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III CURSO DE DIREITO DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL E DA


PROVA

INÊS FERREIRA LEITE

A COLABORAÇÃO DO COARGUIDO NA FASE DE


INVESTIGAÇÃO
30 de Junho de 2012

ÍNDICE

1. Introdução: o valor probatório das declarações do coarguido

2. Análise da jurisprudência dos EUA

3. Apresentação do Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 15 de Abril de


2010

4. Análise da argumentação apresentada pelo arguido

5. Análise da argumentação seguida pelo Supremo Tribunal

6. Conclusões

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SUMÁRIO

1. Introdução: o valor probatório das declarações do coarguido

“I - Tanto o STJ, como o TC, têm julgado válida a prova decorrente das declarações do co-
arguido, observadas as três condicionantes: respeito pelo direito do arguido ao silêncio;
sujeição das declarações ao contraditório e corroboração das declarações por outros
meios de prova. (…)
IV -A corroboração das declarações do arguido visa “tornar provável que a história do
co-arguido é verdadeira e que é razoavelmente seguro decidir com base nas suas
declarações” (parecer do Prof. Figueiredo Dias), não se destinando a prova adicional a
obter uma segura confirmação da actividade delituosa do(s) co-arguido(s) ou à sua
identificação.”
Supremo Tribunal de Justiça, 07-05-2009 (sumário).

2. Análise da jurisprudência dos EUA

“The use of a secret informer is not per se unconstitutional, and the use of Partin in this
case did not violate due process requirements, his veracity having been fully subject to the
safeguards of cross-examination and the trial court's instructions to the jury”
Hoffa v. United States, U.S., 385, 1966, p. 293

“We cannot sanction a contingent fee agreement to produce evidence against particular
named defendants as to crimes not yet committed. Such an arrangement might tend to a
"frame up," or to cause an informer to induce or persuade innocent persons to commit
crimes which they had no previous intent or purpose to commit. The opportunities for
abuse are too obvious to require elaboration.”
Williamson v. United States, F.2d, 311, 1962, p. 445.

“The agreements should be read to the jury and made available during its deliberations;
defense counsel may cross-examine the accomplices at length about the agreements; and
the jury should be given the standard cautionary instruction concerning the testimony of
accomplices and a special cautionary instruction concerning the nature of each
accomplice's contingent agreement and the risk that it creates, particularly in instances
where the accomplice's testimony cannot be corroborated. (…) Also, we note that at
present we can think of no instance in which the government would be justified in
making a promised benefit contingent upon the return of an indictment or a guilty
verdict”
United States v. Dailey, F.2d, 759, 1985, p. 200.

“We agree with Waterman that the government cannot consistent with due process offer
favorable treatment to a prosecution witness contingent upon the success of the
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prosecution. Such an agreement is nothing more than an invitation to perjury having no


place in our constitutional system of justice. (…)Although the agreement in this case was
contingent upon the government bringing charges against others, rather than upon
successful convictions, we believe that the circumstances surrounding the agreement cast a
shadow over both Gamst's pretrial cooperation with the government and his testimony at
Waterman's trial. (…)This case involves not the undisclosed possibility of bias, but the
disclosed encouragement and reward of bias. In sum, we are convinced that due process
cannot be interpreted to allow the government to reward its witnesses based upon the
results of their testimony. There simply is no reason to offer a witness favorable treatment
for anything other than truthful cooperation in the government's quest for justice.”
United States v. Waterman, F.2d, 732, 1984, pp. 1531 e ss..

“In the present circumstance, the petitioner had a bargain with the state to testify against
the co-defendant Suggs who had subpoenaed him for the deposition. The possibility of the
imposition of sanctions against the petitioner through the Florida Rules of Criminal
Procedure was clear, but the possibility of other sanctions, specifically the revocation of
the plea agreement, was also looming in the foreground. (…)The district court found that
the petitioner himself believed that he was compelled to testify in order to keep the plea
bargain. Being so advised, he gave testimony of the kind contemplated by the plea bargain.
At no time was he advised, as in Hutto, that he need not testify in order to retain the
benefits of the plea bargain should the court refuse to nullify it, or that the State would
not use his refusal to testify as additional ground for the motion to set aside the plea
bargain. (…) Therefore, its determination that both the statement and the deposition were
involuntary, and th\us inadmissible at the State trial, must be affirmed.”
Gunsby v. Wainwright, F.2d, 596, 1979, p. 656.

3. Apresentação do Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 15 de Abril de


2010

3.1. Resumo dos factos que serviram de base à imputação criminal

De acordo com o resumo feito pelo Supremo Tribunal, as provas recolhidas pelo M.P.
contra o arguido CC indiciavam a prática de um crime de corrupção passiva, nos termos do
art. 374.º, n.º 2 do CP. Descobriu-se que, a solicitação do arguido AA, então presidente da
Câmara de ... e presidente do júri para aprovação de propostas relativas a concurso público
de empreitada, o arguido CC teria prometido entregar àquele uma quantia não superior a
50.000.000$00 para que o arguido AA não pusesse entraves ao júri ou, caso necessário, o
determinasse no sentido de atribuir vencimento, no concurso público, à firma de que era
administrador, o que, aliás, veio a conseguir. Já na pendência dos trabalhos, o arguido CC
veio a efectuar o pagamento de 25.000.000$00, em três fases, na expectativa, criada pelo
arguido AA, de poder receber o pagamento devido à sua empresa “OO, S.A.”, pelos autos
de medição efectuados no âmbito do contrato de empreitada.

