Você está na página 1de 4

Fala a Escrita: Sobre “A Farmácia de Platão” de J.

Derrida
Seminário de Filosofia Contemporânea I.
Prof.ª Drª Cíntia Vieira da Silva – UFOP.

Por: Juliano Gustavo Ozga.


Filosofia UFSM-UFOP.

Tópicos e anotações de aula e referências diretas do texto.

I. Tema principal do texto A farmácia de Platão: a ESCRITURA (ècriture).


Obs.: Escritura e escrita (português) e ècriture (francês);
1- O tema da escritura é desenvolvido a partir da análise do diálogo Fedro de
Platão;
2- Aqui é evidente a oposição entre o discurso oral/falado e o discurso
escrito/impresso;
3- Ao mesmo tempo em que o discurso oral era mais popular entre os cidadãos,
dentro das escolas filosóficas ele tinha um caráter privado (eso-), ao passo que entre os
cidadãos a discurso impresso era mais exclusivista, ou seja, somente os cidadãos alfabetizados
tinham a capacidade de ler algum escrito impresso, ao passo que dentro das escolas
filosóficas, o discurso escrito ou impresso detinha um caráter público (exo-) com a intenção de
divulgar os ensinamentos através dos membros das escolas filosóficas. Portanto, havia uma
inversão do caráter oral e impresso do discurso dentro das escolas filosóficas.
4- “Escrita”: tomada como cópia materializada da palavra falada (cópia sonora
da escrita, porém ambas são entidades físicas).
1-Passagem importante: “... A maior precaução será não escrever (esotérico-
privado), mas aprender de cor (memória), por é impossível que os escritos (impressos)
não cairão no domínio público (exotérico)”;

Palavra falada dentro das escolas (esotérico-privada);


Aqui fica evidente a condenação da palavra impressa-escrita¹ em oposição ao
aspecto oral da linguagem².
¹ - Escrita Impressa: aspecto visual (ex.: os mathemas (matemáticos pitagóricos)
²- Linguagem Oral: aspecto sonoro e auditivo (ex.: os acusma (acusmáticos pitagóricos=
auditores).

II. Leitura direta do texto.


1- Phármacom: aquele que fala demais, em demasia até o ouvinte ficar
entorpecido/letárgico;
2- Para Derrida o Phármacom seria expresso pelo texto escrito-impresso
3- O problema exposto seria que através do texto escrito não poderia haver uma
limitação de interpretação, podendo assim haver a interpretação ilimitada de um texto
sem uma fundamentação por parte do leitor;
4- A escrita impressa (dependência visual) estava diretamente em oposição com
a linguagem falada, ou com o saber de cor (dependência mnemônica);
5- Sobre Hórus: “o pensamento que concebe”, ou seja, a ideia que depende
apenas da memória;
6- Sobre Thot: “a fala que executa”, ou seja, a ideia depende da visão, portanto,
impressa.
III. O Phármacom.
1- O mito egípcio do deus inventor da escrita (Theuth).
2- O problema da substituição fala oral pela escrita impressa vai afetar a memória do
indivíduo, pelo fato da segunda ser visual (impressa) e a primeira ser auditiva (oral). Porém
aqui há uma questão: ambas dependem da memória, a fala oral da memória auditiva e a escrita
impressa da memória visual. Porém na memória visual possuímos uma fonte de verificação,
no caso o texto impresso materialmente, sendo que na memória auditiva a fonte de verificação
possível é secundária, ou seja, a partitura musical tratada como uma tradução do aspecto
sonoro auditivo (semelhante à fala oral) para um aspecto impresso visual (semelhante à escrita
impressa).
3- O problema linguagem falada e escrita hebraicas serem uma língua com caráter fixo
(através da divisão entre as 3 letras matrizes, as 7 letras duplas e as 12 letras simples,
totalizando 22 letras). Porém, para cada letra há um número específico, diminuindo assim a
livre interpretação, pelo fato de cada palavra simbolizar um respectivo número e cada
sequência de número também simbolizar uma palavra, sendo que letras e números estão em
uma ligação de igualdade, o que permite uma maior limitação e verificação de ambiguidades.
4- O problema da simbologia escrito-alfabética perante a semântica falada.
5- Importância da memória auditiva para os auditores ou acusmáticos (fala oral)
perante a memória visual dos matemáticos (escrita impressa).
6- Outra questão importante é a grande preocupação e importância de os escritos não
caírem em domínio público, ou seja, se e inevitável à materialização do discurso oral, como
limitar o acesso agora que ele é impresso e público? Ou através da restrição material explícita,
ou seja, proibição de certos livros, ou limitação de acesso aos livros, ou uma restrição
implícita, ou seja, só conseguirá ler e entender os discursos escritos àqueles indivíduos
alfabetizados.
7- Evidência do problema dos escritos de domínio público (exotéricos) e os diálogos
orais falados privadamente (esotéricos).
“A saúde e a virtude, que são frequentemente associadas quando se trata do corpo e,
por analogia, da alma, procedem sempre de dentro (éndothen-interno).” (J. Derrida, Cap. IV).

8- As oposições entre:
1- A verdade e seu signo;
2- O ente e o tipo;
3- O psíquico e o físico;
4- A fala oral e a escrita impressa;
5- A memória e a rememoração (passiva).
6- “A oposição entre mnéme (memória) e hypomnesis (rememoração) comandaria,
pois, o sentido da escritura.” (J. Derrida, Cap. IV).

