente. das mulheres e de vários tipos de minorias e setores discriminados. dos bancos centrais) é realizado por meio de eleições limpas e institucionalizadas. Existem quatro aspectos centrais da democracia: 1) eleições limpas e institucionalizadas. decisivas e inclusivas. como se vincula a democracia com as necessidades reais de expansão da cidadania social? Essa questão. Isso significa que a todos os cidadãos é concedido o direito. Vemos então.

quadro 13

Democracia e responsabilidade dos governantes
Em uma democracia, espera-se que os governantes estejam submetidos a três tipos de prestação de contas18: a) a “vertical eleitoral”, resultado de eleições limpas e institucionalizadas, por meio das quais os cidadãos podem mudar o partido e os funcionários do governo, b) a “vertical de tipo societário”, exercida por indivíduos ou grupos com o objetivo de mobilizar o sistema legal para demandar o Estado e o governo com o objetivo de prevenir, compensar ou condenar ações (ou inações), presumivelmente ilegais, perpetradas por funcionários públicos, c) a “horizontal”, realizada quando algumas instituições do Estado, devidamente autorizadas, agem para prevenir, indenizar ou sancionar ações ou inações, presumivelmente ilegais, de outras instituições ou de funcionários estatais. Cabe, no entanto, observar, que há uma diferença importante entre essas prestações de contas. A vertical-eleitoral deve existir pela própria definição do regime democrático; sem ela esse regime simplesmente não existiria. Em compensação, o grau e a efetividade da prestação de contas societária e da horizontal são variáveis conforme os casos e o tempo. Essas variações são relevantes para avaliar o desenvolvimento da democracia; por exemplo, a inexistência de uma sociedade vigorosa e autônoma, ou a impossibilidade ou falta de determinação de certas instituições do Estado de exercer sua autoridade sobre outras instituições estatais são indicadores de uma democracia de escasso desenvolvimento. Guillermo O’Donnell, texto elaborado para o PRODDAL, 2002c.

ao longo do espaço delimitado pelo Estado. No mesmo sentido, espera-se que o sistema jurídico dê o mesmo tratamento a casos similares, independentemente de considerações de classe, gênero, etnia ou outros atributos dos respectivos atores. Em todas essas A eficácia do sistema legal depende do entrelaçamento de suas regras com uma rede de instituições que, em democracia, devem atuar com propósitos e resultados coerentes com um Estado democrático de direito.

dimensões, o sistema legal pressupõe um Estado eficaz,19 que não depende só de uma legislação apropriada mas também de uma rede de instituições estatais que operam para garantir o real império de um sistema legal democrático. Os cidadãos, fonte e justificativa da autoridade do Estado democrático Na democracia, o sistema legal, começando por suas mais altas regras constitucionais, estabelece que os cidadãos, ao votarem em eleições limpas e institucionalizadas, são a fonte da autoridade que o Estado e o governo exercem sobre eles. Os cidadãos não são somente portadores de direitos e obrigações, eles são também a fonte e a justificativa da pretensão de mando e autoridade que o Estado e o governo invocam quando tomam decisões coletivamente vinculatórias. Esta é outra característica específica da democracia: fundamenta o direito de governar na soberania popular que se manifesta em eleições limpas e institucionalizadas. Todos os outros sistemas políticos fundamentam esse direito em outras fontes. De tudo isso se depreende que um indivíduo não é, e nunca deveria, ser tratado

divisão, interdependência e controle de seus poderes, da existência de um poder judicial independente, da supremacia do poder civil sobre o militar e da responsabilidade dos governantes perante a cidadania. Um aspecto crucial do sistema legal é sua efetividade, o grau em que o Estado realmente organiza as relações sociais. Em um sistema legal democrático, nenhuma instituição estatal ou funcionário deveria negar-se ao controle legal de suas ações. Em uma dimensão territorial se supõe que o sistema legal se estende homogeneamente

18 Por esse conceito se entende o equivalente à expressão do inglês accountability. 19 O’Donnell, 2000, 2002a, 2002c. 20 De acordo com esse ponto, Dworkin afirma que “uma demanda particular de moralidade política […] requer dos governos falar com uma voz, atuar de maneira coerente e com princípios para com todos os seus cidadãos, [e] ampliar para todos os cidadãos os padrões de justiça substantiva ou de eqüidade que usa para alguns”.

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como um súdito, um suplicante da boa vontade do governo e do Estado. Este indivíduo – portador de um conjunto de direitos civis, sociais e políticos – tem pretensão legalmente sustentada de ser tratado com plena consideração e respeito.20 Esse tratamento deve estar baseado na implementação de leis e regulamentos que são preexistentes, claros e discerníveis por todos os cidadãos21 e sancionados em concordância com os procedimentos democráticos. Na medida em que as instituições estatais reconhecem esses direitos, elas podem ser consideradas mais ou menos democráticas, ou coerentes com as obrigações impostas a elas pela cidadania. Na verdade, este aspecto das relações diretas e cotidianas dos cidadãos com o Estado é um dos mais problemáticos da democracia em nossa região. Com relação a eleições limpas e, geralmente, ao exercício dos direitos políticos, os cidadãos são colocados em um nível de igualdade genérica. No entanto, ao tratar com burocracias estatais, os cidadãos estão freqüentemente colocados em situações de aguda desigualdade de fato. Costumam enfrentar burocracias que agem sobre a base de regras formais e informais – que não são transparentes nem facilmente compreensíveis – e que tomam decisões (ou as omitem) com conseqüências importantes para os cidadãos. Este é um problema em todos os lugares, porém muito mais sério e sistemático em sociedades castigadas pela pobreza e pela desigualdade. Esses males expressam e cultivam o autoritarismo social,22 e repercutem na maneira desrespeitosa com que as burocracias estatais, às vezes, tratam muitos cidadãos, sobretudo imigrantes e estrangeiros. Em-

bora seja comumente ignorada, esta é outra dimensão crucial da democracia: o grau em que as instituições estatais realmente respeitam os direitos de todos os habitantes, cidadãos ou não. O cidadão, sujeito da democracia A democracia reconhece em cada indivíduo uma pessoa moral e legal, portadora de direitos e responsável pela forma com que exercita tais direitos e suas obrigações decorrentes. Nesse sentido, concebe o indivíduo como um ser dotado da capacidade para escolher entre opções diversas, assumindo responsavelmente as conseqüências dessas escolhas, ou seja, como um ser autônomo, razoável e responsável.23 Essa concepção do ser humano não é apenas filosófica e moral, é também legal: considera o indivíduo como portador de direitos subjetivos que são sancionados e garantidos pelo sistema legal. A potencialidade inerente a essa concepção do indivíduo, cujos direitos não derivam da posição que ocupa na hierarquia social e sim de sua capacidade de comprometer-se a cumprir, voluntária e responsavelmente, as obrigações que assume livremente – com seu correlato do direito a demandar o cumprimento das obrigações contraídas – desencadeou conseqüências transcendentais para as lutas pela expansão da cidadania. Entendemos por cidadania um tipo de igualdade básica associada ao conceito de pertencimento a uma comunidade, o que em termos modernos é equivalente aos direitos e obrigações de que todos os indivíduos estão dotados por pertencer a um estado nacional.24 Destacamos vários atributos da cidadania assim definida:

Os cidadãos não são somente portadores de direitos e obrigações, eles são também a fonte e a justificativa da pretensão de mando e autoridade que o Estado e o governo invocam quando tomam decisões coletivamente vinculatórias.

21 Mesmo em situações onde esta desigualdade é a mais aguda possível (como sob encarceramento), permanece a obrigação moral de respeitar a agência. Hoje em dia, esta é também uma obrigação legal, embora seja muitas vezes ignorada. 22 Aristóteles (1968, p. 181) sabia disso: “Aqueles que gozam de muitas vantagens –força, riqueza, conexões, etc.– não estão dispostos a obedecer [o direito] e desconhecem como obedecer”. 23 Segundo o conceito desenvolvido por O’Donnell (2002c), a democracia considera o ser humano como um agente. “Um agente é um ser dotado de razão prática: usa sua capacidade cognitiva e motivacional para escolher opções que são razoáveis em termos de sua situação e de seus objetivos, para os quais, exceto prova em contrário, é considerado como o melhor juiz. Essa capacidade faz do agente um ser moral, no sentido de que normalmente se sentirá, e será considerado por outros seres relevantes, como responsável pela escolha de suas opções, ao menos pelas conseqüências diretas decorrentes de tais opções.” 24 T. H.Marshall (1965) destaca que “a cidadania moderna é, por definição, nacional”.
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a. caráter expansivo, baseado na concepção, moral e legalmente respaldada, do ser humano como responsável, razoável e autônomo; b. condição legal de status que se concede ao indivíduo como portador de direitos legalmente sancionados e respaldados; c. sentido social ou intersubjetivo que costuma ser o resultado do pertencimento a um espaço social comum; 25 d. caráter igualitário, baseado no reconhecimento universal dos direitos e deveres de todos os membros de uma sociedade democraticamente organizada; e. inclusividade, ligada ao atributo de nacionalidade que implica o pertencimento dos indivíduos aos Estados nacionais;

f. caráter dinâmico, contingente e aberto, como produto e condição das lutas históricas para enriquecer ou reduzir seu conteúdo, e aumentar ou diminuir o número dos que são reconhecidos. Podemos identificar três conjuntos de direitos de cidadania,26 cada um deles relacionado a uma área diferente da sociedade: civis, políticos e sociais.27 Muito antes da expansão universal da cidadania política, a formulação de uma visão legal e moral do indivíduo como portador de direitos subjetivos contou com uma longa trajetória de elaboração por meio de diversas doutrinas – religiosas, éticas, legais, filosóficas.28 Essa concepção do ser humano foi projetada no âmbito político pelos grandes teóricos do liberalismo29 e posteriormente transmitida às duas grandes

25 Esse aspecto da cidadania remete a uma concepção da política como espaço comum, no qual nos reconhecemos como participantes de uma comunidade política orientada para a construção e para a realização intersubjetiva de um bem público. Essa concepção foi amplamente desenvolvida pela tradição do republicanismo cívico, cujas origens remontam ao pensamento grego e romano, e que adquire uma renovada vigência nos debates contemporâneos entre liberais e comunitaristas. 26 Este enunciado não implica que ignoremos que algumas discussões atuais propõem acrescentar outras “gerações” de direitos aos que aqui enunciamos. Dadas as circunstâncias da América Latina, dentre essas discussões são importantes especialmente as relacionadas com seus povos indígenas, e nos parecem particularmente importantes as propostas de acrescentar uma área específica de direitos culturais. No entanto, para facilitar esta primeira exposição de um tema muito complexo, preferimos manter a classificação de direitos tradicional. Isso não impede que a questão dos povos indígenas seja tratada em outras partes deste Relatório, nem que em suas futuras versões revisemos a classificação aqui utilizada. 27 “Começarei propondo uma divisão da cidadania em três partes. [...] Chamarei cada uma destas três partes ou elementos, civil, político e social. O elemento civil se compõe dos direitos para a liberdade individual: liberdade da pessoa, de expressão, de pensamento e religião, direito à propriedade e a estabelecer contratos válidos, e direitos à justiça. Este último é de índole diferente dos restantes, porque se trata do direito de defender e fazer valer o conjunto dos direitos de uma pessoa em igualdade com os demais, mediante os devidos procedimentos legais. As instituições diretamente relacionadas com os direitos civis são os tribunais de justiça. Por elemento político, entendo o direito a participar no exercício do poder político como membro de um corpo investido de autoridade política ou como eleitor de seus membros. As instituições correspondentes são o Parlamento e as juntas do governo local. O elemento social abarca todo o espectro, desde o direito à segurança e a um mínimo de bem-estar econômico até o de compartilhar plenamente a herança social e viver a vida de um ser civilizado conforme os padrões predominantes na sociedade. As instituições diretamente relacionadas são, nesse caso, o sistema educativo e os serviços sociais.” Marshall, 1965, pp. 22-23. 28 “O reconhecimento institucionalizado (i.e. legalmente sancionado e respaldado, e amplamente aceito) do indivíduo como portador de direitos subjetivos percorreu um longo e complicado caminho, cuja origem remonta historicamente a alguns sofistas e aos estóicos e a Cícero, atravessa a tradição do direito romano e dos legistas medievais, para depois ser refinado pelos teóricos do direito natural, e ser finalmente reapropriado e, por assim dizer, politizado, apesar de suas diferenças em outros aspectos, pelos grandes pensadores liberais –especialmente Hobbes, Locke e Kant–, assim como pelos não-liberais como Espinoza e Rousseau”. O’Donnell, 2000. 29 Pierre Rosanvallon (1992, p. 111) comenta que antes do advento do liberalismo “esta visão de autonomia da vontade certamente já havia aparecido juridicamente formulada no direito civil”. Isso, por sua vez, era parte das mudanças na própria concepção de moralidade; como Schneewind (1998, p. 27) indica: “durante os séculos XVII e XVIII, as concepções estabelecidas de moralidade como obediência começaram a ser fortemente contestadas por concepções emergentes de moralidade como auto-governo […] centradas na idéia de que todos os indivíduos normais são igualmente capazes de viver juntos em uma moralidade auto-governada”.

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constituições modernas: a dos Estados Unidos e a da França. A cidadania excede os direitos políticos, a democracia também A democracia de cidadania, como dissemos, excede o regime político, o exercício dos direitos políticos. Ela precisa ampliar-se em direção aos direitos civis e sociais. Esse é um ponto central da nossa análise, do qual se deriva a justificativa de conceber a democracia abrangendo um campo mais amplo e complexo. Como já mencionamos, as conseqüências práticas de sustentar esta tese são consideráveis. Se os direitos inerentes ao ser humano estão baseados em sua capacidade como ser moral, por que então atribuí-los somente a certas esferas da vida social e política? Já que a autonomia responsável implica escolher, que opções reais, ou capacidades, seriam razoavelmente coerentes com a condição que a democracia confere ao indivíduo? Em outros termos, quais são as condições reais do exercício de tais direitos? Essas perguntas apontam a um dos argumentos centrais na análise que este Relatório propõe: colocar a questão das capacidades na esfera política implica ir além da atribuição universal dos direitos de cidadania política, e leva à pergunta sobre as condições que podem permitir ou não o exercício real desses direitos. Embora sob diferentes condições histó-

ricas, em todos os países, a resposta a tais perguntas resultou em numerosas lutas pela progressiva expansão dos direitos políticos, civis e sociais,30 destacando-se, entre eles, o direito de sufrágio até alcançar a sua atual inclusividade. Essa história foi construída ao longo de múltiplos conflitos, ao final dos quais, os setores sociais marginalizados foram sendo incluídos na democracia, isto é, obtiveram finalmente a cidadania política.31 Nos países centrais, esses processos provocaram inicialmente a expansão adicional de direitos na esfera civil, no duplo sentido de uma maior especificação de direitos e de incorporação de outros novos, que não eram ainda os direitos de participação próprios da democracia inclusiva, mas direitos civis concernentes às atividades sociais e econômicas privadas.32 No que se refere a esses direitos, chegou-se, de diversas maneiras, à conclusão de que seu exercício implica escolha, e escolha implica liberdade para escolher entre as diversas alternativas que cada indivíduo valoriza por alguma razão. Isso pressupõe a vigência de um critério de eqüidade: deve existir um patamar mínimo de igualdade entre os membros da sociedade que outorgue a todos um leque razoável de opções para exercer sua capacidade de escolha e sua autonomia. Por outro lado, também nos países centrais, o mencionado critério de eqüidade foi muito importante para o surgimento dos

A democracia de cidadania, como dissemos, excede o regime político, o exercício dos direitos políticos. Ela precisa ampliar-se em direção aos direitos civis e sociais.

30 O processo de progressiva expansão de direitos, que nos países centrais incluiu a extensão da cidadania civil prévia à expansão da cidadania política, foi o pano de fundo histórico da idéia central do liberalismo político: o governo e o Estado devem ser limitados e constitucionalmente regulados, pois ambos existem para, e em nome de, indivíduos portadores de direitos subjetivos sancionados e respaldados pelo mesmo sistema legal que o Estado e o governo devem obedecer e do qual extraem sua autoridade. 31 Cidadãos políticos são aqueles que, dentro do território de um Estado que inclui um regime democrático, cumprem o critério respectivo de nacionalidade. Como derivação do regime democrático, os cidadãos políticos possuem dois tipos de direitos. Primeiro, liberdades tais como as de associação, expressão, movimento, acesso a informação pluralista e outras que, embora em última instância sejam não definíveis ex ante, em conjunto tornam possível a realização de eleições limpas, institucionalizadas e – hoje em dia – inclusivas. O segundo tipo de direito é de caráter participativo: eleger e eventualmente ser eleito ou nomeado para cargos estatais. Os cidadãos políticos, assim entendidos, são o lado individual de um regime democrático, e nenhum deles pode existir sem o outro. 32 Como ressalta T. H. Marshall (1965, p. 18): “A história dos direitos civis em seu período formativo é uma história de adição gradual de novos direitos a um status que já existia e que já pertencia a todos os membros adultos da comunidade”. Estes direitos civis são, em sua definição clássica de cidadania civil, “os direitos necessários para a liberdade individual-liberdade pessoal, liberdade de palavra, pensamento e fé, o direito a possuir propriedade e a terminar contratos válidos, e o direito à justiça” (ibid., pp. 10-11).
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direitos sociais.33 Novamente, ao longo de lutas freqüentemente árduas, diversos setores que haviam sido politicamente excluídos terminaram aceitando a democracia política em troca dos benefícios do bem-estar. Por meio da legislação social, e com avanços e retrocessos em termos das respectivas relações de poder, estas visões de eqüidade foram incorporadas aos sistemas legais. Os direitos sociais, sancionados pela legislação correspondente, uniram-se ao direito civil para expressar que a sociedade, e especialmente o Estado, não devem ser indiferentes, pelo menos nos casos em que existe severa privação de capacidades relevantes. Em resumo, nos países centrais, a questão das capacidades que habilitam a exercer a liberdade dos indivíduos foi encarada no âmbito dos direitos civis e sociais. A idéia que subjaz a essas construções legais é a da eqüidade, que, em termos de capacidades disponíveis e de ausência de coerção peremptória, considera os indivíduos como seres livres e responsavelmente capazes de escolher. Essa visão ficou inscrita na consciência moral da humanidade pela Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão.34 É importante destacar que a maioria desses direitos não foi simplesmente outorgada, que eles foram conquistados por meio de múltiplas lutas, conduzidas por setores sociais oprimidos, explorados e discriminados. Por esses caminhos complexos – tão simplificadamente resumidos – foram surgindo, nos países centrais, as instituições e práticas que hoje reconhecemos como democráticas. Poucos países da América Latina (Chile, Costa Rica e Uruguai) seguiram caminhos mais ou menos semelhantes. Nos

outros, apesar de cada um com suas significativas particularidades, encontramos uma situação muito diferente à descrita: alcançamos a enorme conquista dos direitos políticos, mas ainda falta muito para conseguir, para todos, uma expansão satisfatória dos direitos civis e sociais. Essa circunstância realça ainda mais a enorme importância da democracia e de seus direitos políticos para a América Latina. Eles são, têm que ser, o principal ponto de apoio das lutas para alcançar os outros direitos, ainda tão limitados e conferidos de maneira parcial na prática. Veremos ecos dessas afirmações nas seções empíricas deste Relatório. Estado e cidadania O Estado é um fenômeno histórico contemporâneo, para o qual convergem as lutas pelo poder e as lutas pelos direitos. Seu aparecimento foi marcado pela expropriação, por parte dos governantes, de um centro de poder emergente, dos meios de coerção, de administração e de legalidade que haviam sido até então controlados por outros atores. O surgimento do Estado foi contemporâneo da expansão do capitalismo, que incluiu outra expropriação, a dos produtores diretos dos meios de produção. Esse surgimento foi também contemporâneo da construção política da Nação como referência privilegiada das decisões estatais. Todos os Estados sustentam que sua autoridade emana de ser Estados-para-a-Nação (ou, em alguns casos, para-o-povo), cuja missão é atingir o bem comum – ou o interesse geral – de uma Nação interpretada homogeneamente, à qual tanto governantes quanto governados devem supostamente dar prioridade em suas lealdades.

33 Uma vez mais, de acordo com Marshall (1965, p. 72), os direitos sociais incluem “desde o direito ao bem-estar e à segurança econômica básica até o direito a participar plenamente do patrimônio social e viver a vida de um ser civilizado de acordo com o padrão predominante na sociedade”. Para uma discussão útil e detalhada de Marshall com respeito a esses direitos, ver José Nun, 2001. 34 Podemos agregar: o Prólogo e a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, e mais tarde, a Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas, o Acordo Internacional sobre Direitos Civis e Políticos; o Acordo Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais; a Declaração de Direitos Humanos de Viena, e muitos outros tratados e protocolos internacionais e regionais, todos eles ratificados por um grande número de países.

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o principal ponto de apoio das lutas para alcançar os outros direitos. o Estado é: a. como também. entendemos um conjunto de instituições e relações sociais que cobre o território que ele delimita e sobre o qual exerce normalmente a supremacia no controle dos meios de coerção. convida ao reconhecimento generalizado de um “nós”. sua pretensão de ser verdadeiramente um Estadopara-a-Nação pode ser pouco verossímil para boa parte de sua população. de várias maneiras. Por outro. No que diz respeito ao Estado como foco de identidade coletiva. uma trama de regras jurídicas que aspira a regular numerosas relações sociais. 35 Mesmo sob um regime democrático. Por um lado. No que se refere ao Estado como conjunto de burocracias. b) um sistema legal. mas também o pressuposto jurídico do Estado democrático. os membros da Nação. pode per se ter carências e/ou não se ampliar efetivamente a diversas relações sociais e também a vastas regiões. por outro lado. no sentido de que são necessárias certas liberdades para o correto exercício do poder democrático. 15-16. o Estado também pretende garantir a continuidade histórica da unidade territorial respectiva. problemática (O’Donnell. é pouco provável que um Estado não democrático seja capaz de garantir as liberdades fundamentais. O grau de realização dessas dimensões em cada caso é uma variável historicamente contingente e. as burocracias do Estado e sua legalidade pretendem gerar. outra. na correção ou reprodução dessas desigualdades. Isto nos leva a considerar o papel crucial que o Estado tem. 2) na linha oposta. a resultante da organização hierárquica. Esta forma sanciona e respalda uma ordem social que inclui. a que vai da democracia ao liberalismo. quadro 14 Estado liberal e Estado democrático O Estado liberal não é apenas o pressuposto histórico. Esses aspectos do Estado são tendências que nenhum deles chegou a atingir completamente. Em outras palavras: é improvável que um Estado não liberal possa garantir um correto funcionamento da democracia e. essa mesma legalidade sanciona dois tipos de desigualdades: uma.35 c. a dominação social de quem controla os meios de produção. legalmente regulada. essa legalidade sanciona os direitos universais da cidadania política e civil. Dessa forma. Um sistema legal. e com crescente importância no mundo contemporâneo. seu desempenho pode se desviar seriamente do cumprimento das responsabilidades que lhe foram formalmente A enorme importância da democracia e de seus direitos políticos para a América Latina: eles são. o grande bem público da ordem e da previsibilidade das relações sociais em que os habitantes estão imersos. Um âmbito em que se concentra e se concede a identidade coletiva para todos ou quase todos os habitantes do território. e c) um conjunto de burocracias. 2002b). Quanto ao sistema legal. pp. caem juntos. cujo funcionamento supostamente alcança eficácia no desempenho das funções que lhes são formalmente outorgadas. A prova histórica dessa interdependência está no fato de que quando o Estado liberal e o Estado democrático caem.Por Estado. É também um conjunto de entes burocráticos. o controle dos circuitos do capital financeiro. Juntas. O desenvolvimento da democracia na América Latina 63 . bem como do respaldo ou da autorização que o sistema legal outorga a outras instituições privadas que também estão hierarquicamente organizadas. usualmente concebida como uma Nação. ao mesmo tempo que promulga algumas igualdades democráticas fundamentais. Norberto Bobbio. Portanto. em suas várias dimensões. que aspira a um alto grau de efetividade na regulação de relações sociais. uma trama institucional e administrativa com responsabilidades que formalmente visam a alcançar e a proteger algum aspecto do bem comum. a desigualdade resultante do fato de que esta mesma legalidade dá forma à condição capitalista da sociedade. b. no sentido de que é indispensável o poder democrático para garantir a existência e a persistência das liberdades fundamentais. Estado liberal e Estado democrático são interdependentes em duas formas: 1. a legalidade do Estado é uma mistura complexa de igualdade e desigualdade. na linha que vai do liberalismo à democracia. na verdade. têm que ser. das instituições burocráticas do Estado. 1992. Esta definição permite entender o Estado como: a) um foco de identidade coletiva para os habitantes de um território – aí reside sua credibilidade. para os habitantes de seu território.

sustentam a vigência de algumas liberdades políticas fundamentais. Desde o início.. Sejam quais forem as conquistas e carências nestas três dimensões. criando um sistema de centros de poder múltiplos e esferas de autoridade superpostas – uma ordem pósWestfalia. 64 A democracia na América Latina . Eles têm em comum duas características: por um lado. Guillermo O’Donnell. 2002c. e a cidadania implícita. 1999. institucionalizadas e inclusivas. a democracia política contemporânea implica uma cidadania de dupla face: a cidadania (potencialmente) ativa e participativa própria da democracia. e afirmam a supremacia dos poderes constitucionais sobre os poderes fáticos. […] A instituição do Estado-nação é tacitamente pressuposta pelos ideais liberais da cidadania”. 7. baseada em um território. pela primeira vez em dois séculos de vida independente. David Held. sustentada em última instância por sua capacidade de coerção. 2002a e Canovan. Foi devido a esta interseção que a “democracia nasceu com um sentido de nacionalidade. 441.quadro 15 O Estado: pressuposto da democracia O Estado – como instituição na qual se reconhece a identidade coletiva. assim como também existem variações significativas quanto ao outorgadas. praticamente todos os países latino-americanos satisfazem a definição mínima de democracia. especialmente de opinião. Contudo. p. altamente burocratizada e densamente legalizada – é a premissa histórica e social da democracia. 36 Greenfeld. movimento e acesso a meios de comunicação razoavelmente livres e plurais. não voluntária. 37 Maíz. por outro. é preciso reconhecer que os novos padrões de mudança regional e global estão transformando o contexto da ação política.. John Gray (2000. 1992. realizam eleições razoavelmente limpas. nos interessa ressaltar que a democracia política surgiu e continuou existindo com e no marco do Estado nacional. expressão. na verdade está transformando as condições sob as quais o poder do Estado é exercido. 123) concorda: “O Estado nacional soberano é a grande premissa não examinada do pensamento liberal. As duas estão fundamentalmente inter-relacionadas e nenhuma delas pode ser verdadeiramente entendida quadro 16 Estado e globalização A globalização econômica de nenhuma maneira se traduz necessariamente na diminuição do poder do Estado. e sancionam os direitos participativos correspondentes a tais eleições. p. associação. p. texto elaborado para o PRODDAL. 1996. independentemente dessa conexão.[.”36 Isso ressalta a importância que o Estado e a Nação tiveram e continuam tendo para a existência e o funcionamento da democracia. há variações quanto ao grau em que os atributos mencionados são realmente cumpridos.] No entanto. […] Há muitas e boas razões para ter dúvidas sobre as bases empíricas e teóricas de algumas afirmações de que o Estado-nação está sendo eclipsado pelos padrões contemporâneos da globalização. que resulta do fato de pertencer a uma nação.37 “Estatalidad” truncada e fragilidade democrática Como já vimos.

38 Todos nós temos os direitos políticos e as liberdades que correspondem ao regime democrático. A esses setores também são negados de fato direitos civis não menos básicos. bem como de desigualdade e de insegurança. a avaliação social sobre o rendimento institucional e o grau de desenvolvimento de nossas democracias é sumamente crítica. Em geral.grau em que o Estado e seu sistema legal cobrem a totalidade do território desses países. mas também legalmente pobres. Não conseguem acesso igualitário e respeitoso às burocracias do Estado. mas também de recorrente humilhação e medo da violência. em vários casos. são forçados a viver uma vida não só de pobreza. Para o caso do Brasil. O desenvolvimento da democracia na América Latina 65 . transformou-se em um problema ainda mais sério e. 1993). contudo. ele costuma ser aplicado com características discriminatórias contra várias minorias e também maiorias. a corrupção e o clientelismo amplamente difundidos em não poucos países. Não gozam de proteção contra a violência policial e contra várias formas de violência privada. ver. 38 Ver O’Donnell (1993) onde se traça um mapa metafórico de “zonas azuis. das quais a marrom se refere a zonas em que a legalidade do Estado é apenas satisfatória. Este tipo de Estado de baixa capacidade é um velho problema da América Latina. com poucas e parciais exceções. o Estado debilitou-se enormemente e. Dellasoppa et al. de sua ostensiva colonização por parte de interesses privados que. Com déficits tão importantes na eficácia de suas instituições. Esse sistema legal truncado gera o que se denominou de uma cidadania de baixa intensidade. onde outros tipos de legalidade. na efetividade de seu sistema legal e. Esse déficit torna-se ainda mais agudo se parte desses Nas duas últimas décadas. verdes e marrons”. basicamente variações da legalidade mafiosa. embora não possa resolver rapidamente muitas das injustiças e desigualdades existentes. são alguns dos fatores que convergiram para gerar um Estado anêmico. virtualmente evaporou-se. Crises econômicas. CELS 2001. com freqüência. tais como as mulheres. são os que operam na prática. entre outros. nos últimos anos. um estudo que analisa vários conjuntos de dados sobre crime violento encontrou em todos eles uma correlação positiva. Mas. dificilmente podese argumentar que sejam coerentes com algum tipo de interesse geral. Seus domicílios são invadidos arbitrariamente. a opinião pública indica que as instituições e os governantes não estão tendo um bom desempenho. o fervoroso antiestatismo de muitos programas de reformas econômicas. (1999) que documentam que a incidência de mortes violentas nas regiões mais pobres da cidade de São Paulo é dezesseis vezes maior que nas regiões mais ricas. da violência com a pobreza e a desigualdade de renda (Hsieh e Pugh.39 Esses setores não são apenas materialmente pobres. não menos importante. De fato. muitos de nossos países têm um regime democrático que coexiste com uma legalidade intermitente e parcial. isso ocorreu sob um regime democrático. certas etnias e os pobres. e. virtualmente evaporou-se. O déficit de credibilidade do Estado é resultado da ineficácia operacional de suas instituições e. A legalidade do Estado não alcança vastas regiões de nossos países (e parte de suas cidades). tem grande dificuldade em projetar um futuro que. muitos não possuem os direitos sociais básicos. 39 Os relatórios de vários organismos de direitos humanos repetida e abundantemente documentam a ameaça permanente de violência a que as pessoas estão submetidas. em sua credibilidade como Estado-para-aNação. em algumas zonas dentro de nossos países. o Estado latino-americano atual. Neste contexto. ao mesmo tempo em que abriga regimes democráticos. em geral. os governos eleitos democraticamente às vezes parecem incapazes ou não dispostos a encarar questões básicas de desenvolvimento. Esta anemia também se manifesta no sistema legal. apareça para a maioria da população como realizável e valioso. em geral. Acreditamos que a esta imagem subjaz outro fato ao qual não foi dada a devida atenção nas recentes discussões: nas duas últimas décadas o Estado debilitou-se enormemente e. em algumas zonas dentro de nossos países. forte e persistente. Até mesmo em regiões onde o sistema legal tem atuação. No entanto. inclusive aos tribunais. para dados sobre a Argentina. ver. às vezes. entre outros. Uma razão para isso é que.

por meio de suas políticas e. Além disso. uma condição necessária para um Estado capaz de construir democracia e eqüidade social é que alcance níveis razoáveis de eficácia. não muito. Deve ser um Estado forte. No entanto. adaptando-se suas-nações. a esta altura. os tão fortes. Nesse sentido. não apenas os regimes nacionais. requerem especial consideração. efetividade e credibilidade. Especificidade histórica das democracias latino-americanas Os problemas que discutimos até agora são comuns a muitas das novas e não tão novas democracias no mundo contemporâneo. Na América Latina. eminentemente política. que supostamente possui. em certas ocasiões. No entanto. nesses países. Isso não é da globalização verdade e. No entanto. é crucial considerá-las cuidadosamente. a visão neutra é uma maneira de argumentar a favor de um tipo de Estado que. é até interesseiro. o Estado é um espaço de condensação complexa e de mediação de forças sociais. a esta afirmação. É por todas essas razões que acreditamos ser tão importante inscrever a discussão sobre o Estado (incluindo por quê. os Estados Unidos são uma exceção parcial. Essas teorias deixam implícito que. os direitos civis eram razoavelmente satisfatórios e atingiam praticamente a toda a sociedade antes da adoção da inclusividade e da universalização dos direitos políticos. certamente. Mas não podemos nos deter neste aspecto no presente Relatório. “Ninguém […] pode gozar completamente de nenhum direito. Em suas três dimensões. em absoluto. a América Latina apresenta um padrão bastante único. se não conta com os elementos essenciais para uma vida razoavelmente 40 Na realidade.interesses não for. Por isso. a observação dos Estados de países centrais que contam com arraigadas instituições e práticas democráticas mostra quão ativamente eles procuram processar.40 Deveria ser óbvio. quando essas dimensões da cidadania são intermitentes ou estão distribuídas irregularmente pelos diversos setores sociais ou até pelo próprio território do Estado. Alguns tentaram explicar o enfraquecimento dos Estados na América Latina como uma conseqüência inevitável da globalização. 66 A democracia na América Latina . uma conceitualização da democracia restrita ao regime pode ser aceitável desde que pressuponha que as cidadanias civil e social não são problemáticas. Em grande parte. é preciso ressaltar que não existe Estado neutro. Esse mais do que nunca Estado não deve ser grande ou pesado. O que a teoria democrática tem a dizer em relação a isso? Infelizmente. esse objetivo está travado por fatores que. como também os subnacionais são democráticos. que essas suposições não se ajustam à trajetória histórica e à situação atual da América Latina. pressupõem que a legalidade do Estado se estende homogeneamente a todo o território e que. eles são parte de interesses extraterritoriais – públicos e privados – e das tendências relativamente anônimas da globalização econômica. se o objetivo for entender o funcionamento das respectivas democracias e dos principais desafios para seu desenvolvimento. do desenvolvimento da democracia. capaz de processar os de Estados-paraimpactos da globalização. assimilar e reorientar muitos aspectos e conseqüências da globalização. Como os ventos da globalização são são tão fortes. Em termos das trajetórias históricas da democracia. diante da qual só seria possível e Como os ventos desejável uma adaptação passiva. para quê e com quem reformá-lo) na perspectiva estratégica. embora importante. de suas omissões. é um ativo reprodutor de desigualdade e uma grande barreira à expansão de direitos civis e sociais. seletivamente aos mais irresistíveis e assimilando e reorientando outros. de caráter nacional. isso se deve a que a maioria das teorias sobre a democracia foi formulada no marco da experiência histórica dos países europeus e dos Estados Unidos. conseqüentemente. Na verdade. os países precisam mais do que países precisam nunca de Estados-para-suas-nações. na verdade. embora já mencionados na discussão precedente.

associação.saudável e ativa. “seria inconsistente reconhecer direitos referentes à vida ou à integridade física quando os meios necessários para o exercício e gozo desses direitos são omitidos”. adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 2000.”41 Como conseqüência.46 Embora as constituições da América Latina consagrem os direitos à educação. Essa visão das condições mínimas que facultam a capacidade para escolher entre diversas opções. 1996. Atingir os Objetivos do Milênio na região Latino-americana significa levar adiante uma série de políticas públicas muito precisas. também se tornou explícita no pensamento sobre o desenvolvimento humano. 43 Ver Shue. investir na saúde e na educação.42 Essas afirmações se referem às capacidades que facilitam ou dificultam o exercício dos direitos inerentes à condição de cidadãos. tem direito a ser respeitado em sua dignidade. 44 Nos países europeus e nos Estados Unidos.43 Nesse ponto é necessário voltar a um aspecto dessas discussões. e também tem direito à provisão social das condições necessárias para exercer livremente todos os aspectos e as atividades de sua sociabilidade. além do âmbito do regime. outras dimensões como a satisfação das necessidades básicas – alimentação e moradia. e que os direitos de cidadania na esfera política. suprimir seus direitos políticos. que essas liberdades (de expressão. tais como: investir na infra-estrutura básica.45 Um indivíduo. tanto reais quanto formais. 102. p. 1996. 2000b. seguridade social e meioambiente – recebem tratamentos desiguais. Onde. 46 PNUD. é clara já nas origens da tradição dos direitos humanos e. fomentar a indústria. pelo fato de ser um cidadão. segmentos de direitos civis mais amplos – e antigos. o bem-estar e a dignidade de todas as pessoas em todos os lugares. na realidade. 332). 2001. e em segundo lugar.” 41 Shue. Como afirma Amartya Sen no Relatório do Desenvolvimento Humano de 2000: “Os direitos humanos e o desenvolvimento humano compartilham uma visão comum e um propósito comum: assegurar a liberdade. Precisamente. mais recentemente. O desenvolvimento da democracia na América Latina 67 . esses direitos foram realizados como direitos civis muito antes de serem “promovidos” à condição de direitos políticos. 7 (itálico no original). assumindo responsavelmente as conseqüências de tais escolhas. 261) afirma que: “Portanto. de tal maneira que nem os direitos humanos nem a soberania popular podem exigir primazia sobre sua contraparte”. p. também não haveria meio algum para a institucionalização legal das condições sob as quais esses cidadãos fizessem uso de sua autonomia pública”.“sem direitos básicos que garantam a autonomia privada dos cidadãos. p. p. movimento e similares) são. 45 Como escreve Habermas (1999. esta priorização acompanha os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio que emanam da Declaração do Milênio. a autonomia pública e privada pressupõem-se mutuamente. nos diferentes países. e baseado em que critério. ou ainda. dar continuidade a “Os direitos humanos e o desenvolvimento humano compartilham uma visão comum e um propósito comum: assegurar a liberdade. Esse autor (1998. 1. poderíamos traçar uma linha firme e clara acima da qual a cidadania poderia ser razoavelmente exercida em termos de direitos e capacidades? Que direitos e capacidades seriam imprescindíveis para gozar plenamente da cidadania? Essas questões deram lugar a longos debates. p. 2000c. promover a pequena e média empresa. que é impossível definir teoricamente de modo geral e universal o conjunto mínimo e suficiente desses direitos. sustentamos duas afirmações: primeiramente. 42 Vázquez. dificilmente podem ser realizados se os indivíduos não possuem direitos sociais e civis “básicos”. o bem-estar e a dignidade de todas as pessoas em todos os lugares”. Sobre esse tema. o que se refere às liberdades políticas. Submeter esse indivíduo à violência física ou a privação de necessidades materiais básicas. à saúde e ao trabalho.44 Já argumentamos que esses direitos correspondem a todos os seres humanos. Nussbaum. são atos que negam severamente sua condição de cidadão. sujeito-ator da democracia. Esses direitos também são exercidos em espaços sociais muito distintos. aumentar a produtividade agrícola.

ATINGIR O ENSINO BÁSICO UNIVERSAL ■ Assegurar que. ■ Reduzir à metade. 4. A MALÁRIA E OUTRAS DOENÇAS ■ Deter e começar a reduzir. manter a democracia dentro do estado de direito e aprofundá-la. mas incluam também a área social. ■ Atender às necessidades especiais dos a taxa de mortalidade de crianças menores de 5 anos. previsível e não-discriminatório. PROMOVER A IGUALDADE DE GÊNEROS E A AUTONOMIA DAS MULHERES ■ Eliminar as disparidades de gênero na edu- 8. até 2015. proporcionar acesso aos medicamentos essenciais nos países em desenvolvimento. as meninas e os de pessoas sem acesso sustentável à água potável. 3. e como integrante da sociedade. ■ Ter atingido. o que significa a necessidade de chegar a consensos políticos. baseado em normas. significativa melhoria nas condições de vida de pelo menos 100 milhões de moradores dos bairros mais precários. até 2015 . subjaz a nossa concepção de democracia. a pro- relativos a dívidas de países em desenvolvimento. atuando em sua comunidade e nas associações voluntárias que formam a rica trama da sociedade civil. os quadro 17 Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs) 1. como ator político que se expressa por meio de representantes e – nas circunstâncias previstas – diretamente. GARANTIR A SUSTENTABILIDADE DO MEIO AMBIENTE ■ Integrar os princípios de desenvolvimen- tica. em que os direitos e as obrigações não se limitem apenas ao campo político e civil. Essa é a mesma visão que. entre 1990 a 2015. 2. to sustentável nos programas e políticas empenhar-se para que possam ser aproveitados os benefícios de novas tecnologias. MELHORAR A SAÚDE MATERNA ■ Reduzir em três quartos a taxa de mortali- países menos desenvolvidos e dos países sem acesso ao mar ou dos pequenos Estados insulares em desenvolvimento. até 2015. 7. Essas políticas requerem um Estado com capacidade de ação. até 2020. elaborar e aplicar estratégias que proporcionem aos jovens trabalho digno e produtivo. 68 A democracia na América Latina . ■ Em cooperação com o setor privado. tendo como meta chegar a uma sociedade em que a cidadania seja integral. 6. entre 1990 e 2015. preferencialmente até 2005. ERRADICAR A EXTREMA POBREZA E FOME ■ Reduzir à metade. Essas políticas pressu- põem a ação do cidadão como indivíduo. e em todos os níveis de educação antes do fim de 2015. como vimos. Todos estes direitos – os direitos civis e sua conexão com os direitos humanos. 5. COMBATER O HIV/AIDS. REDUZIR A MORTALIDADE INFANTIL ■ Reduzir em dois terços. ESTABELECER UMA PARCERIA MUNDIAL PARA O DESENVOLVIMENTO ■ Desenvolver ainda mais um sistema comer- cação primária e secundária. meninos de todo o mundo possam completar um ciclo completo de educação primária. entre 1990 e 2015. a nacionais e reverter a perda de recursos ambientais. assim como a proporção de pessoas que passam fome. a incidência de malária e outras doenças graves. a proporção proporção de pessoas com renda inferior a 1 dólar por dia. ■ Encarar por um prisma geral os problemas dade materna. e especialmente as da informação e das comunicações. ■ Em cooperação com a indústria farmacêu- pagação do HIV/AIDS. cial e financeiro aberto.uma política pública de sustentabilidade ambiental.

pp. Esse autor. [e também. “empurra” em direção ao êxito dos outros ou. até países centrais conviveram por longo tempo com enormes desigualdades. Essas razões fazem referência a um aspecto primário da eqüidade: não igualdade plena. se necessário.] valor instrumental ao melhorar a possibilidade de as pessoas serem escutadas […] em suas reivindicações de atenção política [incluindo demandas sobre necessidades econômicas]”. requer discussão 47 Dasgupta (1993. ou conjunto básico de direitos e capacidades. as mulheres e outros eram. por alguma razão. Seja qualquer for a resposta a essa questão. pode-se dizer. quando todos os cidadãos. Reconhecemos que nesse plano existem complexas e árduas disputas. obter. pelo menos. Como veremos adiante. ao menos. 542-543. que não cumprem com esta suposição. discute-se sobre os princípios de liberdade e/ou de eqüidade que deveriam regular a atribuição dos bens sociais. iguais. nota de rodapé) comenta corretamente: “A maior parte da teoria ética contemporânea assume no começo da indagação que essas necessidades [básicas] foram realizadas”. A questão pendente é o que pode ser dito de países.direitos sociais e sua conexão com o desenvolvimento humano. a mesma suposição está claramente contida no trabalho de Habermas. 152. e os direitos políticos e sua conexão com a democracia – facilitam e promovem o exercício da cidadania. em algum sentido essencial. inclusive os que incluem um regime democrático. Isso ocorre assim. um patamar básico de direitos e capacidades que eliminem. Isso suscita a pergunta sobre se existem boas razões para afirmar um direito universal para chegar a um nível. 45. intrinsecamente “inferiores”. Apesar do grande número de horrores e desigualdades ainda existentes. O desenvolvimento da democracia na América Latina 69 . 48 Sen. pois “mesmo a idéia de ‘necessidades’. 1971. somos. para demandar capacidades e direitos básicos que facilitem a todos os cidadãos o exercício de sua cidadania. Esta suposição é explícita nos trabalhos de filosofia política que. duas coisas: ser tratado com eqüidade e consideração. mas igualdade básica. ver Rawls. a crescente aceitação de que todos nós. Por exemplo.47 Na América Latina. p. cria oportunidades favoráveis para sua conquista. as privações que impedem o exercício das opções responsáveis e das liberdades que elas implicam. os indivíduos como seres autônomos. Sustentamos que essas razões existem e que o fundamento delas é ver os cidadãos e. precisamente. sustenta48 que a democracia tem valor construtivo. 10 (itálico no original). além disso. Com respeito a isso. Essas são questões extremamente importantes que excedem o âmbito do presente Relatório. para uma reafirmação explícita dessa suposição. em geral. é uma grande conquista da humanidade. 1999a. e também direitos acionáveis. nos parece inevitável a pergunta sobre se existe ou não obrigação moral. que eram justificadas com o argumento de que os trabalhadores. foram os que tiveram mais influência nas últimas décadas. parece inegável que a democracia possibilita o melhor contexto possível para a sua discussão. Nos países centrais. sua teoria da justiça é considerada aplicável em países onde “apenas as necessidades materiais menos urgentes ainda não foram satisfeitas”. os seres humanos. ou uma grande maioria. Contudo. a questão principal refere-se aos cidadãos que não gozam desses direitos e capacidades básicas. apesar de menos explícita. porque cada um. De quanta cidadania uma democracia precisa As afirmações do item anterior não se detêm em várias discussões filosóficas e éticas que estão centradas na questão do equilíbrio entre liberdade e igualdade. ou alguma combinação deles. o critério relevante para a atribuição de direitos civis. incluindo o entendimento de ‘necessidades econômicas’. Por sua vez. Por igualamento básico entendemos o direito de cada um a. razoáveis e responsáveis. 2001). p. devido a sua condição de ser humano. pelo menos no mundo anglo-saxão (Rawls. por meio do Estado ou da previdência social. alcançaram um nível básico de direitos e capacidades. sociais e políticos mudou ao longo do tempo. ao menos. Sen argumenta que “a participação [democrática] política e social tem valor intrínseco para a vida humana e o bem-estar.

interesses e espaços sociais que ela sustenta. visões e análises […]. Corresponde à democracia. nos países onde mais se precisa discutir amplamente sobre necessidades e demandas e sua possível conversão em direitos acionáveis. incluindo a liberdade de expressão e discussão. p. Este é um fato da vida social. a prioridade relativa de uns sobre outros e outras questões desse tipo. de teorias mais ou menos implícitas sobre o funcionamento de uma determinada sociedade e. 70 A democracia na América Latina . e quais não são inscritos no sistema legal ou permanecem como letra morta. p. seu alcance. restrições e incertezas? Simplesmente. São questões políticas. quais seriam as seqüências e trajetórias adequadas para alcançar esse mínimo?52 As necessidades e respectivas privações não são apenas o sofrimento de indivíduos isolados. O autor (1998b. não são fundamentais apenas para induzir respostas sociais a necessidades econômicas. Uma discussão detalhada dessa questão depende de uma avaliação país por país.49 Portanto. […] Em uma democracia. pública e intercâmbio de informação. a tensão entre fatos e valores alcança o ponto mais alto. são questões sociais. uma conseqüência da liberdade e da diversidade de projetos de vida. 2000a. 1998b. mais democracia. é uma construção social decorrente da política. p. 4. A questão crucial é quem decide. determinar quais são as reivindicações e as necessidades que devem ser transformadas em direitos. tem um Estado anêmico e um sistema legal truncado.50 quadro 18 A democracia: uma tensão entre fatos e valores O que a democracia é não pode ser separado do que a democracia deveria ser. e interesses sociais e posições. objeto de disputas. que direitos são sancionados e implementados.51 em termos de um conjunto básico de direitos civis e sociais para todos os habitantes? Desse modo. p. pelo menos da política em suas melhores expressões. 1996. que é uma tarefa que excede as possibilidades do presente Relatório. mesmo dentro da América Latina há variações importantes nessa questão. 1990. É preciso 49 Ibid. ressaltar o que foi dito anteriormente porque. no qual ocorrem incessantemente as lutas pela definição e redefinição de direitos e obrigações. Qual é a resposta para esses problemas. 55) conclui que “os direitos [são] produtos históricos. pontos de vista. 50 Ver Tille. é onde há mais dificuldade de incorporar essas questões à agenda pública. o conteúdo dos direitos. 51 Nussbaum. imbuídas de diferentes valores e ideologias. É importante para nós. são também centrais para a conceituação das necessidades econômicas em si mesmas”. resultados das lutas”. cada vez mais também sobre o funcionamento do sistema global. paradoxalmente. seu grau de especificidade. Existem demasiadas preferências contrapostas. e com que intensidade e alcance. são. Os direitos políticos. 125. Giovanni Sartori. em que medida devem ser implementadas e qual é o equilíbrio que se estabelece com os outros direitos e obrigações. hoje em dia. e sempre serão. 11. 52 Como Tavares de Almeida (2002) argumenta. no qual ocorrem incessantemente as lutas pela definição e redefinição de direitos e obrigações. que devem ser tratadas em termos do reconhecimento de responsabilidades estatais e coletivas. como e sobre que base. e especificamente à política democrática. O que seria “um mínimo social decente”. 1967. se um país é pobre. Mesmo quando estiverem embasados em características universais do ser humano. que deveriam ser consideradas ao traçar possíveis seqüências e trajetórias. teorias sobre o que é justo ou eqüitativo.. celebrar e promover as disputas e os acordos que tal pluralidade de vozes e interesses admite.É por isso que a democracia é e admite ser um horizonte aberto. para que qualquer uma dessas questões possa ser clara e completamente resolvida. É por isso também que a democracia é e admite ser um horizonte aberto.

incluindo o entendimento de necessidades econômicas.promover a abordagem desses temas na agenda pública porque é aí que são definidas as necessidades “reais” que um país enfrenta. Prosseguindo nessa busca. Touraine (1994) destaca que os trabalhadores europeus obtiveram seus direitos sociais lutando por princípios gerais. Por outro lado. Sob este ângulo. encontramos as características e raízes comuns dos direitos políticos. 1999a. a democracia pode ser concebida como um conjunto de princípios gerais de organização da sociedade. Na experiência histórica da humanidade. No que diz respeito à América Latina. do desenvolvimento da cidadania e do poder. também. Nesse regime encontramos o cidadão legalmente respaldado e reconhecido como sujeito na democracia política. ignora ou reprime.. não são somente fundamentais para induzir respostas sociais a necessidades econômicas. respaldado por um sistema legal consoante com o mesmo. O desenvolvimento da democracia na América Latina 71 . mostramos as potencialidades políticas e normativas da democracia. Explicitamos até aqui o fio condutor que guia este Relatório. Nessa análise. os avanços nos direitos civis e sociais dos setores populares tornaram muito difícil resistir aos pedidos de cidadania política. A força que impulsiona essas relações é finalmente moral: o reconhecimento de que uma pessoa não deve ser privada de nenhum dos direitos e capacidades que normalmente a habilitam a atuar de modo livre e responsável. incluindo a liberdade de expressão e discussão. 54 Como argumenta Sen em sua op. a noção de cidadania nos indicou que o caráter democrático é também um atributo do Estado. como a liberdade e a justiça. por sua vez. a uma busca empírica. […] Os direitos políticos. De modo que indagar como os quadro 19 A informação: uma necessidade básica A idéia de necessidades. civis e sociais. a noção de desenvolvimento da democracia baseia-se em um pressuposto fundamental: a existência de um regime democrático. como alavanca para a indispensável extensão de direitos civis e sociais. a observação de dados seria desarticulada e provavelmente não nos guiaria em nossa busca. Por outro lado. mesmo dentro do marco das restrições existentes na atualidade. O próximo passo consiste na observação empírica do regime democrático. Afirmamos também que a existência de um contexto diverso e plural. cidadania e Estado. visões e análises. porém. sociais e políticos. especialmente como sustento das liberdades que são a cara social dos direitos individuais de cidadania. a princi- 53 Por exemplo. sua extensão deu às mulheres e a algumas minorias um trampolim importante para adquirir outros direitos civis e sociais. Ela é. Na maioria desses aspectos observamos que as democracias da América Latina contemporânea apresentam deficiências. deveríamos usá-los não apenas no que se refere ao regime. agora que contamos com uma notável extensão dos direitos políticos. 1999a. Essa tese foi baseada na afirmação de que a democracia significa não apenas cidadania política. Essas idéias serviram de base. Exploramos de modo sucinto as bases conceituais nas quais se alicerça a afirmação de que o desafio global do relançamento democrático é a passagem da democracia eleitoral à democracia de cidadania. a extensão dos direitos civis impulsionou a conquista de direitos sociais e políticos. Sem elas. Amartya Sen. é outro aspecto fundamental da democracia.54 Estes e muitos outros processos mostram como diversos direitos tendem a ser invocados e reforçados entre si. mas também civil e social. eles são fundamentais para a conceitualização das necessidades econômicas em si mesmas. e foram desenvolvidos os principais argumentos da íntima vinculação entre a idéia de democracia. cit. mas também. há uma clara afinidade eletiva entre os direitos civis.53 a disponibilidade de direitos políticos preveniu a fome. requer informação pública e intercâmbio de informação.

os limites do Estado e os governos. A possibilidade que. onde serão elaboradas as idéias centrais dos dois principais desafios da democracia latinoamericana: garantir a liberdade e ampliar a cidadania de seus habitantes. pal alavanca para tentar superar injustiças e desigualdades. Essa abertura e a dinâmica que permite. consultar os que conhecem o poder. mesmo as que sofrem sérias deficiências. construir os indicadores do regime político e do desenvolvimento de cidadania e. fazem com que a democracia. seja um bem imensamente valioso pelo qual vale a pena esforçar-se para preservar e expandir. juntamente com os resultados empíricos da segunda seção. cidadãos percebem a democracia em suas vidas. 72 A democracia na América Latina . são os eixos da pesquisa empírica que se desenvolve no próximo capítulo. finalmente. na terceira parte deste Relatório. Aí encontraremos a matéria das teses que foram levantadas até aqui.O desafio global do relançamento democrático é a passagem da democracia eleitoral à democracia de cidadania. com suas liberdades. Finalmente. o leitor poderá apreciar as idéias dessas primeiras páginas. a democracia cria para lutar contra essas injustiças e desigualdades faz dela um horizonte sempre aberto.

dentre eles. procedimentos e instituições que determinam as formas de acesso à cúpula do Estado).508 pessoas interessadas nos dezoito países considerados. que indica que a América Latina progrediu visivelmente quanto à eleição democrática de governos. e inclui também um estudo de outros indicadores de cidadania política. realizadas com 231 dirigentes políticos e sociais latino-americanos. o papel dos partidos políticos. os poderes fáticos. b. Bases empíricas do Relatório 73 . Um olhar dirigido ao regime democrático no sentido estrito (regras. embora esta preferência não implique um claro e sustentado apoio. A análise revela uma clara preferência pela democracia em relação a outras formas de governo. Um conjunto de indicadores de cidadania civil que revela que o progresso representado pelo reconhecimento formal dos direitos não está necessariamente acompanhado por sua vigência real.segunda seção Bases empíricas do Relatório A partir da apresentação dos fundamentos teóricos do Relatório e da caracterização da singularidade das democracias latino-americanas. com base em uma pesquisa de opinião de 19. d. um grupo destacado de presidentes e vice-presidentes. Inclui um índice de democracia eleitoral (IDE). c. os controles ao exercício do poder. Uma análise da visão dos latino-americanos sobre sua democracia. Uma análise da rodada de consultas sobre aspectos centrais da democracia. tal como o índice de apoio cidadão à democracia (IAD) e os perfis de intensidade cidadã evidenciam. indaga-se e analisa-se seu correlato empírico. os poderes ilegais. os poderes políticos formais e a construção de uma agenda para o fortalecimento da democracia. e um conjunto de indicadores de cidadania social em que se observam apenas pequenos avanços em alguns temas e agudas deficiências em outros. Esta seção contém: a. As consultas incluíram temas como a participação política.

74 A democracia na América Latina .

como os indicadores sempre captam a realidade com um certo grau de incerteza. Esta realidade complexa não pode se resumir adequadamente em um único índice. que a democracia inclui o regime político. Esse fenômeno adquire particular relevância quando ocorrem medições únicas ou iniciais. alguns com o foco em processos. Os dados selecionados que compõem os diversos indicadores obedecem ao processo de construção do índice. Além disso. Tampouco se trata de comparar os diferentes países entre si. Uma mudança nos componentes que constituem o índice poderia modificar o seu valor. como tese fundamental. e. Os indicadores tentam iluminar o amplo cenário em que os representantes eleitos e outros atores atuam. Não constroem um índice ou ranking único de países. outros em políticas e outros em resultados. O alcance. ofere- 75 . que pressupõem a inexistência de erros. civis e sociais. Conseqüentemente. dificilmente podem ser incorporados por meio de medições quantitativas e são melhor compreendidos com um enfoque qualitativo. os indicadores apontam vários aspectos ou dimensões da democracia. civil e social Foi construído para esta seção um conjunto de indicadores para descrever a atual situação da democracia na América Latina. na leitura dos resultados. em seu conjunto. a informação disponível diz respeito apenas a uma conjuntura e não a um período longo sobre o qual podem ser identificadas tendências. Fazem referência ao momento em que a medição foi realizada e não devem ser considerados como uma qualificação da situação atual. esse complexo processo de construção Bases empíricas do Relatório Cidadania política. em mais de um caso. Existe um lapso normal entre o momento da medição e sua posterior análise e publicação. alguns realmente essenciais para captar a singularidade de cada país. Para captar essa complexidade foram reunidos diferentes indicadores. e essa relevância diminui quando se conta com séries históricas ou medições reiteradas ao longo de períodos prolongados. Não proporcionam um sistema de qualificação dos governos latino-americanos. a interpretação e o uso desses indicadores devem basear-se nas notas metodológicas incluídas ao final do Relatório. mediante diversos direitos políticos. É importante fazer alguns esclarecimentos a respeito dos dados aqui apresentados: a. que deve ser levado em conta no momento de interpretar os dados. porém não se esgota nele. Além disso. Apesar do cuidado ao atribuir valores semelhantes a situações semelhantes. Certos aspectos. delinear um panorama detalhado. e por isso não devem ser interpretados como qualificações das autoridades eleitas. Levando em consideração esse ponto de partida. existe uma margem de variabilidade vinculada à apreciação de cada analista acerca da realidade em questão. Embora eles possam. Apresentam medições parciais de uma realidade complexa. c. Os valores atribuídos às variáveis que compõem os índices fundamentam-se em um processo de codificação realizado por analistas. Os novos índices apresentados neste Relatório significam uma primeira aproximação qualitativa e quantitativa a fenômenos sociais e políticos complexos.■ Indicadores de desenvolvimento da democracia cem uma visão parcial da realidade e não esgotam o significado dos conceitos medidos. d. não são apresentadas classificações precisas. b. Por razões metodológicas básicas não se apresenta um índice único nem uma classificação de países. O marco teórico propõe.

Recentemente. Cidadania política Índice de democracia eleitoral A análise do regime eleitoral é feita inicialmente a partir do índice de democracia eleitoral (IDE). e os que ganham as eleições assumem e permanecem nesses cargos públicos durante os prazos estipulados por lei? Por sua vez. tal como está refletido na seguinte árvore conceitual: Índice de Democracia Eleitoral (IDE) Direito de voto Todos os adultos em um país têm direito de voto ? Eleições limpas O processo eleitoral desenvolve-se sem irregularidades que possam influir na expressão autônoma das preferências dos votantes por candidatos e alterem a contagem fidedigna dos votos emitidos? Eleições livres É oferecido ao eleitorado um leque de alternativas que não são influenciadas por restrições legais ou de fato? Cargos públicos eleitos As eleições são o meio de acesso aos principais cargos públicos de um país. cuja explicação encontrase na nota técnica do compêndio estatístico. Este tipo de medição tem uma evolução prolongada no mundo acadêmico. medidas de democracia e de estado de direito elaboradas pela Freedom House e pelo Banco Mundial. Relatório do Desenvolvimento Humano 2002. a regra de agregação está expressa formalmente na seguinte fórmula: Índice de democracia eleitoral (IDE) = Direito de voto x Eleições limpas x Eleições livres x Cargos públicos eleitos como um dos critérios para identificar países que seriam receptores de fundos destinados à promoção do desenvolvimento. Um passo importante na discussão dessa metodologia foi dado na publicação do PNUD. O IDE apresenta uma agregação de quatro componentes considerados essenciais em um regime democrático. O IDE é um insumo para o processo de discussão e análise da realidade latinoamericana e não deve ser considerado como uma medida completa da democracia. A construção do IDE apóia-se nos últimos avanços na matéria. junto com outros dados. isto é. o Executivo e o Legislativo nacional. “Aprofundar a democracia em um mundo fragmentado”. iniciou-se um debate sobre o possível uso de medições da democracia 76 A democracia na América Latina .deve ser levado em conta. construído para o Relatório. Este índice reúne medições que respondem quadro 20 O índice de democracia eleitoral (IDE) Uma contribuição à discussão sobre a democracia O Índice de Democracia Eleitoral (IDE) é uma nova medida do regime eleitoral democrático produzida para este Relatório. O PRODDAL considera que ainda não existe suficiente consenso e uma metodologia comprovada e adequada para justificar a tomada desse tipo de decisões sobre a base de medidas de democracia. que utiliza. Um exemplo é o Millenium Challenge Accoumt (MCA) do Governo dos Estados Unidos.

