S1-versaoFinal

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Continuação do estudo para uma consistência:
Restrições de Deslocação e de Lugar
Por Teresa Luzio

Introdução Propôr-me a reflectir sobre o sentido de contemporaneidade, a propósito do Seminário Interrogar a Contemporaneidade apresentado pelo Professor Helder Gomes, para o Doutoramento da FBAUP, significa pensar sobre mim própria no mundo, o papel do artista, HomemPoeta, não na História mas neste meu tempo, e em que sentido uma linguagem artística, a minha, se constrói sobre este tempo, e o que se propõe a fazer. Assim, desenvolverei este texto a partir de uma intervenção artística realizada por mim, em 2005 na cidade de Weimar, intitulada Estudo para uma consistência: Restrições de Deslocação e de Lugar. A intervenção tinha como um dos objectivos o desenvolvimento de uma estratégia artística que permitisse a construção de uma relação entre a artista e um Outro, usando como intermediário um objecto pessoal da artista, considerado aqui como objecto artístico. Um diário gráfico. A estratégia iria desenvolver-se enquanto solução intermediária que é, do meu ponto de vista, o propósito dessa intervenção, concretamente, cujo fim seria a própria experiência de conceber como uma espécie de operação matemática, um problema que apenas poderia ser resolvido através da imaginação, ou da proficiência artística. A estratégia seguiu-se; coloquei uma nota dentro do diário gráfico com a seguinte pergunta, “Was würdest du tun, wenn du diese buch findest?” (“Que farás, ao encontrar este caderno?"), rasurei tudo o que me identificasse, e abandonei o diário gráfico num banco de jardim no centro da cidade de Weimar. Documentei por meio da fotografia e do vídeo todos os momentos que se seguiram até à perda total do objecto. A sua perda era o principal objectivo. Entre as intenções do artista e o seu cumprimento existe aquilo a que Marcel Duchamp chamou “o coeficiente da Arte”, ou seja, citando as suas próprias palavras: (…) "a relação aritmética entre o inexpresso desejado e o expresso indesejado."¹ É no pressuposto de uma aparente contrariedade do acto criativo, que surge o desenvolvimento da intervenção e do presente texto, que será desenvolvido em quatro ideias iniciais. No propósito, na espacialidade, na temporalidade, e na funcionalidade daquele objecto pessoal que eu fui desenhando e coloquei na rua como um objecto artístico.

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e o tempo que os desenhos e observações tornam eternos que assumem a maior importância. as ideias instantes. O diário gráfico é um objecto pessoal e íntimo do artista mas faz-se aqui em objecto artístico.revelando uma noção de corpo como uma extensão da terra na direcção dos céus.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM I. a que chamaremos de “curioso”. não pretendem que lhes seja reconhecido qualquer valor estético por parte do público. Porém. Bourgeois está menos a questionar o local centrado no sujeito do que a representá-lo como se ele se tivesse arrancado ao corpo. ou contemplativo. em primeiro lugar. Bourgeois é uma importante referência para mim. em imagens ou palavras. no qual cada um tem o seu papel (em fase de escrita)”². primeiro. Ainda assim. seduzido. as fórmulas que ele emprega para se relacionar com essas preocupações. é a estranheza do objecto no lugar que faz adquirir maior importância. Contudo. é uma forma de transformar os vários impulsos e sentires imediatos. por simplesmente se encontrar num banco de jardim. não somente no que diz respeito à sua linguagem visual. um aglomerado de desenhos que enfrentam e se expõe ao mundo exterior. onde encontro afinidades no desenho. são as suas cores. a um espectador a nível individual. Uma forma de materializar uma identidade que se foi transformando ao longo desse período de tempo. O propósito da intervenção Louise Bourgeois traduz uma preocupação artística no estar “alerta às complexidades da emoção humana”. enigmático. Também não perde o carácter original de representação das ideias por se encontrar dentro de um diário gráfico. uma espécie de consciência individual num espaço comum como o mundo-. ou corpos. carácter bem distinto do dos objectos artísticos. A estratégia artística dirige-se. Desenhar uma série de momentos em que me confrontei e me questionei a mim mesma durante dois anos . pois não abandona o seu perfil sedutor.quando ela (re)assegura que “O mundo é um teatro. É um objecto que contém as preocupações da artista. objecto singular e indivisível. que se manifestam através de uma contínua abertura para com um espaço interior e privado. e do espírito como uma extensão dos céus em direcção à terra. os métodos e maneirismos do seu modo de pensar. aos desenhos inscritos no seu interior. para o interior de uma acção que é levada a Page 2 of 14 . Os seus desenhos e textos também expõem clara e profundamente a sua capacidade intensa em penetrar no universo do Eu. as imagens mentais. mas também e sobretudo no que diz respeito ao reconhecimento de impulsos repentinos.

