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JÜRGEN HABERMAS

ENTRE NATURALISMO E RELIGIÃO.


DEDALUS - Acervo - FFLCH-HI
ESTUDOS FILOSÓFICOS
21200052008

C1P-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS. RJ
H119e Habermas, Jürgen, 1929-
Entre naturalismo e religião: estudos filosóficos / Jürgen
Habermas; (tradução Flávio Beno Siebeneichler). - Rio
de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007. SBD-FFLCH-USP

400 p.; - (Biblioteca Colégio do Brasil; 14)


Tradução de Zwischen Naturalismus und Religion. 325428
Philosophische Aufsatze.
ISBN 978-85-282-0141-3
1. Metafísica. 2. Religião - Filosofia. 3. Naturalismo.
4. Tolerância religiosa. 5. Solidariedade. I. Título. II. Série.
07-1889 CDD 110
CDU 11

Tempo Brasileiro
BIBLIOTECA COLÉGIO DO BRASIL - l i
Diretor
EDUARDO PORTELLA
Professor da
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Traduzido do original alemão SUMÁRIO
Jürgen Habermas. Zwischen Naturalismus und Religion.
Philosophische Aufsatze
Introdução 7
© Copyright
SUHRKAMP VERLAG I. A constituição intersubjetiva do espírito que se guia
Frankfurt am Main, 2005 por normas 15
(Todos os direitos reservados) 1. Espaço público e esfera pública política. Raízes
biográficas de dois motivos de pensamento 15
Tradução 2. Agir comunicativo e razão destranscendentalizada 31
FLÁVIO BENO SIEBENEICHLER 3. Sobre a arquitetônica da diferenciação do discurso.
Capa e Diagramação Pequena réplica a uma grande controvérsia 91
JUNIA CAMARINHA DA SILVA
II. Pluralismo religioso e solidariedade de cidadãos do
Estado 115
4. Bases pré-políticas do Estado de direito democrático ..115
5. Religião na esfera pública. Pressuposições cognitivas
para o "uso público da razão" de cidadãos seculares e
religiosos 129
III. Naturalismo e religião 169
Direitos reservados a 6. Liberdade e determinismo 169
EDIÇÕES TEMPO BRASILEIRO LTDA. 7. "Eu mesmo sou um bocado de natureza" - Adorno
Rua Gago Coutinho, 61 - Laranjeiras sobre o enlaçamento entre razão e natureza.
CEP: 22221-070 - CP 16.099 Considerações sobre a relação entre liberdade e
Telefax: (21) 2205-5949
Rio de Janeiro - RJ - Brasil indisponibilidade 203
e-mail: tb@tempobrasileiro.com.br 8. A fronteira entre fé e saber. Sobre o alcance e a importância
2007 histórica da filosofia da religião, de Kant 235
IV. Tolerância 279
9. A tolerância religiosa como precursora de direitos
culturais 279
10. Direitos culturais iguais - e os limites do liberalismo
pós-moderno 301
11. Uma constituição política para a sociedade mundial
pluralista? 348
INTRODUÇÃO
Sobre os capítulos deste livro 393
Duas tendências contrárias caracterizam a situação cultural
Registro de nomes 395 da época atual - a proliferação de imagens de mundo naturalistas
e a influência política crescente das ortodoxias religiosas.
De um lado, dominam a cena os progressos na área da
biogenética, nas pesquisas sobre o cérebro e na robótica, que são
impulsionados por esperanças terapêuticas e eugênicas. O conjunto
desses programas se destina à propalação, nos próprios contextos
da ação e da comunicação, de uma autocompreensão objetivada
das pessoas nos moldes das ciências naturais. O adestramento numa
perspectiva de auto-objetivação capaz de reduzir tudo o que é viven-
ciável e compreensível a algo observável poderia estimular,
outrossim, a disposição a uma correspondente auto-instrumen-
talização.' A luz da filosofia, é possível afirmar que tal tendência
vem associada ao desafio de um naturalismo cientificista. O que
se discute não é o fato de que todas as operações do espírito humano
dependem de um substrato orgânico. Já que o motivo da
controvérsia tem a ver, antes, com o modo correto de naturalização
do espírito. Uma compreensão naturalista adequada da evolução
cultural tem de fazer jus, não somente à constituição intersubjetiva
do espírito, mas também ao caráter normativo de suas operações
orientadas por regras.

1 Cf. HABERMAS, J. Die Zukunft dermenschlichen Nalur. Ed. ampliada, Frank-


furt/M.: Suhrkamp, 2002.

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De outro lado, aumenta inesperadamente a tendência à difusão humanos, do aborto ou do tratamento de pacientes que se encontram
de imagens de mundo naturalistas e se constata uma politização, em coma - se polariza de modo irreconciliável fixando-se na
em escala mundial, de comunidades de fé e de tradições religiosas. antinomia "secular/religioso" coloca em xeque o Commonsense
Na perspectiva da filosofia, o reavivamento de forças religiosas dos cidadãos, mesmo dos que residem numa das mais antigas
que parece acontecer em todos os países, menos na Europa, democracias. O etos do cidadão liberal exige, de ambos os lados, a
significa o desafio de uma crítica fundamental à autocompreensão certificação reflexiva de que existem limites, tanto para a lê como
pós-metafísica e não religiosa da modernidade ocidental. A para o saber.
controvérsia não gira em torno do fato de que as possibilidades de O exemplo recente dos Estados Unidos sinaliza que a invenção
uma configuração política só se dão no interior do universo das do Estado constitucional moderno também deve servir para a
infra-estruturas técnico-científicas e econômicas surgidas no criação de possibilidades para um pluralismo religioso pacífico.
Ocidente e para as quais não existem alternativas. O alvo dos Somente o exercício de um poder secular estruturado num Estado
debates passa a ser, acima de tudo, a interpretação correta das de direito, neutro do ponto de vista das imagens de inundo, está
conseqüências da secularização oriundas de uma racionalização preparado para garantir a convivência tolerante, e com igualdade
social e cultural, a qual sofre ataques cada vez mais acirrados por de direitos, de comunidades de fé diferentes que, na substância de
parte dos defensores das ortodoxias religiosas por constituir o suas doutrinas e visões de mundo continuam irreconciliáveis. A
caminho privilegiado da história mundial do Ocidente. secularização do poder do Estado e as liberdades positivas e
Tais tendências intelectuais, que caminham em sentido negativas do exercício da religião constituem que dois lados dc
contrário, têm suas raízes em tradições opostas. O naturalismo uma mesma medalha. No passado, elas protegeram comunidades
enrigecido pode ser entendido como uma conseqüência das religiosas, não somente das conseqüências destrutivas resultantes
premissas o Iluminismo - que vivia da fé na ciência; já uma de conflitos sangrentos que irromperam entre elas, mas também
consciência renovada pela política rompe com as premissas liberais de um modo de pensar, inimigo da religião, difundido numa
da ciência. Em que pese isso, tais figuras do espírito não se sociedade secular. Não obstante isso, a tarefa do Estado
digladiam apenas nos espaços das controvérsias acadêmicas, já constitucional, que consiste na proteção de seus cidadãos, sejam
que se transformam em forças políticas - seja no âmago da eles religiosos ou não-religiosos, não poder ser cumprida quando
sociedade civil da nação líder do Ocidente, sejam em escala estes, no seu convívio cidadão, têm de se contentar apenas com
internacional, no encontro das religiões mundiais e das culturas um determinado modus vivendi: é necessário que eles estejam, além
que dominam o mundo. disso, convictos da necessidade de viver em uma ordem
Na visão de uma teoria política que trabalha com fundamentos democrática. O Estado democrático alimenta-se de uma
normativos e com as condições de funcionamento de Estados de solidariedade de cidadãos que se respeitam reciprocamente como
direito democráticos, tal oposição deixa transparecer, além disso, membros livres e iguais de uma comunidade política. Ora, tal
uma cumplicidade secreta: quando nenhuma das duas tendências solidariedade não brota das fontes do direito.
que caminham em sentido contrário está disposta à auto-reflexão, Na esfera pública política, tal solidariedade de cidadãos de
suas respectivas polarizações das imagens de mundo colocam em um Estado, a qual é arrecadada em pequenas doses, tem de se
risco, cada uma à sua maneira, a coesão da comunidade política. comprovar para além dos limites fixados pelas visões de mundo.
Uma cultura política que - em questões de pesquisa de embriões O reconhecimento recíproco pode significar, por exemplo, que
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cidadãos seculares e religiosos estejam dispostos a se ouvirem a tais perguntas obrigam-nos naturalmente a recorrer à perspectiva
mutuamente em debates públicos e a aprenderem uns com os interna daquelas tradições que, por este caminho, encontram uma
outros. Além disso, na virtude política do relacionamento civil maneira de se ligar às condições da vida moderna.
recíproco manifestam-se determinados enfoques cognitivos que Em síntese, a formação da opinião e da vontade na esfera
não podem ser impostos de cima para baixo, apenas aprendidos. pública democrática só pode funcionar realmente quando uni
Tal circunstância envolve, no entanto, uma conseqüência de grande número relativamente grande de cidadãos do Estado consegue
interesse em nosso contexto. A proporção que o Estado liberal satisfazer a determinadas expectativas vinculadas à civilidade de
estimula seus cidadãos a adotarem um comportamento cooperativo seu comportamento apesar das diferenças profundas da fé e das
que ultrapassa as fronteiras das cosmovisões, ele tem de pressupor cosmovisões. Não obstante isso, os cidadãos religiosos só podem
que os enfoques cognitivos exigidos de ambos os lados, isto é, do ser confrontados com isso quando for possível supor que eles
cidadão secular e do religioso, já se formaram como resultado de preenchem concretamente os pressupostos cognitivos requeridos
processos de aprendizagem históricos. E processos de para tal. Eles têm de aprender a relacionar, de modo reflexivo e
aprendizagem de tal envergadura não consistem apenas em compreensível, suas próprias convicções de fé com o fato do
modificações fortuitas de uma certa mentalidade que "ocorrem" pluralismo religioso e cultural. Além disso, é preciso encontrar
independentemente de compreensões racionais, as quais podem uma forma de colocar o privilégio cognitivo das ciências
ser repetidas a bel-prazer. Tampouco eles podem ser reproduzidos institucionalizadas socialmente bem como a precedência do Estado
ou controlados por meios tais como o direito ou a política. Visto secular e da moral social universalista em consonância com sua
que o Estado liberal depende, no longo prazo, de mentalidades fé. A filosofia, ao contrário da teologia, a qual se liga à lê das
que ele não é capaz de produzir com recursos próprios. comunidades, não encontra nenhuma possibilidade de influenciar
Isso se torna patente quando pensamos nas expectativas de tal processo. Nesse contexto, ela se limita a assumir o papel de um
tolerância a que os cidadãos religiosos têm de fazer jus no Estado observador que se encontra do lado de fora e que não possui
liberal. Modos de pensar fundamentalistas não se conciliam com competência para julgar sobre o que vale e o que não pode valer
a mentalidade a ser compartilhada por um grande número de como argumento no âmbito de uma doutrina religiosa.
cidadãos quando pretendem manter coesa a comunidade A filosofia somente entra em campo quando se trata de um
democrática. Na perspectiva da história da religião, os enfoques jogo secular. Porquanto os próprios cidadãos não-religiosos, no
cognitivos que os cidadãos religiosos precisam assumir no seu momento em que pretendem preencher as expectativas de uma
relacionamento civil com crentes de outras religiões e com não- solidariedade cidadã, são levados a assumir um determinado
crentes podem ser interpretados como resultado de um processo enfoque cognitivo em relação aos concidadãos religiosos e às suas
de aprendizagem coletivo. No Ocidente cristão, a teologia assumiu respectivas exteriorizações. Quando os dois lados se encontram,
um papel pioneiro no trabalho de auto-reflexão hermenêutica sobre na confusão de vozes de uma esfera pública pluralista do ponto de
doutrinas oriundas da tradição. Será que a elaboração dogmática vista das visões de mundo, a fim de discutir sobre questões políticas,
dos desafios cognitivos representados pela ciência moderna e pelo a exigência de respeito mútuo impõe certos deveres epistêmicos.
pluralismo religioso, pelo Estado constitucional e pela moral social Os próprios participantes que se expressam numa determinada
secular, terá sido "bem-sucedida"? Será que ela veio acompanhada linguagem religiosa alteiam a pretensão de serem levados a sério
de "processos de aprendizagem" em geral? As possíveis respostas por seus concidadãos seculares. Por conseguinte, estes últimos não

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podem negar a priori a possibilidade de um conteúdo racional duas partes vai ter razão no final. O secularismo que emoldura a
inerente às contribuições formuladas numa linguagem religiosa. imagem de mundo científica insiste na idéia de que as formas de
É bem verdade que, no entender das constituições democrá- pensamento arcaicas contidas nas doutrinas religiosas foram
ticas em geral, todas as leis, todas as decisões judiciais, todos os superadas e desvalorizadas de forma global e total pelos progressos
decretos e medidas são formulados numa linguagem pública, ou do conhecimento e da pesquisa estabelecida. Não obstante isso, o
melhor, acessível a todos os cidadãos o que implica o fato de pensamento pós-metafísico não-derrotista estabelece relações
poderem ser alvo de uma justificação secular. Entretanto, ao nível falibilistas com os dois lados - e o faz estribando-se numa reflexão
de uma troca informal de opiniões, o que também faz parte da sobre os próprios limites e numa tendência à superação de limites,
esfera pública política, os cidadãos e as organizações da sociedade inserida nele mesmo. Porque ele desconfia tanto das sínteses das
civil ainda se encontram aquém do umbral institucional do poder ciências naturais como das verdades reveladas.
de sanção de um Estado. Aqui, a formação da opinião e da vontade A polarização entre visões de mundo religiosas e seculares,
não pode ser canalizada por meio de censuras à linguagem nem que coloca em risco a coesão entre os cidadãos, é o objeto de uma
isolada das possíveis fontes geradoras de sentido. 2 Neste contexto, teoria política. Entretanto, tão logo atentamos para os pressupostos
o respeito que os cidadãos secularizados devem manifestar pelos cognitivos das condições de funcionamento da solidariedade de
concidadãos crentes possui, além disso, uma dimensão epistêmica. cidadãos de um Estado, temos de transportar a análise para um
De outro lado, o que se espera de cidadãos seculares, isto é, a ouüo plano. Já que a superação reflexiva da consciência secularista,
disposição para aceitar a possibilidade de um conteúdo racional do mesmo modo que a consciência religiosa na era da modernidade,
nas contribuições religiosas e a vontade de participar da tradução possui um lado epistemológico. O modo de caracterizar esses dois
cooperativa dos conteúdos dos idiomas religiosos para uma processos de aprendizagem, complementares, revela uma descrição
linguagem acessível a todos, só pode ser exigido deles à luz de um distanciada, levada a cabo na perspectiva de um observador pós-
pressuposto cognitivo, o qual, no entanto, é contestado. Porquanto, metafísico. Ao passo que na perspectiva de participantes, entre os
na linha de um pensamento secular, o conflito entre convicções quais se coloca o próprio observador, desencadeia-se uma disputa.
seculares e doutrinárias só pode assumir prima facie o caráter de Os pontos controversos são claros. Por um lado, a discussão tem
um dissenso racional quando for possível pensar que as tradições como objeto o modo correto de naturalização de um espírito cuja
religiosas não são simplesmente irracionais ou absurdas. Somente estrutura é, por natureza, intersubjetiva e regulada por normas.
sob tal pressuposto, os cidadãos não-religiosos podem tomar como Por outro lado, existe uma disputa pela compreensão correta do
ponto de partida a idéia de que as grandes religiões mundiais impulso cognitivo inerente ao surgimento das religiões mundiais
poderiam carregar consigo intuições racionais e momentos em meados do primeiro milênio antes de Cristo - Karl Jaspers
instrutivos de exigências não quitadas, porém, legítimas. caracteriza tal época como "era axial" (Achsenzeit).
Isso tudo constitui, é verdade, objeto de uma discussão aberta Nessa contenda, defendo a tese hegeliana, segundo a qual, as
que não pode ser prejulgada por nenhum tipo de princípios grandes religiões constituem parte integrante da própria história
constitucionais. Além disso, ninguém sabe de antemão qual das da razão. Já que o pensamento pós-metafísico não poderia chegar
a uma compreensão adequada de si mesmo caso não incluísse na
2 HABERMAS, J. "Glauben und Wissen", in: id., Zeitdiagnosen. Frankfurt/M.: própria genealogia as tradições metafísicas e religiosas. De acordo
Suhrkamp, 2003. com tal premissa, seria irracional colocar de lado essas tradições
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"fortes" por considerá-las um resíduo arcaico. Tal "desleixo" terceira parte se aglutinam em uma tentativa de abordar o tema
significaria a impossibilidade de qualquer tentativa de explicação epistemológico e de explicar a posição do pensamento pós-
do nexo interno que liga essas tradições às formas modernas de metafísico, o qual julga poder colocar-se entre a religião e o natura-
pensamento. Até o presente, as tradições religiosas conseguiram lismo. As três contribuições finais retomam, por seu turno, temas
articular a consciência daquilo que falta. Elas mantêm viva a da teoria política. Neles me interesso especialmente por correspon-
sensibilidade para o que falhou. Elas preservam na memória dências entre tentativas nacionais destinadas a dominar o pluralismo
dimensões de nosso convívio pessoal e social, nas quais os das religiões e das visões de mundo, bem como os esboços de uma
progressos da racionalização social e cultural provocaram danos constituição política destinada a uma sociedade mundial
irreparáveis. Que razão as impediria de continuar mantendo pacificada.4
potenciais semânticos cifrados capazes de desenvolver força
inspiradora - depois de vertidas em verdades profanas e discursos Starnberg, março de 2005
fundamentadores? JÜRGEN HABERMAS
O presente volume reúne estudos que se dedicam a tais
questionamentos. Foram elaborados durante os últimos anos, em
diferentes circunstâncias, obedecendo a motivos diversificados.
Não formam, por tal motivo, um conjunto sistemático. Mesmo
assim, é possível descobrir, por trás das diferentes contribuições,
a intenção de tratar dos desafios do naturalismo e da religião, que
são complementares, bem como a insistência pós-metafísica no
sentido de uma razão destranscendentalizada.
Os estudos e comentários da primeira parte relembram o
princípio intersubjetivista destinado à construção de uma teoria
do espírito, que eu persigo há muito tempo. Na linha de um
pragmatismo que cria elos entre Kant e Darwin\ é possível, com o
auxílio de pressupostos idealizadores, desinflacionar as idéias
platônicas sem que haja necessidade de inflacionar, por outro lado,
o antiplatonismo a ponto de reduzir as operações do espírito,
orientadas por regras, a regularidades explicáveis nomologica-
mente. Os estudos da segunda parte desenvolvem o questionamento
central que há pouco esboçamos, na perspectiva de uma teoria
normativa do Estado constitucional. Ao passo que os textos da
4 Na última contribuição eu retomo questões da constitucionalização do direito
3 Cf. a introdução a HABERMAS, J. Wahrheit und Rechtferligung, Frankfurt/ internacional (direito das gentes). Cf. o ensaio correspondente in HABERMAS,
M.: Suhrkamp, 1999. 7-64. J. Dergespaltene Wesien. Frankfurt/M.: Suhrkamp, 2004, 113-193.

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I. A CONSTITUIÇÃO INTERSUBJETIVA
DO ESPÍRITO QUE SE GUIA POR NORMAS
1. ESPAÇO PÚBLICO E ESFERA PÚBLICA POLÍTICA.
RAÍZES BIOGRÁFICAS DE DOIS MOTIVOS DE PENSAMENTO.

Foi-me encaminhado o pedido para transmitir, numa linguagem


compreensível ao público em geral, algo sobre o caminho trilhado
por minha vida e sobre minhas experiências de vida que pudesse ser
tido na conta de instrutivo. Confesso que tal pedido me coloca numa
situação embaraçosa. A exigência do Presidente Inamori, dirigida aos
agraciados com o prêmio, foi a seguinte: "Falem, por favor, sobre
vocês mesmos" - "Digam-nos como conseguiram superar
dificuldades, e que idéia serviu de orientação nas encruzilhadas da
vida?" Convém lembrar, entretanto, que a vida dos filósofos é, em
geral, muito pobre em termos de eventos de grande repercussão. Já
que esses eventos transcorrem, por via de regra, em um plano geral.
Por este motivo, eu peço licença para deter-me, inicialmente, nas
inibições de uma esfera privada fazendo uma referência geral à relação
entre o privado e o público.
Para chegar a esse ponto, é útil uma distinção entre dois tipos de
esfera pública. Em nossa sociedade, dominada pela mídia, a esfera
pública serve, em primeiro lugar, como espaço da auto-apresentação
daqueles que se destacam na sociedade por uma razão ou por outra. A
finalidade das aparições em público reside na visibilidade ou na
notoriedade. Astros e estrelas pagam por este tipo de presença nos
meios de comunicação de massa o preço de uma confusão entre a sua

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vida privada e pública. Já a participação em controvérsias políticas, a esfera pública, entendida como espaço do trato comunicativo e
científicas ou literárias possui outra finalidade. Aqui, o entendimento racional entre as pessoas, é o tema que me persegue a vida toda. De
sobre um tema substitui a auto-apresentação pessoal. Nesse caso, o fato, a tríade constituída pela esfera pública, pelo discurso e pela razão
público não configura um espaço de ouvintes ou espectadores, mas o dominou minha vida política e meu trabalho científico. Toda a
espaço para falantes e destinatários que se interrogam mutuamente e obsessão, no entanto, possui raízes na história de uma vida. No meu
que tentam formular respostas. Trata-se de uma troca de argumentos, caso, parece que quatro experiências se destacam: (1) Após o
não da concentração de olhares. Os que participam de discursos e se nascimento e nos primeiros anos da infância, passei pela experiência
concentram num tema comum voltam, por assim dizer, as costas à traumática de intervenções cirúrgicas. (2) O currículo de muitos
sua vida privada. Eles não sentem necessidade de falar de si mesmos. filósofos revela certas experiências provocadas por doenças. Após
As esferas pública e privada não se misturam, mas assumem uma minha matrícula na escola, lembro-me de dificuldades de comunicação
relação de complementaridade. e de melindres em conseqüência de minha deficiência física. (3) Du-
Tal tipo de objetividade pode explicar por que nós, professores rante a adolescência fui marcado pela cesura do ano de 1945 que
de filosofia, ao falarmos sobre Aristóteles, Tomás de Aquino ou Kant, atingiu toda minha geração. (4) No decorrer de minha vida adulta
nos limitamos a fornecer os dados biográficos sumários: quando passei por inquietações provocadas pelas experiências políticas de
nasceram, onde viveram e quando morreram. Até episódios turbulentos uma liberalização periclitante e gradativa da sociedade alemã do pós-
na vida desses filósofos passam para segundo plano, abrindo espaço guerra. Permitam-me, pois, elucidar certas suposições sobre eventuais
para sua obra. Isso porque a vida dos filósofos não possui nenhuma ligações entre teoria e história de vida.
característica capaz de transformá-la em uma lenda de santos. O que
resta deles é, no melhor dos casos, um novo pensamento, muitas vezes (1) Logo após o parto, fui submetido a uma cirurgia. Apesar de
enigmático, que vai ocupar as mentes das gerações futuras. Em nossa suposições em contrário, eu não creio que tal intervenção tenha abalado
especialidade, caracterizamos como clássico aquele pensador que definitivamente minha confiança no mundo ambiente. De qualquer
continuou sendo nosso contemporâneo por meio de sua obra. O forma, essa intervenção poderia ter despertado, também, o sentimento
pensamento de tal clássico é similar ao núcleo incandescente de um de dependência e o sentido para a relevância do trato com outros. O
vulcão cujas escórias se sedimentaram formando os anéis de sua fato é que, mais tarde, a natureza social do homem tornou-se um dos
biografia. Tal imagem é sugerida pelos grandes pensadores do passado pontos de partida de minhas reflexõesfilosóficas.Existem muitas
cuja obra resistiu incólume às mudanças dos tempos. De outro lado, espécies de animais que vivem em sociedade. Inclusive os macacos,
permanecemos nós, os filósofos vivos - que somos muito mais nossos parentes mais próximos, vivem em hordas e formas de
professores de filosofia do quefilósofos- contemporâneos de nossos socialização familiais - desconhecendo, no entanto, os complexos
contemporâneos. E quanto menos originais os nossos pensamentos, sistemas de parentesco que somente o homo sapiens conseguiu
tanto mais eles se apegam ao seu respectivo contexto de surgimento. inventar. O que caracteriza o homem não são as formas de convivência
Muitas vezes, eles não passam de uma simples expressão da história social em geral. Para descobrirmos as características específicas da
da vida à qual pertencem. sua natureza social temos de traduzir textualmente a famosa formulação
Por ocasião do meu septuagésimo aniversário, meus discípulos de Aristóteles, segundo a qual, o homem é um zoon politikón: o homem
redigiram uma "Festschrift" intitulada: A esfera pública da razão e a é um animal político, isto é, um animal que vive num espaço público.
razão da esfera pública. A escolha do título foi muito boa porquanto Em uma formulação mais precisa teríamos de afirmar: o homem é
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um animal que, graças à sua inserção originária numa rede pública de exterior estranho. A oposição abstrata entre sujeito e objeto, entre um
relações sociais, consegue desenvolver as competências que o "dentro" e um "fora", engana, porquanto o organismo do recém-
transformam em uma pessoa. Quando comparamos entre si os nascido só consegue formar-se como homem mediante a assunção de
equipamentos biológicos de mamíferos recém-nascidos descobrimos interações sociais. Ele só se toma uma pessoa quando entra no espaço
que nenhuma outra espécie vem ao mundo tão carente de cuidados público de um mundo social que o espera de braços abertos. E tal
como o homem e que nenhuma espécie necessita de um período tão elemento público de um interior, habitado em comum, isto é, do mundo
longo de educação no seio de uma família e de uma cultura pública da vida, é simultaneamente interior e exterior.
compartilhada intersubjetivamente pelos semelhantes. Nós, homens, Por isso, a pessoa adolescente só consegue formar o centro inte-
aprendemos uns dos outros. E isso só é possível no interior de um rior de uma vida vivenciada de modo consciente à proporção que se
espaço público, capaz de fornecer estímulos culturais. aliena nas relações interpessoais criadas de modo comunicativo. A
Ao completar cinco anos, a cirurgia do palato teve de ser repetida. consciência, que apenas na aparência éprivada, continua a alimentar-
Nessa época, a consciência já tinha despertado e se agudizou se, mesmo nas exteriorizações de suas sensações pessoais e
certamente assumindo a forma de uma consciência da radical movimentos íntimos, dos fluxos da rede cultural de pensamentos
dependência de uns em relação aos outros. Em todo o caso, tal públicos, expressos de modo simbólico e compartilhados intersubje-
sensibilização surgida por ocasião da reflexão sobre a natureza social tivamente. A atual retomada da imagem cartesiana das mônadas da
do homem conduziu-me aos princípios filosóficos que destacam a consciência, pelas ciências da cognição, gera confusões, já que estas
constituição intersubjetiva do espírito humano, ou seja: à tradição ciências as interpretam como mônadas fechadas recursivamente em
hermenêutica que remonta a Wilhelm von Humboldt, ao pragmatismo si mesmas, as quais se encontram em uma relação opaca com o
americano de Charles Sanders Pierce e de George Herbert Mead, à substrato orgânico de seu cérebro e de seu genoma.
teoria das formas simbólicas, de Ernst Cassirer e à filosofia da Jamais consegui aceitar a idéia de que a autoconsciência constitui,
linguagem, de Ludwig Wittgenstein. por si mesma, um fenômeno originário. Ou não será verdade que nós
A intuição da dependência recíproca profunda de cada um em somente nos tomamos conscientes de nós mesmos nos olhares que
relação aos outros articula-se em uma "imagem" da "posição do um outro lança sobre nós? Nos olhares de um "tu", de uma segunda
homem no mundo". E tais paradigmas determinam, de um lado, nossa pessoa que fala comigo como uma primeira pessoa, eu me tomo
autocompreensão cotidiana. Porém, eles também proporcionam, consciente de mim mesmo, não somente como um sujeito capaz de
muitas vezes, as coordenadas para uma série inteira de disciplinas. vivenciar coisas em geral, mas também, e ao mesmo tempo, como
Tenho ante os olhos a imagem de uma subjetividade a ser representada um "eu" individual. Os olhares subjetivadores do outro possuem uma
como se fora uma luva virada do avesso, a qual põe à mostra a estrutura força individuadora.
de suas malhas tecidas com os fios da intersubjetividade. Porquanto o
espírito subjetivo obtém sua estrutura e seu conteúdo a partir de um (2) Minhas pesquisas tomam esse paradigma como fio condutor.
engate no espírito objetivo das relações intersubjetivas entre sujeitos O princípio da filosofia da linguagem e a teoria moral que desenvolvi
que por natureza são socializados. nesta linha poderiam ter-se inspirado em duas experiências pelas quais
O homem singular não se defronta com seu entorno social na passei durante a época da escola: (a) a de que os outros não me
condição de um simples organismo do entorno natural - como um entendiam (b) e a de que não aceitavam tal fato.
elemento interior que se delimita osmoticamente contra um mundo
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(a) Recordo-me bem das inúmeras dificuldades que sentia na Minha deficiência de linguagem também pode explicar, quiçá,
sala de aula e nos intervalos entre as aulas ao tentar me fazer entender. por que eu sempre estive convencido da superioridade da palavra
Hoje em dia, tenho certeza de que a causa residia numa nasalização e escrita. A forma escrita disfarça, talvez, a mácula da forma oral. Sempre
numa articulação distorcida de que eu não tinha consciência. Para me avaliei meus estudantes mais pelos trabalhos escritos do que pela sua
afirmar num espaço até certo ponto anônimo, tive de ultrapassar os participação em discussões nos seminários, por mais inteligente que
limites da família e da vizinhança familiar. Ora, comunicações mal- ela fosse. E, como podeis constatar, até o presente tenho receio de
sucedidas chamam a atenção para a realidade de um mundo falar em público sem o apoio de um texto escrito, apesar das
intermediário de símbolos que, de outra forma, seriam imperceptíveis desvantagens que isso acarreta para meus ouvintes. Tal retirada para a
e que não poderiam ser apreendidos na qualidade de objetos. Somente forma precisa da expressão escrita pode ter-me estimulado a uma
no fracasso se mostra o médium da comunicação lingüística como distinção teórica importante. No agir comunicativo nós nos
camada de uma comunhão sem a qual não podemos existir como comportamos, de uma certa forma, de modo ingênuo; ao passo que
indivíduos. Nós nos encontramos preliminarmente no elemento da no discurso nós trocamos razões e argumentos afimde examinar
linguagem. Somente os que falam podem calar. Nós podemos nos pretensões de validade que se tomaram problemáticas. E esse discurso
isolar porque somos ligados, naturalmente, com outros. tem por finalidade deixar vir à tona a "coação não-coativa" do melhor
Não obstante, osfilósofosnem sempre tiveram grande interesse argumento.
por esta força da linguagem, capaz de criar uma comunhão. Desde
Platão e Aristóteles, eles analisam a linguagem como médium da (b) Tal concepção auxiliou-me na elaboração teórica de uma
representação e investigam a forma lógica de proposições por meio experiência de vida permeada de melindres provocados por
das quais nos referimos a objetos e reproduzimos fatos. Não obstante discriminações mais ou menos inocentes que muitas crianças sofrem
isso, a linguagem existe, em primeira linha, para a comunicação, e na escola ou na ma pelo fato de serem diferentes das outras. Nesse
por ela, qualquer um pode tomar posição perante as pretensões de meio tempo, a globalização, o turismo em massa, a migração em escala
validade de um outro lançando mão de um "sim" ou de um "não". mundial, bem como o crescente pluralismo das visões de mundo e
Noutras palavras, nós necessitamos da linguagem, em primeiro lugar, das formas de vida culturais nos familiarizaram com tais experiências
para fins comunicativos; em segundo lugar a utilizamos para fins de exclusão de estranhos e de marginalização de minorias. Hoje em
puramente cognitivos. A linguagem não é o espelho do mundo, uma dia, cada um de nós é capaz de tecer uma imagem do que significa ser
vez que ela apenas nos franqueia um determinado acesso a ele. É um estrangeiro no exterior, um estranho entre estranhos ou um outro
certo que, ao dirigir nossos olhares ao mundo, ela o faz de um certo para outros. Tais situações despeitam nossas sensibilidades morais.
modo. Nela está inscrito algo que se parece com uma visão de mundo. Já que a moral constitui um dispositivo de proteção para a extrema
Felizmente, tal saber preliminar que adquirimos junto com o vulnerabilidade de indivíduos socializados comunicativamente - tecido
aprendizado de uma determinada linguagem não está definido de uma com os meios da comunicação.
vez por todas. Caso contrário, não poderíamos aprender nada de novo A proporção que a individuação avança para o interior, o
em nosso trato com o mundo e nos diálogos sobre ele. Ora, o que vale indivíduo enreda-se, cada vez mais, e como se fosse de dentro para
para as linguagens teóricas das ciências vale também no dia-a-dia: fora, em uma rede, cada vez mais densa e frágil, de relações de
nós temos condições de corrigir o significado de predicados e de reconhecimento recíproco. Com isso, porém, ele se expõe aos riscos
conceitos à luz de experiências que fazemos com o seu auxílio. de uma reciprocidade negada. A moral do igual respeito por cada um
22 23
pretende absorver tais riscos. Porquanto ela se coloca como objetivo as revelações sobre Auschwitz, tudo passou a ser interpretado a partir
precípuo eliminar a discriminação e incluir os marginalizados na rede de uma dupla base. O que tínhamos vivenciado, no contexto de uma
da consideração recíproca. Ora, normas da convivência capazes de infância ou adolescência mais ou menos normais, passou a ser visto,
fundar solidariedade, até mesmo entre estranhos, dependem de um a partir deste ponto, como um dia-a-dia à sombra de uma ruptura da
assentimento geral. Temos de aceitar entrar em discursos, a fim de civilização. Devido à minha idade, portanto, sem mérito algum de
desenvolver tais normas. Porque os discursos morais permitem a todos minha parte, tive a chance de poder aprender, sem reservas, com os
os atingidos tomar a palavra, de forma simétrica. Eles levam qualquer processos de Nürnberg contra os criminosos de guerra - nós
um dos participantes a adotar também a perspectiva do outro. acompanhávamos esses processos pelo rádio. Apropriamo-nos da
distinção sugerida por Karl Jaspers entre culpa coletiva e
(3) Até o momento, discorri sobre motivos pessoais de minha responsabilidade coletiva.
infância. Convém destacar, outrossim, que a cesura de 1945 enriqueceu Hoje em dia, esse hábito é analisado criticamente e está bem
minha geração dotando-a de uma nova experiência, sem a qual eu longe de ser considerado um mérito. O padrão de reação que
talvez não tivesse me encaminhado à filosofia nem à teoria da encontramos entre nossos coetâneos liberais, entre os da direita e da
sociedade. A sociedade e o regime de um dia-a-dia vivenciado mais esquerda, possui algo de coercitivo, típico da época. Naquele tempo,
ou menos como normal foram, da noite para o dia, desmascarados as noções de política e de moral, adquiridas sem nenhum dispêndio,
como patológicos e criminosos. Por isso, o confronto com a herança tinham a ver com o revolucionamento do modo de pensar em geral -
do passado nazista tornou-se um tema fundamental de minha vida com a abertura cultural para o Ocidente. Durante a época do nazismo,
política adulta. O interesse dirigido para o futuro, que tenta escapulir nós, que não tivemos conhecimento da era Weimar, crescemos em
desse olhar sobre o passado, tem a ver com condições de vida que se um ambiente pesado e permeado de ressentimento, orientado ao
subtraem da falsa alternativa entre "comunidade" e "sociedade". Eu monumentalismo, ao culto da morte e a um kitsch patriótico. Após
sonho com aquilo que Brecht caracteriza como formas "amigáveis" 1945, abriram-se as portas para a arte do expressionismo, para Kafka,
de convivência que não desperdiçam o ganho em termos de Thomas Mann e Hermann Hesse, para a literatura mundial anglo-
diferenciação, obtido pelas sociedades modernas, nem renegam a saxã, para a filosofia contemporânea de Sartre e dos católicos franceses
dependência recíproca de sujeitos que andam de rosto erguido - e que de esquerda, para Freud e para Marx, também para o pragmatismo de
precisam uns dos outros. um John Dewey, cujos discípulos influenciaram, de modo decisivo, a
reeducation. Além disso, o cinema contemporâneo trouxe mensagens
Poucos meses antes de completar dezesseis anos, a Segunda excitantes. O espírito revolucionário da modernidade encontrou sua
Guerra Mundial chegou ao fim. Minha adolescência - extremamente incorporação visual mais convincente no construtivismo de um
sensível e atenta - transcorreu durante os quatro anos que se passaram Moridrian, nas formas geométricas frias da arquitetura da Bauhaus e
até a fundação da República Federal, em 1949, ou até o início de no design industrial descompromissado.
meus estudos, no verão do mesmo ano de 1949. Eu tive a "sorte de ter A palavra mágica para mim era a "democracia", não o liberalismo
nascido mais tarde" - tive idade suficiente para acompanhar a virada anglo-saxão. As construções da tradição do direito da razão, às quais
histórica numa idade sensível à moral; era, porém, jovem demais para tive acesso, na época, pelo caminho de representações populares,
carregar o pesado fardo das circunstâncias políticas. Nós nem mesmo tinham ligações com as promessas de emancipação e com o espírito
fomos soldados. Não houve necessidade de assumir responsabilidade de advento (Aufbruch) da modernidade. E isso contribuiu, ainda mais,
por tomadas de partido falsas ou por erros políticos desastrosos. Após para que nós, estudantes, nos sentíssemos isolados em um ambiente
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pós-guerra que não tinha perdido nenhuma de suas feições autoritárias. O título do artigo, publicado num jornal, revela, apesar de tudo,
A continuidade das elites sociais e das estruturas preconceituosas de que o seu autor era discípulo de Heidegger: "Pensar com Heidegger
que Adenauer se serviu para conseguir a adesão à sua política era contra Heidegger". Hoje é possível inferir, a partir da escolha das
paralisante. Não tinha havido nenhuma ruptura, nenhum re-início citações, qual foi o elemento do texto de Heidegger que me deixou
pessoal e nenhuma mudança de mentalidade - nenhuma renovação nervoso. Foram principalmente quatro coisas: A ligação fatal da
moral e nenhuma transformação no modo de pensar político. conclamação heróica para o "poder criativo" com um culto da vítima
Compartilhei meu profundo desapontamento político com minha - o "sim mais amplo e profundo para o declínio" (Untergang). A
mulher, que conheci durante a época dos estudos. Ainda durante os seguir, o que me irritou foram os preconceitos "platonistas" do
anos 50, fomos alvo de ataques da autocompreensão elitista e, ao mandarim alemão que desvalorizava a "inteligência" em favor do
mesmo tempo, anti-política da universidade alemã, bem como da "espírito", a análise em favor do pensamento propriamente dito e que
ligação funesta entre nacionalismo e anti-semitismo burguês, a qual pretendia reservar a "uns poucos" a verdade esotérica. Também me
tinha desarmado intelectualmente, em 1933, nossos professores incomodavam os afetos anticristãos e anti-ocidentais que eram
acadêmicos ou os colocara diretamente nos braços dos nazistas. dirigidos contra o universalismo igualitário da Aufklãrung. A gota
Em tal clima, minhas convicções políticas, que tendiam mais d'água, no entanto, foi o fato de o filósofo nazista recusar a
para a esquerda, quase não tinham conseguido estabelecer um contato responsabilidade moral e política pelas conseqüências de uma
com o meu estudo de filosofia. Filosofia e política - dois universos de criminalidade de massa sobre a qual poucas pessoas falavam, oito
pensamentos - permaneceram separadas durante um longo período anos após o final da guerra. Na controvérsia que se seguiu, perdeu-se
de tempo. Entretanto, elas acabaram se chocando, num final de semana, de vista a interpretação formulada por Heidegger para estilizar o
no semestre de verão de 1953, quando meu amigo Karl-Otto Apel me fascismo transformando-o num "destino do ser" (Seinsgeschick)
colocou nas mãos um exemplar da Introdução à metafísica, de pessoal. Sabemos que ele tentou corrigir seu erro político - o qual
Heidegger, que acabara de ser impresso. Até esse momento, Heidegger trouxe inúmeras conseqüências - alegando ser simples reflexo de um
tinha sido, mesmo que à distância, o mentor principal. Eu tinha lido engano que não poderia ser imputado à sua pessoa.
Ser e tempo com os olhos de Kierkegaard. A ontologia fundamental
continha uma ética que apelava, no meu entender, à consciência indi- (4) Nos anos seguintes, consegui reconhecer com maior clareza
vidual e à veracidade existencial do indivíduo. Não obstante isso, esse qual era o elemento que unia espíritos tal como Heidegger, Carl
mesmo Heidegger publicara, sem retoque algum, os textos de aulas Schmitt, Emst Jünger ou Amold Gehlen. Todos eles alimentavam um
ministradas no ano de 1935. Ora, o vocabulário dessas aulas refletia o desprezo pela massa e pelo que é mediano, passando a celebrar o
endeusamento do espírito do povo, o coletivismo que se expressa na excepcional, o escolhido, o indivíduo orientado pelo poder, e rejeitavam
expressão festiva do "nós" e o consolo "Schlageter"'. Inopinadamente, o palavreado, a esfera pública e o que não é verdadeiro em sentido
o "Dasein do povo" ocupara o lugar do "Dosem" do indivíduo. Passei próprio (Uneigentlich). O silenciar é contraposto ao diálogo, a ordem
imediatamente para o papel o meu espanto ante tal fato. entre mando e obediência é contraposta à igualdade e à
autodeterminação. Desta maneira, o pensamento jovem-conservador
' Nota do trad.: Habermas refere-se aqui ao mito construído em torno de Albert definiu-se por meio de uma oposição rude ao impulso democrático
Leo Schlageter, patriota alemão católico, executado em Düsseldorf, em 26 básico que nos estimulava desde o ano de 1945. Aos meus olhos, essa
de maio de 1923, pelas tropas de ocupação francesas. "síndrome de Weimar" tomou-se um ponto de referência negativo a
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partir do momento em que, após a conclusão de meus estudos, passei é possível criar e reproduzir uma comunhão fragmentária, através do
a elaborar teoricamente o desapontamento tomando como ponto de processo de formação pública da opinião e da vontade. Já que é possível
referência o processo tenaz e sempre ameaçado de democratização da auscultar o estado de uma democracia sentindo as pulsações de sua
Alemanha no pós-guerra. O temor de que houvesse um retrocesso esfera pública política.
político acompanhou-me até os anos 80 transformando-se num Os professores não são, certamente, apenas cientistas que se
aguilhão para o trabalho científico - um trabalho que eu iniciara no envolvem em questões da esfera pública política na perspectiva de
final dos anos 50 ao publicar Mudança estrutural da esfera pública. um observador. Eles são também cidadãos da sociedade. E
Na qualidade de assistente de Theodor W. Adorno, eu tinha-me eventualmente tomam parte na vida política de seu país na qualidade
transformado num colaborador do Instituto de Frankfurt para Pesquisa de intelectuais. Eu mesmo participei, durante os anos 50, do protesto
Social. A Teoria Crítica da Sociedade ofereceu-me uma perspectiva pacífico da "Marcha da Páscoa"; e nos anos 60 tive que assumir uma
que permitia inserir no contexto mais amplo da modernização social posição pública ante o protesto dos estudantes. Nos anos 80 e 90
os inícios da democracia americana, francesa e inglesa, bem como os imiscuí-me em debates sobre a elaboração do passado nazista, sobre
impulsos fracassados da democracia na Alemanha. Naquela época, a desobediência civil, sobre o modo da reunificação, sobre a primeira
isto é, no final dos anos 50, a cultura política ainda não possuía entre guerra do Iraque, sobre a forma do direito de asilo político etc. Du-
nós raízes muito sólidas. Não havia garantias de que os princípios de rante os últimos dez anos, a maioria de minhas tomadas de posição
uma ordem democrática, que de certa forma foram impostos a partir têm a ver com questões da União Européia e da bioética. Após a invasão
de fora, iriam deitar raízes nas cabeças e nos corações das pessoas. E do Iraque - contrária ao direito das nações - trabalho com a idéia de
certamente uma tal mudança de mentalidade não poderia acontecer uma constelação pós-nacional tendo em vista o futuro do projeto
de modo isolado. Tampouco poderia ser imposta administrativamente. kantiano envolvendo uma ordem de cidadania mundial
Tal processo só poderia ser alavancado por uma formação vital e, (weltburgerlich). Estou mencionando tais atividades, já que pretendo
dentro das possibilidades, pública e discursiva, da opinião. deter-me, no final destas considerações, naquilo que consegui aprender
Por isso, minha atenção teórica dirigiu-se para a esfera pública sobre o papel do intelectual, levando em conta os meus erros e os
política. Sempre me interessei pelo fenômeno geral do "espaço erros de outros.
público" que surge até mesmo em interações simples porque nele a O intelectual deve fazer uso público do saber profissional que
intersubjetividade possui uma força misteriosa capaz de unir elementos possui, por exemplo, na qualidade defilósofo,escritor, físico ou
distintos mantendo, mesmo assim, a sua identidade. A análise de cientista social, independentemente de seus contratos pessoais ou de
espaços públicos permite decifrar estruturas da integração social. A instâncias superiores. Sem deixar de lado sua imparcialidade, ele tem
constituição dos espaços públicos revela, de preferência, características de manifestar-se à luz da consciência de sua falibilidade. Deve limitar-
anômicas da decomposição ou fraturas de uma socialização repressiva. se a temas relevantes e fornecer informações objetivas, além de bons
Nas condições de sociedades modernas, a esfera pública política da argumentos. Deve, por conseguinte, envidar esforços para melhorar o
comunidade democrática adquire um significado sintomático para a nível discursivo das controvérsias públicas, o qual é, ainda, lastimável.
integração da sociedade. Porquanto as sociedades complexas só podem Há outros pontos de vista que dificultam a tarefa do intelectual. Ele
ser mantidas coesas normativamente por meio de uma solidariedade trairá sua autoridade, nos dois sentidos, a partir do momento em que
entre cidadãos, extremamente abstrata e mediada pelo direito. Entre não conseguir mais separar, cuidadosamente, o seu papel profissional
cidadãos da sociedade que não podem mais conhecer-se pessoalmente, da sua função pública. Ele não pode utilizar, além disso, a influência
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que adquire mediante palavras para adquirir poder político, ou seja,
ele não deve confundir "influência" com "poder". E uma vez instalados
em cargos públicos, os intelectuais deixam de ser intelectuais.
Não é de admirar que, na maioria das vezes, nós fracassamos
perante tais critérios; tal fato, porém, não invalida os critérios.
Porquanto os intelectuais, que tantas vezes combateram os próprios
intelectuais ou os declararam mortos, não podem permitir-se, sob
hipótese alguma, o cinismo. 2. AGIR COMUNICATIVO E
RAZÃO DESTRANSCENDENTALIZADA.

Ao amigo Tom McCarthy, por ocasião do seu


sexagésimo aniversário.

No prefácio a Ideais and Illusions, Thomas McCarthy delineia


contornos de dois tipos de crítica aos conceitos de razão, kantianos,
cultivados a partir de Hegel; "On one side are those who, in the wakes
of Nietzsche and Heidegger, attack Kantian conceptions of reason
and the rational subject at their very roots; on the other side are those
who, in the wakes of Hegel andMarx, recast them in socio-historical
molds."[ As "idéias" mantêm, mesmo em suas formas
pragmaticamente dessublimadas, a dupla função original. Elas
continuam sendo utilizadas, de um lado, como norma da crítica. De
outro lado, porém, são desmascaradas como foco de uma ilusão tran-
scendental - ideais and illusions. McCarthy opõe-se, não somente a
uma desconstrução iconoclasta, [...] mas também a um tipo de
interpretação normativista que não se atreve a tocar nas ilusões da
razão pura. Mesmo após a guinada pragmática, ele continua levando
a sério as duas funções da razão, ou seja, tanto a função que coloca

1 MCCARTHY, T.A. Ideais and Illusions. Cambridge (Mass.), 1991, 2: "De um


lado encontram-se os que seguem as pegadas de Nietzsche e de Heidegger,
que os levam a acometer contra as concepções kantianas sobre a razão e o
sujeito na sua própria origem; do outro lado estão os que tentam remodelá-
las em dimensões sócio-históricas, seguindo o exemplo de Hegel e Marx".

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normas e possibilita a crítica, como a função camufladora, que desafia linha do pensamento pragmatista que vai de Peirce até Dewey (e, de
a autocrítica: "If we take a pragmatic turn, we can appreciate both uma certa maneira, até Wittgenstein). O sujeito finito encontra-se em
aspects of the social-practical ideas of reason: their irreplaceable "o mundo" sem perder inteiramente sua espontaneidade "capaz de
function in cooperative interaction and their potentialfor misuse."2 gerar mundos". Até esse ponto, a controvérsia entre McCarthy e os
Em outra passagem, McCarthy fala em "análogos prático-sociais discípulos de Heidegger, Dewey e Wittgenstein constitui uma briga
das idéias de razão, de Kant" (social-practical analogues of Kanls de família na qual se discute para saber qual dos lados está realizando
ideas of reason). Tal formulação tem a ver, propriamente, com três corretamente a destranscendentalização.4 Será que os vestígios de uma
pressuposições pragmático-formais do agir comunicativo, correferidas razão transcendente se perdem nas areias da contextualização e da
entre si, formando aspectos de uma razão dessublimada, incorporada historieização ou será que uma razão incorporada em contextos
na prática comunicativa cotidiana. São elas: a suposição comum de históricos consegue manter a força necessária para uma transcendência
um mundo objetivo, a racionalidade que sujeitos agentes se atribuem a partir dentro? Será que a cooperação entre sujeitos dotados da
mutuamente e a validade incondicional que eles reivindicam para suas faculdade de aprender continua mantendo, no interior de seus
asserções em atos de fala. "The idealizations of rational accountabil- respectivos mundos da vida, articulados de modo lingüístico, força
ity and real world objectivity both figure in our idealized notion of para modificar, de modo racionalmente motivado, a interpretação do
truth,for objectivity is the other side of the intersubjective validity of mundo? Será que a razão se encontra inteiramente à mercê do evento
certain types oftruth claims"? Com isso, a tensão transcendental en- de uma linguagem que apenas franqueia mundos (welterschliessend)
tre o ideal e o real, entre o reino do inteligível e o dos fenômenos ou será que ela continua sendo, ao mesmo tempo, uma força capaz de
emigra para a realidade social das instituições e das ações. McCarthy mover mundos (weltbewegend)T
atribui grande importância a essa transformação da razão "pura" em Ao menos um ponto é pacífico na disputa com os
razão "situada" e a contrapõe, a seguir, aos tipos de critica desestabili- desconstrutivistas, a saber, o questionamento enquanto tal. Todavia,
zadora e desmascaradora que são desenvolvidos, seja no estilo para os discípulos de Hume e, por conseguinte, para uma grande parte
objetivador, de Foucault, seja no estilo paradoxal, de Derrida (mesmo da filosofia analítica, a dialética entre linguagem desvendadora de
assim, McCarthy não se descuida da desconstrução das ilusões da mundos e processos de aprendizagem intramundanos nem sequer
razão que penetram até os capilares do discurso cotidiano). possui sentido. Ora, quando não aceitamos mais a idéia kantiana de
A tarefa de "situar a razão" foi interpretada como "destranscen- uma razão "formadora de mundo" nem a concepção de uma razão
dentalização" do sujeito cognoscente, a qual se realiza, seja na linha cognitiva (Verstand) que "constitui" os objetos da experiência possível,
do pensamento histórico que vai de Dilthey até Heidegger, seja na não pode haver razões para se falar numa destranscendentalização da
"consciência" de sujeitos agentes e cognoscentes; e há menos razões
2 Ibid., p. 4: "À luz de uma guinada pragmática podemos avaliar dois aspectos
das idéias prático-sociais da razão, a saber, sua função insubstituível na 4 Não é necessário retomar aqui uma briga dentro da briga em família. Cf.
interação cooperativa e o seu potencial para um mau uso". MCCARTHY, T. "Practical Discourse: On the Relation of Morality to Poli-
1 HOY, D. C. e MCCARTHY, T. A. Criticai Theory. Oxford, 1994, 39: "Tanto ties", in: id. (1991), 181-199; MCCARTHY, T. "Legitimacy and Diversity",
as idealizações de imputabilidade racional como a objetividade do mundo in: ROSENFELD, M. e ARATO, A. (eds.). Habermas on Law and Democracy.
real figuram em nossa noção idealizada da verdade, pois a objetividade é o Berkeley, 1998, 115-153; minha resposta encontra-se, in ibid., 391-404.
outro lado da validade intersubjeti va de certos tipos de pretensões de verdade". 5 HABERMAS, J. Wahrheit undRechtfertigung. Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1999.

