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A PSICANÁLISE

JEN-CLAUDE SEMPÓ
EDIÇõES 70
Av. Duque de Ávi@la, 69, rje. - Esq. - Lisboa - 1 - Tel.: 572001/556898
jean-claude sempó * jean-luc donnet jean say*gilbert
lascault*catherine backés

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(ffi)

A PSI COLOGIA21 MODERNA

edições 70
Título original: La Psychanalyse

Tradução de Assis Catarino

Capa (de João da Câmara Leme


Cc) S. G. P. P., 1969 - S. P. A. D. E. M. e A. D. A. G.,P., 1969

Todos os direitos r~vados para língua -portuguesa


JEAN-CLAUDE SEMPÉ

História da Teoria e da Práxis


A tradução deste ca~ teve também a participação de João de Castro Neves.
Freud relata da seguinte maneira, em A Interpretação dos Sonhos, a confidência que
um dia o pai lhe fez: «Chego por fim ao acontecimento da minha juventude que
pesa ainda hoje sobre todos os meus sentimentos e todos os meus sonhos. Devia eu
ter dez ou doze anos, quando meu pai começou a levar-me a passear e a ter comigo
conversas sobre as suas opiniões e as coisas em geral. Um dia, para me mostrar
quanto o meu tempo era melhor que o dele, contou-me o seguinte facto: Uma vez,
quando era jovem, na terra em que tu nasceste, saí de casa num sábado, bem
vestido, com um boné de pele novinho. Cruzou-se comigo um cristão; -com um
golpe, atirou-me o boné para a Iama e gritou: ‘Judeu, desce do passeio'-'Que é que
fizeste?'-'Apanhei o boné’ disse meu pai com resignação.»

A sobriedade com que Freud conta este episódio da sua adolescência em nada
deixa transparecer a emoção que, naquele momento, tal confidência deve ter
suscitado. Pode, no entanto, calcular-se a intensidade dessa emoção perante a
queda da imagem respeitada do pai. Todavia, Freud não diz nada sobre isso, nem
faz nenhum juízo sobre o pai; a pergunta que lhe põe poderia ter um tom de
neutralidade benevolente, poderia ser a pergunta de um psicanalista a um paciente:
«Que é que fizeste?» A única emoção que, ao fim e ao cabo, transparece manifesta-
se sob a forma de um efeito secundário: a acção desta confidência «ainda hoje
sobre todos os meus sentimentos e todos os meus sonhos». Esta acção, com efeito,
prolongar-se-á durante toda a vida de Freud, sob a forma da criação de uma obra
que, ao mesmo tempo que revelava o desejo inconsciente da morte do pai,
constituía uma reparação, até mesmo uma vingança, da afronta sofrida pelo pai de
Freud e, em consequência, pelo próprio Freud.

Assim nasceu a Psicanálise: de um juízo de Freud sobre o pai, que ele só ousou
formular muito mais tarde;
este juizo foi reprimido, já que apenas podiam subsistir a veneração e o respeito
que Freud devia ao pai. E esta atitude de «não julgamento» seria conservada por
Freud toda a vida e haveria de conferir à sua observação clínica uma acuidade que
nenhum preconceito poderia alterar. Este judeu, que não tinha vergonha -de o ser,
não temeu aqueles que desprezavam a sua raça, como nunca desprezou o gesto do
pai, nem a sexualidade, nem a sua própria neurose.

Deste modo poderíamos ir mais longe na análise das origens infantis e edipianas da
obra de Freud. Muitos o fizeram, alguns com penetração (Marthe Robert: La
Révolution psychanalytique), outros com tanto de erudiçã o como de ingenuidade -é
o caso de Jones, discípulo dos começos e amigo fiel de Freud, que sobre o mestre
compôs uma elegia cujo valor histórico é um tanto embaciado pela cegueira
amorosa.

Do facto de Freud ter sido o filho preferido da mãe concluiu-se que ele havia
guardado desta relação privilegiada uma confiança em si próprio e nas suas ideias
que os mais agressivos adversários nunca conseguiram abalar verdadeiramente.
Freud, aliás, não discordava de tal interpretação, e isso veio a ter uma incidência
particular sobre a obra que escreveu, na sua maneira de conceber o complexo de
Édipo: segundo Freud, o pai, e só ele, é que é objecto de sentimentos ambivalentes,
enquanto os sentimentos amorosos em relação à mãe são puros, sem mistura. Esta
confiança em si próprio era, de resto, tão grande que Freud conseguia tolerar os
períodos de dúvida, de incerteza, de depressão mesmo, e de desânimo. Estes
períodosdifíceis eram combatidos por Freud e obrigavam-no até a praticar a auto-
análise, que constítui, como iremos ver, o ponto de partida clínico de A
Interpretação dos Sonhos.

0 estudo da biografia de Freud, a interpretação dos fragmentos que nos deixou da


sua auto-análise, não seriam, todavia, suficientes para nos dar a chave das causas e
das origens da Psicanálise. Trata-se, sem dúvida, de uma tentativa apaixonante,
como pode sê-lo a análise de uma personalidade tão rica e tão complexa como a de
Freud; mas apenas consegue, de facto, ter como resultado uma simplificação que
não nos permite compreender a razão

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por que, justamente, este espírito, partindo do imperfeito conhecimento primitivo da
sua complexidade, pôde revelar e fazer a análise dos meandros do espírito humano
e descobrir o inconsciente. A imagem de Épinal, que alguns dos seus biógrafos nos
fornecem, de um Freud bom filho, respeitador do pai e amando a mãe, bom marido
e bom pai, bom mestre para os discípulos, simples nas relações humanas como na
escritura da sua obra, seria perfeitamente incapaz de nos explicar a razão de este
homem ter estado na origem de uma obra e de uma prática tão revolucionárias e
subversivas.

A leitura dos textos freudianos revela, de forma esquemática, a oposição de dois


tipos de obras: as que surgem essencialmente consagradas à clínica e as que, pelo
contrário, têm por fim a exposição teórica. 0 objecto das primeiras, como A
Interpretação dos Sonhos ou As Cimo PsicanálIses, é a exposição narrativa de casos,
apresentada sob a forma de um relatório de análise ou da auto-análise de Freud (A
Interpretação dos Sonhos). Tais obras lêem-se sem esforço, mesmo com paixão.
Nelas se vê progressivamente desenrolar~se o fio de Ariana que permite, através
do labirinto das resistências e dos recalcamentos, descobrir o núcleo conflitual do
sintoma neurótico ou do sonho. A arte do apresentador é incomparável; leva o leitor
a identificar-se passo a passo com a sua maneira de progredir, a deter-se quando
ele se detém, força-o a interrogar-se quando ele se interroga, a sentir-se com ele
convencido de ter avançado uma etapa decisiva na interpretação do caso, ou então
indu-lo a fazer a crítica deste primeiro passo para levar mais longe a investigação.
0 interesse do leitor é deste modo continuamente mantido pela sucessão de
momentos em que o «suspense» progride em crescendo até à solução final. Os
casos clínicos são histórias de neuróticos e estas histórias de neuróticos são
verdadeiros romances em que o encanto mágico do prestidigitador trabalha no
desvendar da respectiva trama. No entanto, é na medida em que se participa no
caminho percorrido por Freud e nas suas descobertas que mais facilmente se é
convencido. E o leitor passa insensivelmente da reflexão dubitativa à certeza
inabalável: «Não é possível que isto seja verdade» - «Isto tem de ser verdade».

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0 leitor profano que de seguida se interessa pela obra teórica será primeiro Que
tudo vivamente impressionado pela sua importância e pelo seu volume. 0 número
de obras consagradas à clínica e à práxis é bem menos extenso do que o das
consagradas à teoria. Estas últimas são de leitura mais difícil. Freud surge nelas
mais «especulativo» (ainda que não cesse de proclamar a sua desconfiança da
especulação). Assim como as obras precedentes arrastavam à convicção pessoal
também as segundas apelam à reflexão e ao raciocínio lógico.

Esta oposição entre obras clínicas e obras teóricas sobrepõe-se a uma outra, a que
separa a prática, por um lado, da obra escrita, por outro. Foi no decurso da prática
da sua auto-análise, e da análise dos seus pacientes, que Freud fez o essencial das
suas descobertas. A sua obra clínica representa a correspondente exposição
detalhada, no seu processo de desvendamento; o enquadramento do inconsciente
no interior do sujeito que o desconhece constitui o essencial da obra teórica. A
crença de todo o analista na análise não lhe vem de uma meditação quotidiana
sobre um capítulo dos -escritos de Freud. Antes de ser analista, o psicanalista foi ele
próprio analisado e, através das suas resistências, do seu trabalho analítico e das
interpretações de quem o analisou, ele pôde convencer-se a si mesmo da verdade
das descobertas freudianas; por assim dizer, ele refez por si estas descobertas,
através do caminho que ele próprio percorreu e dos desvios que cometeu. Então, a
obra de Freud apenas vem como que organizar, classificar e sistematizar aquilo que
o psicanalista experimentou e comprovou na sua análise pessoal. Freud conhecia
perfeitamente esta diferença aparentemente irredutível entre teoria e práxis:
«Quando, em psicanálise, ministramos aos alunos um ensino teórico, podemos
observar o diminuto efeito que ele lhes produz. Eles acolhem as doutrinas analíticas
com a mesma frieza com que aceitam as outras abstracções de que foram
alimentados. Alguns quereriam talvez ser convencidos, mas nada indica que o
sejam. Também pedimos que alguém que pretenda exercer a análise de outras
pessoas se submeta primeiramente a si próprio a uma análise. Só no decurso desta
auto-análise (como se lhe chama impropriamente), e ao experimentarem realmente
no seu corpo-mais justamente, na sua alma-os processos cuja existência a análise
defende, é

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que os nossos alunos adquirem a rão mais tarde como analistas.»

Por conseguinte, numa prin riência pessoal do analista e a : as únicas convincentes,


ainda qL cia puramente subjectiva. A teo do-se sobre bases lógicas que fun( da
análise. A importância da teomente desproporcionada em rela ela, permite a adesão
e a convi( razões para isso. A primeira, a n ao próprio objecto da PsicanáL falar com
propriedade, não pod( riência do inconsciente, já que a que poderemos chamar os
seus respectivas manifestações disfar, toma), ou então não se o atquando o
fantasma inconsciente inconsciente, objecto da Psicanál directamente através do
aparelF titui, ou seja, na sua relação corr m,ento, e indirectamente na pi desvendar.
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sua subjectividade. a teoria do inconsciente ou a Édipo. Convinha-lhe mesmo, em
sualizá-lo de forma idêntica à ( que vê através do microscópio c daquela doença. É
assim que tentando «ver» o aparelho psíqi

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0 leitor profano que de seguida se interessa pela obra teórica será primeiro que
tudo vivamente impressionado pela sua importância e pelo seu volume. 0 número
de obras consagradas à clínica e à práxis é bem menos extenso do que o das
consagradas à teoria. Estas últimas são de leitura mais difícil. Freud surge nelas
mais «especulativo» (ainda que não cesse de proclamar a sua desconfiança da
especulação). Assim como as obras precedentes arrastavam à convicção pessoal
também as segundas apeIam à reflexão e ao raciocínio lógico.

Esta oposição entre obras clínicas e obras teóricas sobrepõe-se a uma outra, a que
separa a prática, por um lado, da obra escrita, por outro. Foi no decurso da prática
da sua auto-análise, e da análise dos seus pacientes, que Freud fez o essencial das
suas descobertas. A sua obra clínica representa a correspondente exposição
detalhada, no seu processo de desvendamento; o enquadramento do inconsciente
no interior do sujeito que o desconhece constitui o essencial da obra teórica. A
-crença de todo o analista na análise não lhe vem de uma meditação quotidiana
sobre um -capítulo dos -escritos de Freud. Antes de ser analista, o psicanalista foi
ele próprio analisado e, através das suas resistências, do seu trabalho analítico e
das interpretações de quem o analisou, ele pôde convencer-se a si mesmo da
verdade das descobertas freudianas; por assim dizer, ele refez por si estas
descobertas, através do caminho que ele próprio percorreu e dos desvios que
cometeu. Então, a obra de Freud apenas vem como que organizar, classificar e
sistematizar aquilo que o psicanalista experimentou e comprovou na sua análise
pessoal. Freud conhecia perfeitamente esta diferença aparentemente irredutível
entre teoria e práxis: «Quando, em psicanálise, ministramos aos alunos um ensino
teórico, podemos observar o diminuto efeito que ele lhes produz. Eles acolhem as
doutrinas analíticas com a mesma frieza com que aceitam as outras abstracções de
que foram alimentados. Alguns quereriam talvez ser convencidos, mas nada indica
que o sejam. Também pedimos que alguém que pretenda exercer a análise de
outras pessoas se submeta primeiramente a si próprio a uma análise. Só no decurso
desta auto-análise (como se lhe chama impropriamente), e ao experimentarem
realmente no seu corpo-mais justamente, na sua alma-os processos cuja existência
a análise defende, é

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que os nossos alunos adquirem as convicções que os guiarão mais tarde como
analistas.»

Por conseguinte, numa primeira abordagem, a experiência pessoal do analista e a prática da


análise seriam as únicas convincentes, ainda que sendo ambas experiencia puramente
subjectiva. A teoria aparece como apoiando-se sobre bases lógicas que fundamentam a
objectividade da análise. A importância da teoria seria assim particularmente
desproporcionada em relação a uma práxis que, só ela, permite a adesão e a convicçã o. Há,
de facto, várias razões para isso. A primeira, a mais evidente, diz respeito ao próprio objecto
da Psicanálise: o inconsciente. Para falar com propriedade, não pode dizer-se que haja
experiência do inconsciente, já que a ele se acede apenas pelo que poderemos chamar os
seus «derivados», que são as respectivas manifestações disfarçadas (o sonho ou o sintoma),
ou então não se o atinge directamente senão quando o fantasma inconsciente é tornado
consciente. 0 inconsciente, objecto da Psicanálise, só pode ser alcançado directamente
através do aparelho que, na teoria, o constitui, ou seja, na sua relação com o consciente e o
recalcamento, e Indirectamente na práxis que permite o seu desvendar. A importância da
teoria explica-se também pelo carácter radicalmente novo e especificamente chocante do
conteúdo das descobertas freudianas. 0 conceito de inconsciente foi tão escandaloso para o
filósofo como o seu conteúdo, a sexualidade infantil, o desejo incestuoso, o foi para o
moralista, o religioso ou o médico. Apoiar as descobertas da Psicanálise sobre um modo de
agir que lhes fundamente o valor científico é para Freud uma necessidade que lhe permitirá
resistir melhor aos assaltos e às críticas de que a Psicanálise sempre foi objecto. Esta
necessidade não é imposta somente do exterior, mas corresponde também a uma
necessidade pessoal baseada na ideologia científica de Freud; Freud não podia contentar-se
com a prova ou a demonstração, fundadas na estrita experiência e sua subjectividade. Era-
lhe preciso construir a teoria do inconsciente ou a gênese do complexo de Édipo. Convinha-
lhe mesmo, em caso de necessidade, visualizá-lo de forma idêntica à do homem de
laboratório que vê através do microscópio o microrganismo desta ou daquela doença. É assim
que poderemos seguir Freud tentando «ver» o aparelho psíquico através do funciona-

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rnento da célula nervosa, ou então definir o aparelho da alma como um
aparelho de visão que tem por objectivo o inconsciente, ou ainda procurando
basear o fantasma inconsciente sobre uma realidade vivida e, por isso
mesmo, apreensível e visível.

De facto, esta oposição entre teoria e práxis é um artifício. A obra clínica de


Freud nunca é exclusivamente clí nica, já que demonstra também os
mecanismos da neurose, como o faz a própria cura e a análise das
associações do neurótico, das suas transferências e sintomas. A obra teórica
busca a sua ilustração, a sua demonstração, em exemplos clínicos que a
explicam, tal como o pensamento inconsciente dá conta do acto falhado. A
auto-análise de Freud em A Interpretação dos Sonhos não se destina a tornar
públicos os complexos de Freud, serve antes para demonstrar que, por
detrás do texto manifesto do sonho, existe um texto latente que a técnica da
interpretação permite descobrir. Inversamente, as exigências teóricas de
Freud obrigam-no a levar mais longe a análise dos seus próprios sonhos.

A observação torna-se assim o lugar científico em que se encontram práxis e


teoria, objectividade e construçã o racional, subjectividade e convicção
pessoal. A interpretação é estabelecida a partir da observação e do
entendimento do discurso associativo do paciente; o modelo metapsicológico
do aparelho da alma é comparado por Freud a um microscópio que permite
«ver» o inconsciente; os três pontos de vista da metapsicologia são também
as três posições de onde o ouvido do analista escuta e de onde fala a sua
palavra.

Interrogar as origens da Psicanálise é pretender atingir o processo de escuta


original de Freud, é desejar perceber como ele pôde ouvir «falar o
ínconsciente», como pôde fazer sair a «sexualidade» do desprezo negador de
que era objecto. Houve quem fizesse demasiado depressa o processo do
espírito cientista de Freud, da sua crença -qualificada como «ingénua» -na
omnipotência da ciênci@a. Se a ciência de Freud não é separável da
observação, a acuidade dos seus dons de observação e de escuta obrigá-lo-á
a ultrapassar a constatação de factos clínicos para lhes definir a
interpretação.

Examinemos a fisionomia deste observador de gênio. Tem a face encoberta


por uma vasta barba que poderia

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ser enredada e agressiva se não fosse particularmente cuidada. Esta barba
confere à expressão dos seus traços uma seriedade inquietante, espécie de
véu opaco que produz mistério para melhor esconder os fulgores da emoção,
da inquietude e da sensibilidade. A comissura da boca é menos amarga que
céptica ou irónica. 0 olhar é profundo, voltado para dentro, impenetrável, e
no entanto escrutador, vigilante, directo e penetrante.

Este homem parece temível e, não obstante, evita ser inquisidor ou


dominador, abandona a hipnose no momento em que critica os seus efeitos
de sujeição. Todavia, as suas psicoterapias de histéricos constituíam
verdadeiros combates contra as resistências dos pacientes a revelarem-lhe
as recordações patogénicas. É verdade que, nos inícios da sua prática, Freud
ignorava aquilo que ia descobrir: a sua busca inquisidora estava ao serviço
da paixão pela descoberta científica. Observação, teorização e práxis
estavam tão intimamente ligadas que Freud podia desconhecer aquilo de que
era feita a sua curiosidade científica.

0 próprio Freud conta como fez a descoberta do papel da sexualidade na


neurose: «Jovem médico dos hospitais, acompanhava eu um dia Breuer num
passeio pela cidade, quando este foi abordado por um senhor que pediu
instantemente para lhe falar; fiquei para trás e quando Breuer, acabada a
conversa, tornou a juntar-se-me, deu-me a saber, na sua maneira
amigavelmente instrutiva, que era o marido de uma das suas doentes quem
acabava de lhe dar notícias desta. A mulher, acrescentou, comportava-se em
sociedade de uma forma de tal modo estranha que se julgou útil,
considerando-a nervosa, confiá-la aos seus cuidados. ‘São sempre os
mesmos segredos de alcova’, disse ele, à maneira de conclusão. Espantado,
perguntei-lhe o que queria dizer. Explicou-me então precisamente de que se
tratava, substituindo a palavra ‘,alcova’ pela expressão ‘leito conjugaP, e
dizendo que não compreendia por que a coisa me parecia tão inaudita.»
Alguns anos mais tarde, Freud assiste à apresentação de um caso: «Tratava-
se de um casal de jovens de terras orientais: a mulher sofria gravemente, o
marido era impotente ou inteiramente desajeitado. ‘Tentem, vão tentando’,
ouvia eu repetir a Charcot. ‘Asseguro-lhes que conseguirão.’ Brouardel, que
falava mais baixo, deve ter exprimido o

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seu espanto por sintomas como os da mulher em questão poderem produzir-se em
tais circunstâncias... Charcot replicou-lhe com muita vivacidade: ‘Mas, em casos
seme~ lhantes, é sempre o problema genital, sempre... sempre...’ Lembro-me de ter
ficado estupefacto durante alguns instantes e de, voltando a mim, me ter posto a
pergunta: ‘Mas se ele o sabe, porque nunca o diz?’ A impressão foi, porém, depressa
esquecida; a anatomia do cérebro e a produção experimental de paralisias
histéricas absorviam de novo toda a minha atenção.»

Freud, por um excesso de honestidade intelectual, ao referir estas duas pequenas


histórias tenta atribuir a paternidade da descoberta da etiologia sexual da histeria
aos seus dois primeiros mestres, Breuer e Charcot. No entanto, entre as reflexões,
sob a forma de «graças», de Breuer ou de Charcot, e a descrição sistematizada da
causalidade sexual a diferença é notória. Se Charcot co sabe, mas nunca o diz», é
porque pensa que as coisas da sexualidade não são suficientemente interessantes
para poderem ser catalogadas como factos científicos que mereçam consideração.
Se Freud acaba por sabê-lo, mas também por dizê-lo, é porque na sua constatação
não há nenhuma leviandade cúmplice que poderia desnaturar a importância do
factor sexual, tornando-o irrisório. A observação científica de Freud comprova a
frequência, a constância das confidências dos doentes no que respeita à sua vida
sexual, e ele di-lo.

0 relevo conferido à transferência decorre do mesmo espírito de seriedade que,


aparentemente, em nada é perturbado pela «proximidade», até mesmo pelo «calor»
das relações que Freud possa ter tido com os seus doentes. A reacção de Breuer,
que, a seguir a uma declaraçao amorosa de uma das suas pacientes, interrompeu o
tratamento para empreender uma nova viagem de núpcias com a esposa, indica, ao
mesmo tempo, a perturbação e a reacção,contra ela: a fuga. Freud, por seu lado,
não parece nada impressionado pelos testemunhos de ternura ou mesmo pelos
actos amorosos dos doentes a seu respeito; não se detém aí, de tal modo o seu
significado, ou o f an- tasma inconsciente que eles revelam, tem, para ele, mais
importância que as respectivas manifestações imediatas; finalmente, a ele só
interessa o obstáculo que o amor de transferência constituí ao bom
desenvolvimento da cura,

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até ao dia em que descobre a correspondente utilização terapêutica. Assim nasceu
a transferência: de uma recusa de aceitar a actualidade da relação amorosa, para a
reeenviar, em nome do artifício da situação analítica, à origem infantil das primeiras
relações amorosas.

Poderemos, aliás, admirar-nos de que Freud ignore na prática, e na prática analítica


em particular, a posição do desejo do analista e a origem sexual das suas
investigações. Efectivamente, ele mantém-se discreto neste ponto, dando -a
impressão de que o seu entusiasmo pela pesquisa lhe obnubila o conhecimento do
carácter sexual da sua própria prática. Decerto que não quis fornecer armas aos
seus detractores, falando disso. Além do mais, Freud deixa-nos supor que, se na
prática da cura fez os doentes passarem da posição face a face à postura deitada,
foi para dominar os efeitos de sedução dos pacientes e esconder-lhes, para que ele
melhor as ignorasse, as suas próprias emoções.

Subjectividade, objectivação: as correntes da Psicanálise contemporânea parecem


definir-se em função destes dois critérios. Mélanie Klein, Lacan, fundam a
Psicanálise sobre a subjectividade do fantasma primeiro, sobre a subjectividade do
desejo-o do analisado como o do analista. Neste sentido, a teoria deles está o mais
chegada possível à práxis. Quando ela se baseia na teoria da «psicologia do ego»,,a
práxis clínica resulta numa objectivação da práxis; a Psicanálise Genética tenta
igualmente fundamentar a objectivação do desenvolvimento da criança em algo
que não a subjectividade do fantasma. Estas diversas correntes têm origem no
conjunto da obra freudiana. Precisar as suas divergências é também aclarar e fazer
que se revelem as contradições da práxis e da teoria freudiana.

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ORIGENS DA PSICANÁLISE OS ENCONTROS DECISIVOS CHARCOT - BREUER - OS
HISTÉRICOS

Foi a Joseph Breuer que Freud atribuiu o «mérito» de ter feito vir ao mundo a
Psicanálise. Não seria correcto ver nesta atribuição de paternidade apenas um
excesso de modéstia da parte de Freud. Foi «posteriormente», quando ele próprio já
havia descoberto os dados essenciais da Psicanálise, que Freud fez de Breuer o
criador dela; foi «posteriormente», por alturas da observação do caso Anna 0., que
Breuer tornou possível a abertura do campo da Psicanálise. Quando Breuer tratou
Anna 0., durante dois anos (1880-1882), falou muitas vezes do seu caso a Freud.
Este apenas se interessou na -altura, sem mais. Depois veio o encontro com Charcot
(Fevereiro de 1885) e o ensino deste mestre sobre a histeria. A nova luz de tais
conhecimentos, Freud redescobriu o interesse deste caso e as consequencias
teóricas e psicoterapêuticas que dele podia tirar. De tal modo que à letra, e no
estrito plano da data histórica, é realmente Breuer o fundador da Psicanálise;
porém, à reconstituição da verdade histórica deve acrescentar-se que foi, de facto, a
Anna 0. e a Breuer revisto e interpretado por Freud que se ficou devendo a
«invenção» da Psicanálise.

Para compreender a importância do encontro de Freud com Charcot é necessário


relembrar o contexto histórico e ideológico da Medicina da época. 0 método
experimental e anátomo-clínico constitui então o campo pró prio da teoria em
Medicina. A doença é não só uma ciência de inventário e de'.classificação, mas
também baseada no substrato anatómico que, ao mesmo tempo que fundamenta o
sin-

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toma, o sindroma e a rua etiologia, serve igualmente de base à ciência médica. 0
microscópio supre as insuficiê ncias da investigação macroscópica anátomo-clínica
e, quando a etiologia de uma doença continua imprecisa, é sempre possível -contar
com a descoberta de um microrganismo ou de um vírus. A neurologia é o
privilegiado campo de aplicação do método anátomo-clínico. Uma semiologia
cuidadosa permite um diagnóstico topográ fico quase infalível, indicando o local
preciso da lesão anatómica do sistema nervoso. Charcot, antes de se interessar
pelos histéricos, era um dos mestres incontestados da neurologia e tinha no seu
activo a descrição de um certo número de sindromas neurológicos que são hoje
conhecidos pelo seu nome. Quanto à «doença mental», ela não tinha o direito de
ser classificada entre as doenças, a menos que se lhe descobrisse o substrato
anatómico. Na falta deste, eram a degenerescência e a hereditariedade que
constituíam a base anatômica da doença mental. De tal modo que as perturbações
somáticas que, como a histeria, não se fundavam sobre nenhuma lesão anatómica
não eram consideradás como doença, mas como «simulação».

A formação médica de Freud, antes do seu estágio na SaIpêtrière, seguia os


mesmos princípios. Ele foi um estudante sério, cuja aplicação um pouco forçada lhe
permitia lutar contra um certo gosto pelo diletantismo. Nunca foi desses «ursos»
que só pensam em estudar; pelo contrário, lia muito, seguia mesmo os cursos de
Filosofia de Von Brentano. Durante mais de cinco anos, foi assistente de Von Burcke,
neurofisiologista com quem colaborou em pesquisas neuro anatómicas. Era nessa
altura um homem de microscópio, que fez algumas descobertas notadas.
Ambicioso, deveria ter querido continuar as suas pesquisas e tornar-se professor; a
falta de fortuna e as origens judaicas impediram-no de realizar essa ambição.

Quando Freud foi aquilo a que hoje chamaríamos «assistente a título estrangeiro»
na SaIpêtrière, tentou prosseguir os estudos anatómicos e as pesquisas ao
microscópio. 0 ensinamento de Charcot e as apresentações que este fazia de
«doenças histéricas» deviam obrigá-lo a deixar o laboratório frequentemente.
«Charcot costumava dizer que a obra da anatomia estava, em suma, acabada e o
conhecimento das doenças orgânicas do sistema nervoso

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era, por assim dizer, completo; seria agora conveniente que nos ocupássemos das
neuroses1.» Assim Freud, seguindo os passos do mestre, abandonou o microscópio
pela observação das neuroses. Recebeu de Charcot um acolhimento caloroso e
compreensivo, nunca embaciado pelas suas origens austríacas e judaicas. Isso foi,
desde logo, uma primeira ruptura com as dificuldades que Freud encontrara na sua
carreira médica em Viena. 0 que primeiro o impressionou vivamente foi a maneira
como Charcot observava, examinava e reexaminava os doentes. «Cada um de nós
constatava com espanto que ele nunca se cansava de concentrar a atenção num
mesmo fenômeno, até ao momento em que os seus esforços, tantas vezes
repetidos, tão objectivos, lhe davam a exacta compreensão daquele. Se a isto
acrescentarmos que, durante estas sessões de trabalho, ele dava provas de uma
total sinceridade, com,preender-se-á que o autor deste relatório, como de resto
todos os outros estrangeiros na mesma situação, tenha deixado SaIpêtrière
transformado em admirador fervoroso de Charcot.»

Charcot ensinava que em Medicina era necessário que os estudiosos não se


contentassem com o reencontro daquilo que se sabia, mas que renovassem e
mesmo reinventassem o saber já adquirido. Tanto no plano do método de exame-
através da escuta prolongada dos doentescomo na radical forma de pôr em questão
o saber médico tradicional, Freud excederá, e de que maneira, o mestre... Todavia,
sem Charcot, sem o seu magistério e a consequente possibilidade de Freud o ver
observando os histéricos, talvez a Psicanálise nunca tivesse existido. Interessando-
se pelos neuróticos, Charcot tentava, com uma «total sinceridade», fazê-los sair do
«caos de uma nosografia ainda desconhecida». Arrolando a histeria, Charcot
retirava esta neurose do caos da simulação. «Ele teve a coragem de reconhecer que
a maior parte destes sintomas eram reais.» Sem dúvida que se tratou mesmo de
«.coragem» para contrariar assim a corrente das ideias- estabelecidas:
efectivamente, Charcot reconheceu que tais sintomas eram «reais» e,que a histeria
era uma doença, ainda que não fundada sobre nenhum substrato anatómico
definido. A reprodução dos sintomas sob hipnose, a etiologia de um traumatismo
psíquico, foram factos clínicos e terapêuticos que retiveram a atenção de Freud até
ao

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ponto de obnubilarem durante um longo período as suas descobertas ulteriores.
Freud, ao -contacto de Charcot, fez a crítica da teoria de Bernheim, que pretendia
reduzir a histeria à simples sugestão. No entanto, ele reteve desta teoria e das suas
aplicações práticas a possibilidade de uma pessoa receber, em estado de hipnose,
ordens que podem ser executadas quando acordada: daqui, e deste modo, induziu
Freud que uma realidade psíquica ou um fantasma inconsciente podem agir sobre a
consciência. «Isso não significa que não exista», era uma reflexão frequente de
Charcot e que impressionou Freud. «Isso não significa que não exista» aplicava-se-
à histeria, que, embora não tivesse por causa uma lesão anatómica, não deixava de
ter real existência como doença. Além disso, Freud entendeu o sentido da frase
ainda num outro desenvolvimento. «Isso não significa que não exist,a» prefigurava
o Inconsciente, cuja existência não pode ser negada, ainda que escape à
consciência, à percepção, ao visível e ao microscópio.

BREUER-ANNA. 0.-OS ESTUDOS SOBRE A HISTERIA

0 ensino de Charcot sublinhava todo o interesse do procedimento terapêutico


instaurado por Breuer para tratar e- curar Anna 0. A eficácia terapêutica era uma
preocupação constante de Freud e, por esta razão, ele abandonou rapidamente os
meios físicos (electroterapia e outros) no tratamento das paralisias e das
contracturas histéricas.

0 método «catártico» empregado por Breuer constituía um método terapêutico


puramente «psicológico». Neste sentido, tal método modificava radicalmente os
modos habituais de tratamento, quer se tratasse de medicamentação quer, para os
histéricos, de electroterapia, e abria caminho à Psicoterapia e à Psicanálise. Pela
sua natu.@ reza unicamente psicológica, o método permitia ir mais longe na
pesquisa da etiologia traumática da histeria e, deste modo -indo mais longe do que
as vias abertas por Charcot -, fundar esta etiologia sobre causas puramente
psíquicas, fora de qualquer referência anátomo-patológica.

22
Anna 0. era uma histérica «exemplar», que apresentava todas as formas de
sintomas: contracturas dos membros, perturbações dos movimentos dos olhos,
tosse nervosa, impossibilidade de beber apesar duma sede intensa, ausências
frequentes, até mesmo verdadeiros estados de confusão ou de delírio. Durante os
dois anos em que Breuer tratou esta doente, ela apresentou alternativamente fases
críticas, em que manifestava esses diferentes sintomas, e fases em que mostrava
um estado de consciência, de raciocínio e de actividade perfeitamente normais. Esta
primeira constatação permitiu a Bretier distinguir no histérico dois tipos de
consciência: a consciência normal e a consciência hipnóide, que funciona com as
suas manifestações sintomáticas como um corpo estranho no seio de uma
personalidade normal. Bretier fez mais do que observar a sua doente. Durante esses
dois anos, prodigalizou-lhe ajuda, apoio, simpatia, e permitiu-lhe falar e lamentar-se
durante todo o tempo. Esta longa observação deu-lhe oportunidade de escolher
certas frases da paciente, particularmente enigmáticas, que haviam logrado intrigá-
lo. Teve então a ideia de as repetir à sua doente, sob hipnose, o que, com a
colaboração desta última, facultou-lhe a compreensão do sentido, descobrindo a
origem delas. Assim pôde relacionar a manifestação patológica de cada sintoma
com o acontecimento (traumático) que o havia provocado. Por exemplo, a
impossibilidade de beber foi referida a uma cena em que ela observara a sua
governanta numa divisão da casa onde um cachorrinho se preparava para beber. A
repugnância e a aversão que ela tinha por esta governanta traduzia-se num sistema
que era o inverso da acção de beber e da avidez que vira manifestar-se no cãozito.
Assim funcionava o método «catártico» 1. Consistia em descobrir, a partir dos
sintomas ou dos ditos da paciente, o evento que os provocara. Anna 0. designava
este procedimento pelos termos de «chimney sweeping» e de «talking cure», quer
dizer, de limpeza de chaminés e de tratamento pela palavra; com efeito, para que
os sintomas desaparecessem, não bastava que Breuer lhes descobrisse
* origem circunstancial; era também necessário que fosse
* própria Anna 0. a encontrar esta origem e a exprimi-Ia verbalmente.

23
Da observação de Anna 0., dos efeitos do trataniento catártico, foram assim trazidos
a lume dois dados fundamentais para a compreensão, pgicoterapêutica e teórica da
histeria: a distinção e a separação de duas consciências, a consciência normal e a
consciência hipnóide, e o papel fundamental da etiologia traumática. Estes dados
não eram, de resto, novos, no plano descritivo. Como já vimos, Charcot
evidenciará'a, frequência do traumatismo físico na etiologia da histeria, e de igual
modo descrevera a «dupla consciência» do histérico. Janét, -aluno de Charcot, tinha
igualmente descrito a dissociação da consciência dos histéricos. Para Fréúd e
Breuér;o traumatismo, que está na origem .dós sintomas histéricos, não era de
modo algum físico,’ más sim’ ps,1q, uico, comi:@ a dupla consciência não era o1 .
r1esultado de uma degerierescência do sistema nervoso (P. Janet), mas sim a
-instauração e a perpetuação de uma consciência patológica (a consciência
hipnóide) ligada ao traumatisnib psíquico, no seio de uma coinsciência e de urna
-personalidade normais,. Sintoma histérico, consciência hípnóide, ‘traumatisffio
psíquico, estavAm estreitamente ligados, agiam como corpos «estranhos» no seio
do «ego» do, histérico, o qual, para além disso, não apresentava qualquer-
anomalia. Conectar este sintoma histérico ao acontecimento que,o produzira, fazer
rememorar e verbalizar na sua integralidade o acontecimento em questão pela
pessoa em tratamento, e assim fazê-lo integrar-se na sua consciência normal, tal
era a finalidade do método catártico instaurado por Breuer, sistematizado por Freud.

Freud viu todo o interesse dó método de Bretier e de modo"ãlgum se sentiu


afastado'pelo carácter «pouco sério», porque «pouco éièntífi@co», do
procediniento. 0 seu interéssé pelos histéricos ultrapassa o interesse, descritivo -e
categorizador, dos mestres que o precederam no estudo destes casos. «Eu não
fuiserripre psicoterapeuta, mas fui, com .o os outros neurologistas, habituado a usar
o diagnôstico local e o electrodiagnóstico. Ainda agora me espanto dequ@e
as'histórias'de'doentes que escrevo se leiam conio novelas e lhés falte por àssirr@
dizer a marcâ séria @da cí,,ên,êiá. Consolõ-me dizendo para comigo que, pro-
vaveImente, é a própria natúreza dó- sujeito, mais@ do que a minha escolha
pessoal, que é responsável por este estado de coisas. É que o estudo da histeria não
conseguiria obter nada de um diagnóstico local ou de reacções eléctricas,

24
enquanto uma exposição detalhada dos fenômenos psíquicos, tal como estamos
habituados a encontrá-la nos práticos, permite-me alcançar uma espécie de
estimativa da origem da histeria.» Freud, aplicando os princípios terapêuticos que
descobriu na descrição do caso Anna 0., foi obrigado a modificá-los. Ao fazer isto,
avançou muito no entendimento dos fenómenos histéricos e assim franqueou o
caminho à teoria e à prática analíticas. Com Breuer, a hipnose era necessária para
praticar o método catártico. Em muitos casos, ele revelou-se impossível de ser
utilizado, na medida em que as pessoas não se prestavam a esta colocação «num
estado segundo». Além disso, Fr-eud não gostava da hipnose: «É um procedimento
incerto que esconde qualquer coisa de místico», escrevia ele. Preferiu manter os
doentes no seu estado normal. Alguns obrigaram-no mesmo a isso, como a Senhora
Emmy, que impôs o silêncio a Freud, de modo a permitir que se desenrolassem mais
livremente as suas associações de ideias. «Tudo se passou como se ela tivesse feito
seu o meu próprio processo», anota ele. Substituiu o método catártico pela
«concentração». A propósito de uma ideia ou de um sintoma, o paciente, sob a
injunção de Freud, devia concentrar-se numa ideia, num pensamento, numa
imagem. « Quando eles argumentavam não saber mais nada, eu afirmava-lhes que
sabiam, que não tinham senão que falar, e assegurava mesmo que a recordação
lhes viria no momentoem que -eu lhes pusesse a mão na testa.» Evoluindo de ideias
para imagens, de imagens para pensamentos, de pensamentos para fantasias,
Freud tentava assim trazer à consciência a lembrança patogénica ligada ao sintoma.
Tal como naquele caso (que é o tema da peça 0 Fio Vermelho) que Freud resume
assim: «Era uma jovem que, recentemente, tinha perdido o pai ternamente amado,
depois de ter ajudado -a cuidar dele. Tendo-se casado a irmã mais velha, ela foi
tomada de um vivíssimo afecto pelo cunhado, afecto que, de resto, passou por ser
uma simples intimidade como as que se encontram entre membros de uma mesma
família. Mas, passado algum tempo,- a irmã adoeceu e morreu. Quando a jovem
chegou à cabeceira da irmã morta, emergiu nela, durante um segundo, uma ideia
que poderia exprimir-se assim: agora que ele está livre, pode casar comigo. É um
facto que esta ideia, que revelava à consciência desta rapariga o amor intenso que,
sem o

25
saber, ela devotava ao cunhado, revoltou-a e foi imediatamente recalcada. Por seu
turno, a rapariga caiu doente, apresentando graves sintomas histéricos, e, quando
comecei a tratá-la, verifiquei que ela tinha esquecido radicalmente esta cena junto
do leito de morte da irmã e o movimento odioso e egoísta que se apossara dela. A
jovem recordou tudo isso durante o tratamento, reproduziu este incidente com
sinais da mais violenta emoção, e o tratamento curou-a.»

A modificação trazida por Freud à técnica do tratamento da histeria, a qual apela


para a consciência e para a colaboração dos doentes, muda a abordagem teórica e
terapêutica desta neurose.

0 traumatismo psíquico está sempre em causa, mas aparece sob uma outra forma,
a de uma ideia e de um acontecimento que o ego da paciente não pode tolerar,
como no caso citado por Freud: a paciente não pode admitir na sua consciência a
ideia de casar com o cunhado no momento em que a sua irmã morreu. Esta ideia é
esquecida-é a amnésia histérica-e então recalcada (o conceito é novo). «A histérica
sofre de reminiscências», sublinha Freud por várias vezes, o que parece em
contradição com o esquecimento, a amnésia histérica. De facto, com esta afirmação
Freud sublinha que, embora olvidada ou desconhecida, nem por isso a ideia deixa
de agir, ou, mais precisamente, o afecto que lhe está ligado continua a sua acção
subterrânea sob forma de «energia psíquica» que, no caso de sintoma somático
histérico, converte o afecto em inervação motora, o que produz contractura ou
paralisia. A recordação patogénica é esquecida, «mas isso não significa que não
exista». Existe sob a forma de sintoma, que é o substituto dela, o «Ersatz». A terapia
consistirá em fazer rememorar a recordação patogénica; mas isso não basta, pois
arriscar-se-la a ser apenas uma reniemoração intelectual: a «ab-reacção» permite
fazer «relembrar» o afecto, quer dizer, exteriorizá-lo, fazer com que reviva e
exprimi-lo verbalmente. É este o preço da cura.

A distinção entre consciência normal e consciência patológica torna-se, com Freud,


uma oposição, um combate de duas forças opostas. A consciência hipnóide, sede da
recordação patogénica, tende a exteriorizar o seu conteúdo; a consciência normal
tende a reprimir, a conservar no esquecimento, a recordação patogénica. Assim é
prefi-

26
gurada a oposição consciente-inconsciente, tendo pertencido a Freud o mérito de, a
partir dos estudos sobre a histeria, descobrir que não havia separação radical entre
as duas consciências, mas intrincação estreita e luta de duas forças opostas.

Donde as dificuldades de uma terapêutica que já não se realiza sob hipnose. É uma
verdadeira luta a que Freud se entrega para descobrir e fazer relembrar a
recordação patogénica. Pois que, se tudo se passa na consciência da pessoa, esta
opõe as suas «resistências» aos esforços do terapeuta e mesmo aos esforços dela
própria para conseguir romemorar a lembrança reprimida. A resistência, conceito
fundamental da prática analítica, é pois a tradução, no plano da práxis, do
recalcamento da recordação patogénica. Ela manifesta-se como uma resistência a
associar, ou seja, a exprimir ou a ligar entre si os pensamentos, as imagens, numa
palavra, as associações que conduzem à recordação patogénica, a partir dos
sintomas e das ideias que lhe estão ligadas. Assim se precisa a finalidade do
tratamento: pretende-se levar as resistências a cederem, para fazer cessar os
efeitos do recalcamento e deste modo permitir que a recordação patogénica e a
afecção «ab-reagid,a» se tornem conscientes.

Osestudos sobrea histeria entreabrem um novo campo de exploração: o das


resistências e, entre elas, a transferência, a que voltaremos; o da importância da
sexualidade e do seu papel na patogenia da neurose. Ela surge aqui sob a forma de
um acontecimento traumático: a sedução de que a criança histérica foi objecto, por
parte de adultos ou de outras crianças. Neste enquadramento, o sujeito aparece
unicamente como vítima, tudo se passando como «se ele não estivesse lá para
nada». É, pelo ,nenos, o que Freud pensará ainda por muito tempo.

0 texto dos Estudos sobre a Histeria, aparecido en,


1895 (seis anos depois do encontro com Charcot), publicado por Breuer e Freud,
explicita, separando-os com bastante nitidez, os trabalhos dos dois autores sobre a
histeria, Breuer descreve o caso Anna 0. e consagra um capítulo à teoria do
histérico. Como acima indicamos, a achega de Breuer é mais limitada, pelo facto de
ele sentir a exigência (e a necessidade pessoal) de inscrever o seu caso numa teoria
que estivesse na continuidade das já existentes. Isto proporciona a Freud uma maior
liberdade

27
na descrição destes casos e na exposição dos princípios Psioo,terapêuticos que
deles faz decorrer. A primeira vista, ele parece estar liberto de toda e qualquer
exigência «científica», a qual consistiria em definir uma teoria paralela à clínica que
vai descobrindo e à psicoterapia que emprega; mas isso é apenas aparente: Breuer
encarregou-se da teoria, Freud dá livre curso à sua invenção psicoterapêutica.
Investigação e psicoterapia estão estreitamente ligadas: quando Freud trata um
histérico, não sabe o que vai descobrir e, neste sentido, encontra-se na mesma
situação que o doente; ao mesmo tempo que realiza a sua investigação, e
awociadamente com ela ‘ pode decompor os mecanismos que impedem a
recordação patogénica de ser rememorada. Práxis e teoria estão estreitamente
ligadas. Enfim, à medida que os estudos vão aparecendo, ele redige o rascunho de
um «esboço» de psicología científica: neste esboço, ensaia a construção da ciência
da Psicologia sobre uma perspectiva dinâmica do funcionamento da célula nervosa.
Este rascunho nunca foi publicado, mas somente enviado ao seu amigo Fliess; como
veremos, ele tem um valor histórico na evolução das ideias de Freud sobre a teoria
da Psicanálise.

28
II

AUTO-ANÁLISE E ANÁLISE ORIGINÂMA

FLIESS A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS

A Interpretação dos Sonhos não constitui apenas a obra central de Freud; ela é a
fundadora da Psicanálise, originária e última, donde parte todo o trabalho
psicanalítico, a que constantemente retorna toda a pesquisa psicanalíti,ca para aí
red-escobrir certos aspectos sempre novos. É a interpretação dos sonhos que marca
a ruptura com todas as formas de pensamento científico e mesmo filosófico até,aí
-correntes. Esta ruptura não é, aliá s, muito fácil de discernir, tão grande é a sua
evidência nos nossos dias, de tal modo surge como que matizada e de inserção
progressiva no contexto histórico da época, tão reduzido foi o sucesso do livro na
primeira edição (600 exemplares).

Por um lado, comparar o sonho ao delírio, ou à histeria, ou à neurose, era algo que
já fora feito, mas sempre em detrimento de qualquer deles: o sonho era um
fenámeno menor, uma produção falhada da vida subconsciente, como o delírio ou o
sintoma neurótico. Interpretar o sonho, promovê-lo como actividade essencial da
vida psíquica, conferir-lhe um estatuto científico e teórico, era promover
paralelamente a neurose e a produção delirante muito para além de uma
«degenerescência», ainda que superior.

Por outro lado, o «inconsciente» tinha uma existência anterior à da ciência dos
sonhos, existia como qualitativo, como hipótese inconcebível, porque não
consciente. Freud institui-o em sistema, em dado fundamental da vida psíquica. E a
consciência é o que fica à superfície.

29
A auto-análise

É, todavia, conveniente que não se julgue que o diminu,to sucesso de A


Interpretação dos Sonhos, aquando do seu aparecimento, teve por único motivo o
carácter «revolucionário» das ideias avançadas e da prática da interpretação dos
sonhos. Para fazer admitir que o sonho podia ser objecto de interpretação científica
não bastavam quinhentas páginas, e seria precisa muita «inconsciência» da parte
de Freud para publicar um livro sobre tal assunto e esperar obter sucesso imediato.
De facto, Freud estava seguro do objecto do seu estudo e convencido da verdade
que o livro e os sonhos aí interpretados desvendavam. Esta verdade, ele mesmo a
experimentara, comprovara a validade das suas interpretações através da análise
dos próprios sonhos. É a razão por que a interpretação dos sonhos aparece não só
como fruto da sua auto-análise mas também como meio de a levar o mais longe
possível. 0 objector imaginário que Freud suscita no livro para se opor às suas mais
bem elaboradas teorias não será o «representante» das resistências que ele teve de
vencer para desvendar os seus desejos mais profundamente reprimidos? Além
disso, quando se fala de auto-análise convém que nos entendamos sobre a maneira
como Freud a praticava: «Eu só posso analisar-me por meio de um saber objectivo,
como se fosse um outro.» A auto-análise de Freud é a introspecção das próprias
associações a partir de um observador «objectivo» que não é outro senão ele
mesmo. 0 homem de ciência nunca renuncia à sua atitude de observação, ainda
que Freud examine e escute Freud. 0 sonho é, pois, utilizado nesta auto-aná lise
como o palco privilegiado em que ele pode observar-se e, a partir disso, associar.

A auto-análise de Freud possui também um outro ponto de partida: a análise dos


seus doentes. Veja-se o que ele escrevia a Fliess: «Este doente porta-se
descaradamente bem. Com um desvio surpreendente, conseguiu demonstrar-me a
mim mesmo a realidade da minha doutrina, ao fornecer-me a explicação, que até
agora me escapara, da minha própria fobia dos com@boios!» Esta confissão, que
mostra o terapeuta transformado em paciente, e o paciente convertido em
terapeuta, não deixa de ser surpreendente. 0 saber do terapeuta não é
apresentado, como o saber médico, do alto da sua ciência, é antes recebido

30
por este e reenviado a quem lho dá. Um e outro já não se diferenciam pelo sintoma
de um e a «normalidade» do outro, mas sim reencontram-se numa interpretação
identificadora: aquele que interpreta o sintoma, os sonhos do seu paciente, deve
saber interpretar os seus próprios sonhos (como os seus sintomas).

Fliess

A auto-análise, a interpretação dos seus próprios sonhos, não foi somente o


encontro de Freud consigo mesmo -teve por complemento o encontro de Freud com
Fliess. Este encontro foi verdadeiramente um encontro amoroso, uma súbita paixão,
«um amor de transferência», acompanhado pela cegueira inerente a qualquer amor.
0 importante não é saber se Fliess era digno de amizade tão apaixonada; quando
Abraham, futuro aluno de Freud, vier a encontrá-lo, não achará nele nada que
justifique o entusiasmo apaixonado que teve pelo seu amigo. 0 importante é que
Freud encontrou em Fliess não já o mestre mas o seu «próprio eu-mesmo» 1. Freud
«diz tudo» a Fliess, tal como um paciente ao seu analista. Diz-lhe tudo e está
mesmo certo de receber do amigo a mais favorável atenção. Reciprocamente (e ao
contrário do que se passa durante a análise) Fliess «diz-lhe tudo», ou, mais
precisamente, comunica-lhe as suas teorias: sobre a bissexualidade, sobre a
periodicidade biológica, sobre a relação reflexa entre a mucosa nasal e os órgãos
sexuais. Freud participou nas teorias de Fliess, Fliess criticou as de Freud. Freud
toma as suas críticas em consideração: foi em virtude dos conselhos reiterados de
Fliess que ele escreveu um capítulo de A Interpretação dos Sonhos consagrado a
uma revisão dos trabalhos anteriores sobre o mesmo assunto. Ao escrever A
Interpretação dos Sonhos, Freud já não queria ter necessidade de mestre, queria
que o livro fosse obra sua e que marcasse bem a novidade que trazia, fazendo
tábua rasa dos trabalhos anteriores. No entanto, ao dar conta destes e ao inscrever
o seu na sequência deles, Freud, ao invés do que supunha, fazia sobressair ainda
mais a originalidade e a ruptura da sua achega. Finalmente, Fliess, pelas suas
críticas, foi um estimulante para Freud e, se a influência que exerceu actuou muitas
vezes como uma censura, esta censura

31
. 1 constituiu, para Freud, um apoio sobre o cíual ele pos a prova a solidez da sua
teoria e da sua demonstraçã o. A semelhança de Freud, Fliess serviu-lhe também de
«escoadouro»; a -ele é que Fretid -endereçou o seu Esboço de Uma. Psicologia
Científica, o qual, depois de lho haver enviado, teve o bom gosto de não publicar.

A técnica psicanalítica

Quando publicada A Interpretação dos Sonhos, a técnica psicoterapêutica de Freud


já evoluíra consideravelmente: tornara-se psicanálise.

«A psicanálise é a técnica que permite ‘a Interpretação’. Eu sustento que o sonho


tem uma significação e que existe um método científico para Interpretá-lo. Há vários
anos que estudo, com fim terapêutico, um certo número de processos psicopáticos,
tais como as psicoses histéricas e as obsessões, ete. Dediquei-me a isso
nomeadamente depois de uma importante comunicação de S. Bretier mostrar que,
no respeitante a estes fenômenos psicológicos, na medida em que são considerados
sintomas mórbidos, a explicação anda a par da cura.

«Quando se consegue descobrir, no espírito do doente, as origens de tal produção


patológica, ela cessa e o doente é libertado... No decurso destes estudos
psicanalíticos é que eu fui levado a ocupar-me da interpretação dos sonhos. Os
doentes que eu obrigava a comunicarem-me tudo o que lhes passava pela cabeça a
respeito de um determinado assunto contavam-me os sonhos que tinham. Assim me
ensinaranique o sonho podia estar encerrado no devir dos estados psíquicos que
encontramos nas recordações, quando partimos,de um princípio patológico. Daí a
tratar o sonho como os outros sintomas e a aplicar-lhe o método elaborado para
estes ia apenas um passo.» «0 método exige uma certa preparação do doente. É
preciso obter dele ao mesmo tempo uma atenção maior às suas percepções
psíquicas e a supressão da crítica, que habitualmente joeira as ideias que surgem
na consciência. Para que ele possa observar e recolher-se, é conveniente colocá-lo
numa posição de repouso, com os olhos fechados; para que elimine toda a crítica, é
indispensável fazer recomendações formais. Explica-se-lhe que o sucesso da
psicanálise depende disto: é necessário que ele tenha atenção,

32
que observe e comunique tudo aquilo que lhe vem ao espírito, que tenha o cuidado
de não recalcar uma ideia só porque a julga sem importância, desligada do assunto
ou absurda. Deve ser absolutamente imparcial face às suas próprias ideias, já que é
precisamente a sua crítica que, em tempo normal, o impede de encontrar a
explicação de um sonho, de uma ideia obsidiante, etC.» 4 Estas afirmações i,ndiciam
bem a passagem da psicoterapia dos histéricos à psicanálise dos sonhos. Freud
situa a interpretação do sonho num plano de anailogia com o sintoma, pois que o
sonho é uma das associações que permitem a «explicação» do sintoma. Interpretar
o sonho permitirá interpretar os sintomas. A interpretação do sonho identifica-se
com a «explicação do sintoma»; nessa medida, ela é também «ciên,cia dos sonhos»
(Tra~deutung, título alemão de A Interpretação dos Sonhos, foi sucessivamente
traduzido em francês por «Science des rêves» e depois por «Interprétation des
rêves»). Para o conseguir, a técnica varia sensivelmente desde -a da hipnose à da
«concentração». A a@usência de crítica deve fazer perderao paciente a vigilância, o
julgamento moral, a necessidade de coerência. A <divre associação» no «estado de
atenção flutuante» aproxima-se mais do estado de sonho que do estado de hipnose.
Ela rompe fundamentalmente com o modo de pensar habitual, racional, coerente,
crítico ou moral. Por isso mesmo, ela chega a «pensamentos não queridos» que se
substituem aos «pensamentos queridos». Estes pensamentos «não queridos» são
como os do sonho, ou como o sintoma: o paciente tenta excluí-los, embora eles se
imponham por si mesmos, tenham a sua própria vontade, a sua força própria. Assim
pode ser interpretado o sonho, a partir das associações que cada um dos seus
elementos sugere, e que têm como resultado os pensamentos «não queridos».

A Interpretação dos Sonhos

Excepto o capítulo VII, essencialmente teórico, o livro explieita de duas maneiras


diferentes os resultados da interpretação do sonho. Num primeiro tempo, a
interpretação do sonho leva a conferir um sentido ao «texto manifesto» do sonho,
isto é, às figuras, às cenas, às histórias, tal como são representadas na memória
daquele que o relata. Esta interpretação consegue evidenciar um texto
3 33
latente que é sempre a «realização de um desejo». Se o texto manifesto está
disfarçado em relação ao texto latente, é porque entre os dois funciona,a -censura,
que desfigura o último. Num segundo tempo, indo do texto latente para o texto
manifesto, Freud desmonta os mecanismos que permitem à realização inconsciente
do desejo transformar-se na figura embuçada do texto manifesto: são
essencialmente o deslocamento e a condensação.

Primeiro tempo: Do conteúdo manifesto

ao conteúdo latente; a censura

0 sonho da «injecção dada a Irma» é o primeiro a @@presentar a tese de que o


sonho é a representação dissi- @nulada da realização de um desejo. Na a@ltura em
que @eve este sonho, Freud acabara de tratar, psicanalitica- @nente, sem grande
sucesso, uma das suas doentes, Inna. jk realização do desejo de Freud, aue a sua
interpretação jo sonho vem a revelar, consiste em a injecção dada a frma pelo
doutor 0. ser responsável pelo fracasso tera- ?êuti-co. E interessa notar como,
através de tal sonho e ja respectiva interpretação, Freud é obrigado a não se
@ontentar com falsas racionalizações para explicar o malogro. É-lhe necessário
encontrar novas explicações e ir pais longe na sua pesquisa psicanalítica. A
realização de- @

lo que se pretende alcançar tem origem profunda no esejo infantil. Neste sentido, a
ciência dos sonhos anuncia @ importância da pré-história da infância e da
sexualidade ja criança na gênese da neurose (ef. os Três Ensaios sobre ~ Teoria da
Sexualidade). 0 desejo infantil no sonho p injecção dada -a Irma é o desejo de poder
supremo expresso através da recusa do fracasso de uma terapêutica @ue se
desejaria infalível.

Na criança, o desejo exprime-se directamente, como


5aqueles sonhos em que ela se vê saboreando guloseimas ,ue lhe foram recusadas
durante o dia. No adulto, a reali- ,@Lção do desejo está dissimulada, por acção da
censura, no texto manifesto do sonho. «0 meu amigo R... é meu tio. @enho por ele
uma grande ternura. Vejo o seu rosto, um ,ouco alterado, diante de mim. Parece
alongado, vê-se Oito nitidamente uma barba amarela que o emoldura.» @al é o
texto do sonho concreto cuja interpretação leva à demonstração da existência da
censura nos sonhos. A pri-

34
meira coisa que Preud pensou deste sonho foi que ele era «absurdo». Depois,
reconsiderou, ponderando que, se um dos seus doentes qualificasse como absurdo
um sonho que tivesse, ele, Freud, deveria pensar que por detrás deste sonho se
encontrava qualquer coisa de desagradável que ele preferia não confessar a si
próprio. Agindo em relação consigo da maneira como teria agido -com os doentes,
procurou então saber o quese escondia por detrás do sonho eda sua «absurdeza».
Descobriu o seu amigo R. efectivamentedisfarçado na figura do tio, pois que o
amigo era moreno e o tio loiro (a barba amarela do texto latente do sonho). Este tio,
o único de Freud, havia sido por seu pai considerado «fraca cabeça», em virtude
de especulações aventurosas que o levaram a ser punido severamente por lei. 0
texto do sonho é o disfarce da realização do desejo de Freud de que o amigo R.
seja «fraca cabeça», como o tio José. Refere-se assim a um outro desejo, o de ser
professor, o qual é contrariado (na realidade) pelo factode ele ser judeu. 0 amigo R.
tem a mesma ambição que -ele, mas, por motivos idênticos aos de Freud, a sua
carreira está comprometida. No seu desejo, Freud não quer admitir que as ambições
de A. sejam sustadas por causa das origens que tem, já que poderia acontecer-lhe o
mesnio a ele. É essa a razão por que prefere (na lógica do seu desejo) que o amigo
R. não consiga ser professor por ter «fraca cabeça», o que subentende que ele
poderá sê-lo (visto que não tem fraca cabeça). A amizade de Freud por R. é sincera:
ele recusa este desejo, segundo o qual o amigo teria a «cabeça» do tio. A censura
incide sobre tal desejo e manifesta-se de duas maneiras:

-exprimindo sentimentos de grande ternura por este amigo R. (enquanto, no seu


inconsciente, lhe deseja que tenha uma cabeça fraca);

-considerando o sonho corno absurdo, pois que o amigo R. não é nem o tio de
Freud, nem loiro, nem fraca cabeça.

0 disfarce do sonho faz com que seja considerada como absurda a identidade entre
o amigo R. e o tio José, o que permite esconder o desejo do sonho que pretende que
R. e o tio José tenham a mesma «fraca cabeça». Freud retomará aliás este sonho,
salientando que ele remete para o desejo infantil, o desejo em ser um grande
homem, ou um grande conquistador, como Napoleão ou

35
Aníbal... A Interpretação dos Sonhos não é um sonho: é, no entanto, para Freud, o
meio de realizar a aspiraçã o de ser um grande homem. 0 sonho do amigo R. aponta
para uma outra aspiração: a de não ser como o tio, quer dizer, a de não basear a
sua ambição infantil sobre especulações (intelectuais) temerárias, como o próprio
texto de A Interpretação poderia parecer...

Segundo tempo: 0 trabalho do sonho;

do conteúdo latente ao conteúdo manifesto

Passando do texto latente para o texto manifesto do sonho, Freud explicita os


mecanismos psicológicos que fazem com que o texto manifesto se encontre
disfarçado em relação ao texto latente. Poderia dizer-se que a censura é a razão
psicológica que faz com que o texto seja disf arçado: no sonho do amigo R., é por
causa da sua amizade por R. que Freud censura o desejo próprio de que ele tenha
uma «fraca cabeça». 0 capítulo VI explicita os mecanismos de transformação de
figura que revelam a mutação do texto latente em texto manifesto. Estes
mecanismos, que regem os modos essenciais do funcionamento dos processos
inconscientes, sã o o deslocamento e a condensação. 0 deslocamento consiste em,
dentro do sonho, transportar a intensidade de representação de uma figura
significativa para uma figura não significativa. 0 deslocamento aproxima-se da
substituição, como a do sonho do amigo R., em que o desejo de que R. tenha fraca
cabeça -é substituído, no texto manifesto, pela figuração de uma identidade
puramente formal (a barba amarela) entre a cabeça de R. e a do tio José. A
condensação consiste em concentrar sobre uma mesma representação do texto
manifesto um conjunto de representações do texto latente; o que f az com que um
sonho muito curto possa aceder a um texto latente complexo e muito rico. Os dois
mecanismos, condensação e deslocamento, apelam para um conceito novo: a
intensidade da representação; este capítulo VI introduz pois o capítulo VII,
aparentemente mais teórico.

36
Terceiro tempo (o capítulo VIII):
0 inconsciente, suas leis, suas relações com o consciente

A teoria e a ciência em Psicanálise e na obra de Freud vem «posteriormente». Aparecem


depois da práxis e do que ela revelou. A interpretação dos sonhos mostrou que o sonho,
apesar da sua absurdeza, tem um sentido e que este sentido põe em oposição um conteúdo
manifesto e um conteúdo latente. Só podem estar convencidos disto aqueles que
i«praticaram psicanálise ou que por si mesmos tentaram analisar os próprios sonhos,
seguindo o método de interpretação dos sonhos indicado por Freud. A teoria da «psicologia
do sonho», tal como está explicitada neste capítulo VII, tenta convencer os outros, aqueles
que só têm fé nas ciências, ou seja, na teoria.

Entre o capítulo dos Estudos sobre a Histeria consagrado à psicoterapia da histeria - capítulo
que é também teórico--e o capítulo VII dedicado à « psicologia do sonho», houve o Esboço de
Uma Psicologia Científica, que Freud endereçou a Fliess, mas nunca publicou. Neste esboço,
indica-se de maneira explícita que a ciência da psicologia é a@ neurobiologia encarada numa
perspectiva global. Este esboço surge como o contraponto daquilo que pode parecer
puramente psicológico na psicoterapia dos histéricos. Esta neurobiologia centrada no
funcionamento do neurónio já não tem nada que ver com a teoria das localizações, segundo a
qual a afasia de Broca corresponde a uma lesão do córtice cerebral situado na região
temporal. Naquele trabalho, Freud descreve o funcionamento dinâmico do neurónio, capaz de
descarregar completamente a quantidade de excitação que em si contém, mas capaz
também de a reter. 0 funcionamento dinâmico do neurónio corresponde ponto por ponto ao
funcionamento do próprio psiquismo, tal como está esboçado nos estudos sobre a histeria e
como vai ser demonstrado neste -capítulo VII de A Interpretação dos Sonhos. Trata-se, aliás,
menos de uma correspondência, de um paralelo ou mesmo de um modelo que de uma
identidade. 0 fundamento científico da psicologia, no Esboço, é a neurobiologia. «Neste
esboço, procuramos fazer entrar no quadro das Ciências Naturais, ou seja, representar, os
processos psíquicos como estados quantitativamente determinados de partículas
distinguíveis, e isto a fim de os tornar existentes e incontestáveis.»

37
Os seis primeiros capítulos de A Interpretação dos Sonhos bastam para tornar
«evidente e incontestável» a existência de um texto latente sob o texto manifesto. A
teoria da «psicologia do sonho», tal como se encontra desenvolvida no capítulo VII,
já não tem por objectivo tornar «evidente e incontestável» que os processos
psíquicos «são quantitativamente determinados»; a interpretação dos sonhos-que
impõe um texto latente sob um texto manifesto -prova-o tão bem como a prática
psicanalítica, a qual, na aplicação da regra fundamental, permite pÔr enievidência
pensamentos «não queridos», que se impõem com sua força própria, apesar da
consciência do sujeito, da sua crítica ou do seu desejo de coerência. Se a práxis (e já
não a neurobiologia) é demonstrativa da teoria, a teoria, por sua vez, vai conferir
um estatuto aos processos psíquicos e às oposições de forças, tal como são postos
em evidência na práxis.

0 capítulo VII tenta construir «hipóteses sobre a estrutura do aparelho psíquico e o


jogo das respectivas forças». 0 jogo das forças opostas ou combinadas produz o
sonho, que aparece na demonstração como que a confirmar a hipótese do aparelho
psíquico. Este aparelho psíquico já não possui lugar assente no sistema nervoso do
sujeito, mas sim uma topografia, construída sobre o modelo do arco reflexo, que
permite situar a consciência e o inconsciente, opondo uma ao outro.

0 capítulo VII introduz e demonstra a existência do inconsciente, em oposição às


filosofias que pretenderiam afirmar a existência, em psicologia, apenas daquilo que
é consciente. 0 sintoma, como o sonho, é a efectivação de um desejo inconsciente,
sendo este desejo inconsciente o lugar da força psíquica que entra em jogo no
inconsciente

e ao qual se opõe a acção crítica e repressiva da consciência (que tem em linha


deconta o princípio da realidade). «0 inconsciente não tem outro objectivo que não
seja a efectivação do desejo, nem outras forças que as das impulsões do desejo.» 0
desejo, no inconsciente, regula-se por normas que lhe são próprias, o que significa
que não tem fé nem lei: é «indestrutível», «sempre activo», «irnortal», razão por
que o sintoma não renuncia nunca a manifestar-se, nem o sonho cessa de se repetir
sob múltiplas formas. 0 inconsciente está do lado do processo «primário», segundo
o qual qualquer excitação tende a descarre-

38
gar-se imediata e livremente; está do lado do princípio de prazer, que tende à
satisfação (imediata) das suas tensões. Portanto, o que fundamenta o inconsciente
não é só a existência de uma liinguagem latente sob uma linguagem manifesta (o
sonho) mas também uma energia psíquica que introduz o quantitativo (ponto de
vista económico) e a oposição de forças (ponto de vista dinâmico) no psiquismo.
Assim se vê que, se o inconsciente aparece como um conceito, uma hipótese, cuja
existência é demonstrada pela «interpretação do sonho», possui também uma
realidade que pode ser experimentada, sentida, através do seu

funcionamento energético e dinâmico. «0 inconsciente é o próprio psiquismo e a


realidade essencial deste. A sua natureza íntima é-nGs tão desconhecida como a
realidade do mundo exterior, e a consciência informa-nos de uma maneira tão
incompleta sobre ele como os órgãos dos sentidos sobre o mundo que nos rodeia.»

A Interpretação dos Sonhos introduz, pois, o quantitativo e o energético no


psiquisnio do homem. Com este procedimento, Freud, por um lado, rompe com a
psicologia tradicional, ao introduzir o soma e o quantitativo no psiquismo, e, por
outro, através da própria técnica da interpretação dos sonhos, dos mecanismos
psiquicos que dela deduz, rompe com a medicina tradicional, fundando a sua teoria
não sobre a neurobiologia mas sobre o modelo de um funcionamento do aparelho
psíquico. Para conseguir isto, ele é obrigado a recorrer a um vocabulário que é mais
o da Física da energética e da dinâmica do que o da Psicologia. Por conseguinte, a
relação consciente-inconsciente já não reside simplesmente na oposição entre o
texto manifesto e o texto latente do sonho, entre o sintoma e o respectivo sentido,
mas existe também numa oposição dinâmica entre as forças do inconsciente e as
da consciência repressiva: processo primário, energia livre, capaz de deslocamento
e de condensação no seio do inconsciente; processo secundário, energia ligada ao
cerne do sistema consciente-pré-consciente, que permite fixar a energia associada à
excitação, controlá-la e adiar a satisfação das pulsões. Entre os dois sistemas
funciona o recalcamento, que mantém no inconsciente as representações
reprimidas, recalcamento que se traduz no sonho pelo esquecimento deste, como
no sintoma histérico é traduzido pela amnésia. Estes dados diversos serão
retomados quinze anos

39
mais tarde de forma mais sistematizada na Metapsicologia, mas, qualquer que seja
a maneira por vezes rudimentar como são apresentados no capítulo VII, sempre
continua verdadeiro que «o sonho é a estrada real que leva ao conhecimento do
inconsciente na vida».

40
EXTENSÃO DA PSICANÁLISE DESCOBERTAS FUNDAMENTAIS OS PONTOS NODAIS DA
TEORIA E DA PRÃXIS

AS CINCO PSICANÁLISES

OS TRÊS ENSAIOS SOBRE UMA TEORIA DA SEXUALIDADE TOTEM E TABU-A


METAPSICOLOGIA

A Interpretação dos Sonhos é a obra que origina e funda a Psicanálise. Ela assinala o
tenno da auto-análise de Freud publicada. Um acontecimento decisivo marca a vida
pessoal deste, durante a elaboração de A Interpretação: a morte do pai. Esta morte
influencia a auto-análise e traduz-se no seu livro por um subeapítulo consagrado
aos «sonhos absurdos» que têm por objecto o desejo da morte do pai. É aquela
morte que permite o acabamento da obra, a qual, de si mesma, constitui uma
reparação deste desejo de morte. Freud continuará a fazer a auto-análise durante
toda a sua vida, mas manterá estranhamente segredo sobre os respectivos
resultados. Daí em diante, é à «vida pública» da Psicanálise que ele se consagra.

Com efeito, é necessário esperar 1907 para ver o círculo dos psicanalistas estender-
se para lá de Viena. A consagração vem de Zurique, da clínica de BurghõlzIi, onde
Bleuler e Jung participaram do interesse suscitado nas suas próprias investigações
pelos trabalhos de Freud. Em
1909, Freud e Jung são convidados a fazer uma série de conferências nos Estados
Unidos: Cinco Lições sobre a Psicanálise’. Embora julgasse levar consigo «a peste»,
Freud verá as suas teorias receberem o mais favorável acolhimento. «A ausência de
uma forte tradição científica e o

41
rigorismo pouco vincado das autoridades oficiais foram de natureza a -encorajar na
América o movimento a favor da Psicanálise.» 1 Vários nomes estão ligados à
História da Psicanálise e à sua expansão: Brill e Jones, na Inglaterra, Abraham, na
Alemanha. Em França, a Psicanálise choca com a supremacia dada aos trabalhos de
P. Janet -que nunca se coibia de a criticar -e com as resistências ligadas a um
acréscimo de «forte tradição científica».

0 campo da Psicanálise alarga-se também na sua aplicação, ultrapassando o da


Psicopatologia. A Interpretação dos Sonhos possibilitava tal extensão, pois que o
sonho fazia a ponte entre o non-nal e o patológico; permitia ainda a articulação com
o imaginário da criação artística, com as falhas involuntárias ou intencionais da vida
consciente, tais como «o chiste» (o «dito espirituoso»: «le mot d'esprit»), «os actos
falhado-s», «os lapsos», etc.

0 essencial da obra freudIana situa-se, no entanto, à roda de quatro obras centrais


que, embora publicadas em datas muito diferentes, estão estreitamente ligadas
entre si.

As Cinco Psicanálises prolongam os estudos sobre a histeria e A Interpretação dos


Sonhos, tornando mais precisas as relações do sintoma com o sonho. Cada caso
corresponide aum tipo de neurose diferente, o que é como que a introdução a uma
nova forma de nosografia das neuroses, já não baseada numa classificação feita a
partir dos sintomas, mas sobre os modos de recalcarnento e de defesa dos neurosa-
dos, a forma de sexualidade a que eles estão fixados, o modo de organização
específico do complexo de Êdipo.

Os Três Ensaios sobre Uma Teoria da Sexualidade sistematizam o -estudo da


sexualidade infantil e a função da pré-história infantil na gênese das neuroses.
Assim se torna rigoroso o que a interpretação do sonho, a observação e a
psicanálise das neuroses tinham demonstrado: * -fundamento da neurose do adulto
sobre a da criança * as transformações da sua sexualidade.

A partir de uma comparação entre a psicologia do selvagem, a do neurosado e a da


criança, Totem e Tabu estabelece a -configuração universal do complexo de Édipo:
a interdição do incesto e a proibição do assassínio do pai constituem não só o centro
dos tabus em que se detém qualquer neurose mas também o ponto de partida
neces-

42
sário para toda a vida social. 0 complexo de Édipo, como a sexualidade infantil,
constitui o cerne da análise do sonho e ida interpretação do sintoma. Assim, entre
As Cinco Psicanálises, por um lado, e Os Três Ensaios e Totem e Tabu, por outro,
encontramos a mesma relação que existe entre o conteúdo manifesto do sonho e o
conteúdo latente: a interpretação dos cinco casos apresentados nas cinco
psicanálises leva a pôr em evidência o papel da sexualidade infantil e do complexo
de Édipo. Entre os dois, como entre o sintoma neurótico e o seu significado,
podemos agora situar A Metapsicologia, que vem precisar o papel e o destino da
pulsão, a função do recalcamento e do inconsciente, e que aparece como o lugar
eleito da interpretação psicanalítica.

AS CINCO PSICANÁLISES

0 Caso Dora

«Esta obra», escreve Freud, «charnou-se primitivamente Sonho e Histeria, porque


parecia particularmente indicada para mostrar de que maneira a interpretação dos
sonhos se entrelaça na história do tratamento e como, graças a ela, as amnésias
podem ser preenchidas e elucidados os sintomas.» Dora foi analisada durante três
meses, em 1895, mas o seu caso só foi publicado em 1905. Um tão longo intervalo
entre a análise do caso e a publicação do estudo explica-se por motivos de
«segredo médico»: Freud não queria que se pudesse identificar a pessoa de Dora,
filha de um industrial muito conhecido. Aliás, neste texto são numerosas as pre-
cauções oratórias de Freud, quando aborda a questão ãa masturbação ou a dos
fantasmas de «fellatio» (relaçã o genital-bucal); nele defende o ponto de vistaético
da -ciência médica, eme tem a obrigação de abordar objectivamente -aquilo que vai
sendo descoberto na observação do caso e dar prova da mesma objectividade ao
falar de sexualidade com os pacientes: devem-se chamar as coisas pelo seu nome.
Freud tenta assim prevenir os ataques de que será objecto ao explicitar o papel
primordial da sexualidade na gênese das neuroses. Este caso inscreve-se, pois,
numa linha de continuidade que vem directamente dos Estudos sobre a Histeria e
de A Interpretação dos Sonhos. 0 sintoma histérico é apresentado

43
como solução de compromisso entre duas ideias e dois afectos contraditórios. 0
recalcamento traduz-se pela inversão do afecto: o desejo transforma-se em aversão
(exactamente como a ternura por R., no sonho «do meu amigo R.», revela o
recalcamento da agressividade).

0 problema da identificação é aqui abordado como específico do histérico. Dora


apresenta uma tosse histérica e uma afonia semelhantes às que o pai tivera quando
ela era criança. Há nela um conflito entre sentimentos de ternura pelo pai e uma
paixão (inconsciente) pelo sr. K., cuja mulher é amante do pai. A solução do conflito,
em proveito do sintoma neurótico, é a identificação com o pai (através dos sintomas
histéricos) e com a sr a K., a fim de possuir, ao mesmo tempo, o sr. K. (que é o
marido da sna K.) e o pai (que é o amante da sna K.).

A análise deste caso foi interrompida no fim de três meses, no momento em que
Dora decidiu romper com o sr. K. Só mais tarde Freud compreendeu o papel da
transferência nesta identidade entre a ruptura com o sr. K e a ruptura com Freud.
Dez anos após o fim deste tratamento, ele define assim a transferência: «Que são as
transferências? São novas edições, cópias das tendências e dos fantasmas que
devem ser despertados e tornados conscientes pelo progresso da análise e cujo
traço característico consiste em substituir uma pessoa anteriormente conhecida
pela pessoa do médico. Dito de outra maneira: um número considerável de estados
psíquicos anteriores revivem, já não como estados passados, mas como relações
actuais com a pessoa do médico.»

Deve sublinhar-se que, no caso Dora, o orgânico é definido pelo sexual. «Apenas a
terapêutica é unicamente psicológica: o fundamento orgânico da neurose é o da
função sexual.» 0 caso Dora apresenta-se, pois, como ponto de ligação entre os
Estudos sobre a Histeria e Os Três Ensaios (passando por A Interpretação dos
Sonhos).

Análise de uma fobia nilin rapazinho de 5 anos (o pequeno Hans)

Publicada em 1909, a análise do pequeno Hans apresenta-se como a demonstração


da realidade dos factos adiantados nos Três Ensaios (1905). Trata-se, com efeito, da
interpretação e da observação «in vivo» da neurose da

44
criança, da sexualidade infantil e do seu carácter «perverso polimorfo». Esta
análise apresenta, no entanto, a particularidade de não ter sido feita
directamente por Freud, mas sim por intermédio do pai do pequeno Hans,
que relatava escrupulosamente a Freud o resultado das conversas que tinha
com o filho.

Este último revelou-se como das pessoas mais dotadas para a análise; os
seus dons foram tanto mais apreciados por Freud quanto permitiram
corroborar os pontos mais contestados da sua doutrina. «Ah, o valente Hans!
Eu não podia desejar num adulto uma melhor compreensão da psicanálise.»

0 pequeno Hans tinha uma fobia dos cavalos, fobia que, durante a sua
análise, se apresentou sucessivamente como medo de ser mordido por
um cavalo, medo de que o cavalo caísse e medo dos carros por ele
puxados. Esta fobia apareceu por ocasião do nascimento de uma irmãzinha.
Tal nascimento reactivou consideravelmente o complexo de Édipo de Hans,
aumentando nele o desejo de posse da mãe e o ódio ao pai.

No complexo de Édipo do pequeno Hans inscreve-se a angústia da castração


(que é representada por este sintoma: o medo à mordedura do cavalo). Esta
angústia da castração repousava sobre uma ameaça real, feita pelos pais, de
wortar o pipi» de Hans se ele continuasse a masturbar-se, mas só podia
tornar-se efectiva se fosse confirmada pela constatação da ausência de pênis
na mãe. Este medo aliava-se ao risco de perder o amor da mãe, em razão da
ausência do órgão viril, pois só este permite possuí-la. 0 medo da queda do
cavalo diz respeito ao temor que suscitava em Hans a hostilidade ao pai e o
desejo de lhe tomar o lugar. Quanto ao carro, representava o ventre da mãe
e as crianças que lá se encontram. A hostilidade em relação à mãe, que
abandona Hans para se ocupar da irmãzinha, dirige-se também às crianças
contidas no ventre daquela e traduz-se por este medo dos carros que os
cavalos puxam.

Na exposição da análise do pequeno Hans, a angústia é apresentada de um


ponto de vista essencialmente económico.,«Na histeria de angústia, a libido,
desligada do material patogénico pelo recalcamento, não está,
efectivamente, convertida, mas é libertada sob forma de angústia.»

45
Todavia, a análise do pequeno Hans anuncia as futuras concepções de Freud acerca
da angústia, que farão luz sobre, precisamente, o complexo de castração e a
ameaça de perda de objecto. Na fobia, a angústia está localizada: a libido, de que a
angústia é a forma de expressão recalcada, está deslocada quanto ao respectivo
objecto: não é do pai ou da mãe que Hans tem medo, mas do cavalo e do carro. Isso
permite o mecanismo de defesa fundamental da fobia-a necessidade de evitar as
situações 1 e a fuga: Hans pode evitar o cavalo, mas não pode evitar os pais e, pelo
facto deste deslocamento, consegue continuar de boas relações com eles, o que
resolve o conflito de ambivalência.

A observação do caso de Hans, feita pelo pai e comunicada a Freud, terá mostrado,
além do mais, a precocidade da sexualidade do pequeno, a frequência das
brincadeiras sexuais com os camaradas e, ainda, a importância dos inquéritos e das
teorias sexuais (nomeadamente sobre o nascimento das crianças pelo ânus).

0 homem dos ratos

A análise do homem dos ratos começa por um estudo semiológico muito preciso da
sintomatologia da neurose obsessiva. Freud distingue nesta semiologia dois tipos de
ideias ou de actos que ao mesmo tempo parecem impor-se e opor-se. As ideias
obcecantes apresentam-se sob forma de apreensões, de obsessões-impulsões
(medo de praticar certos actos perigosos) ou de interdições. No pólo oposto, a luta
compulsiva contra estas ideias é realizada sob forma de dúvidas, de ordens
imperativas ou de interdições... Os sintomas obsessivos, diz Freud, «são formações
de compromisso entre as representações recalcantes e as representações
recalcadas». «Se desejo ver uma mulher nua, pensava o homem dos ratos, o meu
pai deve morrer.»
0 desejo inconsciente do homem dos ratos é efectivamente o de ver uma mulher
nua e, para garantir este desejo, é necessário que o pai morra, o que é objecto de
um outro desejo. 0 pensamento obsessivo é efectivamente formação de
compromisso entre o desejo de ver uma mulher nua e a interdição paternal - pois
que esta última se exprime no pensamento obsidiante -, mas, de facto, o temor
(como o desejo inconsciente da morte do pai) de ver seu pai

46
morrer impede a realização deste desejo e obriga a repelir esta ideia obsessora.

0 centro da análise do homem dos ratos é a análise da ambivalência em face do pai.


A satisfação sexual do homem dos ratos, seja a do auto-erotismo ou a da
heterossexualidade, só é possível pelo preço da morte do pai.
0 desejo de morte do pai encontra-se em conflito de ambivalência com a paixão
homossexual que ele sente pelo pai. Donde o nó inextricável dos seus sentimentos
contraditórios, que se traduzem por dúvidas obsessivas, podendo resultar numa
verdadeira abulia.

Do ponto de vista tópico, Freud mostrará que os sentim,entos hostis são recalcados,
enquanto os sentimentos amorosos são os únicos mantidos conscientes e são
reforçados para conservarem o ódio recalcado. Mas os sentimentos hostis tenderão
a manifestar-se sob forma de dúvidas sobre o amor ou de desejos compulsivos de
morte. «Daqui podemos concluir», diz Freud, «que os fenômenos de neurose seriam,
assim, determinados, de um lado, pela ternura consciente, reforçada reactivamente;
de outro, pelo sadismo, que se manifesta no inconsciente sob forma de ódio.»

É notável que a análise do homem dos ratos haja posto em evidência os fenômenos
de transferência e que Freud tenha sabido descobri-los e mesmo tirar deles proveito
para a condução da cura. Durante um longo período da sua análise, o homem dos
ratos punha-se a injuriar Freud, proferia ameaças, levantava-se para o afrontar; e
Freud foi capaz de reconduzir a actualidade desta atitude hostil para consigo à
história passada do ódio do homem dos ratos a seu pai.

Anotações psicanalíticas sobre a autobiografia

de um caso de paranóia: o presidente Schreber

0 estudo deste caso incide sobre a autobiografia que o presidente Schreber


escreveu sobre o seu próprio delírio, «para entregar o seu caso à ciência». Esta
autobiografia é extremamente densa e a interpretação que Freud dela faz é
demasiado rica para que possa ser resumida aqui. Focaremos somente os principais
conceitos psicanalíticos aplicados aos casos de psicoses. Convém, todavia, sublinhar
que, se Freud trabalhou sobre obras (literárias) foi porque

47
raramente tinha ocasião de se ocupar de psicóticos. De resto, ele iria mais tarde
colocar as psicoses fora do campo da prática terapêutica, na medida em que as
classificou dentro das neuroses narcísicas. Efectivamente, para Freud, os psicóticos,
isto é, os do@entes atingidos por neurose narcísica, mostram-se incapazes de fazer
uma transferência, ao contrário dos neuróticos. Os sentimentos que aqueles
-experimentam pelo seu terapeuta não podem ser referidos a origens infantis.