por outras palavras. quando o "curioso" encontra o universo interno do diário gráfico. conduzido para fora desse centro do objecto artístico que é o diário gráfico. ou. como um modo de fazer emergir os efeitos do trabalho. uma nota é mesmo deixada nesse sentido. que se abre à possibilidade de vir a perceber-se a intenção da artista. como afirmei – e através do qual a artista executa uma libertação (a um só tempo interna. tal fica a dever-se ao facto de ser um objecto privado. é o elo de comunicação residual que se estabelece entre artista e "curioso" na nota deixada no interior do diário (já para não falar de todo o seu conteúdo). mas antes em direccionar a atenção para o objecto. e. Wenn du diese Buch Findest?” (“Que farás. tal qual como eu o fiz. a que chamaremos de “leitor”. me imaginar a mim mesma centrada nesse momento particular de tempo e espaço em que o livro me é arrancado quando o livro deixa de fazer parte integrante de mim mesma. E esse momento será um momento de interpretação mística em que os códigos e métodos usados para atrair esse alguém serão invisíveis à fotografia. Apercebo-me então que devo associar-me ao movimento universal de crescimento e não adormecimento. ao encontrar este caderno?”). se se fascinar com ele. A artista fica dependente desse equilíbrio. Para mais. Page 3 of 14 . o transeunte que for psicologicamente sensível à busca do significado e dos conteúdos do diário estará igualmente preparado para tomar a decisão sobre se o guardará ou não. na direcção da sua documentação. depois. não há interesse de qualquer espécie em chamar a atenção para o artista enquanto sujeito. Quer dizer. emocional e viva). vídeo e literatura. O "curioso" é deixado assim ao seu próprio arbítrio. A artista corta quaisquer laços de intencionalidade atingindo uma posição anónima.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM cabo num espaço exterior. ao deixar partir o diário gráfico. Deixar partir o diário gráfico num espaço exterior é como experienciar um fenómeno parecido com o da transmutação do Eu. Todavia. Estou consciente de que. e o abandono de uma autoridade artística que não é mais satisfatória -. desta feita convocando a estratégia uma espécie diferente de espectador. mas sim uma forma de integrar também o "curioso" através do toque sedutor do objecto. na qual a artista comunica directamente a seguinte pergunta: “Was Würdest du Tun. O risco que corro nesta situação é a possibilidade de. aberto. Não se trata somente de uma questão de experienciar esse frágil momento quando o objecto se torna vulnerável ao exterior.

