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Ríos 2015 Séptimo Simposio Regional sobre Hidráulica de Ríos

A ANASTOMOSE COMO GANHO DE EFICIÊNCIA FLUVIAL


José C. Stevaux1,2, Isabel T. Leli1, Priscila P. Gon1
1
UNESP/Rio Claro – IGCE – Pós-graduação em Geociências e Meio Ambiente
2
Universidade Estadual de Maringá – Pós-graduação em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais
Rod. PR 317, n. 7001, 87035-510, Maringá PR
josecstevaux@gmail.com

RESUMO

Rios anabranching fazem parte de um grupo de canais aluviais múltiplos separados por ilhas vegetadas e estáveis.
Eeste é o padrão típico dos grandes rios (Qm > 17,000 m3.s-1), bem como, pode ser encontrado em diferentes
zonas climáticas e geomorfológicas, (sub-glacial a tropical, e relevos planos ou montanhosos). O sistema
múltiplo deste padrão possibilita maior capacidade de transporte de sedimentos quando comparado aos canais
simples. Este trabalho apresenta uma análise de variáveis hidráulicas que possibilitou estabelecer uma estimativa
da eficiência e distribuição do fluxo por meio do stream power, pendente, e sedimento transportado no canal. A
análise destas variáveis foi realizada em canais múltiplos e simples de um trecho de 53 km do Alto rio Paraná, e
concluído que: a) em todas as seções transversais, o stream power específico de seções multicanal é maior que
canais simples; b) a pendente hidráulica é mantida a mesma nas seções de um ou multi- canais de forma que o
stream power é dado pela redução da razão w/d. Por meio da equação Van Rijn foi possível concluir que a
eficiência do transporte da carga de fundo aumenta com a multiplicação dos canais.

ABSTRACT

The anabranching river encompass a diverse group of alluvial multiple and interconnected channel rivers
separated by vegetated and stable island, which divide the flow. This type of river pattern system is also typical
for mega-river systems (Qm > 17,000 m3.s-1). In addition, it can be found in wide range of climatic and relief
conditions, from the glacial to tropical zones from the lowland to mountain. It is stated that anabranching
increases the sediment transportation in relation single channeled reaches. In this paper we present an analysis of
hydraulic variables which was possible to estimate the flow distribution and efficiency in terms of unit stream
power, slope and sediment transport comparing anabranching and single channel reaches of upper course of the
Paraná River, an anabranching tropical mega river. We concluded that a) for all cross-section, the specific stream
power in multi-channel sections is always greater than the energy in single channels; b) the hydraulic slope
maintained practically the same one- or multi- channel sections in order that the increasing in stream power was
obtained by w/d reduction in multi-channel sections. Using Van Rijn equation it was possible conclude that river
efficiency for bed load transportation was increasing by channel anabranching.

INTRODUÇÃO

Rios anabranhing definem-se por apresentar canais múltiplos separados por ilhas estáveis e
vegetadas (Nanson e Knighton, 1996; Knighton, 1998; Nanson e Huang, 1999). Embora seja
relativamente comum trabalhos sobre rios anabranching, este abordam, em sua maioria,
análises de trechos curtos de pequenos rios (Nanson e Knighton, op. cit.; Knighton op cit.;
Nanson e Huang, op. cit.; Jansen e Nanson, 2004; Nanson e Huang, 2008; Jansen e Nanson,
2010). Jansen e Nanson (2004) observaram que o canal anabranching aumenta a taxa de
transporte sedimentar em relação ao canal único. Stevaux et al. (2013) postularam que a
anastomose do canal aumenta a eficiência do rio de dois modos: a) aumentando a potência de
canal específica (specific stream power), e b) preenchendo vazios da planície de inundação.
Neste trabalho apresentamos uma análise de variáveis hidráulicas, com as quais foi possível
determinar a distribuição e eficiência do fluxo em termos da potência de fluxo específica,
pendente e transporte de sedimento, comparando trechos múltiplos e únicos do rio Paraná em
um trecho de 53 km do seu alto curso.

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ÁREA DE ESTUDO

A área de estudo compreende um trecho anastomosado de 53 km do Alto rio Paraná, entre


