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TENEBRAS II

Círculo da Primeira Pessoa.


Por Alan Marinho

Já fazia tanto tempo que eu não ouvia nenhuma voz

alheia. Mesmo eu silenciei por meses enquanto me

encontrava no cárcere. Fiquei um quarto de hora sentado

naquele banco no meio de uma grande praça e foi quase

uma experiência espiritual estar ali ouvindo tantas vozes

novas. Eu olhava para todos com uma alegria incontida.

Toda a metafísica do intangível exposta diante de meus

olhos joviais e nem mesmo o mais alto poeta seria capaz de

ditar na cadência de seus versos. Era vida que surgia

escancarada, vazando. Vida caótica explodindo em cores e

cheiros num algoritmo indecifrável de sangue e carne.

Expiei tudo aquilo com a garra de um puma, feliz que só,

mas ainda entorpecido pelas decadentes lembranças de

meu período no cárcere.


Na realidade eu ainda não sabia o porquê daquilo

tudo. O quarto em que me largaram era estreito, sujo e

parecia não estar nesse planeta. Tinha janelas minúsculas,

mas nada para ver fora de lá. Tinha uma cama asquerosa e

bolorenta que durante três longos anos passei a chamar de

minha. No cárcere aprendi a ser homem, perdi muito peso

e senti meu cabelo cair. Na escuridão profunda da noite no

cárcere eu me comuniquei com eles, os Grãos Finos de Sal.

Enquanto me encontrava ali sentado naquele banco eu já

não sabia se possuía minha antiga sanidade, isto é, as

experiências abissais que me foram realizadas naquele

cárcere definitivamente partiram a minha alma em dois.

Percebi que aquele banco e aquela praça ficaram

muito pequenos para mim e resolvi dar o fora dali. Estava

entardecendo, fui caminhar na praia e rapidamente me

encontrei solitário novamente. E que belo pôr do sol, que

licença poética, afinal fora o primeiro que eu

experimentara em anos. Lá longe tinha um cara acendendo

um cigarro e nesse momento me descobri louco para fumar

novamente. Deste modo, fui até o cidadão, um crioulo alto

e garboso, em busca de caridade: “Tem um cigarro?” eu

falei. O camarada me concedeu um daqueles horríveis

cigarros importados feitos de papelão e cocô, mas eu


agradeci e sorri para ele. “O tempo é um grande círculo”

disse aquele homem que sacou um violão sabe-se lá de onde

e entoou uma canção antiga e transcendental.

Conheci uma garota hoje no metrô, conversamos sobre

antologia de estética teoria e crítica literária, combinamos

um cinema para sábado. Ela era feinha, mas nem tanto.

Após três anos de reclusão e sem mulher tudo o que espero

é um beijo quente nos lábios, um afago doce de fêmea e

quem sabe o sublime gozo no sexo oposto. Pelo que me

lembro sempre fui muito desenrolado com as mulheres,

pois aprecio a alma feminina com seus gracejos e

ambigüidades provocativas, bem como suas nuances

minimalescas de lasciva opressão. Mas é exatamente neste

ponto que aparece o trauma, ou a lembrança obliterada.

Algo profundo e duro como aço, gelado e esférico,

dormente em minha própria morbidez. Parece-me, ou

melhor, eu não me lembro muito bem, mas quando tenho

relações sexuais com uma mulher eu acabo matando-a. Isso

foi uma das doutrinas que aprendi com os Grãos Finos de

Sal naquele cárcere, mas também em toda a minha vida

anterior. Acredito que esses seres já se alojaram em minhas

memórias e colocaram de tudo lá, da claridade às trevas,

da estranheza inicial à dormência sacramental. Meu Deus,


eles estavam lá comigo. Já era noite precisava dormir, mas

eles ainda estavam lá.

***

Aluguei um apartamento para passar uma

temporada, havia guardado algumas economias. Sempre fui

solitário, meus pais morreram juntos em um desastre de

avião. Desde então vagava como nômade de cidade em

cidade, nunca me apegando demais a nada até que vim

parar aqui. Daí eu fui tragado para outra dimensão e

retornei três anos mais tarde, de volta à mundanidade tão

trivial. Onde estive pude aprender que tudo isso aqui é uma

ilusão, toda a construção cognitiva cai por terra diante do

mistério sagrado e profano da Treva Super-Luminosa. Fui

escolhido para participar de uma experiência além-corpo e

o portal havia sido aquele cárcere. Os portadores do

enigma eram os Grãos Finos de Sal, raça anciã de presença

mediúnica, reveladores do ponto de partida para uma nova

configuração essencial no universo.

No apartamento que aluguei fiquei numa espera que

funcionou como intervalo. Inflei todo o ambiente ao meu

redor durante três dias. Pensei de tudo, aquela liberdade


era sensacional. Olhava da grande janela a cidade em

movimento, as avenidas pareciam artérias e os carros

glóbulos sanguíneos bombeando um imenso organismo

golem. Pensei em um rochedo de egos em fúria num

ambiente hostil. Pensei na ingenuidade de Hilda, pobre

moça, aceitou ir ao cinema comigo, mas seria apenas uma

vítima, um banquete para criaturas muito além da

compreensão arraigada pela nulidade vulgar. Depois de

tanto tempo sozinho pude entender a sintonia fina que nos

ajusta com precisão cirúrgica aos pólos de raios catódicos

advindos de uma tela de TV com um milhão de polegadas.

