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O Brasil antes dos Portugueses: desconstruções possíveis

Vinicius Rafael Felix Mouro,


licenciando em História, 5º semestre, pela Universidade de Franca – UNIFRAN,
2021, sob o RGM 20571186

Resumo

Neste trabalho, é possível conhecer um pouco melhor sobre como


viviam os nativos das atualmente chamadas terras brasileiras, seu
desenvolvimento tecnológico, sua formação e cultura. Busca-se extrapolar a
visão dada pela historiografia tradicional que contempla a história narrada pelos
detentores do poder, do colonizador, buscando compreender como o
colonizado, os nativos, foram constituindo suas maneiras de estar no mundo,
de cuidar e explorar a natureza, de se organizar politicamente,
economicamente e economicamente. Este trabalho busca, também, lançar
outras possibilidades acerca da constituição e organização dos povos hoje
denominados indígenas, que, muitas vezes, diferenciam do que trazem os
livros didáticos voltados para a Educação Básica, sendo, desta forma, um
convite para que uma educação crítica em História inicie-se já nos primeiros
anos de escolarização, convidando a constituição, transmissão e reflexão sobre
uma História ancorada em dados que possam ser verificados, sem abandonar
a atitude importante da dúvida enquanto estimuladora da constituição de novos
saberes e desconstrução de saberes construídos e transmitidos apenas por
tradição, sem embasamento científico que sustente tal tradição.

Palavras-chave: povos primitivos nativos; Brasil; colonização pelos


portugueses.

Abstratct

In this work, it is possible to get to know a little better about how the
natives of the currently called Brazilian lands lived, their technological
development, their training and culture. It seeks to extrapolate the view given by
traditional historiography that contemplates the history narrated by the holders

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of power, of the colonizer, seeking to understand how the colonized, the
natives, were constituting their ways of being in the world, of caring for and
exploring nature, of organize politically, economically and economically. This
work also seeks to launch other possibilities about the constitution and
organization of peoples today called indigenous, which often differentiate from
what the textbooks focused on Basic Education bring, thus being an invitation
for a critical education in History, start already in the first years of schooling,
inviting the constitution, transmission and reflection on a History anchored in
data that can be verified, without abandoning the important attitude of doubt as
a stimulator for the constitution of new knowledge and deconstruction of
constructed knowledge and transmitted only by tradition, without a scientific
basis to support such a tradition.

Keywords: native primitive peoples; Brazil; colonization by the Portuguese.

Introdução

Buscar indícios de como viviam os nativos do território brasileiro é


tarefa de grande relevância, para que se perceba que a história brasileira não
se inicia com a chegada dos europeus nas terras que hoje são denominadas
Brasil, que, além da história contada pelos portugueses acerca da cultura que
aqui encontraram quando firmaram seus pés em solo brasileiro, há uma história
que já estava em construção pelos que aqui já estavam, formas de viver que
estavam estabelecidas. Ocorre que, no fazer histórico positivista predomina os
documentos que apontam os percursos históricos de um povo ou agrupamento
e esta história registrada é a história daqueles que se encontram em lugar de
poder, seja o poder intelectual, que se sabe esteve, ou está, hegemonizado na
Europa, tida como berço do saber acadêmico, seja o poder econômico, de
onde decorre, não raro, o “direito de dizer” a verdade sobre algo. Compreender
como viviam os indígenas antes da chegada dos portugueses implica
reconhecer a voz deste povo, legitimando o que têm a dizer, validando a forma
como interpretam sua própria história.

Os procedimentos que utilizam aqueles que se colocam a


apreender, compreender os significados e transmitir a história de grupos cuja
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história, muitas vezes, foi contada por outros que tinham e/ou têm o poder,
extrapolam a consulta a documentos considerados oficiais, abrangendo as
pesquisas arqueológicas, que, em seus escombros, muito revelam sobre como
povos que foram silenciados, impedidos de dizer sua história, escondem e
revelam como estes povos formaram-se, como viviam, como era sua
organização política, seus altos em relação à abundância de recursos e
momentos de escassez, sua cultura e economia, considerando a economia em
sentido amplo, como diversas possibilidades de interação, atendimento das
necessidades para a vida dos itens necessários à vida, ainda que a
organização econômica, não raro, relacionada à divisão do trabalho, possa
estar bem distante do que, atualmente, compreende-se por economia. Outra
forma que os estudiosos de culturas cujos integrantes foram silenciados no
decorrer da história utilizam é a coleta de dados por meio da história oral e da
observação dos resquícios que os remanescentes destes povos relatam sobre
sua trajetória.

