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2009

Auxiliar de Departamento Pessoal PalmaDPTotal

Chefe: um tirano dos tempos modernos


HAROLDO YUTAKA MISUNAGA (G-UEM)
ISSN 1518-5354

REFERÊNCIA deste trabalho:

MISUNAGA, Haroldo Yutaka. Chefe: um tirano dos tempos


modernos In: SEMANA DO ADMINISTRADOR/UEM e
SEMINÁRIO PARANAENSE DE JOVENS EMPRESÁRIOS
E EMPREENDEDORES. 24 / 5., 2004, Maringá. Anais...
Maringá, 2004, p. 271-276.

Resumo
Este trabalho aborda a questão do “Assédio Moral” que está cada vez mais presente dentro
das organizações, principalmente na relação chefe-subordinado. Busca também, constatar que
a perseguição feita pelo mau chefe ou incompetente não afeta apenas a produtividade das
organizações – também faz mal à saúde dos subordinados.

Palavras-chave: assédio moral, saúde no trabalho, violência no cotidiano organizacional.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

As empresas buscam hoje a maximização da produtividade e conseqüente aumento


nos lucros. A preocupação com a qualidade dos produtos e serviços e a satisfação dos clientes
é muito grande, uma vez que um está intimamente ligado ao outro. Para atingir esta
maximização dos lucros e altos índices de qualidade e satisfação, se investe na modernização
dos parques produtivos, no desenvolvimento de novas tecnologias, novas formas de satisfazer
o cliente, na segurança e na saúde física do trabalhador em seu ambiente de trabalho.
Porém, preocupando-se com o bem-estar físico dos trabalhadores, as organizações
esquecem-se de um fator importante: o bem estar mental. Segundo Soares (2001),

A saúde mental só começou a merecer alguma atenção das empresas no final do


século XX, quando os problemas decorrentes da organização do trabalho começaram
a comprometer a produtividade. Hoje existe uma lista de distúrbios psíquicos que
podem ser consideradas como doenças relacionadas ao trabalho [...] no início da
Revolução Industrial, foi preciso dar atenção aos limites físicos do homem para
conter a mortalidade nas fábricas. Agora, o mesmo tem de acontecer com os limites
psíquicos.

Complementando esta idéia, Chiavenato (1999) diz que, “um funcionário excelente e
competente, mas deprimido e com baixa auto-estima, pode ser tão improdutivo quanto um
funcionário doente e hospitalizado.”
Assim, este trabalho visa apresentar a questão do “Assédio Moral” (AGUIAR, 2004),
cada vez mais presente dentro das organizações, principalmente na relação chefe-
[Digite texto] subordinado. Busca também, constatar que a perseguição feita pelo mau chefe ou Página 1
incompetente não afeta apenas a produtividade das organizações – também faz mal à saúde
dos subordinados.
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CHEFE: O QUE É ESTE “SER” ? POR QUE SÃO ODIADOS?

Para muitos, “quem têm chefe é índio”. A denominação chefe parece obsoleta
atualmente. Gerente, diretor, encarregado, supervisor, são diversas denominação que foram
dadas para aquele que, conforme o dicionário, “exerce autoridade, dirige ou governa”.
Portanto, o chefe, dentro da organização têm a função de exercer autoridade sobre seus
subordinados com a finalidade de que estes atinjam os objetivos propostos pela organização.
Então, se o chefe têm tal função, por que é odiado? A resposta parece simples e ao
mesmo tempo complexa: a chefia exercida de maneira errada transforma a vida dos
subordinados em uma verdadeira “viagem para o inferno”, provocando danos irreparáveis à
carreira.
Segundo Soares (2001), “o que não se sabia – ou não se levava na devida conta – até
muito recentemente, é que a má chefia não abala apenas a saúde das companhias. Ao
contribuir para a degradação do ambiente de trabalho, ela traz danos concretos à saúde dos
subordinados”. Também comenta que “chefes que infernizam a vida, atrapalham o trabalho e
prejudicam a saúde de seus subordinados criando um universo de sofrimento cotidiano no
trabalho”. E, uma constatação que é feita é a de que :

O grave nisso tudo é que, diferentemente do que acontece com os riscos físicos de
determinado ambientes de trabalho, como exposição a poeira e gases que provocam
doenças pulmonares ou más condições de segurança, que aumentam os acidentes de
trabalho, a pressão psicológica é invisível.

