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PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICA

Unidade II
A CONDIÇÃO HUMANA DESCRITA PELA FENOMENOLOGIA EXISTENCIAL

Temporalidade do Dasein.

Angústia e finitude do Dasein

Temporalidade do Dasein.

Bibliografia básica: SAPIENZA, B. T. Encontro com a Daseinsanalyse: a obra Ser e Tempo, de Heidegger,
como fundamento da terapia daseinsanalítica. São Paulo: Escuta, 2015. p. 48-95.

O conceito de temporalidade é um conceito-chave na fenomenologia existencial. Heidegger


escolhe-o para diferencia-lo do conceito de tempo, que na tradição filosófica e no nosso uso comum já
ficou associado ao tempo cronológico, o tempo do relógio. O tempo cronológico é uma sequência linear
e infinita de agoras, que se inicia no passado e caminha em direção ao futuro. O modo de ser temporal
do Dasein é outro.

Heidegger se depara com essa questão quando se pergunta pela possibilidade de ser todo do Dasein.
Ser todo significa: como o Dasein se completa? Dasein se completa quando realizou todas as suas
possibilidades. Neste caso, o Dasein só seria todo quando deixa de ser, porém, deixando de ser, não
realiza essa possibilidade. O Dasein que somos pode, por outro lado, experimentar-se como ser finito. É o
que Heidegger chama de “decisão antecipadora” da morte. Devemos tomar cuidado com esta ideia, pois
não significa que o Dasein imagina a sua morte, menos ainda que a procure. Significa que o Dasein se
assume como um ser finito, isto é, que não pode tudo e que “tem” um tempo limitado para ser. Ao fazer
isso, abre-se para sua facticidade, isto é, para o ente intramundano junto ao qual já se encontra. Numa
interpretação mais livre, podemos dizer que o Dasein reconhece a singularidade e finitude da situação
na qual se encontra.

O Dasein existe, então, sendo em relação com o que ele ainda não é, mas pode ser. Um sapateiro,
por exemplo, encontra seus instrumentos como instrumentos para o conserto do sapato, que ainda
não está consertado, mas “pode” estar. Do mesmo modo, o ser-no-mundo se compreende a partir de
possibilidades (futuras) próprias. Antecipa-se a si mesmo. Ao antecipar-se (futuro), “presentifica” seu
mundo, no qual já estava. Um sapateiro, antecipando o consertar e antecipando-se como sapateiro,
encontra-se com seu mundo naquela situação. Porvir (o termo que Heidegger usa para se referir ao
futuro, protegendo-o das significações já cristalizadas), ser-sido (o termo que Heidegger usa para se
referir ao passado, pelo mesmo motivo) e “presentificação” acontecem juntos; não há separação entre
passado, presente e futuro.

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Unidade II

Por isso, a analítica do Dasein distinguirá dois modos de temporalização do Dasein: o próprio e o
impróprio. Resumidamente, na temporalização imprópria o ser-no-mundo “vem a si”, compreende-se,
a partir do que lhe acontecerá. Dessa forma, esquiva-se do peso do ter-que-ser, que a antecipação da
morte desvela, esperando algo. Na temporalização própria, Dasein vem a si mesmo como ser finito,
lançado e responsável por ser.

Atividades recomendadas:

1) Faça uma leitura criteriosa dos textos indicados, atentando para a questão da temporalidade
do Dasein.

2) Responda: a questão da temporalidade do Dasein é importante para a Psicologia? Justifique


sua resposta.

3) Acompanhe o seguinte exemplo de exercício:

Leia atentamente o trecho extraído do livro DUBOIS, C. Heidegger: introdução a uma Leitura. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 2004 e o poema XIX de Mario Quintana, publicado no livro A Rua dos Cataventos
(1940), e considere as afirmações a seguir.

