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MACONHA

Primeiro, uma certa hilaridade estranha e


irresistível se apodera de você. As palavras mais
comuns, as idéias mais simples tomam uma
fisionomia bizarra e nova. Nem você agüenta essa
alegria, mas é inútil resistir. O demônio já o
invadiu; qualquer esforço que fizer para resistir só
servirá para acelerar os progressos do mal. Você ri
de sua bobagem e de sua loucura;seus
companheiros riem de você, e você nem se
importa, pois a benevolênc ia já começou a se
manifestar. Passados alguns minutos, as relações
entre as idéias tornam-se tão vagas, os fios que
ligam suas concepções são tão tênues que
somente seus cúmplices, seus correligionários
podem entendê-lo. Sua maluquice, suas
gargalhadas parecem o cúmulo da bobagem a
quem não estiver no mesmo estado. Quanto aos
seus companheiros, você se dá maravilhosamente
bem com eles. Logo, a compreensão se passará só
pelo olhar. A segunda fase se anuncia por uma
sensação de frio nas extremidades, uma grande
fraqueza; você tem, como se diz, as mãos moles,
um peso na cabeça e uma estupefação geral em
todo o ser. Os olhos ficam esbugalhados, como
puxados em todos os sentidos por um êxtase
implacável. Seu rosto é tomado pela palidez, torna-
se lívido e esverdeado. Os lábios encolhem,
encurtam e parecem querer entrar para dentro. Seu
peito exala suspiros roucos e profundos como se
sua natureza antiga não pudesse suportar o peso
da nova. Os olhos perscrutam o infinito. Os
ouvidos percebem os mais imperceptíveis sons no
meio dos mais agudos alvoroços. As alucinações
começam. Os objetos externos tomam aparências
monstruosas. Revelam- se para você sob formas
até então desconhecidas. Depois se distorcem, se
transformam e, finalmente, entram no seu ser ou
então você entra neles. Acontecem os mais
singulares equívocos, as mais inexplicáveis
transposições de idéias. Os sons passam a ter uma
cor, as cores têm uma música. As notas musicais
tem números, e você consegue resolver com uma
rapidez assustadora prodigiosos cálculos de
aritmética, à medida que a música se desenrola no
seu ouvido. Você está sentado e fumando; acredita
estar sentado no seu cachimbo e é você que seu
cachimbo estáfumando, é você que está
se exalando na forma de nuvensazuladas.(...)

Charles Baudelaire

Dias estranhos
Dias estranhos nos encontraram,
dias estranhos seguiram nosso rastro,
vão destruir nossas alegrias ocasionais;
continuamos a jogar ou procuramos uma nova cidade?
Olhos estranhos preenchem salas e quartos estranhos,
vozes sinalizarão seu fim cansado,
a anfitriã arreganha um sorriso afetado,
seus convidados dormem de tanto pecar;
é só me ouvir falar em pecado
que você sabe: chegamos ao fim da linha.
Dias estranhos nos encontraram
e através de suas estranhas horas
sobramos, retardatários, a sós
corpos confundidos, memórias mal aproveitadas
enquanto corremos do dia para uma estranha noite de pedra.
The Doors

Um estranho chalé novo em Berkeley


A tarde toda colhendo amoras pretas junto a uma cambaleante cerca
marrom debaixo de um ramo inclinado com seus abricós estragados no meio das
folhas;
consertando os vazamentos nas intricadas entranhas do mecanismo de uma
nova privada;
eu achei um bule de café bom entre as moitas junto da varanda, rolei um
pneu grande para fora dos arbustos escarlates, escondi minha maconha;
reguei flores, jogando a água iluminada pelo sol de uma para outra, voltando
por algumas divinas gotas a mais para as vagens e margaridas;
por três vezes dei a volta ao gramado e suspirei distraidamente;
minha recompensa, quando o jardim me deu suas ameixas saídas de dentro
da forma de um arbusto no canto, um anjo que teve consideração pelo meu
estômago e pela minha língua ressecada e desamada.
Allen Ginsberg
Allen Ginsberg
A Propaganda