revolucionando o nosso modo de percepção. A nossa identidade (o eu cultural e social). famosa praça de Weimar. A escolha deste local deve-se à diversidade possível de leituras de tempos. e sobre o desequilíbrio permanente entre ficar e partir. sem o peso dos corpos. como pensamos e o que sabemos. Estudo para uma consistência . é parcialmente formada pelos espaços onde nos colocamos. Os espaços onde nos movemos e que habitamos moldam-nos. aqui e ali. apropriando-se de troços de terra. E tal não se cinge somente àqueles espaços mais imediatos e familiares – como o lar. e as imagens que nos transportam. eles explicam o que somos. ou os modos de comunicação que tornam uma quantidade significativa de informação acessível. satisfazendo as suas necessidades físicas e intelectuais. ligo os pontos com a arte que produzo num espaço externo. O espaço da intervenção Desde as origens da espécie humana que o homem tem territorializado as coisas.”³ A facilidade com que a tecnologia dos nossos dias nos torna acessíveis informações e meios permite que o indivíduo não permaneça no mesmo local. O diário gráfico é abandonado num banco de jardim (um dos locais possíveis de paragem provisória definidos por Foucault). através de espaços de charneira. ou melhor. esta deslocação constante. para locais outros. quer de pessoas quer de objectos ou ideias. fica vulnerável nele o Page 4 of 14 . tais como os modos de transporte que se movem a velocidades diferentes. Somos testemunhas vivas de uma sociedade na qual a tecnologia “conquistou o mundo com o seu modelo de identidade global. A evolução e expansão da desterritorialização contemporânea são análogas às verificadas na esfera da tecnologia. tal como as tem desterritorializado. a todo e qualquer momento em que essas necessidades tenham exigido novas condições. o bairro ou a paisagem que vemos das nossas janelas – mas engloba ainda os espaços que visitámos como turistas. ou que simplesmente atravessámos a caminho de outro lugar qualquer. de mudar o que nos rodeia. Entendo a desterritorialização como uma deslocação voluntária. como vemos. e também enquanto artista. o anseio de conhecer o mundo. Para mais. mas antes se encontre em permanente movimento entre espaços reais e imaginários. de um ponto A ao ponto B. aos tempos que predominam neste lugar. e é graças a essa falta de equilíbrio e à afirmação desse ritmo que considero alcançar o tão desejado acto criativo.Restrições de Deslocação e de Lugar pondera a inevitabilidade de uma identidade que se estrutura sobre este movimento constante.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM II. numa das portas principais que leva ao eaterPlatz.

um espaço livre. do remoto e do próximo.”⁴ Page 5 of 14 . entregue às mãos de uma vida ora lenta e quotidiana (o “tempo morto” de um passeante descansando). Há um espaço imaginário. a sua função. É em relação a esse espaço que elaboro esta libertação. que é o espaço do direito à autoexpressão. em benefício de um conceito de identidade global. Este projecto decorre num espaço público onde acontece uma prática de apropriação singular: a apropriação de uma mensagem pequena e simples rabiscada nas páginas do diário. ora acelerada ( o “tempo movente” dos transeuntes apressados que atravessam a praça numa qualquer direcção). declarando o fito da artista. aberto à arte. e que reemerge como uma experiência de espaço: “vivemos na era da simultaneidade: vivemos na era da sobreposição. do geminado e do disperso.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM objecto artístico. colectivamente homogéneo. as suas preocupações.

“A estética da conectividade ataca a raiz dessa alienação. de uma forma tão crucial que pretendo experimentar a transmutação do Eu⁷. pressupõe um corte para com as outras fronteiras menores.”⁵ Em Transição . ao estar posicionada na e agindo sobre a vida quotidiana. sendo a arte o lugar em que essa libertação individual se alcança.” Segundo Gablik. está aberta ao quotidiano. Nos nossos tempos contemporâneos. numa qualquer margem poética entre a arte e a vida. e. pois é a sua própria independência actual que faz da arte um meio de comunicação possível em áreas muito diversas. localizada num espaço exterior. totalmente independente e isolado de todos os outros Eus do mundo e do próprio mundo. obliterandolhes mesmo quaisquer possibilidades de contradição. A estratégia do meu trabalho. aquilo a que autora chama precisamente “estética da conectividade. múltiplos e interligados através de redes culturais. é a de colocar o objecto numa posição intermediária. responsáveis por gerarem obstáculos ao papel da arte e do artista no mundo contemporâneo. isto é.Ciclopes.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM Terceira Ideia: O tempo da intervenção Suzy Gablik. porém. acima da própria vida. esse Eu extremamente individualizado encontra-se num processo de reintegração no mundo. discute alguns dos contributos da Arte Moderna para aquilo que haveria de emergir como as inovações do Pós-Modernismo. Apocalípticos. A incorporação de uma energia criativa na vida social é um desafio às convenções artísticas que abre uma nova percepção da realidade. de vizinhança. ao usar o seu espaço livre e os seus direitos à auto-expressão. Mutantes.”⁸ Estou decidida quanto ao emprego da autonomia do espaço da arte.”⁶ Sinto uma urgência em relação ao múltiplo. dissolvendo a divisão mecânica entre eu e mundo que se manteve durante a época moderna. “Os artistas são os guardas de fronteira de um reino que se encontra sob uma sociedade governada por administração. desejando ascender à experiência de me tornar outro. sinto estar a Page 6 of 14 . Bernardo Pinto de Almeida refere-se ao Pós-Modernismo como uma era de “disseminação em sujeitos e objectos difusos. uma urgência pelo agora de uma experiência com os pés no instante presente. A arte. A cura do mundo começa com o indivíduo que dá as boasvindas ao outro. Esta relação de proximidade. em “Connective Aesthetics: Art aer Individualism”. reinventando o espaço e alterando a experiência da localização. à experiência do mundo contemporâneo. a modernidade é caracterizada pelo desenvolvimento do indivíduo como um Eu individual.

