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5. RIQUEZA E EXCLUSÃO EM CIDADES MÉDIAS PAULISTAS

Alexandre Bergamin Vieira


Marcelo Nunes
Oséias da Silva Martinuci

A discussão sobre cidades médias no período atual torna-se relevante em

virtude de seu rápido crescimento populacional e econômico. Neste contexto é

preciso considerar a ineficiência das políticas públicas, bem como dos planos

urbanísticos, que além de acentuar a exclusão social influenciam na falta de infra-

estrutura urbana básica. Neste sentido, buscamos compreender as características

da exclusão social nas cidades médias.

Conforme Santos (1994, p. 73), a expansão e a diversificação do

consumo, a elevação dos níveis de renda e a difusão dos transportes modernos,

junto a uma divisão do trabalho mais acentuada, fazem com que as funções de

centro regional passem a exigir maiores níveis de concentração demográfica e de

atividades.

Segundo Sposito (2004, p. 325):

Os estudos sobre cidades médias passaram a ter alguma importância no


âmbito da Geografia, à medida que as políticas de planejamento e a
reflexão sobre as formas de estruturação das redes urbanas ganhavam
corpo, a partir da década de 1960. No caso da Geografia brasileira, a
influência francesa foi grande no despertar o interesse por essa temática
[...] uma vez que criou condições favoráveis ao desenvolvimento de
estudos e à formulação de propostas de estimulo à constituição de novos
pólos industriais, à luz da Teoria dos Pólos Centrais de François Perroux
(grifos nossos).

A aceleração do fenômeno da urbanização foi um dos fatores que

contribuíram para aumentar a importância da planificação urbano-regional após a


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Segunda Guerra Mundial. Deste modo, a partir da década de 1970 o tema das

cidades médias vai se inserir na tendência (e na necessidade) de se promover

uma desconcentração populacional das metrópoles e de suas atividades, para

diminuir os problemas dos grandes centros (AMORIM FILHO; 2001, p. 4-5),

materializando a formação das cidades médias4 como expressão do caminho

seguido pela urbanização brasileira nas últimas décadas, orientada pela política

nacional de desenvolvimento e sob influência do planejamento francês, como meio

de atender às novas demandas econômicas.

Neste universo das políticas desenvolvimentistas, as metrópoles foram

consideradas como a raiz dos “problemas” urbanos e as cidades médias como

“saída” para as mazelas metropolitanas e para o desenvolvimento regional. Em

um ponto, esta política de desenvolvimento urbano-regional acertou, na medida

em que consolidou a integração da rede urbana nacional. Por outro lado, acentuou

as desigualdades socioespaciais nos centros intermediários, uma vez que houve

uma valorização da política de desenvolvimento da rede urbana em detrimento da

política intraurbana, que acabou por reproduzir algumas problemáticas

metropolitanas, embora, com processos e formas diferenciadas.

Corroborando estes fatos, mesmo considerando o desempenho das

cidades médias no crescimento populacional e econômico entre as décadas de

1970 e 2000, não podemos perder de vista a análise dos processos sociais

excludentes presentes atualmente nestes centros urbanos, como chama a

atenção Andrade e Serra (2001, p. 167) em suas considerações finais:

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É importante salientar a diferenciação existente entre cidades médias metropolitanas e não-
metropolitanas no Brasil, pois fatores como o crescimento populacional em cidades médias
apresentam taxas com diferenças significativas.
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É indubitável que o ritmo de crescimento populacional das cidades


médias de 1970 resultou na formação de periferias e entornos vinculados
àquelas cidades, exigindo, portanto, para maior precisão analítica, que a
investigação do desenvolvimento urbano nacional incorpore essas “novas
territorialidades”.

Portanto, nessas últimas décadas, o processo de urbanização brasileira não

se caracterizou tão somente pela concentração metropolitana, mas também pela

expansão das cidades médias (tanto em número como em tamanho). Esta

transformação tornou muito relevante a discussão sobre cidades médias, por

conta da dimensão que tomou os processos e problemas de ordem social,

espacial, econômica e ambiental nos espaços urbanos.

Assim, o processo de urbanização brasileira, a partir da segunda metade do

século XX, aprofundou as desigualdades sociais devido ao crescimento

desordenado do espaço urbano aliado a falta de investimentos em infra-estrutura,

serviços e de políticas urbanísticas, juntamente com o aprofundamento da divisão

do trabalho, ao mesmo tempo que promoveu as cidades médias como “símbolos”

de riqueza, de prosperidade e de alternativas para uma melhor qualidade de vida,

não mais possível nas metróploes.

Neste sentido, a partir da década de 1960 e principalmente de 1970

intensificaram-se os estudos sobre os problemas sociais metropolitanos e a

discussão sobre a desmetropolização como possibilidade de reduzir as mazelas

sociais metropolitanas. Desta maneira, as cidades que cumpriam papéis

intermediários na rede urbana serviram-se das políticas desenvolvimentistas para

desenvolver as economias regionais visando atrair os fluxos migratórios e reter a

migração para as metrópoles, porém, o desenvolvimento econômico não foi

acompanhado de investimentos em infra-estruturas urbanas e também de políticas


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urbanísticas de regulação da produção do espaço urbano acentuando a

desigualdade social dos centros urbanos intermediários.

Dessa forma, é que procuramos neste trabalho, a partir da comparação de

três cidades médias paulistas, destacar como estes centros urbanos possibilitam a

geração de riquezas ou “ilhas de prosperidade” aliadas aos territórios da exclusão

social.

