Você está na página 1de 13

Introdução

O tema que se propõem abordar, enquadra-se no âmago do Direito Internacional Privado, visa
atrair e fazer presente conhecimentos suficientes e capazes de fazer-nos, enquanto académicos,
compreender a géneses das Relações Internacionais Privadas no plano das interações entre
Estados/Reinos de Angola (sua coexistência).

É de tal forma importante e de realce necessidade o estudo do Direito Internacional Privado para
o jurista bem como para as sociedades visto que, as relações que constituem objecto do Direto
Internacional Privado verificam-se e se processam entre pessoas em sociedades.

Considerando que o Direito possui um carácter social, é consequentemente cultural pelo que
deve acompanhar e conhecer os povos e suas manifestações culturais, de modos a que possa da
melhor forma, satisfazer os seus anseios. Fruto dessa realidade, há toda uma necessidade de mais
do que estudar o Direito Internacional Privado moderno, devermos atender e entender as suas
primeiras manifestações, isto é, a matriz que lhe serviu de base, que tem certamente na sua
génese a cultura do povo.

Destarte, o Direito Internacional Privado africano, o angolano em particular, não foge a regra,
sendo que enquanto estudantes de Direito e juristas é nossa missão conhecer a essência do
Direito Internacional Privado próprio dos povos Bantu em Angola, de tal sorte que ficará mais
fácil perceber a evolução do nosso Direito Internacioanl Privado, em que estágio se encontra
actualmente, bem como perspectivar o futuro do mesmo.

À vista disso, a nossa investigação propõe-se a trazer para o leitor conhecimentos sobre alguns
aspectos como: a resolução tradicional dos problemas inter-privados dos povos bantu, os
primeiros povos que habitavam o actual território angolano, como estavam organizados e se já
era possível falar de Direito Internacional Privado naquela época. Sendo que a resposta
afirmativa a estas questões nos levarão a questionar a origem dos povos Bantu e como se
formaram os reinos em Angola. A isto seguir-se-á descrição das fases de evolução do Direito
Internacional Privado angolano que nos permitirá estudar na sua primeira fase, como viviam os
reinos, que tipos de relações estabeleciam entre si, como eram resolvidos os conflitos entre
cidadãos dos diversos reinos, para então descrevermos a matriz africana de Direito Internacional
Privado.

Razão de ser do tema.

A temática em análise justifica-se pela necessidade do jurista moderno conhecer a cultura do


povo em que se insere e não só, com vista a compreender com facilidade os factos sociais e
assim buscar de forma contínua uma harmonização entre o Direito e a cultura para que se alcance
a justiça pois um Direito que não atende a cultura «hábitos, tradições e costumes» do povo em

1
que se aplica, é um direito estrangeiro que tratará os nativos como estrangeiros em sua própria
terra1 e consequentemente um direito injusto.

A Coexistência dos Antigos Reinos / Estados de Angola, Matriz Africana de


Direito Internacional Privado

CAPÍTULO I
A resolução tradicional dos problemas privados dos povos bantu, traços históricos sobre as
origens do Direito em Geral

1- Angola antes das migrações Bantu

2.1- Os primeiros povos que habitaram no território angolano2


Os povos mais antigos que habitaram o território angolano há milhares de anos, foram os
Pigmeus, os Khoisan, os Vátuas e os Kuissis. Estes viveram sempre em tribos soba forma de
comunidade primitiva na zona de savana. De realçar que os Khoisan são os mais antigos
habitantes do território angolano, seguindo-se os Vátuas e os Kuissis. Os Khoisan apresentavam
características físicaspróprias. Hoje, os mesmos encontram-se na província do Namibe, no sul de
Angola e fazem parte do actual território angolano.

Os principais aspectos da vida dos Khoisan são os seguintes: sempre viveram em tribos, sob
forma de comunidade primitiva. O seu ambiente natural era a região da savana, própria à sua
subsistência.

Os Khoisan sobrevivem recorrendo à caça e à recolecção, sendo conhecidos como grandes


caçadores. Muitas vezes vendiam carne aos seus vizinhos, em troca de outros alimentos e de
utensílios. As suas armas eram pequenos arcos de flecha envenenadas.

Relativamente à arte, os Khoisan faziam pinturas e esculturas nas rochas, nas quais retratavam
cenários de guerra, caça, dança, e cerimónias religiosas.

