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PROCESSOS REFLEXIVOS SOBRE O APRENDER A ENSINAR MATEMÁTICA:

POSSIBILIDADES FORMATIVAS DOS PORTFÓLIOS DE ALUNOS DE


PEDAGOGIA

Rute Cristina Domingos da Palma,


rcdp@terra.com.br , Doutoranda em Educação
UNICAMP, Docente da UFMT;
Anna Regina Lanner de Moura, Docente da
UNICAMP lanner@unicamp.br

Resumo

Esta pesquisa analisa portfólios produzidos por um grupo de trinta alunos na


disciplina de Matemática e Metodologia do Ensino do curso de Pedagogia da
Universidade Federal de Mato Grosso/UFMT, ministrada no segundo semestre de
2006, com o propósito de investigar as possibilidades formativas desses portfólios
tendo como enfoque os processos reflexivos sobre o aprender e aprender a ensinar
matemática (Moura, 2001). A elaboração dos portfólios visa evidenciar, sobretudo o
movimento e o fluir dos processos dos alunos durante a disciplina (Sá-Chaves,
2000). A análise das narrativas de um dos portfólios evidencia a mobilização e
elaboração de conhecimentos profissionais, dilemas, dificuldades e reflexões sobre
o aprender e aprender a ensinar matemática nos anos iniciais do ensino
fundamental.

Palavras-chaves: portfólios, narrativas, aprendizagem da docência, educação


matemática.

Introdução

A nossa experiência como docentes no curso de Pedagogia e as pesquisas


têm revelado que geralmente os alunos estabelecem uma relação negativa com a
disciplina e apresentam pouca compreensão do conhecimento matemático que
deverão desenvolver com os alunos da educação infantil e dos anos iniciais.
(Serrazina, 2000; Lanner de Moura, 2005).
A trajetória escolar pautada em princípios mecânicos, repetitivos e
excludentes parece contribuir para a constituição de crenças, concepções e vínculos
negativos com a Matemática. Os estudos revelam também, que muitas vezes, as
crenças, concepções sobre a Matemática, e o ensinar e aprender Matemática
permanecem inabaladas até o final do curso de formação inicial. Assim, modificar as
concepções dos alunos “implica conhecer e viver uma forma diferente de saber
matemática, de fazer matemática, de aprender e de ensinar matemática”. (Serrazina,
2000, p.16)
Acreditamos que o aluno possa (re)significar os conceitos aprendidos de
forma mecânica, em sua vida escolar, à medida em que vivencie, em sala de aula,
atividades problematizadoras que possibilitem compreender a natureza e finalidades
da matemática numa abordagem histórica e cultural; que favoreça a aprendizagem
significativa dos conceitos matemáticos; a investigação de novas abordagens
metodológicas e avaliativas e a reflexão sobre a Matemática e seus processos de
ensino e aprendizagem. Segundo Serrazina (2000), através da reflexão das
atividades que vivenciam, analisam, observam, é que os alunos vão adquirindo
novos conhecimentos, relacionando-os com os que já possuem. (p.18)
É neste contexto, que surge a necessidade de experienciar a elaboração dos
portfólios com os alunos do curso de Pedagogia e investigar as possibilidades
formativas desses portfólios tendo como enfoque os processos reflexivos sobre o
aprender e aprender a ensinar matemática.