O método utilizado no presente trabalho é o de revisão bibliográfica,


buscando o que dizem estudiosos do Brasil antes da inserção dos Portugueses
acerca da constituição dos povos nativos e seus feitos.

Com o intuito de melhor compreender o Brasil que havia antes dos


Portugueses, a trajetória pela sobrevivência e pela vida, a cultura e diversas
outras formas de organização social que este trabalho é constituído, buscando
compreender, sem apego a conceitos dados de antemão, como viviam os
nativos das terras brasileiras e como se constituíram como povos antes da
interferência europeia.

Pré-História brasileira, configurações tecnológicas, sociais,


políticas e econômicas dos nativos antes da interferência
europeia

O presente trabalho tem por objetivo explorar, sem esgotar o


assunto, como era o Brasil antes da chegada dos portugueses em 1500,

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utilizando de estudos que extrapolam o estabelecido na educação formal
básica, muitas vezes, de que, antes do contato com a cultura dos portugueses,
os nativos que aqui viviam tinham hábitos totalmente diversos do que se
considera “cultura civilizada”, pois, os nativos tinham sua organização própria
de vida, que era bastante complexa.

Ao falar da pré-história brasileira, Prous, 2006, p. 21, diz um pouco


sobre a cultura dos nativos:

Há diferenças culturais, expressas, por exemplo, pelo


modo de sepultar os mortos (em abrigos, no centro de
Minas Gerais; provavelmente fora deles, no norte
desse estado, ou em Goiás), ou na forma de trabalhar
a pedra: polimento em paralelo ao lascamento em
certas regiões, apenas lascamento em outras;
fabricação ou não de instrumentos de tipo lesma,
utilização de percutores de madeira ou apenas de
pedra para extrair lascas dos núcleos etc.

Pelo que se percebe, na pré-história brasileira já havia rituais de


sepultamento de corpos, o que demonstra desenvolvimento afetivo no lidar
com a morte, no respeito dado ao corpo daqueles que morriam, além de
mostrar o trabalho com a pedra como instrumento de trabalho, demonstrando
desenvolvimento tecnológico – cabe aqui dizer ressaltar que tecnologia não se
restringe ao que hoje se vivencia com o advento tecnológico, mas, sim, toda
forma desenvolvida pelos seres humanos para aprimorar e facilitar a vida da
humanidade. Os nativos, como outros povos, desenvolveram formas
complexas de lidar com questões também complexas, como a morte e o
desenvolvimento de instrumentos parea aperfewiçoar suas ações na lida com a
natureza.

Betty Meggers e Clifford Evans apud Fausto, 2000, p. 20, menciona que
ambos os pesquisadores, com o intuito de entender e elevação e declínio da cultura
dos nativos na região amazônica

[...] realizaram pesquisas arqueológicas em


Marajó na década de 50, apostavam que a
decadência (manifestada pela simplificação
estilística da cerâmica encontrada nos estratos
superiores das escavações) teria ocorrido por

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causa dos limites impostos ao desenvolvimento
cultural pelo ambiente amazônico. Como
explicar, porém, o surgimento da cultura
marajoara, onde se encontram registros que os
arqueólogos costumam associar a sociedades
centralizadas e estratificadas? A resposta de
Meggers e Evans foi postular a migração de uma
população subandina, que se assentara na foz
do Amazonas nos séculos IV-V d.C, já dotada de
um padrão civilizacional elevado. Ela não se
desenvolvera nas planícies inundáveis, onde
vicejam as gramíneas e os mosquitos, mas
chegara pronta, perfeita em seu esplendor.
Contudo, seguia o argumento, assim como uma
cultura se desenvolve em condições favoráveis,
também regride se o meio lhe for desfavorável: a
partir do século XI, começaria, então, o declínio
dos Marajoara. Implacável, a natureza
amazônica teria determinado a involução
daqueles intrusos afeitos às nascentes geladas.
Aqui fica clara a habilidade de evolução tecnológica dos nativos,
quando as condições naturais que encontram são-lhes favoráveis e seu
“declínio”, quando as mesmas condições se tornam desfavoráveis, assim como
ocorre com vários outros povos. Além da utilização da natureza para evolução
tecnológica, os nativos desenvolveram estratificação social, organização
política de sua sociedade, diferentemente do que se ensina em muitas escolas
de educação básica de que os nativos receberam de forma passiva a cultura
portuguesa. Além disso, a pesquisa apontada leva a perceber a contribuição de
outro grupo indígena, a população subandina, advinda das Bolívia, como
contribuição para o desenvolvimento tecnológico e social das marajoaras na
Amazônia, tecendo uma rede de intersecção cultural entre indígenas que não
se relaciona com a cultura portuguesa e sua instalação no Brasil, enquanto
colônia de Portugal.