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3.2. Resumo do percurso processual do Arguido CC

O arguido CC., em determinado momento do processo ainda em fase de inquérito, decidiu


colaborar com a justiça e prestou declarações auto incriminatórias (quantos aos factos
relativos à corrupção) e incriminatórias no que respeita ao arguido AA. Na fase final do
inquérito, sucederam os seguintes factos processuais, tais como indicados no Acórdão do
Supremo Tribunal de Justiça:
a) CC foi constituído arguido na fase de inquérito preliminar dos presentes autos,
tendo sido interrogado nessa qualidade, por indiciado como corruptor activo num
dos crimes de corrupção passiva que vieram a ser imputados ao ora recorrente na
acusação;
b) Ainda na mesma fase de inquérito preliminar, o MºPº, em decisão fundamentada
[nos termos dos artigos 9º da Lei 36/94 de 29.09 - Medidas de Combate à
Corrupção e Criminalidade Económica e Financeira], 281º, n.º2 e 282º, n.º1 do
CPP, com a concordância da Mª JIC, determinou a suspensão provisória do
processo em relação ao aludido CC, com imposição do dever de contribuir para a
descoberta da verdade;
c) Nesse mesmo despacho o MºPº deduziu acusação contra os restantes arguidos (o ora
recorrente e aqueles que vieram a ser absolvidos na decisão final nos termos supra
referidos) e determinou a separação de processo quanto a CC - do que resultou a
abertura do processo autónomo de inquérito com o n.º187/04.3RACBR, então
organizado, em relação a CC, para acompanhamento da medida de suspensão
provisória decretada com a concordância da Mª JIC;
d) Na acusação então deduzida nos presentes autos CC foi arrolado como testemunha;
e) Os próprios arguidos o arrolaram também, na sua contestação, como testemunha;
Portanto, e através do mesmo despacho, o MP suspendeu o processo quanto ao arguido CC,
sujeitando-o à obrigação de contribuir para a descoberta da verdade material, encerrou o
inquérito, determinou a separação dos processos e deduziu acusação quanto aos restantes
arguidos.

3.3. Identificação das questões processuais sub judice

Este caso coloca várias questões, a maioria deles eventualmente sem relevo para a decisão
final, tais como a de saber se o MP tinha competência para determinar a separação de
processos ou mesmo se havia fundamento para tal separação, ou a de avaliar quais os
efeitos de uma suspensão provisória do processo – ou de um arquivamento – para a
eventual manutenção ou perda da qualidade de arguido, no âmbito do mesmo processo que
continue quanto a co-arguidos, ou no âmbito de processos conexos. No mesmo grupo se
pode enquadrar a questão de saber quais os efeitos para o processo em curso de se ter
tratado como testemunha quem deveria ter permanecido arguido, considerando que o
mesmo veio a ser ouvido já como arguido, pelo que estão questão apenas interessa no que
diz respeito aos actos processuais decorridos após o fim do inquérito e até à audiência de
julgamento.
Quanto à questão de saber se o arguido CC actuou – de um ponto de vista processual –
como mero informador ou como agent provocateur, questão que foi suscitada pela defesa,
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mas para a qual não foram alegados quaisquer factos, entendo que a mesma deve ser
liminarmente afastada, por duas linhas de razão. Por um lado, resulta claro dos factos
provados, e referidos no ponto 1.1., que o arguido AA actuou de forma espontânea nas suas
diversas abordagens do arguido CC e que este último actuou a solo na cedência às pressões
de AA e sem qualquer orientação policial, o que afasta a possibilidade do mesmo ser
qualificado como agente provocador. Por outro lado, estando vinculada ao quadro factual
dado como provado pelo Supremo Tribunal – e não vislumbrando quaisquer factos que
pudessem indiciar alguma provocação por parte de CC no conjunto de factos dados como
não provados ou mesmo no resumo feito pelo Tribunal das alegações do arguido – não
resta outro caminho que não o de concluir que a mesma não tem qualquer fundamento.
Com relevância para a decisão da causa, surge a questão de saber qual o valor a atribuir às
declarações prestadas – independentemente da qualidade em que o foram, como
testemunha ou arguido – de quem teve uma intervenção decisiva na prática dos factos e
constou, pelo menos na fase de inquérito, como co-arguido no processo. Mas, aquela que é,
para mim, a summa questio, foi apenas ligeiramente abordada pela defesa e
superficialmente analisada pelo Supremo Tribunal de Justiça. Trata-se, no fundo, de saber
se um arguido com processo suspenso, cuja suspensão está dependente do cumprimento do
dever de testemunhar de modo incriminatório contra um co-arguido, está a prestar
declarações livres (valoráveis como prova) ou a prestá-las sob coacção (constituindo prova
proibida). No entanto, esta questão – assaz complexa – importa a análise de várias outras
pequenas questões, pois para que a mesma possa ser colocada importa demonstrar-se que a
condição imposta ao arguido se concretizava no dever de testemunhar contra o arguido AA
(já que a condição foi a de contribuir para a descoberta da verdade), por um lado, e, por
outro, que esta condição implica uma forma de ofensa á integridade moral (medida
legalmente inadmissível, ex vi art. 126.º 1 e alínea d) do n.º 2 do mesmo artigo), por outro.