Porto São José (22°45’52’’ S e 53°10’34’’ W) e Porto 18 (22º58.331’ S e 53º36.523’ W),
Brasil. O trecho drena uma bacia hidrográfica de 850.000 km2 onde estão instalados cerca de
150 grandes reservatórios (Stevaux et al., 2009). Desde o Holoceno Inferior o rio vem
construindo uma planície de inundação de inundação complexa (Stevaux, 1994) por avulsão
de canal, incorporação de ilhas e acreção lateral e vertical, erosão de planície e acreção a uma
taxa de 5,0 mm.y-1 (Stevaux & Souza, 2004). O clima é tropical a subtropical com média
mensal mais alta que 15oC e precipitação de 1.500 mm.ano-1. A vegetação ripária é
classificada em: 1) vegetação pantanosa e aquática; 2) Mata galeria; 3) floresta mesófila; e 4)
área impactada com agricultura e pastagem (Fachini, 2001). O trecho constitui-se de canais
múltiplos delimitados por duas seções nodais (Fig. 1). A anastomose é constituída por duas
dúzias de ilhas que variam em tamanho e que se agrupam em dois arquipélagos Mutum e
Japanesa-Floresta. As ilhas são bastante estáveis e têm uma permanência relativamente longa
no canal. Leli (2015), por exemplo, estimou em 14C 8,2 ka AP a idade da ilha Mutum. A
morfologia atual também é estável com taxa de erosão/sedimentação de 1,08 para os últimos
60 anos.

MÉTODO

Quatorze seções transversais foram realizadas de acordo com o número de canais múltiplos
(Fig. 1). Em cada seção foram medidos velocidade, direção e descarga de fluxo por meio do
Perfilador de Corrente por Efeito Doppler - ADCP Effect Acoustic Profiler (ADCP) em
conjunto com levantamento batimétrico de detalhe com a eco-sonda FURUNO. Levantamento
topográfico de precisão usando o DGPS para a pendente hidráulica. Três amostras do fundo
do canal foram coletadas para cada seção por meio do amostrador van Veen, e submetidas a
análise granulométrica. Os seguintes parâmetros hidráulicos foram obtidos:
Pendente: pelo levantamento topográfico detalhado (Leli, 2015) e pela equação de Manning
(Eq. 1) (Dietrich et al., 1999):

V= (dº'⁶⁷Sº'⁵)/n (1)

onde, V é a velocidade média da seção (ms-1), d é a profundidade média (m), S é a pendente e


n o coeficiente de rugosidade de Manning.
Potência de canal (Ω): é a energia do Sistema para realizar trabalho: transportar água e
sedimento, erodir margens, etc. (Bagnold, 1966) e potência de canal específica (ω) é a
potência de canal por unidade de área da seção (Eq. 2 e 3).

Ω = ρQS (2)

ω = Ω/w (3)

onde, ρ é a densidade da água (kgm-3), g é a gravidade (ms-2), Q é a descarga (m3.s-1), S é a


pendente e w a largura do canal (m).

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Figura 1. Trecho estudado. S1 a 14 são seções transversais; Ilhas Mutum (A), B Floresta e C Japonesa

Transporte da carga de fundo: pela equação de Van Rijn devido seu rigor teórico e qualidade
de análise (Eq. 4). Este método foi utilizado com sucesso para a estimativa de transporte
médio nos cursos baixo (Amasler et al., 2000) e alto (Martins, 2008) do rio Paraná. Os autores
calibraram a equação de acordo com dados empíricos obtidos pela velocidade de migração de
formas de leito.

qb / [(S-1)g]1/2 d501.5 = 0.053T2.1/d*0.3 (4)

onde, qb é o transporte de carga de fundo, T é o parâmetro de transporte e d* é o diâmetro do


sedimento.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

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Os dados apresentados na tabela 1 caracterizam as seções de estudo quanto à hidráulica do


trecho, parte obtida em campo com o ADCP (Q instantânea e V velocidade média do fluxo) e
parte calculada pelas Equações 5 ( Potência de canal específica) e 7 (Raio Hidráulico).

Tabela 1. Parâmetros hidráulicos referentes às seções de estudos.


Potência de canal específica Velocidade média do fluxo
Seção Qinstantânea (m³/s) (W/m²) (m/s) Raio Hidráulico
1 10386,22 4,34 0,9 5,347033371
2ª 8083,592 3,89 0,675 3,854241809
2B 2240,666 3,82 1,149 3,850746764
3ª 7241,422 3,33 0,675 3,854949201
3B 577,746 1,31 0,756 3,811696901
3C1 2136,977 1,79 0,804 3,850654749
4ª 1809,758 3,28 0,967 4,808256534
4B 5319,121 4,00 1,069 5,830634183
4C 2105,009 1,78 0,845 3,852307474
5ª 1553,196 2,13 0,848 4,568923401
5B 214,936 1,65 0,84 3,494165546
5C 7368,554 2,03 0,962 5,356721386
6ª 4925,757 2,11 0,916 8,030264032
6B 4557,505 3,79 1,024 4,35226662
7ª 4650,825 2,69 1,085 7,064074928
7B 211,964 1,44 0,761 2,336258785
7C 4712,889 4,10 1,039 4,59830545
8ª 4825,736 3,04 0,963 4,354768297
8B 245,283 1,01 0,669 2,820278281
8C 816,619 2,28 1,001 4,545959484
8D 3620,279 2,16 0,925 6,072049775
9ª 4900,951 2,23 1,025 6,335870216
9B 206,53 1,17 0,811 3,745410532
9C 4633,607 3,38 1,163 5,83769494
10ª 4638,199 2,38 0,966 5,345552626
10B 2171,78 3,26 1,026 4,824380927
10C 2487,442 2,63 1,036 5,811166698
11ª 1737,942 1,53 0,856 4,831447219
11B 3376,399 2,94 0,973 7,4898166
11C 1920,809 4,18 1,271 5,310487256
11D 1344,866 3,70 1,13 5,039221003
11E 1060,239 3,10 1,059 3,83134395
11F 509,588 1,70 0,793 5,500224739
12ª 209,963 0,81 0,58 3,264872721
12B 4737,63 2,78 0,97 5,832738018
12C 920,493 2,61 1,031 4,071253805
12D 3594,93 3,85 1,13 4,351214747
13ª 4621,313 0,48 0,46 7,064273497
13B 350,337 1,70 0,787 5,432452063
13C 936,326 0,45 0,787 6,308819263
13D 1718,854 2,44 0,964 4,821228896
13E 591,504 1,96 0,862 3,328364556
13F 1453,115 3,90 0,975 5,704715307
14 9640,955 4,38 1,174 5,355289998

