S1-versaoFinal

1/31/11 12:44 AM

Continuação do estudo para uma consistência:
Restrições de Deslocação e de Lugar
Por Teresa Luzio

Introdução Propôr-me a reflectir sobre o sentido de contemporaneidade, a propósito do Seminário Interrogar a Contemporaneidade apresentado pelo Professor Helder Gomes, para o Doutoramento da FBAUP, significa pensar sobre mim própria no mundo, o papel do artista, HomemPoeta, não na História mas neste meu tempo, e em que sentido uma linguagem artística, a minha, se constrói sobre este tempo, e o que se propõe a fazer. Assim, desenvolverei este texto a partir de uma intervenção artística realizada por mim, em 2005 na cidade de Weimar, intitulada Estudo para uma consistência: Restrições de Deslocação e de Lugar. A intervenção tinha como um dos objectivos o desenvolvimento de uma estratégia artística que permitisse a construção de uma relação entre a artista e um Outro, usando como intermediário um objecto pessoal da artista, considerado aqui como objecto artístico. Um diário gráfico. A estratégia iria desenvolver-se enquanto solução intermediária que é, do meu ponto de vista, o propósito dessa intervenção, concretamente, cujo fim seria a própria experiência de conceber como uma espécie de operação matemática, um problema que apenas poderia ser resolvido através da imaginação, ou da proficiência artística. A estratégia seguiu-se; coloquei uma nota dentro do diário gráfico com a seguinte pergunta, “Was würdest du tun, wenn du diese buch findest?” (“Que farás, ao encontrar este caderno?"), rasurei tudo o que me identificasse, e abandonei o diário gráfico num banco de jardim no centro da cidade de Weimar. Documentei por meio da fotografia e do vídeo todos os momentos que se seguiram até à perda total do objecto. A sua perda era o principal objectivo. Entre as intenções do artista e o seu cumprimento existe aquilo a que Marcel Duchamp chamou “o coeficiente da Arte”, ou seja, citando as suas próprias palavras: (…) "a relação aritmética entre o inexpresso desejado e o expresso indesejado."¹ É no pressuposto de uma aparente contrariedade do acto criativo, que surge o desenvolvimento da intervenção e do presente texto, que será desenvolvido em quatro ideias iniciais. No propósito, na espacialidade, na temporalidade, e na funcionalidade daquele objecto pessoal que eu fui desenhando e coloquei na rua como um objecto artístico.

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para o interior de uma acção que é levada a Page 2 of 14 . os métodos e maneirismos do seu modo de pensar. as ideias instantes. e o tempo que os desenhos e observações tornam eternos que assumem a maior importância. em imagens ou palavras.revelando uma noção de corpo como uma extensão da terra na direcção dos céus. carácter bem distinto do dos objectos artísticos.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM I. um aglomerado de desenhos que enfrentam e se expõe ao mundo exterior. Ainda assim. é uma forma de transformar os vários impulsos e sentires imediatos. seduzido. aos desenhos inscritos no seu interior. é a estranheza do objecto no lugar que faz adquirir maior importância. Bourgeois está menos a questionar o local centrado no sujeito do que a representá-lo como se ele se tivesse arrancado ao corpo. no qual cada um tem o seu papel (em fase de escrita)”². Desenhar uma série de momentos em que me confrontei e me questionei a mim mesma durante dois anos . O diário gráfico é um objecto pessoal e íntimo do artista mas faz-se aqui em objecto artístico. Bourgeois é uma importante referência para mim. ou corpos. A estratégia artística dirige-se. por simplesmente se encontrar num banco de jardim. enigmático. pois não abandona o seu perfil sedutor. Os seus desenhos e textos também expõem clara e profundamente a sua capacidade intensa em penetrar no universo do Eu. objecto singular e indivisível.quando ela (re)assegura que “O mundo é um teatro. Porém. e do espírito como uma extensão dos céus em direcção à terra. a um espectador a nível individual. as imagens mentais. primeiro. não somente no que diz respeito à sua linguagem visual. uma espécie de consciência individual num espaço comum como o mundo-. O propósito da intervenção Louise Bourgeois traduz uma preocupação artística no estar “alerta às complexidades da emoção humana”. que se manifestam através de uma contínua abertura para com um espaço interior e privado. mas também e sobretudo no que diz respeito ao reconhecimento de impulsos repentinos. são as suas cores. a que chamaremos de “curioso”. É um objecto que contém as preocupações da artista. Contudo. onde encontro afinidades no desenho. Uma forma de materializar uma identidade que se foi transformando ao longo desse período de tempo. em primeiro lugar. ou contemplativo. não pretendem que lhes seja reconhecido qualquer valor estético por parte do público. as fórmulas que ele emprega para se relacionar com essas preocupações. Também não perde o carácter original de representação das ideias por se encontrar dentro de um diário gráfico.