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ainda para uma controvérsia sobre os problemas derivados de uma tal around ideas of reason which are neither fully constitutive in
correção. McCarthy defende a explicação lingüístico-pragmática do the Platonic sense nor merely regulative in the Kantian sense.
"modo de situar a razão" contra objeções desconstrutivistas. Tentarei As idealizing suppositions we cannot avoid making while en-
enfrentar a incompreensão da filosofia analítica no tocante à questão gaged in processes of mutual understanding, they are actually
do uso destranscendentalizado da razão. effective in organizing communication and the same time
Entretanto, não pretendo repetir os argumentos já conhecidos counterfactual in ways that point beyond the limits of actual
nem pleitear uma teoria do significado pragmático-formal seguindo situations. As a result, social-practical ideas of reason are both
um caminho direto.6 Já que as dificuldades de compreensão derivam 'immanent' and 'transcendem' to practices constitutive offorms
do princípio, não dos detalhes. A própria semântica da verdade oflife."1
estabeleceu um nexo interno entre o significado e as condições de Na perspectiva da pragmática formal, a estrutura racional interna
validade de asserções preparando assim o caminho para concepções do agir orientado pelo entendimento reflete-se em suposições que os
de uma racionalidade incorporada na linguagem e na comunicação atores têm de conceber quando pretendem engajar-se nessa prática. O
(Davidson, Dummett, Brandom). Em que pese isso, as indicações sentido de obrigatoriedade inerente a esse "ter de" precisa ser
fornecidas por Kant e Hume para se tomar posição a favor ou contra interpretado mais na linha de Wittgenstein do que na de Kant, ou seja,
uma análise nominalista das operações do espírito humano continuam não pode mais ser compreendido no sentido transcendental de
sendo utilizadas, ainda hoje em dia, para orientar, sobre outros trilhos condições da experiência possível, gerais, necessárias e inteligíveis,
e em direções variadas, pensamentos estruturalmente semelhantes. devendo ser encarado no sentido gramatical de uma "inevitabilidade"
Se meu ponto de vista não for incorreto, a reformulação das que resulta de correlações conceituais internas de um sistema de
"idéias" kantianas da razão pura, que se tornam pressupostos comportamento prático conduzido por regras, o qual é, "ineludível
"idealizadores" do agir comunicativo, acarreta dificuldades de para nós". Após a deflação pragmatista do princípio kantiano, a "análise
compreensão, especialmente no que tange ao papelfático das assunções transcendental" passa a significar uma investigação de condições
contrafáticas pressupostas performativamente. Tais assunções supostamente gerais que, apenas de fato, são ineludíveis e que têm de
revestem-se de um efeito operativo na estruturação de processos de ser satisfeitas a fim de que certas práticas ou realizações fundamentais
entendimento (Verstündigung)' e na organização de contextos de ação: possam acontecer. Nesse sentido, são tidas como "fundamentais" as
"This (move) nas the effect of relocating the Kantian op-
position between the real and the ideal within the domain of 7 MCCARTHY (1994), 38: "Este (lance) tem como efeito a recolocação da
social practice. Cooperative interaction is seen to be structured oposição kantiana entre o ideal e o real no interior do domínio da prática
social. A interação cooperativa é tida como estrutura em torno das idéias da
razão que não são inteiramente constitutivas no sentido platônico nem
6 HABERMAS, J. On the Pragmatics ofCommunication. (tá). M. COOK, Cam- meramente regulativas no sentido kantiano. Enquanto suposições idealiz.a-
bridge (Mass), 1998.
doras que não podemos deixar de efetuar enquanto estamos engajados em
* Nota do trad.: é importante atentar para a diferença entre dois conceitos de processos de entendimento, elas são atualmente efetivas na organização da
"entendimento", isto é, para o conceito de Verstand, de Kant, que se situa comunicação e, ao mesmo tempo, contrafáticas porquanto apontam para
inteiramente no nível cognitivo da razão, e para o conceito de "entendimento" além dos limites de situações atuais. Como resultado disso, as idéias sociais
(Verstündigung), que é fundamental no pensamento habermasiano, e cujo e práticas da razão são 'imanentes' às práticas que constituem as formas de
sentido não é apenas cognitivo mas, também, comunicativo. vida e, ao mesmo tempo, 'transcendentes'."
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práticas para as quais não existem equivalentes funcionais no interior contra. Ainda teremos ocasião de analisar o conteúdo "ideal" de tais
de nossas formas de vida culturais. É bem verdade que uma linguagem pressuposições.
natural pode ser substituída por uma outra linguagem natural. No Em todo o caso, é preciso levar em conta que existe um parentesco
entanto, ainda não conseguimos pensar num substituto para uma entre essas pressuposições e os conceitos kantianos. Já que é possível
linguagem diferençada em proposições enquanto tal (para a "faculdade supor um elo genealógico:
da espécie") que pudesse preencher as mesmas funções. Gostaria de
elucidar tal pensamento fundamental esclarecendo sua genealogia, a - (1) entre a "idéia" cosmológica da unidade do mundo (ou da
qual tem início em Kant. totalidade das condições do mundo dos sentidos) e a suposição
Aqui não se trata de uma explicação sistemática do conceito pragmática de um mundo objetivo comum;
"razão comunicativa",8 já que nos limitaremos a tratar apenas do seu
contexto de surgimento. Abordarei as pressuposições idealizadoras, - (2) entre a "idéia de liberdade" como um postulado da razão
já citadas, que se exteriorizam, de modo performativo, no agir comu- prática e a suposição pragmática da racionalidade de atores imputáveis;
nicativo, a saber: a suposição comum de um mundo de objetos que
existem independentemente; a suposição recíproca da "imputabili- - (3) entre o movimento totalizador da razão que - enquanto
dade" ou da racionalidade; a incondicionalidade de pretensões de "faculdade das idéias" - transcende tudo o que é condicionado
validade, tal como a verdade e a correção moral, que ultrapassam os reportando-se a um incondicionado, e a incondicionalidade das
contextos; e as pressuposições exigentes da argumentação que obri- pretensões de validade levantadas no agir comunicativo;
gam, de certa forma, os participantes a uma descentração de suas
perspectivas de interpretação. Emprego o termo "pressuposições" - (4) finalmente, entre a razão como a "faculdade dos princípios",
porque se trata de condições a serem satisfeitas a fim de que o a qual assume o papel de um "tribunal superior de todos os direitos e
condicionado se revista de um determinado valor: atos de referência pretensões", e o discurso racional enquanto fórum ineludível das
podem falhar ou ser bem-sucedidos, mas para isso é necessário um justificações possíveis.
sistema de referências; os participantes de uma comunicação podem
entender-se mutuamente ou continuar vítimas de um mal-entendido, Pretendo, na primeira parte, aprofundar a história desses conceitos
o que, porém, só é possível quando se supõe a racionalidade; se as (1-4). Certamente não é possível traduzir, sem rupturas, as idéias de
asserções que num determinado contexto são caracterizadas como uma razão pura, formuladas na linguagem de uma filosofia transcen-
"verdadeiras" pudessem vir a perder tal característica em um outro, dental, para a linguagem de uma pragmática formal. A formulação de
então a correspondente pretensão de verdade não poderia mais ser "analogias" está longe de conseguir realizar tal façanha. Os pares de
questionada em nenhum contexto; e se não houvesse uma situação de conceitos kantianos opostos tal como (constitutivo versus regulativo,
comunicação que promete fazer jus à coação não-coativa do melhor transcendental versus empírico, imanente versus transcendente, etc.)
argumento, os argumentos não poderiam contar, nem a favor nem perdem sua nitidez crítica quando se tenta destranscendentalisá-los
porque isso significa um corte profundo na arquitetura das concepções
" " A B . E R M A S , J. "Rationalitàt der Verstãndigung. Sprechakttheoretische básicas. Em que pese isso, é possível descobrir, à luz desses elos
genealógicos, os caminhos entrecruzados através dos quais a filosofia
102 U 137 Ungen B e g r i f f ^ k o m m u n i k a t i v e n Rationalitàt", in: id., (1999),
analítica da linguagem perambula quando recusa a herança das idéias
36 37
da razão, de Kant. Apesar disso, tentarei mostrar, na segunda parte, formato superdimensionado capaz de representar o mundo como tal.
que ela consegue chegar, mesmo assim, a descrições normativas da A diferença entre "mundo" (Welt) e "intramundano" (Innerweltliches),
prática da linguagem semelhantes às da pragmática formal, a qual se reclamada por Kant, precisa ser mantida, mesmo depois que o sujeito
apoia mais fortemente em Kant. Tomando como ponto de partida a transcendental perde a posição que o mantinha além do espaço e do
crítica ao psicologismo, elaborada por Frege (5), perseguirei a linha tempo e se transforma em inúmeros sujeitos providos da faculdade de
analítica da discussão tomando como ponto de referência o "princípio falar e de agir.
de caridade", elaborado por Davidson (6), a crítica de Dummett à A destranscendentalização leva, de um lado, à inserção de sujeitos
recepção de Wittgenstein (7), bem como a teoria de Brandom que socializados em contextos do mundo da vida; de outro lado, ao
concebe o entendimento (Verstündigung) como uma troca discursiva entrecruzamento da cognição com o falar e o agir. Por isso, o conceito
de argumentos (8). de "mundo" modifica-se junto com a arquitetura da teoria. Vou explicar,
em primeiro lugar, como deve ser entendida, na pragmática formal, a
(1) Kant computa entre as idéias teóricas da razão, não somente "suposição de um mundo" (a); a seguir, chamarei a atenção para
as idéias de unidade do sujeito pensante e de Deus como origem unitária algumas conseqüências importantes, especialmente: a dissolução do
das condições de todos os objetos do pensamento, mas também a idealismo transcendental operada por um realismo interno (b); a função
idéia cosmológica da unidade do mundo. E ao caracterizar tal idéia, regulativa do conceito de verdade (c), e a inserção das relações com
que tem função heurística para o progresso do conhecimento empírico, mundos em contextos do mundo da vida (d).
ele menciona um uso "hipotético" da razão. A antecipação totalizadora
do universo dos objetos da experiência possível possui uma função, (a) A partir do momento em que, em uma comunicação recíproca,
que tem muito mais a ver com a condução do conhecimento do que sujeitos providos da faculdade de falar e de agir desejam entender-se
com a sua viabilização. O conhecimento empírico é a "pedra de toque "sobre algo" ou pretendem arranjar-se "com algo" no trato prático,
da verdade", ao passo a idéia cosmológica desempenha a função de têm de poder "referir-se", a partir do horizonte de seu respectivo mundo
um princípio metodológico da completude; ela aponta para o objetivo da vida compartilhado, "a algo" no mundo objetivo. Para poder referir-
de uma unidade sistemática dos conhecimentos do entendimento. se a algo, seja na comunicação sobre estados de coisas ou no trato
Diferentemente das categorias constitutivas do entendimento e das prático com pessoas e objetos, eles têm de tomar como ponto de partida
formas de (observação), a "unidade do mundo" é uma idéia reguladora. uma pressuposição pragmática - cada um para si, porém em
A proporção que faz uso constitutivo tal idéia reguladora, o consonância com todos os outros. Eles supõem "o mundo" como uma
pensamento metafísico recai na ilusão dialética de uma ordem do totalidade dos objetos que existem independentemente, os quais podem
mundo hipostasiada. Além disso, o uso reificador da razão teórica ser manipulados e examinados. São "examináveis" todos os objetos
confunde o projeto construtivo de um focus imaginarius para o dos quais é possível afirmar fatos. Convém lembrar que somente
andamento da pesquisa com a constituição de um objeto acessível à objetos identificáveis no espaço e no tempo podem ser "tratados" no
experiência. A esse uso "apodítico" da razão, que é exageradamente sentido de uma manipulação teleológica.
efusivo, corresponde o uso "transcendente" que ultrapassa os limites A "objetividade" do mundo tem de ser interpretada no sentido
da experiência possível. Tal ultrapassagem de limites conduz a uma de que ela nos é dada como um "mundo" que é idêntico para todos.
assimilação indevida do conceito de "mundo" - como totalidade de Ora, o que nos leva à suposição pragmática de um mundo objetivo
todos os objetos experimentáveis - ao conceito de um objeto em comum é a prática da linguagem - especialmente a utilização dos
38 39
termos singulares. E o sistema de referência embutido em linguagens retro-ligados a uma prática destinada a intervir na realidade. Por
naturais garante, para qualquer tipo de falante, a antecipação formal intermédio do agir destinado a resolver problemas, controlado pelo
de possíveis objetos de referência. Pelo caminho dessa suposição for- sucesso, eles estão em contato com uma realidade que sempre
mal de mundos, a comunicação sobre algo no mundo se entrecruza surpreende, a qual é capaz de se opor às nossas intervenções ou de
com intervenções práticas no mundo. Para falantes e atores, o mundo "colaborar". De um ponto de vista ontológico, o idealismo transcen-
objetivo sobre o qual eles se entendem e no qual podem intervir, é o dental que concebe a totalidade dos objetos experimentáveis como
mesmo. Para a garantia das referências semânticas, é importante que um mundo "para nós", isto é, como um mundo que aparece, é
os falantes possam, enquanto atores, estar em contato com objetos do substituído por um realismo interno. Segundo este, é "real" tudo aquilo
trato prático e possam retomar tais contatos.9 que pode ser representado em asserções verdadeiras, apesar de os
A concepção da suposição de um mundo repousa, do mesmo fatos serem representados numa linguagem que é respectivamente
modo que a idéia da razão cosmológica, de Kant, sobre a diferença "nossa" linguagem. O mundo não nos impõe "sua" linguagem; ele
transcendental entre "mundo" {Welt) e "intramundano" não falae só "responde" num sentido figurado." Caracterizamos como
(lnnerweltlich.es) que reaparece em Heidegger como diferença "real" a persistência dos estados de coisas asseverados. No entanto,
ontológica entre "ser" (Sein) e "ente" (Seiendes). O mundo objetivo, tal "sentido veritativo" dos fatos não pode - de acordo com um modelo
suposto por nós, é diferente daquilo que, conforme tal suposição, pode de representação do conhecimento - ser representado como realidade
aparecer como objeto (na forma de estado, coisa ou evento). De outro copiada que é, a seguir, equiparada à "existência" de objetos.
lado, tal concepção não se encaixa mais nos conceitos kantianos, Constatações de fatos não podem apagar completamente, seja o
opostos. A partir do desarme das categorias a priori da razão cognitiva sentido operativo dos processos de aprendizagem, seja as soluções de
(Verstand) e das formas de intuição, a distinção clássica entre razão e problemas, seja as justificações dos quais resultam. Por isso, é
cognição torna-se menos nítida. Salta aos olhos que a suposição recomendável seguir o conselho de Charles Sanders Pierce e distinguir
pragmática de um mundo não é uma idéia reguladora, porquanto ela é entre a "realidade" representada na linguagem e aquilo que temos de
"constitutiva" para a referência a tudo aquilo do qual é possível enfrentar, no trato prático, como "existência" experimentada como
constatar fatos. E nesse ponto, o conceito de mundo torna-se tão for- resistência em mundo repleto de riscos. Em proposições verdadeiras,
mal, a ponto de o sistema para possíveis referências não prejulgar a "relutância" ou "anuência" dos objetos designados já está processada.
determinações conceituais para objetos em geral. Todas as tentativas De forma que, na resistência dos estados de coisas faz-se valer, de
visando a reconstrução de um a priori de sentido material para possíveis modo indireto, também a "existência" de objetos renitentes (ou a
objetos de referência fracassaram.10 facticidade de circunstâncias que podem causar surpresas). No entanto,
esse "mundo" que supomos ser a totalidade dos objetos, não dos fatos,
(b) Nesta perspectiva a própria distinção entre fenômeno e "coisa- não pode ser confundido com a "realidade" que consiste em tudo
em-si" perde sentido. A partir de agora, experiências e juízos estão aquilo que pode ser representado em asserções verdadeiras.

9 Sobre a correspondente teoria da referência, de Putnam cf. MUELLER A 11 Sobre o "realismo interno", de Hilary Putnam cf. HABERMAS, J. "Werte
und Normen. Ein Commentar zu Hilary Putnams Kantischem Pragmatismus",
Referenz und Fallibilismus. Berlim, 2004 in: id., Wharheit und Rechtfertigung (edição de bolso ampliada), Frankfurt/
10 SN°tbnnÍTdÍuUrâ0 d 3 S PCSqUÍSaS d e P e t e r S t r a w s o n s o b r e e s t e ^ma cf,
iNiyUbl, M. Transzendentale Argumente. Frankfurt/M., 1991, cap. 4 e 5. M.: Suhrkamp, 2004.

40 41
(c) Os conceitos de "mundo" e de "realidade" expressam "epistemização" do conceito de verdade, a qual assimila "verdade" a
totalidades; porém, somente o conceito de realidade pode ser colocado "afirmabilidade idealmente justificada".14 Não obstante, a orientação
lado a lado com as idéias reguladoras da razão, dada sua relação interna pela verdade assume, enquanto "característica inalienável" de
com o conceito de verdade. O conceito peirceano de realidade (como afirmações, uma função regulativa indispensável para processos de
a totalidade dos fatos constatáveis) constitui uma idéia reguladora no justificação falíveis, em princípio, mesmo que tais processos consigam
sentido de Kant, porquanto ele obriga a constatação de fatos a orientar- apenas levar a uma decisão sobre a aceitabilidade racional de
se pela verdade que, por seu turno, desempenha uma função regulativa. afirmações, não à sua verdade.15
Para Kant, a "verdade" não é uma idéia nem se conecta a idéias da A advertência de Kant contra um uso apodítico da razão ou um
razão porque as condições transcendentais da objetividade da uso transcendente da faculdade cognitiva continua inalterada após
experiência devem esclarecer simultaneamente a verdade do juízo da uma destranscendentalização que liga o conhecimento objetivo a uma
experiência: "Para Kant, a questão [...] relativa às condições de justificação discursiva como "pedra de toque da verdade". A partir
possibilidade da constituição de objetos, isto é, da constituição do daí, não é mais a sensibilidade nem a cognição que definem a fronteira
sentido da objetividade, era idêntica à questão [...] relativa às condições que separa o uso transcendental da nossa faculdade de conhecimento
de possibilidade da validade intersubjetiva do conhecimento do seu uso transcendente: entra no seu lugar o fórum dos discursos
verdadeiro."12 K.-O Apel contrapõe a isso uma distinção entre o "a racionais nos quais bons argumentos podem desenvolver sua força de
priori da experiência", interpretado de modo pragmático, o qual convencimento.
determina o sentido dos objetos da experiência possível, e as condições
da justificação argumentativa de afirmações sobre tais objetos. (d) De certa maneira, a diferença entre verdade e aceitabilidade
Peirce tentou explicar a "verdade" nos conceitos epistêmicos de racional coloca-se no lugar da diferença entre fenômeno e "coisa em
si". Kant não conseguiu superar tal fosso nem mesmo lançando mão
um progresso do conhecimento orientado pela verdade. Ele determina da idéia reguladora da unidade do mundo porque a heurística que cria
o sentido de verdade pela antecipação do consenso ao qual têm de üm acabamento para todos os conhecimentos condicionados não
chegar, sob condições ideais, todos os que participam do processo de consegue retirar a faculdade cognitiva (Verstand) do reino dos
pesquisa, que é autocorretivo.13 A "comunidade de investigadores", fenômenos. Mesmo após a destranscendentalização do sujeito
destituída idealmente de limites, constitui o fórum para o "tribunal cognoscente, remanesce um vácuo entre aquilo que é verdadeiro e
superior" da razão. E possível aduzir bons argumentos contra tal aquilo que é justificado para nós ou que é racionalmente aceitável.
Não é possível preencher completamente tal vácuo no âmbito de
12 APEL, K.-O. "Sinnkonstitution und Geltungsrechtfertigung", in: Fórum für discursos; porém, é possível superá-lo pragmaticamente por meio de
Philosophie (ed.). Martin Heidegger: Innen - und Aussenansichten. Frank- uma passagem, motivada racionalmente, do discurso para o agir. Uma
furt/M., 1989, 134. vez que os discursos permanecem enraizados no mundo da vida, existe
13 PEIRCE, Ch. S. Collected Papers, vol. VAT (1934), 268: "The opinion which
is fated to be ultimately agreed to by ali who invesligate, is what we mean by
the truth, and the object represented in this opinion is the real" (5.407) (A 14 Cf. a crítica ao conceito discursivo de verdade in: WELLMER, A. Elhik und
opinião destinada a ser consensual em última instância entre os que investigam Dialog. Frankfurt/M., 1986, 51 ss.; LAFONT, C. The LinguisticTurn in
é o que entendemos por verdade e o objeto representado nesta opinião é o Hermeneutic Philosophy. Cambridge (Mass.), 1999, 283 ss.
real). Cf. sobre isso APEL, K.-O. Der Denkweg von Cliarles S. Peirce. Frank- I? HABERMAS, J. "Wahrheit und Rechtfertigung. Zu Richard Rortys
furt/M., 1975. pragmatischer Wende", in: id. (1999), 283 ss.

42 43
um nexo interno entre os dois papéis que a idéia da orientação pela nos quais os sujeitos socializados se encontram, "desde sempre",
verdade assume aqui e lá - nas figuras de certezas de ação e em franqueiam o mundo nas perspectivas de costumes e tradições
pretensões de validade hipotéticas.16 fundadoras de sentido. Tudo o que os membros de uma comunidade
Em que pese isso, a função regulativa da orientação pela verdade, local de linguagem detectam no mundo, não é experimentado como
apoiada na suposição do mundo objetivo, dirige os processos fáticos objeto neutro, já que tal experiência acontece à luz de uma pré-
de justificação rumo a um alvo que, de certa forma, transforma o compreensão gramatical já exercitada. A mediação lingüística da
tribunal superior da razão em algo móvel. Na esteira da destranscen- relação com o mundo explica a retroligação da objetividade do mundo
dentalização, as idéias teóricas da razão saem, de certa forma, do mundo - suposta no falar e no agir - à intersubjetividade de um entendimento
estático do inteligível e passam a desenvolver sua dinâmica no inte- entre participantes de uma comunicação. O fato que eu assevero de
rior do mundo da vida. Kant nos lembra que do mundo inteligível nós um objeto tem de ser afirmado e eventualmente justificado perante
temos apenas uma "idéia", não um "conhecimento". Após a outros, que podem eventualmente contradizer. A necessidade de
transposição da idéia cosmológica para a suposição de um mundo interpretação surge pelo fato de nós não podermos prescindir da
objetivo comum, a orientação por pretensões de validade, incon- linguagem que franqueia o mundo, nem mesmo quando a utilizamos
dicionais, libera os recursos do mundo, outrora inteligível, para a
aquisição de conhecimentos empíricos. E o abandono das acepções num sentido descritivo.
lógico-transcendentais transforma as idéias da razão em idealizações Tais problemas de tradução lançam nova luz sobre a estrutura
levadas a cabo por sujeitos providos da faculdade de falar e agir. O emaranhada dos contextos do mundo da vida. Eles não fornecem,
"ideal", elevado à condição de reino do além e calcificado, transforma- porém, nenhum argumento para o teorema da incomensurabilidade.18
se em operações no aquém, ou seja, é retirado do estado transcendente Os participantes da comunicação podem entender-se, além das
e transposto para a realização de uma "transcendência a partir de fronteiras de mundos da vida divergente, porque eles, com o olhar
dentro". Porquanto, na disputa discursiva pela interpretação correta voltado para um mundo objetivo comum, orientam-se pela pretensão
daquilo que nos cerca no mundo, os contextos de mundos da vida que de verdade, isto é, pela validade incondicional de suas afirmações.
se alteram constantemente têm de ser superados "a partir de dentro". Ainda retomarei esse tema da orientação pela verdade.
Os sujeitos providos da faculdade de falar e agir não são capazes
de se dirigir a "algo no interior do mundo" (intramundano), a não ser (2) A idéia cosmológica da unidade do mundo ramifica-se, de
a partir do horizonte do seu respectivo mundo da vida. Não existem um lado, na suposição pragmática de um mundo objetivo tido como
relações com o mundo que sejam totalmente isentas de contexto. uma totalidade dos objetos e, de outro lado, na orientação por uma
Heidegger e Wittgenstein demonstraram, cada um a seu modo, que a realidade concebida como totalidade dos fatos. Ora, nas relações
consciência transcendental de objetos alimenta-se de falsas interpessoais entre sujeitos prendados com a faculdade de falar e agir
abstrações.17 As práticas lingüísticas e os contextos do mundo da vida, e que cobram posicionamentos, uns dos outros, nós topamos com
outros tipos de idealização. No trato recíproco e cooperativo, eles têm
16 HABERMAS, J. (1999), 48 ss., 261 ss., 291 ss.
de supor a racionalidade, pelo menos até um momento ulterior. E
17 Sobre a "hermenêutica do ser-no-mundo, que desde sempre é interpretado
linguisticamente", cf. APEL, K.-O. "Wittgenstein und Heidegger" in-
MCGUINNESS et ali. Der Lôwe Spricht... und wir konnen ihn nicht 18 BERNSTEIN, Richard F. Beyond Objectivism and Relativism. Philadelphia,
verstehen. Frankfurt/M., 1991, 27-68. 1983.
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pode ser que, sob circunstâncias especiais, se comprove que essa a saber, a força racionalmente motivadora de bons argumentos. A
suposição era injustificada. É possível que, contra todas as expectativas, liberdade constitui uma "exigência irrecusável da razão prática",
o outro não seja capaz de fornecer uma justificativa adequada para constitutiva para o agir. Distingue-se, pois, das idéias teóricas da razão,
suas exteriorizações e ações e que nós não consigamos enxergár que apenas regulam o uso da faculdade cognitiva. Sem dúvida alguma,
nenhum argumento que justifique seu comportamento. No contexto podemos também e a qualquer momento, observar ações sob categorias
do agir orientado pelo entendimento, tal desapontamento só pode do comportamento observável tomando-as como fenômenos
manifestar-se à luz de uma suposição de racionalidade que nós temos determinados por leis naturais. No entanto, numa intenção prática,
de fazer sempre que adotamos o agir comunicativo. Tal suposição nós temos de referir as ações a argumentos que poderiam ter levado
significa que um sujeito, ao agir intencionalmente, encontra-se em um sujeito racional a realizá-las. A "intenção prática" significa uma
condições de apresentar um argumento mais ou menos plausível capaz mudança de perspectiva: quando supomos racionalidade, nós adotamos
de explicar, em circunstâncias favoráveis, por que ele (ou eles) agiu um tipo de julgamento normativo que seguimos no próprio agir
desta ou daquela maneira ou por que ele (ou eles) deixou de reagir. comunicativo.
Exteriorizações incompreensíveis, curiosas, bizarras ou enigmáticas É bem verdade que os argumentos relevantes para a "liberdade"
provocam interesse em informação porque elas contradizem (no sentido kantiano) formam apenas um recorte do amplo espetro de
implicitamente uma suposição inevitável no agir comunicativo argumentos que teriam condições de comprovar a capacidade de
desencadeando, por isso, irritações. imputação de sujeitos que agem comunicativamente. Kant determina
Quem não é capaz de assumir a responsabilidade por suas a liberdade como a faculdade um ator capaz de ligar sua vontade a
exteriorizações e ações perante outros levanta a suspeita de não ter máximas, isto é, de orientar seu agir por regras das quais ele possui o
agido "de modo responsável". O próprio juiz criminal, ao levantar a conceito. Desta forma, dependendo da inclinação ou dofimescolhido
suspeita de um delito, constata primeiro a possibilidade de o acusado subjetivamente, a "liberdade de arbítrio" nos coloca em condições de
ser culpado. Além disso, ele examina a possibilidade de haver adotar regras de prudência (Klugheit) ou de habilidade
argumentos eximidores. Para o julgamento de um crime ser (Geschicklichkeit); ao passo que a "vontade livre" segue leis
considerado eqüitativo, temos de saber antes se o assassino era universalmente válidas que ela se dá a si mesma por compreensão
imputável e se o delito não deve ser atribuído, antes, às circunstâncias perspicaz (aus Einsicht), de um ponto de vista moral. A liberdade de
do que ao próprio agente. Razões eximidoras confirmam a suposição arbítrio precede a vontade livre; permanece, no entanto, subordinada
de racionalidade da qual partimos, não somente nos procedimentos a ela no que se refere ao estabelecimento de fins. Por conseguinte,
judiciários, mas também no dia-a-dia, nas nossas relações com outros Kant limita-se à formulação de argumentos prático-técnicos e prático-
atores. O exemplo do discurso jurídico também se presta muito bem morais. O agir comunicativo, no entanto, coloca em jogo um espectro
para uma comparação entre a suposição pragmática da capacidade de de argumentos mais amplo: argumentos epistêmicos para discutir a
imputação e a idéia de liberdade, de Kant. verdade de afirmações; pontos de vista éticos para avaliar a
Até o presente momento, consideramos a razão "no seu uso autenticidade de uma decisão vital; indicadores para detectar a
teórico" como "a faculdade de julgar conforme princípios". A razão sinceridade de confissões, de experiências estéticas, de explicações
torna-se "prática" à medida que determina o querer e o agir conforme narrativas, de padrões culturais valorativos, de pretensões de direito,
princípios. E a idéia de liberdade adquire, sobretudo por meio da lei de convenções, etc. A capacidade de imputação não se mede apenas
moral, expressa no imperativo categórico, uma "causalidade própria", pelos padrões da moralidade e da racionalidade teleológica. Ela
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tampouco constitui tarefa exclusiva da razão prática, uma vez que sobre a possibilidade de realização da idéia de liberdade. Na atividade
consiste, de modo geral, na capacidade que um ator possui de orientar comunicativa, nós também tomamos como ponto de partida a idéia
seu agir por pretensões de validade.19 de que todos os participantes são atores capazes de imputação. Está
Segundo Kant, a liberdade destaca-se entre as idéias práticas da incluída na autocompreensão de sujeitos que agem comunicati vãmente
razão porque podemos compreender a priori a possibilidade de sua a capacidade de posicionar-se, por motivos racionais, quanto a
realização, o que não acontece com as outras idéias. Por isso, tal idéia pretensões de validade; qualquer ator supõe que o outro ator age de
adquire, para todo ser racional, força "legisladora". Ela é visualizada fato levado por razões a serem justificadas racionalmente.
mediante o ideal de um "reino dos fins" ao qual se ligam, sob leis As ciências sociais e as pesquisas psicológicas sobre o
sociais, todos os seres racionais, de tal sorte que eles jamais podem comportamento demonstram que tal "saber" performativo, que conduz
tratar-se apenas como meios, já que constituem fins em si mesmos. a execução da ação, é altamente problemático. Na prática cotidiana,
Nesse reino, toda pessoa é "legisladora em geral, porém, ao mesmo nós mesmos somos, ao mesmo tempo, participantes e observadores
tempo, sujeita a essas leis". Temos uma compreensão a priori desse podendo constatar que muitas exteriorizações não têm como motivo
modelo de autolegislação, cujo significado é duplo: De um lado, ela bons argumentos. Sob este ângulo empírico, a imputabilidade daquele
possui o sentido categórico de uma obrigação (Verpflichtung) que que age comunicativamente não passa de uma suposição contrafática
consiste na realização do reino dos fins por meio das próprias semelhante à da idéia kantiana da liberdade. O curioso, no entanto, é
realizações e omissões. De outro lado, o sentido transcendental de que, aos olhos dos próprios sujeitos, tais conhecimentos perdem seu
uma certeza (a de que esse reino pode ser promovido mediante nosso caráter contraditório durante a execução da ação. O contraste entre o
fazer e deixar de fazer moral). Podemos saber a priori que é possível saber objetivo do observador e o saber da ação, de que se lança mão
uma realização dessa idéia prática. de modo performativo, perde seu efeito in actu. O estudante de
Sob o primeiro aspecto, a comparação entre a idéia da liberdade sociologia aprende, já no primeiro semestre, que todas as normas valem
e a suposição da racionalidade no agir comunicativo não é muito contrafaticamente, mesmo que sejam obedecidas apenas por um
produtiva. Já que a racionalidade não constitui uma obrigação. No determinado número de pessoas porque, no entender do observador
próprio contexto do comportamento moral ou legal, o sentido da sociológico, os casos estatisticamente comprovados de possíveis
suposição da racionalidade não consiste no fato de que o outro se comportamentos desviantes já são contemplados pelas normas
sente obrigado a obedecer a normas; só se imputa a ele um saber vigentes.20 No entanto, o conhecimento desse fato não impedirá
sobre o que significa agir de forma autônoma. O segundo aspecto da nenhum destinatário de aceitar e de seguir uma norma reconhecida
comparação, no entanto, é mais fecundo porque aqui a idéia de como válida na comunidade.
liberdade nos proporciona a certeza de que o agir autônomo (e a Quem age moralmente não se arroga apenas uma autonomia
realização do reino dos fins) épossível - não havendo necessidade de "mais ou menos"; e no agir comunicativo, os participantes não se
ela nos ser atribuída contrafaticamente. Na visão de Kant, os seres atribuem ora "um pouco mais" de racionalidade e ora "um pouco
racionais entendem-se como atores que agem impulsionados por bons menos". Já que, na perspectiva de participantes, tais conceitos são
argumentos. No tocante ao agir moral, eles possuem um saber a priori
20 Tal consideração já se encontra em DURKHEIM, E. Die Regeln der
" HABERMAS, J. Faktizitat und Geltung. Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1992, 19. soziologischen Methode (1895), Frankfurt/M., 1992,18.
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codificados de modo binário. Tão logo nós passamos a agir por racionalidade pode ser refutada indiretamente, porém, não desmentida
"respeito à lei" ou "orientados pelo entendimento mútuo", não enquanto tal.
podemos mais agir, ao mesmo tempo, na perspectiva objetivadora de Parece que tal tipo de refutabilidade não vale para as idealizações
um observador. Durante a realização da ação, nós excluímos das quais se parte no âmbito da cognição, mesmo que elas tenham a
autodescrições empíricas, as quais cedem o lugar à autocompreensão mesma forma de uma suposição pragmática. A suposição de um mundo
racional de atores. Não obstante isso, a suposição de racionalidade objetivo, comum, delineia um sistema de possíveis referências ao
constitui uma assunção refutável, não um saber a priori. Ela "funciona" mundo tornando possíveis, por este caminho, intervenções no mundo
como uma pressuposição pragmática, comprovada de muitas maneiras, e interpretações de algo no mundo. A suposição de um mundo objetivo
sendo constitutiva para o agir comunicativo em geral. No entanto, ela comum é necessariamente "transcendental" no sentido de que ela não
pode não funcionar em um determinado caso singular. Essa diferença pode ser corrigida por meio de experiências que, sem ela, não poderiam
no status do saber da ação não se explica apenas pela destrans- acontecer. Os conteúdos descritivos de caracterizações dependem
cendentalização do sujeito agente, que foi retirado do reino dos seres naturalmente de revisões fundamentadas. O mesmo, porém, não pode
inteligíveis e colocado no mundo da vida de sujeitos socializados, ser aplicado ao esboço formal de uma totalidade de objetos
que se articulam por intermédio da linguagem. A mudança de identificáveis em geral - pelo menos enquanto nossas formas de vida
paradigma implica uma transformação completa do modo de análise.
forem configuradas pelas linguagens naturais históricas conhecidas,
No quadro conceituai mentalista, Kant entende a as quais são construídas de modo proposicional. O máximo que
autocompreensão racional de atores como um saber da pessoa a podemos descobrir a posteriori é que o esboço não foi suficientemente
respeito de si mesma; a seguir, ele contrapõe tal saber da primeira formal. As suposições "inevitáveis", no entanto, são "constitutivas",
pessoa ao saber de um observador na terceira pessoa. Entre ambos, tanto para práticas como para domínios de objetos, porém, não no
existe uma diferença de nível transcendental, de tal forma que a mesmo sentido.
autocompreensão de um sujeito inteligível não pode ser corrigida, no Para um comportamento conduzido por regras, as regras
fundo, por meio de um saber de mundo. De outro lado, na qualidade constituidoras abrem sempre uma alternativa entre a obediência à regra
de falantes e destinatários, os sujeitos que agem comunicativamente e a infração da regra. Além disso, existe basicamente a alternativa
encontram-se no papel de primeiras e segundas pessoas, isto é, enüe ser capaz de (Kõnnen) e não ser capaz de (Nichtkõnnen). Quem
literalmente, no mesmo nível. Eles assumem uma relação interpessoal
à proporção que se entendem sobre algo no mundo objetivo e enquanto não domina as regras de um jogo, não consegue cometer erros, mas
assumem a mesma referência ao mundo. Nesse enfoque performativo também não pode jogar. Isso se manifesta no decorrer da prática.
recíproco, eles também fazem, ao mesmo tempo e ante o pano de Durante o agir comunicativo, é possível constatar que quem desaponta
fundo de um mundo da vida compartilhado intersubjetivamente, a suposição pragmática da capacidade de imputação não está
experiências comunicativas uns com os outros. Eles entendem o que conseguindo "acompanhar o jogo". Se for verdade que a suposição
o outro diz ou pensa. Eles aprendem com as informações e objeções de um mundo objetivo comum não depende do controle pelotipode
do oponente e tiram suas conclusões da ironia ou do silêncio, das experiências que ela toma possíveis, é verdade também que a suposição
exteriorizações, alusões etc. A incompreensibilidade de um compor- de racionalidade, necessária no agir comunicativo, vale somente até
tamento opaco ou o colapso da comunicação constitui uma experiência logo mais. Uma vez que ela está exposta aos desmentidos de
comunicativa de tipo reflexivo. Nesse nível, uma suposição de experiências que os participantes fazem com essa prática.

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colapso da própria comunicação. Nesse contexto faz-se valer um certo
(3) Até o presente momento, investigamos o uso destranscenden- sentido platônico de idealização, o qual não coincide plenamente com
talizado da razão adotando como referência a suposição de um mundo a compreensão kantiana. Antes de atingir o limiar, no qual a
objetivo comum e a suposição recíproca de racionalidade que os atores discrepância entre o ideal e a realização incompleta num caso específico
têm de tomar como ponto de partida quando assumem um agir torna-se por demais gritante, os agentes, enquanto mantiverem um
comunicativo. Abordamos en passant um outro sentido de "ideali- enfoque performativo, não precisam tomar conhecimento das
zação" quando tratamos da função regulativa da orientação pela insuficiências observáveis empiricamente. Nesta dimensão, não é
verdade, que completa a "referência a um mundo" (Weltbezug). A decisiva a antecipação totalizadora que se estende a todos os
concatenação genealógica com as "idéias", de Kant, sugere a expressão participantes. Decisiva é a neutralização, concretizada in actu, dos
"idealização". A prática o agir orientado pelo entendimento obriga desvios - que podem ser desconsiderados - de uma medida ideal pela
seus participantes a certas antecipações totalizadoras, abstrações e qual o próprio agir objetivamente desviante se orienta.
superações de limites. Entretanto, convém perguntar: o que as Entretanto, quando a orientação pela verdade acontece no âmbito
diferentes idealizações têm realmente em comum quando as de um exame crítico de pretensões de validade incondicionais, entra
investigamos na prática? em cena uma idealização aparentemente efusiva que une os sentidos
A "referência a um mundo" de uma linguagem diferenciada em platônico e kantiano de "idealização", criando um novo sentido de
termos proposicionais, a qual preenche funções de representação, idealização, o qual é híbrido. Já que nosso contato com o mundo é
obriga os sujeitos providos da faculdade de falar e agir a esboçar um mediado pela linguagem, o mundo se retrai, seja de uma apreensão
sistema comum de objetos de referência existentes independentemente, direta pelos sentidos, seja de uma constituição imediata mediante
sobre os quais eles formam opiniões e sobre os quais eles podem formas de intuição e de conceitos da faculdade cognitiva (Verstand).
influir intencionalmente. A suposição pragmático-formal de um mundo A objetividade do mundo, que supomos em nossa fala e em nossas
engendra certos guardadores de lugar para objetos, aos quais sujeitos ações, está tão intimamente entrelaçada com a intersubjetividade do
falantes e agentes podem referir-se. Todavia, a gramática não pode entendimento sobre algo no mundo, que não podemos eludir, em
"impor leis" à natureza. Um "esboço transcendental" mitigado supõe nenhuma hipótese, tal coesão nem fugir do horizonte de nosso mundo
que a natureza "vem ao nosso encontro". Por conseguinte, na dimensão da vida que é franqueado por meio da linguagem. Isso não exclui,
vertical da referência a um mundo, a idealização consiste na evidentemente, uma comunicação para além das fronteiras de mundos
antecipação da totalidade das possíveis referências. Ao passo que na da vida particulares. Já que podemos sobrepujar reflexivamente nossas
dimensão horizontal das relações que os sujeitos estabelecem entre situações hermenêuticas iniciais e chegar a concepções sobre temas
si, a suposição da racionalidade efetuada reciprocamente significa, controversos, compartilhadas intersubjetivamente. Para fazer jus a isso,
basicamente, o que eles esperam uns dos outros. O entendimento e a Gadamer utiliza o conceito "fusão de horizontes".21
coordenação comunicativa da ação implicam uma dupla faculdade
dos atores, a saber: a de que eles podem, apoiados em argumentos,
posicionar-se quanto às pretensões de validade, criticáveis, e orientar- GADAMER, H.-G Wahrheit und Methode. Tubinga, 1960. A visão sobre a
se, em seu próprio agir, por pretensões de validade. apropriação de obras clássicas seduz, no entanto, Gadamer levando-o a uma
Aqui, a idealização implica uma abstração passageira dos desvios, esteticização da problemática da verdade. Cf. HABERMAS, J. "Wie ist nach
das diferenças individuais e dos contextos limitadores. Quando tais dem Historismus noch Metaphysik mõglich?", in: "Sem das verstanden war-
desvios ultrapassam uma certa margem de tolerância passam a ser den kann, ist Sprache". Hommage an Hans-Georg Gadamer. Frankfurt/M.,
2001, 89-99.
estorvos da comunicação - podendo levar, em casos extremos, ao
53
52
A suposição de um mundo comum de objetos existentes finitos, não podemos prever a modificação de condições epistêmicas
independentemente dos quais podemos predicai- fatos é completada e por isso não podemos excluir a possibilidade de que uma afirmação,
com o auxílio da idéia de verdade como característica "não por mais que esteja justificada idealmente, possa vir a ser desmascarada
desperdiçável" dessas asserções. No entanto, se as asserções falíveis como falsa.22 Entretanto, mesmo que se leve em conta tais objeções
não puderem ser confrontadas diretamente com o mundo, necessitando, contra uma versão epistêmica do conceito de verdade, a idéia de um
para sua fundamentação ou refutação, de outras afirmações e se, além processo de argumentação, possivelmente inclusivo e retomável a
disso, não houver nenhuma base de afirmações pura e simplesmente qualquer momento, continua desempenhando uma função importante
evidentes, isto é, credenciadas por si mesmas, então o único caminho para a explicação da "aceitabilidade racional" - mesmo que não seja
para examinar pretensões de verdade passa a ser o discursivo. Em mais da "verdade". Porquanto nós, seres falíveis e situados no mundo
decorrência disso, a relação bipartida da validade de asserções é da vida, não possuímos outro caminho para nos certificarmos da
ampliada passando a ser uma relação tripartida da validade que verdade que não seja o do discurso que é, ao mesmo tempo, racional
afirmações têm "para nós". Sua verdade precisa ser reconhecível por e aberto ao futuro.
um público. Neste caso, porém, pretensões de verdade incondicionadas Em que pese isso, por mais que a imagem de uma comunidade
desenvolvem, sob as condições epistêmicas de sua possível de comunicação ampliada em termos ideais (Apel), - a qual visa um
justificação, uma força explosiva no interior dos respectivos contextos acordo fundamentado sob condições ideais de conhecimento (Putnam),
de entendimento existentes. O reflexo epistêmico de incondicionali- ante um auditório ideal (Perelman) ou numa situação de fala ideal
dade constitui a revalorização ideal de um público crítico que se torna (Habermas), - possa nos enganar, nós não podemos deixar de emitir
instância "derradeira". Para representar isso, Peirce emprega a imagem idealizações semelhantes. Porquanto a ferida aberta na prática cotidiana
de uma comunidade de pesquisadores, ideal, não confinada ao espaço por uma pretensão de validade que se tornou problemática precisa ser
social nem ao tempo histórico, a qual impulsiona, o mais longe tratada em discursos que não podem ser finalizados de uma vez por
possível, um processo de pesquisa inclusivo - que chega a atingir o todas por meio de evidências "convincentes" nem por argumentos
valor-limite de uma "final opinion". "concludentes". Na verdade, as pretensões de verdade não se deixam
Tal imagem é, no entanto, enganadora, em dois sentidos. Em resgatar em discursos; mesmo assim, para nos convencermos da
primeiro lugar, ela sugere que a verdade pode ser entendida como verdade de afirmações problemáticas, temos de lançar mão de
assertibilidade ideal, que se mede, por seu turno, por um consenso argumentos. Convincente é tudo aquilo que podemos aceitar como
obtido sob condições ideais. Qualquer asserção, no entanto, é objeto racional. Ora, a aceitabilidade racional depende de um procedimento
do assentimento de todos os sujeitos racionais por ser verdadeira; pol- que não nos protege contra nada e contra ninguém. Por isso, o processo
isse ela não é verdadeira apenas pelo fato de que poderia formar o de argumentação, enquanto tal, tem de permanecer aberto a qualquer
conteúdo de um consenso obtido em condições ideais. Em segundo tipo de objeções relevantes e a todas as melhorias impostas por
lugar, tal imagem não consegue levar o olhar a se fixar no processo da circunstâncias epistêmicas. Tal prática de argumentação inclusiva e
justificação durante o qual asserções verdadeiras têm de resistir a todas perpetuada depende de uma idéia de "desconfinamento"
as tentativas de refutação: ela apenas chama a atenção para o estado (Entschrankung) de formas atuais de entendimento sobre espaços
final de um consenso imune a objeções. Contra tal concepção levanta-
se uma autoconsciência falibilista que se manifesta no "uso, em termos
de admoestação", do predicado "verdadeiro". Na qualidade de espíritos 21 Cf. a crítica de WELLMER, A. Ethik und Dialog. Frankfurt/M., 1986, 69 ss.
54 55
sociais, tempos históricos e competências profissionais. Por meio disso social, eles compartilham determinadas práticas e orientações
amplia-se o potencial de réplica que serve de pedra de toque para axiológicas, reconhecem determinadas normas, estão acostumados a
pretensões de validade aceitas racionalmente. determinadas convenções, etc. No caso do uso regulativo da linguagem,
A compreensão intuitiva do sentido da argumentação em geral os falantes tomam como base um complexo de costumes, instituições
faz com que proponentes e oponentes se obriguem mutuamente à ou regras (reconhecido intersubjetivamente ou apenas exercitado na
descentração de suas respectivas perspectivas de interpretação. De prática cotidiana) que ordena as relações interpessoais de uma
sorte que a antecipação idealizadora, levada a cabo por Kant, da coletividade de tal forma que os seus membros sabem qual é o tipo de
totalidade de um mundo objetivo, é transposta para a totalidade do comportamento legítimo que pode ser esperado reciprocamente. (Ao
mundo social. No enfoque performativo dos participantes da passo que um falante, ao exteriorizar atos comissivos produz uma
argumentação, semelhante "totalização" se liga a uma "neutralização"; relação legítima à medida que assume uma obrigação; neste caso, os
os participantes desconsideram, de um lado, a evidente diferença de participantes supõem que os sujeitos que agem comunicativamente
nível entre o modelo ideal da inclusão objetiva e social completa de podem assumir responsabilidade e ligar sua vontade a máximas).
um "diálogo semfim"e os discursos locais finitos e temporalmente Nesses jogos de linguagem normativos os atores também se
limitados que nós realizamos de fato, de outro lado. Uma vez que ôs referem - por meio dos conteúdos assertivos de suas exteriorizações
participantes da argumentação se orientam pela verdade, reflete-se, - a algo num mundo objetivo, porém, apenas en passant. Eles
no nível onde buscamos certificar-nos discursivamente da verdade, o mencionam as circunstâncias e as condições de sucesso das ações
conceito de uma verdade que vale de modo absoluto em idealizações que eles exigem, pedem, aconselham, censuram, desculpam,
performativas que conferem a essa prática de argumentação seu caráter prometem, etc. Porquanto eles se referem, diretamente, a ações e
pretensioso. Antes de abordar em detalhes tais pressuposições normas como a "algo no mundo social". Eles não entendem as ações
pragmáticas de discursos racionais, convém caracterizar sinteticamente reguladas por normas como fatos sociais que formam, por assim dizer,
o espectro das pretensões de validade, que é mais amplo do que a um corte extraído do mundo objetivo. Na visão objetivadora de um
pretensão de "verdade". E é preciso lembrar que, mesmo sob as observador social, "existem" certamente "no mundo", ao lado de coisas
premissas do conceito kantiano de razão prática, nós pretendemos físicas e de estados mentais, expectativas normativas, práticas, cos-
validade incondicional não somente para afirmações assertóricas tumes, instituições e prescrições de todo tipo. Mesmo assim, o enfoque
verdadeiras, mas também para afirmações morais corretas (e, com adotado in actu pelos atores engajados na malha de suas interações
ressalvas, para asserções jurídicas). reguladas normativamente é de outro tipo, a saber, o enfoque
performativo de um destinatário cujas ações podem transgredir normas
(4) Até o presente momento tivemos em mente, ao asseverarmos única e exclusivamente pelo fato de ele as reconhecer como
que os sujeitos que agem comunicativamente se entendem sobre algo obrigatórias. Na visão de uma segunda pessoa, a cuja "boa vontade"
em "o" mundo, a referência ao mundo objetivo, comum. As pretensões se dirigem expectativas normativas, eles (os atores) utilizam um
de verdade levantadas em prol de frases assertóricas serviram como sistema de referência complementar ao mundo objetivo. Para fins de
paradigma para pretensões de validade em geral. Em atos de fala tematização, esse sistema recorta do contexto abrangente do seu mundo
regulativos, tal como conselhos, pedidos e ordens os atores referem- da vida a secção relevante para o agir regulado por normas. E assim
se a ações às quais seus destinatários se sentem obrigados (ao menos que os membros entendem seu "mundo social" como uma totalidade
é isso que os atores supõem). Na qualidade de membros de um grupo das possíveis relações interpessoais reguladas legitimamente. A
56 57
exemplo do "mundo objetivo", tal sistema de referência também segundo a qual, mandamentos morais válidos têm de ser "universa-
constitui uma suposição necessária ligada gramaticalmente ao uso lizáveis". As normas morais precisam encontrar o reconhecimento
regulativo da linguagem (no lugar do uso constatativo). racionalmente motivado de todos os sujeitos capacitados para a
O uso expressivo de frases de primeira pessoa completa tal linguagem e a ação, numa dimensão que supera os limites históricos
arquitetônica de "mundos". Dada a autoridade epistêmica que um e culturais dos respectivos mundos sociais. A idéia de uma comunidade
falante possui para a exteriorização veraz de "vivências" próprias, inteiramente ordenada em termos morais implica, por conseguinte, a
distinguimos entre "mundo interior" (Innenwelt), mundo objetivo e ampliação contrafática do mundo social - no qual nos encontramos
mundo social. Provocada pelo argumento wittgensteiniano das previamente - até atingir as dimensões de um mundo totalmente
linguagens privadas e pela crítica ao mentalismo, de Wilfried Sellars,23 inclusivo de relações inteipessoais bem ordenadas: Todos os homens
estabeleceu-se uma discussão sobre frases que reproduzem vivências tomam-se irmãos (e irmãs).
e frases de autopercepção, o que leva a concluir que a totalidade das É bem verdade que, se tentássemos hipostasiar essa comunidade
vivências às quais se tem um acesso privilegiado não pode ser "universal" de todas as pessoas capazes de julgar e de agir moralmente
entendida, em analogia com os mundos objetivo e social, como um no sentido de um desconfinamento espaço-temporal, estaríamos sendo
outro sistema de referência. As "minhas" vivências são certas de um induzidos a erro. A imagem de um "reino dos fins", autodeterminado,
ponto de vista subjetivo, isto é, não precisam nem podem ser sugere a existência de uma república de seres racionais, pouco
identificadas como dados objetivos ou como expectativas normativas. importando o fato de que se trata, apenas, de uma construção que, no
O "mundo" subjetivo é determinado, de um ponto de vista negativo, entender do próprio Kant, "não está aí, podendo tornar-se realidade
como sendo a totalidade daquilo que não aparece no mundo objetivo, por meio de nossas ações e omissões." Ela pode e deve ser concretizada
e que não possui validade ou reconhecimento intersubjetivo em um de acordo com a idéia prática da liberdade. O reino dosfins"mantém-
mundo social. De modo complementar a esses dois mundos, aos quais se", de um certo modo, e é dado antes como tarefa (aufgegeben) do
se tem acesso público, o mundo subjetivo abrange todas as vivências que simplesmente dado (gegeben). Por causa dessa ambigüidade, Kant
de um falante quando ele deseja dar a conhecer algo de si mesmo também decompôs a prática dos humanos em dois mundos, a saber, o
perante um público no modo expressivo de uma auto-apresentação. do inteligível e o dos fenômenos. Entretanto, a partir do momento em
A pretensão à correção de afirmações normativas estriba-se na que não conseguimos mais nos apoiar nessa divisão transcendental,
validade presumida de uma norma tomada como base. Diferentemente somos forçados a procurai- outros caminhos para fazer valer o sentido
da validade veritativa de afirmações descritivas, o âmbito de validade construtivo da moral.
de uma pretensão de correção varia, em geral, juntamente com o pano Podemos representai- processos de aprendizagem, morais, como
de fundo legitimador; por isso, ela acompanha os limites de um mundo uma ampliação inteligente e como um entrecruzamento de mundos
social. Somente mandamentos morais (e normas do direito que sociais que, ao se depararem com conflitos, ainda não conseguem se
necessitam de uma justificação moral, tal como os direitos humanos, sobrepor suficientemente. As partes contendentes aprendem a inserir-
por exemplo) pretendem validade absoluta ou reconhecimento uni- se, reciprocamente, em um mundo construído em comum, a partir do
versal similar ao de asserções. Isso explica a exigência kantiana, qual é possível avaliar e solucionai- consensualmente, à luz de padrões
de avaliação consensuais, ações controversas. G. H. Mead descreveu
SELLARS, W. Empiricism and the Philosophy ofMind. Cambridee (Mass ) tal processo como ampliação de uma troca reversível de perspectivas
1997. de interpretação. Na terminologia piagetiana, as perspectivas dos
58 59
participantes, enraizadas inicialmente no próprio mundo da vida,
tomam-se tanto mais fortes ou "descentradas", quanto mais o processo pelo entendimento mútuo porque um proponente só pode ganhar o
de entrecruzamento das perspectivas se aproxima do valor-limite da jogo a partir do momento em que conseguir convencer seus oponentes
"inclusão". Ora, é interessante notar que a prática da argumentação do direito de sua pretensão de validade. A aceitabilidade racional da
aponta naturalmente para essa direção. Uma vez que, sob o ponto de asserção correspondente funda-se na força de convencimento do
vista moral, somente normas igualmente boas para todos merecem melhor argumento. Não é o discernimento privado que decide qual é
reconhecimento, o discurso racional se oferece como o procedimento o argumento mais convincente. Isso é tarefa das tomadas de posição,
adequado para a solução de conflitos, já que ele representa um enfeixadas num acordo racionalmente motivado, de todos os que
procedimento que assegura a inclusão de todos os atingidos e a participam da prática pública da troca de argumentos.
consideração simétrica de todos os interesses em jogo. Entrementes, os próprios standards de que se lança mão para
A "imparcialidade" no sentido da justiça converge com a avaliar os bons e os maus argumentos podem transformar-se em objeto,
"imparcialidade" no sentido da certificação discursiva de pretensões de controvérsias. Tudo pode ser arrastado para o turbilhão dos contra-
de validade discursivas.24 Tal convergência fica patente quando se argumentos. Por esta razão, a aceitabilidade racional de pretensões de
compara a orientação de processos de aprendizado moral com as validade tem como único apoio, em última instância, argumentos que
condições a serem preenchidas para uma participação em conseguem, sob determinadas condições exigentes da comunicação,
argumentações em geral. Processos de aprendizado moral solucionam, afirmar-se contra objeções. O sentido genuíno do processo de
por meio da inclusão recíproca do respectivo outro ou dos respectivos argumentação exige que a forma comunicativa do discurso não
outros, conflitos desencadeados pela oposição entre partesrivaisque somente tematize todas as possíveis informações e explicações
se orientam por valores dissonantes. Sem embargo, a forma relevantes, mas também que sejam abordadas de tal forma que os
comunicativa da argumentação é talhada para tal ampliação dos posicionamentos dos participantes possam ser motivados
horizontes de valores, da qual resulta um entrelaçamento de perspec- intrinsecamente apenas pela força revisora de argumentos que flutuam
tivas. A salvaguarda do sentido cognitivo da discussão de pretensões livremente. Ora, caso seja este o sentido intuitivo que vinculamos às
de validade controversas exige que os participantes da argumentação argumentações em geral, então não podemos deixar de admitir que
acatem um universalismo igualitário que é, de certa forma, requerido uma determinada prática não poderá ser tida como argumentação séria
pela própria estrutura da argumentação e que não possui, inicialmente, caso não preencha determinadas pressuposições pragmáticas.25
nenhum sentido moral, apenas pragmático-formal. As pressuposições mais importantes são as seguintes: (a) Inclusão
Nas argumentações, o caráter cooperativo da competição pelo e caráter público: não pode ser excluído ninguém desde que tenha
melhor argumento pode ser compreendido quando atentamos para a uma contribuição relevante a dar no contexto de uma pretensão de
finalidade ou função constitutiva desse jogo de linguagem: os validade controversa; (b) igualdade comunicativa de direitos: todos
participantes pretendem convencer uns aos outros. No entanto, ao têm a mesma chance de se manifestar sobre um tema; (c) exclusão da
transportar o agir comunicativo cotidiano para o nível reflexivo de ilusão e do engano: os participantes têm de acreditar no que dizem;
pretensões de validade tematizadas, eles não deixam de orientar-se
Sobre o que se segue cf. HABERMAS, J. "Eine genealogische Betrachtung
24 REHG, W. Insightand Solidarity. Berkeley, 1994. zum kognitiven Gehalt der Moral", in: id. Die Einbeziehung des Anderen.
Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1996, 11-64, aqui 61 s.
60
61
(d) ausência de coações: a comunicação deve estar livre de restrições De outro lado, as pressuposições inevitáveis da prática da
que impedem a formulação do melhor argumento capaz de levar a argumentação não são, apesar de contrafáticas, meros constructos, já
bom termo a discussão. As pressuposições (a), (b) e (d) impõem ao que operam efetivamente no comportamento dos participantes da
comportamento argumentativo regras de um universalismo igualitário argumentação. Quem participa seriamente de uma argumentação adota
que têm como conseqüência - no tocante às questões prálico-morais faticamente tais pressuposições. Isso pode ser inferido das
- a consideração (simétrica) dos interesses e orientações valorativas conseqüências que os participantes tiram, quando necessário, de
de cada um dos atingidos. E uma vez que os participantes são, nos inconsistências percebidas. O procedimento da argumentação é
discursos práticos, ao mesmo tempo, os atingidos, neles a autocorretivo no sentido de que as razões necessárias, por exemplo,
pressuposição (c) adquire uma importância adicional, já que permite para uma liberalização "pendente" das normas de funcionamento e
aos participantes adotar, em relação a auto-enganos próprios, uma do regime de discussão, para a modificação de um círculo de
atitude crítica e, em relação à autocompreensão e à compreensão de participantes não-suficientemente representativo, para uma ampliação
mundo de outros, uma atitude hermeneuticamente aberta e sensível da agenda ou para uma melhoria da base de informação resultam do
(no âmbito de questões teórico-empíricas, tal pressuposição exige próprio transcurso de uma discussão insatisfatória. Nós simplesmente
apenas uma ponderação isenta e sincera de argumentos). percebemos quando novos argumentos enüam em cena ou quando
Tais pressupostos da argumentação contêm, evidentemente, vozes marginalizadas são levadas a sério. De outro lado, nem todas as
idealizações fortes a ponto de levantarem a suspeita de que se trata de inconsistências percebidas são motivo para tais "consertos" ou
uma descrição tendenciosa. Haveria a possibilidade de os participantes semelhantes. Isso se explica pela circunstância de que os participantes
da argumentação tomarem como ponto de partida, de modo da argumentação deixam-se convencer imediatamente pela substância
performativo, pressuposições cuja natureza contrafática eles não dos argumentos, não pelo design comunicativo utilizado para a troca
poderiam ignorar? Porquanto, ao participarem do discurso, eles não de argumentos. Características procedimentais do processo de
olvidam, por exemplo, que o círculo de participantes é extremamente argumentação fundamentam a expectativa racional de que as
seletivo, que a amplitude comunicativa de uma das partes é maior do informações e argumentos decisivos "venham à tona" e sejam
que a de outras, que um ou outro participante, ao discutir este ou "colocados na mesa". Enquanto os participantes da argumentação
aquele tema, é vítima de preconceitos, que muitos se portam tomam como ponto de partida a idéia de que isso é o caso, não têm
eventualmente de modo estratégico ou que, finalmente, as tomadas nenhuma razão para se preocupar com características procedimentais
de posição em termos de "sim" ou "não" são, muitas vezes, insuficientes do processo de argumentação.
determinadas por motivos espúrios, não pelo motivo do melhor As características formais da argumentação adquirem relevância,
argumento. Sem dúvida alguma, um observador não envolvido no tendo em vista a diferença entre afirmabilidade e verdade. Uma vez
discurso poderia apreender, melhor do que os próprios participantes que, "em derradeira instância", não existem argumentos definitivos
engajados, esses desvios de uma "situação de fala" que se supõe ser ou evidências concludentes, nem asserções bem fundamentadas que
quase "ideal". Não obstante isso, os próprios participantes não se eventualmente não se revelem falsas, a expectativa racional de que as
deixam sorver inteiramente pelo seu engajamento participativo, pois, melhores informações e argumentos possíveis estejam disponíveis
no próprio enfoque performativo permanecem atuais, ao menos para o discurso e "contem" realmente no final das contas só pode ser
intuitivamente, muitas coisas das quais eles poderiam ter um fundamentada pela qualidade do procedimento da certificação
conhecimento temático caso adotassem um enfoque objetivador. discursiva da verdade. As inconsistências que levantam a suspeita
62 63
"de que aqui ninguém está argumentando" só são percebidas quando II
participantes relevantes são visivelmjnte excluídos, contribuições
relevantes são supressas, ou quando tomadas de posição em termos (5) Kant movimentou-se num paradigma onde a linguagem não
de "sim/não" são manipuladas ou condicionadas por meio de outro exerce nenhum papel constitutivo para a teoria ou para a prática. O
tipo de influências. mentalismo concebe a imagem de um espírito, ora mais construtivo
A eficácia operativa da antecipação idealizadora levada a cabo ora mais passivo, que converte seus contatos com o mundo, mediados
tacitamente pelos participantes por intermédio de suas pressuposições pelos sentidos, em representações de objetos e em influências
argumentacionais torna-se perceptível na função crítica que tal funcionais sobre objetos, e tais operações não são afetadas
antecipação preenche: uma pretensão de validade absoluta precisa essencialmente pela linguagem e suas estruturas. Enquanto a
justificar-se em foros cada vez mais amplos, perante um público linguagem não perturba o espírito com seus ídolos, com as imagens
competente cada vez mais extenso e contra objeções cada vez mais ou simples ideais herdados da tradição, ele consegue ver através do
freqüentes. Tal dinâmica de uma descentração cada vez maior das médium da linguagem como se fora através de um cristal sem mácula.
próprias perspectivas de interpretação, embutida na prática da Por isso, a linguagem ainda não aparece, em uma visão genealógica
argumentação, estimula especialmente os discursos prátícos, nos quais retrospectiva sobre a procedência mentalista de um uso
não se trata da certificação de pretensões de validade, mas da destranscendentalizado da razão, como o médium configurador do
espírito que recoloca a consciência transcendental nos contextos
configuração inteligente e da aplicação de normas morais (e jurídicas).26 históricos e sociais do mundo da vida.
A validade de tais normas "consiste" no reconhecimento univer- Para Kant, no âmbito da prática, a razão consegue capturar-se a
sal que elas merecem. Uma vez que as pretensões de validade morais si mesma, inteiramente, já que ela é constitutiva para o agir moral.
são destituídas de conotações ontológicas, que são características das Isso sugere que rastreemos as pegadas da razão destranscendentalizada
pretensões de verdade, surge, no lugar da referência a um mundo no agir comunicativo. A expressão "agir comunicativo" assinala as
objetivo, a orientação pela ampliação do mundo social, isto é, pela interações sociais para as quais o uso da linguagem orientado pelo
inclusão cada vez mais ampla de pessoas e de pretensões estranhas. A entendimento assume o papel de coordenador da ação.27 Por meio da
validade de uma asserção moral possui um sentido epistêmico, isto é, comunicação lingüística, as pressuposições idealizadoras emigram para
o sentido de que ela poderia ser aceita sob condições ideais de um agir orientado pelo entendimento. Por isso, a teoria da linguagem,
justificação. Entretanto, uma vez que o sentido da "correção moral", especialmente a semântica, que esclarece o sentido de exteriorizações
ao contrário do sentido de "verdade", se esgota na aceitabilidade lingüísticas lançando mão das condições da compreensão da
racional, nossas convicções morais têm de confiar, em última instância, linguagem, é o lugar no qual uma pragmática formal, de procedência
no potencial crítico da descentração e da auto-superação, que se kantiana, poderia encontrar-se com pesquisas oriundas do campo
encontra embutido, juntamente com a "inquietação" resultante da analítico. De fato, a tradição de pesquisa analítica, que se inicia em
antecipação idealizadora, na prática da argumentação - e na Frege, toma como ponto de partida o caso elementar de uma
autocompreensão de seus participantes. pressuposição idealizadora, o que somente foi notado, no entanto,
após a guinada lingüística. Porquanto, se as estruturas do espírito são
Sobre o que se segue cf. HABERMAS, J. "Richtigkeit vs. Wahrheit", in: id. HABERMAS, J. "Handlungen, Sprechakte, sprachlich vermittelte Interaktionen
(1999), 271-318. und Lebenswelt", in: id. Nachmetaphysisches Denken, 1988, 63-104.