Na relação com a possibilidade da morte, que não me oferece nada de particular para esperar, essa
possibilidade se dá como a possibilidade mais própria. (...) Como ser-lançado, o Dasein é, portanto,
enquanto ser-no-mundo, lançado no ser-para-a-morte: ele o experimenta na angústia, da qual, cotidia-
namente, decadente, foge. Como? Tranquilizando-se. Morre-se, certamente, mas por enquanto, tudo
bem, ainda dá tempo. (...) Ao contrário, o ser-para-a-morte suportado está certo da morte. (...) certeza
de si quer dizer: certeza de si como mortal. (...) Sum quer dizer sum moribundus (DUBOIS, 2004, p. 50).

Minha morte nasceu quando eu nasci


Despertou, balbuciou, cresceu comigo...
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi.

Já não tem mais aquele jeito antigo


De rir e que, ai de mim, também perdi!
Mas inda agora a estou sentindo aqui,
Grave e boa, a escutar o que lhe digo:

Tu és a minha doce Prometida,


Nem sei quando serão nossas bodas,
Se hoje mesmo... ou no fim de longa vida...
E as horas lá se vão, loucas ou tristes...

Mas é tão bom, em meio às horas todas,


Pensar em ti... saber que tu existes!
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I – Ambos os textos se referem à antecipação da morte. Heidegger utiliza o conceito ser-para-a-


morte, enquanto Quintana refere-se a ela como “a Prometida”.

II – Com o conceito de ser-para-a-morte, Heidegger se refere à condição mortal do homem.

III – A finitude do Dasein é o que desvela para si que é substituível na sua existência.

IV – No poema de Mario Quintana, a morte é apresentada como “a Prometida”, o que, do ponto de


vista da fenomenologia existencial, revela uma tendência suicida latente de seu Dasein.

Estão corretas:

A) I e II, apenas.

B) II e III, apenas.

C) III e IV, apenas.

D) I, II e IV, apenas.

E) I, II e III, apenas.

Se você leu atentamente a bibliografia indicada, pôde reconhecer que a afirmação I está correta,
pois, de acordo com a citação de Dubois, a antecipação da morte revela o ser-para-a-morte constitutivo
da existência. No poema de Mario Quintana essa ideia é expressa, em linguagem poética, como “a
Prometida”, uma possibilidade que o acompanha desde sua infância e que um dia acontecerá. Para
Heidegger, desde que lançado na existência, o Dasein é ser-para-a-morte. Assim, a afirmação II também
está correta.

Em Ser e Tempo, a possibilidade da morte aparece como a única na qual ninguém pode ser substituído
por outrem. A antecipação da morte singulariza o Dasein, portanto, revelando que sua existência está
sob seu encargo exclusivamente. A afirmação III vai de encontro com essa ideia, pois sugere que o ser-
para-a-morte revela que cada um é substituível na sua existência.

Equivocada também está a afirmação IV. A fenomenologia existencial trabalha com fenômenos,
buscando encontrar neles seu sentido. A ideia de tendências latentes é uma hipótese teórica, que não
condiz com o fenômeno. O fenomenólogo não tem base fenomenológica para tal inferência. Pelo
contrário, pois no poema Mario Quintana transmite um júbilo por reconhecer sua finitude, que torna os
momentos de sua vida únicos e “irrepetíveis”.

ANGÚSTIA E FINITUDE DO DASEIN

Bibliografia básica: SAPIENZA, B. T. Encontro com a Daseinsanalyse: A obra Ser e Tempo, de Heidegger,
como fundamento da terapia daseinsanalítica. São Paulo: Escuta, 2015. p. 48-95.
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As considerações de Heidegger acerca da temporalidade se desdobram na finitude do Dasein. Como


vimos, a finitude não coincide com a morte. “Antecipação da morte” não significa imaginar-se morrendo.
Representa o contrário. Significa assumir-se como um ser único, insubstituível, destinado a ser. Existir
é tarefa. Essa ideia de Heidegger se faz presente no existencialismo de Sartre através da ideia de que o
homem é condenado a ser livre.