Em 2002. de qualquer um desses direitos cidadãos políticos indicam restrições muito importantes do regime democrático. que culminou com a presidência de Ernesto Zedillo. o progresso foi muito marcante. a colocar em risco seus regimes políticos. os países do Mercosul e Chile. No entanto.às seguintes perguntas (para uma explicação mais detalhada.93. A democratização coincidiu com a resolução pacífica desses conflitos e avançou a passos firmes. representa um avanço significativo dos direitos cidadãos. lenta. O primeiro componente-chave do regime democrático é o direito ao voto: sem esse direito. Por volta de 1990. Antes de começar a onda de transições. mesmo parciais. surgem de uma observação mais minuciosa dos quatro indicadores utilizados pelo IDE: direito ao voto. A partir daí. A partir dessa época mantiveram regimes democráticos. no final dos anos setenta e início dos anos oitenta (Equador. essa sub-região era eleitoralmente a mais democrática. já haviam rompido com os regimes militares. continuou melhorando e terminou 2002 com 0. ver quadro 20): ■ O direito ao voto é reconhecido? ■ As eleições são limpas? ■ As eleições são livres? ■ As eleições são o meio de acesso a cargos públicos? O IDE capta informação sobre alguns dos componentes mais básicos e necessários do regime democrático. porém. Por último. como se pode ver no gráfico 1. A média do IDE (cujo valor varia entre 0 e 1) para a América Latina passou rapidamente de 0. porém constante. medida de acordo com os critérios usados pelo IDE. As experiências variam bastante. que no início da década de 90 tinham regimes democráticos de longa data (Colômbia. Violações. com exceção da Costa Rica e da República Dominicana. é apenas um passo que determina um piso mínimo na luta mais ampla pela expansão dos direitos cidadãos. O estabelecimento de uma democracia eleitoral. durante a década de noventa.28 em 1977 para 0. A América Latina nunca teve regimes eleitorais tão democráticos e duráveis quanto os do início do século XXI. eleições limpas. Bolívia). A conquista de uma democracia eleitoral plena. mais específicas. o México registrou uma transição para a democracia. Outra situação é a dos países andinos. Venezuela) ou foram os primeiros casos de transição de regimes militares na América do Sul. Peru. as outras conquistas perdem o Bases empíricas do Relatório 77 .86 em 1990. no fim da década de 70. nos anos noventa ainda estava resolvendo conflitos armados. com exceção do Paraguai.69 em 1985. e para 0. A conclusão mais evidente que surge do IDE é que a América Latina progrediu notavelmente no que se refere à democratização do regime de acesso ao governo. Outras conclusões. inclusive. essa sub-região começou a enfrentar sérios problemas que chegaram. Outra situação é a da sub-região América Central e República Dominicana que. Entretanto. é necessário enfatizar que o IDE é uma medida relativamente minimalista da democracia. a maioria dos países na região tinha regimes autoritários. eleições livres e as eleições como o meio de acesso a cargos públicos.

em todos os países se reconhece o direito universal ao voto. fraude eleitoral). Além disso. seu conteúdo. em alguns países existem barreiras que dificultam a prática real do direito 55 Ver Paxton et al. eleições que podem incluir irregularidades “técnicas”. indica-se esta situação com um asterisco (*). intimidação dos eleitores. da União Européia (UE). Pastor 1999. relatórios da Organização dos Estados Americanos (OEA). e consultas com especialistas. Nesses casos o valor para as eleições parlamentares é 2. Quando em um ano há eleições tanto para o Executivo quanto para o Parlamento e as irregularidades se aplicam apenas às eleições para o Executivo. Não inclui questões relacionadas com a competitividade do processo eleitoral nem se é permitido ao ganhador das eleições assumir seu cargo público. mesmo nos casos em que existe o que geralmente é chamado de direito ao vo- to universal. nem se todos os cargos públicos são eletivos. podem subsistir restrições que afetam o direito ao voto de militares e policiais. Montgomery 1999. existe pouca variação na América Latina. 1990-2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua 1990 1991 2 1992 1993 2 2 2 1 2 1 2 2 1 2 22 2 1 2 0* 2 2 2 1 2 2 2 2 2 0* 2 2 2 2 2 2 1 2 2 2 1 1 2 2 1994 1995 2 1996 1997 2 2 2 1 2 2 2 2 2 2 2 2 2 1998 1999 2 2000 2001 2 2002 2 2 2 2 22 2 2 2 2 2 Panamá Paraguai Peru 2 República Dominicana 1-* Uruguai Venezuela Número de casos de eleições com irregularidades de alguma significação América Latina (**) 3 1 0 1 3 2 0 0 1 0 1 0 0 Notas: As eleições são consideradas “limpas” quando o processo eleitoral ocorre sem irregularidades que limitem os eleitores a expressar autônoma e fielmente suas preferências por algum candidato. o estudo de Boeno e Torres Vivas. 78 A democracia na América Latina . 56 Ver.TABELA 4 ELEIÇÕES LIMPAS. Valores: 0 = graves irregularidades no processo eleitoral que têm um efeito determinante sobre os resultados das eleições (por exemplo. Hoje em dia. isto é. Sinais de mais e menos são usados para indicar situações intermediárias. Cabe observar que. McCoy e Mustillo 2003. (**) Os dados para a região abarcam o número total de eleições realizadas em um determinado ano com irregularidades significativas ou maiores. 2001. 2 = falta de irregularidades significativas no processo eleitoral (por exemplo. 1= irregularidades significativas no processo eleitoral (por exemplo. Em relação a esse componente. Middlebrook 1998. de residentes estrangeiros55 e de cidadãos vivendo no estrangeiro. por exemplo. Rial e Zovatto 1998. diversos artigos do Journal of Democracy. Rial e Zovatto 1992. violência contra os eleitores.. alteram o resultado de uma eleição presidencial e/ou do equilíbrio de poder dentro do Parlamento). do Centro Carter e do Instituto Nacional Democrático. Hartlyn. do clero. Fontes: Cerdas-Cruz. que não recebem uma pontuação de 2 ou 2-. mas que não possuem um viés sistemático de peso significativo). 2003.

aos setores populares e às mulheres. que não recebam uma pontuação de 4 ou 4-. ao voto. diversos artigos no Journal of Democracy. Valores: 0= sistemas de partido único. proscrições de candidatos populares. 1990-2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua 1990 1991 4 1992 1993 4 4 4 3 4 3 4 3 3 4 4 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 3 4 4 4 3 3 4 4 1994 1995 4 1996 1997 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 44 1998 1999 4 2000 2001 4 2002 4 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 Panamá Paraguai Peru 4 República Dominicana 4 Uruguai Venezuela Número de casos de eleições com restrições de alguma significação América Latina (*) 2 2 1 0 2 1 0 0 1 0 0 0 1 Notas: As eleições são consideradas “livres” quando o eleitorado tem uma variedade de opções que não está limitada nem por restrições legais nem pela força. Pastor 1999.56 No entanto.TABELA 5 ELEIÇÕES LIVRES. entre 1990 e 2002 foram realizadas setenta eleições nacionais. no total. Montgomery 1999. uma conquista importante. acesso aos meios de comunicação e uso dos recursos públicos. Rial e Zovatto 1992. restrições de natureza legal ou prática que impedem a formação de partidos ou que levam certos partidos a boicotar as eleições). sem dúvida. O IDE também capta em que medida as preferências dos votantes são registradas fielmente por meio do processo eleitoral. Fontes: Cerdas-Cruz. 4=condições essencialmente irrestritas para a postulação de candidatos e a formação de partidos. Algumas das lutas políticas mais destacadas da primeira metade do século XX centraram-se em estender o sufrágio às classes trabalhadoras. Middlebrook 1998. Em duas oportunidades (República Dominicana 1994 e Peru 2000). 1= proscrição de um partido importante. e em treze casos houve problemas significativos. assasinatos sistemáticos e intimidação de candidados. isto é. (*) Os dados para a região abarcam o número total de eleições realizadas em um determinado ano com restrições significativas. o reconhecimento do direito universal ao voto é. 3 = restrições de natureza legal ou prática que afetam significativamente a capacidade de candidatos potenciais a se apresentarem para eleições e/ou a formação de partidos políticos (por exemplo. e consulta com especialistas. Sinais de mais e menos são usados para indicar situações intermediárias. a comunidade internacional considerou que os problemas foram de tal magnitude que coloBases empíricas do Relatório 79 . 2 = proscrição de um partido menor. que vale a pena ressaltar. Rial e Zovatto 1998. tais como: financiamento público. Como se pode ver na tabela 4. Essa medida não inclui fatores que possam afetar a capacidade dos partidos e candidados para competir em igualdade de condições.

em 2000. na Venezuela. realizadas entre 1990 e 2002. Uma é saber se os cargos públicos principais (presidentes e parlamentares) são ocupados ou não pe80 A democracia na América Latina los que ganham as eleições. mas até 1985 no caso do Brasil – foram superadas. Já não existem as proscrições legais que em outras épocas atingiram partidos majoritários como o Partido Justicialista (PJ) na Argentina ou a Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA) no Peru. Estabeleceu-se como critério amplamente aceito que todos os cargos públicos principais (presidentes e parlamentares) sejam atribuídos por meio de eleições e que os governantes eleitos permaneçam em seus cargos durante o período de seus mandatos. fato que limita a possibilidade de as preferências da maioria cidadã se verem representadas no Parlamento. no Equador. enquanto no período 1997-2002. e em abril de 2002. se isso ocorre de acordo com as normas constitucionais. O quarto componente do regime democrático gira em torno das eleições como o meio de acesso a cargos públicos. Visto em perspectiva. duas exceções que merecem atenção. no Equador. O terceiro componente do IDE. e partidos de menor peso eleitoral. a tentativa falida do presidente Serrano de imitar Fujimori. no Peru. Apesar disso. em 1997. o assassinato do vice-presidente Argaña. em 1993. no Paraguai. a melhoria é notável. Do total de setenta eleições nacionais. Na maioria dos casos. em 2001. as restrições devido à falta de capacidade estatal para garantir a integridade física dos candidatos. porém. as regras constitucionais. nessa questão a situação atual da América Latina é muito positiva. tal como mostra a tabela 5. Aqui surgem duas questões básicas. A transferência do mandato presidencial tornou-se uma prática normal. como os partidos comunistas do Brasil. com exceção da Colômbia. Além disso. e é um dos sinais mais claros dos grandes avanços democráticos que transformaram o marco político da região. embora as eleições em si mesmas tenham sido limpas. em 1999. Foi introduzido porque sua violação determina que o regime deixa de ser democrático. em um total de trinta e cinco eleições. Essas situações não resultaram em clássicos golpes militares. Esse componente complementa a visão do processo eleitoral ao introduzir uma consideração acerca do que realmente está em jogo nas eleições. houve dez casos. o fechamento do Parlamento pelo presidente Fujimori. esse número caiu para dois sobre o mesmo total. em virtude da criação dos senadores designados. Uma delas pode ser observada no Chile. do Chile e da Costa Rica. a destituição do presidente Bucaram. Existem. Isso significa um contraste com a situação da América Latina durante o período 1950-1980. o número de atos eleitorais problemáticos diminuiu consideravelmente: no período 1900-1996. Essas restrições – de uso reiterado do final da década de 40 até a de 60 na maioria dos casos. A outra exceção. as irregularidades não parecem ter sido decisivas para o resultado das eleições. Nessa matéria subsistem alguns problemas. para afastar do poder os governantes eleitos. na Guatemala. a crise suscitada pela tentativa de destituir o presidente Chávez. esse número caiu para dois sobre o mesmo total no período 1997-2002. refere-se às tentativas de utilizar formas que não seguem. rigorosamente. porém.cavam em questão o caráter democrático do procedimento eleitoral. houve dez casos em que a possibilidade de competir livremente em eleições foi restringida de maneira significativa. Enquanto no período 1990-1996 houve oito casos de eleições com restrições significativas em um total de trinta e cinco eleições. a queda do presidente De la Rúa. A outra é saber se os que têm acesso a esses cargos permanecem neles durante os prazos estipulados por lei ou. de maior relevância. na Argentina. no caso de serem substituídos. introduz um elemento que não é captado diretamente pelos conceitos de direito ao voto e de eleições limpas: a liberdade do eleitor de escolher entre várias alternativas. Como se observa na tabela 6. a tendência é positiva. Da mesma forma. também foram superadas. durante a década de 90. as eleições livres. como os que fre- . o afastamento do presidente Mahuad. São exemplos: em 1992. com a resolução dos conflitos armados na América Central.

Sinais de mais e menos são usados para indicar situações intermediárias. em 2002. 4 = todos os cargos políticos principais são preenchidos por meio de eleições e nenhum dos ocupantes desses cargos políticos principais é removido do cargo a menos que sua remoção e substituição esteja baseada em fundamentos constitucionais estritos. Diamond et al.TABELA 6 ELEIÇÕES COMO O MEIO DE ACESSO A CARGOS PÚBLICOS. A tendência não é positiva. em um passado não muito distante da América Latina. ou a maioria dos ocupantes de cargos públicos são removidos de seus cargos pela força e substituídos por governantes inconstitucionais.1999. e consulta com especialistas. Pérez-Liñán 2001 e 2003. em 1990 para três. 2 =o presidente ou o Parlamento não são eleitos ou são removidos do cargo pela força e substituídos por governantes inconstitucionais. 3 = o presidente ou o Parlamento são eleitos. Walker e Armony 2000. Valores: 0 = nenhum dos cargos públicos principais é ocupado por meio de eleições. Domínguez 1998. em seis dos dezoito países considerados houve algum tipo de restrição de peso a esse princípio. Os casos de restrição ao princípio de acesso democrático a cargos públicos não são poucos. 1 = somente alguns dos principais cargos públicos são ocupados por ganhadores de eleições. o Executivo e o Legislativo nacional. Bases empíricas do Relatório 81 . Essas tentativas encerram. que não recebem uma pontuação de 4 ou 4-. se os que ganham as eleições assumem seus cargos públicos e permanecem nos cargos durante os prazos estipulados pela lei. no entanto. isto é. Dominicana Uruguai Venezuela 1990 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1991 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1992 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 2 4 4 4 1993 4 4 4 3 4 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1994 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1995 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1996 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1997 4 4 4 3 4 4 3+ 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1998 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1999 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 2+ 4 4 4 4 2000 4 4 4 3 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 2001 44 4 3 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 2002 4 4 4 3 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 3- Número de casos com restrições de alguma significação América Latina (*) 1 1 2 2 1 1 1 2 1 2 2 2 3 Notas: As eleições são consideradas o meio de acesso aos principais cargos públicos de um país. ou um número significativo de parlamentares não são eleitos ou são removidos dos cargos pela força. No caso de os ocupantes de cargos públicos serem substituídos. avalia-se a forma de remoção do cargo e de seleção de substitutos. isto é. Fontes: Domínguez e Lowenthal 1996. mas o presidente é removido do cargo e/ou substituído por meios inconstitucionais. pois os casos passaram de um. 1990-2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep. Entre 1990 e 2002. qüentemente aconteceram com a ruptura de regimes democráticos. outra modalidade de interromper o exercício do poder. (*) Os dados para a região abarcam o número total de eleições realizadas em um determinado ano com restrições significativas. ou os que ocupam todos os principais cargos políticos são removidos pela força por governantes inconstitucionais.

Antes de apresentar uma avaliação abrangente. Um grupo intermediário está formado por Argentina. Panamá e República Dominicana. Brasil. Honduras. em toda a região. Como se observa na tabela 9. 89. México. mesmo com diferenças significativas entre países. Guatemala.2) e na Colômbia (33. também é baixa. onde barreiras de entrada mais altas coexistem com alguns requisitos legais para a indicação de candidatos ou com o pouco uso das primárias para escolher os candidatos partidários. Na última década. El Salvador. o veículo privilegiado por meio do qual os candidatos se apresentam para cargos públicos. em geral. A participação nas eleições da Bolívia. Equador. é necessário obter mais informação do que a atualmente disponível sobre candidaturas independentes. Um tema relevante que incide sobre a concorrência eleitoral é a existência de legislação que abra espaços políticos para as mulheres mediante a reserva de cotas nas listas partidárias para o Parlamento. uma questão que influi na concorrência eleitoral. mas estão acima dos percentuais dos Estados Unidos. Certamente. São eles: Colômbia. doze dos dezoito países da América Latina introduziram leis de cotas que. ■ a exigência legal de realizar eleições internas nos partidos para a escolha de candidatos. Participação eleitoral A participação cidadã no processo eleitoral na América Latina. Essas cifras indicam que é possível ganhar eleições sem que o candidato vencedor consiga o respaldo da maioria dos cidadãos. Uruguai e Venezuela. os temas de barreiras de entrada no processo eleitoral e de democracia interna são complexos. condições em que concorrem os pré-candidatos dentro dos partidos e formas de fiscalização das eleições internas. Alguns países da América Latina têm uma participação eleitoral muito baixa. Costa Rica.7 por cento votam e 56. Em relação a esse tema. Trata-se de um processo complexo.Outros indicadores do regime democrático de acesso ao governo Além dos aspectos do regime democrático incluídos no IDE. certamente é um problema em alguns países. entre os países latino-americanos existem diferenças significativas a respeito de três questões importantes: ■ candidaturas a cargos públicos e a possibilidade de apresentação de candidatos independentes. formação de partidos e procedimentos para eleger seus candidatos. Chile.3 por cento dos eleitores em potencial estão inscritos nos registros eleitorais. é positiva (tabela 8). que gira em torno dos partidos políticos que são. existem outros indicadores relevantes. Em um terceiro grupo de países. 62. Esses percentuais de participação eleitoral estão abaixo dos da Europa ocidental.7). a seleção de candidatos está altamente centralizada nas mãos das elites partidárias: Bolívia. Os níveis latinoamericanos também mostram tendências estáveis durante períodos prolongados. requerem que entre 20 e 40 por cento de lugares nas listas parlamentares partidárias sejam atribuídos a mulheres. o monopólio dos partidos sobre as A democracia na América Latina 82 . No nível regional. ■ os requisitos para a formação de partidos nacionais. Embora o absenteísmo não seja um problema regional. em El Salvador (38. De 1991 a 2003. Concorrência eleitoral e seleção de candidatos Outros indicadores oferecem informação mais detalhada sobre o processo de seleção dos candidatos. A porcentagem de eleitores na Venezuela (45.1 por cento emitem um voto válido. Nicarágua e Peru. um primeiro grupo de países apresenta frágeis barreiras para a entrada de novos atores na concorrência eleitoral e certo desenvolvimento de uma normativa e/ou prática de democracia partidária interna. muitos países da região aprovaram esse tipo de legislação (tabela 10). mesmo sendo maior. da República Dominicana e do Paraguai.7).3) é baixa e é motivo de preocupação. Paraguai. na Guatemala (36.

2001. que capta a relação entre votos emitidos por partido e as cadeiras ocupadas por esses partidos na câmara baixa ou única do Parlamento – mostra um panorama bastante positivo. Comunicação pessoal. oscilando entre 7.8 e 12. 3. Esse tema tem um impacto cada vez maior sobre a natureza da competição eleitoral.12.59 enquanto os afrodescendentes são aproximadamente 44 por cento da população total do Brasil.5 por cento. pagando por voto emitido ou facilitando o acesso aos meios de comunicação. 60 e 61 por cento que representam aproximadamente as populações indígenas nesses países. com igualdade de oportunidades para todos. 2002. respectivamente.58 Por último. FLACSOEquador. durante o período 2001-2002. em vários países – Honduras. e Estado Unidos. 103-105. e 26. em igualdade de oportunidades. 232-233.3 por cento.4 por cento (14 sobre 113) na Guatemala. Já em outros países – Costa Rica.8 por cento (1 sobre o total de 120) no Peru. Uma medida simples é o percentual de votos recebidos pelos partidos políticos que não chegam a obter representação na câmara baixa ou única do Parlamento. Luis Enrique López Hurtado. 58 Estas cifras são uma média das estimativas mais altas e baixas que oferecem Mato Mar.8 por cento (4 sobre o total de 479) entre 1983 e 1987. A média regional de 5. o número de parlamentares aumentou (tabela 12). sendo ainda difícil sua instrumentação. Representação eleitoral É importante também observar as características das pessoas e dos partidos que têm acesso a cargos públicos eleitos. sobre os quais apresentamos vários indicadores relevantes (ver tabela 13). pp. Chile e Guatemala – esse percentual é alto. além de livres. Da mesma forma. 34.8 por cento (15 sobre o total de 513) entre 1995 e 1999. ainda que com variações consideráveis entre os países. porque define se as eleições são.57 Essas cifras contrastam com as de 43.Esse mecanismo é uma melhora importante. A maioria dos países utiliza um sistema misto de financiamento. No entanto. de 2. e de 2. 12.1 por cento (10 sobre 487) entre 1987 e 1991. foi de 0. o índice de desproporcionalidade – uma medida mais complexa. 2003. Bases empíricas do Relatório 83 . 60 Torres. p. 3. Departamento de Estado.3 por cento é relativamente baixa e. Outra questão relevante que se reflete na concorrência eleitoral são as regras para o financiamento político. 59 Johnson. pp. alguns países recorrem ao financiamento público de parte da campanha eleitoral. A média regional de 4. indicando que existe um grau considerável de correspondência ou proporcionalidade entre o número de votos e as cadeiras de 57 Estas cifras podem mudar mesmo dentro do período indicado. No que diz respeito às mulheres. p. Uruguai. pois expressa um reconhecimento formal da necessidade de criar mais oportunidades para a inclusão das mulheres. O número de indígenas nas câmaras baixas ou únicas do Poder Legislativo. e Simón Pachano. 1998. o percentual de votos válidos dos partidos sem representação parlamentar é sumamente baixo.6 por cento é bastante moderada. de 8 para 15.3 por cento (4 sobre 121) no Equador.2 por cento (16 sobre 503) entre 1991 e 1995. Em pouco mais de uma década. 2002. Paraguai e Brasil. Os dados de financiamento estatal revelam uma situação muito variada (tabela 11). e Meentzen. o número de afrodescendentes na câmara baixa do Parlamento do Brasil foi de 0.60 A representação pode ser examinada também sob a perspectiva dos partidos políticos. 94. Para assegurar que o dinheiro não se converta em um fator de desvirtuação do processo eleitoral. as mulheres aumentaram seu nível de representação. 1993. segundo o critério de apreciação dos observadores que forem consultados. mas a tendência é no sentido de maiores controles. justas. substancialmente a TV. esse é apenas um passo inicial no tratamento das múltiplas barreiras que ainda as impedem de competir na política. 2001.2 por cento (34 sobre 130) na Bolívia.

existem exceções a essa situação. São isolados os episódios de irregularidades. e que a sucessão entre governos obedeça a normas constitucionais. Entretanto. alguns mecanismos de democracia direta que podem oferecer oportunidades de participação cidadã no controle e na formulação de políticas. em seguida os organismos públicos especializados no controle horizontal das atividades do Estado e. as elites partidárias 84 A democracia na América Latina . especialmente algumas tentativas de afastamento de governantes eleitos por meios não constitucionais. em vários países – Uruguai. mas o nível atual ainda é muito inferior ao peso demográfico feminino.cada partido. o percentual é bastante alto. Nicarágua e Colômbia –. ■ Existe uma tendência a introduzir normas legais tendentes a criar maiores oportunidades de inclusão cidadã. em vários países. as mulheres aumentaram seu nível de representação nos Parlamentos da América Latina. mesmo nos casos de crises políticas ou político-sociais que incluíram casos de renúncia dos primeiros mandatários eleitos. ■ Poucos países aprovaram uma legislação sobre financiamento de partidos políticos e campanhas eleitorais que contemple um fácil acesso a fundos públicos e uma regulação eficaz do dinheiro na política. Outras dimensões da Cidadania Política A cidadania política não apenas está relacionada com o vínculo entre eleitores e os que tomam as decisões públicas. ■ Não existem tendências marcantes quanto às barreiras para entrar na competição eleitoral. embora em alguns países se detecte uma tendência no sentido de uma menor participação eleitoral.9 por cento. Poderes constitucionais clássicos Um primeiro aspecto do tema do controle da política é a relação entre os poderes Entre os aspectos do regime democrático não incluídos no IDE observamos que: ■ O nível de participação dos cidadãos em processos eleitorais é moderadamente alto na região. em primeiro lugar. ■ Produziram-se notáveis avanços no que diz respeito às eleições como o meio de acesso a cargos públicos. os poderes constitucionais clássicos (Executivo. nem sobre a participação dos cidadãos na seleção dos candidatos. um aspecto importante a considerar é o do controle da gestão de funcionários públicos e sua obrigação de prestar contas na forma e prazo devidos. As deficiências são ainda mais significativas na representação parlamentar dos indígenas e afro-descendentes. fraude eleitoral e intimidação a votantes. que estabelecem um número mínimo para a representação feminina nas listas parlamentares. Já em outros países – Guatemala e Panamá –. Legislativo e Judiciário).9 e 13. Por isso. por último. ■ centralizam as decisões sobre a indicação de candidatos. Nesta parte analisamos. ■ Entre o fim da década de oitenta e hoje. Além disso. ■ A prática de eleições limpas foi estabelecida como padrão geral. O normal é que os cargos principais da área executiva e legislativa do Estado (em nível nacional) sejam ocupados por meio de eleições. Honduras. ■ Os sistemas eleitorais possibilitam um grau considerável de proporcionalidade entre a força eleitoral e a representação parlamentar dos partidos políticos. esse índice é particularmente baixo. mas também com a orientação dos que tomam essas decisões – eleitos ou não: para o bem público ou para fins privados. É clara a tendência no sentido de uma melhoria no componente de eleições livres. Balanço do regime de acesso democrático ao governo De acordo com os componentes do IDE observa-se que na América Latina: O direito ao voto é reconhecido sem restrições aos cidadãos residentes em cada país. oscilando entre 11. Esse é o caso de leis promulgadas na maioria dos países latino-americanos. No entanto.

Bases empíricas do Relatório 85 . Nesses casos. Na maioria dos casos.8 39.1 2. O contrário é o maltrato ao cidadão. Uma primeira constatação do Relatório é que.8 22. mas elas dificilmente explicam a existência de padrões de maltrato nas interações entre cidadãos e Estado. Isto é porque a pergunta p13u somente apresenta alternativas negativas. Um assunto preocupante é a quantidade de relatos de experiências de maltrato “duro”: uma de cada quatro pessoas que interagiram com as instituições públicas declarou ter sido humilhada. o direito ao tratamento eqüitativo e o respeito à dignidade pessoal foram. o tratamento dispensado pelos funcionários públicos deve cumprir duas condições: respeitar os direitos e a dignidade das pessoas e amparar suas resoluções dentro de um mandado legal aprovado mediante normas democráticas. uma alta porcentagem declarou ter recebido algum tipo de maltrato por parte dos funcionários públicos (78%).4 6. (2)Entende-se que não tiveram más experiências se. trâmites desnecessários. o Relatório explora se existem padrões de maltrato para indagar se isso obedece a uma razão mais estrutural: a persistência de modalidades pouco democráticas na organização e no funcionamento de um Estado.0 Não Procuraram Total A coluna “porcentagem do total” está baseada nas 19. trâmites desnecessários. TABELA 7 EXPERIÊNCIAS NO TRATAMENTO DADO A PESSOAS QUE PROCURARAM UMA ENTIDADE PÚBLICA NOS ÚLTIMOS 12 MESES. 2002 Porcentagem Porcentagem dos que Situação Procuraram Experiência no tratamento (1) Más experiências graves e leves Más experiências graves Más experiências leves Sem más experiências (2) Total do total 6. Más experiências graves: pedido de gratificação. uma proporção minoritária de pessoas declarou ter entrado em contato com uma instituição pública para realizar algum tipo de trâmite (39.9 60.0 100.quadro 21 A petição cidadã perante as instituições públicas Embora uma petição cidadã seja negada. sentiu-se humilhado ou foram descorteses ou falta de respeito no tratamento. da Seção Proprietária do PNUD no Latinobarômetro 2002. Dentre elas.3%).2 8. (1) Más experiências leves: longas filas. vulnerados pelos funcionários públicos que os atenderam.536 entrevistados que indicaram ter procurado ou não ter procurado uma instituição pública nos últimos doze meses.7 22. Nessas experiências podem existir fatores como a falta de instalações adequadas e a saturação dos serviços.9 55. Na coluna “Porcentagem dos que procuraram” se baseia unicamente nos 7. aos olhos dos entrevistados. em p12u responderam que tinham procurado uma instituição pública e em p13u não respondem. Fonte: Processamento da pergunta p13u. em 2002.1 100. ter recebido tratamento desrespeitoso ou que lhe solicitaram uma gorjeta ou propina (22. negação de informação ou problemas para obtê-la).790 entrevistados que declararam ter procurado nos últimos 12 meses uma instituição pública e portanto são quem tem experiência no trato recebido. demora na obtenção da informação ou negaram informação. Uma proporção dos casos de maltrato pode estar relacionada com razões contingentes.0 procuraram 15. Por isso.9%). tratou-se de experiências de maltrato leves (espera em longas filas.

Existem os organismos encarregados do controle da receita pública. De acordo com diversas pesquisas de opinião e opiniões de especialistas. mas sim de um estado democrático de direito. mas ainda subsistem graves problemas na América Latina. ignoram algumas realidades. Em quase todos os países existe outro órgão. A independência. os indicadores da tabela 14 sugerem que. Em resumo.62 Esses organismos se distinguem dos poderes constitucionais clássicos por suas funções mais delimitadas e específicas (tabela 16). O controle da política é mais eficaz quando existe uma verdadeira divisão de poderes. Registramos que os poderes formais dos presidentes latino-americanos continuam sendo relativamente altos comparados com o sistema presidencialista clássico. Ainda não existe uma boa medida. a área judiciária do Estado conta com um grau considerável de poder e independência em suas funções. ou Magistratura. pois esses indicadores captam apenas aspectos formais e. Prillaman. a peça mais importante da relação entre os poderes do Estado. quando houver informação adequada. 2002. Esperamos que os enormes esforços e as volumosas quantias de ajuda internacional destinada à reforma do Poder Judiciário considerem nossa preocupação com mais cuidado do que o até agora dispensado. o critério cada vez mais generalizado é que os magistrados devem ser identificados inicialmente por Conselhos da Judicatura. não previne (e. Popkin. Domingo. Essa independência. alguns avanços notáveis foram alcançados em matéria de independência do Poder Judiciário. em relação ao grau de independência do Poder Judiciário. Isso é particularmente certo na América Latina devido a sua tradição de presidencialismo. pode facilitar) tentações corporativas de interesse setorial e até a corrupção desse poder. amplamente aceita. a informação disponível não nos permite chegar a um conceito preciso sobre a independência real dos poderes judiciários na América Latina. autoritário ou não. cada um deles legalmente dotado de faculdades para controlar e sancionar a conduta dos outros. e Hammergren. o dos Estados Unidos (tabela 14). Todos os países latino- 61 Jarquín e Carrillo. 2000. 1998. em vários países.61 Outro tema que deverá merecer consideração. ao menos em alguns países. pelo menos formalmente. Agências especializadas de controle Outras entidades estatais que contribuem para o controle político são aquelas especializadas no controle horizontal das atividades do Estado. o crescente profissionalismo e um adequado poder dessa área do Estado adquirem pleno sentido quando colaboram generosamente na instauração. 86 A democracia na América Latina . A relação entre os poderes Executivo e Legislativo é. o Executivo ainda possui importantes poderes no processo de indicação dos magistrados da Corte Suprema. 2001. o Poder Judiciário utiliza sua crescente independência. Outro aspecto-chave é o poder da área judiciária do governo e seu grau de independência em relação aos outros poderes. por si mesma. talvez. auditorias e tribunais de contas. No entanto. Muitos países latino-americanos realizaram reformas constitucionais e legais dirigidas a fortalecer a independência do Poder Judiciário (tabela 15). 62 Peruzzotti e Smulovitz. isto é. Apesar dessas reformas. de que os fundos públicos sejam empregados de acordo com as normas e os procedimentos legais: controladorias gerais.constitucionais clássicos. Entretanto. freqüentemente. e a sua tendência a impor-se sobre o Congresso. refere-se à forma em que. encarregado de selecionar os candidatos dentre uma relação de indicados e de ratificar essas indicações por maioria simples ou qualificada. em várias hipóteses. 1999. geralmente no âmbito do Congresso. um mecanismo que tem o potencial – na verdade ainda não totalmente demonstrado – de reduzir a politização do processo de seleção e de aumentar o profissionalismo e independência desse poder. 2002a. não de um estado de direito.

dessa forma. O Poder Executivo intervém tanto na designação como na remoção de seu principal responsável. Chile e Uruguai. pe- 63 Uggla. que podem ser consultadas na Internet em: www. Em três países – Bolívia. quando apresentam denúncias sobre a conduta de agentes estatais e ativam. suas resoluções não são vinculatórias ou. houve um processo de descentralização que abriu novos canais para a participação cidadã. tais como: votação qualificada. controladas pelo Poder Executivo. investigações por parte dos respectivos organismos. Chile e Equador –. as máximas autoridades das controladorias são designadas pelo Poder Legislativo. muito embora em alguns países careçam dos recursos necessários para cumprir suas funções adequadamente e/ou suas atividades sejam. a sanção de funcionários públicos. Oferecem aos poderes constitucionais clássicos. Todos os países têm controladorias. existem importantes diferenças quanto à independência entre esses organismos e o Poder Executivo (o poder de Estado que é objeto principal de seu controle) e ao peso real da fiscalização. quadro 22 Experiências de participação em governos locais Durante a década de 90. Suas tarefas incluem. na prática. e de promoção da cultura cívica em Bogotá. recomendação de organismos não governamentais. desde 1990 foram criadas defensorias do povo em quase toda a região. conta-se com menos informação. o Poder Executivo nomeia diretamente essas autoridades. É por isso que a existência desses órgãos. do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Alguns dos exemplos mais notáveis são as experiências de participação popular da Bolívia. Mecanismos de democracia direta Os mecanismos de democracia direta oferecem aos cidadãos. O segundo tipo inclui processos ativados “de baixo”. mas nem todos têm promotorias.64 Podem ser classificados em dois tipos. em alguns casos. que se dedicam à representação legal do Estado e. não possuem potestade legal para forçar seu cumprimento. uma prática comum na América Latina. recomendação prévia da Corte Suprema e. em vários países. embora se desenvolvam em um contexto de cultura patrimonialista. Têm como objetivo a melhoria da qualidade de vida. Por último.org. formalmente. com exceção do Brasil. por agentes do Estado. Essas experiências têm elementos comuns e resultam de movimentos sociais fortes. E. que leva à cooptação política. orientado para a promoção de uma agenda de governabilidade local na América Latina. os cidadãos também podem contribuir indiretamente para o controle político. Sobre eles. se são. os poderes das controladorias são poucos ou fracos. se encarregam da ação penal pública. foram identificadas e documentadas muitas dessas experiências de sucesso de participação em governos locais. a designação e remoção de seus responsáveis correspondem ao Poder Legislativo. No entanto.americanos contam com instituições que desempenham essas funções. procuradorias ou ministérios públicos . Como parte de um projeto. Em geral. por exemplo. canais adicionais para o controle da gestão política. de orçamento participativo em Porto Alegre e Villa El Salvador.logos. Na maioria dos países da região. 2003. por si só. não pode ser interpretada necessariamente como evidência de maior controle real da gestão pública. O primeiro compreende processos ativados “de cima” isto é.undp. das capacidades e da autonomia de seus participantes. oportunidades para contribuir com a fiscalização e gestão dos assuntos políticos. representam uma clara ruptura com os mecanismos de distribuição populista. em certos casos. tais como os plebiscitos vinculatórios e não vinculatórios. A consolidação e o resultado das defensorias do povo na América Latina variam segundo o país. com condições específicas. Bases empíricas do Relatório 87 . 64 Como indicamos. Esses novos órgãos de controle distinguem-se dos descritos acima por receberem denúncias cidadãs que potencialmente operam não apenas como agentes de controle horizontal como também de controle vertical. o controle e. Outros organismos são as promotorias.63 A existência desses órgãos expressa uma tendência positiva. Em doze dos dezoito países estudados.

Honduras. Uma análise do perfi l social e político das pessoas que toleram a corrupção indica que. como Chile. Nicarágua e Paraguai. ■ Os organismos especializados no controle da gestão dos funcionários públicos. A corrupção na função pública Um tema-chave é o controle da corrupção na função pública. 88 A democracia na América Latina . Clientelismo O clientelismo gera privilégios e envolve uma utilização discricionária dos recursos públicos. ■ O uso de mecanismos de democracia direta ainda é limitado. eleitos ou não – alguns deles criados na última década –. Peru e Venezuela – só foram utilizados mecanismos de democracia direta “de cima”. Nos dezoito países latino-americanos considerados. independentemente dos processos eleitorais. Guatemala. ainda existem deficiências que condicionam algumas das conquistas obtidas. oferecem novos canais para exercer esse controle que complementa a função controladora que deve ser exercida pelos poderes constitucionais clássicos.4 por cento declararam conhecer um ou mais casos de clientelismo (tabela 21). os dados permitem distinguir três grupos de países (ver tabelas 17 e 18): ■ Aqueles em que os mecanismos de democracia direta simplesmente não existem. Panamá. Conclusões sobre a cidadania política: conquistas e deficiências ■ A informação que apresentamos sobre cidadania política. como Bolívia. 41.9 por cento dos consultados estão de acordo em pagar o preço de certo grau de corrupção contanto que “as coisas funcionem” (tabela 20). para a América Latina em seu conjunto. observam-se dificuldades de diversos desses organismos para exercer o controle na prática e. Existem disponíveis duas fontes de informação complementares sobre as percepções do nível de corrupção (tabela 19). indagou-se aos consultados se conheciam casos de pessoas que tivessem recebido privilégios por serem simpatizantes do partido do governo. ■ Mesmo quando existem alguns mecanismos de controle. Na pesquisa Latinobarômetro 2002. na maioria dos quais – Brasil. 31. Equador. No entanto. El Salvador. controle e sanção. para coibir abusos cometidos por outras entidades do Estado. México e República Dominicana. ■ Países em que esses mecanismos são reconhecidos legalmente e onde se registram experiências de uso. a informação de que se dispõe sugere que ainda se observam práticas de corrupção e clientelismo na gestão dos assuntos públicos. indica que foram obtidas algumas conquistas significativas na América Latina. ■ Aqueles em que existem alguns desses mecanismos. tais como iniciativas vinculatórias e não vinculatórias. mas até agora não foram empregados. A persistência e a extensão da corrupção no exercício da função pública encontram um terreno fértil quando os cidadãos se resignam a ela ou ajudam a praticá-la. referendos e petições de revogação de mandato. Aqui encontramos nove casos. Quanto à existência legal e ao uso desses mecanismos.los próprios cidadãos. Costa Rica. ainda não se sabe qual será a contribuição que elas darão para a plena instauração de um estado democrático de direito. Em particular. mas mostra certa evidência sobre a gravidade do problema. Entretanto. Uma grande rejeição cidadã às práticas corruptas é uma valiosa ferramenta de fiscalização e favorece o funcionamento de mecanismos eficazes de prevenção. esta atitude pode ser encontrada de maneira similar em todos os estratos sociais e demográficos. ■ As bases institucionais da independência e profissionalização do Poder Judiciário se fortaleceram por meio de uma série de reformas recentes. A pouca informação disponível torna difícil saber sua dimensão real.

e cálculos sobre a base de dados no CD-ROM em Payne et al.2 75. várias Constituições nacionais.3 59. e dados sobre as eleições de 2001 e 2002 obtidos de fontes oficiais.6 31.3 78. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina (**) Referentes extra-regionais Europa Ocidental Estados Unidos Sim Sim Sim Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Não Automático Não automático Não automático Não automático Automático Automático Automático Não automático Não automático Automático Não automático Não automático Automático Não automático Não automático Não automático Não automático Automático 98.9 51.0 55. Fontes: Baeza 1998.2002.5 52.7 62.7 36.6 35.6 30. Essa situação geralmente ocorre quando os padrões eleitorais não foram depurados adequadamente.8 65.4 33.8(*) 80.3 68.2 69.6 78.1 88.8 92.9 98.9 72.9 74.6 53.0 101.2 68. 1990-2002 País Deveres cidadãos Voto obrigatório (2002) Procedimentos para o registro de eleitores (2000) Participação cidadã (porcentagens) Eleitores registrados (referente à população com direito a voto) (média 1990-2002) Votantes (referente à população com direito a voto) (média 1990-2002) Votos válidos (referente à população com direito a voto) (média 1990-2002) Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.3 78.2 90.7 57. Bases empíricas do Relatório 89 . León-Rosch 1998.2 51. International IDEA 2002b.6 43.TABELA 8 A PARTICIPAÇÃO ELEITORAL. EPIC 2002.5 36.8 38. Gratschew 2001 e 2002.4 83.8 98.3 Notas: (*) Os números sobre eleitores registrados que excedem 100 por cento indicam que o número de pessoas nos padrões eleitorais é maior do que o número de pessoas com direito a voto.7 87.1 96.3 73.6 94.9 49.9 89.7 68.8 45.3 76.3 77.2 95.2 91.0 72.2(*) 90.3 53.7 70.5 63.9 66.6 66.1 103.5 73.6 56.0 85.8 54.0 66.2 55. (**) Os dados para a região são a média de todos os países. Reyes 1998.

pp. 1990-2001 Monopólio dos partidos sobre as candidaturas Permite-se a postulação de candidatos independentes Restrições para a formação dos partidos nacionais. Dominicana Uruguai Venezuela 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-95 1995-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01(1) 1990-01 1990-01 Medianamente restritivo Medianamente restritivo Pouco restritivo Medianamente restritivo Pouco restritivo Pouco restritivo Medianamente restritivo Muito restritivo Medianamente restritivo Pouco restritivo Pouco restritivo Muito restritivo Muito restritivo Pouco restritivo Medianamente restritivo Medianamente restritivo Pouco restritivo Pouco restritivo 1990-01 1990-99 Notas: (*) Reformas relevantes introduzidas desde o final de 2001 incluem: na Argentina a Lei Nº 25. (4) Define-se “primárias ”como um processo no qual os candidatos a presidente são eleitos de uma maneira livre e direta.2002. e consultas a especialistas associados – atualmente ou no passado – aos tribunais eleitorais em cada país. pp. seja pelos membros de um partido ou pelos cidadãos registrados para votar em eleições nacionais.611. Fontes: Alcántara Sáez 2002. 1990-2001* Uso de primárias para a indicação Controle dos partidos sobre a seleção de candidatos. (1) Embora a legislação na República Dominicana permita a postulação de candidatos independentes. (3) A Lei de Reforma dos Partidos Políticos de junho de 1999 na Bolívia ainda não foi aplicada na prática. 2002 Requisitos legais para a indicação de candidatos presidenciais. 1990-2001 (2) Nenhum Alguns de candidatos presidenciais dos principais partidos. por meio de um voto secreto. (2) Em “requisitos legais para a indicação de candidatos presidenciais ”. os requisitos para postular-se como candidato independente são similares aos que devem ser seguidos para formar um partido político. eleição de 2001 ou imediatamente anterior(4) Pelo menos um Nenhum 1999-2001 (3) 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-1997 1997-2001 1990-1999 1999-2001 Nenhum Pelo menos um Pelo menos um Todos Nenhum Pelo menos um Nenhum Todos Todos Pelo menos um Todos Todos Nenhum Todos Todos Nenhum País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.TABELA 9 OS PARTIDOS POLÍTICOS E A DEMOCRACIA INTERNA.Constituições nacionais e legislação sobre os partidos políticos. considera-se se a Constituição ou as leis eleitorais requererem que os candidatos sejam indicados por meio de uma primária ou uma convenção. 90 A democracia na América Latina . Payne et al. e no Peru a Lei de Partidos Políticos de novembro de 2003.156-166. de junho de 2002.20-34.

e exclui cotas adotadas nos regulamentos internos dos partidos. O sinal menos indica que a informação não se aplica. Dominicana Uruguai Venezuela Câmara baixa ou única 30 30 30 0 0 40 20 0 0 30 30 0 30 20 30 25 0 0 Senado 30 25 0 0 0 30 20 0 Ano adotado 1991 1997 1997 1996 1997 2000 2002 1997 1996 1997 1997 - Notas: Os números são as porcentagens das listas parlamentares que cada partido deve destinar às mulheres. Méndez-Montalvo e Ballington 2002. OEA-Comissão Interamericana de Mulheres 2002. e Internacional IDEA 2003. A informação inclui somente as cotas mencionadas na legislação sobre partidos políticos e parlamentos. 2003 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.TABELA 10 COTAS PARA CANDIDATAS A CARGOS PARLAMENTARES. Bases empíricas do Relatório 91 . p. Fontes: CEPAL 1999.69.

como a provisão de serviços e benefícios tributários. e a várias Constituições e leis eleitorais nacionais.2002.76-77. Zovatto 2003. patamar alto Sim. patamar alto Sim. patamar baixo Sim. patamar baixo Sim.TABELA 11 FINANCIAMENTO DE PARTIDOS E CAMPANHAS ELEITORAIS. patamar alto Sim. (*) No Uruguai há financiamento público desde 1928 por meio de leis ad hoc votadas antes de cada eleição. consulta a especialistas associados –atualmente ou no passado – aos tribunais eleitorais em cada país. pp. patamar baixo Sim. patamar baixo Não Sim Sim Sim Sim Não Sim Não Não Não Não Sim Não Não Sim Sim Não Não Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Não Não Sim Sim Sim Não Sim Não Não Não Sim Sim Sim Sim Sim Não Não Sim Não Não Sim Sim Não Não Sim Não Sim Não Sim Medianamente fortes Medianamente fortes Fortes Medianamente fortes Medianamente fortes Fracas Muito fracos Não Não Não Muito fracos Fracas Não Muito fracos Fracos Não Não Não Sim Sim Sim Sim Sim Não Não Não Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Não Sim Não Limitado Limitado Proibido Proibido Limitado Limitado Ilimitado Ilimitado Ilimitado Limitado Limitado Limitado Ilimitado Limitado Limitado Ilimitado Ilimitado Limitado Notas: A expressão “financiamento público direto ”refere-se à provisão direta de recursos financeiros aos partidos e se contrasta usualmente com as formas indiretas de financiamento. patamar baixo Sim. patamar baixo Sim. Fontes:Del Castillo e Zovatto 1998. 2003 Acesso a fontes privadas Limites sobre Limites Limites doações sobre sobre por doações doações contratados particulares anônimas do Estado aos partidos aos partidos aos partidos Leis sobre divulgação pública Acesso à televisão Financiamento País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep. 92 A democracia na América Latina . Payne et al. patamar baixo Sim. Pinto-Duschinsky 2002a. patamar baixo Sim. Dominicana Uruguai (*) Venezuela público direto Acesso à televisão gratuita Gasto de partidos destinado à televisão privada Sim.Ward 2002.169-172. e 2002b. patamar baixo Sim. patamar alto Sim. patamar baixo Sim. patamar baixo Sim. patamar baixo Sim. patamar alto Sim. pp.

8 11.2 12.5 10.0 35.4 14.8 10. (*) Os dados para a região são a média de todos os países.2 5.9 9.1 10.5 10.7 9. Os dados correspondem ao resultado da eleição do ano mencionado e podem variar entre eleições.0 10.0 11.3 5.8 4.5 11.9 8.0 14.5 12.5 4.3 2.8 14.7 8.2 5.6 20. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina (*) Ano % mulheres 1989 1989 1986 1989 1986 1986 1988 1988 1985 1989 1988 1984 1989 1989 1985 1986 1989 1988 6.1 16.5 17.0 10.0 8. Bases empíricas do Relatório 93 .4 Notas: Os números são porcentagens de cadeiras obtidas por mulheres na Câmara baixa ou única do Parlamento.5 6. 1990-2003 Fim da década de 80 Meados da década 90 Ano % mulheres Ano Última eleição %mulheres País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.5 22.0 10.2 9.6 5. Fonte: IPU 1995.6 7.0 1995 1997 1994 1997 1994 1994 1994 1994 1994 1997 1994 1996 1994 1993 1995 1994 1994 1993 21.8 7.1 9.5 7.7 7.5 9.3 12.5 8. 2003.TABELA 12 CADEIRAS NO CONGRESSO GANHAS POR MULHERES.1 5.6 12.0 4.5 10.3 9.7 7.7 7.5 5.7 15.9 2003 2002 2002 2001 2002 2002 2002 2003 2003 2001 2003 2001 1999 2003 2001 2002 1999 2000 34.7 8.8 17.1 18.

4 3.4 0.8 4. e o total dividido por dois.7 2.1 5.4 8.9 2.2 6.2002.9 4.4 4. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina (*) (média 1990-2002) 3.3 0.8 4.7 3.8 7.2 3.7 2.6 5.7 11.9 0. O índice de desproporcionalidade eleitoral refere-se à Câmara baixa ou única. enquanto que uma qualificação alta indica que a relação entre cadeiras e votos é desproporcional.0 5. e é o resultado do método de mínimos quadrados.9 6. Fontes: Cálculos sobre a base de dados no CD-ROM em Payne et al.7 5. Uma qualificação baixa indica que o número de cadeiras que os partidos obtêm é bastante proporcional ao número de votos recebidos.TABELA 13 PROPORCIONALIDADE NA REPRESENTAÇÃO VIA PARTIDOS POLÍTICOS. 1990-2002 Porcentagem de votos ganhos por partidos sem representação parlamentar País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.5 5. extrai-se a raiz quadrada desse resultado.2 12.2 2.8 7. que se calcula mediante a somatória das diferenças entre os votos e as cadeiras obtidas por cada partido. A expressão “desproporcionalidade eleitoral ” refere-se à diferença entre a quantidade de cadeiras e votos obtidos por partido.6 Notas: A expressão “porcentagens de votos ganhos por partidos sem representação parlamentar ”refere-se aos votos emitidos em eleições para a Câmara baixa ou única. Finalmente. (*) Os dados para a região são a média de todos os países. e dados sobre as eleições de 2001 e 2002 obtidos de fontes oficiais.9 4. 94 A democracia na América Latina .0 3.2 4.7 13.3 Índice de desproporcionalidade eleitoral (média 1990-2002) 6.3 5.2 1.5 5.5 6. elevadas ao quadrado.0 5.3 0.

59 0.24 0.38 0. Samuels 2000. Um nível “muito alto ”em qualquer uma das dimensões dos poderes significa que esse país está acima do desvio padrão da média regional.38 0.50 0.29 0. (3) O índice geral dos poderes presidenciais formais é uma média dos poderes presidenciais não-legislativos e legislativos.19 0. (2) Média ponderada dos poderes legislativos do presidente.50 0.38 0.2002.46 0.58 0.34 0.23 0.36 0.37 0.30 0.41 Médio baixo (*) Médio alto Médio alto Médio alto Muito baixo Médio alto Médio alto Médio alto Médio baixo Médio alto Médio alto Médio alto Médio alto Médio alto Muito baixo Médio alto Médio baixo Muito baixo Poderes legislativos (2) 0.50 0.37 0.44 0.50 0.56 0.55 0. (*) O nível desses poderes é considerado sob uma perspectiva regional comparada.13 0.25 0.50 0.48 Médio alto 0. O mesmo método é utilizado para qualificar os níveis “médio baixo ”e “muito baixo ”. e Universidade de Georgetown e OEA 2002.15 Muito baixo 0.00 0. “Médio alto” significa que sua qualificação [score] cai entre a média regional e o desvio padrão positivo.33 0. Payne et al.50 0.27 0.50 0.25 0.59 0.19 0.31 0.43 0.66 0.50 0.42 0.50 0.50 0.37 0.44 0.38 0.41 0.62 0. Altman 2001 e 2002.25 0.23 0.38 Médio alto (*) Médio baixo Muito alto Muito alto Muito alto Médio baixo Muito alto Médio baixo Médio baixo Médio baixo Médio baixo Médio baixo Médio alto Muito baixo Médio alto Médio baixo Médio Médio baixo presidenciais formais (3) 0. Mainwaring e Shugart 1997.TABELA 14 PODERES FORMAIS PRESIDENCIAIS.29 0. 2002 Índice de poderes País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Referente extra-regional Estados Unidos 0. Carey e Shugart 1998.50 0. Fontes: Shugart e Carey 1992.38 0.50 0.25 0. Bases empíricas do Relatório 95 .31 Médio baixo Poderes não legislativos (1) 0.50 0.40 Médio alto (*) Médio baixo Muito alto Muito alto Muito baixo Médio baixo Muito alto Médio alto Muito baixo Médio baixo Médio alto Médio baixo Médio alto Médio baixo Médio baixo Médio alto Médio baixo Muito baixo Notas: (1) Esta medida é a média entre as pontuações atribuídas segundo a capacidade de censura legislativa sobre o gabinete e a capacidade de dissolução do Congresso por parte do Poder Executivo. As escalas foram padronizadas entre 0 e 1 para possibilitar sua comparação.38 0.

apresenta lista Junta Nomeadora. 2002 Condições para a nomeação de magistrados Identificação inicial de candidatos Seleção e nomeação Período de nomeação País Executivo indica candidatos (*) Senado nomeia (2/3 de votos) Vitalício (aposentadoria obrigatória aos 75 anos) Corte Suprema Textos constitucionais Controle de constitucionalidade Argentina Constituição 1853. apresentan lista Comissão de postulação. reforma de 1994 Tribunal Constitucional 96 8 anos. com presença não governamental. reforma de 1997 A democracia na América Latina Colômbia Constituição 1991. reforma de 2000 Sala Constitucional México Constituição 1917. reforma de 1986. reforma de 1995 Corte Suprema . reforma de 1998 Tribunal Supremo Federal Tribunal Constitucional Chile Constituição 1980. apresenta lista Executivo apresenta lista Congresso seleciona da lista e nomeia (2/3 de votos) 5 anos. 1993. reeleição permitida Vitalício 9 anos. reeleição sucessiva 15 anos. reeleição permitida Congresso seleciona da lista e nomeia (2/3 de votos) Senado seleciona da lista e nomeia (2/3 de votos presentes) 7 anos. reforma de 1954 e 1993 Sala especializada de Corte Suprema Tribunal Constitucional Sala especializada de Corte Suprema Equador Constituição 1978. 1993 e 1994 Corte Suprema Nicarágua Constituição 1987. sem reeleição Executivo e Congresso apresentam lista Congresso seleciona da 5 anos. reeleição permitida lista e nomeia (6/10 dos votos) Brasil Constituição 1988. reforma de 1994 Conselho Judicial apresenta Congresso em pleno seleciona 10 anos. 1996 e 1997 El Salvador Constituição 1983. reforma de 1996 Guatemala Constituição 1985. reeleição sucessiva Conselho Nacional Judicial e as Congresso seleciona da lista Associações de Advogados de e nomeia (2/3 de votos) El Salvador. reforma de 1997 Corte Constitucional Costa Rica Constituição 1949. reforma de 1994 Corte Constitucional Honduras Constituição 1982. sem reeleição Senado nomeia (maioria absoluta) Vitalício (aposentadoria obrigatória aos 70 anos) Bolívia Constituição 1967. de composição governamental e não governamental. reeleição alterna “Terna” (listado de 3 pessoas) da lista e nomeia depois de um período (2/3 de votos) Executivo indica candidatos Corte Suprema apresenta “Quinária” (listado de 5 pessoas) Presidente seleciona da lista e Senado nomeia (2/3 votos) Corte Suprema seleciona da lista e nomeia (maioria absoluta) Congresso seleciona da lista e nomeia Corte Suprema nomeia (2/3 de votos) Conselho Superior da Judicatura apresenta lista Congresso identifica candidatos Corte Suprema indica candidatos Vitalício (aposentadoria obrigatória aos 75 anos) 8 anos. reforma de 1992.TABELA 15 PODERES JUDICIÁRIOS.

p. PNUD 2002b. a reeleição implica Corte Suprema período vitalício (aposentadoria obrigatória aos 75 anos) Tribunal Constitucional Peru Constituição 1993 República Dominicana Constituição 1966. reeleição alterna 5 anos após a conclusão do período (aposentadoria obrigatória aos 75 anos) 12 anos. 199. de 19 de junho de 2003. Comissão Andina de Juristas 2003. reeleição permitida Textos constitucionais Controle de constitucionalidade Corte Suprema Panamá Constituição 1972. 2002 Condições para a nomeação de magistrados Identificação inicial de candidatos Seleção e nomeação Período de nomeação País Presidente e gabinete apresentam lista Conselho de Magistrados apresenta lista Conselho Nacional da Magistratura aprova (2/3 votos) Conselho Nacional da Judicatura identifica candidatos Congresso identifica candidatos Congresso em pleno (ambas as câmaras) aprova (2/3 de votos) Congresso seleciona da lista e nomeia Conselho Nacional da Judicatura nomeia (maioria absoluta) Conselho Nacional de Magistrados nomeia (2/3 de votos) Aposentadoria obrigatória aos 70 anos Senado nomeia com consentimento do Executivo Congresso nomeia (maioria absoluta) 10 anos. 81. 1983 e 1984 Paraguai Constituição 1992 5 anos. reformas de 1978. OEA. sem reeleição Corte Suprema Venezuela Constituição 1999 Comité de Postulações Judiciais apresenta lista Tribunal Supremo de Justiça Nota: (*) Na Argentina. Apêndice 1. 78. Skaar 2001.CONTINUAÇÃO TABELA 15 PODERES JUDICIÁRIOS. e várias Constituições nacionais. 97 .CIDH 2003. Instituto de Direito Público Comparado 2003. o processo de nomeação de magistrados da Corte Suprema foi modificado pelo Decreto N º222. Bases empíricas do Relatório Fontes: Projeto Estado da Nação 1999. reforma de 1995 Vitalício (aposentadoria obrigatória aos 75 anos) Corte Suprema Uruguai Constituição 1967 10 anos.

Dominicana Legislativo- Uruguai Venezuela Legislativo Legislativo++ Notas: O dois pontos seguidos ( . procuradorias. Intermediário: as resoluções são vinculatórias. . mas requer aprovação ou ratificação legislativa. e Uggla 2003. Legislativo+ + : a nomeação ou remoção é feita pelo Poder Legislativo com a participação de entidades da sociedade civil ou do Poder Judiciário. ( 4) Executivo: a nomeação ou remoção é de responsabilidade exclusiva do Executivo. Executivo+ + : a nomeação ou remoção é feita pelo Executivo. ( 2) Inclui os órgãos encarregados da acusação penal do Estado: promotorias. 2002 Controladoria (1) Destituição 4/ Poder 5/ Nomeação 4/ Destituição 4/ Criação Nomeação 4/ Promotoria (2) Ombudsman (3) Destituição 4/ País . Legislativo Legislativo++ Intermediário Fraco Fraco Forte Intermediário Fraco Corte Suprema Legislativo+ Legislativo Executivo Executivo++ Legislativo++ Forte Fraco Fraco Intermediário Executivo Legislativo Executivo ++ LegislativoExecutivo Legislativo Executivo Legislativo 1985 1992 1990 1995 1997 1992 1993 2001 1999 Forte Intermediário Fraco Forte LegislativoCorte Suprema LegislativoLegislativo Corte Suprema Não se define Legislativo Legislativo 1991 1992 1998 1991 Fraco Fraco Forte Forte Ejecutivo++ Legislativo Executivo++ Executivo++ No se define Legislativo Legislativo Legislativo++ 1993 1994 Legislativo+ Legislativo LegislativoLegislativo Legislativo++ Legislativo Legislativo++ Legislativo Legislativo Legislativo++ Executivo+ Legislativo Legislativo Legislativo Legislativo++ Nomeação 4/ 98 Executivo++ Executivo++ Junta de Fiscais Supremos Executivo Executivo++ Legislativo++ Argentina Bolívia Brasil Chile Legislativo Executivo+ LegislativoExecutivo++ Legislativo+ Legislativo Sin especificar Legislativo Legislativo Legislativo Legislativo Sin especificar Legislativo Legislativo Corte Suprema Legislativo+ Legislativo Corte Suprema Legislativo+ A democracia na América Latina Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Legislativo++ Legislativo Executivo+ Legislativo Guatemala Honduras México Nicarágua Legislativo Legislativo LegislativoLegislativo- Panamá Paraguai Peru Legislativo Legislativo+ Legislativo- Rep. além disso possuem potestades legais para forçar seu cumprimento. cap. . procuradorias de direitos humanos. 9. ( 5) Fraco: as resoluções não são vinculatórias. Auditorias nacionais e Controladoria Geral da República.. Legislativo+ : a nomeação ou remoção é de responsabilidade do Parlamento. ( 3) Inclui os órgãos encarregados de defender os direitos dos habitantes perante o Estado: Defensorias. Maiorano 2000. com base na lista de candidatos confeccionada pelo Parlamento. Executivo+ : a nomeação ou remoção é feita pelo Executivo.: a nomeação é feita pelo Poder Legislativo. 2002. Universidade de Georgetown e OEA 2002. mas requer procedimento bicameral. Legislativo. ) indicam que a informação não está disponível. ( 1) Inclui os órgãos encarregados de fiscalizar as contas públicas: Tribunais de Contas. Legislativo: a nomeação ou remoção é responsabilidade exclusiva da câmara baixa.TABELA 16 ORGANISMOS ESPECIALIZADOS DE CONTROLE. mas não possuem potestades legais para forçar seu cumprimento. Legislativo++ Poder Judiciário Legislativo+ Poder Judiciário Legislativo Legislativo Legislativo Legislativo Legislativo LegislativoLegislativo++ Poder Judiciário Executivo++ Legislativo .. a partir de uma lista enviada pelo Executivo ou existe um sistema misto de nomeação com potestades do Executivo e do Legislativo para a nomeação ou remoção. Payne et al. Forte: as resoluções são vinculatórias e. ministérios públicos. Fontes: Groisman e Lerner 2000.

) indica que a informação não é relevante..... . . ... .. ... .. . 1 . 2 Sim 5 1 . Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina (*) Bases empíricas do Relatório Notas: A informação se refere somente a mecanismos de democracia direta oficiais e no âmbito nacional.. Sim . ... .. . . ao total de vezes que esses mecanismos foram usados.. Sim . .... . 1978-2002 Plebiscito Existência Uso Vezes usado Êxito no uso Existência Uso Vezes usado Êxito no uso Plebiscito não vinculatório País Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Sim (1) Sim Não Não Não Sim Sim Sim Não Sim Sim 13 8 33 21 Sim Sim 2 3 1 3 Não . os dois 99 pontos seguidos ( . ... ( 2) Quatorze desses foram realizados em uma determinada data: maio de 1997. que a informação não está disponível. . 8. p. Fontes: Altman 2002.. . .. também.. 16 (3) . . .. . . 2 Sim Não Sim 2 1 0 1 . . ( * ) Os dados para a região referem-se ao total de países que permitem o uso de mecanismos de democracia direta e... 1 ... 17 Sim Não Sim Não 1 17 (2) 1 14 .. . . . .. .. mas só registra seu uso dentro do contexto de regimes democráticos. .. .. .. 7 Não Sim Não 2 0 Sim Não . . . . . . ) . .. . e várias Constituições e leis eleitorais nacionais. Sim . .... 6 . . O hífen ( .. .TABELA 17 MECANISMOS DE DEMOCRACIA DIRETA DE CIMA PARA BAIXO. ........ . . .. ..... ( 1) Somente em relação à integração centro-americana.... . ( 3) Quinze desses foram realizados em duas ocasiões: agosto de 1994 e novembro de 1995. As datas são de 1978 em diante ou desde que esses mecanismos foram criados...

. .. 2 . 2 ...... . . Sim . . ... . ... . .e várias Constituições e leis eleitorais nacionais. . ..) indica que a informação não é relevante.. . .. . 2 . . p. . .. . .. .. .. . 1978-2002 Iniciativa vinculatória País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep... Sim .. . ...... . que a informação não está disponível. ...TABELA 18 MECANISMOS DE DEMOCRACIA DIRETA DE BAIXO PARA CIMA. ... ........ ao total de vezes que esses mecanismos foram usados. As datas são de 1978 em diante ou desde que esses mecanismos foram criados. . .. 100 A democracia na América Latina . ... . . . ... Dominicana Uruguai Venezuela América Latina(*) Existência Uso Vezes usado Êxito no uso Iniciativa Não-vinculatória Referendo Existência Uso Vezes usado Êxito no uso Existência Uso Vezes usado Êxito no uso Revogação de mandato Existência Uso Vezes usado Êxito em uso Sim Não Sim Não Sim Sim Sim Não Sim Não Não Sim Não Sim Sim Não Sim Sim 11 Não Não Não Não Não Não Não Não Não Sim Não 1 5 5 2 2 Sim ... . . os dois pontos seguidos ( . ..... . . ( * ) Os dados para a região referem-se ao total de países que permitem o uso de mecanismos de democracia direta e.. . ... Fontes:Altman 2002.. O hífen ( . . mas somente registra seu uso dentro do contexto de regimes democráticos. . . . .. 2 Não Não Sim Não Sim Sim Não Não Não Não Não Não Não Sim Sim Não Sim Sim 7 Não Não Não Não Não Sim Não 1 6 6 2 2 Não Não Não Não Sim Não Não Não Não Não Não Não Não Não Sim Não Não Sim 3 Não Não Não 0 0 0 Notas: A informação se refere apenas a mecanismos de democracia direta oficiais e no âmbito nacional.. .8. ) ... Não Sim 3 Não . também. . Não 1 .

