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UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS – UNISINOS

CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO
CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL: HABILITAÇÃO - JORNALISMO

MAGDA RODRIGUES MARQUES

ADOLESCER NA ERA DA TV:


ESTUDO DE RECEPÇÃO DA TELENOVELA MALHAÇÃO ID

SÃO LEOPOLDO
2011
Magda Rodrigues Marques

ADOLESCER NA ERA DA TV:


Estudo de Recepção da Telenovela Malhação ID

Trabalho de conclusão de curso apresentado


como requisito parcial para a obtenção do
título de bacharel em Comunicação Social,
Habilitação em Jornalismo pela Unisinos.

Orientador: Prof. Luiz Antonio Farias Duarte

São Leopoldo
2011
AGRADECIMENTO

Quando olho para trás vejo grandes batalhas acompanhadas de exaustivos


esforços, porém bem sucedidas lutas em busca da conquista de meus objetivos. Cada
vez mais a minha esperança e a fé em Deus se renovam. Sigo meu caminho nem
sempre linear, entretanto, escrevendo a cada dia mais uma página no livro da vida.
Exercitando sempre a caridade, a tolerância e a benevolência. Vivendo com amor e
aprendendo constantemente uma nova lição.
Concluindo essa monografia do final do curso de Jornalismo, me sinto satisfeita
e realizada com a academia. Fico grata à Unisinos e a todos os professores que
contribuíram com a minha educação. Na infância, eu já demonstrava tendência para a
Comunicação Social. No ambiente universitário, reafirmei minha vocação. Jamais tive
dúvidas, nem pensei em desistir diante dos obstáculos encontrados, sempre renovando
minhas forças para reverter as piores situações.
Acima de tudo e de todos louvo a Deus, que não me abandonou em nenhum
momento nessa trajetória. Derramando suas bênçãos sobre mim. Agradeço
infinitamente a minha família: minha mãe Julia, irmãs, Graciele, Kátia, Lorielei e meu
irmão Douglas. Não esquecendo de meus três lindos sobrinhos, Yuri, Danielle e
Fransoele, que completam meu lar.
Faço um brinde à vida, à minha família, aos meus amores e aos meus
verdadeiros e leais amigos.
“Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera
acontecer” (Geraldo Vandré).

O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará.


Deitar-me em verdes pastos,
guia-me mansamente às águas tranquilas;
Refrigera a minha alma,
guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome,
Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte
não temeria mal algum, porque tu estás comigo,
a tua vara e o teu cajado me consolam;
Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos,
unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda;
Certamente que a bondade e a misericórdia
me seguirão todos os dias de minha vida,
e habitarei na casa do Senhor por longos dias.
Amém.
(Bíblia sagrada, Salmo 23)
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO...........................................................................................................5
2 UM PANORAMA SOBRE A COMUNICAÇÃO DE MASSA.....................................9
2.1 TEMÁTICA DOS EFEITOS.....................................................................................9
2.2 INDÚSTRIA CULTURAL: INFORMAÇÃO E CAPITALISMO..................................13
2.3 NASCEM A TV E A NOVELA................................................................................16
2.4 TELENOVELA: A NARRATIVA DA COMUNICAÇÃO DE MASSA......................21
2.5 A TELEVISÃO COMO IMPÉRIO DO ESTEREÓTIPO.........................................24
3 ADOLESCER NA ERA DA TV................................................................................26
3.1 ADOLESCÊNCIA COMO CATEGORIA SOCIAL.................................................26
3.2 QUE JOVEM É ESSE?.........................................................................................29
3.3 RELAÇÃO TV/ADOLESCENTE............................................................................32
3.4 IDENTIDADE E CULTURAS JUVENIS................................................................39
3.5 DELINQUÊNCIA....................................................................................................43
3.6 EXPRESSÃO DA CIDADANIA ATRAVÉS DO CONSUMO.................................48
3.7 RESPOSTAS PELA VIA DO USO DE DROGAS.................................................55
4 ESTUDO DE RECEPÇÃO DA TELENOVELA MALHAÇÃO.................................56
4.1 RECEPÇÃO, MEDIAÇÕES E MIDIATIZAÇÃO....................................................56
4.2 A ORIGEM DE MALHAÇÃO.................................................................................61
4.3 MERCHANDISING SOCIAL NA NOVELA............................................................66
4.4 METODOLOGIA....................................................................................................70
4.5 CARACTERIZAÇÃO DOS GRUPOS FOCAIS.....................................................72
4.6 DESCRIÇÃO DOS RECEPTORES......................................................................73
4.7 DISCUSSÃO EXPLORATÓRIA SOBRE AS CENAS...........................................78
4.8 RESULTADO DAS DISCUSSÕES.......................................................................86
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS.....................................................................................89
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...........................................................................94
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1 INTRODUÇÃO

O objetivo geral dessa pesquisa é realizar uma reflexão sobre o papel da mídia
televisiva, particularmente, o produto telenovela, com enfoque na trama “Malhação”,
enquanto possível fonte de modelo para os adolescentes oriundos da periferia de Porto
Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul. No Brasil e no exterior, pesquisadores da área
da Comunicação têm voltado os olhos para a relação adolescente-televisão. Vários são
os estudos que têm sido realizados em busca de respostas que auxiliem a entender
melhor a forma como esse público se relaciona com a TV. Mesmo com o advento da
internet, a televisão continua despertando interesse por ser um meio de comunicação
de massa que está presente na grande maioria dos lares brasileiros.
Os objetivos específicos deste trabalho são identificar qual o lugar da televisão
na rotina diária dos adolescentes pesquisados; conhecer a percepção que esses jovens
têm da televisão e das mensagens veiculadas por ela, principalmente da telenovela
“Malhação”; verificar o grau de relevância desse meio para estes jovens e como ele
opera na mediação. Buscar saber se o conteúdo ficcional da teledramaturgia está
colaborando na educação e na formação da identidade do jovem da periferia. Além
disso, experimentar uma prática de trabalho cientifico multidisciplinar, integrando teorias
e análises de pesquisadores de procedências diversas no estudo de um único objeto.
A opção por desenvolver esse estudo justifica-se porque analisar a contribuição
da telenovela na formação da subjetividade do adolescente oriundo da favela pode
ajudar a compreender que tipo de geração jovem está se formando. Entendendo que a
adolescência é uma fase complexa da vida humana, momento em que o indivíduo
forma sua personalidade, pensar no Brasil do futuro começa pela juventude. O jovem é
um importante recurso humano para o desenvolvimento social, como agente essencial
de inovação e de mudanças positivas. Na medida em que os jovens estão fortemente
expostos às mensagens da televisão, torna-se importante discutir e analisar esse meio
de comunicação. Portanto, se faz necessário saber de que forma o jovem assimila a
informação que recebe por meio da telenovela. Essa análise é importante para o campo
da comunicação, pois contribui com os estudos já realizados e outros em andamento,
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que buscam compreender a relação que se estabelece entre o adolescente e a


televisão. Procurei dentro das ciências sociais instrumentos de análise que
possibilitassem a compreensão deste sujeito. A partir da mídia televisiva, busquei um
programa que fosse dedicado ao adolescente e que pudesse fornecer elementos para
este estudo. Assim, dirigi meu olhar para o conteúdo veiculado pela telenovela
Malhação, realizando um estudo de recepção com adolescentes, para perceber e
identificar, através de algumas cenas selecionadas, os valores que estão sendo
reproduzidos.
A metodologia de pesquisa foi feita através de grupos focais reunindo
adolescentes para analisar cenas retiradas dos capítulos de “Malhação” que foram ao
ar entre novembro de 2009 e agosto de 2010. Esta pesquisa não busca somente falar
do adolescente, mas também ouví-lo. Para isso, o método de grupos focais foi usado
pela riqueza de seus resultados, pela facilidade com que são geradas as discussões,
por mostrar-se uma maneira de obter mais espontaneidade do adolescente. Foram
ouvidos 10 jovens, de ambos os sexos, entre 13 e 17 anos, da Escola Estadual de 1º e
2º graus Presidente Costa e Silva, que atende alunos da Vila Cruzeiro, zona sul de
Porto Alegre.
O referencial teórico norteador dessa pesquisa serão os estudos de Ronsini
(2007) nos quais explica que “o consumo da cultura é um termo que engloba a
recepção dos meios de comunicação e o processo de redefinição do senso de
pertencimento, organizado no conflito entre lealdades locais ou nacionais e a
participação em comunidades transnacionais ou desterritorializadas. Escrever a história
do consumo midiático pelo exame da vida cotidiana, do bairro, da vizinhança, dos
lugares da casa, de praticas sem registro, das “miniaturas” é uma tentativa de observar
os agentes sociais como produtores de sentidos”.
Este trabalho foi dividido em três capítulos. No primeiro apresento a
comunicação de massa1 que, para (MARTÍN-BARBERO, 2002, p. 55), a verdadeira
proposta não está nas mensagens, mas nos modos de interação que o próprio meio
transmite ao receptor. Posteriormente, um estudo específico sobre a origem da
1
O conceito de comunicação de massa é dos que mais variações apresenta na sua definição. Várias são
as interpretações e os sentidos a ele dados. Ora se refere à massa de mensagens dos meios de
informação, ora se refere à massa para significar o mecanismo de repetição dos próprios meios de
informação ora se refere à massa de indivíduos que constituem as audiências da comunicação social.
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televisão no Brasil, e um dos seus principais produtos: a telenovela, que tem a


capacidade de mesclar várias camadas da sociedade. Para isso, adotarei os estudos
do Núcleo de Telenovela da Universidade de São Paulo (USP), com atenção especial
às análises da professora em Ciências da Comunicação, Maria Immacolata.
No segundo capitulo analisei as mudanças e movimentos dessa fase
contraditória e complexa chamada de adolescência, através dos estudos de Stuart Hall
(1904), Erikson (1972), Áries (1981) e Osório (1989). Nesse trabalho tratei a
adolescência pelo aspecto sociológico, sendo um período de transição do estado de
dependência para o de autonomia. Através de conceitos da psicologia, analisarei esse
período crítico de definição do ego, com grandes mudanças na personalidade, o que
incide no comportamento. No contexto comunicacional, a partir dos estudos de Ronsini,
analisei que os estilos juvenis em diferentes classes sociais partem do consumo da
comunicação: cinema, rádio, televisão aberta e fechada, revista e computador.
Pretendo discutir ainda, as questões da formação da subjetividade adolescente na
construção de sua identidade e representações. Além disso, a mediação que o receptor
da telenovela realiza entre o mundo vivido e experimentado por ele, e o mundo que é
representado na telenovela para estudar qual o possível efeito.
No terceiro e último capítulo abordei a recepção, sendo que defini-la tem sido um
desafio não só para vários pesquisadores da comunicação como também para
diferentes áreas do conhecimento. Psicólogos, sociólogos, entre outros, já se
dedicaram ao tema, sem, contudo, chegarem a uma definição inequívoca e única para
o que seja a recepção. Tendo em vista a diversidade de definições e abordagens, não é
objetivo desta pesquisa encontrar somente uma definição para o termo “recepção” ou
mesmo eleger alguma como preferencial. Também não se busca fazer um
levantamento extenso e abrangente sobre como tem sido definida a recepção em todas
as ciências e abordagens de pesquisa. A perspectiva de análise que interessa a este
trabalho é a comunicacional. Sem, contudo, excluir ou negar outras abordagens válidas
e úteis à pesquisa.
Dito isso, as considerações sobre recepção serão feitas a partir da abordagem
dos estudos culturais latino-americanos de Jésus Martín-Barbero, Nestor García
Canclini e Guillermo Orozco Gómez. Também foi elaborado um perfil psicológico dos
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adolescentes, ou seja, uma imagem formada por meio da observação dos


entrevistados, resultado das impressões causadas. Com essas impressões construiu-se
uma opinião, uma ideia, uma imagem global de cada jovem em seu contexto social.
Criou-se então uma discussão exploratória sobre as cenas e personagens da novela
Malhação. Foram debatidos os seguintes temas, desenvolvidos na novela:
homossexualidade, bullying e drogadição. Assim foram analisados os discursos dos
adolescentes, construídos em torno das representações e das reflexões geradas pelas
cenas extraídas da novela. Mostrando a relação psíquica e comunicacional que o
adolescente estabelece com a novela e os reflexos em sua vida.
Por fim, os resultados do estudo de recepção da telenovela “Malhação”,
buscando analisar as informações que vêm sendo assimiladas pelos adolescentes. A
partir disso, expus minhas considerações finais elaboradas a partir das análises
propostas neste trabalho.
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2 UM PANORAMA SOBRE A COMUNICAÇÃO DE MASSA

2.1 TEMÁTICA DOS EFEITOS

A sociedade de massa tem origem no século XIX, com a industrialização.


Enormes populações deixam suas cidades e concentram-se nos grandes centros
urbanos. A população é atraída pelo conforto, transporte, iluminação pública, alimentos,
utensílios domésticos, emprego e entretenimento. Vivendo em condições de vida
subumanas, forma-se uma grande quantidade de pessoas sem ordenação e sem rosto.
Nas décadas de 60 e 70, houve no Brasil uma migração da população que saiu do
campo e atingiu as grandes cidades. Esse contingente de migrantes foi obrigado a se
adaptar às exigências e padrões de comportamento urbanos. As cidades passavam por
um crescimento acelerado com mudanças abruptas no seu ambiente. Aquele homem
vindo do interior “desenraizou-se” para sobreviver nesse novo mundo. E as perdas
foram muitas porque deixou para trás suas raízes, o sentimento de permanência numa
região que lhe era familiar, onde mantinha segurança afetiva familiar e moral. Mas,
agora a sua antiga visão do mundo e a sua moral tradicional nesse novo contexto
parecem obsoletas. Nas cidades, ele não encontra mais as relações comunitárias, os
vínculos de solidariedade e amizade.
Esse homem é apenas mão de obra anônima e, as instituições que poderiam
representá-lo foram esvaziadas. Ele passa a ser atingido diariamente por um grande
volume de informação num mundo cada vez mais acelerado. Surge então o aparelho de
televisão, que se torna o elo entre a sua solidão e tudo que ocorre no mundo. Surge aí
um telespectador que pensa estar socialmente integrado ao seu país. Ele vê uma
sociedade hostil dissolvida através da televisão. Assim, se imagina parte de tudo. Com
o aparecimento da telenovela, o telespectador realiza-se emocionalmente. A novela
preenche seu vazio, satisfazendo suas carências afetivas, emocionais, econômicas e
outras. As fantasias, as alegrias, as resoluções e reconciliações proporcionadas pela
televisão fazem as pessoas perceberem o quanto estão insatisfeitas e descontentes.
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Porém, continuam ligadas àquele consolo temporário que têm ao acompanhar uma
história romântica pela televisão.
A sociedade de massa mostra o homem destituído de qualidades individuais,
despersonalizado, transformado em bem de consumo, produto. O homem torna-se
alienado dos projetos de vida, pois não dispõe de tempo livre nem de instrumentos
teóricos para exercer a crítica de si mesmo e da sociedade. Não pode nem consumir o
que produz, porque é mal remunerado. A sociedade de massa admira estereótipos,
adora signos, idolatra conteúdos espetacularizados. Por isso, a estratégia de poder se
baseia na apatia e passividade das massas.
Esse tipo de comunicação se baseia no processo industrializado de produção e
distribuição de mensagens culturais para a coletividade, aos públicos que constituem a
massa social com o objetivo de informá-la, educá-la, entretê-la ou persuadi-la,
promovendo a integração individual e coletiva na realização do bem-estar da
comunidade.
Segundo Martín-Barbero (1997, p.44), “A teoria da sociedade-massa tem fontes
diferentes e uma paternidade mista composta de liberais descontentes e conservadores
nostálgicos, além de alguns socialistas desiludidos e uns tantos reacionários abertos.”
Embora o autor veja a emergência das massas como chave do início da democracia
moderna, onde desaparecem as antigas distinções de categorias e classes, considera
aquelas como ignorantes, sem moderação, que subordina qualquer coisa a seu bem-
estar.
A televisão, como outros meios de massa, tem como principal função informar,
educar e entreter de diferentes formas, com conteúdos selecionados e desenvolvidos
para determinados públicos. “A massa subverte tudo o que é diferente, singular
individual, tudo que é classificado e selecionado. Embora a ascensão das massas
indique que a vida média se processa a um nível superior aos precedentes, as massas
revelam, todavia um estado de espírito absurdo: preocupam-se apenas com o seu bem-
estar...” (WOLF, 2003, p. 22).
Para identificar os efeitos e impactos provocados pela mensagem no público nos
orientamos pelo estudo de recepção. A preocupação com os efeitos surgiu nos anos
que precedem a Primeira Guerra Mundial, com a demanda por pesquisa social. Nesse
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período de reformas, começaram a ser desenvolvidas estudos sobre a influência dos


meios em crianças e adolescentes. A temática dos efeitos frequentemente é
relacionada à chamada “teoria hipodérmica”, surgida no período das duas grandes
guerras e da difusão em larga escala da comunicação de massa. O aspecto geralmente
destacado é o do público caracterizado como pertencente à sociedade de massa. Um
grupo homogêneo de indivíduos que são iguais e indiferenciáveis. Esses indivíduos
estariam isolados, atomizados, anônimos e, portanto, reagem isoladamente aos meios
de comunicação sem oferecer resistência às mensagens propagadas.
Segundo a teoria, se o alvo for atingido, o efeito pretendido é alcançado. O
modelo do processo de comunicação empregado nesta fase vem do behaviorismo e é
do tipo estímulo-resposta (WOLF, 1999, p. 22-28). Mas foi a partir do Modelo de
Lasswell que os interesses de pesquisa se dividiram em dois temas centrais: a análise
dos efeitos e a dos conteúdos (WOLF, 1999, p.31). De acordo com a proposta do
modelo, o processo de comunicação poderia ser expresso pelas seguintes questões:
quem (emissor) diz o quê (análise do conteúdo, através de que canal (estudo dos
meios) e com que efeito (análise da audência). Lasswell também introduziu algumas
premissas acerca desse processo: eles são assimétricos; a comunicação é intencional
e tem por objetivo um efeito (WOLF, 1999, p. 29-31). Depois da década de 40, os
estudos dos efeitos vão seguir diretrizes diferentes, mas que em muitos aspectos
permanecem interligadas ou sobrepostas. Dessa forma, essas tendências de pesquisa
teriam contribuído para aprimorar o modelo comunicativo que havia sido proposto pela
teoria hipodérmica, de modo a considerar cada vez mais o contexto em que ocorre a
comunicação (ARAÚJO, 2001, p. 126).
Uma dessas correntes foi a abordagem empírico-experimental ou “da
persuasão”, que promoveu uma revisão do processo comunicativo como uma relação
entre estímulo e resposta, evidenciando a complexidade dos elementos envolvidos na
comunicação. O esquema passa a levar em conta a intervenção de processos
psicológicos intervenientes entre a causa e o efeito (ou entre o estimulo e a resposta).
Já a abordagem dos efeitos limitados destaca o processo de influência interpessoal que
vai interferir nos efeitos exercidos pelo mass media. O que aqui se enfatiza é a rede de
relações sociais na qual o individuo está inserido. Se a teoria hipodérmica falava de
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manipulação e a anterior de persuasão, agora o problema passa a ser o da influência, a


qual não é exercida apenas pelos meios. (WOLF, 1999, p. 47). Há também as
pesquisas de Lazarsfeld que levaram a formulação do conceito de lideres de opinião,
para expressar os indivíduos com influência sobre a tomada de decisão dos demais.
Dessa forma foi criado o modelo “two-step of communication”, segundo o qual a
comunicação ocorre em dois níveis: dos meios aos lideres e dos lideres às outras
pessoas do grupo (ARAÚJO, 2001, p. 127-128).
Outra tendência de pesquisa sobre os efeitos que teve larga repercussão foi a
dos Usos e Gratificações (doravante, U&G). Nessa corrente, passa-se a da pergunta “o
que os mass media fazem com as pessoas?” para “o que as pessoas fazem com o
mass media.” Os meios não podem influenciar um individuo que não faça uso deles, ou
seja, o efeito é uma conseqüência da satisfação de necessidades do receptor. Um
aspecto importante em relação ao receptor é que, a partir da pesquisa de U&G, o
emissor e o receptor são parceiros ativos no processo de comunicação (WOLF, 1999,
p.71). As necessidades do destinatário passam a serem consideradas como variáveis
para o estudo dos efeitos. A partir daqui, a seletividade operada pelo receptor ganha
relevância, sendo invertida a direção do fluxo comunicacional, indo dos receptores para
os meios, pois depende do receptor se essa comunicação será ou não estabelecidas.
Porém, a hipótese dos Usos e Gratificações ainda tende a tratar a audiência como um
conjunto de indivíduos isolados do contexto e, então, essas varáveis acabariam não
sendo suficientes para explicar o consumo dos meios.
A mudança de concepção do receptor percebida nos estudos de Usos e
Gratificações também pode ser percebida na hipótese do Agenda-Setting, uma teoria
de efeitos a longo prazo. A ação dos meios é pensada como capaz de alterar a
estrutura cognitiva das pessoas, o modo individual de conhecer o mundo. De acordo
com essa corrente de pesquisa, ocorre o “agendamento”, ou seja, temas e assuntos
são colocados para a sociedade pela ação dos meios. Os efeitos deixam de ser
imediatos e passam a ser considerados como perceptíveis em um período maior de
tempo (ARAÚJO, 2001, p. 129). Tais mudanças devem-se ao diálogo entre a corrente
de estudos dos efeitos e outras tendências de pesquisa surgidas a partir dos anos 60.
Surgirá assim uma outra perspectiva de abordagem do receptor, que será considerado
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produtor de sentidos.
Os meios de comunicação têm sucesso conforme a eficácia que o receptor lhe
atribui, baseando-se na satisfação de suas necessidades. Outro foco de teoria surgido
na Europa é a recepção relacionada com a ideologia, que veio da chamada Escola de
Frankfurt, de onde surgiu o conceito de indústria cultural. Horkheimer, Adorno, Marcuse
e outros pesquisadores frankfurtianos criaram o conceito de "Indústria Cultural" para
definir a conversão da cultura em mercadoria. Nesse processo, tudo se transforma em
mercadoria morrendo a cultura e nascendo a cultura de massa, sendo o receptor
passivo. A Comunicação de Massa e a Indústria Cultural são dependentes uma da
outra, pelo fato de existirem diversos meios de comunicação que são capazes de atingir
um grande número de indivíduos através de uma mensagem. A formação desse
processo acontece em conseqüência de uma sociedade industrializada, muitas vezes
alienada, que aceita ideias e mensagens sem um pré-julgamento, entrando diretamente
na “mente” dos indivíduos, globalizando o consumo, sem restrições.