64 65
cunhadas pela gramática da linguagem, coloca-se a seguinte questão: membros de uma comunidade lingüística têm de supor, inicialmente,
de que modo frases e expressões predicativas conseguem manter, na que as expressões formadas gramaticalmente, e que são exteriorizadas
variedade de seus contextos de aplicação, a generalidade e a identidade por eles, possuem uma significação geral e idêntica para todos os
da significação que elas possuem naturalmente na esfera mental? participantes, na variedade dos contextos de aplicação. Tal
O próprio Frege, que ainda se encontra na tradição kantiana e pressuposição permite constatar o fato de que eventuais exteriorizações
que deve ser, segundo Dummett, colocado ao lado de Husserl, propôs são incompreensíveis. A suposição da utilização de expressões de uma
uma distinção entre o conceito semântico de "pensamento" e o conceito linguagem comum com significado idêntico, inevitável in actu, não
psicológico de "representação". Para serem comunicados, os exclui, evidentemente, a divisão de trabalho lingüística nem a mudança
pensamentos precisam ultrapassar, inalterados, os limites de uma histórica da significação. Um saber sobre o mundo, modificado, induz
consciência individual; ao passo que as representações pertencem uma mudança do saber lingüístico, e os progressos no conhecimento
apenas a um sujeito individuado no espaço e no tempo. De outro lado, depositam-se em uma mudança de significação dos conceitos teóricos
proposições conservam o mesmo conteúdo de pensamento, mesmo fundamentais.29
quando exteriorizadas ou compreendidas como tais proposições por Também no caso da generalidade ideal da significação de
diferentes sujeitos e em contextos distintos. Isso levou Frege a expressões gramaticais se trata de uma pressuposição idealizadora
adscrever aos pensamentos e conteúdos conceituais um status ideal, que muitas vezes é inadequada na perspectiva de um observador e
isto é, desligado do espaço e do tempo. Ele explica a peculiar diferença que, à luz do microscópio de um etnometodólogo, é sempre inadequa-
de status entre pensamentos e representações apontando para as formas da. Enquanto suposição contrafática, ela é, no entanto, inevitável para
gramaticais de sua expressão. Diferentemente de Husserl, Frege o uso da linguagem orientada pelo entendimento. Por sua crítica
pesquisa a estrutura de juízos ou pensamentos analisando a estrutura justificada ao psicologismo, Frege deixou-se levar para um platonismo
da frase assertórica, composta de palavras, e que é tida como a menor da significação compartilhado, aliás, por Husserl, mesmo que sob
unidade gramatical, podendo ser verdadeira ou falsa. Na estrutura das premissas diferentes. O Frege tardio pensava que a arquitetô-
proposições e na inter-relação entre referência e predicação podemos nica mentalista dos dois mundos, segundo a qual existe uma contra-
ler como os conteúdos de pensamentos se distinguem dos objetos do posição entre o mundo objetivo das coisas e um mundo subjetivo das
pensamento representador.28 representações, tem de ser complementada por um terceiro mundo, a
Em situações variadas, as expressões lingüísticas podem manter saber, o mundo ideal das proposições. Tal manobra infeliz o coloca,
a mesma significação para diferentes pessoas; mas supõe que o pensa- no entanto, em uma situação complicada. Quando hipostasiamos as
mento ultrapasse os limites de uma consciência individualizada no significações da frase transformando-as em um em si ideal, o modo
espaço e no tempo, e que o conteúdo ideal dos pensamentos seja inde- de relacionamento dessas entidades etéreas situadas no "terceiro
pendente do fluxo de vivências do sujeito pensante. Já no nível elemen- reino"30 com as coisas físicas do mundo objetivo e com os sujeitos
tar do substrato do signo, os falantes e ouvintes têm de aprender a
reconhecer o mesmo tipo de signo na pluralidade das correspondentes
ocorrências de signos. A isso corresponde, no nível semântico, a PUTNAM, H. 'The meaning of meaning", in: id., Mind, Language and Reality,
suposição de significações invariantes. Porquanto, na prática, os Cambridge, 1975,215-271.
FREGE, G. "Der Gedanke (1918/19)", in: id., Logische Untersuchungen.
TUGENDHAT, E. Einführung in die sprachanalytische Philosophie. Frank- Gõttingen, 1966,30-53. Nesse texto Frege chega ao seguinte resultado: "Os
furt/M., 1976, 35 ss. pensamentos não são coisas do mundo exterior nem representações. É
necessário reconhecer um terceiro reino".
66 67
estratégias. Ele pretende desarmar, à luz de premissas empiristas, a
representadores torna-se um enigma. A relação da "representação" peculiar normatividade da linguagem que se reflete não somente na
mental de entidades torna-se independente de um espírito subjetivo, relação dos sujeitos - providos de fala e ação - com o mundo, mas
e, a partir daí, não se sabe mais como ele vai "apreender" ou "avaliar" também em suas relações interpessoais (6). Michael Dummett e Rob-
proposições. ert Brandom caminham em uma direção contrária alimentando a
Frege deixou como herança para seus sucessores dois problemas: pretensão de reconstruir, passo a passo, a normatividade da prática de
em primeiro lugar, os "pensamentos que são expelidos da consciência" entendimento (7 e 8). O esboço delineado a seguir coloca-se como
(Dummett) amargam, enquanto proposições, uma existência ambígua uma tentativa de reproduzir a linha na qual o sentido normativo, próprio
e incompreensível; o segundo problema constitui, de certa forma, o da razão incorporada na linguagem, também se faz valer na filosofia
outro lado da idéia pioneira que introduz a "verdade" como conceito analítica da linguagem.
semântico fundamental para a explicação do sentido de expressões
lingüísticas. Para entender uma frase é necessário conhecer as (6) Davidson imprime características objetivas a um fenômeno
condições sob as quais ela é verdadeira, isto é, é necessário saber - carente de explicação, perguntando: o que significa compreender uma
como Wittgenstein afirmará mais tarde - "o que é o caso quando ele é expressão lingüística? Sua decisão metodológica é prenhe de
verdadeiro". A partir daqui, coloca-se a tarefa de explicar o sentido de conseqüências, uma vez que modifica o papel do analista da linguagem.
verdade da satisfação das condições de verdade. A proposta fregeana, Tal papel não é mais o de um leitor ou de um ouvinte que tenta
de entender o valor de verdade de uma frase como seu objeto de compreender textos ou exteriorizações de um autor ou de um falante.
referência, é insatisfatória. Já que a própria análise da estrutura da Ao invés disso, ele atribui ao intérprete o papel de um teórico que
frase revela que a verdade não pode ser assimilada a nenhum tipo de procede de forma empírica, que formula observações sobre o
referência. Constatamos, pois, que a tradição da semântica veritativa comportamento de uma cultura estranha e que, diferentemente de um
foi sobrecarregada, desde o início, com dois problemas de difícil etnólogo wittgensteiniano, busca uma explicação nomológica para o
solução. incompreensível comportamento lingüístico dos nativos. Com isso, o
Os conteúdos proposicionais extraídos do fluxo de vivências comportamento comunicativo de sujeitos providos da faculdade de
têm de ser, enquanto significados, incorporados de tal maneira ao fala e ação é deslocado, de certa forma, para o lado do objeto. A
médium das expressões lingüísticas que o reino intermediário e assimilação da compreensão do sentido a explicações para as quais
fantasmagórico das proposições livremente flutuantes se dissolve. No necessitamos de uma teoria empírica corresponde à assimilação
entanto, o caminho da explicação semântico-veritativa do sentido de enérgica de exteriorizações simbólicas compreensíveis à categoria de
frases só funciona quando o conceito explanatório "verdade", o qual fenômenos naturais observáveis. Davidson desenvolve tal teoria
é fundamental, sai da sombra. Ambas as questões - o que podemos utilizando a convenção veritativa de Tarsky como conceito funda-
fazer com proposições e como devemos entender o predicado mental não definido para a criação de equivalências semânticas.
"verdadeiro" - podem ser interpretadas como hipotecas de um conceito Tal lance permite-lhe enfocar, de modo menos dramático, o
mentalista de razão, reprimido. Em uma visão lingüística, dois tipos problema que se coloca quando se trata de enfrentar a idéia da verdade
de reações se oferecem: ou se liquida o próprio conceito de razão e do conteúdo ideal de pretensões de verdade que se fizeram valer
juntamente com o paradigma mentalista; ou se liberta tal conceito de comunicativamente. Com relação ao problema da reduplicação
sua moldura mentalista transformando-o, a seguir, no conceito da razão platônica de significados de frases em proposições, que tem a ver
comunicativa. Donald Davidson adota a primeira destas duas
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com a utilização de expressões gramaticais com significação idêntica, exteriorização e situação da exteriorização, constatada, numa prova
ele sugere pura e simplesmente a eliminação do conceito de significado. suficiente para a escolha teoricamente informada da interpretação
Davidson pensa que uma das vantagens de seu procedimento correta. Por esta razão, Davidson introduz, como princípio
objetivista reside precisamente no fato de que ele não precisa lançar metodológico, a idéia refutável de que os falantes observados no campo
mão "de significados como entidades": "Não são introduzidos objetos comportam-se, por via de regra, de modo racional. Isso significa que
que devam corresponder a predicados ou sentenças".11 Não obstante eles acreditam, em geral, no que dizem e que não se enredam, na
isso, o problema ainda não desaparece inteiramente sem deixar rastos. seqüência de suas exteriorizações, em contradições. Sob tal
Ele retoma no plano metodológico quando nos perguntamos sobre o pressuposição, o intérprete pode tomar como ponto de partida a idéia
modo como o intérprete toma as provas coletadas no campo de pesquisa de que, na maioria das situações, os falantes observados percebem o
-o comportamento lingüístico e as características das atitudes de mesmo que ele percebe e acreditam nas mesmas coisas em que ele
falantes estranhos - e as agrega corretamente a proposições verdadeiras, acredita, de tal sorte que ambos os lados coincidem em um grande
geradas teoricamente. Para extrair uma estrutura lógica do fluxo de número de convicções. Isso não exclui, evidentemente, discrepâncias
dados observados, o intérprete é levado a decompor, inicialmente, as em determinados casos. No entanto, o princípio induz o intérprete a
seqüências de comportamentos em unidades semelhantes a frases e "maximizar o consenso".
associáveis aos "bicondidionais" da teoria tarskiana. Todavia, mesmo Neste ponto, é necessário precisar que o "princípio de caridade",
no caso de uma segmentação bem-sucedida, não é suficiente, para introduzido metodicamente, obriga um intérprete a atribuir a um falante
uma correspondência clara, a co-variância de exteriorizações singulares estranho, na perspectiva do observador, a "racionalidade" como
e circunstâncias típicas nas quais estas surgem. disposição do comportamento. Tal atribuição não pode ser confundida
Em geral, um falante competente exterioriza uma frase de com uma suposição de racionalidade que é feita performativamente
percepção apoiado na significação lexical conhecida das expressões por participantes. Porquanto, em um dos casos, o conceito de
utilizadas, mas somente em contato com aquilo que ele acredita estar racionalidade é utilizado de modo descritivo; no outro, a utilização
percebendo realmente na situação dada, portanto, com aquilo que ele é normativa. Em ambos os casos, porém, trata-se de uma
tem por verdadeiro. E já que a crença e a significação da palavra podem pressuposição falível: "O conselho metódico de interpretar, de uma
variar autonomamente, os dados auferidos por observação, isto é, o maneira a otimizar o consenso, não deveria ser interpretado como
comportamento do falante estranho e as circunstâncias nas quais ele algo apoiado numa pressuposição caritativa com relação à
surge, só podem informar o intérprete sobre o significado da inteligência humana [...]. Se não encontrarmos nenhuma possibilidade
exteriorização a ser interpretada quando o falante estranho tem por de interpretar as exteriorizações e demais atitudes de uma criatura de
verdadeiro o que diz. Para descobrir o significado do que foi dito, um tal modo que dentre elas se manifeste um certo número de convicções
observador tem de saber se o falante estranho acredita no que diz. Por isentas de contradição e verdadeiras de acordo com nossos próprios
conseguinte, o intérprete tem de pressupor, caso pretenda excluir a padrões, não teremos nenhuma razão de considerar tal criatura um ser
incômoda interdependência entre crença e significado, que o "ter-por- racional que defende convicções ou que é capaz de dizer algo em
verdadeiro" do falante constatado é constante. Somente a suposição geral".32
do ter-por-verdadeiro consegue transformar a co-variância de
DAVIDSON, D. "Radikale Interpretation", in: id. (1986), 199 (a tradução foi
31 DAVIDSON, D. Wahrheit und Interpretation. Frankfurt/M., 1986, 10. modificada, observação de J. Habermas).
70 71
Tal formulação (reencontrada no argumento davidsoniano con- poderemos identificar os conteúdos de suas palavras nem de seus
tra a distinção entre conteúdo e esquema conceituai) já indica que o pensamentos. Descobrir a racionalidade nos outros é uma questão de
princípio metodológico adquire uma espécie de significação transcen- reconhecer nos comportamentos e atos de fala deles nossas próprias
dental.11 A atribuição de racionalidade não é apenas uma pressuposição normas de racionalidade. Tais normas incluem as normas da
inevitável para a interpretação radical, mas também para a comunicação consistência lógica, da atuação em conformidade com os interesses
cotidiana normal entre membros de mesma comunidade lingüística.14 básicos do agente e a aceitação de pontos de vista sensíveis à luz da
Sem a suposição recíproca da racionalidade, não encontraríamos evidência."17
qualquer tipo de base de um entendimento suficientemente comum, É interessante observar que, para Davidson, a normatividade do
capaz de nos arrancar de nossas diferentes teorias da interpretação comportamento humano, que é o alvo da suposição de racionalidade,
(ou de nossos "ideoletos"). 15 A seguir, no quadro de uma teoria serve também como critério para delimitai- a linguagem da física ante
integrada da ação e da linguagem, o "ter-por-verdadeiro" é retroligado a linguagem mental: "Existe um sem número de razões para a
a uma "preferência" geral por proposições verdadeiras Cpreferring irredutibilidade do mental ao físico. Uma das razões [...] é o elemento
one sentence true to another")?6 normativo introduzido na interpretação pela necessidade (!) de apelar
A racionalidade da ação mede-se pelos standards comuns - pela para a caridade quando tentamos combinar as sentenças dos outros
consistência lógica, pelos princípios gerais do agir orientado pelo com as nossas próprias".38 Contra a visão monista do cientificismo
sucesso e pela consideração de evidências empíricas. Recentemente, naturalista, Davidson gostaria de manter, ao menos, uma tênue linha
na réplica a uma intervenção de Richard Rorty, Davidson voltou a de demarcação entre espírito e natureza. E Richard Rorty pode oferecer
formular seu princípio de caridade da seguinte maneira: "A caridade é argumentos fortes contra tal tentativa heróica, uma vez que, com isso,
uma questão de encontrar suficiente racionalidade naqueles que ele apenas radicaliza a estratégia seguida pelo próprio Davidson que
pretendemos entender para que faça sentido o que dizem e fazem, enfraquece o potencial da razão inserido na comunicação lingüística.39
pois, se não formos bem-sucedidos neste empreendimento, não E não fica claro, de modo nenhum, como Davidson pode manter um
dualismo das perspectivas corpo-espírito após ter localizado o
comportamento racional inteiramente ao lado dos objetos e após ter
33 FULTNER, B. Radical Interpretation or Communicative Action: Holism in reduzido a compreensão das expressões lingüísticas às explicações
Davidson and Habermas. Dissertação filosófica, Northwestern University, teóricas de um intérprete dotado de um enfoque objetivador. Porquanto
1995, 178 ss. a própria compreensão da linguagem, bem como os standards de
14 CUTREFELLO, A. "On the Transcendental Pretensions of the Principie of
Charity", in: HAHN, L. E. (ed.), The Philosophy ofDonald Davidson. LaSalle racionalidade, que Davidson atribui, inicialmente, ao intérprete radi-
(III.) 1999, 333: "Supõe-se que o princípio da caridade é uma condição cal, não caíram simplesmente do céu. Eles carecem de uma explicação
universalmente vinculante para a possibilidade de interpretação de qualquer ulterior.
pessoa". Em sua réplica, Davidson aceita a expressão "transcendental" no
sentido fraco de uma inevitabilidade fática; em todo caso, ele fala na
"inevitabilidade do apelo a tal princípio" (ibid., 342). Cf. HAHN (1999), 600.
35 DAVIDSON, D. "Eine hübsche Unordnung von Epitaphen", in: PICARDI, E. DAVIDSON, D. "Could there be a Science of Rationality?", in: International
e SCHULTE, J. (eds.) Die Wahrheit der Interpretation. Frankfurt/M., 1990 Journal of Philosophical Studies, n° 3, 1995, 1-16, aqui 4.
203-227. RORTY, R. "Davidson's Mental-Physical Distinction", in: HAHN (1999),
36 DAVIDSON, D. Handlung und Ereignis. Frankfurt/M., 1985. 575-594.
72 73
Uma interpretação radical não é suficiente para tornar compre- dos sentidos: "Nos casos mais simples e fundamentais, as palavras e
ensível, no âmbito da moldura empírica escolhida, de que modo o frases adquirem seu significado dos objetos e das circunstâncias sob
próprio intérprete aprendeu a falar, e de que modo a linguagem as quais elas foram aprendidas. Uma frase que temos por verdadeira
conseguiu surgir. Se os sujeitos providos da capacidade de fala e ação por causa da presença do fogo durante um processo de aprendizagem
são "seres dotados de espírito" porque podem assumir atitudes será verdadeira quando houver fogo".40
intencionais em relação a conteúdos proposicionais conectados Tal explicação remete o significado de uma expressão e a verdade
logicamente e se, além disso, a estrutura intencional de seus atos de de uma sentença às circunstâncias causadoras sob as quais elas fo-
fala e de suas ações exige dos intérpretes a suposição de racionalidade, ram aprendidas. O processo, descrito no jogo de linguagem causai
bem como uma conceitualidade mentalista, então permanece aberta a como condicionamento, encontra-se numa tensão contra-intuiti va com
questão: como foi possível o surgimento da intencionalidade? nossa autocompreensão enquanto seres racionais. Por isso, Davidson
Davidson responde, como é sabido, apresentando o modelo de uma quer explicar o modo como o distanciamento intencional do mundo e
situação de aprendizado "triangular" na qual dois organismos reagem, em relação ao mundo poderia ter sido provocado, de acordo com o
ao mesmo tempo, entre si tendo como referência "o mundo". Ele padrão estímulo-reação, pelo próprio mundo. Dois seres vivos, que
pretende mostrar, no sentido de uma gênese lógica da aquisição de interagem entre si, conseguem adquirir tal distanciamento específico
expressões lingüísticas elementares, como poderia ter sido possível, a do estímulo que inicialmente condiciona sem distanciamento e ao
partir de "nossa" visão e sob premissas naturalistas, o fato de que dois qual eles reagem de modo semelhante, não apenas pelo fato de que
organismos da mesma espécie, inteligentes e altamente desenvolvidos, eles percebem apenas o próprio estímulo, mas também porque, pelo
porém, ainda completamente adaptados a um ambiente natural pré- caminho da observação recíproca, também percebem, ao mesmo
lingüístico, aprendem a adquirir, com o auxílio de símbolos utilizados tempo, que o respectivo outro reage ao mesmo estímulo, da mesma
com significado idêntico, uma distância em relação ao seu entorno maneira: "Com isso, muitas características foram colocadas no seu
sensível, a qual nós designamos como "intencional". lugar, a fim de emprestar um significado ao pensamento, segundo o
Para a constituição intencional do espírito, é constitutiva a qual, o estímulo tem um lugar objetivo num espaço comum; tudo
suposição de um mundo objetivo de objetos, ao qual podemos referir- depende do fato de duas perspectivas privadas convergirem a fim de
nos. Tal referência ao mundo é pressuposição para que possamos marcar uma posição no espaço intersubjetivo. Até agora, no entanto,
formular asserções sobre objetos e assumir atitudes variadas em relação nada prova, nessa imagem, que [...] os objetos das experiências [...]
a conteúdos de enunciados. A luz de tal descrição, a consciência disponham do conceito de objeto".41
intencional aparece como co-originária com uma linguagem
diferenciada em termos proposicionais. Não obstante isso, a gênese Entretanto, ainda não ficou claro como alguém pode saber que o
dessa consciência tem de ser pensada como se tivesse resultado de outro reage ao mesmo objeto da mesma maneira que ele. Ambos têm
uma espécie de interação com o mundo para a qual a referência a um de averiguar se o respectivo ouUo tem em mente o mesmo objeto. E
mundo suposto como objetivo ainda não é constitutiva. A relação do sobre isso eles têm de entender-se. Todavia, eles somente podem entrar
mundo com a linguagem é casual. Tal premissa naturalista se adequa numa comunicação recíproca se utilizarem simultaneamente o padrão
à tese do assim chamado externalismo, segundo o qual, a linguagem de reação, percebido como semelhante (ou uma parte dele), como
está, de um lado, "ancorada no mundo" por meio de um vocabulário
elementar de percepção; de outro lado, porém, o seu conteúdo DAVIDSON, D. Der Mythos cies Subjektiven. Stuttgart, 1993, 93 ss.
semântico resulta de uma elaboração inteligente de estímulos causais Ibid., 12.

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expressão simbólica, e o endereçarem, como mensagem (Mitteilung), Entretanto, eles só adquirem esse conceito com o auxílio de um critério
ao outro. Eles precisam comunicar entre si sobre o que propriamente que eles aplicam do mesmo modo - a saber, com o auxílio de um
desencadeou em ambos a reação: "Para que duas pessoas possam símbolo que tem o mesmo significado para ambos. Somente então,
saber que elas - seus pensamentos - se encontram em uma tal relação eles poderiam entender-se entre si sobre semelhanças objetivas.
recíproca, é necessário que elas entrem em comunicação. Cada uma Certamente, se alguém pudesse assumir em relação a uma criança o
delas tem de falar com a respectiva outra e ser entendida por ela".42 papel de um intérprete radical, por exemplo, o papel de um professor,
Um estímulo que desencadeia uma reação semelhante nas duas partes ele iria tentar descobrir se ele e a criança "pensam o mesmo" - e,
envolvidas transforma-se "para elas" em um objeto, isto é, num conforme o caso, ele iria corrigir as falhas dela. Não obstante isso,
elemento situado num mundo objetivo comum, tão logo elas, partindo esse caso de triangulação poderia explicar, na melhor das hipóteses, o
da observação recíproca da semelhança de suas reações, se entendem modo como adolescentes podem aprender - no interior de uma
"sobre ele" com o auxílio de sua reação comportamental, endereçada comunidade de linguagem existente - componentes elementares do
reciprocamente por meio de símbolos. Com isso, o estímulo vocabulário da percepção. Isso ainda não revelaria nada sobre a
desencadeador é transformado em objeto. Somente por um tal emprego possibilidade de um surgimento originário da intencionalidade a partir
comunicativo, o padrão das duas reações comportamentais, da observação recíproca do comportamento de organismos que reagem
semelhantes, adquire um significado idêntico para ambos os lados. de modo semelhante a determinadas secções do entorno, mas que não
A intuição davidsoniana, expressa na imagem da triangulação, é reagem de modo intencional.
clara: a referência ao mundo objetivo e a atitude intencional em relação Para a percepção recíproca de reações objetivamente semelhantes
a algo em um inundo objetivo só são possíveis numa perspectiva de transformar-se numa atribuição recíproca do mesmo padrão de reação,
falantes, a qual é acoplada à perspectiva de, ao menos, um outro falante, é necessário que os participantes utilizem o mesmo critério. Já que
na base de relações intersubjetivas criadas comunicativamente. A sujeitos diferentes só são capazes de constatar semelhanças objetivas
objetividade nasce junto com um distanciamento intencional do sob certas perspectivas determinadas intersubjetivamente. Conforme
inundo. E os falantes só podem adquirir tal distanciamento quando o dito de Wittgenstein, eles têm de poder seguir uma regra. Não é
aprendem a comunicar entre si sobre a mesma coisa. Todavia, é difícil suficiente ter reações semelhantes na visão de um observador não-
mostrar como Davidson poderia explicar esse entrecruzamento da participante; os próprios participantes têm de notar uma semelhança
objetividade com uma intersubjetividade co-originária lançando mão das reações na linha do mesmo estímulo ou do mesmo objeto.41 E isso
de sua situação de aprendizagem fictícia. As dificuldades não são já pressupõe o que deveria ser explicado: "Toda a consciência de tipos,
devidas propriamente ao externalismo do princípio epistemológico
básico, mas ao solipsismo do observador solitário. 4Í Post hoc\ encontro a mesma objeção em FENNELL, J. "Davidson on Meaning
De que modo esses dois organismos, que se encontram no mesmo Normativity: Public or Social", in: European Journal of Philosophy, 8, 2000,
entorno observando-se mutuamente e as suas reações semelhantes a 139-154: "A regularidade no entorno, a identificação dos estímulos comuns
como sendo aqueles aos quais ambos respondemos supõe um juízo de semelhan-
um estímulo proveniente desse entorno, podem entender-se recipro- ça normativa. [...] Para emitir o requerido juízo de semelhança normativa o in-
camente sobre o fato de que eles têm diante de si o mesmo estímulo - térprete deve ir além daquilo que tem ao seu alcance como observador externo
a não ser que eles já disponham de um conceito correspondente? [...] Por isso, a triangulação tem que enfrentar o problema da identificação dos
estímulos comuns, [...] e se a triangulação é entendida em termos puramente
causais como a correlação de pares de estímulo-resposta, o problema não é
42 Ibid., 15. resolvido".
76 77
semelhanças, fatos, etc. [...] é uma questão lingüística".44 É certo que num diálogo com uma segunda pessoa. Os parceiros de um diálogo
Davidson destaca o núcleo social da normatividade de um espírito movimentam-se, mesmo quando precisam desenvolver uma
que, entre outros aspectos, é caracterizado pela intencionalidade e linguagem comum, no horizonte de uma compreensão compartilhada
pela referência a um mundo objetivo comum. Mesmo assim, ele não que funciona como pano de fundo. Tal procedimento é circular à
compreende a socialidade na perspectiva de um membro que se proporção que tudo aquilo que um intérprete aprende a entender
encontra preliminarmente em um modo de vida compartilhado com constitui o resultado falível da explicação de uma pré-compreensão
outros, ou seja, que não está apenas munido objetivamente de que geralmente é vaga e indeterminada. E Gadamer, coincidindo com
disposições comportamentais similares, mas que tem consciência, ao Davidson, sublinha que, nesse processo, o intérprete toma como ponto
menos intuitiva, dessa coincidência. de partida a suposição pragmática de que o texto a ser interpretado só
A compreensão - compartilhada preliminarmente com outros pode ter um sentido claro enquanto exteriorização de um autor racional.
membros - daquilo que torna o próprio modo de vida algo comum A incompreensibilidade de textos e a opacidade de exteriorizações só
faz parte da pertença ou da "qualidade de ser membro". A escolha de podem aparecer ante a folha de contraste dessa "antecipação da
um princípio objetivista que assimila a compreensão do sentido a uma completude": "Isso constitui evidentemente uma pressuposição for-
explicação conduzida por uma teoria significa a decisão por um mal que orienta toda e qualquer compreensão. Ela significa que
solipsismo metódico. Este obriga a entender todo acordo comunicativo somente é compreensível o que representa realmente uma unidade
como resultado construtivo da coordenação e da sobreposição de completa de sentido."46
operações de interpretação que cada um pode realizar por si mesmo A suposição hermenêutica da racionalidade revela um parentesco
na perspectiva de um observador, sem a necessidade de lançar mão de surpreendente com o princípio davidsoniano de caridade. E o
um fundo comum de elementos pré-estabelecidos que se regulam por parentesco, vai, inclusive, ainda mais longe. Da mesma forma que o
si mesmos e que estão presentes subjetivamente. Não fosse assim, "intérprete radical" é obrigado a dirigir seu olhar para as circunstâncias
seria mais indicado, por exemplo, introduzir a triangulação no sentido sob as quais um falante estranho emite uma exteriorização que se
de G H. Mead, isto é, como um mecanismo que explica como um presume verdadeira, assim também, o intérprete gadameriano é
casal de indivíduos da mesma espécie torna-se consciente do obrigado a dirigir o olhar simultaneamente para o texto e para a coisa
significado dos padrões de reação comuns da espécie pelo caminho nele enfocada. Antes de "extrair e entender a opinião do outro, enquanto
da adoção de atitudes mútuas e como esse significado se torna tal", é necessário que nos "entendamos na coisa". Tal é a versão
disponível simbolicamente para ambas as partes.45 hermenêutica do princípio básico da semântica formal, segundo o
qual, o sentido de uma frase é determinado por suas condições de
(7) A hermenêutica assume uma posição contrária a princípios verdade. Existe, não obstante, uma diferença considerável em um outro
objetivistas. E segundo ela, o processo de interpretação é dirigido por aspecto. Enquanto o intérprete davidsoniano, adotando a perspectiva
uma pré-compreensão não controlada por observações sobre um de um observador, atribui ao estranho a disposição de orientar-se pelas
comportamento alheio, como no caso de uma hipótese empírica, mas normas de racionalidade que ele mesmo toma como orientação, o
explicitada e corrigida pelo caminho de perguntas e respostas, como intérprete gadameriano supõe, na perspectiva de um participante, que
o parceiro do diálogo manifesta-se racionalmente de acordo com
padrões de racionalidade comuns. Neste caso, a suposição de raciona-
44 SELLARS, W. Empiricism and the Philosophy ofMind. (1956), Cambridge
(Mass.), 1997), 63.
45 HABERMAS, J. (1981), vol. 2, 11-68. GADAMER (1960), 277 s.

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lidade, realizada de modo performativo, surge de uma compreensão formal, a racionalidade e a imputabilidade que os participantes do
comum da racionalidade, não de uma compreensão que coincide discurso atribuem-se mutuamente. Limito-me aqui a recordar, em
apenas objetivamente, como é o caso da atribuição objetivadora da grandes pinceladas, esses lances de argumentação, extremamente
racionalidade. densos, com o propósito de por à mostra pressuposições idealizadoras
Em todo caso, o modelo global de um diálogo que se alimenta das quais tal perspectiva não pode fugir.
de tradições importantes para a vida lança mão de uma série de A significação de uma expressão simbólica aponta para além
pressuposições não esclarecidas. Para torná-lo acessível a uma análise das circunstâncias específicas nas quais ocorre. Wittgenstein analisa
mais precisa, a pragmática formal reduz esse grande cenário esse momento platônico da generalidade do significado que se liga a
hermenêutico à estrutura de uma troca elementar entre atos de fala qualquer conceito ou predicado, lançando mão do conceito de
orientados pelo entendimento (Verstündigung). O potencial da razão comportamento guiado por regras. Ora, na perspectiva de um
que opera ao nível macroscópico do agir comunicativo é analisado, observador, o comportamento "regular" apenas coincide com uma
por Wittgenstein, ao nível microscópico do comportamento conduzido regra; ao passo que o comportamento "guiado por regras" exige a
por normas. Tal lance de Wittgenstein serviu de inspiração para um orientação por uma regra da qual o próprio sujeito agente precisa ter
ramo da tradição fregeana, não-empirista, que chega até Dummett e um conceito. Isso faz lembrar a distinção que Kant inü-oduz entre o
Brandom. Esses autores, diferentemente da tradição que segue a linha "agir segundo uma lei" (gesetzmassig) e um "agir por respeito à lei"
Carnap-Quine-Davidson, tomam como ponto de partida práticas (aus Achtung vor dem Gesetz). Wittgenstein ainda não pensa em
comuns exercitadas normativamente, as quais fundam um complexo normas de ação complexas, e sim, em regras de produção para
de sentido compartilhado intersubjetivamente. Do ponto de vista operações simples - aritméticas, lógicas ou gramaticais - que podem
metódico, eles adotam a perspectiva de parceiros de um jogo que ser investigadas seguindo o modelo das regras de um jogo.
explicitam capacidades de falantes competentes. Por esse caminho, ele analisa a camada inferior da normatividade
O que uma análise pragmático-formal, que parte "de cima", detectável em atividades mentais. As regras têm de ser dominadas
apresenta como rede de suposições idealizadoras, é focalizado, "a praticamente, uma vez que - e isso o próprio Aristóteles já sabia -
partir de baixo", por um princípio analítico que corre em direção elas não poderiam regulai- a aplicação de si mesmas sem que o agente
contrária à da destranscendentalização. Entretanto, esse enfoque caísse em um regresso infinito. O saber implícito que nos ensina como
também revela que a suposição de significados idênticos de palavras seguir uma regra precede o saber explícito contido nela. Quando não
aponta para suposições mais complexas de um mundo objetivo conseguimos "entender-nos" "sobre" uma prática conduzida por regras,
comum, para a racionalidade de sujeitos capazes de fala e ação e para também não podemos tomar explícita essa capacidade nem formular,
o caráter incondicional de pretensões de verdade. Não se pode pensar enquanto tal, as regras que conhecemos intuitivamente. E uma vez
o nível inferior da idealização independentemente dessas outras que o conhecimento de regras se funda em uma espécie de
idealizações. Wittgenstein anula o platonismo semântico de Frege sem competência, Wittgenstein conclui que todo aquele que tenta obter
lançar fora a idéia da comunicabilidade pública e dos significados clareza sobre seu saber prático já se encontra, preliminarmente, de
idênticos. Dummett conserva a autonomia da função representadora certa forma e enquanto participante, em uma prática.47
da linguagem e da referência ao mundo objetivo, conüapondo-as à
forma de vida compartilhada intersubjetivamente e ao consenso básico Cf. com relação a esse ponto o que Apel já afirmara: APEL, K.-O. "Wittgenstein
da comunidade de linguagem, que serve de pano de fundo. Brandom, und das Problem des Hermeneutischen Verstehens" (1966), in: id. Transfor-
finalmente, apreende, em conceitos detalhados de uma pragmática mation der Philosophie. Vol. I, 1973, 335-377.

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A análise da peculiar normatividade dessetipode comportamento É bem verdade que não ficou claro qual seria em última instância,
elementar, conduzido por regras, revela, além disso, que essas práticas o critério que deveria servir de medida para a crítica pública. Parece
são exercitadas em comum, ou seja, possuem um caráter social que as que a crítica não pode abranger as regras que subjazem intuitivamente
acompanha desde o início. As regras são "normativas" num sentido porque estas são constitutivas para determinadas práticas tal como,
atenuado - sem qualquer conotação obrigatória do tipo que é inerente por exemplo, o jogo de xadrez. E uma vez que Wittgenstein analisa a
a normas de ação - ou seja, elas ligam o arbítrio de um sujeito gramática dos jogos de linguagem seguindo o modelo de jogos da
"dirigindo" suas intenções em uma determinada direção: sociedade, ele considera (em uma linha de interpretação às vezes
- Regras "ligam" a vontade, de tal sorte que os sujeitos agentes questionada) a concordância da comunidade lingüística exercitada
tentam evitar possíveis infrações da regra; a obediência a uma regra faticamente, como autoridade inapelável para a avaliação do correto e
significa a omissão de um "agir em sentido contrário". do falso - como o tipo de certeza contra a qual "a pá se dobra". Assim
- Quem obedece a uma regra pode cometer erros e expor-se à é possível interpretar, em todo caso, a passagem da semântica da
crítica de possíveis faltas; ao contrário do saber prático, que tem a ver verdade para a teoria do significado como uso, efetuada pelo
com o modo como se segue uma regra, a avaliação de um Wittgenstein tardio. Frege já definira o significado de uma frase com
comportamento correto exige um saber explícito em termos de regras. o auxílio de condições de verdade que determinam o modo como ela
- Em princípio, quem segue uma regra deve estar em condições é utilizada corretamente. Ora, se é possível extrair as condições de
de se justificar perante um crítico; por isso, o próprio conceito de verdade do consenso local que serve de pano de fundo, o qual se
"seguir uma regra" inclui a divisão virtual do trabalho entre os papéis difundiu convencionalmente entre os membros de uma comunidade
do crítico e do prático, os quais possuem saberes distintos. lingüística, é muito mais simples descrever diretamente o uso da
- Por conseguinte, ninguém pode seguir uma regra para si mesmo, linguagem estabelecido, renunciando ao conceito complicado de
de modo solipsista; o domínio prático de uma regra significa a verdade ou falsidade de proposições: "Por isso, o significado de uma
capacidade de participar socialmente de uma prática costumeira na proposição ou forma proposicional não deve ser explicado pela
qual os sujeitos já se encontram previamente, tão logo se certificam determinação de uma condição necessária para que seja verdadeira, e
reflexivamente de seu saber intuitivo com a finalidade de se justificar sim, descrevendo o seu uso."48
uns perante os outros. Tal argumento perde, no entanto, sua plausibilidade quando
Wittgenstein explica a universalidade ideal do significado, recordamos o princípio fregeano do contexto, segundo o qual, o sig-
mencionada por Frege, lançando mão de um "consenso" já existente nificado de palavras isoladas é determinado pela contribuição potencial
entre membros numa prática comum. Nela se manifesta o que elas podem fornecer para a composição do sentido de frases
reconhecimento intersubjetivo de regras seguidas tacitamente. Ante verdadeiras. De acordo com isso, o significado de predicados ou
tal pano de fundo, os membros podem "tomar" uma determinada conceitos individuais não se infere diretamente das circunstâncias do
conduta como exemplo para uma regra ou entendê-la como "cum- uso de palavras isoladas, mas no contexto das frases nas quais, caso
primento" de uma regra. E já que pode haver, em princípio, contro- as frases sejam verdadeiras, elas encontram uma utilização correta.
vérsias sobre a correção de uma determinada conduta, o "sim" ou o Porquanto o sentido dessas frases se determina, no todo, segundo as
"não" de um possível crítico, o qual a acompanha implicitamente, faz circunstâncias sob as quais elas podem ser utilizadas de acordo com a
parte do sentido da validade normativa de uma regra. A codificação
binaria: "correto" ou "falso" introduz, na conduta guiada por regras, DUMMETT, M. "Language and Communication", in: id. The Seas of Lan-
um mecanismo de autocorreção. guage. Oxford, 1993, 181.

