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A PROPOSTA INDECENTE DO

BILIONÁRIO

ARIELA PEREIRA
Copyright© 2022 Ariela Pereira

Todos os direitos reservados de propriedade


desta edição e obra são da autora. É proibida a
cópia ou distribuição total ou de partes desta obra
sem o consentimento da autora.

A violação dos direitos autorais é crime estabelecido


na lei n°. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do
Código Penal.

1º Edição
2022
ÍNDICE
SINOPSE
PRÓLOGO
CAPÍTULO 1
Ayla
CAPÍTULO 2
Ayla
CAPÍTULO 3
Ayla
CAPÍTULO 4
Ayla
CAPÍTULO 5
Esdras
CAPÍTULO 6
Ayla
CAPÍTULO 7
Ayla
CAPÍTULO 8
Ayla
CAPÍTULO 9
Ayla
CAPÍTULO 10
Ayla
CAPÍTULO 11
Ayla
CAPÍTULO 12
Ayla
CAPÍTULO 13
Ayla
CAPÍTULO 14
Ayla
CAPÍTULO 15
Ayla
CAPÍTULO 16
Ayla
CAPÍTULO 17
Ayla
CAPÍTULO 18
Ayla
CAPÍTULO 19
Leander
CAPÍTULO 20
Ayla
CAPÍTULO 21
Ayla
CAPÍTULO 22
Ayla
CAPÍTULO 23
Leander
CAPÍTULO 24
Leander
CAPÍTULO 25
Ayla
CAPÍTULO 26
Ayla
CAPÍTULO 27
Ayla
CAPÍTULO 28
Ayla
CAPÍTULO 29
Ayla
CAPÍTULO 30
Leander
CAPÍTULO 31
Ayla
EPÍLOGO
Ayla
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Redes sociais
SINOPSE

Dono de um passado obscuro e de um presente conturbado,


repleto de escândalos sexuais, o bilionário do ramo hoteleiro Esdras
Agostini encontra o local perfeito para construir mais um de seus
resorts de luxo. Um verdadeiro paraíso litorâneo, marcado por
belezas naturais e distante de qualquer vestígio de civilização, a não
ser da pequena cidade existente nas proximidades. No entanto,
após adquirir o terreno, ele se depara com a hostilidade da
população do pequeno município que o sedia. Uma comunidade
extremamente religiosa e rigorosa, que vive isolada do resto do
mundo, faz questão de preservar antigos costumes e tradições e se
recusa a aceitar como vizinho um homem com a reputação tão suja
quanto a dele.
Acostumado a sempre conseguir tudo o que quer, após
enfrentar e perder uma acirrada batalha jurídica, Esdras encontra
uma forma de contornar a situação, propondo um casamento de
aparências com a mais virtuosa e encrenqueira de todas as
moradoras, a professora do Ensino Fundamental, sobrinha da
prefeita e do reverendo, Ayla Medina, com o intuito de se inserir na
comunidade, fingindo fazer parte dela até conseguir concluir seu
projeto. Em troca, oferece-lhe a oportunidade de conseguir um
coração novo para o seu pai, que está há meses na fila de espera
por um transplante.
Embora esteja ciente de que será um casamento de fachada,
que garantirá um coração novo para o seu pai, Ayla não sabe se
será capaz de viver durante meses sob o mesmo teto que um
homem que, além de perigoso, é infernalmente atraente e
charmoso, em um acordo que poderá arruinar definitivamente sua
imagem perante toda a cidade, fazendo com que todos acreditem
que está realmente envolvida com um ser de conduta tão
condenável quanto a dele.
PRÓLOGO

Quinze anos antes...

Sem sombra de dúvida, Eve era a garota mais gostosa que


ingressara na faculdade naquele último ano e estava ainda mais
deliciosa estendida sobre a minha cama, completamente nua, com
os longos cabelos loiros espalhados sobre o lençol; aqueles seios
enormes, de bicos rosados, esticados para cima; a xoxota
deliciosamente depilada e carnuda, toda aberta diante do meu olhar,
à minha disposição, para comer como eu quisesse.
Que delícia!
Contudo, nada me excitava mais do que ver seus pulsos e
tornozelos amarrados à cabeceira e aos pés da cama, deixando-a
completamente aprisionada, fragilizada, submissa a todas as
minhas vontades.
Naquela noite, por fim, eu teria a minha chance de fazer com
ela o que queria desde que a vi pela primeira vez. E faria de tudo.
Tornaria aquele encontro inesquecível para nós dois, em todos os
sentidos da palavra. A foderia tanto e com tanta força, que ela
sequer conseguiria caminhar no dia seguinte.
— Tem certeza de que esse tipo de coisa é segura? —
indagou ela, nervosa a ponto do seu corpo tremer sobre a cama.
Estava se referindo às cordas que a aprisionavam, assustada
com os apetrechos usados para o BDSM que se encontravam no
meu quarto.
— Seguro demais. Faço isso sempre e nunca ninguém se
machucou, nem reclamou.
Completamente nu, subi nela, cobrindo seu corpo pequeno
com o meu e colando minha boca na sua, enquanto percorria
minhas mãos através da sua pele macia, aveludada. Apertei os
seios graúdos, passei a palma pela cintura fina e infiltrei meus
dedos entre seus lábios vaginais, tocando a entrada da sua vagina.
Não consegui evitar a corrente de irritação que me
atravessou quando constatei que a boceta dela ainda estava seca,
sem quaisquer condições de receber o meu pau.
Que merda!
Aquela vadia ainda estava pensando no meu irmão. Havia
saído comigo acreditando que eu era ele, mas seu corpo não estava
reagindo a mim da mesma forma como reagia ao dele.
Aparentemente alguma intuição feminina alertava-a do quanto
estava sendo enganada. O que não era comum.
Normalmente, eu costumava sair com as mulheres que meu
irmão pegava e nenhuma desconfiava de nada, pois éramos
gêmeos idênticos, sem qualquer diferença na aparência. Inclusive,
eu fazia questão de manter o corte de cabelo que ele usava, assim
como a mesma espessura da barba, a fim de aproveitar os
benefícios que essa semelhança me proporcionava. Benefícios
esses que não se resumiam apenas a pegar as mesmas mulheres,
mas traziam muitas outras vantagens, como, por exemplo, as
provas da faculdade que ele fazia no meu lugar de vez em quando,
garantindo-me a aprovação nas disciplinas sem fazer esforço algum.
Na verdade, nós éramos idênticos apenas por fora. Nossa
personalidade era totalmente oposta. Enquanto meu irmão era
introvertido e passava os dias com o nariz enfiado nos livros,
estudando, eu preferia curtir a vida, aproveitando as festas, as farras
e a mulherada, porque não existia nada melhor nesse mundo.
Outro traço do meu irmão que o diferia de mim, era a forma
como tratava as mulheres. Enquanto ele buscava um
relacionamento sério, ou no mínimo duradouro, com as gatas com
quem se envolvia, eu fazia questão de colecionar fodas com todas
elas. Nunca fui fiel a ninguém e comia todas que despertavam o
meu interesse, inclusive as que ele queria. Essas eram as melhores,
pois me davam a chance de provar a ele que não valia a pena levar
mulher nenhuma a sério, embora ele ainda não tivesse aprendido
essa lição.
O cara era tão imbecil com as mulheres, que acabou
engravidando uma garota no colégio quando tinha apenas
dezessete anos e agora era obrigado a pagar pensão para o
moleque, atualmente com dois anos e meio.
Conquistar as garotas que queríamos nunca foi problema
para nenhum de nós. Elas gostavam da nossa aparência, dos olhos
azuis, dos cabelos loiros e do porte atlético. E não era apenas a
nossa aparência que atraía a mulherada. Éramos os dois únicos
filhos dos Agostinis, herdeiros do maior império hoteleiro do planeta,
e isso as deixava ainda mais interessadas.
No fim das contas, a maioria das mulheres não passava de
vadias interesseiras e, ao contrário do que meu irmão pensava, Eve
era uma prova viva disso, pois mesmo que sua intuição a avisasse
de que havia algo errado, estava comigo, pronta para me dar a
boceta. Pena que não seria gostoso como eu imaginava, já que
aparentemente ela era frígida, ou seu corpo não queria a mim, mas
apenas ao meu irmão.
Irritado com o pensamento, dei uma mordida no seu lábio
inferior e ela gemeu alto, de dor. Tentou fugir, mas estava cativa.
— Eu quis estar assim com você, desde que o vi pela
primeira vez. — disse, ao perceber que a curra não tinha saída.
— Sério? — Ergui a cabeça e a encarei com meu sorriso
mais perverso. — Foi exatamente o que eu quis também. Apenas
estava indo devagar.
— Fico feliz que tenha desistido de esperar até que nos
conhecêssemos melhor. Sou louca por você e não conseguiria
esperar nem mais um dia.
Quanta melação e falsidade! O que ela realmente queria era
agregar ao seu currículo social uma passagem pela cama de um
dos irmãos Agostini. Era o que a maioria queria. Nem mesmo estava
excitada a ponto de receber um pau do tamanho do meu sem sentir
dor entre as pernas.
Antes que ela tivesse tempo de continuar falando merda,
fechei minha boca sobre um dos seus seios e passei a língua em
torno do mamilo rosado, para em seguida começar a mamar,
quando por fim seu corpo demonstrou alguma reação, suas costas
arqueando brevemente no colchão, enquanto ela ofegava.
Mudei a boca para o outro peito e dei início a uma forte
sucção, ao mesmo tempo em que massageava o clitóris minúsculo,
movimentando meus dedos em círculos sobre ele, sem que a vadia
gemesse de prazer, como fazia a maioria das mulheres ao serem
tocadas daquela forma.
Enterrei a ponta do meu dedo no meio da sua vagina estreita
e praguejei mentalmente ao descobrir que ainda não estava
suficientemente molhada para ser fodida bem gostoso, embora
estivesse começando a ficar lubrificada.
Fazendo uso de subterfúgios, deslizei minha boca através da
sua nudez, saboreando a maciez da sua pele, passando pelo ventre
achatado, lambendo a pélvis lisinha, até por fim enterrar minha
língua na sua carne macia e desprovida de pelos. Lambi o clitóris
com movimentos circulares, suaves, enquanto ela arquejava. Depois
a penetrei com a língua, fodendo-a bem macio e raso, esperando
por uma reação mais empolgada que seus ofegos fracos, sem que
essa reação acontecesse.
Ela tinha gosto de menta. Certamente havia usado algum
produto do sexshop, o que a tornava doce e suculenta, embora eu
preferisse o gosto de fêmea natural.
Continuei chupando-a bem gostoso, ora lambendo o grelinho
intumescido, ora invadindo seu canal pequeno, até que por fim parei
e a montei, encaixando meus quadris no espaço entre suas coxas,
ansioso demais por sentir o calor gostoso da sua vagina apertando
meu pau.
Voltei a beijá-la na boca, enquanto segurava meu pau, duro
como uma pedra, pela base e o esfregava na sua entrada, para
depois arremeter meus quadris para a frente e entrar nela, com um
único gesto brusco e rápido, o que quase esfolou meu pau entre as
paredes do seu canal apertado, já que não estava suficientemente
molhado para receber um cacete. Mesmo assim, continuei me
movendo dentro dela, entrando e saindo, tentando ir o mais devagar
possível para não machucar a nós dois.
Uma violenta corrente de irritação me invadiu quando ela
começou a gemer alto demais, claramente fingindo, com o objetivo
de me deixar ainda mais excitado e assim me fazer terminar mais
depressa. Pensava que eu era um imbecil que não entendia nada
de mulheres.
Que merda! Aquilo não estava sendo tão gostoso quanto eu
esperava. A garota só queria meu irmão, ou então simplesmente era
frígida. Não tinha valido a pena o esforço para trazê-la até aqui.
Uma punheta teria sido mais prazerosa.
Pensei seriamente em parar, deixar para lá. Contudo,
continuaria pelo menos até gozar, apenas para dar uma aliviada, o
que seria melhor do que nada. Se ela queria fingir que estava
gostando, ao invés de me mandar parar, o problema era dela. Que
se fodesse! No fim das contas, as fodas ruins eram necessárias
para que déssemos valor às fodas gostosas.
Meu corpo suava enquanto eu continuava estocando forte
dentro de Eve. Geralmente eu gozava depressa, mas era difícil
sentir algum prazer com aquela boceta seca e aqueles gemidos
artificiais, altos demais.
Fatigado, querendo acabar logo com aquilo, virei-a de bruços
sobre a cama e puxei seus quadris para cima, deixando-a bastante
desconfortável com as cordas puxando seus pulsos e tornozelos em
direções opostas.
Acelerei ainda mais os movimentos dos meus quadris,
entrando e saindo dela com força, bem forte, forçando o gozo a vir,
sem que seus gemidos fingidos me permitissem me concentrar.
Então, segurei na parte de trás dos seus cabelos longos com uma
das mãos e tapei sua boca com a outra, conseguindo por fim um
pouco de silêncio.
Continuei metendo como um louco, puxando firmemente seus
cabelos para trás, sem que as cordas que prendiam seus pulsos
permitissem que seu corpo se levantasse. Até que por fim o gozo
veio, fazendo meu corpo dar uma ondulada, no mesmo instante em
que ouvi um estalo, de algo se quebrando.
Mas eu não quis interromper meu momento para verificar do
que se tratava e quando a tempestade em meu organismo passou,
quando tudo em mim se acalmou, era tarde demais. Soltei Eve e ela
desabou de bruços sobre o colchão, permanecendo completa e
estranhamente imóvel, naquela posição de desconforto, enquanto
eu me retirava do seu interior e me afastava. Me livrei do
preservativo usado, jogando-o numa lata de lixo.
— Já pode parar de fingir. Eu sei que você nem gostou disso.
Que dirá estar acabada desse jeito — falei.
Esperei que ela dissesse algo, mas nada aconteceu. Ela
sequer se moveu.
Desconfiado de que havia algo errado, sentei-me ao seu lado
e a virei de frente, quando então percebi que estava desacordada,
com seus olhos fechados. Mas por quê?
Chamei pelo seu nome, tentando acordá-la e, quando a
sacudi sua cabeça pendeu para um lado, caindo sobre o ombro,
mole demais, como se o pescoço tivesse perdido todas as suas
vértebras. Foi só então que fixei meu olhar na curva entre sua
cabeça e o ombro e vi a mancha roxa que começava a se formar no
pescoço.
Puta merda! O estalo que ouvi, era o pescoço dela se
quebrando. Caralho! Ela estava morta e eu muito ferrado!
Aflito, pulei da cama com um sobressalto, enquanto minha
mente digeria lentamente a informação, o pânico tomando conta de
tudo em mim, mil imagens terríveis formando-se em minha cabeça.
Pude me ver claramente vivendo em uma penitenciária suja e fétida,
cercado por criminosos violentos, perigosos, capazes das mais
bizarras atrocidades com alguém que tinha a minha aparência.
Puta que pariu! Isso não podia estar acontecendo! Eu não
podia perder tudo dessa forma!
Agoniado, fui até Eve e verifiquei seu pulso e sua respiração.
Nada nela funcionava mais. Estava realmente morta. Eu havia
quebrado seu pescoço sem querer. Cacete! Como fui capaz de
tamanha estupidez?
Aflito, quase desesperado, sentei-me na beirada do colchão e
afundei a cabeça entre as mãos, sem conseguir parar de imaginar
uma vida inteira carregando aquela culpa. Primeiro viriam os
escândalos em todos os jornais, depois a prisão perpétua. Nem
mesmo todo o dinheiro dos meus pais seria suficiente para me livrar
da cadeia, naquela situação.
Eu não podia permitir que isso acontecesse! Precisava dar
um jeito. Pensar em uma saída.
Tentando esfriar a cabeça e pensar racionalmente, levantei-
me e comecei a me vestir apressado. Eu podia jogar seu corpo pela
janela e dizer que ela se atirou após perceber que eu não era o meu
irmão, o mesmo cara com quem vinha saindo há algumas semanas.
Considerando que o nosso apartamento ficava na cobertura, seria
uma queda fatal. Contudo, logo a perícia policial associaria os
hematomas em seus pulsos e tornozelos, provocados pelas
amarras, ao seu pescoço quebrado e chegariam à óbvia conclusão.
Merda! Isso não daria certo!
Cogitei carregá-la até o carro e levar seu corpo para uma
floresta distante, onde a deixaria enterrada. Já teriam se passado
dias até que ela fosse encontrada. No entanto, isso também não
daria certo, pois havia câmeras nos elevadores do edifício. Não
tinha como descer com um corpo sem ser visto. Além disso, muitas
pessoas nos viram juntos naquela noite, quando ela fosse dada por
desaparecida eu seria o primeiro suspeito da polícia.
Porra! Que merda!
Forçando minha mente a pensar, passei a caminhar de um
lado para o outro do quarto, aflito, agoniado. Até que por fim tive a
mais absurda, porém também a mais infalível, ideia para me livrar
daquela culpa.
Eu e meu irmão morávamos no mesmo apartamento, uma
luxuosa cobertura perto do campus universitário. Eu podia
simplesmente levar o corpo de Eve para o quarto dele, deixá-la
deitada em sua cama, ao seu lado, para que ele levasse a culpa.
Certamente a essa hora ele estava dormindo e tinha o sono tão
pesado que jamais notaria minha presença.
Além do mais, as pessoas que me viram com Eve naquela
noite, quando fomos jantar, antes de eu trazê-la para o apartamento,
não sabiam que era eu, acreditavam que ela estava com meu irmão.
Perfeito! Isso daria certo.
Não seria uma atitude digna incriminar um cara que tinha
meu sangue correndo em suas veias, principalmente um cara
certinho e inocente como ele, por algo que cometi. Mas era melhor
do que desperdiçar minha vida inteira na prisão. Ele teria que pagar
pelo meu crime. Não estaria perdendo grandes coisas mesmo, já
que não aproveitava a vida como deveria.
Antes de mais nada, eu precisava verificar se ele estava
realmente dormindo. Então, deixei o meu aposento e atravessei o
corredor andando na ponta dos pés. Abri a porta do quarto dele o
mais cuidadosamente possível, evitando fazer qualquer ruído.
Respirei de alívio ao vê-lo deitado em sua cama, nu da cintura para
cima, profundamente adormecido.
“Me desculpe, irmão, mas minha vida é boa demais para ser
desperdiçada em uma penitenciária”, pensei.
Sem fazer qualquer barulho, saí do aposento, deixando a
porta aberta. No meu quarto, libertei Eve das cordas e as coloquei
sobre seu corpo nu, junto com suas roupas, pois as amarras
precisavam estar no quarto do meu irmão quando o corpo fosse
encontrado. Seriam uma prova incontestável de que os dois faziam
sexo quando ela foi morta.
Enfiei os braços entre seu corpo e o colchão e a suspendi no
ar. Era levinha, bem magrinha, fácil de carregar.
Com meu coração acelerado devido à adrenalina, voltei a
atravessar o corredor na ponta dos pés, carregando Eve em meus
braços e invadi mais uma vez o quarto do meu irmão. Deitei-a
vagarosamente sobre a cama ao lado dele, tomando o máximo de
cuidado para não o despertar. Deixei-a ao seu lado, completamente
nua, sem vida. Depois, joguei suas roupas no chão, peguei as
cordas e as escondi no fundo de uma gaveta, pois, quando a polícia
as encontrasse, acreditaria que ele tentava escondê-las.
Estava feito. Assim que acordasse, meu irmão chamaria a
polícia e tentaria convencer a todos de que era inocente, mas não
teria como provar essa inocência. Seria preso e passaria toda a sua
vida na cadeia.
Quanto a mim, precisava sair de casa e procurar um bom
álibi, para que nenhuma suspeita recaísse sobre a minha pessoa.
Precisava encontrar uma mulher bêbada a ponto de jamais
conseguir se lembrar da hora exata em que apareci em sua vida
naquela noite e já sabia onde procurar. E precisava deixar o
apartamento coberto a ponto de nenhuma câmera de elevador me
reconhecer.
Com a adrenalina ainda solta nas veias, deixei o aposento do
meu irmão, fechando a porta pelo lado de fora e voltei para o meu.
Troquei os lençóis da cama e me livrei de qualquer vestígio da
presença de Eve lá. Em seguida, vesti um moletom com capuz,
peguei as chaves do carro e saí para a noite lá fora.
CAPÍTULO 1
Ayla

Dias atuais...

Todos os alunos já haviam saído da escola, com exceção de


Samuel, que brincava no gramado, correndo atrás de uma bola,
alheio ao mundo à sua volta, como eram as crianças autistas,
enquanto eu permanecia sentada em um banco de madeira polida
perto do portão, segurando a pilha de livros didáticos, observando e
vigiando-o.
Como sempre, a mãe dele estava atrasada para vir buscá-lo
depois da aula, o que não tinha desculpa. Eu compreendia que era
difícil para ela trabalhar no açougue junto com o marido e ainda
cuidar da casa e do filho. Mas pelo amor de Deus! Samuel era seu
único filho. Ela deveria se organizar melhor e não deixar o garoto
sozinho, sem os colegas, depois do horário. E de quebra, ainda me
fazia ficar esperando junto com ele, enquanto todas as outras
professoras iam para as suas casas, preparar o jantar para seus
maridos, cuidar de suas vidas.
Se pelo menos ela fosse mãe solteira, com mais uns três
filhos para criar, dava para entender tanto atraso. Mas em Ivanhoés
não existiam mães solteiras, ou coisas desse tipo. Todas as
mulheres com filhos eram casadas, mães de família respeitáveis,
religiosas e comportadas.
Em nossa cidade, também não existia prostituição, pessoas
viciadas em drogas ou álcool e nenhum tipo de criminalidade, o que
contribuía para que vivêssemos em uma comunidade tranquila,
organizada, repleta de paz e sossego, muito diferente das maldades
que existiam no mundo lá fora. Maldades essas que conheci de
perto, na época em que fazia faculdade.
Em Ivanhoés, todos os cinco mil e seiscentos e cinquenta e
dois habitantes eram Aliesteranos, membros da Congregação
Aliéster, uma religião com poucos adeptos em nosso país. Diferente
do que muitos acreditavam, éramos seguidores de Cristo e
obedientes à palavra da Bíblia. Apenas seguíamos as palavras das
Escrituras Sagradas ao pé da letra, o que levava muitos a nos julgar
como extremistas, e até fanáticos. Só que isso não era verdade.
No nosso modo de vida, as mulheres não podiam falar na
igreja, nem mostrar qualquer parte do seu corpo fora de casa. O
casamento era levado a sério, a família assumida como uma
instituição sagrada, o primeiro grupo social do qual o ser humano
fazia parte. Da mesma forma, o adultério era considerado crime
grave, punível com cadeia e qualquer tipo de violência não era
tolerada.
Em nosso meio, também era proibido o consumo de álcool,
de cigarros e qualquer outro tipo de vício mundano. As danças e
festas eram permitidas apenas na igreja, cujos líderes
administravam todas as intuições públicas, inclusive a escola na
qual eu trabalhava. Desta forma, vivíamos em paz e tranquilos, sem
os problemas frequentes em outros lugares.
Já havia se passado quase meia hora do horário de saída,
quando por fim o carro antigo da mãe de Samuel estacionou às
pressas no acostamento, perto da calçada e logo a mulher saltou.
Era baixinha, rechonchuda e como todas nós, se vestia de maneira
recatada, com uma saia larga, que se estendia até a altura dos seus
tornozelos e blusa de mangas compridas. Os cabelos, longos e
escorridos, estavam grudados no seu couro cabeludo, puxados para
trás e presos em um rabo de cavalo na altura da nuca. O rosto era
desprovido de qualquer maquiagem.
— Você precisa se organizar e vir buscar seu filho no horário
certo! — esbravejei, indo encontrá-la a meio caminho.
— Eu sei. Me desculpe mais uma vez pelo atraso. Tinha
clientes no açougue e meu marido não é bom com os números. Não
consegue usar a calculadora e não sabe passar o troco.
Diante daquela afirmativa, não havia como não me
compadecer. Considerando que a maioria das nossas famílias vivia
da pesca, os homens costumavam abandonar a escola muito cedo
para acompanhar os pais nas viagens de pescaria. Era um
problema da nossa comunidade que precisava ser resolvido. Eu
precisava arranjar tempo de sentar com minha tia, a prefeita, e seu
marido, o reverendo, para juntos elaborarmos uma estratégia que
corrigisse esse erro, pois era inaceitável a existência de pessoas
semianalfabetas em pleno século vinte e um, mesmo em uma
comunidade isolada como a nossa.
— Eu vou deixar passar mais essa vez. Mas tente se
organizar para a segunda-feira.
— Certo. Obrigada. — Virou-se para o garoto e o chamou: —
Vamos, querido!
Por ser autista, Samuel não reagia ao mundo externo como
as outras crianças, não vinha correndo eufórico quando via a mãe
chegando, como os demais. Simplesmente permanecia onde
estava, como se não enxergasse mais nada além da bola com a
qual brincava, seu hiperfoco naquele momento.
Chegava a doer no peito quando ele ia embora sem se
despedir, passando a impressão de que era indiferente a todos, de
que não gostava de ninguém, embora não agisse assim por sua
vontade. Era como sua mente funcionava.
Depois que os dois se foram, deixei a escola aos cuidados do
vigia e segui pela rua de paralelepípedo, segurando os livros de
encontro ao peito, com a bolsa grande pendurada no ombro. Fazia
questão de ir a pé, não apenas porque morava a poucos quarteirões
de distância, mas porque gostava de caminhar através das ruas
largas e tranquilas, ladeadas pelas residências bem conservadas e
pelas árvores frondosas que lançavam suas sombras generosas ao
longo da rua e das calçadas, tendo como trilha sonora o canto
frenético dos passarinhos que faziam dos galhos a sua morada.
Como era fim de tarde, horário em que a maioria das pessoas
estava saindo do seu local de trabalho, a rua se encontrava
ligeiramente mais movimentada, o que significava um carro, ou um
pedestre, passando por mim uma vez, ou outra. A atmosfera era de
calmaria e tranquilidade. Muito diferente da agitação insuportável e
barulhenta da capital, onde estava sendo obrigada a ir de vez em
quando, com mais frequência nos últimos dias, acompanhar meu pai
até um hospital especializado. Ele desenvolvera uma miocardite
persistente, severa, e estava há meses na fila de espera por um
transplante de coração. Considerando sua idade avançada, não era
prioridade do sistema de saúde.
Ao longo da rua, eu ia dando boa tarde a algumas senhoras
que se encontravam sentadas diante das suas casas, olhando a rua
e cuidando da vida de quem passava. Pelo menos era o que faziam
antes da chegada da internet à nossa cidade. Agora viviam com o
nariz enfiado no celular.
Durante muitas décadas Ivanhoés viveu sem internet, pois
não queríamos a interferência do mundo externo na nossa peculiar
forma de vida. No entanto, com o início da pandemia do coronavírus
— que infelizmente, por mais que vivêssemos isolados do resto do
planeta, fizera cinco vítimas fatais em nossa comunidade —,
percebemos a necessidade de comunicação entre as pessoas
durante o isolamento social. Então, instalamos a tão famosa
internet, proibindo apenas as pessoas menores de idade de acessá-
la.
Como diz o ditado, há males que vêm para o bem. A internet
é uma ferramenta nociva, quando utilizada de forma inadequada, ou
em excesso. Contudo, foi através dela que nos livramos de um mal
ainda maior. Da construção de um resort nos limites da nossa
cidade, por um homem que era o demônio em pessoa: Esdras
Agostini.
De acordo com as pesquisas que realizamos nos sites
especializados em notícias, ele havia assassinado uma mulher
quando tinha vinte anos e estava na faculdade. Como se não
bastasse, colocara o corpo da sua vítima no quarto do seu irmão
gêmeo, enquanto ele dormia, a fim de incriminá-lo. Depois, saiu de
casa e se juntou a uma prostituta bêbada, tentando usá-la como
álibi. Mas seu plano deu errado. Primeiro, porque as câmeras de
segurança, tanto do edifício em que morava quanto das ruas
próximas, registraram o momento em que ele saiu do prédio e não
batia com o horário em que disse ter se juntado à prostituta. Depois,
encontraram vários equipamentos de tortura em seu quarto, o que
indicava que era um sádico. Por fim, havia fluidos seus no corpo da
vítima.
No fim das contas, o irmão conseguiu provar sua inocência e
a verdade veio à tona. Esdras era o verdadeiro assassino. Porém,
como é bilionário e sua vítima era uma pobre qualquer, pegou
apenas cinco anos de prisão, alegando que foi um crime passional,
um acidente.
Todas as informações sobre esse caso e sobre o resto da
vida dele, estavam nesses sites, com detalhes bizarros. Havia
inclusive um documentário sobre esse homem em um serviço de
streaming nacional.
Depois que ele saiu da cadeia, sua vida seguiu repleta de
escândalos sexuais. Sua especialidade parecia ter se tornado se
envolver com mulheres casadas e destruir seus casamentos.
Considerando que Esdras já tinha o interesse da imprensa sobre
ele, devido ao seu passado sombrio, cada deslize que cometia
virava notícia nos jornais. Eu só não compreendia como uma mulher
tinha coragem de se envolver com um homem tão perigoso e
diabólico como ele.
Nenhum dos moradores de Ivanhoés teria vendido um só
palmo de terra para alguém como aquele monstro. Mas um idoso
que morava aqui e faleceu de Covid, tinha filhos morando na capital
e estes venderam as terras herdadas logo depois da morte do pai.
Terras localizadas ao lado da nossa pacata cidade.
Tão logo a prefeita de Ivanhoés, irmã do meu pai, recebeu a
documentação do advogado de Esdras, solicitando autorização do
município para a construção do resort, entrou com a lei de Limitação
Administrativa, proibindo terminantemente a derrubada de uma só
árvore naquela área e atualmente estava em meio a um processo
de desapropriação, alegando que o lugar era ideal para se tornar um
parque de preservação ambiental.
Obviamente Esdras reagiu, entrando com várias ações contra
o nosso município. Contudo, nem seus advogados milionários foram
capazes de passar por cima da lei, embora o caso ainda estivesse
na justiça e vinha se arrastando já durante alguns meses.
Não eram apenas as terríveis ações daquele homem que nos
motivava a nos impor contra a construção do seu resort nas
proximidades do nosso município. Nós não queríamos que nosso
pequeno e pacato paraíso se transformasse em mais um berço de
pecado e devastação mundana como eram várias outras cidades do
litoral, com pessoas seminuas circulando pelas ruas, trazendo álcool
e drogas para nossos jovens e adolescentes, desencaminhando
nossas moças. Podia parecer retrocesso, ou cafonice, mas
preferíamos continuar vivendo da forma como vivíamos, em meio à
paz e ao sossego que não se tinha em nenhum outro lugar. Esdras
que encontrasse outro local para construir o seu negócio. Aqui não.
Outro fato bizarro em toda essa história, era que seu irmão
inocente havia desaparecido do mapa pouco tempo depois que
Esdras saíra da prisão, sem que ninguém na face da Terra
soubesse do seu paradeiro. Uns diziam que fora assassinado pelo
gêmeo mal, em retaliação por não ter assumido o assassinato da
garota. Outros especulavam que vivia em algum país distante,
escondido das maldades que o irmão poderia cometer contra ele. A
verdade mesmo, ninguém conhecia.
Imaginar um monstro como esse homem rondando nossa
cidade, me despertou um calafrio na espinha. Ele que ficasse bem
longe de nós!
Após caminhar por quatro quarteirões, atravessei a rua e
dobrei a esquina. De onde estava, eu já podia enxergar o mar no
final de uma grande ladeira, ouvir o som gostoso das ondas batendo
na areia, assim como sentir o cheiro reconfortante da maresia. Nos
finais de semana, quando não tinha aulas, eu costumava dar umas
voltas na praia, apenas para relaxar, feliz por não precisarmos dividir
nosso paraíso com turistas viciados e depravados. Mas de segunda
a sexta o tempo era limitado.
Caminhei mais alguns passos e por fim entrei na casa
simples, de mureta baixa, com um portãozinho de ferro branco,
onde morava com meu pai e minha irmã mais nova. Nossa mãe
tinha ido embora de Ivanhoés quando eu estava com cinco anos,
logo após o nascimento da segunda filha, alegando não conseguir
mais viver de acordo com nossas regras, que considerava estúpidas
e deixando para mim a responsabilidade de criar a filha mais nova.
Da última vez em que mandou notícias, há alguns anos, estava
vivendo na agitação de Nova Iorque, como tanto queria.
Ao avançar através da sala, fui golpeada pela irritação minha
de cada dia. Como sempre, minha irmã Aysha estava espichada
sobre o sofá, pintando as unhas, enquanto a casa sequer havia sido
varrida naquele dia.
Às vezes, eu temia que Aysha fosse como minha mãe e um
dia seria vencida pelo anseio de partir para viver em um lugar
menos monótono.
Respirando fundo para conter a raiva e não explodir,
depositei os livros e a bolsa sobre a mesa com tampo de vidro e só
então aproximei-me dela.
— A casa toda suja de novo, Aysha? — falei, tentando
manter a calma.
— Eu varri mais cedo. Só que sujou de novo — disse, sem
interromper o que fazia.
— E o papai, como está?
— Não muito bem. Reclamou de dor no peito várias vezes.
Oh, meu Deus! Quando aquela agonia ia acabar? Quando o
sistema de saúde arranjaria um coração para o meu pai? Eu não
aguentava mais vê-lo definhando sobre aquela maldita cama.
— Prepare algo sem sal e sem gordura para o jantar — falei.
Aysha quase saltou do sofá, esbaforida.
— Mas eu fiz o almoço! O jantar é com você!
Apertei os lábios e me forcei a reprimir a irritação. Como ela
podia não enxergar o quanto era injusto que eu ainda tivesse que
cozinhar depois de passar o dia todo na escola, enquanto ela não
fazia praticamente nada?
— Vai logo fazer a janta e para de reclamar! Vou ver como o
papai está.
Ela bufou de raiva, mas não disse mais nada.
Fiquei penalizada ao avançar pelo aposento onde meu pai se
encontrava, sentado próximo à janela, magro, abatido, observando o
lado de fora praticamente sem piscar. Eu não podia nem imaginar o
quanto devia estar sendo difícil para ele, um homem que passou
sua vida inteira envolvido com a pesca, vivendo na liberdade infinita
do oceano, ter que ficar trancado o dia todo, com seus movimentos
limitados pela doença.
— Como você está hoje? — indaguei, dando-lhe um beijo na
face.
— Muito bem. Estaria melhor se me deixassem ir dar uma
volta na praia, ficar preso aqui não ajuda em nada.
Realmente, ele não parecia bem. Era possível perceber o
quanto estava fraco pelo tom mortificado da sua voz.
— O senhor sabe que não pode sair de casa. O Dr.
Washington recomendou o máximo de repouso possível.
— O Washington não sabe de nada. Fez faculdade de
medicina em uma vila longe da capital. Se eu sair e me movimentar
vou melhorar mais depressa.
— Temos que seguir as orientações dele. Pois é o único
médico que temos. E os remédios, tomou todos?
— Tomei. Me disseram que aquele homem do resort está
acampado perto do terreno que comprou. É verdade?
Maldita internet que não lhe permitia ficar alheio a esse
problema.
— Não sei, pai. Como eu vou saber disso?
— Não minta pra mim. Todo mundo sabe que ele está
acampado lá e pode fazer uma maldade com sua tia a qualquer
momento.
Meu pai estava certo. Na cidade não se falava em outra coisa
a não ser na presença de um iate gigantesco, com uma piscina na
proa e até um heliponto, que estava atracado nas proximidades da
praia que circundava o terreno que Esdras comprara. O que não se
sabia ao certo, era se ele estava realmente lá, ou apenas seus
advogados, já que eram os únicos que tratavam do caso perante a
administração do município. Na verdade, ninguém da cidade nunca
o tinha visto pessoalmente.
— Pai, o senhor não pode se envolver com toda essa
agitação. Tente não pegar tanto no celular.
— Mas o celular é o que ainda me salva de não morrer de
tédio aqui nesse quarto.
Não adiantava discutir com ele. Era um idoso teimoso e
irredutível.
Após o jantar, como sempre Aysha permaneceu na sala,
assistindo televisão e mexendo no celular, enquanto papai e eu nos
recolhíamos aos nossos respectivos aposentos. Normalmente, eu
costumava dormir cedo, mas como era sexta-feira e não haveria
aula no dia seguinte, fiquei acordada até tarde, lendo um livro.
Não sabia durante quanto tempo estava dormindo, quando fui
acordada pelo estrondo violento de uma trovoada que cortava o céu,
que parecia desabar sobre nossas cabeças, na forma de uma
tempestade feroz que caía incessante. O que não era de se
estranhar, depois do calor infernal que fizera durante o dia.
Ao atravessar a casa para ir ao banheiro, ouvi meu pai
tossindo em seu quarto e fui até lá. O encontrei acordado, coberto
por uma camada de suor frio, com dificuldade para respirar.
— Por que o senhor não me chamou? — indaguei, aflita,
sobressaltada.
— Eu tô bem... — Tossiu. — Não precisa se preo... —
Continuou tossindo.
— Claro que o senhor não está bem.
Aqueles eram os sintomas típicos de uma de suas crises, as
quais tinham o risco de levá-lo inclusive à morte.
Preocupada, peguei um dos remédios indicados para
momentos de crise e, com muita dificuldade, consegui fazer com
que ele engolisse. Mas não resolveu. Meu pai continuou puxando o
ar com muita dificuldade, tossindo e suando. Então, telefonei para o
Dr. Washington, único médico da cidade, o qual me respondeu que
infelizmente estava com Covid e não podia atender meu pai, devido
ao risco de transmitir o coronavírus a uma pessoa idosa, com a
saúde debilitada como a dele. Por mais que já estivesse vacinado, o
risco ainda era imenso.
— Leve-o para o hospital. Mandarei que a enfermeira o
atenda e vou dando as instruções através de uma chamada de
vídeo — disse o médico.
Aquela não seria uma boa opção, porém era a única que
tínhamos, já que a cidade mais próxima ficava a centenas de
quilômetros de distância. Eu teria que dirigir durante todo um dia
para chegar lá e meu pai podia não ter esse tempo.
— Certo. Estou levando ele — declarei e encerrei a ligação.
Acordei Aysha para que me ajudasse a acomodar papai em
nosso velho carro popular e avancei através das ruas desertas da
cidade, praticamente sem enxergar nada à minha frente, devido à
intensidade da chuva que caía.
O hospital ficava do outro lado da cidade. Tentei ir devagar,
com cautela, devido à visão limitada pelo temporal. No entanto,
quando percebi que meu pai estava piorando, tossindo mais
incessantemente, entrei em pânico e afundei o pé no acelerador.
Grande erro! Quando dei por mim, já estávamos praticamente em
cima de outro carro, que parecia ter surgido do nada, em uma rua
transversal.
Ainda tentei frear, mas não deu tempo. Batemos em cheio na
lateral do outro veículo, o que fez com que fôssemos violentamente
arremessados para a frente, a ponto de termos nos machucado
gravemente se não fosse pelos airbags, que funcionaram com uma
perfeição surpreendente, se considerando a idade da nossa lata
velha.
Aflita, quase desesperada, tirei o equipamento de segurança
da minha frente e depois da de papai, que se encontrava no assento
de passageiros, quase deitado. Verifiquei seu pulso, estava fraco,
seus olhos quase se fechando, o suor em seu corpo aumentando.
Nem mesmo tossindo ele estava mais, o que significava que seu
coração podia parar a qualquer momento.
Meu Deus! Não!
Agoniada, girei a chave na ignição, mas o carro não ligou. A
pancada devia ter danificado o motor. Então, tateei o painel à
procura do celular, mas o havia esquecido no quarto do meu pai.
Droga!
Foi então que enxerguei o motorista do outro carro vindo em
nossa direção, um homem muito alto, a quem não reconheci sob a
chuva grossa que continuava caindo implacável.
Sem pensar duas vezes, saí do carro, colocando-me debaixo
do temporal que rapidamente me deixou encharcada dos pés à
cabeça e fui encontrá-lo a meio caminho.
— Será que você não olha por onde anda? — disse o
homem, rispidamente, sua voz grossa, com um sotaque diferente,
irrompendo através da agitação da noite.
Tentei identificar de quem se tratava, mas estava escuro
demais. Não era nenhum morador de Ivanhoés. Eu teria
reconhecido. Na certa era parente de algum membro da população
visitando a cidade, pois daqui eu tinha certeza de que ele não era.
— Por favor, nos ajude. Meu pai está morrendo! — supliquei,
sem hesitar, afinal ele era a última esperança do meu pai ser levado
ao hospital.
— Ele bateu a cabeça no painel? — indagou o homem,
esticando o pescoço para tentar enxergá-lo do lado de dentro.
— Não. Ele é cardíaco. Está em meio a um infarto. Preciso
que nos leve ao hospital. É urgente.
— Merda! Ele tem uma capa para se proteger da chuva?
— Não. Esqueci de trazer.
— Tenho uma aqui. Vou levar vocês.
O homem deu meia-volta e se dirigiu rumo ao seu veículo,
enquanto eu circundava meu carro por trás e me aproximava da
porta do carona. Tinha acabado de abri-la, quando ergui meu olhar
para o homem que se aproximava de nós com uma capa de chuva
nas mãos e por uma fração de segundo um relâmpago cortou o céu,
permitindo-me enxergar claramente o seu rosto.
Não era um visitante. Era Esdras Agostini. Eu reconheceria
aqueles traços em qualquer lugar. Embora nunca tivesse visto-o
pessoalmente, examinara várias fotografias suas na internet. Estava
bastante diferente das fotos, com os cabelos encharcados da água
da chuva e a barba aloirada ligeiramente mais crescida. Contudo,
seus olhos azuis-claros e o rosto anguloso, eram inconfundíveis.
CAPÍTULO 2
Ayla

— Saia de perto de nós! — gritei, tão apavorada que me


afastei do carro de supetão, recuando alguns metros e esquecendo-
me de fechar a porta do lado onde meu pai se encontrava,
deixando-o praticamente exposto à chuva e ao perigo que aquele
monstro representava.
— O que houve? Não quer mais ir ao hospital?
— Apenas afaste-se! Eu sei que você é Esdras Agostini!
Em vez de se afastar, como eu mandava, ele aproximou-se
alguns passos, passando da porta do carro, colocando-se entre mim
e meu pai, enquanto tudo o que eu conseguia era recuar mais, com
minhas pernas trêmulas de tanto pavor, lembrando-me das
monstruosidades que aquele ser humano era capaz de cometer.
— E você, quem é? — No instante em que ele fechou a boca,
outro relâmpago cortou o céu, lançando seu clarão em torno de nós,
iluminando tudo e pude ver nitidamente seus olhos azuis,
mortalmente gélidos, como eram os olhos de um assassino, fixos
em meu rosto. — É a professorinha, sobrinha da prefeita, que está
ajudando a me ferrar.
Processei suas palavras e o pânico cresceu
devastadoramente em minhas entranhas. Com um gesto
automático, percorri os olhos em volta, à procura de alguma casa
para onde pudesse correr e gritar por socorro. Contudo, estávamos
na avenida principal, toda ladeada por estabelecimentos comerciais,
fechados àquela hora. Não havia ninguém por perto que pudesse
me socorrer caso aquele monstro decidisse acabar com a minha
vida ali mesmo, por ajudar a atrapalhar os seus negócios.
E agora? O que eu ia fazer?
— Como você sabe quem sou? — indaguei, enquanto
forçava minha mente a trabalhar em meio ao pavor que a
entorpecia, em busca de uma escapatória para o perigo mortal.
Se não fosse pelo meu pai, eu já teria saído correndo. Mas
não podia deixá-lo.
— Eu sei quem são todas as pessoas que estão tentando me
prejudicar.
— E vai fazer o quê? Me matar? A cidade é pequena. Todos
vão saber que foi você!
— Te matar?! O que diabos você andou fumando?
Quase abri a boca para dizer que sabia tudo sobre o seu
passado, sobre ele ser um assassino frio e sem coração, capaz de
tirar a vida de uma pessoa inocente e ainda tentar culpar o irmão.
Mas seria ainda mais perigoso cutucar a fera estando tão
desprotegida.
— Não somos esses tipos de pessoas que saem por aí
fumando todo tipo de coisa.
— Me poupe desse papo furado de crente. — Além de tudo,
ainda era arrogante — Por mais que tenha vontade, não pretendo te
matar. Quero apenas ajudar.
Esdras aproximou-se da porta aberta do carro, chegando
muito perto de onde papai estava e, como se fosse tomada por um
surto de adrenalina, praticamente voei até eles, colocando-me como
uma barreira entre seu corpo grande e largo como uma muralha de
aço e meu pai, o mais primitivo instinto de proteção orquestrando
minhas atitudes.
— Não toca nele! Se quer fazer algum mal a mim, vá em
frente. Mas meu pai é inocente. Não tem nada a ver com o
movimento que estamos fazendo para impedi-lo de construir seu
resort. A culpa é minha e dos meus tios.
— Não seja histérica. Que a culpa por me atrapalhar é sua e
dos seus tios, eu já sei. Mas no momento só estou tentando levar
seu pai ao hospital. Você não disse que ele está morrendo?
— Não precisamos da sua ajuda! Vá embora daqui e nos
deixe em paz.
Olhando por cima do meu ombro, ele examinou atentamente
meu pai. Depois voltou a me encarar.
— Vocês precisam de ajuda sim. Ele não me parece nada
bem.
Aflita, mordi meu lábio inferior, sem saber o que fazer.
Não podia aceitar a ajuda daquele demônio, até porque não
acreditava que a intenção dele fosse realmente fazer o bem.
Considerando que já sabia quem eu era e me culpava por arruinar
os seus planos, podia facilmente nos levar para uma armadilha. Mas
que outra escolha eu tinha? Se meu pai morresse ali, sem eu ter
feito o que podia, jamais me perdoaria.
— Deixa de ser desconfiada. Só vou levá-lo ao hospital —
disse.
Olhei para meu pai e o vi branco como um papel, sem nem
mais conseguir falar. Estava perdendo sua vida enquanto eu ficava
parada, apenas assistindo. Se havia uma chance de Esdras estar
falando a verdade sobre querer prestar-nos socorro, eu arriscaria,
até porque já não tinha nada a perder.
— Está certo. Nos leve — falei, afastando-me do caminho.
Apressadamente, o homem com cerca de um metro e
noventa de altura e ombros largos pra caramba, parcialmente
visíveis em meio à penumbra, dentro do terno escuro, cobriu meu
pai com a capa de chuva, para em seguida enfiar seus braços entre
ele e o assento, erguendo-o no ar e carregando-o rumo ao seu
carro, com a mesma facilidade de quem carregava um boneco de
plástico, como se meu pai não tivesse peso algum. Gesticulou para
que eu abrisse a porta de trás do seu automóvel, o modelo mais
sofisticado que já vi, e deitou o outro homem com cuidado no banco
traseiro.
Olhando mais de perto, era possível perceber que a batida
havia sido totalmente causada por mim, que invadi uma rua cuja
preferência era dele. Com isto, a parte da frente do meu carro
estava quase completamente destruída, enquanto a lataria do carro
dele estava apenas afundada.
— Pode vir aqui na frente — disse Esdras, quando me viu
sentando no banco de trás junto com meu pai, acomodando sua
cabeça sobre minhas pernas.
Sentar-me ao lado de um homem capaz de assassinar
friamente uma pessoa? Nem morta! Já estava fazendo muito
aceitando sua ajuda. E só o fazia porque não tinha escolha.
— Não. Fico aqui mesmo.
— Você é quem sabe.
Ele sentou-se ao volante e ligou o motor, fazendo com que o
veículo caro saísse deslizando sobre as ruas de paralelepípedos,
quase sem balançar e sem emitir qualquer barulho, como se não
tivesse motor.
— Onde fica o hospital? — indagou Esdras, a voz grossa e
áspera enchendo o interior do carro, impondo sua presença
carregada de uma aura de poder e autoritarismo, que o tornava
ainda mais intimidador e assustador.
— A algumas quadras em frente. Depois, vire à direita.
— O médico já está esperando?
— O Dr. Washington está com Covid, não poderá atendê-lo.
A enfermeira o atenderá.
Senti o peso do seu olhar sobre mim e quando ergui os olhos,
me deparei com suas piscinas azuis, gélidas como dois icebergs,
fixas em mim, como se me sondassem, através do espelho
retrovisor.
— É sério que você vai levar um homem à beira da morte
para uma enfermeira tratar?
Ele parecia perplexo e, desta vez, com toda razão.
— O que eu posso fazer? O Dr. Washington é o único médico
de Ivanhoés e a cidade mais próxima fica a um dia de viagem.
— Eu tenho um helicóptero. Posso levá-lo a um hospital
decente em uma hora.
Lembrei-me dos falatórios na cidade sobre o helicóptero
moderno que havia na parte mais alta do seu iate, algo que os
moradores de Ivanhoés nunca tinham nem visto na vida. Imaginei o
quanto meu pai melhoraria se fosse para um hospital grande, na
capital, onde seria atendido por um cardiologista. Contudo, eu não
arriscaria ainda mais a vida dele enfiando-o na aeronave de um
demônio assassino, principalmente debaixo de um temporal
daqueles.
— Vamos pro hospital daqui mesmo. O médico vai dizer à
enfermeira o que fazer, por meio de chamada de vídeo.
Esdras continuou observando-me através do espelho
retrovisor, dividindo sua atenção entre mim e a direção do carro,
mas não disse mais nada.
No hospital, localizado numa sede que se tornara pequena
demais depois do início da pandemia de coronavírus, devido ao alto
número de pacientes que precisavam de internação praticamente
todos os dias, Alice, a enfermeira, uma mulher com cerca de
cinquenta anos, já nos esperava do lado de fora, protegida da chuva
por uma espécie de varanda. Mantinha uma maca à sua frente e
levantou-se para nos atender no instante em que o carro parou
diante de si.
Ela não demonstrou surpresa ao ver o veículo luxuoso no
qual nos encontrávamos. Aparentemente, estava aflita demais para
demonstrar qualquer outra emoção.
— Vou precisar atender seu pai aqui fora mesmo, pois o
hospital está lotado de pacientes com Covid — disse ela,
sobressaltada. — Acabei de internar uma família inteira que está
doente por causa desse vírus maldito. E seu pai é do grupo de risco.
Não pode nem pensar em entrar lá.
— Mas ele está muito mal. Precisa ser internado — falei,
sentindo minhas esperanças de ver meu pai se recuperando
esvaindo-se de mim, ao passo em que o mais absoluto desânimo
tomava conta de todas as minhas estruturas.
Por Deus! O que seria do meu pai?
— E essa ainda nem é a pior notícia. A tempestade fez a
internet cair. Não posso nem me comunicar com o Dr. Washington.
Não vou poder fazer muito pelo seu pai.
Ela se calou e fixou seu olhar em Esdras, observando-o com
atenção enquanto ele deixava seu lugar ao volante, contornava o
carro e pegava meu pai em seus braços, deitando-o
cuidadosamente sobre a maca com rodinhas. A expressão que
surgiu no olhar dela, era de puro estarrecimento e perplexidade, o
que era perfeitamente compreensível. Sob a claridade forte da luz
na varanda, foi possível perceber o quanto Esdras era diferente de
todos os homens que já pisaram seus pés nessa cidade. Parecia um
espécime masculino raro, saído das fantasias mais românticas de
toda mulher com sangue nas veias. Era ainda mais alto do que eu
havia notado, tinha o porte atlético, visível dentro do terno caro.
Possuía uma postura de altivez, de soberania, que parecia inerente
à sua personalidade e lhe conferia um charme quase irresistível,
acentuado por aquele aspecto de poder e ao mesmo tempo de
perigo, que ele possuía. Seus cabelos eram da cor do trigo, o rosto
másculo, o queixo forte, oculto por uma barba curta aloirada. A pele
era desprovida de qualquer imperfeição, os olhos de um azul-claro
cristalino, frios como gelo. Pareciam olhos de um demônio, presos
ao rosto de um anjo.
Não existia nada sobre aquele homem que não fosse
estonteante e perfeito, o que podia ser usado como uma armadilha
fatal contra quem não sabia do que ele era capaz.
— Ele está com muita dificuldade pra respirar. Será que não
tem algum líquido no pulmão? — indagou Esdras, com sua voz
grossa, parecendo despertar Alice do transe no qual havia
mergulhado desde que colocara seus olhos nele e só então percebi
que eu própria me encontrava no mesmo estado de
deslumbramento.
Não me faltava mais nada!
— Deve ser isso. Ele precisa de uma drenagem. Só não
posso fazer — disse Alice.
— Mas não temos mais para onde correr. — A angústia
crescia em meu íntimo, tomando conta das minhas terminações
nervosas.
— Eu sinto muito — continuou a enfermeira. — O que posso
fazer é ministrar um estimulante e um remédio pra dor, para ver se
ele aguenta até um médico de outra cidade vir. Alguém tem que
substituir o Dr. Washington. Não vou dar conta de tudo aqui sozinha.
Ela parecia realmente desesperada.
— Considerando que vai demorar uma eternidade até
acharem alguém que queira vir para esse fim de mundo e mais uma
vida inteira para esse alguém chegar até aqui, acho melhor vocês
virem comigo. Eu levo vocês de helicóptero para a cidade — disse
Esdras e não tive nem forças para rebater.
Meu pai já estava praticamente desacordado. Um minúsculo
sopro de vida mantinha sua respiração. Se eu não agisse, morreria
naquela varanda e eu passaria o resto da minha vida atormentada
pela certeza de que poderia ter feito alguma coisa.
— É a melhor opção — disse Alice, séria — Se você deixar
seu pai aqui, ele pode morrer.
Mas era de Esdras Agostini que estávamos falando. Como eu
poderia entrar em um helicóptero com um homem como ele,
colocando não apenas a vida do meu pai, mas a minha em suas
mãos? Seria loucura!
— Não tem nada que você pode fazer? — indaguei, com
minha voz fraca.
— Não. Como eu disse, só posso aliviar o sofrimento dele.
— Deixa de ser teimosa! — A voz grossa, imperiosa,
irrompeu pelo ar, cortando meus pensamentos, enquanto eu erguia
o olhar e me deparava com as piscinas azuis gélidas me fuzilando
com inquirição. — Não está vendo que vir comigo é a única forma
de salvar a vida dele?
E depois, obviamente, ficar em dívida com você. Pensei. Mas
o que era o depois, comparado à vida do meu pai? Nada, nem
mesmo a paz de Ivanhoés, valeria a pena se ele se fosse.
— Certo. Nós vamos — falei.
Esdras se virou para Alice, perguntando:
— Você tem algo com o que possamos amarrá-lo à maca?
CAPÍTULO 3
Ayla

Pouco tempo depois, meu pai estava amarrado e bem preso


à maca, no banco de trás do carro de Esdras, com uma injeção de
adrenalina nas veias, aplicada por Alice, segundo ela, para evitar
que perdesse a consciência durante a viagem, o que poderia levá-lo
à morte súbita.
Quanto a mim, estava sentada no banco do carona, ao lado
do homem a quem temia mais do que tudo nessa vida, enquanto ele
dirigia em silêncio, concentrado na rua à nossa frente, com seu
maxilar cerrado, as sobrancelhas formando o vinco em sua testa.
Meu medo era tanto, que eu não conseguia controlar o tremor em
meu corpo, piorado pelo frio provocado pelas roupas molhadas.
A tensão que pairava no interior do veículo era quase
tangível. Embora não o olhasse de frente, a todo momento eu
observava aquele homem com minha visão periférica, tentando
prever suas intenções, identificar se pretendia nos fazer algum mal.
— Isso tudo é frio, ou a minha proximidade a apavora a ponto
de fazê-la tremer? — indagou Esdras, lançando-me um rápido olhar.
— As duas coisas.
— Não há razão para ter medo. Não pretendo te fazer mal.
— Eu sei tudo sobre o seu passado. Sei o que fez com
aquela garota há quinze anos e sei que tentou colocar a culpa no
seu irmão — disparei, num impulso impensado.
Jesus! Ele poderia me matar só por eu ter dito aquilo. Onde
eu estava com a cabeça para confrontar desta forma um assassino
frio e sem escrúpulos?
Com o canto do olho, percebi a mudança na sua postura, a
tensão tomando conta dele, seus dedos apertando em torno do
volante e cheguei a cogitar abrir a porta do carro e saltar. Só não o
fiz porque não podia deixar o meu pai.
— Não acredite em tudo o que lê na internet — falou, com
sua voz surpreendentemente calma.
— Está me dizendo que é tudo mentira? — Por que eu não
conseguia ficar de boca fechada?!
— Não. Só estou dizendo que nem tudo é o que parece.
Quis continuar perguntando, porém, nesse momento o carro
deixou a rua asfaltada e avançou através de uma estrada de chão
recentemente aberta em meio ao matagal, seguindo na direção
onde ficavam as terras que ele comprara. Ali já não havia mais ruas
nem casas, ou qualquer outro sinal de civilização. Tudo à nossa
volta era escuridão e mata fechada, o que fez com que o pânico
triplicasse em meu íntimo, intensificando os tremores em meu corpo.
— Então é por isso que vocês ficam colocando dificuldades
para que eu construa nas minhas terras? Por que têm medo de
mim?
— Não apenas por isso. Não queremos que nossa cidade
seja maculada pelo pecado trazido pelos turistas. Nós vivemos em
paz aqui, sem vícios mundanos, sem corrupção e sem violência. Um
resort aqui perto iria interferir negativamente no nosso modo de
vida.
— Vocês vivem como no século XVIII, se privando do que a
vida tem de melhor a oferecer. Um resort aqui perto vai trazer
dinheiro e desenvolvimento para a sua cidade, vai gerar empregos,
melhorar a vida de todo mundo.
— Nem tudo nessa vida se resume a dinheiro.
— O mundo é movido pelo dinheiro.
Seguimos por mais alguns metros, até que por fim o carro
avançou através de uma área parcialmente desmatada, onde estava
o acampamento do qual todos na cidade falavam, todo formado por
trailers do tamanho de ônibus, que lembravam casas adaptadas.
Passamos direto por eles e nos aproximamos da praia, onde havia
uma lancha atracada.
Dispensando a minha ajuda, Esdras carregou a maca do meu
pai até a lancha, acomodando-o cuidadosamente na proa, entre as
espreguiçadeiras estofadas. Depois, pegou a direção e em poucos
minutos estávamos nos aproximando do iate, que era ainda maior e
mais impressionante do que as pessoas falavam. Lembrava uma
minicidade flutuante, contando com pelo menos uns quatro andares.
Sob os pingos da chuva que havia amainado, ele fez uso da
sua admirável força física para mais uma vez carregar meu pai até a
parte mais alta da embarcação, onde estava o moderno helicóptero
do qual todos falavam embasbacados.
— E o piloto, onde está? — indaguei, tão logo Esdras
acomodou meu pai na parte de trás do helicóptero.
— Dormindo. Vai demorar demais até acordar e se preparar.
Eu mesmo piloto.
— Mas você sabe pilotar essa coisa? — O medo me deixou
ainda mais gelada.
— Claro que sei. Entre aí e coloque os fones de ouvido em
vocês dois.
Invadida pelo medo aterrador, de toda aquela situação, não
tive opção que não obedecer. Então, acomodei-me na parte de trás
junto com o meu pai, cobrindo nossos ouvidos com os grandes e
apertados fones silenciadores, enquanto Esdras ocupava seu lugar
na direção.
Logo a máquina foi ligada, suas hélices gigantescas emitiam
um som que seria ensurdecedor se não estivéssemos protegidos e
levantamos voo. Graças aos céus, a chuva havia diminuído bastante
e tudo o que restara eram pingos fracos que ainda caíam.
Após alcançarmos certa altura, consegui enxergar as luzes
distantes de Ivanhoés, que foram se transformando em um pequeno
pontinho branco em meio à vasta e sombria escuridão à medida que
nos afastávamos, até desaparecerem de vez e não restar mais nada
abaixo de nós a não ser o manto negro e silencioso, formado pelo
mato e pelos morros.
Durante um longo período, não se enxergava nada lá
embaixo, até que aos poucos foram surgindo algumas luzes
perdidas no meio do nada, esporadicamente, as quais se tornavam
cada vez mais frequentes.
Enquanto pilotava, Esdras falou através do rádio com alguém
que trabalhava no hospital, avisando que estava levando um
paciente cardíaco em estado grave e precisaria do heliponto para
aterrissagem imediata.
O dia começava a amanhecer quando por fim a grande
metrópole foi se materializando abaixo de nós, com seus edifícios
imponentes despontando em meio à névoa cinzenta da manhã.
Era a mesma cidade onde fiz faculdade de Pedagogia, da
qual não sentia a mínima saudade. Pelo contrário, marcou uma fase
da minha vida que eu só queria esquecer, onde vivi meu pior
pesadelo, o qual vinha lutando para apagar da memória.
Em questão de minutos, o helicóptero estava descendo e
logo aterrissamos no topo de um edifício, onde dois homens
uniformizados de enfermeiros, nos aguardavam com uma maca.
Só consegui voltar a respirar regularmente quando meus pés
se firmaram sobre o concreto da cobertura.
Sob as orientações de Esdras, que parecia dar as ordens por
ali, os profissionais da saúde removeram meu pai de onde estava e
o acomodaram cuidadosamente sobre a maca, um deles verificando
seus sinais vitais, o outro empurrando o equipamento que o
transportava, levando-o para dentro, enquanto Esdras e eu o
seguíamos de perto.
— Como ele está? — indaguei aos enfermeiros, desesperada
ao ver meu pai pálido, fraco, sem conseguir falar desde que saímos
de casa.
— Não parece bem — disse um dos homens — Mas vamos
esperar pela avaliação do médico para termos um diagnóstico mais
preciso.
Entramos no elevador e começamos a descer.
— Qual cardiologista está de plantão hoje? — indagou
Esdras, como se já conhecesse aqueles homens.
— Dr. Ferrari.
— Ótimo. — Virou-se para mim e acrescentou: — É um dos
melhores do país.
Por mais que um sentimento de gratidão tomasse conta de
mim, havia também o receio do que aquele monstro exigiria depois
como pagamento por salvar a vida do meu pai. Eu podia apostar
que ia tentar me convencer a persuadir meus tios a darem-lhe
permissão para a construção do seu resort nos limites do município.
Só que eu não tinha todo esse poder. Nada nem ninguém faria com
que eles mudassem de ideia, principalmente porque tinham o apoio
de toda a população da cidade. Esdras teria que se contentar com
um simples “obrigada”.
Deixamos o elevador no décimo andar, onde os enfermeiros
nos orientaram a aguardar em uma sala grande, completamente
deserta, mobiliada com poltronas luxuosas de couro, enquanto
levavam meu pai para o setor da cardiologia.
Aflita, eu me perguntava se aquilo tudo não se tratava de
uma grande armadilha. Se Esdras não nos levara até ali com o
intuito de usar meu pai para vingar-se de mim. A verdade, era que
estávamos completamente em suas mãos, em um lugar onde
aquele homem parecia conhecer todo mundo.
— Não se preocupe. Seu pai vai melhorar — disse Esdras,
com sua voz grossa irrompendo através da sala grande, vazia e
bem iluminada, fazendo eco.
— Como você pode garantir isso com tanta certeza?
— Esse é um dos melhores hospitais do país, com médicos
renomados que seriam capazes de tudo para recuperar um paciente
trazido por mim.
— E por que você seria tão importante pra eles? Por acaso é
o dono do hospital?
— Sim, sou.
Fitei-o surpresa.
— Achei que você trabalhasse no ramo da hotelaria.
— E trabalho. Mas sou um investidor e os hospitais têm sido
um ótimo investimento, principalmente em tempos de pandemia.
— Ganhar dinheiro à custa da desgraça alheia é mesmo a
sua cara.
— Você tem a língua muito afiada pra uma pessoa
evangélica.
— Eu sou evangélica, não sonsa.
— Como tal, não deveria pregar o amor e a caridade?
— O amor pelo dinheiro não conta.
— Vocês também amariam o dinheiro se soubessem tudo o
que ele pode comprar. Mas enfim, cada qual com sua opinião.
Mudando de assunto, meu apartamento fica aqui perto. Você
gostaria de ir até lá trocar essas roupas molhadas e tomar um café?
Ir até a moradia de um sádico assassino de mulheres sozinha
com ele? Nem morta!
— Não saio daqui sem o meu pai.
— Considerando que você é uma garota religiosa, talvez não
seja apropriado ficar aqui assim tão exposta.
Não entendi sobre o que ele estava falando até seu olhar
descer pelo meu corpo, fazendo com que eu seguisse seu percurso.
Apenas então me dei conta de que o tecido de algodão do meu
vestido longo e folgado estava totalmente transparente por causa da
água da chuva, colando-se em minha pele, deixando-me nua quase
por completo. A linha da minha cintura, minhas coxas e a curva dos
meus quadris estavam totalmente visíveis e se não fosse pela
calcinha e o sutiã, estaria aparecendo tudo mesmo.
Em choque, precisei conter o grito agudo que ameaçou saltar
da minha garganta e corri em disparada na direção da primeira porta
que meus olhos alcançaram, um banheiro quase do tamanho da
sala da minha casa. Fechei a porta por dentro e recostei nela,
petrificada de tanto constrangimento.
Imaginei o quanto estivera exposta aos olhos de Esdras
desde que o encontrei, ainda em Ivanhoés, e quase desfaleci de
tanta vergonha.
Jesus misericordioso! Durante todo esse tempo, minha nudez
esteve na mira do olhar dele, sem que eu percebesse nada! Que
vergonha! Logo ele, um homem promíscuo, envolvido em vários
escândalos com mulheres casadas! Um homem capaz de coisas
terríveis!
Que vexame! Até mesmo os enfermeiros tinham me visto
quase nua.
— Está tudo bem aí? — A voz de Esdras alcançou-me do
outro lado da porta.
— S-Sim. E-Eu só preciso de um tempo.
Percorri os olhos em volta, à procura daquele trambolho de ar
quente que as pessoas costumam usar para secar as mãos, nos
filmes, mas não havia nada além de toalhas de papel. Cacete!
— Vamos pra minha casa. Peço à minha governanta que te
compre roupas novas. Fica a cinco minutos daqui.
— Não posso sair daqui assim. Vou esperar as roupas
secarem.
Quase pude ouvi-lo bufando do outro lado da porta.
— Não há ninguém no percurso daqui até o helicóptero.
Portanto, ninguém vai te ver.
— Você verá.
— Mas eu já vi tudo. Que diferença vai fazer?
Precisei conter um gemido de puro desconcerto e indignação.
— Não saio até minhas roupas secarem.
— Isso vai demorar horas.
— Não tem problema.
Ouvi seu suspiro resignado do outro lado.
— Certo. Vista meu paletó. Ele é bem grosso. Vai te cobrir.
Hesitei por um momento, ponderando se deveria aceitar. E
que outra escolha eu tinha? Considerando que todo o lugar era
refrigerado, meu vestido podia demorar o dia todo para secar e eu
precisava falar com o médico sobre o estado de saúde do meu pai.
— Está bem. Vou abrir um pouco a porta e você me entrega.
Mas não me olhe de novo.
— Como quiser.
CAPÍTULO 4
Ayla

Entreabri a porta e Esdras enfiou o paletó através do


pequeno espaço, antes que eu a fechasse novamente. Assim que
vesti a peça escura e pesada, fui inebriada pelo cheiro gostoso de
perfume caro masculino. Esdras era um monstro, mas cheirava
muito bem. Isso ninguém podia negar.
Ao me colocar diante do espelho grande sobre a pia,
constatei, satisfeita, que o paletó era comprido o bastante para se
estender até abaixo dos meus quadris e realmente escondia a
minha nudez. Percebi também que o rabo de cavalo que prendia
meus cabelos, quando saí de casa, havia se desfeito e os fios
longos e escuros caíam desgovernados sobre meus ombros,
emaranhados em torno da minha face, deixando-me com a mesma
aparência das mulheres que se produziam para atrair a atenção dos
homens, algo que não combinava comigo. Eu preferia manter a
discrição e não era apenas por causa da minha religião. Então,
improvisei um coque na nuca e deixei o banheiro, de cabeça baixa,
morta de vergonha, sem conseguir nem olhar no rosto de Esdras,
que me esperava do lado de fora.
— Isso que aconteceu foi um acidente. Não costumo me
comportar assim — falei, enquanto fitava qualquer direção que não
fosse sua face.
— Eu sei. Considerando o quanto é fanática e religiosa,
aposto que nunca tirou a roupa na frente de um homem.
Suas palavras conseguiram despertar a minha irritação.
Formulei mentalmente várias verdades sobre mim que iriam
surpreendê-lo, mas optei por permanecer em silêncio, afinal ele não
tinha nada a ver com a minha vida e aquele assunto já havia se
estendido até demais.
— Quando o médico vem trazer notícias sobre meu pai?
— Quando terminar de examiná-lo. Vamos sair daqui, comer
alguma coisa e vestir roupas secas. Assim que terminar, ele me liga.
— Não saio daqui sem ter notícias.
Com aquele franzido entre suas sobrancelhas e o olhar
carregado de irritação, ele apoiou as mãos em seus quadris, em um
gesto de impaciência. Sem a proteção do paletó, seus ombros
pareciam ainda mais largos e o tecido branco da camisa colava aos
músculos do seu peitoral, emoldurando-os e os evidenciando. Era
realmente um belo espécime masculino, do tipo que podia ter
qualquer mulher na face da Terra. Mas era tão demoníaco que
preferia as casadas, apenas para plantar a discórdia e destruir
famílias. Eu tinha muita pena de quem se envolvia com ele. Na
certa, desconheciam seu passado.
— Certo. Você é quem sabe — disse e deu-me as costas.
— Obrigada por tudo.
Não tive certeza se ele me ouviu, pois seguia apressado
rumo ao corredor que levava ao elevador, pisando firme, com
passos largos, até desaparecer das minhas vistas.
Achei que sua distância me faria sentir mais segura, mas a
sensação que tive foi oposta. Sem ele, fiquei completamente
perdida, deslocada e assustada, me sentindo sozinha naquela sala
enorme e deserta, em um lugar tão grande, onde não conhecia
ninguém.
Desalentada, fui até a máquina de café a um canto e me
servi, acomodando-me em uma das luxuosas poltronas com o
copinho de plástico na mão, sorvendo aos poucos o líquido
fumegante, doce demais.
Como se Esdras tivesse me jogado uma praga, logo comecei
a espirrar, minha garganta arranhando anunciava a chegada de uma
gripe forte, devido à chuva que peguei e às roupas molhadas
cobrindo meu corpo.
Já havia se passado mais de uma hora desde que levaram
meu pai. Eu estava quase desistindo de esperar e entrando no setor
da cardiologia para saber notícias, quando por fim um homem
baixinho, vestido de médico e usando uma máscara cirúrgica, surgiu
daquela direção, vindo falar comigo.
— Olá. Sou o Dr. Ferrari. Você é a acompanhante do idoso
que chegou há pouco? — disse, simpático.
— Sim. Sou filha dele. Como ele está?
— Conseguimos estabilizá-lo. Mas o estado ainda é grave.
Tivemos que intubá-lo.
Um frio atravessou meu estômago.
— Intubar?
— Sim. Mas é mais por precaução. Ele teve um agravamento
do quadro. O miocárdio inflamou bastante e devido à dificuldade em
respirar, os pulmões se encheram de líquido. Já fizemos a
drenagem e ministramos um antibiótico mais forte. Precisamos
esperar para ver se ele reagirá ao tratamento.
— E se ele não reagir?
— Temos que pensar positivo. Provavelmente reagirá.
Embora o ideal seja mesmo o transplante do órgão. Enquanto ele
não for transplantado, essas crises vão persistir.
— Ele está na fila do transplante faz meses. Mas nada de
arranjarem um coração.
— Entendo. Ele não é o único. Essa fila é grande e
geralmente priorizam pessoas mais graves e mais jovens, com
maiores chances de sobrevivência.
Não era o primeiro médico que me dizia aquilo e tal afirmação
me angustiava. Além da idade avançada, meu pai podia ir
sobrevivendo com os tratamentos, o que o colocava sempre no final
da fila para receber um coração novo, mesmo com a possibilidade
de morrer a qualquer momento.
— O que pode ter ocasionado essa nova crise?
— Provavelmente o organismo se familiarizando com a
medicação. O que pode ser resolvido com a ministração de
medicamentos mais fortes.
— Quanto tempo ele ficará intubado?
— Até reagir ao tratamento.
— E não tem risco de pegar Covid na UTI?
— Não estamos mais recebendo pacientes com Covid aqui.
— Posso vê-lo?
— Sim. Mas por apenas alguns minutos.
O médico me conduziu através do amplo corredor, onde
pegamos o elevador e descemos até o quinto andar. Atravessamos
outro corredor, deserto e silencioso, até que por fim avançamos
através das portas duplas da UTI. Na antessala, precisei trocar os
sapatos por meias esterilizadas, vestir um avental por cima das
roupas e colocar uma máscara cirúrgica.
Tratava-se de um cômodo amplo e bem iluminado, repleto de
pacientes de diferentes idades, equipado com aparelhos médicos
modernos, de última geração, alguns dos quais ligavam-se por fios
coloridos ao corpo do meu pai, que encontrava-se profundamente
adormecido, sedado, em um leito bastante inclinado, que o deixava
quase sentado. Estava nu da cintura para cima, com apenas a
parafernália médica cobrindo-lhe o peito enrugado e o tubo enfiado
na boca. Seu rosto parecia menos pálido e abatido, como se ele
dormisse um sono tranquilo e sossegado.
Apesar de aquilo tudo fazer parte do tratamento que salvaria
a sua vida, vê-lo naquele estado era de cortar o coração.
— A cama está inclinada para que o pulmão não corra o risco
de se encher de líquido novamente. Faça com que ele durma nessa
posição, depois que estiver em casa — explicou-me o médico. —
Preciso ver outro paciente. Fique à vontade.
— Obrigada, doutor.
Depois que o médico se foi, permaneci ao lado do meu pai
por um longo tempo, tocando sua mão e falando com ele, para que,
de alguma forma, soubesse que não estava sozinho.
Observando o recinto, com todos os seus equipamentos
modernos; os funcionários aparentemente bem-treinados, presumi o
quanto devia ser cara uma internação naquele hospital, talvez o
plano de saúde sequer cobriria. Nesse caso, eu estaria ainda mais
em dívida com Esdras e só esperava que ele tivesse paciência de
me aguardar arrecadar esse dinheiro, vendendo algum bem da
família, ou arranjando um empréstimo, pois desde que meu pai
adoeceu, os gastos foram muitos. Estávamos praticamente falidos,
sem mais nada de valor para ser vendido, a não ser a casa.
Não demorou muito e uma funcionária veio falar comigo,
avisando-me de que meu tempo na UTI havia esgotado e eu
precisava sair. Me doeu na alma deixar meu pai ali sozinho, mas era
o que salvaria a sua vida.
Após deixar o recinto, fui instruída a ir até a recepção
preencher o cadastro, quando descobri que nosso plano de saúde
realmente não cobriria os gastos. Eu teria que me desdobrar para
arranjar essa quantia, que não era pequena.
Após preencher os documentos, encontrei uma sala de
espera naquele andar, onde havia outros acompanhantes e me
acomodei em uma poltrona nos fundos, encolhendo-me toda para
suportar o frio acarretado pelo ar-condicionado fazendo minhas
roupas molhadas gelarem. O cansaço tomava conta de mim,
intensificado pela gripe que começava a se manifestar. Meu
estômago roncava de fome, mas eu não havia trazido nenhum
dinheiro para comprar comida, tampouco trouxera o celular e não
lembrava o número dos poucos amigos que fizera na cidade na
época da faculdade. Estava completamente sozinha e sem ter para
onde ir.
— Finalmente te achei. O que diabos está fazendo aqui? —
indagou a voz grossa e ríspida, que parecia partir do alto.
Quando ergui a cabeça para verificar de quem se tratava,
senti uma pontada na minha têmpora, me alertando de que a gripe
havia me pegado de jeito. Fiquei surpresa ao ver Esdras parado à
minha frente, parecendo ainda maior e mais altivo visto de baixo.
Usava um uniforme de médico que parecia ridiculamente pequeno
em seu corpo grande e musculoso.
— Pensei que tivesse ido embora — falei, espirrando em
seguida.
— Aproveitei que estava aqui para me reunir com o diretor do
hospital e resolver algumas pendências. Como presumi, você está
ficando gripada.
— Eu estou bem.
— Não é o que parece. Estou indo pro meu apartamento
agora. Venha comigo. Lá tem roupas secas, comida e um lugar para
descansar.
A proposta era tentadora. Tudo que eu precisava era de
comida, roupas secas e uma cama confortável. Mas seria loucura ir
para a casa de um assassino de mulheres, que do nada poderia
surtar e me matar, como fizera com sua vítima há quinze anos.
— Vou esperar meu pai aqui.
— Fiquei sabendo que ele está na UTI. Sinto muito. Mas isso
significa que você não poderá ficar com ele; e se ficar aqui, nessa
poltrona e nesse frio, vai acabar adoecendo. Isso se não morrer de
fome antes.
— Não posso ir pra sua casa.
— E por que não?
— Não confio em você.
— Acha mesmo que se eu quisesse te fazer algum mal, já
não teria feito?
Olhando por esse lado, até que fazia sentido. Ainda assim, o
que iam pensar de mim se eu me enfiasse na casa de um homem
que não era casado e ficasse lá sozinha com ele? No mínimo, eu
seria excomungada e nenhum rapaz da cidade ia querer se casar
comigo, nem mesmo Pablo, um seminarista que um dia se tornaria
reverendo de Ivanhoés. Ele já tinha pedido minha mão duas vezes,
sendo que, na última, eu prometi que iria pensar, mas ainda não
decidira nada. Não tinha certeza se conseguiria ficar com um
homem intimamente, depois do que me aconteceu na capital.
Tentei abrir a boca para falar, agradecer pela gentileza e,
mais uma vez, recusar o convite, porém, antes que tivesse tempo de
pronunciar as palavras, fui interrompida por um súbito ataque de
tosse, o que fez com que as pessoas na sala se afastassem de nós
com a pressa de quem se afastava de um terrível incêndio.
— Tá vendo? Se ficar aqui com essa gripe, vão acabar te
expulsando por achar que está com Covid.
Com isto, Esdras me convenceu e poucos minutos depois
estávamos de volta ao helicóptero, sobrevoando baixo a grande
metrópole, com seus edifícios majestosos despontando em meio à
garoa. Enquanto Esdras pilotava, eu me mantinha acomodada na
parte de trás, usando os fones silenciadores. Podia enxergar
claramente a grande movimentação de carros e pessoas circulando
pelas ruas, formando um ambiente agitado e frenético demais, que
contrastava em tudo com a calmaria de Ivanhoés. Eu mal podia
acreditar que um dia consegui viver em meio a toda aquela
bagunça.
Deixamos o centro da cidade e passamos a sobrevoar uma
área repleta de mansões enormes e luxuosas, as quais ocupavam
muito mais terreno do que o necessário, suas áreas imensas se
expandindo em grandes campos de futebol, tênis, golfe e até
arvoredos.
Sobre uma dessas mansões, começamos a descer e logo
aterrissamos em uma imensa área de um gramado em diferentes
tons de verde, onde um homem afrodescendente veio nos apanhar,
com um carrinho de golfe, cumprimentando Esdras como se este
fosse seu soberano.
Senti como se estivesse em um filme de época quando nos
aproximamos da entrada em arcos da suntuosa moradia e alguns
empregados uniformizados vieram nos receber, chamando Esdras
de Sr. Agostini, como nos filmes, perguntando se ele precisava de
algo. Só faltaram se inclinar, em reverência.
A casa era construída em estilo vitoriano, com torres de
pontas finas partindo do telhado, janelas ovais com varandas
cercadas por grades de ferro baixas e frisos. Tinha a fachada em um
tom amarelo claro e o telhado escuro, o que lhe conferia um aspecto
meio assustador, como as casas dos filmes de terror e combinava
perfeitamente com seu proprietário.
Por dentro, era decorada com móveis pesados e
ornamentados, a maioria de madeira. As cortinas eram escuras e o
piso de madeira polida. Se antes me senti transportada para um
filme de época, agora eu parecia ter ido parar em um filme de Alfred
Hitchcock. Da grande metrópole, não restava nem o barulho.
— Quantas pessoas moram aqui? — indaguei,
impressionada com o tamanho da sala de estar.
— Só eu e os empregados. — Devia ser para caber seu ego
que ele precisava de tanto espaço. — Preciso resolver algumas
coisas no escritório. Fique à vontade. Um dos quartos de hóspedes
está reservado para você. A governanta já providenciou roupas
secas, para que se troque. Daqui a pouco, ela sobe pra te atender.
Peça o que quiser comer.
Ele ia dando-me as costas, quando o chamei de volta.
— Espere. Posso te pedir um favor? — Aquilo soou meio
ridículo se considerando a quantidade de favores que ele estava me
fazendo desde que bati em seu carro na noite passada.
— Claro.
Hesitei antes de falar.
— Não deixe que ninguém em Ivanhoés saiba que estive na
sua casa.
O canto da boca dele se curvou na sombra de um sorriso
muito sutil, sem que o gesto amainasse a frieza assustadora em seu
olhar.
— Com medo que pensem que tirei sua virtude?
Uma miríade de irritação e constrangimento me golpeou,
fazendo minha face corar e o risinho dele se ampliou.
— Não que seja da sua conta, mas em nossa forma de vida o
valor de uma mulher é medido pela sua virtude.
— Então quer dizer que quem não gosta de sexo vale mais
do que quem gosta?
Minha face corou ainda mais e me irritei ao perceber que ele
estava se divertindo às minhas custas.
— Não é um assunto adequado para se discutir com um
estranho.
— Pra mim é um assunto bastante natural e gostoso. Não
apenas de falar, mas de fazer. Já experimentou?
— Isso não é da sua conta!
Aquele assunto estava indo longe demais. Era no que dava
se enfiar na casa de um desconhecido. Se as pessoas soubessem
que estive sozinha na casa de um homem solteiro, principalmente
alguém como Esdras, eu sequer conseguiria me casar algum dia.
Não que estivesse desesperada pelo matrimônio, inclusive estava
pensando na proposta feita por Pablo, que se tornaria um excelente
marido. A melhor opção em Ivanhoés para uma moça com seus
vinte e quatro anos.
A verdade era que, no fundo, eu não tinha vontade de me
casar, preferia me tornar uma solteirona, pois havia tomado
verdadeira repulsa por homens depois do que fizeram comigo, só
que era tradição a irmã mais velha se casar primeiro e Aysha já
tinha um namorado. Eu não queria que ela se perdesse com ele,
devido à falta do matrimônio.
— Desculpe. Acho que fui longe demais.
— Foi mesmo.
— Eu só não entendo porque alguém escolhe levar um estilo
de vida tão antiquado e sem sentido.
— Não é sem sentido. Colhemos bons frutos em troca de
abdicarmos de certas regalias.
— Como dizem por aí: não devemos discutir religião, futebol
e política. Não vou discutir sua religião com você.
— Sábia decisão.
Ele permaneceu em silêncio por um instante, observando
meu rosto com uma expressão inescrutável nos olhos azuis.
— Preciso ir. Como eu disse: fique à vontade — falou, por
fim, retirando-se.
Quando ele me deu as costas, achei que se dirigiria para a
saída da casa, mas seguiu na direção oposta, sumindo através da
porta que dava para outro cômodo. Na certa, o escritório que
mencionara ficava ali mesmo.
CAPÍTULO 5
Esdras