Os portfólios e a formação de professores

Na última década, tem se intensificado a utilização dos portfólios nos cursos


de formação inicial e continuada de professores, nas diferentes áreas do
conhecimento.
Pesquisadores destacam as várias contribuições da utilização do portfólio no
processo de formação e desenvolvimento profissional. Para Sá-Chaves (2000), os
portfólios são “vistos e utilizados como instrumentos de estimulação e como fatores
de ativação do pensamento reflexivo, providenciando oportunidades para
documentar, registrar e estruturar os procedimentos e a própria
aprendizagem”.(p.15)
Grilo e Machado (2005) concebem que o portfólio pode contribuir para a
reflexão continuada do professor em formação, criar espaços para o questionamento
sobre a prática, promover o desenvolvimento profissional a partir de suas
experiências, contribuir para a auto-avaliação e autoconhecimento, levar os
professor a pensar sobre os pontos fortes e as suas fragilidades como professores
em formação. (p.31)
Villas Boas (2004), afirma que o portfólio quando elaborado por alunos, se
caracteriza como uma coleção de produções organizadas por eles próprios, que
apresentam evidencias das aprendizagens. Esta produção é discutida, analisada e
avaliada em conjunto, por aluno e professor, como estratégia de acompanhamento
dos progressos.
As diversas abordagens presentes na discussão sobre o portfólio indicam que
a sua utilização pode assumir diferentes finalidades, ora enfocando mais a
aprendizagem, ora a avaliação ou a formação. Assim, o objetivo que irá cumprir no
processo de formação dependerá da intencionalidade de quem o propõe.
Em nossa pesquisa, o portfólio foi utilizado com o objetivo de proporcionar,
estimular e sistematizar a reflexão dos alunos sobre suas aprendizagens em relação
à Matemática, e aos processos de ensinar e aprender Matemática.
No processo de elaboração do portfólio, cabe ao aluno decidir como irá
organizar a sua trajetória de aprendizagens, definir a estrutura, as atividades,
leituras e produções que foram mais significativas. O aluno apresenta suas
aprendizagens, anseios, inquietudes, desejos, provenientes de seus conhecimentos,
das experiências vividas e das expectativas que tem em relação ao futuro. Esta
elaboração exige que o aluno pare para pensar sobre o que e como aprendeu, o que
vivenciou, a julgar e a estabelecer critérios. Este processo impregna a elaboração do
portfólio de subjetividade, por isso, cada produção apresenta uma singularidade e
particularidade, “são peças únicas”, como diz Sá-Chaves (2000).
A flexibilidade e a continuidade também são característica do portfólio. Assim,
diante do que já foi elaborado, é possível fazer novas estruturas, seleções,
acrescentar e excluir produções, na medida em que novas aprendizagens e
reflexões, possibilitam novos olhares para a produção e para a própria formação.
Como diz Sá-Chaves (2000), os portfólios “são capazes de evidenciar não apenas
os produtos decorrentes dos processos de formação, mas sobretudo a natureza, a
lógica, a organização e o fluir dos próprios processos” (p.15)
Ao elaborar o portfólio os alunos narram suas experiências, dando voz ao que
pensam, produzem e sentem. O processo narrativo no portfólio desencadeia o
“sentimento de autoria, a produzir conhecimento de si e para si, pois, a partir do
processo auto-narrativo, o sujeito está fazendo uma reconstituição de significados
das experiências consideradas as mais importantes de sua vida”. (Dias, 2005, p.114)

O percurso Metodológico

A pesquisa foi realizada com um grupo de trinta alunos do curso de


Pedagogia da UFMT, na disciplina de Matemática e Metodologia do Ensino, no
período letivo de 2006.
No início da disciplina indagamos aos alunos o que eles sabiam sobre a
utilização dos portfólios na educação. Alguns alunos se manifestaram dizendo “Já
ouvi falar que pode ser utilizado como processo avaliativo, mas não sei exatamente
o que é”, “Na escola do meu filho adotam, não é compilar todo o material produzido
pelos alunos?”. Diante da constatação de que nenhum aluno havia vivenciado a
elaboração de um portfólio e não tinha conhecimentos sobre essa estratégia
formativa levantamos a necessidade da realização de leituras que possibilitassem ao
grupo compreender a proposta.
Assim, propusemos a leitura de dois textos (Sá-Chaves, 2000; Benigna,
2004), e a partir da discussão, os alunos manifestaram o interesse em realizá-lo
durante a disciplina.
O portfólio foi proposto com duplo sentido, o de proporcionar ao aluno, futuro
professor de matemática dos anos iniciais, a possibilidade registrar e sistematizar
reflexões sobre suas aprendizagens no decorrer da disciplina. O outro motivo foi
poder utilizá-los como instrumento de investigação didática, com o propósito de
analisar as possibilidades formativas tendo como enfoque os processos reflexivos
sobre o aprender e aprender a ensinar matemática (Moura, 2001).
Estabelecemos conjuntamente que os portfólios seriam desenvolvidos ao
longo da disciplina. Nele deveriam constar as atividades que atribuíssem maior
significado, as memórias, as reflexões individuais, as produções, anotações e relato
de experiências dos projetos de ensino.
A elaboração do portfólio seria discutida sempre que sentíssemos
necessidade. E para podermos estabelecer um diálogo permanente durante o
processo e acompanhar a trajetória de cada aluno, estabelecemos que a entrega do
portfólio para leitura aconteceria a cada três dias.
Neste artigo, dada a nossa inicial aproximação com a temática e a
singularidade e particularidade que cada portfólio possui, apresentamos trechos do
portfólio de apenas uma das alunas, aqui denominada BET.

