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Rodrigo Abarca 



A história dos irmãos esquecidos teve na antiga Boêmia (atual Tchecoslováquia) uma trajetória
trágica e heróica. Os nomes de João Huss e Jerônimo de Praga, entre outros, são relembrados
com amor por muitos crentes de hoje. No entanto, poucos sabem ou recordam daqueles fiéis
santos que junto com eles e depois deles combateram ardentemente pela fé e influíram
poderosamente nos acontecimentos posteriores à Reforma. 

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uurante o século XV, a Inglaterra foi o cenário de uma importante tentativa de retornar a uma
fé mais bíblica e espiritual por parte de um notável grupo de crentes, a quem seus inimigos
deram o nome de Lolardos. A princípio, a sua reação foi contra a corrupção e a escandalosa
riqueza de uma parte do clero. Mas, progressivamente, foi derivando para um interesse muito
mais profundo com respeito aos assuntos básicos da fé. 

No centro desta reação se encontrava John Wycliff, que era considerado o erudito mais
eminente da Universidade de Oxford no seu tempo. Este ensinou a liberdade de todo homem
de relacionar-se com ueus diretamente e sem intermediários. Também, que a Bíblia era a
única fonte de autoridade e verdade para os crentes. Não obstante, a sua contribuição mais
importante foi a sua tradução da Bíblia para o inglês comum do seu tempo. 

Também organizou e preparou numerosos grupos de pregadores itinerantes, que espalhou a


semente do evangelho por toda a Inglaterra e ainda mais adiante. Wycliff teve uma vida longa e
frutífera, e nunca pôde ser alcançado pela mão dos seus inimigos. Não obstante, depois da sua
morte, a igreja organizada obteve do rei Henrique IV a assinatura de várias leis para perseguir
os Lolardos. Como conseqüência, muitos crentes foram capturados e executados como
hereges. No entanto, embora exilados e escondidos, os irmãos permaneceram ativos por
muitos anos mais.

      


Entre os estudantes que escutavam avidamente a John Wicliff em Oxford, havia um jovem
estrangeiro chamado Jerônimo de Praga, natural da Boêmia. Este retornou para a sua pátria
ardente com o fogo dos ensinos do notável erudito inglês, e começou a ensinar ousadamente
que a cristandade organizada se afastou completamente do evangelho de Jesus Cristo, e que
a salvação só poderia ser encontrada nos seus ensinos. 

Outro jovem, alto e magro, e apesar da sua juventude, também era um grande erudito,
escutou-o com atenção e logo foi ganho para a sua causa. Chamava-se John Huss, e era
doutor em teologia, pregador oficial da cidade de Praga e confessor da rainha da Boêmia. 

Era, além disso, eloqüente, de maneiras amáveis e uma profunda fé, por isso muito em breve
as suas pregações atraíram poderosamente a atenção dos seus concidadãos. A verdade é que
estava trabalhando sobre um terreno longamente abonado pelos Valdenses, que tinha chegado
até ali nos tempos de Pedro de Valdo. E também, falava e pregava na língua tcheca, o que
concordava com o sentimento patriótico antigermânico que se respirava em sua terra,
submetida ao jugo alemão.
A rivalidade entre teutones e tchecos tomou então uma forma religiosa, pois os primeiros se
alinharam com a igreja organizada, enquanto que os últimos com os ensinos de Wycliff. O
Arcebispo de Praga excomungou a Huss e queimou publicamente os escritos de Wycliff. No
entanto, o rei da Boêmia, a nobreza e o povo, deram-lhe o seu apoio. Então foi realizado o
Concílio de Constanza, e Huss foi chamado para comparecer amparado em um salvo-conduto
do Imperador, que comprometia a sua palavra garantindo-lhe proteção. No entanto, os clérigos
do concílio o prenderam imediatamente e o lançaram num calabouço, depois de receber e
promulgar a conveniente e infalível "revelação" de que a igreja não está obrigada a guardar a
palavra dada aos hereges.