As cidades médias analisadas

Para efeitos da discussão que desenvolveremos a seguir, escolhemos

deliberadamente 3 cidades paulistas: Marília, Presidente Prudente e São José do

Rio Preto. Tais cidades, amplamente estudadas no Programa de Pós-graduação

da UNESP de Presidente Prudente, desempenham o papel de centros regionais

no âmbito da rede urbana brasileira e apresentam características socioespaciais

que as diferenciam das metrópoles. Deste modo, considerando a tipologia urbana,

os processos e formas socioespaciais estas cidades inserem-se na discussão a

respeito das cidades médias. Tratam-se, de importantes centros de prestação de

serviços e abastecimento regionais que vêm sendo amplamente estudadas,

inclusive em relação à problemática urbana.

O importante papel regional que estas cidades desempenham tem atraído

grandes investimentos de capitais ligados aos setores: financeiro, imobiliário e de

comércio, com destaque para a presença dos hipermercados. É justamente na era

da globalização que esses setores têm tomado especial magnitude,

particularmente no âmbito das cidades médias. As facilidades de comunicação e


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de circulação têm facilitado as escolhas locacionais, sejam elas em quaisquer

níveis – nacional, regional ou local. Por conseguinte, as grandes empresas ligadas

a estes setores têm se beneficiado muito com tais processos.

No entanto, o avanço da globalização sobre as cidades médias não deixa

de trazer também seus efeitos perversos. As desigualdades e a exclusão social

são elementos que têm marcado profundamente essas realidades urbanas. Isso

se manifesta particularmente com a produção espacial das nossas cidades, que

crescem e se desenvolvem segregando e excluindo. O resultado se manifesta

territorialmente nas nossas cidades, formando áreas de exclusão social,

frequentemente caracterizadas como um semi-anel periférico em volta da cidade,

longe de centros de serviços e infra-estrutura.

Por sua vez, estas mesmas cidades médias, tal como analisado em

Andrade e Serra (2001), caracterizam-se por apresentarem uma renda per capita

sempre superior às médias brasileiras, reafirmando sua condição de cidades

desenvolvidas, de cidades de primeiro mundo, destacado nos discursos de suas

elites políticas e econômicas, reforçados pelos indicadores oficiais, como o IDHm

(Índice de Desenvolvimento Humano Muncipal) elaborado pelo IBGE/IPEA, com

base nos indicadores do IDH elaborado pela ONU.

Os indicadores de riqueza

A partir da década de 1980, com o desgaste do PIB per capita como

indicador de desenvolvimento socioeconômico de referência para os países, pois

mascarava as desigualdades sociais existentes, a ONU, na busca de desenvolver

um indicador social capaz de sintetizar e aferir as condições de vida e o grau de


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desenvolvimento entre os países, através do PNUD (Programa das Nações

Unidas para o Desenvolvimento) elabora um índice sintético denominado Índice de

Desenvolvimento Humano (IDH).

Assim, o IDH, seguindo a concepção de desenvolvimento humano do

PNUD, que “deveria ser entendido como um processo dinâmico e permanente de

ampliação das oportunidades dos indivíduos para a conquista crescentes de bem-

estar” (JANUZZI; 2001, p.120) leva em consideração três dimensões consideradas

básicas para o desenvolvimento humano, quais sejam: escolaridade da

população; longevidade e o PIB per capita.

Dessa forma, Januzzi (2001, p.120) aponta o seguinte:

Para avaliar operacionalmente os nível e o progresso do


desenvolvimento humano propôs-se o cálculo de um índice – o IDH –
construído a partir da aglutinação de indicadores representativos das três
dimensões básicas citadas do desenvolvimento humano e para as quais
se dispõe de informações com maior regularidade nos diversos países:
um indicador composto de nível educacional (computado a partir da taxa
de alfabetização de adultos e da taxa de escolarização); a esperança de
vida, como medida-síntese das condições de saude e riscos à
morbimortalidade; e o produto interno bruto per capita ajustado segundo
técnica específica, de modo a refletir melhor a necessidade de recursos
monetários para a compra de bens e serviços indispensáveis à
sobrevivência material em cada país.

A partir de 1990, o IDH vem sendo divulgado ano a ano pela ONU através

do Relatório de Desenvolvimento Humano e ao mesmo tempo vem sofrendo

alterações na metodologia de sua construção de forma a garantir melhorias na sua

confiabilidade de comparação entre os diferentes países.

Dessa forma, analisando o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil®,

que, procurando desenvolver a mesma metodologia do IDH, com algumas

alterações, para os estados, microrregiões geográficas e municípios brasileiros, a

partir do IDH-M (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal), podemos concluir


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como as médias de diversos indicadores caracterizam as cidades médias de São

José do Rio Preto, Marília e Presidente Prudente como espaços urbanos

prósperos e ricos, quando comparados com as médias nacionais.

Portanto, nos quadros e tabelas a seguir, iremos demonstrar o perfil de

riqueza e prosperidade das cidades medias aqui analisadas a partir do IDH-M.

Selecionamos alguns dados que entendemos serem os mais abrangentes

possíveis e representarem os componentes utilizados na composição do IDH,

como informações sobre educação, longevidade e renda, além de informações

mais amplas em relação aos domicílios e a apresentação de outros índices

complementares.

Apresentamos na Tabela 01 indicadores referentes aos dados escolares da

população adulta, crianças e jovens em idade escolar.

Tabela 01 – Índices de escolaridade da população adulta, de crianças e jovens


em idade escolar em 2000
Município Adultos com mais Analfabetos Crianças de Jovens de
de 25 anos adultos com 07 a 14 anos 14 a 17 anos
de idade e menos de mais de 25 freqüentando freqüentando
08 anos de estudos anos a escola (%) a escola (%)
(%) de idade (%)
São José do Rio
Preto 52,1 6,6 98,2 86,6
Marília 54,5 8,4 98 85,6
Presidente Prudente 51,2 7,8 98,6 86,6
Brasil 63,7 16,04 89,82 77,72
Fonte: IPEA – Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, 2003.