O conceito de temporalidade, como já vimos, expressa o modo mais originário da existência de lidar
com tempo; mais precisamente, de lidar com o próprio tempo. Embora Dasein lide cotidianamente com
o tempo como uma sequência infinita de agoras (tempo cronológico), seu tempo mais original é aquele
que reconhece sua finitude. Lançada na facticidade, a existência é um intervalo entre dois nadas.

O nada se manifesta na angústia. É a dissolução do mundo, que revela ao Dasein seu ser como
cuidado. Como cuidado, existir é tarefa que só se completa quando o Dasein realiza sua derradeira
possibilidade. Heidegger lembra que a possibilidade da impossibilidade não pode ser confundida com
a morte biológica. Numa passagem de Ser e Tempo, comenta que a morte biológica pode interromper
possibilidades, assim como tardar a chegar.

A temporalidade do Dasein traz muitas implicações para a compreensão dos fenômenos que
interessam ao psicólogo. A primeira e mais radical é de que a existência humana não pode ser
compreendida como um desenvolvimento linear do passado em direção ao futuro. Isto abre um forte
debate com as psicologias explicativas. O pensamento natural-científico faz coincidir o sentido do
fenômeno com sua causação temporalmente anterior. Ao observar um fenômeno psicológico, não
se interessa por o que ele revela (seu sentido), mas imediatamente pergunta por que se dá dessa
maneira, buscando sua resposta na sequencia temporal.

Se for preciso indicar uma ênfase na temporalidade para a fenomenologia existencial, será o futuro,
que Heidegger chama de porvir exatamente para diferenciar das significações já cristalizadas de futuro.

O porvir é uma possibilidade de ser si mesmo que o Dasein assume como sua. A partir dessa
possibilidade advém a si a sua história e os entes pertinentes. Em outras palavras, eu sou o que posso
ser. É por isso que as psicologias humanistas, que se inspiram na fenomenologia existencial (não
confundamos Psicologia Humanista com Daseinsanalyse!), enfatizam os projetos do ser humano, ao
invés de buscar explicações em seu passado.

O conceito de temporalidade traz grandes repercussões na psicopatologia. Os primeiros


psicopatologistas fenomenológicos (JASPERS, MINKOWSKI) elaboraram descrições das vivências
psicopatológicas tendo em vista a temporalidade. Por exemplo, a depressão é um encurtamento no
porvir, de modo que para o deprimido vem a ser apenas a perpetuação da dor e da tristeza.

Talvez a mais importante implicação seja a nova ênfase dada aos conceitos de angústia e morte na
prática clínica. A Daseinsanalyse coloca esses conceitos como centro de sua preocupação, reconhecendo
nos fenômenos “psicológicos” modos de lidar com a própria finitude, antecipada, e com a angústia,
enquanto perda de mundo e de si mesmo.

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Atividades recomendadas:

1) Faça uma leitura criteriosa do texto indicado, atentando para a questão da finitude do Dasein.

2) A partir das leituras, como você articula finitude e singularização?

3) A angústia é frequentemente entendida como um sentimento. Confronte a noção vulgar de


angústia com a noção heideggeriana.

4) Responda: a questão da finitude do Dasein é importante para a Psicologia? Por quê?

5) Acompanhe o seguinte exemplo de exercício:

Leia o trecho de Kierkegaard, que inspira a compreensão fenomenológico-existencial sobre a angústia


desenvolvida por Heidegger (1927, p. 164) em Ser e Tempo, e responda.

A angústia é a possibilidade da liberdade, só esta angústia é, pela fé, absolutamente formadora, na


medida em que consome todas as coisas finitas, descobre todas as ilusões. E nenhum Grande Inquisidor
dispõe de tão horripilantes tormentos como a angústia, e nenhum espião sabe investir sobre o suspeito
com tanta astúcia, justo no momento em que está mais debilitado, ou sabe preparar armadilhas, em que
este ficará preso, tão insidiosamente como a angústia, e nenhum juiz sagaz consegue examinar, sim,
“ex-animar” [desalentar] o acusado como a angústia, que não o deixa escapar jamais, nem nas diversões,
nem no barulho, nem no trabalho, nem de dia nem de noite.