3.4. A questão da separação dos processos


No que respeita ao problema da separação dos processos, entendeu a defesa que a
separação de processos promovida pelo Ministério Público no despacho de encerramento
de inquérito e de dedução de acusação padece do vício da inexistência jurídica, por ter sido
determinada por entidade incompetente para determiná-la, o Ministério Público, como
decorre do artigo 30º-1 do Código de Processo Penal, uma vez que quando este sujeito
processual a determinou o processo já se encontrava sob a alçada de um Juiz. Não resulta
absolutamente claro, mas parece que a defesa sustenta a sua conclusão de que a causa já se
encontrava sob a alçada de um juiz por ter havido, previamente ao referido despacho,
intervenção do JIC para efeitos de homologação da suspensão provisória do processo
quanto ao arguido CC.
O Supremo Tribunal tece uns quantos argumentos desconexos sobre o problema da
separação, mas acaba por concluir que a questão se tornou irrelevante uma vez que o Juiz
do Julgamento decidiu tornar inoperante a separação, reconhecendo ao arguido CC esta
mesma qualidade para efeitos de prestação de declarações. Apesar de fazer referência ao
art. 24.º n.º 2, considera não censurável o despacho do Juiz do Julgamento quando
considerou irrelevante a separação dos processos.
Para ser devidamente analisada, importaria saber se a separação dos processos foi decidida
antes ou após o encerramento do inquérito, pois apesar de, num só e mesmo despacho, o
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MP ter procedido ao encerramento do inquérito (sem o qual não poderia ter deduzido
qualquer acusação, nos termos do disposto no art. 276.º n.º 1 do CPP). Pois se, na fase de
inquérito, a competência para a separação de processos é, claramente, do MP (art. 264.º n.º
5 do CPP), tendo já sido encerrado o inquérito, a mesma passaria a ser do JIC ou do Juiz do
Julgamento, consoante houvesses, ou não, instrução (art. 30.º n.º 1 do CPP).
Mas, e não prescindindo, importa saber se, mesmo não havendo competência para a
determinação da separação, ou no caso de nada ter sido dito quanto a tal, se os processos
poderiam ter-se mantido conexos. Isto porque o disposto no n.º 2 do art. 24.º do CPP
estabelece um segundo limite autónomo à conexão de processos (para além do previsto no
art. 26.º do CPP), o facto de os processos não terem tramitação concomitante. A tramitação
concomitante é apontada pela doutrina como um requisito da conexão, mas a mesma nada
diz quanto à hipótese, precisamente a que se verifica no caso sub judice, de um dos
processos conexos terminar ou, situação um pouco mais complexa, ficar sujeito a uma
suspensão provisória. Claro que se um dos processos conexos for arquivado, nem surge a
necessidade de determinar qualquer separação, uma vez que o mesmo deixo de correr. Mas
o que concluir quanto à suspensão provisória de um dos processos conexos? Fará sentido
manter-se a conexão? Ou, melhor, é processualmente possível manter-se a conexão? Parece
que não, pois o processo suspenso não avança para a fase da acusação, da instrução ou do
julgamento. A manter-se a conexão, os restantes processos conexos teriam que aguardar a
passagem do período da suspensão para avançar para uma fase processual seguinte, uma
vez que os processos conexos não podem estar em fases processuais distintas. É, aliás,
sintomático desta conclusão o facto de não haver fundamento legal para a separação nestes
casos, uma vez que o art. 30.º não faz qualquer referência à tramitação de fases processuais
distintas como fundamento para a separação. Assim, parece que a única conclusão possível
é a de que a conexão cessa automaticamente, ope legis, assim que ocorra um arquivamento
ou suspensão provisória de um dos processos conexos.
Em conclusão, no caso em apreço os processos estavam como não podia deixar de ser,
efectivamente separados, apesar do ambíguo entendimento feito pelo Juiz do Julgamento.

3.5. Os efeitos da suspensão provisória ou do arquivamento na qualidade de


arguido

Tanto a defesa como o Tribunal entendem que a qualidade de co-arguido se deveria ter
mantido. Contudo, sabendo que os processos se encontravam necessariamente separados,
torna-se mais fácil a leitura do disposto no art. 133.º do CPP. Ocorrendo a separação dos
processos ope legis (art. 24.º n.º 2), CC e AA deixaram de ser co-arguidos em processos
conexos, pelo que não se aplica o disposto no art. 133.º n.º 1 alínea a) do CPP. Aliás,
considerando que a suspensão teve a duração máxima de dois anos, art. 282.º n.º 1 do CPP,
mas que pode ser bastante inferior, mesmo sem saber com precisão as datas em questão,
torna-se possível que, à data do julgamento, já tivesse ocorrido o arquivamento definitivo
do processo, caso em que nunca se poderia sustentar a manutenção da qualidade de co-
arguidos.
A manutenção da qualidade de co-arguido seria, neste caso, uma ficção sem apoio na lei, a
qual apenas seria compreensível se se afigurasse necessária para alcançar os fins impostos
pela constituição no que respeita ao direito ao silêncio (e proibição de auto-incriminação) e
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ao direito a um processo justo e equitativo (proibição de valoração de provas dúbias). É o


que irei avaliar nos dois próximos pontos.

