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2022

Alguns poemas

RECEITAS DE INVERNO DO COLETIVO. POEMAS


LOUISE GLÜCK

 Tradução de José Fernando Guimarães

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Alguns poemas

de

Receitas de inverno do coletivo.

Poemas

de

Louise Glück

Tradução de José Fernando Guimarães

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Louise Glück, Winter recipes from the collective, poems, Farrar, Straus and Giroux, New York,

2021.

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Poema

Dia e noite vêm

de mãos dadas como um rapaz e uma rapariga

parando apenas para comer frutos silvestres de um prato

pintado com imagens de pássaros.

Escalam a alta montanha coberta de gelo,

depois voam para longe. Mas tu e eu

não fazemos isso –

Escalamos a mesma montanha;

rezo para que o vento nos erga

mas não adianta;

escondeste a tua cabeça para não

ver o fim –

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Para baixo e para baixo e para baixo e para baixo

é para onde o vento nos leva;

Tento confortar-te

mas palavras não são a resposta;

canto para ti como a mãe cantou para mim –

Tens os olhos fechados. Passamos

pelo rapaz e pela rapariga que vimos no princípio;

agora estão de pé numa ponte de madeira;

consigo ver a sua casa por detrás deles;

Dada a rapidez com que vais eles chamam-nos,

mas não, o vento está nos nossos ouvidos,

isso é o que ouvimos –

E depois estamos simplesmente a cair –

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E o mundo passa,

todos os mundos, cada qual mais belo que o anterior;

Toco a tua face para te proteger –

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A negação da morte

1. Um diário de viagem

Tinha deixado o meu passaporte num motel em que ficamos mais ou menos uma

noite

de cujo nome não me conseguia lembrar. Isto foi como tudo começou.

O hotel seguinte não me ia receber,

um belo hotel, num laranjal, com vista para o mar.

Com que naturalidade aceitaste

o quarto que podia ter sido nosso,

e, depois, ficaste felizmente na varanda,

atirando-me bombons. No dia seguinte

retomaste a jornada que iriamos fazer juntos.

O rececionista arranjou um velho cobertor para mim.

De dia, sentava-me do lado de fora da cozinha. De noite, estendia o meu cobertor

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por entre as árvores do laranjal. Todos os dias o mesmo, exceto quanto ao tempo.

Uns dias depois, o pessoal teve pena de mim.

O ajudante da cozinha trazia-me comida do jantar,

batata invulgar ou um naco de cordeiro. Às vezes chegava um postal ilustrado.

À frente, pontos de referência e obras de arte brilhantes.

Uma vez, uma montanha coberta de neve. Depois de um mês mais ou menos,

houve um pós-escrito: X manda cumprimentos.

Disse um mês, mas de facto não tinha noção do tempo.

O ajudante da cozinha desapareceu. Havia um novo ajudante da cozinha, depois

um outro, segundo creio.

De tempos a tempos, um deles havia de se juntar a mim no meu cobertor.

Gostei desses dias! cada um igual ao anterior.

Havia os degraus de pedra que subíamos juntos

e a pequena cidade onde tomávamos o pequeno-almoço. Ao longe,

podia ver a enseada onde costumávamos nadar, mas sem nunca mais ouvir

as crianças chamando-se umas às outras, nem te ouvir

mais, perguntando-me se eu queria uma bebida gelada,

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que eu queria sempre.

Quando os postais ilustrados acabaram, li de novo os antigos.

Vi-me a mim mesmo de pé debaixo da varanda com aquela chuva

de beijos embrulhados em papel de prata, incapaz de acreditar que me ias

abandonar,

implorando-te, é claro, embora não por palavras –

O rececionista, percebi, tinha estado de pé atrás de mim.

Não fique triste, disse. Iniciou a sua própria jornada,

não no mundo, como o seu amigo, mas em si mesma e nas suas memórias.

Como elas desaparecem, talvez alcance

aquele invejável vazio no qual

todas as coisas pairam, como a taça vazia no Daodejin –

Tudo é mudança, disse, e tudo está ligado.

Também tudo regressa, mas o que regressa não é

o que foi embora –

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Vimo-la ir-se embora. Descer os degraus de pedra

e entrar na pequena cidade. Senti

que algo verdadeiro tinha sido dito

e embora preferisse ter sido eu próprio a dizê-lo

pelo menos fiquei contente por tê-lo ouvido.

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2. A história do passaporte

Eu regressei mas tu não regressaste.

Foi assim:

Um dia um envelope chegou,

com selos de uma pequena república europeia.

O rececionista entregou-mo com um ar de grande cerimónia;

Tentei abri-lo com o mesmo estado de espírito.

Dentro estava o meu passaporte.