Canabis (haxixe, maconha) − Os efeitos dessa droga têm sido freqüentemente


e sensacionalmente descritos: alterações da percepção de tempo e espaço,
aguçada sensibilidade às impressões, fuga de idéias, ataques de riso, bobeira. A
maconha é um potencializador, e os resultados não são sempre agradáveis. Ela
torna uma situação ruim ainda pior. A depressão torna-se desespero, a ansiedade,
pânico. Eu já mencionei minha horrível experiência com a maconha durante uma
fase aguda de abstinência de morfina. Uma vez dei maconha a um convidado que
estava levemente ansioso por alguma coisa ("só de sarro", como ele mesmo
colocou). Depois de ter fumado meio cigarro, subitamente ele levantou de um salto,
berrando "Estou com medo!" e saiu correndo de casa.
Uma característica especialmente desencorajadora da
intoxicação pela maconha é a alteração da orientação
afetiva. Você não sabe se gosta ou não de alguma coisa, se
uma sensação é agradável ou desagradável.
O uso de maconha varia muito de indivíduo para
indivíduo. Alguns fumam-na constantemente, outros
ocasionalmente, não são poucos os que lhe têm intensa
antipatia.
Os efeitos nocivos da maconha têm sido grosseiramente
exagerados nos Estados Unidos. Nossa droga nacional é o
álcool. Tendemos a encarar o uso de qualquer outra droga
com pavor todo especial. Qualquer pessoa propensa a estes
vícios estranhos merece a ruína completa de sua mente e
corpo. As pessoas acreditam no que querem acreditar, sem
consideração pelos fatos. A maconha não provoca vício. Eu
nunca vi provas de qualquer efeito nocivo conseqüente do
uso moderado de maconha. A psicose tóxica pode resultar
do uso prolongado e excessivo.
William S. Burroughs

Haxixe − (...) Você está se sentindo bem, uma única


coisa o preocupa e o deixa inquieto. Como fará para
sair do cachimbo? Está fantasia dura uma eternidade.
Um intervalo de lucidez, a custo de um grande esforço,
permite que confira no relógio. A eternidade durou um
minuto. Já uma outra corrente de idéias o está levando; o
leva durante um minuto no seu torvelinho vivo, e esse
minuto também será uma eternidade. As proporções do
tempo e do ser estão distorcidas pela quantidade incontável
e pela intensidade das sensações e das idéias. Vive-se
várias vidas em um espaço de uma hora. Não há mais
equação entre os órgãos e o deleite. Vez por outra a
personalidade desaparece. Ei-lo árvore farfalhando ao vento
e contando para a natureza melancolias vegetais. Agora,
está pairando no azul do céu imensamente ampliado. Toda a
dor sumiu. Você conserva, é verdade, a faculdade de
observar-se a si próprio e, amanhã, ainda guardará a
lembrança de algumas de suas sensações. A terceira fase,
separada da segunda por uma crise redobrada,
uma embriaguez vertiginosa seguida de um novo mal-
estar, é algo indescritível. É o que os orientais chamam
de Kief ; é a felicidade absoluta. Acabou o redemoinho, o
tumulto. É uma beatitude calma e imóvel. Todos os
problemas filosóficos estão resolvidos. Todas as questões
árduas contra as quais lutam os teólogos e que fazem o
desespero da humanidade pensante estão límpidas e claras.
Qualquer contradição transformou-se em unidade. O
homem virou deus.