Deixei a beatinha encrenqueira na sala, parecendo um


coelhinho perdido na floresta, e me tranquei no escritório. Eram
tantos compromissos a serem cumpridos, que eu nem sabia por
onde começar. Ainda não podia acreditar no tempo que perdi
ajudando uma filha da mãe que só se preocupava em me ferrar. Eu
tinha ido até Ivanhoés naquela noite para examinar a área,
encontrar algo que pudesse usar contra aquela maldita gente e
acabei tendo uma grata surpresa, encontrando-a e tendo a
oportunidade de ajudá-la. Mais que isso: eu havia salvado a vida do
seu pai moribundo e agora ela me devia. Devia tanto, que teria que
convencer seus tios a saírem do meu caminho e me deixarem
construir meu resort em paz.
Aquele local havia sido um verdadeiro achado, um tesouro
aos olhos dos investidores no ramo da hotelaria, pois ficava situado
em uma parte do litoral praticamente intocada pela mão humana,
repleta de praias deslumbrantes e o que era melhor: próximo a uma
cidadezinha cujo comércio poderia favorecer os turistas.
Normalmente, áreas de natureza intocada como aquela eram
descartadas devido à ausência de qualquer vestígio de civilização
por perto. Contudo, a área que comprei tinha Ivanhoés para torná-la
muito mais valiosa do que supunham seus antigos proprietários.
Fora um investimento que me renderia milhões em lucros. Eu
só precisava tirar aquela gente chata do meu caminho e esperava
que não demorasse muito mais tempo.
Eles eram religiosos fanáticos que viviam como no século
XVIII, mas conheciam bem as leis e estavam se beneficiando delas
para me impedirem de construir nas minhas próprias terras. Só que
leis foram feitas para serem burladas, principalmente quando se tem
dinheiro suficiente para comprar alguns juízes.
Com o assunto em mente, telefonei para o advogado
responsável por esse caso, esperando ter boas notícias, mas o que
ele me disse foi que nada havia mudado. Pelo contrário. Os juízes
responsáveis pelo caso continuavam irredutíveis sobre receber o
suborno, em respeito ao fato de que a população de Ivanhoés era
uma das últimas que levavam a religião a sério nesse país.
— Mas como isso é possível?! Eu nunca vi um juiz recusar
dinheiro pra derrubar uma maldita Restrição Administrativa,
principalmente de uma cidadela que nem deve estar no mapa! —
vociferei ao telefone, irritado.
Aquela merda toda já estava se estendendo há mais de
quatro meses. Eu não tinha todo esse tempo a ser perdido.
Precisava levar meu projeto adiante e partir para o próximo.
— Infelizmente os administradores de Ivanhoés são bem
instruídos, conhecem bem as leis. Estão jogando com artilharia
pesada, apostando num processo de desapropriação com a
alegação de que o lugar merece se tornar um parque natural.
Considerando as críticas que o país tem recebido sobre as
desmazelas com a natureza, essa decisão vai favorecer o governo,
o que o impedirá de interferir.
Mas que merda! Recorrer ao governo era sempre a última
cartada que tínhamos na manga. Sem o apoio dele, tudo ficaria
mais difícil.
— Tem certeza de que não dá para levar o caso à outra
comarca? Com um juiz subornável?
— Não. Já tentamos isso. Não deu certo.
Consternado, suspirei fundo. Se eu fosse um sujeito que
desiste do que quer, desistiria daquela merda agora mesmo. Até
porque se a prefeita de Ivanhoés conseguisse ir adiante com o
processo de desapropriação, eu perderia o meu terreno, em troca
de uma indenização insignificante. Eu precisava dar um jeito.
Desistir não fazia parte do meu vocabulário.
Conversei por mais alguns instantes com o advogado e
depois que encerrei a ligação não tive energia mental nem para me
dedicar aos outros negócios. Aquela merda toda continuou
martelando em minha mente, perturbando-me os pensamentos em
busca de uma saída.
Foi então que lembrei-me da beatinha instalada no quarto de
hóspedes, desesperada por causa do pai doente. Talvez encontrá-la
precisando de ajuda tenha sido um golpe de sorte. Com certeza ela
não teria dinheiro para pagar a conta do hospital, pois estavam
falidos. De acordo com minhas investigações, para custear o
tratamento do pai, tinham vendido inclusive o barco com o qual ele
trabalhara a vida toda para sustentar as duas filhas. Eu podia
chantageá-la com essa dívida e coagi-la a convencer os tios a
saírem do meu caminho. Mas isso não daria certo, já que os tios
eram donos de fazendas de gado, tinham dinheiro para pagar
quantas dívidas ela contraísse.
Ou eu podia conseguir um coração novo para o pai dela, em
troca de que conversasse com seus tios. Com um rápido telefonema
e um cheque nas mãos do diretor do hospital, eu conseguiria um
coração para aquele velho em questão de poucos dias. Contudo,
não tinha certeza se Ayla conseguiria convencer os tios a saírem do
meu caminho. Com certeza não. Ela não parecia ser tão persuasiva
assim. Além do que, a religião e os princípios daquela gente os
tornavam irredutíveis. Para fazê-los mudar de ideia, eu teria que me
transformar em um deles, me converter à sua religião e talvez até
fazer parte da família e isso não seria possível. Ou seria?
Aos poucos, a ideia foi se materializando em minha mente.
Eu poderia propor um casamento de aparências com a beata
encrenqueira, em troca de um coração para o seu pai.
Claro! Como não pensei nisso antes? Ela estava tão
desesperada para salvar a vida do pai que nem pensaria duas
vezes em concordar. E me tornando seu marido, eu seria parte da
família, aquela gente teria que me aceitar entre eles, assim como
meu resort. Simplesmente porque eram religiosos demais para
permitir que laços familiares fossem quebrados.
Óbvio que seria um casamento de fachada. Se eu não
tocasse em Ayla, ela estaria segura. Se depois da construção do
resort, eu fizesse com que o mundo todo soubesse que tudo não
passara de uma armação, que não existia nada entre nós, nenhum
mal aconteceria a ela. Certamente sua reputação ficaria manchada
perante sua gente, mas isso não a prejudicaria tanto, afinal uma
reputação nova sempre pode ser construída e no fim das contas
todos sairíamos ganhando.
Seria uma atitude muito radical, mudar toda a minha vida,
fingir seguir àquela religião, me casar com uma desconhecida, mas
valeria à pena, já que o projeto seria um dos mais lucrativos que já
construí.
Com as ideias fervilhando em minha mente, pedi que
Meredith, a governanta, trouxesse meu café da manhã ali mesmo e
de imediato solicitei uma reunião com os advogados, quando expus-
lhes o meu plano e me informei sobre todos os trâmites legais que o
envolviam. Como já era esperado, eles concordaram que, apesar da
radicalidade da ideia, essa seria a única forma de conseguir
construir o meu resort, já que os juízes estavam irredutíveis e
aquela gente dava importância demais aos laços familiares. Agora,
restava convencer a senhorita encrenqueira, o que não seria difícil,
visto que ela parecia capaz de tudo para salvar a vida do pai.

***

Era quase hora do almoço quando mandei que os advogados


esperassem em uma outra sala e ordenei que Meredith trouxesse a
beata até mim. Ayla parecia um pintinho molhado quando
atravessou a porta de entrada do escritório, encolhida, deslocada,
temerosa, sua expressão como sempre carregada de medo. Era
mesmo bom que tivesse medo de mim, pois assim não ousaria se
aproximar e estaria protegida do que eu levava de pior para a vida
das mulheres.
Usava um dos vestidos que Meredith comprara. Um modelo
tão largo e comprido quanto o outro que vestia quando a encontrei.
Era realmente um desperdício que um corpo cheio de curvas
deliciosas como o dela estivesse sempre escondido atrás de tanto
tecido. Eu nem soube como descrever aquilo quando telefonei para
a governanta. Apenas mandei que comprasse roupas de crente.
Pelo visto, ela havia acertado.
— Você quer falar comigo? — indagou Ayla, arredia,
cautelosa, observando tudo à sua volta, como se esperasse
localizar algum rifle pronto para ser descarregado sobre ela.
— Sim. Sente-se.
Gesticulei na direção da cadeira do outro lado da mesa e
fiquei observando enquanto ela se acomodava, hesitante. Apesar de
incitar os tios a me prejudicarem, mostrando-se tão encrenqueira
quanto eles, ela era toda delicada, dona de movimentos suaves e de
uma voz doce e meiga, que combinavam perfeitamente com a sua
aparência. Não possuía uma beleza estonteante. Na verdade, era
bastante comum. Tinha cabelos escuros longos, ondulados e
brilhantes, a pele morena, olhos castanho-escuros, o nariz afilado,
uma boca desenhada com excessivo capricho e um furinho no
queixo que dava vontade de morder.
Me ajeitei na cadeira, tentando refrear o pensamento, porém
de súbito me flagrei tentando imaginar se o gosto daquela boca era
tão doce quanto sua voz e sua aparência.
— Tenho uma proposta a te fazer — falei, indo direto ao
ponto.
— Se espera que eu tente convencer meus tios a te deixarem
construir o resort, em troca da minha dívida no hospital, nem perca
seu tempo. Vou dar um jeito de pagar essa dívida.
— Não é nada disso. Quer dizer, na verdade, eu espero que
você me ajude com seus tios, mas não em troca da dívida e sim de
um coração novo para o seu pai.
Fiquei satisfeito ao ver o misto de perplexidade e euforia
refletindo no brilho dos seus olhos escuros.
— Você poderia conseguir um coração para ele? — indagou,
como se não acreditasse.
— Sim. Com apenas um telefonema para o diretor do
hospital, ele seria transplantado em questão de dias.
Vagarosamente, seus lábios foram se abrindo em um sorriso
largo, revelando a fileira de dentes branquíssimos, que formavam
um belo contraste com os lábios naturalmente avermelhados. Ao
mesmo tempo, o mais magnífico brilho de satisfação refletia na
expressão do seu olhar.
Não era todos os dias que se conhecia uma pessoa incapaz
de esconder suas emoções. A senhorita encrenqueira era
transparente como um cristal e me vi invadido por um misto
indesejado de fascínio e surpresa, com a sua reação. Eram
emoções que precisavam ser reprimidas, afinal eu não podia nem
pensar em tocar naquela garota. Se o fizesse, aí sim, ela estaria
acabada.
Seu sorriso foi se desfazendo com a mesma espontaneidade
com que se abriu, até que nada mais restasse em seu semblante, a
não ser a desesperança.
— Eu não conseguiria convencer meus tios a te deixarem
construir o resort. Eles sequer me ouviriam.
— Eu sei como podemos convencê-los.
— Como?
— Me tornando parte da família. Me inserindo na sua religião.
— Ayla fitou-me confusa, franzindo sua testa. — Case-se comigo.
Leve-me para a sua igreja. Faça com que todos acreditem que sou
um de vocês. Que estou realmente convertido. — O queixo dela
caiu de incredulidade. — É óbvio que será um casamento de
aparências. Eu não tocarei um dedo em você. Seremos marido e
mulher apenas no papel e aos olhos de todos. Depois que eu for
aceito na sua comunidade e construir meu resort, contamos a
verdade. Eles não terão mais como tirar meu negócio de lá.
Me silenciei, esperando sua resposta. Contudo, a senhorita
encrenqueira apenas continuou me fuzilando com seus imensos
olhos carregados de incredulidade e uma certa indignação. Parecia
um anjo que caía do céu e descobria que tinha ido parar no inferno.
— E então. O que você me diz? — insisti.
— Eu jamais me casaria com alguém como você! —
disparou, com desprezo.
Maldita internet que levava mais informações às pessoas do
que o necessário!
— Não seria um casamento de verdade, mas um acordo,
com tudo oficializado e assinado por um advogado. Seu pai recebe
um coração novo, eu construo meu resort e no fim todos saem
ganhando.
— Você é louco?! — Histérica como sempre, ela colocou-se
de pé, fitando-me como se, de repente, eu tivesse me transformado
em um extraterrestre de sete cabeças. — O matrimônio é algo
sagrado para a nossa gente e não uma brincadeira inconsequente
como é para pessoas como você! Além do mais, meus tios e nem
ninguém em Ivanhoés, acreditariam que eu realmente escolheria me
casar com você. Ou que você se converteria de verdade. Somos
religiosos, não imbecis!
— Que vocês não têm nada de imbecis, eu já sei — falei,
tentando manter a calma. — É por isso que daria certo. Porque
vocês levam essa coisa de casamento e família a sério demais. E
para convencê-los de que o casamento é de verdade, basta
dizermos que passamos a noite juntos na minha casa. Ainda há
pouco você estava preocupada com o que pensariam sobre isso.
Vamos deixar que todos acreditem que tirei sua virtude. Assim vão
nos apoiar e acreditar nesse casamento.
— É loucura — disse ela já sem tanta determinação.
— Não é loucura. É um negócio. Todos temos a ganhar.
— Eu nunca mais seria respeitada depois que esse acordo
findasse. Seria desprezada por todos.
— E daí? Ninguém naquela cidade paga as suas contas. E
ao se tornar minha ex-esposa, você precisará ainda menos daquela
gente. Pode se mudar para a capital e ser feliz de verdade. Ou você
acha que realmente será feliz se casando com um seminarista
caipira que jogará todas as responsabilidades da casa e dos filhos
sobre você, enquanto prepara os sermões?
Aturdida, Ayla voltou a sentar-se.
— C-Como você sabe sobre Pablo?
— Eu sei tudo sobre vocês todos. Faço questão de conhecer
meus inimigos.
— Assim pode usar suas fraquezas para derrotá-los —
completou ela.
— Exatamente.
— E meu pai é a minha fraqueza.
— Mas você e nem ninguém naquela cidade será derrotada.
Vocês só têm a ganhar com a construção do resort.
— A presença de turistas destruiria nosso modo pacífico de
vida.
— Não é bem assim. — Impaciente com sua relutância em
aceitar algo que só a beneficiaria, levantei-me e fui até o frigobar a
um canto, servindo-me de uma dose de Crown Royal. — Eu poderia
criar uma regra proibindo os turistas de interferir na cultura da
cidade, nem consumir álcool dentro dos limites do município, de
modo que vocês não seriam incomodados e poderiam viver para
sempre como na Idade da Pedra.
Ingeri um gole do uísque puro, sem gelo, o líquido descendo
rascante pela minha garganta, mas sem me ajudar a relaxar como
eu esperava.
— Seria possível criar todas essas regras?
— Claro. Já estariam na descrição do local. No máximo, os
turistas iam querer tirar fotos com pessoas tão... conservadoras.
Ayla ficou pensativa. Mas ainda não era suficiente. Ela
precisava concordar logo com isto, afinal era a última cartada para
conseguir levar aquele projeto adiante.
— Depois do falso casamento, você pode trazer seu pai e
sua irmã para viver conosco, se isso te fizer sentir mais segura. Em
no máximo oito meses o resort estará finalizado e você estará livre
de mim.
— E marcada pelo resto da vida — murmurou, pensativa.
— Sim. Mas o que é uma reputação se comparado à vida do
seu pai?
— Você é bom de argumentos. Daria um competente
advogado.
Me irritei com sua fala. Não era para ela estar me elogiando
como uma deslumbrada. Era para estar pensando com praticidade e
frieza naquele acordo. Se ligar em mim, na minha aparência, era a
última coisa que ela podia fazer. Ter seu pai e sua irmã debaixo do
mesmo teto em que viveríamos durante o falso casamento, me
ajudaria com isso, pois a manteria distraída e distante.
— Vamos fazer assim: você pensa na minha proposta e me
dá uma resposta mais tarde. O que acha?
— Eu não sei nem se posso pensar em uma coisa tão
absurda.
— Não é tão absurda. É um preço baixo a ser pago pela vida
do seu pai. Como eu disse: não encostarei um dedo em você,
inclusive dormiremos em quartos separados. No fim das contas,
todos saímos ganhando. Agora vá. Meredith servirá o almoço em
poucos minutos.
— Gostaria de telefonar para o hospital para saber como está
o meu pai, mas não trouxe meu celular.
— A governanta tem o número. Peça que ela faça a ligação.
— Obrigada. — Dito isto, Ayla levantou-se e seguiu rumo à
porta.
Agindo diferente da maioria das mulheres, não balançava os
quadris para ter certeza de que eu estava olhando. Agia como se
não tivesse consciência do que poderia provocar em um cara com
todas aquelas curvas gostosas. Talvez por isso as escondia debaixo
de tanto tecido. Um verdadeiro desperdício.
CAPÍTULO 6
Ayla

Deixei o escritório de Esdras e avancei através da sala


enorme, sombria e assustadora como tudo mais naquela casa.
Minha cabeça girava com aquela proposta sem pé e nem cabeça
que ele me fizera. Será que acreditava realmente que uma pessoa
com o mínimo de sensatez concordaria em viver sob o mesmo teto
que um assassino frio e desalmado? Em fingir ser a sua esposa?
Será que realmente passava pela sua cabeça que minha família
acreditaria que ele havia se convertido à nossa religião? Ele só
podia estar de brincadeira, isso sim.
Tentando afastar os pensamentos e me concentrar no que
realmente importava, que era a recuperação do meu pai, fui até a
cozinha, onde encontrei algumas empregadas uniformizadas
empenhando-se em preparar o almoço, enquanto Meredith as
instruía. Todas paralisaram o que faziam para me observar
abismadas, como se um Tiranossauro Rex tivesse entrado na
cozinha e não uma pessoa.
— Voltem ao trabalho — disse Meredith, com firmeza.
Em seguida, veio ao meu encontro com um sorriso suave
estampado no rosto.
Era uma mulher com cerca de quarenta e poucos anos, alta,
magra, com cabelos curtinhos escuros e um pescoço longo que lhe
conferia um admirável ar de elegância.
— Em que posso ajudá-la? — indagou.
— Esdras, quer dizer, o Sr. Agostini me mandou pedir que
você ligue pro hospital onde meu pai está internado.
— Claro. Venha comigo.
Ela acenou para que eu a seguisse e dirigiu-se rumo à sala,
enquanto eu a acompanhava.
— Por que elas ficaram me olhando daquele jeito? —
indaguei, referindo-me às cozinheiras.
— Porque é a primeira vez que o Sr. Agostini traz uma
convidada.
Fitei-a surpresa.
— Ele nunca trouxe ninguém aqui?
— Do sexo feminino não.
Não entendi porque ela estava mentindo sobre algo tão
irrelevante. Era impossível acreditar que um homem como Esdras,
lindo, rico e mulherengo, nunca trouxera uma mulher em sua casa,
mesmo que apenas para fazer sexo.
— Só porque me visto assim e venho do interior, não significa
que sou idiota — falei.
— Isso nem me passou pela cabeça, querida. Trabalho para
o Sr. Agostini há mais de dez anos e ele realmente nunca recebeu
uma mulher aqui, até agora. Enfim, isso não é da minha conta. —
Ela pegou o telefone fixo e levou ao ouvido. — Qual o nome
completo do seu pai?
Meredith fez a ligação para o hospital, pedindo para falar com
o Dr. Ferrari e, em seguida, entregou-me o telefone. De acordo com
o médico, meu pai continuava intubado, embora estivesse
começando a reagir à nova medicação e a infecção começasse a
ceder. Imaginei-o sozinho naquele leito de UTI, respirando através
de aparelhos, sedado, sendo alimentado por meio de uma sonda e
meu coração se esfarelou em mil pedaços. Cogitei ir até lá, apenas
para que ele soubesse que eu estava por perto, mas acabei
desistindo, pois sabia que ele não podia me ouvir nem me sentir.
Ao encerrar a ligação, subi para o quarto de hóspedes no
segundo andar, com meu peito pesado, a angústia tomando conta
de tudo em mim. Ao entrar no aposento decorado com móveis
pesados de madeira, todos em estilo vitoriano, o que conferia ao
ambiente uma atmosfera sombria, meio assustadora, atirei-me de
bruços na cama enorme e permaneci imóvel, meus pensamentos
levando-me de volta para Esdras, para a sua proposta maluca.
Como seria maravilhoso se eu tivesse coragem de aceitar
aquele absurdo, de casar-me com ele e assim garantir uma vida
nova para meu pobre pai. Contudo, seria loucura confiar em um
homem perigoso como Esdras. Se eu concordasse com aquilo,
minha existência estaria por completo em suas mãos. Ele poderia
decidir tirar minha vida a qualquer momento e sequer pagaria por
isto, pois tinha dinheiro suficiente para escapar da prisão. Além do
mais, a polícia daria pouca importância ao assassinato de alguém
como eu, que não era ninguém importante. Mas a troco do quê
Esdras me mataria, se só tinha a ganhar com a minha permanência
ao seu lado, durante esse falso casamento? Parecia não fazer
sentido temer a morte partida de suas mãos, afinal o que ele me
propusera, se olhando pelo lado prático, se tratava de um negócio
com o qual o maior beneficiado seria meu pai, que podia não ter
mais muito tempo de vida se continuasse na fila de espera por um
transplante. Como o próprio Esdras dissera, nada aconteceria entre
nós, estaríamos casados apenas no papel e aos olhos dos outros.
Contudo, mesmo que não existisse o risco de ser
assassinada por ele, se eu decidisse embarcar nessa loucura e tudo
saísse como planejado, quando o acordo findasse eu estaria
arruinada, com minha reputação jogada no lixo. Mas o que era uma
reputação quando o que estava em jogo era a vida do meu pai?
Ninguém em Ivanhoés acreditaria que morei durante meses
sob o mesmo teto que aquele homem sem me entregar a ele.
Nenhum rapaz ia querer se casar comigo, porque eu não seria mais
virgem. Por outro lado, seria menos humilhante que acreditassem
que minha virgindade fora perdida em um falso casamento, com um
homem capaz de despertar o interesse de qualquer mulher com
sangue nas veias, do que um dia descobrirem que fui violentada por
um carinha com quem ousei sair para jantar quando estava na
faculdade. Não havia como esconder esse fato para o resto da vida.
Um dia eu me casaria e teria que contar ao meu marido como deixei
de ser pura. Seria melhor que todos acreditassem que foi Esdras a
tirar minha inocência, do que ter que passar pela vergonha de deixar
que todos soubessem da verdade.
Enojada com a lembrança daquele pesadelo, virei-me de
frente na cama, mal podendo acreditar que realmente estava
cogitando aceitar aquele falso casamento. Seria um preço alto a
pagar pela saúde do meu pai. Minha vida seria arruinada, mas a
dele seria salva. Talvez eu estivesse sendo estúpida ao me recusar
a aceitar.
Se eu concordasse com essa loucura, até Aysha sairia
ganhando, pois poderia se casar com seu namorado, enquanto
todos ainda pensassem que eu era esposa de Esdras. Afinal, a irmã
mais velha já teria desencalhado, dando-lhe a vez de se tornar uma
senhora de respeito. E quando eu me divorciasse, não teria mais a
obrigação de me casar com ninguém, poderia viver a vida como
uma solteirona mal falada, o que me parecia melhor que me unir
intimamente a um homem.
Uma batida na porta do quarto interrompeu meus devaneios
e saltei da cama, sobressaltada.
— Quem é? — perguntei.
— É Meredith. O almoço está servido. O Sr. Agostini pede
que a senhorita se junte a ele na sala de refeições.
Eu duvidava que ele tivesse pedido. Mais fácil ter dado uma
ordem de que eu descesse. Ainda assim, eu iria almoçar com ele,
não apenas porque estava com fome, mas porque queria saber
mais detalhes sobre sua indecente proposta de casamento.
— Diga que já estou indo — falei e ouvi seus passos se
afastando.
Fiquei na frente do imenso espelho no closet e examinei
minha aparência. Não percebi em que momento Esdras telefonara
para Meredith mandando que me comprasse roupas novas, mas
tinha que admitir que ele acertara na descrição dos vestidos que
encontrei no quarto, todos longos, folgados e discretos, iguais aos
que eu costumava usar. Como sempre, meus cabelos estavam
puxados para trás, grudados no couro cabeludo, discretamente
presos em um rabo de cavalo na nuca.
Respirei fundo e desci a escadaria larga, em meio ao silêncio
no qual a casa parecia sempre mergulhada. Meredith esperava-me
ao pé da escada e com gentileza me conduziu até a sala de jantar,
onde havia uma mesa retangular de madeira maciça, com lugar
para pelo menos uma dúzia de pessoas, sobre a qual jazia um lustre
tão grande que parecia saído de um filme da Disney. Sentado à
cabeceira da mesa, estava Esdras, parecendo mais jovial dentro de
uma camiseta de malha branca, que ressaltava ainda mais a largura
dos seus ombros e deixava em evidência os músculos bem
torneados das suas costas.
Assim que me viu aproximando, ele colocou-se de pé e
puxou a cadeira do seu lado esquerdo, indicando que eu me
sentasse e o fiz.
— Obrigado por ter vindo se juntar a mim — disse ele.
Sua voz era calma, gentil, o que contradizia com a frieza
assustadora presente no azul-claro do seu olhar. Olhar para aquele
homem era como observar uma obra de arte com sentido dúbio, no
qual de um lado estava sua aparência perfeita, linda, como se
tivesse saído de um conto de fadas; e do outro, aquele aspecto
demoníaco que ele não conseguia esconder e que me apavorava
mais que tudo na vida.
— Eu que agradeço o convite — falei, imitando seu ar gentil,
mas ciente de que ele só estava me tratando tão bem porque queria
que eu concordasse com sua proposta.
No fundo, talvez estivesse amaldiçoando até a minha
vigésima geração, por eu ter me colocado entre si e seu ambicioso
projeto.
— Posso servir a mesa, senhor? — disse Meredith.
— Claro. Fique à vontade.
A governanta se retirou e Esdras fixou aquele olhar frio como
gelo em mim, causando-me um arrepio na espinha.
Por mais que ele fosse lindo como um anjo, másculo e
charmoso como se tivesse saído das fantasias românticas das mais
exigentes mulheres, não havia como olhar em seu rosto e não se
lembrar de que era um assassino frio e sem coração.
— E então, pensou na minha proposta? — indagou.
— Na verdade, tenho algumas perguntas.
— Pergunte o que quiser.
Nesse instante, três empregadas uniformizadas entraram na
sala carregando bandejas repletas de comida, as quais depositaram
caprichosamente sobre a mesa. Entre os pratos, havia fricassê de
palmito, tilápia assada com crosta de granola, macarrão ao molho
branco, suflê de cenoura e salada verde, um verdadeiro banquete
para apenas duas pessoas. Como se não bastasse os exageros, as
empregadas ainda se empenharam em servir os nossos pratos,
antes de se retirarem.
Agradeci aos céus quando Esdras teve o bom senso de
encher minha taça com água, ao invés de vinho, como fazia com a
sua.
— E então, o que quer saber? — indagou ele, depois que
ficamos sozinhos.
Protelando a pergunta, levei uma garfada do fricassê à boca.
Estava uma delícia!
— Se eu concordasse com a loucura que você me propôs,
onde iríamos morar?
— Aqui, nesta casa. Você pode trazer seu pai e sua irmã para
morarem aqui também. Tem espaço para todos.
— Eu não colocaria a vida deles em risco desta forma.
Esdras soltou o garfo sobre o prato e cruzou seus dedos sob
o queixo, fitando-me com suas piscinas frias e assustadoras.
— Vamos fazer o seguinte: você esquece o que leu sobre
mim na internet, faz de conta que me conheceu na noite passada,
quando bateu em meu carro e considere o que estamos fazendo
como um negócio prático e frio. Nada mais e nada menos.
— Não tem como esquecer o que li sobre você na internet.
Um calafrio me percorreu ao simples relembrar a fotografia
da moça que ele assassinou. Tinha dezoito anos, era linda como
uma boneca e havia acabado de ingressar na mesma faculdade
onde ele estudava.
— Nesse caso, seja prática. Pergunte-se o que eu teria a
ganhar se a machucasse. Tenha em mente que, se eu quisesse te
fazer algum mal, você sequer estaria na minha casa. Eu teria
acabado com a sua raça quando você bateu no meu carro, sem que
ninguém desconfiasse de nada, porque ninguém sabia que eu
estava na cidade.
Suas palavras provocaram-me um leve tremor. No entanto,
olhando pelo ponto de vista que ele abordava, era possível concluir
que estava certo. Se quisesse me fazer mal, sequer teria ajudado
meu pai. Além disso, ele nada teria a ganhar com a minha morte,
pelo contrário.
Com tais pensamentos, me forcei a reprimir o medo e
analisar a situação de um ponto de vista prático.
— Mas como minha família vai ter certeza de que você se
converteu, se morarmos aqui e não em Ivanhoés, onde podem ficar
de olho em você?
— Nós podemos frequentar os cultos e outros eventos da
igreja. Podemos chegar em Ivanhoés em uma hora, de helicóptero,
da mesma forma como irei até lá todos os dias para acompanhar a
construção do resort.
— E quanto aos seus empregados? Se morarmos aqui, eles
vão perceber que esse casamento não é de verdade. E se derem
com a língua nos dentes?
— Eles são todos de confiança. Trabalham comigo há anos.
Além disso, vou garantir que assinem um termo de
confidencialidade. Mais alguma pergunta?
— Sim. Por que você matou aquela garota, há quinze anos?
Me arrependi por ter feito a pergunta no instante em que
fechei a boca, quando seus olhos se tornaram ainda mais sombrios,
mortalmente frios, me fuzilando como se eu fosse a próxima da sua
lista.
— Esse assunto não tem relevância para a nossa
negociação. Não precisamos conhecer o passado um do outro para
fazermos isto. Basta que eu consiga um coração para o seu pai e
você diga sim perante um reverendo e um juiz. Nada mais, nada
menos.
Levei a taça à boca e ingeri um grande gole de água,
tentando acalmar os meus nervos.
— Você tem razão. Eu não devia ter perguntado. Me
desculpe.
— Nós não seremos amigos, não temos que gostar um do
outro. Seremos apenas duas pessoas adultas fazendo negócios.
Aqui, você terá tudo de que precisar. Terá um carro novo, quantos
cartões de crédito quiser, os empregados a servirão como se você
fosse a dona da casa e você não precisará mais trabalhar na escola.
— Até que a construção do resort seja concluída e minha
vida seja arruinada com a verdade — completei.
— Saiba que eu não a deixarei desamparada. Como minha
ex-esposa, você receberá uma quantia alta o suficiente para
reconstruir sua vida onde quiser.
O problema era que eu gostava da minha vida como era,
gostava de ser professora, de viver na pacificidade da cidade onde
nasci. Só que não adiantava dizer isso a ele, pois jamais entenderia.
Tudo o que importava para aquele homem era o dinheiro, a
ambição. Nada mais na vida tinha a menor relevância.
CAPÍTULO 7
Ayla

Continuamos saboreando a comida devagar e conversando


sobre aquele possível acordo, quando obtive o máximo de
informações possíveis sobre como aquilo poderia funcionar. No fim
das contas, eu estava convencida de que tudo não passaria de um
negócio lucrativo para ambos os lados, se analisado de um ponto
vista prático, desprovido de emoções. Restava me livrar das minhas
emoções, que eram o medo constante daquele homem e o
deslumbramento que praticamente me cegava quando eu estava em
sua presença. Eu ficava simplesmente hipnotizada quando ele
falava, com seu tom de voz grosso, ligeiramente enrouquecido, o
que poderia estar comprometendo a minha capacidade de analisar
as coisas de um ponto de vista sensato. Era óbvio que, se eu
tivesse o mínimo de sensatez, não estaria enfiada na casa dele.
Após a refeição, Esdras ofereceu-me seu motorista para me
levar até o hospital onde estava meu pai e aceitei. Porém, antes que
ele sumisse novamente para o seu escritório, pedi permissão para
usar seu telefone mais uma vez e telefonar para casa. Fiquei atônita
ao falar com Aysha e descobrir que toda a cidade já sabia que eu
havia saído no meio da madrugada no helicóptero de Esdras
Agostini, isso porque Alice não conseguiu ficar de boca fechada e a
fofoca se espalhara como fogo em palha.
— Você está bem? O que esse monstro fez com você? —
indagou Aysha, do outro lado da linha, com a preocupação evidente
em sua voz.
— Estou ótima. Estou na casa dele. Papai está internado em
um hospital.
— Será que você ficou louca? Por que está na casa de um
assassino? — Ela parecia aterrorizada.
— Na verdade, ele não é tão monstruoso assim. Salvou a
vida de papai.
Cada palavra que saía da minha boca me fazia sentir mais
comprometida com aquela história toda. Aparentemente, eu já havia
chegado a um ponto de onde não poderia mais voltar. Se não me
casasse com Esdras, teria minha reputação arruinada a troco de
nada, só pelo fato de estar enfiada na casa dele. Pelo menos, com o
casamento eu garantiria a vida de papai.
Tentei tranquilizar Aysha o máximo possível e encerrei a
ligação, me abstendo de ligar para a minha tia, como ela pedira em
um recado que deixara com a minha irmã. Falaria com ela quando
voltasse a Ivanhoés.
Após o telefonema, segui para o hospital no luxuoso carro
conduzido pelo motorista. Ao observar de perto a grande metrópole,
com seus edifícios majestosos, foi impossível não me recordar do
passado, do pesadelo que vivi durante a época em que fazia
faculdade, quando fui violentada por um colega de turma com quem
concordei em sair para jantar, incentivada pelas amigas, o pior erro
que já cometi na vida.
Desde os primeiros dias de aulas, as cantadas dos rapazes
eram frequentes, mas sempre me esquivei e recusei todos,
determinada a me guardar para o meu futuro marido, alguém de
Ivanhoés, que fazia parte da minha igreja e seguia meu modo de
vida. No entanto, Diógenes, como ele se chamava, soube manipular
a situação, incentivando as minhas próprias amigas a caçoarem de
mim pelo fato de eu não sair com ninguém. A pressão foi grande. Eu
estava começando a ser excluída de todos os círculos, quando por
fim concordei em sair com ele e o que era para ser um simples
jantar, terminou comigo sendo esmagada pelo seu corpo forte
dentro do seu carro, em algum estacionamento escuro. Naquela
noite, ele fez comigo tudo o que quis, depois ameaçou acabar com a
minha vida se eu o denunciasse. Nunca contei nada a ninguém. Não
por medo das suas ameaças, mas por vergonha e pela certeza de
que eu estaria marcada pelo resto da vida se as pessoas em
Ivanhoés descobrissem.
No fim das contas, a culpa havia sido minha, pois sabia que
aquilo poderia acontecer quando aceitei seu convite para sair. Devia
ter continuado recusando.
Foram muitos anos atormentada pelos pesadelos até
conseguir superar aquele episódio. Para falar a verdade, acho que
ainda não havia superado. Não conseguia nem imaginar um homem
me tocando. Tudo o que eu sentia quando pensava nesse tipo de
coisa era uma repulsa violenta, insuportável, o que me levava a
relutar a aceitar o pedido de casamento de Pablo. Talvez esse
acordo com Esdras me salvaria de um dia me tornar uma esposa
com nojo do toque do seu próprio marido, pois me garantiria uma
solteirice permanente, após o divórcio.
Ao encontrar meu pai na UTI, ainda intubado, com seu rosto
abatido, o corpo magro demais, meu coração afundou para o
estômago e foi naquele instante que decidi que aceitaria me casar
com Esdras, simplesmente porque nunca mais queria ver meu pai
naquele estado lastimável. Além disso, se ele morresse sem que eu
tivesse feito o que podia, eu jamais me perdoaria.
Fiquei com meu pai durante quase uma hora, até que a
técnica de enfermagem veio me avisar de que meu tempo havia
esgotado e eu precisava me retirar. Durante o percurso de volta à
casa, pensei com mais calma sobre tudo aquilo e fortaleci minha
certeza de que estava tomando a decisão certa ao aceitar o acordo
de casamento, afinal estaria salvando a vida não apenas do meu
pai, mas também a minha e a de Aysha, que poderia se casar e ser
feliz depois que eu me casasse. Quando ela saísse de casa, para
viver com seu marido, eu já teria me divorciado de Esdras e poderia
voltar para casa para cuidar de papai. Provavelmente não me
permitiriam voltar a trabalhar na escola, mas, como Esdras disse, eu
não estaria desamparada, pelo menos não a ponto de passar fome
e faria questão de que isso ficasse registrado na documentação que
firmaria nosso acordo.
Quanto ao fato de Esdras ser um homem perigoso, bastava
que eu não lhe desse motivos para querer me fazer mal e estaria
segura. Pretendia também manter meu pai e minha irmã bem longe
dele.
Pretendia comunicar minha decisão a Esdras na hora do
jantar, quando presumia que nos reuniríamos para a refeição. No
entanto, ao chegar à casa, não tive paciência para ficar esperando
que as horas passassem, até porque não queria correr o risco de
me acovardar e mudar de ideia. Então, fui até o seu escritório e bati
na porta. Como ele não atendeu, girei a maçaneta e fui entrando.
A cena com a qual me deparei me deixou paralisada, sem
reação. O escritório era grande e sombrio como os demais cômodos
da casa. Mobiliado com um jogo de estofados de couro escuro,
estantes com livros, frigobar e uma mesa retangular de madeira ao
fundo. Deitado sobre um dos estofados, estava Esdras,
aparentemente adormecido, com seus olhos fechados, mas seu
rosto contorcido da mais completa agonia. Usava a mesma calça de
moletom folgada e a camiseta de malha branca com as quais estava
vestido na hora do almoço. Uma grossa camada de suor cobria sua
face e seu corpo, molhando o tecido, fazendo com que a camiseta
grudasse em seus músculos, evidenciando-os. Uma de suas mãos
estava estendida no chão, perto de um copo com o uísque que
agora se derramava sobre o tapete, indicando que ele o segurava
quando adormeceu. Com sua outra mão, segurava uma pilha de
papéis que descansava sobre seu peito.
Aparentemente se encontrava em meio a um pesadelo
terrível, seu corpo se contorcendo em agonia, palavras desconexas
saltando da sua boca. No entanto, o que realmente atraiu a minha
atenção foi o gigantesco volume em sua calça. Eu não era estúpida
a ponto de não compreender que aquilo era uma ereção. Mas como
alguém podia ter uma ereção enquanto se encontrava em meio a
uma tortura tão grande como aquela na qual ele parecia
mergulhado? Eu não entendia.
— Me solta! Saia de perto de mim! Eu vou te matar... vou te
matar... — balbuciava ele, com a voz carregada de terror e
desespero.
Continuei parada, observando-o sem saber o que fazer.
Cogitei apenas me retirar e fingir que não tinha visto nada. No
entanto, compadecida, não tive coragem de deixá-lo em meio a
tamanho tormento e me aproximei para tentar acordá-lo.
Primeiro chamei pelo seu nome, duas vezes e ele não reagiu,
continuou se contorcendo todo, com o rosto banhado de suor, como
se realmente estivesse sendo torturado por alguém. Então segurei
em seus ombros e os sacudi.
Ao mesmo tempo em que abria os seus olhos, Esdras
avançava para cima de mim, como se projetasse em minha pessoa
a imagem do inimigo que o atacava em seu pesadelo. Segurando-
me pelo meio, derrubou-me no chão com facilidade e estendeu seu
corpo grande e sólido sobre meu, aprisionando-me por completo
enquanto observava meu rosto com confusão, mesclada à frieza de
sempre.
Com a queda, bati a cabeça no carpete macio e fiquei
ligeiramente tonta, mas logo me recompus. Tentei sentir medo,
gritar, mandar que ele saísse de cima de mim, mas de súbito fui
invadida por uma miríade de sensações tão avassaladoras que tudo
o que consegui foi permanecer imóvel, paralisada, fitando-o de
volta, sem conseguir compreender e tampouco evitar a intensidade
de todo aquele turbilhão que tomava conta do meu corpo, fazendo
meu coração saltar como um louco no peito, tornando minha
respiração agitada, um calor pecaminoso brotando na altura do meu
peito e se espalhando pelo meu sangue, transformando minhas
veias em brasas.
De repente, me dei conta da sua ereção empurrando-me na
altura da virilha, moldando-se tão perfeitamente em minha carne
que eu podia sentir cada contorno daquela enormidade brutal, dura,
quente e latejante. Afundei meus dedos no carpete macio,
agarrando-o com força e, mais uma vez, tentei gritar, me afastar,
mas não consegui mover um só músculo do meu corpo. Minha
mente estava entorpecida pelas sensações, meu corpo recusando-
se a me obedecer. Tudo o que eu conseguia era sentir, enquanto
fitava de perto suas piscinas azuis gélidas, que pareciam me
prender em uma espécie de feitiço maligno.
Sem desviar seus olhos dos meus, Esdras moveu
brevemente seus quadris, pressionando ainda mais a ereção de
encontro ao meu corpo e quando soltei um arquejo, pude ver uma
expressão surpresa atravessando a frieza cortante do seu olhar.
— Você parece ter um gosto tão doce — sussurrou ele.
Dito isto, foi inclinando sua cabeça, aproximando sua boca da
minha e, contradizendo todos os meus princípios, apenas fechei os
olhos, esperando pelo beijo, ignorando todos os milhões de motivos
que tinha para mandar que ele me soltasse imediatamente.
Esdras aproximou sua boca da minha o suficiente para que
eu sentisse o calor da sua respiração acariciando a pele do meu
rosto, causando-me arrepios. Porém, não continuou. Em vez disso,
levantou-se com pressa, saindo de cima de mim e se afastando,
deixando-me deitada, arfando de desejo por senti-lo um pouco mais
e ao mesmo tempo em choque, sem conseguir ter qualquer reação.
— O que você está fazendo aqui? — A voz grossa irrompeu
pelo escritório, rispidamente, despertando-me do transe no qual eu
parecia ter me afogado.
Com meu corpo todo trêmulo, consegui ficar de pé e fui
golpeada pelo mais insuportável constrangimento, pela vergonha de
ter permitido tão facilmente que ele me tocasse daquela forma tão
íntima, o que me fez abraçar o meu próprio corpo, confusa,
desnorteada, vulnerável como jamais estive na vida.
Esdras se mantinha próximo à uma janela, de costas para
mim.
— E-Eu precisava... quer dizer... preciso falar com você —
gaguejei, tentando ignorar as emoções incompreensíveis e me
lembrar do que viera fazer na sua sala.
— Pode falar — disse, sem se virar em minha direção.
Respirei fundo, forçando a agitação em meu íntimo a
amainar.
— Acho melhor deixar para outro momento.
Eu havia me virado rumo à porta, quando sua voz grossa me
chamou de volta.
— Espere. — Virei-me para encará-lo e um arrepio me varreu
ao me deparar com a frieza no azul dos seus olhos.
Por mais que aquela frieza estivesse sempre presente na sua
expressão, Esdras não conseguia deixar de ser lindo. Parecia uma
obra de arte esculpida por anjos, com a barba aloirada emoldurando
o maxilar forte; o rosto anguloso; o nariz perfeitamente desenhado;
a pele em um tom bronzeado, meio rosado e aquela mecha de
cabelo loiro caindo-lhe sobre a testa, tornando-o ainda mais
atraente, irresistivelmente charmoso.
Que Jesus tivesse misericórdia da minha alma, enquanto eu
vivesse sob o mesmo teto que aquela tentação em forma de
homem!
— Me desculpe pelo que aconteceu aqui. Eu não tinha a
intenção de te tocar. Foi um acidente — disse ele e não compreendi
o desapontamento que me invadiu.
— Tudo bem. Fui eu quem te toquei primeiro, quando tentei
te acordar.
— Obrigado por se importar. — Eu abri a boca para perguntar
com o que, de tão terrível, ele estava sonhando, quando sua voz
imponente me interrompeu. — Você já decidiu algo sobre a minha
proposta?
Hesitei por um momento, tentando analisar o episódio
recente, me perguntando se não estava diante de um louco
descontrolado, um psicopata. Ele parecia atormentado demais
durante seu pesadelo, provavelmente devido a algum trauma vivido
no passado. Contudo, não me machucou ou me fez algum mal. Não
me dera motivos para não confiar.
— Sim. Decidi aceitar. Pelo meu pai — declarei.
Nenhuma expressão se manifestou em seu olhar, nem
surpresa, como se ele já tivesse certeza de que eu aceitaria.
— Fico feliz. Tomou a decisão certa. Vou chamar os
advogados agora mesmo para oficializarmos tudo.
— Certo. Estarei no quarto. É só mandar alguém me chamar.
— E seu pai, como está? Conseguiu vê-lo?
— Sim. Está na mesma. Mas reagindo aos poucos à nova
medicação.
— O Dr. Ferrari tem muita experiência. Com certeza vai
conseguir recuperá-lo.
— Se firmamos nosso acordo hoje, em quanto tempo ele será
transplantado?
— Em questão de dias. Já pode inclusive continuar internado
até o dia da cirurgia.
Nada nos últimos anos me deixou mais feliz do que ouvir
aquelas palavras.
— Podemos marcar o casamento para dentro de poucos dias
também — falei. — Basta que eu diga aos meus tios que aconteceu
algo entre nós, enquanto eu estava na sua casa, para que todos
entendam e concordem.
— Eu sei.
Sem mais palavras, dei-lhe as costas, visando rumar para a
porta, quando novamente me chamou:
— Ayla, espere.
Quando me virei, ele estava mais perto. Perto demais para
que eu conseguisse ignorar a beleza quase agressiva do seu rosto,
ou a visão dos contornos dos seus músculos dentro da camiseta
banhada de suor e, quando dei por mim, meu coração estava
novamente se agitando no peito.
— O que quase aconteceu aqui, não pode se repetir. Por
mais que estejamos morando sob o mesmo teto, nada pode
acontecer entre nós. Não podemos nos envolver de jeito nenhum.
Você está conseguindo me entender?
Seu tom de voz era frio e cortante, de modo que cruzei os
braços na frente do peito, como se tentasse me proteger da
sensação de abandono, de solidão e rejeição que emergia em meu
íntimo, sem que eu compreendesse a razão. De súbito, tomei
consciência do quanto minha aparência conservadora, antiquada,
devia parecer ridícula aos seus olhos, provavelmente acostumados
a vislumbrar mulheres lindas, bem-vestidas e tão sexys quanto ele.
— Claro que não vai acontecer nada. Você nem é o meu tipo.
— Dei de ombros, fingindo uma indiferença que não existia,
ignorando a mágoa que emergia em meu íntimo. — Vou subir. Até
depois.
Com isto, deixei o escritório e praticamente corri até o quarto
de hóspedes, o primeiro do corredor. Atirei-me de bruços sobre a
cama e tentei a todo custo me convencer de que aquele mar de
lágrimas que ameaçava aflorar dos meus olhos nada tinha a ver
com as palavras de Esdras. Mas a verdade era que eu estava
magoada por ele me considerar desprezível a ponto de sequer
cogitar ter alguma coisa comigo. Não que eu quisesse ter alguma
coisa com ele, longe de mim! Só que ser rejeitada tão duramente,
logo depois de quase ter sido beijada por ele, estava doendo mais
do que deveria. Por outro lado, seria bem melhor que
mantivéssemos mesmo distância. Me relacionar intimamente com
um assassino era a última coisa da qual eu precisava.
De acordo com as notícias na internet, Esdras era o tipo de
sádico que curtia torturar e machucar as mulheres durante o sexo e
só de imaginar uma coisa dessas eu tremia de tanto terror. Graças
aos céus, seu único interesse em mim era a garantia da construção
do seu resort.
CAPÍTULO 8
Ayla

Aproveitei o tempo que ainda tinha antes da chegada dos


advogados para tomar um banho e me livrar daquele cheiro de
hospital que sempre fica nas roupas quando entramos em um.
Tentei a todo custo pensar em qualquer outra coisa que não fosse
em Esdras, mas ele ocupou cada canto da minha mente enquanto
eu estava debaixo do chuveiro e depois que saí dele. Nunca na
minha vida eu havia experimentado sensações parecidas com as
que me arrebataram quando ele me tocou. Até porque minhas
oportunidades foram poucas. A única vez em que fui tocada com
permissão, foi quando um colega de classe me beijou durante o
Ensino Médio, ainda em Ivanhoés e tudo o que senti foi o aparelho
dentário dele machucando minha boca. Depois, passei por aquele
pesadelo na faculdade e nunca mais me atrevi a chegar perto de um
homem. Sempre que me imaginava tendo intimidades com alguém,
era invadida pela mais insuportável repulsa.
Mas com Esdras foi diferente. Foi agradável até demais.
Inesquecível. Embora não devesse, eu ainda podia sentir a força
dos seus músculos esmagando meus seios; a potência da sua
ereção ainda parecia moldada ao meu corpo; minha boca
continuava ansiando por sentir o gosto da dele. O que era uma
grande loucura, afinal aquele homem não passava de um assassino,
um sádico pervertido e degenerado que machucava gravemente as
mulheres com quem se relacionava.
A melhor coisa que já me aconteceu, foi ser rejeitada por ele.
Eu havia acabado de me vestir com um dos vestidos longos e
folgados de algodão que se encontravam no closet. Meus cabelos
estavam como eu gostava: puxados para trás e presos em um rabo
de cavalo na nuca, quando houve uma batida na porta e logo em
seguida a voz de Meredith partiu do outro lado.
— Senhorita, o Sr. Agostini solicita sua presença no
escritório.
A forma como ela falava, o jeito formal demais como se
referia a mim e a Esdras, lembrava os personagens de um filme
antigo. E depois o meu modo de vida que era retrógrado!
— Já estou indo — falei e deixei o aposento.
No escritório, encontrei Esdras sentado no mesmo estofado
onde antes dormia, desta vez usando uma camisa social preta e
calça jeans. Tinha os cabelos molhados, impecavelmente penteados
e a fisionomia endurecida como sempre. Diante dele, havia dois
homens mais velhos, ambos usando terno e gravata. Os advogados.
Considerando que eles já sabiam sobre o que se tratava aquele
acordo, sequer consegui encará-los, tamanho era o meu
constrangimento por estar me unindo a um homem em um falso
matrimônio.
Não conseguia nem imaginar como me sentiria quando todos
em Ivanhoés soubessem da verdade, após o divórcio.
— Ayla, sente-se. Fique à vontade — disse Esdras,
gesticulando para o lugar ao seu lado no estofado e me acomodei o
mais longe possível dele — Esses são meus advogados, Aristóteles
e Stéfano. Eles vão explicar tudo o que você precisa saber antes de
assinar o contrato.
Acenei brevemente com a cabeça para os dois homens, em
cumprimento, e um deles entregou-me vários documentos.
— Leia tudo com calma. Não tenha pressa — disse.
Li cada palavra com cautela, a fim de evitar cair em alguma
cilada. Tudo o que Esdras e eu combinamos estava descrito com
detalhes, o que chegava a ser constrangedor. Estava bem claro que
meu pai receberia o transplante do coração em troca da construção
do resort, o que deixava implícito que algo poderia acontecer a ele,
caso o resort não fosse construído. Dizia também que, assim que o
imóvel fosse inaugurado, todos deveriam saber que o casamento
era de fachada e nada havia acontecido entre nós. A parte mais
bizarra, foi ele ter colocado como termo o fato de não podermos nos
envolver sexualmente, ou de qualquer outra forma, um com o outro.
Que ele me desprezava como mulher, eu já sabia, mas
precisava ter colocado isso como condição para o nosso contrato?
Achei estranho também que uma das cláusulas fosse a
exigência de que eu não deveria falar com ninguém, fora de
Ivanhoés, sobre esse casamento. Não podia falar com a imprensa,
dar entrevistas, ou mesmo postar algo relacionado nas minhas
redes sociais. A impressão que tive foi de que ele queria esconder
que estava se casando e a única explicação para isto era o fato de
que existia alguém por quem seu coração batia mais acelerado. O
que explicava também a condição de que não podíamos nos
envolver de forma alguma.
Vários outros termos irrelevantes estavam descritos e li cada
um com atenção. Ao final da leitura, assinei onde me indicaram e
estava feito. Minha vida seria arruinada para que a do meu pai fosse
salva. Algo que não me parecia nada injusto.
Depois que os advogados se foram, Esdras propôs-me um
brinde em comemoração, servindo-se de uísque e a mim de uma
taça com água.
— Ao início de uma parceria de muito sucesso — propôs,
tocando seu copo na minha taça, antes de dar o primeiro gole.
Era impressionante que, mesmo em meio ao que chamava
de uma comemoração, ele não expressava qualquer emoção. Nem
alegria, nem exultação. Nada. Tudo o que se via no brilho do seu
olhar era aquela frieza assustadora. Seu semblante parecia sempre
fechado, como se ele fizesse questão de erguer uma barreira
transparente entre si mesmo e o resto do mundo. Ou apenas entre
ele e mim. Eu não sabia.
— Por que não posso falar sobre esse casamento nas redes
sociais? Você tem uma namorada que não pode saber de nada? —
indaguei, por impulso.
— Isso não vem ao caso — disse ele, friamente. — Como já
falei, nós não precisamos saber muito sobre a vida um do outro para
que isto dê certo.
— Eu tenho o direito de saber se estou correndo o risco de
ser atacada a qualquer momento por uma mulher louca de ciúmes.
A sombra de um sorriso se manifestou no canto da sua boca.
— Não precisa se preocupar com isso. Não sou
comprometido.
Um milhão de perguntas se formularam em minha mente. Eu
queria saber mais sobre Esdras, sobre seu passado e presente. Não
conseguia entender como alguém tão controlado, frio e sensato, fora
capaz de perder o autocontrole e assassinar uma pessoa mesmo
sabendo que isso lhe custaria anos de cadeia. Eu queria conhecer
seu lado negro de perto, apenas para me certificar do tamanho da
encrenca na qual estava me envolvendo. Contudo, antes que
tivesse tempo de abrir a boca para falar, Esdras sacou seu celular e
o levou ao ouvido.
— Vou telefonar para o diretor do hospital para conseguir o
transplante para seu pai — anunciou.
Um sorriso involuntário fez meus lábios se dobrarem
enquanto eu o observava quase sem respirar. Suas palavras foram
suficientes para que todos os meus receios desaparecessem,
sucumbindo à esperança de ver a saúde do meu pai melhorando.
— Espero que dê tudo certo — falei, otimista.
— Vai dar. — A pessoa do outro lado da linha atendeu e
Esdras continuou falando, sem desviar seu olhar do meu rosto. — E
aí, como estão as coisas? — Parou para ouvir por um breve
instante. — Não terei tempo hoje. Estou ligando para fazer uma
solicitação. Preciso que você consiga um transplante de coração
para o idoso cardiopata que levei ontem. Coloque-o no topo da lista
de espera e se esforce para conseguir arranjar um coração
compatível o mais depressa possível. — Ele parou para ouvir
novamente e tive quase certeza de que o outro homem estava
reclamando, colocando mil dificuldades no caminho. — Apenas faça
o que estou mandando e uma quantia de quinhentos mil será
transferida para a sua conta no mesmo dia. Caso não consiga,
arranjarei alguém mais competente para dirigir o hospital. — Parou
para ouvir mais uma vez e a sombra de um sorriso vitorioso
atravessou rapidamente seus lábios. — Ótimo. Ele ficará internado
enquanto espera pela cirurgia. Providencie para que fique
confortável e receba o melhor tratamento possível. Me avise quando
estiver tudo pronto. — E encerrou a ligação. — Viu só como foi
fácil? Em questão de dias, seu pai receberá um coração novo.
Uma onda de euforia me bombardeou, a tal ponto que deixei
meu lugar quase sem perceber e levantei-me exultante, feliz demais
com a certeza de que meu pai teria uma chance de continuar
vivendo. Ao ficar de pé, fiz o movimento depressa demais, a ponto
de os saltos das minhas sandálias enroscarem no tapete grosso e
saí praticamente cambaleando pela sala. Estava prestes a
desmoronar de cara no chão quando Esdras se levantou e me
segurou pelo meio, com uma agilidade impressionante, amparando
meu corpo desastrado de encontro à força bruta dos seus músculos
sólidos.
— Você está bem? — indagou ele, sem me soltar.
Fiz que sim com a cabeça, mas era mentira. Eu não estava
nada bem e ia piorando à medida em que cada minúscula célula do
meu organismo tomava consciência do calor masculino que
emanava dele, incendiando minha pele através das roupas,
despertando-me a mais pecaminosa sensação de lascívia, da forma
como foi quando ele caiu em cima de mim no dia anterior.
Definitivamente, eu precisava parar de ficar sozinha com
aquele homem no escritório dele. O lugar parecia amaldiçoado.
— Você já pode me soltar — sussurrei, quando só então me
dei conta do quanto minha respiração estava ofegante.
Esdras não moveu um só músculo do seu corpo para me
atender. Tampouco fiz menção de me afastar do seu contato. Era
como se estivesse mergulhada em alguma espécie de feitiço que
parecia minar minha racionalidade e minha capacidade de pensar,
quando ele me tocava.
Sem conseguir me afastar, aspirei o cheiro gostoso do seu
perfume, ao passo em que me tornava cada vez mais consciente
dos músculos sólidos demais sob o toque dos meus braços. O calor
escaldante, proibido, se tornou mais intenso em algum ponto abaixo
do meu umbigo e foi espalhando-se pelo meu sangue, com tamanha
ferocidade que meu coração se agitou no peito, batendo acelerado.
Sem compreender a razão de tamanho alvoroço em meu
organismo, ergui a cabeça para encará-lo e fitei-o de muito perto,
meu rosto a poucos centímetros do seu, a ponto do cheiro do uísque
em seu hálito me inebriar. Observei seus olhos azuis-claros, frios
como gelo e fui descendo, detendo-me em sua boca tão linda que
parecia desenhada por anjos. Automaticamente, lambi meus lábios,
cada minúscula parte de mim implorando que ele me beijasse, que
me agraciasse com o sabor daquela boca. Mas Esdras sequer se
moveu.
Quando voltei a erguer meu olhar, percebi que suas piscinas
azuis também vagavam pela minha face, observando cada detalhe
meu, detendo-se mais demoradamente em minha boca, mas sem
que seu olhar expressasse qualquer emoção. Tudo o que existia era
aquela frieza estarrecedora, que me levou a perceber o papelão que
estava fazendo permitindo que ele me agarrasse daquela maneira.
Eu estava agindo como uma mulher fácil, seduzível, o tipo de
pessoa que não era e nem pretendia me tornar.
Com isto em mente, empurrei-o de supetão e afastei-me,
desconcertada com todas as sensações que ainda passeavam pelo
meu sangue.
— M-Me desculpe por isso. Sou uma desastrada — falei.
Esdras abandonou o copo vazio sobre a mesinha e foi até a
janela, colocando-se diante dela, de costas para mim, parecendo
tenso e reflexivo.
— Jamais se deixe levar pela minha aparência — falou, sem
me olhar, com seu tom de voz ríspido, o que me fez congelar e me
deixou ainda mais desconcertada. — O que você está vendo só
existe por fora. Não queira conhecer o que eu tenho de pior.
Um estremecimento me varreu, no exato instante em que ele
se virava e seus olhos frios registravam o gesto.
— É. Eu sei — murmurei.
— O que você sabe não condiz exatamente com a realidade.
Mas lembre-se de que a realidade sempre pode ser pior. — Outro
estremecimento me percorreu e abracei a mim mesma, sem que o
movimento passasse despercebido ao seu escrutínio. — Mas não
precisa ter medo de mim. Nunca! — Esdras aproximou-se um
passo, sem que seu olhar frio desviasse do meu. — Eu jamais te
faria mal. Ao meu lado, você estará totalmente segura. Desde que
não nos envolvamos afetivamente.
Suas palavras me deixaram confusa e atordoada, com um
milhão de perguntas se formando em minha mente. Havia algo de
muito grave sobre aquele homem que não fora relatado pelos sites
da internet e talvez fosse mesmo melhor que eu não soubesse do
que se tratava. Se ele dizia que nada me aconteceria, desde que
não nos envolvêssemos, bastava que eu ignorasse essa atração
descabida que sentia por ele, durante os meses em que estaríamos
casados.
— Tudo bem. Eu confio em você — falei, temerosa, sem ter
opção que não confiar, pois a vida do meu pai dependia disso.
— Ótimo. Agora vamos jantar. Meredith já deve estar prestes
a servir a mesa.
Não trocamos muitas palavras enquanto fazíamos a refeição.
Esdras sentado na cabeceira da mesa enorme, eu acomodada na
cadeira ao seu lado. O clima que ele fazia questão de estabelecer
entre nós era de impessoalidade e formalidade, como se fôssemos
realmente dois estranhos fazendo negócios, o que era verdade. E
por mais que aquela inquietude que me invadia sempre que eu
estava perto dele insistisse por uma maior aproximação, por uma
conversa mais íntima, era melhor que mantivéssemos o máximo de
distanciamento possível.
Tão logo terminei de comer, subi para o segundo andar e
isolei-me no quarto onde estava instalada, mas não consegui dormir
muito. Sentia-me nervosa demais pela expectativa da conversa que
teria com meus tios no dia seguinte. Eu não conseguia nem
imaginar qual seria a reação deles quando eu dissesse que
entreguei minha virtude ao homem que deveria odiar e repudiar
acima de tudo. Um assassino. Se existisse outra forma de salvar a
vida do meu pai, eu jamais faria aquilo, jamais permitiria que
pensassem que sou uma mulher fácil e volúvel. Com certeza, eles
me comparariam à minha mãe.
O dia amanheceu frio e nublado. Quando deixei o quarto e
desci para o térreo, encontrei Meredith na sala com o recado de
Esdras de que o motorista me levaria ao hospital para ver meu pai,
antes de voarmos até Ivanhoés. Como precisara ir a uma reunião de
negócios logo cedo, ele me encontraria lá na hora de partirmos.
Então, logo após o café da manhã solitário deixei a casa no
luxuoso carro conduzido pelo motorista. As ruas movimentadas e
barulhentas da grande metrópole me fizeram relembrar o passado, a
época em que eu estava na faculdade e aquela sensação horrível
de impotência, de humilhação e vergonha que me acompanhou por
tantos anos atacou-me novamente, deixando-me quase deprimida.
Felizmente a casa de Esdras era grande o bastante para que eu não
precisasse sair às ruas com frequência, sem me sentir presa. Seria
uma tortura viver durante oito meses em uma casa sombria e
assustadora como aquela, cercada por desconhecidos, sendo um
deles um homem que exalava perigo até no suor, que já deixara
claro que nem amizade queria comigo. Mas seria um sacrifício que
eu faria pelo meu pai. Ele merecia, pois jamais nos abandonou
como nossa mãe.
No hospital, descobri que meu pai continuava na mesma.
Ainda intubado, esperando a medicação fazer efeito. Quando olhei
para ele, magro, abatido, em cima daquele leito, com vários
aparelhos ligados ao seu corpo, mais uma vez tive a certeza de que
tomara a decisão certa ao aceitar a proposta de Esdras. Qualquer
sacrifício seria válido para salvar a sua vida.
CAPÍTULO 9
Ayla