Ainda sobre desenvolvimento dos grupos nativos, há de considerar o


que aponta Fausto, 2000, acerca de, na historiografia, os indígenas quanto
mais se localizavam ao norte da América, mais evoluídos são considerados,
tanto tecnologicamente, como socialmente, e, quanto mais ao sul, menos
evoluídos. Ainda de acordo com Fausto, o maior modelo continental utilizado é
o do antropólogo norte-americano Julian Steward. Cabe, aqui, o
questionamento sobre o que o antropólogo considera evolução. Para ele,
evolução corresponde à organização política, desenvolvimento de tecnologias

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que utilizam, por exemplo, metais e tem a agricultura e a pecuária
desenvolvidas, como critério para se considerar os grupos subdesenvolvidos
ele considera a ausência dos requisitos apresentados para que se considere o
desenvolvimento, ou seja, a vida em pequenos grupos, sem centralização de
poder político, a não utilização e valorização de metais e a ausência de práticas
de agricultura – acontece que tal concepção está de acordo com uma visão
antropológica e social de acordo com a qual todas as civilizações caminham na
mesma direção, quando se trata de desenvolvimento, teoria desenvolvida pelo
etnólogo Lewis Morgan, que aplicou as ideias da “evolução das espécies” de
Charles Darwin ao social, estabelecendo o “evolucionismo social”, segundo o
qual todas as sociedades seguem um padrão de desenvolvimento –, mas,
considerar que toda sociedade, que todo agrupamento humano segue um
padrão de desenvolvimento, nos dias atuais, não é visto como adequado por
grande parte dos profissionais das Ciências Humanas, pois, seria valorizar uma
dada cultura mais do que outra, o que poderia configurar preconceito social,
além do mais – poderia ou deveria ser considerado evolução a agricultura
predatória? – claro que tal questionamento é possível hoje porque se tem maior
conhecimento dos processos de agricultura que empobrecem e enriquecem o
solo – cita-se isso para esclarecer que não se pretende, aqui, cometer
anacronismo, mas, sim, problematizar a questão da evolução ou involução
civilizatória que, para os critérios de Julian Steward, os aborígines do Brasil
estariam em estado de menos desenvolvidos, comparados aos da América do
Norte. Além do exposto, há de se ter em conta que Steward era Norte-
Americano, o que possibilita o levantamento da hipótese de que, talvez, ele
estivesse adotando uma postura etnocêntrica, tendo sua cultura como base,
modelo, protótipo para as demais culturas.

Fausto, 2000, p. 14, citando Elman Service cita a classificação que


este faz dos indígenas quanto ao desenvolvimento dos agrupamentos
indígenas: “Essa classificação quadripartite dos povos da América do Sul está
na base de uma tipologia geral dos estágios do desenvolvimento sociopolítico
[...] Service designou tais estágios bando, tribo, cacicado e estado [...]”.
Percebe-se uma tendência nas Ciências Humanas com posicionamento
positivista de considerar um desenvolvimento comum para todas as sociedades

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e/ou para onde deveriam ir as diversas sociedades, só mais
contemporaneamente que se passa a discutir as “certezas” dos caminhos
únicos – tal postura é típica dos profissionais da área de humanidades que
passam a questionar o poder da ciência positivista dar contra da multiplicidade
de formas de apresentação do homem e das sociedades que ele compõe.
Percebe-se, também, que para grupos das Ciências Humanas que concebem a
possibilidade de evolução social, parece que, quanto mis, os grupos nativos
aproximavam-se dos moldes do que hoje se entende por estado, mais
desenvolvida seria e, quanto mais diversa fosse menos desenvolvida seria.
Cabe pensar se tal concepção não ocorre porque, não raro, tem-se o momento
atual e o lugar onde se está, a depender da constituição da visão que cada
povo tem de si – por exemplo, os estadunidenses são incentivados a
desenvolverem uma autoimagem de si positiva, enquanto que o brasileiro, por
vezes, é ensinado a ter uma visão negativa de si e, quanto mais se tem uma
visão positiva de si, mais se acredita que as demais sociedades devam ser
parecidas com a sociedade na qual se vive.