Em relação à população adulta com baixa escolaridade percebemos um

percentual elevado, acima de 50% nas três cidades analisadas, representando

uma característica nacional de uma população pouco instruída, com a maioria

dessa população não tendo completado o ensino fundamental. Porém, notamos


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que todos os municípios analisados possuem percentuais menos elevados que as

taxas apresentadas pela média nacional, representando, portanto, melhores

situações de educação na escala municipal.

Isso se confirma a partir do índice de adultos analfabetos, com os

municípios de São José do Rio Preto e Presidente Prudente apresentando médias

percentuais melhores e inferiores à metade (exceto Marília com 8,4%) que a

média nacional, com uma população adulta analfabeta perfazendo 16,04%.

Nos outros dois índices também notamos condições melhores de acesso e

freqüência à escola e à educação por crianças e jovens em idade escolar nos

municípios em relação à média nacional.

Refletindo estas mesmas características em relação à escolaridade da

população e acesso à educação e a escola, a Tabela 02 apresenta três índices

interessantes sobre os graus de escolaridade da população adulta.

Tabela 02 – Índices de escolaridade da população adulta em 2000

Municípios Média de anos Pessoas com 25 anos ou Pessoas com 25 anos


de estudos mais de idade com ou mais de idade
adultos com 12 anos ou mais frequentando
mais de 25 anos de estudos (%) ensino superior (%)
de idade
São José do Rio
Preto 7,3 16,3 2,1
Marília 7 15,1 2,1
Presidente Prudente 7,5 17,3 2,3
Brasil 5,8 9,3 1,5
Fonte: IPEA – Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, 2003

Notamos, assim, que as médias dos três municípios selecionados apresentam-se em todos

os casos sempre melhores e superiores às médias nacionais.


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Os índices que caracterizam a vulnerabilidade da população podem ser

outros e podemos utilizá-los como exemplos para confirmar as “melhores

condições de vida” nas cidades médias do interior paulista em relação ao país em

geral, como podemos observar na análise da Tabela 03, que apresenta índices de

mortalidade infantil e esperança de vida ao nascer.

Tabela 03 – Mortalidade infantil e esperança de vida ao nascer - 2000

Município Mortalidade infantil (por Esperança de vida ao


mil nascidos vivos)* nascer
São José do Rio Preto 15,7 71,3
Marília 15,6 71,4
Presidente Prudente 11,8 73,6
Brasil 30,57 68,61
Fonte: IPEA – Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, 2003.
* Crianças até 1 ano de vida

Notamos, como em todos os índices de escolaridade, uma situação melhor nos três

municípios analisados em relação aos percentuais do Brasil.

Na Tabela 04, a seguir, apresentamos os índices que mais se destacam

nas cidades médias, ou seja, aqueles referentes à renda dos municípios.

Tabela 04 – Variáveis de renda da população.

Município Pobres Indigentes


Renda média Índice 40% mais pobres 10% mais ricos
(%)* (%)*
per capita de Gini (% renda total) (% renda total)
1991 2000 2000 2000 2000 2000 2000
São José do Rio Preto 419 512 8,1 2,96 0,56 10,2 60,5
Marília 357 421 11,5 3,73 0,57 10,1 61,4
Presidente Prudente 370 483 12 4,16 0,59 9,1 63,8
Brasil 230 297 32,75 16,32 0,65 6,3 52,36
Fonte: IPEA – Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, 2003.
* Pessoas residentes em domicílios particulares permanentes
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Observamos na tabela os indicadores relativos à renda da população

residente em domicílios particulares permanentes, ou seja, não sendo incluídos a

população que mais sofre com os processos segregativos e excludentes: os

moradores de rua e a população dos domicílios improvisados.

Primeiramente, devemos destacar uma elevação da renda média per capita

significativa em todos os municípios entre os anos de 1991 e 2000, com maior

destaque para o município de Presidente Prudente, com um aumento da renda de

aproximadamente 30% no período.

Percebemos ainda, que os municípios de São José do Rio Preto, com

aumento da renda de 22% e Marília, 18% de aumento, apresentaram crescimento

da renda média per capita menores que o Brasil, que atingiu um crescimento de

aproximadamente 23% no período, não significando, no entanto, uma perda de

renda, como os números deixam claro.

No entanto, todos os municípios se encontram com a renda média per

capita muito superior à média nacional. Isso ocorre em todos os outros índices,

com os municípios sempre apresentando-se em situações melhores que a média

nacional.

Neste indicador destacamos o município de São José do Rio Preto, que

apresenta a maior renda média per capita (512); apresenta os menores

percentuais de pobres (8,1%) e indigentes (2,96%); tem a melhor distribuição de

renda (com o índice de Gini de 0,56), os 40% mais pobres da população possuem

o maior percentual da renda total (10,2%) em relação aos outro municípios

analisados e em relação ao país. e; o percentual da renda obtida pelos 10% mais


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ricos da população (60,5%) é superior apenas ao percentual do Brasil (52,36%)

sendo inferior aos municípios de Marília (61,4%) e Presidente Prudente (63,8%).

Na Tabela 05 apresentamos os indicadores referentes às condições da

habitação, num total de 09 variáveis.