Permaneci ao lado do meu pai durante quase uma hora. Até


que um dos funcionários do hospital veio me avisar que Esdras me
aguardava no heliponto. Ao avançar pelo terraço do edifício, avistei-
o próximo ao helicóptero, usando um terno grafite, que parecia feito
sob medida, gravata da mesma cor, camisa branca e óculos
escuros. Parecia uma miragem, lindo demais, falando ao telefone,
com seu maxilar enrijecido, uma ruga marcando sua testa. Bastou
que eu o olhasse, para que meu coração desse saltos no peito.
Por Deus! O que estava acontecendo comigo?
Sem interromper o telefonema, no qual esbravejava
energicamente com algum pobre funcionário, do outro lado da linha,
Esdras gesticulou ordenando que eu entrasse na parte de trás da
aeronave e obedeci, enquanto o via assumindo o lugar do piloto.
— Pronta para voar? — indagou ele, ao encerrar a ligação.
— Correr perigo já está virando quase um hobby pra mim.
Fiquei surpresa quando ele sorriu, já que parecia não ter o
hábito de fazer isso.
— Ótimo. Significa que tem uma vida de emoções. Agora
coloque os fones e o cinto.
Fiz o que ele disse e segundos depois estávamos levantando
voo, os picos dos edifícios da cidade tornando-se cada vez mais
longínquos em meio à neblina, até desaparecerem de vez, dando
lugar ao verde-claro dos pastos das fazendas e mais adiante a um
tom mais escuro de verde, das árvores frondosas das florestas.
Meu nervosismo em falar com meus tios era tanto que mal vi
o percurso, tampouco senti medo. Logo estávamos aterrissando
sobre o heliponto do iate atracado perto da praia, onde havia alguns
funcionários nos trailers e na embarcação, os quais
cumprimentaram Esdras com respeito. Ali, pegamos o mesmo carro
em que bati quando nos encontramos, há duas noites e seguimos
rumo à cidade. Foi apenas ao trafegar através das ruas
ensolaradas, limpas e tranquilas de Ivanhoés que me dei conta do
quanto sentiria falta delas durantes os meses que precisaria passar
na capital, principalmente agora que já conhecia o caos que era
aquele lugar, sem mencionar a maldade no coração das pessoas
que viviam lá.
Sentiria falta também dos meus alunos. Eu amava ser
professora e tinha quase certeza de que não conseguiria reaver o
meu cargo depois que toda aquela loucura acabasse.
— Vou sentir falta daqui — falei, como se o pensamento
escapulisse em voz alta.
— Não é como se você estivesse indo embora para nunca
mais voltar. Logo estará aqui novamente — disse Esdras, enquanto
dirigia, sua voz me parecendo ainda mais grossa dentro dos limites
do interior do veículo confortável e silencioso.
— Quando tudo acabar, nada mais será como antes. Eu não
poderei mais ser professora, talvez nem mesmo andar pelas ruas
sem ouvir piadinhas.
— É só se mudar pra outra cidade. Sinceramente, não sei
porque alguém faria questão de morar nesse fim de mundo. Aqui
não tem nada!
— Aqui tem tudo de que precisamos. Temos sossego, paz,
calmaria, calor humano.
— Se esse calor humano vier das mesmas pessoas que te
jogarão piadinhas porque você fez um sacrifício para salvar a vida
do seu pai, tenho ainda mais dúvidas de que valha a pena.
— Você nunca entenderia. Essa é a nossa forma de vida. Se
alguém erra, temos que julgar para reprimir outros erros.
— Religiosos como vocês são, deveriam saber que o único
que pode julgar é o Criador. Ninguém mais. Mas não vamos discutir
esse assunto. Nossa opinião sempre vai ser diferente.
— Com certeza vai sim.
— Em último caso, se os julgamentos estiverem pesando
muito, você terá dinheiro para se mudar para onde quiser e abrir
uma escola particular.
Como sempre, ele acreditava que tudo nessa vida podia ser
resolvido com dinheiro. Se achava muito esperto, mas no fundo era
um tolo.
Logo estacionamos em frente à sede da prefeitura, a qual se
resumia a uma construção térrea pintada de azul-escuro, dividida
em um hall de entrada e um corredor repleto de salas, sendo a
última o gabinete da minha tia.
— Você espera aqui enquanto acalmo as feras. Depois que
eu inventar toda aquela história, você entra — falei, esfregando as
mãos banhadas de suor frio na saia do vestido, tentando me
acalmar.
Eu estava mais nervosa em contar aos meus tios que
aceitara me casar com um assassino, do que com o casamento em
si.
— Fica calma. Vai dar tudo certo — garantiu Esdras,
repousando sua mão grande sobre a minha.
O contato da sua pele com a minha foi o bastante para que
todos os meus sentidos acordassem, meu corpo tornar-se mais
sensível, minha pele em brasas. Apressei-me em puxar minha mão
dele e deixar o carro, pois tudo de que não precisava era entrar no
gabinete das duas feras com meu sangue agitado daquela maneira.
Assim que me viu atravessando o hall de entrada, a
recepcionista veio me receber, esbaforida, relatando o quanto todos
na cidade estavam preocupados comigo, por eu ter saído durante a
madrugada na companhia daquele demônio. Era mesmo um
infortúnio que as fofocas corressem tão depressa por ali.
De acordo com ela, meus tios já estavam inclusive cogitando
acionar a polícia da capital para relatar o meu sumiço.
— Eu não estava sumida. Apenas em um hospital com meu
pai — expliquei. — Meus tios estão aí?
— Sim. No gabinete. Estão em reunião, mas tenho certeza de
que não vão reclamar se você entrar.
Deixei-a e avancei através do corredor, entrando no gabinete,
onde estavam meus tios e três vereadores locais. A comoção foi
geral quando atravessei a porta, interrompendo-os. Ao me abraçar,
minha tia me apalpava como se se certificasse de que eu era
mesmo real.
— Por Deus, Ayla! Estávamos quase enlouquecendo sem
notícias suas! Ainda mais sabendo que saiu da cidade na
companhia daquele demônio! Você está bem? O que aquele maldito
fez com você?
— Eu estou bem. Ele não fez nada. Apenas me ajudou a
levar o papai para um hospital.
— Não devia ter aceitado a ajuda dele. Esse monstro é capaz
de tudo — meu tio falou.
— Preciso falar com vocês em particular — falei e minha tia
chegou a espalmar sua mão sobre o peito, alarmada, como se fosse
capaz de prever o que eu diria.
— Claro. Senhores, deixem-nos a sós — disse.
Instantes depois, eu estava sentada diante da mesa atrás da
qual se encontravam meus dois tios: a prefeita e o reverendo da
cidade. Ambos me olhavam com seus olhos arregalados, como se
temessem que uma piscadela pudesse fazê-los perder o que eu
diria. A expressão deles era de expectativa, mas também de
julgamento, o que já era esperado.
— Meu pai passou mal há duas noites e, quando saí para
levá-lo ao hospital, acabei batendo no carro de Esdras — falei,
nervosa, esfregando as palmas das mãos no vestido para secar o
suor frio que as cobria.
— Essa parte nós já sabemos, querida. Conte o que
aconteceu depois.
— Como o Dr. Washington está com Covid e não pôde
atendê-lo, acabei aceitando ir no helicóptero de Esdras para a
cidade, onde meu pai foi internado em um hospital. Está intubado,
mas só por precaução. Como é um hospital renomado, logo vai se
recuperar.
— E onde você passou a noite, depois de deixar seu pai no
hospital? — minha tia foi direto ao ponto.
Tentando conter o nervosismo, respirei fundo várias vezes,
preparando-me para mentir como nunca tinha mentido na vida.
— Fui para a casa de Esdras. — Ambos não conseguiram
esconder a perplexidade — E o pior aconteceu quando estava lá. —
Meu tio chegou a soltar um gemido, mas nenhum dos dois disse
nada. — Eu fui fraca. Cometi o pecado da carne. Deixei que ele me
seduzisse e me levasse para a sua cama. Perdi minha virtude nos
braços daquele homem.
— Jesus de misericórdia! — disse minha tia, pálida.
— Mas ele disse que vai se casar comigo.
— Como é?! — disparou meu tio.
— Ele prometeu que vamos nos casar. Mas em troca, quer
permissão para construir o resort.
— Eu sabia! — Minha tia deu um murro do seu punho
cerrado no tampo da mesa. — Esse desgraçado te usou para
conseguir o que queria e você caiu como uma palhaça!
— Me desculpem. Ele é muito sedutor. Não fui capaz de
resistir. — Minha consciência pesava a cada mentira que saía da
minha boca.
Minha tia deixou seu lugar, contornando a mesa e
aproximando-se de mim, passando as mãos no comprimento dos
meus cabelos, como costumava fazer quando eu era criança.
— Você não precisa se casar com aquele demônio por causa
disso. Ninguém precisa saber sobre o que aconteceu entre vocês.
— Vitória! — Meu tio chamou o nome da esposa, em
repreensão.
— É isso mesmo! — retrucou ela. — Se essa história morrer
nessa sala, ninguém terá motivo para te condenar. Você diz que
passou a noite na sala de espera do hospital e pronto. Quanto aos
falatórios, logo todo mundo esquece.
Cacete! E agora?
— Não é só isso, tia — falei, esperando que a mentira
seguinte os convencesse — Nós não tomamos nenhuma
precaução. Talvez eu tenha ficado grávida.
— Ai, meu Deus! Isso seria terrível! — Minha tia voltou a se
sentar em seu lugar, pálida como um papel.
— A melhor saída, seria mesmo o casamento — continuei,
me forçando a parecer convincente. — Ele prometeu que proibirá os
turistas de virem com roupas de banho e consumirem álcool e
outras drogas em nossa cidade. Será uma das regras do resort.
— E como vamos saber se pretende cumprir essas
promessas?
— Vocês podem fazê-lo assinar um contrato, ao retirarem a
restrição administrativa.
— Você gosta desse homem, Ayla — disse minha tia, com
um severo tom de acusação e aproveitei a chance de convencê-los.
— Na verdade, eu gosto um pouco. Não teria me entregado
se não gostasse. Quero me casar com ele.
— Se ela quer, não há nada que possamos fazer — admitiu
meu tio.
— E Ivanhoés nunca mais será a mesma — disse ela e a
tristeza no seu tom de voz fez a minha consciência pesar ainda
mais.
Eu estaria sacrificando não apenas a minha vida, mas
também a paz da minha amada cidade, em troca da saúde do meu
pai. Será que valeria mesmo a pena?
Nesse instante, houve uma batida na porta e, antes que
tivéssemos tempo de dizer algo, ela se abriu e Esdras entrou. Sua
aparência sofisticada, com aquele ar de riqueza e autoritarismo, não
combinava em nada com a simplicidade singela do lugar.
— Ivanhoés continuará sendo a mesma. Vocês têm a minha
palavra — disse ele, sua voz grossa enchendo o ambiente, fazendo
a sala parecer ainda menor e mais abafada.
Meus tios pareciam ter petrificado, observando-o abismados,
quase sem respirar. Deviam estar tão chocados quanto fiquei ao me
encontrar pela primeira vez na presença de um assassino sem alma
e sem coração, mas que já tinha feito mais por mim e pelo meu pai
do que muitas pessoas boas.
— Perdão pela intromissão. Sou Esdras Agostini. — Ele
estendeu-lhes a mão e apenas meu tio a apertou, sem dizer nada,
boquiaberto.
Como se de súbito se desse conta da sua aparência
desmazelada, minha tia percorreu os dedos entre os cabelos presos
em um rabo de cavalo igual ao meu, passou as mãos na saia do
vestido longo, para desamarrotá-lo.
Ela também estava deslumbrada com Esdras. Que mulher
não ficaria?
— Como Ayla falou, não pretendo modificar a vida pacata de
Ivanhoés — disse Esdras, parecendo bastante à vontade ao
acomodar-se na cadeira de rodinhas ao meu lado. — Para que
vocês tenham isso garantido, podemos firmar um contrato proibindo
a vinda dos turistas aqui, que não em caso de extrema emergência.
Ele se calou e o momento que se seguiu foi de um longo
silêncio. Até que minha tia falou:
— Nos desculpe por não prepararmos uma recepção melhor.
Não sabíamos que estava na cidade. — Minha tia pedindo
desculpas a Esdras Agostini? Eu estava chocada! — Podemos ver
como ficam as coisas. Com o casamento podemos concordar, pois
em nosso meio uma moça sem virtude perde o seu valor e acredito
que o senhor sabia disso antes de seduzir minha sobrinha.
— Não a seduzi a fim de levar vantagem com o resort. Eu
gosto mesmo de Ayla.
Em meio à sua encenação, Esdras segurou minha mão entre
as suas, o que despertou a minha irritação. Ele não precisava me
usar de verdade a fim de conseguir o que queria. O acordo entre
nós era claro. Fingir que gostava de mim, mesmo diante dos meus
tios, era desnecessário. Só não puxei minha mão para que não
desconfiassem que estávamos mentindo.
— Como eu estava dizendo — minha tia continuou —, não
temos como discordar desse casamento, mas sobre a retirada da
restrição administrativa, temos que pensar.
— Pois pensem depressa, porque posso mudar de ideia e
decidir me dedicar a uma construção nas Maldivas e Ayla nem
mesmo tem um passaporte. — Esse era o verdadeiro Esdras: curto,
grosso e impiedoso.
— Certo. Vamos nos reunir com os demais líderes da cidade
e decidir o que faremos — disse meu tio.
— Tenham em mente que o estilo de vida em Ivanhoés não
vai mudar. Isso eu posso garantir — reafirmou Esdras, antes de se
levantar, ainda segurando minha mão e me puxando. — Em breve
voltarei a entrar em contato. Até mais.
Dito isto, me conduziu rumo à porta e deixamos a prefeitura
no seu carro com lataria amassada.
— Você não precisa me tocar, ou fingir que gosta de mim,
quando estivermos na frente dos meus parentes. Levá-los a
acreditar que passamos a noite juntos é suficiente para que aceitem
esse casamento — falei, depois de um longo momento de silêncio,
enquanto seguíamos em direção à minha casa.
Todas as pessoas por quem passávamos na rua paravam
para nos observar.
— Mas é claro que precisa! — Seu tom de voz era ríspido. —
Temos que fazer isso direito. Ninguém vai acreditar que passamos a
noite juntos se mal nos olharmos.
Do homem gentil e atencioso que ele fingira ser quando
estávamos diante dos meus tios, não restava mais nada. Ele voltara
a ser o ogro que eu conhecia.
— Tenho que admitir que você é um ótimo ator — falei
amargurada.
— Não meço esforços para conseguir o que quero. É assim
que as coisas funcionam no mundo dos negócios.
— Os negócios parecem ser tudo o que importam na sua
vida.
— Por que diabos você está zangada?!
— Eu não estou zangada. Só não gosto de ser usada como
você fez quando segurou minha mão na frente deles.
— Não tem ninguém sendo usado nessa história. Estamos
cientes dos termos e do que ganharemos com isso.
— Não fazia parte dos termos você me tocar e encenar um
sentimento que não existe na frente deles.
— Por que diabos isso te incomoda tanto? Foi só uma
encenação sem importância. Um meio para alcançarmos nossos
objetivos. Negócios são assim mesmo. Como você já deve ter
percebido, não meço esforços para conseguir o que quero, pois
nada me faz mais feliz que ser um homem bem-sucedido.
— E o amor, não tem lugar na sua vida? Você não tem
ninguém pra amar?
Ele bufou, contrariado e percebi que havia ultrapassado os
limites da impessoalidade que ele estabelecera na nossa relação.
Mas eu não ligava.
— O amor é só algo que inventaram para que as pessoas
constituam famílias. Agora se está querendo saber se tenho
mulheres, tenho e muitas.
Um aperto incômodo tomou conta do meu peito e tive
vontade de mandar que ele parasse o carro para que eu descesse.
— Claro que tem. As mulheres casadas que perdem o marido
ao se envolverem com você. — Me arrependi pelas palavras no
instante em que fechei a boca.
Mais uma vez, eu havia ultrapassado os limites. Droga!
— Como eu já disse, não precisamos saber sobre a vida
pessoal um do outro. Você não interfere no que eu faço da minha
vida e eu não interfiro na sua religião, ou em como vai se livrar do
pedido de casamento daquele imbecil. Estamos conversados?
Eu podia ter ido dormir sem aquela.
— Claro. — Com isto, me calei.
Pouco depois, estacionamos diante da minha casa e tive
vergonha de convidá-lo para entrar, devido à simplicidade do lugar.
A casa toda era do tamanho da sala da mansão dele na capital.
— Obrigada por me trazer. Quando estiver pronta, ligo pra
avisar — falei.
Quando deixei o carro, fiquei surpresa ao vê-lo fazer o
mesmo.
— Como eu disse, precisamos fazer isso direito. — Esdras
lançou um olhar ao longo da rua, onde vários vizinhos saíam à porta
de suas casas para nos observar. — Se eu não entrar, nunca vamos
convencer essa gente de que esse casamento é de verdade.
Ele estava certo e precisei engolir a vergonha quando ele me
seguiu para dentro.
Ao avançarmos pela sala simples demais para os olhos do
meu futuro marido, encontramos Aysha espichada no sofá, se
empanturrando com uma tigela de pipoca, assistindo uma série na
televisão. A casa estava ainda mais bagunçada e suja que o
habitual, já que há dois dias ninguém mandava minha irmã caçula
fazer o trabalho doméstico e, se dependesse da sua vontade, ela
afundaria na sujeira.
— Como você consegue viver nesse chiqueiro? — indaguei e
Aysha pulou do sofá, só então notando nossa presença.
— Ayla! Finalmente você apareceu! — Ela correu em minha
direção e meu coração transbordou de afeto quando se atirou em
meus braços, apertando-me forte. — Por que me deixou todo esse
tempo sozinha? Cadê o papai?
— Ele ficou na capital. — Acariciei seus cabelos longos e
escuros como os meus. — Está internado, mas está em um bom
hospital. Logo estará em casa.
— Fiquei tão preocupada quando você disse que estava na
casa desse... — Ela desvencilhou-se do abraço, lançando seu olhar
arredio e assustado na direção de Esdras. — Por que esse homem
está aqui?
— É uma longa história. Primeiro me deixe te apresentar.
Esse é Esdras Agostini. Esdras, essa é minha irmã Aysha.
— Eu sei quem ele é — disparou Aysha, com sua melhor
cara de hostilidade e medo.
— É um prazer te conhecer, Aysha — disse ele, sem
estender-lhe a mão em cumprimento. — E não precisa ter medo de
mim. Só estou aqui para ajudar.
— Ajudar como?
— Isso é uma longa história — intervi. — Venha, vamos
preparar um café enquanto te explico tudo.
Deixamos Esdras parecendo pouco à vontade na
simplicidade da sala e seguimos rumo à cozinha, onde precisei
mentir para a minha irmã sobre aquele casamento, assim como
menti para os meus tios. No início, ela se mostrou chocada com
tudo, como era de esperar, porém, à medida em que processava as
informações, ia se animando, principalmente porque o fato de eu
estar “desencalhando”, como ela própria dizia, significava que logo
poderia se casar também. Pelo menos, o casamento dela seria de
verdade e mais de uma pessoa sairia feliz dessa história toda.
Enquanto tomávamos o café, reunidos na sala, Aysha se
mostrava cada vez mais solta e receptiva com Esdras. Mais uma a
ceder ao deslumbramento que ele provocava sobre as pessoas. Em
especial sobre as do sexo feminino.
Após o café, Esdras anunciou que precisava voltar ao
trabalho e me convidou a acompanhá-lo até o lado de fora.
Estávamos na varanda da casa, quando ele se colocou à minha
frente, fitando-me de perto com seus olhos frios e assustadores.
Enfiou a mão no bolso do terno, de onde tirou uma caixinha
revestida de veludo preto e a abriu, revelando o anel com um
diamante solitário.
— Sei que pode parecer exagero, mas realmente precisamos
convencer essa gente de que somos um casal — sussurrou ele,
oferecendo-me o anel, que devia ter custado mais que um ano
inteiro do meu salário de professora.
— Não posso aceitar — falei, estupefata. — É uma jóia muito
cara.
— Não só pode, como vai. — Sem qualquer aviso prévio,
Esdras segurou minha mão e enfiou a jóia no meu dedo anelar,
encaixando-a com perfeição. O contato com sua pele me fez
arrepiar, sem que eu pudesse evitar. — Tenha em mente que em
breve você será a Sra. Agostini. Terá as melhores coisas e precisa
se acostumar com elas.
— Isso parece mais uma sentença do que um privilégio —
falei, observando o diamante em meu dedo.
— É um privilégio. Aceite como as coisas serão.
— Você fala com tanta certeza. Ainda nem sabemos se meus
tios retirarão a restrição administrativa para que você possa
construir o resort.
— Eles vão retirar.
— Como sabe?
— Conheço as pessoas. — Ele observou o Rolex de ouro em
seu pulso. — Tenho que ir. Arranje alguém para ficar com sua irmã.
Volto pra te apanhar no final da tarde.
— Tudo bem.
Meu futuro marido deu-me as costas e, sob os olhares
curiosos dos vizinhos, entrou no seu carro amassado e partiu.
CAPÍTULO 10
Ayla

Era para eu organizar minhas coisas para passar alguns dias


na capital, mas não consegui ignorar a bagunça na casa,
principalmente agora que Aysha estava ocupada no WhatsApp,
fofocando com as amigas sobre o meu casamento, o acontecimento
mais inesperado e explosivo da história de Ivanhoés. Quem não
devia estar nada feliz com essa história toda era Pablo. Felizmente
eu partiria antes de ter tempo de falar com ele. Não precisaria
passar pelo constrangimento de dar-lhe alguma satisfação.
Obriguei Aysha a deixar o celular de lado para me ajudar com
a faxina e por volta do meio-dia estávamos quase terminando.
Preparei apenas uma macarronada rápida para o almoço e
enquanto comíamos, ali mesmo na sala, acomodadas nos sofás,
telefonei para a minha tia pedindo que Aysha ficasse na sua casa
enquanto eu estivesse com papai na capital. Ela concordou sem
hesitar e a parte difícil da conversa acabou se tornando conseguir
encerrar a ligação em meio a tantas perguntas que ela me fazia
sobre Esdras e nosso casamento. Aparentemente não estava
desconfiada de nada. O que ela tinha era curiosidade e
preocupação com o fato de eu estar me unindo a um assassino
perigoso. Só concordara com esse casamento porque não podia
aceitar que uma moça da família fosse desvirtuada sem se casar e
ainda corresse o risco de se tornar mãe solteira.
Após lavar a louça do almoço, telefonei para o hospital em
busca de notícias e fiquei exultante ao ser informada de que papai
havia acabado de sair da UTI e ser transferido para um quarto
individual, onde eu poderia fazer-lhe companhia. Ao encerrar a
ligação, telefonei para Esdras, que na mesma hora se prontificou a
enviar o helicóptero para me apanhar, antes do horário previsto.
Doeu-me na alma ter que deixar minha irmã para trás,
principalmente diante dos seus apelos de que a levasse para ver
papai. Mas eu não podia levá-la para a casa de um assassino. Não
podia colocar a vida dela em risco também. Já bastava a minha.
Voltei para a capital no helicóptero conduzido pelo piloto.
Antes de chegar ao hospital, telefonei novamente para os meus tios,
pedindo que, caso viessem visitar meu pai, não lhe contassem nada
sobre meu casamento, pois não sabia se o coração dele podia
aguentar uma notícia tão pesada. Era melhor esperar pelo
transplante antes de falar-lhe sobre isso.
No hospital, encontrei papai acomodado em um quarto
amplo, bem decorado, com uma janela que dava vista para a
imensidão da cidade lá fora, repleto de equipamentos médicos
modernos. Ainda estava abatido, devido aos dias intubado. Mas vê-
lo acordado, falando e respirando com seus próprios pulmões, foi
suficiente para que meu coração se enchesse de alegria.
— Quem está pagando por esse lugar? Não me diga que
você vendeu a casa. O último bem que nos restou — indagou papai,
sua voz ainda fraca e cansada.
— Claro que não vendi. Esse é um hospital que entrou
recentemente no nosso plano de saúde — recitei a mentira
previamente elaborada. — Não é maravilhoso?
— Não minta pra mim, Ayla. Eu estava mal, mas lembro
daquele homem do resort trazendo a gente pra cá. É ele quem está
pagando isso tudo?
— Claro que não, pai. De onde o senhor tirou isso? Ele
apenas nos deu uma carona até aqui.
Não era de todo mentira. Esdras não estava pagando por
nada porque era o dono do hospital.
Meu pai continuou desconfiado, mas por fim desistiu de
perguntar.
Permaneci ao lado dele durante todo o resto da tarde.
Pretendia dormir ali mesmo, em uma poltrona confortável disposta
para os acompanhantes, porém Esdras enviou seu motorista para
me apanhar e telefonou insistindo que eu fosse dormir em casa, já
que precisávamos passar essa impressão de casal a todos.
Já era tarde quando cheguei à mansão e, ainda assim, ele
me esperava para o jantar, embora não tenhamos conversado muito
enquanto fazíamos a refeição na sala enorme, com espaço para
uma dúzia de pessoas. Apesar de fazer questão de me manter por
perto, Esdras se mostrava frio, distante, impessoal, como se
fôssemos apenas dois desconhecidos envolvidos em um negócio e
nada mais.
Na manhã seguinte, novamente ele fez questão de que nos
acomodássemos à mesa para o café da manhã, sempre mantendo
aquela distância fria e impessoal. Tinha acabado de fazer sua
refeição, o tempo todo mostrando-se sério e distante, quando de
súbito enfiou a mão no bolso da calça, de onde tirou as chaves de
um carro, junto com um cartão de crédito e os depositou sobre a
mesa.
— Isso é para você. Para que vá visitar seu pai e compre o
que precisar para vocês. — disse.
Aquilo não fazia parte do nosso acordo. Além do mais, ele já
estava fazendo muito por mim e pelo meu pai.
— Obrigada, mas não posso aceitar.
— Claro que pode.
— Não faz parte do nosso acordo. Você não precisa me dar
presentes.
— Não estou dando porque preciso, mas porque quero. Além
disso, você agora é minha esposa, precisa agir como tal.
Suspirei, resignada, esperando ele dizer que eu precisava
comprar roupas novas e me pentear diferente, porque agora era
casada com um importante milionário e não podia ter o visual de
uma crente. Felizmente ele não disse, pois eu não tinha certeza se
seria capaz de mudar apenas para agradá-lo.
Esdras deixou a casa antes de mim. Pouco depois, quando
avancei pela garagem enorme, abarrotada de carros luxuosos, de
diversas cores e modelos, não fazia ideia de qual era aquele com o
qual ele tinha me presenteado. Precisei clicar no botão do alarme e
não fiquei surpresa quando as luzes da moderna Lamborghini verde
metálica se acenderam.
A sensação de dirigi-la pelas ruas da grande metrópole, foi
magnífica, um misto de desafio e liberdade tomando conta de mim.
Naquele dia, meus tios, minha prima e Aysha vieram visitar
meu pai, que insistiu em afirmar que estava melhor e podia voltar
para casa com eles. Foi necessário que o médico viesse ao quarto
conversar com ele, explicando-lhe que estava no topo da lista para o
transplante e que por isso precisava ficar internado até o dia da
cirurgia. Em nenhum momento mencionou o nome de Esdras, de
modo que meu pai continuava na ignorância sobre quem estava
custeando tudo aquilo. Continuava acreditando que era parte do
plano de saúde.
A notícia de que meu pai seria transplantado, por um pedido
de Esdras, incentivou meus tios a aceitarem meu falso futuro marido
em nossa família, o que os levou a retirarem a restrição
administrativa, permitindo, por fim, a construção do resort, mas
apenas depois que o casamento fosse realizado, o que fez com que
Esdras se apressasse em contratar uma equipe para organizar a
cerimônia e toda a burocracia que a envolvia. Embora tivéssemos
concordado em realizar uma cerimônia simples, a equipe era
necessária, já que eu não podia deixar meu pai sozinho para ir
organizar nada.
Os dias seguintes se passaram muito depressa. Foi uma
semana durante a qual eu passava os dias no hospital com meu pai
e ia dormir na casa de Esdras à noite. Me reunia com ele sempre no
horário do café e do jantar. Por mais que fizéssemos as refeições
juntos diariamente, aquele clima de impessoalidade e distância
perdurava entre nós, de modo que não passei a conhecê-lo melhor.
Tudo o que eu continuava sabendo sobre ele era o que tinha lido na
internet. Nem mais, nem menos. O que não ajudava muito para que
eu perdesse o medo de estar em sua companhia, embora estivesse
começando a me acostumar com esse medo.
Por fim, chegou o dia do casamento, quando precisei mentir
mais uma vez, dizendo ao meu pai que iria ao dentista, deixando-o
aos cuidados das enfermeiras, que eram muito atenciosas. Voei
junto com Esdras até Ivanhoés. Enquanto ele ficava no iate, segui
com o motorista para a minha casa, onde Aysha me esperava
exultante, certa de que aquele seria um casamento de verdade.
Como a equipe contratada por Esdras já havia providenciado
tudo, inclusive o vestido de noiva, só tive o trabalho de me trocar e
esperar que uma profissional dessa equipe fizesse um penteado
simples nos meus cabelos e uma maquiagem discreta.
Considerando que aquele não era um casamento verdadeiro,
mas apenas um negócio, não quis cometer o pecado de permitir que
a cerimônia fosse realizada na igreja, então inventei que sempre
sonhei em me casar na praia e tudo foi providenciado. Infelizmente,
não consegui impedir que meu tio, o reverendo, celebrasse a união.
Como eu já esperava, foi uma cerimônia simples, realizada
na praia principal da cidade, com a presença apenas dos familiares
e os amigos mais próximos. Não fui arrebatada por nenhuma
emoção intensa quando minha tia me acompanhou até o altar,
conduzindo-me através do caminho aberto entre as fileiras de
cadeiras ocupadas pelos convidados, até o altar singelo montado
sobre as areias, perto das águas salgadas, onde Esdras já me
aguardava, parecendo uma pintura rara dentro de uma calça e
camisa brancas, com seus cabelos loiros voando ao sabor do vento.
De trás do púlpito, meu tio pronunciou as palavras, nos fez as
perguntas, nos orientou a trocarmos as alianças e quando por fim
disse que Esdras podia beijar a noiva, fui agraciada com o calor dos
lábios dele sobre minha testa, muito suavemente.
Com isto, estávamos casados. Eu dividiria oito meses da
minha vida com um assassino sádico, que podia surtar e me matar a
qualquer momento. Mas pelo menos a vida do meu pai seria salva.
Após a cerimônia continuamos na praia por algum tempo,
recebendo as congratulações dos convidados, beliscando os
petiscos do farto bufê, ouvindo as músicas gospel. Estava quase
anoitecendo quando por fim Esdras e eu pegamos o helicóptero de
volta para a cidade, indo direto para o hospital, onde ele me deixou,
antes de partir para a sua casa.
Esdras não me direcionou qualquer palavra de parabéns, ou
de gratidão, ou de qualquer outra coisa, como se não tivéssemos
acabado de entregar nossas vidas um ao outro. Tudo o que partia
dele era aquela indiferença de sempre e, por mais que aquele
casamento se tratasse de um negócio, uma transação com a qual
cada um de nós teria o que queria, no fundo eu esperava uma
recepção na mansão, com música, ou no mínimo um jantar perto da
piscina, em comemoração a um passo tão importante que ambos
dávamos em direção aos nossos objetivos. Mas Esdras não fez
nada e nem disse nada. Agia como se aquela união não tivesse o
mínimo significado para ele. Como se tivesse sido só mais uma
reunião de trabalho entre tantas que ele tinha.
Não compreendi porque sua atitude me deixou tão magoada,
se eu já sabia que as coisas seriam assim. Os acontecimentos
estavam apenas seguindo seu curso normal. Mas ainda assim me
senti ferida, ignorada, o que me levou a decidir passar aquela noite
no hospital com meu pai e, quando telefonei para avisá-lo, mais uma
vez Esdras apenas me direcionou sua indiferença, concordando
sem perguntar o motivo.
Nos dias que se seguiram, voltei à rotina de antes, passando
os dias com meu pai no hospital, indo dormir na mansão, onde fazia
as refeições na companhia do meu indiferente e distante marido,
sempre agindo como se fôssemos dois estranhos que dividiam o
mesmo teto e a mesma mesa.
Alguns dias depois, estávamos tomando o café da manhã na
grande mesa, quando ele me falou sobre uma recepção que
aconteceria naquela noite na casa.
— Será apenas um jantar de negócios com sócios e
empregados — disse ele, com sua voz grossa fazendo eco através
da sala enorme. — Você poderá participar, se quiser. Mas se não se
sentir à vontade, poderá entrar pelos fundos quando chegar à noite
e ir direto para o seu quarto.
E perder a oportunidade de saber mais sobre ele,
conhecendo algumas das pessoas com quem convivia? Nem morta!
Eu faria questão de ir a esse jantar.
— Quero participar, se minha presença não for te causar
nenhum transtorno.
Esdras fitou-me surpreso. Pelo visto, esperava que eu
recusasse.
— Sério? — indagou.
— Sim. Estou meio entediada de tanto ficar naquele hospital
o dia todo. Um pouco de distração vai me fazer bem.
— Claro. Eu entendo. Deve ser difícil mesmo. — Ele ficou
reflexivo enquanto levava uma garfada do croissant à boca. — Bem,
algumas das pessoas que virão sabem sobre os verdadeiros
motivos pelos quais nos casamos. As outras não precisam saber.
Então terei que dizer a elas que realmente me casei e precisaremos
dar uma de marido e mulher na frente deles.
Ele parecia preocupado enquanto pronunciava as palavras.
— Sem problemas. Posso fingir sem dificuldade. Inclusive já
estou me tornando perita nisso.
— Certo. São poucas pessoas. Vamos deixar que elas
pensem que me casei — falou, pensativo.
— Certo então.
Após o café, fui direto para o hospital, onde permaneci até o
início da tarde. Usei o cartão de crédito que Esdras havia me dado
para pagar um extra à enfermeira que estava de plantão naquele
dia, para que ela desse maior atenção ao meu pai, a fim de que ele
não se sentisse sozinho. Depois, fui direto para o shopping, comprar
uma roupa nova e me produzir um pouco para o jantar, afinal não
queria que Esdras passasse vergonha por causa da minha
aparência simples demais para as pessoas com quem ele convivia.
Empolgada com o fato de ter um cartão ilimitado à minha
disposição, acabei exagerando nos gastos e comprei vários
vestidos, calçados e até alguns acessórios, indecisa sobre qual
roupa seria mais adequada para usar durante a recepção daquela
noite.
Como meus cabelos estavam longos demais e sem um corte
definido, decidi ousar um pouco mais e acabei indo ao salão, onde
fiz um novo corte, repicado nas pontas, o que os deixou ainda mais
volumosos e encaracolados. Aproveitei também para hidratar a pele,
fazer uma maquiagem, arrumar as unhas e até depilar as pernas,
algo que jamais havia feito antes.
Talvez os dias longe de Ivanhoés estivessem me despertando
essa necessidade de mudar. O que não significava que eu estava
abandonando minha religião. Isso jamais aconteceria.
Já deixei o shopping usando um dos vestidos que comprara,
um modelo casual cor de creme, de tecido esvoaçante, com mangas
curtas, saia rodada, que ia até a altura dos joelhos e tinha a cintura
bem-marcada, de onde partiam flores bordadas rumo ao busto e à
saia. Era a primeira vez que eu usava um vestido cuja saia não
atingia a altura dos meus tornozelos e que marcava a cintura. Não
estava nua e nem vulgar, mas bastante feminina e até mais bonita.
Na verdade, estava dando ouvidos à essa necessidade de mudar,
talvez influenciada pelo meio no qual estava inserida, onde ninguém
mais se vestia como eu.
Já era quase noite quando voltei para a mansão dirigindo
meu belo carro novo. Chegando lá, Meredith veio me receber na
sala, oferecendo-se prestativamente para levar as sacolas de
compras até o quarto de hóspedes no qual eu continuava instalada.
— Não precisa. Eu mesma faço isso — falei, me sentindo
paparicada até demais.
Não estava acostumada em ter pessoas fazendo tudo para
mim.
— Imagina. Será um prazer organizar tudo, Sra. Agostini.
Ela insistia em me chamar assim, mesmo que eu já tivesse
pedido que me tratasse pelo primeiro nome. Eram todos muito
formais por ali.
— Beleza. Faça como quiser. — Entreguei as sacolas a ela,
temendo que se ofendesse caso eu não o fizesse. — Que música é
essa? — indaguei, ao ouvir a música agitada que parecia partir de
muito distante.
— É da academia.
— Academia?
— Sim. Fica no porão. O Sr. Agostini sempre coloca música
alta quando está treinando.
— Ah, ele já chegou?
— Sim. Veio mais cedo hoje. Com licença.
Meredith seguiu rumo à escadaria, carregando minhas
sacolas de compras e parti no sentido oposto, seguindo o som da
música. Foi bom saber que Esdras havia chegado mais cedo, pois
assim eu poderia perguntar-lhe qual roupa seria adequada para usar
durante o jantar. Como não sabia se seria uma recepção mais
formal, ou mais casual, havia comprado roupas de todos os estilos.
Seguindo o som da música, fui parar em uma porta estreita, a
qual atravessei, dando em uma escadaria que levava ao porão e
desci. Me deparei com um salão enorme, repleto de aparelhos de
ginástica, ao centro do qual estava Esdras, socando
incessantemente um saco de pancadas, usando luvas de boxeador,
uma bermuda e nada mais. Parecia dominado por uma fúria
descontrolada enquanto batia sem parar naquele saco, seu corpo
forte e musculoso coberto de suor. Contudo, o que realmente atraiu
a minha atenção foram as cicatrizes em suas costas. Eram
profundas, no formato de linhas verticais retorcidas e aleatórias. De
diferentes tamanhos. Uma delas ia da escápula até desaparecer na
barra do short.
Sem que ele percebesse a minha presença, fiquei parada
observando-o quase sem piscar, inundada por uma miríade de
emoções indefiníveis. Ao mesmo tempo em que me perguntava o
que havia acontecido com ele, para que carregasse cicatrizes tão
profundas, eu me sentia enfeitiçada com a energia que emanava de
sua direção; com a forma como os músculos perfeitos do seu corpo
de contraíam com a violência dos seus movimentos; com o quanto
seus gestos pareciam agressivos, como os de uma fera selvagem
que atacava e aniquilava sua presa com facilidade.
Devia ter sido muito fácil para ele assassinar aquela mulher.
Sua força e sua agilidade o tornavam perigosamente mortífero, mas
ao mesmo tempo atraente a ponto de me deixar ali paralisada, mal
conseguindo respirar, arrebatada pelo desejo insano de ser tocada
por aquelas mãos e amparada pelo calor daquele corpo tão sólido.
Eu estava ficando louca. Essa era a única explicação.
Como se fosse capaz de sentir o peso do meu olhar, Esdras
subitamente parou e se virou em minha direção. Pude ver a tensão
tomando conta dos seus músculos quando seu olhar se deparou
comigo.
Sem uma palavra, foi tirando as luvas enquanto se
aproximava do aparelho de som e o desligou.
— O que está fazendo aqui? — indagou com tom de voz tão
ríspido, que me deixou sem reação.
Magoada, quase dei meia-volta e saí dali correndo, mas em
vez disso ergui o queixo, tentando me recompor e avancei alguns
passos em sua direção.
— Me desculpe. Não quis atrapalhar — falei, desconcertada.
Enquanto me aproximava, seus olhos frios vagaram
lentamente através do meu corpo, examinando-me por inteiro antes
de se fixarem aos meus. Um brilho diferente, cálido e ao mesmo
tempo surpreso, atravessou sua expressão.
— Você está diferente — disse ele.
— Eu sei e foi por isso que vim aqui. — Seus olhos se
ampliaram sobre os meus. — Quer dizer, não para que você visse
que estou diferente. — Respirei fundo, tentando acalmar as batidas
agitadas do meu coração. — Como estou vivendo em um meio no
qual ninguém se veste como eu, senti necessidade de mudar e
comprei algumas roupas. Mas não sei o que usar na recepção desta
noite. Foi por isso que vim. Pra te perguntar que tipo de festa será.
— Eu falava depressa, nervosa com a imagem do seu peito nu e
suado diante de mim.
Seus ombros eram ainda mais largos do que se notava
quando estava vestido. Os músculos do seu peitoral desprovido de
pelos eram perfeitamente definidos, como os de um atleta e ainda
mais estufados do que se imaginava. Seu abdômen era sarado, com
a forma de um V marcando o início da sua pélvis. Uma rala camada
de pelos aloirados tentava escapar do cós da sua bermuda e
precisei travar uma luta interna comigo mesmo para evitar olhar
naquela direção, para onde meus olhos eram insistentemente
puxados.
— Você não devia mudar por causa das pessoas.
Por quê, você não gostou? Pensei, mas me abstive de pagar
o mico de perguntar em voz alta.
— Não mudei por elas. Apenas não quero mais me destacar
na multidão. Além disso, foi uma mudança mínima. — Esperei que
ele me elogiasse, ou dissesse qualquer coisa, mas o silêncio foi sua
resposta. — E então, qual seria a roupa apropriada para esta noite?
Com sua fisionomia endurecida, Esdras deu-me as costas, foi
até um dos aparelhos de ginástica, onde sua camiseta estava
pendurada e a vestiu.
— Será apenas um jantar de negócios. Vista-se como quiser.
— Se seus convidados forem ricos como você, aposto que
estarão bem-vestidos e repararão em quem não estiver.
— Sim. Eles reparam. Mas você é a dona da casa. Eles não
têm que opinar.
— Quem me dera ser dona de uma casa como essa.
— Considerando que você é minha esposa, tecnicamente
tudo o que é meu é seu. Aos olhos de todos, você é a senhora
dessa casa. Pode usar uma melancia pendurada no pescoço, se
quiser.
— É, acho que vou fazer isso.
— Mais alguma coisa? — indagou, friamente, dando a
entender que eu deveria ir.
Quis perguntar a origem das cicatrizes em suas costas, mas
não tínhamos toda essa intimidade. Pelo contrário. Desde que nos
casamos, ele fazia questão de manter uma barreira transparente
entre nós, como se fosse crime inclusive nos tornarmos amigos.
— Não. Mais uma vez desculpe por interromper. Até mais
tarde.
Com isto, deixei a academia.
Não consegui afastar da minha mente as imagens de Esdras
socando aquele saco. Não apenas a fúria contida em cada um de
seus movimentos me deixara abalada, mas principalmente aquelas
cicatrizes. Onde será que as arranjara? Muito provavelmente na
cadeia, onde passara cinco anos de sua vida. Considerando que os
presidiários não têm tolerância a quem assassina mulheres, muito
provavelmente Esdras sofrera muitas perseguições. Talvez tenha
sido torturado e até violentado durante esse tempo, o que explicava
o fato de ele ter uma ereção durante um pesadelo que parecia
terrível. Ou talvez eu estivesse viajando na maionese, afinal com
todo aquele dinheiro, ele poderia contratar uma gangue inteira para
o proteger enquanto estivesse preso, como faziam os mafiosos.
Como Esdras dissera, eu era a dona da casa e poderia me
vestir como quisesse para aquele jantar. Eu não queria parecer uma
caipira com meus trajes habituais, então escolhi um dos vestidos
que comprara naquela tarde. Era um modelo sofisticado, todo em
renda preto, com um forro nude por baixo, mangas compridas e
decote quadrado. Se colava bastante ao meu corpo, revelando
minhas curvas jamais mostradas em público e a saia não chegava
até os joelhos, mas não me deixava vulgar. Apenas sexy, como
nunca estive na vida.
Escovei bem os cabelos, deixando as ondas brilhantes
caindo sobre os ombros e retoquei a maquiagem feita no salão.
Ao descer a escadaria, encontrei Esdras na sala de estar,
conversando com um dos advogados que estivera presente no dia
em que assinamos nosso acordo de casamento. Como sempre,
Esdras parecia uma miragem, dentro de uma camisa preta de seda
e calça social da mesma cor. Ambos seguravam copos com uísque
e se levantaram ao ouvirem meus passos.
Fiquei satisfeita quando os olhos de Esdras desceram
através do meu corpo, examinando cada detalhe meu antes de se
deterem em meu rosto, exibindo aquela expressão cálida, a mesma
que vi mais cedo, cujo significado eu desconhecia.
— Boa noite, senhores. Desculpem o atraso — falei,
aproximando-me.
— Você não está atrasada — disse Esdras, com uma ruga
franzindo sua testa.
O outro homem se mostrou mais amistoso, estendendo-me a
mão em cumprimento.
— Como vai, Sra. Agostini. É um grande prazer revê-la.
— Não precisa me chamar de Sra. Agostini. Você sabe que
esse casamento não é de verdade. Estava aqui quando assinamos
a papelada — falei, apertando a mão dele.
— Ele sabe. Mas a maioria das pessoas que estará aqui não.
Então é melhor começarmos a fingir — disse o meu mal-humorado
marido.
— Eu sei. Só falei porque não tem mais ninguém aqui.
Nesse instante, o som estridente da campainha ecoou pela
casa e logo Meredith passou para abrir a porta. No momento
seguinte, um casal avançou pela sala. A mulher parecia uma
modelo de capa de revista, alta, loira, usando um vestido preto
longo e cheio de brilho. O homem também era bonito e vestia
camisa e calça social.
Ao cumprimentar Esdras, a mulher recostou-se nele,
espalmando a mão em seu peito e abrindo-lhe um sorriso gigante,
enquanto o fitava de muito perto.
Credo! Era assim que as pessoas da cidade se
cumprimentavam? Estava parecendo mais que iam se beijar na
boca, de tão perto que se falavam, embora Esdras mantivesse sua
fisionomia endurecida como sempre, indiferente à empolgação da
mulher.
— Deixem-me apresentá-los. Essa é minha esposa Ayla —
disse Esdras, desvencilhando-se da mulher e se colocando ao meu
lado.
A expressão que surgiu no rosto da loira não podia ser mais
chocada.
— Você se casou?! — ela praticamente gritou, enquanto me
examinava dos pés à cabeça.
— Sim. Faz alguns dias.
— Como você se casa e não convida a gente? — disse o
homem, estendendo-me a mão em cumprimento. — É um prazer
conhecer a heroína que finalmente conseguiu conquistar o coração
de Esdras Agostini.
Mal sabia ele que Esdras sequer tinha um coração, que dirá
um que pudesse ser conquistado.
— O prazer é todo meu.
— Estou perplexa — disse a mulher, forçando um sorriso ao
se aproximar de mim com a mão estendida. — Prazer. Sou
Constança.
— O prazer é meu.
— De onde você é?
— Ivanhoés. Uma pequena comunidade de pescadores.
— Não é onde você vai construir o resort?
— Sim. Foi assim que a conheci. O que vocês querem
beber?
Meredith voltou à sala para servir champanhe aos recém-
chegados e refrigerante sem açúcar a mim. Logo chegou outro casal
e depois mais dois homens. Todos se mostraram aturdidos com o
fato de Esdras ter se casado sem convidar, ou mesmo comunicar,
ninguém. Pelo que entendi, nem mesmo os pais dele sabiam sobre
esse casamento, o que fez com que eu me tornasse o centro de
todas as atenções durante as conversas.
Ao contrário do que esperava, me senti bastante à vontade
em meio àquelas pessoas, ao lado de Esdras. Todos eles
demonstravam respeito e grande admiração pelo meu marido, algo
que aparentemente se estendeu até a mim.
CAPÍTULO 11
Ayla

Como vinha me tornando perita em mentir, não tive


dificuldade em me comunicar com os convidados e acabei colhendo
algumas informações sobre Esdras, como, por exemplo, o fato de
que os pais dele ainda estavam vivos e moravam na Inglaterra. Mas
eu ainda pretendia descobrir muito mais. A noite estava apenas
começando.
Continuávamos reunidos na sala de estar, saboreando
nossas bebidas, jogando conversa fora, esperando os últimos
convidados, quando a campainha tocou mais uma vez e a
governanta passou em direção à porta, para que logo em seguida
mais pessoas avançassem pela sala.
Antes mesmo de me virar em sua direção, eu reconheci a voz
dele.
— Mas que casa linda você tem aqui. Para um hoteleiro
brilhante, não podia ser diferente — disse ele.
Eu estava sentada no sofá, de costas para a porta, e gelei
dos pés à cabeça. Apenas para me certificar de que não estava
tendo alucinações, levantei-me e virei-me em direção à voz. Era
mesmo Diógenes, o sujeito que me violentou na época da
faculdade.
De súbito o chão pareceu desaparecer sob os meus pés,
meu coração parecia a ponto de parar de bater, minhas pernas se
tornaram dormentes, assim como minha capacidade de pensar. Eu
só conseguia sentir, em uma profusão de medo, raiva, dor.
Como se cenas de um filme antigo repassassem em minha
mente, pude ver claramente o momento em que aquele bastardo
parou o seu carro em um estacionamento escuro, rasgou minhas
roupas e me forçou a ter relações sexuais com ele, ameaçando me
matar caso eu contasse para alguém. Foram anos lutando para
esquecer aquela merda toda, os pesadelos sempre me
assombrando.
Ainda na faculdade, eu evitava frequentar qualquer ambiente
em que ele estivesse e saía de qualquer lugar em que ele chegava.
Nunca mais nos falamos depois daquela noite terrível. Só consegui
me recuperar psicologicamente depois que voltei para Ivanhoés e
não precisei mais vê-lo. Contudo, agora ele estava bem ali na minha
frente, como se os pesadelos do passado se materializassem em
minha vida. Mas como isso era possível? O que diabos ele estava
fazendo ali? Se tratava de alguma armação de Esdras, na tentativa
de me afastar de sua vida? Mas por que ele faria isso?
Diógenes lançou um olhar rápido na minha direção,
demonstrando ter me reconhecido, mas fingindo o oposto.
— E essa é minha esposa Ayla — disse Esdras, depois que
Diógenes tinha cumprimentado a todos com aquela animação que
parecia ridiculamente falsa.
Por fim, aquele estuprador maldito se virou diretamente para
mim, fitando-me com um sorriso largo.
— Ayla! Então é você mesmo! Como estão as coisas? —
Como não respondi, um silêncio carregado de tensão instalou-se
imediatamente na sala, todas as atenções se voltando em nossa
direção. — Que alegria revê-la depois de tanto tempo! Esse mundo
é muito pequeno mesmo!
Como ele se atrevia a se dirigir a mim e ainda fingindo que
nada tinha acontecido? Estava evidente que queria impressionar
Esdras, à minha custa. Maldito!
Diógenes se calou e, mais uma vez, não consegui ter
qualquer reação, a tensão se tornou quase tangível no ambiente.
— De onde vocês se conhecem? — A voz grossa de Esdras
atravessou o pesado silêncio que voltara a se instalar no ambiente.
— Da faculdade. Estudamos juntos. Quanto tempo! Vem
aqui, garota, me dá um abraço!
Diógenes teve a ousadia de aproximar-se de mim, de braços
abertos, como se realmente esperasse que eu o abraçasse. A
perspectiva daquelas mãos imundas me tocando me fez perder o
autocontrole e, quando dei por mim, já havia atirado todo o
refrigerante do meu copo no rosto dele, o líquido escuro banhou-o,
manchando suas roupas de cima a baixo.
— Não me toque, desgraçado! — gritei, descontrolada, cega
de ódio, revolta, repulsa. — Nunca mais faça menção de encostar
essas mãos imundas em mim! — falei o que devia ter dito a ele há
cinco anos.
No momento que se seguiu, o silêncio carregado de tensão
voltou a tomar conta de tudo e, quando olhei em volta, percebi que
todos os convidados me observavam chocados, como se eu fosse a
vilã da história e não aquele maldito.
Dominada por um turbilhão de ódio, vergonha, revolta, deixei
a sala correndo em disparada em direção à saída e atravessei a
porta, avançando pelo jardim amplo e bem iluminado. Tudo o que eu
queria era sair dali, me afastar do meio daquela gente, sumir,
desaparecer.
Atrás de mim, ouvi a voz de Esdras me chamando, o que só
serviu para me fazer correr ainda mais depressa. Ele estava por trás
daquilo. Na certa tinha trazido Diógenes aqui. Seria coincidência
demais reencontrar aquele maldito assim por acaso. Nada me
convenceria do contrário.
Por mais que eu me esforçasse para correr o mais depressa
possível, não conseguia ganhar muita velocidade devido aos saltos
altos das sandálias, que por fim se enroscaram no gramado e me
fizeram perder o equilíbrio. Estava desabando no chão quando as
mãos fortes e ágeis de Esdras me seguraram, amparando-me de
encontro ao seu corpo.
— Me solta, desgraçado! Você o trouxe aqui! Por que fez isso
comigo?! O que eu te fiz?! O que eu te fiz?! — eu gritava
histericamente enquanto me debatia, esmurrando Esdras no peito,
tentando fazê-lo me soltar, sem que meus golpes o atingissem
minimamente.
— Eu não sei do que você está falando! Não sabia que você
conhecia Diógenes! — esbravejou ele. — Para com isso. Não está
vendo que não vou te soltar enquanto estiver agindo assim?
— Por que fez isso? Por que o trouxe aqui? — Sem que eu
pudesse evitar, um mar de lágrimas começou a desabar dos meus
olhos, banhando-me a face, em uma mágoa cega me corroendo a
alma.
— Eu já disse que não sabia que vocês se conhecem! —
Esdras segurou-me firme pelos ombros, forçando-me a ficar imóvel
e encarando-me fixamente. — Escuta o que estou dizendo. Se você
conhece esse sujeito, eu não tinha ideia. Ele é só um investidor com
quem estou fazendo negócios há pouco tempo. Não fazia ideia de
que eram conhecidos. Acredite em mim!
Por fim, sua voz penetrou minha mente atormentada e me
aquietei, refletindo sobre essa possibilidade. Seria possível que tudo
realmente não passasse de uma coincidência?
— Como pode uma coincidência tão grande?
Ao perceber que eu estava mais calma, Esdras foi me
soltando, suas mãos grandes deslizando devagar sobre a pele dos
meus braços, me fazendo arrepiar inteira.
— Não é tão grande assim. Você fez faculdade nesta cidade
e faço negócios com muitas pessoas que moram aqui. Ele é uma
dessas pessoas.
— Tem certeza de que não sabia que nos conhecemos?
— Claro que tenho.
Próximo de onde estávamos, um grupo de motoristas dos
convidados passou a nos observar com curiosidade, quando então
Esdras segurou-me pela mão e puxou-me para uma parte mais
escondida do jardim, um gazebo de cimento em estilo provençal,
situado às margens de um lago de águas tranquilas, onde a
iluminação que nos alcançava era fraca. Me fez recostar em uma
das pilastras, como se receasse que eu não conseguisse me
sustentar de pé sem auxílio, e fitou-me diretamente nos olhos.
— Agora me fala: o que ele fez com você?
Empalideci, só então me dando conta do tamanho do
escândalo que dei na sala, do vexame que havia passado na frente
dele e dos convidados. Eu jamais falara sobre esse assunto com
alguém, guardava minha humilhação apenas para mim, mas agora
todos eles sabiam! Porque não era difícil deduzir depois da forma
como agi. Por Deus, que vergonha!
— Nada. Nós apenas não nos dávamos bem na escola. Acho
que exagerei um pouco lá dentro. Me desculpe. — Tentei, sem
conseguir fitá-lo nos olhos enquanto falava.
— Não minta pra mim, Ayla! — Foi ríspido ao dizer.
— Eu não estou mentindo.
— Ele estuprou você. Foi isso?
Senti cada gota de sangue fugindo da minha face. Como ele
poderia falar com tanta certeza?
— Claro que não. Que absurdo!
Suas mãos grandes se fecharam em torno dos meus braços,
me fazendo erguer o rosto para encará-lo.
— Certa vez alguém mencionou, em uma roda de conversa
entre sócios, que no local de trabalho anterior dele corria um boato
de que ele havia estuprado uma de suas funcionárias. Não dei
importância porque achei que era apenas boato de gente
desocupada. Então me fale a verdade: esse maldito estuprou você?
Tentei desviar o olhar do seu rosto, ele não permitiu. Com sua
mão forte, segurou-me firme pelo queixo, de modo que não me deu
opção a não ser confessar.
— Sim — disparei e um soluço alto me escapou, as lágrimas
voltando a se derramar dos meus olhos. — Eu nunca falei sobre
isso com ninguém, porque é humilhante demais.
— Não é humilhante — sussurrou Esdras, fitando-me
diretamente. — Não pra você.
Foi a primeira vez que vi a frieza dando lugar a uma
expressão no seu olhar. Ele me encarava com um misto de piedade
e ternura, o que me fez querer sair correndo dali, pois a última coisa
que queria era que ele sentisse pena de mim. Contudo, minhas
pernas entorpecidas pelo choque não me permitiram sair do lugar e
continuei chorando desenfreadamente, até que seus braços fortes
envolveram meu corpo, puxando-me para junto de si, aninhando
minha fragilidade de encontro à sua força bruta.
Passei os braços em torno dele e aconcheguei-me mais ao
seu calor, deitando a cabeça em seu peito e chorando com
desconsolo.
— Eu sinto muito que isso tenha acontecido com você. Sinto
tanto.
Ele afundou seu rosto em meus cabelos, beijando o alto da
minha cabeça, ao mesmo tempo em que me apertava ainda mais
forte, seu calor tomando conta de tudo em mim.
Permanecemos naquela posição durante um longo momento,
abraçados, imóveis, aconchegados um ao outro, até que aos
poucos meu pranto foi abrandando, o tormento dando lugar a uma
agitação pecaminosa. De súbito, me tornei muito consciente do
corpo masculino, grande e sólido como uma pedra, quase se
fundindo ao meu; dos braços fortes me estreitando; do cheiro
gostoso do seu perfume inebriando-me. Foi inevitável. Logo o calor
escaldante da lascívia emergiu em algum ponto abaixo do meu
umbigo e foi se espalhando depressa pelo meu sangue, tomando-
me até o âmago, fazendo algo molhar e latejar impacientemente
entre minhas pernas, ao passo em que meu coração dava saltos no
peito.
Tentei evitar as sensações pecaminosas que me invadiam,
mas quanto mais as rejeitava, mais elas se intensificavam dentro de
mim, fazendo meu sangue ferver com descontrole, cada minúscula
parte do meu ser implorando por um contato mais íntimo com
aquele homem.
Eu ainda estava imóvel, engolfada pelas sensações,
agarrada a Esdras, quando percebi que as batidas do coração dele
estavam tão frenéticas que podiam me alcançar através das nossas
roupas.
Surpresa, ergui o rosto para encará-lo e me deparei com o
fogo do mesmo desejo que me acometia refletido no brilho do seu
olhar.
— Esdras... — sussurrei, quase sem fôlego.
— Ayla... — Sua voz era um sussurro rouco.
Seus olhos se deslocaram dos meus, vagando pelo meu
rosto até se deterem em minha boca. Então, sua mão grande se
fechou no comprimento dos meus cabelos, atrás da cabeça,
puxando-os e me fazendo erguer ainda mais o rosto, para que no
instante seguinte sua boca se apossasse da minha, os lábios
grossos pressionando os meus, movendo-se sobre eles com
imposição, exigindo que eu abrisse a boca e o fiz, dando passagem
à língua ávida que me invadiu com fome, movendo-se de encontro à
minha, a princípio languidamente, como se me provasse; depois
mais profundamente, como se o intuito fosse me devorar e cedi,
entregando-me, esfregando minha língua na dele sem culpa e sem
receio, pois era exatamente aquilo que eu queria. Queria desde a
primeira vez em que o vi.
Quanto mais profundamente Esdras me beijava, mais a
explosão de sensações e sentidos se intensificava em minhas
entranhas, tornando-me toda sensível, minha pele em chamas, a
umidade abundante escorrendo para a minha calcinha, aquela
palpitação suplicante contorcendo minha vagina encharcada, me
fazendo querer me fundir ainda mais a ele, arrancar minhas roupas
e as suas e senti-lo mais intimamente. No entanto, me contive.
Quanto mais ele me beijava, daquele jeito erótico e proibido,
mais a minha fome por ele crescia, tornando-se quase
descontrolada quando suas mãos poderosas desceram pelas
minhas curvas, apalpando meu corpo todo, explorando-o como se
tentassem conhecer cada detalhe meu. Uma das mãos espalmou-se
sob minha nádega e fez pressão, empurrando meu ventre de
encontro à solidez bruta da sua ereção e, quando soltei um arquejo,
Esdras foi ainda mais além, fazendo-me erguer uma perna,
enquanto inclinava seus joelhos e enterrava seus quadris entre
minhas coxas, empurrando sua enormidade bruta diretamente sobre
meu sexo, o que me fez gemer em sua boca, minhas unhas
crescidas enterrando-se no tecido da parte de trás da sua camisa,
aquela fome por ele me consumindo, implorando por ser saciada.
Eu queria que ele me tocasse mais intimamente, queria sentir
suas mãos se arrastando através da minha pele em chamas, mas
em vez disso, Esdras foi me soltando aos poucos, até que
interrompeu o beijo.
Sem afastar seu corpo de junto do meu, recostou sua testa
na minha e permaneceu imóvel, com seus olhos fechados, sua
respiração ofegante batendo em minha face, me permitindo sentir o
cheiro gostoso do uísque em seu hálito.
— Ayla... eu me esforcei tanto para evitar que isso
acontecesse... mas não fui capaz de resistir a você — murmurou,
rouco.
Repousei minhas mãos dos dois lados da sua face, como se
assim pudesse evitar que ele se afastasse de mim.
— Eu não quero que você resista a mim. Quero que me faça
sua.
— Você não entende... Se ficarmos juntos, sua vida estará
em risco.
Demorei mais que o necessário para digerir suas palavras,
cada uma delas penetrando minha mente com uma carga de pavor
que fez meu sangue gelar nas veias e afastei-me alguns
centímetros dele, fazendo com que me encarasse diretamente.
— O que você está me dizendo? Que seria capaz de me
matar?
Um estremecimento de medo varreu o meu corpo ao
pronunciar as palavras em voz alta.
Por mais que eu soubesse que ele era um assassino frio e
sem coração, eu não conseguia imaginá-lo me fazendo algum mal.
Contudo, talvez eu apenas estivesse cega pelo desejo.
— Claro que não. Eu jamais machucaria você. Mas... Mas
tem coisas sobre a minha vida que você não sabe.
Aquilo era um aviso claro de que minha vida estaria em
perigo enquanto eu permanecesse ao seu lado, o que deveria ter
me feito sair correndo. Mas, em vez disso, me aproximei um pouco
mais, segurando novamente seu rosto entre minhas mãos.
— Então me fala. O que tem sobre a sua vida que me coloca
em perigo?
— É complicado.
— Eu não me importo. Só quero entender.
Ele repousou suas mãos sobre as minhas e as afastou da
sua face.
— É melhor a gente voltar lá pra dentro.
— Esdras... — Hesitei antes de continuar, escolhendo cada
palavra. — Por mais que eu saiba sobre o seu passado, não sinto
que seja capaz de me fazer algum mal.
Isso era verdade. Por mais que meu lado racional me
alertasse da máquina mortal que era aquele homem, depois de
tantos dias convivendo ao seu lado, alguma coisa me dizia que ele
seria incapaz de me machucar. Porém, eu podia estar cega de
paixão.
— Está sentindo errado. Não posso te machucar da forma
como está pensando, mas de um jeito ainda pior.
— Isso está ficando cada vez mais confuso.
— Não me peça pra te explicar, porque não posso fazer isso
sem te colocar ainda mais em perigo.
Processei suas palavras e um louco pensamento sobre o
irmão dele veio-me à mente, mas tratei de afastá-lo, pois era insano
demais para ser verdadeiro.
— Vamos entrar. Vou expulsar aquele inseto da minha casa
— disse Esdras.
Senti minha face empalidecendo.
— Por favor, não deixe que as pessoas lá dentro saibam o
que aconteceu. É humilhante demais.
— Não é humilhante para você e sim para aquele réptil. Mas
fica tranquila. Não vou te expor. Confie em mim.
— Eu confio.
Fiquei surpresa quando ele envolveu minha mão com a sua,
segurando-a com firmeza, e nos conduziu de volta para o interior da
casa. Na sala, os convidados continuavam acomodados nos sofás e
se levantaram assim que nos viram entrando. Era espantoso que
Diógenes ainda estivesse lá. Considerando que eu contaria a
verdade a Esdras e que ele era um dos homens mais poderosos do
país, em seu lugar, eu já estaria longe dali.
— Senhoras e senhores, nos desculpem pela ausência.
Vamos retomar nossa noite — disse Esdras, com tom solene, sem
jamais soltar minha mão. Voltando seu olhar diretamente para
Diógenes, vociferou: — Quanto a você, saia da minha casa agora
mesmo! Não tenho mais nenhum negócio com você ou ninguém da
sua empresa. E, acredite, quando eu acabar com a sua raça,
ninguém mais nessa cidade terá negócios com um rato como você!
Diógenes ficou pálido, parecendo não ter palavras, enquanto
deslocava seus olhos arregalados entre mim e Esdras, sem que em
nenhum momento meu marido soltasse a minha mão.
— O que essa mulher te disse?! — explodiu o estuprador.
— Essa mulher não! É Sra. Agostini, seu porco imundo! —
esbravejou Esdras, enquanto os demais convidados observavam a
cena chocados.
— Seja lá o que ela te disse é mentira! Fomos namorados na
faculdade e ela nunca se conformou com o fato de eu tê-la trocado
por outra. Essa mulher não...
Diógenes não teve tempo de completar a frase. Antes disso,
Esdras praticamente voou para cima dele, atacando-o com a
mesma violência com que atacava o saco de pancadas há pouco na
academia, agredindo-o violentamente com socos no rosto e no
peito, com tamanha agilidade e força bruta que Diógenes sequer
conseguia reagir e apenas apanhava enquanto os outros gritavam
pedindo que Esdras parasse.
— Segurem ele! Façam alguma coisa! — gritou a garota que
chegara na companhia de Diógenes, mas ninguém moveu um só
músculo para tirar meu marido de cima do outro homem.
Esdras continuou desferindo socos brutais em Diógenes
mesmo depois que ele caiu sentado sobre um sofá, quase
desfalecido, com seu rosto ensanguentado. Quando se deu por
satisfeito, segurou-o pela lapela do terno e saiu arrastando-o em
direção à porta, desaparecendo com ele para o lado de fora, com a
acompanhante de Diógenes os seguindo. Poucos minutos se
passaram e Esdras estava de volta, ajeitando suas roupas
amarrotadas sobre o corpo.
— Problema resolvido. Agora podemos retomar de onde
paramos — disse, enquanto todos na sala o observavam
boquiabertos. — Aliás, já está na hora do jantar ser servido. Alguém
com fome?
O silêncio perdurou na sala durante um instante, até que
alguém falou:
— Claro. Faminto.
E todos os outros concordaram, abstendo-se de tocar no
assunto que levou Diógenes a ser espancado e expulso.
CAPÍTULO 12
Ayla

Para meu mais completo alívio, ninguém voltou a tocar


naquele assunto durante o resto da noite, de modo que não me
senti exposta e nem pouco à vontade durante o jantar. Pelo
contrário, Esdras fazia questão de me deixar à vontade, explicando-
me algum termo que eu não compreendia, sobre as negociações
que discutiam. Basicamente, eles falavam sobre compras, vendas e
valores futuros de imóveis em vários lugares do mundo, inclusive
em nosso país. Como minha formação acadêmica era voltada para
a área da educação, eu não entendia muita coisa. Mas prestava
atenção, pois conhecimento nunca é demais.
Após a refeição, servida com requinte pelas empregadas,
voltamos para a sala de estar e as conversações continuaram até
altas horas, quando os convidados foram se retirando aos poucos.
Depois que todos se foram, Esdras e eu permanecemos no recinto,
acomodados em sofás de frente um para o outro, ele bebericando
seu uísque, como sempre.
— Posso dizer que foi um encontro proveitoso e produtivo —
disse Esdras.
— Tirando o vexame que dei no início.
— Não foi vexame. Você não ia permitir que aquele inseto te
tocasse.
Percebi o quanto o episódio o abalara quando sua mão
tremeu, ao pronunciar aquelas palavras.
— Não mesmo.
— Você precisa denunciá-lo na delegacia. Aliás, já deveria ter
feito isso.
— Não. Isso nunca.
— Eu imagino o quanto deva ser difícil se expor,
principalmente em um país onde uma vítima de estupro acaba
sendo apontada como a culpada, mas estarei do seu lado. Imagine
quantas outras vítimas serão poupadas se ele for preso.
— Eu penso nisso desde que aconteceu: em quantas
mulheres uma denúncia pode poupar de passar pelo que passei.
Mas vou deixar que outra pessoa tome a iniciativa de o denunciar.
Com certeza, eu e a garota do trabalho dele não fomos as únicas.
Esdras deixou o seu lugar e sentou-se ao meu lado,
segurando minhas mãos entre as suas. Seu toque enviou uma
corrente de excitação que atravessou o meu corpo todo e se
instalou entre minhas pernas. Sua proximidade era perturbadora. Eu
só conseguia pensar naquela boca gostosa devorando a minha.
Não era pecado o desejar, tampouco seria entregar-me a ele,
afinal éramos casados perante todas as leis, embora fosse um
casamento de mentira, condenado ao fim.
— Eu posso ir com você até a delegacia. Vou te dar todo o
apoio.
Seguindo a um impulso, levantei-me, afastando-me dele, a
fim de evitar o efeito abrasador que sua proximidade me causava.
— Agradeço. Mas não quero fazer isso. Eu não ia suportar a
piedade e o julgamento das pessoas em Ivanhoés. Não ia tolerar a
reação do meu pai. Prefiro deixar as coisas como estão.
— Que pena. Mas é você quem decide.
Eu não conseguia mais ficar ali tão perto, sozinha com ele na
sala, sem poder me atirar em seus braços e pedir que me fizesse
sua. Quanto mais eu o olhava, mais era invadida por uma
necessidade latente de sentir sua boca na minha, o calor do seu
corpo de encontro ao meu. E embora não fosse pecado, era imoral
e perigoso demais dar ouvidos às minhas insanas emoções. Como
ele mesmo dissera, havia coisas sobre sua vida que me colocavam
em perigo. Não valia a pena correr tanto risco por causa de um
desejo descabido.
— Obrigada pela noite e obrigada por me defender. Já vou
dormir. Boa noite.
Ele esperou até que eu lhe desse as costas e andasse até o
pé da escadaria para proferir um hesitante boa noite e na minha
cabeça tola, criei a ilusão de que ele queria me pedir para ficar e só
não o fazia porque não queria me colocar em perigo. Mas a verdade
era que poderia não existir perigo algum. Esdras apenas tinha
alguém que amava, a quem não queria trair. Essa era a explicação
mais plausível para a forma fria e indiferente como sempre me
tratava.
Achei que estando sozinha no quarto, com um andar inteiro
separando-me de Esdras, eu esqueceria daquele beijo, mas não
aconteceu. Cada vez que eu fechava os meus olhos podia ver o seu
rosto se aproximando do meu, sentir sua boca tomando a minha
com posse, experimentar a sensação das suas mãos me
percorrendo. Cada minúscula partícula do meu ser implorava para
que eu fosse bater na porta do quarto dele e saciar esse desejo
desmedido que me tirava o sono e a sensatez. Só que eu não podia
atender essas súplicas, não apenas porque seria loucura, mas pela
minha segurança.
Durante as horas que se seguiram, rolei na cama de um lado
para o outro, tentando pegar no sono, mas sem conseguir. O quarto
parecia menor, mais abafado. Minha pele parecia febril, meu corpo
sensível a ponto de eu conseguir sentir a pressão da calcinha sobre
meu sexo, excitando-me, deixando-me impaciente.
Jamais imaginei que fosse possível sentir-me assim por
causa de um homem. Agora eu podia entender por que as pessoas
cometiam tantas tolices por causa de uma paixão. Era algo difícil de
se controlar.
Depois de horas tentando dormir e sem conseguir, levantei-
me, joguei um roupão longo por cima da camisola e deixei o quarto.
No corredor, meus olhos foram puxados direto para a porta do
quarto de Esdras, quase em frente ao meu e me apressei em seguir
rumo à escadaria, antes que cometesse uma loucura.
Em busca de um copo de leite morno que me ajudasse a
relaxar, atravessei as salas escuras e silenciosas e fui direto para a
cozinha. Quase tive um ataque cardíaco quando adentrei a cozinha
semiescura e me deparei com Esdras, tranquilamente recostado à
pia, usando apenas uma calça folgada de pijama, que pendia em
seus quadris, segurando um copo pelo meio de água.
— Que susto! O que você está fazendo aqui no escuro? —
falei, apressando-me em acender a luz e me certificar de que era ele
mesmo e não um fantasma.
Era ele e parecia uma imagem saída das fantasias mais
eróticas de uma ninfomaníaca, com seus cabelos curtos
emaranhados, o início da camada de pelos aloirados tentando
escapar do cós da sua calça, os músculos estufados do peitoral e
do abdome à mostra.
Era muita tentação envolvida!
— Não estava tão escuro — disse ele, sério, ingerindo mais
um gole da água. — E você, o que faz aqui?
“Não consigo dormir, porque não paro de pensar naquele
beijo.”
Reprimindo o pensamento, desviei meu olhar dele e me
aproximei da geladeira, tensa, ciente de que suas piscinas azuis não
se desviavam da minha direção, registrando cada um dos meus
movimentos.
Se eu soubesse, teria vindo só de camisola.
Aff! Esse era mais um pensamento que precisava ser
reprimido.
— Eu perguntei primeiro — falei, tentando parecer
irreverente.
— Não consigo dormir.
— Nem eu.
— Por quê?
Enchi um copo com leite gelado e me virei para ele enquanto
ingeria um pequeno gole, o líquido desceu leve através da minha
garganta seca.
— Porque está muito quente — menti.
Esdras aproximou-se alguns passos de mim, colocando-se
perto o bastante para me impedir de conseguir pensar
racionalmente. A imagem do peitoral musculoso encheu os meus
olhos. A expressão com que ele me fitava era de puro fogo. Da
frieza anterior, não restava nenhum vestígio, o que fez tudo dentro
de mim se agitar ainda mais, o coração dando saltos no peito, uma
inquietude tomando conta das minhas terminações nervosas.
— Só por isso? — Sua voz era sussurrada e ofegante ao
mesmo tempo, carregada de insinuações pecaminosas que me
deixaram ainda mais desnorteada.
— Não — afirmei, fitando diretamente suas piscinas azuis
cálidas, sem mais nenhuma estrutura para resistir ao desejo que
pulsava quente em minhas entranhas. — Não dormi porque não
consigo parar de pensar na forma como você me beijou — falei e
mordi meu lábio inferior, tudo em meu ser implorava silenciosamente
para sentir o gosto daquela boca mais uma vez.
— Eu também.
Dito isto, Esdras segurou-me pela nuca e puxou-me para si,
apoiando meu corpo no seu, inclinando a cabeça para apossar-se
da minha boca. Beijou-me como se estivesse faminto, pressionando
seus lábios nos meus, movendo-os com experiência, para em
seguida introduzir sua língua na minha boca, enquanto sua outra
mão descia pela minha silhueta, apalpando-me, explorando minhas
curvas, deixando uma trilha de brasas por onde passava.
Incapaz de lutar contra o turbilhão de sensações que me
invadia, permiti que meus últimos vestígios de racionalidade me
abandonassem, ao mesmo tempo em que largava o copo sobre a
primeira superfície que minha mão alcançava e passava os braços
em volta do seu pescoço, colocando-me na ponta dos pés e
pressionando meus seios sensíveis contra o peitoral firme como
uma rocha, o que me deixou ainda mais acesa, perdida em um mar
de devassidão.
Abraçada a Esdras, apertei sua nuca, aprofundando o beijo,
me doando toda, entregando-me à luxúria que me consumia,
enquanto ele me conduzia pela cozinha, até que minhas nádegas
encontraram a borda da mesa, sobre a qual Esdras me sentou.
Sem jamais apartar sua boca da minha, ele abriu minhas
pernas e aconchegou seus quadris entre elas, pressionando a
ereção firme sobre meu sexo, empurrando-o por cima do tecido das
roupas, fazendo meu centro latejar e pingar, implorando
desesperadamente por ele.
Suas mãos correram para o laço que prendia o roupão e o
desfez, tirando a peça pelos meus ombros, deixando-a emaranhada
em torno dos meus quadris, apenas o tecido fino da camisola entre
meus seios e seu peito forte.
Levou suas mãos às alças da camisola e começou a deslizá-
las para baixo, ao mesmo tempo em que sua boca abandonava a
minha e descia através da curva do meu pescoço.
Em questão de segundos, eu estaria nua em seus braços e
ele me faria sua. Por mais que fosse o que eu queria, não podia ir
até o final. Aquilo seria loucura! Onde eu estava com a cabeça?
Esdras não era meu marido de verdade e era um assassino frio e
cruel.
— Espera — falei, ofegante, repousando minha mão fechada
sobre seu abdômen, fazendo com que se afastasse alguns
centímetros.
— O que houve? Eu te machuquei? — Sua voz era um
murmúrio entrecortado pela respiração pesada.
— Não. É que... não podemos fazer isso. É errado. Não
somos nem marido e mulher de verdade.
— Não é errado. Somos casados perante todas as leis. Nada
pode mudar isso.
Seus olhos azuis cristalinos brilhavam de um desejo visceral
que me hipnotizava, me inebriava, tornando-me incapaz de resistir.
Ordenei a mim mesma que saísse daquela mesa, que me afastasse,
porém meu corpo não obedeceu minhas ordens e quando Esdras
voltou a me beijar, com aquela fome louca que me arrebatava,
simplesmente abri a boca e correspondi, amolecendo toda em seus
braços quando ele chupou minha língua com lascívia.
— Quero tanto você... a quis no instante em que a vi pela
primeira vez... — sussurrou ele, sua boca gostosa descendo pela
pele do meu pescoço.
Soltei um gemido surdo quando ele apertou meu seio por
sobre o tecido delicado da camisola.
— Eu também te quero tanto — murmurei.
Abandonando todos os pensamentos racionais, movi
brevemente meus quadris, esfregando minha boceta melada na
ereção firme, por cima do tecido das roupas, enlouquecida, ansiosa
por senti-lo todo dentro de mim, o que fez com que Esdras sibilasse
e suas mãos se apressaram em descer as alças da camisola,
desnudando meus seios, deixando a peça de cetim enroscada na
minha cintura.
— Que linda... — sussurrou ele.
Voltou a inclinar-se e fechou sua mão em torno de um dos
meus seios, apertando-o e o massageando, enquanto sua boca se
apossava do outro mamilo, lambendo-o em círculos antes de dar
início a uma sucção tão deliciosa que lancei a cabeça para trás e
gemi alto, esfregando-me nele, louca por senti-lo por inteiro.
Esdras passou a boca para o outro seio e chupou gostoso, ao
mesmo tempo que deslizava a mão pelo meu corpo, introduzindo-a
sob a saia da camisola, seus dedos se enfiando no fundo da minha
calcinha, afundando entre meus lábios vaginais completamente
lambuzados.
— Que delícia... toda molhadinha...
Enlouquecida, abri ainda mais as pernas, permitindo que ele
afundasse seus dedos em mim, um deles me penetrando
rasamente, movendo-se em um vai e vem que me ensandecia,
enquanto sua boca deliciosa descia pela minha pele, lambendo e
mordiscando cada parte minha, plantando labaredas onde me
tocava.
Esdras abaixou-se no chão, nivelando seu rosto com o meu
sexo, levantou a saia da camisola até acima dos quadris e tirou
minha calcinha pelos pés. Me dei conta de que deveria ter me
depilado, quando ele parou por um instante, observando minha
boceta de perto, com seus olhos brilhantes de luxúria, sua boca
aberta para puxar o ar. Contudo, antes que eu tivesse tempo de ficar
constrangida, ele espalmou suas mãos no interior das minhas coxas
e as afastou, deixando-me toda aberta diante do seu olhar
esfomeado e no instante seguinte sua boca estava em mim
novamente, se apossando da parte mais íntima do meu corpo.
Soltei um gemido alto quando ele infiltrou sua língua quente e
úmida na minha entrada encharcada, em uma penetração macia e
rasa que quase me tirou a sanidade. Depois, deslizou-a para cima e
passou a movê-la diretamente sobre meu clitóris, em um ritmo
frenético, enlouquecedor.
— Ahhh... Esdras... — praticamente gritei, sem conseguir
compreender as reações exacerbadas do meu corpo.
Será que era assim com todo mundo?
Eu não queria saber. Só queria me lambuzar toda naquela
delícia.
Em resposta à minha súplica, Esdras lambeu-me ainda mais
aceleradamente, com a ponta da sua língua, deixando meu ponto
duro e sensível demais. O que só piorou quando ele ergueu sua
mão até um dos meus seios e fechou os dedos em torno do meu
mamilo, esfregando-o e o beliscando, deixando-me ensandecida a
ponto de segurar em seus cabelos curtos e puxar, enquanto
rebolava os quadris, esfregando a boceta na sua boca, gemendo e
choramingando, ansiando por um alívio.
Sem parar de me chupar, Esdras levou a mão livre à minha
entrada e massageou-a em círculos antes de infiltrar dois dedos de
uma vez, me esticando toda enquanto fechava os lábios sobre o
meu clitóris e sugava lentamente, fazendo-me explodir em um
orgasmo arrebatador, que me fazia gritar e me contorcer sobre a
mesa, minha cabeça girando, meu corpo em total descontrole, até
que desabei sobre a mesa, acabada, com meu corpo todo pesado.
Esdras levantou-se e inclinou-se todo sobre mim, voltando a
me beijar com aquela fome gostosa, seus lábios mornos trazendo o
meu próprio gosto.
— Isso foi... — Eu nem tinha uma palavra para descrever
aquilo. — Incrível.
— Não foi. Está sendo.
Esdras afastou-se alguns centímetros e sentei-me na mesa
para observá-lo tirando sua calça. Como não usava cueca, seu
membro saltou lá de dentro, revelando-se enorme, grosso e duro,
rodeado por veias protuberantes e com a cabeça rosada apontando
para cima, alcançando a altura do seu umbigo.
Tive vontade de me ajoelhar aos seus pés e colocá-lo na
boca. Mas não ousei mover um só músculo.
— Não fique nervosa. Vou ser cuidadoso — disse Esdras,
voltando para junto de mim.
— Não estou.
Ele beijou-me com lentidão, mordiscando meus lábios
devagar, brincando com sua língua na minha. Então, afastou-se e
precisei me deitar apoiada nos cotovelos quando enfiou os dois
braços por baixo das minhas pernas, suspendendo ligeiramente
meus quadris da mesa. Segurou seu pau pelo meio e o esfregou na
minha entrada. Encaixou-o no lugar certo e foi entrando devagar, se
enterrando entre minhas paredes escorregadias, enfiando
centímetro por centímetro até que estava todo enterrado em mim,
sua rigidez bruta latejando dentro do meu canal sensível e molhado.
— Caralho... como você é apertadinha... — grunhiu Esdras.
Com seus dois braços sob minhas pernas, ele puxou seus
quadris e os arremeteu novamente contra mim, desta vez
brutalmente, sua pélvis se chocando com violência contra a minha,
o pau enorme parecendo capaz de me partir em duas. Puxou os
quadris e se enterrou todo novamente, dilatando minhas paredes,
esticando-as até o limite, tão deliciosamente que quase me fez
perder a sanidade e tudo o que eu conseguia era gemer e gritar,
sentindo-o tão fundo, tão duro e delicioso, me preenchendo toda,
me deixando louca.
Ele passou a mover-se cada vez mais depressa dentro de
mim, puxando seu pau e voltando e estocar firme e bruto, a ponto
de dilacerar minha carne sensível. Chocava sua pélvis contra a
minha com tamanha agressividade que os sons ecoavam altos pela
cozinha, enquanto seu rosto lindo se mantinha contraído na mais
magnífica expressão de prazer, sua boca entreaberta, os olhos
semicerrados, fixos nos meus.
— Ayla... goza pra mim... — grunhiu ele.
Como se meu corpo fosse um fantoche da sua voz, meus
músculos enrijeceram e ele meteu em mim ainda mais depressa e
forte, até que explodi em um gozo delirante, arqueando as costas na
mesa e gemendo alto, clamando involuntariamente pelo seu nome.
Eu começava a me acalmar quando Esdras retirou-se do meu
interior e inclinou seu corpo grande sobre o meu. Encaixou o pau,
completamente duro, entre sua pélvis e a minha e ejaculou, jorrando
o líquido quente sobre nossa pele, lambuzando a ele e a mim,
enquanto eu podia sentir cada espasmo seu de encontro ao meu
corpo.
Quando o vendaval passou para ele também, sua testa
suada descansou sobre a minha e o silêncio e a quietude tomaram
conta de tudo.
— Não quis gozar dentro de você pra não te engravidar. Me
desculpe — sussurrou ele, erguendo brevemente seu rosto.
— Tudo bem. Você fez o certo. Não faço uso de nenhum
método contraceptivo.
— Mas agora precisa fazer, porque vou te comer todo dia. —
Ao mesmo tempo em que ele falava, seu pau soltava um espasmo
de encontro à minha pélvis lambuzada de esperma.
— Não tô sabendo dessa história não — brinquei, fascinada
com o quanto seu rosto parecia relaxado.
— Mas agora já sabe. Tentei evitar que isso acontecesse,
mas como não fui capaz, agora a quero todo dia, como uma esposa
de verdade.
Extasiada com aquele magnetismo irresistível que ele
irradiava, ergui a mão e acariciei sua face com a ponta dos dedos.
Foi então que ele me beijou, com esse jeito selvagem e faminto que
me levava à loucura, fazendo minha vagina latejar e esquentar
como se eu não tivesse acabado de ser saciada.
Seguindo a um impulso incontrolável, abracei seus quadris
com as minhas pernas, pressionando meu ventre mais forte no seu
pau e esfregando minha língua na sua, ainda mais profundamente.
— Quero você — sussurrei.
— Aqui não. Vamos subir.
Senti uma lufada de ar frio envolvendo meu corpo quando ele
se afastou, como se tivesse alguma janela aberta. Mas era apenas a
minha pele reclamando a ausência da sua.
CAPÍTULO 13
Ayla