Trechos do portfólio de BET

As memórias sobre a trajetória escolar em Matemática

BET inicia o portfólio com suas memórias de formação em relação ao ensino


de Matemática. As lembranças revelam aspectos da metodologia, da postura do
professor, de sua aprendizagem e do processo de avaliação.
A tabuada era muito cobrada nas provas orais, e se a turma apresentava dificuldades
os alunos eram obrigados a escrevê-la repetidamente, fora os insultos que
depreciavam a nossa capacidade. (Memórias)

... desenvolvi então um “quadro” de insegurança e conflito interno, nunca tirava


minhas dúvidas, até porque se isso acontecesse tinha a resposta: “É claro que não
entendeu, não presta atenção, fica aí só boiando” enquanto os colegas diziam: “Mas é
burrinha mesmo” (Memórias)

Agora, se alguém me perguntasse: Se você tinha dificuldades para aprender


Matemática nas primeiras séries, como é que passava de ano? Simples e “chato”,
responderia, decorando exercícios e conteúdos, principalmente aqueles em que os
professores diziam: “Estudem que vai cair na prova”. Com isso, anotava num canto
do caderno em destaque “cai na prova” (Memórias)

Ao apresentar suas lembranças revela parte das vivências escolares em


matemática, que de certa forma, são indicadoras de influências na formação da
aluna. As lembranças aqui não são entendidas como saberes, conteúdo intelectual,
resultado da interação do sujeito com o seu mundo, mas podem ser transformadas
em saberes do presente quando reconstruídas, referenciando novas perspectivas
(Moura, A.; Palma, R., 2006).
A partir da socialização dos memoriais, parece que BET inicia uma tentativa
de análise em relação às trajetórias escolares em Matemática de sua turma.

A partir do relato de minhas colegas percebo que a maioria de nós vivenciou um


ensino de Matemática numa perspectiva tradicional. Cópias, reprodução,
mecanização, medo. (Reflexão)

As primeiras inquietações

Em um de seus primeiros textos escreve:

De inicio, algumas questões propostas pela professora em sala de aula, vieram a


despertar algo que estava adormecido em minha mente: o que é matemática? Será
que verdadeiramente aprendi matemática? Em que momento? Como? Qual a
maneira de ensinar? Que conteúdos ou conceitos não esqueci? Para que serve o que
aprendi?
Muitas outras perguntas foram surgindo, que apontam para um grande desafio:
buscar maior compreensão do conhecimento matemático…(Reflexão)

A aluna começa a se questionar sobre a matemática e os processos de


ensino e aprendizagem. Como escreve BET os questionamentos apontam para um
grande desafio, a busca por conhecimentos.

Concepção de Matemática

Os trechos de textos que se seguem revelam a evolução de BET em relação


à sua concepção de Matemática.

Matemática é uma disciplina que está no ramo das ciências exatas e que trabalha
com números e cálculos e fórmulas pré-estabelecidas conforme estudo de alguns
cientistas...(Ficha das concepções iniciais)

Não é a primeira vez que acontece de notar o quanto tenho ainda que aprender. Uma
novidade [....] para compreender a matemática outros conhecimentos são
necessários: sua linguagem, história, uma série de conhecimentos que se inter-
relacionam.. (Reflexão)

Começo a perceber que a Matemática não se restringe a grupos privilegiados é


construída a partir das necessidades da humanidade, não é uma ciência acabada,
mas em constante construção. (Reflexão)

A matemática é vista por muitos na nossa sociedade como uma disciplina que se
restringe aos cursos de exatas e para pessoas inteligentes. [...] Também pensava
assim, como registrei no meu memorial. Mudei de opinião, entendo que a Matemática
contribui para que os sujeitos que a praticam desenvolvam o raciocínio lógico e
possam exercer plenamente a cidadania. (Reflexão)
Muitos não gostam dela, pensam que estudar matemática é um fardo. Talvez pela
forma como seja apresentada na escola. Mas se os conceitos e atividades forem
trabalhados de uma forma menos desvinculada da realidade, a partir da
problematização, mais dinâmica, existe a possibilidade do aprendizado se tornar mais
rico para as crianças, na medida em que se sentiam envolvidas no processo.
(Reflexão)

No primeiro trecho o texto é impessoal, como se o conceito tivesse sido tirado


de um livro qualquer. Na medida em que as aulas caminham a aluna começa a se
revelar e revelar a evolução de sua concepção de Matemática, de uma concepção
como ciência pronta e acabada, para uma ciência histórica, social em constante
evolução. Parece começar compreender “[…] que os conteúdos têm uma história e
que se interconectam com outros conteúdos específicos” (Moura, 2002, p. 149). A
evolução de sua concepção de Matemática parece influenciar nas concepções de
aprendizagem e ensino da matemática, como indica o último trecho de texto.

