Você está na página 1de 8

entrevista

BarryHatton
oodesenrascanço,é
0
macoisamagnÍfica
queosgdosda
*troilra'não sabem
Portugalê opaísdodeixaandardobota-abako, dodekaparaamanhão
quepodesfazerhoje,dodesenrasca, dostrêsefes.É aomesmotempoo Quinto
*os
Irnpérioe cafresdaEuropa"nodizerdePadreAntónioVieira.Osportuguese
"sãoexcessivamente sentimentais,
comhorror à disciplina,individualistas,
talvez
semdarpor isso,falhosdeespíritodecontinuidade edetenacidade naacção'-
éde1938epertencea Salazar.
a descrição Em2O11, comosomos?
BarryHattontira-nosasmedidas noliwo OsPortugueses.
EntreüstaAnabela MotaRibeiroFotografia PedroCunha
entrevista

arry Hatton é inglês, licenciou- do vizinho do lado, mas ai do estrangeiro que sar disse: "É um povo muito estranho, que não
se no Verão de 1985 no lCng's se atreva afazer o mesmo. É um estrangeiro se governa nem se deixa governar." Hoje em dia
College, em Germânicas, quase português. Subscreve Unamuno quan- um político diria a mesma coisa. Há muita coisa
escreveu com Luísa Beltrão, do este diz: "Quanto mais lá vou, mais quero que vem de trás. Durante os Descobrimentos,
sua sogra, a biografia de lá voltar." os portugueses agruparam-se àvolta do Estado
Maria de Lourdes Pintasilgo. É - continua a ser assim. Adoram o Estado ("o
correspondente daAssociated Pressem Lisboa No capítulo referenteaoZê Povinho descre- Estado vai tomar conta de nós"); e queixam-se
desde 1997.Quando escreveu OsPortugueses, ve os portugueses como sendo simultanea- de que o Estado paga as suas contas "em parte,
quis fazer um retrato moderno do país onde vive mente "amistosos e irascíveis, deferentes tarde ou nunca", como se dizia no período dos
há 25 anos. Nele entram uma família portuguesa e indómitos, apáticos e humildes, duros e Descobrimentos. É um traço amor-ódio.
com quem come carne de porco depois da ousados, compassivos mas irados, submis-
matança, leituras de Eduardo Lourenço, Jorge sos e belicosos, sempre à espera que a sorte Isso é uma visão catastrofista, não do que
de Sena,notas de um Moleskine. Escreveu em lhes sorria, boa companhia, conciliadores, são os portugueses, mas do futuro dos por-
inglês, para estrangeiros que lhe perguntam: diplomáticos, efusivos, espontâneos". tugueses. Se é assim há 600 anos, significa
"Diz-me lá
outra vez onde é que disseste que O livro está muito fundado em coisas que já que não temos emenda.
era Portugal?" Não conhecem, nem podem foram ditas pelos portugueses, pensadores, Falando de uma coisa actual, da crise e do res-
compreender um povo que inaugura uma filósofos, entre os quais oJoão Medina, que es- gate financeiro: estas medidas são como um
portentosa obra de engenharia com uma creveu muito sobre o Zé Povinho. OZê Poünho penso rápido numa perna partida, como se diz
feijoada para 15mil pessoas."Falo diariamente sintetiza essapersonagem portuguesa, com to- em inglês. Se Portugal quer mudar mesmo, vai
com analistas, que não sabem nada, mas falam dos essesadjectivos, a contradição enorme. ter de mudar a sua maneira de viver. Vai levar
sobre Portugal como se soubessem. Só sabem gerações, não vai mudar com um acordo com
os números, são pós-matemáticos." É uma figura que tem cerca de 1OOanos, é o FMI e a zona euro.
Os números não nos deixam ficar bem. rústico e boçal. Sobretudo nesta fase pós-
Depois de 15 meses de espera, assinou com a Europa e pós-revolução, queremos acreditar Mudar a maneira de viver quer dizer imple-
Signal Books, de Oxford. A sair, em Portugal, que evoluímos dela. mentar reformas de fundo?
pela Clube do Autor, a edição portuguesa. O livro começa com os lusitanos. Quando se Até que ponto os portugueses querem mudar?
Vê-se logo que não é português. Nunca diz olha para todos estesséculos, consegue-sever Se querem ser ricos como os alemães e os suí-