82 83
verdade. Para saber se alguém utiliza o predicado "vermelho" de forma lingüística, mas porque elas garantem, por meio da aplicação correta,
correta, ou seja, se domina a correspondente regra dos predicadores, a aceitabilidade racional da proposição. As regras, talhadas conforme
temos de lançar mão de frases exemplares que devem ser verdadeiras a função de representação da linguagem, possibilitam uma referência
para expressar resultados testados com sucesso - por exemplo, a objetos e uma relação a estados de coisas, sobre cuja existência o
referências a objetos vermelhos, repetidas sucessivamente. próprio mundo objetivo decide, não os costumes locais. Os falantes
De modo similar, o domínio prático de regras matemáticas ou não conseguem comunicar-se sobre algo no mundo se o próprio
lógicas comprova-se pela correção das proposições correspondentes. mundo, suposto como objetivo, não se "comunicar", ao mesmo tempo,
Enquanto se trata de regras operativas com função cognitiva, - como com eles.
é o caso das regras de jogo negociadas explicitamente que não estão Wittgenstein utiliza a expressão "gramática da linguagem" no
enraizadas em um saber prático preliminar - parece que a sua "validade" sentido amplo de uma "gramática da forma de vida" porque toda
não é explicada pelas convenções existentes, mas pela conuúbuição linguagem natural está "entrelaçada", por sua função comunicativa,
que as operações realizadas conforme regras fornecem para a formação com a articulação dos conceitos fundamentais da imagem de mundo
de asserções verdadeiras. De acordo com isso, na esfera das operações e da estrutura social da comunidade lingüísúca. Mesmo assim, as regras
cognitivas simples, a conduta guiada por normas deixa enüever uma da linguagem não podem ser assimiladas a "usos e costumes", porque
normatividade que já aponta para a verdade e a aceitabilidade racional toda linguagem goza de uma certa autonomia em relação ao pano de
de asserções de uma linguagem natural. O "sim" ou "não" elementar fundo cultural e em relação às práticas sociais da comunidade
de um professor wittgensteiniano, que conüola a operação de um aluno lingüística. Tal autonomia resulta da troca entre saber lingüístico e
que aplica uma regra, parece que só se desenvolve - ou dá-se a conhecer saber sobre o mundo. O desvendamento lingüístico do mundo viabiliza
plenamente em seu sentido de validade - sobre o degrau mais complexo processos de aprendizagem, dos quais se alimenta o saber sobre o
dos posicionamentos explícitos, em termos de sim/não, que participan- mundo. Todavia, o saber sobre o mundo conserva, ante o saber
tes da argumentação assumem quanto a pretensões de verdade dotadas lingüístico, uma força revisora porquanto a função representadora da
de conteúdo empírico. linguagem não se esgota nas formas do seu uso comunicativo: "Que
De modo semelhante, Dummett faz valer a idéia originária de uma asserção satisfaça à condição de ser verdadeira não é, em si
Frege conüa o Wittgenstein tardio. Sua objeção consiste essencial- mesma, uma característica de seu uso [...]. As asserções não adquirem,
mente em afirmar que o julgamento da verdade de uma asserção tem em geral, sua autoridade pela freqüência com que são feitas. Precisamos
de ser medido pela reprodução de um fato e não pelo fato de o falante distinguir, antes, entre o que é dito simplesmente de modo habitual e
ater-se ao uso da linguagem de seu entorno. A autoridade epistêmica o que os princípios que regem os significados de nossas asserções
da assertibilidade justificada não se esgota na autoridade social da requerem de nós ou nos autorizam a dizer."49 Esse sentido próprio da
comunidade lingüística. Certamente, após a guinada lingüística, ficou função de representação da linguagem nos lembra a suposição comum
claro que a representação de estados de coisas depende do médium da de um mundo objetivo, que deve ser adotada pelos participantes da
linguagem, pois, qualquer pensamento claro precisa ser expresso na comunicação quando formulam asserções sobre algo no mundo.
forma proposicional de uma proposição assertórica correspondente.
O pensamento está vinculado à função representadora da linguagem. (8) De outro lado, Dummett, contrapondo-se a Frege, mantém a
Porém, uma proposição assertórica, enunciada corretamente, não é idéia wittgensteiniana, segundo a qual, a linguagem deita raízes no
verdadeira por que as regras da aplicação da proposição refletem o
consenso ou a imagem de mundo de uma determinada comunidade Ibid., 182 s.
84 85
agir comunicativo e, por esta razão, sua estrutura só pode tornar-se Robert Brandom escolhe esse princípio como ponto de partida
visível pelo caminho da explicação de um saber de falantes nela de uma pragmática formal que conjuga a semântica inferencial de
treinados. Em que pese isso, dentre os complexos contextos de uso, Wilfried Sellars com uma impressionante investigação lógica centrada
ele destaca, especialmente, uma determinada prática, a saber, o jogo na prática do "dar e exigir argumentos". Ele substitui a questão
de linguagem de asserções, de objeções e justificações nas quais semântica básica da teoria do significado (o que significa compreender
"obrigações" e "justificações" ("o que os princípios da linguagem uma frase?) por uma questão pragmática: o que faz um intérprete
requerem e nos autorizam a dizer"), semanticamente fundamentadas, quando "aborda e trata" corretamente um falante como alguém que,
transformam-se em tema explícito. Aposição privilegiada do discurso com seu ato de fala pretende verdade para a asserção 'p' exteriorizada?
racional se explica pela guinada epistêmica que Dummett imprimiu à O intérprete atribui ao falante uma obrigação (commitment) de justificar
semântica veritativa. Já que ninguém possui um acesso não-mediado 'p'; e ele mesmo se posiciona quanto a essa pretensão de verdade
às condições de verdade, só podemos entender uma frase quando (claim) à proporção que autoriza ou não o falante a afirmar 'p' (en-
soubermos como reconhecer que suas condições de verdade foram titlemeni). Eu já me posicionei alhures quanto essa teoria.51 Aqui me
preenchidas. As condições que tomam uma frase verdadeira só podem interesso apenas pela suposição de racionalidade necessária em tais
ser conhecidas por meio de argumentos corretos que um falante poderia discursos. Na verdade, Brandom parte da idéia de que o falante e o
ouvinte tratam-se reciprocamente como seres racionais para os quais
aduzir quando afirma ser verdadeira a frase: "Quando identificamos, argumentos "contam". Falantes e ouvintes deixam-se obrigar ou
não somente que alguém toma por verdadeira uma sentença, mas autorizai" por argumentos para o reconhecimento de pretensões de
também sua vontade de asseri-la, nós distinguimos dois critérios de validade, criticáveis em princípio. No entanto, falta em Brandom a
correção: o modo como os falantes estabelecem ou reconhecem a interpretação intersubjeti vista da validade objetiva que conecta a prática
verdade de sentenças; e o modo como, ao reconhecê-las, estão afetando da argumentação a uma antecipação fortemente idealizadora.
o curso ulterior da ação".50
Brandom localiza a normatividade da linguagem, capaz de "ligar"
Naturalmente tal estrutura discursiva interna do entendimento sujeitos racionais, na coação não-coativa do melhor argumento. Tal
mútuo só aparece quando existe um pretexto para se duvidar da coação desenvolve-se pelo caminho de uma prática do discurso na
compreensibilidade ou da validade de um ato de fala. A troca qual participantes justificam racionalmente suas exteriorizações, uns
comunicativa, entretanto, acontece sempre ante o pano de fundo de perante os outros: "Essa é uma espécie de força normativa, um 'ter
um teatro de sombras, discursivo, que implicitamente caminha junto, de' racional. Ser racional é estar vinculado ou obrigado por estas
porque uma exteriorização só é compreensível para aquele que conhece normas, estar submetido à autoridade das razões. Dizer 'nós', nesse
os argumentos (ou o tipo de argumentos) que a tomam aceitável. sentido significa colocar-nos a nós mesmos e a cada um dos outros,
Conforme esse modelo, os falantes oferecem implicitamente, uns aos no espaço das razões, oferecendo e solicitando razões para nossas
outros, na própria comunicação cotidiana normal, argumentos para a atitudes e performances."52 Tal tipo de responsabilidade racional (re-
aceitabilidade de suas exteriorizações; eles exigem tais argumentos sponsibility) é constitutivo para a autocompreensão de sujeitos cuja
uns dos outros e avaliam reciprocamente o status de suas característica principal reside na faculdade de fala e ação. A
exteriorizações. Cada um decide se aceita como justificada a obrigação
argumentativa que o outro contraiu, ou se a recusa. 51 HABERMAS, J. "Von Kant zu Hegel. Zu Robert Brandoms Sprachpragmatik",
in: id. (1999), 138-185.
DUMMETT, M. "Language andTruth", in: id. (1993), 143. " BRANDOM, R. B. Making it Explicit. Cambridge (Mass.), 1994, 5.

86 87
autocompreensão racional é, ao mesmo tempo, determinante para a a relação pragmática entre pergunta e resposta como uma troca
perspectiva de um "nós", na qual uma pessoa se qualifica como "um dialógica. Tal objetivismo transparece, por exemplo, quando ele aborda
de nós". o problema da preservação da "precedência metódica do social": como
É interessante constatar que Brandom inicia seu livro seguindo, mantê-la sem atribuir ao consenso da comunidade lingüística a última
na íntegra, a tradição de Peirce, Royce e Mead, e apresentando uma palavra em questões da validade epistêmica? Brandom conüapõe à
versão intersubjetivista de um conceito de razão universalista. Esses imagem coletivista de uma comunidade lingüística, que impõe
pragmatistas entendem basicamente o universalismo como uma forma autoridade, uma imagem individualista de relações que se isolam aos
de evitar a exclusão. A perspectiva do "nós", pela qual seres racionais pares. Um par de sujeitos individuais, isolados, atribuem-se
-não tanto como enquanto "sencientes" porém, mais como "sapientes" reciprocamente commitments (compromissos) e se concedem ou
- distinguem-se de outros seres vivos proíbe o particularismo, mas negam reciprocamente entitlements (autorizações). Cada lado forma
não o pluralismo: "A colocação mais cosmopolita inicia-se com um seu juízo monologicamente, ou seja, de tal modo que nenhum deles
insight pluralista. Quando perguntamos: quem somos nós ou que tipo consegue "encontrar-se" "com" o respectivo outro no reconhecimento
de coisa somos, as respostas podem variar sem deixarem de ser intersubjetivo de uma pretensão de validade. Brandom menciona, é
compatíveis. Cada um define, de forma diferente, o modo de dizer verdade, "relações-eu-tu". De fato, porém, ele as constrói como
"nós"; cada modo de dizer "nós" define uma comunidade diferente. relações entre uma primeira pessoa - que se fixa na verdade de uma
Aponta para uma grande Comunidade que compreende todos os asserção - e uma terceira pessoa que atribui à outra uma pretensão de
membros de todas as comunidades particulares - a Comunidade verdade, mantendo a reserva de uma avaliação própria. O ato de
daqueles que dizem "nós" de qualquer um e a qualquer um, atribuição, fundamental para a inteira prática do discurso, objetiviza a
independentemente do fato de os membros dessas comunidades segunda pessoa convertendo-a num terceiro observado.
diferentes se reconhecerem entre si ou não." 51 0 C maiúsculo poderia Não é simples casualidade o fato de Brandom equiparar, por via
caracterizar o ponto de referência ideal para a aceitabilidade racional de regra, o intérprete a um público que julga a exteriorização de um
exigida para pretensões de validade incondicionais, isto é, que falante observado, e não a um destinatário do qual o falante espera
transcendem contextos e que têm de justificar-se perante um público uma resposta. Dado o fato de que ele não cogita a possibilidade de
"cada vez mais dilatado". Em Brandom, não se encontra, todavia, um uma atitude dialógica ante uma segunda pessoa, Brandom vê-se
equivalente pragmático para essa idéia - por exemplo, na figura das obrigado, no final das contas, a dissolver o nexo interno entre
pressuposições da argumentação que mantêm em movimento a objetividade e intersubjetividade em favor de uma "prioridade do
dinâmica de uma descentração progressiva das perspectivas de objetivo". Parece que o distanciamento monológico é o único meio
interpretação pluralistas. Isso pode ser explicado, já que existe, nesta de que o indivíduo dispõe para garantir a independência epistêmica
obra imponente, um aspecto esclarecedor que eu gostaria de destacar ante a autoridade coletiva da respectiva comunidade lingüística. No
criticamente.
entanto, tal descrição individualista falseia o ponto mais interessante
Brandom descuida, como, aliás, a quase totalidade da tradição do entendimento lingüístico.
analítica, a relevância cognitiva do papel da segunda pessoa. Ele não As comunicações cotidianas acontecem no contexto de assunções
atribui nenhum peso à atitude performativa do falante perante um subjacentes e compartilhadas, de tal sorte que surge uma precisão de
destinatário, a qual é constitutiva em todo diálogo; tampouco entende comunicação quando se trata de colocar em harmonia as opiniões e
intenções de sujeitos que julgam e decidem autonomamente. Em todo
Ibid., 4. caso, a necessidade prática de coordenar planos de ação confere um
88 89
perfil claro à expectativa dos participantes da comunicação de que os
destinatários irão posicionar-se quanto às suas próprias pretensões de
validade. Eles esperam uma reação de aceitação ou de recusa, que
conta como resposta, porque somente o reconhecimento intersubjetivo
de pretensões de validade criticáveis é capaz de produzir o tipo de
comunidade (Gemeinsamkeit) sobre a qual é possível fundamentar,
para ambos os lados, vínculos confiáveis e relevantes para as
conseqüências da interação. 3. SOBRE A ARQUITETÔNICA DA DIFERENCIAÇÃO DO DISCURSO.
A prática da argumentação dá simplesmente continuidade a esse PEQUENA RÉPLICA A UMA GRANDE CONTROVÉRSIA.
agir comunicativo, porém, em um plano reflexivo. Por isso, os
participantes individuais da argumentação, que continuam mantendo
sua orientação pelo entendimento lingüístico, permanecem, de um Devo antecipar que meu esboço de resposta a três ofertas de
lado, inseridos numa prática exercida em comum; de outro lado, porém, diálogo crítico, que me foram endereçadas pelo meu amigo Karl-Otto
eles precisam posicionar-se fundamentadamente quanto às pretensões Apel, ficará, apesar de tudo, a meio caminho, aquém do nível de
de validade tematizadas, isto é, à luz de uma coação não-coativa, que adequação exigido.' Tal falha é conseqüência da abrangente comple-
os leva a uma avaliação própria, autônoma. Nenhuma autoridade xidade de suas considerações cuidadosas e extremamente amplas, mas
coletiva limita o espaço individual de avaliação nem mediatiza a também, e especialmente, do tipo das diferenças. Estão em questão
capacidade de julgar do indivíduo. A "bifrontalidade" peculiar das diferenças que têm a ver com a arquitetura da teoria sobre as quais é
pretensões de validade incondicionais faz jus a esses dois aspectos. difícil discutir ao nível das premissas porque a construção das teorias
Na qualidade de pretensões, jungem-se ao reconhecimento tem de ser comprovada na fecundidade de suas conseqüências. E tal
intersubjetivo; por isso, a autoridade pública de um consenso obtido comprovação não pode ser tarefa dos autores envolvidos. Na
discursivamente sob condições de "poder dizer não" não pode ser comparação de teorias, cujas intenções se aproximam tanto, falta,
substituída, em última instância, pela intelecção privada de um único muitas vezes, aos que dela participam diretamente o fôlego
indivíduo que sabe mais e melhor. Não obstante isso, enquanto hermenêutico necessário para que um possa acompanhar, a partir da
pretensões de validade absoluta, elas apontam para além do acordo distância requerida, os argumentos do outro. No meu entender, os
obtido faticamente. Já que o é aceito, aqui e agora, como racional, elementos que existem em comum interferem tanto na elaboração da
pode revelar-se, sob condições epistêmicas melhores, perante um outro crítica, que os dois interrompem prematuramente a palavra um do
público e perante futuras objeções, falso. outro, aduzindo precipitadamente argumentos próprios. As ressalvas,
Para fazer jus a tal característica bicípite das pretensões de amistosas ou críticas, podem ter-se intensificado durante o período
validade, incondicionais, a discussão precisa ser desenvolvida sob que se situa entre Conhecimento e interesse (1968) - escrito na época
pressuposições idealizadoras tais que permitam a afluência de todas em que houve o maior consenso - e Direito e democracia (1992).
as informações e argumentos, relevantes e acessíveis. E uma vez de Durante esse tempo, aprofundou-se, de um lado, a diferença entre a
posse desta idealização íngreme, o espírito finito pode enfrentar a pretensão fortemente transcendental, de Apel, e meu procedimento
compreensão (Einsichf) transcendental, segundo a qual, a objetividade
fundamenta-se, de forma ineludível, na intersubjetividade lingüística.
1 APEL, K.-O. Auseinandersetzungen. Frankfurt/M., 1998, 689-838.
90 91
3BB
destranscendentalizado. De outro lado, espero ter entendido melhor, são co-originárias.2 No decorrer da fundamentação do Estado
em seminários dos quais participei juntamente com Apel, as diferenças constitucional democrático, ambos os princípios de legitimação, ou
que marcam nossas estratégias de argumentação. E assimilei, da seja, a "dominação das leis" e a "soberania do povo", pressupõem-se
cooperação ininterrupta, conhecimentos que formam atualmente o mutuamente. Contrapondo-se a isso, o liberalismo que remonta a Locke
plano de fundo de nosso diálogo. defende a prioridade da liberdade dos modernos sobre a liberdade dos
No lugar adequado, abordarei uma objeção central que Apel antigos. Eu prefiro evitar tal subordinação contra-intuitiva do princípio
levanta contra o princípio do discurso tal como foi delineado em Direito da democracia ao princípio do Estado de direito, já que ela desemboca
e democracia (1). Com a finalidade de enfraquecer tal objeção, distingo na necessidade de se fundar o direito positivo e coativo sobre normas
inicialmente entre conteúdo normativo de pressuposições inevitáveis morais básicas. A subordinação retira os fundamentos da constituição
da argumentação e aspectos de validade sob os quais tal potencial de democrática da formação democrática da vontade. Não há necessidade
racionalidade pode ser explorado (2). A partir daí, o princípio moral de abordar aqui a estratégia de argumentação da qual lanço mão para
não pode mais ser inferido, conforme sugestão de Apel, exclusivamente fundamentar a co-originariedade ou eqüiprimordialidade do princípio
de pressuposições da argumentação, as quais são normativas em um da democracia e dos direitos humanos.3 Ela deve servir, aqui, apenas
sentido transcendental. Já que tal princípio extrai um sentido de como motivação para tornar mais nítido o ponto de partida da
obrigação deontológica da ligação do conteúdo transcendental de controvérsia com Apel.
discursos com o sentido de validade de normas morais de ação O fato de as normas da moral e do direito terem surgido de
introduzidas em discursos de fundamentação (3). O direito moderno, diferenciações de formas religiosas e jusnaturalistas da eticidade
por seu turno, é positivo, subjetivo e coativo, dependente das tradicional reveste-se de um interesse que ultrapassa o plano histórico.
determinações de um legislador político. E uma vez dadas essas Porquanto tal paralelismo do surgimento sugere que esses dois tipos
características formais, ele se distingue da moral da razão, seja em complementares de normas de ação, altamente complexas, distinguem-
sua função, seja na necessidade de fundamentação (4). Finalmente, a se, não quanto ao nível em que se situam, mas na forma de sua
necessidade de uma justificação neutra de um direito entrelaçado com fundamentação. O direito coativo moderno tem de ser produzido de
a política (isto é, neutra em termos de uma visão de mundo), pode acordo com um procedimento garantidor de legitimidade, o qual
explicar porque o princípio da democracia assume uma posição obedece ao mesmo nível pós-metafísico, portanto, neutro - em termos
autônoma em relação ao princípio moral (5). As diferenças na arqui- de uma visão de mundo, - no qual se situa a moral da razão. Todavia,
tetura teórica, que continuam presentes na ética da responsabilidade, tal procedimento democrático não pode extrair sua força legitimadora
elaborada por Apel com a finalidade de complementar a "ética do de uma moral anteposta ao direito. Porque neste caso destruir-se-ia o
discurso" tornando-a apta a servir de introdução à realização da moral, sentido performativo da autodeterminação democrática de uma
fundam-se, em última instância, em idéias metafilosóficas. Retomarei coletividade concreta, delimitada no espaço e no tempo.
esse ponto no final (6). Em que pese isso, o procedimento que visa a criação do direito
tem de ser, por seu turno, institucionalizado juridicamente, a fim de
(1) Desenvolvi, em Direito e democracia, uma proposta destinada
à fundamentação do sistema dos direitos fundamentais, que pretende 2HABERMAS, J. Faktizital und Geltung. Frankfurt/M., 1992, 135 ss.
fazer jus à intuição, segundo a qual, a autonomia privada e a pública Td. "Constitutional Democracy - A Paradoxical Union of Contradictory Prin-
cipies?", in: Political Theary, Vol. 29, 6, dezembro de 2001, 766-781.
92 93
garantir uma inclusão simétrica de todos os membros da comunidade Veremos, mais para frente que, no que respeita ás condições de
política na formação democrática da opinião e da vontade. O próprio validade, o conteúdo de "D" é especificado ao nível de um princípio
princípio da democracia está constituído na linguagem do direito: ele moral e de um princípio da democracia;5 as regras, tanto morais como
assume uma figura positiva nos direitos políticos de participação que jurídicas, têm de satisfazer, respectivamente, a tais condições de
são iguais para todas as pessoas. Naturalmente, os cidadãos do Estado validade, a fim de merecer reconhecimento geral em seus prórpios
também devem ser capazes de emitir juízos morais; no entanto, eles domínios de validade, os quais certamente se sobrepõem, porém, não
não emitem tais juízos num contexto extra-jurídico do mundo da vida são idênticos.
de pessoas naturais, e sim, no seu papel, juridicamente constituído, de Apel, no entanto, exteriorizou a seguinte dúvida: será que "D" já
cidadãos de um Estado autorizados ao exercício de direitos democrá- não contem o inteiro conteúdo normativo do princípio moral?:
ticos. Caso contrário, os destinatários do direito não teriam condições
de se entender também como seus autores. Eles somente poderiam "Eu não vejo como seja possível negara qualidade moral
preencher adequadamente o papel de um cidadão do Estado caso do 'conteúdo normativo' do 'princípio da imparcialidade de
expelissem a cápsula da pessoa de direito e retomassem a faculdade juízos práticos' [...] se éque devemos, conforme é postulado, a
de julgar moralmente, que é própria das pessoas naturais. seguir, por Habermas, inferir de tal princípio, mediante
A tese da independência de um princípio da democracia, o qual 'especificação do princípio geral do discurso', um princípio
deve ser "livre de moral", também coloca em jogo uma outra tese, a moral para o qual deve continuar valendo o ponto de vista da
de que a legitimidade do direito vigente pode ser explicada 'consideração simétrica dos interesses'de todos os atingidos,
simplesmente pelo procedimento da formação democrática da opinião mesmo que agora ele seja o 'único' ".rt
e da vontade. Por isso, fui levado a determinar o princípio do discurso
- que no início foi talhado apenas para o princípio de generalização É inquestionável o fato de que, para a fundamentação de normas
"U" - de modo tão abstrato, a ponto de ele poder expressar apenas que apresentam as características formais do direito moderno, os
uma necessidade pós-metafísica de justificação em geral, isto é, tendo argumentos morais desempenham um papel importante, ao lado de
em vista normas de ação em geral. Tal princípio deveria deixar espaço argumentos empíricos, pragmáticos, éticos e jurídicos. Em muitos
para uma ulterior especificação das exigências de fundamentação.
5 Recordemos: O princípio moral tem a figura de um princípio de universalização,
"Esse princípio possui [...] certamente um caráter introduzido como regra de argumentação. Em conformidade com isso, normas
normativo, uma vez que ele explicita o sentido da imparcialidade de ação morais válidas têm de satisfazer à condição, segundo a qual, as
de juízos práticos. Porém, ele se situa em um nível de abstração conseqüências e efeitos colaterais que provavelmente terão lugar no caso de
tal que, apesar desse conteúdo normativo, ainda é neutro em uma obediência generalizada, teriam de ser aceitáveis por todos os possíveis
relação ao direito e à moral; porquanto ele se refere a normas atingidos enquanto participantes do discurso. O princípio da democracia,
de ação em geral: que nas constituições democráticas assume a figura de direitos de participação
D: são válidas precisamente as normas de ação com as e de comunicação, garantindo a prática de autodeterminação de uma
quais poderiam consentir, enquanto participantes de discursos associação de membros do direito, livres e iguais, significa que somente
racionais, todos os possíveis atingidos. "4 podem pretender validade legítima as leis que, num processo de criação do
direito configurado discursivamente, podem contar com o assentimento de
todos os cidadãos (o qual também é operacionalizado juridicamente).
4 HABERMAS, I. (1992), 138. "APEL, (1998), 761 ss.

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casos até, o seu papel é decisivo. E é bem verdade que os direitos têm das informações devidas, "a coação não-coativa do melhor
de se configurar, em geral, de tal forma que possam ser respeitados argumento" deve ser decisiva(l). Na ausência de argumentos
também "por respeito à lei". concludentes ou de evidências convincentes, a própria decisão
Entretanto, se o direito não pode ir contra a moral, o princípio da sobre aquilo que vale como bom ou mau argumento no respectivo
democracia, que controla a produção de direito legítimo, também não contexto pode ser controversa. Por isso, a aceitabilidade racional
pode ser "neutro" do ponto de vista moral. Parece que ele deve seu de afirmações questionáveis está apoiada, em última instância, na
conteúdo moral ao mesmo princípio "D", que também está na base ligação entre "bons argumentos" e idealizações da situação
do princípio moral. O pontapé inicial para a controvérsia foi dado cognitiva, que os participantes têm de levar a cabo quando
pela seguinte questão: será que Apel, apoiando-se em tal consideração, participam de discursos racionais. Nomeio, a seguir, as quatro
pode atribuir a primazia ao princípio moral, que estaria acima do pressuposições pragmáticas inevitáveis mais importantes:
princípio da democracia, o qual é decisivo para a legitimação do
direito? O esclarecimento de minhas ressalvas em relação a tal (a) Inclusividade: nenhuma pessoa capaz de dar uma contribuição
fundamentalismo implica inicialmente um retorno rememorativo relevante pode ser excluída da participação.
àquilo que constitui o ponto de partida comum de nossas reflexões (b) Distribuição simétrica das liberdades comunicativas: todos
sobre a "ética do discurso". devem ter a mesma chance de fazer contribuições.
(c) Condição de franqueza: o que é dito pelos participantes têm
(2) A teoria discursiva da verdade, da moral e do direito foi criada de coincidir com o que pensam.
num momento em que o pensamento pós-metafísico se viu,
inopinadamente, num beco sem saída, após ter-se desfeito dos (d) Ausência de constrangimentos externos ou que residem no
conceitos de natureza, fortes, os quais extraem os elementos normativos interior da estrutura da comunicação: os posicionamentos na forma
de uma constituição do ente ou da subjetividade. A teoria discursiva de "sim" ou "não" dos participantes quanto a pretensões de validade,
procura obter um conteúdo normativo da prática de argumentação, da criticáveis, têm de ser motivados pela força de convicção de
qual nos sentimos dependentes sempre que nos encontramos numa argumentos convincentes.
situação insegura - não apenas como filósofos ou cientistas, mas
também quando, em nossa prática comunicativa cotidiana, a quebra Neste ponto, topamos com a premissa sobre a qual Apel apoiará
de rotinas nos obriga a parar um momento e a refletir, a fim de nos seu argumento. Porquanto ele interpreta a força vinculante do conteúdo
certificarmos reflexivamente acerca de expectativas justificadas. Por normativo de tais pressuposições da argumentação em um sentido
conseguinte, o ponto de partida é formado pelo conteúdo normativo forte e deontologicamente obrigatório, acreditando ser possível extrair
daquelas pressuposições pragmáticas "inevitáveis", nas quais os diretamente da certificação reflexiva desse conteúdo normas básicas
participantes da argumentação têm de se apoiai' implicitamente quando tal como o dever de tratar a todos de modo igual ou o dever da
- levados pela pretensão de resgatar pretensões de validade franqueza. Ele pretende, inclusive, extrair daquilo que nós temos de
controvertidas - decidem-se a tomar parte numa busca cooperativa pressupor quando argumentamos um princípio da "co-responsabi-
da verdade a qual assume a forma de uma disputa por melhores lidade" orientada para o futuro: segundo tal princípio, nós temos
argumentos. O sentido performativo de tal prática da argumentação condições de saber que todos os participantes do discurso são
consiste no fato de que, no que tange a questões relevantes e na base responsáveis pela implementação de discursos práticos para a solução

96 97
de conflitos de interesses.7 Confesso que nunca consegui acompanhar pressupostas na prática da argumentação, fornecerem critérios para
bem essa extrapolação que é feita sem nenhuma ressalva. Pois não é, um processo de aprendizagem que se corrige por si mesmo. A forma
de forma nenhuma, evidente que as regras constitutivas para a prática pretensiosa de comunicação, constituída pelo discurso racional, obriga
da argumentação enquanto tal, as quais são inevitáveis no interior de. os participantes, durante a apresentação das informações disponíveis
discursos, também sejam obrigatórias quando se trata de regular o e da mobilização de todos os argumentos relevantes, a uma
agir fora dessa prática improvável.8 descentração progressiva de suas perspectivas cognitivas. Nesta
As pressuposições transcendentais (em sentido fraco9) da medida, e num sentido bem limitado, a substância normativa contida
argumentação distinguem-se das obrigações morais pelo fato de que nas pressuposições da argumentação adquire "relevância para a ação",
elas não podem ser transgredidas sistematicamente sem que o próprio ou seja, ao tornar possível julgar pretensões de validade criticáveis,
jogo da argumentação seja destruído. Quando, porém, transgredimos ela contribui para processos de aprendizagem. Entretanto, convém
regras morais não precisamos sair, de forma nenhuma, do jogo de levar na devida conta um ponto extremamente importante neste
linguagem moral. Mesmo quando entendemos a distribuição simétrica contexto: tal potencial de racionalidade desenvolve-se em diferentes
das liberdades comunicativas no discurso e a condição da franqueza direções, dependendo do tipo da pretensão de validade que é tematizada
para a participação nele no sentido de direitos e deveres da argu- e do correspondente tipo de discurso.
mentação, não é possível transferir diretamente, do discurso para a A direção da transferência de racionalidade também é
ação, a obrigação fundamentada na pragmática transcendental, nem determinada de acordo com as conotações da pretensão de validade e
traduzi-la para uma força deontológica de direitos e deveres morais, de acordo com os padrões de fundamentação relevantes. Para entender
capazes de regular a ação. Tampouco a condição da "inclusividade" a autonomia do princípio do discurso - o qual prescreve um
implica, além da acessibilidade ilimitada do discurso, a exigência da determinado nível de fundamentação que prescinde de assunções
universalidade de normas de ação. E a pressuposição da ausência de metafísicas básicas sem prejudicar, com isso, os sentidos instrumen-
coação também se refere apenas à estrutura do próprio processo de tal, utilitário, ético, moral ou jurídico, inerentes à validade das
argumentação, não a relações interpessoais que se estabelecem fora afirmações possíveis sobre normas - temos de obter, antes, clareza
de tal prática. sobre a diferença entre o conteúdo pragmático-transcendental da forma
O conteúdo normativo do jogo de argumentação representa um de comunicação dos discursos racionais e o sentido da validade
potencial de racionalidade que pode ser atualizado na dimensão específica de normas de ação fundamentadas. A fundamentação de
epistêmica do exame de pretensões de validade à proporção que a afirmações descritivas simples pode revelar que o conteúdo normativo
publicidade, a igualdade de direitos, a franqueza e a ausência de coação, das pressuposições da argumentação representa um potencial geral
de racionalidade que possui ligações específicas com o sentido de
7 Ibid., 756; APEL, K. -O. "Diskursethik ais Ethik der Mitverantwortung vor validade das formas de asserção introduzidas no discurso.
den Sachzwàngen der Politik, des Rechts und der Marktwirtschaft", in: APEL,
K.-0. e BURCKHART, H. (edsj Prinzip Mitverantwortung. Würtzburg, (3) O sentido de pretensões de verdade, que atribuímos a frases
2001, 69-96.
8 HABERMAS, J. "Diskursethik - Notizen zu einem Begründungsprogram", in: assertóricas não se exaure na afirmabilidade ideal porque nós referimos
Id Moralbewusstsein und Kommunikatives Handeln. Frankfurt/M., 1983, 96. os fatos asseverados a objetos dos quais supomos, pragmaticamente,
9 Não posso deter-me aqui na discussão sobre o sentido pragmático-lingüístico que fazem parte de um mundo objetivo, que é, por conseguinte, idêntico
nem sobre o status dos argumentos transcendentais. para todos os observadores e que existe independentemente de nossas
98 99
descrições.10 Tal suposição ontológica antecipa, para o discurso da consciente, já que se orientam pelas pretensões de autenticidade da
verdade, um ponto de referência situado além do discurso, autoconsciência ou do projeto de vida de uma primeira pessoa no
fundamentando, destarte, uma diferença entre verdade e afirmabilidade singular ou no plural. E nós ligamos a autoridade epistêmica da primeira
justificada. Em que pese isso, os participantes do discurso, que pessoa à suposição de um mundo subjetivo ao qual os próprios
tematizam uma pretensão de verdade controversa, têm de aceitar, no envolvidos possuem um acesso privilegiado. Não obstante isso, quando
final, mesmo em condições epistêmicas favoráveis, a "melhor se trata da escolha de valores generalizados que encontram guarida
justificação possível" de "p", ao invés da "verdade" de "p" - em normas de ação morais, impõe-se uma outra perspectiva.
precisamente no momento em que dizemos: "esgotaram-se todos os Ao colocar a questão fundamental da moral, a saber, que tipos
argumentos". Na consciência de nossa falibilidade, nós nos apoiamos, de ação são "igualmente bons" para todos os membros, nós nos
consolados, nesse quidproquo porque confiamos em uma situação referimos a um mundo de relações interpessoais regradas de modo
epistêmica da qual sabemos que promove uma descentração legítimo. Apretensão à correção de afirmações morais possui o sentido
progressiva de nossas perspectivas. de que as normas correspondentes merecem reconhecimento geral no
O mesmo acontece em discursos, nos quais se examina a círculo dos destinatários. Diferentemente da pretensão de verdade, a
racionalidade da escolha ou da finalidade de decisões, isto é, a pretensão de correção, que é análoga à de verdade, não possui um
idequação da escolha dos meios ou a adequação da escolha entre significado capaz de transcender a justificação; ela esgota seu sentido
Iternativas de ação. Aqui, os participantes precisam dominar, além numa afirmabilidade justificada idealmente.12 Em casos de conflito, a
ia suposição de um mundo objetivo de estados possíveis, interligados aceitabilidade racional não é apenas uma prova para a validade,
a forma de leis, o jogo lingüístico da realização efetiva de fins porquanto nela consiste também o sentido de validade de normas
scolhidos de modo racional, a fim de saber o que significa destinadas a fornecer, para as partes litigantes, argumentos imparciais;
iindamentar regras do agir instrumental ou estratégias de decisões isto é, capazes de convencer a todos. Tal "imparcialidade", incorporada
tomplexas. Todavia, aqui também, no próprio núcleo empírico, trata- inicialmente na figura do juiz, pode, após sua ampliação em termos
Uu se do resgate discursivo de pretensões de verdade. de uma idéia de justiça pós-tradicional, ser equiparada (zur Deckung
Uma outra pretensão de validade entra em jogo com asserções kommmen) à "imparcialidade" epistêmica de participantes do discurso,
valiativas "fortes" tão logo se tomam problemáticos os próprios os quais, no jogo da argumentação, são levados a uma descentração
alores à luz dos quais os atores escolhem metas ou fins (Zwecke).'1 de suas perspectivas. A feliz convergência entre "justiça", no sentido
lOs discursos que se prestam ao esclarecimento de tais orientações de uma solução imparcial de conflitos, e "correção", no sentido de
valorativas possuem uma força epistêmica mais fraca. Eles viabilizam uma fundamentação discursiva de correspondentes afirmações
conselhos clínicos referidos ao contexto da história de uma vida indi- normativas, só pode ser detectada num nível de fundamentação pós-
vidual ou de uma forma de vida coletiva, ambas vividas de forma tradicional.
A adoção recíproca de perspectivas de interpretação epistêmicas,
'"HABERMAS, J. Wahrheit und Rechtfertigung. Frankfurt/M., 1999, Introdução, à qual os participantes da argumentação são obrigados quando
VII, 48-55. manifestam a intenção de examinar a aceitabilidade racional de
" HABERMAS, J. "Vom pragmatischen, ethischen und moralischen Gebrauch
der praktischcn Vernunft", in: id., Erlauterungen zur Diskursethik. Frank-
furt/M., 1991, 100-118. 12 HABERMAS, J. "Richligkeit vs. Wahrheit. Zum Sinn der Sollgellung
moralischer Urteile und Normen", in: id. (1999), 271-318.
100 101
qualquer afirmação, transforma-se, no entanto, sob o ponto de vista ou metafísico - capaz de criar consenso não exista mais. O único
moral da consideração simétrica dos interesses de todos os que contexto unificador que continua sendo compartilhado pelas filhas e
possivelmente serão atingidos, na exigência de uma adoção de filhos "sem teto" da modernidade é a prática de uma disputa moral,
perspectivas relevantes do ponto de vista existencial. Em questões cujos argumentos, no entanto, não são mais suficientes. Por
práticas, nas quais os participantes estão envolvidos persona própria, conseguinte, o "reservatório" de elementos em comum encolheu
as condições de comunicação da argumentação não têm apenas o limitando-se às características formais de tais discursos. Neste caso, a
sentido de garantir que todas as contribuições relevantes entrem em única saída que resta aos participantes consiste em lançar mão,
jogo e levem a posicionamentos em termos de sim/não motivados retroativamente, do conteúdo normativo das pressuposições da
racionalmente. A inofensiva pressuposição da consideração sincera e argumentação, as quais eles já tinham adotado, a partir do momento
imparcial de todos os argumentos leva os participantes de discursos em que se envolveram em controvérsias morais.
práticos a tratar suas próprias necessidades e avaliações da situação No entanto, o télos inerente ao propósito de consüuir um novo
de modo autocrítico e a ter em conta interesses dos outros nas consenso de fundo sobre a base estreita das características formais
perspectivas de compreensões de mundo e de compreensões de si daquela prática discursiva comum continua vindo acompanhado de
mesmo alheias. conhecimentos prévios, originários de experiências morais passadas.
Por conseguinte, não é possível fundamentar o princípio moral Sem o recurso ao seu parentesco preliminar com relações de
da consideração simétrica dos interesses apoiando-se única e reconhecimento intactas e carregadas por tradições fortes da
exclusivamente no conteúdo normativo das pressuposições da comunidade moral, à qual pertenceram, sob condições pré-modernas
argumentação. Só podemos lançar mão desse potencial de de vida, os participantes nem poderiam formular o propósito de
racionalidade, embutido em discursos em geral, quando já sabemos reconstruir uma moral pós-tradicional unicamente a partir das fontes
antecipadamente o que significa ter obrigações e justificar moralmente da razão comunicativa. Eles já sabem o que significa ter obrigações
ações. O saber sobre o modo de participar de uma argumentação tem morais ou o que significa justificar uma ação à luz de normas
de ligar-se a um conhecimento que se alimenta das experiências vitais obrigatórias. Para tomar esse potencial de racionalidade, embutido na
de uma comunidade moral. Quando observamos a genealogia do argumentação, e utilizá-lo para a fundamentação de uma moral
desafio a ser enfrentado pela moral da razão, fica claro que já temos autônoma e subtraída aos contextos das visões de mundo, necessário
de estar familiarizados, antes, com a validade deôntica de mandamentos se faz levar na devida conta tais conhecimentos preliminares.14
morais e com a fundamentação de normas.11 Sob condições do discurso, o sentido deontológico da validade
A situação que serve de ponto de partida à modernidade se das normas, que nesse meio tempo se tornaram problemáticas,
caracteriza pela irrupção de um pluralismo de cosmovisões. Nessa apresenta-se como a idéia pós-tradicional de justiça que leva ao respeito
situação, os membros de comunidades morais passam a enfrentar o simétrico dos interesses. A seguir, a necessidade de fundamentação,
seguinte dilema: em casos de conflito sobre o que é necessário fazer estendida às próprias normas, chama a atenção para o desideratum de
ou evitar, eles têm de continuar a discussão lançando mão de um princípio moral correspondente que pudesse, enquanto regra da
argumentos morais, mesmo que o contexto de inserção - religioso e/ argumentação, viabilizar um consenso fundamentado sobre normas
"HABERMAS, J. "Eine genealogische Betrachtung zum kognitiven Gehalt der 14 Sobreo esboço de fundamentação que se segue cf. HABERMAS, J. (1996),
Moral", in: id., Die Einbezihung des Anderen. Frankfurt/M., 1996. 60-63.
102 103
controversas e, com isso, conservar um sentido cognitivo da moral, certos fatos se tomam relevantes para a justificação de ações. Tendo
mesmo sob condições modernas. A idéia pós-tradicional de justiça em vista as condições discursivas, sob as quais um consenso deve ser
nos inspira a adotar o princípio de universalização "U" , ,s que fora obtido, "D" reivindica uma fundamentação pós-convencional de
introduzido apenas como uma possibilidade hipotética. E tal princípio, normas de ação em geral - porém, ainda sem determinar com precisão
caso possa pretender obrigatoriedade geral e transcultural, poderia a linha na qual a força dos argumentos, capazes de criar consenso,
explicar de que modo questões morais em geral podem ser decididas deve ser mobilizada.
racionalmente. A seguir, e à luz do saber que já se tem sobre o que O potencial de racionalidade, embutido, em geral, em discursos,
significa fundar, em geral, normas de ação, a validade geral de "U" pode ser reivindicado: para a fundamentação de regras do agir instru-
pode ser "inferida" do conteúdo de pressuposições da argumentação mental que tem a ver com uma escolha racional (sob pontos de vista
que obrigam de modo transcendental. Ao adotai- tal procedimento, da verdade, da efetividade e da consistência conceituai); para a
estou me apoiando no padrão de uma fundamentação não-dedutiva, fundamentação de orientações valorativas e éticas (sob o ponto de
elaborada por Apel, e que consiste em franquear as contradições vista da autenticidade); para a justificação de normas e juízos morais
performativas nas quais se enreda o cético que nega a possibilidade (sob o aspecto da justiça). Conforme já foi destacado, esses tipos de
de uma fundamentação de asserções morais. afirmações e normas vêm sempre acompanhados de diferentes
conotações. Asserções empíricas despertam conotações ontológicas
(4) O ponto controverso que me separa de Apel não consiste que têm a ver com a existência de estados de coisas; intervenções
propriamente neste lance de fundamentação em si mesmo, mas no orientadas pelo sucesso provocam conotações instrumentais de eficácia
valor posicionai que ele assume em um jogo de fundamentação não- e de maximização do proveito; questões éticas possuem conotações
fundamentalista. Porquanto, quando nós, na base de uma distinção axiológicas acerca da excelência de bens; ao passo que questões morais
entre sentido transcendental e sentido deontológico de normatividade, possuem conotações de reconhecimento de relações interpessoais
entendemos que o potencial de racionalidade insertado de modo geral ordenadas. Tais referências à estrutura de mundos (objetivo, social e
em discursos não é obrigatório em sentido deontológico, é possível subjetivo) determinam as linhas nas quais "D" adquire um sentido
interpretar o juízo imparcial sobre a consensualidade de normas, concreto. O princípio moral, por exemplo, pode ser entendido, no
exigido de modo não-específico por "D", como algo que ainda é campo de um mundo social legitimamente ordenado, como uma
"neutro do ponto de vista da moral e do direito". Já que a formulação operacionalização especial de "D", a qual viabiliza uma avaliação
de "D" 16 tem a ver com "normas de ação", e com "discursos racionais" racional de normas e ações sob o aspecto da justiça.
em geral, tal princípio situa-se em um nível de abstração mais alto Entretanto, mesmo que as normas do direito também sejam
que o do princípio moral e do princípio da democracia. Neste nível, selecionadas sob o aspecto da justiça e não possam estar em
ainda se prescinde do tipo de ações que necessitam de justificação, contradição com a moral, o princípio da democracia, que autoriza os
bem como do aspecto de validade específico, sob o qual elas são cidadãos a criar direito legítimo, não está submetido ao princípio moral,
justificadas. É bem verdade que o princípio do discurso já está talhado como Apel supõe. A fim de mostrar que a subsunção do direito sob a
para questões práticas; ele é arrolado para questões de verdade quando moral e que a subordinação jusnaturalista do direito positivo a uma
hierarquia de leis é incorreta, tenho de mencionar a posição sui generis
"Cf. acima nota de rodapé n° 5. do direito entre os diferentes tipos de normas citadas até o momento,
16Cf. acima, 94-95. uma vez que ele representa um sistema de ações que se fundem com
104 105
um poder político. Tal fato é conseqüência das características formais socialização, para que os juízos morais possam transformar-se, de
do direito, por meio das quais ele se distingue da moral enquanto: (a) modo geral, em agir moral. Porém, o talho natural de tal moral, que se
direito subjetivo; (b) direito coativo e (c) direito positivo. tornou autônoma, serve apenas para a finalidade cognitiva da
viabilização de compreensões perspicazes (Einsichten). Os bons
(a) O direito moderno se constrói sobre direitos subjetivos que motivos e sentimentos continuam sendo propriedade dos sujeitos
garantem à pessoa singular espaços de liberdade bem circunscritos, perspicazes. Ao passo que, no direito, o caráter institucional libera o
portanto, esferas da liberdade de arbítrio e de configuração autônoma indivíduo do peso dos motivos. Diferentemente da moral, o direito
da vida. Ele não se inicia com mandamentos ("Você deve [...]") - não é apenas um sistema de saber, mas também um sistema de ação.
como acontece com o ponto de vista moral, onde nos certificamos, Enquanto a moral apela para a compreensão e para a boa vontade, o
antes, dos nossos deveres para, a seguir, inferir direitos próprios a direito limita-se à exigência de um agir legal. Tal desligamento entre
partir das obrigações que temos para com outros - mas com a um comportamento "conforme à lei" e um comportamento "por
especificação de um "ser permitido" (Diirfen). Na base de direitos, respeito à lei" também é capaz de explicai- porque as regulamentações
igualmente distribuídos, os deveres do direito só se colocam a partir jurídicas só podem estender-se, no essencial, a um "comportamento
das expectativas justificadas que outros dirigem a nós. Tal assimetria exterior".
pode ser explicada pela autolimitação do direito moderno, o qual
permite tudo o que não esteja explicitamente proibido. Já que o direito (c) A política não somente empresta ao direito os meios de uma
serve primariamente à proteção das esferas da vida privadas e sanção estatal, como também se aproveita, por seu turno, do direito -
autônomas contra intervenções arbitrárias de um poder público. Ao seja como meio para as próprias realizações de configuração e de
passo que o poder penetrante da moral abrange todos os domínios da organização, seja como fonte de legitimação. O direito estatuído, dada
vida, não conhecendo nenhum limiar entre a consciência privada e a sua dependência da vontade política de um legislador, adapta-se à
responsabilidade pública. O direito é uma forma seletiva, não-holista, função de um meio de organização do poder. Resulta desse caráter
de regulação do comportamento, não atingindo o indivíduo na figura positivo uma separação de papéis entre autores que estatuem o direito
concreta de uma pessoa individuada em uma história de vida. Ele e destinatários, submetidos ao direito. Tal voluntarismo presente na
atinge as pessoas, porém, somente à proporção que pessoas naturais criação do direito também é estranho a uma moral entendida de modo
assumem o status artificial e extremamente circunscrito de pessoas construtivista. Além disso, o direito assume em si mesmo metas e
de direito, isto é, de portadores de direitos subjetivos. programas políticos que têm de ser justificados exclusivamente sob
'flK:
um ponto de vista moral. As matérias precisadas de regulamentação
(b) O Direito moderno vem acompanhado da ameaça de sanções exigem justificações complexas, nas quais se introduzem argumentos
por parte do Estado. O poder do Estado garante uma obediência da de natureza ética, estratégica, empírica e pragmático-instrumental.
maioria às leis e preenche, por meio da obediência coagida ao direito, Sendo que a forma do direito só permanece intacta à proporção que
uma condição secundária da legitimidade de sentenças jurídicas gerais. cada nova regulamentação se insere, de modo consistente, no sistema
Pois a obediência a uma norma só é imputavel quando cada destinatário jurídico vigente e não coloca em risco o princípio da justiça. A objeção,
pode pressupor que ela também é obedecida por todos os outros. A segundo a qual os argumentos morais não podem ser sobrepujados, é
moral da razão, que não está mais embutida em cosmovisões religiosas, desarmada (quando se considera) a ligação da legislação ao conteúdo
também precisa ser ligada a tradições culturais e padrões de dos princípios de uma constituição democrática.

106 107
(5) Para entender a autonomia sistemática do princípio da autodeterminação moral da pessoa individual consiste na simulação
democracia, criticada por Apel, convém analisar a necessidade de da autoligação perspicaz, do arbítrio. Tal semelhança estrutural da
fundamentação resultante especialmente do cruzamento entre direito legislação política com a autodeterminação moral não significa,
e política. De um lado, o direito é constitutivo para o poder político;17 evidentemente, a assimilação de uma à outra. Certamente, as pessoas
de outro lado, ele próprio depende do exercício do poder político, já que se orientam pelo bem comum não devem fechar-se a considerações
que os programas do direito são o resultado de uma vontade política. morais. Entretanto, já que a prática de decisão deliberativa é parte
Tal vontade perde o caráter de um uso arbitrário do poder político, integrante de um sistema político que também é levado a se legitimar
não apenas mediante a domesticação do Estado de direito. O processo - mesmo que não seja, em primeira linha, - pela efetividade dos
de criação do direito só adquire uma qualidade capaz de fundar imperativos de uma automanutenção perspicaz assumidos em
legitimidade à medida que ele, tendo em vista o estabelecimento de conformidade com a constituição, o procedimento democrático da
um procedimento democrático, é aplicado a si mesmo. Por este legislação precisa esgotar - levando na devida conta todos os possíveis
caminho, as determinações do legislador político tornam-se aspectos de validade - o potencial de racionalidade das deliberações,
dependentes, não somente do resultado de uma formação inclusiva e não apenas o ponto de vista moral da generalização simétrica de
da opinião na ampla esfera pública (mediada pela mídia), mas também interesses.
das deliberações discursivamente estruturadas de corporações Quando passamos da moral para o direito, realizamos uma
democraticamente eleitas. A institucionalização jurídica dos mudança de perspectivas, isto é, passamos do plano do ator para o
procedimentos de uma política deliberativa extrai sua força nível do sistema institucional. As normas que orientam o indivíduo
legitimadora da idéia diretriz de uma autolegislação racional que no agir insuumental - que depende de uma escolha racional (wahl-
independe de premissas cosmológicas. rational) - no agir ético e no moral, são justificadas sempre na
Nesse ponto, podemos constatar uma analogia com o conceito perspectiva de um agente, mesmo quando este é apresentado como
kantiano da autodeterminação moral. Visto que a autolegislação participante de discursos. Enquanto participante de discursos, o ator
democrática requer um procedimento de formação discursiva da pretende responder à seguinte pergunta: o que devo fazer sob aspectos
vontade, capaz de propiciar a autoligação do legislador democrático a do sucesso, da vantagem, do bem ou do justo? A razão prática
compreensões perspicazes (Einsichten) da razão prática, de tal sorte incorpora-se em discursos que os participantes entabulam para
que, mesmo sem adotar um sentido voluntarista, os destinatários do clarificar questões práticas. Esse viés cognitivo não se perde nos
direito podem entender-se como seus autores. Disso resulta o princípio discursos dos cidadãos de um Estado. Entretanto, as normas do direito
da democracia, segundo o qual, só podem pretender validade legítima carregam consigo um caráter institucional que elas não podem perder.
as leis que puderem encontrar, num processo jurídico de criação de Aqui, a razão prática se faz valer, não somente na prática do discurso
direito, o assentimento de todas as pessoas. Neste ponto, é importante ou nas regras da argumentação que ela segue. No plano sistemático,
não esquecer o sentido propriamente político da analogia com a ela se incorpora, ao invés disso, nos princípios de acordo com os quais
autonomia moral. o sistema de ação política, enquanto tal, está constituído. Isso explica
Sob as condições coletivas de formação política da vontade dos porque o princípio da democracia, enquanto parte de uma ordem
membros de uma comunidade concreta, a analogia com o modelo da constitucional, não intervém em discursos, como é o caso do princípio
moral, fornecendo padrões de argumentação, mas se limita a colocar
"HABERMAS, J.( 1992), 167-186.
medidas e critérios para um cruzamento entre os discursos políticos.