Algumas das ideias de Freud sobre a psicose são extraídas de Jung e de Abraham,
tais como, por exemplo, o desinvestimento do mundo exterior e o retorno ao ego do
psicótico, quer dizer, o reinvestimento narcísico. No caso Schreber, Freud define o
estádio do nareisismo do seguinte modo: «Este estádio consiste no seguinte: o
indivíduo em vias de desenvolvimento junta numa só unidade os seus instintos
sexuais-que até ali agiam de uma forma auto-erótica-a fim de conquistar um objecto
de amor, e a-paixona-se por si próprio, toma o seu próprio corpo por objecto de
amor, antes de passar à escolha objectal de unia pessoa diferente... A etapa
seguinte conduz à escolha de um objecto dotado de órgãos genitais idênticos aos
seus, ou seja, leva às escolhas homossexuais... Os paranóicos possuem uma fixação
ao estádio do narcisismo, podemos dizer que a sorna de regressão que caracteriza a
paranóia é medida pelo caminho que a libido deve percorrer para tomar da
homossexualidade sublimada ao narcisismo.»

No entanto, em Schreber, a realização delirante da homossexualidade foi precedida


de um estádio de perseguíção em que o mecanismo da projecção desempenha um
papel fundamental. A projecção é um mecanismo psicológico que permite resolver
(de maneira delirante) o conflito de ambivalência. 0 que nesta ambivalência se
reprime é o amor, constituindo o ódio uma forma (por inversão do afecto) de
recalcamento do amor. Mas quando intervém a projecção é no momento em que
este sentimento de ódio não é atribuído ao sujeito que o experimenta, mas ao
objecto do ódio. «0 mecanismo de formação dos sintomas na paranóia exige que as
percepções internas sejam substituídas por uma percepção vinda do exterior. Deste
modo a proposição «odeio-o» transforma-se nesta outra: «ele odeia-me (ou
persegue~me).» Assim, o senti-

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mento interno, que é o verdadeiro promotor, faz a sua aparição, em consequência
de uma percepção interior. «Eu não gosto dele, odeio-o, porque ele me persegue.»

* homem dos lobos

A análise do homem dos lobos apareceu em 1918. * sua importância «histórica» é


considerável por duas razões fundamentais. Esta psicanálise, ao fim de quatro anos de
tratamento, chega a uma cura precária. Sobrevém uma recaída, alguns anos mais tarde, sob
a forma de um episódio delirante, cuja análise, feita pela sr.a Brunschwick, manifesta as
sequelas de uma transferência mal liquidada em relação a Freud. Freud apaíxonou-se por
este caso até ao ponto de transgredir o pacto de neutralidade a que estava ligado
relativamente ao seu paciente: quando, depois da análise, este teve dificuldades financeiras,
Freud tentou arrranjar-lhe subsídios, a partir de fundos distribuídos por outros analistas, «em
reconhecimento pela importante contribuição do homem dos lobos para a causa da
Psicanálise».

Este reconhecimento de Freud para com o homem dos lobos não era inteira-mente
desinteressado: a análise de, homem dos lobos permite a Freud argumentar e mesmo pôr um
ponto final na polémica começada com Jung, havia muitos anos. É a razão por que teremos
oportunidade de voltar ao assunto.

Reteremos desta análise o lugar central em que nela é colocado o fantasma da cena
primitiva. A cena primitiva é a representação do acto de acasalamento dos pais, em que a
actividade do pai é geralmente figurada sob uma forma sádica em relação à mãe. Neste
sentido, a cena primitiva é a representação original do complexo de Édipo, pois que, nela, o
pai é figurado ao mesmo tempo como aquele que interdiz e que possui a mãe, e a criança,
espectadora e testemunha da cena primitiva, se situa, do mesmo passo, no interior e fora
dela, participando, por identificação, no acto de posse da mãe. A estrutura do fantasma da
cena primitiva é a de todo o fantasma. Como o sonho, o fantasma é a realização de um
desejo, mas, enquanto fantasma inconsciente, ele está mais perto do desejo e da pulsão: é a
figura metafórica deles. 0 acto
4 49
aqui posto em cena representa também a oposição das forças pulsianais. Fantasma
«originário», ele está no princípio de todos os sonhos e de todos os sintomas, que
representam as variações múltiplas e disfarçadas dele.
0 fantasma, ainda que produto imaginário, é uma «realida,de psíquica». Por
«realidade psíquica», Freud entende uma realidade interna, diferente da realidade
exterior, que a consciência e a percepção nos oferecem, e de que a força é a
impulsão consciente dada pela «moção pulsional», cujo fantasma é, como vimos,
simultaneamente o «representante representativo». A discussão que, no homem
dos lobos, se abre (e que constitui o cerne da discussão travada com Jung) diz
respeito à parte da realidade exterior na produção do fantasma: põe-se então a
questão de saber se o homem dos lobos assistiu verdadeiramente na infân- cia ao
acasalamento dos pais, se o fantasma se organiza à volta de traços mnésicos
obtidos da realidade da cena ou a partir de cenas equivalentes (acasalamento de
animais), ou mesmo se ele pertence à herança filogenética. Neste estádio da teoria
do fantasma, já não se trata de sedução nem de traumatismo. 0 fantasma está
directamente ligado com o desejo da criança e o seu «saber instintivo».

Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905)

A psicoterapia dos Estudos sobre a Histeria permitira pôr em evidência o papel da


lembrança patogénica: A Interpretação dos Sonhos exercera idêntica função no
concernente à realização do desejo e respectivas origens sexuais infantis; a análise
dos sintomas nas Cinco Psicanálises tivera papel semelhante quanto à importância
da sexualidade infantil e das suas transformações na gênese do sintoma. Os Três
Ensaios apresentam-se como o resultado das investigações da práxis analítica, a
sistematização delas e implicações teóricas. De facto, o empreendimento aparece
como inverso do precedentemente descrito. Tudo se passa como se, nos Três
Ensaios, Freud partisse da observação directa da sexualidade infantil e das suas
múltiplas variedades para dela e delas descrever em seguida as metamorfoses (a
neurose), o devir e a gênese (o que implica uma referê ncia normativa). Aliás, a
maneira como Freud define o seu modo de observação é rica de ensinamentos;
trata-se de uma descrição minuciosa e detalhada

50
das formas de perversões sexuais, sem preconceitos éticos nem médicos: as
perversões sexuais não são tidas na conta de degenerescências, mas encaradas
como dependendo do carácter perverso polimorfo da sexualidade infantil. E esta
observação objectiva leva a encarar a sexualidade da criança com toda a
neutralidade, não ficar espantado com ela e tirar daí as respectivas consequências.
A diferença entre o perverso, o neurosado e o «normal adulto» já não se situa ao
nível de uma grande @degenerescência ou da sua ausência, mas sim ao nível das
variações da evolução de uma sexualidade que, à partida, aparece comum e se
diferencia por um destino diferente ou uma involução.

A «ciência» da sexualidade determina-se ao nível deste offiar objectivo (e sem


preconceitos) e a teoria tor.na-se precisa ao nível da definição das fontes somáticas
da sexualidade: a pulsão e a libido. Os Três Ensaios rompem com o Esboço
(abaindona-se o modelo neurobiológico). 0 orgânico da neurose é o «sexual», a
«pulsão»; os elementos do capítulo VII de A Interpretação dos Sonhos aí se
encontram, retomando, no sentido de definir a pulsão, conceitos económicos e
dinâmicos, mas numa perspectiva genética. «Por pulsão designaremos o
representante psíquico de uma fonte contínua de excitações, provindo do interior,
que diferenciamos da excitação exterior e descontínua.» As pulsões definem-se
conceitualmente, mas também no plano da orientação e da sensação (do vivido)
«pelas origens somáticas e pelos objectivos». «A origem da pulsão encontra-se na
excitação de um órgão e o seu objectivo próximo é o apaziguamento de uma
determinada pulsão orgânica.» «0 efeito da excitação, fonte da pulsão, é, no plano
psíquico, a tensão e, no plano somático, a erecção e -a secreção vaginaL»

A líbido constitui !a «manifestação dinâmica, na vida psíquica, da pulsão sexual».


Nos Três Ensaios, a definiçã o é incerta, está especificada relativamente à
concepção de Jung, que a considera o conjunto da energia psíquica. Freud insiste
sobre a sua natureza sexual. Enquanto representante psíquico da moção pulsional
sexual, ela define-se pelos seus objectos: a libido de objecto é a libido que, fixada
sobre um objecto, obtém dele o apaziguamento da excitação ligada à pulsão (o
apaziguamento da fome através,do seio da mãe). A libido define-se como libido do

51
ego quando o objecto da libido é o ego e esse mesmo ego permite o apaziguamento
da excitação (auto-erotismo, masturbação).

Como vimos, os conceitos de pulsão e de libido são conceitos-limites: são, com


efeito, definições teóricas, baseadas na observação e na sensação. A existência
«teórica» delas encontra-se confirmada pela sua livre expressão na perversão, pelo
seu destino inibido no período de latência e na neurose.

A perversão sexual define-se em função do desvio relativamente ao fim e ao


objecto. Apresenta-se sob a forma de inversão sexual quando o objecto que permite
a satisfação pulsional é do mesmo sexo que o sujeito ou quando o sujeito se põe na
atitude inversa à do seu sexo (passiva se for um homem, activa se se tratar de uma
mulher). A origem pulsional pode ser também desviada, quando o primado da zona
genital é abandonado em proveito de outras zonas de excitação, tais como as
mucosas anal e bucal. Enfim, as pulsões parciais constituem formas directas e
indirectas quanto ao meio de provocar e de apaziguar a satisfação sexual, não
consistindo numa satisfação obtida pela excitação directa da mucosa genital: tais
são o exibi@cionismo, a escoptofilia * e o sado-masoquismo. A criança é descrita
por Freud como naturalmente «perversa-polimorfa» e podendo manifestar a sua
perversão de múltiplas maneiras. Entre estas diferentes formas de obter uma certa
satisfação sexual, situam-se as «pesquisas sexuais» da criança (ef. o pequeno Hans,
o homem dos lobos) que incidem sobre a diferença ou a identidade sexuais, o
nascimento dos bebés, as relações sexuais dos progenitores.

Se o exame da sexualidade da criança leva à abordagem directa da pulsão sexual, o


seu destino no período de latência e na neurose permite definir o ponto de vista
dinâmico daquela. A pulsão é uma energia, um movimento, uma «moção»; para se
definir e organizar, deve encontrar uma contraforça, uma repressão, que lhe dê
existência e consistência. 0 destino da sexualidade infantil é marcado por um recuo,
um adormecimento durante o período de
* Palavra de circulação restrita, que não entrou ainda na linguagem corrente. È, no entanto, a tradução
correcta de cvoyeurisme>. (N. do T.)

52
latência (desde cerca dos 5 anos até à puberdade). Freud fará notar que, se a
sexualidade infantil nunca tinha sido descrita ou observada, foi por ser, para todos,
objecto de um recalcamento, de uma amnésia da mesma natureza que a amnésia
do histérico em relação à lembrança patogénica. 0 período de latência, em que a
pulsão sexual se encontra inibida, estende-se desde o momento em que esta
amnésia começa a funcionar até àquele outro, na puberdade, em que as pulsões
sexuais começarão a manifestar-se com ainjunção que se,conhece.

A neurose é um outro meio de recalcar a sexualidade e, ao mesmo tempo, de obter,


através do sintoma, uma satisfação substitutiva. Quando Freud define a neurose
como o «negativo da perversão», está a implicar na definição que o sintoma
neurótico é, ao mesmo tempo, uma perversão sexual (dá uma satisfação desviada)
e uma inibição da perversão (polimorfa) da criança. «Os sintomas neuróticos estão
fundados, por um lado, sobre as exigências das pulsões libidinais e, por outro, sobre
a oposição do ego, que lhes contrapõe uma sanção. 0 sintoma neurótico confirma-
se então «como solução de compromisso entre o impulso da pulsão sexual e a
aversão sexual.» (Relatório do vómito histérico e do desejo de «fellatio»: cf. o caso
Dora).

A segunda parte dos Três Ensaios sobre a Sexualidade propõe uma gênese da
evolução da sexualidade. Ela permite, em primeiro lugar, distinguir a sexualidade
genital da sexualidade pré-genital. Na puberdade, a sexualidade toma o seu sentido
genital, «ia pulsão sexual põe-se agora ao serviço da função reprodutora; torna-se,
por assim dizer, altruísta». Ela define-se, portanto, em função do primado conferido
à zona genital e à sua função, enquanto a sexualidade pré-genital se define em
função de outras fontes pulsionais (mucosa anal, mucosa oral, pulsões parciais).

Esta distinção será, em seguida, retomada e sistematizada nomeadamente por Karl


Abraham, que definirá os estádios segundo a predominância da origem da pulsão
apresentada: estádio oral, estádio anal, estádio genital-e tentará precisar a
articulação e a evolução deles, o seu desenvolvimento.

53
A introdução à Psicanálise Genética que os Três Ensaios constituem enriquece-se
com um primeiro estudo do desenvolvimento da «relação de objecto». Nele, Freud
desenvolve com rigor o primeiro modeloda. relaçã o amorosa, que é a do bebé ao
peito da mãe. «Na época em que a satisfação sexual estava ligada à absorção de
alimentos, a pulsão encontrava o seu objecto no exterior, na sucção do seio da mãe.
Este objecto foi ulteriormente perdido, talvez precisamente no momento em que a
criança se tomou capaz de ver no seu conjunto a pessoa a que pertencia o órgão
que lhe proporcionava uma satisfação. A pulsão sexual é desde então auto-erótica e
só depois de ter passado o período de latência é que a relação original se
restabelece. Não foi por acaso que a imagem da criança ao colo da mãe se tornou o
protótipo da relação amorosa.» Encontrar o objecto sexual é, em suma e apenas,
reencontrá-lo. Ao mesmo tempo que descobre o objecto -e este é uma pessoa
inteira (não um objecto parcial) -a criança descobre que pertence a um outro: é aqui
que intervém a barreira do incesto e a organização do complexo de Édipo.

Totem e Tabu (1913)

De todos os seus livros, Totem e Tabu era o preferido por Freud. A primeira vista,
esta obra aparece como uma «aplicação da Psicanálise» ao campo da Etnologia, e
esse era o desejo de Freud. Mas o inverso também é verdadeiro: o livro é a
utilização dos dados da Etnologia para a demonstração da verdade analítica e
nomeadamente da existência do complexo de Êdipo. É este segundo aspecto da
obra que desenvolveremos agora, reservando para mais tarde a consideração do
lugar histórico de Totem e Tabu na orientação posterior da obra freudiana. É de
notar, aliás, que Freud procura antes utilizar os documentos etnográficos dados a
conhecer pelos etnólogos da época do que fazer a crítica dos trabalhos deles.

Neste sentido, Totem e Tabu aproxima-se das obras clínicas de Freud (A


Interpretação dos Sonhos, As Cinco Psicanálises) e diferencia-se dos trabalhos
precedentes de outros psicanalistas (Karl Abrahiam, Otto Rank) que se contentaram
com a interpretação de certos mitos, em função de dados psicanalíticos já
estabelecidos. Se em

54
Totem e Tabu existe interpretação, ela repousa sobre uma relação ou mesmo uma
identidade puramente analógica da criança,do neurosado edo primitivo entre si.
Esta analogia encontramo-la em dois níveis: o do comportamento, do acto e do
ritual, do sintoma obsessivo; e o do complexo de Édipo e das duas proibições que
ele implica: o incesto e o assassínio do pai. Aliás, convém notar que quando, pela
primeira vez, Freud aborda a história de Édipo não é por lá ver figurar claramente a
realização do incesto e do assassínio do pai, mas para comparar a descoberta por
Édipo do seu crime àquilo que acontece na análise: «É ,como uma psicanálise.» A
comparação entre a psicologia dos povos primitivos e a do neurosado vai até à
transposição de vocabulário: o selvagem é apresentado como «ol>ceeado por um
receio excessivamente pronunciado do incesto», fala da sua «fobia» do incesto. E
todas as prescrições, proibições e rituais destinados a reforçar a «proibição do
incesto» são comDar-ados aos rituais do neurosado e aos seus pensamentos
obsidiantes.

«0 tabu e a ambivalência dos senthnentos» assinalam, de modo convincente, o laço


inextricável entre o desejo e o proibido, tal como se organizam no complexo de
Édipo. 0 duplo sentido da palavra «tabu» - sagrado e impuro - implica a
configuração contraditória do desejo pela mãe e da sua proibição, do desejo de
matar o pai e da sua proibição. 0 tabu do contacto implica dois sentidos: a
interdição de tocar, isto é, de possuir sexualmente a mãe; a interdição do acto
agressivo, ou seja, de matar o pai. A propósito do tabu, Freud introduz, pela
primeira vez, o sentimento de culpabilidade, a que chama, nessa ,altura, «angústia
moral». Se o neurosado obsessivo sofre de escrúpulos de consciência moral, é
porque está, no mais alto grau, absorvido pelo seu desejo de incesto, e porque a
sua «religião privada» lhe permite reprimir o desejo, continuando fixado a ele.
Diferencia-se assim do homem normal, que pode investir as «formações sociais»,
renunciando às satisfaçõ es sexuais infantis e sublimando-as numa actividade mais
altruísta.

Totem e Tabu introduz ou completa as noções fundamentaisque desenvolveremos


ulteriormente: o nareisismo, na sua relação com o poder supremo do pensamento e
do desejo; a ambivalência frente ao pai, que é figurado pelo mito da horda primitiva
e da refeição totémica. Esta ambi-

55
valência repousa sobre o desejo de morte do pai e da eliminação do rival, o desejo
de possuir, de incorporar o seu poder supremo. Veremos o sentido posterior que, a
partir deste mito, Freud vai dar à configuração do complexo de Édipo.

«No princípio era o acto» - é com estas palavras que Freud termina Totem e Tabu. A
comparação entre o neurosado -e o primitivo completa-se pela notação, nela, de
uma diferença fundamental. «0 primitivo não conhece entraves à acção: as suas
ideias transformam-se imediatamente em actos, de tal maneira que até se poderia
dizer que, nele, o acto substitui a ideia.» «No neurosado, a acção encontra-se
completamente substituída e totalmente inibida pela ideia.» E, a propósito do
neurosado, Freud retoma a @problemática exposta em « 0 Homem dos Lobos», a
respeito do fantasma. «0 sentimento de responsabilidade do neurosado repousa
sobre realidades psíquicas e não sobre realidades materiais. A neurose assenta em
atribuir à realidade psíquica prioridade sobre a realidade de facto, e em reagir à
acção das ideias com a mesma seriedade com que os seres normais reagem
perante as realidades.» Em seguida, Freud retorna a esta primeira asserção e
completa a realidade psíquica com a realidade histórica. «Na infância, os homens só
experimentaram impulsos maus e, na medida em que as suas ressonâncias infantis
lhes permitiam isso, mais de uma vez traduziram estes impulsos em actos.»

A MetapsIcologia,

Os problemas respeitantes à realidade do aconteeimento ou ao imaginário da


recordação da cena primitiva, no homem dos lobos, e os que se referem às origens
puramente psíquicas da «realidade psíquica» ou à funçã o dos traços de acto
(Totem e Tabu) decorrem da preocupação constante de fundar a Psicanálise e as
respectivas descobertas em bases científicas: a hipótese teórica e a interpretação
devem ser confirmadas pelos factos clínicos observados. No início, já vimos, à
observação clínica situava-se a um duplo nível: por um lado, o do traumatismo, da
recordação patogénica, da sedução -representados todos por traços mnésicos cuja
realidade histórica não era posta em causa; por outro, o da neurobiologia

56
numa interpretação dinâmica, tal como a encontramos no Esboço. Embora, de
seguida, tanto em A Interpretaçã o dos Sonhos como em A Metapsicologia, a
utilização da neurobiologia seja abandonada em proveito do ponto de vista
económico e dinâmico que fundamenta a teoria da energia psíquica, nem por isso
Freud deixará de continuar a procurar a verdade histórica do fantasma ou da
«realidade psíquica» inconsciente. É um deslocamento do local de observação: a
observação já não é feita com o microscópio (mesmo fantasmático) que examina as
reacções da célula nervosa, antes se situa ao nível da realidade do traço mnésico,
tornado apreensível, legível através da interpretação psíquica e dos seus efeitos
reveladores. Mas a interrogação científica, de facto, subsiste e diz respeito tanto à
verdade da «realidade psíquica» como à realidade do traço mnésico. A lição da cena
de sedução, pondo em dúvida a veracidade do traço, é esta: a realidade psíquica
não será nunca provada por uma observação directa, sobretudo enquanto
percepção endopsíquica. A metapsicologia constitui a substituição teórica dela.

A metapsicologia é a teoria do inconsciente, ou seja, daquilo que está para além da


consciência-e da psicologia (na medida em que uma e outra estavam, até Freud,
sempre ligadas). Ela considera três pontos de vista: económico, dinâmico e tópico.
Estes três pontos de vista constituem três maneiras de apreender a «realidade
psíquica», a qual, na clínica da neurose, ou no discurso associativo da cura analítica,
se apresenta com os seus dois componentes fundamentais: a imago (que é o
conteúdo da cena do fantasma ou do sonho, a figura ou o conteúdo «ideático» 8 do
sintoma) e a força psíquica que a subentende: seja ele o sintoma f óbico (o medo do
pequeno Hans aos cavalos; o medo ao lobo, do homem dos lobos) ou o sintoma
obsessivo, qualquer deles se apresenta com a sua carga afectiva sob a forma de
angústia e os actos de defesa que lhe estão ligados (a fuga, no que respeita à
fobia, e o ritual compulsivo, quanto à neurose obsessiva).

Esta teoria do inconsciente responde, ponto por ponto, à práxis e à relação entre a
interpretação e o discurso da análise e a maneira como a interpretação é
recebida pelo analisado. É deste modo que Freud a indica no próprio texto da sua
obra sobre a rnetapsicologia. A interpretação do psicanalista é nela apresentada
como uma

57
hipótese (científica) sob a forma de uma proposição do fantasma inconsciente ou da
recordação, hipótese construíd,a a partir das associações da análise e do
entrecruzamento delas. Esta interpretação é apreendida 1 como representação
acústica que pode ser captada em dois sentidos, ou seja: escutada e compreendida,
mas compreendida no plano lógico. Há então identidade entre a interpretação dada
pelo analista e o entendimento que dela tem o analisado relativamente ao seu
discurso. Mas isso não basta: poderia tratar-se simplesmente de um entendimento
intelectual; a supressão do recalcamento «não intervém antes de a representação
consciente ter entrado em ligação com os traços mnésicos inconscientes, depois de
superadas as resistências. Só quando aqueles se tornarem conscientes é -que o
sucesso se alcança». Freud acrescenta o seguinte, que é fundamental e -que s.e
reconcilia com o princípio de ab-reacção: «Ter -apreendido 1 e ter vivido são duas
coisas de naturezas psicológicas inteiramente diferentes, ainda que possuam
conteúdo idêntico.» 0 «vivido» corresponde à percepção endopsíquica, à sensação
de excitação de força e de contraforça; o «apreendido» 1 corresponde ao
entendimento intelectual da interpretação. Numa primeira abordagem, o vivido
corresponde aos pontos de vista económico e dinâmico (que se confundem aqui
com a rememoração da recordação patogénica e do traço mnésico); o apreendido
respeita ao ponto de vista tópico. De facto, veremos que os três pontos de vista
estão estritamente correlacionados, pois que é a relação da quantidade de energia,
e daquilo que se lhe opõe, com a representação a ela ligada que, num registo
dinâmico, evidencia os diferentes tipos de passagem do sistema inconsciente ao
sistema pré-consciente-consciente. Reeiprocamente, é o ponto de vista tópico que
confere intelegibilidade às especulações e às hipóteses dos pontos de vista
dinâmico e económico, e transforma os respectivos conceitos em factos de
observação articuláveis. Na metapsicologia, Freud defende a necessidade e a
legitimidade da hipótese do inconsciente: a necessidade -atinge o 1'àváyxn, mas
também a força endopsíquica, o ponto de vista económico e dinâmico; há uma
lógica destes dois pontos de vista que defende que uma pulsão só pode definir-se
(ou mesmo sentir-se) como tal se existir uma contrapulsão. A legitimidade implica o
cuidado de coerência lógica da relação

58
entre -consciente e inconsciente; é apresentada pelo ponto de vista tópico. Freud
dirá que, se existem actos incoerentes e incompreensíveis para a consciência em
sentido estrito, «eles ordenar-se-ão num conjunto de que pode mostrar-se a
coerência, desde que interpolemos actos inconscientes inferidos. Ora, encontramos
neste ganho de sentido e de coerência uma razão plenamente justificada para
passar além da experiência imediata».

0 ponto de vista económico

0 ponto de vista económico faz intervir a quantidade na «realidade psíquica». 0


ponto de partida desta energia é a pulsão, cuja definição, que Freud nos dava nos
Três Ensaios, será conveniente recordar: «Por pulsão designamos o representante
psíquico de uma fonte contínua de excitação, proveniente do interior do organismo,
e que diferençamos da excitação exterior e descontínua. A pulsão está, pois, no
limite dos domínios psíquico e físico.» Num outro texto, Freud acrescentará mesmo
que a «pulsão» é um ser mítico, o que, de resto, condiz perfeitamente com o
tratamento dado à metapsicologia de «fei-ticeira». (E, de passagem, notar-se-á o
caminho percorrido pelo homem de ciência Freud: num primeiro tempo, devolver à
histeria as suas origens demonomaníacas; de seguida, desmistificá-la, para, enfim,
lhe instaurar uma base científica a partir de conceitos «míticos», sobre o pano de
fundo de uma feitiçaria metapsic<ylógica.)

Na realidade, o que dá ao conceito de pulsão o valor e a fecundidade que ele tem


deriva não apenas da res-

pectiva definição mas também da sua função em referência com o seu objectivo, a
sua origem, o seu «destino» e a relação dela com a excitação. A pulsão está ligada
à excitação, «seria uma excitação para o psíquico». Ela vem do Interior e é uma
fonte contínua de excitação, ela está ligada ao princípio do prazer-desprazer: o
aumento de excitação provoca o desprazer; o fim da excitação é acompanhado de
prazer. A finalidade da pulsão é a satisfação que põe fim à excitação. 0 objecto da
pulsão é «aquilo através de que a pulsão pode atingir a sua finalidade (por exemplo,
o seio da mãe que esgota a excitação oral provocada pela fome)». A fonte da pulsão
é o processo somático que está localizado num órgão e cuja excitação

59
é representada, na vida psíquica, pela pulsão... 0 Impulso da pulsão mede a sua
«exigência de trabalho».

A pulsão é essencialmente conhecida pela sua representação. (Muito


esquematicamente, pode-se, através de um exemplo, tentar definir o que é a
representação da pulsão. A pulsão sádica do pequeno Hans contra o pai é
representada pela queda do cavalo, que simboliza ao mesmo tempo a queda do pai
e o próprio movimento do efeito da pulsão. 0 lobo, na análise do homem dos lobos,
é não apenas figura substitutiva do pai mas também «representante
representativo» do sadismo oral.) . 0 destino da pulsão é também aquilo que
permite definir os aspectos económicos e dinâmicos dela: eles aparecem, com
efeito, como oposições de força que dã o à pulsão o seu carácter impulsivo (,como o
impulso de um foguetão que se opõe ao contra-impulso da atracçã o terrestre).

Freud apresentará diferentes destinos que vem parcialmente de encontro às


descrições das perversões dos Três Ensaios, mas segundo uma perspectiva
dinâmica. É o «retorno ao seu contrário», tal como o vemos nos « pares
contrastados»: amor-ódio; exibicionismo-escoptofilía; sãdismo-masoq,uismo.

Os dois últimos pares constituem um outro destino das pulsões: o retorno sobre a
própria pessoa. 0 masoquismo é o retorno do sadismo (praticado em outrem) sobre
o próprio corpo. 0 exibicionismo é o retorno do olhar fixado no sexo de outrem
sobre o seu próprio sexo (escoptofilia).

o recalcamento

o recalcamento constitui um dos destinos da pulsão (ou, mais precisamente, do seu


representante) do homem normal e do neurosado. Tende a tornar ineficaz a moção
pulsional. 0 recalcamento na neurose está ligado ao principio de prazer. Mais
precisamente, intervém -quando a satisfação pulsional pode ser transformada em
desprazer (quando esta satisfação se encontraem. oposição à vontade do ego). Por
exemplo, a pulsão homossexual do homem dos lobos pelo pai é recalcada porque
entra em conflito com a ameaça de castração.

60
Freud metaforiza do seguinte modo o funcionamento do xecalcamento:
- «Ilustrarei através de uma comparação grosseira o processo do recalcamento e a
sua relação necessária com a resistência. Suponhamos que na sala de conferência,
-entre o meu auditório calmo e atento, se encontra um indivíduo que se -conduz de
maneira -a incomodar-me e que me perturba com risos inconvenientes, com o seu
falatório ou batendo os pés. Eu declararei que não posso continuar a falar nessas
condições; então, alguns auditores levantar-se-ão e, após breve luta, porão o
personagem fora da sala. Ele será ‘recalcado’ e eu poderei continuar a minha
conferência. Mas, para que a perturbação não volte a produzir-se, no caso de o
expulso tentar reentrar na sala, as pessoas que tinham vindo em meu auxílio irão
encostar as suas cadeiras à porta e formar assim uma espécie de ‘resistência’. Se
agora transportarmos os acontecimentos do nosso exemplo para o plano psíquico,
se fizermos da sala de conferências o consciente e do vestíbulo o inconsciente,
teremos uma boa imagem do recalcamento.»

Relação dos pontos de vista económico e dinâmico

com o ponto de vista tópico

0 estudo do recalcamento permite, com efeito, precisar a articulação dos três


pontos de vista, na medida em que, como Freud o indica, o recalcamento é
constitutivo da relação consciente-inconsciente. É também o recalcamento que nos
leva a diferenciar, no interior do sistema inconsciente, um outro sistema-o pré-
consciente. « 0 recalcado é uma parte do inconsciente, mas não constitui todo o
inconsciente.» No aparelho da alma, o pré-consciente situar-se-ia então entre o
inconsciente e o consciente. Hipoteticamente, ele apresenta-se como um
reservatório de representações, susceptíveis de se tornarem conscientes, ou
inconscientes quando se encontram sob a acção do recalcamento. A consciência
apresenta-se como uma actividade limitada que extrai o essencial dos seus
pensamentos, das suas ideias e das suas imagens do pré-consciente, que é um
inconsciente provisório, susceptível de se tornar consciente. A memória, a
reminiscência, vão buscar ao pré-consciente o essencial do seu material mné-

61
sico. A amnésia é, pelo contrário, o efeito do recalcamento que impede a
rememoração de uma recordação patogénica na histeria, assim como explica certos
«esquecimentos», ou mesmo actos falhados. Neste caso, o material pré-consciente
foi absorvido pelo recalcamento e tornou-se inconsciente.

Os conceitos de investimento, de desinvestimento e de contra-investimento


permitem integrar melhor os pontos de vista económico e dinâmico na primeira
tópica. Estes conceitos são retirados do vocabulário financeiro e militar. Uma
representação é investida da mesma maneira que um capital ou uma praça-forte. A
noção de investimento, consequência da de recalcamento, aplica-se, pois, às
representações e aos afectos que lhes estã o ligados. 0 recalcamento primário
constitui uma forma primitiva de investimento inconsciente que vai tentar atrair
sobre si (no inconsciente) as representações que lhe estão ligadas (por exemplo, a
fixação homossexual do homem dos lobos ao pai). 0 desinvestimento é uma forma
secundária de recalcamento: o que é investido no inconsciente pode ser
desinvestido no sistema pré-consciente-consciente. Este desinvestimento pode ser
completado por um contra-investimento que reforça o recalcamento do
investimento primário e desloca a energia de investimento sobre uma «formação de
substituto» que, por sua vez, é contra-investida.

«Esta formação de substituto» é o sintoma: no exemplo do homem,dos lobos, o


investimento homossexual primário do pai é desinvestido no sistema pré-
consciente-consciente e contra-investido sob a formação de substituto que o lobo -e
o medo do lobo constituem. Na neurose de tipo obsessivo, a formação de reacção é
uma forma de contra-investimento, como vimos na -análise do homem dos ratos,
em que o amor é contra-investido para melhor manter recalcados a agressividade e
o ódio. 0 afecto pode ter um destino equivalente ao contra-investimento quando a
pulsão recalcada se transforma em angústia (histeria de angústia), ou em
sentimento de culpa, ou ainda quando o afecto se «somatiza» na histeria de
conservação. Assim, através das noções de investimento e de contra-investimento,
os pontos de vista económico e dinâmico definem-se sob a forma de oposição de
forçae de deslocamento de energia ao longo dos diferentes sistemas tópicos.

62
Legithnidade do Inconsciente

Existe, com efeito, uma lógica do inconsciente ao nível das suas relações com o
consciente. «Produzem-se actos psíquicos que para serem explicados pressupõem
outros actos que, por seu lado, não beneficiam do testemunho da COnsciência.»
Trata-se de lacunas e de passos em falso da consciência: os actos falhados, os
sonhos, os sintomas psíquicos e os fenômenos de ordem compulsional, «as ideias
sem origem», «os pensamentos de elaboração subterrânea», os «lapsus linguae»,
erros de memória e de palavras, os esquecimentos de nome. A interpretação dessas
lacunas da consciência dá a estes actos falhados e a estes absurdos da consciência
uma coerência e um «ganhar de sentido». São numerosos os exemplos clínicos, em
As Cinco Psicanálises ou em A Interpretação dos Sonhos. Note-se, aliás, que o
sintoma remete para uma significação inconsciente, que é da ordem do conflito (o
medo do lobo remete para o desejo homossexual pelo pai que entra em conflito
com a ameaça de castração; o conflito reata a contradição existente entre o desejo
de possuir o pênis do pai e os riscos para o homem dos lobos de perder o seu).

0 exemplo do dito espirituoso é da mesma maneira convincente quando se


apresenta sob a forma de elipse. Pode assim citar-se esta história humorística
referida por Freud:

Conta-s-e que dois comerciantes pouco escrupulosos, tendo conseguido adquirir


uma grande fortuna por meio de especulações não muito honestas, esforçavam-se
por ser admitidos em sociedade. Pareceu-lhes entã o útil mandar f azer os seus
retratos a um pintor muito célebre e muito caro. Os dois especuladores deram uma
grande festa a fim de expor -esses quadros valiosos à admiração dos convidados, e
eles mesmos conduziram um crítico de arte influente diante da parede do salão
onde os retratos estavam suspensos lado a lado. 0 crítico considerou longamente os
dois quadros, depois abanou a cabeça como se faltasse qualquer coisa e limitou-se
a (perguntar apontando para o espaço livre entre os dois quadros: «Onde está o
Cristo?» Com esta pergunta o crítico de arte aludia à presença dos dois ladrões
junto ia Cristo, no momento da crucificação. Esta -alusão é evitada, a pergunta
sugere-a, mas de tal maneira que a comparação dos dois

63
especuladores com os dois gatunos não é directamente evocada; é a ausência de
Cristo que é sublinhada e implica por dedução a presença dos dois ladrões que são
representados pelos quadros dos dois especuladores.
0 crítico de arte fala como aquele bobo que ao rei tudo pode dizer, desde que o f
aça com espírito e que, pela forma como diga, não possa colocar directamente o rei
sob acusação. Para o rei bastará, não deter-se sobre o conteúdo do que diz o seu
bobo, mas ouvi-lo e reconhecer-lhe o espírito. Assim pode f alar o inconsciente,
como um bobo a quem se deixa dizer tudo desde que a crítica seja alusiva e que os
seus ditos sejam considerados «divertidos». A feiticeira metapsicológica é como o
bobo do rei, torna inteligíveis e coerentes os desregramentos de um ego que se
queira racional; a feiticeira é temida, escutada nunca.

A legitimidade do inconsciente é também o conjunto das leis que o regem, leis que
se definem como antinómicas às da consciência. 0 inconsciente é o lugar do
processo primário, o lugar onde se dá livremente saída às pulsões, onde a energia
não está ligada. «0 núcleo inconsciente é constituído por representantes da pulsão
que querem dar saída ao seu investimento, portanto por moções de desejo. Estas
moções de ordem pulsional estão ligadas umas às outras, persistem umas ao lado
das outras, sem se influenciar reciprocamente e sem se contradizerem.» Não há
nem negação, nem dúvida, nem contradição. «A negação é um substituto do
recalcamento.»

0 inconsciente está submetido ao princípio de prazer e não ao de realidade.


Contrariamente ao inconsciente, o sistema pré-consciente-consciente caracteriza-se
por uma inibição da tendência para a descarga das representações investidase pela
tendência para a fixação da energia, que é -aí travada. Existe comunicação entre
os,conteúdos de representação, influência recíproca e ordenação temporal. É ao seu
nível que funciona a censura, e está submetido ao principio de realidade. De facto,
veremos que estas oposições de funcionamento entre o sistema pré-consciente-
consciente e inconsciente são mais claramente definidas na segunda tópica.

64
IV

1915-1939 RUPTURA COM JUNG A DUALIDADE DOS INSTINTOS

A SEGUNDA TóPICA

0 aparecimento, em 1915, do conjunto dos artigos que constituem A Metapsicologia


não é estranho à evolução do movimento psicanalítico. Esse conjunto de artigos
pode ser considerado como uma espécie de «mise au point», de condensado teórico
que precisa com rigor os dados conceptuais fundamentais da Psicanálise e as suas
relações com a práxis. Enquanto demonstrada «,cientificamente» e confirmada
pelas observações clínicas, a metapsicologia aparece como o modelo mais completo
do aparelho psíquico da alma.

A data do seu aparecimento, 1915, no momento da ruptura definitiva com Jung,


confere a esta obra um valor dogmático: as verdades primeiras da Psicanálise estão
nela reunidas como se a sua publicação se destinasse a ligar os fiéis à doutrina.

Em 1915, já o desenvolvimento da Psicanálise se confirmou, porém as críticas e as


controvérsias não cessam. Os meios oficiais da Medicina não desarmam e
continuam a -expulsar a Psicanálise da sua ciência. A Psicanálise é não só
considerada como não científica mas ainda condenada como imoral. A penetração
na vida íntima dos pacientes choca os defensores sectários do segredo médico; a
importância dada à sexualidade infantil escandaliza os censores de uma moral
convencional ou religiosa, que pretendiam que o filho do homem e a sua natureza
fossem inocentes. E, hipocritamente, em nome da ciência, rejeita-se a etiologia
sexual das neuroses.

5 65
Essas controvérsias mostraram o seu carácter de «resistência à Psicanálise»
quando, ultrapassando o tom racional e «razoável» que convém aos defensores do
pensamento científico e da moral, atingiram a violência e a imoderação da paixão, a
que se juntaram as falsas racionalizações do anti-semitismo de que Freud e os seus
discípulos foram objecto. Os ataques vindos de fora da Psicanálise não afectaram
em nada a serenidade com que Freud continuou a praticar a análise e a investigar.
É, aliás, notável constatar o respeito manifestado por Freud, na sua obra, às críticas,
pelo menos às mais sinceras, que lhe eram feitas; e a paciência com que tentava
convencer os adversários era igual àquela com que procurava vencer as
resistências dos seus doentes.

Freud foi muito mais sensível às dissensões interiores que ameaçavam a própria
coesão do movimento psicanalítico. Sabia melhor do que ninguém ser possível
opormo-nos com relativa eficácia às agressões vindas do exterior; são mesmo essas
agressões que asseguram, porque a tornam necessária, a coesão interior dum
grupo. Mas contra os inimigos vindos do interior só há duas atitudes: o
recalcamento, isto é, fazer de conta que eles não existiam, ou a rejeição. Ora, com
AdIer primeiro e depois com Jung, não era possível «fazer de conta que eles não
existiam». As posições destes últimos no seio do movimento psicanalítico não eram
apenas motivadas por convicções ou especulações teóricas mas também pela
vontade e necessidade íntima de se diferenciarem, de se afirmarem em relação à
personalidade do fundador da Psicanálise.

«Pensa que me é muito agradável vegetar toda a vida na sua sombra?», confessou
Affier uma vez a Fread. As suas teorias sobre «a afirmação viril», «a afirmação do
eu», eram também, certamente, o reflexo das posiçõ es pessoais de AdIer em
relação a Freud. Não foi AdIer quem fundou, depois da sua ruptura com Freud
(1911), uma «sociedade para a psicanálise livre»? Esse desejo de «liberdade» de
AdIer em relação ao seu mestre compreendia-o Freud muito bem: «Não acho nada
condenável que um jovem confesse abertamente a sua ambição, que os seus
trabalhos deixavam já adivinhar. Mas por muito ambicioso que se seja nada justifica
que nos tornemos aquilo a que os Ingleses chamam ‘unfair'.» Freud censurava a
AdIer

66
pretender atribuir-se a paternidade de um certo número de descobertas da
Psicanálise. Affier não só não as tinha dado à luz como as tinha desfigurado. A teoria
da afirmação do eu não atribuía nenhuma importância ao complexo de castração e
ao complexo de Édipo. Essa «afirmação» era postulada em detrimento da
sexualidade.

De resto é notável que Freud, ao longo de todo o seu itinerário psicanalítico e


científico, tivesse sempre junto de si o seu «bobo». Primeiro Fliess e as suas ideias
esotéricas sobre os períodos da bissexualidade, em seguida Jung e as suas crenças
espiritistas e, por fim, Sandor Ferenezi, o discípulo fiel e bem-amado, que soube
interessar Freud pelas suas ideias tão originais quanto imaginativas. Ao espiritismo
de Jung, Freud opunha as verdades e os métodos da ciência, mas não era por isso
menos sensível às demonstrações de Jung, ainda que fosse para as refutar
cientificamente. É de resto nisso que reside a diferença entre a obra de Jung e a de
Freud, a primeira constituída por um conjunto de ideias e teorias muito
interessantes mas nunca demonstradas e a de Freud baseada não só num certo
número de intuições fundamentais mas também numa teoria (como a
metapsicologia) que permite assegurar a coerência, a demonstração e o domínio
das descobertas da Psicanálise. Ela permitia também uma divulgação muito mais
lata dessas descobertas, tomando em consideração os dados de uma técnica mais
bern codificada.

Em 1915 é a data oficial da ruptura com Jung. Anunclava-se ja muito antes e teve
uma repercussão durável: no plano histórico, depois dessa ruptura, Freud escreveu
A História do Movimento Psicanalitico, sob a forma de um balanço que permitia
avaliar a extensão do movimento psicanalítico e também distingui-lo das
«heresias», como as de Affier e Jung. No plano teórico revelar-se-á de forma
indubitável que a teoria sobre a dualidade dos instintos de vida e de morte e a da
segunda tópica tCm como ponto de partida a crítica às posições de Jung. Já em
1913, na introdução de Totem e Tabu, Freud critica «a escola psicanalítica de
Zurique, que procura explicar a psicologia individual a partir de dados da psicologia
colectiva». To- tem e Tabu traz as luzes da psicanálise definida como psicologia
individual, para esclarecer «os fenó=nos ainda obscuros da psicologia colectiva».
Assim se anuncia a

67
psicologia do ego e a segunda tópica. Em 1914, num artigo consagrado ao
narcisismo, Freud defende a dualidade dos instintos contra a unicidade defendida
por Jung. Mas a crítica fundamental que Freud fará à obra de Jung refere-se ao valor
essencialmente teórico que este queria conferir ao complexo de Édipo. Longe de
fazer dos «interesses morais e religiosos» do homem uma das consequências ou
uma sublimação do complexo de Édipo, Jung considerava esse complexo a
«expressão das tendências morais e religiosas que, segundo ele, faziam parte dos
arquétipos do «inconsciente colectivo». Freud rejeita categoricamente esta posiçã o
e defende a realidade factual e a «realidade psíquica» do complexo de Édipo.
Compreendemos assim melhor o interesse de Freud pela análise do homem--lobo e
o reconhecimento oficial com que ele gratificou o seu paciente: idescobrir a
realidade factual da cena primitiva na história do homem-lobo permitia-lhe
fundamentar o complexo de Édipo numa realidade vivida, esquecida e depois
rememorada; o complexo de Édipo era mais do que um símbolo, mais que uma
realidade psíquica, era uma realidade histórica. Parecendo este argumento
irrefutável, contra as posições defendidas por Jung, Freud não se coibiu de o utilizar
até ao ponto de perder a sua neutralidade e a sua objectividade.

As relações entre os psicanalistas são complexas. A personalidade de cada um


nunca se apaga totalmente por detrás da ciência. Um a um, são condicionados pela
prática que exercem e pela teoria que defendem. Cada psicana@, lista, para exercer
a sua arte, foi analisado por um dos seus colegas e continua a sua auto-análise. As
intenções de objectividade da ciência psicanalítica misturam-se necessariamente a
paixão e a subjectividade que implicam as relações pessoais entre psicanalistas.
Intervêm então a admiração amorosa de um psicanalista por outro, dos
psicanalistas por Freud, e também as relações de rivalidade (como as de Abraham e
Jung em relação a Freud), as precedências pessoais que levam cada autor a
considerar-se o criador de tal teoria ou conceito e a atribuir-se a sua -exclusiva
paternidade. Freud recusou-se sempre a impor a sua lei no seio do movimento
psicanalítico; contentou-se em manifestar a sua autoridade moral e o seu gênio,
sem intervir pessoalmente para fazer regressar ao bom caminho os dissidentes. Não
era por isso menos sen-

68
sível às deserçõe-s, sobretudo quando se tratava dos «antigos» da primeira hora.

A publicação da auto-análise de Freud deteve-se, ao que parece, com A


Interpretação dos Sonhos. No entanto, Freud nunca consagrava menos de meia hora
por dia à sua auto-análise. Mas já não tinha necessidade de utilizar o material que
ela lhe fornecia para demonstrar a verdade da Psicanálise. Os seus casos clínicos, os
dos seus discípulos e as suas próprias teorias bastavam-lhe. Uma única vez fez
excepção à regra publicando um ensaio sobre o Moisés de Miguel Ângelo. No
momento em que publicou este ensaio, a ruptura com Jung estava prestes a
consumar-se e Freud, profundamente afectado por ela, estava dividido entre a
cólera e a tristeza. 0 seu encontro com o Moisés de Miguel Ãngelo assume assim
todo o seu significado.

Este ensaio foi publicado em 1915 e, facto notável, Freud não o assinou. As razões
que ele dá para esse anonimato foram todas racionalizações; quando situamos este
texto no seu contexto histórico ele aparece-nos como um -encontro, uma
confrontação de Freud com um modelo a atingir, um exemplo a seguir. Como
Moisés, Freud tinha o seu povo de psicanalistas, em que alguns, como Jung, o
abandonavam. Freud -conta, aliás com muito humor, como diante da famosa
estátua, tentava, por vezes, fazer face ao temível olhar nela figurado e como, outras
vezes, fugia como um culpado. Da postura de Moisés nesta estátua deu Freud uma
interpretação pessoal que contestava as interpretações precedentes, todas
baseadas sobre o texto bíblico. Os críticos que tinham comentado esta obra queriam
ver nela o momento em que Moisés, descendo do Sinai e encontrando os judeus a
adorar o bezerro de ouro, vai quebrar as tábuas da Lei. Uma análise minuciosa do
movimento da mão direita e da deslocação da barba de Moisés mostrou a Freud
como, por esse gesto, Moisés (através de Miguel Ângelo) exprimea sua emoção e a
sua cólera, mas, longe de querer arremessar as tábuas da Lei para as quebrar,
domina-se para impedir que elas caiam. «0 que nós vemos nele não é o início de
uma acçã o violenta, mas os restos de uma emoção que se extingue. Ele tinha
querido, num acesso de cólera, precipitar-se, vingar-se, esquecer as tábuas, mas
vencerá a tentação, ficará assim sentado, dominada a fúria, num estado de dor mis-

69
turada com desprezo. Não atirará também as tábuas para as quebrar sobre a pedra,
porque foi por causa delas que ele dominou a sua ira, foi para as salvar que ele
venceu a sua exaltação apaixonada.» Freud falará mais à frente da,«mais
formidável experiência psíquicade que o homem é capaz: vencer a sua própria
paixão em nome de uma missão a que se devotou». Foi bem esta a experiencia que
Freud teve de fazer para dominar a sua paixão contra a deserção junguiana. Foi-lhe
necessário para isso um objecto ideal com que se identificar, e Freud seguirá os
traços de Moisés até ao fim, pois consagrar-lhe-á a sua última obra: Moisés e o
Monoteismo. (Deve notar-se que este ideal de autodomínio, ideal pessoal de Freud,
não é estranho à elaboração da segunda tópica, centrada sobre o ego e a sua
função de autodomínio.)

Para além do Princípio de Prazer (1920):

o instinto de vida e o Instinto de niorte

A introdução do instinto de morte em Para além do PrincipM de Prazer surgiu como


uma transformação, uma subversão mesmo, da teoria psicanalítica. As descobertas
da Psicanálise tinham estado, até esse momento, ligadas às esperanças suscitadas
por alguns êxitos terapêuticos. Falava-se, e fala-se ainda, a propósito de psicanálise,
dos efeitos «libertadores», «desculpabilizantes», do «desrecalcamento» que
provoca a cura, da «exteriorização» que ela permitia ao sujeito analisado ao
«exprimir-se». A sexualidade deixava de ser a escravatura do homem, como
pretendiam a moral e a cultura, mas era necessário «libertá-la das suas grilhetas e
inibições. 0 -Papel preponderante atribuído à transferência no desenr@lar da cura
levava frequentemente à confusão entre a terapêutica e um tratamento pelo amor e
pela compreensão. Freud, que denunciara a ilusão do fantasma e do desejo, não
podia deter-se na ilusão terapêutica e tomar os desejos de cura por realidades
quando se encontrava perante as eventualidades do tratamento ou estagnações da
cura. Sem condescender com as suas próprias doutrinas ou com as descobertas da
sua práxis, não ignorava a importância das resistências dos seus pacientes, a
duração do trabalho para as anular, a sua repetição, o sofrimento de alguns
doentes, a intensidade da sua culpabilidade, a sua autocomplacên-

70
cia, o seu desejo de submissão e de dependência em relação ao psicanalista.

0 conceito de . Instinto de morte foi violentamente combatido, sobretudo no seio


dos psicanalistas. 0 termo chocava, mesmo quando se lhe opunha o instinto de vida
ou Eros. Rotulou-se Freud de pessimista e pretendeu-se explicar esse pessimismo
pelos acontecimentos que marcaram a vida de Freud no momento da Dublicação de
Para além do Princípio de Prazer: o choque traumático da guerra, as dificuldades
que teve para reconstituir uma clientela, a morte do seu neto preferido e, depois, de
uma das suas filhas, Sofia. Freud não se deu ao trabalho de responder a estas
críticas, que diziam respeito à sua própria,«psicologia»; contentou-se em mostrar
como o instinto de morte trazia coerência à teoria analítica, nomeadamente dos
pontos de vista económico e dinâmico, e indicou também como a própria clínica da
prática analítica confirmava essa hipótese.

Ponto de vista económico: Para além do Princípio de Prazer mostra que, para além
do princípio que faz com que toda a excitação tenda para a descarga, existe uma
tendência que ultrapassa esse princípio e que tem por objectivo pÔr fim a toda a
excitação. É notável como esse «para além do princípio de prazer» se inscreve
numa continuidade do ponto de vista económico; com efeito, ele corresponde a dois
princípios enunciados em Esboço: o princípio de constância, que faz com que o
aparelho psíquico tenda a manter a um nível tão baixo quanto possível a
quantidade de excitação que contém, e o princípio de inércia neurónica, que se
aplica ao funcionamento do sistema neurónico e que implica que todo o neurónio
tenda a evacuar completamente as quantidades de energia que recebe.

Este último princípio relaciona-se com -a energia livre e com o processo primário;
ele tende a reduzir a zero toda a excitação, quer venha do exterior quer do interior,
a desembaraçar-se dela pela descarga imediata ou pela fuga.
0 primeiro princípio está ligado ao princípio de prazer, * qual, para obter uma
satisfação sem dor, deve refrear * sua energia e frequentemente adiar a sua
satisfação, logo manter uma certa constância Que permita o adiamento da
satisfação da necessidade. 0 instinto de morte assemelha-se ao instinto de inércia,
quando toma a forma do

71
«princípio de Nirvana», que se aplica ao aparelho psíquico eque é a tendência para
reconduzir a zero toda a quantidade de excitação. 0 termo Nirvana é tomado,
através de Schopenhauer, da filosofia hindu. Tem portanto uma ressonância
filosófica e é utilizado por Freud apesar de toda a sua desconfiança em relação ao
pensamento especulativo. (Mas, por outro lado, Freud chamará «especulações» a
todas as suas hipóteses sobre o instinto de morte e o ponto de vista económico.) 0
Nirvana exprime um certo estado de alma (que não exclui o prazer e que não é, de
qualquer modo, de desprazer) em que a tranquilidade, a paz, a ausência de tensão
e a imobilidade são alternadamente experimentadas. No plano orgânico
coirresponde a uma tendência para a imobilidade, para o retorno à inércia, ao
estado inanimado e anorgânico. É neste sentido que ele é expressão do instinto de
morte, manifestando-se o princípio de Nirvana como movimento de retomo ao
estado anterior em oposição ao impulso para a frente e para o objecto do instinto de
vida, portanto de Erw.

0 ponto de vista dinâmico permitiu sempre evidenciar dois tipos de pulsão que
funcionam quer em concomitâ ncia quer em oposição. Desde os Três Ensaios sobre ]
Uma Teoria da Sexualidade, Freud opunha a libido, ou as pulsões sexuais, e o
instinto de conservação. Em 1914, o artigo sobre o nareisismo modifica esta
dualidade das pulsões em função do objecto. Freud distingue então as pulsões do
ego e as pulsões sexuais; as primeiras têm o ego como objecto, as segundas um ou
vários objectos exteriores. Esta distinção repousa sobre a oposição entre psicose e
neurose de transferência. Como se viu no que respeita ao presidente Schreber, a
psicose caracteriza-se pelo desinvestimento objectal, isto é, pelo afastamento do
mundo exterior, da libido do objecto, em proveito de um retorno à libido -do ego ou
libido narcísica. Isto não quer dizer que só a libido do objecto funcione na neurose,
mas bem pelo contrário que a libido do objecto entra em conflito com -a libido do
ego, sendo o sintoma neurótico a expressão do conflito entre as duas tendências.
Põe-se neste caso uma questão a propósito da oposição entre libido narcísica -e
libido do objecto: tratar-se-á da mesma energia ou antes de duas fontes e de dois
tipos de energia diferentes? Freud inclina-se para a segunda hipótese. Todavia,
cumpre dizer que no próprio texto do Narcisismo

72
a demonstração não é muito clara e que Freud quer ainda, aqui principalmente,
desviar-se de Jung.

0 capítulo da MetapskoIogia consagrado às pulsões e respectivos destinos retoma a


oposição entre pulsões sexuais e instinto de conservação. Aquelas compreendem
tanto alibido do ego como a libido de objecto. 0 instinto de conservação, pelo
contrário, liga-se às funções vitais que facultam a conservação do indivíduo. A
agressividade o sadismo, o ódio, estão em relação com o instinto de conservação:
«Pode-se mesmo afiançar que os verdadeiros protótipos darelação,de ódio não
provêm da vida sexual, mas da luta do ego pela sua conservação e pela sua
afirmação.» ,Com Para além do Princípio de Prazer,a libido e as pulsões sexuais
fazem parte dos instintos de vida: têm por fim a união sexual, a conservação da
espécie e do indivíduo, reforçam o coesão do organismo. A agressividade está em
relação com o instinto de morte, mas em relação indirecta, ou seja secundária, com
o «masoquismo primário». 0 masoquismo primário é a consequência do instinto de
morte, da tendência ao retorno ao estado anterior, à imobilidade, à inanimidade, à
autodestruição. A agressividade dirige-se ao objecto provocador de excitação que
contrarie o princípio de Nirvana. Freud mostrará que os dois instintos estão sempre
enredados, que a união sexual seacompanha sempre de sadismo, de possessão,
que o post coitum é um regresso ao estado de não tensão. Qualquer acto sexual é
ainda uma tentativa de voltar ao estado anterior de união com a mãe. A fim de
explicitar a oposição, intrincação e complementaridade dos dois instintos, Freud
retomará o mito de Andrógino, a partir do discurso de Aristáfanes sobre o Amor, no
Banquete de Platão. Neste mito, Platão recorda que na origem existia um ser
composto -ao mesmo tempo de macho e fêmea, de duas cabeças, quatro membros
e dois sexos, masculino e ferninino. Zeus dividiu os andróginos, o que deu o homem
e a mulher. Consumada esta divisão, cada uma das metadesdesejaria reunir-se à
outra. E quando reencontradas, «elas se enlaçavam com os braços e se estreitavam
tão fortemente que, no desejo de se confundirem, se deixavam morrer de fome e de
inércia, pois nada queriam fazer uma sem a outra».

73
Um certo número de dados clínicos foram evidenciados para demonstrar a
existência do instinto de morte

É assim que, em primeiro lugar, os sonhos de traumatismo fazem surgir a clínica do


instinto de morte. Freud havia comprovado, nas vítimas de traumatismos violentos,
não previsíveis, causadores de um verdadeiro estado de terror, quando o sonho do
traumatismo era frequentemente repetido. Tal facto clínico parecia contradizer o
princípio segundo o qual o sonho é a realização de um desejo. Freud mostrou então
como, através do sonho, o traumatizado procurava certamente repetir o
acontecimento traumatízante, porém na perspectiva de o dominar ou de prevenir
oposteriormente» o respectivo efeito de surpresa. Assim dava-se a explicaçã o do
pesadelo, do sonho de angústia que -representa -a expressão do desejo de punição,
de sofrimento.

Outro meio de dominar um traumatismo repetindo-o: o jogo da bobina. Freud


observava uma criança que, na ausência da mãe, deitava um objecto para debaixo
de uma cama e gritava: «Oh, oli oli, oh.» Depois, agarrando numa bobina com um
fio, arremessava@a para debaixo da cama lançando o mesmo grito e, em seguida,
puxa-va-a gritando com alegria: «Ah, ah, ah, ah.» Freud compreendeu que, para
dominar o traumatismo dia ausência da mãe, a -criança servia-se de um objecto
substituto, a bobina. A exclamação «Oh, oli oh oh» significava fort (em alemão,
longe); «Ah, ah, ah, ah» significa da (em alemão, aí). Pelo jogo da bobina, a criança
provocava, conforme a sua própria vontade, a partida e o regresso da mãe. Já não
era a vítima desamparada da sua ausência, mas o promotor de um jogo mágico que
permitia à vontade a partida e o regresso. Desta notável observação, deduzir-se-á
consequentemente a origem e a gênese da linguagem e as suas relações com o
acto, o gesto, o poder soberano da magia, residindo a sua estrutura diferencial na
ausência do objecto.

A transferência surge na teoria freudiana da dualidade dos instintos como um efeito


de repetição: o analisado, no seu divã, repete face ao analista, os mesmos tipos de
comportamento, de relações e sobretudo de defesa que com as imagens parentais.
Mas, de facto, o instinto de morte manifesta-se de maneira privilegiada quando a

74
transferência se mantém numa relação actual com o psicanalista, relação esta que
nunca é conduzida até às respectivas origens parentais e à história do indivíduo. 0
doente «repete em vez de rernemorar». As reacções terapêuticas negativas, que se
nomearão mais tarde as resistências de transferência e que impedem o recalcado, o
esquecido, de se tornar consciente, são a causa, em grande parte, das análises
intermináveis. São então solicitadas à situação analítica e ao amor de transferência,
na sua actualidade, satisfações substitutivas compensadoras, mesmo reparadoras,
frustrações originais, mas que nunca são reconduzidas às suas fontes infantis.

Outras consequências clínicas do masoquismo primário: o masoquismo feminino, o


sentimento de culpabilidade, as neuroses de fracasso e de destino.

Qualquer que seja o valor da demonstração de Freud, a sua coerência teórica, as


suas confirmações clínicas, o instinto de morte é também continu-adamente
discutido pelos próprios psicanalistas. Alguns rejeitam-no pura e simplesmente.
Outros mostram-se mais sábios, pois, ao admitirem a verosimilhança desta
hipótese, acham que é inútil, mesmo desencorajante, considerá-la na prática da
cura. Porém, nisto aproximam-se -dos que, mais científicos, contestam o valor de
uma hipótese susceptível de tudo explicar: a transferência, a regressão, o complexo
de Édipo, o recalcamento e a resistência. Enfim, mais subtis parecem as discussões
tendo por objecto o próprio conceito e o respectivo vocabulário. 0 termo «pulsão de
morte» convém sobretudo aos que se limitam aos dados estabelecidos por Freud.
Outros preferem falar de «instinto de morte», dando à palavra « instinto» a
significação de Psicologia Animal: os animais são impelidos pelo instinto de
reprodução, de conservação, de maneira pré-determinada, como os salmões, por
exemplo, que sobem os rios a fim de desovarem á gua doce. Assim, colocando a
definição de instinto como necessidade interna inelutável, dão a entender que, fora
do instinto de morte, existe uma margem de liberdade especificamente humana,
até «espiritual», que permite ao homem não ser, como o animal, vítima do instinto.

75
A segunda tópica. A identificação e a gênese do superego. Origem e diferenciação
do ld e do ego. Relações recíprocas

A segunda tópica diferencia-se da primeira por uma centragem diferente e pela


manifestação de uma «instância» nova, o superego. Com efeito, se a primeira tópica
permitia distinguir três sistemas, o consciente, o pré-consciente e o inconsciente,
mantinha-se essencialmente centrada no inconsciente, o qual constituía o essencial
do psiquismo: a metapsicologia, recordemo-lo, interessava-se pelos lugares
psíquicos e pelo funcionamento do inconsciente e do recalcamento.

Na segunda tópica, o inconsciente, o consciente e o pré-consciente passam do


substantivo ao qualificativo. Qualificam as três instâncias: a primeira, o id, podendo
recobrír o essencial do sistema inconsciente; o superego funcionando
escarranchado nos dois sistemas enquanto instância crítica 10; o ego estando junto
do consciente embora mergulhando as raízes no id inconsciente. Porém, no lugar
em que a descentragem é mais acentuada é ao nível da importância dada ao ego, à
sua função de domínio e de adaptação. Parece que a segunda tópica responde
numa certa medida ao ideal de domínio tal como Freud o deixa entrever -em 0
Moisés de Miguel Angelo. A esta ética do domínio está associada a-que parece
menos moral -da adaptação: a função do ego é, pois, a do domínio do id, dos
instintos e das paixões. Este domínio permite adaptar a satisfação dos instintos
sexuais às exigências da realidade: o id tende à satisfação imediata, o ego permite
esta satisfação quando o mundo exterior, a «realidade» (sempre necessária à
satisfação pulsional) não se lhe opõe. Donde a necessidade para o ego de diferir as
satisfações do id, e consequentemente de dominar os respectivos instintos. Esta
função de domínio e de adaptação do ego, vê-la-emos -aceder a uma verdadeira
promoção moral da Psicanálise, nas concepções americanas, e principalmente nas
de Hartmann. De facto, na ideia de Freud, trata-se de uma necessidade imposta
pelos factos, a qual se ligava a uma moral natural, moral que, todavia, de nenhum
modo seria inata, mas adquirida, fundada sobre a experiencia, e que teria por
origem as relações e os conflitos do homem, das suas necessidades e do seu ego

76
narcísico com o mundo exterior e a sociedade. A esta moral de «adaptação» junta-
se uma outra moral, aparentemente adquirida, mas adquirida desde a origem, e que
é fundada sobre a educação, a exigência parental e os ideais de ego. Todavia,
cumpre aqui sublinhar que o afloramento do superego por Freud responde ainda em
grande parte às críticas que foram aplicadas à Psicanálise por não considerar os
ideais e a moral a que o homem tende, ordinariamente, -a submeter-se.

Génese do superego. A identificação. Nova concepção do complexo de Édipo,

É efectivamente surpreendente que a instância moral, o sentimento de


culpabilidade, somente fazem uma aparição relativamente tardia na obra de Freud.
Pode-se certamente descobri-la na ciência dos sonhos, na análise do pequeno Hans
ou na do homem dos ratos. Mas é «posteriormente» que se poderia pô-la em
evidência, tendo em conta o conhecimento que possuímos da obra ulterior. Houve,
sem dúvida, várias razões para isso, que vêm, antes do mais, da exigência da
objectividade -científica de Freud; excluindo, conforme vimos, qualquer juízo ético
na sua observação das neuroses, excluiu também, e pela mesma ocasião, qualquer
instância moralizadora no psiquismo do homem. 0 seu ateísmo de evidência, o facto
também de a experiência analítica não ter sido vivida por ele senão na auto-análise,
fez-lhe esquecer, para si mesmo, o próprio superego, e portanto ignorá-lo para
outrem. Não é, pois, por acaso que o sentimento de culpabilidade apenas se
encontra claramente definido em Totem e Tabu, embora sob a formade «.angústia
moral». 0 sentimento de culpabilidade surge aí directamente ligado ao homicídio do
pai e o mito que mais bem o ilustra é o da horda primitiva 11.

Este mito é tomado de Darwin, e, para este autor como aliás para o próprio Freud, é
mais uma hipótese apresentadacomo ium acontecimento real que presidiu à
História da Humanidade. Para Darwin, ele foi o acontecimento original que permitiu
o fundamento da sociedade humana; será, conforme a interpretação que Freud faz
dele, a ilustração da herança filogenética que cada indivíduo recebe norespectivo
inconsciente e que participa no fundamento do complexo de Édipo e no sentimento
de culpabilidade.

77
Recordemos a gênese deste acontecimento originário: Os homens viviam outrora
em horda desordenada, entregues à autoridade ilimitada de um chefe. Este chefe
sem fé nem lei dava-se sem moderação à satisfação de todos os seus desejos,
amorosos e agressivos. Senhor das suas inul,heres, era também senhor dos seus
filhos, os quais, a seu bel-prazer, podia rejeitar ou matar. Um dia, os filhos
eliminados juntaram-se e, pela força assim unificada, decidiram matar o pai. A
motivação do assassínio do pai era de fazer como ele, de ser como ele, isto é, de
possuir as suas mulheres. Morto o pai, a unidade perdeu-se, os filhos tornaram-se
rivais, cada um deles querendo ter as mulheres do pai, inclusive a própria mãe. A
fim de acabar com a disputa, resolveram entrar em acordo, e, neste sentido,
privaram-se do objecto da sua concupiscência e da sua rivalidade. Deste modo
nasceu o tabu do incesto, que, por uma lei de compreensão entre os filhos, lhes
proibia a prática do que o pai interditava. Com o intuito de assegurar a eficácia
desta lei, os filhos apelaram para o pai morto com todo o seu poder supremo
ressuscitado. «0 pai morto», dirá Freud, «tornara-se mais poderoso», mais poderoso
que os desejos para com a sua mãe, que negavam possuir. Deste assassínio, deste
acto de homicídio ou dos respectivos vestígios, emergiu o sentimento de
culpabilidade: inscreve-se, pois, no âmago do complexo de Édipo; é marcado pelo
desejo de possuir a mãe, desejo este cul~ pável,perante o pai, visto implicar
oassassínio deste com o propósito de tomar o seu lugar. 0 banquete totémico, festa
pela qual, e de acordo com Freud, se comemora a morte do pai da horda primitiva,
inclui nos ritos a prescrição, habitualmente tabu, de comer o animal totémico. Este
banquete é a representação sob a forma de ritual da incorporação do falo do pai:
comer o animal totémico é assimilar-se, apropriar-se do poder e da força de quem o
animal representa. A culpabilidade perante o assassínio do pai, do desejo de ocupar
o seu lugar, fica assim ligado à identificação, ou seja, ao desejo de ser como ele, de
possuir a sua força e de tudo o que ele possui, quer dizer, a mãe

e o pénis que lhe permita essa posse.

0 laço da culpabilidade e da identificação encontra-se numa outra perspectiva


explicada por Freud num artigo intitulado Luto e Melancolia. A observação de Freud
tem

78
por objecto aqueles doentes que, na sequência de um luto, da perda de um ente
querido, caem num estado de depressão chamado melancolia. A tristeza destes
melancólicos é acompanhada de uma culpabilidade tanto mais notável quanto
menos reside num facto real actual. Estes doentes acham-se indignos do objecto
perdido, acusam-se de mil e uma faltas, censuram-se incessantemente. Freud, na
sequência de Abraham, mostrará como, de facto, estas censuras são dirigidas ao
objecto que abandonou o ego; que, se elas se dirigem ao ego, é porque este tomou
o lugar do objecto, se identificou com o objecto. «0 investimento de objecto mostrou-
se pouco resistente, foi suprimido, mas a libido liberta não foi deslocada sobre outro
objecto, foi recolhida no ego. Mas, porém, não foi utilizada de qualquer maneira: ela
serve para estabelecer uma identificação do ego ao objecto abandonado. A sombra
do objecto caiu assim sobre o ego, que foi então julgado por uma instância
particular, como o é o objecto abandonado.» Deste modo se precisa um outro
aspecto da identificação, aspecto regressivo, conforme o quer o movimento da
psicose que vai da libido do objecto à libido do ego; a identificação constitui um
meio de recuperar o objecto perdido transformado no ego e de manter com ele
laços não libidinosos.

Consecluência desta relação de identificação: as relações do ego ao seu ideal. 0 ego


poderá continuar a encontrar o objecto perdido, agarrando-seaos ideais que este
indirectamente lhe inculcou. A exigência moral parental torna-se uma exigência
apropriada pelo ego, que a ela se deve conformar em seu nome próprio.

A promoção da identificação na psicologia do ego orienta diferentemente a gênese


do complexo de Édipo.
0 objecto incestuoso do desejo está em ligação directa com o laço anaclítico saído
do narcisismo, o qual pretende que o primeiro objecto de amor, «a mãe», seja o que
cuidou da criança, que a alimentou, protegeu e amou (ef. Para o Nareisismo, Uma
Introdução). 0 poder ilimitado do ego é então função da sua dependência, da sua
fraqueza, da sua fragilidade. Porém, o verdadeiro lugar do complexo de Édipo é
aquele em que o desejo sexual se transforma em possuir de maneira activa e
genital a mãe. Este desejo situa-se no momento em que a autonomia da criança lhe
acarreta a perda dos privilégios da dependência e em que a ameaça da perda da
mãe provoca o

79
desejo de a recuperar substituindo-se ao pai. A identificação primária ao pai é o
verdadeiro fundador do complexo de Édipo. «0 rapazinho manifesta um grande
interesse pelo próprio pai; ele quereria transformar-se nele, ser o que ele é,
substituí-lo em todos os aspectos. Digamo-lo tranquilamente: ele faz do pai um
ideal... Simultaneamente a esta identificação com o pai, ou um pouco mais tarde, o
rapazinho dirigiu para a mãe desejos libidinosos.» E encontramos o laço
ambivalente ao pai que condensa, sem o resolver, a identificação: incorporar o
poder do pai, e tomar o seu lugar ao pé da mãe.

Assim se compreende melhor a origem e a gênese do superego e do sentimento de


culpabilidade. A prematuração da criança, que pretende à nascença ter durante
muito tempo necessidade de cuidados maternos, da protecção do pai, mantém-na
num estado de dependência perante os objectos de amor privilegiados: perder o
amor dos pais não lhes obedecendo é perder a sua protecção, é pôr o ego em
perigo relativamente às excitações do mundo exterior e às,exigências pulsionais
internas. A identificação que permite recuperar o objecto, em detrimento do laço
libidinal, encontra a barreira do incesto e o desejo de a ele pôr fim; falando de outro
modo, encontra o voto do assassínio do pai e a culpabilidade que lhe está ligada,
dado que a renúncia nunca é definitiva de harmonia com a vontade da história do
pai da horda primitiva e do seu homicídio.
0 desejo do homem encontra sempre o caminho do seu primeiro objecto de amor.

0 ego, o id e o superego

«0 id é absolutamente amoral, o ego esforça-se por ser moral, o superego pode


tornar-se hipermoral e ao mesmo tempo tão cruel -como o id. É um facto notável
que quanto menos agressivo um homem se mostra exteriormente mais severo se
torna, quer dizer, agressivo para o seu ego ideal... Quanto mais um homem domina
a sua agressividade mais o seu ideal se torna agressivo para com o seu ego.» (0
Ego e o ld) É pois artificialmente e com um fim didáctico que vamos apresentar o
lugar e as funções das três instâncias.

so
@ @ 0 ego: «Vemos no ego a instância psíquica que exerce um controlo sobre todos
os processos parciais, que adormece durante a noite e que, mesmo a dormir, exerce
um direito sobre a censura dos sonhos. É ainda deste ego que partiriam os
recalcamentos, a favor dos quais certas tendências psíquicas são não somente
eliminadas da consciencia mas colocadas na impossibilidade de se manifestar ou de
se exprimir de uma maneira qualquer.» A função do domínio do ego sobre o id
compara-se a um cavaleiro sobre o seu cavalo ou a um piloto conduzindo o seu
barco no mar calmo ou enfurecido, 0 ego sai do id, constitui a sua camada externa
como a do córtice e dos órgãos dos sentidos relativamente às camadas profundas
do sistema nervoso. Situa-se entre o id e o mundo exterior, é o lugar das
percepções externas e internas, ou seja, das sensações, das tensões, das
necessidades. «0 ego desenvolve-se a partir da percepção do instinto até ao
domínio deste.» Tem uma «tarefa económica»: «Restabelecer a harmonia e ntre
as diferentes forças e influências que sobre ele e nele actuam.»

Tem por função a ligação, a unificação, a síntese. É o lugar da razão, mesmo da


sabedoria por oposição à loucura do id.

Vimos a sua função fundamental de adaptação: decide quando as pulsões do id


podem ser satisfeitas, em funçã o da realidade ou dos objectos exteriores. «Ao
impor o seu jugo aos clãs do id, o ego substitui o princípio de prazer, primitivamente
o único em vigor, pelo princípio dito de realidade, o qual certamente visa o mesmo
objectivo final, mas tendo em conta as condições impostas pelo mundo exterior.»
(Psicanálise Laica, 1925).

0 ld: 0 termo é extraído de Groddeck, autor de um livro intitulado No Fundo do


Homem Isso. A escolha deste pronome tão indefinido corresponde à intenção de
Freud indicar a imprecisão das suas funções, a indeterminação da sua actividade.
«0 id impessoal corresponde directamente a algumas maneiras de falar do homem
normal. Isso fez-me estremecer, diz-se. Alguma coisa em mim, nesse momento, era
mais forte do que eu. Isso era mais forte do que eu.»

0 «íd» é o lugar da pulsão e da satisfação pulsional, satisfação sem freio e imediata


que, para atingir o seu

6 81
fim, pode utilizar não importa que objecto. Corresponde em grande parte, na
antiga tópica, ao inconsciente: intemporalidade, ausência de contradição e de
negação. As imprecisões que nele se perpetuam são também nele «imperecíveis».

É o lugar intermediário entre o soma e o psíquico, «enche-se de energia e submete-


se de maneira desordenada ao princípio de prazer». «0 factor económico ou
quantitativo, intimamente ligado ao princípio de prazer, domina todos estes
processos.»

Contrariamente ao ego, é o lugar da loucura, da paixão, do desmedido. Freud


compara-o a um «caos», um caldeirão cheio de agitação, de efervescência. «É
evidente que o id ignora os juízos de valor, o bem e o mal, a moral.»

0 superego não os ignora. É, não obstante, ao id que ele vai buscar a sua energia. A
formação do superego está ligada ao complexo de Édipo (e principalmente ao
complexo paternal), «aos estados de dependência» e à ameaça da perda do amor. É
o lugar da moral, da crítica e da censura, do juízo de valor. «As suas relações com o
ego não se limitam a dirigir-lhe o conselho ‘sê assim’ (como o teu pai), mas
implicam também a interdição ‘ não sê assim’ (como o teu pai): dizendo de outro
modo, não façais tudo o que ele faz, muitas coisas são-lhe exclusivamente
reservadas.» 0 pai é efectivamente o seu representante, o mais decisivo. «Numa
certa medida, é do pai que ele toma a força necessária, e isto constitui um acto de
pesadas consequências. 0 superego esforçar-se-á por reproduzir e conservar o
carácter do pai, e quanto mais forte for o complexo de Édipo mais rapidamente (sob
a influência do ensino religioso, da autoridade, da instrução, das leituras) se
efectuará o seu recalcamento, mais forte será também o rigor com o qual o
superego reinará sobre o ego, enquanto instauração dos escrúpulos de consciência,
talvez mesmo de um sentimento de culpabilidade.» 0 superego é a interiorização
das interdições, das repressões e das condenações vindas da educação parental.
«Enquanto formaçã o substitutiva da paixão pelo pai, contém o germe donde
nasceram todas as religiões.»

0 superego é inconsciente. A sua repressão pelo id exerce-se por meio do ego e do


narcisismo. 0 id e o superego entram, na personalidade psíquica, numa rela-

82
ção de contradição em que um tende a excluir o outro. 0 narcisismo do ego
exige a satisfação pulsional; para fazer isso, o ego tentará chegar a essa
satisfação excluindo as censuras do superego. 0 ideal do ego tem exigências
de origem narcísica, e o ego procurará responder-lhe recalcando as
exigências pulsionais. Tal qual no Evangelho, onde se afirma que a mão
direita deve ignorar o que a esquerda faz, porém num sentido inteiramente
diferente, a satisfação do id ignora a censura do superego, a submissão às
exigências do ideal do ego implicará o recalcam,ento do id. 0 amoroso que
idealiza o seu objecto de amor está pronto, para dele se mostrar digno, a
reprimir as satisfações pulsionais. 0 santo e o místico consideram-se os
piores pecadores apesar da sua exemplar moral.

Modificações suscitadas na teoria e na práxis pelo contributo dos conceitos


novos da segunda tópica

As modificações no plano teórico têm por objecto o sintoma, a angústia, a


concepção das defesas do ego.

No plano prático, é a concepção da transferência que se encontra


modificada.

0 sintoma apresenta-se, depois da segunda tópica, como a resultante de um


conflito entre o ego e o id, conflito este em que pode intervir o superego. 0
ego surge então como superado pelas exigências pulsionais, não as podendo
dominar nem recalcar. Trata-se sempre, consequentemente, de uma solução
de compromisso e de um «falhanço» do recalcamento. «0 recalcamento vem
do ego que recusa, eventualmente pela ordem do superego, cooperar num
investimento pulsional que teve origem no id.» (Inibição, Sintoma, Angústia).

A angústia torna-se num sinal-sintoma, numa advertência, que se manifesta


ao nível do ego quando a satisfaçã o pulsional se confronta com uma ameaça
vinda do exterior ou com a respectiva formação de substituição (a dentada
do cavalo do pequeno Hans). Liga-se à ameaça da perda do objecto e, por
conseguinte, à castração, a qual representa a perda do objecto privilegiado-o
pénis, e o que ele permite possuir, a mãe. Liga-se igualmente à culpabilidade
e à ameaça da perda do amor.

83
Ao recalcamento e à resistência tende a substituir-se a noção de mecanismo de
defesa do ego. Mais precisamente, Freud inclina-se a reservar a noção de
recalcamento ao esquecimento e, à amnésia histérica; pelo contrário, na neurose
obsessiva, procura evidenciar três mecanismos de defesa:

-a regressão do ego ao estádio sádico-anal;


- a anulação, mecanismo que consiste em fazer «como se a coisa não tivesse
acontecido»;

- o isolamento. No plano da práxis, surge um descentramento. A análise parece ter


por fim menos tomar consciente o que é inconsciente do que restituir ao ego a sua
«força» e a sua função de domínio.

A transferência adquire um sentido mais rigoroso mas talvez também menos rico.
Certamente é sempre repetição: «0 analisado considera o seu analista como a
reprodução, a reincarnação de uma personagem importante do passado, e eis
porque ele lhe vota sentimentos e manifesta reacções destinadas ao modelo
primitivo.» Porém, através da transferência, o terapeuta transforma-se num aliado
do ego.,«A transferência relega para segundo plano o desejo racional de deixar de
sofrer e de recobrar a saúde. Este desejo dá lugar à vontade de agradar ao analista
e de obter dele a aprovação e o carinho. A transferência torna-se então na
verdadeira força motora da participação do doente no -trabalho analítico... [Pela
transferência] tira-se às resistências uma força poderosa, transformam-se os perigos
em vantagens. Efectivamente, o vivido pelo paciente sob a forma de transferência
jamais ele o esquecerá, e isso permite-lhe uma força mais convincente que tudo o
que adquirira por outros meios.»

Quanto a saber agora se a segunda tópica é uma aquisição importante em


Psicanálise e se deve deixar em segundo plano a primeira tópica, a História da
Psicanálise o dirá; a este respeito, ela já nos concede algumas indicações. Acerca da
práxis, da teoria do sonho e do sintoma, a primeira tópica parece mais bem
adaptada porque mais directamente aplicável ao discurso associativo, à linguagem
do sonho, da neurose e da psicose. Mas a segunda tópica introduz o superego, o
que tem uma vantagem
R14
apreciável. Parece mais clara porque mais esquemática, mais bem organizada, mais
coerente, mas também mais tranquilizadora porque no fundo mais moral. Alguns
psicanalistas não se ludibriaram, pois abandonaram completamente a primeira
tópica em proveito da segunda. Entretanto, se a centragem sobre o ego constitui
uma certa objectivação, um certo regresso a uma Psicologia clássica, ela também
anuncia uma inovação; aí o inconsciente surge menos como psicologia das
profundezas, discurso escondido atrás de um discurso manifesto. Os textos de Freud
sobre o feiticismo deixam-no prever: num artigo acerca do «feiticismo» e da
«clivagem do ego e dos processos defensivos», Freud mostra como o feitiço é
utilizado para negar, rejeitar a representação ou a castração queconstitui o sexo
feminino: o objecto feitiço, a bobina, a meia, as «roupas íntimas» , dissimulam a
ausência de pênis da mulher, são o substituto do seu pênis ausente. A realidade da
ausência de pênis da mulher não é por isso negada, já não o é em oposição com o
medo inconsciente da castração. Constitui a motivação essencial que obriga o
feiticista a utilizar o feitiço para justamente negar esta realidade angustiante.

85
v

MOISÉS E 0 MONOTEíSMO

A PROBLEMÂTICA DA HERANÇA FREUDIANA

A última obra de Freud, Moisés e o Monoteísmo, recorda o carácter «inspirado» das


grandes obras que marcaram a História da Psicanálise em vida de Freud. Moisés e o
Monoteísmo pode, nesse plano, situar-se ao lado de A Interpretação dos Sonhos, das
Cinco Psicanálises, de Totem e Tabu, de Para além do P ~,Ipio de Prazer.