Charles Baudelaire
Cânhamo − Usar uma "gravata de cânhamo", esse era o uniforme dos
enforcados. Empregava-se o cânhamo para esse fim porque as suas fibras eram
as mais sólidas e resistentes. Por isso,com ele também faziam cordas, muito usadas
no tempo da navegação a vela, pois o cânhamo era o melhor dos têxteis para
suportar a ação da água. Por essa razão, os canhamerais, onde se cultivava
o cannabis, situavam-se freqüentemente perto dos portos.
Sabemos que as fibras do cânhamo, presentes sob as cascas, são
extraídas por maceração, isto é, deixando
os caules imersos naágua durante muito tempo, o que desagrega os tecidos e
separa asfibras utilizáveis. No século XIX, observaram que os colhedores
decânhamo sentiam às vezes perturbações estranhas eincompreensíveis.
Na realidade, sem que soubessem, eles estavam "drogados". Baudelaire, que
conhecia bem o haxixe, não se enganara; no Les Paradis artificiels ele descreve
esses "estranhos fenômenos": "Parece que da colheita se ergue uma espécie de
espírito vertiginoso que circula ao redor das pernas e sobe maliciosamente até o
cérebro. A cabeça do apanhador está turbilhonada, outras vezes está carregada de
sonhos. Os membros enfraquecem e se recusam a trabalhar".
Na realidade, somente no decorrer do século XIX, foram obrigados a
reconhecer que o cânhamo, têxtil cultivado de longa data na Europa, e o misterioso
cânhamo hindu evocado nos relatos de viagens e nas Mil e uma noites eram uma
mesma e única planta,Cannabis sativa, e que as grandes diferenças observadas
entre as duas eram apenas resultado do clima. Méhémet Ali (1769-1849), vice-rei do
Egito que, em guerra com o seu suserano, o Sultão, começou aconstrução de
uma importante flotilha,
aprendeu isso a sua custa.Para ter ao seu alcance os materiais necessários à
enxárcia dos seusnavios, Méhémet Ali buscou na Europa grãos de cânhamo têxtil e
os enviou para serem cultivados no
Egito. Porém essas plantas sófloresceram fibras curtas
e pouco sólidas, enquanto secretavam cadavez mais uma resina pegajosa.
Inversamente, a cultura dos grãosvindos
do Oriente dá pouca resina aos amadores de haxixe que os semeiam na Europa.
Planta anual de crescimento muito rápido, o cânhamo podealcançar até 4m
de altura, mas geralmente não ultrapassa dois; suasgrandes folhas espalhadas com
folíolos longos, estreitos, pontudos e dentados a
tornam muito decorativa. Espécie dióica, o cânhamo possui plantas machas
e plantas fêmeas, nitidamente diferentes. Mais fracas, mais baixas, menos folhudas,
as primeiras – encarregadas do amadurecimento tardio dos grãos e mais altas, mais
cheias e principalmente mais ricas em resina – vivem menos tempo que as
segundas. A espécie é originária da Ásia Central onde foi encontrada em estado
selvagem desde o sul e o leste do mar Cáspio até a Sibéria.
Dali a Cannabis sativa entrou no leste da Índia e na Chinaonde o cânhamo é
cultivado desde a mais remota antiguidade, nãocomo têxtil, mas como planta medici
nal. Na China encontramosvestígios de sua utilização desde o século XV
a.C como sedativo dasdores reumáticas e da gota; mais tarde foi
utilizada como remédiocontra a alienação mental; no século II de nossa era, o
ilustrecirurgião Houa T'o
empregava como analgésico durante suasoperações, mas somente mais tarde,
ao que parece, o cânhamo foi cultivado por suas propriedades têxteis. Quanto à
Índia, mais mística, ao mesmo tempo que o cânhamo, ela adotou o uso que fizeram
dessa planta, uma erva sagrada em seu lugar de origem.
Nos antiqüíssimos manuscritos em sânscrito, o bhang, bebidaà base de
cânhamo, é chamado indracarana (alimento dos deuses).Ele parece ter substituído,
nesse papel, o soma, bebida de vegetalcuja composição é
ignorada, mas que, segundo certos pesquisadoresmodernos, teria sido extraída do
amanita mata-moscas. Certamente, éprovável que se
tornará difícil para os arianos vindos do norte encontrar esse cogumelo alucinógeno,
originário das regiões frias, enquanto o cânhamo era facilmente cultivado na índia. O
fato é que acannabis, bebido ou fumado, foi associado a Shiva, deus da destruição,