108 109
Os discursos dos cidadãos de um Estado e dos seus representantes de impor freios ao poder. Ele se preocupa, ao invés disso, com uma
inserem-se preliminarmente num sistema de ação política, o qual domesticação moral do poder político processando a produção política
obedece a imperativos funcionais de sobrevivência próprios. O direito de condições morais. O "problema da aplicação histórica da moral"19
legítimo tem de cuidar certamente para que haja uma ordem justa nas não pode ser colocado no interior de discursos morais porque uma
relações interpessoais no interior de uma determinada coletividade. ética deontológica nos moldes kantianos exclui todo e qualquer tipo
No entanto, ele constitui, ao mesmo tempo, a linguagem da de compromissos, e isso por boas razões. Mandamentos morais
programação de um sistema de ação constituído na forma do direito, incondicionalmente válidos não podem selar compromissos com metas
responsável pela estabilidade e pela reprodução da sociedade em seu políticas, por mais elevadas que estas sejam. Entretanto, convém
todo - por conseguinte, para a vida coletiva como um todo, não somente perguntar: será que a ética necessita de uma complementação no
para uma convivência legítima. Por isso, o direito exige, a partir de si sentido de uma ética da responsabilidade, à qual Apel dedica a assim
mesmo, critérios de avaliação que não são os mesmos da moral, a chamada "parte B" da ética?
qual orienta os seus mandamentos sob o único aspecto da justiça e, O sentido categórico de mandamentos morais permanece intacto,
inclusive, levando em conta o assentimento fundamentado de todas mesmo à vista de uma injustiça insuportável; de qualquer modo, não
as pessoas, não apenas e primariamente o assentimento dos cidadãos necessita de uma "complementação" nos moldes de um compromisso
de um Estado. Os imperativos de manutenção da integridade, políticos, enquanto levarmos na devida conta, no que respeita a deveres positivos,
econômicos e culturais, constituem pontos de vista não desprezíveis uma "divisão moral do trabalho" que faz jus a um princípio moralmente
sob os quais regulamentações jurídicas consistentes podem ser
submetidas a uma crítica ética, pragmática e empírica, sem ser justificado, segundo o qual, nós só "temos" de fazer o que estiver
necessário entrar em conflito com os fundamentos morais da faticamente ao nosso alcance: nemo ultra posse obligatur. Até mesmo
constituição. as normas bem fundamentadas, que antes de sua aplicação valem
Desta maneira, uma ordem constitucional que se corrige a si apenas prima facie, não perdem, por isso, o rigor do seu sentido
mesma, democraücamente, é capaz, não somente, de perenizar18 uma categórico. E verdade que elas necessitam, no caso de uma colisão
concretização reformista do sistema dos direitos, mas também de re- com outras normas válidas, de um exame cuidadoso que verifique
solver, pelo caminho da moral, o problema que levou Apel a introduzir sua "adequação"; entretanto, sua validade não é abalada, nem mesmo
uma ética da responsabilidade que sobrepuja a moral em geral. quando, em um caso concreto, elas têm de "ceder o lugar" a outras
normas.20 A pretensão de validade deontológica de mandamentos
(6) Devido ao entrecruzamento entre o direito moderno e o poder morais seria relativizada e ligada a condições de sucesso do agir
político, o princípio da democracia, que regula a criação do direito, estratégico - Apel fala em agir "estratégico-contra-estratégico"
goza de autonomia em relação ao princípio da moral. E uma vez que (strategie-konterstrategischen) - caso o cuidado "político" em sentido
Apel não leva na devida conta tal coesão interna entre direito e poder, amplo para com o "sucesso aproximativo do elemento moral em geral"
ele também desconhece o papel domesticador do direito, que é capaz (na figura de um outro princípio da responsabilidade ética, por
exemplo) fosse incorporado à própria moral.21
Sobre as aporias de posicionamentos inteligente quanto à produção de relações
nas quais é possível imputar, de modo geral, o agir moral, cf. HABERMAS, 19 APEL, K.-O. Diskurs und Verantwortung. Frankfurt/M., 1988, 103-153.
J. "Wege derDetranszendentalisierung. Von Kant zu Hegel und zurück", in: 20GÜNTHER, K. Der Sinn für Angemessenheit. Frankfurt/M., 1988.
id., (1999), 186-270, aqui 224 ss. 21 APEL (2001), 77 S. 82.

110 11 1
Entretanto, se o conteúdo normativo de pressuposições gerais domesticada, ao menos parcialmente, nas constituições de Estados
da argumentação não possui um sentido deontologicamente nacionais precisa passar por uma nova transformação, no âmbito de
obrigatório, ou seja, não fornece nenhum elemento concreto para uma uma ordem jurídica cosmopolita, a fim de se livrar de suas
inferência direta da reciprocidade e da igualdade de direitos exigidas características agressivas e autodestruüvas e transformar-se numa força
fora da prática da argumentação, não vejo como seja possível extrair confíguradora e civilizadora em escala mundial.21
dessa substância normativa algo para exigências que vão mais além. Por este caminho político, a moral constitui uma bússola por
Apel gostaria de fundamentar, num único lance, a "co-responsabilidade demais imprecisa e, inclusive, enganadora. O que Apel oferece na
de todos os homens para as seqüelas de atividades coletivas e, nesta "parte B" como forma de compromisso de uma moral capaz de calcular
medida, para as instituições.22 Ele pretende inferir, da auto-reflexão perspectivas de sucesso de uma moral em geral, desconhece a dimensão
sobre as normas pressupostas na argumentação, e sem nenhuma de uma juridificação democrática da política, que poderia ter como
mediação, as obrigações morais para uma política que visa a produção resultado uma civilização das condições de vida. E verdade que tal
de condições de vida morais para todos os homens em escala mundial. estratégia pode perder o seu objeto na esteira do autodesdobramento
De um lado, o poder político constitui, até hoje, o único meio neoliberal da política impulsionado pela globalização econômica: aqui,
para influenciar voluntária e coletivamente, de modo cogente, as a política deixa de ser um meio de auto-influenciação consciente à
condições sistêmicas e as formas institucionais de nossa existência proporção que entrega sua função de controle aos mercados. A "guerra
social. De outro lado, a política não se deixa moralizar diretamente contra o terrorismo", que rearma exércitos, a polícia e os serviços
por nenhum tipo de modelo político, seja ele o do "bom senhor", secretos, todos contribuem, à sua maneira, para a eliminação da
platônico, o do agir revolucionário, ou o do reforço moral das virtudes política.
do agir político, que parece ser a solução acalentada por Apel. Em que Apel sobrecarrega o discurso dofilósofoque, ao compor uma
pese isso, parece que uma domesticação institucional do poder político argumentação qualquer, reflete sobre o conteúdo de pressuposições
por meio de umajuridiftcação, controlada democraticamente, constitui necessárias da argumentação. Tal sobrecarga é üipla, já que consiste
o único caminho viável para uma reforma moral de nosso em: (a) fundamentar diretamente normas morais básicas sem passar
comportamento. Para detectar as possibilidades que se oferecem nesse pelo desvio da fundamentação de um princípio de universalização;
contexto convém analisar o desenvolvimento complexo dos Estados (b) apresentar uma obrigação existencial para o "ser moral"; (c)
constitucionais democráticos, bem como as garantias oferecidas pelo complementar a moral por meio de uma obrigação para a realização
Estado social, as quais foram obtidas mediante lutas. A política histórica da moral (ética da responsabilidade). Tomando como
referência a fundação transcendental e primordial, de Husserl, Apel
"Ibid. Cf. também BÒHLER, D. "Warum moralisch sein? Die Verbindlichkeit caracteriza tal discurso como "primordial". Eu suponho que nossa
der dialogbezogenen Selbst- und Mitverantwortung", in: APEL e controvérsia sobre a construção arquitetônica correta da teoria deriva,
BURCKHART (2001), 50: "Co-responsabilidade em que sentido? Em em última instância, de um dissenso sobre o papel da própria filosofia.
primeiro lugar, pelo exame das próprias pretensões de validade; a seguir Apel reconstrói, de modo convincente, a história da filosofia ocidental
pela conservação e pelo melhoramento das condições reais necessárias para como uma seqüência de três paradigmas, os quais ele subordina,
uma concretização livre e aberta de discursos críticos (especialmente que respectivamente, à ontologia, à epistemologia e à filosofia lingüística.
envolvem questões de direitos humanos); finalmente, pela consideração
prática (ecológica, econômica e política), ou seja, pela aplicação de seus
resultados". Cf. abaixo, (348 ss.)

112 113
Ele tem consciência do ponto de partida autocrítico da modernidade e
também da limitação falibilista que marca o pensamento pós-
metafísico. Mesmo assim, ele se inclina para uma compreensão
fundamentalista da filosofia, a partir do momento em que ele
caracteriza a auto-reflexãofilosóficacomo um discurso primordial
sobrecarregado de metas efusivas. No final das contas, Apel confia,
apesar de tudo, nas evidências infalíveis de um acesso direto, pré-
analítico, às intuições de um participante da argumentação, já treinado II. PLURALISMO RELIGIOSO E SOLIDARIEDADE
na reflexão. Porquanto o argumento pragmático-transcendental ao qual DE CIDADÃOS DO ESTADO.
se atribui o papel de uma "fundamentação última" possui, na verdade,
o valor posicionai de uma certificação que se presume "infalível" ou 4. BASES PRÉ-POLÍTICAS DO ESTADO DE DIREITO DEMOCRÁTICO.
que, em todo caso, não pode ser revista discursivamente. Se ele fosse
realmente um argumento, encontrar-se-ia em um contexto lingüístico,
o qual possui tantos flancos abertos quantas são suas facetas. O tema proposto para nossa discussão tem algo a ver com uma
O termo "reflexão estrita", introduzido por Wolfgang Kuhlmann, pergunta formulada por Wolfgang Bõckenfórde em meados dos anos
abre um novo tema, que não pode ser abordado aqui. Limitei minha 60, nos seguintes termos: Será que o Estado secularizado continua
exposição a diferenças que Apel elaborou em sua controvérsia com alimentando-se de pressuposições normativas que ele não consegue
minha filosofia do direito. É preciso notar que tais diferenças persistem garantir por si mesmo?1 Tal indagação é provocada, de um lado, pela
apenas em princípio. Uma vez que elas não conseguem encobrir os dúvida sobre a possibilidade de o Estado constitucional democrático
elementos comuns nos resultados, nem as compreensões perspicazes conseguir manter e renovar suas pressuposições normativas a partir
que adquiri graças aos ensinamentos inigualáveis de um amigo sempre de recursos próprios; de outro lado, pela suposição de que ele mesmo
presente no espírito, desde a época de meus estudos em Bonn. depende de tradições metafísicas ou religiosas autóctones, em todo
caso, de tradições éticas, as quais fornecem elementos normativos
capazes de obrigar coletivamente. Ora, tal fato colocaria o Estado -
obrigado a manter neutralidade ante o "fato do pluralismo" (Rawls) -
em dificuldades. Em que pese isso, tal dedução não coloca em xeque
a própria suposição enquanto tal.
Em primeiro lugar, gostaria de especificar o problema, em duas
direções distintas: (1) Em uma linha cognitiva, ele pode ser formulado
como segue: será que, após uma positivação do direito, a dominação
política pode continuar lançando mão apenas de umajustificação secu-

BÕCKENFÕRDE, E. W., "Die Entstehung des Staates ais Vorgang der


Sàkularisation" (1967), in id. Recht, Staat, Freiheit. Frankfurt/M., 1991, 92
ss, aqui 112.
114 115
lar, isto é, pós-metafísica e não religiosa? (2) Entretanto, mesmo que os desafios culturais lançados pelo Estado constitucional
se conceda a possibilidade de uma tal legitimação, ainda restam dúvidas revolucionário. No entanto, se não me engano, parece que, do lado
do ponto de vista motivacional: será que uma comunidade pluralista católico, que sempre teve uma relação mais tranqüila com a "luz natu-
no que tange às visões de mundo pode estabilizar-se normativãmente ral" (da razão) lumen naturale, não existe, em princípio, nenhum
graças à suposição de um acordo de fundo, exclusivamente formal, obstáculo que impeça uma fundamentação autônoma do direito e da
limitado a procedimentos e princípios, o qual é, no entanto, algo mais moral (independentemente de verdades reveladas).
do que um simples modus vivendil (3) É bem verdade que, mesmo No século XX, a fundamentação pós-kantiana de princípios
que conseguíssemos sobrepujar tal dúvida, continuaria de pé o fato de constitucionais liberais foi questionada, muito mais por formas de
que as ordens liberais dependem da solidariedade de seus cidadãos - crítica oriundas do empirismo e do historicismo, do que do direito
e que suas fontes podem secar no caso de uma secularização natural objetivo ou da ética material dos valores. No meu entender,
"descarrilhadora" da sociedade como um todo. Não podemos, assunções fracas sobre o conteúdo normativo da constituição
certamente, descartar tal diagnóstico. Mesmo assim, não podemos comunicativa de formas de vida sócio-culturais são suficientes para
entendê-lo no sentido de que os eruditos entre os defensores da religião defender, seja um conceito de razão não-derrotista contra o
obtêm com isso uma espécie de "mais valor". (4) Contra tal modo de contextualismo, seja um conceito não-decisionista da validade do
ver, eu sugiro que interpretemos a secularização cultural e social como direito contra o positivismo jurídico. A principal tarefa, a ser enfrentada
um duplo processo de aprendizagem que obriga ambas as tradições, a agora, consiste em esclarecer:
do Esclarecimento e a das doutrinas religiosas, à reflexão sobre os - Por que o processo democrático vale como um procedimento
seus respectivos limites. (5) Com relação a sociedades pós-seculares de criação legítima do direito?
coloca-se a seguinte pergunta: que tipo de enfoques cognitivos e de - Por que a democracia e os direitos humanos, tidos como
expectativas normativas o Estado liberal pode esperar das pessoas elementos co-originários, se enlaçam durante o processo constituinte?
crentes e das não-crentes no que tange ao trato recíproco?
A explicação consiste na prova:
(1) O liberalismo político na forma de um republicanismo - de que o processo democrático, à proporção que preenche
kantiano, (que eu defendo2), se auto-interpreta como uma justificação condições de uma formação discursiva e inclusiva da opinião e da
pós-metafísica e não-religiosa dos fundamentos normativos do Estado vontade, fundamenta a suposição de que os resultados de tal processo
de direito democrático. Tal teoria coloca-se na tradição de um direito são racionalmente aceitáveis;
da razão que renuncia às assunções cosmológicas e salvíficas, fortes,
dos jusnaturalistas clássicos ou religiosos. A história da teologia cristã - de que a institucionalização jurídica de tal procedimento de
medieval, especialmente a da alta Escolástica espanhola, fazem parte criação democrática do direito exige, ao mesmo tempo, a garantia dos
dagenealogia dos direitos humanos. Não obstante isso, os fundamentos direitos fundamentais, tanto liberais como políticos.3
da legitimação do poder do Estado, neutros em termos de visões de O ponto de referência desta estratégia de fundamentação é a
mundo, nasceram de fontes profanas da filosofia nos séculos XVII e constituição que as pessoas associadas se doam a si mesmas e não a
X V m . Somente mais tarde, a Igreja e a teologia conseguiram entender domesticação de um poder do Estado já constituído, porquanto esse
2 HABERMAS, J. Die Einbeziehung desAnderen. Frankfurt/M., 1996.
1 HABERMAS, J. Faktizitat und Geltung. Frankfurt/M., 1992, Cap. III.
116 1 17
poder ainda precisa ser criado mediante a dação democrática de uma modo auto-suficiente, ou seja, a partir das reservas cognitivas de um
constituição. Um poder do Estado "constituído" já se encontra estoque de argumentos, o qual não depende de tradições religiosas
juridifícado até suas entranhas, de tal sorte que o direito permeia, sem nem metafísicas. Entretanto, mesmo sob tal premissa, persiste uma
deixar resto, todo o poder político. No âmbito do positivismo da dúvida a nível motivacional. Tendo em vista o papel de cidadãos do
vontade do Estado, defendido por juristas alemães (de Laband e Jellinek Estado (Staatsbürger)qae se auto-entendem como autores do direit
até Carl Schmitt) e cujas raízes se encontram no Império, ainda havia as pressuposições normativas de integridade do Estado constitucional,
um esconderijo para uma substância ética "do Estado" ou para o democrático, são mais pretensiosas do que quando se trata do papel
elemento "político" isento de direito. Ao passo que no Estado de cidadãos da sociedade (Gesellschaftsbürger), que são o
constitucional não existe nenhum sujeito do poder que se alimente de destinatários do direito. Dos destinatários do direito espera-se apenas
uma substância pré-jurídica.4 A soberania pré-constitucional dos que, ao tomarem consciência de suas liberdades subjetivas (e
príncipes não deixa nenhum lugar vago, a ser preenchido por uma pretensões), eles não ultrapassem os limites jurídicos. Entretanto, as
soberania substancial do povo - na figura do etos de um povo mais ou motivações e enfoques que se esperam de cidadãos do Estado, no
menos homogêneo. papel de co-legisladores democráticos, não podem ser tratados da
A luz de tal herança problemática, a questão de Bõckenfõrde foi mesma maneira que a obediência a leis coativas da liberdade.
entendida no sentido de que a ordem constitucional, uma vez Porquanto os co-legisladores devem assumir seus direitos de
positivada, necessita da religião ou de um outro tipo de "poder comunicação e de participação de modo ativo, não somente no sentido
mantenedor" para garantir as bases cognitivas de sua validade. Segundo bem-entendido do interesse próprio, mas também orientados pelo bem
tal interpretação, a pretensão de validade do direito positivo depende comum. Isso exige uma taxa elevada de motivação que não pode ser
de uma fundação nas convicções éticas pré-políticas de comunidades
nacionais ou religiosas, já que tal ordem jurídica não pode legitimar- imposta legalmente. Por isso, no Estado de direito democrático, uma
se auto-referencialmente, apenas por meio de procedimentos jurídicos obrigação de votar seria um corpo estranho, algo parecido a uma
produzidos democraticamente. Todavia, se interpretarmos o solidariedade imposta. Em comunidades liberais, a disposição de ajudar
procedimento democrático, não de modo positivista, à maneira de co-cidadãos estranhos e anônimos, bem como de se sacrificar pelos
Luhmann ou Kelsen, mas como um método para a produção de interesses comuns, pode apenas ser recomendada. Por esta razão, as
legitimidade por legalidade, não haverá déficit de validade a ser virtudes políticas - que só podem ser obtidas em pequenas doses -
preenchido por "eticidade". A interpretação procedimental ancorada são tão importantes para a sobrevivência de uma democracia. Elas
em Kant contrapõe-se a uma compreensão do Estado constitucional, fazem parte da socialização e da introdução em práticas e modos de
inspirada na direita hegeliana, e insiste na fundamentação autônoma pensar de uma cultura política acostumada à liberdade. O status de
de princípios constitucionais que pretendem aceitação racional por cidadão do Estado está, de certa forma, embutido numa sociedade
todas as pessoas. civil que vive de fontes espontâneas ou, se preferirmos, "pré-poUticas".
Disso não segue que o Estado liberal seja incapaz de reproduzir
(2) Nas páginas seguintes, tomo como ponto de partida a hipótese seus pressupostos motivacionais a partir de recursos seculares. Os
de que a constituição do Estado liberal pode obter sua legitimação de motivos para uma participação dos cidadãos (Bürger) na formação
política da opinião e da vontade alimentam-se, certamente, de projetos
4 BRUNCKHORST, H. "Der lange Schatten des Staatswilenpositivismus", in: de vida éticos e de formas de vida culturais. As práticas democráticas,
Leviathan, 31, 2003, 362-381. no entanto, desenvolvem uma dinâmica política própria. Somente um
118 119
Estado de direito sem democracia, ao qual estivemos acostumados Contrariando um mal-entendido generalizado, "patriotismo
durante muito tempo, na Alemanha, poderia sugerir uma resposta constitucional" significa que cidadãos se apropriam dos princípios da
negativa à questão levantada por Bõckenfõrde: "Será que povos unidos constituição, não apenas analisando seu conteúdo abstrato, mas em
pelo Estado podem viver apenas com a garantia da liberdade do seu respectivo contexto nacional. O procedimento cognitivo não
indivíduo, sem um laço unificador prévio, que antecede tal liberdade?"5 consegue, apoiado apenas em si mesmo, aglutinar - nos modos de
Entretanto, o Estado de direito constituído democraticamente não sentir e de pensar - os conteúdos morais de direitos fundamentais. As
garante apenas liberdades negativas para os cidadãos da sociedade intuições morais e a indignação provocada, em escala mundial, pelo
interessados em seu próprio bem; ao liberar liberdades comunicativas, desrespeito maciço aos direitos humanos, seriam suficientes apenas
ele também mobiliza a participação dos cidadãos do Estado na disputa para uma integração por demais tênue dos cidadãos de uma sociedade
pública sobre temas que são do interesse de todos. O "laço unificador" mundial politicamente constituída (isso se algum dia ela realmente
nada mais é do que um processo democrático, no qual está em existisse). Entre cidadãos do Estado surge uma solidariedade - mesmo
discussão, em última instância, a compreensão correta da constituição.
que abstrata e mediada pelo direito - apenas quando os princípios da
E por isso que, nas controvérsias atuais sobre a reforma do Estado justiça conseguem ter acesso à rede das orientações axiológicas
do bem-estar social, sobre a política de imigração, sobre a guerra no culturais, que são muito mais densas.
Iraque, sobre a abolição do serviço militar obrigatório, não se trata
apenas de "políticas" particulares, mas também da interpretação correta (3) Segundo o teor das reflexões desenvolvidas até o presente
de princípios constitucionais - e implicitamente se trata do modo como momento, a natureza secular do Estado constitucional democrático
pretendemos nos entender - à luz da pluralidade de nossos modos de não apresenta qualquer fraqueza interna - típica do sistema político
viver culturais, e do pluralismo de nossas cosmovisões e de nossas
convicções religiosas - como cidadãos da República Federal ou como enquanto tal - que pudesse constituir uma ameaça à auto-estabilização
europeus. No passado, certamente, um pano de fundo religioso comum, cognitiva ou motivacional. Com isso, não se excluem, é bem verdade,
uma linguagem comum e, especialmente, a recém-reativada razões externas. Uma modernização "descarrilhadora" da sociedade
consciência nacional foram de grande valia para a configuração de poderia muito bem esgarçar, em sua totalidade, o laço democrático e
uma solidariedade de cidadãos do Estado, eminentemente abstrata. consumir o tipo de solidariedade da qual o Estado democrático depende
No entanto, os modos de pensar republicanos se desligaram, em grande e a qual ele não pode obter pela força. Pois neste caso, entraria em
escala, de tais ancoragens pré-políticas - o fato de não estarmos cena a constelação que Bõckenfõrde tem na mira, ou seja: a
dispostos a morrer "por Nizza" não constitui apenas mais uma objeção transformação dos cidadãos de sociedades liberais abastadas e pacíficas
contra uma constituição européia. Pensemos nos discursos ético- em mônadas individualizadas que agem guiadas pelos próprios
políticos sobre o Holocausto e sobre a criminalidade em massa: eles interesses e que utilizam seus próprios direitos subjetivos como se
contribuíram para que os cidadãos da República Federal tomassem fossem armas apontadas para os outros. No contexto mais dilatado de
consciência de que a constituição era uma conquista. O exemplo de uma dinâmica onde impera uma economia mundial, e uma sociedade
uma "política da memória", autocrítica, (que não é mais excepcional, mundial, é possível detectar evidências de um esmigalhamento da
estendendo-se a outras nações) revela o modo como podem formar- solidariedade de cidadãos do Estado.
se laços de um patriotismo constitucional em meio àprópria política. Os mercados que não podem ser democratizados da mesma
maneira que administrações estatais assumem cada vez mais funções
5 BÕCKENFÕRDE, (1991), 111. de controle em domínios da vida, cuja manutenção tinha sido
120 121
conseguida até o presente momento de forma normativa, isto é, Julgo que a melhor saída consiste em não agudizar, por meio de
mediante formas de comunicação política ou pré-política. Por causa uma crítica racional, a questão sobre a possibilidade de os poderes
disso, a polaridade das esferas privadas é invertida, em crescente seculares de uma razão comunicativa conseguirem ou não estabilizar
medida, e transposta para mecanismos do agir orientado pelo sucesso uma modernidade ambivalente: o melhor a fazer é enfrentar tal questão
e pelas preferências próprias; além disso, o domínio que depende de de modo não-dramático, como uma questão empírica aberta. Com
pressões de legitimação públicas encolhe. Fortalece-se, destarte, o isso, eu não pretendo apenas colocar em jogo o fenômeno da
privatismo de cidadãos do Estado pela perda de função, por demais persistência da religião num entorno, em via de secularização, como
desencorajadora, de uma formação democrática da opinião e da se ela fosse apenas um mero fato social; já que a filosofia tem de levar
vontade, a qual continua funcionando, por enquanto e de modo a sério esse fenômeno "a partir de dentro", isto é, como um desafio
precário, apenas nas arenas nacionais, não conseguindo, por isso, atingir cognitivo. Todavia, antes de acompanhar essefiode discussão, gostaria
os processos de decisão, os quais são deslocados para níveis suprana- de mencionar um certo desvio do diálogo que segue numa outra
cionais. A própria esperança na força de configuração política da direção, e que é sugerido por tais idéias. É que a radicalização da
sociedade internacional, minguante, provoca uma tendência à despo- crítica da razão levou a filosofia a refletir sobre suas próprias origens
litização dos cidadãos. Face aos conflitos e às injustiças sociais gritantes metafísico-religiosas e a se deixar convencer a tomar parte em diálogos
de uma sociedade mundial fragmentada em larga escala, cresce, a com uma teologia que procurou, por seu turno, estabelecer contato
cada insucesso no caminho da constitucionalização do direito interna- com as tentativas filosóficas de uma auto-reflexão da razão pós-
cional das gentes (que foi iniciado após 1945),6 o desapontamento. hegeliana.7
Teorias pós-modernas abordam a crise pelo ângulo de uma crítica Excurso. O ponto de engate para um discursofilosóficosobre a
racional entendendo-a, não como conseqüência de um esgotamento razão e a revelação constitui uma figura de pensamento que retorna a
seletivo dos potenciais racionais inseridos na modernidade ocidental, cada passo. A razão que reflete sobre o seu fundamento mais profundo
mas como resultado lógico de um programa de racionalização espiritual descobre que sua origem precisa ser buscada em um "outro"; e que
e social autodestruti va. O ceticismo radical da razão jamais se coadunou ela tem de reconhecer o poder que este outro possui sobre o destino,
com a tradição católica. Mesmo assim, o catolicismo teve, até o limiar caso não pretenda perder sua orientação racional no beco sem-saída
dos anos 60, imensas dificuldades para lidar com o pensamento secu- de um auto-apoderamento híbrido. Neste ponto, pode servir de modelo
lar do humanismo, do Esclarecimento e do liberalismo político. De o exercício de uma conversão realizada pelas próprias forças ou, ao
sorte que, hoje em dia, o teorema, segundo o qual uma modernidade menos, desencadeada pelas próprias forças, ou ainda, uma conversão
contrita só poderia sair do beco sem saída adotando um ponto de da razão pela razão - o fato de a reflexão se iniciai- em Schleiermacher
referência transcendente e religioso, encontra novamente ressonância. na autoconsciência do sujeito cognoscente e agente, em Kierkegaard,
Em Teheran, um colega me perguntou se, na perspectiva de uma na historicidade de uma autocertificação existencial de mim mesmo,
sociologia das religiões e numa comparação de culturas, a secularização e em Hegel, Feuerbach e Marx, no dilaceramento provocador de
européia não deveria ser interpretada como um caminho desviante e condições éticas, não faz diferença. Mesmo desprovida de qualquer
necessitado de uma correção. Tal fato faz lembrar o clima reinante na tipo de intenção teológica inicial, uma razão que se torna consciente
República de Weimar, Carl Schmitt, Heidegger ou Leo Strauss!
'NEUNER, P. e WENZ, G. (eds.) Theologen des 20. Jahrhunderts. Darmstadt,
6 Cf. abaixo, 326 ss. 2002.

122 123
dos seus limites consegue sobrepujar-se a si mesma, a partir do (4) Diferentemente do que acontece com a abstinência ética de
momento em que corre em busca de um outro: seja na fusão mística um pensador pós-metafísico que não consegue obter um conceito de
com uma consciência que abarca todo o universo, seja na esperança vida boa ou exemplar a ser considerado obrigatório para todos, as
desesperançada que aguarda o evento histórico de uma mensagem Escrituras Sagradas e as tradições religiosas contêm intuições sobre a
salvadora ou na figura de uma solidariedade com os humilhados e falta moral e a salvação, sobre a superação salvadora de uma vida
ofendidos que pretende acelerar a salvação messiânica. Entretanto, experimentada como sem salvação, as quais são mantidas e
esses deuses anônimos da metafísica pós-hegeliana - a consciência interpretadas sutilmente durante milênios. Por isso, é possível supor
abrangente, o evento impensável que está antes do pensamento que na vida das comunidades ou nas comunidades religiosas que
(unvordenklich), a sociedade não-alienada - são presa fácil da teologia. evitam o dogmatismorígidoe a coação das consciências se mantenha
Já que eles se oferecem à decifração como pseudônimos da trindade intacto algo que já se perdeu alhures e que não pode ser restaurado
do deus pessoal que se revela pessoalmente. apenas pelo saber profissional de especialistas - refiro-me a
possibilidades de expressão suficientemente diferenciadas e a
Tais tentativas de renovação de uma teologiafilosóficaapós Hegel sensibilidades para uma vida fracassada, para patologias sociais, para
são, apesar de tudo, mais simpáticas do que o nietzscheanismo, o qual o fracasso de projetos de vida individuais e para a deformação de
simplesmente toma de empréstimo as conotações cristãs do ouvir e contextos vitais. A assimeüúa das pretensões epistêmicas permite que
do sentir, da expectativa da graça e da devoção, do evento e da chegada, se pense numa disposição ao aprendizado que a filosofia adota em
afimde formular um pensamento sem conteúdo proposicional que é, relação à religião, e isso não apenas por simples razões funcionais,
a seguir, ancorado numa dimensão situada atrás de Cristo e de Sócrates, mas por razões de conteúdo - tendo presentes na memória os
em uma espécie de inundo indeterminado e arcaico. "processos de aprendizagem" bem-sucedidos, de Hegel.
Contrapondo-se a isso, uma filosofia consciente de sua A interpenetração recíproca entre cristianismo e metafísica grega
falibilidade e de sua posição frágil no interior da estrutura diferenciada não produziu apenas a figura da dogmática teológica e uma helenização
da sociedade moderna, insiste na distinção genérica - não pejorativa do cristianismo - a qual nem sempre foi benéfica. Porquanto ela
- entre a fala discursiva secular, a qual pretende ser acessível a todos promoveu também, de outro lado, uma apropriação, por parte da
em geral e a fala discursiva religiosa que é dependente de verdades filosofia, de conteúdos genuinamente cristãos. Tal trabalho de
reveladas. Diferentemente de Kant e de Hegel, o estabelecimento de apropriação solidificou-se em redes conceituais carregadas
tais limites gramaticais não compartilha a pretensãofilosóficaque se normativamente, tal como, por exemplo: responsabilidade, autonomia
arroga uma capacidade de estabelecer por si mesma o que é verdadeiro e justificação; história, recordação e recomeço; inovação e retorno;
ou falso no conteúdo das tradições religiosas - e inclusive o que é emancipação e completude; renúncia, incorporação, internalização,
verdadeiro ou falso no saber sobre o mundo, institucionalizado na individualidade e comunidade. Ela também transformou,
sociedade. O respeito, que caminha de mãos dadas com tal abstenção originariamente, o sentido, porém, não o consumiu inteiramente nem
cognitiva do juízo, funda-se no respeito por pessoas e modos de vida o deflacionou de um modo esvaziador. A tradução da idéia de que o
que obtêm sua integridade e autenticidade de convicções religiosas. É homem é semelhante a Deus para a idéia da "dignidade do homem",
bem verdade que o respeito não é tudo, uma vez que afilosofiatambém de todos os homens, a ser respeitada de modo igual e incondicionado,
possui argumentos que a levam a assumir, perante tradições religiosas, constitui uma destas traduções salvadoras. Ela expõe o conteúdo de
a atitude de alguém que está disposto a aprender. conceitos bíblicos para um público geral de crentes de outras confissões
e para não-crentes, ultrapassando, por conseguinte, os limites de uma
124 125
comunidade religiosa particular. Benjamin foi um daqueles que (5) De um lado, a consciência religiosa foi constrangida a
conseguiram, às vezes, formular tais traduções. processos de adaptação. Toda religião é, no início, "doutrina
Uma vez aceita a experiência de um parto secularizador de compreensiva" ou ainda, "imagem de um mundo", (comprehensive
potenciais de significação encapsulados, é possível atribuir ao teorema doctrine), inclusive no sentido de que ela pretende ter autoridade na
de Bõckenfórde um sentido menos capcioso. Mencionei o diagnóstico, configuração de uma forma de vida em sua totalidade. Em que pese
segundo o qual, o equilíbrio moderno entre os três grandes meios da isso, sob as condições da secularização do saber, da neutralização do
integração corre perigo, já que os mercados e a força administrativa poder do Estado e da generalização da liberdade de religião, a religião
estão desalojando, em um grau cada vez mais elevado e em um número foi obrigada a renunciar a essa pretensão que visa o monopólio da
crescente de domínios da vida, a solidariedade social - que constitui interpretação e a configuração abrangente da vida. A seguir, sob os
uma coordenação da ação por meio de valores, de normas e do uso da imperativos da diferenciação funcional de subsistemas sociais, a
linguagem orientada pelo entendimento. Por esta razão, o Estado própria vida das comunidades religiosas se destacou de seus entornos
constitucional tem todo o interesse em poupar as fontes culturais que sociais. O papel de um membro da comunidade diferencia-se do papel
alimentam a consciência de normas e a solidariedade de cidadãos. Tal de um cidadão da sociedade. E já que o Estado liberal depende de
consciência, que se tornou conservadora, reflete-se na fala sobre a uma integração política dos cidadãos, a qual não pode reduzir-se a um
"sociedade pós-secular".8 simples modus vivendi, tal diferenciação de modos de pertença não
pode esgotar-se numa mera adaptação - destituída de pretensões
Tal formulação não tem na mira apenas o fato de que a religião é cognitivas - do etos religioso a leis impostas pela sociedade secular.
obrigada a se afirmar em um entorno cada vez mais dominado por Ao invés disso, a ordem jurídica universalista e a moral igualitária da
elementos seculares e que a sociedade continua a contar, mesmo assim, sociedade têm de ser engatadas, a partir de dentro, ao etos da
com a sobrevivência da religião. A expressão "pós-secular" foi cunhada comunidade, de tal sorte que uma coisa possa surgir consistentemente
com o intuito de prestar às comunidades religiosas reconhecimento da outra. Para tal "inserção", John Rawls escolheu a imagem de um
público pela contribuição funcional relevante prestada no contexto da módulo: entretanto, mesmo que tal módulo da justiça secular tenha
reprodução de enfoques e motivos desejados. Mas não é somente isso. sido construído com o auxílio de argumentos neutros do ponto de
Porque na consciência pública de uma sociedade pós-secular reflete- vista da visão de um mundo, ele deve caber nos respectivos contextos
se, acima de tudo, uma compreensão normativa perspicaz que gera de uma fundamentação ortodoxa.9
conseqüências no Uato político entre cidadãos crentes e não-crentes. Tal expectativa normativa, com a qual o Estado liberal confronta
Na sociedade pós-secular impõe-se a idéia de que a "modernização as comunidades religiosas, vem ao encontro dos respectivos interesses
da consciência pública" abrange, em diferentes fases, tanto próprios uma vez que, com isso, abre-se a possibilidade de exercer,
mentalidades religiosas como profanas, transformando-as mediante a esfera pública política, uma influência própria na sociedade
reflexivamente. Neste caso, ambos os lados podem, quando entendem, como um todo. É verdade que, como mostram as regras mais ou menos
em comum, a secularização da sociedade como um processo de liberais das regulamentações do aborto, os fardos resultantes da
aprendizagem complementar, levar a sério, por razões cognitivas, as tolerância não são distribuídos de forma simétrica entre crentes e não-
suas contribuições para temas controversos na esfera pública. crentes; a consciência secular, todavia, também não deixa de pagar
tributo para ter o gozo da liberdade de religião, negativa. Dela se espera
8 EDER K. "Europàische Sàkularisierung - ein Sonderweg in die po.stsákulare
Oesellschaft?", in: Berliner Journalfiir Soz.iologie, cad. 3, 2002, 331-343. ''RAWLS, J. Politischer Liberalismus. Frankfurt/M., 1998, 76 ss.
126 127
o treino para uma relação auto-reflexiva com os limites do Esclareci-
mento. A compreensão da tolerância das sociedades pluralistas, dotadas
de uma constituição liberal, exige não somente que os crentes tenham,
no seu trato com não-crentes e crentes de outras denominações, a
compreensão razoável de que eles têm de contar com a permanência
de um dissenso. Porquanto ela exige, no âmbito de uma cultura política
liberal, a mesma compreensão dos não-crentes no trato com crentes.
Para o cidadão não-afinado do ponto de vista da religião, isso 5. RELIGIÃO NA ESFERA PÚBLICA.
significa uma exigência, nada trivial, de que relação entre fé e ciência PRESSUPOSIÇÕES COGNITIVAS PARA o "Uso PÚBLICO DA RAZÃO"
deve ser determinada autocriticamente na perspectiva de um saber DE CIDADÃOS SECULARES E RELIGIOSOS.1
sobre o mundo. Só se pode auibuir à expectativa de uma não-
coincidência persistente entre saber e fé o predicado "racional" quando
se concede, na perspectiva de um saber secular, um status epistêmico (1) Desde a virada de 1989/90, tradições religiosas e comunidades
às convicções religiosas, que não seja pura e simplesmente irracional. de fé adquiriram, inesperadamente, importância política.2 Temos em
Por isso, na esfera pública política, as cosmovisões naturalistas, que mente, acima de tudo, os tipos de fundamentalismo que surgem, não
nasceram de uma elaboração especulativa de informações científicas somente no Oriente Médio, mas também nos paises da África, no
e são relevantes para a autocompreensão ética dos cidadãos,10 não Sudeste da Ásia e no subcontinente da índia. Eles inserem-se,
têm prima facie prioridade sobre concepções religiosas ou cosmo- eventualmente, em conflitos nacionais e étnicos constituindo, hoje
visões concorrentes. em dia, uma espécie de incubadora de unidades descentralizadas de
A neutralidade em termos de visões de mundo, que impregna o um terrorismo que opera a um nível global, opondo-se aos melindres
poder do Estado, o qual garante iguais liberdades éticas para cada produzidos pela civilização ocidental tida como superior. Mas há outros
cidadão, não se coaduna com a generalização política de uma visão fenômenos sintomáticos.
de mundo secularista. Cidadãos secularizados não podem, à proporção No Irã, o protesto contra um regime corrupto, imposto e
que se apresentam no seu papel de cidadãos do Estado, negar que promovido pelo Ocidente, fez surgir um verdadeiro domínio de
haja, em princípio, um potencial de racionalidade embutido nas cosmo- sacerdotes que serve de modelo a outros movimentos. Em muitos
visões religiosas, nem contestar o direito dos concidadãos religiosos a paises do Islã, mas também em Israel, o direito familial religioso
dar, em uma linguagem religiosa, contribuições para discussões substitui o direito civil estatal, já constituído, ou, ao menos, oferece
públicas. Uma cultura política liberal pode, inclusive, manter a uma opção alternativa. Em paises como o Afeganistão e o Iraque,
expectativa de que os cidadãos secularizados participarão dos esforços uma ordem constitucional que é, em linhas gerais, liberal, tem de se
destinados à tradução - pata uma linguagem publicamente acessível
- das contribuições relevantes, contidas na linguagem religiosa."
1 Agradeço a Rainer Forst e Thomas M. Schmidt pelos comentários valiosos
que ambos publicaram sobre esse tema. Também agradeço a Melissa Yates
lü Por
exemplo, SINGER, W. "Ninguém pode ser diferente do que ele é. Estamos - que se ocupou, em sua dissertação, com temas semelhantes - por indicações
presos a engrenagens: Deveríamos parar de falar em liberdade" in- Frank- bibliográficas e discussões estimulantes.
^ Jurter Allgemeine Zeitung, de 08 de janeiro de 2004, 33. 2 BERGER, Peter L. (org.) The Desecularization of lhe World. Washington,
" HABERMAS, J. Glauben und Wissen. Frankfurt/M., 2001
1999.
128 129
compatibilizar com a Scharia. Na própria arena internacional eclodem No período após o final da Segunda Guerra mundial, todos os
fenômenos religiosos. As esperanças ligadas à programática política paises da Europa, com exceção da Irlanda e da Polônia, foram atingidos
das "modernidades múltiplas" (multiple modernities) continuam por uma onda de secularização, que acompanha os passos da
alimentando-se da mesma autoconsciência cultural das religiões modernização social. Nos Estados Unidos, porém, todas as pesquisas
mundiais que até hoje marcam indelevelmente a fisionomia das grandes de opinião confirmam que a elevada porcentagem dos cidadãos
civilizações. Também no lado ocidental, a percepção dos conflitos e religiosamente ativos permaneceu relativamente constante durante os
das relações internacionais modificou-se ante os temores de um últimos sessenta anos.4 Mais importante ainda é a circunstância atual
"choque de civilizações" {clash of civilisations) - do qual "o eixo do de que o movimento a favor dos direitos religiosos, nos Estados Unidos,
mal" constitui apenas um exemplo destacado. Os próprios intelectuais não configura propriamente um movimento tradicionalista. E pelo
ocidentais, até agora autocríticos, começam a reagir ofensivamente à próprio fato de liberar energias espontâneas de despertamento, esse
imagem de um ocidentalismo, tecida pelos não-ocidentais.3 movimento provoca irritações paralizadoras em seus opositores
Noutras partes do globo, o fundamentalismo pode ser entendido seculares.
também como conseqüência, no longo prazo, de uma colonização Os movimentos religiosos de renovação, que têm lugar no
violenta e de uma descolonização mal-sucedida. Uma modernização coração da sociedade civil da potência líder do Ocidente, reforçam,
capitalista vinda de fora desencadeia, sob condições desfavoráveis, pois, a nível cultural, a divisão política do Ocidente provocada pela
inseguranças sociais e rejeições culturais. Nesta linha de interpretação, guerra do Iraque.5 No entanto, parece que, após a eliminação da pena
os movimentos religiosos tendem a processar as mudanças sociais de morte, com as regulamentações liberais do aborto, com a recusa
radicais e a não-simultaneidade cultural, que são experimentadas sob incondicional da tortura, com a equiparação das orientações sexuais e
as condições de uma modernização acelerada ou fracassada, com a paridade de conúbios homossexuais e, em geral, com o acento
interpretando-as como desenraizamento. Em que pese isso, o fato mais nos direitos e não nos bens coletivos tal como, por exemplo, a segurança
surpreendente consiste propriamente na revitalização política da nacional, os paises da Europa continuam a trilhar, sozinhos, o caminho
religião no âmago dos Estados Unidos da América, portanto, no centro que tinham encetado, desde a época das duas revoluções
da sociedade ocidental, onde a dinâmica da modernização se expande constitucionais do final do século XVIII, junto com os Estados Unidos.
com maior sucesso. E bem verdade que conhecemos, também na Nesse ínterim, cresceu no mundo em geral a importância das religiões
Europa, desde os dias da Revolução Francesa, as forças de um no contexto político. E nesse horizonte, a divisão do Ocidente é
tradicionalismo religioso que se auto-interpreta como contra- interpretada como se a Europa se isolasse do resto do mundo. E
revolucionário. Porém, nesta evocação da religião como força da observando as coisas pelo ângulo de uma história mundial, o
tradição transparece sempre a dúvida corrosiva sobre a vitalidade "racionalismo ocidental", de Max Weber, passa a ser encarado, agora,
daquilo que é apenas tradicional. Não obstante isso, tudo indica que o como um caminho que foge à normalidade.
despertar político de uma consciência religiosa forte nos Estados Em tal visão revisionista, parece que as correntes tradicionais
Unidos não foi atingido pela dúvida sobre um poder, o qual se torna das religiões mundiais, que continuam a fluir sem interrupções,
inseguro quando entra em cena a reflexão.
'BURUMA, I. e MARGALIT, A. Okzidentalismus. Der Westen in den Augen 4 NORR1S, P. e INGLEHART, R. Sacred and Secular, Religion and Politics
seiner Feinde. Munique, 2004.
Worldwide. Cambridge (Mass.) 2004, Cap. 4.
5 HABERMAS, J. Der Gespaltene Westen. Frankfurt/., 2004.
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131
eliminam ou, ao menos, nivelam os umbrais entre sociedades modernas dias antes da eleição mostrou que setenta e cinco por cento dos eleitores
e tradicionais que até hoje eram mantidos intactos. De sorte que a do Sr. Bush acreditavam que o Iraque não trabalhava com a Al Qaeda
auto-imagem da modernidade ocidental está sendo submetida, por nem estava envolvido diretamente com os ataques do onze de
uma espécie de experimento da psicologia da Gestalt, a um teste de setembro".7
inversão: aquilo que antes era tomado como um modelo normal para Independentemente do modo como avaliamos os fatos ocorridos,
o futuro de todas as culturas passa a ser um caso a parte. Mesmo que as análises da eleição confirmam que a divisão cultural que sacode o
tal figura sugestiva não consiga resistir por muito tempo a um exame Ocidente perpassa a própria nação americana: orientações valorativas
sociológico mais rigoroso, e mesmo que as explicações da conflitantes - Deus, os gays e as armas - sobrepuseram-se a conflitos
secularização em termos de teorias da modernização possam ser postas de interesses aparentemente mais sólidos. De qualquer modo, o
em consonância com evidências aparentemente contraditórias,6 não presidente Bush deve a sua vitória a uma coalisão de eleitores cujos
se pode duvidar das próprias evidências e, acima de tudo, não se pode motivos predominantes eram religiosos.8 Ora, tal deslocamento dos
duvidar da agudização sintomática dos climas políticos. pesos políticos revela uma modificação mental correspondente que
Dois dias após a última eleição para presidente, veio a público a ocorre na sociedade civil. E esta também forma o pano de fundo para
contribuição de um historiador com o seguinte título: "O dia em que o as controvérsias acadêmicas sobre o papel político da religião no Estado
iluminismo se despediu" (The Day the Enlightenment went out). Nesse e na esfera pública.
texto, o autor levanta a seguinte questão alarmista: "Pode um povo E a disputa tem a ver novamente com a substância da primeira
que acredita mais fortemente no nascimento virginal do que na frase do First Amendmenf. "O congresso não poderá emitir nenhuma
evolução ser chamado de nação iluminada? A América, a primeira lei para regular o estabelecimento de uma religião nem proibir o livre
democracia real na história, era produto dos valores do Iluminismo exercício dela". Percebe-se que os Estados Unidos foram os pioneiros
[...]. Embora os fundadores manifestassem divergências sobre muitas de uma liberdade da religião apoiada no respeito recíproco da liberdade
coisas, eles compartilhavam tais valores que tinham a ver com o de religião do outro. 9 O grandioso artigo n° 16 da Bill of Rights,
significado da modernidade [...]. Parece que o respeito pela evidência
não faz mais sentido quando uma pesquisa de opinião, realizada alguns 1 WILLS, Garry. "The Day the Enlightenment Went Out", in New York Times de
04 de novembro de 2004, A, 31.
"NORRIS e INGLEHART, (2004, Cap. 10) defendem a hipótese clássica, 8 GOODSTEIN, W. Yardley. "O presidente Bush aproveita-se dos esforços
segundo a qual, a secularização se impõe à medida que se propagar - junto despendidos na formação de uma coalisão de eleitores religiosos", in: New
com condições de vida sociais e econômicas melhoradas - o sentimento de York Times, 05/11/2004, A, 19. Bush teve 60% dos votos dos eleitores de
"segurança existencial". Juntamente com a assunção demográfica que indica fala espanhola, 67% dos votos dos protestantes de raça branca e 78% dos
um decréscimo da taxa de fertilidade nas sociedades desenvolvidas, essa votos dos evangélicos ou cristãos renascidos. Até mesmo entre os católicos,
hipótese esclarece inicialmente por que razão a secularização atingiu, em que costumam votar nos democratas, Bush conseguiu obter a maioria. A opção
linhas gerais, apenas "o Ocidente". Os Estados Unidos constituem uma partidária dos bispos católicos é surpreendente, dado o fato de que o governo,
exceção, em primeiro lugar, devido a um capitalismo que não assegura a ao contrario da Igreja, defende a pena de morte e se decidiu por uma agressão
toda a população um bem-estar maior, expondo-a, em média, a um grau maior bélica que vai contra o direito internacional, colocando em jogo a vida de
de insegurança existencial; em segundo lugar, devido à grande quantidade milhares de soldados americanos e de civis iraquianos.
de imigrantes oriundos de paises cujas sociedades são tradicionais e que 9 Sobre essa "concepção de respeito" cf. a pesquisa histórica e sistemática de
apresentam uma taxa de fertilidade relativamente alta. FORST, R. Toleram im Konflikt. Frankfurt/M., 2003.