2.2 INDÚSTRIA CULTURAL: INFORMAÇÃO E CAPITALISMO, SEGUNDO BOLAÑO

Enquanto, para Martín-Barbero, os meios de comunicação de massa e a


Indústria Cultural propõem uma perspectiva que o público dispõe, de forma diferente,
em seus vários segmentos constitutivos. Por outro lado, a Escola de Frankfurt aponta a
Indústria Cultural como uma ferramenta de controle social, manipuladora da
consciência das massas. Abordando a questão da Indústria Cultural como é definida na
Economia Política da Comunicação, César Bolaño argumenta que a sua validade se
mantém enquanto a produção cultural hegemônica permanecer como atividade a
serviço da acumulação de capital, ou seja, enquanto os bens e serviços culturais
continuarem a ser produzidos por um trabalho subordinado de alguma forma às leis de
mercado.
A economia da educação e da cultura tem procurado indagar-se sobre as
funções dos meios do próprio processo de acumulação de capital, com o que prioriza,
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hora a problemática da publicidade, hora a dos meios de comunicação de massa, lócus


privilegiado da acumulação do capital no atual estágio de desenvolvimento do
capitalismo. César Ricardo Bolaño trata teoricamente da problemática da indústria
cultural, publicidade e os meios audiovisuais, baseando-se principalmente nas análises
de Marx e Habernas. Influenciado pelo marxismo, que passa a noção de duplo caráter
da mercadoria, como valor de uso e valor de troca, mostra as dificuldades teóricas e
políticas para o tratamento marxista dessas formas de capital. A mercadoria tem que
ser vendida e o dinheiro gerado volta para o capitalista. Depois de completado esse
ciclo o capital terá crescido. Havendo contradição entre os pensamentos de Marx e
Habermas, o segundo analisa a dissolução da esfera pública burguesa. As contradições
da informação se materializam no capitalismo clássico, o que Habermas chama de
esfera pública burguesa. Os meios de comunicação são usados estrategicamente por
meio da publicidade, no sentido de tornar público, sendo uma necessidade do
mercador. A teledifusão é dada basicamente a incumbência de constituir um público,
uma audiência de massa e atrela-lo às exigências de reprodução econômica e
ideológica do sistema.
Para o capitalismo, a informação necessária aos negócios privados é também
uma informação privadamente produzida e apropriada. Para Bolaño, trata-se de uma
informação de classe. Informação que precisa tornar-se pública para o bem dos
negócios. A televisão passa a impressão de por a informação ao alcance de todos,
porém, esta informação de massa oculta as determinações de classe, sob as quais se
efetiva a produção. A televisão produz a pauta e o modelo de conduta. A teledifusão na
verdade, constrói um público, uma audiência de massa, servindo as exigências
ideológicas e econômicas do sistema de reprodução. "A audiência enquanto
mercadoria". Por meio do trabalho dos artistas, atrizes, atores, jornalistas e
comunicadores são produzidos uma audiência que em números se negocia com seus
anunciantes e agentes publicitários. É a empresa capitalista, que Bolaño apresenta a
ordem simbólica da Indústria cultural, setor que apesar de ser mais um elemento do
campo de formação e realização do valor, presta-se mal ao processo de valorização do
capital. Isso porque aos olhos do consumidor o produto cultural é marcado pela
personalidade dos trabalhadores que participaram de sua elaboração.
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Na sua função mais precisa, os meios de comunicação se baseiam em


publicidade, propaganda e os programas da emissora, todos esses itens conjugados
em contradição representam a Indústria Cultural, que surge com o capitalismo
monopolista. A publicidade estimula o consumo do produto articulando mecanismo para
vencer a concorrência, seu papel é vender, obscurecendo a origem dos conflitos
sociais. A função da propaganda é produzir um modelo de conduta prática. Bolaño
defende que é preciso haver a compreensão do fenômeno da Indústria Cultural para
que dê conta das funções no processo de acumulação do capital e às relações
ideológicas do sistema. O conjunto "meios de comunicação e transporte" é visto por
Marx como fazendo parte das condições gerais para a reprodução do capital. Existem
limites objetivos ao falseamento da informação. A manipulação da informação por quem
a emite e tem o poder, seja de não informar, seja de derramar uma enxurrada de
informações irrelevantes que impedem uma tomada de decisão autônoma por aquele
que recebe a informação. Isso já deixa implícita a possibilidade de manipulação da
informação pela a publicidade, que pode ter, assim, a capacidade de alterar a relação
entre preço de produção e preço de mercado, proporcionando dessa forma ao
empresário inescrupuloso ganhos superiores e vantagens na concorrência.
Também a comunicação deixa de ser uma comunicação entre iguais e se
transforma em comunicação de classe. Há, portanto, uma contradição entre a essência
de uma informação de classe e sua aparência de informação de massa, a mesma
contradição que há em geral entre o igual e o desigual, entre o contraditório e o não
contraditório que caracterizam a ideologia burguesa da liberdade de informação.
Quanto maior for a quantidade de informações dirigidas ao público, o que se coaduna
perfeitamente com a racionalidade quantitativa que caracteriza a cultura burguesa
desde seu início. O desenvolvimento das tecnologias de comunicação para servir o
capital permite também o surgimento da indústria cultural. Por outro lado, a indústria
cultural pode prescindir de uma acumulação primitiva de conhecimento, representado
pela apropriação da cultura popular, que se transforma em matéria-prima para essa
indústria, num processo que vai do folhetim à telenovela.
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2.3 NASCEM A TV E A NOVELA

A necessidade de representar fatos e sentimentos através das imagens


acompanha o homem desde a história da civilização. A invenção do aparelho de
televisão, palavra originária do grego tele (distante) e do latim visione (visão), deve-se
aos esforços de inúmeros cientistas. Físicos e matemáticos ajudaram a criar o mais
poderoso veículo de comunicação da atualidade. A primeira transmissão de TV
experimental no Brasil ocorreu em 1939 durante uma feira na cidade do Rio de Janeiro.
No dia 18 de setembro de 1950 foi inaugurada a emissora TV Tupy de São Paulo, que
fez a primeira transmissão comercial televisiva em preto e branco na América do Sul.
Com isso, o país foi o quarto a possuir uma emissora de televisão, atrás apenas de
Estados Unidos, Inglaterra e França. Pouco tempo depois, em 20 de janeiro de 1951,
foi inaugurada a TV Tupy do Rio. Na festa de lançamento da emissora, foi exibida uma
entrevista do cantor francês Maurice Chévalier, um dos mais famosos do mundo na
época, feita pelo jornalista Arnaldo Nogueira. Seria o primeiro talk-show da TV
brasileira. A TV Tupy no ano de lançamento, apresenta sua primeira novela2: "Sua vida
me pertence", de Walter Forster, que era apresentada duas vezes por semana. No
princípio, as telenovelas eram consideradas uma espécie de rádio com imagem, uma
vez que os autores tinham dificuldades de se adaptarem do rádio para a TV.
O responsável por todo esse empreendimento foi o empresário e jornalista,
Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, proprietário de uma cadeia de
jornais e emissoras de rádio, chamada de Diários Associados. O empresário, mais
conhecido como Chatô, mobilizou empresas e instituições, que deram suporte
2
O surgimento da novela se deu na França, no século XIX, sob a forma de romance-folhetim, o que, mais
tarde, se tornaria o famoso folhetim eletrônico. Os folhetins foram se tornando cada vez mais populares, e
começaram a ser difundidos pelo mundo todo, chegando no Brasil em 1838. Outra influência sobre os
folhetins eletrônicos foram as rádio-novelas que surgiram mais tarde. Essa forma de entretenimento se
popularizou durante a "Grande Depressão", patrocinada por empresas que financiavam o rádio comercial
a fim de vender produtos aos ouvintes. A partir da década de 40, devido a fácil aquisição dos aparelhos
de rádio, esse gênero difundiu-se pelo mundo todo. A telenovela ultrapassa a preferência por programas
culturais, e devido á isso surge a primeira novela diária brasileira: "2-5499 Ocupado" de Dulce Santucci.
Essa novela foi um grande sucesso, transmitida em 1963 pela TV Excelsior de São Paulo, teve como
protagonistas, Tarcísio Meira e Glória Menezes, que hoje são ícones da TV brasileira.
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financeiro à sua iniciativa. Em seu discurso de estreia não houve referências ao novo
veículo como estimulador da arte, cultura ou informação. Prevaleceu na ocasião o
conceito de que o anunciante antecede a concepção de mercado, público ou audiência.

Atentai bem e vereis como é mais fácil do que se pensa alcançar uma televisão:
com prata Wolff, lãs Sams, bem quentinhas, Guaraná Champagne, borbulhante
de bugre e tudo isto bem amarrado e seguro na Sul América, faz-se um bouquet
de aço e pendura-se no alto da torre do Banco do Estado de São Paulo, um
sinal da mais subversiva máquina de influir na opinião pública. Discurso de
Chateaubriand, 19503.

Chateaubriand convidou vários jornalistas e ex-radialistas como Arnaldo


Nogueira e pessoas famosas já naquela época, como Hebe Camargo e Lolita
Rodrigues, para apresentarem a primeira transmissão. Arnaldo Nogueira continuou
fazendo muito sucesso, principalmente no Rio de Janeiro e com a criação de mais dois
programas dele: “Senhora Opinião” e “Ideias e Imagens”. Depois da TV Tupy surgiram
várias outras emissoras, como a TV Paulista, no ano seguinte. A Rede Record de
Televisão, fundada em 1953 na cidade de São Paulo, é a mais antiga televisão
brasileira em existência. Ela se tornou uma rede de televisão de alcance nacional a
partir de 1990 e está presente em todo o mundo através da Record Internacional. Em
abril de 1965, na cidade do Rio de Janeiro, foi fundada a Rede Globo de Televisão, que
se tornou a maior rede de televisão do Brasil, também com alcance em todo o mundo
pela Globo Internacional.
Tudo era ao vivo na TV brasileira dos anos 1950 (o videoteipe só surgiria anos
depois). Como não havia profissionais especializados em televisão, os redatores de
rádio eram chamados em grande quantidade, o que deu à TV brasileira uma cara de
“rádio com imagem” em seu início. Os teleteatros ao vivo faziam muito sucesso, como o
“Grande Teatro Tupy” e o “Teatrinho Troll”. Humorísticos e shows também tinham
grande audiência, como o “Noite de Gala”, com Flávio Cavalcanti, “O Mundo é das
Mulheres”, de Hebe Camargo, e a “Família Trapo”, com Ronald Golias. A primeira
transmissão oficial a cores no Brasil deu-se em 31 de Março de 1972. O
desenvolvimento da TV foi tão grande que os canais disponíveis de VHF (Very High
Frequency, isto é, frequência bastante alta) ficaram saturados, ampliando assim a

3
Disponível em: http://www.redetupi.com/paginas/posts/a-inauguracao-oficial69.php
18

utilização da faixa de UHF (Ultra High Frequency, isto é, frequência ultra-alta). Assim os
fabricantes de televisores foram obrigados a construir um aparelho capaz de captar
todos os canais para que os programas da faixa de UHF ficassem acessíveis.
As novelas foram adquirindo novas características referentes a temas, cenários.
A telenovela da atualidade é escrita como obra aberta, ou seja, tem influência da
sociedade no seu desenvolvimento. Quando a novela vai ao ar ela tem cerca de 20
capítulos gravados, os quais advêm de uma sinopse, de um argumento aprovado pela
emissora e que contém a espinha dorsal da história. Esse argumento dá as diretrizes,
mas não toda a trama, cujo desenvolvimento sofrerá influência das pesquisas com a
população, dos fatos e acontecimentos do período, da maneira de pensar da
sociedade, dos receptores da telenovela.
As produções latinas (mexicanas, argentinas e cubanas) eram a principal
referência, com muitas adaptações recheadas de histórias e personagens exóticos,
além do alto teor melodramático. Porém, vale ressaltar que o melodrama não foi o único
estilo presente na década de 60. Foram produzidas algumas novelas que abordavam
temas diferentes. Um bom exemplo foi a trama “Beto Rockfeller” (1968-1969)
protagonizada pelo ator Bráulio Pedroso. O principal personagem era um anti-herói com
sua linguagem coloquial, gírias e expressões populares, marcando a ausência de um
herói no estilo romântico. Na virada das décadas de 60 e 70 o Brasil estava passando
por uma época de mudança na sociedade. A telenovela aparece mergulhada num
processo cultural modernizador, onde o governo militar apoiava a elaboração de planos
de integração nacional e ao mesmo tempo fazia a televisão sofrer com as fortes
censuras que obrigavam as novelas a se disciplinarem de acordo com as suas leis.
A televisão transformou-se num ótimo negócio. A TV Excelsior, que saiu do ar no
final de 1970, em razão do regime militar, introduziu o conceito de programação no
Brasil e um tom de profissionalismo nas atividades televisivas. Oferecia pela manhã
programa infantil, seguido pelo destinado às donas-de-casa e à noite telejornal e
novela. “Direito de Nascer” (1964) era a novela de maior repercussão na época, criando
hábitos e mobilização popular. Com altos índices de audiência atraia cada vez mais
anunciantes. A telenovela brasileira, ainda nos anos 60, encontra seu próprio caminho e
se distancia dos temas folhetinescos que fugiam à realidade de seu público, trazendo
19

para a televisão ficções com rosto, o sotaque e os cenários do Brasil.


É importante ressaltar que não houve um rompimento com o texto
melodramático, mas sim um processo de atualização da estrutura da telenovela. Se as
décadas de 60 e 70 foram marcadas pelo aumento do número de aparelhos de TV, e
pela concentração dos investimentos publicitários nesse veículo, os anos 70 e 80 serão
lembrados como o momento de industrialização da telenovela. Regularidade e
pontualidade dos horários, duração uniforme dos capítulos e telenovelas com número
contado de dias para acabar. A teledramaturgia brasileira trilhou seus passos se
distanciando do folhetim do qual se originou e se aproximando cada vez mais da forma
de entretenimento de massa que hoje é um produto preocupado com pesquisas e com
a audiência.
Não se podia imaginar que este tipo de programa, surgido através da soap opera
(óperas de sabão) conquistaria tantos adeptos em todo o mundo. Na época, a indústria
de cosméticos não dispunha da mesma variedade de produtos de beleza como
atualmente. Os produtos utilizados eram apenas os sabonetes. O fato de grande parte
da população feminina assistir a esses programas fazia com que as empresas de
sabonetes se tornassem patrocinadoras dos melodramas, dando origem ao termo. As
novelas atingem um público heterogêneo, de diversas idades, classes e regiões do
país. Na atualidade, a telenovela é o principal produto da indústria cultural brasileira,
passando a ser exportada para diversos países do mundo.
Estes são motivos suficientes para demonstrar a força e a importância da
televisão no Brasil. As novelas foram a grande invenção nacional. Capazes de prender
mais de 70% dos telespectadores, com seu linguajar cotidiano, temas da vida privada e
unicidade cultural. As novelas propiciaram tal conjunção com o público que as mulheres
aprenderam a se vestir como os personagens e as adolescentes a querer seus sonhos
modernos. Depois de 1980, quando se inicia o processo de redemocratização, segundo
Ridenti (1999), há uma ampliação dos bens culturais industrializados, pois se há o
fortalecimento da industria cultural com os militares é no período de abertura política
que ela chega ao seu apogeu. Sem a censura, os filmes, livros e programas nacionais e
internacionais puderam ser divulgados amplamente. Com a abertura política ficou mais
fácil a penetração dos bens culturais de massa lançados e consumidos pela população.
20

A abertura política, no começo da década de 1980, propiciou um


desenvolvimento vertiginoso da indústria cultural, em função principalmente dos
investimentos que já tinham sido realizados durante o regime militar na área das
comunicações, sempre sob controle dos órgãos de censura. Porém, é preciso ter
presente que enquanto a expressão típica da indústria cultural no regime militar
caracterizou-se pelo nacional-desenvolvimentismo, a indústria cultural na
redemocratização e nos períodos subseqüentes foi marcada pela globalização e pelo
fim da censura. Estes dois acontecimentos mostraram ser o casamento perfeito para o
desenvolvimento da Indústria Cultural brasileira, tendo como carro chefe a televisão.
Otávio Ianni (2000) aponta que a televisão não pode ser considerada apenas
como uma observadora e repórter de eventos, pois ela se encontra dentro desses
eventos, sendo parte daquela realidade. Ele define a televisão como: “Um meio de
comunicação, informação e propaganda presente e ativo no cotidiano de uns e outros,
indivíduos e coletividades, em todo mundo. Registra e interpreta, seleciona e enfatiza,
esquece e sataniza o que poderia ser a realidade e o imaginário. Muitas vezes
transforma realidade, seja em algo encantado, seja em algo escatológico, em geral
virtualizando a realidade em tal escala que o real aparece como forma espúria do
virtual.” (IANNI, 2000, p.150). O autor mostra que a mídia realiza as implicações da
Indústria Cultural, combinando produção com reprodução cultural com produção e
reprodução de capital, informando e formando a população. Ela contribui para formar a
opinião pública e estabelecer um consenso democrático, exercendo assim, uma forma
de autocontrole da sociedade.
No caso brasileiro, a televisão possui suas peculiaridades. Segundo Hoineff
(1996), a sociedade contextualizada com a má distribuição de renda,
concentracionismo da teledifusão, a alta qualidade da teledramaturgia somada a uma
população fragmentada com identidades culturais diversas fizeram da televisão uma
expressão da realidade.
Esther Hamburger (2005) aponta que o número de aparelhos televisivos
aumenta no período de desenvolvimento econômico. Isto ocorreu na década de 1970,
nos anos do ‘milagre econômico’ e na década de 1990, com surgimento do Real.
Segundo ela, “… a televisão brasileira desenvolveu uma estrutura original, combinando
21

propriedade comercial com diferentes formas de intervenção estatal” (HAMBURGER,


2005, p. 22).
O Estado Brasileiro defendeu as fronteiras nacionais contra as influências dos
vídeos estrangeiros. Na década de 1980, percebia-se que a maior parte da
programação exibida em horário nobre era produzida no Brasil. Os programas
considerados “enlatados” eram transmitidos em horários onde a audiência não era tão
alta. Baseado nisso, muitos autores afirmam que a abertura para a importação de
programas não levará a uma colonização cultural, pois, a produção brasileira é de
melhor qualidade e mais popular do que a estrangeira.

2.4 TELENOVELA: NARRATIVA DA COMUNICAÇÃO DE MASSA

A telenovela vem se consolidando como objeto de estudo importante no campo


da Comunicação no Brasil. O que, em nenhum momento, pode ocultar que o relato
“telenovelesco” remete também à longa experiência do mercado para captar, na
estrutura repetitiva da série, as dimensões ritualizadas da vida cotidiana e, juntando o
saber fazer contas com a arte de contar histórias, conectar as novas sensibilidades
populares para revitalizar narrativas midiáticas gastas (MARTIN-BARBERO; REY, 1999,
p. 115).
Quando se fala em mídia, o primeiro veículo de comunicação de que todos
lembram é a televisão. É este o principal meio responsável pelo "estar com a mídia". De
acordo com Bourdieu (1997), sabe-se que há uma proporção muito importante de
pessoas que são devotadas a esse veículo como fonte única de informação; a televisão
tem uma espécie de monopólio sobre a formação das “cabeças” de uma parcela
considerável da população (BOURDIEU, 1997), independente da natureza do que está
veiculando: informação, propriamente dita, ou entretenimento. A televisão é o mundo,
que nada mais é se não a sociedade-espetáculo, entretida apenas no aparecimento e
na presentificação incessante de imagens que a exibem, ocultando-a de si mesma.
Apesar de jovem, a televisão é um aparelho que atende as necessidades
22

humanas antigas. Para Marcondes Filho (1988), a TV fantasia situações necessárias ao


dia a dia do homem. Os homens vivem em dois mundos: o mundo das coisas práticas,
aquele em que se situam todas as suas obrigações, como trabalho, estudos, normas,
etc. E o mundo das fantasias, totalmente mental e subjetivo, cheio de sonhos e é esse
mundo que move o mundo real. A televisão se encaixa neste segundo mundo, trazendo
fantasias e situações irreais para o telespectador. O autor acredita que a televisão além
de distrair, informa, funcionando como um meio de atualização, entrando na casa das
pessoas e se tornando da “família”.
As pessoas assistem à TV para satisfazer seus interesses e necessidades. Os
jovens vêem televisão porque ela tem a capacidade de suprimir aspectos
desagradáveis. A televisão seria um bálsamo contra o aborrecimento, a solidão e a
insatisfação nas relações sociais. Serviria como uma fuga do cotidiano, proporcionando
a distração dos problemas vividos. As camadas menos favorecidas da sociedade se
apropriam da televisão porque não dispõem de outra opção de lazer. Seria um meio
para solucionar problemas cotidianos e pessoais. Na novela os jovens aprendem sobre
o mundo e sobre os outros. Cria-se um apego ao personagem, certa empatia e
admiração àquela personalidade fictícia. O adolescente, por vezes, passa a emitir juízo
de valor aos conflitos propostos. O jovem reflete, opina e comenta com os amigos sobre
as cenas que assiste. As camadas mais vulneráveis da sociedade ficam a mercê das
influências televisivas e as emissoras brasileiras acabam se nutrindo destas classes.
Segundo Marcondes Filho (1988), o fato de o telespectador receber a imagem
gratuitamente faz com que ele não seja crítico diante da programação. A emissora,
então, busca somente o aumento do público, rebaixando a qualidade dos programas,
se importando somente com o seu valor mercadológico. O autor ainda ressalta que os
meios de comunicação de massa refletem as normas sociais, confirmando as opiniões
gerais, atuando de força conservadora. A novela é um produto indispensável e
permanente. Marcondes Filho (1998) sugere que as novelas produzem emoções,
mexendo com mecanismos mentais, fortes e decisivos. O autor ressalta que as
telenovelas permitem sensações no qual o indivíduo não teria na vida real,
principalmente, no que se refere aos sentimentos. As telenovelas despertam
lembranças felizes, cheia de emoções na memória do telespectador.
23

Os meios de comunicação, ao tornarem-se referências, demonstram estar


inseridos no espaço cultural e social do qual são frutos. A televisão é um dos elementos
que configuram e reconfiguram as identidades contemporâneas, por estar densamente
inserida na sociedade e na cultura da qual faz parte, ainda que por muito tempo tenha
sido considerada como um fator de desagregação, de desenraizamento e de
descaracterização da cultura (URDANGARIN, 2003). Com isso, a televisão é vista com
uma instituição social significante, que necessita ser compreendida como parte
orgânica da sociedade e da cultura contemporâneas e não como um elemento que
paira no ar, manipulando a tudo e a todos.
Pesquisar como o adolescente se relaciona com a televisão pode trazer
elementos enriquecedores. Atualmente, a televisão é uma preocupação de setores
representativos da sociedade civil, como a igreja, as universidades e movimentos
sociais, que discutem as influências que esse meio exerce. Ivete Cardoso do Carmo
Roldão (1999) aponta a importância da televisão para a informação e entretenimento,
no Brasil. Baseando-se em Carlos Eduardo Lins da Silva, ela afirma que “a influência da
televisão já ultrapassou em muito a influência da escola, da igreja e já começa a
superar a da família” (Roldão, 1999, p. 73).
O modelo comercial regido por índices de audiência impede o acesso da
sociedade à TV de bens culturais, aqueles não transformados em mercadoria. A
sociedade vê-se, dessa forma, privada de conhecer a sua própria produção simbólica.
Os prejuízos vão desde a fragilização das referências nacionais à inibição do
surgimento de novas manifestações culturais e artísticas, vítimas da falta de
reconhecimento público (LEAL FILHO, 2008, p. 56-57). Assim podemos refletir sobre a
influência da TV em adolescentes.
24

2.5 A TELEVISÃO COMO IMPÉRIO DO ESTEREÓTIPO

A televisão aparece como um grande império da simplificação e do estereótipo.


Isso ocorre porque essa indústria do espetáculo pretende facilitar a tarefa do
espectador e alcançar altos índices de audiência. Em outras palavras, o estereótipo é o
triunfo da mentira e da comodidade sobre a verdade, já que a verdade é complexa e
exige um esforço para o equilíbrio. Os estereótipos são representações,
institucionalizadas, reiteradas e reducionistas. São representações sociais porque
pressupõem uma visão compartilhada que um coletivo social possui sobre outro. São
reiteradas porque são criadas com base na repetição. A base de rigidez e de reiteração,
os estereótipos acabam parecendo naturais; o seu objetivo é, na realidade, que não
pareçam formas de discurso e sim formas da realidade. Finalmente, são reducionistas
porque transformam uma realidade complexa em algo simples. Neste sentido, os
estereótipos assemelham-se aos processos de sedução porque jogam com a
percepção seletiva: selecionam intencionalmente uma polarização a atenção do
receptor sobre esta dimensão, com a intenção de que o receptor realize um processo
de globalização, transferindo a parte negativa para o todo. Pretendem, então, que a
dimensão negativa se transforme, para o receptor, em uma representação da realidade
completa.
O poder do estereótipo é muito mais amplo do que se pode imaginar.
Empregado pelos diferentes meios de comunicação de massa. A palavra estereótipo
provém da tecnologia utilizada para a impressão jornalística, na qual o texto é escrito
em um molde rígido, na impressão offset ou de estereótipo, que permite reproduzi-lo
várias vezes. O estereótipo aproveita a necessidade de prazer imediato para exercer
influência ideológica ou ética. As mensagens estereotipadas da televisão interagem
com outros fatores de socialização e com os julgamentos ou preconceitos dos
espectadores. A televisão como agente socializador, através de um processo lento,
mas contínuo, apresentando concepções estereotipadas da realidade vai influenciando
a seu modo a realidade, de forma que o espectador não percebe.
Os estereótipos são, ao mesmo tempo, verdadeiros e falsos. São verdadeiros
25

porque se baseiam em aspectos parcialmente extraídos da realidade. Porém, falsos


porque toda a generalização reducionista pressupõe uma traição a uma realidade que
é, necessariamente complexa, contraditória. Os estereótipos contêm meias verdades.
Toda representação baseia-se em um duplo processo de seleção de conteúdos e
códigos para expressá-los. Neste aspecto pode-se observar a ideologia explicita de
seus criadores. Os estereótipos, do ponto de vista da causa, pretendem uma
simplificação da realidade. A escolha de alguns atributos e o encobrimento de outros
realizasse com objetivos específicos: facilitar a interpretação da realidade, reduzindo a
sua complexidade; oferecer uma análise representada com traços da realidade, em
função dos interesses do emissor; simplificar o processo de envolvimento emocional
pelo receptor.
As mensagens estereotipadas da televisão interagem com outros fatores de
socialização e com os julgamentos ou preconceitos dos espectadores. Os estereótipos
são uma reconfortante representação diante de uma realidade complexa. A televisão
como agente socializador, através de um processo lento, mas contínuo, apresentando
concepções estereotipadas da realidade vai influenciando a seu modo a realidade, de
forma que o espectador não percebe.

