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A Teoria da Motivação de Maslow

Verena Augustin Hoch

Abraham Maslow propõe uma nova teoria a respeito da personalidade humana.


Conforme esta concepção, o homem é movido por uma tendência básica: a satisfação de
suas necessidades, partindo das necessidade básicas, orgânicas, e em busca da satisfação
das necessidades consideradas superiores – a auto-realização.

Ao propor uma teoria da motivação humana, concebe o homem com um enfoque


holístico, dinâmico e social. Na sua primeira proposição afirma que o indivíduo é um todo
integrado e organizado, isto significa que todo o indivíduo está motivado e não somente
uma parte dele. Não existe uma necessidade do estômago, da boca ou uma necessidade
genital. Tratar o homem como uma mera função do trato intestinal é esquecer do homem
como um todo. Quando uma necessidade está presente, todas as faculdades, capacidades ou
funções, tanto fisiológicas, quanto psíquicas estão orientadas para satisfazer tal
necessidade.

A motivação humana é constante, infinita, flutuante, complexa, característica


quase universal de praticamente todos os estados organísmicos.

A satisfação gera novas motivações. O ser humano nunca está satisfeito e


raramente alcança um estado de completa satisfação, a não ser em breves períodos de
tempo. Logo que satisfaz a um desejo, aparece outro em seu lugar e assim sucessivamente.
É próprio do ser humano estar desejando algo ao longo de toda sua vida. Desejar qualquer
coisa em si implica a satisfação de outros desejos prévios.

Ao formular a teoria da motivação, Maslow estabelece uma distinção entre


necessidades básicas e necessidades superiores. As necessidades básicas são as fisiológicas,
a segurança, o afeto, a estima o sentimento de pertencimento, aceitação e outras do mesmo
tipo. As necessidades superiores são a justiça, a bondade, a beleza, ou, resumidamente, a
necessidade de auto-realização.

As necessidades básicas são necessidades que surgem de deficiências enquanto as


superiores são necessidades de crescimento. As necessidades básicas estão sobrepostas às
necessidades superiores na maior parte dos casos e estão em uma ordem hierárquica. As
necessidades superiores não seguem uma hierarquia são igualmente potentes, mas podem
ser substituídas com certa facilidade umas pela outras.

Para estudar a hierarquia da estrutura de necessidades, Maslow preocupa-se com


pessoas relativamente auto-realizadas. Para ele, qualquer teoria da motivação deve tratar
das capacidades superiores da pessoa forte e saudável. Estudar somente personalidades
anormais faz produzir uma teoria anormalmente orientada da personalidade. Seria parcial.
Para Maslow, os teóricos deveriam ter uma orientação mais positiva.

Maslow toma como ponto de partida para a teoria da motivação, as necessidades


fisiológicas que, segundo ele, são as mais potentes. Concebe as necessidades básicas
organizadas por categorias, com uma hierarquia de predomínio relativo, onde as
necessidades fisiológicas se encontram em primeiro plano.

As necessidades fisiológicas são as mais potentes das necessidades. O ser humano


que se encontra carente de tudo na vida, em uma situação extrema, provavelmente terá sua
maior motivação concentrada na satisfação das necessidades fisiológicas, afirma Maslow.

Se todas as necessidades não estão satisfeitas e o organismo está dominado pelas


necessidades fisiológicas, as necessidades restantes podem ser inexistentes ou desprezadas
pela consciência. Quando o organismo está dominado por uma determinada necessidade,
tende a mudar até sua filosofia do futuro. A satisfação de uma necessidade é tão importante
quanto à privação, pois libera o organismo do domínio das necessidades fisiológicas,
favorecendo o surgimento de outras motivações.

Se as necessidades fisiológicas estão relativamente bem gratificadas, uma nova


série de necessidades surge. Na continuidade da hierarquia, estão as necessidades de
segurança que seguem o mesmo princípio das anteriores, porém, com menor intensidade.