e quais os limites das expectativas do artista em relação a esse reconhecimento. Apresentar. tempo interrompido. Não estou sozinha. uma expressão própria muitas vezes inacabada e aberta. como a pintura e a escultura. Seria esse o potencial de uma expressão artística contemporânea? Exactamente Agamben escreve sobre a relação com o tempo contemporâneo: (. perde a exactidão "desse" momento.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM dirigir-me “ao espectador individual a quem ofereço uma compreensão aberta que está dependente da colaboração dele ou dela. Deixar um diário gráfico para trás é a prova do abandono do objecto artístico. mais precisamente. Na singularidade do desenho encontro a inconsistência da representação de uma ideia num determinado tempo e espaço. Enquanto artista que faz emergir a acção e a obra de arte. de a desfigurar até ao ponto em que não reste nada senão um cadáver ou uma paródia da arte. trata-se antes de a colocar a ela e aos seus espaços específicos num uso tal que permita a inscrição de novos significados. e fortalece esta comunicação como sendo de importância extrema. dos mais tradicionais. e ganha qualquer coisa que desconheço. Os que Page 7 of 14 . Os desenhos e esboços.. afinal. assim.”⁹ Talvez partilhe de uma perspectiva romântica da comunicação no que diz respeito à relação de um certo conteúdo com um espectador particular. se torna o recipiente. Sou aquela que torna visível o facto de que aquilo que me alcança enquanto “inspiração” desponta. Trata-se de uma insatisfação por uma arte concluída. susceptíveis de poderem mesmo ser considerados superiores. a intervenção em espaços pouco comuns à arte (espaço público) permite que a relação entre o objecto artístico e o espectador se desenvolva a níveis diferentes. e afirmar. na pessoa que oferece a proposta. Parece que a arte contemporânea não se limita somente a estilos ou a locais. Por outro lado. carregam em si uma ideia. porque ao ser desenhada. em vez de meramente novos espaços permanecerem disponíveis à recepção da arte. aproximam-se do quotidiano.”¹⁰ Faz assim sentido repensar quão necessário é ao espectador reconhecer a arte.) A contemporaneidade é. “não é uma questão de destruir a arte. transformo o espectador num dador. que a ele adere e dele se distancia em simultâneo. de um Outro. num dado momento. uma relação singular com o nosso próprio tempo. porém. um diário gráfico como um objecto artístico é aceitar igualmente uma pessoal e profunda insatisfação que sinto quando me vejo diante de qualquer objet d’art. resolvida. o qual. por exactamente se separar.. traçada. pois o desejo da artista é o de reinventar esse gesto como um acto de resistência em relação ao objecto que é projectado e criado para um local específico. o destinatário. é essa relação com o tempo que a ele adere através de um desfasamento e de um anacronismo. Não se trata de identificar espaços velhos ou novos no reconhecimento da arte.

é contemporânea? A densidade da expressão da intervenção aqui apresentada. precisamente por isso. O diário perde-se para um outro e resta agora apenas a sua memória.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM coincidem demasiado plenamente com a época. não são contemporâneos. não podem fixar o olhar sobre ela. Uma arte que se move e é efémera.¹¹ Sugere-me pensar que a arte contemporânea localiza-se em terrenos movediços. capaz de se afundar e reerguer. Será nesta utopia que reside a contemporaneidade? Page 8 of 14 . ela não estabelece qualquer elo com nenhum território seja ele qual for. porque. que condizem em todos os pontos perfeitamente com ela. não conseguem vê-la. tem origem na contradição entre uma existência física (corpo) e uma existência emocional.