Em certas horas me apanho pensando na minha vida

passada, isto é, aquela que tive antes da intervenção no

cárcere. Era empregado de uma firma de telefonia celular,

tinha uma namorada, mas acho que ela morreu, quer

dizer, talvez eu a tenha matado também. O caso é que eu

não me lembro claramente, pois certas memórias já se

evanesceram em oblívio de tocata e fuga nas malhas finas

de minha percepção pueril. As reminiscências ancestrais

que ancoram minha consciência se encontram

escamoteadas pela névoa leitosa que se alastrou e

engendrou o meu período de recolhimento. Hoje me

encontro em dúvida feroz: Seria realmente eu o assassino


ou apenas me tornei uma marionete para os Grãos Finos

de Sal? As respostas jamais vêm facilmente, pois o tempo e

o pensamento são verdadeiros abismos existenciais.

“Cine Rio Grande”, estava escrito em letras garrafais.

Cheguei para o encontro com duas horas de antecedência,

queria tomar um café, fumar alguns cigarros e

principalmente bolar uma maneira de entregar Hilda ao

banquete para avançar um passo rumo a minha

transformação. As instruções pareciam bastante claras:

“Faça sexo com ela, depois mate, deixe o resto com a

gente”. Parecia fácil levando em conta, creio eu, que já

havia cometido tais atrocidades anteriormente e um

demônio sussurrou certa vez que tudo aquilo fazia parte do

meu destino. Seria eu especial? Que segredos permaneciam

velados ali? Quando Hilda apareceu tudo estava muito

obscuro, porém o mesmo demônio me disse tudo aquilo o

que eu precisava fazer, ou seja, agir segundo meus instintos.

Ó fisiologia macabra, ó teatro de velas, dá-me inspiração

para cumprir meu designo!

Assistimos ao filme e fomos para o meu apartamento,

havia chegado à hora. Tirei sua roupa e beijei seu colo,

Hilda parecia completamente entregue. Mas e eu? Precisava

me adaptar, afinal era aquele o meu oficio, foi para


cumprir tal meta que me colocaram naquele Cárcere

gotejante. Deitamos na cama e fizemos sexo, ao gozar

envolvi minhas mãos no pescoço da pobre garota apertei,

esganando. A vida de Hilda se esvaindo, corpos molhados

de suor e sangue, meu falo ereto e daí, o horror. Jamais

imaginara aquelas coisas se alimentando, seus ruídos

enlouquecedores e um mau-cheiro pestilento, os tentáculos

repugnantes se entupindo de carne morta. Todo aquele

cenário me tragou a um estranho lugar. Um lugar de

podridão e agouro, minha verdadeira casa ou: Tenebras.

***

Das bestas mais sanguinárias, dos bodes apocalípticos,

da marcha fúnebre que irriga os corpos vivos no cortejo, do

pus, das laranjas que eu roubava da vizinha, do ácido

lisérgico, da rebeldia domada, da morte e da sofreguidão,

da verdade esclarecedora, da Res que se coloca em questão,

do meu fígado, do meu tédio, da lamúria nos versos

obscuros, da carne exposta, do paradoxo e do irracional,

das brincadeiras infantis, da cólera, da mãe de todos os

seres inferiores, dos recados mais funestos, das minhas

anotações mal articuladas, do Cárcere (sempre ele), da


correspondência para com o apelo do ser, da realização

profissional, do coração partido, da assunção do momento,

da circularidade exemplar.

O nosso mundo se encontra no momento habitado por

criaturas estranhas. Não saberia afirmar de onde eles vêm

ou o que são, mas sei que já espreitam nossos passos e

tocam a roda do próprio fluxo vital. A dança da

apropriação é uma comunhão entre homem e máquina, o

momento da virada é nossa época mesma, ou seja, é no

hoje que tais seres agem. Da mesma maneira, pelo que eu

saiba o tempo não parece fazer tanta diferença assim para

eles, são entes abissais, moram no nono circulo de uma

galáxia atemporal. O intelecto deles é muito mais

complexo, suas cadências colossais ganham nutrientes

devorando mundos. Comunicavam-se comigo desde a

infância, abrindo portas e forjando experiências épicas as

quais nunca vivi. Nos contatos apenas minha mente

trabalhava, pois o meu corpo se encontrava imerso em um

muco cinzento escorrido das bocarras diabólicas dos Grãos

Finos de Sal.

Duas semanas se passaram desde o primeiro banquete

e desde que Hilda iniciou o meu processo autofágico de

adaptação criminosa. Não foi ruim em si o ato de matá-la.


Na verdade senti um prazer quase vocacional ao esgoelar

com minhas mãos o tenro pescoço feminino. Todavia, ter

de encarar o banquete seminal daquelas coisas

enlouqueceu-me e foi meu pior pesadelo feito em carne.

Uma orquestra de fúria e destruição ruidosa que esfacelou

meu cérebro e escancarou as comportas para a

contaminação total. Eu estava mudando, caía meu cabelo,

em minhas mãos nasciam calos de sangue. Parecia-me que

ao respirar os microorganismos aderiam em meus tecidos e

paulatinamente corroíam pele e osso. Eu me encontrava

em mutação. Segundo as criaturas, o processo seria penoso

e insalubre, porém a recompensa jamais seria esquecida.