O organismo pode estar também completamente dominado e orientado pela


necessidade de segurança, expressando-se como organizadora quase que exclusiva da
conduta de forma que se pode descrever o organismo como um mecanismo em busca de
segurança. Neste caso, praticamente tudo parece menos importante que a segurança e
proteção. O fim dominante é um fator muito forte, não somente na sua visão de mundo e
filosofias atuais, mas também da filosofia e valores do futuro.
O homem que se sente seguro em uma sociedade praticamente estável, não tem
necessidade de segurança como motivador ativo, o que não ocorre em indivíduos
neuróticos ou quase neuróticos, desvalidos econômica e socialmente, no caos social, na
revolução ou na crise de autoridade. Entre estes dois extremos pode-se perceber a expressão
das necessidades de segurança em fenômenos como, por exemplo, a preferência por um
trabalho estável, o desejo de uma conta bancária e de um seguro de saúde e previdência.

Outro aspecto mais amplo da busca de segurança e estabilidade no mundo observa


Maslow, percebe-se na preferência por coisas familiares mais do que as que não são ou pelo
conhecido mais do que pelo desconhecido. Na tendência a ter uma religião ou uma filosofia
do mundo que organize o universo, em algum ponto de referência significativo e coerente,
está também em parte motivado pela busca de segurança.

Na neurose em que a busca de segurança toma forma mais clara, afirma, é na


neurose obsessivo-compulsiva. Os indivíduos tentam desesperadamente ordenar e
estabilizar o mundo de forma que nunca apareçam perigos não familiares ou inesperados.
Preparam-se com cerimoniais, regras e fórmulas, de modo a poder prever qualquer
contingência e para impedir o surgimento de outras novas. A pessoa neurótica tenta ordenar
seu mundo de forma que o inesperado não possa ocorrer. Se algo inesperado acontece, ha
uma reação de pânico como se o imprevisto constituísse um grave perigo.

As necessidades de segurança podem também aparecer na esfera social sempre


que existam verdadeiras ameaças contra a ordem, a lei ou a autoridade da sociedade.

Se tanto as necessidades fisiológicas quanto as necessidade de segurança estão


razoavelmente satisfeitas, surgem as necessidades de afeto, amor e sentido de
pertencimento. O homem deseja amar alguém e ser amado, sente necessidade de amigos,
família e de pertencer a grupos e se esforçará para atingir esta meta. Alcançar isto significa
mais do que qualquer coisa no mundo e pode chegar a esquecer que uma vez o amor
parecia irreal, desnecessário e sem importância. A frustração destas necessidades é o foco
mais comum nos casos de inadaptação e patologias sérias, ressalta Maslow.

Satisfeitas as necessidades de amor e de pertencimento, a pessoa passa a sentir o


desejo de valorização elevada de si mesma, com uma base firme e estável, tem necessidade
de auto-respeito ou de auto-estima e da estima dos outros.
Maslow classifica a necessidade de estima em dois grupos. Primeiro está o desejo
de força, realização, competência, confiança ante o mundo, independência e liberdade. Em
segundo lugar, está o desejo de reputação ou prestígio, o status, a fama e a glória, a
dominação, o reconhecimento, a atenção, a importância, a dignidade e o respeito.

Estas necessidades têm sido ressaltadas por Alfred Adler e seus seguidores, e
relativamente esquecidas por Freud. Sem dúvida, cada vez mais na atualidade, está
surgindo uma ampla aceitação de sua decisiva importância entre os psicanalistas e
psicólogos clínicos, afirma Maslow.

A satisfação da necessidade de estima conduz a sentimentos de autoconfiança,


valorização, força, capacidade e suficiência, o sentimento de ser útil e necessário ao mundo.
A frustração, no entanto, produz sentimentos de inferioridade, debilidade e desamparo.

Tanto as discussões de teólogos sobre o orgulho e a humildade, quanto às teorias


de Fromm sobre a autopercepção da mentira na própria natureza, o trabalho de Rogers
sobre o eu, também os ensaístas como Ayn Rand, são ressaltados por Maslow, ao dizer que
muito se tem aprendido sobre os perigos de basear a auto-estima na opinião dos outros ao
invés de fazê-la sobre a capacidade real. Portanto, a auto-estima saudável e mais estável se
baseia no respeito merecido dos demais e não na forma externa, na celebridade ou adulação
injustificada. Importante distinguir competência real e realização que se embasa no poder
da vontade pura da determinação e da responsabilidade. Esta responsabilidade provém da
natureza interior e verdadeira do eu, da constituição própria, do eu real e não do eu
idealizado.