Huss resistiu corajosamente o escárnio, a burla, as ameaças e as torturas que foi submetido
para que renunciasse a sua fé. Nada conseguiu intimidá-lo. Finalmente, foi condenado a ser
queimado na fogueira por "estar infectado com a lepra dos Valdenses" e haver sustentado as
doutrinas heréticas de John Wycliff. A sentença se cumpriu em 6 de Julho de 1415. 

Mas os ensinos de John Huss não morreram com ele. Jerônimo de Praga continuou pregando
em sua cidade, e logo o seguiu no caminho do martírio. Os seus seguidores se dividiram em
três grandes correntes: Aqueles que dispuseram para tomar as armas e lutar por "sua fé e sua
pátria"; aqueles que procuraram um entendimento e acordo com a igreja organizada; e,
finalmente, aqueles que se dispuseram a enfrentar valente e pacificamente o sofrimento e a
morte, sem negociar a sua fé. 

Os primeiros, chamados taboritas, iniciaram uma longa guerra contra o imperador e a igreja
organizada, com desastrosas conseqüências para ambos os lados, embora por um tempo
conseguissem impor os seus termos após ganhar algumas batalhas importantes. O segundo,
conhecidos como utraquistas, concordaram em formar uma igreja nacional tcheca, submetida
ao papado, mas com alguns privilégios "relativos". O último, não obstante, seguindo os antigos
ensinos Valdenses, preferiram pôr a sua confiança somente em Cristo e procuraram encontrar
na Escritura uma expressão mais pura e original da igreja, sem importar o preço que poderiam
pagar. Assim se converteram nos "Irmãos Unidos".

   


Entre eles se destacou Peter Cheltschizki, que possuía um claro e incomum entendimento da
igreja, segundo as Escrituras. Em seu livro, A Rede da Fé, escreveu: "Nos tempos dos
apóstolos, as igrejas dos crentes eram nomeadas de acordo com as cidades, vilas e distritos, e
eram assembléias e igrejas de crentes, e de uma fé. Estas igrejas foram separadas dos
incrédulos pelos apóstolos. Não pretendo que os crentes possam, em um sentido físico e local,
estarem todos separados em uma rua particular da cidade, e sim, que estejam unidos e
associados pela fé e se reúnam em reuniões locais, onde tenham comunhão uns com outros
nas coisas espirituais e na Palavra de ueus. E em acordo com tal associação na fé e nas
coisas espirituais sejam chamados igrejas de crentes". 

Nas palavras citadas acima, vemos que os "Irmãos Unidos", alcançaram uma compreensão da
verdadeira natureza da igreja muito superior a do seu tempo. As assembléias de crentes que
menciona Cheltschiziki espalharam-se rapidamente por todo o país. Opunham-se
decididamente ao uso das armas em defesa da fé e também a qualquer acordo com a igreja
organizada que comprometesse a essência da fé. No entanto, tinham um espírito aberto e
inclusivo, em razão, possivelmente da influência valdense, e tendiam a considerar e receber a
todos os filhos de ueus como verdadeiros irmãos, sem importar o contexto de onde
procedessem. 

Em 1457, um irmão chamado Gregório fundou uma comunidade de irmãos no nordeste da


Boêmia, na vila de Kunwald. Muitos crentes convergiram para lá, inclusive seguidores de
Cheltschiziki e Valdenses. Embora mantivessem contato com a igreja utraquista, em muitos
assuntos procuraram retornar à fé e práticas do Novo Testamento. Rapidamente, no entanto, a
perseguição se abateu sobre eles desencadeada pela própria igreja utraquista. Gregório foi
aprisionado e torturado; outro de seus líderes, Tiago Hulava foi queimado, então os irmãos se
esconderam nos bosques e montanhas. Apesar de tudo o seu número cresceu
significativamente em todas as partes.