Um dos povos aborígines que mais atenção chama pelo


desenvolvimento apresentado é o povo Inca, que possuía grande organização
política, grande extensão territorial, grande população, divisão social, e tinha
por hábito conquistar territórios. Apesar de não utilizarem da escrita, utilizam do
quipu para inscrever quantidades e dados necessários para a administração
pública. O povo inca chegou a ser tão numeroso que a administração da
diversidade deste povo era complexa. Os incas ocupavam a região andina.
Comparada aos grupos aborígines que compunham aqueles que viviam no
Brasil antes dos portugueses aqui chegarem, os incas, se forem considerados
a partir de uma visão que coloca as sociedades em graus diferentes de
desenvolvimento, colocaram-se muito à frente em seu desenvolvimento
tecnológico e, sobretudo, social, pois, pelos indícios que se tem, tendo em
conta toda a organização complexa política que os incas possuíam e a
organização dos grupos nativos brasileiros, que se organizavam em bandos e
pequenas tribos – precisa-se considerar que, apesar de os indícios
arqueológicos que se tem dos indígenas no Brasil serem de grupos
extremamente simples, que conseguiram pequenos “avanços” tecnológicos a

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partir do contato com nativos da parte setentrional da Amárica e indicarem
verossimilhança, há muito que pode estar encoberto pelas matas, sobretudo na
Amazônia, o que impede que, por via da arqueologia, até o momento presente,
descobrir-se mais sobre a cultura dos aborígines do Brasil, além disso,
conforme Fausto, 2000, o que pode ser verificado desses grupos aborígines
por meio da arqueologia é o que está submerso feito principalmente de metal,
pois, os demais componentes de desfazem com maior facilidade e, por isso,
traz a importância de outras formas de investigação que extrapolem a
arqueologia, como a historiografia oral e análise dos nativos que mantiveram
hábitos culturais de suas tribos.

Steward apresenta os Andes e a Costa do Pacífico dos nativos


desenvolvidos frente ao escasso desenvolvimento encontrado na parte baixa
das Américas, na floresta. Traz à lembrança dos indígenas dos Andes
temerosos de terem contato com os indígenas da floresta, pois, aqueles não
tinham preparo para lidar com as matas, nem lidar com as flechas dos
aborígines dessas matas. Nesta visão que os indígenas dos Andes tinham dos
da floresta era repleta de misticismo, pois, ao mesmo tempo que atribuíam aos
indígenas das matas a selvageria, atribuíam a estes, também, o poder do
xamanismo, o poder do sobrenatural. Ocorre que esta visão se limita
temporalmente, pois, pesquisas mais adiante mostram que há no VI milênio
a.C. a interação entre estes dois grupos de aborígines era comum e que dela
houve trocas culturais.

Apesar de vários indícios arqueológicos indicarem que o nativos


brasileiros pouco se desenvolveram socialmente, pesquisas arqueológicas
mais recentes mostram que na ilha de Marajó houve desenvolvimento de
construções de tamanho e de espaço de ocupação significativo, sugerindo
possibilidade de desenvolvimento social complexo entre os aborígines
brasileiros, sendo indicativo que nesta região pode ter convivido cerca de 200
mil pessoas – sobre estes números é necessário ter cautela, pois, não se tem
certeza se todas essas construções são contemporâneas ou se foram se
formando ao longo do tempo e não se sabe se foram todas ocupadas no
mesmo espaço de tempo. Outro indicativo de evolução tecnológica entre os
nativos do Brasil é a cerâmica policromática encontrada em Marajó e de melhor

