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Poder Judiciário
Justiça do Trabalho
Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região

Recurso Ordinário Trabalhista


0000646-16.2020.5.06.0002
Relator: FABIO ANDRE DE FARIAS

Processo Judicial Eletrônico

Data da Autuação: 08/02/2022


Valor da causa: R$ 153.942,21

Partes:
RECORRENTE: MERCOPAMPA DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS ALIMENTICIOS LTDA
ADVOGADO: VICTOR EMMANUEL PASCARETTA GALLO BARRETO DE SOUZA
ADVOGADO: PRISCILA BEZERRA MORANT VIEIRA
RECORRIDO: SANDRO RODRIGUES DE ALBUQUERQUE
ADVOGADO: ANA ALINE DANTAS DE ALBUQUERQUE
RECORRIDO: EMPRESA BRASILEIRA DE CORREIOS E TELEGRAFOS
ADVOGADO: CASSIANO RICARDO DIAS DE MORAES CAVALCANTI
CUSTOS LEGIS: MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PAGINA_CAPA_PROCESSO_PJE
Fls.: 2

PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA DO TRABALHO
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 6ª REGIÃO

PROCESSO nº0000646-16.2020.5.06.0002(ROT)
ÓRGÃO JULGADOR : SEGUNDA TURMA.
RELATOR : DESEMBARGADOR FÁBIO ANDRÉ DE FARIAS.
RECORRENTE: MERCOPAMPA DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS ALIMENTICIOS LTDA.
RECORRIDOS: SANDRO RODRIGUES DE ALBUQUERQUE, EMPRESA BRASILEIRA DE
CORREIOS E TELEGRAFOS
ADVOGADOS: VICTOR EMMANUEL PASCARETTA GALLO BARRETO DE SOUZA, PRISCILA
BEZERRA MORANT VIEIRA, ANA ALINE DANTAS DE ALBUQUERQUE
PROCEDÊNCIA: 2ª VARA DO TRABALHO DO RECIFE (PE).

EMENTA

RECURSO ORDINÁRIO PATRONAL. DANO EXISTENCIAL.


JORNADA EXTENUANTE. ENTENDIMENTO DA TURMA. 1. O
dano existencial é categoria autônoma de dano à esfera imaterial,
conforme disposto no art. 223-B da CLT, que ocorre quando o ser
humano é privado dos seus projetos de vida ou tem violados os direitos ao
convívio familiar, social, político ou ao lazer. 2. A jurisprudência
hegemônica do TST, que vem sendo perfilhada por este órgão julgador, é
no sentido de que a simples realização de horas extras, mesmo além do
limite legal destinado ao labor em sobrejornada, não causa dano in re ipsa,
sendo necessária a demonstração da violação concreta do convívio social,
político, familiar, ao lazer ou a projetos de vida. 3. Ante a peculiaridade
do caso concreto, contudo, o relator entende que o dano existencial restou
caracterizado, ante a realização jornada de trabalho extenuante de
14h30min por dia, durante todos os dias da semana, em 26 dias por mês,
havendo ofensa ao direito à desconexão e sendo evidenciado cabalmente o
dano existencial. 4. Apesar disso, em prestígio à unidade de convicção e
ao princípio da colegialidade, o relator ressalva o entendimento pessoal a
fim de ser aplicado o entendimento majoritário de que o dano existencial
somente pode ser encontrado caso haja prova específica de prejuízo às
relações sociais, políticas, familiares, ao lazer ou aos projetos de vida.
Como não houve essa demonstração específica, não há como manter o
deferimento de indenização compensatória. Recurso patronal provido,
no ponto.

RELATÓRIO

Vistos, etc.

Assinado eletronicamente por: FABIO ANDRE DE FARIAS - 16/03/2022 10:12:02 - 01918f1


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Número do processo: 0000646-16.2020.5.06.0002 ID. 01918f1 - Pág. 1
Número do documento: 22022311543584700000024814982
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Trata-se de recurso ordinário interposto por MERCOPAMPA


DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS ALIMENTICIOS LTDA. contra a sentença proferida pelo MM.
Juízo da 2ª VARA DO TRABALHO DO RECIFE (PE), que julgou parcialmente procedentes os pedidos
formulados na Reclamação Trabalhista em epígrafe, nos termos da fundamentação de fls. 1172/1191.