Fontes: Lambsdorff 2001.78 4.73 4.34 5. Os dados da Transparência Internacional consistem em uma escala de 11 pontos.64 4.16 3.2 4.7 2.46 4.1 2.0 7.60 3. pp.8 2.31 4.12 3.76 4.0 1.8 4. 2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela REGIÃO América Latina Europa ocidental 3. Ambas as organizações constroem seu índice entrevistando grupos de especialistas selecionados por cada uma delas.56 4.0 7. o resultado não tem significação estatística numéricamente.52 3.1 3.7 3.6 4. com números mais altos indicando menor corrupção.4 2.8 2.28 4.82 6.47 4.81 3.7 ..88 3.8 4. Obviamente.26 2.45 6.52 6.67 5.6 2.5 3.7 4.85 Notas: Os dois pontos seguidos (.21 4. 4.5 Fórum Econômico Mundial 2001 2002 4.5 2.4 3.3 3.07 4.6 2.. com números mais altos indicando menos corrupção.35 4. A escala do Fórum Econômico Mundial é de 7 pontos.5 2.77 2.82 4.42 3.37 6.5 2.) indicam que a informação não está disponível.5 2.14 4.41 3. Bases empíricas do Relatório 101 .1 5.1 2.31 4.0 4.5 3.2 3.5 3.TABELA 19 INDICADORES DE PERCEPÇÕES SOBRE CORRUPÇÃO.4 7.05 4.7 3.08 Transparência Internacional 1999-2001 2002 3.91 4. 234-236 e TI 2002.5 5.40 3.26 4.1 3.55 5.6 7.84 4.0 3.43 5.9 2.

de acordo.3 18..7 38.80 31.8 12. Fontes: Processamento de pergunta P23UF da Seção Proprietária do PNUD (pergunta p23uf: O/A senhor/a está totalmente de acordo.66 considera-se nível econômico médio e se estiver entre 6.34 e 6.8 ..00 55.5 8.5 53.3 6.3 3.0 18.63 7.8 40. e de outras perguntas de caráter socioeconômico no Latinobarômetro 2002.7 4.17 11.7 16.9 50.43 8. ns Idade ** ** ** Nível educativo % Sem estudos % 1 a 6 anos % 7 a 12 anos % Superior completa ou incompleta Média de anos de estudo % Baixo % Médio % Alto Média de índice ecomômico % Democratas % Ambivalentes % Não democratas ** ** Nível ecomômico (2) ** ** Orientação Democrática Notas: (1) Inclui República Dominicana. Indica-se “ns “quando a prova não resultar significativa nem a 1% nem a 5%..4 32.1 38. Indica-se com “**”quando o resultado for significativo a 1%.0 51.4 35.4 14.4 37.1 11.351 n=18.0 21.7 9.22 42.1 23.1 33.33 considera-se nível econômico baixo.5 29. .0 54.2 33.5 7.9 47.2 31. em desacordo ou totalmente em desacordo com a seguinte afirmação? “Pode-se pagar o preço de certo grau de corrupção no governo desde que os problemas do país sejam solucionados?”).1 7. se estiver entre 3.6 39.79 46.6 29.0 56..6 50.9 34.6 49.4 8.03 7.7 8.67 e 10 considera-se nível econômico alto.2 4. Se o índice estiver entre 0 e 3.4 31.2 25. 2002 Categorias Estrutura da amostra Pode-se pagar o preço de certo grau de corrupção no governo desde que os problemas do país sejam solucionados Totalmente de acordo De acordo Em desacordo Totalmente em desacordo Significância (3) América Central e México (1) Região Andina Mercosul e Chile América Latina Sexo % de pessoas % de pessoas % de pessoas % de pessoas % Homens % Mulheres % 16 a 29 anos % 30 a 64 anos % 65 a 99 anos Média de idade n=7.9 49.0 35. (3) Indica-se com um “*”quando a medida de associação utilizada ou a Análise de Variância (ANOVA sigla em inglês) resultar significativa a 5%. .9 47.. consulte o compêndio estatístico.238 n=5.8 42.7 41. Quando não for pertinente o cálculo de uma medida de associação ou da ANOVA.4 9.9 38.9 39.6 3.7 55.4 9.3 22. Sobre provas realizadas em cada caso.7 43.8 23.3 17.7 9.68 29.9 50.TABELA 20 PERFIL DAS PESSOAS COM DIFERENTES ATITUDES EM RELAÇÃO À CORRUPÇÃO.5 37.71 8. 102 A democracia na América Latina .5 26.7 9.9 28.6 49.52 50.6 8.013 49.7 47.424 n=5.3 39. Este índice pode variar entre 0 e 10.4 38.8 30.04 43.0 13.04 48.”.8 27.6 46.1 50.8 3.2 6. indica-se com “.7 36.9 22. .8 43.31 40.1 34.7 7. (2) Com base no índice econômico construído a partir da propriedade artefatos e da educação do chefe de família.0 50.9 8.3 49.9 37.92 42.5 31.6 16.0 50.8 41.7 9.4 21.4 35.

no Latinobarômetro 2002.9). Uruguai (32.TABELA 21 REDES CLIENTELISTAS.2).4). Colômbia (16.7 34. México (43.1) Proporção de pessoas que conhecem um ou mais casos de clientelismo 24. 2002 Nível de conhecimento (1) Baixo conhecimento de casos de clientelismo País (2) Brasil (23. Nicarágua (35. Fonte: Processamento da pergunta p7u da Seção Proprietária do PNUD (pergunta p7u:”O/A senhor/a conhece pessoalmente um caso de uma pessoa que tenha recebido privilégios por ser simpatizante do partido do governo?”). Panamá (27.3). Venezuela (31. (1) Pouco conhecimento: 25% ou menos dos consultados afirmaram conhecer um ou mais casos de privilégios. Equador (24. El Salvador (23.3) Argentina (32. Paraguai (34. Costa Rica e Venezuela. Bolívia (33. República Dominicana (53. (2) A cifra entre parênteses depois do país indica a proporção de pessoas que afirmaram conhecer um ou mais casos de privilégios.4).3).2). Bases empíricas do Relatório 103 .0 31.8) Guatemala (42.9). Chile (16. Peru (32.366.2).4). Alto conhecimento: mais de 40% das pessoas têm conhecimento. Conhecimento intermediário: entre 25% e 40% das pessoas afirmam conhecer um ou mais casos de privilégios. 4).0). Honduras (36.3).4 Conhecimento intermediário de casos de clientelismo Alto conhecimento de casos de clientelismo Tradição democrática Democracias mais velhas (3) Democracias mais novas Média América Latina Notas: n =19.0).7). Costa Rica (27. (3) Democracias mais velhas: inclui Colômbia.

TABELA 24 TRATADOS DA ONU. El Salvador. . El Salvador El Salvador. Nicarágua. O restante da informação está atualizado até 1 º de abril de 2003. OIT 2003. Sociais e Culturais Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Fontes: ONU 2003a. México Panamá Chile. 2002 Número de países sem Ano ratificar 0 0 0 1 2 2 0 0 0 0 1994 1965 1989 0 1 6 Bolívia Brasil. Colômbia. A informação sobre os direitos de indígenas e minorias étnicas está atualizada até 24 de novembro de 2002. “Pacto de San José de Costa Rica” Direitos trabalhistas Convenção 29 da OIT: Eliminação do Trabalho Forçado e Compulsivo Convenção 87 da OIT: Liberdade de Associação e Proteção do Direito de Organização Convenção 98 da OIT: Direito à Organização e à Negociação Coletiva Convenção 105 da OIT: Abolição do Trabalho Forçado Direitos de mulheres Convenção 100 da OIT: Igualdade nas Remunerações Convenção 111 da OIT: Discriminação no Emprego e no Trabalho Convenção da ONU sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres Convenção Interamericana de Prevenção. Uruguai 1973 1989 1999 2 0 3 México.) indica que o dado não é aplicável. e OEA 2003. República Dominicana. “Convenção de Belém do Pará” Direitos de indígenas e grupos étnicos Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965) Convenção da OIT 169 sobre Povos Indígenas e Tribais Bases empíricas do Relatório Direitos de menores Convenção da OIT 138 sobre Idade Mínima Convenção da ONU dos Direitos da Criança Convenção da OIT 182 sobre Piores Formas do Trabalho Infantil 113 Notas: O hífen ( . Panamá. Castigo e Erradicação da Violência contra as Mulheres. Paraguai Bolívia. Venezuela 1966 1966 1969 1930 1948 1949 1957 1951 1958 1979 Países sem ratificar Direito Tratado Direitos gerais Pacto Internacional da ONU sobre Direitos Civis e Políticos Pacto Internacional da ONU sobre Direitos Econômicos. DA OIT E DA OEA: DIREITOS GERAIS E DIREITOS DE CATEGORIAS DE CIDADÃOS.

como direitos coletivos.Van Cott 2003. e garante o uso de línguas indígenas em processos judiciais (art. o espanhol é o idioma oficial. mas as “línguas autóctones” são respeitadas Sim. o espanhol é o idioma oficial Sim. mas as línguas indígenas são de uso oficial nas áreas onde predominam . Os direitos multiculturais referem-se ao fato de as múltiplas identidades étnicas serem ou não reconhecidas pelo Estado. de outubro de 1993. o português é o idioma oficial Não. mas as línguas indígenas e os dialetos são oficiais em seus territórios Não. 114 A democracia na América Latina . Fontes :OIT 2002b.. as línguas indígenas têm status oficial nas áreas onde são faladas Não. às vezes.253.74). mas não existe idioma oficial Não.42. Não Sim Notas: As datas das constituições se referem aos documentos originais e à última reforma ou emenda. Os direitos apresentados neste quadro são considerados..pp. mas as línguas indígenas são fomentadas Sim. mas não existe idioma oficial Sim. Uruguai Venezuela 1967/97 1999 . a Lei Indígena N º19. 2000 Direitos constitucionais País Argentina Bolívia Brasil Chile (*) Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Constituição 1853/1994 1967/1994 1988 1980 1991 1949 1998 1983/1992 1985 1982 1917/1992 1987/1995 Direitos multiculturais Existência de direitos relacionados com o uso do idioma Fracos Sim Não Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Sim Não. o espanhol é o idioma oficial. os idiomas das comunidades da costa atlântica são oficiais nessas regiões Não. o guarani é um idioma oficial Sim.TABELA 25 DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS.39). mas as “línguas aborígenes” são conservadas e difundidas Sim. o espanhol é o idioma oficial Não. estabelece a promoção das culturas e idiomas indígenas e dos sistemas de educação intercultural bilíngüe (art. mas as línguas indígenas são para uso oficial restrito Não.e Universidade de Georgetown e OEA 2002.. e não estritamente direitos civis. mas não existe idioma oficial Não. as línguas indígenas são de uso oficial para os indígenas e devem ser respeitadas em todo o território Panamá Paraguai Peru 1972/78/83/93/94 1992 1993 Sim Sim Sim República Dominicana . o espanhol é o idioma oficial. (*) No Chile.572-574.Barié 2000. Não Sim.

.0 13.. quadro 8. A coluna “assalariados “compara as diferenças salariais entre homens e mulheres unicamente no contexto da população assalariada. Fontes: IPEC-SIMPOC 2002.. 2002b. e p. p.3 48...500 .77 70.89 Notas: Os dados sobre disparidade salarial por gênero representam a porcentagem da renda masculina recebida pelas mulheres. 120 30 420 590 . . pp. . . . 50 750 110 220 .30 28. 27. 201-202. 200 550 .4 2 19 29 15 ....5 127. . 201-202.90 72. quadro 2. Fontes: CEPAL 2001a. As cifras sobre crianças implicadas nas “piores formas de trabalho” são estimativas. . 260 Notas: A “proporção que trabalha” refere-se ao número de crianças que trabalham em relação ao número total de crianças. quadro 10.TABELA 26 MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO 1990-2000 Participação na atividade econômica 1990 Total Homens Mulheres Total 1995 Homens Mulheres Total 2000 Homens Mulheres 49. Bases empíricas do Relatório 115 . e 2003. 20-21. 16 .86 33.. TABELA 27 INCIDÊNCIA DO ABUSO DE MENORES NAS DIFERENTES REGIÕES DO MUNDO..4 .89 64. pp. 250 .93 Disparidade salarial por gênero (renda média nas áreas urbanas) Início dos anos 90 PEA assalariados Meados dos anos 90 PEA assalariados PEA Fim dos anos 90 assalariados 61. 17. 2000 Crianças economicamente ativas (5-14 anos) Região Economias desenvolvidas Ásia e Pacífico África subsaariana Oriente Médio e Norte da África África América Latina e Caribe número de crianças (em milhões) proporção que trabalha (%) Crianças implicadas nas piores formas de trabalho infantil tráfico (em milhares) trabalho forçado e servil (em milhares) conflito armado (em milhares) prostituição e pornografia (em milhares) atividades ilícitas (em milhares) 2. As cifras regionais são a média ou termo médio de todos os casos em que existem dados para qualquer ano. quadro 15..55 31.81 50.32 52.23 70.. 17. pp..34 77.23 67.. quadro 8.37 70. 5.99 70.. A coluna PEA (População Economicamente Ativa) compara diferenças da renda entre homens e mulheres no contexto da PEA global. 210 3 1 120 .

Bolívia. Colômbia. Equador. Nicarágua. 2003 Número de países Tratado Convenção da ONU contra a tortura e outras formas de tratamento e castigo cruéis. Fontes: ONU 2003. e OEA 2003. México. República Dominicana Nota: A informação está atualizada a 1º de abril de 2003. México. inumanos ou degradantes Convenção Interamericana da OEA para prevenir e castigar a tortura Protocolo da Convenção Interamericana de Direitos Humanos para abolir a pena de morte Ano 1984 sem ratificar 2 Países sem ratificar Nicarágua. República Dominicana 1990 10 Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçoso de Pessoas 1994 9 Brasil. Honduras. Chile. República Dominicana 1995 3 Bolívia. Peru. El Salvador. 116 A democracia na América Latina . El Salvador. Nicarágua Argentina. Honduras. Honduras.TABELA 28 TRATADOS DA ONU E DA OEA SOBRE DIREITOS CIVIS FUNDAMENTAIS. Colômbia. Peru. Guatemala.

e ONU.121 154 8. Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais 2001 e 2002.2 32.000 1. para América Latina corresponde o ano 1997.3 33.8 4.1 2. 274.1 Nota: As cifras regionais são a soma de todos os casos em que existem dados disponíveis. 1995-99 c.8 Ano 2001 2000 2001 2001 2000 1999 1999 2001 1994 1998 2000 1998 1998 2001 2001 1998 2000 2000 c. UNODC 2002.9 34. pp. ONU. 1997 N° de mortes 3.0 6.4 7.6 33.2 25.829 1. 2000 c.6 5. 1995-99 4.555 245 3. Fontes: Interpol 2004.0 24.196 3.519 31. 1995-99 c.0 14.1 8. 1995-99 c. 1995-99 c.000 521.618 699 29.239 9.0 4.2000 N° de mortes por 100.157 54 890 1. O número de homicídios para El Salvador e Honduras é estimado.558 39.298 1.TABELA 29 HOMICÍDIOS DOLOSOS NA AMÉRICA LATINA E EM OUTRAS PARTES DO MUNDO.0 15.135 habitantes 8. A Europa Ocidental não inclui Luxemburgo nem o Reino Unido.022 109. C. e refletem uma média nãoponderada. 308-312. Krug 2002.241 13.217 2.1 5. Bases empíricas do Relatório 117 .0 15.0 23.8 22.000 78.000 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Referentes extra-regionais Europa Ocidental Mediterrâneo Oriental Ásia do Sul e Oriental África Pacífico Ocidental Total mundial c.2 5.5 70.3 154.2 25. Divisão de População.000 116.000 59.048 2.

3 0. Legal and Judicial Reform Practice Group 2003.2 6.0 10.5 Notas: O número de juízes para o México refere-se unicamente ao nível federal.2 0.5 2.0 2.3 0.0 8.7 3.7 6.2003a e 2003b.126 128 33 274 92 200 686 15 48 200 263 39 74 159 2.2 1.4 1.4 7.3 1.7 0. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Ano % orçamento nacional Ano Ano 2000 2001 2000 2002 2002 2001 2001 2002 2002 2002 2000 2001 2000 2001 2002 2001 2001 2002 3.2 0.1 3.4 2. Banco Mundial.2 5.5 2000 2002 2000 2002 2002 2001 2002 2002 2002 2002 2000 2001 2002 2001 2002 2001 2000 2000 11.5 3.9 2001 2001 2001 2004 2000 2001 2001 2001 2001 2002 2001 2001 2001 2001 2001 2001 2001 1998 857 82 3000 417 1.0 0.7 2.9 2. para o número de Juízes e Defesores públicos a média é ponderada.1 9.2 0.6 5. 118 A democracia na América Latina .TABELA 30 RECURSOS FINANCEIROS E HUMANOS DEDICADOS AO SISTEMA DE ADMINISTRAÇÃO DE JUSTIÇA.7 3.6 1.6 9.7 1.5 6.2 1.0 15.1 0.6 1.0 0.0 7. Fontes: CEJA.5 2.2 1.5 6.000 habitantes País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.8 3.5 4.4 16.5 1.9 1.9 1. Os dados sobre advogados públicos para a Argentina referem-se ao total de funcionários e para o Brasil são estimados.3 4.6 1.0 7.6 1.1 4.0 5.000 habitantes Número de defensores públicos Número de defensores públicos Número de defensores públicos por 100.7 2. Os dados regionais para a porcentagem do orçamento não são ponderados. 2001 Recursos financeiros Número de juízes Número de juízes por 100.0 8.

Bases empíricas do Relatório 119 .cap.7 60.3 136.000 habitantes) Presos sem processo e presos sem condenação (porcentagem da população carcerária) Nível de ocupação (sobre a base da capacidade oficial) País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Referente extra-regional Estados Unidos Ano 1999 1999 2002 2002 2001 1999 2002 2002 1999 2002 2000 1999 2002 1999 2002 2001 2002 2000 c.2 2001 1.9 78.2.2 36.fig.6 127.8 175.5 57.0 33.604 8.3 150.5 72.7 67.TABELA 31 POPULAÇÃO CARCERÁRIA.098 54.A populación presa total para América Latina é de 660.5 112.2 64.5 41.0 134.8 113. Os dados sobre o nível de ocupação para a Argentina foram retirados de CELS 2001.1 39.088 27. 2002 Total de população carcerária (inclui presos processados e presos sem Taxa de população carcerária (por 100.2.034 8.493 15.341 5.9 207.5 132.5 54.8 55.2 30.8 119.e correspondem ao ano 2000.629 15. PRESOS SEM CONDENAÇÃO E SUPERLOTAÇÃO.684.278 8.962. a populaçao regional de 508 milhoes para 2002.5 109.9 162.198 10.716 10.0 167.8 106.526 7.4 41.502 154.0 136.5 69.9 49.315 240. Fontes: Centro Internacional para Estudos Penitenciários.2 138.765 7.3 92.7 40.107 36.4 Nota: As cifras regionais são a média dos casos.8 97.6 115.0 137.705 107 102 137 204 126 229 59 158 71 172 156 143 359 75 104 178 166 62 145 55.220 686 18.107 33. 2002 condenação) 38.5 151.4.460 11.423 4.2003.

8 4. as cifras mais baixas indicam maior grau de liberdade. 2001-2002 Freedom House País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.5 8.Os dois pontos seguidos (... 24.) indicam que a informação não está disponível.8 6.TABELA 32 TABELA 33 LIBERDADE DE IMPRENSA.0 25. 120 A democracia na América Latina . 15.0 14.5 18. e Repórteres sem Fronteiras 2003.5 . Nota: Os índices medem unicamente o número de casos claramente confirmados de jornalistas assassinados no cumprimento do dever.8 27..8 .5 8..5 40.2 MORTE DE JORNALISTAS. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina 2001 39 30 38 22 63 14 41 38 58 51 38 40 34 55 35 33 30 68 40. seja por represália direta por seu trabalho ou por fogo cruzado. Fontes: Karlekar 2003. 6.3 5.0 15.3 .5 9. Fonte: CPI 2003. Dominicana Uruguai Venezuela Região América Latina Europa Ocidental 32 1 33 2 1993-1997 1998-2002 1 0 6 0 13 0 0 1 2 1 5 0 0 0 1 1 0 1 1 1 4 0 18 1 0 0 2 0 3 0 0 1 0 0 1 1 Notas: As escalas de liberdade de imprensa da Freedom House e de Repórteres sem Fronteiras vão de 0 a 100.4 Repórteres sem Fronteiras 2001/2002 12. A informação de Repórteres sem Fronteiras refere-se ao período setembro 2001-outubro 2002. 1993-2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.

Relatório para a Liberdade de Expressão 2001.3. remover ou preservar tal informação com o objetivo de proteger certos direitos fundamentais. Bases empíricas do Relatório 121 . mas ambígua Sim Não Não Não Sim Sim Sim Sim. Dominicana Uruguai Venezuela informação pública Sim Não Sim Sim. referente à sua pessoa ou à sua propriedade e. mas ambígua Sim Não Sim Sim Não Sim Opção legal Ano de adoção Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Não Não Sim 1994 1988 1997 1996 1995 2002 1995 2002 1992 1993 1999 Notas: A expressão “direito ao acesso à informação pública” refere-se ao direito a obter informação de fontes estatais sobre a administração dos assuntos públicos.TABELA 34 DIREITO AO ACESSO À INFORMAÇÃO PÚBLICA E HABEAS DATA. a possibilidade de atualizar. A expressão “Habeas data” refere-se a uma ação que garanta o acesso de qualquer indivíduo à informação existente em bases de dados públicas ou privadas. corrigir. e Guadamuz 2000 e 2001. 2002 Habeas data Direito ao acesso à País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.quadro 1. caso seja necessário. Fontes: OEA-CIDH.cap.

El Salvador El Salvador. Uruguai 1973 1989 1999 2 0 3 México. Nicarágua.) indica que o dado não é aplicável. A informação sobre os direitos de indígenas e minorias étnicas está atualizada até 24 de novembro de 2002. “Convenção de Belém do Pará” Direitos de indígenas e grupos étnicos Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965) Convenção da OIT 169 sobre Povos Indígenas e Tribais Bases empíricas do Relatório Direitos de menores Convenção da OIT 138 sobre Idade Mínima Convenção da ONU dos Direitos da Criança Convenção da OIT 182 sobre Piores Formas do Trabalho Infantil 113 Notas: O hífen ( . El Salvador. Castigo e Erradicação da Violência contra as Mulheres. OIT 2003. México Panamá Chile. Venezuela 1966 1966 1969 1930 1948 1949 1957 1951 1958 1979 Países sem ratificar Direito Tratado Direitos gerais Pacto Internacional da ONU sobre Direitos Civis e Políticos Pacto Internacional da ONU sobre Direitos Econômicos. Fontes: ONU 2003a. O restante da informação está atualizado até 1 º de abril de 2003. República Dominicana.TABELA 24 TRATADOS DA ONU. 2002 Número de países sem Ano ratificar 0 0 0 1 2 2 0 0 0 0 1994 1965 1989 0 1 6 Bolívia Brasil. Paraguai Bolívia. Panamá. “Pacto de San José de Costa Rica” Direitos trabalhistas Convenção 29 da OIT: Eliminação do Trabalho Forçado e Compulsivo Convenção 87 da OIT: Liberdade de Associação e Proteção do Direito de Organização Convenção 98 da OIT: Direito à Organização e à Negociação Coletiva Convenção 105 da OIT: Abolição do Trabalho Forçado Direitos de mulheres Convenção 100 da OIT: Igualdade nas Remunerações Convenção 111 da OIT: Discriminação no Emprego e no Trabalho Convenção da ONU sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres Convenção Interamericana de Prevenção. Colômbia. Sociais e Culturais Convenção Americana sobre Direitos Humanos. DA OIT E DA OEA: DIREITOS GERAIS E DIREITOS DE CATEGORIAS DE CIDADÃOS. e OEA 2003. .

2000 Direitos constitucionais País Argentina Bolívia Brasil Chile (*) Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Constituição 1853/1994 1967/1994 1988 1980 1991 1949 1998 1983/1992 1985 1982 1917/1992 1987/1995 Direitos multiculturais Existência de direitos relacionados com o uso do idioma Fracos Sim Não Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Sim Não.Van Cott 2003. e não estritamente direitos civis. o espanhol é o idioma oficial.TABELA 25 DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS. Uruguai Venezuela 1967/97 1999 . o português é o idioma oficial Não. (*) No Chile. mas as “línguas aborígenes” são conservadas e difundidas Sim.39). Os direitos apresentados neste quadro são considerados.pp. mas não existe idioma oficial Não. o espanhol é o idioma oficial. 114 A democracia na América Latina .42. Fontes :OIT 2002b. mas as línguas indígenas são de uso oficial nas áreas onde predominam .e Universidade de Georgetown e OEA 2002.Barié 2000. às vezes.253. mas não existe idioma oficial Sim.. o espanhol é o idioma oficial. o espanhol é o idioma oficial Sim. estabelece a promoção das culturas e idiomas indígenas e dos sistemas de educação intercultural bilíngüe (art.74). mas não existe idioma oficial Não. os idiomas das comunidades da costa atlântica são oficiais nessas regiões Não.572-574. e garante o uso de línguas indígenas em processos judiciais (art. a Lei Indígena N º19. o guarani é um idioma oficial Sim. o espanhol é o idioma oficial Não. mas as línguas indígenas e os dialetos são oficiais em seus territórios Não. Os direitos multiculturais referem-se ao fato de as múltiplas identidades étnicas serem ou não reconhecidas pelo Estado. as línguas indígenas são de uso oficial para os indígenas e devem ser respeitadas em todo o território Panamá Paraguai Peru 1972/78/83/93/94 1992 1993 Sim Sim Sim República Dominicana . mas as “línguas autóctones” são respeitadas Sim. como direitos coletivos. mas as línguas indígenas são fomentadas Sim.. de outubro de 1993. Não Sim. Não Sim Notas: As datas das constituições se referem aos documentos originais e à última reforma ou emenda. mas as línguas indígenas são para uso oficial restrito Não.. as línguas indígenas têm status oficial nas áreas onde são faladas Não.

. . Fontes: CEPAL 2001a.3 48.89 Notas: Os dados sobre disparidade salarial por gênero representam a porcentagem da renda masculina recebida pelas mulheres...500 ..0 13.99 70.4 2 19 29 15 . 120 30 420 590 ..55 31. 20-21.86 33. 210 3 1 120 . . .. 200 550 .32 52. quadro 2. .30 28. As cifras regionais são a média ou termo médio de todos os casos em que existem dados para qualquer ano.37 70.90 72.. A coluna PEA (População Economicamente Ativa) compara diferenças da renda entre homens e mulheres no contexto da PEA global. .TABELA 26 MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO 1990-2000 Participação na atividade econômica 1990 Total Homens Mulheres Total 1995 Homens Mulheres Total 2000 Homens Mulheres 49.. 260 Notas: A “proporção que trabalha” refere-se ao número de crianças que trabalham em relação ao número total de crianças. 201-202. pp. quadro 15. quadro 8.77 70. 17. 5.. A coluna “assalariados “compara as diferenças salariais entre homens e mulheres unicamente no contexto da população assalariada.4 . 27.89 64. pp.. e p.. 250 . TABELA 27 INCIDÊNCIA DO ABUSO DE MENORES NAS DIFERENTES REGIÕES DO MUNDO.5 127. ..81 50. Fontes: IPEC-SIMPOC 2002. 2002b. 16 . 50 750 110 220 . quadro 10. pp..93 Disparidade salarial por gênero (renda média nas áreas urbanas) Início dos anos 90 PEA assalariados Meados dos anos 90 PEA assalariados PEA Fim dos anos 90 assalariados 61. As cifras sobre crianças implicadas nas “piores formas de trabalho” são estimativas.34 77. quadro 8.. 2000 Crianças economicamente ativas (5-14 anos) Região Economias desenvolvidas Ásia e Pacífico África subsaariana Oriente Médio e Norte da África África América Latina e Caribe número de crianças (em milhões) proporção que trabalha (%) Crianças implicadas nas piores formas de trabalho infantil tráfico (em milhares) trabalho forçado e servil (em milhares) conflito armado (em milhares) prostituição e pornografia (em milhares) atividades ilícitas (em milhares) 2.. 201-202. p.23 67. e 2003. Bases empíricas do Relatório 115 .23 70. 17.

Honduras. 116 A democracia na América Latina .TABELA 28 TRATADOS DA ONU E DA OEA SOBRE DIREITOS CIVIS FUNDAMENTAIS. Colômbia. Fontes: ONU 2003. Peru. 2003 Número de países Tratado Convenção da ONU contra a tortura e outras formas de tratamento e castigo cruéis. inumanos ou degradantes Convenção Interamericana da OEA para prevenir e castigar a tortura Protocolo da Convenção Interamericana de Direitos Humanos para abolir a pena de morte Ano 1984 sem ratificar 2 Países sem ratificar Nicarágua. Honduras. Nicarágua. Honduras. República Dominicana 1990 10 Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçoso de Pessoas 1994 9 Brasil. Guatemala. Peru. Bolívia. El Salvador. e OEA 2003. República Dominicana 1995 3 Bolívia. El Salvador. Colômbia. Equador. México. República Dominicana Nota: A informação está atualizada a 1º de abril de 2003. Chile. México. Nicarágua Argentina.

8 22. 1995-99 c. ONU.3 154. 1997 N° de mortes 3.1 8. e ONU. Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais 2001 e 2002.196 3.829 1. UNODC 2002.555 245 3.2 25.2 5.8 Ano 2001 2000 2001 2001 2000 1999 1999 2001 1994 1998 2000 1998 1998 2001 2001 1998 2000 2000 c.558 39.000 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Referentes extra-regionais Europa Ocidental Mediterrâneo Oriental Ásia do Sul e Oriental África Pacífico Ocidental Total mundial c. 1995-99 c.0 23. A Europa Ocidental não inclui Luxemburgo nem o Reino Unido. 2000 c.2000 N° de mortes por 100.135 habitantes 8.6 33. 308-312.048 2. 1995-99 c. Bases empíricas do Relatório 117 .217 2. pp.4 7. Divisão de População.000 116.0 15.1 Nota: As cifras regionais são a soma de todos os casos em que existem dados disponíveis.6 5.0 6.1 2. para América Latina corresponde o ano 1997.000 78.000 59.121 154 8.2 32.2 25.0 14. Krug 2002.618 699 29.241 13.239 9. C.519 31.3 33.022 109. Fontes: Interpol 2004.157 54 890 1.0 24. O número de homicídios para El Salvador e Honduras é estimado.1 5.8 4. 1995-99 c.5 70.TABELA 29 HOMICÍDIOS DOLOSOS NA AMÉRICA LATINA E EM OUTRAS PARTES DO MUNDO.000 1. e refletem uma média nãoponderada. 1995-99 4.0 4.298 1.9 34. 274.000 521.0 15.

1 9. Os dados regionais para a porcentagem do orçamento não são ponderados.0 8.7 2.6 1.7 3.7 6. 118 A democracia na América Latina .9 1.4 1.5 Notas: O número de juízes para o México refere-se unicamente ao nível federal.2 1. Fontes: CEJA.0 8.0 15.0 0.1 4.6 9.6 1.3 0.0 7.4 7.5 4.6 5.4 2.2 0.2 6.9 1.0 10.7 0. para o número de Juízes e Defesores públicos a média é ponderada.126 128 33 274 92 200 686 15 48 200 263 39 74 159 2.1 0.7 2. Banco Mundial.8 3.5 6.000 habitantes Número de defensores públicos Número de defensores públicos Número de defensores públicos por 100.0 7.0 5.2 1.5 2.5 2. 2001 Recursos financeiros Número de juízes Número de juízes por 100.7 3.3 0.3 1.3 4.2003a e 2003b.2 0.0 0.2 0.000 habitantes País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.7 1.9 2. Os dados sobre advogados públicos para a Argentina referem-se ao total de funcionários e para o Brasil são estimados.2 1.6 1. Legal and Judicial Reform Practice Group 2003.5 6. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Ano % orçamento nacional Ano Ano 2000 2001 2000 2002 2002 2001 2001 2002 2002 2002 2000 2001 2000 2001 2002 2001 2001 2002 3.1 3.2 5.0 2.6 1.5 1.9 2001 2001 2001 2004 2000 2001 2001 2001 2001 2002 2001 2001 2001 2001 2001 2001 2001 1998 857 82 3000 417 1.5 3.4 16.5 2000 2002 2000 2002 2002 2001 2002 2002 2002 2002 2000 2001 2002 2001 2002 2001 2000 2000 11.TABELA 30 RECURSOS FINANCEIROS E HUMANOS DEDICADOS AO SISTEMA DE ADMINISTRAÇÃO DE JUSTIÇA.

0 137.604 8. PRESOS SEM CONDENAÇÃO E SUPERLOTAÇÃO. a populaçao regional de 508 milhoes para 2002.502 154.6 127.8 175.684.0 167.5 57.5 41.e correspondem ao ano 2000.220 686 18.TABELA 31 POPULAÇÃO CARCERÁRIA.8 55.0 33.107 36.716 10.A populación presa total para América Latina é de 660.cap.107 33.8 106.315 240.5 132.5 72.6 115.7 60.4 Nota: As cifras regionais são a média dos casos.1 39. Bases empíricas do Relatório 119 .9 207.088 27. Fontes: Centro Internacional para Estudos Penitenciários.5 109.8 113.526 7.2 30.fig.098 54.0 134.3 136.000 habitantes) Presos sem processo e presos sem condenação (porcentagem da população carcerária) Nível de ocupação (sobre a base da capacidade oficial) País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Referente extra-regional Estados Unidos Ano 1999 1999 2002 2002 2001 1999 2002 2002 1999 2002 2000 1999 2002 1999 2002 2001 2002 2000 c.3 92.2.8 97.8 119.705 107 102 137 204 126 229 59 158 71 172 156 143 359 75 104 178 166 62 145 55.629 15. 2002 condenação) 38.2 36.460 11. Os dados sobre o nível de ocupação para a Argentina foram retirados de CELS 2001.278 8.2 138.7 67.5 151.423 4.2003.2.3 150.341 5.9 162.2 2001 1.9 78.2 64.198 10.0 136. 2002 Total de população carcerária (inclui presos processados e presos sem Taxa de população carcerária (por 100.5 112.4.5 54.5 69.765 7.493 15.962.9 49.7 40.034 8.4 41.

.8 27.5 9. e Repórteres sem Fronteiras 2003. 2001-2002 Freedom House País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.8 ..5 8.5 18. Fontes: Karlekar 2003.0 15.. as cifras mais baixas indicam maior grau de liberdade.4 Repórteres sem Fronteiras 2001/2002 12. A informação de Repórteres sem Fronteiras refere-se ao período setembro 2001-outubro 2002.0 14.Os dois pontos seguidos (. Dominicana Uruguai Venezuela Região América Latina Europa Ocidental 32 1 33 2 1993-1997 1998-2002 1 0 6 0 13 0 0 1 2 1 5 0 0 0 1 1 0 1 1 1 4 0 18 1 0 0 2 0 3 0 0 1 0 0 1 1 Notas: As escalas de liberdade de imprensa da Freedom House e de Repórteres sem Fronteiras vão de 0 a 100. 6. 24. 15.5 8. 120 A democracia na América Latina .0 25. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina 2001 39 30 38 22 63 14 41 38 58 51 38 40 34 55 35 33 30 68 40. Fonte: CPI 2003.2 MORTE DE JORNALISTAS.5 .8 6. Nota: Os índices medem unicamente o número de casos claramente confirmados de jornalistas assassinados no cumprimento do dever.8 4.) indicam que a informação não está disponível.5 40.3 . seja por represália direta por seu trabalho ou por fogo cruzado.TABELA 32 TABELA 33 LIBERDADE DE IMPRENSA..3 5. 1993-2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.

mas ambígua Sim Não Não Não Sim Sim Sim Sim.quadro 1. Fontes: OEA-CIDH. A expressão “Habeas data” refere-se a uma ação que garanta o acesso de qualquer indivíduo à informação existente em bases de dados públicas ou privadas. Dominicana Uruguai Venezuela informação pública Sim Não Sim Sim. a possibilidade de atualizar.cap. e Guadamuz 2000 e 2001. caso seja necessário. corrigir. remover ou preservar tal informação com o objetivo de proteger certos direitos fundamentais. Bases empíricas do Relatório 121 . referente à sua pessoa ou à sua propriedade e. Relatório para a Liberdade de Expressão 2001. 2002 Habeas data Direito ao acesso à País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.3.TABELA 34 DIREITO AO ACESSO À INFORMAÇÃO PÚBLICA E HABEAS DATA. mas ambígua Sim Não Sim Sim Não Sim Opção legal Ano de adoção Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Não Não Sim 1994 1988 1997 1996 1995 2002 1995 2002 1992 1993 1999 Notas: A expressão “direito ao acesso à informação pública” refere-se ao direito a obter informação de fontes estatais sobre a administração dos assuntos públicos.

2002c. ela ainda atinge mais de 5 por cento das crianças em dezesseis dos dezoito países considerados e. com suas profundas e persistentes desigualdades. no Brasil. a proporção de pobres era superior a 50 por cento. a pobreza e a desigualdade foram amplamente reconhecidas como aspectos que obstaculizam a integração dos indivíduos na sociedade. e sua aceitação internacional. 2002c. a desnutrição infantil diminuiu em treze países e. Em condições de extrema pobreza e desi- gualdade. acredito. Todos os países da região são mais desiguais do que a média mundial e dezesseis. texto elaborado para o PRODDAL.2024 e capítulo 4. agrupados nas duas dimensões indicadas no quadro 30. a cidadania social nem sempre tem uma clara base legal nas constituições e legislações nacionais. Sobre a saúde e a educação como duas necessidades básicas. A leitura desses indicadores nos dará uma aproximação da capacidade real de exercício da cidadania na América Latina. em sete. amplamente praticado na América Latina por ricos e poderosos. No entanto. Diferentemente dos outros tipos de cidadania. essa dimensão é uma das mais deficientes. pp. sociais e culturais. educação. emprego. registrando-se os quadro 29 Cidadãos pobres e desiguais Este é um problema em todos os lugares. ver PNUD. na região. A seguir. de um total de dezoito. mediante convenções ou tratados. a falta de emprego. a ação constante da sociedade civil possibilitou avançar não apenas no debate como também na permanente mobilização para conseguir que a cidadania social seja um efetivo componente da cidadania integral. Debate-se. Nesse sentido. e em sete. pelo menos uma de cada cinco (tabela 35). Por sua vez. Surgiu desses debates um certo consenso a respeito dos componentes básicos dessa cidadania. na Guatemala e na Bolívia. em quinze casos. Costa Rica e Uruguai – destacam-se por apresentar níveis relativamente baixos desses problemas. pobreza e desigualdade. de maneira notável.Cidadania social A cidadania social refere-se aos aspectos da vida dos cidadãos relacionados com o potencial para desenvolver suas capacidades básicas. é menos difundida. e três países – Chile. torna-se difícil a realização de um pressuposto chave da democracia: que os indivíduos são cidadãos plenos que atuam em uma esfera pública em que se relacionam em condição de iguais. O índice de analfabetismo reduziu-se em todos os países da região. mais de 25 por cento da população vivia abaixo da linha de pobreza. Em 2002. Guillermo O’Donnell. outra dimensão crucial da qualidade da democracia. 67 Em relação ao impacto da desigualdade e da pobreza sobre as capacidades dos cidadãos. na América Latina. Especificamente.252-253. É mais severo e sistemático quando o “sujeito” dessas relações está em situação de pobreza e desigualdade ampla e severa. denominado Protocolo de San Salvador foi assinado só em 1988. apresentamos alguns indicadores centrais da cidadania social: saúde. pp. Esses males cultivam o autoritarismo social. a contribuição dada pelos relatórios de desenvolvimento humano67 foi importante. ver Sen. Os direitos à saúde e à educação são considerados componentes básicos da cidadania social. em âmbitos acadêmicos e políticos. melhoras nos indicadores de desnutrição infantil e analfabetismo. 66 Por exemplo.66 No entanto. e repercutem na maneira em que as burocracias do Estado tratam muitos indivíduos. 1999b. algumas vezes. majoritários segmentos de suas populações. Essa é. acerca dos conteúdos da cidadania social. podem ser catalogados como sumamente desiguais. o Protocolo Adicional da Convenção Interamericana dos Direitos Humanos na área dos direitos econômicos. 122 A democracia na América Latina . Vimos que é inerente à dimensão burocrática do Estado. N ecessidades básicas Nessa dimensão registram-se alguns avanços embora os indicadores ainda continuem distantes do que seria desejável. Os dados sobre a cidadania social mostram que a maioria dos países da América Latina possui severas deficiências com conseqüências para grandes e. Observam-se.

68 68 “Globalização e desenvolvimento social”. nos últimos anos. fatores determinantes da pobreza e das desigualdades sociais que se reproduzem no tempo. essa expectativa não se satisfaz. para a maioria da população. o que significa um enorme desafio para a política e para a democracia na região. realizado pela OCDE e pela UNESCO. o analfabetismo ainda atinge mais de 5 por cento da população de mais de quinze anos. mostra que. que abarcou quarenta e um países. A exclusão e a segmentação derivadas da falta de acesso a empregos de qualidade são.maiores avanços na Guatemala. o emprego significa um pilar básico de sua cidadania. pobreza e desigualdade de caracterizar a situação como sumamente grave. Chile. A situação do emprego piorou e os níveis de desigualdade mantiveram-se estacionários ou aumentaram. O trabalho é o aporte dos cidadãos para a produção da sociedade. um número enorme – mais da metade – dos alunos da América Latina. na Bolívia. em muitos casos. pobreza e desigualdade registram níveis muito altos. As conquistas em matéria de redução da desnutrição infantil e do analfabetismo evidenciam que. Em matéria de indicadores de saúde e educação existe. Há outros dados disponíveis que colocam em dúvida alguns dos indicadores aqui utilizados. Bases empíricas do Relatório 123 . não tem real capacidade de ler e entender o que lê (tabela 40). discurso do secretário executivo da CEPAL. Integração social Nessa dimensão. Como destaca a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL): “O emprego é o vínculo mais importante entre desenvolvimento econômico e desenvolvimento social. e em quatro atinge 20 por cento ou mais (tabela 36). evidenciam-se as mais graves carências de cidadania social na América Latina. Outros indicadores. Como a cidadania social possui um componente econômico. 22-23 de abril de 2002. e para dela sair. Tudo indica que. em El Salvador e em Honduras. José Antonio Ocampo. essas deficiências relacionadas com a cidadania social puderam ser atendidas com resultados positivos. na América Latina. por isso. como mortalidade infantil (tabela 37). Os seis países latino-americanos incluídos no estudo encontram-se entre os últimos lugares nos índices de qualidade educativa e de desempenho dos alunos. e é a forma por meio da qual obtêm os meios que lhes permitem gozar de seus direitos. no II Encontro de ex-Presidentes Latino-americanos. mesmo alfabetizados. uma tendência geral positiva. No entanto. com freqüência. isso não é suficiente para deixar quadro 30 Dimensões da cidadania social Dimensão Questões relevantes Necessidades básicas Integração social Saúde e educação Trabalho. o emprego perdeu qualidade e força como meio de inserção social. Santiago. também permitem observar alguns avanços. Os problemas de emprego. Tanto é assim que até quando é possível notar certas melhorias. expectativa de vida (tabela 38) e nível de escolarização (tabela 39). Entretanto. O nível de desemprego da América Latina situa-se entre os mais altos do mundo e o de desigualdade é o mais alto do mundo. o estudo “Aptidões lingüísticas para o mundo de amanhã”. é necessário ser prudente na valorização desses indicadores. Nesse sentido. o emprego é a via para enfrentar a pobreza. No entanto. como no caso da pobreza. pois é a principal fonte de renda dos lares (gera 80 por cento do total). em quatorze dos dezoito países. embora algumas vezes o nível de melhoria resulte baixo diante da extensão e profundidade dos déficits existentes. na região. Para a enorme maioria dos latino-americanos. manifestadas na elevada e persistente concentração de renda que prevalece na região”.

Escritório Regional para as Américas. e a brecha de proteção social cresceu atingindo nove milhões de novos trabalhadores ocupados (basicamente informais). mais de cinqüenta por cento da população é pobre (tabela 45). Para fazer uma estimativa da brecha de emprego usa dois componentes: desemprego e informalidade. 2002. O somatório das brechas de emprego e proteção social determina o déficit primário de trabalho decente. no Equador. como afirma José Nun. abundam mu- 69 OIT. especialmente no Chile. é uma resposta inadequada para atenuar o desemprego. nas áreas mais modernizadas da América Latina. dentre os empregados nos setores formais e informais. 71 OIT. pp. no Panamá e no Brasil. que são geralmente insuficientes como forma de integração social que garanta mínimos níveis de bem-estar. Para o cálculo da brecha de proteção social. um quarto da população vive abaixo da linha de pobreza. níveis de renda voláteis e próximos à linha da pobreza. Porém. 2002.69 A taxa de desocupação aberta (ponderada) em 2002 foi de 10. alcançando 21 milhões de trabalhadores. 454-455. o nível mais alto desde que se dispõe de cifras confiáveis (tabela 41). Em 2002. em quinze dos dezoito países considerados. Robert Castel . Mas muitos lhe abrem as portas festejando qualquer realização – do desenvolvimento de um setor de “utilidade social” à abertura de “novas fontes de trabalho” – desde que proporcione alguma atividade para os supranumerários. A expansão da informalidade é um eloqüente indicador da crise de emprego. na Costa Rica. apenas seis têm acesso a algum tipo de cobertura social.5 por cento. são considerados. Em 2002. O índice de desemprego urbano caiu no Equador e.quadro 31 Inserção genuína para os “supranumerários” Quase todo mundo recusa abertamente o modelo de “sociedade dual”. Atualmente.. de cada dez novos empregos gerados no setor formal desde 1990. Esta situação motiva um sério alarme sobre o futuro de nossas sociedades: muitos dos latino-americanos. 1995. Além disso. O segundo componente leva em conta as pessoas ocupadas em atividades informais de baixa qualidade (baixa produtividade. Para isso examina a evolução das brechas de emprego e previdência social. 30 milhões a mais do que em 1990.71 Entre 1990 e 2002. Além disso. OIT.7 por cento da força de trabalho. entre desempregados e informais. na Colômbia. não se trata apenas de conseguir ocupação para todos. a situação do emprego agravou-se na América Latina. o déficit primário de trabalho decente atingia 93 milhões de trabalhadores na região. Entre os jovens latino-americanos. que dá como resultado a denominada taxa de desemprego “histórica”. Por sua vez. 2002. ao passo que na Argentina. e no Chile. na Venezuela. no México e no Uruguai. Segundo dados da OIT. e em sete. pois cria ocupações de baixa qualidade e baixa utilidade social. na maioria dos países da região. esse índice aumentou. a pobreza diminuiu em doze países. Escritório Regional para as Américas.8 por cento. no Brasil. Entretanto. “o problema não se reduz ao acesso marginal dos ‘pobres estruturais’ aos direitos de cidadania. em El Salvador. o índice de desemprego duplica ou quase duplica a média nacional de desocupação (tabela 42). subiu para 50. instabilidade de trabalho). Como já indicamos. correm o risco de desproteção ao chegar à idade de retiro (tabelas 43 e 44). mas também de conseguir um estatuto. em 1990. do ponto de vista da problemática da integração social. 30-31. a cobertura social dos trabalhadores diminuiu e o emprego informal cresceu: sete de cada dez novos empregos criados na região desde 1990 correspondem ao setor informal. Escritório Regional para as Américas. mais levemente.5 por cento da força de trabalho urbana da América Latina. o déficit primário de trabalho decente70 atingia 49. 124 A democracia na América Latina . A brecha de emprego ampliou-se. No entanto. O aumento do déficit atinge 15. no Panamá. aqueles que não contribuem para a previdência social. além das carências que sofrem atualmente. no México. pp. O primeiro corresponde à diferença entre a taxa de desemprego real e a média de um período de trinta anos (1950-1980). 70 O déficit primário de trabalho decente é um indicador elaborado e calculado pela OIT.

sem que sua cidadania tenha sido reconhecida. constitui o enorme contingente de invisíveis de nossas sociedades. defender-se. etc. Como se incluir na relação de cidadania? Pensando em nossa realidade de milhões e milhões que ainda permanecem fora do sistema. Bases empíricas do Relatório 125 . São os politicamente destituídos de todo poder real. Uma parte não pode dar as costas para a outra. A luta contra essa globalização. mesmo estando longe de mudar efetivamente o conjunto de relações que os excluem. uma cultura democrática de direitos e uma real capacidade de incidência na luta política. tomar consciência dos direitos e da importância de sua participação. são privilégios. a sociedade civil e a democracia ganham. As grandes cidades da América Latina não são apenas uma soma de partes. a casa. Do mesmo modo que todos os sujeitos sociais. Entendendo o empoderamento como conquista de poder cidadão – de visibilidade dos até então invisíveis nas relações constitutivas do poder – estamos falando do que o grupo. No entanto. a saúde. […] [A] garantia da democracia […] passa necessária e indispensavelmente pela sociedade civil. como o Rio de Janeiro do asfalto e das favelas. de modo democrático e sustentável. No processo. adquirem poder de cidadania. iniciando um processo virtuoso de rupturas e de reorganização social. negadora de sua cidadania. por alguma razão. Entre 30% e 60% da população de nossos países sofre alguma forma de exclusão social. sem exceção. quase na exclusão social. econômica. por mais numerosas que sejam. para voltar a incluir-se politicamente e a ter alguma perspectiva de mudança na situação geradora de desigualdade. O processo de “empoderamento” traz consigo novas organizações. quando não consegue se organizar e lutar. 2002. Direitos para algumas pessoas. Simplesmente porque não podem existir direitos de cidadania se não são para todos. inclusive. tentando ver como e em que condições podem se transformar em sujeitos históricos de sua própria inclusão. Mas se. projeto. Perdem as sociedades civis e perde a democracia. está revelando as contradições que permitem novamente a emergência desses setores. o quadro é novo e depende de como a maior segmentação produzida entre incluídos e excluídos é vista e vivida nas diferentes sociedades. texto elaborado para o PRODDAL. política e cultural. É sempre bom recordar que os grupos populares em situação de pobreza e desigualdade. A questão crucial é o entrelaçamento social organizativo. em que se baseia um grupo – de membros de favelas ou de camponeses sem terra. ganha a sociedade civil e ganha a democracia. pois sua presença como atores concretos é a condição indispensável de sua inclusão sustentável na cidadania. quanto à inclusão e à garantia prática de direitos fundamentais. particularmente no período de recente democratização. aquela com direito a voto. não são ontológica ou necessariamente democráticos. pobreza e exclusão social. Cidadania é expressão de uma relação social que tem a todos como premissa. os grupos de invisíveis se organizam. organização social e forma de luta para afirmar-se. a comida. fez retroceder processos consistentes de emergência de novos sujeitos. Cândido Grzebowsky. para conquistar direitos e reconhecimento público. O que se constata na América Latina é que o atropelamento da democratização por parte da globalização neoliberal estancou e. ignorando e desprezando-a. não apenas civis e políticos. não são direitos.Essa população. simplesmente porque não têm identidade. mas também o direito ao trabalho e à renda. Em nome da verdade. é necessário reconhecer o avanço da cidadania formal. construir sua visão do mundo. eles precisam tornar-se democráticos ao longo do próprio processo pelo qual tornam-se sujeitos. exatamente em função do que mencionei acima. Mas ter o direito político de voto não é o mesmo que ser cidadão.quadro 32 O papel da sociedade civil Os invisíveis nas sociedades latinoamericanas [são] aqueles que não formam parte das sociedades civis. sobretudo pelas possibilidades de tornar visíveis os invisíveis. a educação. ao contrário. formular propostas e estratégias. literalmente. por exemplo – para desenvolver sua identidade.

não pode ser alcançado unicamente por meio do funcionamento dos mercados. por um tipo de desfiliação cidadã dos que já estiveram integrados”. a dos ‘novos pobres’. O crescimento da sociedade civil recebeu maior impulso nos países onde houve ditaduras. O impulso de igualdade não vem do mercado e sim da promessa implícita na democracia.73 Há razões para afirmar que somente reduzindo a desigualdade será possível fazer com que a pobreza continue diminuindo. possibilitaram inicialmente a expansão de organizações voluntárias que. A possibilidade de maior igualdade vincula-se a força da democracia. 73 Reduzir o nível de pobreza significa diminuir a porcentagem da população com renda abaixo da linha de pobreza (baseado na medida da pesquisa de domicílios). entre outros.ca Dominicana e Venezuela pioraram). De 1991 a 2002. Bolívia. e também que a diminuição da desigualdade tende a melhorar a possibilidade de crescimento econômico em ritmos aceitáveis (gráfico 4). em que os partidos políticos não podiam expressar as demandas dos cidadãos. E doze países obtiveram uma redução no nível da pobreza (de fato. 126 A democracia na América Latina . Peru. apoio a setores em risco. especialmente do desenvolvimento humano. só Argentina. México. ou nas zonas. tanto urbanas quanto rurais. quinze dos dezoito países avançaram em seu crescimento econômico per capita. Paraguai. também floresceu um número importante de organizações dedicadas à promoção dos valores cívicos que velam pe- tações muito profundas nos sistemas de produção e de emprego. Repúbli72 Nun. A desigualdade é medida pelo coeficiente de Gini. estenderam seu campo de ação a um grande número de áreas preocupantes no que se refere ao bem-estar dos cidadãos. que conduzem ao aumento da desocupação e da sub-ocupação. Honduras.72 provocada. assim como a difusão da ação das grandes organizações não governamentais (ONG’s) que procuram atenuar os efeitos da pobreza. Tudo isso gera outra classe de baixa qualidade. educação. Ambas as medidas referem-se à 1999 (o ano mais próximo) e são contrastadas com as de 2002. A sociedade civil como promotora da cidadania social Os problemas e dificuldades encontrados pelos estados de bem-estar para manter a proteção de seus cidadãos. texto produzido para o PRODDAL. José. Contudo. Panamá e Uruguai tinham conseguido reduzir a desigualdade. ao chegar a 2002 apenas Guatemala. A igualdade dos cidadãos fortalece e consolida a democracia. e a uma grande crise dos laços sociais e políticos. aos poucos. 2002. onde o Estado deixou de atender adequadamente às necessidades básicas em saúde. O cumprimento dos objetivos sociais do desenvolvimento. Nicarágua. Por outro lado. na verdade.

por sua vez. com a exceção muito transitória dos anos trinta. Bases empíricas do Relatório 127 . 2003. Atualmente. miséria insustentável e crises recorrentes em numerosos países em desenvolvimento. a organização da sociedade civil visa a promover valores democráticos em sua prática corrente e atinge também a forma com que se tomam decisões. dos movimentos políticos e das instituições representativas. Conclusões sobre a cidadania social: conquistas e deficiências As deficiências no campo da cidadania social são um dos desafios mais importantes que a região enfrenta. por que a democracia interessaria aos privilegiados? […] O argumento moral e político válido é que a democracia funda-se em valores que exigem uma atitude respeitosa para com a dignidade e a autonomia de cada ser humano. texto elaborado para o PRODDAL. eram de responsabilidade do Estado. Jean-Paul Fitoussi. muitas ONGs (em rigor. pela realização de eleições limpas e trabalham para melhorar a ação dos partidos. uma parte relevante das políticas públicas sociais é conduzida por ONGs em acordo com as instituições estatais. a democracia está mais comprometida do que no da cidadania social. Estas. a saúde e o emprego requerem alimentação. existem boas razões para afirmar que os cidadãos que sofrem exclusões em uma dimensão da cidadania são os mesmos que sofrem exclusões em outras dimensões. moradia e vestimenta. diríamos não estatais) assumem funções que até então. O panorama fica ainda mais complexo quando se considera que a expectativa de melhoria em algum desses temas costuma estar vinculada à evolução de algum ou de alguns dos outros aspectos. nada mais e nada menos […] o principal aglutinador só pode ser um motivo ético: o tratamento decente que todo ser humano merece. nas oportunidades de emprego. quadro 34 Disfunções da economia mundial Se o capitalismo. nas questões de nutrição e de saúde. Abaixo de certos níveis mínimos de direitos sociais. o próprio conceito de cidadania é questionado pela realidade. e promover a transparência. Porque em nenhum outro período de nossa história. Guillermo O’Donnell. la inscrição dos cidadãos nos registros eleitorais. Embora seja preciso uma vigorosa ação estatal para recuperar políticas sociais universais. 1999c. se tornasse totalitário. A pobreza material dos cidadãos incide negativamente nas oportunidades de educação. etc. ao progresso e à justiça. formidável incremento das desigualdades e da pobreza nos países ricos) foram tão graves como hoje. as disfunções da economia mundial (desocupação em massa. que abarquem a totalidade da cidadania e que atendam às necessidades básicas da população. políticos. Por último. ao excluir o político. e exacerbação da desigualdade de renda por habitante entre os diferentes países.quadro 33 A decência como valor coletivo O que vou sugerir é vincular a superação da pobreza e da desigualdade com algo que se poderia argumentar que constitui um interesse público geral: a democracia. na capacidade para exercer e fazer valer os direitos civis. Então. sociais. Um motivo adicional é de interesse público: a melhoria da qualidade de nossas democracias equivale a avançar em direção a essa decência como um valor coletivo de toda a sociedade. Em nenhum outro plano da cidadania. Em muitos casos. A educação. conduzem à liberdade. No campo da ação prática para reduzir a pobreza. correria o risco de desmoronar-se […]. p. A democracia não pode permanecer indiferente a tudo isso. 82. A ação dessas organizações aumentou o nível participativo dos habitantes. conforme se supunha. essas políticas deveriam ser executadas incluindo a dimensão participativa originária das diversas organizações da sociedade civil.

Em síntese. p. IDEA. 49 128 A democracia na América Latina . ■ Os dados. em sua maior parte. portanto. parece necessário centrarse no ataque à pobreza e na geração de empregos de boa qualidade. 74 CEPAL. refletem uma grave situação. […] Nesse sentido. Uma leve diminuição da desigualdade contribuiria muito para reduzir as privações extremas que ocorrem na região. texto elaborado para o PRODDAL. convém ler atentamente resultados como os de um trabalho econométrico que acaba de ser difundido: “A conclusão mais importante a que se pode chegar com o presente estudo é que o principal obstáculo que se interpõe no caminho do êxito dos esforços para reduzir a pobreza na América Latina e no Caribe consiste em que o melhor remédio para tratar a pobreza que aflige a região – a redução da desigualdade– parece ser um que é muito difícil de receitar. representa um desafio central para a América Latina. tendo presente que isso será muito difícil de conseguir sem reduzir também os enormes níveis de desigualdade existentes na região. Um dos desafios mais urgentes que a região enfrenta são as deficiências no campo da cidadania social. por um lado. insuficiente. PNUD. Esta situação sugere a idéia de déficits estruturais em matéria de cidadania social. 2003. a busca de uma maior e melhor cidadania social. ■ O panorama social regional é. Os avanços de alguns países nesse plano. No entanto. José Num. 2002. o desenvolvimento da democracia na América Latina requer abordar decididamente os problemas que impedem a vigência e a expansão da cidadania social. e a qualidade da democracia. parece que são muito poucas as economias da região que foram capazes de conseguir esse resultado. começando pela satisfação das necessidades básicas da população. As privações em um componente da cidadania social costumam coincidir com privações em outros campos.quadro 35 Pobreza e desigualdade: pouca variação significativa [Constatam-se]. são pequenos em comparação com a escala dos problemas. A América Latina se caracteriza por sofrer grandes carências em múltiplos aspectos da cidadania social. Para isso. ■ Existem exclusões sociais superpostas. por outro. ainda que em pequena medida”. em várias oportunidades. as relações que existem entre a desigualdade e a pobreza econômicas. embora significativos em si mesmos.

7 -10.4 -1. Este indicador reflete um crescimento acumulado deficiente e constitui uma medida de deficiências prévias no crescimento físico..7 -3.3 2. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Ano Porcentagem Tendência recente Anos de comparação Mudança percentual 1995/96 1998 1996 1999 2000 1996 1998 1998 1999 1996 1999 1998 1997 1990 2000 1996 1992/93 2000 12.5 6.4 -5.6 -5.9 17.4 10.8 -6.4 26.5 1. Fonte: Cálculo baseado em dados da OMS.5 12.2 13.4 -0.TABELA 35 DESNUTRIÇÃO INFANTIL ENTRE 1980 E 2000 Último ano País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.1 2.3 46.1 -3.1 -7.9 -15.9 18. Está associado a um conjunto de fatores de longo prazo tais como: uma alimentação cronicamente insuficiente.9 25.0 -4. Bases empíricas do Relatório 129 . persistentes más condutas de alimentação e um baixo nível econômico do lar.8 10.9 1994-95/96 1989-98 1989-96 1986-99 1989-00 1989-96 1986-98 1993-98 1987-99 1991/92-96 1988-99 1993-98 1985-97 .1 26.4 38.8 18..2 Notas: A baixa estatura para a idade é uma medida que compara a estatura de uma criança de acordo com sua idade em relação à média da população de referência. infecções freqüentes.4 -7.6 . -6.2 -11.4 23. Departamento de Nutrição para a Saúde e o Desenvolvimento 2002. 1991/92-00 1991-96 1987-92/93 1990-00 7.7 9.6 0.7 24.9 13.

0 54.5 20.5 6.4 21.7 42.2 28.4 2.1 5.3 27. Os dados para a Região são a média de todos os casos.8 20.8 7.8 19.5 32.6 17.9 11.4 12.4 8.3 31.1 16.1 20.9 38.6 3.5 26.2 14.1 11.0 9.2 24.3 7.5 12. 130 A democracia na América Latina .1 34.8 46.8 4.2 14.6 2000 3.7 10.5 8. 1970-2001 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina 1970 7.1 5.6 33.3 18.1 45.5 8.9 31.5 15.7 25.3 31.1 6.1 37.2 22.2 11. Instituto de Estatísticas 2002a.3 21.1 12.9 12.4 25.7 14.0 23.2 8.1 16.2 15.8 25.TABELA 36 ANALFABETISMO EM MAIORES DE 15 ANOS.4 11.0 42.3 4. Referem-se à população de mais de 15 anos de idade que não é capaz de ler ou escrever uma pequena frase em sua vida cotidiana.7 41.1 46.4 8.5 20.6 27.9 8. Fonte: UNESCO.5 38.8 1980 5.6 31.7 Nota: Os dados representam a proporção da população adulta que é analfabeta.0 21.5 1990 4.5 14.0 16.

Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais.5 33. Expressa-se em termos de mortes para cada 1.0 40.8 45.8 90.0 97.0 102.0 79.0 65.0 56.6 22.2 45.7 80. Fonte: Nações Unidas.4 48.1 110.3 23.1 84.7 40. Divisão de População.6 17.5 46.4 53.5 46.5 47.0 39.7 68.2 38.3 42.1 151. Bases empíricas do Relatório 131 .6 73.4 82.0 37.1 46.1 45.1 43.3 48.1 23.2 78.69 1975-80 39. Os dados da região são a média de todos os casos.9 81.7 49.5 95.4 39.0 57.5 65.4 77.3 68.40 1995-2000 21.7 48.5 20.1 31.5 103.1 90.2 109.0 90.0 25.1 54.5 21.0 99.6 42.4 95.4 51.28 1980-85 32.6 26.1 45.TABELA 37 MORTALIDADE INFANTIL.3 75.0 12.8 14.000 nascimentos.6 55.1 55.7 69.0 105.91 1985-90 27.4 46.9 33.0 46.1 131.0 48.08 1990-95 24.2 68.5 68.8 65.9 81.1 35. 2001.8 65.4 34.34 Nota: A mortalidade infantil é medida em termos da probabilidade de morte entre o nascimento e o primeiro ano de vida.8 30.2 65.0 53.3 18.7 30.3 55.4 41.5 20.9 33.2 51. 1970-2000 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina 1970-75 48.8 30.9 46.0 52.1 12.4 19.3 93.0 35.0 78.4 16.0 28.3 90.2 13.6 32.0 54.3 39.4 39.2 56.6 63.9 43.

50 País A democracia na América Latina Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina 69.0 60.3 56.5 70.8 62.4 61.9 72.1 57.7 65.1 64.2 75.0 71.4 68.0 53.0 74. Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais.9 58.2 74.5 66.8 70.1 70.1 61.67 64.4 61.5 72.8 71.2 67.2 65.3 73. Fonte: Nações Unidas.2 65.9 61.5 67.1 66.3 69.9 72.2 68.7 66.8 66.5 58.9 67. Divisão de População.9 70.3 68.7 68.8 63.7 63.8 58.4 76.79 68.3 66.8 61.4 55. 1970-2000 1970-75 67.1 46.2 53.0 69.76 Nota: Este indicador expressa. a esperança de vida ao nascer.7 71.0 57.8 56.5 59.0 61.2 1975-80 1980-85 1985-90 1990-95 1995-2000 72.6 70.3 59.7 73. .5 71.74 66.8 56.4 67.5 67.6 74.0 65.6 72.1 70.6 62.6 68.5 69.6 64.5 58. em anos.1 64.5 66.TABELA 38 ESPERENÇA DE VIDA AO NASCER.6 67.6 64.8 68.8 62.3 56.3 63.6 73.5 63.4 132 60. 2001.5 50.5 66.7 53.54 62.4 67.3 65.0 67.9 59.6 67. Os dados para a região são médias de todos os casos.5 68.9 55.0 71.9 70.4 62.7 59.8 64.7 69.5 65.5 66.5 64.6 68.8 70.6 69.6 72.4 59.5 67.