Havia o meu rosto, ou o que tinha sido o meu rosto

nalgum momento, bem no passado.

Mas eu já me tinha separado dele,

aquele rosto sorrindo com tal convicção,

cheio de todas as memórias das nossas viagens juntos

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e dos nossos sonhos de outras jornadas –

Atirei-o ao mar.

Afundou-se logo.

Para baixo, para baixo, enquanto continuei

a olhar a água vazia.

Durante este tempo o rececionista foi-me observando.

Venha, disse ele, pegando-me no braço. E começamos

a andar à volta do lago, como eu o fazia por hábito diariamente.

Vejo, disse ele, que já não

deseja retomar a sua vida anterior,

para se mover, é isso, em linha reta como o tempo

sugere que façamos, mas sim (aqui ele gesticulou na direção do lago)

num círculo que aspira a

essa quietude no coração das coisas,

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embora eu prefira pensar que também se assemelha a um relógio.

Nesse momento tirou do seu bolso

o relógio grande que andava sempre consigo. Desafio-a, disse ele,

a dizer, olhando para aqui, se é segunda-feira ou terça.

Mas se olhar para a mão que o segura, aperceber-se-á que já não sou

um rapaz, o meu cabelo está prateado.

Nem vai ficar admirada ao saber

que foi em tempos escuro, como o seu deve ter sido escuro,

e encaracolado, diria eu.

Com estas considerações, estávamos os dois

a olhar para um grupo de crianças brincando nas poças,

cada corpo rodeado por uma boia.

Vermelho e azul, verde e amarelo,

um arco-íris de crianças chapinhando no lago transparente.

Eu podia ouvir o tique-taque do relógio,

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provavelmente aludindo à passagem do tempo

enquanto de facto o anula.

Deve perguntar a si mesma, disse ele, se acaso se ilude a si mesma.

O que quero dizer é a olhar para o relógio e não

para a mão que o segura. Ficámos um pouco, a olhar para o lago,

cada um de nós pensando o seu próprio pensar.

Mas não é a vida de filósofo

rigorosamente como a descreve, perguntei eu. Ir pelo mesmo caminho,

à espera de se descobrir na verdade.

Mas você deixou para trás o que fazia, disse ele, que é aquilo que

o filósofo faz. Lembra-se de quando manteve o que chamou

o seu diário de viagem? Costumava ler-mo,

lembro-me que tinha histórias de todo o género,

a maior parte histórias de amor e histórias de perda, pontuadas

por detalhes fantásticos que não ocorreriam à maioria de nós,

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e ainda ao escutá-los tinha a sensação de estar a ouvir

a minha própria experiência mas contada de um modo mais belo

do que aquele com que eu o podia ter feito. Senti

que você estava a falar comigo ou sobre mim apesar de eu nunca me ter afastado

de si.

Como se chamava? Um diário de viagem, creio que o disse,

ainda que eu sempre o tenha chamado A negação da morte, a partir de Ernest

Becker.

E você tinha-me dado um nome estranho, lembro-me.

Rececionista, disse eu. Rececionista foi o que lhe chamei.

E antes disso, você, que é, creio,

uma convenção na ficção.

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Receitas de inverno do colectivo

1.

Cada ano, quando o inverno chegava, os velhos entravam

nos bosques para colher o musgo que tinha crescido

a norte de certos juníperos.

Era um trabalho lento, levando muitos dias, ainda que estes

fossem curtos porque a luz ia minguando,

e quando os seus cestos estavam cheios, dolorosamente

faziam o caminho de casa, o musgo sendo pesado de carregar.

As mulheres fermentavam esse musgo, uma tarefa morosa

em particular para gente tão velha

que tinha nascido noutro século.

Mas eram pacientes, estes homens e mulheres idosos,

o que você e eu dificilmente podemos imaginar,

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e quando o musgo estava curado, com mostardas silvestres e temperos fortes

posto entre metades de ciabattine, e pesado como pan bagnat,

então estava feito: “revigorante sanduíche de inverno”

foi o nome dado, mas ninguém disse

se era saborosa; era o que se comia

quando não havia mais nada, como matzoh no deserto

chamado pelos nossos pais o pão da provação – Alguns anos atrás

um velho não regressou dos bosques, e então a sua mulher precisou

de uma vida nova, como auxiliar de enfermagem, ou supervisora

de jovens que fizeram um trabalho pesado, ou a vender

as sanduíches no mercado aberto, à medida que a neve caía, embrulhadas

em papel de cera – O livro tem

só receitas de inverno, quando a vida é dura. Na primavera,

cada um pode fazer uma refeição requintada.

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2.

Do musgo, o mais bonito foi guardado

para bonsai, que

tinha um quarto pequeno adequado,

embora poucos de nós tivessem o dom,

e mesmo assim um longo período de aprendizagem

era necessário, sendo as regras complicadas.