mas também da ascese e dos iogues, e usado como um meio de dissolver o ego na
meditação e de alcançar a comunhão com o Princípio cósmico universal. Um
relatório da comissão encarregada, em 1894, de estudar os efeitos do consumo do
cânhamo na Índia, conta, segundo os informantes interrogados: "Nenhum deus,
nenhum homem religioso é superior a um homem bebedor de bhang". Ele é servido
aos que estão iniciando os estudos das santas escrituras de Bénarès. Em Bénarès,
Ujjain e outros lugares sagrados, os iogues tomam grandes quantidades
de bhang para poderem concentrar o seu pensamento no Eterno.
Da Índia o uso ritual do cânhamo se expandiu para o oeste onde a planta era
certamente conhecida há muito tempo, pois o Egito antigo já usava suas
propriedades anestésicas mais de mil anos antes dos Cristãos. Finalmente o
cânhamo chegou a ter no Islã umpapel comparável ao que era o seu na Índia.
O Islã, como ohinduísmo, indulgente para com os cambais,
proíbe, sob pena desanções severas,
o consumo de bebidas alcoólicas, enquanto que asituação inversa reina no Ocidente
. A cada um, suas drogas! Narealidade essa escolha é um caso de temperamento;
o álcool excita,leva à ação, torna agressivo, até violento, enquanto o haxixe acalma,
concentra, interioriza
e finalmente torna passivo, cheio de indulgênciapara com o próximo; mas não é isso
que buscam, respectivamente,orientais e ocidentais? É bem conhecido o
uso que fazem doaguardente no fronte, durante as guerras; se a
substituíssem pelohaxixe, veriam talvez, escândalo inadmissível,
os combatentesconfraternizarem.
Quando e de que maneira o cânhamo penetrou na Europa? As opiniões
estão muito divididas, o que é explicável já que uns falam do cânhamo têxtil e outros
do cânhamo hindu, ou seja, de duas utilizações bem diferentes de uma mesma
planta, uma profana e utilitária e a outra sagrada, porém proibida. Segundo os
historiadores, o cânhamo hindu se espalhou em todas
as regiões conquistadaspelos árabes mulçumanos, isto é,
no oeste, arredores do MediterrâneoOriental, África do Norte e Espanha. De lá se
expandiu por toda a África e alcançou,
provavelmente por intermédio dos negros, que paralá foram deportados, a América
do Norte, onde o clima do sul dosEstados Unidos e do México
convieram perfeitamente à planta. Dessamaneira o cânhamo atingiu
o planeta inteiro.
No entanto, hoje nos indagamos se a
Europa não teráconhecido bem mais cedo a utilização ritual do
cânhamo, pois enfimforam os citas que, segundo os historiadores, teriam
transportado o cânhamo têxtil para o oeste nas suas migrações,
no século VII antesde nossa era, e o teriam transmitido aos
trácios, habitantes orientaisda Grécia, que com ele fizeram vestimentas; mas, dois
séculos mais tarde, quando os citas já estavam instalados na Europa, o uso que
eles faziam da cannabis era suficientemente conhecido para que Heródoto pudesse
contar: "Os citas pegam os grãos de cânhamo e, entrando sob a grossa tela de suas
tendas, os lançam sob pedras em brasa. Ali elas se consomem exalando um vapor
que banho algum de vapor da Grécia conseguiria superar, e esse vapor fazem os
citas gritarem de alegria." Portanto, para os citas, banhos de vapor e fumigações de
cânhamo estavam estreitamente associados. Recentemente puderam precisar que
aí se tratava de cerimônias purificadoras que aconteciam quase sempre após um
enterro. Nesse contexto, o cânhamo aparecia como uma maneira de entrar em
contato com os falecidos e assim penetrar no além, de sair dos limites da natureza
humana para comungar com o cosmos inteiro, visível e invisível. Teria essa
utilização específica desaparecido completamente quando o cânhamo se propagou
para o oeste? Alguns fatos permitem a dúvida. Segundo o pré-historiador alemão
Hugo Obermaier, ele teria sido conhecido pelos antigos germanos e pelos galos-
romanos; o uso de cachimbos encontrados em diversos locais, a presença
da Cannabis sativa em certas sepulturas coincidem aparentemente com essa
utilização.