mal dos portugueses.E vê-selogo que conhece aqueles traços, aqueles veios no mármore, as ços, os holandeses e os escandinavos, têm de
os portugueses:um português pode dizer tudo coisasque estãono sangueportuguês.Júlio Cé- entrar ao trabalho às oito da manhã. trabalhar
até às seis, jantar às sete e estar na cama às Medo de quê? leisque sãodecididasna Assembleiada Repú-
nove. É essavida que os portugueses querem? Medo de ser mal visto, defazer figura de par- blica.Essemedovem do caminhobloqueado.
Acho que não. (Se quiserem, vou-me embora, vo. uma pessoalevantaavoz e pensaque vai Vemdo Estadomonolítico,quasekafkiano.Não
vou para outro país [riso].) Por outro lado, esta ser ridicularizada.Medo de ser castigado.Aos dá para entrar, não se encontra a porta. Sese
geração que cresceu com a União Europeia, que olhosdos portugueses,o poder estácá em ci- encontrar,saise por outra porta sem chegar
viaja, que tem contacto com a Internet, com os ma, elesestãocá em baixo. O power distance onde sequer.É o processod'O Castelo.
outros paÍses,tem outras comparações para fa- indexé enorme.As pessoasnão pensamque
zer (como se viu com os protestos da "geração à têm algumainfluênciaem nada.O medovem Antero aponta uma terceirarazão para o
rasca"). Um dos factores que contribuíram para de trás, da ditadura("é melhor ficar caladinho, declínio. "O sistema económico gerado pe-
o 25 de Abril foi a interligação com os povos da estámalmasaindapodeficarpior").Nosinqué- la era dos Descobrimentos, de intoxican-
Europa, os turistas, os portugueses emigran- ritos de opinião os portuguesesdizem sempre te abundância, afastou os portugueses da
tes. Essetipo de contactos muda mentalidades. quea maior preocupação delesé ter emprego. gestão financeira prudente e do trabalho
Muito devagarinho, mas muda. Essamudança Mesmoquandorecebemo saláriomínimo,me- honesto."
vai ajudar a destapar os portugueses, que estão nos de 5OOeurospor mês. É a mentalidade: Percebemos [o mesmo]agoracom osfundosda
muito abafados pelas estruturas rígidas da so- "Tenhopouco,maspelo menostenhoisto." É
UniãoEuropeia,ostaisquase5Omil milhõesque
ciedade. É um florescer que vem com o tempo, o medo de tentar ir maisalém.Masao mesmo vieramnosúltimos3Oanos,e quemuitasvezes
não vai ser de um dia para o outro. tempo, e voltamosàs contradições,os portu- foram mal gastos.Foramparabridgesto nowhe-
guesesque foram nos anos1960para França re,paÍaaquelasobraspúblicasque servema
A propósito da primeira possibilidade, de nem falavamfrancês,nunca tinham saídodo muitopoucagente.AntónioBarretodissequefoi
trabalharmos como um alemão ou um suí- país;era precisouma coragemgigante.Ospor- um conviteao esbanjamentoe à corrupção.
ço, ejantarmos àssetedatarde: mesmoque tuguesesconseguem,mas não acreditamque
quiséssemosisso,a verdadeé que temos con- conseguem. Repetidamentetemos oportunidades de re-
dições climatéricas - que têm importância fundar as coisas,fazê-las,se não a partir do
capital - que inviabilizam o projecto ou o Temos uma baixa auto-estima. zeÍo, com óptimas condições à partida.
tornam muito difícil. Claro. Falo muito bem de Portugalno livro, Embora no princípio Portugal fosseo bom
Torna tudo mais dificil, é verdade. Cadapaís achoqueé um paísóptimo.Estoucâhâ25anos, aluno doJacquesDelors.Aceitoutudo. Havia
tem dejogar as suascartas.CadapaÍstem os já me foram oferecidosempregosem NovaIor- uma sedede mudança.Ostermoserammuito
seuspontosfortese os seuspontosfracos.Os que,em Londres,em Bruxelas,e sempredisse generosose ninguém sepodia queixar.
portuguesestêm imensasqualidades,embora que não.Além de não seruma pessoaque quer
osportugueses não achemmuito isso.Comoo entrarparao trabalhoàsoito da manhã,prefiro Vinte e cinco anos depois, não temos nem
ministro dosNegóciosEstrangeiros,LuísAma- uma vida maisdescontraída. dinheiro nem reformas profundas feitas.