3.6. O valor probatório das declarações de co-responsável penal

Ficando afastada a qualidade de co-arguido em processo conexo, estaria apenas em causa a


aplicação do n.º 2 do art. 133.º, que abrange todas as situações de co-responsáveis penais,
mesmo após o transito em julgado de um dos processos. De acordo com esta norma, os co-
responsáveis penais podem depor como testemunhas desde que prestem o seu
consentimento. Resta saber, portanto, se é legítima a aplicação de uma norma que permita
aos co-responsáveis penais a prestação de declarações como testemunhas.
No meu texto sobre a colaboração dos arguidos arrependidos, entendi que, no mínimo,
deveria ser feita uma interpretação restritiva – numa leitura constitucional – segundo a qual
os co-arguidos em processos separados, enquanto mantivessem a qualidade de arguidos
(nos seus respectivos processos) nunca poderiam prestar declarações como testemunhas.
Isto porque, estando um processo penal pendente contra um arguido que, em outro processo
presta declarações como testemunha – podendo ser obrigado a responder a questões auto-
incriminatórias – não se extinguiu ainda a possibilidade de estas mesmas declarações virem
a produzir efeitos nocivos. Quer processualmente, pelo disposto art. 357.º do CPP, quer
facticamente, por poderem vir a constar do processo e, mesmo sem possibilidade de
valoração legal, influenciarem a decisão judicial. Por outro lado, alguém que já se constitui
como responsável, ou co-responsável por um conjunto de factos com relevância penal, não
pode ser colocado – mesmo tendo dado o seu consentimento – perante uma de duas
hipóteses: ou responde à questão colocada e auto-incrimina-se, ou não responde e incorre
no crime de desobediência. Qualquer uma destas hipóteses importaria uma violação do
direito à não auto-incriminação, previsto no art. 32.º n.º 1 da CRP. Aliás, o próprio CPP
acautela esta situação, dispondo que, mesmo no âmbito da prestação de declarações
enquanto testemunha, esta não seja obrigada a responder sempre que das questões resulte a
possibilidade de auto-incriminação, art. 132.º n.º 2.
Pelo que, no que toca ao direito ao silêncio, e numa perspectiva constitucional, o regime
legalmente previsto acautela as necessidades mínimas.
No entanto, o mesmo poderá não se concluir quando se admita que o disposto no n.º 3 do
art. 133.º conduz a que se possam valorar as declarações do co-responsável penal do
mesmo modo como se valorariam as declarações de qualquer testemunha isenta dos factos.
De novo, está aqui em causa o disposto no n.º 1 do art. 32.º da CRP, o direito a um
processo justo e equitativo, previsto no art. 6.º n.º 1 da CEDH, o qual inclui o direito a uma
valoração justa dos meios de prova, tal como reconhecido pelo TEDH em vários casos, em
especial no caso Vladimir Romanov v. Russia, no âmbito do qual se afirmou que: “Leaving
aside the investigation techniques and the alleged interrogation of the co-defendants in a
state of drug intoxication, the Court reiterates that a higher degree of scrutiny should be
applied to assessment of statements by co-defendants, because the position in which the
accomplices find themselves while testifying is different from that of ordinary witnesses.
They do not testify under oath, that is, without any affirmation of the truth of their
statements which could have rendered them punishable for perjury for wilfully making
untrue statements”.
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Desde logo, há que determinar qual o valor probatório das declarações prestadas, na
qualidade de testemunha, do co-responsável nos termos do n.º 2 do art. 133.º, quando este
venha a exercer o direito previsto no n.º 2 do art. 132.º, ou seja, quando se recuse a
responder certas questões invocando o seu direito ao silêncio. E aqui impõe-se aplicar uma
solução análoga à prevista para as declarações dos co-arguidos no n.º 4 do art. 345.º do
CPP, ou seja, quando o co-responsável penal testemunha se recusar a responder a qualquer
questão, as suas declarações não podem ser valoradas contra os restantes arguidos.
Já quando se trate de declarações testemunhais prestadas, de modo cabal e satisfatório, por
co-responsável penal, a resposta não é tão fácil. No meu artigo sobre a colaboração
processual do arguido arrependido, afirmei o seguinte: “As declarações de co-arguido
terão que ser sempre valoradas de modo diminuto em face de declarações prestadas por
testemunha isenta, uma vez que o co-arguido não será nunca um observador isento no
processo e terá sempre um interesse directo no desfecho da causa. Por outro lado, não
havendo uma garantia de isenção e lisura na actividade dos agentes de polícia criminal e
das autoridades de judiciárias, a obtenção de declarações de arguido ou confissões sempre
revela alguma fragilidade, ante a elevada probabilidade de ter sido exercida alguma forma
de intimidação ou de recurso a meios enganosos.” E conclui que, tratando-se de
declarações não ajuramentadas, prestadas com limitação do contraditório e por pessoa
com interesse pessoal na causa e especialmente vulnerável a situações de intimidação,
estas nunca poderão fundamentar, de modo exclusivo, uma decisão condenatória para os
restantes co-arguidos. Pelo que, apesar de, no caso em análise, caso o CC tivesse prestado
declarações como testemunha, as duas declarações fossem ajuramentadas e sujeitas à cross-
examination, não deixava de se tratar de pessoa com interesse pessoal na causa e
especialmente vulnerável a situações de intimidação. A verdade é que o co-responsável
penal teve uma participação directa na prática dos factos, participação esta que, no mínimo,
comprometeu a sua imparcialidade e isenção e que, no máximo, contaminou a sua visão
dos factos e condicionou todas e quaisquer eventuais declarações que venha a prestar, seja
em que qualidade for.
Concluo assim que valorar as declarações prestadas por um co-responsável penal, ainda
que tenha prestado declarações nos termos do n.º 2 do art. 133.º e sem recurso ao n.º 2 do
art. 132.º, de modo idêntico às declarações prestadas por testemunhas (pessoas que não se
encontrem em nenhum situação das elencadas no art. 133.º n.º 1) importa uma violação do
direito a um processo justo e equitativo. Assim, mesmo através de uma aplicação confusa e
pouco correcta do direito, esteve bem o Juiz do Julgamento quando apenas admitiu que CC
prestasse declarações como arguido.