Tabela 05 – Indicadores domiciliares* - 2000


Município Banheiro e Domícilios +2
Energia Coleta Tele- Domicílios
água geladeira TV Computador pessoas
elétrica lixo** fone subnormais
encanada dormitório
São José
do Rio 98,16 99,9 99,7 98,8 97,2 71,1 19,2 0 11,7
Preto
Marília 97,8 99,8 98,2 98,1 96,7 55,9 15,8 1,75 12,36
Presidente
97,46 99,8 98,8 98,3 96,7 77 17,9 0 10,22
Prudente
Brasil 76,97 93,48 91,16 81,93 86,02 37,4 10,27 3,81 21,5
Fonte: IPEA – Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil
* Percentual de pessoas que vivem em domicílios que possuem:
** Apenas domicílios urbanos

Numa análise sucinta da tabela confirmamos novamente o que vem

ocorrendo com todos os indicadores abordados anteriormente:as cidades de São

José do Rio Preto, Marília e Presidente Prudente apresentam, na maioria dos

indicadores e índices, percentuais que revelam melhores condições que a

situação nacional.

Notamos um elevado percentual (próximo dos 100%) em todos os

municípios e nos indicadores referentes ao saneamento (banheiro e água

encanada e coleta de lixo), bem como acesso à energia elétrica, revelando uma

melhor situação que a média nacional, principalmente na questão de domicílios

com banheiro e água encanada, cujo percentual no Brasil atinge apenas 76,97%

da população.
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O mesmo ocorre no percentual da população em domicílios com a presença

de eletrodomésticos, como geladeira e televisão, com os municípios analisados

apresentando índices superiores a 95%, ao contrário do percentual nacional, que

apresenta uma média de 81,93% da população em domicílios com geladeira e

86,02% com televisão.

Já o percentual da população moradora em domicílios com telefone e

computador é bem menor que o percentual dos outros eletrodomésticos, mas

apresenta, também, uma grande disparidade entre a média nacional e os

municípios analisados, cujos índices com relação ao acesso ao telefone são

superiores a 55% e a média nacional não ultrapassa os 37,4%.

Com relação ao percentual da população residente em domicílios com a

presença de computadores, temos níveis ainda muitos baixos, demonstrando que

este bem de consumo ainda não se popularizou e é de acesso restrito a um

percentual muito pequeno da população em geral, com a média nacional atingindo

apenas 10,27% da população, mas que nos municípios analisados atinge médias

superiores a 15%.

São José do Rio Preto e Presidente Prudente destacam-se em relação aos

domicílios improvisados, com 0% da população residindo neste tipo de habitação,

refletindo a inexistência destes durante a realização da pesquisa.

As mesmas características do percentual da população em domicílios

subnormais ocorrem com o percentual da população residente em domicílios com

mais de duas pessoas por dormitório, com a média do país (21,5%) sendo sempre

superior aos percentuais atingidos pelas cidades de Presidente Prudente

(10,22%), São José do Rio Preto (11,7%) e Marília (12,36%).


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Novamente, como analisado na Tabela 04, o município a ser destacado é

São José do Rio Preto, que possui os melhores percentuais nos seguintes temas:

banheiro e água encanada (98,16%); energia elétrica (99,9%); coleta de lixo

(99,7%); geladeira (98,8%); e; domicílios subnormais (0%). Apresenta, ainda, o

segundo melhor percentual com relação à população em domicílios com telefone

(71,1%) e em domicílios com mais de duas pessoas por dormitório (11,7%).

Resultando de todos estes indicadores apresentados nas tabelas de 01 a

05, refletindo, em quase todos eles, realidades e condições de vida melhores em

relação às médias do estado e do país, na tabela 06, apresentamos uma síntese

final do Atlas do Desenvolvimento Humano, com os dados do IDH-M e de seus

indicadores componentes para cada um dos municípios.

Tabela 06 - Índice de Desenvolvimento Humano - 2000


Município posição no
IDH M Educação Renda Longevidade
Estado de SP/Brasil
São José do Rio Preto 0,834 0,916 0,814 0,772 25/95
Marília 0,821 0,908 0,782 0,773 58/212
Presidente Prudente 0,846 0,924 0,804 0,81 14/43
Brasil 0,766 0,849 0,723 0,727 -
Fonte: IPEA – Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil

Assim, ao analisarmos a tabela, confirmamos aquilo que vínhamos

constatando durante a análise dos outros indicadores, ou seja, todos os

municípios analisados possuem percentuais médios superiores e melhores que os

apresentados pela realidade brasileira em geral.

Os três municípios apresentam IDH-M superior a 0,8, enquanto o índice

nacional é de 0,766.
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A educação apresenta-se como componente melhor avaliado no geral, com

índice superior a 0,9, seguida pela renda e longevidade recebendo o menor índice.

No entanto, apesar destas características apresentadas nas tabelas

anteriores e a síntese final na tabela 06 demonstrando situações de melhores

condições de vida nas cidades médias analisadas, em relação ao país, devemos

ressaltar que a construção do IDH refere-se a uma síntese. Como alerta Januzzi

(2001, p.22), “...vale acrescentar que esta operação de sintetização da informação

social costuma incorrer em perda crescente da proximidade entre conceito e

medida de transparência para seus potenciais usuários”.

Outra questão que deve novamente ser explicitada é que na metodologia

implementada na elaboração do IDH, trata-se apenas das médias e, como

sabemos, indicadores sociais que levem em conta as médias não dão conta das

relações de exclusão com inclusão espacial e social que incidem no espaço

intraurbano.

A partir disso, é que o CEMESPP entra na discussão da elaboração e

análise de um sistema de indicadores sociais de desigualdade intraurbana para

cidades médias que nos permitam desvendar e retratar as dinâmicas territoriais

dos processos de segregação socioespacial e exclusão social, pois são nos

territórios intraurbanos que a vida é celebrada e também conflitos se acirram e

onde podem surgir as possibilidades de transformação e mudanças.