Aqui o alfabetismo é medido sobre um contínuo.2002b. .1 50. Os dados para El Salvador (todas as categorias) e para o Peru (secundária e terciária) são de 1998/1999. não existe uma linha que distinga uma pessoa completamente alfabetizada de outra que não é.5 40. 60.0 99.0 77. inclusive em casos em que é necessário ou desejável para alguns propósitos definir um ponto no contínuo do alfabetismo abaixo do qual os níveis de competência são considerados inadequados.5 22.. SECUNDÁRIA E TERCIÁRIA.3 4. 28. 33.4 .3 97...8 19.0 Taxa de Escolarização Secundária 76..2 27.0 32.9 45.6 88.4 . Na verdade.6 29.9 45. 18.0 ..2 . O PISA – teste de capacidade de leitura – foi realizado com alunos de 15 anos.7 80. 68.8 33.) indicam que a informação não está disponível.9 14. O estudante tinha que procurar a informação.1 91...2 .9 5. 18.0 61. .0 19.0 .3 6.4 50.6 6.7 5.5 100.5 71. 13. não como algo que um indivíduo possui ou não possui.9 88..6 93.1 96.2002c e 2002d.9 . 57.274. “poder ler e escrever”. O conceito de alfabetismo empregado no Programa para Avaliação de Estudantes Internacionais (PISA) é mais amplo do que a noção tradicional.6 46.4 10.4 48.8 . Fonte: UNESCO. A taxa de escolarização primária e secundária é a porcentagem de crianças em idade escolar (segundo a definição de cada país) efetivamente inscritos na escola.1 36.8 54. As taxas de escolarização terciária não estão disponíveis.TABELA 39 ESCOLARIZAÇÃO PRIMÁRIA.4 46.8 48. TABELA 40 QUALIDADE EDUCATIVA E PERFORMANCE DO ALUNO.0 92.0 79. 2002 Porcentagem de alunos em cada nível País Argentina Brasil Chile México Peru Finlândia Coréia do Sul Estados Unidos Baixo Médio Alto 43. o restante está baseado em informações de 1999/ 2000.2 44..8 .8 37..4 55.6 48.1 Taxa de Escolarização Terciária 48. refletir sobre os conteúdos e avaliá-los.7 17.9 1. Os dados para a região são a média de todos os casos disponíveis.4 43 55. entender e interpretar os textos.5 88.2 79. .1 Notas: Os dois pontos seguidos (.. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Primária 100. 100. 1999 Taxa de Escolarização País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.0 91..8 40.3 43. p. ou seja.9 55.7 Notas: Porcentagem de estudantes em cada nível de rendimento na escala combinada de capacidade de leitura. Bases empíricas do Relatório 133 .0 90. Instituto de Estatísticas..4 98. Fontes: OCDE e UNESCO 2003.6 81.

7 5. Atenção: os dados desta tabela não coincidem necessariamente com os da Tabela 2. Costa Rica.6 8.4 5.0 6.0 13. incluindo treze áreas metropolitanas. 13. Para Colômbia só se pode considerá-los sob sete áreas metropolitanas. Nicarágua. No Brasil consideramse seis regiões metropolitanas (não se inclui aqui uma série nova para o Brasil). 9.4 .0 15.4 6.6 8. para o Peru.0 6.2 6..6 20.0 16.3 1990 6. que utiliza os dados da CEPAL (2003). Panamá.7 12.8 10.4 2000 15. Uruguai e Venezuela a pesquisa é nacional urbana.4 3.7 9. Fontes: Elaboração com base na informação das Pesquisas de Domicílios dos países.2 9.2 17.8 Notas: Os dois pontos seguidos (..2 9.6 6.2 4.0 7.9 10. 134 A democracia na América Latina . anexo estatístico. desde 2000 o universo se expandiu..5 7.. Panorama Trabalhista 2003.. As cifras. toma-se o total do país até 1997. correspondem a Lima metropolitana. Guaiaquil e Cuenca estão incluídos..8 6.1 5.8 15.3 7.4 10.1 9.3 10. a partir de 1998 só Quito. a partir de 2001.1 9.9 8.5 5. de 1996 a 2000 corresponde ao nacional urbano.3 7.8 10.2 5.9 2.3 17. 11.9 13.7 8. Para Argentina.6 4.6 13.2 10.2 16. Bolívia.8 5.8 7.0 6.1 10.7 1995 16.3 7..1 14. El Salvador.1 10.7 6. A OIT não inclui dados para Guatemala.. 2.0 5. No México.7 7..1 7. No Paraguai apenas se realizou a pesquisa em Assunção. Finalmente.7 4.TABELA 41 DESEMPREGO ABERTO URBANO (TAXAS ANUAIS MÉDIAS)..8 7.3 8.2 15. Para América Latina as médias foram ponderadas pela OIT.5 2002 19.9 2.2 20.1 16.. 1985-2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Honduras México Nicarágua Panamá Paraguay Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina 1985 6.9 15. Honduras. No Chile cobre o total do país.5 .2 7. Os dados da República Dominicana incluem desemprego oculto.9 16. No Equador.7 7.3 6.4 3. leva-se em conta a Lima metropolitana.0 13.7 5. observam-se 39 áreas urbanas. OIT.1 7.1 ..) indicam que a informação não está disponível.2 5.3 .6 6.4 14.4 17..2 11.

os dados da Venezuela são nacionais urbanos. 8.3 32.4 14.5 .7 25. em treze áreas metropolitanas.8 7.8 14. Bases empíricas do Relatório 135 .) indicam que a informação não está disponível. a partir de 1996. Equador.5 18. em Assunção.2 34.4 11.6 13.4 26. Panorama Trabalhista 2003.0 16... Anexo Estatístico.. e. os dados cobrem o total nacional (urbano).0 10. No Uruguai a pesquisa cobre Montevidéo.1 20.1 33. El Salvador e Honduras os dados cobrem o total nacional (urbano).no Chile.0 27.8 30.9 31.1 15. . Guatemala nem Nicarágua.3 13.4 28. 10. e.5 5. e.7 32.TABELA 42 DESEMPREGO JUVENIL (TAXAS ANUAIS).9 17.2 13.8 11. . Fontes: Elaboração com base em informação das Pesquisas de Domicílios dos países..4 .5 21..1 31...4 13. OIT.9 12.0 16.7 15.8 17.5 .0 . na Colômbia. 18.6 18. a partir de 2001. em seis áreas metropolitanas (novas séries a partir de 2001).2 13.7 7. a partir de 2001.. No México a pesquisa se realiza em 41 áreas urbanas. . Na Argentina a Pesquisa de Lares se realiza na Grande Buenos Aires.9 10..3 17. e no Paraguai...1 5.4 4.6 .1 21. 5.0 32. em setembro de cada ano..0 5.4 . a Lima metropolitana. 20.0 9.1 40. em sete áreas metropolitanas. na Bolívia.7 26.2 25.5 15. 17. no Panamá. na região metropolitana. Na Costa Rica.1 9.0 .4 20.8 10.0 32.3 . no Brasil. 15.3 9. 14.7 10. 1990-2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Idade 15-19 15-24 10-19 20-29 15-17 18-24 15-19 20-24 12-17 18-24 12-24 15-24 15-24 10-24 12-19 20-24 15-24 15-19 20-24 14-24 14-24 15-24 1990 21.8 6.3 2002 45. Para o Peru.6 16.9 2000 39. Não há dados da República Dominicana.3 10.7 34.0 1995 46. é o total nacional.3 15.6 10. .5 19.4 14.2 Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Honduras México Panamá Paraguai Peru Uruguai Venezuela Notas: Os dois pontos seguidos (.. em áreas urbanas nacionais 1996 (15-25 anos).7 15.1 20.4 10.

4 47.5 27. Escritório Regional para as Américas 2003.6 68. Costa Rica (total do país).9 26. México.0 53.6 1995 2000 2002 Nota: Só há informação para quinze países.2 32.1 42. Fonte: Elaboração com base nas informações das Pesquisas de Domicílios dos países.1 55.0 62.0 46. TABELA 44 AMÉRICA LATINA: ASSALARIADOS QUE CONTRIBUEM PARA A PREVIDÊNCIA SOCIAL.7 64. Uruguai (total do país) e Venezuela (área urbana). Fonte: Baseado na informação das Pesquisas de Domicílios em cada país.7 50.9 80. em conjunto com outros dados de fontes oficiais OIT.3 46. Peru (Lima metropolitana). Equador (área urbana).4 57.7 64.5 55.2 81. Equador. Costa Rica.4 24. anexo estatístico.7 51.0 27.5 27.1 79.8 79.9 77. 2003. Chile.9 57.6 66. OIT. 136 A democracia na América Latina .9 63.3 1995 2000 2002 Notas: As Pesquisas de Domicílios cobrem as seguintes áreas: Argentina (nacional urbano).5 50.2 25.2 60.0 Setor Formal 80.0 24.2 25. Panamá (total do país). Peru (Lima metropolitana).3 78. Honduras.9 44.5 49.6 78.6 Total 66.1 65. Brasil.5 44.TABELA 43 AMÉRICA LATINA: ESTRUTURA DO TRABALHO NÃO AGRÍCOLA (PORCENTAGENS) 1990-2002 Setor Informal Ano 1990 Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total Setor Formal Total 42. Panamá.8 39. Os países cobertos são: Argentina. Uruguai (cobre Montevidéo) e Venezuela.3 49.6 53. Brasil (área urbana). México (área urbana).2 66. (PORCENTAGENS) 1990-2002 Ano 1990 Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Setor Informal 29.4 81.3 49.5 78. Chile (total do país).7 53.4 65.4 46.6 27.6 52.9 62. Panorama Trabalhista 2003.2 26.1 82.6 65.6 79. Colômbia (10 áreas metropolitanas).

Paraguai e Uruguai é das áreas urbanas. Os indivíduos pobres são aqueles cuja renda é menor do que o dobro do custo da cesta básica de alimentos.0 48.544 0.570 0.0 61.455 0.381.639 0. 2002 Desigualdade: País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.6 50. Os valores para os outros países correspondem à média nacional.4 69.2002 0. Pobreza: as cifras indicam a porcentagem de indivíduos abaixo da linha de pobreza.4 37. Dominicana Uruguai Venezuela coeficiente de Gini.515 0.3 49.575 0.614 0. 2004.6 Nota: As cifras mais altas do coeficiente de Gini correspondem a um grau mais alto de desigualdade.9 15.500 Pobreza: porcentagem abaixo da linha de pobreza. Equador.513 0.5 20.6 20. 2002 45.9 77. Bolívia.543 0.9 59. Bases empíricas do Relatório 137 . A média mundial do coeficiente de Gini para 1999 é de 0.4 48.525 0.3 39.525 0.514 0.0 54.579 0. A informação para Argentina.588 0. Fontes: CEPAL.590 0. c.TABELA 45 CIDADANIA SOCIAL: DESIGUALDADE E POBREZA.559 0.488 0.4 62.3 34.8 44.

138 A democracia na América Latina .

preferia igualmente o desenvolvimento econômico à democracia.2 36. abrangendo uma população de mais de 400 milhões de habitantes. Fontes: Elaboração própria com base no Latinobarômetro 2002.2 Nota: n varia entre 16. 61 por cento dos entrevistados. Uma primeira leitura das opiniões cida- FRAGILIDADES DA PREFERÊNCIA PELA DEMOCRACIA EM RELAÇÃO A OUTROS SISTEMAS DE GOVERNO. e um percentual semelhante (44. muitas pessoas que dizem preferir a democracia a outros regimes têm atitudes pouco democráticas em relação a diversas questões sociais. Daí a importância de conhecer e analisar os níveis de apoio com que a democracia conta na América Latina.0 38. no âmbito da região.9 40.2 32.508 pessoas entrevistadas. preferiam a democracia a qualquer outro regime.4 32. as forças políticas autoritárias encontram. Em 2002. nos dezoito países considerados no Relatório. As democracias se tornam vulneráveis quando.3 32.1 38.194 (democracia vrs desenvolvimento econômico).1 por cento) dos entrevistados que diziam preferir a democracia a qualquer outro regime.9 14.1 44. terreno fértil para atuar. com a passividade) de uma grande parte. indica que por volta de 1996. Grande parte das pessoas que manifesTABELA 46 O apoio dado pelos cidadãos à democracia é um componente-chave de sua sustentabilidade.2 32. Na realidade. realizou-se uma pesquisa sobre as opiniões cidadãos acerca da democracia com 19.3 54.■ Como os latino-americanos vêem a sua democracia dãos. por volta de 2002. estava disposto a apoiar um governo autoritário.8 34. Essa preferência pela democracia não implica necessariamente um sólido apoio.1 a democracia a qualquer outra forma de governo 38.7 43.9 por cento).183 (pode haver democracia sem congresso) e 17. esse percentual era de 57 por cento. em maio de 2002. nas atitudes cidadãs. às vezes majoritária. 2002 Porcentagem dos que preferem Porcentagem da amostragem total Atitudes específicas relacionadas com a vigência e importância da democracia Estão de acordo com que o Presidente passe além do âmbito das leis Acreditam que o desenvolvimento econômico é mais importante que a democracia Apoiariam um governo autoritário se resolvesse os problemas econômicos Não acreditam que a democracia solucione os problemas do país Acreditam que pode haver democracia sem partidos Acreditam que pode haver democracia sem um Congresso Nacional Estão de acordo com que o presidente imponha ordem pela força Estão de acordo com que o presidente controle os meios de comunicação Estão de acordo com que o presidente deixe de lado o Congresso e os partidos Não acreditam que a democracia seja indispensável para alcançar o desenvolvimento dos 18 países 42. A experiência histórica nos ensina que as democracias foram derrubadas por forças políticas que contavam com o apoio (ou.2 37. Bases empíricas do Relatório 139 . que dizia preferir a democracia. comparada com as pesquisas anteriores de Latinobarômetro.6 48.9 35. pelo menos. quase metade (48. desde que resolvesse os problemas econômicos do seu país. da cidadania.8 56.1 25. Com esse propósito. entre outros fatores.

b) de acordo. c) ambos são iguais. d) totalmente em desacordo. de acordo. em desacordo ou totalmente em desacordo com que o presidente? (8) a) não se limite ao que dizem as leis. ambivalente e não-democrática Identificamos três tendências ou perfis principais em que se agrupam as opiniões e atitudes dos latino-americanos em relação à democracia: democrática. (5) Algumas pessoas dizem que a democracia permite que se solucionem os problemas: a) a democracia soluciona os problemas. e não tenta suprimilas no futuro. Mas. Essa idéia (que não exclui a de futuras eleições livres e limpas em que o presidente e seu partido poderão ser mudados) autoriza ações antiinstitucionais do presidente e também. de três pessoas. por outro lado. Preferem a democracia a qualquer “outra forma de governo” e apóiam a aplicação das regras democráticas na gestão de governo. A idéia básica dessa concepção é que os eleitores vêem o presidente como o depositário exclusivo da legitimidade democrática. Aproximadamente. costuma dedicar-se a ignorar. Apoio às instituições democráticas : (6) a) Sem Congresso Nacional não pode haver democracia. b) a democracia é o mais importante. b) a democracia pode funcionar sem Congresso Nacional. não se sente obrigado a aceitar as restrições e os controles de outras instituições constitucionais (Parlamento e Poder Judiciário) nem de diversos organismos estatais ou sociais de controle. a quem conseqüentemente delegam o direito e a obrigação de resolver os problemas do país como bem entender. o governante não deixa de ser democrático. como se verá mais adiante. c) para pessoas como nós. um governo autoritário pode ser preferível. 76 O conceito de democracia delegativa foi construído por O’Donnell (1994) para referirse a países onde são realizadas eleições livres e limpas. (10) c) controle os meios de comunicação. c) em desacordo. até mesmo em épocas de dificuldades. (11) d) deixe de lado o Congresso e os partidos. mas nos quais os governantes (especialmente presidentes) sentem-se autorizados a atuar sem restrições institucionais. (2) Se o/a senhor(a) tivesse que escolher entre a democracia e o desenvolvimento econômico: a) o desenvolvimento econômico é o mais importante. no sentido de que surge de eleições livres e limpas. (3) O/A senhor(a) acredita que a democracia é indispensável para um país ser desenvolvido?: a) a democracia é indispensável para um país ser desenvolvido. E ainda mais. Para avançar na compreensão dessa situação. Dimensão delegativa : Se o país está com sérias dificuldades. As seguintes são as perguntas-chave que guiaram este componente do estudo: (1) Com qual das seguintes frases o/a senhor(a) está mais de acordo?: a) a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo. b) A democracia pode funcionar sem partidos. e estaria disposta a deixar de lado a democracia por um governo não-democrático que pudesse solucionar seus problemas econômicos.tam sua preferência pela democracia tem atitudes contrárias a algumas regras básicas desse regime.75 Três tendências em relação à democracia: democrática. ambivalente e não-democrática (gráfico 5). (4) Não me importaria que um governo não-democrático chegasse ao poder se pudesse resolver os problemas econômicos: a) totalmente de acordo. a suas instituições básicas e a diversos temas sociais. (7) a) Sem partidos políticos não pode haver democracia. Essas respostas são um chamado de atenção: uma proporção significativa de latino-americanos dá mais valor ao desenvolvimento econômico do que à democracia. Nessa concepção fortemente majoritária e plebiscitária do poder político. o/a senhor(a) está totalmente de acordo. b) a democracia não soluciona os problemas. decisões “para pôr ordem” ou “resolver crises” 140 A democracia na América Latina . anular ou cooptar essas instâncias. Os democratas são pessoas que dão respostas favoráveis à democracia em todos os assuntos consultados. b) não é indispensável. uma opina que a democracia pode funcionar sem instituições como o Parlamento e os partidos políticos. realizamos uma análise das respostas a onze perguntas que refletem não apenas preferência pela democracia. Colocados na situação de escolher entre a democracia e o desenvolvimento. con- 75 Ver metodologia de elaboração do IAD. dá no mesmo um regime democrático ou um não democrático. mas também atitudes em relação à forma de exercer o poder em democracia. b) em algumas circunstâncias. pode-se chegar a ser um país desenvolvido com outro sistema de governo que não seja a democracia. os democratas respondem que preferem a primeira ou que ambas as metas são igualmente importantes. ao contrário. (9) b) imponha a ordem pela força.

sideram que “a democracia é indispensável para um país ser considerado desenvolvido”. Os democratas não estão de acordo com posições do tipo delegatório76 para resolver os problemas do país: opõem-se a que o presidente prescinda do Parlamento, controle os meios de comunicação e imponha ordem pela força, mesmo em tempos de crise. Os não-democratas são pessoas que, em todos os assuntos consultados, expressam opiniões contrárias à democracia. Prefe-

rem um regime autoritário a um democrático. São da opinião que atingir o desenvolvimento do país é uma meta mais importante do que a de preservar a democracia, e não acreditam que a democracia seja indispensável para atingir esse objetivo. Quando colocados na situação de ter que escolher entre essas metas, optam pelo desenvolvimento. Estão de acordo com as seguintes posições: que “um governo não-democrático chegue ao poder desde que possa resolver os proble-

de nítido cunho autoritário. Isto não implica, claro está, que o presidente delegativo seja onipotente, pois choca com os Ressaibos de institucionalidade subsistentes, com diversas relações fáticas de poder e, dependendo das conjunturas, com movimentos opositores, principalmente de prestação de contas à sociedade.
Bases empíricas do Relatório

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Na maior parte dos países latinoamericanos, a existência de uma maioria que respalde a democracia depende da capacidade dos democratas para atrair os ambivalentes para suas posições.

mas econômicos” e que “o presidente deixe de lado o Congresso e os partidos políticos, se o país estiver em sérias dificuldades”. Finalmente, não parecem dar muita chance para que a solução dos problemas do país seja encontrada dentro da democracia, mesmo que se trate de uma democracia de tipo delegatório. Em síntese, inclinam-se a preferir a substituição de qualquer tipo de democracia por outro sistema de governo. Os ambivalentes são pessoas com opiniões ambíguas, para não dizer contraditórias. As opiniões que expressam, em geral, concordam com concepções delegatórias da democracia. Eles estão, a priori, de acordo com a democracia, mas consideram válido tomar decisões antidemocráticas na gestão de governo se, na sua opinião, as circunstâncias assim exigirem. Conseqüentemente, em alguns temas, eles estão de acordo com as opiniões dos democratas e em outros, com as dos não-democratas. Assim como os democratas, eles manifestam preferir um governo democrático a um autoritário, consideram que “a democracia soluciona problemas” e que é indispensável para o desenvolvimento. Mas, por outro lado, estão de acordo com os não-democratas quando opinam que atingir o desenvolvimento do país é mais importante do que preservar a democracia, e não objetariam que um governo não-democrático chegasse ao poder, se pudesse resolver os problemas econômicos. Além disso, os ambivalentes se distinguem dos outros dois grupos por aceitar que, em tempos de crise, o presidente imponha ordem pela força, controle os meios de comunicação e prescinda do Parlamento e dos partidos. Pode parecer paradoxal que os ambivalentes, que expressam preferir a democracia, manifestem acordo com medidas de governo de clara tendência autoritária. Consideramos que essas opiniões derivam da concepção delegatória da democracia adotada por esses consultados. Esta comprovação é importante: a preferência dos ambivalentes por uma liderança de base democrática, mas com traços que, embora autoritários, aumentem a eficácia da sua gestão, poderia ser eventualmente capitalizada pelos adversários da democracia.
142
A democracia na América Latina

Magnitude das tendências em relação à democracia Em 2002, os democratas pertenciam à tendência mais difundida entre os latinoamericanos, não chegando, porém, a formar uma maioria (gráfico 6). Somaram 43 por cento dos consultados nos dezoito países da América Latina. Entretanto, o apoio majoritário à democracia depende dos ambivalentes, que são a segunda tendência mais difundida (30,5 por cento). Finalmente, os não-democratas pertenciam à tendência menos difundida: 26,5 por cento dos consultados. Cada sub-região apresenta uma situação diferente: vantagem para os democratas, equilíbrio e polarização. Na América Central e no México, os democratas são quase a metade da população, representam mais do que o dobro dos não-democratas e têm ampla vantagem sobre os ambivalentes. Nos países do Mercosul e no Chile há uma situação polarizada: as tendências mais difundidas são as opostas, os democratas e os não-democratas. Além disso, a diferença de magnitude entre ambos é estreita. Finalmente, na Região Andina existe um equilíbrio entre as três tendências: a diferença entre os democratas e os ambivalentes é pequena, e nenhuma consegue uma vantagem ampla sobre os não-democratas. Distância entre as tendências em relação à democracia De que tendência os ambivalentes estão mais próximos? Na maior parte dos países latino-americanos, a existência de uma maioria que respalde a democracia depende da capacidade dos democratas para atrair os ambivalentes para suas posições. A distância entre as atitudes dessas duas tendências é relevante para considerar o efeito da dimensão da tendência democrática. Nas perguntas relativas ao apoio às instituições representativas (Congresso Nacional e partidos políticos), preferência pela democracia, consideração desta como indispensável para o desenvolvimento, e expectativa de que com a democracia os problemas do país possam ser resolvidos, as opiniões dos ambivalentes e dos democratas são signifi-

cativamente mais próximas do que entre os não-democratas e os ambivalentes. Em dois temas em particular, “A democracia soluciona problemas” e “A democracia é indispensável para o desenvolvimento”, praticamente não há diferenças entre os ambivalentes e os democratas. Além disso, em todos esses casos, os ambivalentes se encontram na zona de atitudes democráticas (tabela 47), com um elevado número de pontos nas respectivas escalas. No entanto, tratando-se de atitudes delegatórias e da tendência a apoiar um governo não-democrático se “assim os problemas do país puderem ser resolvidos”, a situação se inverte. A distância entre os não-democratas e os ambivalentes é significativamente menor do que a existente entre democratas e ambivalentes. Em dois temas, particularmente, a distância entre os ambivalentes e os democratas é muito evidente: no apoio a um presidente que deixar de lado o Congresso e os partidos, e no apoio a um eventual governo não-democrático.

Finalmente, a respeito da opção entre democracia e desenvolvimento, observamos que as três tendências se deslocaram “para baixo”: os democratas se encontram na zona de atitudes intermediárias (média de pontos = 2,47), os ambivalentes beiram a zona de atitudes não democráticas (média de pontos = 2) e os não-democratas assumem uma posição fechada (média de pontos = 1,47). Embora as diferenças entre tendências se mantenham em relação a essa opção, o fato de o número de pontos ser menor nos três casos é um chamado de atenção: é na opção entre desenvolvimento econômico e democracia que se evidencia uma maior tensão entre as preferências dos latino-americanos. De um ponto de vista geral, a distância entre as atitudes dos ambivalentes e as dos democratas é quase igual à existente entre os ambivalentes e os não-democratas. Os ambivalentes não se inclinam, por enquanto, para um ou para outro lado. Em resumo, a relativa eqüidistância entre democratas, ambivalentes e não-democratas parece ser resultado de uma tensão:
Bases empíricas do Relatório

143

quadro 36

Quantos democratas e não-democratas “puros” existem na América Latina?
Em toda a população entrevistada nos 18 países da América Latina, foram detectados, somente 7 não-democratas “puros” e 142 democratas “puros” (os dois somam apenas 1 porcento das pessoas). Um não-democrata “puro” é uma pessoa que em todos os aspectos incluídos na pesquisa das tendências sempre escolheu a resposta mais hostil à democracia. Devido ao fato de que a escala de medição empregada varia entre 1 (atitude mais hostil) e 4 (atitude mais pró-democrática), essas pessoas obtiveram uma pontuação média igual a 1. Como era de se esperar, esses 7 recalcitrantes pertencem à tendência não democrática. Pelo contrário, um democrata “puro” é uma pessoa que, em todos os casos, escolheu a resposta mais favorável à democracia: sua pontuação média foi a máxima (4). A imensa maioria dos entrevistados tem pontos de vista um pouco mais misturados, menos extremos, embora com tendências claramente discerníveis. Como foi indicado, os democratas tendem a pontuar na zona alta das escalas para medir as atitudes democráticas em todos os temas considerados: 70% dos assim classificados têm pontuações médias entre 3,01 e 4 pontos, enquanto poucos ambivalentes – 9,8% do total – e nenhum não-democrata obtêm essa pontuação. Em contrapartida, na zona de atitudes não-democráticas, em que a pontuação média varia entre 1 e 2 pontos, predominam os não-democratas: constituem 75% das pessoas que estão nessa zona. Na zona intermediária (pontuação média entre 2 e 3 pontos) pode ser verificada uma situação menos definida, pois nela coexistem importantes segmentos das três tendências. No entanto, mesmo assim é possível identificar tendências. Em primeiro lugar, quase todos os ambivalentes estão localizados nessa zona (84,2% do total). Em segundo lugar, há uma presença importante de não-democratas na faixa entre 2,01 e 2,50, abaixo do ponto médio da escala, e alguma concentração de democratas na faixa entre 2,51 a 3,0, uma área acima do ponto médio. Em ambos os casos, trata-se de áreas adjacentes a suas respectivas “zonas naturais”. Em resumo, embora na realidade haja poucos “tipos puros”, as tendências conseguem agrupar as pessoas de acordo com padrões de apoio à democracia. Elaboração própria com base no Latinobarômetro, 2002.

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A democracia na América Latina

TABELA 47

DISTÂNCIA ENTRE AS TENDÊNCIAS EM RELAÇÃO À DEMOCRACIA NOS DIVERSOS TEMAS ESTUDADOS, AMÉRICA LATINA, 2002
Pontuação na escala de atitudes democráticas (1)
Maior proximidade entre democratas e ambivalentes

Distância entre tendências (2)
Di Maior proximidade entre não democratas e ambivalentes Di

Zona de atitudes democráticas (3 a 4 pontos)

Preferência democracia Democracia indispensável para o desenvolvimento Democracia soluciona problemas Apoio ao Congresso Apoio aos partidos Democracia vs. desenvolvimento

0,45 0,04 0,05 0,57 0,52 0,90 Apoio a governo democrático para resolver problemas Presidente respeite leis Presidente não use força Presidente não controle meios Presidente deixe de lado Congresso e partidos

Zona intermediária (2 a 3 pontos)

4,61 1,76 1,80 1,65 2,13

Zona de atitudes não democráticas (1 a 2 pontos)

Notas: Os n variam entre 14.532(p41st) e 15.216 (p39st e p40st). (1) O intervalo de variação das escalas de medição das atitudes democráticas nas perguntas empregadas para o estudo das tendências em relação à democracia foi padronizado. Um valor de 4 foi estipulado para as atitudes mais favoráveis em relação à democracia e o valor de 1, para as atitudes mais negativas em relação à democracia. (2) Consulte explicação sobre o conceito de distância e seu respectivo indicador sob o título “Terceira dimensão: distância entre as tendências” da Nota Técnica do IAD que aparece em Anexos (p.225). Fonte: Elaboração própria com base no Latinobarômetro 2002.

a maior proximidade entre ambivalentes e democratas no tema do apoio à democracia e suas instituições compensa a maior proximidade entre os ambivalentes e os não-democratas no que se refere a atitudes delegatórias. Tendências em relação à democracia: perfil social No que se refere às tendências em relação à democracia, a base social que as sustenta é heterogênea; as pessoas que apóiam uma tendência determinada não pertencem majoritariamente a um grupo ou classe social. Em particular, a composição social dos democratas revela que o apoio à democracia está arraigado de um modo bastante semelhante nos distintos setores da sociedade. Mesmo assim, observam-se as seguintes re-

lações (tabela 48):
■ Pessoas com educação superior (completa ou incompleta) tendem a ser democratas. ■ Não há, em compensação, maiores diferenças entre pessoas com educação primária e secundária. ■ Os democratas tiveram maior mobilidade educativa em relação aos pais. ■ Há uma maior presença relativa de jovens entre os não-democratas. ■ Os não-democratas são, em média, pessoas que percebem que tiveram uma mobilidade econômica descendente mais intensa do que os outros grupos em relação aos pais. ■ Os não-democratas são os que mais tendem a pensar que os filhos terão uma menor mobilidade econômica ascendente.

Bases empíricas do Relatório

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(4) O índice de mobilidade econômica é elaborado segundo a avaliação que os entrevistados fazem sobre a situação econômica dos seus pais e a comparação de esta em relação com a situação atual própria.9 30.5 26.438 n=15. 2002 Categorias Estrutura da amostragem Tendência em relação à democracia Democratas Ambivalantes Não democratas Significância (4) América Central e México (1) Região Andina Mercosul e Chile América Latina Sexo % de pessoas % de pessoas % de pessoas % de pessoas % Homens % Mulheres % 16 a 29 anos % 30 a 64 anos % 65 a 99 anos Média de idade % sem estudos % 1 a 6 anos % 7 a 12 anos % Superior completa ou incompleta Média de anos de estudo % Baixo % Médio % Alto Média do índice econômico Média de mobilidade econômica acontecida (4) n=6.01 -0.1 8.84 -0.402 n=4. Se o índice encontra-se entre 0 e 3.2 50.24 6.5 53.8 34.TABELA 48 PERFIL SOCIOECONÔMICO DAS PESSOAS SEGUNDO SUA TENDÊNCIA EM RELAÇÃO À DEMOCRACIA.3 34.8 49.9 21.2 32 43. (3) De acordo ao número de anos de socialização nos que se viveu sob um regime autoritário.83 8.42 33.8 47.9 4.5 37.33 considera-se nível econômico baixo.3 30.6 39.3 43.6 36.1 56. .52 .1 11. Fonte: Processamento de várias perguntas do Latinobarômetro 2002.2 38.377 n=4. num período de transição ou em um regime autoritário.16 7.3 11 35.05 -0.7 6.8 11. Considera-se que o número de anos de socialização de uma pessoa é de onze anos (entre os 7 e os 17 anos).84 44.29 40.2 43.9 33 6.8 45 16 9.44 46. 146 A democracia na América Latina .9 39.3 7.1 37.2 31.4 21.4 41.49 55.2 14.5 50. .9 3.34 e 6.217 51.4 9.5 34.6 6. ** Idade ** ** ** Nível educativo ** * Nível econômico (2) ** Corte (3) % Socializado em regime autoritário % Socializado em período de transição % Socializado em democracia Média de anos de socialização em não democracia 51..8 7. Esse índice pode variar entre 0 e 10.3 8 38.9 8.3 8..3 4.74 ** ** Notas: (1) Inclui República Dominicana..1 35.9 47.4 6. se determina se uma pessoa foi socializada em democracia.8 11.69 40 49. se encontra-se entre 3.1 17.36 48.5 48. .6 37.5 10.67 e 10 considera-se nível econômico alto.6 43 52.6 54.5 4.8 52.5 49.66 considera-se nível econômico médio e se encontra-se entre 6.7 28.38 19.2 7 46.3 8.12 -0.33 41..2 9. (2) Com base no índice econômico elaborado a partir da posse de artefatos e da educação do chefe de família.5 50 50 40.04 53.7 9.

Heterogeneidade O estudo de opiniões em outros âmbitos de interesse permite analisar se pessoas de uma mesma tendência em relação à democracia compartilham. que o setor político ao qual pertencem não tem igualdade de oportunidades no que se refere a acesso ao poder. Os dados levantados indicam que as tendências são politicamente heterogêneas. pode-se determinar qual das tendências já examinadas é a mais ativa e. independentemente Bases empíricas do Relatório 147 . quase quatro (37. socialização em períodos autoritários. A maioria dos cidadãos na América Latina não está desconectada da vida política e social dos seus países. há algumas diferenças interessantes: ■ Os não-democratas tendem a opinar. dessa forma.1 por cento. toda democracia precisa de algum nível de participação dos cidadãos. mais do que os nãodemocratas e os ambivalentes. também. Em particular. em torno de 30 por cento das pessoas podem ser classificadas como cidadãos desmobilizados: ou não exercem seus direitos de participação ou exercem de maneira intermitente. ambivalentes e não democratas coincidem em apontar os problemas de pobreza e desemprego como os mais importantes. Não há maiores diferenças de opinião acerca dos problemas prioritários que devem ser solucionados no país: democratas. na modalidade de participação política que menos esforço pessoal requer: o voto.1 por cento se limitaram a exercer o voto na última eleição presidencial do seu país. Formas de participação dos cidadãos na vida política Embora não seja possível determinar de maneira geral o nível ótimo de participação que deveria existir em uma democracia. ■ Os não-democratas tendem a confiar menos do que os outros nas instituições e nos políticos. as pessoas que compartilham uma tendência positiva em relação à democracia não se concentram em forças políticas determinadas. se for preciso. menores perspectivas positivas quanto ao futuro dos filhos e à solução de seus problemas públicos. comparados com 40 e 43. Nas mais dinâmicas. é possível também comprovar que essa tendência está associada a menor educação. No caso dos democratas. tendem a favorecer um maior protagonismo do Estado no desenvolvimento do país.8 por cento). Mediante o exame da participação cidadã.Um pouco mais da metade dos habitantes da América Latina foi socializada sob regimes autoritários (52. com maior freqüência. os políticos mentem para ganhar as eleições. ■ Os não-democratas tendem a estar menos satisfeitos com a democracia do que os democratas e os ambivalentes (apenas 19 por cento. esta proporção cai para 48. e a uma grande desconfiança nas instituições e nos políticos. ■ Os não-democratas tendem a notar. ■ Os não-democratas acreditam com maior freqüência do que os outros que. ■ Os democratas.8 por cento.9 por cento. No total. Adicionais 22.6 por cento) intervêm na vida pública do seu país. com maior freqüência do que os outros. ■ Pela análise do perfil dos não-democratas e de suas opiniões sobre a realidade política e econômica. não aderiu a nenhum ato de participação cidadã nos anos recentes. entre os não-democratas a proporção se eleva a 55. 7. que o problema para eles prioritário não está sendo solucionado ou que existe um retrocesso na sua solução.3 por cento do total. acrescentar um novo elemento de juízo para o estudo sobre o apoio – e a vulnerabilidade – das democracias na região (tabela 50). nem manifestam opiniões muito diferentes das opiniões do resto dos consultados (tabela 49). Em cada dez pessoas entrevistadas. Entretanto. opiniões a respeito do que deveria ser feito e de quem deveria ser apoiado eleitoralmente em um país. as pessoas encontram uma série de caminhos para exercer esse direito. Só uma pequena minoria dos consultados. baixa mobilidade social em relação aos pais. respectivamente).

97 31.3 3.05 5.7 52.82 3.438 n=15.1 43.9 10.8 6.76 ** ** 60. desigualdade e renda insuficiente % menciona corrupção % menciona violência política % opina que está retrocedendo na solução ou não tem solução % opina que o problema prioritário está sendo solucionado % menciona um tema prioritário não tratado em campanha % opina que políticos não cumprem promessas de campanha porque mentem 5.9 31.2 46. pobreza.6 12.5 79.8 58.84 .0 3.4 65.0 ** ** Outras atitudes políticas % opina não ter igualdade de oportunidades políticas % opina que é preciso ser cuidadoso ao tratar com os demais Média na escala esquerda-direita Média de índice de confiança em instituições e atores políticos 32.33 2.6 ** ns ** Resposta a problemas prioritários 32.8 41.6 3.3 69.5 73..0 7.3 58.9 6.3 7.0 7.6 10. .7 28.4 4.6 ** ** ns 64.9 47. .3 5..9 6.77 ** ** ** ** Estratégias de desenvolvimento % opina: instituições públicas sem solução ou privatizar % a favor de medidas administrativas de reforma % a favor de melhoramento de “accountability” no Estado Média índice de intervenção econômica do Estado Problemas prioritários % menciona emprego.0 5. Indicase com (**) quando o resultado é significativo a 1%.217 78. 2002 Categorias Estrutura da amostragem Tendência em relação à democracia Democratas Ambivalantes Não democratas Significância (2) América Central e México (1) Região Andina Mercosul e Chile América Latina Voto % de pessoas % de pessoas % de pessoas % de pessoas % votou na última eleição % não votou por desencanto ou desinteresse % manifesta ter um partido Média do índice de eficácia do voto % dá significado negativo de democracia % satisfeito com o funciona mento da democracia n=6.2 51.0 3.2 41.4 35.6 12.77 1.4 21.3 8.9 30. Sobre as provas realizadas em cada caso.0 78.01 46.5 3.5 26.3 85..6 37.TABELA 49 PERFIL POLÍTICO DAS PESSOAS SEGUNDO SUA TENDÊNCIA EM RELAÇÃO À DEMOCRACIA. Quando não é pertinente o cálculo de uma medida de associação ou da ANOVA indica-se com dois pontos seguidos (. Fonte: Processamento de várias perguntas do Latinobarômetro 2002.0 9.93 29.6 51.93 1.. .5 76.7 ** Notas: (1) Inclui República Dominicana.6 7.7 58. (2) Indica-se com um (*) quando a medida de associação utilizada ou a Análise de Variância (ANOVA por sua sigla em inglês) resulta significativa a 5%.8 34.03 33.3 34.5 5.2 11.75 1.6 3.8 19.7 3.8 43.6 2. 148 A democracia na América Latina ..0 42.5 82.3 43.3 37.0 53.).55 6.8 54.13 19.4 9.5 80.377 n=4.4 62.5 80.402 n=4.2 12.7 2. consulte o Compêndio Estatístico.0 82.6 43.4 40.9 84.3 83.7 5. ** ** ** ** Democracia 5.8 40.03 39.9 12.2 27.

quando o balanço de forças é negativo. Dentre eles. uma intervenção esporádica na política por meio do voto. trabalho ou dinheiro na resolução dos problemas da comunidade. Perfis de intensidade da cidadania A análise integrada da dimensão. Registrou-se atividade em todos os âmbitos de participação cidadã pesquisados (participação eleitoral. em alguns casos. em manifestações coletivas. Não estão. Em primeiro lugar. O segundo setor. Nas situações favoráveis. São cidadãos que exercitam ativamente seus direitos.da participação eleitoral. Além de votar. entram em contato com autoridades públicas quando há problemas que afetam suas comunidades. um número ligeiramente inferior ao dos cidadãos desmobilizados. incluindo os setores ambivalentes. que oferece uma visão sintética sobre o apoio e a possível vulnerabilidade das democracias latino-americanas. exercitam seu direito de participar de atividades de seu interesse. Finalmente. são os politicamente mais ativos. além de que quase todos votam. a maioria das quais tem. examinar as variações na situação política e na suposta solidez das bases de estabilidade democrática na cidadania. tais como. É uma ferramenta que distingue as situações políticas favoráveis das desfavoráveis e arriscadas. porém entra em contato com autoridades públicas e participa de manifestações públicas (4. como as pessoas exercitam. mediante futuras medições. há um balanço de forças positivo para a democracia. os não-democratas são maioria. Por um lado. Por outro lado. Participação cidadã e tendências em relação à democracia O último aspecto na análise da participação é seu vínculo com as opiniões em relação à democracia. e os ambivalentes estão relativamente próximos de suas posições. um terço (33. literalmente. 37 por cento dos não-democratas podem ser classificados como ativos. composto aproximadamente por uma de cada oito pessoas (13. Neste grupo. Na América Latina. seu status de ciBases empíricas do Relatório 149 . são mais ativos e têm os ambivalentes mais próximos. são aproximadamente 25 por cento do total. distinguem-se dois grupos. no mínimo. existe um setor altamente participativo. “fazem de tudo”. Combinam o exercício do sufrágio com pelo menos uma outra modalidade de participação política: votam e entram em contato com autoridades.2 por cento) dos latino-americanos são pessoas socialmente ativas. Com o IAD será possível. isto é. votam e participam de manifestações públicas. Uma comprovação importante é que nem sempre os democratas são os mais participativos.3 por cento). No caso oposto. Existe um setor que desenvolve atividades políticas não eleitorais de participação cidadã: abstém-se de votar. as pessoas se encontram em uma posição intermediária entre os cidadãos desmobilizados e os politicamente ativos. assim como 39 por cento dos ambivalentes. os democratas tendem levemente a participar mais ativamente na vida política de seus países do que os ambivalentes e os não. pois os democratas são maioria. colaboram com organizações da sua comunidade e. entrar em contato com autoridades e funcionários públicos e manifestar-se publicamente. composto por pessoas que. nesse sentido. podem também colaborar com a comunidade. em instituições sociais. Esse índice permite avaliar o atual equilíbrio de forças e o potencial para criar coalizões cidadãs amplas de apoio à democracia. Com esse propósito preparamos o índice de apoio à democracia (IAD). Na América Latina. participam de manifestações públicas e colaboram com tempo. e contatando autoridades). também realiza atividades de participação política independentemente da eleitoral. As fontes de informação do IAD também podem ser empregadas para estudar a intensidade da cidadania. mas sem atingir o nível e a diversidade das ações dos cidadãos altamente participativos. se é que o fazem.democratas. da distância e do ativismo das tendências em relação à democracia ajuda a proporcionar uma estimativa do grau de respaldo cidadão com que ela conta. ativas em todas as frentes. porém. essa atividade se desenvolve principalmente em um âmbito não político. 43 por cento dos democratas realizam outras atividades políticas.9 por cento).

0 51.8 40.895 7.1 47..1 40.1 35.0 31.2 8.3 37.83 6.2 4.3 5.0 11.5 51.1 8. .1 57.3 7.7 44.8 52. .18 % de pessoas % de pessoas % de pessoas % de pessoas n=7.3 7.7 24.6 24.23 14.9 8.6 7.72 41.387 n=5.5 8.6 8.9 8.5 54.68 9.8 11. .96 9..8 9.6 26.9 57.5 39..8 9.2 34.5 5. 2002.6 35. .64 7.4 9.3 29.79 7.3 53.4 22..77 .2 6.06 34.9 13.6 39.2 33. ** .6 9.7 58. ** Sexo % Homens % Mulheres Idade % 16 a 29 anos % 30 a 64 anos % 65 a 99 anos Média de idade ** ns ** ** * ** Nível educativo % Sem estudos % 1 a 6 anos % 7 a 12 anos % Superior completo ou incompleto Média de anos de estudo ** ** .9 33.7 49.3 20.58 6.3 31.4 10.0 39.2 30.0 4.1 23.8 58.8 38.6 5.58 51. .330 n=17.1 8. Estrutura da amostragem Modos de participação cidadã Significância (2) Categorias 150 Não faz nada Só vota Colabora com ou sem voto Ação política com ou sem voto Colabora e ação política sem voto Colabora e ação política com voto (As provas são realizadas comparando as pessoas que participam nos seis modos) (As provas são realizadas comparando as pessoas que não fazem nada ou que só votam com as que realizam ação política só ou combinada) A democracia na América Latina América Central e México (1) Região Andina Mercosul e Chile América Latina 48.4 38.2 23.0 38. .3 59.8 65.9 42.7 16.5 15.5 33..2 45.8 11.9 49..8 22.178 n=5.6 43.4 39.4 9..7 37.8 33.0 24.9 6.5 46.TABELA 50 PERFIL SOCIOECONÔMICO DAS PESSOAS SEGUNDO MODOS DE PARTICIPAÇÃO CIDADÃ.6 12..2 16.2 35.4 44.2 55.2 37.1 38.97 25.78 28.2 43.

(2) Indica-se com um (*) quando a medida de associação utilizada ou a Análise de Variância (ANOVA por sua sigla em inglês) resulta significativa a 5%. Fonte: Processamento de perguntas da Seção Proprietária do PNUD e de outras perguntas no Latinobarômetro 2002.84 1.89 1.).4 81.6 68.2 4.96 1.7 6.7 42.5 8. se encontra-se entre 3. . Estrutura da amostragem Modos de participação cidadã Significância (2) (As provas são realizadas comparando as pessoas que não fazem nada ou que só votam com as que realizam ação política só ou combinada) (As provas são realizadas comparando as pessoas que participam nos seis modos) Categorias Não faz nada Só vota Colabora com ou sem voto Ação política com ou sem voto Colabora e ação política sem voto Colabora e ação política com voto Nível econômico (3) % Baixo % Médio % Alto Média de índice econômico 3.1 45.2 ** ** ** ** ** ** Agenda não tratada (4) % Menciona um tema sem tratar % Não menciona um tema sem tratar Confiança (5) 1.8 44. consulte o Compêndio Estatístico. Está ativo em todos os âmbitos da participação cidadã. requer menor esforço: votar).6 72. Se o índice encontra-se entre 0 e 3. além de esporádica. mas sem atividade em todos os âmbitos da participação cidadã. construído a partir de perguntas sobre confiança em “ “Poder judiciário “.45 3.33 considera-se nível econômico baixo. Cidadão altamente participativo. Esse índice pode variar entre 0 e 10.2 14.3 42.02 11.4 27. “Partidos políticos “ e “Pessoas que dirigem o país “.8 45.7 3.88 1. Quando não é pertinente o cálculo de uma medida de associação ou da ANOVA indica-se com dois pontos seguidos (.66 considera-se nível econômico médio e se encontra-se entre 6.8 86. “Municípios “. Cidadão ativo: Contacta autoridades e participa de manifestações públicas.8 51.85 18. “Governo “. ( 5) Com base no índice de confiança em instituições e atores.3 7.34 e 6. 151 ( 4) Com base na pergunta p27u: “Qual é o tema que lhe interessa e que os candidatos na última eleição não se atreveram a abordar? “.4 46.97 ** ** Notas: ( 1) Inclui República Dominicana.2 88..8 85.8 43. “Congresso “.91 1.67 e 10 considera-se nível econômico alto.73 3.5 78.60 3. Indica-se com (**) quando o resultado é significativo a 1%.3 12. Bases empíricas do Relatório ( 3) Com base no índice econômico construído a partir da posse de utensílios e da educação do chefe de família.3 31.8 10. Sobre as provas realizadas em cada caso.2 35.6 45.9 4.90 Média de confiança em instituições e atores 1.CONTINUAÇÃO TABELA 50 PERFIL SOCIOECONÔMICO DAS PESSOAS SEGUNDO MODOS DE PARTICIPAÇÃO CIDADÃ.1 52. 2002.7 6.29 13. Pode colaborar em atividades sociais.9 49.0 47.0 51. Cidadão não ativo: Não tem participação política ou realiza a que.5 21.95 4.

9 por cento) são ambivalentes ou não-democratas desmobilizados. Pouco mais de um terço dos consultados (34. criado por O’Donnell. Com base na informação das tendências em relação à democracia e nas formas de participação cidadã na América Latina. existem quatro perfis de intensidade cidadã: os democratas participativos. Além desses obstáculos. uma de cada cinco pessoas na América Latina (18. 77 O’Donnell. Os dois últimos grupos compartilham sua ausência de compromisso com a democracia e também diferem em seu nível de participação política. na América Latina. ■ Os dois primeiros grupos compartilham uma tendência democrática. uma proporção considerável das cidadãs e dos cidadãos não pode exercer seus direitos civis e é discriminada.9 por cento) pode ser classificada como democrata participativa. ■ os ambivalentes e não-democratas desmobilizados. tanto percepções quanto registros institucionais. encontra-se com problemas. Esta é precisamente a perspectiva estudada neste capítulo. que classifica as pessoas combinando os seguintes critérios: ■ Sob a perspectiva dos deveres cidadãos. o grau em que as pessoas participam na vida política. embora seus direitos políticos estejam razoavelmente protegidos. mas diferem em seu nível de participação na vida política. quadro 37 Cidadania de baixa intensidade Em 1993. o dever de aceitar a vigência das normas democráticas. ■ Sob a perspectiva dos direitos cidadãos. para o qual foi utilizado o estudo sobre os modos de participação cidadã. e o atribuiu a barreiras objetivas como a debilidade do Estado democrático de direito e o efeito das desigualdades sociais extremas. a intensidade no exercício da cidadania pode ser influenciada pelo grau em que as pessoas se sintam obrigadas a cumprir seus deveres e a exercer seus direitos. então. Ele denominou esse fenômeno “cidadania de baixa intensidade”. Aproximadamente. a utilização de diversas fontes de informação. pois está centrada no estudo das atividades e dos comportamentos dos indivíduos. O’Donnell definiu que. 152 A democracia na América Latina . Para avançar no estudo desse tema. ■ ■ os ambivalentes e não-democratas participativos. mas estão retiradas da vida política. Uma democracia na qual uma proporção significativa da cidadania decide não exercer seus direitos nem cumprir seus deveres. Para isso utilizou-se o estudo das tendências em relação à democracia.dadão ou cidadã. A ferramenta utilizada para se aproximar desse tema é uma tipologia de perfis de intensidade cidadã que permite classificar as pessoas conforme a maneira de exercitar seu status de cidadão (tabela 47). com a informação do Latinobarômetro. O conceito de intensidade cidadã vem do termo cidadania de baixa intensidade. Trata-se de uma perspectiva inspirada no pensamento de O’Donnell. Um estudo da cidadania de baixa intensidade requer.77 Entende-se por intensidade cidadã o livre e ativo exercício dos direitos e o cumprimento dos deveres genéricos próprios do status de cidadania. preparouse uma tipologia de perfis de intensidade cidadã. os democratas desmobilizados. 1993. Os ambivalentes e não-democratas participativos representam uma proporção muito similar à dos democratas participativos. Essas pessoas têm dúvidas ou se opõem à democracia. embora diferente.

em termos de correlação de forças. o futuro da democracia poderia estar facilmente comprometido pela precariedade do apoio cidadão. pondera o tamanho das orientações com a distância e o ativismo. O Índice de Apoio Cidadão à Democracia O resultado do IAD para a região tendeu a ser positivo para a democracia. o IAD chega a um valor bastante superior a 1. podem ser formuladas duas conclusões: os dois grupos socialmente mais parecidos entre si são. As características sociais das pessoas que compõem cada um dos perfis de intensidade cidadã são similares às descritas para a base social das tendências em relação à democracia. os democratas constituem a tendência em relação à democracia mais difundida e tenderam (embora levemente) a participar mais na vida política e social dos seus países do que as pessoas com outras tendências. Nas situações favoráveis à democracia. em maior proporção do que os outros grupos. o panorama pode ser observado com maior precisão. na América Latina. os que poderiam chegar a enfrentar-se no caso de uma crise que ameace a estabilidade de uma democracia. A segunda conclusão é que os ambivalentes ou não-democratas desmobilizados parecem concentrar. os não-democratas. estão em melhor posição do que seus contrários. Ambos os grupos têm estruturas de idade. ■ Na distância média nas atitudes entre cada tendência. Quando o IAD tem um valor próximo a 1. paradoxalmente. Caso haja uma crise política severa. depois. Quando o IAD assume valores muito inferiores a 1 e próximos a zero. Os jovens são mais numerosos neste grupo do que entre os democratas participativos (38. pois o apoio cidadão à democracia não está garantido. nível de instrução e nível econômico mais parecidos entre si do que em relação aos outros dois grupos.quadro 38 O Índice de Apoio à Democracia (IAD) A elaboração do IAD baseia-se: ■ Nas tendências em relação à democracia. os democratas participativos e os ambivalentes ou não-democratas participativos. Os democratas. no Compêndio Estatístico. se os democratas ou os não-democratas estão mais próximos dos ambivalentes. aproximadamente uma de cada cinco pessoas (21. ■ No nível de ativismo político das pessoas que apóiam as tendências e na situação dos democratas e dos não-democratas. o apoio cidadão à democracia é precário.6 por cento) pode ser classificada com este perfil: pessoas que têm dúvidas ou se opõem à democracia e são politicamente ativas. São situações com um potencial de instabilidade. Bases empíricas do Relatório 153 . ao passo que as pessoas com educação superior completa ou incompleta são mais numerosas entre os democratas participativos. Em termos gerais. O IAD. pesquisa. As pessoas sem estudos ou com escola primária completa ou incompleta (1 a 6 anos de escolaridade) têm uma distribuição similar: proporcionalmente tendem a agrupar-se mais entre os ambivalentes ou nãodemocratas desmobilizados. ■ No tamanho de cada tendência e. Uma explicação mais detalhada pode ser encontrada na nota técnica sobre a Segundo nossos dados. resume situações de equilíbrio político entre as tendências democrática e nãodemocrática. então. as pessoas mais jovens e de menor nível econômico. mas sob a presente perspectiva.4 por cento dos primeiros e 30 por cento dos segundos). na proporção entre democratas e nãodemocratas. Na verdade.

os ambivalentes são um grupochave para ser observado.De qualquer maneira. ■ Evidencia-se uma tensão quando se pergunta sobre a alternativa entre desen■ 154 A democracia na América Latina . a região ainda tem sérios déficits.03. 43% dos entrevistados tinham uma tendência pró-democrática. Resumindo os resultados desta análise. sendo esta a mais difundida. De qualquer maneira. pois na maioria dos países. como já vimos. os democratas requerem seu apoio para formar grupos majoritários de cidadãos. Índice de apoio à democracia Tamanho das tendências Distância média entre as tendências Ativismo político das orientações Eles também tiveram os ambivalentes ligeiramente mais próximos de suas posições do que das posições dos não-democratas (gráfico 8). O IAD agregado para a região revelou um valor de 2. encontramos: Processando dados da pesquisa de Latinobarômetro de 2002. questões em que. pois esses fatores estão relacionados com carências da ci- dadania social e com baixas perspectivas de mobilidade econômica e educativa. É preciso também tomar nota dos fatores associados mais fortemente aos não-democratas. os ambivalentes são um grupo-chave para ser observado. os democratas requerem seu apoio para formar grupos majoritários de cidadãos. pois na maioria dos países.

Parece que muitos preferem a primeira. ■ A maioria dos cidadãos não está desconectada da vida política e social de seus países. nos que têm uma percepção de baixa mobilidade social em relação aos pais e baixas expectativas quanto a uma futura melhoria para os filhos. Bases empíricas do Relatório 155 . ■ Os entrevistados pertencentes a países onde há menores níveis de desigualdade social tendem a ser mais favoráveis à democracia. ■ Da análise do perfil dos denominados “não-democratas”. ■ Em média. e naqueles que têm maior desconfiança nas instituições. os democratas tendem levemente a participar mais ativamente na vida política de seus países. nos que têm uma socialização proveniente de períodos autoritários. surge que esta tendência tem maiores adeptos nos setores com menos educação.volvimento econômico e democracia.

156 A democracia na América Latina .

com trinta e quatro líderes consultados. As restantes categorias se distribuem em: sindicalistas (7 por cento). Perfil dos atores consultados Para a realização das consultas – que tiveram lugar entre julho de 2002 e junho de 2003 – seguimos dois critérios: a) fazer um mínimo de seis consultas por país. e os mexicanos. Procuramos detectar as formas de ver e de pensar manifestadas nas respostas dos líderes. b) protagonistas sociais em um amplo espectro que inclui líderes sindicais. em chefias partidárias. Foram observados também a tensão entre pobreza/desigualdade/ democracia. observa-se um número significativo de empresários (11 por cento) e intelectuais (14 por cento). jornalistas (6 por cento). com vinte e cinco). oferecemos mais informação sobre a metodologia e os critérios de processamento empregados. 51 por cento dos consultados são políticos. na confiança nas instituições – particularmente nos partidos políticos – e nas relações com os poderes fáticos novos ou tradicionais. nos limites do poder democrático. sim. Na parte final do Relatório. A indagação sobre o desenvolvimento da democracia na América Latina se enriquece com as percepções e opiniões dos que tomam as decisões de mais impacto na vida política da região. os problemas em torno da elaboração da agenda pública e os desafios enfrentados pelas democracias. e c) membros das Forças Armadas. social e cultural latino-americana. que integram uma amostragem cuja significação decorre da relevância de suas trajetórias: a) líderes políticos que detêm ou detiveram o poder em seu máximo nível institucional. empresários. Esta não é uma amostra aleatória e. líderes da sociedade civil (7 por cento). os dados não têm valor estatístico.5 por cento) e militares (1. colocando ênfase na participação dos cidadãos. complementar outros tipos de estudos de opinião. jornalistas. É importante levar em conta que o estudo não pretende substituir e. Expressamos nosso agradecimento às 231 personalidades que se dispuseram a contribuir generosamente para que pudéssemos realizar as entrevistas.5 por cento). Entre os restantes. religiosos (2. econômica. Esta parte expõe e sistematiza as opiniões que surgem da rodada de consultas a 231 líderes latino-americanos. A meta é levantar opiniões fundamentais de O ponto de partida conceitual As declarações coincidem em ressaltar um diagnóstico que pode ser assim resumido: nunca antes houve tanta democracia na América Latina nem esteve tão controlado o Bases empíricas do Relatório 157 . que inclui 41 presidentes e vice-presidentes atuais e anteriores. e lamentamos a impossibilidade de realizar todas as que pretendíamos. parlamentares. o que resultou na omissão de importantes dirigentes. e b) fazer um número maior de consultas nos países maiores (os dois grupos mais numerosos são os brasileiros. portanto. religiosos e dirigentes de movimentos ou organizações sociais.■A percepção dos dirigentes latino-americanos um conjunto relevante de líderes sobre as democracias da região. acadêmicos. em uma entrevista cuja agenda era previamente desconhecida. Analisamos aqui suas opiniões sobre o grau de desenvolvimento de nossas democracias. funcionários de alto escalão ou prefeitos. A pergunta que merece resposta é: quais são as opiniões e formas de pensar de um grupo de 231 pessoas que exercem funções de liderança na América Latina? Trata-se de importantes protagonistas da vida política.

mais participação aparece como preferível a menos participação. eventualmente. Esta visão deixa em aberto uma gama de questões a serem abordadas e de objetivos não atingidos.Há coincidência em que maior participação através dos partidos políticos é saudável para a democracia. 158 A democracia na América Latina . uruguaios e costarri- 78 Garretón. Já a diminuição ou o estancamento da participação apontado pelos líderes chilenos. tais como a participação em consultas populares ou em âmbitos deliberativos a nível local. pois. Sob essa perspectiva. Para a maioria dos consultados. o fato de votar é visto como algo habitual. Em compensação. para os consultados nesses países. principalmente através da mediação dos partidos políticos ou das organizações da sociedade civil. existem duas tendências. em um sentido mais estreito. 2003. Nos países com menor tradição democrática. Em quase toda a América Latina. A quase unanimidade das pessoas con- sultadas pensa que uma maior participação em qualquer uma de suas formas tende a fortalecer o funcionamento das instituições democráticas. a participação implica formas mais ativas de exercer os direitos cidadãos. pressupõe alguma forma estável de conexão com a tomada de decisões públicas. Alguns sentidos intermediários aludem a formas mais ou menos ativas de exercício da cidadania. todos os países cumprem os requisitos do regime democrático. documento elaborado para o PRODDAL. dentro de um acordo generalizado em apontar o caráter inacabado da construção da democracia na América Latina. Entretanto. tanto no que se refere à eleição dos governos quanto à definição de suas políticas) aumentou significativamente durante a última década. em contraste com o passado autoritário. Os líderes consultados tendem a compartilhar essa idéia. como veremos mais abaixo. os líderes latino-americanos consideram que a participação política e os controles sobre o exercício do poder são duas condições básicas da democracia. o voto é visto como um ato que concretiza a participação. um prêmio ou um castigo aos governantes.78 Na atualidade. inclusive onde dito processo histórico tem duração mais longa. perigo de golpe de Estado. Nesse sentido amplo. nas democracias de maior continuidade. Identifica-se o crescimento da participação eleitoral com o progresso da participação. esta opinião genérica se relativiza quando boa parte dos consultados se refere a formas mais específicas de participação. mesmo quando são céticos quanto ao funcionamento adequado dos partidos como canais de participação ou à possibilidade de recuperação de protagonismo nesse terreno. Condições necessárias para a Democracia Embora não as interpretem exatamente da mesma forma. mesmo assim. pois permite expressar uma posição crítica em relação a velhas estruturas patrimonialistas e. Em seu sentido mais amplo. e que ambas se fortaleceram ao longo da última década. sua abrangência costuma se restringir à participação eleitoral. em geral. No momento de considerar o ato eleitoral como uma expressão da participação política. a participação da população no sentido amplo (isto é. que são especialmente valorizados pelos consultados. o aumento da participação é interpretado como uma das caras mais visíveis do processo de construção democrática. a democracia está exposta a fragilidades. Também há coincidência em que maior participação através dos partidos políticos é saudável para a democracia. como as que derivam do baixo prestígio dos partidos políticos e da chamada crise da sociedade política. A expansão da participação política Por mais que a palavra participação tenha diferentes significados políticos. mas. que não é considerado no momento de avaliar o nível de participação. a conquista e afirmação dos atributos básicos da democracia são consideradas uma etapa necessária e um progresso significativo.

ou seja. mais circunstancial [.] nas votações e nas eleições. [há] mais organizações democráticas.quenhos parece próprio de democracias que se sentem profundamente arraigadas historicamente....]. Nicarágua. apoiando candidatos independentes) ou porque se incorporam a organizações da sociedade civil que se apresentam como alternativa para os partidos. o aumento da participação é interpretado como uma das caras mais visíveis do processo de construção democrática. Peru. Quanto mais se aperfeiçoa o poder democrático. Em quase toda a América Latina. Os partidos perderam presença e representatividade”.]. aquele em que a diferença é mais favorável para os que pensam que a participação aumentou. dois deles padeceram de duras experiências de regimes autoritários). Brasil. E isso é o que ocorre [. Argentina. o interesse da cidadania vem diminuindo progressivamente enquanto a abstenção eleitoral vem aumentando. [. Por sua vez. TABELA 51 AUMENTOU A PARTICIPAÇÃO NA AMÉRICA LATINA? A participação aumentou Honduras. Guatemala. Panamá. El Salvador. segundo os consultados. Sempre. a cidade.. a realidade chilena é muito preocupante: [.. o fortalecimento das instâncias de deliberação e de decisão no âmbito local. Bases empíricas do Relatório 159 .. Depois a classificação é feita por ordem decrescente desse resultado. não organizada [. [.. mais aumentam as pressões de baixo para cima [para que seus problemas sejam levados em conta]. É a essa escala (a aldeia.. Paraguai Colômbia. esse fenômeno de maior participação por canais alternativos às estruturas partidárias aparece freqüentemente associado à outra tendência vigorosa. trata-se de um problema diferente dos problemas enfrentados por países onde esse envolvimento é menor ou mais recente. Costa Rica Uruguai. mais organizações da sociedade e mais pressão de baixo para cima.] Hoje em dia. o distrito rural. Essa é a prova pela qual temos que passar agora”. não se trata apenas da imagem negativa dos partidos. Equador. quer seja porque tomam a distância suficiente para fazer um exercício independente do voto (por exemplo. Chile A participação não aumentou nem diminuiu A participação diminuiu Nota: Os países estão classificados segundo “resultados de opinião”. Uma diferença significativa entre os países com democracias historicamente mais arraigadas e os outros são os canais por meio dos quais se exerce a participação. República Dominicana. 2002. México. um líder brasileiro destaca a expansão da participação: “A pobreza é difusa. a diferença entre os que dizem que a participação aumentou e os que dizem que a participação diminuiu. mesmo assim. mas um dos mais importantes).]. Mas em vários países com tradições democráticas menos arraigadas... Isso não significa que esses países estejam livres de dificuldades (de fato. Rodada de consultas com líderes da América Latina.. ou seja.] [Agora] há uma participação mais desorganizada. Segundo esses consultados. alguns consultados opinam que a maior participação se produz quando os cidadãos atuam fora dos partidos. Fonte: PRODDAL. mas também do fato de que são vistos como um obstáculo para a participação. o estado) em que apareceriam dirigentes capazes de gerar níveis importantes de adesão e em que melhor funcionariam as organizações da sociedade civil que conseguem atrair os cidadãos com mais facilidade. Venezuela. fundamentalmente através das organizações políticas e sociais.. Os consultados dos países do primeiro caso tendem a pressupor que os partidos são um dos canais naturais (não o único. O primeiro país é o que tem um maior balanço positivo. Um dirigente consultado no Chile acrescenta detalhes: “A participação que caracteriza a democracia era mais institucionalizada [de meados do século passado até o golpe de Estado de 1973]. Bolívia.