do, disseno ano passado:"Só oiço dizer mal Nem um povo muito maisinstruído.
de Portugalem Portugal." BoaventuraSousa No livro, dedica um capítulo a um texto
Santos,num livro sobre a autoflagelaçãodos de Antero de Quental, que se refere a um E passámosde bom aluno a pior aluno. Isto
portugueses,fala de uma má consciênciapor período muito anterior. O diagnóstico que é uma coisa que nos humilha, na sua opi-
causada passividade,que todos reconhecem fazdo país poderia ser feito em relação aos nião?
masnão conseguemmudar. nossosdias. Quer resumir o conteúdo des- Não,demonstraquea UniãoEuropeiaé um pro-
se texto? jectoquetentatratarum conjuntodepaísescom
Existe uma autoflagelaçãosepensarmosem E o DiscursodoDeclíniodosPovosIbéricos.An- históriase culturasmuito diferentescomosefos-
nós enquanto povo. Mas,a título indiüdual, tero foi buscarasraízesdo problema muito lá seum só país.É precisoter em contaque têm
o que existe é uma flagelação do outro, e atrás.Falada Inquisição,do poder da Igreja históriasdiferentese maneirasdevivere fazeras
não do próprio. Raramente os portugueses Católica.Do "conservadorismoreligiosoinsta- coisasdiferentes. Deviahavermaispaciênciacom
dizem: 'iA.culpa é minha e a responsabili- lado pela Contra-Reforma,que sufocouo pen- a culturadecadapaís-membro. Portugalnãovai
dade é minha." samentoinventivo nos paísescatólicoscomo reagrràscondiçõesdaUniãoEuropeiadamesma
FernandoPessoadiz que,numgrupo de cinco Portugal".Eleé muito maiseloquenteque eu!, maneiraqueosalemães,osfranceses. Ospaíses
portugueses,o culpadoé sempreo sexto. essediscursoé brilhante. do Norte sãomuito diferentese tentam impor
uma maneirade serquenão é portuguesa.
Somosmuito bons críticos de nós mesmos. O centralismo católico acabou por implicar
Eça de Queirós é o exemplo acabado de co- um fechamento de portas. Houve uma de- Apesar de ser uma corrida entre atletas
mo é possível, e de forma contundente, ar- bandada dejudeus, de espíritos inventivos, que têm características desiguais, a ver- *
rasar o portuguesinho. do que faziaa diferença.
Há muito poucaentregademocrática.José Gil Foi um grandepassoatrás.ForamparaAntu-
falada "não inscrição",de aspessoas não par-
ticiparem.Vou dar o exemploda minha sogra.
Em frente ao prédio dela,em Lisboa,a câmara
tinha construídoum edifÍcio novo; cinco anos
depoisaindaestavamlá os andaimes.A minha
érpiae tornaramricososholandeses. Tinham
oknowhow,a sabedoria,o dinheiro.Portugal,
só para ficar bem na fotografiacom os reis ca-
tólicos,fez mal a si próprio.
55
Osportugueses
sograqueixou-se,nada aconteceu.Entãofez A nível político, Antero fala de uma centra-
um abaixo-assinado pelo prédio; ninguémquis lidade "imposta por períodos de governo
assinar.Tinhamtodosmedo.
adoramoEstado
absoluto, que encorajou a submissão e a'
resignação". IJma grossaparte dos portu-
"Medo", palavra crucial. Não por acaso, gueses continua a viver
e queixam-se de que
da relação com o
o livro deJosé Gil em que se fala da o'não- Estado, submissose resignados. o Estadopagaassuas
inscrição" tem por tÍtulo Portugal, o Medo Foi um problemano fim do séculoXIX: que-
de Existir. riam despediruma data de funcionáriospú-
contas *emparte,tarde
É outra coisaquevem de trás.As pessoaspen- blicos e não conseguiram,porque se fossem oununcd"comose
samque a democraciaé só irvotar de doisem para o desemprego,não haviaoutro emprego.
doisanos- não é nadadisso.O VillaverdeCa- Ondeé que podiam serabsorvidos?Nãotenho ünanopeúododos
bral fezum estudonos anos1990e descobriu nenhumareceitamágica. Aspequenase médias
que só três por cento dos portuguesestinham empresas,que sãoaosmilharesem Portugal,
Descobrimentos.Éum
algumavez enviado uma carta a um director [pertencema] pessoascom boasideias,que traçoamor-ôdio
de um jornal com a suaopinião.(Issoé outra queremcrescer,que queremarriscar- o que