Esta ação exercida pelos chefes é classificada por alguns estudiosos como Assédio Moral.
Aguiar (2004), define o que é assédio moral:

Toda e qualquer conduta abusiva, manifestando-se sobretudo por comportamentos,


palavras, atos, gestos, escritos que possam trazer danos a personalidade, à dignidade
ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa, por em perigo seu emprego ou
degradar o ambiente de trabalho [...] uma exposição prolongada e repetitiva
condições de trabalho que, deliberadamente vão sendo degradadas. Surge e se
propaga em relações hierárquicas assimétricas, desumanas e sem ética, marcadas
pelo abuso de poder e manipulações perversas.

Para Soares (2001), “não se morre disso, mas se perde uma parte de si mesmo. Volta-se
para casa, a cada noite, exausto, ofendido, deprimido e é difícil recuperar-se”.

A HORA DO BOTE

O assédio moral remete à práticas de humilhações, perseguição e ameaças nos locais


de trabalho, componentes todos de um processo de violência psicológica que pode
chegar até a arriscar a vida da vítima. As atividade hostis como a deteriorização
proposital das condições de trabalho, o isolamento e recusa de comunicação,
atentados contra a dignidade e o uso da violência verbal, física ou sexual constituem
os meios pelos quais o agressor atinge as vítimas de assédio moral [...] o perverso
abuso de poder se estabelece subtilmente através de estratagemas, por vezes até sob
uma máscara de ternura ou bem-querer. O parceiro não têm consciência de estar
havendo violência, pode até, não raro, ter a impressão de que ele é quem conduz o
[Digite texto] jogo. Nunca há conflito aberto. (AGUIAR, 2004) Página 2
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Muitas vezes o subordinado demora à perceber (ou se faz, propositalmente, de
desapercebido, temendo alguma represália) a perseguição do chefe. Este, planeja, na maioria
das vezes, o momento certo, o “passo-a-passo para dar o bote” e transformar a vida de seu
subordinado em um verdadeiro calvário de humilhações, hostilidades, exclusão.
Soares (2001) descreve um roteiro meticuloso de como os tiranos traçam suas
estratégias de tortura:

Num primeiro momento, as pessoas envolvidas tentam ignorar as agressões


recebidas. Em seguida os ataques vão se multiplicando e a vítima se vê acuada,
aniquilada, sem forças para reagir diante da pressão de alguém mais forte e
poderoso, as pessoas passas a sofrer caladas, aos ataques dos tiranos [...] o castigo
ainda é uma prática comum [...] são comuns relatos de chefes que simplesmente
passam a ignorar o subordinado, deixando de dirigir-lhe a palavra por dias a fio. Ou
de pessoas que, de uma hora para outra ficaram sem seu computador, sua copiadora
ou qualquer outro instrumento de trabalho ou então ficam, isoladas fisicamente.

Os ataques do chefe se tornam freqüentes e se


transformam em uma rotina que oprime e humilha os
subordinados. Os tiranos têm alvos “pré-definidos” para
onde direcionam seus ataques, conforme descreve Aguiar
(2004):

Empregados com algumas diferenças nos padrões


estabelecidos: raciais ou religiosos, deficiência física ou
doença, orientação sexual, representantes sindicais;
Pessoas “atípicas” – “excessivamente competentes ou
que ocupam espaço demais”;
Grupos divergentes da administração;
Pessoas fragilizadas por licenças de saúde.

SOFRIMENTO NOSSO DE CADA DIA

Soares (2001) nos relata alguns casos de pessoas que sofreram sob o comando de
tiranos, que passaram por sessões diárias de humilhações e, que tiveram desde uma simples
dor de cabeça até internamentos por alterações cardíacas. Quatro destes relatos estão descritos
à seguir:

RELATO 011 – Sujeito A, 37 anos, era gerente comercial de uma grande empresa européia
com sede em São Paulo. Foi demitido em 1999, depois de dez anos de casa.