A interrogação de Freud sobre a arqueologia do homem expande aqui o seu campo:


são as fontes da cultura e da religião que se põem agora em questão. 0 «romance
histórico» do «homem Moisés» reflecte o dilema fundamental para o qual apontam,
procurando resolvê-lo, a obra freudiana e a prática psicanalítica. Qualificando de
«romance» o que deveria designar-se, em título definitivo, Moisés e o Monoteísmo,
ele indica o carácter imaginativo, até fantasmático, desta obra sobre a história
bíblica de Moisés; todavia, a aplicação do método de interpretação analítico à crítica
do texto bíblico (considerado como uma criação ifantasmática) em função das
referências históricas conhecidas da religião egípcia não está longe de chegar a um
grande rigor científico. Freud, através da história do homem Moisés, encontrará o
fundamento histórico do mito do homicídio do pai da horda primitiva: o sentimento
inconsciente de culpabilidade, o traço filogenético da recordação do homicídio do
pai, tem a sua realidade e a sua verdade histórica no destino de Moisés, o qual,
como o pai da horda primitiva, foi assassinado por aqueles mesmos que o haviam
eleito para seu chefe. Neste texto, encontramos a dupla obsessão de Freud:

87
- obsessão teórica: fundar a ciência analítica sobre a realidade histórica, e não
simplesmente sobre a ilusão do desejo ou do fantasma;

- obsessão pessoal: Freud vê-se uma vez mais confrontado com Moisés, pai
usurpado do seu povo, judeu que não o seria, mas todavia modelo preferido por
Freud, mestre das próprias emoções como Freud queria sê-lo, fundador de uma
religião tal qual Freud funda a Psicanálise. Este longo frente-a-frente de Freud com
Moisés (não iaele visitar a estátua de Míguel Ângelo sempre que viajava a Roma?)
apresentou-se continuamente como uma confrontação com quem unicamente era
digno e capaz de receber os desejos de morte de Freud. Poder-se-á considerar
Moisés o psicanalista de Freud? A interpretação psicanalítica de Moisés e.o
Monoteísmo demonstrar-nos-ia que Moísés foi para Freud a única imagem que lhe
permitiu suportar o sentimento inconsciente de culpabilidade... ter inventado a
Psicanálise. . Concebe-se como nestas condições Freud hesitou durante muito
tempo em publicar Moisés e o Monoteísmo. Não porque estivesse duvidoso das
teses que nele defendia - Freu@d estava tão seguro das suas ideias quão receoso
dos seus efeitos-, mas no momento em que escreveu Moisés a perseguição dos
judeus pelos nazis desenvolvia-se de maneira sistemática. Ele ligava-se tanto mais
a esta perseguição quanto mais ela atingia a sua família, os seus amigos e os seus
discípulos; os seus livros foram queimados no auto-de-fé berlinense. Desmistificar a
origem e a eleição divinas do povo judeu no momento da sua perseguição só,
poderia ser um mal-entendido. Todavia, a paixão da verdade venceu-o, e quando as
circunstâncias foram mais favoráveis acabou por publicar o seu Moisés.

A «terra prometida» do sucesso, Freud apenas a a Icançou plenamente no exílio.


A sua obstinação em ficar em Viena apesar das ameaças e das humilhações
oriundas dos nazis, das incitações e dos conselhos para se expatriar dados pelos
amigos, pode surpreender quando se conhece que o seu êxito foi sempre mitigado
‘ e nunca oficial, na Áustria. Contudo, se aí se manteve tanto tempo, e mais do que
o razoável, é porque fez empenho toda a sua vida em persistir no campo da batalha,
no país natal, onde era mais contestado.

88
Freud, detentor do Prêmio Goethe, dele não tirou nenhuma glória. Quando
propuseram a sua candidatura ao Prêmio Nobel, opôs-se a tal. Aquele que
evidenciara as origens culpáveis e homicidas do sentimento religioso, do amor ou
da renúncia não queria ser considerado um humanista. Freud sabia que o sucesso
sem restrição apenas seria uma maneira de abafar o escândalo e de «recuperar» as
suas ideias numa forma de resistê ncia que consistia em aceitá-las a coberto da sua
autoridade.

0 combate de Moisés foi o da espiritualidade. 0 de Freud nunca cessou de ter um


sentido idêntico, e até ao seu termo. Trabalhou, escreveu, prosseguiu a sua auto-
análise até ao último dia. Durante numerosos anos lutou contra um cancro que
progressivamente se expandia apesar das operações repetidas. Quis guardar até ao
fim o espírito activo e claro para melhor se encontrar armado contra os progressos e
os sofrimentos da doença. Era esse o preço de uma aparente serenidade que o
mantinha desperto face à morte que o invadia. última contradição de Freud: o
espírito, que nada pode contra o desejo, pode dominar os sofrimentos da carne.
Morreu sem lamentações. no dia 9 de Setembro de 1939.

89
vi

DEPOIS DE FREUD

Em Moisés e o Monoteísmo, Freud faz o elogio do patriarcado da seguinte maneira:


«Marca uma vitória da espiritualidade sobre a sensualidade, e é portanto um progresso da
civilização. De facto, a maternidade revela-se pelos sentidos enquanto a paternidade é uma
conjuntura baseada em deduções e hipóteses.» Poderá dizer-se que a Psicanálise depois de
Freud situa-se segundo a dupla linha que é também um duplo desígnio: a baseada na
continuidade (linha matriarcal), «revelada pelos sentidos», e a que se coloca como ruptura
(relativamente à práxis), baseada em «deduções e hipóteses»? Os psicanalistas posteriores a
Freud reconhecem-se num laço de consanguini,dade em relação com ele: todos os
psicanalistas foram analisados por psicanalistas, que, por sua vez, foram analisados por
outros psicanalistas, os últimos dos quais analisados por Freud ou dele directamente
conhecidos. Situam-se assim num laço de paternidade relativamente à suadoutrina, à sua
obra e à sua teoria. Qualquer psicanalista se refere a Freud, nenhum reconhece na totalidade
a herança da sua obra. Se as leis que codificam a técnica sã o geralmente comuns, as
liberdades que deixam a quem associa, ou -a quem interpreta, fazem que a técnica da práxis
se diversifique segundo os autores e segundo «as variações da cura-tipo». A extensão do
campo da práx,.s, as suas aplicações à psicanálise das crianças, à psicoterapia das psicoses,
fazem que cada qual, pelo próprio farto da particularidade da prática, privilegie certos
aspectos da teoria freudiana à custa dos outros. A obra teórica freudiana é um campo que
pode parecer heteróclito, com inovações brutais, com não menos brutais repetições e

91
recessões. Este campo, de que ainda muito está por decifrar, é como «uma
estalagem espanhola», cada psicanalista nela descobre o que bem quer descobrir.
Todavia, seria vão querer introduzir aí boa ordem; não será mais interessante reunir
numa única tópica a primeira e a segunda antes de interrogar a sua diferença,
mesmo a sua heterogeneidade? Qualquer tentativa que consista em querer
preencher as lacunas da teoria freudiana, em vez de as «fazer fala-r», pode ser
-considerada feiticista. 0 dogmatismo acerca do texto freudiano é ainda uma forma
de fei,ticismo que decreta como verdade indiscutível da Psicanálise as «,tábuas da
Lei» dos escritos freudianos. Põe fim ao carácter dinâmico das interrogações como o
feiticista nega com o seu feitiço a felicidade do sexo feminino. Contudo, diante de
uma obra tão movente, a tentação de querer imobilizá-la é grande.

Mélanie Klein, Jacques Lacan, estes dois nomes marcaram a História da Psicanálise
depois de Freud. 0 kleinismo e o lacanismo dispõem-se ao lado do freudismo. No
respeitante à subjectividade do fantasma, ou ao lugar do sujeito no campo do
desejo e da ordem simbólica, os seus trabalhos continuam, sem preocupação de
objectivação,de moralização ou de ordenação, os escritos freudianos. Falando de
fantasmas inconscientes, ou da estruturação da linguagem sobre o modelo da
primeira tópica, eles não cessam de interrogar o escândalo do inconsciente.

A Psicanálise americana, baseada na psicologia do ego, e a Psicanálise Genética dão


resposta a um triplo objectivo: firmar na sua coerência tranquilizadora a expressão
e a aceitação da Psicanálise; fundar a sua terapêutica em finalidades de adaptação
que constituem o respectivo modelo ético; basear a teoria nos factos e na
observação do desenvolvimento da criança.

A história recente do movimento psicanalítico em França é bastante exemplar da


divergência das tendências da Psicanálise contemporânea para que lhe
consagremos um capítulo particular.

Mélanie Klein

A obra de Mélanie Klein surge-nos à primeira vista como radicalmente heterogénea


à de Freud.

92
Esta obra baseia-se, antes do mais, na psicanálise das crianças, psicanálise
praticada principalmente em crianças da primeira infân@cia. A práxis funda-se, por
conseguinte, na produção fantasmática expressa através dos seus desenhos, dos
seus jogos e das suas actividades. 0 fantasma está no próprio centro da obra de
Mélanie Klein, sem que, contrariamente a Freud, se precise a relação à realidade. Só
o fantasma conta; a subjectividade, o seu laço com a pulsão e o desejo do sujeito.

A exigência teórica parece muito secundária na obra de Mélanie Klein. Entretanto, a


teoria encontra-se inscrita na clínica, na própria maneira como o fantasma se
organiza em torno das relações das pulsões do sujeito e dos objectos. Há na obra
desta autora uma lógica e uma dialéctica do fantasma que dão toda a originalidade,
lógica e dialéctica que aí se definem ao nível de uma dramática onde se inscreve a
dualidade das pulsões. 0 complexo de Êdipo, conforme Mélanie Klein, estabelece-se
num estádio muito mais precoce do que em Freud: seis meses a um -ano, para a
primeira; quatro a cinco anos para o segundo. Porém, estabelece-se de maneira
muito particular, entrando o sujeito apenas em relação com objectos parciais: seio,
pênis, fezes, crianças. Esta noção de objecto parcial é tirada de Freud e de
Abraham, o qual a sistematizou. Estes objectos parciais são mal diferenciados e
equivalentes. Dão lugar em consequência a um objecto total: ocorpo da mãe,
quepode conter (no seu ventre) os objectos parciais. Relativamente a Freud, este
Édipo precoce caracteriza-se por uma triangulação bastante mal definida, visto o pai
aí estar representado sob a «forma de um ipénis», -escondido no ventre da mãe, e
muitas vezes confundido com ela. 0 corte parece radical com a triangulação
edipiana na qual Freud define ao pai um lugar preponderante e fundador (poder-se-
ía a partir deste corte interpretar em Freud uma concepção do complexo de Êdipo
que, alegando a função do pai e a rivalidade com ele, colocá-lo-ia ao abrigo dos
perigos de destruição vindos da mãe).

0 princípio da teoria e da clínica de Mélanie Klein é de definir o desenvolvimento da


criança segundo «posiçõ es» equivalentes às relações arcaicas dos psicóticos.

93
Aluna de Abraham, Mélaníe Xleín seguiu as descrições clínicas e genéticas do
mestre, o qual descreveu de maneira sistemática e precisa os estádios de
desenvolvimento da criança de harmonia com a predominância pulsional:
estádio oral, estádio anal, estádio fálico. A partir desta classificação, o autor
descreve as suas «posições» extraídas de um vocabulário psiquiátrico. É
assim que ela descreve o estádio paranóide, marcado pela clivagem do
objecto e do corpo. A contar desta posição paranóide se define toda uma
dramática do vivido fantasmático da criança.
0 seio -acalmando a fome é definido como o bom seio, bom a assimilar. 0
seio frustrante, denominado mau seio, é fantasmaticamente incorporado,
mas, uma vez introjectado, torna-se objecto destruidor que convém eliminar.
0 intuito da luta da criança face aos objectos fantasmáticos é de tentar
organizar-se em volta do bom objecto e de dominar (pela projecção) a
rejeição do mau. É interessante notar como a frustração, em Mélanie Klein,
não se coloca como acontecimento traumatizante externo ao sujeito, mas,
pelo contrário, o seu efeito traumatizante é função dos fantasmas agressivos
do sujeito e das suas projecções. Isso diferencia elaraniente a posição de
Mélanie Klein da de outros «herdeiros» de Freud que insistiram bastante no
papel da frustração, ou da má mãe, ou da má família; a sua função
inocentiza o ego na medida em que esta frustração, ou esta má mãe, ocupa
uma posição de causalidade sem que os fantasmas e as pulsões do sujeito
sejam postas em causa.

A posição central depressiva tem por objecto o objecto total, o corpo da mãe,
e as respectivas ameaças destruidoras e fálicas. É na perda do objecto que
este se constitui, à,custa da angústia depressiva.

Para melhor compreender a obra de Mélanie Klein, convém recordar que ela
assenta no princípio de prematuração da criança, tal qual Freud já explicara.
Isto permite precisar melhor o ponto de vista de Mélanie Klein em relação
com o de Freud. A criança da primeira infância vive na dependência da mãe;
é esta quem lhe dá a alimentação, o bem-estar, a higiene do bebé; a sua
ausência põe em jogo a própria -existência deste. A via fantasmática descrita
por Mélanie Klein é função da «posição» de dependência e das respectivas
consequências vitais. 0 complexo de Édipo segundo Freud situa-se ao nível
de uma

94
posição activa de possessão da mãe, possessão genital que passa pela
identificação e pela rivalidade com o pai. Trata-se, pois, no Édipo precoce, de
uma posição de dependência que põe a criança prematura em situaçã o de
perseguidor; no Édipo «freudiano», a possessão genital activa confronta-
secom a culpabilidade do desejo incestuoso e do voto da morte do pai.

Quanto a determinar o ponto de vista tópico do fantasma kleiniano, a tarefa


surge mais difícil. Sem dúvida que se trata aqui do fantasma inconsciente,
mas o lugar do ego ou da consciência é de tal modo incerto na obra de
Mélanie Klein que o inconsciente aí se encontra não definido. Freud, durante
o seu exílio londrino, teve ocasião de ver Mélanie Klein, que lhe relatou o
essencial das suas ideias e das suas descobertas. Freud escutou-a, achou o
que ela lhe dizia inteiramente apaixonante, mas acrescentou que o
inconsciente era, finalmente, o que mais lhe interessava.

Ana Freud - 0 ego e os raceanismos de defesa A psicanálise americana


Hartmann -a psicologia do ego

Uma longa polémica opôs Mélanie Klein a Ana Freud. A primeira defendia os
princípios de uma psicanálise das crianças idêntica à dos adultos (excepto no
tocante aos meios de expressão), sendo o papel e a função da transferência
na psicoterapia das crianças tão importantes como os dos adultos. Ana
Freud, por seu lado, contestava e contesta sempre a analogia da psicoterapia
das crianças e da psicanálise dos adultos: considera aquela uma pedagogia,
urna ortopedia do ego que interessa tanto à criança como à sua família. Esta
posição acha-se defendida pela preeminência tcórica dada à segunda tópica,
ao «ego» e aos seus mecanismos de defesa, que é a sua obra principal. A
pedagogia da criança é, pois, a do seu ego, do qual se analisa a posição face
aos inimigos, a pulsão, o superego, a realidade. É preparada para os as-
saltos futuros e para as exigências da realidade.

0 mérito de Ana Freud é, de facto, maior do que parece, o ter querido


diferenciar a cura-tipo de psicanálise da psicoterapia de crianças, mesmo se
uma tal tomada de posição se afigure como uma incompreensão das teorias

95
kleiniarias. É. com efeito, preferível diferenciar a Psicanálise do que pô-la sob todas
as formas. É, contudo, o que parece passar-se nas Américas. Freud, dirigindo-se aos
Estados Unidos para uma série de conferências, dizía que fora levar ali a «peste».
Não somente as suas conferências tiveram um grande. sucesso mas também a
Psicanálise se expandiu rapidamente, e teve mesmo lugar oficial nas universidades.
A abertura dos americanos a qualquer novidade tem muito a ver com isso; todavia,
a falta de resistência às ideias de Freud depressa desnaturou a Psicanálise, tanto do
ponto de vista da práxis como da teoria. @ A orientação da prática foi
essencialmente psicoterápica, as eficácias, os resultados, prevalecendo sobre os
princípios técnicos fundamentais. Os trabalhos de Alexander, a este respeito, são
exemplares, mesmo se constituírem um modo de aplicação interessante da
Psicanálise. Praticada sistematicamente a ponto de a cura-tipo não ser senão uma
sua variação, a psicoterapia torna-se o próprio lugar da Psicanálise. Esta já não tem
por finalidade a revelação do inconsciente, a localização do sujeito em relação com
o seu desejo. Consideradas as exigências de eficácia, ela surge como submetida a
uma ética de adaptação, ética que foi finalmente criada, sem para isso encarar o
risco de alienação que constitui qualquer forma de adaptação. E o -analisado acha-
se então confrontado com dois tipos de alienação, a do resultado favorável, dó
sucesso, da adaptação ao struggle for life; a da dependência ao seu psicanalista,
fornecedor de interpretações e de bons conselhos. Conhece-se a mitologia nascida
em volta da psicanálise americana, em que qualquer indivíduo, celibatário ou não,
tem de encarar «os seus problemas» para os confiar ao psicanalista.

Concebe-se, neste aspecto, o sucesso das teorias de Hartmann acerca do ego


autónomo. Certamente Freud definira na segunda tópica a função de adaptação do
ego. Contudo, esta função estava submetida ao princípio de prazer, ao id,
consistindo a adaptação em permitir a satisfação pulsional em função das
exigências da realidade. Hartmann, por seu lado, define um ego :autónomo,
independente do id e do superego, que funciona segundo o seu prazer próprio, para
responder às,exigências da realidade, do trabalho, da vida de relaçã o. 0,ego
«adulto» aparece

96
então como não conflitual e inteiramente submetido à sua função de
adaptação. Vê-se como, pela sua teoria do ego autónomo, Hartmann rompe de
maneira radical com as teorias freudianas que consideram o ego como uma
emanação do id, e cuja função essencial era de fazer face aos conflitos existentes
entre o id, o superego e a realidade.

Seria, entretanto, injusto querer reduzir os trabalhos da psicanálise americana aos


desvios exclusivos de Hartmann. A extensão da Psicanálise teve também um feliz
efeito: o da extensão do seu campo de aplicação. As formas e a variedade das
psicoterapias dos psicóticos constituem um dos campos privilegiados em que a
psicanálise americana se mostrou particulannente imaginativa e inventiva.

* desenvolvimento da Psicanálise em França-Lacan * clinica da relação de objecto-A


Psicanálise Genética

0 dr. Jacques Lacan. Quando Lacan surgiu no campo da Psicanálise em França,


«tudo se modificou». A sua audiência foi primeiramente no sector da Psiquiatria
(escreveu uma tese sobre a paranóia ainda memorável), depois no da Psicanálise, e
quando esta, no seu exercício oficial, o exclui dos respectivos cânones, o seu
domínio foi ainda a Psicanálise, mas também a Filosofia, a Linguística, a
Antropologia. Há um fenômeno lacaniano que apenas se pode explicar
relativamente ao seu contexto histórico. Depois da morte de Freud, algumas
sociedades de psicanalistas apresentaram-se como mosteiros que, longe de fazer
frutificar o culto de Freud, dogmatizaram a sua doutrina, ocultaram as felicidades da
sua obra, inflexibilizaram a práxis. A ideologia médica da Psicanálise retomava
superioridade na altura em que a audiência de Freud suplantara largamente os
meios médicos. Lacan abriu as fronteiras da Psicanálise, com o risco de esta ficar a
perder com isso, enquanto a Filosofia, a Etnologia, a Linguística, apenas tinham por
esse facto a ganhar. Efectivamente, se o campo das ciências humanas se abriu a
Lacan, é porque ele soube utilizar os modelos das suas disciplinas em proveito da
Psicanálise.

Este psicanalista subverteu literalmente a Psicanálise. É, antes do mais, um


psicanalista que fala, e mesmo que
7 97
fala bem e diante numeroso público. É, pois, primeiramente um homem público,
muito menos -um psicanalista de alcova. Transgrediu o ritual de três quartos de
hora de sessão; o seu seminário <cpirático» há dez anos tanto completa como
constitui o essencial do seu ensino. Lacan exibe-se com a sua «palavra», que
caracteriza com o seu estilo, os seus rodeios, os seus tempos mortos e as suas
repetições, -as suas elipses e,as suas locuções, o seu espírito e os seus calembures,
o seu maneirismo e, até, os seus tiques. Esconde-se atrás da palavra, a sua frase é
construída como o texto de uma versão grega ou latina, impõe-se reconstruí-la (não
interpretá-la); como um prestidigitador, expõe o que decidiu mostrar, para
escamotear aquilo cujo cuidado de descobrir deixa ao interlocutor. «0 estilo é o
homem... a quem se dirige.» Dirigindo-se a psicanalistas, Lacan fala por enigmas,
que deverão ser decifrados pelos discípulos. Todavia, os filósofos, a quem nenhuma
língua assusta, apossam-se da sua palavra. Outros deixam-na correr, o próprio
Lacan parece falar por associações de ideias, e, se a relação no seu discurso entre
teoria e práxis se descobre sob uma luz específica, é, sem dúvida, na medida em
que a teoria é exposta na linguagem da práxis, a do discurso associativo. Freud, no
seu discurso, não é o objecto de exegese, apresenta-se no fio da sua palavra. Há
Freud e ainda os outros, os filósofos, os etnólogos e até os matemáticos.

Lacan propôs uma reescrita, um freudismo em linguagem moderna, isto é, em


linguagem lacaniana, de que eis um exemplo:
Este esquema representa o essencial da segunda tópica inscrito na práxis, o
discurso associativo, o símbolo e o fantasma, e o lugar onde se articula a
triangulação edipian@a. Quer dizer que a transferência está aí incluída. Não há
melhor imagem da relação imediata no campo da análise entre práxis e teoria. S
representa o sujeito. Temos aí a primeira demarcação relativamente à segunda
tópica: não é o ego que está ao centro, mas o sujeito. Sujeito que está ao centro,
mas descentrado, excêntrico relativamente ao objecto pequeno a, que é o objecto
do desejo, o qual, na sua indeterminação e na sua polivalência de significância, tem
qualquer coisa a ver com a mãe, o corpo da mãe, os objectos parciais; a'è o ego,
espelho do sujeito que se cria na contemplaçã o jubilatória da sua imagem,
enquanto se confunde na sua relação imaginária com o objecto pequeno a: o
incesto não é impensável? 0 sujeito, quando entra na ordem da linguagem que o
precede, torna-se sujeito obstruido, sujeito obstruído do desejo, que, na sua relação
com o respectivo objecto, encontra o interdito do Outro, e o desejo do Outro (neste
caso A), o grande Outro, o que detém a palavra, que se supõe saber, o analista
quando lhe é dada a omnipotência do seu saber, o pai. Ele detém.o poder, a ordem
da linguagem. É como a linguagem em fundo de ausência, o pai morto. 0 sujeito
obstruído para morrer na sua ordem e constituir-se na sua sig,nificância, encontra
esse Outro, o seu poder e o seu desejo. É aqui que se articula o lugar da
transferência, lugar de invite e de interdito, lugar do poder e da palavra todo-
poderosa. Rememorar na cura resulta então fazer entrar a recordação na ordem da
linguagem. Não se trata aqui da análise do ego. Lacan critica a tradução de «Wo es
war, soll ich werden» por «le moi doit déloger le ça». Propõe «Lá oú c'était, lã
comnie sujet dois-je advenir».
0 propósitoda cura redunda no momento em que o sujeito se torna sujeito do seu
desejo ao passar pela ordem da linguagem.

Lacan devolveu ao inconsciente o lugar privilegiado. Ao criticar a psicologia do ego,


os objectivos psicoterapêuticos,da análise do ego, retribui à interpretação-palavra
do inconsciente todo o seu sentido em detrimento da água de malvaísco da
«compreensão» tirada da fenomenologia jaspersiana. A originalidade de Lacan
respeitante ao regresso a Freud e à primeira tópica reside na maneira como ele

99
indica os «efeitos» do inconsciente. «0 inconsciente é a primeira parte do discurso
concreto enquanto transindívidual, que falta à disposição do sujeito para
restabelecer acontinuidade do seu diseurso consciente.»

0 seminário de A Carta Roubada comenta uma novela de Edgar Poe onde se trata de
uma carta roubada, que se subtrai aos olhos de quem a procura pondo-a bem à
vista sobre uma mesa 11. Deste modo, acontece o mesmo com o inconsciente,
exposto quando o sujeito não o vê, ou, pelo contrário, tomado presente pelo véu
que o esconde ou pela mentiraque intencionaliza o seu extravio. Não existe
linguagem atrás de uma linguagem, um texto latente atrás de um texto manifesto.
Os critérios heideggerianos de autenticidade e de inautenticidade não têm aí
crédito. No fantasma, o inconsciente é a «outra cena», mas presente e já lá na cena
primeira da representação. A psicologia das profundezas, como Frerud definia a
Psicanálise, é neste caso controversa. Para falar verdade, as profundezas de um
quadro vêm dos efeitos da iluminação: As Meninas, As Fiandeiras, têm, como muitos
quadros de Velasquez, dois focos luminosos: um primeiro, do lado do observador,
ilumina a primeira cena; um segundo, em que se situa outra cena, dá à primeira
toda a profundidade. A segunda cena justifica a primeira, a profundidade não deixa
de existir pelo facto de estar figurada num só plano. Da mesma maneira se
apresenta o inconsciente, com a sua inquietante singularidade. Condenou-se a
Lacan o ter negligenciado um pouco o ponto de vista económico. Isso não invalida
que o inconsciente assim articulado mesmo junto ao consciente tenha, através do
discurso e do estilo lacaniano, uma carga explosiva muito maior do que lhe poderia
dar o isolamento de uma carga energéti-ca.

Destino trágico de Lacan, já inscrito no mito que ergue esta personagem


incompreensível no título que menos lhe convém: «Dr. Jacques Lacam. Nem douto,
nem sábio, mas mau gênio, demónio maléfico, exalando da sua palavra a «peste»,
apenas pode tirar do seu afastamento dos meios oficiais da Psicanálise a certeza de
se aproximar da verdade. «Eu», o dir. Jacques Lacan, «eu falo». 0 seu drama estaria
mais em ser mal compreendido do que rejeitado por quem o não tolera. «0 id fala e
sem dúvida no lugar em que menos se esperava, no lugar em que o id sofre.»

100
A clínica da relação de objecto; a Psicanálise Genética

Os doutores da Psicanálise têm, em oposição ao dr. Jacques Lacan, impedido um


pouco que se propague o discurso freudiano. A extensão e o sucesso da Psicanálise
inflectiram o seu ideal do ego de teóricos da Psicanálise. A Psicanálise é uma arma
temível de aue Lacan não receia servir-se; para os nossos doutores, é uma arma
que não se deve colocar em todas as mãos. A intenção seria louvável, mesmo
recomendável, se não conduzisse a um desvio da teoria e a uma extrema prudência
da prática.

Maurice Bouvet, que durante algum tempo hesitou em seguir Lacan. no seu exílio,
foi, e continua ainda, o representante de uma clínica da cura fundada sobre a
relação do ego com os seus objectos. A distinção indicada por Freud entre pulsões
pré-genitais e pulsões genitais possibilita discriminar segundo o modo de relação do
e_cro aos seus objectos -e a preeminência das respectivas fixações puilsion-ais - as
relações pré-genitais e genitais. 0 vocabulário aqui empregado é o da segunda
tópica, ao qual se junta o dos pontos de vista económico e dinâmico. 0 objecto e a
relação de objecto são constituídos pelas projecções transferenciais sobre o analista
dos modos de investimentos e de fixação arcaica às imagens parentais.
0 ego acha-se apanhado nas irrupções das contradições pulsionais, libido ou
destruição; a cor do objecto é função das projecções pulsiGnais, mas refere-se aí
também ao advento de um objecto real que deve transparecer para além do pré-
genital- Deste modo, a cura da psicanálise é considerada um processo maturativo,
em cíue o objecto se manifesta na sua realidade, o psicanalista na sua «presença» e
o ego na sua dignidade genital, na sua coerência e na sua posição de domínio. As
descrições clínicas, muitas vezes penetrantes e pertinentes, de Maurice Bouvet
originaram entretanto, devido a uma teorização clínica limitada, uma mitologia da
cura com os seus processos particulares e tácticas sabiamente ajeitadas;
frustrações, gratificações, silêncios e palavras, ausência e presença, são sabiamente
doseados conforme o estado de momento, a «distância» do doente, o que se
considera suportável.

Num tal vocabulário, a técnica dificilmente é transmissível, de tal modo ela se


encontra dependente da «subtileza e da intuição clínica». Isto, evidentemente, está
em

101.
contradição com Freud, que se esforçava sempre por dizer o que sabia a fim de
saber mais; é este igualmente o princípio da práxis. A distinção entre pré-genital e
genital leva a uma concepção de moral natural que abole da Psicanálise os pré-
genitais inveterados. Assim, a Psicanálise orienta-se para uma discriminação quase
racista, que tranquiliza aqueles que o são, que exclui aqueles que o não são. Que é,
então, feito de Freud?

A Psicanálise Genética tem por objecto precisar o desenvolvimento da criança


nas primeiras idades. 0 que Freud descobrira através da análise dos adultos, a
sexualidade infantil, é aqui observado directamente ou por intermédio da
psicanálise das crianças. Isto corresponde, de facto, à tentativa de Freud, sempre
implícita, de visualizar e tornar apreensível o traço mnésico, a cena primitiva do
homem dos lobos, o funcionamento psíquico da célula nervosa. As investigações da
Psicanálise Genética não têm falta de interesse, na condição de se fazer a
respectiva crítica, ou seja, de considerar os resultados da observação da Psicanálise
Genética como uma interpretação, e de evitar as armadilhas do adultomorfismo.

102
CONCLUSÃO

Finalmente, seja durante a vida de Freud seja depois da sua morte, a Psicanálise
jamais deixou de oscilar entre duas tendências: fundar a sua verdade na práxis, na
convicção que origina, no «sentimento de verdade» que, nos momentos
privilegiados, revela; e fundar a verdade da práxis noutros domínios que os de um
«sentimento» denunciado como essencialmente idealista e subjectivo: o modelo
neurobiológico, a investigação (tal como a de Freud para a cena primitiva do
homem dos lobos) ou a pesquisa tendo por fim pôr a verdade histórica do traço do
mnésico e do fantasma, o modelo metapsicológico do «mecanismo da alma»,
tendente a tornar visível o inconsciente, são outros tantos meios de definir uma
ciência psicanalítica segundo uma ideologia e um modelo médico; pelo mecanismo
psíquico, o inconsciente, a verdade histórica do fantasma, seriam deste modo
tornados acessíveis da mesma maneira que se tornou visível a célula cancerosa sob
o microscópio.

Esta dupla tendência esclarece a dificuldade que há e@n definir o campo específico
da Psicanálise e em pre-

cisar as respectivas fronteiras. Delimitar a Psicanálise às suas aplicações


terapêuticas leva obrigatoriamente a red,uzir o h«rnem, o seu corpo, o seu
pensamento, o seu papel e a sua função social a um conjunto de funçõ es sexuais
que, por muito «psíqui-cas» que sejam, não poderiam defini-lo no,«para. além do
iprincípio de prazer» (Freud) ou no «para além do princípio de realidade» (Jacques
Lacan). Porém, estender o campo da Psicanálise ao conjunto das ciências humanas,
e até de outra ciência, é arriscar-se a negar a alienação trágica do homem ao seu
corpo, à sua sexualidade, ao seu sexo...

Ainda que esteja em voga querer actualmente definir e categorizar a Psicanálise,


para lhe atribuir um lugar no seio das outras disciplinas, não é menos verdade que,
por

103
essencia, ela é inclassificável e escapa a qualquer «tentativa de a situar». Por fim, e
segundo o ponto de vista donde é apreendida, a Psicanálise seria como uma arte,
como uma filosofia, como uma religião ou como uma ciencia. A práxis, que a define
em primeiro lugar, situa-a no seio de uma «experiência», em que um sentimento de
«verda,de», de «revelação», a aproxima em certos momentos da experiência
mística e religiosa... Em vez do pai ausente e sob a forma de reacção de luto em
consequência da morte de Freud, constitui-se assim o culto rendido à sua obra e à
crença nas suas ideias feltas dogma. Discípulos e descendentes continuaram a
transmitir a Psicanálise pela práxis, a «santa escritura» e a «tradição». Para mais
bem preservar a verdade e mais bem a proteger das heresias, as sociedades de
psicanalistas constituíxam-se em mosteiros, em capelas ou em igrejas. E tal como
na Igreja actual, os fiéis mais convictos fizeram-se contestadores, deste modo
ameaçando menos a «mensagem freudiana» que as respectivas estruturas de
transmissão e de ensino.

Nestas condições pode parecer completamente aleatório tentar definir uma ciência
psicanalítica. Em Totem e Tabu, Freud distinguia três estádios da evolução do
pensamento e da consciência humana: «Se aceitamos o modo de evolução das
concepções humanas do mundo, a saber, que a fase animista precedeu a fase
religiosa, a qual, por sua vez, precedeu a fase científica, ser-nos-á fácil seguir
também a evolução do ‘poder ilimitado das ideias’ através destas fases. Na fase
animista, é a si próprio que o homem atribui o poder infinito; na fase religiosa,
cedeu-o aos deuses, sem todavia a ele renunciar seriamente, pois reservou-se o
poder de influenciar os deuses de maneira a fazê-los actuar de harmonia com os
seus desejos. Na concepção científica do mundo, já não há lugar para o poder
ilimitado do homem, o qual reconheceu a sua pequenez e resignou-se à morte,
como se submeteu a todas as outras necessidades naturais. Todavia, na confiança
na força do espírito humano, que conta com as leis da reálidade, encontram-se
ainda os traços da velha crença no poder infinito. Achamos que, tanto pelo tempo
como pelo conteúdo, a fase animista corresponde ao nareisismo, a fase religiosa ao
estádio das relações ao objecto, caracterizado pela fixação da libido aos pais,
encluanto a fase científica

104
tem o seu correlativo no estado de maturidade do indivíduo, sublinhado pela
renúncia à procura do prazer e pela subordinação na escolha do objecto exterior às
conveniências e às exigências da realidade.» A partir de uma tal concepção
científica do conhecimento humano, será mais possível aceder a uma «concepção
científica» da própria Psicanálise? Cumpre primeiramente notar quanto esta
«concepção científica» ultrapassa largamente certas ideologias que pretenderiam
reduzir a ciência, por muito complexa e acabada que seja, aos factos exclusivos da
objectivação e da observação. Freud indicou, além disso, e claramente, como a
confiança no espírito científico reside na «velha crença» no «poder infinito das
ideias». A sua «concepção científica» não somente não é «objectivista» como
implica uma tomada de posição pessoal onde se exprime a sua ética científica e
ateia: a renúncia ao poder ilimitado, o reconhecimento da «pequenez» do homem, a
«resignação» à morte...

Estas três f ases - animista, religiosa e científica - são três momentos (sempre
intrincados) da cura psicanalítica.
0 analisado estirado no divã pode sentir os efeitos «mágicos» da palavra ou do
silêncio do analista, o qual parece saber tudo antecipadamente e adivinhar os
pensamentos, e beneficiar dos ef eitos benéficos das suas interpretações que
actuam «como, um sortilégio», sem que por isso seja necessário compreender-lhe o
sentido. Quando intervém a transferência, nos instantes mais intensos, o
psicanalista é como um deus, ora afável e benéfico, que sabe e compreende tudo,
ora perigoso e temível, capaz de julgar, de punir e de rejeitar. No momento de abrir
os olhos, quando o psicanalista desce do pedestal em que o poder mítico da
transferência o colocara (como para o pai de Freud, há sempre um momento em
que o psicanalista, tendo deixado cair a sua coroa, poderia abaixar-se a apanhá-la),
o analisado reconhece então, como num espelho, a sua própria pequenez, a sua
«castração», o fim da «crença no poder infinito». Assini, explicitar na cura uma fase
animista e uma fase religiosa é tomar objectivo e definir como objecto de ciência o
que é puramente subjectivo, passional e «mágico». 0 lugar da ciência analítica
torna-se então o da subjectividade, o do sujeito no desconhecimento que lhe
confere o poder infinito do seu desejo e do seu pensa-

105
mento. Pelo contrário, o momento decisivo em que se precisa o efeito científico e
redutor da interpretação define e limita o sujeito f ace à sua castração e à renúncia
que lhe impõe o princípio de realidade. 0 seu narcisismo não poderia tolerar as
reduções da interpretação wientífica»; prefere então as miragens do animismo ou
da crença religiosa. E assim pode eternamente continuar uma psicanális,e que
nunca encontrará o seu ponto de ruptura...

A História da Psicanálise será sempre a de um «eterno retomo» às fontes, a de uma


ciência sempre à procura da sua definição e do seu objecto. Menos que qualquer
outro, o psicanalista parece poder aceitar a concepçã o científica do mundo tal qual
Freud propôs: a sua práxis leva-o quase sempre às facilidades de uma crença
animista no «génio» analítico, de uma identificação ao papel que a transferência lhe
confere. Incerto quanto às probabilidades da cura, insatisfeito com os obstáculos da
teoria, a sua crença animista e religiosa no gênio freudiano e na religião
psicanalítica substitui-se às «faltas» do conhecimento e põe fim ao seu carácter
dinâmico. 0 feiticismo de um certo tipo de «déinarche» científica, que requeria
apoiaT-se em factos históricos seguros e inatacáveis, procede da mesma crença
animista e conduz aos mesmos efeitos de desconhecimento. 0 regresso a Freud é,
para alguns, como os sonhos repetitivos de traumatismo; ele tenta cicatrizar essa
ferida narcísica indelével que acompanha cada psicanalista: o não ter sido o
primeiro a «criar» a Psicanálise... Quando um psicanalista crê ter descoberto um
conceito ou uma ideia nova no campo da sua prática, acaba sempre por comprovar
que nunca é o primeiro e que Freud já o havia consignado. «Está tudo dito», parece
inegável. Porém, sei-ia grande o risco de encerrar a Históri,a da Psicanálise no
movimento circular do comentário repetitivo dos escritos freudianos. Todavia, o
regresso a Freud que qualquer nova via ou nova fronteira implica (como as traçadas
por Laca@n) pode constituir uma redescoberta, uma reinterpretação «posterior» do
pensamento freudiano e dele revelar aspectos originais que, muito claramente,
haviam escapado ao seu autor. Não é menor o risco de, futuramente, dever assumir
e descobrir que a Psicanálise é completamente outra coisa que aquilo por que
actualmente se define.

106
NOTAS

1 Relatório sobre os meus estudos em Paris e em Bertim, 1880.


2Catdrtico vem do grego catarsis. Freud cita o seu emprego por Arist6teles, para designar as reacções do
públicio diante da representação de unia tragédia. A palavra significa «purificação», ou ainda, mais
prosaicamente, «puTga»...

3 Cf. L'analyse originelle <A análise original), 0, Mannoni, Les Temps modernes, Junho de 1967. n.o 253.

4A Interpretação dos Sonhos, trad. I. Meyerson, P.U.F., págs.


93-94.

5 Cf. trad. Yves Le “y, Payot.


6 Contribution à 1'his-toire du mouvement psychanalytique, trad. S. jankelevitch, Payot, pág. 105,

7 Em francês: <l'évitement». A perífrase adoptada é talvez demasiado extensa, mas não se achou melhor
forma de tr2duzir a ideia que se julga subiacente. (,N. dto T.)

8 «Idéique», no original francês, (N. do T.)


9 No original francês joga-se com os dois sentidos do verbo «entendre» (ouvir e entender). Procuramos dar
essa ambivalência traduzindo-o por apreender.

10 Os dados respeitantes à génese do superego referem-se às obras seguintes: Totem e Tabu, 1913; Para o
Narcisismo: Uma IntrMução, 1914; Luto e Melancolia, 1917; Psicologia Colectiva e Análise do Ego, 1921.

As que se relacionam com a segunda tópica referem-se a: Psicologia Colectiva e Análise do Ego(, 1921;
0 Ego e o ld, 1923; As Diversas Instâncias da Personalidade Psíquica (terceira conferência ,das Novas
Conferências sobre a Psicanálise, 1932); Inibição. Sintoma, Angústia, 1926; Resumo de Psicanálise, 1938.

11 È evidente que o encontro de Freud com o mito da horda primitiva se liga à sua hist6ria pessoal: a
ambivalência dos seus sentimentos a respeito -do pai (ef. o episffio do boné), as origens judaicas, a
confrontação e a identificação com Moisés.

12 Ver a quarta parte desta obra: xEstéti-ca e Psicanálise».

107
JEAN-LUC DONNET

Psicanálise e Medicina
As relações entre -a Psicanálise e a Medicina foram sempre-e mantêm-se ainda-
difíceis, conflituosas. Alguns analistas, ou médicos, ou médicos-psicanalistas,
deploram-no e procuram convencer-se de que isso reside apenas num mal-
entendido que se poderia dissipar através de um melhor esclarecimento dos
médicos sobre a seriedade da Psicanálise. Esta seriedade confundir-se-ia, por
último, com a reintegração da Psicanálise na Medicina. Outros analistas, pelo
contrário, julgam que este conflito não tem razão de ser, e que o melhor processo
de o evitar é afirmar, prática e teoricamente, que a Psicanálise nada tem a ver com
a Medicina. Todavia, a maior parte dos psicanalistas considera tal conflito uma coisa
natural e fecunda: natural suposto que a Psicanálise não perdeu completamente o
carácter escandaloso, contestador, suscitando a resistência inevitável; fecunda
porque tanto o puro e simples englobamento desta na Medicina como o
estabelecimento de fronteiras entre ambas por um acordo tácito somente levariam
à atenuação das polémicas mais vulgares ou mais inúteis pelo entrave, além disso,
da indispensável «elaboração» do conflito. Deve partir-se, por conseguinte, do facto
de que esse conflito radica em maiores diferenças de perspectivas, de objecto, de
divisão da realidade, e cujo reconhecimento se impõe antes de qualquer tentativa
de reconciliação ou de articulação. Eis porque não tentaremos aqui, de nenhum
modo, proceder a uma enumeração dos contributos da Psicanálise à Medicina. Pelo
contrário, procurámos centrar este enunciado na delimitação dos campos de
interferência entre uma e outra, campos estes em que mais claramente se podem
determinar as oposições e as aproximações, as permutas e as clivagens.

No plano histórico, limitar-nos-emos a assentar alguns pontos de referência:

a) Em Freud, antes do mais, o lugar do médico permaneceu sempre ambíguo - não é


certamente indiferente,

111
tanto no respeitante às condições da sua descoberta corno no concernente à
manutenção da sua abertura, que ele tivesse sido simultaneamente médico e
não médico, «médico à força».

Por um lado, com efeito, Freud foi um médico, fosse ele qual fosse. Inscreve-
se na linha do pensamento médico positivista do fim do século XIX, que se
funda numa aproximação fisicalista, antivitalista, da fisiologia humana. A sua
estrita formação anátomo-fisiológica, as contribuições dadas à Neurologia
antes da sua descoberta, não desaparecem no psicanalista. Reconhece-se
esse sinal no respeito pela clínica neurográfica em Psiquiatria, para cuja
renovação muito contribuiu; no modo de pensamento que alimenta a
tentativa de descrição de um aparelho psíquico; na alegação repetida do
carácter parcial do acesso psicanalítico e do retorno último ao orgânico; na
preocupação constante do aspecto terapêutico da Psicanálise e na
consideração do ponto de vista médico empírico e pragmático. Lembrou
muitas vezes -e com razão - -

que as descobertas da Psicanálise se deram num «solo médico», para bem


sublinhar que a teorização consistia apenas no diálogo incessante com a
experiência empírica donde nasce e que informa.

Enfim, não se pode deixar de salientar que a incapacidade terapêutica do


neuropsiquiatra em 1885 - aquando da utilização da electroterapia e, depois,
da sugestão hipnótica, fastidiosa e ineficaz-foi um incentivo não descurável
na invenção de um método de tratamento. Em Freud, isso não implicava
somente o «desejo de curar» mas também o de ganhar a vida e de alcançar
sucesso «burguesmente».

Por outro lado, Freud foi médico à força. Como ele próprio o recorda, nunca
teve vocação médica nem aptidã o peculiar. «Nem nesta época nem mais
tarde senti uma predilecção particular pela situação e pelas preocupações do
médico; aliás, não a senti desde então. Era, antes, estimulado por uma
espécie de sede de saber, mas que tinha como objecto mais o tocante às
relações humanas do que às Ciências Naturais, sede de saber que ainda,
contudo, não havia reconhecido a observação como principal meio de se
satisfazer.» Do mesmo modo, escreve também: «Depois de quarenta e um
anos de prática médica, o conhecimento de mim mesmo diz-me que nunca

112
fui médico no sentido rigoroso da palavra.» E ainda: «Quando era jovem nunca
conheci outro desejo profundo que o do conhecimento filosófico, e estou agora a
ponto de o realizar passando da Medicina à Psicologia. Fiz-me terapeuta contra
minha vontade.»

Algures, Freud sublinha que em criança nunca «brincara aos médicos» e que não
encontra em si a necessidade de uma sublimação do sadismo que subtende a
vocação propriamente terapêutica. Estas citações permitem resumir bem o
problema: nele, o essencial é a sede de conhecer, que a formação científica virá
satisfazer, mas submetendo-a à observação. A formação científica de Freud aparece
aí como uma verdadeira «repressão», sobretudo na medida em que o levará
durante vários anos a consagrar-se à Histopatologia, à Farmacologia, à Neurologia.
Este deslocamento do desejo de conhecer -poderia dizer-se «este avatar da pulsão
cpistemofílica» -não é estranho à sua descoberta. Mas é, todavia, em função das
circunstâncias conjunturais - a pobreza, o desejo de se casar, o facto de o seu
professor Brücke estar já provido de assistentes jovens que lhe tolhiam o passo -que
ele se viu lançado no campo da terapêutica, abandonando em consequência uma
carreira de «investigador» e um laboratório que estimava. É tentador,
retroactivamente, descrever esta constelação como necessária-para estar apto a
operar a «inversão» no campo da neurose, não era necessário que Freud:

-fosse movido pela paixão de saber respeitante às relações humanas, paixão


refreada pelo superego numa submissão à observação dos factos;

-e se encontrasse numa situação prática em que conhecimento e acção se


pudessem conjugar estreitamente...

Pode-se, entretanto, julgar que o pensamento médico fisicalista-no qual ele se


formara e que é tão manifestamente contrário ao seu gosto profundo por um
pensamento dialéctico -fosse necessário para que a abertura do campo do
inconsciente se fizesse graças à rejeição de uma psicologia idealista e vazia do
«sujeito».

Assim, ao nível da invenção da Psicanálise se encontra posta a questão da


articulação e da oposição do psicanalista e do médico’. Particularmente, esta
questão en-
8 113
carna-se em dois problemas relativamente aos quais Freud sempre se exprimiu de
maneira contraditória.

Em primeiro lugar, o da importância do «desejo de curar» na prática médica e


psicanalítica. Por um lado, a -este respeito, Freud insiste que, na Psicanálise, o
desvio é alguma coisa de essencial, com a suspensão da preocupação de curar; que
isso a distingue radicalmente da posição médica. Por outro - sublinha -, o seu fraco
desejo de curar nunca incomodou os doentes; pelo contrário, é o que permite
conservar o espírito livre, assim como o cirurgião deve ter as mãos livres. De tal
modo que é possível perguntar se a colocação entre parêntesis da preocupação de
curar pode efectivamente opor a Psicanálise e a Medicina, se ela não é
simplesmente uma exigência da Medicina científica.

Em seguida, o da correlação natural, no campo da Psicanálise, -entre conhecer e


agir. Freud insiste repetidamente neste ponto: em Psicanálise o conhecimento é
uma acção que transforma na própria medida em que conhece. Decerto, isto é
muito importante, mas surge, em certos aspectos, como defesa contra a reprovaçao
de um conhecimento que apenas «serviria» o desejo do sábio. Como logo se
patenteou, e Freud foi o primeiro a mostrá-lo, a teoria psicanalítica excedia o quadro
da sua actuação, fosse no campo médico fosse noutras aplicações. É assim que
surge o problema absolutamente central das discordâncias teórico-práticas,
problema nuclear nas relações da Medicina e da Psicanálise. Esta discordância
existe na própria Medicina; não há ligações automáticas e imediatas entre a
explicação de um facto patológico e a possibilidade de o tratar, e constitui um velho
tema de ironia relativamente aos «homens da arte», cuja linguagem particular
dissimulava a impotência. Todavia, a Medicina científica libertou-se largamente
dela: não somente chamando a si os meios de curar mas também dando uma teoria
válida do seu campo de acção, com ou sem cura. Não será, porém, digno de nota
que os médicos tendam a exigir do psicanalista a prova permanente da sua
utilidade, da sua eficácia, se não quiser ver-se acusado de tagarelice, deste modo
desconhecendo o valor verdadeiramente científico da teoria analítica?

Convém, pois, precisar dois pontos:

114
Primeiramente, e no campo da cura, a ligação postulada por Freud entre conhecer e
curar não se presta a nenhuma comparação médica, visto que consiste num
estatuto epistemológico do objecto «tratado», objecto este que se apreende apenas
na transformação a que o conhecimento o submete. Freud não postula, por
conseguinte, esta ligação somente como um argumento de eficácia.

Em segundo lugar, e neste caso de maneira idêntica ao que se passa em Medicina,


não é administrando a prova repetida da sua eficácia que o psicanalista «trabalha»
para a Psicanálise - é pelo progresso teórico que permite compreender melhor
porquê, em tais casos, «isso não produz efeito». Ordinariamente, entre analistas e
médicos, a transacção só poderá fazer-se pela referência à ideia de «pesquisa»,
separada da exigência prática.

b) Voltemos rapidamente à perspectiva histórica para dizer o essencial do que


caracteriza as relações entre a Psicanálise e a Medicina.

0 conflito manifestou-se, logo de início, pela rejeição violenta e irracional


daquelapor parte dos médicos, principalmente dos psiquiatras. Freud foi contrariado
durante longos anos por uma particular malevolência dos meios médicos, do
vienense em particular. E não foi nestes últimos que ele principalmente xecrut<m
os seus primeiros discípulos. Não será significativo ter Freud considerado
posteriormente este isolamento deveras involuntário como um f actor positivo para
a sua investigação? Não contribuiu este ostracismo médico para a teorização da
resistência encontrada nas próprias curas? 0 facto de, nesta época (1900-1914), ele
conceder o maior valor à caução médica, em particular ao apoio que a autoridade
de grandes nomes da Psiquiatria podia representar para a Psicanálise, não impede
que tivesse desejado esse isolamento: é por isso que se regozija com a adesão à
Psicanáli-se do psiquiatra suíço Bleuler. E todavia, posteriormente, não continha
esta adesão em germe o desvio jungiano, nela considerando a transacção
necessária com a ideologia cultural suíça?

Não há dúvida de que estas inversões--um mal para um bem, um bem para um mal-
tenham reforçado em Freud a convicção de que o desenvolvimento da Psicanálise
devia ser autónomo, e não privilegiar o aspecto médico. Posto que, como ele o
observa, a hostilidade par-

115
ticular do corpo médico em relação a ela provava,também que a formação médica é
a antítese da que requer a abertura do espírito à Psicanálise, pelo peso dado por
aquela à objectivação e aos fenômenos do corpo visível. Mas depois do que
acabamos de lembrar sobre a formação de Freud, não será esta observação
paradoxal? Como cone!liá-la com o facto de os psicanalistas mais autênticos
poderem emergir de uma formação médica? Reencontraremos imediatamente esta
questão se nos interrogarmos sobre a formação do psicanalista: não se poderá
entretanto afirmar desde agora a impossibilidade de ela ser «programada», visto
que as suas mais lúcidas verdades estão no ,«posteriormente» e na «inversão»?
Numa segunda fase (que dura sempre), o problema da relação da Psicanálise e da
Medicina apresentou-se muito diferentemente. A guerra de 1914-1918 não quebrou
o movimento psicanalítico. Pelo contrário, o tratamento das neuroses de guerra
contribuiu para a difusão das ideias psicanalíticas, ao mesmo tempo que os Estados
Unidos lhe abriam um vasto campo de expansão. A partir deste momento, o
problema inverteu-se para Freud: quando até então, escreve ele, os médicos foram
os primeiros a tentar proibir qualquer prática psicanalítica como imoral, perigosa,
etc., a tendê ncia futura manifestou-se em pretender interditar a prática analítica
aos não médicos e a integrar, em conse” quência, a Psicanálise na Medicina.
Tendência que Freud julgava ser, em suma, e sobretudo, uma resistência à
Psicanálise, da qual queria fazer «alguma coisa que se encontre nos tratados de
Psiquiatria, no capítulo das terapêuticas».

Vê-se como as relações entre a Medicina e a Psicanálise se podem descrever numa


linha oscilando da segregação hostil para a integração, pelo menos ambivalente.
Freud interroga-se sobre que estádio da fase oral correspondia esta integração:
incorporação destrutiva ou incorporação conservadora?

c) É pela ocasião de um processo contra o psicanalista não médico Reik que Freud
escreveu em 1924 uma memória em que resume as suas posições sobre Psicanálise
e Medicina 2. Este texto fundamental destinou-se a um juiz de processo, postulado
auditor imparcial. Na realidade, Freud dirigia-se mormente aos seus colegas
psicanalistas. Pois, desde essa época, posições muito diver-

116
gentes se exprimiam no interior da comunidade analítica. Certas sociedades de
análise -em particular as sociedades americanas -consentiam em reservar a prática
psicanalíti@ca aos médicose só recrutavam os seus membros dentre eles. Isto
implicava, por um lado, aceitar fazer da Psicanálise uma especialidade médica como
asdemais; por outro, e não importa em que grau, proceder a favor da oficialização
do estatuto do psicanalista na sociedade.

Pode dizer-se que, desde então, esta divergência de opiniões apenas se foi
acentuando, e geralmente na maior confusão, à medida que crescia o sucesso
cultural da Psicanálise. Este sucesso, com efeito, torna quase impossível a distinção
entre os argumentos científicos (o que é a Psicanálise deve determinar o que é o
psicanalista) e os argumentos ideológicos (o psicanalista deve definir-se em relação
com as exigências sociais).

0 entrelaçamento da problemática intra-analítica com as preocupações da


implantação e da extensão (variáveis conforme o momento histórico, os países, os
regimes, o estado das ciências humanas, da Psiquiatria, etc.) fez que, actualmente,
o problema se ponha mais em termos de opções políticas que em termos
propriamente psicanalíticos. Eis porque é tão útil voltar muitas vezes a este texto de
Freud - ele demonstra uma altura de vistas e uma clareza profética quanto às
relações da Psicanálise e da Medicina e, mais profundamente, da Psicaná lise e da
sociedade.

Adoptaremos, pois, o seguinte plano: num primeiro capítulo, interrogar-nos-emos


acerca do lugar da Medicina na Psicanálise, a dois níveis sucessivos -primeiramente,
qual o lugar do «tratamento psicoterápico» que parece ser a cura psicanalítica na
Psicanálise tomada em sentido lato; seguidamente, qual é o lugar do ponto de vista
médico na própria cura. Este capítulo inicial deverá permitir apreender na sua
especificidade o que conjunta e disjunta crucialmente Psicanálise e Medicina.

Num segundo capítulo, indagaremos sobre o lugar da Psicanálise na Medicina, em


primeiro lugar evocando rapidamen.te as «aplicações médicas» da Psicanálise em
psiquiatria de adultos e em psicossomática; depois, e, principalmente, perguntando-
nos, a propósito da função e da formação psicoterápica do médico, acerca da
possível contribuição da Psicanálise em por e resolver o problema da

117
Medicina científica, a saber: em que se torna nela o médico, em que se torna nela o
doente.

É então que se poderá lobrigar este facto paradoxal: o que a Psicanálise oferece
quanto ao estatuto de neurosado, que é o seu «objecto» mais específico,
menosprezado pela Medicina, constitui todavia, no fundo, o que pode suster, no
termo do impasse desta Medicina, a posição verdadeira do médico. Em suma, e
exagerando o paradoxo até à caricatura, parecerá menos abusivo integrar a
Medicina na Psicanálise que esta naquela, conforme tendência dominante.

LUGAR DA MEDICINA NA PSICANÁLISE

Evocámos -muito esquematicamente como se pos historicamente o problema das


conexões entre a Psicanálise e a Medicina. Convém agora, no ponto a que chegou o
desenvolvimento daquela, descrevê-los. Procuremos saber primeiramente o que é a
Psicanálise a fim de avaliar do lugar que nela ocupa a cura como tratamento
psicoterapêutico.

LUGAR DA CURA NA PSICANÁLISE

Para definir a Psicanálise recorramos a um breve artigo que Freud escreveu para
uma enciclopédia em
1925. Nele encontramos o seguinte:

«A Psicanálise é o nome:
1) de uma forma de investigação de processos mentais quase inacessíveis fora do
âmbito dela;

2) de um modo de tratamento de desordens neuróticas que se funda nesta


investigação;

3) de um conjunto de dados psicológicos obtidos por estas vias e que se constitui


pouco a pouco em nova disciplina científica.»

Notemos, pois, numa primeira análise, que a Psicanálise é simultaneamente um


método de pesquisa específica, uma acção terapêutica e, por fim, um corpo de
saber psicológico, uma ciência fundamental do psíquico.

Pode considerar-se, à primeira vista, que o aspecto terapêutico não é privilegiado, já


que se inscreve simplesmente entre método e teoria. E este corpo científico, nova

118
disciplina do psiquismo, encontra matéria para «se exercer» em todos os campos do
conhecimento que obrigam à intervenção do psiquismo, isto é, muito para lá da
Medicina. Sabemos, com efeito, contestáveis ou não, quais são as contribuições da
Psicanálise ao estudo das religiões, dos mitos, da arte, dos grupos, dos modos de
vida, seja no campo da Sociologia ou da Etnologia seja no da História, etc. Não há, a
priori, nenhum domínio da actividade do homem a que não se possa aplicar.
Facilmente se concebe, nestas condições, porque Freud recusa uma limitação tão
exorbitante da Psicanálise como a que consistiria em fazer dela um departamento
da Medicina. Chegada ao grau actual de desenvolvimento, a teoria analítica é um
corpo de conceitos autónomos que não tem necessidade de se referir de maneira
privilegiada ao «solo médico» de que brotou. É verdadeiramente a posição de Freud
em Psicanálise e Medicina, onde explica que reviu o seu juízo: se antigamente opôs
a Psicanálise (médica) a «aplicações» mediatas e diversas, julga que ela, agora, e
antes do mais, é uma teoria -científica cuja terapêutica de neurose é unicamente
uma aplicação entre as outras. Freud vai mesmo até ao ponto de fazer a analogia
com a electricidade: consideramo-la como parte da Medicina sob pretexto de ter
sido descoberta numa rã e de ter aplicações médicas?

Neste primeiro pólo de reflexão freudiana, a cura como tratamento psicoterápico


não ocupa nenhum lugar privilegiado, e daí resulta «a fortiori» uma extrate
m,*torialidad,e absoluta entre -ambas as ciências.

Trata-se, porém, de uma formulação abrupta, polémica, na medida em que Freud


quer fugir à influência excessiva da Medicina. Se voltarmos à definição acima
citada, impõe-se lembrar que é conveniente fazer a apreciação ao lugar médio que
ocupa o «método de tratamento». Não é ele privilegiado? Podemos imaginar que a
Psicanálise somente ligaria por este expediente um método de investigação e um
saber adquirido? Naturalmente não, e vimos já como Freud faz empenho no
postulado de uma ligação intrínseca entre a operação de conhecimento e a
transformação daquilo de que tomou conhecimento. Eis porque o tratamento não é
uma aplicação igual às outras da teoria, pois fundamenta-se no método de
investigação (associação livre num quadro rigorosa-

119
mente fixo): seria necessário dizer que o tratamento se escora no método de
investigação e vice-versa.

Por outro lado, o tratamento, como ligado fundamentalmente ao método de


investigação, é também o lugar privilegiado em que a teoria pode validar o seu
trabalho conceptual. Com efeito, se os processos que fundam a teorização são
quase inacessíveis fora do processo-transformação, é de retorno a este nível que o
progresso teórico poderá inforTnar a práxis. Vê-se em que é que o lugar médio que
ocupa o método de tratamento nesta definição da Psicanálise reflecte bem o papel
da mediação indispensável que constitui o eixo de validação desta ciência:
mediação entre experiência e conhecimento; mediação entre teoria e práxis. Este
papel é o que defende a Psicanálíse de ser tanto investigação como especulação
puras-^,.

Convém ir mais longe. Na cura analítica existe uma tendência entre os psicanalistas
para dissociar o próprio processo analítico, que seria o fim «em si», e o seu
resultado eventual, que seria a «cura» (posição polémica). Esta disjunção, se é
descritivamente útil, não tem estatuto conceptual. Com efeito, vimos que a ligação
intrínseca do processo e da transformação que suscita é fundamental. Ora, está fora
de questão que o psicanalista, enquanto recorra a este processo, possa considerar
que a transformação que ele implica seja um «mal». É absurdo imaginar que se
abstraia, na sua prática, de toda a «preocupação» quanto à sua situação social, por
conseguinte de toda a participação à ideologia reinante. 0 psicanalista não pode ser
como um artista marginal, que pinta como bem entende, utilizando materiais
indiferentes. Tem necessidade de um «material vivo». Precisa, pois, de postular que
a transformação é um «bem», afinal. Que isso difere sem dúvida profundamente do
que subtende a ideologia médica da cura não oferece dúvidas. Mas é falso
considerar que não há na cura um projecto de transformação. Voltaremos a este
assunto. 0 que se impõe relevar é que o lugar médio,central, do método de
tratamento, se se traduz primeiramente num «estatuto epistemológico» da
Psicanálise, reflecte também a exigência de uma implantação social por uma práxis
que, implícita ou explicitamente, remeta a uma ética. É fundamentalmente a este
nível que tende a vir actuar o modelo da ética médica, como uma caução
conformista.

120
0 problema que pomos, o do lugar da cura na Psicanálise, conduziu-nos a duas
posições sucessivas: a primeira insistia no lugar secundário da cura, portanto na
autonomia absoluta, prática e teórica, desta ciência em relaçã o à Medicina; a
segunda, pelo contrário, conclui em admitir que a cura como tratamento ocupa
inteiramente um lugar privilegiado na Psicanálise. Mas é então no próprio interior da
cura que se fixa a questão do lugar do ponto de vista médico.

LUGAR DO PONTO DE VISTA MÉDICO NA CURA

0 projecto de transformação que subtende o recurso da cura analítica estabelece


também nesta o paradoxo fundamental. Para o ilustrar partiremos de um silogismo
cuja crítica Freud enceta em Psicanálise e Medicina: o neurosado é um doente; a
cura analítica trata esta doença; logo, a cura é um tratamento reservado aos
médicos.

Freud teima em mostrar que o neurosado não é um doente como os outros, que o
psicanalista é muito diferente -de um médico e que o médico não está «ipso facto»
qualificado para praticar a análise. Este último ponto quase nãoconstitui problema;
porém, queremos sobretudo fazer ver que se o neurosado não é um doente como os
outros (e o psicanalista um terapeuta como os outros) a própria cura já não pode ser
considerada um tratamento. -Ou, pelo menos, que a «Psicanálise seja um método
de tratamento apenas se transmudar as noçõ es clássicas de neurose e de
tratamento»4.

Que é o neurosado? Para o ilustrar citemos FreudI: «0 doente pode sofrer de


alteração de humor que não chegue a dominar, ou de desalentos pusilânimes, que
lhe paralisem a energia e retirem toda a confiança em si próprio, ou ainda de um
constrangimento angustiado assim que se veja entre estranhos. Pode, sem
compreender porquê, sentir que o exercício do seu trabalho profissional se dificulta
e, do mesmo modo, qualquer decisão de certa importância, qualquer tarefa. Um
dia, sem conhecer a razão, sofre uma penosa crise de angústia e, em consequência,
deixa de poder, sem apelar para um violento esforço, atravessar uma rua ou de
viajar por caminho de

121
ferro, talvez mesmo tenha de renunciar a uma e a outra coisa. Ou então-coisa
bizarra-os seus pensamentos seguem o seu próprio caminho, fugindo ao controlo da
vontade; correm atrás de problemas de que, apesar de lhe serem indiferentes, não
se desviam! Chama a si tarefas ridículas, como a de contar as janelas nas fachadas
das casas, e, aquando da execução das coisas mais simples -pôr uma carta no
Correio, apagar um bico de gás-, fica tomado, logo depois de o fazer, pela dúvida de
as ter na realidade executado. Isto pode ser simplesmente irritante ou impertinente.
Porém, é uma situação que se torna insuportável se o infeliz, repentinamente, não
consegue livrar,se da ideia de que empurrou uma criança para debaixo do rodado
de um carro ou lançou um desconhecido à água do alto de uma ponte, e se, a
propósito de um crime descoberto nesse mesmo dia, pergunta a si próprio: «Não
serei eu o assassino que a Polícia procura?» Tudo isto
- e o desgraçado sabe-o - é verdadeiramente estúpido, ele nunca fez mal a
ninguém; mas o sentimento de culpabilidade não poderia ser mais forte se fosse ele
o assassino procurado!

«Ou então o nosso paciente - digamos agora, a nossa paciente - sofre


diferentemente num outro domínio. É pianista, mas os seus dedos são atacados por
cãibras e negam-lhe qualquer acção. Tem de figurar em sociedade, mas
imediatamente se faz sentir uma necessidade natural cuja satisfação é incompatível
com o facto de permanecer em grupo. Como consequência, renunciou a frequentar
reuniões, bailes, teatros, concertos. Nos momentos menos apropriados surgem-lhe
dores de cabeça ou outras sensações dolorosas. Ás vezes vê-se obrigada a vomitar
tudo o que come, e isto, com o tempo, pode tornar-se perigoso. Em suma, e coisa
deplorável, não suporta nenhuma emoção-e estas são inevitáveis no decorrer da
vida. Se está sobreexeitada, logo cai em delíquos, muitas vezes acompanhados de
cãibras musculares, lembrando os mais inquietantes estados patológicos.

«Outros doentes são afectados num campo em que a vida sentimental se liga
intimamente com o corpo. No caso de se tratar de homens, mostramse incapazes de
dar uma expressão corporal às mais ternas emoções que o sexo oposto inspira, ao
passo que se estiverem em presença de mulheres de que não gostem podem dispor
de

122
todas as reacções que quiserem. Ou então a sua sensualidade liga-os a mulheres
menosprezadas por eles próprios e de quem desejariam desligar-se. Ou ainda esta
mesma sensualidade impõe-lhes condições a realizar e pelas quais sentem
repugnância. No caso de mulheres, a angústia, o desgosto ou entraves de origem
desconhecida impedem-nas de responder às exigências da vida sexual ou até-se
cederem ao amor-vêem-se logradas no prazer que a Natureza oferece a quem
obedece às suas leis.»

Nestas linhas, tornadas um pouco «floridas» pela tradução, reconhecer-se-á


sucessivamente a fobia, a obsessão, a histeria, a perturbação sexual, que
especificam o campo da neurose no sentido estrito que Freud lhe conferiu
inicialmente, isto é, as psiconeuroses de transferência. Ora, que se esconde atrás
destes sintomas? « Eles representam satisfações substitutivas e deformadas das
pulsões cuja existência se deve negar tanto a si como aos outros. A sua
possibilidade de existir reside unicamente numa deformação e num disfarce, mas
uma vez o enigma resolvido e a solução admitida, estes estados mórbidos já não
podem persistir. Dificilmente se encontra alguma coisa de comparável em
Medicina.»

Por isso é tão difícil ao bom senso -de que o bom senso médico é uma variedade -
admitir a «,realidade-,> do sintoma neurótico: é que convém, antes do mais, aceitar
a «moeda do país visitado», para retomar uma comparação de Freud, e não querer
impor o seu próprio sistema de câmbio. 0 sintoma-seja da conversão histérica, do
ritual obsessional, do medo fóbico-apresenta-se quase sempre, banalmente, como
realidade exterior ao indivíduo, fonte de um sofrimento evidente, e cujo
desaparecimento se desejaria idêntico à sua chegada: em silêncio. A posição
«natural» dificilmente pode entrever quais as «satisfações» que ele contém, pasma
da sua «resistência» ‘e não mede o «apego» profundo que o indivíduo lhe tem.
Desejar-se-ia assimilá-lo aos sintomas da doença, tal como a Medicina fixou o seu
estatuto: a dor, a febre, a erupção, o tumor, remetem para um sistema de
conhecimentos, no campo visível do corpo, em que não há necessidade de fazer
intervir o indivíduo para separar uma inteligibilidade e um modo de acção. Quando
o diagnóstico é difícil, quando há um enigma, é inteiramente objectiva e
objectivável em direito; a «déniarche» diagnóstica postula-se en-

123
tão insuficiente e conserva-se distinta da «démarche» terapêutica. Ora, o sintoma
neurótico não corresponde em nada a este esquema: aponta um enigma subjectivo
cuja resolução, afirma Freud, suprime ao mesmo tempo o objecto de investigação. A
dificuldade desta «apreensão» manifesta-se no facto de requerer simultaneamente
para a sua teorização um tópico do inconsciente, uma energética dos investimentos
pulsionais, uma dinâmica dos conflitos e uma referência histórico-genética
fundamental.
0 sintoma neurótico tira a sua consistência da rede de significações e de afectos
que o insere em toda uma organização, e condensa nela a expressão - das forças
antagonistas (satisfação e punição, pulsão e defesa); o seu acesso psicanalítico
encontra resistências que reeditam, no presente, a manifestação da força que
operou, outrora, como recalcamento.

Assim, o sintoma neurótico surge concomitantemente exterior e interior ao eu:


exterior visto que o indivíduo o percebe como aberrante em relação ao seu sistema
consciente e racional («Não sei porquê mas não posso sair à rua»); interior em
virtude de estar a ele «amarrado» por vínculos profundos. Todos os graus se
observam, aliás, na relação fora-dentro até à interiorização máxima que pode
realizar o atributo de carácter (por exemplo., e em vez da expressão precedente:
«Não tenho desejo de sair à rua»).

Esta apreensão do sintoma neurótico é tão estranha ao pensamento médico que,


setenta e cinco anos depois dos Estudos sobre a Histeria, continua a ser
esquartejada entre a imputação de fingimento, de má-fé, e a rotulagem mágica de
«sugestão». É verdade que a aceitação efectiva do inconsciente não se confunde
com a utilização nominalista do termo.

Numa sociedade em que os problemas da saúde se põem em termos cada vez mais
socializados de responsabilidade colectiva, concebe-se a que ponto o estatuto
medicamente ambíguo do sintoma neurótico oferece dúvidas. Como pode o médico
responder à questão que lhe põe muito concretamente a sociedade a respeito da
responsabilidade do neurosado? Reconhecê-lo responsável é uma simples violência;
reconhecê-lo irresponsável reforça o sintoma sobrecarregando-o de «benefícios
secundários». Aliás, a evolução sócio-cultural modela inevitavelmente os sinto-

124
mas da neurose, o que permite às vezes, a partir de análises um pouco prematuras,
imputar tal estrutura social de ser a «causa» do sintoma, quer pelo seu carácter
repressivo quer pelo seu carácter demasiado tolerante. Encontraremos este
problema mais adiante a propósito da maxginalidade do neurosado (e do
psicanalista). Limitemo-nos aqui a admitir que o neurosado não é um doente como
os outros, e que a pergunta que subtende a recorrência ao tratamento remete a
outra coisa que o seu conteúdo: o desaparecimento do sintoma.

Por outro lado, é a cura um tratamento? Aparentemente, o neurosado queixa-se de


perturbações; a cura psicanalítica é-lhe proposta para responder a este queixume:
não é este o esquema habitual do tratamento médico?

Neste esquema, o que se exige do doente é uma submissão dócil e aplicada às


prescrições do médico, submissão esta que permite idealmente levar ao
desaparecimento dos sintomas. Evidentemente, o que se sabe da cura analítica
falseia radicalmente este esquema por duas razões imediatas: antes de mais,
porque a colaboração activa do paciente é fundamentalmente necessária para
vencer os efeitos da resistência, no que, como escreve Freud, a psicanálise é uma
pós-educação; depois, porque a cura do sintoma passa para segundo plano, na
medida em que a sua flutuação ou o seu desaparecimento se inscrevem no quadro
de modificações globais, que são as únicas verdadeiramente significativas.

Mas estas duas razões apenas se opõem a um esquema caricatural do tratamento


médico:

- este implica frequentemente a colaboração activa do doente (reeducação


funcional, por exemplo);

- por outro lado, distingue a intenção sintomática da intenção etiológica, sendo esta
última muitas vezes privilegiada e aquela, a esse tempo, secundária.

Convém, por conseguinte, procurar mais longe o que verdadeiramente diferencia a


cura de qualquer tratamento médico. Esta diferenciação resulta unicamente, e por
fim, do que faz a especificidade do sintoma neurótico -se este tiver a significação
sobredeterminada que dissemos, se for ao mesmo tempo satisfação da pulsã o e
satisfação da defesa, a sua «cura» remete tanto à renúncia como à libertação.
Tomemos um exemplo: um doente (ho-

125
mem ou mulher) que sofra de agorafobia, isto é, de uma inibição de sair à rua,
qualquer saída motivando-lhe uma crise de angústia muito penosa. Admitamos
esquematicamente que, como é frequente, essa saída à rua tenha para ele o valor
de realização de um desejo de prostituição.
0 que o paciente parece então pedir é poder sair à rua, isto é, e sem o saber, poder
prostituir-se sem ter de afrontar os perigos que isso implica, em particular a sua
castração se for um homem. Concebe-se claramente que se o doente, já curado do
sintoma, puder seguidamente passear em público, a satisfação que isso lhe trará
não tem medida comum com a satisfação de se recusar no sintoma. Produz-se,
então, na modificação obtida, uma verdadeira «transmutação» de sinal, que faz o
sintoma curado já nada ter de comum com o que era visado como cura do sintoma.
Isto é verdade comum a qualquer sintoma: assim, um impotente não acede à
satisfação «normal» do coito a não ser que, igualmente, possa renunciar à
satisfação anormal (sádica, por exemplo) que o coito interdito encobria. É
impossível privilegiar a libertação em relação à renúncia e arenúncia em relação à
libertação. É neste sentido que se torna difícil falar de uma terapêutica, visto que
esta implica um «regresso ao normal», quando a cura - - mal desig.nada -assim -
termina (se terminar) num estado «novo». Retomemos a questão encarando os
critérios de cura, os resultados @da Psicanálise. 0 que podemos reter aqui é que a
compreensão geral do sintoma neurótico domina -radicalmente a posição do
psicanalista, a responsabilidade que se lhe reconhece na cura, posição e
responsabilidade que são fundamentalmente diferentes das do médico. É, com
efeito, consubstancial às condições teóricas e práticas da cura, à própria
possibilidade do projecto de transformação que a fundamenta, que o psicanalista se
abstenha intransitivamente, ou, mais rigorosamente, se abstenha de encarnar
realmente um valor, qualquer que ele seja, aí compreendido o presumido «bem» do
paciente, a ideia que ele tem da «cura». Querendo que a neurose de transferência
(puro e simples substituto da neurose inicial) possa abrir-se e, sobretudo, analisar-
se e resolver-se, convém que nada a sustenha ou se lhe oponha na conduta do
analista. Qualquer manifestação da parte deste de um desejo de curar, quer seja
para propor uma abertura quer para aconselhar um comportamento, é
intempestiva. 0 pa-

126
pel de um psicanalista é de «suportar», na clássica «benevolente neutralidade», as
captações imaginárias do doente e de propor a respectiva interpretação. Por fim, e
para um doente capaz de fazer com perfeição este jogo -pois é principalmente um
jogo -, o analista jamais terá outra realidade que a conferida pelas regras do mesmo
jogo, o contrato analítico de que falaremos mais adiante. Há, pois,
assimptoticamente, um desígnio da cura que é a abertura de um processo analítico,
processo este que tem como único fim a sua lógica própria, em relação à qual o
objectivo da cura é uma via contingente, ligada a uma conjuntura
sobredeterminada. 0 papel do analista é, primeiramente, de não impedir o
desenrolar deste processo e de dar todas as possibilidades ao processo de
significação. Percebe-se que esta posição do psicanalista -muito dogmaticamente
assim resumida -implica uma renúncia crucial a um certo tipo de responsabilidade
médica, que privilegia necessariamente, explicitamente, a vida, a saúde, a
adaptação, isto é, que reside numa ideologia não contestada nem pelo médico nem
pelo doente. Esta renúncia implica a responsabilidade do risco incorrido deste facto.
Sabe-se que o psicanalista informa geralmente o seu paciente, em princípio de cura,
de que deve interromper as decisões mais graves, que comprometem o futuro, no
seu curso. Será necessário, entretanto, acolher com impavidez rigorosa os múltiplos
«acting-out» da sua prática, de que alguns põem em jogo os intereses, mesmo a
vida, dos seus pacientes. Isto está relacionado, por exemplo, com as tentativas de
suicídio, mais geralmente com o desejo suicida: a abstenção do analista é requerida
para que a vertigem da «passagem ao acto» possa, no limite da efectuação, e até
depois dela, interpretar-se -e inscrever-se para o futuro na experiência do ego, que
nunca sobrevém senão no lugar onde está o ld 1.

Cremos tê-lo repetido bastantes vezes para que se possa efectivamente entrever
que a cura não é um tratamento da neurose, a não ser que se transmude -a noção
de tratamento e a de neurose. Mede-se o carácter de verdadei,ra inversão de
perspectiva que implicp a posição do psicanalista, a qual traduz uma ruptura radical
com a ideologia habitual dos «cuidados».

Há os que julgam haver uma clivagem absoluta que proíbe toda a comparação
como correndo o risco de sub-

127
verter o próprio espírito da cura. Outros, pelo contrário, consideram que a
transmutação em causa não obriga, por isso, a cura a sair da Medicina e que
convém, antes, reflectir sobre o que pode ser um alargamento da inversão da
ideologia médico-assistencial. Conclui-se que é bem no interior da cura, no que ela
tem de mais essencial, que se verificam a maior e menor diferenças entre prática
psicanalítica e prática médica, entre Psicanálise e Medicina. É esta zona de
interferência, de. conjunção-disjunção, que se impõe reter para compreender os
problemas práticos e teóricos postos pela aplicação médica da Psicanálise, incluída
na recorrência prática da cura, pois os problemas serão sempre seus «Ersatz».

0 CONTEXTO DA CURA; A CURA COMO PRÃTICA SOCIAL

Para elucidar o nosso intento, recorramos a uma analogia: não poderiam ser o
inconsciente e os seus processos primários comparados à imponderabilidade,
enquanto os processos secundários do sistema pré-consciente-consciente
equivaleriam às leis da gravidade em que muito «naturalmente» vivemos? Temosa
intuição fugaz do mundo da imponderabilidade perante o que se nos oferece como
uma transgressão da gravidade: um salto de atleta, a levitação que sentimosquando
um elevador arranca na descida; esta infracção corresponde ao ácto falhado, ao
lapso que faz pressentir, num momento, o mundo do inconsciente.

Porém, se quisermos explorar o mundo da imponderabilidade na nossa atmosfera,


teremos necessariamente de preparar uma aparelhagem complexa (avião de
trajectória balística ou suspensão que simule a imponderabilidade) a fim de permitir
anular a força de gravidade no interior de uma câmara em que se introduz o
indivíduo que viverá essa experiência. Na nossa analogia, a aparelhagem referida
seria o que corresponde à preparação prática da cura como experiência do
inconsciente. A aparelhagem da cura constituirá ao mesmo tempo o que isola o
lugar privilegiado, o laboratório, e um lugar de passagem regido por regras
extrínsecas à análise. Entrevê-se, no termo da nossa comparação, que o
inconsciente não pode confundir-se com o espaço estreito onde se manifesta por
leis determináveis nos seus efeitos sobre o indivíduo; remete, em Freud, para

128
o - Id como lugar infinito e não - estruturado, análogo ao mundo sideral. Este mundo
sideral foi durante muito tempo pensado teoricamente; porém, só recentemente
experimentado, mas sempre por meio de um aparelho que o modere.

Vimos até que ponto a situação analítica e o processo que induzia eram estranhos à prática e
à ideologia médicas, nas quais «mergulhamos»; pode enxergar-se que, por fim, esta situação
é como o inconsciente: fora do tempo e do espaço. Mas não obsta a que a sua realização
implique uma aparelhagem preliminar que ponha o problema da análise como prática social,
prática que, parece, não pode dizer respeito à Medicina. Este problema vai colocar-se
essencialmente sob três rubricas: a da indicação da cura, pois obriga a intervenção,de um
saber médico; a do contrato analítico, pois pode fazer intervir uma terceira pessoa em função
de certas necessidades; a do fim da análise, dado que os «resultados» não se podem subtrair
à regra da objectivação que sustém a respectiva validação terapêutica.

A INDICAÇÁO DA CURA

Há um certo número de anos, a acção cultural, por um lado, e as tentativas reais de


extensão da indicação, por outro, tenderiam a apresentar a cura analítica como uma
solução generalizada a todos os problemas de «neurose», em sentido lato. Por isso
convém, antes do mais, lembrar que a cura psicanalítica é, aconteça o que
acontecer, uma indicação excepcional, e isto em virtude de razões heterogéneas
que se adicionam umas às outras: a primeira, a de maior importância teórica, é a
raridade relativa dos indivíduos «aptos» a abrirem-se a um processo analítico. A
«analisabilidade» é, na verdade, um domínio mal conhecido. Recordemos a
observação brutal de Freud segundo a qual, do ponto de vista analítico, «muitos
neurosados, mas também pessoas normais, não têm valor nenhum». Esta
brutalidade dissimula o embaraço que os analistas sentem em revelar aquela
aptidão antes de recorrer à cura: independentemente de qualquer consideração
patológica, essa observação remete a certas qualidades intelectuais e morais (gosto
de verdade?) que não se con-
9 129
fundem nem com o nível mental ou cultural nem com as boas maneiras ou a
moralidade no sentido «burguês». É uma questão capital saber se esta
aptidão depende ou não das condições socioculturais; se, por conseguinte, a
própria possibilidade da abertura de um processo analítico está ligada a tal
conjuntura histórica, e pode desaparecer com ela. A verdade é que, mesmo
actualmente, esta possibilidade apenas diz respeito a uma minoria de
pessoas.

A segunda razão, com uma importância prática evi~ dente, está no facto de
a cura, como tratamento, isto é, aceitando «a priori» critérios médicos, ser
urna boa indicação somente para um sector muito limitado da Patologia. As
neuroses de transferência que constituern a indicação central só
representam uma fraca -percentagem da clientela de um psiquiatra. Ainda
que considerando a evolução da Patologia e o alargamento das indicações ao
campo das neuroses de caracteres, às «neuroses» psicossomáticas, às
neuroses narcísicas (depressivas), não se deixa de concluir dai que, deste
ponto de vista, a indicação da cura em absoluto seja relativamente menos
rara,

É sobre este mesmo plano prático que age uma outra razão limitadora da
indicação: hesita-se, com efeito, em propor um tratamento tão longo e
dispendioso quando as perturbações parecem pouco intensas e,
provavelmente, redutíveis por tratamentos mais modestos (psicoterapias,
medicações, etc.). A decisão de iniciar uma cura é tão importante que os
imponderáveis tendem-às vezes sem fundamento-a opor-se a ela.

Uma terceira ordem de razões vem ainda restringir o campo das indicações:
são os factores do contexto histórico e sócio-cultural do doente, Assim, é
preciso tomar em consideração a idade (pois os quarenta anos implicam
orientações dos investimentos dificilmente revogáveis); a importância e a
antiguidade dos benefícios secundários da doença (em particular, tudo o que
inscreve as perturbações muito profundamente no mundo das relações
familiares ou profissionais actuais).

Enfim, elemento essencial e sobre o qual as críticas ainda não acabaram, é


impossível empreender uma análise com alguém que se encontre submetido
objectivamente a uma realidade excessivamente instante: situação social
opressiva ou traumática, urgência de escolhas vitais, etc. Concebe-se que
esta comprovação, que não perturba

130
absolutamente Freud nem a metapsicologia f reudiana, possa fornecer matéria a
reflexões contraditórias: há quem daí deduza argumento para afirmar que a
patologia de que se ocupa é uma patologia «burguesa», para não dizer uma
patologia de «tempos livres», e que tem apenas uma existência «mundana»; outros
limitar-se-ão a sublinhar a não prioridade de uma práxis psicanalista em relação às
tarefas da reforma ou da revoluçã o sociais. Notemos, entretanto, que, a este nível
de indicação, o problema põe-se aqui pelo psicanalista em termos puramente
«energéticos» e que não implicam nenhuma clivagem «a priori»: não é nem mais
nem menos possível analisar um operário desempregado e endividado, por
-exemplo, do que, admitamos, um indivíduo em plena e violenta dor de dentes. Não
se deverá confundir esta limitação da indicação com um aspecto propriamente
económico: o preço da cura, que introduz um outro elemento de segregação que
não tira importância ao precedente. Mais adiante voltaremos a este assunto.

Se parece termos insistido sobre o carácter muito circunscrito da indicação da cura


analítica, é para que seja mais bem percebida a complexidade de tudo o que, no
campo da Psiquiatria e da Medicina, será dado como « aplicação» da Psicanálise, ou
seja, no domínio da Psicoterapia.