Se o estereótipo é, intencionalmente ou não, um mecanismo socializador é


porque implicitamente comporta sempre um primeiro tipo de ameaça; uma é
porque implicitamente comporta sempre um primeiro tipo de ameaça: uma
ameaça de exclusão para aquele que não segue a visão estereotipada da
realidade oferecida pelos meios de comunicação de massa em geral e, mais
concretamente, pela televisão como meio socialmente hegemônico, está
ameaçado de isolamento social, de marginalização do coletivo, de expulsão da
tribo. (FERRÉS, 1998, p. 141-142)

Como bem situa Guilherne Orozco (2001, p. 23), a televisão e os demais meios
tornam-se hoje os principais referentes para os diversos grupos e sujeitos sociais
“embora os reducionismo, estereótipos e trivialidades que construam e reproduzam
esses sujeitos, de seus deveres e realidade”. Orozco também sugere que se pense
sobre a tensão que se coloca entre esse protagonismo televisivo e os novos tipos de
interlocução dos sujeitos consigo mesmo e com a cultura aí criada.
26

3 ADOLESCER NA “ERA DA TV”

3.1 ADOLESCÊNCIA COMO CATEGORIA SOCIAL

A adolescência não possui definição precisa. Para o leigo, a adolescência refere-


se simplesmente ao processo de crescimento, o período de transição entre a infância e
a idade adulta, compreendida entre os 13 e 19 anos de idade. Entretanto, a variação é
de país para país e, pode-se dizer também, de região para região. Cada indivíduo
vivencia essa experiência de forma diferente, dependendo de variáveis como a
maturidade física, emocional e cognitiva. No Brasil, o Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) define a adolescência como a fase da vida compreendida entre 12 e
18 anos incompletos. Causas psicossociais concorrem para essa flexibilidade. A
adolescência pode ser definida cronológica, sociológica e psicologicamente.
Cronologicamente é o período que varia dos 12 aos 25 anos. Sociologicamente é um
período de transição do estado de dependência para o de autonomia. É quando se
começa a assumir as responsabilidades do mundo adulto. Psicologicamente, a
adolescência é um período crítico de definição do ego, com grandes mudanças na
personalidade.
Entretanto, o período da adolescência varia de cultura para cultura e vem
abrangendo períodos cada vez maiores, podendo se estender até os 22 anos ou mais,
idade na qual considera-se que o indivíduo seja capaz de estabelecer sua identidade
pessoal. O termo adolescência refere-se aos desenvolvimentos psicológicos que estão
relacionados aos processos do crescimento físico, definidos pelo termo puberdade,
Herbert (1991). A palavra ‘adolescência’ tem sua origem etimológica no Latim ad
(‘para’) + olescere (‘crescer’); portanto ‘adolescência’ significaria, strictu sensu, ‘crescer
para’. Pensar na etimologia desta palavra nos remete à idéia de desenvolvimento, de
preparação para o que está por vir, algo já estabelecido mais à frente; preparação esta
para que a pessoa se enquadre neste “à frente” que está colocado (PEREIRA; PINTO,
2003). É nessa fase que os adolescentes podem variar muito e rapidamente de humor
27

e de comportamento. Agressividade, felicidade, tristeza, agitação, preguiça e rebeldia


são comuns nesta etapa da vida. Essas variações devem-se às condições sociais da
humanidade em cada época.
No entanto, a adolescência como categoria social é uma invenção da
modernidade, como foi apontado por Ariés (1981). Somente a partir do século XX, a
adolescência passou a ser estudada em seus múltiplos aspectos. Do ponto de vista
psicológico, a adolescência passa a ocupar um lugar enquanto objeto de estudo a partir
das publicações de Stuart Hall, em 1904. Hall caracterizava essa fase da vida como um
período de "tempestade e tormenta". Refletindo o clima científico de sua época (muito
influenciado pela Teoria da Evolução, de Darwin). Ele sugeriu que a sucessão entre a
infância e a puberdade era ininterrupta e constante, obedecendo a certas leis
biológicas. Concebia a adolescência como um período de turbulência e instabilidade
emocional em função do surgimento da sexualidade. Para ele, o adolescente torna-se
passível de receber impressões, modificações ou adquirir qualidades; capaz de
repentinas mudanças de humor, alegre num momento e triste e depressivo no momento
seguinte.
Após a década de 20, surgiram vários estudos sobre aspectos biológicos da
adolescência, que se tornaram cada vez mais importantes para a compreensão da
puberdade. A puberdade já é bastante estudada e entendida, embora constantemente
novos conhecimentos sejam agregados aos já existentes. No entanto, com relação às
manifestações psíquicas da adolescência, embora haja alguns pontos comuns aceitos
pela maioria dos especialistas, há muitas divergências, até porque há uma interação
estreita entre elas e a cultura. Os antropólogos e sociólogos enfatizam a importância da
cultura e das condições sociais, os profissionais da saúde mental, principalmente os
psicanalistas, valorizam os aspectos inconscientes.
No entanto, cada vez mais os profissionais que lidam com adolescentes tendem
a aceitar uma visão mais ampla dessa fase, embora enfatizando os aspectos com os
quais têm mais contato. Por exemplo, os profissionais da área da saúde mental, em
geral, compreendem a adolescência como um momento muito especial da trajetória
humana, como uma etapa de crise. Segundo Osório (1989), a expressão crise (do
grego Krisis - ato ou faculdade de distinguir, escolher, dividir ou resolver). Atualmente,
28

se aceita que a crise designa um ponto conjuntural necessário ao desenvolvimento,


tanto do indivíduo como das instituições.
Assim, a crise da adolescência é expressiva do crescimento que nele se dá,
crescimento marcado por desorganizações físicas, hormonais, psíquicas, emocionais e
consequentes reorganizações. Considera-se também que a principal tarefa da
adolescência é a conquista da identidade que, como afirma Osório (1989), é a
consciência que o indivíduo tem de si mesmo como “ser no mundo”. A juventude ou
adolescência deve ser entendida como um segmento da sociedade. Por se tratar de um
processo intermediário entre a criança e o adulto. O adolescente tem características
próprias. Características frágeis, que por isto fazem do jovem a "imagem" deste
sistema, porque o adolescente retrata o conjunto de mazelas dessa sociedade.
Nessa fase critica do processo evolutivo, o individuo é chamado a fazer
importantes ajustamentos de ordem pessoal e social. Entre esses ajustamentos temos
a luta pela independência financeira e emocional, a escolha de uma vocação e a
própria identidade sexual. A adolescência é nitidamente marcada pela família, pelos
amigos e pela escola. O desenvolvimento de uma pessoa é uma sucessão de
experiências psíquicas que, num processo de separação e individualização termina na
aquisição da consciência da identidade. A adolescência é uma fase do desenvolvimento
do ser humano que corresponde à segunda década da existência. Ela contém a síntese
das conquistas e dos atropelos da infância e da transformação sexual, ideólogica e, até
social, impostas pela mudança corporal. É uma fase do ser humano de profundas
transformações físicas, psicológicas e sociais. Momento em que a pessoa estabelece
novas relações com a família, amigos e consigo mesmo. Fase das perguntas e das
dúvidas que devem encontrar espaço para serem respondidas sem preconceitos e com
liberdade para não se transformarem, mais tarde, em angústia e ansiedades.
29

3.2 QUE JOVEM É ESSE?

Na atualidade todos querem ser jovens (We All Want to Be Young)4. O vídeo
produzido pela BOX1824 vende a imagem de uma juventude atraente, sedutora, com
os hormônios em ebulição. Esse estereótipo do jovem sexy e livre se mostra como o
perfil ideal para alcançar o sucesso. “Jovens representam novas linguagens e
comportamentos, influenciando diretamente os hábitos de consumo”. A geração jovem
de hoje é conhecida por vários nomes: jovem global, jovem do milênio, dentre outros”.
As imagens e sons empolgam mostrando jovens no mundo inteiro felizes, vivendo a
vida intensamente. Eles possuem um alto poder aquisitivo Mas, que jovens são esses?
Onde está representada a juventude da periferia. Os adolescentes de origem pobre,
que buscam o seu espaço na sociedade do consumo. O vídeo segue registrando que
essa geração possui um alto poder de compra, se comparado ao de seus pais quando
eram jovens. Mostra uma linha do tempo classificando a juventude atual como tendo se
originado na geração baby boomer5. “Eles nasceram depois da II Guerra Mundial, nas
décadas de 40 e 50 e causaram grandes mudanças. Essa foi a primeira geração a
conquistar o direito de ser jovem e livre, inventando o que ficou conhecido como estilo
de vida jovem. Uma geração que tomou conta dos centros acadêmicos e dos grandes
festivais de rua. Estava nascendo a juventude libertária levantando a bandeira do sexo,
da paz e do amor, o que continua influenciando muitos jovens até os dias de hoje”.
O vídeo classifica os jovens nascidos entre as décadas de 60 e 70, como sendo
a Geração X, que aproveitou os direitos conquistados pelos babys boomers, buscando
o prazer sem culpas. A Geração X é apaixonada por estereótipos, influenciadas pelo
avanço do marketing e da publicidade tanto no universo corporativo quanto do
entretenimento. Essa geração é lembrada como a juventude competitiva. O mercado de

4
O vídeo “Todos querem ser jovens” (We All Want to Be Young), é o resultado de diversos estudos
realizados pela BOX1824 (empresa de pesquisa especializada em tendência e consumo). Nos últimos 5
anos, a empresa pesquisou, especificamente, novas tendências de comportamento e práticas de
consumo de jovens em todo o mundo.
5
Baby boomer é uma definição genérica para crianças nascidas durante uma explosão populacional. A
atual definição de baby boomer (explosão de bebês), se refere aos filhos da Segunda Guerra Mundial, já
que durante a guerra houve uma explosão populacional. Normalmente são pessoas nascidas no final da
década de 1940.
30

trabalho se torna uma guerra, onde vencem os mais preparados. Chegando aos dias
atuais, a juventude contemporânea é rotulada como a “juventude global” que
conquistou o mundo, com acesso total, determinado pela internet. Suas identidades
transcenderam o lugar de onde se originaram. O consumo globalizado promove
conexões estéticas e comportamentais entre milhares de jovens ao redor do mundo. “A
internet está permitindo que conteúdos pessoais ganhem dimensões estratosféricas,
onde tudo pode ser remixado. Em poucos dias, o conteúdo pode ser transformado e
globalizado na internet. Agora é possível ser surfista, ser DJ, roqueiro, nerd, designer,
tudo ao mesmo tempo”. Essa é a geração de jovens mais plural da história, assim
encerra o vídeo produzido pela BOX1824.
Nesse contexto histórico e social, onde estão inseridos os jovens nascidos nas
regiões periféricas do Brasil? A denominação de “periferia” surge com a formação,
geralmente no entorno de grandes centros, de loteamentos clandestinos ou favelas,
para onde as populações pobres foram sendo empurradas. O termo, porém, significa
mais que uma demarcação geográfica. Pobres e precárias em infra-estrutura, as
"periferias" tornaram-se dependentes dos centros, dotados de serviços urbanos,
núcleos de comércio e emprego, espaços de lazer e sociabilidade. Os jovens de
periferia encontraram nas produções culturais, como no movimento funk, hip hop ou
danças de rua, uma maneira de articularem suas identidades e elaborarem projetos de
vida. Aprofundou-se o movimento de auto-segregação das elites e aumentou a
distância social entre essas categorias e os trabalhadores em geral, cristalizada na
forma de contínuo movimento de periferização dos segmentos operários e populares.
Esse jovem que frequenta bailes funks e ouve hip hop na favela busca o
reconhecimento para desfazer o estigma de marginais, em função do local onde mora,
desfazendo o preconceito e à discriminação de classe, gênero e cor.
Segundo dados divulgados, em fevereiro de 2011, pelo Fundo das Nações
Unidas para a Infância (UNICEF), “Adolescência uma fase de oportunidades”, o Brasil é
um país jovem: 30% dos seus 191 milhões de habitantes têm menos de 18 anos e 11%
da população possui entre 12 e 17 anos, uma população de mais de 21 milhões de
adolescentes. A pesquisa revela ainda que 38% dos adolescentes no Brasil vivem em
situação de pobreza, enquanto esse percentual é de 29% em relação à média da
31

população brasileira. De acordo com o estudo, dentre os adolescentes negros o


percentual dos que vivem em situação de pobreza é ainda maior, 56%. Na região Sul,
onde a pobreza é considerada menor do que nas demais regiões, os jovens negros têm
70% de chances de serem pobres do que os brancos. O estudo do Unicef conclui que
as políticas públicas voltadas para os adolescentes no Brasil são insuficientes.

Em consonância com o relatório mundial, a situação dos adolescentes no Brasil


demonstra que atualmente as oportunidades para sua inserção social e
produtiva ainda são insuficientes, tornando-os o grupo etário mais vulnerável
em relação a determinados riscos, como o desemprego e subemprego, a
violência, a degradação ambiental e redução dos níveis de qualidade de vida
(UNICEF, 2011, p.7).

3.3 RELAÇÃO TV/ADOLESCENTE

Na atualidade, dentre todos os meios de comunicação a que os jovens de


comunidades pobres têm acesso, o de maior destaque é a televisão. Segundo
pesquisa6 divulgada em setembro de 2010 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística), mais de 97% dos lares do país possuem esse equipamento. O aparelho de
televisão é o bem de consumo que está presente em quase todas as moradias
brasileiras. Mesmo com o advento da Internet, sendo que ainda não houve a total
democratização desse meio, 59,3% da população brasileira não têm acesso à rede
mundial de computadores. Entretanto, no mais humilde casebre há uma TV.
A exposição dos jovens às mensagens midiáticas é cada vez mais intensa.
Através da aproximação com os meios de comunicação, os adolescentes vão
incorporando imagens, valores, identidades, linguagens e modelos em sua experiência
de vida cotidiana. Apesar da popularização da internet, a TV ainda é a principal fonte de
informação dos jovens brasileiros. Isso é o que aponta um estudo realizado pela TNS
Research International7 (2011). Segundo o levantamento, 68% dos jovens têm como
6
Disponível em: < http://www.viablog.org.br/conteudo/Unicef_relat_Brasil.pdf >. Caderno Brasil. Acesso
em: 15 de mar de 2011.
7
A TNS é a maior empresa de pesquisa de mercado customizada do mundo. Especializada em prover
insights e orientações para auxiliar seus clientes na tomada de decisões, a empresa detém amplo
conhecimento sobre diferentes segmentos de negócios: Consumo, Telecom & TI, Financeiro, Varejo,
Healthcare e Automotivo.
32

primeira fonte de informação a televisão, enquanto para apenas 20% a internet é a


principal. O rádio aparece em terceiro lugar, com 4%. O estudo constata, entretanto,
que nas classes mais altas, a internet supera a TV em diversos atributos. É considerada
a mídia mais utilizada, divertida, informativa e sem a qual não viveriam. Já na classe D,
a TV é o canal de comunicação mais divertido (56%). Enquanto as meninas de todas as
faixas etárias gostam de novelas e tramas do gênero, os meninos preferem esporte e
humor. Seus canais favoritos são Globo, SBT e Record, com destaque para a novela
"Malhação", seguida dos programas TV Globinho, Globo Esporte e “Pânico na TV”.
O estudo foi realizado em 40 países, incluindo o Brasil, onde foram entrevistados
1,5 mil adolescentes e jovens de 12 a 19 anos, das classes de A a D, de quatro regiões
– Sul, Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. A maioria dos entrevistados (97%) possui TV
e 27% TV a cabo. Segundo o levantamento, 51% têm DVD Player; 33% tem internet
banda larga; 32% videogame e 20% MP3 Player. Outra tendência apontada no estudo
é a inexpressiva importância que os jovens atribuem às atividades culturais. Cerca de
80% deles nunca vai a concertos, teatro, ópera, ballet ou eventos culturais e políticos.
Também não têm o hábito da leitura – 75% deles não leram nenhum livro no último ano
por iniciativa própria. Do público pesquisado, 76% nunca visitaram museus em suas
cidades.
Com toda a relevância que a televisão adquiriu nas últimas décadas, ela hoje é
capaz de apresentar programas que se aproximam cada vez mais da "realidade",
utilizando recursos em cenários e ambientes externos que propiciam aos adolescentes
o sentimento de vivenciar o que é sugerido. A televisão exerce um papel determinante
na formação e nas atitudes de toda a sociedade com relevante importância social e
cultural em todo o mundo. Existem aqueles que a consideram causadora de todos os
males sociais e individuais. Assim como a visão de que é apenas uma fonte de
entretenimento. Outras posições adotadas dão conta de que a televisão é o ponto alto
da democratização.
A discussão em torno da influência da televisão na educação de jovens é
bastante controversa. Há os radicais, que delegam à televisão, principalmente às
novelas, os problemas da violência urbana, dos crimes, do consumismo, dos casos de
33

gravidez e uso de entorpecentes na adolescência. E há os que negam qualquer


influência da televisão, alegando ser dos pais o dever de selecionar os programas,
horários e canais adequados aos seus filhos. Logo, a televisão forma muitos conceitos
e serve de exemplo para as tendências modernas. Os jovens estão testando hipóteses,
formulando conceitos e formando suas personalidades, sendo que ao se depararem
com determinadas situações apresentadas na novela, acabam por assimilar. O que lhes
é apresentado pode ser compreendido de forma positiva ou negativa.
Ao assistirem cenas que valorizam as ideias de preconceito, diferença, falta de
ética e intolerância, os jovens têm a possibilidade de aceitar tais pré-conceitos e,
consequentemente ao se depararem com situações semelhantes no dia a dia, irão
reproduzi-las. Contudo, devemos observar que a televisão é um meio tecnológico de
grande potencial para auxiliar na educação. Por isso, é fundamental que os
responsáveis por ela transformem este meio num ambiente em que se possa aprender
de fato a valorizar o ser humano, a arte, a cultura e a vida em todas as suas formas.
Não negar ou omitir a realidade, mas proporcionar mais momentos informativos,
documentais e imparciais. Fora isso, o papel do educador e dos pais diante da
realidade que dispõem é proporcionar em sala de aula e em casa momentos de
discussão sobre os programas da televisão, a fim de formar cidadãos críticos a ponto
de escolherem o que lhes é favorável, bom e prazeroso assistir, separando do que lhes
é negativo, sensacionalista e imparcial.
Diferente daqueles que partem da ideia de que a televisão é responsável por
toda a decadência observada na cultura, alguns estudiosos se propõem a analisar a
televisão de uma forma diferente. Machado (2005) argumenta que a televisão não é o
único responsável por toda a decadência observada na cultura, lembra que ela caminha
juntamente com outros meios também colaboradores da crescente banalização cultural.
“O fenômeno da banalização é resultado de uma apropriação industrial da cultura e
pode ser hoje entendido a toda e qualquer forma de produção intelectual do homem”
(MACHADO, 2005, p. 09).
De fato, muito do que esse meio tem de interessante é simplesmente ignorado. É
preciso considerar que a televisão pode desempenhar um papel positivo dentro da
cultura, seja como um fenômeno de massa, seja como uma possibilidade da população
34

se exprimir. A televisão é apresentada, geralmente, como um meio degradado e


degradante, um reflexo da sociedade em que está inserida. A televisão não pode ser
definida como um veículo bom ou mau, sem considerar o uso que se faz dela; para se
pensar em televisão de qualidade é preciso pensar em recepção de qualidade. O autor
explica que é preciso se pensar em televisão sob uma perspectiva valorativa, e para
fazer isso, não há outro caminho senão lançar mão da análise de programas. A
demanda comercial e o contexto industrial não devem impedir o fornecimento de um
serviço de qualidade.
Para Ciro Marcondes Filho, a televisão não altera radicalmente nenhum quadro
já existente; seus efeitos são bem mais discretos do que se imagina. “É a própria
cultura e todas as relações sociais que moldam os comportamentos e as atitudes, com
base em estruturas oriundas da mais tenra infância e do período de socialização da
criança, isto é, do período de aquisição da linguagem, de formação da identidade, de
conhecimento das normas sociais, bastante carregado de sentimentos e
emocionalidade e, por isso, mais determinante na estruturação do caráter da pessoa”.
No que se refere ao consumo, vive-se uma época em que a incitação a produtos
e ideais (tais como comportamentos, formas de se vestir, formas de agir, a quem
"copiar") está presente na telenovela. Os mesmos temas, tidos como "pertencentes ao
universo adolescente", se repetem na maior parte das produções a eles dirigidas, sejam
elas somente entretenimento ou de caráter pedagógico. A influência que a novela
exerce sobre as pessoas de maneira geral é fato; é necessário, no entanto, identificar
como os adolescentes, que vivem o período mais delicado de seu desenvolvimento,
estão lidando com os valores em circulação e de que forma os estão aplicando em suas
vidas. Mais que uma questão de representação social, cujo significado está atrelado à
imagem construída e a estereótipos, o telespectador deseja que a realidade nacional,
os conflitos familiares, as angústias, as alegrias e as expectativas pessoais que
adolescentes vivenciam em seus cotidianos “reais” sejam problematizados,
proporcionando a identificação, ou seja, o reconhecimento necessário para que esse
telespectador legitime uma produção midiática como é o caso da telenovela, que é
considerada.
Uma família que vive na favela apresenta um altíssimo consumo de programas
35

de TV. Para tornar poética a sua rotina de tarefas diárias, a televisão é fundamental. O
seu cotidiano está profundamente marcado pelos capítulos diários da novela. O
ambiente sensorial da trama estabelece dimensões de recepção que tornam possível
ao adolescente sentir situações humorísticas, conflitos e momentos mágicos que na
rotina diária não são permitidos. A atividade de assistir telenovela é motivada pela
possibilidade de observar, de sentir e de opinar sobre casos, cenas, sequências,
situações e comportamentos transmitidos de acordo com o planejamento da emissora e
a produção singular do autor, dos roteiristas, do diretor, dos atores, técnicos e artistas.
A telenovela mostra uma agenda de temas, relações, conflitos, condutas e
pensamentos que as redes e os produtores consideram importantes divulgar. O
consumo excessivo de novelas pelos adolescentes expressa as suas limitações de
entretenimento, de lazer, de cultura e de participação política na sociedade. Por outro
lado, manifesta a necessidade de ter um espaço público de encontro com temáticas,
tramas e conflitos, que as formas políticas vigentes não facilitam.
A mistura entre ficção e realidade é constante. Os comentários, risos,
xingamentos, caretas e críticas manifestam ideologias, valores, rejeições e projeções
que estabelecem com os personagens, com a trama, com as situações, com os
modelos de vida e com dimensões similares que identificam na vida real. A telenovela
permite desmascarar vilões, descobrir segredos e resolver conflitos numa posição
privilegiada. A circulação imaginária por cenários de outras classes sociais provoca
demandas de superação das condições atuais de vida na favela. A apresentação de
mansões, apartamentos de luxo, clubes e escritórios nos quais os pobres só poderiam
estar como serventes provoca pensamentos e sentimentos de revolta contra a situação
em que se encontram. Isso alimenta o sonho de ascensão social. Na Vila Cruzeiro, a
violência é um fator preocupante: tiroteios, assassinatos, confrontos entre gangues,
depredações das escolas, fazem parte do dia a dia de muitos jovens que vivem na
região. A TV permite circular por espaços da teledramaturgia que se tornam muito
concretos e reconfortantes na vida deles.
Conforme Hoineff (1996), apesar da televisão brasileira ter desenvolvido um
sólido suporte técnico e econômico, e uma dramaturgia invejável, ela não desenvolveu
novas formas e ideias e não fez muito pelas transformações sociais. Ele entende o
36

sucesso como aquilo que é massivamente consumido, o consumo como emocional,


não cerebral. A televisão retira os elementos culturais que colaboram na formação de
identidade de grupos sociais. Os defensores da televisão argumentam que a televisão é
um espelho para o mundo porque reflete o cotidiano da população. Di Franco (1996)
discorda desta afirmação, acreditando que a grande quantidade de violência e o mau
gosto transmitido pela televisão, não retrata a realidade vivida pela maioria do povo.
Segundo ele, a TV é tecnicamente competente, porém, refém da irresponsabilidade
social. O autor ainda sugere que haja a intervenção do Estado na defesa da sociedade
contra os efeitos da contaminação moral e da descaracterização cultural. “A televisão
necessita de limites, do contrário, ela pode se tornar uma sequestradora de cidadania”.
Acosta-Orjuela (1999) sugere que, a TV, sendo o meio de comunicação que
mais absorve, influencia diretamente o pensamento e a ação das pessoas. Os
indivíduos assistem TV para satisfazerem seus interesses e necessidades. Muitas
pessoas vêem televisão porque ela tem a capacidade de suprimir aspectos
desagradáveis: “As pessoas usam a TV como antídoto contra o enfado, o
aborrecimento, a solidão, a insatisfação nas relações sociais, para modificar o estado
de ânimo e se evadir das lembranças incômodas” (ACOSTA-ORJUELA,1999, p. 61). A
TV promove a fuga do cotidiano, proporcionando a distração dos problemas vividos
pelas pessoas. As camadas menos favorecidas da sociedade se apropriam da televisão
porque não dispõem de outra opção de lazer, elas também buscam na TV uma forma
de instrução, pois para o autor, ela ensina sem exigir habilidades acadêmicas, as
pessoas utilizam este meio para solucionar problemas cotidianos e pessoais. Na TV,
elas aprendem sobre o mundo e sobre os outros.
Estes fatos tornam estas camadas mais vulneráveis às influências televisivas,
para Acosta-Orjuela (1999) as emissoras brasileiras acabam se nutrindo destas
classes. No surgimento da televisão a preocupação principal era fazer dela uma
ferramenta de ensino. Segundo o autor, as emissoras brasileiras não têm compromisso
social, sendo que não tem o que ensinar aos cidadãos. Quando se refere às
telenovelas ele as caracteriza como “… um dos subprodutos mais deploráveis e
alienantes da TV argumentando que as redes de televisão brasileiras, na maioria das
vezes, se nutrem das classes populares.” (ACOSTA-ORJUELA, 1999, p. 131).
37