Esdras pegou sua calça do chão e limpou-me do esperma,


me ajudando a sentar e a ajeitar a camisola de volta sobre meu
corpo. Levei um susto quando ele me ergueu em seus braços e
começou a me carregar pela casa, rumo à escadaria que levava ao
segundo andar.
— No meu quarto ficaremos mais à vontade — explicou ele.
— Realmente, foi um milagre os empregados não terem
acordado com o nosso barulho.
— Talvez acordaram e apenas não interferiram.
Senti minha face queimar de vergonha ao cogitar aquela
possibilidade e Esdras abriu um sorriso largo. Ele ficava ainda mais
lindo sorrindo!
— Não se preocupe. Eles não nos ouviriam de onde estão.
E era verdade. A ala dos empregados ficava em uma parte
separada da casa.
Esdras só me colocou no chão quando estávamos no quarto
dele. Era a primeira vez que eu entrava ali e não me surpreendi com
o quanto era grande, decorado com móveis rústicos e escuros,
como o resto da casa.
— Acho que precisamos de um banho — disse Esdras,
despindo-se da sua calça, ficando completamente nu, com o pau
semiereto, na minha frente.
Em seguida, tirou minha camisola e desceu seu olhar através
do meu corpo, seus olhos brilhantes detendo-se mais
demoradamente na minha boceta e nos meus seios.
— Você é linda como uma obra de arte — disse ele, com seu
tom de voz rouco.
— Você também é lindo.
Eu nunca havia imaginado que um dia estaria completamente
nua diante da presença de um homem também sem roupas,
sozinhos em um quarto, devorando um ao outro com o olhar. O mais
impactante era que eu não me sentia nem um pouco nervosa ou
tímida. Pelo contrário, eu estava calma, feliz, algo em meu interior
insistia em tentar me convencer de que eu estava no lugar certo,
embora meu lado racional soubesse que não era verdade. O
minúsculo vestígio desse meu lado que sobrara, me alertava de que
Esdras era um sádico assassino, que a qualquer momento me
levaria para um quarto repleto de instrumentos de tortura, como o
que ele tinha quando matou aquela garota.
— Você vai me levar para o seu quarto de sadomasoquismo
em algum momento? — indaguei, corajosa.
— O quê? Do que você está falando? — Ele parecia
surpreso.
— Li na internet que você é um dominante.
Ele aproximou-se um passo de mim, colocando-se a poucos
centímetros de distância e afastou uma mecha de cabelo que caía
sobre minha testa.
— Esqueça o que leu sobre mim na internet.
Esperei que ele continuasse, que dissesse que não era mais
aquela pessoa, que havia mudado, mas nenhuma outra palavra
sobre o assunto saiu da sua boca. Em vez de falar, Esdras envolveu
meu corpo nu com seus braços fortes e quase fui ao delírio quando
se colou todo em mim. Sua pele morna e firme, em contato direto
com a minha, causou-me um frenesi de sensações que explodiu em
meu peito e foi se alastrando pelo meu organismo, me fazendo
ferver e arder, minha vagina latejando e molhando a ponto do seu
líquido escorrer pelo interior das minhas coxas, o que se tornou
ainda mais abrasador quando sua boca encontrou a minha. Primeiro
ele prendeu meu lábio inferior entre seus dentes e sugou, depois fez
o mesmo com o superior, até que por fim me agraciou com a língua
exigente me invadindo, me devorando.
Sem interromper o beijo, ele pegou-me nos braços e
carregou-me para o banheiro, um cômodo maior que meu quarto em
Ivanhoés, todo revestido em mármore com um espelho enorme
sobre a pia comprida. Colocou-me no chão do box e abriu o
chuveiro, testando a temperatura da água antes de me agarrar
novamente, colando seu corpo grande e sólido ao meu, tomando
minha boca com a sua e nos colocando sob a água, permitindo que
escorresse morna sobre nossa completa nudez.
Esdras me beijava como se estivesse sedento e encontrasse
um manancial em meus lábios, incessante, profundo, apaixonado,
intensificando cada vez mais a lascívia que me consumia inteira, a
ponto da minha vagina se contorcer de tanta vontade de senti-lo me
penetrando mais uma vez.
Dominada pela luxúria, apartei minha boca da sua e a
deslizei através da sua pele firme, mordendo seu queixo e me
refestelando com a aspereza da sua barba, passando pela curva do
seu pescoço, mordiscando e lambendo os contornos deliciosos dos
músculos do seu peito, escorregando até o abdômen másculo e
perfeito. Incapaz de resistir, ajoelhei-me no chão e segurei seu
membro entre meus dedos. Estava completamente duro, com as
veias protuberantes o rodeando, uma gota de líquido transparente
escapando da ponta.
— Chupa... — murmurou Esdras, rouco.
Ele fechou sua mão na parte de trás dos meus cabelos
molhados e conduziu minha boca até sua enormidade viril.
Achei que seria incapaz de fazer uma coisa daquela, mas fui
inebriada por uma incomparável sensação de liberdade e
devassidão, quando levei minha boca até a base e percorri minha
língua dali até a glande. Era uma delícia! Meu corpo todo reagiu,
com uma violenta corrente de tesão me varrendo inteira, fazendo-
me abrir um pouco mais as pernas, enquanto percorria a ponta da
língua em volta da cabeça, me lambuzando com sua lubrificação.
— Ah... delícia... — Esdras gemeu, segurando meus cabelos.
— Engole tudo... você consegue.
Nem pensei duas vezes. Ao seu comando, abri os lábios em
torno da glande rosada e empurrei a cabeça para a frente, levando-
o o mais fundo que consegui, quase até minha garganta. Puxei a
cabeça e passei a movimentá-la naquele vai e vem, engolindo-o e
soltando, enquanto Esdras sibilava e apertava meus cabelos cada
vez mais forte, me fazendo mover a cabeça cada vez mais
depressa.
— Assim... ahhh... como você é gostosa...
Como se aprendesse as súplicas silenciosas do meu corpo,
ele encaixou seu pé bem no centro entre minhas pernas,
massageando o fervor que me consumia com a sua aspereza e abri
ainda mais as coxas quando ele enterrou o dedão na minha vagina
melada, metendo e tirando, fodendo-me raso e gostoso enquanto eu
rebolava os quadris, esfregando-me nele, enlouquecida, ansiosa por
um alívio.
— Já chega... preciso foder essa bocetinha molhada...
Como se meu corpo acatasse a uma ordem, me deixei ser
conduzida quando ele puxou meus cabelos para cima, fazendo-me
ficar de pé e recostou-me na parede, avançando para cima de mim
como uma fera agressiva que abatia a sua presa. Passou a língua
no contorno dos meus lábios e a deslizou através da minha pele,
passando pela curva do pescoço, pelo espaço entre os seios e pelo
meu abdômen. Ajoelhou-se diante de mim e usou seus polegares
para afastar os lábios da minha boceta, enterrando a língua quente
e úmida entre eles, dando uma lambida que foi do clitóris até minha
entrada.
— Ahhh... — gemi alto, lançando a cabeça para trás e
apoiando a mão em sua nuca, enquanto pendurava uma perna em
seu ombro, abrindo-me mais para ele.
Sua língua continuou se movimentando com habilidade sobre
a minha intimidade, vagando deliciosamente, de forma frenética,
entre meu ponto mais sensível e minha entrada lambuzada,
penetrando-a breve e voltando a me lamber inteira, a ponto de me
levar à insanidade. Até que, de súbito, ele se levantou e suas mãos
bruscas me viraram de frente para a parede revestida de mármore,
quando precisei apoiar as duas mãos nela para me equilibrar.
Com suas mãos brutas, Esdras me fez abrir as pernas e
empinar mais a bunda. Encaixou sua enormidade dura na minha
entrada, por trás e entrou em mim, com um gesto brusco e rápido
dos seus quadris, chocando sua pélvis contra as minhas nádegas
ao alcançar-me tão fundo que senti um incômodo e, quando tentei
escapar, ele segurou firme dos dois lados dos meus quadris,
imobilizando-me no lugar.
— Onde pensa que vai? Pode ficar aí quietinha, porque só
estamos começando... Vou te comer a noite toda e você vai ter que
aguentar.
Suas palavras soavam com um tom de ameaça e, ao invés
de ficar apavorada, fiquei ainda mais excitada com a selvageria das
suas ações.
Eu havia enlouquecido! Era a única explicação.
Desistindo de buscar explicações para tanta irracionalidade,
me coloquei na ponta dos pés e empinei um pouco mais a bunda,
assumindo uma posição que me permitia acomodar o seu tamanho
sem desconforto. Então, Esdras apertou ainda mais suas mãos em
torno dos meus quadris e deu início a uma sucessão de estocadas
brutas e aceleradas, entrando e saindo de mim com tamanha
agressividade que o som dos nossos corpos se chocando ecoava
alto pelo banheiro. E quando meu corpo enrijeceu todo, suplicando
por um alívio, ele subitamente parou. Cobriu minhas costas com seu
peitoral largo e trouxe sua boca gostosa para o meu ouvido.
— Já está querendo gozar de novo? — sussurrou, lambendo
o lóbulo da minha orelha.
— Sim... me deixa gozar... — gemi, movendo meus quadris
no seu pau, mas sem conseguir alcançar o ritmo gostoso que ele
fazia.
Esdras trouxe sua mão para a minha boceta e passou a
massagear meu clitóris inchado no mesmo ritmo lento com que
voltava a me penetrar, deixando-me ainda mais ansiosa pelo êxtase
que ameaçava me estilhaçar.
— Com todo esse fogo, como você conseguiu passar tanto
tempo sem dar essa bocetinha? — ele falava com sua boca
encostada no meu ouvido, seu hálito quente acariciando minha
orelha.
— É que eu ainda não tinha conhecido você... Ahhh...
— Agora que conhece, nunca mais vai passar vontade.
Ele empurrou o pau bem fundo no meu canal, parou e girou
seus quadris, girando sua rigidez ali dentro, o que me arrancou um
gemido alto. De súbito, saiu de dentro de mim e me segurou pela
mão, conduzindo-me pelo banheiro. Sentou-se bastante à vontade
sobre a tampa do vaso sanitário, exibindo o pênis ereto,
ligeiramente avermelhado devido aos esforços recentes e puxou-me
para cima dele.
— Vem aqui... Senta no meu pau... — grunhiu, sussurrante.
Excitada ao extremo, nem pensei duas vezes. Abri as pernas
e o montei, sentando-me em seu colo, com uma perna de cada lado.
Ele encaixou a glande na minha entrada e fui descendo, permitindo
que entrasse em mim devagar, duro, quente, gostoso.
— Ahhh... — gemi alto, quando o senti todo dentro de mim,
até a raiz, enquanto seus olhos reluzentes de luxúria se mantinham
fixos em meu rosto, como se o venerassem.
— Assim, baby... não precisamos ter pressa... temos muito
tempo para nós dois... — sussurrou, ofegante.
Ele fechou suas mãos nas laterais dos meus seios, unindo-o
diante do seu rosto e os atacou com a boca habilidosa, mordiscando
os bicos, passando a língua e, por fim, chupando gostoso, enviando
correntes de tesão que me percorriam totalmente e se instalavam
em meu sexo.
Enlouquecida, apoiei minhas mãos em seus ombros e passei
a me mover devagar, rebolando em cima dele, esfregando meu
clitóris na sua pélvis peluda enquanto ele girava seu pau dentro de
mim e o lambuzava com meus líquidos, com nossos sexos unidos
entoando um som molhado.

***

Continuamos entregues à devassidão até que fomos


dominados pela completa exaustão e adormecemos agarrados um
ao outro, em meio ao emaranhado de lençóis sobre a cama. Dormi
com minha cabeça deitada em seu peito, regozijada com o cheiro
gostoso do seu suor, enquanto Esdras mantinha uma perna e um
braço jogados sobre mim, como se receasse que eu pudesse fugir.
Mal sabia ele que eu não tinha a intenção de ir a lugar nenhum, não
enquanto ele me quisesse ao seu lado. O depois, eu deixaria para
pensar quando chegasse a hora.
Quando acordei, tínhamos mudado de posição. Esdras
estava deitado de bruços, com a cabeça apoiada sobre o
travesseiro, a alguns centímetros de distância de mim. A primeira
coisa que via ao abrir os olhos, foi seu rosto adormecido, parecendo
o de um anjo, completamente relaxado, com os cílios escuros à
mostra, os cabelos emaranhados. Se existia criatura mais perfeita
nessa Terra, estava muito bem escondida. Esdras era a perfeição
em pessoa, com seu rosto de anjo e seu corpo incrivelmente
másculo e viril.
Deitei-me de lado, apoiando a cabeça sobre um cotovelo e
passei a observá-lo quase sem conseguir respirar. Ele tinha ombros
largos, costas musculosas, a bunda redonda e firme e as coxas
grossas peludas. Quem poderia resistir a uma tentação daquelas?
Nem que eu tivesse nervos de aço.
Sob a claridade do dia, que penetrava o aposento através da
cortina entreaberta, pude ver perfeitamente as cicatrizes em suas
costas. Eram muitas, algumas mais profundas, outras mais rasas. A
impressão que passava, era de que ele havia sido esfaqueado. Mas
como ainda continuava vivo?
Compadecida, levei minhas mãos a elas e passei a percorrê-
las com as pontas dos meus dedos. O que será que havia
acontecido com ele? Como alguém podia fazer um mal tão grande a
outra pessoa? Quando se tratava de alguém como Esdras, não era
difícil chegar à resposta. Ele era um assassino perigoso e cruel,
embora já não parecesse. Ou então eu estava cega de desejo a
ponto de não enxergar sua crueldade.
Na verdade, eu estava cega, perdida de tanto desejo por
aquele homem, mas não a ponto de ficar burra e não perceber que
havia algo errado ali. Algo não batia naquela história toda. Quando li
sobre ele nos sites de notícias, havia evidências de que ele era um
sádico, um praticante de BDSM. No entanto, ao fazer amor comigo,
ele não dera nenhum indício de possuir um lado assim. Pelo
contrário. Me amou e me possuiu com uma intensidade
inesquecível, sem em momento algum me machucar, ou tentar usar
qualquer objeto sinistro comigo.
Havia algo muito errado naquela história toda e, por mais que
eu sentisse que a resposta estava bem debaixo do meu nariz, não
conseguia enxergá-la.
Sob o toque dos meus dedos em suas costas, Esdras
despertou, abrindo suas piscinas azuis e fixando-as diretamente em
meu rosto. Achei que ficaria irritado por me flagrar tocando suas
cicatrizes e me apressei em recolher minha mão. No entanto,
irritação foi a última emoção que passou em seu semblante. Pelo
contrário. Ele continuou relaxado como quando dormia, com sua
fisionomia serena e tranquila como eu nunca tinha visto, os olhos
outrora frios como gelo, fitavam-me com uma ternura infinita, que
me envolvia e enfeitiçava a ponto de me impedir de desviar o olhar.
— Bom dia, dorminhoco — falei, com descontração e ele
abriu o sorriso mais lindo que um ser humano podia ter.
Meu coração se encheu de calor ao perceber que ele estava
feliz por acordar ao meu lado. Mesmo que tenha sido apenas sexo
para ele, eu não me arrependia.
— Conseguiu dormir bem? — indagou, com sua voz
enrouquecida pelo sono.
— Até demais. E você?
— Bem, como há muito tempo não dormia.
Suas palavras me fizeram relembrar as palavras de Meredith
sobre ele nunca ter trazido uma mulher a esta casa. O que diabos
havia de errado com esse homem?
— Você fica lindo dormindo — falei.
— E você para de tentar me seduzir porque tenho muito o
que fazer no trabalho. — De forma completamente inesperada, ele
pulou em cima de mim, jogou-me deitada na cama e cobriu-me com
seu corpo grande, me fazendo arder com o contato direto com sua
pele nua e morna, o pau enorme, completamente duro, empurrando
minha coxa, o que me fez abrir a boca para conseguir respirar. —
Pensando bem, acho que não vou trabalhar hoje. Já faz tempo que
não tiro um dia de folga. Vou ficar aqui te comendo. O resto que se
foda.
Dito isto, ele inclinou a cabeça e se apossou da minha boca,
beijando-me com fervor enquanto pressionava sua enormidade na
minha perna, lambuzando minha pele com seu líquido, fazendo
minha vagina palpitar e encharcar.
— Espera, Esdras — falei, interrompendo o beijo, minha voz
a ponto de não sair, devido ao peso da minha respiração. — Preciso
te perguntar uma coisa.
Senti seu corpo grande e sólido enrijecendo sobre o meu e
ainda assim permaneci firme na minha decisão, querendo saber um
pouco mais sobre ele, pois era muito esquisito estar nos braços de
um homem sobre quem não sabia nada.
— Vamos deixar as perguntas para depois. Quero te comer
bem gostoso.
Ele tentou voltar a me beijar, mas desviei o rosto.
— É sério, Esdras. Eu preciso saber.
Com um suspiro de derrota, ele rolou para um lado e usou o
lençol para cobrir a ereção que apontava para cima.
— O que você quer saber? — indagou, resignado.
Deitei-me de lado, apoiando a cabeça sobre o cotovelo, sem
fazer questão de esconder minha nudez.
— Onde conseguiu as cicatrizes nas costas?
Sua fisionomia endureceu, uma ruga se formando entre suas
sobrancelhas.
— Por que você quer saber disso?
— Pra te conhecer melhor. Eu estou aqui nua na sua cama e
não sei nada sobre você.
— Você leu bastante na internet.
— Não foi o bastante. Quero ouvir de você.
Ele observou-me durante um momento de silêncio, como se
decidisse se falava ou não e, ao mesmo tempo, como se me
analisasse.
— Foi na prisão — disse, por fim.
Então ele esteve mesmo preso. Minha nossa! Mas o que eu
esperava? Estava tudo nos jornais.
— Como aconteceu?
— Tinha uma gangue lá que não foi muito com a minha cara.
— Eles estupraram você?
— O quê? Claro que não! De onde você tirou isso?
— Sei lá. Homens bonitos como você são estuprados na
cadeia.
— Por isso as cicatrizes. Cada facada foi uma sentença por
ter socado a cara de quem vinha de gracinha pra cima de mim.
— Facada? — Um frio me atravessou.
— Sim. Eles tentaram me matar esfaqueado depois que
quebrei alguns ossos do chefe da gangue, por tentar colocar as
mãos em mim. Agora chega de perguntas. Vou arranjar algo pra
comer. Você também deve estar com fome.
Exprimindo um charme irresistível em cada minúsculo
movimento que fazia, ele deixou a cama e vestiu a calça de pijama
que ainda estava jogada no chão. Sua ereção formou uma
protuberância gigantesca no tecido leve.
— Você vai assim? — indaguei, gesticulando para aquela
direção.
— E daí? Pelo menos, agora meus empregados vão saber
que tenho um pau.
Não consegui evitar o sorriso que fez meus lábios se
curvarem e ele deixou o aposento.
CAPÍTULO 14
Ayla

Eu ainda estava na cama quando Esdras voltou, trazendo


uma bandeja grande abarrotada de comida. Depositou-a sobre o
colchão, diante de mim e sentou-se do outro lado, com seus olhos
claros fitando-me com uma intensidade irresistível.
Apenas ao sentir o cheiro da comida me dei conta do quanto
estava faminta. Então, sentei-me na cabeceira da cama, com as
costas apoiadas no espaldar e me servi de um sanduíche de queijo
ainda quentinho e de um copo de suco de laranja, comendo com
apetite, enquanto Esdras me observava quase sem piscar.
— Que foi? Nunca viu uma mulher morrendo de fome?
Ele abriu um sorriso tão lindo, que me fez suspirar.
— Eu nunca tinha visto uma mulher agindo com tanta
espontaneidade.
Ele serviu-se de um sanduíche de presunto e café puro.
— E isso é péssimo?
— Não. Pelo contrário. É magnífico que ainda existam
pessoas verdadeiras nesse mundo. Não são muitas.
— Deve ser porque você não tem tempo de conviver e,
portanto, conhecer as mulheres com quem transa.
— Por que acha isso?
— Meredith me disse que você nunca tinha trazido nenhuma
mulher nesta casa. É verdade?
— Muitas perguntas para uma manhã.
— Eu só quero saber mais sobre o homem com quem passei
a noite.
Ele observou-me durante um instante de silêncio, como se
me sondasse.
— A primeira noite de muitas. Quero que traga suas coisas
para este quarto e passe a dormir aqui enquanto estivermos
casados.
“Enquanto estivermos casados”. As palavras ecoaram
repetidamente em minha mente, machucando-me como se alguém
cravasse um punhal em meu peito. Embora eu já soubesse que
esse casamento tinha data marcada para terminar, ouvi-lo dizendo
em voz alta doeu-me na alma.
— Não sei se posso dormir toda noite no quarto de um quase
completo desconhecido.
— Que bobagem. Nós somos casados! Portanto, seu lugar é
aqui, nesta cama, ao meu lado.
— Na verdade. O que temos é apenas um acordo, um
negócio frio e prático. Foi você quem me disse para ver as coisas
assim.
— Não teve nada de frio e muito menos de prático no que
fizemos a noite passada.
Senti minha face ruborizando ao relembrar todas as
safadezas que fizemos e dei mais uma mordida no sanduíche.
— Não estou arrependida do que fizemos. Mas não sei se
posso continuar dormindo na cama de um homem sobre quem nada
sei.
E que ainda por cima é um assassino. As palavras ressoaram
em minha cabeça.
Esdras soltou um suspiro de resignação.
— Vamos fazer assim, uma pergunta por outra pergunta.
— Combinado. Eu começo. Por que nunca trouxe uma
mulher aqui?
— Porque nunca gostei de ninguém o suficiente para querer
dividir minha vida, ou minha casa. Minha vez. — Sem desviar seu
olhar intenso do meu rosto, ele bebeu o último gole de café da sua
xícara. — Você nunca teve um homem, além do imbecil que te
violentou?
Estremeci, arrependida por ter começado aquele jogo de
perguntas e respostas. Não era fácil falar sobre o passado.
Principalmente quando se carregava um fardo tão pesado nos
ombros, uma marca que jamais me deixaria.
— Nunca. Eu estava me guardando para o homem que seria
o meu marido. Depois que Diógenes fez aquilo comigo, tomei nojo
de homens. Achei que nunca conseguiria estar intimamente com
alguém. Mas então te conheci e acho que não há nada mais
magnífico do que estar nua em seus braços. — Um brilho gélido
atravessou brevemente a expressão do seu olhar e algo se quebrou
dentro de mim, sem que eu demonstrasse como me sentia. —
Minha vez: por que você só se relaciona com mulheres casadas?
— Isso não é verdade. Estou me relacionando com você, que
até alguns dias era solteira.
— Estou falando sério. Por que tantos escândalos
envolvendo seus casos com mulheres casadas?
Mais uma vez, ele suspirou de resignação.
— Não transo apenas com mulheres casadas, mas com
prostitutas também. — Meu queixo caiu e meus olhos se
arregalaram de perplexidade. Ele podia ter qualquer mulher que
quisesse e pagava por sexo?! Alguma coisa errada tinha nessa
história. — Só que com as prostitutas ninguém noticia.
— E por que não com mulheres descomprometidas e do seu
nível?
— Porque não quero me envolver em um relacionamento.
Nunca quis e nunca vou querer. Há muitas complicações que
cercam esse tipo de coisa e não preciso de mais complicações na
minha vida. Prefiro colecionar transas sem compromisso e sem
sentimento.
Engoli em seco. Obviamente aquilo servia para mim também.
Um alerta para o caso de algum dia eu cometer a sandice de nutrir
algum sentimento por ele.
— Sua vez de perguntar — falei, com um aperto no peito.
— Já chega de perguntas por hoje. Não quero passar meu
primeiro dia de folga, em meses, respondendo perguntas. Temos
coisas mais interessantes para fazermos. Vem aqui. Me deixa te dar
um banho.
Antes que eu tivesse tempo de protestar, Esdras levantou-se,
ergueu-me no ar com seus braços fortes e carregou-me para o
banheiro, enquanto cada pergunta que eu havia formulado em
minha mente se perdia no calor lascivo que o contato da minha
nudez com seu peito largo me despertava, arrebatando-me por
completo e me fazendo perder a consciência de tudo mais, que não
do seu toque.
Demoramos quase duas horas no banheiro, entregues à
luxúria e ao desejo que jamais parecia ter fim. De volta ao quarto,
continuamos nos amando deliciosamente, até que a exaustão tomou
conta de mim e adormeci profundamente, aninhada ao seu corpo
grande e sólido, me sentindo segura, protegida, em paz, como em
poucas ocasiões na minha vida, como se eu estivesse nos braços
do melhor homem do mundo e não nos de um assassino frio e
perverso.

***

Quando despertei, encontrava-me sozinha na cama. Percorri


os olhos em volta, à procura de Esdras, mas ele não estava no
quarto. Um temporal forte desabava lá fora, os estrondos violentos
das trovoadas seguindo a claridade dos relâmpagos, tornava o
ambiente ainda mais sombrio e fantasmagórico do que já era.
Ao levantar-me, percebi que meu corpo estava todo dolorido,
como se eu tivesse feito várias horas de musculação em uma
academia, sem me alongar. Principalmente entre as pernas, eu
estava doída, o que me rendeu a necessidade de reprimir um grito
de dor quando fui urinar.
Após usar o banheiro, vesti minha camisola e roupão e fui até
o quarto no qual estava instalada, onde troquei os trajes de dormir
por uma das roupas que havia comprado no shopping: um vestido
de tecido leve e esvoaçante, que marcava bem a minha cintura e
cuja saia se estendia até a altura dos joelhos. Não era comportado
como as roupas que eu estava habituada, mas também não me
deixava vulgar. Era o meio-termo.
Ainda no quarto, telefonei para o hospital e falei com meu pai,
que estava bem e se mostrou empolgado em ter a enfermeira dando
mais atenção a ele que aos outros pacientes. Acho que ele gostava
dela de um jeito diferente. Prometi que iria vê-lo mais tarde e
encerramos a ligação.
Ao descer as escadarias que levavam ao térreo, meu
estômago roncou de fome, o que não era por menos, já que
passava das duas da tarde e eu estava com apenas o café da
manhã na barriga.
Pretendia passar direto para a cozinha, comer alguma coisa,
mas me detive na sala, ao me deparar com um garoto espichado
sobre o sofá de couro, bastante à vontade, mexendo em seu celular.
Devia ter cerca de dezoito anos, talvez menos e era tão parecido
com Esdras que chegava a ser espantoso.
— Quem é você? — indaguei, aproximando-me dele,
impressionada com a sua semelhança com Esdras.
Parecia uma versão mais jovem do meu marido.
Ao se dar conta da minha presença, o garoto apressou-se em
se colocar de pé, parecendo surpreso ao fitar o meu rosto.
— Olá. Sou Breno Agostini. Sobrinho de Esdras. E você,
quem é?
Sobrinho de Esdras? Como assim?
Puxando pela memória, recordei-me de ter lido em um site de
fofocas sobre o irmão de Esdras realmente ter um filho. Estava com
pouco mais de dois anos quando Esdras assassinou aquela garota.
— É um prazer te conhecer, Breno. Sou Ayla — falei,
oferecendo-lhe um sorriso e apertando sua mão em cumprimento.
Não consegui evitar o pensamento de que era loucura uma
mãe deixar seu filho permanecer sob o mesmo teto que um
assassino, como Esdras, que, além de matar, foi capaz de culpar o
próprio irmão. Se chegou ao ponto de tentar incriminar o irmão por
assassinato, imaginava o que poderia fazer ao sobrinho.
— O que você faz aqui? Quer dizer, você trabalha aqui? —
indagou o moleque, com curiosidade.
— Não. Sou esposa de Esdras. Nos casamos há algumas
semanas.
O queixo do garoto caiu quase até o estômago, seus olhos se
arregalaram atônitos.
— Caraca! Eu nunca vi meu tio com uma mulher e agora ele
está casado?! Isso é surpreendente. Já estava achando que ele
tinha virado a casaca enquanto estava na prisão.
Não consegui conter o riso.
— Com certeza ele não virou a casaca — falei, com bom
humor. — E você, o que faz aqui?
Ele voltou a sentar-se no sofá, displicente.
— Vim passar uns dias com meu tio.
— Sua mãe que mandou?
— Não. Na verdade, ela nem sabe que estou aqui. Acontece
que nós tivemos uma discussão e eu não quis ficar em casa.
Percebi a amargura em suas palavras e compreendi que ele
estava aqui certamente porque não tinha outro lugar para ir. Não
devia ser fácil para ele ter crescido sem a presença do pai, algo que
eu compreendia bem, já que também não tive minha mãe comigo
por muito tempo.
Tive vontade de perguntar onde estava o pai dele, porque
não fora para a sua casa, mas não quis me intrometer.
— Bem, seja bem-vindo, Breno. Se precisar de alguma coisa
que eu possa fazer é só avisar.
— Obrigado.
— Vou até a cozinha comer alguma coisa. Você sabe onde
está o seu tio?
— No escritório.
— Ah, sim. Obrigada.
Na cozinha, precisei insistir com Meredith para conseguir
convencê-la a me deixar comer apenas um sanduíche rápido, pois o
que ela realmente queria era que as empregadas servissem a mesa,
com toda aquela formalidade, somente para mim.
Após a rápida refeição, me dirigi para o escritório de Esdras.
Bati antes de entrar e o encontrei sentado atrás da mesa,
manuseando alguns documentos e deixando-os de lado para
observar-me atento enquanto eu me aproximava.
Soltei um suspiro quando meus olhos se detiveram nele, no
sorriso magnífico que se formou em seus lábios, no azul-claro do
seu olhar, nos cabelos loiros ligeiramente emaranhados. Ele parecia
ainda mais lindo assim todo à vontade, usando apenas uma
camiseta de malha simples, com os músculos do peitoral evidentes
no tecido leve.
— Achei que não trabalharia hoje — falei, aproximando-me
da mesa.
— Tinha algumas coisas que não podiam ser adiadas.
Esdras fez um gesto de mão, indicando que eu me
aproximasse mais e circundei a mesa. Quando me coloquei diante
dele, segurou-me pelo pulso e puxou-me com um safanão
cuidadoso, fazendo com que eu caísse sentada em seu colo. Ele
afundou seu rosto na curva do meu pescoço e fechou os seus olhos
enquanto aspirava meu cheiro. Depois, ergueu o rosto e roçou
suavemente seus lábios nos meus, o contato tão simples enviando
correntes abrasadoras que se alastraram ferozes pelo meu sangue
e fizeram o centro entre minhas pernas palpitar.
— Conseguiu descansar? — indagou.
— Até demais.
— Já almoçou?
— Sim. Quase precisei travar uma guerra com Meredith para
impedir que ela servisse a mesa.
— Ela gosta dessas formalidades.
— Por que você não me disse que seu sobrinho vinha?
Senti seu corpo enrijecendo de tensão de encontro ao meu,
ao mencionar o garoto.
— Porque eu não sabia que ele vinha. Na certa saiu
escondido da mãe. Mas vou dar um jeito de mandá-lo de volta pra
ela.
— Por quê? Você não gosta dele?
Esdras hesitou, como se escolhesse as palavras.
— Não é adequado que ele fique perto de alguém como eu.
Se ele me dissesse isso antes de eu tê-lo conhecido um
pouco melhor, eu teria concordado na mesma hora. Mas Esdras não
era tão monstruoso quanto seu passado dizia. Pelo menos, essa era
a impressão que eu tinha.
— Coitado do garoto. Talvez tenha arranjado essa discussão
com a mãe como pretexto para ficar perto de você, porque talvez
esteja carente da presença do pai e esteja projetando a imagem
dele em você.
— Nossa! Você quase narrou uma fanfic agora! Mas isso é a
vida real.
— Onde está o pai dele?
— Mora na Califórnia.
— E Breno não o visita?
— Eles nunca foram muito próximos. A única relação que
meu irmão sempre teve com o filho, foi o pagamento da pensão.
Mas esse é um assunto complexo demais para explicar,
principalmente com esses peitos deliciosos perto do meu rosto me
distraindo.
Sem qualquer aviso prévio, Esdras trouxe as mãos às alças
do meu vestido e as deslizou para baixo com facilidade,
desnudando meus seios, sem que eu tivesse forças para detê-lo,
pois tudo dentro de mim suplicava por aquele toque. Logo sua boca
deliciosa, quente e molhada, estava se fechando sobre um dos
meus mamilos, chupando gostoso, enquanto sua mão massageava
o outro seio e eu lançava a cabeça para trás, soltando um gemido
alto, o prazer alucinante me percorrendo, deixando-me molhada
entre as pernas, perdida, com meu sangue em brasas.
Enfiei minhas mãos sob o tecido da sua camiseta e acariciei
os músculos duros do seu peitoral, enquanto ele passava a boca
para o meu outro seio e sugava como um esfomeado, deixando meu
mamilo completamente duro. Parou de chupar por um instante, e o
circundou com a ponta da sua língua, deixando-me ainda mais
doida e comecei a rebolar sobre a ereção firme, esfregando minha
bunda na sua virilidade, por cima das roupas.
— Ah, delícia... — gemi, ensandecida.
CAPÍTULO 15
Ayla

Em resposta, Esdras continuou chupando meus seios,


alternando sua boca entre um e outro, enquanto descia sua mão
pelas minhas curvas, apalpando-me toda. Enfiou a mão sob a saia
do vestido e deslizou sua palma através da pele da minha coxa, até
infiltrá-la entre minhas pernas.
Soltei um gemido de dor quando seus dedos invadiram minha
calcinha e tocaram minha boceta.
— O que foi? Está dolorida? — indagou ele, com sua voz
arrastada devido à respiração pesada.
— Sim.
— Que pena... eu queria foder essa xoxotinha de novo, mas
acho que você não vai aguentar.
Quase abri a boca para dizer que aguentaria, apenas para
que ele não parasse de me tocar, como se eu estivesse viciada em
suas carícias e no seu calor. No entanto, eu não aguentaria aquele
pau enorme dentro de mim tão cedo.
Ele infiltrou apenas um dedo pelo fundo da minha calcinha,
deslizando-o sobre meus lábios vaginais, mergulhando-o na minha
umidade abundante.
— Mas você está tão molhadinha... acho que posso fazer
isso sem te machucar...
Com mãos firmes, Esdras me tirou do seu colo e me fez subir
na mesa. Colocou-me de quatro, com a bunda empinada, virada em
sua direção e os ombros abaixados. Ergueu a saia do vestido,
enroscando-a na minha cintura e tirou minha calcinha pelos pés,
quando quase pude sentir o peso do seu olhar examinando minha
intimidade ali toda escancarada diante do seu rosto, o que me
deixou excitada a ponto de eu abrir um pouco mais as pernas,
mostrando-me ainda mais para ele.
Minha nossa! Aquele homem estava me transformando em
uma grande pervertida!
— Acho que pegamos pesado demais ontem à noite. Você
está toda inchada e vermelhinha. Mas ainda assim toda meladinha...
querendo meu pau... que delícia...
Logo sua boca estava devorando meu corpo. Beijou minhas
nádegas, lambendo e mordiscando-as. Espalmou suas mãos sobre
elas, as afastando, e por fim enterrou sua língua na minha boceta,
lambendo e devorando o espaço entre meus lábios vaginais,
penetrando minha vagina macio e raso, como se se alimentasse dos
resquícios do meu prazer.
Sem conseguir controlar meus gemidos altos, abri ainda mais
as pernas e empinei a bunda, dando-me toda a ele, permitindo que
fizesse o que quisesse comigo, porque eu queria tudo.
— Ai, delícia... me come... — As palavras escaparam da
minha garganta, enquanto minha vagina se contorcia e escorria, de
tanta vontade dele. — Mete esse pau gostoso em mim... ah...
— Não vou te machucar ainda mais... vai ter que se contentar
com uma chupada apenas.
Nem tive tempo de ficar frustrada. Habilidoso e experiente,
logo Esdras estava me fodendo com seus dedos, enfiando o polegar
na minha vagina e o dedo do meio no meu ânus, ao mesmo tempo
que continuava me chupando gostoso, movimentando
freneticamente sua língua sobre meu clitóris inchado, enquanto eu
só conseguia gemer e me contorcer sobre a mesa, até que, aos
poucos, todo o frenesi foi se concentrando na altura do meu ventre e
logo explodi, gozando gostoso, descontrolada, esfregando minha
boceta na sua boca e engolindo seus dedos com meus dois
orifícios.
Quase desabei sobre o tampo da mesa, mas Esdras me
segurou com suas mãos fortes. Virou-me de frente para ele,
segurou-me firme pela nuca e empurrou seu polegar banhado com a
minha lubrificação para dentro da minha boca.
— Chupa — ordenou e o fiz, com uma ganância absoluta,
puxando e saboreando meu próprio gosto.
Ainda excitada, levei a mão ao seu pau, duro como uma
pedra, e o massageei por cima do tecido da sua bermuda. Como se
lhe desse uma demonstração do que queria fazer, passei minha
língua na ponta do seu polegar, circundando-o, sem desviar meus
olhos dos seus.
— Porra... assim você me deixa louco... — grunhiu.
Segurando-me pela nuca, ele me fez descer da mesa e
começou a me empurrar para baixo. Contudo, se deteve quando
seu celular começou a tocar.
— Não atenda — falei, com água na boca.
— Poucas pessoas têm esse número. Deve ser alguma
urgência.
Soltei um palavrão mentalmente quando ele atendeu o
aparelho, deixando-me de lado. Conversou energicamente com a
pessoa do outro lado da linha e encerrou a ligação, mostrando-se
subitamente tenso.
— Vou ter que sair. Houve um problema em um resort na
costa.
— Na costa? — Foi impossível não pensar em Ivanhoés.
— Não fica perto de Ivanhoés, mas o lugar se parece —
disse, como se fosse capaz de ler meus pensamentos. — Você
gostaria de vir comigo?
— Claro! Adoraria.
— Ótimo. Vamos de helicóptero e logo estaremos de volta.
Lembrei-me do sobrinho dele na sala e imaginei o quanto se
sentiria rejeitado se o deixássemos sozinho com os empregados.
— Podemos levar Breno conosco?
— Por quê?
— Para que ele não se sinta deixado de lado.
Esdras refletiu por um instante.
— Tudo bem. Você é quem sabe.
Ele eliminou a distância que nos separava, colocando-se a
centímetros de mim e segurou meu rosto entre suas mãos grandes.
— Nem nos meus sonhos mais fantasiosos eu esperava
conhecer alguém com você.
— Como eu, como?
— Verdadeira e genuína.
Dei-lhe um sorriso emocionado e ele se apossou da minha
boca com a sua, beijando-me com paixão e ganância, para depois
me soltar.
— É melhor sairmos daqui antes que eu perca a cabeça e te
deixe sem nem conseguir caminhar.
Outro sorriso fez meus lábios se dobrarem, enquanto eu
recolhia minha calcinha do chão e a vestia.
Me forçando a ignorar a inundação que havia entre minhas
pernas, deixei o escritório junto com Esdras. Na sala, encontramos
Breno estirado no sofá, assistindo uma série na televisão,
parecendo completamente entediado.
— Ei, moleque. Tá a fim de ir até o litoral? — disse Esdras.
Breno praticamente pulou do sofá.
— Demorô. Vamos nessa.
— Não se empolga muito porque é só uma visita rápida.
— Melhor isso do que morrer de tédio aqui.
— Certo. Coloca uma roupa fresca porque lá costuma fazer
calor.
— Beleza.
Todos subimos para o segundo andar e cada um foi para o
seu quarto. No meu, encontrei uma das empregadas esvaziando o
closet. Explicou-me que Esdras havia mandado que ela levasse
todas as minhas coisas para o seu aposento e não protestei. Eu já
estava mesmo casada com um assassino, dormir ao seu lado todas
as noites seria moleza. Apesar do que, eu já não conseguia
acreditar que ele realmente havia matado aquela garota, pois não
parecia nem um pouco ser capaz de tamanha barbaridade. Por
outro lado, talvez eu apenas estivesse cega de paixão e desejo e
chegaria o dia em que essa cegueira cobraria seu preço.
Precisei tomar um banho não apenas para me higienizar, mas
para conter os ânimos exacerbados do meu corpo. Como
viajaríamos de helicóptero, optei por vestir um macacão longo, que
mesclava o elegante e o casual. Completei o traje com sandálias de
salto baixo, escovei os cabelos até que estivessem brilhantes e
passei um pouco de maquiagem.
Graças aos céus, a chuva já havia passado quando o
helicóptero levantou voo, partindo do campo de golfe. Desta vez, era
pilotado por outra pessoa, enquanto Esdras, Breno e eu nos
amontoávamos nos assentos traseiros.
A viagem durou cerca de duas horas, durante a qual
sobrevoamos várias cidades, grandes e pequenas e algumas áreas
tomadas por zonas rurais. Fiquei impactada com a suntuosidade do
resort, quando aterrissamos em seu heliponto, próximo a um campo
de vôlei com gramado verde vivo. Ali, fomos recebidos por uma
mulher com cerca de trinta e poucos anos, alta, morena, vestida
com elegância, que se dirigia a Esdras com respeito, mas sempre
sustentando um sorriso largo na boca pintada de vermelho.
— Esses são meu sobrinho Breno e minha esposa, Ayla —
apresentou-nos — Essa é Karen, a gerente do resort.
— Esposa?! — Os olhos castanhos-claros da mulher quase
saltaram das órbitas enquanto me varriam de cima a baixo.
Por que era tão surpreendente para todos que Esdras tivesse
se casado? Será que o problema era comigo? Será que não me
consideravam bonita o suficiente para ele?
— Sim. Nos casamos há algumas semanas — respondi,
tentando parecer firme, mas sem arrogância. — É um prazer te
conhecer.
— O prazer é todo meu. Seja bem-vinda ao Paradise. Estou
feliz que esteja aqui.
Eu podia apostar que estava.
— Arranje alguém para mostrar o lugar a eles, enquanto me
reúno com a equipe — disse Esdras.
— Claro, Sr. Agostini. Agora mesmo.
A mulher usou um rádio portátil para se comunicar com
alguém e minutos depois uma garota afrodescendente, com cabelos
crespos em um corte bufante, usando um uniforme azul com a logo
do resort, veio nos encontrar, mostrando-se simpática ao se
apresentar como Sophia, nossa guia.
Seguimos todos juntos até as proximidades da sede da
hospedagem, onde nos separamos. Enquanto Esdras seguia para
dentro com Karen, Breno e eu acompanhávamos nossa guia pela
parte externa do complexo de edifícios de três andares, que tinham
o formato de um C, com uma piscina gigante e um jardim de
coqueiros ao centro, alguns chalés espalhados pelos arredores e a
praia de areias brancas mais adiante. Todos os apartamentos
tinham varanda com vista para o mar e, como era fim de tarde,
quase noite, apenas alguns poucos hóspedes circulavam por ali, a
maioria famílias com crianças. Certamente era o mesmo tipo de
gente que frequentaria Ivanhoés quando Esdras construísse uma
propriedade semelhante àquela lá perto.
Sophia nos mostrou toda a parte externa do luxuoso imóvel,
depois nos conduziu para dentro, onde nos apresentou à imensa
academia, aos dois restaurantes e até a uma minidanceteria com
paredes acústicas. Ao final da nossa excursão, nada havia me
impressionado mais do que o gigantesco tobogã na piscina.
— Se eu tivesse trazido roupa de banho, ia experimentar
aquele tobogã — expressei o pensamento em voz alta.
— Caraca! Eu tava pensando a mesma coisa! — disse Breno,
empolgado.
— Temos uma lojinha de roupas de banho aqui. Vocês
podem escolher alguma coisa que sirva — disse Sophia.
Eu ia abrindo a boca para recusar, afinal não tinha o costume
de usar roupas de banho na frente de estranhos, mas não quis
estragar a animação de Breno.
— Demorô. Claro que a gente vai querer. É só dizer onde fica
a lojinha — disse o garoto, exultante.
— Venham por aqui.
Sophia nos conduziu até o pequeno estabelecimento ao lado
da academia, onde havia trajes de banho dos mais escandalosos,
aos mais recatados. Escolhi o maiô mais fechado que encontrei, um
modelo parecido com os usados por profissionais da natação, com
alças largas e bojo forrado. Joguei uma saída de praia longa e
transparente por cima e rumamos para a grande piscina.
Ao nos aproximarmos, Breno foi o primeiro a mergulhar,
tapando o nariz e pulando de longe, fazendo a água espirrar para
todos os lados. Contagiada pela sua empolgação, o imitei. A água
estava uma delícia, na temperatura ambiente e
impressionantemente salgada, quase tanto quanto a água do mar.
Após darmos algumas sobraçadas na água translúcida,
fomos para o topo do tobogã. Se Breno não estivesse comigo, eu
teria me acovardado, pois de cima se percebia sua real altura, que
chegava a ser quase assustadora. Só que o garoto pareceu se
divertir tanto, ao deslizar para baixo através dos tubos, que acabei
fazendo o mesmo e logo estávamos de volta ao topo, prontos para
mais uma rodada.
A noite já tinha caído por completo, embora tudo em volta da
área da piscina fosse iluminado pelas luzes dos postes de cimento.
Eu estava me divertindo como em poucas ocasiões na minha vida,
na companhia do garoto, que era dono de uma alegria espontânea,
desmedida, como se não tivesse nada com o que se preocupar
nessa vida. Tínhamos acabado de descer do tobogã pela enésima
vez, quando Esdras se aproximou da borda da piscina, sério e
carrancudo como sempre. Parou à nossa frente e apoiou as mãos
nos quadris.
— Lamento interromper a diversão de vocês, mas está na
hora de voltarmos — disse.
— Vamos ficar mais um pouco. Vem mergulhar com a gente.
Tem uma lojinha de roupas de banho aqui e esse tobogã é incrível
— falei, animada, imaginando o quanto ele devia estar me achando
infantil.
— Está tarde. Temos que voltar.
— Deixa de ser chato. Vem se divertir também.
— Ele teria medo de descer pelo tobogã. Jamais conseguiria
— disse Breno, com bom humor.
Esdras fitou-o com mais interesse.
— É isso mesmo que você acha?
— Acho. Gente velha sempre tem medo dessas coisas.
— Em primeiro lugar, eu não sou velho. E não tenho medo de
tobogã.
— Então prova.
No fim das contas, Esdras acabou sorrindo do empenho do
garoto em tentar convencê-lo a se juntar a nós e nos deu as costas,
seguindo rumo ao interior da sede. Voltou minutos depois, usando
nada mais que uma sunga preta que se colava ao seu corpo,
revelando os contornos sexys dos seus quadris estreitos e exibindo
a protuberância perturbadora da sua virilidade.
Um grupo de mulheres que se encontrava em uma mesa
próxima, chegou a se silenciar para observá-lo, o que era
perfeitamente compreensível. Esdras era a personificação da
masculinidade na sua forma mais crua e irresistível. Por um instante
senti orgulho de ser a mulher que dormira com ele na noite passada
e dormiria pelos próximos oito meses.
Igualzinho Breno fizera, ele tapou o nariz com os dedos e
mergulhou com um salto partido de longe, fazendo a água voar para
todos os lados.
— Vou te mostrar quem tem medo de tobogã, moleque —
brincou, com descontração.
— O tobogã é moleza. Quero ver você me ganhar na natação
— desafiou-o Breno.
Logo nós três estávamos envolvidos em uma divertida
competição de natação, cujo percurso era atravessar a piscina de
ponta a ponta e voltar. Eles dois conseguiam chegar com poucos
centímetros de diferença, enquanto eu sempre ficava para trás, por
não ter os braços tão longos e fortes. Em uma das voltas, ambos
pareceram se compadecer da minha situação e acabaram me
deixando vencer, fingindo que eu estava ficando mais rápida.
Foi magnífico de se ver Esdras descendo pelo tobogã, com
seu corpo todo grande entregue à diversão, à descontração do
momento. Eu nunca o tinha visto tão solto, relaxado e feliz como
naquela noite. E mais magnífico ainda, foi quando ele me convidou
para descer em seu colo, com seu corpo forte envolvendo o meu
durante a descida e ao mergulharmos na água.
CAPÍTULO 16
Ayla

Permanecemos naquela brincadeira por várias horas, durante


as quais pude perceber o quanto Esdras amava seu sobrinho. Ele
apenas não sabia como demonstrar seus sentimentos. Ou então,
mesmo o amando, fazia questão de mantê-lo distante, por razões
incompreensíveis. Contudo, não conseguia esconder esse afeto,
que se revelava em cada olhar que dirigia ao garoto, no cuidado e
na proteção que lhe dispensava.
Após deixarmos a água e nos vestirmos, Esdras nos
convidou para testarmos a nova atração do resort e fiquei surpresa
quando nos levou para a praia. Nos afastamos alguns metros da
propriedade. Em uma parte mais isolada da praia, sobre as areias
brancas, havia um piquenique montado que me deixou
simplesmente encantada. Garçons uniformizados serviam a comida
sobre palhas de coqueiros que forravam o chão. Velas acesas
dentro de recipientes de vidro transparente encontravam-se em
torno das palhas e penduradas em cordões de nylon acima delas,
imitando um céu estrelado e iluminando tudo em volta.
Ali nos acomodamos e saboreamos a comida, que estava
uma delícia, toda preparada com frutos do mar. De longe se
percebia que se tratava de um ambiente criado para jantares
românticos entre casais, mas foi incrível ficar lá com Esdras e
Breno. A impressão que tive, foi de que formávamos uma família
unida e feliz, embora essa não fosse a realidade.
Após a refeição, continuamos ali jogando conversas fora,
com Esdras e Breno contando piadas que me davam dor de barriga
de tanto rir. Era impressionante o quanto os dois se pareciam e não
apenas fisicamente, de modo que fiquei ainda mais curiosa para
saber como era o irmão de Esdras. Provavelmente se parecia com
os dois também, por dentro e por fora. Ou talvez ainda estivesse
cheio de ódio pelo irmão tê-lo tentado incriminar, o que era
perfeitamente compreensível.
Já era tarde da noite quando voltamos para casa, sempre
envolvidos por aquela atmosfera gostosa de descontração e
animação que nos acompanhou durante todo o tempo.
Ao chegarmos, os dois homens ainda tiveram energia para
ficarem na sala, entretidos com um jogo de videogame, enquanto eu
subia as escadas, ansiosa por um banho quente e cama.
Como minhas coisas já estavam todas no aposento de
Esdras, foi para lá que me dirigi e, após telefonar para o hospital e
falar com meu pai, explicando que estaria com ele cedo na manhã
seguinte, tomei um banho rápido, vesti uma camisola e deitei-me,
adormecendo rapidamente.

***

Acordei com o estrondo violento de uma trovoada. Ainda era


noite, três horas da madrugada, para ser mais exata, e Esdras não
estava na cama. Onde estaria àquela hora? Achando que o
encontraria na sala, ainda jogando videogame com o sobrinho,
levantei-me, joguei um robe de seda por cima da camisola e desci a
escadaria. Não havia ninguém na sala escura e silenciosa, que
parecia ainda mais assustadora que o habitual.
Muito distante, ouvi o som de uma música agitada e, ao
perceber que partia da academia, segui naquela direção. No porão,
encontrei a porta destrancada e entrei. Ao som do rock pesado que
tocava no moderno aparelho que se encontrava sobre uma mesa
retangular de madeira, em volume alto, Esdras estava socando
violentamente o saco de pancadas, como se projetasse nele todos
os negacionistas ignorantes do mundo.
Estava de costas na minha direção, alheio à minha chegada.
Usava apenas uma bermuda cujo cós pendia em seus quadris e não
consegui conter um suspiro de deslumbramento quando meus olhos
desceram através do seu corpo forte e grande, seminu, sua pele
coberta por uma camada de suor. Mesmo com as cicatrizes
cobrindo suas costas, era possível perceber seus músculos
tensionados, enrijecidos. Estava preocupado com alguma coisa. Na
certa com o problema que fora resolver no resort, alguma coisa
sobre um homem adulto ter se hospedado junto com uma garota de
quine anos, que não era sua parente.
Como se sentisse o peso do meu olhar, Esdras subitamente
parou o ataque ao saco e se virou para mim, demonstrando
surpresa ao me ver.
— A música está te incomodando? — indagou, tirando as
luvas de boxeador e indo até o aparelho de som.
— Não. Nem dá pra ouvir lá de cima. Foi a chuva que me
acordou.
Enquanto ele desligava o aparelho de som, aproximei-me e o
abracei por trás, percorrendo minhas mãos sobre os músculos
sólidos do seu peito nu, espalhando um amontoado de beijos sobre
as cicatrizes em suas costas, provando sua pele suada, inebriada
com seu gosto e seu cheiro.
Foi inevitável. Logo a corrente de lascívia se espalhou pelas
minhas veias, ferozmente e pressionei meus seios em suas costas,
meu corpo tomado pela necessidade de um contato mais profundo
com o seu.
— Conseguiu descansar um pouco? — indagou.
— Sim. Estava dormindo desde que chegamos. E você, por
que não dormiu?
— Não consegui.
— Quer falar sobre o que aconteceu no resort?
— Não. Até porque você não ia poder fazer nada e não quero
deixar essa cabecinha linda preocupada à toa. Mas tem algo que
você pode fazer por fim.
Esdras segurou o meu pulso e deslizou minha mão pelo seu
tórax e abdômen, até enfiá-la no cós da sua bermuda. Uma violenta
corrente de tesão me varreu quando toquei seu pau completamente
duro, inchado. Era macio, quente, latejante e fechei minha mão em
torno dele, excitada, movendo a pele em um vai e vem.
— Delícia... quero ele todo dentro de mim... — sussurrei,
chocada com a minha capacidade de ser safada e ainda por cima
gostar disso.
Esdras virou-se de frente para mim, apoiou-se na borda da
mesa e puxou-me para junto do seu corpo, me fazendo parecer
pequena e frágil ao me acomodar de encontro à brutalidade dos
seus músculos. Sem uma palavra, ele fechou sua mão grande em
torno da minha mandíbula, como se apossasse de mim e tomou
minha boca com a sua, esfregando seus lábios nos meus e
chupando minha língua com uma selvageria deliciosa, enquanto eu
esfregava meu ventre na sua enormidade ereta, enlouquecida,
ansiosa por senti-lo me penetrando bem forte.
Esdras prendeu meu lábio inferior entre os seus e sugou
forte, quase deixando-o inchado.
— Se lembra do que ficou me devendo esta manhã? —
sussurrou, com seus lábios a centímetros dos meus, segurando
possessivamente minha mandíbula.
Senti um beliscão abaixo do meu umbigo ao relembrar que
estava prestes a fazer sexo oral nele, no escritório, quando o toque
do telefone nos interrompeu.
— E como eu poderia esquecer? — murmurei e
instintivamente umedeci meus lábios com a língua.
— Ótimo. Vou querer que me pague o que deve.
Dito isto, ele soltou minha mandíbula e fui invadida por uma
espécie de frenesi quando levei minha boca ao seu peitoral suado,
lambendo sua pele molhada, ligeiramente salgada, enquanto
fechava minha mão em torno da sua enormidade dura e brutal. Com
meu sangue em brasas, fui descendo meus lábios através do seu
corpo musculoso, provando e me refestelando com o gosto do seu
suor, até que me ajoelhei diante dele, olhando diretamente para o
pau enorme, com a cabeça rosada, seu comprimento rodeado por
veias grossas.
Embora Esdras estivesse todo suado, ao aproximar o meu
rosto do seu membro, o cheiro que senti foi de sabonete. Ele tinha
tomado banho depois que chegou em casa, o que me deixou ainda
mais excitada, com vontade de engoli-lo inteiro. Sem pensar duas
vezes, levei minha boca até a glande e passei a língua em volta,
devagar, para em seguida colocá-la entre meus lábios e empurrá-la
para dentro da minha boca, levando-a o mais fundo que consegui.
Um grunhido animalesco escapou da sua garganta, enquanto
ele segurava na parte de trás dos meus cabelos e me fazia mover a
cabeça em um vai e vem, fodendo minha boca com aquela delícia,
me fazendo engolir quase até a raiz.
Minha vagina latejava e pingava, meu corpo parecia incendiar
de tanto desejo, cada minúscula parte de mim suplicava para que
ele me tocasse inteira. Até que, por fim, Esdras pareceu se
compadecer das minhas lamúrias silenciosas e me fez levantar.
Pegou-me no colo e deitou-me sobre a mesa, de lado, de frente
para ele, orientando-me a apoiar o meu torso sobre um cotovelo,
esticar uma perna e escolher a outra, de modo que meu rosto ficou
rente a seu pau, enquanto minhas pernas ficavam abertas, minha
intimidade molhada ao alcance de suas mãos.
— Chupa, gostosa — rosnou ele, enrouquecido.
Sem hesitar, segurei seu pau, duro como uma pedra, pela
base e voltei a chupar, enquanto suas mãos ávidas desciam pelo
meu corpo, despindo-me do roupão e enroscando a camisola na
minha cintura. Uma delas apertava e massageava meus seios, a
outra se afundou entre minha coxas, os dedos mergulhando na
umidade entre meus lábios vaginais, percorrendo todo o espaço
entre eles, antes que o dedo do meio afundasse na minha vagina e
o polegar detivesse sobre meu clitóris, ambos se movimentando, um
me fodendo, o outro massageando meu ponto mais sensível, a
carícia me arremessando àquele poço de devassidão e luxúria que
me fazia gemer descontroladamente e abrir ainda mais as pernas,
dando-me toda para ele, porque não existia nada que eu pudesse
querer mais do que ser sua.
Esdras movia seus quadris em um vai e vem, no mesmo
ritmo moderado com que movia seus dedos dentro de mim, fodendo
minha boca e minha boceta ao mesmo tempo, levando-me àquela
loucura cadente da qual eu nunca mais queria sair. Até que meu
corpo deu sinais da necessidade de um alívio, meus músculos
enrijeceram e ele parou, afastando-se alguns centímetros. Despiu-
se da sua bermuda e livrou-me da calcinha e do roupão, que ainda
se enroscava em meus braços, deixando-me com apenas a
camisola embolada na cintura.
Com suas mãos brutas, me fez sentar na borda da mesa e
acomodou seus quadris entre minhas pernas, seu pau tocando
minha entrada lambuzada, ao mesmo tempo em que ele se
apossava da minha boca, beijando-me com uma selvageria
deliciosa.
Dominada pela lascívia, passei os braços em volta do seu
pescoço e as pernas em torno dos seus quadris, quando então
Esdras me carregou pelo recinto, pendurada nele, e apoiou minhas
costas em uma parede, colando-se todo a mim, a ponto de fundir
seu corpo ao meu.
Foi assim que ele entrou em mim, penetrando-me com um
golpe bruto e certeiro, esticando as paredes escaldantes e
encharcadas do meu canal com sua enormidade bruta e deliciosa,
me fazendo gemer na sua boca, alucinada, enlouquecida de tanto
prazer, meu coração a ponto de explodir dentro do peito.
Afundei meus dedos nos músculos rochosos das suas costas
e lancei a cabeça para trás, permitindo que ele deslizasse sua boca
quente e molhada através da pele do meu pescoço, sem jamais
deixar de me penetrar, movendo-se com brutalidade dentro de mim,
me preenchendo gostoso, me alcançando bem fundo com aquele
ritmo agressivo, que me levava à perdição.
Não demorou muito, eu estava explodindo, gozando no seu
pau enorme, me derramando toda enquanto clamava repetidamente
pelo seu nome, em êxtase.
Esdras esperou até que eu começasse a me acalmar para só
então tirar seu pau de dentro de mim e o acomodar entre nossas
pélvis, soltando um grunhido ao esporrar e nos lambuzar com seu
esperma quente e viscoso.
— Caralho... você precisa começar logo a tomar
anticoncepcional, ou vou acabar te engravidando — disse ele,
ofegante.
— Vou ao médico amanhã.
Quando os espasmos do seu pau cessaram, Esdras voltou e
introduzi-lo inteiro na minha vagina, deslizando languidamente na
minha carne lambuzada, entrando e saindo devagar. Alucinada,
fechei meus dedos em sua nuca e o beijei com verdadeira
veneração, esfregando minha língua na sua, permitindo que ele
chupasse a minha, naquela dança deliciosa, com aquele desejo
tomando conta de cada mínima parte do meu ser.
Ele ainda estava me beijando e me fodendo bem devagar,
quando seu celular começou a tocar e pude sentir cada um dos
seus músculos tensionando.
— Não atende — falei, consternada.
— Eu não queria, mas a essa hora deve ser algo urgente.
Suspirei de frustração quando ele saiu de dentro de mim e
me colocou no chão, dando-me as costas e caminhando em direção
à mesa sobre a qual estava o celular. Parecia uma obra de arte,
desfilando no recinto com seu corpo lindo, másculo, completamente
nu, sem que eu conseguisse desviar meu olhar do seu traseiro firme
e redondo.
— Alô — Esdras atendeu, ouviu por um instante e voltou seu
olhar rapidamente para mim.
Um frio atravessou meu peito quando vi a exultação na sua
expressão.
— Obrigado. Estamos indo agora mesmo — disse, antes de
encerrar a ligação.
— O que foi? — indaguei, aproximando-me dele.
— O diretor do hospital acabou de conseguir um coração
para o seu pai. Estão o preparando para a cirurgia.
Demorei alguns segundos para digerir a informação, apenas
me certificando de que não estava sonhando, de que aquilo era real.
Finalmente, depois de tanta espera, meu pai receberia um coração
saudável. Eu não podia nem acreditar.
Com meu peito transbordando de emoção, atirei-me nos
braços de Esdras, abraçando-o pelo pescoço e afundando meu
rosto em seu peito largo, enquanto lutava contra as lágrimas que
ameaçavam aflorar dos meus olhos.
— Obrigada por salvar a vida dele — falei, emocionada.
— Ainda é cedo pra me agradecer. Vamos ver como ele se
sai durante a cirurgia.
Ele estava certo. Meu pai ainda precisava passar por essa
provação. Mas eu tinha fé de que tudo daria certo.
— Vamos nos vestir. A cirurgia vai ser daqui a pouco — disse
ele.
Em questão de minutos estávamos entrando no helicóptero,
que se encontrava pousado no campo de golfe. Talvez devido ao
perigo acarretado pela chuva fina que ainda caía, Esdras havia
acordado o piloto e acomodou-se ao meu lado, na parte de trás,
enquanto o outro homem nos conduzia pelos céus da grande
metrópole. Logo pousamos no heliponto do hospital, onde fomos
recebidos por um enfermeiro uniformizado, que foi nos informando
sobre como o procedimento cirúrgico seria realizado enquanto
descíamos pelo elevador.
No andar da cardiologia, Esdras precisou ficar na sala de
espera, enquanto eu entrava na sala de pré-operatório para falar
com meu pai. Encontrei-o acordado e bastante lúcido, acomodado
ao leito, parecendo animado até demais.
— Pai! — Corri para me atirar em seus braços. — Eu nem
acredito que conseguimos depois de tanto tempo. Estou tão feliz —
falei, abraçada a ele.
— E eu nem acredito que finalmente vou embora dessa
prisão. Não aguentava mais nem um dia aqui.
Afastei-me do abraço e encarei seu rosto enrugado com meu
peito transbordando de afeto.
— Mas valeu a pena esperar. Agora o senhor vai ficar
novinho em folha.
Ele observou-me por um instante de silêncio, então desceu
seu olhar examinador pelo meu corpo.
— Você está diferente.
Corei com suas palavras, me perguntando se ele podia
perceber que eu tinha acabado de dar uma foda. Mas me apressei
em afastar o pensamento. Isso era impossível. O que ele via era a
nova mulher na qual eu estava me transformando, pois mesmo que
eu tivesse vestido minhas roupas antigas, com as quais ele estava
acostumado a me ver, não havia como esconder o quanto eu tinha
mudado, o quanto me sentia mais feminina, mais mulher.
— É impressão sua — tentei.
Ele continuou me fitando desconfiado.
CAPÍTULO 17
Ayla

— Sente-se aqui. Preciso te falar uma coisa. — Papai deu


tapinhas no lado vazio do colchão e sentei-me. — Só para o caso de
eu não sobreviver a essa cirurgia...
— Não diga uma coisa dessas — interrompi-o. — O senhor
vai sobreviver sim.
— Existe a possibilidade de eu não sair de lá com vida e nós
dois sabemos disso. — Tentei abrir a boca para protestar, mas ele
me fez calar com apenas um gesto de sua mão. — Eu só quero que
você saiba que não sou um tolo, como imagina. Eu sei que Esdras
Agostini é dono desse hospital. — Empalideci, mas não disse nada.
— Sei que ele está por trás desse transplante e sei que está nos
ajudando. Eu estava consciente quando ele nos trouxe para cá no
helicóptero e não vou ser hipócrita a ponto de dizer que não sou
grato. Mas me preocupo com você. — Ele segurou minhas mãos
entre as suas. — Eu confio em você, Ayla, sempre confiei, porque é
a pessoa mais sensata e responsável que já conheci. Mas a paixão
tem o poder de cegar até o mais valente sábio. Não permita que
esse homem a magoe por causa da paixão.
Fiquei paralisada observando-o sem saber o que dizer. Negar
tudo não era uma opção, pois serviria apenas para insultar a sua
inteligência. Meu pai me conhecia o suficiente para entender que eu
estava envolvida com Esdras.
— Eu não permitirei, pai. Confie em mim.
Com isto, ele me puxou novamente para um abraço.
— Eu sei que não. Você é boa demais para ele.
Ainda estávamos abraçados quando a porta se abriu e o Dr.
Ferrari entrou, junto com o mesmo enfermeiro que nos recebeu no
heliponto, ambos prontos para realizarem o procedimento cirúrgico,
usando toucas e macacões com a cor padrão do hospital.
— Bem, chegou a hora — disse o médico, animado. — Logo
você será um novo homem.
— Obrigada por tudo, doutor — falei, emocionada.
— Não agradeça a mim e sim ao santo que fez o milagre de
colocá-lo no topo da lista para o transplante. — Se sua intenção foi
me constranger, não funcionou. Eu não me importava com a opinião
de desconhecidos sobre a minha vida e a minha conduta.
— É o mesmo santo que paga o seu salário — rebati.
— Claro que é. E então, podemos ir?
— Eu estou pronto — disse papai.
Dei-lhe mais um abraço demorado.
— Vou estar aqui orando para que tudo dê certo. Nos
veremos daqui a pouco.
— Então até daqui a pouco.
Com isto, os dois homens o levaram, empurrando a maca de
rodinhas através do corredor e entrando na sala de cirurgia.
De volta à sala de espera, Esdras me aguardava e acomodei-
me na poltrona de couro ao seu lado, sentindo-me reconfortada e
segura com sua presença, principalmente quando segurou minha
mão, para me lembrar de que estava comigo e não iria a parte
alguma.
Embora o medo dentro de mim fosse grande, pela gravidade
de uma cirurgia tão delicada, minha fé era ainda maior e em meu
íntimo eu carregava a certeza de que tudo correria bem e logo meu
pai estaria de volta.
As horas que se seguiram se arrastaram lentamente, sem
que Esdras jamais saísse do meu lado a não ser para ir buscar um
lanche quando o dia amanheceu. Haviam se passado cerca de
quatro horas desde o início do procedimento, quando, por fim, o Dr.
Ferrari surgiu do corredor, com sua fisionomia bastante cansada e
quase tive um infarto, tamanha era minha ansiedade.
— A cirurgia foi um sucesso. Tudo correu como deveria —
disse ele e as lágrimas afloraram dos meus olhos, tamanha foi a
emoção que me dominou. — Agora só nos resta esperar para
sabermos como o organismo dele vai reagir ao novo órgão. Pela
minha experiência, acredito que se sairá muito bem.
— Quando ele pode ir pra casa? — indaguei.
— Se tudo correr bem, entre sete e quatorze dias.
— Posso vê-lo?
— Infelizmente não. Ele ainda está na UTI.
Um frio atravessou meu estômago.
— Na UTI?
— Sim. Mas não se preocupe com isso. Esse é o
procedimento padrão. Ele precisará ser assistido de perto durante
alguns dias para evitar complicações. Recomendo que vá para casa
e descanse. Amanhã ele será acordado. Com licença.
Dito isto, o médico deu-nos as costas e se foi.
Como ele esperava que eu conseguisse descansar sem
saber como meu pai reagiria ao novo coração?
— Ele está certo. É melhor você ir descansar e voltar amanhã
— disse Esdras, percebendo minha aflição.
— Como posso pensar em descansar sem saber como ele
vai reagir?
— Eu entendo. Só que ficar aqui esperando ele acordar, não
vai fazer a mínima diferença. O melhor é que você esteja bem
descansada para cuidar dele depois que despertar.
Esdras tinha toda razão. Minha presença ali não mudaria
nada. Então, convencida, concordei em voltar com ele para casa.
Como já havia telefonado para Ivanhoés avisando Aysha,
meus tios e o resto da família sobre a cirurgia, não havia mais nada
a ser feito. Então apenas tomei um banho quente e fui para a cama,
mas não consegui relaxar, preocupada, com minha mente
atormentada pelos pensamentos.
Durante aquele dia, vi Esdras apenas rapidamente na hora
do almoço, quando eu, ele e Breno fizemos a refeição juntos, em
casa. Durante toda a tarde, o garoto foi minha companhia. Uma
companhia agradável, devido ao seu constante bom humor e
animação, as únicas características que o diferiam do tio. No mais,
os dois eram praticamente iguais, algo que deixava o garoto
orgulhoso, quando eu mencionava.
A todo momento, eu telefonava para o hospital em busca de
notícias e o quadro do meu pai não havia mudado. Ele continuava
na UTI, mas apenas por precaução e até o momento seu organismo
não dera qualquer sinal de rejeição ao órgão transplantado.
À noite, após jantarmos todos juntos, Esdras permaneceu na
sala, na companhia do sobrinho, enquanto eu me recolhia ao
aposento. Não demorou muito, meu marido juntou-se a mim na
cama, me acolhendo no calor dos seus braços, me aninhando em
seu conforto, onde finalmente consegui adormecer, tendo uma noite
de sono tranquila e revigorante.