)9
coisaque estáa mudar com os emaik e com a é uma coisarara em Portugal- e que sevêem
novageração.)As pessoasnão vêem solução confrontadoscom obstáculosqueo impedem.
atravésda suaparticipaçãodemocrática. Do Estado,do fisco,da SegurançaSocial,das
- tr,*t$ il
rh#trf sÁtrffif

# $ïffit
$Ë${ffiÊf,$#.&

*1,, ï
dade é que repetidamente não chegamos ao É frequente no estrangeiro, de repente, que
fim da competição, ou chegamos em último.
Por isso perguntava se isto não é uma coisa
que colectivamente nos humilha.
seria se fosse importante para os portugueses
os portugueses sejam motivo de orgulho,
engrandeçam. n Portugal que os apouca?
Sim.E muito sufocantea rigidezda sociedade,
o pessimismo.Maspode resultar,e vê-seque
55
Aosolhosdos
chegar em primeiro lugar. Se não é uma cor- quandovão parafora resulta.Osportugueses
rida em que estão muito empenhados, acho
que não.
sãotrabalhadoresmuito bem vistos,desdeos
anos196O,em França.As multinacionaisque
portugueses,opoder
Na introdução do seu livro, conta que quan-
estãoem Portugaladoram os trabalhadores
portugueses.Osportugueses conseguem, têm
estâcáemcimaeles
do explicou à sua filha, que é portuguesa, de passara acreditarque conseguem. est:iocáembaixo.As
a génese deste projecto, ela pediu que não
nos retratasse como uns saloios. Há um mí- É forçoso falar da qualidade das elites, dos pessoasnãopensam
nimo de vergonha pelo que somos e pela fi-
gura que fazemos, mesmo que não seja uma
que organizam, dos que apontam directri-
zes. Também não temos a organização que
quetêmalguma
coisa na qual nos empenhamos muito. nos permite trabalhar com os outros, fazer influênciaemnada.
Lá fora não conhecem Portugal, não conhe- um trabalho produtivo.
cem os portugueses. Falo quase diariamen- As elitestêm medo de perder aquelacoisaa Omedovemdetrás,
te com analistas sobre coisas económicas e
financeiras, e nenhum deles fala português,
que estãoagarradas.Deixar alguém subir é
correr o perigo de perder a suacoisinha.Em
daditadura