Em outras palavras, é possível e muito provável que o poderpsicotrópico do
cânhamo sempre tenha
sido conhecido e que suadescoberta pelo século XIX europeu, na forma de
uma moda vinda dooriente, tenha sido apenas uma redescoberta. Pois na realidade
os médicos gregos que, aliás, tardiamente, tinha herdado o cânhamo do Egito, não
ignoravam em absoluto suas possibilidades além das medicinais.
O cirurgião Dioscoride, que o
utilizava como analgésico,além de mencionar suas virtudes afrodisíacas e aperitivas,
falava dopoder de "fazer aparecer diante dos olhos fantasmas e ilusõesdivertidas
e agradáveis". Galeno, dois séculos depois,
indicava que"ele era servido habitualmente aos convidados dos banquetes paracolo
cá-los à vontade e torná-
los alegres", mas também que essa erva"pode ferir os cérebros se abusarem dela".
Desde então, a medicina utilizou adequadamente as folhas e
as sementes do
cânhamo como antiespasmódicos e hipnóticos,enquanto o óleo de semente do
cânhamo, muito emoliente,
serviapara diminuir as inflamações e extrair os corpos estranhos queentrassem
na pele. Essas utilizações foram abandonadas, inclusive a do chenevis (grãos do
cânhamo), que servia para alimentar ospássaros de viveiros, depois da proibição qu
e passou a pesar sobre o cânhamo. No entanto, recentemente voltaram a usá-lo
na medicinados Estados Unidos, pois ele se mostrou um dos únicos remédios
eficazes contra o glaucoma, moléstia que até pouco tempo provocava a cegueira.
Em outras palavras, nas entrelinhas da história oficial, que guarda um
silêncio pudico, se desenha em filigrana a história da droga, que permaneceu
clandestina, pois aqueles que a empregavam como remédio não podiam ignorar
suas outras virtudes.
Quando o cânhamo hindu reapareceu em cena na Europa, chegou
precedido por uma fascinante mas temível reputação. Em1809, Sylvestre de Sacy,
numa comunicação à Academia dasinscrições e letras, reprovava
a palavra assassino do termohaschischin: os haschischin são assassinos, e o
cânhamo é a "ervado crime". Dessa forma estava desvendada a origem do
misterioso poder que tinha sobre os seus seguidores, o "Velho da montanha", que
fazia deles matadores fanáticos em proveito de uma seita que promovia o terror por
todo o Oriente Próximo.
Essa histeria data das brigas dinásticas tão freqüentes e queopunham
os descendentes de Maomé, pretendentes ao título decalifa. O chefe de uma
das seitas xiitas proveniente dessas divisões, Hassam ibn al-Sabbah,
formou, por volta de 1090, nas regiõesmontanhosas do norte da Pérsia,
a sociedade secreta fedawis, cujadisciplina de ferro deveria mais tarde servir de mod
elo às ordensreligiosas e militares da cristandade conquistadora,
a ordem doTemplo e dos Cavaleiros Teutônicos. Dirigida por uma elite intelectual
que queria substituir o formalismo ritualístico do Islã por uma interpretação esotérica
do Corão, essa sociedade passou a ser conhecida em 1092, graças ao audacioso
assassinato de um ilustre vizir por um fedawi disfarçado de sufista. Esse gesto foi
seguido de vários atentados, todos de grande importância, especialmente entre os
chefes dos cruzados, invasores da Terra Santa.
Logo correu a notícia de que esses assassinatos haviam sido previamente
condicionados. O chefe da seita, diziam, lhes dava abeber uma bebida que os
adormecia e os
transportava paramagníficos jardins onde eles despertavam. Ali tinha diante dos olh
ostodas as delícias oferecidas pelo Corão aos fiéis que alcançavam,após a morte,
o paraíso de Alá, inclusive as famosas huris. Emconseqüência da operação inversa,
o fedawi encontrava
a tristerealidade cotidiana e só aspirava voltar ao jardim encantado. O "Velho da
montanha" o chamava então para a sua presença e lhe perguntava "de onde ele
vinha". O fedawi respondia "que ele vinha do paraíso eque este era tal como Maomé
o descrevera em sua lei". Então,quando o "Velho" queria
"executar um grande senhor", dizia aos queele enviava: "Vá
e mate tal pessoa e quando voltar eu o farei levarpelos meus anjos ao paraíso. E
se morrer no negócio, eu comandarei aos meus anjos que o levem ao paraíso".