***

Na manhã seguinte, assim que despertei, liguei para o


hospital e fui informada que meu pai seria acordado. Tentei
convencer Esdras a me deixar ir no meu carro, já que ele tinha um
compromisso de trabalho logo cedo. No entanto, ele fez questão de
me levar pessoalmente antes de ir para a sua reunião, alegando que
eu estava agitada demais para dirigir.
Chegando ao hospital, meus tios e Aysha já estavam lá,
assim como nossa prima. Foi emocionante reencontrá-los depois de
tanto tempo. Tinham se passado apenas algumas semanas, desde
que os vi pela última vez, mas parecia que eram meses.
Não demorou muito recebemos permissão do médico para
vermos meu pai e o encontramos em um quarto, já acordado,
embora ainda ligeiramente atordoado, devido à sedação. De acordo
com o Dr. Ferrari, era normal que ele agisse assim durante as
primeiras horas de lucidez. O importante, era que estava evoluindo
bem na sua recuperação.
Meus familiares passaram praticamente todo o dia no
hospital, voltando para Ivanhoés no final da tarde. Embora eu
quisesse tê-los por perto um pouco mais, não insisti que ficassem,
pois seria grosseria não os convidar para se hospedarem na casa
onde morava com meu marido e eu não ia enfiá-los sob o teto de
um assassino. Por mais que existisse algo bom e puro entre mim e
Esdras, eu não podia simplesmente ignorar o que ele fizera no
passado e colocar a vida de todos em risco. Já bastava a minha
existência estar nas mãos dele.
À noite, Esdras apareceu no hospital, insistindo em me
convencer a ir para casa, mas não tive coragem de deixar meu pai
aos cuidados apenas da enfermeira, pois seu estado era mais
delicado do que nunca, atravessava um momento crucial e eu
queria estar ao seu lado durante todo o tempo. Até que se
recuperasse por completo.
Então, meu marido providenciou para que uma segunda
cama fosse instalada no quarto para mim, onde passei a dormir nas
noites seguintes.
A partir de então não deixei mais o hospital, onde Esdras
vinha me visitar todos os dias, trazendo-me as comidas que eu mais
gostava, me levando para dar umas voltas no jardim e me
agraciando com a sua companhia. Atendendo ao meu pedido,
apenas não aparecia na frente do meu pai, embora meu velho fosse
inteligente e perceptivo a ponto de compreender que era com ele
que eu estava quando me ausentava do quarto.
Breno, que continuava na casa de Esdras, mesmo contra a
vontade de sua mãe, que já aparecera por lá fazendo escândalos e
tentando levar o garoto, também vinha me ver de vez em quando,
sempre me distraindo com sua presença agradável.
Haviam se passado dez dias desde a cirurgia. Esdras tinha
acabado de deixar o hospital, depois de trazer meu almoço. Eu
estava no térreo esperando o elevador após tê-lo acompanhado até
o seu carro, quando uma mão forte e brusca se fechou em torno do
meu braço e me fez virar de supetão.
Gelei dos pés à cabeça quando me deparei com Diógenes
bem ali na minha frente, fuzilando-me com sua fisionomia
endurecida e os olhos ferozes.
— Precisamos conversar — disse ele, seco e firme.
Por um longo momento permaneci paralisada, consumida
pelo mais absoluto horror, que fazia meu sangue gelar nas veias.
Repassei mentalmente o momento em que aquele porco arrancou
minhas roupas, dentro do seu carro, em um estacionamento escuro
e quase desfaleci de tanta repulsa e revolta. Pensei seriamente em
sair correndo, fugir da sua abominável presença e reprimir todas as
lembranças para alguma parte obscura de mim, como vinha fazendo
há cinco anos. No entanto, já estava na hora de me impor àquele
imundo, ou ele acabaria se aproveitando de mim novamente.
— O que você quer? — vociferei, puxando meu braço da sua
mão com um safanão.
— Que você fale com Esdras e desfaça a merda que você
fez. Diga a ele que mentiu, que o que aconteceu entre nós na
faculdade foi apenas um namoro rápido.
O ódio mesclou-se ao pavor dentro de mim. Ao contrário do
que ele imaginava, eu não era mais aquela criatura estúpida e
indefesa com quem ele fez o que queria. Agora eu sabia me
defender e o faria.
— Não vou inventar nenhuma mentira! Você me estuprou e
devia dar graças a Deus que ainda não te coloquei na cadeia.
A ruga em sua testa se tornou ainda mais profunda, a fúria
pipocando no brilho dos seus olhos.
— E que provas você tem de que eu te estuprei, sua
vagabunda?! Vai ser a sua palavra contra a minha.
— Eu sei e é exatamente por isso que ainda não procurei a
polícia, mas quanto a Esdras não preciso provar nada. Ele acredita
na minha palavra.
— Você vai desmentir tudo a ele, vai dizer que se enganou.
Corajosamente cruzei os braços na frente do peito.
— Me dá só um motivo pelo qual eu faria isso.
— Porque a sua mentira está destruindo a minha vida. Não é
apenas mais ele que não quer fazer negócio comigo. Não vou deixar
a minha empresa afundar por causa de uma vadia como você.
— Perder a sua empresa é o mínimo que você merece por
todas as mulheres que já violentou, seu estupradorzinho de merda.
Agora vê se some daqui e não aparece mais na minha frente.
Eu ia dando-lhe as costas quando sua garra novamente se
fechou em torno do meu braço e me fez virar.
— Não é assim que funciona. Ou você retira o que disse, ou
eu vou acabar com a sua raça. Vou caçar a sua família e matar um
por um.
Um estremecimento me percorreu. Porém, logo me ocorreu
que ele estava blefando. Um covarde capaz de estuprar mulheres
indefesas, não chegaria ao ponto de matar uma pessoa. O que ele
dizia não passava de ameaças vazias, com as quais eu não me
deixaria intimidar.
— Tenta fazer alguma coisa comigo, ou chegar perto de
algum membro da minha família, que eu vou te mostrar quem é que
vai sair morto dessa história. Você deve conhecer o passado do
meu marido. Não brinque com alguém capaz de se casar com um
assassino! — Puxei meu braço da sua mão com um gesto brusco.
— Agora some da minha frente, seu desgraçado!
Não esperei que ele respondesse. Dito isto, dei-lhe as costas
e saí andando depressa em direção a outro elevador, entrando no
primeiro cuja porta se abriu. Só consegui voltar a respirar
regularmente depois que me refugiei no quarto.
Esperava que, com a minha ameaça, Diógenes não voltasse
a me importunar, pois embora fosse o típico agressor de pessoas
indefesas, mostrei a ele que não era mais aquela panaca de quem
se aproveitou no passado.
Como dei o caso por encerrado, decidi que não valia a pena
estressar Esdras, ou qualquer outra pessoa, com essa história.
Então a guardaria apenas para mim, abstendo-me de contar a
alguém.
Mais cinco dias passaram e por fim meu pai recebeu alta do
hospital. Apesar da insistência do meu marido em tentar me
convencer a convidá-lo para ficar conosco na mansão, onde eu
poderia assisti-lo pessoalmente, decidi levá-lo direto para Ivanhoés,
por acreditar que em seu habitat natural ele se recuperaria mais
rapidamente. Aceitei apenas a enfermeira que meu marido se
disponibilizou a contratar para cuidar dele diariamente.
Não havia mais como adiar o encontro entre meu pai e
Esdras, já que voltamos para casa de helicóptero, devido a rapidez
e praticidade e Esdras era quem estava pilotando. Então, por fim
contei ao meu velho que havia me casado e a reação dele não foi
tão surpresa quanto eu esperava. A impressão que tive foi de que
ele já estava psicologicamente preparado para uma notícia daquela.
Não demonstrou hostilidade a Esdras, mas também não foi
amistoso com ele. Os dois apenas se trataram friamente e
mantiveram uma certa distância imposta pela impessoalidade,
conversando somente o necessário.
Ao aterrissarmos no heliponto do iate de Esdras, em
Ivanhoés, fiquei arrasada ao ver a completa devastação no terreno
em que o resort seria construído. Era uma área imensa, sobre a
qual já não existia nenhuma árvore, ou arbusto, mas apenas o
deserto desolador, com as máquinas modernas e gigantescas
trabalhando sobre ele, uma destruição que me fez sentir
diretamente culpada. E o pior era que aquilo era só o começo.
Nossa cidade nunca mais seria a mesma depois que os turistas
começassem a circular por aqui e a culpa de cada transtorno
provocado por essa gente seria toda minha. Algo pelo que eu jamais
me perdoaria.
Em casa, toda a família nos esperava, com uma bela
recepção, na qual havia balões, comidas e até uma faixa de boas-
vindas. As minhas tias mais velhas também estavam presentes e,
embora eu estivesse usando minhas roupas antigas, me olharam de
rabo de olho, com condenação e não esconderam o desprezo pelo
homem com quem me casei. Nada que eu já não esperasse.
CAPÍTULO 18
Ayla

Fiquei feliz ao ver tantas pessoas ao redor de papai, dando-


lhe atenção e carinho mesmo depois que ele já estava
confortavelmente instalado em seu quarto, onde os móveis haviam
sido trocados e adaptados a mando do meu marido.
Quem não gostou muito de toda aquela reunião de família foi
Esdras, que logo deu um jeito de sair de fininho e voltar para os
seus negócios na cidade, prometendo enviar o helicóptero para me
apanhar quando eu estivesse pronta para retornar ao nosso lar.
Passei mais três dias em Ivanhoés, providenciando para que
nada faltasse a papai e a Aysha, me certificando de que as duas
enfermeiras que se revezariam nos cuidados com ele eram
realmente competentes.
Depois desses dias não foi apenas a obrigação de cumprir a
minha parte do acordo, fingindo ser esposa de Esdras, que me fez
voltar para a capital, mas também a saudade absurda dele, que
começava a pesar em meu peito, de forma completamente
inesperada.
Voltei no helicóptero conduzido pelo piloto, chegando à
mansão no final da tarde, ansiosa por reencontrar meu marido e
fiquei desapontada quando ele enviou uma mensagem avisando
que surgira um imprevisto e precisaria ficar no trabalho até um
pouco mais tarde.
Embora os empregados, e até Breno – que parecia ter se
mudado para cá definitivamente –, tenham se reunido na entrada da
moradia para me receber com cordialidade, foi uma experiência
meio desoladora estar naquela casa tão grande, sem Esdras e sem
a obrigação de ir para o hospital ficar com meu pai.
Como Breno estava tomando banho de piscina junto com
alguns amigos, me senti completamente sozinha e apenas naquele
momento me atentei para o fato de que mesmo depois de tanto
tempo morando naquela casa, eu ainda não conhecia todos os seus
cômodos. Então, após fazer um lanche rápido, tomar um banho e
vestir um dos vestidos novos – um modelo acinturado de saia
rodada –, decidi fazer uma excursão pela mansão.
Comecei pelo jardim dos fundos, onde Breno se reunia com
os três adolescentes que vieram da sua cidade para vê-lo. Fiquei
deslumbrada com a suntuosidade de tudo, da piscina enorme com
bordas infinitas, dando vista para uma área de gramado verde vivo,
repleta de coqueiros e um pomar mais adiante.
Voltando para o interior da casa, descobri uma imensa
biblioteca, rodeada por prateleiras enormes, abarrotadas de livros
de diferentes épocas e gêneros. Peguei um exemplar de Inferno, de
Dan Brown, e me acomodei em uma poltrona confortável, em frente
à janela que dava vista para o jardim. Li alguns capítulos e acabei
pegando no sono ali mesmo sentada.
Acordei com a sensação de que estava sendo observada. Ao
abrir os meus olhos, meu peito se encheu de um misto de calor e
euforia, tão intenso que fez meu coração disparar como um louco no
peito. Esdras estava em pé, parado próximo a uma estante,
displicentemente recostado nela, com os braços cruzados na frente
do peito, observando-me fixamente, com um risinho expresso em
seu olhar.
Notei que havia algo diferente nele, mas não consegui
distinguir exatamente do que se tratava. Minha vontade foi de correr
até ele, me atirar em seus braços e dizer-lhe o quanto sentira a sua
falta. No entanto, me contive, limitando-me a apenas dar-lhe um
sorriso.
— Olá, estranho — falei.
O sorriso dele se ampliou, alcançando os seus lábios,
esticando-os.
— Você fica linda quando dorme — disse, de forma sedutora,
aproximando-se de mim.
Quando chegou bem perto percebi que realmente estava
diferente, com a pele mais bronzeada, o olhar menos severo, mais
jovial, sem aquela frieza de quase sempre.
Segurou-me pela mão e puxou-me para cima, fazendo com
que meu corpo se chocasse contra o seu. No instante seguinte,
seus braços estavam em torno da minha cintura e sua boca buscava
a minha, seus lábios pressionando os meus, a língua me invadindo.
Passei os braços em volta do seu pescoço e correspondi ao
beijo voluptuoso, esperando pelo fogo do desejo que me acometia
todas as vezes em que ele me tocava e beijava. No entanto, nada
aconteceu. Meu corpo parecia entorpecido, congelado, sem esboçar
qualquer reação, como se fosse um estranho que me beijava e
tocava. Mas como isso era possível?
Afastei todos os pensamentos e me agarrei mais a ele,
fundindo meu corpo ao seu, permitindo que sua língua explorasse a
minha boca avidamente, tentando sentir alguma coisa, mas
estranhamente vazia. Era como beijar um desconhecido.
Talvez a paixão que explodia em meu peito cada vez que ele
me tocava tenha se dirimido durante os dias distante. Mas como
isso era possível, se não parei de pensar nele um só minuto durante
esse tempo? Devia existir alguma explicação para esse fenômeno,
eu só precisava raciocinar com clareza.
Foi então que os pensamentos clarearam em minha mente.
Aquele homem nos braços de quem eu me encontrava não era
Esdras, era Leander, seu irmão. O jeito como me tocava e beijava
não era o mesmo; sua aparência, embora quase Idêntica, estava
ligeiramente mudada; o temporal de sensações que me invadiam
quando ele se aproximava não davam sinal de vida. Essa era a
única explicação: aquele homem não era Esdras.
Sem nenhuma dúvida da minha constatação, desviei meu
rosto para um lado, ao mesmo tempo que pressionava meus punhos
cerrados em seu peito, fazendo com que ele se afastasse.
— Me solta agora mesmo! — exigi e só então ele afastou-se
alguns passos, fitando-me com aquele risinho cínico.
— O que foi, gata? Arranjou outro homem enquanto estava
fora?
A raiva pipocou feroz em minhas veias. Como ele se atrevia a
fingir ser o irmão, na tentativa de se aproveitar de mim? Não
passava de um canalha!
— Não insulte a minha inteligência. Você não é Esdras. É
Leander.
A mais clara expressão de surpresa atravessou o brilho do
seu olhar.
— Uau! Estou impressionado! Nós ficamos com as mesmas
mulheres desde a adolescência e nunca nenhuma delas tinha
percebido a diferença. Você foi a primeira.
Furiosa com a sua insolência e por ele não se dar ao trabalho
sequer de se desculpar, limpei a boca com o dorso da minha mão,
sem fazer questão de esconder o meu nojo.
— Como se atreve a me beijar?
— Não leve a mal. Você estava linda como um anjo ali
dormindo. Fui incapaz de resistir.
— Vou encarar isso como um pedido de desculpas.
— Não encare. Não estou me desculpando, pois não me
arrependo do que fiz.
— Você é muito folgado!
— É o que as pessoas costumam dizer.
Ele continuava sustentando aquele risinho cínico e irritante.
— O que você está fazendo aqui? Quando chegou?
— Cheguei faz algumas horas. Vim por você. — Uma
expressão sombria atravessou o seu olhar. — Mal pude acreditar
quando me disseram que meu irmãozinho havia se casado. Quis
conhecer a mulher que conseguiu essa incrível façanha.
— Não foi uma façanha tão incrível. Seu irmão é um homem
maravilhoso. Fácil de se apaixonar.
Desta vez, a expressão dele se fechou, tornando-se quase
assustadora. Sua fisionomia endureceu, como se uma nuvem negra
se instalasse em seus pensamentos.
— É o que as mulheres costumam dizer sobre ele. Pelo
menos, as que conseguiram escapar com vida.
Processei suas palavras e um estremecimento me varreu de
cima a baixo. Ele estava insinuando que Esdras assassinara mais
de uma mulher.
Por Deus! Será que era verdade?
Leander continuava sustentando aquele risinho cínico e
irritante, enquanto me examinava dos pés à cabeça, de um jeito
safado, quase ofensivo, como se me despisse com o seu olhar, o
que me deixou bastante desconfortável.
Como se o gesto fosse capaz de me proteger da sua
inconveniente ousadia, cruzei os braços na frente do peito.
— Esdras deve estar chegando em casa — falei.
— Como eu disse, não vim por ele. Vim para conhecer a
mulher por quem ele se apaixonou a ponto de se casar. — Seu tom
de voz era de ameaça, o que me fez recuar um passo, meus
instintos mais primitivos alertavam-me de um perigo que eu não
compreendia.
— Pois é, nós estamos muito apaixonados — menti, em uma
tentativa de afastá-lo.
— Você parecia mesmo apaixonada enquanto me beijava
pensando que era ele, tanto que quero experimentar de novo.
Sem que nada tivesse me preparado para a sua atitude, ele
eliminou a distância que nos separava, passou um braço em torno
da minha cintura e segurou firmemente a minha nuca com a outra
mão. Inclinou o pescoço e pressionou seus lábios sobre os meus,
enquanto eu era invadida por um misto de incredulidade,
perplexidade e medo. Fiquei paralisada por um instante, durante o
qual Leander se atreveu a introduzir sua língua na minha boca,
movendo-a dentro de mim, exigindo que eu correspondesse.
Quando por fim despertei daquele estado de torpor
atordoante, cravei meus dentes no seu lábio inferior e fiz pressão
até sentir o líquido quente escorrendo para a minha boca, o que fez
com que ele me soltasse e se afastasse com um sobressalto.
— Aaaaai! Por acaso, você é louca?! — grunhiu ele, levando
os dedos ao ferimento em sua boca, observando o pequeno fio de
sangue que jorrava dali.
— Eu não te dei a permissão de me beijar, seu folgado!
— Eu não preciso de permissão para pegar as mulheres do
meu irmão. O que é dele é meu!
Eu não podia acreditar que realmente estava ouvindo aquilo!
De qual planeta aquele cara tinha saído? Provavelmente de algum
no qual a população ainda vivia como na Idade da Pedra.
— Mas não comigo! Não se atreva a me tocar novamente!
Um brilho furioso mesclou-se ao cinismo em seu olhar e tive
quase certeza de que ele me atacaria e me puniria por tê-lo
mordido. Instintivamente, medi a distância entre mim e a porta,
tentando prever se conseguiria alcançá-la a tempo de escapar. No
entanto, não precisei fugir correndo em disparada como pretendia.
Antes que tivesse tempo de me mover, a porta se abriu e o
verdadeiro Esdras entrou.
Sua fisionomia se contorceu em uma fúria descomunal
quando seus olhos se detiveram sobre o irmão e o que aconteceu
em seguida foi completamente chocante e inesperado.
Como se estivesse possuído, Esdras praticamente voou até
Leander, atacando-o com uma selvageria assustadoramente
agressiva. Segurou-o pelo colarinho da camisa e o empurrou com
violência até uma parede, chocando suas costas contra o concreto,
mantendo-o firme e paralisado ali, sem que Leander reagisse.
— O que você está fazendo na minha casa, seu
desgraçado?! Vá embora daqui agora mesmo, antes que eu te bote
para fora aos chutes! — vociferou Esdras, com tamanha
agressividade que fiquei atordoada, sem ao menos saber o que
pensar.
Quem deveria ter ódio ali era Leander, a quem ele tentou
incriminar pelo assassinato daquela garota, há quinze anos.
— Calma aí, irmão. Pra quê todo esse estresse? Só vim
conhecer a mulher que finalmente conseguiu conquistar seu
coração — Leander falava com aquele jeito cínico, mas que parecia
conter algo maligno implícito.
— Fica longe dela! Não se atreva a tocar em um só fio de
cabelo de Ayla!
— Era tudo o que eu queria ver um dia: meu irmãozinho
apaixonado a ponto de perder o controle por causa de uma mulher.
— O tom de voz de Leander continuava contendo aquele cinismo
macabro e maligno.
— Eu vou te matar, seu maldito! — gritou Esdras.
Relembrei a forma agressiva como ele tratou Diógenes, na
ocasião em que lhe contei que havia me violentado; visualizei
mentalmente sua agressividade animalesca quando treinava com o
saco de pancadas na academia; repassei, em minha cabeça, suas
ações do passado, o fato de ter assassinado uma garota inocente e
não tive dúvidas de que, se eu não fizesse nada, ele acabaria
matando o irmão bem ali na minha frente. Então, seguindo a um
impulso, corri até eles e me enfiei entre os dois, tentando afastá-los,
evitar uma tragédia.
Eu não compreendia os motivos pelos quais Esdras odiava o
irmão com tamanha ferocidade, no entanto entendia que ele jamais
se perdoaria se o matasse.
— Parem com isso! Já chega de tanta briga! Vocês dois são
irmãos! — esbravejei, enquanto me espremia entre os dois homens
de aparência idêntica.
Esdras ainda chegou a puxar o cotovelo para trás, com seu
punho cerrado, mirando diretamente a face de Leander. Contudo, no
último instante pareceu se dar conta de que não conseguiria acertá-
lo sem me atingir. Então, por fim, afastou-se, com a fúria bestial
expressa em cada traço do seu semblante.
— Vá embora daqui antes que eu te mate — disse Esdras,
claramente se forçando a comedir sua ira.
— Para com tanto ódio, meu irmão. Não nos vemos há tanto
tempo. Vamos tentar nos dar bem, até porque já fiquei sabendo
pelos empregados que meu filho está aqui e quero vê-lo. Vamos agir
como a família que somos. — O tom de voz de Leander era calmo,
não condizente com a situação, porém sempre com aquele tom de
cinismo que o tornava misteriosamente macabro.
Em silêncio, Esdras fitou-o diretamente no rosto, com seus
olhos azuis arregalados do que me parecia o mais profundo pavor.
— Ele está certo, Esdras — interferi mais uma vez. — Eu não
sei exatamente o que aconteceu entre vocês, não entendo por que
tanto ódio, mas sei que, quando se trata de família, devemos
sempre perdoar e tentar manter a harmonia, pois a família é o bem
mais precioso que temos.
— É isso aí, irmão. Pelo visto, você se casou com uma
mulher cheia de sabedoria. Ouça o que ela está dizendo. A família é
o bem mais precioso que temos. — Havia sarcasmo no tom de voz
de Leander.
A impressão que eu tinha era de que tudo o que ele dizia
tinha um sentido dúbio, sendo que o sentido implícito parecia soar
como uma ameaça.
— Não somos casados de verdade — disse Esdras,
assumindo uma postura sombria, a frieza assustadora, que eu bem
conhecia, se refletindo em seu olhar, enquanto continuava fitando
diretamente o irmão. — O que existe entre nós é apenas um acordo,
um negócio para que eu consiga autorização da prefeitura da cidade
onde ela mora para construir um resort lá perto. A verdade é que
Ayla nada significa para mim.
Engoli em seco, suas palavras machucavam-me como se
alguém cravasse um punhal em meu peito e o retorcesse. Por mais
que aquela fosse a verdade, doía ouvi-lo dizendo que eu nada
significava para ele. Acho que, no fundo, eu esperava que ele
sentisse por mim a mesma paixão que explodia em meu peito cada
vez que eu o olhava. Não queria ser apenas um negócio, como ele
colocava.
— Fala para ele, Ayla. Diga o que somos um para o outro —
acrescentou Esdras, com uma frieza cortante na voz.
— É isso mesmo. Nós não somos casados de verdade.
Estamos unidos devido a um acordo — falei, sem conseguir evitar a
amargura que tomou conta de mim.
Leander abriu um sorriso largo e cínico.
— Então você não é tão santinha quanto me disseram, pois
acabou de mentir dizendo que estava apaixonada pelo meu irmão.
Esdras fitou-me surpreso e desviei os olhos para o chão,
envergonhada.
— Mas agora você já sabe a verdade. Não existe
relacionamento afetivo nenhum aqui. Se não tem mais nada para
fazer na minha casa, pode se retirar — disse Esdras, frio e seco.
— Como assim, não tenho mais nada para fazer na sua
casa? Meu filho está aqui. Passarei uns dias com ele. Como Ayla
falou, a família em primeiro lugar. Além disso, temos muitos
assuntos inacabados, não é, irmãozinho? Mas não se preocupe,
não vou incomodar. Vou fazer com que minha presença mal seja
notada.
Dito isto Leander acenou com a cabeça em minha direção,
em cumprimento, e deixou a biblioteca, enquanto Esdras sentava-se
devagar em uma poltrona, com seu rosto pálido, os olhos virados
nas órbitas, o semblante carregado de um misto de pavor e
angústia.
— Pelo menos, Breno vai ficar exultante com a chegada dele
— expressei o pensamento em voz alta.
Como se o som da minha voz o despertasse de uma espécie
de torpor, Esdras levantou-se depressa e veio até mim, pisando
rápido e firme, seus olhos fuzilando-me com aflição.
— Você precisa ficar longe desse cara! — falou, segurando-
me pelos dois braços, apertando forte a ponto de quase me
machucar.
— Por quê?
— O motivo não importa. Apenas me prometa que não vai
deixá-lo chegar perto de você, ou ficar sozinha com ele. Prometa!
Esdras estava me escondendo alguma coisa e o fato de não
confiar em mim conseguiu despertar a minha irritação.
— Mas é claro que o motivo importa! — disparei, puxando
meus braços das suas mãos. — Pela forma como você fala, parece
que a minha segurança está em risco. É isso mesmo? Mas por quê?
Até onde eu sei o assassino aqui é você, enquanto Leander não
passa de uma vítima. Ou tem mais alguma coisa nessa história que
eu não esteja sabendo?
— Por favor, Ayla. Apenas confie em mim e não chegue perto
dele.
Havia gravidade no tom das suas palavras e na mesma hora
compreendi que Leander era uma ameaça para mim. Mas por quê?
O que diabos ele estava me escondendo?
— Não dá para confiar em você se não confia em mim. Se
existe algo que faça com que Leander queira me fazer mal, eu
preciso saber.
— Apenas fique longe dele.
Sua recusa em me falar o que estava acontecendo atiçou
ainda mais a irritação em meu íntimo. Se eu continuasse ali
acabaríamos brigando, então apenas dei-lhe as costas, resignada e
deixei a biblioteca, pisando firme, batendo a porta com força.
CAPÍTULO 19
Leander

Observei Ayla deixando a biblioteca com passos firmes e


irritados. Sozinho, voltei a sentar-me na poltrona, pois praticamente
já não conseguia me sustentar sobre as minhas pernas trêmulas,
tamanho era o choque que tomava conta de mim.
Quando meu irmão me prometeu que destruiria qualquer
mulher por quem eu me apaixonasse, eu não acreditei em sua
ameaça e, como resultado, Penélope perdera a sua vida naquele
maldito acidente de carro, há tantos anos. Embora a polícia jamais
tenha conseguido provar que ela fora assassinada, eu nunca
descartei a possibilidade de que Esdras a matara. Sua natureza era
sombria, atribuía-lhe uma capacidade insana de tirar a vida das
pessoas. Esdras era uma máquina mortífera, um assassino frio e
sem coração e, apesar de saber disso, mais uma vez eu o tinha
subestimado, me envolvendo com Ayla colocando a vida dela em
risco.
Por Deus! Como pude ter sido tão descuidado, permitindo
que todos soubessem que eu havia me casado? Era para eu ter
mantido esse assunto em segredo, para que nunca chegasse ao
conhecimento daquele monstro. Era para eu ter mantido Ayla
distante da minha cama, mas falhei em ambos os deveres e agora a
vida dela estava em perigo. Por causa da minha fraqueza.
Atordoado, com minha mente torturada pelos pensamentos,
levantei-me e segui com passos cambaleantes pela casa. Precisava
falar com meu irmão, me certificar dos motivos pelos quais ele
estava aqui. Por mais que já conhecesse tais motivos, eu precisava
ouvir da boca dele, ter certeza do que pretendia fazer e tomar as
providências cabíveis para detê-lo. Se é que isso seria possível.
Atravessei toda a casa sem enxergar o caminho à minha
frente. Seguindo o som de vozes, fui parar no jardim dos fundos e
fiquei paralisado perto da porta, tomado pelo mais absoluto horror,
ao ver meu irmão junto ao meu filho, perto da piscina, conversando
muito próximos.
A angústia avassaladora, que eu já conhecia bem, subiu
pelas minhas entranhas, paralisando-me, tornando-me impotente.
Um saco vazio sem atitude e reação.
Considerando que Breno acreditava que “Esdras” era seu pai,
jamais tomaria a iniciativa de se proteger dele. Estaria mais exposto
à sua desumanidade do que nunca.
Com minhas pernas entorpecidas pelo horror, forcei-me a
caminhar para a frente, aproximando-me de onde eles estavam. Se
de uma coisa eu tinha certeza era de que Esdras novamente usaria
o meu filho para me atingir, como fizera no passado; e, por mais que
eu não tivesse um relacionamento estreito com garoto, ele era
sangue do meu sangue. Eu o protegeria da crueldade do meu
irmão, nem que fosse com a minha própria vida, como foi há quinze
anos.
— Podemos conversar em particular? — falei, reprimindo o
temporal que me consumia, me forçando a manter a calma.
— Tem mesmo que ser agora? Faz tanto tempo que não vejo
meu filho, que está difícil de matar a saudade — disse Esdras,
passando um braço sobre os ombros do garoto e me fitando com
aquela expressão de cinismo.
Respirei profundamente, evitando perder a calma e afogá-lo
bem ali na piscina, na frente dos três adolescentes.
— Não é maneiro que ele tenha vindo, tio? — disse Breno,
com toda a sua inocência.
Durante todos aqueles anos, eu o mantive afastado da minha
vida, com o intuito de protegê-lo daquele sádico. No entanto, agora
meu sacrifício parecia cair por terra.
— Tem que ser agora. O assunto é urgente — falei, com os
dentes trincados.
— Tudo bem então. Depois eu volto para me divertir um
pouco mais com a garotada.
— Daqui a pouco, nós vamos a um barzinho muito legal. Tá a
fim de ir com a gente, pai?
Senti uma pontada no peito ao ouvi-lo chamando Esdras de
pai. Um privilégio que nunca tive.
— Com certeza vou querer ir. Espera só eu me resolver aqui
com seu tio.
Deixamos a área da piscina e rumamos para o interior da
residência, eu caminhando na frente, meu irmão logo atrás. Ao
entrarmos no escritório, tranquei a porta pelo lado de dentro, a fim
de me certificar de que ninguém entraria e nos ouviria.
— Achei que tivéssemos um acordo de que você ficaria bem
longe do meu filho — falei, ainda me forçando a reprimir o impulso
de socá-lo na cara até que ele perdesse a vida.
Despreocupadamente, Esdras espalhou-se sobre um dos
sofás.
— E o acordo está mantido. Eu não vou tocar em um só fio
de cabelo do seu filho. Quanto a isso você pode ficar tranquilo. Mas
como você bem sabe, nós temos um segundo acordo.
Ele me encarou fixamente, de baixo, com a cabeça
ligeiramente inclinada e quase pude ver a morte atravessando a
expressão dos seus olhos bizarros.
— Como eu disse, não existe nada entre mim e Ayla. Esse
casamento não passa de um negócio.
— E você espera que eu acredite nisso?
— Posso te provar. Tenho toda a documentação assinada.
Fui até minha mesa e remexi na gaveta onde se encontrava o
contrato de casamento com Ayla, enquanto Esdras ia até o frigobar
e se servia de uma dose de uísque.
— Aqui está, pode verificar — falei, jogando o documento
sobre a mesa diante dele.
Esdras pegou a papelada e passou a examinar o seu
conteúdo, enquanto ingeria aos poucos os goles da sua bebida.
Minutos depois, voltou a atirar o papel sobre o tampo de madeira.
— Isso não me diz muita coisa. Pode ter sido um acordo no
início, mas, pelo que eu fiquei sabendo, vocês estão juntos. Se você
está dormindo na mesma cama que ela é porque sente alguma
coisa.
— Como diabos você sabe sobre a minha vida particular?! —
vociferei, quase incapaz de conter a cólera que me assombrava.
— Você bem sabe que, quando se tem dinheiro, tudo é
possível, inclusive acompanhar o cotidiano de alguém que mora do
outro lado do planeta.
Maldição! Depois de Ayla aparecer naquele maldito jantar, eu
já imaginava que essa história de casamento chegaria ao
conhecimento de Esdras. Mas não era só isso. Ele sabia demais.
Algum funcionário de dentro de casa estava passando-lhe
informações e eu pretendia descobrir de quem se tratava.
— Não se trata de um relacionamento. O que acontece entre
mim e ela é apenas sexo casual.
— Nem perca seu tempo tentando me convencer. A forma
como ela me beijou quando achou que eu era você foi de uma
mulher apaixonada.
A raiva pipocou feroz em minhas veias. Saí de trás da mesa e
avancei para cima dele, conseguindo me conter a apenas um passo
de distância. Se eu colocasse as mãos naquele desgraçado,
dificilmente um de nós sairia vivo.
— Não permitirei que você faça mal a ela! — cuspi,
entredentes.
Por fim a máscara de cinismo caiu do seu rosto e a fúria
habitual se revelou em sua fisionomia contorcida.
— Eu também não permiti que você fizesse mal a Rebeca e
onde ela está agora?! Me fala, Leander!
— Foi você quem a matou, seu doente mental!
— Matei por sua causa e vou matar qualquer uma de quem
você se aproximar. Você tirou o meu direito de ser feliz. Farei o
mesmo por você.
Há vários anos ele recitou-me aquelas mesmas palavras. No
entanto, acreditei que se tratava de uma ameaça vazia. Até a morte
de Penélope.
— O acidente de carro no qual Penélope morreu, foi você,
não foi?
Ele ingeriu um grande gole do uísque, enquanto a máscara
de cinismo voltava a cobrir seu semblante mortífero.
— Você sabia que iria acontecer. Se envolveu com ela
porque quis.
Era a primeira vez que ele admitia seu feito assim em voz
alta.
Por Deus! Era ainda mais maligno do que se podia imaginar.
— Se você não sair da minha casa agora mesmo vou te
entregar para polícia! — falei, com o ódio cego incendiando minhas
veias, tornando-me quase irracional.
— Entrega, Leander. Você é quem sabe quais são as suas
prioridades. Só não se esqueça do que aconteceu da última vez em
que você fez isso. Repita o erro e as consequências serão ainda
piores. Isso eu te garanto.
Dito isto, o demônio em forma de gente deixou o copo vazio
sobre a mesa e dirigiu-se para a porta, saindo do escritório com
passos mansos e lentos.
Com meu peito apertado em um misto de angústia e aflição,
os pensamentos fazendo minha mente girar e fervilhar, deixei-me
cair sobre a cadeira atrás da mesa e fechei os meus olhos,
sentindo-me exausto, como se tivesse acabado de enfrentar uma
batalha.
Em minhas lembranças, pude reviver claramente cada
batalha enfrentada com Esdras no passado, desde que ele
assassinara aquela garota na faculdade. Após tentar me culpar pelo
seu crime e fracassar, ele chegou a ser preso. Passou apenas um
mês na cadeia, tempo suficiente para que conseguisse contratar
uma quadrilha de bandidos, que sequestrou meu filho, com pouco
mais de dois anos na época, mantendo-o em cativeiro durante
vários dias, ameaçando matá-lo caso eu não assumisse o
assassinato de Eve e me entregasse à polícia. Aquele foi apenas o
início de um pesadelo, que roubou cinco anos da minha vida. Anos
passados em uma penitenciária, pagando por um crime que não
cometi.
A verdade era que não havia como confrontar meu irmão. Ele
era perverso, desumano e sempre conseguia o que queria. Foi
loucura da minha parte ter me casado com Ayla. Agora ela estava
na lista de vítimas dele e a culpa era toda minha.
Com minha mente torturada pelos pensamentos, tirei o
paletó, afrouxei o nó da gravata e enchi um copo com uísque puro e
sem gelo, ingerindo quase todo o líquido com um só gole, como se o
álcool fosse capaz de entorpecer a agonia que tomava conta de
mim.
Eu precisava dar um jeito de proteger Ayla e o meu filho da
monstruosidade de Esdras. Não podia permitir que fizesse mal a
nenhum dos dois. Talvez já estivesse passando da hora de acabar
com as ações do meu irmão, mas como eu faria isso sem prejudicar
ainda mais pessoas? Por experiência própria, eu sabia que cada
passo que desse contra ele, alguém se machucaria com a sua
reação.
Eu havia perdido a noção de quanto tempo estava no
escritório, imerso em pensamentos, torturado pela impotência diante
de uma ameaça tão próxima, quando houve uma batida na porta e
logo em seguida Ayla entrou. Quase parei de respirar quando os
meus olhos se encheram com a sua imagem. Ela parecia um anjo
carregado de pureza e inocência, dentro da camisola de seda
branca e longa, cujo tecido revelava cada curva do seu corpo lindo.
Uma beleza singela, natural, acentuada pelos cabelos negros e
ondulados caindo-lhe sobre os ombros, emoldurando o rosto
inocente, com traços delicados e marcados por aquele furinho
irresistível no queixo.
Seguido ao deslumbramento, veio um aperto forte em meu
peito, acarretado pelo perigo que ela corria, circulando sozinha pela
casa àquela hora da noite, com aquele louco solto por aí.
Por Deus! Onde eu estava com a cabeça para ainda não ter
tomado providências para protegê-la?
— É você mesmo, Esdras? — indagou ela, ao aproximar-se
de mim hesitante, fitando-me com desconfiança, alternando seu
olhar entre o meu rosto e a garrafa de uísque quase vazia sobre a
mesa.
Eu nem podia culpá-la por não conseguir me distinguir do
meu irmão. Éramos tão idênticos que desde crianças as pessoas
nos confundiam.
— Sim. Sou eu.
Ela continuou encarando-me desconfiada. Então, gesticulei
para que contornasse a mesa e, quando chegou perto suficiente,
segurei em sua mão e a puxei para mim, fazendo com que caísse
sentada em meu colo. Levei meus lábios aos seus e a beijei
suavemente, com os olhos cerrados. Quando abri os meus olhos,
fiquei emocionado ao ver o sorriso amplo se formando em sua boca,
ao mesmo tempo em que ela passava os braços em volta do meu
pescoço, deixando claro que podia me reconhecer pelo toque.
— Desculpe te confundir, mas vocês são iguais — disse Ayla.
— Não há o que desculpar. Desde que me entendo por
gente, as pessoas confundem nós dois. É normal. Pelo menos, você
reconhece o meu toque. Isso significa muito.
E era verdade. Todos os problemas existentes entre mim e
meu irmão foram gerados devido ao fato de as mulheres com quem
nos relacionávamos não serem capazes de nos conhecer.
Mas Ayla era diferente, era sensível a ponto de perceber.
Aliás, ela se diferia de todas as outras mulheres que já passaram
pela minha vida, em todos os aspectos possíveis. Com ela, cada
momento era especial, a vida parecia mais leve, parecia fazer mais
sentido. No fim das contas, aquela mulher tinha sido a melhor coisa
que já aconteceu na minha vida nos últimos quinze anos. Eu amava
estar com ela. Amava a sua sinceridade, a transparência com que
revelava cada emoção que sentia. Amava o jeito como me beijava e
fazia amor comigo.
— Está se sentindo mais calmo? — indagou, ajeitando-se
sobre meu colo. O movimento da sua bunda fez todo o sangue do
meu corpo se concentrar no meu pau, deixando-o duro como uma
pedra.
— Sim. Um pouco. E você, o que faz acordada a essa hora?
— falei, com a minha respiração ofegante pelo desejo tórrido que
corria em minhas veias.
— Não consegui dormir. Aquela cama fica grande demais
sem você.
Ayla mordeu seu lábio inferior, ao mesmo tempo em que
rebolava a bunda discretamente sobre a minha ereção, sem desviar
seus olhos carregados de luxúria dos meus.
Apesar de toda a sua pureza e inocência, ela se tornava a
mais safada das mulheres quando a luxúria a golpeava. E esse era
só mais um traço seu que eu amava.
Amava tanto, que todos os tormentos que me assolavam
sucumbiram à paixão visceral que explodia em meu peito e,
esquecendo-me de tudo mais, segurei-a firmemente pela nuca,
guiando sua boca até a minha, beijando-a quase com veneração,
me dando conta do quanto sentira falta do seu gosto e do seu calor
durante todos aqueles dias distante.
Tê-la em meus braços me fazia sentir vivo de novo, pela
primeira vez depois de muito tempo.
Sem separar minha boca da sua, girei a cadeira de rodinhas
para um lado e estiquei as pernas para a frente, dando espaço para
que Ayla montasse em meu colo e ela o fez, pondo uma perna de
cada lado, acomodando minha ereção bem no centro entre suas
coxas e rebolando os quadris para esfregar seu sexo no meu
através do tecido das roupas, o que quase me levou à loucura.
Enquanto ela enfiava seus dedos delicados nos meus
cabelos, na altura da minha nuca, e fazia pressão para intensificar o
beijo, eu deslizava as palmas das minhas mãos sobre sua pele
morena e macia, começando pelos ombros, passando pelos seus
braços, levando junto as alças da camisola, desnudando os seios
fartos e durinhos. Massageei os mamilos entre meus dedos, no
mesmo ritmo em que movia a minha língua dentro da sua boca, até
deixá-los bem duros, esticados e fui recompensado com um gemido
que partiu da sua boca e morreu na minha.
Desci um pouco mais as mãos e as infiltrei sob a saia da
camisola, deslizando-as sobre as coxas firmes e lisas, tocando a
ponta dos polegares no fundo da sua calcinha, fazendo uma suave
pressão, satisfeito com a forma como seu corpo tremia e vibrava em
reação.
Invadi sua calcinha com meu dedo indicador, deslizando-o
suavemente entre o tecido delicado de renda e a bocetinha quente,
percorrendo toda a sua extensão, alisando o grelinho minúsculo que
saltava entre os lábios carnudos e depilados, quase indo ao delírio
quando constatei o quanto estava molhada, toda lambuzada, pronta
para receber o meu pau.
— Delícia... como senti sua falta todos esses dias… quase fui
até Ivanhoés roubar você daquela gente… — sussurrei na sua boca.
Prendi seu lábio inferior entre os meus e suguei forte, ao
mesmo tempo em que levava as mãos para a sua bunda e apertava
as suas nádegas durinhas.
— Eu também senti tanto sua falta... não consegui parar de
pensar em você um minuto sequer... — disse Ayla, gemendo
dengosa.
Afastei mais minhas pernas, consequentemente fazendo com
que ela abrisse as suas e voltei a infiltrar meus dedos no fundo da
sua calcinha, alisando a boceta, melada, massageando o clitóris
com o polegar e afundando o dedo do meio e o indicador no seu
canal apertado, movendo-os em um lânguido vai e vem, no mesmo
ritmo em que esfregava minha língua na sua, lascivamente,
dominado pelo mais delirante tesão.
Quando a vontade de enfiar o meu pau naquele buraquinho
macio e molhado se tornou insuportável, levantei-me com ela
agarrada a mim e a carreguei pelo escritório. Apenas por precaução,
fui até a porta e a tranquei pelo lado de dentro. Depois, nos
aproximei do sofá e deitei-a sobre o estofado macio, seus quadris
apoiados sobre o braço do móvel, o corpo esticado sobre o assento.
Inclinando-me, tirei a calcinha minúscula pelos seus pés e levantei
mais a saia da camisola, deixando a peça de seda enroscada em
sua cintura. Enfiei as mãos entre sua bunda e o braço do sofá e
levantei seus quadris, banqueteando-me da sua intimidade quente e
molhada, mergulhando minha língua entre os lábios vaginais e
percorrendo toda a sua extensão, enquanto Ayla gemia extasiada,
arqueando as costas sobre o estofado lançando sua cabeça para
trás, abrindo ainda mais as pernas para mim.
Que delícia! Como fui capaz de viver meus trinta e quatro
anos de vida sem aquela mulher?
Dei apenas algumas lambidas na sua boceta. Sem mais
autocontrole para conseguir esperar, arranquei minhas roupas
apressado, enquanto Ayla se ajeitava sobre o sofá, deitando sobre o
assento largo e se abrindo toda para mim.
Agindo como um animal irracional em pleno cio, acomodei-
me sobre ela, apoiando meu peso sobre os cotovelos e ajeitando
meus quadris entre suas coxas. Foi assim que a penetrei, duro,
firme, brusco, açoitando violentamente sua pélvis com a minha,
quase indo ao delírio ao sentir as paredes encharcadas e
escorregadias do seu canal engolindo meu pau, o recebendo e
acomodando seu tamanho com uma magnífica perfeição.
Puxei os quadris e avancei novamente contra ela, dando
início ao incessante movimento de vai e vem enquanto ela gemia e
choramingava, suas unhas se enterrando nas cicatrizes das minhas
costas, as pernas abraçando os meus quadris.
Não demorou muito estávamos mergulhando no êxtase,
nossos músculos enrijecendo para logo explodirmos juntos,
gozando e convulsionando sobre o sofá, sua vagina apertada
latejando em torno do meu pau, enquanto eu a enchia com meu
esperma.
Quando nossos corpos se acalmaram, os gemidos e
sussurros foram substituídos pelo mais sossegado silêncio,
quebrado apenas pelo som da nossa respiração pesada.
Recusando-me a sair de dentro dela, nos virei de lado no
sofá e Ayla aninhou ainda mais seu corpo frágil ao meu, jogando
uma perna sobre o meu quadril e espremendo os seios durinhos
contra o meu peito suado, enquanto sua mão massageava minha
nuca e seus olhos pesados fitavam os meus. Apenas aquilo foi
suficiente para que eu me mantivesse ereto dentro dela. Então,
passei a me mover num ritmo preguiçoso, deslizando meu pau no
seu gozo e no meu, deliciosamente, enquanto a lascívia tomava
conta de tudo, comandando cada gesto meu.
— Me diz que você está tomando anticoncepcional —
sussurrei, fitando seu rosto minúsculo a centímetros de distância,
fascinado com a expressão faminta e luxuriosa com que ela me
encarava, como se tivesse fome de mim.
Ayla abriu um sorriso largo, que me deixou ainda mais
encantado.
— Estou. Aproveitei para consultar um ginecologista
enquanto estava no hospital com meu pai. Não se preocupe com
uma gravidez indesejada.
Enfeitiçado ajeitei uma mecha de cabelo, que lhe caía sobre
o rosto, atrás da sua orelha.
— Não seria tão indesejada assim. Já imaginou uma
garotinha com essa pele morena e esses cabelos escuros?
— E os seus olhos azuis — completou ela.
— Se tiver os seus traços, será a criatura mais linda dessa
Terra.
— Só se herdar a sua genética, aí será a nova Gisele
Bündchen. Mas não vamos brincar com coisa séria. Não podemos
nem pensar em ter um filho no meio de um casamento que tem data
marcada para acabar.
Do fundo do meu coração veio o desejo de dizer-lhe que esse
casamento não precisaria acabar, que podíamos ficar juntos pelo
resto das nossas vidas, ter filhos e vê-los crescer, pois não havia
nada que eu pudesse querer mais do que tê-la ao meu lado pelo
resto dos meus dias. No entanto, eu não podia fazer-lhe promessas
impensadas, as quais não tinha certeza se poderia cumprir,
principalmente com um perigo tão grande nos rondando. Protegê-la
do meu irmão era a minha prioridade nesse momento.
Antes que os pensamentos voltassem a me atormentar, Ayla
estava segurando em minha nuca e puxando-me para ela. Ao
pressionar seus lábios nos meus, fez com que cada preocupação
sucumbisse à forma lasciva como introduzia sua língua na minha
boca e a esfregava na minha, voluptuosamente, ao mesmo tempo
em que rebolava os quadris, fazendo com que meu pau girasse
dentro da sua vagina.
Porra… Que delícia!
Nos entregamos um ao outro de todas as formas possíveis
sobre aquele sofá, nos amando e saciando até a completa
exaustão, quando então nos aquietamos, com nossos corpos
suados colados no do outro, eu deitado de frente, ela aninhada ao
meu lado, com a cabeça repousada em meu peito, um braço e uma
perna jogados sobre mim.
Apesar de estarmos envolvidos por aquela aura gostosa de
paz e sossego, que sempre vinha nesses momentos, eu não
conseguia dormir, a tensão e a preocupação voltaram a tomar conta
de mim, algo que Ayla logo percebeu.
Intuitiva como era, ela já tinha notado que havia algo de muito
errado com meu irmão, apenas ainda não compreendia como as
coisas se encaixavam, até porque eram absurdas demais para
serem compreendidas.
— Quando você vai me contar o que há entre você e
Leander? — indagou ela calmamente, depois do longo momento de
silêncio e todos os músculos do meu corpo se enrijeceram de
tensão.
— Você não vai sossegar enquanto eu não falar, não é?
— Não mesmo.
Eu poderia enrolar, ou apenas contar uma mentira. Contudo,
era a vida dela que estava diretamente em risco e para que se
mantivesse longe daquele sádico, ela precisava saber da verdade.
Escolhendo cautelosamente as palavras levantei-me, catei
minha calça do chão e a vesti, indo até a mesa e servindo-me do
restante do uísque da garrafa.
— Quer beber alguma coisa? — indaguei, acenando com o
copo de uísque em sua direção, enquanto ela se levantava, vestia
sua calcinha e ajeitava a camisola de volta sobre o corpo. Parecia a
mais encantadora das criaturas, com seus cabelos longos
emaranhados emoldurando o rosto avermelhado devido ao sexo
recente.
— Você sabe que eu não bebo — disse ela.
— Talvez hoje você precise.
Seus olhos castanho-escuros, carregados daquela inocência
que me enfeitiçava, arregalaram-se.
— É tão grave assim o que você tem para me dizer?
— Ainda dá tempo de desistir de ouvir.
— Não. Eu quero saber.
Obstinada, Ayla sentou-se toda tensa no sofá onde
acabáramos de fazer amor.
Dei mais um gole no uísque e sentei-me na poltrona diante
dela. Respirei fundo antes de começar a falar:
— Eu não sou Esdras Agostini, sou Leander. O homem que
você conheceu essa tarde é o verdadeiro Esdras.
Como já era esperado, seu queixo despencou, à medida em
que seus olhos escuros se arregalavam de tanta perplexidade. Por
um instante, ela ficou sem palavras, como se demorasse para
digerir a informação. Então, continuei falando:
— Há quinze anos, quando ele tentou me incriminar pela
morte daquela garota na faculdade e eu consegui provar a minha
inocência, ele chegou a ser preso e condenado. Só que, com um
mês na cadeia, ele fez laços lá dentro com pessoas altamente
perigosas e através dessas pessoas articulou o sequestro do meu
filho, que na época tinha dois anos e meio de idade. — Enquanto
falava, eu observava o rosto de Ayla se tornando cada vez mais
chocado. — A proposta dos sequestradores era que eu assumisse o
crime e me entregasse à polícia, providenciando assim para que
Esdras fosse libertado. Mas eu não queria que o meu filho
crescesse acreditando que o pai dele é um assassino, então fiz uma
contraproposta. — Bebi mais um gole do uísque antes de continuar.
— Eu trocaria de lugar com ele e ficaria na cadeia, enquanto ele
viveria a minha vida aqui fora. Foi a única forma que encontrei de
salvar a vida do meu filho.
— C-Como i-isso é possível? C-Como vocês conseguiram
trocar de lugar na cadeia? — gaguejou Ayla, fuzilando-me com seus
olhos arregalados de espanto.
— Não foi tão difícil. Há muitos policiais corruptos nos
presídios. Bastou que solicitássemos uma visita íntima, então ele
saiu usando as minhas roupas e eu fiquei no lugar dele. Depois
disso, meu filho foi libertado.
— E-E p-por que vocês não trocaram de lugar depois que
você foi solto?
— Porque, depois do assassinato que ele cometeu, meus
pais transferiram todos os bens da família para o meu nome e ele
não quis abrir mão desse dinheiro. Sempre com a ameaça de que
mataria o meu filho se eu abrisse a boca para falar sobre quem
realmente éramos, acabou ficando com a minha identidade,
enquanto eu ficava com a dele. O dinheiro nunca foi importante para
mim, tanto que consegui construir um império semelhante ao dos
meus pais com a herança que meu avô havia me deixado, mas o
garoto precisava ser protegido. Embora eu nunca tenha sido muito
próximo dele, é meu filho. Eu não podia deixá-lo ser morto por
aquele louco.
— Meu pai do céu! Esse homem é um monstro! Como pode
ameaçar a vida do próprio sobrinho? — Ayla estava atônita.
Ingeri mais um gole da bebida fria e rascante, escolhendo
bem as palavras antes de continuar falando.
— Tem mais — anunciei, com um aperto no peito.
— O que é? — indagou ela, ainda mais alarmada ao
perceber a gravidade no tom da minha voz.
— Quando sai da cadeia, cinco anos depois, Esdras estava
apaixonado por uma mulher, de casamento marcado com ela. Eu só
queria ter alguma coisa para usar contra ele e defender o meu filho
quando ele voltasse a ameaçá-lo.
— O que você fez?
— O mesmo que ele fazia com as minhas namoradas desde
que éramos adolescentes. Fingi que era ele e a levei para jantar,
depois fomos para o apartamento dela e gravei tudo o que
aconteceu entre nós, em seguida enviei as imagens para Esdras. —
Fiz uma pausa, experimentando um gosto amargo na boca,
acarretado pelo remorso que me acompanhava há tanto tempo. —
Eu deixei uma câmera escondida no apartamento dela. Achei que
no máximo ele ia agredi-la fisicamente, o que já seria suficiente para
que eu usasse essas imagens a fim de mantê-lo longe do meu filho.
Mas ele a matou sem ao menos hesitar. Simplesmente pegou a faca
da cozinha e cortou a garganta dela, com a facilidade e a frieza de
quem cortava um pedaço de carne.
Nesse instante Ayla se levantou, esbaforida, caminhando de
um lado para o outro do recinto, nervosa, sobressaltada.
— Jesus misericordioso! Esse sujeito é doente, um psicopata!
— Virou-se para mim e encarou-me com seus olhos arregalados de
pânico. — Por que você não entregou essas imagens à polícia e
garantiu que ele ficasse preso pelo resto da vida?
— Porque não é bem assim que funciona. Da mesma forma
como eu fiquei preso por apenas cinco anos, pela morte de Eve, ele
não pegaria mais que esse tempo de cadeia e, quando saísse de lá,
meu filho sofreria as consequências. Isso se ele não o matasse
quando ainda estivesse preso. Eu uso esse vídeo para mantê-lo
distante. Minha exigência foi que ele saísse do país e nunca mais
chegasse perto de nós.
— Então por que ele está aqui? — Tive a impressão de que
Ayla conseguiu ler meus pensamentos, pois vi o sangue sendo
drenado da sua face, enquanto ela me encarava. — Me fala, Esd…,
quer dizer, Leander. O que esse psicopata tá fazendo aqui?
— É melhor você se sentar.
— Não quero sentar, quero que você responda a minha
pergunta.
Precisei beber mais um gole do uísque, enquanto formulava
as palavras e reunia coragem para pronunciá-las:
— A mulher que ele matou por minha causa, foi a única
pessoa que ele já amou nessa vida. Ele me culpa pela morte dela e
com isso me prometeu que tiraria a vida de qualquer mulher por
quem eu me apaixonasse. — Seu rosto lindo ficou ainda mais
pálido. — No início, achei que era apenas uma ameaça vazia, mas
alguns anos depois eu comecei um relacionamento sério com uma
garota, com quem pretendia me casar e ela morreu em um trágico
acidente de carro.
Com sua fisionomia carregada de pânico, Ayla aproximou-se
do sofá e foi sentando-se lentamente, como se suas pernas já não
tivessem forças suficientes para sustentar o seu corpo.
— Acho que agora entendo por que você vivia repetindo que
eu estaria em perigo caso me envolvesse afetivamente com você —
sussurrou, quase para si mesma, mortificada. — Ele está aqui para
me matar, não é?
Aflito, levantei-me do meu lugar e sentei-me ao seu lado,
segurando suas mãos entre as minhas.
— Não vou permitir que ele toque em um só fio do seu
cabelo.
Sobressaltada, claramente apavorada, Ayla voltou a se
levantar e a caminhar de um lado para o outro.
— E o que você vai poder fazer para impedi-lo? Esse sujeito
é um doente mental perigoso. A primeira coisa que ele disse quando
me viu, foi que tinha vindo por minha causa.
Como se estivesse com ânsia de vômito, ela repousou suas
duas mãos sobre o estômago, com seu rosto muito pálido.
— Eu vou te proteger. Confia em mim.
— Ele poderia ter me matado esta tarde na biblioteca.
Preocupado com seu estado, levantei-me e aproximei-me. Ao
segurar as suas mãos, percebi que estavam trêmulas, cobertas por
uma camada de suor frio.
— Vou tirar você e o meu filho da cidade, talvez do país. Vou
levá-los para um lugar seguro, onde Esdras jamais os encontrará.
Consternada, Ayla puxou suas mãos entre as minhas,
fitando-me com expressão de alarme.
— Eu não posso e nem vou sair do país. Meu pai e minha
irmã precisam de mim. Não posso deixá-los.
— Eu cuidarei deles para você. O que você não pode é
continuar aqui. Não é seguro.
Ayla observou-me durante um instante de silêncio.
— Nós não podemos mudar nossas vidas por causa desse
demônio. Ele é perigoso, mas é só um homem. Podemos destruí-lo.
Basta que você entregue as gravações do assassinato que ele
cometeu à polícia.
— Acredite em mim, fazer isso seria bem pior. Ele tem elos
com pessoas perigosas. De dentro da cadeia, foi capaz de
sequestrar e manter o meu filho em cativeiro durante dias. Poderia
fazer coisa pior com todos nós se eu o denunciasse. A melhor forma
de protegê-los é tirando vocês dois do país.
— Eu já disse que não vou a lugar nenhum. E tenho certeza
de que a mãe de Breno também não dará permissão para ele viajar.
— Aflito e angustiado, tomado pela mais dolorosa impotência e pela
certeza de que Esdras faria mal às duas únicas pessoas que me
importavam nessa vida, sentei-me no sofá e afundei a cabeça entre
as mãos, com minha mente fervilhando com os pensamentos
torturantes. — Já está na hora de você se libertar desse cara. Você
não pode continuar sendo refém dele a vida inteira. Precisamos
enfrentá-lo.
— Você não entende. Ele não tem alma. É uma máquina de
matar. Pode tirar a sua vida com um estalar de dedos e não posso
nem imaginar uma coisa dessas.
Ayla veio até mim, abaixou-se à minha frente, nivelando
nossos rostos e segurou minha face entre suas mãos delicadas,
encarando-me de perto.
— Ele é perigoso, mas não é indestrutível. Além disso, nós
somos três, enquanto ele está sozinho. O primeiro passo é contar
toda a verdade a Breno e arranjar um meio de ele conseguir
distinguir vocês dois. Vamos contratar seguranças e nos proteger.
Uma hora ele vai se cansar, voltar para a vida dele e nos deixar em
paz.
— Não podemos viver assim, cercados por seguranças, sem
nenhuma privacidade.
— Mas é claro que podemos. Veja os líderes de grandes
países. Vivem rodeados por seguranças e estão todos bem. Além
do mais, o principal alvo dele sou eu e não me incomodo nem um
pouco em viver assim. Eu só não quero me afastar da minha família
e de você.
Senti a emoção explodindo em meu interior, aquecendo meu
coração, tornando-o mais acelerado no peito. Segurei em sua mão e
a puxei para o meu colo, acomodando o seu corpo junto ao meu.
— Eu também não quero me afastar de você.
— Nós vamos conseguir vencer esse maldito. Ele não vai
influenciar em nada em nossas vidas.
Ayla estava certa. Já estava passando da hora de eu tomar
uma atitude para deter a desumanidade do meu irmão. Não podia
continuar sendo refém dele a minha vida inteira.
— Admiro a sua coragem. — Fui sincero.
Ayla passou os braços em torno do meu pescoço e
aproximou seu rosto do meu.
— Estar perto de você me faz mais forte do que sou.
— A mim também.
Dito isto, apossei-me dos seus lábios com os meus e a beijei
com a paixão visceral que tomava conta de cada minúscula parte de
mim, enquanto puxava o seu corpo gostoso mais para junto do meu
e era invadido pela mais incontrolável lascívia.
CAPÍTULO 20
Ayla

Leander e eu passamos a noite toda no escritório. Após nos


amarmos mais uma vez, loucamente, acabamos adormecendo
embolados, agarrados um ao outro, sobre o estofado branco e largo.
Acordamos tarde na manhã seguinte. Dali mesmo, ele
telefonou para Meredith, solicitando que trouxesse nosso café da
manhã. Enquanto comíamos o farto banquete, telefonou para o seu
advogado, de quem pegou o contato de uma agência de segurança
de confiança, a qual contatou logo em seguida.
Pelo que entendi, contratou cerca de meia dúzia de homens
armados e bem treinados para fazer a segurança da casa. Foi bem
específico ao detalhar que sua esposa e seu filho precisavam ser
vigiados de perto, com o máximo de discrição possível, durante as
vinte e quatro horas do dia. Deixou claro que o inimigo era seu
irmão gêmeo idêntico e que os seguranças só deviam se comunicar
abertamente com ele mediante o uso de uma senha, a fim de evitar
que Esdras tomasse o seu lugar ao dirigir-lhes instruções.
Quando nos deslocamos do escritório até o quarto dele no
segundo andar, felizmente não encontramos Esdras pelo caminho,
vimos apenas as empregadas fazendo a limpeza na sala.
De banho tomado, usando as roupas informais com as quais
ficaria em casa naquele dia, Leander me deixou no aposento, com
as janelas e a porta bem trancadas, e desceu para conversar com
Breno, contar-lhe a verdade sobre quem realmente era e como se
deram os acontecimentos do passado.
Ao retornar, quase duas horas depois, ele trazia em seu
semblante a amargura de quem não teve um bom resultado com
tais revelações.
— E aí, você contou tudo? Qual foi a reação dele?
Leander sentou-se na beirada do colchão, aos pés da cama,
com seus ombros caídos, a fisionomia entristecida.
— A reação dele foi a que eu já esperava. Ficou furioso
porque eu estava no Brasil durante todo esse tempo e jamais o
procurei. Não quis entender que eu só estava tentando protegê-lo e
nesse exato momento está fazendo as malas para voltar para a
casa da mãe.
Subi na cama e aproximei-me dele por trás, de joelhos sobre
o colchão, fazendo uma massagem suave nos músculos tensos dos
seus ombros.
— Eu concordo que você deveria tê-lo procurado e falado a
verdade antes. Por outro lado, é melhor mesmo que ele saia dessa
casa enquanto aquele doente mental estiver aqui.
— Breno não é um filho que eu tenha planejado, talvez por
isso nunca fomos próximos. Eu nunca tinha interagido com ele tanto
quanto nesses últimos dias e foi uma experiência tão prazerosa, que
agora eu queria ter mais tempo com ele.
Senti a emoção tomando conta de mim, pois tive a minha
parcela de contribuição para que os dois se aproximassem. Além
disso, o fato de Leander estar nutrindo algum afeto pelo filho
significava que o gelo em seu coração começava a derreter, fazendo
com que estivesse aberto para o amor.
— Ele vai voltar. Daqui uns dias essa raiva passa e vocês vão
estar juntos de novo. Ele só precisa de um tempo para pensar em
tudo.
Leander segurou-me pelo antebraço e puxou-me para a sua
frente, fazendo com que eu caísse sentada em seu colo, de modo
que precisei passar os braços em torno do seu pescoço para me
firmar no lugar.
— Como você aprendeu a ser tão sábia vivendo naquele fim
de mundo?
— Sou professora, preciso transmitir sabedoria para os meus
alunos. Além do mais, viver no interior não torna uma pessoa mais
tapada do que quem vive na cidade.
— Conheço pessoas que têm o dobro da sua idade e não
possuem metade da sua sabedoria e da sua sensibilidade.
Dito isto, ele colou seus lábios aos meus, beijando-me com
volúpia, fazendo com que a lascívia corresse quente em minhas
veias e se instalasse entre minhas pernas.
Senti a ereção se formando sob a minha bunda e rebolei,
esfregando-me nela, o que me deixou molhada entre as pernas.
Contudo, antes que tivéssemos tempo de continuar, o celular
pessoal de Leander começou a tocar e pude sentir seus músculos
tensionando sob mim.
— Preciso atender — sussurrou ele, interrompendo o beijo.
Relutante, saí do seu colo e sentei-me ao seu lado, enquanto
ele atendia o aparelho. Era a governanta avisando que os
seguranças da agência haviam chegado. Com isto, ambos nos
colocamos em completo alerta e descemos para recebê-los.
Encontramos-os no escritório, onde Meredith os instalara.
Tratava-se de meia dúzia de pessoas, duas mulheres e quatro
homens. Se pareciam com os seguranças vistos nos filmes de ação,
usando roupas formais e escuras, com suas fisionomias atentas e
em alerta.
Depois de mais de duas horas de conversa, ficou acordado
que as duas mulheres se revezariam na minha segurança. Uma
delas me seguiria para onde quer que eu fosse durante o dia, a
outra ficaria acampada na porta do quarto de Leander durante a
noite, à minha disposição, pronta para me seguir caso eu precisasse
ir a algum lugar também nesse horário.
Dois dos homens ficaram responsáveis pela segurança da
parte externa de casa, principalmente nas proximidades da janela
do quarto onde dormíamos. Os outros dois teriam toda a liberdade
para circular no interior da residência.
Aquilo tudo era muito exagerado, incomum. Porém, no fim
das contas, eu estava dando gargalhadas, me divertindo com a
possibilidade de ter pessoas me rodeando durante as vinte e quatro
horas do dia, como se eu fosse uma princesa herdeira de um
importante reino.
Breno foi embora antes do horário do almoço, de modo que
Leander e eu fizemos a refeição sozinhos na grande sala. Não
vimos Esdras durante todo aquele dia. Provavelmente tinha saído
de casa. De acordo com os empregados, suas coisas ainda
estavam em um dos quartos de hóspedes, o que significava que ele
poderia voltar a qualquer momento.
Na manhã seguinte, Leander cogitou faltar novamente ao
trabalho, devido ao perigo que nos rondava. Um perigo do qual não
podíamos nos livrar assim tão facilmente. Não podíamos sequer
proibir a entrada de Esdras na casa, sem que ele fosse atrás de
Breno como retaliação. Tudo o que podíamos fazer era nos proteger
da sua perversidade até que ele se cansasse e fosse embora.
Tampouco podíamos alterar o curso de nossas vidas por
causa da presença daquele maldito assassino. Precisávamos
confiar cegamente na capacidade e no treinamento dos seguranças.
Depois que Leander saiu, permaneci no quarto durante
algumas horas, entediada, sem nada para fazer. Até que por fim
decidi que não ficaria trancada por causa daquele animal. Eu não ia
permitir que ele tirasse toda a minha liberdade. Então deixei o
aposento e me dirigi para a biblioteca, em busca de uma boa leitura
que me distraísse e me livrasse do tédio.
Tão logo saí do quarto, a segurança que fazia plantão perto
da porta começou a me seguir pela casa, tentando parecer o mais
invisível possível. Era uma mulher com cerca de trinta e poucos
anos, alta com porte atlético. Tinha cabelos castanhos-claros,
discretamente presos em um coque na nuca e usava calça social e
um terninho cinza formal. Samanta era seu nome.
Na biblioteca, peguei o exemplar de "Inferno", que havia
começado a ler no outro dia, e me acomodei em uma chaise perto
da janela. Pedi que Samanta se sentasse em uma poltrona, que
escolhesse um livro e ficasse à vontade, mas ela recusou com
seriedade, optando por permanecer a postos em um canto, sem que
sua presença me incomodasse minimamente.
Li sem ver o tempo passar. Não fazia ideia de que horas
eram, quando a porta da biblioteca se abriu e ele entrou, lindo,
altivo, imponente, com seus cabelos loiros bem penteados, a barba
curta bem aparada, usando calça social cinza e camisa branca com
as mangas enroladas até os cotovelos.
Por um momento fiquei muda, confusa, invadida por uma
profusão de emoções controversas, sem ter ideia de quem era o
homem diante de mim, se o marido ardente e apaixonado nos
braços de quem eu havia passado a noite, ou o assassino frio e sem
alma que estava aqui para me matar.
Não havia nada em cima dele que o diferenciasse de
Leander. Não havia como eu distinguir os dois, a não ser que ele me
tocasse. Puxei pela memória, tentando me lembrar com quais
roupas Leander saíra pela manhã, mas podia ser ele sem o terno e
a gravata.
— Você gosta mesmo de ler. Me admiro que não seja a Bíblia
— disse ele, com tom de sarcasmo e aquele risinho cínico no canto
da sua boca.
Não tive dúvidas, era Esdras, o homem que veio do outro
lado do continente com o objetivo de tirar a minha vida.
A constatação me fez relembrar as palavras de Leander,
sobre ele ser uma máquina mortífera, capaz de ter cortado a
garganta da mulher por quem era apaixonado com a mesma frieza
de quem cortava um pedaço de carne e o pânico descontrolado
tomou conta de cada célula do meu corpo. Ainda assim, reprimi o
medo e empinei o queixo, fingindo uma coragem que estava longe
de existir.
— Você pensa que me conhece, mas não sabe
absolutamente nada sobre mim — falei, com tom de voz ríspido,
fechando o livro com um safanão.
Foi então que Samanta entrou em completo alerta, saindo do
seu lugar e colocando-se entre mim e ele. Levou a mão ao cós da
sua calça, tocando o revólver por sobre o tecido do terno, para que
ele soubesse que estava armada.
— Não se aproxime — disse ela.
Esdras soltou uma gargalhada debochada.
— Minha nossa, mas o que é isso?! Contrataram a Vampira
do X-Men para trabalhar aqui? — ironizou. — A considerar os
seguranças que vi lá fora e dentro da casa, acredito que meu
irmãozinho já tenha te contado quem ele é, quem eu sou e porque
estou aqui.
Vi o brilho diabólico atravessando a expressão do seu olhar e
um calafrio desceu pela minha espinha. Aquele era o momento em
que eu deveria me esconder atrás de Samanta e me trancar no
quarto até aquele demônio sair da casa. No entanto, se havia algo
que eu tinha aprendido era a nunca demonstrar medo diante de
situações perigosas, pois o medo de uma vítima dá força ao seu
oponente.
Então, corajosamente levantei-me e o encarei de frente.
— Pode deixar, Samanta. Eu não tenho medo dele.
Samanta não se moveu do lugar.
— E por que você deveria ter medo de mim? Alguma vez
ameacei te fazer alguma coisa?
— Não se faça de sonso na minha frente. Nós dois sabemos
porque você está aqui. Leander me contou tudo sobre o que
aconteceu no passado, sobre as suas ameaças.
Ele se aproximou mais um passo e um estremecimento me
varreu, ao mesmo tempo em que Samanta se colocava ainda mais
entre nós dois, sem jamais tirar sua mão do cabo da sua arma
oculta pelo tecido do terno.
— Sério? E o que foi que aquele nerd panaca te falou?
Seu tom de voz era de ameaça e apenas para que ele
acreditasse que não me intimidava, passei por Samanta e me
coloquei diante dele, encarando-o diretamente.
— Ele me contou sobre a facilidade com que você
assassinou a mulher com quem pretendia se casar e depois fez o
mesmo com a namorada dele.
Como se a máscara de cinismo caísse da sua face, sua
fisionomia endureceu assustadoramente, uma expressão sombria
tomou conta do seu olhar. Aquela era a sua verdadeira face, a face
de um assassino perverso e sem alma.
Embora cada minúscula célula do meu corpo me ordenasse a
sair correndo dali, não movi um só músculo.
— Você é muito corajosa de ficar me falando essas coisas.
Se sou tudo isso que o meu irmão diz, não vai ser uma mulher com
cara de homem a me impedir de arrancar sua cabeça na hora que
eu decidir.
Tremi por dentro, mas me mantive firme no lugar, sem
demonstrar o pavor que me consumia.
— Não pense que as suas ameaças me intimidam. Quando
me casei com Leander, eu acreditava que ele era um assassino e
isso não me impediu de ir em frente.
— Isso só confirma o quanto você é corajosa, ou estúpida.
Além de se casar por contrato com um homem que acreditava ter
matado uma mulher, ainda se entrega a ele. — Esdras deu alguns
passos à frente, enquanto eu recuava. — É, eu sei que vocês estão
dormindo juntos. Isso em nada me surpreende. O que me admira
mesmo é que um nerd como o meu irmão tenha capacidade de
fazer você gemer tão gostoso, como ouvi ontem à noite quando
passei perto da porta do escritório. E me admiro ainda mais que
uma santinha como você faça tanto barulho quando está fodendo.
Um misto de raiva e constrangimento rasgou-me por dentro,
fazendo minha face queimar e enrubescer. Precisei me esforçar
para conter o impulso de erguer a mão e dar uma bofetada na cara
daquele degenerado. Como ele se atrevia a me desrespeitar de tal
forma?
— Cala essa boca, seu imbecil! — falei, tremendo de raiva.
Ao invés de me obedecer, Esdras continuou se aproximando
de mim, com passos largos e firmes, seus olhos azuis fixos nos
meus, enquanto eu continuava recuando. Até que uma estante de
livros impôs um limite às minhas costas e ele chegou bem perto,
colocando-se a poucos centímetros de distância.
Apavorada, lancei um olhar rápido na direção de Samanta,
constatando aliviada que ela permanecia bem próxima, preparada
para detê-lo caso ele tentasse algo.
— Se você gemeu descontrolada daquele jeito enquanto
estava com aquele panaca, imagina se estivesse comigo, um
homem de verdade, que sabe pegar uma mulher com força e foder
bem forte.
Sem me tocar, ele firmou suas mãos na estante atrás de mim,
uma de cada lado do meu corpo, formando um cerco à minha volta
e foi impossível ficar indiferente à forma luxuriosa como seus olhos
me fitavam, ao ardor embutido no tom da sua voz. Eram os mesmos
olhos e a mesma voz do homem nos braços de quem eu passara os
momentos mais ardentes e apaixonantes da minha vida. Distinguir
os dois era praticamente impossível e, quando dei por mim, estava
invadida pela corrente de calor lascivo que fazia meu sangue ferver
nas veias e meu coração bater descompassado no peito.
Por Deus! Isso não era possível!
Reprimindo as emoções indesejadas, cruzei os braços na
frente do peito e empinei ainda mais o queixo.
— Um homem de verdade não açoita uma mulher com um
chicote, nem a amarra em uma cama.
— Foi o meu irmão que te contou sobre a minha vida
pessoal?
— Não. Eu pesquisei tudo sobre você na internet.
— Está vendo só? Já sabemos quase tudo um sobre o outro.
Só nos falta a oportunidade de ficarmos sozinhos para eu te mostrar
o que é bom.
— Sonhar não custa nada. — Não economizei no sarcasmo.
— Sonho vai ser quando você estiver nua comigo em um
quarto. Vai se curvar em um cavalo de pau e abrir essa bundinha
linda pra receber o meu pau.
A imagem que ele descrevia projetou-se em minha mente.
Pude me enxergar claramente nua, debruçada e algemada em um
cavalo de madeira, com as pernas abertas e um calafrio desceu
pela minha espinha, junto com algo mais que não consegui
identificar.
— Só nos seus sonhos eu permitiria que um sádico como
você colocasse as mãos em mim.
— Você é mesmo muito corajosa, por me desafiar desta
forma.
— Como eu disse, não tenho medo de você.
— E nem precisa. Não vim aqui para te matar, como disse o
meu irmão. Até poderia ter sido no início, antes de te conhecer. Mas
você é bonitinha demais pra morrer. Tenho planos diferentes para
você, dos quais você vai gostar. E como vai! — Aquele sorriso
cínico, meio safado, brincava no canto da sua boca enquanto ele
falava.
— A única coisa que quero de você é distância.
— Nunca diga não antes de experimentar o que é realmente
bom. Que eu sou o seu tipo eu já sei, ou você não estaria com o
meu irmão. Só falta você me dar uma chance de te mostrar o que
está perdendo.
Ele teve a ousadia de erguer a mão e tocar minha face com o
dorso dos seus dedos. Furiosa, espalmei as mãos em seu peito
largo, tão firme quanto o de Leander, e o empurrei de supetão,
escapando do seu cerco com a agilidade de um peixinho que
escapava das mãos do pescador para a água, quando libertado.
— Nunca vai acontecer. A única semelhança que você tem
com Leander é a aparência. Interiormente o homem de verdade
nessa história é ele.
Disto isto, dei-lhe as costas e rumei para a porta, ouvindo os
passos de Samanta vindo atrás de mim.
— Você só vai saber o que é um homem de verdade depois
que passar pela minha cama, gatinha — disse Esdras, às minhas
costas, e não me virei para responder, antes de deixar a biblioteca.
Fui direto para o aposento, onde finalmente pude ficar
sozinha, sem a vigília de Samanta. Com os meus nervos à flor da
pele, o sangue fervendo nas veias e uma quentura impaciente em
meu corpo, que eu não compreendia, fui para debaixo do chuveiro e
tomei um demorado banho frio.
Todos os acontecimentos dos últimos dois dias ainda
fervilhavam em minha mente, perturbando-me, tirando-me o
sossego. Eram muitas revelações e informações a serem
processadas em tão pouco tempo. Eu ainda não conseguira digerir
por completo o fato de Leander não ser um assassino. Não que isso
fosse algo negativo, pelo contrário. Era maravilhoso saber que ele
era inocente, apenas mais uma vítima daquele monstro. O que me
incomodava e me deixava com a consciência pesada, era a forma
como o tratei quando nos conhecemos, com julgamento e
preconceito. Mesmo quando ele apenas tentou ajudar, nos tirando
de Ivanhoés, quando meu pai estava à beira da morte, em nenhum
momento eu parei de julgá-lo, de tratá-lo como se ele não fosse
mais nada além de um assassino.
Tudo aconteceu tão rápido que eu ainda não havia me
atentado para o fato de que precisava pedir-lhe desculpas. Faria
isso ainda hoje, quando ele chegasse para o almoço.
Com a decisão em mente, fui até o closet e escolhi as peças
de roupas mais escandalosas que havia nele: um conjunto de baby
doll rendado, vermelho e transparente e uma calcinha da mesma
cor.
Eu não sabia onde estava com a cabeça quando comprara
aquilo, mas agora ia ser útil, não apenas para um pedido de
desculpas, mas para provar a mim mesma e a Leander que,
diferente do que Esdras insinuara, ele era um homem incrível e
maravilhoso. Pelo menos era para mim.
Sequei bem os cabelos, deixando as ondas escuras e
brilhantes caindo sobre os meus ombros, passei um pouco de
perfume e fiz uma maquiagem discreta. Em seguida, deitei-me
sobre a cama esperando que Leander entrasse no quarto a
qualquer momento, pulasse sobre mim e me fizesse sua.
De fato, logo a porta se abriu. No entanto, nada aconteceu
como eu esperava. Leander parecia um vendaval descontrolado
quando avançou através do aposento, com seus passos firmes e
pesados, seu rosto lindo contorcido da mais inesperada fúria. Só
tive certeza de que era ele porque reconheci o terno com o qual
saíra de casa naquela manhã.
— O que significa isso?! Por que está vestida assim?! Está
esperando por ele?! — vociferou ele, parecendo uma fera violenta e
agressiva.
Espantada com seu comportamento e sem entender nada do
que estava acontecendo, pulei da cama e me apressei em me
enrolar com um lençol.
CAPÍTULO 21
Ayla

— Esperando quem? Do que é que você está falando?