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proclamado na Virgínia, em 1776, constitui o primeiro documento de Pretendo recordar, em primeiro lugar, as premissas liberais do
uma liberdade de religião garantida como um direito fundamental, Estado constitucional, dando especial realce ao impacto da idéia do
que os cidadãos de uma comunidade democrática se concedem uso público da razão, de John Rawls sobre o etos dos cidadãos do
mutuamente independentemente dos limites estabelecidos pelas Estado (2). A seguir, enfrentarei as principais objeções levantadas
diferentes comunidades de fé. Nos Estados Unidos, ao contrário do contra tal interpretação restritiva do papel político da religião (3).
que sucedeu na França, a introdução da liberdade de religião não Desenvolvo uma concepção cuja finalidade principal consiste em
significou uma vitória do laicismo sobre uma autoridade que garantira mediar entre os dois lados discutindo as propostas revisionistas que
para as minorias religiosas, no melhor dos casos, uma tolerância atingem fundamentos da autocompreensão liberal (4). É certo que os
interpretada de acordo com seus próprios critérios, os quais eram cidadãos seculares e religiosos não conseguem preencher as
impostos à população. O poder do Estado, cuja postura quanto a visões expectativas normativas do papel de cidadãos do Estado, liberais, se
de mundo era neutra, não tinha, em primeira linha, o sentido negativo não preencherem determinadas pressuposições cognitivas e se não se
de proteger os cidadãos contra imposições oriundas da consciência atribuírem mutuamente os correspondentes enfoques epistêmicos. A
ou da fé. Ele deveria, ao invés disso, garantir para os colonos que explicação desse ponto levar-me-á, inicialmente, a lançar mão da
tinham dado as costas à velha Europa a liberdade positiva de colocar mudança de forma da consciência religiosa, a qual constitui uma
em prática, sem restrições, sua respectiva religião. Por isso, até hoje resposta aos desafios da modernidade (5). No planofilosófico,ao
em dia, qualquer uma das partes envolvidas numa discussão sobre o contrário, a consciência secular, segundo a qual vivemos em uma
papel político da religião pode reiterar sua lealdade para com a sociedade pós-secular, sedimenta-se, assumindo a forma de um pensa-
constituição. Ainda teremos ocasião de analisar até que ponto tal mento pós-metafísico (6). Em que pese isso, o Estado liberal enfrenta,
pretensão pode ser mantida. em ambas as direções, o seguinte problema: os cidadãos, tanto crentes
Nas páginas seguintes deter-me-ei na discussão que se seguiu à como não-crentes, adquirem tais enfoques em "processos de
formulação da teoria política de John Rawls, especialmente na sua aprendizagem" complementares nem sempre aceitos como tal e sobre
concepção do "uso público da razão". Até que ponto a separação en- os quais o Estado não pode influir lançando mão do direito e da política,
tre Igreja e Estado, a qual é requerida pela constituição, pode influenciar mesmo que tais meios estejam, em princípio, à sua disposição (7).
o papel, a ser desempenhado pelas tradições e comunidades religiosas,
na esfera pública política e na sociedade civil, portanto, na formação (2) A autocompreensão do Estado de direito democrático formou-
política da opinião e da vontade dos cidadãos? Por onde deve passar se no quadro de uma tradiçãofilosóficaque apela exclusivamente a
tal delimitação de fronteiras, no entender dos revisionistas? Será que uma razão "natural", ou seja, a argumentos públicos que, de acordo
os opositores, isto é, os que atualmente assumem a ofensiva contra as com sua pretensão, são acessíveis da mesma maneira a todas as
formas clássicas de demarcação liberal, conseguem realmente levar a pessoas. Ora, a assunção de uma razão humana comum constitui a
cabo uma modificação radical da agenda liberal? Será que eles apenas base epistêmica para a justificação de um poder do Estado secular
estão interessados em adotar um aspecto favorável à religião, o qual é que independe de legitimações religiosas. E isso permite, por outro
inerente à neutralidade do Estado quanto a visões de mundo, afimde lado, pensar a separação entre Igreja e Estado ao nível institucional.
contrapô-lo à compreensão secularista da sociedade pluralista? Ou No âmbito de uma compreensão liberal, a qual serve de pano de fundo,
será que eles já se movimentam no horizonte de uma outra a superação das guerras de religião e das querelas entre as confissões,
autocompreensão da modernidade? que teve lugar no início dos tempos modernos, constitui um ponto de
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partida histórico; o Estado constitucional reagiu a esse fato mão dos meios da razão e do direito positivo, são frutos de uma prática
neutralizando, de um lado, o exercício do poder, o qual se tornou constituinte.12 O procedimento democrático extrai sua força geradora
independente de qualquer tipo de cosmovisão; de outro lado, ele abriu de legitimação de dois componentes, a saber: da participação política
espaço para a autodeterminação democrática de cidadãos que passam simétrica dos cidadãos, a qual garante aos destinatários das leis a
a dispor de iguais direitos. Tal genealogia também forma o pano de possibilidade de se entenderem, ao mesmo tempo, como seus autores;
fundo para a teoria da justiça, de John Rawls.10 e da dimensão epistemológica de certas formas de uma disputa guiada
O direito fundamental da liberdade de consciência e de religião discursivamente, as quais fundamentam a suposição de que os
constitui a resposta política adequada aos desafios do pluralismo resultados são aceitáveis em termos racionais.11
religioso. Isso permite desarmar, no contexto do trato social dos As expectativas e modos de pensar e de se comportar dos
cidadãos, o potencial conflituoso que continua permeando, no nível cidadãos, que não podem ser simplesmente impostas mediante o
cognitivo, as convicções existenciais de crentes, de não-crentes e de direito, podem ser, no entanto, explicadas a partir desses dois
crentes de outras denominações. Para uma garantia simétrica da componentes da legiümação. As condições para uma participação bem-
liberdade de religião, o caráter secular do Estado constitui uma sucedida na prática comum da autodeterminação definem o papel de
condição necessária, porém, não suficiente. Tal função não pode ser cidadão do Estado: os cidadãos devem respeitar-se reciprocamente
preenchida pela benevolência desdenhosa de uma autoridade como membros de sua respectiva comunidade política, dotados de
secularizada. As próprias partes envolvidas têm de chegar a um acordo iguais direitos, apesar de seu dissenso em questões envolvendo
sobre as fronteiras precárias que separam o direito positivo ao exercício convicções religiosas e visões de mundo; sobre esta base de uma
da religião da liberdade negativa, segundo a qual, ninguém é obrigado solidariedade de cidadãos do Estado, eles devem procurar, quando se
a seguir a religião do outro. Para proteger o princípio da tolerância trata de questões disputadas, um entendimento mútuo motivado
contra a suspeita de uma determinação repressiva dos limites da racionalmente, ou seja, eles são obrigados a apresentar uns aos outros,
tolerância e para definir aquilo que ainda pode ser tolerado e aquilo bons argumentos. Nesse contexto, Rawls fala num dever dos cidadãos
que não pode mais ser tolerado, há mister de argumentos convincentes do Estado para com a atitude civil e para com o uso público da razão:
e aceitáveis, de modo igual, por todas as partes." A criação de regras "O ideal da cidadania impõe um dever moral, não legal - o dever da
eqüitativas pressupõe que os participantes aprendem a assumir as civilidade - de ser capaz, nessas questões fundamentais, de explicar
perspectivas uns do outros. E nesse sentido, a formação deliberativo- uns aos outros como os princípios e normas de conduta propostos e
democrática constitui um procedimento adequado. votados são compatíveis com os valores da razão pública. Portanto,
No Estado secular, há que transpor o exercício do poder político
para uma base não mais religiosa. A constituição democrática precisa 12Cf. HABERMAS, J. Faktizitãt und Geltung. Frankfurt/M., 1992, Cap. III;
preencher a lacuna de legitimação aberta pela neutralização - em Id., "Der demokratische Rechtsstaat - eine paradoxe Verbindung
termos cosmológicos - do poder do Estado. Os direitos fundamentais, widersprüchlicher Prinzipien?", in: Id. Zeit der Übergange. Frankfurt/M.,
2001, 133-151.
simétricos, que cidadãos livres e iguais são obrigados a atribuir uns L,Cf. RAWLS, John. "The Ideaof Public Reason Revisited", in: The University of
aos outros quando pretendem regular sua convivência mútua lançando Chicago Law Review, vol. 64, 1997, n° 3, 765-807, aqui, 769: "Idealmente os
cidadãos têm de entender-se como legisladores e perguntar a si mesmos que
10 RAWLS, J. A Theory of Justice. Cambridge (Mass.), 1971, §§ 33 s. estatutos - apoiados em quais razões capazes de satisfazer ao princípio de reci-
"Sobre a concepção do respeito recíproco tolerante cf. FORST, (2003). procidade - eles gostariam que fossem promulgados como os mais razoáveis."

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esse dever envolve a disposição de prestar atenção aos outros e uma organizações sociais, igrejas e outras comunidades religiosas não estão
compreensão eqüitativa quando se trata de chegar a uma acomodação submetidos a uma reserva tão estrita: "Em primeiro lugar, as doutrinas
razoável de seus pontos de vista".14 razoáveis e compreensivas, sejam elas religiosas ou não-religiosas,
A base de referência para um uso público da razão só é obtida podem ser introduzidas, a qualquer momento, na discussão pública
após a diferenciação de uma associação de cidadãos livres e iguais política desde que sejam apresentados, no devido tempo, argumentos
que se determinam a si mesmos: os cidadãos justificam, uns perante políticos apropriados - e não razões exclusivas de doutrinas
os outros, seus posicionamentos políticos à luz (de uma interpretação compreensivas - os quais devem ser capaz.es de suportar tudo aquilo
fundamentada15) dos princípios constitucionais em vigor. Rawls refere- que se diz que as doutrinas compreensivas suportam."** Isso significa
se a "valores da razão pública" e a "premissas que aceitamos e que os argumentos políticos aduzidos, além de serem (empurrados
pensamos que os outros também podem aceitar razoavelmente",16 para frente) também "contam" fora de seu contexto de inserção
porque no Estado que é neutro do ponto de vista das visões de mundo religioso.19
só valem como legítimas as decisões políticas que puderem ser Nos moldes de uma interpretação liberal, o Estado somente
justificadas à luz de argumentos acessíveis em geral, isto é, que são garante liberdade de religião sob a condição de que as comunidades
imparciais tanto para cidadãos religiosos como para não-religiosos, religiosas aceitem, na perspectiva de suas próprias tradições, não
como também para cidadãos de orientações de fé distintas. O exercício somente a neutralidade das instituições do Estado do ponto de vista
de um poder que não consegue justificar-se de modo imparcial é das visões de mundo, ou seja, a separação enüe Igreja e Estado, mas
ilegítimo porque, nesse caso, um partido estaria impondo sua vontade também a determinação restritiva do uso público da razão dos cidadãos.
ao outro. Cidadãos de uma comunidade democrática devem apresentar, Rawls mantém tais exigências mesmo contra a objeção que ele mesmo
uns aos outros, argumentos porque somente assim o poder político levanta: "Como podem [...] os crentes [...] endossar um regime
perde o seu caráter eminentemente repressivo. Tal reflexão nos constitucional apesar de suas doutrinas compreensivas não poderem
confronta com a polêmica (Proviso) à qual deve ser submetido o uso prosperar nele, correndo, inclusive, o risco de declinar?"20
público de argumentos não-públicos. A concepção do uso público da razão provocou posicionamentos
O princípio da separação entre Igreja e Estado obriga os políticos críticos decididos. As objeções não se dirigem inicialmente contra as
e funcionários no interior das instituições estatais a formular e a premissas liberais enquanto tal, mas contra uma determinação por
justificar as leis, as decisões judiciais, as ordens e medidas em uma
linguagem acessível a todos os cidadãos.17 De outro lado, porém, na 18 RAWLS, (1997), 783 s. (a grafia em itálico é de minha autoria). Esta passagem
esfera pública política, cidadãos, partidos políticos e seus candidatos, contém um revisão da formulação do princípio rawlsiano formulado no texto
de (1994), 224 s. Rawls delimita a sua ressalva a questões centrais que atingem
'"RAWLS, J. Political Liberalism. New York, 1993, 217. constitutional essentials (elementos essenciais da constituição); no meu
15 Rawls refere-se a uma "família de concepções liberais de justiça", à qual o entender, tal procedimento não é realista no que tange às ordens jurídicas
uso público da razão pode recorrer quando da interpretação de princípios modernas nas quais os direitos fundamentais permeiam imediatamente a
constitucionais vigentes. Cf. RAWLS, (1997), 773, s. legislação material e a aplicação da lei e quase todos os temas controversos
l6 Ibid.,786. podem ser agudizados e transformados em questões de princípios.
"Sobre a especificação da exigência de argumentos numa linguagem "acessível RAWLS (1997), 777: "Nas doutrinas compreensivas não existem, por detrás
em geral", cf. FORST, R. Kontexte der Gerechtigkeit. Frankfurt/M., 1994, das cenas, marionetes manipuladas."
20 Ibid., 781. Retomarei tal objeção mais abaixo.
199-209.

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demais estreita, secularista, do papel político da religião no quadro de King e o movimento americano em prol dos direitos dos cidadãos
uma ordem liberal. Mesmo assim, o dissenso parece atingir, no final ilustram a luta bem-sucedida por uma inclusão ampliada das minorias
das contas, a própria substância da ordem liberal. A mim me interessa e de grupos marginais no processo político. Neste contexto, são
a linha que separa pretensões ilegítimas do ponto de vista de um direito impressionantes as raízes religiosas profundas do estoque motivacional
constitucional. Não obstante, não podemos confundir dois tipos de da maioria dos movimentos sociais e socialistas, seja nos paises anglo-
argumentos - não tão rigorosos - em prol de um papel político da saxões, seja nos paises da Europa continental.22 Há muitos exemplos
religião, a saber, de um lado, os que são inconciliáveis com o caráter históricos que revelam um papel autoritário e repressivo das igrejas e
secular do Estado constitucional e, de outro lado, os que constituem movimentos fundamentalistas; mesmo assim, no quadro dos Estados
objeções justificadas contra uma compreensão secularista da constitucionais estabelecidos, as igrejas e comunidades religiosas em
democracia e do Estado constitucional. geral preenchem funções que não são destituídas de importância para
O princípio da separação entre Igreja e Estado exige das a estabilização e o desenvolvimento de uma cultura política liberal.
instituições estatais rigor extremo no trato com as comunidades Isso vale especialmente para a religião civil que se desenvolveu assaz
religiosas; parlamentos e tribunais, governo e administração ferem o na sociedade americana.23
mandamento da neutralidade a ser mantida quanto a visões de mundo Paul Weithmann aproveita tais elementos sociológicos para uma
quando privilegiam um dos lados em detrimento de um outro. De análise normativa do etos do cidadão do Estado. Ele descreve igrejas
outro lado, no entanto, a exigência laicista de que o Estado deve (em e comunidades religiosas como atores da sociedade civil que
consonância com a liberdade de religião) abster-se de toda política desempenham pressuposições necessárias para a sobrevivência da
que apoia ou coloca limites à religião enquanto tal constitui uma
interpretação por demais estreita desse princípio.21 Em que pese isso, democracia americana. Tais comunidades fornecem argumentos para
a rejeição do secularismo não deve abrir as portas para revisões que o debate público dos temas que envolvem a moral e assumem tarefas
venham a anular a separação entre Igreja e Estado. E por isso que, da socialização política, a partir do momento em que veiculam
como ainda iremos ver, a admissão de justificações religiosas no informações para os seus membros e os motivam à participação
processo de legislação fere o próprio princípio. Não obstante isso, a política. Entretanto, e esse é o argumento, o engajamento civil das
posição liberal de Rawls dirige a atenção dos críticos, não tanto para igrejas ficaria comprometido se elas tivessem que adotar o "Proviso"
a neutralidade que as instituições do Estado devem manter quanto a rawlsiano e decidir, a cada passo, entre valores políticos e religiosos -
visões de mundo, mas para as implicações normativas do papel de se estivessem obrigadas a procurar, para cada exteriorização religiosa,
cidadão do Estado. um equivalente numa linguagem acessível em geral. Por isso, o Estado
liberal teria de renunciar, por razões funcionais, ao desejo de impor às
(3) Os críticos de Rawls apelam, inicialmente, para exemplos igrejas e comunidades religiosas esse tipo de autocensura. Com muito
históricos, afimde chamar a atenção para a influência política benéfica
exercida de fato pelas igrejas e movimentos religiosos na defesa e na :2 BIRNBAUM, N. Nach dem Fortschritt. Stuttgart-Munique, 2003.
implantação da democracia e dos direitos humanos. Martin Luther "Cf. a pesquisa influente de BELLAH, R., MADSEN, R„ SULLIVAN, W. M.,
SW1DLER, A., TIPTON, St. M. Habits ofthe Heart. Berkeley, 1985. Sobre
os trabalhos de Bellah relacionados a esse tema cf. MADSON, R.,
21 Cf. a discussão entre Robert Audi e Nicholas Wolterstorff in: Religion in the SULLIVAN, W. M., SWINDLER, A. e TIPTON, St. M. (eds.) Meaning and
Public Sphere. New York, 1997, 3 s., 76 s. e 167 s. Modernity: Religion, Polity, and Self. Berkeley, 2003.
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mais razão, ele não poderá submeter seus próprios cidadãos a tal e os argumentos oferecidos publicamente pode ser relevante; no
restrição.24 entanto, ela é irrelevante sob o ponto de vista sistemático da
Esta não é, evidentemente, a objeção central. Independentemente contribuição a ser dada pelos cidadãos na esfera pública política para
do modo como os interesses envolvidos na relação entre Estado e a manutenção de uma cultura política liberal. Porquanto, no final das
organizações religiosas estejam distribuídos, um Estado não pode contas, somente os argumentos manifestos têm conseqüências
impor aos cidadãos, aos quais garante liberdade de religião, obrigações institucionais decisivas para a formação da maioria e para a busca da
que não combinam com uma forma de existência religiosa - porquanto decisão no interior das corporações políticas.
ele não pode exigir deles algo impossível. Tal objeção merece ser No tocante ás conseqüências propriamente políticas, "contam"
aprofundada. todos os temas, posicionamentos, informações e argumentos que en-
Robert Audi revestiu o dever virtuoso da civilidade, postulado contram eco nos círculos anônimos da comunicação pública e
por Rawls, com a roupagem de um "princípio de justificação secu- contribuem de alguma forma para a motivação cognitiva de certas
lar": "Ninguém tem prima facie obrigação de defender ou de suportar decisões (implementadas com o poder do Estado) - seja imediata-
qualquer tipo de lei ou política pública (...) a não ser que tenha razões mente, quando se trata da votação de cidadãos que tomam parte em
seculares ou esteja disposto a oferecer tal tipo de razões para a defesa eleições, seja indiretamente, quando está em jogo a decisão de parla-
ou a 'tolerância'".25 mentares ou detentores de cargos públicos (tal como juizes, ministros
Audi anexa a esse princípio a seguinte exigência: os argumentos ou funcionários da administração). Prescindo, por esse motivo, da
seculares devem ser, independentemente dos motivos religiosos que exigência de uma motivação suplementar, de Audi. Tampouco distingo
correm paralelamente, suficientemente fortes, pois, do contrário não entre argumentos exteriorizados publicamente e outros que servem
poderiam ser decisivos para um comportamento próprio tal como, de motivo no momento em que alguém se encontra perante a uma
por exemplo, o voto nas eleições políticas.26 Na avaliação ético-política eleitoral.27 Para a versão standard é essencial apenas a exigência de
de um cidadão em particular a coesão entre os motivos reais da ação uma "justificação secular": uma vez que, no Estado secular, contam
24 Sobre esse argumento empírico cf. WEITHMANN, P. J. Religion and the Obli- somente argumentos seculares, os cidadãos crentes são obrigados a
gations of Citizenship. Oxford, 2002, 91: "Eu argumentei que as igrejas estabelecer, entre suas convicções religiosas e seculares, uma espécie
contribuem para a democracia nos Estados Unidos promovendo a cidadania de "equilíbrio" ético e teológico (theo-ethical equilibrium)}*
democrática. Elas encorajam seus membros a aceitar valores democráticos como
a base para decisões políticas importantes e a para aceitar instituições
democráticas como legitimadas. Os meios pelos quais elas fazem suas 26 Ibid., 29.
contribuições, incluindo suas próprias intervenções na argumentação cívica e 27 Tal diferenciação leva também Paul Weithman a diferenciar, de modo
no debate político público afetam os argumentos políticos que os seus membros correspondente, a sua proposta modificada. Cf. WEITHMANN (2002), 3.
tendem a usar, a base sobre a qual eles votam e a especificação de sua cidadania 28 Nesse meio tempo Robert Audi introduziu um contrapeso ao princípio da
com a qual eles se identificam. Eles podem encorajar seus membros a pensar a justificação secular: "Em democracias liberais, cidadãos religiosos tem prima
si mesmos como ligados por normas morais dadas preliminarmente com as os facie uma obrigação de não advogar ou suportar qualquer tipo de lei ou política
resultados finais da política têm de ser consistentes. A concretização da cidadania pública [..] a não ser que tenham argumentos adequados e religiosamente
entre aqueles que são autorizados legalmente a tomar parte na formação das aceitáveis para essa (advocacia) ou suporte e estejam dispostos a oferecê-
decisões políticas constitui um enorme feito para a democracia liberal, no qual los." Tudo indica que esse princípio da justificação religiosa pretende impoV
as instituições da sociedade civil desempenham um papel crucial". aos cidadãos que se deixam orientar inicialmente por argumentos religiosos
25 AUDI e WOLTERSTORFF (1997), 25. a obrigação da autocertificação crítica.

142 143
Contra tal exigência objeta-se que muitos cidadãos religiosos politicamente correto ou incorreto, de tal sorte que eles são incapazes
não poderiam concretizar tal divisão artificial da própria consciência de "discernir entre razões seculares e razões 'pu//'".31
sem colocar em jogo sua própria existência piedosa. É necessário Caso aceitemos tal objeção, que considero convincente, o Estado
estabelecer uma distinção entre tal objeção e a constatação empírica, liberal, que protege expressamente tais formas de vida mediante a
segundo a qual, muitos cidadãos que se posicionam quanto a questões garantia da liberdade de religião, não pode esperar, ao mesmo tempo,
políticas, assumindo uma perspectiva religiosa, não têm idéias nem que todos os crentes fundamentem seus posicionamentos políticos
conhecimentos suficientes para encontrar fundamentações deixando inteiramente de lado suas convicções religiosas ou
seculares independentes de suas convicções autênticas. E uma vez metafísicas sobre o mundo. Tal exigência estrita só pode ser dirigida
que um dever pressupõe sempre um determinado poder, tal fato já aos políticos que assumem mandatos públicos ou se candidatam a
se reveste de importância. No entanto, a objeção central adquire eles e que, por esse fato, são obrigados a adotar a neutralidade no que
denotações normativas. Ela se refere ao papel integral, isto é, à tange às visões de mundo.32
"posição" que a religião assume na vida das pessoas crentes. Tal neutralidade do exercício do poder constitui uma pressupo-
Porquanto a pessoa piedosa encara sua existência "a partir" da fé. sição institucional necessária para uma garantia simétrica da liberdade
E a fé verdadeira não é apenas doutrina, conteúdo no qual se crê, de religião. O consenso constitucional que se estabelece entre os
mas também fonte de energia da qual se alimenta a vida inteira do cidadãos, atinge também o princípio da separação entre Igreja e Estado.
crente.29 Entretanto, a transposição desse princípio de cunho institucional para
Não obstante isso, tal característica totalizadora de uma forma posicionamentos de organizações e de cidadãos na esfera pública
de crença que se infiltra nos poros da vida cotidiana opõe-se, segundo política em geral constitui, à luz da objeção central, há pouco exposta,
o teor a objeção, a qualquer tipo de transposição de convicções políticas uma generalização excessiva. O caráter secular do poder do Estado
enraizadas na religião para uma outra base cognitiva: "Faz parte das
convicções religiosas das pessoas religiosas em nossa sociedade o 31WEITHMANN, (2002), 157
fato de que elas devem basear suas decisões concernentes a questões "Esse fato levanta a seguinte questão interessante: até que ponto os candidatos
fundamentais de justiça em suas convicções religiosas. Elas não podem numa campanha eleitoral podem apresentar-se como pessoas religiosas? O
ver isso como uma opção qualquer entre fazer ou não fazer certas princípio da separação entre Igreja e Estado se estende, em todo caso, à
coisas. A sua própria convicção as obriga a se esforçar para atingir a plataforma, ao programa ou à "linha" que pretende ser seguida pelos partidos
completude, a integridade e a integração em suas vidas: elas devem políticos e por seus candidatos. Do ponto de vista normativo, as eleições que
se orientam mais por características pessoais do que por questões objetivas
permitir que a palavra de Deus, o ensino da Torah, os mandamentos e são problemáticas. E a questão fica ainda mais problemática quando os
o exemplo de Jesus, e semelhantes configurem sua existência como eleitores se orientam pela auto-apresentação religiosa dos candidatos. Cf.
um todo incluindo, a seguir, sua existência social e política."30 Sua nesse contexto as considerações de Paul WEITHMANN (2002), 117-120:
concepção de justiça, fundada na religião, lhes ensina o que é "Seria bom que houvesse princípios que mostrassem claramente qual é a
função a ser desempenhada pela religião quando os candidatos são avaliados
por aquilo que podemos caracterizar como seus 'valores expressivos' - sua
Sobre a distinção agostiniana entre fides quae creditur e fides qua creditur cf. adequação para expressar os valores de seu eleitorado [...]. Entretanto, o
BULTMANN, R. Theologische Enzyklopüdie. Tubinga, 1984, Anexo 3: mais importante nesses casos é lembrar que as eleições não deveriam ser
"Verdade e certeza", 183 ss. decididas inteiramente ou primariamente na base dos valores expressivos
WOLTERSTORF in: AUDI e WOLTERSTORF, (1997), 105. dos diferentes candidatos" (12).

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não implica, para o cidadão em particular, uma obrigação pessoal e Em determinadas interpretações, aextraterritorialidade discursiva
imediata de complementar suas convicções religiosas, publicamente de um núcleo de certezas existenciais pode emprestar às convicções
exteriorizadas, e de traduzi-las por meio de equivalentes em uma religiosas um caráter integral. Em todo caso, o Estado liberal que pro-
linguagem acessível em geral. E a expectativa normativa, segundo a tege de igual modo todas as formas religiosas de vida, não pode obrigar
qual todos os cidadãos religiosos, ao votarem, devem deixar-se os cidadãos religiosos a levarem a cabo, na esfera pública política,
conduzir por considerações seculares, não tem nada a ver, em última uma separação estrita entre argumentos religiosos e não-religiosos
instância, com a realidade de uma existência conduzida pela fé. Tal quando, aos olhos deles, esta tarefa pode constituir um ataque à sua
afirmação foi, no entanto, questionada dado o fato de o crente estar identidade pessoal.
situado no entorno secular diferenciado da sociedade moderna.11
O conflito entre convicções religiosas próprias e políticas ou (4) O Estado liberal não pode transformar a exigida separação
propostas de lei, seculares, só pode surgir porque o cidadão religioso institucional entre religião e política numa sobrecarga mental e
já aceitou antes, apoiado em boas razões, a constituição do Estado psicológica insuportável para os seus cidadãos religiosos. Entretanto,
secular. Ele não vive mais, enquanto membro de uma população eles devem reconhecer que o princípio do exercício do poder é neutro
religiosamente homogênea, numa ordem estatal legitimada do ponto de vista das visões de mundo. Cada um precisa saber e aceitar
religiosamente. Por isso, as certezas da fé, religiosas, estão entrelaçadas que, além do limiar institucional que separa a esfera pública informal
com convicções falíveis de natureza secular, tendo perdido, há muito dos parlamentos, dos tribunais, dos ministérios e das administrações,
tempo, sua suposta imunidade em relação a moventes "não movidos" só contam argumentos seculares. Para se entender isso não se necessita
(unmoved), porém, não "inamovíveis" (unmovable).M De fato, as nada além da capacidade epistêmica, a qual permite não somente
certezas da fé estão expostas, na estrutura diferenciada da sociedade observar criticamente convicções religiosas próprias a partir de fora,
moderna, a uma pressão crescente da reflexão. Todavia, convicções mas também conectá-las com compreensões seculares. Tão logo
existenciais enraizadas na religião esquivam-se - por meio de sua participam de discussões públicas, cidadãos religiosos podem
referência, que às vezes é racional, à autoridade dogmática de um reconhecer tal "reserva de tradução institucional" sem que haja
núcleo intocável de verdades infalíveis da revelação - das formas de necessidade de dividir sua identidade em partes privadas e públicas.
abordagem discursiva irrestrita, às quais se expõem outras Por isso, eles deveriam poder expressar, e fundamentar, suas
cosmovisões e formas de orientação ética da vida, isto é, "concepções convicções em uma ünguagem religiosa mesmo quando não encontram
mundanas" do bem.15 para tal uma "tradução" secular.
Isso não deve alienar das decisões políticas os cidadãos "de uma
"SCHMIDT, Th. M. "Glaubensüberzeugungen und sákulare Gründe", in: só linguagem" porque mesmo quando aduzem razões religiosas estão
Zeitschrift für Evangelische Ethik, cad. 4, 2001, 248-261. assumindo posição em sentido político.16 Mesmo que a linguagem
34 Schmidt apoia sua objeção em GAUS, Gerald F. Justificatory Liberalism
New York, 1996. religiosa seja a única que eles falam e mesmo que as opiniões com
"Esse status especial proíbe, além do mais, uma equiparação normativa e política
entre convicções religiosas e éticas, conforme é sugerido por FORST, Rainer que não é possível chegar a um consenso fundamentado, porém, apenas quando
(1994, 152-161). Nesse texto ele coloca em segundo plano a distinção entre se trata de interpretações religiosas conflitivas. O próprio Forst chega mais tarde
argumentos seculares e religiosos, dando preferência a critérios procedimentais a conclusões semelhantes, in: FORST (2003), 644 ss.
da justificação em detrimento de critérios conteudísticos. Sabemos a fortiori Refiro-me a uma objeção que Rainer Forst fez por escrito numa carta.
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fundo religioso sejam as únicas que eles possuem para contribuir para um candidato sério a possíveis conteúdos de verdade, os quais podem
a controvérsia política, eles se entendem como membros de uma ser, então, tomados do vocabulário de uma determinada comunidade
"cidade terrena" (civitas terrena) que os autoriza enquanto autores religiosa e traduzidos para uma linguagem acessível em geral.
das leis às quais eles estão sujeitos como destinatários. Uma vez que Entretanto, os limiares institucionais que se colocam entre uma esfera
eles podem manifestar-se numa linguagem religiosa apenas sob a pública política "selvagem" e as corporações estatais criam, na
condição do reconhecimento da "ressalva de uma tradução confusão das vozes dos círculos da comunicação pública certos filtros,
institucional", eles podem, apoiados na confiabilidade das traduções os quais, no entanto, são cunhados apenas para dar vazão a
cooperativas de seus concidadãos, entender-se como participantes do contribuições seculares. No parlamento, por exemplo, a ordem
processo de legislação, mesmo que os argumentos decisivos nesse agendada deve permitir ao presidente retirar da ordem do dia
processo sejam seculares. posicionamentos ou justificativas religiosas. Para não se perder os
A admissão de exteriorizações religiosas não-traduzidas conteúdos de verdade de exteriorizações religiosas, é necessário, por
referentes a temas da esfera pública política não se justifica apenas isso, que a tradução já tenha ocorrido antes, no espaço pré-parlamentar,
normativamente pela não-imputabilidade da reserva rawlsiana para ou seja na própria esfera pública política.
crentes que não podem privar-se do uso político de argumentos tidos Tal trabalho de tradução tem de ser entendido, no entanto, como
como privados, isto é, não-políticos, sem colocar em risco seu modo uma tarefa cooperativa da qual participam igualmente cidadãos não-
de viver religioso. Porquanto existem, além disso, argumentos religiosos. Caso contrário, os concidadãos religiosos desejosos e
funcionais que proíbem uma redução precipitada da complexidade, a capazes de participar seriam sobrecarregados de modo assimétrico."
qual vem sempre acompanhada de muitas vozes. O Estado liberal Entretanto, os cidadãos religiosos podem manifestar-se em sua própria
possui, evidentemente, um interesse na liberação de vozes religiosas linguagem, porém, com a ressalva da tradução; tal fardo é compensado
no âmbito da esfera pública política bem como na participação política pela expectativa normativa segundo a qual, os cidadãos seculares se
de organizações religiosas. Ele não pode desencorajar os crentes nem abrem a um possível conteúdo de verdade de contribuições religiosas
as comunidades religiosas de se manifestarem também, enquanto tal,
de forma rx>lítica porque ele não pode saber de antemão se a proibição "Nesse sentido Rainer FORST (1994, 158) também fala em uma "tradução"
de tais manifestações não estaria privando, ao mesmo tempo, a quando exige que "uma pessoa deve estar em condições de traduzir [o itálico
sociedade de recursos importantes para a criação de sentido. Os é do texto original] aos poucos seus argumentos em razões aceitáveis na
próprios cidadãos seculares como também os crentes de outras deno- base de valores e princípios da razão pública." Todavia, ele não considera a
minações podem, sob certas condições, aprender algo das contribuições tradução como uma busca cooperativa da verdade da qual participam cidadãos
seculares mesmo quando a outra parte se limita a exteriorizações religiosas.
religiosas, tal como acontece, por exemplo, quando eles conseguem Forst formula a exigência, seguindo Rawls e Audi, como um dever cidadão
reconhecer, nos conteúdos normativos de uma determinada para a própria pessoa religiosa. No mais, a determinação puramente
exteriorização religiosa, certas intuições que eles mesmos compar- procedimental do trabalho de tradução com o objetivo de uma "justificação
tilham, as quais, porém, foram olvidadas, às vezes, há muito tempo. geral e recíproca" não consegue fazer jus ao problema semântico da
As tradições religiosas possuem poder de aglutinação especial transmissão de conteúdos do discurso religioso para uma forma de
no trato de intuições morais principalmente no que tange a formas representação pós-religiosa e pós-metafísica. Desta maneira, a diferença en-
tre o discurso ético e o discurso religioso se perde. Cf., por exemplo, ARENS,
sensíveis de uma convivência humana. Tal potencial faz do discurso E. Kommunikative Handlungen. Düsseldorf, 1982. Nesse texto, o autor
religioso que vem à tona em questões políticas referentes à religião interpreta parábolas da Bíblia como ações de fala inovadoras.

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e entram em diálogos nos quais as razões religiosas podem, assegurar que os cidadãos emitam o seu julgamento sob pontos de
eventualmente, aparecer como argumentos acessíveis em geral.18 vista de uma concepção da justiça, fundada na religião ou numa visão
Cidadãos de uma comunidade democrática devem fundamentar seus de mundo. Eles devem refletir, na perspectiva da sua respectiva
posicionamentos, políticos e recíprocos, lançando mão de argumentos. doutrina, sobre o que é igualmente bom para todos. Em que pese isso,
Apesar de não passarem por uma censura na esfera pública política, a regra de ouro não deve ser procurada num imperativo categórico.
as contribuições religiosas dependem, mesmo assim, de trabalhos Porque ela não obriga à assunção recíproca de perspectivas, por parte
cooperativos de tradução. Porquanto, sem uma tradução bem-sucedida, de todos os atingidos.40 De acordo com tal procedimento, aplicado de
o conteúdo das vozes religiosas não conseguiria entrar, de forma modo egocêntrico, a perspectiva de uma visão de mundo própria forma
alguma, nas agendas e negociações das instituições estatais, o que as o horizonte não-ultrapassável das considerações sobre a justiça: "A
impediria de "influenciar" o processo político ulterior. Nicholas pessoa que pleiteia uma medida em público tem de estar preparada
Wolterstorff e Paul Weithmann gostariam de eliminar, inclusive, esta para dizer o que poderia, segundo ela, justificar o governo a decretá-
última ressalva. Ao assumirem tal atitude, no entanto, eles não somente la; no entanto, a justificação que ela está disposta a oferecer pode
se posicionam contra a sua própria pretensão, que consiste em trabalhar depender de pretensões, incluindo pretensões religiosas, que os propo-
com premissas liberais, mas também contra o princípio da neutralidade nentes podem considerar inacessíveis numa abordagem standard."**
do poder do Estado, o qual não pode assumir nenhuma visão de mundo Uma vez que não estão previstos filtros institucionais, essa
em detrimento de outras. premissa não exclui que certas políticas e programas de leis possam
Na compreensão de Weithman, os cidadãos têm, do ponto de vir a ser implementadas, pelo simples fato de que determinadas
vista moral, um direito a posicionamentos políticos fundamentados convicções religiosas ou confessionais obtêm maioria. Nicholas
no contexto de uma doutrina religiosa ou de uma determinada visão Wolterstorff, que pretende liberar o caminho para a utilização política
de mundo. Nesse caso, porém, eles precisam cumprir duas exigências, de razões religiosas, chega à seguinte conclusão: o legislador político
a saber: estar convencidos de que seu governo está justificado a também deve poder servir-se de argumentos religiosos.42 Todavia, a
implementar leis e políticas que eles mesmos apoiam em argumentos abertura do parlamento para a disputa em torno de certezas da fé pode
religiosos ou visões de mundo; e eles têm de estar preparados para transformar o poder do Estado num agente de uma maioria religiosa,
explicar por que eles acreditam nisso. Tal ressalva (Proviso)39 mitigada a qual impõe sua vontade ferindo o procedimento democrático.
desemboca na exigência de fazer um teste de generalização na Certamente não é ilegítima, no meu entender, a própria votação
perspectiva da primeira pessoa. Com isso, Weithman gostaria de democrática, realizada de modo correto, mas a transgressão de um
outro componente essencial do procedimento, a saber, o caráter
HABERMAS, J. "Glauben und Wissen", in: \á.,Zeitdiagnosen. Frankfurt/M., discursivo das deliberações em curso. Ilegítima é a transgressão do
2003, 249-263, aqui 256 ss. princípio da neutralidade do exercício do poder político, segundo o
WEITHMAN (2002), 3: "Os cidadãos de uma democracia liberal podem
oferecer argumentos nos debates políticos públicos que dependem de razões
esboçadas a partir de suas visões morais compreensivas, incluindo suas visões 40 HABERMAS, J. "Vom pragmatischen, ethischen und moralischen Gebrauch
religiosas que não podem ser (melhoradas) apelando para outros tipos de
argumentos - contanto que eles acreditem que seu governo gostaria de adotar der praktischen Vernunft", cap. IV, in: id., Erlauterungen zur Diskursethik.
tais medidas que estejam preparados para indicar que o que eles pensam Frankfurt/M., 1991, 112-115.
poderia justificar a adoção de medidas." 41 WEITHMAN (2002), 121. (O formato itálico foi introduzido por mim).

42 AUDI e WOLTERSTORFF, (1997), 117 s.


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qual, todas as decisões implementadas pelo poder do Estado têm de representa cognitivãmente o tipo de convivência irreconciliável -
ser formuladas e justificadas numa linguagem acessível a todos os assegurada por decisões da maioria - de coletividades religiosas com
cidadãos, sem tomar partido por nenhum tipo de visão de mundo. coletividades amparadas em visões de mundo opostas, como adaptação
Durante o processo de formação política da opinião e da vontade, o a um determinado modus vivendi, a qual é "aceita" contra a vontade:
poder da maioria transforma-se em repressão quando uma maioria "Eu não concordo, eu simplesmente aquiesço - a não ser que a decisão
que utiliza argumentos religiosos nega às minorias seculares ou aos me pareça realmente horrorosa".44
que são de outras denominações a possibilidade de reproduzir Não fica claro como tal premissa possa evitar o risco de a
discursivamente as justificações que lhe são devidas. O procedimento comunidade política ser dilacerada por guerras de fé. Certamente, a
democrático extrai sua força de legitimação de seu próprio caráter concepção empirista da democracia liberal sempre interpretou as
deliberativo e da inclusão de todos os participantes; pois é sobre esse decisões da maioria como a submissão temporária de uma minoria
caráter que se fundamenta a suposição, fundamentada, dos resultados sob o poder fático do partido mais numeroso.45 Entretanto, segundo
racionais in the long run (no longo prazo). tal teoria, a aceitação do procedimento da votação se explica pela
A proporção que rejeita a limine o princípio de legitimação de disposição dos partidos em negociar um compromisso; mesmo assim,
um consenso constitucional apoiado sobre argumentos, Wolterstorff eles concordam, apesar de tudo, em aceitar a circunstância de que
antecipa-se a tal objeção. Na perspectiva de uma democracia liberal, cada um deles se orienta pelas próprias preferências pela maior
no entanto, o poder pohtico consegue disfarçar sua essência dominativa participação possível em bens básicos tal como dinheiro, segurança
por meio de uma ligação, juridicamente cogente, a princípios de ou lazer. E uma vez que todos desejam os mesmos tipos de bens
exercício do poder suscetíveis de um assentimento geral.43 Contra tal compartilháveis, podem assumir compromissos. Não obstante, tal
posição, Wolterstorff levanta algumas objeções empiristas. Ele categoria não é mais preenchida a partir do momento em que a irrupção
ridiculariza as suposições idealizadoras embutidas nas próprias práticas dos conflitos não acontece mais no âmbito de bens básicos consentidos,
do Estado constitucional considerando-as "quaker meeting ideal" mas na esfera de bens salvíficos concorrentes. Ora, os conflitos
(mesmo que o princípio de afinação dos Quaker não seja típico de um existenciais sobre valores entre comunidades de fé não se prestam a
procedimento democrático). Ele parte da idéia de que a disputa entre compromissos. Tais conflitos somente podem ser desarmados por uma
concepções diferentes sobre a justiça, isto é, concepções fundadas na despolitização que lança mão de princípios constitucionais, ante o
religião, de um lado, e em visões de mundo, de outro lado, não pode pano de fundo de um consenso que se supõe ser comum.
ser dissolvida quando se assume, em comum, a idéia de um consenso
que se coloca como pano de fundo, por mais formal que seja tal (5) Não é possível aplainar cognitivamente a concorrência entre
assunção. Ele admite, é verdade, o princípio da maioria, remanescente doutrinas religiosas e visões de mundo que pretendem explicar a
do consenso constitucional liberal. Sem embargo, Wolterstorff posição do homem na totalidade do mundo. Tão logo, porém, tais
dissonâncias cognitivas se infiltram nas bases da convivência dos
43 RAWLS
cidadãos, regulada normati vãmente, a comunidade política se segmenta
(1994), 137: "Nosso exercício do poder político só será inteiramente
apropriado quando for exercido em acordo com uma constituição cujos
elementos essenciais possam ser endossados razoavelmente, à luz de 44 WOLTERSTORFF (1997), 160.
princípios e ideais aceitáveis, por sua razão humana comum, por todos os
cidadãos enquanto livres e iguais. 45 Na tradição de Hayek e Popper cf., por exemplo, BECKER, W. Die Freiheit,

die wir meinen. Munique, 1982.