Quem põe a indicação? 0 problema pode parecer contingente, até irreal. Explicada o
que é a cura, não se deveria certamente falar de indicação, termo médico que
parece referir-se a uma sequência terapêutica objectivada. A cura, no fundo, só se
decide entre o doente e o psicanalista que aceita comprometer-se na aventura com
ele, depois de ter adquirido a convicção pessoal de que isso vale a pena.

Todavia, há um problema que repõe de maneira aguda a questão da intrusão do


ponto de vista médico na cura e a do psicanalista não médico: não implica a
indicação um diagnóstico diferencial? Não podem estes sintomas neuróticos, que
levam a considerar uma psicanálise, ocultar uma psicose latente, cuja cura
precipitaria a eclosão? Não revelam estes sintomas atribuídos à angústia, à
conversão histérica, uma -afecção orgânica, cuja cura retardaria, nesse caso, o
diagnóstico, com as consequências nefastas que daí podem decorrer? Donde a
questão: não

131
deverá ser da competência exclusiva do médico, mesmo do psiquiatra, prescrever uma
cura? Ainda mais, visto que tais perturbações podem surgir no decurso da cura, não se impõe
que o psicanalista tenha a qualificação médica para poder reexaminar o seu diagnóstico?

Freud, suposto que admite preferível que seja um médico - psicanalista, aliás - a pôr a
indicação, julga que é um problema mais formal que real: em primeiro lugar porque isso é
raríssimo e o médico não tem menos possibilidade de se enganar dada a dificuldade do
diagnóstico diferencial; seguidamente, porque, seja como for, não é desejável que o
psicanalista, médico ou não, saia da sua posição: se aparecer um problema, médico ou
psiquiátrico, será necessário que ele aconselhe o seu doente a uma consulta externa; enfim,
esta questão não diz respeito especificamente ao psicanalista. Várias profissões (pedagogos,
polícias, professores, etc.) têm de conduzir frequentemente a sua acção aos extremos, às
vezes ao coração da Patologia. Pertence à sua própria formação e à sua ética permitir-lhes
determinar a necessidade de fazer intervir a referência médica.

Por conseguinte, mesmo admitindo a utilidade de uma caução médica para a indicação de
uma cura, convém repetir energicamente que isso não implica nenhum monopólio médico,
nenhuma submissão ou fiscalização do analista não médico, incompatível aliás com a sua
responsabilidade de analista. Ainda mais, com Balint, seria necessário transpor a questão:
esta preocupação médica, muitas vezes obsidiante, da «eliminação do f actor orgânico»
revela um impasse do pensamento médico, o seu embaraço perante o facto geral da neurose;
demais, este passo aparentemente inocente e rigoroso tem as consequências práticas-e
financeiras -mais desastrosas para a incumbência terapêutica real.

Encarámos até aqui, por comodidade, a indicação da cura como uma escolha monolítica,
sendo a cura una e a indicação bem precisa. Na realidade, as coisas não são tão simples e
fazem intervir as opções próprias a cada analista no jogo das duas variáveis em causa:

-quer se decida tentar uma cura a título de experiência, ou de salvamento, porque nada de
diferente pode ser já proposto;

132
-quer se decida, na qualidade de médico, tratar «psicanaliticamente» um doente
porque assim se julga necessário, adaptando deliberadamente o modelo da cura às
condições particulares criadas pelas suas perturbações. Isto não consiste em
designar a indispensável flexibilidade técnica do psicanalista, que deve considerar o
carácter original de qualquer doente, de qualquer cura. Trata-se do imenso
problema das «variantes» e da sua articulação com as psicoterapias de «inspiração
psicanalítica», articulação esta pouco deteri-ninável porque não existe solução de
verdadeira continuidade.

Em todos os casos, no entanto, diferenças mínimas mais decisivas fazem que o


analista se veja cada vez mais « habitado» pelo terapeuta, pelo médico: é preciso
«vigiar» o doente, comprometendo-se assim na posição de responsabilidade de
alguém detentor do saber; explicitamente, o que lhe permite pôr «acima de tudo»,
como em conformidade com o interesse do paciente, a continuidade do tratamento.
Para o psicanalista, pelo contrário, o «acting-out» que é a interpretação da cura não
deve idealmente depender senão da interpretação. 0 que se coloca acima de tudo é
a verdade do processo, e, na circunstância, a verdade modesta que a neurose não é
sempre a pior solução, que o fracasso ou a interrupção da análise não é um mal
«em si». Concebe-se claramente, não obstante, que as condições socioeconómicas
ou de prestígio em que pratica o analista possam influir sobre as regras técnicas:
cada qual não pode, com a mesma serenidade, aceitar perder um doente.

Neste problema da indicação encontrámos o antagonismo médico-psicanalista:


porém, é agora claro que este antagonismo habita em todo o analista, quer seja
médico quer não, e que é no interior da sua prática que ele deve ser vivido e
solucionado. Certamente, poderia parecer abusivo, ainda que se disponha de uma
referência bem teorizada, pretender encontrar em cada caso particular a posição
óptima que «convenha», «adaptando» a sua técnica: surge então o fantasma do
curandeiro todo-poderoso dissimulado atrás de qualquer empirismo sistemático.

133
0 CONTRATO ANALITICO

Considerada a indicação, um certo número de regras fixam o quadro de trabalho


onde vai desenrolar-se o processo analítico. Estas regras, que parecem às vezes
draconianas, relacionam-se com o horário, a duração (aproximadamente 45
minutos), a frequência da sessão (3 a 5 por semana), o quantitativo e as
modalidades de pagamento (a ausência às sessões, qualquer que seja o motivo,
não anula o seu pagamento). Faz ainda parte do «contrato» analítico que o paciente
adopte a posição estendida, sentando-se o analista atrás dele, e que admita limitar
a sua ,acção unicamente à conversação. Não diremos aqui grande coisa sobre a
regra fundamental da livre associação: lembremos apenas que esta regra pode
ainda descrever-se tanto como liberdade de dizer tudo como constrangimento a
dizer tudo, sendo essencial que o doente se atreva a dizer não somente o que não
ignora mas também o que ignora. Todo o trabalho analítico oscilará entre estes dois
modos de apreensão da regra, cuja modulação cinde a emergência das resistências.
0 que convém sublinhar é que as regras do contrato enumeradas atrás têm
exactamente o mesmo valor, e que se forem dadas comocoacção draconiana não
constituem por isso menos o quadro necessário de uma verdadeira liberdade. Por
exemplo: é verdade que é opressivo ter de pagar uma sessão a que se faltou, fosse
por conveniência pessoal fosse motivada por uma greve do Metro. Mas não será isso
a condição para uma liberdade subjectiva absoluta em face do analista, em relação
à qual poderão ser interpretados os afectos surgidos? Como «interpretar»
livremente se a falta à sessão lesar financeiramente o analista, ou se, mais
profundamente, lhe for exigido assumir, por seu lado, a greve do Metro? Nenhuma
outra situação permite, com a mesma acuidade, viver e superar o conflito
fundamental dependência-autonomia.

Naturalmente, será necessário abster-se cuidadosamente de uma posição


«buroerática» que apenas visaria o respeito do regulamento: este quadro fixo é
feito para que qualquer modificação se mostre problemática, possa «fazer sentido».
Poder-se-ia censurar ao analista o carácter de ritual que adquire igualmente a
sessão: mas compreende-se bem, ao fazer isto, o que é a função do ritual?

134
Nas profundezas do processo analítico, a ritualização é a balaustrada necessária e
fecunda. Nada há de abusivo em descrever certos momentos da cura como
dependentes de uma atmosfera mágica ou místico-religiosa! Como é previsível, esta
ritualização pode tornar-se uma resistência e bloquear o processo analítico. Mas
acontece o mesmo com qualquer elemento da cura, da transferência em primeiro
lugar-é ao mesmo tempo suporte e obstáculo, de harmonia com um princípio de
retorno fundamental.

Estas regras asseguram à situação analítica o carácter «privilegiado», graças ao


qual processos mentais de outro modo inacessíveis são desvendados; elas
implicam, assim, uma espécie de isolamento quase experimental das ses-

sões, que pertencem a um mundo estritamente «privado».

Mas, todavia, este isolamento não impede que o doente continue a viver no seu
meio, no mundo real, e que os efeitos da sua cura se façam sentir, para o me-

lhor e para o pior, em todo o respectivo ambiente. As reacções deste vêm


«alimentar» a cura, tal como os restos diurnos oferecem ao sonho o seu material.
Mas o problema assenta muitas vezes em interferências mais concretas Dissemos,
apesar da recomendação de suspender as decisões mais graves, ser inevitável que
o doente viva e, consequentemente, actue. Não será sempre fácil fazer a divisão
entre o que depende do,«acting-out», expressão lateral, deslocada da transferência,
e o que depende da «passagem ao acto», decisão « amadurecida» e
testemunhando uma melhor integração do eu: por exemplo, uma modificação do
comportamento em relação a um padrão ou a um conjunto pode pertencer a um ou
outro registo, e isso qualquer que seja a natureza desta modificação do ponto de
vista da «moral. social». Pelo contrário, é possível que as interferências concretas
actuem em sentido inverso: isto é, que a intrusão real de uma pessoa do meio
ambiente, em particular do médico que visita os doentes, sobrevenha na cura. Uma
mãe, por exemplo, inquieta por ver o filho excessivamente obediente rejeitar a sua
autoridade, tenta intervir junto do analista, às vezes introduz-se «incógnita» em
casa dele. Um marido decide subitamente recusar a despesa inicialmente aceite.
Vê-se, através destes exemplos, a que ponto as coisas se tornam mais fáceis
quando o paciente é completamente autónomo (o que é ainda um critério de
indicação). É importante que

135
estas intervenções exteriores se dirijam quase sempre ao analista na qualidade de
«médico». Porém, a situaçã o assim criada não reproduz simplesmente a que se
depara ao médico quanto à preservação do segredo médico. Pois esta ingerência,
quando já não é controlável, tem repercussões propriamente técnicas, e não éticas.
Por fim, a posição que o psicanalista ocupa na transferência pode tornar-se opaca e
não analisável. Impõe-se, aconteça o que acontecer, que o analista repita ao doente
o mais fielmente possível tudo o que pôde dizer-se a seu respeito com um terceiro
do seu meio ambiente. É absolutamente incompatível com a liberdade da
interpretação que o analista saiba acerca do seu doente algo que este não suspeite
ser do seu conhecimento.

Dois factos põem com acuidade este problema da intrusão do real na cura: o
dinheiro, a Segurança Social-

1) A questão do dinheiro alimenta facilmente a crítica antianalista. Em todo o caso,


convém não baralhar as coisas, confundindo por exemplo o princípio do pagamento
e a carestia da psicanálise:

-o princípio do pagamento decorre do empirismo clínico e da compreensão da


perturbação neurótica. Indicam que é útil que o neurosado sustenha a petição de
tratamento com uma implicação financeira que lhe avalie a seriedade. Mais tarde,
este encargo financeiro contribui para o chamamento de uma realidade frustrante
para contrabalançar as satisfações regressivas da transferência: é favorável no fim
do tratamento. Sobretudo, o pagamento num mundo em que o dinheiro condensa
as numerosas significações simbólicas da «permuta» ou permite a elaboração dos
seus valores positivos ou negativos, para o doente, na relação de transferência. A
exclusão do dinheiro remete, do ponto de vista analítico, não a uma autêntica
libertação mas a uma idealização, formação reaccional típica. Naturalmente, erigir o
pagamento e o sacrifício financeiro em princípio apenas levará a confirmar a lei do
retorno precedentemente evocada.

A carestia da cura psicanalítica decorre muito naturalmente da duração e da


frequência das sessões. Quem quer que seja a regular-lhe o preço-indivíduo ou
instituição-, como não seria dispendioso várias vezes por semana, e durante meses
-e anos, mesmo para alguém de qualificação, em princípio, elevada? Embora
tomando como

136-
custo de uma sessão o preço-base da consulta psiquiátrica da Segurança Social (40
francos aproximadamente) - consulta, todavia, mais breve estatisticamente do que
uma sessão -, uma psicanálise tri-hebdomadária vem a dar em cerca de 500 francos
por mês, o que é efectivamente inacessível às bolsas modestas.

Convém, pois, não confundir, ainda que se relacionem de modo secundário, uma
realidade clínica que é a utilidade de uma certa frustração financeira para a
dinâmica do tratamento, uma realidade técnica que impõe um certo custo líquido à
cura e uma Tealidade socíoeconómica que se traduz na inacessibilidade às bolsas
modestas num sistema liberal.

2) No caso de se pôr a questão de ser a Segurança Social a responsabilizar-se,


torna-se necessário distinguir duas situações bem diferentes:

A primeira diz respeito às curas psicanalíticas praticadas em instituição. Neste caso,


o psicanalista é pago pela própria instituição e o doente beneficia da
responsabilidade normal dela. 0 problema do dinheiro, em princípio, não se põe na
cura. A experiência mostra que esta situação complica muito a análise, sem a
impedir. A reactivação das relações que o doente mantém com o dinheiro não é
operante. Ao nível transferencial, o analista aparece quer como «acima das
questões de dinheiro», com toda a resistência que esta idealização subtende, quer
como ao serviço da instituição e, por este facto, encontra-se mais ou menos
«desinvestido».

A segunda situação é aquela em que, em clientela privada, o analista-na qualidade


de médico como de neuropsiquiatra -assina folhas, tendo a Segurança Social aceite
a responsabilidade para um número sempre limitado, e eventualmente renovável,
de sessões. Neste caso, a ingerência da Segurança Social-por muito limitada que
seja-adquire uma significação simbólica importante na própria cura, quer a
instituição surja como a caLicionar o valor terapêutico da cura, escamoteando assim
as modulações da dúvida ou da influência pelo certificado de validade que ela
concede «a priori», quer caucione a doença, manifestando o desejo do corpo social
de que o paciente se cure, desejo este de que o médico-psicanalista será o
representante e que proporcionará as melhores ocasiões ao doente para persistir
sem ter de se compro-

137
meter. Em resumo, esta responsabilidade-controlo introduz na cura um terceiro que,
seja qual for a discrição das suas intervenções-e ahI, está longe de ser a regra-, vem
embaralhar a situação analítica complicando-a. Pode perguntar,se se, por fim, as
vantagens têm superioridade sobre os inconvenientes, mas a questão deve ficar em
aberto, e os psicanalistas não têm todos a mesma opinião nem a mesma
experiência: se alguns recusam o ingresso no sistema, outros anuem a isso ao
admitir que, globalmente, a cura-impossível quando se trate de doentes pouco
abastados-pode, no entanto, processar-se. Em certos casos, algumas Caixas
aceitaram o princípio de um encargo «proporcional», homologando um acordo
concluído entre o analista e o seu doente quanto ao valor da participação. Calicule-
se os problemas pela ideia de um «bilhete moderador variável»!

Apenas podemos aqui tocar ao de leve um imenso problema que empenha valores
políticos e factos socioeconómicos que subtendem toda a finalidade da Segurança
Social. A Psicanálise não tem aqui de propor soluçõ es, mas pode fornecer
elementos de apreciação: estes relacionam-se em particular com a clínica do
neurosado e o seu estatuto na sociedade. Mais geralmente, a concepção
psicossomática da doença acusa as ambiguidades da Segurança Social quanto à
natureza da «responsabilidade» do doente. É evidente que o ponto de vista
psicanalítico contribui, primeiramente, para a crítica da ideologia da Segurança
Social e da contradição que subtende fundamentalmente o seu funcionamento: o
direito aos cuidados e à saúde vai de par com a cauçã o subministrada à
dependência do doente e à sua dessubjectivação. Ã objectivação da doença, que
defende o movimento da Medicina «científica», junta-se a exigência de objectivação
veiculada pela necessidade do « controlo» pela Segurança Social; é preciso estar
doente para se ser reconhecido, é preciso ser-se reconhecido para estar doente.
Todavia, não é por a prática da cura residir em-e particularmente evidenciar-a
responsabilidade própria do neurosado na sua doença (a «escolha» da neurose) e
mais geralmente a motivação do doente num bom número de afecções «orgânicas»
que se deveria daí concluir que a Psicanálise apoiaria uma crítica liberal ou
reaccionária da Segurança Social. Uma coisa é a prática analítica, que não pode
defen-

138
der o seu projecto de transformação senão por uma «subjectivação», a qual requer
a colocação entre parêntesis da causalidade externa (explicação pelo meio, pela
família, etc.) para sua «apropriação»; outra coisa é a teoria psicanalítica, que não
admite de modo algum privilegiar o conflito individual. Este conflito não lhe aparece
senão como a especificação particular do conflito fundamental em face do qual o
neurosado e a cultura são as duas faces de uma mesma realidade. Voltaremos a
este assunto.

0 FIM DA ANÃLISE, RESULTADOS E CRITÉRIO DE CURA

É talvez em volta dos «resultados» da cura psicanalítica que renasce com mais
vivacidade a discussão entre o psicanalista e o médico (seriam eles o mesmo
indivíduo?!). Não parecerá evidente que a aplicação de um tratamento longo e
dispendioso termine em resultados -e em resultados tangíveis - «objectiváveis»?
Intima-se, por conseguinte, o psicanalista a fornecer a prova da eficácia do seu
tratamento: o embaraço que ele mostrará vem, então, reforçar o sentimento de que
é talvez um charlatão; mas a sua resposta, ao aceitar a própria forma da pergunta,
aliena-o à sua verdade de analista. É por isso que, embora na qualidade de
terapeutas com exercício num certo mundo social nos seja necessário aceitar dizer
quais são os nossos critérios de cura e os nossos «,resultados», é de lembrar
primeiramente que «a Psicanálise não pode ser considerada como um tratamento
senão pela transmutação da noção de neurose e de tratamento». Dissemos mais
atrás que não havia nenhuma medida comum entre o que era «a priori» visado pelo
doente e a maneira como, mais tarde, as coisas lhe aparecem.

A cura implica «unicamente» um projecto de transformação, residindo num acesso


privilegiado a uma verdade, sem que nenhum objectivo seja estabelecido a esta
transformação e sem que a cura, no sentido sintomático e social, possa aparecer
diferentemente que como correlativa desta mesma transformação, como «benefício
de acréscimo» eventual. Pois o «bom êxito» de uma análise não se mede pelo
desaparecimento dos sintomas, assim

139
como a sua continuação não confirma o fracasso. Citemos ainda aqui Chazaud (op.
cit.): «No termo da Psicanálise encontra-se não a cura de uma perturbação mas a
reconciliação de um destino, pela virtude do sentido... Sentido não tanto encontrado
como ‘articulado’ e liberto por isso da recaída mortífera do seu desenvolvimento
pela amarração numa rede pré-consciente.» «0 objectivo da Psicanálise não é a
cura, mas - sem a menosprezar nem a privilegiar, e com o risco de a redefinir - a sua
condição metempírica: abrir o caminho para a origem do nosso ser.» «Esta
Investigação fundamental que é a Psicanálise desemboca na evidenciação de uma
‘inquietação’ como verdade essencial do homem: esta inquietação não poderia,
pois, ser descrita como ‘doença’, posto que, tal qual foi lembrado atrás, não seria
possível circunscrever-se como anomalia do indivíduo, mas remete, como à outra
face de uma mesma realidade, à inquietação da civilização.» «0 planoprático da
Psicanálise não é primeiramente aquele em que se tem de curar uma doença, uma
perturbação psíquica; mas aquele em que se propõe universalizar
* figura particular que, neste ou naquele indivíduo, tomar
* expressão do conflito humano fundamental.» Trata-se, pois, de uma prática
«irresoluta», que se exerce sobre um «palier», entre a demanda social, por um lado,
e a teoria pura, por outro. Se puser «entre parêntesis» as influências do meio, não é
por hipótese teórica, mas porque é impossível analisar um paciente que quisesse
«explicar-se» ele próprio por essas influências, incluindo as influências educativas
mais precoces. Pois este saber objectivado apenas serve de apoio à resistência ao
projecto de transformação. Trata-se, pelo contrário, e para retomar uma fórmula de
Sartre 1, de compreender «o que se fez do que se fez de nós, isto por via da
identificação como processo sempre activo e não ‘sofrido'». Falando de outro modo,
«o essencial da Psicanálise não reside num ideal terapêutico, apesar de todas as
pressões que mantêm este mal-entendido; é, e não pode deixar de ser, senão uma
interrogação posta ao inconsciente de cada um, um questionar permanente, mas
cada qual fica livre desta tomada de consciência: a sua ‘cura’ pertence-lhe assim
como o sentido que der a esta noção... Um doente pode ser ‘curado'- aos seus
próprios olhos e aos da sociedade - sem que tenha sido verdadeiramente analisado.
E mormente uma análise pode

140
ter êxito e ser concluída sem que o doente esteja curado segundo os critérios
médicos e sociais do momento» 1.

Talvez agora se conceba o que existe de insensato em querer apreciar os resultados


em termos realistas, positivos. No entanto, devemos fazer isso, embora sublinhando
que os critérios de cura são simplesmente o que se pode descrever
retroactivamente no termo de uma análise bem sucedida e que não podem ser
erigidos como objectivos terapêuticos, pois isto obrigaria a descrever um «homo
psychanalyticus» como modelo e «cópia conforme».

Não é muito útil fazer aqui caso dos critérios propriamente internos à cura,
atendendo-se às coordenadas metapsicológicas mais estritas: por exemplo,
liquidação da neurose de transferência, evolução da natureza dos sonhos, liberdade
associativa testemunhando modificações estruturais ao nível da barreira
inconsciente-pré-consciente-consciente, domínio -e -autonomia do superego,
edificação do ego «no lugar onde estava o id», etc. De maneira menos esotérica,
como será possível descrever estes critérios ao nível das condutas ou do vivido do
«analisado»?

Insistir-se-á no facto de viver em melhor acordo consigo mesmo e com os outros.


Trata-se então do que Freud designava harmonia «interna» e que não implica
nenhum juízo de valor exterior respeitante ao ideal de vida, que pode muito bem
continuar «medíocre» no sentido corrente. Esta harmonia apenas designa a
limitação dos conflitos intrapsíquicos inevitáveis. Faculta o uso mais completo das
possibilidades pela integração das pulsões libidinais e agressivas, devendo esta
integração permitir, por sua vez:

--a @capacidade de amar e de ser amado; deste ponto de vista, o valor do coito
heterossexual como sintoma de saúde não é negável, contanto que se lembre, aos
olhos da Psicanálise, que o acto só toma o seu pleno sentido se for psicossexual e
não reduzido à dimensão balística;

-a integração da agressividade implica a capacidade de a suportar para consigo


como para com os outros sem excesso de culpabilidade, de medo de perda ou de
abandono pelo objecto agredido. Esta evocação, que se arrisca prontamente a
parecer «idílica», concretiza-se também na conexão com a realidade. Recordemos
que, para o analista, os critérios de um bom funcionamento do princípio de
realidade não implicam nem a adaptação obrigatória nem o «diletantismo» da
distanciação; consistem, mais concreta-

141
mente, na «tomada em consideração» do real, para além dos antagonismos
neuróticos: conformismo ou compulsão a destruir; conservação custe o que custar
ou «criação» «,ex niffilo».

Esta rápida evocação dos «critérios de cura» da análise deixa entrever a que ponto-
se convier encará-la deste ângulo-ela está longe de uma terapêutica no sentido
estrito da palavra, e pode por isso, senão mais, comparar-se a uma «educação».

Tomados em consideração estes critérios, quais são os resultados? Calcula-se até


onde isto é uma questão inseparável da da indicação, de que lembrámos também a
complexidade. Para retomar uma fórmula de Held: «Quase nunca se deveria falar de
fracassos da Psicanálise, mas de más indicações.» Porém, como os critérios da
indicação se mostram bastante imprecisos, deve a Psicanálise assumir esta
incerteza e aceitar os fracassos considerando-os como comprometendo a
responsabilidade do «tratamento» psicanalítico. Por outro lado, as estatísticas numa
matéria tão dificilmente objectivável são muito duvidosas. Digamos simplesmente
que, no caso de se atender às indicações de curas no sentido estrito, os resultados
declaram uma percentagem de cerca de 60% de sucessos. É um número
importante, comparável aos obtidos em outros «tratamentos» médicos. Quanto ao
fracasso, é verdade que, na maior parte dos casos, o analista conhece o que o
tornou inevitável: convém, no entanto, em primeiro lugar, que este conhecimento
permaneça interrogativo se, como Freud o recorda, se quiser que as análises difíceis
ou impossíveis contribuam para o progresso teórico e técnico.

LUGAR DO ESPIRITO MÉDICO NA PSICANÁLISE. LUGAR DO PSICANALISTA

Tentemos resumir o que constituía a matéria deste capítulo, que o leitor terá
encontrado, sem dúvida, um pouco confuso: o lugar do ponto de vista médico na
cura psicanalítica. Não convém desconhecer que a prática analítica reside num
paradoxo correlativo do campo incessantemente em desequilíbrio, campo que ela
abre ao f echá-lo -o campo do inconsciente. Determinámos primei-

142
ramente um divórcio fundamental entre o «espírito» psicanalítico, essencial à
conduta da cura, e o «espírito» médico, assimilado provisoriamente à perspectiva
«assistencial». Verificámos, em seguida, que enquanto práxis social a Psicanálise
encontrava todavia, na sua aplicação, esta última perspectiva, segundo
modalidades diversas e desigualmente instantes.

0 essencial afigura-se-nos em a conjunção-desaparecimento introduzida pela


Psicanálise em relação à prática médica não poder resolver-se -tomado cada caso
particular-senão no interior do psicanalista, seja ele médico ou não. Estas
«respostas» estendem-se entre dois pólos extremos: para uns, a cura analítica é um
cometimento absolutamente original, irredutível a qualquer tratamento como a
qualquer reeducação, a qualquer pedagogia, podendo apenas pensar-se como
qualquer coisa de novo, requerendo um novo modo de pensamento: a perspectiva
clínica, terapêutica, é-lhe inteiramente estranha tanto no seu projecto como nos
seus meios; o lugar da Medicina na cura é vazio e deve continuá-lo a ser; o
psicanalista não é um médico, nem mesmo um «medicine man». Se a Medicina
conseguir relacionar-se com a Psicanálise, é somente na medida em que seja
inevitável haver «aplicações médicas» da Psicanálise, em particular a Psicoterapia.
Mas trata-se, então, de uma aplicação mediata dos conceitos analíticos, o que não
tem nada a ver com a cura, e onde o psicanalista já não actua na qualidade de
psicanalista.

No outro pólo se encontrariam aqueles para quem a cura, apesar da sua


especificidade, é um tratamento psicoterápico. A aplicação da cura faz intervir
necessariamente tais variações, tais adaptações em cada caso particular, que se
torna impossível separar radicalmente a cura «pura» das psicoterapias de
inspiração psicanalítica. 0 pragmatismo e a preocupação de eficácia têm de
pertencer ao psicanalista como pertencem ao médico. Aliás, importa que o
terapeuta seja um psicanalista, o que ele se limitará a ser, independentemente da
sua actividade, sempre inspirada na teoria freudiana. Na realidade, o que a cura põe
em causa é uma certa ideologia médica, historicamente datada, e, longe de
consagrar a clivagem, convém, pelo contrário, insistir sobre o esclarecimento que a

143
Psicanálise pode trazer à toda a perspectiva médica e não hesitar em ir ao encontro
do médico.

Esta bipolaridade caricata não esgota o problema, pois os «puristas» não são
forçosamente criticistas: alguns são «prosélitos» da Psicanálise que pensam poder
propagar a sua «fé apostólica» em todos os campos de aplicação possíveis, sem
qualquer compromisso. Ao invés, outros, inteiramente convencidos do que o médico
deve velar permanenternente, sob o analista, na conduta da cura, não adoptam
uma menor posição criticista, e são hostis à extensão indefinida da referência
psicanalítica fora de certos campos em que a sua conveniência é indiscutível.

0 mais importante parece-nos o seguinte: Por que motivo a ántrusão do real na


prática psicanalítica, intrusão inevitável e indispensável - vimo-lo -, tende a
confundir-se com o «ponto de vista médico»? Não será porque a ideologia do
médico e dos seus cuidados representa uma zona-tampão particularmente cómoda,
tanto para proteger a cura e o analista da realidade exterior como para proteger o
corpo social da Psicanálise? Ordenar as questões postas à análise pela sua prática
concreta e à cultura pela Psicanálise na categoria da «terapêutica» representa um
compromisso aparentemente satisfatório: permite ao analista exercer uma espécie
de mister; à sociedade de ver nisso um mister «como qualquer outro», em particular
como o do médico.

No plano propriamente psicanalítico, impõe-se compreender bem que o divórcio e a


articulação entre a posição analítica estrita e a «cobertura» médica comprovam
uma discordância teórico-prática fundamental: não somente o caso da adaptação da
cura aos casos particulares, pondo em causa a «sobrevivência» social do
psicanalista, mas, mais profundamente, o caso do desvio entre a cientificidade da
teoria analítica e a sua actualização na cura, estruturada pela conjuntura histórica e
pela implantação cultural da Psicanálise e delas dependente. Encontramos agora a
questão já levantada sobre a ética do, psicanalista: ater-se aqui à ética médica, seja
para com ela se alinhar seja para a contestar, é eximir-se a uma reflexão mais
específica.

Achamo-nos levados a perguntar o que é o psicanalista, e já não o que é a


Psicanálise.

144
A FORMAÇÃO DO PSICANALISTA E 0 SEU ESTATUTO SOCIAL

Se, «in abstracto», se quiser definir a formação do psicanalista, não é difícil chegar a
conclusões indiscutíveis a partir de Freud.

0 elemento essencial desta formação é a experiência pessoal da situação analítica,


indispensável para se abrir à verdade da teoria-que não deve ser um saber
intelectual-e para controlar e utilizar os próprios afectos e pensamentos na conduta
ulterior das curas.

No plano teórico, o analista deverá estar familiarizado -para além dos conceitos
psicanalíticos -com os múltiplos sectores do saber humano, entre os quais para citar
Freud, as ciências mentais, a Psicologia, a História das Civilizações (e das Religiões),
a Mitologia, a Sociologia, a Anatomia, a Biologia (teoria da evolução), etc. 0 acesso à
arte está longe de ser inútil, pois é o lugar privilegiado de manifestações do
inconsciente.

No plano técnico, a iniciação far-se-á pela prática dita das curas controladas, em
que o analista em formação dá a outro analista o relatório das curas que
acompanhar.

Quanto ao lugar que, numa tal formação, o saber médico pode ocupar, ele encontra-
se incontestavelmente limitado. Todavia, pela nossa parte, o que é possível ao
analista retirar de uma formação médica é o aguçamento do sentido clínico, ou seja,
a curiosidade submetida à observação dos factos num campo «natural» e movente
como o corpo humano. Isto é muito diferente tanto da especulação como da posição
científica «experimental». Não será antes o «corpo» linguístico o seu equivalente no
domínio das Ciências Humanas? Pois a língua e a palavra aí se dão com a mesma
densidade opaca.

No que respeita à idade da formação analítica, as opiniões não são unívocas.


Todavia, pode dificilmente conceber-se que esta formação comece antes dos vinte e
cinco anos, o que deixa em absoluto o problema de saber quais os estudos ou qual
o mister prévios mais favoráveis. 0 essencial consiste em comprovar a variedade de
trajectórias que conduzem à vocação psicanalítica e de nelas encontrar um
elemento significativo.

Citámos rapidamente o processo de formação do psicanalista.O verdadeiro


problema surge num segundo tempo:

lo 145
o do processo de habilitação. Falando de outra maneira: Deverá existir um processo
de habilitação para «controlar» a formação? E a que nível? E quais as modalidades e
a delegação de poder? Que repercussão pode ter este processo de habilitação sobre
o próprio processo de formação?

Lembrámos as dificuldades contra que Freud e a Psicanálise nascente lutaram.


Neste contexto, os primeiros psicanalistas, discípulos de Freud, eram pessoas
particularmente motivadas e que não tiveram de se submeter a nenhum processo
de habilitação, mas simplesmente de fazer acto de «obediência» a Freud. Porém, o
movimento psicanalítico organizou-se numa associação psicanalítica internacional,
a qual, ao mesmo tempo que promulgava as

normas de um processo de formação, atribuía-se os objectivos de as pôr em


aplicação e de definir as respectivas modalidades de controlo. Foi deste modo que
surgiram por toda a parte institutos de Psicanálise, possibilitando uma formação
«labelizada», graças à qual a inclusão na sociedade de análise constitui bem, do
ponto de vista social, uma garantia de habilitação.

0 sucesso cultural crescente da Psicanálise fez dela uma profissão atraente, já não
somente para quem «goste disso» mas como profissão rendível e «considerada».
Por este facto, e cada vez mais, a inclusão na sociedade de análise e o «cursus» ao
qual é necessário prestar-se para a

ela ter acesso perderam o significado de «iniciação» a uma

comunidade científica e «religiosa» para se tornarem numa espécie de diploma de


valor socioeconómico às vezes prevalente. A sociedade de análise, estritamente
privada, não detém por isso menos um poder, solidário de outros poderes sociais.
Está fora do nosso propósito encarar aqui todos os prolongamentos desta situaçã o.
Consideraremos dois apenas, essenciais:

a) A situação «marginal» da Psicanálise e do psicanalista está ameaçada. Se


lembrarmos a posição de Freud no artigo Psicanálise e Medicina, comprovaremos
que se fundamenta numa contradição: por um lado, com efeito, Freud julga que a
prática psicanalítica não deve ser regulamentada (pelo Estado), quer dizer, não
deveria ser nem permitida nem interdita, pois não pode sê-lo-um analista poderá
sempre dizer que se ocupa de alguém para lhe falar, o aconselhar, que a sua
actividade não é socialmente diferente da de adepto da Christian Seience ou de

146
qualquer «acção psicológica». Daí ser em vão pretender regulamentá-la, em
particular levá-la a uma prática médica, desde então reservada aos médicos. Mas,
por outro, quer mostrar que a Psicanálise é uma disciplina científica altamente
desenvolvida, que a formação do psicanalista é severa, que a inclusão na sociedade
analí tica garante que o portador não é um «profano»: tudo isto constitui um
argumento maior para não englobar a Psicanálise na Medicina. Alcança-se a
contradição, ligada ao facto de Freud combater simultaneamente em duas frentes, e
o ponto quente é o da «ameaça» médica. Com efeito, pode resumir-se o seu
pensamento da seguinte maneira: Freud julga preferível que a Psicanálise não seja
regulamentada, quer dizer, não seja nem medicalizada nem oficializada, mesmo de
modo autónomo. Esta perspectiva de «marginalidade», fundamentalmente
conforme ao espírito da Psicanálise, refere-se igualmente, por isso, a um liberalismo
cuja significação política é marcada. Porém, e ao mesmo tempo, ele dá uma
imagem do psicanalista e da sua formação que parece tornar muito fácil a
oficialização da habilitação. É que ele pensa que, na hipótese de a so-ciedade julgar
dever regulamentar a Psicanálise, hipótese que escapa ao seu poder, seria
perfeitamente abusivo que fosse sob o «jugo» médico.

A situação actual em França ilustra bem esta dupla ameaça: por um lado, o sucesso
cultural da Psicanálise e as « necessidades» em matéria de saúde, dela fazendo
uma profissão útil e procurada, conduzem-na cada vez mais para uma
regulamentação: regulamentação burocrática interior à sociedade de análise, por
um lado; por outro, em função mesma do sucesso, reactivação das tentações de
medicalização, tanto no interior como no exterior das sociedades (Ordem dos
Médicos, Ministério da Saúde): a Psicanálise é demasiado importante para nã o se
tornar respeitável, e portanto médica. Em suma, culturalmente, a Psicanálise vê-se
ameaçada de «incorporação» ao mesmo tempo pela Saúde e pela Universidade.

0 primeiro prolongamento dirige o segundo, desde já sensível: consiste este na


repercussão da situação cultural -e do processo de habilitação que reforça -sobre o
processo de formação acima citado. A repercussão actua primeiramente ao nível do
recrutamento dos futuros analistas, do seu estilo vocacional. Mas actua sobretudo
no

147
íntimo do que constitui a transmissão da verdade da análise: a psicanálise pessoal
de formação. Aquilo que deveria idealmente manter-se como experiência privada,
uma aventura pessoal aleatória e «arriscada», um lugar privilegiado de interrogar
acerca do desejo de ser anã~ lista, pode tender a tornar-se simples exigência do
«cursus», prescrição médi%-universitária, etapa cujos resultados deverão
objectivar-se,etc. Imagine-se o que poderia ser a consequência última desta
desnaturação da formação pela prevalência da preocupação de habilitação: é o
ajustamento do psicanalista com as normas da sociedade de análise, cujo
correlativo no plano da prática analítica será o ajustamento do paciente à realidade
social. A cura trans~ formar-se-ia então numa técnica adaptativa em vez de uma
interrogação. Não se trata de uma ameaça abstracta, pois é uma situação em
grande parte já realizada nos Estados Unidos; é também uma imagem ideológica
bastante difundida -da Psicanálise e que induz nas curas resistências às vezes
pouco maneáveis.

Deste modo, depara-se-nos, em conclusão deste capítulo, a questão que o iniciou:


Que é a Psicanálise e que lugar nela tem a cura? Tudo o que dissemos explica-nos
porque Freud, todavia, fazia tanto empenho em pôr no primeiro plano a
cientificidade da Psicanálise, apesar do referente privilegiado que é a cura. Talvez
que ele entrevisse a verdade de que a prática da cura fosse uma realidade frágil e
perecível: a abertura de um processo analítico, no sentido estrito, é tributária de
condições culturais, sociopolíticas, económicas, historicamente datadas,
determinadas e revogáveis. Pode muito bem acontecer que a evolução das
estruturas e das ideologias da nossa sociedade, num sentido ou noutro, tomem esta
abertura impossível. Quanto à teoria analítica, por seu lado, não tem nenhuma
razão para se julgar mortal, mas unicamente «planificável»; ainda mais, é capaz
mesmo de dar explicação do fecho «eventual» do campo prático donde ela saiu. Vê-
se o caminho percorrido por Freud desde o postulado terapêutico optimista segundo
o qual se cura investigando até à certeza, todavia racional, de que é possível
compreender aquilo sobre o que não se pode agir.

148
APLICAÇÃO MÉDICA DA PSICANÃLISE: A MEDICINA COMO APLICAÇÃO DA
PSICANÁLISE?

Deixando a característica da cura como aplicação privilegiada da Psicanálise, vamos


agora encontrar aplicaçõ es médicas da Psicanálise que se situam
incontestavelmente numa relação mediata com a teoria psicanalítica. Que quer isto
dizer? Isto significa, à primeira vista, que no campo da aplicação a hipótese
psicanalítica tem de se curvar aos modos de verificação próprios do domínio em
causa. Mas as coisas não são sempre simples: se às vezes o analista apenas se
pode submeter aos princípios e aos critérios que regem o campo em que penetra,
adaptando a ele a Psicanálise, outras vezes averiguará ser mais útil permanecer
integralmente analista, para introduzir ainda que escandalosamente um novo modo
de interrogar.

É este dilema que marca todas as aplicações médicas da Psicanálise. É, além disso,
complicado pela confusão diversa de três «partes» da Psicanálise no acesso
considerado: extensão da Psicanálise como método de exploração, como
terapêutica ou como saber teorizado ao alcance universal. No plano deste trabalho,
pareceu-nos inútil e impossível tentar pintar um quadro exaustivo dos contributos
da Psicanálise à Medicina. Por conseguinte, somente encararemos as relações da
Psicanálise com a Psiquiatria de adultos e com a Medicina «Geral».

A PSIQUIATRIA

A contribuição da Psicanálise à Psiquiatria i3ertence de tal modo à História que se


torna actualmente muito difí cil traçar os respectivos contornos. Sem a Psicanálise, a
Psiquiatria não seria o que é-mas não constitui empresa muito fácil saber o aue ela
actualmente é. Pelo contrário, é fácil dizer o que era no momento da descoberta
freudiana. A Psiquiatria de 1900 caracteriza-se por:

-uma descrição clínica e estática da patologia mental, utilizando a linguagem da


psicologia acadêmica, e rematando numa nosografia essencialmente formal;

-um postulado etiológico: a organicidade (lesão do cérebro) fazendo as vezes de


caução científica;

-uma impotência terapêutica reforçando paradoxalmente os «a priorri» teóricos.

149
A posição psicanalítica, ainda que procedente de um sector limitado da patologia
mental, funcionou não obstante como «modelo» a todos os níveis.

A clínica psicanalítica privilegia uma compreensão dinâmico-económica das


perturbações, remetendo a uma concepção funcional do psiquismo, e separando por
esse mesmo meio, antes de qualquer postulado etiológico, uma realidade psíquica
como campo de estudo e de acção.

A hipótese etiológica da Psicanálise é a psicogénese, quer dizer, as determinações


de sentido. Trata-se de uma hipótese de trabalho cujo valor heurístico já não é para
demonstrar e que não implica nenhum «a priorá metafísico nem exclui as
determinações não significativas da organicidade.

A acção terapêutica parece correlativa de um modo de exploração: investigar e


curar estão ligados.

Pode dizer-se que toda a Psiquiatria moderna está marcada por esta posição’, seja
pela sua aceitação seja pela sua contestação. A validação ou a invalidação do modo
de acesso analítico no conjunto do campo psiquiátrico subsistem uma actividade
viva e fecunda do psiquiatra, seja ele ou não psicanalista. Cumpre sublinhar
inversamente, que esta aplicação da Psicanálise levou a deslocamentos e
enriquecimentos da teoria psicanalítica, essencialmente pela integração do facto
psicótico11.

No plano clínico, o encontro da Psicanálise e da psicose é, antes do mais, um


enriquecimento extraordinário para o conhecimento do inconsciente. 0 delírio
constitui uma surpreendente exteriorização de todos os temas, de todas as
representações e afectos de que o material recolhido junto dos neurosados
mostrara a presença. Num primeiro tempo, pois, a clínica da psicose enriquece a
descrição dos estágios arcaicos da libido e permite ia sua integração no mundo do
sentido, tal como acontecera na neurose. Pode afirmar-se que esta linha de
pensamento está longe de se esgotar, pois assim o comprova a integração das
«posições psicóticas» (depressivo e esquizóide-paranóide) 11 no «modo de pensar»
mais «normal». (Como o «complexo de Édipo» é um dado universal e comum.)

Entretanto, era inevitável também que esta expressão «directa» do inconsciente


que constitui a psicose pusesse um problema teórico crucial à Psicanálise. Enquanto
no modelo neurótico a consciencialização do incons-

150
ciente era simultaneamente o trabalho de investigação e o meio de cura, na psicose
este modelo encontrava-se com-

pletamente subvertido,, visto que a saída livre do inconsciente se dá como próprio


modelo patológico. Vê-se a que ponto esta inversão encontrava o problema que se
punha a Freud na cura. Verificando que a interpretação mais justa tropeçava às
vezes com uma resistência tenaz e ficava sem aplicação, via-se obrigado a deslocar
o acento técnico da cura da interpretação do inconsciente para a interpretação da
resistência, ou seja, a interessar-se pelo agente recalcante, o ego. Ora, na psicose
põe-se um problema inverso e idêntico: a insuficiência deste agente recalcante.
Estas duas questões estão na origem dos desenvolvimentos teóricos sobre a
estrutura do ego 11.

0 que a psicose também revelava era o limite do postulado que ligava conhecer e
curar, dado que a clínica do @psicótico não parecia desembocar em nenhuma acção
possível. Por este facto, a ligação entre os elos que definem a Psicanálise fazia-se
mais complexa: o método de estudo aplicável não se encontrava ligado a nenhum
tratamento, mas remetia antes à necessidade de um desenvolvimento teórico. Mas,
desde então, a teorização diz respeito tanto ao que sai da transformação concreta, e
cuja validade não se pode discutir, como ao que sai da não transformação, e que
põe um problema crucial de validação. Donde a aparição de uma discordância
teórico-prática sobre a qual já insistimos. Produz-se, no campo da Psiquiatria, urna
tensão permanente entre a escuta psicanalítica, a teorização e o modo de acção
eventual. No melhor caso, esta tensão actua num sentido favorável: o progresso
teórico permite, em troca, um progresso terapêutico-é o que vamos ver para a
psicose. Mas muitas vezes esta tensão tende para o pior: seja porque se destrói
prematuramente a teoria, para limitar a acção junto dos factos, da impotência
terapêutica (assim corre o risco de funcionar a introdução sumária da referência
«económica» quantitativa, que coloca um limite cómodo à inteligibilidade analítica);
seja porque se renuncia ao «lastro» prático da teorízação, a qual se torna
especulativa, metafórica em relaçã o à loucura, verbalismo.

Esta tensão teórico-prática afigura-se-nos o facto essencial nas relações da


Psicanálise com a Psiquiatria. Parece-nos capital lembrar que é a autonomia da
teoria

151
psicanalítica que constitui a prova do seu valor estrutural e da sua fecundidade, que
pode ser muito mediata.

Eis dois exemplos: a) A clínica analítica descreve de longa data o valor defensivo do
delírio, por exemplo do delírio alucinatório. Todavia, esta significação apenas
revelava aos olhos de um psiquiatra não analista um valor limitado, visto a sua
«validação» raramente ser possível. Ora, a «revolução» introduzida em Psiquiatria
devido ao aparecimento de uma psicofarmacologia eficaz autoriza paradoxalmente
esta validação. Observou-se que a supressão das alucinações em alguns delirantes,
graças ao uso de um medicamento específico, levava a uma depressão grave, o que
já não permite - ainda que o f acto não seja constante -

considerar a alucinação (não mais que o sintoma neurótico) como um sintoma


incómodo para outrem e para o doente, e isoladamente redutível. Esta simples
comprovação clínica, «a prior!» evidente para um psicanalista, basta para mostrar
os limites, pelo menos actuais, do ponto de vista psicofarmacológico, qualquer que
seja a sua eficácia aparente.

b) Há setenta anos, em A Interpretação dos Sonhos, Freud por via estritamente


«psicológica», chegava a uma teoria do sonho como satisfação de desejo e como
defensor do sono que não exigia validação exterior. Nada é mais notável de
observar do que a comprovação que se opera com factos evidenciados pela
Neurofisiologia moderna, factos estes que demonstram -embora não melhor que a
Psicanálise - o valor funcional do sonho, mesmo no animal.

Isto para mostrar que a teórização analítica, deve manter-se deveras aberta aos
factos, recolhe, não obstante isto, o seu valor heurístico da parcialidade e do Darcial
do seu acesso e da conservacão da sua óptica própria. Pois a tentação é grande, às
vezes, de aceitar o princípio sintético de que parte o psiquiatra. Este último
encontra-se na encruzilhada de dados orgânicos, sociológicos, psicológicos, dos
quais fazer a síntese prática é aparentemente a sua função: é tentado muitas vezes
a transformar o seu eclectismo empíricoem síntese teórica, às vezes para grave dolo
dos sectores de saber em causa.

No plano terapêutico, o progresso teórico permitiu pensar melhor a via terapêutica


da psicose e de evitar

152
que o ponto de vista psicanalítico permanecesse «platónico». Confirmou-se que o psicótico,
mesmo que não houvesse transferência, no sentido -estrito que Freud lhe determinava, não
deixava de entrar nu-ma relação que punha em jogo modos de permuta arcaicos
(mecanismos de identificação fusional ou narcísica, oralidade), modos de permuta que
suscitam no terapeuta uma angústia tal que as defesas de contratransferência diversas o
tornavam incapaz de se situar a uma distância tecnicamente adequada do «maluco». É a
partir do momento em que esta dimensã o da contratransferência pode ser reconhecida e
analisada que se torna possível começar a falar legitimamente de uma técnica psicoterápica
como aplicação psicanalítica. Foi sobre esta base que se desenvolveram técnicas diversas
conforme os autores e os doentes, mas cujo volume de trabalhos publicados testemunha
sobre o que foi superado pelo estádio experimental. É óbvio que os objectivos e os meios de
tais tratamentos diferem profundamente dos da cura: o psicoterapeuta deve quase sempre
induzir a relação transferencial; visa reforçar o ego dodoente, o que o obriga a fazer-se mais o
«embaixador da realidade» do que o intérprete do inconsciente. Por fim, as exigencias do
tratamento são tais que parece necessário a contratransferência ser não controlada pela
auto-análise mas vivida directamente, implicando o amor pelo doente e o verdadeiro desejo
de «curar». Vê-se que, em função mesma da gravidade das perturbações, o psicoterapeuta se
arrisca muito mais que na cura clássica a privilegiar o problema do real, a inscrever como
objectivo prioritário a desagregacão social do paciente e a admitir. em consequência, o
critério adaptativo como preponderante 13. Isto resulta directamente do «peso» da psicose e
ilustra, também directamente, qual é a posição social do psiquiatra, do que não temos aqui
de tratar. De um ponto de vista psicanalítico, o risco consiste na contaminação, por via
regressiva, da cura pela ideologia empírico-médica, que arruinaria nela a dimensão do
interrogar radical.

A PSICOTERAPIA INSTITUCTONAL. A FORMACÃO DO PSIQUTATRA E DA EQUIPA ASSISTENCIAL

As perturbações do comportamento e a desadaptação social próprias do doente mental fazem


que seja muitas

153
vezes no quadro de uma instituição psiquiátrica que se

deva considerar o tratamento respectivo, em particular no aspecto psicoterápíco: o


que suscita todo o problema muito actual do lugar e do papel do psicanalista na
instituição.

Depois de uma fase em que a Psiquiatria se preocupou sobretudo em denunciar as


condições lamentáveis da hospitalização dos doentes mentais (preocupação que
está longe de ser suprimida), foi levada a interrogar-se mais rigorosamente acerca
da função terapêutica da instituição, especialmente se a simples segregação que a
funda não constitui só por si um facto redibitório para o tratarnento. Daí, o
movimento para uma psiquiatria de sector que relativize a hospitalização graças à
implantação geográfica de equipas assistenciais que assegurem a continuidade de
uma responsabilização terapêutica.

Porém, a instituição continua necessária, e é ao nível do «colectivo» de assistência


que sé põem futuramente as preocupações dos psiquiatras e que vem operar uma
«aplicação» original da Psicanálise. É impossível aqui considerar validamente isso.
Lembremos apenas que a Psicanálise interessou-se muito cedo pelos fenômenos de
grupo (Freud: Psicologia Colectiva e Análise do Ego) e que, no plano teórico, não
estabeleceu qualquer ruptura estrita entre a problemática individual e a
problemática colectiva.
0 sector do estudo dos grupos desenvolveu~se consideravelmente desde então,
segundo variadíssimas direcções, em que a inspiração psicanalítica tem muitas
vezes um lugar descurado ou bastante adulterado.

É verdade que o princípio geral reside no facto de qualquer conjunto de doQntes


mentais e de assistentes dever ser considerado como um organismo doente ou
arriscando-se a sê-lo. Por fim, tornando-se a instituição numa «comunidade viva», o
seu funcionamento é sustentado por uma finalidade própria, muito diferente da
regulamentação burocrática habitual. Esta finalidade seria comparável ao processo
analítico, no sentido de não implicar nenhum objectivo pré-estabelecido e de a
elucidação das tensões, a vivêncía dos conflitos dinâ micos que lhe esmaltam o
curso, definirem-na como um equilíbrio instável de tipo socíobíológíco:
relativamente a esta acção, a «cura» dos membros da comunidade -por exemplo, a
saída, em pú-

154
blico tornada possível -é, como na cura, um «benefício de acréscimo».

Concebe-se a extrema complexidade do problema levantado pelo intrincado de tal


perspectiva com, por outro lado, o acesso psicoterápico individual e, por outro, as
estruturas económicas e administrativas que regem a instituição.

Enfim, um problema essencial, nesta óptica, é a formação do pessoal assistencial


(psiquiatras, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, pessoal administrativo,
etc.). Pois uma tal directiva terapêutica indica que ele é tão assistido como
assistente. A formação deve, assim, prepará-los para esta implicação subjectiva,
muitas vezes dolorosa e angustiante. É aqui que surge o grande problema dos
«escalões» de formação relativamente à formação completa e sobretudo
«idealizada» que é a Psicanálise. Impõe-se dizê-lo claramente: a experiência da
análise pessoal não é a panaceia, pelas razões que longamente evocámos. Só
produz efeito em indivíduos verdadeiramente motivados e dotados, e não substitui
a ausência dos dons e quali~ dades necessários para alcançar êxito no campo da
actividade. Há um trabalho essencial a executar para definir e aplicar modos de
formação específicos aos assistentes na patologia mental, sem se obnubilar acerca
da referência psicanalítica, necessariamente limitada. Este problema depara-se~nos
imediatamente.

A MEDICINA PSICOSSOMÁTICA: A FORMAÇÃO DO MÉDICO COMO APLICAÇÃO DA


PSICANÁLISE

No quadro que nos fora dado, julgámos dever insistir, numa perspectiva talvez
excessivamente purista, excessivamente criticista, sobre o que faz a especificidade
da Dosição psicanalítica e a diferencia da prática médica. Esta insistência obriga-nos
a pôr de lado dois campos de aDlicação médicos da Psicanálise muito importantes:
a Medicina Legal (criminologia) e sobretudo a Psiquiatria Infantil, em que a
contribuição psicanalítica é de tal modo central que se torna impossível resumi-Ia
validamente em algumas páginas. Preferimos, por isso, abordar directamente, e
para concluir, ocampo da Medicina dita <@ps!cos-

155
somática», campo este que ilustra de maneira exemplar o problema da interferência
Psicanálise-Medicina, manifestando ao mesmo tempo a fecundidade própria da
extensão teórico-prática da Psicanálise e o risco que ela faz correr

ao rigor teórico 11.

De uma maneira muito geral, foi possível descrever o movimento psicossomático,


cujo sucesso se amplia há trinta anos, como uma «volta de pêndulo» na História da
Medicina, a visão hipocrática vitalista, biológica, humoral e totalista 11 da Patologia
sucedendo, segundo um ritmo necessário, à concepção galénica, mecanicista,
anatomista, solidista e atomística da doença. Esta vista histórica não deve
dissimular, todavia, o que o movimento psicossornático introduz de novo e que se
deve tanto aos progressos da medicina dos órgãos e do agente microbiano -que ele
irá contestar - como ao pensamento psicanalítico. Não discutiremos aqui a
importância desta inspiração psicanalítica relativamente a outros contributos, por
exemplo o pav].ovismo (ponto de vista córtico-visceral). Consequentemente apenas
encararemosa Medicina Psicossomática sob o ângulo do que ela deve à Psicanálise.

Para um autor clássico como Alexander, a Medicina Psicossomáti,ca é unicamente


«o estudo da influência dos factores psicológicos sobre as funções somáticas e as
respectivas perturbações. Ela testemunha resultados da influência da Psicanálise
sobre a Medicina».

Esta influência exerce-se primeiramente através do modelo da conversão histérica,


descrita desde 1895 por Freud como ilustrando o salto misterioso do psíquico ao
corporal. 0 sintoma é aqui a expressão simbólica do conflito inconsciente, uma
realização substitutiva do fantasma inconsciente conformemente ao que dissemos
do sintoma neurótico. Por exemplo, um vómito pode significar: «eu estou grávida»;
uma convulsão: «tenho um orgasmo»; uma abasia (impossibilidade de andar):
«quero andar em lugares protegidos e para não o fazer não vou a parte nenhuma»
11.

Um primeiro problema põe-se no acesso psicanalítico do «somático» -é o da


limitação do domínio da conversão: será necessário restringi-Ia às manifestações
que interessam a motricidade e a sensorialidade, que dependem do sistema
voluntário? Será necessário ligar-lhe manifestações que pertençam à esfera
vegetativa? De qualquer

156
maneira existe uma clivagem importante entre o sintoma de conversão enquanto
dependente de um enigma inconsciente a interpretar e o sintoma da neurose
vegetativa, que não é um substituto de afecto recalcado, mas concomitante
fisiológico normal de uma emoção, inscrevendo-se numa conduta de preparação a
um acto adaptado. Os sintomas corporais são, neste caso, um efeito directo ou
indirecto do -conflito. Deste modo, uma hipertensão arterial, com os signos
funcionais por que se traduz (indisposição, zumbidos nos ouvidos, cefaleias, etc.),
não constitui uma tentativa para exprimir uma emoção ou resolver um conflito: é o
acompanhamento fisiológico constante ou periódico de -estados -emocionais
recorrentes (por exemplo a «cólera coagida»). Igualmente, na úlcera do estômago,
as perturbações da motricidade e da secreção gástrica que a condicionam não são a
expressão ou a drenagem de uma emoção, mas o seu acompanhamento fisiológico.
Esta emoção pode ser uma «forne de arnor» insatisfeita, necessidade de ser amado
profundamente ligada à situaçã o de alimentação passiva da criança. A necessidade
de ser amado, conflitualizada, acha-se apta a estimular a actividade motora e
secretária do estômago: os sintomas gástricos são, pois, os corolários fisiológicos da
expectação passiva da alimentação, a contrapartida fisiológica de uma emoção, e
não o seu substituto.

Concebe-se que, sobre este modelo, se pudessem descrever numerosas doenças


funcionais, com lesões secundárias eventuais, como resultante da interacção de
mecanismos psicológicos e fisiológicos em todos os domínios da Patologia. Foi
possível pôr em evidência esquemas psicodinâmicos mais ou menos específicos de
diversas funções 11. Por fim, a tomada em consideração, na Patologia, davida
afectiva, das emoções, da angústia, enquanto fenômenos manifestando-se
necessariamente ao mesmo tempo no plano psíquico e no plano orgânico, leva
obrigatoriamente a uma perspectiva monista e sintética na apreensão de qualquer
doença. Entretanto, o conceito de uma fisiopatologia puramente somática continua
legítimo: a consciência de uma desordem corporal e de dados psicológicos não
basta para disso fazer uma «neurose de órgãos». No entanto, qualquer doença
orgânica, se não for motivada, é motivante: o funcionamento patológico do

157
corpo tem efeitos directos sobre a vida emocional, sobre a actividade, sobre o
humor, sobre os conflitos instintuais, por intermédio do elo neuro-hormonal em
particular; e a doença é também uma situação vivida que arrasta uma regressão
mais ou menos marcada; tem uma significação inconsciente, desperta angústias de
castração ou de abandono pelo destino. Abriu-se assim um imenso campo
psicossomático, em que o risco de confusionismo não é de pouca importância, em
que a explicação «plaqué»II toma às vezes o lugar de teorização e em que a pressão
terapêutica e o resultado sintomático de psicoterapias breves tenderiam a repor em
causa os mais sólidos conhecimentos teóricos adquiridos.

0 movimento psicossomático, ao nível da sua maior difusão, faz-se sob o duplo


signo:

-de uma exigência de síntese, cujo valor dinâmico cumpre apreciar, mas sobre o
que se impõe também indagar se não será prematura, fazendo-se então
unicamente à custa de conceitos utilizados;

-de uma extensão da teoria analítica, que se vê quase sempre resumida a alguns
conceitos-chaves, extractos de um edifício teórico complexo, muito pouco flexível.
Assim funcionam noções como a angústia e os mecanismos de defesa, a
psicodinâmica dos conflitos, a actividadepassividade, a autonomia-dependência, a
frustraçã o, etc.

0 essencial, de um ponto de vista evolutivo, parece ser a profunda reposição em


causa de toda a concepção da doença 11 e a maneira como a Medicina poderá
torná-la operatória ao nível da sua prática quotidiana. Acerca disto, um risco de
«neutralização» frequentes vezes denunciado reside na criação implícita ou
explícita de uma «especialidade psicossomática», que vem adicionar-se às outras
especialidades médicas, do mesmo modo que a adição do «factor psíquico» aos
factores etíológícos na investigação-diagnóstico do médico permite nada
«contestar» da posição médica tradicional.

Parece que o enriquecimento do ponto de vista psicossomático deve fazer-se


sobretudo nos seus dois pólos extremos: um deles diz respeito à solicitação de uma
exploração propriamente psicanalítica, feita por analistas, do campo psicossomático
e, em particular, do modo de «mentalização» de doentes psicossomáticos. Esta
exploração, como a da psicose, pode ter a sua ressonância no conjunto

158
da teorização psicanalítica, contribuindo, por exemplo, para uma melhor
compreensão do próprio fenômeno do pensamento10. Estamos aqui muito longe da
abrasão teórica representada pela investigação, no campo da patologia orgânica, de
uma «validação» de teses psicanalíticas parciais sobre a angústia ou a defesa. 0
outro pólo é representado pelo objecto particular que é a patologia «corrente» tal
como a entende e a trata o omniprático. É a este nível que se situa Balint na
pesquisa 11, inspirando há alguns anos múltiplos trabalhos que representam,
parece, a contribuição psicanalítica mais pertinente para a prática médica. Pode
resumir-se como segue o essencial desta «abertura»:

1) Por um lado, Balint introduz um ponto de vista crítico e científico em tudo o que a
medicina corrente, essencialmente extra-hospitalar, implica de prática
psicoterápica. Dado que é vulgarmente admitido uma enorme percentagem da
clientela do médico ser representada por doenças funcionais em que a
«participação psíquica» ocupa o primeiro plano, trata-se de explorar o campo em
que o médico -se prescreve a si próprio como « droga», a fim de tentar precisar a
farmacologia particular desta «droga».

Esta exploração processa-se no quadro de grupos de discussão que reúnem práticos


e um ou vários analistas. Conduz primeiramente à contestação bastante radical de
uma certa prática médica que «mina» a cientifícidade. Deste modo, põem-se em
evidência fenômenos alienantes maiores desta prática, tal como a primazia
concedida, na «démarche» diagnóstica, à eliminação da causa orgânica, e
chegando (no caso frequente de a investigação ser negativa) ao «você não tem
nada», que se supõe tranquilizar o paciente. Conduz ainda ao recurso de consultas
especializadas, diversas, em mosaico, sem ligação válida, traduzindo e reforçando o
sistema médico hierarquizado, com persistência de uma relação patrono-educando
ambivalente, confinando numa « colusão do anonimato» e fazendo-se de maneira
difusa a responsabilidade terapêutica.

Esta posição diagnóstica reforça permanentemente o modo de pensamento médico


donde saiu e estabelece na prática uma hierarquia das doenças e, sobretudo, dos
doentes por estas atingidos. 0 «resto», isto é, a dimensão psicoterápica, é confiado
ao inefável da «arte médica»,

159
ao empirismo dogmático: traduz-se nos factos pela utilização estereotipada de
resseguro e de conselhos.

Ora, o campo da psicoterapia pelo omniprático pode ser considerado, do ponto de


vista psicanalítico, como privilegiado, e isto por três,razões: a relação terapêutica do
médico e do doente é tomada num «continuum» histórico que permite muito mais
facilmente situar a doença como «necessária» ou como «acidental»; o diagnóstico
pode, mais directamente que em todas as condições, orientar-se para a superfície (o
episódio doença) ou para o fundo (o conflito do doente que alimenta a «oferta» de
perturbações ao médico); em segundo lugar, esta -relação, que seja como for é
psicoterápica, pode sê-lo muito mais «naturalmente» que com o psiquiatra, pois as
circunstâncias em que se decidem o seu princípio e o seu fim são muito menos
rígidas e «comprometedoras»; e, enfim, esta relação estabelece-se num contexto
transferencial «inteiramente preparado» pelo investimento cultural geral da
personagem do médico. E é conveniente empregar e teorizar o que especifica a
palavra, a interpretação do omniprático, como vindo de uma personagem com a
qual o contacto físico está autorizado, ao contrário da situação analítica, que o
exclui.

Em função destes dados, distingue-se uma perspectiva, sem dúvida no limite


«utópico», quanto ao omniprático-psicoterapeuta:

-Pode mais facilmente rejeitar a submissão hierárquica (interiorizada ou não) ao


«patrono» hospitaleiro ou consultante, porque susceptível de melhor perceber e
pensar a especificidade do seu campo característico e dele assumir a insubstituível
responsabilidade;

-pode renunciar ao interrogatório médico estandardizado, à lista de anamnésia, pois


compreendeu claramente que «quem põe perguntas apenas obtém respostas»;
aprendeu a escutar, e sabe que a sua própria resposta à oferta sintomática do
paciente tem a maior importância na econornia da patologia ulterior.

Parece, pois, a Balint, através das experiências já efectuadas e que se


multiplicaram, que a psicoterapia exercida pelo omniprático é central pela
banalidade quotidiana e importância prática ao mesmo tempo que particularmente
frutuosa quanto aos progressos susceptíveis de provir daí. Julga-e isto para o citar-
que «a prática

160
geral está gravemente doente, mas esta doença não é mortal, e com uma
terapêutica adequada o seu prognóstico será bom». 0 escolho principal
consiste em a medicina científica, hospitaleira, rica de resultados
espectaculares, funcionar como modelo constrangedor, deixando as migalhas
do seu saber ao omniprático, desvalorizado pela impossibilidade de o
dominar na totalidade e, por tal facto, propenso a desconhecer a
especificidade do seu campo.

2) Por outro lado, o modo de formação experimentado por Balint para o


omniprático constitui simultaneamente um lugar de pesquisa fundamental
para o psicanalista quanto à aplicação da aplicação da Psicanálise em
Medicina. A experiência dos grupos em que os práticos vêm falar do próprio
caso permite uma dinâmica característica, idealmente ao abrigo de dois
obstáculos:

- a instauração de uma relação mestre-aluno entre o omniprático e o analista


líder do grupo, tornando-se este ú ltimo um consultante especialista;

- a evolução do grupo para uma relação «terapêutica» em que o essencial é


a psicoterapia dos participantes.

Importa, pois, sublinhar que a possibilidade de tais grupos reside na


realidade da autonomia da prática médica, implicando tratar-se unicamente
de uma formação «complementar», segunda relativamente à formação
médica - que ela repõe em questão - e dirigida exclusivamente a pessoas
motivadas, auto-seleccionadas.

0 problema está em chegar ao que Balint descreve como «uma mudança


limitada mas considerável na personalidade do médico», mudança que lhe
permite uma escuta dos doentes e uma modulação flexível dos tipos de
respostas, admitindo-se que o estilo de cada um e a respectiva «fé
apostólica» sejam invariantes fundamentais.
0 essencial é que esta formação se faça através de uma prática autónoma e
«valid,ada», reflectida pelo grupo, e donde o prático não tenha de «sair». ..
Esta perspectiva é capital, pois possibilita a experiencia concreta da
«modificação de personalidade» inerente a uma formação,psicoterápica: até
aqui, neste mesmo campo, o modelo analítico é o único que está um
poucochinho estandardizado, conforme foi lembrado. Mas trata-se de uma
«aplicação» da Psicanálise à formação do psicanalista que implica o princípio
segundo o qual «quem mais pode menos pode», princípio penoso e, aliás,
con-

11 161
testável em si. Talvez, através do método de Balint, seja possível encarar o
acerto dos «standards» mínimos e óptimos da mudança de personalidade
desejável e necessária para um psicoterapeuta. Porém, entrevê-se assim que
imensos problemas se perfilam imediatamente em último plano, respeitante
às aptidões necessárias do omniprático, e mesmo de qualquer médico, em
particular do psiquiatra, e consequentemente ao modo de orientação, senão
de selecção, desejável, etc.

Do ponto de vista propriamente psicanalítico, não se trata da aplicação mais


geral, a mais fundamental, da Psicanálise (no caso de se consentir em pôr de
lado a cura): isto é, a aplicação da Psicanálise à formação como
transformação, ou, falando de outra maneira, a função possível do referente
analítico para o não-analista? Deve-se acrescentar que a investigação neste
campo pode contribuir, por via regressiva, no sentido de melhor precisar esta
função para o próprio psicanalista, fora do campo da cura, e talvez mesmo
no seu campo.

Em resumo, o que nos parece essencial no contributo de Balint é a tentativa


de resolver a discordância teórico-prática tão manifesta na
«psicossomática», tentativa que visa restabelecer uma ligação necessária-
pela segunda vez -entre o método de investigação (a narrativa pelo médico
num grupo) e a transformação («a modificação limitada mas considerável do
médico» e a sua consequência para o paciente).

CONCLUSÃO

Esta evocação demasiado rápida dos dados saídos do campo psicossomático e da


formação psicoterápica do mé dico permite-nos entrever a complexidade dos
problemas suscitados pela «aplicação» da Psicanálise à Medicina; a Psicanálise não
pode desempenhar um papel na Medicina senão com a condição de nela induzir
uma verdadeira transmutação, sobre o modelo da transmutação introduzida no
campo da neurose. Por fim, a Psicanálise contribui para repor a questão do que é o
médico. Conforme o lembra Lacan 21, o médico foi sempre, na História, portador de
uma filosofia, mantendo a sua práxis apenas relações mediatas com a «ciência» da
respectiva época; esta posição

162
médica encontra-se profundamente reposta em causa pela progressão fabulosa da
ciência médica, que leva pouco a pouco o médico a tornar-se um engenheiro
fisiologista em nada distinto dos outros engenheiros. Se, no entanto, a posição
médica específica puder conservar um sentido, será na medida em que não residir
essencialmente na fisiologia do corpo humano como mecanismo adaptativo e
adaptável mas numa referência ao corpo humano como sexuado, como libidinal,
como lugar de um gozo que é o seu fim próprio. Neste sentido, o médico poderia
limitar-se a ser quem se coloca f ace ao pedido de cura não para a ele responder
mas para o interrogar em nome do desejo. Por fim, paradoxalmente, o «verdadeiro»
médico é o psicanalista, dir-se-ia. Porém, não nos esqueceremos de insistir em dois
pontos capitais:

Por um lado, nada indica verdadeiramente que a posição médica possa desviar-se
no sentido aparentemente pretendido. Dois factores opõem-se a isso
poderosamente: o impulso permanente da perspectiva científica com o seu
corolário; o papel crescente do médico como «distribuidor de consumo», papel este
que o impede bem de manter o domínio da sua acção.

Por outro lado, a medicina de órgãos é, ela também, implicitamente psicossomática:


pôr o espírito de parte e colocar-se numa racionalidade estreita constitui uma
maneira de o tratar. A seu nível próprio, o esquema científico da doença encontra e
utiliza uma concepção mágica do mal e do sofrimento, como «parciais»,
localizáveis, expulsáveis, nomeáveis. Esta concepção tem uma virtude psicoterápica
característica, em particular na neutralização eficaz da angústia da morte. É
evidente que a Psicanálise, a este respeito, possa constituir uma resposta mais
aceitável se situar, com Freud, a própria morte como vocação do corpo (instinto de
morte). Pregar, sempre e por todo o lado, a escuta, a abertura do inconsciente, o
acesso à transferência (uma transferência de que, às vezes, não se sabe que fazer),
é tornar a Psicanálise na teriaga, na terapêutica suprema; é, por conseguinte, fazer
dela uma ideologia, uma resposta, e não uma interrogação.

163
NOTAS

1 pomos aqui de lado o que a concepção da Posição médica postulada poT Freud pode ter de esquemático
ou -de «datado».

2 Em Ma vie et Ia Psychanalyse, Gallimard, 1950.


3 Encontrámos de passagem um problema ao qual voltaremos, mas que -desde já convém evocar. A insistência na autonomia da teoria
,psicanalítica não levará à seguinte tentação.- a teorização analítica está aberta a todos enquanto a aplicação médica está reservada aos
médi,cos? 0 que recordámos em consequência mostra em que é que esta solução é inadnússível: pois o verdadeiro acesso à teoria
psicanalítica exige que se passe por este processo, o único que petmite uma convicção teórica -digamos, a emanação de uma verdade.
É o problema do que se chama análise didáctica. Ora, não se trata aqui de terapêutica no sentido em que os médicos poderiam reivindicar o
seu privilégio, ainda que, inevitavelmente, a análise didáctica levasse a transformações que ultrapassem o quadTo de uma exigência -de
formação. Pretender-se-ia então operar uma segregação entre as análises não terapêuticas que podem seT feitas -por não médicos e as
análises terapêuticas -reservadas aos médicos? Mas isto não pode ter nenhuma significação concreta no campo aberto pela aplicação do
processo analítico. 0 que demonstra pelo absurdo que reservar a prática da análise aos médicos depende -de um simples «golpe de força»
ideológico.

4 J. Chazaud, La psychanalyse: résultats et critères de guérison, EMC, 1969 (citarem-os por várias vezes este notável texto).

5 Ma vie et Ia Psychanalyse, op. cit., pág. 97.


6 Por fim, o psi~, ista poderia chegar a cair sob a acção da lei de -não assIstência a ninguém em perigo. Do ponto de vista psiquiátrico, por
exemplo, o depressivo é « ir-responsável» e o médico -deve, por conseguinte, assegurar a protecção -do doente no c~ de este constituir uma
ameaça para si próprio, caso contrário infringe
* seu -dever e o seu saber.

7 É curioso observar que Sartre emprega esta ffirinula com


* fim de contestar -o que pensa ser a óptica psicanalítica. É um velho mal-entendido -que toma uma forma consternadora e caricatura,1 no seu
último artigo dos Temps modernes (Maio de 1969).

8 Gendrot., R. F. P., 1968, 2.


9 Inútil sublinhar que a Psiquiatria é diferentemente enriquecida de outras correntes importantes. Porém, isto não constitui nosso propósito.

10 A psicose @opondo-se sumariamente à neurose pela importância das perturbações na relação com a realidade (delírio, autismo, excitação
-ou melancolia).

164
11 o contributo Meiniano é aqui essencial.
12 Cf. a primeira parte desta obra.
13 Sucedeu propor-se, a fim -de paliar este inconveniente, uma psicoterapia com -dois analistas: um
analisando o inconsciente, outro reforçando o ego.

14Este problema foi exeelenteniente pensado e exposto por Valabrega na sua pequena obra sobre as Th~es
psychosomatiques, P.UX., 1954.

15 Ey: Êtudes psychiatriques, tomo 1, Deselees de Brower, Paris.


16 Citado por Lagache, La Psychanalyse, colecção Que sais-je?
17 Alexander, La Médicine psycheis~tique, Payot.
18 Valabrega, op. cit.
19 Cf., por exemplo, todo o quadro das doenças de adaptação, a partir -dos mecanismos de stress e da
defesa, e a extensão da neuroendocrinologia, da imunologia.

Balint, Le médecin, son malade et la maladie, P.U.F., 1960; e também Valabrega, La relation méd@ecin-
20
maIadè, P.U.F.

21 Cf. trabalhos sobre o «pensamento operat6rio» da escola psicossomática francesa.

22 Lacan, Psychanal~ et Médecine, 1966.

165
JEAN SAY

Psicanálise e Linguagem
A GiUe Deleuze este arabesco na trama que lhe foi tecida.

1.5.
A linguagem é a casa do sentido. Fora desta casa, o sentido não poderia ter
realização. Tudo o que tem sentido repassa pela linguagem. E o limiar desta casa-
em que o sentido surge no exprimível-pode ser transposto por qualquer coisa que
tenha sentido: pedra, animal ou homem 1.

Quer esta coisa fale quer não, isso não tem importância: o dicionário falará por ela.
0 nível de cultura de quem exprime por ele o sentido não é tomado em
consideração, do mesmo modo que o sentido é indiferente à diversidade das
línguas.

Mas, então, convém daí concluir que o sentido é o nome próprio de todos os nomes
próprios que o pequeno Stephen Dedalus se esforça por imaginar? «'Deus’ era o
nome de Deus», faz Joyce dizer àquele personagem, «exactamente como o seu
nome era ‘Stephen’. Em francês dizia-se ‘Dieu’ em vez de ‘God’, e este era também
o nome de Deus. E quando alguém em oração dizia ‘Dieu’ em vez de ‘God’, Deus
compreendia imediatamente que era um francês que orava. Porém, embora
houvesse nomes diferentes em todas as línguas do mundo, e ainda que Deus
compreendesse o que diziam todos os homens que oravam nas diferentes línguas,
Deus continuava, entretanto, sempre o mesmo.» 1

Pois bem! Se o sentido é indiferente- como se supôs-à diversidade das línguas e à


pessoa que o exprime, ele é como Deus em quem a criança medita profundamente,
com a sua implacável lógica de ingénuo ou de libertino. Mas deve-se ír-ainda mais
longe na analogia: se se admite que Deus compreende o sentido das orações em
línguas diferentes é porque Ele próprio é o sentido do sentido das línguas, ou o
nome do que elas dizem, na medida em que continua verdadeiramente «sempre o
mesmo».

E toda esta «teologia» não é estranha ao nosso pro~ pósito. As teorias ingénuas da
linguagem afirmam, com

169
efeito, que o sentido é indiferente aos materiais que constituem a sua casa. 0
sentido é espontaneamente imaginado como o conteúdo de um continente; e
acerca da «matéria» de que é feito este continente -o que os linguistas deno-

minam o «significante» - presume-se que o sentido lhe seja indiferente. Ele é o


interior de um exterior; o suporte físico da linguagem na ordem do audível (a voz)
ou na ordem do visível (a letra) é este exterior em relação ao qual o sentido
permanece desinteressado, como o ouro, o incenso e a mirra, que se mantêm
idênticos qualquer que seja o continente.

Deste modo, o que a palavra dos homens chamados «de boa vontade» diz é que o
sentido está na linguagem, mas que ele próprio não é da linguagem. 0 sentido está
na casa, a casa não é do sentido; se assim não fosse, como faria o bom Deus, a
quem se atribui saber o sentido das orações que qualquer lhe dirija e, outrossim,
dos actos sobre os quais vos julga?

De facto, quando Joyce escreve: «'Deus’ era o nome de Deus exactamente como o
seu nome era ‘Stephen'», o artifício está feito; pois, é evidente, nada diz que este
,nome, se fo-r verdadeiramente um nome, possa compreender todos os outros
nomes; em qualquer caso, nada permite evitar que «Deus» se encontre na
linguagem como um nome perdido entre outros.

Mas «o pior não está sempre certo». Já não é Deus senão uma palavra da
linguagem? Seja. Um significante sem significado determinado? Pois seja ainda. 0
candidato às virtudes teologais de G. Schéhadé, em Monsleur Bob'le, terá sempre,
no entanto, o recurso de responder à questão: «Uma boa definição de Deus?»-«Uma
palavra usual por excelência.» E teremos até de acrescentar que o psicanalista, por
seu lado, que não é certamente «candidato às virtudes teologais», não responderia
diferentemente.

Mas por outras razões. Não será «uma palavra usual por excelência», com efeito,
aquilo de que o psicanalista constantemente se ocupa sob as espécies do
fantasma’, ainda que esta palavra (que já não é o nome de Deus, mas uma
«sequência», do tipo «bate-se numa criança», por exemplo) seja unicamente «usual
por excelê ncia» sem o sujeito saber? Do mesmo modo, com o nome de Deus, é
verdadeiramente a dimensão do incontornável que en-

170
contramos. E, com efeito, é verdadeiramente de fantasma incontornável que
depende o desejo de que haja um sentido do sentido, ou, de uma maneira
inteiramente homóloga, de que haja um Deus susceptível de saber o sentido de
todos os sentidos, de compreender o seu nome sob todos os nomes.

Este desvio não era, por consequência, supérfluo. Agora podemos escrever sem
perigo de haver uma ciência que, para existir como teoria de fantasma, deva
começar por afirmar que não há sentido do sentido, que o Deus do pequeno
Dedalus não existe e que a linguagem é tanto o conteúdo como o continente do
sentido, estando ligadas estas três coisas.

A Psicanálise é, de facto, a ciência cujo primeiro axioma consiste em não haver


ninguém que suponha co~ nhecer o sentido do sentido, e graças àqual as palavras
da linguagem, longe de serem areligião de Deus, encontram a sua magia antiga,
tendo novamente todo o poder.

1E é mesmo Freud quem o afirma num texto que remonta a 1890 e apareceu pela
primeira vez numa enciclopédia médica popular: Die Gesundheit. 0 artigo
Tratamento Psíquico começa, com efeito, do seguinte modo: « Por ‘tratamento
psíquico’ entende-se, para dizer a verdade, o tratamento que tem o ponto de
partida na alma, tratamento por medidas que operam em primeiro lugar e
imediatamente sobre a alma humana, quer se trate, aliás, de perturbações mentais
quer físicas. Entre tais medidas figura o uso das palavras, pois elas são o
instrumento essencial do tratamento psíquico. Um profano julgará, sem dúvida
alguma, que é difícil compreender como perturbações patológicas do corpo e da
alma podem ser eliminadas por meio de simples palavras. Terá a impressão que lhe
exigem de acreditar em magia. E não se engana inteiramente, já que as palavras
que utilizamos na nossa linguagem de todos os dias não são mais que magia
suavizada. Mas será necessário seguir um caminho indirecto a fim de explicar como
a ciência tenta restaurar as palavras no intuito de lhes devolver pelo menos uma
parte do seu antigo poder mágico.» (S. E., VII, pág. 283) 1.

Por conseguinte, o problema que este capítulo queria ao menos tentar pôr poder-se-
ia muito precisamente formular nestes termos: que conceito deve a Psicanálise
fazer da linguagem para ficar em estado de restituir à s palavras

171
«pelo menos uma parte do seu antigo poder mágico», sem por isso fazer poesia
nem cair no charlatanismo?

Desta maneira de ver as coisas podemos desde já concluir duas consequências no


tocante ao discurso psicanalítico. Em primeiro lugar, e contrariamente ao discurso
da Física, ou ainda da Linguística, o da Psicanálise não poderia dar-se a
possibilidade de separar um nível de asserções, respeitantes ao campo em questão,
de um-nível de Inferências concernente ao domínio construído 1.

Não existe metalingaagem 6 em Psicanálise, afirma com efeito Jacques Lacan; isto
não quer dizer que não seja possível nela dar definições correctas ou de ter a seu
respeito um discurso rigoroso, mas simplesmente que o discurso produzido não s.e
determina por separação do domínio construído a partir do campo que permite
interpretar e que a sua «linguagem» apenas é £orm&lizável na sua linguagem.

A segunda consequência da tese de não haver sentido do sentido e de -a linguagem


ser indissociavelmente domínio da ciência e instrumento da magia volta a tomar o
caminho contrário de todas as outras ciências positivas, para as quais o discurso
criado unicamente torna patente um saber que já algures existia para alguém.

Só a Psicanálise admite, com efeito, consideTar o facto de haver «acontecímentos


do discurso», ou «cortes» na ordem do saber, pela razão, aliás muito simples, de se
poder defini-Ia como «ciência dos acontecimentos» .

E visto que o termo «acontecimento» surgiu sob a nossa caneta, estabelecemos


imediatamente que convém interpretá-lo como o que torna a linguagem possível, ou
o que faz não existir sentido do acontecimento, pois a lin” guagem é a casa do
sentido, e todo o acontecimento deve ser considerado como aconteciniento de
linguagem, como acontecimento da linguagem. «Ch<>ve» é ‘acontecimento porque
eu 1posso dizer «chove», e não o inverso.

Assim, pois, o sentido do acontecimento é rigorosamente idêntico ao acontecimento


do sentido. É a pertinência de uma tal aproximação no que concerne à,linguagem
em Psicanálise que queríamos tentar justificar. E o empenho consiste em pÔr cobro
a toda a assimilação da Psicanálise a uma interpretação, separando-a, por
conseguinte, da filosofia que anima as teorias científicas do séc. XIX.

172
Ora, parece justamente que apresentar a Psicanálise como uma «interpretação»
ocasiona imediatamente uma clivagem entre escolas adversas, umas acusando
outras de praticarem uma interpretação puramente linguística do inconsciente que
ilude o lado energético dos fenômenos, ou que sei eu mais?, e as segundas
atacando as primeiras de fazerem uma interpretação que implica que os
«significados», de que o discurso de Freud não é avaro, representem na verdade
alguma coisa.

Para uns, por exemplo, seria necessário tomar a sério oque Freud diz relacionado
com o oral, o anal e o genital, ou tomar à letra o que ele afirma no tocante ao papel
estruturante do complexo de Êdipo. Para os outros, pelo contrário, unicamente se
trata de um mito ou de uma fábula que o próprio Freud qualifica, aliás, de «romance
familiar»; quanto ao oral, ao anal ou ao genital, não se impõe, sobretudo, realizar
estes termos, mas antes considerá4oscomo registos significantes que podem muito
bem comprovar-se e cuja progressão de nenhum modo constitui uma norma; ainda
mais, representam já deslocamentos em que o sujeito embosca o narcisismo. Não
escondemos a nossa preferência pela segunda corrente, que pelo menos apresenta
-a vantagem de ter em consideração a vulgarização e a insipidez de um saber
psicanalítico que a ideologia médica completamente reinvestiu e cuja revelação
numa cura já não tem, vulgarmente, nenhum efeito de verdade. Não se deixa de
concluir daí que uma e outra maneira de -apresentar as coisas fiquem presas numa
filosofia da interpretação e numa concepção da linguagem que desconhecem o -que
a Psicanálise permite articular no concernente -ao sentido ou ao acontecimento.