. Mas esta mesma relevância dos meios é vista como um perigo pela maioria dos líderes consultados: apoiados na popularidade que as denúncias lhes proporcionam.] as políticas públicas tornaram-se uma essência vital. a existência de meios de comunicação independentes é vista como um fator que contribuiu decisivamente para o aumento dos controles. A idéia de que os controles sobre o exercício do poder se aperfeiçoaram predomina entre os líderes de doze dos dezoito países estudados. [. Os políticos e funcionários de governo são os que mais freqüentemente consideram que os controles aumentaram. Opiniões sobre o caráter da democracia Os líderes latino-americanos acreditam que as condições políticas necessárias para a democracia avançaram significativamente durante a última década.. Assim descreve um dos líderes consultados na Colômbia: “Em Bogotá. um grave problema é que não existem mecanismos eficazes para controlar os eventuais excessos. Para alguns consultados. simultaneamente..] governos sucessivos [. Isso é tido. a percepção sobre a participação social é heterogênea.. [. Para muitos de nossos consultados.. a existência de meios de comunicação independentes é vista como um fator que contribuiu decisivamente para o aumento dos controles. Numerosos líderes consultados insistem na capacidade dos meios de detectar irregularidades e excessos (ou simples erros e dificuldades) e de dar-lhes difusão pública. como um fato positivo.] o público passou a ter prioridade em relação ao privado. porque os últimos três candidatos eleitos são independentes”. onde a au160 A democracia na América Latina sência de controles eficazes aparece associada a problemas de longa data....De maneira geral.. A expansão dos controles sobre o exercício do poder Na maioria dos países latino-americanos. o que permite compreender sua paradoxal percepção: ser uma condição sine qua non da democracia e. que não era como se via antes. Estes são considerados. e isso é basicamente o que deve suceder em toda a Améri- . sem com isso atentar contra a liberdade de imprensa. Certos países contam com canais institucionais através dos quais as demandas podem ser viabilizadas e negociadas. em geral. [. tanto em suas melhores como nas piores versões. os consultados relacionam o exercício do controle com o fortalecimento da sociedade civil (sobretudo a partir do papel assumido pelas ONGs) e dos meios de comunicação. um controle e um grupo de pressão. Existe também desacordo sobre a institucionalização da participação social. Entre os consultados.. Por outro lado. um instrumento de grupos de poder que exercem indevida influência na tomada de decisões públicas. como uma ameaça à governabilidade. [mas] quase nada em relação aos partidos. a resistência a desenvolver mecanismos de participação institucionalizada influi negativamente no desenvolvimento da democracia. porque implica a presença de uma cidadania mais atenta e decidida a fazer valer seus direitos (o que é coerente com a percepção de uma maior participação). por muitos dos consultados. teriam nos respondido ‘um regime cujo governo seja civil e seja eleito popularmente’. Contudo. os meios são vistos pelos líderes como um dos principais contrapesos do poder político. Os novos movimentos sociais e o crescimento da participação fora dos partidos levam esses movimentos a serem vistos. Vários líderes consultados também mencionam a presença de tradições desfavoráveis aos controles do exercício do poder em alguns países centro-americanos. ao mesmo tempo. a idéia predominante é a de que os governos estão mais controlados e limitados do que no passado. Consideremos a definição de democracia de um entrevistado na Guatemala: “Se em 1986 nós tivéssemos perguntado aos guatemaltecos o que era para eles a democracia.] as conseqüências para os cidadãos geraram um convencimento e uma continuidade em política. De maneira geral. outros objetam esses processos por considerá-los particularistas e por gerar consensos contingentes que limitam o pluralismo da democracia. certos meios terminam por construir sua própria agenda e por perseguir interesses particulares (os do grupo econômico a que pertencem ou os de certos setores de poder a que estão associados).] geraram uma transformação radical da cidade: [.

Para 6 por cento. Os restantes são classificados à medida que o balanço diminui.].. sim. foi necessário precisar e decompor o conceito. Guatemala. a diferença entre os que dizem que os controles aumentaram e os que dizem que diminuíram. ca Latina”. Para os outros. ou seja. em seu país “ainda falta muito” para que se possa dizer que se vive em democracia. Um dos consultados na Nicarágua afirBases empíricas do Relatório Pela primeira vez na história do continente. O primeiro país no primeiro lugar é o que tem o balanço mais positivo. Em alguns casos. 8 por cento que não). Chile. como foi mencionado. México. realmente temos gravíssimos problemas de distribuição da riqueza. a grande maioria dos consultados (quase nove em cada dez) aceita o termo “democracia” para descrever suas respectivas situações nacionais. A idéia da desigualdade e da segmentação social como impedimento para a construção de uma democracia plena aparece com muita freqüência associada às opiniões mais pessimistas. as pessoas consultadas insistem em que a debilidade da democracia não tem tanta relação com bloqueios políticos. A resposta predominante poderia ser sintetizada desse modo: “Pode-se falar de democracia. Como pode haver democracia nessas condições?”. Paraguai Uruguai. mas ratifica todos os avanços dos últimos anos.TABELA 52 AUMENTARAM OS CONTROLES SOBRE O PODER NA AMÉRICA LATINA? Os controles aumentaram El Salvador. sobretudo comparando com o passado. Partindo do princípio de que esta definição seja aceitável.. ou seja.”. os consultados fossem convidados a responder sobre a presença ou ausência de democracia em seu país (“Levando tudo isso em conta. mas. Bolívia. para 25 por cento dos consultados. Por outro lado. Esta observação pode parecer trivial. 2002. A pauta das consultas previa que. No conjunto de consultas. Peru. Portanto. ao término de uma conversa extensa. o senhor diria que seu país é hoje uma democracia?”). Pela primeira vez na história do continente. Argentina. e 8 por cento opinam que seu país não é uma democracia. Venezuela Os controles não aumentaram nem diminuíram Os controles diminuíram Nota: Os países estão classificados segundo “resultados de opinião”. os líderes de todos os países incluídos no es- tudo vêem que seus países satisfazem a definição mínima de democracia: há concorrência genuína. existe uma “democracia plena” em seu país. para um robusto percentual de 66 por cento. 161 .. Costa Rica.. 17 por cento consideram que há numerosas limitações em seu país. ainda que faça isso complementando com várias especificações adicionais. os líderes de todos os países incluídos no estudo vêem que seus países satisfazem a definição mínima de democracia. pelo menos como uma primeira aproximação. aquele em que a diferença é mais favorável para os que pensam que os controles aumentaram. Colômbia. República Dominicana. Rodada de consultas com líderes da América Latina. problemas de legitimidade ou questões de projeto institucional (embora estes problemas também sejam mencionados). os governos têm pelo menos algumas limitações ao seu poder e os consultados acreditam que houve um progresso significativo nesses dois planos. Honduras. Nicarágua Equador. usualmente. o comentário mais freqüentemente ligado a uma opinião cética sobre o grau de força ou de realização da democracia refere-se. de participação dos panamenhos [. mas sim com as condições de vida da população: “Do ponto de vista econômico e social. Só 14 por cento dos consultados responderam de maneira inequívoca (6 por cento que sim. Brasil. às condições de vida da população. Panamá. Fonte: PRODDAL. não há dúvida de que a grande maioria dos consultados coincidiria em que seus países são democráticos. Precisamos então explorar o sentido desses condicionamentos e relativizações. em seu país existe uma democracia com poucas ou algumas limitações.

Estes casos indicam que. A democracia não é um ato político eleitoral.]. grupos econômicos e outros). a pobreza e a exclusão são problemas que devem ser solucionados por um sistema político claramente 162 A democracia na América Latina democrático. que nos leve preso [. foi muito difícil chegar aonde chegamos: mortos. no Chile e na Venezuela. Como destaca um dos consultados no Brasil.]. Enquanto a única liberdade existente for a de morrer [. e as consultas realizadas confirmam. no Equador. acho que mais democracia haverá”.. então. no passado recente. evita que um governo despótico nos mate. Há informação que sugere. concentradas nos direitos sociais” (ex-presidente).] fica difícil”. o vínculo entre condições socioeconômicas e atitudes em relação à democracia não é automático nem necessariamente determinante. Colômbia e Paraguai). mas ainda há muito para ser feito. A mesma idéia aparece neste resumo formulada por um dos líderes consultados no Peru: “54 por cento da população vive abaixo da linha de pobreza extrema e 23 por cento abaixo da linha de pobreza extrema-extrema [. por exemplo: “Para nós. No outro extremo. em médio prazo. Causas das limitações das democracias latino-americanas Poderes institucionais e poderes fáticos Um problema tradicional dos países latino-americanos foi o divórcio entre os poderes institucionais e os poderes fáticos: embora os textos constitucionais outorguem grande peso ao Poder Executivo e uma importante capacidade de ação ao Legislativo e ao Judiciário.. que nas últimas décadas... das Forças Armadas) ou em grupos que não fazem parte da ordem político-institucional (famílias tradicionais. Avançamos mais do que muitos países no que se refere à consolidação da democracia.] a mobilidade social é um dos ingredientes da democracia: [. as recentes eleições contribuem para um clima de confiança na democracia: “Estamos vendo um momento em que uma pessoa [Luiz Inácio Lula da Silva] sai da extrema pobreza nordestina e chega ao poder máximo do país. Mas as Forças Armadas não são mencionadas nos países restantes. estão as outras liberdades. A república é a que preserva as liberdades individuais.. lutas intestinas [. Para os que vêem as coisas sob esse prisma. “Chegamos à república e ainda temos que construir a democracia.. apesar do fortalecimento das instituições democráticas. As Forças Armadas são vistas como o fator de poder mais importante para alguns consultados na Guatemala e na República Dominicana e. nas condições socioeconômicas “objetivas” de seus países. O que distingue as atitudes das lideranças desses países não radica...A tensão entre poderes institucionais e poderes fáticos continua presente na realidade latinoamericana. mas sim em seu grau de confiança na capacidade das instituições democráticas de conviver com. os poderes fáticos continuam assumindo um papel muito importante. ma. e de modificar. mas além dessas liberdades chamadas negativas.. em menor medida. Esse forte debilitamento das Forças Armadas como fator político é uma novidade importante para a democracia latino-americana.] quanto mais possibilidades houver de se atravessar as barreiras [entre as classes sociais]. incluindo os que viveram recentemente crises políticas agudas (Argentina.. mas isso não é democracia. Quem vai dormir esta noite sem saber se amanhã terá algo para comer não é livre”. as respostas mais positivas são encontradas especialmente entre personalidades provenientes das democracias mais arraigadas e nos países maiores.]. porque é obrigatório e quem não vota tem que pagar uma multa. pois não é possível conceber democracia plena em uma situação de pobreza e miséria. No entanto. na América Latina.. alguns líderes consultados identificam três riscos principais que poderiam ameaçar o bom funcionamento da ordem democrática: . A tensão entre poderes institucionais e poderes fáticos continua presente na realidade latino-americana. A participação dessa gente em política resume-se a ir votar no dia da eleição. essas situações de pobreza e exclusão. as positivas da democracia. o poder real costuma residir em instituições às quais as normas delegam outras funções (como foi o caso.. [.

As limitações internas provêm da proliferação de controles institucionais inadequados. 2002. É um desafio direto porque tenta controlar parte do aparelho estatal e partes significativas do território. No externo. O segundo tema considerado é a ameaça do narcotráfico. gera novas formas de pressão externa que limitam ainda mais a esfera de ação dos governos nacionais. Fonte: PRODDAL. No âmbito interno. 3. quase todas as opiniões recolhidas convergem em indicar que o narcotráfico implica um duplo desafio.8%) Poderes constitucionais Forças de segurança Instituições políticas e líderes políticos Fatores extraterritoriais Nota: n=188. O segundo tem relação com a corrupção: o “dinheiro sujo” tem efeitos devastadores sobre o comportamento de uma parte dos dirigentes políticos e sobre o funcionamento das instituições. as limitações têm duas origens. basicamente. mencionam a dependência de organismos internacionais de crédito. assim como da multiplicação de grupos de interesses (em especial empresariais) que funcionam como poderosos lobbies. Rodada de Consultas com Líderes da América Latina.8%) (64. a importância atribuída pelos líderes latinoamericanos a esse fator está diretamente ligada ao grau de desenvolvimento de tal fenômeno em seus respectivos países.5%) (6. e sim práticas tais como a compra de votos e a “fabricação” de candidatos. da vigilância das avaliadoras de risco e do papel dos organismos internacionais de crédito. Entretanto. 2.9%) (36. e acrescentam a desmesurada influência de empresas estrangeiras instaladas nos pró- prios países. enquanto cria fortes incentivos para a passagem da economia formal à informal. os consultados também destacam limitações externas e internas. mas os métodos empregados já não são só lobbies.3%) (2. O terceiro fator.9%) (16. mas não exclusivamente.9%) (4. O primeiro é que.5%) (21.8%) (6.7%) (29.2%) (12. dois dos quais são destacados pelos consultados.8%) (8. 1.9%) (22. do comportamento dos mercados internacionais (em especial.TABELA 53 QUEM EXERCE O PODER NA AMÉRICA LATINA? SEGUNDO O PONTO DE VISTA DOS LÍDERES CONSULTADOS Quantidade de menções Poderes fáticos Os grupos econômicos/ empresários/ O setor financeiro Os meios de comunicação Poder Executivo Poder Legislativo Poder Judiciário As Forças Armadas A Polícia Partidos políticos Os políticos/ operadores políticos/ líderes políticos EUA/ A embaixada norte-americana Organismos multilaterais de crédito O fator internacional/ o fator externo Empresas transnacionais 150 122 68 24 16 40 5 56 13 43 31 13 9 % de Líderes que fazem a menção (79. dos financeiros). ao atrair a atenção do governo dos Estados Unidos. mas as descrevem de maneira diferente. em países menores ou com tradições democráticas menos arraigadas. Como é natural. Além disso. Por sua vez. o narcotráfico cria desafios indiretos. O total não soma 100% porque foram permitidas respostas múltiplas. As limitações externas provêm. mencionam os grupos de interesses (particularmente empresários e grandes latifundiários). Segundo os líderes dos países maiores e dos que têm tradições democráticas mais arraigadas. ao qual atribuem capacidade de limitar o poder das instituições Bases empíricas do Relatório 163 .

De maneira geral, pode-se dizer que, com algumas exceções, o ceticismo em relação aos partidos é muito amplo e a disposição para se vincular a eles tende a diminuir em toda a América Latina.

políticas, são os meios de comunicação. Essa grande influência dos meios é vista como parte do aumento dos controles que permitiram democratizar o exercício do governo, e também, como uma restrição ao processo democrático, segundo, principalmente, os políticos consultados. Os meios têm a capacidade de gerar agenda, de predispor a opinião pública a favor ou contra diferentes iniciativas e de deteriorar a imagem de fi guras públicas mediante a manipulação de denúncias. Existe amplo consenso entre os consultados quanto ao fato de que a grande influência da mídia limita o poder das instituições políticas. Em realidade, sempre tiveram muita influência e os políticos tentaram servir-se dela. A novidade, além da maior exposição do público à mídia, é que anteriormente estavam em grande parte vinculados aos partidos políticos que, em alguns casos, exerciam certo controle sobre eles; atualmente muitos meios de comunicação tornaram-se independentes das estruturas partidárias e passaram a fazer parte de grupos econômicos não subordinados ao poder político e com interesses muito diversificados. O papel dos partidos políticos Segundo os líderes consultados, os partidos políticos, atores fundamentais para o funcionamento das democracias contemporâneas, sofrem uma séria crise. Um dado revelador é que não apenas a maior parte dos líderes consultados acha que os partidos não

estão cumprindo adequadamente sua função, como também, esta opinião é predominante, (59 por cento) entre os próprios políticos consultados. Nesse caso, as opiniões favoráveis (“evidentemente sim”) representam 18 por cento e as opiniões neutras (“por um lado sim, por outro não”), 16 por cento. Esse ceticismo generalizado oculta diferenças significativas de país para país. Em alguns casos (Argentina e Equador), o desprestígio dos partidos atinge um grau extremo. Em outros casos (Honduras, Uruguai e, ainda que em menor medida, Chile), os partidos aparecem em condições bastante melhores. De maneira geral, pode-se dizer que, com algumas exceções, o ceticismo em relação aos partidos é muito amplo e a disposição para se vincular a eles tende a diminuir em toda a América Latina. Estas opiniões referem-se à conjuntura política de 2002 e início de 2003. Uma nova rodada de consultas daria presumivelmente novos resultados. Quais são as razões que fundamentam essa opinião? Como acusação mais freqüente temos o personalismo e a ausência de democracia interna. Nas palavras de um líder costarriquenho: “São as mesmas caras, as mesmas pessoas nos últimos quarenta anos, é bater na mesma tecla, o que hoje é deputado, amanhã é embaixador, e recebe um ministério outra vez [e depois] será sua vez novamente”. Essa rejeição às oligarquias partidárias pode ser atribuída, parcialmente, a uma modernização das expectativas dos cidadãos (o

TABELA 54

OS PARTIDOS ESTÃO CUMPRINDO SEU PAPEL?
Sim, ou na verdade, sim Não, ou na verdade, não Uruguai, Honduras Chile, Peru, México, República Dominicana, El Salvador, Bolívia, Panamá, Brasil, Guatemala, Paraguai, Venezuela, Argentina, Colômbia, Equador, Nicarágua, Costa Rica

Nota: Os países estão classificados segundo “balanços de opinião”, ou seja, a diferença entre os que dizem que os partidos estão cumprindo seu papel e os que dizem que não. O primeiro país no primeiro lugar é o que tem o balanço mais positivo, ou seja, aquele em que a diferença é mais favorável para os que pensam que os partidos cumprem seu papel adequadamente. Em seguida, são classificados à medida que o resultado diminui. Fonte: PRODDAL, Rodada de consultas com líderes da América Latina,2002.

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A democracia na América Latina

velho caudilhismo e o velho estilo patrimonialista têm mais dificuldades em ser aceitos). Além disso, a aguda deterioração sofrida pelo Estado, por várias razões, em boa parte de nossos países, levou ao enfraquecimento de um dos atrativos que os partidos podiam ter no passado: ao menos para uma parte significativa da cidadania, os partidos já não conseguem, mediante sua influência em diversos segmentos do Estado, “resolver os problemas da população”. Mas, ao mesmo tempo em que o atrativo clientelista se debilitou, os partidos também não foram capazes de modernizar-se em grau suficiente para destacar-se nem por sua capacidade de proposta nem pela consistência de suas equipes de governo. Nas palavras de um entrevistado peruano: “Os partidos políticos não foram capazes de sentir o ritmo da América Latina”. Os partidos políticos atravessam uma forte crise de representação que incide na diminuição da participação eleitoral e em sua canalização por outras vias (em geral, organizações da sociedade civil). No entanto, quase todos os líderes reconhecem a centralidade dos partidos políticos e a necessidade de que assumam um papel de maior responsabilidade. “Nossas sociedades passaram por uma rápida metamorfose e nós, os políticos, não a monitoramos de perto, por isso existe um grande desencontro” (presidente). “O povo quer participar e sente que o formalismo do voto nas urnas, por mais transparentes que sejam as eleições, não lhe dá esse sentimento de participação [...]. A democracia precisa dos partidos políticos, mas eu não posso fazer parte de um partido, porque todos têm dono” (empresário). Nossos consultados vinculam essa crise de representação à ausência de democracia interna nos partidos, à lógica clientelista de manipulação do eleitorado que incentiva os personalismos, ao esquecimento das plataformas político-partidárias (falta de diferenciação ideológica, carência de programas), à geração de dissidências personalistas e não ideológicas, a sua vinculação a poderes fáticos e a alianças em que se confundem as identidades políticas. Por essas razões, a maioria dos consulta-

dos entende que os partidos – em particular os tradicionais – não tiveram êxito como canalizadores das demandas da cidadania. Por sua vez, as oposições políticas aparecem fragmentadas e seu discurso se configura mais contra figuras políticas controvertidas do que a partir de propostas programáticas. Em geral, longe de expressar uma vontade majoritária da população, segundo essas opiniões, os partidos atuam em função de interesses particularistas e sofrem demasiadas pressões dos grupos de poder, tanto legais quanto ilegais. “[Os partidos] têm muitas dificuldades para manter-se em contato com as demandas da população porque a carreira política depende acima de tudo dos dirigentes dos partidos e não tanto dos cidadãos. É curioso, há uma partidocracia mais ou menos sólida e os partidos têm um bom percentual de votos, embora as pessoas não tenham uma boa opinião a respeito deles” (acadêmico). Certos atores, particularmente os jornalistas, vêem os partidos políticos como instituições frágeis, divorciadas das necessidades cidadãs, submetidas a caudilhismos, que se ocupam apenas da sociedade incluída e perdem contato com suas bases sociais – atuam, às vezes, como verdadeiras máfias –. Por sua vez, os acadêmicos tendem a vincular a crise de representação dos partidos políticos aos déficits institucionais que cada país apresenta. A revisão do sistema de proporcionalidade em alguns países, das forças que aparecem representadas no Parlamento e dos mecanismos de promoção de candidaturas intra ou extrapartidárias, é a dimensão mais ressaltada. Sob esse ponto de vista, os problemas da representação política descansariam mais na forma institucional de funcionamento do sistema de representação, do que na credibilidade dos partidos políticos diante da cidadania. Por sua vez, segundo nossos consultados, o descrédito da população em relação aos partidos políticos favoreceu a expansão e a diversificação de organizações da sociedade civil, assim como a capacidade destas de encaminhar as demandas. O desequilíbrio entre os níveis de participação alcançados pelos partidos e pelas organizações da socieBases empíricas do Relatório

Os partidos políticos atravessam uma forte crise de representação que incide na diminuição da participação eleitoral e em sua canalização por outras vias.

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dade civil gera olhares críticos a respeito do papel que ambos desempenham no processo democrático. Os consultados das ONG´s expressam fortes críticas aos partidos, baseadas fundamentalmente em sua corrupção, em seu distanciamento em relação aos interesses sociais e em sua busca do poder como aval de interesses particularistas. No entanto, para alguns dos consultados mais próximos dos partidos, o problema não está no fato de eles não terem se modernizado plenamente, mas sim de não terem conseguido que isso fosse percebido. Um líder consultado no Chile expressou-se desta forma: “Acho que aqui é preciso fazer um mea culpa. Acho que os partidos não tiveram a capacidade de clarificar ante a opinião pública suas proposições, a alternativa que representam, o caminho que oferecem”. Explicações desse tipo não são suficientes para os consultados de países que enfrentam crises muito severas. Entre eles, uma idéia recorrente é que não foi a cidadania que deu as costas aos partidos, mas sim os partidos que deram as costas ao povo. Nas palavras de um entrevistado argentino: “Os políticos falam muito mais de candidaturas, de internas, de eleições, de mecanismos eleitorais, e falam muito pouco de desemprego, de pobreza, de marginalização, de insegurança pública, que são os temas que preocupam a população. [...] Essa crise teve origem basicamente em uma classe política dirigente que se negou a aceitar responsabilidades e esforços. O único objetivo foi durar o maior tempo possível”. Das consultas também surgem elementos para avaliar a situação de outras instituições da democracia. A baixa confiança nessas instituições manifestada pela cidadania (ver o capítulo precedente) é percebida pelos líderes. Alguns apontam um esgotamento da capacidade de representação e o vinculam à elevada influência dos poderes não eleitos. Ao mesmo tempo em que reconhecem, com diferentes matizes, o caráter central dos partidos políticos como instrumen-

tos de representação em uma democracia de boa qualidade, os consultados ressaltam que os partidos sofrem de modo particular a influência dos poderes fáticos. Existe grande coincidência entre os consultados no que diz respeito ao poder acumulado na última década pelos grandes empresários, pelo setor financeiro e pelos meios de comunicação que constituem, segundo eles, o principal fator de poder nas democracias da região. Além disso, ressaltam a influência exercida pelos organismos multilaterais de crédito. Existe amplo consenso de que a agenda dos governos é determinada centralmente pelos temas e pelas perspectivas promovidas por esses atores.

Os poderes fáticos Empresas Dos consultados da América Latina, 80% ressaltam o poder acumulado, na última década, pelos empresários, pelo setor financeiro e pelos meios.79 Eles são o principal grupo de poder que limita o poder de decisão dos governos. O condicionamento imposto pelos poderes fáticos aos regimes democráticos favorece a noção de que se conta com governos e partidos políticos que não podem responder às demandas da cidadania. “O grande poder fático da incipiente democracia é o poder econômico privado. Integrado por grupos de pressão que condicionam a conduta do presidente, de legisladores, juízes e outros funcionários do governo e da administração pública” (ex-presidente). “Nós temos uma democracia desvinculada do interesse geral e, fundamentalmente, vinculada a fatores fáticos que acabam por oligarquizar a economia do país e transformar o governo democrático em um governo plutocrático” (político). Os líderes destacam que a relevância do setor empresarial repousa na sua capacidade de lobby diante dos governos, defenden-

79 Diferentemente do restante dos países da América Latina, no Brasil não se faz menção à vinculação entre o setor econômico financeiro e os meios de comunicação. No entanto, é reconhecida sua grande incidência sobre a opinião pública.

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A democracia na América Latina

do e promovendo seus interesses e direcionando ações políticas em seu benefício. “O governo está a serviço da empresa privada e dos que tomam as decisões [...], os multimilionários são os que decidem o que se faz ou se deixa de fazer no país” (religioso).“ O poder do dinheiro se converte rapidamente em poder político, com capacidade de limitar o poder político democrático” (presidente). “Sua capacidade de influência se baseia [...] no fato de que financiam as campanhas eleitorais” (político). “O mundo empresarial tem um poder muito forte. Como os empresários tomam as decisões de investimento, e sem investimento não há desenvolvimento nem crescimento, eles têm assim um poder de veto. [...] O poder da direção empresarial com seus capitais e com o poder de veto que conduz ao desemprego, não cabe dúvida de que é muito forte” (político). Na opinião de alguns presidentes consultados, no Cone Sul é preocupante o peso de corporações que aparecem como um obstáculo para uma democracia mais ampla, porque são outorgados privilégios a certos grupos, em um contexto de partidos frágeis e de um Estado que deveria ser mais republicano. Em países menores, como os da América Central, aponta-se a pressão exercida pelo setor privado –ligado a uma estrutura oligárquica de poder– sobre o presidente, e a cooptação de altos funcionários, o que permite a alguns dos consultados falar de um processo de captura do Estado. A estreita vinculação entre grupos econômicos e meios de comunicação é destacada pela maioria dos consultados. Mediante os meios, os empresários concentram mais poder ainda, quer seja porque são seus proprietários ou porque impõem condições por meio do controle das pautas publicitárias. Essa aliança lhes confere grande capacidade de gerar opinião, determinar temas de agenda e incidir sobre a imagem pública dos funcionários, dos partidos políticos e das instituições. Os meios de comunicação Os meios de comunicação são caracterizados como um controle sem controle, que cumpre funções que excedem o direito à in-

formação. “Formam a opinião pública, decidem as pesquisas de opinião e, conseqüentemente, são os que mais têm influência na governabilidade” (político). “Atuam como suprapoderes, [...] passaram a ter um poder que excede o Executivo e os poderes legitimamente constituídos, [...] substituíram totalmente os partidos políticos” (político). A maioria dos jornalistas consultados vê o setor econômico-financeiro e os meios de comunicação como os principais grupos de poder. Os meios de comunicação têm a peculiaridade de operar como mecanismo de controle e/ou limitação às ações dos três poderes constitucionais e dos partidos políticos, sejam quais forem os proprietários desses meios. “A verdadeira vigilância que se exerce é a da imprensa” (jornalista). Além disso, reconhecem que atuam como uma corporação que define os temas da agenda pública e que até traça a agenda presidencial. Em geral, os consultados consideram problemática a relação entre os meios de comunicação e os políticos. “Aqui a classe política os teme. Porque podem fazer desmoronar uma figura pública a qualquer momento” (sindicalista). “A forma através da qual se construíram as concessões e os interesses com os quais se teceu toda a estrutura dos meios de comunicação os converteram em um poder” (político). Para alguns, no entanto, a influência exercida pelos meios de comunicação é positiva: “Graças aos meios, ainda podemos estar falando de democracia” (empresário). Valorizam seu papel fiscalizador: “Está claro que se não fosse pela vigília da imprensa, as coisas seriam muito piores”. “[A imprensa] sofistica os mecanismos de engano, mas, por outro lado, opera como limite” (jornalista). Os fatores extraterritoriais O papel dos Estados Unidos e dos organismos multilaterais de crédito (Banco Mundial, BIRD; Fundo Monetário Internacional, FMI; Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID) como fatores de grande influência são mencionados pela metade dos consultados, aproximadamente. Eles apontam a ingerência dos organismos nas
Bases empíricas do Relatório

“[A imprensa] sofistica os mecanismos de engano, mas, por outro lado, opera como limite” (jornalista).

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questões internas e a perda de autonomia. A dependência se vê expressa nas prioridades da agenda pública, particularmente na coincidência entre as sugestões oferecidas por esses organismos e as pautas de reformas econômicas, fiscais e estatais, previstas a curto e médio prazo. “O rumo, a direção, os ritmos da coisa estão predeterminados por condicionamentos externos [...] com o FMI, com os bancos, com o BID” (jornalista). “A aprovação do governo dos Estados Unidos perante os organismos multilaterais é essencial. Sem uma visão favorável do FMI, do BIRD e do BID, a economia do país entraria em colapso em curto prazo, pela situação de endividamento [...]. A ajuda norte-americana é vital para a correlação de forças internas neste período” (político). “A política econômica não é dirigida democraticamente [...].Existe uma pauta única para a região. E quem quiser seguir outro caminho, ou vai se enfrentar com a impossibilidade de concretizá-lo ou, se o fizer, terá que assumir todos os riscos. [Esta é a] limitação do caráter internacional e global dos vetores econômicos” (alto funcionário).“O povo vota e as instituições que surgem desse voto são facilitadores de decisões que foram tomadas em outro lugar [...]. Gradualmente, as fronteiras vão caindo devido a esses poderes fáticos que fazem com que as decisões do Parlamento, do Poder Executivo, da Justiça, de cada jurisdição sejam, na verdade, só de fachada” (jornalista). Embora os consultados reconheçam a influência desses poderes, alguns consideram que o poder político mantém capacidade de autonomia. “O desafio é como adaptar as instituições democráticas à existência dos poderes fáticos. Provavelmente não haja nenhuma forma de institucionalizá-los, porém é preciso saber que existem, que influenciam e que essas influências pesam” (político). Nesse contexto e sob um ponto de vista de futuro, um presidente identifica o desafio que significa dirimir o vínculo entre os fatores extraterritoriais e as prioridades nacionais, que incluem a superação da pobreza e o conseqüente fortalecimento da democracia: “Este quadro nos coloca perante um enorme desafio: se nós, os governantes da região, so168
A democracia na América Latina

mos ou não capazes de fazer com que o controle responsável das políticas econômicas funcione com eficácia e visão de futuro.” As igrejas A metade dos consultados considera que as igrejas continuam tendo influência, ainda que decrescente em relação ao passado. Menciona-se que a expansão das igrejas evangélicas está minando o poder das católicas. “Acho que a Igreja Católica ainda continua sendo a hegemônica. [...] Os setores mais conservadores se fortaleceram, [...] os que mais avançaram são alguns grupos pentecostais, evangélicos que hoje têm grande influência, porque controlam os meios de comunicação, [...] têm um discurso que atrai as pessoas como solução para seus problemas e que é extremamente alienante do ponto de vista da consciência democrática [...]. As pessoas não precisam participar para construir a democracia, têm que ir lá rezar e Deus sabe o que faz. Além disso, essas igrejas estão se transformando em um poder econômico extraordinário” (líder da sociedade civil). Em alguns casos mencionam-se autoridades da Igreja Católica que em épocas de campanha eleitoral manifestam opiniões políticas em suas homilias. “Eles são os que na campanha eleitoral, lá do púlpito, vão influenciar ou insinuar em quem votar” (política). “Isso traz como conseqüência que a Igreja Católica exerça não só uma função estritamente pastoral, mas que adicionalmente exerça uma influência real no processo de tomada de decisões políticas” (funcionário de alto escalão). O sindicalismo O sindicalismo é reconhecido por aproximadamente um terço dos consultados como fator de poder, particularmente por sua capacidade de veto através de pressões e mobilizações, bem como por sua influência na construção da agenda pública relativa a temas trabalhistas. Mencionam-se, em especial, os sindicatos do setor público, ressaltando sua vinculação com o poder político, ao mesmo tempo em que se faz alusão aos do setor privado como fator de poder decrescente.

o cunhado e em alguns casos.].. fronteiras. As Forças Armadas Aproximadamente um quinto dos consultados atribui às Forças Armadas uma importante influência. através da corrupção das autoridades” (presidente).]. Em apenas dois países –Equador e Venezuela – comenta-se que atuam como controle da democracia. esta avaliação assume diferentes matizes. Ele tem um poder que está muito acima dos poderes muito fortes que a Constituição lhe dá” (presidente). “Trata-se de um poder agressivo. representantes diretos desses grupos mafiosos.. destaca-se que. o filho. o Congresso não controla o presidente em nada” (presidente). Independentemente de suas atribuições e restrições constitucionais. o narcotráfico foi capaz de corrompê-las.Os poderes ilegais O peso dos poderes ilegais constitui uma especial preocupação em alguns países. esse poder é realmente uma ameaça à democracia” (empresário). Em uma alta porcentagem. devido a que se encontram em um processo de institucionalização e.. que também minaram o grande poder que tiveram em épocas passadas. agora têm seus próprios representantes.. jogo clandestino etc. Os poderes políticos formais O Poder Executivo Um forte presidencialismo caracteriza a maioria dos regimes democráticos na América Latina.. instituições inteiras” (funcionário de alto escalão).. São os grupos de maior influência e de maior capacidade de manobra em operações à margem da lei relacionadas com a falsificação. “Alguns setores do crime organizado são um poder em crescimento. contam com o braço policial e com outros recursos como o dinheiro abundante. Apesar disso..]: compra tudo. juízes. São as fontes de financiamento da insurgência e dos paramilitares” (sindicalista). até o próprio líder do grupo mafioso [. o narcotráfico tem influências. A influência dos grupos ilegais foi favorecida pelas mudanças na economia e por um Estado frágil e permeável: “Esses grupos extralegais têm o poder que têm porque existe um Estado débil. “[Em certas zonas] onde há uma produção importante de coca. obviamente obscuras..]. apesar de sua capacidade de iniciativa. É interessante ver que os presidentes da América Central e do Caribe reforçam essa caracterização incluindo o Executivo na identificação dos grupos com maior poder. No Congresso continua existindo gente paga pelo narcotráfico [que] chegou a corromper a cúpula dos partidos tradicionais [. Nas listas de candidatos a senadores e deputados podemos reconhecer.. por exemplo. e continuam corrompidas [. os presidentes tentam manter a primazia sobre o Congresso e o Poder Judiciário. contam com forte reconhecimento Bases empíricas do Relatório A influência dos grupos ilegais foi favorecida pelas mudanças na economia e por um Estado frágil e permeável. todo o comércio de fronteira e esse tipo de atividades que são as que dão maior lucro atualmente em nosso país” (prefeito).]. prostituição.. Em grandes centros urbanos muito vinculados com o tráfico de drogas. tinham seus contatos com o poder político. Então. que favorece a construção de acordos e possibilita a governabilidade. vão se apresentar pela primeira vez. Destaca-se a influência que esses grupos exercem sobre os poderes do Estado e sobre as empresas. policiais. em alguns casos. Entretanto. Este é um regime presidencialista e se faz o que o presidente diz […]. tendem a considerar que perderam peso. é considerado um poder positivo. “Na próxima eleição. Por outro. 169 ..]. contrabando. secretas. instituições desprestigiadas como o Congresso [. Por um lado. São grupos relacionados com todo tipo de atividades ilícitas: tráfico de drogas. Antigamente. Aproximadamente um terço dos consultados considera que o Executivo é um poder forte na América Latina. o genro. antidemocrático e terrível [.“Quando alguém tem uma liderança forte e ganha as eleições arrasadoramente [. devido às conseqüências de disputas internas. está condicionado e subordinado a fatores extraterritoriais e fáticos.. em forma direta. isto é. “Tentaram ter mais ingerência na Corte e na Assembléia […].

E o contexto do exercício do poder também impõe condicionamentos. Aponta-se como indicador relevante a militarização da administração pública. Avaliação da figura do presidente no mapa de poder de cada região Como já vimos. eles nos impõem as regras […]. “O presidente é uma pessoa cuja capacidade está. Em alguns países aparecem críticas ao desempenho presidencial: detectam-se práticas personalistas que confundem a identidade dos partidos com a figura presidencial. “os mandatários”) da América Latina têm uma importância particular: suas reflexões estão intimamente ligadas ao exercício concreto do poder político em sua máxima expressão institucional. sem falsa modéstia. As pressões sobre a autonomia das decisões presidenciais são avaliadas negativamente em todos os casos. Os governos soberanos estão dependendo da avaliação de uma agência particular de risco. centrados fundamentalmente no governo dos Estados Unidos e nos organismos multilaterais de crédito. devido a reformas constitucionais. Entre os mandatários do Cone Sul. gera maior legitimidade no exercício do papel presidencial e um conseqüente fortalecimento da democracia. ‘te ajudo ou não te aju- . A visão dos presidentes e vice-presidentes Os testemunhos dos que foram ou são presidentes e vice-presidentes (de agora em diante. “Eu governei em um marco institucional que me permitiu legislar. “é um poder exercido de maneira negativa.” Mas. Nesse contexto. em sua missão. e sabiam que não iam poder me pressionar. detecta-se uma disparidade entre o poder formal do 170 A democracia na América Latina presidente e sua efetiva capacidade de exercê-lo. Pressões dos poderes fáticos sobre a autoridade presidencial Os mandatários consultados analisam o exercício da presidência diante da pressão de diversos poderes fáticos. mas não o consideram irrefutável.” O desafio principal se centra na capacidade presidencial de dirigir ou não o processo político: “O problema é quando não se tem a capacidade de propor uma direção”. mediante a incorporação de pessoal militar em serviço ativo. Os mandatários da América Central e do Caribe reforçam esta caracterização incluindo o Executivo na identificação dos grupos com maior poder. bastante limitada. em geral. aparecem referências e reflexões de caráter pessoal no tocante à capacidade de impor decisões. Outros mandatários reconhecem o poder presidencial. “Quando há alguma ameaça. esse debilitamento lhes parece preocupante. as pessoas me conhecem. talvez porque. por outro lado. Talvez porque estávamos começando.público. Outros mandatários observam que o regime eleitoral distorce sua base de apoio político. “Ao exercer a presidência não me senti muito pressionado. em seu comportamento. em sua maneira de entender as coisas”. construíram bases de apoio vinculadas às organizações sociais e à política social. Nessa abordagem. esse poder militar vai para as ruas” (jornalista).” Outro mandatário de um país do Mercosul agrega que o maior número de controles a partir de mecanismos de democracia direta e da criação de novas instituições. há ampla coincidência em que um presidencialismo forte caracteriza os regimes democráticos na América Latina. a pressão exercida por poderes extraterritoriais. a imagem do presidente como “caudilho” ou “monarca criollo” dista em grande medida da realidade. Segundo vários mandatários consultados. é mais um poder de perturbação do que de decisão”. as Forças Armadas aparecem politizadas. Segundo um deles: “A presidência ainda tem um poder muito forte [que se manifesta em] as atitudes do presidente. da decisão de um organismo internacional. é uma característica da experiência de governo dos mandatários. Segundo eles. identificando nele certas fissuras. e estão relacionadas com o movimento indígena. porque a base de sustentação do governo democrático tinha muita força. “Estamos totalmente condicionados.

porque veio se apoderando dos instrumentos midiáticos. “Os meios de comunicação estão atravessando um processo de evolução em que temos uma confusão de poder como nunca jamais eles tiveram em sua história. é muito difícil que ela saia. que é o poder total e a responsabilidade zero […]. basicamente pela opinião e avaliação realizadas pelos meios. é por isso que o governante se sente hostilizado pela imprensa […]. do que a próBases empíricas do Relatório “Este quadro nos coloca perante um enorme desafio: se nós. Ou seja. vinculados aos setores econômicos. paixões. […] Então. então isso lhes permite não só ter poder mas também exercê-lo. “O meio de comunicação informa. mas muito significativa.. “Não podemos descartar nessa paisagem o papel que os meios de comunicação mais desenvolvidos. que pode influir em uma política e que está definindo a agenda. Estive conversando com mandatários da região e todos nós sentimos o mesmo problema. Perdemos capacidade de decisão nacional. mais profissionalizados cumpriram no que se refere a tarefas de denúncia e controle. quando direitos humanos fundamentais são lesados. não direi brutal. Os meios hoje têm um poder que pode derrubar um ministro. evidentemente.. [… ] Não creio que esteja claro para a sociedade o que isso implica.” O papel dos meios de comunicação Os mandatários identificam a intervenção onipresente dos meios de comunicação como um contrapeso a seu poder.” “Os organismos bilaterais. do que o Executivo. talvez os mais fortes e consistentes. que te impõem [. vem um burocrata internacional e. sem estar submetidos a nenhum controle.. com suas exigências de seguir modelos e programas determinados com condições politicamente inviáveis. julga e condena […]. têm mais poder do que o poder militar.” 171 .” “Tu tens então um presidente da República. os mandatários avaliam com certa apreensão o crescente papel que os meios assumiram como expressão de interesses de grupos econômicos. com uma pressão bilateral brutal e com uma influência da cooperação internacional. […] Caem na estratégia do sensacionalismo fácil e dificultam a governabilidade e a consistência de gestão. às vezes em uma superdimensão injusta. opina. [. É um fator de poder que pode ser bem ou mal exercido. sempre vai se sentir hostilizado. não são os responsáveis pelo resultado político que essas obrigações acarretam.] O grande capital é um fator de poder muito mais real hoje. e que está influenciado por interesses econômicos. enfim. A crítica dos mandatários centrase na falta de responsabilidade com que os meios de comunicação difundem informação.” A falta de controles estatais sobre a imprensa.. e por sua vez não está submetido a nenhum controle. na medida em que a opinião pública tende a orientar-se a respeito das ações governamentais.” Reconhece-se também uma enorme capacidade dos meios para incidir no destino de um governo: “A incidência midiática pode tornar inútil uma sólida formulação institucional se tiver ataques ou rivais desse setor” . os governantes da região.].“A imprensa tem uma influência decisiva sobre o Congresso […].do’. que como vimos é um elemento próprio da democracia. com aval de seu posicionamento no mapa de poder de cada país.” “Os governos têm mais limitações para exercer o poder. pode se transformar em uma ameaça ao desempenho dos mandatários. marca uma diretriz e depois esse senhor cumpre sua missão e vai embora. sentimentos e idéias. Se a imprensa se move contra uma lei. “Os meios são de uma influência enorme.” A pressão exercida pelos meios de comunicação se reflete também no grande peso que eles têm na construção da agenda pública.” Apesar de valorizarem o papel dos meios de comunicação como controle do poder.].Não interessa a tendência do governo. posto que os organismos internacionais de crédito estabelecem condições que atentam contra o próprio crescimento e. seguindo as diretivas de seu organismo. somos ou não capazes de fazer com que o controle responsável das políticas econômicas funcione com eficácia e visão de futuro.” Os elementos resultantes do que já foi exposto aparecem conjugados por um líder que resume as percepções de muitos mandatários da América Latina: “Os meios de comunicação passaram a ser suprapoderes [.. […] mas. contra a democracia. há também maior interferência no livre decorrer da vida democrática..

um grupo de respostas. que realizam assembléias e escutam as pessoas. Valoração das organizações sociais na vida política do país No momento de avaliar o papel dessas organizações sociais. era preciso minimizar os governos. Nós lhes perguntamos quais os passos a seguir para fortalecer a democracia nos próximos anos. cultura e esporte. que é perigoso se não o soubermos organizar. mas. O conjunto de organizações sociais é um espectro amplo e diverso.” O papel das ONGs também é questionado quanto à representação dos interesses populares que pretendem assumir. se existe um controle. […] Os partidos estão enfrentando a concorrência de ONGs e de organizações intermediárias que não têm a legitimidade que os partidos têm. atos. Isso tem que ser superado com o avanço de uma tarefa comum que será difícil levar adiante”. não claramente definido. e essa é uma das preocupações. mas fazem isso contra reformas que são para o bem do povo. obrigatórios para a sociedade”. É preciso incluílas e a inclusão não é só um problema de canais para que as pessoas falem ou protestem. “A importância da sociedade civil está aumentando. regras. “Veio 172 A democracia na América Latina uma onda das grandes potências e houve uma onda de exigências do poder mundial. Falam em nome do povo. Junto a elas se entrelaçam os questionamentos sobre os alcances da democracia em sentido institucional e/ou seu fortalecimento a partir de seu conteúdo de eqüidade social. era preciso delimitar o Estado e era preciso fortalecer as ONGs. Participação significa que as pessoas se sintam parte do Estado. que é o das ONGs e da mal denominada sociedade civil. vários mandatários vêem os partidos em uma relação de competição e até oposição com diversas organizações da sociedade civil. é o investimento social. ao mesmo tempo. voltamos agora ao conjunto dos consultados. é ir ao conceito de liberdade sobre a base da solução da necessidade […]. educação. temos que fortalecer essa legitimidade porque os partidos são a única organização que.” Para outro mandatário. o que é bom para o controle dos outros poderes. as controvérsias entre partidos políticos e organizações da sociedade civil se refletem nas concepções sobre democracia representativa e participativa. A tensão é manifestada por um mandatário ao mencionar que: “ Foram criadas muitas ONGs que são úteis e geram participação. mas em geral existe uma certa posição antipolítica e isso não é bom. segundo os consultados. agrupável em três grandes blocos. Substituíram totalmente os partidos políticos. O primeiro bloco reúne a necessidade de realizar uma reforma política para fortalecer as instituições. Isso inclina alguns mandatários a considerá-las preocupantes fatores de poder. Instalaram-se no centro da sociedade. esse poder está incluído no âmbito da globalização. No entanto.pria Igreja e do que os partidos políticos. esse poder pode se tornar uma inquietante perversão”. mas não se colocam questões. dentro do possível.” “O grande segredo para que haja participação é aproximar-se o máximo possível dos problemas das pessoas. “As ONGs são privilegiadas.” Na visão desses mandatários. a qualidade da educação […]. é ampliar a cobertura. Então. que participem. “Para recuperar a base democrática.” O fortalecimento da democracia Após termos apresentado algumas opiniões dos mandatários. uma democracia representativa […]. foi mencionado por dois terços dos consultados. Ninguém sabe ainda quem são e o que representam. inclusive os partidos políti- . pode aprovar normas. através do exercício do poder. do mesmo modo que na política existe uma certa tensão com as ONGs. que incrementam. que são basicamente saúde. Outro mandatário se manifesta com mais firmeza sobre este tema: “Nós nos encontramos com um fenômeno que é de toda a América. não basta dizer às pessoas que se organizem. Esta pergunta deu lugar a uma dispersão relativamente importante de respostas.

mais freqüentemente. PROBLEMAS A ENFRENTAR PARA FORTALECER A DEMOCRACIA Reforma política Aumentar participação Institucionais. Pelo menos parte dos problemas políticos enfrentados pelas sociedades latino-americanas deve-se ao pouco conhecimento das regras do jogo democrático ou. Para muitos dos líderes consultados. Convém acrescentar que as opiniões dos consultados sobre os principais problemas a enfrentar. como a alimentação) quanto em aspectos culturais (marginalização de setores camponeses e urbanos. que não leva a uma adesão suficientemente firme aos valores democráticos. diferentemente do que ocorria há algumas décadas. A idéia comum. o funcionamento da democracia. mas sim como parte do essencial. Os consultados que afirmam que seu país é uma democracia ou uma democracia com poucas limitações dão mais ênfase à necessidade de reformas institucionais e partidárias. Incorporar genuinamente toda a população à política democrática requer derrotar essas formas de exclusão. porém. O mesmo ocorre em relação aos partidos políticos. a apatia cidadã e a desconfiança em relação às instituições se revertem melhorando os canais de participação e ampliando seu número e seus alcances. Um último ponto em que coincidiram vários consultados foi a necessidade de intensificar a luta contra a corrupção. para fortalecer a democracia. Para isso é necessário desenvolver políticas sociais e econômicas que conduzam a uma melhoria generalizada dos níveis de vida. Uma proporção importante dessas respostas indica que a reforma política deveria construir novos canais que facilitassem a participação da sociedade civil organizada. diferem segundo sua visão acerca do estado atual de seus respectivos países. as instituições não são vistas como um reflexo secundário do essencial. Os consultados acreditam que um esforço deliberado para desenvolver a educação. outros de reforma do Estado ou de fortalecimento geral das instituições. Embora muitos consultados coincidam em que os partidos não estão desempenhando seu papel de maneira adequada. Bases empíricas do Relatório Para muitos dos líderes consultados. Elas conspiram contra o fortalecimento da democracia e são detectadas tanto em termos econômicos (pobreza extrema e falta de recursos mínimos. a apatia dos cidadãos e a desconfiança em relação às instituições se revertem melhorando os canais de participação e ampliando seu número e seus alcances. uma quantidade semelhante indica a necessidade de fortalecê-los. 173 . em particular a educação para a democracia. O terceiro bloco refere-se à necessidade de fortalecer a educação em geral (não só o acesso a ela. a um conhecimento superficial dessas regras. Isso é coerente com seu próprio diagnóstico. As características dessa reforma variam de país para país: alguns falam de reforma eleitoral. Este primeiro grupo de respostas é o mais freqüentemente mencionado pelos consultados e sugere que. Se a corrupção é um dos problemas que mais afeta a democracia e a deslegitimiza perante a cidadania.TABELA 55 cos. 2002. mas também sua qualidade) e a cultura democrática em particular. outros de reforma do Congresso. a luta contra ela deve ser uma das metas fundamentais. Rodada de consultas com líderes da América Latina. marginalização de indígenas). mas é preciso melhorá-los. é que um melhor projeto dos dispositivos e incentivos institucionais poderia melhorar. poderia melhorar ou reverter essa situação. Essa ênfase diminui entre os que detectam várias limitações e diminui ainda mais entre os que vêem muitas limitações a suas democracias (ou. O interesse dessa resposta reside em que a constatação das dificuldades que os partidos enfrentam não leva à adoção de posturas de rejeição ou à busca de canais alternativos: os partidos vão mal. partidárias Combater desigualdade Políticas sociais Políticas econômicas Educar para a democracia Combater a corrupção Outros Todos % dos consultados 45 13 32 18 8 10 11 9 17 100 Nota: Os valores são a proporção dos consultados que fazem menção no primeiro lugar a este problema Fonte: PRODDAL. e muito. O segundo bloco de respostas inclui a necessidade de tomar medidas significativas (não “puramente institucionais”) que ajudem a enfrentar as profundas iniqüidades das sociedades latino-americanas.

partidárias Combater desigualdade Educar para a democracia Combater corrupção Outros Todos 45 3 42 22 12 10 11 100 Democracias com várias limitações 46 14 32 16 13 8 17 100 Democracia com muitas limitações. As prioridades de agenda dos líderes não políticos não se distanciam das do conjunto dos consultados. ou democracia com poucas limitações Reforma política Aumentar participação Institucionais. acham que não existe democracia). o desemprego e a violência (34 por cento) definem as prioridades. A agenda futura A agenda futura que se identifica com os interesses e as preocupações dos consultados não apresenta variações significativas em relação à agenda atual. A agenda política. enquanto o desemprego e a pobreza aparecem como problemas prioritários para os jornalistas. para eles o tema central da agenda é também a reativação econômica (57 por cento). assim como as reformas setoriais em saúde e educação. Rodada de consultas com líderes da América Latina. o tema da reativação – incluindo o uso de recursos produtivos. mantém a mesma ordem de prioridades que a do conjunto de consultados. Quanto à agenda social. A corrupção é o tema mais mencionado (36 por cento). Por sua vez. com valores iguais aos das reformas de saúde e educação (21 por cento). . simplesmente. O papel deficiente dos partidos políticos e sua reforma são referidos por 20 por cento dos consultados. Se considerarmos a perspectiva das mulheres líderes. os consensos mais freqüentes aparecem no 174 A democracia na América Latina que diz respeito à necessidade de reativação econômica. questões tais como a violência e a segurança cidadã. Com as opiniões favoráveis a uma maior participação. A construção da agenda pública na América Latina As opiniões dos consultados a respeito da agenda política atual apresentam significativas variações. e muito menos no extremo oposto. a reforma fiscal atinge os mesmos níveis de importância que a reativação econômica (45 por cento).TABELA 56 PROBLEMAS A ENFRENTAR PARA FORTALECER A DEMOCRACIA SEGUNDO OPINIÃO SOBRE O ESTADO DA DEMOCRACIA EM SEU PAÍS Democracia plena. Os consultados convergem amplamente em indicar os grupos empresariais (80 por cento) e os meios de comunicação (65 por cento) como os grupos com maior capacidade de modelar e impor a agenda. ou não é democracia 45 19 26 20 7 10 18 100 Nota: Os valores são a proporção dos consultados que fazem menção no primeiro lugar a este problema Fonte: PRODDAL. Observa-se também uma quebra na homogeneidade das opiniões acerca dos grupos influentes e dos temas da agenda. embora as mulheres líderes mencionem com menos freqüência a corrupção (22 por cento). a pobreza ascende ao segundo lugar (27 por cento) e diminuem as menções acerca da violência (21 por cento). ocorre o contrário: são mais freqüentes onde não se vê democracia ou onde é considerada muito limitada. 2002. são mencionadas principalmente pelos acadêmicos. no entanto. mas o restante das questões econômicas recebe poucas menções. Em relação à agenda econômica. No caso da agenda social. A dívida externa e a integração regional são apontadas por 23 por cento dos líderes consultados. Na agenda social. as privatizações e as reformas financeiras – aparece como o mais mencionado (53 por cento).

mencionados por aproximadamente um terço dos líderes. valores semelhantes aos da agenda atual. Bases empíricas do Relatório 175 . A agenda política se centra em um conjunto amplo de temas. Os acadêmicos coincidem majoritariamente com os percentuais gerais em relação aos temas da agenda futura. Segurança jurídica Reforma constitucional Relação governo-sociedade. Estes tendem a priorizar uma estratégia vinculada à estabilidade do regime democrático e suas instituições. a dispersão de respostas se mantém. que chegam a 48 por cento das menções contra 36 por cento que os consul- 80 A tabela referente à agenda atual foi elaborada sobre a base dos 152 entrevistados que efetivamente responderam às perguntas sobre o tema. 24 por cento.2002. A questão/O tema da coca Reforma do sistema judiciário. No plano econômico. Por essas razões. Quanto à agenda social. petróleo. só 17 por cento dos acadêmicos se expressa nesse sentido. enquanto 32 por cento dos consultados consideram que a reforma educativa e a saúde deveriam ingressar na agenda futura. Estado de direito. a reforma política. conciliação nacional 80 24 9 9 8 3 (53%) (16%) (6%) (6%) (5%) (2%) 52 51 40 37 (34%) (34%) (26%) (24%) 55 30 23 12 12 11 9 6 (36%) (20%) (15%) (8%) (8%) (7%) (6%) (4%) Fonte: PRODDAL. segurança cidadã Reforma da educação/Saúde Pobreza Agenda política A corrupção Reforma política/ Papel dos partidos/ Descentralização Reforma do Estado (abertura. e os temas de pobreza e desigualdade. coca. reforma financeira) Questão fiscal Dívida externa Integração regional andina/Mercosul/ALCA Tratados de livre comércio Acordo com o FMI Agenda social Desemprego Violência. O tema prioritário é a reforma política. Chama a atenção que a menção às reformas – tanto na agenda social como na política – não faz alusão ao conteúdo das mesmas. mas só é mencionada por 35 por cento dos consultados. No entanto. modernização) Solução do conflito político institucional/ Reconstrução institucional/ Fragilidade institucional Lavagem de dinheiro e narcotráfico. o questionamento do papel dos partidos políticos e a descentralização concentram suas prioridades. Os temas que envolvem a defesa das liberdades e os direitos humanos são considerados como temas de agenda por 10 por cento dos consultados.TABELA 57 AGENDA ATUAL SEGUNDO TEMA 80 Temas N° de atores que mencionam Agenda econômica A reativação econômica (debate sobre uso de recursos produtivos (gás. Rodada de consultas com líderes da América Latina. delinqüência. O desemprego e a violência perdem importância relativa. a reativação concentra 42 por cento das respostas e as problemáticas ligadas à integração regional. mesmo quando se perfilam com mais prioridade as reformas setoriais de saúde e educação. privatizações.

2%) 2 (1. direitos humanos.8%) 5 (3. segurança cidadã Agenda política Reforma política/ Papel dos partidos/ Descentralização Reforma do Estado (abertura.1%) (8. A seguir. Um panorama similar é apresentado pela reforma judicial.3%) (17.3%) 55 33 9 15 (35. do Congresso e outros. sustenta-se de maneira frágil na agenda futura.6%) 10 (6. A agenda política.3%) (2. Segurança jurídica Segurança democrática (defesa de liberdades democráticas. outros. Rodada de consultas com líderes da América Latina. do Estado. coca.2%) 156 tados em geral atribuem a esse ponto. Outros temas como a questão do desemprego e a violência.9%) (14. pelo funcionamento do estado de direito e pela segurança jurídica.2002. debate sobre o uso de recursos produtivos (gás. 66 28 22 13 4 1 (42. petróleo. resumimos as opiniões dos consultados acerca dos passos futuros. inclusive os partidos políticos.6%) 15 (9. levando em conta o número de menções. BID Agenda social Reforma da educação/Saúde Pobreza e Desigualdade Desemprego Violência. reforma administrativa) Reforma constitucional Reforma do sistema judiciário. a centralidade da questão da reativação econômica na região se destaca tanto na agenda atual quanto na futura.0%) (9.2%) (21.1%) (16. No caso dos presidentes e ex-presidentes. delinqüência. isso implica certa repetição a respeito de suas posições sobre a situação atual. Mas. que concentram 22 por cento das menções dos atores acadêmicos contra 15 por cento das menções gerais. foi mencionado por dois terços dos consultados. privatizações. Os desafios Quais deveriam ser os passos para fortalecer o desenvolvimento da democracia nos próximos anos? Um grupo de respostas.5%) (0. O primeiro bloco se refere à necessidade de realizar uma reforma política que fortaleça as instituições. A questão da coca Relação governo-sociedade. aparece como a menos relevante para esses mandatários.4%) 9 (5.6%) (8. que concentram suas opiniões sobre os temas da agenda atual. conciliação nacional Total Nota: n=156 Fonte: PRODDAL.6%) 45 44 26 13 (28. As características das reformas propostas variam de país para país: alguns falam do sistema eleitoral. Banco Mundial. Estado de direito. paz) A corrupção Solução do conflito político institucional/ Reconstrução institucional/ Fragilidade institucional Lavagem de dinheiro e narcotráfico. de maneira geral. a idéia é que um melhor projeto dos dispositivos e incentivos institucionais deveria me- 176 A democracia na América Latina .2%) (16. reforma financeira) Questão fiscal Integração regional andina/ Mercosul/ ALCA Dívida externa Tratados de livre comércio Papel do FMI.8%) (28. agrupáveis em três blocos.TABELA 58 AGENDA FUTURA SEGUNDO TEMA Temas N° de atores mencionados Agenda econômica A reativação econômica. modernização.

Um último aspecto de coincidência. O primeiro aspecto deveria ser encarado mediante um esforço de educação cívica e. elevando o nível educativo da população. As limitações para formular uma agenda socialmente compartilhada também suscitam o risco de que essas democracias se tornem “irrelevantes”. O segundo bloco inclui a necessidade de fortalecer a educação em geral e a cultura democrática em particular. é a necessidade de intensificar a luta contra a corrupção como uma prioridade para fortalecer a ordem democrática. as instituições não são vistas como um reflexo secundário do essencial. mas sim como parte essencial da democracia. com alternância no poder entre situação e oposição). e por outro. Um balanço Qual é a visão da democracia que prevalece? Todos os consultados valorizam altamente a sustentabilidade e expansão da democracia na América Latina. Entre os consultados aparece como tema central a capacidade – ou incapacidade – das democracias para atingir níveis aceitáveis de integração social. reta e reformularam e/ou criaram mecanismos de controle. Instituições políticas que perdem credibilidade e a persistência das situações de pobreza e exclusão social constituem um cenário complexo que torna as democracias vulneráveis diante da ingerência dos poderes fáticos. Reconhece também as reformas constitucionais que habilitaram mecanismos de democracia di- 177 . As restrições para formular uma agenda em longo prazo dão conta das dificuldades para pensar um “projeto de país” – e também de região – que possa prever respostas programáticas para os graves problemas existentes. Essa visão reconhece a vigência das liberdades e a regularidade das eleições (em alguns casos. a apatia cidadã e a desconfiança em relação às instituições se revertem melhorando os canais de participação e ampliando seu número e seus alcances. destaca-se o grande peso de certos poderes fáticos. em particular. assim como a necessidade de enfrentar as profundas iniqüidades das sociedades latino-americanas. observa-se uma forte tensão entre os alcances da democracia e os níveis de pobreza e exclusão social. O Poder Executivo não conta com partidos políticos sólidos que o sustentem. na opinião de muitos de nossos consultados. o Poder Executivo costuma encontrar limitações ao exercício de suas funções que se devem. por um lado. nem com uma oposição que contribua para fortalecer a institucionalidade democrática. Novamente. poderia melhorar ou reverter essa situação.lhorar o funcionamento da democracia. Para incorporar genuinamente toda a população à sociedade e à defesa da democracia é necessário enfrentar essas desigualdades. é uma das caras mais visíveis e importantes do problema. como grandes conquistas dos processos democráticos em curso. Eles também enfatizam que os partidos não Bases empíricas do Relatório Alcances da democracia na América Latina. Os consultados acreditam que um esforço deliberado para desenvolver a educação. em particular do setor econômico-financeiro e dos meios de comunicação. nos temas atualmente vigentes na agenda pública. principalmente. mais pontual do que os anteriores. A desigualdade educativa. à ingerência de poderes fáticos. As dificuldades para atingir um nível aceitável de integração social são visíveis no divórcio entre o diagnóstico feito pelos consultados sobre o funcionamento e as debilidades da democracia. No mapa do poder traçado por nossos consultados. Entre nossos consultados existe a percepção de que os condicionamentos impostos por esses poderes conduzem à existência de governos com sérias limitações para responder às demandas da cidadania. em termos mais gerais. O terceiro bloco ressalta a necessidade de construir novos canais que facilitem a participação da sociedade civil organizada. em particular a educação para a democracia. Entretanto. Para muitos dos líderes consultados. Como se exerce o poder nessas democracias? Como vimos.

em geral pertencentes à sociedade civil. apareceram outras que continuam colocando em questão a continuidade e a expansão da democracia. O aumento da participação e dos controles institucionais é reconhecido como um passo decisivo nesse sentido. subordinação militar é o caso mais notável. As mais importantes estão interrelacionadas: a reduzida autonomia de decisão dos poderes institucionais e o debilitamento dos partidos políticos. mencionados pelos consultados. toda a região é. mas sim como parte constitutiva da democracia. Uma delas é a que separa as opiniões das li- Síntese da rodada de consultas O resumo que apresentamos permite enunciar algumas conclusões sobre as opiniões predominantes entre os líderes latinoamericanos. Algumas das ameaças tradicionais às democracias latino-americanas desapareceram ou enfraqueceram significativamente. 8. Esses resultados gerais não ocultam. é claro. que combina três elementos distintos: um desejo de maior participação e controle do poder político. Isso parece estar vinculado à falta de canais institucionais adequados a essa participação. 7. ao contrário. algumas diferenças entre os países. Uma primeira constatação é que a América Latina deu passos muito importantes no caminho da democratização. Estão persuadidos de que é importante ter partidos fortes e governos com capacidade de decisão. mas sim dentro dela. Os líderes consultados. não estão buscando soluções fora da política. também opinam que eles são necessários. corrupção e destruição da economia formal. ao menos formalmente. ela se dá em um contexto de aumento desse desejo. Muitos dos consultados afirmam a importância de fortalecer a participação social. uma rejeição bastante generalizada aos partidos como canais de participação. Outras ameaças que pesam sobre a democracia latino-americana são políticas. Para os líderes consultados. no entanto. Embora as ameaças tradicionais tenham se desvanecido ou atenuado. à integração entre países da região.conseguem formular projetos coletivos que possam convertê-los em expressão autêntica da cidadania. com suas seqüelas de poder paralelo. Os partidos latino-americanos não enfrentam a versão regional de um problema mais geral (como a fuga em direção ao privado que ocorre em outras regiões). quando esta se materializa. democrática. 4. 3. A mais ostensiva dessas ameaças é o narcotráfico. Por outro lado. se expressa na importância relativamente baixa que se atribui. A crise dos partidos não ocorre devido a uma perda do desejo dos cidadãos de participação. 5. O quase desaparecimento dos riscos de in178 A democracia na América Latina . apesar de verem esses problemas com clareza. violência. e se perguntam sobre os caminhos que permitirão atingir ambas as metas. em relação ao desenvolvimento da democracia na região. e um deslocamento da participação e do exercício de controles para outros tipos de organizações. 1. enfrentam um problema novo e. A dimensão institucional não é vista como um epifenômeno do que realmente importa. 2. 6. Dão ênfase também à influência de poderes extraterritoriais que. em certa medida. na agenda. mas também é importante o enfraquecimento das práticas patrimonialistas e dos personalismos. a institucionalização dos processos de participação social é vista como débil ou incipiente. Esta segunda constatação indica algo que antes nunca existiu na região e que está associado a uma idéia muito importante: apesar de os líderes latino-americanos opinarem majoritariamente que os aspectos institucionais não são suficientes para afirmar que existe democracia. são poucos os que apontam os benefícios dela decorrentes. entre outros aspectos. específico.