Por três semanas aguardei e espiei o mundo ao meu

redor, captei o bizú cósmico da divinização e analisei com

acuro cada garota que conhecia, tendo em vista a melhor

escolha para o próximo banquete. Decidi não apostar no

acaso assim como ocorreu com Hilda, resolvi tentar

engendrar certo critério de escolha. Conheci Marília, bela

mulata, aprendi com ela sobre a quimbanda e o ocultismo

na macumba. Marília adorava certo Asmodeus, o demônio

da luxúria. Conversei com ela sobre o sentido da

necroconjuração e afirmei que mesmo Asmodeus treme

diante da oculta essência transcendental que apropria a


treva super luminosa da cidade. A mulher se mostrou

interessada em trilhar o caminho necessário para

corroborar com o renascer da era de ouro. Não foi difícil

convencê-la, ela estava mesmo disposta a encarar o banzé.

Durante noites a fio recebi a visita dos Grãos Finos de

Sal. Novas metas foram traçadas e por fim uma revelação.

Somente ao entregar sete mulheres, somente após serem

realizadas sete refeições as criaturas ancestrais me

fornecerão a matéria prima do caos ou a chave para a

destruição de toda a existência humana. Eu me sentia

mudado, à proximidade e a tensão do tempo circular fez o

meu cabelo cair, meus pés estavam cheios de chagas e eu

me encontrei pronto para tornar em um totalmente outro,

um enviovore, a besta pedrês, o câncer aniquilador.

***

Dei cabo em Marília e não foi nada legal. Passei eu

mesmo a duvidar das minhas vocações. Tudo de fétido e

indesejado, todo o torpor da ex machina às avessas, isto é,

o banquete realizado naquela noite fora algo que

definitivamente eu gostaria de não mais presenciar. Tudo

de doente e desafiador, nem mesmo a hiper-realidade


como paradigma comporta a desorientação provocada

pelos contatos com tais aberrações. O Grão Mestre Varonil

com sua tromba repugnante e com suas ventosas nojentas

entrou em meu apartamento e engoliu Marília lentamente.

Minha sanidade já não corresponde ao padrão da

estatística, a bile negra me consumiu por inteiro. Já não há

cabelo algum em minha cabeça, sobrou apenas pele.

No dia seguinte resolvi andar pela cidade novamente,

havia algo de novo no ar. As pessoas aparentemente

sentiam também, era como um sopro lento anunciando o

retorno do antigo. A cidade inteira já pertencia a eles, não

tinha mais volta. Os Grãos Finos de Sal espreitavam no

escuro e sabiam que eu podia vê-los, pois era eu o primeiro

a carregar a maldição. Uma cidade grande e pecaminosa

como aquela. Ruas se passaram, da janela do ônibus pude

enxergar corrupção, violência e morte. A humanidade não

é mesmo exemplar? A cidade me recebeu de braços abertos

e eu sou um vampiro solitário, predador e noturno. Um

vampiro sem nome ou um fantasma ermo vindo do

passado, um errante esporádico em meio às luzes. Foi

quando apurei minha percepção e descobri que, como eu,

aquela cidade também havia perdido seu nome anterior.


Ela não tinha nome ainda, mas passaria a se chamar

Tenebras.

Certa noite um Grão Fino de Sal surgiu para mim.

“Não suporto mais os banquetes”, eu disse com coragem

pungente. Naquele exato momento eu fui completamente

arrebatado por uma sensação muito estranha e que me

esvaziou, aquela entidade se apoderou de mim e apenas

assim pude compreender e até mesmo ver a definitiva

verdade. Dentro do barril de conhaque jaz velado um

portal dimensional chamado Harmonia Preestabelecida. A

descoberta deste portal tornou possível aos Grãos Finos de

Sal a migração de sua galáxia para o nosso mundo. É

impossível anteceder as consequências para a vigília de tais

entes aqui. Ao que me apraz devo ser uma espécie de

cobaia para eles. Fui escolhido, isso aquele ser imprimiu na

minha mente, sou parte de um plano muito maior. Quando

dei por mim já era. Finalmente havia entendido o meu

propósito. Restavam cinco mortes, cinco mulheres, cinco

banquetes. Crianças! O espetáculo vai começar!

Dias e dias depois continuei a procurar a vítima ideal,

me alimentava cada vez menos e estava muito magro. Em

algumas semanas parecia já não exercer tanto charme

assim com as mulheres. Os calos da minha mão


endureciam, pareciam cascos. Mas o pior estava

acontecendo com minha cara, perdi dentes, meus olhos se

enchiam de remelas. Não conseguia falar, pois o meu

maxilar expandiu consideravelmente. Minha alma e meu

corpo estavam se fundindo com os Grãos Finos de Sal.

Conheci Mirian em um bar esquisito na periferia. Mulher

muito doida, drogadona, ficou se atirando sem se importar

muito com minha aparência desagradável. Ou era ela ou

teria de forçar a barra com alguém. Convidei-a ao meu

apartamento. A garota titubeou até o táxi cambaleante,

chapada e bêbeda. Foi quando eu larguei duas tapinhas na

sua bunda e murmurei baixinho apenas para ela ouvir: “Vai

ser um esquema foda boneca”.