Ribeiro (2005), porém, não concorda com essa visão pessimista sobre a
televisão. A TV, para ele, é um portal onde negociam a parte fraca (telespectadores) e a
parte forte (os anunciantes). Em Ribeiro (2005) a cidadania não está vinculada somente
ao direito de ver TV, mas também, de ter sua cultura exibida nela, em razão de que ela
dissolve costumes locais e gera exclusão. Porém, se de um lado a TV exclui, por outro
ela integra. Nota-se cada vez mais presentes nas mídias membros de camadas
populares, como pagodeiros, rappers, funkeiros, etc. A televisão mexeu na expressão
mais livre das emoções, e reforçou o processo de individualização, no que se refere à
emancipação do indivíduo perante certa tradição, como consequência à mudança dos
costumes. Para Ribeiro (2005) deve haver concentração nos costumes, pois é a partir
deles que podemos constituir a democracia do país.
Marcondes Filho (1988) sugere que as novelas produzem emoções, mexendo
com mecanismos mentais, fortes e decisivos. O objetivo do público ao assistir uma
telenovela, é entrar inteiramente no social, no conhecimento e no domínio das regras
da sociedade, elas atuam como método de controle social. O autor ressalta que as
telenovelas permitem sensações no qual o indivíduo não teria na vida real,
principalmente, no que se refere aos sentimentos. As telenovelas despertam
lembranças felizes, cheia de emoções na memória do telespectador.
Diante de uma vida problemática e sem esperanças, da necessidade de ganhar
dinheiro, de ter uma casa ou um negócio próprio, de encontrar um companheiro, diante
das exigências do trabalho, das contas a pagar e dos compromissos, a esfera emotiva
das pessoas retrai-se. A vida que a televisão mostra é então, para o homem e para a
mulher, uma verdadeira troca, com vantagens, de sua vida real (Marcondes Filho, 1988,
p. 60). A estrutura deste gênero é feita de forma descontínua e fragmentada com
miniquadros, que são separados pelo intervalo comercial. Quando se refere às
telenovelas, Machado (2003) a caracteriza como sendo uma única narrativa que
acontece de forma mais ou menos linear ao longo dos capítulos. Ela é como uma
construção teleológica, pois se trata de apenas um ou mais conflitos básicos, surgidos
no início da trama, que, na maioria das vezes se resolve nos últimos capítulos, o que
não impede a inserção de outros problemas periféricos no decorrer da narrativa.
Para Machado (2003), a televisão se apropria deste modelo de seriedade porque
38

ele funciona de acordo com o modelo industrial, adotando uma produção em série. A
exigência de uma produção em larga escala permite a criação de vários programas
diferentes. As emissoras, então, buscam somente o aumento do público, rebaixando a
qualidade dos programas, preocupadas somente com o seu valor mercadológico. O
autor ainda ressalta que os meios de comunicação de massa refletem as normas
sociais, confirmando as opiniões gerais, atuando de forma conservadora.
Hamburger (2005) mostra que o formato da novela diária e transmitida em
horário nobre é uma grande forma de atrair audiência. A novela é um forte espaço para
propaganda, onde os telespectadores são transformados em consumidores. A autora
afirma que a novela é policlassista, atingindo a um público diversificado, sendo um
mecanismo para mediar as diferenças, elas captam e expressam a dinâmica de luta por
inclusão social. As telenovelas pertencem ao universo de significação, discussão e
introdução de hábitos e valores que influenciam e ao mesmo tempo são influenciados
pelos receptores. As telenovelas só obtêm resultados se privilegiarem temáticas que
estão relacionadas ao cotidiano do telespectador.
Descobrir o oculto nas aparências, compreender a coerência no desempenho de
personagens e de atores com o enredo; ter essas tramas como objeto desse desafio,
mais do que como motivo pra envolvimento pessoal e emocional, apesar de se
encontrar prazer nessa busca do conhecimento da gramática da telenovela. Mas essa
relação não é tão fria, racional e objetiva, para os jovens, embora descubram logo a
estrutura tradicional de inicio, meio e fim das narrativas e que o final, na maioria das
telenovelas, envolverá sempre um desfecho onde se trabalhará com a vitória do bem
sobre o mal, no contexto do enredo. Essa descoberta pode possibilitar também prazer,
razões de fruição do tempo e de estruturação de conteúdos e que serão objeto de
socialização em outros grupos sociais, além do grupo familiar. Pode, pois, haver uma
adesão sem fidelidade preservando a importância, nessa idade, do encontro da
identidade pessoal, como pode haver uma não adesão, dada a sedução que outros
veículos de comunicação e outros grupos sociais de referência podem exercer na
definição de seu tempo social.
Destaque-se ainda que nesse período da vida a sensibilidade e o gosto estético
podem estar já apurados e desenvolvidos, atuando na ampliação da socialização. A
39

vida em grupos, marcante nessa etapa de vida pode criar códigos próprios de
exploração dessas potencialidades. A música, os discos e os conjuntos musicais são
talvez a junção desses vários elementos. À medida que a estética televisiva não reforça
esses valores em formação no jovem, ou não lhe dá chances de percebê-los, atuará
como um fator de rejeição da televisão-telenovela. Estar em grupo pode ser mais
importante do que a atividade que os aglutina.

3.4 IDENTIDADE E CULTURAS JUVENIS

O conceito de cultura é muito amplo. Há entre os autores uma oscilação entre


falar de identidades sociais e de identidades culturais ou simplesmente usar as noções
gerais de cultura e de identidade. A partir de Canclini (2007, p. 41): “Pode-se afirmar
que a cultura abarca o conjunto dos processos sociais de produção, circulação e
consumo da significação na vida social”. Nesse aspecto, destacam-se os processos
sociais da juventude, bem como a circulação de informações, os seus consumos a
partir da significação social que os identifica, na perspectiva de pertencimento de uma
cultura juvenil.
Segundo Feixa (1999), culturas juvenis se referem às experiências dos jovens,
que se expressam coletivamente através da construção de diversos estilos de vida
situados, sobretudo, no tempo livre vivido pelos que permanecem incrustados no
interior de determinados espaços sociais. O autor define o “Estilo de Vida”, como a
manifestação simbólica das culturas juvenis, a qual se expressa em determinados
elementos materiais e imateriais escolhidos pelos jovens como símbolo de sua
identificação de grupo. Merece ressaltar que, o desenvolvimento ou encolhimento da
experiência simbólica – inspirada no imaginário da mídia – dos sujeitos que consomem
e produzem os Estilos Juvenis, depende da sociabilidade. Segundo Ronsini (2007, p.
65), o conceito de identidade coletiva é pouco desenvolvido nas Ciências Sociais, mas
podemos refletir qual o papel da identidade para um sujeito. Nesse sentido, a autora
afirma que: uma relação provisória entre noções sugere que a cultura organiza as
40

identidades e as identidades organizam os significados.


É importante ressaltar a relação entre cultura e identidade, contida no tempo e
espaço, porque é por meio do sentimento de pertencimento, de convivência, de
aproximação do sujeito a um grupo ou classe social, que é percebida a formação de
hábitos, costumes e características próprias destes, fortalecendo-os em seus aspectos
distintos de grupo, de identidade. Tudo isso, favorece a formação de hábitos de
convivência, costumes e identidades em um jogo de conquista para o pertencimento do
sujeito em um espaço social que o reconhece como igual. Na perspectiva da
compreensão de mediação, Sodré (2003, p. 21) distingue instituições mediadoras
(família, escola, sindicato, partido, etc.), como sendo “mediações socialmente
realizadas no sentido da comunicação entendida como processo informacional, a
reboque de organizações empresariais e com ênfase num tipo particular de interação –
o que poderíamos chamar de tecnointeração – caracterizada por uma espécie de
prótese tecnológica e mercadológica da realidade sensível, denominada médium”.
Isso faz perceber que a tecnointeração tem motivado diversos estudiosos
preocupados com a análise dos diferentes efeitos do impacto da tecnologia nas
relações sociais e na educação, que apontam para o fato de que as tecnologias são
mais do que meras ferramentas a serviço do ser humano. No entanto, a escola, como
instituição social especializada em educação, ainda não absorveu ou absorve
lentamente, as tecnologias eletrônicas de comunicação e, desse modo, mudanças
sociais, há muito ocorridas em outras esferas, começam agora a repercutir no campo
da educação. Essa situação faz da escola um campo privilegiado de observação, no
qual a defasagem da cultura escolar (inclusive a “cultura acadêmica” fechada nas
universidades) para a cultura juvenil é gritante, e diz respeito tanto às questões éticas
(conteúdos, mensagens) quanto aos aspectos estéticos (imagens, linguagens, modos
de percepção, pensamento e expressão); e essa defasagem torna ainda mais claro o
porquê do impacto das tecnologias de informação e comunicação na cultura juvenil.
Assim, a tecnointeração, ao interferir nos modos de perceber o mundo, de se
expressar sobre ele e de “transformá-lo”, modifica o próprio ser humano em seus
hábitos, relacionamentos e rede de interesses. O importante nesses fluxos é a
realimentação do sistema, como por exemplo: retorno, feedback, consideração e
41

legitimidade das fontes, que são essenciais para a participação colaborativa. Diante
dessa realidade, os usuários que mais fazem uso da característica da rede são os
jovens, que aproveitam para buscar informações, interagir, transformá-las e publicá-las.
Uma característica comum em grande parte dos adolescentes é a necessidade
de fazer parte de um grupo. As amizades tornam-se mais importantes e transmitem a
eles a sensação de pertencimento. Sabe-se, contudo, que em grupo o adolescente
adquire informações que vem de fora do círculo familiar. Promovendo estímulos que
contribuirão para o desenvolvimento de certas habilidades, como também, análise
pessoal pelas comparações com os outros. Com isso, constata-se a importância dos
grupos no desenvolvimento social, onde as relações saudáveis sinalizam
distanciamento de possíveis problemas emocionais e distúrbios. Segundo Santrock
(2003), na fase da adolescência, o fator mais importante é a forma como são
percebidos pelos pares. O jovem pode submeter-se a diferentes situações para ser
aceito em um determinado grupo, pois não participar de um grupo significa viver fora do
universo. Um relacionamento positivo com pares tende a favorecer um ajustamento
social positivo, evidenciando o companheirismo, a estimulação, o apoio do ego, a
comparação social e a afeição.
Os adolescentes esperam com sua participação em um grupo uma experiência
que promova bem estar e emoções, satisfação de pertencimento e companheirismo,
esperam também recompensas materiais ou psicológicas. Há uma constante troca de
informações, onde os grupos satisfazem as necessidades pessoais dos adolescentes
elevando sua auto-estima. Geralmente a identidade do grupo restrito prevalece sobre a
identidade individual. Os membros dos grupos seguem os direcionamentos dos líderes,
onde muitas vezes tem que fazer escolhas sobre o que é mais importante para eles,
colocando o grupo acima da individualidade pessoal de cada membro. É comum o uso
de expressões de intimidade entre os membros, como gírias e expressões que reiteram
a sensação de pertencimento. Erikson (1972) afirma que os grupos restritos possuem
papel fundamental na auto-estima e no processo da construção da identidade dos
adolescentes. Questionamentos como quem sou, o que fazer e em que acredito,
afirmam a busca do adolescente pela própria identidade. O fato de pertencerem a um
grupo concede-lhes uma referência de identidade, como por exemplo: os inteligentes,
42

os engraçados, as patricinhas e os “playboys”, já do seguimento musical, os emos,


pagodeiros, roqueiros etc. Segundo Erikson (1972), o adolescente está à procura do
“eu” nos outros, na expectativa de obter uma identidade para o seu próprio ego.

A formação da identidade emprega um processo de reflexão e observação


simultâneas, um processo que ocorre em todos os níveis do funcionamento
mental, pelo qual o indivíduo se julga a si próprio à luz daquilo que percebe ser
a maneira como os outros o julgam, em comparação com eles próprios e com
uma tipologia que é significativa para eles; enquanto que ele julga a maneira
como eles o julgam, à luz do modo como se percebe a si próprio em
comparação com os demais e com os tipos que se tornaram importantes para
ele. (ERIKSON, 1972, p. 21)

Identidade tem sido apresentada como um conceito dinâmico, adotado


frequentemente para compreender a inserção do sujeito no mundo e sua relação com o
outro. Para Berger e Luckmann (1966, p. 177), "... ela é objetivamente definida como
localização em certo mundo e só pode ser subjetivamente apropriada juntamente com
este mundo." Já Ciampa (1987, p. 59) destacou o papel da relação com o outro, visto
que"... a identidade do outro reflete na minha e a minha na dele." Pensar esta inserção
implica em reconhecer uma concepção dialética entre indivíduo e sociedade, na qual
um se identifica e se transforma a partir do outro: o sujeito assimila a realidade e
reproduz ativamente sua experiência social.
A mídia costuma tratar esse grupo como “tribos urbanas”, grupos de jovens que
se identificam por adotar modismos comuns. Cada um desses grupos se identifica pelo
consumo de determinados bens. Erikson (1976), percebendo a necessidade do
estabelecimento de uma identidade relacionada à possibilidade de apresentar
autonomia e independência através de trabalho produtivo, aponta as dificuldades
encontradas pelos adolescentes em virtude das "identidades autoformuladas"
apresentadas pela democracia industrial. Reconhece que é a impossibilidade do jovem
decidir sua identidade profissional o que mais o perturba, pois se sente incapaz de
assumir um papel que lhe é imposto pela inexorável padronização da adolescência.
Essa mudança traz possibilidades de se compreender a adolescência não apenas em
função de conflitos individuais e biológicos, mas através da constatação da influência
do social na formação da identidade do Ego, pois quando presente que o meio tenta
privá-lo do desenvolvimento de uma identidade confiante em si mesmo, com
possibilidades de oportunidades, de escolhas e de auto-realização, o adolescente
43

retrai-se em estados inacessíveis e de rebeldia.

3.5 DELINQUÊNCIA

A venda de uma imagem estereotipada do jovem comercializa a juventude como


um estilo de vida repleto de glamour. Outro estereótipo é aquele em que o jovem
assume uma postura ameaçadora, de criminoso ou delinquente. Geralmente, esse
grupo é composto por meninos pobres não-brancos oriundos da periferia. Recai sobre
esse grupo o estigma de marginalidade, seus componentes são mal vistos, não
correspondendo ao mercado do “ter”. A mídia reitera a imagem do jovem rico, esperto e
feliz. Essa pressão exercida cria a necessidade de status e de uma aparência que não
corresponde à realidade. As distinções na forma de adquirir bens de consumo e a
estética juvenil idealizada acentua a desigualdade e pode deflagrar graves problemas
sociais ligados às drogas e à violência.

O sistema penal atua sempre seletivamente e seleciona de acordo com


estereótipos fabricados pelos meios de comunicação de massa. Estes
estereótipos permitem a catalogação dos criminosos que combinam com a
imagem que corresponde à descrição fabricada, deixando de fora outros tipos
de delinquentes (delinquencia de colarinho branco, dourada, de trânsito, etc).
Nas prisões encontramos os estereotipados. Na prática, é pela observação das
características comuns à população prisional que descrevemos os estereótipos
a serem selecionados pelo sistema penal, que sai então a procurá-los. E, como
a cada estereótipo deve corresponder um papel, as pessoas assim
selecionadas terminam correspondendo e assumindo os papéis que lhes são
propostos (ZAFFARONI, 2001, p. 130).

O meio televisivo constantemente liga a imagem do jovem pobre à delinquência.


A imprensa salienta histórias e estatísticas referentes à violência, à gravidez na
adolescência, ao tabagismo, consumo de álcool e drogas. Outra forma de consumismo
impulsionado pela indústria cultural é a moda, transformando estilos juvenis em
tendências. A carência de bens mínimos - como um trabalho, habitação, serviços
sociais básicos, além da quebra dos vínculos de suporte familiar, ausência de valores
essenciais dentro e fora da família, o meio onde vive, a escola que não exerce qualquer
tipo de motivação - leva a que determinados indivíduos ou grupos cultivem a
44

agressividade face à sociedade que gerou ou proporcionou déficits tão profundos que
fazem parte das suas vivências quotidianas.
A falta de adaptação social se atribui a vários fatores: educação deficitária ou
pelo meio onde o jovem vive (bairro degradado, alcoolismo, drogas e tráfico,
prostituição, detenção familiar, violência doméstica, furtos, resolução de conflitos com
recurso à agressão, precárias condições de vida) faz com que os jovens adquiram
condutas de acordo com o que vivenciam diariamente. São, portanto, jovens com
ausência de referências positivas. António Petrus (1997, p. 26-29) refere que o conceito
de inadaptação social está amplamente ligado à educação, na medida em que esta
está ligada à intervenção educativa em âmbitos de marginalização. Na busca do
pertencimento a grupos e acesso a bens materiais, o jovem torna-se “presa fácil” de
organizações criminosas. A desigualdade social e o apelo ao consumo podem
despertar numa camada mais humilde a identificação com o comportamento
transgressor. Esta estrutura, a gangue, é uma das formas mais antigas de organização
humana.
Participar de uma gangue significa integrar um grupo que partilha de uma
sociabilidade específica. Os jovens das gangues costumam reunir-se para roubar
carros, postos de gasolina, mercadinho, ônibus, residências e escolas. A pichação atrai
e fascina esses adolescentes, que demarcam território, registrando suas marcas nas
paredes e muros da cidade. A pichação é vista por eles como uma alternativa ao não se
ter nada para fazer, é considerada uma diversão, uma aventura cheia de emoções
porque implica em correr perigo, seja fugindo da polícia, seja escapando do proprietário
do imóvel o qual se pichou, seja arriscando a se deparar com gangues de pichadores
rivais. Também é muito comum o confronto entre gangues adversárias em espaços
públicos. Ganhar visibilidade, fazer excessiva essa visibilidade, torna-se um modo de
romper os "muros" e os “estigmas".
Segundo Glória Diógenes (1998), é então que o estigma territorial, marca
classificatória produtora de uma invisibilidade negativizada, mobiliza os jovens
moradores dos espaços segregados, territorialmente e socialmente, a "positivar” tais
referentes, produzindo "confrarias de proscritos" denominadas, quando as práticas de
violência tornam-se recorrentes, de gangues. Ainda conforme a autora, a tão desejada
45

integração por intermédio da apropriação e adaptação ao seu próprio modo: a marca


territorial que, ao exacerbar e dar visibilidade à dimensão de estigma, provoca uma
inserção, através de práticas extensivas de violência; e o consumo se intensifica por
meios de roubos de roupas de marcas, bonés e adereços, possibilitando seus registros,
através de uma profusão de estilos, em uma estética global juvenil.
Esses jovens estão vulnerabilizados, sozinhos e segregados em suas
comunidades pobres, obrigados a se conformar com a realidade imposta. Esses jovens
têm consciência de que foram excluídos da sociedade do consumo. Assim, as gangues
atuam dentro desse campo de propulsão de energia bloqueada. O trabalho aparece
para os jovens de periferia como uma interrogação. A situação do nada o que fazer, a
vivência absoluta do "tempo livre" mobiliza o contingente de excluídos a romper com a
premissa básica de que "o trabalho dignifica o homem" e afirmar o seu contrário: "o
trabalho não compensa". Ao se contrapor a essa ideia esses jovens negam o
pressuposto básico da sociedade do trabalho de que apenas o trabalho confere
respeito e aceitabilidade entre os indivíduos.
Em novembro de 2009, realizei uma reportagem sobre as gangues de
adolescentes de Porto Alegre, o título foi “Delinqüência vem de bonde”, publicada no
blog “Segunda Ordem”8. Observei que apesar desses jovens manterem uma conduta
arriscada ao se envolverem em atividades ilícitas, eles não têm medo da prisão e nem
da morte, desafiando a polícia. Vestem-se com roupas de marcas famosas, usam tênis
e boné da moda. A rebeldia, drogadição, más companhias e fugas de casa são os
primeiros sinais de quem está envolvido com estes grupos. No começo praticam
vandalismo e lesão corporal, sem perceber acabam cometendo crimes mais graves
como o homicídio. Geralmente são meninos, estudantes, entre 13 e 17 anos, de vários
extratos sociais. A principal motivação das gangues, para ações violentas é mostrar
poder e demarcar território.
Esses jovens usam a internet para a exibição de fotos em poses ameaçadoras
nas páginas do Orkut. Nesses sites de relacionamento, marcam encontros para
cometer algum delito em pontos da cidade com grande fluxo de pessoas. Cada grupo
concentra em média 30 integrantes. Atualmente há vários tipos, os mais violentos são
8
Disponível em: < http://segundaordem.blogspot.com/2009/11/delinquencia-vem-de-bonde.html >.
Acesso em: dia mês abreviado ano.
46

os que combinam arrastões, tráfico de drogas e mortes. Os menos violentos, que são a
maioria, cometem furtos, agressões físicas e pichações. A droga mais comum entre
eles ainda é a maconha, mas aumentou muito o consumo de crack nos últimos anos.
Sustentar o vício custa caro, a saída encontrada é roubar. Muitas vezes, aliciados por
traficantes, ingressam no crime organizado.
Conforme a entrevista que realizei com delegado do Departamento Estadual da
Criança e do Adolescente (Deca), em Porto Alegre, Christian Nedel, segundo ele, as
famílias não estão cumprindo o seu papel social de zelar, educar e dar limites aos
filhos. “Quando você leva ao conhecimento dos pais o comportamento do filho eles não
tinham a mínima noção do que ele fazia quando se reunia com seus amigos. Também
tem pais coniventes, que passam a mão na cabeça. Os pais, às vezes, não querem se
envolver, são omissos e transferem a responsabilidade para as instituições de ensino,
que não têm condições de absorver essa demanda”.
Na escola Costa e Silva, onde foi realizada a pesquisa de recepção com os
jovens, a diretora Maria Inês Vasconcellos, explica que os alunos gazeiam aula e não
se comprometem com o estudo. “Hoje, a escola pública também serve como um ponto
de encontro para a combinação de delitos. Eu já fui ameaçada de morte e muitos
professores são agredidos nas salas de aula.”
Escolas circundadas de grades e muros altos, banheiros depredados, além de
salas de aula pichadas com classes e cadeiras quebradas. Alunos são induzidos a se
enquadrarem no sistema imposto por grupos de delinquentes que demarcam, dentro da
escola, um território de domínio e intimidação. Aqueles que resistem são hostilizados e
se vêem impedidos de continuar estudando. Até mesmo os pais ameaçam os
professores quando chamada a atenção dos filhos. Porém, há de se considerar que
muitos desses jovens são oriundos de famílias que já tem envolvimento com o crime.
Dentro da mesma reportagem, procurei conversar com um ex-detento do regime
prisional, que hoje é musico, para entender qual a motivação desses jovens para o
crime. Luiz Daniel Oliveira, mais conhecido como Rapper Dogg explica que os jovens
da periferia desejam estar com um bom tênis, bem vestidos, chamar a atenção no meio
do grupo em que convive. “O adolescente alimenta a fantasia de que ser uma pessoa
violenta, um criminoso, vai chamar a atenção das garotinhas, e ele vai ter dinheiro, um
47

bom carro, nem que seja por algum tempo, e assim vai se tornar uma liderança”, diz o
músico. Ele também menciona que o tráfico de drogas é a atividade que mais emprega
delinquentes. “Existem garotos que já cometeram mais de nove homicídios, alguns
deles têm pontos de droga e financiam o crime organizado para a compra de armas”,
afirma Dogg. Em casos pontuais, as meninas na gangue são usadas para levar drogas
e armas para dentro da escola, por aparentemente não emitirem suspeita, agem
livremente repassando a outro adolescente. Jovens complexados e inseguros, com
baixa autoestima, sentindo-se humilhados e inferiores são acolhidos pelo crime
organizado.
Rapper Dogg é enfático quanto às gangues mais violentas. “Esta juventude está
cansada de ser invisível, quer aparecer nem que seja através da violência. Que chore a
mãe da vítima do que a mãe deles. Eles querem ser vistos, cansaram de serem
oprimidos, é uma juventude que não quer se calar, uma juventude disposta a pagar
com seu próprio sangue para sair do anonimato. Quando vêem a polícia, se tiver que
matar, eles matam”. A autora Glória Diógenes (1999) explica que ganhar visibilidade
torna-se um modo de transposição de dinâmicas estancadas nos bairros excluídos,
para o espaço público.
Jovens que cometem crimes são presos e internados em instituições do Estado.
Mais conhecidas como Febem, essas fundações tem denominações distintas em cada
região do país. No Rio Grande do Sul, o estabelecimento de detenção de menores
infratores é a Fundação de Atendimento Sócioeducativo (Fase). Sua função é executar
as medidas aplicadas pelo Poder Judiciário aos adolescentes autores de atos
infracionais com idade de 12 a 21 anos incompletos, conforme determina o Estatuto da
Criança e do Adolescente (ECA). Esse sistema teoricamente proporcionaria a volta ao
convívio social, porém, inseri-los no mercado de trabalho é um desafio, já que as
empresas não se interessam em contratar menores infratores. A medida máxima de
internação é de três anos. Dependendo do delito, o jovem é designado a cumprir
apenas serviços comunitários.
Nessa reportagem sobre os bondes da capital gaúcha, o médico psiquiatra
judiciário, do Foro Central de Porto Alegre, Montserrat Antonio Martins, explica que
quando os jovens saem da Fase com o ensino fundamental ou médio completo,
48

frequentemente recaem em vínculos com o crime. “Uma sociedade que prega a


educação, mas não gera oportunidades concretas, corre o risco de contribuir para que o
crime organizado se torne mais inteligente, quando estimulado o intelecto e a
criatividade dos jovens”, esclarece o psiquiatra. Ele também explica que a punição de
ser preso não é suficiente para inibir o desejo da experiência. “O jovem que rouba um
carro sabe que vai ser capturado, não está fora da realidade imaginando que vai ficar
com aquele carro para sempre. O que ele quer é ter aquela vivência. Fatores
psicológicos motivam a delinquir, como a necessidade de se sentir importante. Não é o
discurso moralista dos agentes da lei que vai recuperá-los, e sim o afeto familiar”,
completa Montserrat Martins.