ou.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM cabo num espaço exterior. A artista corta quaisquer laços de intencionalidade atingindo uma posição anónima. e. me imaginar a mim mesma centrada nesse momento particular de tempo e espaço em que o livro me é arrancado quando o livro deixa de fazer parte integrante de mim mesma. ao deixar partir o diário gráfico. ao encontrar este caderno?”). Wenn du diese Buch Findest?” (“Que farás. o transeunte que for psicologicamente sensível à busca do significado e dos conteúdos do diário estará igualmente preparado para tomar a decisão sobre se o guardará ou não. mas antes em direccionar a atenção para o objecto. O risco que corro nesta situação é a possibilidade de. como afirmei – e através do qual a artista executa uma libertação (a um só tempo interna. aberto. que se abre à possibilidade de vir a perceber-se a intenção da artista. na qual a artista comunica directamente a seguinte pergunta: “Was Würdest du Tun. tal fica a dever-se ao facto de ser um objecto privado. A artista fica dependente desse equilíbrio. desta feita convocando a estratégia uma espécie diferente de espectador. E esse momento será um momento de interpretação mística em que os códigos e métodos usados para atrair esse alguém serão invisíveis à fotografia. e o abandono de uma autoridade artística que não é mais satisfatória -. mas sim uma forma de integrar também o "curioso" através do toque sedutor do objecto. a que chamaremos de “leitor”. Page 3 of 14 . emocional e viva). Deixar partir o diário gráfico num espaço exterior é como experienciar um fenómeno parecido com o da transmutação do Eu. como um modo de fazer emergir os efeitos do trabalho. depois. conduzido para fora desse centro do objecto artístico que é o diário gráfico. não há interesse de qualquer espécie em chamar a atenção para o artista enquanto sujeito. é o elo de comunicação residual que se estabelece entre artista e "curioso" na nota deixada no interior do diário (já para não falar de todo o seu conteúdo). Apercebo-me então que devo associar-me ao movimento universal de crescimento e não adormecimento. por outras palavras. vídeo e literatura. se se fascinar com ele. Estou consciente de que. tal qual como eu o fiz. quando o "curioso" encontra o universo interno do diário gráfico. Não se trata somente de uma questão de experienciar esse frágil momento quando o objecto se torna vulnerável ao exterior. na direcção da sua documentação. Para mais. Todavia. uma nota é mesmo deixada nesse sentido. Quer dizer. O "curioso" é deixado assim ao seu próprio arbítrio.