Os indicadores de exclusão social

O “Atlas da Exclusão/Inclusão Social” das cidades médias do interior

paulista gerado no CEMESPP em 2003 indica uma forte concentração espacial da


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riqueza e também uma acentuada concentração dos padrões de exclusão social

em determinadas áreas destes centros urbanos. Apesar das peculiaridades do

sítio urbano de cada cidade, a comparação do mapa da exclusão/inclusão social

entre as cidades de Araçatuba, Bauru, Marília, Presidente Prudente e São José do

Rio Preto) elaborada por Melazzo (2006) ao analisar os padrões de desigualdade,

apontou para o fato de que o sentido espacial dos setores de exclusão e inclusão

social destas cidades apresenta contornos semelhantes, sendo visível a

delimitação entre as áreas segundo sua classificação, o que indica a presença de

padrões comuns na configuração territorial das desigualdades entre as cidades

analisadas.

A exemplo de Melazzo (2006), temos outros trabalhos que destacam a

questão sobre a exclusão social em cidades médias, como o de Nunes (2005;

2007) que buscou mostrar como a produção do espaço urbano acentua a

precariedade territorial em áreas de exclusão social tomando como recorte

analítico a cidade Marília, bem como os trabalhos de Martinuci (2006) que pautou

na análise da formação de circuitos urbanos de reprodução da pobreza urbana em

Presidente Prudente e também o trabalho de Vieira (2005) que abordou como o

uso dos indicadores sociais de desigualdade intraurbana ajudam na delimitação

dos processos de segregação socioespacial e de exclusão social em cidades

médias tomando como recorte a cidade de São José do Rio Preto.

Considerando que o Mapa da Exclusão/Inclusão Social urbana é em si

mesmo, um indicador síntese que possibilita análises situacionais das

desigualdades intraurbanas a partir da somatória das notas atribuídas a cada uma


127

das múltiplas variáveis passíveis de serem adotadas para quantificar e qualificar

as áreas de risco e vulnerabilidade social do espaço intraurbano.

De acordo com Sposati:

O Mapa da Exclusão/Inclusão Social é uma metodologia que usando de


linguagens quantitativas e de geoprocessamento produz índices
territoriais que hierarquizam regiões de uma cidade quanto ao grau de
exclusão/inclusão social [...] Estes índices vinculam condições de vida
das pessoas ao território onde vivem (SPOSATI; 2001, p. 01).

A análise geográfica da inclusão/exclusão social a partir dos mapas

temáticos e síntese permite-nos identificar e analisar como a exclusão social e a

desigualdade se expressam garantindo ações e respostas necessárias ao

conhecimento e intervenção da realidade. Desta maneira, a metodologia de

mapeamento da exclusão/inclusão social apresenta-se enquanto meio estratégico,

sobretudo para a tomada de decisão municipal, uma vez que permite a construção

de um projeto de desenvolvimento territorial via políticas públicas adequadas às

necessidades dos diferentes territórios urbanos.

Os indicadores sociais, ao serem concebidos com esta interface geográfica,

remetem à possibilidade de políticas públicas sociais voltadas à inclusão social e

territorial em âmbito coletivo, sendo um recurso necessário à tomada de decisão,

na medida em que abarca vários aspectos da realidade.

Com isto, a análise da exclusão social em cidades médias do interior

paulista realizada no âmbito do CEMESPP esteve pautada na organização de um

banco de dados e de indicadores sociais, que permitiram o mapeamento do

espaço intraurbano, como meio de reconhecer os padrões de exclusão social

levando em consideração a expressão socioespacial das cidades.


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Assim, Vieira (2005, p. 74), seguindo a metodologia do CEMESPP,

elaborou um sistema de indicadores sociais visando analisar as desigualdades

intraurbanas em São José do Rio Preto. Para tanto, estabeleceu 19 variáveis

divididas em subgrupos, classificadas como objetivas, simples e normativas, de

acordo com a definição de Januzzi (2001) e também produziu um indicador

síntese, que procura aglutinar todos os 19 indicadores que constituem o sistema

proposto.

Nunes (2007) por sua vez, utilizou para a geração dos indicadores uma

matriz de indicadores sociais organizados segundo os dados do IBGE e que

segue uma divisão por tema: demografia, habitação, ambiente (higiene e saúde),

economia e educação e por grupo de variáveis selecionadas: família, crianças e

jovens, idosos e mulheres. O resultado foi a geração de mapas temáticos que

expressam as diferentes condições de vida da população urbana de Marília e um

mapa síntese definidor das áreas que apresentaram as piores notas a partir da

soma dos indicadores sociais.

Considerando os limites e potencialidades da metodologia de mapeamento

de indicadores sociais desenvolvida pelo CEMESPP, cabe destacar em primeiro

lugar, que a organização e geração dos mapas temáticos e síntese dos padrões

de exclusão/inclusão social não é a finalidade última, mas apresenta-se como uma

ferramenta e um meio estratégico para a formulação de políticas sociais

(integradoras e/ou setorizadas) e de tomada de decisão, bem como para suscitar

novos estudos sobre a exclusão social urbana. Porém, um ponto importante da

metodologia do CEMESPP é a possibilidade de analisar separadamente e

setorialmente os indicadores e mapas temáticos por temas (educação, saúde,


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demografia, economia, habitação, higiene e ambiente) e por grupos (crianças e

jovens, idosos, homens e mulheres, família e deficientes) e de maneira integrada a

partir do mapa síntese.

O mapeamento por área da exclusão/inclusão (por setor censitário) permite

compararmos as diferentes partes da cidade em relação aos padrões

empiricamente definidos de exclusão/inclusão e também a comparação entre

cidades. No entanto, não permite reconhecer e diferenciar os processos e formas

presentes entre diferentes áreas com os mesmos níveis (graus) de exclusão ou de

inclusão. Neste sentido, os trabalhos de Martinuci (2006), Nunes (2007) e Vieira

(2005) visaram a partir de diferentes metodologias reconhecer os diferentes níveis

de exclusão entre as áreas de exclusão social nas cidades de São José do Rio

Preto, Marília e Presidente Prudente, como observaremos a seguir, cada caso

separadamente.

