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AVALIAÇÃO - TEO 1322 PUC - RIO

EVANGELHOS SINÓTICOS E ATOS DOS APÓSTOLOS


PROF. DR. D. BASÍLIO DA SILVA, OSB
ALUNO: Bruno Brandão Morais
DATA: 19/04/2022
1. Explique o termo “Evangelho”, presente na literatura greco-romana e na
Sagrada Escritura (máx. 20 linhas).
Evangelho no antigo testamento para o mensageiro significa
pagamento(recompensa), para o receptor uma notícia, assim como relatado em 2
Samuel 4,10. Daí o comentário de São Paulo de quem anuncia o Evangelho tem direito
ao seu sustento. No Império romano progressivamente a palavra Evangelho passou a
significar o nascimento do filho do imperador ou quando o imperador sobe ao trono, é
inevitável ao receber o nascimento de Cristo não o associar a isto.
Jesus quebra a lógica do sentido evangelho de seu tempo “dai de graça aquilo que de
graça recebeste”. Aquele portando que dá a recompensa não é mais o receptor da
notícia, mas o próprio Deus. Se o anúncio do evangelho não é acompanhado da
disponibilidade gratuita e da recompensa de Deus não é anúncio do evangelho.
Para os primeiros cristãos evangelizar é apresentar a pessoa de Cristo, mas para falar
é necessário conhecer a pessoa. Portanto, deixa de ser notícia para ser alguém e o
conhecimento deste alguém parte do mistério pascal. Para eles há equivalência de Jesus
cristo, Deus e o evangelho. A primeira citação cronológica da palavra evangelho é de
São Paulo em 1Ts, 5. A pregação do evangelho é uma experiência eclesial. A pregação
era acompanhada por obras especificas, as mesmas que o próprio Cristo fazia.
2. Defina o gênero literário “Evangelho” (máx. 20 linhas)
Gênero Literário são características do que está escrito (ad literam), sendo assim as
características do gênero literário dos evangelhos é O mistério pascal, o próprio Cristo,
o Reino, podendo ser definido com a palavra Pascal. É definido assim por ser iluminado
pela Pascoa de Cristo, o nascimento de Cristo só tem sentido pela morte e ressureição
dele.
Na época da redação dos Evangelhos o Gênero literário Vitae, biografias antigas,
era muito comum, elas não eram como as de hoje: começava pelas origens; narrava
obras; narrava morte; elementos a imitar; poderia ter uma organização
temática(suetônio), cronológica(plutare). Apesar da estrutura Vitae ser extrabíblica e é
utilizada para anunciar a novidade do Cristo: alguns evangelistas adaptaram a estrutura
Vitae, já conhecida na época, para apresentar o mistério pascal de Cristo, isso se dá
através da máxima, Qualis vita finis ita( assim como era a vida assim será a morte),
abarcando na narração a morte e elementos a imitar. Naquela época olhar para a morte
era saber como ele viveu.
No cristianismo, tudo passa a ter mais credibilidade a partir da morte e ressureição
do Senhor. Os evangelhos olham para a morte do senhor para se construir, outros
elementos como as biografias testamentárias ajudam a descobrir o Senhor.
3. Ao considerar a questão sinótica, explique a:
a) Tríplice Tradição (máx. 10 linhas)
A tríplice tradição exprime relatos comuns aos 3 evangelhos, não de modo
idêntico, mas apresentando pontos de vistas diferentes, a exemplo da narração dos
ultrajes que fizeram a Jesus antes da crucifixão: Mt 26,68; Lc 22,64; Mc 14,65. Isso
pode ser explicado pela Teoria das fontes, a qual afirma a dependência literária: Marcos
é o primeiro evangelho a ser escrito, sendo atribuído a ele utilização do seu material
próprio, já Mateus em sua escrita tem acesso ao elemento “Q”, bem como, ao evangelho
de Marcos, por fim, temos Lucas, que em sua investigação acurada teve acesso a todas
os evangelhos anteriores, bem como ao elemento “Q”.1 A fonte “Q” pode ter sido
escrito ou provavelmente oral. Chamados ditos de Jesus, de onde veio a origem. Assim
como os grandes filósofos não deixaram nada escrito, mas seus discípulos, assim é a
fonte “Q” de Jesus. A fonte “Q” é paralela a Marcos, mas ele não a cita.

b) Dupla Tradição (máx. 10 linhas)


A dupla tradição refere-se a elementos comuns a 2 evangelistas a exemplo de
Mt-Mc /Mt- Lc, como vemos em : Mt 3,7-10, Lc 3,7-9 - Mt 5,38-48, Lc 6,27-36
Segundo Brown a fonte “Q” é uma fonte abordada por muitos autores para
explicar a dupla tradição dada em Mateus e Lucas no material ausente em Marcos.
Sendo esta hipótese dada pela preposição de que Mateus e não se conheciam, de modo a
haver entre eles uma fonte comum.2

c) Material próprio (máx. 10 linhas)


Material próprio é todo aquele que se encontra apenas em um dos evangelhos, destes
temos os exemplos de: Mc 4 , 26-29;7,32-36;8,22-26 - Mt 13, 44-46 - Lc 10,30-35.