)9
nenhum deles conhece o povo português. Uma relaçãoà organizaçáo,ê como a história dos
das ideias que tive com este livro foi explicar- forcados:têm sucessoporqueseunemà volta
lhes como são. Essacoisa de nos retratarem de um objectivo.Masnão é uma característica
como saloios é o que se vê nos filmes. A per- portuguesa,o associativismo. Por issoé que o
sonagem portuguesa é sempre o labrego, o car sharing, para vir para a cidade,nunca vai
barrigudo, com bigode. funcionar em Portugal. versário, um líder, um objectivo.
Na Expo-98,veio uma placa de vidro gigante
Ê,oZê Povinho. Relatao episódio de um jogo de futebol en- para o Oceanário,doJapão.Quandoa puse-
A realidade é muito diferente, embora com as tre portugueses e ingleses; estes,que eram ram, faltavamdoiscentímetros.Foi o arquitec-.
características que sempre houve. A imagem menos capacitadosà partida, acabarampor to americanoque estavaà frente do oceanário
estâ out of date. vencer apenasporque se uniram. queme contou:afinaleramosjaponesesquese
Osportuguesestêm mais talento, mas não o tinham enganadoe não os portugueses.
Contudo, quando lá fora ouvem falar de aproveitamunindo-se,organizando-se, para
nós, nos últimos anos, é quase sempre pelas atingir um objectivoconjunto.Nessejogo, nós, Nenhum português acreditaria nessahistó-
piores razões. osingleses, éramosum bocadinhomaisvelhos, ria. Osjaponesesnão se enganam.
Sim. Mas dou o exemplo do Euro 2OO4: to- não estávamosem muito boascondiçõesfÍsi- E uma falta de autoconfiança,de crençanas
dos os estádios estavam prontos a tempo. O cas,masconseguimosvencer.Osportugueses possibilidades de Portugal.
estádio de Wembley, em Londres, estava dois eramjogadoresmagníficos,eramtodosdo tipo
anos atrasado. Quem é o inútil que não sabe CristianoRonaldo[riso]. A propósito da Expo, há uma história que
construir um edifício? talvez nos deflna enquanto povo: fazer a
Consegueperceber araiz desta dificuldade inauguração de uma obra de engenharia
Não sabia disso. que temos em ser organizados e em traba- brutal, como é a Ponte Vascoda Gama,com
Mas esse é outro problema dos portugueses: lharmos uns com os outros? uma feijoada.
têm pouca noção do "lá fora". O escândalo É aincl. É cadaum por si. Para15mil pessoas[riso].
com as despesasdos deputados do Parlamento
inglês (estavam a pôr como despesas a cons- Não um por todos, mas cada um por si? Essagargalhadaé elucidativa. Fazera felioa-
trução de uma casinha e de um jardim) foi Sim. Não sei a respostaa essapergunta,vou da só ocorreria a um português, não é?
uma vergonha enorme. Se tivesse acontecido pensando,depoisdigo. Oslusitanoslutavam Claro.É castiço,é óptimo.Osportugueses sabem
em Portugal, os portugueses tinham dito que muito em conjunto,tanto quanto sei.NosDes- muito bem fazero conúüo. Devezem quando,
isto era a república das bananas, que isto era cobrimentos,a motivaçãoeraa riqueza.Um ca- com os meus cunhados,vou ver o Benficaao
o Terceiro Mundo. O problema é que notícias pitãofrancês,no períododosDescobrimentos, Estádio daLuz; a melhor parte para mim são
destasnão chegam aos portugueses. Leio mui- descreveuos portuguesescomo sendomuito aquelasduashorasantesdojogo, a comercou-
tos jornais ingleses, e os casos de corrupção, ambiciosos. Quandosepensaqueforamüstos ratos,bifanase a beberimperiais.Todaagente
de má gestão e falta de empenho nos serviços dessamaneira,pareceestranho. bem-disposta,toda a gentea falar.Seestivésse-
públicos são casosde todos os dias. mos em Inglaterra,estavaa chover,estávamos
A ambição é mal vista em Portugal. a pagarimensodinheiro por umpinÍ, a comida
Em Portugal, as palavras acusatórias são Uma pessoaque tenta chegaralém é porque era uma porcaria. Chegaa um ponto em que
sobretudo para os polÍticos e para a grande seachamelhor que os outros. uma pessoatem de escolhero que é que quer:
trapaça. Se se for chico-esperto, se se con- ser maispobre masfeliz, ou rico e infeliz.
seguir contornar o sistema, pelo contrário, E é melhor nivelar por baixo. Há uma série
é-se olhado com bonomia. de expressõescom uma cargapejorativapara Depois do jogo do Benfica, vai para a sua
Até há pouco tempo, o homem que fugia aos os que sobemsocialmente.'Alpinista social" vida e trabalha para uma empresaestrangei-
impostos era o grande herói!Aquele que con- é um bom exemplo. As pessoassentem-se ra. O grosso dos portugueses trabalha para
seguia dar a volta ao Estado, e evitava pagar 5O ameaçadasporque outras conseguemo que empresasportuguesas, com produtividade
euros em impostos, era o campeão. Andar no elas ou não conseguemou não se propõem reduzida. O problema é que não consegui-
limite de velocidade nas estradasou conseguir conseguir. Ou porque sentem que são ame- mos um equilíbrio entre os couratos e o la-
estacionar sem pagar são pequenas vitórias açadasquando outras chegam lá. do castiço, a produtividade e o mínimo de
do dia-a-dia. Aspessoas sabemqualé o problemadePortugal, riqueza.
osportuguesessabemmuito melhor do que eu É verdade"Umapessoavê comoaspessoas vi-
E nada disso é uma grande aventura. Co- quais sãoos problemasde Portugal.Sabemo vem no interior...É abissala difeiençaentreo
mo naquele verso de O'Neil: "Em Portugal que era preciso fazer;masnão fazem.É mais litoral ou ascidadese o interior.Osportugueses
a aventura termina na pastelaria." Parece umavezaquelafrase:'A culpaé dele!" sabemque a produtividadeé um problema,
que tudo tem uma escala de bairro. mas ninguém se esforçamuito para mudar.
E acabam por fugir do país para fazer uma De qualquer modo, e voltando às contradi- Alguns esforçam-se,têm sucesso,como a
coisa maior. ções,são inexcedíveisquando têm um ad- JerónimoMartins.O grossodasempresas,@
presária de algum sucessoe com uma menta-
lidade "muito lá fora", tenha dito: "percebo
Salazar. O que estava adizer tem aver com os
valores, com a maneira como queremos vi-
ver." Os portugueses não querem viver como
os americanos, gostam da maneira de viver
em Portugal. Queixam-se muito, mas gostam.
Se os portugueses não gostassem da vida em
Portugal, já tinham mudado. Gostam de ir al-
moçar durante uma hora e meia, duas horas,
à sexta-feira.