3.7. Admissibilidade de declarações prestadas como contraposição a uma medida


de diversão processual

Mais uma vez devo chamar à colação o meu artigo, no âmbito do qual afirmo o seguinte:
“Igualmente vedada, está a realização de “acordos” entre o arguido e o MP, no sentido de
ao mesmo ser aplicada uma medida de diversão processual “em troca” de um depoimento
contra co-arguidos na fase de julgamento, sempre que a medida em questão esteja
condicionada à efectiva prestação do depoimento. Assim, tal como exemplo do Acórdão do
STJ de 15 de Abril de 2010, mas contrariamente ao que, nessa sede, se entendeu, estou
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convicta de que a aplicação ao arguido da suspensão provisória do processo, prevista no


art. 281.º do CPP, não pode ficar sujeita à condição – sob a forma de injunção – de que o
mesmo venha a prestar depoimento contra um co-arguido na fase de julgamento. Uma tal
injunção não tem cabimento na alínea m) do n.º 2 do art. 281.º, cabendo antes no seu n.º 3,
pois sempre será contrário ao princípio da dignidade da pessoa humana que a suspensão
(merecida) do processo venha a ficar sujeita a prestação de declarações num sentido ou
noutro, em julgamento, contra outra pessoa (co-arguido ou não). Tal implicaria sujeitar a
suspensão do processo à prestação de um depoimento que não será livre, nem voluntário,
pois à sua recusa responderá todo o peso do sistema penal, nos termos do disposto no art.
282.º, n.º 4, alínea a) do CPP. Consequentemente, sendo tal injunção inoponível, a mesma
deve considerar-se como não escrita ou inexistente, mantendo-se, contudo, válida a
suspensão do processo já decretada.”
Cumpre saber, portanto, se a injunção imposta pelo MP (e homologada pelo JIC) - dever de
contribuir para a descoberta da verdade – corresponde à aplicação do disposto no art. 9.º da
Lei n.º 34/94 de 29.09 ou do disposto no art. 281.º do CPP, em primeiro lugar e, em
segundo lugar, determinar se esta injunção implicava o dever de testemunhar no processo
contra o arguido AA. Quanto à primeira questão, a resposta deverá ser negativa. O art. 9.º
da Lei n.º 34/94 não autoriza a que o MP sujeite a suspensão do processo ao dever de
contribuir para a descoberta da verdade, pelo contrário, exige que tenha já havido essa
contribuição para que possa ser aplicada a suspensão provisória. Do que se trata é de
verificar que, dada a diminuta culpabilidade impressa no facto, tendo o arguido
demonstrado arrependimento, através da denúncia do crime ou da colaboração com as
autoridades, não se justifica a sujeição a julgamento, sendo de aplicar a suspensão
provisória. E não, como parece entender o MP, de utilizar a suspensão provisória como
mecanismo de pressão e de “persuasão musculada” contra um dos co-arguidos –
previsivelmente, o elo mais fraco – para que este, ficando com a ameaça da continuação do
processo penal sob si, venha a ser “convencido” a testemunhar contra os restantes co-
arguidos. Pelo que nem o n.º 1 do art. 281.º do CPP permite ultrapassar esta leitura, pois aí
não se prevê a possibilidade de sujeitar a suspensão ao dever de colaboração posterior com
as autoridades. Pelo contrário, como resulta do n.º 2 do mesmo artigo, este tipo de condição
pode mesmo ser contrária à dignidade do arguido, porquanto a mesma exige a prestação de
declarações, potencialmente incriminatórias, perante juiz e audiência criminal (pois o
direito ao silêncio e a garantia de não auto-incriminação constituem um dos pilares
fundamentais da dignidade do arguido).
Mais, o que dizer quanto ao cumprimento absoluto desta injunção? Sabendo que as
declarações de co-arguido têm pouco valor, será o facto de CC ter apenas prestado
decorações nessa qualidade – e não como testemunha, como desejava o MP e como CC se
comprometeu a fazer – poderia o MP cancelar a suspensão por incumprida a injunção? Na
realidade, as declarações de co-arguido pouco contributo trazem para a descoberta da
verdade, no sentido processual. Ou imagine-se que CC havia mentido na fase de inquérito e
que a investigação se tinha centrado nas decorações deste. Estando a suspensão sujeita ao
testemunho, claro é que CC continuaria com a mentira em julgamento, assim se obtendo
uma condenação indevida – e insustentável de AA. Já se o MP for obrigado a suportar o
risco de inversão de intenções por parte do arguido colaborante, este não se sentirá