Do que foi dito pode-se concluir que. o primeiro desafio da democracia latino-americana é encontrar soluções políticas para seus problemas políticos. o controle. a gestão de agendas e a construção de acordos políticos. No passado. no âmbito de uma situação caracterizada por uma crescente “globa- lização das influências” e por uma transnacionalização dos problemas”. esse é um problema universal. para a pobreza e para a atual impossibilidade de acesso de grande parte da população aos níveis de bem-estar necessários para o pleno exercício dos direitos. Em parte. mas adquire matizes específicos na América Latina. segundo nossos consultados. 9. O segundo desafio da democracia latino-americana é encontrar soluções para a desigualdade. Tanto no Brasil como no México se encontra mais otimismo sobre o progresso das condições necessárias para a democracia e mais satisfação com as conquistas já obtidas.deranças dos maiores países da região (Brasil e México). das opiniões dos consultados em outras democracias jovens. Bases empíricas do Relatório 179 . Hoje são tomados como os grandes desafios que a própria democracia deve resolver. 10. esses lamentáveis problemas foram esgrimidos como razão para justificar a busca de caminhos alternativos para a democracia. Isso pressupõe buscar novas maneiras de canalizar a participação.

180 A democracia na América Latina .

devem ser colocados novamente no centro da discussão. é essencial revisar as políticas e as ações implementadas até o presente. auscultar as realidades sociais emergentes e explorar novos caminhos. as reformas estruturais da economia e o impacto da globalização na região. por meio dos seguintes temas: ■ A necessidade de uma nova “estatalidad”: qual é o papel do Estado no fortaleci- mento da democracia? ■ A economia do ponto de vista da democracia: quais são as políticas econômicas que favorecem o desenvolvimento da democracia? ■ As democracias latino-americanas no contexto da globalização atual: que espaços de autonomia requerem para sua expansão? Rumo a uma democracia de cidadania 181 . Desse modo. No entanto. Isso possibilitará abrir o horizonte para fórmulas que permitam recriar o debate sobre a política e seu lugar na América Latina.terceira seção Rumo a uma democracia de cidadania Durante quase duas décadas. aprender das experiências históricas recentes. as reformas do Estado. o debate deixou de lado outros que. a agenda latino-americana incluiu o fortalecimento democrático. a crise da política. embora tenham sido abordados aspectos substantivos dessas questões. à luta eficaz contra a pobreza e à expansão dos direitos dos cidadãos. mas particularmente nos anos noventa. por exemplo. à luz da análise realizada. O Relatório chega à conclusão de que o desenvolvimento da democracia está intimamente vinculado à busca de maior igualdade social.

182 A democracia na América Latina .

as tensões. mesmo contando com governos e Estados eficientes e eficazes. É preciso encontrar outros critérios de ação que permitam avançar no caminho das soluções que nossas sociedades esperam. fundamentalmente. é outro dos instrumentos substanciais para a expansão da cidadania e. uma enumeração de ações ou políticas públicas. não é possível exercer o mandato eleitoral porque outros poderes internos ou externos não permitem? Para enfrentar os déficits de nossas democracias. o principal instrumento para sua execução. constante criadora de novas organizações de voluntários que aumentam a participação. portanto. Entendemos por agenda. da democracia. a apresentação dos temas que precisam ser debatidos. receitas. se os governos não podem executar as políticas decididas democraticamente? Ou se. nas instituições representativas e de governo do Estado. com o poder que flui por meio delas e com a conseqüente capacidade – ou incapacidade – do Estado para atingir suas metas. as políticas que possam deles derivar devem expressar o que há de original e singular em cada situação nacional. “é preciso considerar o não cumprido. abordamos as considerações necessárias para elaborar uma agenda ampliada para o desenvolvimento da democracia. Essa inoperância do Estado está relacionada com a qualidade de suas instituições e. Entretanto. No entanto. os limites e as denegações que desvirtuam a experiência da democracia”. Por trás de todo direito há um Estado que o garante. Toda democracia encerra a promessa de liberdade. a política é indispensável. Para construir esse poder. Na seção anterior tratamos do estado da cidadania na região. as fraturas. Não é. para os fins deste Relatório. Em face dessa realidade. que os empreenda com a firmeza da determinação dos líderes e dos cidadãos e os sustente com a idoneidade dos instrumentos para a ação coletiva. o reconhecimento da singularidade latino-americana e o conjunto de dados resultantes de nossa pesquisa empírica. as carências de cidadania não foram resolvidas. os problemas do desenvolvimento da democracia vistos nas seções anteriores aparecem em um amálgama em que os limites do Estado se conjugam com as Rumo a uma democracia de cidadania Nesta seção. As propostas de ação dos partidos políticos têm. O significado e o alcance dessas contribuições são o resultado de três caminhos convergentes: uma certa concepção da democracia. 183 . após uma década de reformas. E por trás de todo direito truncado há um Estado que não chega a torná-lo efetivo. Na distância existente entre essa promessa e a realidade descrita na segunda seção. se grandes esferas da vida social relacionadas com os mais básicos direitos cidadãos conti- Para enfrentar os déficits de nossas democracias. mas não únicos. surgem com força os grandes temas que compõem a agenda do desenvolvimento da democracia.■ Quatro temas para uma agenda de debate nuam fora do alcance da deliberação pública e da vontade cidadã. a sociedade civil. isto é. dentre os quais os partidos políticos são atores centrais. Mas é preciso que a política seja relevante. justiça e progresso para seus cidadãos e. conseqüentemente. o que restaria da liberdade exercida ao eleger democraticamente os governos. que proponha caminhos para abordar os temas-chave da sociedade. como afirma Rosanvallon. capacidade de agir de modo efetivo diante dos problemas para expandir a cidadania. capacidade de agir de modo efetivo diante dos problemas para expandir a cidadania. Alguns foram implementados com certo êxito e obtiveram resultados significativos. muitas vezes. é preciso poder democrático. foram propostos. isto é. Trata-se de temas que constituem preocupações comuns à região latino-americana. Ao mesmo tempo. princípios técnicos e programas ambiciosos de reforma. O poder democrático também se constrói a partir da “e statalidad”. Dessa forma. é preciso poder democrático. Mas.

Em síntese. agrupa as vocaçõ es e cria poder. por meio da expansão dos instrumentos que a própria democracia oferece. centrou-se a maior parte do debate público sobre a política. No entanto. com a existência de poderes fáticos que evadem a legalidade. que constituem os desafios para o desenvolvimento da democracia na América Latina. e cujo principal objetivo seja garantir e promover os direitos – um Estado de e para uma Nação de cidadãos –. no campo político. partidos políticos e práticas transparentes e responsáveis. os temas centrais que dizem respeito ao futuro da sociedade. Sobre essa carência. como passar de uma economia concebida segundo os dogmatismos do pensamento único para outra com diversidade de opções. A política. Trata-se. conseqüentemente. e finalmente constrói o poder público necessário para executar os projetos que apresenta à sociedade. Os critérios aqui apresentados constituem um ponto de partida. Mesmo na hipótese de contarmos com excelentes instrumentos institucionais. exigências do crescimento econômico e seus resultados freqüentemente geradores de desigualdades. Propomos que essa agenda inclua: como passar de uma democracia cujo sujeito é o eleitor para outra cujo sujeito é o cidadão que tem direitos e deveres ampliados. traficam influências e permeiam as mais altas instâncias de decisão. em certas ocasiões. a agenda que estamos tratando está relacionada com os complexos caminhos que habilitam e obstruem a expansão da cidadania e a reconstrução da sociedade política no marco das democracias latino-americanas. primeira condição A política cumpre uma função vital no processo democrático: concebe as políticas públicas para atacar os problemas que considera centrais e as concretiza em projetos que são parte essencial das opções básicas da sociedade. Para isso. enfim. há crise da política e crise de representação porque essas três condições são cumpridas apenas parcialmente e. como também um perigo para a democracia. os problemas evidenciados. de 184 A democracia na América Latina preencher a sociedade com política e. nem existem. agrupa a enorme quantidade de vocações cidadãs em denominadores comuns que permitem escolher entre um número razoável de alternativas eleitorais. e como construir um espaço de autonomia na globalização. todas elas atravessadas pela questão do poder. a política com sociedade. Essas condições estão longe de ser cumpridas em muitos países da região. O debate sobre a política deve estar centrado em como superar essa situação. são o início e não o final desse processo. com a impotência da política para encarnar as aspirações da cidadania em poder democrático. Na América Latina. de encher a sociedade de política e. mesmo sendo central. Em suma. o Estado. civil e social. esse debate ocupou o lugar da discussão sobre outras questões que parecem mais decisivas do que as debilidades institucionais: a crise de conteúdo da política e a dificuldade para construir poder democrático. Trata-se de abordar a discussão das condições que permitam a nossas democracias encarar a solução dos problemas que registramos. a economia e a globalização). conseqüentemente. o que debilita perigosamente a função dos partidos como principais construtores da política para a democracia. Estas são três condições indispensáveis para o desenvolvimento da democracia. é preciso que existam instituições eficazes.Trata-se. proporciona os dirigentes para executar esses projetos. Em outros termos. enfim. a política encarna as opções. da qual se deriva não só uma crise de representação. a política de sociedade. com a evidência de uma globalização que limita o espaço próprio da democracia ao escamotear do campo da escolha dos cidadãos. como passar de um Estado de legalidade truncada para um Estado com alcance universal em todo o território. procuram desencadear um debate. manifestam-se nessas quatro esferas centrais (a política. com as tensões de sociedades fraturadas. se a capacidade da política para construir opções . notória e difundida. condição indispensável para que a vontade da maioria se traduza em políticas que transformem a realidade. Uma política que não as cumpra põe em perigo a sustentabilidade democrática.

Os organismos especializados de controle da gestão pública. A liberdade de imprensa melhorou notoriamente e apesar de os primeiros passos no sentido de assegurar o direito de acesso à informação em poder do Estado estarem sendo dados. e não fica claro se representaram um instrumento eficaz para o desenvolvimento da democracia. as cúpulas partidárias continuam dominando o esquema de indicação de candidatos. O Parlamento. Em muitos casos. da incapacidade do Estado de controlar a violência e o uso da força pública. Nesse sentido. em muitos casos. e da incorporação de facilidades para o acesso aos lugares de votação. e serviços e infra-estrutura insuficientes. tanto a democracia eleitoral quanto a democracia de cidadania tenderão a ser não sustentáveis e irrelevantes para os cidadãos. foram apontadas as seguintes questões: Os problemas de expressão da cidadania política são os menos marcantes. em vários países subsistem severas limitações para seu pleno desempenho cotidiano. aumentaram. continuam registrando-se abusos no que se refere aos direitos à vida e à integridade física. às vezes não têm a independência necessária e em outras. Esses déficits devem estar no centro dos esforços para a renovação dos conteúdos da política. aprovam-se normas para controlar o efeito das doações privadas sobre a ação política. as desigualdades sociais não diminuíram. esse controle ainda não tenha relevância prática. pobreza. indicou como problemas principais: desemprego. esse é um desafio no qual é preciso avançar. contribuíram para a desestabilização política. Embora a área judiciária do Estado goze ■ de independência formal. cuja violação sistemática caracterizou a região nos períodos autoritários e de guerra civil. Rumo a uma democracia de cidadania 185 . não possuem poder para exercer suas funções. Como em todo país. Pouco a pouco. embora. Na análise realizada na segunda seção do Relatório. Como se sabe. no estudo de opinião. pois invadiriam a área de competência de outros poderes estatais. tais como as controladorias de contas. não possui muito prestígio entre a massa cidadã e é considerado como uma instância pouco eficaz para representar e defender os interesses da maioria. Isso nem sempre se traduz em eficácia na ação de governar. estudam-se mecanismos para incrementar essa participação. ■ Em toda a América Latina a fórmula política está centrada na figura do presidente constitucional e a instituição presidencial costuma ter poderes formais relativamente altos. ■ Os déficits da cidadania sociais relacionados com a “ estatalidad” e a economia são os mais notórios: subsistem altos níveis de desigualdade e pobreza e. desigualdade e renda insuficiente. por sua vez. como as promotorias especiais ou as defensorias do povo. embora tenham ampliado o campo da participação política da cidadania. o que cria outra fonte de descontentamento da cidadania e de frustração para os políticos. particularmente. ou os organismos de promoção ou defesa de direitos cidadãos. delinqüência e drogas. ao contrário. em muitos países. mas. Embora em alguns países a participação eleitoral ainda seja baixa. provenientes. Uma política que não nutre a sociedade de opções e de poder. corrupção. Os mecanismos de democracia direta.substantivas e poder não for recuperada. Essas comprovações coincidem com a percepção da cidadania que. Praticamente não há casos de fraude flagrante e a intimidação de votantes diminuiu notoriamente. não tem representatividade. A normativa que permite a discriminação positiva de gênero para ter acesso a cargos representativos melhorou. por meio da melhora nos procedimentos de cadastramento eleitoral. ainda. as defensorias públicas do povo não podem ter poder próprio no campo judiciário ou administrativo. ■ Apesar dos avanços fundamentais em matéria de direitos humanos. em alguns casos. sempre há margens para a manipulação de certo número de eleitores. Em um número considerável de países persistem os níveis de necessidades básicas não satisfeitas. chama muita atenção o fato de que os diversos instrumentos de estudo empírico tenham levado a coincidir em um conjunto similar de déficit em nossas democracias.

como conseqüência dos déficits que limitam a capacidade estatal. violência e delinqüência. desemprego. que tende a reduzir o espaço da primeira e limitá-la a âmbitos de menor relevância. os líderes consultados mencionam como problemas da agenda: reativação econômica. por outro. A maior parte dos latino-americanos opina que não há democracia sem partidos e Parlamento. a política. especialmente a política democrática. as instituições democráticas básicas. A política tende a perder conteúdo por três vias vinculadas entre si: Os Estados nacionais perdem soberania interior. ■ Uma ordem internacional que limita a capacidade dos Estados para atuar com razoáveis graus de autonomia e que. é o âmbito onde são concebidos os diferentes projetos e alternativas de uma sociedade. A política tende então a esvaziar-se. e. e colocar essa opções no eixo da discussão pública. 3. Por um lado. por ineficiência e ineficácia de suas organizações burocráticas. Pode a política encarnar as aspirações cidadãs de redução da pobreza e da desigualdade. suas instituições básicas e seus líderes enfrentam na América Latina. Aproximadamente 36% dos latino-americanos (Latinobarômetro 2002) concordam em aceitar que. limpas e periódicas. reivindicação social e busca coletiva de sentido. Muitos dos temas que antes eram próprios da política e dos Estados nacionais hoje são tratados e decididos em outras esferas. saúde e educação. A aparente impotência da política enfraquece seriamente a democracia. ■ A política. ■ Há um desequilíbrio na relação entre política e mercado. Dar um conteúdo à política significa não apenas tornar “visíveis” os déficits indicados: também é indispensável construir um leque de opções substantivas para solucioná-los de modo efetivo. os poderes fáticos e alguns meios de comunicação ocuparam boa parte desse lugar. é o âmbito onde são concebidos os diferentes projetos e alternativas de uma sociedade. não apenas no que se refere às suas possibi lidades de expansão. Esta situação não é coerente com a democracia e com os direitos de cidadania dela decorrentes. Resumimos alguns temas desse debate nos seguintes enunciados: 1. A política é representação. 5. perguntar-se qual deveria ser o lugar da política em uma América Latina que. gozam de um baixo conceito. Aí reside boa parte dos problemas de confiança e legitimidade que a democracia. mas seu funcionamento gera insatisfação. da própria possibilidade de projetos coletivos viáveis.Coincidentemente também. e tornam especialmente grave a situação na América Latina. 2. corrupção. importantes problemas econômicos do seu âmbito de decisão e deliberação. às privações materiais atuais se une uma certa perda da noção de progresso. de expansão do emprego e da solidariedade? Pode a política ajudar a construir um horizonte de progresso para nossos países e nossos cidadãos? 186 A democracia na América Latina 4. em face dos poderes fáticos e ilegais. como também – talvez – à sua sustentabilidade. especialmente a política democrática. É preciso então. por exemplo. hoje observamos uma séria incapacidade da política para articular projetos coletivos. ao mesmo tempo em que conquistou o importante direito de gozar de eleições livres. principalmente os partidos e o Parlamento. Ela passou a ser. está atravessando o processo de globalização. quase exclusivamente. No entanto. sem ser capaz de construir o poder e os instrumentos para enfrentar os principais desafios de nossos países. restringe as opções nacionais. aos interesses e às aspirações da sociedade. se for necessário. excluindo. portanto. . A política. uma atividade pouco vinculada às identidades. o presidente deixe de lado os partidos políticos e o Parlamento na hora de governar. A economia. Na América Latina. apresenta graves problemas sociais e tem Estados deficitários para garantir e expandir a cidadania. A crise da política manifesta-se na ruptura que existe entre os problemas para os quais a cidadania requer uma solução e a capacidade da política para enfrentá-los. Esses problemas debilitam a vocação transformadora da política. Neste contexto.

Eles são atores relevantes da democracia de cidadania. que alguns indivíduos possuem uma influência consideravelmente maior que outros… aqui temos um problema enorme… o número de indivíduos que exerce um controle importante sobre as alternativas programadas corresponde somente. 81 Conseqüentemente. texto elaborado para o PRODDAL. O cidadão e as organizações da sociedade civil desempenham um papel essencial na construção democrática. na maioria das organizações. que são organismos de informação e entretenimento. 7. Juan Méndez. os partidos. os meios de comunicação. o controle sobre a comunicação encontra-se distribuído de uma maneira tão desigual. paralelamente à crise de representação e à deserção do Estado. nem atores com fins mais precisos. não apenas ao votar e decidir em função de seus interesses pessoais. sejam elas “máfias” ou organizações políticas subversivas. Elas exercem a cidadania civil. dos afrodescendentes e de diversos setores excluídos. a política deve recuperar seus conteúdos essenciais e também rever cuidadosamente sua tarefa incompleta. Na América Latina há um crescimento impressionante das organizações independentes da sociedade civil.81 8. às vezes. mas sim inclui os organismos colaterais que entram na definição adotada. pp. organizações da sociedade que ocuparam o espaço das questões não resolvidas ou ignoradas. aparecem ocupando o vazio de representação originado na crise da política e suas instituições. ou as Igrejas formais. Parece que esse é o caso. quadro 40 Sociedade civil. se o número de membros é considerável. Os meios de comunicação. Quando a política se esvazia de conteúdos. 1987. de maneira crescente e nas formas mais diversas. 97-98. Apesar das dificuldades e dos obstáculos inerentes à aceitação da sociedade civil como âmbito de participação e fortalecimento da democracia. 2002. que é capaz de deliberar e levar adiante ações coletivas em defesa e promoção de seus interesses e opiniões. não podem incluir organizações que tendem à ilegalidade para atingir seus objetivos. Por isso. nas organizações mais democráticas. Nos últimos anos. mas também para ampliar as possibilidades de proteção dos interesses de outros menos afortunados. a uma fração muito reduzida do total dos membros. Assim. e propiciou também o surgimento de novas entidades dedicadas aos direitos da mulher. no controle da gestão governamental. inclusive. esse vazio subsistirá enquanto a política não assumir suas faculdades diante de temas relevantes e enquanto os partidos se mostrarem incapazes de articular projetos coletivos e de alcançar a condução do Estado.6. que são parte da sociedade. Rumo a uma democracia de cidadania 187 . Trata-se de um sistema auto-organizado de grupos intermediários relativamente independentes do Estado e das empresas privadas. política e participação As pessoas que se organizam por meio de entidades independentes da sociedade civil superam a dicotomia entre autonomia pública e privada. Seu papel é complementar ao dos atores políticos tradicionais da democracia. Especialmente no âmbito dos direitos humanos. a sociedade os recupera. não apenas para proteger seus próprios interesses. porque abarcam tanto a dimensão pessoal quanto a dimensão social da cidadania. as associações. das crianças. a transição democrática trouxe uma nova geração para os organismos nascidos para lutar contra a repressão ilegal das ditaduras. surgiram. quando o Estado ignora as grandes questões da cidadania. Robert Dahl. Essas pessoas exercem também a cidadania política. assumindo as deman- quadro 39 O poder dos meios de comunicação Evidentemente. em todos os grandes grupos sobre os quais temos alguns dados. eles encarnam em si mesmos toda a potencialidade do ser humano como agente. sua importância na democratização da América Latina deve ser claramente reconhecida. dos povos indígenas. como: os sindicatos. na expressão de demandas e no fortalecimento do pluralismo que toda democracia promove e precisa. respeitando a estrutura legal e civil existente. mas também quando ampliam as possibilidades de acesso e participação dos relegados pelo sistema político. […] A sociedade entende a política em um sentido mais amplo e mais rico que o da concorrência eleitoral. para viabilizar a passagem à democracia de cidadania.

188 A democracia na América Latina . sem destruir sua autonomia. os partidos e os atores sociais autônomos. à necessidade de agregação política gerada pela saudável e crescente expressão da diversidade. que tem a ver com a definição do espaço público mediante a silenciosa ação cotidiana dos que administram o acesso ao aparato estatal. Supondo que sejam produzidas conseqüências institucionais positivas do capital social. e à imprescindível reapropriação cidadã dos espaços de construção de vontade democrática. que influi na qualidade e relevância das democracias novas. Esses claustros cerrados de decisão econômica e os poderes fáticos legais e ilegais. em que a política volte a ter sentido como articulação entre atores sociais autônomos e fortes e um Estado que recupere seu papel de agente de desenvolvimento em um mundo que ameaça destruir as comunidades nacionais. estruturais e culturais das últimas décadas que decompõem a unidade da sociedade-polis. autonomia e complementaridade entre o Estado. O segundo problema refere-se a uma avaliação dos padrões associativos em si mesmos. há menos espaço para políticas altamente ideologizadas. Costuma suceder. respondendo a novas necessidades. controlar e propor. em toda a América Latina. Renato Boschi. A democracia abre caminho e convida à participação cidadã. das de uma sociedade que se organizou para reivindicar. que são julgados severamente pela opinião pública. Nesse sentido. Dessa forma. o regime. contribuem para esvaziar a política. a polis. a sociedade civil quadro 42 Política. o universo mediático. aos partidos. e da organização cidadã. Na América Latina. amplia o espaço público por meio da participação. Mas ela adquire uma nova centralidade. texto elaborado para o PRODDAL. apresentam-se dois problemas: um. uma nova matriz sociopolítica. com mais intensidade isso acontece em relação aos atores principalmente políticos. Atualmente. nacionais ou extraterritoriais. repercute na sociedade inteira. Esta questão está vinculada a certos âmbitos de poder onde se tomam decisões que afetam gravemente a sociedade. Se a crise da política. há necessidade de formas alternativas de representação que. Desse modo. a conseqüência tende a ser a apatia e a desconfiança generalizadas. mas há uma exigência de política por “sentido”. pois é seu papel abordar e articular as diversas esferas da vida social. as complementem e fortaleçam. A opção é o fortalecimento. 9. texto elaborado para o PRODDAL. da expressão de identidades e demandas. Daí a necessidade de democratizar a cultura de elites e seus resultados vinculados à apropriação do espaço público por parte de interesses especiais organizados. Manuel Antonio Garretón.quadro 41 A dimensão associativa da democracia A qualidade da democracia está determinada tanto pelos que estão envolvidos em práticas associativas quanto pelos que estão excluídos delas. a dinâmica de associação deve ser considerada como um ingrediente essencial da democracia. 10. partidos e democracia na América Latina Ao falar de uma transformação das relações entre Estado e sociedade estamos nos referindo a uma transformação da política. às particularidades dos setores excluídos ou sub-representados. 2002. A grande tarefa do futuro é a reconstrução do espaço institucional. que as forças do mercado. sem que ela possa participar dessas discussões. 2002. Parlamentos). os particularismos ou os meros cálculos de interesses individuais ou corporativos. não são capazes de dar. sem substituir as tradicionais (partidos políticos. isto é. no entanto. que um mundo hobbesiano de segmentos totalmente desorganizados da população convive com um mundo muito menor inspirado em Tocqueville. voluntaristas ou globalizantes. isto é. se os âmbitos em que essa participação ocorre têm pouco peso nas grandes decisões nacionais. tanto em termos de sua difusão quanto de seu conteúdo e qualidade. eleições. tende a desaparecer a centralidade exclusiva da política como expressão da ação coletiva. os espaços conquistados pela sociedade civil foram fundamentais para abrir caminhos políticos que estavam fechados para a construção democrática. No novo cenário gerado pelas transformações sociais. mais abstrata.

deve estar situada a discussão sobre a “questão democrática” na América Latina. regular os mercados. Rumo a uma democracia de cidadania 189 . Norbert Lechner. garantir eficazmente o funcionamento do sistema legal (direitos de propriedade e direitos de cidadania. orientadas para a resolução dos problemas que as sociedades reconhecem como relevantes. dois temas principais foram deixados de lado: o poder real do Estado para pôr em prática o mandato eleitoral e o poder para democratizar. do meu ponto de vista. a democracia deixa de ser uma forma de organização do poder. durante os últimos vinte anos. A democracia como princípio de organização da sociedade A ordem social já não pode descansar sobre uma regulação exclusivamente estatal da convivência. simultaneamente). estabelecer sistemas de proteção social baseados no princípio de universalidade da cidadania. tamanho e gasto do Estado e modernização de suas burocracias. Recuperar um Estado para a cidadania é um desafio central do desenvolvimento da democracia na América Latina. isto é.82 É necessário um Estado capaz de conduzir o rumo geral da sociedade. Se estas condições não forem cumpridas. eficazes e eficientes. onde a grande concentração de rendas leva à concentração de poder. a todas as classes sociais. sua capacidade para chegar. Enquanto a ênfase. Em muitos casos. independentemente do tamanho e da forma de organização de suas burocracias. Este é um debate urgente. os Estados latino-americanos perderam capacidade como centro de tomada de decisões legítimas. administrar os conflitos de acordo com princípios democráticos. entendida como a capacidade do Estado para cumprir suas funções e objetivos. Não existe democracia sem Estado e não existe desenvolvimento da democracia sem um Esta- do para todos. Em lugar de restringi-la a um princípio de legitimação. o qual – inexoravelmente – modifica as relações de poder. Enquanto a tendência atual aponta para uma “democracia eleitoral”. Com Estados frágeis e mínimos. Nesse contexto. essas questões foram ignoradas ou ocultas. o resultado será um déficit de “estatalidad” : sérias falhas na vigência do estado de direito afetarão diretamente a sustentabilidade e o desenvolvimento da democracia. pode-se aspirar unicamente a conservar democracias eleitorais. mas tampouco opera como um sistema auto-regulado. Esta última questão é condição necessária para que os direitos e as obrigações tenham vigência real para todos. A democracia de cidadania precisa de uma “ estatalidad” que assegure a universalidade dos direitos. 1996. Se esta condição não for cumprida. capaz de resolver as relações de cooperação e conflito. ao contrário.A necessidade de uma nova “estatalidad” É indispensável ampliar o debate sobre o Estado na América Latina. sobre o papel da democracia como um âmbito privilegiado de coordenação social. capaz de garantir e promover universalmente a cidadania. em todos os lugares. particularmente em regiões como a América Latina. de maneira universal. e quadro 43 Recuperar um Estado para a cidadania é um desafio central do desenvolvimento da democracia na América Latina. em todo seu território. 82 Seja qual for a definição de cidadania que adotemos. as instituições e os procedimentos democráticos sempre tiveram a função de mediação de interesses e opiniões plurais com o objetivo de decidir “aonde vamos”. cabe perguntar. foi dada a questões como privatizações. porque na América Latina existe uma crise de “ estatalidad” . Com o pretexto da aplicação de reformas institucionais que possibilitariam um melhor funcionamento dos mercados. O poder escapa da democracia e ela perde substância. É imperioso recuperar essa capacidade para promover as democracias. estabelecer equilíbrios macroeconômicos. o vínculo entre cidadania e democracia comporta sempre a idéia de universalidade. Na verdade. O problema de fundo consiste em redefinir a coordenação social em uma sociedade em que o Estado e a política deixaram de ser as principais instâncias de coordenação. Um Estado para a democracia busca igualar a aplicação de direitos e deveres. deveria ser explorado seu potencial como princípio de organização.

um problema que alguns Estados latino-americanos evidenciam é o alto grau de fragmentação e a freqüente falta de diferenciação entre o interesse público e o privado. não são dignas de crédito. além da falta de efetividade de seu siste190 A democracia na América Latina ma legal e da pouca credibilidade do Estado e dos governos. Por outro lado. o clientelismo – uma trama de relações por meio do qual um “patrão” consegue o apoio de outros em troca de certos benefícios – gera privilégios e exclusões. caciquismo e similares. ou alcança de modo intermitente. como também de direitos básicos. Às vezes.assumir a preeminência da democracia como princípio de organização da sociedade. Outra dimensão desse problema é a presença de vários tipos de “legalidade” real. para muitos de seus cidadãos. A partir dessa proposição. que pela via da participação vise a complementar a implementação de políticas públicas. da pesquisa apresentada na segunda seção deste Relatório. essas “legalidades” originamse em regimes discricionários subnacionais que coexistem com regimes que. áreas da região. Cada país da região tem suas peculiaridades. de maneira efetiva. elas exibem deficiências. dedicado seriamente a resolver problemas de interesse geral. em nossa opinião. A solução desses lamentáveis problemas não exige – obviamente – apenas adequadas políticas econômicas e sociais. Requer também uma sociedade civil pujante. A agenda de reformas democráticas deve considerar o Estado em suas três dimensões: como conjunto de entes burocráticos. a nível nacional. O problema central do Estado na América Latina é o de um Estado inconcluso. mas em quase todos há uma ampla proporção da população que se encontra abaixo de um nível mínimo de desenvolvimento humano. de caráter informal. o Estado se desvirtua e se transforma em uma série de agências desconexas com funcionários e políticos ocupados na busca de benefícios. patrimonial e delituoso. débil. além de razoavelmente eficaz. a efetividade do sistema legal é social e territorialmente limitada. os desafios democráticos. em termos não apenas de bens materiais e de acesso a serviços públicos. Esses circuitos de poder baseiam-se no desaparecimento da fronteira entre o privado e o público. 6. As burocracias estatais freqüentemente não têm poder nem eficácia. Quando isso ocorre. as pretensões de ser um Estado-para-a-Nação. 3. 4. como sistema legal e como âmbito de identidade coletiva. e. para que seja capaz de enfrentar. Essas deficiências estão na origem do reduzido poder dos governos latino-americanos para democratizar. O problema do Estado latino-americano não é apenas o tamanho de suas burocracias. são democráticos. 2. sinecurismo. Chama a atenção o fato de uma questão dessa natureza ser freqüentemente ignorada nos programas de reforma do Estado. Na maior parte da América Latina. grandes. deveriam ser contemplados em uma agenda abrangente sobre a expansão da “e statalidad” democrática: 1. da racionalização de processos administrativos. mas sua ineficiência e ineficácia. enunciamos os temas que. e em alguns casos crescentes. entre outros elementos. e no truncamento da legalidade do Estado. Existe um problema particularmente inquietante: a legalidade do Estado não alcança. mas também reclama um Estado abrangente e abarcador. e costuma envolver um tratamento discricionário de recursos públicos. em geral. Os atores desempenham-se sobre a base de instituições informais tais como o personalismo. . Além da eliminação de burocracias desnecessárias e. parentesco. 5. A “e statalidad” é uma condição indispensável para que uma democracia aspire a desenvolver-se além do plano eleitoral. Estas três dimensões variam historicamente. Isso contrasta com a forte reivindicação cidadã de presença estatal. efetivo e confiável. com pouca capacidade para ser efetivo de modo universal. que surge.

organizações delituosas. Essa espécie de “privatização perversa” do Estado. ■ Incapacidade estatal para assumir a representação da diversidade no interior da sociedade. eficazes e eficientes. cobram seus próprios “impostos” e. ■ Perda de credibilidade que provém da falta de transparência e responsabilidade (prestação de contas) do Estado perante os cidadãos. de nepotismo. chegam a ter quase o monopólio da coerção em “seu” território. amiguismo e.7. Para isso. Nelas operam grupos terroristas. que se traduziu. conduziu a intervenções estatais desencorajadoras de um funcionamento eficiente do mercado e promotoras da busca de rendas e da especulação. própria credibilidade do Estado. mais abrangente. o que gera uma legalidade truncada (desigualdade perante a lei. esse não é o caso em algumas regiões da América Latina. ■ Falta de efetividade do sistema legal como conseqüência da presença de sistemas legais patrimonialistas. Essa situação é ainda mais grave no ambiente social da região. Uma função fundamental do Estado é proteger as pessoas da violência privada. de fato. vigência assimétrica dos direitos cidadãos). por parte do Estado democrático. 9. entre outros efeitos. Iglesias. “paramilitares” e outros fenômenos similares. que deriva de sua colonização por interesses particularistas (corrupção). 10. em termos de regime político. 2003. orientadas no sentido de enfrentar os problemas que as sociedades reconhecem como mais relevantes. ■ A questão política. Deveria entender o Estado como centro de tomada de decisões legítimas. que influem decisivamente sobre o aparelho estatal. Enrique V. de uma “captura” das instituições e políticas públicas por interesses particulares (de um partido político ou sindicato ou grupo econômico ou uma família. é preciso debater as questões que. em que os cidadãos mais pobres são os que mais sofrem a violência. colocam em dúvida a eficiência e eficácia de suas burocracias. clientelismo. ou interesses regionais e locais). não controlada pelo Estado. São elas: ■ Ineficiência da ação do Estado e a redução de sua autonomia. O Estado é uma das caras da democracia: um Estado sem poder é uma democracia sem poder. a efetividade de seu sistema legal e a quadro 44 Privatização perversa do Estado Um meticuloso diagnóstico do desenvolvimento da região pode evidenciar um crônico déficit democrático que. presente na base dos fenômenos de corrupção. na América Latina. 8. Rumo a uma democracia de cidadania 191 . No entanto. ■ Incapacidade de alguns Estados para abranger o conjunto de seu território e todos os seus habitantes. A proteção dos cidadãos. em casos extremos. Uma agenda de um Estado para a democracia deveria construir-se a partir da idéia de Nação para a qual pretende-se que o Estado atue. está comprometida também pela violência associada aos delitos contra as pessoas e a propriedade. Esse tipo de violência privada. marcado pela pobreza e pela desigualdade. que foram a expressão. da capacidade estatal de construir seu próprio poder. existe um conjunto muito restrito de políticas que podem ser definidas e implementadas à margem de poderes fáticos locais e internacionais. de maneira a exercer soberanamente o mandato popular. Esses grupos têm seus códigos legais. algumas vezes. Seu nível e persistência colocam em evidência a fragilidade de um Estado incapaz de cumprir suas funções de modo universal. traduziu-se em fenômenos de autoritarismo. Entre outras conseqüências do que vem sendo abordado é preciso mencionar a crítica redução da autonomia do Estado. é uma das principais fontes de violação de direitos fundamentais da população. freqüentemente. texto elaborado para o PRODDAL. A democracia pressupõe a existência de um Estado que obteve o controle sobre a violência em seu território. na persistência do nível de violação dos direitos humanos. 11. ■ Falta de um real monopólio da força por parte de alguns Estados.

Esse não é um problema exclusivo de nossa região. No início deste Relatório. o debate sobre a democracia omite a questão econômica e é realizado. 2002. que várias vezes reiteramos uma pergunta dramática: A quanta pobreza resiste a liberdade? No entanto. o debate sobre a economia e a diversidade de formas de organização do mercado deve estar presente na agenda pública e na opção cidadã. da solução dessa questão. o que deriva na perda de sua credibilidade perante a opinião pública. Tamanha é a dimensão dos problemas da cidadania social. na sua responsabilidade (accountability) perante a sociedade.Uma economia para a democracia Os problemas da cidadania social atentam diretamente contra a perduração da democracia na América Latina.[.. A sustentabilidade democrática depende. com o pretexto de sua complexidade técnica. a processos políticos democráticos. O debate sobre a economia. em particular. José Antonio Ocampo. a questão das condições materiais de vida dos latino-americanos aparecia claramente como o maior déficit da “democracia de cidadania”. porque essa é a forma em que a sociedade dirime suas controvérsias. 83 Ver Fitoussi. Não obteremos respostas úteis para os questionamentos sobre sustentabilidade democrática latino-americana se forem ignorados os desafios peculiares que nascem da coexistência desses três fenômenos. parece útil opormos à conhecida frase “as questões técnicas não se votam”. porque é na economia que reside a solução de boa parte dos déficits de cidadania social.. Quando descrevemos os resultados das indagações empíricas na segunda seção do Relatório. onde os déficits de cidadania sociais atingem a dimensão que indicamos. À luz dessas realidades. Em certos países centrais. em grande parte.] É necessário contar com partidos políticos sólidos que ofereçam à cidadania opções alternativas de ordenamento econômico e social. a de que “o bem-estar de uma sociedade não se decide em um laboratório de técnicos”. Para isso. a tal ponto que questões como o nível de desenvolvimento da democracia. por mais ilustrados que eles sejam. em termos das restrições institucionais que a democracia significa para o crescimento econômico. a tendência crescente no sentido do desenvolvimento de instituições econômicas com níveis de autonomia quase total. 2003. para sintetizar a natureza dessas democracias e a necessidade de impulsionar um novo pensamento que refletisse essa realidade. afirmamos que um aspecto singular e historicamente novo da América Latina é o de ser a primeira região inteiramente democrática composta por sociedades com níveis muito altos de pobreza e com a maior desigualdade social do mundo. a economia deve estar sujeita à política e. Dessa forma. pobreza e desigualdade. freqüentemente. Decisões econômicas substantivas distanciadas da vontade geral pressagiam. a sustentabilidade do siste- quadro 45 A economia e a política Sem descartar a importância de instâncias técnicas em todo bom ordenamento do Estado e sem deixar de reconhecer o aspecto científico da análise econômica. influi diretamente na sua transparência e. texto elaborado para o PRODDAL. está cada vez mais ausente da discussão pública e das opções reais dos cidadãos no momento de votar. um século em que a crise da democracia será dominante.83 Na América Latina. referimo-nos ao triângulo: democracia eleitoral. portanto. na visão de Jean-Paul Fitoussi. 192 A democracia na América Latina . essa questão assume uma importância e uma urgência ainda maiores.

A economia é uma questão-chave para a democracia. a estabilização macroeconômica. e não ser excluída sob o pretexto de ser uma questão que “contextualiza” a organização do Estado. as políticas econômicas são parte dos instrumentos utilizados pelas sociedades para atingir a cidadania plena. as cargas tributárias. etc. a econo84 D. reprodução e troca. a regulação do mercado. ■ Quando esse papel estatal não é assumido. tanto na es- A economia é uma questão da democracia porque dela depende o desenvolvimento da cidadania social e porque é ela que gera e altera as relações de poder. texto elaborado para o PRODDAL. quadro 46 Uma economia para a democracia A economia política clássica criou um mundo econômico que não existe. dependem de nossa capacidade para incorporar a economia e suas opções como um tema da democracia e da sociedade. Na realidade. os serviços de infra-estrutura.] isso torna sempre indispensável a ação do Estado para organizar os mercados. Fazer o Estado dar um passo atrás. um mundo isolado que é sempre idêntico a si mesmo. a democracia torna-se irrelevante e não fiável para desenvolver a cidadania social. é no interior de coletividades bastante diferentes umas das outras que os indivíduos tratam de enriquecer. Pelo contrário. a oferta de mãode-obra. o seguro social e a administração de conflitos de interesses”84. que organiza relações de poder. mia deve ser um dos temas do debate político. O Estado e o mercado são suscetíveis de serem combinados de modos diferentes dando origem à diversidade de formas que a economia de mercado pode adotar. ■ O Estado tem um papel sumamente importante na distribuição da renda via fisco. fixar os padrões de moeda e crédito. o que implica uma forte capacidade de fazer política econômica. um Guterwelt. a economia. foi um erro grave cujos resultados são visíveis. Portanto. as relações trabalhistas. garantir os contratos. as pautas de distribuição da renda. o resultado da organização econômica é uma questão decisiva para a democracia. Na América Latina aprendeu-se que o Estado não pode tratar a economia com leviandade: o Estado (democrático) tem um irrefutável papel orientador sobre a economia. ■ A democracia oferece a garantia mais efetiva de boa governabilidade. Uma concepção dos mercados como um conjunto de instituições “existentes na natureza” leva à aceitação do funcionamento da economia de modo totalmente autônomo das decisões tomadas democraticamente. regulação dos mercados. a distribuição tem conseqüências sobre a eficiência e a própria sobrevivência do sistema econômico. José Nun. como foi definida neste Relatório. Isso se dá porque: ■ A eventual eliminação da desigualdade não é um problema econômico marginal. 2002. o comércio exterior. e a questão do papel regulador do Estado. Rodrik. A economia é uma questão da democracia porque dela depende o desenvolvimento da cidadania social e porque é ela que gera e altera as relações de poder. resultante (ou residual) de uma boa política econômica. e subsídios ou promoção de certos setores ou políticas de longo prazo. Esta afirmação não implica confundir duas formas de organização social claramente diferenciadas: a democracia. e no qual os conflitos entre forças puramente individuais solucionam-se de acordo com leis econômicas imutáveis.. e tanto a natureza quanto o sucesso desses esforços variam de acordo com a natureza da coletividade em que aparecem [. Rumo a uma democracia de cidadania 193 . Do ponto de vista democrático. 2000. que organiza relações de produção.ma e a resolução da crise de representação política. a palavra de ordem dominante nos anos noventa. No entanto. não raquítico.. Existem “cinco funções que as instituições públicas devem oferecer para que os mercados funcionem adequadamente: a proteção de direitos de propriedade. Por isso. especialmente para a democracia de cidadania. Esse papel requer um Estado forte e capaz. a agenda da sustentabilidade democrática deve incluir o debate sobre a diversidade possível de políticas e de organização do mercado. que significava que seu papel não passava de manter a estabilidade econômica e de prover alguns bens públicos. porém.

que teve como uma das expressões o “Consenso de Washington”. e uma visão da “economia de mercado” como antagônica ao intervencionismo estatal. 2001. As opções econômicas devem ser parte do conteúdo renovado da política. José Antonio Ocampo. 194 A democracia na América Latina . indicamos os temas que. mas porque são excessivamente voláteis e dominados por considerações de curto prazo. o pensamento único. nociva e contrária à democracia. suas opções e sua diversidade. a reafirmação quadro 48 Modelo único de desenvolvimento O “fetichismo” das reformas implantadas pelo “fundamentalismo de mercado”. A boa governabilidade só é assegurada por via da democracia. O desempenho das democracias em todas essas áreas foi superior ao dos regimes com participação política restritiva. Essa idéia. não apenas porque os mercados se orientam por razões puramente financeiras.]. encontra-se o pressuposto da existência de um modelo único de desenvolvimento. da primazia da disciplina democrática sobre a disciplina dos mercados deveria ser clara e freqüente. e na medida em que a disciplina de mercado estiver baseada no que se denomina os fundamentais (economic fundamentals) e em considerações de longo prazo.quadro 47 Democracia e Mercado O avanço da democracia e o estabelecimento de regras macroeconômicos claras e fortes não devem ser vistos como situações antagônicas. 2003. texto elaborado para o PRODDAL. assim como o debate sobre a diversidade é uma necessidade imperiosa para reunir a melhor combinação entre o papel do mercado. devem fazer parte de uma agenda centrada em uma visão da economia a partir das necessidades do desenvolvimento da democracia da América Latina: 1. as receitas universal e atemporal atentam contra o desenvolvimento da democracia e da própria economia. 2003. 85 Para estas citações ver Rodrik. E a democracia continua sendo co-extensiva com o Estado-Nação. não existe razão para haver conflito entre os mercados e a governabilidade democrática. Mas a realidade está longe desse ideal. sob o ponto de vista adotado neste Relatório. ■ Os mercados necessitam de governabilidade e regras. texto elaborado para o PRODDAL. essas questões da economia. Nessa situação. nega-se a reconhecer a diversidade existente na democracia [. elas são um componente substancial da agenda pública.. Pelo contrário. ■ Quanto mais amplo for o domínio da disciplina de mercado. mas sim complementares. O trade-off é autêntico.. Os direitos civis. A seguir. Por trás do discurso do chamado “Consenso de Washington”. maior será o espaço para a governabilidade democrática. a agenda da sustentabilidade democrática deve incluir. Em princípio. a liberdade política e os procedimentos participativos são a melhor maneira de assegurar padrões de trabalho. aplicável a todos os países sejam quais forem suas circunstâncias. é “a-histórica”. sob pena de perder o conteúdo.85 Por isso. Em nenhum outro período da história mundial – com a exceção transitória da década de 30 – os problemas da economia mundial foram tão graves como hoje: de- fera econômica quanto na política. compartilhada pelos organismos de crédito internacionais. José Antonio Ocampo. o Estado e o contexto histórico de cada um de nossos países. sustentabilidade do meio ambiente e estabilidade econômica.

mas sim graças a ela. Não devemos esquecer que vivemos simultaneamente em democracias e em economias de mercado. Isso obriga a buscar uma conciliação entre ambas as esferas. em sistemas regidos por um único princípio de organização (por exemplo. o individualismo. do outro. é inelutável que exista tensão entre duas dimensões: de um lado. A democracia não pode permanecer indiferente a essa situação. Por isso. A segunda corrente postula que a tensão sempre existente entre mercado e democracia. as outras. 2. e a desigualdade que tende a ser resultado do funcionamento do mercado. aumento das desigualdades e da pobreza nos países ricos. em vez de romper-se. mas coletivas. a ampliação da esfera do mercado exigiria a limitação do campo da democracia. Somente as formas em movimento conseguem sobreviver. De acordo com a primeira corrente. no que se Rumo a uma democracia de cidadania 195 . como acontece. A tensão entre ambos os princípios é dinâmica. extensa miséria e crises recorrentes em numerosos países em desenvolvimento. Ou melhor. o sistema soviético).semprego em massa. agora não individuais. sucumbem à esclerose. 4. porque permite que o sistema se adapte. exacerbação da desigualdade entre países. e a conseqüente necessidade de existência de um espaço público para a tomada de decisões. 3. geralmente. hoje dominante. as igualdades consagradas pela cidadania democrática. Existem duas correntes que se enfrentam no debate sobre as relações entre o mercado e a democracia. o capitalismo não sobreviveu como forma dominante de organização econômica apesar da democracia.

Esta é uma importante verdade que. quem sustenta a primeira posição costuma considerar indiferente para a economia o tipo de regime político existente em cada caso. de fato. dade na escolha das formas em que organiza seu mercado.quadro 49 Quatro vantagens econômicas da democracia Além do mais. e vice-versa. possibilita uma maior adesão à democracia. autonomia da sociequadro 50 Complementaridade entre democracia e mercado As relações entre democracia e mercado são então mais complementares do que conflitantes. ao limitar o poder da política sobre a vida das pessoas. não apenas o capital financeiro como também alguns tipos de conhecimentos. eficiente e fiável – é um componente indispensável do desenvolvimento. transferir aos fatores menos móveis – ou seja. 5. Tanto uma quanto as outras estão em relação iterativa. ao limitar o poder do Estado e da política sobre a vida dos cidadãos. Diante dessa situação. A democracia. ao mesmo tempo. No entanto. 7. 1985.86 8. aumenta a legitimidade do sistema econômico. ao impedir a exclusão por razões de mercado. 15. que um Estado ajustado à democracia – eficaz. tal como surgem das experiências latino-americanas das últimas décadas: ■ É necessário um debate que identifique políticas que redistribuam a renda sem refere a sua aspiração de igualdade. A democracia. o mercado. diferentes combinações entre Estado e mercado. mostrando que a democracia é uma forma em movimento. cada um dos princípios que regem as esferas política e econômica encontra sua limitação. e o mercado. A abertura das economias favorece os fatores mais móveis. em sua busca por limitar as exclusões provocadas pelo mercado. Um movimento que não se detém jamais”. aumenta a legitimidade do sistema econômico. por conseguinte. Jean-Paul Fitoussi. 10. existe. claro. e nas formas de acionar do Estado. O discurso dos que advogam por mais e mais mercado é claramente antiestatal: “O Estado é um mal necessário. o pensamento único nega. sua legitimação. possibilita uma maior adesão à democracia. Muitas das teorias hoje prevalecentes sustentam que as intervenções do Estado costumam reduzir a eficácia da economia. 1997. 196 A democracia na América Latina . as dos países centrais – não têm os mesmos sistemas de eqüidade social. p. 86 Burdeau. “A história prova que a democracia realizada nunca é mais que um momento do movimento democrático. é preciso limitar radicalmente sua capacidade de intervenção”. no outro. pelo contrário. existem diferentes “variedades de capitalismo”. As sociedades nacionais – inclusive. Isso encerra o risco de reduzir a adesão das populações à democracia e ao próprio mercado. Dani Rodrik. deveria ser resolvida mediante a busca de sua complementaridade. a estabilidade macroeconômica de curto e médio prazo é maior. principalmente ao trabalho – o peso da insegurança econômica. A liberdade coletiva precisa apoiar-se sobre as liberdades individuais. como efeito. grande diversidade nesses sistemas. e. texto elaborado para o PRODDAL. contra toda evidência. as crises exógenas são mais bem controladas e o nível dos salários (e de sua participação na renda nacional) é mais elevado. O aumento da mobilidade desses fatores tem. [Dani Rodrik] coloca a hipótese de que a democracia possui pelo menos quatro vantagens em relação aos regimes autoritários: a variância do crescimento em longo prazo é menor. Desse modo. 2003. Este Relatório sustenta. Isso não deve nos surpreender: a democracia implica diversidade. 9. 6. A democracia pressupõe uma hierarquia entre a política e o sistema econômico e. convém rever com atenção alguns critérios sobre políticas econômicas e sua relação com a democracia.

solidariedade. O segundo aspecto – decerto em contraposição à frustração – é a majoritária opinião favorá- A política social deve guiar-se por quatro princípios básicos: universalidade. e também com as modalidades de sua tributação. evitando assim o “populismo” ou o “facilismo” tão presentes na história da América Latina. é essencial contar com um capital humano qualificado. Por sua vez. a política social deve guiar-se por quatro princípios básicos: universalidade. e o desenvolvimento de serviços de apoio adequados. ■ A busca de maiores níveis de bem-estar para a população exige um crescimento econômico sustentado que se revela. ■ A experiência internacional demonstra que as vantagens competitivas baseadas em baixos salários são frágeis e instáveis. típicas da sociedade contemporânea – em particular.distorcer severamente o funcionamento dos mercados. os meios de comunicação –. eficiência e integralidade. insuficiente. ressaltamos que nossos dados mostram dois aspectos de grande importância prática. Para competir no mundo atual. eficiência e integralidade. O terceiro refere-se à capacidade desses proprietários e empresas de expandir sua influência além dos mercados. O primeiro deles é que muitos latino-americanos têm em comum uma visão extremamente crítica sobre o funcionamento da economia de mercado. é fundamental a produção eficiente. ■ Um acordo político dos distintos setores sociais sobre o que o Estado deve fazer ajuda a legitimar o nível. graças a sua capacidade de lobby e à ampliação de seu controle a outras esferas de poder. a inovação de processos. Para isso. Um segundo tipo de limite está relacionado com o possível abuso do poder de mercado que os grandes proprietários e empresas podem chegar a conseguir. o projeto e a diferenciação de produtos. ■ Os limites à grande propriedade e à empresa privada estão relacionados com os níveis de desigualdade que uma sociedade está disposta a tolerar. porém. solidariedade. a composição e a tendência do gasto público e da carga tributária necessária para seu financiamento. quando vem acompanhado de conseqüências redistributivas desfavoráveis. Rumo a uma democracia de cidadania 197 . Finalmente.

essas restrições questionam a credibilidade do Estado como construtor de sociedade e promotor de cidadania. de saúde e de previdência social. como uma de suas conquistas. não. novamente o problema vital da democracia: a existência ou não de poder para executar a vontade da maioria. no mundo que surgiu após o término do pós-guerra fria. dos sistemas educativos. em geral. Conseqüentemente. mas com menores margens de ação. sua restrição à diversidade. além disso. pe- . 2. No entanto. O mundo está em todos os lugares. Ao mesmo tempo em que favoreceu o progresso da democracia. as relações de poder. Paradoxalmente. outra coisa são nossas aspirações. A globalização trouxe o mundo exterior para o interior de nossas sociedades. o tema que emerge como prioridade é a contradição entre a necessidade da diversidade – que reclama um importante grau de autonomia dos países e um sistema mundial baseado em normas claras e comuns – e um mundo homogeneizado por relações de poder que deixam aos atores nacionais a capacidade de regulação normativa apenas em questões relativamente marginais. Expressa-se aqui. a globalização. A ação isolada da maior parte dos Estados nacionais latino-americanos revela-se insuficiente para influir. basicamente militares e econômicas. Uma coisa é a realidade que nos rodeia. Condicionam ou determinam as decisões do Estado e seu campo não se limita às finanças ou ao comércio. reconhecer a natureza das relações que regem o mundo em que vivemos não deveria nos fazer abandonar a idéia de uma ordem mundial regida por normas. que escolha sobre questões substantivas os cidadãos podem fazer? Qual é a possibilidade de que seja cumprido o que decidiram? Em relação a essa questão central. seu dado dominante: os poderes exteriores deixaram de ser exteriores. Mas o poder do mundo. Nessas condições. Poder e políticas democráticas na globalização Uma agenda mais ampla sobre a globalização deve incluir um debate sobre sua natureza política e militar. como resultado do peso crescente da condicionalidade imposta pelos organismos internacionais de crédito e. mas não fantasias.vel à intervenção do Estado na economia. utopias talvez. Mas o poder do mundo. controlar e regular esse processo. regulam o sistema internacional. de outra maneira. as questões políticas. E ainda mais. para que o poder nacional não desapareça em nome de um incontrolável poder global. A luta por um sistema internacional democrático de direito não deveria deixar de ser uma reivindicação permanente de uma civilização que apresenta. deixou nas mãos dos Estados nacionais a complexa tarefa de manter a coesão social. Com efeito. A globalização coloca cruamente as questões do poder dos Estados nacionais e do poder dentro dos Estados. de segurança e organização interior. Nessas condições. condutas são regidas por normas destinadas a preservar o direito igualitário de todos. e conceber as estratégias possíveis para aumentar as capacidades nacionais e regionais. e as fortes limitações ao poder estatal. Abrangem. a globalização impôs restrições. Na América Latina. indivíduos e Estados. a democracia e a idéia de que as 198 A democracia na América Latina A globalização trouxe o mundo exterior para o interior de nossas sociedades. O mundo está em todos os lugares. um conjunto de reflexões e temas que deveriam nutrir o debate sobre a globalização e o desenvolvimento da democracia: 1. ou ainda para opor resistência a suas tendências. o Relatório apresenta. não. inclusive aos Estados mais fortes e desenvolvidos. trazem consigo grandes conseqüências sobre o tipo de políticas possíveis para os governos da região. e ao mesmo tempo em que isso acontece. a seguir. enquanto desgastou a capacidade de ação dos governos. são tão interiores quanto os locais. cada vez mais. particularmente a eficácia de seus instrumentos de regulação econômica. é preciso ampliar o debate sobre a globalização em duas áreas para: dimensionar o impacto real da soberania interior dos Estados. ou beneficiar-se com ele. O debate que naturalmente existiu até agora deu ênfase aos assuntos financeiros e comerciais da globalização e deixou relativamente à margem.

sustentando que a assimetria de forças é tal que não há lugar para políticas autônomas. bem como que esses espaços podem ser ampliados se houver uma vontade política. as atuais instituições regionais e subRumo a uma democracia de cidadania 199 . há uma grande distância entre essa constatação e a passividade governamental. Esta preocupação deve ser enfatizada porque podemos estar nos dirigindo a uma política que maneja agendas especificamente limitadas que. texto elaborado para o PRODDAL.la mobilidade do capital financeiro. muito menos. Entretanto. Por isso passa a ter sentido e urgência o renascimento político dos esforços regionais que. recriem e aumentem os espaços políticos de decisão própria. 10. Por sua vez. 2003. podem nos conduzir a agendas irrelevantes ou negadoras da diversidade de caminhos e critérios que a especificidade de cada um de nossos países deveria refletir. O reconhecimento das restrições existentes não obriga necessariamente a aceitar o statu quo. a sua lealdade em relação a ela. como afirmamos ao longo deste Relatório. como também à região em seu conjunto. 3. conseqüentemente. que tenham caráter supranacional. 5. É perigoso cair no fatalismo face à globalização. fora do alcance do controle dos cidadãos. e exercer uma mediação eficaz com as tensões próprias da globalização. consistente e sustentada. de participação e de tomada de decisões puderem determinar as estratégias de desenvolvimento econômico e social. A democracia se vê severamente prejudicada pela crescente transferência de importantes decisões para âmbitos que estão quadro 51 Globalização e impotência da política A globalização não apenas aumenta a participação do mercado no sistema de eqüidade e reduz a participação da democracia. O fundamental é que os Estados da região decidam abordar o tratamento desses temas no plano político. mas o faz em nome da eficácia do mercado e de uma ordem superior à da democracia. 8. de construção de instâncias regionais. 9. sob a perspectiva do desenvolvimento da democracia também é preciso debater a construção dos espaços de autonomia mencionados no ponto anterior. Isso não significa necessariamente a criação de novas organizações para assumir essas tarefas nem. infelizmente muito difundido. encontrar a maneira de aumentar a capacidade de autonomia na definição e solução dos grandes problemas que nos afetam. Isso significa que o reconhecimento da democracia como valor universal só adquire pleno sentido se os processos nacionais de representação. mais cedo ou mais tarde. deve ser proposto como meta central para a construção e expansão de diversas cidadanias. 7. Os lugares institucionais de realização da cidadania política continuam sendo essencialmente nacionais. Jean-Paul Fitoussi. além de serem esforços meramente comerciais. Esse fatalismo. Como conseqüência do que foi colocado anteriormente. Para isso. A construção de um espaço de autonomia dos Estados nacionais face à globalização constitui um desafio próprio da política democrática que. 4. Isso implica debater também políticas de alcance regional que possibilitem um aumento compartilhado dessa autonomia. Isso tende a colocar em questão nada menos que a relevância real da democracia para os cidadãos e. os nacionais e os dos cidadãos. eles são necessários para que as democracias latino-americanas possam adquirir sólida sustentação e expandir-se. entende-se que. É o que se denomina atualmente impotência do político. 6. ignora os espaços reais de negociação que existem no mundo. vêm se reduzindo os espaços para a diversidade de modelos de organização social e econômica próprios da democracia. é uma questão que diz respeito não apenas a cada país.

de que a economia substituía a política. Não se trata apenas dos problemas clássicos da relação centro-periferia. tanto de grupos insurgentes quanto do próprio Estado. A questão da segurança voltou ao centro do cenário. 19. A experiência que tivemos na América Latina. a tarefa da integração política é a construção da Nação e a construção da região. as conseqüências de respostas inapropriadas sobre essas capacidades e sobre a própria democracia. No entanto. os fenômenos exteriores são tão imediatos e cotidianos quanto os produzidos no próprio território das nações. 12. 20. 16. o império e suas zonas de controle. com uma única potência hegemônica. A preeminência da questão do terrorismo traz para a análise. envolve novos desafios. 15. A centralidade da questão da segurança na agenda internacional suscita uma tensão com a democracia e as liberdades. a partir desse momento. Por sua vez. com os ajustes de agenda e estrutura que serão indispensáveis. Isto é. o perigo da violência terrorista não é uma hipótese abstrata para a região. por um lado. com o ataque terrorista aos Estados Unidos. durante várias décadas alguns países latino-americanos sofreram grande violência. Recentemente. Os países centrais têm melhores contrapartidas que os nossos para resolver essa tensão. nas décadas anteriores ao fim da guerra fria. A idéia de que a globalização havia transferido o centro das relações internacionais das questões militares e de segurança para as financeiras. Em um passado recente. a região tem uma forte carga de antecedentes nessa matéria. uma associação política de Estados soberanos. Nela. evitar que essa resposta enfraqueça sua capacidade de democratizar ou diminua a qualidade da democracia. Além disso. com forte impacto sobre os sistemas multilaterais de defesa coletiva. bem como da singularidade de suas democracias. Assim colocada. foi objeto de vários atentados terroristas graves. A capacidade de construção autônoma em um mundo globalizado.regionais possibilitam uma razoável base de ação. 17. É fundamental para a democracia que os problemas de segurança não figurem como parte de uma agenda imposta. Nesse sentido. 13. a questão da segurança adquire centralidade. os acontecimentos marcaram uma mudança substancial nas relações mundiais. critérios próprios para inspirar suas opções de resposta ao perigo instaurado pelo terrorismo. O pós-guerra fria terminou em 11 de setembro de 2001. além de tudo. 14. as relações de poder militar marcaram de maneira decisiva os vínculos mundiais. mas. dentro dos limites da interdependência. as práticas de poder imperantes nas relações internacionais não tendem a levar em conta essa necessidade. Uma posição passiva nessa matéria pode nos tornar altamente vulneráveis a estratégias exteriores. definidas sem levar em consideração importantes interesses. mas que sejam assumidos com soluções próprias. uma região de nações em que umas e outras se complementam e reforçam. Portanto. . o impacto de uma potencial agressão terrorista sobre as capacidades estatais e. à luz do que ocorreu em 11 de setembro e suas conseqüências. O ordenamento internacional deveria respeitar a diversidade dos países (entre eles e em cada um deles). Por sua vez. por outro. é um bom exemplo do que suce200 A democracia na América Latina de quando a questão da segurança torna-se o prisma central sob o qual a política e as relações internacionais são observadas. A resposta apropriada refere-se à capacidade estatal de responder eficazmente ao perigo de agressão e. Os países da região devem formular. próprios de nossa região. ao mesmo tempo. 11. 18. dissipouse. trata-se dessas relações no contexto da globalização atual. transformando-se na matéria prioritária da política mundial.

Desse modo. colocando a política no centro. vai mais além.Em síntese O Relatório propôs que a democracia entendida de maneira minimalista. mas também é preciso atuar para modificar essas macrotendências na conjuntura de cada país. O Relatório. Trata-se de discutir como se pode avançar no caminho de uma cidadania integral. É preciso entender a transformação constante e rápida que ocorre no mundo de hoje. Considera que se deve ampliar o horizonte da democracia. Criar uma visão integral da cidadania e articular o funcionamento da economia com as decisões políticas da comunidade de cidadãos são alguns dos temas que emergem deste Relatório para suscitar uma nova forma de debater a democracia na região latino-americana. dentro de um marco de plena vigência do estado de direito. não apenas é importante como é uma condição sine qua non para poder qualificar um regime de democrático. mas não se trata pura e exclusivamente de admitir que tudo o que sucede como conseqüência da transformação tecnológica e da expansão dos mercados deve ser aceito sem reflexão e sem ação. Rumo a uma democracia de cidadania 201 . não apenas aperfeiçoando os mecanismos institucionais da política e a implementação efetiva dos direitos civis para todos os cidadãos. possa participar em decisões substanciais. é preciso conviver com incertezas. como a possibilidade de exercer o direito de voto periodicamente para eleger governantes. a economia não é tampouco um dado a ser assumido passivamente. Já se sabe que há diversas formas históricas bem-sucedidas que conviveram em marcos culturais diferentes. então. não existe uma maneira única de pensar e de fazer funcionar o mercado. de maneira que o cidadão. esse organismo que deve não apenas proporcionar a máquina burocrática administrativa de cada país. para poder construir políticas sociais que visem à ampliação da cidadania social. para que possa arraigar-se. Trata-se de implementá-la regional e localmente com uma atitude pró-ativa e não meramente passiva. Essa comunidade de cidadãos deve. mas também respeitar e ampliar as instituições políticas e o estado de direito. e lançar as bases para assegurar a eqüidade. porém. A globalização é um dado. promover uma nova legitimidade para o Estado. como também atendendo à expansão efetiva da cidadania social. e mais precisamente a comunidade de cidadãos.