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em comunidades religiosas e comunidades que adotam visões de quando não há uma correspondente mudança de mentalidade; e nesse
mundo irreconciliáveis, as quais oscilam sobre o solo de um modus caso, elas apenas despertam ressentimentos por parte daqueles que se
vivendi fragmentado. Sem o laço unificador de uma solidariedade, a sentem sobrecarregados e mal-compreendidos.
qual não pode ser imposta por normas do direito, os cidadãos não De outro lado, podemos observar na cultura ocidental, desde a
conseguem entender-se como participantes, com iguais direitos, de época da Reforma e do Iluminismo, uma mudança real na forma da
uma prática comum que possibilita a formação da opinião e da vontade consciência religiosa. Os sociólogos descrevem tal "modernização"
na qual uns devem aos outros argumentos para seus posicionamentos como uma resposta da consciência religiosa a três desafios da
políticos. Tal reciprocidade das expectativas de cidadãos do Estado modernidade, a saber: o fato do pluralismo religioso; a ascensão das
diferencia uma comunidade liberal, a qual é integrada por uma ciências modernas; e a disseminação do direito positivo e da moral
constituição, de uma comunidade segmentada por visões de mundo. social profana. As comunidades de fé, tradicionais, vêem-se obrigadas,
Uma comunidade segmentada dispensa cidadãos crentes e seculares, sob tais aspectos, a processar dissonâncias cognitivas que não se
no seu trato recíproco, da obrigação recíproca de justificar seus colocam para cidadãos seculares ou que se colocam apenas quando
posicionamentos quanto a questões políticas controversas. E uma vez estes também seguem doutrinas ancoradas em dogmas:
que, aqui, as convicções tácitas e ligações subculturais sobrepujam o - Os cidadãos religiosos precisam encontrar um enfoque
consenso constitucional suposto, bem como a esperada solidariedade epistêmico que seja aberto às visões de mundo e às religiões estranhas,
de cidadãos do Estado, em conflitos mais sérios os cidadãos não as quais eles, até o momento, conheciam apenas por intermédio do
precisam relacionar-se entre si na qualidade de segundas pessoas. universo discursivo adotado pela religião à qual pertencem. Isso pode
Parece que a indiferença recíproca e a renúncia à reciprocidade dar certo à proporção que correlacionarem, de modo auto-reflexivo,
se justificam pelo fato de o Estado liberal cair numa contradição quando suas próprias idéias religiosas com as asserções de doutrinas salvíficas
imputa a todos os cidadãos, simetricamente, um etos político que concorrentes, sem colocar em risco a própria pretensão de verdade,
distribui desigualmente entre eles o ônus cognitivo. A precedência que é exclusiva.
institucional, bem como a ressalva da tradução que favorece os - Os cidadãos religiosos precisam encontrar, além disso, um
argumentos seculares, exige dos cidadãos religiosos uma operação de enfoque epistêmico aberto ao sentido próprio do saber secular e ao
aprendizado e de adaptação, da qual os cidadãos seculares estão isentos. monopólio do saber de especialistas, institucionalizado socialmente.
Em todo caso, a observação empírica parece confirmar que também E isso só pode acontecer quando eles determinarem, a partir de sua
no interior das igrejas se desenvolveu, durante muito tempo, um certo visão religiosa, a relação entre conteúdos de fé dogmáticos e saber
ressentimento contra a neutralidade do Estado - que não pode tomar secular sobre o mundo de tal modo que os progressos do conhecimento
partido quanto a visões de mundo - porque o dever de "utilizar autônomo não entrem em contradição com as asserções relevantes
publicamente a razão" só pode ser cumprido sob determinadas para a salvação.
pressuposições cognitivas. Tais enfoques epistêmicos são, todavia, - Os cidadãos religiosos precisam assumir, finalmente, um
expressão de uma mentalidade já dada; eles não se deixam transformar, enfoque epistêmico para encarar os argumentos seculares que gozam
à semelhança dos motivos, em conteúdo de expectativas normativas de precedência na arena política. E isso só é possível à medida que
ou de apelos políticos à virtude. Qualquer "dever ser" (Sollen) conseguirem inserir, de modo convincente, o individualismo igualitário
pressupõe sempre um "ser capaz de" (Kõnnen). As expectativas do direito da razão e da moral universalista no contexto de suas
vinculadas ao papel da cidadania democrática diluem-se no vazio respectivas doutrinas abrangentes.
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Tal trabalho da auto-reflexão hermenêutica tem de ser realizado sugerida, não impõe às tradições religiosas e ás comunidades religiosas
pelo ângulo de uma autopercepção religiosa. Em nossa cultura, ele foi um fardo que continua sendo, apesar de tudo, assimétrico? Do ponto
realizado essencialmente pela teologia; e na vertente católica houve, de vista histórico, os cidadãos religiosos tiveram de aprender a adotar
além disso, uma filosofia da religião, de cunho apologético, cuja tarefa enfoques epistêmicos em relação ao seu entorno secular, os quais são
consiste em explicar a razoabilidade da fé.46 Em última instância, no assumidos sem nenhum esforço pelos cidadãos seculares. Porquanto
entanto, quem decide se uma determinada elaboração dogmática dos estes não se vêem expostos a semelhantes dissonâncias cognitivas.
desafios cognitivos da modernidade foi bem sucedida, é a prática da Mesmo assim, eles não conseguem fugir inteiramente de um fardo
fé das comunidades; somente então ela pode ser entendida pelos crentes cognitivo, já que uma consciência secularista não é suficiente para o
como um "processo de aprendizagem". A luz de condições modernas trato cooperativo com concidadãos religiosos. Tal operação de
de vida, para as quais não temos alternativas, novos enfoques adaptação cognitiva deve ser diferençada da exigência de tolerância,
epistêmicos são "aprendidos" quando resultarem de uma reconstrução seja ela moral ou política, que os cidadãos devem demonstrar no trato
de verdades de fé transmitidas, a qual se toma evidente para os próprios com pessoas crentes ou que têm crenças diferentes. No que se segue,
participantes. Se esses enfoques resultassem apenas de simples não se trata da atitude respeitosa para com uma possível significação
domesticações ou de processos de adaptação impostos, a questão sobre existencial da religião, a qual se espera dos próprios cidadãos seculares,
o modo como as pressuposições cognitivas devem ser preenchidas mas da superação auto-reflexiva de uma autocompreensão da
para que se tenha imputabilidade do etos da cidadania igualitária teria modernidade, exclusiva e esclerosada em termos secularistas.
de ser respondida no sentido de Foucault, isto é, elas seriam
conseqüência de um poder do discurso que se impõe na aparente Enquanto os cidadãos seculares estiverem convencidos de que
transparência do saber esclarecido. Tal resposta, no entanto, estaria as tradições religiosas e as comunidades religiosas constituem apenas
certamente em contradição com a autocompreensão normativa do uma relíquia arcaica de sociedades pré-modernas, mantidas na
Estado constitucional democrático. sociedade atual, eles considerarão a liberdade de religião apenas como
Nesse contexto, é interessante focalizar a pergunta que uma proteção cultural para espécies naturais em extinção. Na sua visão,
permaneceu em aberto: será que a concepção de cidadania, por mim a religião não possui mais uma justificação interna. Nesta linha de
raciocínio, o próprio princípio da separação entre Igreja e Estado só
pode ter o sentido laicista de um indiferentismo preservador. No modo
46Graças à correspondência com Thomas M. Schmidt, descobri que a filosofia da de ler secularista, é possível prever que as visões de mundo religiosas
religião, desenvolvida por uma vertente não-agostiniana que não se coloca a dissolver-se-ão à luz da crítica científica e que as comunidades
serviço de uma autoglorificação da religião, não fala, como a teologia, "em religiosas sucumbirão às pressões de uma modernização social e cul-
nome" de uma revelação religiosa, mas também não fala simplesmente como se
fora uma mera "observadora da religião". Cf. também sobre isso LUTZ- tural, a qual é cada vez mais intensa. É evidente que não se pode
BACHMANN, M. "Religion-Philosophie-Religionsphilosophie", in: JUNG M., exigir de cidadãos que assumem tal enfoque epistêmico em relação à
MOXTER, M. e SCHMIDT, Th. M. (eds.). Religionsphilosophie. Würzburg, religião que levem a sério contribuições religiosas para disputas
2000, 19-26. No lado protestante Friedrich Schleiermacher desempenha um políticas nem que examinem o seu conteúdo - na perspectiva de uma
papel exemplar. De início, ele separou cuidadosamente o papel do teólogo e do busca cooperativa da verdade - o qual pode ser eventualmente expresso
filósofo apologeta da religião (o qual sai da tradição tomista para adotar a da
filosofia transcendental, de Kant); a seguir, ele adota pessoalmente essas duas numa linguagem secular e justificado num discurso fundante.
perspectivas. Cf. a introdução à sua dogmática cristã: Der christliche Glaube Todavia, sob premissas normativas de um Estado constitucional
(1830/31), Berlim, 1999, §§ 1-10. e de um etos de cidadãos do Estado democrático, a admissão de
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exteriorizações religiosas na esfera pública política só passa a ser (6) A superação crítica da consciência que eu caracterizo como
razoável quando se exige de todos os cidadãos que não excluam a limitada de modo secularista, é questionada - não menos do que as
possibilidade de um conteúdo cognitivo dessas contribuições - respostas teológicas que, desde a época da Reforma, foram formuladas,
respeitando, ao mesmo tempo, a precedência de argumentos seculares, (não apenas por protestantes), para enfrentar os desafios cognitivos
bem como a ressalva da tradução institucional. Tal é a pressuposição da modernidade. Pelo ângulo de uma retrospectiva histórica, a
normal dos cidadãos religiosos; no âmbito dos cidadãos seculares, no "modernização da consciência religiosa" pode ser considerada, de um
entanto, isso pressupõe uma mentalidade que ainda não é auto-evidente lado, como tarefa específica da teologia; de outro lado, porém, o pano
nas sociedades secularizadas do Ocidente. A compreensão perspicaz
de cidadãos seculares, de que é preciso viver numa sociedade pós- de fundo da consciência secularista, que é tecido de visões de mundo,
secular sintonizada epistemicamente com a sobrevivência de é objeto de um debatefilosóficopermanente, cujo final continua em
comunidades religiosas, depende de uma mudança de mentalidade aberto. A consciência secular que se tem de viver em uma sociedade
cujas pretensões não são menores do que as de uma consciência pós-secular, reflete-se filosoficamente nafigurado pensamento pós-
religiosa que precisa adaptar-se aos desafios do entorno que se metafísico. Ora, tal pensamento não se esgota no trabalho de
seculariza cada vez mais. De acordo com as medidas de um esclareci- acentuação da finitude da razão, nem na simples tentativa de jungir
mento que se assegura criticamente dos próprios limites, os cidadãos uma consciência falibilista e uma orientação veritativa anticética, a
seculares interpretam sua não-concordância com visões religiosas qual caracteriza, desde a época de Kant e Peirce, a autocompreensão
como sendo um dissenso razoável que pode ser esperado de antemão. das modernas ciências experimentais. Já que o pensamento pós-
metafísico constitui uma contrapartida secular para a consciência
Sem tal pressuposição cognitiva, não se pode exigir nenhuma religiosa que se fez reflexiva, delimitando-se em duas direções
expectativa normativa de um uso público da razão, em todo caso, não diferentes: Sob premissas agnósticas, ele se abstém de emitir juízos
no sentido de que os cidadãos seculares irão tomar parte numa sobre verdades religiosas e insiste (sem intenções polêmicas) em uma
discussão política sobre o conteúdo de contribuições religiosas com a delimitação estrita entre fé e saber. De outro lado, ele se volta contra
intenção de traduzir, eventualmente, intuições morais e argumentos uma concepção cientificista da razão e contta a exclusão das douüinas
convincentes para uma linguagem acessível a todos. Pressupõe-se um religiosas da genealogia da razão.
enfoque epistêmico que resulta da certificação autocrítica dos limites E bem verdade que o pensamento pós-metafísico renuncia a
da razão secular.47 Tal pressuposição significa que o etos democrático afirmações ontológicas sobre a constituição do ente em sua totalidade;
de cidadãos do Estado (na interpretação por mim sugerida) só pode isso não significa, porém, uma redução de nosso saber sobre as
ser imputado simetricamente a todos os cidadãos se estes, tanto os inumeráveis afirmações que representam respectivamente o "estado
seculares como os religiosos, passarem por processos de aprendizagem atual das ciências". O cienüficismo nos induz, com freqüência, a borrar
complementares. a fronteira entre conhecimentos teóricos das ciências da natureza, os
quais são relevantes para a auto-interpretação do homem e para a
compreensão de sua posição no todo da natureza, e a imagem de inundo
Vn a m e i 7 ' PCSqUÍSa m a g n b l T Í C a s o b r e a história *>
produzida, de forma sintética, a partir desses conhecimentos.48 Tal
t 0 l e r a n C , a ' P i e r r e B a y | e como o "maior pensador da
tolerância , porque este operou exemplarmente tal autolimitação reflexiva tipo de naturalismo radical desvaloriza todas as formas de frases
da razão em relação à religião. Sobre Bayle, cf. FORST, R. (2003) § 8
Sobre o seu argumento sistemático cf. §§ 29 e 33.
declarativas que não podem ser reduzidas a observações experimentais,
a afirmações de leis ou a explicações causais - incluindo, por
158 159
deitam suas raízes nessa época operaram a passagem cognitiva das
conseguinte, as asserções morais, jurídicas ou valorativas e, não por explicações narrativas do mito para um logos que discrimina essência
último, as religiosas. A recente discussão sobre liberdade e e aparência de modo semelhante ao que ocorreu com a filosofia grega.
determinismo revela que os progressos havidos na área da robótica, Desde o Concilio de Nicéia, a filosofia também passou a se apropriar,
da pesquisa dos gens e da biogenética geraram impulsos para que se pelo caminho de uma "helenização do cristianismo" de muitos
estabeleça uma espécie de naturalização do espírito que coloca em conceitos e motivos histórico-salvíficos da tradição monoteísta.52
questão nossa autocompreensão prática como pessoas que agem de Ao contrário do que pensa Heidegger, as relações de herança,
modo responsável49 e estimularam uma revisão do direito penal.50 complexas e enoveladas, não podem ser desdobradas na linha de um
Todavia, uma auto-objetivação naturalista de sujeitos providos da pensamento ontologia).5-1 Os conceitos de procedência grega, tal como
faculdade de falar e agir, que imigra para o dia-a-dia, não se coaduna "autonomia" e "individualidade", ou ainda os conceitos romanos de
com a idéia de uma integração política que supõe haver entre os
cidadãos um consenso normativo implícito que funciona como pano "emancipação" e "solidariedade" há muito tempo foram preenchidos
de fundo. com significados de procedência judeu-cristã.54 No trato com tradições
religiosas, inclusive árabes, a filosofia constatou, reiteradas vezes, que
A reconstrução das veredas que permitiram o surgimento da é possível obter impulsos inovadores a partir do momento em que se
razão, que é multidimensional e não se fixa apenas em sua relação consegue separar, no cadinho de discursos fundamentadores, conteúdos
com o mundo objetivo, pode ser um bom caminho para o cognitivos de suas cascas originariamente dogmáticas. Kant e Hegel
esclarecimento crítico dos seus limites. E nesse processo, o pensamento constituem os exemplos mais bem-sucedidos neste trabalho. Também
pós-metafísico não se limita à herança da metafísica ocidental. Ele é exemplar o encontro de muitos filósofos do século 2 0 com
também se certifica de sua relação interna com as religiões mundiais Kierkegaard, escritor religioso que pensa de modo pós-metafísico,
cujas origens se situam - do mesmo modo que os inícios da filosofia porém, não pós-cristão.
antiga - na metade do primeiro milênio antes de Cristo, portanto, na Mesmo quando se apresentam como o "outro" intransparente
época que Jaspers caracteriza como "era axial".51 As religiões que da razão, as tradições religiosas continuam, aparentemente, presentes,
inclusive de modo mais intenso do que a metafísica. Seria irracional
48 Wolterstorff recorda, em geral, essa distinção, freqüentemente descuidada,
lançar fora, a priori, o pensamento, segundo o qual, as religiões
entre afirmações seculares e argumentos que podem contar, de um lado, e mundiais - que são tidas como o único elemento sobrevivente das
imagens de mundo seculares, as quais também não deveriam contar mais do culturas dos velhos reinos, as quais se tomaram estranhas - conseguem
que as doutrinas religiosas. Cf. AUDI, WOLTERSTORFF (1997), 105: manter um lugar em meio à estrutura diferençada da modernidade
"Muitas vezes, senão a maioria das vezes , somos capazes de avistar
argumentos religiosos de uma milha de distância [...]. Tipicamente, no entanto,
as perspectivas compreensivas seculares passam despercebidas." 55 LUTZ-BACHMANN, M. "Hellenisierung des Crhristentums?", in: COLPE,
w GEYER, Ch. (ed.) Hirnforschung und Willensfreiheit. Frankfurt;M., 2004;
PAUEN, M. lllusion Freiheit. Frankfurt/M., 2004. C , HONEFELDER, L. e LUTZ-BACHMANN (EDS.) Spãtantike und
5U ROTTLEUTHNER, H. "Zur Soziologie und Neurobiologie richterlichen Christentum. Berlim, 1992.
Handelns", in: Festschrift Thomas Raiser. Berlim, 2005, 579-598. 53 Cf. os esboços da história do ser, in: HEIDEGGER, M. Beitrage zur
51 Cf. o programa de pesquisa desenvolvido, desde os anos 70, por S. N. Philosophie. Vom Ereignis. Frankfurt/M., 1989.
MCf. as considerações interessantes contidas in: BRUNKHORST, H. Solidaritat.
Eisenstadt, ultimamente por: ARNASON, J. P., EISENSTADT, S. N. e
WITTROCK, B. (eds.) Axial Civilizations and WorldHistory. Leiden, 2005. Frankfurt/M., 2002, 40-78.
161
160
porque o seu conteúdo cognitivo ainda não perdeu sua validade. Não democrático supõe uma mentalidade cujas pressuposições não são
podemos, em todo caso, excluir de todo que elas levam consigo certos menos fortes do que as da mentalidade de comunidades religiosas
potenciais semânticos capazes de desenvolver força inspiradora para esclarecidas. Nesse contexto, os fardos cognitivos impostos a ambas
a sociedade inteira, a partir do momento em que liberam seus potenciais as partes pela aquisição de enfoques epistêmicos adequados não são
de verdade profanos.
Em síntese, o pensamento pós-metafísico assume uma dupla distribuídos de maneira simétrica.
atitude perante a religião, porquanto ele é agnóstico e está, ao mesmo (7) Sem embargo, o fato de o "uso público da razão" - na forma
tempo, disposto a aprender. Ele insiste na diferença entre certezas de por mim introduzida - depender de pressuposições cognitivas, que
fé e pretensões de validade contestáveis em público; abstém-se, porém, não são pura e simplesmente auto-evidentes, tem conseqüências
de adotar uma presunção racionalista, a qual o levaria a pretender interessantes e discrepantes. Tal circunstância nos lembra, em primeiro
decidir por si mesmo sobre o que é racional e o que não é nas doutrinas lugar, que o Estado constitucional democrático, o qual depende de
religiosas. Enüetanto, os conteúdos dos quais a razão se apropria por uma forma deliberativa de política, representa, em geral, uma forma
tradução não constituem necessariamente uma perda para a fé. Além de governo pretensiosa do ponto de vista epistêmico e, de certa forma,
disso, uma apologia da fé, elaborada com meiosfilosóficos,não é sensível à verdade.55 À luz de tais considerações, uma "democracia
tarefa da filosofia, que continua agnóstica. No melhor dos casos, ela pós-verdade" (post-truth-democracy), do tipo caracterizado pelo New
consegue projetar um círculo ao redor do núcleo opaco da experiência
religiosa quando se põe a refletir sobre as características do discurso York Times durante a última campanha para a eleição presidencial,
religioso e sobre as peculiaridades da fé. Tal núcleo é inacessível ao não seria mais uma democracia. Neste caso, a exigência de
pensamento discursivo, o mesmo acontecendo com o núcleo mentalidades complexas chama a atenção para uma condição de
indevassável da contemplação estética, que também pode ser circulado funcionamento, improvável, sobre cujo preenchimento os meios
pela reflexão filosófica. administrativos e jurídicos do Estado liberal praticamente não têm
influência. O exemplo da polarização das cosmovisões de uma
Deixei-me levar a uma abordagem sobre a forma ambivalente comunidade que se divide em dois campos - um fundamentalista e
que o pensamento pós-metafísico adota ao tratar da religião porque outro secularista - demonstra que a integração política é ameaçada a
nisso se manifesta também uma pressuposição cognitiva para a partir do momento em que um número demasiadamente elevado de
disposição de cooperação que se espera de cidadãos seculares. Ela cidadãos não conseguem atingir os standards do uso público da razão.
corresponde precisamente ao enfoque epistêmico que cidadãos Em que pese isso, a origem das mentalidades é pré-politica. Elas se
seculares precisam assumir quando, em debates públicos, estão modificam, sem nenhum aviso prévio, já que reagem perante novas
dispostos a aprender com contribuições de seus concidadãos religiosos, circunstâncias da vida. No melhor dos casos, um processo desse tipo
as quais, dado o caso, possam ser traduzidas para uma linguagem pode ser acelerado, no longo prazo, no médium de discursos públicos
acessível em geral. A certificaçãofilosóficada genealogia da razão conduzidos pelos próprios cidadãos. Entretanto, convém perguntar:
desempenha aparentemente, para o auto-esclarecimento da consciência será que se trata, neste caso, de um processo dirigido e conduzido
secular, um papel semelhante ao do trabalho de reconstrução que a
teologia desenvolve para o auto-esclarecimento da fé religiosa na
modernidade. O dispêndio em termos de auto-reflexãofilosóficarevela
que, entre os cidadãos seculares, o papel de cidadão de um Estado "Cf. a aula inaugural em Munique, de NIDA-RÜMELIN, J. Demokratie und
Wahrheit (manuscrito 2004)
162
163
cognitivamente, o qual pode ser descrito como um processo de
aprendizagem? obstante isso, dado que a teoria política não tem condições de saber se
Por isso, o que mais preocupa é uma terceira conseqüência. as mentalidades funcionalmente necessárias podem ser adquiridas pelo
Até aqui nos apoiamos na idéia de que os cidadãos de um Estado caminho de processos de aprendizagem, ela tem de reconhecer que
constitucional democrático podem adquirir as mentalidades funcio- sua concepção do uso público da razão, fundada normativamente,
nalmente requeridas pelo caminho de "processos de aprendizagem continua sendo "questionada essencialmente" pelos próprios cidadãos.
complementares". O exemplo citado, no entanto, indica que tal Porquanto o Estado liberal só pode confrontar seus cidadãos com
idéia não é de todo isenta de problemas. Em que perspectiva deveres que eles mesmos podem aceitar apoiados numa "compreensão
podemos afirmar que a colisão fragmentadora provocada por modos perspicaz' (aus Einsicht) - e tal compreensão pressupõe que os
de pensar e de sentir, respectivamente fundamentalistas e enfoques epistêmicos necessários podem ser obtidos por meio de
secularistas, constitui o resultado de "déficits de aprendizagem"? compreensão perspicaz, o que implica, por conseguinte, a possibilidade
Lembremo-nos da mudança de perspectiva que empreendemos ao de serem "aprendidos".
passarmos de uma explicação normativa da conduta de cidadãos Tal autodelimitação da teoria política não implica
do Estado, democráticos, exigida política e moralmente, para a necessariamente que nós, na qualidade de cidadãos ou de filósofos,
pesquisa epistemológica das pressuposições cognitivas sob as quais consigamos ou devamos defender, com sucesso, uma versão forte
tal etos de cidadãos do Estado é imputável. A reflexivização da dos fundamentos liberais e republicanos do Estado democrático
consciência religiosa, como também a superação auto-reflexiva constitucional, seja intra muros, seja nas arenas políticas. Porém, tal
da consciência secularista, é fruto de uma superação auto-reflexiva discurso sobre a compreensão correta, sobre a própria correção de
de enfoques epistêmicos. Apenas uma determinada uma ordem liberal em geral e do etos dos cidadãos do Estado
autocompreensão da modernidade permite qualificar tais democrático em particular, atinge domínios nos quais os argumentos
modificações de mentalidade como "processos de aprendizagem". normativos não bastam mais por si mesmos. A controvérsia também
Certamente é possível defender tal visão no quadro de teorias se estende para a questão epistemológica da relação entre fé e saber, a
evolucionistas da sociedade. Todavia, independentemente da posição qual atinge, por seu turno, elementos essenciais da compreensão que
controversa que tais teorias ocupam no interior das respectivas serve de pano de fundo à modernidade. E interessante notar que
disciplinas acadêmicas, na visão de uma teoria política normativa não tentativas que se propõem determinar, de modo auto-reflexivo, seja
se pode exigir, sob nenhum pretexto, que cidadãos de um Estado no campo da filosofia, seja no da teologia, a relação entre fé e saber,
liberal se descrevam a si mesmos, por exemplo, nos termos de uma levantam questões sobre a genealogia da modernidade, dotadas de
teoria da evolução religiosa que os classificaria como "atrasados" do longo alcance.
ponto de vista cognitivo. Somente os participantes e suas respectivas Recordemos a questão levantada por Rawls: "Até que ponto os
organizações religiosas podem decidir a questão: será que uma fé religiosos e os não-religiosos podem endossar um regime secular
"modernizada" continua sendo fé "verdadeira"? E será que, de outro quando suas doutrinas compreensivas não conseguem prosperar nesse
lado, um secularismo fundamentado à maneira cientificista não tem, regime, podendo, inclusive, entrar em declínio?".56 Tal pergunta não
no final das contas, melhores razões do que o conceito compreensivo pode ser respondida, em última instância por explicações normais da
de razão, delineado pelo pensamento pós-metafísico? Mesmo entre
osfilósofos,não há argumentos decisivos, nem pró nem conUa. Não
56 Cf. nota de rodapé n° 20.
164
165
teoria política. Tomemos o exemplo da "ortodoxia radical",''7 que da autocompreensão da modernidade, levantando a seguinte pergunta:
assume e leva adiante a intenção e o pensamento fundamental da será que a ciência moderna constitui uma prática que determina
teologia política de um Carl Schmitt utilizando meios da performativamente a medida do verdadeiro e do falso, podendo ser
desconstrução. Teólogos que se postam nesta linha negam que a entendida unicamente a partir de si mesma, ou não será ela resultado
modernidade possua qualquer tipo de direito próprio,5" já que ela de uma história da razão que inclui, essencialmente, as religiões
estaria desenraizada nominalisticamente, e tentam refundamentá- mundiais?
la ontologicamente numa "realidade de Deus". A controvérsia com Rawls transformou sua Teoria da justiça num Liberalismo
esses oponentes precisa ser conduzida no âmbito da própria matéria, político, a partir do momento em que reconheceu a relevância do "fato
ou seja, asserções teológicas somente podem ser respondidas por do pluralismo". Ele teve o grande mérito de refletir, desde cedo, sobre
asserções teológicas; ao passo que asserções históricas e o papel político da religião. Em que pese isso, tais fenômenos também
epistemológicas têm de ser respondidas por contra-argumentos podem chamar a atenção de uma teoria política, pretensamente "livre",
históricos e epistemológicos.59 para o alcance limitado da argumentação normativa. Será que os
Ora, isso também vale para o lado oposto. A questão de Rawls cidadãos podem aceitar o liberalismo como sendo a única resposta
dirige-se, em igual medida, para a esfera secular e para a esfera religiosa. correta para o pluralismo religioso? Para chegar a uma conclusão sobre
Quando um naturalismo apoiado em visões de mundo ultrapassa as esse ponto, os cidadãos religiosos, como também os seculares, devem
fronteiras de suacientificidade, impõe-se, com razão, uma controvérsia saber interpretar, cada um na sua respectiva visão, a relação entre fé e
acerca de questões básicas da filosofia. Enquanto não houver clareza saber, porquanto tal interpretação prévia lhes abre a possibilidade de
filosófica sobre o sentido pragmático e sobre o contexto da transmissão uma atitude auto-reflexiva e esclarecida na esfera pública política.
histórica das proposições existenciais bíblicas, nenhum tipo de
conhecimento neurológico pode obrigar as comunidades religiosas a
abjurar as asserções sobre a existência de Deus e sobre uma vida após
a morte, veiculadas pela tradição.60 O problema que se coloca quando
se tenta relacionar asserções das ciências experimentais com
convicções religiosas nos coloca novamente no contexto da genealogia

57 MILBANK, J. Theology and Social Theory: Beyond Secular Reason. Ox-


ford, 1990; MILBANK, D., PICKSTOCK, C. e WARD, G. (eds.). Radical
Orthodoxy. Londres-N. York, 1999.
58 Sobre a posição contrária, cf. a obra de BLUMENBERQ Hans. Legimitat der
Neuzeit. Frankfurt/M., 1966.
59 SCHMIDT, Th. M. "Postsãkulare Theologie des Rechts. Eine Kritik der
radikalen Orthodoxie", in: FRÜHAUF, W. e LÕSER, W. (eds.). Biblische
Aufklarung - die Enldeckung einer Tradition. Frankfurt/M., 2005, 91-108.
60 Cf. a observação final de DETEL, W. em um artigo extremamente bem
informado: "Forschungen über Hirn und Geist", in: Deutsche Zeitschrift für
Philosophie, 52, (2004), 891-920.

166 167
III. NATURALISMO E RELIGIÃO
6. LIBERDADE E DETERMINISMO.

Assistimos hoje, em solo alemão, a um acalorado debate sobre a


liberdade da vontade, o qual se manifesta, inclusive, na imprensa diária
supra-regional.2 A gente se sente transportada de volta ao século XIX.
E agora, como antes, os resultados da pesquisa sobre o cérebro
conferem nova atualidade a uma velha disputafilosófica- é bem
verdade que agora existe o reforço de procedimentos tecnológicos.
Neurólogos e representantes da pesquisa da cognição disputam com
filósofos e outros intelectuais da área das ciências do espírito sobre a
interpretação determinista, segundo a qual, um mundo fechado de
modo causai elimina qualquer tipo de possibilidade para a liberdade
de escolha entre ações alternativas. Desta vez, no entanto, o ponto de
partida da controvérsia foi dado pelos resultados de uma tradição de
pesquisa que se apoia sobre os experimentos realizados, já nos anos
70, por Benjamin Libet.1
Os resultados parecem confirmar estratégias de pesquisa
reducionistas cujo alvo é uma explicação de fenômenos mentais que
1 Este texto serviu de base para uma conferência proferida em 2004 por ocasião
da recepção do Prêmio-Kioto, conferido pela quarta vez a um filósofo -
após Karl R. Popper, Willard van Orman Quine e Paul Ricoeur.
2 Agradeço novamente os conselhos detalhados e enriquecedores de Lutz Wingert
que, mais do que eu, está familiarizado com essa questão. Agradeço também
a Tilman Habermas pelas sugestões e melhorias.
1 GEYER, Chr. (ed.) Hirnforschung und Willensfreiheit. Zur Deutung der
neuesten Experimente. Frankfurt/M., 2004.

169
se baseia apenas em condições fisiológicas observáveis.4 Tais termos de modificação da consciência, que falta aos próprios
princípios partem da premissa, segundo a qual, a consciência da conhecimentos. Convém perguntar, no entanto: será que a
liberdade, que os atores se adscrevem a si mesmos, constitui um auto- fundamentação da interpretação determinista é consistente? Ou não
engano. Porquanto a vivência da decisão própria é, de certo modo, seria ela, simplesmente, componente de uma imagem de mundo
uma roda que gira no vazio. A liberdade da vontade, entendida como naturalista, fruto de uma interpretação especulativa de conhecimentos
uma "causação mental" constitui apenas uma aparência atrás da qual das ciências da natureza? Eu gostaria de dar prosseguimento ao de-
se oculta uma conexão inteiramente causai de estados neuronais que bate sobre liberdade e determinismo reinterpretando-o em termos de
se estabelecem de acordo com leis da natureza.5 uma controvérsia sobre modos corretos de naturalização do espírito.
Sem embargo, tal determinismo é inconciliável com a De um lado, gostaríamos de fazer jus á evidência - que é
autocompreensão cotidiana de sujeitos que agem. No dia-a-dia, nós incontestável do ponto de vista de uma intuição - de uma consciência
temos de nos atribuir mutuamente a autoria responsável por nossas que acompanha, performativamente, todas as nossas ações; de outro
ações. Por isso, o esclarecimento científico sobre a determinação de lado, gostaríamos de satisfazer, ao mesmo tempo, a necessidade que
nosso agir por leis da natureza não pode colocar em questão, temos de uma imagem coerente do universo, a qual inclui também o
seriamente, a autocompreensão intuitiva de atores imputáveis, homem enquanto ser da natureza. Kant tentou reconciliar entre si a
comprovada no plano pragmático. A linguagem objetivadora da causalidade oriunda da liberdade e a causalidade da natureza. Isso,
neurobiologia atribui ao "cérebro" o papel gramatical desempenhado, porém, só foi possível ao custo de um dualismo que se estabelece
até agora, pelo "eu". Porém, ela perde, a partir desse momento, a entre o mundo do inteligível e o mundo dos fenômenos. Hoje em dia,
conexão com a psicologia do dia-a-dia. É bem verdade que a preferimos evitar tais pressupostos metafísicos. Nesse caso, porém,
provocação que se vislumbra na afirmação de que "o cérebro" deve temos de encontrai' uma sintonia enüe aquilo que aprendemos de Kant
pensar e agir no lugar de mim "mesmo" é apenas um fato gramatical; sobre as condições üanscendentais de nosso conhecimento e o que
isso constitui, no entanto, um meio de que o mundo da vida lança Darwin nos ensinou sobre a evolução natural.
mão para se proteger de dissonâncias cognitivas. Na parte crítica inicial, tentarei mostrar que programas de
Esta não seria, certamente, a primeira vez que uma teoria pesquisa reducionistas não conseguem evitar dificuldades inerentes
engendrada pelas ciências da natureza se choca conü a o Commonsense. ao dualismo que separa, de um lado, jogos de linguagem e, de outro,
Ela teria de enUar em contato com uma psicologia do cotidiano, pelo perspectivas de esclarecimento - a não ser assumindo as conseqüências
menos a partir do momento em que as aplicações técnicas do saber de um "epifenomenalismo". A segunda parte, mais construtiva,
teórico se imiscuem, por exemplo, graças à sua familiaridade com pretende recordar as raízes antropológicas desse dualismo de
técnicas terapêuticas, na prática cotidiana. As técnicas mediante as perspectivas, o qual não exclui uma visão monista da evolução natu-
quais os conhecimentos da neurobiologia podem vir a ter, um dia, ral. A imagem mais complexa de uma interação entre um cérebro que
acesso ao mundo da vida poderiam, quiçá, adquirir relevância em determina o espírito, e um espírito que programa o cérebro, é fruto de
uma reflexão filosófica, não de uma pesquisa elaborada pelas ciências
naturais. Eu defendo um naturalismo "mitigado", não-cientificista.
"ROTH, G. "Worüber Hirnforscher reden dürfen - und in welcher Weise?", in; Nessa perspectiva, é "real" tudo aquilo, e somente aquilo, que pode
Deutsche Zeitschrift für Philosophie, 52 (2204), 223-234, aqui 231.
3 A tese determinista mantém-se mesmo que interpretemos as leis da natureza de ser representado em proposições verdadeiras. A realidade, todavia,
modo probabilista. Pois o arbítrio não pode ser reduzido ao acaso. não se esgota na totalidade das asserções limitadas regionalmente e
170 171
se estabelece entre evento neuronal e vivência subjetiva parece
que contam, de acordo com standards atuais, como asserções confirmar que certos processos do cérebro determinam ações
verdadeiras das ciências experimentais. conscientes sem que o ato da vontade, que o agente se adscreve a si
mesmo, desempenhe uma função causai. Pesquisas psicológicas
I. Reducionismo: Prós e contras. confirmam, além disso, a experiência, segundo a qual, sob certas
condições, os atores realizam ações às quais atribuem, apenas
Partindo da crítica à estrutura e à força de tematização dos postumamente, intenções próprias.
experimentos de Libet, gostaria de introduzir, inicialmente, um conceito Não obstante isso, os experimentos de Libet não conseguem
fenomenológico de liberdade de ação (1). A teoria analítica da ação enfrentar satisfatoriamente o peso da prova da tese determinista, o
abre caminho para um conceito não-determinista da liberdade qual lhes é atribuído. As disposições manifestas pelo experimento
condicionada e para uma concepção da autoria responsável. Ambos são talhadas para movimentos arbitrários do corpo que proporcionam
exigem, diferentemente de uma explicação a partir de causas, uma aos atores apenas frações de segundos entre a intenção e a realização
explicação racional da ação (2 e 3). O reducionismo tenta eludir a da ação. Por isso, convém perguntar se os resultados dos testes podem
discrepância entre perspectivas de esclarecimento e formas de saber ser generalizados para além das classes de ações observadas. Até
complementares. As dificuldades encontradas por tal estratégia de mesmo uma interpretação cautelosa nesse sentido não consegue
pesquisa motivam os questionamentos da segunda parte: será que o eximir-se de uma outra objeção, a saber, a de que a significação das
dualismo das perspectivas epistêmicas, que estrutura e delimita nosso seqüências observadas continua obscura. O design parece admitir a
acesso ao mundo, poderia ter-se originado do desenvolvimento natu- possibilidade de que as pessoas submetidas ao teste e instruídas sobre
ral de formas de vida culturais? (4). o andamento do experimento já se concentraram no plano de ação
antes de se decidir sobre a execução da ação atual. Neste caso, porém,
(1) Benjamin Libet solicitara das pessoas submetidas ao teste a estrutura do potencial de disposição, observado de um ponto de
neurológico que fizessem espontaneamente um movimento do braço vista neurológico, apenas refletiria a fase do planejamento. Finalmente,
e registrassem o momento exato em que a decisão acontecera. De é muito mais grave a objeção que se levanta contra uma produção
acordo com as expectativas, tal decisão precede os movimentos do artificial de situações de decisão abstratas, a qual se apoia em
próprio corpo. Entretanto, o intervalo de tempo que se coloca entre considerações de princípio. Como em qualquer design, aqui também
processos inconscientes observados nas áreas dos córtices cerebrais se coloca a questão sobre o que deve ser medido - e a questão filosófica
primários e associativos, de um lado, e o ato consciente que a pessoa preliminar sobre o que deveria ser medido em geral.
submetida aos testes experimenta como sendo sua própria decisão, de De modo geral, as ações resultam de um encadeamento complexo
outro lado, é crítico.6 Tudo indica que se constrói, no cérebro, um de intenções e reflexões que permitem avaliar fins e meios alternativos
"potencial de disposição", específico da ação, antes que a própria à luz de ocasiões, recursos e obstáculos. Um design que comprime
pessoa se "decida" a agir. Esse resultado da seqüência temporal que temporalmente o planejamento, a decisão e a execução de um
movimento do corpo e que o retira de um contexto de objetivos amplos
6 Sobreas disposições do teste e os posteriores experimentos de controle cf.
e de alternativas fundamentadas só pode abranger artefatos que
ROTH, G. Fühlen, Denken, Handeln. Frankfurt/M., 2003, 518-528. Cf. possuem exatamente aquilo que transforma implicitamente as ações
também LIBET, B. Mind Time. Wie das Gehirn Bewusstsein produziert em ações livres, a saber: a vinculação interna com argumentos. Quem
Frankfurt/M., 2005.
173
172
pensa que a liberdade "de-poder-agir-assim-ou-de-outra-forma" se por seus atos: "O que o agente realiza intencionalmente é precisamente
corporifica no "asno de Buridan"* é vítima de um mal-entendido. Na aquilo que se coloca diante de sua liberdade e para cuja execução ele
"simples" decisão de estender o braço direito, ou o esquerdo, ainda possui argumentos adequados."9 Somente uma vontade refletida é livre.
não se manifesta uma liberdade de ação. Para que isso aconteça é O próprio Benjamin Libet refletiu, mais tarde, sobre o papel de
necessário um contato com argumentos, os quais poderiam, por processos de avaliação conscientes. Ele passou a interpretar os
exemplo, motivar um ciclista a dobrar à direita ou à esquerda. Após resultados de suas experiências num sentido tal que coloca as
tal ponderação, é possível abrir um espaço para a liberdade "porquanto interpretações costumeiras sob uma outra luz.1" Ele admite que, na
o sentido do ponderar inclui simplesmente a possibilidade de poder fase entre intenção e execução, a vontade livre possui uma função
agir não somente desta forma, mas também de outra".7 controladora em relação às ações iniciadas inconscientemente, à
proporção que estas enttariam, previsivelmente, em conflito com outras
A partir do momento em que entram em jogo argumentos, que expectativas, por exemplo, normativas. Conforme tal interpretação, a
falam a favor ou contra uma determinada ação, somos levados a supor vontade livre apresentar-se-ia negativamente na forma de um veto
que a tomada de posição, à qual pretendemos chegar mediante uma contra a atualização consciente de uma disposição de ação inconsciente,
avaliação dos argumentos, não está determinada a priori* No entanto, porém não justificada.
se a questão que envolve modos e possibilidades de nossa decisão
fosse uma questão fechada, não haveria necessidade nenhuma de (2) Peter Bieri conseguiu deslindar, em uma linha fenomenológica
ponderações ou raciocínios. Uma vontade se forma, convincente, as confusões que cercam o conceito de uma liberdade
imperceptivelmente, na esteira de raciocínios. E já que uma decisão da vontade destituída de origem, mas que cria origens." Se o ato de
amadurece na seqüência de considerações imprecisas e fugazes, nós "decisão livre" significa que o ator "liga" sua vontade "a argumentos",
nos sentimos livres apenas nas ações realizadas de modo mais ou então, o momento de abertura da decisão não exclui sua
menos consciente. Existem, evidentemente, diferentes tipos de ações: "condicionalidade" racional. O agente é livre quando quer o que
instintivas, habituais, episódicas, neuróticas, compulsivas, etc. Todavia, considera correto levando em conta o resultado de seu raciocínio.
todas as ações realizadas conscientemente podem ser examinadas, Nós sentimos que não é livre uma coação imposta a partir de fora, a
retrospectivamente, tendo em vista sua imputabilidade. Outras pessoas qual nos constrange a agir diferentemente do modo como pretendemos
podem chamar à responsabilidade um ator imputável e responsável agir, apoiados em nossa própria compreensão perspicaz (Einsicht).
Disso resulta um conceito de liberdade condicionada que leva na devida
" Cf. observação da pág. 207 (n.t.). conta dois momentos distintos, a saber, uma liberdade sob condições.
1 TUGENDHAT, E. "Der Begriff der Willensfreiheit", in: id. Philosophische De um lado, para chegar ao juízo prático decisivo sobre como
Aufsatze. Frankfurt/M., 1992, 334-551, aqui 340. agir, o ator é obrigado a pesar as alternativas de ação. É certo que tais
8 O argumento empirista aduzido contra a asserção, segundo a qual a função das alternativas de ação apresentam-se a ele no interior de um espaço de
considerações se esgota no exame da "suportabilidade emocional" de possibilidades limitado por capacidades, pelo caráter e por
conseqüências da ação pressupõe o que deveria ser provado. Cf. ROTH
(2003), 526 s.: "Pouco importa o resultado da avaliação racional: ele está
submetido à decisão última (!) do sistema límbico, porquanto ele tem de ser ''DAVIDSON, D. "Handlungsfreiheit", in: id. Handlung und Ereignis. Frank-
emocionalmente aceitável. [...] Diferentemente do que é afirmado pela furt/M., 1985,99-124, aqui 114.
psicologia do cotidiano, não são os argumentos lógicos enquanto tal que nos '"LIBET, B. "Haben wir einen freien Willen?", in: GEYER (2004), 209-224.
estimulam ao agir racional." 11 BIERI, P. Das Handwerk der Freiheit. Munique, 2001.

174 175
circunstâncias. No entanto, à vista das alternativas que estão à espera
de uma avaliação, ele precisa considerar-se capaz de agir desta ou isto é, numa linguagem que contem os predicados "opinar",
daquela forma. Porquanto, aos olhos de um ator que reflete, as "convencer", "afirmar" e "negar". Nos termos de uma linguagem
capacidades, o caráter e as circunstâncias transformam-se noutros empirista, no entanto, ele teria de eliminar, por razões gramaticais,
tantos argumentos para seu "ser capaz de" (Kónnen) delimitado pela todas as referências a enfoques proposicionais de sujeitos que têm
situação específica. Nesse sentido, ele não é livre para agir algo por verdadeiro ou falso. Nesta ótica, o evento do discurso
incondicionalmente, desta ou daquela forma. No processo da reflexão, transformar-se-ia num evento da natureza, o qual decorre, de certa
o ator chega a um posicionamento motivado racionalmente. E isso forma, por detrás das costas dos sujeitos.
não acontece por acaso, porque não deixa de haver algum tipo de Peter Bieri tenta reconciliar o conceito de liberdade condicionada
fundamento. Compreensões não surgem arbitrariamente porque sua com o evento da natureza, determinista: "No geral, a reflexão sobre
formação depende de regras. Caso a pessoa que se decidiu a agir tivesse as alternativas constitui um evento que, no final, irá me vincular,
chegado a um outro juízo, o seu querer teria sido diferente. juntamente com minha história, a uma vontade bem determinada."13
De outro lado, não poderemos entender o papel dos argumentos Todavia, a frase acrescentada "eu sei disso, porém, isso não me
na motivação da ação se nosso modelo for o da causação de um evento, incomoda" revela que aqui nos deparamos com algo falso. Porquanto
observável, por um estado anterior. O processo do juízo autoriza o o caráter condicionado de minha decisão não me incomoda, é verdade,
agente a tomar-se o autor de uma decisão. Se se tratasse de um processo porém, somente até o momento em que posso compreender,
natural explicável de modo causai, o autor sentir-se-ia desautorizado, retrospectivamente, esse "processo" como um processo de pensamento
isto é, privado de sua iniciativa. Por conseguinte, a asserção: "se o mesmo que implícito, no qual estou engajado enquanto participante
autor tivesse julgado de modo diferente, sua vontade também deveria do discurso ou enquanto sujeito que reflete no foro interno. Pois neste
ter sido diferente" é falsa, não somente no sentido gramatical. A coação momento se trata de minha intelecção, a qual permite tomar uma
não-violenta do melhor argumento, que nos motiva a tomar posição decisão. Por conseqüência, a determinação de minha decisão por um
dizendo "sim" ou "não", não pode ser confundida com a coação causai evento neuronal, do qual eu não participo na condição de uma pessoa
de uma restrição imposta que nos constrange a agir de uma forma não que toma posição, constituiria um verdadeiro estorvo: porque, neste
querida: "Quando não conseguimos detectar a autoria, isso significa caso, não seria mais minha decisão. Somente a mudança imperceptível
que não conseguimos, enquanto pensantes e julgadores, exercer da perspectiva participante para a perspectiva observadora pode causar
influência sobre nosso querer e nosso fazer. Nesse sentido, a liberdade a impressão de que a motivação da ação constrói, mediante argumentos
é suportável junto com condicionalidade [...]; porquanto ela exige compreensíveis, uma ponte para a determinação da ação por causas
condicionalidade e não seria pensável sem ela."12 observáveis.
Para explicar a significação da motivação racional por O correto conceito da liberdade condicionada não fornece
argumentos temos de assumir a perspectiva do participante de um nenhum apoio para o monismo ontológico apressado, segundo o qual,
processo público onde "se dão e se aceitam argumentos" (Robert as causas e os argumentos constituem dois aspectos distintos da mesma
Brandom). Por isso, um observador do evento do discurso é realidade. Na esteira dessa concepção, os argumentos constituem o
obrigado a descrever nos termos de uma linguagem mentalista, lado subjetivo, ou melhor, uma certa "maneira de vivenciar" processos,
os quais são constatáveis também sob um ponto de vista neurológico.
BIERI (2001), 166.
'BIERI (2001), 287 s.
176
177
E nas conexões lógico-semânticas estabelecidas entre conteúdos ação como se fossem os dois lados de uma mesma medalha -
proposicionais e enfoques refletem-se "encadeamentos complexos desconhecida, por enquanto.10
de eventos neurofisiológicos": "De acordo com isso, argumentos
constituiriam o aspecto vivenciado 'internamente' e as causas o (3) A explicação racional de uma ação não oferece condições
aspecto 'externo', neurofisiológico, de um 'terceiro' abrangente suficientes para a ocorrência fática do evento da ação, como é o caso
que se desenvolve de modo determinista, o qual, porém, não se de uma explicação causai comum. Já que a força motivadora dos
abre para nós."14 Tal interpretação naturalista apela injustamente argumentos da ação pressupõe que eles são, em determinadas
para a "teoria causai da ação", defendida por Donald Davidson, circunstâncias, determinantes para o sujeito, isto é, são suficientes
segundo a qual, desejos e enfoques, intenções, convicções e para "vincular" a vontade do ator. Uma motivação por argumentos
orientações valorativas são causas de uma ação quando constituem não exige apenas um ator que assume posição racional, na qual contam
as razões que levaram o ator a realizar uma ação. argumentos, mas um ator que se deixa determinar por sua intelecção.
Apesar da recusa de Davidson em aceitar o reducionismo, 15 a Dada essa referência a um sujeito, que também pode agir contra um
conceitualização dos argumentos em termos de causas sugeriu uma saber melhor, a asserção de que "S" realizou a ação "A" levado pelo
certa interpretação da liberdade da ação que promete nivelar o fosso argumento "a" não é equivalente à asserção de que "a" causou a ação
que se interpõe entre o espiritual e o físico. A teoria não consegue, "A".17 Diferentemente da explicação causai comum, a explicação
no entanto, cumprir tal promessa. Na visão dessa teoria da ação, é racional da ação não permite a inferência, segundo a qual, um número
possível, sem dúvida, enfraquecer o combalido conceito idealista indeterminado de pessoas, sob os mesmos antecedentes, chegariam à
de uma liberdade incondicionada e destituída de origens, à qual se mesma decisão. A indicação de motivos racionais da ação não é
atribui uma força capaz de ativar novas séries causais. Todavia, a suficiente para a transformação de uma explicação num prognóstico.
A autoria responsável exige não somente a motivação por argumentos,
inserção da liberdade de ação em um contexto de argumentos, que mas também uma tomada de iniciativa, fundamentada, que o autor se
é motivador, não pode ocultar a diferença que separa explicações atribui a si mesmo: é isso que faz com que o ator se torne "autor".
da ação por motivos racionais de explicações por causas. Da mesma O fato de que "depende dele" agir assim ou de outro modo, exige
forma, o conceito da liberdade condicionada também não contribui duas coisas, a saber: ele precisa estai- convencido de que está fazendo
para a tese, segundo a qual, podemos organizar tais explicações da o que é correto, porém, ele tem de fazer isso por si mesmo. A
espontaneidade do agir, presente na auto-experiência, não é uma fonte
l4 ROTH
anônima, e sim, um sujeito que se atribui a si mesmo um "ser capaz
(2004), 232.
15 Cf.a réplica de D. Davidson a R. Rorty in: HAHN, L. E. (ed.). The Philoso-
phyof Donald Davidson. Lasalle (III.) 1999, 599: "Enfatizei principalmente 16 Através do programa experimental da verificação de um "terceiro", por enquanto
a irredutibilidade de nossos conceitos mentais. Eles são irredutíveis em dois apenas postulado, Thomas Nagel desenvolve essa variante do monismo
sentidos: Em primeiro lugar, eles não podem ser definidos nos vocabulários ontológico ligado ao dualismo de aspectos. Essa teoria futura pretende oferecer
das ciências naturais, nem há leis empíricas ligando-os a fenômenos físicos a base sobre a qual as descrições do físico e do mental, complementares, podem
de modo a torná-los disponíveis. Em segundo lugar, eles não constituem ser reduzidas de acordo com modelos conhecidos: "The Psychophysical Nexus",
parte opcional de nossos recursos conceituais. São tão importantes e in: NAGEL, Th. Concealmeni and Exposure. Oxford, 20021 194-235.
indispensáveis como os significados do common-sense quando pensamos e 11 Sobre esse argumento cf. SEARLE, J. Freiheit und Neurobiologie. Frankfurt/
falamos sobre fenômenos seguindo um caminho não psicológico." M., 2004, 28-36.
178 179
de" (Kõnnen). E o ator pode entender-se como autor porque ele se Ora, a caracterização do agir moral e do dever categórico favoreceu
identifica com o próprio corpo (Kõrper) e existe, ao mesmo tempo, um conceito inflacionado de liberdade inteligível destituída de origens
como um substrato orgânico (Leib) que o toma capaz de agir e o a qual, isolada de qualquer tipo de contexto empírico, passa a ser
autoriza para isso. O agente pode deixar-se "determinar", sem nenhum "absoluta" nesse sentido.
prejuízo de sua liberdade, pelo substrato orgânico que é experimentado A fenomenologia da autoria responsável conduziu-nos, no
como (Leio) porque ele experimenta sua natureza subjetiva como fonte entanto, para o conceito de uma liberdade condicionada enraizada no
do "ser capaz de" (Kõnnerí). Na perspectiva dessa experiência do organismo e numa história de vida, o qual é incompatível com a
substrato orgânico (Leio), os processos vegetativos controlados pelo doutrina cartesiana das duas substâncias e com a doutrina kantiana
sistema límbico - como de resto todos os demais processos do cérebro dos dois mundos. O dualismo metodológico apoiado em duas
que, na perspectiva neurológica de um observador, transcorrem de perspectivas de explicação, isto é, a de participantes e de observadores,
modo "inconsciente" - transformam-se, para o agente, e por não pode ser ontologizado nem transformado num dualismo que separa
determinantes causais, em condições possibilitadoras. Nesta medida, espírito e natureza.20 As explicações racionais da ação também tomam
a liberdade de ação não é apenas "condicionada" por argumentos, como ponto de partida o fato de que os atores, ao tomarem suas
mas também liberdade "condicionada pela natureza". Uma vez que o decisões, encontram-se inseridos em contextos e enredados em
corpo (Kõrper), enquanto substrato orgânico (Leib), "é", circunstâncias da vida. Isso significa que os atores, quando permitem
respectivamente o próprio corpo (Kõrper), ele determina aquilo de que a vontade seja determinada por aquilo que está em suas forças e
que somos capazes: o "ser determinado constitui um respaldo por aquilo que têm por correto, não se encontram fora do mundo. Eles
constitutivo da autodeterminação."18 encontram-se dependentes do substrato orgânico de seu "ser capaz
Isso vale, de modo similar, para o caráter que formamos durante de", de sua história de vida, de seu caráter e de suas capacidades, do
o transcurso histórico de uma de vida, individuador. É autora a pessoa entorno social e cultural, não por último, dos componentes atuais da
determinada que nos tomamos ou o indivíduo insubstituível que é o situação da ação. Em que pese isso, o agente se apropria, de certa
modo como nos pensamos a nós mesmos. E por esta razão, os próprios forma, de todos esses fatores, a tal ponto que eles não são mais
desejos e preferências podem contar, eventualmente, como bons considerados como causas externas que podem influenciar ou irritar a
argumentos. Entretanto, tais argumentos de primeira ordem podem formação da vontade ou da consciência. O autor identifica-se com o
ser suplantados por argumentos éticos que se referem à nossa vida próprio organismo, com a própria história de vida e com a cultura -
pessoal em sua totalidade e por argumentos morais. E estes resultam, que influenciam seu comportamento - e com os próprios motivos e
por seu turno, de obrigações que nós assumimos, enquanto pessoas, capacidades. E o sujeito que julga introduz na própria reflexão todas
uns em relação aos outros.19 Segundo Kant, nós só temos autonomia
ou vontade livre quando a vontade se deixa ligar por argumentos desse
tipo - ou seja, por compreensões perspicazes fundamentadas não 20 Essa é
a alternativa contra a qual W. Singer tece sua interpretação determinista:
somente na pessoa e nos interesses bem entendidos de um indivíduo, "Uma possibilidade consiste no fato de que realmente existem dois mundos
mas também no interesse comum e simétrico de todas as pessoas. ontologicamente distintos, um material e outro imaterial, sendo que o homem
participa dos dois e nós simplesmente não somos capazes de entender de que
modo um se relaciona com o outro." SINGER, W. "Selbsterfahrung und
I8 SEEL, M. Sich bestimmen lassen. Frankfurt/M., 2002, 288. neurobiologische Fremdbeschreibung", in: Deutsche Zeitschrift für
l9 SCANLON, T. M. Wfiat We Owe to Each Other. Cambridge (Mass.) 1998. Philosophie, 52, 8 (2004), 235-256, aqui 239.

180 181
as circunstâncias exteriores, à medida que estas são relevantes, seja de uns poucos dados, apreender as condições relevantes para o
como ocasiões propícias, seja como restrições. comportamento. Mesmo assim, eles não dão nenhuma importância à
A discussão desenvolvida até o presente momento desenvolveu objetividade ou àcompletude. Eles não reproduzem fielmente as coisas,
um conceito forte de liberdade da ação, o qual não é, porém, idealista. e sim, de modo reconstrutivo, lançando mão do saber prévio
Sua função principal consiste em desenvolver uma perspectiva correta armazenado no cérebro [...]. Os cérebros utilizam esse saber prévio
para os fenômenos a serem explicados. Liga-se a tal concepção um com a finalidade de interpretar sinais dos sentidos, o que permite a
conceito de explicação racional da ação que chama a atenção para um sua inserção em contextos mais amplos [...]. Tais reconstruções
dualismo de perspectivas de explicação e de jogos de linguagem, cuja apoiadas no saber podem contribuir para compensar parcialmente as
superação parece impossível. É hem verdade que tal dualismo deficiências dos sistemas dos sentidos. O saber prévio pode ser
epistêmico possui apenas um sentido metódico, não ontológico. utilizado com a finalidade de sanar falhas, já o raciocínio lógico pode
Mesmo assim, não ficou claro, até o presente momento, de que modo ajudar na detecção de absurdos [...]. Além disso, é possível descobrir,
ele pode ser sintonizado com uma interpretação monista do universo, mediante sensores técnicos, fontes de informação inacessíveis aos
a qual pretende satisfazer a necessidade que sentimos de uma imagem nossos sentidos naturais."21 Neste contexto, costuma-se falar no valor
coerente do mundo. Os advogados de uma estratégia de pesquisa de adaptação biológica da aprendizagem coletiva da pesquisa
reducionista colocam em dúvida os direitos iguais de ambas as organizada.
perspectivas, e existem, certamente, razões para isso. Porquanto tal Entretanto, convém perguntar, de que modo tal concepção do
estratégia conseguiu, até hoje, contrapor-se ao Commonsense lançando sistema da ciência, cujos membros são treinados para uma busca
mão de conhecimentos contra-intuitivos. Um fenômeno experimen- cooperativa da verdade e para a avaliação de argumentos, se afina
tado pelos sentidos, por exemplo, o calor, é atribuído ao movimento com o caráter ilusório de argumentos e justificações? Quando
de moléculas e ninguém se escandaliza com os conceitos da física colocamos em jogo premissas da teoria da evolução, a fim de explicar
dos quais lançamos mão para analisar diferenças de cores ou elevações o valor de reprodução da pesquisa das ciências naturais, nós attibuímos
de tom. Também no âmbito da presumida interação entre espírito e a essa pesquisa um papel causai significativo para a sobrevivência da
cérebro, é possível que a resposta correta esteja do lado dos princípios espécie. Ora, isso contradiz uma perspectiva neurobiológica, a partir
de pesquisa que confiam apenas em explicações causais "duras" da qual tal prática é classificada, a exemplo de qualquer outro tipo de
recusando as explicações racionais mais "brandas", tidas como prática de justificação, como epifenômeno. E um princípio de pesquisa
psicologia do cotidiano e, por isso, como ilusórias. reducionista impõe como obrigatória tal interpretação
epifenomenalista, já que os argumentos não constituem estados físicos
(4) A biologia também oferece um bom argumento para isso. observáveis que variam segundo leis da natureza. Por isso, eles não
Pelo caminho do realismo das ciências experimentais, nós podem ser identificados com causas. E uma vez que se subtraem a
conseguimos superar a seletividade de âmbitos de percepção que explicações causais rigorosas, os argumentos só podem assumir o
decorre de nossa constituição orgânica, que é contingente. A teoria do papel de comentários racionalizadores póstumos de um comporta-
conhecimento evolucionista acentua a relevância funcional do mento inconsciente e explicável neurologicamente, os quais apenas
pensamento lógico e do processamento construtivo - formador de "caminham junto". Nós agimos de certa forma, "levados por" causas,
teorias - de percepções para a sobrevivência da espécie: "Nossos
sistemas de sentidos são surpreendentemente adaptados para, a partir 31 Ibid., 236.
182 183
mesmo quando justificamos nosso agir perante os outros "com o a consciência do eu24 ou a liberdade da vontade25 como simples
auxílio" de argumentos. epifenômenos.
Para sustentar esse ponto, o reducionismo paga um preço elevado. Tal admoestação não se encaixa muito bem nas premissas de
Porquanto, se na visão neurobiológica os argumentos e o Roth. Uma função causai da vida consciente, independente, só se
processamento lógico de argumentos não desempenham nenhum papel adapta ao quadro de um princípio de pesquisa reducionista quando se
causai, então torna-se problemático explicar, na visão da teoria da "interpreta o espírito e a consciência [...] como estados físicos" que
evolução, por que a natureza se dá o luxo de criar um "espaço de "se encontram numa relação de ação recíproca" com outros estados
argumentos" (Wilfried Sellars). Os argumentos não ficam boiando físicos.26 Todavia, grandezas semânticas tal como argumentos ou
como as bolhas de gordura na sopa da vida consciente. Porquanto os conteúdos proposicionais em geral não podem ser "instantaneizados"
processos do agir e do julgar estão ligados sempre, aos olhos dos como estados observáveis. O próprio Roth classificou, por isso, os
sujeitos participantes, com argumentos. Se tivéssemos que rejeitar o argumentos - e o processamento lógico de argumentos - como
"dar e receber argumentos" como epifenômeno, não restaria muita epifenômenos. De sorte que a função causai da consciência do eu e da
coisa das funções biológicas da autocompreensão de sujeitos capazes liberdade da vontade não parece tão convincente.
de agir e falar. Qual é a razão que nos obriga a colocar, reciprocamente, Parece que os procedimentos do reducionismo, o qual faz derivar,
exigências de legitimação? Que funções são preenchidas pela de modo determinista, todos os processos mentais de influências
superestrutura das agências de socialização, que endereçam ás crianças causais recíprocas entre o cérebro e o entorno e que nega ao "espaço
uma exigência desse tipo, a qual é desprovida de todo conteúdo dos argumentos", ou melhor, à esfera da cultura e da sociedade força
causai?22 de intervenção, não são menos dogmáticos do que os do idealismo, o
John Searle levantou, contra o epifenomenalismo da vida, a qual julga poder vislumbrar, em todos os processos naturais, a força
seguinte objeção: "Os processos da racionalidade consciente fundamentadora de um espírito. O tipo de monismo que trabalha de
constituem parte tão importante de nossa vida, especialmente da baixo para cima é mais científico do que o monismo que parte de
biológica, que, se um fenótipo de tal importância não tivesse nenhum cima, porém, apenas no procedimento, não nas conclusões.
papel para a sobrevivência do organismo, ela seria totalmente diferente Perante tal alternativa, torna-se mais atraente um outro tipo de
da imagem que se formou dela pela evolução."2-1 Gerhard Roth refere- dualismo de perspectivas, o qual subtrai nossa consciência da liberdade,
se, certamente, a essa objeção quando esclarece, de um lado, que a não da evolução natural, mas da perspectiva de explicação das ciências
autocompreensão de atores, especialmente a liberdade de ação, da natureza atualmente conhecidas. Nesse sentido, Richard Rorty
constitui uma ilusão e quando exorta, ao mesmo tempo, a não entender
24 ROTH (2003), 397: " O elemento decisivo consiste em que não deveríamos
22 As explicações fornecidas por ROTH, (2003), 528 ss., são curiosamente considerar esse ator virtual como epifenômeno. Sem a possibilidade de uma
tautológicas: porquanto a questão consiste precisamente em perguntar: por percepção virtual e do agir virtual o cérebro não conseguiria levar a termo as
que surge a ilusão da liberdade da vontade, uma vez que ela não desempenha operações complexas que realiza."
nenhuma função causai? 25 Ibid., 512 s.: "Nós podemos tomar como ponto de partida que a vontade não
23 SEARLE (2004), 50. Os argumentos aduzidos por SINGER (2004), 253 s., é um simples epifenômeno, isto é, um estado subjetivo, sem o qual tudo
para a diferenciação de um nível de decisão consciente seriam concludentes continuaria a andar, no cérebro e na relação, exatamente como anda com
apenas sob a pressuposição de que não é ilusória a consciência da liberdade ele."
enquanto expressão de um agir racional. 26 Ibid., 253.