4. Apresente e explique a estrutura do Evangelho segundo Mateus (máx. 30 linhas)


A Estrutura do Evangelho segundo Mateus se organiza do seguinte modo:
Introdução, capítulos 1-3; 1ª seção, chamada sermão da montanha, capítulos 5-7;2ª
seção, discurso missionário, capítulo 10; 3ª seção, discurso em parábolas, capítulo 13; 4ª
seção, discurso eclesial, capítulo 18; 5ª seção, discurso escatológico, capítulos 23-25;
conclusão, capítulos 26-28. Na coluna principal, ou seja, no centro da estrutura que se
dá no capítulo 13, encontramos a chave de interpretação de todo o Evangelho. Algumas
dobradiças: capítulos: 4;8-9;11-12;14;17;19-22 possuem a função de ligar o tema
precedente ao posterior.
Essa estrutura se assemelha ao Pentateuco, ao livro do deuteronômio com os 5
discursos de Moisés, Pentateuco de Davi, bem como, com a menorá, símbolo do
judaísmo que serve como um candelabro para iluminar, essa aproximação de símbolos e
cultura judaica se dá pelos destinatários do escrito, povos de cultura judaica cristã. As
1
Cf. BROWN, Raymond E. introducción al Nuevo Testamento. Madrid: Editorial Trotta, 2002, p. 177,178
2
Cf. Ibidem, p.180
divisões do evangelho de são Mateus são uma evidência literária interna. A comparação
do pentateuco ao primeiro evangelho é fruto do esforço de reler o primeiro Evangelho
como um reescrito do Pentateuco, uma atualização, Jesus novo moisés, para um Judeu
Cristão isso é obvio. Jesus como verdadeiro descendente de Davi é exposto na
descendência de Jesus, conforme as escrituras, esperança das promessas divinas. A
função da menorá era iluminar, o judaísmo tem a missão de anunciar aos povos como a
menorá, através da torá. Conhecer o evangelho de Mateus é se tornar a luz de Cristo,
sendo a própria menorá.
Mateus traz descrições minuciosas sobre práticas judaicas, a exemplo, lavar as
mãos em Mt 15. Ele mostra um grande conhecimento do antigo testamento, assim
como, dá a entender que os destinatários dos seus escritos são para comunidades
judaicas- cristãs, pois se não, eles não entenderiam a passagem dos fariseus, normas de
pureza, dentre outras. As descrições que São Mateus faz da Palestina são de grandes
precisões, mostrando que conhece muito bem a topografia da Palestina, obviamente um
exímio conhecedor do antigo testamento, mundo judaico, assim pode-se intuir que o
primeiro evangelho não foi escrito fora do oriente médio, a descrição apropriada mostra
alguém que já conhecia a Palestina

5. Apresente e explique a estrutura de Mt 5,1–7,29 (máx. 30 linhas)


A estrutura se dá na seguinte forma: cap 5,1-16 – Introdução; Mt 5,17-20 –
exortação baseada em Dt 7,12-15; Mt 5, 21-48- Programa de vida;Mt 6,1-18- virtudes:
boas obras, oração (pai nosso); Mt 6,19-7,11 – Ensinamento; Mt 7,12 – Síntese; Mt
7,13-29 -Conclusão.
Está seção do evangelho de Mateus é a referente ao Sermão da Montanha. O
sermão da montanha se dá próximo ao mar da Galileia. Jesus sobe a montanha assim
como Moisés e Elias. Os três aparecem novamente em outro episódio, em um monte na
transfiguração, os elementos em comum permitem dizer que essas passagens podem se
interpretar. Jesus nesta seção ensina com autoridade, há aqui um paralelo entre Moisés e
Jesus, assim como Moisés Jesus sobe a montanha para falar com Deus e nessa
montanha nos apresenta as bem-aventuranças, ou falando de outro modo, o novo
decálogo. Para os Cristãos não é só uma questão de imagem e semelhança de Deus, mas
de Cristo, por isso ele pronuncia o Sermão da montanha. Ao subir a montanha Jesus se
revela como legislador e profeta.
O centro, ponto chave de interpretação desta seção está em Mt 6,1-18, na qual
cita as boas obras, Jejum e oração como exercícios de piedade. A interpretação do
Sermão da montanha necessariamente chegará as Virtudes e Eucaristia.
Mt 6,9 relata o ensinamento de Cristo: “ orai desta maneira”. Aqui há uma
revolução de chamar Deus de pai, se Deus é pai somos filhos. O Pai nosso já é um eco
de uma oração judaica chamada kadish, que era usada em liturgia fúnebre (assim era no
tempo de Jesus). Há também subtendido nas súplicas nomes divinos/ títulos de Deus:
Santo, Rei, onipotente, Pão, Perdão, Salvador, libertador. O pai nosso nos ilumina, por
isso é considerada a oração perfeita. Os sete pedidos formam o laço do candelabro,
rezando o Pai Nosso se invoca os principais títulos de Deus, desde êxodo Deus
libertador, até o deserto o Deus que dá o maná. O pão partilhado, obra de misericórdia;
o pão que carece, Jejum. Para um cristão falar de pão é falar de eucaristia, a eucaristia
dá todo o sentido ao sermão da montanha.
Esta seção nos deixa a reflexão, de que só se obtém o verdadeiro Tesouro (Mt
6,19-21) através da oração (Mt 6, 22); boas obras (Mt 24); Jejum (Mt 6,25).3