202 A democracia na América Latina .

Foi assim que ocorreu. com a realidade. Se nos mantemos exclusivamente no território da idéia. econômicos. sociais. Idéia e realidade vivem uma constante tensão. de fato alcançado? Que deve ser feito para assegurar o que foi alcançado e seguir avançando? Desafiados por essas básicas interrogações é que este trabalho foi lançado há dois anos. então. portanto. pois todas as vezes que liberdade e justiça se conjugaram separadamente. mas as idéias também caíram em suas próprias armadilhas. o poeta alemão Heine advertiu os franceses de que não deviam subestimar o poder das idéias: os conceitos filosóficos alimentados no silêncio do escritório de um acadêmico podiam destruir toda uma civilização”. que não é outro senão o de assegurar as liberdades e organizar um governo representativo do povo.Reflexões finais O eterno desafio Em um de seus célebres ensaios. o trabalho que contou com a colaboração. removendo. Nos anos setenta. procurando encontrar alguns métodos objetivos para medir realidades sempre mais complexas do que qualquer estatística. repleto de contradições. O devir histórico mostrou. podemos traí-la na ação. no entanto. atores políticos e civis. capaz. de governos e partidos. interrupções e retomadas. Isaiah Berlin nos recorda que “há mais de cem anos. consultando. ReuniReflexões finais 203 . que ultrapassaram as fronteiras dos princípios. qualquer caminho para um trabalho dessa natureza estava interditado. despertando interesses. Devemos recordar que se hoje isso é possível para o PNUD é porque a região atingiu um nível de desenvolvimento da democracia como nunca antes. e essa idéia continua sendo o cerne de sua visão de futuro: construir uma sociedade democrática. Algumas vezes foram os fatos. definir conceitos e contrastálos. Quanto de construção desse ideal foi. É preciso. os libertadores canalizaram seu esforço. então. sem exceção. porque o mapa latino-americano era sombrio. entardeceres e alvoradas. Seu processo de independência esteve indissoluvelmente ligado à concepção republicana e. um estranho périplo. Se a perdemos de vista em uma luta acirrada contra as realidades injustas. para ela. com tantas ditaduras que não existiam condições para que a organização internacional tentasse uma profunda reflexão sobre a questão. de fazer com que essa liberdade se concilie com o máximo possível de igualdade entre as pessoas. perguntando. quando se sonhou em superar o núcleo central da idéia democrática. A partir dessa premissa cheia de esperança abriuse. arriscamos cair em um perigoso e desconexo empirismo. militares. protagonistas econômicos e acadêmicos. A América Latina foi filha de uma idéia. ambas se viram em situação de risco. em passos aproximativos. infelizmente.

as desigualdades sociais. estudos. é desalentar a sociedade em seu necessário e constante aperfeiçoamento. seminários. entrevistas. hoje.ões. seria colocar tudo em risco. sempre será insatisfatória. assumimos que a realidade nunca nos deixará conformados porque. colecionando déficits e carências. mas sem pausa. Todas as vezes que se quis tentar. Como nos disse Pierre Rosanvallon. como nos diz Giovanni Sartori. E hoje se chega a este Relatório sobre a democracia com a convicção de que. uma aproximação sobre realidades que merecem preocupação e a configuração de alguns instrumentos para que a constante revisão permita a todos nós seguir construindo. algum sistema com todas as respostas. Herdeiros dessa experiência. independentemente de suas inevitáveis limitações e necessárias imperfeições. além de seu valor intrínseco. O propósito inicial de gerar um clima estimulante à reflexão foi ganhando corpo. Esta incômoda sensação de que nunca nada está terminado constitui a própria idéia da liberdade. introduzem notas de instabilidade. Se este Relatório contribui para instalá-la na preocupação afirmativa de todos os seus atores. uma convicção de que é necessário – e possível – atuar sobre nossa situação. construiu-se um totalitarismo. que não é julgar ninguém. terá conseguido seu propósito fundamental. investigações estatísticas foram povoando um grande conjunto que. fosse assumido na sociedade. mas também sabemos que sendo a democracia “antes de tudo um ideal”. “a democracia formula uma pergunta que permanece continuamente aberta: é como se nenhuma resposta adequada pudesse lhe ser dada”. Esses avanços. Daí a necessidade constante de prevenir. devemos procurar seu constante aperfeiçoamento. mas sim uma realidade sobre a qual se atua. hoje se pretende que a melhora democrática não seja simplesmente uma expressão retórica. comparada com a idealização pura. caindo na ilusão de uma meta alcançada. Na mesma linha inovadora. Tampouco a análise específica de alguma patologia determinada. Foi o que o PNUD fez com o Índice de Desenvolvimento Humano e assim conseguiu que esse modo de avaliar. A pobreza. sem pressa. em nome da democracia. Subestimar o progresso atingido. sempre e a toda hora. gerou em toda a região um interesse no tema. Não está aqui a tomografia computadorizada de nenhum Estado concreto. e com ela temos de conviver. essas buscas respondem à idéia de que democracia e desenvolvimento humano são apenas duas caras da mesma moeda. Deleitar-se nele. O século passado. relatórios. sempre questionável. o choque étnico. registrando avanços e retrocessos que possam ser vistos com objetividade. independente do parcial e insuficiente PIB. O que realmente se define é uma idéia geral da saúde democrática. em um momento histórico em que uma revolução científica transforma a nossa vida todos os dias. talvez tenha sido o que gerou maiores tragédias nessa busca. o divórcio entre as expectativas e as realidades. mas sim estimular a todos. Por isso 204 A democracia na América Latina . coloca-se à disposição de toda a sociedade latino-americana um instrumento de trabalho.

Julio María Sanguinetti Ex-Presidente da República Oriental do Uruguai Presidente da Fundação Círculo de Montevidéu Reflexões finais 205 . a partir desses instrumentos elaborados. ainda. abre-se uma nova etapa no caminho. como no destino do homem. ao mesmo tempo. Esse esforço deve prosseguir e até pode-se abrir aqui. é a mais desafiante. um procedimento permanente de observação e análise e. adaptando-se aos tempos. O esforço das últimas duas décadas foi formidável e suas conquistas devem ser apresentadas com toda plenitude. Não haverá respostas definitivas para suas interrogações. de difusão de experiências e prevenção de riscos. por ser sempre inacabada. mas sempre haverá. como a mais revolucionária das idéias e. simplesmente. oportunidades para fazer o bem aos semelhantes.aqui. A consciência alerta é o único estado de ânimo para que a democracia continue sua vida. Ela permanece.

206 A democracia na América Latina .

Juan Carlos Maqueda. Felipe González. Ricardo López Murphy. Fernando Henrique Cardoso. Rosario Green. Rodolfo Terragno. Diretor da América Latina de EUROPEAID. Patricio Aylwin. Soares. Jaime Paz Zamora. Pena. Arthur Virgílio e Ségio Werlang. Jovino Novoa. Diretor Geral. Fernando Valenzuela. Celso Pinto. César Gaviria. Diretor da América Latina. Direção de Relações Exteriores. Argelina Figueiredo. e Carolina Tohá. Henrique Meirelles. Joaquín Morales Solá. Hugo Moyano. Luiz Suplicy Hafers. Marcos Coimbra. Carlos Ominami. Aníbal Ibarra. Bolívia: Esther Balboa. Benito Baranda. Osvaldo Hurtado. Luiz E. Diretor Geral Adjunto e Tomas Dupla del Moral. Clube de Madri. José Manuel De la Sota. Joseph Stiglitz. Clóvis Rossi. Fundação Chile XXI. Willem Assies. Jarbas Passarinho. Marco Aurélio Garcia. Jorge Elías. Fernando Mayorga. Chile: Andrés Allamand. Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima. Enrique 207 . José Eduardo Faria. Edgar Ramírez. Filmar Mauro. José Antonio Ocampo. Fernando Henrique Cardoso. Miriam Leitão. Lourdes Sola. Horacio Verbitsky e Oscar Vignart. Víctor De Genaro. Arturo Martínez. Universidade de Bolonha. Gustavo Fernández Saavedra. João Paulo dos Reis Velloso. Pedro Simon. Juan Pablo Illanes. Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Carlos Calvo. Jaime Campos. pelo respaldo e interesse demonstrado para a publicação e difusão deste Relatório. Círculo de Montevidéu. Organização dos Estados Americanos (OEA). Dante Caputo. Natalio Botana. Eneko Landaburu. Cândido Grzybowski. Ricardo Lagos. Fernando de la Rúa. Adolfo Rodríguez Saá. Corporação Latinobarômetro. Comparato. Helio Jaguaribe. Manuel Antonio Garretón. Cândido Grzybowski. Participantes da Rodada de Consultas Argentina: Raúl Alfonsín. Eduardo Frei. Julio Godio. Antônio Delfim Neto. Paulo Cunha. Oded Grajew. e Gonzalo Sánchez de Losada. bem como a todos os funcionários da Direção Geral de Relações Exteriores e do Escritório de Cooperação EuropeAid que colaboraram neste projeto. particularmente a Chris Patten. Norbert Lechner. Ives Martins. Fábio K. João C. Eduardo Gamarra. Jean-Paul Fitoussi. Ricardo Nuñez. Elisa Carrió.■ Agradecimentos Este Relatório não poderia ter sido elaborado sem a generosa colaboração de muitas pessoas e organizações às quais expressamos nosso agradecimento. Jorge Casaretto. Suely Carneiro. Instituto para a Democracia e Assistência Eleitoral (IDEA) e Associação Civil Transparência (Peru). Márcio Pochmann. Raúl Alconada Sempé. Rubens Ricupero. Frei Betto. Luiz Carlos Bresser-Pereira. José Márcio Camargo. Autores de artigos sobre temas da agenda Manuel Alcántara. Centro de Estudos Sociais e Ambientais. Carlos Mesa. e Fernando Cardesa. Vicentinho. BelisaAgradecimentos Instituições que colaboraram na elaboração e discussão do Relatório Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). Fernando Calderón. Jorge Quiroga Ramírez. Cardenal Julio Terrazas e Francisco Thoumi. Iglesias. Ruben César Fernandes. Augusto Ramírez Ocampo. Rosendo Fraga. Edgardo Boeninger. Brasil: Luiz Gonzaga Belluzo. Joaquim Falcão. Jorge Inzunza. Comissário de Relações Exteriores da Comissão Européia. Colômbia: Ana Teresa Bernal. Celi Pinto. Martha García. Gostaríamos de expressar um especial reconhecimento à União Européia.

José Mujica. Sergio Aguayo. Carlos Roberto Reina. Calixto Ortega. Hipólito Mejía e Jacinto Peynado. Leonardo Pisani. Juan Sánchez Navarro. José Vicente Rangel. Martín Torrijos e Alberto Vallarino. Sergio Sarmiento. Antonio Guterres. Valentín Paniagua. Salvador Samayoa. Andrés Manuel López Obrador. ex-Primeiro Ministro do Canadá e Presidente do Clube de Madri. Alejandro Armas. exPresidente do Governo Espanhol. ex-Presidente da Colômbia.Miguel Facusse. Sabas Pretelt de la Vega. Uruguai: Diego Balestra. Rodrigo Borja. Carlos Guillermo León. Héctor Fajardo. Jorge G. Humberto Corado. Liber Seregni e Ricardo Zerbino. Jesús 208 A democracia na América Latina Reyes Heroles. Guillermo Endara. Felipe Calderón Hinojosa. Jaime Nebot. José Francisco Paoli Bolio. Janet Kelly. Luis Alberto Lacalle. Peru: Julio Cotler. Santiago Creel. ex-Presidente do Equador. Miguel Ángel Rodríguez. Javier Silva Ruete. Mesías Tatamuez Moreno. Luis Jorge Garay. Gustavo Pinto. Cristina Muñoz. Guatemala: Marco Vinicio Cerezo. Benjamín Ortiz. Héctor Florit. Ernesto Zedillo. César Verduga. Nicarágua: Carlos Fernando Chamorro. Milda Rivarola. Osvaldo Hurtado. Eduardo Fernández. México: Lorenzo Meyer. Romeo Pérez. ex-Presidente da Bolívia. Manuel Arango. Carmen Lira. Jorge Rojas. Francisco Hernández. Juan Ramón de la Fuente. Sergio Ramírez Mercado e José Rizo Castellón. Enrique Riera. Aníbal Cavaco Silva. Nicanor Duarte Frutos. Julio María Sanguinetti. Héctor Silva e Eduardo Zablah Touché. Honduras: Isaías Barahona. República Dominicana: Manuel Esquea Guerrero. Álvaro Valencia Tovar e Luis CarlosVillegas. Luis Ugalde e Ramón Velásquez. Rosalina Tuyuc e Raquel Zelaya. Equador: Rodrigo Borja. René Núñez Tellez.Horacio Serpa. Ernesto Samper. Fernando Londoño. Guillermo Fernández de Soto. Luis Verdesoto e Jorge Vivanco. Teodoro Petkoff. Rodrigo Paz. Humberto Rubin. Luis Felipe Bravo Mena. Pedro Fadul. Cecilia Sosa. Angélica Maytin. Paraguai: Martín Almada. Jorge Quiroga Ramírez. Wilfredo Navarro Moreira. Carlos Flores Facusse. Felipe de Jesús Cantú. Alfonso Portillo. Francisco Santos. Luis Solari de la Fuente. Cuauhtémoc Cárdenas. Soledad Loaeza. Juan José Larrañeta. Jorge Del Castillo. Gregorio Rosa Chávez. Julio Roberto Gómez. Eduardo Frei. Amalia García. Susana González. Leonardo Garnier. Nelson Argaña. Costa Rica: Oscar Arias. David Escobar Galindo. Albino Vargas e Samuel Yankelewitz. Diego García-Sayán. Beatriz Paredes. Castañeda. Vicente Fox. Antonio Isa Conde. Carlos Elizondo. Miguel Lluco. Roberto Madrazo. Eduardo Lizano. El Salvador: Armando Calderón Sol. Juan José Ramos. ex- . Arturo Montiel. Eugenio Clariond. ex-Primeiro Ministro de Portugal. Marco Augusto García. Elizabeth Odio Benito. Marena Briones. ex-Presidente do Chile. Alfredo Palacio. Alfredo Negrete. Álvarez.rio Betancur. ex-Presidente de Honduras. Participações especiais Belisario Betancur. Ricardo Maduro e Leticia Salomón. Lucio Gutiérrez. Alberto Garrido. Gilberto Borja Navarrete. Guillermo García Ponce. Violeta Granera. Enrique Mendoza. Antonio Navarro. Valentín Paniagua. Bernardo Sepúlveda. Leonel Fernández Reyna.Mauricio Funes. ex-Presidente do Equador. José Luis Reina. Fernando Henrique Cardoso. Luis Téllez. Ottón Solis. José Eguiguren. Ramiro González. Felipe González. Carlos Holguín. Alejandro Toledo e Alan Wagner. Panamá: Miguel Candanedo. Kim Campbell. ex-Primeiro Ministro de Portugal. Gustavo Porras. Carlos Fernández. Mariano Palacios Alcocer. Luis H. Rosario Robles. Rafael Roncagliolo. Jorge Batlle. ex-Presidente do Peru. Rafael Leonardo Callejas. Ricardo Franco. Roberto Nesta. Venezuela: José Albornoz. Carlos Ferrero Costa. Hernando Gómez Buendía. Osvaldo Hurtado. Joaquín Cevallos. Arturo Núñez. Gastón Garatea Vori. ex-Presidente do Brasil. Raúl Benitez. Miguel Abdón Saguier e Aldo Zucolillo. Santiago Levy.Norma Cano. Rolando Cordera. Lourdes Flores Nano. José Woldenberg.

Conselheiro Principal Escritório BID na Europa e Lucinio Muñoz. Myriam Méndez-Montalvo. Adjuntos e Auxiliares dos Escritórios do PNUD na América Latina Jeffrey Avina. Elena García-Ramos. Alfredo Marty. Walter Ricciardi. Guillermo de la Dehesa. Kim Bolduc. Walter Franco. ex-Secretário de Estado de Economia da Espanha. Elisabeth Díaz. Julio María Sanguinetti. Marina Mansilla Hermann. Marcelo Bagnasco. Elisabeth Fong. Jafet Enríquez. Elizabeth Hayek. Susana Gatto. Aase Smedler. Representantes Residentes. Katica Cekalovic. Jessica Faieta. Renata Claros. Mercedes Ansotegui. ex-Presidente do México. Jessica Faietta. Cecilia Del Río. Presidente do BID. Juan Manuel Salazar. Barbara Pesce-Monterio. Santiago Redecillas. Agradecimentos 209 . Martín Santiago. Silvia Rucks. Nossos agradecimentos especiais a Jacques Le Pottier. Ana Edmunds.Presidente da Costa Rica. Saioa Royo. Ligia Elizondo. Myriam Di Paolo. Bruno Moro. Jorge Martínez. especialmente a Marck Suzman. Benigno Rodríguez. Funcionários do Escritório do Administrador do PNUD Nossos agradecimentos aos funcionários do Escritório do Administrador do PNUD. Decano da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Toulouse Le Mirail. Ernesto Garzón Valdés. que ofereceu seu apoio e facilitou o acesso aos recursos dessa universidade. Pablo Vinocur. José Manuel Hermida. Guillermo Iglesias. Cielo Morales. Alfredo Witschi-Cestari. Andrea Botbol. e em especial a Freddy Justiniano. Susana Pirez. Vivian Joensen. Diretor Geral Adjunto de Relações Exteriores da União Européia. María Noel Vaeza. Roberto Galvez. María Angélica Wawrzyk. César Miquel. Natalia Aquilino. Juan Pablo Corlazzoli. Funcionários do Escritório de Enlace do PNUD em Bruxelas Nossos agradecimentos aos funcionários do Escritório de Enlace do PNUD em Bruxelas. Pablo Basz. Liliana De Riz. Henry Jackelen. Miguel Ángel FernándezOrdoñez. Carlos Felipe Martínez. aos quais expressamos nosso agradecimento. MaríaNoel Vaeza e Gemma Xarles. Funcionários do Escritório do PNUD na Argentina O Escritório do PNUD na Argentina. Secretário Geral do Clube de Madri. ex-Presidente do Uruguai e Presidente da Fundação Círculo de Montevidéu. María Inés Jezzi. Jorge Chediek. Beatriz Martínez. Enrique Ganuza. Claudio Tomasi. especialmente Carmelo Angulo Barturén. Enrique Iglesias. César Gaviria. Funcionários da Direção para América Latina e Caribe do PNUD A equipe do projeto agradece. Isabel Chang. ex-Secretário de Estado de Economia da Espanha. Oscar González. Beat Rohr. particularmente. Luis Francisco Thais. Pablo Martínez. Daniela Del Río. Lucien Muñoz. ex-Presidente da Comlômbia e Secretário Geral da OEA. a estreita colaboração dos funcionários do PNUD. Rosa Santizo. lugar Sede do projeto. Elba Luna. Gilberto Flores. Itziar Abad. Carlos Lopes. Jan-Jilles Van der Hoeven. ofereceu uma inestimável colaboração. e Susana Etcheverry. Fernando Carrillo-Florez. Clemencia Muñoz. Sonia Urriza. Thierry Lemaresquier. Ana Inés Mulleady. Niki Fabiancic. Jacqueline Carbajal. José Antonio Ocampo. Adjunto ao Secretário Geral do Clube de Madri. Peter Grohmann. Susana Gatto. Lorenzo Jiménes de Luis. Juan Carlos Crespi. Juan Carlos Magnaghi. Ricardo Salas e Geraldine Watson. Lydia Legnani. e apoio organizativo e administrativo. Ernesto Zedillo.Antonio Molpeceres. Roberto Monteverde. Omar Baquet. José Ignacio López. Ilona Szemzo. Cristina Fasano. Claudio Flichman. Beatriz López. William Orme e Victor Arango do Escritório de Comunicações do Administrador. René Mauricio Valdés. Adelina Paiva. Presidente Clube de Tampere. Fernando Valenzuela. ex-Secretário Executivo da CEPAL e atual Subsecretário Geral da ONU para Assuntos Econômicos e Sociais. Irene Phillip. Antonio Álvarez-Couceiro. Gerardo Noto. Aldo García.

Luz Patricia Herremann e Patricia Marrón. Daniel Igartua. Jorge Heine. Norma Guerrero e Santiago Burbano. Rafael Poleo. Juan Ramírez. J. Julio Angel. Colômbia: Adriana Anzola. Leandro Garcia Silva. Carlos Mauricio García. Joseph Stiglitz. Honduras: Doris Rivas. Joaquín Estefanía. Eugenio Ortega. Na discussão sobre a crise da política. Ester Levinsky. Freddy Justiniano. Equador: José Balseca. Osvaldo Hurtado. Maria Hermínia Tavares de Almeida e José Woldenberg. Antonio Álvarez Cruceiro. Hernando Goméz Buendía.C. Álvaro Díaz. Juan Rial. Edgardo Lepe. Henry González e Vera Brenes. Myriam Mendez-Montalvo. Julio María Sanguinetti. Augusto Ramírez Ocampo. Rodolfo Mariani. Heraldo Muñoz. Jorge Levi Mattoso. Nicarágua: Dina Garcia e Gloria Altamirano. José Carlos Libânio e Wilson Pires Soares. María del Pilar Rojas. Enrique Santos. Eduardo Graeff. Ingrid Melgar. Arodys Robles Soto.Funcionários dos Escritórios do PN na UD América Latina Bolívia: Cecilia Ledesma. Peru: Carolina Aragón. Fátima Cruz. Rodolfo Gil. Juan Fernando Londoño. Paraguai: Inés Brack e María Clavera. Brasil: Filipe Nasser. Raúl Alconada Sempé. Aníbal Fernández. Michael John Coppedge. Mario Solari e Pilar Airaldi. Katty Grez. Gemma Xarles e Daniel Zovatto. Em uma reunião para revisar o Índice de Democracia Eleitoral contribuíram com seus conhecimentos Horacio Boneo. Alice Ayala. Amalia Paredes. Na análise do estado atual e das perspectivas da democracia na América Latina participaram Héctor Aguilar Camín. Marco Aurélio Garcia. Verónica Oyarzún. Simón Pachano. Julio María Sanguinetti. Andrés Oppenheimer. Uruguai: Mónica Voss e Verónica Nori. Federico Storani. participaram Carmelo Angulo Barturén. Chile: Alejandra Cáceres. Josefa Errázuriz. Fernando Carrillo-Florez. Martín Santiago. Costa Rica: Arlene Méndez Solano. Guatemala: Carmen Morales. Christian Jetté e Patricia Cusicanqui. José Antonio Ocampo. Fernando Medina. Alonso González. Marcelo Contreras. Juan Gabriel Valdéz e Isabel Vásquez. Michael Smithson. Mauricio Ramírez e Patricia Lizarazu. John Mark Payne. Manuel 210 A democracia na América Latina Antonio Garretón. Elena Martínez. Rodrigo Pardo. Karina Servellón e Lesly María Sierra. Jorge Reyes. Nicolás Eyzaguirre. Freddy Justiniano. Jorge Castañeda. Panamá: Marta Alvarado.Javier Solanas . Adam Przeworski. Bartolomé Mitre. Alfredo Negrete. El Salvador: Esther López e Morena Valdez. Dante Caputo. Carla Pietrantoni. Cecilia Zúñiga. Dante Caputo. Elisabeth Spehar. Danilo Arbilla. Juan Alberto Fuentes e Myriam de López. Participantes em seminários e reuniões No projeto do Compêndio Estatístico e na construção de índices contamos com comentários de Kenneth Bollen. Gonzalo Martner. Johanna Clarke de Voest Silva. juntamente com o Círculo de Montevidéu. María Teresa Vergara e Oscar Muñoz. Pereyra. Carlos Ominami. Dante Caputo. Hernando Gómez Buendía. Guttemberg Martínez. Thomas Scheetz. México: Arturo Fernández. Thierry Lemaresquier. Gilberto Chaves. Felipe González. Soledad Alvear. Venezuela: Alberto Fuenmayor e Mayra Cartaya. Camila Sanhueza. Elena Martínez. República Dominicana: Martha Elizabeth Martínez Correa e Solange Bordas. Gabriel Gaspar. Jay Verkuilen. Eduardo Frei. Sergio Bitar. José Miguel Insulza. Ricardo Lagos.

ex-Presidente do Uruguai. Carlos Lopes. Ernesto Garzón Valdés. Franciso Thoumi e Luis Verdesoto. Na discussão sobre democracia e multiculturalismo nos acompanharam Álvaro Artiga. Tarcísio Costa. Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e atual Subsecretário Geral para Assuntos Econômicos e Sociais da ONU. Eduardo Piragibe Graeff.Florez. Beatriz Paredes. Kees Rade. PNUD. Fernando Henrique Cardoso. Andrés Solimano e Guido Tabellini. Carlos Roberto Reina. Guillermo O’Donnell. em 12 de novembro de 2002. em Nova York. Elisa Carrió. José Luis Barros. Alberto Alesina. Jorge Quiroga Ramírez e Fernando Valenzuela. Walter Lacayo. Gustavo Fernández Saavedra. ex-Presidente de Chile. Felipe González. juntamente com o Clube de Madri.e Ernesto Tiffenberg. José Carlos Libânio. ex-Secretário Executivo. Giorgio Alberti. Marcelo Contreras Nieto. Dante Caputo. Sr. Jorge Giannareas. Eduardo Frei. Juan Carlos Rodríguez. Rodolfo Gil. Héctor Hérmilo Soto. José Luis Barros. Marcia Bermúdez. Thierry Lemaresquier. Eduardo Frei. Willem Assies. Tim Besley. Ricardo Gómez. Administrador Auxiliar e Diretor de Desenvolvimento de Políticas. Antonio Guterres. Jorge Schvarzer. Carlos Cazzali. Secretário Geral Assistente. Danilo Türk. Rafael Guido Béjar. Manuel Rojas. Galo Guardián. Antonio Álvarez Couceiro. Beatriz Paredes. Dina García. Torsten Persson. participaram Andrés Allamand. Edmundo Jarquín. Eduardo Gamarra. Jorge Quiroga Ramírez. Enrique Ganuza. Gonzalo Perez del Castillo. Miguel Darcy. Oscar Landerretche. Lucinio Muñoz. Fernando Henrique Cardoso. Ricardo Ffrench-Davis. Arturo O’Connell. Dante Caputo. Miguel Ángel Fernández-Ordóñez. Guillermo de la Dehesa. ex-Presidente de Honduras. Carlos Amat y León. Zéphirin Diabré. Miguel Angel Barcárcel. Elena Martínez. Reunião com o Secretário Geral da ONU Participaram da reunião com o Secretário Geral da ONU. Na discussão sobre condições para a estabilidade das instituições democráticas na América Central participaram: Alberto Arene. Elena Martínez. Arodys Robles Soto. Gonzalo Martner. Elvira Cuadra. ex-Presidente do México. Ignacio Rodríguez. Manuel Antonio Garretón. Fernando Carrillo. Francesca Jessup. Na análise sobre democracia e Estado contribuíram com sua participação Diego Achard. Dante Caputo. Roberto Cajina. Gabriela Serrano. Na análise sobre democracia e globalização. María del Carmen Sacasa. ex-Presidente da Colômbia. Rodolfo Mariani. Marcus Melo. Presidente do Clube de Madri (ex-Primeiro Ministro do Canadá). Elías Santana. Departamento de Agradecimentos 211 . Gilberto Dupas. Carlos Benjamín Lara. Miguel Antonio Bernal. Oscar Muñoz. Alfonso Peña. Francisco Díaz. Thomas Scheetz. José Antonio Ocampo.Carlos Ominami. Walter Franco. Francesca Jessup. Shoji Nishimoto. Jorge Chediek. Isis Duarte. Augusto Ramírez Ocampo. Fernando Calderón. Antonio Alvarez. Belisario Betancur. Zenayda Castro. Márcio Pochmann e Lourdes Sola. Manuel Marfán. Edelberto Torres Rivas. Luis Jorge Garay. Rebeca Grynspan. Aníbal Cavaco Silva. No debate sobre sociedade civil e narcotráfico participaram Carlos Basombrío. Administrador Associado do PNUD. Alberto Couriel. Leticia Salomón. Arturo O’Connell. Kim Campbell. Valdrack Jaentschke. Mirna Flores. Elena Martínez. Elena Martínez. Ernesto Zedillo. Innocenzo Gasparini. Isabela Orellana . Edelberto Torres Rivas. Carlos Ominami. Semiramis López. Juan Martín. Julieta Castellanos. Celi Pinto. Gonzalo Rojas. Julio María Sanguinetti. Santiago Bastos. Jorge Vargas e Agatha Williams. José Antonio Ocampo. Antonio Cañas. María Elisa Bernal. Antonio Cañas. Eugenio Lahera. Rodrigo Borja. Carlos Mendoza. George Gray Molina. Raúl Alconada Sempé. Edelberto Torres Rivas. José Raúl Mulino. Administradora Auxiliar e Diretora Regional para América Latina e Caribe (DRALC) do PNUD. ex-Presidente de Bolívia. Sonia Draibe.Couceiro. Na análise sobre democracia e economia participaram Raúl Alconada Sempé. Alberto Couriel. Kofi Annan. Arnoldo Villagrán e Knut Walter. Rodrigo Borja.

Freddy Justiniano. da Fundação Chile XXI. DRALC. Marta Maurás. Guido Calvo. e Luis Francisco Thais.Montalvo. Assessor em Políticas. Freddy Justiniano. Consultor do Programa Regional. Produção e tradução Para a transcrição das entrevistas da Rodada de Consultas contou-se com a colaboração de Maximiliano Bourel. Josefina Pittaluga. Leandro García Silva. María Eva Cangiani. Carmelo Angulo Barturén. PNUD. Natalia Rosenberg. Prática de Governabilidade. Valentina Farrell. do Clube de Madri. Políticos e de Manutenção da Paz (EOSG). Julia Ramos. Myriam Méndez. Claudia Martínez e Merril Stevenson. Gonzalo Pérez del Castillo. Katty Grez e Verónica Oyarzún. Dante Caputo. Administradora Auxiliar e Diretora Regional para América Latina e Caribe do PNUD. e os seguintes participantes do Projeto: Dante Caputo. Ángeles Martínez e Irene Fraguas. Angela Kane. Bernardita Baeza. María Esperanza Clavell. Apoio na preparação de reuniões e seminários Agradecemos a especial colaboração de Isabel Vásquez. Mark Malloch Brown. Esperamos que saibam desculpar qualquer possível omissão. A depuração do som da gravação das consultas foi realizada por Federico M. Yvonne Fisher. Erika Moeykens. totalmente involuntária. Diretor do Projeto. do Círculo de Montevidéu. Marcelo Burello. Guadalupe Guzmán. sem nenhuma dúvida. Gabriela Ippólito. DRALC. Coordenador do Programa Regional. Diretora do Escritório do Secretário Geral Adjunto (EOSG). Stefano Pettinato. Consultor Acompanhamento Técnico e Acadêmico do Projeto. BDP/PNUD. Escritório do Administrador. DRLAC/PNUD. Assessora de Governabilidade do Programa Re- gional. Magdy Martínez-Solimán. DRLAC. 212 A democracia na América Latina . Escritório do Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD. Elena Martínez. Michael Moller. A tradução foi realizada por Marcelo Canosa. Reunião com o Administrador do PNUD Participaram da reunião com o Administrador do PNUD. Representante Residente do PNUD na Argentina. Coordenador do Programa Regional. A correção de estilo esteve a cargo de Hinde Pomeraniec. Escritório do Administrador. Diretora Divisão para as Américas e Europa (DPA). Edelberto Torres Rivas. Víctor Arango. Virginia Gallo. Chefe da Seção Meios. e Augusto Ramírez Ocampo. Liliana Hecht. em 4 de novembro de 2003. Diretor de Assuntos Humanitários. Especialista em Comunicações para América Latina e Caribe. William Orme. Gisela Urriza e Geraldine Watson. PNUD. Carolina Ries e Valerie Biggs da CEPAL. PNUD.Assuntos Políticos (DPA). Fizemos questão de expressar nosso agradecimento a cada uma das pessoas que contribuíram para a realização deste Relatório. Chefe de Escritório.

ou seja. Esses aspectos. Eles foram selecionados considerando os elementos centrais tradicionalmente invocados pelos teóricos sobre a democracia para a definição de um regime democrático. e abarcam uma série de temas que. consistiu na escolha dos seus quatro componentes: sufrágio. esses elementos possibilitam contar com dados válidos e confiáveis do último ano civil. para qualquer avaliação sobre o caráter democrático de um regime político (figura 1). em geral. uma medida composta sobre os direitos políticos relacionados com a eleição dos governos. esclarecimentos sobre sua interpretação e utilização. e os que ganham as eleições assumem seus cargos públicos e neles permanecem durante os prazos estipulados pela lei? Construção do IDE A escolha dos componentes O primeiro passo para a construção do IDE. e que podem ser interpretados claramente em termos da teoria da democracia vigente. analisou-se um conjunto de fatores que poderiam ter sido incluídos e não foram. Em terceiro lugar. evitam-se problemas associados com elementos tais como o comparecimento dos eleitores às urnas ou a desproporcionalidade eleitoral. que refletem tanto as ações estatais como as dos cidadãos. Por último. esses elementos referem-se a direitos de cidadania. evitando o uso de pesquisas sobre percepções. mas não estão tão claramente conectados com o grau de democracia de um regime como os quatro escolhidos.■ Nota técnica sobre o Índice de Democracia Eleitoral (IDE) FIGURA 1 Esta nota descreve os passos dados e as provas estatísticas realizadas para a construção do Índice de Democracia Eleitoral (IDE). em que influem fatores como: o financiamento dos partidos e das campanhas. Desse modo. Isso permite garantir que o índice possa ser interpretado claramente como uma medida do grau em que o Estado garante os direitos da cidadania referentes ao regime político. ou entre sistemas presidencialistas ou parlamentaristas. Da mesma maneira. e as condições para a concorrência livre. Desse modo. a inscrição ou registro para votar e a própria votação. eleições livres e cargos públicos eleitos. têm importância. Apresentam-se. evitam-se problemas relacionados com medidas de significação pouco claras com respeito ao grau de democracia de um regime. de modo diferenciado da ação dos cidadãos. Deu-se ênfase na medição de componentes estritamente observáveis. eleições limpas. certamente. cuja vigência é responsabilidade do Estado. o uso de recursos Nota técnica sobre o Índice de Democracia Electoral (IDE) 213 . o Executivo e o Legislativo nacional. tais como a diferença entre regulamentações eleitorais proporcionais e majoritárias. foram considerados centrais. Isso inclui fatores associados ao exercício do direito ao voto. em grande parte devido à dificuldade de desenvolver medições apropriadas e a tempo para este primeiro Relatório. também. alguns componentes que poderiam ter sido incluídos foram deixados de lado por razões “práticas”. Em segundo lugar. tais como o processo de obtenção de documentos de identidade. Índice de Democracia Eleitoral (IDE) Direito de voto Têm direito de voto todos os adultos de um país? Eleições limpas O processo eleitoral transcorre sem irregularidades que constranjam a expressão autônoma das preferências dos eleitores pelos candidatos e alterem o conteúdo fidedigno dos votos emitidos? Eleições livres É oferecido ao eleitorado um leque de alternativas que não estejam constrangidas por restrições legais ou de fato? Cargos públicos eletivos As eleições são o meio de acesso aos principais cargos públicos de um país. e provavelmente o mais importante. inclusive necessários.

ao processo de codificação propriamente dito. México e Uruguai). Na verdade. introduziu-se o uso de sinais mais e menos. A geração de uma base de dados retangular com escalas normalizadas O terceiro passo na construção do IDE foi a transformação das pontuações nas escalas dos componentes em uma base de dados retangular.públicos. sobre a base de fatores observáveis. Primeiro. Finalmente. Outras questões importantes dizem respeito às práticas eleitorais a nível subnacional e à estabilidade do regime. destacou-se a importância de documentar as bases das decisões de codificação por meio da referência a fontes de informação disponíveis publicamente. e em face de possíveis arbitrariedades. Quanto às regras do processo de codificação. Um codificador particular realizou uma codificação baseando-se em uma pesquisa extensa e em consultas com numerosos especialistas. em seguida. essas pontuações foram entendidas como a síntese de processos mais amplos. o acesso aos meios de comunicação e a liberdade de imprensa. para o processo pelo qual os atores obtêm o acesso aos cargos governamentais. As pontuações definidas foram apresentadas e discutidas em profundidade em vários encontros. âmbito acadêmico. A primeira diz respeito às regras do processo de codificação e a segunda. após esse processo iterativo.33 da pontuação base (por . durante muitos meses. Brasil. com escalas normalizadas. somando e subtraindo 0. em todas as variáveis e em todos os anos. Desse modo. que é o interesse central do exercício de medição. evitando pequenas variações entre casos. Não foram incluídos no índice dados baseados em pesquisas sobre percepções. A medição dos componentes Para o segundo passo para a construção do IDE – a medição de seus quatro componentes – foi preciso tomar duas decisõeschave. Não foram requeridas pontuações para cada caso em cada ano. e a codificação coletou informação entre os períodos eletivos. Mas a significação desses acontecimentos e decisões. identificando valores de escala. Canadá. organizações internacionais). ou seja. enfrentaram-se aspectos bastante mecânicos. cristaliza-se no acontecimento eleitoral em si. eleições limpas e eleições livres – para os anos em que foram realizadas eleições. Os sinais mais e menos foram convertidos em números. O segundo conjunto de decisões referese ao processo de codificação propriamente dito. e que as decisões de sua codificação pudessem ser tomadas. começando com o ponto médio. Além disso. mesmo que fossem verificáveis. só foram requeridas pontuações para três dos componentes – direito a voto. uma base de dados que inclui pontuações numéricas para todos os casos. rigorosamente. distanciados conceitualmente o máximo possível. foram utilizados dois procedimentos complementares para codificar os casos. com um grupo de participantes convidados que trabalhavam em diversos contextos (política. As escalas foram construídas também de modo que cada ponto correspondesse a situações e acontecimentos relativamente concretos. chegou-se a um alto grau de consenso em relação à codificação das quatro dimensões do IDE. Nos casos que não correspondiam com precisão a nenhum dos pontos das escalas ordinais. A conveniência da construção de novos índices fica como tema para futuras discussões. embora as pontuações tenham sido atribuídas a alguns componentes somente durante os anos de eleições. inclusive um. Os valores da escala foram escolhidos para refletir diferenças relevantes da bibliografia. As condições para as eleições dependem de 214 A democracia na América Latina acontecimentos e decisões tomadas entre as eleições. Esse passo envolveu uma série de procedimentos. as escalas – três ordinais de cinco pontos e um ordinal de três pontos – foram construídas determinando primeiro os pontos finais teoricamente significativos e. provenientes de diferentes países das Américas (Argentina. Estados Unidos. como forma de registrar valores intermediários. Nesse sentido. Colômbia. Essas discussões conduziram à identificação de discordâncias que levaram a sucessivas pesquisas e mais discussões grupais. Equador. como uma forma de garantir a replicabilidade do exercício de codificação.

à presidência e. devido a que esse elemento distingue os valores atribuídos às eleições presidenciais e parlamentares. A justificativa para esse procedimento é que a forma em que um governo se origina continua sendo uma característica que afeta sua natureza mesmo depois do momento de sua instalação. simplesmente transferindo a pontuação de um determinado ano para os anos subseqüentes. ou porque o processo eleitoral foi interrompido). Por exemplo. à sua renúncia em novembro. que levaram Fujimori. por meio de uma normalização linear simples do intervalo unidade: valor normalizado = valor de escala original / máximo valor possível em escala original Praticamente. por exemplo.exemplo. a solução foi mais complicada. As pontuações são uma média das pontuações das eleições presidenciais e parlamentares. foram computados para o mesmo ano. as pontuações de dois dos componentes que tinham pontuações apenas para os anos em que houve uma eleição – sufrágio e eleições livres – foram estendidas para os anos intermediários. Um segundo aspecto considerado foi a atribuição de uma única pontuação por país e por ano. em 2000. em abril e em maio. Mas um índice único implica vários problemas. Nesse caso. portanto a mudança foi registrada em 1994.33). devido a que a situação de um país muda no curso de um ano. foi registrado nesse mesmo ano. cada 1 foi convertido em um 3 e cada 2 em um 4. quando em 1985 foram realizadas. pois quando um acontecimento ocorreu na segunda metade do ano. Além disso. Esse é o caso. Os hífens (-) utilizados para indicar que a atribuição de uma pontuação não era aplicável. das eleições fraudulentas realizadas em maio na República Dominicana. Em alguns casos. Quando os acontecimentos ocorreram na primeira metade do ano. Por exemplo. no Peru. e a mudança de governo em junho. Essa prática habitual obedece a razões de parcimônia e está bem justificada. as eleições problemáticas foram registradas em 2000 e a retificação da situação. No entanto. a solução é relativamente simples: quando um acontecimento-chave – como a realização de uma eleição – ocorria no fim do ano. em julho. a escolha do procedimento de normalização tal como foi aplicado às escalas ordinais de cinco pontos Nota técnica sobre o Índice de Democracia Electoral (IDE) 215 . a mudança de status em função desse acontecimento foi registrada no ano seguinte. Na codificação desse item foi utilizada uma escala de três pontos para facilitar a interpretação. na Guatemala. as eleições que terminaram com um período de governos dominados pelos militares. Foram também problemáticos os casos em que ocorreu mais de um acontecimento crítico no mesmo ano. as escalas dos componentes foram normalizadas. Em terceiro lugar. em 2001. devido a que o governo não era proveniente de uma eleição. e a mudança de governo realizou-se em janeiro de 1986. em seguida. Por exemplo. as eleições de 1994 em El Salvador foram realizadas em março. Desse modo. ou porque se realizou uma nova eleição. Contudo. foram convertidos em zeros (0). foram trasladadas a uma métrica comum. porque o objetivo de gerar um índice é oferecer uma síntese da situação de um país. e utiliza-se apenas uma pontuação para caracterizar todo o período anual. qualquer opção que fosse tomada teria sido um pouco arbitrária. essas eleições foram realizadas no fim do ano. realizaram-se duas eleições fortemente questionadas. isto é. até ser atribuída uma nova pontuação (seja porque foi realizada uma eleição após um período de um governo não eleito. o 1 dessa escala não representa na realidade um ponto médio. as pontuações não foram simplesmente transferidas de eleição para eleição. ao computar o IDE. pois não existem unidades de medida para a liberdade eleitoral amplamente aceitas e comparáveis com unidades como quilogramas ou dólares. está muito mais próximo do 2. seguiu-se um processo um pouco mais complexo. essas pontuações foram ingressadas em 1986. No caso das eleições limpas. Em outros casos. e da nova presidência que assumiu em agosto. um 3+ foi convertido em 3. embora as pontuações para os elementos componentes tenham sido registradas em 1985. Portanto. Além disso.

A escolha de regras de agregação O quarto passo para a construção do IDE – a escolha de regras de agregação para formalizar a relação entre os elementos componentes do índice – foi resolvido por meio do uso de uma regra de agregação simples. essa operação garante que um valor zero em qualquer dos quatro elementos componentes leva a classificar o caso como não-democracia. que pode ser visto como menos “perdoador” do que outras regras de agregação. eles seriam mais complicados. que esses quatro componentes são tão fundamentais para a caracterização global de um regime. Portanto. o problema da distância se refere unicamente aos pontos compreendidos entre o ponto inicial e o ponto final. A idéia central utilizada para isso é a opinião bem estabelecida de que os quatro elementos componentes do IDE são partes que consti216 A democracia na América Latina tuem um sistema. menos acessíveis. Os quatro elementos componentes do IDE são. como os teóricos argumentaram. enquanto o valor superior corresponde à sua presença completa. quanto no sentido de que a evidência necessária para atribuir um zero deve ser convincente. o regime deve ser considerado como não-democrático. todas as escalas têm pontos finais com significação teórica. evitando variações menores entre os casos verificáveis. Por exemplo. ao transformar as pontuações das escalas componentes em uma base de dados retangular. O valor inferior da escala ordinal corresponde à negação da propriedade em questão. freqüentemente. enquanto um caso com valor de direito a voto 1 depois da normalização tem direito a voto adulto completo. conceitualmente. o fato de que os sistemas de tipo soviético tivessem eleições com direito a voto completo não tem significação do ponto de vista da democracia. em virtude da forma em que estão combinados. o IDE é calculado seguindo a seguinte equação: Índice de Democracia Eleitoral = Direito a voto x Eleições Limpas x Eleições Livres x Cargos Públicos Eleitos Essa equação retoma uma idéia-chave da teoria sobre a democracia: quando um elemento componente está completamente ausente. Embora pudessem ser utilizados outros métodos psicométricos mais sofisticados. portanto. e podese supor que caem no intervalo unidade. . A concepção de que os elementos componentes do IDE são condições individualmente necessárias é altamente exigente. tanto para as escalas construídas de modo tal que um zero seja utilizado apenas em casos extremos. Isso é assim. Por um lado. postulados como condições individualmente necessárias. em que uma propriedade amplamente considerada como vital para a existência da democracia esteja totalmente ausente. Por outro lado. sobre a democracia. Esse é um padrão “duro”. devido a que o eleitorado não tinha opção entre candidatos alternativos e a que essas eleições não levaram ao acesso a cargos que exercessem efetivamente poder estatal.– com a modificação introduzida no elemento eleições limpas. o padrão teoricamente estabelecido. e ainda mais. amplamente. no qual 0 indica ausência total da propriedade e 1 indica presença total da propriedade. que sua ausência o tornaria diretamente não-democrático. por isso foi utilizada conjuntamente com um critério conservador na atribuição de zeros aos elementos componentes. não funcionam muito melhor do que esse procedimento simples. insubstituíveis e de igual peso. Em termos formais. todas as escalas utilizadas para medir os quatro componentes são escalas ordinais de cinco pontos – é transparente e justificável. Na prática. a maior parte das escalas foi construída de modo que cada ponto da escala pudesse ser interpretado teoricamente. o mais distante possível entre si. fortemente dependentes dos dados e. Um caso com valor de sufrágio 0 não apresenta direito a voto de modo nenhum. e que os diferentes valores da escala estivessem. Essa concepção se formaliza calculando o produto do valor de cada um dos elementos componentes. Os valores da escala foram escolhidos para refletir diferenças identificadas como relevantes na bibliografia. a probabilidade de introdução de um erro importante é relativamente pequena. Desse modo.

mas os limites precisos dependem do valor do índice e. Desse modo.95 e 0. o valor mínimo e o IDE têm médias de 0. Os resultados dessa prova demonstraram que o IDE é bastante estável – as correlações de intervalo de medição com todas as outras “réplicas” foram 0. quando se realizou uma prova em dois períodos (1960-1985 e 1990-2002).92. Mas existem diferenças entre os índices. Em oposição. realizou-se uma análise de sensibilidade. Em compensação. respectivamente.2. respectivamente.82. o valor mínimo dos quatro componentes da escala.21.Portanto. As médias geométrica e aritmética são de 0. Contudo. esperado de acordo com o projeto experimental. Para valores do índice entre 0. são mais estreitos perto dos pontos finais.91.1. com um viés em uma valoração inferior de um ou mais componentes. Esse resultado é consistente com a teoria utilizada para selecionar as regras de agregação para o IDE. isso já não era válido no período posterior a 1990. o que sugere que o IDE é uma medida de um fenômeno unidimensional. é melhor a dispersão dos casos para evitar o conglomerado de casos que torna difícil interpretar suas diferenças com clareza. O caráter dimensional dos elementos componentes A prova de escalabilidade dos quatro elementos componentes do IDE deu como resultado um alfa de Cronbach de 0. enquanto no primeiro período os componentes foram unidimensionais.92 e 0. respectivamente. o que indica que se preserva o ordenamento geral dos casos. é importante notar que os modelos de medição aditivos padrão descansam na presunção de que a agregação opera em múltiplas medições paralelas. Com efeito. A diferença mais importante encontra-se entre as médias e os desvios padrão (DE).28. e por outro lado.75. respectivamente. os alfas de Cronbach resultantes foram de 0.25 e 0. Os resultados mostraram que.26 e 0. por exemplo. Essa análise baseia-se em perturbações nas codificações. Realizou-se um controle matemático utilizando a inversão da conhecida e muito conservadora prova de Kolmogorov. Testando o IDE Confiabilidade entre codificadores e estimativa de erro Por razões de tempo. o IDE qualificará um país como não-democrático apenas quando as normas democráticas foram. Essa amplitude é razoavelmente constante ao longo do intervalo citado. sendo por um lado. respectivamente. a média geométrica dos quatro componentes e a média aritmética dos quatro componentes. também semelhantes entre si o valor mínimo e o IDE. Isso indica que. Isso sugere que aplicando essas últimas regras. utiliza-se a matemática para criar codificadores “virtuais” deformados de diversos modos. em geral. A solidez das regras de agregação Realizou-se uma prova de comparação de quatro possíveis regras de agregação para combinar os elementos componentes do IDE: o produto dos quatro componentes utilizados no IDE. dado que os componentes do IDE são. Essa prova também proporcionou algumas margens de erro básicas do IDE sobre a base das “réplicas”. as correlações de intervalo de medição são sempre muito altas.20 e 0. indiscutivelmente.Smirnov para a função de distribuição – baseada em matemáticas completamente diferentes – e foram obtidos resultados semelhantes. não foi realizada uma prova formal de confiabilidade entre os codificadores. sem importar a regra utilizada. a média aritmética e a geométrica semelhantes entre si.99 ou maiores – e as mudanças na média e na dispersão foram bastante previsíveis. No entanto.23.84 e 0. de acordo com um projeto experimental e com o exame do índice global “replicado” resultante. os valores do IDE estão dentro de ±0. mostrando um viés negativo ou positivo. deixadas de lado. por Nota técnica sobre o Índice de Democracia Electoral (IDE) 217 . De acordo com o padrão mais conservador possível. e o DE de 0. e uma amplitude de margem razoavelmente conservadora é de ±0. para saber se outros codificadores poderiam ter tido atribuição de valores diferentes dos elementos componentes do IDE.07. uma amplitude de margem generosa é de aproximadamente ±0. e o DE de 0.

tanto para comparar um país consigo mesmo ou com outros países. para identificar precisamente que aspecto ou aspectos estão refletidos nessa pontuação. que simplesmente transformam as pontuações do IDE em um ranking. O IDE pode ser utilizado também como um sinal. bem como por outros agentes estatais e atores sociais.85 e outro com um de 0. uma amplitude de margem de erro generosa é de aproximadamente ±0. Desse modo. livres e limpas. sem levar em consideração os graus de incerteza associados a elas. Isso é muito significativo. não apenas em termos de seus elementos. Para evitar confusões. também.75. significa que qualquer defeito detectado pelo IDE deve ser considerado como uma restrição importante aos direitos políticos dos cidadãos. para os valores do IDE entre 0. como foi estimado por meio da análise de sensibilidade. um país com um IDE de 0. e o que sucede nesse período. tanto as dimensões não incluídas no índice quanto os padrões mais exigentes dos elementos componentes do IDE. é importante notar que o índice não deve ser interpretado como uma avaliação das ações do governo.07. considerados insubstituíveis. que se vê afetado pela ação ou inação de um governo. pois as pontuações específicas de cada país convidam o leitor a voltar aos quadros dos elementos que o compõem. a mais simples de interpretar. Porque o IDE. Portanto. é importante notar que qualquer comparação devese basear em diferenças consideráveis e não menores. A identificação de casos de referência que sejam representações prototípicas dos traços associados com uma gama de pontuações pode ajudar a proporcionar maior concretude ao significado de cada número. ainda que esteja focalizado completamente na celebração de eleições inclusivas. Este conceito não é tão estreito como alguns o consideram.00. na qual 0. É uma medida do estado de um sistema. é preciso ressaltar que o conceito que está sendo medido é o de democracia eleitoral.92 – estão demasiado próximos para que seja possível distingui-los de maneira válida. O IDE pode ser utilizado para propósitos 218 A democracia na América Latina comparativos. a prova de escalabilidade torna ainda mais válida a escolha das regras de agregação propostas em lugar da muito habitual regra de adição. é metodologicamente injustificável oferecer um ranking excessivamente preciso de países. ficar em inferioridade em comparação com outros países. no entanto. .00 indica um regime não democrático e qualquer número maior do que 0. abarca mais do que “simples eleições”. mas também em termos da relação entre as partes constitutivas do regime e sua contribuição para o conjunto. o que ocorre com os próprios governos entre as eleições. Afinal.teoria. O índice leva em consideração. sendo que as pontuações mais altas indicam um maior grau de democracia. que influi nas condições para realizar tais eleições. em diferentes momentos é. uma medida de uma concepção do regime político democrático baseada nos postulados mais amplamente compartilhados no que se refere aos direitos políticos fundamentais. pois oferece uma pontuação resumida que ajuda os que a utilizam a identificar o aspecto distintivo do regime político de cada país. No entanto. em geral.00 não deve ser interpretado no sentido de que não possa melhorar.25 e 0. Dessas duas formas. O IDE não é certamente uma medida ampla da democracia. É. como é habitual no contexto de outros índices. se estes tiverem avançado mais. na verdade. De fato. Portanto. um país pode até ter introduzido melhorias notáveis e. a comparação de um país consigo mesmo. tem um certo grau de erro de medição e dentro dos limites desse erro não é aconselhável realizar qualquer afirmação categórica sobre diferenças.00 um grau de democracia. os casos que difiram em menos desse valor – por exemplo. o IDE pode ser usado como uma ferramenta analítica valiosa. como qualquer índice. Por um lado. a decisão de agregá-los a uma pontuação única não é invalidada por nenhum desvio potencial da unidimensionalidade.00-1. Além disso. o fato de que um país tenha recebido uma pontuação perfeita de 1. Por outro lado. Desse modo. Interpretando e usando o IDE O IDE é uma escala de 0. Desse modo.

o desenho metodológico e os procedimentos estatísticos utilizados na elaboração dos principais índices e indicadores empregados para a análise das percepções e comportamentos das cidadãs e dos cidadãos na América Latina. aproximadamente um terço do questionário. A pesquisa foi feita em espanhol em 18 países (pela primeira vez foi realizada na República Dominicana). o processo metodológico para a elaboração do Índice de apoio à democracia (IAD) e suas partes componentes. Vargas Cullell. Vargas Cullell e Benevides. que introduz o estudo de opinião sobre a democracia. é apresentada uma valorização geral sobre a pesquisa Latinobarômetro como fonte de informação e uma indicação sobre os dados e métodos de análise empregados no estudo.). Foram entrevistadas 19. 2003. 187 e ss. Convidamos o leitor especializado que desejar mais informação a consultar a documentação detalhada sobre a definição conceitual e as decisões metodológicas da análise no site web do PRODDAL www. dedicadas a temas definidos pelo PRODDAL. Explica o sentido. Para explicações mais detalhadas é conveniente consultar a memória do processo metodológico e estatístico aplicado. Benavides y Gómez. que constituem a principal inovação do estudo. Kikut. 2003a. 2003. Na primeira. “Estudo de Opinião sobre a Democracia”. 2003b. CD/Compêndio Estatístico. Em 2002 mediante um convênio entre PNUD e Latinobarômetro foram incorporadas à pesquisa 28 perguntas (62 variáveis). 2003ª. Gómez. (ver. Em função disso. com o mesmo questionário e o mesmo livro de códigos.democracia. utilidade e alcance destes índices e indicadores. Gómez y Vargas Cullell. Todos os esquemas empregam alguma versão da amostragem polietápica e praticamente em todos a seleção final dos entrevistados foi realizada usando amostragem de quota. Segunda Seção.■ Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) americanos vêem a sua democracia” está baseada no trabalho realizado por uma equipe coordenada por Jorge Vargas Cullell e integrada por Miguel Gómez. 2003. p. composta de 7 documentos mais extensos.org. O documento contém duas seções.undp. As amostras variam entre 1. Essa equipe elaborou o marco conceitual e metodológico a partir do qual foram definidos os índices e indicadores respectivos e realizou a análise da informação cujo principal objetivo foi possibilitar um estudo comparativo sobre o exercício dos direitos e deveres cidadãos na América Latina e indagar sobre o apoio cidadão à democracia.democracia.Pesquisa de opinião sobre a democracia A seção do Relatório “Como os Latino- Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 219 . Na segunda seção se descreve. 2003.org (Benavides e Vargas Cullell. as amostras podem estar afetadas pelos vieses e limitações conhecidos da amostragem de cota.undp. Lorena Kikut e Tatiana Benavides. Kikut e Vargas Cullell. I. com detalhe. 2003). As descrições contidas neste documento complementam os quadros apresentados no compêndio estatístico. 2003b.000 e 1200 pessoas por país. disponível na página web do Relatório sobre A Democracia na América Latina: www. Os dados do PRODAL são elaborados a partir de definições conceituais próprias e de procedimentos metodológicos e aplicações técnicas que permitem chegar a resulta- Apresentação Esta nota técnica descreve a fonte de informação.508 pessoas. Latinobarômetro como fonte de informação Latinobarômetro é um estudo comparativo realizado periodicamente em todos os países da região. Esta seção descreve as fontes de dados em que a análise apresentada no Relatório se baseia. Vargas Cullell e Gómez.

■ Todos os desenhos empregam alguma versão da amostragem polietápica e praticamente em todos a seleção final dos entrevistados é realizada usando amostragem de quota. porque logo são empregados fatores de ponderação para obter resultados em proporção à população de referência. com base em um convênio entre o PNUD e o Latinobarômetro. A metade das amostras utiliza afixação desproporcionada. Mesmo assim. A informação proveniente da seção proprietária está refletida nos quadros do compêndio estatístico. Do exame das principais características dos desenhos utilizados em cada um dos países. permitem identificar as precauções para a manipulação dos dados no futuro. dessa informação derivam-se as seguintes conclusões gerais. ■ A seção regular da pesquisa de opinião realizada pela Corporação Latinobarômetro em 2002. com a finalidade de identificar aspectos relevantes para o uso adequado da informação. A partir dessas fontes e sobre a base conceitual e metodológica. a maneira de medi-lo e as fragilidades do método mais amplamente usado. já que o texto não apresenta a informação necessária para uma auditoria técnica das amostras. mas. todas as amostras são afetadas pelas limitações e viés conhecidos da amostragem da quota. seu ativismo político e distância relativa. Os índices e indicadores sobre percepções e comportamentos cidadãos utilizam informação de três fontes. Esses temas são apresentados a seguir. Entretanto. Trata-se de uma avaliação simples. se substitui o selecionado quando não está em sua casa ou não aparece em prazo curto. de uso exclusivo. Desenho das amostras O Relatório metodológico permite um comentário sobre as amostras utilizadas no Latinobarômetro 2002. ■ O tamanho de cada uma das tendências. ■ As tendências dos cidadãos em relação à democracia. em si. 220 A democracia na América Latina . um determinado indicador ou índice. foi elaborado o Índice de Apoio à Democracia. Para sua construção foi preciso analisar: ■ A questão geral do apoio cidadão à democracia. Em um par de casos é empregada a técnica aleatória “último aniversário”. 2003)2. as observações desta seção são de caráter geral e inevitavelmente insuficientes. 1 ■ A seção proprietária do PNUD . Isso complementou a pergunta que a seção regular do Latinobarômetro faz sobre as atitudes políticas em um amplo conjunto de temas. Por isso. como parte de 1 A seção proprietária do PNUD. de modo secundário. Cabe assinalar que isso. Em conseqüência. ■ A série histórica de perguntas do Latinobarômetro. particularmente por uma subestimação das pessoas que têm menor disponibilidade – especialmente aquelas que têm trabalhos de tempo integral – e uma superestimação das que trabalham por conta própria ou em casa. ■ Praticamente todos os desenhos empregam estratificação geográfica e segundo o tamanho das localidades e cidades. na prática. de forma suplementar. a série temporal. compreende as perguntas P1U a P28U do questionário utilizado para o estudo. ■ A regra de agregação do Índice e sua validação estatística.dos específicos que não são necessariamente coincidentes com os das fontes utilizadas. a informação proveniente da seção regular unicamente se apresenta de forma já processada. não representa um problema. Os índices e indicadores sobre as percepções e comportamentos dos cidadãos utilizam informação de três fontes: a seção regular. a seção proprietária do PNUD e. Dados e metodologia O objetivo principal da seção proprietária do PNUD foi possibilitar um estudo comparativo sobre o exercício dos direitos e deveres dos cidadãos na América Latina. a maneira de determiná-las e a classificação das opiniões. o que impede dar atenção a algumas das eventuais fraquezas do projeto técnico (Gómez.

baseado no Latinobarômetro. foram os países. As razões para não ponderar são as seguintes: • As cidadãs e os cidadãos expõem opiniões e avaliações sobre o sistema político do qual fazem parte e não em relação com uma “macrounidade” política latino-americana. Quando isso ocorre. quando se trata de uma variável ordinal e outra nominal utilizou-se Tau-c. o desempenho da democracia). 2003). em particular. tanto uns quanto outros fazem referência. República Dominicana e América Central (que inclui Guatemala. foram utilizadas técnicas de análise de profiling (perfil). aplica-se cada uma das variáveis de maneira independente (como se fez no Índice de apoio à democracia). apesar do peso que teriam dentro Análises estatísticas Na análise estatística realizada para o Relatório sobre A Democracia na América Latina. fosse ponderada a amostra pela população para obter tendências a nível latino-americano. Peru e Bolívia).Para alguns dos países. Nesse caso os valores expressam médias do grupo de países dentro da unidade maior. Em resumo. Como indicador da consistência ou confiabilidade interna das escalas assim construídas é utilizado o coeficiente Alfa de Crombach (coeficientes de 0. A maioria dos assuntos aos que elas fazem referência são problemas de caráter nacional (por exemplo. para examinar se os valores de uma variável dependente estão associadas a determinados fatores sóciodemográficos e atitudes políticas. Uruguai. Nicarágua. Para estabelecer a associação entre duas variáveis numéricas é usado o coeficiente de correlação de Pearson. Por isso. em todos os casos foram feitas análises fatoriais com a finalidade de determinar dimensões implícitas e foram elaboradas escalas por soma simples. neste Relatório. Para integrar a informação de perguntas que. ■ mação. deve-se descartar a respectiva escala. pode-se dizer que. embora o Latinobarômetro reflita para alguns dos paises fundamentalmente a opinião da população urbana – o que pode produzir uma distorção nos dados finais – o Latinobarômetro é sem dúvida a fonte de informação que melhor apresenta as opiniões da população na região em conjunto. para efeito de estudo. existe um viés na amostra em relação à população urbana. Honduras. Argentina. cujos valores oscilam entre 0 e 1. parecem referir-se a um mesmo tema. não foi ponderada a amostra para chegar a conclusões sobre “América Latina” ou para uma das sub-regiões mencionadas anteriormente. em princípio. Paraguai e Chile). El Salvador. Equador. todas são de igual importância. Unidade de análise As unidades de análise para o estudo do tema de apoio à democracia. a primeira vista. o Índice de apoio à democracia (IAD) e seus componentes. foi utilizado o software SPSS versão 11. Por isso as diferenças nacionais são importantes e. basicamente seriam refletidas as opiniões e avaliações de brasileiros e mexicanos (aproximadamente 60% da população total). Portanto. Se não for alcançado este valor. Para estabelecer a associação entre variáveis nominais empregou-se a medida V de Crammer e. Foram obtidos valores para América Latina em seu conjunto (18 países) e para três sub-regiões: (a) México. o que supõe nestes casos uma super-representação das opiniões da população urbana nos promédios destes paises. Costa Rica e Panamá. considerando cada país como uma unidade com um mesmo peso. (c) Mercosul e Chile (Brasil. No entanto. Se.70 ou mais são considerados confiáveis e consistentes). Os métodos de análises estatísticas empregados foram simples. Durante o processo de análise da infor- 2 Para uma análise critica do Latinobarômetro 2002 consultar o documento preparado por Miguel Gómez para o relatório A Democracia na América Latina (Gómez. Foram destacadas aquelas que tivessem um nível de significação igual ou inferior a 1% (Ver Compêndio estatístico). foi adotada esta base de dados para a análise de opinião sobre a democracia na América Latina. Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 221 . Colômbia. (b) Região Andina (Venezuela.

