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“TALENTOCRACIA”

O desenlace actual da nossa crise depois de “todas as fantasias”, levou-me


hoje a ter preocupações adicionais e, por força de trabalho em progresso, a
reflectir mais profundamente sobre, afinal como vamos sair desta. E tendo
como pano de fundo ao decidir escrever este post, Alves dos Reis, Oliveira e
Costa e João Rendeiro na memória, uma entrevista a Madoff só agora lida e
um revisionamento do filme “Inside Job”, em ambiente caseiro.

Fica-me então a questão: que “talentos” vamos ter de inventar e que “Talentos”
vão surgir para liderar a travessia do “deserto social e económico” em que nos
embrenhámos?

E para tentar encontrar alternativas de resposta voltei a encontrar-me


mentalmente com a expressão “talentocracia” que , não existindo como
vocábulo da nossa língua, significa para mim o que de pior teve a democracia
portuguesa nos últimos 10 anos. E a maioria das Europeias Ocidentais
nos últimos 5: pseudo “Talentos” que, com base na ganância e estupidez,
rebentaram com muita da credibilidade da democracia pela via da economia e
das finanças.

A palavra efectivamente não existe no dicionário de português e apenas a


encontrei referida nalguns textos em espanhol significando (também “ad hoc”) a
“gestão do talento na Sociedade do Conhecimento”. Não só não concordo com
tal “significado” como a adopto como “licença poética tecnocrática” para ponto
de reflexão sobre o que considero ser o bater no fundo da nossa democracia e
economia.Em “voo de cruzeiro” pensavam alguns, mas em “voo de queda
livre” vemos agora quase todos. Afinal batemos foi no fundo porque
não voávamos. Mergulhávamos em permanência.

Assim, que se passa afinal e que merece uma reflexão alerta para os perigos
do que chamo de “talentocracia” enquanto ”gestão da coisa pública e privada
com argumentário, princípios, métodos e técnicas duvidosas por parte de
“talento e de talentosos” duvidosos. Para além de sem vergonha e humildade
solidária para com uma Sociedade que viu nascer uma guerra mundial há
pouco mais de 60 anos .

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Passo a 3 pontos explicativos do que significa para mim a “talentocracia”, a
que é necessário fazer frente, reformatar ou mesmo destruir.

1-O nível de análise da realidade e das propostas de Partidos Políticos e dos


Independentes da Sociedade Civil (que nas grandes e médias cidades em
especial, pouco tem feito e aparecido) é, ou muito sofisticado e não tem
adesão popular junto das classes média e média alta, ou está a um nível de
propostas que, de tão “pouco realistas”, levam muita gente ao “estado a que
isto chegou” e a ter medo de mudar: esquemas, sistemas, problemas atrás de
problemas e gente que só pensa em passar pelos pingos da chuva é terreno
antitalento.

O que aconteceu nos idos anos 80 e de que poucos se lembram (em situações
como as dos dinheiros do FSE e outras situações parecidas), repetiram-se
durante os últimos 10 anos e em que “gente bem pensante e actuante de
qualquer maneira” esteve envolvida até aos últimos cabelos.
Talentocráticamente como se fossem os maiores..

2-Em segundo lugar o tema educação e formação continuam a ter pouca


credibilidade, pesem embora algumas melhorias. Ao contrário do que se lê
(nacional e internacionalmente) e vê ( a olho nu ou em multimédia), não nos
parece que Portugal tenha dado um grande salto no Talento pela via da
Educação . Apenas se pulou um pouco com base nalgum talento físico. E os
dados quantitativos conhecidos apenas têm permitido esgrimir, entre forças
partidárias e alguns académicos, o onde se tem melhorado ou
apenas evoluído lentamente.

Quanto aos elementos qualitativos do tema, as apreciações têm sido muitas e,


muitas vezes, críticas para qualquer um dos níveis de ensino. Mas depois
ficamo-nos apenas por construção de grandes dossiers sobre o
tema. Quiçá livros e conferências. Mas continuamos a não ter, por exemplo,
uma grande/boa Universidade a Nível Europeu. E a ser bons em qualquer
coisa nova. Por exemplo no estudo do mar.

O talento de milhares de novos jovens licenciados, mestres, cientistas (até com


pós doutoramento), não está ao serviço da Sociedade e do tecido económico e,

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nalguns casos, nem se sabe se é verdadeiro Talento, ou apenas grande nível
de horas de sala avaliadas e papeis produzidos.

Por outro lado a formação executiva e operacional a muitos níveis, não é,


muitas vezes, mais do que “entertainement bem acondicionado” (se o docente
fala bem e não provoca grande agitação nas cabeças, é óptimo). Recordo, a
este propósito, sempre, o que me disse um dia um Professor Americano num
curso que frequentei em Harvard, quando o questionei sobre a metodologia do
estudo de casos: ” o que nós aqui fazemos não é tanto ensinar técnicas, mas
sim mexer com a cabeça dos alunos”.E para isso o método é bom. Mas tinha
muito mais: tinha a grande virtude de gente inteligente falar com os
participantes sem o “pedantismo” de alguns Portugueses que conhecia e
conheço.

Talento tinha Leonard Da Vinci que dizia pragmaticamente “quando não se


pode fazer o que se deve, deve-se fazer o que não se pode” , Keynes, Einstein
e, para citar alguns dos nosso ilustres mais recentes, Jorge de Sena, Manuel
Damásio ou Siza Vieira e Souto Moura.

O que hoje por cá temos, sobretudo na Classe Dirigente ou próximo dela, é um


grupo alargado de pseudogénios da ”talentocracia bem falante”, mas que com
nada rompe, nem em obra nem em destruição criativa dos podres: basta olhar
a agricultura, sivicultura, agropecuária, pescas, indústria transformadora e
muitos serviços e desportos (como é o caso do futebol), para constarmos que
os “talentocratas” só trabalham para outrem e em esquema ou sistema. E não
está em causa o seu QI. Mas apenas o seu QS (quociente de seriedade).

Pobre do Pobre que mesmo sério já nem ri. Só espera o milagre. Ou a revolta.

3-A capacidade Cientifica e Técnica do Estado, quase desapareceram entre


leis “sofisticadas” e “arranjos de poder Central e Poder Local” sem controlo. O
sistema de Saúde Publico é um Bem Nacional mas tem insuficiências e
problemas estruturais face à demografia, à desorganização e às constantes
mudanças de orientação estratégica dos Poderes Públicos. O sistema de
Justiça melhora mas vai piorando entre um espectáculo de descredibilização
contínua.As escolas funcionam mas pouco melhoram com base na

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tecnologia.Porque também muitos pais fazem apenas outsourcing da educação
dos filhos a essas escolas, que não podem aguentar a tarefa total. Pergunta-
se: quem repõe a naturalidade das coisas face à “talentocracia educativa que o
eduquês espalhou”?

Finalmente e em síntese: precisamos mais de um País de gente média que


trabalhe todos os dias e menos de génios que só têm uma “tirada” por mês.
Precisamos de mais talento colectivo do que de uma elite que
sistematicamente vai para fora cá dentro sob a capa da integração europeia e
da “talentocracia” tipo Bruxelas. A mesma que nos ensinou paulatinamente o
que era ser “talenteurocrata” e agora nos critica, atirando-nos com dinheiro
para cima de problemas e algumas esperanças palavrosas para cima de
sonhos lusitanos adiados.

Francisco Velez Roxo