[Referência bibliográfica: KIERKEGAARD, S. O conceito de angústia. Petrópolis, RJ: Vozes, 1944/2011.]

Sobre a angústia na fenomenologia existencial, é correto afirmar:

I – Assim como na citação, Heidegger afirma que não há como escapar da angústia, nem mesmo “nas
diversões, nem no barulho, nem no trabalho, nem de dia nem de noite”, pois a angústia é constitutiva
do Dasein (ontológica).

II – A angústia rompe com a familiaridade do mundo, produzindo estranhamento. A fenomenologia


existencial busca reconduzir quem vivencia essa estranheza a alguma familiaridade.

III – Para a fenomenologia existencial, a psicoterapia auxilia na profilaxia da angústia, evitando que
ela irrompa.

É correto apenas o que se destaca na(s) afirmativa(s(:

A) I. (CORRETA)

B) II.

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C) III.

D) I e II.

E) II e III.

FENOMENOLOGIA EXISTENCIAL DA HISTÓRIA PESSOAL

A concepção de história pessoal (historiobiografia) de Dulce Critelli

Historiobiografia e sentido da vida

A concepção de história pessoal (historiobiografia) de Dulce Critelli

Bibliografia básica: CRITELLI, D. História pessoal e sentido da vida – historiobiografia. São Paulo:
Educ, 2012.

A filósofa Dulce Critelli fundamenta suas reflexões nas filosofias de Martin Heidegger e Hannah Arendt,
que, por sua vez, fornecem importantes compreensões para a psicologia fenomenológica existencial.
Para a autora, ambos os pensadores são complementares, mas há uma diferença notável entre eles no
que tange ao sentido da filosofia. Enquanto para Heidegger a filosofia exige descomprometimento com
a vida cotidiana, para a ex-aluna de Heidegger radicada nos EUA, a filosofia é a capacidade de avaliar a
vida e de modificá-la. Para Arendt, a filosofia mantém uma relação íntima com a ação. Segundo Critelli
(2012, p. 17), “Quando pensamos, transformamos nossas crenças e, consequentemente, transformamos
nosso jeito de viver”.

Por ação, Arendt se refere à condição humana. Existir é ser iniciador. Fiel ao princípio fenomenológico
existencial de suspensão radical de quaisquer a priori que substancializam a existência, Arendt concebe
o ser-no-mundo-com-os-outros como ação e palavras. A ação inicia algo novo no mundo. Seu sentido
vai se desvelando nas repercussões, consequências e desdobramentos. Por isso, o sentido de todo gesto
humano depende dos outros. Nas palavras de Critelli (2013, p. 36), nossos atos e palavras não são
autossignificantes. Se eles ganham impulso nas nossas intenções, raramente as realizam. De um lado,
porque na medida em que se destinam aos outros (por condição humana, iniciadores como nós), eles
podem interferir neles e modificar seu sentido. De outro lado, porque o sentido e o significado de nossos
atos e palavras sé se completam pelos efeitos e consequências que provocam.

Assim, a existência, que é concomitantemente singular (eu sou) e plural (no mundo com os outros),
pode perder a autoria de sua história. Como atora dos próprios gestos, seus significados podem ser
transformados pelos outros. A fala é a capacidade de explicitar o sentido intencionado, preservando a
autoria da ação.

Essas reflexões são muito importantes para a psicologia fenomenológica existencial, pois esta
suspende as noções de psiquismo, sujeito e indivíduo, reconhecendo o outro como existência singular e
plural, no mundo com os outros, constitutivamente estando em jogo a autoria de sua biografia.
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Atividades recomendadas:

1. Leia os textos indicados, prestando atenção para a história da fenomenologia e da fenomenologia


existencial nos contextos clínicos.