Analisando agora para o modo de vida dos povos que habitavam o território angolano antes da
chegada dos Bantu, sua vivência, forma de organização das comunidades naquela altura e tendo
1

2
AA,VV e coord.NSIANGENGO,coord, História- 5ª classe (actualização curricular), Mensagem editora (Luanda), 2018, pp 52-53.

2
em vista as origens do Direito em Geral, parece-nos meio duvidoso configurar nessa época uma
matriz africana de Direito Internacional Privado, pois, a sua vivência e organização não
propiciava uma forte interacção entre os povos, o que torna difícil a existência de uma matriz de
Direito Intenacional Privado, embora do ponto de vista ontológico não se possa negar o Direito
Internacional Privado.

Por conseguinte, falar-se de Direito Internacional Privado nessa época é extremamente difícil
para não sermos amigos da palavra impossível, dada a vivência e a organização da comunidade
que não nos permitem vislumbrar elementos de conexão, ainda que primitivos, bem como regras
de conflitos primitiva.

Imigrações bantu

Os povos Bantu são originários, muito provavelmente da parte Ocidental do continente,


concretamente nos Camarões e na parte sudeste da Nigéria.3 Os Bantu iniciaram a sua expansão
no ano 1000 a.c, tendo alcançado o Centro, o Este e o sul de África. Chegaram ao Sudeste da
costa africana nos séculos III e IV d.c.

A sua expansão teve como ponto de partida a região ocidental e foi dividida em três fases,
sendo que na primeira atingiram a floresta equatorial e a África Central. Na segunda
atingiram o leste. Na terceira e última fase atingiram a parte sul do continente e foi nesta
fase que os Bantu entram em contacto com o território angolano que era habitado pelos
Khoisan, pigmeus e os Vátwas.

Dos factores que motivaram as migrações Bantu, apontam-se:

a) A procura de novas terras para o cultivo, levando a absolvição das populações nativas de
caçadores, recolectores, com quem entraram em contacto.

b) O aumento populacional resultante de um desenvolvimento de novas técnicas de cultivo e


de novos produtos.

c) A introdução de instrumentos de ferro que possibilitaram uma alimentação mais


equilibrada.

3
COSTA, Teresa M. C. José, Umbundismo no português de Angola. Proposta de um dicionário de umbundismo, Lisboa, 2015. Sobre a origem dos Bantu,
várias hipóteses foram e continuam sendo levantadas.

3
2.2- Constituição dos reinos Bantu em Angola
Entre os séculos XII e XVI a Á frica conheceu um desenvolvimento harmonioso simultâ neo
de todas as suas regiõ es do ponto de vista econó mico, político e cultural. Esses quatro
séculos foram justamente chamados a «Grande É poca da Á frica Negra».

O período precedente foi de intensa preparaçã o, pois foi neste período que a Á frica Negra
viu o surgimento da maior parte dos grandes reinos africanos. Os países negro-africanos
atingem, apó s a fase de movimentos migrató rios, de contactos e trocas mais ou menos
benéficas com o exterior por intermédio dos Á rabes, uma fase de progresso demográ fico
mais ou menos massivo, um certo equilíbrio que se traduziu nas realizaçõ es só cio-políticas
elevadas, que colocaram esses territó rios ao ritmo do mundo. A á rea que abrange o actual
territó rio de angola nã o foge à regra.

As populações de origem Bantu formaram em Angola nove (9) etnias ou povos que são:

1– Os Umbundu ou Ovimbundu;

2– Os Kikongo ou Bakongo;

3– Os Kimbundu ou Ambundu/Mbundu;

4 – Os Cokwé ou Lunda-Tchokwé/Tu-Lunda, Tu-Tchokwé;

5– Os Nhaneka-Khumbi ou Vanyaneka-Lunkumbi

6– Os Ngangela ou Ovangangela;

7 – Os Herero ou Ovaherero;

8 – Os Ambó ou Ovambo/Xikwanyama;

9– Os Ovakwangali ou Kwangari/Kuvangar;

Estes grandes grupos por sua vez, estã o subdivididos em outros mais pequenos, cuja
designaçã o baseia-se sobretudo nas diferenças de ordem linguística existentes entre os
diversos grupos.

4
2.3- Caracteristicas do Reino do Kongo
O Reino do Kongo, foi o primeiro Estado a constituir-se na Costa Ocidental de África, tinha
como capital a cidade de Mbanza Kongo4

O Estado congolês era constituido por duas grandes classes: o Povo e a aristocracia.