. Desta forma. seja este considerado mundo país.) “O corpo é o ponto de partida do mundo. quer a nível individual quer a nível colectivo se tornam exequíveis. sim. falo. O corpo não se encontra senão no coração do mundo. de Michel Foucault. (. não é o essencial. é a ideia precisa do lugar central que é ocupado pelo indivíduo e que eu desejo tornar manifesto através da presente intervenção. torno-me então num indivíduo anónimo. ou cidade. me mexo. trata-se da urgência do acto criativo da artista. por outro. acerca das representações contemporâneas do corpo nu com o real. Interpretar a arte como um espaço no qual encontros. aquele que todas as estradas e espaços atravessam. e somente observar. é um convite a ser tocado. ou melhor. O diário cumpre assim a sua função de fruição. talvez até mesmo para o perigo.. exploro o desejo de comunicar a ideia do corpo como espaço interno num espaço externo.”¹² A definição de corpo. Se me decidir a não tomar qualquer acção adicional. desejado. o pequeno núcleo utópico a partir do qual sonho. José Gil refere que "o corpo é lembrado como um orgão manipulável e transformável"¹³. A imagem do corpo contemporâneo. que ele se transforma num objecto a ser consumido. volto a ser a pessoa anónima que antes era: surge assim uma comunicação feita somente através do objecto artístico. o qual não é senão o revelar da sua própria vulnerabilidade no espaço exterior (no espaço). em Weimar) através dos desenhos. mas será sempre assim para que cumpra o seu próprio destino. seria reduzir a relação da arte no mundo. ou computador. para além da de abandonar o diário gráfico. contudo. Contudo. estou. video. através da revelação de desenhos e textos que traduzem e pressupõem um processo de manufacturação. ainda como artista. tem sido explorada Page 9 of 14 . É neste momento de possível desfrutamento entre o pequeno objecto e o "curioso" espectador. Por um lado. a colocar-me fora da acção que se desenvolve pelas suas determinações inerentes. expondo-o a um uso que permite integrar o "curioso" na declaração dupla de ser individual e ser colectivo. imagino e entendo todas as coisas no seu lugar apropriado e as associo umas às outras através do poder infinito das utopias que eu mesmo consigo imaginar. sem que o cerne da acção seja o sujeito através do objecto privado tornado objecto artístico. Também comunicar o espaço interno desse corpo num espaço externo como a rua (neste caso concreto. por meio da fotografia.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM Quarta Ideia: A função da intervenção O diário gráfico parte e é libertado. devorado.

S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM com recurso á tecnologia numa abordagem conceptual da tridimensionalidade do corpo nu. ora através de um "corpo-sem-orgãos"? Um corpo sobrenatural capaz de estar em lugares distintos e diversos ao mesmo tempo? Expressar os meus impulsos através do happening não é o único meio de me relacionar com o mundo. seja esta a do questionamento da própria ideia do artístico. na busca de aceder à alma.) através da própria transformação do corpo". quer a nível pessoal ou social. uma forma diferente. diferente. representando-o."¹⁴ Page 10 of 14 . seja esta a de um claro horizonte semântico. sempre despedaçando esse Outro. seja a de uma função. será a "manifestação da verdade (. Não será o corpo sobrenatural que o artista contemporâneo procura. embora experimento a ideia utópica de me transformar num Outro através das acções. forma de aceder e explorar o dentro do corpo. é a função que caracteriza a imagem do nu contemporâneo. nas suas tentativas em se transformar novamente num corpo novo. A instabilidade é uma característica do nosso tempo. Mas se por um lado se explora o "dentro" do corpo físico. os orgãos.. mas na remissão para uma alteridade.. explora. que segundo José Gil. num múltiplo. sempre em movimento. as vísceras. ora através da expulsão dos orgãos para o exterior. e enquanto conteúdo nas diversas linguagens artísticas da arte contemporânea encontro afinidades quando Helder Gomes afirma "que toda a arte se funda na consciência implícita da pertença a um território e a uma identidade (…) os exemplos mais marcantes e conseguidos talvez sejam aqueles que se fundam num movimento de diferimento dessa identidade: não se afirmam no assumir de uma identidade. que possa assumir uma identidade que se forma a ela mesma através de um caminho pessoal e artístico e que se define como uma instabilidade ao lugar.

