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A Ideologia da Competência

Marilena Chauí. In “O Que é Ideologia” Brasiliense. SP.

• A ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (idéias e


valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da
sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem
valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer.
Ela é, portanto, um corpo explicativo (representações) e prático (normas, regras, preceitos)
de caráter prescritivo, normativo, regulador, cuja função é dar aos membros de uma
sociedade dividida em classes uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas
e culturais, sem jamais atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes a partir
da esfera da produção. Pelo contrário, a função da ideologia é a de apagar as diferenças
como as de classes e fornecer aos membros da sociedade o sentimento da identidade social,
encontrando certos referenciais identificadores de todos e para todos, como, por exemplo, a
Humanidade, a Liberdade, a Igualdade, a Nação, ou o Estado.

Em um ensaio intitulado “A gênese da ideologia na sociedade moderna”, o filósofo francês Claude


Lefort observa que houve uma mudança no modo de operação da ideologia, desde meados do
século XX.

De fato, escreve ele, a ideologia burguesa era um pensamento e um discurso de caráter legislador,
ético e pedagógico, que definia para toda a sociedade o verdadeiro e o falso. Punha ordem no
mundo, afirmando o valor positivo e universal de algumas instituições como a família, a pátria, a
empresa, a escola e o Estado.

No entanto, a partir, sobretudo, dos anos 30 do século XX, houve uma mudança no processo social
do trabalho. O trabalho industrial passou a ser organizado segundo um padrão conhecido como
fordismo.

Quais as principais características da Organização?

1. as afirmações de que “organizar” é administrar, e que administrar é introduzir racionalidade nas


relações sociais consiste em afirmar que não é necessário discutir os fins de uma ação ou de uma
prática, e sim estabelecer meios eficazes para a obtenção de um objetivo;

2. será eficiente se estabelecer uma rígida hierarquia de cargos e funções, na qual a subida a um
novo cargo e a uma nova função signifique melhorar de posição social. A Organização será tanto
mais eficaz quanto mais todos os seus membros se identificarem com ela e com os objetivos dela,
fazendo suas vidas um serviço a ela que é retribuído com a subida na hierarquia de poder;

3. Organização é uma administração científica racional que possui lógica própria e graças a essa
lógica é que possui o conhecimento das ações a serem realizadas e que conhece quais as pessoas
competentes para realizá-las

* No caso do trabalho industrial, a Organização introduz duas novidades. A primeira é a linha de


montagem (cada trabalhador tem uma função muito especializada). A segunda é chamada “gerência
científica” que divide e separa os que possuem tal conhecimento – os gerentes e administradores – e
os que executam tarefas fragmentadas – os trabalhadores. Com isso a divisão social do trabalho faz-
se pela separação entre os que têm competência para dirigir e os incompetentes, que só sabem
executar.

* Lefort fala da ideologia contemporânea como ideologia invisível. Ou seja, enquanto a ideologia
burguesa tradicional as idéias eram produzidas e emitidas por determinados agentes sociais, agora
parece não haver agentes produzindo as idéias, porque elas parecem emanar diretamente do
funcionamento da Organização e das chamadas “leis do mercado”.

* Hoje em dia, porém, não se trata mais de usar técnicas vindas da aplicação das ciências, e sim de
usar e desenvolver tecnologias. A tecnologia não é ciência aplicada. A tecnologia é fabricação de
instrumentos de precisão que interferem no próprio conteúdo das ciências. Com isso, as ciências
passaram a participar diretamente do processo produtivo. Essa participação da ciência e da
tecnologia no processo de produção das mercadorias aparece com clareza na automação e na
informatização do trabalho industrial, e nas demais atividades econômicas e sociais.

* Se reunirmos a Organização (ou a administração eficaz do trabalho), a “gerência científica”, a


presença da ciência e da tecnologia no processo produtivo e no trabalho intelectual, perceberemos
que a divisão social das classes está acrescida de novas divisões, e que estas podem ser resumidas
numa só e grande divisão: a divisão entre os que possuem poder porque possuem saber e os que
não possuem poder porque não possuem saber.

* Dessa maneira, em vez de falarmos em ideologia invisível, preferimos falar em ideologia da


competência, que oculta a divisão social das classes ao afirmar que a divisão social se realiza entre
os competentes e os incompetentes.

* A ideologia da competência realiza a dominação pelo descomunal prestígio e poder conferidos ao


conhecimento científico e tecnológico. O discurso competente é aquele proferido pelo especialista,
que ocupa uma posição ou um lugar determinado na hierarquia organizacional. Esse discurso opera
com duas práticas contraditórias.

- A Organização é competente; os indivíduos e as classes sociais, incompetentes, objetos sociais


conduzidos, dirigidos e manipulados pela Organização.

- Na outra modalidade prática, o discurso competente procura desfazer o que fez anteriormente. Ou
seja, depois de invalidar os indivíduos e as classes sociais como sujeitos da ação, procura revalidá-
los, mas tornando-os como pessoas ou indivíduos privados (competência privatizada).

* O discurso da competência privatizada é aquele que ensina a cada um de nós, enquanto indivíduos
privados (e não enquanto sujeitos sociais), como nos relacionarmos com o mundo e com os outros.
Exemplos: ouvimos os nutricionistas, os pediatras, os psicólogos, os jardineiros, etc., como livros
de auto ajuda.

* Finalmente, se reunirmos o discurso competente da Organização e o discurso competente dos


especialistas, veremos que estão construídos para assegurar dois pontos indissociáveis do modo de
produção capitalista: o discurso da Organização afirma que só existe racionalidade nas leis de
mercado; o discurso do especialista afirma que só há felicidade na competição e no sucesso de
quem vence a competição.
- Se ser competente é vencer a competição e subir na hierarquia de uma Organização, como se sente
o desempregado? A ideologia burguesa lhe ensina, no cotidiano e na escola, que o trabalho é uma
virtude que dignifica o homem, e que não trabalhar é um vício (a preguiça, a malandragem). Assim,
o desempregado sente-se culpado pelo desemprego, humilhado e num beco sem saída.

* Outro efeito da ideologia da competência aparece na busca do diploma universitário a qualquer


custo. Antigamente, as pessoas que cursavam as universidades o faziam porque desejavam dedicar-
se a alguma pesquisa ou ao ensino. Hoje, cursa-se a universidade porque o diploma é exigido pela
Organização.

- Os jovens universitários estão convencidos de que sempre foi e sempre será assim, e que a função
da universidade é adaptar-se às exigências das organizações empresariais, isto é, do que se costuma
chamar de “o mercado”. O diploma confere ao que procura emprego a condição de “especialista” e
de “competente”. Dessa maneira, a universidade alimenta a ideologia da competência e despoja-se
de suas principais atividades, a formação crítica e a pesquisa.