Os dados de vazão para cada seção apresentam variações de até 8% (Tab. 2). Essa diferença
pode ser atribuída pela retenção de água nas planícies e áreas de banhados, e sobretudo,

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devido a forte regulação da descarga pela barragem de Porto Primavera, 30 km a montante da


área de estudo.

Nos arquipélagos principais – Mutum e Japonesa-Floresta a distribuição da vazão dá-se de


maneira diferenciada. No arquipélago montante observa-se a forte influência da assimetria do
canal (Fig. 2), com o predomínio da vazão no canal principal do lado esquerdo (8000 a 9000
m3/s) em detrimento de uma vazão mais reduzida (2000 a 3000 m3/s) no canal direito. Ou
seja, o canal principal drena 75% do trecho. Essa situação já não é observada no arquipélago
Japonesa-Floresta. Neste caso ocorre uma divisão equivalente da vazão (4000 e 5000 m3/s), o
que ressalta a inexistência de um canal principal predominante na seção (Fig. 2). Isso fica
bastante claro nas seções 5 a14 que correspondem a esse trecho.

Figura 2. Seções transversais do trecho estudado

A sinuosidade do canal principal é baixa (<1,2) mas em alguns canais menores entre ilhas
atinge valores mais altos (1,5 a 1,7). A pendente da área é relativamente constante em torno de
0,00006 com variações locais entre 0,00003 e 0,00013 (Leli, 2015). A relação entre as
variáveis do canal e planície aluvial com o grau de anastomose é sumarizado na Figura 3.

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Tabela 2. Distribuição das vazôes nas seções estudas

Seções Soma da Q (m3/s) Seções Soma da Q (m3/s)


1 10386,22 8 9507,917
2 10324,258 9 9741,088
3 9956,145 10 9297,421
4 9233,888 11 9949,843
5 9136,686 12 9463,016
6 9483,262 13 9671,449
7 9575,678 14 9640,955

Figura 3. Variação no número de canais por seção, largura da planície de aluvial e dos canais ao longo do trecho
anastomosado.

Os canais múltiplos mostram potência de canal específica variando entre 0,45 a 4,8 W/m2.
Contudo, a potência de canal específica aumenta com o grau de anastomose com boa
correlação (r2 = 0.95) de acordo com a equação 5 (Fig. 4):

ω = -0,0347n2 + 1,5603n + 3,791 (5)

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Figura 4. Relação entre a potência de canal específica e o grau de anastomose (número de canais por seção).

A relação w/d versus número de canais por seção mostra correlação inversa com r2 = 0.94 de
acordo com a equação 6 (Fig. 5).
ω = 387.85n-0.768 (6)

Figura 5 Relação w/d versus grau de anastomose (número de canais por seção).

O aumento no transporte de sedimento com o grau de anastomose foi observado (Fig. 7), com
relativamente boa relação (r2 = 0.78). Nessa relação, foram excluídos os valores de tamanho
de grão do material de fundo em alguns canais. Como observado por Stevaux et al. (2009), o
impacto hidrológico introduzido pela represa de Porto Primavera (fechada em 1999) produz
um engrossamento no material de fundo (armmouring effect) que superestimam os valores de
transporte de sedimento pela equação de Van Rijn.

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Figura 7. Correlação entre número de canais por seção e transporte de carga de fundo.

CONCLUSÃO

A eficiência do trecho multicanal aumenta com o número de canais por seção, em acordo com
Jansen e Nanson (2004). A energia pode aumentar em descarga constante pelo aumento da
pendente e/ou redução da relação w/d. No estudo apresentado a pendente permaneceu
relativamente constante de modo que a relação w/d se reduziu com o grau de anastomose para
prover o aumento na potência de canal específica. Essa afirmativa é fortemente sustentada
pelo apresentado neste trabalho.

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