O Povo vivia em comunidades aldeãs, (sanzalas ou mbanza). Defendia a propriedade


comunitária e se dedicava aos trabalhos caseiros. Um número limitado de indivíduos, como os
artesãos, dedicavam-se aos trabalhos de ferro, madeiras, extraía o óleo de palma. Outros eram
soldados ao serviço da aristocracia.

A aristocracia era constituida pelos "Mani" que eram chefes da administração dos distritos e das
províncias do reino. Outros Mani faziam parte do comando militar e comando Religioso
(Sacerdotes). Todos eles eram homens ricos. Cobravam impostos, recrutamentavam gente para o
exército e para os trabalhos da comunidade ou do rei, faziam justiça como juízes. Por sua vez
pagavam impostos ao Rei.

Devido ao seu dinamismo e pelo facto de ter sido o centro de uma vasta rede de relaçõ es
econó micas e políticas, englobando numerosos povos, a Histó ria da Federaçã o Kongo
suscita grande interesse tanto ao nível das suas origens, como da sua evoluçã o histó rica.

Política e administrativamente, o Reino do Kongo estava dividido em seis províncias das


quais, cinco estavam subordinadas aos seus pró prios MANI. A província de Mpemba Kazi
era governada pessoalmente pelo rei e pertencia-lhe a cidade real de Mbanza Kongo
(Nkumbi Nsudí). Mbanza Kongo foi um grande centro político e econó mico que interligava
províncias vizinhas como Nsudí a norte; Mbata a sudeste; Mbata a sudoeste e Soyo na costa
atlâ ntica, a oeste da capital.

O Reino do Kongo era poderoso e bem organizado. Comportava uma economia bastante
desenvolvida na altura, dedicavam-se a prática da actividade agrícola, o artesanato, pesca e a
caça.

Nos mercados locais do rio Zaire e da Costa do Oceano Atlântico trocavam-se os principais
produtos: sal, ferro, tecidos de ráfia, peles e produtos alimentares. O nome dado a este tipo de
comércio chamava-se permuta5. Mais adiante, a troca de produtos era feita com a principal
moeda: o Nzimbu.

O Nzimbu eram conchas apanhadas ou colhidas na Ilha de Luanda e depois escolhidas. Eram de
vários tamanhos: grandes, média e pequenas, tendo cada uma o seu valor.
4
Apontamento de Direito Internacional Privado, aulas ministradas na Faculdade de Direito da Universidade Mandume Ya Ndemufayo, ano 2020.
5
Permuta entende-se como a troca de mercadoria por outra mercadoria ou a troca de bens por outros bens.

5
2.4- Características do Reino do Ndongo
O reino do Ndongo é uma obra dos Ambundu também, designados por Ndongo que ocupam
uma faixa da Á frica Central Ocidental, ao longo do Baixo Kuanza e médio Kuango.
6
O reino do Ndongo ou Ngola, foi constituído no século XIV, um século depois da formaçã o
do reino do Kongo, mas outros autores como Cuavazzi, refere que o mesmo surge no século
XVI e teve como fundador Ngola Kiluanji e nã o Ngola Nzinga que se supõ e ser Jaga.

A organizaçã o política-administrativa do Ndongo era muito semelhante a do reino do


Kongo, mas a comunidade comunitá ria tinha mais força no Ndongo que no Kongo.

2.5- Características do Reino da Matamba

Formou-se no século XIV quando Ngola Inene conquistou esse territó rio. Entretanto, por
volta de 1570, os Jagas fugidos do Kongo invadiram a Matamba e misturaram-se com a
populaçã o local. O reino da Matamba perdeu assim momentaneamente a sua unidade
política, pois passou a ser um territó rio ocupado por diversos acampamentos Jaga.

Sublinhe-se que nesta altura, a Matamba estava sob domínio do reino do Ndongo. E em
1630, Nzinga Mbandi reconstitui o reino da Matamba e os Jagas proclamam-na Rainha da
Matamba.

2.6- Características do Reino de Kassanje

Sabe-se que foi entre 1620 e 1630 que algumas hordas de Imbangala fundaram o reino de
Kassanje. Kassanje Kaímba, o soberano deste reino tornou-se muito famoso e poderoso. A
populaçã o de Kassanje era constituída por Jaga, Imbangala, Sosso e Ambundu. Os
Imbangala com as suas permanentes viagens de negó cios e de guerra tinham adquirido
técnicas muito avançadas a nível da diplomacia.