à experiência de seus próprios países e não aos da América Latina. Não há informação a nível de unidade primária de observação. 222 A democracia na América Latina . criando um programa de captura de dados eficiente. e não “das e dos latinoamericanos”. 5 Os erros de amostragem são produtos do acaso e são resultado do fato de se entrevistar uma amostra e não a totalidade da população. Quando se fez o “profiling” das pessoas com diferentes tendências à democracia. o universo da amostra do Brasil são algumas cidades e não toda a população. Nicarágua. a análise dos erros de amostragem é muito limitada porque a informação contida no Relatório metodológico 2002 não permite apresentar os erros da amostragem (erros padrão. ■ Os desenhos das amostragens nos países incluídos no estudo são claramente diferentes. inclusive. situação obviamente irreal. supervisionando o trabalho de campo. aos países pequenos (por exemplo. porém.da amostra ponderada. dá uma idéia sobre a possível geração de viés que diminui a representatividade da amostra. Como não são conhecidos os resultados de uma auditoria técnica do Latinobarômetro 2002. assim como uma limpeza do arquivo. o que se faz é calcular esse erro sobre a variação obtida a partir da amostra. umas amostras são nacionais. Por outra parte. onde o tamanho médio do conglomerado final não é muito alto – cerca de 13 entrevistados – se são supostos valores de roh usuais de 0. o que 3 A explicação sobre os erros de amostragem e não amostragem é tomada literalmente da redação feita por Luis Rosero-Bixby para o estudo sobre Cultura democrática em Costa Rica 2004 do Projeto de Opinião Pública da Universidade de Vanderbilt (Vargas Cullell e Rosero-Bixby. não se pode apresentar uma opinião sobre a precisão das estimativas. EP) e os efeitos de desenho (DEF) para índices e perguntas selecionadas. 4 Os erros de não amostragem são os cometidos durante a coleta e processamento da informação. 2004). Para calcular o erro da amostragem de uma estatística (médias. Em termos gerais. ■ Os tamanhos originais da amostra para cada país não foram estabelecidos pela Corporação Latinobarômetro para facilitar uma análise posterior que. mas podem ser controlados construindo um adecuado instrumento de medição. Em conseqüência. Quando selecionamos uma amostra ela é uma das tantas amostras possíveis a serem selecionadas na população. foi utilizada a amostra em seu conjunto sem ponderar. o ED alcança no máximo 1. Isso permite medir o grau de precisão com que esse dado estatístico se aproxima ao resultado obtido nas entrevistas com todos os elementos da população sob as mesmas condições.04. não é possível fazer referência aos erros de não amostragem. proporcionasse resultados representativos para cada um dos países incluídos no estudo. podemos dizer que em casos como o da Costa Rica. Costa Rica) lhes corresponderia uma quota muito pequena. porcentagens. A variabilidade existente entre todas essas possíveis amostras é o erro da amostragem. em alguns países. as outras nações centro-americanas e o Brasil. diferenças e totais).02 a 0. que poderia ser medido se fosse possível dispor de todas essas amostras. Como foi indicado em seções anteriores. cobrem só alguns centros urbanos. ao mesmo tempo que obtivesse resultados representativos para a população da América Latina em seu conjunto. Se ponderássemos a base de dados consolidada atual por população. Por exemplo. entre outros. Uruguai. Para o cálculo deste erro é muito importante considerar o desenho com o qual foi selecionada a amostra. se ponderássemos a amostra do Brasil por população. treinando os pesquisadores para uma correta aplicação do instrumento. os resultados refletem a situação da população entrevistada em seu conjunto. Na prática. revisão de questionário e adequada codificação. A comparação dos resultados da amostra com os da população.50. Precisão dos resultados3 Toda pesquisa por amostragem é afetada por dois tipos de erros: os erros de não amostragem4 e de amostragem5. Nestes casos. calcula-se o erro padrão que é a raiz quadrada da variação populacional da estatística. Esses erros podem ser controlados mas não quantificados. outras são urbanas e. na realidade estaríamos dando um peso excessivo aos habitantes dos centros urbanos em relação aos habitantes de outros países onde as amostras parecem um pouco mais “nacionais”.

Por tudo que foi mencionado.101 da amostra. supõe-se. do contrário. As tabelas do compêndio estatístico apresentam as amostras totais e as amostras válidas para a maioria das variáveis que foram empregadas na análise. em relação aos que seriam obtidos se não houvesse ponderação quadro 1 TAMANHO DA AMOSTRA DO ESTUDO Amostra Número de entrevistas ou tamanho da amostra não ponderada (17 países) Tamanho da amostra ponderada (17 Países) Tamanho da amostra ponderada (18 países após a inclusão da República Dominicana) Tamanho da amostra ponderada (18 países após a dupla ponderação do Paraguai) # casos 18. Ao dar maior peso ao Paraguai mudam. magnitudes totalmente toleráveis. que essas mudanças seriam as esperadas se tivesse sido realizado um estudo com 1. um peso similar ao dos outros 18 países. A não consideração da “não resposta” Desde o início da análise decidiu-se não considerar a “ não resposta”. Todos os cálculos e estimativas foram realizados com base nessa amostra que inclui a dupla ponderação do Paraguai.200 pessoas. da sub-região do Mercosul e Chile (dois a três pontos percentuais). o procedimento de selecionar cidades ou municípios e logo depois subamostrá-los.501 Amostras totais. que se analisara com detalhe na seção seguinte. o que leva ao tamanho de amostras válidas inferiores. se fossem utilizados os mesmos critérios e fossem aplicadas de forma apropriada as técnicas de amostragem estatística. especialmente quando as perguntas foram agrupadas para formar os índices empregados na análise de resultados. Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 223 . Os “não sabe” e “não responde” foram unidos e declarados 6 Quando o estudo cobria 17 países. o que implica erros de amostragem de 1.508 casos.508 casos6.73 ou 2 vezes aos obtidos usando a fórmula usual. porém. pesaria como “meio país” quando se acrescenta informação para analisar a situação regional (América Latina) ou sub-regional (Mercosul e Chile). sexo ou o nível educacional do entrevistado.200 pessoas nas mesmas localidades onde foi aplicada a amostra. Em alguns casos a porcentagem de não resposta é baixa – por exemplo. em outros casos. como de Equador. ■ Se tivesse sido empregada uma amostra de 1. a porcentagem de não resposta é elevada. os resultados não deveriam ser muito diferentes dos que efetivamente foram obtidos com o estudo de 600. amostras válidas e não-respostas O tamanho da amostra total consolidada do Latinobarômetro 2002 nos 18 países onde foi realizado o estudo é de 19.000 registros. O Quadro 2 apresenta essa diferença em relação ao Índice de Apoio a Democracia. os resultados médios do conjunto dos países da América Latina (em décimos de ponto percentual) e mudam um pouco os resultados médios dos países 20. o tamanho da amostra consolidada era de 18. Incluindo República Dominicana acrescentaram-se mais 1.200 pessoas nesse país. quando se trata de variáveis sóciodemográficas como a idade.108 registros (Quadro 1). Entretanto. as amostras válidas são menores do que o total e diferentes segundo a variável sob consideração. Isso aumentou o tamanho da mostra de 19. Aos dados do Paraguai foram dados uma ponderação dupla com a finalidade de simular uma amostra de 1.508 a 20. no estudo. produz níveis de conglomeração elevados (50 ou mais entrevistados) e ED que podem ser de 3 ou 4. devido às “não resposta”.508 18. Na prática. Os motivos que justificaram essa decisão foram os seguintes: ■ Permitir conferir ao Paraguai.501 19. Em outros casos. muito levemente.significa que a conglomeração aumenta a variância de p em um 50% e o erro de amostragem em 22%.

014 1. um go- * Após o resgate de casos através dos procedimentos indicados nos seguintes documentos: Kikut.200 1.4 15. ou não resposta (não sabe e não responde).031 833 794 1. A pergunta diz: Com qual das seguintes frases o(a) senhor(a) está mais de acordo? 1.5 21. Para evitar a indução ao erro da não consideração da “não resposta”. A decisão adotada é conseqüente e consistente com o conteúdo total dos textos.7 14.1 9. Para realizar as análises multivariadas e a construção de índices complexos. é necessário suprimir a “não resposta”.0 21. políticos e jornalísticos essa pergunta é tratada como uma medida-resumo do apoio cidadão à democracia e. foi incluído o tamanho da amostra na qual se basearam. 2003.8 18. 2003ª.000 1.Dominicana Uruguai Venezuela América Latina 1. para todos os resultados inclui-se o tamanho da amostra em que estão baseados. A exclusão da “não resposta” dos resultados na análise dos dados é necessária com a finalidade de não fazer suposições sobre as atitudes das pessoas que se encaixaram nessa categoria e que poderiam ter influência sobre os resultados das análises multivariadas e na construção de índices.200 1. Isso também foi feito no cálculo das tendências em relação à democracia no cálculo do Índice de Apoio à Democracia (IAD). Vargas Cullell e Kikut.224 1. para efeitos de análise.016 1.A democracia é preferível a qualquer outra forma de governo. Apresentação de resultados No texto principal do Relatório.3 O método de medição do apoio cidadão à democracia mais amplamente utilizado e suas fragilidades Na pesquisa Latinobarômetro foi usada uma pergunta para acompanhar a lealdade das cidadãs e dos cidadãos latino-americanos em relação à democracia7. Dessa maneira. 2. para não serem levantadas hipóteses sobre as atitudes das pessoas que se encontram nessa categoria.242 1.187 1. a amostra válida inclui os casos resgatados através do procedimento descrito no texto metodológico respectivo (Kikut. Gómez y Vargas.Em algumas circunstâncias. 2003. No caso dos quadros e gráficos referidos ao IAD e aos modos de participação dos cidadãos. AMOSTRAS TOTAIS E AMOSTRAS VÁLIDAS PARA O ÍNDICE DE APOIO A DEMOCRACIA EMPREGADO NA ANÁLISE DO LATINOBARÔMETRO País Amostra total Índice de apoio à democracia Amostra válida* Argentina Bolívia Brasil Colômbia Costa Rica Chile Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.7 28. feito automaticamente pelo programa estatístico Fonte: Compêndio estatístico 7 Em círculos acadêmicos. indiretamente.200 1. Em todos os casos. 2003: 13-16).217 % não resposta* 19. a não consideração da “não resposta” como alternativa foi sistemática.0 19.101 964 886 663 768 808 873 938 577 703 747 1. isto é devido a necessidade de arredondar os totales ponderados. e por isso sempre é possível a reconstrução dos valores originais e deduzir assim o volume da não resposta. Gómez e Vargas Cullell. ** Os valores para a região são diferentes da soma dos totais por país.188 1.7 25. as porcentagens de quadros e gráficos são das amostras válidas e não das amostras totais.1 22.7 24.006 1. ou amostra efetiva.005 1. São excluídos os valores que faltam.8 30.200 20.000 1. da “saúde” da democracia. ou amostra efetiva quadro 2 (“n” de respostas válidas). ano após ano seus resultados são observados com especial atenção.0 22.8 43.1 29.como missing (valores faltantes).7 36.210 1.7 33.010 1.200 1. 224 A democracia na América Latina .011 856 909 926 928 15.7 26.000 1. sempre é possível a reconstrução dos valores originais e a dedução do volume de “não resposta”. Nesse caso.

A debilidade indicada por Seligson pode ser resolvida examinando a pergunta P32ST em relação a outras do mesmo Latinobarômetro. por outro lado. Propõe explorar o apoio ao sistema mediante uma bateria alternativa de perguntas (Seligson. Embora a pergunta P32ST seja um ponto de entrada útil. A pergunta – codificada na pesquisa Latinobarômetro com a chave P32ST .9 Notas: Não foram incluídas respostas NS/NR. isso não significa que. Não obstante. 3.. por si só. sua crítica não invalida necessariamente a pergunta como ponto de entrada para o exame do apoio cidadão à democracia. No caso das pessoas que manifestam apoiar um sistema democrático. as que escolhem a resposta 2 são as que apoiariam sua substituição por um sistema autoritário e as que selecionam a resposta 3 têm um comportamento ambivalente. surgem resultados que.. em relação à sua idéia de democracia. para o tema da lealdade cidadã em relação à democracia. a freqüência da resposta 1 aumenta. Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 225 . Quando se relaciona a pergunta P32ST com outras que medem o apoio ou a aceitação de regras democráticas. ao não especificar a idéia de democracia que as pessoas possuem. Embora sua observação coloque a necessidade de manter uma atitude cautelosa na interpretação dos resultados. foram somadas as respostas “em desacordo” e “muito em desacordo” com cada uma das afirmações.6 32. potencialmente problemático. seja suficiente para um tratamento mais profundo do apoio cidadão. pois as pessoas adotam uma posição. Da lista.4 32.? Porcentagem que apóia sistema democrático e que está de acordo com… P28UA P28UB P28UC P28UD P38STB Com que o presidente não se limite às leis Com que o presidente imponha ordem pela força Com que o presidente controle os meios de comunicação Com que o presidente deixe de lado o Congresso e os partidos Não me importaria que um governo não democrático chegasse ao poder. 2000). podem parecer inesperados ou simplesmente inconsistentes.verno autoritário pode ser preferível a um democrático.3 32. 8 Seligson argumenta que. ou uma boa medida indireta da “saúde” da democracia. as pessoas que escolhem a resposta 1 (“a democracia é preferível”) são as que apóiam a democracia. Se. prima facie. se resolvesse os problemas do país 38. escolha só uma característica que para o(a) senhor(a) seja a mais essencial em uma democracia”). quadro 3 PROPORÇÃO DE PESSOAS QUE APÓIAM A DEMOCRACIA COM RESPOSTAS “INESPERADAS” EM RELAÇÃO AO APOIO A MEIOS AUTORITÁRIOS PARA RESOLVER PROBLEMAS P32ST Pergunta O(A) senhor(a) está de acordo. ao longo do tempo. A melhor situação para a democracia de um país seria aquela em que quase todos os entrevistados escolhem a resposta 1 e. se diminui. a pior seria aquela em que a maioria se inclina pela resposta 2. supõe-se que o apoio à democracia aumenta. é útil como ponto de entrada no tema. Uma significativa proporção das pessoas que dizem apoiar a democracia demonstra. a pergunta P32ST tem um componente de indeterminação. à primeira vista. freqüentemente. diferem em seus pontos de vista sobre as características mais importantes da democracia. o que significa democracia?”) e P31ST (“As pessoas.foi criticada como medida do apoio à democracia8 (Seligson. em particular às perguntas P30ST (“Para o(a) senhor(a).9 44. Assim. dá no mesmo um regime democrático e um não democrático. como medida-resumo inicial. 2000). o apoio declina.Para pessoas como nós.

Na opinião deste estudo. a pergunta P32ST. Se a preferência pela democracia é apenas retórica. como na alternativa entre desenvolvimento e democracia (quadros 3 e 4). define-se o conceito de “tendências em relação à democracia”. duas posições. então. atitudes contrárias ao funcionamento de instituições básicas da democracia (como o Congresso e os partidos) e apóia a governantes que utilizarem meios autoritários para resolver os problemas do país. verdadeiro. Para cumprir ambos os fins. Embora trate-se de um material va- . ou sua prioridade diante de outros valores socialmente relevantes.possibilitasse a análise da vulnerabilidade das democracias latino-americanas. vistas em seu conjunto. revelam padrões de opinião.7 46. Implica não apenas assumir que as respostas inesperadas são sempre o reflexo de atitudes inconsistentes. a avaliação da democracia como um bom sistema de governo. deveria ser analisada em relação a outras perguntas que exploram dimensões mais concretas desse apoio. basicamente. devido a seu escasso interesse analítico. ao mesmo tempo. mas também que o inesperado não faz parte do nosso estudo.quadro 4 PROPORÇÃO DE PESSOAS QUE APÓIAM A DEMOCRACIA COM RESPOSTAS “INESPERADAS” EM RELAÇÃO A SUA AVALIAÇÃO SOBRE A OPÇÃO ENTRE DEMOCRACIA E DESENVOLVIMENTO Pergunta 32ST Pergunta 35ST Porcentagem que apóia sistema democrático e que está de acordo com… 32. Ante essas respostas inesperadas.8 20. Por um lado. Seria preciso. tanto em termos gerais quanto em assuntos específicos. podem ser adotadas.4 Democracia mais importante Ambas por igual Desenvolvimento mais importante Nota: Não foram incluídas respostas NS/NR. O estudo das tendências em relação à democracia na América Latina utiliza informação proveniente de uma pesquisa de opinião pública. Esta segunda posição é a adotada no Relatório. Do ponto de vista indutivo. Cabe colocar um último comentário sobre a fonte de informação disponível. com o objetivo de determinar se as respostas “inesperadas” obedecem a atitudes meramente inconsistentes das cidadãs e dos cidadãos ou se. 226 A democracia na América Latina Se esse fosse o caso. por exemplo. tal posição é equivocada. Este conceito deveria ser também uma ferramenta que -adaptando o enfoque de Linz. a idéia seria examinar se é possível distinguir os setores que consistentemente têm atitudes democráticas. necessariamente. Respostas igualmente “inesperadas” surgem quando se examina o apoio declarado à democracia em relação a. o que não é. procurar outras variáveis que evidenciem comportamentos mais estáveis. explorar a inter-relação entre variáveis coloca a necessidade de contar com um conceito que permita estudar se as atitudes de apoio ou rejeição ao regime democrático configuram posições determinadas. Em sentido contrário à posição anterior. Em princípio. daqueles que demonstram atitudes pró-autoritárias. que indaga sobre o apoio “em geral” à democracia. a pergunta P32ST como medida da lealdade cidadã ao regime teria que ser desprezada. as respostas inesperadas podem ser empregadas como ponto de partida para um estudo das lealdades cidadãs à democracia. podem ser empregadas como evidência para argumentar a veleidade do apoio declarado a um regime.

O IAD e as tendências em relação à democracia O Índice de apoio à democracia (IAD). à dimensão do exercício do poder. ativismo político e distância das tendências para a democracia. e as semi-leais. semi-leal e desleal). que pode constituir base de apoio social de uma força política “desleal”? Qual é a extensão dessa corrente de opinião frente à que apóia a democracia? Quem são os mais ativos na vida política do país: os que se opõem ao sistema ou os que o apóiam? Qual a dimensão do segmento com atitudes ambivalentes? Do ponto de vista de suas atitudes. que têm atitudes ambivalentes e contraditórias. Linz estuda situações históricas para tirar daí uma teoria comparativa. Para facilitar o entendimento da análise. as perguntas consideradas para determinar as tendências das pessoas sobre a democracia. II. estão os ambivalentes mais perto dos que se opõem ao sistema? Como varia o tamanho da base social destas correntes de opinião? O conceito de tendências para a democracia não é. Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 227 . “não-democratas”. Essa seção inicia-se com uma descrição do procedimento e provas aplicadas para determinar essas tendências e depois descreve o IAD e seus componentes. De fato. e estuda o apoio que os cidadãos 9 Na elaboração do IAD foi buscada a coerência com o conceito amplo de democracia defendido pelo Relatório (a democracia é muito mais que um regime político). incluem tanto atitudes sobre a democracia como regime político e suas instituições políticas representativas. as condições propícias para a quebra da democracia. examinada em relação a outras. Em primeiro lugar. mas não são seu fundamento. As tendências são uma ferramenta para chegar perto do tema da vulnerabilidade da democracia diante da eventualidade de uma crise do regime. As tendências para a democracia conservam o significado dos posicionamentos de Linz (leal. que procuram derrubá-lo. o que as pessoas respondem não reflete necessariamente os valores e as crenças que guiarão suas reações diante de situações concretas. em relação com a permanência ou substituição de um regime democrático. as perguntas e escalas de medição podem ter defeitos que impedem cumprir o fim para o qual foram elaboradas e. como sobre a democracia além do regime político ou dimensão do exercício do poder. Combina os indicadores de tamanho. que é a base do IAD. idêntico ao dos posicionamentos políticos de Linz. Toda pergunta deve ser contextualizada.Linz diz que. As tendências para a democracia são posições de apoio ou rejeição à democracia. as tendências foram rebatizadas da seguinte maneira: os leais foram chamados “democratas”. Os indivíduos podem encobrir seus verdadeiros pontos de vista. 1978). é a medida-resumo para estudar o respaldo dos cidadãos à democracia9. afirma que uma crise do regime derruba uma democracia quando os desleais são capazes de atrair para as suas posições os semi-desleais. há o risco de formular interpretações baseadas na “espetacularidade” ou a conveniência de um dado. mesmo quando as e os entrevistados respondem com honestidade e as perguntas funcionam bem. Este conceito – e os indicadores e índices elaborados pelo Relatório – surgem de uma adaptação da teoria de Juan Linz sobre a falência das democracias (Linz. elaborado para o Relatório. Do contrário. os semi-leais. deve-se lembrar que. Evitar esse risco é justamente um dos propósitos da análise das tendências. “ambivalentes” e os desleais. também. podem ser encontrados entre os cidadãos três posicionamentos: as forças políticas leais ao sistema. Estabelece. às vezes. segundo Mazzuca. identificadas a partir de um conjunto de atitudes sobre a preferência pela democracia e a aceitação das normas em que está baseada. por parte dos leitores não especializados. para ter uma melhor aproximação ao significado dos dados. fazendo referência. A análise das tendências procura responder as seguintes perguntas: existe entre os cidadãos latino-americanos uma corrente de opinião contrária à democracia. as desleais. porém. É a alternativa metodológica á análise deste tema baseado na leitura de variáveis separadamente10. as opiniões refletem apenas de maneira aproximada o pensamento das pessoas.lioso. A leitura de freqüências simples de variáveis foi o ponto de entrada para a análise.

de acordo. ou O/A senhor(a) acha que não é indispensável. em desacordo ou totalmente em desacordo com que o presidente …“controle os meios de comunicação ”? Pergunta p28ud: Se o país estiver em sérias dificuldades.“Em algumas circunstâncias. Pergunta p35st: Se o/a senhor(a) tivesse que escolher entre a democracia e o desenvolvimento econômico. está totalmente de acordo. em desacordo ou totalmente em desacordo com que o presidente …“imponha ordem por meio da força ”? Pergunta p28uc: Se o país estiver em sérias dificuldades. Pergunta p39st: Algumas pessoas dizem que sem Congresso Nacional não pode haver democracia.“Para pessoas como nós. está totalmente de acordo. está totalmente de acordo. Qual frase está mais próxima de sua maneira de pensar? Pergunta p40st: Algumas pessoas dizem que sem partidos políticos não pode haver democracia. 228 A democracia na América Latina . qual diria que é o mais importante? Pergunta p37no2: O/A senhor(a) acha que a democracia é indispensável como sistema de governo para que este país possa ser um país desenvolvido?. enquanto outras dizem que a democracia pode funcionar sem partidos. em desacordo ou totalmente em desacordo com que o presidente …“deixe de lado o Congresso e os partidos ”? Fonte: Latinobarômetro 2002. um governo autoritário pode ser preferível a um democrático ”. em desacordo ou totalmente em desacordo com que o presidente …“não se limite ao que dizem as leis ”? Pergunta p28ub: Se o país estiver em sérias dificuldades.quadro 5 ONZE PERGUNTAS EMPREGADAS PARA IDENTIFICAR AS TENDÊNCIAS EM RELAÇÃO À DEMOCRACIA Pergunta p32st: Com qual das seguintes frases o/a senhor(a) está mais de acordo? “A democracia é preferível a qualquer outra forma de governo ”. Qual dessas frases está mais próxima de sua maneira de pensar? Pergunta p28ua: Se o país estiver em sérias dificuldades. desde que pudesse resolver os problemas econômicos”. de acordo. dá na mesma um regime democrático que um não democrático ”. está totalmente de acordo. de acordo. em desacordo ou totalmente em desacordo com a seguinte afirmação: “Não me importaria que um governo não democrático chegasse ao poder. é possível chegar a ser um país desenvolvido com outro sistema de governo que não seja a democracia? Pergunta p38stb: Está totalmente de acordo. de acordo. enquanto outras dizem que a democracia pode funcionar sem Congresso Nacional. de acordo. Qual dessas frases está mais próxima de sua maneira de pensar? Pergunta p41st: Algumas pessoas dizem que a democracia permite que os problemas que temos no país sejam solucionados. Outras pessoas dizem que a democracia não soluciona os problemas.

12 A agrupação das onze variáveis de interesse nos três fatores indicados cumpre com o método Kaiser-Guttman (“eigenvalores” maiores que um). considerado apropriado para sua utilização em uma análise fatorial . As provas de confiabilidade mostraram que não era conveniente usar índices de adição derivados das dimensões geradas pela análise fatorial. Foram aplicadas sucessivas análises fatoriais a um amplo conjunto de perguntas para medir.80 0.5% de variância. Explica um 23. foi a análise de conglomerados e clusters.57 0. se bem que a variância explicada por eles não é particularmente alta.8% Apoio a instituições representativas 11 O coeficiente de Kaiser-Meyer-Olkin de adequação da amostra para as onze variáveis foi de 0.77. em princípio. O fator 1 forma a dimensão de atitudes delegativas. Fator 1 0.lhe dão. quadro 6 CARGAS FATORIAIS PARA ONZE PERGUNTAS DE INTERESSE NA DETERMINAÇÃO DE TENDÊNCIAS PARA A DEMOCRACIA. os valores e a confiança interpessoal.69 0.5% 16.74 0. Dimensão Atitudes delegativas Pergunta Presidente além das leis Presidente imponha ordem pela força Presidente controle a mídia Presidente deixe de lado partidos e Congresso Preferência por democracia Democracia ou desenvolvimento Democracia indispensável para desenvolvimento Não importa governo autoritário se resolver problemas Democracia soluciona problemas Democracia sem Congresso Democracia sem partidos Variância explicada Nota: Estão incluídas apenas cargas fatoriais maiores de 0. as tendências identificam os padrões de atitudes dos cidadãos e das cidadãs.67 0. mas não possibilitam uma observação direta do comportamento desses atores. A técnica selecionada para determinar a localização dos entrevistados e entrevistadas em uma ou outra tendência para a democracia.8%12. o desenvolvimento. O ponto de partida para a identificação das tendências para a democracia foi a revisão do questionário do Latinobarômetro 2002. atitudes sobre a democracia.85 23.5% da variância). Esse processo permitiu selecionar onze perguntas (quadro 5). as perguntas selecionadas foram agrupadas consistente- mente em três fatores (Quadro 6). Fonte: Elaboração própria com base no Latinobarômetro 2002. e por isso foi usado de maneira independente com cada uma das variáveis. O propósito foi identificar as perguntas diretamente relacionadas com o tema das atitudes de apoio à democracia11.58 0.48 0.5% 13.8% da variância). Em todas as análises. Em segundo lugar.450. Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 229 . O fator 2 compõe a dimensão de apoio à democracia como sistema de governo (16. São determinadas as porcentagens obtidas no fatorial aplicado com as variáveis de interesse –sem incluir o resto das variáveis inicialmente consideradas.81 0.84 0. e o fator 3 está localizado em uma dimensão de apoio a instituições da democracia representativa (13. A variância explicada acumulada foi de 53.77 Fator 2 Fator 3 Apoio à democracia como sistema de governo 0.

63 2.080 -0.00 3.09 3. é desejável fundamentar o número de conglomerados em uma teoria existente.47 1.004 -0.38 3.25 3.25 3.017 0. POR CLUSTER IDENTIFICADO Dimensão Pergunta Centróides padronizados Cluster 1 Positivo Cluster 2 Central Cluster 3 Negativo Centróides sem padronizar Cluster 1 Cluster 2 Cluster 3 Positivo Central Negativo Atitudes delegativas Apoio à democracia como sistema de governo Apoio a instituições representativas Presidente além de leis Presidente imponha ordem pela força Presidente controle a mídia Presidente deixe de lado partidos e Congresso Preferência por democracia Democracia ou desenvolvimento Democracia indispensável para desenvolvimento Não importa governo autoritário se resolver problemas Democracia soluciona problemas Democracia sem Congresso Democracia sem partidos . julgou-se apropriado empregar este método. As perguntas da dimensão do apoio a instituições representativas são binárias e isso lhes diminui poder de discriminação.609 . enquanto que os membros de diferentes grupos sejam relativamente diferentes.511 .98 1.99 3.26 3. As onze perguntas utilizadas na determinação das tendências para a democracia têm uma escala de medição que não chega a alcançar o nível de intervalo.090 -0. Em geral.379 .006 0.372 -0.707 -0. Neste caso.72 2.438 -1.01 1.812 -0.755 0.572 3. É importante. Seu objetivo é atribuir os casos a grupos.07 3.612 .94 Nota: em todas as variáveis. O método selecionado de k-médias deve estar orientado para a classificação de variáveis quantitativas.58 2.47 3. foi calculada a distância euclidiana como medida de similaridade e foi utilizado o método de partição de k-médias.816 -0.383 -0.15 2.32 2. já que contribui para revelar associações e estruturas presentes nos dados que não são observáveis previamente.037 -0. de forma que os membros de um mesmo grupo sejam similares entre si quanto às características selecionadas.97 2.582 . as variáveis foram recodificadas para dar às suas escalas de medição um mesmo nível e direção. contar com elementos de juizo para entender suas implicações.75 2.455 . Postequadro 7 CENTRÓIDES OBTIDOS PARA CADA UMA DAS VARIÁVEIS RELACIONADAS COM DEMOCRACIA. de acordo com as características dos indivíduos atribuídos a cada um deles. dependendo da medida de similaridade e do método empregado. Com essa finalidade.78 2. Este procedimento requer que o pesquisador determine a priori o número (k) de conglomerados que deseja obter13 a teoria de Linz permitiu definir k = 3.416 -0. 13 O algoritmo de análise de clusters encontrará grupos uma vez que tenham sido definidas as variáveis que entrarão em jogo e se tenha estabelecido a instrução do número de clusters que se deseja obter.88 3.28 2.514 .01 1.77 2.64 1. especialmente.68 2.17 3.85 2. A análise de conglomerados pode ser realizada de diversas maneiras.83 2.274 .464 .87 2. denominados clusters.345 . Entretanto. contar con um modelo que respalde a identificação desses grupos e depois validar seus resultados teórica e empiricamente.595 -0.02 1. 230 A democracia na América Latina .029 -0.107 -0.772 -0.268 0. o nível da escala é de 1 (atitude mais contrária à democracia) e 4 (atitude mais favorável à democracia).29 1. devido à magnitude da base de dados disponível.326 0.691 -0.010 0.Essa é uma ferramenta exploratória utilizada com a finalidade de resolver problemas de classificação. todas elas evidenciam uma clara direcionalidade relacionada com a atitude para a democracia das pessoas entrevistadas. então. porque isso permite descrever cada um deles e. Por isso.

os resultados são relevantes. como veremos posteriormente. A proposta por Scheffé é útil para provar a significancia de todos os possíveis pares de médias e é a recomendada quando se compara grupos com diferente número de casos. Para conhecer a relação entre essas médias e determinar qual o quais são diferentes e quais são iguais entre si.4% dos dados foram localizados corretamente no grupo designado pela análise de conglomerados baseada nas funções discriminantes geradas. neste caso os dados têm um sentido e. se utilizam os procedimentos post hoc. pois tende a apresentar valores positivos nas dimensões de apoio à democracia e de apoio às instituições da democracia representativa. o cluster 3 apresenta centróides negativos em dez das variáveis. se aceita que pelo menos uma das médias dos grupos é diferente.03. foi usada uma análise de variância por cluster. 16 Quando. O agrupamento da análise de conglomerados foi validado por meio da análise discriminante. Em 70% dos dados empregados para validação. Com o propósito de verificar a importância das diferenças das médias dos conglomerados nas variáveis empregadas para defini-los. as quais foram aplicadas aos demais 70% dos casos para determinar em que grupos se localizariam. Além disso. à qual foi dada informação sobre os grupos de pertinência dos casos. As provas de estabilidade e confiabilidade dos clusters deram resultados satisfatórios. Isto é.6% dos casos foram atribuídos corretamente. foi estimada a média de 42 resultados. O cluster 1 é consistentemente positivo em seus valores padronizados.020 a 14. as respostas recodificadas foram aplicadas na análise de conglomerados14.308 os casos habilitados para o estudo (74. Por outra parte. por isso podemos afirmar que as cidadãs e os cidadãos classificados neste grupo têm uma tendência não-democrata (Quadro 7). Foi obtida uma atribuição certeira da amostra global de 92.riormente. Foi feito um estudo post hoc com a prova de Scheffé a 5% de significância16.9%. por isso podemos dizer que os indivíduos localizados neste grupo têm uma tendência democrata. O resultado foi que as diferenças são significativas para as onze variáveis nos três conglomerados. foram obtidas as funções discriminantes. como ocorre neste exercício (Steel e Torrie. Por uma parte. 1996). Este tipo de técnica é empregada para provar as diferentes entre os dados comparando todos os possíveis pares de médias. tal como se ha mencionado. Existe uma ampla variedade de provas post hoc. Pode-se dizer que tal percentual é alto e determina a validade da agrupação 14 Zhexue Huang (1997) indica que “o procedimiento habitual de converter dados categóricos em valores numéricos não necessariamente produz resultados interpretáveis naqueles casos em que os domínios categóricos não estão ordenados”. o resultado da análise de clusters não varia diante de diferentes ordens da base de dados. ao fazer uma análise de variância. uma vez introducidos os centroides iniciais. Em 30% da amostra utilizada. para assegurar que os resultados sejam confiáveis. Porém. sendo o único valor positivo muito próximo de zero. 93. tomouse uma amostra aleatória de aproximadamente 30% dos dados. Com base nisso. obteve-se que 92. com a finalidade de determinar aquelas que são diferentes. O cluster 2 pode considerar*se como de pessoas ambivalentes. com a finalidade de utilizar essa informação como os “centróides” iniciais que se proporcionam ao algoritmo da análise de conglomerados15. Com este objetivo. foi desenhada uma metodologia para resgatar os casos com uma ou duas respostas que faltavam. Por último. de acordo com o obtido nos clusters. se rejeita a hipôtese nula. 15 É importante indicar que. todas as perguntas incluídas na análise são úteis para diferenciar os três grupos. o que permitiu elevar de 12. Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 231 . diferentes ordens da base de dados deram variações muito pequenas nos centróides das onze variáveis: 50% tinham desvios padrão menores que 0. mas valores negativos na dimensão de atitudes delegativas.9% da amostra total).

020 pessoas que responderam as onze perguntas de interesse . A melhor situação para uma democracia é aquela em que a tendência democrata agrupa a maioria dos cidadãos e das cidadãs. os ambivalentes estão mais perto da tendência democrata ou da não-democrata. 232 A democracia na América Latina . Os indicadores e índices de apoio dos quadro 8 PROCEDIMENTO APLICADO PARA DETERMINAR OS MODOS DE PARTICIPAÇÃO CIDADÃ Dimensão Participação eleitoral Participação social Participação contatando autoridades Participação em manifestações coletivas PE PSO PCO PMC 0 1 0 1 0 1 0 1 0 1 = = = = = = Descrição Não vota Vota Não colabora Colabora em ao menos 1 atividade Não contata Contata ao menos a 1 autoridade Não participa Participa em ao menos 1 manifestação coletiva Participação violenta PVI = Não participa = Participa em ao menos 1 ato violento. Combina três dimensões que respondem às seguintes questões: ■ Qual é o tamanho de cada uma das mocrata é não apenas a de maior tamanho. não há critérios para categorizálas e criar escalas de intensidade. Os números 0 e 1 são empregados para denotar a presença ou ausência de atividade. As três dimensões do IAD O Índice de Apoio à Democracia (IAD) é uma medida-resumo do apoio dos cidadãos à democracia. a mais ativa. independentemente de 0 ou 1 no resto Essas dimensões não podem ser hierarquizadas sem recorrer a premissas adicionais. os valores expressam uma maior ou menor proximidade em relação a uma situação. em virtude de se haver comprovado que o perfil desses indivíduos não difere muito do das pessoas para as quais se tinham valores para as onze variáveis relevantes. pelo que esta análise se materializa unicamente com aqueles casos que têm toda a informação. em termos gerais. tendências em relação à democracia na cidadania?. mas. Não se esperariam grandes diferenças na situação daqueles dados “resgatados” por ter uma ou duas perguntas sem resposta. Não têm zero absoluto. É elaborado a partir da atribuição das pessoas a cada um dos clusters que identificam as três tendências em relação à democracia.feita pela análise de conglomerados17. ■ Qual é a distância ou a magnitude das diferenças de opinião entre as tendências. A melhor situação é aquela em que a distância entre os ambivalentes e os democratas é bem menor do que a existente entre os primeiros e os não-democratas. 17 A totalidade dos casos usados pela análise discriminante se reduz até 12. mas não expressam proporções. ■ Qual é o grau de ativismo político das tendências? A melhor situação para uma democracia é aquela em que a orientação de- cidadãos são escalas de intervalo. Por serem ferramentas em processo de depuração. também. O ponto crítico é determinar se.

mas que não foram empregados pelo IAD. 0 em PCO e PMC. indica que os democratas são mais numerosos que os ambivalentes. colabora e ação política Participação violenta Descrição Tem 0 em todas as dimensões de participação cidadã 1 em PEL e 0 em PSO. Este indicador indica a proporção de democratas em relação ao resto (ambivalentes e não-democratas) e determina se os democratas constituem ou não uma maioria. Existem. 0 em PEL e PSO 1 em PEL. entende-se a proporção de seus membros que participa ativamente na vida política do país. Este indicador ilustra uma situação crítica: se. A pior situação ocorre quando esses indicadores têm um valor inferior a 1 e próximo de 0. Este determina. 0 em PSO 1 em PSO. mesmo sendo minoria. 1 em PCO e PMC. se ela tem capacidade para pagar suas dívidas de curto prazo. O primeiro é a determinação do ativismo político de cada tendência. Nessa dimensão. PCO e PMC 1 em PEL e PSO. Dessa forma. O IAD toma essa informação da variável “Modo de participação dos cidadãos” (MPC). Uma tendência é mais ativa quanto maior for a proporção dos cidadãos participativos que a compõem. Um modo descreve um perfil característico de atividades de um cidadão. Essa variável distingue os diferentes tipos de intervenção das pessoas na vida social e política de um país e permite elaborar diversas classificações conforme o interesse do pesquisador. a vulnerabilidade de uma empresa. o IAD emprega o indicador de proporção de democratas com relação aos não-democratas18. sua adversária “natural”19. a tendência democrata é ou não de maior tamanho que a não-democrata. (1) Proporção democratas para não-democratas = Qd / Qnd CLASSIFICAÇÃO DE MODOS DE PARTICIPAÇÃO CIDADÃ Nome Não faz nada Só vota Vota e colabora Só ação política Vota e ação política Colabora e ação política Vota. foi aplicado um procedimento composto de dois passos. entende-se a quantidade de pessoas que pertencem a um cluster. Esta é uma classificação nominal cujas categorias não foram planejadas pensando em ordená-las com base em um critério que permita hierarquizá-las. O segundo indicador é o tamanho relativo da tendência democrata em relação à tendência ambivalente. O indicador é igual ou maior que 1 quando a proporção de democratas é igual ou superior a 50% da cidadania. PCO e PMC. Quando em um país ou sub-região os democratas são mais numerosos que os nãodemocratas – uma condição minimamente desejável – o indicador assume um valor superior a 1. na qual existe um indicador denominado “prova ácida”. em curto prazo. 19 Esta idéia foi adotada da análise financeira. Quando tem valores maiores que 1. Para medir essa dimensão. O primeiro é o indicador de maioria democrática. por outro lado. Qnd = número de pessoas com tendência não-democrata. É definida como a razão entre o ativo circulante e o passivo circulante. PCO e PMC. 0 em PEL 1 em todas as dimensões de participação cidadã Qualquer combinação em que a participação violenta for 1 onde Qd = número de pessoas com tendência democrata. a ordem de sua 18 Existem outros dois indicadores de tamanho cujos resultados são comentados no Relatório. Reconstrói-se examinando as coisas que as pessoas fazem nas diversas dimensões de participação cidadã. diversas situações de equilíbrio político que apresentam valores próximos de 1. Segunda dimensão: ativismo político das tendências Por ativismo de uma tendência em relação à democracia. ou seja. Os “Modos de participação dos cidadãos” (MPC) são os tipos de intervenção que os cidadãos e cidadãs praticam na vida social e política.quadro 9 Primeira dimensão: tamanho de uma tendência Por tamanho de uma tendência em relação à democracia. Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 233 .

Classificação de modos de participação cidadã Desta maneira. os não-democratas são mais ativos do que os democratas. O segundo passo é comparar o ativismo das tendências adversárias – democrata e não-democrata – e saber qual delas é a mais ativa. Foram diferenciados 8 modos de participação cidadã. pois os democratas não têm uma vantagem particular. Ox=tendência democrata ou não-democrata. Se a divisão apresentar um valor maior que 1. dinheiro). Quanto maior a afinidade. e vice-versa. Para calcular a distância entre duas tendências deve-se obter. O procedimento para incorporar a dimensão de distância ao IAD é semelhante ao empregado para a dimensão do ativismo. uma situação pouco conve- onde: Di=distância. compromisso e liderança. É obtido dividindo o ativismo da tendência democrata pelo ativismo da tendência nãodemocrata. Em cada uma das variáveis que compõem uma tendência. entre pessoas que pertencem a tendências diferentes. Posteriormente. a ordem de apresentação se inicia com as categorias em que há menor custo pessoal (investimento de tempo. Cavi=centróide da tendência ambivalente na variável i. (4)Di(Ox/A)=∑|Cxvi – Cavi| onde: QmpcX = número de pessoas da tendência “X” que exercem a participação política além do voto: modos de participação dos cidadãos onde há estabelecimento de contatos com autoridades e participação em manifestações públicas.apresentação expressa a aplicação flexível de certos critérios20. Esse indicador. Qx = número de pessoas que apóiam a tendência “X”. Esse indicador expressa a distância média entre as tendências não-democrata 20 Em termos gerais. Ver quadro 9. o indicador examina a afinidade média nas respostas dos membros de duas tendências. D = democratas. Ambas são situações políticas potencialmente instáveis para uma democracia. o ativismo dessas tendências é igual21. depois. ND = não-democratas. o valor absoluto das diferenças entre os centróides (valores médios padronizados conforme a análise de conglomerados) e. entende-se a maior ou menor diferença de opinião nas atitudes de apoio ou rejeição à democracia. 234 A democracia na América Latina . Primeiro calcula-se a distância dos ambivalentes em relação a cada uma das tendências adversárias. por meio do indicador de distância (ID). é o utilizado para o IAD. Cxi=centróide da tendência democrata ou não-democrata na variável i. a ambivalente ou a não-democrata. se o valor for inferior a 1. X pode ser a tendência democrata. 21 Existem outras duas situações que não são analisadas: (a) quando o ativismo é similar em todas as tendências (distribuição uniforme) e (b) quando o ativismo das tendências adversárias (democratas e não-democratas) é similar e muito superior ao dos ambivalentes. (2)Ativismo (OX) = (QmpcX)/QX Terceira dimensão: distância entre as tendências Por distância. uma situação favorável para a democracia. para cada uma das variáveis. comparam-se os resultados dos democratas e dos não-democratas. menor é a distância. e se conclui com as categorias que implicam maior custo pessoal. somá-los. os democratas são mais ativos que os não-democratas. A=tendência ambivalente. Ao fim se acrescenta uma categoria que responde a outros critérios. (3)AC = ativismo D/ativismo ND onde:AC = ativismo democrático. compromisso e liderança. denominado “ativismo democrático” (AC). se o resultado for 1. niente.

cabe ressaltar que a observação dos resultados do IAD em 2002. Por exemplo. num país em que a quantidade de democratas seja quase a metade dos não democratas (AD= 0. um valor de 1. isto é. o índice não apontou resultados inesperados. o índice assume valores muito inferiores a 1 e próximos de 0. Seu algoritmo atual. (5)IDD = Di(D/A) / Di(ND/A) EXEMPLOS DE SITUAÇÕES E VALORES QUE O IAD ASSUME.43 do IAD resume uma situação na qual os democratas são os mais numerosos (mas não a maioria). Por outro lado. se o valor for inferior a 1. todos os fatores têm peso igual. (6) IAD = tamanho [AD] * (Ativismo [AC] / Distância [ID]) Se em um país a maioria dos cidadãos é leal à democracia. os democratas tendem a ser maioria. mas não muito distante dessa cifra. Mais pesquisas são necessárias para encontrar respostas metodológicas válidas aos problemas que a simples formulação do IAD não pode resolver.2). os não-democratas são mais participativos do que o resto das pessoas e apresentam uma pequena distância em relação aos ambivalentes. os não democratas estejam politicamente mais ativos que os democratas (AC=0. No índice. se em um país a maioria dos cidadãos é não-democrata. Um valor de 0. a distância seja pequena (indica atitudes mais afins).quadro 10 e ambivalente como uma proporção da distância entre as tendências democrata e ambivalente. mas são politicamente menos ativos que os não democratas. de forma mais simples. se o resultado for 1. certamente. o ideal é que. A inferência é que um sistema político com estas características é mais 22 Por exemplo.5). ou pode ser que nas três dimensões a situação seja favorável para a democracia. mas isso é mais que compensado por resultados favoráveis nas outras dimensões. em matéria de distância. Pode que se trate de uma situação pouco provável . Nestas situações. a situação é desfavorável para a democracia. Di(ND/A) = distância entre tendências não-democrata e ambivalente. Há a necessidade de uma teoria que hierarquize estes elementos e de pesquisas prévias que ofereçam critérios para ponderar a importância de cada fator. A regra de agregação do IAD O IAD combina o tamanho. Ao contrário. baseado na hipótese de que os três componentes do IAD são independentes entre si e têm o mesmo peso. existe uma eqüidistância dos ambivalentes com relação às tendências contrárias. a ser mais politicamente ativos que os adversários e a ter os ambivalentes muito mais próximos de suas posições. Quando o IAD adota valores superiores a 1. O IAD é uma ferramenta que precisa ser refinada. pode-se concluir que o respaldo à democracia é frágil. uma que pode acontecer. os ambivalentes estão mais próximos dos democratas. o ativismo e a distância das tendências. porém. ainda que por margens relativamente estreitas. entre os ambivalentes e os democratas. Quando o IAD assume valores superiores ou próximos a 5. não funciona apropriadamente em certas situações22. Em alguma dimensão ou componente do índice. têm os ambivalentes ligeiramente mais próximos de suas posições. os ambivalentes estão mais próximos das posições não-democratas. Nestas situações. estão politicamente mais ativos e têm os ambivalentes muito próximos de suas posições. para os diversos países da América Latina. teria um IAD=12. Contudo. Se a divisão apresentar um valor superior a 1. A situação contrária seria quando as condições tendem a ser desfavoráveis para a democracia: os não democratas são maioria. e estes são mais participativos que o resto das pessoas e apresentam uma pequena distância em relação aos ambivalentes. Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 235 . Ao contrário dos indicadores de tamanho e de ativismo. nenhum dos componentes do IAD teve um comportamento “anômalo” que pudesse introduzir distorções no resultado global do índice. como resultado do IAD parece sugerir . mas os ambivalentes se situem majoritariamente mais perto das posições democratas do que as não democratas (ID=0. porém mais atenuadamente. as condições são muito favoráveis à democracia. escolheu-se a opção que. Para não introduzir pressupostos dificilmente justificáveis. expressa a proposta conceitual. a situação tende a ser favorável para a democracia. apesar dessas limitações. onde: IDD = Distância dos democratas como proporção da distância dos não-democratas. sugere que. o IAD apresenta um valor bastante superior a 1.5).15 do IAD corresponderia a essa situação. Esta situação esta longe de ser favorável para a democracia. pode-se concluir que a democracia tem um respaldo dos cidadãos. Di(D/A) = distância entre tendências democrata e ambivalente. nos quais os maiores valores a favor dos democratas apontam para situações excelentes para a democracia.5.

36). o valor do IAD está por volta do 1. Validação e confiabilidade do IAD Pressupostos e limitações do IAD Não se conhecem estudos prévios que tenham aplicado esta metodologia para estudar o respaldo dos cidadãos à democracia. Utilizou-se a pergunta “Estaria disposto(a) a defender a democracia se ela fosse ameaçada?”. por exemplo.27 e r = 0. Não obstante. A análise das tendências em relação à A metodologia proposta baseia-se em três pressupostos. implicaria justificar os pontos de corte entre as categorias definidas. que configuram situações intermediárias de força e debilidade da democracia. Algumas perguntas empregadas para as tendências têm limitações que influem na medição. o desvio padrão foi superior ao das outras variáveis. os valores do índice podem oscilar entre 0 e um número extremamente alto (tende a infinito em um país onde quase todos os democratas são participativos e os poucos ambivalentes estão muito próximos dessas posições).29 e r = -0. A interpretação do IAD Dada a fórmula empregada para calcular o IAD. A padronização exigiria aplicar procedimentos relativamente sofisticados sobre a base de pressupostos adicionais. Podem ocorrer diferentes combinações de tamanho.25. não há observações prévias. que foi incluída nos Latinobarômetro 1996 e 1998. Em geral. outras perguntas foram elaboradas especificamente para o segmento proprietário do PNUD na pesquisa. 236 A democracia na América Latina . em 2002. A criação de uma escala de intensidade. a correlação com a porcentagem de não-democratas é inversa (r = -0. As perguntas com escalas de resposta de duas ou três alternativas não se ajustam plenamente aos requisitos de uma análise de conglomerados. mas não são incluidas todos os anos. além disso. nessas variáveis. por isso. havia mais democratas (r = 0. entre 0 e 1. Essas dificuldades são particularmente palpáveis no caso das perguntas da dimensão de apoio às instituições da democracia representativa. Efetuou-se uma prova da validade externa da análise das tendências.vulnerável a uma crise do que um que conte com um forte respaldo dos cidadãos. como foi explicado. Comparações feitas entre a pergunta sobre a situação econômica do lar e as perguntas sobre a preferência pela democracia e a satisfação com a democracia. os resultados obtidos foram sólidos. 1997. não existem elementos suficientes para padronizar essa variação em um intervalo que varie. cujas escalas de resposta são binárias. 2001 e 2002). respectivamente). Neste nível de conhecimento sobre o tema. os países onde mais pessoas estavam dispostas a defender a democracia foram os países onde. a observação do comportamento do IAD diante de algumas situações hipotéticas permite realizar um primeiro exercício de interpretação (Quadro 10) democracia não pode ser replicada na série de tempo do Latinobarômetro. em 1996 e 1998. Em situações de equilíbrio. Algumas das variáveis empregadas para a análise pertencem ao segmento regular do Latinobarômetro. apontam que a preferência pela democracia não varia segundo a boa ou má situação econômica do lar. mas sim de acordo com a satisfação com seu funcionamento. o que será possível de realizar quando se dispuser de mais observações do que as existentes na atualidade (medição de 18 países em um ano). Além disso. ativismo e distância. nem para categorizar os valores em uma escala de intensidade. Foram correlacionados os resultados obtidos por país com o tamanho das tendências em 2002. Apesar dessas limitações. O primeiro é que as tendências em relação à democracia são 23 A série de tempo do Latinobarômetro não permite medir a estabilidade das tendências em relação à democracia. em distintos anos (1996.

24 Por evento político polarizador entende-se uma crise econômica. Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 237 . 25 Estabelecer o perfil político e social dos ambivalentes é um dos pontos mais importantes deste estudo. No entanto. não há uma “terceira via”: ou defende-se ou subverte-se o regime. presume-se que a resistência oferecida pelos ambivalentes. os ambivalentes podem ter iniciativa política própria sobre um amplo leque de assuntos. Quando a questão política do dia é a sobrevivência da democracia. São desconhecidos os efeitos de uma eventual inclusão do “mundo rural” e dos segmentos urbanos mais empobrecidos sobre os resultados. embora as pessoas que pertencem a uma tendência não constituam. Além disso. que gere a possibilidade de substituição do sistema democrático por outro tipo de regime. podem chegar a sê-lo no caso de enfrentar um evento político polarizador24. que também foram utilizadas como um dos antecedentes incluídos na base empírica do Relatório. da deterioração econômica de um país. que influem sobre a transformação das atitudes em comportamentos. enquanto a vida política não enfrenta a alternativa da sobrevivência ou morte da democracia. esses pressupostos não serão necessariamente certos. especialmente em certos países.relativamente estáveis no tempo. Não se descartam as flutuações diante do efeito acumulado. O segundo pressuposto consiste em que. Dentro do acordo interinstitucional. apesar de não formarem uma força política determinada25. Esses dois pressupostos são uma herança e uma implicação lógica da proposição de Linz. porém. Em terceiro lugar. Existe uma série de fatores. certas características das amostragens do Latinobarômetro aconselham prudência na avaliação do IAD. por exemplo. com perguntas específicas solicitadas pelo PNUD para o presente Relatório. por tratar-se de atitudes relacionadas com o apoio difuso (ou rejeição) à democracia. Por último. difíceis de determinar a priori. uma força política com capacidades organizativas e condução ideológica própria. Em 2002. Na prática. social ou política. é a mesma perante ambas as tendências. ainda que de magnitude desconhecida. objeto da disputa entre as tendências democrata e não-democrata. os ambivalentes não têm iniciativa própria. em matéria de defesa ou oposição ao sistema democrático. infere-se que as variações são menos explícitas do que as que exibiriam as percepções relacionadas com a satisfação em relação ao funcionamento das instituições ou aos resultados econômicos e sociais do sistema23. São. o Latinobarômetro colocou à disposição do PNUD as séries de tempo com dados de pesquisas prévias. Os dados da pesquisa de opinião utilizados neste Relatório foram fornecidos pelo Latinobarômetro. pressupõe-se que. no marco de uma relação contratual de trabalho e de cooperação com o PNUD. É preciso lembrar que as tendências não ajudam a predizer o comportamento das pessoas em termos da subversão ou defesa do sistema. necessariamente. que é a fonte de inspiração desta análise. portanto. o Latinobarômetro incrementou em um terço seu estudo anual.

238 A democracia na América Latina .

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a Ciência e a Cultura UNICEF Fundo das Nações Unidas para a Infância Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime IPEC Abreviaturas 255 .■ Abreviaturas BM BID Banco Mundial Banco Interamericano de Desenvolvimento Centro de Estudos de Justiça das Américas Comissão Econômica para a América Latina Centro Latino-Americano e Caribenho de Demografia Centro Latino-Americano de Administração para o Desenvolvimento Coleção Informativa sobre Processos Eleitorais LASA Associação de Estudos LatinoAmericanos Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico Organização dos Estados Americanos Organização Internacional do Trabalho Organização Mundial da Saúde Organização das Nações Unidas Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Programa de Informações Estatísticas e Monitoramento do Trabalho Infantil Transparência Internacional OCDE CEJA OEA OIT OMS CEPAL CELADE ONU PNUD CLAD SIMPOC EPIC TI FMI IDEA Fundo Monetário Internacional Instituto para a Democracia e a Assistência Eleitoral Programa Internacional para a Erradicação do Trabalho Infantil UNODC IPU União Interparlamentar UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação.

.

Índice de quadros 35 36 44 45 46 46 50 52 53 54 54 55 58 63 64 64 68 70 71 76 85 87 quadro 1 A democracia: uma busca permanente quadro 2 A democracia: um ideal quadro 3 A democracia e a promessa dos direitos cidadãos quadro 4 Declaração Universal de Direitos Humanos quadro 5 Os direitos democráticos quadro 6 A democracia requer mais do que eleições quadro 7 Os alicerces da democracia quadro 8 Cidadania e comunidade de cidadãos quadro 9 A democracia: uma construção permanente quadro 10 Democracia e igualdade quadro 11 Democracia e soberania quadro 12 Uma definição de poliarquia quadro 13 Democracia e responsabilidade dos governantes quadro 14 Estado liberal e Estado democrático quadro 15 O Estado: pressuposto da democracia quadro 16 Estado e globalização quadro 17 Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs) quadro 18 A democracia: uma tensão entre fatos e valores quadro 19 A informação: uma necessidade básica quadro 20 O índice de democracia eleitoral (IDE) Uma contribuição à discussão sobre a democracia quadro 21 A petição cidadã perante as instituições públicas quadro 22 Experiências de participação em governos locais Índice de quadros 257 .

104 106 107 107 108 110 122 123 124 125 127 127 128 144 152 153 187 187 188 188 189 191 192 193 194 194 quadro 23 Dimensões da cidadania civil quadro 24 Legislação sobre violência contra a mulher. política e participação quadro 41 A dimensão associativa da democracia quadro 42 Política. partidos e democracia na América Latina quadro 43 A democracia como princípio de organização da sociedade quadro 44 Privatização perversa do Estado quadro 45 A economia e a política quadro 46 Uma economia para a democracia quadro 47 Democracia e Mercado quadro 48 Modelo único de desenvolvimento 258 A democracia na América Latina . 2002 quadro 25 Povos Indígenas e cidadania quadro 26 A democracia étnica e o multiculturalismo quadro 27 A percepção cidadã sobre a igualdade perante a Lei quadro 28 A petição cidadã ao sistema de administração de justiça quadro 29 Cidadãos pobres e desiguais quadro 30 Dimensões da cidadania social quadro 31 Inserção genuína para os “supranumerários ” quadro 32 O papel da sociedade civil quadro 33 A decência como valor coletivo quadro 34 Disfunções da economia mundial quadro 35 Pobreza e desigualdade: pouca variação significativa quadro 36 Quantos democratas e não-democratas “puros” existem na América Latina? quadro 37 Cidadania de baixa intensidade quadro 38 O Índice de Apoio à Democracia (IAD) quadro 39 O poder dos meios de comunicação quadro 40 Sociedade civil.

196 196 199 quadro 49 Quatro vantagens econômicas da democracia quadro 50 Complementaridade entre democracia e mercado quadro 51 Globalização e impotência da política Índice de quadros da nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção de um Índice de Apoio à Democracia (IAD) 223 224 225 226 228 229 230 232 233 235 quadro 1 Tamanho da amostra do estudo quadro 2 Amostras totais e amostras válidas para o Índice de Apoio a Democracia empregado na análise do Latinobarômetro quadro 3 Proporção de pessoas que apóiam a democracia com respostas “inesperadas” em relação ao apoio a meios autoritários para resolver problemas quadro 4 Proporção de pessoas que apóiam a democracia com respostas “inesperadas” em relação a sua avaliação sobre a opção entre democracia e desenvolvimento quadro 5 Onze perguntas empregadas para identificar as tendências em relação à democracia quadro 6 Cargas fatoriais para onze perguntas de interesse na determinação de tendências para a democracia. quadro 7 Centróides obtidos para cada uma das variáveis relacionadas com democracia. por cluster identificado. quadro 8 Procedimento aplicado para determinar os modos de participação cidadã quadro 9 Classificação de modos de participação cidadã quadro 10 Exemplos de situações e valores que o IAD assume Índice de quadros 259 .

1990-2002 tabela 9 Os partidos políticos e a democracia interna. Pobreza e Desigualdade tabela 2 Reformas e Realidades tabela 3 Percepções sobre as razões de descumprimento de promessas eleitorais por parte dos governantes. 2003 tabela 11 Financiamento de partidos e campanhas eleitorais. 1990-2002 tabela 7 Experiências no tratamento dado a pessoas que procuraram uma entidade pública nos últimos 12 meses. 2002 tabela 22 Percepção sobre a igualdade legal de grupos específicos. 1990-2002 tabela 6 Eleições como meio de acesso a cargos públicos. 1978-2002 tabela 19 Indicadores de percepções sobre corrupção. 2002 tabela 15 Poderes judiciários. 2002 tabela 8 A participação eleitoral. tabela 4 Eleições limpas. 2003 tabela 12 Cadeiras no congresso ganhas por mulheres. 2002 tabela 16 Organismos especializados de controle. 2002 tabela 20 Perfil das pessoas com diferentes atitudes em relação à corrupção. 1990-2001* tabela 10 Cotas para candidatas a cargos parlamentares. 2002 tabela 17 Mecanismos de democracia direta de cima para baixo. 1990-2002 tabela 14 Poderes formais presidenciais. 1978-2002 tabela 18 Mecanismos de democracia direta de baixo para cima. 2002 tabela 21 Redes clientelistas. 1990-2002 tabela 5 Eleições livres.Índice de tabelas 39 42 51 tabela 1 Democracia. 2002. 2002 78 79 81 85 89 90 91 92 93 94 95 96 98 99 100 101 102 103 108 260 A democracia na América Latina . 1990-2003 tabela 13 Proporcionalidade na representação via partidos políticos.

1970-2001 tabela 37 Mortalidade infantil. 2000 tabela 28 Tratados da ONU e da OEA sobre direitos civis fundamentais. c. 2002 tabela 24 Tratados da ONU. 1970-2000 tabela 38 Esperança de vida ao nascer. 2003 tabela 29 Homicídios dolosos na América Latina e em outras partes do mundo. 1993-2002 tabela 34 Direito ao acesso à informação pública e habeas data. 1999 tabela 40 Qualidade educativa e performance do aluno. 2002 tabela 25 Direitos dos povos indígenas. 2002 tabela 46 Fragilidades da preferência pela democracia em relação a outros sistemas de governo. secundária e terciária.110 113 114 115 115 116 117 118 119 120 120 121 129 130 131 132 133 133 134 135 136 136 137 139 tabela 23 Experiência dos cidadãos com o sistema de administração de justiça. 2001-2002 tabela 33 Morte de jornalistas. 1970-2000 tabela 39 Escolarização primária. 2002 tabela 41 Desemprego aberto urbano (taxas anuais médias). 2002 tabela 32 Liberdade de imprensa. (porcentagens) 1990-2002 tabela 45 Cidadania Social: Desigualdade e Pobreza. 1985-2002 tabela 42 Desemprego juvenil (taxas anuais). 2002 Índice de tabelas 261 . 2002 tabela 35 Desnutrição infantil entre 1980 e 2000 tabela 36 Analfabetismo em maiores de 15 anos. 1990-2002 tabela 43 América Latina: estrutura do trabalho não agrícola. 2000 tabela 26 Mulheres no mercado de trabalho 1990-2000 tabela 27 Incidência do abuso de menores nas diferentes regiões do mundo. 2001 tabela 31 População carcerária.2000 tabela 30 Recursos financeiros e humanos dedicados ao sistema de administração de justiça. da OIT e da OEA: direitos gerais e direitos de categorias de cidadãos. (porcentagens) 1990-2002 tabela 44 América Latina: Assalariados que contribuem para a previdência social. presos sem condenação e superlotação.

2002 tabela 50 Perfil socioeconômico das pessoas segundo modos de participação cidadã. médias sub-regionais.145 146 148 150 159 161 163 164 173 174 175 176 tabela 47 Distância entre as tendências em relação à democracia nos diversos temas estudados. 2002 tabela 48 Perfil socioeconômico das pessoas segundo sua tendência em relação à democracia. tabela 54 Os partidos estão cumprindo seu papel? tabela 55 Problemas a enfrentar para fortalecer a democracia tabela 56 Problemas a enfrentar para fortalecer a democracia. 1977. América Latina e Europa Ocidental. américa latina. 2002 gráfico 5 Perfil das tendências em relação à democracia. 2002 262 A democracia na América Latina . 2002 tabela 49 Perfil político das pessoas segundo sua tendência em relação à democracia. 1990-2002 gráfico 2 Ambiente de negócios. América Latina e Europa Ocidental. segundo opinião sobre o estado da democracia em seu país tabela 57 Agenda atual segundo tema tabela 58 Agenda futura segundo tema Índice de gráficos 77 105 105 126 141 143 gráfico 1 Índice de democracia eleitoral (IDE). 2002. tabela 51 Aumentou a participação na América Latina? tabela 52 Aumentaram os controles sobre o poder na América Latina? tabela 53 Quem exerce o poder na América Latina? Segundo o ponto de vista dos líderes consultados. 1990-2000 gráfico 3 Direitos dos trabalhadores. 1985. 2002 (1) gráfico 6 Proporção de pessoas que constituem as tendências em relação à democracia. 1990-2000 gráfico 4 Distribuição da renda na América Latina.

Conteúdo do CD-ROM (parte integrante do Relatório) 263 . 2002 gráfico 8 Panorama regional do IAD.144 154 195 197 gráfico 7 Democratas. Anexo I: Compêndio Estatístico Anexo II: O debate Conceitual sobre a democracia Livro: “Contribuiciones para el Debate” Resumo: Idéias e Contribuições. ambivalentes e não democratas segundo sua posição nas escalas de atitude democrática. 2002 Conteúdo do CD-ROM incluído no relatório Relatório: A democracia na América Latina. 2002 gráfico 9 A agenda dos cidadãos: principais problemas. rumo a uma democracia de cidadãs e cidadãos. 2002 gráfico 10 Posição face à intervenção do Estado na economia. América Latina.

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