Os conhecimentos matemáticos

BET, em seu portfólio, faz registros sobre suas aprendizagens em


relação ao conhecimento matemático e elenca as leituras, as discussões em sala de
aula, a resolução de problemas como situações significativas no processo de sua
formação.
Sobre o número

Agora sei que a origem dos números está relacionada à necessidade do homem em
controlar e registrar as quantidades. Foi através da leitura e das discussões
realizadas sobre o texto “O movimento do número na história e na criança” (Lanner
de Moura, Ifrah) que me chamou a atenção para alguns conceitos como, por
exemplo: o que é senso numérico, correspondência biunívoca, bases, antigos
sistemas de numeração (Reflexão)

Sobre Resolução de Problemas

O ponto de partida para essa aula foi à palavra problema. Resolver problemas torna-
se mais significativas e interessantes, na medida em que nós alunos, começamos a
perceber as diversas possibilidades de solução. Isto ficou evidente, cada grupo
utilizou suas próprias estratégias. Depois cada grupo chegando a um consenso, pode
expor no quadro e também oralmente o processo de resolução. (Reflexão)

O que me chamou a atenção durante essa atividade, foi entender que as situações
problemas ampliam as possibilidades de aprendizagem, nos levam a pensar, a
argumentar, a reconhecer que o colega pode ter algo a nos ensinar, é bom
compartilhar conhecimentos, experiências. Cativa-se uma sensação de satisfação em
conseguir chegar à resolução dos problemas tornando a aula mais prazerosa.
(Reflexão)
O fato de estar envolvida no processo de resolução de problemas, de discutir,
registrar, argumentar, de comunicar as suas estratégias e participar da tomada de
decisão no grupo, parece ter sido uma experiência significativa para BET para
desencadear a reflexão sobre a organização do ensino de Matemática nos anos
iniciais do ensino fundamental.
Assim, na escola quanto mais o aluno for estimulado a fazer atividades que
apresentem situações problemas, atividades que apresentem desafios, que
possibilitem aos alunos pensar, maior será a chance de estarem desenvolvendo suas
potencialidades. (Reflexão)

Quanto a sua aprendizagem BET diz:


A partir das situações problemas aprendo melhor, consigo atribuir significado ao que
estou fazendo. (Reflexão)

Além de trabalhar com os conceitos, as atividades permitiram ter o que parece ser o
inicio de uma maior compreensão da matemática e uma possível familiarização com a
sua linguagem. (Reflexão)

A necessidade de fazer os registros vem sendo bastante enfatizada nas aulas.


Entendo que seja uma maneira de fazer com que nós possamos desenvolver a
capacidade de representar no papel o que pensamos, sentimos, nossas estratégias e
produções. (Reflexão)

Aproximação ao contexto escolar

Durante a disciplina, as alunas em duplas, elaboraram um projeto de


investigação na escola pública. O projeto consistia em detectar uma dificuldade no
processo de aprendizagem em Matemática, de um aluno ou grupos de alunos de
uma turma dos anos iniciais do ensino fundamental e elaborar atividades que
posteriormente seriam desenvolvidas com a turma investigada. Os trechos de texto
abaixo tratam dessa experiência.

O dilema
No momento em que paramos para pensar em como desenvolver a nossa proposta
as idéias pareciam não fluir. Então conversamos sobre o que seria importante
trabalhar com os alunos a partir das observações que tínhamos realizado.
Precisávamos fazer alguma coisa que levasse os alunos a refletir sobre a
Matemática, não como a disciplina estava sendo apresentada, conteúdos e aulas
cansativas e desvinculadas da realidade. (Reflexão)

A decisão
E assim o enfoque histórico na primeira atividade foi definido como adequado para
mostrar como se deu o surgimento do número. O número tem uma história.
Acreditamos que através da história poderíamos problematizar, no intuito de levar os
alunos à reflexão sobre tal conhecimento. Eu e minha colega criamos a história a
partir do que havíamos estudado e preparamos o cenário. (Reflexão)

Enquanto preparávamos tudo percebi a importância de se fazer um planejamento...


(Relatório de Campo)

Os momentos do planejamento foram de fundamental importância, a cooperação


entre nós, a nossa criatividade, queríamos fazer o melhor (...) essa foi uma das
melhores experiências em grupo vividas por mim. (Reflexão)

As inquietações
Minhas dúvidas eram: será que a nossa proposta é relevante? Como as crianças irão
reagir? E se tudo der errado? (Relatório de campo)

As constatações
Quanto às atividades que realizamos com a turma percebi que:
- Nos prendemos um pouco no tempo, talvez por insegurança;
- Algumas crianças mostraram dificuldades em compreender e acompanhar as
atividades; mas isso eu já imaginava;
- Quanto “a unidade, dezena e centena” eles estavam bastante confusos. Uma
menina pensava que uma dezena equivalesse a 16 unidades e um menino achava
que eram 12 unidades. (Relatório de campo)

Um aspecto que considero importante é levar os alunos a registrarem as atividades.