Uma luz brilhante reluziu no espécime a ser podado,

nunca em formas animais, que foram desaprovadas,

só naquelas formas

naturais da espécie – Aqueles de nós que assistiam

escolhiam por vezes o recipiente, no meu caso

um vaso de porcelana, que me deu a minha avó.

O vento ficou mais forte à nossa volta.

Sob a luz brilhante, um amigo meu

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que estava a modelar a árvore pousou a sua tesoura.

A árvore parecia-me linda,

talvez por acabar, mas linda, o musgo

em volta das suas raízes – não me deixavam

podá-la mas segurei o vaso nas mãos,

um pinheiro soprando no vento forte

como o homem no universo.

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3.

Como disse, o trabalho era árduo –

não cuidando apenas de árvores pequenas

mas cuidando também de nós,

alimentando-nos, limpando as salas públicas –

Mas as árvores eram tudo.

E como ficávamos tristes quando uma morria,

porque elas morrem, apesar de terem sido

retiradas da natureza; tudo morre eventualmente.

Importava-me mais com as que tinham perdido as folhas,

que se haviam de amontoar sobre o musgo e pedras –

As árvores eram miniaturas, como disse,

mas não há essa coisa de morte em miniatura.

Sombras atravessando a neve,

passos aproximando-se e afastando-se.

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As folhas mortas jazem nas pedras;

não havia vento para as erguer.

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4.

Estava tão escuro como sempre

mas nessa altura eu sabia esperar por isto,

sendo o mês dezembro, o mês da escuridão.

Era manhã cedo. Ia

do meu quarto para o arboreto; por razões óbvias,

fomos incentivados a nunca estar sozinhos,

mas foram abertas exceções – podia ver

o arboreto a brilhar por entre a neve;

as árvores tinham sido penduradas com pequenas luzes,

lembro-me de pensar como podiam ser

percetíveis de longe, não que tenhamos ido, em particular,

para longe – Tudo estava parado.

Na cozinha, as sanduíches estavam a ser empacotadas para o mercado.

O meu amigo costumava fazer este trabalho.

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Huli songly, o nosso formador chamou-a,

prestadora de cuidados. Lembro-me de

vê-la: depois da porta,

procedimentos escritos num cartão em caracteres chineses

traduzidos por as mesmas coisas na mesma ordem,

e por baixo: Privámo-las das suas origens,

agora estão a precisar de nós.

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Viagem de inverno

Bem, era exatamente como eu pensava,

o caminho

quase apagado –

Tínhamos passado então

da primeira para a segunda fase,

do sonho para a proposição.

E olha –

aqui está a linha que separa,

semelhante a

esta linha donde as nossas palavras despontam;

o luar trespassa.

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Sombras na neve

lançadas por pinheiros.

Diz adeus a levantar-te,

disse a minha irmã. Estávamos sentadas no nosso banco favorito

fora da sala comum, com

um copo de gin sem gelo.

Parecia-se muito com água, por isso as enfermeiras

sorriam-te ao passar,

satisfeitas com o quanto hidratada estavas a ficar.

Na sala comum, os casos terminais

viam televisão sob um cartaz que dizia

Welcome to Happy Hour.

Se não consegues ler, disse a minha irmã,

consegues ser feliz?

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Estávamos a passar um bom bocado envelhecendo,

tudo ótimo como disseram as enfermeiras,

embora se possa dizer

que a neve começou a cair,

não bem a cair, antes a tecer de uma ponta à outra,

deslizando pelo céu –

Agora estamos em casa, disse a minha mãe;

antes, estávamos em Aunt Posy’s.

E, entretanto, no carro, o Pontiac,

conduzindo de Hewlett para Woodmere.

Vocês, crianças, disse a minha mãe, devem dormir

tanto quanto possível. Luzes

brilhavam nas árvores:

aquelas são as estrelas, disse a minha mãe.

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Lá estava eu na minha cama. Como podiam as estrelas estar ali

onde não havia árvores?

No teto, tonta, era onde elas estavam.

Devo dizer

estava muito cansada de andar pelo caminho,

muito cansada – pus o chapéu num amontoado de neve.

Mesmo assim não me sentia suficientemente leve,

para mim o meu corpo era um fardo.

Ao longo do caminho, havia

coisas que tinham morrido pelo caminho –

pedaços de neve,

era o que eram –

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O vento soprava. Noites houve em que pude ver

sombras de pinheiros, a lua

estava tão brilhante.

A cada hora mais ou menos, a minha amiga virava-se para me acenar,

ou acreditei que o fazia, embora

a escuridão a obscurecesse.