2. A historiobiografia é uma “abordagem terapêutico-pedagógica” (CRITELLI, 2012, p. 12) Por quê?


Responda recorrendo ao livro. Há relações possíveis entre a prática psicológica e tal abordagem? Se sim,
quais? Indique-as.

3. Logo no começo do livro, Critelli (2012, p. 11) indica três questões fundamentais: “Quem sou eu?”,
“Qual é o sentido da vida?”, “Que sentido eu faço nela?” Reflita sobre como a Psicologia tem lidado com
essas questões.

4. Acompanhe o exercício a seguir:

Leia as duas frases de Critelli (2012, p. 26) e, considerando a relação entre elas, indique a alternativa
correta:

“Os homens experimentam uma necessidade ontológica de compartilhar seus conhecimentos, suas
descobertas, seus sentimentos e pensamentos”

POIS,

“para os homens, tudo o que chamamos de real é aberto e sustentado pelo viver em conjunto.”

Assinale a alternativa correta.

A) As duas asserções são verdadeiras e a segunda é uma justificativa correta da primeira.

B) As duas asserções são verdadeiras e a segunda não é uma justificativa correta da primeira.

C) A primeira asserção é uma proposição verdadeira e a segunda, uma proposição falsa.

D) A primeira asserção é uma proposição falsa e a segunda, uma proposição verdadeira.

E) Tanto a primeira como a segunda são proposições falsas.

Se você acompanhou o excerto anterior e leu o texto indicado pôde compreender que a existência
humana é coexistência, isto é, acontece com-os-outros-no-mundo. Então, terá assinalado a alternativa
A como correta. Para Arendt, o existir é político. Sendo assim, ser-aí e mundo são dois polos do mesmo
fenômeno, que é o existir com outros. Portanto, ambas as afirmações estão corretas e a segunda é uma
justificativa correta da primeira.

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HISTORIOBIOGRAFIA E SENTIDO DA VIDA

Bibliografia básica: CRITELLI, D. História pessoal e sentido da vida – historiobiografia. São Paulo:
Educ, 2012.

A filósofa Dulce Critelli (2012, p. 12) nomeia historiobiografia como a “abordagem terapêutico-
pedagógica que tem por intenção a redescoberta do sentido da vida através da compreensão da história
pessoal”. Esse termo é composto de história e biografia, apontando para dois aspectos fundamentais do
existir humano.

História significa tanto o “conjunto de conhecimentos relativos ao passado da humanidade”


(HOUAISS, 2013), quanto uma narrativa. Esses dois sentidos se articulam na existência humana. Somos
seres históricos, isto é, lançados em contextos significativos históricos compartilhados já dados, e
biográficos, isto é, que constituímos em nossa história pessoal ao longo do existir. Por isso, quem é
alguém só pode ser dito quando já foi; a todo momento nossas ações podem inaugurar novos sentidos,
que reverberam no já vivido.

A todo o momento é possível uma reflexão sobre a história que está em andamento. Isso é necessário,
pois existir é estar em risco de perder o próprio ser (a autoria da própria vida) nas interpretações do senso
comum. Também é fundamental para cuidar das possibilidades porvindouras, realizando a possibilidade
humana de lançar-se em direção ao que ainda não é, mas pode ser (POMPEIA, 2012), cuidando para que
a vida seja melhor.

Critelli (2012) indica três “guias de viver”: 1) Relatos, 2) Historietas e 3) Histórias. Diferenciam-se
pela abrangência temporal e pela complexidade de cada um. A identidade pessoal se costura pelos fios
dessas formas de narrativa.

Referências bibliográficas:

CRITELLI, D. História pessoal e sentido da vida – historiobiografia. São Paulo: Educ, 2012.

POMPÉIA, J. A.; SAPIENZA, B. T. Os dois nascimentos do homem: escritos sobre terapia e educação na
era da técnica. Rio de Janeiro: Via Vérita, 2011.