3.6 EXPRESSÃO DA CIDADANIA ATRAVÉS DO CONSUMO

A sociedade de consumo teve seu marco inicial com a Revolução Industrial,


primeiramente verificado na Inglaterra, no final do século XVIII. Com a urbanização e o
desenvolvimento tecnológico, além da ampliação do acesso aos meios de
comunicação, o consumismo se tornou uma das práticas culturais habituais. A partir da
Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), o consumo ganhou mais força, quando se
estabeleceu um estado de bem estar social. Havia mais emprego nos países
desenvolvidos e crescimento econômico de várias nações, proporcionando aumento do
poder aquisitivo, estimulando a indústria cultural, o comércio, os meios de comunicação
e à publicidade.
Esse século ficou marcado pelo nascimento da sociedade de consumo. 87Com
esse consumismo acelerado, a competitividade no mercado aumentou e percebeu-se a
necessidade na sofisticação dos mecanismos do marketing para convencer o
consumidor a comprar mais. “Este consumidor era objeto de tentativas cada vez mais
sofisticadas de incitar desejos e de dirigir preferências, e estava começando a viver em
um clima artificialmente estimulado, que retirava seus gostos e preferências do
comando da convenção e da tradição local, transferindo-os de modo crescente para as
49

mãos das emergentes forças do mercado” (MACGRACKEN, 2003, p. 39).


Então, proliferou-se a produção de bens e de novos hábitos para os segmentos
sociais beneficiados por esse ciclo econômico, entre os quais a juventude se destaca.
O consumo juvenil pode assumir alguns significados relevantes na produção humana
de cultura. Para a cultura do consumo, a condição juvenil, em geral, é vista de forma
positiva. Há uma imagem construída como etapa áurea da vida, idade na qual se pode
desfrutar do tempo livre, do lazer, do vigor, dos esportes, da sexualidade e da
criatividade artística. Ignorando os problemas sociais que os jovens enfrentam, como a
busca por emprego, baixa escolaridade, num contexto onde é visto como imaturo,
rebelde, delinqüente, pouco qualificado e inexperiente.
Mesmo quando os bens culturais assumem traços que a sociedade considera
negativos nos jovens (roupas estravagantes, agressividade, gírias), tais elementos
podem ser interpretados como rebeldia comum da idade. Algumas características são
idealizadas e transformadas em essência da juventude. A diversidade de condições
sociais no Brasil e o baixo poder aquisitivo das famílias, nem sempre permite que os
próprios jovens possam vivenciar as idealizações das quais são objeto. A força da
indústria cultural contribui de forma decisiva para a exclusão dos jovens pobres, por
exemplo. Os excluídos por incapacidade de comprar têm as possibilidades de consumo
reduzidas. É quase inexistente a oportunidade de frequentar restaurantes, teatros,
shows, viagens turísticas e bens culturais. A eles restam parques e praças públicas em
má conservação, terrenos baldios, as ruas, além de bares em suas próprias
comunidades.
A partir da década de 1970, com o desenvolvimento dos serviços voltados
principalmente para a esfera da diversão e do consumo de roupas, formou-se um amplo
contingente de consumidores entre os jovens de baixa renda. Esses novos mercados
criaram as bases para a diferenciação entre os diversos grupos de jovens. A esfera do
consumo cultural passou a englobar as classes populares, cujos jovens começaram a
ter acesso aos estilos, sobretudo em função da influência da televisão. Boa parte
dessas várias denominações só se configurou no Brasil a partir da década de 1980,
quando o país experimentou um ciclo de depressão e crise econômica. Os jovens
pobres passaram a buscar nos estilos formas alternativas de compensar a crescente
50

desigualdade social e a retratação do poder aquisitivo. Uma distinção desses


agrupamentos pode ser estabelecida por fronteiras entre as classes sociais, expressas
pelo consumo. Por exemplo, jovens da classe A e B, os chamados playboys e as
patricinhas, procuram construir um estilo que chama a atenção para sua categoria
financeiramente privilegiada. Nas periferias, os estilos exaltam o hip-hop, o funk e
outras manifestações culturais populares, o que passa a sensação de pertencimento a
essa classe vulnerabilizada pela pobreza. A maneira de se vestir os identificam, com
roupas largas, boné e correntes, realçando os valores da negritude, ainda que com
especificidades.
Para os jovens com melhores condições socioeconômicas, a resposta crescente
à crise dos anos 80-90 e à redução dos espaços públicos de convivência e lazer foi de
outra natureza: o confinamento em estabelecimentos como shopping, academias e
casas noturnas. Essa multiplicidade de estilos proporciona possibilidades diferentes de
vivência da condição juvenil, desde as periferias até as classes privilegiadas, ainda que
entre essas últimas, isso seja mais viável. Além disso, correspondem a um espaço de
socialização paralelo àqueles representados, por exemplo, pela família e pela escola.

Assim, os estilos funcionariam com um rito de passagem para se construir


identidades juvenis. O surgimento desses novos padrões de comportamento
mais autônomos em relação às instituições tradicionais a ao mundo adulto teria
favorecido a generalização da idéia de que há uma ampla cultura juvenil
internacionalizada e não mais uma subcultura restrita a jovens socialmente
marginalizados e a estudantes (CATANI; GILIOLI, 2008, p. 27).

Durante a redemocratização, no Brasil dos anos 80, o consumo e a Indústria


Cultural foram criticados pela suspeita de disseminação do capitalismo, levando ao
controle, alienação e submissão da juventude. No Brasil, os estudos sobre os jovens a
partir de 1980 começaram a questionar esse suposto sistema de dominação. Deste
modo, os múltiplos estilos e comportamentos foram valorizados e legitimados como
produções culturais. As expressões dos grupos juvenis seriam uma nova interpretação
que esses segmentos fazem dos problemas e dos rumos possíveis da sociedade. Os
movimentos jovens (emo, rappers, punks) e o modo de se vestir e falar passaram a ser
vistos como alternativas no embate com o discurso político, religioso e familiar
tradicional.
Tal é a importância da aquisição desse tipo de bens para esses jovens que
51

muitas vezes eles fazem enormes sacrifícios para adquiri-los, gastando quase todo o
salário para comprar apenas uma peça de roupa de marca em mais evidência. Desta
forma, as marcas ganham espaço na vida cotidiana dos indivíduos e assumem um
papel emocional e afetivo, adquirindo dimensões que extrapolam o apenas “vestir”, mas
são como extensões do corpo ou mesmo uma identidade.
Diferentemente do jovem de classe média e alta, que não tem grandes
dificuldades para conseguir trabalho ou estágio, o jovem da periferia geralmente não
tem emprego formal, sendo que a maioria realiza serviços eventuais. Com o tráfico de
drogas e outras atividades ilegais sendo mais presentes no cotidiano deles do que em
de outros grupos sociais, o dinheiro ilícito e fácil pode seduzi-lo. Então, acabam
arriscando a própria vida e vitimando outras para ganhar dinheiro. Assim, gastam com
produtos aparentemente supérfluos, como tênis de marca, roupas, e festas. Esses
jovens constantemente são estigmatizados como marginais, que não trabalham. Há
assim um preconceito muito forte da sociedade, mas se ignora que eles têm uma
vitimização muito maior que em outros setores e faixas etárias da sociedade.
A tentativa em mudar a aparência é também uma tentativa de fugir desse
estigma negativo que é constante. Sentindo-se excluídos pela sociedade e vivendo sem
segurança, saúde e educação, as perspectivas de futuro se tornam distantes. Nesse
contexto, o consumo ligado à aparência passa a impressão de trazer resultados mais
rápidos. O prazer vai além de usar esses produtos, mas começa pelo poder e a
satisfação de comprar. Com isso a mídia abre imensas possibilidades de manipulação
do imaginário. Ainda mais em países como Brasil, onde a sociedade civil é
extremamente frágil e exposta às relações não raro promíscuas entre as corporações e
o Estado, e onde, em contrapartida, há um elevado índice de analfabetismo funcional e
inexistência de uma tradição democrática, como resultado histórico da violência das
elites contra as organizações e movimentos populares (MORAES, 2004, p. 386). A
indústria cultural cria necessidades e uma produção para o consumo, o inverso do que
deveria ser, o consumo para a produção. Como forma de convencimento, a publicidade
cria estereótipos que pretendem seduzir, para vender com mais facilidade seus
produtos.
Muitos temas abordados nos programas de TV são orientados por expectativas
52

construídas pelos adultos sobre o que seria mais importante para os jovens, por
exemplo, escola e família, ainda que os desejos da juventude sejam amplamente
diversificados e de difícil padronização. Cria-se a visão estereotipada de que os jovens
são exóticos e incompreensíveis, porém eliminar a imagem do adulto não resolve o
problema. Quando programas de televisão pedem a opinião dos jovens sobre assuntos
referentes à própria juventude, costumam direcioná-los a respostas artificiais, de acordo
com a resposta que consideram certas dentro da expectativa adulta.
É oportuno destacar que no Brasil durante muito tempo os negros foram
excluídos da sociedade do consumo. Desse modo, o negro não se fazia notar em
público. O consumo serve também como um marcador étnico, bem como uma forma de
oposição à opressão, uma maneira de, como negro, fazer-se visto ou mesmo ouvido. A
partir dos anos 1990, quando os afrodescendentes passam a ser vistos como
consumidores, a imagem do negro na mídia tornou-se mais recorrente. Segundo a
doutora em Ciências da Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF),
no livro Comunicação e Cultura Visual (2007, p.82), “criam-se produtos específicos
destinados aos negros. Com isso modelos e atores afro-brasileiros ganharam espaço
na publicidade”.
Por um lado, historicamente o consumo tem sido uma forma poderosa de
expressão da própria cidadania e vem adquirindo cada vez mais importância na
determinação do status entre os negros. Por outro lado, historicamente também, para
grandes grupos de negros marcados pela escravidão e por suas consequências, a
posição no trabalho não tem sido central para a construção da personalidade. O
consumo sim, tornou-se objeto de prazer, de felicidade instantânea. Os jovens negros
geralmente somam uma perspectiva étnica a essa relação e, além disso, parecem
celebrar o glamour do consumo.
Ao ligar a televisão se observa nitidamente a negação do negro. Em novelas,
telejornais, propagandas e programas de entretenimento pouco se vê a presença de
negros, quando muito, um a cada atração para dar a impressão de igualdade racial. No
telejornalismo brasileiro se constata a invisibilidade do afro-descendente. Rede Globo,
SBT, Record, Band e suas afiliadas concentram um número insignificante de jornalistas
negros. Ainda que de forma tímida, gradativamente tem se modificada essa
53

discriminação. Segundo Muniz Sodré, isso seria um “simulacro de democracia racial”, já


que a TV faz um “controle de rostos” ocultando a realidade estética do país. (SODRÉ,
1999, p. 246). Nas novelas, os atores negros são usados para interpretar personagens
subalternos, como empregadas domésticas, motoristas, bandidos, pobres e escravos.
Na tentativa de minimizar esse quadro, algumas novelas colocam protagonistas negras,
mesmo que de forma questionável.
Na matéria: “Em três novelas da Globo, protagonista é atriz negra”, publicada no
site UOL, em outubro de 20099, a atriz Ruth de Souza, 88 anos, uma das primeiras
atrizes negras a fazer TV no Brasil, reclamou de seu papel, que não tinha nome, na
novela Sinhá Moça (2006). “Era apenas ‘a velha’. Meu par, vivido pelo ator também
negro Clementino Kelé, era o Pai Tobias. Eu disse: será possível que a pobre dessa
personagem não tenha nem nome? Aí botaram “Mãe Maria”. E falei: É Mãe Maria, Pai
João e o moleque de recados. Como sempre. E nós já estamos no século 21." Em 2009
foi observado que de quatro novelas da Rede Globo, três tinham negras como
protagonistas: Taís Araújo, em "Viver a Vida", Camila Pitanga, em "Cama de Gato", e
Élida Muniz, em "Malhação".
Na novela das 21 horas da TV Globo, “Insensato coração” (2011), o ator Lázaro
Ramos interpreta o personagem André Gurgel, um designer famoso, rico, elegante e
colecionador de mulheres, assim como arrogante e perverso. Lázaro representa o
primeiro galã negro no papel de protagonista nas telenovelas brasileiras. Esse fato
gerou uma matéria de capa da Revista Época10, no mês de fevereiro, intitulada: “O
primeiro galã negro”. Desde que a novela estreou, em janeiro, o ator virou assunto
nacional. A publicação destaca que o personagem tem gerado polêmica e muito
sucesso: “Esse fato é o reflexo de mudanças profundas que estão em curso na
televisão, assim como na sociedade brasileira. Lázaro ocupa um espaço que já
pertenceu a atores como Tarcísio Meira e Francisco Cuoco. O personagem André
Gurgel gera uma inevitável polêmica. Muitos gostaram de vê-lo interpretando um negro
como nunca se havia visto na TV. Ao mesmo tempo, alguns comentários são
abertamente racistas. A audiência de “Insensato Coração” segue nas médias das

9
Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u642372.shtml
10
Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI212490-15228,00-
O+SUCESSO+DO+GALA+NEGRO+TRECHO.html
54

últimas novelas do horário, em torno de 35 pontos no Ibope. Segundo pesquisas da


empresa Retrato, Consultoria e Marketing, Lázaro é aprovado no papel de galã pela
vasta maioria dos espectadores: 66,8% dizem que não se surpreenderam com a
escolha do ator negro para o papel de André Gurgel. Porém ainda há uma parcela de
pessoas que parecem incomodadas com a presença de um representante da raça
negra na TV.
Joel Zito Araújo, autor do livro e do filme "Negação do Brasil" (2000), avalia que
a inserção do negro na mídia, no entanto, não rompe com a carga secular de
estereótipos. “Não podemos cair na visão ingênua de que, agora, as novelas vão
defender o negro como modelo de pureza e beleza", diz Joel. Para ele, o fato é ainda
reflexo da estética da TV e do cinema dos EUA, que popularizou artistas negros como
Will Smith, além de mudanças sociais.

Não há como dizer que as oportunidades são iguais para todos se no Brasil os
negros vivem, em média, seis anos menos que os brancos, recebem menos da
metade de seus salários e, de cada mil crianças negras nascidas vivas, 76, 1
morrem antes de completar 5 anos de idade, 30,4 a mais que as crianças
brancas. Não há como afirmar que existe igualdade em um país onde dos cerca
de 45% dos afro-descendentes (negros e pardos), 69% desta população é
pobre e a taxa de pobreza entre os negros é quase 50,5 maior que entre os
brancos (RIBEIRO, 2004, p. 20-21)

3.7 RESPOSTAS PELA VIA DO USO DE DROGAS

A partir da segunda metade do século XX as drogas passam a relacionar-se,


cada vez mais, com graves problemas de saúde pública, de desordem e de violência
social. Segundo Torrossian (2002), frente às mudanças que ocorrem na adolescência,
as privações são reativadas, e surge uma forte necessidade de buscar meios para lidar
com os conflitos daí decorrentes. Nessa fase as influências familiares, sociais e
culturais serão de grande importância e exercerão uma forte pressão nas escolhas que
o sujeito fará, em busca de alívio frente às dificuldades que emergem nesse momento.
Torossian destaca que, se o adolescente não conseguir simbolizar adequadamente os
seus conflitos, o abuso de drogas poderá surgir como um caminho para o alívio das
55

tensões com as quais se depara.


Ainda segundo o autor, faz-se necessário ressaltar, para uma compreensão mais
abrangente, que a difusão das drogas, além de motivada por interesses econômicos,
teve por base o vazio existencial produzido nos sujeitos modernos pela evaporação das
visões de mundo tradicionais. Na nova ordem social, inteiramente perpassada pela
ciência, o desamparo do sujeito tornou-se agudo e assumiu formas até então
inexistentes. Nesta medida, não se pode desarticular o sucesso do narcotráfico e a
difusão maciça de psicotrópicos pela medicina, pois, em ambos, é o evitamento de
qualquer sofrimento que está em pauta.
Segundo Conte (2001), em nossa sociedade, a droga, da mesma forma que os
psicotrópicos lícitos, é mais um produto incentivado pelo mercado de consumo. Carrega
a promessa de satisfação e de alívio para enfrentar a realidade objetiva das
necessidades orgânicas e dos conflitos subjetivos. Dessa forma, insere-se no
movimento social da nossa cultura, que fornece bens de consumo de todo o tipo,
capazes de, supostamente, preencher os vazios e evitar o sofrimento. Os adolescentes
podem ser considerados os maiores prejudicados em potencial por esta associação
entre consumo e promessas de felicidade, consumo e obtenção de imagens
idealizadas. Por estarem em um processo de busca por identificações, posicionamentos
e aceitação social, em um período no qual a influência do grupo de amigos e da mídia é
proeminente, a busca de “respostas” pela via do consumo de drogas pode ser bastante
apelativa.
Algumas empresas farmacêuticas ocupam um grande espaço na programação
televisiva incentivando o consumo de seus produtos. Se por um lado a televisão
apresenta o prazer, o divertimento e informação de todo o tipo, por outro, oferece uma
programação comercial altamente perigosa e, em muitos casos, nociva à saúde dos
jovens. Pois, veiculam um fluxo intenso de mensagens que recomendam o uso
indiscriminado dos mais variados produtos farmacêuticos. São tantas as drogas
socialmente aceitas (cigarros, bebidas alcoólicas, vitaminas, analgésicos, antigripais,
tônicos etc) que fica muito difícil combater as drogas ilícitas. A televisão, enquanto o
grande espelho da atualidade, está refletindo a cultura da droga. Uma sociedade que
cultua valores como a juventude eterna, o bem-estar físico, o prazer incondicional, além
56

dos rigorosos padrões estéticos, acaba por se sustentar com a drogadição.


57

4 ESTUDO DE RECEPÇÃO DA TELENOVELA MALHAÇÃO

4.1 RECEPÇÃO, MEDIAÇÕES E MIDIATIZAÇÃO

Por muito tempo, ao tratarem das classes populares, as teorias apenas


consideravam a ótica da produção e luta reivindicatória. Em razão dos jovens não
estarem diretamente ligados ao sistema produtivo, o cotidiano era considerado sem
relevância política e sem interesse cultural. A mudança de postura permite a
compreensão do espaço doméstico, antes considerado obstáculo para a
conscientização política, como possibilidade limite para o individuo exercer sua
criatividade, iniciativa e liberdade. Em termos de pesquisa de recepção, a consequência
vem em duas novas abordagens: “uso social dos meios” corrente conhecida como
latinoamericana e ligada aos estudos de Martín-Barbero, e “enfoque integral da
audiência”, identificado nas pesquisas do Orozco, ambas centradas nas mediações.
Como bem situa Guilherne Orozco (1996) a televisão e os demais meios tornam-
se hoje os principais referentes para os diversos grupos e sujeitos sociais “embora os
reducionismo, estereótipos e trivialidades que construam e reproduzam esses sujeitos,
de seus deveres e realidade”. Orozco também sugere que se pense sobre a tensão que
se coloca entre esse protagonismo televisivo e os novos tipos de interlocução dos
sujeitos consigo mesmo e com a cultura aí criada. Esse fato evidencia a necessidade
de incorporar o estudo dos meios de comunicação no processo de educação formal do
aluno, já que as mídias são influentes nas diferentes esferas sociais. Assim, os meios
ocupam um papel importante no contexto da educação e da socialização dos jovens,
por isso é fundamental refletir e analisar essa relação.
Os usos ou as lógicas (plurais) dos usos é outra noção que, no contexto dos
estudos culturais latino-americanos, possibilita atribuir especificidade e distinguir a
recepção midiática das vertentes dos usos e gratificações, situando as interações
comunicacionais dos receptores no marco da cultura sem restringi-las a mensagens em
circulação e a efeitos e reações. Trata-se, conforme sintetiza Martín-Barbero no livro:
58

“De los medios a las mediaciones” (1987, p. 240), pensar a recepção “no espaço dos
conflitos que a cultura articula, das mestiçagens que a tecem e do modo em que
trabalha a hegemonia e a resistência que a mobiliza, do resgate, portanto, dos modos
de apropriação e réplica das classes subalternas”. As lógicas dos usos aparecem
estreitamente relacionadas às lógicas de produção na medida em que o autor propõe
uma pesquisa de televisão que agregue o estudo das instâncias e dispositivos
concretos da estrutura e dinâmica da produção televisiva.
Para articular produção e recepção midiáticas, o autor propõe tomar como ponto
de partida as mediações entendidas como “lugares de onde provêm as constrições que
delimitam e configuram a materialidade social e a expressividade cultural da televisão”
(MARTÍN-BARBERO, 1987, p. 233). Embora tenham a recepção televisiva como alvo,
as mediações sistematizadas por Martin-Barbero têm sido empregadas pelos
pesquisadores da recepção para a compreensão das interações específicas com outros
meios de comunicação ou aos processos mediáticos de modo mais amplo no contexto
da América Latina. Uma primeira mediação - a cotidianidade familiar – faz referência à
família como unidade básica de audiência e como um dos espaços chaves de interação
com a televisão. A cotidianidade permite o deslocamento de uma concepção
reprodutivista que marca a reflexão sociológica sobre a família para resgatá-la como
mediação social e lugar primordial de reconhecimento. Como espaço de conflito e
poder, mas também e principalmente de afeto, reconhecimento e solidariedade, a
família se conforma como instância em que a televisão opera a partir de dois
dispositivos: a simulação de contato e a retórica do direto.
Por temporalidade social, Martín-Barbero entende uma segunda mediação,
definida como o tempo ritual e rotineiro em que a televisão se organiza e se inscreve no
cotidiano, especialmente familiar, dos receptores, materializando-se em uma
programação ancorada na rentabilidade e no palimpsesto, esse último termo cunhado
pelo autor para evocar o cruzamento de um entramado de gêneros e tempos de cada
programa ou texto televisivo. O gênero passa a ser concebido como uma estratégia de
comunicabilidade que, desde uma perspectiva cultural e não meramente literária ou
classificatória, se situa entre a lógica do sistema produtivo da televisão e as lógicas de
usos das audiências. São basicamente as regras do gênero que configuram os
59

formatos em que se ancora o reconhecimento cultural no universo da recepção.