O novo chefe assumiu e veio com uma conversa de ‘estou aqui para ajudar, não se
preocupe’. O cerco começo devagarzinho. Um dia, numa reunião, dei uma opinião.
No final ele me disse: ‘Sujeito A, você só fala quando eu mandar’. Tentei ponderar,
mas foi inútil. Depois começou a diminuir minha área de atuação. Eu cuidava do
Brasil inteiro e passei a ser responsável pelo Sul e Sudeste. Fui ficando cada vez
mais acuado. Perdi quase 8 quilos em dois meses, tinha enxaqueca, dor na coluna,
dores musculares, torcicolo. No final estava reduzido a dois clientes. Eles queriam
que eu saísse por conta própria. Mas decidi não pedir demissão. Em Setembro de
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O nome das pessoas, assim como a empresa nas quais trabalhavam (ou passaram a trabalhar) foram omitidos
neste trabalho.
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1999, fui chamado para uma reunião em que me comunicaram que não precisavam
mais dos meus serviços. Foi um choque. Eu tinha dez anos de empresa e de repente
ouvi que não me encaixava no perfil.

RELATO 02 – Sujeito B – 33 anos, ficou apenas seis meses em seu primeiro emprego, numa
grande multinacional com sede no Rio de Janeiro.

Na primeira empresa em que trabalhei, tive um chefe que podia ter acabado comigo.
Eu era muito jovem e não tinha como enfrentar aquele relacionamento desigual,
covarde. O chefe tem poder de influenciar para o bem e para o mal. ele pode tornar
seu trabalho invisível, se quiser. Pode podar totalmente sua criatividade. Ele não me
dizia o que queria, e depois reclamava de tudo o que eu fazia ou deixava de fazer,
esse tipo de chefe chegou ao limite da própria incompetência. É normalmente uma
pessoa insegura, com muito tempo de casa. Ele confunde seu sobrenome com o da
empresa, humilha o subordinado na frente dos outros, utilizando informações
privilegiadas nesse processo. Eu sobrevivi, mas vi pessoas excelentes serem
destruídas e passarem a acreditarem que são incompetentes.

RELATO 03 – Sujeito C, ex-executivo de uma grande companhia prestadora de serviço


público, 56 anos.

Para um executivo, o que pesa é a possibilidade de desenvolvimento futuro e apoio


de quem está acima. Você quebra um profissional arrebentando com esses dois
fatores – as perspectivas e o reconhecimento. A tática é terrível. Meu chefe parou de
me cumprimentar, me deixava esperando por horas a fio, me fazia sentir invisível.
Eu não tinha mais as informações de que precisava para trabalhar. Numa situação
dessas, os que estão a sua volta começam a perceber o que está acontecendo e
rapidamente todo mundo se reposiciona. Você caiu em desgraça. Acabei com lesão
no rim esquerdo por causa de hipertensão. Em seis meses, tive três entradas na
emergência por picos de pressão e engordei 10 quilos. Hoje tomo uma medicação
fortíssima contra stress e depressão. Sei que fiz um trabalho excepcional, tanto que,
quando saí, esse mesmo chefe se apropriou de todas as minhas idéias. A intenção
deliberada dele era me humilhar. Você se prepara para competir com o seu colega do
lado, mas não com o seu chefe. O triste é que, na atual crise de emprego, a gente
acaba engolindo esses sapos por mais tempo. Para cada um que sai, há cinqüenta
esperando.

RELATO 04 – Sujeito D, 44 anos, trabalhou no Banco X por 23 anos e meio, foi incluída no
último PDV do banco, em maio deste ano.

Quando fiz o concurso do Banco X, em 1978, passei em primeiro lugar. No começo


tudo andou bem. Ao mudar de agência, começou o inferno. Eu tinha adquirido
tendinite nos dois braços e não podia mais cumprir algumas funções. Fui transferida
para a área de vendas externas, eu andava o dia inteiro e na volta ainda fazia algum
trabalho interno. Quando reclamava de dor, o chefe dizia que eu estava nervosa, que
isso era falta de homem, que eu era uma ovelha negra, que não servia para nada. Ele
dizia: ‘Você está com algum problema? Sinto muito, todo mundo tem problemas’.
Comecei a acreditar que era incompetente, ou louca.