São José do Rio Preto

Partindo da análise no mapeamento dos 19 indicadores sociais de

desigualdade intraurbana selecionados para a cidade de São José do Rio Preto

podemos concluir que a exclusão social é elemento importante na estruturação do

espaço intraurbano da cidade.

O fator que comprova essa conclusão é a constatação de que os setores

censitários de pior indicador localizam-se, principalmente, em duas zonas gerais

da cidade: a zona norte e a zona noroeste da cidade, onde, localizam-se a maioria

dos loteamentos populares, além da periferia no extremo sudoeste da cidade e


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onde notamos a presença de um maior número de setores censitários com os

maiores percentuais de pessoas residentes.

E, também, por outro lado, ao observarmos que os poucos setores que

apresentam os melhores indicadores entre a maioria dos analisados, concentram-

se naquela área onde se localizam os condomínios ou loteamentos horizontais

fechados, ou seja, a zona sudoeste da cidade, onde se localizam os bairros mais

valorizados da cidade.

Dessa forma, no mapa a seguir (Figura 1), apresentamos uma síntese dos

indicadores analisados, que nos possibilita identificar todos os setores

classificados, enquanto melhores ou piores no âmbito da desigualdade

intraurbana.

Entendemos que o mapa síntese demonstra que os melhores indicadores

estão concentrados nos setores censitários localizados nas áreas sudoeste e

central, com alguns outros setores em distintas porções da cidade e os piores

indicadores concentrados nos setores localizados nas periferias norte e noroeste

da cidade.

Notamos uma concentração dos 40 setores censitários com melhores

indicadores nessas áreas de concentração da classe mais favorecida, onde se

localizam as áreas mais valorizadas da cidade pelo mercado imobiliário e pela

prefeitura municipal.

FIGURA 1
131

Em uma relação excludente e desigual, ao concentrarem-se os melhores

indicadores sociais e espaciais e, conseqüentemente, as classes sociais mais

favorecidas em apenas algumas áreas gerais da cidade, concentram-se em outras

porções da cidade as classes sociais menos favorecidas, juntamente com os

piores indicadores, ou seja, ao mesmo tempo em que se valoriza uma

determinada área da cidade, outra área se torna menos valorizada ou mais

depreciada como também quando se auto-segrega, em condomínios ou

loteamentos fechados, exclui-se outra parcela da população, como podemos

perceber a partir da leitura do mapa, com a constatação da concentração de parte


132

dos 11 setores censitários classificados como pior naquelas áreas mais

depreciadas e desvalorizadas da cidade.

Dessa forma, podemos afirmar que as desigualdades sociais e espaciais

intraurbanas na cidade de São José do Rio Preto e, conseqüentemente o

processo de exclusão social que representam, caracterizam-se nitidamente no

espaço intraurbano da cidade, tornando-se fundamentais na estruturação desse

mesmo espaço.

Em São José do Rio Preto a exclusão social está espacializada de forma

bem distinta. Grande parte dos piores indicadores concentram-se nas zonas norte

e noroeste principalmente, e em algumas outras com menor destaque e, por outro

lado, os melhores indicadores concentram-se nas áreas sul, central e sudoeste,

com maior destaque para esta última.

Marília

A cidade de Marília tem sua formação territorial urbana ligada à alternância

dos ciclos econômicos e à própria dinâmica imobiliária do espaço urbano que se

instalou com o desenvolvimento econômico proporcionado principalmente pela

industrialização, que por sua vez promoveu um intenso fluxo migratório em direção

à cidade. A conjugação destes fatores acentuou a expansão territorial urbana e a

diferenciação socioespacial acirrando as desigualdades sociais a partir do

processo de produção do espaço urbano.

Para compreendermos as conseqüências destes processos pesquisamos

dados relativos à cidade. Neste sentido, foi gerado um conjunto de indicadores


133

sociais a partir das informações contidas sobre 259 setores censitários

intraurbanos de Marília. De acordo com os dados do Censo de 2000 realizado

pelo IBGE, o município de Marília apresenta uma população de 192.723

habitantes, sendo 184.671 pessoas residindo no espaço urbano de Marília, o que

representa 95,82% da população total do município. Os outros 4,18% restantes da

população residem nos distritos urbanos, nas áreas rurais e de expansão urbana

de caráter ainda rural. Quanto aos aglomerados subnormais, o IBGE contabilizou

nove setores nesta situação (própria de áreas de favelas), que apresentam 3.239

habitantes residindo em 808 domicílios, representando uma média de 4 habitantes

por domicílio.

O mapeamento da exclusão/inclusão social de Marília indica que 7,09% da

população urbana moram em áreas de exclusão social, representando 5,01% dos

setores censitários urbanos e 6,61% dos domicílios da cidade localizados nestas

áreas. Verificamos que a distribuição das áreas de exclusão social de Marília

apresenta-se de forma bem definida e tem como característica a dispersão dos

setores de exclusão seguindo as extremidades da zona norte e sul e também

seguindo as direções nordeste e sudoeste da cidade (figura 2), respectivamente

próximas aos fundos de vale e das escarpas festonadas denominadas de Itambés.

Por outro lado, os setores censitários que reúnem as melhores condições de vida

estão localizados, principalmente na zona leste, onde estão localizados os

condomínios horizontais fechados de alto padrão residencial.

Conforme Melazzo (2006), em Marília os setores de exclusão estão

dispostos, em sua maioria nos extremos das grandes áreas que formam o espaço
134

urbano, contrastando com os setores de inclusão que se encontram localizados

em eixos que partem do centro.