Fundada nessa noção de gênero, vale destacar, se desenvolvem uma série de
investigações dedicadas à recepção da telenovela na América Latina.
O gênero constitui-se, ainda, uma das principais experiências ativadoras da
competência cultural, terceira mediação enunciada por Martín-Barbero que colabora
para incorporar a reflexão de que a pluralidade das lógicas de usos da recepção não se
esgota na classe social, exigindo a aproximação com outras noções como a de habitus,
de Bourdieu. Alguns pesquisadores buscaram avançar na apropriação da concepção de
habitus e experimentaram percebê-la como esquemas mais flexíveis e híbridos, não
rigidamente definidos apenas pela posição do agente na estrutura social, mas passíveis
de alteração na trajetória dos indivíduos especialmente a partir de diferentes processos
de hibridação das culturas.
Como mediação, a competência cultural dos grupos sociais provém não apenas
das modalidades de educação formal relacionadas à classe, mas deriva igualmente de
suas experiências socioculturais vinculadas às etnias, às culturas regionais, aos
“dialetos” locais e às distintas mestiçagens urbanas. As próprias experiências com os
meios de comunicação se convertem em instâncias de desenvolvimento de
competências culturais específicas por parte dos receptores. Guillermo Orozco Gómez
(1993) é um segundo autor que, no contexto latino-americano, vai se debruçar sobre a
noção de mediações no esforço de proporcionar uma operacionalização metodológica
do conceito oferecido por Martín-Barbero. O pesquisador mexicano formula uma
tipologia das mediações que resulta de sua experiência de pesquisa empírica, grande
parte delas orientadas à aplicação em projetos de educação para a comunicação,
especialmente aqueles dirigidos à televisão.
O autor vai entender a mediação, em consonância com Martín-Barbero, como a
instância cultural desde a qual os receptores produzem e se apropriam dos significados
e sentidos, cunhando o termo televidência para se referir ao processo complexo de
interação entre audiência e televisão. As mediações não provêm unicamente dos
meios, dos gêneros de programas e das mensagens, senão de fontes diversas -
internas e externas - anteriores e posteriores ao processo de recepção - assim como
das experiências individuais e coletivas dos próprios sujeitos integrantes da audiência.
60

Como decorrência da própria trajetória investigadora de Orozco Gómez, distintas


tipologias de mediação vão ser formuladas e reformuladas em suas especificidades no
marco na noção ampla do que o autor denomina de mediações múltiplas. (OROZCO
GÓMEZ, 1993).
A mediação individual é aquela que emerge do indivíduo como sujeito cognitivo e
emotivo e ao mesmo tempo de suas experiências como sujeito social integrante de uma
cultura. Incluem-se, no âmbito dessa mediação, experiências identitárias relacionadas
ao gênero, à geração, à etnicidade, dentre outras, que concorrem para os processos de
interação dos televidentes com os meios de comunicação. Por sua vez, a mediação
situacional é aquela que indica como o receptor se encontra no momento da recepção
das mensagens: sozinho ou acompanhado, com a atenção concentrada na tela ou
realizando outras atividades paralelas, tecendo comentários ou trocando
constantemente de canal, etc. Todas essas situações condicionam o processo de
recepção, o qual será mais individual ou mais coletivo, influindo na interação da
audiência com o meio televisivo. Na perspectiva da família como o principal contexto de
recepção, Orozco Goméz constata, ainda, que a “política da sala” pode se tornar uma
importante mediação situacional tendo em vista que os valores e padrões familiares
podem incidir na interação direta dos receptores com a televisão.
As mediações situacionais podem ser úteis igualmente para revelar ao
investigador as estruturas de poder intrínsecas às relações familiares que se
materializam, por exemplo, nas negociações e relações hierárquicas entre membros da
família acerca da escolha dos programas de TV. A mediação institucional – como uma
terceira instância de mediações - deriva dos vínculos dos receptores com diferentes
instituições sociais como a família, a escola, o trabalho, o bairro, o partido político, o
sindicato, a igreja e, inclusive, os próprios meios de comunicação. As mediações
institucionais constituem-se nos cenários onde se desenrolam os processo de recepção
e onde se dão as múltiplas apropriações da televisão, no momento ou posteriormente
ao ato da recepção. Os valores e as normas institucionais concorrem igualmente para
definir pautas e modos de (re) apropriação das ofertas televisivas pelos receptores.
A mediação videotecnológica é uma quarta e última mediação que diz respeito
aos mecanismos próprios e específicos da televisão como meio eletrônico para
61

construir seus textos e se dirigir à audiência. Assumindo a perspectiva de Martín-


Barbero, Orozco Gómez define os gêneros televisivos como uma das principais
estratégias culturais que, no marco desses mecanismos próprios da tecnologia,
promovem uma inscrição específica da TV no universo da recepção. O alto grau de
verossimilhança e representação da TV como meio eletrônico audiovisual reforça a
eficácia da mediação videotecnológica.
A multiplicidade de fontes de mediações presentes no processo de recepção, a
possibilidade de distintas articulação e combinações entre elas, assim como a exigência
de propor hierarquizações que estabeleçam o peso diferenciado das mediações em
situações empíricas concretas, são algumas dos desafios às pesquisas de recepção
que, na América Latina, têm adotado a tipologia proposta por Orozco Gómez. Conforme
sintetiza o próprio autor, "às vezes, um tipo de mediação ou uma combinação delas
predomina. Às vezes, algumas mediações se reforçam mutuamente, por exemplo,
quando escola e família têm muito em comum e participam de objetivos educativos
similares, ou quando TV e família compartilham percepções do mundo e aspirações
sociais" (OROZCO, 1991, p. 55).
Configurados por elementos históricos, sociais, políticos e culturais relacionadas
ao cotidiano das culturas, os processos de mediação precisam ser compreendidos,
ainda, em articulação estreita com os processos de midiatização – concebidos como
construtos e materialidades técnicas. Para a compreensão crítica da produção de
sentidos da recepção, essa articulação vem exigindo dos pesquisadores um esforço de
apropriação e refinamento do conceito de midiatização e de processos midiáticos
entendidos como aquelas dinâmicas de transformação que intervêm na constituição e
conformação de relações e interações sociais que resultam da crescente e
preponderante presença dos meios de comunicação na vida cotidiana. Trata-se da
necessidade de reconhecimento e compreensão de que as mídias operam, de forma
crescente, como racionalidade produtora e organizadora de sentidos e, dessa forma,
como instância configuradora da realidade social (MATA, 1999).
62

4.2 A ORIGEM DE “MALHAÇÃO”

A estreia da novela “Malhação” em canal aberto na televisão brasileira, foi em


abril de 1995, através da Rede Globo. A novela foi criada com o propósito de dialogar
com os jovens sobre questões pertinentes ao seu universo, como, por exemplo, o início
da vida sexual, os namoro e paqueras, o relacionamento com os pais e com os amigos,
além das dúvidas referentes ao futuro profissional. Criada por Andréa Maltarolli e
Emanuel Jacobina, “Malhação” pode ser considerada a primeira telenovela brasileira
dedicada ao público adolescente com temáticas que, a priori, pertencem ao seu tempo.
Em 2011, a novela completou 16 anos no ar, transmitindo a 18ª temporada pela Rede
Globo. O programa vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 17h30 às 18h. Apesar de,
atualmente, registrar índices mais baixos de audiência, comparado a outras épocas, o
programa permanece cativando os telespectadores infanto-juvenis. A trama segue a
abordagem clássica da telenovela, adaptada a uma estrutura por temporada. Até o final
da temporada de 2007, cada episódio se iniciava com a técnica cold open11, precedido
por uma retrospectiva dos capítulos anteriores, dando seguimento à narrativa que se
segue. Essa técnica era uma marca do folhetim, utilizada desde 1998, mas foi abolida a
partir do inicio da temporada de 2008.
O enredo de “Malhação” é basicamente permeado por relações amorosas que
são, invariavelmente, interrompidas por jovens vilões que vivem “aprontando” com os
colegas para levar alguma vantagem. Mas, ao final da trama, o destino do casal de
“mocinhos” é previsível e sem novidades, os protagonistas se casam e são felizes,
saindo de cena para uma viagem ou por algum outro motivo, o que mantém a trama em
aberto para a temporada seguinte. Permeada de modelos de conduta moral, reafirmam
o papel social de meninos e meninas dentro da sociedade. Os diálogos, repletos de
gírias, parecem apenas marcar as características dos personagens, mas podem

11
O chamado cold open ("abertura fria", em inglês), também conhecido como teaser, em programas de
televisão ou filmes, é a técnica cinematográfica que consiste em saltar diretamente ao começo de uma
história, no início ou abertura de um programa, antes que mesmo que os créditos ou a seqüência de
abertura sejam mostrados. Na televisão, isso costuma ser feito para envolver o telespectador com a
trama o mais rapidamente possível, reduzindo a possibilidade de que ele perca o interesse e mude o
canal.
63

ratificar uma imagem estereotipada de juventude.


A ideia inicial dos autores foi ambientar a novela em uma academia de ginástica,
o que foi muito criticado na época por evidenciar o culto ao corpo. O programa
inaugurava um novo conceito dentro da teledramaturgia da TV Globo: um seriado com
algumas semelhanças com as ‘soap operas¹’ americanas, data de término em aberto e
maior flexibilidade para mudanças nas narrativas paralelas e no perfil dos personagens.
Em vez da carga dramática característica daquele tipo de produção, o novo seriado
propunha uma abordagem leve e bem-humorada para as questões delicadas que
pretendia discutir. Desde o início, também, apostou-se na troca de experiências entre
atores veteranos e jovens talentos como uma marca registrada. Nos primeiros anos, a
estrutura narrativa de “Malhação” funcionava a partir de uma divisão semanal. Uma
trama começava na segunda-feira e era resolvida na sexta, apresentando um gancho
para o tema da semana seguinte. Mais tarde, a ação passou a ser contínua até a
conclusão da história no final da temporada. Esse esquema foi abandonado já no
segundo ano, em favor de histórias mais prolongadas, sem desfecho imediato.
Após algumas temporadas, o cenário principal tornou-se uma escola particular
de classe média alta, o “Múltipla Escolha”, mas a essência pouco mudou e o programa
permanece perpetuando um modelo de adolescente belo, abastado e de sucesso,
com referencial de identidade nacional no eixo Rio-São Paulo. O programa cumpre,
dessa maneira, o papel de criar ídolos jovens, com aparência saudável, bem vestidos,
plenamente consumíveis pelos espectadores. Podemos dizer que ao longo de sua
história, “Malhação” abordou temáticas ditas sócio-educativas, algumas polêmicas
(AIDS e gravidez na adolescência) e temas relacionados à passagem da adolescência
à idade adulta (vestibular, primeiro emprego, saída da casa dos pais). Mas, o programa
não chega a explorá-las com profundidade, questionando causas e conseqüências e
instigando verdadeiros debates. O ponto chave acaba sendo estabelecer condutas
politicamente corretas dos que estão em posição privilegiada (estética ou
economicamente), ou serão, de alguma forma, punidos.
Na primeira fase da novela “Malhação” o personagem de destaque foi Héricles
(Danton Mello), um rapaz ingênuo do interior do estado, que vai para o Rio de Janeiro
estudar e passa a trabalhar na academia. Quem também se destacou nas primeiras
64

fases do seriado foi Mocotó (André Marques), um conquistador de mulheres que vive
contando vantagem aos amigos. De janeiro a março de 1996 foi exibido o especial
“Malhação de Verão”, que narrava a história dos personagens da temporada de 1995
em um acampamento de férias. Em abril do mesmo ano iniciou-se uma nova temporada
reformulada em todos os aspectos. O destaque da vez foi Luiza, personagem de
Fernanda Rodrigues, caracterizada por seu jeito decidido de agir. A temporada de 1997
não trouxe grandes novidades em sua trama, mas apresentou Pedro Vasconcelos
como o protagonista “Vudu”. Já em 1998, o seriado ganhou novas reformulações: a
ação deixou de ter a “Academia Malhação” como centro. A história focou o universo de
corridas de automóveis. No período da Copa do Mundo de futebol, em 1998, os jogos
atrasavam os capítulos da temporada, fazendo a audiência cair cada vez mais. Mesmo
após o fim da Copa do Mundo, a audiência só diminuía. A produção, então, resolveu
radicalizar o seriado, transformando-o num programa interativo ao vivo. No dia 5 de
outubro iniciou-se uma nova fase no programa. A história se passava no quarto de
Mocotó, onde antigos atores voltavam para relembrar histórias, contando com
participações interativa dos telespectadores através do telefone e da internet. Mesmo
assim, a audiência não aumentava.
Em outubro de 1999 iniciou-se uma nova temporada, trazendo muitas novidades.
A novela ganhou novo elenco, novas histórias, novos cenários, novo logotipo e novo
tema de abertura: a música “Te levar”, da banda Charlie Brown Jr. A partir de então, o
centro da história passou a ser o colégio secundário “Múltipla Escolha”. Foi então que
em 2004, quando “Malhação” fazia 10 anos no ar, as temporadas passaram a ter seu
início em janeiro. A turma da escolhida eram os jovens músicos da "Vagabanda",
formada pelos amigos Gustavo (Guilherme Berenguer), Natasha (Marjorie Estiano) e
Catraca (João Velho). Letícia (Juliana Didone) a protagonista ao lado de Gustavo
formavam um casal. A cantora Natasha usava várias artimanhas para separá-los,
sendo que no final da temporada ela desistiu das investidas contra o par romântico. Em
2005 ela continuou na série, dessa vez, se relacionando com João (Java Mayam) e
seguindo com a carreira de cantora.
Em abril de 2007, o caminho que seguia a trama foi completamente modificado.
Essa temporada foi cancelada, e em outubro, de forma apressada, teve seu fim
65

antecipado. Em 15 de outubro de 2007, estreou uma nova série com a equipe de


produção alterada, foram mantidos os diretores Leonardo Nogueira e Ricardo
Waddington, porém, com apenas 20% do elenco da temporada anterior. Em maio de
2008 houve mudanças na direção, mas a novela também não teve sucesso, assim essa
16ª temporada chegou ao fim no mês de novembro, e logo estreou a “Malhação ID”.
Esta pesquisa se detém a analisar a 17ª temporada da novela “Malhação”, que
foi exibida entre novembro de 2009 e agosto de 2010. Mais conhecida como “Malhação
ID”, porque tem como foco tratar da identidade adolescente. Apresentando a história:
"Os valores que atravessam gerações", a proposta foi mostrar ao público a importância
das regras e dos valores que os jovens herdam de seus pais, sempre em busca de um
futuro de sucesso. Assim, o propósito foi dos personagens discutirem o que querem
para as suas vidas amorosa, familiar e profissional. O cenário foi renovado, com uma
movimentada rua com 10 prédios e ambientes ao ar livre. A intenção foi resgatar a ideia
de diversão na rua, como um ponto de bate-papo dos jovens. Na temporada anterior, a
trama era ambientada no Colégio Múltipla Escolha. Na versão 2010, o nome da escola
continuou seguindo a mesma linha chamando-se “Colégio Primeira Opção”.
A trama principal tem início com a história de Bernardo (interpretado pelo
estreante Filipe Galvão, o Fiuk, filho do cantor Fábio Jr.), e Cristiana (vivida por
Cristiana Peres). Os dois são de mundos completamente opostos (ele é rico e
inconsequente, ela é pobre e responsável). Os dois se conhecem quando a jovem está
praticando patinação artística, então Bernardo aparece querendo usar a pista, assim
decide expulsar Cristiana do local. A personagem de Cristiana Peres (que
coincidentemente, se chama Cristiana) era o oposto de Bernardo. Filha de Antônio,
caseiro da mansão de Bernardo (interpretado por Sérgio Mastropasqua), e irmã de
Nanda (Giovana Echeverria), Cristiana é uma adolescente pobre e séria, preocupada
em ajudar a quem necessita. Também é mostrado o ambiente familiar em que os dois
vivem.
A menina pobre e o jovem rico. Paralelamente à história do casal dos mocinhos
de “Malhação”, questões como corrupção também são abordadas. Isso porque Paulo
Roberto (pai de Bernardo vivido por Tarcísio Filho), é um empresário de muito sucesso
que parece ser um cidadão acima de qualquer suspeita. Mas, na verdade, tem ligações
66

um tanto obscuras, com a aprovação da mulher e sócia, Cissa (Vera Zimmermann), que
compactua com as suas falcatruas. Bernardo e Cristiana são alunos do Colégio
Primeira Opção. Os melhores amigos deles são Beto, Bia e Tati, formando o quarteto
mais famoso do colégio. Cristiana divide todos os seus segredos com Victor, que está
entre os alunos mais inteligentes da escola. Um dos pontos de encontro preferido dos
estudantes fora da escola é o Rocket Stone, que é mais conhecido como roller, onde é
frequentado por jovens que adoram conversar, ouvir música e praticar esportes, como
hóquei sobre patins e basquete. O proprietário do local é Anselmo, um ex-patinador de
sucesso que está viajando e confia à ex-noiva Zuleide a tarefa de administradora o
espaço. A trama foi escrita por Ricardo Hofstetter, com colaboração de Zé Dassilva,
Flavia Bessore e Laura Rissin e consultoria de texto de Charles Peixoto. A série tem a
direção de Paola Pol Baloussier e a direção geral da temporada é da responsabilidade
de Mário Márcio Bandarra.
Os personagens da 17ª temporada de “Malhação” foram os seguintes: Bernardo
Oliveira (Felipe Galvão), apesar de ser um garoto do bem, é mimado e irresponsável.
Bernardo é filho de pais ricos, sempre teve tudo o que quis. Ele adora passear em seu
balão, jogar hóquei sobre patins com seus amigos e se divertir com as garotas. Muito
carismático, é bastante disputado por muitas meninas, mas se apaixona de verdade por
Cristiana, interpretada pela atriz Cristiana Peres. Ela era o oposto de Bernardo. Sempre
preocupada com os grandes problemas sociais do mundo, vive “antenada” e sempre
tenta ajudar os outros. Séria, dedica-se a trabalhos voluntários. Aos poucos ela se
descobre apaixonada por Bernardo. Nanda Araújo (Giovana Echeverria) tem uma
relação de amor e ódio com a irmã Cristiana.
Paulo Roberto Oliveira (Tarcísio Filho) é pai de Bernardo e Clarinha, é casado
com Cissa. Discreto, sério e respeitado na vizinhança, parece um cidadão acima de
qualquer suspeita. Até que surgem denúncias contra a sua empresa, a CPRO. Clarinha
Oliveira (Luciana Didone), mesmo não tendo experiência de vida, lê muito e gosta de
alfinetar as irresponsabilidades do irmão Bernardo. Cissa Oliveira (Vera Zimmermann) é
casada com Paulo Roberto e mãe de Bernardo e Clarinha, é sócia do marido no
conglomerado de empresas CPRO. Tati (Élida Muniz) é apaixonada por Bernardo. Ela
tem uma carreira instável de modelo e disputa o amor de dele com Bia (Mariana
67

Molina). Victor Cardoso (Erich Pelitz) é o melhor amigo de Cristiana, ele é


completamente desajeitado para o amor e incapaz de perceber quando está sendo
paquerado. Ele é um garoto inteligente que ganhou bolsa integral no colégio Primeira
Opção.
Valentina Duarte (Julia Bernat) é um garoto no corpo de uma garota e não
consegue se adequar ao papel esperado para uma menina. Por conta disso, irá se
apaixonar por Lucca (Erik Vesch), o oposto de Valentina. Ele é sensível e não se
aproxima das meninas em função de sua timidez. Renato Cornélio, o Reco (Daniel
Belmonte) é considerado o garoto mais engraçado do colégio. Sua família é de
advogados e, por isso, ele pensa em fazer Direito. Porém, gosta de fazer "stand-up
comedy" e contará com a ajuda de Emílio (Lafayette Galvão), que se prendeu a uma
cadeira de rodas, mesmo não tendo nenhuma deficiência. Sente apenas cansaço e
amargura com a vida. Bimba (Cristiano Sauma) é tido como o maioral da turma, sendo
muito experiente e bem conceituado no colégio. Antônio Araújo (Sérgio Mastropasqua),
um homem humilde, perdeu a esposa há dez anos e, para superar a perda, dedica-se
com amor à criação das filhas Cristiana e Nanda. Anselmo (Leandro Hassun) é um ex-
patinador de sucesso que tornou-se dono do Rocket Stone após sofrer uma contusão
que o impossibilitou de patinar. É ex-noivo de Zuleide e tio de Juju. Livramento (José de
Abreu) é o diretor do colégio Primeira Opção, é professor de Filosofia e sua missão é
preparar os alunos para a vida. Zuleide (Priscila Marinho) - É a gerente do Rocket
Stone e ex-noiva de Anselmo.

4.3 MERCHANDISING SOCIAL EM “MALHAÇÃO ID”

Na comunicação, merchandising social12 é a técnica de inserção de anúncios


aparentemente sem finalidade publicitária, em notícias, locuções ou cenas
apresentadas pela televisão. A mesma prática é utilizada para conseguir a inserção

12
O termo merchandising origina-se do inglês merchandise, o que significa mercadoria. O objetivo dos
merchandisers é desenvolver, através desta ferramenta de marketing, ações para a valorização dos
produtos no ponto de venda, de forma a influencia a decisão de compra consumidor.
68

intencional, sistemática e com propósitos educativos bem definidos - de temáticas


sociais e mensagens educativas nas tramas e enredos das telenovelas. As questões
sociais abordadas mostram-se, aos telespectadores, como parte integrante do enredo
das tramas, pois aparecem associadas, de forma positiva e educativa, aos diversos
personagens e conflitos presentes nas diferentes histórias que se desenvolvem. Deste
modo, esses personagens (e os atores/atrizes que os interpretam) atuam como porta-
vozes dos conceitos, atitudes e comportamentos que por seu intermédio vão sendo
promovidos. Assim, a simpatia ou antipatia que os personagens despertam no grande
público, associam-se a fama, o carisma e a credibilidade dos artistas que os
representam. Isso cria uma situação bastante propícia para a compreensão, aceitação
e adoção consciente das novas atitudes, comportamentos e práticas disseminadas.
Para Lopes, Borelli e Resende (2002, p. 12-13) “a telenovela representa um
repertório de representações identitárias compartilhado por produtores e consumidores,
construído no Brasil ao longo de 35 anos”, sendo considerada como um dos principais
produtos da Indústria Cultural e uma das principais fontes de renda das emissoras de
televisão que se especializaram em produzir esse tipo de produto, como por exemplo, a
Rede Globo de Televisão no Brasil. A telenovela da Rede Globo provou ser uma
fórmula economicamente rentável e viável, pois mantém o público atento e interessado
em cenas e capítulos que ainda serão apresentados ao longo de meses de exibição. O
investimento total em cada novela é elevado, mas as propagandas e merchandising
veiculadas nos intervalos da produção e, mesmo durante a exibição da novela, além da
exportação dessas produções garantem o retorno do investimento, “sem contar que há
um barateamento dos custos que são diluídos em vários capítulos” e, nesse sentido, a
emissora, obedecendo à “receita” acima “percebeu que a telenovela é parte de todo um
universo de significações, gostos, valores e do cotidiano das pessoas” (LEAL, 1986, p.
25).
A telenovela no Brasil, com a Rede Globo de Televisão, chegou à condição de
produto televisivo de maior audiência, e ultimamente parece começar a ser vista como
um dos que apresenta grande potencial educativo, ainda que seu principal objetivo seja
o entretenimento. A Rede Globo controla 70% do mercado publicitário e pouco mais de
60% da audiência nacional. Conforme relatório social divulgado pela emissora em 2009,
69

foram veiculadas 858 cenas na teledramaturgia com mensagens socioeducativas. O


texto da publicação intitulado de Merchandising Social diz que, “a difusão de
informações e conhecimento promove valores éticos e direitos universais, estimulando
a reflexão e o debate sobre questões importantes para a sociedade”. O relatório aponta
que a novela “Malhação” apresentou 158 cenas de estímulo a ações sociais. A própria
emissora encarrega-se de dar ênfase aos resultados que suas campanhas atingiram.
Schiavo define o merchandising social como:

(...) a inserção intencional e motivada por estímulos externos de questões


sociais nas tramas das telenovelas. Através do merchandising social, criam-se
oportunidades para interagir com as telenovelas, compondo momentos da vida
dos personagens e fazendo com que eles atuem como formadores de opinião
e/ou como introdutores de inovações sociais. Enquanto estratégia de mudança
de atitudes e adoção de novos comportamentos, o merchandising social é
instrumento dos mais eficientes, tanto pelo elevado número de pessoas que
atinge quanto pela forma como demonstra a efetividade do que é produzido
(SCHIAVO, 1998, p.2)

O professor Barros Jr.13, crítica o conceito proposto por Schiavo:

“Apesar desse conceito formulado por Schiavo, é bastante difícil estabelecer o


que é e o que não é merchandising social, sem cair no reducionismo de analisar
a parte dissociada do todo na narrativa ficcional seriada, ou seja, através da
Análise de Conteúdo e não da Análise do Discurso.”

Poderíamos cogitar a hipótese do aparecimento desse termo a uma tomada de


consciência ética da emissora quanto à sua responsabilidade social. Por outro lado,
poderíamos supor que não há nada de novo, ou de pedagógico, ou de responsável, o
que há é apenas um marketing ‘politicamente correto’ da emissora para, em tempos de
maior concorrência e dificuldades financeiras, aumentar seu prestígio, conseguir novos
anunciantes, pleitear empréstimos, ampliar a audiência e até diluir as marcas negativas
impressas em seu passado histórico.
A 17ª temporada de “Malhação” registrou a pior média de audiência desde a
estreia do seriado em 1995, assim como acontecera com suas três temporadas
anteriores. Nem mesmo o sucesso que o cantor/ator e protagonista Fiuk fizera com as
adolescentes serviu para alavancar o Ipobe14 da trama. Uma estratégia da emissora
13
BARROS Jr. Rui Coelho. Temáticas sociais em telenovela e cultura popular cuiabana: uma questão de
mediação de sentidos. São Paulo: ECA-USP, tese de doutorado, V. I e II, 2000.

14
Multinacional brasileira de capital privado, o IBOPE é uma das maiores empresas de pesquisa de
mercado da América Latina. Há 68 anos fornece um amplo conjunto de informações e estudos sobre
70

para ampliar os níveis de audiência foi voltar a abrir espaço para o merchandising
social, pouco presente na novela desde 2007. Assim, “Malhação ID” abordou o vício do
crack, a homossexualidade e o bullying15, dentre outros assuntos.
Para falar sobre o uso do crack entre os jovens, um tema que é apontado como
epidemia no país, a Rede Globo inseriu no decorrer da trama um novo personagem,
João, usuário da droga, interpretado por Carlos André Faria. O seu personagem,
atormentado por alucinações, teve um final trágico, morrendo atropelado por um carro.
O objetivo foi alertar os jovens e as famílias para o aumento do consumo do crack e o
perigo que ele causa à saúde. Esse merchandising social ficou no ar por cerca de três
semanas, num período em que o Ministério da Saúde realizava uma campanha
nacional contra o uso dessa droga. Outra temática desenvolvida na novela foi a
sexualidade. O personagem Alê (William Barbier) faz tratamento com um psicanalista
para tentar definir sua sexualidade. O jovem angustiado não sentia atração por pessoas
do mesmo sexo e nem do sexo oposto. Quando Alê encontrava o amigo Valter (Lucas
Romano), homossexual assumido, falava sobre suas dúvidas. Mas, foi o carinho por
Vinicius que fez com que o personagem se assumisse gay. Sua colega Maria Claudia
(Isabela Dionísio) tentou todos os artifícios para conquistá-lo, até planejou uma noite
romântica ao lado de Ale, que foi um fracasso e ainda rendeu um desabafo do jovem.
Em uma conversa franca e direta, ele disparou para a menina que gosta mesmo é de
meninos. “Maria Cláudia, não adianta mais a gente tentar se enganar... A noite de
ontem provou o que a gente já desconfiava. Eu não curto garotas...”, assume. Ela fica
inconformada e tenta convencê-lo do contrário, mas ele rebate: “tá mais do que na hora
de eu assumir isso!”, conclui. Porém, no decorrer da trama, Alê se vê envolvido
emocionalmente por Maria Claudia e se convence de que é com meninas que ele deve
ficar. No final da novela os dois acabam juntos.
Outra abordagem se referiu á altoestima dos adolescentes. Rita (Olívia Torres)
era vítima de bullying, ela se sentia incomodada com a discriminação que sofria por
estar acima do peso. Rita se esforçava para tentar emagrecer, realizava dietas. A
mídia, opinião pública, intenção de voto, consumo, marca, comportamento e mercado.
15
Bullyng é um termo utilizado para descrever atos de violência física e psicológica, intencionais e
repetidos, praticados por um individuo (do inglês bully “valentão”) ou grupo de indivíduos com o objetivo
de intimidar ou agredir outro individuo (ou grupo de indivíduos) incapaz(es) de se defender. Também
existem as vítimas/agressoras, ou autores/alvos, que em determinados momentos cometem agressões,
porém também são vítimas de assédio escolar pela turma.
71

personagem saiu da trama por algumas semanas e reapareceu bela e magra.