Quando o homem atinge um certo grau de satisfação das necessidades fisiológicas,


segurança, amor e estima, surge um novo descontentamento, uma nova inquietude. Uma
necessidade mais elevada; a necessidade de auto-realização que Maslow, define dizendo
que o que os humanos podem ser, é o que eles devem ser. O homem deve ser autêntico com
sua própria natureza. Em outras palavras, a necessidade de auto-realização se refere ao
desejo da pessoa por sua auto-satisfação, a tendência a atualizar suas potencialidades, com
um sentido de plenitude.
Ao finalizar a proposição da hierarquia de necessidades, Maslow, afirma que o fim
último da natureza humana é a auto-realização e define a essência desta nova concepção do
homem mentalmente saudável – o que podemos chegar a ser.

Para expressar em uma frase sucinta o contraste entre conceitos tradicionais de


normalidade e o novo conceito que está aparecendo, afirma Maslow, é que agora vemos
não somente o que os seres humanos são, e sim também o que podem chegar a ser. Pode-se
ver não somente a superfície e sim também as realidades, as potencialidades. Sabe-se
melhor agora o que se oculta nos homens, o que permanece reprimido, esquecido ou
invisível. Pode-se julgar a natureza essencial do ser humano em termos do que podem ser
suas possibilidade, potencialidades e seu desenvolvimento mais alto, ao invés de confiar
somente nas observações externas do momento. Este enfoque se resume em: “la historia há
vendido muy barata la naturaleza humana". (Maslow, l991, p.178).

Na essência desta concepção, acima de tudo o homem tem uma natureza


essencialmente sua, um esqueleto de estrutura psicológica tal como sua estrutura física que
tem necessidades, capacidades e tendências geneticamente fundadas, algumas das quais são
características de toda espécie humana em todas as culturas, e outras exclusivas da pessoa.
Essas necessidades são boas ou neutras ao invés de más. Nesta concepção, a saúde
completa e o desenvolvimento normal e desejável, consistem na realização desta natureza,
na atualização destas potencialidades e no desenvolvimento da maturidade, seguindo as
linhas ditadas por essa natureza essencial, oculta e obscura, isto é, que cresce de dentro para
fora e não somente da influência externa, afirma Maslow.

Através do estudo da psicopatologia e psicoterapia, Maslow chega à conclusão de


que se deve modificar consideravelmente a idéia do psiquismo para respeitar tanto a
racionalidade, emocionalidade e o lado impulsivo, volitivo ou de desejo da natureza do
homem. A pessoa saudável é integrada. A pessoa neurótica está envolvida numa luta
interna entre razão e emoção.

O potencial do homem não é forte, poderoso e inequívoco como os instintos


animais, ao contrário, é delicado e facilmente vencido pelo hábito, pela pressão cultural e
pelas atitudes equivocadas ao seu respeito. Embora frágil esta potencialidade nunca
desaparece na pessoa saudável e nem mesmo na pessoa doente, subsiste oculta, embora
negada ou esquecida.

O ser humano possui uma natureza, uma estrutura matizada de tendências e


capacidades inatas. Maslow ressalta, no entanto, que é uma grande conquista e muito difícil
reconhece-la em nós mesmos. Somos mutilados, corrompidos, distorcidos ou desprezados
em nossa essência desde os primeiros momentos de vida pelo meio em que vivemos. Ser
naturais e espontâneos, saber quem somos e o que queremos realmente é uma culminação
elevada e que raramente se alcança, geralmente, se leva anos de muito esforço.

Para descobrir o que as pessoas necessitam e o que são, é necessário estabelecer


certas condições que facilitem a expressão destas necessidades e que as tornem possíveis.
Maslow observa que em um ambiente permissivo, de respeito, amor, aceitação e
gratificação, as pessoas se desenvolvem com certa facilidade. Esta atmosfera que permeia
as relações favoráveis é a melhor atmosfera para todas as relações humanas, em diversas
situações sociais, e em especial, para a psicoterapia.

Ao fazer um estudo com pessoas relativamente auto-realizadas, Maslow chega a


algumas conclusões sobre a personalidade destas pessoas, todas com alguns traços
característicos.