O demônio veio hoje e me serviu o jantar. Não

qualquer um, mas Astaroth o herético, brandiu seu

machado em meio à dança das labaredas (O Fogo

Tremulante). Uma janela fora aberta. Estaria o próprio

Deus envolvido também? Após o banquete onde Mirian

liquidou-se em negro chorume, entrei em convulsão e

avancei no tempo. Já não era homem, era apenas eu

mesmo. Crucial, evidente, revelador. O cerne da questão

metafísica mais digna. O ritual, as velas e as peças no

tabuleiro.
***

Dali para frente não teve jeito. Devido à minha

aparência que em cada momento se tornava mais

macabra, tive de selecionar as oferendas e capturá-las à

força. De acordo com as visitas realizadas pelos seres em

meu quarto, na calada da noite, existem organismos vivos

se multiplicando e se apoderando de mim. Enviovore é o

esporo alienígena expelido pelos Grãos Finos de Sal. O

Enviovore reside em mim, meu corpo foi o primeiro

hospedeiro da aberração. Quando sete caírem, as criaturas

estarão nutridas e prontas para proliferar o Enviovore em

toda a cidade. Deste modo a vontade do Grão Mestre

Varonil será realizada e minha recompensa será a vida

eterna.

A quarta fora Suzana, capturei-a no metrô.

Carreguei-a até o meu apartamento após nocauteá-la com

um pé de cabra. Estuprei-a ainda desfalecida e ao apertar

seu pescoço pude ouvi-la peidar. Como que por mágica

inúmeros tentáculos emergiram de baixo da cama. Cheios

de bocas horrendas, pústulas fétidas encobrindo a superfície

enverrugada e de cheiro absolutamente insuportável. Após


os tentáculos, pequenas aberrações com cabeça de dedo

surgiram dançantes e me levaram a insanidade total.

Demônios inomináveis surgiam das sombras mediante a

continuidade da refeição. Gritos, agonia, desespero e

horror. Os homens-dedo se prostraram em círculo e

entoaram ao redor da cama a “Canção do Artifício”. Um

Grão Fino de Sal que parecia tocar uma gaita de fole

entrou em meus pensamentos ao me observar com

centenas de olhos: “Por que você não come conosco?”. A

coisa murmurou em minha consciência. E eu o fiz, comi

Suzana, engoli a carne crua de sua panturrilha e dividi-a

com mais três entidades. Outros seres iam aparecendo na

medida em que eu prosseguia, eram muitos e de mãos

dadas cantavam se movimentando ritualisticamente.

Estávamos nos alinhando, o fim parecia próximo. As

lembranças do Cárcere cada vez mais distantes. O tempo

circular manterá aqueles momentos retidos na carne para

sempre e a eterna ampulheta da existência trabalhará em

prol de um propósito muito maior. Palavra do Senhor:

Graças a Deus!

Antes do fim, porém, ainda seriam necessárias três

mulheres, três banquetes e isso já estava se tornando uma

questão de tempo. Estava mudado, uma criatura aflorava


de dentro para fora em meu corpo. Traços de humanidade

se esvaiam serelepes de minha outrora face jovial. Um

focinho protuberante irrompia em minha face, minhas

orelhas esticavam grotescamente e meus pés se

transformavam numa massa disforme de carne viva. Cada

processo de minha degeneração causava dores excruciantes

e uma agonia incompreensível. Até mesmo a consciência

me fugia e então eu passava a raciocinar como um Grão

Fino de Sal. Lentamente, o apartamento onde eu morava

também começou a mudar. Cresciam bolhas nas paredes e

quando estouravam expeliam uma neblina purulenta e

negra. Ao respirar, eu inflava todo o ambiente que

sincronizava comigo em contorções lânguidas e espasmos

orgânicos. Minha vida antes do cárcere não possuía mais

sentido. Somente aquele mundo louco me interessava.

O tempo passou, no ritmo certo. A cidade inteira

sofria com mudanças concomitantes aos crescentes atos de

violência ocorridos em todos os cantos. Certo dia, caminhei

pelas ruas e encontrei alguém que nem eu. “O que houve

com você?” falei. “Eu não entendo, faz algumas semanas

que contraí essa doença”, o homem falou. Ele seria uma

conseqüência de meus sacrifícios? Após os banquetes, os

Grãos Finos de Sal iam aumentando de tamanho e


tornando-se ainda mais indecifráveis. A neblina expelida

pelas aterradoras bolhas ganhava a cidade pouco a pouco.

Era o rastro de meu enviovore. Se soubessem do que sei.

Era inútil lutar contra forças tão superiores. A idéia de

saga pode ser evocada aqui para expressar toda a carga de

responsabilidade inerente aos meus atos. Esta é a minha

saga. Tudo o que ocorreu nela é propriedade do meu ser.

Todo o tempo e o mundo ao meu redor se traduzem nessa

espacialidade. É nela que a existência me coube. Eu sei

quem eu sou e é apenas o que sei, ou melhor, assim eu

penso. É chegada hora de me despedir, foi interessante.

Minhas faculdades já não fazem jus às capacidades exigidas

para se atingir o escopo da narrativa transcendental. A

terceira pessoa vem aí para completar o círculo, o que vem

a partir de agora é por sua conta e risco. Adeus.


Círculo da Terceira Pessoa.

“O CÁRCERE”

Quando for me referir ao personagem deste conto, a partir de

agora, o chamarei de o narrador, o homem ou aquele que carrega a

maldição. Seu nome de batismo antes do cárcere é simplesmente

irrelevante aqui. A história conta que o narrador, em uma noite

qualquer de sua vida anterior, fora aprisionado por criaturas

advindas da nona esfera da galáxia trôpega por nome Cun Grano

Salis ou simplesmente Grãos Finos de Sal. O objetivo principal da sua

captura foi o de realizar uma experiência responsável por uma

mudança perene no destino da humanidade. O período enclausurado

abriu as comportas neurais de o narrador e permitiu o conhecimento

acerca de sua função no jogo cósmico, bem como suas recompensas.