— Não me trate como se eu fosse um asno estúpido!
Samanta me falou que você estava dando mole para o meu irmão
agora há pouco na biblioteca! Combinou de ele vir te encontrar aqui
no meu quarto?! Em cima da minha cama?! É isso mesmo?!
Permaneci em silêncio durante um instante, atônita,
desnorteada, sem nem ao menos saber o que pensar sobre aquela
acusação sem pé e nem cabeça. Não era possível que Leander
realmente acreditava que eu havia dado alguma abertura a Esdras.
E aquela maldita segurança, o que tinha na cabeça para sair
fazendo fofoca da minha vida por aí?
— Você realmente acha que eu faria isso? — indaguei,
ofendida, magoada. — Olha nos meus olhos e me diz se você acha
realmente que eu daria confiança para outro homem, enquanto
estamos casados e dormindo juntos!
Leander pareceu hesitar, como se de súbito percebesse o
quanto me ofendera e magoara.
— Então é mentira que você passou quase meia hora
conversando com ele na biblioteca? — insistiu, com a fúria cega se
intensificando no brilho do seu olhar.
— Isso não é mentira, mas existe uma grande diferença entre
conversar e dar mole para um homem.
O ódio chegou a chispar na sua expressão.
— E sobre o que vocês conversaram? Que assunto você
poderia ter com esse sujeito?
Seu tom de acusação finalmente conseguiu me irritar.
— Quer saber? Isso não é da sua conta! Você é meu marido,
não o meu dono. Eu ainda tenho a liberdade de conversar o que eu
quiser e com quem eu quiser.
A surpresa mesclou-se à fúria na expressão dos seus olhos
azuis. Pareceu desnorteado por um instante, até que se recompôs.
— Então é mesmo verdade? Você estava dando mole pra
ele?
— Claro que não! Nós apenas conversamos! Se não confia
em mim, não existe razão para continuarmos com essa palhaçada
de casamento. Ambos já temos o que queremos. Você, seu resort; e
eu, o coração do meu pai. Se vai continuar me acusando
injustamente, acho melhor eu ir embora daqui agora mesmo.
Pronunciei cada palavra de maneira impulsiva e impensada
e, ao parar para prestar atenção nelas, no seu significado, fui
invadida por uma sensação de angústia desoladora. A possibilidade
de me afastar de Leander jamais me pareceu tão real, só que sair
de perto dele era a última coisa que eu queria.
— Você não vai a lugar nenhum — disse, com sua voz mais
calma. — Precisamos continuar com essa farsa de casamento e
você sabe disso.
Ouvi-lo referindo-se ao nosso casamento de maneira tão fria,
chamando-o de uma farsa, doeu-me na alma. Mas o que eu
esperava, se nossa união não passava mesmo de uma mentira?
— Apesar de não estar escrito no contrato que assinei, que
haveria um assassino louco e psicopata atrás de mim, vou cumprir
nosso acordo até o final. Apenas pare de me fazer acusações
absurdas.
Sem desviar seus olhos dos meus, Leander respirou
profundamente, como se tentasse se acalmar.
— Me desculpe. Eu sou um imbecil.
— Sim, você é.
— Não por não ter gostado de saber que vocês conversaram,
mas por mantê-la aqui, sob o mesmo teto que meu irmão, colocando
sua vida em risco.
— Não estou correndo risco de vida. Não tenho medo do seu
irmão. Além disso, se Samanta tiver tempo de parar de fazer fofoca
sobre a minha vida, pode me proteger. Além do mais, Esdras disse
que não pretende me machucar.
Novamente o brilho do ódio atravessou a expressão do seu
olhar.
— E o que mais ele disse? Confessou o quanto quer te levar
para a cama dele?
— Existe uma grande distância entre ele querer uma coisa e
conseguir o que quer.
— Ele sempre consegue. Desde que éramos adolescentes,
Esdras faz questão de possuir todas as mulheres com quem eu me
relaciono. Isso nunca me importou muito, porque nunca gostei de
ninguém de verdade. Mas com você é diferente. — Ele aproximou-
se um passo de mim, sem jamais desviar seus olhos intensos dos
meus. — Só de imaginá-lo colocando as mãos em você, eu quero
matá-lo. Você é minha e não vou permitir que ele a tire de mim.
— Nem ele, nem ninguém, vai me tirar de você. Eu sou sua e
somente sua.
E era verdade. Eu me sentia tão sua, que se ele me
propusesse permanecermos casados pelo resto de nossas vidas, eu
aceitaria sem hesitar.
A verdade era que eu estava apaixonada por aquele homem
e não tinha ideia do que fazer com esse sentimento, já que o fim da
nossa união estava com data marcada para se concretizar. E
mesmo que não estivesse, nós pertencíamos a mundos muito
diferentes, jamais daríamos certo juntos.
— Por que está usando essas roupas? — indagou ele.
— Coloquei para te fazer uma surpresa. Eu queria me
desculpar por ter te julgado tão cruelmente quando nos
conhecemos.
— Não há o que desculpar. Você acreditava que eu era um
assassino. Eu também julgaria. — Uma expressão de pura malícia
emergiu no brilho dos seus olhos. — Se é pra mim, quero ver. Não
se esconda do seu marido.
O tom ligeiramente safado embutido em suas palavras foi o
suficiente para me deixar excitada. Então, lentamente, deixei o
lençol que envolvia meu corpo deslizar para baixo e cair no chão,
aos meus pés, exibindo meu corpo oculto apenas pela lingerie
rendada e transparente.
— Você é linda demais — sussurrou Leander, enquanto seus
olhos esfomeados varriam minha seminudez de cima a baixo.
Com alguns passos, ele eliminou a distância que nos
separava e atacou-me com a mesma selvageria de uma fera
agressiva atacando a sua presa. Passou um braço possessivo em
volta da minha cintura, apertando-me forte contra seu corpo, fechou
sua outra mão em torno da minha nuca e se apossou da minha boca
com a sua. Beijou-me de um jeito selvagem, quase violento, mais
agressivo do que já havia me beijado algum dia, empurrando seus
lábios contra os meus, furiosamente, enquanto pressionava meu
corpo contra o seu, com uma brutalidade gostosa, esmagando meus
seios contra o seu peitoral largo, me fazendo arder e ferver de tanto
desejo, a lascívia crua correndo solta nas minhas veias, o centro
entre minhas pernas encharcando depressa, a paixão visceral
tornando-me nada mais que um ser formado por sensações e
sentidos, completamente entregue às suas vontades.
Uma de suas coxas se infiltrou entre minhas pernas,
pressionando meu sexo melado por cima do tecido das roupas e
rebolei os quadris para esfregar e pressionar ainda mais meu centro
na sua coxa musculosa e firme, uma necessidade urgente de senti-
lo dentro de mim foi tomando conta de tudo, incendiando-me
devagar, dirimindo qualquer vestígio de racionalidade que pudesse
me restar.
Com a parte abaixo da cintura dos nossos corpos colados
quase a ponto de se fundirem um ao outro, levei as mãos às lapelas
do seu paletó, tentando arrancar a peça do seu corpo, com
urgência, meu corpo em chamas necessitando desesperadamente
do dele.
Como se atendesse às minhas súplicas silenciosas, Leander
usou seu corpo grande e forte para nos conduzir através do quarto,
até que minhas costas encontraram a firmeza de uma parede.
Pressionou-me firmemente contra ela e abandonou minha boca,
descendo seus lábios gulosos através da pele do meu pescoço,
atacando meu corpo com a mesma selvageria com que me beijara.
Segurou dos dois lados do baby doll delicado e o rasgou ao
meio, com facilidade, deixando os trapos caírem no chão, apenas a
calcinha minúscula cobrindo minha nudez.
Logo sua boca deliciosa estava devorando meus seios,
sugando, beijando, mordendo, lambendo, deixando-me louca,
ensandecida, a ponto de arder e ferver por inteiro. Continuou
descendo, me beijando, me devorando e lambuzando com sua
saliva, até que abaixou-se diante de mim e tirou minha calcinha
pelos pés.
Com mãos bruscas, me fez virar de frente para a parede e
deu uma palmada estalada na minha bunda, antes de espalmar
suas mãos sobre minhas nádegas e afastá-las, enfiando o seu rosto
entre elas.
Com um gemido de puro prazer, apoiei minhas mãos na
parede, afastei mais as pernas e empinei bem a bunda, abrindo-me
toda para Leander.
Pude sentir sua língua explorando cada parte do meu sexo,
deliciosamente, movendo-se em círculos sobre meu anus,
lambuzando-o, para em seguida se deslocar até a entrada da minha
vagina e penetrá-la raso, macio e delicioso. Sua saliva misturada
aos meus líquidos, deixou-me ainda mais melada. Até que por fim
atacou meu clitóris, lambendo-o freneticamente, incessantemente,
deixando-me quase louca de tanto prazer.
— Ah... delícia… — gemi ensandecida.
Em meio ao meu descontrole, empinei ainda mais a bunda e
rebolei, esfregando a boceta na boca dele e gemendo alto, perdida
de tanta luxúria.
Leander deu outro tapa estalado na minha nádega, depois do
outro lado e continuou batendo alternando entre uma polpa e outra,
sem jamais deixar de me chupar bem gostoso.
Eu estava quase explodindo em gozo quando ele parou e se
colocou de pé atrás de mim. Tentei me virar, mas não deixou, uma
de suas mãos me segurou firme no lugar, enquanto a outra abria o
zíper da sua calça.
— Era isso que você queria? Um pau bem grande comendo
essa bocetinha gostosa? — grunhiu ele.
— Sim... era isso... come minha boceta com esse pau
gostoso…
Leander desceu sua calça até altura dos joelhos, junto com a
cueca, segurou o seu membro pelo meio e o encaixou na minha
entrada. Com um único golpe dos seus quadris, entrou em mim,
grande, duro, grosso e delicioso.
— Ah... delícia… — gemi alto, enquanto a rigidez bruta do
seu pau atacava as paredes sensíveis do meu canal, dilatando-as,
empurrando-as deliciosamente.
Quando estava dentro de mim até a raiz, segurou dos dois
lados meus quadris e puxou os seus, arremetendo-se contra mim
novamente, entrando ainda mais bruto e fundo, me fazendo soltar
um grito alucinado.
Então, passou a mover-se em um vai vem incessante,
fodendo-me cada vez mais forte e depressa. Os sons da sua pélvis
se chocando contra a minha bunda ecoavam pelo quarto,
misturando-se aos sons dos meus gemidos descontrolados.
— Me diz que você é só minha… que nunca vai deixar outro
homem entrar assim em você... — rosnou, com um tom exigente e
animalesco. — Diz, Ayla!
— Sim... só sua... apenas sua... nunca de outro homem... não
quero nenhum outro... apenas você…
— Espero que obedeça.
— Vou obedecer... meu corpo é todo seu… assim como o
meu coração... nenhum outro jamais me tocará... Ah... Leander…
— O que foi? Me diz o que você quer…
— Quero gozar... Ah... eu vou... gozar…
Com o pau dele todo enfiado em mim, explodi em um gozo
alucinante, que me fez delirar e gritar como uma descontrolada.
Tive mais dois orgasmos nos braços dele, até que por fim a
exaustão nos tomou e permanecemos imóveis sobre a cama,
agarrados, suados, com nossos corpos nus entrelaçados ao do
outro. Um silêncio repleto de paz e sossego nos envolvia, como se
estivéssemos dentro de uma bolha apenas nossa, na qual os
problemas do mundo lá fora não existiam.
Mas, no fim das contas, os problemas sempre eram
lembrados.
— Você não pode continuar nesta casa — disse Leander,
depois do prolongado silêncio, com sua voz repleta de calmaria. —
É melhor voltar para Ivanhoés e dizermos a Esdras que o
casamento acabou. Essa é a única forma de ele te deixar em paz.
A simples possibilidade de ficar longe dele foi suficiente para
que meu peito se enchesse de uma angústia devastadora. Eu não
conseguia nem imaginar o que seria de mim quando de fato
precisasse ir embora da sua vida.
— Eu não vou sair desta casa por causa daquele cretino.
Ainda não estou pronta para voltar a Ivanhoés e dizer a todos que
estou divorciada. É muito cedo para isto. Esdras vai ter que se
conformar em ir embora daqui sem me fazer mal.
— Não posso arriscar permitir que ele te machuque. Eu
jamais me perdoaria.
— A forma mais rápida de nos livrarmos dele, é entregando à
polícia as imagens do assassinato que ele cometeu.
— Você não entende? Se ele for preso vai se tornar ainda
mais letal, sem que ninguém seja capaz de detê-lo. Se temos uma
chance, é fazer com que ele se canse, desista e vá embora. Até lá
você não pode deixar que ele se aproxime de jeito nenhum.
— Eu não tenho medo dele.
— Mas deveria.
— Samanta não vai deixar que ele me faça nada.
— Você deveria vir para o trabalho comigo. O que acha?
Fitei-o exultante.
— Você vai trabalhar em Ivanhoés hoje?
— Não. Esses dias apenas os engenheiros estarão por lá.
Preciso estar no escritório daqui. Mas você pode vir comigo.
— Eu não me sentiria à vontade. Desculpe.
— Não vou conseguir me concentrar no trabalho sabendo
que você está aqui com ele.
Levei o meu dedo indicador até sua testa e percorri sua ponta
sobre a ruga profunda que começava a se formar entre suas
sobrancelhas.
— Relaxa, eu sei me cuidar. Além disso, tenho a segurança
para me proteger. Aquele louco não vai conseguir colocar as mãos
dele em mim.
Leander soltou um suspiro de resignação. Segurou-me pelo
meio e puxou-me para cima dele, no mesmo instante em que meu
estômago se retorcia com um grande ronco de fome.
Era hora do almoço e eu podia apostar que, a essa altura,
Meredith já estava roendo as unhas com a ansiedade de que
alguém desse lhe autorização para servir a mesa. Ela era muito
exigente com a questão de horário.
— Com fome? — indagou Leander.
— Bastante.
— Vamos pedir que Meredith sirva o nosso almoço aqui
mesmo e deixar aquele demente comer lá embaixo sozinho.
Era estranho ouvir alguém referindo-se de maneira tão
pejorativa ao próprio irmão. Me perguntei se algum dia os dois já
tinham se dado bem, afinal eram sangue do mesmo sangue.
Contudo, logo me lembrei de que Leander passara cinco anos na
cadeia por causa de Esdras e isso não era algo que alguém fosse
capaz de esquecer. Era realmente uma situação lamentável.
— Eu concordo. Quando ele cansar de se sentir um hóspede
indesejado, com certeza vai embora.
— É o que eu espero.
Leander usou o celular para pedir que Meredith trouxesse o
nosso almoço e logo o banquete foi servido na mesinha redonda do
quarto. Fizemos a refeição envolvidos por aquela atmosfera gostosa
de intimidade e cumplicidade, como se não precisássemos de nada
mais nesse mundo, como se a companhia um do outro fosse
suficiente para que estivéssemos completos.
Curiosa sobre como era a relação dos dois irmãos com os
pais, acabei perguntando a esse respeito e Leander me explicou
que os visitava na Inglaterra pelo menos duas vezes por ano.
Apenas diante dos dois era ele mesmo, já que não podia enganá-los
com a falsa identidade do irmão. Quando estava com eles, assumia
a vida que Esdras levava da Califórnia, inventando que continuava
dirigindo os negócios da família por lá, quando a verdade era que
Esdras já havia torrado grande parte desse dinheiro.
Quanto a Esdras, raramente ia vê-los e, quando o fazia, era
tratado como merecia.
Após o almoço, Leander precisou voltar ao trabalho e foi com
muita relutância que deixou a casa, sempre insistindo em me levar
junto, mas eu não me sentiria à vontade em um escritório
abarrotado de gente chique trabalhando, enquanto eu ficaria lá de
cara para cima.
Depois que ele se foi, o quarto pareceu grande, vazio e
silencioso demais, quase deprimente. A fim de evitar me encontrar
com Esdras pela casa, pedi que Meredith trouxesse o livro que eu
estava lendo na biblioteca e dei continuidade à leitura ali mesmo no
aposento, ciente de que Samanta estava a postos do outro lado da
porta e os demais seguranças do lado de fora, perto da janela.
Passei praticamente a tarde toda entretida com a leitura,
porém por volta das quatro horas o tédio começou a tomar conta de
mim. Pior que isso: eu estava me sentindo como uma prisioneira e
me recusava a continuar assim por causa de um homem contra
quem não havia feito absolutamente nada.
Pensando em me exercitar um pouco na academia, fui até o
closet e escolhi um dos trajes esportivos que havia comprado no
shopping, para este objetivo: uma legging preta e regata azul. Após
me trocar, calcei um par de tênis, prendi os cabelos em um rabo de
cavalo e deixei o aposento. Tão logo pus os meus pés no corredor,
Samanta se prontificou a me seguir.
— Pode vir atrás de mim, mas, por favor, não faça mais
fofocas com o meu nome para o meu marido! — falei, irritada por ela
ter contado a Leander sobre minha conversa com Esdras.
— Lamento, senhora, mas estou sendo paga para narrar tudo
o que acontecer aqui ao senhor Agostini.
Suas palavras me deixaram ainda mais enervada. Tive
vontade de dispensá-la, ordenar que não me seguisse. No entanto,
havia um assassino louco solto por aí querendo a minha cabeça em
uma bandeja de prata. Eu não podia cometer o erro de ficar exposta
a ele. Então, decidi apenas ignorar a mulher quando desci as
escadas e ela veio atrás de mim.
Ao me dirigir rumo à academia, me ocorreu que havia a
possibilidade de Esdras aparecer por lá para me atormentar. Seria
melhor sair da casa, ir correr na rua. Desta forma, além de me
exercitar enquanto respirava um pouco de ar puro, eu poderia
aproveitar para conhecer uma igrejinha que ficava ali perto, diante
da qual havia passado algumas vezes. Não era a mesma igreja que
eu frequentava na minha cidade natal, mas era evangélica, portanto,
melhor do que não frequentar culto nenhum.
Então, deixei a casa o mais depressa possível, a fim de evitar
encontrar aquele estrupício pelo caminho.
As ruas aos arredores da mansão eram lindas, cobertas por
paralelepípedos, como as ruas de Ivanhoés e ladeadas, em alguns
trechos, por árvores centenárias e frondosas, cujas folhas secas
eram impecavelmente retiradas do chão por garis usando uniformes
limpos e novinhos. As casas ficavam a vários metros de distância
umas das outras. Eram construções recuadas, tão luxuosas e
imponentes quanto a mansão de Leander.
O sol forte que brilhara durante todo o dia agora estava mais
ameno, devido ao horário, emanando um calor gostoso, revigorante.
Comecei a correr do lado oposto às sombras, pela calçada larga e
fiquei satisfeita ao perceber que a fofoqueira da Samanta não
estava nem um pouco feliz em ter que correr atrás de mim, embora
seu condicionamento físico fosse excelente.
Enquanto percorria um quarteirão após o outro, eu não
conseguia parar de observar a peculiaridade das construções ao
longo da rua, cada uma mais luxuosa que a outra.
Estava distraída observando uma mansão cuja estrutura
lembrava um palácio medieval, quando, de repente, ele surgiu de
uma esquina, bem na minha frente, como se surgisse do nada.
Usava uma calça de moletom cinza folgada e uma camiseta regata
cujo tecido revelava os músculos pronunciados do seu peitoral e
exibia os bíceps bem definidos.
Por um instante meu coração ameaçou parar de bater, ao
mesmo tempo em que um calor pecaminoso se espalhava na altura
do meu peito, sem que eu tivesse certeza de quem era ele, se
Esdras ou Leander.
Minha confusão era perturbadora. Eu olhava em seu rosto e
via o homem nos braços de quem estava há poucas horas. Mas ao
mesmo tempo podia não ser ele.
Precisei observá-lo atentamente para, por fim, distinguir os
traços característicos de Esdras: o risinho cínico brincando no canto
da sua boca, o olhar despreocupado, a pele ligeiramente mais
bronzeada.
CAPÍTULO 22
Ayla

Parecia incoerente que Esdras tivesse a fisionomia mais


relaxada e descontraída que Leander, o qual quase sempre
carregava a seriedade em seu semblante.
— Você fica linda com essa roupinha de ginástica — disse
Esdras, com aquele seu jeito cínico de sempre, enquanto me
observava sem disfarçar a malícia na expressão do seu olhar.
Não parei de correr por causa dele, ou sequer vacilei.
Continuei minha maratona como se ele não estivesse ali, correndo
ao meu lado, bastante à vontade, como se tivesse sido convidado
para me fazer companhia.
— O que você faz aqui? Por acaso vai ficar me perseguindo
agora? — falei, sem desviar meu olhar da rua que se estendia à
nossa frente.
— Você é lindinha, mas não é tão gostosa assim, a ponto de
ganhar um perseguidor. Só achei que a tarde estava boa para uma
corrida.
Finalmente parei. Respirei fundo para recuperar o fôlego e
me virei de frente para ele.
— Fala sério, Esdras. Até quando você vai ficar aqui? Acho
que já deu para perceber que não vai ser possível fazer o que
queria comigo. — Gesticulei na direção de Samanta, que se
mantinha ao meu lado como um cão de guarda, para que ele
soubesse sobre o que eu estava falando. — Portanto, não tem mais
nada para você fazer aqui.
— Acho que entendo porque meu irmão se apaixonou por
você. Além de lindinha você é inteligente e perceptiva. Como
conseguiu perceber tão depressa que eu não sou Leander?
— Vocês dois não são tão parecidos assim — menti. — E aí,
quando você pretende ir embora daqui?
— Eu não pretendo. Pelo menos não até conseguir o que
quero de você. E pode ter certeza de que o que eu quero não é te
matar, pelo contrário. Você jamais se sentirá tão viva quanto quando
estiver nuazinha na minha cama.
Aquela capacidade que ele tinha de ser descarado me dava
nos nervos!
— Se você realmente acredita que algum dia terá alguma
coisa comigo, está perdendo o seu tempo.
— Não estou. Eu quero você e terei.
— Vai sonhando!
Tentando ignorá-lo, reiniciei minha corrida. Porém, Esdras
recomeçou a correr ao meu lado.
Era mesmo muito inconveniente!
— Logo você se dará conta de que está dormindo com o
irmão errado. O que você precisa é de um homem de verdade, que
saiba pegar uma mulher com força e fazer ela gozar cinco vezes
numa só foda, e não de um nerd certinho, como Leander, que
certamente só faz papai e mamãe e com a luz apagada.
Eu podia dizer-lhe algumas verdades sobre o homem
maravilhoso que Leander era, em todos os aspectos. Contudo, não
seria adequado falar com aquele animal sobre as nossas
intimidades.
— Você se acha muito superior, mas o homem de verdade
nessa história é Leander. Mesmo tendo o filho dele sequestrado por
você e passado cinco anos na cadeia por sua causa, ele ainda não
entregou aquele vídeo à polícia e nem se faça de sonso dizendo
não saber sobre qual vídeo estou falando. A pessoa tem que ser
muito íntegra para não entregar você e ainda te receber na casa
dele.
— Isso não se chama integridade, se chama covardia. No
lugar dele, eu já teria acabado com a minha raça.
— E é aí que está a diferença entre vocês dois. Ele é bom e
você é péssimo.
— Não sou tão péssimo assim. Quando trocamos de lugar na
cadeia, eu providenciei para que ele pegasse apenas cinco anos, ao
invés dos trinta, que seria a pena inicial. Mas eu aposto que isso ele
não te falou.
— Ah, nossa! Como você é legal, reduzindo a pena dele por
um crime que ele nem cometeu! — Não economizei no tom de
sarcasmo.
— Ao contrário do que todos imaginam, eu gosto do meu
irmão.
— Mas ele não gosta de você, e com toda razão. Você
sempre será um hóspede indesejado enquanto estiver na casa dele.
— Agora me diz quem está errado nessa história: o irmão
que tenta fazer as pazes, no caso eu; ou o outro, que não sabe
perdoar? Religiosa como você é, já deveria tê-lo convencido a me
conceder o perdão.
— Não é assim que funciona. Para ser perdoado, você
precisa se arrepender e tenho quase certeza de que você não se
arrepende de nada do que fez.
— Você tem certeza demais das suas convicções. Mas já
chega de falar do meu irmão. Vamos falar sobre nós dois. Quando
você vai deixar aquele panaca dormindo e me visitar no meu
quarto? Comprei um equipamento novo especialmente para você.
Não vejo a hora de te colocar peladinha em cima dele e te dar uns
tapas na bunda.
Meu rosto esquentou e corou. Como ele conseguia falar
tantas safadezas com a naturalidade de quem recitava uma receita
de bolo? Era mesmo muito descarado!
— Aí está uma coisa que nunca vai acontecer — falei.
— Sabia que, quanto mais você dá uma de difícil, mais eu te
quero na minha cama?
Formulei mentalmente uma dúzia de desaforos para dizer-
lhe, porém antes que tivesse tempo de abrir a boca, um carro preto,
com vidros fumês, estacionou bem do nosso lado, no acostamento e
logo o motorista saltou.
Cessamos a corrida para ver de quem se tratava e
empalideci ao descobrir que era Diógenes.
Ele veio em nossa direção parecendo um louco, com as suas
roupas amarrotadas, a fisionomia contorcida de uma ansiedade
absurda, os olhos raivosos.
— Me desculpe abordar você assim na rua, Esdras, mas foi
minha única opção diante da sua recusa em me receber. No fim das
contas, foi até melhor assim, porque ela está aqui — disse
Diógenes, dirigindo-se a Esdras, obviamente achando que ele era
Leander. Depois, virou-se para mim. — Vamos lá, Ayla, diga a ele a
verdade! Diga que não fiz nada do que você falou durante aquele
jantar! Diga que sou inocente! Você não pode arruinar a minha vida
dessa forma, sua vadia!
Diógenes estava realmente maluco. Era possível ver essa
loucura na expressão dos seus olhos e apenas uma pessoa fora de
si acreditaria que eu mentiria para salvar a sua pele.
— Vai se foder, seu babaca! Não vou mentir para te
inocentar! — Até eu mesma me surpreendi com as palavras que
saíram da minha boca.
Nunca na minha vida eu tinha mandado alguém ir se foder e
a sensação foi libertadora.
Diógenes me encarou com ódio mortal, como se pretendesse
arrancar minha cabeça ali mesmo.
— Será que você não percebe o que está fazendo?! Minha
empresa está falindo! Ninguém mais na cidade quer fazer negócios
comigo, por causa de uma besteira que aconteceu há tanto tempo!
Você precisa retirar o que disse!
— Não vou retirar nada! Pode ter sido besteira para você,
mas não foi para mim e nem para todas as outras mulheres que
você estuprou!
Eu estava orgulhosa de mim mesma, por finalmente ter
coragem de pronunciar aquelas palavras, as quais ficaram presas
na minha garganta durante todos aqueles anos, me sufocando, me
destruindo.
— Deixa eu ver se entendi: esse cara estuprou você? —
indagou Esdras, fuzilando Diógenes com olhos mortais.
Se ele tinha uma face assassina, com certeza era aquela.
— É mentira dela! Isso nunca aconteceu! Nós saímos uma
vez na faculdade, mas foi só isso.
— Eu não perguntei para você, perguntei para ela — disse
Esdras com uma frieza meio intimidante.
— Não que seja da sua conta, mas eu não menti. Ele
realmente me violentou. Assim como fez com várias outras
mulheres.
— Mentirosa! Por que está tentando me destruir? Se isso
fosse verdade haveria uma denúncia na polícia! Por que não
denunciou então?
— Não denunciei porque fui uma idiota, mas isso acabou. É a
segunda vez que você vem me incomodar. Se acontecer uma
terceira, vou procurar a polícia e te colocar atrás das grades, onde é
o seu lugar.
— Então não é a primeira vez que ele vem te incomodar? —
Esdras direcionou a pergunta a mim, porém seu olhar frio como gelo
estava fixo em Diógenes.
— Ele foi até o hospital me ameaçar quando eu estava lá
com o meu pai.
— E você não contou nada ao meu irmão?
— Eu não quis incomodá-lo com os meus problemas.
Diógenes deslocava seu olhar confuso entre mim e Esdras.
— Eu não ameacei, só queria conversar.
Esdras aproximou-se um passo dele, colocando-se bem
perto, enquanto o fuzilava diretamente nos olhos. No lugar de
Diógenes, eu já estaria bem longe daquele homem. O olhar que ele
lhe direcionava era explicitamente mortal. Como Diógenes podia
não perceber?
— Como você já deve ter notado, não sou Esdras, sou o
irmão gêmeo dele, Leander — disse Esdras, sem desviar o olhar do
outro homem. Tirou um pequeno cartão do bolso da sua calça e
entregou-lhe. — Esse é o meu contato. Vou conversar com meu
irmão a seu respeito e ver se consigo convencê-lo a mudar de ideia
sobre fazer negócios com você, afinal não devemos perder bons
negócios por causa de uma mulher.
— Claro que não. Negócios são negócios. Mulheres à parte
— disse Diógenes, quase comovido e me admirei que fosse tão
ingênuo.
Não seria necessário conhecer a história de Esdras para
identificar o quanto ele era perigoso. A morte estava explícita no
jeito como ele o olhava.
— Agora pode ir. Me liga depois.
— Claro. Obrigado.
Diógenes lançou-me um último olhar fulminante. Então, deu-
nos as costas e seguiu para o seu carro. Continuamos parados,
observando-o enquanto ele ligava o motor e partia, desaparecendo
ao longo da rua.
— Você pretende realmente falar com Leander sobre ele? —
indaguei, desconfiada.
— Claro que não. Não sou o tipo de pessoa que defende um
maldito estuprador. Eu só queria me livrar dele de maneira pacífica.
Fitei-o ainda desconfiada das suas intenções.
— Você não pretende fazer nada com ele não, né?
— Claro que não. Que tipo de homem você pensa que sou?
— O tipo que você é.
— Vamos esquecer esse cara. Que tal voltarmos para casa e
tomarmos um banho de piscina? O dia hoje está meio quente. —
Aproximou-se de mim enquanto pronunciava as palavras, lançando-
me seu charme quase irresistível, fitando-me como se tivesse a
intenção de me devorar viva.
Era impossível ficar indiferente às suas investidas, pois
fisicamente ele era idêntico ao homem por quem eu nutria uma
paixão incontrolável. Eu ia precisar de muito autocontrole para me
esquivar das suas cantadas enquanto estivesse me rondando. Eu
só esperava que ele decidisse ir embora o quanto antes e me
livrasse desse suplício.
— Vá você tomar banho de piscina. Eu tenho que passar em
um lugar.
Mesmo ciente de que ele não me deixaria em paz assim tão
facilmente, reiniciei minha corrida como se esperasse que ele não
me seguisse e, como imaginei, ele voltou a correr ao meu lado, a
poucos centímetros de distância, a fim de que, deliberadamente,
seu corpo resvalasse no meu de vez em quando.
— E que lugar seria esse?
— Isso não é da sua conta.
— Até parece que eu não vou te seguir até lá.
— Então siga e descubra.
Percorremos mais dois quarteirões e vi a decepção se
estampar na expressão dos seus olhos azuis quando parei diante da
igreja.
— Com tantos lugares interessantes nessa cidade e você
escolhe vir logo para uma igreja?
— Se não gosta do ambiente pode voltar daqui.
— Como cristã, você não deveria estar tentando me
convencer a entrar?
— Deveria. Mas no seu caso acho que só um exorcista
resolveria o problema e não vamos encontrar nenhum aqui.
— Eu não sou assim tão diabólico quanto você imagina. Se
quer mesmo entrar, vamos logo então.
Adentrei o templo com Esdras e Samanta me seguindo.
Como o pastor não se encontrava naquele momento, acomodei-me
em um dos bancos de madeira simples, ao passo em que Esdras
sentava-se ao meu lado e a segurança se acomodava logo atrás de
nós.
Enquanto orava e refletia sobre tudo, relembrei as palavras
proferidas pelo meu tio, durante uma de suas pregações, sobre não
existir nada impossível para Deus, inclusive a conversão de uma
alma obscura como a de Esdras. Seria possível que um dia ele
pudesse se regenerar e se tornar uma pessoa de bem? Eu queria
acreditar que sim, mas não era tola a tal ponto. Aquele homem
emanava maldade por cada poro do seu corpo, não existia nada
nele que pudesse ser transformado em algo bom. Inclusive, esse
interesse súbito que vinha demonstrado por mim era falso. Ele
queria apenas infernizar o seu irmão, tentando possuir uma mulher
de quem ele gostava.
Eu não era estúpida a ponto de acreditar que Esdras estava
aqui comigo porque realmente me queria. Seu único objetivo era
provocar a infelicidade de Leander e eu só podia lamentar que as
coisas fossem assim entre dois irmãos que deveriam se amar.
Demorei quase uma hora na igreja. Depois de orar, conversei
com uma das congregantes e me informei sobre os horários dos
cultos e reuniões. Fiquei surpresa que Esdras tenha tido paciência
de permanecer ao meu lado durante todo o tempo, mostrando-se
sério, compenetrado e sem fazer as suas habituais piadinhas de
mau gosto.
A noite começava a cair quando deixamos o templo.
Voltamos para a casa caminhando, sem correr, envolvidos por uma
conversa tão normal, tão desprovida das malícias dele, que por um
momento esqueci o monstro que aquele homem era e o vi como
apenas um ser humano comum, como o meu cunhado que nos
visitava.
Como seria bom se ele fosse uma pessoa melhor! Se
realmente gostasse de Leander! Eu já havia percebido que meu
marido não tinha muitos amigos, era um homem solitário. Ter um
irmão por perto lhe faria bem. Mas não um irmão como aquele.
Esdras e eu adentramos a mansão caminhando lado a lado,
com Samanta vindo logo atrás. Ao avançarmos pela sala de estar,
nos deparamos com Leander desleixadamente acomodado em uma
poltrona, segurando um copo pelo meio de uísque, com o nó da sua
gravata desfeito, os primeiros botões da camisa abertos e sem o
seu paletó.
Não foi necessário observá-lo muito atentamente para notar o
quanto estava transtornado, com sua fisionomia carregada de
cólera, os olhos brilhando de agressividade, fixos em nossa direção.
Droga! Depois da cena que ele aprontou na hora do almoço,
foi burrice da minha parte deixá-lo me ver ao lado de Esdras,
principalmente enquanto eu me sentia tão à vontade na presença
dele.
— Bebendo a uma hora dessas? Estamos comemorando
alguma coisa hoje, que eu não esteja sabendo? — indagou Esdras,
dirigindo-se ao irmão com aquele jeito cínico, capaz de irritar até o
mais sereno dos seres humanos.
Leander nos fulminava com seu olhar furioso, quando
levantou-se da poltrona e aproximou -se um passo de nós.
— Não tenho nada a comemorar, mas apenas a lamentar a
desgraça de ter um irmão que, não satisfeito em arruinar a minha
vida, agora está tentando tirar o que me pertence. — A voz de
Leander era um rosnado raivoso.
— Por acaso, eu roubei algum dos seus carros? — disse
Esdras, com tom de sarcasmo. — Ah, sim! Você está falando da
garota. Não acha que ela é quem tem que decidir a quem pertence?
— É óbvio que sim. Se ela decidisse por você, eu sairia do
caminho na mesma hora. Sairia despedaçado, mas os deixaria em
paz. — Ele aproximou-se mais um passo de Esdras, fuzilando-o
com olhos brilhantes de fúria. — Mas acontece que ela não quer
nada com você e tampouco eu quero você na minha casa. Você já
deve ter percebido o quanto a sua presença é indesejada aqui. Se
tivesse o mínimo de dignidade, já teria dado o fora!
Por um breve instante, Esdras deixou que sua máscara de
cinismo caísse do seu rosto e contemplamos a sua verdadeira face.
O semblante frio e furiosamente mortal do assassino que era.
Contudo, ele logo se recompôs.
— E por que a minha presença te incomoda tanto? Está com
medo de que Ayla perceba que está dando a boceta pro gêmeo
errado?
Em um rompante de fúria, Leander atirou o copo com uísque
contra uma parede, violentamente, fazendo com que se quebrasse e
os cacos voassem para todos os lados, o líquido dourado manchou
o carpete e os estofados brancos.
— Dirija-se a ela desta forma mais uma vez e juro que te
parto em dois! — vociferou.
— Até parece que você se importa com ela! Aquele
estuprador maldito foi ameaçá-la no hospital, enquanto estava lá
com o pai, e você não fez absolutamente nada! Quem é o maldito
covarde nessa história?
Leander encarou-me depressa, atônito.
— Isso é verdade? — indagou.
— É sim. Ele esteve lá uma vez. Desculpe não ter te contado.
Não quis te deixar preocupado.
— Você devia ter me falado. Tudo o que diz respeito a você é
de responsabilidade minha.
— Está vendo só? Talvez a casinha dos sonhos que você
acha que está construindo não esteja tão firme assim. Se ela não te
contou, é porque não confia em você.
— Vai pro inferno, seu maldito! Você não sabe nada sobre o
que existe entre mim e ela!
— Já chega disso! — interferi, praticamente gritando, irritada
com aquela discussão constante entre os dois. — Vocês parecem
duas crianças pirracentas. Quando vão perceber que ficar discutindo
não vai levar ninguém a nada? Por mais que coisas terríveis tenham
acontecido, vocês dois são irmãos, poxa! Deviam pelo menos tentar
se dar bem um com o outro.
— Ela tem razão. Nós devíamos nos tornar amigos — disse
Esdras, não com sinceridade, mas com aquele tom de ironia que
dava nos nervos.
Leander fitou-me com um misto de irritação e surpresa.
Era surreal estar diante dos dois homens inteiramente
idênticos. As únicas características que os diferenciavam um do
outro eram o semblante mais sério de Leander, em contraste com o
mais relaxado de Esdras. Além do tom de pele ligeiramente mais
bronzeado do gêmeo diabólico. Fora isso, eles eram iguais.
— Se você quer ser amiga dele, fique à vontade. Apenas não
reclame das consequências depois — disse Leander, com tom de
desprezo. — Quanto a mim, só quero distância! E não ouse me
criticar pela minha decisão. Eu tenho os meus motivos.
Dito isto, deu-nos as costas e seguiu rumo à escadaria que
levava ao segundo andar, com passos firmes e apressados.
— Tá vendo? Eu tento promover a paz, mas ele quer viver
em guerra — disse Esdras.
— Cale a boca, seu imbecil! Depois de tudo que você fez,
ainda tem sorte dele ainda não ter te mandado para a cadeia, onde
é o seu lugar.
Não esperei que ele retrucasse. Com tais palavras, dei-lhe as
costas e fui atrás de Leander, subindo a escadaria quase correndo.
CAPÍTULO 23
Leander

No meu quarto, eu caminhava de um lado para o outro


nervoso, impaciente, com minha cabeça girando, a ponto de
explodir e meu coração se espremendo no peito. Sentia-me aflito,
quase louco, pelos últimos acontecimentos.
Esdras estava aqui para assassinar Ayla, ele havia me
prometido que faria isso com qualquer mulher de quem eu me
aproximasse e quase sempre cumpria as suas promessas. Só ainda
não havia feito-lhe mal pela presença de Samanta a seguindo e
vigiando durante todo o tempo e porque fazia questão de tirá-la de
mim de outra forma, antes de cometer o pior.
Fazia parte da sua natureza perversa e diabólica conquistar e
levar para a cama todas as mulheres com quem eu me envolvia. Era
assim desde que nos tornamos adolescentes. Além de achar isso
divertido, ele o fazia com o objetivo de provar a si mesmo que era
melhor do que eu, algo com o que jamais me importei.
Eu nunca havia gostado de uma mulher o suficiente para me
incomodar. Inclusive, as investidas dele serviam para me mostrar
que eu estava com a mulher errada, afinal, uma mulher apaixonada
de verdade jamais se deixaria enganar pela nossa semelhança
física, como Ayla não se deixara.
Só que agora era diferente. Vê-lo dando em cima de Ayla, ou
mesmo apenas falando com ela, doía no fundo da minha alma.
Imaginar que ela poderia corresponder ao interesse dele, me
machucava como se alguém cravasse um punhal afiado em meu
peito e o retorcesse raivosamente. Era um sentimento terrível de
perda, de vazio e solidão cujo sentido eu não conseguia
compreender.
Tudo o que eu entendia era que, naquelas últimas semanas,
Ayla vinha se tornando a minha vida. O que seria apenas um
negócio, um contrato de casamento, estava se transformando em
algo bem maior. Eu já não podia nem imaginar como seria ficar sem
ela e mesmo que Esdras não a assassinasse, como prometera, mas
apenas a seduzisse, como estava tentando, não existiria mais a
mínima possibilidade de ficarmos juntos. Nem mesmo naquele
casamento de fachada.
Eu continuava andando de um lado para o outro do quarto,
enlouquecido, com os nervos à flor da pele, quando a porta se abriu
e Ayla entrou. Carregava em seu semblante a consternação clara de
quem presenciara uma discussão entre dois irmãos, que, na cabeça
dela, deveriam se dar bem.
— Se veio me dizer que eu deveria tentar me tornar amigo
daquele psicopata, pode voltar daí mesmo. — Fui mais ríspido do
que pretendia.
Mas que se fodesse! Eu estava enervado, enciumado a ponto
de ficar quase cego.
Ayla fitou-me com um misto de mágoa e irritação no brilho
dos seus olhos escuros. Por um breve instante, fui tomado pelo
impulso de envolvê-la em meu abraço e pedir desculpas pela
grosseria. Porém, me contive. Ela era culpada por aquela situação,
pois conhecia a repulsa que eu tinha pelo meu irmão, sabia o
quanto ele havia me prejudicado e ainda assim não evitava estar na
companhia dele, mesmo que essa proximidade colocasse sua vida
em risco. Talvez já tivesse caído na teia de sedução dele, assim
como todas as outras. Essa era a única explicação para o fato de
ela se sentir tão à vontade na companhia de um homem que
pretendia matá-la.
A constatação me deixou ainda mais furioso.
— Eu entendo o quanto mal ele te fez, mas já que ele está
aqui, tente pelo menos ter uma convivência civilizada. Ficar
discutindo a todo momento não vai levar ninguém a nada — disse
ela, e a fúria pipocou ainda mais feroz em minhas entranhas.
— Não, Ayla, você não entende! Não tem nem ideia do que
foi passar cinco anos naquela maldita prisão! Não tem noção do
suplício que atravessei quando meu filho estava sequestrado, sem
que eu pudesse fazer nada para salvá-lo! Você é tão sem-noção,
que está dando mole para um cara que veio aqui para te matar!
Será que tá tão a fim de dar para ele, que perdeu a noção do
perigo?!
Vi seu rosto lindo enrubescendo, a raiva tomando conta da
sua fisionomia, seu olhar faiscando.
— Eu não estou dando mole para ele e já te falei isso! Mas
você está tão cego pelo rancor, que só consegue enxergar o que te
convém!
— Se não estivesse dado mole, não teria saído para correr
com ele, como se fossem velhos conhecidos.
— Eu não saí com ele. Saí sozinha, com Samanta, e ele nos
abordou.
— Devia ter voltado, deixado ele lá sozinho! Mas o fogo entre
as pernas deve ter falado mais alto!
Percebi que tinha ido longe demais quando vi a mágoa
refletindo em sua expressão, tão dolorosa, que seus olhos lindos
marejaram de lágrimas e seu lábio inferior estremeceu.
Puta merda! Eu precisava controlar minha raiva, meu ciúme,
ou acabaria a perdendo.
— Eu só estava tentando ser civilizada, mas pelo visto você
desconhece o significado dessa palavra. Está tão cego de ódio, que
não consegue enxergar um palmo na frente do nariz.
— Tem razão. Ódio é tudo o que existe dentro de mim e se
isso te incomoda, pode dar o fora daqui. Esdras está te esperando
lá na sala, com todo o bom humor dele!
Caralho! Novamente eu tinha ido longe demais. Que merda!
Desta vez, Ayla não retrucou, apenas continuou lá parada,
observando-me com os olhos carregados de mágoa, as lágrimas
ameaçando descer pelo seu rosto. Até que por fim deu-me as
costas e deixou o aposento quase correndo, certamente indo direto
para os braços de Esdras.
Em um rompante de fúria, esmurrei uma parede com meu
punho cerrado e saí desferindo socos e chutes violentos em tudo o
que via pela frente. Quebrei um abajur, virei uma mesa, estilhacei o
notebook que se encontrava sobre a escrivaninha, sem que meu
descontrole me permitisse perceber que eu estava agindo como um
animal irracional. Tudo em que eu conseguia pensar era nas mãos
de Esdras tocando Ayla, a mulher que eu amava. Essa era a
verdade. Eu estava apaixonado por aquela mulher. Talvez estivesse
desde o instante em que a vi pela primeira vez e não podia suportar
a ideia do meu irmão, ou qualquer outro homem, colocando as mãos
sobre ela. Ayla me pertencia e eu não permitiria que ele a tirasse de
mim.
Com a constatação em mente, espichei-me sobre a cama,
ainda suado pelo ataque de fúria, o coração a ponto de sair pela
boca. Até que, aos poucos, comecei a me acalmar, respirando fundo
e devagar. Apenas então me dei conta do quanto estava sendo
idiota, agindo como um troglodita irracional, atirando minha mulher
nos braços daquele cretino, exatamente como ele queria.
Foram incontáveis as vezes em que Esdras seduziu as
mulheres por quem eu me interessava. Às vezes fingindo que era
eu, às vezes não. O fazia simplesmente pelo prazer de externar a
maldade que existia dentro de si. Uma maldade da qual ele parecia
ter sido feito.
Mas com Ayla não. Nela ele não encostaria um dedo! E não
era apenas porque eu a amava e a queria somente para mim, mas
porque, se o fizesse, a vida dela estaria em perigo e eu não podia
correr o risco de perdê-la.
Ir até lá embaixo e novamente agir como um homem das
cavernas, forçando-a a vir comigo, não seria a atitude certa a ser
tomada. Eu precisava reprimir a minha raiva, controlar o meu ciúme
e fazer as coisas do jeito certo. Precisava dar a ela a chance de
decidir se queria ficar comigo, ou arriscar a sua vida nas mãos
daquele degenerado.
Se ela optasse por ele, eu teria que aceitar, embora não
tivesse a intenção de desistir dela tão facilmente.
Mais calmo e centrado, levantei-me da cama, fui até o
banheiro, lavei o rosto, ajeitei os cabelos e troquei a camisa do
trabalho por uma camisa polo mais despojada. Precisei respirar
fundo mais uma vez antes de deixar o aposento, decidido a não
voltar a perder o autocontrole.
Quando alcancei o primeiro andar, fui atraído pelo cheiro da
comida que partia da sala de jantar e segui naquela direção. Ao
avançar pelo cômodo amplo, com a mesa retangular ao centro, a
minha decisão de manter o autocontrole quase caiu por terra. A
raiva pipocou novamente em minhas veias, assim que vi aquele
abutre sentado no meu lugar, à cabeceira da mesa, com Ayla
acomodada à sua direita, no mesmo lugar onde se sentava para
jantar comigo. Samanta estava em pé próximo a uma parede e duas
empregadas serviam o jantar.
Fiquei satisfeito ao perceber o quanto Ayla parecia pouco à
vontade perto daquele demônio. Pior que isso: estava quieta
demais, calada, com seu rosto demasiadamente abatido.
Naquele instante me dei conta de que talvez eu estivesse
cego demais para entender que havia uma chance de ela estar se
aproximando de Esdras com o intuito de conquistar a sua afeição e
com isto proteger a sua própria vida.
Meu Deus! Como não pensei nisso antes? Meu ciúme era tão
cego, que, ao invés de apoiá-la e protegê-la, eu a estava atirando
ainda mais na boca do leão. Mas pretendia mudar isso.
Quando olhei para o meu irmão ali sentado bastante à
vontade, agindo como se fosse o dono da casa, tentando roubar a
mulher que me pertencia, minha mão chegou a tremer, tomada pelo
impulso de socar a cara daquele vagabundo até que ele estivesse
com os olhos inchados demais para enxergar Ayla na sua frente.
Contudo, me contive. Mais uma vez respirei fundo e me aproximei
da mesa, demonstrando uma calma e uma serenidade que estavam
longe de existir.
— Se isso é um jantar em família, também quero participar —
falei, com minha calma teatral, permitindo que minha presença fosse
notada por ambos.
Nenhum dos dois conseguiu esconder a surpresa ao me
verem chegando e meu coração apertou no peito ao perceber o
quanto Ayla estava ainda mais abatida do que notei inicialmente.
Aproximando-me dela, segurei em suas mãos e fiz com que
se levantasse.
— Desculpe pelo que eu disse lá no quarto — falei, com toda
a sinceridade do meu coração, olhando dentro dos seus olhos
tristes. — Eu estava descontrolado de tanto ciúme e te prometo que
não vai acontecer de novo.
Ela continuou me encarando em silêncio, com aquele olhar
de tristeza, como se decidisse se aceitaria ou não as minhas
desculpas. Invadido por uma necessidade urgente de tocá-la, ergui
uma mão e ajeitei uma mecha de cabelo que escapava do seu rabo
de cavalo atrás da orelha, carinhosamente.
— Tudo bem. Você estava de cabeça quente.
— Sim. Estava. E te dou minha palavra que não vai
acontecer de novo.
Com isto eu a puxei para mim, acomodando o seu corpo
delicado ao meu. Segurei firmemente em sua nuca com uma mão e
amparei o seu rosto com a outra, para em seguida inclinar-me e me
apossar da sua boca com a minha. A beijei com paixão, com
selvageria, me deleitando com o desejo escaldante que corria solto
pelas minhas veias, fazendo meu coração assumir um ritmo
acelerado no peito.
Eu precisava dizer a ela o quanto a amava, o quanto queria
passar o resto da minha vida ao seu lado.
— Nossa! Estou até ficando de pau duro aqui.
A voz do demônio irrompeu pela sala, atiçando a raiva
escaldante em minhas entranhas. Ao afastar-me de Ayla, precisei
respirar fundo mais uma vez para conseguir manter o autocontrole.
O que não era fácil na presença daquele sujeito.
— Eu decidi que não vou mais permitir que você interfira na
minha vida de nenhuma maneira. — Puxei a cadeira para Ayla e ela
voltou a se sentar. — Se a sua intenção vindo aqui foi me prejudicar
e me desestabilizar, saiba que não vai conseguir. As suas
molecagens não me afetam mais.
Acomodei-me na cadeira ao lado de Ayla, tão próximo a ela
que nossas pernas se tocaram sob a mesa.
— Mas eu não estou aqui para te prejudicar, irmão. Eu
apenas senti saudades e vim fazer uma visita.
Ele servia-se de uma porção do salmão defumado enquanto
falava, com a serenidade de quem raramente revelava sua
verdadeira face. Só que aquela sua postura de bom moço não me
enganava.
— Eu disse que não vou mais me incomodar com a sua
presença e não que desconheço os verdadeiros motivos pelos quais
você está aqui. Portanto, pode me poupar do seu teatro.
Silenciosa, Ayla também começou a se servir da refeição e
eu a imitei, enchendo o meu prato com salada e salmão.
— E quais seriam esses motivos? Por que você acha que
estou aqui?
— Nós dois sabemos que motivos são esses. Não
precisamos verbalizá-los na presença das damas. Além do mais,
estou cansado de discussões. Se vai ficar aqui alguns dias, acho
que precisamos no mínimo conviver civilizadamente.
Sob a mesa, Ayla trouxe sua mão até minha coxa e a
apertou, informando-me, com o gesto, o quanto apoiava a minha
atitude.
Quanto a Esdras, permaneceu em silêncio enquanto comia e
me encarava com uma expressão inescrutável, de modo que era
impossível tentar imaginar o que se passava pela sua cabeça. Ele
podia estar, naquele exato instante, tramando uma forma de acabar
com a vida de Ayla. Assim como podia estar pensando em deixá-la
em paz e ir embora.
— E então, como andam os negócios da família na
Califórnia? — indaguei, continuando com o meu teatro, fingindo
estar apenas puxando assunto, quando, no fundo, a minha vontade
era pegá-lo pelo pescoço, arrastá-lo pela casa e atirá-lo no olho da
rua.
— Não faço ideia. Você sabe que nunca me interessei muito
por negócios. Deixo tudo nas mãos dos acionistas minoritários e
apenas recebo a minha parte da bolada, que, aliás, está sendo
muito bem aproveitada. — Aparentemente ele estava sendo sincero
pela primeira vez desde que chegara.
Trabalhar, ou assumir qualquer outra responsabilidade, nunca
foi o seu forte. O que ele gostava mesmo era de gastar dinheiro com
farras e viagens. O que explicava porque a fortuna construída pelos
nossos pais fora reduzida pela metade nos últimos anos, embora
ainda fosse grande o bastante para que Esdras passasse o resto da
vida gastando dinheiro sem jamais precisar trabalhar.
Continuamos falando amenidades sem relevância durante
todo o jantar, fingindo sermos pessoas civilizadas, quando na
verdade mal tolerávamos a proximidade um do outro. No meu caso,
pelo menos, eu tinha motivos. Quanto a Esdras, estava indignado
porque não tinha conseguido praticar nenhuma perversidade desde
que chegara.
Ayla falou pouco durante a refeição, mostrando-se o tempo
todo abatida, apática e cabisbaixa, obviamente ainda por causa das
palavras duras que eu lhe disse mais cedo. Eu precisava encontrar
uma forma de me redimir com ela e o faria.
Após a refeição, Ayla e eu nos recolhemos ao meu aposento.
Suspirei de alívio quando fechei a porta do quarto por dentro e
soube que estava sozinho com ela, sem a constante vigília daquele
demônio e da segurança.
Ansioso por beijá-la, por sentir cada detalhe do seu corpo sob
o toque dos meus lábios e das minhas mãos, fui direto para ela.
Tentei envolvê-la com meus braços, mas ela me impediu, afastando-
se.
— Não quero transar hoje — disse ela, seca e firme.
— Tudo bem. Não tem problema.
Eu podia questionar o motivo, mas não precisava. Já sabia
que ela ainda estava magoada, e com toda razão, pelas minhas
palavras impensadas, ditas num momento de fúria.
A fim de acalmar os ânimos do meu corpo – e apenas assim
conseguir dormir ao seu lado, sem tentar possuí-la –, me coloquei
debaixo dos jatos de água fria do chuveiro, em um longo e
demorado banho.
De volta ao aposento, encontrei Ayla acomodada na cama,
usando uma camisola de seda bege, quieta como se já estivesse
dormindo.
Após me secar, joguei apenas uma calça de moletom por
cima do corpo e deitei-me ao seu lado. Tentei permanecer imóvel do
meu lado da cama, mas foi impossível. A proximidade dela era
perturbadora demais, me afetava muito mais do que eu podia
controlar. Depois de todos aqueles dias dormindo com ela em meus
braços, não tê-la junto de mim era uma dolorosa tortura. Então,
aproximei-me devagar e envolvi o seu corpo por trás, acomodando
suas costas de encontro ao meu peito, entrelaçando minhas pernas
às suas e passando um braço em torno da sua cintura, sem que ela
protestasse.
Pude sentir os músculos do seu corpo relaxando ainda mais
de encontro a mim, enquanto ela se mantinha imóvel e com os olhos
fechados, embora eu soubesse que estava acordada.
CAPÍTULO 24
Leander

Aconchegado ao seu calor gostoso, finalmente fui relaxando


aos poucos, a tensão se esvaindo dos meus músculos, a calma me
envolvendo. Fechei os olhos e tentei dormir. No entanto, minha
mente não parava de trabalhar, pensando nos acontecimentos do
passado e do presente.
Era inevitável que a presença de Esdras me trouxesse as
lembranças amargas de um passado que eu ainda lutava para
esquecer. Como há muito tempo não acontecia, lembrei-me do
momento em que acordei com o corpo de Eve estendido ao meu
lado na cama, sem vida, na época da faculdade. Depois veio o
sequestro do meu filho, a aflição que passei me sentindo impotente,
acreditando que ele seria morto e sem ter como salvá-lo. Recordei-
me também do meu pior pesadelo: a vida na prisão e o que fizeram
comigo lá dentro.
Apertei os meus olhos com força e trinquei os dentes,
tentando não pensar naquilo, mas logo as memórias se
materializaram claramente na minha cabeça e logo pude ver a mim
mesmo, sendo segurado por dois prisioneiros, enquanto um terceiro
abaixava a minha calça e me sodomizava, dilacerando meu ânus,
sorrindo e debochando dos meus gritos de dor e ódio.
As lembranças me bombardearam tão nítidas e reais, que, de
súbito, eu estava naquele banheiro imundo da penitenciária
novamente. Sendo segurado de um lado por Napoleão, um dos
traficantes mais perigosos do país, e do outro por um dos membros
da sua gangue. Sem que eu tivesse a mínima chance de defesa,
ambos me fizeram debruçar sobre uma pia, então um cara
conhecido como Camundongo, assassino de aluguel, veio por trás
de mim, arriou minha calça e me penetrou, sorrindo, debochando
das minhas súplicas, repetindo que os amigos dele seriam os
próximos a me foderem.
Como se estivesse de volta àquele pesadelo, pude sentir a
dor lancinante partindo das minhas entranhas, irradiando por todo
meu corpo; o terror e o ódio me consumiam, me transformando em
uma espécie irreconhecível de criatura, capaz de encontrar forças
suficientes para conseguir se libertar dos três homens e ainda
avançar para cima de um deles, do estuprador.
Praticamente sem ver o que fazia, eu o soquei e chutei tão
violentamente, que o deixei desacordado. Só que seu momento de
inconsciência não durou muito. Logo ele estava em cima de mim
novamente. Com a ajuda dos dois cúmplices, surrou-me até que eu
estivesse quase desacordado. Então, voltou a me sodomizar, desta
vez usando um canivete afiado para cortar as carnes das minhas
costas, lenta e dolorosamente, enquanto continuava me penetrando
com seu pênis.
Gritei e chorei como um garoto, de tanta dor e repulsa. Até
que mergulhei no profundo poço da inconsciência, para onde a dor,
o ódio e o terror me seguiram e continuei gritando e chorando, com
todas as forças dos meus pulmões.
— Leander, acorda! Leander, pelo amor de Deus, abre os
olhos!
A voz doce de Ayla me alcançou, como se partisse de muito
distante e sentei-me na cama de supetão. Precisei de um instante
para entender que não estava mais na prisão, e sim em meu quarto,
ao lado da minha esposa. Tudo não havia passado de um pesadelo.
Muito real, mas ainda assim apenas um sonho.
A constatação me fez suspirar de alívio, embora o ódio ainda
corresse solto em minhas veias.
— Por Deus, me diz o que você tem! — disse Ayla.
Ela estava sentada diante de mim sobre a cama, fitando-me
com seus olhos carregados da mais pura aflição.
— Não foi nada. Só um pesadelo — falei, com minha voz
trêmula.
— Você estava chorando e gritando. Fiquei preocupada.
— Não fique. Já passou. Foi só um sonho.
Tentando acalmar a ela, e a mim mesmo, voltei a deitar-me
de costas sobre o colchão e a puxei para junto de mim, aninhando o
seu rosto em meu peito, fazendo com que jogasse uma perna e o
braço sobre meu corpo.
O contato gostoso com sua pele, com seu calor, foi como um
bálsamo para o tormento que me assolava.
Durante o longo momento de silêncio que se seguiu, eu
quase podia ouvir a mente de Ayla trabalhando, se perguntando
com o que eu estava sonhando. Até que, por fim, ela verbalizou o
que se passava em sua cabeça.
— Você foi estuprado na prisão, não foi?
— Claro que não. Que história é essa? Como eu já te falei,
tentaram fazer isso comigo, mas não conseguiram.
Ayla saiu da cama com a rapidez de quem saía de uma casa
em chamas.
— Por que não fala a verdade? Você não confia em mim? —
indagou, de pé próximo à parede.
Eu confiava nela, como jamais havia confiado em outra
pessoa. No entanto, revelar aquele pesadelo seria humilhante
demais. Nenhum homem que já foi violentado consegue abrir a boca
para falar sobre isso com alguém. Eu nunca havia falado. Evitava
inclusive pensar nesse assunto.
— É claro que eu confio em você. Achei que já tivesse
percebido isso. Mas não aconteceu nada do que você está dizendo.
— Leander, você não estava apenas gritando enquanto
dormia, estava também falando.
A pior parte em ouvir aquelas palavras saindo da sua boca,
foi a expressão de piedade que emergiu no brilho do seu olhar. Eu
aguentaria tudo nessa vida, menos a pena de Ayla.
— Não foi fácil para mim te contar o que Diógenes fez
comigo. Falei porque você é importante na minha vida e achei que
eu era importante para você também.
Com aquilo, ela me deixou sem opção a não ser contar a
verdade. Até porque o fato de eu ter falado enquanto dormia já
havia me denunciado. Droga!
— É humilhante para um homem falar sobre isso — falei,
sem conseguir olhá-la diretamente nos olhos.
Ayla veio até mim, subiu na cama e colocou-se à minha
frente, sentada sobre os seus calcanhares. Carinhosamente,
acariciou meu rosto suado com a palma das suas mãos.
— Não é humilhante. Pelo contrário. Se você dividir isso com
alguém, vai te fazer bem. Falo por experiência própria. Depois que
falei a você sobre o que Diógenes fez comigo, me senti como se
tivesse tirado um peso dos meus ombros. Até aquele momento eu
acreditava que tinha sido minha culpa, mas agora eu percebo que o
culpado foi ele, e apenas ele.
Derrotado, suspirei profundamente, buscando forças dentro
de mim para verbalizar, pela primeira vez, um pesadelo reprimido
nos recônditos da minha mente.
— Aconteceu poucos dias depois que cheguei à prisão. É o
que eles fazem com caras que têm a minha aparência e nenhum
amigo lá dentro. — Suspirei mais uma vez, hesitante, com minhas
mãos trêmulas. — Eles vieram em três. Me encurralaram no
banheiro, quando estava vazio. Dois deles me seguraram e o outro
me sodomizou. Tentei lutar, me defender, mas não fui capaz. Ainda
consegui me soltar deles por um momento e cheguei a dar uma
surra no estuprador, mas logo ele acordou e continuou o que estava
fazendo, só que dessa vez ao mesmo tempo em que usava um
canivete para cortar minhas costas.
Me silenciei, devastado, ao perceber que a Ayla estava
chorando. A piedade dela me machucava quase tanto quanto as
lembranças amargas.
— Eu sinto muito... sinto tanto...
Ela me abraçou e começou a espalhar beijos estalados sobre
meu rosto e na curva do meu pescoço, sem que seu pranto
cessasse.
Foi inevitável. Logo o calor gostoso do seu corpo alcançou-
me através do tecido fino da sua camisola e a lascívia correu
fervorosa em minhas veias, misturando-se a tudo mais dentro de
mim, formando um turbilhão de emoções descontroladas em meu
interior, o qual me transformou em um ser quase irracional.
Com a força de um tsunami, meu corpo todo despertou para
o desejo escaldante que me invadiu e fui dominado por uma
necessidade urgente de estar dentro daquela mulher. Então, passei
os braços em volta da sua cintura e a puxei para mim, acomodando
o seu corpo delicado ao meu, ao passo em que ela montava em
meu colo, com uma perna de cada lado.
Fechei minha mão no comprimento dos seus cabelos e me
apossei da sua boca, com uma fome incontrolável por ela, a luxúria
desenfreada despertando algo primitivo em meu íntimo.
Com um gesto animalesco, virei-nos sobre a cama, deitando-
a de costas e colocando-me sobre ela, meu corpo grande cobrindo o
seu, enquanto minha língua provava a maciez da sua.
Dominando-a por completo, encaixei meus quadris entre suas
pernas e empurrei a ereção dolorida contra o seu sexo frágil, por
sob a barreira das roupas, satisfeito ao vê-la ofegando na minha
boca.
— Ayla... eu quero você... Preciso estar dentro de você com
urgência... — praticamente grunhi de encontro aos seus lábios
macios.
Em resposta, ela abraçou meus quadris com suas pernas e o
meu pescoço com seus braços, esfregando o fundo da sua calcinha
sobre a minha ereção, deixando-me ainda mais descontrolado.
— Sou toda sua. Faça comigo o que quiser.
Ela não precisou falar duas vezes. Com uma pressa absurda,
como se o último vestígio de oxigênio dos meus pulmões
ameaçasse faltar caso eu não a tivesse, usei as duas mãos para
rasgar a calcinha minúscula e arrancá-la do meu caminho. Enfiei os
braços por baixo das suas pernas, erguendo os seus quadris da
cama; abaixei minha calça apenas o suficiente para libertar o meu
pau e entrei nela, me enterrando até o fundo, com um gesto rápido e
brusco, as paredes macias do seu canal apertando gostoso meu
cacete me fez soltar um grunhido que parecia partir do fundo da
minha alma.
Ayla ainda não estava molhada o suficiente para me receber
e com isto começou a se esquivar, tentando fugir do meu ataque, o
que não foi suficiente para me fazer parar e continuei me
arremetendo contra ela, metendo e tirando meu pau com golpes
firmes, brutos Implacáveis, agindo como um animal desprovido de
racionalidade.
O som da minha pélvis se chocando brutalmente contra a sua
ecoava alto pelo quarto, enquanto Ayla tentava escapar das minhas
investidas. Porém, aos poucos, ela foi se rendendo, se entregando
ao desejo insano que também a acometia. Abriu ainda mais as
pernas, se arreganhando toda para mim, ao mesmo tempo em que
arqueava as costas sobre os colchão e lançava sua cabeça para
trás, fechando suas mãos sobre o lençol de seda. Os gemidos
descontrolados fugiam da sua garganta, incentivando-me a
continuar golpeando-a forte e incessante.
Vi os seios fartos apontando para cima e inclinei-me sobre
eles. Puxei o tecido delicado da camisola com os dentes, tirando o
do meu caminho, abocanhei um dos mamilos e suguei, com a
mesma ferocidade agressiva com que a fodia, chupando forte,
fazendo com que ela gemesse ainda mais alto, meu nome saltando
da sua boca sem que nada jamais tenha me parecido tão magnífico
e perfeito.
Sem deixar de penetrá-la, passei a boca para o outro peito e
circulei o mamilo intumescido com a ponta da minha língua, antes
de fechar meus lábios sobre ele e dar início a uma sucção forte e
incessante. Foi então que todo o seu corpo enrijeceu sob mim e as
lágrimas começavam a fugir dos seus olhos, enquanto ela chamava
meu nome com tom de súplica, dando indícios de que estava a
ponto de explodir.
— Eu sei, baby... sei como se sente... goza pro seu macho...
vou gozar também... encher essa bocetinha gostosa com meu
esperma...
Espalmei a mão sob sua nádega e fiz com que ela erguesse
um pouco mais os quadris, o que me permitiu alcançá-la ainda mais
fundo e meti tudo, sem dó, entrando e saindo com estocadas brutas
e rápidas, até que ela explodiu, gozando, convulsionando,
chamando meu nome com uma súplica deliciosa.
Sem mais conseguir me segurar, parei com o pau todo
enfiado nela e ejaculei. Meu membro soltava espasmos dentro da
sua vagina quente e lambuzada, jorrando forte e incessante.
Suado e ofegante, desabei ao seu lado e a puxei para junto
de mim, aninhando seu corpo todo ao meu, sem que nenhum
centímetro de pele deixasse de tocar a sua. Permanecemos
imóveis, em silêncio, por um longo momento, durante o qual uma
tranquilidade incomparável e inesperada tomou conta de mim,
afastando o pesadelo recente, tornando-o muito distante, quase
inexistente, o que fez com que a dor antiga, cravada em minha
alma, amainasse, como jamais havia acontecido antes.
— O que aconteceu com os caras que fizeram isso com
você? — indagou Ayla, depois do longo silêncio, com sua voz calma
e tranquila, condizente com a atmosfera de serenidade que nos
envolvia naquele instante.
Voltar a tocar naquele assunto não me machucou como
antes. Era como se a proximidade dela fosse um bálsamo para
todas as minhas feridas. Então, a apertei ainda mais forte contra
meu corpo, com a paixão visceral explodindo intensa em meu peito,
mesclando-se a um incompreensível sentimento de gratidão, pelo
simples fato de ela existir e ser minha.
— Eles morreram dois dias depois.
Ayla ergueu a cabeça e fitou-me perplexa.
— Você os matou?
— Não. Quem me dera ter essa capacidade.
— Então quem fez isso?
Ajeitei uma mecha de cabelo atrás da sua orelha, invadido
por um afeto genuíno, que transbordava em meu peito e se
espalhava por todo o meu ser.
— Quem você acha que foi?
— Esdras? — Ela parecia atônita com a constatação.
— Nós nunca conversamos sobre isso, mas só pode ter sido
ele. Não sei por qual motivo, talvez remorso. Só sei que depois que
os caras foram mortos, os integrantes da gangue que os
assassinou, declararam que me protegeriam dali em diante e com
isto nunca mais ninguém encostou a mão em mim. O mais
espantoso nisso tudo é saber que Esdras acompanhava de perto o
que acontecia comigo na prisão, tanto que ficou sabendo do que
aconteceu logo depois.
— Talvez ele se sentisse culpado por você estar pagando por
um crime que ele cometeu.
— Só que isso não o redime da culpa pelo que fez comigo.
Tudo que passei foi por causa única e exclusivamente dele.
Enquanto eu existir, jamais o perdoarei.
Ayla captou a amargura, o ódio, a cólera no tom da minha
voz, o que fez todo o seu corpo estremecer. Ela se achegou ainda
mais a mim, apertando-me mais forte, colando o seu corpo frágil
mais ao meu.
— Me desculpe por ter conversado com ele; por ter insinuado
que vocês dois deveriam se aproximar. Acho que agora eu consigo
te entender melhor. Realmente o que ele fez você passar não é algo
que se possa perdoar.
Emocionado com suas palavras, me coloquei sobre ela na
cama, apoiando o peso do meu corpo sobre os cotovelos e fitando-a
de muito perto.
— Obrigado por compreender.
Com isto, inclinei minha cabeça e me apossei da sua boca,
beijando-a como se aquele fosse o último instante de nossas vidas.
A paixão explodia em meu peito, se espalhando por cada
parte de mim. Emoções intensas tomavam conta de todo o meu ser,
enquanto eu continuava provando do gosto da sua boca, da maciez
da sua língua, sem jamais me fartar, tomado pela certeza de que a
queria pelo resto da minha vida.
— Eu te amo, Ayla — falei, com toda a sinceridade do meu
coração, com meu rosto a míseros centímetros de distância do dela.
Vi a emoção refletir na expressão do seu olhar, ao mesmo
tempo em que seus lábios se curvavam em um sorriso.
— Eu também te amo, como jamais imaginei ser capaz de
amar alguém.
— Quer se casar comigo? De verdade dessa vez. Sem um
contrato no meio.
— É claro que eu quero. Quero passar o resto da minha vida
ao seu lado.
— E deixar que eu me torne o pai dos seus filhos —
completei e ela sorriu ainda mais amplamente.
— Quero ter pelo menos uns quatro. Quero vê-los correndo e
fazendo barulho por essa casa tão grande.
— Teremos quantos você decidir.
Voltei a beijá-la com aquela paixão desmedida, a fome por
ela crescia novamente em meu íntimo. Porém, antes de possuí-la
mais uma vez, precisava falar. Então escorreguei para um lado e a
puxei junto comigo, fazendo com que se aninhasse em meu corpo.
— Vamos começar pela lua de mel. Já faz tempo que não tiro
férias. Vamos sair da cidade por um tempo, até aquele cara ir
embora daqui. Escolha qualquer lugar do mundo e eu a levarei.
— Mas isso vai ser uma lua de mel, uma viagem de férias, ou
uma fuga? — indagou ela, com tom de bom humor.
— Vai ser o que você quiser. Podemos ter outra lua de mel
depois do nosso casamento de verdade. Por ora, quero apenas tirar
você da cidade, enquanto aquele sujeito estiver rondando por aqui.
Ayla ficou reflexiva por um instante, até que seus lábios
voltaram a se dobrar em um sorriso largo, magnífico.
— Você disse qualquer lugar do mundo?
— Ou vários lugares. Você é quem decide.
— Ai, meu Deus! Eu sempre quis conhecer as Maldivas,
Cancún e a Tailândia.
— Então está decidido. Faremos uma excursão por todos
esses lugares.
— Quando poderemos ir?
— Tenho alguns negócios pendentes para resolver na cidade.
No máximo daqui a uma semana poderemos partir.
— Preciso fazer compras — disse, exultante.
— Gaste quanto quiser. Compre tudo o que precisar e mais
um pouco. — Virei-me para encará-la e com tom de seriedade
continuei falando: — Você não pode comentar com ninguém sobre
essa viagem, nem mesmo com as empregadas da casa, ou com
Samanta. Quando ela te acompanhar durante as compras, dê a
entender que só precisa de biquínis para usar na piscina. Ninguém à
nossa volta é de confiança. Vamos sair da cidade de uma hora para
outra, sem avisar ninguém. Quando voltarmos, aquele infame não
estará mais aqui.
Foi uma pena ver o sorriso se desfazendo dos seus lábios e a
tensão tomando conta da sua fisionomia.
— Eu vou tomar cuidado.
— Ótimo. Agora vem aqui.
Sem mais palavras, me debrucei sobre ela e voltei a
pressionar minha boca na sua, reiniciando os movimentos
manipulados pelo desejo e pela paixão que tomavam conta de mim.
CAPÍTULO 25
Ayla