E parece-nos ter chegado justamente a ocasião de separar o discurso psicanalítico


de todos os modelos que recebeu, sucessivamente, das teorias do signo, quer se
trate da Neurologia, da Etnologia ou da Linguística, pela simples razão de que -estas
ciências não têm nenhuma necessidade de se referir aos conceitos de «sentido» e
de «acontecimento» que será necessário aqui produzir.

Para ir ao essencial, diríamos que a tomada em consideração do sentido ou do


acontecimento implica uma subversão do sujeito, enquanto o fracasso de todos os
modelos de que o discurso freudiano se mostrou muito á vido, importando mais
conceitos do que os elaborados

173
por si, resulta antes do facto de, em bom método -há necessidade de lembrá-lo? -, um
modelo que interesse dever acabar por malograr-se, a não ser que o domínio ao qual se
aplique seja efectivamente uma «região» do discurso importado; demonstrar-se-ia então que
a Psicanálise, por exemplo, tem um domínio isomorfo ao da Biologia ou ao da Linguística.

No tocante à Biologia, Freud deixava a questão em

aberto, julgando que, um dia, a Psicanálise permitiria descobrir «quimisinos» subjacentes às


próprias neuroses. Agora sabemos que isso não é verdade e de que ideologia depende esta
esperança infundada. Mas, mais geralmente, afigura-se-nos pertinente aceitar que o fracasso
dos modelos importados em Psicanálise resulta, principalmente, do facto de nenhum dentre
eles permitir dar a explicação da maneira como funciona a linguagem no modo da
«associação livre», única regra a que se atém quem entrar em Psicanálise, único modelo
material que admite repetir o acontecimento ou de nele situar o sentido. Para a resolução do
nosso problema, seria conveniente poder fazer-se também afirmativa no respeitante ao
fracasso previsível de todo o modelo linguístico importado em Psicanálise. Porém ‘ isso seria
excluir um campo de investigação fecundo e, em todo o caso, privar-se de um instrumento de
escuta da linguagem cada vez mais rigoroso; seria talvez, muito simplesmente, dissimular a
nossa incompetência em linguística.

Não obstante o uso puramente discriminante do conceito de «referente»7@ por exemplo,


para designar o que não é ocupação da linguística, embora se pense que a linguagem apenas
funcione quando remeta a este referente extralinguístico, não poderia deixar o psicanalista
indiferente, na própria medida em que nenhum referente e necessario para que se instaure o
modo da «associação livre».

Afirmar que a linguagem é a casa do sentido, antes de ser um meio de comunicação, é, com
efeito, implicar que a linguagem não tem outro referente que ela mesma. Ora, se as
afirmações tão fundamentais para a linguística como as que têm por objecto o «arbitrário» ou
a «imotivaçao» do signo não poderiam ser sustentadas sem referência à extralinguística,
convém ver o que, neste ponto nodal,

174
separa as duas abordagens ou, igualmente, o que permite tanto o desconhecimento
-como o equívoco.

Não é apenas pelo facto de o estar estendido num divã não facilitar de modo
nenhum a designação, ou por tudo se passar para o psicanalista mais na ordem do
audível do que na do visível-o sofrimento do próprio corpo repassando para as
palavras que o exprimem-que se considera funcionar a linguagem sem referente.

É porque o referente último ou original é o próprio sujeito de que a Psicanálise é a


subversão em acto. E compreender-se-á desde então porque a ordem do exprimível,
ou do que chamámos o «sentido», não se situa nem do lado do «significante» nem
do lado do «significado», tal como a Linguística definiu estes termos.

Não é, pois, por falta de rigor que a Psicanálise faz um uso selvagem do conceito de
significante, sendo, por exemplo, levada a falar de «significante não verbal»;
também não é por gosto da violência que ela procurará obrigar-vos a admitir ser o
significado pela linguagem o próprio significante.

Se ela não fizesse estes termos sofrerem semelhante torção, recairia com efeito na
rotina da interpretação e nos tipos de discurso que supõem que há um sentido do
sentido ou que não se importam de subverter o sujeito que se supõe saber.

É ao que o próprio Freud não escapou-e principalmente o discurso psicanalítico,


tornado verdadeiramente insípido e abjecto devido à ideologia médica. E os textos
de Freud felizmente existem para o provar; mas continuam a aguardar que sejam
lidos, ou até simplesmente traduzidos.

Parece-nos amplamente chegada a ocasião de voltar a eles, não tanto para


encontrar conceitos como para isolar os «acontecimentos do discurso», cuja leitura
foi justamente tornada possível pela Psicanálise. E a tarefa mais urgente para ela é
de se pôr em estado de repetir estes acontecimentos, sendo questão da ordem do
dia o seu recomeço. Pois regressar a Freud é repetir com ele os cortes
epistemológicos que levaram a outros campos, e a partir dos quais um conjunto de
disciplinas adjacentes tentou em vão afastar-se da ideologia. É, por exemplo, no
próprio seio da Neurologia e do discurso nosográfico da Psiquiatria clássica que o
conceito de «neurose» foi

175
produzido por Charcot. Mas é somente na medida em que Freud,foi obrigado
a repetir o corte induzido nesse campo, sem que -com isso algo mude, que
ele chega a fundar o discurso psicanalítico, o qual, por seu lado, conduz a
con-

sequências capitais, e imediatamente, visto que permite a Freud separar-se


da ideologia evolucionista de que falava Charcot e na qual se manteve.

Será possível que algo de análogo não se passasse no que respeita à


linguagem e à sua escuta na cura psicanalítica? Ou, então, -como chegou
Freud à adopção do método das «associações livres»?

É a semelhantes questões que temos em vista responder, pensando que este


trabalho de leitura é, uma vez ainda, a tarefa mais urgente. Se a
reformulação das obras de Galileu não põe em risco a modificação da Física,
o regresso a ]Eilreud oferece todas -as «chances» de fazer progredir a
própria Psicanálise.

0 QUE FREUI) DIZ

«Ser-nos-á necessário seguir um caminho desviado a fim de explicar como a


ciência tenta restaurar as palavras, a fim de lhes restituir pelo menos uma
parte do antigo poder mágico.»

Este texto, que prezamos poder citar, não deve iludir.


0 «caminho desviado» pensado por Freud em 1890 é a hipnose, e de nenhum
modo o que virá a ser a Psicanálise. Certamente, o problema de saber se a
Psicanálise, que começa com o abandono da «sugestão», também
abandonou a hipnose subsiste inteiramente, ainda que todo o preparo da
hipnose tenha desaparecido. Pois haverá quem seja levado a pensar que o
realizado numa sessão ao nível da voz diz respeito à hipnose.

Não obstante, Freud, que -confessa sempre a sua dívida em -relação ao


método hipnótico, foi quem deu o passo para dele se libertar, substituindo-o
pelo método das associações livres. E poderia supor-se que foi uma reflexão
sobre a linguagem tal qual funciona num e noutro caso que o obrigou a
tomar esta decisão. Mas isto não é verdade. E desde que se considere a
maneira como o fundador da Psicanálise opera no seio do que é igualmente
uma «cura pela palavra»- como se exprime a justo título Anna 0.

176
não constitui o menor dos paradoxos o facto de ele nunca ter explicitamente
concedido à linguagem o lugar que lhe pertence.

Mas não pelas razões que creem os defensores da ideologia médica. Freud deu à
linguagem muito mais atenção do que pode deixar entrever a literatura
psicanalítica, feita para avalizar o processo por meio do qual funciona pelo mundo
uma Psicanálise instalada como indústria culpável.

E nós propomo-nos justamente fazer luz tanto sobre o que em Freud é um erro,
amplamente -compensado pelo rigor que tornou possível, como sobre o que, nos
seus continuadores, é um desconhecimento que confina com a impostura.

0 erro de Freud ressai em duas ordens de considerações. Seria necessário antes do


mais, evidentemente, atentar na sua formação e na inexistência nesse tempo de
qualquer disciplina constituída que tivesse a língua por objecto de estudo. E, nó
entanto, o grande leitor que ele era conhecia os filólogos (depreende-se isto do seu
livro A Afasia) e tinha gosto pelas teorias que procuravam desmontar o mecanismo
verbal. 0 seu livro sobre o dito espirituoso (Witz) é a prova manifesta disso.

Porém, o que entra essencialmente em linha de conta neste tema é o campo de


fenômenos com o qual se defrontara e que, só se tornando acessível através da
linguagem, ,não podia -ser considerado -como pertencente a esta, mas deveria
descrever-se como um pensamento que lhe era anterior.

0 PENSAMENTO E A LINGUAGEM

0 inconsciente é, com efeito, o lugar onde se estabelece conexão com aquilo que
convém paradoxalmente chamar, com Freud, «representações de coisas» e onde,
no caso de surgirem palavras, -elas devem ser tratadas como coisas, como matéria
fónica. Pelo contrário, a palavra apenas poderia efectivar-se no seio da consciência.
É, aliás, na verdade, à margem da sua carreira que Freud tenta mergulhar os
doentes que hipnotiza em qualquer coisa mais que o estado de letargia ou de
catalepsia, a saber: num estado sonambúlico que pen-nita fazê-los falar sem os
acordar.
12 177
Trata-se, ria circunstância, de encontrar um meio em que a linguagem fique
ligada directamente ao inconsciente, sem que a actividade motora que ela implica
acorde o indivíduo ou o leve a tomar consciência do conteúdo das palavras. Tudo
isto depende ainda da pura e simples comprovação, mas determina de facto o que
será a teoria freudiana da linguagem. Se falar conduz ao acordar do indivíduo
hipnotizado, é porque a linguagem relaciona-se com o sistema da consciência,
enquanto a alucinação está na. dependência do sistema inconsciente.

Certamente convém aqui fazer distinção cuidadosa entre a consciência como efeito
e a consciência como sistema. Toda a mudança de estado no mecanismo psíquico, e
«a fortiori» qualquer passagem de representação de um sistema para outro,
modifica a economia do sistema consciência, sob a forma de um efeito que, em
Freud, se chama «atenção» de preferência a «consciência».

Assim, a linguagem proferida durante o estado sonambúlico é sem dúvida


articulada com uma certa dose de atenção, porém não é produzida no seio do
sistema da consciencia, como sempre acontece. Admitamos que a hipnose teve de
ser abandonada, como Freud o alega, pois não era possível pôr toda a gente em
estado de sonambulismo. Conclui-se que a teoria da linguagem ficou tributária
desta situação.

E em Esboço, primeiro texto em que Freud expõe a sua teoria do sonho, pode dizer-
se que o lugar deixado à linguagem era porção côngrua. Eis uma das passagens
mais características: «As ideias do sonho são de ordem alucinatória; acordam a
consciência e, uma vez percebidas, acredita-se nelas. É esta a mais importante
característica do sonho. Surge logo que alternam momentos de sono e de vigília.
Fecham-se os olhos e produzem-se alucinações; abrem-se-nos e pensa-se em
palavras.» (S. E., I, pág. 339).
0 carácter dividido da fórmula que sublinhamos mostra a que ponto, para Freud,
linguagem e consciência são indissociáveis. E o inconsciente é estruturado por
alucinações em que a linguagem não tem ainda quinhão, mas onde o pensamento,
que, por seu lado, pode muito bem passar sem consciência, se encontra a si próprio
e pode ser, em consequência, reconstituído.

178
É conveniente agora ver o que predispõe Preud. a afirmar não só que o pensamento
não ocupa em relação com o sistema consciência a mesma posição que a
linguagem mas ainda que existe um pensamento anterior à linguagem. Com este
fim, vamos ter de retomar o que, respeitante ao juízo, ele articula neste texto.

A teoria que ele aí propõe decorre do axioma de incompatibilidade entre percepção


e memória. Consiste em o mecanismo psíquico poder conservar o antigo, mesmo
sendo capaz de receber o recente; e a percepção não poderia, pois, ter lugar no
mesmo sítio que a memória, o que Freud ratifica ao fazer uma distinção bem nítida
entre duas classes de neurónios (T para a percepção e V para a memória), ainda
que já não se trate, na circunstância, de neurologia positiva, e este texto seja
construído com tanto rigor dedutivo como um sistema pré-socrático, o termo
«neurónio» nada mais designando que oconceito de elemento.

Quanto ao conceito de movimento necessário à dedução das coisas a partir dos


elementos, é a «quantidade» que Freud designa por <Q» ou «Q?7» segundo se trate
da quantidade exterior ou interior ao mecanismo. Seja qual for, esta percorre-o sob
a forma de «investimentos» aplicados não tanto aos neurónios, considerados
unidades do sistema, como à rede de «facilitações» que esses neurónios desenham
entre eles. A quantidade dá origem, pois, a circuitos sempre diferentes no interior
da mesma rede formada pelos neurónios do mecanismo.

Freud emprega mais correntemente o termo «processo» para descrever os


diferentes circuitos. E o juízo é nestas condições apresentado como um processo do
mecanismo, à origem inteiramente independente -supõe-se -

da linguagem. 0 que o desencadeia é, com efeito, a dissimilaridade entre um


investimento de desejo do sistema V e um investimento de percepção do sistema
<p Enquanto a sua coincidência daria o sinal biológico da descarga, a não
coincidência põe em movimento a actividade de pensamento. Em que consiste
esta? Na possibilidade de comparar um complexo perceptivo com outros a partir do
complexo que o desejo alucina. E a comparação parte, pois, -necessariamente de
um elemeno comum ao investimento de desejo (o complexo formado pelos
neurónios a e b) e ao investimento de percepção (o complexo for-

179
mado pelos neurónios a e c), e tem por objecto, consequentemente, os neurónios b
e e.

É precisamente neste ponto que a actividade do pensamento se faz juízo. Este


consiste na operação de «dissecção» que separa «o neurónio a, o qual no conjunto
mantém-se idêntico», do neurónio b, «que no essencial varia». E e em consequencia
que «a linguagem aplicará o termo ‘juízo’ a esta dissecção».

É evidentemente este «em consequência» que se impõe explicitar. Mas desde já se


torna possível arrogar-se que é a linguagem que introduz o ego e todas as
confusões do narcisismo. Com efeito, Freud imputa-lhe o estabelecimento de «uma
analogia de facto existente entre o núcleo do ego e a parte constante do percepto, e
entre os investimentos variáveis do ‘pallium’ e a parte inconstante; ele chamará ao
neurónio a a coisa e ao neurónio b a sua actividade ou atributo -em -suma, o seu
predicado». (S. E., I, pág. 380).

Ora, o que convém ver bem é que esta assimilação não constitui para Freud acção
do pensamento, mas sim da linguagem. E este pensamento anterior à lingua gem
é simplesmenteactivado pela não coincidência, no propósito de «voltar -ao neurónio
b ausente e de libertar a sensação de identidade» (S. E., 1, pág. 329), sendo o
exemplo fornecido o de um lactante que tem fome e que, apercebendo-se do selo
materno de perfil sem o respectivo mamilo, procura vê-lo de frente, a não-
coincidência induzindo a imagem mnésica de um movimento de cabeça.

Trata-se, no caso, de um «juízo primário», a saber, justamente de uma operação


para a qual o investimento do ego não é necessário, pois basta «seguir uma
associação que se deve a uma coincidência parcial». Este tipo de juizo tem lugar
quando o indivíduo que percebe copia o movimento que o faz perceber.

Já não é, pois, na linguagem que se afirma o juízo, mas nas experiências corporais
que tomam a forma de sensações activas ou passivas: impressões e movimentos. E
a distinção aristotélica entre coisa e predicado, de que o ego é responsável, não é,
então, de modo nenhum reconduzida, mas precisamente subvertida, e subvertida
pelo que Freud alega relativamente à «coisa».

180
0 pensamento do juízo primário pode, com efeito, bifurcar-se quer no sentido da
pura e simples «reproduçã o» da «coisa» quer no do seu conhecimento. E esta
clivagem entre satisfação da necessidade e desejo de saber é provocada pela
sexualidade. Efectivamente, as sensações de impressões ou de movimento estão,
neste caso, ausentes. Não há coisa; há@ apenas predicados. Freud disse-o
expressamente: «0 complexo perceptivo fica incompreendido -

quer dizer é susceptível de reprodução, mas sem indicar a direcção de vias novas
para o pensamento.» (S. E., 1, pág. 333).

Convém, portanto, estabelecer ao nível da sexualidade uma clivagenientre


pensamento judicativo e pensamento reprodutivo; e esta clivagem é apenas o
desfasamento do «atraso» ou do «posteriormente», uma sensação simplesmente
«reproduzida» provocando, uma vez que o recalcamento funcionou, um efeito muito
superior à causa; e este recalcamento, que surge, pois, como o inverso de um juizo,
actua de maneira electiva aauando da resolução do complexo de Édipo, no final da
primeira infância, ou da sua revivescência, na puberdade.

Se esta distinção entre reprodução e conhecimento é, com efeito, o que fundamenta


a distinção entre o predicado e a coisa, pode então perguntar-se -visto que é a
relacão com a sexualidade que a implica necessáriamente-se é em geral possível
ter um conhecimento da coisa. E deve responder-se sem receio Que não, ou antes
advertir que apenas se tem o conhecimento de coisas que .iá não são coisas mas
predicados., Freud escreve acerca disto: «Os icomplexos Perceptivos procedentes
deste outrem’ (a mãe) serão em parte novos e não comparáveis -os seus traços, por
exemplo na esfera visual. Mas ainda outras percepções visuais-as dos movimentos
das suas mãos - coincidirão no sujeito com a lembrança de impressões nele
inteiramente análogas, provenientes do seu próprio corpo, e que estão associadas a
lembrancas de movimentos que ele próprio ensaiou ... » (S. E., 1, pág. 331).

Porém, não é evidentemente isso que interessa o sujei-to do desejo de saber. E


pode mesmo interrogar-se como é possível ainda surgir a ideia de um conhecimento
a partir da actividade de comparação entre os complexos perceptivos, por que se
define o pensamento.

181
Ora, a sequência desse texto capital vale a pena, a este respeito, ser citada: «É em
relação com um semelhante (Nebenmensch) que o ser humano aprende a conhecer;
um objecto desta ordem fora o primeiro objecto satisfatório, o seu primeiro objecto
hostil, o seu único poder adjuvante. 0 complexo do Nebenmensch fragmenta-se em
duas componentes, das quais uma se imprime pela sua estrutura constante e
continua semelhante como uma coisa, enquanto a outra pode ser compreendida
pela actividade da memória, isto é, pode ser refe-rida a uma informação tirada do
seu próprio corpo.» (S. E., I, pág. 366). ‘«Outrem» é, pois, o primeiro objecto de
conhecimento, mas o seu corpo é também a primeira «coisa», ou, pelo menos,
aquilo que neste corpo se deixará reconhecer no próprio -corpo do sujeito, ou seja,
tornar-se objecto de identificação e passar para o lado do pTefficado. Ora, é em todo
o caso essencialmente para isso que vai servir a linguagem a partir da introdução
do ego, matriz de todas as identificações.

Chegamos a uma situação em forma de alternativa onde nos achamos


necessariamente perdidos, seja qual for a orientação escolhida. Ou antes, com
efeito, o sujeito escolhe pensar sem conhecer, servindo-se da via do «juízo
primário» anterior à linguagem, ou então escolhe conhecer, mas para ver a coisa
que se julgava, na reprodução, escapar inevitavelmente ao seu saber.

0 que, na verdade, interessa ao juízo secundário é o «predicado», assimilável a uma


informação que se pode obter por identificação com o corpo de outrem e com a
extensão do corpo que é a linguagem de outrem. Em compensação, «o que
chamamos coisas são resíduos que escapam ao juízo». (S. E., I, pág. 334).

Esta afirmação fulgurante é pouco desenvolvida por Freud. Limita-se a lembrá-la


brevemente quando, mais adiante, se impunha explicar a gênese da palavra: «No
início da função do juízo», podemos ler efectivamente, «quando as percepções, em
atenção à conexão possível com o objecto desejado, despertam o interesse, e os
complexos que elas formam (conforme já demonstrara) são dissecados num
comporkente inassimilável (a coisa) e num outro conhecido do ego em função da
sua própria experiência (atributo, actividade) -o que chamamos a

182
compreensão -, dois laços aparecem relacionados com a -emissão da palavra ... »
(S. E., I, pág. 366).

0 importante, porém, não é tanto saber o que Freud pode articular no respeitante à
gênese da palavra como saber em que escapa ao juizo secundário o que ele chama
a coisa, isto é, o malogro desta ao ser expresso pela linguagem.

Sem grande risco de erro, podemos supor tratar-se da série de objectos-causas do


desejo, a saber: os objectos do corpo de outrem que se manifestam justamente a
partir do fenômeno de identificação como o que dele cai irremediavelmente,
fazendo ou não partedo próprio corpo.

Estes objectos, iludidos pelo espelho, são em número de quatro: o olhar e a voz, o
exeremento e o seio. Só os dois últimos foram tematizados por Freud, os outros dois
acentuados por Jacques Lacan, e a série que constituem denominada por
ele .«objecto a». A linguagem, que aparece com o desejo de saber, é pois a
tentativa sempre frustrada para passar, a propósito destes objectos, da reprodução
ao conhecimento.

Mas entre o sujeito do desejo de saber e o predicado há ainda como terceiro a coisa
que se escapa para fora do alcance, presa numa lógica que é precisamente a do
sistema inconsciente, onde as palavras são tratadas como coisas. E o sujeito não
pode sair-se bem que mediante a perda da respectiva identidade, já não tendo
outra função, em cada ponto da cadeia significante, que indicar na sua impossível
presença o real da coisa que escapa.

Compreende-se agora como se pôde afirmar que a linguagem unicamente tem por
qualquer referente o pró prio sujeito, incessante e justamente subvertido pela
cadeia significante que o reduz a ser exclusivamente o que representa um
significante em comparação a outro significante.

E este signifícante não se deve, poís, relacionar com o signo, como no caso da
Linguística - em que se supõe representar o signo alguma coisa para alguém -, mas
com a ordem do simbólico, ordem esta que é a do retorno indefinido de um
signi@ficante representado comparativamente a outro significante por um sujeito,
levado no jogo de uma confrontação impossível com o real do objecto a, Parece que
falar,aqui de significante, no lugar onde Freud justamente fala de pensamento, é
dar um passo ilícito.

183
E confessamos isto com a condição de mostrarmos agora em que é que o isolado
por ele como «,pensamento» no «juízo primário» é, de facto, indistinguível de uma
linguagem cujo conceito vai sernecessário precisar.

Se o pensamento diz respeito à dimensão do desejo, a linguagem relaciona-se, por


seu lado, com a da pergunta. Com efeito, -começa pelos gritos. E estes gritos vêm
principalmente de outro primitivo inassimiláVel e incompreensível enquanto coisa,
mas que tem também por atributo
- além do movimento e de tudo o que se vê - a palavra, e tudo o que se ouve.

Numa passagem deste mesmo texto sobre à «boa forma» do Nebenmensch, Freud
efectivamente escreve: « Outras percepções do objecto (trata-se de outrem), e que
dele fazem também parte-se, por exemplo, solta gritos-, despertarão a lembrança
dos seus próprios gritos ao mesmo tempo quea das experiências de aflição.» (S. E.,
1, pág. 331). 0 primeiro significante verbal, a primeira correspondência de um som
com um sentido, faz-se consequentemente sob a forma de uma «descarga
de afecto». É através da aflição que o homem tem acesso à comunicação pela
linguagem. Mas é principalmente de outrem que lhe chega a sua própria
pergunta, visto a interpretação do seu grito depender desse outrem e do
respectivo código, através do qual terá necessariamente de passar.

Mas antes mesmo que esta tarefa de aquisição de uma competência linguística seja
bem encaminhada, acontece que -a «intervenção de palavra» serve de «válvula de
segurança» e de «única descarga» até que a «acção específica seja encontracia» (S.
E., I. pág. 336), quer dizer, até que a pergunta seja sàtisfeita. E é, com efeito,
aquando desta primeira e mítica «experiência de satisfação» que a via de inervação
de palavra «adquire uma função secundária, pelo facto de atrair a atenção da
pessoa que presta assistência (em geral o próprio objecto desejado) à impaciência
da criança e à sua confusão; e é deste modo que a linguagem serve, em
consequência, à comunicação e é -anexada para a acção especifica.» (S. E., I, pág.
366). Tudo isto é muito importante, e sobretudo seguramente o facto de que o ser
que escuta e o que percebe a pergunta é também o próprio «objecto desejado», de
sorte que é inteiramente possível fazer da linguagem uma espécie de segundo
corpo ao qual a criança se dirige como a qualquer

194
outro. Jacques Lacan levou justamente até final as implicações desta intuição de
Freud, alegando a natureza linguageira do «grande Outro», conforme expressão
sua.

Para Freud, o grande Outro era, -antes, o que suscita o

acto, isto é, que torna possível a «acção específica» a partir da qual todo o acto será
em consequência interpretável. É pelo menos a este propósito que fala dele num
texto, durante muito tempo desconhecido, da carta a Fliess n.o
52: «Um ataque histérico não é uma descarga, mas uma acção; conserva as
características gerais de qualquer acção, a saber: de ser um meio para a reprodução
do prazer (é-o pelo menos à raiz; à parte isso, apresenta toda a espécie de outras
razões tiradas do pré-consciente)... Ataques de vertigens e crises de choro - todas
elas (acções) visam outra pessoa, mas quase sempre estoutra pré-históri,ca e
inesquecível, e que nunca será igualada por ninguém.» (S. E., I, pág. 239).

Deixamos este texto -que não diz directamente respeito à linguagem - como pedra
de espera, na medida em que bastará demonstrar que as palavras podem supor
actos e que, até, qualquer acto repassa pela linguagem para que a assimilação feita
por Lacan entre esta «outra pré-histórica e inesquecível» e o «tesoiro dos
significantes» seja demonstrada.

Primeiramente, importa voltar ao que se diz no Esboço respeitante agora à própria


linguagem como instrumento do pensamento. Sabemos que este é uma operação
do sistema T que apenas conhece a quantidade, sendo o curso dos seus
investimentos regulado ao longo da série do prazer-desprazer. Deste modo, tem
necessidade de um dispositivo, susceptível de fornecer «indicações de qual!dade»,
que possa atrair a consciência e fazer o pensamento mais independente do prazer
da descarga ou do desprazer da não coincidência.

Eis como o problema é posto e resolvido no final de A Interpretação dos Sonhos: «Os
processos de pensamento são em si mesmos sem qualidade, excepto para as
excitações de prazer e de desprazer que os acompanham e sobre as quais,
considerando o efeito perturbante que podem ter no pensamento, devem tomar-se
precauções. A fim de permitir aos processos de pensamento o acesso à qualidade,
eles associam-se nos seres humanos às recordações verbais, cujos remanescentes
de qualidade são suficientes

185
para atrair a atenção da consciência e dotar os processos de pensamento de uma
nova fonte de investimento a partir da cons-ciência.» (S. E., V, pág. 617).

A linguagem é, pois, introduzida de algum modo como reservatório -de -qualidade e


como aliada da consciência. Mas o texto do Esboço é ainda mais preciso. Nele diz
que o sistema 99 «não tem nenhum meio de distinguir entre os resultados dos
processos de pensamento e os resultados dos processos de percepção; o
pensamento é tudo o

que resta das facilitações do pensamento, e não a lembrança... As indicações da


descarga de palavra preenchem esta lacuna e põem os processos de pensamento
ao nível dos processos de percepção, dão-lhes realidade e tornam possível a sua
recordação». (S. E., 1, pág 306).

Deste modo, a linguagem transforma-se no real com o qual o pensamente se ocupa,


ao mesmo tempo que procura para este pensamento a possibilidade da recordação
remota. Todavia, tome-se em atenção que, a

partir do momento em que a linguagem se torna memória do pensamento, arrisca-


se extremamente a ter, ela própria. duas faces e de ser muito mais o que melhor
permite trair a consciência do que o seu aliado.

Todas as vantagens têm os seus inconvenientes. Ora, @lém do facto de o


pensamento, graças às palavras, aceder a qualidade, as vantagens do simbólico
não são desprezíveis. 0 que Freud chama, com efeito, «a associação de palavra»
consiste em «ligar neurónios V com neurónios que executam representações de
sons e que estão, eles mesmos, -em estreita associação com imagens motoras de
palavra». Ora, «estas associações (de palavra) têm uma dupla característica que
lhes dá uma vantagem sobre as outras: são limitadas em número (geschIossen) e
exclusivas (uma da outra)». (S. E., I, pág. 365),

Não se trata, efectivamente, de as associações de palavras serem tão numerosas


como as associações implicadas pelos pensamentos ou pelas percepções; não se
trata de estas associações, que são em número limitado ‘ poderem servir a vários
usos, ou designarem-se elas próprias, como as teorias ingénuas imaginam no caso
da percepção. É o sistema das suas diferenças que permite simbolizar o real mais
complexo e menos diferenciado da percepção.

Freud limita~se aqui a mencioná-lo, interessando-lhe apenas a possibilidade de o


pensamento ou memória - é

186
tudo uno - tornarem-se conscientes, através da informação da descarga implicada
pela efectuação da palavra. Pois, é bem evidente que se podem distinguir as
«imagens motoras de palavra» e as «representações de palavras»; e neste caso a
«representação de palavra» não é necessariamente o limiar da consciência,

Freud f az muito bem a apreciação disto, e é essa a razão pela qual é elaborado, na
carta 52, o conceito de «Dré-consciente». Este cobre uma camada de inscrições
«ligada às representações de palavras e correspondente ao nosso ego oficial». E
Freud acrescenta: «Os investimentos provenientes do Pcs (pré-consciente) fazem-se
conscientes de harmonia com certas regras; e este pensamento secundário,
afectado de consciência sobrevinda ao retardador, está, na verdade, ligado a uma
activação alucinatória das representações de palavras ... » (S. E., I, pág. 235).

É verdade, por conseguinte, que o pensamento em Dalavras não é o pensamento


primário, mas é também igualmente verdade que não é automaticamente
consciente, e que, longe de implicar necessariamente a percepçã o dos sons
emitidos, pode muito bem ser produzido por uma «activação alucinatõria das
representações de palavras», de tal modo que a consciência só sobrevém «ao
retardador»; e veremos todo o fruto que se tirará desta última comprovação. Em
todo o caso, deu-se agora um passo que representa uma verdadeira inversão da
tese de que partimos, respeitante ao laço indissociável entre linguagem e
consciência, e a impossibilidade correlativa de considerar o inconsciente como
urdido na textura da linguagem.

E seria inteiramente possível seguir nos textos de


1895 a 1905, isto é, do Esboço... ao Dito ESPMtnoso, uma evolução acentuada no
ciue se relaciona com o grau de autonomia concedido ao pensamento relativamente
à linguagem. Todas as análises do Witz levam, de qualquer maneira, à conclusão de
que se torna impossível distingui-los. Com efeito, nunca se pode saber se é a pura
técnica linguageira no dito espirituoso que provoca o riso ou se é o fito do
pensamento que subtende esta técnica. «Assim, para fallar em sentido restrito»,
sublinha Freud, «não sabemos de que nos rimos.» (S. E., VIII, pág. 102).

E desde então parece que a relação de essência que ligava o «devir-conscíente das
recordações» ao «acesso às

187
representações de palavras que lhes estão associadas» (S. E., I, págs. 231 e 232) é
perfeitamente reversível, na medida em que a representação de palavra pode, ela
própria, ser religada às representações de coisas que formam o inconsciente e onde
a relação significante que então se estabelece é completamente diferente da
relação simbólica da imagem mnésica ao complexo perceptual.

Mas há muito pior. 0 que o dito espirituoso põe


* claro é que a criança, quando em boa altura de adquirir
* linguagem, subverteu a sua função de comunicação que se supunha apoiar-se no
desprazer (inversamente à pulsão oral, que se apoia na função de nutrição). Joga
efectivamente com o que ouve, «como se as palavras fossem coisas»
incompreensíveis, para as quais seria necessário -encontrar de novo «predicados»,
sendo novamente possível uma reprodução sem conhecimento.

Eis um texto notável onde, enfim, se observa -e ao nível da linguagem quotidiana -


a equivocidade irredutível de toda a cadeia significante: «Num grupo destes Witz (o
dos jogos de palavras) a técnica consiste em focalizar a nossa atitude psíquica no
som da palavra, em vez de o fazer no sentido - de tal maneira que a própria
representação de palavra (auditiva) toma o lugar da sua significação, tal qual é
gerada pelas suas relações com as representações das coisas. Na verdade, poder-
se-ia supor que ao fazer isso nós provocamos uma grande descontração no trabalho
psíquico e que, aquando do uso sério das ,palavras, somos obrigadosa nos
reprimirmos, fazendo um certo esforço para não ceder ao prazer deste
procedimento. Podemos notar como os estados patológicos da actividade mental,
nos quais a possibilidade de concentrar a descarga psíquica num ponto particular
está provavelmente restringida, dão efectivamente a esta espécie de representação
sonora da palavra mais importância do que ao seu sentido, e que os doentes que
estão neste estado seguem, quando falam, a linha (para empregar a fórmula) das
associações «externas» em vez das -associações «internas» entre representações
de palavras. Notemos também que as crianças
- habituadas, como sabemos, a tratar as palavras como coisas-esperam que
palavras idênticas ou semelhantes conservem a mesma significação subjacente, o
que é fonte

188
de muitos erros a provocar o riso dos adultos.» (S. E., VIII, págs. 119-120).

Se nos permitimos ser pródigos em citações, é porque convém aflorar, através da


tematização da linguagem, a correlação existente entre o dito espirituoso, o sintoma e a
conduta das -crianças. Efectivamente, é sobre -esta correlação que vamos poder reformular a
teoria freudiana do fantasma e demonstrar a prevalência-que ela supõe -da cadeia
significante sobre a relação simbólica.

Ora, esta cadeia significante, logo que sobressai por uma ou outra razão do «processo
secundário», faz surgir todos os pontos em que o sujeito funcionou como referente, para
evitar que o significante se afaste do significado ou provoque «efeitos de significado»
incongruentes. Deste modo, uma mesma representação de palavra está em relação com
todas as espécies de representações de coisas, e as linhas de associações «externas»
mantêm-se sempre possíveis, reduzindo o -entendido à pura e simples percepção das
coincidências. As crianças, na própria altura em que dirigem os seus esforços para uma
simbolização correcta, permitem verificá-lo «in concreto». Elas não poderiam, na verdade,
suspeitar que uma mesma palavra fosse passível de vários significados, o que implicaria, por
um lado, confundirem o significado com o referente, que é sempre simples, e, por outro,
considerarem o significante na sua materialidade como uma coisa; e quando o referente e a
coisa se verificam o melhor será rir; pois o perigo de subversão da relação simbólica pela
cadeia significante apenas leva a incitar à subversão do sujeito, sem a qual nenhuma verdade
é, porém, manifestável.

E o sonho, neste domínio, quando reutiliza as palavras, diz ainda mais que as crianças. «Não
há lugar para nos surpreendermos», sublinha Freud, «do papel desempenhado pelas palavras
na formação dos sonhos. As palavras, pelo facto de funcionarem como ‘pivots’ em várias
representações, podem ser consideradas como predestinadas pela ambiguidade; e as
neuroses (na construção das obsessões e das fobias, por exemplo), não menos que os
sonhos, utilizam sem vergonha as vantagens oferecidas desta maneira pelas palavras, com
fins de condensação e de disf arce.» (S. E., V, págs. 340 -e 341).

Assim, o que mais acima era um inconveniente, em atenção à realidade, é agora uma
vantagem, pelo f acto de

189
ser a verdade que está em causa. Todavia, as coisas vão ainda mais longe-quer
num sentido quer noutro-, sendo a ambiguidade das palavras um meio ou muito
grosseiro ou muito subtil para fazer falar a verdade. 0 sonho, por exemplo, não
hesitará em formar todas as espécies de neologismos, tendo a condensação por
objecto muito simplesmente os fenômenos, na própria raiz do sentido. Freud cita
aeste respeito vários exemplos (S. E., IV, págs. 296-299) e fala, a propósito deste
jogo de análise e de síntese, de «química silábica» (ibid., pág. 297, n.o 1).

Não é, aliás, necessário que o resultado seja morfologicamente ou sintacticamente


correcto; as crianças já «inventam novas linguagens e formas sintácticas artificiais»,
e o sonho não se priva disso, nem mesma de amalgamar diferentes línguas.
Contudo, e ao contrário, pode limitar-se a um leve deslocamento de perspectivas; a
omissão de uma palavra da cadeia basta para tal, ou simplesmente uma mudança
de tempo do verbo, sendo o presente muito apreciado dado que é o tempo de
realização dos desejos. Que o pensamento, no sentido mesmo em que Freud o
entende, seja indissociável da linguagem, com a simples condição de que não se
tratasse de uma linguagem feita para ser compreendida, é, pois, agora uma tese
bem estabelecida. Esta, entretanto, supõe ser possível reconstruir ,a lógica das
sequências em que a gramática, é constantemente violada. Por este motivo,
modelos extraídos da lógica matemática seriam sem dúvida mais adequados que os
fornecidos pela linguística.

Eis, efectivamente, no fim do sonho da «monografia botânica»’, como Freud


responde à objecção que faria passar a sua interpretação por arbitrária, na medida
em que se funda unicamente em correlações entre significantes: os significantes
pouco importam -traduziríamos-, é o sentido que conta e a cadeia lógica que
possibilita desenvolver daí as séries, a respeito da verdade.

«Que aconteceria», poder-se-ia perguntar, «se o prof.essor ‘Gãrtner’ (jardineiro) e a


sua mulher de olhares ‘florescentes’ não tivessem vindo a nossa casa, ou se a
paciente de que falávamos se chamasse ‘Ana’ em vez de ‘Flora’? A resposta é
simples. Se estas cadeias de pensamento estivessem ausentes, sem dúvida que
outras seriam escolhidas. É bastante fácil construir semelhantes cadeias, como o
mostram as boas palavras e as charadas que as

190
pessoas fazem todos os dias por divertimento. 0 domínio do Witz não conhece
fronteiras.» (S. E., IV, pág. 176).

A PREVALÊNCIA DO «OUVIDO» OU 0 CONCEITO DE «FANTASMA»

Isto não quer dizer que este domínio esteja sem método nem referências e que se
trate muito simplesmente do conjunto dos divertimentos verbais. Não basta, na
verdade, encontrar um elo inesperado entre significantes a fim de provocar o riso, e
não joga com as palavras quem quer. Convém, aliás, acrescentar serem justamente
as relaçõesdo Witz com o inconsciente que interessam a Freud, e é nesta
perspectiva que ele fala.

Todavia, já ao nível do sonho, se for verdade que as possibilidades que o


significante aí oferece são, para falar com propriedade, indefinidas -ainda que no
Witz sejam limitadas pela necessidade de este se tornar compreensível-, impõe-se
imediatamente acrescentar que é na condição expressa de os dados terem já sido
lanç ados, de o acontecimento pelo qual se interessa o desejo ter sido já realizado,
de o sentido haver sido dado uma vez para sempre.

E é o sentido que possibilita explicar a escolha dos significantes do sonho, e não o


inverso. Com efeito, Freud diz ainda, em seguimento à fórmula acerca da qual
tiramos conclusões: «Ou., para dar um passo mais, se não fosse possível forjar
bastantes laços intermediários entre as duas impressões (a da monografia,
indiferente, e a da conversação inacabada com o colega, fortemente investida), o
sonho teria sido simplesmente diferente. Uma outra impressão diferente e do
mesmo dia-visto uma multidão de idênticas impressões entrarem no nosso espírito
e serem logo esquecidas -tomaria o lugar da monografia no sonho, religar-se-ia ao
assunto da conversação e tê-lo-ia representado no conteúdo do sonho. Como, na
verdade, fora a monografia a escolhida para desempenhar este papel, e não uma
outra representação, temos de admitir ser ela a mais bem adaptada para constituir
o elo.» (S. E., IV, pág. 176).

Retrospectivamente há, pois, meio de repetir a necessidade do sentido ao nível do


próprio significante; e este

191
apareceria como sendo «o mais bem adaptado para constituir o elo» entre o casual
do acontecimento e o irredu- tível do desejo. Tratar-se-á de uma simples hipótese
heurística destinada a facilitar a tarefa de quem supõe interpretar o sentido, ou
ainda será possível ver nele um verdadeiro postulado respeitante efectivamente às
conexões entre os significantes e o sentido? Vamos procurar justificar a segunda
formulação, tentando mostrar, se houver sentido, no que ele é ininterpretável,
sendo consequentemente, por esse mesmo facto, levados a rejeitar a primeira; e as
precisões de que nos valemos concernentes ao sentido permitirão sem dúvida ver
em que aspecto se trata de um postulado e de que ordem é a necessidade que ele
regista.

A utilização que fazemos do conceito de sentido pode dar a impressão de que


estamos em vias de reintroduzir o instrumentalismo de Freud no que respeita à
linguagem, a qual certamente já não é distinguível do pensamento, mas poderia
supor-se utilizada pelo sentido como o seu instrumento. Porém, não é assim, visto a
linguagem ser a casa do sentido e não haver sentido que não seja expresso na
linguagem.

Mas, então, qual é o alcance da afirmação de «haver sentido»? Com efeito, isto não
quer dizer simplesmente que há problemas, que estas palavras são susceptíveis de
formar uma proposição e que esta proposição, no que designa um estado de coisas
ou manifesta o sujeito que a sustém, não está despida de significação, podendo até
tornar-se num enunciado que contribui para a coerência de um discurso.
.t;fectivamente, o sentido não se confunde nem com a «designação», que leva as
palavras a representarem melhor ou pior um determinado estado de coisas, nem
com a «mani£estação», que enuncia os desejos e as crenças de quem se exprime, e
não somente uma relação simbólica entre as palavras e a coisa designada, nem
enfim com a «significaçã o», graças à qual os elementos de uma proposição
significam implicações de conceitos e se considera demonstrarem alguma coisa’.

Ora, se nos colocarmos ao nível lógico, cada uma das três relações da proposição-ao
estado de coisas, ao sujeito e ao conceito-tem um critério correspondente.

192
No caso da designação, trata-se do verdadeiro e do falso, sendo tal designação
realizada ou não pelo respectivo estado de coisas. No caso da manifestação, trata-
se da verdade e do engano, a proposição dizendo ou encobrindo o que o sujeito
deseja ou crê. Na significação, é a «condição de verdade» que está em causa, ou o
conjunto das condições necessárias para que uma proposição seja verdadeira.
Deste modo, o que não tem significação não pode ser nem verdadeiro nem falso,
mas absurdo.

Neste caso, o que convém dizer é que para ser posta como verdadeira ou falsa,
como veraz ou enganadora, como dotada de significação ou absurda, uma
proposição deve primeiramente ou ser expressa ou ser compreendida,
independentemente de qualquer referente, e muito especialmente do sujeito que a
sustém ao manifestar-se. 0 sentido, tal como o psicanalista o isola para nele
descobrir a lógica, é muito precisamente a subversão desse sujeito. Ele não poderia
existir, decerto, fora da linguagem ou da expressão; não poderia, alé m disso, existir
sem ser atribuído a uma coisa; porém, não é nem uma coisa nem outra.
Certamente, impõe-se uma linguagem em que a «monografia botânica» seja
associável à «Flora» e ao Pr. Gãrtner; impõe-se também, evidentemente, que a
monografia fosse vista na montra de uma livraria, isto é, que o acontecimento
indiferente entrasse na linguagem sob as espécies de uma significação; contudo,
nem os significantes nem o referente sugerido pela linguagem bastam para
construir o sentido.

Pelo contrário, é o sentido que fundamenta não só o significante mas também o


significado da proposição que designa ou manifesta. E o sonho nada mais é que um
efeito do sentido, aparecendo por aquilo que é, pela correspondência do
acontecimento com o desejo, a saber: como a repetição deste acontecimento sobre
uma «outra cena», onde interessa, quando fala a verdade, que seja o desejo de
dormir a prevalecer.

Dizer que há sentido é, com efeito, defender que a verdade não é nem o verdadeiro
da «designação», nem a veracidade da «significação», nem a não-absurdidade da
«significação», mas sim o que fala na série constituída pelo sonho, por um lado,
pelo sintoma, pelo dito espirituoso, pelo lapso, por outro, e o que fala para exprimir
a subver-

U 193
são do sujeito, quando confrontado ao objecto a. É essa verdade que faz que
se deva mudar de ideias sobre o sentido e que a significação do discurso, a
manifestação do poder ou a designação doexistente já não bastem ou sejam
em excesso para o sentido, como se pretenderá.

Este manifesta-se à superfície da linguagem, ao nível das coincidências e das


recorrências que o acaso torna patentes por qualquer meio desviado, e a
partir do axioma que não é, ele próprio, senão a consequência do facto de
existir sentido, e segundo o qual, na vida psíquica em geral, tanto no sonho
como na vigília, «prevalece uma compulsão a associar» os acontecimentos.
(S. E., I, pág.
338).

E é em função deste axioma que se torna possível aos olhos de Freud


explicar tanto a fraqueza ou a insignificância -senão o absurdo-dos laços que
o sonho estabelece como o facto de estes laços se relacionarem
necessariamente com os acontecimentos tornados na esfera do que é
«recente» e/ou «indiferente». Ora, o que este axioma diz claramente é que
não há acontecimento que não seja de qualquer maneira do sentido, mesmo
no grau zero do sentido que é a coincidência na ordem espacial ou a
recorrência na ordem temporal. E desde então, não há que procurar o
sentido do acontecimento, como se o sentido não fosse contemporâneo do
próprio acontecimento, como se a «compulsão a associar» não funcionasse
necessariamente.

Porém, neste caso, a questão põe-se em saber relativamente a quê um


determinado acontecimento -o facto, por exemplo, de a monografia ter sido
fugidiamente observada-,«é o mais bem adaptado», pois o acontecimento,
que é sentido, já não pode ser mais ou menos adaptado a qualquer coisa que
dele seria o sentido.

Dênios o passo que consiste em assumir que existe uma «lógíca do sentido»
e que qualquer acontecimento se relaciona com sistemas formados nesta
lógica, e tendo a estrutura do que Freud chama «fantasma» ou «sonho de
dia» (Tagtraum). Deste modo, o sonho da monografia botânica consiste na
repetição do acontecimento de outra monografia, a do próprio Freud, acerca
da cocaína, ocasião em que uma descoberta lhe escapou (o seu uso nas
anest-esias locais, particularmente em oftalmologia), endossando todo o
mérito a Kõller e ao seu colega o cirurgião

194
Kõnigstein, com quem tivera justamente na véspera esta importante conversa. Um
outro acontecimento, o da operação sofrida por seu pai, afectado de um glaucoma,
e que reúne à sua cabeceira os três mesmos indivíduos, imediatamente após a sua
descoberta, é também evidentemente religado ao tema da monografia.

Ora, eis o fantasma agitado por Freud na manhã do seu sonho, cuja interpretação só
pÔde ser feita à noite: « Se fosse algum dia atacado de glaucoma, pensara, iria a
Berlim. e far-me-ia operar, incógnito, em casa de meu amigo (Fliess), por um
cirurgião por ele recomendado.
0 cirurgião que me operaria-e que não teria nenhuma ideia sobre a minha
identidade - orgulhar-se-ia novamente da facilidade com que semelhantes
operações seriam executadas depois da introdução da cocaína; e eu não daria a
menor indicação respeitante ao facto de ter sido eu próprio a contribuir para a sua
descoberta.» (S. E., IV, pág. 170).

Sem entrar no comentário deste exemplo bastante feliz de fantasma, basta-nos


notar ser relativamente a ele que a escolha do acontecimento «monografia
botânica» é a mais bem adaptada e que a tese é facilmente generalizável, qualquer
acontecimento- mesmo na medida em que lhe for indiferente -servindo de matéria
aos fantasmas.

Porém, o que se impõe ver bem é que a produção do conceito de fantasma é o acto
de Freud que considerou * obrigou ao abandono da teoria traumática das neuroses,
* saber, muito precisamente, o abandono da tese segundo * qual o acontecimento
traumático não constitui um acontecimento da linguagem, mas uma alucinação ao
revés, uma espécie de rasgão que a linguagem tentaria reparar em vão.

Mas não é assim. 0 sentido já está sempre lá, até antes de o sujeito se manifestar
num corpo que fala. E Freud di-lo expressamente à beira da sua descoberta, na
carta
59, de 6 de Abril de 1897, onde s.e pode ler: « ... o ponto que me escapou na
solução da histeria reside na descoberta de uma nova fonte donde provém um novo
elemento de produção inconsciente. Aquilo em que penso são os fantasmas
histéricos que regularmente, conforme me pareceu, remontam a coisas ouvidas
pela criança numa muito

195
tenra idade, e só mais tarde compreendidas. A idade de que conservam
informações desta ordem é absolutamente assinalada-a partir dos seis ou sete
meses ... » (S. E., I, págs. 244 e 245).

Pelo que sabemos, Freud nunca remontou tanto a datação de fenômenos desta
ordem; trata-se, talvez, do nome próprio que constitui, pelo menos no concernente à
voz, o núcleo firme do fantasma. Porém, o que é capital no texto é a categoria do
«sentido» -tal como acabamos de a colocar-poder muito bem ser assimilada ao
registo do que é «ouvido» sem ser para isso necessariamente compreendida.

Haver sentido supõe, com efeito, ter havido expressão, que o acontecimento e as
palavras se relacionaram num certo momento, mas que a questão de saber quem
fala, ou se quem fala foi compreendido, pode claramente ficar sem resposta. E é
justamente esta a razão por que o «ouvido» não compreendido é susceptível de se
tomar, mesmo com desconhecimento do sujeito, a «palavra usual por excelência»,
em volta da qual se constrói um fantasma.

Em Freud, o termo «fantasma» designa uma estrutura que se distingue tão bem do
sonho como do sintoma e que desempenha relativamente tanto a um como a outro
um papel gerador que seria útil precisar. Se ele efectivamente demonstrou ser a
estrutura do fantasma que permite explicar a formação do sintoma e a construção
do desejo no sonho, torna-se assim possível fazer do fantasma já não somente uma
formação do inconsciente entre outras mas o domínio em -que o sujeito não se
identifica consigo mesmo em virtude da sua confrontação com o objecto a.

Ora, é já a teoria freudiana do fantasma que faculta fundamentar esta


generalização, por pouca comunicação que se estabeleça entre as suas duas teses
principais e que podem parecer contraditórias. A primeira diz respeito ao facto de o
fantasma implicar o abandono da teoria traumática, a sedução da criança pelo
adulto nada sendo que um fantasma. Freud é aí peremptório: «Para a pergunta: que
acontece na primeira infância?, a resposta será: nada. Porém, o germe de uma
impulsão sexual estava lá.» (S. E., I, pág. 276, carta 101). E então é só
posteriormente que se fabricam, por assim dizer, todas as peças de uma etiologia
infantil. Desde a carta 69, onde Freud confessa ter-se enga-

196
nado no que respeita à sedução precoce, ele declara efectivamente: «Parece ser de
novo defensável serem unicamente experiências mais tardias a desencadear os
fantasmas, os quais, neste caso, retrocedem à ‘infância'.» (S. E.,
1, pág. 260).

A infância é, pois, o lugar em que os acontecimentos são preparados na cena do


sentido, graças aos fantasmas que exibem a estrutura deste. Porém, isto conduz
justamente à segunda tese, em que Freud se exprime de maneira não menos
categórica e em que se afigura claramente não ser o tema da infância
simplesmente o conteúdo do fantasma. Na carta 84, de 10 de Março de 1898,
escreve: «Biologicamente, a vida do sonho parece-nos derivar inteiramente do
período pré-histórico da vida (entre ume três anos)---@D mesmo período que é a
fonte do inconsciente e que contém. só ele, a etiologia das psiconeuroses,
caracterizada normalmente (por uma amnésia análoga à amnésia histérica. Tal é a
fórmula que se mostra: o que foi visto no período pré-histórico produz os sonhos; o
que foi ouvidoproduz os fantasmas; o que foi experimentado sexualmente produz as
psiconeuroses.» (S. E., 1, pág. 274). Há, por conseguinte, uma pré-história em que o
«visto», o «ouvido» e o «experimentado sexualmente» são regidos por leis de uma
mesma estrutura. Ora, acabamos de ver que esta pré-história nãopo,dQria ser
qualauer coisa tangível, mas que apenas pode inferir-se do estudo do que se
apresenta como fantasma, consequentemente a partir da retomada do «ouvido».
Deste modo, as duas teses, aparentemente contraditórias, relacionam-se uma com
o acontecimento - que não poderia separar-se do seu sentido - -, a outra com o
sentido - que apenas poderia existir sob a forma de acontecimento, sendo o
fantasma o lugar da sua inclusão comum.

Um meio simples de demonstrar que o fantasma, em que o «ouvido» predomina


sobre o «visto» e o «experimentado sexualmente», é, na verdade, o domínio que
permite apreender o sentido e o acontecimento através das estruturas, consiste em
elucidar as relações do «fantasma», simples formação do inconsciente, com o
«sonho», por um lado, e o sintoma, por outro.

A comparação entre o sonho e o fantasma é óbvia, na medida em que o sonho não


é unicamente urdido na tex-

197
tura do que foi «visto», mas reutiliza «fragmentos de linguagem sustentada ou
ouvida», permitindo o «trabalho de sonho» tratá-los «da maneira mais arbitrária».
(S. E., V, pág. 418).

Mas convém justamente ver que a maneira como ele procede com a linguagem dá-
nos um modelo que bastará inverter para compreender como o próprio fantasma
estrutura o «ouvido» de que deriva. Freud, com efeito, escreve: «Não somente [o
sonho] os [fragmentos de linguagem] arranca ao seu contexto e os reparte,
incorporando alguns e rejeitando outros, mas muitas vezes ordena-os
diferentemente, de tal modo que um discurso que parece formar um todo no sonho
mostra-se na análise ser um composto de três ou quatro fragmentos desligados. Ao
produzir esta nova versão, um sonho abandonará frequentemente o sentido que as
palavras inicialmente tinham nos pensamentos do sonho para lhes dar um sentido
novo. Se olharmos de perto um discurso desenrolado num sonho, veremos que
consiste, por um lado, em partes relativamente claras e compactas e, por outro, em
partes que servem como um tecido conjuntivo e que provavelmente foram
colocadas em segunda etapa para completar, do mesmo modo que, na leitura,
completamos as letras ou as sílabas acidentalmente omitidas.» (S. E., V, pág. 418 -e
419). Não há razão para nos surpreendermos que o sonho, conforme o demonstra
muito bem este texto, trate tão desatenciosamente a linguagem, as palavras do
«ouvido» nada mais sendo que um jogo de fenômenos articuláveis pela segunda
vez e à vontade, e susceptíveis de produzir uma «nova versão». Contudo, não
podendo este trabalho ter por objecto senão algumas partes, convém interrogar-se
porque as outras devem ser remodeladas de maneira a dar um todo análogo ao
encadeamento inicial. É ainda mais surpreendente ver este trabalho comparado a
uma leitura que corrige erros e supre as f altas.

De facto, não se trata de outra coisa que do constrangimento ao qual se deve curvar
todo o eieito de sentido, se quiser ser reconhecido como tal, e que consiste em se
curvar à «compulsão a associar», isto é, na circunstância, em se produzir como uma
sequencia gramaticalmente correcta, por muito frouxas que sejam as regras desta
gramática. Bem assente esta coisa, convém tentar ver donde

198
resulta a bipartição em «partes claras e compactas», por um lado, e em «tecido
conjuntivo», por outro.

É o problema que Freud esgaravatava no termo «elaboração secundária», mas é


principalmente o terreno sobre o qual o sonho comunica com o fantasma ou o eixo
que permite ver um girar sobre o outro. É verdade que se nos limitarmos
estritamente ao ponto de vista da interpretação do sonho, cumpre sobretudo notar
que são os pensamentos que não têm nenhum direito de ser admitidos no sonho
que se introduzem, sendo sobredeterminados, na suavidade desse tecido
conjuntivo, assim como são eles que serão mais depressa esquecidos. Porém, Freud
admite haver sonhos bem conseguidos, em que a elaboração secundária foi
-excessivamente activada, e fala deles como de sonhos que foram «já uma vez
interpretados, antes de submetidos à interpretação do espírito vigil». (S. E., V, pág.
490).

Ora, é exactamente o que nos faz passar para o lado do fantasma, em que o «tecido
conjuntivo» se torna, pelo contrário, uma -espécie de «flexibilidade estrutural»,
como uma forma -rígida na qual vêm fluir todos os géneros de materiais que
constituem o seu «ingrediente imaginário». Freu,d, inicialmente sensível ao carácter
não maleável destas produções, d-enomina-as já «estruturas» («o lugar ocupado na
nossa vida por estas estruturas não foi ainda plenamente reconhecido e elucidado
pelos psiquiatras ... », (S. E., V, pág. 491), e situa-as imediatamente como
«precursoras dos sintomas histéricos», osquais «não estão ligados a recordações
efectivas, mas a fantasmas erigidos sobre a base destas recordações, tal qual os
«palácios barrocos de Roma» edificados sobre ruínas antigas. (Ibid., pág. 492).

Mas estas análises-que são preciosas para estabelecer a tese que faz do fantasma a
estrutura do sentido-são, de novo, observadas pela assimilação entre o sentido

e o significado, na própria medida em que, parece, dois tempos se impõem, um


para a produção, outro para a elaboração dita «secundária», a qual é também uma
primeira «interpretação». Freud levanta-se com vigor contra esta maneirade ver,
afirmando claramente que não se trata senão de um artifício de descrição, e de
modo nenhum de mecanismo segundo, podendo a teoria do sonho

199
passar muito bem sem ele, e provavelmente pelas mesmas razões que a teoria da
percepção pode privar-se do que os guestaltistas chamarão mais tarde «hipótese de
constância», sendo a ordenação do dado perceptivo concomitante com o
aparecimento deste dado, sem que seja preciso distinguir entre «sensação» e
«percepção». «0 nosso pensamento vigil (pré-consciente)», escreve Freud,
«comporta-se, face a quaisquer materiais perceptivos encontrados, de maneira
completamente idêntica à função de que fala- mos perante o conteúdo dos sonhos.»
(S. E., V, pág. 495).

0 corte que permite a focalização do «ouvido» tal como é utilizado no sonho e no


fantasma torna, pois, possível apresentá-los como modelos inversos de uma mesma
estrutura de sentido, sendo o essencial dito ou dissimulado ora pela forma ora pelo
conteúdo. Mas é ainda possível articular mais precisamente estes dois modelos, ao
situarmo-nos deliberadamente do lado do sentido.

Com efeito, independentemente do facto de sonho e fantasma serem discursos que


procedem para com o « ouvido» de uma maneira tão arbitrária como antitética,
Freud observa a relação que pode estabelecer-se entre estes dois discursos ao nível
do sentido. 0 sonho deve andar depressa - é ele obrigado a comprovar; reutiliza
então os fantasmas «prontos a introduzir» que o pensamento vigil preparou. Deste
modo se explica o célebre sonho de Maury, chamado «sonho de guilhotina»,
desempenhando o fantasma, na circunstância, o papel de um economizador de
tempo, e permitindo resolver o problema de aceleração do pensamento no sonho.

tão fortemente improvável», pergunta, com efeito, Freud,,«qu.e o sonho de Maury


represente um fantasma que foi armazenado ‘pronto a introduzir’ na sua memória
durante numerosos unos e evocado -ou diria, antes, de que se fez aí ‘alusão'- no
momento em que se tornou -consciente do estímulo que o d,espertou?»
Efectivamente, é,em absoluto plausível ciue o jovem fidalgo tenha posto -como
fantasma uma cena análoga cuj a chegada podia justamente -ter apreendido e que
a barra da cama caindo-lhe no pescoço baste para o reanimar.

Porém, o que sobretudo nos interessa é que o ganho de tempo seja obtido por meio
de um mecanismo que já não é, e para falar propriamente, significante, mas que

200
se relaciona directamente com o sentido. Queremos falar da «alusão»
apresentada por Freud como uma das características essenciais do
«pensamento inconsciente», e ele dela dá justamente uma comparação
musical: «Se alguns compassos forem tocados, alguém poderá dizer que são
do Figaro de Mozart (como acontece em Don Glovanni), assim como um
grande número de recordações são evocadas em mim de uma só vez, sem
que nenhuma só por si possa entrar na consciência no primeiro instante.» (S.
E., V, pág. 496).

0 sistema da consciência é, pois, caracterizado pelo facto de não poder


apreender um todo a não ser por esboços e sucessivamente, enquanto o
pensamento inconsciente, definindo-se pela alusão, deixa as coisas no
intemporal da coincidência ou da recorrência. A consciência relaciona-se com
a significação, o pensamento inconsciente com o sentido.

Ora, a distinção entre o «visto», o «ouvido» e o «experimentado


sexualmente» não poderia afectar o sentido, ainda que o registo do «ouvido»
tenha a preeminência pelo simples facto de o sentido e de a expressão se
relacionarem, sendo a linguagem a casa do sentido. E é bem evidente que
tanto o sonho como o fantasma implicam uma combinação destes três
registos. Mas o importante está em ver claramente que esta -combinação se
faz a partir da estrutura do sentido e que apenas poderia parecer arbitrária
em -consideração -com a significação; sem o que o desejo de modo algum
seria o que é construído a partir do sentido aleatoriamente determinado, se
for apreendido relativamente à significação, e não obstante organizado
segundo uma necessidade fatídica que não tem nenhuma medida comum
com a necessidade natural das exigências da vida.

Porém, com efeito, se Freud emprega constantemente o termo «construção» a


propósito do desejo do sonho, é porque este se define como o «voto» da repetição
do acontecimento, e que o acontecimento nada mais é que a complexidade do seu
sentido, tal como a recordação consegue restituí-lo, através das diversas séries que
a constituem.

201
Convém ainda que o fantasma não enrede as pistas, tornando as vias do desejo
impenetráveis, E é agora da teoria do fantasma «stricto sensu» que importa retomar
aqui os termos, para descrever, a partir das suas relações com o sintoma, a
estrutura do sentido de que o «ouvido» constitui o eixo. Freud afirma «ser possível
seguir a via, o tempo e os materiais da construção dos fantasmas» (S. E., I, pág.
250), ao analisá-los de uma maneira análoga aos sonhos, embora nestes «não
ouçamos certamente nada, mas vejamos» (S. E., I, pág. 248) e que a diferença entre
sonho e fantasma resulta do facto de «não haver regressão na forma sob a qual se
apresentam os fantasmas, mas somente progressão» (S. E., I, pág. 250). Por este
último termo, Freud compreende, sem dúvida, uma distorção das recordações,
implicando por consequinte uma «regressão temporal», mas sem «regressão
tópica».

Importa, efectivamente, que algumas recordações sejam substituídas por


fantasmas; e Freud apresenta-os neste caso como «estruturas protectoras» (S. E., I,
pág. 247) que embelezam os factos aos quaís remetem as « cenas», na medida em
que estas são remodeladas... por aqueles. Decerto, «são confeccionados a partir de
coisas ouvidas e reutilizadas em consequência», porém esta prevalência do ouvido
permite justamente combinar arbitrariamente «coisas experimentadas e coisas
ouvidas, acontecimentos velhos (da história dos pais e dos avós) e coisas vistas pelo
próprio». (S. E., I, pág. 248).

Ora, a condição de possibilidade desta forma de distorção reside justamente na


«regressão temporal» de que acabamos de falar. E efectivamente no Manuscrito M
pode ler-se sob a rubrica «Fantasmas»: «A primeira espécie de distorção consiste
numa falsificação da recordação por um processo de fragmentação, no qual as
relações cronológicas são particularmente descuradas.» (S. E., I, pág. 252). E -está
aqui, ao mesmo tempo, uma das primeiras passagens sobre o carácter zeitIos
(atemporal) do inconsciente, observando Freud entre parêntesis que «as correcções
cronológicas parecem precisamente depender do sistema da consciência». (Ibid.)
Todavia, esta tese interessa-nos agora sobretudo na medida em que torna
plenamente compreensível o facto de «um fragmento da cena visual estar então
correlacionado com um fragmento da cena

202
auditiva, enquanto o outro fragmento se liga a coisa diferente». (lbid., pág. 252).
Deste modo, o fantasma confundiu completamente os vestígios da recordação. Para
os encontrar, há necessidade de proceder a um longo trabalho de desconexão a fim
de levar de novo o auditivo e o visual a coincidirem. Porém, pelo menos por via
indirecta do fantasma, o doente chega a fazer cessar o que Freud chama o «sintoma
mnésico», ou seja, sem dúvida, a «reminiscência» da cena traumatizante. Todavia,
se ganhar num aspecto, perderá noutro: « ficções inconscientes» instalam-se agora,
mas «não se submetem à defesa», visto a recordação que conviria esquecer ser
como retalhada nos vários fragmentos de «visto» e de «experimentado
sexualmente» que o « ouvido» permite recombinar. Também a defesa já não sabe
que elemento deverá ter por objecto, quando a intensidade dos afectos de que o
fantasma está carregado aumenta a ponto de suscitar um recalcamento; e é então
que o sintoma aparece «através de um movimento retroactivo do fantasma em
direcção às recordações que o,constituem». (S. E., I, pág. 252).

Freud afirma igualmente que é assim que todas as fobias-e ainda, geralmente,
todos os sintomas-são de~ rivados dos fantasmas, sendo o traumatismo, em
conse~ quência,de algum modo retroactivamente gerado a partir de um fantasma,
e com ele o mundo de infância análogo ao mundo dos sonhos, esta pré-história
inelutável que nada mais faz que mimar a acção da estrutura sobre os seus
elementos e Que para isso se esforça por pôr o acontecimentocomo vindo antes do
sentido, ainda que o sentido do acontecimento seja o acontecimento do sentido. Eis
porque não há «segredo» a descobrir na infância do doente; mesmo no mais
confuso delírio, nada disso transparecerá.

0 que tem lugar é o sentido, e é igualmente a entrada nesta estrutura do sentido


que é o fantasma. Este «ter lugar» do acontecimento não poderia estar separado do
respectivo «deixar vestígios» sob forma de «ouvido», ou, conforme se -exprimem os
linguistas e os etnólogos, sob forma de «significante flutuante». Esta descoberta e a
análise de Freud vão a par: «Um pequeno bocado da minha análise abriu caminho»,
escreve a Fliess; «ele confirma que os fantasmas são os produtos de épocas tardias
e que são retrojectados do presente sobre a primeira infân-

203
cia; e a maneira como isso se efectua também emergiu
- mais uma vez: um laço verbal.» (S. E., I, pág. 276).

Assim, pois, se a linguagem é a casa do sentido, o fantasma é a sua estrutura; e


esta infere-se a partir da confrontação do sujeito com alguma coisa que o obstrói ou
o cinde, e através dos mecanismos do pensamento inconsciente que são a
«alusão», a «elaboração secundária» ou o seu contrário, a «Phantasie Bildung»
(construção de fantasma), a separação do «visto» e do «ouvido» graças à
fragmentação e à falsificação da cronologia; em suma, esta estrutura é descritível a
partir da entrada na «outra cena» em que o sentido se liberta na transgressão de
qual- quer significação ou de qualquer interpretação do que se supõe ser o desejo.

Em todo o caso, é a partir do momento em que se assume esta estrutura do sentido


que a teoria do «romance familiar» se torna possível, assim como o arrolamento das
permutações a encarar na combinação dos seus termos. Freud escreve, por
exemplo, ainda no Manuscrito M, de
1897: «As maiores esperanças são autorizadas no que diz respeito à determinação
do número” e da espécie dos fantasmas, conforme podemos fazê-lo para as cenas.
Um «romance» de ilegitimação (ef. paranóia) encontra-se regularmente e é utilizado
como um meio de abastardar os parentes (irmãos e irmãs) em questão. A
agorafobia parece depender de um «romance» de prostituição, que por sua vez
remete ainda a este romance familiar 11. Deste modo, uma mulher que não Queira
sair só faz crer que a sua mãe é infiel.» (S. E., I, pág. 253).

Não é, então, de espantar que o sonho reutilize os fantasmas e se limite muitas


vezes, ao repeti-los, a reorganizá-los fazendo nele alusão a partir da cadeia
significante que constitui os «pensamentos do sonho». 0 segundo sonho de Dora é,
relativamente a isto, típico; Freud analisa-o como combinação de três fantasmas:
um fantasma de vingança contra o pai, um «fantasma de desfloração» e um
«fantasma de nascimento». E esta combinação realiza-se a todos os níveis em
função da «compulsão a associar» os acontecimentos, e no seio do « grande
complexo das associações» que se tornou a linguagem uma vez que o pensamento
inconsciente fez dela a sua memória.

204
Ora, se a linguagem é assim apreendida sob a forma do «ouvido» e não do
proferido, é porque a Psicanálise nada mais é que uma prática do texto. É isto o que
nos fica agora por considerar.

LINGUAGEM E TEXTO, OU 0 CONCEITO DE CENSURA

Se não é o psicanalista quem interpreta o sentido, dir-se-á, com efeito, que é ele
quem lê o texto ou até quem se julga poder traduzi-lo. Este modo de ver depende
de duas ordens de desconhecimento. A primeira é a que faz da «presença do
psicanalista» o motor de uma cura. 0 «grande rol» em que tudo está escrito
completa, pois, a sua própria pessoa; e -quem sabe! -talvez seja ele mesmo quem o
desenrole com uma sábia lentidão, para o remeter, quando tudo estiver aberto, à
legítima proprietária. Não é o que se passa no fim dos Anos de Aprendizagem de
WilheIm Meister? Não é a Goethe que o próprio Freud se identificava? E que é a
Psicanálise senão uma aprendizagem da vida?

Nada haveria a dizer contra esta posição se a revelação do saber fosse a chave que
abre todas as portas, e se o -acesso ao saber psicanalítico bastasse para desatar os
laços da neurose. E talvez a ilusão de Freud esteja em ter acreditado que o discurso
que ele produzia era um saber que ia descobrindo e que, permitindo-lhe este saber
franquear vias novas na sua própria existência, bastaria pôr os psicanalistas em
posição de a ele aceder para atingirem o termo da sua psicanálise. Nada disto é
verdade; e é bem evidente que uma cura psicanalítica não se situa nesse terreno, o
que deveria ser suficiente para substituir o termo «psicanalisado» por
«psicanalisante», proposto por Jacques Lacan, e que mostra claramente que o
psicanalista não detém nenhum saber, mesmo se desempenhar o papel - e embora
apenas o desempenhe - do indivíduo que se supõe saber.

Porém, este primeiro tipo de desconhecimento é finalmente, e sobretudo, investido


de ideologia (não se afirma que a prática psicanalítica não seja possível), mesmo
sem a ideologia dos psicanalistas o saber e como que contrariamente a eles,
enquanto o segundo tipo de desconhecimento é mais insidioso, na medida em que
se relaciona com o

205
próprio psicanalisante. Tratando-se de um desconhecimento relativo ao estatuto da
linguagem em Psicanálise, cumpre-nos aqui abordá-lo frontalmente.

Para irmos direitos ao fim, diríamos que ele consiste em apresentar a prática
psicanalítica como leitura ou escrita - pouco importa - e sem que isso implique, em
qualquer ponto -do campo considerado, a intervenção de alguma coisa que não
poderia ser designada por um outro termo que o de «verdade». Ora, se a linguagem
é a casa do sentido, é também o lugar em que a verdade fala, através das falhas do
enunciado por onde o sentido se liberta.

Para disto convencer aqueles que a intervenção da verdade no campo da ciência


poria pouco à vontade, propomo-nos tentar esclarecer o que, em Freud, se articula
em volta do tema da «censura», sendo a nossa hipótese de trabalho que ele não
seria levado a falar de «transcrição» e de «tradução», de «vestígios» e de « texto»
se não tivesse encontrado na sua experiência alguma coisa com todas as
características de uma censura.

Não é, efectivamente, o sentido que importa descobrir, mas a verdadeque -está


necessariamente -escondida, na medida em que ela é o que não pode ser dito, ou o
que é «interdito», com todas as conotações que o «sentido» desta palavra pode ter.
E todavia-fala ela-apenas seria porque se experimenta algures a necessidade de a
censurar, no sonho por exemplo.

E foi, na realidade, neste domínio que se introduziu o seu conceito, a fim de


explicitar a dicotomia entre o « conteúdo latente» do sonho e o respectivo
«conteúdo manifesto». Freud comprova, de facto, que uma distorção do conteúdo
latente tornou-se necessária e que se traduz por uma dissimulação do desejo em si
contido. Ora, é quase na situação de um escritor político obrigado a fazer face a um
sistema de censura que se coloca o desejo do sonho. «Quanto mais estrita for a
censura», verifica ele, «mais longe irá o modo de disfarce e mais engenhosos serão
os meios de pôr o leitor no caminho da verdadeira significação.» (S. E., IV, pág.
142).

Contudo, não se trata de uma simples metáfora, pois este trabalho permite, de
facto, descrever a estrutura do próprio mecanismo psíquico. Efectivamente, lemos
imediatamente a seguir a esta descrição analógica: «0 facto de

206
os fenômenos da censura e de distorção do sonho se corresponderem até nos mais
insignificantes pormenores justifica, na nossa suposição, serem determinados da
mesma maneira. 0 que nos leva a supor que os sonhos dos indivíduos humanos
tomem forma sob a actuação de duas forças psíquicas (poderíamos também falar de
duas correntes ou sistemas) e que uma destas forças constrói o desejo que se
exprime no sonho, enquanto a outra exerce uma censura sobre o desejo do sonho e,
por meio desta censura, origina uma distorção na expressão do desejo.» (S. E., IV,
págs. 143 e 144).

Este texto é capital para nós, na medida em que mostra claramente que força e
significação não se encaram como dois elementos irredutíveis, mas sim que a
Psicanálise se ocupa dos efeitos de sentido. Ora, a produção do sentido processa-se
a partir da diferença no trabalho das forças, e este trabalho, que se torna «trabalho
de sonho», é totalmente transparente ao sentido.

Além disso, quando Freud escreve: «... o ‘conteúdo do sonho’ surge como uma
transcrição (Umschrift) dos ‘ pensamentos do sonho’ num modo diferente de
expressão, e do qual é nosso trabalho descobrir os caracteres e as leis sintácticas
comparando o original com a respectiva tradução» (S. E., IV, pág. 277), é porque um
e outro são urdidos na textura do sentido, e porque este sentido é metaforizado sob
as espécies de uma censura que compreende um e outro texto, que ele o pode
fazer.

Ora, pode-se generalizar a coisa e defender que no trabalho de simbolização - tal


como aparece nos sonhos e nos fantasmas dos neurosados, nas lendas e nos
costumes populares, nos ditos espirituosos em forma de alusão e em qualquer outro
fenómeno em que a verdade se submeta à distorção-é uma censura que actua
permitindo estabelecer uma relação entre o simbolizante e o simbolizado. Eis
porque «não é necessárío», escreve Freud, «supor que o espírito exerce no trabalho
de sonho uma actividade particular de simbolismo, mas os sonhos fazem uso de
todas as simbolizações já presentes no pensamento inconsciente, porque
correspondem melhor ao requerido pela construção do sonho em relação à sua
representabilidade e também devido a escaparem, geralmente, à censura» (S. E., V,
pág. 345).

207
Efectivamente, a censura conhece e não conhece o sentido dos símbolos, seja qual
for a esfera a que pertençam. Quanto mais a simbolização se amplifica ou se
aperfeiçoa, quanto mais o sentido se torna apólogo ou fábula, mais ela é obrigada a
fazer-se sentir ao acaso como um autocrata cego seguindo uma lógica absurda, mas
eficaz, a do «tudo o que se liga de perto ou de longe com ... »

Com quê? Com o censurável - juro! - e que varia segundo os regimes políticos ou
segundo os domínios, mas sobretudo com o que se relaciona, de perto ou de
longe, ,com a própria censura. Um artigo que denuncie a censura ou o &eu princípio
é regularmente riscado, por mais ridímio que isto pareça quando os vestígios nele
subsistem.

Ora, no sonho, a coisa é corrente; e se a censura tem evidentemente e «a fortiori»


por objecto o que se reprimiu na véspera e que aproveita a tensão menos forte
durante o sono para tentar afkwar, explica-se pelo facto de ser necessário
considerar, todavia, que, obrigando já a regressão tópica da ideia à imagem a todas
as espécies de distorções, a censura teria pouco poder e seria facilmente evitada.
Assume, assim, a defesa de uma força antagonista que é apenas o desejo de
dormir, do que resulta tornar-se efectivamente qualquer desejo reprimido que
queira passar pela cena do sonho num desejo de ver a censura acabar.

Esta escamoteia qualquer desejo específico levando-o a ser exclusivamente


fomentador de despertar, do mesmo modo que a repressão política condena
manifestantes, sejam eles de que lado forem, por surgirem de facto como
fomentadores de perturbações.

Porém, é desde então, e paradoxalmente, o desejo de dormir que se supõe


conhecer-ou pelo menos conhecer o que é susceptível de acordar. É, pois, dele que
depende a formação e a continuação dos sonhos. E sai-se bem disso não cessando
de reprimir, por um lado, o que ultrapassaria um certo limite e de tranquilizar, por
outro, por meio do famoso: «Não passa de um sonho.» E quantas coisas não
poderão passar por tal!, quantas coisas não se farão passar por tal! Pois bem, é na
fronteira entre o que pode passar e o que se f az passar que se mantém a censura.

«Sou obrigado a concluir», diz Freud, «que, durante o

208
estado de sono absoluto, sabemos com tanta certeza estar a sonhar como sabemos
estar a dormir.» (S. E., V, pág. 571).

E é à censura que se deve atribuir este saber de coisas que, todavia, se excluem.
Dizemos, pelo nosso lado, que é característica de todo o saber a existência de uma
ruptura igual, logo que a verdade está em causa, e que é também característica de
qualquer estrutura de sentido provocar uma ruptura do sujeito que aspire ao saber.

Porém, o sujeito do saber está mergulhado no desconhecimento, e a sua figura é


justamente a de uma censura que dá com uma mão o que retirou com a outra. Com
efeito, Freud interroga sobre se não seria possível imaginar ter a censura um papel
positivo, participando ela própria na produção do sonho a fim de prolongar o sono.
«Não há dúvida», responde, «a instância que censura-e cuja influência não
reconhecemos até aqui senão nas limitações e omissões no interior do sonho- é
ainda responsável pelas interpolações e adicionamentos.» (S. E., V, pág. 489). E ei-
lo a enumerar os critérios que facultam o reconhecimento dos resultados da outra
face da censura, facilmente reconhecível pela própria finalidade: como o filósofo de
Heine, tapa os buracos. Reconhece-se a «elaboração secundária».

Mas Freud é pior que Heine para com os filósofos; tapará a censura os buracos?
Estes são produzidos por ela própria; e para executar isto, tudo lhe serve, conforme
amplamente o demonstra o fantasma. Porém, quando conseguiu fazer como se o
mundo cuja figura havia truncado fosse verdadeiramente reconstruído, foi porque o
saber triunfou da verdade. No entanto, não é necessário que se tenha de designar o
responsável disso; é, sim, necessário que se possa dizer: «as coisas sendo o que
são»... E eis bem .porque a censura vai f azer do seu saber um discurso sem
sujeito, misturando totalmente as pistas e tornando-se, como se impõe, anónima.
Eis porque o sujeito se preserva, se dissimula por detrás da ausência de sujeito. É
rigorosamente o que Freud diz neste texto absolutamente importante: «De
harmonia com a minha experiencia, e não encontrei nenhuma excepção, todo o
sonho diz respeito ao próprio sonhador. Os sonhos são completamente egoístas.
Todas as vezes que o meu ego não aparece no conteúdo do sonho, mas sim
exclusivamente alguma
14 209
pessoa estranha, eu posso afirmar sem risco de errar que o meu próprio ego lá se
encontra escondido por identificação atrás dessa outra pessoa; posso inserir o meu
ego neste contexto. Noutras ocasiões, quando é o meu ego a aparecer no sonho, a
situação em que isto tem lugar pode indicar-me que qualquer outra pessoa se acha
aí escondi,da por identificação atrás do meu ego.» (S. E., IV, pág.
323).

E o sentido tem aí, evidentemente, a sua função. Desta vez, mesmo, não resta mais
que a designação a que se agarrar, visto a significação se reduzir a este único
significado -que é o sujeito -da manifestação, mas que sendo este sujeito
igualmente manifestável em todos os significantes do sonho, não o é em nenhum.
Sabe-se bem, doutro modo, que nenhuma designação é possível no sonho, em que
certamente nós vimos, mas o que vimos é alucinado. Portanto, apenas resta o
sentido.

E nestas circunstâncias torna-se inteiramente possível dizer que «o inconsciente


está estruturado como uma linguagem», com a condição de acrescentar que se
trata de uma linguagem que, falando -de si própria, não é pa-ra ser compreendida.
Freud di-lo expressamente: «As produções do trabalho de sonho não são feitas para
ser compreendidas.» (S. E., pág. 341). Ficam à superfície, ao nível do sentido;
deixam a verdade subverter o sujeito, ou, ainda, a censura-que nada mais é que a
sua outra faceexecutar até ao fim a sua obra.

E esta é bem encaminhada condensando todos os elementos do sonho, ou, se assim


se quiser, todos os significantes, numa espécie de «bougé» irredutível que torna os
contornos delicados e tende para a realização do fantasma do livro em que a
plurivocidade é radical, em que o retorno é perpétuo. Efectivamente, nunca se pode
saber, sublinha Freud, quando se interpreta os elementos do sonho um a um: «a) se
devem considerar-se num sentido positivo ou negativo (como uma relação
antitética); b) se devem interpretar-se historicamente (como uma recordação); c) se
devem interpretar-se simbolicamente; ou d) se a interpretação deve depender da
sua verbalização.» (S. E., V, pág. 341).

Mas há muito pior. Vimos que o fantasma, estrutura do sentido, sempre tinha um
papel a desempenhar.

210
Assim, muito longe de remover um pouco as dificuldades, a relação com a cadeia
significante dos «pensamentos do sonho» arrisca-se a mostrar-se, por seu lado,
ineficaz. Freud acrescenta, na verdade, que um sonho nunca nos diz se estes
elementos «são para ligar com o material dos pensamentos do sonho directamente
ou por meio de alguma fraseologia interposta». (Ibid., pág. 341).

Por conseguinte, vê-se que a metáfora da leitura se torna quase inadequada, na


medida em que não há, sem dúvida, nem saber do sentido nem compreensão do
acontecimento, e que é difícil encarar uma leitura que nã o seja a compreensão de
um saber que o texto divulga. Ora, por detrás do sentido, não se trata de saber, pois
é a verdadeque pode ser tida por falar, mesmo quando a censura submete esta
verdade à distorção. E deve, então, dizer-se que o modo da associação livre não é
nem leitura nem escrita, mas aspira à repetição do acontecimento ou à revelação,
gradual e por verificações sucessivas, da estrutura do sentido.

Ora, já observámos que a estrutura do sentido apenas é deduzível a partir do


«ouvido», e ao nível do que pode repassar pela linguagem ou pelo que se designa
em Freud «verbalização». Efectivamente, é muito bem possível supor que as quatro
ordens de equivocidade (a antitética, a histórica, a simbólica e a verbalizada), que
Freud distingue a propósito da interpretação dos elementos um a um, são, de facto,
níveis de ordem decrescente. As três primeiras situam-se, realmente, do lado da
barreira entre Ics (inconsciente) e Pes (pré-consciente), enquanto o último se situa
na barreira entre Pes (pré-consciente) e Cs (consciente), no lugar onde o
pensamento se inscreve em palavras. E Freud nota, na verdade, que a «censura não
se torna poderosa senão para além de um certo limite, de tal maneira que
estruturas de pensamento de baixa intensidade lhe escapam» (S. E., V, págs. 617 e
618). E vimos ser este o caso da linguagem, como memória do pensamento.
Demais, qualquer acontecimento é acontecimento da linguagem, visto não poder
ter lugar sem deixar vestígio e para deixar vestígio deverá inscrever-se em palavras.