4.4 METODOLOGIA

Os grupos focais16, instrumento por excelência da pesquisa qualitativa, fornece


um grande número de informações para serem organizadas e analisadas. Esse método
oferece mais possibilidades de contrapontos, quando imagens desencadeiam ideias
espontâneas e sem censuras, quando os participantes se manifestam, contestam e
colocam suas indagações em discussão. Instrumento por excelência da pesquisa
qualitativa, fornece um grande número de informações para serem organizadas e
analisadas. Neste sentido, os discursos resultantes, são menos policiados e mais
autênticos. É importante que as reuniões dos grupos focais aconteçam em locais
neutros. No caso desta pesquisa, aconteceu na sede da Associação Magart, no bairro
Medianeira, próximo a escola Presidente Costa e Silva, onde os jovens estudam. O
local foi escolhido, entendendo como espaço informal e apropriado aos participantes.
Os grupos focais, neste trabalho, foram desenvolvidos com jovens adolescentes
voluntários. O único requisito era gostar de assistir TV e ter acompanhado os capítulos
da 17ª temporada da novela Malhação.
O procedimento adotado para formar os grupos começou com uma visita à
Escola Estadual de 1º e 2º graus Presidente Costa e Silva, onde foi feito contato com a
diretoria explicando os objetivos da pesquisa para obter a devida autorização para
visitar as salas de aula. Assim, percorrida quatro salas de aula, com a média de 20
alunos em cada, 18 adolescentes se interessaram em fazer parte do grupo de
pesquisa. Então foram orientados a comparecer em data determinada no turno da
manhã, fora do horário normal de aula, na sede da associação. Na ocasião,
compareceram apenas 10 adolescentes, seis meninas e quatro meninos. Relevante
quanto à constituição dos grupos foi a falta de comprometimento dos jovens. Todavia
16
Os grupos focais ou focus group aparecem pela primeira vez em 1941. A técnica era utilizada para
fazer avaliação de audiência dos programas de rádio, a partir daí, torna-se um importante instrumento de
pesquisa para acadêmicos, proporcionando um rico e detalhado corpo de informação sobre percepções,
ideias, sentimentos e impressões manifestadas.
72

não houve prejuízo nas discussões, uma vez que a experiência com os grupos
exploratórios nos mostrou que este fato poderia acontecer, por esse motivo convocou-
se na escola pública um número bem maior de participantes. Justifica-se tal fato pela
timidez dos alunos que apesar de saberem da impossibilidade de participarem,
aceitavam o convite para não negarem.
Dessa forma foram formados dois grupos com cinco adolescentes em cada, de
ambos os sexos e idades. Os jovens estavam cursando entre o 5º e 8º ano do ensino
fundamental, na faixa etária dos 12 aos 17 anos. Foram realizados dois encontros em
agosto de 2010, mês em que a Rede Globo transmitia os últimos capítulos da novela
“Malhação”. A discussão foi feita em uma sala ampla com um aparelho de televisão e
um vídeo. As cadeiras foram dispostas em círculo. Todos os participantes receberam
um nome fictício, escolhido por eles mesmos, que foi escrito em um crachá. Assim foi
preservada suas identidades. As cenas de “Malhação ID” eram passadas, uma a uma,
e o moderador, neste caso, a própria pesquisadora, incentivava os jovens a se
manifestarem sobre o conteúdo exposto. A média de duração das discussões em grupo
foi de 2h. A primeira cena apresentada foi da personagem Rita, a menina acima do
peso que sofria de bullying. Na seqüência, o personagem Alê que tinha dúvidas quanto
a definição de sua sexualidade. Por fim, a questão do uso de drogas pelo personagem
João.
O encontro com o primeiro grupo foi em 18 de agosto de 2010, numa quarta-
feira, às 10h da manhã. Os nomes que serviram de referência para cada jovem foram:
Felipe, Karina, Sabrina, Pedro e Denise (grupo 1). No outro dia, 19, quinta-feira,
também pela manhã, ocorreu a reunião do segundo grupo composto pelos nomes:
Larissa, Ana, Bianca, Rafael e Gustavo (grupo 2). Em princípio os adolescentes
demonstraram certo receio em falar sobre os temas propostos. Em ambos os grupos,
quando indagados sobre o que pensavam ao assistir à cena apresentada, eles ficavam
quietos. Por vezes repetiam que não sabiam o que dizer e que não pensavam nada
sobre o conteúdo. Aos poucos essa barreira foi rompida, através da oferta de
guloseimas e de conversas aleatórias para descontrair. Dessa forma criou-se um
ambiente amigável para que todos se sentissem mais à vontade para se expressar.
Havia alguns jovens mais tímidos e outros mais extrovertidos. Alguns falantes e outros
73

mais quietos.

4.5 CARACTERIZAÇÃO DOS GRUPOS FOCAIS

Grupo 1
Nome Idade Raça Escolaridade Religião Escolaridade Renda Arranjo
pai/mãe/avós familiar familiar
Felipe 15 Branco 5ª Evangélica 8ª/5ª 2 Pais e
salários 3
irmãos
Karina 13 Mista 6ª Católica 4ª/4ª Inferior Mãe,
a 1 vó e 2
salário irmãs
Pedro 13 Negra 5ª Umbanda 8ª/5ª 2 Pais e
salários 2
irmãos
Sabrina 17 Negra 8ª Evangélica Avó/avô 1 Avós
5ª/4ª salário
Denise 12 Mista 6ª Católica Ensino 1 Pais e
médio salário 1 irmã
e meio
74

Grupo 2
Nome Idade Raça Escolaridade Religião Escolaridade Renda Arranjo
Pai/mãe ou familiar familiar
avós
Larissa 13 Negra 6ª Católica 4ª/5ª 2 Pais e
salário 2
s irmãos
Ana 16 Negra 8ª Evangélica 7ª/4ª 1 Pais e
salário 5
irmãos
Bianca 14 Branca 7ª Católica 5ª/6ª 1 Mãe e
salário 2
e meio irmãos
Rafael 14 Mista 5ª Católica 8ª/7ª 2 Pais e
salário 2
s irmãos
Gustavo 15 Branca 7ª Evangélica Vó-4ª 1 Avó,
salário tia e 2
e meio primos

4.6 DESCRIÇÃO DOS RECEPTORES

A análise começa pelo Grupo 1, os receptores são: Felipe, Karina, Sabrina,


Pedro, e Denise. Foi traçado um perfil para caracterizar as condições socioeconômicas
e culturais dos adolescentes. Além disso, as condições de moradia, os arranjos
familiares e seu poder aquisitivo, bem como o acesso aos bens culturais da cidade. Os
dados pessoais aqui contidos derivam das informações repassadas individualmente
pelos próprios jovens. Cada um falou sobre alguns aspectos de sua vida. O que há em
comum entre eles, é o fato de habitarem a Vila Cruzeiro, localizada a seis quilômetros
do centro de Porto Alegre. Uma das maiores e mais violentas vilas da capital gaúcha,
com registros de altos índices de criminalidade. Área que abriga uma população
75

carente, de baixa renda, das classes sociais C, D e E17.


Segundo dados da prefeitura municipal, essa região é composta pelos bairros
Medianeira e Santa Tereza e tem 69,9 mil habitantes, representando 5,14% da área de
Porto Alegre, sendo sua densidade demográfica de 10.252,64 habitantes por quilometro
quadrado. Em relação às adolescentes que já são mães, o registro é de 18,6%. A taxa
de analfabetismo entre os jovens é de 6,2%, e o rendimento médio dos responsáveis
pelo domicílio é de 7,3 salários mínimos.
Uma comunidade que vive em conflito, principalmente aqueles ligados ao
contexto das escolas, como agressões entre os alunos ou entre alunos e professores,
pichações, depredações, uso de drogas e o porte de armas. Uma região composta por
quadrilhas de traficantes que disputam território para a venda de drogas. Inclusive, na
Vila Cruzeiro se localiza uma unidade da Fundação de Atendimento Sócio-educativo
(FASE), onde menores infratores cumprem pena. O Colégio Costa e Silva, onde todos
estudam no turno da tarde, fica no bairro de classe média, Medianeira, a 500 metros da
entrada da Vila Cruzeiro.
A discussão em grupo começa por Felipe, que é o primeiro a se manifestar. Ele
tem 15 anos e vive com os pais e mais três irmãos numa casa de alvenaria com quatro
cômodos e um banheiro. O pai é eletricista e a mãe empregada doméstica. Ambos
passam o dia no trabalho e voltam para casa apenas à noite. Felipe está no 5º ano do
ensino fundamental. Admite que repetiu várias vezes o ano porque faltava muito às
aulas. Ele menciona que em sua casa há dois televisores, um na sala e outro no quarto
da mãe. A TV da sala é LCD digital, tela plana, com 33 polegadas. O menino fica
empolgado ao ostentar a qualidade do televisor, causando alguns comentários dos
demais. “Ele gosta de se exibir”, disse Karina, provocando risos. Felipe confessa que
gosta muito de assistir televisão, quando não está na escola fica em casa cuidando dos
irmãos e assistindo TV. “Meu pai quer que eu seja alguém na vida, por isso prefiro ficar
em casa do que na rua em más companhias”, afirma o jovem. Felipe disse que não
costuma sair do bairro, só quando vai à escola. Aos finais de semanas ele joga futebol
com os amigos no “campinho” da vila. Ele admite só visitar parques e shoppings em
17
Classes sociais são as divisões estabelecidas na sociedade, segundo critérios de renda, de acesso aos
bens de consumo, moradia, educação e saúde. Segundo dados do IBGE, 43% da população brasileira é
considerada Classe C; 25% das pessoas pertencem à Classe D, e uma minoria de 3% são classificados
como extremamente pobres, na Classe E.
76

dias em que a tarifa do ônibus é gratuita em Porto Alegre.


Karina, 13 anos, está no 6º ano e vive com a mãe, a vó e mais duas irmãs
menores. Ela não vê o pai há muitos anos, desde que ele abandonou a família. Admite
que o homem era alcoólatra e que agredia sua mãe. Ela conta que na Vila Cruzeiro ela
mora no final de um beco, numa casa de madeira com dois cômodos e o banheiro é no
pátio. Isso causou espanto nos demais. Sabrina disse que não conhece ninguém na vila
que tenha um banheiro do lado de fora da casa. Porém, na residência tem dois
televisores analógicos, de 20 polegadas. Ela disse que só assiste uma das TVs, porque
a outra está com a imagem fosca. Para resolver isso a vó da menina pendurou um
pedaço de esponja de aço na ponta da antena, o que, segundo ela, melhora a
transmissão.
A menina admite não conhecer os parques mais famosos da cidade, o Parque da
Redenção, Marinha do Brasil e outros. “Às vezes, eu vou ao centro com minha mãe e
percorremos as lojas para achar algumas roupas em oferta”, disse Karina. Quando o
assunto foi a novela “Malhação ID”, Karina se empolgou, revela ser fã do protagonista
Bernardo, além de gostar das roupas que ele usa e do jeito que ele canta, afirma
guardar todas as publicações que encontra do ator que o interpreta. Ela trabalha com
sua mãe na reciclagem de lixo seco. Quando recolhia jornais e revistas das lixeiras
procurava fotos do ator Filipe Galvão. Karina se identifica muito com o personagem. Ela
torceu para que houvesse um final feliz entre ele e Cristiana (Cristiana Peres), seu par
romântico.
Sabrina é a mais velha do grupo, tem 17 anos, está no 8º ano, e mora com os
avós. Há dois anos sua mãe morreu por uma doença maligna. Já seu pai tem outra
família e vive no município de Viamão. Ela costuma visitá-lo quando consegue dinheiro
para a passagem de ônibus. Na pequena casa de Sabrina, como ela mesma disse, tem
dois cômodos estreitos e precários, a única televisão de 20 polegadas fica no quarto
dos avós, já aposentados. Sua vó permanece a maioria do tempo na cama porque sofre
de uma doença que atingiu as pernas. Quando começa a novela “Malhação” Sabrina
está chegando da escola, às vezes, perde algumas cenas, ela admite que gosta muito
da trama. Sobre os lugares que frequênta para se divertir citou alguns bailes funks na
Vila Cruzeiro, lugar em que ela encontra as amigas e paquera os meninos.
77

Pedro é o mais falante do grupo. Durante o tempo de conversa dava palpites e


sugeria aos colegas respostas para as perguntas. Ele tem 13 anos e está na 5º série.
Ele costuma assistir televisão quando não está jogando vídeo game ou acessando a
internet numa lan house do bairro. “Malhação” é a única novela que assiste, ele prefere
ainda ver filmes ou programas de humor como o “Pânico na TV”. Quando chega em
casa da escola, por volta das 17h30min, liga a TV na Rede Globo e só desliga na hora
de dormir. Destaca que na novela “Malhação” gosta do estilo dos jovens da escola
“Primeira Escolha”. Mas, admite ser uma realidade muito diferente da sua. O jovem vive
com os pais e mais dois irmãos numa casa de alvenaria inacabada, com quatro
cômodos e banheiro. O pai de Pedro é motorista de ônibus e sua mãe dona de casa.
Ele disse que o seu lazer é acessar a internet na lan house e ver televisão. Menciona
que as condições financeiras da família não permitem que visite lugares distantes da
Vila Cruzeiro.
Denise é a mais nova do grupo, com 12 anos, cursa o 6º ano. Ela admite gostar
muito de assistir à novela “Malhação”. A menina relata que há pouco tempo sua mãe
comprou uma TV usada de 28 polegadas. Antes a TV da família era de 20 polegadas.
Com a TV nova na sala, Denise levou a TV antiga para seu quarto. A menina se sente
feliz por ter sua própria TV. Ela disse que agora pode assistir o que quiser na televisão.
Denise vive com os pais e um irmão recém nascido. Ela se divide entre a TV e os
cuidados com o bebê. Sua mãe está desempregada, seu pai é funcionário público do
Departamento Municipal de Limpeza Urbana. A casa da família é de madeira com três
cômodos e banheiro. Denise sonha em ser atriz de novela ou cantora. Ela disse que já
participou de concursos de beleza, desfilou na passarela e fez fotos. Quando ela
assiste “Malhação” tenta imitar as artistas. A menina se diz apaixonada pelos
protagonistas, Bernardo e Cristiana. “Quando chego da escola a primeira coisa que
faço é ligar a TV”, disse Denise.
O encontro com o Grupo 2 foi no dia seguinte. Os jovens que participaram foram:
Larissa, Ana, Bianca, Rafael e Gustavo. A discussão começou pela jovem Ana, de 16
anos. A menina relatou que mora com mais cinco irmãos menores numa casa de
madeira com dois cômodos e um banheiro. São oito pessoas dividindo o mesmo
espaço. Para dormir, quatro se acomodam em dois beliches. Na cama de casal, junto
78

com os pais, dormem os dois irmãos menores. Ela ainda menciona que o telhado tem
muitos buracos e quando chove é preciso usar baldes para conter as goteiras. Além
disso, o esgoto é a céu aberto. Ana disse que dificilmente a família tem momentos de
lazer. Em função de a família ser numerosa, há dificuldades financeiras para custear
um passeio. Sua mãe é faxineira e seu pai manobrista. Ela gostaria de conseguir um
emprego para ajudar os pais, mas vê dificuldades por não ter experiência profissional.
Na casa de Ana há uma TV que fica posicionada num ângulo de visão de todos, já que
a casa não tem divisórias. Ela confessa que gosta muito de assistir as novelas da Rede
Globo, principalmente “Malhação”.
Na sequência, Gustavo se manifestou dizendo: “Eu também procuro emprego,
mas está difícil”. Gustavo tem 15 anos, está no 7º ano e vive com a vó, uma tia e dois
primos numa casa de três cômodos e um banheiro. A diversão de Gustavo é jogar
futebol com os amigos e ir a festas de hip hop. Gustavo menciona que seu pai cumpre
pena na penitenciária estadual por roubo. Quanto a sua mãe, tem outro companheiro.
Ele morava com ela, mas brigava muito com o padrasto. Então, Gustavo decidiu morar
com a vó. A senhora de 68 anos recebe uma aposentadoria que mantém a família, já
que a outra filha que mora com ela está desempregada e tem dois filhos pequenos.
Larissa tem 13 anos, está no 6º ano e mora com os pais e dois irmãos em um
sobrado de alvenaria, com quatro cômodos e um banheiro. Sua mãe trabalha como
empregada doméstica numa casa de família e seu pai é mecânico. Ela disse que a
casa tem três TVs, sendo uma em seu quarto. Larissa costuma sair aos finais de
semana com os pais e irmãos para visitar parentes. Ela conhece vários parques, já foi
ao cinema e gosta de passear no shopping. Larissa confessa ser fã da novela
“Malhação”, disse já ter assistido várias temporadas, e atual é a que mais gostou.
Rafael tem 14 anos e está no 5º ano. Ele vive com os pais e um irmão nos
fundos da casa dos avós. Seu pai é pedreiro e a mãe costureira. Conforme ele, sua
casa é de alvenaria com cinco cômodos amplos e um banheiro. Rafael se diverte
jogando futebol e vídeo game com os amigos. Disse que para se distrair frequenta
bailes funks na Vila Cruzeiro. Também tem como lazer visitar a casa de parentes.
“Quando meu pai está de folga a gente vai visitar meus avós em Alvorada, lá eu
encontro meus primos”. Ele ressalta que tem dois televisores em sua casa e que
79

assiste todos os dias a novela “Malhação”. Na novela sempre tem alguma coisa que as
pessoas usam ou fazem aqui fora”, conclui Rafael.
Bianca concorda e argumenta: “a novela está sempre na moda e todo mundo
imita pra ficar bonita”. Bianca tem 14 anos, está no 7º ano e vive com a mãe e duas
irmãs numa casa de madeira com três cômodos e banheiro. Seus pais estão separados
há alguns anos. Sua mãe trabalha como faxineira. A jovem disse que seus momentos
de lazer acontecem assistindo televisão. Ela ressalta que liga a TV na Rede Globo à
noite e assiste a todas as novelas. Ela também gosta do programa “Domingão do
Faustão” e do “Caldeirão” do Luciano Huck. Bianca não frequenta outros lugares da
cidade, confessa que faz muito tempo que não visita um parque. “Eu queria sair mais,
só que falta dinheiro pra tudo e a passagem de ônibus é cara”, conclui.

4.7 DISCUSSÃO EXPLORATÓRIA SOBRE AS CENAS

Trataremos aqui dos elementos colhidos nas discussões dos grupos


exploratórios. São as representações dos adolescentes sobre as cenas da novela
“Malhação” selecionadas e apresentadas a eles durante os encontros. A primeira cena
tinha o objetivo de provocar a discussão sobre a prática de bullying na adolescência,
buscando entender de que forma esse tipo de conteúdo midiático interfere no dia a dia
do adolescente. Então foram apresentadas cenas da personagem Rita, angustiada por
estar acima do peso, sendo discriminada por colegas da escola. Rita ausentou-se da
novela por algumas semanas, reaparecendo nos últimos capítulos, magra e
deslumbrante, depois de ter feito um tratamento para emagrecer. Assim ela conseguiu
conquistar Fernandinho, por quem era apaixonada. Essa representação reforça o
estereótipo de beleza incentivado pela mídia, no qual para ser aceito é preciso, dentre
outros quesitos, ter um corpo escultural. Conforme Joan Ferres (1998, p. 28), “a
seleção de alguns atributos ou a escamoteação de outros realiza-se com alguns
objetivos precisos: facilitar a interpretação da realidade, reduzindo a sua complexidade
e a sua ambigüidade; oferecer uma avaliação ideologicamente marcada da realidade
80

representada, em função dos interesses do emissor; facilitar os processos de


envolvimento emocional pelo receptor”.
Eu, Magda, como pesquisadora, atuando como moderadora do grupo, realizei as
seguintes perguntas para o Grupo 1 e 2: O que vocês pensam quando vêem as cenas?
Vocês se sentem incentivados pela novela a zombarem dos colegas, como acontece
com a Rita? As suas respostas foram:
Pedro, 13 anos – “Não. Essas brincadeiras que fazemos com os colegas,
chamando um de gordo outro de magrela, sempre teve. A novela só está mostrando
uma coisa que acontece na realidade”.
Rafael, 14 anos - “Eu não faço isso pra ninguém porque sei o quanto é ruim
colocar apelidos nos outros, também não gosto de ver isso na TV porque parece que
fica mais forte”.
Felipe, 15 anos - “Tenho uma colega gordinha e, às vezes, participo das
brincadeiras também, até acho graça da Rita na novela, mas sei que isso não é legal”.
Denise, 12 anos – “Acho que a novela está mostrando que não é bom ser gorda,
que o melhor é ser magra. Foi o que aconteceu no fim da novela, quando Rita
reapareceu magra e bonita. Então para não debocharem da pessoa é melhor estar
sempre bonita”.
Sabrina, 17 – “Os homens não gostam de mulheres feias e gordas, sendo magra
há mais facilidade de conquistar um namorado”.
Felipe, 15 anos – “Isso é verdade, os ‘caras’ preferem meninas magras e
bonitas. Quem fica com uma gordinha é zombado. Eu faço brincadeiras desse tipo com
minhas colegas de aula, mas é sem maldade, só brincadeira”.
Karina, 13 anos – “Eu sou gordinha e tem meninos que querem ficar comigo.
Acho que a Rita não precisa emagrecer para ser aceita pelos outros. Cada um é do
jeito que é”.
Bianca, 14 – “Quando vejo as cenas de Rita fico com pena dela, deve ser ruim
ser gorda e ver todos rindo de você. Mas, o Bernardo (Fiuk) sempre defende ela dos
outros, é isso que temos que fazer para ajudar os amigos”.
Ana, 16 anos – “Depende da cabeça da pessoa. Se a pessoa assiste a novela e
sai fazendo igual é porque tem cabeça fraca”.
81

Gustavo, 15 anos – “A novela só está mostrando o que acontece nas escolas,


todo mundo zomba de todo mundo, isso é normal”.
Karina, 13 anos - “Eu sou gordinha igual a Rita e estou feliz assim, não penso
em emagrecer. Ela não deveria dar importância para os deboches”.
Sabrina, 17 anos - “Gostei de ver ela magra e feliz no final da novela, agora vai
ser fácil conseguir um namorado”.
Larissa, 13 anos – “Minha mãe também é gordinha e meu pai vive dizendo que
ela tem que emagrecer e voltar a ser magra como antes. A novela diz para a pessoa se
esforçar para emagrecer e ficar melhor”.
Gustavo, 15 anos - “Na minha turma eu coloquei alguns apelidos em colegas,
mas isso é normal, tem gente que não gosta, mas somos amigos e todos têm apelido,
até eu”.
Denise, 12 anos - “Meu colega tem o apelido de “bola”, quando chamam ele
assim, ele fica bravo e que bater em todo mundo”.
Bianca, 14 anos - “Na novela todos debocham da Rita porque ela é gorda. Quem
também tem uma colega gorda na escola vai achar legal colocar apelidos e rir da
pessoa”.
Observa-se que muitos jovens buscaram exemplos no seu cotidiano, em
comparação com o problema enfrentado pela personagem Rita. Há tendências diversas
entre os discursos, mas é quase unanimidade entre os adolescentes o fato de que estar
acima do peso não é bom para a reputação. Os jovens parecem se preocupar muito
com a imagem, principalmente na relação com os amigos e nas possíveis conquistas
amorosas. Segundo Maria Bueno Fischer (2001, p.28): “Imagem é tudo, esse é o
conselho que ouvimos todos os dias: é preciso não apenas ser, mas ‘parecer ser’; e se
não pudermos ser, que nos esforcemos para parecer”. Também há discursos que
reafirmam o preconceito vendo a prática de bullying como algo natural na escola. Freud
justifica o interesse que as piadas suscitam nas pessoas, pela economia de energia que
comportam ao romper com o aprisionamento que a lógica e a razão impõe a mente
humana. “Poderíamos dizer que, frequentemente a tendência, consciente ou
inconsciente, aos estereótipos é consequência do mesmo mecanismo: o da economia
de energia no momento de interpretar uma realidade complexa eu mostra resistência a
82

ser compreendida” (FERRÉS, 1998, p. 138).