Nas razões documentadas às fls. 1194/1199 a Reclamada/Recorrente não


se conforma com a condenação no pagamento do intervalo intrajornada, sucessivamente requer seja
considerado apenas o tempo faltante para o fechamento do intervalo e não a hora inteira, e excluídos os
reflexos. Insurge-se, outrossim, contra a condenação no pagamento do intervalo interjornada, bem como
indenização por dano moral. Por fim, pugna pela imediata aplicação da a Lei 13.467/2017.

Contrarrazões às fls. 1204/1211 pelo Reclamante.

Parecer do MPT às 1216/1217.

É o relatório.

FUNDAMENTAÇÃO

MÉRITO

Recurso da parte Reclamada

Da jornada de trabalho

Conforme relatado, a Reclamada/Recorrente não se conforma com a


condenação no pagamento do intervalo intrajornada, sucessivamente requer seja considerado apenas o
tempo faltante para o fechamento do intervalo e não a hora inteira, e excluídos os reflexos. Insurge-se,
outrossim, contra a condenação no pagamento do intervalo interjornada.

O juízo de origem deferiu o pagamento de horas extras relativas ao


intervalo intrajornada diante de inexistência de previsão normativa que ampare o fracionamento do
intervalo para os motoristas de carga.

À análise.

Os cartões de ponto adunando aos autos (fls.360/744) revelam o exercício


habitual de trinta minutos de intervalo intrajornada.

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Pois bem.

O art. 611-A, III, da CLT dispõe que é lícita a redução do intervalo


intrajornadas, mantendo-se o mínimo de 30 minutos.

Ocorre que, em tempos de pós-positivismo, enquanto reina a era dos


princípios, a interpretação do artigo celetista não pode estar dissociada do influxo realizado pelos valores
que permeiam a constituição e a própria CLT.

O art. 611-A, III, da CLT somente pode ser lido de acordo com o
princípio tutelar, resguardando, sobretudo, a saúde operária e sua dignidade.

É assim que se impõe a análise sistemática da ordem juslaboral com a


conclusão de que o legislador não está autorizado pelo constituinte a abrir o campo negociável na relação
trabalhista a ponto de aumentar os riscos inerentes ao trabalho.

O art. 7º, XXII, do Texto Republicano impõe toda a sua força normativa
ao legislador reformista e lhe neutraliza a possibilidade de prever validamente a diminuição do tempo de
descanso a ponto de pôr em risco a saúde, higiene e segurança laboral.

Os demais princípios norteadores da saúde e dignidade do ser humano que


também estão previstos na constituição, como os arts. 1º, III, 6º, 170 e 196 impõem a inescapável
conclusão de que a redução do intervalo mínimo de 1 hora somente pode ocorrer mediante norma
coletiva caso haja autorização do órgão ministerial especializado em trabalho.

Ou seja, o art. 611-A, III, da CLT deve ser conjugado ao art. 7º, XXII, da
CRFB e ao art. 71, § 3º, que delimita a possibilidade de redução do intervalo mínimo de 1 hora caso a
autoridade trabalhista conceda a respectiva autorização.

Confira-se o teor do art. 71, § 3º, da CLT:

art. 71 (...)

§ 3º O limite mínimo de uma hora para repouso ou refeição poderá ser reduzido por ato
do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, quando ouvido o Serviço de
Alimentação de Previdência Social, se verificar que o estabelecimento atende
integralmente às exigências concernentes à organização dos refeitórios, e quando os
respectivos empregados não estiverem sob regime de trabalho prorrogado a horas
suplementares.

Portanto, não havendo autorização do órgão ministerial, a redução do


intervalo intrajornada para 30 minutos é inválida, por não observar a forma legal.

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O contrato de trabalho perdurou de 08 de setembro de 2015 até 08 de


agosto de 2018.

Assim, no período anterior à Lei n. 13.467/2017 o empregado que não


gozava regularmente o período de descanso tem direito ao pagamento de 1 hora a título de intervalo
intrajornada, com natureza salarial, nos moldes previstos na Súmula n. 437, I e III, do TST. O período
anterior à vigência da nova lei é resguardado porque não é admissível a aplicação retroativa da nova
norma (irretroatividade), prestigiando-se a segurança jurídica, o ato jurídico perfeito, o tempus regit
actum e a vedação de decisões surpresas. Portanto, quanto ao período, deve haver o deferimento da hora
cheia, conforme fixado em sentença.

No período posterior à reforma trabalhista, entretanto, aplico a nova


disposição do art. 71, § 4º, do Texto obreiro, que impõe o pagamento apenas do período suprimido, com
natureza indenizatória.