sem o peso dos corpos. ou os modos de comunicação que tornam uma quantidade significativa de informação acessível. famosa praça de Weimar. é parcialmente formada pelos espaços onde nos colocamos. apropriando-se de troços de terra. de mudar o que nos rodeia. como vemos. O espaço da intervenção Desde as origens da espécie humana que o homem tem territorializado as coisas. tais como os modos de transporte que se movem a velocidades diferentes. O diário gráfico é abandonado num banco de jardim (um dos locais possíveis de paragem provisória definidos por Foucault). de um ponto A ao ponto B. esta deslocação constante.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM II. eles explicam o que somos. quer de pessoas quer de objectos ou ideias. como pensamos e o que sabemos. e as imagens que nos transportam. o anseio de conhecer o mundo. ligo os pontos com a arte que produzo num espaço externo. Estudo para uma consistência . e é graças a essa falta de equilíbrio e à afirmação desse ritmo que considero alcançar o tão desejado acto criativo. e também enquanto artista. tal como as tem desterritorializado. para locais outros. Somos testemunhas vivas de uma sociedade na qual a tecnologia “conquistou o mundo com o seu modelo de identidade global. E tal não se cinge somente àqueles espaços mais imediatos e familiares – como o lar. aqui e ali. satisfazendo as suas necessidades físicas e intelectuais. e sobre o desequilíbrio permanente entre ficar e partir. fica vulnerável nele o Page 4 of 14 . A escolha deste local deve-se à diversidade possível de leituras de tempos. revolucionando o nosso modo de percepção. Entendo a desterritorialização como uma deslocação voluntária. ou melhor. A nossa identidade (o eu cultural e social). através de espaços de charneira. Os espaços onde nos movemos e que habitamos moldam-nos.Restrições de Deslocação e de Lugar pondera a inevitabilidade de uma identidade que se estrutura sobre este movimento constante. ou que simplesmente atravessámos a caminho de outro lugar qualquer. mas antes se encontre em permanente movimento entre espaços reais e imaginários. Para mais.”³ A facilidade com que a tecnologia dos nossos dias nos torna acessíveis informações e meios permite que o indivíduo não permaneça no mesmo local. A evolução e expansão da desterritorialização contemporânea são análogas às verificadas na esfera da tecnologia. o bairro ou a paisagem que vemos das nossas janelas – mas engloba ainda os espaços que visitámos como turistas. numa das portas principais que leva ao eaterPlatz. aos tempos que predominam neste lugar. a todo e qualquer momento em que essas necessidades tenham exigido novas condições.

”⁴ Page 5 of 14 . as suas preocupações. Há um espaço imaginário. do geminado e do disperso. aberto à arte.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM objecto artístico. ora acelerada ( o “tempo movente” dos transeuntes apressados que atravessam a praça numa qualquer direcção). a sua função. Este projecto decorre num espaço público onde acontece uma prática de apropriação singular: a apropriação de uma mensagem pequena e simples rabiscada nas páginas do diário. entregue às mãos de uma vida ora lenta e quotidiana (o “tempo morto” de um passeante descansando). colectivamente homogéneo. que é o espaço do direito à autoexpressão. em benefício de um conceito de identidade global. declarando o fito da artista. É em relação a esse espaço que elaboro esta libertação. um espaço livre. e que reemerge como uma experiência de espaço: “vivemos na era da simultaneidade: vivemos na era da sobreposição. do remoto e do próximo.

dissolvendo a divisão mecânica entre eu e mundo que se manteve durante a época moderna. Mutantes.”⁵ Em Transição . responsáveis por gerarem obstáculos ao papel da arte e do artista no mundo contemporâneo. localizada num espaço exterior. desejando ascender à experiência de me tornar outro. reinventando o espaço e alterando a experiência da localização.”⁸ Estou decidida quanto ao emprego da autonomia do espaço da arte. A cura do mundo começa com o indivíduo que dá as boasvindas ao outro. Nos nossos tempos contemporâneos. e. A arte. A estratégia do meu trabalho.”⁶ Sinto uma urgência em relação ao múltiplo. sinto estar a Page 6 of 14 . obliterandolhes mesmo quaisquer possibilidades de contradição. uma urgência pelo agora de uma experiência com os pés no instante presente. múltiplos e interligados através de redes culturais. discute alguns dos contributos da Arte Moderna para aquilo que haveria de emergir como as inovações do Pós-Modernismo. em “Connective Aesthetics: Art aer Individualism”. a modernidade é caracterizada pelo desenvolvimento do indivíduo como um Eu individual. esse Eu extremamente individualizado encontra-se num processo de reintegração no mundo. Bernardo Pinto de Almeida refere-se ao Pós-Modernismo como uma era de “disseminação em sujeitos e objectos difusos. está aberta ao quotidiano. sendo a arte o lugar em que essa libertação individual se alcança. pois é a sua própria independência actual que faz da arte um meio de comunicação possível em áreas muito diversas. é a de colocar o objecto numa posição intermediária. ao estar posicionada na e agindo sobre a vida quotidiana.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM Terceira Ideia: O tempo da intervenção Suzy Gablik. “A estética da conectividade ataca a raiz dessa alienação. “Os artistas são os guardas de fronteira de um reino que se encontra sob uma sociedade governada por administração. de uma forma tão crucial que pretendo experimentar a transmutação do Eu⁷. totalmente independente e isolado de todos os outros Eus do mundo e do próprio mundo.” Segundo Gablik. Esta relação de proximidade. acima da própria vida. isto é. de vizinhança. pressupõe um corte para com as outras fronteiras menores. à experiência do mundo contemporâneo. porém. aquilo a que autora chama precisamente “estética da conectividade. ao usar o seu espaço livre e os seus direitos à auto-expressão.Ciclopes. A incorporação de uma energia criativa na vida social é um desafio às convenções artísticas que abre uma nova percepção da realidade. Apocalípticos. numa qualquer margem poética entre a arte e a vida.