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pressionado para manter uma falsa representação dos factos, assim se acautelando melhor a
justiça material para com eventuais co-arguidos.
Já a segunda questão merece resposta positiva. Se bem que o MP tenha recorrido a uma
fórmula vaga - dever de contribuir para a descoberta da verdade – mediante a qual
podíamos ser levados a concluir que o arguido CC poderia não ser forçado a testemunhar
desde que fornecesse outros meios de prova ao seu dispor à acusação, a verdade é que a
suspensão foi decidida no mesmo despacho que pôs fim ao processo e no qual de promoveu
a acusação contra os restantes arguidos. Assim, estando encerrado o inquérito – e
encerradas as investigações – é porque o MP já recolheu todos os meios de prova de que irá
fazer uso em julgamento. Não há mais meios de prova, indiciários, que CC possa vir a
oferecer à acusação. A única contribuição que resta fazer, por parte de CC, é a prestação de
declarações em fase de julgamento. Por outro lado, no mesmo despacho em que se decide a
suspensão, é deduzida a acusação e arrolado CC como testemunha, mais um indício de que
a verdadeira condição a que CC estava sujeito, era o seu testemunho contra AA. Pelo que
estar escrito no despacho que determina a suspensão do processo que a injunção respeita ao
dever de contribuir para a descoberta da verdade, ou ao dever de testemunhar contra AA
em audiência de julgamento, no caso, tinha exactamente os mesmos efeitos práticos e
jurídicos. A injunção é ilegal e por isso, tem-se por não escrita, ficando a suspensão apenas
sujeita ao pagamento do valor estipulado, à instituição de solidariedade social.
Assim, a imposição do dever de testemunhar contra AA, como condição da suspensão do
processo contra CC, configura uma medida legalmente inadmissível, ou um
condicionamento ilegal de benefício legalmente previsto (art. 126.º n.º 2 alínea d) do CPP),
pelo que as declarações de CC constituem prova ilicitamente obtida – obtida mediante
ofensa da integridade moral de CC. O que nos leva ao argumento utilizado pelo Supremo
Tribunal de que esta questão diria respeito apenas a CC e que este, tendo consentido, tinha
sanado qualquer problema relativos à legalidade da injunção que lhe foi imposta. Nada
podia ser mais falacioso. A nulidade prevista no art. 126.º do CPP, sendo uma nulidade
probatória, visa proteger os interesses daquele contra quem a prova vai ser utilizada, mais
do que os interesses daquele contra quem foi usada a coacção ou cuja integridade moral foi
violada. É ao arguido AA que interessa, portanto, afastar o recurso a uma prova nula. Mas,
mais do que isto, a nulidade prevista no art. 126.º n.º 1 do CPP é absoluta, de conhecimento
oficioso e não fica sanada com o trânsito em julgado (arts. 118.º n.º 3 e 449.º n.º 1 alínea e)
do CPP), pelo que, mesmo a entender-se que seria CC o interessado, não seria necessária a
arguição deste. E muito menos se pode falar aqui num consentimento, pois, precisamente
por oposição ao n.º 3 do art. 126.º, nulidade gerada pelas situações de facto previstas no n.º
1 não pode ser afastada por um eventual consentimento do interessado – não é possível
admitir como prova declarações obtidas mediante tortura, mesmo que o torturado haja
consentido na realização da tortura. Mais uma vez, realça-se que o interesse aqui protegido
é o do arguido contra quem serão utilizadas as provas proibidas e este, o AA, não prestou
qualquer consentimento.

4. Análise da argumentação apresentada pelo arguido


5. Análise da argumentação seguida pelo Supremo Tribunal

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6. Conclusões

Mas, divergências de Direito à parte, será que a decisão em análise peca, de modo
flagrante, por injusta? Terá o Juiz do Julgamento feito mal ao admitir a prestação de
declarações por parte do arguido CC? Confrontado com um co-responsável penal arrolado
pela acusação como testemunha, o que deverá o juiz do julgamento fazer? Admitir a
prestação de declarações na qualidade de testemunha – sujeição do co-responsável penal ao
cross-examination – admitindo a recusa a responder sempre que esteja em causa a auto-
incriminação (132.º n.º 2) ou na qualidade de co-arguido? O mais seguro é o segundo
proceder, embora o ideal fosse a previsão de um regime intermédio, sujeição do co-
responsável penal ao cross-examination – admitindo a recusa a responder sempre que
esteja em causa a auto-incriminação – pois o fundamental é que a valoração das
declarações do co-responsável penal sejam feitas de modo semelhante às do co-arguido.
Ora, foi isto que se fez no caso em apreço.

Mais, confrontado o juiz do julgamento com co-responsável penal arrolado pela acusação
como testemunha cujo processo está suspenso sob condição de testemunhar contra o
arguido, como fazer? Rejeitar a prestação de declarações em absoluto? Não me parece que
seja esta a única via. A melhor solução é esta que já defendi no mais que referido artigo:
“vindo este co-arguido com processo suspenso a prestar declarações na fase de
julgamento, deverá o mesmo ser esclarecido, pelo juiz, de que, por se tratar de co-arguido
e por não lhe ser exigível o depoimento como condição para qualquer tipo de isenção de
responsabilidade penal, tais declarações serão prestadas a título voluntario e que a recusa
das mesmas não colocará em causa a já obtida suspensão processual. Caso tais
esclarecimentos não sejam prestados, as declarações não podem ser valoradas como meio
de prova, nos termos do disposto no n.º 1 e no n.º 2 alínea d) do CPP”.

Ora, parece também ter sido isto que se passou no caso sub judice, pois pode ler-se no
Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça: “dessa forma, a pretensa coacção consistente na
vinculação a colaborar na descoberta da verdade foi arredada, por essa via tendo o
tribunal retirado todo o efeito à condição imposta e coadunando-a com o estatuto próprio
do arguido e com as exigências legais e constitucionais daí decorrentes.”