FIGURA 2

Desta maneira, o mapa síntese da inclusão/exclusão social apresenta a

distribuição dos setores de exclusão/inclusão social considerando as variáveis

demográficas, econômicas, habitacionais, ambientais (higiene e saúde) e

educacionais utilizadas na organização e geração do conjunto de 30 indicadores

sociais que mostra a dimensão espacial da exclusão/inclusão social em Marília.

A partir das informações do mapa da exclusão social de Marília,

delimitamos a precariedade territorial em 9 dentre os 13 setores de exclusão social


135

da cidade. Estes 9 setores selecionados apresentam uma população de 10.018

pessoas distribuídas em 2.650 domicílios, representando uma média de 3,78

habitantes por domicílio, enquanto que a média da cidade é de 3,47 habitantes por

domicílio. A população destes setores corresponde a 5,42% da população da

cidade, bem como o percentual de domicílios dos mesmos corresponde a 4,99%

dos domicílios da cidade de Marília – conforme dados do IBGE. Estas

desigualdades implicam limites de acessibilidade aos serviços públicos do

município, os quais podem interferir diretamente na qualidade de vida da

população. Deste modo, analisando as políticas públicas existentes, partindo da

localização dos equipamentos e serviços públicos de educação e saúde é possível

observar os padrões de concentração e onde há maior demanda por estes

serviços (figura 3).

FIGURA 3
136

De acordo com a localização dos equipamentos públicos verificamos que as

políticas públicas de educação e saúde da cidade de Marília possuem uma


137

distribuição geográfica homogênea dos equipamentos públicos pelo território. No

entanto, verificamos que a precariedade territorial das áreas de exclusão social

está na dificuldade de acesso aos equipamentos públicos e não na localização

dos mesmos. Nesta perspectiva, a distribuição geográfica é reveladora da

desigualdade, na medida em que os bairros mais pobres possuem uma maior

densidade populacional e concentra a população de baixa escolaridade e renda,

há a de se supor que a prestação de serviços deve ser maior.

Presidente Prudente

Presidente Prudente caracteriza-se por ser uma cidade de porte médio que

desempenha expressivos papéis regionais. Trata-se, portanto, de um importante

centro de prestação de serviços e abastecimento regional. A cidade possui ainda

uma outra peculiaridade: tem sido atualmente uma das cidades mais estudadas do

Brasil. São inúmeros os estudos que trataram vários temas e situações ligados a

problemática urbana. Têm sido particularmente expressivos os estudos sobre a

pobreza e a exclusão social. Um dos mais recentes foi realizado por Martinuci

(2006) nas áreas de exclusão social da cidade.

Em Presidente Prudente foi realizado um intenso mapeamento das

condições sócio-econômicas e de infra-estrutura de toda a cidade, a partir de dez

variáveis, que abordaram aspectos demográficos, educacionais, econômicos e de

infra-estrutura. Esse mapeamento permitiu evidenciar as áreas de maior

precariedade social da cidade. Como o mapeamento foi feito com base em dados

do IBGE (dados estatísticos e setores censitários), o resultante do mapeamento


138

colocou em evidência os sete setores censitários mais precários da cidade (figura

4).

FIGURA 4

Nessas áreas há cerca de 1.970 domicílios, onde residem

aproximadamente 6.200 pessoas, segundo os dados do Censo do IBGE (2000).

Em termos percentuais esses domicílios representam 3,73% no contexto da

cidade, enquanto que a população representa 3,28%. Esses setores estão

localizados em áreas que ainda são, em certa medida, estigmatizadas pela


139

população da cidade. Todas elas estão situadas a leste da ferrovia Alta

Sorocabana, numa porção de pouco dinamismo econômico e imobiliário.

Tendo em vista a grande precariedade a que estão submetidos estes

setores, os anseios da população quanto às necessidades refletem a ausência

dos serviços públicos, sobretudo. Para tal vejamos o gráfico seguinte.

Necessidades Básicas
Setores de Alta Exclusão Social
45,00
39,06%
40,00 36,88%
35,00
30,00 26,88%
24,69%
25,00 19,38%
20,00
14,06% 14,06%
15,00 11,56%
10,00
5,00
0,00
Emprego

Comércio
Posto de

Escola

Outros
Segurança

Área de
Creche
Saúde

Lazer

Fonte: Martinuci, 2006

O primeiro item, com 39,06% dos apontamentos, recaem sobre a qualidade

dos serviços de saúde: falta de postos nas proximidades, falta de remédios,

demora no atendimento e atendimento de má qualidade. O segundo item da “lista

de necessidades” básicas dessa população é a creche com 36,88%. A crescente

importância da mulher para a manutenção econômica do lar, a impulsiona cada

vez mais para ingressar no mercado de trabalho e, assim, complementar o

escasso orçamento familiar que, muitas vezes, não é suficiente para as

necessidades básicas. Daí que a creche é uma grande necessidade para a mulher

que possua filhos e é economicamente ativa.


140

Em seguida se destaca a escola, com um percentual de 26,88%. Por ser

um serviço que exige constantes deslocamentos, se a escola é muito distante o

uso de transporte pode ser um imperativo. Daí, que se a criança não tiver acesso

garantido aos serviços de transporte, o que ocorre freqüentemente, ela terá de

fazê-lo por outros meios, a pé ou de bicicleta, sobretudo. Vale salientar aqui as

considerações feitas por Eduardo Vasconcellos (2001) na sua obra “Transporte

urbano e equidade” quando afirma que se a população não tem condições para ter

acesso aos meios de transporte o poder público deve intervir, garantindo o seu

acesso.