e ganha qualquer coisa que desconheço.”¹⁰ Faz assim sentido repensar quão necessário é ao espectador reconhecer a arte. Os que Page 7 of 14 . a intervenção em espaços pouco comuns à arte (espaço público) permite que a relação entre o objecto artístico e o espectador se desenvolva a níveis diferentes. em vez de meramente novos espaços permanecerem disponíveis à recepção da arte. Na singularidade do desenho encontro a inconsistência da representação de uma ideia num determinado tempo e espaço. Enquanto artista que faz emergir a acção e a obra de arte. perde a exactidão "desse" momento. Sou aquela que torna visível o facto de que aquilo que me alcança enquanto “inspiração” desponta. Seria esse o potencial de uma expressão artística contemporânea? Exactamente Agamben escreve sobre a relação com o tempo contemporâneo: (. um diário gráfico como um objecto artístico é aceitar igualmente uma pessoal e profunda insatisfação que sinto quando me vejo diante de qualquer objet d’art. susceptíveis de poderem mesmo ser considerados superiores. mais precisamente. uma expressão própria muitas vezes inacabada e aberta. que a ele adere e dele se distancia em simultâneo. Parece que a arte contemporânea não se limita somente a estilos ou a locais. transformo o espectador num dador. por exactamente se separar. é essa relação com o tempo que a ele adere através de um desfasamento e de um anacronismo.. assim. o qual. traçada. uma relação singular com o nosso próprio tempo. carregam em si uma ideia. afinal. e afirmar. Por outro lado. aproximam-se do quotidiano. se torna o recipiente. dos mais tradicionais. num dado momento.”⁹ Talvez partilhe de uma perspectiva romântica da comunicação no que diz respeito à relação de um certo conteúdo com um espectador particular. de um Outro. Os desenhos e esboços. e fortalece esta comunicação como sendo de importância extrema.. na pessoa que oferece a proposta.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM dirigir-me “ao espectador individual a quem ofereço uma compreensão aberta que está dependente da colaboração dele ou dela. trata-se antes de a colocar a ela e aos seus espaços específicos num uso tal que permita a inscrição de novos significados. “não é uma questão de destruir a arte. pois o desejo da artista é o de reinventar esse gesto como um acto de resistência em relação ao objecto que é projectado e criado para um local específico. Apresentar. Trata-se de uma insatisfação por uma arte concluída. tempo interrompido.) A contemporaneidade é. Deixar um diário gráfico para trás é a prova do abandono do objecto artístico. resolvida. porque ao ser desenhada. de a desfigurar até ao ponto em que não reste nada senão um cadáver ou uma paródia da arte. porém. Não se trata de identificar espaços velhos ou novos no reconhecimento da arte. como a pintura e a escultura. e quais os limites das expectativas do artista em relação a esse reconhecimento. Não estou sozinha. o destinatário.

não podem fixar o olhar sobre ela. precisamente por isso. O diário perde-se para um outro e resta agora apenas a sua memória.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM coincidem demasiado plenamente com a época. Será nesta utopia que reside a contemporaneidade? Page 8 of 14 . é contemporânea? A densidade da expressão da intervenção aqui apresentada. tem origem na contradição entre uma existência física (corpo) e uma existência emocional. não são contemporâneos. Uma arte que se move e é efémera. não conseguem vê-la. porque. ela não estabelece qualquer elo com nenhum território seja ele qual for. que condizem em todos os pontos perfeitamente com ela.¹¹ Sugere-me pensar que a arte contemporânea localiza-se em terrenos movediços. capaz de se afundar e reerguer.