6. Comente:
a) Mt 13,31-32 (máx. 20 linhas)
Estruturalmente as parábolas presentes nesta seção são o centro do Evangelho
segundo Mateus e serve como comentário de Jesus aos fariseus que se encontram nos
capítulos precedentes4. A Parábola do grão de mostarda apresenta uma característica do
Reino, que Ele crescerá em nós, apresentando, portanto, o pequeno começo do Reino no
presente e seu grande futuro. O reino de Deus não vem como realidade pronta caída no
céu, cresce em nós, o nosso papel é fazer conhecer o Reino, só se faz conhecer a partir
do conhecimento pessoal, daí as parábolas.O grão de mostarda diz respeito a fé.
A função da parábola é “proclamar as coisas ocultadas desde a revelação do
mundo”, numa linguagem que todos podem, até quem não quer conhecer. Os discípulos
recebem a missão de entender literalmente as características do Reino, não é o mistério
do Reino é o próprio Reino que estava oculto, anunciado e explicado pelos discípulos
posteriormente.
São Gregório Magno compara o grão de mostarda a paixão e ressureição de
Jesus, “plantado no horto a sepultura, ressuscitou como uma grande arvore. For grão
quando morreu; arvore quando ressuscitou; grão pela humildade da carne, árvore pelo
poder da majestade.”5
b) Mt 13,33 (máx. 20 linhas)
Esta perícope continua a evolver a temática da anterior, do grão de mostarda,
como o crescimento enquanto característica do Reino de Deus, agora sendo comparado
ao fermento. O fermento é utilizado para fazer crescer toda a massa na qual é
fermentada, de dentro para fora.
São Jerônimo apresenta mulher que toma o fermento e o mistura como a
pregação apostólica, o fermento para ele é a inteligência das escrituras e as três medidas
de farinha o totalidade do homem( corpo, alma e espirito) que fermentam em unidade.6
Já São Hilário afirma que o Senhor comparou a si mesmo ao fermento, de modo, que o
fermento tem a virtude de comunicar a todas as farinhas de sua espécie a virtude que
recebeu, sendo a mulher a sinagoga que esconde este fermento condenando-o à morte, o
fermento misturado as três medidas, isto é, Lei, profetas e evangelho se juntam
formando uma só crença, sendo tudo aquilo que a Lei estabeleceu e os profetas
anunciaram cumprido no progresso do Evangelho.7
c) Mt 13,44-46 (máx. 20 linhas)
Esta parábola, a do tesouro escondido, descreve a oportunidade única de ganhar
o Reino dos Céus, sendo este Reino algo de muito valor. São Jerônimo descreve que

3
Cf. BROWN, Raymond E. introducción al Nuevo Testamento. Madrid: Editorial Trotta, 2002, p. 255-258
4
Cf. Ibidem, p. 264.
5
Cf. AQUINO, Santo Tomás de. Catena Aurea: volume 1.Campinas: Ecclesiae,2018, p. 469.
6
Cf. Ibidem p. 471
7
Cf. Ibidem
este tesouro achado no versículo 44 é escondido pelo temor de perder ser perdido8. Já
São Gregório afirma que o tesouro escondido no campo significa o desejo do céu, que
quando o homem acha esconde-o a fim de conservá-lo, vende e vence tudo, ou seja,
renuncia os prazeres terrenos, pela observância da disciplina Celeste.9 A perola para ele
possui o mesmo significado.

8
Cf. AQUINO, Santo Tomás de. Catena Aurea: volume 1.Campinas: Ecclesiae,2018, p. 476
9
Cf. Ibidem, p. 477

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