Quer dizer, a estrutura do sentido pode revelar-se de uma maneira geral graças à
linguagem que permite tor-

211
n.ea@r a censura, mais precisamente em todos os sonhos em que o fantasma está
directamente interessado e que conseguem então passá-la, não podendo esta já
exercer-se senão depois do mal feito, e com toda a grosseria que lhe conhecemos. É
o caso dos «sonhos típicos» de morte, ou seja, os sonhos edipianos, a propósito dos
quais Freud escreve: «Nestes sonhos, condição raríssima todavia realizada,
encontramos um ‘pensamento do sonho’ formado por um desejo recalcado
subtraindo-se completamente à censura e passando no sonho sem modificação.
Factores especiais ocupam-se, sem dúvida, em tornar possível este acontecimento,
e julgo que a ocorrência destes sonhos é facilitada por dois factores desta ordem.
Em primeiro lugar, não há desejo nenhum que pareça mais afastado de nós que
esse. Não poderíamos, mesmo em sonho-é a nossa convicção - desej ar semelhante
coisa. E é por isso que a censura do sonho não se encontra aprestada para se
antecipar a tal monstruosidade, tal como o código penal de Sólon não continha
punição para o parricídio. Em segundo lugar, neste caso, o desejo recalcado e
insuspeito é frequentes vezes encontrado a meio caminho por um resíduo do dia
precedente sob a forma de uma inquietude a propósito da saúde da pessoa em
causa. Esta inquietude somente prevalecerá no sonho ocultando-se sob o desejo
correspondente; enquanto o desejo é dissimulável sob a inquietude que teve lugar
activamente durante o dia.» (S. E., IV, págs. 266 e 267).

É o gênero de combinação de que a prática analítica é constantemente teatro; e vê-


se bem que não se trata tanto de uma prática do texto como de um cálculo lógico. E
a lógica em questão nada mais é que a lógica do sentido, tal qual o permite
estruturar o fantasma. Porém, relativamente ao fantasma, a censura desempenha
ora o papel de instrumento ora o de delator. Assim, no que respeita ao primeiro
factor, que facilita a sua transgressã o nos

sonhos de morte, pode dizer-se que ele se ocupa de uma espécie de exerescência
do fantasma.

Efectivamente, ainda que tidos por forçar o direito a cada instante, os critérios que a
censura se atribui acabam por fazer jurisprudência, eela se vangloria, camuflando a
sua violência, de aplicar um código sobre o qual as partes em presença tacitamente
se acordam. Ora, este

212
código é bem, de facto, o instrumento do fantasma. Mas

a sua utilização faz sempre problema, na medida em que a questão pode assentar
em saber em proveito de quem opera. E existe justamente um ponto de reversão
onde parece que trabalhar para o fantasma é trabalhar contra ele. A transgressão
inopinada e violenta do código da censura deixa esta sem recursos, ou pelo menos
não deixa outra possibilidade senão a de puxar o sinal de alarme do sono. De
instrumento, a censura torna-se o denunciador do fantasma.

Ora, este gênero de inversão é precisamente o eixo em volta de que se organiza a


lógica do sentido, e da qual não haveria razão para crer que «não conhece a
contradição», visto não cessar, pelo contrário, de nela girar. E é o próprio Freud
quem diz: «A transformação de uma coisa no seu contrário torna-se possível por
esta cadeia associativa íntima que liga a ideia de uma coisa com o seu oposto nos
nossos pensamentos. Como toda a espécie de deslocamento, pode servir aos fins da
censura; mas também é frequentemente um produto da realização do desejo, pois
esta apenas consiste numa substituição de uma coisa desagradável pelo seu
contrário. Tal como as ideias das coisas podem fazer a sua aparição nos sonhos
transformados no seu contrário, do mesmo modo os afectos ligados aos
pensamentos do sonho; e é verosímil esta transformação do afecto ser, regra geral,
gerada pela censura do sonho. Na vida social, que nos forneceu a analogia familiar
da censura do sonho, também fazemos uso da repressão e da viragem do afecto,
principalmente para fins de dissimulação.» (S. E., V, pág. 471).

Este texto é fundamental na medida em que nos manifesta claramente o segundo


axioma da lógica do sentido. Com efeito, não só existe uma «compulsão a associar»
os acontecimentos, conforme afirma o primeiro axioma, mas também qualquer
acontecimento é afectado de um sinal positivo ou negativo, quando passa para o
lado da representação, ainda que seja ao mesmo tempo um e outro. E o importante
é que esta característica, que diz respeito também à representação,é
principalmente o que distingue o afecto, o que abre a via a uma assimilação dos
modelos quantitativos, aos quais Freud parece ligar-se muito, com a lógica do
sentido cuja pertinência tentamos fazer sentir.

213
Para dar disso prova, basta estudar a maneira como a censura é torneada graças ao
segundo factor que entra em jogo nos sonhos de morte. A estratégia do desejo é a
seguinte: depois de ter manejado várias fontes de afecto, delas escolheu a
susceptível de passar a censura sem obstrução (a inquietude a propósito da saúde)
e liga-a ocultamente a uma outra susceptível de dar a intensidade requerida. É o
que acontece, por exemplo, no caso em que, tendo aversão por alguém, a censura
interdiz-me de sentir prazer se lhe acontecer alguma infelicidade; mas seja esta
infelicidade o resultado de uma falta acerca de cujo carácter repreensível qualquer
pessoa imparcial estaria de acordo, e eis que o prazer é autorizado; todavia, é
necessariamente demasiado intenso. Mas pouco impoTta, visto a censura ter sido
torneada.

Ora, a lógica e a quantidade são aqui como o direito e o avessode um mesmo


tecido, dado que o modelo da dupla fonte e da clivagem-entre qualidade do afecto
(repreensível ou não) e intensidade - é exclusivamente o que justifica o emprego do
conceito de «sobredeterminação», a propósito do qual Freud acaba por formular o
teorema seguinte: «Durante o trabalho-de-sonho, as fontes de afecto que são
capazes de produzir o mesmo afecto reúnem-se para o gerar.» (S. E., V, pág. 480). E
este modelo aplica-se tanto ao prazer experimentado nos ditos espirituosos
tendenciosos (cf. S. E., VIII, capítulo IV «in. fine) como à angústia susceptível de
despertar quem dorme.

Ora, o que se conclui disto é que a lógica do sentido


- que este modelo quantitativo (mas há outros, o do «posteriormente», por exemplo)
permite descrever - é rainha no domínio do fantasma em que a verdade é
submetida à distorção, e em que a censura recolhe o que semeou.

Deste modo, no caso de ser transposta, já não terá mais de duas soluções: pode
deixar andar ou deitar fora a máscara. No primeiro caso, o argumento que se atribui
é bem conhecido: no fim de contas, isto não passa de um sonho. «Na minha
opinião», escreve Freud, «a crítica desdenhosa que surge no juízo ‘isto não passa de
um sonho’ esclarece-se num sonho, quando a censura, que nunca está
completamente adormecida, sente que foi contida por um sonho cujo desenrolar
fora já admitido. É demasiado tarde para o reprimir e a censura usa seguramente
essas pala-

214
vras para fazer face à angústia ou ao sentimento de aflição que a despertou. A frase
em causa é um exemplo de Vesprit d'escalier11 que caracteriza a censura.» (S. E.,
V, pág. 489).

0 importante para nós é que se trata de palavras ditas, de uma frase pronunciada
que faz e não faz parte do sonho e que nada mais é que a expressão directa do
desejo de dormir. Ela é de uma importância capital na medida em que consiste num
único ponto de articulação reconhecível entre o sentido em que apenas se
manifesta a linguagem «ouvida» e a expressão em que se desenrola a linguagem
proferida. Podemos a este propósito falar verdadeiramente de um sinal do sujeito
levado a reconhecer que há sentido, e que ele é nisso eliminado.

Mas a censura, dissemos, pode também decididamente deitar fora a máscara, e-


posta como está nesta alternativa em que o sujeito perde a cada momento, tendo-
lhe feito escolher a violência da rejeicão de preferência à sua perda no sentido-gera
o delírio. Freud emprega ainda a este propósito o termo de «trabalho»: «Os delí rios
são o trabalho de uma censuraque já não se dá ao incómodo de se esconder
quando actua; -em vez de colaborar na produção de urna nova versão que não
suscitará objecção, suprime implacavelmente tudo o que desaprove, de modo a que
o que resta se torna inteiramente incoerente. Esta censura procede exactamente
como a censura dos jornais na fronteira russa, a qual não deixa os jornais
estrangeiros cair nas mãos dos leitores - que é sua função proteger - senão depois
de riscadas um grande número de passagens.» (S. E,, V, pág. 529).

E desta vez já não é verdadeiramente possível livrar-se a tempo do problema, de


levantar os ombros dizendo: «É apenas um sonho.» A linguagem foi excluída no
simbólico, neste pensamento anterior à linguagem que se torna o sentido, e o
«ouvido» reaparece desde então no real sob formas de «visto». Pode-se, outrossim,
abrir os olhos e falar, porém isso nada transformará: o delírio está aí, e a sua
implacável verdade.

A fim de evitar chegar a este extremo, a censura tem ainda um único meio, o de s.e
apresentar na sua cena própria, e de deixar passar o falso que ela sabe falso, por
muito perigoso que seja, para melhor obstruir o verda-

215
deiro. «Ora, está precisamente na essência da censura», escreve Freud a propósito
de um sonho em que o seu pai está implicado, «que, entre as coisas interditas, ela
prefira deixar passar as falsas que as verdadeiras.» (S. E., V, pág. 347). Está aí, com
-efeito, a última porta de saída: mais vale ainda inventar-se falso, que seria interdito
e que se deixa passar, do que ser transposto pelo real impossível do verdadeiro que
se refugia na alucinação, mas se torna também muito inacessível.

Freud, em todo o caso, não se engana, fazendo, e com razão, da censura «o


guardião da saúde mental». Sem dúvida, a verdade será sacrificada, mas o sentido
poderá ser pelo menos -estruturado pelo «ouvido», e o acontecimento ser repetido
na linguagem da associação livre em que a questão do saber quem fala é deixada
na incerteza. A censura, guardiã do sono, vem simplesmente recordar que há ainda
sentido mesmo se a verdade for interdita. Se um homem que dorme sonha, é
porque não se mexe, é porque nada mexe à sua volta. A censura vela.

0 QUE A PSICANÃLISE CONHECE

Então, como se passam as coisas na linguagem de todos os dias, linguagem que-


longe de ser do ouvido não compreendido - se destina a ser do proferido
compreensível, linguagem quotidiana que consiste claramente em significar ideias,
designar um referente, manifestar um sujeito? E relativamente a ela, poderá a
teoria do sentido que é a Psicanálise surgir de outro modo a não ser como uma
interpretação, e o que é mais: como uma interpretação selvagem? Em suma, como
pode esta tão particular escuta da linguagem ocupar-se da palavra, isto é, produção
de frases sempre novas?

Estas perguntas, que o leitor deseja, sem dúvida, pôr há muito tempo, não poderiam
inflectir o propósito do discurso psicanalítico. Não é porque negue a pertinência
deste; simplesmente ele julga que a questão do lugar donde elas provêm pode já
obrigá-las a virarem-se contra quem as põe. Tu não poderias ver-me donde eu te
olho (Lacan), basta-lhe recordar para bem sublinhar que é da subversão do sujeito
que se ocupa e de nada mais.

216
Por conseguinte, este discurso pode, sobretudo, remetê-las à linguística, a qual se
dedica justamente a fazer a teoria de qualquer «performance» linguística, mas sem
para isso sentir a necessidade de repor em questão a identidade do sujeito. Mais
precisamente, ela limita-se a fazer desta «pessoa» uma «função», operando ora
como «destinador» ora como «desti-natário».

Porém, sigamos uma vez mais este acesso para ver como o discurso psicanalítico se
lhe escapa. A divisão da função do locutor em emissor e receptor projecta o espaço
onde se combinam as diferentes relações da «mensagem» com o «código». No caso
simples, é a mensagem que remete ao código; mas o nome próprio leva a
considerar que a mensagem possa remeter a própria mensagem; igualmente, a
possibilidade de falar para definir as suas palavras permite considerar que o código
remete ao próprio código. Enfim, subsiste o caso dos «embrayeurs», em que é o
próprio código a remeter à mensagem, quando digo, por exemplo, «isto» ou «
além», e sobretudo quando digo «eu»,quando me manifesto como o enunciador.

Ora, estas categorias, possibilitando manter um discurso rigoroso acerca da


linguagem e da sua emissão, só interessam o psicanalista no que elas lhe permitem
melhor denunciar as falhas onde o que deve considerar-se como um «mecanismo,
de linguagem» (para usar um conceito de Freud no seu livro sobre a afasia) gripa ou
funciona irregularmente, e de uma maneira muitas vezes quase imperceptível ao
próprio locutor.

Quer dizer que o psicanalista utiliza para fins exactamente opostos os modelos q
a Linguística lhe fornece.

iue Longe de se interessar pelo saber acerca da língua e da palavra enquanto tais, é
a ignorância deste saber que lhe convém isolar, não sendo a linguagem para ele,
nunca, o que se destina a ser compreendido logo à primeira, mas o lugar onde o
sentido aflora à superfície do exprimível e onde o acontecimento se patenteia
através da falha que ele provoca entre o enunciado e a enunciação.

A fim de explicar de que se trata através destas duas vertentes do sujeito que se
exprime mas para exprimir, que exprime mas para se exprimir, digamos que o
psicanalista é quem tenta restabelecer as coisas da seguinte maneira: desloca
constantemente as comas, abre-as onde

217
a significação queria que se fechassem, fá-las surgir onde o enunciado parece ser
apenas uma designação do tipo «chove», risca-as todas as vezes que o sujeito se
manifesta por um «eu digo» ou, sobretudo, por um « não ides acreditar que eu
digo».

Porém, se é possível claramente admitir que a questão de saber quem fala nestas
sequências registadas em magnetofone é posta na incerteza pelo linguista, não o é
da mesma maneira nem tão radicalmente, visto ser bem necessário, entretanto,
relacioná-las com um locutor que é compreendido.

Isto não é, todavia, exigido pelo psicanalista, o qual se aplica constantemente a pÔr
na incerteza a questão de saber quem fala, ali, estirado num divã, e isto por meio
não só do seu silêncio mas também das suas intervenções. Estas últimas podem ser
certamente percebidas como «interpretações»; nada mais são, de facto, do que
uma espécie de índice apontado na direcção em que o sentido aflora em virtude da
subversão do sujeito, da reposição em causa da inclusão do enunciado na
respectiva enunciação.

A Psicanálise não é, pois, teoria da «performance», mas ciência dos acontecimentos,


e a linguagem não lhe interessa enquanto considerada actividade de um
mecanismo dotado de tal ou tal «competência», mas enquanto também, e por
ordem das falhas entre o enunciado e a enunciação, acto de um sentido, e não de
um sujeito que se julga saber.

Ora, talvez surpreendentemente, é o próprio Freud quem nos convida a propósito da


linguagem a apresentar assim o acto como a subversão de uma actividade de que o
sujeito seria o suporte. Efectivamente, é nestes termos que se pensa a diferença
puramente funcional entre as «afasias» e o que Freud entende por «parafasia», a
saber muito simplesmente, as diferentes formas de «lapsus».

Esta simples alusão circunstancia acerca do que se poderia concluir de um livro que
curiosamente escapou à atenção de muitos bons leitores de Freud. Queremos falar
de Zur Aufassung der Aphasien, monografia publicada em Leipzig, na Deuticke, em
1891, com perto de duzentos exemplares, e dedicada por Freud ao seu amigo
Breuer. Tudo o que ordinariamente se conhece a este respeito é que ele aí se
mostra discípulo de Hughlings

218
Jackson e produz, também aí, o termo «agnosia», que a ciência neurológica reteve e
cuja paternidade lhe endossa.

Porém, nesta circunstância, não se trata de um termo anódino e diaforesco, mas da


produção de um conceito capital que liberta justamente a linguagem de ter de
fornecer um saber sobre o mundo, pelo facto de a perturbação no conhecimento dos
objectos não dever considerar-se uma perturbação da linguagem propriamente dita.

Quanto à obediência a Jackson, ela é certa, e a dívida a seu -respeito é tão


importante como a que se conhece com mais grado relativamentea Charcot. Ora,
Freud paga as suas dívidas teóricas de uma maneira particular. Dissemos que a
repetição da ruptura do conceito de neurose permitiu a fundação do discurso
psicanalítico. Pois bem, o mesmo acontece com as rupturas atribuíveis ao nome
próprio de Jackson e trazidas para o campo da Neurologia, tal como a de Charcot
fora trazida para o campo da psiquiatria clássica.

Ora, a «repetição de ruptura» consiste desta vez em nada menos que na passagem
de uma concepção da linguagem como «actividade» de um «mecanismo»
neurológico constituído de funções integradas em relação com as leis da
«involução» a uma concepção que faz dela o acto de repetição de um
acontecimento, no pró prio sentido em que ouvimos este termo.

Mas que se compreenda bem aqui que esta repetição de ruptura está ainda na
ordem do dia e que cada psicanalisante julga reiterá-la, coisa que o exemplo de
Jackson irá explicar-nos. A ruptura epistemológica que se lhe aplica consiste na
adopção do conceito de «processo» em Neurologia, tornando-se então só a função
localizada.

Porém, poderão muito bem dizer-nos que esta ruptura não foi ratificada no seu
campo próprio senão uma vintena de anos mais tarde, quando Head e Goldstein,
nos seus trabalhos sobre a afasia, tiveram oportunidade de mostrar em queé que a
Neurologia se desencaminhou e como o desconhecimento das teorias jacksonianas
desempenhou neste domínio o papel de um obstáculo. E a repetição de ruptura
nada mais faria que controlar, no campo do discurso, a tese geral respeitante aos
acontecimentos que não poderiam ser apreendidos que posteriormente.

219
No entanto, a questão colocar-se-ia, então, em saber porque o texto de Freud que
denuncia com muita coragem as teorias de localização de Meynert e Wernicke, seus
mestres, continuou desapercebido e não teve os efeitos da repetição de ruptura no
campo do próprio saber neurológico. E somos assim obrigados a comprovar que não
é em relação às afasias que este livro, que lhes é todavia consagrado, pode ser
considerado como acontecimento do discurso, mas que é de uma maneira
desfasada que vão funcionar os conceitos que promove, a saber numa repetição
que concerne à produção do próprio conceito de «inconsciente».

Efectivamente, se Freud foi antes levado a repetir a ruptura jacksoniana que a


actualizar os seus efeitos no campo onde ela operava, é sem dúvida porque o
pedido dos seus doentes visava a instituir uma nova ordem de saber e -dirigia-se a
um outro tipo de sujeito que se supunha curar por meio deste saber. Trata-se
exclusivamente do sujeito que supõe saber o que é a natureza e o alcance do
acontecimento cujo sintoma manifesta a verdade.

Ora, tal sujeito não existe. Mas rejeitar este pedido e considerá-lo deslocado seria
acertar o passo com a segregação psiquiátrica. Impunha-se, pois, atribuir-lhes os
meios de o evitar, mesmo deixando-lhe o lugar. E é isto muito precisamente o que
permitiu a repetição da ruptura jacksoniana, repetição que ainda actualizámos
neste texto e que torna possível considerar que a linguagem já não é somente
encarada como um -e-ncaãeamento de «performances», mas como o acto de
repetição do acontecimento, a partir do qual ela faz-se possível como lugar do
sentido.

Poderíamos tirar duas conclusões desta incursão no campo da epistemologia. A


primeira diz respeito à leitura de Freud, que muito estimáveis defensores do seu
discurso consideram como podendo ser completada pelos ensinamentos da prática.
Ora, isto deixa supor que a Psicanálise, como Atena, saiu completamente armada da
cabeça de Freud e tende a perpetuar querelas de ortodoxia que não são
susceptíveis de produzir nenhum efeito teórico interessante.

Denunciar a heresia ou valer-se dela nunca provocou outra coisa que defesas ou
teses, isto é, o contrário de um discurso científico. E talvez a Psicanálise esteja ainda

220
nesse campo, apesar de todos os ensinamentos da prática. Será isso, aliás, um
mal?, poderia perguntar-se, para ver até que ponto a ideologia médica tão bem
consegue ocultar o domínio psicanalítico que o discurso não pode senão aí produzir
efeitos de saber tão desastrosos como aqueles de que os textos freudianos são em
parte responsáveis, quando lidos cortados do respectivo contexto científico.

0 único meio de sair deste mau passo consiste em ler com Freud o que foi a sua
biblioteca, em cuja reconstituição empenhar-nos-í amos. Masa tarefa, mal
designada na sua própria urgência, desencoraja pela sua extensão. Todavia, a coisa
deve ser tentada, se é verdade que o dís-
Este esquema é apenas uma simplificação do produzido poT Lacan em Subversão do Sujeito e Dialéctica do
Desejo (Escritos, Edições Seuil)

221
curso psicanalítico apenas existe algures no seu recomeço e que produz um saber
que não poderia conservar-se num arquivo onde cada investigador registasse o
resultado da sua experiência.

E este último ponto leva-nos a acrescentar a nossa segunda conclusão. Qualquer


ruptura com o arquivo ou qualquer discussão sobre o próprio saber tem por
condição de possibilidade a tematização da linguagem como o lugar em que se
opera, graças ao sentido, a subversão do sujeitc,. Ora, é disso que muito
precisamente se trata no modo da associação livre, em que se pressupõe o campo
no qual são confrontados o psicanalisante e o seu psicanalista.

E foi a repetição da ruptura de Jackson que possíbilitou a emergência deste campo,


constituído, de facto, pela colocação no mesmo plano de todos os «restos da
linguagem», de todas as «recurrent utterances» que, no livro sobre a afasia, deviam
ser tidas como as últimas palavras de que o afásico fora capaz e que, a partir do
momento em que o «mecanismo da linguagem» (primeira operação do «mecanismo
psíquico») fosse considerado como um mecanismo de «fisiologia» em larga medida
independente da «Patologia», poderão, na verdade, passar por ter função de
vestígios do acontecimento, sendo qualquer acontecimento tido por reproduzir um
desfasamento entre produção e compreensão da linguagem, e consequentemente
um efeito de significado incongruente.

0 lugar em que são apontadas as coincidências e as recorrências, tal é a toalha do


sentido a que é reduzida a linguagem quando nos esforçamos por que aí sejam
repetidos os acontecimentos que levaram da parte do mecanismo da linguagem um
«modo de reacção» específico: o do acto, que apresenta o paradoxo de gerar o que
é novo, embora se trate de uma repetição do antigo.

Quer dizer que o modo da associação livre, que visa instaurar, num cometimento
contraditório mais fecundo, um saber do acto, consiste em diligenciar por que a
lógica da produção das «pQrformances» seja levada a encontrar o lugar em que
estas impressionem sob a forma de «ouvido», e onde é o sentido que se exprime,
aquém da clivagem entre o enunciado e a enunciação.

Para explicar como estas duas ordens da lógica e do lugar se verificam, poder-se-ia
adoptar um modelo ferro-

222
viário, a que o termo «facilitação» (Bahnung), do uso de Freud, nos convida, e onde
deveria supor-se que o circuito efectivamente tomado pelos diferentes «cursos de
pensamento» jamais consegue esgotar as possibilidades oferecidas pela rede do que Freud
chama o «grande complexo das associações», e por nós designado a «estrutura do sentido».

Ora, assim como, para evitar acidentes, se estabeleceu um sistema de simulação permitindo
antecipar os diversos circuitos e comprovar que a rede é efectivamente capaz de tal, do
mesmo modo, e para evitar que a linguagem gerada não seja compreendida, pode pensar-se
que houve, aquando da sua produção, uma espécie de repetição às avessas da sequência
significante.

Queremos falar desta «retroacção» que torna possível articular os conteúdos dos
pensamentos com os significantes e que recorta estas duas cadeias que se julga irem no
mesmo sentido segundo o grafismo do duplo -anel .(ver figura), único esquema susceptível
de explicar que a produçã o da linguagem não implica necessariamente a sua compreensão.

Efectivamente, é na retroacção e no eixo zz’ que se faz a compreensão de uma frase, o que
ao mesmo tempo torna visível - se assim se pode dizê-lo - o desvio, e todavia o laço, entre o
pensamento e a linguagem, entre os conteúdos de pensamento e os significantes, não tendo
os dois eixos xx’ e yy’ nenhuma razão para se encontrarem e sendo, no entanto, levados a
comunicar graças a zz’.

Trata-se então da estrutura de qualquer célula de sentido, em que um circuito significante é


relacionado com uma rede que o suporta, e graças à qual uma sequência, por muito nova que
seja, é todavia compreendida. Porém, não sendo nunca dados antecipadamente os pontos em
que o eixo da retroacção intersecta os outros dois, trata-se muito claramente da
compreensão que não é dada repentinamente: a que vem do terceiro sempre à escuta das
palavras trocadas a dois, do terceiro que, no acto psicanalítico, está reduzido a já nada mais
ser que a própria voz.

Isto significa que o acto psicanalítico é, de facto, como o reverso de qualquer acto, podendo
este muito bem se definir como a operação que consiste em anular o

223
terceiro, o qual nada mais é que o objecto a nos diferentes registos (a voz e o olhar,
mas também o exeremento e o seio).

Ora, anular o terceiro é ocupar-se com aquele Outro arcaico de que Freud fazia
depender a «acção específica», é perder a «coisa», para dar-se a possibilidade
de a reproduzir, produzindo o «predicado», é ocupar-se da linguagem, com os
«desfiles do significante» pelos quais deve passar a pergunta. E a «outra
pessoa» de que falava Freud na carta 52 é bem, por conseguinte, o que
Lacan destaca como o grande Outro, ou o «tesouro do significante», dimensão que
tentamos imaginar ao falar de «rede». Mas que se recorde bem que não existe
grande engenheiro da rede, que não existe sentido, que a linguagem não é a pura e
simples memória do grande texto onde tudo já estivesse escrito, e sem o que, no
termo deste trabalho, estaríamos no direito de pensar que era trabalho em vão.

Supondo mesmo que a rede esteja bastante simplificada e a -escolha apenas diga
respeito aos dois ramos de uma alternativa, ou às duas únicas direcções de um
comboio que passa por uma pequena estacão, puderemos lembrar a anedota
contada por Freud, e de que faríamos bem o apólogo deste texto:

«Dois judeus no cais de uma estação: -Onde vais?


- A Cracóvia.
- Mentiroso! Se me dissesses que ias a Cracóvia, querias que eu acreditasse que ias
a Lemberg. Mas eu sei que vais efectivamente a Cracóvia. Neste caso, porque me
mentes?»

E o comentário de Freud: «Será verdade que descrevemos as coisas como elas são,
sem nos preocuparmos em saber como o interlocutor compreenderá o que
diremos?» (S. E., VIII, pág. 115).

Mas que é preciso para isso? Repetir as suas próprias palavras na ordem inversa
(neste caso, Cracóvia toma o lugar de Lemberg), para se dar a possibilidade de as
escutar com o ouvido de outrem. Resta no entanto o terceiro. Resta no entanto a
voz. Não podes falar-me donde eu te escuto (Lacan), faz constantemente dizer a
quem não quiser admitir que o mal-entendido é inelutável e que

224
o diálogo é ilusão. Que eu saiba @ou não se -tu vais a Cra- @ 1 . covia,.o meu
saber ocupar-se-á com a verdade das tuas palavras na linguagem da tua voz.

A Psicanálise é o testemunho disso. E a teoria da linguagem que ela pode propor


não seria outra coisa que uma teoria do -mal-entendido, e do mal-entendido
definitivo da escuta de uma voz. Este, aliás, não surge pelo facto de alguém aceitar,
numa cura, deixar-se hipnotizar pela voz do outro. Paraconcluir, aquele está, sem dú
vida, definido, enquanto estoutro é rejeitado como um objecto irremediavelmente
perdido.

Efectivamente, perder a voz para chegar a saber o que falar quer dizer, quando é a
verdade que fala, remontando à superfície da linguagem, ao nível do sentido, e
apesar de todas as distorções da censura-eis o que compete a uma psicanálise.

NOTA,S
1 0 texto que se segue apresenta uma certa complexidade dialéctica, dado que, -por um lado, aborda uma
ciência, a da linguagem, cuja formalfização é difícil e ainda pouco familiar ao público; por outro, funda-se no
estudo -de textos freudianos raros, dispersos em to-da a sua obra e de uma interpretação delicada. Pedimos
ao leitor o favor de procurar seguir o autor passo a passo nas páginas seguintes, de tal modo é importante
a todo o propósito do livro a conclusão que tira: que não há «sentido do senti@do» e que s6 a
Psicanálise é capaz de nos informar acerca disso. (Nota da edição francesa).

2 @ JameS Joyce, Dedalus, Gallimard, pág. 26.


3 Acerca do fantasma, ver a primeira parte desta obra, assim como -o último capítulo Psicanálise e
Filosofia.

4 As iniciais S. E. que serão encontradas constantemente juntas às citações no deoorrer deste capítulo
remetem à Standard Edition das -obras de Freud, publicada por Hogarth Press, Imago Publishing, Londres
(edição crítica). Todas as citações -de Freud são aqui retraduzidas do inglês.

5 Num raciocínio do tipo: «Se A é verdadeiro, e se B é verdadeiro, então Z é verda-deiro», a palavra


verdadeiro não tem a mesma função nas premissas e na conclusão. Ao nível das premissas, trata-se em
princípio de designações re-speitantes a estados de coisas que podem ser verifica-das ou não; é -o que se
chama aqui asserções. Ao nível da conclusão, trata-se de uma significação deduzi-da a partir -das
implicações de conceitos supostos pelas designações; é o que se chama uma inferência.

is >225
6 0 conceito de metalinguagem foi produzido por Bertrand Russel para terminar com o iparadoxo de Lewis
Carrol, o qual aponta a seguinte díferença de nível entre asserções e implicações (ver a nota @~rior),
acentuando que a proposição: «Se A é verdadeiro, e se B e verdadeiro, então Z é verdadeiro», nada
mais é que uma proposição C que -deve ser, por seu lado, verificada, e assim sucessivamente até ao infinito.
Trata-,se. de @acto, de uma @ormalização que permite resolver prontamente a ambiguidade do termo
verdadeiro, quenão diz a mesma coisa depois de uma agressão e depois de uma inferência,
remetendo a verdade-designação ao nível da linguagem e apenas conservando a verdade-significação (,ou
valor -de verdade) a fim de provar, ao nível da metalin,guagem, a coerência do discurso produzido.

7 Os linguistas di-stinguem o referente do significado, e este do significante, podendo o significante


(simbolizado pelo vocábulo colocado entre duas barras -oblíquas: /árvore/, por exemplo) identificar-se,
grosso modo, -com a -palavra pronunciada; o significado (simbolizado pelo termo colocado entre parêntesis)
com o que ele evoca, e sendo o referente (simbolizado, no exemplo seguinte, por uma palavra entre aspas)
a coisa -de que se fala no caso particular. Assim, por exemplo: o referente «árv-ore» não é nem o significado
(árvore), que se distingue de um outro significa-do (casa), nem o significante /árvore/, que se distingue de
um outro significante /mármore/, mas tal árvore, aqui no jardim, -de que falo neste momento.

8 Com o sonho da «injecção a Irma», o sonho da «mo-nografia bortânica» é um -daqueles a que Freud faz
mais constantemente alusão no decurso -de A Inuerpretação dos Sonhos (ef. S. E., IV e V, págs. 165,
169-176, 180-183, 191, 281-284, 305, 467); e cuja análise é levada o mais longe possível. Entre os
«pensamentosdo-sonho> figuram: o «aoontecimento» recente e indiferente -de uma monografia observada
no escaparate de uma livraria; relaciona-se com o «género cíclame», flor favorita -de sua mulher; trata-se de
uma monografia - semelhante àquelas -de que Freud, estudante, era apaixonado - como a que ele escreveu
Sobre a Planta do Coca, em 1884, e que não lhe deu a descoberta que esperava; o que ocasiona a
-recordação de uma conversação sobre um assunto «que não deixa nunca de excitar os meus sentiMentos,
seja em que altura for», com o seu amigo e cirurgião Kõnigstein, conversação esta interrompida pelo
professor Gãrtner e sua mulher -de olhares «florescentes»; a discussão tivera então por objecto uma das
suas doentes chama-da «Flora», etc.

9 Ver atrás a nota 6, relativa à metalinguagem.


10 Sublinhado da edição francesa.
11 Em francês no texto original.

226
GILBERT LASCAULT

Estética e Psicanálise
Antes de abordar a região onde a Psicanálise e a Estética se encontram, de
determinar a sua natureza, de nela traçar algumas pistas, convém encetar o estudo
por umas frases de Freud. Subjacentes à sequência do texto, aparentemente
esquecidas, não deixarão de inflectir no seu curso. No final, vê-las-emos ressurgir.

Uma primeira frase, extraída de Das Unbehagen In der Kultur (1929), constitui uma
crítica da estética tradicional e um reconhecimento de fracasso, deste ponto de
vista, da Psicanálise: «0 lado utilitário da beleza não se mostra claramente; não se
julga seja necessária à civilização, e esta poderia renunciar àquela. A ciência da
Estética estuda as condições nas quais se sente o ‘belo’, porém nenhum
esclarecimento pÔde trazer acerca da natureza e da origem da beleza; e, como
acontece neste caso, consumiu-se abundantemente em frases tã o vazias como
sonoras destinadas a dissimular a falta de resultados. Infelizmente, é sobre abeleza
que a Psicanálise menos tem para dizer. Um único ponto parece certo - a emoção
estética deriva da esfera das sensaçõ es sexuais; seria um exemplo típico de pulsão
inibida quanto ao fim. Primitivamente, a ‘beleza’ e a ‘sedução’ são atributos do
objecto sexual; é oportuno notar que os órgãos genitais em si mesmos quase nunca
são, todavia, considerados como belos. Pelo contrário, um carácter de beleza liga-
se, parece, a certos sinais sexuais secundários.» Desta verificação de fracasso, a
reflexão pode tirar vários benefícios. Em primeiro lugar, a obra de arte não surge
como puro e simples divertimento; uma dupla ancoragem une-a, por um lado, à
civilizaçã o, «a qual não poderia privar-se (da beleza)»; por outro, ao desejo. No
concernente à beleza, Freud sublinha ias dificuldades e as obscuridades que cercam
a sua abordagem; acentua o carácter cultural dos juízos estéticos («quase nunca
são considerados como belos»). Coloca, enfim, o domínio artístico como o lugar das
derivas, dos desvios das pulsões.

229,
Um segundo texto é extraído de Formulações sobre os Dois Princípios da Actividade
Psíquica (1911), recentemente traduzido por C. Conté para a escola freudiana de
Paris. Situa a criatividade do artista relativamente ao princípio de realidade e ao
princípio de prazer. Esta situação do artista faz, sem dificuldade, vacilar certezas
demasiado simplistas no que respeita à «realidade»: «A arte leva à reconciliação
dos dois princípios por uma via particular. 0 artista é, na origem, um homem que se
afasta da realidade porque não pode familiarizar-se com a renúncia à satisfação
pulsional que a realidade começa por exigir dele; deixa expandir os desejos eróticos
e ambiciosos na sua vida fantasmática. Contudo, ele encontra o caminho que
remete deste mundo fantasmático para a realidade na medida em que, graças a
certas faculdades, dá aos seus fantasmas a forma de uma nova categoria de coisas
reais (Wirkliehkeiten) que tomam para os homens valor de preciosas figuras
(Abbilder) da realidade. De certa maneira, torna-se deste modo verdadeiramente o
herói, o rei, o criador, o homem amado em que queria transformar-se, sem se
empenhar no imenso desvio que conduziria a uma mudança verídica do mundo
exterior. Porém, ele apenas poderá chegar a isto porque os outros homens sentem
como ele a insatisfação ligada à exigência real de uma abdicação, porque a
insatisfação resultante da substituição do princípio de prazer pelo princípio de
realidade é, ela própria,, uma parte da realidade.» Contrariamente ao que quase
sempre se afirma, o psicanalista não considera o artista um neurosado. 0 artista
fala, age ao recusar a renúncia ao prazer e ao atribuir-se meios específicos de
trabalho. 0 seu trabalho não o isola: cada um de nós gostaria -de fazê-lo e nele
encontra uma imagem dos próprios desejos. Recusando substituir o princípio de
prazerpelo princípio de realidade, o produtor de obras de arte parece situar-se mais
de perto do processo primário que, de harmonia com Freud, caracteriza o sistema
inconsciente. Antes do nascimento da Psicanálise, «capitaliza» assim um «saber não
sabido» acerca do inconsciente e que pode esclarecer o psicanalista: a tragédia
grega revela e não revela o Édipo, o desejo de matar o pai e de casac com a mãe,
de se fazer rei, e ainda o desejo de sofrer a respectiva punição.

230
Um último texto de Freud é tirado de A Criação Literária e o Sonho Acordado (1908).
Toma interesse pelo ponto de vista do espectador. Liga, com moderação, o gozo estético à
posse que o espectador exerce sobre os próprios fiantasmas; a uma abdicação brutall pode
suceder uma tomada em consideração do desejo: «Chama-se prima de sedução ou prazer
preliminar um igual benefício de prazer que nos é oferecido a fim de permitir a libertação de
uma fruição superior que emana de fontes psíquicas muito mais profundas. Creio que
qualquer prazer estético produzido em nós pelo criador apresenta o carácter de prazer
preliminar, mas a verdadeira fruição da obra literária provém de a nossa alma se ver aliviada
de certas tensões. Talvez mesmo o facto de o criador nos pôr em estado de gozar
futuramente os nossos próprios fantasmas sem escrúpulo nem vergonha contribua em
grande parte para este resultado.»

Explorar a região em que a Estética e a Psicanálise interiferem resulta em despertar um


«saber não sabido», em encontrar «sem. vergonha» os nossos próprios fantasmas. Formas
precisas, privilegiadas, que veremos serem ao mesmo tempotemas de obras de arte, índices
da sua constituição e modo de leitura, deverão ser examinadas. Todavia, cumpre
primeiramente entrar no campo de pesquisa, penetrar no «canteiro crítico».

0 CANTEIRO CRíTICO

Quando Charles Mauron (Des Métaphores obsédantes au. mythe personnel)


apresenta análises rigorosas das obras de Corneille, Racine, Nerval, Baudelaire,
Mallarmé, declara mostrar-nos «a realidade de um canteiro». De acordo com ele, a
psicocrítica (uma das formas mais sérias da aplicação da Psicanálise à arte) trabalha
sobre textos e sobre as palavras dos textos. Esforça-se por comprovar, em vários
textos do mesmo autor, entrelaçamentos fixos de associações de que se pode
duvidar sejam conscientemente consentidos. A partir destes entrelaçamentos, a
personalidade inconsciente do escritor sobressai pouco a pouco. Esta personalidade
é lobrigada, senão perfeitamente definida, graças às figuras míticas que o escritor
representa inconscientemente e que a leitura de Mauron

231
descobre atrás das elaborações poéticas, as imagens encobridoras (que escondem e
descobrem -ao mesmo tempo, como as recordações encobridoras citadas por Freud
em Psicopatologia da Vida Quotidiana), atrás dos entrelaçamentos que a análise
psicocrítica constrói. Em Mallarmé, uma destas figuras míticas é a figura feminina,
objecto interno, parte da personalidade do escritor, simultaneamente desejável,
inacessível e perigosa: Debora da narração francesa Ce que disalent les trois
cigognes e Herodíade da Ouverture, da Scènce das Noces. Parte inalienável do autor
e alteridade radical e fascinante para ele, a virgem, ligada à morte (a sua, a de um
possível amante, a do escritor), ligada igualmente ao medo e ao desejo do incesto,
hesita entre um -estado de pureza gelada na morte e um estado (encontrado ou
pressentido) de ardor e de vida ,amorosa; o primeiro estado é solidão narcísica,
conforme Mauron; o segundo é apego -às vezes destruidor ---pe4os objectos
exteriores. Cores nomeadas, evocadas (a brancura, o azul do céu, a púrpura, o
negro) vêm escandir a apresentacão de uma fijZura feminina, fantasma particular
do -criador, que de algum modo patrocina os fantasmas dos leitores, serve-lhes de
apoioe de cobertura, dá-lhes ocasião de se manifestarem. Na angústia, «Debora vai
da neve às chamas e regressa à neve; Herodíade vai da pureza ao sangue e volta
(talvez) à pureza»; uma igual disso-ciação, testemunhando umconflito idêntico, vê-
se -em todas as figuras femininas de Mallarmé. A pulsão de morte manifesta-se em
duas opções divergentes: a púrpura da desfloração, da embriaguez e dos suplícios,
a brancura do gelo.

Isto é apenas um exemplo significativo das aplicações contemporâneas das noções


e dos métodos psicanalíticos às obras de arte. 0 que mais impressiona o leitor
atento de Mauron é a justaposição das análises mais finas e rigorosas e de uma
recusa em tirar dela conclusões gerais. Compilação de estudos parciais, de
elementos de investigações d iscordantes, um dos melhores livros de análise
literária julga-se, conhece-se -e confessa-se fragmentário, incompleto; é até só
raramente programático. Percebe-se a totalidade apenas como o que não é
possuído.
0 rigor do esforço manifesta-se, antes do mais, pelos seus malogros, as suas faltas:
os seus defeitos.

«A realidade de um canteiro»: deve tomar-se esta fórmula de Mauron à letra, não a


considerar como uma

232
banal ecaptatio benevolentiae». Convém aplicá-la, talvez transformando-a,
sobrecarregando a crítica implícita que ela formula, ao conjunto das investigações
que reclamam ligar a Estética e a Psicanálise. Há um trabalho da crítica como há um
«trabalho do sonho». Quem quiser escamotear este trabalho, quem pretender dar
as suas interpretações como um saber total, acabado da obra, esse falseia a obra

na sua particularidade, esquece os efeitos que ela provoca em nós. Ao mesmo


tempo, transforma a teoria psicanalítica numa colecção de receitas monótonas e
aplica-as cegamente a qualquer produção artística.

ELOGIO DO FRAGMENTÁRIO

Todas as vezes que a Psicanálise (frequentemente então dirigida por críticas não
psicanalíticas) se atribui a finalidade de explicar a arte em geral, a «sublimação», a
criatividade, as relações, supostas constantes, da arte e da loucura, da arte e da
infância, todas as vezes ela constrói grandes palácios vazios e frágeis. Como Jean
Laplan- che (HüIderfin et Ia question du père), convém condenar toda a
generalização apressada que esquece e suprime a especificidade decada obra
particular: «Os problemas que a vida e a obra de H81derlin põem ao psiquiatra não
podem deixar de evocar a questão mais geral das relações entre a criação artística
e a doença mental. Assunto irritante à força de ser repisado, tema ordinariamente
desenvolvido de maneira especiosa mas incompetente. Conhecem-se as
generalidades que herdámos do século XIX e que tendem a comparar sem rodeios o
‘gênio’ com a ‘loucura’. A posição cientista de um Lombroso reúne aqui
- exceptuando o sinal .- as extravagâncias românticas que os surrealistas levaram,
pelo menos em teoria, ao extremo.»

Não foi por acaso que Freud não deixou sistema estético geral, mas estudos
particulares, isolados, minuciosos, tendo por objecto pontos muito precisos: a
posição de uma mão no Moisês de Miguel Ângelo; uma recordação de criança de
Leonardo da Vinci; o cómico e o humor em algumas histórias judias; a Gradiva, de
Jensen, novela pouco conhecida de um escritor também pouco conhecido.

233.
Com razão, Paul Ricoeur (De lIinterprétatIon) afirma que este carácter parcial e
fragmentário dos textos estéticos freudianos deve não somente ser confirmado mas
reclamado para a defesa destes exercícios. Ricoeur defende que a explicação psicanalítica
das obras de arte não pode ser comparada a uma psicanálise terapêutica ou didáctica: com
efeito, ela não dispõe do método das associações livres e não pode colocar as suas
interpretações no campo da relação dual entre médico e paciente. Os documentos bíográficos
exteriores e a maior parte dos documentos autubiográficos não são mais significativos que as
informações de terceiros por ocasião de uma cura. A Psicanálise aplicada à arte é
exclusivamente de ordem analógica. 0 carácter fragmentário dos textos nasce da vontade de
mostrar que apenas a analogia vinga na reflexã o freudiana sobre as obras de arte. Há,
sublinha Ricoeur, analogia de trabalho a trabalho: trabalho de sonho a trabalho de arte;
analogia de destino a destino: de destino de pulsão a destino de artista. Dito Espirituoso
constitui uma prudente importação, no domínio do humor e do cómico, das leis do trabalho
do sonho e da satisfação fictícia. A interpretação de Gradiva de Jensen não pretende dar uma
teoria geral dos romances, mas verificar a teoria do sonho e da neurose pelo estudo dos
sonhos fictícios que um romancista ignorante da Psicanálise atribui ao seu herói e pela
explicação da cura quase analítica para a qual ele conduz este último. No estudo consagrado
a Leonardo da Vinci, somente algumas singularidades da sua vida artística foram
esclarecidas, «como raios de luz», diz Ricoeur, «num quadro mergulhado na sombra». Tema
dos Três Cofres, texto aparecido primeiramente em Imago, 11 (1913), compara duas cenas
de Shakespeare a partir de um símbolo corrente nos sonhos: o cofre, que neles simboliza «o
essencial na mulher», o sexo da mulher e, consequentemente, a própria mulher; destarte,
podem relacionar-se a cena divertida do Mercador de Veneza em que os pretendentes de
Pórcia têm de escolher entre três cofres (de ouro, de prata, de chumbo) e a cena trágica do
Rei Lear em que o velho rei deserda Cordélia (imagem de uma morta que ele nega) e é
obrigado a escolher entre três mulheres: a procriadora, a companheira, a destruidora.

234
TORRE DE BABEL

A fim de imaginarmos o estado actual das investigações psicanalíticas sobre a arte,


somos levados a usar as metáforas arquitecturais: vimos já Mauron evocar um
canteiro. É necessário ir mais longe. Actualmente, os estudos observados lembram
uma gigantesca Torre de Babel, semelhante às que os pintores do século XVI não
pararam de pintar e de pormenorizar: Bruegel, Tobie Verhaecht, Lucas van
VaIckenborch, Martin van Valckenborch, Esmagadora e absurda construção, ela une
partes em construção, ruínas e partes «sãs». Constitui a manifestação petrificada da
confusão das línguas. Semelhantemente, no campo considerado, estudos parciais
(os de Mauron, de Freud, de Jones sobre o Hamlet, de Mélaine Klein, de Abraham, de
Green, etc.) e sólidos coexistem com enunciados mais ambiciosos onde as noções
mais precisas da Psicanálise estão sujeitas a desvios de sentido: confusão das
línguas, flutuação das significações. Conhecem-se as ambiguidades a que deram
lugar noções -como as de «complexo», de «fantasma», de «desejo», de
«transferência», etc. 0 -erro jungiano, as suas divagações, as comparações
ocasionais dos símbolos de todos os tempos e de todos os países, oferecem-nos a
imagem derrisóría e delirante de uma psicanálise incontrolada. «A vaga negra do
ocultismo» vem substituir o rigor freudiano. É possível dizer-se tudo. Uma «chave
dos fantasmas», semelhante às velhas chaves dos sonhos, permite ao hermeneuta
vaticinante desprezar o discurso do poeta, isolar arbitrariamente do contexto uma
palavra ou uma imagem: delirar por sua própria conta, julgando ser o intérprete de
um triste ünconsciente colectivo». Este «Inconsciente colecti,vo» vem justificar
quase sempre o irracionalismo mais vazio e as confusões da ebriedade teórica.

De maneira diferente, as tentativas de J.-P. Weber, (por exemplo Genèse de


1'oeuvre poétique, 1960) mostram os perigos que se deparam quando se quer, sem
controlo, fazer falar os textos. Contrariamente a Mauron, que afirma dar apenas
uma interpretação parcial das obras, J.-P. Weber adopta uma posição imperialista
face à arte. Censura Freud pela sua «timidez genetista». Tem a pretensão de
explicar a obra por um terna ú nico, tema este que

235
constitui «um acontecimento ou uma situação infantil, susceptível de se manifestar,
em geral, inconscientemente, numa obra ou num conjunto de obras de arte». Os
temas descobertos por J.-P. Weber são mais honrosos para o seu engenho do que
para o seu rigor. 0 tema de Kafka seria a criança perante a escola; o de Hugo a
Torre dos Ratos, observada numa gravura; o de Claudel o seio doce-amargo.
Procurar o tema do relógio em toda a obra de Vigny leva J.-P. Weber a construções
bizarras. A familiaridade com uma hipotética ave tirada do ninho dá a explicação da
obra inteira de Mallarmé. Acontecimentos pouco importantes, sucedidos em
qualquer período da infância, esclarecem assim e resumem toda a complexidade de
uma obra. A sua riqueza não poderia reduzir-se a um tema único; toda a variedade
polimorfa da infância não é susceptível de se limitar a um acontecimento único. Os
textos de J.-P. Weber podem ser fascinantes quando os lemos, como as
elucubrações linguísticas de J.-P. Brisset (ef., por exemplo, as citadas por Breton,
Anthologie de Mumour noir) ou os delírios sistemáticos do presidente Schreber
(Cahiers pour l'analyse, n.o 5 e seguintes); porém, não constituem uma análise
rigorosa das obras.

Nesta conformidade, na região que procuramos circunscrever, o melhor e o pior


coexistem; a ruína, os elementos resistentes, as más construções, justapõem-se:
edifícios heteróclitos erguidos sobre um terreno muitas vezes falso. Nestas
condições, torna-se impossível traçar o plano do edifício, estabelecer a carta
rigorosamente exacta da região. Lugar de verdades parciais, de analogias
alucinantes e judiciosas, de desvios obrigatórios e de resumos enganadores, esta
-região pode ser explorada parcialmente, não descrita, -ainda menos organizada.
Não se deve actualmente pretender -efectuar nela outra coisa que breves e
discordantes incursões: algumas razzias rápidas. No que nos diz respeito, não é
altura nem para a arqueologia do saber nem para a respectiva cartografia. Só a
depredação é possível.

Não se trata de saber tudo sobre o criador e o seu procedimento; nem de procurar a
verdade atrás da obra. Tomando por modelo a escuta do psicanalista, pretendería~
mos prestarmuita atenção @ao que a obra manifesta e que hábitos socioculturais
tornam às vezes dificilmente per-

236
ceptivel. Através desta atitude, o próprio estatuto da obra deverá iluminar-se:
revelem o que revelarem um texto ou uma pintura, revelam-se ao mesmo tempo a
si mesmos.

IMPORTÃNCIA DA NOÇÃO DE DESVIO

Uma primeira incursão permite ligar o acesso analítico às obras de arte com uma
sábia prática do desvio. Em Estética, a linha recta, longe de ser o mais curto
caminho entre dois pontos, surge como a via real do desconhecimento. É preciso
seduzir a obra, deixar-se seduzir, exaltar por ela. Não se poderia ler Proust como
Kennedy lia o jornal; o desvario, as distracções em que a obra nos lança, fazem
parte dela mesma. Não há ponto capital da obra. 0 que nos mostram claramente,
por exemplo, um filme como o de Resnais 0 último Ano em Marienbad e as
reoordações pcÊsoais @(ou os fantasmas: do mesmo modo que os heróis, Já não
sabemos) que induz em cada um de nós. Assim, uma das características da
percepção estética parece ser decerto a sua ambivalência. Ela constitui a união dos
contrários. Éao mesmo tempo passividade e,actividade; e, deste ponto de vista,
encontra nas formas artísticas figuras emblemáticas: por exemplo, na dansa hindu,
em que os gestos da parte direita do corpo da dançarina são actos masculinos,
atribuídos ao príncipe dos demónios, e os da parte esquerda são atitudes femininas.
Por outro lado, a percepção estética une a observação, a construção e o devaneio;
obriga sucessivamente o sujeito a desoentrar-se e o objecto percebido não só a
entrar no mundo do sujeito, mas também a tornar-se num lugar onde este projecta
os seus desejos: sucessiva e, às vezes, simultaneamente. Ela é, ao mesmo tempo,
um momento de concentração intensa sobre si e sobre o objecto e um momento de
distracção absoluta, de alucinação, em que perdemos o universo percebido e onde
«eu» me torno «um outro». Empregando uma formulação de Jacques Lacan, talvez
pudéssemos dizer que a obra de arte constitui eminentemente para o espectador o
discurso do outro. Um outro fala: o produtor, que, por seu lado, na escrita ou no
campo plástico, se diferencia do seu ego quotidiano, -a ponto de não se reconhecer
à s vezes nos objectos produzidos. 0 produtor da obra é, para nós, um outro cuja
própria práxis é experiên-

‘237
cia da sua alteridade relativamente ao seu* ego quotidiano.
0 discurso do outro motiva cada um de nós a fazer ressoar nele os ecos do seu
próprio inconsciente.

Não é certamente por acaso se os Écrits de Lacan abrem com um texto consagrado
ao conto de Poe traduzido por Baudelaire sob o título de La Lettre volée. Apesar da
diacronia da sequência dos textos escritos por Lacan, ele escolheu fazer do
Séniinaire sur Ia Lettre volée simultaneamente uma propedêutica à sua reflexão e
«uma plataforma para o (seu) estilo». Cada qual relerá, através de Lacan, o conto de
Poe. Ver-se-á, talvez, na aventura desta carta a aventura de qualquer literatura
seriamente lida. Lacan põe em relevo a noção de desvio no interior do texto.
Quando Dupin, num alarde de erudição (desvio em torno da própria noção de
desvio), lembra que «ambitus não significa ambição, religio religião, homines
honesti as pessoas honestas», faz-nos compreender as palavras mestras do nosso
drama». Particularmente, Lacan insiste sobre o ambitus, o -desvio. Retoma o título
inglês do conto, The Purloined Letter, e mostra as conexões entre as noções de
desvio, de sofrimento e (conforme o indicam as duas cenas sucessivas do conto) de
repetição: «É assim que nos encontramos confirmados no nosso desvio pelo objecto
que nos conduz aí: pois é inteiramente a carta desviada que nos ocupa, aquela cujo
trajecto foi prolongado (é literalmente a palavra em inglês) ou, para recorrer ao
vocabulário postal, a ~a extraviada.» Estes desvios, estas subtracções da carta (que
são também subtracções do leitor, eterno mineiro, pela carta) nascem, no conto, de
um jogo do visível edo invisível, da cegueira e do olhar. Lacan, a este propósito,
dará a imagem divertida da política do avestruz, que resume as cenas repetidas do
conto de Poe: «0 primeiro (tempo) é de um olhar que não vê nada: é o rei e (a
Polícia. 0 segundo de um olhar que vê que o primeiro nada vê e se engana ao julgar
que tapa o que quer esconder: é a rainha, depois o ministro.
0 terceiro dequem vê que estes dois olhares deixam a descoberto o que seria de
esconder, e para quem disso se quiser apoderar: é o ministro e, enfim, Dupin. ( ... A
técnica do avestruz) mereceria, finalmente, ser qualificada de política, a repartir
aqui entre três parceiros, o segundo dos quais julgando-se revestido de
invisibilidade pelo facto de o primeiro ter a cabeça enterrada na areia, todavia

239
deixando um terceiro depenar-lhe tranquilamente o traseiro.»

Complexidade da percepção estética; jogo do visível e do invisível; jogo do texto


actualmente lido e do que o grupo Tel Quel chama a intertextualidade (os outros
textos presentes/ausentes que permitem lê-lo); necessidade de desvios diversos
para produzir, perceber a obra e para a fruir: todos estes caracteres relacionam a
experiência do produtor (e do consumidor) de arte e o que o psicanalista encontra
na prática da cura. Muito diferentemente que Lacan, Merleau-Ponty (Le Visible et
I'Invisible) mostra os complexos entrelaçamentos do visível e do invisível na obra
estética: «0 invisível é a contrapartida secreta do visível (... ). Ver é sempre ver mais
do que não se vê
0 sensível, o visível, deve ser para mim a ocasião de dizer o que é o nada. 0 nada
não é mais (nem menos) que o invisível.» Estes entrelaçamentos de ser e de não-
ser, este tecido constituído do visível e de invisível, únicos de inumeráveis desvios,
permitem apreendê-lo verdadeiramente e de ter gosto nisso; não se trata de
destruir o tecido separando os fios, mas de ler o que Henry James, no título de uma
das suas novelas, chama a Imagem no tapete. Merleau-Ponty, cujas ricas e
complexas relações com a reflexão freudiana foram demonstradas pelo psicanalista
A. Green (Critique, Dezembro de 1964), determina deste modo o sentido do desvio
face à obra. Cumpre adoptar uma atenção desviada e desviante, que oblique em
redor da obra, que derive. Muitas vezes, a arte marca nas formas que estabelece a
«démarche» que faculta a elaboração da obra. Designa então, ao mesmo tempo, a
«démarche» que permite ao leitor, ao espectador, de retomar a obra. Por
conseguinte, talvez se explique a frequência do tema do desvio na arte.
Encontrámos já o mesmo tema em A Carta Roubada, de Poe. 0 tema da viagem em
que um indivíduo se perde, em que vagueia, é constante em literatura: os meandros
aberrantes da Odisseia; deambulações de Quixote; passeios de Bloom no Ulisses de
Joyce; trajectos dos heróis de Robbe-Grillet, de uma enganosa circularidade;
percursos tortuosos através dos tempos e dos lugares que constituem, conforme
Michel Serres (Hermes ou a Comunicação), os romances de Júlio Verne;
peregrinações forçadas ou voluntárias dos romances de ficção científica.
0 herói assassino de Biély calcorreia São Petersburgo.

239
Os percursos desvairados de G. de Nervá1 através -de Paris (Aurélia, Les
Nults dIoctobre) transformam a cidade num espaço fantástico onde se
recorda o complexo caminhar de um indivíduo expulso dele próprio, onde se
antecipam os caminhos da leitura. As vezes, estes percursos, em que os
heróis «rondam» em volta de um centro ausente ou que se oculta, tomam
um sentido místico, teológico ou ateológico. Desta maneira, em 0 Fim de
Satã, de Vítor Hugo, Barrabás vagueia na noite até ao momento em que vai
de encontro ao pé da cruz. Claudel f az do Soulter de satin uma espécie de
Odisseia cristã cuja epígrafe constitui a apologia religiosa do desvio: Deus
escreve direito por linhas tortas. No fim de L1HIstoire de Voeil, as
deam,bulações de Simone, de Sir Edmund e do n-arrador através -de
Espanha parecem dever prolongar-se pelo Mundo inteiro; Georges Bataille
conclui da seguinte maneira a parte redigida do livro: «Deixámos assim, sem
fim, a Andaluzia, região amarela de terra e de céu, infinita bacia inundada de
luz, onde cada dia eu, novo personagem, violiavauma nova Simone, e
sobretudo pelo meio-dia, sobre o solo, ao sol, sob os olhares vennelhos de Sír
Edmund. No quarto dia, o inglês comprou um iate em Gibraltar.»

LABIRINTOS

0 tema do desvio tem a sua expressão mais pura nas obras de J.-L. Borgès que são
descrição e reflexão do labirinto. Não é de modo nenhum surpreendente que, em La
Bibliothèque de Babel, este labirinto seja o dos livros que remetem uns para os
outros. Recorde-se a frequência das representações plásticas de labirintos, por
exemplo no tempo da Renascença, e a persistência do tema até aos labirintos
propostos por alguns criadores de ambiente e aos que se podem decifrar no
Hourloupe de Dubuffet. A revista The SituationIst Times (n.o 4) publicou, em
Outubro de 1963, uma importante documentação sobre os labirintos. Nela se vêem,
por exemplo, entre 430 ilustrações, os labirintos das moedas de Cnosso; os traçados
em
1664 por G.-A. Boeckler; o da catedral de Sens; o plano do «labirinto de Versalhes»;
aquele cujo centro é um centauro, gravado numa gema antiga. No labirinto dos
espe-

240
lhos, Charles Chaplin (0 Circo), multiplicado, corre à procura da sua própria
identidade. Sempre atraído por este gênero de paralelos, o psicanalista aperceber-
se-á de que as circunvoluções cerebrais mostram-se sob a forma de um labirinto.
Comprovará também que, de um ângulo inesperado, um corpo feminino se
abandona num labirinto absorvente, fascina e subtrai-se ao olhar; igualmente, a
carícia, no seu percurso incerto, nunca sabe o que contorna e excita: cada qual
simultaneamente se perde e se encontra, perde e encontra outrem em cada
«recôndito» que sensibiliza e, como escrevia Serge Leclaire, em que põe o sinal de
uma missiva. Vida e morte constituem o mesmo labirinto; pulsão de morte e Eros
são inseparáveis; The Situationist Timescita um texto de Henri Michaux:

«Labyrinthe, Ia vie, labyrinthe, Ia mort, «Labyrinthe sans fin, dit le Maitre de Ho ... »
0 poeta Jabès (que cita Derrida, L'Écriture et Ia Différence) liga, quanto a ele, o livro,
a morte e o labirinto: « 0 livro é o labirinto. Crês sair dele, mais nele te afundas. Não
tens nenhuma possibilidade de fugir. Precisas de destruir a obra, não podes
encontrar nela uma solução. Eu noto o lento mas seguro crescendo da tua angústia.
Muro após muro. Quem te espera no final? Ninguém... 0 teu nome enroscou-se
sobre si mesmo, como a mão sobre a arma branca.» Jabès e Borgès convergem.

A investigação, aquela que, por exemplo, se desenvolve em alguns romances


policiais, é evidentemente um caminhar no labirinto: labirinto povoado, muitas
vezes, como num texto de Sade, de vítimas e de carrascos; labirinto em que o fio de
Ariana é às vezes um rosário de cadáveres. A descoberta da verdade passa, em
Chase por exemplo, pela embaraçosa descoberta dos desejos: desejo do criminoso,
desejo das vítimas, desejo inconfessado do investigador. Les Gommes, de Robbe-
Grillet, retoma não somente o esquema do romance policial mas determina as
respectivas implicações. Curiosamente, o romance policial surge como um modelo
ideal para a literatura e comparável à evolução da cura psicanalítica. A descoberta
por Édipo, na tragédia de Só focles, do seu parricídio e incesto tem sido
frequentemente comparado a uma investigação policial; ora, como diz Freud, numa
fórmula bem conhecida: «Compreende-se, apesar de todas as imposições racionais
que se opõem à hipótese de uma inexorável

16 241
fatalidade, oefeito impressionante de Rei Édipo... A lenda grega colheu uma
compulsão que todos reconhecem porque todos a sentiram. Cada ouvinte foi um
dia, em germe, em imaginação, um Édipo e apavora-se perante a realização do seu
sonho transposto na realidade, estremece seguindo toda a medida do recalcamento
que separa o seu estado infantil do estado actual.» (Carta de 15 de Outubro de 1897
ia Fliess.) Na sua descoberta fundamental, o nascimento da Psicanálise apresenta-
se, então, como resultante de uma emoção face a uma obra de arte e como uma
retomada reflexiva desta emoção.

Convém, decerto, voltar ao problema de Édipo e ao que ele implica para a arte;
fixemos provisoriamente que o indivíduo que vive a sua psicanálise é o espectador
da própria tragédia e o investigador em perseguição do seu próprio crime.
Contrariamente às vistas psicologizantes que transformam a Psicanálise numa peça
de Bernstein, impõe-se antes olhá-la como um romance de Raymond Chandler, -de
Dashiel Hammett, ou (sobretudo) @e Jim Thompson (1275 Ames). Apreende-se aqui
a cura como percurso.

0 caminhar tortuoso da análise só pode encontrar a verdade, cujo carácter


dissimulado, enganador, foi demonstrado numa brilhante prosopopeia por Lacan:
«Eu sou, pois, para vós o enigma daquela que se oculta mal aparece, homens, que
tanto vos prestais a me dissimular sob os ouripéis das vossas conveniências ( ... ).
Eu, a verd ade, falo (... ). Eu serei, eu, a verdade, contra vós a grande enganadora,
visto que não é somente pela falsidade que passam as minhas vias, mas pela fenda
demasiado estreita a encontrar em lugar da dissimulação e pela nuvem sem acesso
do sonho, pela fascinação sem motivo do medíocre e pelo impasse sedutor do
absurdo ( ... ). Entrai na liça ao meu apelo e gritai à minha voz. Eis-vos já perdidos,
eu me -desminto, desafio-vos, esquivo-me: vás dizeis que me defendo.» Isolemos
uma das maneiras que a verdade tem de se esquivar: «a fascinação sem motivo do
medíocre»; o estético não pode deixar de pensar na derrisória Odisseia intelectual
que constitui Bouvard et Pécuchet, de Flaubert. Quando o herói romanesco se
perde, quando a obra de arte confessa (com uma necessária ambiguidade) os seus
caracteres equívocos, a verdade é ai defendida e revelada: como nos sonhos, como
nos lapsos, como na neurose,

242
como no discurso e no sofrimento do indivíduo deitado no divã.

A ANÁLISE EXEMPLAR DO MOISÉS DE MIGUEL ÃNGELO

Tivemos o desvio como tema estético. Surge na arte simultaneamente como o


vestígio dos actos do produtor de arte e como uma maneira de induzir no
espectador/leitor uma certa atitude, inversa da certeza, da fé. 0 tema do desvio na
arte indica o perigo de uma atitude religiosa perante a arte, de uma religião da arte.

A leitura dos textos estéticos de Freud faz agora aparecer o desvio como método
crítico. Quase todos os textos freudianos ligam a descoberta aos desvios. Citemos,
no Tema dos Três Cofres: «Tenhamos a coragem de prosseguir neste sentido e
entraremos numa via que, levando-nos mesmo a encontrar primeiramente o
imprevisto

e o incompreensível, talvez nos conduza por desvios a qualquer fim.» Aliás, o


psicanalista situa-se sem dificuldade paralelamente à estética tradicional. Deita
sobre o domínio artístico um olhar de lado, semelhante ao que permite ler os
curiosos jogos perspectivos estudados por Baltrusaitis e que se chamam
anamorfoses. Este olhar de lado é também um olhar paralelo, um olhar falhado (no
-sentido em que Freud fala dos actos falhados, a propósito de lapsos); só o olhar
falhado, este injustificável desvio, permite a verdadeira visão, o justo juízo. Em Das
Unheiniliche (A Inquietante Estranheza), Freud designa com uma modéstia
simulada: «(0 psicanalista) é, todavia, levado a interessar-se às vezes por um
domínio particular da Estética, e geralmente, nesse campo, é então ele quem se
encontra «de lado» e des-curado pela liteTatura estética propriamente dita.» 0
«ponto de vista» aberrante é a origem e a justificação de todo o desvio.

A admirável análisedo Moisés de Miguel Ângelo pode ser considerada como uma
série de desvios. Apoia-se no efeito provocado pela obra no analista; este efeito é
um afecto violento: o desejo do psicanalista face à obra, misturado de angústia,
formula-se e constitui o «pivot» do trabalho crítico. 0 texto começa com uma
confissão estética: «As obras estéticas provocam em mim uma impressão

243
forte (... ). A estátua de mármore de Moisés ( ... ) é também uma destas obras de
arte enigmáticas e grandiosas.» A obra de arte é enigma, análogo ao que a Esfinge
põe a Édipo e que forma o primeiro passo, quanto a ele, para a descoberta da
verdade. «Nunca», sublinha Freud, «nenhuma escultura originou em mim impressão
mais poderosa ( ... ). Procurei sempre não fraquejar sob o olhar irado e desdenhoso
do herói. Porém, às vezes, escapava--me prudentemente para fora da penumbra da
nave como se eu mesmo pertencesse à gentalha incapaz de fidelidade às próprias
convicções»; a estátua coloca Freud no âmago dos seus problemas religiosos
relacionados com a imacrem do pai judeu: justamente, Catherine Backès (revista
L'Àrc, n.o 34, consagrado a Freud) definiu a obra freudiana como a de um judeu
infiel: «Judeu, isto é, marcado com o selo da mais pregnante das religiões; infiel, ou
seja, historiador das suas próprias origens, e, com isso, desconstrutor.»
0 afecto permite que Freud se identifique com a gentalha desprezada por Moisés: a
obra obriga o espectador a entrar no contexto da cena figurada; consuma-se uma
transgressão, limitada e controlada: o indivíduo nã o é já absolutamente ele mesmo,
já não vive inteiramente na sua época.

0 afecto sentido deve, segundo Freud, ser explicado, não para ser abolido mas para
ser vivido sem demasiado conflito: «Uma disposição racionalista, ou talvez analítica,
luta em mim contra a emoção quando eu não posso saber porque me comovo nem
o que me constrange». A investigação estética faculta a harmonia entre a
sensibilidade e a razão.

0 primeiro desvio verificado neste propósito consiste em estudar os efeitos da obra


sobre os espectadores, as acções que exerce sobre eles. A emoção por mim sentida
remete-me aos discursos dos outros relacionados com o que me afecta.
Encontramos o elo entre o inconsciente e o discurso de outrem. Freud não faz
Psicologia Experimental, ele próprio não interroga os indivíduos. A sua pesquisa tem
por objecto o discurso dos críticos precedentes da obra de arte: Henri Thode, H.
Grimm, W. Lübke, Springer, Müntz, J. Burkhardt, Guillaume, Wõlfflin, C. Justi, etc.
Freud coloca-se em posição de escuta. Rejeitando o mito de um regresso directo a
uma obra virgem, ele ouve a palavra dos críticos e dos historiadores de arte.

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Todavia, destas traduções da figura (em palavras), destas interpretações, Freud,
que as colecciona, não aguarda uni saber: antes um não-saber, aquilo a que Nicolau
de Cusa chamou uma douta ignorância; não se trata de responder, de fechar a obra
sobre si, mas de melhor a submeter ao seu inquérito. Como fará Butor (Répertoire
III) a partir de um quadro de Caravage, Freud coloca em plena luz as contradições
entre os textos; comparando a obra com

as suas descrições, esclarece as percepções «falhadas» de certos críticos. 0 erro ou


o palavreado dissimulam e designam ao mesmo tempo os lugares em que a
perturbação do crítico se torna maior, em que ele recusa inconscientemente
compreender, perceber. A comparação dos textos críticos, as suas dissonâncias,
mostram as fissuras no interior de discursos que se apresentavam como plenos,
coerentes, certos de eles mesmos.

A partir daí, um novo desvio se verifica. Aos olhares absolutos que supunham
centrar-se sobre Moisés, dar-nos dele ao mesmo tempo o essencial e a totalidade,
Freud substitui um olhar que se prende nos pormenores: um olhar em que se dá
simultaneamente o descentramento de quem olha e o do objecto olhado. Aqui,
adopta por guia um médico~crítico de arte: Morelli-Lermolieff (por volta de 1875).
Pelo seu olhar «de lado», Morelli distinguia os originais das cópias e «reconstruía,
com as obras deste modo libertas das suas atribuições primitivas, novas
individualidades artísticas». Freud, para quem, conforme o demonstrou Catherine
Backè s, a prática da construção é essencial, compara muito naturalmente a
atenção descentrada do crítico e a respectiva construção de modelos rigorosos com
a actividade do psicanalista: «Obtêm este resultado abstraindo do efeito de
conjunto e dos grandes traços de um quadro e relevando a significação
característica de poTmenores secundários, minúcias tais como a conformação das
unhas, da extremidade das orelhas, das auréolas e de outras coisas inobservantes
que o copista despreza, mas executadas por cada artista de uma maneira que o
caracteriza.» 0 crítico, como o psicanalista, deve fugir às miragens da totalidade, às
ilusões de uma apreensão do «importante», cujas ideologias determinantes são
esquecidas. Ante o Moisés de Miguel Ãngelo, Freud fixa-se aos pormenores, e
sobretudo àqueles que os críticos mais desconheceram: o desconhecimento é í
ndice dos lugares

245
,da verdade. Estuda a posição invertida das tábuas da Lei, a situação da barba e da
mão direita.

Um terceiro desvio é então possível. Poderia dizer-se, retomando um título de J.-L.


Borgès, que a análise crítica encontra uma perfeita metáfora de si própria no
«jardim cujos carreiros se bifurcam». Este desvio consiste em reconstruir a partir
dos pormenores uma história esquecida da figura. A obra esculpida constitui um
vestígio de actos passados, de gestos perdidos. 0 olhar estético prolonga-se em
exploração: «A posição da estátua representada apenas se pode explicar pela
lembrança de um momento precedente, não representado.» A ausência aparece na
obra percebida; a gênese do gesto e dos seus malogros interfere com o gesto
figurado e, de qualquer maneira, inscreve-se nele à força. Freud faz um artista
desenhar três traçados: «0 terceiro torna a estátua tal qual a vemos; os dois outros
representam os estados preparatórios que a minha interpretação implica-o primeiro,
o do repouso; o segundo, o da mais violenta tensão: disposição de impulso,
abandono das tábuas pelas mãos e iminente queda destas.»

Estas imagens, estes fantasmas construídos e descontruídos a partir dos


pormenores da obra evocam outros. Pelo tema (que o título indica), pelo autor (cuja
história nos dá um certo conhecimento), pelo destinatário (o terrível papa Júlio II), a
obra patrocina ao analista, que nesse aspecto não insiste muito, imagens paternais,
objectos de identificação, de projecção e de angústia, lugares de ambivalência. As
figuras evocadas são as de Moisés (Moisés e o Monoteísmo), de quem mais tarde
Freud fará o pai egípcio do povo judeu, Moisés, que subordina o seu desejo à sua
missão; a de Miguel Ãngelo, que critica a sua própria impetuosidade, que utiliza
inconscientemente a sua obra como instrumento de transformação pessoal; e,
enfim, a de Júlio II, a quem Miguel Ãngelo, «arriscando-se dissimuladamente»,
censura-para além da morte, na mesma estátua que deveria honrar aquele, ornar o
seu mausoléu - a violência: homenagem e injúria ao Pai morto. Através destas três
figuras, Freud simultaneamente se encobre e se descreve. Não foi por acaso que ele
lançou primeiramente o estudo, em Fevereiro de 1914, em Iinago, de maneira
anónima. Uma nota da redacção sublinhava

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que o autor tocava «de perto nos círculos analíticos»: desvio último em volta do
próprio analista, da sua funçã o e do seu nome, que é o nome do pai.

TEATRO DA CRUELDADE

A nossa segunda razzia, a segunda incursão, andará à volta das relações que a
análise mantém com a forma teatral. Ainda aqui não se trata de descobrir um
sistema de estética psicanalítica. Mais modestamente, queremos aplicar um
processo de esclarecimento mútuo da Psicanálise e da estética teatral.

Num primeiro momento, somos levados a comprovar que as metáforas nascidas das
representações teatrais sã o frequentes tanto para evocar o que se passa na cura
como para descrever os fenômenos que a análise manifestou e nomeou.

Gilles Deleuze (Logíque du sens), para falar, de maneira sábia e sugestiva, dos
trabalhos de Mélanie Klein, não cessa de utilizar a metáfora do teatro. Evoca um
«teatro do terror de que Mélanie Klein fez inesquecível quadro e em que a criança é,
desde o primeiro ano de vida, ao mesmo tempo cena, actor e drama». Descreve o
esquema kleiniano em termos de «orientações», como se fosse possível traduzir as
conexões da criança com os seus objectos parciais (alimentos -excrementos), com o
seu próprio corpo despedaçado e o corpo retalhado da mãe em termos de
«encenação»: os movimentos dos objectos determinam vias, inscrevem caminhos
na imagem do corpo, assim como se traçam sinais no espaço cénico graças aos
actores. Um texto de Antonin Artaud entra em consonância com as psicanálises
descritas @por Mélanie Klein: «0 teatro não poderá vir a ser ele mesmo, isto é,
constituir um meio de ilusão verdadeira, a não ser que ofereça ao espectador
precipitados verídicos de sonhos em que o seu gosto pelo crime, as obsessões
eróticas, a selvajaria, as quimeras, o sentido utópico da vida e das coisas, o seu
próprio canibalismo, se aliviam, num plano não suposto e ilusório, mas interior.»
Mélanie Klein foi sensível à dimensão dramática do mundo da criança tal como a
encontra nas análises. Estuda L'Enfant et les sortilèges, de Ravel, e mostra como os
objectos, acometidos, depois agres-

247
sivos, representam ora elementos do corpo paternal e do corpo maternal, ora a
totalidade de cada um dos corpos, ora ainda a uníão-indissolúvel para a criança que
odeie esta unidade-dos dois corpos num inquietante coito.

Este fantasma do coito parental remete seguramente à noção de cena primitiva,


que Laplanche e Pontalis (Vocabulário da Psicanálise) preferem chamar cena
originária (Urszene). 0 termo de Urszenen aparece num manuscrito de Freud de
1897 para conotar certas experiências infantis traumatizantes organizadas em
cenários, em cenas, sem que então se tratasse, mais especialmente, do coito
parental. Em 0 Homem dos Lobos (1918), a observação deste coito torna-se na cena
originária. A partir deste caso, Freud utiliza vários elementos: o coito é
compreendido pela criança como uma agressão pelo pai na sua relação sado-
masoquista; provoca uma excitação sexual na criança ao mesmo tempo que fornece
um suporte à angústia de castração; é interpreiado no quadro de urna teoria sexual
infantil como coito anal. Laplanche e Pontalis interrogam-se sobre se é necessário
ver nesta cena a recordação de um acontecimento efectivamente vivido pelo
indivíduo ou um puro fantasma. Observam que as respostas de Freud, embora
variáveis, localizam-se entre dois limites: na primeira redacção de 0 Homem dos
Lobos (1914), em que Freud faz empenho em provar a realidade da cena originária,
ele já acentua o facto de ser apenas muito tarde (nachtrãglich) que a criança a
compreende e interpreta; e, inversamente, quando sublinha o que integra de
fantasmas retroactivos (Zurückphantasieren), sustenta que o real forneceu pelo
menos índices (ruídos, icoito animal, etc.). No artigo «Fantasma Originário,
Fantasmas das Origens, Origem do Fantasma» (Temps modernes, Abril de 1964),
Laplanche e Pontalis, após reflexão sobre estas cenas, remetem ao filósofo a
questão de «saber quem assina a encenação».

De uma maneira geral, as noções de cenário e de cena intervêm para definir o


conjunto dos fantasmas. Segundo Laplanche e Pontalis, o fantasma é um cenário
imaginário em que o indivíduo está presente e que figura -de modo mais ou menos
deformado pelos processos defensivos - a realização de um desejo e, em última
instância, de um desejo inconsciente. São «cenas organizadas, susceptíveis de
serem dramatizadas sob uma fonna quase sempre vi-

248
sual»; o sujeito, paradoxalmente, é ao mesmo tempo actor na cena e espectador
excluído. Nesta encenação do desejo, co interdito está sempre presente na própria
posição do desejo». 0 desejo revela-se encenador dele mesmo. Um exemplo
privilegiado pode ser dado a partir dos fantasmas sadianos. Roland Barthes indica
(Tel Quel, n.o 28, Inverno
1967) que o fantasma de Sade tem um dos seus modelos na representação teatral:
«A ‘cena’ (composição de figuras) é teatral; quando uma orgia pode ser feita num
lugar previamente arranjado, este é sempre em semicírculo, compreende uma
frente de figuras e um espaço donde é observada. Todavia, este teatro é imóvel:
constitui, antes, uma sequência de quadros vivos (’Mudemos, variemos tudo isso’);
aí, o modelo constante é a composição pictural.» Nestes fantasmas tais como Sade
os descreve, muitos costumes são costumes de teatro; algozes e vítimas são actores
que, para a maioria das cenas, têm de ser em maior número possível e adoptar as
«posturas» mais variadas. A ordem, nos fantasmas de Sade, é uma ordem teatral, e
Roland Barthes faz citações edificantes: «Dispor o grupo»; «compor em três cenas
um acto libidinoso»; «a cena move-se»; «o quadro prepara-se».

CORTINAS E MÁSCARAS

Para o analista, o espectáculo dramático, na sua forma própria, não deixa de dar
que pensar em cada um dos respectivos pormenores. Uma reflexão sobre o pano de
boca dos teatros somente na aparência é paradoxal: um elemento material que à
primeira vista parece acessório torna-se, para a interpretação analítica, o ponto de
partida de ricas e surpreendentes associações. 0 pano de boca é, por exemplo,
associado por uma cliente do Dr. Dorey aos cortinados que envolvem o berço,
protegem-no e, simultaneamente, limitam a vista do bebé; enquadramento da cena
primitiva; maneira de aí esconder o essencial: ouvem-se ruídos como «em
bastidor», en<@uanto, rodeados de cortinados, uma parede branca, ou alguns
móveis, ou partes de corpos se deixam entrever: este doente, depois de ter visto
nos seus sonhos dois objectos no primeiro instante inomináveis, reconhece neles as
cortinas do seu berço. Os panos de boca evocam também o hímen da

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virgem e acham-se assim ligados ao que Freud estudou sob o nome de tabu da
virgindade (1917). Na perfeita edição francesa (1546) do Sonho de Poliffio, de
Francesco Colonna,no fim do livro primeiro, a fonte de Vé nus é fechada por uma
«cortina»; esta cortina apresenta qua~ tro letras gregas «faictes en borderie»:
YMHN. A fim de «romper» esta cortina, Cupido oferece uma flecha de ouro
primeiramente à heroína, que se perturba, depois ao herói, que rompe «la belle
cortine ( ... ), estant pressé par un ardant désir et affection aveugle de veoir Ia
déess-e Venus»; e «en cet instant me sembla que je vey Polia (a heroína) changer
de coleur». Curiosamente, o texto associa a virgindade ao parto e define o hímen
(que designa a cortina) como «la petit peau. dont 1'enfant est entortillé dedans le
ventre de sã mère». Esta passagem de Colonna (que será nomeado, cerca de 1500,
sacristão do seu convento) surge numa surpreendente convergência com um outro
material clínico, também fornecido pelo Dr. Dorey. No interior de uma estrutura
perversa, ele encontra simultaneamente, através -do discurso do sujeito, o fantasma
de «ter nascido empelicado», coberto de um véu que o elege e lhe limita o olhar;
o sentimento de uma vocação eclesiástica e a adopção de atitudes de estilo
clerical; o respeito, durante vários anos, pela virgindade da esposa.

A livre associação que liga o pano de boca ao acto de despir, a desnudar-se, talvez
não esteja muito afastada dos sonhos de desfloração. Para o escoptofílico que é o
espectador de teatro, o pano que se levanta ou se afasta -constitui o primeiro dos
véus de que a descamisadora se despoja: véu cujo desaparecimento permite
esperar a abolição de todos os outros. Sabe-se como a necrofilia pode estar no
horizonte deste gosto de desnudar-se; aqui o desejo -erótico acha-se penetrado
pelas pulsões de morte. Desta escoptofilia necrofílica daremos três exemplos
diferentes. 0 primeiro encontra-se no gosto dos escorchados que persistiudo século
XVI ao século XVIII; em Au coeur du fantastique, Roger Caillois oferece-nos várias
destas alucinantes representações. Um segundo exemplo aparece numa canção
recente interpretada por Brigitte Fontaine: «Com carnesé muto fácil; é vulgar e
indecoroso ( ... ). Eu quero que me amem pelos meus ossos; eu quero que os
homens suspirem como cães sentimentais.» De maneira

250
mais brutal, a Juliette de Sade dizia à sua amiga Clairwil: «Dispamo-nos; os
deboches da volúpia apenas são bons quando se está nu; nada vejo em ti, e quero
ver tudo; desembaracemo-nos destes panos inoportunos; não serão já demasiados
os da Natureza? Ah!, quando te provoco arrebatamentos como quereria ver palpitar
o teu coração! » Nos romances de Sade, em particular em Les Cent vingt journées
de Sodome, muitas desnudações acabam em atrozes vivíssecações. Senão nos seus
actos, pelo menos nos seus fantasmas, alguns -escoptofílicos são cruéis; e do
mesmo modo alguns exibicionistas (-ef. a canção de Brigitte Fontaine). Para eles, o
acto de (se) despir continuar-se-ia facilmente pelo de (se) escorchar, de (se)
despedaçar, de (se) desmembrar.