Sendo assim, dou provimento parcial ao apelo patronal para adequar a


condenação ao pagamento do intervalo intrajornada, assim determinando: i) no período contratual
anterior à vigência da Lei nº. 13.467 de 2017, mantém-se o deferimento da hora cheia e reflexos,
conforme fixado em sentença ; e ii) no período contratual posterior à vigência da Lei nº. 13.467 de 2017,
condena-se ao pagamento apenas do período suprimido do intervalo intrajornada (30 minutos), com
adicional de 50%, não havendo que se falar em reflexos para esse período, posto que a verba passou a ter
natureza indenizatória, consoante a nova redação do o § 4odo art. 71 da CLT.

Acerca do intervalo interjornada, a Reclamada/Tecorrente argumenta que


"o descanso do motorista profissional pode coincidir com o tempo de revezamento no caminhão, bem
como pode ser fracionado, sendo 8h contínuas e, em seguida, mais 3h." Sucessivamente, pugna pela
"condenação apenas nas horas remanescentes, e não no total, bem como se reconhecer que as 3h
posteriormente fracionadas eram também observadas e devem ser excluídas da condenação". Requer a
exclusão dos reflexos.

No aspecto, o juízo de origem concluiu que a despeito do revezamento de


motoristas e da existência de cama nos caminhões, não houve o respeito ao intervalo mínimo de 5h de
descanso.

Pois bem.

Vejamos o estabelecido no art. 235-C, §3º da CLT:

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Art. 235-C. A jornada diária de trabalho do motorista profissional será a estabelecida na


Constituição Federal ou mediante instrumentos de acordos ou convenção coletiva de
trabalho. (Incluída pela Lei nº 12.619, de 2012) (Vigência)

§ 3o Dentro do período de 24 (vinte e quatro) horas, são asseguradas 11 (onze) horas de


descanso, sendo facultados o seu fracionamento e a coincidência com os períodos de
parada obrigatória na condução do veículo estabelecida pela Lei no9.503, de 23 de
setembro de 1997 - Código de Trânsito Brasileiro, garantidos o mínimo de 8 (oito) horas
ininterruptas no primeiro período e o gozo do remanescente dentro das 16 (dezesseis)
horas seguintes ao fim do primeiro período. (Redação dada pela Lei nº 13.103, de 2015)
(Vigência)

§ 4o Nas viagens de longa distância, assim consideradas aquelas em que o motorista


profissional empregado permanece fora da base da empresa, matriz ou filial e de sua
residência por mais de 24 (vinte e quatro) horas, o repouso diário pode ser feito no
veículo ou em alojamento do empregador, do contratante do transporte, do embarcador
ou do destinatário ou em outro local que ofereça condições adequadas." (grifos
acrescidos).

Os dispositivos em comento garantem o gozo de 11 horas de descanso


dentro de 24 horas, permitido o fracionamento, desde que garantido o mínimo de 8h ininterruptas no
primeiro período.

Com efeito, as papeletas de viagem juntadas aos autos (fls. fls.360/744)


indicam, conforme bem ressaltou o juízo de origem, que "um revezamento ininterrupto da dupla de
motoristas, no qual cada um dirigia aproximadamente 5 (cinco) horas, descansando as 5 (cinco) horas
seguintes."

Destarte, evidente o desrespeito ao intervalo mínimo de 8h estabelecido


por lei, conforme acima destacado.

Nesse sentir, mantém-se a sentença que condenou a reclamada "no


pagamento, como extraordinárias, das horas suprimidas do intervalo interjornadas mínimo de 11 (onze)
horas, descontadas as horas de descanso relativas ao maior intervalo ininterrupto usufruído dentro de 24
horas, com reflexos em RSR (domingos e feriados), FGTS + 40%, férias + 1/3, 13º salários e aviso
prévio. Inteligência da Súmula n. 437 do TST e da OJ 355 da SDI-1 do TST.

Por outro lado, após a vigência da Lei nº13.467/2017, aplica-se, por


analogia, a natureza indenizatória da parcela.

Assim, o pagamento das horas extras resultantes da supressão do intervalo


interjornada, a partir de 11/11/2017, deve ser apurado considerando apenas o período suprimido, com o
acréscimo de 50%, sobre o valor da remuneração da hora normal de trabalho, sem repercussão nas
demais verbas

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Da indenização por dano moral

A Reclamada não se conforma com a condenação no pagamento de


indenização por dano moral. Sustenta que sempre viabilizou o trabalho em dupla para possibilitar o
descanso dos motoristas. Sustenta que "Se eventualmente o recorrido realizou horas extras, certo é que
recebeu a devida contraprestação por isto, e a sua jornada nunca extrapolou o normal esperado de um
motorista profissional, tanto é que sequer houve a condenação desta recorrente em horas extras".