Ali fora decidido, estipulado e reconhecido o verdadeiro propósito da

conjuração.

A intervenção das criaturas trouxe aquele homem ao cárcere,

um quartinho imundo situado em uma casa que nunca existiu. Por

três anos o narrador esteve trancafiado e vítima de seus próprios

delírios macabros. O pequeno e desarrumado lugar se comunicava

constantemente com ele em uma voz morna e murmurante em sua

mais solitária solidão. O homem recebia constantes visitas etéreas de

seres antigos, lições eram aprendidas e o conhecimento infra-estelar

transmitido. Grãos Finos de Sal se comunicaram entre si para decidir


o futuro daquela experiência. Chegaram à conclusão que nossa espécie

é egoísta e burra, merecia ser extinta. Por intermédio de o narrador

a doença seria transmitida em toda cidade que sucumbiria ante o

coração de Tenebras. Três anos de descoberta e esquecimento para

aquele que carrega a maldição.

Segundo a estrutura fisiológica e metafísica dos Grãos Finos de

Sal, o tempo se desdobra como possibilidade extrema de

manipulação. A capacidade exemplar haurida das sabedorias de

enigma é chamada Harmonia Pré-estabelecida. A quarta dimensão,

dissecada pelos Grãos tendo como ferramenta de engenho a

Harmonia Pré-estabelecida, permite o acesso a qualquer coisa de

acordo com qualquer ponto de vista. Tais poderes garantem às

entidades atuarem como arautos e algozes de toda uma civilização.

Para o narrador, os objetivos ainda não pareciam tão claros assim,

mas devido à atemporalidade inerente aos Grãos Finos de Sal, tudo

aquilo já havia se consumado e repetido um milhão de vezes.

Enquanto isso, o narrador sofria agudamente com as investidas

constantes que imolavam seu corpo. Os Grãos seguiam implantando

microorganismos alienígenas e desconstruindo suas funções vitais.

Tempo e espaço se desfaziam diante dos olhos daquele homem que,

purificado, encontrava forças oriundas para permanecer vivo através

das semanas. Seu desconforto original lentamente ia se

transformando em prazer doentio e seus pensamentos outrora claros

e indubitáveis se encontravam cada vez mais obscuros e confusos. Mas

sempre foi assim. No momento em que esse homem fora libertado do

cárcere gotejante a maldição já se encontrava imersa na possibilidade

radical de liquidar a raça humana. Tal propósito seria enfim


alcançado após a realização de sete sacrifícios convertidos em

oferendas para que possa pôr-se em marcha a Treva Super-

Luminosa.

De dentro para fora cresce nutrida a horrenda besta que

abocanhou eras. Tenebras será mesmo um lugar para se lembrar.

Seus muros crescerão fortes, suas mandíbulas alcançarão os céus e lá,

aqueles chamados Grãos Finos de Sal destronarão o todo-poderoso e

nem mesmo lembranças o trarão de volta. O círculo da terceira

pessoa completará o ritual ao contrário da desarticulação superlativa.

Os indícios já estavam lá, todos perceberam. Passado e presente já

não faziam diferença ali. Somente a atemporalidade permissiva e

radical da maionese pode viger.


CONTAGEM REGRESSIVA: 03

O narrador estava deformando com o passar dos dias.

Acentuadamente suas costas mudavam de formato e seu rosto já não

tinha aparência humana. Virou uma espécie de cavalo bípede.

Simultânea a sua desgraça era a balbúrdia provocada pela descoberta

de pessoas com aquele mesmo mal. Saiu nos jornais. Os cientistas,

com sua postura dominadora, trataram logo de criar nomes para o

que simplesmente é inclassificável. O homem, com a sua ciência besta,

não poderá jamais entender o enviovore. Dele podem apenas subtrair

categorias, nunca somar. O enviovore é uma coisa que os humanos

não podem entender, só sentir. O enviovore não é um vírus, também

não é uma espécie de doença. O enviovore subtrai o ser humano e

soma o Grão Fino de Sal, nasce assim um híbrido. Os híbridos devem

vagar e se alimentar até se nutrirem e se amalgamarem em híbridos

colossais. Não só os humanos, mas toda a cidade sofrerá uma

transformação. Os prédios, os carros, a natureza, os animais e

mesmo o céu. Tudo se manterá no enigma da Treva Super-Luminosa.