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JURISPRUDÊNCIA NACIONAL

Tribunal Data Tema

Supremo Tribunal de Justiça 07-05-2009 Declarações de coarguido


http://www.dgsi.pt/jstj.nsf/954f0ce6ad9dd8b980256b5f003fa814/1a37f92fa6d154bf802575c30055c94c?OpenDocument

Tribunal da Relação de Évora 08-11-2011 Declarações de coarguido


http://www.dgsi.pt/jtrg.nsf/86c25a698e4e7cb7802579ec004d3832/109798cd075325bf802575ef0047df0c?OpenDocument

Tribunal da Relação de Guimarães 09-02-2009 Declarações de coarguido


http://www.dgsi.pt/jtrg.nsf/86c25a698e4e7cb7802579ec004d3832/109798cd075325bf802575ef0047df0c?OpenDocument

JURISPRUDÊNCIA DO TEDH

Vladimir Romanov v. Russia, 2008


http://cmiskp.echr.coe.int/tkp197/view.asp?item=1&portal=hbkm&action=html&highlight
=Vladimir%20%7C%20Romanov&sessionid=100422466&skin=hudoc-en

JURISPRUDÊNCIA EUA

Supremo Tribunal (Supreme Court, EUA)


Local de publicação
Decisão

Hoffa v. United States U.S., 385, 1966, pp. 293 a 322


http://supreme.justia.com/cases/federal/us/385/293

Tribunal Federal de Recurso (Court of Appeals, EUA)

Decisão Circuito Local de publicação

Gunsby v. Wainwright F.2d, 596, 1979, pp. 654 a 657


http://law.justia.com/cases/federal/appellate-courts/F2/596/654/447189

United States v. Dailey 1 F.2d, 759, 1985, pp. 192 a 201


http://law.justia.com/cases/federal/appellate-courts/F2/759/192/260190

United States v. Waterman 8 F.2d, 732, 1984, pp. 1527 a 1533


http://law.justia.com/cases/federal/appellate-courts/F2/732/1527/129756

Williamson v. United States 5 F.2d, 311, 1962, pp. 441 a 450


http://law.justia.com/cases/federal/appellate-courts/F2/311/441/161744

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NORMAS RELEVANTES

CPP
Artigo 30.º
Separação dos processos
1 — Oficiosamente, ou a requerimento do Ministério Público, do arguido, do assistente ou
do lesado, o tribunal faz cessar a conexão e ordena a separação de algum ou alguns
processos sempre que:
a) Houver na separação um interesse ponderoso e atendível de qualquer arguido,
nomeadamente no não prolongamento da prisão preventiva;
b) A conexão puder representar um grave risco para a pretensão punitiva do Estado, para o
interesse do ofendido /ou do lesado;
c) A conexão puder retardar excessivamente o julgamento de qualquer dos arguidos; ou
d) Houver declaração de contumácia, ou o julgamento decorrer na ausência de um ou
alguns dos arguidos e o tribunal tiver como mais conveniente a separação de processos.
2 — A requerimento de algum ou alguns dos arguidos, o tribunal pode ainda tomar a
providência referida no número anterior quando outro ou outros dos arguidos tiverem
requerido a intervenção do júri.
3 — O requerimento referido no princípio do número anterior tem lugar nos oito dias
posteriores à notificação do despacho que tiver admitido a intervenção do júri.

Artigo 264.º
Competência
1 — É competente para a realização do inquérito o Ministério Público que exercer funções
no local em que o crime tiver sido cometido.
2 — Enquanto não for conhecido o local em que o crime foi cometido, a competência
pertence ao Ministério Público que exercer funções no local em que primeiro tiver havido
notícia do crime.
3 — Se o crime for cometido no estrangeiro, é competente o Ministério Público que
exercer funções junto do tribunal competente para o julgamento.
4 — Independentemente do disposto nos números anteriores, qualquer magistrado ou
agente do Ministério Público procede, em caso de urgência ou de perigo na demora, a atos
de inquérito, nomeadamente de detenção, de interrogatório e, em geral, de aquisição e
conservação de meios de prova.
5 — É correspondentemente aplicável o disposto nos artigos 24.º a 30.º

Artigo 281.º
Suspensão provisória do processo
1 — Se o crime for punível com pena de prisão não superior a 5 anos ou com sanção
diferente da prisão, o Ministério Público, oficiosamente ou a requerimento do arguido ou
do assistente, determina, com a concordância do juiz de instrução, a suspensão do processo,
mediante a imposição ao arguido de injunções e regras de conduta, sempre que se
verificarem os seguintes pressupostos:
a) Concordância do arguido e do assistente;
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b) Ausência de condenação anterior por crime da mesma natureza;


c) Ausência de aplicação anterior de suspensão provisória de processo por crime da mesma
natureza;
d) Não haver lugar a medida de segurança de internamento;
e) Ausência de um grau de culpa elevado; e
f) Ser de prever que o cumprimento das injunções e regras de conduta responda
suficientemente às exigências de prevenção que no caso se façam sentir.
2 — São oponíveis ao arguido, cumulativa ou separadamente, as seguintes injunções e
regras de conduta:
a) Indemnizar o lesado;
b) Dar ao lesado satisfação moral adequada;
c) Entregar ao Estado ou a instituições privadas de solidariedade social certa quantia ou
efetuar prestação de serviço de interesse público;
d) Residir em determinado lugar;
e) Frequentar certos programas ou atividades;
f) Não exercer determinadas profissões;
g) Não frequentar certos meios ou lugares;
h) Não residir em certos lugares ou regiões;
i) Não acompanhar, alojar ou receber certas pessoas;
j) Não frequentar certas associações ou participar em determinadas reuniões;
l) Não ter em seu poder determinados objetos capazes de facilitar a prática de outro crime;
m) Qualquer outro comportamento especialmente exigido pelo caso.
3 — Não são oponíveis injunções e regras de conduta que possam ofender a dignidade
do arguido.
4 — Para apoio e vigilância do cumprimento das injunções e regras de conduta podem o
juiz de instrução e o Ministério Público, consoante os casos, recorrer aos serviços de
reinserção social, a órgãos de polícia criminal e às autoridades administrativas.
5 — A decisão de suspensão, em conformidade com o n.º 1, não é suscetível de
impugnação.
(…)