Atividades recomendadas:

1. Leia os textos indicados, prestando atenção para a história da fenomenologia e da fenomenologia


existencial nos contextos clínicos.

2. Critelli (2012) indica três “guias de viver” no livro História Pessoal e Sentido da Vida – Historiobiografia.
Pesquise o que significa cada um desses termos.

3. Referindo-se à sua biografia, recolha um relato, uma historieta e uma história pessoais.

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4. Acompanhe o exercício a seguir:

Uma psicóloga fenomenológica atendia em seu consultório uma menina. A menina enrolou uma
massinha até formar uma cobra. No momento seguinte, pega um instrumento e começa a cortar a
cobra em vários pedaços. Sua primeira reação foi de interpretar à luz das concepções psicanalíticas. Mas,
antes disso, perguntou à menina, que lhe respondeu: “a cobra estava se sentindo sozinha, então estou
lhe dando amigos.” (situação adaptada de FORGHIERI, 2000). Considerando a compreensão da condição
humana desenvolvida por Critelli (2012) e a historiobriografia, está correto afirmar:

[Referência bibliográfica: FORGHIERI, Y. C. Psicologia fenomenológica: fundamentos, método e


pesquisa. São Paulo: Pioneira Thomson, 2000.]

A DASEINSANALYSE DE LUDWIG BINSWANGER

Apresentação dos dados biográficos de L. Binswanger

Noções básicas da Daseinsanalyse de L. Binswanger

Bibliografia básica: DASTUR, F.; CABESTAN, P. (2015) “A obra fundadora de Ludwig Binswanger (1881-
1966)”. cap. II.A. p. 64-101.

Apresentação dos dados biográficos de L. Binswanger

Ludwig Binswanger (1881-1966) é da terceira geração de psiquiatras em sua família responsáveis


pelo sanatório de Bellevue. Após formar-se em medicina, faz residência psiquiátrica na clínica de
Burghözli, chefiada por Eugen Bleuler (que cunha a esquizofrenia), sob supervisão de Carl Jung.

A psiquiatria dessa época era ou organicista, ou psicanalítica (Freud). Em Burghözli, a psicanálise


florescia, sendo Bleuler um importante disseminador das ideias de Freud e Jung, então, importante
entusiasta. Durante a residência, Binswanger aprofunda seus estudos na psicanálise, o que o leva a
iniciar correspondência com Freud, algo que perdura até o falecimento deste. Mas o interesse pela
psicanálise e a proximidade com seu fundador não impedem que Binswanger, desde cedo, questione
o naturalismo da psicanálise. Encontra fundamentação para sua crítica primeiro na fenomenologia
de Husserl e sua concepção de consciência intencional e, em seguida, na descrição da existência
empreendida por Heidegger em Ser e Tempo. Daí a ser o primeiro a desenvolver uma Daseinsanalyse
voltada para o sofrimento existencial (não “psíquico”) manifesto na psicopatologia.

Da analítica existencial, Binswanger recolhe a noção de ser-no-mundo, a fim de buscar uma


compreensão dos modos de ser psicopatológico como modificação nessa estrutura. Ou seja, na
experiência psicopatológica, mundo estrutura-se diferentemente que na experiência saudável.

O início da influência de Heidegger em sua obra se faz notar a partir de 1930, quando publica o
artigo “O Sonho e a Existência”. Esse artigo, cuja tradução para o francês foi prefaciada por Michel
Foucault, encontra-se traduzido para o português1. Nele, Binswanger discute a experiência onírica, tema
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tão caro à psicanálise, contrapondo à hipótese freudiana genética e simbólica a ideia de que o sonhar
é um modo de existir. Cabe ao investigador fenomenólogo compreender a experiência manifesta no
sonho e, principalmente, o “espaço afinado” que nele se apresenta. Isto é, o sonho revela o mundo
espacial e temporal peculiar ao sonhador. Como afirmam Dastur e Cabestan (2015, p. 72): “É o tema que
o Dasein se dá no sonho que é importante, não o que ele simboliza, e é, então, o conteúdo desse drama,
dessa ação que é o sonho, que constitui seu elemento decisivo.” O sonho não é produzido por uma
subjetividade, como propunha Freud, mas um acontecimento, uma visitação; “vem a mim um sonho”.