o pequeno núcleo utópico a partir do qual sonho. de Michel Foucault. desejado. Se me decidir a não tomar qualquer acção adicional. contudo. Também comunicar o espaço interno desse corpo num espaço externo como a rua (neste caso concreto. ainda como artista. Por um lado. ou melhor. seja este considerado mundo país. através da revelação de desenhos e textos que traduzem e pressupõem um processo de manufacturação.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM Quarta Ideia: A função da intervenção O diário gráfico parte e é libertado. imagino e entendo todas as coisas no seu lugar apropriado e as associo umas às outras através do poder infinito das utopias que eu mesmo consigo imaginar. exploro o desejo de comunicar a ideia do corpo como espaço interno num espaço externo. ou cidade. tem sido explorada Page 9 of 14 . Interpretar a arte como um espaço no qual encontros. expondo-o a um uso que permite integrar o "curioso" na declaração dupla de ser individual e ser colectivo. a colocar-me fora da acção que se desenvolve pelas suas determinações inerentes. A imagem do corpo contemporâneo. ou computador. o qual não é senão o revelar da sua própria vulnerabilidade no espaço exterior (no espaço). acerca das representações contemporâneas do corpo nu com o real. trata-se da urgência do acto criativo da artista. talvez até mesmo para o perigo. seria reduzir a relação da arte no mundo. que ele se transforma num objecto a ser consumido. sim. por outro. me mexo... Desta forma. O corpo não se encontra senão no coração do mundo. José Gil refere que "o corpo é lembrado como um orgão manipulável e transformável"¹³. em Weimar) através dos desenhos. aquele que todas as estradas e espaços atravessam. por meio da fotografia. para além da de abandonar o diário gráfico. torno-me então num indivíduo anónimo. O diário cumpre assim a sua função de fruição. volto a ser a pessoa anónima que antes era: surge assim uma comunicação feita somente através do objecto artístico. é a ideia precisa do lugar central que é ocupado pelo indivíduo e que eu desejo tornar manifesto através da presente intervenção. devorado. quer a nível individual quer a nível colectivo se tornam exequíveis. video. (. falo.”¹² A definição de corpo. estou. sem que o cerne da acção seja o sujeito através do objecto privado tornado objecto artístico.) “O corpo é o ponto de partida do mundo. não é o essencial. e somente observar. Contudo. mas será sempre assim para que cumpra o seu próprio destino. É neste momento de possível desfrutamento entre o pequeno objecto e o "curioso" espectador. é um convite a ser tocado.

que segundo José Gil. forma de aceder e explorar o dentro do corpo. seja esta a do questionamento da própria ideia do artístico. é a função que caracteriza a imagem do nu contemporâneo. que possa assumir uma identidade que se forma a ela mesma através de um caminho pessoal e artístico e que se define como uma instabilidade ao lugar. seja esta a de um claro horizonte semântico. seja a de uma função. nas suas tentativas em se transformar novamente num corpo novo. Não será o corpo sobrenatural que o artista contemporâneo procura. mas na remissão para uma alteridade.) através da própria transformação do corpo". Mas se por um lado se explora o "dentro" do corpo físico. quer a nível pessoal ou social. ora através da expulsão dos orgãos para o exterior..S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM com recurso á tecnologia numa abordagem conceptual da tridimensionalidade do corpo nu. representando-o. uma forma diferente. explora. as vísceras. os orgãos. e enquanto conteúdo nas diversas linguagens artísticas da arte contemporânea encontro afinidades quando Helder Gomes afirma "que toda a arte se funda na consciência implícita da pertença a um território e a uma identidade (…) os exemplos mais marcantes e conseguidos talvez sejam aqueles que se fundam num movimento de diferimento dessa identidade: não se afirmam no assumir de uma identidade. A instabilidade é uma característica do nosso tempo. num múltiplo. sempre despedaçando esse Outro. embora experimento a ideia utópica de me transformar num Outro através das acções. sempre em movimento. na busca de aceder à alma. ora através de um "corpo-sem-orgãos"? Um corpo sobrenatural capaz de estar em lugares distintos e diversos ao mesmo tempo? Expressar os meus impulsos através do happening não é o único meio de me relacionar com o mundo. diferente."¹⁴ Page 10 of 14 . será a "manifestação da verdade (..