Acordei na manhã seguinte invadida por uma miríade de


emoções conflitantes. Por um lado, me sentia exultante por Leander
ter me pedido em casamento, de verdade desta vez. Eu mal podia
acreditar que o homem que eu amava também estava apaixonado
por mim. Que passaríamos o resto das nossas vidas juntos. Parecia
um sonho tão perfeito que eu sequer ousei ter sonhado. Era muita
felicidade invadindo meu peito.
Porém, por outro lado, em uma parte de mim, pesava a
angústia pelo que Leander passara na cadeia, por causa daquele
abutre. Embora nós dois tenhamos sido vítimas do mesmo tipo de
violência, com ele foi inimaginavelmente pior, pois além de ter sido
violentado, foi agredido violentamente e teve suas costas marcadas
por cicatrizes que o seguiriam pelo resto da vida, impedindo-o de se
livrar das lembranças.
Quanto mais eu pensava na sua narrativa da noite passada,
na violência que sofreu, mais eu odiava o infame do Esdras, por
causar-lhe tamanho sofrimento. Odiava tanto que, se ele
aparecesse na minha frente hoje, eu nem sabia o que seria capaz
de fazer.
Comecei o dia do jeito que eu mais gostava: fazendo amor
com o meu marido. Depois, tomamos banho juntos, pedimos o café
da manhã ali mesmo no quarto e, como sempre, ele insistiu para
que eu fosse passar o dia no escritório, ao seu lado. Mas eu não me
sentiria à vontade em ficar de cara para cima o dia inteiro em um
lugar onde todos estariam trabalhando. Além disso, estava ansiosa
para ir às compras, abastecer o closet com as roupas de praia que
usaríamos durante a nossa viagem para a Tailândia.
— Vem comigo. Eu te deixo no shopping antes de seguir para
a empresa — convidou Leander e concordei.
Envolvidos por um silêncio de cumplicidade, atravessamos a
casa o mais depressa possível, a fim de evitar encontrarmos aquele
traste pelo caminho. Não que tivéssemos medo dele, apenas não
queríamos que sua proximidade maligna maculasse nossa
felicidade.
Leander deixou-me junto com Samanta na entrada do
shopping e seguiu para o seu trabalho. Antes de iniciar as compras,
como em todas as manhãs, telefonei para casa, quando fiquei
sabendo que meu pai estava bem e continuava melhorando cada
dia mais depressa.
As coisas por lá não podiam estar melhores. Além das duas
enfermeiras se revezando nos cuidados com meu pai, havia uma
empregada cuidando da casa, também contratada por Leander, a
pedido da minha irmã, que de boba não tinha nada.
Após conversar com os dois durante quase uma hora, parti
para as lojas com Samanta me acompanhando de perto, o tempo
todo. Mas a presença dela não me incomodava, pelo contrário, de
vez em quando eu pedia a opinião dela sobre alguma roupa antes
de comprar. Era como se eu estivesse começando a me acostumar
com a sua constante proximidade e a considerá-la quase como uma
amiga.
Com o cartão de crédito ilimitado do meu marido, comprei
uma infinidade de biquínis, maiôs, saídas de praia, chapéus de
palha, bolsas, chinelos e até algumas roupas de praia para ele, tudo
das mais caras e famosas grifes, gastando uma quantia que
pareceria vergonhosa à pessoa que eu era antes de conhecer
Leander.
Aproveitei também para abastecer meu guarda-roupa com
peças condizentes com meu novo estilo de ser e vestir. Nada muito
sexy, mas também não tão conservador quanto os trajes que eu
usava antes de deixar Ivanhoés.
Próximo ao horário do almoço, eu ainda estava no shopping
quando Leander me telefonou, me convidando para almoçarmos
fora. Acho que a intenção dele era me manter fora de casa e,
portanto, longe de Esdras, o máximo de tempo possível, enquanto
trabalhava.
Me apanhou no shopping e me levou a um restaurante que
parecia um sonho. Situado na cobertura de um edifício alto e
luxuoso, que nos proporcionava a magnífica vista de praticamente
toda a cidade, com seus arranha-céus constantemente envoltos
pela garoa. Era decorado com requinte e ao fundo havia um toque
de piano suave e ao vivo.
Após fazermos a refeição, envolvidos por uma atmosfera
gostosa de paz, sossego e cumplicidade, enquanto falávamos sobre
nosso futuro, fazendo planos sobre o casamento e a viagem,
Leander se ofereceu para me levar até um spa, cuja proprietária era
alguém com quem fazia negócios.
Era um lugar altamente requintado, disponível apenas para
usuários da alta classe social, o qual oferecia desde manicure e
cabeleireira, até massagista e onde eu poderia passar toda a tarde.
É óbvio que não recusei e pouco tempo depois meu marido
me conduziu até o interior do lugar imenso e luxuoso, apresentando-
me à proprietária, uma mulher elegante, com cerca de cinquenta
anos, que por pouco não estendeu um tapete vermelho à minha
frente, tamanha foi a bajulação ao me receber.
Como Leander se incumbiu de levar as sacolas de compras,
fiquei no spa livre, leve e solta. Só não estava melhor porque
Samanta continuava me seguindo para onde quer que eu fosse, o
que acabou atraindo a atenção de algumas clientes e me
constrangendo um pouco. Mas nada que me impedisse de relaxar.
Ali, aproveitei para fazer uma depilação completa, arrumar as
unhas, hidratar a pele e os cabelos. Recebi uma deliciosa
massagem corporal, fiz bronzeamento artificial e acabei entrando
em uma sauna a vapor, onde a maior satisfação foi ficar
completamente sozinha, sem a constante proximidade de Samanta,
que ficou na porta, do lado de fora.
Usando apenas uma calcinha minúscula e uma toalha de
banho enrolada em volta do corpo, deitei-me de bruços sobre a
plataforma de madeira envernizada e fechei os olhos, permitindo
que o vapor quente e agradável penetrasse meus poros, me
fazendo relaxar inigualavelmente, ao mesmo tempo que me
proporcionava uma sensação gostosa de limpeza.
Eu estava quase adormecendo, quando ouvi o ruído da porta
se abrindo e se fechando. Fui tomada pela irritação, achando que
era Samanta, porém, ao abrir os meus olhos, levantei-me com um
sobressalto.
Não era Samanta, era ele.
Desta vez não demorei mais que uma fração de segundo
para reconhecer o olhar cínico de Esdras; os traços mais joviais e
relaxados que os de Leander, embora nada mais além disso os
diferisse um do outro.
Ele era tão igual ao homem por quem eu estava
perdidamente apaixonada, nos braços de quem passava noites de
paixão ardente, que chegava a ser quase assustador.
— O que diabos você está fazendo aqui? Como conseguiu
entrar? — indaguei, grudando minhas costas na parede,
instintivamente medindo a distância entre mim e a porta,
especulando se conseguiria passar por ele a tempo de escapar.
Diferente de mim, Esdras não usava trajes adequados para
sauna, vestia calça jeans e camisa polo. Olhei em seu rosto e o
pavor foi me invadindo aos poucos, a medida em que minha mente
projetava as inúmeras formas através das quais ele poderia tirar a
minha vida ali mesmo, sem que ninguém viesse me socorrer. Pude
visualizar claramente a mão dele em torno da minha garganta,
fazendo pressão, apertando até a vida se esvair do meu corpo.
O terror se intensificou em meu íntimo a tal ponto que me fez
estremecer diante do seu olhar atento.
— Vim te ver. Você não para mais em casa — disse ele, com
a mesma tranquilidade de quem encomendava um sanduíche em
uma lanchonete delivery. — Entrar aqui não foi tão difícil. Como
sempre, me passei pelo meu irmão diante dos funcionários. Depois
foi só dar um jeito de tirar a segurança da frente da sua porta.
— Como soube onde eu estava?
— Eu tenho os meus métodos e, quando quero uma coisa,
não meço esforços.
Jesus! Ele realmente estava aqui para me matar, ou não teria
tido todo esse trabalho para me encontrar e depois invadir o spa
fingindo que era Leander.
O que eu faria agora?
A perspectiva da morte me parecia tão próxima, que desta
vez não consegui controlar os tremores que invadiram meu corpo.
— Você veio me matar?
— O quê?! Claro que não! — Ele parecia surpreso. — É por
isso que está tremendo? Acha que vou te fazer algum mal?
— A sua existência se resume a fazer mal às pessoas.
Relembrei a narrativa de Leander durante a noite, sobre o
momento em que foi violentado na cadeia e a raiva pipocou feroz
em minhas veias, sobressaindo-se ao medo que me assolava.
— Você está errada. Nem sempre eu faço mal às pessoas.
Não pretendo fazer a você. Se tivesse essa intenção, não seria uma
segurança desengonçada que conseguiria me impedir.
— Leander me contou o que aconteceu com ele na cadeia,
poucos dias depois de ter sido preso por sua causa.
Proferir aquelas palavras fez o ódio se intensificar ainda mais
em meu interior.
Esdras refletiu por um instante, como se tentasse lembrar, até
que por fim sua mente pareceu clarear.
— Caralho! Ele teve coragem de te contar que foi estuprado?!
Eu não teria.
— E tudo por sua causa! — emendei, com os dentes
trincados.
— E ele te contou também o que aconteceu com os
estupradores depois? Ou só falou sobre a parte que lhe convinha?
— É claro que você mandou matá-los. A sua especialidade é
matar — falei, com o ódio me percorrendo.
— Não me olhe com tanto ódio. Não fui eu que comi a bunda
dele. Além de eliminar os criminosos que fizeram isso, garanti que
ele estivesse seguro durante o resto da sua pena.
— Como você é cínico! Se Leander foi preso, se teve que
passar por todo esse inferno, foi porque você o colocou na cadeia,
por um crime que ele não cometeu! Você é a pior praga que já
passou por essa Terra. Como se não bastasse tirar a vida daquela
garota, ainda fez com que o seu próprio irmão pagasse por isso. O
que ele fez para que você o odeie tanto?
Pela primeira vez vi em seus olhos uma expressão diferente
do cinismo de sempre. Parecia um misto de mágoa e espanto que
quase me surpreendeu.
— Você está enganada a meu respeito. Eu não sou tão ruim
quanto você imagina. A morte daquela garota foi um acidente. A
gente estava fodendo e ela estava gemendo alto demais, com
fingimento para cima de mim. Não que isso justifique o que
aconteceu, mas a verdade é que a minha intenção não era matá-la
e sim apenas silenciá-la. Infelizmente demorei demais para tirar a
mão da boca dela — enquanto falava, ele continuava me fitando
com aqueles olhos carregados de uma culpa que não parecia nada
teatral. — Quanto ao meu irmão, eu não joguei a culpa em cima
dele porque o odiava, só não quis ir para a cadeia. Qualquer pessoa
no meu lugar teria feito o mesmo.
— Só um canalha da pior espécie sequestraria o próprio
sobrinho e jogaria o irmão inocente na prisão.
— Eu sei. Eu sou um canalha, mas não da pior espécie. O
garoto não sofreu nenhum arranhão durante o sequestro, pelo
contrário, ficou o tempo todo assistindo desenhos na televisão e
comendo algodão-doce. Quanto ao meu irmão, eu cuidei dele
enquanto estava preso, providenciei para que permanecesse o
mínimo de tempo possível na cadeia, porque eu gostava dele.
Gostava até ele tirar de mim a única mulher que já fui capaz de
amar nessa vida. Aposto que sobre isso ele não te contou.
— Ele contou. Mas não foi ele quem a tirou de você. Foi você
quem a matou.
Fiquei surpresa ao ver a dor estampada na sua fisionomia.
Parecia uma dor tão profunda, tão enraizada em sua alma, que, por
um instante, quase me esqueci do monstro que ele era.
— Ela ainda estaria viva se ele não tivesse ido lá se
passando por mim. Era para ela tê-lo reconhecido, da forma como
você me reconhece quando eu chego perto.
— Como se você não tivesse feito o mesmo, várias vezes,
com as garotas com quem Leander saía.
— Nunca uma garota foi importante para ele, como Sara era
importante para mim. Ele sabia disso, sabia que eu a mataria se ela
me traísse e mesmo assim foi lá e passou a noite com ela. Minha
vida acabou naquele momento e por isso eu nunca o perdoarei.
A cada palavra que saía da boca dele, eu ficava mais
surpresa. Jamais imaginei que alguém perverso como aquele
homem fosse capaz de amar uma mulher tão intensamente.
— E agora está aqui para se vingar em mim pelo que ele te
fez?
— Claro que não. No início pode ter sido, mas foi só até eu te
conhecer e entender por que ele está tão apaixonado. — Sem
desviar seus olhos dos meus, Esdras aproximou-se um passo de
mim, de modo que restou apenas um metro de distância entre nós.
— Eu vim aqui pra te dizer que posso te fazer feliz mais do que ele.
Eu quero você como há muito tempo não desejo uma mulher.
— Não, Esdras, o que você quer é me tirar dele, por vaidade,
orgulho, para infernizar a vida dele.
Novamente uma expressão surpresa se refletiu no brilho do
seu olhar.
— É isso que você pensa? — Sem esperar que eu
respondesse, continuou falando: — Você está enganada. Não vim
até aqui simplesmente porque quero tirar você dele. Estou aqui
porque quero você pra mim.
Enquanto falava, ele vinha devagar em minha direção, sem
que eu tivesse para onde correr, já que minhas costas se
encontravam grudadas no limite da parede da sauna e eu jamais
teria agilidade suficiente para passar por ele e alcançar a porta.
— Eu quero você demais. Desde aquele dia em que nos
beijamos, meu corpo suplica pelo seu. Não consigo parar de pensar
em você. Às vezes, até sonho com você e sou obrigado a me
masturbar no meio da noite quando acordo de pau duro por sua
causa.
Ele estava a míseros centímetros de distância de mim,
quando tentei escapar. Porém, fui detida por suas duas mãos se
espalmando na parede às minhas costas, dos dois lados do meu
corpo, formando um cerco à minha volta, que me impedia de me
afastar.
— É melhor você sair de perto de mim, ou vou começar a
gritar — falei, golpeada por uma miríade de medo e algo mais que
não consegui identificar.
— Será que você não ouviu uma palavra do que eu disse?
— Ouvi, mas não é problema meu se você está interessado
em mim. Eu amo o seu irmão e…
Antes que eu tivesse tempo de completar a frase, Esdras já
estava em cima de mim. Segurou meus dois pulsos contra a parede,
acima da minha cabeça, e firmou sua outra mão sobre minha nuca,
deixando-me completamente aprisionada, imobilizada entre seu
corpo maciço e a solidez da parede, para em seguida atacar minha
boca com a sua, pressionando fortemente seus lábios nos meus,
tentando inserir sua língua entre eles.
Mantive meus lábios cerrados, enquanto lutava e me debatia
tentando me libertar do seu ataque, mas sem a mínima chance de
deter sua força bruta. Então, cravei os meus dentes em seu lábio
inferior e fiz pressão, até sentir o gosto de sangue em minha boca,
mas nem assim ele me soltou. Continuou me beijando, esfregando
seus lábios nos meus, lambendo a parte externa da minha boca, ao
passo em que minhas tentativas de escapar faziam com que a
toalha se desenroscasse do meu corpo e caísse no chão.
Com apenas a calcinha minúscula cobrindo minha nudez,
pude sentir mais diretamente o calor do seu corpo forte, emanando
através das suas roupas, e o pior aconteceu. A corrente de desejo
atingiu-me com a ferocidade de um furacão, transformando meu
sangue em brasas, fazendo o meu ventre se contorcer de excitação.
Quando dei por mim, estava correspondendo ao beijo, permitindo
que ele introduzisse a língua na minha boca e a resvalasse na
minha.
Como se nada mais no mundo importasse, a não ser a
satisfação para o fogo insano que me consumia, simplesmente parei
de lutar e me rendi, projetando meus quadris para a frente, em
busca de um contato mais íntimo com a solidez da sua ereção, tão
firme, que parecia a ponto de atravessar o meu corpo.
Um grunhido selvagem partiu da garganta de Esdras e
morreu na minha boca, quando ele libertou os meus pulsos e
desceu a palma da sua mão através das curvas do meu corpo
seminu, me apalpando toda, acariciando minha pele sensível,
deixando um caminho de chamas por onde passava.
Ensandecida pela luxúria cega, passei os braços em volta do
seu pescoço e pressionei sua nuca, aprofundando ainda mais o
beijo, enquanto choramingava e arfava de tanta vontade dele, como
se qualquer vestígio de racionalidade que pudesse me restar tivesse
me abandonado por completo.
Naquele instante, eu já não me reconhecia. Era apenas uma
estranha capaz de amar um homem perdidamente e se encontrar
entregue aos braços de outro, como um animal irracional e
despudorado. Eu sequer conseguia pensar naquela situação, tudo o
que conseguia era o querer, com a mesma intensidade com que
queria o meu marido, como se eles fossem um só homem, divididos
em dois corpos idênticos.
O fogo da lascívia me percorria e arrebatava, se tornando
ainda mais intenso quando os dedos de Esdras invadiram a parte da
frente da minha calcinha e mergulharam entre meus lábios vaginais.
Um grunhido animalesco escapou da sua garganta quando a ponta
do seu dedo do meio circundou a entrada lambuzada da minha
vagina, para em seguida penetrá-la pela metade, enquanto a palma
da sua mão se esfregava sobre meu clitóris inchado.
Como se eu estivesse enlouquecida de tanto tesão, abri um
pouco mais as pernas, a fim de ampliar o acesso da sua mão e
soltei um gemido alto, descontrolado, quando ele me penetrou um
pouco mais fundo.
— Solte-a agora mesmo, ou vou enfiar uma bala na sua
cabeça!
A voz firme e ríspida de Samanta me atingiu com a mesma
ferocidade de uma onda de dois metros quebrando sobre mim em
mar aberto, arrastando-me violentamente de volta para a realidade e
fiquei paralisada, congelada no lugar, enquanto Esdras se afastava.
— Guarda esse revólver, mocinha, ou vai acabar
machucando alguém, inclusive a si mesma.
Como se eu vivesse um pesadelo irreal, olhei na direção de
Samanta e a vi perto da porta aberta da sauna, empunhando uma
pistola cromada, apontando-a diretamente para Esdras, parecendo
bastante determinada a atirar.
Apesar do perigo tão iminente, não movi um só músculo do
meu corpo, petrificada de tanta vergonha e receio do que
aconteceria quando Leander soubesse sobre o que acabara de
acontecer.
Por Deus! Ele jamais me perdoaria! A nossa história acabava
aqui.
Fiz a constatação com as lágrimas marejando meus olhos e
uma angústia infinitamente dolorosa se espalhando por todo meu
ser, enquanto eu observava a cena diante de mim como se fizesse
parte de um sonho distante.
— Nem por um instante pense que não sou capaz de atirar
em você — disse Samanta, obstinada.
— Do que você está falando? Eu sou o marido dela — tentou
Esdras.
— Não me trate como se eu fosse imbecil! Quando me
disseram que você entrou aqui, telefonei para o Sr. Agostini e
confirmei que não era ele. Agora saia, imediatamente!
— Mas pra que tanta grosseria? Você me viu fazendo algo de
errado? Por acaso, eu estava agarrando ela à força?
— Eu tenho ordens de atirar em você, caso coloque as mãos
nela. Se deseja continuar vivendo, afaste-se agora mesmo e não
vou falar de novo!
Por fim, derrotado, Esdras suspirou profundamente, plantou
um beijo no alto da minha cabeça, sem que o choque dentro de mim
me permitisse sentir o seu toque, disse alguma coisa que não
compreendi e então deixou a sauna, passando por Samanta com o
andar sorrateiro, atento a cada minúsculo movimento dela, assim
como ela se atentava aos seus.
Quando ouvi o ruído da porta se fechando, por fim consegui
me libertar do que parecia um transe profundo. Peguei a toalha do
chão, envolvi-a em torno do meu corpo e sentei-me sobre a
plataforma de madeira, enfiando a cabeça entre as mãos.
Sentia-me completamente devastada, destroçada, pela
certeza de que minha história com Leander havia terminado ali, por
causa de um erro estúpido que cometi.
— Você vai contar tudo para o meu marido, não vai? — falei,
em uma falha e desesperada tentativa de não perder o homem que
eu amava.
— Não vou precisar. Quando um dos funcionários me disse
que seu marido estava aqui, eu liguei para ele e contei o que estava
acontecendo. Provavelmente ele já deve estar a caminho daqui, a
essa altura.
Por Deus! O fim do nosso relacionamento estava ainda mais
próximo do que eu imaginava.
— Por que diabos você deixou aquele infame entrar aqui? —
meu tom de voz era de acusação, simplesmente porque eu
precisava culpar alguém pelo meu imperdoável erro.
— Não coloque a culpa em mim. O cara estava com a mão
dentro da sua calcinha e você estava gostando.
— Eu pensei que a sua função fosse impedi-lo de se
aproximar.
— E é. Mas ele foi mais esperto. Mandou alguém me pedir
ajuda, só para me tirar de perto da porta.
Cogitei propor-lhe que não contasse nada do que viu ao meu
marido, pois assim poderia manter o seu emprego, enquanto eu
mantinha o meu casamento. No entanto, seria tolice e perda de
tempo mentir, até porque Esdras não perderia essa oportunidade de
magoar o irmão, contando-lhe tudo.
Eu estava mesmo perdida. Tudo o que existia entre mim e
Leander se acabaria. Eu já devia ter imaginado que tanta felicidade
não seria para mim.
CAPÍTULO 26
Ayla

A fim de evitar um confronto com meu marido em um local


cheio de gente desconhecida, peguei minhas coisas depressa e
pedi que o motorista me levasse para casa o mais rápido possível.
O desespero dentro de mim era tão grande, que mal vi o
percurso até a casa. Ao chegar, subi as escadas correndo e fui
direto para o quarto. Sentei-me na beirada da cama e afundei a
cabeça entre as mãos, com minha mente girando e uma aflição
pungente tomando conta de cada minúscula parte de mim.
Eu queria que existisse uma saída para o que estava
acontecendo, mas não existia. Eu tinha perdido Leander e nada
mudaria isso.
Não demorou muito, a porta do quarto se abriu e ele entrou.
Me fitava com seus olhos virados nas órbitas e, antes mesmo que
dissesse qualquer palavra, pude perceber que já sabia de tudo.
Meu Deus!
— Samanta me contou o que aconteceu, mas não pude
acreditar. Preciso ouvir da sua boca.
Levantei-me sem desviar meu olhar do seu rosto. A miríade
de ódio e angústia refletida no brilho do seu olhar me dava a certeza
de que ele havia percebido a verdade na narrativa de Samanta.
Apenas não queria acreditar nessa verdade.
— Leander, por favor, me perdoa — supliquei.
O martírio que me assolava era tanto, que meus olhos
marejaram de lágrimas.
— Eu quero saber o que diabo aconteceu naquela sauna,
porra!
— Eu estava lá e ele entrou. Nós nos beijamos, mas foi só
isso, um beijo.
Leander fechou os seus olhos e os apertou com força, ao
passo em que seu semblante se contraía de dor.
— Você achou que ele era eu quando o beijou?
— Leander... por favor…
— Responde a pergunta, Ayla! — dessa vez ele gritou.
— Não. Eu sabia que era ele. Mas ele é muito parecido com
você e eu te amo tanto…
Agindo como uma fera irracional e agressiva, Leander virou-
se para a parede atrás de si e a esmurrou violentamente, com seu
punho cerrado, uma, duas, três vezes, até que as juntas dos seus
dedos estivessem ensanguentadas e dilaceradas.
Aflita, corri até ele e tentei detê-lo, mas quase fui
arremessada contra outra parede quando ele se virou em minha
direção e me empurrou abruptamente.
— Fica longe de mim! — grunhiu ele, com os dentes
trincados, o semblante contorcido de uma fúria assustadora.
— Leander, por favor, eu te amo perdidamente e Esdras é
igual a você. Se coloca no meu lugar.
— Conversa fiada! Você sabia que não era eu e mesmo
assim o beijou! Deixou que ele tocasse seu corpo! Quem ama não
trai! — Sua voz estava mais calma, porém permeada por uma frieza
desoladora. — Quero que saia da minha casa ainda hoje. Vou
mandar o piloto te levar a Ivanhoés de helicóptero. É a última coisa
que farei por você. Depois disso, quero que se esqueça do meu
nome e da minha existência, pois farei o mesmo com você.
Cada palavra que saía da sua boca me atingia como uma
violenta punhalada no peito, provocando uma dor absurda, que se
espalhava por todo o meu ser, me torturando e destruindo.
— Leander, não faz isso. Eu amo você. Sempre vou amar.
Sua resposta foi o silêncio e um olhar tão frio, que me fez
congelar até os ossos. Eu preferia mil vezes que ele estivesse me
xingando e brigando, do que me desprezando de forma tão
lancinante.
Sem mais palavras, Leander simplesmente deu meia-volta,
abriu a porta e se foi.
Sozinha no quarto, me senti como se meu mundo tivesse
acabado de desmoronar. A dor que tomou conta de mim era tão
ferrenha, que, de repente, não senti mais minhas pernas e desabei,
caindo deitada sobre o assoalho gelado e dando início a um pranto
irrefreável, cujos soluços faziam meu corpo todo sacudir.
Eu amava Leander muito mais do que imaginava. Apesar de
nos conhecermos há tão pouco tempo, ele havia se tornado a minha
vida, meu porto seguro e agora estava tudo acabado entre nós.
Se, pelo menos, eu pudesse voltar no tempo e desfazer a
merda que fiz. Mas isso era impossível e eu jamais me perdoaria
por cometer o pior erro da minha vida, que foi corresponder ao beijo
daquele lunático.
Mais do que nunca, eu odiava Esdras, por destruir a melhor
coisa que já aconteceu na minha vida.
Chorei até que minhas lágrimas pareciam ter secado. Eu
continuava deitada no chão, devastada, deprimida, sem forças
sequer para me levantar, quando houve uma batida na porta e logo
em seguida Meredith entrou.
Pude ver a piedade na expressão do seu olhar quando o
deteve sobre mim.
— Você está bem? — indagou ela.
Precisei de um esforço sobre-humano para conseguir me
recompor e coloquei-me de pé.
— Eu vou ficar bem — respondi.
— O piloto do helicóptero está te esperando lá fora. Já faz um
tempo que ele está aí.
— Claro. Diga que já estou indo.
Sem mais palavras, Meredith lançou-me mais um olhar de
piedade e deixou o aposento.
Sentindo-me vazia, como se a enxurrada de lágrimas tivesse
minado todas as minhas forças, todo o meu ânimo e todos os meus
sentimentos, enfiei apenas minhas roupas antigas em uma mochila
e deixei o quarto.
Como era esperado, Samanta já não se encontrava do outro
lado da porta, pronta para me seguir. Obviamente havia sido
demitida, não apenas porque eu não estaria mais aqui, mas por ter
falhado em sua missão e permitido que Esdras entrasse naquela
maldita sauna.
O simples ato de pensar naquele canalha foi suficiente para
que a raiva corresse solta em minhas veias, fazendo meu sangue
ferver. Eu havia sido uma idiota, fraca e impulsiva, permitindo que
ele me beijasse e tocasse. No entanto, se não fosse pela sua
existência, minha vida com Leander não teria sido destruída.
Tão logo avancei pela sala, o vi espichado sobre o sofá,
displicentemente, folheando uma revista. Tentei ignorá-lo e passar
direto, mas foi perda de tempo. No instante em que me enxergou,
ele se levantou e atravessou o meu caminho.
— Ei, espera aí. Onde você tá indo com tanta pressa?
— Isso não é da sua conta!
Tentei desviar, mas ele continuou atalhando o meu caminho,
parecendo uma barreira de aço intransponível.
— É claro que é da minha conta. Nós temos uma história
agora, baby. Você é praticamente minha.
— Há uma distância exorbitante entre um beijo roubado em
uma sauna e a existência de uma história entre duas pessoas.
— O beijo foi roubado, mas foi gostoso. Confessa! Eu sei que
você gostou. Existe uma química muito forte entre nós e isso você
nunca mais poderá negar.
Suas palavras me fizeram sentir como uma pecadora suja,
diante do objeto do seu pecado. Eu era uma mulher casada, que
beijara o responsável pela ruína do meu marido. Isso fazia de mim o
mais indigno dos seres humanos e era exatamente como eu me
sentia.
— Sai da minha frente, Esdras. O piloto do helicóptero está
me esperando.
— Piloto do helicóptero? — Ao mesmo tempo em que
proferia a pergunta, ele observava a mochila pendurada em meu
ombro. — Ah, meu Deus! Leander já ficou sabendo do que
aconteceu? As fofocas correm depressa por aqui, hein!
Seu tom de deboche conseguiu atiçar ainda mais a raiva em
minhas veias.
— Pode comemorar. Você conseguiu o que queria, destruiu o
que existia entre a gente. — Minha voz tremeu nas últimas palavras,
enquanto as lágrimas marejavam meus olhos, o misto de cólera e
tristeza reacendendo dentro de mim.
— E eu vou comemorar mesmo, porque agora você pode ser
toda minha. Posso te dar uma vida muito melhor do que a que ele
estava te dando. Vou te levar para conhecer o mundo; você nunca
mais precisará se preocupar com nada; terá empregados para servi-
la durante o dia e a noite; viverá nas suítes mais luxuosas dos
melhores hotéis do planeta e conhecerá os lugares mais
encantadores. Além disso, eu vou te amar como aquele panaca
jamais te amou e jamais deixarei você partir, como ele está
deixando.
Suas palavras só conseguiram atiçar ainda mais a ira que me
assolava. Minha vontade foi de cerrar os meus punhos e esmurrá-lo
na face, até que ele se arrependesse por ter usado a aparência do
homem que eu amava para me seduzir.
— Não vai acontecer, Esdras. Jamais acontecerá alguma
coisa entre nós, porque o meu coração já tem dono. É o seu irmão
quem eu amo e, mesmo que não esteja mais na vida dele, vou
continuar amando até o fim dos meus dias. O que aconteceu essa
tarde, foi apenas um engano. Foi a aparência do homem que eu
amo que me fez perder a cabeça e mais nada. Nunca se repetirá.
Vi o brilho furioso atravessando a expressão do seu olhar, tão
assustador que me fez recuar um passo.
— Não foi um engano. — Com um movimento ágil, ele
eliminou a distância que nos separava e fechou suas mãos em torno
dos meus dois braços, apertando com brusquidão. — Você gostou
do que fizemos, gostou até demais e teria gostado mais ainda se
aquela vadia não tivesse aparecido para nos interromper.
— Gostei mesmo, não vou negar, mas foi unicamente porque
você tem o mesmo rosto, a mesma voz e até o mesmo gosto do
homem que eu amo.
— Não diga tolices. Você consegue distinguir a diferença
entre nós dois com apenas um olhar. Mas se ainda não tem certeza
de com qual dos dois quer ficar, posso te mostrar que sou o homem
certo para você.
Dito isto, ele intensificou ainda mais a pressão das suas
mãos em torno dos meus braços e me puxou para junto do seu
corpo, trazendo sua boca até a minha. Teria me beijado de novo, se
eu não tivesse desviado o rosto a tempo.
— Me solta, Esdras. Isso já foi longe demais!
Tentei me soltar, debatendo-me contra ele, mas me tornava
fraca e pequena diante da sua força bruta.
— Isso está apenas começando. Quando me conhecer mais
intimamente, você nunca mais pensará em outro homem. Sua
existência se resumirá a me servir, de todas as formas que eu quiser
e, acredite, já pensei em várias formas de te submeter a mim.
Me ocorreu que ele estava se referindo às suas práticas de
BDSM e um estremecimento de pavor me varreu de cima a baixo.
— É melhor você me soltar, ou vou começar a gritar. Estou
falando sério!
Ao invés de me atender, ele me encurralou contra uma
parede e pressionou seu corpo maciço no meu, ao passo em que
tentava alcançar minha boca com a sua.
— Me solta! Eu não quero isso! Tire suas mãos de mim!
— Você diz isso, mas daqui a pouco vai estar gemendo bem
gostoso no meu pau.
Por fim, ele deu o bote final, segurando meus pulsos às
minhas costas com uma mão e aprisionando minha nuca com a
outra. Sua boca estava quase atacando a minha, quando de repente
algo inesperado aconteceu.
Rápido como um raio e feroz como um animal selvagem,
Leander pareceu ter surgido do nada e o empurrou violentamente
para longe de mim, de modo que, por uma fração de segundo,
Esdras mostrou-se desnorteado, sem entender o que estava
acontecendo.
— Ela disse para soltar! Ainda não percebeu que ela não
quer? — vociferou Leander, fuzilando o irmão com seus olhos
reluzentes de ódio, sua fisionomia contraída de fúria.
— E quem é você para dizer o que ela quer ou não? —
rebateu Esdras.
— Sou o marido dela!
— Corrigindo: você "era" o marido dela! Na primeira
oportunidade, no primeiro deslize que ela deu, a expulsou da sua
casa! E é por isso que você não a merece!
Ambos estavam bastante alterados, fuzilando-se como dois
animais irracionais prestes a entrarem num embate físico.
Minha nossa!
— Pelo menos quando ela estava comigo era por vontade
própria e não porque a forcei a me beijar, como você estava
fazendo!
Leander falava e se aproximava do irmão devagar, com seus
punhos cerrados, seus ombros contraídos da mais pura tensão.
— Eu nunca a forcei a nada. Ela me beijou esta tarde por
vontade própria e teríamos ido ainda mais longe se aquela vadia
não tivesse aparecido para atrapalhar.
Um tremor atravessou o corpo de Leander e pude visualizar
mentalmente ele perdendo o autocontrole e avançando para cima
do irmão. Eu não podia nem imaginar o que aconteceria se ambos
dessem início a uma luta braçal. Com tantas mágoas acumuladas
ao longo de toda uma vida, um dos dois sairia gravemente ferido,
talvez morto.
Antes que o pior acontecesse, larguei a mochila no chão e
corri até onde estavam, colocando-me entre eles, como uma
barreira, aflita, sobressaltada.
— Parem com isso! Vocês são irmãos! — berrei, alarmada.
— Mesmo que não fossem, deveriam estar agindo como adultos e
não se engalfinhando igual duas crianças birrentas!
— Já estou cansado desse cara na minha casa! Será que ele
ainda não percebeu que não é bem-vindo?! — cuspiu Leander,
colericamente.
— E tem como não perceber? Você vem deixando isso claro
desde o primeiro dia!
— E mesmo assim você não sai!
— Agora que a única coisa que me prendia aqui está indo
embora, com certeza sairei!
Leander novamente se exaltou, tremendo de ódio. Estava
prestes a partir para cima de Esdras, quando precisei gritar para que
ele soubesse que, se o atacasse, me machucaria também.
— Já chega disso! Parem vocês dois!
Ambos continuaram se encarando por um momento de
silêncio, parecendo duas feras violentas disputando território. Até
que por fim Leander recuou, afastando-se. Foi até o bar, a um canto
da sala, e se serviu de uma dose de uísque puro, ingerindo tudo
com um só gole.
Apenas então percebi a vermelhidão em seus olhos,
indicando que havia chorado, ou talvez bebido além da conta.
Mas isso não era mais assunto meu.
Com tristeza, fui até a mochila largada no chão e voltei a
pendurá-la no ombro.
— Eu tenho que ir. Espero que não se matem — falei.
— Eu te levo até o helicóptero — ambos disseram em
uníssono e jamais algo me pareceu tão ridículo.
— Eu sei o caminho.
Dito isto, segui para a porta e deixei a casa sem olhar para
trás.
Era fim de tarde. O sol se escondia no horizonte, enviando os
seus tímidos raios amarelados, através da vegetação que sucedia o
jardim. Perto da entrada, um dos funcionários me aguardava, com o
carrinho de golfe que usava para circular através da propriedade.
Avisou-me de que me levaria até o heliponto, mais à frente e no
instante em que me acomodei no banco de trás do pitoresco
veículo, ele sentou-se ao meu lado, sem que eu tenha visto em que
momento saiu da casa.
Era Leander. Não precisei nem olhar diretamente em seu
rosto para o reconhecer. O cheiro que emanava dele foi suficiente
para que meu coração se agitasse dentro do peito, a paixão visceral
me dominando, ao mesmo tempo em que a mágoa parecia me
rasgar internamente.
— Eu disse que sei o caminho — falei, secamente, sem o
encarar.
— E eu ouvi, mas mesmo assim vou te acompanhar.
A fim de evitar uma discussão, não falei mais nada.
Tampouco protestei quando o funcionário ligou o veículo e deu a
partida, nos conduzindo através do jardim bem cuidado, a uma
velocidade muito baixa, avançando pelos campos verdejantes onde
ficava o heliponto.
Foi um percurso de mais ou menos dez minutos, durante o
qual um silêncio sepulcral reinava entre nós, assim como a
atmosfera de tensão que nos envolvia.
Quando o veículo parou ao lado do helicóptero e saltamos, o
piloto que aguardava do lado de fora cumprimentou-nos
respeitosamente e tomou o seu lugar na cabine.
— Então, adeus — falei, sem conseguir olhar Leander
diretamente no rosto.
Dei-lhe as costas e me aproximei da aeronave. Havia
colocado um pé no degrauzinho, quando sua mão grande se fechou
em torno do meu braço e me puxou de volta.
— Espere. Não vá — sussurrou ele.
Ergui a face para encará-lo e meu coração disparou como um
louco no peito, quando me deparei com suas piscinas incrivelmente
azuis, repletas de um misto de paixão e desespero.
— Por que eu ficaria?
Leander soltou o meu braço e hesitou antes de responder:
— Porque aqui você estará mais segura. Não confio naquele
cara. Temo que ele possa te seguir e te fazer algum mal.
Meu coração se espatifou em mil pedaços. Se ele tivesse dito
que queria que eu ficasse porque ainda me amava, porque tinha me
perdoado pelo meu erro e ainda me queria na sua vida, como sua
esposa, eu estaria pulando, vibrando e me atirando em seus braços.
No entanto, continuar naquela casa, aturando o seu desprezo e a
sua indiferença, somente porque ele temia que Esdras fosse atrás
de mim, era algo que eu não suportaria.
Se o que havia entre nós tinha acabado, eu preferia me
distanciar, para apenas assim conseguir esquecê-lo. Se é que um
dia conseguiria tirá-lo da minha cabeça e do meu coração.
— Aqui não é mais o meu lugar — falei, esforçando-me para
reprimir as lágrimas que ameaçavam aflorar dos meus olhos. — Se
a sua preocupação é que o seu irmão me siga, pode ficar tranquilo.
Ele só queria destruir o que tínhamos e agora que conseguiu não há
mais razão para que se interesse por mim.
— Eu não acho que ele só queria destruir o que tínhamos.
— Para falar a verdade, nesse momento, eu não estou me
importando muito com o que você acha. Só quero ir para casa.
Estou cansada. Quero ver meu pai.
Leander abriu a boca para dizer algo mais, porém pareceu
desistir e afastou-se um passo, dando-me consentimento para
seguir em frente.
Com minha alma despedaçada, o coração esmigalhado no
peito, entrei no helicóptero e evitei olhar para ele enquanto
levantávamos voo.
Chorei durante todo o percurso de São Paulo até Ivanhoés.
Ao aterrissarmos na pista de pouso recentemente construída,
próximo ao local onde o resort estava sendo levantado, um
motorista já me aguardava e me levou até em casa.
Era tarde da noite quando estacionamos diante da moradia
simples, onde nasci e cresci. Apressei-me em secar as lágrimas e
esconder a minha angústia com um pouco de maquiagem, antes de
saltar do veículo e entrar.
Como não avisei que viria, acabei dando um susto na minha
irmã, que ficou exultante ao me ver, após o choque inicial. Não
deixei que ela acordasse papai e expliquei que tivera uma discussão
com meu marido, embora não tenha entrado em detalhes. Não disse
que estava me separando. Ainda era cedo demais para dar uma
notícia tão pesada, que certamente deixaria toda a cidade indignada
e revoltada, por eu ter abandonado um casamento que custou a
todos a construção de um resort na vizinhança. Eu precisava me
preparar psicologicamente para lidar com a hostilidade de toda a
população de Ivanhoés, inclusive dos membros da minha família.
Por ora, tudo o que eu queria era ficar sozinha no meu canto,
remoendo as minhas mágoas, que não eram poucas.
CAPÍTULO 27
Ayla

Após comer um sanduíche na alegre companhia da minha


irmã, egocêntrica demais para perceber o quanto eu estava
devastada, isolei-me no meu quarto e atirei-me de bruços sobre a
cama, cujos lençóis ainda guardavam o cheiro familiar e
reconfortante do meu verdadeiro lar.
Sozinha, recomecei o pranto inconsolável, repassando
mentalmente todos os acontecimentos, cada palavra proferida,
desde que aquele infame do Esdras me beijara na sauna e, com
isto, destruíra a minha vida. Se eu pudesse, voltaria no tempo e
desfaria o maior erro que já cometi. Mas isso era impossível e tudo
o que me restava agora era a dor lancinante que invadia a minha
alma, devastando-me por completo, acabando comigo.
Passei a maior parte da noite chorando. Na manhã seguinte,
não foi fácil encarar o meu pai. Apesar da saudade latente, fiquei
tensa o tempo todo em que estava com ele, me forçando a
representar, a esconder a angústia que me assolava até a alma e,
embora ele tenha percebido que as coisas não estavam nada bem
comigo, não insistiu em me fazer falar, em me fazer explicar o que
de fato estava acontecendo. Se contentou com a evasiva explicação
de que eu tivera uma briga com meu marido e passaria alguns dias
em casa.
Como as notícias em Ivanihoés corriam mais depressa que o
Papa-léguas, logo alguns familiares apareceram em casa para me
visitar – ou mais especificamente para saber das últimas fofocas –,
porém não me senti em condições de receber ninguém e passei o
dia inteiro trancada no quarto, saindo apenas para comer alguma
coisa quando tinha certeza de que não havia mais ninguém além de
Aysha, meu pai e as funcionárias que cuidavam dele e da casa.
Passei três dias quase em estado de catatonia. Dormindo a
maior parte do tempo, sem me preocupar em tomar banho, ou trocar
o pijama por outras peças de roupas, ou mesmo pentear os cabelos.
Mal me alimentava e pouco falava com as pessoas.
Meus dias eram regados à melancolia e à espera de um
telefonema, ou qualquer notícia de Leander, mas nada acontecia.
Tudo o que eu tinha era distância e silêncio, de um homem que
jamais me perdoaria.
Pelo que Aysha falou, meu pai já estava cogitando me enviar
para um psiquiatra e foi então que eu tomei consciência de que
precisava me reerguer, urgentemente. Não apenas por mim, mas
por ele, que não podia ficar preocupado sem ter sua saúde
prejudicada.
No quarto dia, eu ainda estava na cama, por volta das dez
horas da manhã, quando Aysha invadiu o meu quarto, exultante.
Puxou as cortinas da janela com uma euforia incomum, me fazendo
resmungar em protesto à claridade do dia invadindo o aposento.
— Adivinha quem está aí fora querendo falar com você? —
disse ela, com toda aquela animação.
— Mais alguma tia que ainda não veio?
— Nada disso. É o Esdras em pessoa.
Ao ouvir o nome daquele demônio, sentei-me na cama de
supetão, o meu sangue gelando nas veias, o mais indescritível terror
tomando conta de mim, pelo simples fato de imaginar aquele
homem sob o mesmo teto que meu pai e minha irmã. No entanto,
logo me dei conta de que Aysha, além de todos na cidade,
acreditavam que o nome de Leander era Esdras, portanto, havia
uma grande chance de ser o meu marido.
A constatação fez meu coração agitar-se no peito, uma
inquietação incomum tomando conta de todo o meu ser. Levantei-
me mais que depressa e corri em direção à porta, quando Aysha se
colocou em meu caminho bem a tempo de me deter.
— Você não tá pensando em sair lá fora assim não, né? —
ela parecia verdadeiramente horrorizada.
— Assim como?
— Dá uma olhadinha na sua cara no espelho, que você vai
entender.
Fiz o que ela disse, colocando-me diante do espelho preso à
porta do guarda-roupa e fiquei quase chocada com a minha
aparência desmazelada. Meu rosto estava inchado, devido a tantas
horas de sono e ao pranto que vinha de vez em quando; meus
cabelos estavam gordurosos, grudados no couro cabeludo; as
roupas que me cobriam, ainda eram o mesmo pijama quadriculado e
folgado que eu vestira no dia em que cheguei.
— Definitivamente preciso de um banho — falei.
— É. Com certeza precisa. Eu vou preparar um café e distrair
ele enquanto você faz isso.
— Obrigada.
Depois que Aysha saiu do quarto, precisei respirar fundo
algumas vezes para acalmar a agitação que me consumia. Tomei
um banho apressado, lavando bem os cabelos. Sequei-os com o
secador, prendendo-os no tradicional rabo de cavalo e vesti um dos
meus vestidos antigos, cuja saia se estendia até a altura dos
tornozelos. Estava igual a quando Leander me conheceu,
parecendo muito mais velha do que realmente era.
Com minhas pernas trêmulas de ansiedade, deixei o
aposento e quase tive um ataque cardíaco ao avançar pela sala.
Bastou lançar um olhar sobre ele para que eu soubesse que
não era Leander, e sim Esdras. A decepção que me bombardeou foi
semelhante a um tiro de canhão: explosiva e dolorosa e veio junto
com o pavor de ver aquele homem sentado na sala da minha casa,
conversando animadamente com meu pai e minha irmã, que não
tinham muita ideia do monstro que ele era.
— O que você está fazendo aqui? — indaguei ao me
aproximar, instintivamente checando se meu pai e Aysha estavam
bem.
— Vim te ver. Senti saudades — disse Esdras, levantando-se
do sofá.
Encarou-me por um instante e então desceu o olhar cínico
pelo meu corpo, certamente estranhando a sobriedade excessiva do
vestido.
— O que é isso, filha? Isso lá é jeito de falar com seu marido?
— disse meu pai, com toda a sua inocência.
Por mais que todos na cidade, inclusive meu pai e minha
irmã, acreditassem que o homem com quem me casei havia
assassinado uma mulher, isso já não tinha a menor relevância. De
acordo com a nossa cultura, sendo ele meu marido, eu devia-lhe
respeito e submissão, acima de qualquer outra coisa.
— Vamos conversar lá fora. Quero dar uma caminhada na
praia — convidei, forçando-me a ficar calma.
O objetivo era tirá-lo da casa, afastá-lo das pessoas que eu
amava, para que sua maldade não se estendesse até elas.
Esdras concordou e deixamos a residência, caminhando lado
a lado através da ladeira que se estendia até a praia. Estranhei a
presença de um homem, com um carrinho de cachorro-quente, do
outro lado da rua, quase em frente à minha casa. Provavelmente era
alguém trazido para a cidade por meio da construção do resort,
algum trabalhador braçal que decidiu se tornar empreendedor. Mas
eu duvidava que o negócio dele tivesse futuro. Primeiro, porque era
sério e mal encarado demais para vender alguma coisa. Segundo,
porque na minha rua quase não passava ninguém. Foi burrice
montar um carrinho de cachorro-quente naquele lugar.
Minha irmã havia comentado sobre a chegada de algumas
pessoas novas na cidade nos últimos dias, mas eu estava submersa
demais na minha novela mexicana interna para prestar atenção em
qualquer coisa que ela dizia.
— Está feliz em me ver? — indagou Esdras, com aquele
cinismo que dava nos nervos.
Me empertiguei, cruzando os braços na frente do peito,
mantendo meus ombros eretos e olhando reto para a frente.
A tensão tomava conta de cada músculo do meu corpo.
— O que você acha?
— Acho que não, mas deveria. Minha presença aqui só prova
que eu te amo mais do que Leander, que não se deu ao trabalho de
te procurar depois de te expulsar por causa de uma bobagem.
Suas palavras me feriram como golpes físicos, pois eram a
pura verdade. Leander jamais me amou verdadeiramente, ou não
teria terminado tudo por causa de um beijo. Ou talvez a mágoa dele
com o irmão estivesse muito além da minha compreensão.
Enfim, o fato de ele sequer ter me telefonado durante aqueles
dias, depois do rompante de raiva, provava que nunca foi amor de
verdade e isso doía no fundo da minha alma, porque eu ainda o
amava, desesperadamente.
— Até parece que você me ama.
Esdras parou de andar, segurou-me pelo braço e me fez virar
de frente para ele.
— É claro que eu amo. É tão difícil assim acreditar em mim?
— Considerando o seu currículo, é impossível.
Puxei meu braço da sua mão com um safanão e voltei a
caminhar rumo à praia, sem olhar para ele.
— Você devia parar de me julgar pelo meu passado.
— Não é só pelo passado, mas também pelo presente. Eu e
o seu irmão estávamos felizes, mas você tinha que chegar e
estragar tudo.
— Eu não vou pedir desculpas por me apaixonar por você.
Quando eu quero uma coisa luto por ela, assim como estou lutando
por você. Não sou como aquele panaca que abre mão do que quer.
Alcançamos as areias da praia, praticamente deserta devido
aos pescadores estarem em alto-mar durante aqueles dias, tirei as
sandálias e passei a caminhar sobre a orla, com as águas salgadas
e mornas banhando gostosamente meus pés.
Esdras me imitou, parecendo pouco à vontade ao tirar os
sapatos e enrolar as pernas da calça até os joelhos.
Ali, novamente percebi a invasão de estranhos acarretada
pela construção do resort. Embora não tivesse nenhum banhista na
praia, um vendedor de picolé solitário perambulava pelos arredores,
empurrando o seu carrinho.
Era tão mal empreendedor que sequer veio nos oferecer a
sua mercadoria. Apenas ficou de longe nos observando.
— Você não sabe o que é amor. Se me amasse teria me
deixado ser feliz com ele.
— Se não deixei, é porque sei que você será mais feliz
comigo.
— Eu não te amo, Esdras. Quando você vai entender isso?
— Pode não amar ainda, mas me deseja. Deixou isso claro
aquela tarde na sauna. O amor vem com o tempo. Eu só te peço
que me dê uma chance de te mostrar o quanto posso te fazer feliz.
— O que aconteceu naquela sauna, foi unicamente porque
você tem a mesma aparência do homem por quem sou loucamente
apaixonada.
— Puta que pariu! Já chega de falar nesse cara! Ele jamais
faria o que eu fiz por você.
— E o que você fez por mim, além de arruinar minha vida,
posso saber?
Subitamente, ele parou de caminhar e, quando me virei para
para fitá-lo, vi seu semblante endurecido, uma máscara de
seriedade intimidante tomando conta da sua fisionomia.
— O que foi, Esdras?
— Promete que não vai se assustar com o que eu vou te
mostrar.
Seu tom de voz conotava alarme e na mesma hora fiquei
tensa, assustada.
— Depende do que você vai me mostrar.
Esdras aproximou-se um passo de mim e fechou suas mãos
em torno dos meus braços, fitando-me de muito perto.
— O que eu fiz foi para provar o meu amor por você. Um
amor muito maior do que aquele panaca um dia seria capaz de te
dar.
Receosa, observei-o enquanto ele enfiava a mão no bolso da
calça e puxava o iPhone moderno. Ligou o aparelho, passou
algumas imagens, então virou a tela em minha direção.
Observei a imagem à minha frente, mas não pude acreditar
no que estava vendo. Precisei piscar algumas vezes, só para me
certificar de que não era uma alucinação. Depois, busquei
mentalmente uma explicação plausível para o que estava diante de
mim, mas não havia nenhuma, a não ser a terrível verdade que ele
me revelava.
— É-É D-Diógenes? — gaguejei, observando a fotografia do
corpo de Diógenes, pendurado no teto com uma corda em volta do
pescoço, o rosto pálido, os olhos fechados, a língua saltando da
boca.
— Ele mesmo — disse Esdras, com uma tranquilidade
inacreditável.
— O-O q-que a-aconteceu com ele?
— O que você está vendo. Ele pagou por ser um maldito
estuprador.
— Foi você quem fez isso?
Esdras guardou o celular de volta no bolso.
— Sim, mas antes fiz ele escrever uma carta de suicídio,
confessando todos os estupros que já cometeu e narrando como
seus negócios estavam indo mal. Ninguém nunca vai desconfiar que
fui eu. Vão pensar que ele tirou a própria vida.
Por Deus! Aquele homem era muito mais maligno do que se
podia imaginar.
— C-Como você foi capaz de fazer uma coisa dessas? — Eu
o fitava, ainda sem poder acreditar.
— Fiz por você. Para te provar o quanto te amo. Além disso,
esse safado não merecia viver. Provavelmente poupei muitas
vítimas de passar pelo que você passou.
Eu estava atônita, aturdida. Que espécie de ser humano era
capaz de assassinar friamente uma pessoa e ainda se vangloriar
disso?
— Você é doente! — disparei, sem pensar. — Só uma pessoa
muito perturbada é capaz de tirar a vida de alguém desta forma!
— Do que diabos você está falando? Esse sujeito era um
estuprador! Não merecia viver!
— E quem é você para decidir isso? Você não é Deus! Não
pode decidir sobre quem vive e quem morre!
— Ao invés de ficar feliz, porque finalmente fiz justiça pelo
que te aconteceu, você fica aí me julgando!
Parecia inacreditável como ele não percebia o quanto era
doentio a forma como pensava a respeito da vida e da morte.
— Por favor, vá embora daqui e nunca mais apareça na
minha frente.
— Vem comigo. Vamos para a Califórnia. As praias de lá não
são tão belas quanto estas, mas você vai gostar. Eu prometo.
Eu o encarava espantada com a sua incapacidade de
perceber o quanto suas atitudes malignas expandiam ainda mais o
imenso abismo que existia entre nós.
— Será que você ainda não entendeu? Eu não quero nada
com você! O que aconteceu naquela sauna foi um erro, um
descuido da minha parte. Nunca vai se repetir. Nunca!
Sem que eu esperasse, ele segurou-me pelo pulso e me
puxou de supetão, chocando meu corpo contra o seu e passando o
braço em volta da minha cintura para me prender de encontro a si.
— Pode ter sido um descuido, mas bem que você gostou.
Confessa! Se aquela vagabunda não tivesse aparecido, a gente
tinha transado e você ainda estaria pensando no meu pau.
Sua atitude de mais uma vez me tocar e me agarrar sem a
minha permissão, conseguiu despertar a raiva dentro de mim,
fazendo meu sangue ferver.
— Me solta, Esdras! Estou falando sério! Não quero que me
toque! — disparei, enquanto lutava e me debatia, numa falha
tentativa de me soltar.
— Você diz isso agora, mas vai mudar de ideia quando eu
enfiar a língua na sua boca.
— Me solta, porra!
Pela primeira vez na minha vida, a raiva alcançou níveis
inimagináveis em meu interior. Seguindo a um impulso, ergui a mão
e cravei minhas unhas crescidas em seu rosto, pressionando-as na
sua carne, com todas as forças do meu ser, ferindo-o, deixando uma
marca de sangue que iniciava no canto do seu olho e se estendia
até a metade da sua bochecha.
Teria rasgado-o mais, se ele não tivesse me soltado.
— O que é isso?! Está ficando louca?! — vociferou ele e,
quando o encarei, a fúria com a qual me deparei em seu olhar era
tão assustadora que recuei um passo, apavorada.
Se ele não me matasse agora, não mataria nunca mais.
— Eu disse para você me soltar!
Quando Esdras levou os dedos até a ferida em seu rosto e
observou a mancha de sangue, a fúria brilhou ainda mais
intensamente na sua expressão, sua fisionomia se contraiu,
revelando a sua face assassina.
— Eu aqui abrindo o meu coração para você, te dizendo que
matei um homem por sua causa e é assim que você me agradece?!
— esbravejou, entredentes.
— Eu não pedi para você matar ninguém por mim, tampouco
pedi pelo seu amor!
Ele observou-me durante um instante de silêncio, com seus
olhos faiscando de ódio, sua mandíbula trincada e uma veia
latejando em sua têmpora.
Soltei um grito agudo, de puro pânico, quando sua mão se
fechou em torno do meu pescoço, apertando forte, a ponto de quase
me estrangular.
— Então é isso!? Você prefere me ter como seu inimigo?!
— Eu prefiro que você saia da minha vida, até porque não fiz
nada para você me tratar como uma inimiga. Por favor, me deixa em
paz.
O pavor dentro de mim era tão intenso, que comecei a me
tremer descontroladamente.
Em uma atitude desesperada, levei a mão à sua e tentei
afrouxar o aperto dos seus dedos em torno da minha garganta, mas
sem conseguir fazer com que ele se movesse minimamente.
— Eu podia te matar agora mesmo, afinal foi para isso que
voltei ao Brasil! Nem sei porque achei que você seria alguém por
quem valeria a pena lutar!
— Por favor, me solta — supliquei, à beira das lágrimas.
— Solta ela, agora mesmo! — A voz grossa, firme e
masculina partiu de muito próximo.
Quando olhei naquela direção, fui engolfada por um misto de
espanto e alívio, ao ver os dois homens se aproximando de nós,
ambos empunhando revólveres, apontando-os diretamente para
Esdras.
Na mesma hora os reconheci: eram o sujeito que vendia
cachorro-quente na minha rua e o cara que empurrava o carrinho de
picolé na praia.
O que diabos estava acontecendo aqui?
— Não se metam! Isso aqui é uma briga de casal! —
vociferou Esdras.
— Não parece uma briga de casal. Na verdade, você está
atacando a moça, enquanto ela pede que a solte.
— E daí? O que vocês têm com isso? Quem diabos são
vocês?
— Trabalhamos para o Sr. Agostini e temos ordens para atirar
em qualquer um que tente fazer mal à Sra. Agostini. Portanto, se
você não quiser levar um tiro na cabeça agora mesmo, é melhor ir
soltando a moça.
Esdras abriu um sorriso diabólico. Encarou-me com aquele
brilho mortal em sua expressão, até que por fim me soltou.
Seguindo a um instinto de sobrevivência, apressei-me e me
colocar entre os dois homens.
— Você sabia que estava sendo vigiada. Por isso me chamou
para conversar aqui fora, não é? Esperava que eles me matassem?
— acusou ele, com seus dentes trincados, o ódio fazendo suas
veias saltarem.
Era um ódio tão assustador, que um estremecimento me
varreu de cima a baixo.
— Eu não sabia, eu juro. Te chamei para conversar aqui fora
porque não queria você perto do meu pai e da minha irmã.
— Como sempre, me julgando. — Mesmo com as duas
armas apontadas em sua direção, ele aproximou-se alguns passos
de mim. — Eu não ia fazer mal a nenhum deles dois, tampouco
pretendia machucar você, mas agora tudo mudou. Eu não vou
descansar um só minuto até te fazer pagar por me humilhar dessa
forma.
Os tremores em meu corpo se intensificaram visivelmente, o
pavor se alastrando por cada parte de mim.
— Me perdoa se te fiz sentir humilhado. Não foi a minha
intenção.
— Porra nenhuma!
— Já chega de conversa. É melhor você se afastar dela —
falou um dos homens, o vendedor de cachorros-quentes, se
colocando entre mim e Esdras.
— Eu vou embora agora, mas pode ter certeza de que você
terá notícias minhas antes do que imagina.
Dito isto, ele encarou-me durante um momento de silêncio,
com seus olhos diabólicos faiscando de ódio, então deu meia-volta e
seguiu pela praia, até subir por um caminho que levava ao centro da
cidade.
CAPÍTULO 28
Ayla

Desolada, senti minhas pernas trêmulas cederem e


despenquei, caindo sentada sobre a areia morna. Me sentia como
se tivesse acabado de assinar minha sentença de morte, pois
Esdras era um assassino frio e cruel e, como me prometera, jamais
descansaria até que eu estivesse morta.
Meu Deus! Em que tipo de encrenca fui me meter quando
aceitei me casar com Leander? Só não me arrependia porque esse
casamento salvou a vida do meu pai.
— O senhor Agostini já está vindo — disse um dos homem
atrás de mim e me virei para observá-lo, semicerrando os olhos para
suportar o sol forte do meio-dia batendo em minhas vistas.
Era um homem parrudo, alto, moreno. Observava-me
enquanto o outro falava com alguém ao telefone.
— Quem são vocês e desde quando estão me vigiando? —
indaguei, ainda em choque.
— Trabalhamos para o seu marido. Ele nos contratou para
fazer a sua segurança. Estamos em Ivanhoés desde que a senhora
retornou.
— Ele devia ter me avisado.
— Ele não queria interferir na sua privacidade.
— Que ideia brilhante: um homem vendendo cachorro-quente
numa rua que não passa ninguém e outro vendendo picolé numa
praia vazia.
— Foi um plano elaborado de última hora. A senhora gostaria
de nos acompanhar até em casa? O sol está muito forte para ficar
exposta a essa hora.
— Não, obrigada. Eu estou bem aqui.
Virando o rosto, voltei a fitar o oceano infinito à minha frente,
com suas ondas ferozes batendo na areia. Minha cabeça pesava, a
mente fervilhando com os pensamentos. Por mais que Leander
tivesse a boa vontade de tentar me proteger, talvez por se sentir
culpado por ter me colocado na mira de um assassino, não era
possível passar o resto da vida cercada por seguranças e enquanto
Esdras existisse eu não estaria segura em lugar nenhum. Essa era
uma certeza que eu tinha. Foi possível perceber, na forma como ele
me olhou quando os homens se aproximaram armados, que nem o
tempo seria capaz de apagar sua determinação em acabar comigo.
Mas que grande merda! Eu estava verdadeiramente perdida.
— Não é recomendável ficar exposta ao sol a essa hora. — A
voz partiu de trás de mim e imediatamente a reconheci.
Levantei-me depressa e me virei em sua direção. Precisei
esfregar os olhos para ter certeza de que não estava tendo uma
alucinação, de que era realmente Leander se aproximando, vindo da
direção de uma das ruas da cidade.
Como ele havia chegado aqui tão depressa?
Quando o segurança disse que ele estava a caminho, achei
que estaria saindo de São Paulo.
Uma lufada de vento trouxe até mim o cheiro gostoso do seu
perfume e meu coração disparou como um louco no peito, cada
pelinho do meu corpo se arrepiou, um calor lascivo se espalhou pelo
meu sangue.
Por Deus! Como eu o amava! E como havia sentido a sua
falta durante aqueles dias. Era como ter passado três dias sem ver a
luz do sol e agora ela voltava a brilhar diante de mim.
— Você pelo menos está usando protetor solar? — indagou
Leander, se detendo à minha frente, seus olhos lindos varrendo meu
rosto, expressando uma paixão inigualável.
— Estou acostumada com o sol forte. Já nem me prejudica
mais. Como você chegou aqui tão depressa?
Leander suspirou, fixando seus olhos nos meus.
— Eu estou aqui desde que você veio. Por mais que tenha
tentado, não consegui ficar longe. Assim que o helicóptero voltou,
mandei que o piloto me trouxesse e estou morando no iate desde
então.
Meu coração bateu ainda mais forte, a paixão visceral se
espalhando por cada canto de mim.
— Você veio por que tinha medo de que Esdras me
procurasse?
Eu precisava saber se ele ainda me amava, ou se estava
apenas preocupado com o que seu irmão podia me fazer.
— Sim. E como eu imaginei, ele veio atrás de você. Eu
jamais me perdoaria se aquele abutre te machucasse.
Então era aquilo. Ele se sentia culpado por me colocar na
mira de Esdras. Não estava aqui porque me amava e queria de volta
na sua vida. Apenas precisava me proteger para que sua culpa não
se tornasse um martírio.
A constatação fez meu coração afundar para o estômago, as
lágrimas ameaçando aflorar dos meus olhos.
— Mas ele não machucou. Como você pode ver, estou bem.
Você já pode ir embora.
Dito isto voltei a me sentar sobre a areia, sentindo-me
devastada.
Leander se sentou ao meu lado.
— Eu não vou a lugar nenhum sem você. Não vou conseguir
te proteger à distância. Preciso que volte para casa comigo.
Virei o rosto para encará-lo diretamente, antes de perguntar:
— Por que quer que eu volte com você? É só pela minha
segurança?
Leander fitou-me durante um instante de silêncio antes de
responder:
— É sim.
Eu nunca imaginei que duas palavras tão simples e curtas
pudessem me machucar tão cruelmente.
— Você nunca vai me perdoar por tê-lo beijado, não é? —
indaguei, com minha voz trêmula.
— Ayla... Eu espero que você entenda o quanto é difícil para
mim.
Virei novamente o rosto na direção do mar, a fim de que ele
não percebesse o quanto eu me esforçava para conter as lágrimas.
— O que você disse que sentia por mim nunca foi amor.
Quem ama não guarda tanto ressentimento.
— É claro que é amor. Eu ainda te amo, loucamente, mas
não posso esquecer o que aconteceu. Vem para casa comigo. Me
deixa te proteger daquele demônio.
E ficar lá aguentando o desprezo dele, dia após dia? Nem
morta!
— Não vou a lugar nenhum com você. Eu sei me cuidar.
Pode, inclusive, dispensar os seguranças.
— Será que você ainda não entendeu quem é o meu irmão e
do que ele é capaz?
Lembrei-me da revelação de Esdras e meu estômago
embrulhou.
— Eu sei bem do que ele é capaz. Ele acabou de confessar
que matou o Diógenes e fez parecer um suicídio.
— Eu vi a notícia no jornal. Imaginei que tivesse sido ele. Só
que esse foi o menor dos crimes dele.
— Vai me dizer que também acha que Diógenes merecia
morrer?
— Isso eu não sei. Não sou ninguém para julgar. O que eu
sei é que meu irmão já tirou a vida de pessoas realmente inocentes,
o que não era o caso desse sujeito.
Pensei na história sobre Esdras ter assassinado a única
mulher que já foi capaz de amar e um estremecimento me varreu.
Se havia uma coisa da qual eu tinha certeza era de que ele voltaria
para tentar me matar e nada poderia impedi-lo, nem mesmo
Leander e seus seguranças. Portanto, seria inútil voltar para a casa
do meu marido apenas por covardia. Em nenhum lugar eu estaria
segura e me recusava a ficar sob o mesmo teto que Leander sem
ter o seu amor integralmente. Ou ele me assumia como sua esposa,
ou saía da minha vida.
Determinada, levantei-me e segui rumo à rua que levava à
minha casa.
Leander veio atrás de mim.
— Não seja teimosa e orgulhosa. Se aquele cara se
aproximar de você novamente, você dificilmente sairá viva.
— Eu sei lidar com ele.
— Quando se trata de Esdras, ninguém é capaz de se
proteger sozinho. Me deixa te ajudar. Vem embora comigo.
— Não preciso da sua ajuda.
Leander continuou insistindo ao longo do caminho, até que
entramos em casa.
— Você trocou de roupa na praia? — indagou Aysha,
observando-o.
Como sempre, estava estirada no sofá da sala, mexendo no
celular, enquanto a empregada cuidava do almoço. Não fazia ideia
de que Leander não era o mesmo homem com quem eu havia saído
há pouco tempo.
— Acabei não resistindo em dar um mergulho no mar e tinha
algumas roupas no carro — improvisou meu marido.
— Onde está papai? — perguntei.
— No quarto com a enfermeira. O almoço está pronto. Posso
mandar a empregada servir?
— Claro, vou só trocar essa roupa suja de areia.
— A tia Gertrudes telefonou. Ela está organizando um brechó
com doações de roupas na pracinha hoje, no final da tarde, e disse
que você não pode faltar.
— Vou ver se consigo ir.
Segui rumo ao meu quarto e fiquei irritada quando Leander
veio atrás de mim.
— Como assim você vai a um evento numa pracinha? Não
sabe o risco que está correndo? — disse ele.
— Se Esdras realmente quiser me pegar, não estarei mais
segura dentro de casa. — Ele continuou me seguindo quando entrei
no meu aposento. — Você não pode entrar aqui. Não somos mais
marido e mulher — cochichei, para que somente ele ouvisse.
— Claro que somos. No papel ainda somos casados.
— Um papel não significa nada. Na prática estamos
separados. Não podemos mais ter esse tipo de intimidade. Não é
correto.
Ao invés de sair, ele fechou a porta por dentro.
— Incorreto seria eu te deixar sozinha enquanto aquele
sujeito está zanzando por aí.
— Quer mesmo ficar aí? Então fica! Apenas não me perturbe.
Com a intenção de provocá-lo, dei-lhe as costas e despi-me
do meu vestido, da calcinha e do sutiã. Quando me virei de frente
para ele, completamente nua, me deparei com o fogo do desejo
refletido no brilho dos seus olhos azuis e uma corrente de calor
lascivo varreu-me de cima a baixo, fazendo meu ventre se
contorcer.
Tive vontade de correr para o seu abraço e pedir que me
fizesse sua. No entanto, não permitiria que me tocasse enquanto
não me aceitasse de volta na sua vida, como sua esposa de
verdade.
— Como senti falta de te ver assim — sussurrou ele, com sua
voz rouca de excitação.
Chegou a dar um passo na minha direção, mas estendi-lhe a
mão para que se detivesse.
— Pode parar aí mesmo. O seu direito de colocar as mãos
em mim terminou no dia em que você me expulsou da sua casa —
falei, determinada.
Leander piscou repetidas vezes, como se estivesse
atarantado. Até que, por fim, assentiu, recuando um passo.
Mal pude acreditar que estava fazendo aquilo, quando passei
a me movimentar pelo quarto com o máximo de sensualidade
possível, fazendo uso de um tempo muito maior que o necessário
para abrir o guarda-roupa, pegar uma muda de roupas e me vestir.
Tudo isso, diante do olhar atento dele, que registrava cada
minúsculo movimento meu, quase sem piscar e praticamente sem
respirar, enquanto a tensão sexual crescia entre as paredes do
aposento, se tornando quase tangível.
Vestida e penteada, convidei-o a nos retirarmos e voltamos
para a sala de estar, que servia também de sala de jantar.
Meu pai, Aysha e nós dois nos reunimos em torno da mesa
pequena e fizemos a refeição envolvidos por uma conversa
despretensiosa e despreocupada, falando amenidades do dia a dia.
Ali, percebi o quanto Leander parecia pouco à vontade com a
simplicidade do lugar, sem que eu ao menos pudesse culpá-lo, já
que toda a nossa sala era mais ou menos do mesmo tamanho do
banheiro da suíte dele na mansão.
Por outro lado, ao conversar com meu pai, sobre o
andamento da construção do resort e outros negócios com os quais
estava envolvido, ele pareceu bastante relaxado, como se a
curiosidade inteligente do meu pai o interessasse.
Ambos falaram também sobre a pescaria profissional e
esportiva, numa conversa tão animada, que, no final das contas,
acabaram combinando de passarem um dia no mar, pescando.
Após a refeição, nos reunimos na sala de estar para um
cafezinho, enquanto as conversas entre meu pai e Leander, a quem
todos chamavam Esdras, continuava animada. Me perguntei até
quando o homem com quem me casei permaneceria ali, em meio a
um ambiente tão simples, que nada combinava com a sua aparência
elegante, mesmo quando usava calça jeans e camisa polo,
rejeitando as dezenas de telefonemas que chegavam no seu celular
a cada minuto.
Como eu já imaginava, não demorou muito. Logo uma das
ligações pareceu importante demais para ser rejeitada e, após
atendê-la e trocar algumas palavras estressadas com a pessoa do
outro lado da linha, Leander se despediu e se foi, levando consigo
até a minha vontade de continuar respirando.
Tentei não pensar nele durante a tarde que se seguiu. Porém,
para isto, eu precisava ocupar minha mente com outras coisas. De
preferência com coisas úteis. Então decidi participar do brechó que
minha tia realizaria na praça.
Era um tipo de evento que reunia muitas pessoas, inclusive
os dirigentes da igreja, que passavam vários dias recolhendo
doações de roupas, calçados e brinquedos, de pessoas
financeiramente favorecidas e durante o brechó entregavam essas
doações para os mais necessitados. Era realizado pelo menos a
cada três meses e eu sempre participava.
Como não havia recolhido nenhuma doação durante aqueles
dias, decidi ajudar preparando um lanche para os membros da igreja
que estariam participando do evento. Com a ajuda da nossa
empregada, fiz alguns pastéis, coxinhas e algumas garrafas de
suco.
Levei um susto quando adentrei nossa garagem e, ao invés
de encontrar o nosso antigo carro, me deparei com um Audi
esportivo branco, novinho em folha.
Aysha, que me acompanharia ao evento, explicou-me de que
Leander o havia comprado fazia alguns dias, para que eu usasse
quando viesse visitar o meu pai.
Era a cara dele não falar sobre as decisões que tomava,
mesmo quando tais decisões envolviam terceiros. Fazia parte da
sua personalidade retraída e fechada.
Até que gostei de ter um carro novo em casa, no lugar da lata
velha que nunca mais vi depois da noite em que bati no carro de
Leander. Só ainda não sabia o que pensar sobre Aysha estar
frequentando uma autoescola e aprendendo a dirigir.
Ela me deu a notícia exultante, assim como me falou sobre o
término do seu namoro com o rapaz com quem acreditei que se
casaria um dia. Estava cada vez mais parecida com nossa mãe, o
que me deixava bastante preocupada com seu futuro.
Tão logo avançamos pela rua, eu sentada ao volante e Aysha
no banco do carona, vi os seguranças patéticos de volta aos seus
postos, um deles fingindo que vendia cachorros-quentes, o outro
empurrando o carrinho de picolé em direção à praia. Me admirava
que ninguém na cidade tivesse percebido que havia algo de muito
errado com eles.
CAPÍTULO 29
Ayla