quase até ao ponto da obsessão. É possível que me tenha desviado do objectivo principal que era a intenção de pensar a minha linguagem artística neste meu tempo por meio de um objecto de estudo. conceitos e reflexões. ou o contrário. talvez por isso muitas das questões aqui surgidas não foram respondidas. A sedução passa pelo momento exacto em que se sente que o objecto artístico se distancia do objecto escrito. subsequentemente. sendo por isso associado ao sentir. até mesmo uma total falta de sentido. isto é. O objecto escrito tem a necessidade de abarcar a sua própria incapacidade em explicar cabalmente o objecto artístico. recorrendo ao outro mundo. colocando-o “fora”. Para mim o laboratório da arte encontra-se no quotidiano. o seu significado profundo e original é o lado vivo do imaginário. sentir/experimentar versus pensar. e observando meticulosamente. a ficção e o modelar artístico do inexplicável. numa área de acasos Page 11 of 14 . O desafio a que me entrego. De certo modo tenciono respondê-las. em que tudo é permitido. o dos objectos artísticos e intuitivos. todos os momentos que ele experienciará. rigorosa e auto-crítica é uma tentativa de conhecimento. autónomos. uma forma de interrogar todo o percurso que presentemente tomam a própria arte e o círculo das artes. mas antes fazer com que a sua vulnerabilidade inerente fique realçada. encontro-me num processo de busca e aperfeiçoamento. o traço mais importante deste objecto que agora segura nas suas mãos. ao mesmo tempo. situa-se na relação de coerência entre este e o objecto artístico e. A minha escolha não é a de abandonar o objecto artístico para que este entre numa desintegração total. idêntico ao conhecimento laboratorial. Renée Green refere sobre a relação da ciência com a arte. por natureza. De uma perspectiva muito pessoal. "Pensar significa pensar demasiado e entra em conflito com o experimentar (que é considerado em termos binários."¹⁵ Se na esfera artística a "ciência representa o pensamento" também é verdade que o processo criativo.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM Conclusão Antes de mais. Mas esta ideia de um objecto artístico ser colocado no seu próprio caminho e destino é. propus-me um pequeno desafio em organizar as minhas próprias ideias na tentativa de fazer um objecto escrito acompanhando um objecto artístico. ou uma estratégia artística definida. colocar o diário gráfico num caminho tal que me libertasse da necessidade do reconhecimento do objecto. aqui a intervenção. no qual a única exequibilidade é experimentar. o seu mútuo afastamento. Neste mundo perplexo feito de palavras. pois ambos são. O diário gráfico penetrou numa zona de perigo. aquele espaço em que o intelecto é reduzido a uma mera insatisfação.

e não obras de arte em si. como. ou até mesmo apenas ao seu diário. e que é uma parte integrante do objecto documental porque interpreta e revela a separação da artista de uma arte puramente individualista. mas é através deles que o não-objecto é apreciado. como o é a própria vida. objectos. O outro vídeo. através de acções. e devemos abrir a discussão a estes conflitos internos que nos limitam e nos obrigam a tomar decisões. o arquivo da acção sobre a qual desejo que as pessoas centrem a sua atenção. Talvez não tenha conseguido explorar o sentido da minha afirmação de que o diário gráfico é aqui um objecto artístico mas isso talvez se deva ao facto de a natureza da própria arte. as colecções podem ser formadas e os livros de arte ilustrados e são estes documentos que desempenham um papel familiar nas exposições de arte conceptual. Os nadas voláteis da encenação conceptual deixaram para trás uma quantidade sem fim de Polaroids. A ideia romântica. mas também uma decisão consciente da artista. uma premente pulsão que acompanha os ritmos da vida. e faço-o para que se crie um arquivo. O livro é o arquivo fotográfico de toda a acção.»¹⁶ Para o capítulo documental do meu projecto emprego uma comunicação flexível por imagens usando meios audiovisuais. sendo o seu fim último fazer emergir mudanças. não regista apenas a acção. Arthur Danto "resume": (…)«Os ‹documentos› são. Sobre a importância da documentação na arte conceptual dos anos 60. o momento de maior pressão é o agora. Habität für Dokumentation é o título de um objecto holístico composto por um livro e duas cassetes vídeo.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM externos e aleatórios. Na arte contemporânea parece que a memória excede a importância da obra. Não são candidatos para avaliação. por exemplo. assumir contrariedades. Aquilo que poderemos observar no vídeo é uma espécie de acto autodestrutivo. como um acto regenerativo necessário a essa restrição interna que é muito natural ao ser humano. Para a artista. mas interpreta-a através da memória da artista. ainda que noutro contexto. seja de que maneira for. certamente. Um dos vídeos foi realizado antes do abandono do diário. aquela decisão que nos leva a decidir se devemos partir ou se devemos ficar. hoje. mas o consenso é de que são meros documentos. textos rabiscados ou dactilografados. através de fazeres. os registos através dos quais a propriedade das obras de arte pode ser transferida. objecto no qual condensa um certo tipo de tempo e espaço. espero eu. não é de todo já satisfatória. Não faz sentido algum na contemporaneidade. desta vez editado tardiamente. já antes citada. Ainda vejo a arte como um espaço aberto a gestos capaz de gerar um questionamento permanente do meio no qual a própria arte reside e se movimenta. Page 12 of 14 . do artista solitário delimitando a sua comunicação e preocupações a um grupo reduzido de amigos. fotocópias de mapas.