À sexta?
Todos os dias são sexta-feira em Portugal. Os
portugueses chegam tarde ao trabalho e depois
flcam lá mais tempo a falar... No fim do mês,
queixam-se que recebem pouco e que lá fora
é melhor.

Não são grandes adeptos da mudança. Te-


mem-na.
É aquela coisa de agarrar uma bóia de salva-
"pelo menos
ção, tenho isto, pode não ser
muito...".

Salazar foi a grande mossa no Portugal do


séc. XX? Se não fossem os 48 anos de ditadu-
ra, seríamos hoje um país substancialmente
diferente? As raízes são muito anteriores e
isso apenas veio tornar ainda mais funda a
nossa depressão?
A passividadejá lá estava.Um ditador como Sa-
lazar não teria sobrevivido, como sobreviveu
politicamente, por tanto tempo, sem um povo
que aceitava isso. Houve quem lutasse contra, e
se se perguntasse havia muita gente que gostava
de ter mudado. Mas para um mandão ter sucesso
é preciso pessoasque aceitem ser mandadas.A
agressividade e o medo de levantar avoz foram
calcados.

Quais são as grandes fracturas à nossa iden-


tidade, os grandes acontecimentos que mar-
caram traços no nosso modo de ser? O se-
bastianismo é determinante?
Os Descobrimentos, sem dúvida. O sebastia-
nismo, também. A parte interessantedo sebas-
tianismo não é aquela de que as pessoasfalam
- de que o rei vai voltar das brumas para nos
salvar. O interessante é que isso não exiç nada
dos portugueses! O gajo vem ou não vem, isso

55
especialmente as do Estado,vivem de fazero é com ele. Fico aqui à espera, no sofá, a beber
suficientepara sobreviver.Então não se po- 'Jolas" e ver
a televisão, na boa.
dem queixar.
Está a falar de passividade.
O desafiodas Descobertas,Aristides Sousa Quando estava afazer a reportagem dos 25O
DouoexemplodoEuro Mendes na SegundaGuerra, a mobilização anos do Terramoto de Lisboa e andava pela
pró-Timor nos anosmais recentes.É espan-
2OO4:todos os estádios toso, quando do nada temos estaserupções
Mouraria e Alfama, perguntava às pessoas na
rua se não tinham medo de que houvesse outro
estavamprontos espontâneas,ousadiae brilhantismo. Porque terramoto; diziam: "Pode ser, mas o futuro a
é que isto não nos dá mais vezes? Deus pertence." Os peritos em emergências e
atempo.0estádio Faltasolidez,consistênciada acção.Vai tudo desastres naturais ficavam doidos com isso.
dar ao mesmosítio,ao medo.À desconfianÇa, Sendo assim, as pessoasnão se previnem con-
de\Membley,em à falta de apetitepara correr riscos. tra o desastre. O dia de amanhã a Deus per-
Londres, estavadois tence, é verdade, mas a minha casaé um bem
Salazar,numa carta enviadaà Coca-Cola,em que me pertence; isso não quer dizer que não
anos atrasado. Quem 196O:"O senhor arrisca-sea introduzir em possa fazer nada na minha casa.
Portugal aquilo que detesto acima de tudo, Há um outro exemplo que vai no mesmo sen-
éoinútilquenãosabe o modernismo e a famosafficiency." tido, o de os portugueses serem os que mais
Disseque Portugalera um sítio pacato, que apostam nos jogos de sorte. É uma demissão,
construirumedificio? queria que frcasseassim,que tinha medo do em certo sentido, daquilo que cada indivíduo
progresso,que não queriaque os camiõesda pode fazer pelo seu destino.