ou uma estratégia artística definida. O desafio a que me entrego. ao mesmo tempo. o seu mútuo afastamento. numa área de acasos Page 11 of 14 . pois ambos são. aquele espaço em que o intelecto é reduzido a uma mera insatisfação. colocando-o “fora”. conceitos e reflexões. recorrendo ao outro mundo. "Pensar significa pensar demasiado e entra em conflito com o experimentar (que é considerado em termos binários. subsequentemente. isto é. o seu significado profundo e original é o lado vivo do imaginário. idêntico ao conhecimento laboratorial. até mesmo uma total falta de sentido. É possível que me tenha desviado do objectivo principal que era a intenção de pensar a minha linguagem artística neste meu tempo por meio de um objecto de estudo. o traço mais importante deste objecto que agora segura nas suas mãos. Neste mundo perplexo feito de palavras. De uma perspectiva muito pessoal."¹⁵ Se na esfera artística a "ciência representa o pensamento" também é verdade que o processo criativo. O objecto escrito tem a necessidade de abarcar a sua própria incapacidade em explicar cabalmente o objecto artístico. todos os momentos que ele experienciará. o dos objectos artísticos e intuitivos. talvez por isso muitas das questões aqui surgidas não foram respondidas. rigorosa e auto-crítica é uma tentativa de conhecimento. e observando meticulosamente. em que tudo é permitido. ou o contrário. colocar o diário gráfico num caminho tal que me libertasse da necessidade do reconhecimento do objecto. A minha escolha não é a de abandonar o objecto artístico para que este entre numa desintegração total. De certo modo tenciono respondê-las. a ficção e o modelar artístico do inexplicável.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM Conclusão Antes de mais. O diário gráfico penetrou numa zona de perigo. mas antes fazer com que a sua vulnerabilidade inerente fique realçada. sentir/experimentar versus pensar. A sedução passa pelo momento exacto em que se sente que o objecto artístico se distancia do objecto escrito. propus-me um pequeno desafio em organizar as minhas próprias ideias na tentativa de fazer um objecto escrito acompanhando um objecto artístico. encontro-me num processo de busca e aperfeiçoamento. sendo por isso associado ao sentir. Para mim o laboratório da arte encontra-se no quotidiano. situa-se na relação de coerência entre este e o objecto artístico e. autónomos. aqui a intervenção. por natureza. uma forma de interrogar todo o percurso que presentemente tomam a própria arte e o círculo das artes. quase até ao ponto da obsessão. Mas esta ideia de um objecto artístico ser colocado no seu próprio caminho e destino é. no qual a única exequibilidade é experimentar. Renée Green refere sobre a relação da ciência com a arte.

mas interpreta-a através da memória da artista. mas também uma decisão consciente da artista. espero eu. através de acções. Talvez não tenha conseguido explorar o sentido da minha afirmação de que o diário gráfico é aqui um objecto artístico mas isso talvez se deva ao facto de a natureza da própria arte. Os nadas voláteis da encenação conceptual deixaram para trás uma quantidade sem fim de Polaroids. Ainda vejo a arte como um espaço aberto a gestos capaz de gerar um questionamento permanente do meio no qual a própria arte reside e se movimenta. e devemos abrir a discussão a estes conflitos internos que nos limitam e nos obrigam a tomar decisões. textos rabiscados ou dactilografados. sendo o seu fim último fazer emergir mudanças. O livro é o arquivo fotográfico de toda a acção. uma premente pulsão que acompanha os ritmos da vida. O outro vídeo. como. o momento de maior pressão é o agora. Habität für Dokumentation é o título de um objecto holístico composto por um livro e duas cassetes vídeo. mas o consenso é de que são meros documentos. através de fazeres. A ideia romântica. objectos.»¹⁶ Para o capítulo documental do meu projecto emprego uma comunicação flexível por imagens usando meios audiovisuais. do artista solitário delimitando a sua comunicação e preocupações a um grupo reduzido de amigos. seja de que maneira for. já antes citada. hoje. mas é através deles que o não-objecto é apreciado. o arquivo da acção sobre a qual desejo que as pessoas centrem a sua atenção. as colecções podem ser formadas e os livros de arte ilustrados e são estes documentos que desempenham um papel familiar nas exposições de arte conceptual. como um acto regenerativo necessário a essa restrição interna que é muito natural ao ser humano. Um dos vídeos foi realizado antes do abandono do diário. ou até mesmo apenas ao seu diário. Aquilo que poderemos observar no vídeo é uma espécie de acto autodestrutivo. Sobre a importância da documentação na arte conceptual dos anos 60. como o é a própria vida. certamente. assumir contrariedades. Não são candidatos para avaliação. não regista apenas a acção. Não faz sentido algum na contemporaneidade. e que é uma parte integrante do objecto documental porque interpreta e revela a separação da artista de uma arte puramente individualista. ainda que noutro contexto. Na arte contemporânea parece que a memória excede a importância da obra. desta vez editado tardiamente. Page 12 of 14 . aquela decisão que nos leva a decidir se devemos partir ou se devemos ficar. e não obras de arte em si. e faço-o para que se crie um arquivo. não é de todo já satisfatória. fotocópias de mapas. os registos através dos quais a propriedade das obras de arte pode ser transferida. Arthur Danto "resume": (…)«Os ‹documentos› são. Para a artista. por exemplo. objecto no qual condensa um certo tipo de tempo e espaço.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM externos e aleatórios.