2.7- Características do Reino dos Ovimbundo do Planalto Central

Os habitantes do Planalto de Angola designados sob o termo genérico de


Ovimbundu, que advém da evoluçã o semâ ntica do conceito ‘‘ MUNTU’’ (Munthu) que nas
línguas africanas significa ‘‘pessoa’’. Estes reinos eram compostos:
6
Cf. Informacao pormenorizada sobre o assunto ver MUCUATXILAMBA, p.77:2006.

6
1. Reino do Ndulu ou y’Olõsima (Handulo) – o mais antigo reino de todo o planalto
central de Angola, foi fundado por Katekula-Mengu.
2. Reino de Mbalundu (Bailundu) – fundado por Katiavala em 1700 (originá rio de
Tchipala na Quibala, um conhecido reino vassalo do Mbalundu), que
aproveitando-se da ausência de Mbulu, ocupou Mbalundu, destituindo
definitivamente a chefia do reino.
3. O Reino do Viye (Bié) – muito famoso no comércio a distâ ncia da borracha.
4. O Reino do Ngalangi ou Kwambwenge (Galangue).
5. O Reino do Wambu ou Wambu-Kalunga (Huambo) – fundado mais ou menos no
longínquo ano de 1600 por Wambu-Kalunga originá rio da regiã o da Cela.
6. O Reino de Kalukembe (Caluquembe) – este diferencia-se dos demais reinos do
planalto central pelo facto de adoptarem à sucessã o real de descendência
matriarcal e matrilinear. Está também amplamente difundida entre os
Ovimbundu de Kalukembe a tendência da exogomia, isto é, casar-se com
cô njuge que nã o é do seu grupo familiar, contrariando o que se verifica nos
outros grupos etnolinguísticos cuja tendência predominante era a endogomia,
isto é, procura-se parceiro de casamento dentro dos laços da mesma família.

CAPÍTULO II

Evolução histórica do Direito Internacional Privado angolano: suas frases


O Direito Internacional Privado angolano como conhecido actualmente é resultado de um
processo longo de evolução e desenvolvimento, caracterizado por três (3) etapas fundamentais:

a) Coexistência dos reinos Bantu.

b) Chegada do opressor português.

c) Da independência nacional até hoje.

A primeira fase caracteriza-se por um Direiro Internacional Privado próprio da tradição Bantu,
isto é, regras consuetudinárias, cuja fonte principal era o Costume Bantu, assente em valores
próprios da cultura africana tipicamente Bantu, cuja função era regular as relações que se
estabeleciam entre os cidadãos dos vários reinos, mas concretamente aquelas que resultavam do
comércio, do casamento (entre cidadãos de reinos diferentes), bem como relações de outras
naturezas.

7
Esse costume típico da cultura Bantu já estabelecia formas próprias de resolver situações que
estivessem conectadas com mais de um ordenamento jurídico (dois ou mais reinos), situações
plurilocalizadas, o que garantia uma convivência pacífica entre os reinos. Podemos dizer que
tínhamos aqui um Direito Internacional Privado de fundamento puramente Bantu.

Quanto à segunda fase (presença do opressor poertugês), que teve início em 1482 7, caracteriza-se
por uma mudança completa do modelo do Direito Internacional Privado angolano, passando de
um Bantu para um completamente Europeu, verificando-se uma completa absorção do Direito
Internacional Privado Bantu por um Direito Internacional Privado europeu, de matriz greco-
romano ou romano-germânico, ocidentalizado, pois o opressor português, impôs todo o seu
regime, fazendo do então território angolano sua província ultramarina 8, por conseguinte sujeito
às suas normas, normas estas que em nada reflectiam a realidade e os valores dos povos
encontrados.

Nesta fase desaparece o Direito Internacional Privado Bantu, assente nos valores dos povos
africanos Bantu, ganhando lugar e de modo total o Direito Internacional Privado europeu por
intermédio do opressor português, cujas normas são estranhas à cultura e aos valores do povo
Bantu.

Interessa aqui referir que a segunda fase termina com o alcance da Independência Nacional aos
11 de Novembro de 1975.

Quanto à terceira fase, é caracterizada por uma nova mudança de paradigma do Direito
Internacional Privado, pois com a proclamação da independência de Angola, assiste-se a um
regresso paulatino do Direito Internacional Privado aos valores fundamentais Bantu, à cultura
própria africana, às normas jurídicas próprias de Angola. Surge a partir daqui um Direito
Internacional Privado próprio angolano, embora ainda muito influenciado pelo Direito
Internacional Privado português e reflectindo em muitos casos a realidade portuguesa e não
Bantu, já apresenta traços e características que aos poucos se vão aproximando a realidade
africana Bantu.