Estas associações (e outras ainda, sem dúvida possíveis) explicam a frequência do


tema da cortina que se abre ou se fecha em certos pintores, familiares dos seus
próprios fantasmas. Vê-se isso nos quadros mórbidos e fascinantes de Füssli. Em 0
Quarto (1952-54) de Balthus, uma figura feminina perversa segura uma cortina;
uma adolescente, as pernas afastadas, está adormecida, nua, descoberta ao
escoptofílico pela cortina levantada; o poeta Y-ves Bonnefoy, que -comenta o
quadro, interpreta o ,pequeno monstro de que não sabe se fecha ou se abre a
cortina como uma -das faces do destino. Em Entreacto (1927) de Magritte, monstros
mutilados, incompletos, formados de um braço e de uma perna humanos, mostram-
se em cena atrás de uma cortina semipuxada; a sala parece constituída por uma
espécie de montanha rodeada de um céu nebuloso: uma cena que os actores
tornam estranha é vista dos bastidores e antecipa uma impossível sala de
espectáculo. Uma outra obra de Magritte, As Memórias de Um Santo (1960), é mais
difícil de descrever: uma superfície vertical a um plano apresenta-se semienrolada;
ela determina no plano uma cena vazia enquadrada de cortinas; com efeito, a parte
visível de uma das f aces da superfície forma uma cortina (ou é pintada como tal); a
outra face mostra uma vista: um mar e um céu nebuloso. Tal obra confronta-nos
com problemas análogos aos que instaura a banda de Moebius, cara a Lacan; ela
submete à prova as nossas distinções entre o direito e o avesso, o interior e o
exterior. Então, o teatro (pintado) torna-se um lugar vazio em que o espectáculo
dado é constituído pela

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vista e pela cortina; uma folha (talvez de papel, em todo o caso sem espessura) é
pregueada no verso e plana no rosto; uma paisagem parece abrir a tela, porém uma
prega da folha revela-nos que esta suposta profundidade é um efeito de superfície.

Uma reflexão sobre a máscara é inseparável de uma reflexão sobre o teatro:


máscaras da tragédia grega, máscaras, dos teatros do Extremo Oriente. 0 teatro
actual efectua um regresso às origens -do teatro, singularmente parralelo ao retorno
a Freud dentro da Psicanálise, ao retorno aos mitos na reflexão teórica (de maneira
diferente, em RicoQur e Lévi-Strauss): regresso às origens, que nunca serão
alcançadas. 0 pensamento remete para os mitos enquanto a acção dramática
remete para os ritos, «de que o teatro», escreve A. Artaud, «apenas é um reflexo».
Neste retorno próprio do teatro, a máscara ressurge: por exemplo, há alguns anos,
numa encenação do Cerele de crale caucasien, de Brecht; em Maio de 1969, no
Teatro da Cidade Universitária, nos espectáculos da companhia americana Bread
and Puppet Theater. Qualquer reflexão sobre a máscara pode encontrar apoio na
teoria analítica; reciprocamente, a prática- duradoira no homem-da máscara e a
fascinação que ela exerce sobre nós parecem comprovar a exactidão da teoria. 0
psicanalista Olivier Mannoni analisou subtilmente os efeitos da máscara em Le
Théâtre du point de vue de Fimaginaire (La PsychanaIyse, n.o 5, 1959). De acordo
com ele, «uma máscara de lobo não nos provoca medo à maneira do lobo, mas à da
imagem do lobo que temos em nós ( ... ). (A) ilusão no teatro nunca é a nossa,
mas sempre bizarramente a de um outro espectador que não sabemos onde situar.»
Em Un autre monde, de 14. Grandville (1884), que constitui em particular uma
reflexão irónica sobre o teatro, toda uma filosofia da máscara se elabora. A máscara
dissimula o manifesta a verdade do indivíduo: «Põe a máscara e dir-te-ei quem és
( ... ). A máscara será doravante uma verdade.» A divisão, a clivagem (Ichspaltung)
tem no porte da máscara uma ilustração e uma manifestação aproximativas: «0
homem julga-se um e é sempre dois.» Ligada à festa e ao teatro, a máscara,
conforme escreve o historia,dor de ;arte André Chastel (catálogo da exposição Le
Masque, Dezembro de 1959-Setembro de 1960), «autoriza tudo o que for
normalmente interdito»: deixando de

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poder ser reconhecido (pelos outros e, consequentemente, deixando, em qualquer
dos casos, de ser eu mesmo), deixo de obedecer a uma censura, a uma moral. A
agressividade, o erotismo, são então passíveis de desencadeamento: o homem
mascarado mata; há ainidia pouco tempo, na festa de Domingo da Candelária, em
Arles-sux-Tech (Vallespir), a máscara do urso ofereceu à multidão um simulacro de
estupro.

A relacionação de uma práxis teatral e da teoria psica~ nalítica faculta muitos


outros desenvolvimentos, estilos diferentes, às vezes mesmo divergentes. Didier
Anzieu (Le Psychodrame analytique chez Penfant) coloca-se na confluência das
reflexões de Moreno e das de Freud.
0 teatro torna-se um meio psicoterapêutico. A noção do papel permite uma melhor
definição do indivíduo. Algumas técnicas (uso, por exemplo, de uma personagem
auxiliar que explica ao doente como os outros o vêem) podem encetar uma
pesquisa sobre o espelho e o duplo. 0 jogo dramático, tal qual o instaura a
intervenção dos «psicodramatistas», transforma-se numa prática no interior da qual
o indivíduo passa dos logros do imaginário à ordem simbólica e põe os desejos à
prova da realidade, «simultaneamente representada pelas personagens auxiliares e
pela capacidade de assumir efectivamente o papel anunciado». A reflexão de
Anzieu insiste no aspecto terapêutico que o teatro é susceptível de possuir: introduz
assim na problemática uma dimensão difícil de conceptualizar.

Em Le Souffleur, de Pierre Klossowski, junta-se uma reflexão sobre o teatro, um


percurso ao mesmo tempo teológico e erótico, uma estranha e aberrante
psicanálise feita pelo curioso dr. Ygdrasil; o -romance constitui simultaneamente um
jogo de damas, em que fas damas são empalmadas (isto é, tiradas, roubadas,
raptadas), e um jogo dramático -em <iue a Dalavra é apontada (isto é, dada do
exterior). A escrita criadora vem explorar a teatralidade da nossa existência; o que
Klossowski escreve a propósito de Virgílio, é aplicável a ele próprio: «0 poema épico
de Virgílio é, com efeito, um teatro em que são as palavras que mimam os gestos e
o estado de alma das personagens.» Gilles Deleuze (Logique du sens) convida-nos a
pensar conjuntamente a compulsão à repetição (Wiederholungswang) de que Freud
fala e as repetições teatrais que Klossowski descreve. Deleuze interpreta a obra
deste úl-

253
tinio como uma «pantomima», operação do corpo; esta pantomima figura um
encadeamento de silogismos: o teatro, a lógica, a teologia, a exploração dos desejos
mais confusos, mais perturbantes, mais equívocos, convergem. Klossowski acentua
estas convergências em Roberte, ce soir ao designar os órgãos sexuais ou algumas
das suas partes «privilegiadas» por noções como o quidest, o utruinsit, o sedeontra.

Un Ocil en trop, livro de André Green, vê igualmente o teatro, e particularmente o


teatro trágico, como uma relação complexa entre dois sistemas de representação; o
sistema de representação da escrita unicamente pode seguir a via «da
representação do não-representado na representação»; para ele, «qualquer leitura
nã o é susceptível de ser nem a da representação nem a do texto, mas a de um
texto em representação». Este livro (o melhor, sem dúvida, que um analista rigoroso
já consagrou à reflexão estética) não -se deixa resumir; convém seguir atentamente
as suas demonstrações. Limitemo-nos a isolar, bastante arbitrariamente, alguns dos
seus conhecimentos. Para Green, o teatro é a melhor incarnação da outra cena que
é o inconsciente. Como o impedimento da motricidade constitui a condição do
desenrolar do sonho, assini a situação do espectador não actor permite, do outro
lado da ribalta, à ilusão teatral representar. A situação do teatro é «entre sonho e
fantasma». Perante a acção dramática, o espectador vê a sua situação de infans
face ao drama familiar quotidiano: compete-lhe interpretar, enganar-se, entrar no
mal-entendido todas as vezes que der um sentido aos gestos e às palavras de
outrem. 0 teatro é de muitas maneiras o lugar do desconhecimento: «Cada um de
nós é bem um Édipo, não somente por ter cometido o parricídio e o incesto (em
desejo, senão em acto) mas também pela nossa animosidade obstinada em negá-lo
após a infância»; no próprio momento em que vemos Édipo recusar reconhecer-se
no decorrer do seu inquérito e nos surpreendemos de tal, nesse momento
recusamos reconhecermo-nos nele. Nestas condições, Green mostra a pertinência
da observação de Aristóteles segundo a qual a família forina o espaço trágico por
excelência.

Para Green, há um «teatro segundo Freud». Este teatro, moderno, sofreu, directa ou
indirectamente, a influência da teoria analítica. Ressente-se da peste que Freud,

254
como Édipo, introduziu na cidade: «Teatro do desejo, do processo primário que
tende para a descarga (ver o papel da espontaneidade, do grito, da crise), que
ignora o tempo e o espaço (teatro da ubiquidade e da intemporalidade), que se
abstrai das exigências da lógica (teatro da contradição), e, enfim, teatro da
condensação e do deslocamento (teatro da simbolização)»; nunca o trabalho
dramático se aproximara tão explicitamente do trabalho do sonho. André Green
pretende mostrar com exemplos, analisados com rigor, a «matriz afectiva» que
constitui o espectáculo e em que o espectador é acolhido e submetido. Não se
entrega a tarefa fácil: não toma exemplos contemporâneos; estuda as faces menos
conhecidas, mais complicadas do complexo de Édipo: «Ainda que geralmente a
análise das obras de arte tenha por objecto o complexo de Édipo positivo do rapaz,
ou seja, a situação de rivalidade com o pai e de amor com a mãe, os nossos três
ensaios tomam como objecto de estudo a relação de hostilidade do filho para com a
mãe, do marido para com a mulher, do pai para com a filha»; as três demonstrações
referem-se à Oréstia de Ésquilo, ao Otelo de Shakespeare, à Ifigénia em Aulida de
Racine.

0 mais belo elogio para a reflexão de Green está, em dúvida, em Que ele introduziu-
a a partir de um romance de MossowsÉ e continuou-a pelo sempre actual manifesto
sobre o teatro da crueldade de Antonin Artaud (Premier manifeste, 1932).
Semelhantemente, Artaud tenciona despsicologizar o teatro, assim como Freud
soube tirar dos escolásticos psicologizantes o -estudo do sujeito. É preciso ver no
espectáculo o corpo, o contacto, a sensação intensa, a festa: tudo o que, conforme
Freud mostra (Das Unbehagen in der Kultur, 1930), a nossa civilização visa, com
excesso, a fazer-nos esquecer. Um teatro «grave» e violento pode «agir sobre nós à
maneira de uma terapêutica da alma cuja passagem jamais se esquecerá». Este
teatro é o da crueldade, porque «tudo o que age é uma crueldade»; Freud mostra
igualmente os laços que unem toda uma série de pares: actividade-passividade,
sadismo-masoquismo, fálico-castrado, masculino-feminino. Este teatro define-se
pela analogia do sonho e Artaud acha (sem o saber?) os temas desenvolvidos por
Rank num apêndice à A Ciência dos Sonhos de Freud (Rêve et poésie, traduzido por
I. Meyerson, P. U. F., 1950; não retomado na nova edi-

255
ção: VInterprétation des rêves, RUX., 1967). É, conforme Artaud, enquanto sonho que
se reconheça como tal que o teatro nos pode perturbar: «E o público dará crédito aos sonhos
do teatro na condição de os tomar verdadeiramente por sonhos e não por um palco da
realidade»; «não se trata de suprimir a palavra articulada, mas de dar às palavras
aproximadamente a importância que têm nos sonhos.» Artaud contesta desta maneira o
privilégio que
* real teria em provocar os afectos; Freud, no texto sobre
* Unheimliche, de modo mais variado, insiste também sobre a força do fictício, o poder do
não-real que se oferece como tal: «0 resultado que tende ao paradoxo está, pois, em que na
ficção muitas coisas não são estranhamente inquietantes como o seriam se se passassem na
vida, e em que, na ficção, existem muitos meios de suscitar efeitos de inquietante
singularidade como não existem na vida.» Para Artaud, o teatro, que ele opõe (sem razão, é
certo) ao cinema, constitui o próprio espaço em que o não-ser surge: «À visualização
grosseira do que é, o teatro opõe pela poesia as imagens do que não é.» Uma linguagem
pode então aparecer, «a meio caminho entre o gesto e o pensamento»; obriga o espectador a
um estranho corpo a corpo; Artaud escreve, como poderia fazê-lo Mossowski: «É pela pele
que se fará entrar a Metafísica nos espíritos.» É esta metafísica porventura uma
metapsicologia? 0 que o teatro de Artaud quer apresentar evoca o que Freud chama as
pulsões de morte, e mostra-as indissoluvelmente ligadas, enredadas no Eros: «Há no fogo da
vida, no apetite da vida, na impulsão não raciocinada para a vida, uma espécie de
malignidade inicial: o desejo de Eros é uma crueldade visto que destrói contingências; a
morte é crueldade, a ressurreição é crueldade, a transfiguração é crueldade ( ... ); cada vida
mais forte passa através das outras, portanto come-as num massacre que é uma
transfiguração e um bem.» Freud no texto dos Três Cofres liga o rei Lear a uma reflexão
sobre a feminidade da morte. Igualmente, o fantasma do rei trágico acompanha o teatro da
crueldade, Artaud evoca «manequins de dez metros de altura representando a barba do rei
Lear na tempestade».

256
«ESCREVER, ESCREVER: MATAR, 0 QUÊ»

A intuição de Artaud respeitante às pu@lsões de morte e a leitura do livro de


Green levam-nos a empreender uma terceira incursão na região em que a
Estética e a Psicanálise se interpenetram. Esta incursão relaciona-se com os
problemas do assassíno e, mais geralmente, da morte. A reflexão constitui
então o que Céline chamaria «bagatelas para um massacre».

Na Europa Ocidental, tudo funciona a partir do esquecimento da morte; aqui


a morte constitui o «recalcado» primordial; uma ideologia de presença, bem
descrita por J. Derrida, e que durante muito tempo formou o essencial da
civilização ocidental, desvaloriza simultaneamente a ausência, o vestígio, a
escrita e a morte. A Psicanálise marca, quer no interior das obras de arte
quer no interior da vida dos indivíduos, o retomo deste recalcado que é a
morte, o desejo de morte para os outros e para si próprio.

Ao -estudar a mitologia grega, Didier Anzieu (Oedipe avant le complexe,


Temps modernes, Outubro de 1966) faz uma surpreendente «contabilidade»;
mais de dez violências ou assassínios de um filho para com o pai; seis
violências ou assassínios de um pai para com o filho; dois parricídios
involuntários cometidos pela filha; três infanticídios cometidos pelo pai para
com a filha; dois matricídios; quatro infanticídios cometidos pela mãe para
com o filho; três fraticídios. Analisando os romances de Robbe-Grillet, Anzieu
(«0 discurso do obsessional nos romances de Robbe-Grillet», Temps
modernes, Outubro de 1965) encontrará neles o dilema do obsessional: se
ele morre, eu posso viver; se ele vive, sou um homem morto.

Quando Freud cita as obras mais grandiosas da literatura: Rei Édipo, HamIet,
Os Irmãos Karamazov, verifica que todas elas têm por objecto o parricídio.
Emocionam o espectador, que nelas encontra o próprio desejo e o
desconhecimento desse mesmo desejo. Retomando judiciosas observações
de Freud (na sua Autobiografia, de 1925, por exemplo), Emst Jones
desenvolveu em HamIet e Édipo a análise de Shakespeare; a edição francesa
do livro de Jones é precedida de um esclarecedor prefácio de Jean
Starobinski (1967).

0 livro de Green, Un Oefi eu trop, analisa, conforme já assinalámos, vários


tipos de crimes familiares, transcri-
17 257
tos pela literatura. 0 estudo de Otelo é particularmente rico e minucioso.
«Significantes marcados», cujo estatuto é inexplicável para quem não seja
psicanalista, tomam-se para ele os índices a partir dos quais constrói a sua
interpretação. Desempenham na obra-para o analista que o -escuta -o mesmo papel
que os lapsos no discurso de um indivíduo; permitem situar as falhas no texto. Em
Otelo, estes significantes marcados são o lenç o, o «clown» e o punhal dissimulado
com o qual Otelo se mata; o estudo atento da tragédia mostra que ela é « o
processo espectacular de destruição depois da sua conquista, ou pela sua
conquista, do objecto de amor, e cuja perda arrasta a do ego». Otelo acaba por se
suicidar, dando-se à morte «tal como se dera a Desdémona», identificando, na
recusa do viver entre os homens, a sua Lei e o seu Desejo. Os diversos discursos
que mantém a propósito do lenço (objecto feitiço) manifestam os laços que unem
para ele Desdé- @1ona e a sua própria mãe, a qual, deitando-se com o pai, e a
primeira «infiel» ao filho. Iago é o duplo maléfico, a «parte tenebrosa» de Otelo:
pela voz de Iago, a pulsão de morte apodera-se da maldição lançada pelo pai de
Desdémona («Ela enganou o pai, ela pode enganar-te») e dela faz o instrumento de
um mútuo aniquilamento dos amantes; a pulsão de morte acompanha a
transgressão da lei do pai. Otelo, o guerreiro, foi sempre o «funcionário» dia Morte.
Ao casar-se, «escolheu o Amor-enganando a Morte-; o Amor enganá-lo-á levando-o
a escolher a Morte».

Futuramente um movimento ser-nos-á familiar; em cada uma das nossas incursões


fomos levados a executá-lo: o movimento que nos conduz a esclarecer, pelos temas
encontrados no enunciado, o próprio acto de enunciação. Através dos significantes
que combina, o produtor de arte designa o gesto que lhe permitiu combiná-los. No
que respeita à pulsão de morte, esse mesmo movimento é possível. A pulsão de
morte, o psicanalista (Serge Leclaire em Psyehanalyser, por exemplo) observa-a no
discurso do indivíduo que sofre; mostra o seu lugar no gozo que, não por acaso,
alguns «vivem» como uma pequena morte. Para Leclaire, o gozo designa, de um
ponto de vista tópico, o zero em volta do qual se organiza o termo inconsciente. De
acordo com ele, «pela articulação da letra que é a palavra, o horizonte do gozo na
sua anulação não cessa,

258
como a beatitude na palavra de Deus, de ser prometido e recusado, concedido
somente para além da morte» . Aliás, a teoria não pode confundir simplesmente
morte e gozo, «se não quiser confundir a ordem inconsciente com a ordem
biológica». Este entrecruzamento de pulsões de morte e de Eros, o psicanalista nos
ensina a localizá-lo melhor na arte, a perceber-lhe a importância: numa gravura de
Baldung Grien, a Morte sobrevém por detrás de uma mulher e agarra-lhe os seios;
um desenho de Nicolas Manuel Deutsch mostra a Morte a meter a mão esquelética
por debaixo da saia -da mulher e apalpar-lhe o sexo desnudo; nas cidades frias,
mortas, de Delvaux, mulheres nuas e esqueletos coexistem (por exemplo, 0 Museu
Spitzner,
1943; 0 Apelo, 1944; 0 Fogo, 1945). Todavia, a morte não é somente objecto de
representação; é acondição de possibi,lidade do acto produtor de obras de arte.

Deste ponto de vista, a intuição dos poetas e a demonstração dos analistas


convergem. Henri Michaux fala: « Escrever, escrever: matar, o quê.» Com razão
Mallarmé pode considerar as suas obras como «túmulos». Desde o início da nossa
pesquisa, foi-nos possível comprovar, segundo Mauron, que a morte acompanhava
as figuras femininas de Mallariné. Conforme ele escreve numa carta a Lefébvre: «A
destruição foi a minha Beatriz»; já para Dante, aliás, a inspiradora, a guia, era
Beatriz morta. A arteconstitui a @«tentação, de que fala A. Artaud, em que a vida
tem tudo a perder». A revista Change consagrou um importante número (n.o 2, Maio
de 1969) à noção de destruição e à sua conexão com o acto produtor de obras de
arte; para esta revista, « o tempo forte da mudança de forma anuncia-se como a
destruição»; ela cita Vítor Hugo: «É aí que se muda às marteladas», e termina com
um texto de Maurice Roche, Caches, cuja primeira frase nos ameaça e nos angustia:
«Chance de mort.» André Green confirma estas instituições; para ele, «todo o texto
é afinal saído de um assassínio (o do pai), visando a obtenção de um prazer, o de
uma possessão sexual (a da mãe)». Verifica-se, sem surpresa, o parentesco entre
este texto de Green e o de um escritor dogrupo Tel Quel, I-L. Baudry (Théorie
d'ensemble), que comenta um texto de Sade: «Se o romancista não se tornar no
amante da sua mãe logo que esta o põe no mundo, que jamais escreva, diz Sade,
com uma admirável intuição acerca da relação entre

259
o romance, o gesto da escrita e a violência a que submete a língua considerada
corpo maternal.»

Sempre animados de uma falaz positividade, de uma ilusória plenitude, idealistas e


humanistas definiram, de maneira parcial, a obra como uma maneira de eternizar o
objecto representado. De facto, como o assinalava já Ronsard, esta celebração
apenas torna mais trágicos o envelhecimento e a morte da mulher celebrada. Todo
o retrato é o mandato de execução do indivíduo figurado; e as atrozes caras de
Bacon são a verdade, na ignóbil decomposição das figuras, da arte do retrato. A
obra é rasto do objecto: para além deste rasto, ele está condenado a apagar-se, e
esta condenação assinala-se na procura de um substituto menos transitório. Deste
ponto de vista, uma canção de Serge Gainsbourg, judiciosamente intitulada
Negative blues, é significativa: para o homem que «ama a fotografia», e cujo
«primeiro reflexo» consiste em tirar um negativo da sua «pequena amada», o amor
só pode ser retrospectivo: a mulher foge-lhe ou morre, infiel à imagem que a fixa. 0
objecto pintado, esculpido, nomeado ou descrito, é igualmente um objecto já
perdido. A obra figura a falta, conforme Mallarmé soube dar-nos a entender:

«Une dentelle s'abolit Dans le doute du jeu suprême A n'entrouvir comme un


blasphème Qu'absence éternelle de lit.» Derri-da -encontra este jogo e esta morte
sem partir de Mallarmé. Ele comenta o grande poeta contemporâneo Jabès e cita as
frases seguintes: «0 centro é o limiar (... ).
0 centro é o fracasso ( ... ). 0 centro é o luto.» Escreve, ,então, nas últimas páginas
de L'Éeriture et Ia Djfférence: «Ê aqui que, entre a escrita como descentramento e a
escrita como a afirmação do jogo, a hesitação é infinita. Ela pertence ao jogo e liga-
o à morte. Orígina-se num ‘quem sabe?’ sem sujeito nem saber.» Mallarmé falava
de uma dúvida, Derrida sublinha a hesitação. Ambos associam a escrita, o jogo e a
morte. Se a obra, por seu lado, for perecedoira, se o quadro tiver de ser restaurado,
se o livro tiver de ser reeditado e relido para sobreviver, esta mortalidade apenas
redobra uma primeira presença da ,morte na obra nascente. A obra de iarte tem
uma das suas figurações no vampiro.

260
Ela mata o objecto que figura. Mata também, de uma certa maneira, o indivíduo que
a produz. Segundo Freud, somos obrigados a pensar a criação como uma
procriação; mas o nascimento marca aqui a abolição do progenitor. Valéry soube-
nos sensibilizar nesta abolição que a obra acabada realiza: «Então algo se separa,
como um fruto ou uma criança da sua geração... 0 que se produziu e afirmou já não
é de alguém, mas como a manifestação das propriedades intrínsecas impessoais da
função composta Linguagem, que raramente se liberta, em condições tão raramente
reunidas como as que fazem do carbono diamante.» 0 diário de Valéry (Cahier 29)
determina com uma serena crueldade: «Cada um deve procurar fazer num grau
elevado o que, depois de feito, se tornará inútil, instrumento que deixou de servir. A
obra perfeita desembaraça-se do autor. Que haverá a fazer deste indivíduo?» 0
produtor encontra a morte no próprio acto que instaura o produto; foi o que mostrou
Broch em A Morte de Virgilío. A morte do narrador, a literatura-que é o seu resultado
-sabe-a descrever também: a arte é prática do assassínio e respectiva teoria
(contemplação da sua execução). Se o assassínio se puder considerar, conforme o
fez Thomas de Quincey, uma das belas-artes, é sem dúvida porque as belas-artes
constituem já uma forma de execução. 0 fim de Bouvard et Pécuchet, de Flaubert,
mostra a escrita, a cópia, como um suicídio, diferido, uma destruição que, pela sua
continuidade, faz «jubilar» os suicidados. A procura do Tempo Perdido manifesta os
modos de dissolução de um narrador e os seus esforços para se reconstituir. A obra
de Beckett descreve mais radicalmente o trabalho da morte sobre aquele cuja
escrita é disparatada. Segundo, Pierre Lepapa (Critique, Maio de 1969), as Reflexões
de Louis Palomb formam a encenação de uma morte por esgotamento: morte das
personagens, do narrador, do romance, e ainda o fracasso da própria tentativa (que,
numa nova «reflexão» no espelho, se extingue a si mesma). «Não sei porquê, mato-
me a escrever-vos», repete o narrador: «mata-se»; é a morte, a «passagem ao
vazio».

Quando a obra e o espectador/leitor se encontram, o produtor da obra ocupa o que


no bridge se chama o « lugar do morto». Pôs as cartas na mesa, confiou o jogo aos

261
parceiros; pode agora apartar-se. 0 indivíduo que se relaeiona com a obra é
descentrado, um indivíduo «barré» (para empregar o vocabulário lacaniano); ligar a
obra e um tal indivíduo não poderia conduzir a nenhum psicologismo. Se, como
escreve Freud, «o fim de toda a vida é a morte», se «todo o ser vivo morre por
causas internas» (Para além do Princípio de Prazer), a Psicologia tradicional,(sempre
inconscientemente espinosista) desmorona-se.
0 indivíduo já não persevera no seu ser; já não tem verdadeiramente ser;destrói-se
a partir dele mesmo, não em razão de «causas extenores»; nada -contém que possa
ser «consolidado», que possa ser descrito.

Tais reflexões têm paralelo nas teorias críticas contemporâneas. Philippe Sollers
pôde pensar juntamente o sexo e a escrita (em Théorie d'ensemble) interpretando-
os na sua relação com a morte: «Ê, pois, dizer pouco que a ‘personagem’
desaparece da narração bem como o nome próprio: é mesmo a noção de
propriedade e, por exemplo, o corpo (fechado, acabado, firme na identidade pela
sua imagem especular e pela função exclusivamente falante que implica um
indivíduo limitado) que se dissipa. 0 profundo e incessante trabalho corporal em que
estamos ocupados atinge outra coisa que um cenário; e se este trabalho se revelar
através do sexo, o sexo, neste ponto, confundir-se-á precisamente com ‘a escrita’
como produção eanulacão, vida -e morte incessantes, enxertos dos organismos e
das significações.» Morte das personagens; contestação da propriedade e da
identidade individuais que só esta propriedade permite definir (possui-se a própria
propriedade, as suas propriedades: bens e qualidades); escrita e sexualidade
atravessadas pelas pulsões de morte: tudo isso é pensado ao mesmo tempo, e a
Psicanálise ajuda~nos a pensá-lo. Uma leitura atenta das concepções de Blanchot
acerca das relações da literatura e da morte tornar-se-ia tão proveitosa para a
Estética como para a reflexão psicanalítica. Elucidada pela nossa leitura de Freud, a
de Blanchot viria reciprocamente precisar (e às vezes complicar) os textos
freudianos. Limitar-nos-emos aqui a dar que pensar citando algumas frases de
Blarichot (cf., em particular, L'Espace littératre; La Part du feu). Por exemplo, a
propósito de Rilke: « A morte faria, pois, parte da existência, viveria da minha vida,
no mais íntimo. Seria feita de mim e, talvez, para mim, como um filho é

262
um filho de sua mãe ( ... ). A procura de uma morte que seria minha elucida
precisamente, pela obscuridade das respectivas vias, o que de difícil existe na ‘realização’
artística (... ). Sustentar, dar forma ao nosso nada, eis a tarefa. Temos de ser os figuradores e
os poetas da nossa morte ( ... ). 0 espaço em que tudo volta ao ser profundo, em que há
passagem infinita entre os dois domínios, em que tudo morre, mas em que a morte é a
companheira sábia da vida, em que o terror é êxtase, em que a celebração se lamenta e a
lamentação glorifica ( ... ), é o espaço do poema.» Para Blanchot, nomear mata: «Para que
eu possa dizer: esta mulher, impõe--,e -que, de uma maneira ou de outra, lhe retire a sua
realidade de osso e de carne, a faça ausente e a aniquile ( ... ). A minha linguagem não mata
ninguém. Contuão, se esta mulher não fosse realmente susceptível de morrer, se não
estivesse a cada momento ameaçada de morte, a ela unida e ligada por um laço de essência,
eu não poderia executar a negação ideal, o assassínio diferido que é a minha linguagem.
Consequentemente, torna-se exacto dizer, quando falo: a morte fala em mim.» Se
escutarmos Blanchot, ficamos a saber que a linguagem é habitada pela morte. Eis o que dá
uma nova força à fórmula, quase sempre banalizada, de Jacques Lacan, segundo a qual «o
inconsciente se encontra estruturado como uma linguagem»: como tal, no inconsciente surge
frequentemente a ausência, a morte.

0 ESPELHO E OS DUPLOS

No interior da região considerada, uma outra «descida» é possível: o estudo de um


objecto que não cessa de fascinar, o espelho. Aqui, apenas indicaremos alguns
indícios que permitam esta descida, alguns sinais de pista. 0 espelho é um objecto
escandaloso que consegue às vezes fazer-nos esquecer da sua existência; que nos
dá a perceber outrem onde não está; que nos dá uma falaz e necessária imagem de
nós mesmos; que vem multiplicar cada um dos nossos gestos, variá-los; um objecto
cujo uso em certos lugares de prazer sabe-se bem qual é; um objecto cuja superfície
se enfeita de todos os encantos das falsas profundezas.

263
No interior da reflexão psicanalítica, conhece-se a frequência do estudo do espelho
e da imagem especular. Lacan soube mostrar, em textos difíceis, a importância da
fase do espelho na constituição do indivíduo. Por volta dos seis meses, a eriança
reage à vista -da sua imagem por uma mímica jubiliatória; esboça uma série de
gestos para esta imagem: o que trai a importância que alimenta por si própria. A
criança, ainda num estado de impotência e de incoordenação motora, antecipa
imaginarlamente a apreensão e o domínio da sua unidade corporal; identifica-se a
uma imagem do seu corpo: dá-se um encontro entre um olhar e uma imagem que
se identifica com quem olha. É o «estádio formador da função do Eu». Pelo espelho
instaura-se o registo imaginário como lugar das identificações do ego. No número
consagrado à identificação pela revista LIInconscient (n.o 7, 1968), P. Castoriadis-
Aulagnier analisa os efeitos do encontro entre o indiví.duo e a sua imagem no
espelho:

1) 0 indivíduo vê nele a possibilidade de referir o seu eu corporal a uma imagem


diferenciada de qualquer outro objecto do mundo ambiente, espécie de re-nascença
dele próprio, sem laço de continuidade com a sua história passada: um novo
nascimento em que é ffilho de ninguém».

2) Ao mesmo tempo a experiência realiza o desejo narcísico e assinala o respectivo


carácter enganador. Desejoso e desejado vêem-se face a face, fundem-se num só
espaço óptico, podem crer numa identidade e alienar-se numa fascinação recíproca.
Todavia, a agressividade homicida é susceptível, repentinamente, de submergir
quem olha: «Eu sou isso» patenteia-se para ele como «Tu nada mais és que isso»:
esse único corpo, esse único sexo, esse único possível.

3) Mais difícil de apreender são as transformações que a esta situação leva a


procura de um terceiro olhar: aquele que olha reflecte-se no espelho como olhado
por um terceiro (a mãe ou o pai) presente ou fantasmado. P. Castoriadis-Aulagnier
insiste na «friabilidade da fronteira que se traça entre os registos narcísico e
objectal».

Na clínica psicanalítica, o espelho ocupa um lugar importante. 0 homem dos ratos


masturba-se perante o espelho. Gabriel, um dos doentes de Didier Anzieu
(L'Autoanalyse), relata que, dos quinze aos dezanove anos, a sua

264
vida íntima caracterizou-se pela solidão: autocontemplação, diário íntimo,
masturbação perante o espelho do guarda-vestidos. Palmier (Lacan) evoca a
angústia e o terror pánico de um esquizofrénico, procurando desesperadamente,
frente a um espelho, encontrar a unidade do corpo despedaçado. Aterrorizado pelo
«vazio da rua», que para ele significa uma vagina, um cliente de Jean-Luc Donnet, a
fim de «se tranquilizar», tem de apreender o próprio reflexo nas montras. Luce
Irigaray relaciona com precisão as distorções da linguagem e a da experiência
especular; o problema do «quem fala?» e o do «quem, ve quem?» resumem-se um
no outro; «não é que -a experiência especular se confunda com a experiencia da
comunicação falada. Ela figura-a. Uma supõe a outra» (Cahiers pour Panalyse n.o 3).
Luce Irigaray, no decurso deste estudo, precisa oomo ia imagem especular é
«portadora de morte»; «reminis-cência de uma passagem pelo n@ada».

Na leitura de um tal texto, o estético não pode deixar de pensar no laço que a práxis
artística põe entre o espelho e a morte. Um texto admirável de I-L. Borgès, La Quête
d'Averroes, coloca numa mesma narração uma pesquisa labiríntica, uma reflexão
sobre o teatro, o laço entre o espelho e o aniquilamento, as relações complexas
entre o indivíduo que narra (Borgès) e o herói da narração, herói que é e que não é
um homem, que é e que não é o que fala dele. As últimas frases da narração podem
desta maneira angustiar-nos: «Tirou o turbante e olhou-se num espelho de metal.
Não sei o que seus olhos viram, dado que nenhum historiador descreveu a sua face.
Sei que desapareceu bruscamente, como se um fogo sem luz o tivesse fulminado, e
que com ele desapareceram a casa e o invisível jacto de água e os livros, os
manuscritos e os pombos, e a multidã o dos escravos escuros e a trémula escrava
russa, e Farach e Aboulkassim e as roseiras e tal-

vez o Guadalquivir.» 0 comentário que acompanha o texto acrescenta um reflexo,


uma complicação suplementar; Borgès, pelo seu comentário, procura um lugar
impossível de sustentar no interior do seu próprio escrito; a sua explicação não nos
tranquiliza, mas perturba-nos mais: «Lembro-me de Averróis, que, prisioneiro da
cultura do Islão, nunca pôde conhecer a significação das palavras tragédia Q
comédia. Eu contava a sua aventura; à medida que avançava, sentia o mesmo que
o deus mencionado por

265
Bu,rton, que, querendo criar um touro, fez um búfalo. Compreendi que a minha obra
se ria de mim. Compreendi que Averróis, ao esforçar-se por imaginar o que é um
drama, sem suspeitar o que é um teatro, não era mais absurdo do que eu, ao
esforçar-me por imaginar Averróis sem outro documento que algumas migalhas de
Renan, de Lane e de Asin Palacíos. Compreendi, na última página, que a minha
narração era um símbolo do homem que eu fora durante o tempo em que escrevia e
que, para redigir este conto, deveria tornar-me neste homem e, para me tornar
neste homem, seria necessário escrever este conto, e assim sucessivamente até ao
infinito. (’Averróis’ desaparece no instante em que deixo de acreditar nele.)» A
morte anuncia-se na multiplicação dos reflexos, na instauração de um universo no
qual os objectos perderam um lugar preciso: o labirinto dos espelhos. A
paternidade, saberno-lo, vive-se pelos homens muitas vezes como uma ameaça de
morte: Laios viveu assim o nascimento de Édípo; deste modo se explicam, conforme
Freud, as relações entre o rei Lear e Cordélia; um outro texto de Borgès (Histoire de
lInfamie) liga os espelhos, paternidade, zombaria da vida humana: «A terra que
habitamos é um erro, uma paródia sem autoridade. Os espelhos e a paternidade são
coisas abomináveis, pois confirmam-no e multiplicarn-no.»

É fácil determinar nas obras artísticas os laços complexos que unem o espelho e a
morte. Narciso morre fascinado pela sua própria imagem. Para o Orfeu de Coeteau,
o reino da Morte está do outro lado do espelho. Um dos sinais que permite, em Le
Bal des vampires, por exemplo, reconhecer os vampiros dos viventes consiste em
aqueles não terem reflexo.

Esta dimensão trágica restitui força a uma concepção da arte como espelho, quase
sempre interpretada como pura teoria da imitação. Conhece-se a frase de Saint-
Real, que Stendhal, em 0 Vermelho e o Negro, escreve em epígrafe num dos
capítulos: «Um romance é um espelho que se -passeia ao longo do caminho.» René
Huyghe (Dialogue avee le visible) cita a este respeito textos de Lucas de Heere, de
Vinci. Em alguns quadros de Van Eyck, de Quentin Metsys, de Giovanni Bellini, de
Rubens, de Degas, de muitos outros, a presença do espelho pode parecer como o
emblema alegórico da pintura, reflexo no reflexo,

266
representação na representação, evocação, no interior da obra constituída, da sua
gênese e do próprio modo de existência. Conhece-se a complexidade das Meninas
de Velasquez que Michel Foucault subtilmente analisou (As Palavras e as Coisas): o
espelho é o centro obscuro e deslocado desta complexidade. Afigura-se mais fácil
compreender o papel do espelho em Casamento Arnolfini de Van Eyck. Antes de
mais, este espelho constitui uma recusa do ilusionismo: colocado perante o
espectador, não o reflecte e excluí-o do -espaç o do quadro, daquilo que no século
XVIII o teórico de arte Dandré-Bordon designou por «um lugar pitoresco» (como
Corneille fala de um lugar teatral). A esta exclusão do espectador destinatário
corresponde a supressão do produtor da obra, quer este esteja ou não figurado
como reflexo no espelho. Sem dúvida, Michel Butor (Les Caliters du chemin, n.o 6,
Abril de 1969) tem razão ao interpretar o texto colocado sobre o espelho: Johannes
van Eyek fui@t hic (J. van Eyck esteve aqui) como a afirmação, a chamada de uma
promoçã o que era a sua presença nesse casamento. Porém, o tempo passado da
fórmula exclui também o emissor do quadro produzido: ele esteve lá, já lá não está-
não deixa senão um reflexo num espelho ilusório, um vestígio sobre uma tela.

Uma reflexão acerca do espelho não poderia separar-se de uma reflexão sobre os
duplos. Estes nascem do espelho, muitas vezes agressivos. A respeito das bandas
desenhadas americanas coleccionadas por Jean-Claude Romer, não é raro o duplo
sair do espelho e matar aquele de quem é imagem. Numa -das bandas desenhadas
de Mandrake le magicien,(ef. Aesculape, número de Fevereiro-Março e de Abril de
1962), ficamos a saber <lue «os espelhos são na realidade janelasentre dois mun&s
e que todo o homem possui contrapartida no mundo dos espelhos, contrapartida
que é prejudicial».

Não se torna possível analisar aqui pormenorizadamente o extraordinário


documento que constitui a banda desenhada de Fred (Pilote, n.o 469) intitulada
Interférence. Sublinhemos simplesmente que a narração é aí uma transgressão do
código; cada -caso mostra-se aciui simultaneamente uma unidade temporal, em
direifo distinto dos outros, inconciliável com a presença concomitante dos ou- tros, e
um elemento espacial contemporâ neo de outros

267
elementos espaciais. A convenção que fez da banda desenhada uma sucessão de
momentos legíveis da esquerda para a direita e de cima para baixo encontra-se ao
mesmo tempo defendida e achincalhada: daí a possibilidade de várias leituras
diferentes, e sobretudo a impossibilidade de uma leitura única, certa dela mesma.
Nas páginas 266 e
267 vê-se que essa transgressão do código faz mais do que multiplicar os duplos;
não permite a nenhum dos duplos saber quem ele é e se é: o eu e o tu, o nós e o
vós, o meu e o teu, deixamcle ter qualquer sentido. Nunca a falha do sujeito de que
Lacan. fala fora expressa com mais derrisória verdade que pelo «duplo» esmagado
do último quadrinho: «Somos uma coisa sem valor, dê por onde der... Oh!, uma
coisa sem valor.»

Fora do âmbito das bandas desenhadas, encontrar-se-ão múltiplos exemplos do


tema do duplo. 0 psicanalista Rank consagrou-lhes uma obra (Der Doppelgãnger,
1914) que Freud retoma rapidamente no seu estudo sobre o UnheimUche a
propósito de E. T. A. Hoffmann. Reduplicação do eu, cisão do eu, substituição do eu,
repetição dos mesmos actos, dos mesmos nomes, constituem o tema do duplo.
Esteduplo nasce no terreno do «narcisismo primário», mas não desaparece
forçosamente com ele. Os duplos formam muitas vezes «um, estranhamente
inquietante prenúncio da morte». A interpretação que M. Guiomar (Inconscient et
imaginaire dans le Grand Meaulnes) dá do Grande Meaulnes confirma este intento.
Para ele, este romance manifesta a omnipresença da morte, particularmente pela
criação -de três duplos do autor, que se aniquila neles: Meaulnes (o ego da infância,
de tudo o que se perdeu), Frantz de Galais (o ego quimérico dos sonhos do futuro),
Seurel (o ego quotidiano e social); uma presença feminina os une: a de Yvonne, de
Galais, cujo rosto maternal é um rosto da morte. A infatigável repetição, nos
quadros de Delvaux, de mulheres nuas de faces idênticas e impenetráveis, impõe-
nos, para além dos seus esqueletos, a obsidiante presença da morte.

0 tema do duplo exprime ao mesmo tempo a situação da obra de arte relativamente


ao artista: a obra é um duplo que revela o produtor e o mata. Michel Zeraffa
(Personne et personnage) cita uma admirável frase de W. Faulkner: «Um livro é a
vida secreta do autor, o gêmeo sombrio do homem: não podeis reconciliá-los.»
Compreen-

270
dida como um duplo homicídio, ao mesmo tempo perigosamente próxima e
radicalmente estranha, a obra em si, na simples existência, e não somente em alguns dos
seus conteúdos, surge como uma manifestação do UnheimUche, da inquietante estranheza.

AS MUTILAÇõES

Uma última investigação pode ter por objecto o tema da mutilação nas obras de
arte. 0 próprio texto de Freud convida-nos a passarmos do tema do duplo para o da
mutilação. Em A Inquietante Estranheza, Freud insiste tanto num temacomo noutro.
Relaciona as mutilaçõescom o receio da castração. Particularmente, apoia-se em
V11onime au sable, de E. T. A. Hoffmann, nos fantasmas de desmembramento e
sobretudo de enucleação que aí se encontra. Neste campo, faz uma comparação
com Édipo: «A autopunição de Édipo, o criminoso mítico, quando se cega a si
próprio, é apenas uma atenuação da castração, a qual, segundo a pena de talião,
seria a única à altura do seu crime.»

Tal posição possibilita compreender o número relativamente importante de


mutilações que se nos deparam no domínio artístico. Citemos, ao acaso, os
estropiados desenhados por Bosch; os cegos de Brueghel; os torturados e
estropiados de J. Callot; a criança a quem, num quadro de Goya, Saturno arranca a
cabeça; os santos cefalóforos, de cabeça cortada, em múltiplos quadros; Santa
Ãgata, a quem os carrascos, redobrando a castração feminina, negando até a
própria feminidade, cortam os seios. Num universo idêntico, o capitão Achab de
Moby Dick, cornuma perna artificial, encontra Cléa de DurrelI, a quem falta uma
mão. Conhece-se a ironia simultaneamente terna e cruel perante as mutilações cujo
exemplo nos é dado por Roger Vaillandem Bon pied, bon oefi. Tem a alegre
ferocidad,e de uma canção de meninice: Alouette, gentille alouctte, ou do poema de
Robert Desnos que evoca os «demónios a quem cortaram o pescoço»; «on les
appelait les quatre sans cou»:

«Quand fis buvaient un verre Au café de lã place ou du boulevard

271
Les garçons n'oubliaient pas d'apporter des entonnoirs.» Em A Tentação de Santo
António de Flaubert, «os Ninas apenas têm um olho, uma f ace, uma mão, uma
perna, uma metade do corpo, uma metade do coração. E dizem bem alto: vivemos
fortemente à nossa vontade nas metades de casa, com as nossas metades de
mulheres e de crianças.» Algumas gravuras de viagens (as de Th. de Bry, por
exemplo) descrevem festins de canibais: oralidade sádica, fantasmas do corpo
despedaçado, fascinação angustiada perante a castração, aí se vêem. Uma reflexão
sobre a mutilação na arte deveria igualmente considerar a emoção que as estátuas
antigas retalhadas ou truncadas provocam -em nós. Também deveria estudar a
mutilação particular que tem por objecto não directamente o corpo mas o nome da
personagem principal, reduzido, em Kaf@a por exemplo, à primeira letra do nome
do escritor; pense-se em L'Histoire d'O, cuja heroína é designada por uma letra, ela
mesma (o círculo, o zero) talvez o sinal da castração feminina. Para este estudo,
conviria analisar as obras das crianças e atentar nas cenas cirúrgicas ou nas
evocações dos campos de batalha. 0 retrato de Van Gogh apresentado com uma
orelha cortada remete a uma cena de automutilação, o que prendeu a atenção de
Georges Bataille.

Às vezes a castração situa-se directamente no interior da obra. Em Les Thibault, por


exemplo; ou no surpreendente romance de Jim Thompson M. Zero, biografia na
primeira pessoa de um mutilado de guerra fascinado pela destruição que o cerca
(Série noir, n.<, 1009). Em L'Histoire de Vocil, de G. Bataille, a enueleação do padre
morto repete a castração do touro morto. Os eunticos povoam o universo de
Bajazet. Multiplicam-se nas Cartas Persas de Montesquieti. No número 7 dos
Cahters pour Fanalyse, Jean Reboul escreve um artigo sobre Sarrasine de BaIzac,
breve romance a que, aliás, Roland Barthes consagrou um apaixonante
seminário. Publicada um ano depois da morte do pai de BaIzac, esta pequena
narração seria « um separador (ou um sinal)» introduzido na obra. Zambinella,
que adora o escultor Sarrasine, é um castrado que este acaba por insultar: «Tu não
és nada. Homem ou mulher, matar-te-ei. Mas ... » Ela (ou ele) «submete» o seu
amoroso. Obriga a ver as outras mulheres como seres castrados; mareará todas as
outras mulheres de um cunho de imper-

272
feição. Tomado uni velho rico e ambiguo, o castrado será para BaIzac a
própria imagem da morte. «Criatura sem nome na linguagem humana, forma
sem substância, ser sem vida ou vida sem acção», as suas pequenas pernas
são,«dois ossos cruzados sobre um túmulo».

Uma reflexão da castração faculta, sem dúvida, uma melhor compreensão da


natureza da obra de arte. Num texto ainda inédito, J. P. Lyotard insiste nas
conexões entre a obra e o fantasma; retomando o livro de P. Kaufmann (A
Experiência Emocional do Espaço), interpreta o fantasma como o «vestígio
deixado no indivíduo pelo significante na sua retirada, o sinal de uma
ausência»; para Freud, e de acordo com ele, «o objecto estético somente é
possível porque também nos amadores, isto é, também na realidade, há
ausência». Lembrando a meditação de Maurice Blanchot, vem à ideia o corpo
desmembrado de Orfeu, do qual emana um canto; a vocação do poeta é
inseparável do gesto das mulheres que o esquartejam. A obra separada do
seu produtor é um pedaço dele caído, parte dele mesmo que lhe escapa. 0
inacabamento de certas obras (aquilo a que se chama a propósito de Miguel
Ângelo o «non finito») sublinha de maneira significativa o carácter de objecto
parcial da obra. Talvez seja para dissimular este aspecto de automutilação
que alguns criadores descrevem a sua actividade como uma mutilação
exercida no universo exterior. Destarte, em 1944, o encenador S. M.
Eisenstein (citado em Change, n.o 2) pôde escrever acerca do seu projecto:
«Na sua infância (o gentil rapazinho) não mutila os bonecos, não parte a
loiça, nem tortura os animais. Todavia, mal cresce logo se vê atraído de
maneira irresistível para tal gênero de divertimentos. Procura febrilmente um
campo de aplicação onde manifestar os apetites com o máximo de
segurança. E, finalmente, apenas pôde ser encenador, ofício em que se toma
particularmente fácil realizar todas as possibilidades desprezadas na
meninice.» A obra é também cortada do seu produtor; Eisenstein acentua:
«(...) A própria coisa separa-se de mim, e o seu destino exterior preocupa-me
muito menos do que se o não fosse. Daí a tendência a extirpá-la sem
piedade.»

18 273
ALGUMAS OUTRAS INCURSõES POSSíVEIS

São possíveis outros estudos no interior desta região em que a Psicanálise e a


Estética se esclarecem e perturbam mutuamente. Indiquemos alguns, sem a
preocupação de sermos exaustivos. Impor-se-ia determinar o estatuto

e a função do cómico. Para tal, conviria retomar o livro de Freud 0 Dito Espirituoso e
as Suas Relações com o Inconsciente, do qual A. Ehrenzweig (The Psychoanalysis of
Artistic Vision and Hearing) mostrou a importância para uma teoria freudiana da
arte; reler-se-ia também os interessantes estudos de Ernest Kris (Psychoanalytie
Explorations In Art) e de Charles Mauron. (Psychocritique du. genre comique).

Impõe-se igualmente estudos profundos sobre a música. Interrogar-nos-emos sobre


qual poderá ser o lugar do afecto na ópera: Catherine Backès efectua actualmente
uma investigação a este respeito. Relacionar-se-ão os ritmos musicais, os que
escondem a vida dos nossos órgãos, os que se experimentam no coito. Reflectir-se-
á sobre o silêncio, cuja importância se conhece para um Cage, e so@bre o «silêncio
das pulsões de morte», o do momento do gozo. Uma reflexão acerca do estatuto do
visível no interior de uma prática e de uma teoria psicanalíticas que privilegiam a
escuta poderá ser empreendida a partir de vários estudos publicados em L'Art et les
sciences humaines (edições da Connaissance).

A DIFICIL NOÇÃO DE SUBLIMAÇÃO

Interrogar-nos-emos também sobre o problema ainda obscuro da sublimação. Nunca


se suspeita bastante desta noção, frequentíssimas vezes utilizada por idealistas e
humanistas para falsear a Psicanálise. Convém, com Laplanche e Pontalis,
comprovar que simultaneamente é impossível passar sem esta noção e que, por
outro lado, «a ausência de uma teoria coerente da sublimação continua sendo uma
das lacunas do pensamento psicanalítico». Esta lacuna mostra-se particularmente
perigosa no interior da região sobre que nos debruçamos, visto a actividade artística
ser uma das principais actividades de sublimação

274
(com a investigação intelectual). Freud liga a noção de sublimação ao destino da
pulsão sexual (o problema da sublimação das pulsões agressivas foi apenas
evocado por ele). Em 1908, Freud escreve: «A pulsão sexual põe à disposição do
trabalho cultural quantidades de força extraordinariamente grandes, e isto em
consequência da particularidade, nela acentuada de uma maneira especial, de
poder deslocar o seu fim sem perder, no essencial, a intensidade. Tal capacidade de
mudar o fim sexual originário contra um outro fim já não sexual, mas que lhe está
psiquicamente aparentado, denomina-se capacidade de sublimação.» Em 1932,
Freud (Continuação das Lições de Introdução à Psicanálise) sublinha que a mudança
respeita ao mesmo tempo ao fim e ao objecto da pulsão.

0 Vocabulário de Laplanche e Pontalis indica algumas direcções do pensamento


freudiano neste tema e renuncia a dele fazer a síntese:

1) A sublimação tem por objecto de preferência as pulsões parciais, principalmente


as que não chegam a integrar-se na forma definitiva da genitalidade; a arte
encontra assim a sua origem na «perversão» e na sua repressão: «As forças
utilizáveis para o trabalho cultural provêm deste modo em grande parte da
repressão do que se chama os elementos perversos da excitação sexual.» Na nossa
análise, encontrámos efectivamente tendências feiticistas, sádicas e masoquistas,
escoptofilicas e exibicionistas, etc. Estas pulsões estão descritas no interior da obra;
intervêm no modo de produção e no de consumo da obra.

2) Pelo menos numa das hipóteses de Freud acerca do mecanismo da sublimação (0


Ego e o Id, 1923), a sublimação parece estreitamente dependente da dimensão
narcísica do ego, de maneira que ver-se-ia, ao nível do objecto visado pelas
actividades sublimadas, o mesmo carácter de bela totalidade que Freud atribui ao
ego. Poder-se-ia, conforme Laplanche e Pontalis, colocar Mélaine Kllein, na mesma
linha de pensamento, pois ela encara -a sublimação como uma tendência para
reparar e restaurar o «bom objecto» despedaçado pelas pulsões destrutivas.

3) A delimitação dos processos limítrofes (formação reaccional, inibição


relativamente ao fim, idealização, recalcamento) manteve-se no estado de simples
indicação. Igualmente, se Freud considerou essencial a capacidade

275
de sublimar no fim do tratamento, não o mostrou concretamen@te na
aplicação.

A dificuldade desta noção de sublimação explica, pelo menos em parte, os


desconhecimentos e os conflitos produzidos entre psicanalistas e escritores.
Convém ler com este intuito, em Temps modernes (Outubro de 1965), as críticas de
Bernard Pingaud dirigidas à interpretação que Didier Anzieu faz dos romances de
Robbe-Grillet. Anzieu, sem querer fazer uma pretensa psicanálise de Robbe-Grillet,
releu os seus romances «tendo o cuidado de nos sentar no nosso sofá de
psicanalista, escutando esta leitura como o longo, como o confuso, como o chato
monólogo de um doente que se repete interminavelmente». Para Anzieu, «quer seja
nas análises quer nos romances de Robbe-Gri,llet, o obsessional diz toda a verdade,
mas modelada, deslocada, condensada, imobilizada, desfigurada. A estrutura
obsessional é decerto uma,ap-reensão da verdade, mas no sentido em que a Polícia
se apossa de uma publicação subversiva ou licenciosa para a retirar da circulação: é
um embargo-detenção». Pingaud recusa uma confusão da escrita e da cura,
confusão que ele julga ver no trabalho de Didier Anzieu: «Trata-se ( ... ) bem, se
assim se quiser, de uma cura. Como observa M'Uzan (Aperçus psychanaIyUques sur
Ia création littéraire), o leitor ideal que molda para seu uso o autor - juiz ao mesmo
tempo severo e acolhedor, pai maternal capaz de o reconhecer na sua diferença,
mas também de o aceitar na sua similitude, de que exige simultaneamente respeito
e reconhecimento -é uma figura do analista. Mas, concomitantemente, a escrita
apresenta-se como o contrário (e a recusa) da cura, visto que, falando a linguagem
«neutra» da ficção, substituindo ao «eu» do escritor o «ele» do narrador, coloca o
discurso num lugar que não é o lugar referenciável da confrontação quotidiana,
onde sempre, num certo momento, alguém f ala a alguém, mas num lugar fora do
espaço, um momento fora do tempo, em que já ninguém fala a ninguém. Em vez de
desarmar fantasmas e obsessões trazendo-os à luz do dia da consciência, a escrita
pretende conservar a sua força intacta, desviar a sua riqueza para proveito próprio,
integrá-los num discurso anónimo de que eles serão o pensamento secreto e
sempre actuante. Este desvio está, sem dúvida alguma, na jurisdição da análise.»

276
0 JOGO METAFõRICO

Com este «desvio» de que fala Bernard Pingaud, tornamos a encontrar o


labirinto, longamente evocado no decorrer da nossa investigação. Este
«desvio» constitui a sublimação que designamos sem chegar a dar dela uma
ideia clara. Conforme afirma o texto de Das Unbehagen In der Kultur citado
no princípio deste capítulo, «é sobre a beleza que a Psicanálise menos tem
para dizer». No lugar que situa esta falta de uma teoria da sublimação, a
metáfora se manifesta: tínhamos falado de analogia desde o princípio da
investigação.

Os estudos que tentámos colocaram a compreensão da obra de arte «mais


perto» de um certo número de metáforas. Duplo equívoco, lugar dos mortos,
dos homicídios e das mutilações, cena teatral em que se produz o desejo,
objecto separado do seu produtor e caído, desvio em que cada qual não se
acha senão para melhor se perder, a obra realiza para nós o Unheimliehe, o
mais estranho aliando-se ao mais familiar. 0 produtor, o leitor e o crítico
ocupam relativamente a este objecto dois lugares diferentes e talvez
intermudáveis. Psicanálise e Estética esclarecem-se mutuamente, sem que,
pelo menos actualmente, uma teoria rigorosa organize os seus dois campos.
A possibilidade de criar um modelo que ligaria entre elas as metáforas
percebidas continua problemática.

Uma das finalidades da reflexão, em particular em Estética e em Psicanálise,


seria de estabelecer o estatuto da metáfora. Conhece-se o interesse de
Jacques Lacan por este problema. Um texto de Michel Leiris (Brisées) pode
auxiliar-nos nesta reflexão: «Não somente a linguagem mas toda a vida
intelectual reside num jogo de transposições, de símbolos, qualificável de
metafórico. Por outro lado, o conhecimento procede sempre por comparação,
de maneira que todos os objectos conhecidos são ligados uns aos outros por
relações de interdependência. Não é possível determinar, dentre dois
quaisquer que sejam, qual é designado pelo nome que lhe é próprio e não é
a metáfora do outro, e vice-versa. 0 homem é uma árvore móvel, assim
como a árvore é um homem enraizado. Semelhantemente o céu é uma terra
subtil, assim como a terra é um céu espesso. E se eu vir um cão a correr, é
do mesmo

277
modo a corrida que caniza.» E Michel Leiris conclui: «Este próprio artigo é
metafórico.»

Para Freud, o artista é o que recusa renunciar ao prazer imediato. A sua obra
constitui o acto de negar as mediações, as passagens, os discursos racionalizantes.
Move-se ao nível das metáforas e desconfia das mediaçõ es. Constituir um discurso
teórico que supere as metáforas estéticas sem as desconhecer não poderia
actualmente ser outra coisa que um projecto. A Psicanálise permite determinar este
projecto.

278
CATHERINE BACKÈS

Psicanálise e Filosofia
MIRAGENS

Freud- para toda a gente

0 Dr. Schur enfia a agulha,

. 1 É com esta frase que se conclui o Freud de Rádio Luxemburgo, a última das
obras de vulgarização respeitantes à Psicanálise. Convém, quando se reflecte sobre
o contributo freudiano, saber em que consiste a sua vulgarização e reconhecer o
desvio ideológico que é a absorção da «revolução freudiana» feita pela cultura de
massa. Fenômeno inevitável: dado que na origem etimológica, na palavra vulgus, se
encontra a necessidade de uma publicação, a vulgarização não deve ser
desconhecida na sua essência. Qualquer publicação, por esotérica que seja,
constitui de um certo ponto de vista vulgarização para alguns, e a sua essência está
talvez em não se poder definir -de outra maneira que por extensão: o vulgar não é
fundamentalmente diferente do círculo fechado, e neste domínio não há limiar. Eis
porque cumpre saber descebrir, nas difusões sucessivas de amplitude crescente,
séries de deformações: estas serão de- amplitude maior se se tratar de uma difusão
em cadeia periférica. Ora, as transformações que ela opera no pensamento-
freudiano são de natureza a expulsar este da sua propria teoria, sem que nada seja
verdadeiramente falso. 0 mal-entendido que falseia, entretanto, todo o
cometimento é de importância, pois, em menoscabo -do que pensava Freud, o seu
sistema é concebido como uma filosofia.

1 Filosofia: primeiramente compreender-se-á este termo no sentido elementar de


visão do mundo; ou ainda de um

281
conjunto de enunciados gerais pelos quais um indivíduo julga exprimir o sistema em
que se insere. Não é este o seu sentido técnico, nem mesmo o sentido tradicional
que dá a etimologia, como «amor da sabedoria»; porém, se optámos partir da
vulgarização de Freud para abordar o problema que ele pôs à Filosofia e à cultura
em geral, é por, atentando bem, o sentido vulgarizado dos termos nunca se
encontrar tão afastado do sentido técnico como se poderia supor. Deste modo, o
termo «filosofia» empregado por quem nunca leu completamente Kant, Descartes e
Hegel, e quando passa do enunciado quotidiano -tomado na sua especificidáde-à
generalidade não especificada, esconde uma certa verdade: a que, por exemplo, se
pode descobrir em qualquer filosofia e que, com efeito, se apresenta bem como
generalidade ideal. Eis-nos, desde o princípio, num método de inspiração freudiano:
passo este que consiste em reconhecer em qualquer deformação um núcleo de
verdade que é a sua causa: «Na medida em que (a lembrança) é deformada, pode
cháma,r-se-l,he demência; na medida em que traz alguma luz sobre o passado,
deve chamar-se-lhe verdade.»’ Por conseguinte, conforme Freud, qualquer
deformação é esclarecedora; qualquer deformação é, pois, esclarecedora em alto
grau acerca do seu próprio sistema. Assim é o caso da vulgarização: se a «filosofia»
se apresenta deformada quanto à tecnicidade e ao método próprio é por nela haver
uma verdade oculta. Ora, no assunto vertente, a deformação atinge ao mesmo
tempo, por meio da vulgarização, a Filosofia e a Psicanálise.

Torna-se necessário retomar o texto e o contexto, e citar R. T. L. até ao ponto em


que esta frase final toma toda a sua amplidão:

«Então, no momento em que a velha Europa vai perecer, e vendo que de nada
servirá lutar, Freud. decide-se a finar-se ao mesmo tempo que ela.

«Lembra ao seu médico e amigo, o Dr. Schur, que ficara acordado entre eles ajudá-
lo a morrer, no momento em que já não tivesse esperança, evitando-lhe assim o
sofrimento inútil.

«0 Dr. Schur i-espond"he que manterá a promessa. «Chegou o momento, diz Freud.
0 Dr. Schur tira uma seringa do seu estojo e enche-a de uma dose de morfina que
deve bastar para vencer a resistência do último sopro

282
de vida que anima ainda este corpo vítima da destruição f inal.

«Os lábios deformados de Freud no seu último leito não se abrem para falar de Deus
nem para pedir o auxílio da Bíblia que o seu pai Jacob um dia lhe dera. 0 mestre
moribundo mantém-se na solidão em que vira a condição do homem.

«0 Dr. Schur enfia a agulha.»2 Tudo neste texto indica uma distorção própria do
jornalismo, que se esforça por apreender a história no momento em que esta pode
dar lugar a um Instantâneo - isto é, a um instante condensado por uma técnica,
neste caso a fotografia ou a emissão - abrangendo os símbolos do acontecimento
que relata, e próprio a suscitar a emoção: do mesmo modo, a tipografia, em que as
sequências faladas correspondem ao tempo presente, a inútil minúcia dos
pormenores técnicos procurando dar a ilusão de uma presença familiar. 0
acontecimento, seja ele qual for, surge assim, simultaneamente, como
extraordinário e banal: susceptível de acontecer a qualquer, mas agarrando-se a
homens de excepção. Então, a excepção confirma a regra, e o objectivo atingido
mostra ao ouvinte ou ao leitor aten,to que Freud, por mais genial que seja, é de
facto como toda a gente. É a esta comunidade de pensamento com a humanidade
inteira na generalidade que se refere a passagem mais especificamente
«filosófica»: «0 mestre moribundo mantém-se na solidão em que vira a condição do
homem.» A frase que se lhe segue implica uma morte simultaneamente banal e
significante, referente a um suicídio implícito e levando a nele comprovar o que se
costuma chamar o pessimismo de Freud. Está tudo consumado: a obra inteira de
Freud. desemboca numa conclusão geral, determinada por uma certa «vista sobre a
condição do homem» e reduzindo-o a uma espécie de herói estóico: um Séneca
ateu semianarquista-nem Deus nem mestre -, semicínico. Era apenas um filósofo;
em suma, um homem de problemas, como toda,a gente; nias nós podemos evitar
de pensar demasiado neles, pois há dois mil anos que pessoas especializadas na
matéria fazem profissão de pensar pelos outros’ Extraído do prefácio da mesma
obra, eis o projecto conjunto desta série: «Escolhemos homens cujo pensamento é
capital para cada um de nós. Não consiste em divertir o leitor com uma narração
biográfica de

283
tipo anedótico, consiste sim em comunicar-lhe as análises, as hipóteses, a visão do
mundo, dos maiores pensadores da Humanidade. Escolhemos ‘fiaróis’, como dizia
Baudelaire; e esperamos não ter enfraquecido o seu brilho sem estarmos
completamente seguros, tão espessas são as trevas em que cada um de nós,
sejamos ou não sábios, erra durante toda a sua vida.» 1 Acharemos diferentes e
numerosos sinais desta redução maior: na colecção Idées, por exemplo, a obra de
Freud sobre Moisés, Molse et le monothéisme, encontra-se englobada na sigla
filosofia, embora existam na mesma colecção as siglas seguintes, todas elas,
excepto -a literatura, mais convenientes: literatura, ciéncias, ciências humanas e
ideias actuais. Pois Freud entrega-se a uma análise histórica da personagem de
Moisés («ciências»), integrando a sua. teoria da afectividade («ciências humanas»)
e induzindo uma teoria original da evolução das religiões («ideias actuais»). É
preciso reconhecer que os próprios psicanalistas conservam a ambiguidade acerca
da sua técnica: um artigo recente de J.-P. Valabrega4 define-se a si mesmo como
«breves notas analítico-platónicas». 0 que aí se aprêsenta. é da ordem do contra-
senso, o que temos de demonstrar. Ou da ordem da miragem, no sentido em que a
perspectiva de uma miragem deforma, e em que há jogo de reflexos de uma a outra
disciplina: a Psicanálise toma-se por uma filosofia, e a filosofia julga já não poder
passar sem a Psicanálise, cada qual parecendo encontrar na outra onde ressegurar
a sua imagem vacilante.

Fronteiras

Denunciando esta instabilidade de terrenos, pensamos, pelo contrário, que há


perigo para a Psicanálise em interferir com a Filosofia, e que esta não poderia, sem
se desviar dela mesma, associar-se a conceitos extraídos da obra de Freud. Esta
asserção põe vários problemas que trataremos na ordem que segue:

-A fim de poder verificá-la, é necessário encontrar na obra de Freud aquilo por que
ele afirma separar-se da Filosofia. Ora, ainda que estes textos concisos não
existissem, incompatibilidades teóricas entre a prática médica exercida por Freud e
a prática conceptual da Filosofia seriam pelo menos deduzíveis do facto de ele ser
médico.

284
Acentue-se um sinal em apoio desta dedução preliminar: a ruptura entre Freud e
Jung dá-se a propósito do que Freud, havia muito tempo, chamara «o rio de lama do
ocultismo». Não -porque -a Filosofia seja ciência oculta; mas, por um lado, e por um
jogo de palavras, porque oculta alguma coisa que se torna necessário descobrir, e,
por outro, porque certamente Freud desconfiava de sistemas anteriores a ele, que
poderiam limitá-lo sem respeitar as arestas que lhe especificam a originalidade.
Quanto ao mais, conforme o veremos, ele próprio sabia fixar os limites dos
empréstimos que podia fazer à herança cultural que recebera.

-Ora, esta herança cultural põe problemas: efectivamente, não pode estar isenta de
filosofia, pois Freud, educado segundo a tradição germânica na cultura greco-latina
mitificada por Goethe, está marcado por uma ideologia idealista, e dela não pode
separar-se. As-sim se expli,ca que a deformação que o supõe filósofo se tivesse
imposto: algumas das suas obras podem com razão considerar@se filosóficas, tais
como Die Zukunft einer Iliusion e Das Unbehagen In der Kultur. Por pouco, todavia,
que se aceite considerá-las sem o seu passado teórico e sem a construção do
aparelho psíquico, fecho da abóbada do sistema freudiano; sem já não considerar
adquirida a refutação que Freud faz da Filosofia. É, contudo, o que faz um grande
número de filósofos, e tanto mais quanto melhores filósofos, forem, dir-se-la.
Constitui o objecto do debate sobre a hermenê uticas: poderá a obra freudiana
ligar-@se a outros sistemas, particularmente a sistemas teológicos? Quanto a nós, a
chave deste problema encontra-se em duas figuras filosóficas (o termo «figura»
oculta neste caso o pulular fastasmático em que as palavras «sabedoria»,
«grandeza», se juntam às imagens de círculo, de espiral e de deuses, para
transformar sistemas de conceitos em divindades intelectuais, a fim de não os
desmontar). Convém, no entanto, desmontax os sistemas de Platão e de Hegel e
denunciar no seu próprio fechamento, inerente a toda a filosofia, a
incompatibilidade manifesta com a abertura freudiana.

Não podei-ia deixar-se de falar no freudo-marxismo: qualquer versão última de uma


redução desta vez não de um pensamento mas dos dois ao mesmo tempo. Sartre
reterá a atenção: pelo impacte que ele continua a ter sobre

285
o que se convencionou chamar a mocidade, infringe o que Freud afirma do
valor científico de uma teoria: quanto mais for verdadeira mais resistências
suscitará: «Tomemos como modelo a sorte reservada a uma teoria científica
nova, a de Darwin por exemplo. De início, ela provoca a hostilidade e é
rejeitada; durante dezenas de anos é-lhe contestado valor, porém não será
necessário mais de uma geração para que se admita constituir ela um
grande passo para a verdade... A verdade nova despertara algumas
resistências afectivas, e estas são traduzidas por argumentos graças aos
quais torna-se possível contestar as provas de apoio à teoria combatida.» 1
Assim, o sucesso imediato deveria ser a marca da conveniência ideológica;
igualmente, a interpretação falsa do psicanalista convém à estrutura
neurótica do paciente. Nisto tudo, não se trata nem de verdade nem de
método. Será necessário fixar os conceitos incompatíveis entre dois
materialismos e desenhar as linhas marcantes de uma divisão impossível.

Importa, para dizer tudo, preservar no discurso freudiano em geral uma


novidade à qual há quem dê às vezes o nome abusivo de subversão.
Consiste em afirmar que o antigo e o novo não poderíam ser confundidos.
Ora, para manter esta afirmação, é por vezes necessário levantar a voz, e
mimar a dramatização, quer sob a forma do processo, e temos então a
polénfica, à qual Lénine dá valor teórico, quer sob a forma de prosopopeia, e
temos então
* discurso da verdade tal como o concebe Lacan e com
* qual concluiremos esta abertura. 0 próprio excesso do presente texto é
uma prova do que pode inspirar Freud: um terror sagrado, uma repulsa ou
uma admiração igualmente mágicas; eis porque Lacan vulgariza Freud,
tornando a amplidão e a conversão freudianas acessíveis pela cadeia
daspalavras e das imagens:

«Mas eis como a verdade na boca de Freud encara a dificuldade: Eu sou,


pois, para vás o enigma daquela que se oculta malaparece, homens, que
tanto consentis em me dissimular sob os ouropéis das vossas conveniências.
Não obstante admito que o vosso embaraço seja sincero, pois mesmo
quando vos fazeis meus arautos não mereceis usar mais -as minhas cores do
que esses hábitos que são os vossos e semelhantes a vás mesmos,
fantasmas que sois. Aonde vou eu, então, depois de passar por vós? Onde
estava eu antes desta passagem? Di-lo-ei um dia, talvez? Mas para

286
que me encontreis onde estou vou ensinar-vos por que sinal me ireis
reconhecer. Homens, escutai, dou-vos o segredo. Eu, a verdade, falo,

«Ainda que fujais de mim no engano ou julgueis aipanhar-me no erro, é no


equívoco, contra o qual não tendes refúgio, que eu vos encontro. Aí onde a
palavra mais cauta deixa ver -um ligeiro estremecimento, é na sua perfídia
que ela falha, e eu o divulgo agora, e será desde então um pouco mais difícil
fazer como se nada fosse, na sociedade boa ou má. Mas não há nenhuma
necessidade de vos cansardes. A intenção mais inocente desconcerta-se por
já não poder esconder que os seus actos falhados são os mais bem sucedidos
e que o fracasso recompensa o desejo mais secreto. Porém, não será
suficiente para julga-r a vossa derrota ver-me evadir primeiramente do
torreão da fortaleza em que supondes guardar-me ao colocar-me não em vós
mas no próprio ser? Eu vagabundeio no que -considerais o ser menos
verdadeiro por essência: no sonho, no repto ao sentido da graça mais
gongórica e ao nonsense do calembur mais grotesco, no acaso, e não na sua
lei, mas na sua contingência, e eu nunca procedo mais seguramente a mudar
a face do mundo que em dar-lhe o perfil do nariz de Ocópatra.» 1

287
FREUD OU A AMBIVALÊNCIA CULTURAL

A denegação

Obedecemos aqui à exigência fixa da em primeiro lugar: encontrar no próprio


Freud as regras de decifração que permitirão distinguir, por um lado, o que nele
depende do condicionamento cultural e da transmissão- pela educação e o leva a
falar como filósofo contra sua vontade; por outro, aquilo onde por ele é afirmada
uma separação da Filosofia, e se afirma então, e irredutivelmente, psicanalista. Esta
dupla posição, que coexiste em Freud sem que ele possa elucidar a simultaneidade,
justifica o termo ambivalência que nós empregamos na circunstância: indicando por
isso uma oscilação brusca e uma ausência de raciocínio, e tomando em
consideração dificuldades do -leitor, que se vê confinado a um Freud explicitamente
hostil a enunciados filosóficos que> contudo, utiliza. Duas notas aqui, enxertadas de
um exemplo de completamento. Primeiramente, a cegueira de Freud neste ponto
não pode surpreender: manifestar desconhecimento é o efeito ideológico por
excelência. Cumpre, pois, corrigir o termo ambivalência, que, se for adequado à
ruptura radical entre os dois aspectos de Freud, poderia fazer crer que estes têm o
mesmo valor teórico. De facto, é por ser possível observar claramente a ideologia na
maneira como Freud exprime a cultura sua contemporânea que se pode também
claramente segui-lo na brecha que aí introduz. Compete-nos descobrir as razões
teóricas que tornam, de acordo com o próprio Freud, a Filosofia incompatível com a
Psicanálise, eassinalar -aí um progresso científico, no sentido de aciência corrigir a
ideologia em que se apoia. Um exemplo para apresentar a ambivalência: numa
discussão sobre Nietz;sche, Freud afirma o seu «horror à abstracção filo-

288
sófica»; poréTn, nos Ensaios de Psicanálise, refere-se a Platão a propósito do Banquete, para
justificar o primado da sexualidade. É quando tem necessidade de fazer admitir uma ideia, e
consequentemente de vencer resistências, que Freud apela para uma espécie de «mitema»
cultural, neste caso Platão. Onde se cai novamente no problema-mas para o complicar-da
clivagem entre a ideologia e a teoria: pois recusar que a Psicanálise seja filosofia, por um
lado, e recorrer, por outro a Platão para dar força à -ideia psicanalítica não será um passo
cuja contradição se arrisca a ser nociva à própria teoria? Freud, sem pôr o problema nesta
forma, sente bem a dificuldade, visto que, sublinha Jones 8, «,ao falar da Psicanálise,
emprega sempre a expressão ‘Die Sache’ (a coisa ou a questão). 0 inominado: tal é o nome
da Psicanálise. Basta dizer que Freud prefere que a obra de que é autor não tenha nome do
que seja aparentada à Psicologia, à Filosofia ou a qualquer outra actividade repertoriada:
antes anónima e órfã que bastarda... Freud pretende ser o pai e o fundador de uma ciência
nova, como Scliliemann se afirmou o Inventor das ruínas de Tróia. Ao rejeitar a Filosofia, trata
de dar nome próprio à Psicanálise.

... Fara da se

«Eu tenho dúvidas quanto à maneira como Frãulein Spiel,rein procura submeter os materiais
psicológicos a critérios biológicos. Esta subordinação é tão repreensível como uma sujeição à
Filosofia, à Fisiologia e à anatomia cerebral. A Psicanálise fara da se.» 1

É preciso dar explicação da recusa de Freud em introduzir a Psicanálise numa arquitectónica,


isto é, numa classíficação das ciências dependente de um projecto global de organização do
saber. «Eu entendo por arquitectónica a arte dos sistemas. Assim como a unidade sistemática
é o que converte o conhecimento vulgar em ciência, ou seja, o que de um simples agregado
de conhecimentos faz um sistema, a arquitectónica é, pois, a teoria do que há de científico
no nosso conhecimento em geral, e, em consequência, pertence necessariamente à
metodologia.» 11 Tal é,a definição kantiana da arquitectónica: nela seencontra a
preocupação de vulgarização e de cientificidade reunidas num só projecto. Isto porque, para
Freud,
19 289
a Psicanálise deve gerar outra arquitectónica, com a qual nenhuma outra pode ser
compatível. A arquitectónica é o fundamento de qualquer transmissão do saber:
deste modo, a classificação aristotélica pôde servir de regulador à organização
medieval do ensino e informar, através das distorções de fraca amplitude, as
evoluções do Trivium e do Quadrivium. Eis porque, presentemente, no momento em
que se opera uma relativa transformação no ensino e nas suas formas, muito
dificilmente se procura situar a Psicanálise no que se chama uma disciplina, isto é,
uma regra normativa para classificar os domínios do saber a transmitir. A Psicologia
comporta uma margem de Psicanálise, a Filosofia uma franja, e quando se trata de
implantar-como no centro experimental de Vincennesum campo específico, vemo-
nos constrangidos, para evitar a aporia, a mudar o nome -da «questão» em
«psicanalítica». A Psicanálise não se ensina, se ensinar quer dizer transmitir um
«corpus» dogmático a um público numeroso. Nenhuma forma de ensi-namento, por
muito pouco tradicional que seja, poderia convir à Psicanálise: ela constitui-se pela
cura analítica, isto é, por ela mesma. Para «conhecer» a Psicanálise impõe-se entrar
em análise: transmissão de um saber que nem é uma iniciação nem um
compromisso, ainda que seja possível tomar da Iniciação as formas esotéricas
---como manifestar algo de transmissível senão pela alusão? -e do compromisso os
constrangimentos, particularmente financeiros. Assim, pois, surge a primeira
ruptura com a Filosofia: porque esta é exclusivamente na nossa cultura um objecto
de ensinamento, e dos mais desconcertantes, visto que, .«strieto sensu», nela não
se colhe nenhuma informação. Este aspecto do ensino poderia parecer secundário
se os efeitos de Maio de 1968 não dessem a conhecer a desordem da
«arquitectónica» universitária, e se a questão da inserção psicanalítica nas
faculdades não se revestisse de uma certa actualidade. É nisto que a nossa reflexão
patenteia uma partie das suas motivações e tenta pôr claramente o problema, ao
sublinhar as incompatibilidades em vez de as dissimular: sob a capa das Ciências
Humanas, por exemplo.

Freud tentou elucidar as suas resistências à Filosofia num breve texto de 1932: A
Questão de Uma Weltanschauung. Encontra-se uma versão polémica destas teses
em Inibição, Sintoma e Angústia: «Eu sou hostil à fabri-

290
cação de visões do mundo. Deixemo-las aos filósofos, que confessam abertamente
que a viagem da vida é impossível sem um Baedeker que lhes dê informações sobre
todas as coisas. Aceitemos com humildade o desprezo com que os filósofos nos
olham do alto das suas sublimes exigências. Todavia, na falta de podermos - nós
também - renunciar ao orgulho narcísico, consolemo-nos com a ideia de que
estes «mestres de vida» envelhecem rapidamente, que é justamente o nosso
pequeno trabalho de curta vista, limitado, que os obriga a renovar as
edições, revistas e corrigidas, e que mesmo os mais modernos destes Raedeker são
tentativas de substituir o velho catecismo tão cómodo e tão completo. Conhecemos
bem a pouca luz que a ciê ncia conseguiu até ao presente lançar sobre os enigmas
deste mundo; toda a loquacidade dos filósofos não pode mudar nada nesse campo
e um trabalho continuado, com paciência, tudo subordinando à única exigencia da
certeza, pode modificar progressivamente este estado de coisas. Quem, ao
caminhar na obscuridade, canta, nega a sua ansiedade; porém, não verá por isso
mais claro.» 11

Baedeker, guia para viajantes, será novamente assunto quando Freud, sonhando
com a fantasmática viagem a Roma, cede à profusão de imagens da viagem e às
nostalgias dos lugares longínquos. 0 filósofo é, portanto, um guia, e como tal
Incompleto, mesmo que se suponha exaustivo. Esta exaustividade é um sinal de
angústia: no ponto em que o filósofo loquaz e cantador se apresenta como quem
obsta ao progresso da ciência.

A univocidade filosófica

Freud, logo no princípio do texto de 1932, encara sem dificuldade, com o empirismo
que lhe é habitual, a definição da intraduzível Weltanschauung (por comodidade,
citemos a tradução, acreditada pela fenomenologia entre outras, «visão do
mundo»). «Uma Weltanschauung», escreve Freud, «é uma construção intelectual
que resolve todos os problemas da nossa existência de maneira univoca sobre a
base de uma única hipótese, à qual não pode ser derrogada, e que, por via de
consequência, não deixa nenhuma questão sem resposta, e na qual todas as coisas
que nos interessam têm lugar fixo.» 11 Neste texto, sublinhamos tudo o que fornece
assunto à crítica freudiana, a

291
saber: a unicidade e o fechamento sistemático. Efectivamente, o termo construção
não é de natureza a ser rejeitado, pois o psicanalista procede em primeiro lugar por
construção, isto é, por interpretação global da história do seu paciente. 0 objectivo,
ou antes, amediação para um objectivo indefinido, visto que a análise, para falar
estrita-mente, nunca se concluiu, é propor ao doente uma construção histórica para
uma história perdida, que seja eficaz, isto é, cujo eleito seja o desaparecimento dos
sintomas patológicos. Não se poderia dizer que não se trata de uma construção nem
que ela não seja intelectual, no sentido em que é feita de palavras: mas estas
palavras têm uma eficácia sobre o corpo e a vida quotidiana do doente. Este
exemplo analítico permite, com efeito, compreender o que Freud -entende por
Weltanschauung. Efectivamente, a construção em análise não é projectiva; quer isto
dizer que não acontece em indivíduo isolado ---pois a construção analítica apenas se
verifica pelos efeitos da transferência, e que há então duas pessoas a construir -
projectando o fantasma e danídolhe as dimensões de uma rede universal. É, pelo
contrário, a relação por excelência: relação de duas histórias - a do doente,
patológica e manifestada por sintomas associais, e a do psicanalista, o qual, não se
podendo recordar do que não lhe aconteceu, pois a história pertence a outro, a
constrói de todas as partes, algumas das quais lhe são fornecidas pelo analisado
sob a forma de recordações encobridoras, semelhantes à cena primitiva. Vê-se
agora o que é uma Weltanschauung: por intelectual deve entender-se, neste caso,
individual e projectivo. Eis porque uma visão do mundo apenas poderia ser unívoca
e fechada, tão sistemática como o fantasma de que emana. A fim de esclarecer este
ponto, apliquemos ao fantasma a definição de Jacques Lacan: uma relação de si
para si, uma ordem para qualquer subjectividade, um cenário combi,natório de
múltiplas entradas, de múltiplas permutações, mas cujos lugares são fixos. Esta.
interpretação apoia-se no texto de Freud: Bate-se Numa Crtança. Esta frase pode
ler-se nas respectivas permutações: uma criança é batida; eu bato numa -criança;
batem-me; eu sou a criança batida...
0 verbo não muda, mas o sujeito e o predie-ado apresentam-se nelas
diferentemente. Esta fixidez do fantasma atrav6 das suas variações permite
perceber o facto de estar situado na intersecção do colectivo e do individual:

292
colectivo, na medida em que ninguém escapa ao fantasma e em que este é
informado pelas leis da ordem simbólica, regida pela paternidade edipiana: logo,
universal, para seguir Freud. Individual, sinal da individualidade para cada sujeito, é
também o seu sinal diferencial e distintivo, pois as variantes dos materiais
imaginários são indefinidas. A cada qual o seu fantasma, e tambénia sua filosofia:
ao mesmo tempo a Filosofia é universal. Com razão, pois, pode haver tantas
Weltanschauung como indivíduos, e eis porque se pensa não fazer mal em juntar à
palavra «filosofia» o possessivo que a relativiza: a minha filosofia. Este rodeio pela
noção de fantasma esclarece a classificação natural que era da estima de Freud:
pois apresenta-se como uma grelha pessoal, uma taxonomia específica; qualquer
-coisa deve, em consequência, aí entrar, e tudo aquilo que desconcerte deve tornar-
se «bem conhecido». É donde procede a vulgarização de R. T. L.: leito de Procustes,
reduz a Psicanálise às dimensões familliares da Filosofia.