1957:77 ²Louise Bourgeois.1984:2 ¹³Gil 2007:122 ¹⁴Gomes 2010:42 ¹⁵Green 2002:237 ¹⁶Green 2002:235.137 Page 13 of 14 . foi essa mesma a estratégia. p. ____________________________________________________ NOTAS ¹Marcel Duchamp. No fim de contas. 1995.2000:96 ⁸Alfons Hug 2004:28 ⁹Ameida Pinto 2002:23 ¹⁰Ameida Pinto 2002:156 ¹¹Agamben 200?:20 ¹²Foucault 1967. 1999:19 ³Belting 2004:41 ⁴Foucault 1967. a consciência de um acto e foi também o transformar a gerência de um momento da minha própria vida em algo tangível à arte que produzo. Bookforum. in Recording Conceptual Art.1984:1 ⁵Gablik 1995:86 ⁶Almeida Pinto 2002:85 ⁷Deleuze 1993. Verão 25 de Julho 1969. Arthur Danto. «Holes For Sale». aquilo que tentei trazer à materialidade destas mesmas páginas e do projecto foi.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM Na verdade. pelo menos em parte. obra citada.

R. RINDER (1999) Louise Bourgeois Drawings & Observations. BERNADAC. LACY.Linguagens e Fronteiras na Arte Contemporânea. Seattle: Bay Press. Organizado por Jürgen Bock. A.(2004) Sísifo ou Prometeu? Sobre a arte e tecnologia hoje. HUG. R. HANS-ULRICH (2000) Louise Bougeois Destruction of the Father Reconstruction of the Father. H. Boston. G.en. Catálogo CCB-ProjectRoom. Revista NADA (Nº15).foucault.(1959) Marcel Duchamp. Writings and Interviews 1923-1997. (1995) Mapping the Terrain: New Genre Public Art. mutantes. MARIE-LAURE.S1-versaoFinal 1/31/11 12:44 AM Bibliografia AGAMBEN.html) BELTING. Conferência publicada pelo jornal Francês Architecture/ Mouvement/ Continuité. (1984) Des espaces autres. BOURGEOIS. DELEUZE.heteroTopia. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo. Disponível no site http://www. GREEN. New York: Paragraphic Books. J. New York: Paragraphic Books. (200?) Nudez. (2000) Crítica e clínica.Ciclopes. (2002) Da Obra ao Texto: Diálogos sobre a Prática e a Crítica na Arte Contemporânea. coordenação e edição Sara António Matos.conversas à volta das margens. H.. LEBEL. OBRIST.nl/ cursusAA&AI/duchamp. B. apocalípticos .info/ documents/heteroTopia/foucault. G. Disponível no site http://www.. Lisboa: Assírio & Alvim. GOMES.html GIL. FOUCAULT. Lisboa: Relógio d'Água DUCHAMP. M. Page 14 of 14 . M. PINTO. Violette Editions. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo. (2010) O Plural do Nome I . Catálogo 26°Bienal de São Paulo. London. Lisboa. Catálogo 26°Bienal de São Paulo. L. 1959. Margens . J. New York. HELFENSTEIN.iaaa. Lisboa: Edições Século XXI. (1959) e Creative Act conferência publicada por Robert Lebel: Marcel Duchamp. (2004) A bienal como território livre. (2002) Transição . (2007) Corpos Contemporâneos. London: Bulfinch Press Book. S.

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