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Filosofia: A dimensão da experiência

religiosa
- A filosofia da religião examina criticamente crenças e conceitos religiosos
fundamentais. O termo religião parece apontar para a ligação ou união do
humano com o divino. Esta ligação pressupõe uma rotura entre o sagrado e
o profano, cuja existência torna o espaço e o tempo não homogéneos.
Chama-se hierofania ao ato de manifestação do sagrado.
- A necessidade de lidar com a experiência da finitude, a contingência,
medos e ameaças, assim como uma certa atração pelo mistério, conduz o
ser humano a uma abertura à transcendência.
- A religião procura responder ao problema do sentido de existência - ou
seja, da razão de ser, da finalidade, do significado e do valor das ações e da
vida – recorrendo a uma realidade divina enquanto fonte primordial de
todo o sentido, procurando garantir ao crente a salvação.
- A ideia de salvação pressupõe a existência de vida depois da morte,
implicando a noção de alma imortal.
- Platão defendeu a imortalidade da alma.
- As objeções contra a imortalidade da alma são por exemplo a negação de
que a alma seja indestrutível.
- A dimensão pessoal da religião remete-nos para a fé e para a experiência
religiosa.
- A experiência religiosa é uma experiência em que se sente a presença
imediata do divino, havendo experiências religiosas místicas e não místicas.
- As não místicas são aquelas em que se sente a presença imediata do divino
como algo distinto do eu. As experiências religiosas místicas são aquelas em
que se sente a união entre o eu e uma experiência divina, podendo
distinguir-se em extrovertidas – a realidade divina é descoberta no mundo
exterior – e introvertidas – a realidade divina é descoberta no interior mais
profundo do eu.
- A religião possui uma dimensão social e comunitária, sendo caracterizada
pelos seguintes elementos: ritos/liturgia/culto, códigos morais, crenças
(doutrinas e dogmas), mediadores, escritos sagrados, uma comunidade e
uma organização.
- O fideísmo é uma doutrina que, opondo-se ao racionalismo, sustenta a
incapacidade da razão humana para atingir determinadas verdades,
considerando que elas só são acessíveis através da fé. Para os fideístas há
um conflito entre razão e fé, segundo o qual a fé não pode justificar-se
racionalmente.
- A existência de uma harmonia entre fé e razão foi defendida por São Tomás
de Aquino.
- Existem cinco doutrinas filosóficas relativas à existência de Deus:
- o teísmo: existe um Deus pessoal e perfeito que governa o mundo e se
revela aos homens;
- O deísmo: Deus existe, criou o mundo, mas não se revela;
- O ateísmo: Deus não existe;
- O agnosticismo: não nos é possível saber se Deus existe ou não, nem
aceder ao conhecimento da sua essência;
- O panteísmo - Deus e o mundo são a mesma realidade.
- Podemos distinguir três tipos de religiões: monoteístas, monistas e
dualistas.
- Relativamente à classificação das provas da existência de Deus (perspetiva
teísta) os filósofos desenvolveram argumentos a posteriori – pelo menos
uma premissa só pode ser conhecida através da experiência - e argumentos
a priori – todas as premissas são conhecidas independentemente da
experiência.
- Os três argumentos principais são o cosmológico, o teleológico e o
ontológico. Só o terceiro é à priori.
- O argumento cosmológico, defendido por São Tomás, parte da ideia de que
todos os efeitos têm as suas causas. Se partirmos da série das causas
eficientes no mundo, não poderemos recuar até ao infinito, pelo que deve
existir uma causa eficiente primeira, que é Deus.
- Este argumento foi criticado por ser autocontraditório, ao defender que
não há causa que não tenha sido causada e que existe uma causa que não
foi causada; por pressupor que não há uma regressão infinita na série de
causas e efeitos em relação ao passado; por não nos adiantar muito no que
diz respeito à existência de Deus.
- O argumento teleológico, defendido por W. Paley, sustenta a ideia de que a
complexidade, a ordem, a harmonia, o engenho e a finalidade dos seres e
fenómenos naturais provam que eles foram concebidos por um criador
inteligente: Deus.
- As objeções a este argumento são o facto de ele se basear numa fraca
analogia, pois a semelhança entre os objetos naturais e artificiais não é
uma semelhança entre aspetos verdadeiramente relevantes; o facto de
perder força quando confrontado com as conclusões da teoria
evolucionista de Darwin; o facto de tal argumento não provar que Deus seja
único, omnipotente, omnisciente e infinitamente bom.
- O argumento ontológico procura demonstrar a existência de Deus com
base na definição da sua essência. Defendido por Santo Anselmo e
Descartes, considera que Deus possui todas as qualidades num máximo
grau de perfeição. Sendo mais perfeito existir do que não existir, então
Deus existe necessariamente.
- Algumas críticas a este argumento são: pode conduzir a consequências
absurdas, como o concluir-se que uma ilha perfeita existe só porque se
pensou nela; Kant criticou neste argumento o pressuposto de que a
existência é uma propriedade; este argumento acusa fragilidades devido à
existência do mal, que parece colidir com a existência de um Deus bom e
perfeito.
- Kant apresentou o argumento moral. Defendendo que apenas conhecemos
os objetos no espaço e no tempo, não sendo possível conhecer o númeno
(Deus, alma e o mundo enquanto totalidade), Kant procura chegar a Deus
através da moralidade, da razão prática. Enquanto ser moral, o ser humano
deve agir com o objetivo de alcançar o sumo bem, que consiste na união da
virtude e da felicidade. União essa que só é possível pela intervenção de um
ser dotado de uma vontade santa – Deus.
- Kant criticou as provas tradicionais por gerarem erros e ilusões, mas o seu
argumento também não está isento de críticas: a ideia de que devemos
procurar fomentar o sumo bem é questionável. Não se pode dizer que Deus
tem de existir para que uns sejam recompensados pelas boas ações e
outros punidos pelas más, porque o próprio Kant acha que devemos agir
por dever, ou praticar o bem independentemente de qualquer tipo de
recompensa.
- Parece haver uma incompatibilidade entre a existência do mal no mundo e
a existência de um Deus perfeitamente bom, omnisciente e omnipotente,
com total domínio do mundo. Assim, a existência do mal pode servir de
argumento a favor do ateísmo.
- Alguns filósofos elaboraram teodiceias (justificações da bondade de Deus
associadas à explicação da existência do mal), e de entre as razões que
explicam porque Deus permite o mal, encontram-se as ideias segundo as
quais o mal é necessário para que possamos apreciar o bem, é um castigo
da conduta moral, conduz a uma maior virtude moral, permitindo a
existência do bem, contribui para a beleza e harmonia geral do mundo e é
justificável por ser efeito de um bem maior – o livre-arbítrio.
- As religiões institucionalizadas provocam com frequência ao longo da
história efeitos nefastos nas sociedades, exprimindo o fanatismo, a
intolerância e a incapacidade de respeitar diferentes valores e culturas.
- A tolerância é necessária entre diferentes confissões religiosas e em relação
àqueles que não professam qualquer religião. A tolerância situa-se para lá
do relativismo e da indiferença, baseando-se no carácter universal dos
direitos humanos.
- A responsabilidade pela paz no mundo passa, em grande medida, pela
atuação das religiões e pela paz entre elas. É necessário um diálogo inter-
religioso, o que é impossível sem um estudo sério e aprofundado dos
princípios teológicos das diferentes religiões.

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