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qualidade ainda na região de Santarém e os pesquisadores, atualmente,
rechaçam a ideia de que o desenvolvimento tecnológico da região de Marajó
tinha se dado por conta de possível contato entre aborígines dos Andes com
aborígenes de Marajó, pois, as pesquisas indicam que as cerâmicas
encontradas na região são originais da própria região. Ter em mente que entre
os nativos brasileiros há indícios de desenvolvimento tecnológico e civilizatório
coloca por terra a ideia de que os indígenas encontrados por Cabral no Brasil
eram compostos exclusivamente por “selvagens”, ou seja, agrupamentos sem
sofisticação social e tecnológica, podendo-se atribuir aos próprios nativos muito
do que no Brasil desenvolveu-se enquanto tecnologia e “desenvolvimento
social e político”. Dentre as evoluções sociais, encontra-se processos de
tratamento de corpos de mortos que foram descobertos bem preservados,
trazendo, além da questão do desenvolvimento de sentimentos elevados de
cuidado com o que morre, sofisticação técnica do preparo desses corpos; o
que não é possível saber, ainda, é a quem os sepultamentos eram destinados,
se havia critérios para se definir quem receberia honras fúnebres e quem não
tinha – haveria uma elite que teria esse direito e, se sim, quais os critérios:
seria por poder político e/ou espiritual, idade, sexo etc.?

Lathrap apud fausto, 2000, p. 31, traz a ideia de uma Amazônia


Central que na pré-história brasileira foi fonte de abundância e
desenvolvimento, que, apesar de dificuldades típicas da região, apresentava
riquezas que possibilitou o desenvolvimento da agricultura, da pecuária e
sociais.

Discutir sobre como viviam antes da chegada dos portugueses é de


grande importância, sobretudo para que não se cometa injustiças de não se
creditar aos primeiros habitantes do Brasil seus feitos, seu desenvolvimento
tecnológico, sua organização política e social, além de possibilitar às novas
gerações visões nas quais os indígenas sejam vistos como povo que construiu
história, que produziu conhecimento, que inventou formas de se viver, que não
se constituem em um povo “sem cultura”, cuja cultura foi inculcada pelos
portugueses, sobretudo pelos jesuítas.

Acerca das origens dos primeiros habitantes do Brasil, Lopes, 2017,


p. 26, diz:
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a partir do fim dos anos 1980, o bioantropólogo
Walter Neves, inicialmente em parceria com seu
colega argentino Héctor Puciarelli, pôs-se a
reexaminar os crânios originalmente desencavados
por Lund em Lagoa Santa, a maioria deles enviada
pelo naturalista do século XIX a um museu de sua
Dinamarca natal. Neves conta que não esperava
achar nada de bombástico nessa amostra; por isso
mesmo, ficou de queixo caído ao perceber que, de
fato, as caveiras de Minas tinham morfologia muito
parecida com a que se encontra hoje em africanos,
aborígines da Austrália e nativos da Melanésia —
todas populações “negras”.

Percebe-se que a relação e constituição do que hoje se chama povo


brasileiro com a etnia negra extrapola o que se convencionou transmitir na
história como sendo fruto exclusivo do período de escravidão vivenciado no
Brasil, que utilizava mão-de-obra escrava negra, está nas raízes do povo que
deu início aos primeiros habitantes desta terra, como apontam os estudos
arqueológicos.

Martin, 2013, aponta que o nordeste brasileiro é rico em histórias


fabulosas mescladas com arqueologia que muito indicam o modo de vida de
ancestrais, dos primeiros habitantes do Brasil, havendo muito a se explorar em
cavernas, ossadas e demais vestígios arqueológicos que elucidam muito do
que desenvolveram os nativos do Brasil e ressalta a importância de se levar a
cabo pesquisas nesta rica região para se entender o início do Brasil, com
explorações realmente científicas arqueológicas e publicações.

Para maior exploração do que os nativos desenvolveram no decorrer


de sua história, é necessário que se valorize a cultura indígena. A respeito de
tal valorização, a Lei 11.645/08 traz a obrigatoriedade do trabalho com temas
ligados à “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”, o que constitui avanço
em relação à valorização da cultura indígena, mas, por si só, não a garante,
tendo em conta que não basta uma lei que garanta o trabalho com a cultura
dos nativos, se tal cultura for trabalhada apenas de forma folclóricas nas
escolas de Educação Básica – com todo respeito ao folclore que integra a
cultura -, há a necessidade de se trabalhar nas várias etapas da educação
fontes que versem sobre os modos de vida dos nativos a partir de como eles
próprios interpretam sua história e cultura e não de modo que privilegie a
versão europeia da vida dos nativos em detrimento da forma como estes