9- “A eloqüência persuasiva (peithó) é o poder de arrombamento, de seqüestro, de


sedução interior, de rapto invisível. É a própria força furtiva.” (J. Derrida, Cap. IV).
10- “A relação lógos/alma e a ralação phármacon/corpo é a mesma designada como
Lógos.” (J. Derrida, Cap. IV).

IV. Sobre o Cap. VII.


1- Sobre o problema da “rememoração” usado para justificar o
conhecimento oral em oposição ao aspecto impresso da linguagem para
justificar o conhecimento científico.
2- Exposição do problema referente ao limite imposto ao autor de texto para
esclarecer o significado do texto.
a) O problema do esclarecimento do texto como trabalho do autor ou como
interesse do leitor por procurar esclarecer os conceitos que o autor deixou implícito do texto.
Nesse trabalho pode haver um rompimento com a intenção semântica desejada pelo autor.
Portanto, nesse caso se expressa o duvidoso limite de interpretação
requerido pelo autor e pretendido pelo leitor.
1- O problema do mutualismo do discurso escrito sobre o discurso falado (ou
verdadeiro lógos).
2- O fato da interpretação de J. Derrida sobre o termo “phármacon” ser análogo
à interpretação de Platão sobre o lógos falado (diálogos falados) de Sócrates e a sua concepção
de lógos escrito (diálogos escritos).
3- A limitação de aplicação da interpretação de J. Derrida do termo
“phármacon” sobre a língua hebraica (devido ao fato de cada letra do alfabeto hebraico ser
análogo á um número, o que impede uma interpretação ilimitada por parte do leitor,
preservando na medida do possível a intenção semântica do autor). A possibilidade da
interpretação de termo “phármacom se insere mais no caso da língua e alfabeto grego
(passagem do discurso oral (Mito) para o discurso escrito)”.
4- Aqui fica evidente a interpretação onde Mito-Discurso Oral se difere do
Lógos-Discurso escrito.
5- Essa concepção de leitura que revela o aspecto atmosférico temporal e
espacial onde ocorrem os diálogos.
6-Graus de leitura do discurso Oral-Escrito dos diálogos:
a) Sócrates-Platão: 1 instância de leitura sobre o discurso oral de Sócrates;
b) Platão-Derrida: 2 instância de leitura sobre o discurso escrito de Platão;
c) Diálogos: instância entre o discurso falado e o discurso escrito; Platão é o
comunicador e expositor em 1 instância.
7- Exposição de J. Derrida sobre Platão com aspecto fenomenológico e
psicanalista.
8- Posteriormente J. Derrida expõe uma interpretação filológica sobre Platão e
seus diálogos.
9- Dia-Lógos de Platão.
a) Diálogo oral: aspecto imutável e temporal-espacial do proferimento do
discurso (possibilidade de ser mutável semanticamente);
b) Diálogo escrito: aspecto mutável e atemporal - espacial do registro do
discurso (possibilidade de ser imutável semanticamente);
10- Ambiguidade entre uma concepção oral do diálogo e uma concepção
escrita do diálogo.
11- Discurso Falado: mitocentrismo oral;
12- Discurso Escrito: logocentrismo escrito
13- O aspecto de o discurso falado ser limitado espacial e temporalmente
(restrito apenas a situação do proferimento do discurso).
14- O aspecto de o discurso escrito ser ilimitado espacial e temporalmente (sem
restrição temporal e espacial devido ao registro impresso).
15- Exemplo do discípulo da escola pitagórica Hipase:
“Os pitagóricos não aceitavam a divulgação do conhecimento secreto para o público
profano, por motivos econômicos, como o caso de Hipase, que materializou o conhecimento
dos doze pentágonos em uma tábua; transformou o conhecimento teórico em algo material,
tendo um castigo ou sendo ele próprio, Hipase, seu castigador e punidor; porém permitiam
vender o conhecimento ou ensinar-se, no caso de ter-se tornado pobre, no entanto, isso era um
interesse da comunidade secreta e por isso era aceito. Quem não era considerado aceito ou
digno na escola, não poderia ter acesso ao conhecimento, e o conhecimento era para os
escolhidos, e ao serem escolhidos e aceitos, eles eram obrigados a guardar silêncio sobre a
sabedoria arcaica. Porém Pitágoras, de alguém recebeu este conhecimento, ou foi revelação
dos deuses, e por isso ele detinha o direito a propriedade privada do conhecimento.”
Aqui também fica evidente o aspecto privado e público do acesso e divulgação
do conhecimento mesmo entre os pitagóricos acusmáticos (os acusmáticos/auditores: aqueles
que recebiam os preceitos [conhecimentos] através da fala, sem preocupação com a exatidão e
precisão dos detalhes) e matemáticos (os matemáticos [de mathema]: estudo mais elaborado e
exato; princípios racionais do conhecimento).
16- Fazendo uma analogia entre a escola pitagórica e com os diálogos de
Platão, é possível interpretar a possível ocorrência de grupos internos dentro dos próprios
grupos externos que abrangiam a busca pelo conhecimento através da filosofia, o os meios de
expressão desse conhecimento eram os diálogos falados e posteriormente escritos.
17- O fato da interpretação de J. Derrida sobre o aspecto geral dos diálogos
escritos de Platão fundamentados nos diálogos orais de Sócrates.

V. Conjetura e interpretação final.


a) Lógos original (MATRIZ);
b) Lógos oral: discurso oral verdadeiro (primeira cópia);
c) Lógos escrito: discurso escrito simulado (segunda cópia).

Referências bibliográficas.
DERRIDA, Jacques. A Farmácia de Platão. São Paulo: Iluminuras, 1997.

Você também pode gostar