Artigo 133.º
Impedimentos
1 — Estão impedidos de depor como testemunhas:
a) O arguido e os co-arguidos no mesmo processo ou em processos conexos, enquanto
mantiverem aquela qualidade;
b) As pessoas que se tiverem constituído assistentes, a partir do momento da constituição;
c) As partes civis;
d) Os peritos, em relação às perícias que tiverem realizado.
2 — Em caso de separação de processos, os arguidos de um mesmo crime ou de um crime
conexo, mesmo que já condenados por sentença transitada em julgado, só podem depor
como testemunhas se nisso expressamente consentirem.

Artigo 126.º
Métodos proibidos de prova
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1 — São nulas, não podendo ser utilizadas, as provas obtidas mediante tortura, coacção ou,
em geral, ofensa da integridade física ou moral das pessoas.
2 — São ofensivas da integridade física ou moral das pessoas as provas obtidas, mesmo
que com consentimento delas, mediante:
a) Perturbação da liberdade de vontade ou de decisão através de maus-tratos, ofensas
corporais, administração de meios de qualquer natureza, hipnose ou utilização de meios
cruéis ou enganosos;
b) Perturbação, por qualquer meio, da capacidade de memória ou de avaliação;
c) Utilização da força, fora dos casos e dos limites permitidos pela lei;
d) Ameaça com medida legalmente inadmissível e, bem assim, com denegação ou
condicionamento da obtenção de benefício legalmente previsto;
e) Promessa de vantagem legalmente inadmissível.
(…)

Artigo 449.º
Fundamentos e admissibilidade da revisão
1 — A revisão de sentença transitada em julgado é admissível quando:
a) Uma outra sentença transitada em julgado tiver considerado falsos meios de prova que
tenham sido determinantes para a decisão;
b) Uma outra sentença transitada em julgado tiver dado como provado crime cometido por
juiz ou jurado e relacionado com o exercício da sua função no processo;
c) Os factos que servirem de fundamento à condenação forem inconciliáveis com os dados
como provados noutra sentença e da oposição resultarem graves dúvidas sobre a justiça da
condenação;
d) Se descobrirem novos factos ou meios de prova que, de per si ou combinados com os
que foram apreciados no processo, suscitem graves dúvidas sobre a justiça da condenação.
e) Se descobrir que serviram de fundamento à condenação provas proibidas nos
termos dos n.os 1 a 3 do artigo 126.º;
f) Seja declarada, pelo Tribunal Constitucional, a inconstitucionalidade com força
obrigatória geral de norma de conteúdo menos favorável ao arguido que tenha servido de
fundamento à condenação;
g) Uma sentença vinculativa do Estado Português, proferida por uma instância
internacional, for inconciliável com a condenação ou suscitar graves dúvidas sobre a sua
justiça.
2 — Para o efeito do disposto no número anterior, à sentença é equiparado despacho que
tiver posto fim ao processo.
3 — Com fundamento na alínea d) do n.º 1, não é admissível revisão com o único fim de
corrigir a medida concreta da sanção aplicada.
4 — A revisão é admissível ainda que o procedimento se encontre extinto ou a pena
prescrita ou cumprida.

Lei n.º 36/94 - Lei de combate à criminalidade económico-financeira

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Artigo 9.º
Suspensão provisória do processo
1. No crime de corrupção activa, o Ministério Público, com a concordância do juiz de
instrução, pode suspender provisoriamente o processo, mediante a imposição ao arguido de
injunções e regras de conduta, se se verificarem cumulativamente os seguintes
pressupostos:
a) Concordância do arguido;
b) Ter o arguido denunciado o crime ou contribuído decisivamente para a descoberta da
verdade;
c) Ser de prever que o cumprimento das injunções e regras de conduta responda
suficientemente às exigências de prevenção que no caso se façam sentir.
2 - É correspondentemente aplicável o disposto nos artigos 281.º, n.os 2 a 5, e 282.º do
Código de Processo Penal.

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BIBLIOGRAFIA

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BEERNAERT, Marie-Aude “Repentis et collaborateurs de justice dans
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Bruxelles, 62, n.ºs 1-2, 2002, pp. 148 a 161
BELEZA, Teresa Pizarro “Tão amigos que nós éramos: o valor
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BORGNA, P./LAUDI, M./RUSSO, “Quale protezione per i pentiti in Italia?”,
L./SALUZZO, F. La giustizia penale, Roma, 7, 93, n.º 7,
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CUNHA, José Damião da “O regime processual de leitura de
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DIAS, Jorge Figueiredo “O defensor e as declarações do arguido em
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EDWARDS, Carlos Enrique El arrepentido, el agente encubierto y la
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PALAZZO, Francesco “Le probleme des repentis. La legislation
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Compare, Paris, nouvelle serien, 4, 1986,
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PETTIT, Louis-Edmond “Le problème des "repentis”, Revue De
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DÍEZ, Manuel Quintanar La justicia penal y los denominados
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SANTIAGO, Rodrigo “Reflexões sobre as declarações do arguido
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SILVA, Germano Marques da “Bufos, infiltrados, provocadores e
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SILVEIRA, Jorge Noronha e “O conceito de indícios suficientes no
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