Penso que essa seja uma questão relevante para a aprendizagem, na medida em
que estimula as reflexões dos alunos, desenvolve a capacidade de organização, de
percepção do que de fato aprenderam ou não. A escrita também contribui para que
nós, através das observações diretas e constantes, da produção dessas crianças
percebêssemos a trajetória de cada um, conhecêssemos melhor a potencialidade
individuais e as dificuldades. Podendo assim, melhorar o planejamento da aula,
buscar outros recursos e tentar suprir as necessidades detectadas. (Relatório de
Campo)

Percebi que poderíamos ter feito melhor se atentássemos para alguns detalhes na
hora de encaminhar a história e as atividades. (Relatório de campo)

... foi a primeira vez que pude aproveitar na mesma disciplina, estudando como
ensinar e aprender e aprender ensinando. (Relatório de Campo)

A aula foi uma experiência que provocou ainda mais à vontade que tenho em ser
professora. O conhecimento para tal, não vem instantaneamente, vou buscá-lo...
(Reflexão)

A reflexão da aluna sobre a sua experiência na escola demonstra a


elaboração de conhecimentos sobre a matemática e o ensinar matemática. Relata
considerar o momento do planejamento privilegiado, destaca a necessidade das
ações coletivas, consegue descrever algumas das dificuldades sentidas no
desenvolvimento das atividades e na aprendizagem dos alunos. Manifesta o desejo
em ser professora e parece se conscientizar de que isto exige contínua formação.
Planejamento, reuniões, dificuldades em aula são companheiros do cotidiano
da escola aos quais vamos acostumando-nos como ingredientes necessários para
que a vida escolar faça sentido. Este sentido natural pode mudar quando a reflexão
sobre ele desvenda suas profundezas. Assim, sentir que uma atividade não deu
certo, refletir escrevendo sobre este incômodo pode levar a descobrir novas formas
de desenvolver os mesmos objetivos. “Percebi que poderíamos ter feito melhor se
atentássemos para alguns detalhes....” assim flui a reflexão de BET sobre a aula que
no seu ponto de vista, não alcançou na totalidade os objetivos propostos.

Algumas considerações

Ao utilizar os portfólios buscávamos investigar as possibilidades formativas,


com enfoque nos processos de aprender e ensinar matemática. Ao ler os portfólios,
especificamente o portfólio de BET, percebemos que os textos produzidos não se
caracterizam na sua totalidade como textos reflexivos, por vezes são apenas
comentários ou relatos. Mas, acreditamos que eles não devem ser desconsiderados;
porque de certa forma, narram aspectos que a aluna considerou relevantes para a
sua aprendizagem.
A análise das narrativas presentes no portfólio de BET revela indícios da
trajetória de aprendizagens e significados que a aluna vai elaborando acerca da
Matemática, dos processos de ensino e aprendizagem e de sua ação docente.
Enquanto estratégia formativa favoreceu o registro, sistematização de reflexões e o
desencadear de novas aprendizagens.
Cabe ressaltar, que uma das vantagens percebidas na utilização do portfólio é
o dialogo que o instrumento permite ao aluno fazer entre as vivências, as produções
orais e as diversas produções escritas. Os alunos podem ler, avaliar e retomar as
suas produções. BET sobre a organização de seu portfólio diz, “na minha mente
parecia rodar um “Flash back” de um filme longa metragem em que eu assistia no
camarote as experiências, leituras, discussões, atividades e produções da
disciplina”. (Reflexão) Além disso, ao narrar suas aprendizagens, dificuldades,
anseios e descobertas, BET parece estabelecer um vínculo positivo com o seu
portfólio, ao escrever

Hoje vim bem depressa para casa, não queria deixar as idéias perdidas no ar,
precisava escrever. (Reflexão)
Referências Bibliográficas

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SÁ- CHAVES, Idália (org.) . Os “portfolios” reflexivos (também) trazem gente
dentro. reflexões em torno do seu uso na humanização dos processos
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material didático no ensino de Matemática: lembranças deixadas em alunos de
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LANNER DE MOURA, Anna Regina. Conhecimento matemático de professores


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Trabalho Pedagógico)