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próprios percebem sua história e seu modo de viver – ninguém melhor que o
próprio nativo para dizer como sua história, transmitida de forma oral,
considerando-se que a cultura indígena, em sua tradição, utiliza-se da
oralidade, e não da escrita, foi sendo transmitida, o que os indígenas atuais
aprenderam acerca de sua história contada pelos mais velhos aos mais jovens,
como percebem as mudanças que seu povo foi realizando no decorrer da
história e as mudanças às quais foram expostos, como percebem a
interpretação histórica que o homem branco faz/fez de sua história, como
percebem suas manifestações religiosas, sua organização social, a divisão do
trabalho, a divisão do que é tido como masculino e feminino em sua cultura,
considerando as mudanças e permanências, como lidam com a tradição dos
cuidados de saúde ofertados pelo pajé, líder político e espiritual da tribo, com
as medidas de saúde propostas pelo sistema de saúde público brasileiro, como
percebem questões graves que assolam o Brasil e, consequentemente,
assolam seu povo em sentido restrito como a pandemia do novo coronavírus.
Enfim, além de os achados arqueológicos serem importantes fontes de
informação sobre como viviam os nativos antes dos portugueses, a história
oral, realização de entrevistas com os remanescentes de tribos indígenas é
instrumento valioso para se entender sua história, considerando o já dito que
as transmissões de saberes e cultura entre os nativos deu-se, na maior parte
de sua história, de forma oral – a história oral carrega consigo os riscos de
contaminação pelas crenças e complemento daquilo que não se sabe com
detalhes com a imaginação, mas, todo povo carrega suas crenças e não há
possibilidade, por mais que se deseje, de não haver a inscrição de marcas
individuais daquele que se dispõe a constar a história de um povo, de uma
época, seja de forma escrita, mais próxima da forma de se contar a história que
o faz o homem branco, seja por meio da história oral, tradição na cultura
indígena.

Além disso, é importante que se abra a escuta para o que os


próprios indígenas têm a dizer acerca da intromissão da cultura portuguesa em
sua cultura, buscando compreender como a percebem, o que percebem como
positivo, nefasto, indiferente, pois, o modo dos que estão de fora da cultura

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indígena conceber inclusive tal intromissão, e se foi intromissão, pode ser
diferente do dos nativos.

Por fim, é imperioso dizer que de um território, tradicionalmente,


ocupado pelos indígenas, atualmente, de acordo com dados do IBGE de 2010,
de 190.755.799 milhões de pessoas, apenas 817.963 mil são indígenas, o que,
além das possibilidades de diminuição do número de indígenas por doenças
naturais, situações relacionadas à natureza, migração etc., há de se considerar
que, com achegada dos portugueses o número reduz-se, rapidamente, de
forma volumosa, o que leva a perceber que a forma de se tratar os nativos, por
parte dos portugueses, não contemplava políticas públicas de preservação da
cultura nativa, podendo-se aventar a possibilidade de uma política de
extermínio, já que, como mesmo os livros didáticos de história apontam, os
portugueses consideravam os indígenas de difícil domesticação de sua cultura,
o que incluía a dificuldade de fazer os nativos trabalharem para o acúmulo de
bens para os portugueses, já que para a cultura indígena o trabalho era
destinado à sobrevivência e não ao acúmulo, além das diferenças culturais do
que era considerado valioso para um povo e para o outro.

Este trabalho iniciou-se com a apreciação sobre como era o Brasil


em tempos remotos, nos quais os europeus ainda não tinham fincado sua
cultura nas terras brasileiras, mas, é necessário questionar o lugar que o
indígena ocupa hoje no seio brasileiro, considerando que a maior parte dos
nativos mantém contato com os demais habitantes do Brasil e daí surge
questões importantes como a preservação da cultura indígena apesar de tal
contato, respeito às diferentes formas de viver e expressar dos grupos nativos,
preservação de terras indígenas, efetivação de educação indígena, assistência
à saúde dos indígenas que respeite suas singularidades, conhecimentos,
inclusive de fé acerca dos processos de saúde e doença, além de cuidados
para que o indígena não seja usado por outros para que faça mau uso de suas
terras, devastando seus espaços, bem como para que que não ocorra de
indígenas mal-intencionados aproveitem indevidamente de seus espaços,
usando suas terras para consecução de benefícios individuais, que contrariem
a destinação das terras reservadas aos nativos para que possam preservar sua
cultura, devendo-se considerar que a cultura é bem imaterial coletivo – quando

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aqui se fala em cuidado com as ações de possíveis indígenas mal-
intencionados, não se deseja propalar uma má imagem dos nativos, mas, sim,
trazer à tona um consideração não maniqueísta dos povos aqui apresentados,
visão que, deste modo, não apresenta qualquer ser humano como,
plenamente, bom ou, plenamente, mau, antes, considera a necessidade de
contemplação do que se apresenta.