)9 Coca-Cola mudassemo ritmo de vida dospor- Tudo o que é bom vai cair-me do céu, vai cair-
tugueses.Uma coisaainda mais interessante me no colo, fico à espera. E as pessoaspensam
é que a minha mulher,que é portuguesa,em- que a mudança começa no outro.
Como deslocar essecentro de decisão do lharem muito, se se esforçarem,pouparem, tinuavamcom um sorrisona carae com o gozo
outro para si próprio? investirem bem, arriscarem,vão conseguir pela vida que os portuguesestêm. O jantar e
E nestecontacto com as culturas lá fora, sim- chegarlá. Olhamparaa pessoaque tem [com almoçarfora, o conúvio, a tertúlia,sãoa alegria
plesmente.O intercâmbio com o estrangeiro desconfiançal:"Deve ter conseguidoaquilo de viver que os portuguesestêm. Têmtristeza,
é muito forte, diário. É por aí que Portugalvai atravésda malandrice,ou tem uma cunha." mastêmjoy in their heart.
mudar, mas vai ser muito gradual. Secalhar Tem a ver com a frustração de não acreditar
ninguémdá por issono dia-a-dia,mas numa que consegueter a mesmacoisa. Têm o fado...
geraçãovai ser diferente. Ejoie de vivre ao mesmo tempo. Pareceque
Portugal tem duas características que se uma coisanãobatecertacom a outra,mastêm.
Jáé diferente?É normal dizermos dosjovens relacionam com essa;uma delas é não ser Têmmuita resistência,sãomuito fortes,adap-
portugueses que são alheados da política, uma sociedademeritocrática, a outra é tudo táveis.Têmo "desenrascanço",queé umacoisa
que não têm cultura geral, que sãoimprepa- passar impune. Se nada à volta funciona, magníficaque os gajosdatroika não sabem,e
rados. Todavia, cada vez mais pessoastêm porque é que hão-de conseguir? que os analistaslá fora também não sabem.
um nível de escolaridade superior ao dos A justiça é um dos grandesproblemas.Todas Deviam saber.Os portuguesesmostram que
seuspais, e uma abertura ao mundo com a essascoisasbarram o caminho. Lá vem outra conseguem,sófaltadestaparaquelepotencial.
qual aqueles nunca sonharam. veza frustração.E a meritocracia:mesmoque Vai demorar mais uma geração,mas não me
Portugalnunca teve tantos licenciadosna sua nosesforcemosmuito, nãovalea pena,nãovai preocupo com Portugal.
história, mas continua a haver abandono es- dar a lado nenhum. Quemtem poder não vai
colar.Osmeusfilhosandaramtodosna escola largáìo e vai impedir que outros o venhamti É como oJacinto,a personagemd'AsCidades
pública;contam-mehistóriasde alunosquenão rar. É aquelacoisado bairro, metaforicamente. e asSerra.s,que mesmo que diga que tudo
queremtrabalhar, não querem estudare que Osmédicostêm o seubairro, os magistrados está mal - e no seu caso náo diz que tudo
depoispensamque têm direito a coisas. têm o seubairro, osprofessoresuniversitários está mal - acaba por ficar.
têm o seubairro. Cadaum vive no seubairro, Osportuguesesdizem mal de Portugal,dizem
Não têm deveres e têm direitos. e todos defendemaquilo com unhase dentes mal uns dos outros, masadoramPortugal.
É uma coisaque vem depois do 25 de Abril contra quem entrar.
fl9741.Todaa gentefala dos direitos,ninguém Como alguém da nossa família que não su-
falanosseusdeveres.O deverde serbom cida- E dentro do bairro comem-sevivos, se pos- portamos, mas que é da nossafamília.
dão, de ser bom trabalhador,de ser bom pai, sível. Osportuguesesgostammesmo,mesmode Por-
bom estudante. Sim.E depoisosbairrossãocadavezmaispe- tugal. Sepudessemficar cá, frcavam.
quenos,atéchegaraobairro maisportuguêsde
Masosportuguesestêm uma óptima ideia de Portugal:o portuguêsdentrodo seuautomóvel. Fazemosa entrevista num hotel de cinco
si próprios. Acham que são bons cidadãos, O comportamento:gdtar com os outros,não estrelas,há estrangeiros,políticos e empre-
bons pais e bons trabalhadores. ter paciência, não ter civismo, não respeitar sários. Na mesa do lado, com um ar muito
Sim, a culpa é dos outros, o outro ê que faz sinaisde trânsito nem limites de velocidade. pato-bravo, falavam alto, tinham uma roupa
mal. "Soueu contrao mundo." É umasituaçãoonde demasiado engomada, um deles escarrava.
dá paraaliviaralgumaraiva,algumafrustração. Senti aquele embaraço que os portugueses
Tendemosa olhar para nós, individual e co- Aquelegestoque o ZéPoünhofazé o gestoque sentem quando um de fora estápara chegar