A segurança apresentou um percentual de 24,69% das preocupações,

quando a população de cada bairro apontou que a violência tem sido uma

constante nessas localidades. Apontaram a necessidade de rondas policiais mais

freqüentes. Arrivabene (2003) em seu trabalho de pesquisa em Presidente

Prudente sobre ocorrências policiais, atestou maiores índices de violência na

porção leste da cidade. Além dessas questões já apontadas, compareceram

também falta ou problemas com áreas de lazer, com 19,38%, comércio e emprego

com 14,06% cada um, dentre outros (6%).

Além das precariedades infra-estruturais e sociais e da situação de

exclusão social, a população carente ainda vive uma outra situação de

precariedade, a qual relata Demo (1990; 2003). Trata-se da pobreza em sua face

simbólica e de representação, ou mais precisamente, da pobreza política, ou seja,

da fragilidade dos papéis sociais e políticos que os pobres exercem no contexto

urbano. Deste modo, o balanço de forças se torna muito desigual e, portanto, a

produção da cidade fica demasiadamente a mercê de uma pequena, mas forte,


141

elite da cidade (a elite política e econômica). As associações de bairro existentes

nas áreas pobres são bastante frágeis e destituídas de expressão política, quando

não, ferramentas de manipulação por parte da elite política da cidade. Elas,

paradoxalmente, funcionam muito mais eficientemente para a elite política, do que

para a população. Como diria Paulo Freire (1980) é preciso dar palavra aos

oprimidos, e mais ainda, eles têm que conquistá-la, como diria Demo (1990;

2003), uma vez que poder não se dá, se conquista.

Considerações finais

A cidade que temos hoje ainda está muito distante daquele sentido grego

de “polis”, e muito aquém daqueles ideais mencionados por Milton Santos em sua

obra “Por uma outra globalização”, em que na era da informação a cidade é mais

do que nunca o lugar das pluralidades, do convívio das diferenças, da possível

emergência de uma ampla solidariedade entre as pessoas. O direito à cidade

ainda não está ao alcance de todos, haja vista que uma expressiva parcela da

população continua inserida precariamente nela, ao mesmo tempo em que são

excluídos de uma série de sistemas sociais.

Neste sentido, entendendo o processo de exclusão social como

característica fundamental da cidade capitalista e do processo de urbanização

excludente, consideramos que sua principal forma de expressão é a manutenção

ou o acirramento das desigualdades sociais e espaciais intraurbanas,

configurando a separação, em distintas áreas ou regiões da cidade e entre as

diferentes classes sociais, ou seja, a localização da classe mais rica, mais


142

privilegiada segregada e excluindo a classe social menos favorecida, tendo sua

expressão máxima na produção de loteamentos ou condomínios horizontais

fechados para a classe de mais alta renda, que busca, dessa forma, o isolamento

e o não contato com o diferente.

Em busca de seus objetivos, a classe social mais privilegiada ou dominante,

acaba por influenciar os principais agentes promotores do processo exclusão

social nas cidades brasileiras: o Poder Público Municipal e o mercado imobiliário.

Influenciando nas decisões e nas formas de planejar a cidade por parte do

Poder Público Municipal, essa classe luta por melhores investimentos em seus

locais de moradia, lutam, com lobies fortíssimos, para aprovação de legislação

urbanística nem um pouco restritivas e até incentivadoras com relação aos seus

projetos e empreendimentos de construção e expansão dos condomínios ou

loteamentos fechados, como acontece não somente em Presidente Prudente, mas

também em Marília e São José do Rio Preto.

Dessa forma, concluímos que o processo de exclusão social não é fator

natural nas cidades capitalistas, mas é um processo planejado e orquestrado para

benefício de uma pequena parcela da população, a classe mais privilegiada, em

detrimento da maioria, como mostram os indicadores de desigualdade intraurbana

selecionados nas diferentes metodologias apresentadas anteriormente.

Portanto, vemos que as necessidades de transformações e mudanças da

realidade das desigualdades intraurbanas nas cidades brasileiras são necessárias

e, felizmente possíveis, e que o combate e negação da continuidade da exclusão

social deve ser levado a cabo por todos aqueles que têm por compromisso
143

político, uma cidade mais justa e sem desigualdades, segregações ou exclusões

que afetem a equidade social.

A formação e a elaboração de mecanismos mais democráticos de

planejamento e gestão das cidades são indispensáveis para essa transformação e

isso será possível com a participação de toda a população.

Portanto, acreditamos que formas e mecanismos para uma sociedade mais

justa e uma cidade livre da segregação socioespacial e da exclusão social

existem, e dessa maneira, concluímos concordando com as palavras de Vainer

(1998, p.44):

[...] a utopia de uma cidade justa e tolerante é fundamental sempre e


quando seja acompanhada de dois exercícios constantes: o exercício da
crítica, teórica e prática, dos processos concretos – sociais, econômicos e
políticos – que engendram e reproduzem a cidade injusta e intolerante; o
exercício da vivencia não programada da celebração da festa, em que
encontros autênticos se mostrem irredutíveis ao simulacro da
espetacularização tão ao gosto do marketing urbano.

Assim, a luta contra uma cidade de poucos e para poucos e excludente

ainda está no começo, mecanismos e possibilidades de mudança começam a se

formular. Esperamos que a elaboração e análise deste conjunto de indicares

sociais e espaciais de desigualdade intraurbana que nos propusemos realizar

aqui, contribuam para tanto, principalmente pelo fato de serem indispensáveis no

processo de formulação, elaboração, implementação e análise de política e de

planejamento público, assim, permitam que o sonho de uma cidade e de uma

sociedade mais justa e includente se torne possível, sabendo se tratar de uma

dura batalha que se dará ao longo do tempo.