Em 1463 e logo depois em 1467 se realizaram conferências gerais de Irmãos onde voltaram a
considerar os princípios básicos da igreja. Nessa oportunidade afirmaram novamente a sua
separação da Igreja Oficial e se chamaram a si mesmos de 'Jednota Bratraskâ', ou 'Unitas
Fratum', que quer dizer, 'Os Irmãos Unidos'. Não fizeram isto para fazer diferenças aos outros
irmãos das outras várias igrejas espalhadas em outras regiões, mas simplesmente para dar um
testemunho de unidade e encorajar outros crentes que estavam se separando da Igreja Oficial. 

Nessa mesma reunião foram nomeados alguns anciões que foram enviados para a Áustria
para serem confirmados pelo bispo valdense, Estevão, estabelecendo assim uma continuidade
com os antigos portadores da chama do testemunho. Não consideravam isto como essencial,
mas desejavam expressar a sua unidade e continuidade com aqueles que dos tempos do papa
Silvestre tinham preservado um vínculo espiritual com o ensino apostólico.

uepois disto, informaram a sua decisão ao bispo utraquista Rokycana, dizendo que em seu ato
de separação não estavam excluindo os outros crentes, pois reconheciam que fora das suas
assembléias haviam muitos filhos de ueus.

Um deles escreveu: "Ninguém pode dizer que nós condenamos e excluímos a todos que
permanecem obedientes à igreja Romana. Esta não é de nenhuma maneira, a nossa
convicção.... tal como não excluímos os escolhidos nas igrejas da Índia ou Grécia, tampouco
condenamos os escolhidos no meio dos romanos". Este espírito inclusivo e aberto à unidade
de todos os filhos de ueus caracterizou sempre os Irmãos Unidos. 

As comunidades de Irmãos floresceram em muitos lugares, especialmente na Holanda e


Alemanha. Além do seu notável desenvolvimento espiritual, houve entre eles muitos homens
com grande preparo e capacidade intelectual, bem como de posição social e riqueza, que
estiveram sempre dispostos a compartilhar o que tinham com os seus irmãos mais pobres, de
modo que se pode dizer também deles, como se escreveu dos santos do Novo Testamento,
que "não havia entre eles nenhum necessitado".

Um dos seus avanços mais significativos foi feito no campo da educação. A sua meta era ter
uma educação apoiada no Evangelho de Cristo. As suas escolas foram muito prezadas e
respeitadas na Holanda e Alemanha. Erasmo, o famoso erudito renascentista, foi aluno em
uma delas, em ueventer, Holanda. ue fato, até o dia de hoje são estudados os seus métodos e
contribuições no campo da educação em muitos campus universitários do mundo,
especialmente nos escritos de um dos seus líderes mais proeminentes, Nicolás Comenius.

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Em 1507, seus perseguidores da igreja oficial conseguiram persuadir o rei da Boêmia de que o
poder crescente dos Irmãos era uma ameaça. Este publicou então o decreto de Saint James,
ordenando que todos eles se unissem à igreja oficial ou abandonassem o país. Como
conseqüência, as suas reuniões foram fechadas, os seus livros queimados e eles
encarcerados, exilados ou cruelmente martirizados.

Com o advento da Reforma, os irmãos entraram em contato com os líderes protestantes e os


seus príncipes. Quando estourou a guerra entre católicos e protestantes, os nobres boêmios
que pertenciam aos Irmãos Unidos decidiram apoiar o grupo protestante. As conseqüências
foram, uma vez mais, desastrosas. Pois após serem derrotados na batalha de Mühlberg
(1547), os nobres foram encarcerados e executados pelo rei da Boêmia, Ferdinand. Uma vez
mais as suas posses foram confiscadas e as suas reuniões encerradas. Mas, além disso,
ordenou-lhes que deixassem o país num prazo de seis meses. 