lectivamente, como os bons da história. os portuguesesfazemuns aosoutros todos os e não queremos fazer fraca figura. Somosin-
Sim.MasnosDescobrimentos os portugueses dias. O comportamentono automóvelé o cú- corrigíveis?
levaram quatro milhões de escravosatravés mulo disso.Pareceuma mutaçãopara quem TêmsidoincorrigÍveis.Oportuguêsnãodá mui
do Atlântico.Foi a maior emigraçãoforçadada não conhecea cultura portuguesa. to o braço a torcer, para ser corrigido. Essa
históriado homem.Oliwo deAnaBarradasfala mudança, quando vier, vem de dentro. Essa
disso.Osportuguesesnão sabemisso,dizem Se falasse com os senhores datroika, que mudança que tem de haver em Portugaltem
apenas:"Descobrimoso mundo, começámos problemas lhes diria para atacar mais do devir debaixoparacima,tem de serao contrá-
aglobalizaçâoJ' que tudo? rio do que tem sido até agora.Osportugueses
A justiça,a educação,onde há poderesinsta- estãosempre à esperaque caia tudo o que é
Nãoolhamospara o sofrimento que infli$mos? lados. Mas a troilcatem de aprender que is- bom de cima para baixo. Osportuguesestêm
NosDescobrimentos,na guerra colonial. so não sevai fazer atravêsde um tratado, um de deixar de esperarpela mudança,têm de
A escravaturae a üolência queexerciamquando papel assinado.É uma mudançacultural que ser elesa mudar.
chegavama novasterras era dosespanhóis,dos tem de existir.
portugueses,dosingleses,dosholandeses.Dos Se os paísessão como as pessoas,no caso
inglesesjá se fala muito, por causade filmes, Já chegámosatempo suficienteda entreüsta de Portugal, ainda êoZê Povinho quem nos
de liwos, dasatrocidadesque houve no Qué- para perceber que não responde como um identifica melhor?
nia contra os Mau-Mau.Osfrancesesf,zeram português. Tem uma enorme preocupação Sim. É fascinantecomo continuam a ser tão
a mesmacoisana Arçlia. Osbelgasno Congo. em ser preciso nasrespostas.Osportugueses pertinentes aquelascaracterísticas.Hão-de
EmPortugal,têm ideiade quesefalassemdisso são mais detalhados, adjectivam mais. ficar maisfortes, fazemparte domake upbio-
seriammalvistos.Nãoqueremficar vulneráveis, As entrevistascom portuguesespodemserum lógico de um povo.
ser criticadospor estrangeiros.Masenfrentar bocado longas[risos].Tambémé uma coisa
essasrealidadesajudamuitoum paísa abrir-se, jornalística. Os inglesessão muito práticos, Mantém-seo "Toma!", mas deixámos de ser
é um empurrãoparaa frente.Quandoaspesso- aquiloé pão,pão, queijo,queijo."Istojá está, tão barrigudos e de usar chapéu.
asconseguemfalar disso,conseguemfalar de vamospassarà próxima" é uma coisainglesa. O 'oToma!"continua, mas tem de ser menos
outrascoisas,do quenãogostamna política,na Não perdem tempo nas conversasde corre- conclusivo,tem depoderserultrapassado.
Tem
sociedade,na democracia.Abre uma brecha. dor. É o espíritoluteranodo trabalho,trabalho, de haveroutra maneirade encararasrelações
trabalho (embora depois das cinco vão para de uns com os outros. O "Toma!" pode ficar
Até agora falámos sobretudo do medo. Ain- os copos).Osuniversitáriosportugueses,os para aquelesque continuam a não merecer
da não falámos nenhuma vez de inveja, a jovensportugueses,começama serassim.Vão respeito.
mítica palavra com que Camõesencerra Os muito lá fora, escrevemde uma maneiramais
Lusíadas.Osportugueses dizem que são in- imediata, focada,vão dar aulasem Espanha, Há uma frase preferida para traduzir a es-
vejosos - que o outro é invejoso, nunca o França,Inglaterra,EstadosUnidos. sência dos portugueses?
próprio, bem entendido. Há. O meu poeta preferido, em qualquer lín-
"Senão possoter, não quero que os outros te- Enquanto isso, outros, e no dizer de Mark Descreveos portu-
Sua, é o lMiguel] Torga.
nham.Ficoaqui com asminhascoisinhase fico Twain, estão "insolentemente felizes". guesescomo sendoum "pacífico colectivode
contentinho."O "inho" vem tambémde uma Foi numa visita aosAçores.Mark Twain des- pessoasrevoltadas".ffi
frustraçãonavida, de sentir que não consegue creve o modo como as pessoasviviam, em
ter. Osportuguesesnão pensamque setraba- condiçõeshorríveis;mas,mesmoassim,con- anabela.mota.ribeiro@publico.pt