A segunda cena tratou do jovem assexuado, Alê, que tinha dúvidas quanto a sua
sexualidade. Ele havia tentado sair com meninas, mas se convenceu que o que sentia,
na verdade, era atração por homens. Assim, Alê se assumiu gay e começou a namorar
o personagem Vinicius. Porém, no decorrer da trama, se viu envolvido pela
personagem Maria Cláudia e começou a namorá-la. Expondo ao grupo essa
problemática procurei entender como o adolescente assimilou a mensagem contida
nessa representação.
Então, eu pergunto: Assistindo as cenas em que o personagem Alê despreza o
amor de Maria Claudia porque prefere namorar Vinicius, o que vocês pensam sobre
isso? As respostas foram as seguintes:
Felipe, 15 anos - “Parece que é normal gostar de homem, mas não é”.
Larissa, 13 anos - “Ele é bonito e não tem jeito de gay, poderia procurar ‘ficar’
com meninas”.
Sabrina, 17 anos - “Se o Alê é gay o problema é dele e ninguém tem nada a ver
com isso”.
Denise, 12 anos - “Minha mãe tem um amigo travesti que vai lá em casa às
vezes, ele é muito legal e me dá presentes”.
Rafael, 14 anos – “Não precisava ter um gay na novela. Não tem nada a ver.
Que bom que resolveram mudar isso e o Alê aceitou a Maria Claudia”.
Gustavo, 15 anos – “O ‘cara’ não sabia se gostava de homem ou mulher. Foi
ridículo ele dar um fora na Maria Claudia pra ficar com o Vinicius. Eu não tenho
preconceito, mas acho que não deveria ter um par de homens na novela”.
Sabrina, 17 anos – “Não vejo problema nisso, a novela está mostrando que
devemos aceitar todas as formas de amor, até homem com homem. No fim Alê ficou
com a Maria Claudia. Ele só procurou descobrir o que sentia”.
Felipe, 15 anos – “Como disse minha mãe, isso incentiva os meninos a serem
gays. A gente sabe que tem vários gays por aí, mas não precisamos ver isso também
na TV”.
Bianca, 14 – “Se o menino gosta de outro menino ele não tem culpa. Não pode
viver fingindo que gosta de mulher, tem que se assumir. Depois ele viu que não era isso
83

que ele queria”.


Para fomentar a discussão perguntei o seguinte: Se houvesse um menino
homossexual na escola, vocês seriam amigos dele e aceitariam o seu namoro com
outro menino?
Ana, 16 anos – “Não tem como, todos iriam debochar dele, acabaria tendo que
sair da escola. Se eu estivesse a fim de um menino e ele ‘me desse um fora’, eu ficaria
muito brava por ser trocada por um homem”.
Rafael, 14 anos - “Se o cara vai falar para um amigo que é gay, ele vai espalhar
para toda a escola. Ninguém gosta de ‘veado’. Se a menina quiser namorar o cara e
descobre que ele não gosta de mulher, também vai espalhar pra todo mundo”.
Felipe, 15 anos – “Não iria deixar chegar perto de mim. Se aparecesse beijando
outro menino iria ‘levar socos’ dos colegas”.
Karina, 13 anos – “Desconfio de que um menino na escola seja gay, mas sou
amiga dele e não pergunto nada. Ele está sempre no grupinho das meninas, e entende
de moda, dá várias dicas, ele é legal”.
Gustavo, 15 anos – “Esse não seria meu amigo, quero distância, que fique do
lado das meninas”.
Sabrina, 17 anos – “Os gays sabem ser amigos das mulheres. Às vezes, é
melhor ser amiga de um gay do que de uma mulher”.
Denise, 12 anos – “Minha mãe assiste a “Malhação” comigo e não gosta do
personagem Alê e Valter que são gays. Se eu tivesse algum colega gay ela não
deixaria eu ser amiga dele”.
Larissa, 13 anos - “Hoje em dia há muitos casais gays, não vejo problema em
mostrar isso”.
Ana, 16 anos - “Não é fácil o ‘cara’ assumir que é gay, vai sofrer muito, ninguém
vai querer saber dele, diferente da novela”.
Gustavo, 15 anos - “Não gosto de gay e nem quero que se aproximem de mim.
Homem é homem, mulher é mulher”.
Bianca, 14 anos - “A pessoa assiste a novela e acha que pode fazer igual. Se o
menino quer ser gay e vê aquilo na novela como normal, vai querer ficar com um
homem pra ver como é”.
84

Os jovens se mostram incomodados ao falar sobre esse tema. Todos afirmaram


que não têm preconceito, porém a maioria não gostaria de manter uma amizade com
algum colega gay. Observa-se, inclusive, declarações homofóbicas, se referindo a
possibilidade de agressão contra um homossexual. Também percebo que na família, a
mulher exerce forte influência na audiência e na recepção de produções midiáticas
como é o caso da telenovela. Por várias vezes os adolescentes citaram a opinião da
mãe como referência para as respostas. O que evidencia a forma como a mãe é vista,
sendo um filtro que analisa e legitima uma produção midiática. Portanto, ela é
considerada um elemento de mediação da recepção dentro do espaço doméstico.
A terceira e última cena trata do personagem João, usuário de crack, que teve
um final trágico. Inclusive, na novela, houve um momento em que o diretor da escola
cenográfica “Primeira Opção”, Livramento (José de Abreu), reuniu os alunos e
promoveu uma palestra para falar sobre os malefícios do uso do crack. O convidado foi
um especialista em dependência química. Ao fundo do cenário, um cartaz do Ministério
da Saúde, que dizia: “o crack mata”.
Então abordei essa questão com os dois grupos para compreender se temáticas
desse tipo colaboram na educação dos jovens. As perguntas foram as seguintes: O que
vocês aprenderam assistindo à novela “Malhação”. Por exemplo, com as cenas da saga
de João, viciado em crack?
Rafael, 14 anos – “Tinha um amigo que começou a fumar maconha e me
ofereceu um cigarro, mas não aceitei. Eu não quero saber de drogas. O final do João
tinha que ser numa clínica e não morrer atropelado”.
Ana, 16 anos - “Quando ele entrou na novela pensei que fosse ficar até o fim, se
recuperar e voltar a estudar, mas acabou morrendo, não gostei desse fim”.
Gustavo, 15 anos – “Na Vila Cruzeiro, há muitos usuários de crack, é triste ver a
situação dos ‘caras’. A novela está mostrando o que acontece com quem usa droga,
mas depois que o ‘cara’ entra não tem mais volta. O fim que ele teve é o que acontece
na real, a pessoa morre depois de muito tempo usando a droga”.
Ana, 16 anos – “Tem uns riquinhos que estão usando também, não é só o pobre.
Na novela, o João é de família com dinheiro e mesmo assim fuma crack. Todo mundo
sabe que drogas fazem mal, mesmo assim ainda usam, o problema é de quem usa”.
85

Gustavo, 15 anos - “O traficante, às vezes, não é mal. Esse é o trabalho dele.


Compra a droga quem quer usar, o problema é da pessoa”.
Denise, 12 anos - “Na minha rua tem uns drogados que andam sujos e falam
asneiras, estão sempre pedindo dinheiro pra todo mundo. Quando conseguem entrar
nas casas, roubam qualquer porcaria pra vender e comprar mais drogas. Eu fico longe
deles”.
Felipe, 15 anos – “Acho que não adiantaram essas cenas na novela, ele ficou
pouco tempo no ar, logo morreu. Ele tinha que ficar do começo ao fim da novela pra
gente ver o resultado depois. Eu sei o mal que a droga faz, não quero me envolver”.
Larissa, 13 – “O que deu na novela, eu já sabia, na vila tem muitos meninos
usando essa droga”. É muito ruim usar drogas, isso deixa a pessoa meio louca”.
Rafael, 14 anos – “O irmão da minha mãe sumiu depois que começou a usar
drogas. Ninguém sabe onde ele está agora, pode até ter morrido. A novela mostra o fim
que a pessoa pode ter usando drogas”.
Gustavo, 15 anos - “O envolvimento com drogas depende da cabeça do ‘cara’.
Eu tô fora”.
O debate se estende quando aprofundamos a ligação entre educação e
televisão, apontando que este veículo transmite conteúdos repletos de conceitos.
Mesmo sem compromisso pedagógico, a TV participa da formação cultural dos
telespectadores. Essa afirmação pode ser comprovada pela pesquisa, quando
percebemos que a maioria dos adolescentes consideram que já aprenderam algo com
a novela “Malhação”.
O que vocês pensam sobre a vida que os personagens levam na novela? Vocês
se sentem representados na TV?
Pedro, 13 anos - “Nessa escola só tem gente animada, lá tem vários lugares
para se divertir com os amigos, parecem todos ricos. Eles têm carro e usam roupas de
marca, nada a ver com a minha escola. Eu, com esse meu jeitão iria chegar lá
apavorando todo mundo”.
Karina, 13 anos – “Não. As meninas têm lap top e usam roupas e tênis da moda.
Queria ser assim também. Elas têm atitude, se estão a fim de um ‘cara’ elas vão em
cima. Tem que ser assim mesmo”.
86

Ana, 16 anos - “Eu gosto de assistir “Malhação” pra ver o que os riquinhos estão
fazendo”.
Bianca, 14 anos – “Todos fazem muitas coisas legais. Dentro da escola tem
vários lugares para se divertir, na realidade, as escolas não são assim. A casa deles é
toda chique, ninguém se parece com a gente. E lá ninguém mora em vila também”.
Pedro, 13 anos – “Os ‘caras’ usam roupas de marcas famosas, cada dia é uma
roupa diferente, até aqueles que fazem o papel de pobre. Eu não tenho tantas roupas
assim”.
Denise, 12 anos – “Eu queria conhecer o Fiuk da novela, ele é lindo. Queria tirar
uma foto com ele. Ele tem um carrão e é muito divertido e carinhoso”.
Sabrina, 17 anos – “Eu queria ter aquela vida, mas aqui fora a coisa é diferente,
temos que viver a realidade. Mesmo assim gosto de assistir para ver o que os riquinhos
estão fazendo”.
Bianca, 14 anos – “As novelas sempre estão na moda serve de exemplo para a
gente. Nossa vida é diferente, mas mesmo assim gosto de assistir a novela”.
Larissa, 13 anos – “Eu tenho um celular igual ao da Cristiana da novela. Eu
gosto de assistir pra ver o que elas estão usando, pra ver o que é moda”.
Pedro, 13 anos - “Nessa escola só tem gente animada, lá tem vários lugares
para se divertir com os amigos, parecem todos ricos. Eles têm carro e usam roupas de
marca, nada a ver com a minha escola. Eu, com esse meu ‘jeitão’ iria chegar lá
apavorando todo mundo”.
Entre as discussões que versam sobre as influências da televisão em
adolescentes, muitas delas debatem-se nos aspectos agressivos ou supostamente
prejudiciais da programação. Porém, não é apenas o conteúdo violento que deveria ser
preocupante. De acordo com Adorno, o pseudorealismo da TV pode ser, tão prejudicial
quanto a violência. Quando são transmitidos programas com conceitos de amor,
famílias estereotipadas, está se apresentando um mundo que na chamada vida real,
não existe como aparece na TV. Este pode ser um aspecto danoso, uma vez que os
espectadores percebem como algo ideal, mas que não é verificado em suas vidas. De
forma alguma a televisão pode servir de parâmetros para balizar a vida de quem a vê,
apenas para ajudá-los a refletir sobre a vida em sociedade. Da mesma maneira que
87

podemos assumir que existem efeitos prejudiciais da TV em jovens despreparadas


emocional e intelectualmente, ela tem a facilidade de auxiliar a formação do espectador.
A TV permite que ele re-elabore situações do seu dia a dia, identificando-se com
pessoas e situações e projetando assim seus próprios conteúdos.
Para Mauro Wilton de Sousa (1991, p. 85), no artigo: Jovens e a telenovela -
seduções da vida cotidiana, “a narrativa da telenovela trabalha com o cotidiano real,
vivido, e o cotidiano construído, permeado pelo imaginário. As referências ao cotidiano
real, presentes na elaboração do cotidiano construído é que sustentarão a noção de
ficção”.
Isto posto, percebemos que para a maioria dos entrevistados a novela
“Malhação” parece refletir a realidade e representar o que eles sonham em ser. Essa
compreensão é justificada quando os adolescentes afirmam que em várias ocasiões
gostariam de “ser” o personagem que vive determinada história, no contexto
apresentado pela novela.

4.8 RESULTADO DAS DISCUSSÕES

Nos estudos sobre televisão, durante anos sobressaiu o modelo que considerava
a iniciativa da comunicação toda do emissor, ficando o receptor restrito a reagir aos
estímulos enviados. Martin-Barbero (1995 p. 41) afirma que a concepção condutista
fundia-se à iluminista: "o processo de educação, desde o século XIX, era concebido
como um processo de transmissão do conhecimento”. O receptor era “tábula rasa”,
recipiente vazio para se depositar conhecimentos originados ou produzidos em outro
"lugar". Não mais se negam os efeitos da TV, e já se sabe que pais, professores e
colegas influem na recepção de mensagens. Nesse processo ocorrem mediações
cognitivas, culturais, situacionais, estruturais e as ligadas ao meio televisivo, à
intencionalidade do emissor. O receptor é sujeito ativo e pertence a contexto
sociocultural específico. Interpreta mensagens seguindo sua visão de mundo,
experiências, valores, a cultura de seu grupo.
88

As discussões se sucedem, os assuntos se misturam, e pelo discurso


adolescente tem-se a comprovação de que a novela está sendo fonte para modelos de
comportamento. Embora a cenas expostas e debatidas tivessem um objetivo
específico, não impediu que os adolescentes, através dela manifestassem outras
preocupações e leituras, com diálogos gerados das discussões sobre cenas que não
eram mostradas, numa demonstração da memória de um grupo que acompanha
assiduamente a trama e retira dela assuntos para reflexão.
Os discursos adolescentes demonstram que a novela serve como um referencial
para namoros e conquistas, sendo que “Malhação” é fonte de inspiração para paquerar
o outro, revelando-se, assim, uma vitrine para os jogos amorosos. O namoro, na ficção
e na realidade, não é mais entendido como o um momento de compromisso romântico.
Visto através da novela “Malhação” e dos discursos adolescentes, o namoro é uma
aproximação física mais íntima, com compromisso de fidelidade e certezas de relações
sexuais. Uma vez que o conteúdo da trama está repleto de trocas de parceiros em
namoros passageiros e inconsequentes.
Os adolescentes manifestam o entendimento de que ao ligar a televisão para ver
a novela abre-se uma janela para um conteúdo diferente daquele vivenciado por eles.
Entendem como uma encenação da realidade. Porém, não se sentem representados
nesse contexto. Por outro lado, as mensagens são compreendidas e assimiladas de
forma particular. O olhar de cada adolescente interfere na maneira como as mensagens
são absorvidas e reelaboradas. E como eles mesmos afirmam, o grupo de amigos
mostra-se de grande relevância em todas as discussões. Quando os adolescentes
admitem que a novela “Malhação” dita a moda e citam alguns produtos comercializados
que são expostos pelos artistas, refletem o anseio de imitar e fazer parte do processo
de consumo. Houve a demonstração de que existe uma consciência do poder da mídia
em suas vidas, poder que segundo eles, varia de acordo com a forma de pensar de
cada um. Numa clara evidência do pensamento de Bordieu (1997) e Martín-Barbero
(1995), quando afirmam que é irrealista pensar que todos recebem as mensagens da
mesma maneira na medida em que há o envolvimento de cada um com seu em torno
cultural.
O que também pôde ser comprovado pela pesquisa foi a importância dos
89

repertórios dos entrevistados, ou seja, a produção do sentido das mensagens está


sujeita a mediação no campo da recepção por parte dos adolescentes. Neste ponto,
debruçamo-nos sobre autores como Martín-Barbero, Orozco Gomes e Nestor Canclini,
que debatem as mediações, sugerindo que a compreensão do consumo de mensagens
requer um deslocamento tomando como base o universo cultural dos sujeitos. Dessa
forma, podemos entender o consumo articulado ao exercício reflexivo da cidadania
como sendo um lugar onde se pode pensar e atuar significativamente na vida social.
90

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta pesquisa buscou realizar uma reflexão sobre o papel da telenovela


“Malhação”, enquanto possível fonte de modelo para o adolescente vulnerabilizado pela
pobreza. Do que foi apurado, em vinculação aos métodos e teorias acionados, é
possível apresentar as seguintes considerações. No Brasil, uma grande parcela da
população jovem não tem condições econômicas para corresponder aos apelos do
consumo. A mídia geralmente retira do contexto essa diferença social. Aquilo que está
na televisão passa a ser o melhor para o jovem. A publicidade dita a moda com
tendências vindas do exterior adaptadas à realidade local. O jovem perde o vínculo com
a sua cultura passando a estabelecer uma ligação com a cultura globalizada de massa.
A juventude rotineiramente é representada nos meios de comunicação de forma
deturpada.
Dessa forma a cultura jovem se limita aos estilos, vivências e hábitos de vida do
adolescente de classe média. O estereótipo dominante que corresponde à imagem do
jovem rico, inteligente e feliz, que persiste em ser reiterado pela mídia, está inserido no
sistema de consumo social, o que demanda a necessidades de status e de uma
aparência que normalmente não corresponde à realidade. Assim, são classificados
como representantes de uma suposta essência da condição juvenil. Conquistar essa
estética jovem pode gerar desigualdade entre as classes, como consequência,
problemas sociais relacionados à violência e ao uso de drogas. Já que esse referencial
de consumo é inacessível para a maioria.
Na passagem da infância para a adolescência, e dessa para a vida adulta, o
jovem vai estabelecendo sua identidade. A instabilidade emocional, as tristezas
ocasionais, os rompantes de ódio, as contestações, a insegurança, os conflitos na
família, são parte do caminho para o crescimento. E em meio a tantos sentimentos
diferentes emerge a mídia, a televisão, a internet, os videogames, uma vasta tecnologia
digital, com telas coloridas, sinalizando a modernidade e o futuro.
Conforme os resultados da pesquisa de recepção, observei que os adolescentes
apresentaram um alto consumo dos produtos televisivos. Quando não estão em casa
91

ou nos becos da vila com os amigos, estão em frente a uma tela que integra o ambiente
residencial das famílias. Esses jovens, geralmente assistem aos programas da Rede
Globo, com ênfase às novelas e aos programas de humor e de auditório. Os
adolescentes, frente à novela “Malhação”, vêem artistas bonitos e sedutores vestindo
marcas famosas, dirigindo carros de luxo e portando aparelhos eletrônicos modernos.
Esses personagens vivem em um ambiente familiar sadio, conquistam o que quiserem,
consomem tudo que podem, vivendo a sua adolescência plenamente. Um padrão de
vida que esses adolescentes moradores da Vila Cruzeiro não identificam em seu dia a
dia.
Mesmo que a novela “Malhação” exponha alguns conflitos naturais dessa fase
da vida, aborde problemas sociais, adentre em assuntos polêmicos para gerar o
debate, tudo isso é feito superficialmente. A pressão pelo consumo se sobrepõe aos
temas de interesse social. A juventude é constantemente bombardeada por novas
tendências da moda e lançamentos tecnológicos. Isso porque quando são transmitidos
programas repletos de estereótipos, está se apresentando um mundo diferente da
realidade diária de muitos adolescentes. Isso pode trazer malefícios, uma vez que os
espectadores percebem nessas representações o ideal, porém não constatam em suas
vidas. Assim, a telenovela não deve servir de parâmetro para balizar a vida de quem a
assiste. A mídia televisiva não pode representar o jovem de forma desvirtuada, mas sim
contribuir para a reflexão sobre a vida em sociedade.
Outro fator é a própria desestruturação da vida familiar, que acontece em toda a
sociedade, mas, em famílias de baixa renda, na periferia, pode levar a resultados mais
graves. Outra forma de criminalizar é a partir da visão de que o bom desempenho social
está relacionado com viver a juventude de maneira arriscada, quando transgredir se
torna um valor social.
É essencial que o Brasil realize políticas públicas especìficas que atendam às
necessidades da adolescência. Caso contrário, aumenta o risco de que um grupo tão
significativo e estratégico para o desenvolvimento nacional fique invisível. O jovem
brasileiro é sensível aos acontecimentos do país. Ele percebe e sente, como ninguém,
as crises, seja ela de valores, educacional, ética, moral, econômica, política, etc. Dentre
outras coisas, percebe e vivencia a violência cotidiana, muitas vezes banalizada, o
92

individualismo e consumismo exacerbado, a problemática das drogas, o stress de cada


dia e o desemprego.
O senso comum costuma estigmatizar o individuo nessa etapa da vida, com
ênfase nos dados de gravidez na adolescência, doenças sexualmente transmissíveis,
infrações cometidas, o uso abusivo de tabaco e álcool, além das drogas ilícitas. Porém,
é preciso compreender as trajetórias de vida de cada adolescente para identificar as
razões e reverter à falta de acesso a direitos básicos que levam a estatísticas
devastadoras. Contribuem para essa visão estereotipada da adolescência estudos que
se restringem a explicá-la por meio de questões biológicas que levariam a uma
“explosão de hormônios” e confusão mental. É importante continuar investindo no
desenvolvimento de meninos e meninas, porque é na adolescência que os jovens
contam com um imenso potencial para transformações positivas, além da necessidade
de proteção e orientação para a sobrevivência.
É difícil pensar a sociedade sem trazer à cena os meios de comunicação social.
Através da televisão, o adolescente ingressa numa esfera pública que é comum ao
adulto. Nesse contexto, torna-se fundamental fornecer subsídios para que os jovens
questionem as ideologias que norteiam a produção midiática e estejam conscientes dos
fatores que influenciam seu conteúdo. É preciso também que a juventude conheça as
possibilidades de interagir com essas produções. Na medida em que, os jovens de
gerações recentes estão fortemente expostos às mensagens veiculadas pela televisão,
torna-se fundamental discutir a leitura desse meio, tendo em vista suas múltiplas
possibilidades de influência sobre o desenvolvimento adolescente.
Esse adolescente se encontra imerso nas solicitações de uma mídia que, a todo
o momento, coloca-o diante de apelos cada vez mais amplos, profundos e sutis ao
consumo desenfreado de bens e serviços. Por outro, num contexto inibidor de
oportunidades reais de inclusão, onde ele vê restritas suas possibilidades de acesso
aos objetos de desejo. O consumismo acaba por valorizar e criar uma ausência de
limites aos desejos individuais. O jovem é estimulado a consumir, através da
publicidade constante na mídia, especialmente a televisionada. O aqui e o agora da
realização dos desejos individuais, alguns dos quais impossíveis no atual quadro de
baixos salários, diminuição do crescimento industrial e valorização da qualificação para
93

uma carreira profissional de ascensão social, alia-se ao vazio criado pela


desmoralização das palavras e das regras de convivência respeitosas no país.
Quando os jovens visitam outros espaços fora da periferia, eles sofrem com o
olhar da discriminação. Um exemplo típico é quando eles vão ao shopping e o
segurança os aborda perguntando o que estão fazendo ali. De certa forma, o consumo
está diretamente ligado ao preconceito.
Esses jovens estão em posição de fraqueza absoluta, isolados, segregados,
confinados em suas comunidades, obrigados ao consentimento da realidade imposta.
Eles sabem que foram excluídos da sociedade, estão sem trabalho, sem dinheiro e sem
perspectiva de futuro. Sem energia, a revolta e o abatimento tomam conta. Por isso,
investir no desenvolvimento dos adolescentes torna-se ainda mais urgente ao
considerarmos que a essa geração caberá encontrar soluções para os desafios da
contemporaneidade, como a crise financeira mundial, o desemprego estrutural, a
mudança climática que gera degradação ambiental, a urbanização e migração, o
envelhecimento das sociedades, a pandemia do HIV. Investir em boas práticas de
participação e fortalecimento das capacidades adolescentes voltadas a prepará-los
para a vida adulta, para a conquista da cidadania plena e do desenvolvimento integral.
Teoricamente, a escola teria condições de executar a tarefa de educar para a
televisão. Diante das especificidades desse meio de comunicação de massa, a escola
deveria integrar ao ensino as novas linguagens e os novos modos de expressão. O
sistema de ensino é percebido como fechado, autoritário, e pouco participativo, mas
esse paradigma deve ser transformado por meio do trabalho dos educadores, que
devem apoiar-se em elementos sociais, do cotidiano das famílias. Na prática, o
professor poderia usar a telenovela para a análise dos personagens, das cenas,
situações, opiniões e valores contidos na história, as mudanças dos personagens no
decorrer da trama e a importância do clímax para o enredo da telenovela.
O encontro da imagem com a palavra e a importância dos apelos visuais dentro
da telenovela podem demonstrar o sentido das palavras e das ações. A luz, os
vestuários, o cenário interno e externo, o tempo da história, etc, tudo isso deve ser
explorado e interpretado sob a orientação do professor. Não podemos excluir a
telenovela do contexto da sala de aula. A TV não é perfeita e o sistema educativo não
94

vai mudá-la. Então, a escola deve usar esse recurso em benefício aos alunos. As
telenovelas podem ajudar os professores a aguçar o interesse dos jovens em aprender
e a reforçar o papel educador da ficção, quando trazida para a realidade.
95

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