0 desmembramento cientifico

Freud é ainda mais incisivo: eA Psicanálise, em meu parecer, é incapaz de criar uma
Weltanschauung que lhe seja própria.» Indica assim que a distinção entre Psicanálisee
Filosofia tem por objecto questões de método fundamentai@s. 0 método filosófico não se
preocupa directamente com o real, excepto para dele formar o conceito e integrá-lo num
certo sistema. Mas o método científico, de que a Psicanálise é um caso particular, tem -de se
haver com o real e, portanto, com a própria descontinuidade, o não-integrável. Eis porque
Freud. nunca deixa de pÔr em evidência as aporias, de marcar os pontos de interrupção do
sistema analítico: pois, para ele, a marca da cientificidade reside, parece, em não recusar as
obscuridades e as resistências da realidade psíquica. Nesta confarmidade, es-

creve a Jung: «Estou cada vez mais persuadido do valor cultural da Psicanálise, e gostaria que
houvesse alguém bastante dotado para dela tirar conclusões úteis à Filosofia e à vida social.
Tenho a impressão que por agora parámos e que aguardamos alguma nova impulsão...
Todavia, não sou impaciente.» Esta paciência suspensiva conduziu-o à hipótese edipiana,
precisamente porque soube recusar

293
admitir a sua Weltanschauung antes da experiência: mal ele se apercebe, nas suas
primeiras análises, de que todas as histéricas que tratava sustentavam ter sido
seduzidas pelo pai, então a descontinuidade do real-todos os pais não podem ser
seduto(res-toma o passo sobre a hipótese de Freud: todas as histéricas sofreram um
traumatismo real na sua infância. A correcção e o desmembramento da hipótese
permitem deduzir a base da construção edipiana: as histéricas desejam ser
seduzidas pelo próprio pai.

A Weltanschauung científica é, pois, radicalmente diferente da Weltanschauung


filosófica, a ponto de se criticar ela mesma. Pode dizer-se, por fim, que a actividade
científica é uma auto-crítica da Weltanschauung de origem do seu autor. Parra
Freud está aí a clivagem essencial: «A Filosofia não se opõe à ciência e trabalha em
parte com os mesmos métodos; contudo, diferencia-se da ciência porque ela agarra-
se à ilusão de apresentar uma pintura do universo sem lacunas e coerente ... » E
cita a descrição que Heine deu do filósofo: aquele que tapa os buracos do edifício
universal com o seu roupão, roupão este a que chamámos há pouco o fantasma.
Freud dedica-se com ardor a este texto e escreve a Jung 11: «Sei que tendes razão
ao dizer que eu trabalho na verdade honestamente. É esta a razão por que o meu
saber se mostra tão fragmentário e por que sou geralmente incapaz de fazer uma
longa exposição com sequência. Pela minha parte, renunciei, na medida do
possível, a qualquer especulação, e não quero tentar tapar os buracos ... » Jung não
terá esta prudência, em relação à qual Freud, não obstante, o alertara muitas vezes.

Não porque, certamente, Freud não tivesse Weltanschauung própria, o que seria
contraditório com o que se disse anteriormente do fantasma. Mas, ao contrário do
filósofo, não deixa o fantasma tomar-se mestre da teoria. Marie Bonaparte dános
um exemplo do que poderia fazer-se da filosofia de Freud, num texto intitulado, ,de
modo eloquente: Dois Pensadores perante o Abismo. Relata que Freud, falando da
infelicidade, -da dor e da morte, diz: «Por que razão alguma -coisa emanada do
homem deveria durar quando no Universo tudo perece?»; ou ainda: « ... Triste
porquê? É a vida. E é precisamente o seu eterno fluir que torna a vida tão b,ela.» Se
Freud fosse filósofo teria transformado a morte em prin-

294
cípio metafísico. Ora, a morte é bem um princípio, mas é um princípio
metapsicológico, ou seja, heurístico: «A pulsão de morte não é para mim uma
necessidade profunda, depara-se unicamente como uma hipótese inevitável por
motivos ao mesmo tempo biológicos e psicológicos. Tudo o resto daí advém. 0 meu
pessimismo parece, pois, ser um resultado; o optimismo do meu adversário, um
pressuposto.» Basta, por outra via, e para se persuadir da veracidade desta frase,
ler o texto Tema dos Três Cofres, no qual o método analítico realiza uma decifração
dos mitos e dos textos sem -enunciados gerais e considerações especulativas.
Basta, sobretudo, tomar conhecimento da admirável carta a Pfister, em que Freud
utiliza o humor para falar da natureza e do espírito.

«Naturalmente, é muito possível que eu me engane em três pontos: na


independência da minha teoria em relação às minhas disposições, na avaliação dos
meus argumentos a favor destas teorias e no próprio conteúdo destas. Sabeis bem
que quanto mais as perspectivas são grandiosas mais pequena é a certeza, e mais
apaixonada também-e neste ponto não as queremos seguir-a tomada de posição
dos homens.

«Posso pensar que há milhões de anos, na época de Trias, todos os grandes


odontoterianos fossem muito arrogantes do desenvolvimento da espécie dos
sáurios, e Deus sabe por que grandioso futuro eles esperavam! Mas depois
extinguiram-se, excepto o desditoso crocodilo. Ides objectar: ‘Certamente que esses
sáurios não pensaram nisso, não queriam senão comer. 0 homem, pelo contrário,
tem o espírito, que lhe confere o direito de pensar e de acreditar no futuro’. Sem
dúvida, o espírito é alguma coisa de muito particular, há tão poucas informações
sobre ele e as suas relações com a Natureza. Eu tenho muito respeito pelo espírito;
porém não terá também a Natureza? Ele não é mais que um fragmento dela, e o
resto tem todo

o ar depoder muitobem sair-se airosamente sem esse fragmento. Deixar-se-á ela,


na verdade, impressionar numa larga medida por considerações para com o
espírito?» 11

E Freud conclui: «Poderia dizer ainda que fixei com as minhas escuras teorias as
condições de um casamento de conveniência, enquanto os outros vivem com as
suas um casamento de amor. Esperemos que sejam mais felizes do que eu.»

295
Humanidades de Freud

A fim de mais claramente compreender a denegação freudiana, convém,


prosseguindo na cultura de Freud, determinar a marca e a herança das
humanidades greco-latinas nos seus próprios passos: lugar da ambivalência. De um
lado, a veia goethiana e schilleriana desperta nas associações de Freud toda uma
poética da continuidade e da unidade: deste modo, a propósito de um sonho e das
interpretações que lhe dá, pensa ao mesmo tempo num tecelão e numa
encruzilhada, e cita Goethe:

«A cada pedalada movem-se os fios aos milhares As lançadeiras vão e vêm Os fios
escapam-se, invisíveis, Cada pedalada liga-os aos milhares ... » Tudo se passa como
se Freud não pudesse resistir ao enunciado poético embora resista ao enunciado
filosófico. A figura de Goethe toma um lugar tal que um dos seus biógrafos, Wittels,
fala de uma identificação de Freud ao poeta. É porque o poeta escapa às críticas,
pois «usa do privilégio de enobrecer todas as coisas». Eis porque também, conforme
sublinha J.-B. Pontalis11, a arte, se for igualmente ilusão unitária, como a Filosofia,
trata de perpetuar o prazer - indefinidamente diferido -, o que é o processo
característico da sublimação. A Filosofia procede do mesmo modo, e difere o prazer
ao perpetuá-lo num júbilo especulativo do qual Espinosa constitui um perfeito
exemplo: todavia, ele não o sabe e julga-se portador da verdade. A poesia e a arte
em geral mantêm-se sempre o sector preferencial da investigação de Freud no
campo da Psicanálise aplicada.

Mas, por outra via, Freud tem uma paixão, tão determinante e indicativa como a
Botânica para 14. Rousseau ou a música para Lévi-Strauss: a Arqueologia. 0 Egipto
e Roma fascinam-no, e urna viagem a esta cidade, muito tempo adiada, é o próprio
símbolo do agrado a seus olhos. Ora, Freud sabe que a Arqueologia tem para ele
valor de modelo heurístico: testemunham isso as numerosas metáfo,ras de
envasamento, de fundações, e a utilização desta metáfora em Construções em
Análise: «0 trabalho de construção em análise ou, se o preferirmos, de reconstrução,
assemelha-se estreitamente à exeavação de um arqueólogo em qualquer edifício
antigo e enterrado... Ambos

296
têm um direito incontestado de reconstruir adicionando e associando vestígios... 0
arqueólogo ocupa-se de objectos destruídos, e dos quais grandes e importantes
fragmentos certamente se perderam em consequência de violências mecânicas, de
incêndios ou de pilhagens ... » 0 analista é uma espécie de arqueólogo, com a
diferença de que este último reconstrói uma cidade desaparecida, tal qual
Schliemann fez de Tróia, enquanto o analista constrói um passado que talvez
tivesse existido, e da veracidade de cuja construção nada o pode certificar senão o
efeito produzi,do-o que é impossível na Arqueologia. (A comparação mantém-se
pertinente, pelo menos no caso de Schliemann, visto ser uma outra Tróia que ele
descobriu.) Todavia, do arqueólogo ao psicanalista, a eficácia que desempenha um
papel discriminativo é o fundamento da esperança freudiana: pois a Arqueologia
nada produz, enquanto o psicanalista dá acesso a uma prática e a uma ética
diferentes. Pode então interpretar-se de outra maneira a frase que Freud coloca em
exergo de A Interpretação dos Sonhos: «Flectere si nequeo Superos, Acheronta
movebo.» Aqueronte e a dependência não formam um domí nio separado, e este
domínio abre brechas nas águas superiores do mundo consciente.

Preud rodeia, pois, as raízes greco-latinas e as suas ressurgências goethianas e


encontra um modelo que lhe permite desconstruir a sua própria cultura: a
Arqueologia, história das camadas sucessivas de uma civilizaçã o, vem
efectivamente combater a ideia da unidade universal difundida pela cultura greco-
latina e pelo mito hegelikano, segundo o qual o pensamento constituído do homem
tem a sua origem na bela totalidade da cidade antiga.

0 desejo de saber e a morte

É, no entanto, na cultura grega que iremos encontrar a mediação entre as


humanidades freudianas e a teoria psicanalítica freudiana. É a Platão que Freud vai
buscar a noção de Eros, nome mítico do princípio de prazer, e antes de mais
princípio de unidade. Freud explica-se acerca da escolha deste termo, nos Ensaios
de Psicanãlise, com a liberdade em que se manifesta o seu empirismo teórico: que o
princípio se chame libido, Amor ou Eros, isso pouco importa, contanto que a
tendência para a uni-

297
dade se mostre nele. «Libido é um termo extraído da teoria da afectividade.
Designamos assim a energia (considerada como uma grandeza qualitativa mas não
ainda mensurável) das tendências dependentes do que resumimos na palavra
‘Amor’, o núcleo do que exigimos e é oantado pelos poetas, ou seja, o amor sexual,
cujo termo se constitui pela união sexual... Todavia, ao alargar a concepção de
-amor, a Psicanálise nadacriou -de novo. 0 Eros de Platão mostra, quanto às suas
origens, às suas manifestações e às suas relações com o amor sexual, uma analogia
completa com a energia amorosa, com a libido da Psicanálise.» 11 Eros, princípio de
união, tendência para a síntese, que «assegura a unidade e a coesão de tudo o que
existe no mundo», parece contradizer a fragmentação do método freudiano: pela
sua filiação platónica, liga-se à grande tradição do dualismo unitário corpo/alma.
Várias observações então se impõem: primeiramente, a comprovação do paradoxo
deste princípio, por assim dizer da mesma essência que a Filosofia. Porém, este
enunciado deve imediatamente ser corrigido por duias proposições
complementares:

-Freud faz, por seu lado, a apreciação deste princípio de unidade ao dobrá-lo e ao
destruí-lo pelo outro, Tánatos, pulsão de morte. Deste modo, aprecia ao mesmo
tempo as suas raízes filosóficas, -as mesmas que as de qualquer um, tendência
geral à Weltanschauung, e eis a segunda proposição:

-A Filosofia pode ser -considerada como dependente de Eros, portanto de uma


pulsão unitária.

Cumpre examinar o papel da pulsão de morte e tornar a falar de Freud perante a


morte: R. T. L., na sua malversação, não se enganara. Onde se acha a agulha do Dr.
Schur, portadora de mais sentido do que seria de pensar: todo o esforço de Freud
está em compensar a Filosofia descontruindo-a, e é a pulsão de morte que
desempenha este papel de separação, pois introduz a decomposição nas
organicidades e o desmembramento em qualquer síntese. Citemos ainda J.-B.
Pontalis: «A Filosofia, exemplar enquanto votada à síntese, quer encontre esta num
sujeito constituinte, quer numa bela totalidade natural, quer nada História,
dramática. A pulsão de morte, absoluto da anti-síntese onde vem fundar-se, numa
forma certamente estranha, a exigência da análise.» 11 Anti-síntese,

298
instrumento de crítica teórica, de fragmentação, a pulsão de morte como ideia
reguladora poderá desempenhar o papel de pedra-de-toque na investigação que
nos propusemos -empreender acerca das utilizações da herança freudiana: se nela
a morte estiver sublimada e apagada, então já não se poderá falar de fidelidade a
Freud. Se a pulsão de morte (e, para dizer a verdade, a pulsão enquanto tal)
desempenhar o papel de uma irredutível clivagem, se a oposição entre o consciente
e o inconsciente, com as consequências teóricas de que teremos de falar, vem
substituir-se ao dualismo alma/corpo, então o pensamento de Freud está no seu
lugar.

Anti-síntese, a pulsão de morte dá também explicação da éttea freudiana, nunca


formulada em formade sistema, sob pena de ceder à exigência filosófica de
postulação universal. No entanto, a ética pode interpretar-se com uma relativa
firmeza, conforme bem o demonstrou Lacan (seminário não publicado sobre a Ética
da Psicanálise). Diz respeito tanto à problemática do desejo como à da morte. Do
desejo, o analista pede ao analisado que não o dissimule em nada, e que faça dele
a lei da sua expressividade, na falta de poder dele fazer simplesmente a lei: a
expressão ma falta de» encontra-se aqui investida do seu verdadeiro sentido, o da
culpabilidade inerente à ordeni simbólica e à lei paternal. Jacques Lacan formula
assim as duas questões da ética analítica: «Agistes em conformidade com o desejo
que existe em vós?» e «Em análise, a única coisa de que se pode ser culpável é de
ter cedido relativamente ao próprio desejo» 11, acrescentando que neste campo
traímo-nos muitas vezes. Eis porque Freud, vimo-lo, recusa-se a dar um sentido
demasiado preciso ao que acaba de inventar, preferindo designá-lo a «questão».
Este nome mágico, cujo -emprego se aproxima do poder de simbolização do
«mana», isto é, do que, na linguagem corrente, indica o indeterminado, o «truque»,
tira a sua pertinência em ser um reservado de significantes e de circular conio o
mais familiar e o mais tabu, toma o seu valor de contágio, de peste: a que Freud
desejava levar aos Estados Unidos da América, menosprezando o poder profiláctico
-do capitalismo humanitário. Die, Sache: a questão que se ocupa da Coisa, das
I>Ing, de nome absolutamente indeterminado; pense-se, para dar dela uma
representação adequada, na maneira como Pasolini esconde e

299
desvela a Esfinge no seu Rei Édipo: objecto feminino nu e oferecido, escondido atrás
de um pano de parede e atraindo o viandante intrigado pela grande quantidade de
velhos solícitos em mostrar a «questão», a grande questão da sexualidade.

Mas o desejo não é separável da morte: pois o desejo paga-se caro, vai do sintoma
histérico até à entrega de carne que Shylock,exige do seu adversário. De modo que
no horizonte do desejo se representa a morte, como o último preçoa pagar, a última
dívida,aquela de que estamos devedores à Natureza, como Sócrates do seu galo a
Esculá,pio. É no que a ética freudiana se considera de consta,tação perante a morte;
porém, e está aí a diferença da Filosofia, sem que nenhuma dedução possa dela ser
retirada no plano prático. Não se trata de estoicismo, nem de aprender a morrer: R.
T. L. distorceu inevitavelmente a posição freudiana. Exemplo disto, o diálogo quase
incantatório das personagens de Paravents, de Genet, quando «morrem» passando
através dos biombos de papel: cada um deles, ao entrar no mundo dos mortos, diz a
mesma palavra, em que a repetição, banalizando o enunciado, lhe confere valor de
universalidade:

«- Hé bien!
- Hé oui! - respondem os mortos já completamente mortos.

-Par exemple!
- Et on f ait tant d'histoire ... » Esta história é a que torna nula, do ponto de vista da
verdade freudiana, qualquer Weltanschauung. «As personagens de Genet não
podem evitar de fazer o barulho seco -ao arrombar os biombos, através dos quais
morrem, trajecto que lhes arranca este comentário: ‘Et on fait tant d'hÍstoire...’
Freud, ao rasgar o biombo da tragédia, procedeu igualmente para nós em relação à
questão do sexo. Pertence a vez de o público fazer outro tanto a propósito de Freud,
e da Psicanálise, quando ele hesite -em cair na esparrela.» 11

A questão da morte deve, não ser posta. É isso a que Lacan chama a oprofilaxia da
dependência». Deste ponto de vista, e se se considerar que a síntese filosófica
unitária é a origem da dependência na ordem da sublimação, dependência em
relaçãocom a própria noção de sistema e de sistematicidade, então a Filosofia é
mesmo o exercício

300
da dependência: encontraremos esta encruzilhada seguindo o desvio platónico, que
a liga a Eros e a faz depender do desejo de saber, como toda a actividade
intelectual. 0 desejo de saber: nada se diz com isso, para falar com propriedade,
enquanto não secompletar a frase: desejo de sabereomo nascem as crianças. Estas
construções infantis, no número das quais se pode colocar o romance familiar,
prefiguram qualquer investigação intelectual. «A sede de conhecer parece
inseparável da curiosidade sexual», escreve Freud a propósito da fobia do pequeno
Hansm. Na origem de qualquer sublimação encontra-se a ilusão sobre a
sexualidade: o método psicanalítico pode dar lugar a umateoria de desilusão, o que
não implica o desencantamento. Não há idade adulta, excepto para dizer que regula
* reduz o coeficiente anamórfíco da ilusão. Enquanto, tudo * que se chama
progresso na ordem da ciência depende de uma ilusão desmesurada relativamente
à norma vivível. Destarte, «era uma ilusão de Cristóvão Colombo quando ele julgou
ter descoberto uma nova rota marítima para as índias. A parte de desejo que este
-erro comportava é manifesta. 0 que caracteriza a ilusão é ela ser derivada dos
desejos humanos.» 11

No entanto, convém não nos enganarmos a esse respeito: a Filosofia, apesar do


estatuto do qual faz parte, e que é o de qualquer ilusão, entra numa espécie de
tipologia geral que Freud esboça em Totem e Tabu, tipologia dos sistemas ilusórios:
«Por um lado, as neuroses apresentam analogias surpreendentes e profundas com
as grandes produções sociais da arte, da religião e da Filosofia; por outro, surgem
como deformaçõoes destas produções. Quase poder-se-ia dizer que uma histeria é
uma obra de arte deformada, que uma neurose obsessional é uma religião
deformada e que uma mania paranóica é um sistema filosófico deformado.» Nesta
tipologia, só a arte guarda para Freud um valor não repressivo quanto ao desejo que
a suscitou, porque este não pretende, pelas suas produções, informar o
comportamento dos homens. Por meios diferentes, a religião e a Filosofia regulam a
vida e o temor dos homens, uma, e a sua pesquisa, a outra. Porque a arte, ainda
que seja uma produção social, continua ligada à individualidade, parece a Freud
mais próxima do inconsciente: proximidade ilusória, excepto em considerar que a
socialização de um processo de sublimação a afasta

301
do inconsciente; mas isso seria não dar importância à clivagem
consciente/inconsciente que não se deixa pensar em,termos de proximidade ou de
afastamento: eis no que a ideologia libertária que queria, em Maio de 1968, fazer
falar o inconsciente nas paredes desconhecia a realidade psíquica e o impacte da
sua verdade.

Verdade que cumpre reconhecer sempre na sua parcialidade: por este termo
deliberadamente ambíguo compreendemos a exigência que Freud sustenta,
particularmente contra Pfister, de retalhar em todos os campos.
0 desmembramento é a regra freudiana: o sintoma, seja de que ordem for, introduz
um corte no tempo contínuo da quotidianidade e da Filosofia: teremos de
demonstrar que é a mesma coisa; o fantasma, unidade de projecção, é um conjunto
de fragmentos dispersos que se -constituem numa cena primitiva determinando
toda a representação; o objecto do desejo, s-e for socialmente determinado como
parceiro humano, pode diferenciar-se indefinidamente, confonne o prova o
feiticismo. A verdade freudiana é inacessível a qualquer definição unívoca: quando
muito, pode ser expressa como um princípio de fragmentação.

302
III

HERMENÊUTICA E PSICANÃLISE

A descontinuidade

,Não é por acaso se -encontrámos parentesco na ordem do -sistema entre Filosofia e


religião. As tentativas de integração do pensamento freudiano são essencialmente
de duas ordens, aparentemente diferentes, mas de facto perceptualmente
semelhantes: a hermenêutica cristã e um certo marxismo de tradição hegeliana.
Dêmos a chave desta similitude: a sua origem está na dialéctica e na concepção do
tempo. Tivemos já ocasião de dizer que o tempo introduzido por Freud é
descontínuo: ora, o tempo do pensamento filosófico não poderia ser senão contínuo,
porque qualquer ruptura irredutível contradiz a própria noção de exercício do
,pensamento. Convém precisar aqui a elipse: a incompatibilidade, radical, original,
entre o pensamento filosófico e o sistema freudiano liga-se à desconti,nuidade que
introduz a noção de inconsciente no campo semântico e, por isso, no campo
reflexivo. Não certamente que a des-continuidade como tal não esteja presente na
reflexão filosófica; efectivamente podem encontrar-se muitos exemplos, entre os
quais faremos menção, de acordo com uma estratégia interna, da morte de
Sócrates e do seu papel conceptual na dialéctica platónica; ou ainda da luta -entre o
senhor -e o escravo da dialéctica hegeliana. Porém, e está aí a supressão da morte
de que falávamos mais,acima, estadescontinuidade é acidental econtingente, e a
sua necessidade é pensada -como causa de uma reunifi-

303
cação ulterior. 0 pensamento filosófico não suporta a dispersão constitutiva: ora, é
isto mesmo que confina o inconsciente.

Assim: o que na herança filosófica s,.- considera o fundamento de qualquer filosofia


do sujeito, isto é, o cogito cartesiano, sofre na leitura que Lacan faz dele, de
harmonia com os princípios freudianos, uma estranha e radical mutação: estranha
porque se torna estranho a ele mesmo; radical porque o projecto car@tesiano é
enxertado de uma raiz diferente e que ele deveria desconhecer. «Eu penso, eu
existo»: este enunciado diz-se numa enunciação simultânea e Descartes estabelece
a este resepito a importância ontológica da contemporaneidade das duas frases
separadas (eu penso) (eu existo) de maneira a que já não formem senão uma única
e com isso afirmem a existência do sujeito pensante, A simultaneidade da
existência e do pensamento funda a identidade do sujeito e do ser: deste modo se
afirma a existência de um suporte para qualquer discurso, e particularmente para o
discurso sobre Deus, prova onto16gica. É, pois, o próprio enunciado da
continuidade: é a propósito que Descartes introduz como garante deste gesto
constítutivo um Deus benévolo em matéria de criação, visto consentir em continuá-
la a fim de assegurar a permanência de um sujeito ao mesmo tempo certo da sua
existência e hesitante em não a poder afirmar sem interrupção: sono, sonho e
loucura existem para exigir esse suporte. Ora, Lacan aplica à fórmula «eu penso, eu
existo» a grelha freudiana: ou seja, procura a lacuna e a ruptura no enunciado.
Encontra-a na pontuação: pois a vírgula, cesura entre os dois membros de frases, ou
o logo, que se supre às vezes - eu penso, logo existo -, pode transformar-se e a frase
ficar, segundo Lacan: «Eu sou aquele que pensa: ‘Logo eu existo'.» Observa-se
então que o sujeito da enunciação «Eu sou aquele que pensa»... não é
-exactamente o mesmo que o do enunciado: «Logo eu exísto.» 0 corte linguístico
entre os dois sujeitos, psicologicamente idênticos visto ser da mesma boca donde
sai a palavra, mas logicamente distintos, resulta de uma abertura que nunca poderá
fechar-se porque provém do atraso do sujeito do enunciado comparativamente ao
sujeito da enunciação. A afirmação da existência dependerá sempre do primeiro
enunciado; reciiprocamente, o segundo enunciado condiciona retroactivamente a
verdade do primeiro:

304
«eu sou aquele que pensa ... » não pode existir sem a sua consequência e o seu
complemento: «logo existo». Atraso que Freud concebe, por sua vez, do processo
consciente relativamente à sua causalidade inconsciente, que avança ou difere
sempre, mas intercala o sujeito em relação a si próprio. Entre o primeiro e o
segundo enunciado, e indirectamente pela metalinguagem, produzida pelo
inconsciente, alguma coisa cai do sujeito, a certeza da sua única identidade. Os
Cahiers pour l'analyse puderam justamente formular o conceito de pontuação como
essencial a qualquer leitura freudiana, na medida em que a pontuação, clivagem
familiar, cesura normal na linguagem, permite o aparecimento das hesitações no
discurso subjectivo. Daremos dois extractos deste difícil texto: «Ora, quando
reconhecemos à causa um excedente de força pelo qual ela marca o seu produto e
o fende, que sobrevém do real racional? Deve conformar-se a um efeito, se assim se
quiser, irracional... Convida-se a ler o que Freud. leu, e a ler Freud como Freud. lia:
transferindo a tónica para o excedente anulado.» 11 A causa: a causa freudiana,
contrariamente à causa filosófica, inteiramente adequada aos efeitos que
determina, não se esgota nos efeitos conscientes, mas é e permanece resíduo
activo, a que ele chama pulsão. Está aí o excedente de força, e se este fende
alguma coisa é o sujeito que se julga Uno e Idêntico a ele mesmo. Eis porque o real
não é inteiramente racional, sob condição de entender por racional o exprimível.
Dar a conhecer o inexprimido, quer dizer, a causa, ausente relativamente aos seus
efeitos aparentes, é transferir a tónica, determinar as cesuras, os lapsos e, em geral,
o campo sintomático, para o excedente de força, o qual, tomado visível, é então
anulado.

Este desvio cartesiano tem por fim esclarecer a função estratégica do tempo na
nossa demonstração. Por isso a tragédia de Rei Édipo,chameira entre a cultura
ocidental e a arquitectónica freudiana, é de apontar como exemplo: todavia, não é
exemplo para o mesmo objecto. 0 destino de Édipo, o tempo trágico, é adequado à
Filosofia; mas o complexo edipiano dá a explicação não só da temporalidade trágica
como também da descontinuidade do inconsciente. Novidade fundamental que
chega a perturbar o filósofo, pois ela une e separa. É das tentativas para elucidar
esta perturbação que nos vamos ocupar.
20 305
Fechamento e geração

Tomemos um exemplo puro. Renê Girard, de formação e de tradição cristã, lê a


versão freudiana do mito edi,piano e reintegra-o no esquema mítico que, de
Sófocles a Kierkegaard, tirando algumas variantes, vê na personagem, de Édipo o
modelo do homem em questão e o padrão do humanismo em relação ao seu Deus.
Convém descobrir este gênero de reflexão, de que Girard é um exemplo
particularmente rico. 0 próprio título do artigo que nos serve de base - assim como
uma conferência nele aferente, pronunciada -em 1966 no seminário de Roland
Barthes - indica a via por onde se pode introduzir a crítica: Simetria e Disshnetria
11. Simetria: reguladora tanto dos conceitos como das gerações que se suicedem, é
a que opera em qualquer elemento único um desdobramento em dois termos
antagonistas. Dissimetria: é a própria causa de todo o processo, e esta causa traz
um nome de baptismo: o or;<ávôaÂov, ideia paulista do pecado, pedra sobre a qual
se -escora, origem das elaudicações, dos passos falsos e, em consequencia, motor
da história humana, considerada então como um longo arrastar até Deus. «0
escândalo é o fechamento do obstáculo que se opõe à abertura do acolhimento... 0
escândalo é uma estruturação permanente das relações humanas. Uma dimensão
social, polí tica, económic,a, é sugerida dela mesmo, assim como uma dimensão
sexual, a castração freudiana.» Deste modo, é um fechamento que se encontra na
origem de qualquer estruturação, e o sistema conceptual funciona à maneira de um
obturador: alargando, contra o próprio obstáculo, uma abertura dicotómica que se
torna a fechar em seguida. Desenha-se um losango susceptível de assimilar
qualquer discurso estranho, e entre outros o discurso freudiano. Parece mais
simples esquema-tizar os losangos sucessivos que permitem a integração dos
conceitos freudianos. Estes losangos - que deduzimos,do -artigo de Girard, mas sem
ele o conhecer - não têm ponto de partida: não há primeiro escândalo; pode-se,
pois, falar de uma origem escandalosa, distinguindo-a do começo, dotado de uma
realidade material e determinável: contrariamente à origem, cuja partida, rejeitada
indefinidamente, tem o estatuto do mito.

306
Coloquemos no mito edipiano o que se poderá chamar por convenção uma primeira
matriz:

creon Laios ---------- Êdipo (A c'dade)_@__@Antígona_1@ (A


excepção) (Hurnanidade)

* construamos algumas variações (ver quadro da pág. 308). A dicotomia, que vem
encontrar-se e centrar-se sobre * objecto indivisível e por isso mesmo dissimétrico,
obedece a uma regra que se extrai da leitura das colunas verticais (leitura que deve
tudo ao método de Claude Lévi-Strauss). A coluna I depende da Individualidade e o
laço entre a individualidade e a divindade está aí manifesta: o indivíduo julga-se
deus, mas não alcança isso senão à custa de um golpe na sua vida quotidiana
(Édipo cego, ou Tirésias) ou à custa do reconhecimento do seu desejo (Psicanálise);
ou ainda, por uma inversão previsível, Deus incarna-se numa individualidade
(Cristo). A coluna III abrange completamente todas -as figuras da colectividade,
concebida na sua relatividade, ou seja, sob a forma da generalidade: eis porque a
mulher como geradora está do lado do mito e da instituição. A coluna central (II)
delimita a medida humana, a que, sem ceder às pressões divinas ou femininas, se
impõe: a cultura como peste, história ou mito afirma-se como resistência.

Uma tal formalização deve muito a Hegel, menos na essência que na concepção
dialéctica da cultura como masculinidade que se afirma contra a matriz feminina,
Oriente, ou princípio de passividade, imediatez natura114. Deveremos, como no
caso de Platão, extirpar a raiz hegeliana e denunciar as malversações que ela
introduz na leitura de Freud. Eis uma: a oposição cultural, não subvertida e não
-criticada, do homem e da mulher permite a Girard transformar Freud numa dupla
versão, masculina ou feminina, trágica ou mítica, da mesma história devida ao
axáyôa@oy original. E escreve: «0 pensamento de Freud está, portanto,
infinitamente próximo do mito; ele mesmo é este mito, até na insistência obsessiva
sobre o parricído e o incesto... 0 mito psicanalítico, o

307
li ‘lumanídade

Sobre-Humano

Tirésias. 1 , Édipo

Irmão/filho

Tragédia

Vreud

Cada Um

iii

Desumano

Tirésias Édipo ‘1@

Mulher

Notas explicativas:

1 Tirésias, duplo de Êdipo por prefigurar o destino deste último, adivinho por ser cego e franquear as
barreiras entre o mundo dos homens e o -dos deuses. Tirésias, tendo obtido os favores de uma deusa, foi
homem, depois mulher, numa alternação de sete anos. Foi atingido de oegueira por ter revelado a Zeus,
indiscreto, o segredo -do gozo feminino. É, pois, sobre-humano e desumano (andrógino).

2 Freud está simultaneamente do Ia-do do mito e da tragédia. Reside aí um dos pontos m-ais importantes da
deformação que Girard lhe faz sofrer: do ponto -de vista que é o seu, Freud é apanhado no processo do
-escândalo e em consequência, como qualquer fenómeno cu,lturad, pode ser submetido ao -desdobramento
individual/colectivo.

3 A peste é ao mesmo tempo doença e saúde: doença, pois atinge cada um; mas -saúde, pois é a prova de
que a colectividade ,da cidade de Tebas não pode suportar a ímpia: a -peste cura quando Êdipo for punido. A
peste funciona aqui como uma vaci .na. 0 elo com o escândalo torna-se -então evidente: a vacina
também protege e suscita, isto é, imuniza.

4 A oposição entre Cristo e o Templo, -ou ainda entre o crístianismo e o judaísmo, deve ser compreendida
sem dúvida em função de Kierkegaard, para quem Antígona é a figura do trágico moderno: Sacrificada e
lastimante através de uma ortodoxia.

308
mito que s.e expande em Totem e Tabu, não é o mito edipiano em si; é algo de mais
terrível num sentido, mas também de mais divertido, é o mito edipiano lido à luz
-oh, que ironia!-do mito bíblico da queda. 0 homem psicanalíticoé sempre um
Adãoexpulsod@ Paraíso porque comeu ou cobiçou o fruto proibido.» 11

Ficam por esclarecer os,conceitos desconhecidos. A falar verdade, parece mais


simples deduzir primeiro as confusões: mito e tragédia em Freud são apenas
expressões do complexo de Édipo, irredutível a versões artísticas. É a sublimação,
-e com ela todo o processo natural, que, de facto, se responsabiliza pela operação. 0
dualismo masculino-feminino desconhece @a teoria da bissexualidade e, com ela, a
metapsicologia. Tanto num caso como noutro, a redução efectuada por Girard,
colocando-se no plano do exprimível cultural, esquece a oposição fundamental
entre o patente - o que pode estruturar-se - e o latente - causa da possibilidade de
estruturação. Quer dizer que o fechamento, causa da geração, suscita uma
ocultação da descontinuidade introduzida pela descoberta f reudiana.

0 Arque e o Telos

A hermenêutica de Paul Ricoeur, mais explícita, mais construída, procura dar ao


pensamento freudiano uma anterioridade e uma posteridade, uma origem e uma
finalidade: é isso, de maneira premeditada, uma tentativa justificada para situar
Freud no prolongamento da tradição em que se radica. Justificada, esta tentativa é-o
em alto grau, visto depender da noção de cultura de que Freud faz a teoria e cuja
perenidade procura explicar através das suas transformações. Escrever uma
Psicologia Colectiva é induzir uma reflexão sobre a transmissão de geração em
geraçãoe, em consequênci@a, fundar a noção de tradição. Ora, a diligência
hermenêutica e a diligência freudiana separam-se neste ponto: pois, para Freud, e
ele faz arespectiva demonstração em Moisés e o Monoteismo, a tradição é a
deformação de um homicídio, e a leítuTa de um texto comp,ara@se a uma
investigação policial; a conservação de um ritual, oral ou,escrito, é um escaninho
para um acto traumático. Freud aplica à tradição o mesmo tratamento que à noção
de doença: «A doença é uma tentativa de cura.» Este enunciado perturba a
compreen-

309
são do patológico e a norma desaparece nele. Acontece o mesmo com a tradição: a
reverência que ela invoca pelo passado, se tiver por função dissimular um
homicídio, que é o caso de Moisés, cujo cuilto mascara o assassínio; e se toda a
tradição proceder por deformações sucessivas análogas a homicídios, então a
tradição já não tem valor. De facto, é precisamente para este conceito de valor que
tende o freudismo, e é aí, do nosso ponto de vista, que se desenrola o conflito com a
hermenêutica.

«Só tem arque o indivíduo que tenha um telos.» Assim parece ser a regra dirimente
da investigação de Paui Ricoeur. Com efeito, um cristão não pode evitar a
confrontação com Freud, e está aqui uma justificação do cometimento. Porquanto o
espírito religioso coloca-se por excelência na dependência, e esta submissão orienta
o tempo parra o futuro. 0 mesmo para o passado: não se julgue que a única
diferença entre a hermenêutica e o pensamento freudiano resulta do facto de uma
orientar para o futuro pela escatalogia, mergulhando as suas raízes num passado
original, enquanto o outro também orienta mas para o passado. Aqui se processa a
interpretação da regressão em análise, no próprio centro da temporalidade. Dêraos
um exemplo do que se pode considerar, no sentido exacto, um contra-senso, visto
tratar-se da orientação espácio-temporal. Tirámo-lo de um artigo em que Ricoeur se
anticipa ao seu livro De Vinterprétation e fala de Hegel comodo sistema que pode
dar a Freud o telos que lhe faz falta. «Não termina a Fenomenologia do Espírito por
um rregresso ao imediato, como a anamnésia analítica9 Pelo contrário, não será a
regressão ao arcaico, pela Psicanálise, uma retomada do movimento para o futuro?»
11 Regressão ao arcaico, regresso ao imediato: Ricoeur parece prisioneiro de um
mito da regressão segundo o cíual esta deteria o seu princípio terapêutico da
realidade na sua «démarche» para a origem: ao regressar, ao remontar o curso do
tempo rumo à sua infância, no sentido que conduz à infância, o indivíduo suprime o
seu passado reinscrevendo-o na mesma história, a qual, ao mesmo tempo, se
renova. Desse modo, o tempo da regressão é o da progressão, mas invertido: pois,
permite pela segunda vez progredir, e regredir é curar. Ora, Freud insiste, e com ele
Lacan, a quem fazemos justiça, pelo facto de o ter passado a limpo, sobre a faceta
imaginária da regressão:

310
ela não é real - quer dizer, o sujeito não muda efectivamente de tempo - e o
princípio activo da cura resulta da a,namnésia, não no que esta tem de
revivescência, mas de rememoração. A distinção entre as duas depende da
colocação da recordação na memória: o reviver é tê-la como sintoma, e recordar-se
é sittiá-la sem que tenha outra actualidade que a da memória, inofensiva e não
patogénica. Porquanto a rememoração faz passar o sintoma de passado
Inconsciente ao estado de recordação consciente, e deste modo o reintegra na
continuidade do vivido mítico e quotidiano, aquele de que se pode falar. Mas o acto
da rememoração gera um certo esquecimento, e a anamnésia é mesmo o contrário
do saber: o pequeno Hans, quando crescido, esqueceu tudo. Há aí uma memória
que convém seja esquecida para ser eficaz, e desenrolam-se duas temporalidades:
a do tempo consciente, da memória contínua e do sujeito filosófico, directamente
dizível e propícia à hermenêutica; e a do tempo inconsciente, indirectamente dizível
e propícia à consírução, a qual, para se tornar acessível ao discurso, passa pelas
cadeias da linguagem consideradas na continuidade: necessidade esta que cria
toda a dificuldade do trabalho analítico.

Principalmente Laca-n fezesforços para encontrar formulações que determinem a


ambiguidade freudiana, a mesma, na sua essência, que a ambivalência cultural de
que depende a sua atracção para a Filosofia. Em consequência, enuncia o tempo do
inconsciente como futuro anterior: aquele de que nunca se poderá dizer outra coisa
que: «Terá sido.» Terá sido: o sintoma, desaparecido logo que se captou a natureza
sintomática, e então curado; o lapso, clivagem na continuidade do discurso; em
suma, o acontecimento como tal, ou ainda, de uma certa maneira, o corpo, isto é,
tudo o que informa a linguagem e lhe escapa. 0 acontecimento, a respeito do qual
Lacan dá um exemplo de gramática: «Um instante mais tarde, a bomba rebentava.»
Esta frase pode querer dizer: «Um instante mais tarde, a bomba tinha rebentado»;
ou «Um instante mais tarde, a bomba teria rebentado»: em que a noção, já
mencionada, de pontuação faz salientar a função da mesma vírgula como sinal do
acontecimento. 0 inconsciente pode ser definido como o acontecimento perpétuo, e,
em consequência, como o que contradiz a continuidade de qualquer discurso, ou
seja, toda a teoria analítica é,

311
nestes termos, impossível e impõe-se a adesão ao que diz Lacan: «0 nosso ensino é
anátema do que se inscreve nesta verdade.»” «0 que ele prova é a ausência de
qualquer doutrina da psicanálise didáctica quanto à afirmação do inconsciente.»”
Que é, então, uma verdade que não se ensina mas que, no entanto, se transmite
pelo necessário passo falso da cura?

Acontecimento e linguagem: estamos em presença de dois termos em que se


articula toda a problemática dialé ctica. Por isso mesmo definimos a dialéctica como
um processo de integração de qualquer acontecimento numa linguagem adequada-
para que o seja torna-se imperiosamente necessário que possa explicar toda a
mudança, e consequentemente que funcione em doistempos contraditórios, o de
uma afirmação e o de uma diferença, que se podechamar negação. 0 conjunto
destes dois tempos complementares é designável por contradição. É evidente que a
hermenêutica de Ricoeur depende de um processo dialéctico: fixar a um indivíduo
uma origem e um fim é consig,nar-lhe uma determinabilidade de que só a
dialécti,ca pode antecipadamente ou retrospectivamente descrever o caminho,
sempre já percorrido, à imagem paradigmática do círculo. Fica agora por
demonstrar que dialéctica e inconsciente são dois conceitos contraditórios. Fica por
confrontar Freud com um filósofo de quem ele se reconhecia descendente, Platão; e
um outro de quem os analistas actuais são apaixonados, visto a cultura Êlosófica
fazer dele o modelo filosófico: Hegel. Cumpre fazer justiça a P. Ricoeur, o qual
denuncia claramente o processo simplista -e corrente que consiste em reunir Hegel
e Freud. Hegel, dialéctico dos processos conscientes e fenomenálogo do espírito na
«sua claridade»; Freud, «dialéctico» do inconsciente e da «obscuridade» do espírito:
«Este gênero de compromisso é a caricatura da dialéctica. Porém, só seria
completamente esconjurado se se chegasse a compreender que as duas
hermenêuticas, a do dia e a da noite, são a mesma coisa. Não se deve juntar Hegel
e Freud e dar a cada um metade do homem.»

Figuras filosóficas

0 nosso propósito esforça-se por refutar um círculo ou, se se preferir, por evidenciar
a incompatibilidade de

312
um método «,circular» com os postulados freudianos. Com efeito, a dialéctica-e o
exemplo de Girard prova-oforma um encerramento não só da linguagem mas
também do acontecimento, e da linguagem sobre o acontecimento: nada pode
acontecer senão o já conceptualizado. A necessidade do sistema hegeliano, que
coloca a Lógica no começo de todos os começos, é disso a melhor ilustração; mas,
se houver círculo, todo o começo é ao mesmo tempo um fim. Ora, o modelo
freudiano não é o do círculo, porque aí se introduz uma ruptura e um atraso tais que
já -não é possível transformar em conceito: «já» terá já tido lugar. Ao círculo
oporemos, com Lacan, a figura topográfica que, diferentemente daquele, não tem
sentido, nem direito nem avesso: a banda de Moebius (ver figura) não é orientável,
euma moscaque a percorra não poderá saber -em que altura sairá do que não é
verdadeiramente um outro lado. Símbolo ou análogo do inconsciente freudiano, que
não é o outro da consciência, mas donde um indivíduo por ele percorrido não
poderia -dizer -em que altura sairia, porque os vestígios,da sua,existência já lá
estão. 0 inconsciente é, diz Lacan, o «Não-Eu»: não a negação do sujeito, o que
seria a dialécti-ca, mas a própria causa do sujeito, aquilo sem o que não pode ser
sujeito, tudo outrossim que o impede de afirmar-se autónomo. Figura
desconcertante, visto obrigar a percorrê-la para reconhecer a sua familiar
incongruidade, a banda de Moebius é a imagem do corpo: exterior/interior, e
anulando esta inválida oposição.

Que haja circularidade em Hegel, é fácil de afirmar, pois ele mesmo define o seu
método como um «círculo de círculos» “. Quer dizer, a dialéctica hegeliana funciona
como uma espiral ou como um círculo em três tempos, e em que cada um destes
gera, por sua vez, também um círculo noutros três tempos, e assim ao infinito: pode
falar-se de circulo na medida em que o terceiro tempo volta ao primeiro (ver figura
da páginia 314).

No entanto, a incompatibilidade do método dialéctico com. o inconsciente não se


verifica verdadeiramente senão quando, no final do caminho, se vê o Espírito,
segundo tempo da dialéctica, reabsorver-se inteiramente na Natureza, o prhneiro
dos tempos daquela; deve entender-se aqui por «Natureza» o conjunto de
fenérmenos passíveis de existência, ou ainda o conjunto de todos os
acontecimentos possíveis. Deste modo, a Natureza absorve tudo e forma

313
BANDA DE MCEBIUS

SABER ABSOLUTO

NATUREZA
3?tempo:fim

e começo=

LóGICA

WGICA lo tempo: começo=

pOSIC,&n

ESPíRITO
2? tempo: cisão, divisão diferença= NEGAÇÃO

0 círculo representa a matriz de qualquer funcionamento dialéctico; os títulos nede aferentes obtêm-se
tomando, na série de três si-logismos, o sujeito do primeiro (Lógica), -o termo médio do segundo (Espírito) e
o predicado do terceiro (Natureza), segundo uma diagonal que se lê da esquerda para a direita.

314
esfera lisa: pois o Espírito, poder de divisão, causa de cisão, poderia parecer à
primeira vista como o incen-,ciente, motor de todas as diferencas e de todos os
acontecimentos. Muitos psicanalistas, mesmos os mais informados como Lacan,
enganam-se às vezes nesse ponto. Porém, se ele desaparecesse, é porque não
poderia ser dependente da mesma lógica, pois é da essência do inconsciente não
desaparecer para um dado indivíduo, excepto no momento da morte. 0 Espírito no
sistema hegeliano, se realiza um

parto, tem ao mesmo tempo o poder de reformar a totalidade por ele próprio
cindida na origem. Nesta conformidade, tal é o fim último do Saber Absoluto, ou
seja, da derradeira etapa do movimento dialéctico: aquela em que desaparece todo
o vestígio residual das cisões passadas; arque e telos enfim reunidos fazem circulo.
Deve ler-se o seguinte texto e explicá-lo:

«§ 575. É esta fenomenalidade a origem do desenvolvimento ulterior. 0 primeiro


fenômeno é formado pelo silogismo que tem a Lógica por fundamento como ponto
de partida e a Natureza como meio que inclui o Espírito. A Lógica torna-se na
Natureza e a Natureza no Espírito.

«§ 576. Este fenômeno é posto de lado no segundo silogismo na medida em que


este já é a própria posição do espírito, o qual constitui o termo médio do processo,
presume a Natureza e liga-a com a Lógica.

«§ 577. 0 terceiro silogismo é a Ideia da filosofia que tem por termo médio a razão
que se conhece, o absoluto universal, e que se cinde em Espírito -e Natureza,
fazendo de um o pressuposto enquanto processo da actividade subjectiva -da Ideia
e do outro o extremo universal enquanto processo da Ideia objectiva, sendo em si. A
divisão característica (Sich-1Jrtellen) da Ideia nos seus dois fenômenos (§ 575, 6)
determina-os como as suas manifestacões (da razão <jue se conheoe) e unifica-se
nesta razão, de maneira que é a natureza da coisa, @a noção, que se move e se
desenvolve, e que este movimento é outro tanto a actividade do conheoer -é a Ideia
eterna, existente em si e para si, que se manifesta, gera-se eternamente,a si
mesma e frui de si própria eternamente também como espírito abSolUto.» 31
0conjunto destes três silogismos que formam o campo dito do «Saber Ab-soluto» no
seu desenvolvimento último pode, para mais clareza, esquematizar-se numa
sucessão

315
de três séries compostas de três termos cada uma: sujeito, termo médio e
predicado, de acordo com o próprio texto:

(sujeito) (termo médio) (predicado)

1 Lógica Natureza Espírito II Natureza Espi-n- to Lógica III Espírito 3 Razão


Natureza

Observa-se então que o Espírito, predicado, ou seja, produto ou resultado no primeiro


silogismo (I), é termo médio no segundo (II) e sujeito no terceiro (III). De facto, regrediu do
lugar de produto ao de sujeito, primeiro lugar, sempre, o que se lê dos números 1, 2 e 3. É
permitido falar de regressão, pois o lugar de sujeito é o que não pode deixar de ser refutado
visto o segundo tempo dialéctico negar sempre o primeiro. A função mais importante é a de
motor do silogismo: se a importância se julga pela actividade, é no segundo silogismo que o
Espírito efectua o trabalho, dado que é o termo médio. É deste modo que o Espírito se
reabsorve na Natureza, por ser sujeito negado do terceiro; já não pode efectuar nada,
desapossado deste papel pela Razão. Do Espírito não resta se-não a recordação da sua
passagem. Ainda convém realçar, como um sintoma da dialéctica hegeliana, que «as feridas
do Espírito saram sem deixar eleatrizes». Quer isto dizer que a própria recordação é
suprimida e que, no domínio da loucura, Hegel faz esta observação: a loucura cura-se, diz,
pelo exercício da razão terapêutica eficaz da persuasão; e a alienação maior, a que se vê, que
torna a vida invivível e que Freud, por seu lado, põe no seu lugar como tal, desaparece como
se fosse apagada pela operação dialéctica! Está nisto precisamente o inverso da operação
freudiana, a qual, fundada na inscrição neurobiológica de traços mnésicos nos materiais que
constituem o aparelho psíquico, institui um funcionamento do tempo em dentes de serra, em
rupturas, em descontinuidades: a loucuranão poderia ser aqui suprimida, pois ela é * marca
por essência. Eis porque nem a circularidade nem * seu funcionamento contínuo -pois mesmo
que seja interrompido -por cesuras aparentes apenas se consideram em Hegel suspensões de
tempos, nunca de descontinuida-

316
des constituintes, como o instaura Freud com a noção de inconsciente -são
compatíveis com a Psicanálise. «É o nosso Aufhebung (superação) que transforma o
de Hegel, o seu próprio logro, numa ocasião de realçar, em substituição dos saltos
de um progresso ideal, os avata-res de uma f alta.» 11

Fa@lta que Hegel se -apressou a suprir pelo poder infinito da Razão, que fecha o
terceiro silogismo e resolve a questão.

Acontece omesmo para a figura platónica, em que há a tentação extrema de a


confundir com a imagem de um psicanalista. Sócrates parece a muitos analistas o
antepassado e o modelo no respeitante à manipulação transferencial: figura de
identificação para os seus interlocutores, objecto de desejo não satisfeito - pense-se
no episódio da sedução falhada de Alcibíades relatada no fim do Banquete-,
introduzindo por acréscimo uma problemática do dinheiro diferente da norma social
imposta pelos retóricos. Sócrates representa uma -certa imagem do analista. Ao ler
o mito do nascimento de Eros, ainda no Banquete, não pode deixar de surpreender
o aspecto edipiano desta descrição; Eros é aí descrito nas identificações sucessivas
à mãe: Pobreza (e deste modo encontra-se sempre desapossado e desejoso) e a seu
pai: Astúcia (e por isso acha-se sempre em estado de satisfazer a sua insaciável
privação). Mas dando bem atenção a isso, no plano dos conceitos e já não no das
analogias, a dialéctica platónica mostra a mesma incompatibilidade com Freud que
a dialéctica hegeliana. 0 círculo é a sua lei, dirigindo antecedentemente todo o
progresso dialéctico para a morte de Sócrates, por mais que a vida e a morte se
invertam do ponto de vista dos seus valores:

Quem sabe se a vida não é a morte, E se a morte não é a vida? Estes versos de
Eurípedes vêm oportunamente, no diálogo, justificar a separação progressiva da
materialidade e permitem a Platão não só condenar Sócrates por antecipação
(Górgias) mas também demonstrar a imortalidade da alma, a única a poder
percorrer indefinidamente o círculo vida/morte/vida sem perda da sua substância
(Fédon). A perda é impossível e o desejo tende a saturar-sede si mesmo pela
passagem a uma outra vida. A posição platónica relativamente à morte é inversa à
de

317
Freud, para quem a morte constitui um termo verdadeir,3 e a própria necessidade.
A morte é uma ruptura só para os,discípulos que, não compreendendo a passagem,
choram, apesar da protecção do mito. 0 laço do mito ao indivíduo mostra em Platão
e em Freud a mesma diferença: para Platão, o mito antecipa a verdade, pois esta é
a conexão do indivíduo à morte; para Freud, o mito oculta e significa, mas não
descobre a verdade.

Todavia, a noção de diálogo resiste à refutação: pois, da maiêutica à análise vai


uma analogia que se pode julgar admissível. Relação afectiva entre um mestre que
sabe e um discípulo em aprendizagem, o diálogo adquire sentido por ser ao mesmo
tempo uma demonstração teórica e um acontecimento erótico a ligar duas
personagens. Seria possível aí um engano, e efectivamente ele existe. Pois o
analista, por seu lado, não sabe: ele é , conforme Lacan diz, «indivíduo-suposto-
saber», o que -explica a imagem que o analisado projecta nele (suposto saber) e a
sua ignorância em matéria de dogma (visto não haver dogma analítico).

Impunha-se elucidar - e está nisto uma questão teórica que se assemelha a um


círculo vicioso e que tem todas as possibilidades de ser, sob esta forma, mal posta -

a fascinação que a dialéctica exerce. 0 desejo de ser analista é, sem dúvida, uma
maneira de desejo de saber, uma vez mais. Tendo «aprendido» na experiência
analítica que

ada nela havia a saber senão o que Lacan chama béance, ou seja, oburaco que o
indivíduo forma no seu centro, ou ainda o que constitui a banda de Moebius, achar-
se-á o analista com uma primeira necessidade de esconderijo e dissimulação? A
dialéctica parece ser o operador cultural para efectuar esta juntura nas questões
deixadas por Freud sem resposta, segundo sua própria declaração e por sua
vontade. A dialéctica permite pensar todos os problemas insolúveis, discurso sem
outra falha que a da sua própria -determinação; ela é, sem o saber, inteiramente
erótica.

318
IV

OS MATERIALISMOS

Marxismo, Psicanálise: Excesso

Outra dialéctica: comecemos por assentar que a dialéctica que consta do marxismo não é
da mesma natureza conceptual que a dialéctica platónica ou hegeliana. De facto, admite uma
causalidade que a determina, mas cujos efeitos são apenas parcialmente acessíveis a um
discurso científico. Causalidade da qual Louis Althusser diz que, na sua relação a Hegel, é da
ordem da Darstellung, enquanto o sistema hegeliano funciona com o conceito de VorstelIung;
os dois termos remetem à noção de representação. Darstellung, representação cuja causa
está «ela própria ausente» nos efeitos que determina, por contraste com a VorstelIung,
representação cuja causa está no princí,pio, na origem, e cujos efeitos se encadeiam e
acabam «por finalizar» na mesma origem. Esta presença/ausência da causalidade nos seus
efeitos acompanha-se de urna descontinuidade temporal; pois a causalidade -aqui tratada,
convém lembrá-lo, é económica, e esta materialidade determina para cada superstrutura um
tempo histórico de ritmo diferente: o tempo da história do Direito não é o mesmo do da
história das ideias, etc. A contradição é, então, o conjunto das determinações temporais na
sua relação com a materialidade económica e histórica, e o materialismo histórico deve
distinguir-se do materialismo dialéctico, os dois formando conjuntamente a dialéctica
marxista. Um, o materialismo histórico, discurso científico acerca dos sectores separados,
procede do princí,pio de fragmentação do saber; o outro, filosofia do primeiro, consagra-se a
dele deduzir as implicações metodológicas: quer dizer que é inseparável de um impacte
político e que o seu fim é estabelecer uma estratégia do

319
saber: o seu projecto é, por conseguinte, arquitectónico. «A filosofia... até nos seus
trabalhos teóricos mais abstractos, mais difíceis, luta ao mesmo tempo com
palavras: contra as palavras-mentiras, eontra as palavras-equívocos, pelas palavras-
justas.» (Althusser) Seria necessário determinar estas distinções para sublinhar em
que ponto o materialismo marxista se apresenta como uma teoria da
descontinuidade; simultaneamente, as suas relações com a Psicanálise não podem
ser senão complexas: é o que quisemos acentuar no nosso título pela vírgula que
separa «marxismo» e «psicanálise», tencionando dar a entender por isso que
-nenhuma ligação era possível que não fosse por ora abusiva.

As relações teóricas entre marxismo e Psicanálise são sempre excessivas, quer se


-considere a disjunção e a rejeição de uma pela outra quer a respectiva conjunção e
assimilação. Excesso na disjunção: as críticas que os marxistas fazem à Psicanálise
-se têm um ponto de impacte justo -não vão muito mais longe que a contestação
que pode enxertar-se na noção de cultura. Freud, nascido em Viena, apenas foi
capaz de produzir uma teoria psicológica em relação com a classe de que saíra, a
burguesia, e própria a satisfazer as necessidades desta mesma classe---Deste
modo, a Psicanálise, «ideologia reaccionária» 11, pode ser considerada um
instrumento para efectuar a integração dos indivíduos cujas perturbações revelem,
de facto, contradições da luta de classes. Este gênero de enunciado liga-se ao
menosprezo da análise histórica, que deveria estudar a situação de classe do
indivíduo Freud, a sua relação à grande burguesia enquanto judeu, etc. Enfim, e a
despeito da justeza do ataque: a questão da determinaçao -cultural na criança é um
teste político para uma teoria da aculturação, e não somente da Psicanálise; é
verdade que o recente livro de Lucien Sèvre, Marxistue et personnalité, corrige esta
lacuna da teoria marxista. @ Excesso na conjunção: o freudo-marxismo, tão
explorado pela «revolução» de Maio de 1968, passa directamente das contradições
de luta de classes à clivagem consciente/ /inconsciente e do materialismo dialéctico
à metapsicologia. Assim, operam-se sobreposições conceptuais: repressão toma o
lugar de recalcamento, e toda a organização se considera repressiva; quer dizer, a
palavra de ordem política do freudo-marxismo, ressurgência do anarquismo, tende,

320
dado que assimila recalcamento e repressão, a suprimir toda a instância de
recalcamento: «Analisados, levantai-VOS! » 14 Ora, é do recalcamento que procede a
individualidade na sua essência, pois, no dizer de Freud, o acto cultural inicial, o
homicídio do pai, é necessário à organização de qualquer desejo: a ausência do
recalcamento nada mais é que a morte. No freudo-marxismo de Marcuse, por
exemplo, ver-se-á uma confusão conceptual constante entre pares de oposição
dialéctica de tradição hegeliana e a oposição não dialéctica entre Eros e Tánatos.
Donde uma série de oposições que são outros tantos efeitos ideológicos na base de
filosofemas karítianos ou hegelianos; por exemplo:

Sociedade/Indivíduo Repressão/Liberdade Heteronomia/Autonomia E


definitivamente:

Em si/Para si Isto é a velha armadura f ilos6fica do século XIX, ela própria ligada à
oposição Res/Persona, peç a essencial da ideologia jurídico-política 31.
Mais que Mareuse, caricatural, em todos os pontos e tergiversador ingénuo, Sartre
representa o modelo de todos os excessos. Crítico da Psicanálise porque ela é
adialéctica, tenta, em nome da autonomia do indivíduo, valor teológico e substituto
de Deus, integrá-lo numa totalidade organizada de princípio ao fim por um objectivo
libertário. É por isto que, na Crítica da Razão Dialéctica, escreve:

«... Temos -a série: do condicionamento material e social até à obra de arte trata-se
de encontrar a tensão que vai da objectividade à objectividade, de descobrir a lei de
desenvolvimento que supera uma significação pela seguinte e que conserva esta
naquela. Na verdade, consiste em inventar um movimento e recriá-lo; mas a
hipótese é imediatamente verificável: só pode ser válida a que realize num
movimento criador a unidade transversal de todas as estruturas heterogéneas.» 11

Unidade de todas as estruturas heterogéneas: a noção de série anula a de


determinação, e não permite situar os problemas epistemológicos: Sartre procede
como se os problemas de método fossem separáveis da sua inserção ideológica,
como s.e um método fosse utilizável indepen-
21 321
dentemente do contexto que o produziu. A Psicanálise, por não ter Weltanschauung,
é um sistema e condiciona não somente um método mas também uma ética e,
talvez, uma política, apesar da suspeita palavra de ordem da neutralidade analítica.
Em nenhum caso poderia ser um método instrumental ao serviço da Filosofia; eis
porque o texto seguinte é em todos os pontos inaceitável:

«De facto, o materialismo dialéctico não se pode privar durante mais tempo da
mediação privilegiada que lhe permite passar das determinações gerais e
abstractas a certos traços do indivíduo singular. A Psicanálise não tem princípios,
não tem base teórica: é justamente que se acompanha - em Jung e em algumas
obras de Freud - de uma mitologia perfeitamente inofensiva. De facto, é um método
que se preocupa primeiramente em estabelecer a maneira como a criança vive as
relações familiares no interior de uma sociedade dada ... » 11

Que o mito seja considerado por Sartre inofensivo, eis bem a marca do logro em que
ele cai: a ponto de jubilar quando um analisado «se revolta» e agride o «Seu»
psicanalista a nível de discurso com um magnetofonf.: «Porquê, então, me fascinou
este diálogo? Pois bem, porque esclarece com uma surpreendente evidência a
irrupção do sujeito no gabinete analítico ou, antes, a inversão da relação unívoca
que liga o sujeito ao seu objecto. E, aqui, por sujeito não entendo o eu ou o ego, o
quase-objecto da reflexão, mas o agente: nesta breve aventura A... é sujeito como
Marx diz do proletariado que ele é sujeito da História.»II Para Sartre é sujeito aquele
que age: que o sujeito sofra actuação, por um lado, e que esta dependência seja o
próprio motor da sua acção, eis o que é insuportável ao irredutível da liberdade
romântica. Reivindicação suspeita à verdade, porque testemunha no seu autor uma
desconfiança para com o sujeito em questão: será tão frágil que uma determinação,
o objectivante, o extinga?

Marxismo, Psicanálise: Clivagens

Quando muito, pode estabelecer-se, a este respeito, duas taxonomias: uma


negativa, para construir a lista das incompatibilidades irredutíveis; a outra positiva,
tendente a colocar os pontos por onde se pode efectuar um

322
trabalho teórico que não seja nem de conciliação nem de fusão, mas que se
consagre a determinar um campo espe- cífico, que se poderá considerar psicológico.

-Taxonomia negativa: são irredutíveis um ao outro campos teóricos: -a contradição


determinante entre infra-estrutura e superstrutura, como causalidade específica, e a
pulsão freudiana, causalidade única e não contraditória;

-o método analógico empregado por Freud de maneira sistemática, particularmente


no respeitante à relação entre individual e colectivo: deste modo, entre o homicídio
do pai na horda primitiva e o assassínio simbÓlico do pai na evolução edipiana; e o
método diferencial, não analógico, do materialismo histórico;

- a repetição, tanto filogenética como ontogenética, e a mudança; esta última


incompatibilidade parece determinante para uma conceptualização política na
Psicanálise: pode Freud pensar numa revolução freudiana?

- Taxonomia positiva: são compossíveis numa mesma problemática:

-a noção de desconhecimento, que no marxismo esclarece a relação dissimulada


dos homens ao seu mundo: aí a ideologia opera a função de um esconderijo, assim
como o inconsciente é oculto pelas suas próprias produções; num e noutro caso, o
desconhecimento não pode desaparecer, e a desalienação não passa mais pelo
desaparecimento do inconsciente que pelo da ideologia;

-a noção de causa ausente, de que só uma parte é ace"ível à compreensão; causa


ausente, as relações de produção, do mesmo modo que o inconsciente, e causa
antecipada sobre os seus efeitos, acerca dos quais a teoria trabalha
retroactivamente.

Henri de Man escrevia: «0 marxismo e a Psicanálise são duas vias de libertação para
o homem.» Para que uma e outra possam ser utilmente trabalhadas, impõe-se
primei,ramente suprimir o «handicap» filosófico que prejudica uma tal abordagem.
Convém, antes de tudo, acrescentar-lhe um terceiro nome e dar a razão desta
trilogia: «0 filósofo contemporâneo encontra Freud nas mesmas paragens que
Nietzsche e Marx; todos estes três levantam-se perante ele como os protagonistas
da desconfiança, os perscrutadores de máscaras.» De facto, a Filosofia tal

323
como Freud sempre a combateu, quer dizer, como síntese precoce, de
elementos dispersos pela consciência teórica, conforma-se bem com uma
desconfiança acerca da sua honestidade. Quem é «desconfiado» é o sujeito na sua
integridade e na sua autonomia; que seja heterónomo, pouco pode obstar, para
falar verdadeiramente, o espírito filosófico, pronto a substituir uma máscara por
outra. Acontece na Filosofia como na negritude na peça de Genet os Negros: pretos
de pele, apresentam-se mascarados de branco para representar os brancos, e o
autor desta anãfora teatral é, ele mesmo, branco. Por conseguinte, acerca da
Filosofia, sintética por essência, pode acontecer-lhe dissimular-se e parecer tomar a
sério a desconfiança sobre ela própria; mas é sob forma anafórica, isto é, por
encaixes sucessivos, que ela mesma se redobra no fim do seu próprio questionar.

324
v

BAUBÔ, OU 0 MAL-ENTENDIDO

«A Filosofia», dizia Nietzsche, «é talvez apenas uni mal-entendido com o corpo.» É a


propósito do corpo que convém concluir este estudo -pois, de verdade, o corpo --

e Freud afirmou-o profundamente-é o que na subjectividade fica retalhado,


disperso, até destruído e anulado na esquizofrenia. 0 corpo, e no que condiciona o
indivíduo, induz este esquartejamento de que Lacan faz a estrutura do indivíduo:
esquema em ZIO, onde se acentua a torção daquele relativamente à exterioridade
interna que a constitui. A ordem do corpo permite compreender porque a infância e
a morte polderam ser pensadas por Freud como instâncias dominantes, enquanto a
Filosofia frequentes vezes as apaga. Rousseau observava -em 0 Emílio que os
teóricos filósofos da educação, entre os quais ele não se coloca, pensam a criança
em função do adulto que virá a ser; ao passo que Freud -escreveu: «Quando a
eriança... ve que se destina a ficar para sempre uma criança ... » Isto porque a idade
adulta, a da maturidade do indivíduo responsável, depende da imagístioa filo-
sófica,ede urna corporeidade refreada. Freudcompreende, pelo contrário, que o
homem,é umacriança que perdura até à própria morte, a qual, por seu lado,
constitui a ocasião de um regresso imaginário a uma infância que julgou perdida.

Eis porque, e ainda que a analogia esteja tão pouco elaborada entre Nietzsche e
Freud corno entre Freud e Marx, citaremos também o seguinte texto de Nietzsche,
tão crítico acerca dos filósofos como Freud podia sê-lo:

«... Já não acreditamos que a verdade continue verdade sem os seus véus; já
vivemos demasiado para tal. Agora fazemos uma questão de decência em não
querer ver tudo nu, em não assistir a tudo, em não nos esforç armos por tudo
compreender e tudo ‘saber’. ‘É

325
verdade que o bom Deus está em todo o lado?’, perguntava uma menina à sua mãe.
‘Eu acho isso muito indecente...’ Indicação para os filósofos! Dever-se-ia honrar em
mais alto grau o pudor que a Natureza põe em se esconder atrás do enigma e das
incertezas. Talvez a Natureza seja uma mulher que tem as suas razões para não
deixar ver as suas próprias razões? Talvez o seu nome, para falar grego, seja
Baubô! A@h! os Gregos, como eles sabiam viver! Isso requer a decisão de ficar
tenazmente à superfície, de se limitar às roupagens, à epiderme, de venerar a
aparência e de acreditar na forma, nos sons, nas palavras, em todo o Olimpo da
aparência! Os Gregos eram superficiais... por profundeza! E escapámos nós a isso,
nós, imprudentes ido espírito, que escalámos o cume mais elevado e mais perigoso
do pensamento actual e que daí olhamos em redor, que daí olhamos para baixo?
Não somos nós, precisamente nisso... gregos? Adoradores da forma, dos sons, das
palavras? Artistas, portanto?»”

Baubô: ôacoó)v do riso, e do riso que os homens podem suscitar nos deuses. Freud
interpreta o mito de Baubô: «De harmonia com a mitologia grega, Deméter, à
procura da sua filha raptada, chegou a Elêusis e foi recebida por Disaules e sua
mulher Baubô, mas, no seu luto profundo, recusou alimentos e bebidas. Então,
levantando subitamente o vestido e descobrindo o ventre, a hospedeira Baubô fê-la
rir. A discussão desta anedota, que deve provavelmente fornecer uma explicação a
um cerimonial mágico, o qual hoje já não é compreendido, encontra-se no IV volume
de Salomon Reinach, Cultos, Mitos e Religiões (1912). Aqui menciona-se ainda que
nas escavações de Pierre, na Ásia Menor, descobriram-se terracotas representando
BaubÔ. Figuram um corpo de mulher sem cabeça nem peito, no ventre do qual está
desenhada uma cara; o vestido levantado rodeia esta espécie de cara como uma
coroa de cabelos.»12

0 riso estoira aqui como o corpo transformado que a mulher apresenta: se Deméter,
enfim, se mitiga, deusa, de haver perdido a filha, é por ter visto o sexo da mulher
como a própria cara, no lugar desta. Sexo-cara, vestido-cabeleira, mulher-riso,
Baubô recorda a Freud e a Nietzsche o poder dispersante da corporeidade
recalcada. Esta epifania imaginária da sexualidade leva-nos a falar pela segunda
vez da descontinuidade: riso que quebra a dor e

326
o pranto e restitui o desejo, corpo que fende o sujeito de uma irrecuperável cisão; é
tempo de lembrar, por um artifício retórico cujo engano não é senão o do filósofo
que escreve, ser no corpo do histérico que Freud inventou a «questão»: a «questão»
que mostra-e de maneira obcecante, pois, de facto, os filósofos são obcecantes por
isso -

que o espírito pode tornar-se doente.

NOTAS

1 Freud: Moise et le rponothéisme. ed. IMes. páq. 174.


2 Freud R. T. L., ed. Tebou-Paris-Matcb, pág. 312.
3 Ibid, pág. 22. 0 sublinhado é da edicio franc"a.
4 Frn L'Inconscient. n.o 9.
5 Hermenêutica: teoria da interpretacãú.
6 Mo7se et le manothéí~. lpáç,,. 92, Collectíon Idée@s. Gaffimard.
7 Ucan, La Chose freudienne, em Êcrits, pág-s. 408-410.
8 Tones, A Vida e a Obra de Sigmund Frpud. 11. 51.
9 Ibid. 11, Dág. 474. Carta a Jung, 30 de Novembro de 1911. Sublinhado da edição francesa.

10 Kant, Crítica da Razão Pura. Me-todol,ogia Transcendental. ca-pftulo 3.

11 Inhibition, symptône et angoisse. pág. 12. P.U.F. 1965.


12 The Oueçtion of a Weltanschaziung, Standard EditiGn, tomo XXII, 1yágs. 158-182.

13 25 de Fevereiro de 1908.
14 Carta a Pfister. 7 de Fevereiro de 1930 (92), pág. 192. Corresvondance avec Pfister, NRF 1966.

15 Em L'Am n.o 34.


16 Essays de psychana7yse, pág. 110, edição Payot.
17 Op. cit.
18 Seminário sobre a Ética da Psicancílise.
19 André Green: Un Oeil en trop, pág. 288, col. Critique. edições Minuit.

20 Cinco psicanúlises.
21 Die Zukunft einer Musion.
22 Cahiers pour t"analyse, n,0 5.
23 Em Critique, n.O 249.
24 Principes de Ia Philosophie du Droit. trad. Kahn, NRF,
5 166, pág. 144.

25 Páginas 134-135.

327
26 Paul Ricocur, VI COIloque de Bonneval, pág. 421.
27 Colloque de Bonneval sur l'inconscient.
28 Ibid.
29 VI Colloque sur 1'inconscient, pág. 421.
30 Logique, T. II, trad. S. jankélévitch, Aubier. Tomo II, pág. 571.

31 Hegel, Précis de l'Encyclopédie des sciences philosophiques, trad. Gibelin, Vrin, pág. 316.

32 Lacan, VI Collo)que de Bonneval sur l'inconscient.


33 La Nouvelle Critique, n.o 7, 1949.
34 Paredes da Faculdade de Letras de Paris-Censier, Maio de
1968.

35 Michel Pêch,eux: La Penséc, n.O 143, pág. 69. -36 Critique de la raison dialectique, pág. 93.
37 Ibid., pág. 47.
38 Les Temps modernes, pág. 1814, n.o 274, L'homme au magnétophone.

39 Op. cit, pág. 409.


40 Ver na primeira parte desta obra o cap. consagrado a Lacan.
41 Nietzsche, A Gaia Ciência, prefácio.
42 Freud, Ensaios de Psicanálise Aplicada, págs. 84-85.

328
INDICE
HISTõRIA DA TEORIA E DA PRAXIS ... ... ... ... ... 7

I- Origens da Psicanálise. Os encontros decisivos. Char-

cot - Breur - os histéricos ... ... ... ... ... ... 19

II - Auto-análise e análise originária. Fliess. A Interpre-

tação dos Sonhos ... ... ... ... ... ... ... ... 29

III - Extensão -da Psicanálise. Descobertas fundamentais.

Os pontos nodais da teoria e da práxis. As cinco psicanálises. Os Três Ensaios sobre Uma Teoria da Sexualidade. Totem e Tabu.
A Metapsicologia ... ... 41

IV-1915-1939: ruptuTa com jung. A dualidade dos ins-

tintos. A segunda tópica ... ... ... ... ... ... 65

V-Moisés e o Monoteí~. A problemática ida herança

freudiana ... .. . ... ... ... ...... ... ... ... 87

VI-Depois de Freud ... ... ... ... ... ... ... ... 91

Conclusão ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 103

PSICANÁLISE E MEDICINA ... ... ... ... ... ... ... 109

Lugar da medicina na Psicanálise ... ... ... ... ... ... 118 A aplicação médica -da Psicanáilise: a medicina como apli-

cação da ;Psicanálise? ... ... ... ... ... ... ... 149 Conclusão ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 160
,PSICANÁLISE E LINGUAGEM ... ... ... ... ... ... ... 165

* que Freud diz ... ... ... ... ... ... ... ... ... 174
* que a Psicaná-lise conhece ... ... ... ... ... ... ... 214

ESTÉTICA E PSICANÁLISE ... ... ... ... .. ... ... ... 225

PSICANÁLISE E FILOSOFIA., ... .... ... ... ... ... ... 277

1 - Miragens ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 279
11 - Freud ou a ambivalência cultural ... ... ... ... 286 III - Hermenêutica e Psicanálise ... ... ... ...
... ... 301 IV -Os materialismos 319 V - Baubô, ou o mal-entendido ... ...
... ... ... ... 325
OS LIVP.OS DAS -EDIÇOES 70

biblioteca 70
A ECONOMIA PORTUGUESA DO SÉCULO XX (1900-1925)

DIVERSIDADE GENÉTICA E IGUALDADE HUMANA

ANTROPOLOGIA: CIÊNCIA DAS SOCIEDADES PRIMITIVAS?

PARA ALÉM DA LIBEIODADE E DA DIGNIDADE

armando castro

a captaç3o dos grandes eixos explicativos do sistema económico português; o levantamento de uma época
decisiva na estruturação do capitalismo em Portugal

theodosius dobzbonsky

um desapaixonado estudo que vem trazer luz a um dos mais polémicos temas da actualidade científica: são
as diferenças de inteligência entre os indivíduos determin,adas geneticamente ou devem-se apenas a
factores ambientais?

maurice godelier, s. tornay, et ai.

quatro dos mais eminentes antropólogos da actualidade fundamentam a substituic5o dos designações
«etnologia» e «etnografia» pela de «antropologia» e procuram criar um método de abordagem de todos as
sociedades-e não só dos «primitivas».

b. f. skinner

b, o ambiente que deve ser modificado e n3o o homem-se queremos que o@ nhiectivns, finois de liberdade
e dignidade seiorn citinnidos. E nora tal é necessário umo «tecnoloqia do cnmnortemento» -teses de b. f.
skinner. um dos mais controversos psicólogos de actualidade.

0 CAPITAL karl marx (EDICÃO POPUL~

MEIOS DE INFORMACÃO E VIOLÊNCIA

PEDAGOGIA E PEDAGOGIAS

a obra fundamental para a cornpreens6o da doutrina do fundador do socialismo científico escrita em


linguagem acessível ao leitor comum.

mary burnet

um livrn que nos esclarece sobre o grau de responsabilidade que os meios de informac3o têm no escalado
de violência a que se assiste em todo o mundo e sobre a atitude a adoptar face a essa mesma
violência, nomeadamente por porte dos países em vias de desenvolvimento.

marie-ciaire lep*pc

os acontecimentos de maio-68 fizeram crer que se caminhav@ -a- imo mudança radical dos instituiç5es
globais. A iminência de os poderes esta-
SOCIEDADE E MUDANÇAS SOCIAIS

A REVOLUÇÃO RUSSA

PARA COMPREENDER
0 PENSAMENTO DE KARL MARX

A CONCEPÇÃO MARXISTA DA HISTõRIA

A SOCIEDADE DE CONSUMO

SOBRE A RELIGIÃO

A ENTRADA NA VIDA

belecidos «recuperarem» as ideias pedagógicas revolucionárias então avançadas torna necessária uma
atenta reflexão sobre a natureza do pedagogia na nossa sociedade.

karl marx

reúnem-se neste volume os escritos de marx que melhor revelam a sua contriguição para a sociologia, em
geral, e para a teoria do sociedade e do transformação social, em particular.

françois-xayier coquin

passados já 57 anos sobre o triunfo da primeira revolução socialista no mundo, reconhece-se cada vez mais
a forma como marcou indelevelmente o curso da história da humanidade e se tornou guia e património de
todos os povos.

ben@ri lefebvre

indiscutivelmente um dos livros mais importantes para a compreens6o do marxismo. Urna obra de
divulgação que não enjeita o rigor e um cunho altamente científico. A vida e os textos de mam explicados e
analisados individualmente e na sua relacionação glogal.

h~ut fleischer

desde os origens que o pensamento marxista e a análise do história estão intimamente ligados; um estudo
reunindo informação actucilizadissima e que foca a compreensão marxista do história actual.

jean baudriliard

a «sociedade de consumo» é uma expressão que faz porte do nosso vocabulário quotidiano; poucos nos
apercebemos, no entanto, dos efeitos desumanizantes do ditadura do objecto e da abundància.

karl mam e friedrich engelis «a religido é o ópio do povo», no óptica do pensemento marxista; mos qual é a
natureza exacta deste «norcótico» e como actua ele?

georges la,passade

o mito da identificação da maturidade com o estado de adulto é hoje vigorosamente rejeitado pela
juventude, que faz prevalecer as suas próprias tx;gê-,;os, a caminho de uma sociedade nova.
REFORMA E REVOLUÇÃO

A CRISE DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

IMPERIALISMO E ACUMULAÇÃO DE CAPITAL

CLASSE OPERÁRIA E REVOLUÇÃO

A PLANIFICAÇÃO SOCIALISTA DA ECONOMIA

ESCRITOS DE JUVENTUDE

0 FASCISMO

ESTRUTURAS E REFORMAS AGRÁRIAS

andré gorz um dos mais notáveis contributos poro a situaçÔ0 do marxismo face às realidades
do mundo actual. a definição do papel que cabe hoje aos partidos revolucionários, aos
sindicatos e às classes trabalhadoras.

r. barthes, r.dumont, a. somvy, a. touraine, m. duverger, o. palme, e. maire, r. aran, m. rocard

perante o clucinante crescimento demográfico e industrial neste final do séc. XX sucedem-se


as

perturbações físicas e espirituais do homem, forçando-o a opções que dão extremo acuidade
à questão: «utopia ou morte?».

rosa luxemburgo e nikoiai bukhorine

reunidas num só volume duas obras que permitem uma clarificação de rara actualidade das
relações entre o capitalismo e o terceiro mundo.

frédérique bon e m.-a. burnier

um conjunto de questões momentosas sobre as quais este livro nos ajuda a reflectir: o
proletariado está sempre destinado a tornar-se a classe dominante? há classes
revolucionárias por natureza? que é uma força revolucionária?

chades be~lheim

um estudo pormenorizado dos problemas teóricos e práticos postos pela planificação


socialista da economia, no seu desenvolvimento para uma via de maior descentralização.

karl marx

o conjunto das primeiras obras de marx, que tão ampla controvérsia têm levantado entre os
estudiosos do marxismo.

anto[-ogio organizada por mirella bartolotti

um estudo dos componentes económico-sociais que permitiram o advento do fascismo e um


contributo para a compreensão do seu papel na estratégia actual do capitalismo.

mkhel gutelman

uma abordagem exaustiva dos várias estruturas agrárias e das transformações que nelas
implica a reforma agrária, com especial detenção no nova configuração dos relações sociais.
SÉRIE FiCÇÃO

I_UUANDA, de José Luandino Vieira A VIDA VERDADEIRA DE DOMINGOS XAVIER, de José Luandino

Vieira NO ANTIGAMENTE, NA VIDA, de José Luandino Vieira A LARANJA MECÃNICA, de Anthony Burgess
CONTOS CUBANOS DO MARAVILHOSO E DO FANTÁSTICO, de

Alejo Corpentier, Lezamo Lima, Reinaldo Arenas, etc.


0 TRIUNFO, de John Kenneth Galbraith

COLECÇÃO 0 QUE É

1 -0 QUE É A INFLAÇÃO, de Armando Castro


2- 0 QUE É 0 MERCADO COMUM, de Sérgio Ribeiro
3-0 QUE É A REFORMA AGRÁRIA, de Biasco Hugo Fernandes
4-0 QUE É UM COMPUTADOR, de Jorge Branco
5-0 QUE É A PROPRIEDADE SOCIALISTA, de 1. Kronrod, F. Ko-

locek, V. VIajic e 1. Volkov


6-0 QUE É A AUTOGESTÃO, de Daniel Chauvey

COLECÇÃO SIGNOS

1 -0 REINO FLUTUANTE, de Eduardo Prado Coelho


2-MITOLOGIAS, de Roland Barthes
3-0 GRAU ZERO DA ESCRITA, seguido de ELEMENTOS DE SE-

MIOLOGIA, de Roland Barthes


4-DIALÉCTICAS DA LITERATURA, de Jorge Sena
5-0 PRAZER DO TEXTO, de Roland Borthes
6-HISTóRIA DA LINGUAGEM, de Julio Kristeva
7 - LINGUISTICA, SOCIEDADE E POLITICA, de Adam Schaff, Serge

Latouche, F. Rossi-Landi, Augusto Ponzio e Henri-Pierre Jeudy

TEXTOS DE CULTURA PORTUGUESA

1 -PERSPECTIVAS Dó ROMANTISMO PORTUGUÊS, de Alberto

Ferreiro
2-TRATADO DE VERSIFICAÇÃO PORTUGUESA, de Arnorim de @ Carvalho
3-0 IMPÉRIO COLONIAL PORTUGUÊS, de C. R. Boxer

A PSICOLOGIA MODERNA

1 -AS MULHERES (2 volumes), de Pierre Doco


2-FISIONOMIA E CARÁCTER, de Francis Baud
3-OS SENTIMENTOS, de Jean Maisonneuve
4-A PSICANÁLISE, de Jean-Claude Sempé, Jean-Luc Donnet, Jean

Soy, Gilbert Lascault e Cotherine Backès

TEXTOS BREVES

NGA MUTORI, de Alfredo Troni VERSOS, de Carios Fradique Mendes


Este livro foi composto e impresso na Empresa Norte Editora (A. C. Calafate, Herds, Lda.)

Póvoa de Varzim

em OutubriD de 1975
6703
1 @; ci -9 c, lí 7-
5