Esse relato trazido por Marco Pólo no século XIII foi muitasvezes contado e
muitas vezes aumentado, principalmente em nossaépoca, para provar a dissimulada
e perigosa nocividade do haxixe. Eletornou-
se até o principal argumento empregado para denunciar osseus efeitos, por aqueles
que, de boa ou de má fé, citam essa história sem ir à sua fonte. Ora, por ser única e
suspeita, já que, em suma, Marco Pólo não fez nada mais que repetir um boato, ela
não contém absolutamente o sentido que lhe dão. A beberagem em questão – e
alias, no relato não se fala em cannabis – não provocava visões – o que o fedawi via
era totalmente real –, não forjava nenhum encantamento, servia apenas para fazer
dormir. O haxixe, supondo que tenha sido ele realmente o utilizado, não tinha
nenhuma culpa pelas ações criminosas dos fedawis. Nada prova também, apesar de
Sacy, sendo este a única fonte dos dicionários e outras obras de vulgarização, que
assassino seja derivado de haschischin; é mais provável que a palavra venha de
Hassan ou Hussein, nome do chefe da seita.
Todavia, foi realmente referindo-se à seita do "Velho da montanha" que
Baudelaire, Théophile Gautier e seus amigos escritores ou artistas intitularam a
pequena associação por eles formada de "Clube dos Haschischins"; era apenas
uma provocação maliciosa, gosto de escandalizar os burgueses, pois o terrorismo
que ali reinava era apenas verbal e indumentário, e os relatórios tanto de Gautier
como de Baudelaire só trazem finalmente o caráter extravagante e estapafúrdio das
impressões causadas pelo consumo de haxixe: a alegria exuberante e liberadora, as
transposições sensoriais que faziam descobrir aspectos até então despercebidos
por todos e depois o estado de "beatitude calma e imóvel", de "bem-estar" e de
"maravilhosa leveza de espírito" que a seguia. Em Les Paradis Artificiels, Baudelaire
apenas menciona o "grande langor que tem o seu encanto" sentido após a sessão,
"punição, merecida, acrescenta ele, da prodigalidade ímpia com a qual fizemos um
tão grande desgaste de fluido nervoso. Lançamos nossa personalidade aos quatro
ventos e agora temos dificuldade em juntá-la e em concentrá-la". Apreciação em que
entra, como suficientemente o indicam os termos empregados, uma boa dose de
humor. E como, conhecendo Baudelaire, não tomar como uma simples paródia o
julgamento pretensamente severo em que o autor de Fleurs du Mal resume os
efeitos sociais do haxixe: "Ele não fabrica nem guerreiros, nem cidadãos" – o que
realmente não era a sua principal preocupação! – ou adiante, estas eloqüentes
frases: "Dizem que essa substância não causa nenhum mal físico. Isso é verdade,
pelo menos até agora. Pois não sei até que ponto podemos dizer que um homem
que só vive sonhando está em boa saúde, mesmo se todos os seus membros
estiverem em bom estado. Mas é a vontade que é atacada, e é o órgão mais
precioso. Um homem que pode, com uma colher de geléia (era essa forma que
Baudelaire absorvia o haxixe), encontrar instantaneamente todos os bens do céu e
da terra nunca quererá tê-lo pelo seu trabalho. Antes de tudo é preciso viver e
trabalhar." Esse Baudelaire moralista surpreende – e com razão – e seria muito mais
ao ópio – que ele também usou – que essas censuras deveriam ser dirigidas. O
caso é que Baudelaire, com mais seriedade e muito sabiamente, concluiu: "Não digo
que haxixe provoque em todos os homens todos os efeitos que acabei de descrever.
Contei por alto os fenômenos que acontecem geralmente, exceto algumas variantes,
com os espíritos artísticos e filosóficos. Mas existem temperamentos nos quais essa
droga só provoca uma loucura ruidosa, uma violenta alegria que parece com uma
vertigem, danças, saltos, bater de pés e gargalhadas. Eles são, por assim dizer, um
haxixe material. Eles são insuportáveis para os espiritualistas que deles têm muita
pena. Suas feias personalidades são ressaltadas [...] pois o haxixe só faz
desenvolver além do normal a personalidade humana nas circunstâncias atuais em
que ela está situada."
Jacques Brosse