Considerações finais

A partir de todo o exposto no decorrer deste trabalho, fica claro que


os nativos das terras brasileiras possuem uma história própria, história que,
antes de ser cruzada pela colonização pelos portugueses, caminhava a partir
de suas próprias vivências e, a partir do contato com os europeus, vai se
constituir por trocas culturais, considerando que, ainda que os portugueses que
passaram a se instalar no Brasil para garantir a posse portuguesa das terras
brasileiras sentissem-se, por vezes, com cultura, modo de viver, melhor do que
dos nativos, no cruzamento intercultural, não é possível que ambas as partes
se toquem no que tange à cultura, ainda que uma delas, a dos que têm maior
poder, prevaleça sobre a outra. No caso do Brasil, fica clara a influência e
imposição de muito da cultura portuguesa, o que pode ser observado na língua,
pouquíssimo restou das línguas nativas, prevalecendo, pós-colonização, a
Língua Portuguesa nas comunicações entre a maioria dos brasileiros, além de
a legislação brasileira estabelecer a Língua Portuguesa como língua oficial do
Brasil – apesar de a educação ter realizado alguns avanços no sentido de se
incentivar a educação de povos indígenas na atualidade, respeitando os
hábitos, costumes e línguas nativas, cuja diversidade no Brasil é grande, mas,
que prevalece o macro-jê e o tupi e, inclusive a formação de professores
indígenas – aqui, cabe um contraponto ao processo educacional que na
atualidade busca se ofertar aos indígenas com a educação que os jesuítas
propuseram, ou impuseram, aos nativos – enquanto, na atualidade, busca-se
estimular uma educação indígena que valorize as manifestações da
diversidade dos nativos, que lhes possibilite a aquisição de habilidades para

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que possam servirem-se dos diversos direitos que lhes deve ser atribuídos e
respeitados enquanto cidadãos, na educação jesuítica, impunha-se a cultura
portuguesa, a Língua Portuguesa, os valores sociais e morais portugueses e a
religião portuguesa.

Ao se trabalhar com o letramento historiográfico dos estudantes, é


necessário que se desperte o interesse investigativo pelo transcorrer de um
povo, suas conquistas, derrotas, tecnologias desenvolvidas no transcorrer do
tempo, formas de lidar com os sentimentos, com as questões sociais, como,
por exemplo, as formas de concepção familiar admitidas nos agrupamentos em
diferentes momentos históricos, a concentração e/ou divisão do poder sobre o
grupo, as diferenças entre os gêneros, a forma de se educar as crianças, a
religiosidade.

A pré-história brasileira mostra que, antes de os nativos do Brasil


serem tocados pela cultura dos portugueses, certamente, foram influenciados
por outros nativos vindos de regiões adjacentes da própria américa e, como
aponta, Fausto, 2000, é necessário considerar-se as interpelações entre os
diversos grupos nativos espalhados pela América, que, diferente do que se
percebe, na atualidade, mantinham relações de trocas culturais, tecnológicas,
“comerciais”, bélicas, dentre outras, muito mais intensas e tais interrelações,
com certeza, foi formando a cultura dos indígenas, ou melhor, as culturas,
considerando que, apesar de toda troca cultural, é necessário que se diga que
a diversidade era demasiado grande, como em muitos sentidos ainda o é entre
os remanescentes, entre as diferentes tribos. Assim, é possível vislumbrar que
os aborígenes realizavam trocas culturais entre si, o que acaba por favorecer a
transmissão de tecnologias e modos de viver entre os diversos grupos de
aborígines.

É sem tempo que tais conhecimentos acerca do Brasil antes de


Cabral ultrapasse os muros das Instituições de Ensino Superior e ganhe
espaço nos diversos espaços de educação, tanto informais, como formais,
sobretudo, nestes últimos, que devem partilhar do ideal de trabalhar com o
conhecimento bem elaborado e examinado e que, ainda assim, esteja aberto a
novas descobertas – uma das bases da Ciência – e ao pensamento crítico.

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Referências

BRASIL. Lei 11.645, de 10 de março de 2008 – História e Cultura Afro-


Brasileira e Indígena.
FAUSTO, Carlos. Os índios antes do Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

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PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

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