Arthur Danto. pelo menos em parte. ____________________________________________________ NOTAS ¹Marcel Duchamp. Bookforum. a consciência de um acto e foi também o transformar a gerência de um momento da minha própria vida em algo tangível à arte que produzo.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM Na verdade.2000:96 ⁸Alfons Hug 2004:28 ⁹Ameida Pinto 2002:23 ¹⁰Ameida Pinto 2002:156 ¹¹Agamben 200?:20 ¹²Foucault 1967. «Holes For Sale». 1999:19 ³Belting 2004:41 ⁴Foucault 1967. 1995. No fim de contas. Verão 25 de Julho 1969.1984:2 ¹³Gil 2007:122 ¹⁴Gomes 2010:42 ¹⁵Green 2002:237 ¹⁶Green 2002:235. foi essa mesma a estratégia.137 Page 13 of 14 .1984:1 ⁵Gablik 1995:86 ⁶Almeida Pinto 2002:85 ⁷Deleuze 1993. in Recording Conceptual Art. p. obra citada. aquilo que tentei trazer à materialidade destas mesmas páginas e do projecto foi. 1957:77 ²Louise Bourgeois.

LACY.. DELEUZE. G. (200?) Nudez. (1995) Mapping the Terrain: New Genre Public Art. OBRIST. BERNADAC.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM Bibliografia AGAMBEN. (2002) Da Obra ao Texto: Diálogos sobre a Prática e a Crítica na Arte Contemporânea. M. H.(1959) Marcel Duchamp. A.html GIL. (2010) O Plural do Nome I . GOMES.. Disponível no site http://www. Margens . Lisboa: Assírio & Alvim. Revista NADA (Nº15).Linguagens e Fronteiras na Arte Contemporânea. BOURGEOIS.Ciclopes. mutantes. Boston. (2000) Crítica e clínica. PINTO. HANS-ULRICH (2000) Louise Bougeois Destruction of the Father Reconstruction of the Father. coordenação e edição Sara António Matos.heteroTopia.info/ documents/heteroTopia/foucault. Writings and Interviews 1923-1997. (2007) Corpos Contemporâneos. J. Seattle: Bay Press. B. Lisboa: Relógio d'Água DUCHAMP. Catálogo CCB-ProjectRoom. HELFENSTEIN.html) BELTING. Lisboa: Edições Século XXI. (1984) Des espaces autres. New York. Catálogo 26°Bienal de São Paulo. London. H. G. GREEN. (2004) A bienal como território livre. Page 14 of 14 . HUG. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo. J.foucault. M. Organizado por Jürgen Bock. New York: Paragraphic Books. (1959) e Creative Act conferência publicada por Robert Lebel: Marcel Duchamp. apocalípticos . S.(2004) Sísifo ou Prometeu? Sobre a arte e tecnologia hoje. R. RINDER (1999) Louise Bourgeois Drawings & Observations. R. 1959. Conferência publicada pelo jornal Francês Architecture/ Mouvement/ Continuité. New York: Paragraphic Books. MARIE-LAURE. L.iaaa. LEBEL. Violette Editions. Disponível no site http://www.conversas à volta das margens. Catálogo 26°Bienal de São Paulo. FOUCAULT. Lisboa. (2002) Transição . London: Bulfinch Press Book. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo.en.nl/ cursusAA&AI/duchamp.