Imagem: Freak Brothers


O manual
Descrição Científica de uma Experiência Particular
O efeito demora uns 15 minutos para encarnar. Não vem simultaneamente a
absorção. Quando chega é incrível. Os músculos se esticam e relaxam. Os sons
tornam-se extremamente fortes. Escuto o meu relógio de pulso e uma TV ligada
num apartamento a duas quadras daqui. Alguns chiados sombrios. A geladeira faz
um ruído grave e sonolento. Os olhos caem um pouco, ardidos. Há uma certa
imobilidade, entra-se numa nova velocidade. Um casal vizinho procura retornar à
fusão originária. Uma ereção... O tempo parece parado e rígido como o meu pênis,
apesar das batidas irregulares do meu relógio despertador. Não esqueço de nada.
Uma pressão no hemisfério esquerdo do meu cérebro, uma pressão combustiva.
Sou forçado a falar, mas só saem grunhidos. Coceiras desnecessárias. Aí, começo
a tremer feito uma geléia. Então, retiro uma furadeira do armário para me furar em
todos os pontos intensos como uma estranha medicina oriental. Quero ampliar a dor
ao extremo, para gritar de forma inaudível aos ouvidos humanos. Eu busco a dor.
Estremeço. Uma percussão demoníaca, uma batida insistente lembrando música
flamenca preenche todo o quarto. São meus dentes. Noto que meus pés são feitos
de granizo e que alguém quer quebrá-los. O coração toma o lugar do estômago e
este o do intestino, sinto então que estou amando feito um louco, que a vida vale a
pena, já que há a arte.
Isto tudo se passou muito rápido. Agora, estou perdido como águias que ingeriram
alumínio. Não há mais volta, eu sei. Entretanto, aprendi que um sorriso vale mais do
que qualquer nota abstrata, o que me fez desenvolver a seguinte equação
matemática:
Abundância de vida ≥ dor

Tiago Jonas
Cheio de vinho, maconha e tara
Ela percebe que estou olhando e parece não se
incomodar. Ela tem um magnífico sorriso. Ela cruza as
pernas, e eu vejo tudo atentamente. Não consigo deixar de
olhar. Ela percebe que olho para suas pernas, direto para o
branco de sua calcinha. Ela cruza, descruza, posiciona
melhor o corpo, levanta, caminha, volta a sentar. Vejo que
ela percebe quando a olho. Quando ela fala, vejo sua boca
umedecida, seus dentes bem ordenados, pequeninos... E
agora o contorno dos lábios que tenta me dizer algo. Os
lábios que se abrem "Pá" e que permanecem abertos até a
língua roçar o céu da boca "ra". Ela me pede para parar. Me
pede para parar. Mas continua a sorrir para mim. Levanto.
As pernas vacilam. Caminho para o banheiro. Abro a porta e
entro. Acendo a lâmpada e passo a tranca. Minha cara no
espelho é grotesca. "Um cossaco vermelho e glutão".
Abaixo a tampa da privada, desabotôo as calças. Soco
minha mão para dentro e acaricio meu pau já úmido e duro.
Tiro ele para fora e me masturbo imaginando-a... Ela entra
no banheiro, tira a calcinha branca, senta sobre mim, me
beija, me molha o rosto de saliva... em poucos minutos o
sêmen jorra. Uma vertigem me domina. Escoro na parede e
deixo a sensação fluir. Alguém me interrompe batendo na
porta. Abotôo as calças e limpo rapidamente o sêmen pelo
chão. Puxo a tranca. "Desculpa. Tô muito apertada." "Nada.
Pode entrar." Ela entra, e eu continuo na porta. Ela pára e
olha para trás. "Que que você usa nos lábios? São tão
brilhantes e úmidos." Ela olha no espelho, franze as
sobrancelhas e sorri lindamente. E pensar que instantes
atrás eu estava ali, desejando-a, com as calças arriadas.
Daqui a pouco ela vai sentar para urinar, e se fizesse um
pouco antes, mijaria sobre mim. Apenas uma questão de
tempo, o espaço é o mesmo. "Eu posso fechar a porta?"
"Ah, desculpe." Ela fecha a porta e passa a tranca. Levanta
a tampa do vaso e senta. Posso ouvir e imaginar tudo. A
calcinha branca nos joelhos. O xixi saindo pelo canal. A
sensação de alívio. A vagina umedecendo-se. Os lábios
brilhantes. O magnífico sorriso. Os dentinhos bem feitos. A
linda boca úmida...

SÓ ME REPETINDO
ENTRE BAFORADAS E OLHARES DE DESEJO
UM MUNDO ESTRANHO
TODO TÉDIO É FALTA DE AMOR NOVO
ESTOU SEDUZINDO-O
TUDO PORQUE O CONHEÇO DE MINUTOS ATRÁS
AGORA ELE LEMBRA ALGUÉM CONHECIDO DE MUITO ANTES
UMA MULHER SEM SEIOS É O CAOS
AMAZONAS
FODAS ESTRANHAS NA MENTE
Ricardo Rodrigues
Cérebro sob efeito da maconha