Do filósofo pré-socrático Heráclito é que Binswanger retoma a oposição entre mundo privado
(idion) e mundo comum (koinon). Em vigília, a existência compartilha com os demais um mesmo mundo
(koinon), ao passo que dormindo está solitário (idios). Essa oposição se articula à compreensão de
Binswanger da experiência psicopatológica como envolvimento com o mundo próprio em detrimento
da experiência compartilhada.

Ao contato cotidiano com o sofrimento psicopatológico, Binswanger acrescenta uma preocupação


epistemológica e metodológica com a psiquiatria, que deveria, na sua concepção, fundamentar-se numa
visão clara e correta sobre a existência, que o discurso científico não é capaz de fornecer.

Nota de rodapé

1. BINSWANGER, L. O sonho e a existência. Nat. hum., São Paulo , v. 4, n. 2, p. 417-449, dez. 2002.
Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-243020020002000
07&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 9 ago. 2018.

Atividades recomendadas:

1) Faça uma leitura criteriosa do texto indicado, atentando para a questão do sonhar na Daseinsanalyse
de Binswanger.

2) Lembre de um sonho seu, transcreva-o e analise-o de acordo com a proposta de Binswanger.


Ou seja, preste atenção ao que se manifesta, à tonalidade afetiva do mundo manifesto e à ação
desempenhada no sonho.

3) Acompanhe o seguinte exemplo de exercício:

Dastur e Cabestan (2015, p. 64) explicam que:

Ludwig Binswanger foi o primeiro entre os psiquiatras a se interessar pela fenomenologia. É na crítica
ao psicologismo à qual se dedica Husserl no primeiro tomo de suas Investigações Lógicas, publicadas em
1900, e em sua definição da consciência em termos de intencionalidade e de sentido, que ele encontrou
pela primeira vez os motivos de se opor ao naturalismo e ao biologismo de Freud.

Sobre esse contexto de surgimento da Daseinsanalyse de Binswanger, é correto afirmar:

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I – De Husserl, Binswanger recolhe a noção de que consciência e objeto são um todo indivisível, ou
seja, a existência e seu mundo formam uma totalidade indissociável.

II – Binswanger critica a falta de fundamentação epistemológica da psiquiatria de sua época, que se


apoiava na biologia e/ou na psicanálise.

III – Binswanger visa complementar a psicanálise freudiana com aquilo que ela carece: a descrição
da corporeidade da existência.

É correto apenas o que se destaca na(s) afirmativa(s):

A) I.

B) II.

C) III.

D) I e II.

E) II e III.

Se você leu atentamente o texto indicado e a apresentação neste módulo, pôde identificar que
a afirmativa I apresenta corretamente a influência da fenomenologia de Husserl de Binswanger.
Husserl apresenta a consciência como intencional, isto é, os atos de consciência são sempre referidos
e complementados pelo objeto intencional que os completa e realiza. As bases epistemológicas da
psiquiatria da época cindem sujeito e objeto, de modo a procurar a causa da experiência psicopatológica
na natureza (biologismo) ou no psiquismo (psicologismo). É disso que trata a afirmativa II, que está,
portanto, correta. A afirmação III está incorreta, pois a Daseinsanalyse de Binswanger não assume
como objetivo a complementação da psicanálise freudiana. Seu objetivo é, outrossim, fornecer bases
epistemológicas sólidas para a psiquiatria, que ele encontra nas fenomenologias de Husserl e Heidegger.