Me perguntei qual seria a estratégia deles para me seguirem


quando eu saísse de carro e, antes que tivesse tempo de procurar
uma resposta, vi dois mototaxistas fazendo ponto em uma esquina.
Não eram moradores da cidade e não me surpreendi nem um pouco
quando montaram em suas motos e passaram a nos seguir.
Eu precisava admitir que, desta vez, eles foram criativos.
Foi revigorante dirigir pelas ruas da minha cidade natal
depois de tanto tempo sem vir aqui e depois de passar quatro dias
trancada no quarto. Apenas ao trafegar através das ruas de
paralelepípedos, ladeadas pelas árvores frondosas, percebi o
quanto sentira falta da minha terra natal.
Naquele momento, eu não fazia ideia de qual seria o meu
futuro, se algum dia voltaria a viver com Leander, ou se precisaria
permanecer em Ivanhoés. Se precisasse ficar aqui, as coisas seriam
bastante difíceis no início, mas com certeza algum dia eu seria feliz,
pois amava essa terra como poucas outras coisas na vida.
Por alguma razão desconhecida, recordei-me das inúmeras
vezes em que Leander me alertara, logo depois que nos
conhecemos, sobre eu não estar segura caso me envolvesse com
ele e mais uma vez constatei que só estava tentando me proteger
do seu irmão. Eu não tinha a menor dúvida de que aquele homem
me amava. No entanto, seu amor não era grande o suficiente para
me perdoar pelo erro que cometi e isso significava o fim do que
existia entre nós dois.
Quando chegamos, a praça já estava abarrotada de gente,
alguns ainda entregando doações, a maioria recebendo o que mais
lhes serviria. Como sempre, as mesas estavam organizadas com
diferentes mercadorias: uma para calçados, outra para roupas
masculinas, outra para infantis, outra para roupas femininas, outra
para alimentos e assim por diante. Eram cerca de oito mesas, cada
uma delas sendo cuidada por membros da igreja.
Fui até cada um deles, os cumprimentando com saudades,
entregando os lanches, que foram muito bem-vindos, e jogando
conversa fora. Fiquei meio receosa ao me aproximar da mesa com
roupas masculinas que era cuidada por Pablo, mas acabei indo até
lá. Não era possível que ele ainda guardasse ressentimento por eu
ter recusado o seu pedido de casamento.
— E você, aceita um lanchinho? — perguntei, simpática, ao
me aproximar com um sorriso.
Fiquei aliviada quando ele sorriu de volta.
— Com certeza. Foi muita gentileza sua ter pensado em nós.
— Eu não podia deixar de dar a minha contribuição.
Depositei a bandeja sobre um canto da mesa e ele usou um
copo descartável e um guardanapo para se servir.
— Você parece muito bem. Está gostando da vida de
casada?
Fiquei surpresa, e ao mesmo tempo satisfeita, com a
naturalidade com que ele falava sobre o assunto.
— Para falar a verdade, não sei se essa vida vai continuar.
Eu e meu marido não estamos indo muito bem.
Pablo fitou-me surpreso e me arrependi por ter aberto a boca.
Nem sei por que disse aquilo. Ainda não havia falado para ninguém
sobre a minha situação atual com Leander.
— Quer desabafar sobre o que está acontecendo?
— Você ficaria traumatizado.
— Por que não tenta?
— É uma história muito complexa. Talvez em outro momento.
— Sem querer parecer egoísta, ou cruel, mas vou torcer para
que não seja só uma fase e para que você volte a morar em
Ivanhoés, de preferência divorciada.
Dei-lhe um sorriso amplo, não porque pretendia ter alguma
coisa com ele se me divorciasse de Leander. Na realidade, eu não
pretendia me envolver nunca mais com alguém. Sorri porque me
senti inundada pelo alívio em perceber que não seria tão hostilizada
pela população caso decidisse voltar a viver aqui como uma mulher
separada. O segredo seria jamais contar a alguém que esse
casamento havia se tratado de um acordo, até porque, no final da
minha história com Leander, as coisas já não eram mais assim. O
contrato havia se transformado em amor. Um amor muito maior da
minha parte.
— E você, como está se saindo com o seminário?
— Ansioso para terminar e assumir uma congregação. Acho
que já está na hora de Ivanhoés ter uma segunda igreja, pois a
população está crescendo e a tendência é crescer ainda mais.
Ele lançou um olhar na direção dos dois seguranças
disfarçados de mototaxistas, que fingiram conversar
despreocupadamente enquanto me rondavam e desejei que um
buraco se abrisse sob os meus pés e me engolisse.
Continuei ali distraída, conversando com Pablo, praticamente
sem ver o tempo passar. Devido à sua inteligência e sensibilidade,
era muito fácil falar com ele, uma afinidade que certamente
contribuiu para que ele se interessasse afetivamente por mim, a
ponto de me pedir em casamento duas vezes.
— No próximo domingo será o aniversário da minha mãe.
Vamos fazer um grande almoço na casa de praia. Você podia
aparecer por lá.
No instante em que fechou a boca, ele arregalou seus olhos
com espanto, fixando alguém que aparentemente se aproximava por
trás de mim e nem precisei me virar para saber de quem se tratava.
— Estou interrompendo alguma coisa? — indagou Leander,
parando ao meu lado e passando um braço possessivo sobre os
meus ombros, um gesto minuciosamente acompanhado pelo olhar
de Pablo.
Precisei me esforçar para reprimir o turbilhão de emoções e
sensações que me invadiu quando senti o seu toque, o seu cheiro e
a sua proximidade.
— Na verdade, está sim. Uma boa conversa — falei, me
desvencilhando do seu braço.
Me senti ridiculamente infantil dizendo aquilo. Minha única
intenção era provocá-lo e feri-lo da forma como ele me feria com
seu desprezo.
— Como vai, Sr. Agostini? — disse Pablo, assumindo uma
postura surpreendentemente acanhada ao estender-lhe a mão em
cumprimento. — É um prazer conhecer o senhor. Sou…
— Eu sei quem você é! — cortou-o Leander, asperamente,
deixando-o constrangido, com a mão bobamente suspensa no ar.
Depois virou-se para mim. — Será que podemos conversar em
particular?
Sua atitude com Pablo despertou a minha irritação. Quem ele
pensava que era para tratar mal as pessoas da minha cidade? O
invasor aqui era ele, interferindo em nossa vida pacata com a
construção do seu resort. Tinha a obrigação de tratar a população
com o maior respeito, afinal foi aceito por todos, apesar de
acreditarem que era um assassino.
— Agora não. Minha conversa com Pablo ainda não acabou.
Por que você não aproveita para dar uma volta por aí e fazer
algumas doações? Ajudar as pessoas pode te fazer bem — falei
firme e seca e me virei novamente para Pablo. — Sobre o que você
estava dizendo, é claro que eu aceito almoçar na sua casa domingo.
Estou mesmo com saudade da sua mãe.
Pablo abriu um sorriso largo, porém, antes que tivesse tempo
de proferir mais qualquer palavra, Leander fechou sua mão de aço
em torno do meu braço e saiu me puxando pela praça, sob o olhar
curioso de todos em volta. Nos afastou de onde as pessoas se
aglomeravam e me fez recostar ao tronco grosso de uma árvore,
colocando-se diante de mim, perto demais.
A noite começava a cair e nada jamais me pareceu mais
atraente e fascinante do que seu rosto másculo e bem desenhado
iluminado pela luz amarelada do poste que acabava de se acender.
— Você está me fazendo passar vergonha! — protestei,
enervada com sua atitude de troglodita. — O que as pessoas vão
pensar de mim?
— Que se foda o que as pessoas vão pensar! Será que você
não tem noção do quanto está se colocando em perigo ficando
numa praça cheia de gente, onde qualquer um pode se aproximar
com más intenções e aceitando convites para ir jantar na casa das
pessoas?
Seu tom de voz ríspido atiçou ainda mais a minha irritação.
— Se Esdras decidir me matar, não importa onde eu estiver.
As paredes da minha casa não vão conseguir detê-lo. E não era o
convite para jantar, e sim almoçar na casa de amigos!
— Amigos, ou ex-namorado? Ou você acha que eu não
lembro que esse cara te pediu em casamento?
— E se for na casa de ex-namorado? O que você tem com
isso? Nós não estamos mais casados! Eu posso visitar a casa de
quem eu quiser e quando eu quiser! Como eu disse, um papel não
significa nada!
— É claro que estamos casados! Legalmente, você ainda é
minha esposa!
— Deixei de ser no momento em que você me colocou para
fora de casa. — A dor lancinante tomou conta do meu peito quando
relembrei o momento em que ele me mandou embora da sua casa.
— Agora, se me der licença, eu preciso continuar minha conversa
de onde parei.
Tentei me afastar. Ainda consegui dar dois passos antes que
ele me segurasse e me puxasse de volta, intimando-me a
permanecer onde estava, com as costas apoiadas no tronco do
carvalho.
— Você não vai a lugar nenhum! Até porque o seu lugar é ao
meu lado! — rosnou ele.
— Se está tendo todo esse trabalho somente para me
proteger, não precisa! Pode continuar com os seguranças me
rondando, eu não ligo. Mas isso é o suficiente para que eu esteja
segura. Não preciso voltar para a sua casa.
Novamente tentei me afastar e desta vez ele apoiou suas
mãos no tronco largo atrás de mim, uma de cada lado do meu
corpo, aprisionando-me.
— Não é só para te proteger. Eu te quero do meu lado porque
tenho fome de você. Não suporto mais essa distância. Sinto falta do
seu cheiro, da sua pele, do seu toque e não tolero a ideia de te ver
conversando, ou mesmo olhando, para outro homem.
Principalmente um sujeito que te observa como se quisesse te
devorar.
Processei suas palavras e tudo dentro de mim se agitou
fervorosamente, o sangue fluiu mais quente nas veias, o coração
bateu descompassado no peito, lágrimas de emoção ameaçaram
aflorar dos meus olhos. Ainda assim, permaneci impassível,
reprimindo as emoções.
— Eu te quero de volta na minha vida — Leander continuou
falando. — Por mais que eu tenha tentado, não consigo e nem
quero ficar longe de você. Quero que volte a ser minha esposa,
dessa vez de verdade. Me desculpa por ter te mandado embora,
mas fiquei louco de ciúmes quando soube que aquele sujeito te
beijou e te tocou. Volta pra casa comigo, Ayla. Me deixa te provar o
quanto te amo e posso te fazer feliz.
Sem mais conseguir conter as lágrimas, deixei que elas
rolassem soltas pelo meu rosto. As emoções me bombardeavam
ferozmente, a paixão visceral queimava em minhas entranhas.
— Eu te amo — murmurei entre as lágrimas.
No instante seguinte me atirei em seus braços, agarrando-o
pelo pescoço e buscando sua boca com a minha, rendida,
arrebatada de paixão.
O beijo veio faminto, guloso, carregado de uma luxúria
gostosa, que fez cada minúscula parte de mim ferver e queimar de
desejo.
Sua língua invadiu minha boca, entrelaçando-se à minha, ao
passo em que Leander me pressionava contra o tronco da árvore
com seu corpo sólido, o peitoral maciço esmagando os meus seios,
a ereção pujante latejando de encontro ao meu ventre, me fazendo
incendiar cada vez mais ferozmente.
Cada minúscula célula do meu corpo suplicava
silenciosamente para que ele me fizesse sua ali mesmo. Uma
súplica cuja reciprocidade ficou clara no instante em que suas mãos
passaram a percorrer minhas curvas, me apalpando por sobre o
tecido do vestido, até infiltrar-se sob a saia longa e deslizar
suavemente sobre minha pele, do joelho até o ápice da coxa,
deixando um rastro de fogo por onde passava.
Cega de tanto desejo, ignorando o fato de que estávamos em
uma praça pública, correndo o risco de sermos vistos a qualquer
momento, ergui a perna, passando-a em torno do seu quadril e
soltei um gemido surdo quando seu dedo indicador invadiu o fundo
da minha calcinha, passeando por sobre toda a extensão da minha
boceta, acariciando meu clitóris com muita suavidade.
— Que delícia... toda molhadinha... — Leander grunhiu, sem
afastar sua boca da minha. — Preciso... estar dentro de você... não
posso esperar nem mais um segundo.
Apreensiva, olhei para os lados, checando se não estávamos
sendo observados. Embora não tenha avistado ninguém, eu podia
ouvir as vozes das pessoas bem próximas, as quais poderiam nos
ver a qualquer momento, o que se tornaria um escândalo numa
cidade como Ivanhoés.
— Aqui não... alguém pode nos ver.
— Aqui sim... Eu fico olhando... Se alguém se aproximar, nós
paramos.
Antes que eu tivesse tempo de protestar, seus dedos
entraram em mim, dois de uma vez, penetrando deliciosamente
minha vagina lambuzada, dando início a um delicioso movimento de
vai e vem que me enlouquecia e tirava o juízo.
— Leander... Ahhh... As pessoas… Ahhh...
— Que se fodam as pessoas.
Ele intensificou os movimentos da sua mão, movendo os
dedos dentro de mim cada vez mais depressa, massageando
diretamente meu ponto G.
Enlouquecida, lancei a cabeça para trás, me esforçando por
conter meus gemidos e passei a rebolar na sua mão, buscando-o
cada vez mais, engolindo-o com meu canal encharcado.
Leander inclinou a cabeça e grudou seus lábios na curva do
meu pescoço, beijando, lambendo e mordiscando minha pele, até
que explodi, mergulhando em um êxtase profundo, gozando e
choramingando na mão dele, desprovida de qualquer autocontrole.
Quando voltei a mim, olhei depressa para os lados, à procura
de alguma eventual plateia e suspirei aliviada ao perceber que não
havia ninguém por perto.
Ufa!
Sem desviar seus olhos dos meus, Leander retirou os seus
dedos da minha vagina e os introduziu na sua boca, contraindo sua
fisionomia na mais magnífica expressão de prazer ao chupar o meu
gosto.
— Delícia... Como senti falta de você... do seu gosto... do seu
cheiro... dos seus gemidos — sussurrou ele, rouco de excitação. —
Vem para o iate comigo. Nunca mais quero me distanciar de você,
nem por um minuto.
E como eu poderia resistir, se não havia nada que pudesse
querer mais do que estar com ele?
— Está certo. Vou só falar com Aysha e pegar minha
bandeja.
Antes que eu tivesse tempo de me afastar, suas mãos se
espalmaram novamente no tronco atrás de mim, aprisionando-me
em um cerco.
— Pegar sua bandeja na mesa daquele cara? Nem pensar!
Não quero os olhos dele devorando o que me pertence. Liga pra
Aysha vir nos encontrar aqui. Levamos ela em casa.
Sem conseguir conter o sorriso que fez meus lábios se
esticarem, passei os braços em volta do seu pescoço, colando meu
corpo todo ao seu.
Fui golpeada por um frenesi impaciente quando senti a
ereção firme e potente me empurrando na altura do ventre.
— Deixa de ser ciumento. Não existe outro homem no mundo
para mim a não ser você. Vou lá rapidinho e já volto.
— Vou junto.
— Acho que, se você atravessar a praça nesse estado, vai
render o que falar na cidade durante mais de um mês — falei, com
bom humor, gesticulando para a gigantesca protuberância na parte
da frente da sua calça.
— Merda! Eu vou indo para o carro. Espero vocês lá.
Eu já havia dado um passo, quando ele me puxou de volta e
quase me fez perder o fôlego ao pressionar seus lábios nos meus e
explorar minha boca com sua língua ávida, durante breves e
intensos segundos.
Quando voltou a me soltar, ajeitei os cabelos emaranhados,
verifiquei se a saia do vestido estava realmente no lugar e parti
rumo à multidão de pessoas que se reunia ao ar livre, sob as luzes
dos postes que clareavam a noite já caída por completo.
Fui até a mesa de Pablo e me desculpei rapidamente pela
grosseria de Leander. Peguei minha bandeja e saí cumprimentando
as pessoas pelo caminho, me despedindo, enquanto procurava por
Aysha. Não estava a encontrando em parte alguma, quando
comecei a perguntar por ela para as pessoas, mas ninguém a tinha
visto recentemente.
Se eu não conhecesse bem a minha irmã e a pacificidade da
cidade onde nasci, estaria preocupada. Porém, no mínimo ela tinha
voltado para casa, ou ido para a residência de alguma amiga, sem
avisar. Esse tipo de atitude fazia parte da personalidade
destrambelhada dela.
Apressada em ir para o iate com Leander, tentei seu celular,
mas não chamou. No mínimo estava descarregado, o que poderia
explicar a sua volta para casa mais cedo.
Continuei procurando-a na praça, em meio à multidão de
pessoas, quando, de repente, um braço pesado foi passado sobre
meus ombros, praticamente me aprisionando e a voz que me
alcançou em seguida me fez gelar dos pés à cabeça.
— Se quiser ver a sua irmã de novo é melhor ficar quietinha e
vir comigo agora mesmo, sem nem ao menos olhar para trás —
disse Esdras, coagindo-me a caminhar ao seu lado, com o braço em
torno dos meus ombros.
O terror me invadiu avassaladoramente, alcançando-me até
os ossos, me fazendo tremer com desgoverno, como se a
temperatura tivesse caído abaixo de zero.
Por Deus! O que aquele psicopata tinha feito com minha
irmã?
Tentei virar a cabeça para um lado, à procura de Leander, ou
dos seguranças, mas logo sua voz gélida e ríspida me fez olhar para
a frente novamente.
— Nem pense em procurar por ajuda, ou falar com alguém.
Basta um rápido telefonema meu e sua irmã será picada em mil
pedaços. — O pavor se intensificou em minhas entranhas, de tal
maneira que meus dentes começaram a tilintar. — Para todos os
efeitos sou seu marido e estamos indo embora. Nem os seguranças
e nem essa gentalha vai perceber nada. Basta você ficar na sua.
Sem tirar seu braço musculoso de sobre meus ombros, ele
me fazia caminhar depressa ao seu lado, nos afastando cada vez
mais de onde as pessoas estavam.
— P-Por que está fazendo isso comigo? — balbuciei, quase
chorando.
— Foi você quem quis assim. Era para estarmos em uma
cama agora, nos divertindo para caramba.
— Eu faço qualquer coisa que você quiser. Por favor, apenas
deixe a minha irmã em paz.
— Que mudança, hein! Agora tá a fim de fazer tudo que eu
quiser. Fique tranquila, você vai ter sua chance. Basta se comportar
e cooperar comigo.
Ele nos aproximou de um Mercedes com vidros escuros que
se encontrava estacionado na calçada, ao lado da praça. Olhou em
volta, verificando se alguém nos observava e, ao se certificar de que
não, me fez entrar pela porta do motorista, acomodando-me no
assento do carona e tomando o lugar ao volante. Apressadamente,
ligou o carro e partiu, nos conduzindo através das ruas tranquilas de
Ivanhoés, sem que eu conseguisse tomar qualquer atitude, ou ter
qualquer outra reação além de ficar ali sentada, paralisada,
petrificada pelo medo do que aquele demente poderia fazer com a
minha irmã.
Quando concordei em me casar com Leander, o fiz ciente de
que algo terrível poderia me acontecer e já estava conformada com
isto. No entanto, Aysha era inocente, não havia feito nada para
merecer aquilo, era apenas uma menina começando a sua vida.
— Onde está a minha irmã? O que você pretende fazer com
ela?
— Está em um local seguro e continuará lá, até que eu dê a
ordem para que seja libertada. Não vou fazer nada com ela, a não
ser que você me dê motivos. Basta se comportar, fazer tudo o que
eu disser e Aysha ficará bem.
— Eu vou me comportar. Me diga o que fazer e eu
obedecerei. Por favor, não machuque a minha irmã.
Esdras fitou-me com um sorriso perverso.
— Boa menina. É assim que gosto de ver.
Ele pegou as ruas mais desertas da cidade, agindo como se
conhecesse muito bem Ivanhoés, como se viesse planejando fazer
aquilo há dias e não fosse algo elaborado de última hora. Logo
deixou o perímetro urbano e seguiu por uma estrada antiga, que
levava a uma fazenda abandonada.
A cada quilômetro que rodávamos, o pavor crescia mais em
meu interior, deixando-me quase em estado de agonia.
— Para onde estamos indo? — indaguei.
— Logo você vai ver.
Percorremos mais alguns quilômetros da estrada
esburacada, sem calçamento, aberta no meio do nada e cercada
pela escuridão de ambos os lados, apenas o farol do carro
mostrando a ele por onde seguir.
Em algum ponto do percurso, meu celular tocou com uma
chamada de Leander, mas antes que eu tivesse tempo de atender,
Esdras arrancou o aparelho das minhas mãos e o atirou pela janela
do carro.
Rodamos mais alguns quilômetros e por fim nos deparamos
com uma clareira, onde um dia foi um pasto de gado, na qual havia
um helicóptero aterrissado e recostado a ele o piloto nos esperando.
— Não tive tempo de contratar um piloto de confiança. Esse é
apenas um helicóptero táxi. Portanto, agora você vai ficar quietinha.
Aja como se fôssemos marido e mulher. Não tente nada, Ayla, não
peça socorro, ou faço você se arrepender amargamente —
ameaçou Esdras, ao parar a alguns metros de distância da
aeronave.
Sem opção, assenti e saltamos. Petrificada de horror, não
consegui protestar quando Esdras segurou minha mão e nos
aproximamos do piloto, agindo como se nada de errado estivesse
acontecendo. No entanto, o homem, com cerca de quarenta anos,
era perceptivo, sagaz, logo percebeu que havia algo errado e
examinou-me atentamente dos pés à cabeça, fixando seu olhar
curioso e meu rosto.
— Está tudo bem, moça? — indagou ele, encarando-me.
— Mas que tipo de pergunta é essa? Minha esposa tem
medo de voar. Ela fica assim mesmo quando precisa entrar num
helicóptero. Nada que dê o direito a estranhos de se intrometerem
— disse Esdras, com empáfia.
— Eu estou falando com a moça. Está tudo bem? — insistiu o
piloto.
Esdras aumentou a pressão da sua mão sobre a minha,
como se me alertasse do que aconteceria caso eu pedisse socorro.
Ele sabia que eu jamais colocaria a segurança da minha irmã em
risco.
— Está tudo bem sim. Só estou um pouco nervosa. Como ele
disse, tenho medo de voar — falei, mecanicamente.
— Será que podemos ir agora, ou pretende convidá-la para
jantar fora? — Esdras não economizou na arrogância.
— Claro. Podem subir. A noite está limpa e boa para voar.
Não há motivo para temores.
Nos acomodamos lado a lado nos assentos de trás e
colocamos os fones, enquanto o piloto assumia o seu lugar. Minutos
depois estávamos no alto, voando através da noite escura, sem que
eu conseguisse parar de tremer um só minuto, o mais indescritível
pavor tomando conta das minhas terminações nervosas.
Foi um voo que durou várias horas, durante as quais o
silêncio dentro da aeronave era quebrado apenas pelos sons
frenéticos das hélices girando. Passamos sobre áreas
completamente escuras e outras iluminadas por luzes de grandes
metrópoles. Eu não tinha a menor ideia de onde estávamos quando
o helicóptero finalmente aterrissou, em uma grande cidade, no
heliporto de um gigantesco e luxuoso edifício, que tinha o formato
de uma torre.
Ali saltamos. Esdras pagou o piloto e voltou a segurar minha
mão, conduzindo-me rumo ao elevador. Descemos apenas um
andar, o qual aparentemente era todo ocupado pelo apartamento
em que entramos.
— Seja bem-vinda ao meu lar. Espero que sinta-se em casa
— disse Esdras, após trancar a porta pelo lado de dentro e enfiar a
chave no bolso da sua calça.
Seu tom de voz, como sempre, possuía aquele cinismo que,
além de irritante, passava a impressão de que tudo o que ele dizia
tinha o sentido dúbio.
Automaticamente, varri a sala enorme com o olhar, à procura
de possíveis meios de fuga. Mas sequer havia um telefone ali, ou
um computador. Tinha apenas a mobília chique, conotando luxo e
riqueza em cada detalhe.
— E quanto à minha irmã? — indaguei, virando-me para
encará-lo.
— Como eu prometi, ela está bem.
— E como vou ter certeza disso?
Com um suspiro entediado, ele sacou seu celular do bolso,
trocou mensagens com alguém e virou a tela na minha direção.
Logo começou a reprodução de um vídeo no qual Aysha aparecia
muito sorridente e feliz, enquanto era deixada na porta da nossa
casa por um rapaz com mais ou menos a idade dela.
— Como vou saber se esse vídeo foi feito agora?
— Perceba que ela está usando as mesmas roupas com as
quais foi para o evento com você, o que prova que o vídeo foi feito
esta noite. O garoto é um dos funcionários de Leander e apenas a
convidou para dar uma volta. Ela não foi machucada e nem
ameaçada. Quanto a isso, você vai ter que confiar em mim.
Assisti o vídeo mais uma vez e refleti por um instante.
Realmente Aysha usava as mesmas roupas com as quais saíra
naquela noite. Estava com os cabelos ligeiramente emaranhados,
como se estivesse na rua há várias horas e parecia
verdadeiramente feliz e animada, o que me trouxe certo alívio.
— Satisfeita? — indagou Esdras.
— Ainda não. Preciso ligar para ela e me certificar de que
está realmente bem e em casa.
— Não, você não precisa. Ela está bem. Pode confiar em
mim.
— Aí está algo impossível, confiar em alguém como você.
— Ao contrário do que você imagina, sou um homem de
palavra. É uma das minhas muitas qualidades que você precisa
conhecer.
— Não estou interessada em conhecer nada que venha de
você — falei, corajosamente. — Agora que já fiz tudo o que você
queria, vindo até aqui sem fazer escândalos, você já pode me dizer
o que pretende com tudo isso. Vai me matar?
Ele soltou uma gargalhada sonora e sinistra.
— Te matar é a última coisa que eu vou fazer.
— Mas lá na praia você disse que…
— Lá da praia eu estava nervoso — ele me interrompeu. —
Você me fez de idiota e acabou me tirando do sério.
— Então o que você quer de mim?
Ele deu um passo em minha direção, enquanto eu recuava
outro.
— Tem certeza de que você não sabe?
— Não faço nem ideia.
— Eu quero você. Quero até demais. Eu a desejei no instante
em que você me beijou, achando que eu era meu irmão, quando
nos conhecemos.
— E vai fazer o quê se eu não te quiser? Me violentar?
— Claro que não! Não diga um absurdo desses. Não sou um
maldito estuprador. Estupradores eu mato.
— Nesse caso, já pode me deixar ir embora, pois não vai
acontecer nada entre nós com o meu consentimento.
Seus lábios se curvaram em um sorriso cínico e ao mesmo
tempo maléfico.
— Vai acontecer e muito antes do que você imagina. — Ele
veio andando com passos lentos em minha direção, enquanto eu
continuava recuando, até que minhas costas encontraram o limite
de uma parede e ele me encurralou, apoiando as duas mãos no
concreto atrás de mim, dos dois lados do meu corpo, formando um
cerco à minha volta. — Você me deseja e isso nunca poderá negar.
Eu sou um homem paciente, vou alimentar esse desejo, vou esperar
até que você seja completamente minha. Depois disso, você nunca
mais vai querer pertencer a outro homem.
— Só mesmo na sua cabeça que você vai conseguir me
manter prisioneiro aqui. Antes do que você imagina, Leander vai me
encontrar.
— Não repete o nome desse jeito na minha casa! —
vociferou ele.
— Achei que você gostasse do seu irmão.
Por fim, Esdras afastou-se de mim, deu-me as costas e foi
até um bar construído de madeira envernizada e vidro que havia
num canto da sala. Enquanto ele se servia de uma dose de
Bourbon, meus olhos varriam o recinto à procura de algo pesado o
bastante com o que eu pudesse golpeá-lo forte a ponto de deixá-lo
desacordado e assim conseguir fugir. Mas antes que eu encontrasse
esse algo, ele estava se virando de frente para mim novamente.
— Como eu te disse, eu gostava. Até ele tirar a coisa mais
importante que eu já tive na vida.
Ele estava se referindo à mulher que ele próprio assassinara.
Cogitei lembrá-lo desse detalhe, mas preferi não entrar numa
discussão que não daria em nada. Preferia concentrar minhas
energias mentais em uma forma de escapar daquele cativeiro.
Talvez tentar convencê-lo a me soltar fosse a melhor estratégia.
— Esdras, presta atenção. Isso não vai dar certo — falei,
dando alguns passos hesitantes em sua direção. — Assim que
sentir minha falta, Leander vai me procurar e vai me encontrar aqui.
É melhor você me deixar ir embora, para evitar mais um confronto
com seu irmão.
Com aquele riso de cinismo brincando no canto da sua boca
e sem desviar seu olhar do meu rosto, ele ingeriu um grande gole da
sua bebida.
— Você não tem ideia de onde estamos, não é? — Sem
esperar que eu respondesse, continuou falando: — Nós
atravessamos o país. Estamos a milhares de quilômetros de
distância daquele panaca. Ele nunca nos encontraria aqui. Até
porque esse apartamento não está no meu nome. Ele não teria nem
por onde começar a procurar.
Um calafrio desceu pela minha espinha ao ouvi-lo dizendo
que estávamos do outro lado do país.
— E se ele chamar a polícia? O piloto do helicóptero ficou
desconfiado. Se ele colocar sua foto nos noticiários, se mostrar
aquele vídeo de você assassinando sua namorada à polícia, em
questão de hora eles nos encontrarão.
Ele soltou uma gargalhada sinistra.
— Aquele babaca jamais chamaria a polícia. Ele sabe que, se
eu for preso, tanto a cabeça dele quanto a do filho dele vão rolar
mais depressa do que se eu estivesse aqui fora.
Outro calafrio me percorreu, com a possibilidade dele
realmente conseguir me manter presa ali. Se Leander não o
entregara à polícia depois de tanto tempo, dificilmente o faria agora.
Por Deus! O que seria de mim?
— Esquece essa história de ir embora daqui. Isso nunca vai
acontecer. Você agora é minha. Conforme-se com seu destino. —
Ele abandonou o copo vazio sobre uma mesinha e fiquei paralisada
quando veio até mim e segurou minha mão. — Venha, vou te
mostrar o seu novo lar.
Enquanto minha mente trabalhava incessante, em busca de
alguma possível saída, por fora eu me mantinha impassível,
petrificada, permitindo que Esdras me conduzisse pela mão através
do luxuoso imóvel. Mostrou-me os outros cômodos, tão grandes e
sofisticados quanto a sala, decorados com a sobriedade de um
imóvel ocupado por um homem, sem nenhum toque feminino. Por
último, voltamos a uma porta diante da qual já havíamos passado,
em um corredor.
— Não se assuste com o que você vai ver aqui. Mantenha
sua mente aberta para novas experiências — disse ele.
Um tremor incessante se instalou em meu corpo quando ele
abriu a porta e nos colocou para dentro. Tratava-se de um quarto
amplo, com paredes escuras, cor de vinho, mobiliado com os mais
bizarros e apavorantes equipamentos de tortura. Havia chicotes,
correntes e algemas para todos os lados; na parede, um enorme X
feito de madeira tinha o exato tamanho de uma pessoa com os
braços suspensos; em outro canto, um cavalo de pau deixava claro
sua função a partir das amarras presas onde ficariam os tornozelos
e os pulsos de uma pessoa subjugada. Havia também uma gaiola
de aço; uma bizarra cadeira cheia de algemas e amarras; correntes
penduradas no teto e uma estante de vidro abarrotada de máscaras,
vendas e outros objetos cuja utilidade não consegui compreender.
Ao centro do cômodo, a cama redonda, gigantesca, com um
espelho no teto, não deixava margem para dúvidas sobre o que se
fazia naquele cômodo.
— V-Você pretende fazer isso comigo? — indaguei, tilintando
de pavor.
Esdras virou-se de frente para mim, segurou-me pelos
ombros e fitou-me diretamente nos olhos.
— Pretendo. Não há nada que eu possa querer mais. Mas
não agora, não enquanto você não estiver pronta. Como eu disse,
estou disposto a esperar até que você perceba que seu destino é
ser minha. E não precisa ter medo de mim. Eu jamais faria algo
contra a sua vontade.
— Eu nunca vou ser sua por vontade própria.
— Sim, você vai, antes do que imagina. — Suas mãos
deslizaram lentamente dos meus ombros até a curva do meu
pescoço, depois se espalmaram nas laterais do meu rosto, sem que
eu conseguisse ter qualquer reação. Estava gelada de medo,
paralisada por um horror jamais antes experimentado. — Há uma
atração muito forte entre nós. O desejo que sinto por você é quase
insano e tenho certeza de que é recíproco. Você só precisa admitir o
que sente.
Lentamente ele aproximou-se um pouco mais, quase tocando
o seu corpo no meu. Inclinou a cabeça e repousou seus lábios sobre
a minha testa, deslizando-os suavemente através do meu rosto.
Estava quase alcançando a minha boca, quando por fim despertei
do que parecia um transe e espalmei minhas mãos em seu peito,
empurrando-o ferozmente, fazendo com que se afastasse por
vontade própria.
— Nunca vai acontecer — falei, o mais firme que consegui.
— Para me possuir você vai ter que me amarrar e fazer tudo sem o
meu consentimento.
Ele fitou-me com olhos semicerrados.
— Não coloca ideias tentadoras na minha cabeça. Eu não
sou nenhum estuprador, mas para ter você sou capaz de qualquer
coisa.
O tom de ameaça na sua voz me fez recuar um passo,
apavorada, seus olhos atentos registrando o movimento.
— Mas já chega de conversa. Agora que você conhece a sua
nova casa, vou explicar como as coisas vão funcionar. Você ficará
neste quarto. Terá liberdade para circular pelo apartamento, mas
apenas quando estivermos sozinhos. Tem uma moça que vem fazer
a limpeza e cozinhar, mas nem adianta gritar por socorro, porque as
paredes tanto deste cômodo, quanto de todo o apartamento
possuem isolamento acústico.
Fiquei chocada quando ele foi até um canto do quarto, de
onde puxou uma longa corrente com uma tornozeleira de aço na
ponta. Aproximou-se de mim e tentou colocá-la em meu tornozelo.
— Não precisa fazer isso — falei, desesperada. — Eu não
vou tentar fugir. Pode confiar em mim.
— Eu queria poder confiar, mas não posso correr o risco de
você se atirar pela janela, ou me atacar com algum objeto pesado
quando eu entrar. Mas não fique triste, isso vai ser apenas no
começo. Assim que você perceber o quanto também me quer, as
coisas vão ser diferentes.
Sem que eu conseguisse reagir e lutar, ele passou o objeto
bizarro em torno do meu tornozelo e o trancou com uma chave, a
qual enfiou no bolso da sua calça. Ao se levantar, plantou um beijo
suave em minha testa e seguiu rumo à porta.
— Esdras, por favor — tentei, mas ele não me deu ouvidos.
Sem olhar para trás, abriu a porta do quarto e se foi.
Sozinha, continuei parada, petrificada, durante um longo
momento, minha mente processando os acontecimentos como se
estes fossem irreais, como se fizessem parte de um pesadelo, do
qual eu acordaria a qualquer momento. Porém, eu não acordei e
pouco a pouco a ficha foi caindo. Aquilo realmente estava
acontecendo. Esdras realmente havia me sequestrado e feito de
mim sua prisioneira. Existia uma possibilidade muito real de eu
jamais ser encontrada, afinal ele era um homem inteligente, não
faria isto se houvesse a possibilidade de ser apanhado.
Por Deus! O que eu ia fazer agora?
CAPÍTULO 30
Leander

Observei Ayla se afastando até desaparecer entre a


aglomeração de pessoas que se formava na praça. Continuei
escondido atrás do tronco da árvore, respirando fundo, tentando
acalmar os ânimos do meu corpo. Ela tinha razão quando disse que
não seria adequado passar pela praça do jeito que estava. Se as
pessoas em Ivanhoés já gostavam de me olhar, eu podia imaginar o
escândalo que seria se me vissem andando por aí de "barraca
armada". No mínimo, as velhinhas religiosas teriam um infarto.
Tentei pensar nos negócios e até nos funcionários que demiti
na semana passada, a fim de esfriar o meu sangue, mas não era
fácil parar de pensar em Ayla, de desejá-la ardentemente. Seu
cheiro gostoso ainda estava em mim; seu gosto na minha boca;
cada minúscula partícula do meu corpo ainda suplicava pelo dela.
Eu não podia acreditar que fui capaz de passar quatro dias
sem vê-la. Foram dias de verdadeira tortura, durante os quais quase
enlouqueci. Porém, por outro lado, serviram para me fazer perceber
que pior do que saber que aquele marginal do meu irmão a beijara,
foi ter que ficar longe dela. Nem que fosse preciso virar o mundo de
cabeça para baixo, eu jamais permitiria que ele voltasse a tocá-la.
Os minutos se passaram e nada aconteceu. Meu pau
continuava duro como uma pedra, doido para se enterrar na
bocetinha molhada da minha mulher, depois de tantos dias sem ela.
Então, apenas joguei a barra da camisa por cima e saí me
esgueirando pelas margens da pracinha, passando por trás dos
troncos das outras árvores, até chegar ao carro, onde combinamos
de nos encontrar.
Entrei, sentei-me ao volante e recostei a cabeça no espaldar,
fechando os olhos e lembrando-me do seu gosto, da forma como ela
se esforçava para controlar seus gemidos enquanto gozava nos
meus dedos.
Minha nossa, como eu a amava! Amava mais que a minha
própria vida e custava a acreditar que o ciúme realmente me levara
a perder a cabeça e afastá-la de mim, um erro que eu nunca mais
voltaria a cometer.
Continuei sentado durante um longo tempo, esperando-a.
Como Ayla estava demorando, tentei ligar para o seu celular, mas
ela não atendeu. O que estaria fazendo de tão importante para não
atender o telefone?
Foi então que meus pensamentos me levaram até meu
irmão, à ameaça que ele representava e a aflição tomou conta de
tudo em mim. Era muito cedo para que ele agisse, cumprindo a
promessa que lhe fez na praia. No entanto, quando se tratava
daquele psicopata, nada era impossível.
Com meu peito pesado de preocupação, saltei do carro e
voltei para a praça. Procurei Ayla entre as dezenas de pessoas que
circulavam por ali e não a avistei em parte alguma. Busquei com
meus olhos os seguranças, mas eles também não se encontravam
nas proximidades. Perguntei para algumas pessoas e, quando uma
delas me disse que a viu deixando a praça abraçada comigo, minha
preocupação se transformou em desespero. Um desespero tão
profundo, que quase me levou à loucura.
Aquele maldito realmente a havia pegado. Eu não podia
acreditar que fui descuidado a tal ponto.
Se ele a machucasse, eu o mataria com minhas próprias
mãos.
Precisei respirar fundo algumas vezes, tentando me acalmar
e assim conseguir pensar claramente, descobrir por onde começar a
procurar.
Saquei o celular e telefonei para o chefe dos seguranças. De
acordo com ele, Ayla havia deixado a praça com meu irmão, a
quem, até aquele instante, ele acreditava ser eu, já que usava
roupas iguais às minhas, mais uma das artimanhas daquele
demônio.
Ordenei a ele que reunisse toda a equipe e partisse em
busca do carro no qual eles foram vistos entrando, que varresse
minuciosamente cada canto da cidade e seus arredores. Depois,
telefonei para Aysha, a fim de me certificar de que Ayla não tinha
voltado para casa. A garota estava tomando sorvete com um amigo,
não sabia dela e eu não quis deixá-la preocupada, falando que
havia sumido.
Aflito, atormentado, peguei o meu carro e parti pela cidade,
percorrendo cada bairro e seus arredores, sempre me comunicando
com os seguranças, com o intuito de que percorrêssemos áreas
diferentes.
Vagamos durante várias horas. A cada instante que passava,
sem que a encontrássemos, a aflição crescia dentro de mim, pelo
receio do que aquele demente pudesse ter feito à mulher que eu
amava.
Já era madrugada, quando por fim uma das equipes de
seguranças encontrou o Mercedes no qual viram Esdras a levando e
imediatamente me dirigi para o local. Estava abandonado em uma
antiga fazenda, numa área onde havia indícios de ter pousado um
helicóptero, há pouco tempo.
Considerando que eu temia encontrar o corpo dela largado
em algum lugar, sem vida, era para eu ter sentido alívio ao descobrir
que ela fora levada. No entanto, o fato de ele tê-la sequestrado, ao
invés de assassinado, não amenizava a minha aflição, pois só Deus
sabia do que aquele psicopata era capaz de fazer. Por outro lado,
pelo menos agora eu sabia que havia uma minúscula chance de
encontrá-la com vida, de salvá-la.
Se pelo menos tivéssemos qualquer informação sobre o
helicóptero que os transportaram poderíamos rastreá-lo, contudo,
sem qualquer pista, não podíamos fazer nada sem a ajuda da
polícia. O problema era que, ao procurar a polícia, eu teria que falar
a verdade sobre quem era e sobre quem era o meu irmão, o que
colocaria a vida do meu filho em risco. Porém, isso eu resolveria
depois. O importante agora era salvar a vida de Ayla, se é que ela
ainda estava viva.
Dirigi até a delegacia de Ivanhoés praticamente sem ver o
percurso, cego de tanta preocupação. A sede se tratava de uma
minúscula construção, com apenas uma viatura e dois guardas de
plantão. Como era madrugada, praticamente precisei obrigar um
dos policiais a acordar o delegado e solicitar sua presença imediata,
devido à urgência do caso.
O delegado se tratava de um homem parrudo, com cerca de
quarenta e poucos anos. Como era esperado, chegou à delegacia
de péssimo humor, por ter sido acordado.
— Sinto muito, Sr. Agostini, mas nem o senhor pode me
obrigar a abrir uma queixa de sequestro para uma pessoa que
desapareceu há cerca de cinco horas. O desaparecimento de
alguém só é considerado desaparecimento depois de no mínimo
vinte e quatro horas — cuspiu ele, emburrado e mal-humorado.
— Será que você não está entendendo o que estou dizendo?
Meu irmão é um homem perigoso, um assassino psicopata. Tem
ideia do que ele pode fazer a ela se não chegarmos a tempo?
— Que eu saiba, o senhor que é o assassino nessa história e
ainda tentou culpar o irmão. Ela estará mais segura com ele do que
com você.
Precisei me esforçar para manter o autocontrole e não ceder
ao impulso de pegar aquele imbecil pelo colarinho e esfregar sua
cara no tampo de madeira da mesa.
— Não tire conclusões pelo que lê na internet. Eu não matei
ninguém. Não sou Esdras Agostini, sou Leander Agostini. O
assassino aqui é meu irmão. A garota que ele matou na faculdade
não foi a única. Tem mais vítimas nessa história e, se não nos
apressarmos, Ayla será mais uma. Será que você me entendeu
agora, ou preciso desenhar?
O homem continuou me encarando em silêncio, com uma
expressão inescrutável nos olhos enrugados.
— Que tipo de droga o senhor está usando para falar
tamanhos absurdos?
Mas que merda! Será que ele não percebia que estávamos
perdendo tempo?
— Pode parecer absurdo, mas é a pura verdade. Eu troquei
de lugar com meu irmão quando ele estava na cadeia, por causa de
uma chantagem. Se não acredita em mim, traga um leitor biométrico
e tire as minhas digitais agora mesmo. Eu sou Leander Agostini e
meu irmão é um assassino muito mais perigoso do que qualquer
pessoa possa supor. Tenho um vídeo dele assassinando uma
mulher com quem tinha um caso.
Agora o delegado me encarava com uma expressão de pura
perplexidade e seu queixo caído.
— E então, você tem algum leitor biométrico aí?
— Claro que temos. Nós vivemos no interior, não no período
pré-histórico. — Ele usou um telefone fixo antigo para ordenar a
alguém que trouxesse o leitor biométrico.
Em poucos minutos tiramos minhas digitais e ficou provado
que eu era Leander, um tempo valioso que estávamos perdendo.
— O crime que ele cometeu quando estava na faculdade já
prescreveu, não vou conseguir convencer a Polícia Federal a
procurá-lo por causa disso e não temos provas de que ele
sequestrou realmente Ayla. Mas o senhor disse que tem um vídeo
do seu irmão assassinando outra pessoa. Pode me mostrar?
Saquei meu celular do bolso e abri o drive, onde guardava o
vídeo de Esdras assassinando sua namorada. Ao começar a
reprodução entreguei o aparelho ao delegado, que o assistiu até o
final, com uma expressão de pura incredulidade. Nem se parecia
com um policial de verdade, acostumado a presenciar todos os tipos
de barbaridades. Ou apenas talvez em Ivanhoés tais barbaridades
não acontecessem.
— Com isto, com certeza conseguiremos permissão para
caçá-lo pelo país.
— Pois comece logo, homem, estamos perdendo um tempo
valioso. A vida de Ayla está em perigo.
— Claro. Vou acessar a polícia federal imediatamente.
Ele pegou o telefone do gancho.
— Preciso de proteção para o meu filho que vive em São
Paulo. Meu irmão prometeu matá-lo, caso eu o entregasse à polícia
— falei, com minha alma dilacerada de dor e angústia, enquanto o
policial me encarava agora com uma expressão de pura piedade.
Após dar vários telefonemas, ele finalmente conseguiu
convencer a Polícia Federal a investigar e descobrir o nome da
empresa aérea cujo helicóptero esteve em Ivanhoés naquela noite.
A partir de então, poderíamos saber para onde Ayla fora levada. Eu
só esperava que não fosse tarde demais para ela.
CAPÍTULO 31
Ayla

Quatro dias depois...

Eu não conseguia enxergá-lo, mas podia sentir vividamente a


sucção dos seus lábios mornos e úmidos sobre meu seio, assim
como o resvalar esporádico da ponta da sua língua sobre meu
mamilo sensível, enviando violentas correntes de excitação que me
varriam inteira, transformando meu sangue em lava, me fazendo
latejar e molhar entre as pernas, tão abundantemente que os
líquidos escorriam pelo interior das minhas coxas.
Ele passou sua boca deliciosa para o outro seio, sugando
com ganância, me fazendo contorcer sobre a cama, gemendo e
choramingando, me acabando de tanto tesão. Um tesão que se
expandiu ainda mais em meu âmago quando sua boca habilidosa
desceu pelo meu corpo, beijando e se alimentando de cada
centímetro da minha pele, me enlouquecendo com o calor da sua
língua úmida e macia.
Ah, que delícia! Como eu amava quando ele me lambia
inteira!
Desejei enterrar meus dedos em seus cabelos macios e
puxá-lo mais para mim, contudo, senti meus braços pesados e não
consegui movê-los. Tentei pensar sobre isso, me perguntando se
havia algo errado, mas era tarde demais para assimilar qualquer
pensamento racional, pois sua boca acabava de alcançar o centro
entre minhas pernas, atacando meu sexo com gula, lambendo e
sugando meu clitóris, enterrando sua língua na minha vagina
lambuzada, enlouquecendo-me de um prazer insano e luxurioso.
Abri um pouco mais as pernas e movi meus quadris
brevemente, esfregando minha boceta na sua boca, ensandecida,
ansiosa por uma libertação.
Como se compreendesse e atendesse às minhas súplicas,
ele concentrou os movimentos frenéticos da sua língua sobre meu
feixe de nervos, ao mesmo tempo em que introduzia um dedo na
minha vagina e outro em meu ânus, movendo-os em um gostoso vai
e vem, o que me fez explodir em um orgasmo arrebatador, que me
levou a gritar sem querer, descontroladamente.
Foi então que acordei. Atarantada, percorri os olhos em volta,
visualizando os equipamentos bizarros de tortura entre os quais
estava dormindo ultimamente e mal pude acreditar no que estava
acontecendo.
O homem cujo rosto se encontrava enfiado entre minhas
coxas, não era o meu marido, como eu imaginava, era Esdras. O
safado estava se aproveitando de mim enquanto eu dormia.
Maldito!
Invadida por um turbilhão de humilhação, revolta, ódio e nojo,
pulei da cama com um sobressalto, ajeitando a camisola de volta
sobre meu corpo, tentando esconder minha nudez.
— Seu desgraçado! Você disse que não pretendia me
violentar! E o pior foi que eu acreditei! — gritei, sem conseguir
conter as lágrimas que escorreram abundantes pelo meu rosto.
— Para de drama. Eu não te violentei. Pelo contrário, você
estava adorando o que eu estava fazendo. Gozou bem gostoso na
minha boca. Aliás, você fica linda demais gozando.
Ele teve a ousadia de aproximar-se alguns passos de mim e
tentar me tocar, porém consegui me esquivar antes que sua mão me
alcançasse.
— Não me toca, seu maldito estuprador filho de uma puta! —
gritei, descontrolada.
— Para de ser exagerada. Eu não estuprei ninguém. Apenas
te dei prazer e você deveria estar retribuindo, dando essa bocetinha
gostosa para mim. Você não imagina o quanto estou louco para
gozar dentro dela — ele sibilou, mordendo seu lábio inferior e
fechando sua mão em torno da sua ereção, por cima do tecido da
sua calça.
— Quando você vai entender que isso nunca vai acontecer?
A única forma pela qual você poderá me possuir é desse jeito
covarde que acabou de acontecer, enquanto eu estiver dormindo.
Pode me matar se quiser, mas eu nunca serei sua.
Nesse instante a fisionomia dele endureceu a tal ponto que
seu lábio estremeceu, em uma frieza assustadora tomando conta do
seu olhar.
— Você prefere a morte do que se entregar a mim? —
praticamente rosnou as palavras.
— Prefiro. Qualquer coisa é melhor do que pertencer a
alguém como você.
Eu tinha noção do quanto estava colocando a minha vida em
risco ao dizer-lhe todas aquelas coisas. Mas a verdade era que eu já
estava cansada de viver com medo, de passar as vinte e quatro
horas do dia dominada pelo pavor intenso.
Já fazia quatro dias que eu estava presa naquele cativeiro e a
cada instante que se passava minhas esperanças de ser encontrada
diminuíam.
Escapar também não era uma opção. Eu já havia tentado de
tudo. Já tinha tentado golpeá-lo na cabeça com uma barra de
extensão, o objeto mais pesado que encontrei ali, mas ele estava
preparado e conseguiu se esquivar com facilidade. Nos dois
primeiros dias, ele me levou para fazer as refeições na sala de
jantar, mas depois de eu ter tentado, por duas vezes, usar a faca de
mesa para acertá-lo, passou a trazer minha comida no quarto da
tortura, onde eu passava os dias e as noites, quase sempre com o
meu tornozelo preso à corrente.
Como não trabalhava fora, Esdras estava sempre aqui, me
rondando, me espreitando, tentando me seduzir. Não agia como um
homem normal tentando conquistar uma mulher com flores, jóia s e
chocolate. O que ele fazia era tomar banho no banheiro do quarto e
passar na minha frente completamente nu, como se acreditasse que
a imagem da sua nudez fosse capaz de despertar subitamente o
desejo adormecido dentro de mim.
Uma de suas loucuras mais insanas, foi ter trazido uma
mulher para o quarto de tortura e ter transado com ela na minha
frente, enquanto me mantinha algemada e amordaçada na cama.
Fez com ela todas as bizarrices da sua prática BDSM, humilhando-a
e a torturando com os equipamentos do aposento, enquanto ela se
acabava de tanto prazer.
Acho que, com isto, ele esperava despertar o meu interesse
pelo sadomasoquismo, mas tudo o que conseguiu foi atiçar ainda
mais o meu ódio e a minha repulsa pela sua pessoa.
— Cuidado com o que diz, Ayla. Eu tenho tentado manter a
calma com você, mas até a minha paciência tem limites.
— Eu não ligo pra sua paciência e nem pros seus limites. Na
verdade, não ligo pra você. Só quero ir embora daqui.
Percebi que tinha feito merda quando ele deu um passo em
minha direção, com sua fisionomia contraída de fúria, os punhos
cerrados, apertados a ponto de tremerem.
Ainda recuei alguns passos, apavorada, e antes que ele
tivesse tempo de aproximar-se mais, o toque do seu celular atraiu a
sua atenção, o número na tela fez com que ele parasse para
atender.
— O que foi agora? — disse, rispidamente, com o aparelho
colado ao ouvido.
Ele se silenciou para ouvir a pessoa do outro lado da linha e
à medida em que os segundos se passavam, seu olhar ia
assumindo uma expressão de pura incredulidade e espanto.
Quando encerrou a ligação, Esdras estava completamente
transtornado, a ponto de apertar o aparelho telefônico na sua mão
com tamanha força, que chegou a rachá-lo ao meio.
— O que aconteceu? — indaguei, sobressaltada.
— Aquele imbecil do meu irmão me entregou à polícia. O
prédio está todo cercado, tem atiradores de elite nos edifícios
vizinhos e outros tentando subir até aqui. Dá para acreditar?
Processei suas palavras e fui inundada por uma miríade de
alívio e aflição. Alívio, porque finalmente meu amor estava vindo me
salvar; e aflição, porque Esdras seria capaz de tudo para se vingar
dele, inclusive assassinar o seu filho, como prometera tantas vezes.
— É melhor você se entregar. Ninguém mais precisa se
machucar nessa história. Talvez já esteja na hora de você pagar
pelos seus crimes — tentei.
Com seus olhos faiscando de ira, ele me deu um sorriso
bizarro.
— Me entregar é o caralho! Eu vou sair daqui e você vem
comigo.
Sem que eu pudesse impedi-lo, sua mão forte se fechou em
torno do meu pulso e saiu me puxando para fora do quarto,
enquanto eu tentava a todo custo me soltar.
— Para com isso, Esdras. Não está vendo que não dá para
fugir, se o prédio está cercado pela polícia?
— De um jeito ou de outro, eu saio daqui.
Ele me arrastou até uma suíte enorme e luxuosa, onde
certamente dormia. Abriu uma gaveta e de dentro dela tirou uma
moderna pistola preta. Verificou a munição, empunhando-a com
uma das mãos, enquanto voltava a fechar a outra em torno do meu
antebraço, puxando-me para fora do quarto e depois do
apartamento.
Não era difícil presumir que pretendia me usar como refém
para escapar. Um escudo humano contra os atiradores da polícia.
— Esdras, pelo amor de Deus, não faça isso. Se entrega
logo, ou isso pode acabar muito mal.
O terror que me acometia era tão intenso, que fazia meu
sangue gelar nas veias, meu estômago se contrair em náuseas
violentas, minha mente entorpecer pelo pavor.
— Com certeza vai acabar mal, mas não para mim. Aquele
imbecil do Leander parece ainda não ter aprendido com quem está
lidando.
No corredor, ele me puxou até o elevador, porém, pouco
antes de apertar o botão, pareceu mudar de ideia e nos conduziu
rumo à escadaria.
— Ele só fez isso porque achou que você ia me matar.
— Pois é. O babaca foi pensar com a cabeça de baixo. Agora
além de perder você, vai perder o filho e a própria vida.
— Por Deus! Breno é só um garoto inocente e é seu
sobrinho, sangue do seu sangue, assim como Leander.
— Para de falar, antes que eu te amordace! A sua voz está
atrapalhando os meus pensamentos.
Em uma fuga completamente improvisada, sem
planejamento, ele nos conduzia escada abaixo, quase correndo,
aparentemente acreditando que, ao evitar os elevadores, estaria
também evitando a polícia. Mas esse foi seu grande erro. Havíamos
descido mais ou menos uns três andares, quando, nos últimos
degraus de um dos andares, nos deparamos com meia dúzia de
homens armados com metralhadoras, que vinham subindo. Estavam
todos vestidos dos pés à cabeça com roupas camufladas,
semelhantes às dos soldados do exército e, assim que nos viram, se
detiveram e apontaram suas armas em nossa direção.
— Parado aí mesmo, senhor Agostini! E pode ir soltando a
moça! — gritou um dos homens, enquanto outro usava um rádio
preso ao seu colete para avisar alguém que tinham nos encontrado.
Em uma atitude que parecia completamente desesperada,
Esdras colocou-me à sua frente, passando um braço em volta do
meu pescoço e apontando a pistola diretamente para a minha
cabeça, enquanto se mantinha recostado à parede, no final da
escada, usando-me como um escudo humano.
— É melhor vocês irem se afastando, ou atiro na cabeça
dela! — ameaçou ele, enquanto eu só conseguia tremer dos pés à
cabeça, dominada pelo mais absoluto pavor.
A perspectiva da morte estava tão próxima, que eu quase
podia enxergá-la e senti-la na minha alma gélida.
— Acabou, Esdras. O prédio está todo cercado. Não tem
como você sair daqui — disse outro homem.
— Ou vocês saem do caminho e me deixam passar, ou vão
ser responsáveis pela morte de uma pessoa inocente — retrucou
Esdras e os homens entreolharam-se em silêncio.
— Não podemos deixá-lo passar. Ou você se entrega, ou vai
sair daqui em um saco preto.
— Se atirarem em mim, eu mato ela antes de morrer! Vão
mesmo arriscar a vida de uma civil?
Os policiais voltaram a entreolhar-se, em um gesto de
cumplicidade, como se hesitassem.
Antes que tomassem qualquer atitude, outros policiais
armados e uniformizados como eles surgiram pela escadaria,
juntando-se ao grupo. Entre eles estava Leander, que se colocou à
frente de todos, nos observando com sua fisionomia carregada da
mais infinita angústia.
Olhar em seu rosto amado trouxe lágrimas aos meus olhos,
pelo temor de que fosse a última vez que eu o via.
— Solta ela, Esdras, pelo amor de Deus! Ela não te fez nada,
cara — suplicou Leander, com seus olhos arregalados, carregados
de aflição, fixos em nós dois.
— Se ela morrer aqui, a culpa será sua, seu palerma
desgraçado! E o próximo da lista vai ser o seu filho. Vou mandar
arrancarem a cabeça dele lentamente e enviar as imagens para
você, pela ousadia de me entregar à polícia. Eu te avisei que seria
assim. Você nunca deveria ter feito isso!
O ódio embutido nas palavras de Esdras era quase tão
apavorante quanto a arma que ele apontava para a minha cabeça.
— Se eu fiz isso foi por amor. Porque amo Ayla mais do que
tudo nessa vida e precisava protegê-la de você — disse Leander.
— Eu não ia machucá-la, seu imbecil. Mas agora, por sua
causa, ela pode morrer.
— Já chega de conversa! Largue a arma e entregue-se, Sr.
Agostini! — ordenou um dos policiais, asperamente.
— Porra nenhuma! — rebateu Esdras. — Ou vocês saem do
meu caminho, ou ela vai morrer aqui mesmo!
— Leve a mim. Solte ela — disse Leander, aproximando-se
um passo de nós.
— Nem mais um passo, panaca! Fica aí mesmo onde está —
disse Esdras, com sua mandíbula trincada.
Mas Leander não obedeceu e, no instante em que deu outro
passo em nossa direção, Esdras tirou o cano da pistola da minha
cabeça e o apontou diretamente para o peito dele, ameaçando
atirar.
Certa de que ele tiraria a vida do homem que eu amava, bem
ali na minha frente, sem que eu pudesse fazer nada para impedi-lo,
apenas fechei os meus olhos, apertando-os forte, desesperada, e no
instante seguinte o som ensurdecedor do estampido do tiro encheu
meus ouvidos, juntou ao cheiro de pólvora que subiu pelo ar.
Antes que eu tivesse tempo de processar o que havia
acontecido, Esdras mudou nossas posições, encurralando-me
contra a parede e se colocando à minha frente, entre mim e os
policiais, de costas para eles.
Apenas então me dei conta de que o disparo não partira da
sua arma e sim de uma das armas da polícia, que continuou
atirando contra nós, com um disparo atrás do outro, atingindo as
costas de Esdras, que me protegia dos projéteis de bala, como um
escudo humano.
Os sons ensurdecedores dos tiros pareceram perdurar por
um tempo interminável, até que de súbito cessaram e um silêncio
sepulcral recaiu sobre o ambiente.
Quando meus olhos buscaram os de Esdras, que continuava
de pé à minha frente, com suas mãos apoiadas na parede atrás de
mim, pude ver claramente a vida se esvaindo do azul do seu olhar.
Ele abriu a boca, como se pretendesse me dizer alguma coisa, mas
tudo o que saiu dela foi uma golfada de sangue, que espirrou sobre
o meu rosto e no momento seguinte ele despencou, caindo no chão,
com a cabeça para baixo e as pernas penduradas sobre os degraus,
seu corpo sem vida lembrando o de um animal abatido.
Em choque, continuei parada, trêmula dos pés à cabeça,
observando-o com lágrimas nos olhos, até que senti os braços
amados de Leander me envolvendo, me acolhendo junto ao seu
corpo. Afundei o rosto em seu peito, inebriada com o cheiro do seu
perfume e chorei copiosamente, lamentando a morte de Esdras.
No fim das contas, ele não era tão monstruoso assim, pois
deu a sua vida para salvar a minha.
— Shhhh... Vai ficar tudo bem. Acabou. Está tudo acabado —
disse Leander, com sua voz trêmula.
— Não era para ter sido assim. Ele não precisava ter morrido.
Olhei mais uma vez para Esdras, observando seu corpo sem
vida, ensanguentado, caído no chão e um soluço alto escapou da
minha garganta, ao passo em que minhas pernas me abandonavam
e eu despencava no chão, vagarosamente, com Leander me
segurando, sentando-se no degrau junto comigo, o tempo todo me
acolhendo junto ao seu calor.
— Ele escolheu que fosse assim. Infelizmente.
A dor presente na voz de Leander era quase tangível. Por
mais que não se desse bem com o irmão, ele estava sentindo
profundamente a sua morte, afinal o sangue nas veias sempre
falava mais alto que qualquer outra coisa.
— Ele morreu para me proteger. Por quê?
— Porque ele te amava.
Chorei em seus braços até que minhas lágrimas pareciam ter
secado. Mesmo depois que os policiais nos convidaram a nos
retirarmos do local, continuei chorando, lamentando a perda de uma
vida que poderia ter sido poupada.
Dali, meu marido me levou para um hotel perto da praia,
quando só então descobri que estávamos em Salvador, na Bahia,
onde permanecemos durante mais dois dias, esperando a polícia
resolver toda a burocracia antes de liberar o corpo de Esdras.
O enterramos ali mesmo, em Salvador, em uma cerimônia na
qual estavam presentes apenas nós dois e Breno, que veio se
despedir do tio e dar uma força ao pai.
Não houve tempo para que os pais de Leander viessem da
Inglaterra, embora já estivessem sabendo sobre todos os
acontecimentos, inclusive sobre a troca de identidade entre os dois
irmãos. Alguém havia conversado com a imprensa sobre o assunto
e não se falava em outra coisa em todos os noticiários do Brasil e do
mundo.
No dia seguinte ao enterro, voltamos para a nossa casa, em
São Paulo, levando Breno conosco.
Finalmente, após saber todas as verdades ocultas, a mãe
dele havia concordado em deixá-lo passar alguns dias com o pai, a
fim de que os dois se conhecessem melhor.
Apesar de toda a dor acarretada pela tragédia, fui inundada
por um sentimento de paz inigualável quando entrei em casa junto
com meu marido, tomada pela certeza de que estávamos apenas
começando a construir a nossa história.
EPÍLOGO
Ayla

Cinco anos depois...

O dia estava quente e ensolarado como quase sempre em


Ivanhoés. Enquanto ajudava Kátia, nossa cozinheira, a colocar a
mesa para o almoço, eu podia enxergá-los lá fora.
Na canoa, atracada na praia em frente à casa, meu pai
insistia em ensinar os gêmeos, Sara e Miguel, de apenas três anos
e meio, a colocarem a isca no anzol e pescar, mas eles eram
novinhos demais para uma tarefa tão complexa. Ainda assim, se
divertiam demais com o avô pescador.
Em um espaço gramado, próximo à piscina que antecedia as
areias da praia, Leander e Breno se encontravam envolvidos em um
jogo de tênis que parecia bastante disputado, mas também
divertido.
Era impressionante como a cada dia que passava Breno
ficava mais parecido com o pai, inclusive em sua personalidade. Ou
talvez fosse Leander que se tornava cada dia mais parecido com
Breno. Meu marido já não era o homem fechado, frio e carrancudo
que conheci há quase seis anos. Estava mais despojado, jovial e
bem-humorado. Parecia outra pessoa.
Eu queria acreditar que tais mudanças no seu
comportamento se devessem apenas à minha entrada em sua vida,
mas não era só isso. Como ele próprio repetia de vez em quando:
ele agora estava em paz. Havia encontrado uma paz que jamais
experimentara em sua vida e isso se devia a uma diversidade de
fatores.
Primeiro, ao fato de estar trabalhando menos que o habitual
nos últimos anos. Com a morte de Esdras, ele assumiu os negócios
da família, mas se dedicava pouco a eles, assim como não tinha
mais aquela sede de construir cada vez mais propriedades pelo
mundo. Preferia dedicar o seu tempo a estar perto dos nossos
filhos, a acompanhar cada etapa do crescimento deles, desde a
gravidez.
Leander era um pai maravilhoso e eu só lamentava que
Breno não tivera a oportunidade de crescer ao seu lado, embora os
dois agora estivessem recuperando esse tempo perdido.
Outro fator que contribuiu para sua paz interior, foi a nossa
mudança para Ivanhoés. Eu não sabia que tática meu pai usara
para convencê-lo a desistir de construir o resort em nossa cidade,
mas depois que os dois se tornaram amigos Leander decidiu
construir uma casa imensa para morarmos no local onde o resort
seria levantado, preservando, assim, o modo de vida em Ivanhoés.
Era uma casa exageradamente grande, com três salas, cinco
quartos, seis banheiros, escritório, biblioteca, academia e diversas
quadras de esportes espalhadas pelos arredores. Precisávamos de
cinco empregados para mantê-la sempre limpa e com tudo
funcionando, porém, aos domingos, apenas Kátia vinha me ajudar
com o almoço, sendo que ela folgava em outro dia da semana.
Aquela casa foi uma surpresa que Leander me fez. Só fiquei
sabendo que a estava construindo depois que voltamos da nossa
viagem de lua de mel, em Bora Bora, onde nos casamos pela
segunda vez, desta vez na praia, em uma cerimônia simples, com a
presença apenas de um reverendo e de alguns poucos funcionários
do resort onde estávamos hospedados, que serviram de
testemunhas.
Aquele foi um dos dias mais felizes da minha vida, quando
Leander me provou que me amava a ponto de unir-se a mim em um
matrimônio de verdade, sem que houvesse em contrato envolvido.
Ainda durante a nossa lua de mel, ele me levou para
conhecer vários lugares do mundo. Passamos cerca de três meses
viajando, quando tive a oportunidade de conhecer a Europa, as
praias da Tailândia e até o Japão.
Melhor do que estar em todos esses lugares, sobre os quais
estudei durante a faculdade e sempre sonhei conhecer, era estar ao
lado do homem que eu amava, tendo-o somente para mim durante
as vinte e quatro horas do dia, sem precisar dividi-lo com seu
trabalho e com mais nada.
Alguns meses depois de nos casarmos, descobri que estava
grávida dos gêmeos e foi então que Leander me revelou que estava
construindo nosso futuro lar, no lugar em que antes seria o resort.
Considerando que nessa época meu pai estava passando uns
tempos conosco, em nossa casa em São Paulo, presumi que o
havia persuadido a desistir do seu mais ambicioso projeto, o que
serviu para tornar a minha felicidade ainda mais completa.
— Ayla! Aquele moleque entrou no meu quarto de novo! Essa
situação está ficando insustentável! — reclamou Aysha, avançando
pela sala.
Ela estava se referindo a Breno. Por mais que ambos
tivessem a mesma idade, não conseguiam se dar bem. Viviam em
constante guerra quando ele vinha passar temporadas com o pai.
Uma guerra que eu podia apostar que acabaria em romance, devido
aos dois implicarem um com o outro sem nenhum motivo aparente.
— Fica calma. Eu pedi a ele para pegar o seu pen drive para
mim esta manhã, quando você estava na cidade. Mas como você
sabe que ele foi lá?
— Meu computador estava ligado e um amigo virtual me
enviou uma mensagem. Aquele estrupício respondeu dando o maior
fora no sujeito. Que outra pessoa nessa casa seria sem-noção a
esse ponto?
Kátia e eu nos entreolhamos e sorrimos.
— Pois eu acho que ele te fez um favor dando um fora
nesses tarados da internet. Agora vá lavar as mãos e venha
almoçar.
Mesmo contrariada, ela obedeceu, resmungando
reclamações enquanto seguia para o lavabo.
Atravessei a porta imensa, que pegava toda a parede da sala
e dava frente para o mar, e chamei a todos para virem almoçar.
Miguel foi o primeiro a sair do seu lugar, vindo correndo em minha
direção, balançando os bracinhos como se imitasse o voo de um
pássaro. Entre os gêmeos, ele era o mais dócil e apegado comigo,
enquanto Sara era mais durona e apegada com Leander. De vez em
quando, eu conseguia ver nela aquele sorriso cínico que Esdras
tinha, mas isso não me abalava, no fundo do meu coração eu
carregava a certeza de que o sorriso era a única coisa que ela tinha
herdado do tio.
— Mamãe, eu consegui pegar um peixinho, mas o vovô disse
para eu soltar de novo — falou Miguel, pulando em meus braços,
fazendo com que eu o pegasse no colo.
— O vovô está certo, meu amor. O peixinho também merece
viver e ser feliz — falei e dei-lhe um beijo demorado na testa suada.
— Você viu a surra que eu dei nele? — indagou Breno, vindo
da quadra todo animado, referindo-se à sua vitória no jogo de tênis.
— Mentira dele. Só conseguiu ganhar uma partida — disse
meu amor, que vinha logo atrás dele.
Bastou que eu repousasse meu olhar sobre ele para que tudo
dentro de mim se agitasse. Podiam se passar duzentos anos e eu
jamais me cansaria de olhar para aquele homem. Nu da cintura para
cima, sob os raios escaldantes do sol, ele estava especialmente
lindo, com a pele branca ligeiramente avermelhada; seu rosto e seu
peito, desprovido de pelos, salpicadas de suor; seus cabelos
ligeiramente crescidos na parte da frente caíam desgovernados
sobre sua testa, emprestando-lhe um aspecto meio selvagem, que
se tornava mais evidente devido à barba bem aparada.
— Tenho certeza de que foi uma vitória que valeu por duas,
pois não é fácil vencer de você — falei, fitando-o com luxúria, para
que ele soubesse o quão quente seria a nossa noite.
Especialmente naquelas últimas semanas, a nossa vida
sexual estava mais agitada do que nunca. Bastava que ele se
aproximasse de mim para que eu ficasse excitada.
Por fim, nos reunimos em volta da mesa retangular, repleta
de comida. De onde estávamos, éramos agraciados pela brisa
fresca que partia do mar e invadia a casa através das portas
gigantescas.
Como sempre, comemos envolvidos por uma algazarra de
vozes e conversas paralelas, com Aysha e Breno se engalfinhando;
os gêmeos teimando em comer sozinhos, porque se recusavam a
admitir que ainda eram bebês; meu pai puxando assunto com Kátia,
tentando parecer galanteador; e Leander e eu trocando olhares
fervorosos, sem que ninguém percebesse.
Após a refeição, Leander e eu subimos com os gêmeos para
colocá-los na cama para o soninho da tarde, enquanto Aysha e
Breno ficavam incumbidos de ajudarem Kátia com a louça suja.
Eu tinha acabado de fazer Miguel dormir, quando senti
náuseas violentas, como se meu estômago ameaçasse expulsar
todo o almoço e corri para o banheiro. Sentei-me diante do vaso
sanitário e consegui vomitar um pouco, o que me fez melhorar.
— O que houve, você está bem? — indagou Leander,
entrando no cômodo.
— Não olhe para mim, devo estar horrível.
Ao invés de me atender, ele agachou-se ao meu lado.
— Não diga tolices. Você está linda. O que está sentindo?
— Estou enjoada. Devo ter comido alguma coisa estragada
no almoço.
Leander pareceu bastante reflexivo ao fitar-me em silêncio
durante um longo momento.
— Você se lembra quando foi a sua última menstruação? —
indagou ele e, de repente, a ficha caiu.
Já fazia várias semanas que minha menstruação estava
atrasada e aquele fogo, de estar sempre excitada quando ele se
aproximava, fora muito mais intenso no início da minha gravidez dos
gêmeos. Só podia ser isso, eu estava grávida pela segunda vez e
nem sabia o que pensar a respeito dessa informação. Ter outro filho
seria maravilhoso, mas os gêmeos ainda eram tão novinhos,
precisavam tanto de atenção.
— Caraca! Estou grávida! Só pode ser isso! — falei.
Num ímpeto, Leander se levantou e me puxou pela mão,
fazendo-me ficar de pé também. Passou os braços em volta da
minha cintura e me puxou para junto do seu corpo, encarando-me
com um sorriso largo e seus olhos repletos de paixão.
— Isso é maravilhoso. Mais um bagunceiro para essa casa.
— Ainda preciso fazer o teste para ter certeza.
Uma ruga se formou em sua testa.
— É impressão minha, ou você não está muito animada com
a novidade?
— Eu vou adorar me tornar mãe de novo, mas acho que veio
muito cedo. Os gêmeos ainda precisam muito da nossa atenção.
— Vamos contratar uma babá para cada um deles, assim a
rotina não se tornará exaustiva.
Sorri da sua proposta. Como era exagerado!
— Acha que estou brincando? — disse, com bom humor. —
Com uma babá para correr atrás de cada um deles, nós vamos ter
mais tempo para ficar assim agarradinhos.
Ele sibilou. Espalmou sua mão sobre minha bunda e apertou,
pressionando meu ventre contra a ereção enorme, o que me fez
soltar um gemido rouco. Todos os meus sentidos foram
despertando, as chamas do desejo acendendo-se em meu íntimo.
Inclinou a cabeça para me beijar e virei o rosto para o lado,
constrangida em beijá-lo depois de ter vomitado. Porém, implacável
como sempre, ele segurou-me firmemente pelo queixo e imobilizou
minha face diante da sua.
— Eu tenho fome de você — sussurrou.
No instante seguinte, sua boca estava devorando a minha,
lábios e língua me explorando, me saboreando, de uma forma tão
deliciosa que joguei todos os pensamentos para o alto e me rendi à
paixão visceral que queimava em minhas entranhas, passando os
braços em volta do seu pescoço, colando meu corpo todo ao seu,
enquanto ele usava o pé para fechar a porta do banheiro pelo lado
de dentro.

FIM
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