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Generation Dead 02 - Kiss of Life

CAPITULO 4

— Feliz Aniversário. — lhe disse Gus Guttride, o advogado, mais


frio que uma xícara de café do dia anterior.

— Certo; obrigado. — Pete respondeu.

— Anime-se. Se tivesse nascido alguns meses antes, agora te


julgariam como um adulto ao invés de um menor, e então o circo seria
tremendo. Temos sorte.

Guttridge estava na cabeceira da mesa, em frente à assistente


social, Pete, sua mãe e seu marido, o Banana. Estavam em uma das
salas de reuniões do reformatório de Winford, aonde Pete tem vivido nas
últimas semanas. Havia dois cartazes amassados na sala, um dizia que
as drogas não eram legais e outro afirmava que a violência das gangues
não era legal. Pete não se importava em estar no reformatório; a comida
era melhor do que em casa e a levavam em seu quarto, porque não lhe
era permitido se misturar com os demais garotos. Certamente outros
pensariam que aquilo também não era legal, mas ele achava que era
razoável.

— O lado negativo é que não acredito que voltar ao Instituto seja


uma opção agora mesmo. — Guttridge continuou. — O melhor que
podemos esperar é que lhe enviem para casa, sob a custódia de sua
mãe, e com um instrutor nomeado pelo estado para lhe dar aulas
particulares.

Pete pensou que o lado negativo tinha boa pinta. Passou as pontas
dos dedos pela cicatriz da bochecha esquerda, e traçou com o indicador
o coração das irregulares marcas dos pontos do corte. A ferida ainda lhe
dava punção de repente ou o fazia sentir uma dor palpitante, mas não
importava. Era pior quando tinha a bochecha adormecida e babava o
tempo todo.

— Normalmente, se um menor comete assassinato é julgado como


adulto. — Guttridge dizia. — Como o Sr. Layman ainda pode entrar com
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seus próprios pés pelo tribunal, o tribunal já está considerando que, na


realidade, não é assassinato.

O Banana, sem dúvida, para ficar bem em frente a sua mulher e


não porque sentisse algo por Pete, fez uma pergunta, mas ele não
escutava; estava ouvindo a voz do Zumbi asiático em sua cabeça: "Você
pensou que eu ia matar?". Havia lhe sussurrado o Zumbi; seu hálito era
como uma tumba aberta. "A morte é um presente".

De certa forma, Pete se alegrava que o morto o houvesse ferido,


porque a cicatriz era a prova visível de que os hambúrgueres de vermes
eram monstros malvados que desfrutaram com a dor e a mutilação dos
vivos.

— Bom; senhor Clary. — Guttridge continuava. — A ideia é que


Pete não deveria ser julgado por homicídio, já que Layman não se
encaixa na definição oficial de "morto". Tem um Fator Biótipo Diferente,
mas continua sendo "Biótipo" e, portanto, Pete não cometeu homicídio.
Pode ser por agressão, mas acredito que inclusive isso seria muito, se
chegar a esse ponto.

Um dos pontos sobressaía da bochecha de Pete como uma


espinha ou uma picada de vespa. Começou a mover o ponto, sem fazer
caso da forte dor aguda que o acompanhava a cada puxão que dava.
Ouviu o advogado, Guttridge, dizer seu nome.

— Senhor Martinsburg? Pete?

Pete levantou a cabeça, sua mãe e o Banana estavam olhando-o


com falsa preocupação, enquanto que Gus Guttridge tentava consertá-
lo.

— Sinto muito. — disse. — Do que estávamos falando?

— Estávamos discutindo o que pode e não pode ser dito sobre o


suporte.

— Certo. — Pete disse. — Certo. O que ele disse é que temos que
ser sinceros.
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— Certo. — Guttridge respondeu. Pete não confiava nos caras com


barba, e Guttridge tinha uma boa barba, uma coisa confusa tão grossa
como o cabelo crespo que tinha na cabeça. No entanto, Guttridge havia
sido escolhido por seu pai, e seu pai sempre escolhia o melhor que o
dinheiro podia comprar, então deixou ir.

— Bom, vou repetir. — Guttridge continuou. — Entende que


quando a senhora Lainey lhe faça uma pergunta, o melhor é dar
respostas curtas e concisas, certo?

— Concisas; certo. — Pete repetiu; seus dedos voltaram ao ponto,


como se fossem imãs. Os retiraria em uma semana, se tudo fosse bem,
e o velho papai Martinsburg se encarregaria da fatura de qualquer
cirurgia plástica que precisasse para se livrar da cicatriz, embora ele não
estivesse certo de querer se desfazer dela.

— Sim. — Guttridge disse, olhando para Pete com seus olhos azuis
cheios de bolsas. — Então, quando a fiscal Layne lhe perguntar por que
foi à propriedade de Chesterton Road, o que responderá?

— Que ouvi que havia uma festa.

— O convidaram a essa festa?

— Não.

— Encontrava-se sob a influência de drogas ou álcool?

— Bebi um pouco de licor. De menta.

— Não.

— Então, fui à festa para arrebentar?

Pete suspirou e voltou a tocar seu corte.

— Havia escutado que os Zumbis montaram uma festa e algumas


pessoas de verdade iam estar ali, e não gostei do que diziam que os
Zumbis iam fazer.
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Pete viu que Guttridge puxava o lábio inferior e baixava o olhar


para olhá-lo através dos seus óculos. Os óculos tinham grandes
armações de metal dourado, as que usavam muitos dos tipos obesos e
de cara grande.

— Não os chame de Zumbis. — o advogado disse. — Chamamos


de pessoas com Diferente Fator Biótipo.

— Entre eles, se chamam de Zumbis. — Pete respondeu, para ver


se poderia mudar a Cara de Lanhoso. Não teve sorte.

— Isso não significa que você pode fazê-lo. Tão pouco diga
"pessoas de verdade". Ajudaria muito que se lembrasse de chamá-los
por pessoas com Fator Biótipo Tradicionais. Você pode me ouvir, usar
outros termos, por exemplo, mas isso não quer dizer que você deve
fazê-lo. Tem que projetar uma imagem de integridade e
respeitabilidade. Deixa e que eu me encarrego de me fazer de
indignado, caso seja necessário.

— Certo; toda a diversão para você. — Pete protestou, dando


batidinhas com a unha na pesada mesa.

— Você já tem tido a sua. — Guttridge repôs, sorrindo. — Agora,


voltemos ao tema. Foi à festa, sozinho?

— Não.

— Com quem você foi?

— Com TC Stavis.

— Entendo. O que fez o senhor Stavis e você quando chegaram à


festa?

— Estacionamos em uma rua sem saída a menos de um


quilometro dali e atravessamos o bosque a pé até a casa. Depois
esperamos.

— Não dê a informação sobre o carro, a não ser que perguntem


diretamente. Porque estava esperando de fora?
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— Porque não nos haviam convidado.

— Muito esperto. Por favor, responda a pergunta.

— Estávamos esperando para ver se Phoebe estava na festa.

— Quanto à senhorita Kendall. — Guttridge disse, colocando uma


pasta sobre as demais.

— Morticia Pantynegros. — Pete comentou sorrindo.

Mas a paciência de Guttridge parecia não ter fundo, certamente


porque o velho Darren lhe pagava por hora.

— Por favor, esqueça que inventou esse nome, a não ser que
queira receber um apelido parecido quando lhe jogarem no cárcere.