Na nona esfera da galáxia de Cun Grano Salis vigora a matéria

prima da personificação inconsciente. Por intermédio do barril de

conhaque e de sua súbita abertura, algumas gotas dessa matéria

escorreram para o nosso mundinho imbecil. De acordo com os

ensinamentos de uma velha cigana, a galáxia pode invadir o nosso

mundo de duas formas possíveis: Conta uma lenda que o sopro de pó

de estrelas pode trazer à tona um estrupício sem umbigo. Mas não foi
esse o destino de nossa realidade, o que vazou para o lado de cá foi

inteligência pura e fome pura, um ser que, lentamente, invadiu a

corpo e alma de muitos mortais. Essa coisa grande e feia se chama

Grão Mestre Varonil. Dotado de intelecto meridiano e força

monstruosa, essa abominação pode invadir a mente de qualquer ser

vivo, bem como suas memórias e assim, manipular ao seu bel prazer,

alterando toda uma realidade. É somente o óbvio ululante afirmar

que, possuindo todo esse poder, Grão Mestre Varonil, sozinho, poderia

ter mastigado o nosso mundo e cuspido o bagaço em milênios. É aí

que reside a insignificância do narrador. Apenas ele pensa ser especial

por estar servindo aquelas mulheres de tira gosto ao Grão, mas foi

apenas um a ser tocado pelo enviovore. Muitos outros, centenas de

milhares estavam simultaneamente padecendo do mal do cavalo. O

jogo do Grão Mestre Varonil, junto de outras inteligências originais, é

fornecer ao narrador a impressão de estar fazendo a diferença.

Através da sincronia ensaiada dos atos do narrador com a

contaminação total da cidade, bem como todas as suas memórias

absorvidas e manipuladas pela gigantesca inteligência dos Grãos, a

completa realização da experiência de aprimoramento pôde enfim se

cumprir.

Para o narrador conseguir completar o ritual que somente ele

mesmo acredita ter iniciado, seria preciso realizar a captura de mais

três mulheres, coisa que ele resolveu de vez. As ruas da cidade

estavam em constante caos, não havia mais a luz do sol, somente

uma escuridão infinda. O narrador então simplesmente escolheu suas

vitimas e carregou-as a força para o seu apartamento. Flávia, Érica

e Marta foram amordaçadas e mantidas em cativeiro enquanto o


homem preparava o seu quarto com velas para a realização de mais

um delicioso banquete cerimonial. Escolheu Flávia primeiramente,

deitou-a na cama e estuprou-a, arrancando-lhe a honra. O pênis do

cavalo bípede era um estranho pedaço de carne viva, enorme e

serpenteante, a dor da penetração fora insuportável para a garota.

Parou de gritar e morreu antes mesmo do homem gozar. Assim, o

tenebroso jantar foi servido mais uma vez aos Grãos Finos de Sal que,

naquela ocasião, pareciam muito maiores e aterradores. “Estamos

gordos, vamos defecar o estrume da providência nesse lugar” – disse

um deles. “Regurgito a minha bile negra em tua boca, aceite ajoelhe

e venere, pois é isso que deves fazer” – disse o Grão Mestre Varonil

ao narrador que, obediente feito um beato, ajoelhou e escancarou sua

boca sebosa para alcançar a graça da comunhão profana. “Traga

outra!” – todos os entes reclamavam em uníssono. “Temos fome,

queremos mais!”
CONTAGEM REGRESSIVA: 02 01

O homem trouxe Marta em seguida, a mulher se debatia em

desespero e ao obter contato visual com aqueles seres de feiúra

inenarrável, perdeu a razão. O narrador estuprou e gozou no cadáver

de Marta já dilacerado pelo apetite compulsivo e voraz das criaturas.

“Traga a outra e deixe-a olhando” – diziam todos os Grãos. O

narrador foi até o pequeno cárcere, segurou Érica pelo braço e

carregou-a pelo corredor. Percebeu que a garota estava murmurando

algo baixinho, movendo rapidamente os lábios. “O que está fazendo?”

– falou o narrador. “Estou rezando, pois tenho somente o meu Deus

agora”. Mesmo observando aquela refeição enlouquecedora, Érica

prosseguia com suas orações, como se a qualquer instante Deus ou o

espírito santo pudesse surgir milagrosamente e resgatá-la daquele

destino insólito.

Após deglutir e vomitar os restos mortais de Marta uma meia

dúzia de vezes, Grão Mestre Varonil bradou: “Guarde a última viva,

não a queremos agora”, e desapareceu. Foi aí que começou o

movimento final, um último jogo alienígena antes da dominação

completa e fundação de Tenebras. O que seria proposto desta vez?

Alguns dias se passaram e o narrador adquiriu o hábito de, volta e

meia, trocar algumas palavras e observar o comportamento de Érica

naquele breve período a anteceder sua própria danação. Alimentava-

a, pois os Grãos Finos de Sal queriam-na nutrida e forte. O narrador

ficava escutando a garota falar sobre religião e, curiosamente,

demonstrar alguma serenidade ao lidar com tamanha aberração.


“Não tenho medo, tenho fé. Eu acredito apenas no Deus da minha

religião, pois Ele me salvará e vou ganhar a vida eterna”.

Balbuciando com dificuldade, o narrador falou à Érica: “Eles me

prometeram a mesma coisa”.

Uma semana se passou e, dentro daquele apartamento, um

curioso fenômeno ocorreu. Na medida em que criava um esboço de

proximidade com Érica, o narrador começou a perceber uma espécie

de retrocesso do enviovore em seu organismo. Ganhou traços

humanos novamente e, ao tornar constantes suas conversas, passou a

demonstrar algum apego para com a jovem. “Como é seu Deus?” –

perguntou o narrador. “É pura bondade, pura luz”. Junto de Érica o

homem tornou a sentir compaixão e, concomitantemente a isso,

dúvidas a respeito daquilo que estava prestes a se realizar. “Não

precisa me matar, olhe bem para você, parece humano de novo.