OS CHEFES SE DEFENDEM

Até aqui, descreveu-se os resultados e conseqüências da má chefia sob a saúde física,


[Digite texto] mas principalmente sob a saúde mental dos subordinados. Página 4
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Sem dúvida, após se ter uma melhor noção sobre assédio moral, da incompetência de
algumas chefias, da perseguição, da humilhação e dos danos causados por chefes totalitários,
há um enorme sentimento de raiva e revolta contra estes.
Porém, eles se defendem:

Observando sob outro ângulo, os chefes também são vítimas da pressão no trabalho
– de certa forma até mais do que seus subordinados. [...] Na organização moderna de
suas empresas houve uma pulverização do poder. Há mais chefes hoje que na rígida
estrutura piramidal que vigorava até pouco tempo atrás e cada um deles têm menos
poder. Portanto, existem também uma competição horizontal. [...] Além disso, é
sobre os chefes intermediários que recai a maior cobrança. Ele fica espremido entre
a cobrança cada vez mais implacável de metas por parte da direção da empresa e o
medo de que seus subordinados não sejam capazes de atingir seus objetivos.

É o que diz Soares (2001), sobre o que realmente justificaria a atitude covarde de
humilhação do chefe contra seu subordinado. Diz Maquiavel, em sua obra “O Príncipe” que:

[...] se é melhor ser amado que temido ou o inverso. Dizem que o ideal seria viver-se
em ambas as condições, mas, visto que é difícil acordá-las ente si, muito mais seguro
é fazer-se temido que amado. [...] dos homens, em realidade, pode se dizer que eles
são ingratos, volúveis, fementidos e dissimulados, figidios quando há perigo e
cobiçosos. Enquanto ages em seu benefício, e contanto que a tua necessidade esteja
ao longe (como eu acima o dizia), todos estão ao teu lado e oferecem-te o sangue, os
seus bens, as suas vidas e os seus filhos, ao avizinhar-se porém, essa necessidade,
eles esquecem-se [...] o príncipe, de todo o modo, deverá fazer-se temido.

Os chefes alegam que a boa e compreensiva chefia é vista como “frouxa e


incompetente”. Por isso têm que manter uma postura rígida e autoritária perante seus
subordinados. Se não o forem, outros virão e passarão por cima, como tratores, sem piedade e
compreensão alguma.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pressão psicológica dentro do ambiente de trabalho pode causar danos graves à


saúde dos trabalhadores, tanto quanto condições insalubres e inseguras – principalmente se
partir de alguém mais forte, poderoso e influente: o chefe.

O lado mais cruel desse tipo de sofrimento é que ele atinge o que se transformou no
centro da vida do homem moderno. Mais do que fonte de sobrevivência, o trabalho
constitui hoje a principal identidade do cidadão depois do nome, é a profissão ou
emprego que define o lugar do indivíduo no mundo. Por isso é tão dolorosa a
experiência de ver seu trabalho ignorado ou desqualificado – além, evidentemente,
do medo de ficar desempregado que a desaprovação do chefe provoca. (SOARES,
2001)

Enfim, ser autoritário, rigoroso , severo é natural a cada chefe – buscando atingir os
objetivos propostos pela organização, mas, humilhação é simplesmente abusar do poder e, não
deve, de forma alguma, ser tolerada.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGUIAR, André Luiz Souza. Assédio moral nas organizações: estudo de caso dos empregados
demitidos e em litígio judicial trabalhista no Estado da Bahia. Disponível em
<www.pol.org.br/biblioteca/pdf/2002_04_art10.pdf >. Acesso em 27/07/2004.

CHIAVENATO, Idalberto. Higiene, segurança e qualidade de vida. In: Gestão de Pessoas – o


novo papel dos Recursos Humanos nas Organizações. Ed. Campus, 1999.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Minidicionário Aurélio. Ed. Nova Fronteira, 2ª


edição, Rio de Janeiro, 1998.

MACHIAVELLI, Nicoló di Bernardo dei. O Príncipe/Maquiavel. Tradução de Antonio


Caruccio-Carpole, Ed. L&PM, 1998.

O QUE É ASSÉDIO MORAL. Disponível em <www.assediomoral.org >. Acesso em 27/07/2004.

SOARES, LUCILA. “Cale a Boca Incompetente”. Revista Veja, São Paulo, Editora Abril, ano
34, n.º 43, out.2001.p.102.

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