Começou então uma maciça emigração, em que grandes caravanas de irmãos se dirigiram
para a Polônia, e em seguida para a Alemanha procurando refúgio. Ali foram recebidos depois
de muitos esforços e sofrimentos. No entanto a sua peregrinação ainda não tinha acabado.
Conseguiram retornar ao seu país, mas, por quase 70 anos, a sua sorte variou de acordo com
os vaivens das guerras entre protestantes e católicos, que devastaram a Europa por 30 anos.
Mas naqueles anos realizaram a grande obra de traduzir a Bíblia das línguas originais para o
seu idioma nativo, o tcheco (1579 a 1593). Esta tradução tem sido a base da Bíblia tcheca até
hoje, e, além disso, estabeleceram o fundamento para o desenvolvimento da literatura tcheca.

A última batalha entre protestantes e católicos na Boêmia terminou no White Mountain (1620).
A derrota protestante foi completa e como conseqüências 36.000 famílias de crentes foram
novamente obrigadas a deixar a Boêmia. E isto implicou no fim da chamada 'religião Hussita'
que desapareceu junto com a independência da Boêmia. 

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Não obstante, apesar de tudo, um pequeno remanescente sempre se manteve fiel, negando-se
a participar das guerras e tomar a espada. Neles sobreviveu o espírito e a visão original dos
Irmãos. Estes viveram perseguidos, errantes e escondidos, em diferentes lugares da Europa
central, inclusive em bosques distantes e escuros, por muitos anos. E depois de uma longa
peregrinação e inexprimíveis sofrimentos, chegaram uma época depois a uma pequena aldeia
na Moravia, onde o Conde Zinzendorf tinha construído uma cidade de refúgio para os irmãos
perseguidos. E ali contribuíram para acender uma vez mais a chama do testemunho de Jesus
Cristo, provendo a base do futuro movimento morávio. No entanto esse é outro capítulo da
história, que será narrado mais tarde.

Possivelmente a melhor conclusão para esta história, que resume a visão e o testemunho que
por longos anos levantaram os Irmãos Unidos, encontre-se nas proféticas palavras de Jan
Comenius (1592-1670), referidas às duas grandes forças religiosas em conflito: "...Cada igreja
reconhece a si mesmo como a verdadeira, ou ao menos, a mais pura, enquanto perseguem-se
entre si com o ódio mais amargo. Nenhuma reconciliação se pode esperar entre elas, pois
respondem à inimizade com a mais irreconciliável inimizade. A partir da Bíblia forjam os seus
diferentes credos; estes são fortalezas e baluartes por trás das quais se entrincheiram e
resistem a todos os ataques. Não diria que estas confissões de fé... são más em si mesmas.
Mas se convertem, entretanto, naquilo que alimenta o fogo da inimizade...

O que se obtém com isto? Alguma vez uma disputa erudita alcançou êxito? Nunca. O número
delas simplesmente cresceram... Os sacramentos, dados como símbolos da unidade, de amor
e da nossa vida em Cristo, foram ocasião do mais amargo conflito, a causa do ódio mútuo, o
centro do sectarismo...".

"uesta forma, a Cristandade se converteu em um labirinto. A fé foi dividida em milhares de


pequenas partes e você é considerado um herege se não aceitar uma delas... O que isto nos
ajudará? Somente, uma coisa é necessária: Retornar a Cristo, olhar para Cristo como o único
Líder, e caminhar nas suas pisadas, deixando de lado todo outro caminho, até que alcancemos
a meta, e cheguemos à unidade da fé (Ef. 4:13)... Assim que, saiba, OH Cristandade, qual é a
única coisa necessária. Ou retornas para Cristo, ou vais para a perdição como o Anticristo. Se
for sábia e desejas a vida, segue o Líder, Jesus Cristo".

"Mas vocês, cristãos, regozijem-se em sua exaltação,... escutem as palavras do Líder Celestial:
"Vinde a Mim"... e respondam a uma voz: "Assim seja, vamos".