Ainda há tempo, meu amigo, tempo de pedir perdão a Deus. Se me

poupar, ainda hoje estarás com Ele no reino dos céus”. O narrador

entrou no quanto onde mantinha Érica aprisionada e abraçou-a com

lágrimas em seus olhos depois de tanto tempo. Ali, naquele instante,

o narrador se sentiu pleno e bom, recuperando a sua voz e a

narrativa deste conto:

“Minha alegria ao abraçá-la era somente proporcional a

tristeza por ter arrancado tantas vidas. Como pude fazer isso?

Olhando para Érica naquele momento eu senti um peso junto ao

peito e uma calma morna atravessarem minha alma. Será que eu

ainda era aquele cara? Um simples cara, à toa, que gostava de

cinema, música e filosofia. Nada mais que um reles qualquer em um

mundo tradicional e sem surpresas. E como era bom. Tomar banho


de bica na infância pia. Chatear minha vizinha na adolescência. Como

eram bons os amigos, minha família e mesmo a minha antiga

namorada, pois agora tenho certeza de que não a matei. Érica não

deveria morrer. Somente ela trouxe aquilo tudo de volta, ainda que

em minhas lembranças. Falei, sussurrando para ela, que tentaria

bolar uma maneira de fazê-la escapar de lá. Expliquei o

funcionamento e a consumação do ritual. Sete mulheres deveriam ser

oferecidas por mim a eles, ou seja, sem a morte de Érica a

humanidade poderia se salvar. Estava tudo pronto e arquitetado

para a fuga naquela mesma noite. Eu e ela íamos embora dali, para

outra cidade, longe daquele pardieiro. Talvez assim Deus me

perdoasse e me concedesse a vida eterna também. Por um instante

foi fácil pensar, por um instante fui um homem novamente. Mas a

insanidade degradante reivindicou seu trono e os Grãos Finos de Sal

retornaram imensos, exigindo o banquete final”.


PONTO ZERO

Chovia muito naquela noite e a cidade já respirava lentamente.

Seus prédios retorcidos, repletos de bolsas repugnantes, defecavam

centenas de milhares de vermes através de um ânus descomunal. As

pessoas prosseguiam se matando, quase todas padecendo da

síndrome do cavalo. Focinhos enormes, cascos nas mãos, um espesso

pêlo cobrindo o corpo e incontáveis tumores pustulentos em

constante erupção. Essas bestas, outrora homens como eu e você, se

uniam aos prédios e a elas mesmas dando origem a formas de vida

inomináveis, catastróficas e únicas. A cidade fora tragada por um

vórtice de escuridão e aterrissou sua estrutura em um pórtico situado

no bucólico litoral. Não havia mais tempo ali, pois todas as noções

haviam se esvaído em meio à descida transcendental pontuada pela

harmonia pré-estabelecida.

Os Grãos Finos de Sal escolheram o litoral, pois haviam

construído uma casa na praia e realizado uma experiência lá. Havia

um altar e muitas velas, tudo parecia fazer sentido para o narrador

que surgiu completamente bestificado carregando Érica nos braços. A

garota se encontrava nua, seu corpo estava coberto de estranhas

criaturas rastejantes. Érica lambia incessantemente os mamilos

escabrosos de o narrador enquanto defecava um caldo grosso e vivo

que se multiplicava fértil dando origem a pequenos entes-cocô.

Muitas raças, vindas dos confins do universo, se faziam presentes

naquela intersecção promovida pelo Fractal Onírico. Vindos da


floresta, os pERSONAGENS e a bruxa observavam tudo com

sorrisinhos maliciosos no canto da boca. Asmodeus, Astaroth e A.

Ramirez representavam o inferno. Acima deles, Beuzebub, das

moscas e Scrasch, a grande fenda. O conselho dos Cabeça-de-Dedo,

ou Guardiões, veio a bordo de suas grandes naves feitas de pedra

advindas da Viagem do Espiral. Duas conjurações nativas daquele

litoral se juntaram aos outros para acompanhar a cerimônia. Eram

elas Cabeçorra e Planta de Carne. Sem-Umbigo, o animal ancestral,

cobria o ambiente de agouro e maus presságios. Deus não

compareceu, mandou um telegrama explicando que aquilo tudo era

demais para Ele.

Por último, os anfitriões. Grão Mestre Varonil, em um estágio

de super-nutrição absoluta saudou bradando: “Bem vindos, seres de

enigma, vieram de cada canto ao meu convite prestigiar o

nascimento de Tenebras. Comam da carne e bebam do sangue

humano, forjem pesadelos, aniquilem a esperança e sincronizem suas

cadências imorais ao fluxo da doença em todo o cosmo”. Os Grãos

seguiam aparecendo e reclamando ao narrador: “Banquete!

Banquete!”. O Narrador deitou Érica no Altar e assim realizou a

oferenda final, o Ponto Zero que permite o contato definitivo com a

criatura-mãe de toda aquela merda. Apenas o Grão Mestre Varonil

desfrutou do corpo de Érica nas formas mais sujas e humilhantes até

engolir e regurgitar seus restos por tantas vezes que seria impossível

reconhecer qualquer traço humano na lavagem pútrida que escorria

dos orifícios do Grão.

Acabou. Os sonhos, a feminilidade, a luz do dia, a própria

poesia, os homens, Deus e tudo o mais que é da ordem e da bondade.