No aspecto, o juízo de origem concluiu pelo excesso habitual da jornada


de trabalho para além dos limites impostos pelos arts. 7º, XIII, da CF/1988, e 59, caput, da Legislação
Consolidada "visto que laborava continuamente em regime de revezamento dentro do caminhão a cada
cinco horas, com pausas inferiores a uma hora para refeição, sem o devido descanso semanal
remunerado". Por considerar a jornada extenuante, deferiu o pagamento de indenização por danos morais
ao reclamante, no importe de R$ 5.000,00 (cinco mil reais).

Vejamos.

Esta Corte endossou a conclusão da sentença de que havia desrespeito aos


intervalos mínimos intrajornada e interjornada.

Isso significa que o empregado tinha prejudicado seu direito à


desconexão, já que laborava continuamente, ainda que em regime de revezamento, a cada cinco horas,
com intervalos inferiroes ao mínimo legal "como se observa, por exemplo, no diário de bordo de 2015,
em que o reclamante laborou todos os dias entre os dias 15/09/2015 a 01/10/2015 (ID. 42747c7 - Pág. 1 a
5", com bem ressaltou o magistrado de origem.

Essa quantidade de tempo destinada ao labor diariamente representa


violação ao direito à desconexão, causando prejuízo grave aos direitos fundamentais de convívio social,
político, familiar e lazer.

Disso desponta o dano existencial, reconhecido como dano autônomo no


art. 223-B da CLT. Frise-se que, de modo geral, a jurisprudência do TST e também dos Regionais tem
dito que o dano existencial não é in re ipsa, devendo haver demonstração concreta do prejuízo ao
convívio familiar, político, social ou lazer.

Ocorre, porém, que em casos de jornadas extenuantes, com a que se está


diante, em que inobservados o direito ao descanso, o dano existencial é autoevidente, sendo certa a
existência do prejuízo ante a dedicação extrema ao trabalho.

Nesse sentido, confira-se o seguinte julgado:

Assinado eletronicamente por: FABIO ANDRE DE FARIAS - 16/03/2022 10:12:02 - 01918f1


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Número do processo: 0000646-16.2020.5.06.0002 ID. 01918f1 - Pág. 6
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AGRAVO DE INSTRUMENTO. RITO SUMARÍSSIMO. LEI 13.467/2017. DANO


EXISTENCIAL. JORNADA EXTENUANTE. TRANSCENDÊNCIA. O processamento
do recurso de revista na vigência da Lei 13.467/2017 exige que a causa ofereça
transcendência com relação aos reflexos gerais de natureza econômica, política, social ou
jurídica, a qual deve ser analisada de ofício e previamente pelo Relator (artigos 896-A,
da CLT, 246 e 247 do RITST). A matéria diz respeito à configuração de dano existencial
em razão da jornada extenuante praticada pelo reclamante, com registro de que o autor
cumpria jornada diária habitual superior a 15 horas. O eg. TRT, ao registrar a
necessidade de prova dos prejuízos morais sofridos pelo reclamante e a condenação da
reclamada ao pagamento de horas extraordinárias em outra demanda, excluiu a
indenização da condenação. A causa denota transcendência social, nos termos do inciso
IIIdo § 1º do art. 896-A da CLT, uma vez que, da jornada extenuante praticada pelo
reclamante, decorre a configuração do dano existencial por ele alegado, a ensejar a
condenação do empregador ao pagamento de indenização, nos termos do art. 5º, X, da
CF. Transcendência social reconhecida. Demonstrada contrariedade ao art. 5º, X, da CF.
Agravo de instrumento de que se conhece e a que se dá provimento. RECURSO DE
REVISTA. LEI 13.467/2017. DANO EXISTENCIAL. JORNADA EXTENUANTE.
TRANSCENDÊNCIA. A condenação ao pagamento de horas extraordinárias imposta
em ação anterior, ao remunerar apenas o tempo despendido na prestação de serviços, não
alcança eventuais prejuízos morais sofridos pelo reclamante em razão da jornada
extenuante praticada. Nesse sentido, verificada a submissão habitual à jornada excessiva,
como a delimitada nos autos (superior a 15 horas diárias), o dano moral se configura na
modalidade in re ipsa, sendo presumíveis as limitações na vida pessoal do trabalhador
decorrentes da submissão à referida jornada. Transcendência social da causa reconhecida
na forma do art. 896-A, § 1º, II e III, da CLT. Recurso de Revista de que se conhece e a
que se dá provimento.