Tendo em conta o nosso objectivo, faremos a seguir uma caracterização mais detalhada da
primeira fase.

2- A coexistência dos antigos reinos/ estados de Angola.


Falarmos da relação que existia entre os vários reinos do território que é agora o território
angolano

Delimitação dos reinos

7
Ano da chegada do navegador português Diogo Cão a foz do rio Zaire, facto que marca o início da ocupação do território angolano pelos portugueses.
8
Estatuto do actual território angolano na era colonial.

8
Como já ficou dito a quando da abordagem do tema «Origem dos povos e formação dos reinos
Bantu em Angola», os povos de origem Bantu formaram em Angola alguns reinos, sendo os de
maior destaque os seguintes: o Reino do Kongo, o Reino do Ndongo, o Reino de Kassanje, o
Reino de Matamba, o Reino da Lunda, o Reino do Bailundo e, o Reino de Kwanyama.

Estes reinos habitavam simultaneamente o actual território angolano, isto é, coexistiam,


localizando-se cada um deles numa determinada região do referido território. Estes embora
coabitassem, conservavam cada um, uma organização própria bem como um governo
independente, por isso são também conhecidos como Estados.

Da organização política e administrativa de cada reino, resultava que cada um deles possuísse o
seu próprio Direito, isto é, um sistema de normas costumeiras, cuja função era a de regular a vida
do reino nos seus mais diversos aspectos9.

Independentemente da soberania que cada reino possuía e da organização própria10, isto não
significa dizer que os reinos viviam isolados um dos outros, facto que não é possível atendendo a
mobilidade do humana bem como a natureza social do homem, o que implica dizer que já
naquela altura os reinos (por meio dos seus cidadãos) interagiam entre si, mantendo contactos e
relações de diversas ordens (relações comerciais, contratuais, pessoal, militar, relações do fórum
criminal), das quais podem resultar situações (situações plurilocalizadas), aquelas que colocam
em contacto várias ordens jurídicas (ordem jurídica de vários reinos), sendo estas situações por
consequência, objecto do DIP.

Se da interacção entre os reinos resultavam relações que punham em contacto as ordens jurídicas
dos vários reinos e cada reino tinha e aplicava o seu próprio Direito, surge uma questão: diante
de uma relação plurilocalizada, que direito deve ser aplicado 11? Qual reino será competente para
regular e resolver a questão? Haverá uma regra específica entre os reinos para resolver este
conflito de leis entre os reinos?.

Tomemos como exemplos as seguintes situações:

1-Um cidadão do Reino do Kongo celebra contratos com um cidadão do Reino do Ndongo no
território do Reino do Kongo (compra e venda de um imóvel) sito no reino Bailundo. Que
normas vão regular esse contrato, as do reino do Kongo, do Ndongo ou do Bailundo?

2-Um cidadão do Reino da Matamba comete um crime no Reino de Kassanje. Que reino será
competente para julgar o respectivo cidadão?

9
Organização social, económica, política e administrativa, jurídica. Cabendo-nos apenas uma análise da organização política e administrativa, bem como a
jurídica, por serem essenciais a presente abordagem.
10
Cada Reino era soberano, não havia subordinação ou dependência entre reinos.

11
. Reza a história que nesta fase os povos africanos ainda não dominavam a escrita e por isso o Direito ainda não era positivado

9
3-Um cidadão do Reino do Kwanyama casa-se com uma cidadã do Reino Lunda. Que normas
regularão esse casamento (quanto a constituição e quanto aos efeitos), serão as do reino do
Kwanyama ou do reino Lunda?

Pensemos ainda que dessa relação nasçam filhos e que depois de algum tempo o pai morra, qual
dos reinos será competente para regular o fenómeno sucessório?

Repare-se que todas estas situações ilustram relações plurilocalizada e por isso objecto de DIP, o
que nos da ideia da existência de DIP. As relações acima ilustradas resultam da interacção entre
os povos ou reinos e nos mostram que já se pode falar de DIP nessa altura. Entretanto precisamos
analisar o modo como os reinos resolviam tais questões, que regras eram aplicadas, a fim de
compreendermos e respondermos a questão que surge com o subtema que se segue.

Se é correcto afirmar que já existia DIP, precisamos saber qual era a matriz do DIP que vigorava
nessa fase, qual é a matriz do DIP africano?

Institutos sociais
Família

Sobre os Ovimbundus, há duas linhagens: matrilinear e patrilinear. A linhagem patrilinear era


denominada olusse, e a matrilinear era denominada a oluina. Sem discordar da importância da
linhagem patrilinear, a linhagem matrilinear exerce maior influência porque acreditavam que a
mulher é que concebe, gera, amamenta e cuida.