A sua presença ainda me amparou:

alguns de vocês hão de compreender o que quero dizer.

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Pensamentos noturnos

Nasci há muito.

Não há mais ninguém vivo

que me recorde como bebé.

Era um bom bebé? Um

mau? Exceto na minha cabeça

esse debate está agora

silenciado para sempre.

O que configura

um mau bebé, perguntei-me. Cólicas,

disse a minha mãe, o que significava

que chorava muito.

Que mal pode haver

nisso? Como era difícil

estar vivo, não é de admirar

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que todos tenham morrido. E quão pequena

devo ter sido, ao ser afagada por ela

em aprovação.

Que pena ter-me tornado

verbal, sem qualquer ligação

a essa memória. O amor da minha mãe!

Demasiado cedo emergi

eu mesmo,

forte mas amarga,

como um relógio despertador.

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Uma história sem fim

1.

A meio da frase

ela adormeceu. Tinha estado a contar

um certo tipo de fábula sobre

uma jovem que acorda uma manhã

como uma ave. Tal como a vida,

disse a pessoa ao meu lado. Pergunto-me,

prosseguiu, acha que aqui a nossa amiga

tenciona voar quando acordar?

A sala estava muito calma.

Estávamos ambos a estudá-la; de facto,

todos na sala estavam a estudá-la.

A mim, ela pareceu-me como dantes, embora

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a cabeça tenha descaído sobre o peito; além disso,

tinha boas cores – Parece estar a respirar,

disse o meu vizinho. Não só isso, continuou,

estamos todos nós a respirar nesta sala –

como se quer que uma história acabe. E ainda,

acrescentou, podemos nunca vir a saber

se a história era para ser

um conto moral ou talvez uma história de amor,

desde que foi interrompida. Por isso não podemos estar certos

de termos até agora vivido o fim.

Mas quem o fez, disse ele. Quem o fez?

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2.

Ficamos assim bastante tempo,

bloqueados, refleti para mim mesmo,

como barcos paralisados pelo mau tempo.

O meu vizinho tinha-se fechado em si.

Algo existia, sentia-o, entre nós,

nada tão definitivo como um bebé,

mas, não obstante, real –

Entretanto, ninguém falou.

Ninguém se apressou a obter ajuda

ou se ajoelhou ao lado da mulher deitada.

O sol ia-se pondo; as longas sombras dos olmos

alastravam-se como lagos escuros sobre a erva.

Finalmente o meu vizinho levantou a cabeça.

Manifestamente, disse ele, alguém deve acabar esta história

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que era, creio eu, para ter sido

uma história de amor como mulheres tolas usam contar, propósito

muito longo, cheio de tangentes e distrações

destinadas a disfarçar o inevitável

tédio da sua ingenuidade. Mas como, disse ele,

mudamos de cavaleiros, também podemos mudar

ao mesmo tempo de cavalos. Agora que o conto é meu,

prefiro que seja uma meditação sobre a existência.

A sala ficou muito quieta.

Sei o que pensam, disse ele; todos desprezamos

histórias que parecem áridas e intermináveis, mas a minha

vai ser uma verdadeira história de amor,

se por amor queremos referir o modo como amávamos quando éramos jovens,

como se não houvesse mais tempo algum.

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3.

A noite caiu logo. Sem pensar

acenderam as luzes.

No chão, a mulher mexeu-se.

Alguém a tinha coberto com um cobertor

que ela pôs de lado.

É de manhã, disse ela. Tinha-se

apoiado de modo a poder ver

a porta. Havia uma ave, disse ela.

Alguém deve beijá-la.

Talvez já tenha sido beijada, disse o meu vizinho.

Oh não, disse ela. Uma vez beijada

torna-se num ser humano. Portanto não pode voar;

pode apenas sentar-se e ficar de pé e deitar-se.

E beijar, acrescentou o meu vizinho.

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Já não, disse ela. Houve uma só vez

para quebrar o feitiço que gelou o seu coração.

Foi uma má troca, disse ela,

as asas pelo beijo.

Olhou para nós, como uma figura no cimo de uma montanha

olhando para baixo, embora fossemos os únicos a olhar para baixo,

de facto. Evidentemente a minha cabeça já não é o que era, disse ela.

A maior parte do que me foi acontecendo desapareceu, mas certos

princípios subjacentes foram naturalmente

expostos com surpreendente clareza.

Os chineses tinham razão, disse ela, em honrar o velho.

Olhe-se para nós, disse ela. Estamos todos nesta sala

à espera ainda de ser transformados. É por isso que procuramos amor.

Procurámo-lo toda a nossa vida,

mesmo depois de o ter encontrado.

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Nota: os poemas traduzidos são, na edição original, os das páginas 3 a 25.

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