A pessoa auto-realizada: está orientada de modo realista; aceita-se a si mesma,


aceita os outros e o mundo como se apresentam; possui grande espontaneidade; concentra-
se mais nos problemas do que em si mesma; é desprendida e possui uma necessidade de
solidão; tem autonomia e independência; sua apreciação das pessoas e das coisas é pura e
não estereotipada; a maioria destas pessoas já teve alguma forma de experiência mística ou
espiritual; identifica-se com a humanidade; suas relações com pessoas íntimas tendem a ser
profundas e intensamente emocionais e não superficiais; seus valores e atitudes são
democráticos; não confunde meios com fins; seu senso de humor é mais filosófico do que
hostil; possui grande reserva de poder criativo; não é conformista quanto à cultura;
transcende o ambiente ao invés de combate-lo; é espontânea e mais perceptiva.

Na teoria da motivação de Maslow, a personalidade se desenvolve à medida que a


satisfação das necessidades básicas vai ocorrendo e novas motivações vão surgindo ao
longo da vida da pessoa. Outra afirmação de Maslow é que o ser humano é insatisfeito por
natureza, está sempre em busca de algo. A motivação é constante, infinita, flutuante e
complexa.

Ao estudar a motivação, devemos levar em conta algumas observações de Maslow


quanto aos meios e fins, assim como motivação consciente e inconsciente.

Para Maslow o impulso, necessidade ou desejo típico não é e nem estará nunca
relacionado com uma base somática específica, isolada, localizada. O desejo típico é
claramente uma necessidade da pessoa inteira.

Os desejos da vida cotidiana têm uma característica importante: são geralmente


meios para alcançar um fim mais que fins em si mesmos. Normalmente, ao se analisar um
desejo vemos que, por trás, podemos chegar a outros fins mais fundamentais do indivíduo.
Em outras palavras, diz Maslow, temos uma situação semelhante ao papel que tem os
sintomas em psicopatologia. O estudo dos sintomas como tais é irrelevante, porém o estudo
de seu significado é importante e pode ser produtivo. Os desejos particulares que nos
passam pela mente muitas vezes ao dia, não são tão importantes em si, porém o que
representam, para onde conduzem e o que, em última instância, significam em uma análise
mais profunda. O que caracteriza esta análise mais profunda é que, em última instância,
conduzirá a certos fins ou necessidade que estão por detrás, a satisfazer certas necessidades
que parecem fins em si mesmas e que não necessitam uma posterior justificação ou
demonstração.

O estudo da motivação deve ser, em parte, o estudo dos fins, dos desejos e das
necessidades últimas do ser humano. Estes fatos implicam uma nova necessidade, em uma
teoria sólida da motivação, posto que estes fins não são observáveis diretamente na
consciência. Logo, afirma Maslow, uma teoria da motivação não pode se permitir ao luxo
de esquecer o inconsciente. Um desejo consciente ou uma conduta motivada pode servir
como uma espécie de canal através da qual se expressam outros propósitos.

Maslow afirma que existem provas antropológicas suficientes que indicam que os
desejos fundamentais ou últimos de todos os seres humanos apenas diferem de seus desejos
conscientes cotidianos. A principal razão disto é que duas culturas diferentes podem gerar
duas formas totalmente distintas de satisfazer a um desejo particular. Para uma cultura, por
exemplo, a estima se obtém sendo um bom marido, para outra, no entanto, sendo um bom
curandeiro. Seria mais útil situar estes dois desejos conscientes aparentemente díspares, na
mesma categoria ao invés de coloca-las em categorias diferentes sobre a base do puro
comportamento. Na aparência, os meios em si mesmos são mais universais que as vias
pelas quais se conseguem esses fins, porque essas vias estão determinadas localmente por
sua cultura específica. Os seres humanos são mais parecidos do que poderia se pensar a
princípio.

A aparição do impulso ou desejo, as ações que produzem, e a satisfação que se


consegue em alcançar o objeto final, todas elas juntas somente nos proporcionam um
exemplo artificial, isolado, único e fora da estrutura total da unidade motivacional, conclui
Maslow.

Referências Bibliográficas

Goble, F.G. (1995). La tercera fuerza: la psicología propuesta por Abraham Maslow.
México: Trillas.

Hall, C.S. & Lindzey, G. (1984). Teorias da personalidade. São Paulo: E.P.U.

Maslow, A.H. (1991). Motivación y Personalidad. Madrid: Díaz de Santos.

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