Acabou, pois “ele” chegou trazendo uma resposta e uma mensagem

que, juntas, preservam o mistério. Uma nova presença surgiu diante

de todos naquele litoral. É Guilherme, o Bezerro Pedrês. Um

gigantesco ser, maior que tudo e senhor mesmo dos Grãos Finos de

Sal. Guilherme era a estrutura e o patrono de Tenebras, um bezerro

que, há muito, controla e molda toda a vastidão do universo.

Guilherme era a aberração final. O filho proibido, a raiva e a

frustração, o bebê feito de pus, a morte escarlate, o âmago invertido

da enfermidade celestial, o mal, o horroroso, a força e o poder

infinito do tempo circular. Tenebras estava completa, enfim, aquela

seria a realidade mais perfeita existente. Todos seriam nutridos pelos

tumores e excrementos do Bezerro Pedrês. Todos viveriam

abençoados, haveriam cerimônias e celebrações, até que o tempo

apodreça mil vezes, se transformando em outra coisa e trazendo de

volta a valsa e o violão, a Pedra Mágica e a esperança.


Epílogo.

O GRANDE CAMPO DE
CENTEIO

É contada uma lenda muito antiga sobre uma pedra com

poderes especiais. Apenas essa pedra pode trazer a esperança e um

novo ciclo assim iniciar. A Pedra Mágica se encontrava na posse de

Martins, um homem que também vivenciou a experiência da criação

em Tenebras. Martins é o pai do Bezerro, sua luta foi muito tempo

atrás e a sua recompensa foi rever seu objeto de desejo, Marisa a

mãe. Martins seguia tocando sempre a mesma valsa em seu violão,

instrumento que jamais o abandonou desde sua última jornada. A

música e o violão são os símbolos de prosperidade naquele lugar. O

campo de centeio é o mundo de Adão e Eva, ou o coração de

Guilherme, uma realidade forjada a partir de Martins e Marisa. O

tempo também não se encontrava ali de acordo com noções

corriqueiras, apenas a circularidade, indicando que tudo o que possui

um início, em um momento irá finar.

“Aconteceu de novo Marisa”, disse Martins à sua companheira

enquanto tocava o violão. “Guilherme ressurgiu naquele litoral, ele

está ativo novamente”. Na realidade, todos nós já havíamos sido


tragados pelo ânus de Guilherme a milênios. Tudo aquilo que ocorreu

na saga de o narrador não passou de um sonho do horripilante

Bezerro. Enquanto existirem os sonhos, há também a esperança,

enquanto Pedra Mágica estiver em boas mãos, um lugar seguro

estará guardado naquela obscura e inóspita dimensão infra-estelar.

Martins então decidiu partir em uma nova aventura, talvez a última

antes de seu derradeiro destino. “Não vá Martins, enquanto

estivermos aqui seremos intocados e felizes por toda a eternidade”,

falou Marisa. Todavia, Martins estava seguro de si, não havia retorno.

Se usasse a Pedra Mágica mais uma vez, talvez aquela versão de

Tenebras se extinguisse também.

Assim, durante quinhentos anos Martins viajou através do

colossal organismo do Bezerro até encontrar a metade humana de

Guilherme que vagava sem rumo em seu esôfago. “Pai, jamais pensei

que o encontraria novamente”. Martins mostrou a pedra a

Guilherme afirmando a necessidade de usá-la mais uma vez no

intuito de salvar aquela humanidade que havia se perdido na agonia

pestilenta da apoteose nefasta organizada e colocada em prática

pelos Grãos Finos de Sal. “Terá de subir até o cérebro do grande

Bezerro, entrar em seus pensamentos, acessar seus sonhos e

encontrar o litoral assombrado. Lá vigora pulsante a décima terceira

encarnação de Tenebras”, disse Guilherme. E foi assim que aconteceu.

Martins subiu até o ponto mais remoto daquele corpo sem tamanho e

pôde presenciar o milagre do universo. Viajou em um cometa e

aterrissou no ermo litoral já completamente apodrecido por

incontáveis seres de enigma. “Acaba aqui”, ele pensou.


Quando finalmente Martins utilizou a Pedra Mágica, uma luz

ofuscante cegou a todos os entes acostumados com aquela treva

infinda que por incontáveis eras assolou a cidade profana. Com isso,

Martins pôde reencontrar, após todo aquele estranho tempo, um

velho amigo, o Robô Gigante ou Unidade Totem. “Já destruí bestas

iguais a vocês, preparem-se para o confronto final!”. A bordo do

Robô, Martins destroçava os Grãos Finos de Sal com gana e fúria

assassina. Lançava ogivas e mísseis enquanto distribuía socos e

pontapés nas criaturas que o desafiavam à peleja. O narrador fora

pisado pelo Robô, e morreu na hora, esfacelado como uma barata de

cozinha. Após eras de luta dentro daquele litoral Martins se viu

diante de Grão Mestre Varonil, o viscoso líder. “Não adianta Martins,

se você me destruir aqui, haverá sempre uma maneira de acessar os

sonhos de Guilherme para invadir uma nova humanidade, sou

imortal”. Martins então deu duas tapinhas no painel de controle da

Unidade Totem, sorriu e disse: “Então, criatura abissal, será nossa

sina lutar eternamente”. Essa batalha perdura até hoje e nos previne

a extinção, estamos apenas na ante-sala de uma nova experiência

deles. Devemos torcer pelo Robô, pois todos nós, eu e tu leitor, somos

apenas um sonho muito íntimo de um abominável Bezerro Pedrês.

TenFIMebras II

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