NOÇÕES BÁSICAS DA DASEINSANALYSE DE L. BINSWANGER

A primeira fase daseinsanalítica da psiquiatria de Binswanger apoia-se na analítica existencial de Ser


e Tempo, de Heidegger, conforme discutimos. O primeiro marco desse trabalho é o artigo “O Sonho e a
Existência”, que discute os fenômenos de ascensão e queda como modos de a existência especializar-se.

Em 1942 o psiquiatra publica sua principal obra, Formas Fundamentais e Conhecimento do Dasein,
na qual enuncia sua “visão de homem”. Recorre à analítica existencial de Heidegger, mas substitui o
cuidado como essência do Dasein pela relação dual Eu-Tu (descrita por Martin Buber)1. Elabora, assim,
uma fenomenologia do amor, que, a seu ver, é o fundamento do ser si-mesmo do Dasein. Explicam
Dastur e Cabestan (2015, p. 80):

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Encontram-se repetidas vezes alusões a essa diferença fundamental de ponto de vista, sendo o
ponto de partida da análise existencial de Heidegger a Jemeingkeit, a qualidade do que é sempre a cada
vez meu, ao passo que o da antropologia biswangueriana é a Ursrigkeit, a nostridade.

Em razão dessa diferença, o pensamento de Binswanger distancia-se de Heidegger e retorna à


fenomenologia de Husserl, mais precisamente à questão da consciência interna do tempo.

A análise fenomenológica da consciência do tempo empreendida por Husserl mostra que tempo não é
algo objetivo, cronológico, externo à consciência. A consciência do tempo diz respeito à articulação a cada
momento do que já foi objeto da consciência (e permanece como retido – “retenção”) e o que é antecipado
(“protenção”). Dito em termos menos precisos, passado e futuro estão presentes a cada momento.
Binswanger retoma essa análise husserliana para considerar modificações estruturais na consciência de
tempo na psicopatologia. Por exemplo, no melancólico o futuro é vivenciado como já vivido; “a proteção
está infiltrada de momentos retentivos” (DASTUR; CABESTAN, 2015, p. 92). No maníaco, retenções e
protenções cedem lugar ao instante atual, de modo a vivenciar somente o presente, a momentaneidade.
No esquizofrênico, a estrutura temporal esfalece-se, aniquilando a experiência vivida.

Binswanger é fenomenológico na concepção de realidade que subjaz às análises da psicopatologia.


Para ele, “o mundo real reside apenas na pressuposição constantemente prescrita de que a experiência
continuará constantemente a se desenrolar segundo o mesmo estilo constitutivo” (BINSWANGER, 1993
apud DASTUR; CABESTAN, 2015, p. 90). Ou seja, mundo é uma trama de sentido que tende a permanecer
a mesma. Mas, na experiência psicopatológica, esse apoio se perde.

Nota de rodapé

1. Sobre o cuidado, ver o Módulo 3 e sua respectiva bibliografia: SAPIENZA, B. T. Encontro com a
Daseinsanalyse: a obra Ser e Tempo, de Heidegger, como fundamento da terapia daseinsanalítica. São
Paulo: Escuta, 2015. p. 48-95.

Atividades recomendadas:

1) Faça uma leitura criteriosa do texto indicado, atentando para a questão do sonhar na Daseinsanalyse
de Binswanger.

2) Procure em revistas científicas artigos que recorram à psicopatologia de Binswanger.

3) Acompanhe o seguinte exemplo de exercício:

João é estagiário num hospital psiquiátrico e participa do acolhimento de uma paciente que acaba
de ser internada, Ana. Ela está muito abatida e visivelmente muito triste. João pergunta a respeito dela,
que lhe responde que a tristeza que está sentindo nunca cessará. “Eu tinha que ter feito as pazes com
minha mãe antes de ela morrer”, diz, “agora ela nunca vai me perdoar. Nem eu vou me perdoar.” Ao
longo da anamnese que segue, João descobre que a mãe de Ana morreu há oito anos.

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