Quanto às actividades quem sustentava a família eram as mulheres porque naquela época, os
homens eram grandes comerciantes e viajavam. As mulheres cuidavam da produção, crianças e
também dos idosos que não se podeiam locomover.

Casamento

O casamento era inaceitavel entre um homem e uma mulher, de Estados diferentes, porque
acreditavam que cada família tinha os seus problemas de saúde em função da alimentação. Ou
seja, vigorava o regionalismo; no caso da cultura Ovimbundu, acreditavam que a comunidade
Nhaneka era inferior, então, não se podia contriar matrimónio com alguém de difirente etnia.

O acto considerável era o alembamento. No caso de haver interesse de contrair matrimónio entre
duas pessoas de tribos diferentes, a mulher tinha que ser submetida a cultura do homem, pois este
era a cabeça e líder da família. A partir do momento em que se celebrava o casamento, a mulher
pertence à família do homem e tinha que abdicar parcialmente da sua cultura e praticar a do
homem.

Obrigações

10
As relações que os diferentes Estados tiveram, eram essencialmente económincas devido a
carência. A região Centro e Sul, praticava essencialmente a agricultura e faziam intercâmbio com
outras culturas para a realização de trocas de produtos. As relações comerciais eram demoradas,
pois faziam-se com povos distantes por Exemplo entre um povo do Norte e um povo do Sul.
Eram feitas em caravanas, acompanhadas por Exércitos para prevenir assaltos. Eram uma
actividade reservada os homens.

Em caso de desavenças entre eles, escolia-se os responsáveis dos dois grupos aquém cabia a
responsabilidade de resilver tais conflitos. O Comércio era feito nas fronteiras e em datas
previamente marcadas. E havendo desavenças como burlas nas trocas, havia um Ministro do
Comércio que averiguava estas situações. Este comunicava a situação fraudulenta aos reis
informando as datas, e, se não houvesse intendimento, havia Guerra entre ambos, ou podia
originar em escravatura se a parte responsável não assumisse a culpa e reparasse o dano ou
recompessasse.

Direitos Reais

Para os Ovimbundus, a propriedade mais importante era a terra. Que servia para a prática da
agricultura e de seguida o gado. Diferente dos Nhaneka que valorizam primeiramente o gado.

Sucessões

Quanto a herança é feita de pais para filhos, porque acreditava-se que cada pai trabalhava para o
sustento dos seus filhos. Diferente da comunidade Nhaneka onde também existiam duas
linhagens, matrilinear e patrilienear. Mas aos pais deixavam a herança para os seu sobrinhos
porque eles acreditavam que a mulher é realmente a mãe pois fois notável a gestaçãoe
amamentação do filho não realmenteuer havendo qualquer dúvida sobre a maternidade do filho;
porém tal não acontece com o pai, daí havendo dúvidas sobre a paternidade.

11
Conclusão

Portanto, atento a aborgem feita até aqui, pensamos estar-se em condições para responder a
pergunta formulada em sede ao tema à nós propostos: o qual é Matriz do DIP Africano.

A resposta é peremptória: o DIP africano é de matriz BANTU.

O DIP de modelo, de paradigma de base puramente Bantu, isto é, um direito assente nos
hábitos, nos costumes, nos valores e princípios Bantu, sem qualquer influência de outros
elementos (do DIP europeu, português). Modelo este que vigorou até antes de 1482 ano da
chegada dos portugueses na foz do rio Zaire (12).

Um DIP que tinha no costume Bantu a sua principal fonte de manifestação e revelação e na
oralidade, o seu principal meio de transmissão de geração para geração. Esse sistema de
normas jurídicas, de matriz Bantu, atendo à ontologia humana bem como a mobilidade do
cidadãos dos various reinos, já dispunha de regras próprias que regualvam situações que
opunham dois ou, mais reinos (ordenamentos juridicos) sempre que das relações que se
estabeleciam entre reinos, resultasse conflitos.

Como confilto envolvia dois ou mais reinos, cada um deles possuindo o seu direito, o
costume Bantu, surge como elemento uniformizador e pacificador, estabelecebdo regras
próprias para dirimir tais situações e permitir uma convivência pacífica entre os reinos.

12
Bibliografia
ALMEIDA, Germano,Os dois irmãos, 2ªed.Lisboa, Caminho Editora,SA,1995.

13

Você também pode gostar