(TST - RR: 13211720155060143, Data de Julgamento: 06/02/2019, Data de Publicação:


DEJT 08/02/2019)

Apesar de tudo o que foi dito até aqui, o entendimento da maioria dos
membros deste órgão jurisdicional é no sentido de que o dano existencial somente estará caracterizado
caso haja demonstração específica de violação ao convício social, familiar, político, ao lazer ou aos
projetos de vida. O entendimento majoritário indica que não pode haver dano existencial in re ipsa, não
havendo como presumir apenas a partir da jornada de trabalho realizada.

Veja-se, nesse sentido, o seguinte trecho do voto da lavra da


Excelentíssima Desembargadora Solange Moura (processo 0000022-39.2017.5.06.0012):

Embora a prestação habitual de sobrejornada possa causar cansaço ao


empregado, privação das horas de convívio social e familiar, além de fadiga física e psíquica, não se
pode presumir a ocorrência de danos à moral do obreiro. Isso porque o convívio familiar e social, embora
salutar, é fator bastante subjetivo, possuindo maior ou menor valor, dependendo da pessoa.

No caso, não há, nos autos, elementos que indiquem ter havido sofrimento
ou abalo à incolumidade moral da reclamante, a ensejar indenização, sendo eventual condenação fruto de
mera presunção. Observe-se que o dano existencial em questão não é in re ipsa(presumível,
independentemente de comprovação).

Nesse sentido, confira-se a jurisprudência do C. TST:

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RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO SOB A ÉGIDE DA LEI N° 13.015/2014 -


JORNADA EXTENUANTE. INDENIZAÇÃO POR DANO EXISTENCIAL. NÃO
COMPROVAÇÃO.Esta Corte tem firmado o entendimento de que a imposição ao
empregado de jornada excessiva, por si só, não implica ato ilícito apto a ensejar o
pagamento de indenização a título de dano existencial, especialmente quando não
comprovado, pelo empregado, prejuízo efetivo. Precedentes. Recurso de
revistaconhecido e provido. (RR - 10919-87.2014.5.15.0075, Relator Ministro: Márcio
Eurico Vitral Amaro, Data de Julgamento: 26/04/2017, 8ª Turma, Data de Publicação:
DEJT 28/04/2017)

RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO PELO RECLAMANTE. ACÓRDÃO


REGIONAL PUBLICADO NA VIGÊNCIA DA LEI Nº 13.015/2014 E DO CPC
/1973. DANO MORAL. SUBMISSÃO A JORNADA EXTENUANTE. I. A Corte
Regional decidiu que "a prática de sobrelabor, por si só, não configura dano existencial.
A jornada reconhecida, muito embora elastecida e que contempla labor em fins de
semana, não dá ensejo a danos morais, repercutindo, no contexto dos autos, apenas na
esfera material, não se podendo presumir qualquer abalo moral dele decorrente". II. A
decisão da Corte Regional está em conformidade com a iterativa, notória e atual
jurisprudência no âmbito desta Corte Superior sobre a matéria, razão pela qual não se
viabiliza o processamento do recurso de revista, nos termos da Súmula nº 333 do TST e
dos arts. 932, III, do CPC/1973 e 896, §7º, da CLT. III. Recurso de revista de que não se
conhece. (RR - 275-35.2014.5.23.0052, Relatora Desembargadora Convocada: Cilene
Ferreira Amaro Santos, Data de Julgamento: 05/04/2017, 4ª Turma, Data de Publicação:
DEJT 07/04/2017)

[...] 6. INDENIZAÇÃO POR DANO EXISTENCIAL. EXCESSO DE JORNADA. O


cumprimento de jornada de trabalho extensa pela prestação de horas extras, por si só, não
enseja a indenização perseguida quando não demonstrada a efetiva impossibilidade de
convívio familiar e social, hipótese dos autos. Com efeito, embora o quadro fático
descrito pelo Tribunal a quo demonstre ter havido sobrejornada além do permissivo
legal, não consigna, por outro lado, prova de que tal jornada tenha de fato comprometido
as relações sociais do reclamante ou seu projeto de vida, fato constitutivo do direito ao
dano existencial perseguido. Agravo de instrumento conhecido e não provido. (...) (ARR
- 3713-84.2012.5.12.0007 , Relatora Ministra: Dora Maria da Costa, Data de Julgamento:
29/03/2017, 8ª Turma, Data de Publicação: DEJT 31/03/2017)

Tendo à vista tais considerações, dou provimento a este aspecto do apelo,


para eximir as reclamadas da condenação ao pagamento do valor de R$5.000,00, a título de indenização
por danos morais.

Diante disso, ressalvo meu entendimento pessoal e prestigio o princípio


da colegialidade e a unidade de convicção.

Dou provimento aos recursos empresariais para excluir da condenação a


indenização compensatória por dano existencial.

Sendo assim, dou provimento parcial ao apelo patronal para adequar a


condenação ao pagamento do intervalo intrajornada, assim determinando: I) no período contratual
posterior à vigência da Lei nº. 13.467 de 2017, condena-se ao pagamento apenas do período suprimido do
intervalo intrajornada (30 minutos), com adicional de 50%, não havendo que se falar em reflexos para
esse período, posto que a verba passou a ter natureza indenizatória, consoante a nova redação do o § 4o

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Número do processo: 0000646-16.2020.5.06.0002 ID. 01918f1 - Pág. 8
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do art. 71 da CLT; 2) o pagamento das horas extras resultantes da supressão do intervalo interjornada, a
partir de 11/11/2017, deve ser apurado considerando apenas o período suprimido, com o acréscimo de
50%, sobre o valor da remuneração da hora normal de trabalho, sem repercussão nas demais verbas; 3)
excluir da condenação a indenização compensatória por dano existencial.

Ao decréscimo condenatório fixa-se o valor de R$7.000,00, custas


minoradas em 140,00.

ACÓRDÃO

ACORDAM os Membros integrantes da Segunda Turma do Tribunal do


Trabalho da Sexta Região, por unanimidade, dar provimento parcial ao apelo patronal para adequar a
condenação ao pagamento do intervalo intrajornada, assim determinando: I) no período contratual
posterior à vigência da Lei nº. 13.467 de 2017, condena-se ao pagamento apenas do período suprimido do
intervalo intrajornada (30 minutos), com adicional de 50%, não havendo que se falar em reflexos para
esse período, posto que a verba passou a ter natureza indenizatória, consoante a nova redação do o § 4o
do art. 71 da CLT; 2) o pagamento das horas extras resultantes da supressão do intervalo interjornada, a
partir de 11/11/2017, deve ser apurado considerando apenas o período suprimido, com o acréscimo de
50%, sobre o valor da remuneração da hora normal de trabalho, sem repercussão nas demais verbas; 3)
excluir da condenação a indenização compensatória por dano existencial. Ao decréscimo condenatório
fixa-se o valor de R$7.000,00, custas minoradas em 140,00.

CERTIDÃO DE JULGAMENTO

Certifico que na 7ª Sessão Ordinária (eletrônica) realizada no 16º dia do


mês de março do ano de 2022, das 9h às 10h, sob a Presidência do Excelentíssimo Senhor
Desembargador do Trabalho FÁBIO ANDRÉ DE FARIAS, com a presença da Excelentíssima Senhora
Desembargadora ENEIDA MELO CORREIA DE ARAÚJO e do Excelentíssimo Senhor
Desembargador PAULO ALCÂNTARA, bem como do representante do Ministério Público do
Trabalho, CHAFIC KRAUSS DAHER, foi julgado o processo em epígrafe, nos termos do dispositivo
supra.

Certifico e dou fé.

Assinado eletronicamente por: FABIO ANDRE DE FARIAS - 16/03/2022 10:12:02 - 01918f1


https://pje.trt6.jus.br/segundograu/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?nd=22022311543584700000024814982
Número do processo: 0000646-16.2020.5.06.0002 ID. 01918f1 - Pág. 9
Número do documento: 22022311543584700000024814982
Fls.: 11

Maria Regina C. Cabral Fernandes


Chefe Substituta de Secretaria

FABIO ANDRE DE FARIAS


Relator

Assinado eletronicamente por: FABIO ANDRE DE FARIAS - 16/03/2022 10:12:02 - 01918f1


https://pje.trt6.jus.br/segundograu/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?nd=22022311543584700000024814982
Número do processo: 0000646-16.2020.5.06.0002 ID. 01918f1 - Pág. 10
Número do documento: 22022311543584700000024814982

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