184 185
explica a divisão gramatical de nossos vocabulários de explicação, ou repleto de riscos.29 A continuidade de uma história natural, da qual
seja, os que dirigem o olhar para causas observáveis e os que o guiam podemos tecer, ao menos, e em analogia com a evolução natural de
para argumentos compreensíveis, como resultado de uma adaptação Darwin, uma idéia, a qual não atinge, é bem verdade, o nível de um
funcional de nossa espécie a dois tipos de entorno: o do mundo conceito teoricamente satisfatório, garante, mesmo assim - através
ambiente natural e o do social. A irredutibilidade de um jogo de do fosso epistêmico que se abre enüe a natureza objetivada pelas
linguagem ao outro não deveria preocupar-nos, aqui, mais do que a ciências naturais e uma cultura compreendida preliminarmente de
insubstituibilidade de uma ferramenta por outra.27 Tal comparação modo intuitivo, por ser compartilhada intersubjetivamente - a unidade
poderia, certamente, satisfazer nosso desejo de uma imagem coerente de um universo ao qual os homens pertencem enquanto seres da
do universo somente se, a exemplo de Rorty, estivéssemos dispostos natureza.
a recolher a pretensão de verdade das teorias sob o ponto de vista
funcionalista do sucesso de sua adaptação.28 Entretanto, a verdade II. Sobre a interação entre natureza e espírito.
das teorias não se esgota no sucesso dos instrumentos que podemos
construir com sua ajuda; por conseguinte, a necessidade de uma Gostaria de retomar, inicialmente, a "não-eludibilidade" dos jogos
interpretação monista do mundo não é satisfeita. Se quiséssemos de linguagem especializados em explicações causais e/ou racionais
encontrar um lugar no mundo para um dualismo epistêmico, a teoria porque não está claro, do ponto de vista da teoria do conhecimento, se
pragmatista do conhecimento, que sugere uma destranscendentalização essas duas perspectivas são essenciais ou se é possível marginalizar
das pressuposições do conhecimento, pode apontar, apesar de tudo, uma delas (5). A fim de capturar o dualismo metodológico num
na direção correta. naturalismo "brando" eu recordo, além disso, certos dados
Na visão antropocêntrica de uma forma de vida de comunidades antropológicos conhecidos. Eles têm por função tornar plausível o
lingüísticas de indivíduos socializados, capazes de solucionar modo como tal dualismo epistêmico poderia ter surgido da socialização
problemas de modo cooperativo, os dois vocabulários e as perspectivas da cognição de membros da mesma espécie que dependem uns dos
de esclarecimento que "nós" impomos ao mundo continuam sendo, outros (6). Além disso, um dualismo metodológico ainda enfrenta,
para nós, "ineludíveis". Eles conseguem explicar a estabilidade de numa perspectiva neurobiológica, o seguinte problema decisivo para
nossa consciência de liberdade, a qual se contrapõe ao determinismo a questão do determinismo: como entender a "ação recíproca" entre
das ciências naturais. De outro lado, a interpretação que considera o cérebros individuais e programas culturais? (7).
espírito uma entidade no mundo, enraizada de modo orgânico, não
pode atribuir às duas formas complementares de saber uma validade (5) O fato de não podermos "retroceder" atrás do dualismo
a priori. Porquanto o dualismo epistêmico não caiu diretamente de epistêmico das perspectivas do saber significa, em primeiro lugar,
um céu transcendental. Ele deve ter sido fruto de um processo de que os jogos de linguagem correspondentes e os padrões de explicação
aprendizado evolucionário e deve ter conseguido comprovar-se na não podem ser reduzidos uns aos outros. De outro lado, pensamentos
disputa cognitiva do homo sapiens com os desafios de um entorno que podemos expressar no vocabulário mentalista não podem ser

27 RORTY, R. "The Brain as Hardware, Culture as Software", Inquiry, 47, 2004,


219-235. Cf. também sobre esse "^pragmatismo kantiano" minha introdução a
28 ENGELS, E. M. Erkenntnis ais Anpassung?. Frankfurt/M., 1989. HABERMAS, J. Wahrheit Und Rechtfertigung. Frankfurt/M., 1999,7-64.

186 187
traduzidos, sem deixar restos semânticos, para um vocabulário instrumentalmente no mundo e provocássemos o estado A.31 Tal pano
empirista talhado para coisas e eventos. Nisso consiste precisamente de fundo intervencionista do conceito de causalidade pode explicar
a cruz das tradições de pesquisa, as quais são forçadas a isso quando por que estados mentais ou conteúdos semânticos, que não podemos
pretendem atingir o seu alvo, isto é, uma naturalização do espírito que manipular como coisas ou eventos seguindo um caminho instrumen-
procede de acordo com os standards científicos usuais.30 Pode tratar- tal, resistem a esse tipo de explicações causais.
se, de um lado, de um materialismo que pretende reduzir estados E já que não conseguimos reduzir um ao outro os jogos de
intencionais, conteúdos proposicionais ou enfoques a eventos e estados linguagem talhados conforme o espiritual, de um lado, e conforme o
físicos; ou de um funcionalismo, segundo o qual, circuitos elétricos físico, de outro, coloca-se a seguinte questão interessante: talvez seja
no computador ou estadosfisiológicosnaturais no córtex cerebral necessário observar o mundo lançando mão das duas perspectivas,
"realizam" funções causais que são agregadas a processos mentais ou simultaneamente, a fim de poder aprender algo sobre ele. Tudo indica
conteúdos semânticos. Em ambos os casos, porém, tais tentativas de que a perspectiva do observador, à qual o jogo de linguagem empirista
uma naturalização do espírito fracassam ao nível dos conceitos básicos nos restringe, precisa ser cruzada com a de um participante em práticas
da necessária tradução. Já que as traduções empreendidas por estas sociais e comunicativas, a fim de conseguir, para sujeitos socializados
teorias nutrem-se, implicitamente, do sentido das expressões como nós, um acesso cognitivo ao mundo. Nós somos, em uma única
mentalistas que pretendem substituir; ou então falseiam, simplesmente, pessoa, observadores e participantes de uma comunicação.
aspectos essenciais do fenômeno inicial, sendo, por isso, levadas a Ao assimilarmos o sistema dos pronomes pessoais, nós
redefinições imprestáveis. aprendemos também a desempenhar o papel de um observador na
Isso não deve nos espantar, uma vez que na gramática dos dois "terceira" pessoa. Isso implica, no entanto, uma vinculação com os
jogos de linguagem estão inseridas duas ontologias inconciliáveis. papéis do falante e do ouvinte, ou melhor, os papéis de uma "primeira"
Nós sabemos, desde Frege e Husserl, que conteúdos proposicionais e e de uma "segunda" pessoa. O fato de as duas funções básicas da
objetos intencionais não se individuam no quadro de referência de linguagem, isto é, a representação de fatos e a comunicação, se
estados e de eventos datáveis no espaço e no tempo e dotados de entrelaçarem, não é casual.32 E a visãofilosófico-lingüísticasobre
efeitos causais. Isso também pode ser elucidado pelo cruzamento do falantes e destinatários que se entendem entre si sobre algo no mundo
conceito de causa com o do círculo de funções do agir instrumental. objetivo, ante o pano de fundo de um mundo da vida compartilhado
A proporção que nós interpretamos a sucessão de dois estados do intersubjetivamente, pode ser invertida, ao nível de uma teoria do
mundo observados, A e B, como uma relação causai (no sentido conhecimento: ou seja, para um observador, a objetividade do mundo
rigoroso de que o estado A é condição suficiente para o surgimento de só se constitui se ocorrer juntamente com a intersubjetividade do
B), nós nos deixamos conduzir implicitamente pela idéia de que nós possível entendimento sobre aquilo que ele apreende cognitivamente
mesmos poderíamos provocar o estado B, caso interviéssemos do evento situado no limite do mundo. Quer dizer que somente o

11 WR1GHT, G. H. von. Explanation and Understanding. Londres, 1971, Parte


Cf. DESCOMBES, V. The Minds Provisions. A Critique of Cognitivism. II; cf. também WELLMER, A. "Georg Henrik von Wright über 'Erklãren'
Princeton, 2001 e CRAMM, W.-J. Reprüsentation oder Verstündigung? Eine und 'Verstehen'", in: Philosophische Rundschau, 26 (1979), 1-27, aqui 4 ss.
Kritik naturalistischer Philosophien der Bedeutung und des Geistes. Tese
de doutorado, Universidade de Frankfurt/M., 2003. "DUMMETT, M. "Language and Communication", in: id. The Seas of Lan-
guage. Oxford, 1993, 166-187.
188 189
exame intersubjetivo de evidências subjetivas possibilita a objetivação de reflexão, a perspectiva do observador que, à proporção que faz
progressiva da natureza. Por isso, os processos de entendimento não experiências, refere-se a algo no mundo num enfoque objetivador se
podem ser deslocados inteiramente para o lado dos objetos, isto é, cruza com a perspectiva de um participante de discursos, o qual, ao
não podem ser descritos como um evento exclusivamente aduzir argumentos, assume um enfoque performativo e se envolve
"intramundano", o que permitiria a sua "absorção" objetivadora.33 com seus críticos: "Experiências e argumentos formam dois
No cruzamento complementar entre as perspectivas do componentes que não se separam da base ou do fundamento de nossas
participante e do observador enraízam-se não somente a cognição pretensões de saber algo sobre o mundo."36
social e o desenvolvimento da consciência moral,34 mas também a A partir da constatação de que o próprio crescimento teórico do
elaboração cognitiva de experiências que nos atingem quando nos saber depende de um cruzamento complementar entre as perspecti vas
defrontamos com o entorno natural. As pretensões de verdade são do observador e do participante, Wingett chega à conclusão de que as
submetidas a dois testes: ao da experiência e ao do dissenso que outros condições de entendimento, as quais são acessíveis apenas
podem manifestar contra a autenticidade das experiências de cada um performativamente, isto é, na visão de participantes de práticas de
- ou contra a interpretação que formulamos sobre elas. Por conseguinte, nosso mundo da vida, não podem ser alcançadas cognitivamente com
no laboratório da ciência, as coisas não são muito diferentes daquelas meios das ciências naturais, ou seja, não podem ser objetivadas
que ocorrem no dia-a-dia.35 completamente. Por essa razão, uma visão determinista do mundo
Conceito e compreensão perspicaz, construção e descoberta, não pode pretender mais do que uma validade circunscrita
interpretação e experiência são momentos que não podem ser isolados regionalmente. Todavia, esse argumento não implica necessariamente
uns dos outros, nem mesmo no processo de pesquisa. Observações uma autonomização transcendental do "para nós" de um "ser em si
experimentais são pré-estruturadas pela escolha de um design mesmo" objetivado à maneira naturalista. Ao invés disso, no acesso
determinado teoricamente, a qual é repleta de conseqüências. Além bifocal ao mundo, que é típico dos observadores e dos participantes,
disso, observações experimentais podem assumir a função de uma do qual depende inclusive o conhecimento objetivador da natureza,
instância de controle à proporção que passam a contar como poder-se-ia manifestar o resultado de um processo de aprendizado
argumentos que podem ser defendidos contra oponentes. Nesse nível evolucionário.37
(6) Numa visão pragmatista, a qual pretende reconcilia- Kant
"Cf. sobre isso o artigo clássico de SELLARS, W. "Philosophy and the Scien- com Darwin, a tese da ineludibilidade pretende demonstrar que o
tificlmageof Man" (1960), in: xâ.Science, Perceplion andReality. Atascadero cruzamento complementar de perspectivas do saber, ancoradas em
(Cal.), 1991, 1-40.
14 SELMAN, R. Die Entwicklung sozialen Verstehens. 1984; HABERMAS, J. um nível anüopológico profundo, surgiu juntamente com a própria
Moralbewusstsein und kommunikatives Handeln. Frankfurt/M., 1983, 127- forma de vida cultural. A vulnerabilidade do recém-nascido, que é
206. "inacabado" do ponto de vista orgânico, e o longo período de formação
35 Sobre o que se segue, cf. WINGERT, L. "Die eigenen Sinne und die fremde tornam o homem dependente, desde o primeiro instante, de interações
Stimme", in: VOGEL, M. WINGERT, L (eds.) Wissen z.wischen Entdeckung sociais que, no caso dele, mais do que em qualquer outra espécie,
und Konstruktion. Frankfurt/M., 2003, 218-249; id. "Epistemisch nützliche
Konfrontationen mit der Welt", in: WINGERT, L. GÜNTHER, K. (eds.) Die
Òffentlichkeit der Vernunft und die Vernunft der Õffentlichkeit. Frankfurt/ 36 WINGERT
(2003), 240.
M., 2001, 77-105. "HABERMAS, J. (1999), 36 ss.

190 191
atingem a organização e a configuração das capacidades cognitivas. interações socializa a cognição das crianças com a dos membros de
No homem, a existência social se manifesta numa socialização sua espécie. Tal cruzamento de perspectivas se fixa na troca - regulada
comunicativa de cognição e de aprendizagem, a qual se desencadeia gramaticalmente - dos papéis comunicacionais de falante, de
logo no início. Michael Tomasello caracteriza a capacidade cognitiva destinatário e de observador, a partir do momento em que a criança
e social de entender um membro da mesma espécie38 como um ser aprende a dominar, no contexto da aquisição da linguagem, os
que age intencionalmente, já destacada por G H. Mead, como a pronomes pessoais.
conquista evolucionária que separa o homo sapiens de seus parentes Enquanto os chipanzés não conseguem levar membros de sua
mais próximos e o capacita para um desenvolvimento cultural.39 espécie a apontar para objetos, os homens aprendem isso, seja mediante
Os primatas podem agir intencionalmente e distinguir objetos cooperação, seja mediante ensino. E no trato com artefatos culturais
sociais de objetos inanimados; no entanto, membros de sua espécie encontrados já prontos, eles aprendem, por conta própria, as funções
continuam sendo para eles "objetos sociais" num sentido literal porque neles objetivadas. O modo da formação da tradição, a ritualização e o
eles não reconhecem no outro um alterego. Eles não compreendem o uso de instrumentos, que também podem ser observados entre os
outro como um ator que age intencionalmente, o que os impede de chipanzés, não revelam nenhum saber cultural implícito compartilhado
construir juntamente com ele elementos intersubjetivos comuns em intersubjetivamente. Sem intersubjetividade da compreensão não há
sentido estrito; ao passo que as crianças humanas já aprendem, aos objetividade do saber. Sem a "ligação" reorganizadora do espírito
nove meses, por conseguinte, numa fase ainda pré-lingüística, a dirigir subjetivo e de seu substrato natural, que é o cérebro, a um espírito
sua atenção, juntamente com uma pessoa de referência, aos mesmos objetivo, isto é, a um saber coletivo armazenado simbolicamente, não
objetos. Ao assumirem a perspectiva de um "outro", este se transforma são possíveis enfoques proposicionais dirigidos a um mundo colocado
num vis-à-vis, o qual assume em relação a elas o papel comunicativo à distância. Faltam igualmente os sucessos técnicos de um trato
de uma segunda pessoa. A perspectiva comum que já surge nesta idade inteligente com uma natureza objetivada desta maneira. Somente
inicial, da relação original entre uma primeira pessoa e uma segunda, cérebros socializados, isto é, os que conseguem engate em um
é constitutiva para o olhar objetivador que assume distância em relação determinado meio cultural, tomam-se portadores de processos de
ao mundo e em relação a si mesmo: "As novas capacidades cognitivas aprendizagem cumulativos, extremamente acelerados, que se
e sociais, adquiridas, abrem para as crianças a possibilidade de poder desengataram do mecanismo genético da evolução natural.
aprender algo sobre o mundo do ponto de vista dos outros e de poder É bem verdade que a própria neurobiologia faz jus ao papel da
aprender, a partir deste ponto de vista, algo sobre si mesmas."40 Sobre cultura e da socialização da cognição. Wolf Singer distingue entre o
a base da compreensão social, a controvérsia cognitiva torna-se saber congênito, armazenado nos gens e incorporado nas
dependente do trato cognitivo recíproco. O cruzamento da perspectiva circunvoluções do cérebro humano, geneticamente determinados, e o
do observador de estados intramundanos com a do participante de saber adquirido individualmente, armazenado na cultura. A própria
adolescência, a cultura e a sociedade têm uma influência estruturadora
MEAD, G. H. Geist, Identitat undGesellschaft. Frankfurt/M., 1968; cf. também sobre o cérebro; a partir daí, tal influência se manifesta em uma maior
HABERMAS, J. Theorie des kommunikativen Handelns. Vol. 2, Frankfurt/ eficiência: "Até a puberdade, os processos de experiência e de educação
M., 2002.
Sobre o que se segue cf. TOMASELLO, M. Die kulturelle Entwicklung des
marcam a configuração estrutural das redes de nervos no interior do
menschlichen Denkens. Frankfurt/M., 2002. espaço de configuração previsto. Mais tarde, quando o cérebro já estiver
TOMASELLO (2002), 110. mais maduro, tais modificações básicas da arquitetura não são mais
192 193
possíveis. A partir daí, toda aprendizagem limitar-se-á a modificações pragmáticas, as quais não podem ser reduzidas apenas a leis da
da eficiência das conexões existentes. Por conseguinte, o saber sobre natureza. Por que não pensar numa "causação mental" no sentido de
as condições do mundo e sobre as realidades sociais, o qual é adquirido uma programação do cérebro pelo espírito objetivo, ao contrário do
desde o início da evolução cultural, deposita-se em marcas culturais que afirma a tese da determinação do espírito subjetivo pelo cérebro?
específicas dos cérebros individuais. Marcas precoces programam os Singer nega tal possibilidade apoiando-se em três argumentos
processos no cérebro de forma quase tão persistente como os fatores principais, a saber: (a) Nós não sabemos como representar a influência
genéticos, uma vez que ambos os processos se manifestam na causai de um espírito - o qual é inobservável - sobre processos
especificação de padrões de circuitos."41 observáveis no cérebro, (b) Os processos neuronais, que ingressam
Tais asserções parecem sugerir algo como a "programação" do na consciência pelo caminho da atenção, são variáveis, ficando na
cérebro por tradições culturais e práticas sociais e, destarte, uma dependência de um amplo fluxo de processos que permanecem
interação entre espírito e natureza. Todavia, parece que o fato inconteste inconscientes, (c) A neurobiologia não consegue descobrir, no cérebro
de que todas as vivências conscientes e inconscientes são "realizadas" que opera de modo descentralizado, nenhum correlato para o "si
indiferenciadamente por processos descentralizados no cérebro é mesmo" de um ator que se atribui decisões conscientes.
suficiente, aos olhos de Wolf Singer, para excluir uma possível
influência dos processos do agir e do julgar conscientes, regulados (a) De fato, porém, na linha da ineludibilidade das perspectivas
gramaticalmente e armazenados culturalmente, em processos do saber, que são complementares e intercruzadas, coloca-se realmente
neuronais: "Se se admite que a negociação consciente de argumentos o "problema da causação": parece que nosso aparelho cognitivo não
repousa sobre processos neuronais, neste caso, ela tem de estar está preparado para entender de que modo os efeitos dos estados de
submetida ao determinismo neuronal da mesma forma que a decisão excitação neuronais, deterministas, podem interagir com uma
inconsciente." 42 Não obstante isso, a realização neuronal de programação cultural (a qual é vivenciada como uma motivação por
pensamentos não implica necessariamente a exclusão de qualquer tipo argumentos). Ou seja, em termos kantianos: é impossível entender
de programação mental do cérebro.43 como a causalidade da natureza e a causalidade por liberdade possam
entrar em uma ação recíproca. Sem embargo, esse enigma coloca
ambos os lados numa situação embaraçosa. De um lado, continua
(7) O espírito objetivo constitui a dimensão da liberdade da ação. sendo enigmática a "causação mental" de movimentos de corpos,
E na consciência da liberdade, que o acompanha, performativamente, explicáveis neurologicamente, por intenções compreensíveis. Sempre
reflete-se a participação consciente do "espaço dos argumentos", que assimilamos esse tipo de programação à causalidade da natureza
estruturado simbolicamente, no qual se movem espíritos socializados perde-se pelo caminho algo essencial, a saber, a referência a condições
pela linguagem. Nessa dimensão, a motivação racional de ações e de validade, sem a qual os conteúdos proposicionais e os enfoques
convicções se realiza de acordo com regras lógicas, lingüísticas e permaneceriam incompreensíveis.44 Entretanto, o preço a ser pago
pelo outro lado não é menor. O determinismo é obrigado a declarar
41 SINGER (2004), 249 que a autocompreensão de sujeitos que assumem uma posição racional
não passa de auto-engano.
42 Ibid., 251.
«Sobre isso, cf. também KRÜGER, H. P. "Das Hirn im Kontext exzentrischer 44 WINGERT, L. "Die Schere im Kopf. Grenzen der Naturalisierung", in: GEYER
Positionierungen", in; Deutsche Zeitschrifl fúr Philosophie, 52 (2004), 257- (2004), 155-158.
194 195
Os custos do epifenomenalismo não diminuem, nem mesmo práticas comuns. Caracterizamos desta maneira a autocompreensão
quando se caricatura a posição contrária: "Se essa entidade imaterial dos sujeitos que sobressaem no espaço público de uma cultura comum.
e espiritual realmente existe, a qual se apossa de nós e nos atribui Enquanto atores, eles desenvolvem a consciência de que podem agir
dignidade e liberdade, de que modo ela poderia participar de uma desta ou daqueloutra maneira porque são confrontados, no espaço
ação recíproca com os processos materiais que ocorrem em nosso público dos argumentos, com pretensões de validade que os desafiam
cérebro?"45 Como quer que seja, o espírito só "existe", de fato, graças a tomar uma posição.
à sua incorporação em substratos materiais sígnicos, os quais são A idéia de uma "programação" do cérebro pelo espírito desperta
perceptíveis acústica ou oticamente, ou seja, em ações observáveis e imagens da linguagem computacional. No entanto, a analogia com o
exteriorizações comunicativas, por conseguinte, em objetos ou computador cria uma falsa pista à proporção que sugere a imagem
artefatos simbólicos. Ao lado da linguagem diferenciada em termos cartesiana de mônadas da consciência, isoladas, que desenvolvem para
de proposições, a qual constitui a peça-chave das formas de vida si mesmas "uma imagem interior do mundo exterior". E, com isso,
culturais, existem muitas outras formas simbólicas, variados meios e ela falseia a socialização da cognição, que é característica distintiva
sistemas de regras, cujos conteúdos significativos são reproduzidos e do espírito humano. A imagem falsa, no entanto, não é provocada
compartilhados intersubjetivamente. Podemos interpretar tais sistemas pela "programação". Tudo indica que, em um determinado nível de
de símbolos como características emergentes que se formaram junto desenvolvimento antropológico e a partir da interação intensificada
com aquele impulso evolucionário dirigido para a "socialização da dos membros da espécie, nasce, materializada em sinais, uma camada
cognição". de complexos de sentido compartilhados intersubjetivamente e
regulados gramaticalmente. Mesmo que a fisiologia do cérebro não
Afimde evitar um falseamento do status ontológico de um admita uma distinção entre "software1'' e "hardware", esse espírito
espírito "objetivo" incorporado simbolicamente em sinais, práticas e objetivo pode adquirir uma força estruturadora em relação ao espírito
objetos é preciso levar na devida conta dois aspectos importantes: de subjetivo dos cérebros individuais. O próprio Singer fala em "marcas"
um lado, o espírito objetivo surgiu da interação dos cérebros de animais precoces do cérebro, as quais se colocam no contexto da aquisição da
inteligentes que tinham desenvolvido a capacidade de assumir as linguagem. Parece que, por um caminho ontogenético, o cérebro in-
perspectivas uns dos outros; e ele se reproduz, a seguir, pelas práticas dividual adquire as disposições necessárias para se "ligar" aos
sociais e comunicativas dos "cérebros" e dos seus organismos que, programas da sociedade e da cultura.
agora, interagem de um modo novo. De outro lado, o "espírito objetivo" O ceticismo de Wolf Singer baseia-se, acima de tudo, sobre o
mantém uma relativa autonomia em relação a esses indivíduos já que fato de que o observador neurológico não consegue constatar, no
o estoque de significações compartilhadas intersubjetivamente, cérebro ativado por estímulos dos sentidos, nenhuma diferença de
organizado de acordo com regras próprias, assumiu uma determinada reação entre os sinais oriundos do entorno natural e os oriundos do
figura simbólica. E mediante a regulação do uso de símbolos, fixada entorno social. Não somos capazes de dizer se os estados de excitação
gramaticalmente, tais sistemas de significados podem, por seu turno, cerebrais se originam pelo caminho da percepção direta de um "prado
exercer influência nos cérebros dos participantes. No fluxo da em flor" ou de uma percepção correspondente, codificada
socialização de sua cognição forma-se o "espírito subjetivo" dos simbolicamente - por exemplo, pela contemplação de um quadro
participantes individuados que tomam, ao mesmo tempo, parte em impressionista que retrata esse prado em flor ou por uma recordação
desse prado em flor provocada pela leitura de um romance. E caso
45 SINGER (2004), 239 s. tenhamos diferenças sistemáticas, estas não podem ser explicadas pela

196 197
codificação simbólica dos estímulos dos sentidos, isto é, como uma para a irrelevância neurológica da distinção entre processos conscientes
conseqüência da interpretação do prado em flor levada a cabo pelo e inconscientes: "É certo, apenas, que as variáveis, sobre as quais
estilo de um Renoir ou pela complementação de significação no repousa o processo de avaliação, são de natureza abstrata no caso da
contexto de uma ação num romance: "Por isso, acordos culturais e deliberação consciente e presumivelmente podem ser interligadas
interações sociais influenciam as funções do cérebro na mesma seguindo regras mais complexas do que no caso das decisões que são
proporção que os outros fatores neuronais e seguindo padrões de tomadas, preponderantemente, seguindo motivos inconscientes."47
excitação que neles se formam. A atividade dos neurônios pode ser Entretanto, só conseguem atingir o limiar da consciência as vivências
provocada por estímulos normais dos sentidos ou por sinais sociais capazes de atrair sobre si a atenção, podendo ser fixadas no celeiro do
[...] isso é indiferente para as decorrências de funções nas redes instante, articuladas lingüisticamente e interpeladas a partir da memória
neuronais."46 declarativa. E as vivências formam, quando muito, ilhas fugazes no
Ninguém duvida da existência de uma conexão causai universal oceano dos processos inconscientes que se realizam seguindo a linha
entre estados observados neurologicamente; não obstante isso, a de desenvolvimento de padrões mais antigos, situados em níveis muito
circunstância de que programas culturais têm de ser realizados por mais profundos.
meio de operações do cérebro não obriga, de per si, a um nivelamento
da diferença entre a compreensão da significação de sinais percebidos A prioridade genética atribuída aos processos inconscientes
simbolicamente e o processamento de "estímulos dos sentidos", sugere que os processos conscientes também dependem, da mesma
"comuns", não-codificados. Entretanto, o modelo causai,pressuposto forma que aqueles, de leis naturais deterministas. Em que pese isso,
sem discussão, exclui a influência de um "espírito" programador sobre as características diferenciais há pouco mencionadas não conseguem
processos do cérebro. Certamente o cérebro não aparece imediatamente explicar por que processos de um tipo de consciência deveriam estar
nos conteúdos proposicionais dos sinais de seu entorno, expressos subtraídos do contexto causai que é imposto ao outro: "Nas variáveis
simbolicamente, mas mediado por um saber coletivo armazenado de decisões conscientes trata-se, de maneira precípua, de algo que foi
simbolicamente, que se construiu através das realizações cognitivas aprendido tardiamente, a saber: de saber cultural estilizado, de
das gerações passadas. Por meio das características físicas dos sinais colocações éticas, de leis, de regras do discurso e de normas de
recebidos, o cérebro, que se comporta como um espírito subjetivo, comportamento consensuais. Estratégias de avaliação, valorações e
descobre complexos de sentido regulados gramaticalmente que conteúdos de saber implícitos, que entram no cérebro por intermédio
delimitam o espaço público do mundo da vida compartilhado de dados genéticos preliminares, de impregnação infantil ou de
intersubjetivamente, destacando-o de um entorno, agora objetivado. processos de aprendizagem inconscientes furtando-se, por isso, à
E nesse "espaço dos argumentos" estrutura-se o agir e o julgar conscientização, não se encontram à disposição na qualidade de
conscientes, constitutivos para consciência da liberdade que os variáveis para decisões conscientes."48
acompanha. Mesmo assim, a estratificação genética ainda não poderia ser
tomada como um argumento inteiramente concludente a favor de uma
(b) O fenômeno da liberdade da vontade só aparece na dimensão interpretação determinista. Porquanto, para chegar a tal conclusão
das decisões conscientes. Uma segunda objeção apela, por esta razão, seria necessário demonstrar a priori, que o cérebro não consegue
47 Ibid., 248.
Ibid., 249.
48 Ibid., 252.
198 199
realizar processos culturais nem desenvolvê-los mediante processos totalidade, a percepções coerentes e a um comportamento coordenado".
conscientes. É certo que os programas culturais também não Disso tudo resulta o assim chamado problema de ligação: "de que
conseguem obter eficácia no comportamento sem estarem apoiados modo os inumeráveis processos de elaboração, que ocorrem
em processos realizadores do cérebro. A dependência da vida simultaneamente nas diferentes secções dos córtices cerebrais podem
consciente do substrato orgânico reflete-se nele mesmo como coordenar-se a ponto de viabilizar interpretações coerentes dos variados
consciência do organismo (Leib). Durante o agir, nós sabemos que sinais dos sentidos, determinações claras para determinadas opções
dependemos de um corpo (Kõrper), com o qual nos identificamos de ação e reações motoras coordenadas?"49
enquanto substrato orgânico (Leib). Entretanto, já que nós mesmos Sem embargo, tal observação não pode servir como argumento
somos esse organismo (Leib), experimentamos o organismo auto- contra a liberdade da vontade, a não ser que se admita a premissa,
regulador como um conjunto de condições possibilitadoras. O "poder segundo a qual, a auto-referência do agente responsável pressupõe
II agir" caminha junto com a consciência do substrato orgânico (Leib). uma central de comando para a qual existe um correlato neuronal. Tal
1 Ora, o caráter, o substrato orgânico e a história da vida não serão idéia integra a herança da filosofia da consciência, a qual centra o
percebidos como determinantes causais enquanto não definirem, na sujeito vivenciador na autoconsciência e o contrapõe ao mundo tido
qualidade de um organismo (Leib) próprio, de um caráter próprio e de como uma totalidade de objetos. O fato de a crítica neurológica julgar
uma história da vida própria, o "si mesmo" que faz com que as ações necessário lançar mão da imagem da "instância-eu", hierárquica, revela
se tornem nossas ações. que a neurologia e as ciências da cognição mantêm um parentesco
secreto com tal filosofia da consciência. Partindo da relação bipolar
(c) A terceira objeção refere-se a esse "si mesmo" da autocom- entre o "eu" e o "mundo", ou melhor, entre "cérebro" e "entorno", os
preensão de atores - construído socialmente - os quais partem da dois lados chegam ao mesmo paradigma do espírito, que é tido como
idéia de que podem agir desta ou daquela maneira. A neurobiologia, uma consciência subjetiva que se descobre na "perspectiva-da-
no entanto, busca em vão uma instância capaz de coordenar tudo no primeira-pessoa" de um sujeito que possui vivências. Tal conceito de
cérebro e que poderia ser subordinada ao "eu" experimentado "mental", comum aos dois lados, é criado quando se desfoca a
subjetivamente. Singer conclui, a partir dessa observação neurológica, perspectiva da segunda pessoa, à qual uma primeira pessoa se refere
que o caráter da consciência do eu é ilusório e que o valor posicionai enquanto participante de uma prática comum.
da consciência da liberdade é "epifenomenal". Ele acentua que a "nossa O uso do pronome pessoal da primeira pessoa singular revela,
intuição se engana dramaticamente nesse ponto. Diagramas dos segundo Wittgenstein, que atrás do "dizer-eu", reificador, não se
circuitos de entrecruzamento das secções dos córtices cerebrais não esconde nenhuma instância que pudesse ser tomada como uma
conseguem detectar nenhum indício da existência de um centro de entidade no mundo, com a qual pudéssemos nos relacionar.50 Além
convergência singular. Não existe nenhuma central de comando, [...] da função de índice, a expressão "eu" assume ainda diferentes funções
a partir da qual o 'eu' pudesse constituir-se. Cérebros de animais gramaticais. No uso expressivo da linguagem, as frases formadas com
vertebrados altamente desenvolvidos apresentam-se, ao invés disso,
como sistemas organizados distributivamente, extremamente
entrelaçados, nos quais um número gigantesco de operações é realizado 4"Ibid., 243.
simultaneamente. Tais processos paralelos organizam-se sem a 5üCf.,em conexão com o argumento wittgensteiniano das linguagens privadas,
necessidade de um centro de convergência singular e levam, em sua a análise excelente de TUGENDHAT, E. Selbstbewusstsein und
Selbstbestimmung. Frankfurt/M., 1979, aulas 4 e 6.
200 201
auxílio de "eu" mais uma expressão mentalista, vivenciais, preenchem
uma função de exteriorização de vivências que o público atribui ao
falante. A realização de atos ilocucionários, que são verbalizados com
o auxílio de "eu" mais uma expressão performativa, preenche a função
não-temática de reclamar para o falante, enquanto iniciador de ações
imputáveis, um lugar na rede de relações sociais.51 Em nosso contexto,
é importante destacar que o "eu" só preenche todas essas funções 7. "EU MESMO SOU UM BOCADO DE NATUREZA" -
enquanto componente de um sistema de pronomes pessoais sem ADORNO SOBRE O ENLAÇAMENTO ENTRE RAZÃO E NATUREZA.
assumir, no entanto, nenhuma posição privilegiada. CONSIDERAÇÕES SOBRE A RELAÇÃO ENTRE LIBERDADE E INDISPONIBILIDADE.
O sistema dos pronomes pessoais funda uma rede descentrada
de relações simetricamente conversíveis entre primeiras, segundas e
terceiras pessoas. Ora, se as relações sociais, que alter ego assume O jubileu de Adorno está ricamente guarnecido: temos livros,
com o falante, possibilitam uma relação auto-referencial de ego, as biografias, álbuns com fotografias, conferências - e inumeráveis
instâncias de referência - que por natureza são relacionadas - eventos da mídia, de voyeurs e de amantes. Não que Adorno
constituem variáveis em um sistema de comunicação abrangente. desprezasse tudo isso. Todavia, tal interesse vital de uma esfera pública
Podemos entender o "eu" como uma construção social52 e, nem por mais ampla e ruidosa contrasta com as hesitações mais silenciosas
isso, ele deve ser tido como uma ilusão. dos colegas de ofício que, estimulados por este mesmo evento, voltam
Na consciência do eu reflete-se, de certa forma, o engate do a se debruçar sobre a obra do grandefilósofoe sociólogo - e se deparam
cérebro individual em programas culturais que se reproduzem somente com inúmeras dificuldades, aparentemente insuperáveis. A teoria da
por comunicação social, ou seja, distribuídos pelos papéis sociedade e a filosofia de Adorno encontram-se ainda mais distantes
comunicativos de falantes, destinatários e observadores. Os papéis da das discussões atuais do que o eram durante a "Adorno-Konferenz"
primeira, da segunda e da terceira pessoa, reciprocamente realizada neste mesmo local, vinte anos atrás.1 O evento de hoje
intercambiáveis, servem também para a inserção individuadora do pretende examinar se a teoria ainda tem algo a oferecer para a
organismo singular no "espaço dos argumentos", o qual é público, atualidade: qual a relevância dofilósofoe sociólogo Adorno no
permitindo aos indivíduos socializados, na qualidade de autores contexto das atuais controvérsias? Para enfrentar tal questão escolhi o
responsáveis e livres, agir e tomar posição quanto a pretensões de tema da liberdade que Adorno abordou nas suas aulas sobre filosofia
validade. moral2 e na Dialética negativa,3 especialmente nos pontos que mantêm
um diálogo com a filosofia moral de Kant.
51HABERMAS, J. "Individuierung durch Vergesellschaftung", in: id.
Nachmetaphysisches Denken. Frankfurt/M., 1988, 187-241. Para acompanhar 1 FREIDEBURG, L. v. e HABERMAS, J. (eds.) Adorno-Konferenz. Frankfurt/
a discussão entre E. Tugendhat, Dieter Henrich e eu cf. MAUERSBERG, B., M., 1983.
Der Lange Abschied von der Bewusstseinsphilosophie. Tese de dout. Frank- 2 ADORNO, T. W. Probleme der Moralphilosophie (1963), Frankfurt/M., 1996.
furt/M., 1999. No que se segue essa obra será citada pelas iniciais "PM".
"Cf. sobre isso a introdução in: DÓBERT, R., HABERMAS, J. e NUNNER- 3 ADORNO, T. W. Negative Dialektik, in Gesammelte Schriften. Vol. 6. Frank-
WINKLER (EDS.) Entwicklung des Ichs. Colônia, 1977, 9-31. furt/M., 1973. No que se segue, essa obra será citada pelas iniciais "ND".

202 203
Como conseqüência dos progressos acelerados nas ciências conforme leis, de um estado com um outro que o precede."4 Sua
biológicas e nas pesquisas sobre a inteligência artificial, os princípios argumentação visará a dissolução da antinomia que envolve liberdade
naturalistas adquiriram uma nova relevância no âmbito da filosofia e determinismo. E com tal intuito, ele procede a um deslocamento
do espírito. E na seqüência, a antiga disputa sobre determinismo e semântico no conceito de natureza, o que dará origem a uma série de
liberdade encontra eco, surpreendentemente, nas próprias disciplinas conseqüências. Ele subordina o conceito cientificista de natureza, isto
das ciências naturais. Ao menos aqui, em nossa terra, onde - ao contrá- é, o domínio de objetos das ciências naturais, cujas explicações são
rio dos Estados Unidos - os pressupostos de um naturalismo cientifi- causais, ao conceito schellingiano, romântico, de uma "natureza
cista não conseguiram lançar raízes muito profundas na tradição filosó- naturante" (natura naturans) - de uma história da natureza que pode
fica, apesar da ampla difusão de uma mentalidade secular. Nós conti- ser decifrada na "nossa" retrospectiva como pré-história do espírito.
nuamos tentando uma reconciliação entre Kant e Darwin e nos Pelo caminho de uma assimilação à natureza objetivada e disponibi-
propomos uma compreensão melhor do estado de coisas aparentemen- lizada, surgiu, no interior da esfera do espírito, uma segunda natureza,
te paradoxal que Adorno formula da seguinte maneira: "Que a razão é que se mostra como que invertida, na figura de relações sociais que se
algo distinto da natureza e, mesmo assim, um momento dela: é sua apresentam "com a aparência de natureza" (naturwuchsig). O estigma
pré-história que se tornou sua determinação imanente."(ND, 285). de tal natureza invertida reside na força causai de motivos inconscientes
Tal formulação é fruto de uma intuição, segundo a qual, os nos quais a causalidade segundo leis da natureza parece confundir-se
próprios sujeitos que se guiam pela razão e, nesta medida, agem com a "causação por argumentos", a qual não contradiz a
livremente, não estão totalmente liberados do evento da natureza. Eles autocompreensão de um autor capaz de agir de modo responsável.
não podem desligar-se de sua procedência natural ao tentarem a Desta forma, explicações psicanalíticas do desenvolvimento da moral
transferência para um espaço inteligível e originário. Entretanto, tal constróem uma ponte entre a liberdade e o determinismo.
renúncia ao dualismo kantiano, que criara um hiato entre o reino da É bem verdade que tal concepção de uma história da natureza
liberdade transcendental e o reino dos fenômenos da natureza, que sai dos trilhos não é capaz de solucionar realmente a antinomia;
conectados segundo leis, vê-se confrontada, agora, com o seguinte mesmo assim, ela nos fornecerá, no final, um aspecto interessante.
problema, o qual reproduz basicamente, em fórmulas novas, o velho Debruçar-me-ei, inicialmente, sobre a fenomenologia da consciência
problema: de que modo uma liberdade da vontade, presa à natureza, cotidiana da liberdade, a qual nos acompanha intuitivamente e que
pode encontrar, de modo compreensível, um lugar num mundo fechado Adorno desenvolveu de passagem. Nela já se encontra um conceito
de modo causai? "Se os sujeitos empíricos podem realmente agir por destranscendentalizado de liberdade condicionada pela natureza, o
liberdade, então a unidade kantiana da natureza - fundamentada por qual, todavia, deixa intocada a antinomia entre a liberdade e o
categorias - está quebrada, porque os próprios sujeitos fazem parte da determinismo (I). A intuição adorniana sobre a rememoração da
natureza. Nesse caso, porém, a natureza revelaria uma falha que estaria natureza no sujeito tem na mira a liberdade no sentido pretensioso de
em contradição com a unidade do conhecimento da natureza, alvo uma emancipação da "aparência de natureza" (Naturwüchsigkeit). Ta
principal das ciências da natureza [...]." (PM, 150 s.) crítica de uma razão entregue à natureza (naturverfallen) também não
Nessa passagem, Adorno reforça expressamente a caracterização consegue solucionar o enigma de uma razão entrelaçada com a
kantiana das ciências naturais, a fim de relembrar a aporia que deriva natureza, desenvolvido na terceira antinomia kantiana (II). Não ob-
da concepção, segundo a qual, a vontade livre é incompatível com o
conceito de causalidade da natureza entendida como "conexão, 4 KANT, I. Kritik der reinen Vervunft, B, 560.
204 205
stante isso, os dois momentos da liberdade condicionada pela natureza, distante, na retaguarda, que não é fácil trazê-la à luz do dia. O
desenvolvidos especulativamente, isto é, a indisponibilidade da importante, porém, é que o caráter performativo chama nossa atenção
natureza subjetiva e a indisponibilidade dos posicionamentos de um para a perspectiva de participantes, a única capaz de estabelecer um
"outro", não-idêntico - colocam-nos no centro das atuais polêmicas acesso à auto-experiência do sujeito que age livremente.
sobre princípios naturalistas (III). Opõe-se a isso o clássico arranjo experimental que faz de nós
"asnos de Buridan"*, afimde isolar o momento da liberdade de arbítrio
I. Sobre a fenomenologia da consciência da liberdade. que se encontra na possibilidade de agir desta ou daquela forma. Ele
nos convida a assumir a perspectiva de uma pessoa que se observa a
Para uma fenomenologia não-distorcida da consciência da si mesma, mesmo que a consciência da liberdade, presente
liberdade de sujeitos agentes é decisivo um primeiro lance: a visão performativamente, se esquive da perspectiva de um observador.
não pode ficar presa ao sujeito da auto-observação nem à subjetividade Adorno não suporta tal tipo de experimento. Ao levantar o livro que
da vivência. A consciência da liberdade é consciência implícita da se encontra diante dele e ao deixá-lo cair, a seguir, ele demonstra a
ação. O olhar fenomenológico há que estar dirigido para a realização "liberdade de arbítrio" com a finalidade de chamar a atenção dos seus
da ação, onde tentará sondar o saber que funciona como pano de fundo estudantes para o espaço público dos argumentos, o qual não é levado
e que acompanha de modo intuitivo. Entretanto, o levar em conta de na devida conta pelo conceito solipsista da liberdade de arbítrio.
alguma coisa que aparece de modo não-temático enquanto realizamos Porquanto aquela exibição, absurda, deixa de sê-lo somente no
outra coisa, de modo intencional e temático, possui caráter horizonte de expectativas sociais de um estabelecimento de ensino:
performativo. Adorno destaca esse ponto quando, ao posicionar-se
contra o caráter supostamente inteligível da liberdade, leva a campo a "Por conseguinte, retomando, mais uma vez, o exemplo idiota, se eu
"atualização temporal" da auto-experiência do agente: "Não deixo cair o livro, num primeiro momento isso é determinado como
inventável, como a liberdade e, em princípio, atributo do agir tempo- minha decisão livre; existe, todavia, uma série de condições que podem
ral [...], deve poder ser predicado de algo radicalmente intemporal." nos levar a pensar o mesmo. Por exemplo, eu me sinto levado a
(ND, 251) demonstrar para vocês o fenômeno da assim chamada ação por
Desta maneira, o sentido ilocucionário de atos de fala se nos liberdade e não tenho à mão nada melhor do que esse maldito livro;
torna presente quando "fazemos" asserções sem tematizá-las então eu o deixo cair e isso pode ser aplicado a todo tipo de coisas
explicitamente como asserções, objeções, perguntas ou conselhos. De [...]." (PM, 80).
certa forma, no entanto, tal saber situa-se apenas na superfície. Basta A pessoa que age por liberdade já se movimenta em um espaço
trocar a perspectiva do participante pela de uma terceira pessoa para intersubjetivo, onde outras pessoas podem interpelá-la perguntando,
que o sentido ilocucionário de uma ação de fala se transforme,
imediatamente, no conteúdo de uma nova descrição anafórica. Dessa
maneira, o "saber como se faz algo" pode ser transposto para um " Tal expressão é utilizada, em geral, para caracterizar a situação de alguém
"saber de algo". Não obstante isso, não se pode analisar qualquer tipo obrigado a escolher entre dois objetos de igual valor. É atribuída a Johannes
de prática à maneira dos jogos de linguagem wittgensteinianos, isto é, Buridanus, lógico efilósofoda natureza, durante vinte anos reitor da Sorbonne,
como uma observância de regras conhecidas implicitamente. na primeira metade do século XIV. Trata-se da imagem de um asno esfomeado
Porquanto a consciência da liberdade, que acompanha tacitamente que se encontra no meio, atraído por dois feixes de feno eqüidistantes. Ainda
de acordo com a tradição, o animal iria morrer de fome, já que se sentiria
todas as nossas ações, está situada num nível tão profundo ou está tão atraído, em igual medida, pelos dois lados (n.t.).

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por exemplo: "Por que o senhor levanta o livro e o deixa cair Sentir-se livre significa, em primeiro lugar, poder iniciar algo
novamente?" Com isso tocamos em um primeiro aspecto do conteúdo novo. No que tange a esse "iniciar", Adorno se situa, de modo
daquilo que temos intuitivamente presente quando agimos. Um ator inteiramente convencional, num ponto próximo à terceira antinomia
não se sentiria livre se não pudesse, quando necessário,prestar contas kantiana, porquanto, segundo ele, sujeitos que agem livremente
dos motivos de seu agir. Reações involuntárias ou emoções tal como, intervém em processos regulados por leis naturais e "fundam", como
por exemplo, o enrubescer e o empalidecer ou ainda desejos cegos ele diz, novas séries de causas. O agente que toma uma iniciativa
não entram na categoria do agir. Só podem ser atribuídas a um sujeito supõe que, com isso, ele está colocando algo em movimento, o que
as ações que deixam transparecer uma intenção. No agir cotidiano não aconteceria de outra forma. Já que não é possível colocar, no
nós podemos sentir-nos intuitivamente "livres", porém, somente enfoque performativo, a questão sobre o modo como nossas ações
quando nossas ações puderem ser interpretadas como a execução de podem "criar um nexo objetivo com a causalidade da natureza".
um determinado propósito, isto é, como exteriorização da vontade. Entretanto, a iniciativa tem de ser experimentada como própria
Caso contrário, nossas ações não são passíveis de imputação.5 O que e, para que isso aconteça, toma-se necessário um momento de auto-
distingue a vontade de uma pulsão cega são os argumentos. Ora, há
muitos tipos possíveis de argumentos capazes de levar a uma decisão adscrição. Eu tenho de referir-me a "mim" mesmo, reflexivamente,
refletida. E uma vez que a vontade sempre se movimenta em meio a como sendo, em última instância, o autor competente das colocações
argumentos, o sujeito agente pode ser interrogado sobre "seus de uma nova série de determinantes. É preciso que o fato de eu tomar
argumentos". Além disso, já que a razão é a faculdade dos argumentos, uma iniciativa em relação a algo, de eu agir desta ou daquela maneira
torna-se compreensível a asserção de Adorno, segundo a qual, "a razão, "dependa de mim". A fenomenologia da consciência da liberdade capta
na figura da vontade, confisca a pulsão" (PM, 190). A razão as suposições de uma autoria responsável, levadas a cabo
raciocinante forma a vontade lançando mão das sensações e emoções performativamente, considerando dois aspectos até agora abordados,
difusas, isto é, do seu "material". (ND, 327). a saber, a vontade moldada por argumentos e o reiniciar de algo.
Tal formulação, até certo ponto brusca, a qual desloca Kant para Convém perguntar, todavia: quem é esse "si mesmo" da auto-atribuição
a perspectiva de Freud, dá a entender, todavia, que esse primeiro de ações das quais me sinto autor? Para responder a tal pergunta,
aspecto da consciência da liberdade - a racionalidade da vontade como Adorno situa-se no contexto de uma disputa com o conceito kantiano
base da responsabilidade para com outras pessoas - não esgota o de liberdade inteligível.
sentido da liberdade. Porquanto a razão, enquanto faculdade impessoal, Ele afirma que o meu substrato orgânico (Leib) e minha história
poderia perpassar anonimamente a vontade de qualquer tipo de sujeito de vida constituem, juntos, o ponto de referência das ações que me
sem abrir nenhum espaço para um agir próprio da respectiva pessoa. são atribuídas.
Em que pese isso, quem age tendo consciência da liberdade entende- A espontaneidade de "meu agir", presente na experiência de si
se como autor de suas ações. Um olhar mais circunspeto não pode mesmo, de um agente, não brota de nenhuma fonte anônima, mas de
ignorar o fato de que, nessa consciência da autoria se ligam dois um centro que sou eu mesmo, com o qual, portanto, eu me identifico.
aspectos distintos, a saber, o de que eu tomo uma iniciativa e o de que Kant localizara a fonte de uma referência consigo mesmo na
sou eu e somente eu que tomo tal iniciativa. subjetividade transcendental da vontade livre, no eu "noumenal".
Todavia, caso se entenda a vontade livre como idêntica à vontade
5 TUGENDHAT, E. "Der Begriff der Willensfreiheit", in: id. Philosophische racional, o eu individual dificilmente poderá fundar-se numa vontade
Aufsatze. Frankfurt/M., 1992, 334-352. livre. Pois tal vontade livre não teria força individuadora, já que sua
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estrutura dependeria de uma razão impessoal. O lance destranscenden- A centração de minha existência, experimentada no modo de ser
talizador, de Adomo, desenvolvido numa direção oposta, principia orgânico, é condição necessária para uma referência reflexiva a mim
com uma diferenciação que introduz uma cunha entre o juízo e o agir. como autor de minhas ações, porém, não suficiente. O soma é o
Para que os bons argumentos não produzam apenas uma vontade substrato orgânico da vida de uma pessoa insubstituível fisicamente
"boa", porém, impotente, mas uma ação correta, é necessário que a que adquire características de um indivíduo inconfundível no decorrer
simples consciência venha "acompanhada de algo mais": "A práxis da história de sua vida. Na passagem para o agir não entra em cena
necessita também de algo diferente que não se esgota na consciência, apenas o impulso corporal - a "mão que estremece" - mas também a
ou seja, mais precisamente, de algo somático, inclinado para a razão, história da vida como moldura do cuidado existencial para com o
porém, qualitativamente distinto dela."(ND, 228). O elemento prático próprio bem, que sempre vem antes. A consideração racional só entra
que, na realização do agir e na concretização do propósito, ultrapassa em jogo na forma de uma persecução inteligente de fins próprios. A
o elemento teórico dos bons argumentos, é descrito por Adomo como primeira sublimação de emoções, de sentimentos e impulsos, imediata,
"impulso", como "aquilo que desde sempre salta para fora", como surge de um desejo de felicidade já refrato reflexivamente, o qual se
"espontaneidade que Kant transplantou para a esfera da consciência lança cada vez mais para frente. Retroligada à existência somática,
pura" (ND, 229). uma vontade ética esboça o projeto de uma autocompreensão indi-
Nesse "elemento que vem juntar-se", que é, ao mesmo tempo, vidual à luz do qual o cuidado moral pode ser integrado no interesse
mental e somático, e que, portanto, também ultrapassa a esfera da simétrico de outros.
consciência à qual pertence, faz-se valer o substrato orgânico de um Aberta para reflexões morais, porém, inicialmente auto-
corpo; e para tê-lo como meu corpo eu tenho de ser esse corpo (Kõrper) referencial, a vontade ética é a força formadora do caráter constituindo,
enquanto soma (Leib).6 Eu experimento a natureza subjetiva "inte- juntamente com a autocompreensão pessoal, um "si mesmo" que pode
rior" no modo da existência somática que eu vivo enquanto tal: "Kant dizer "eu" a si mesmo. Adomo reconhece no "caráter" que transforma
inverte tal estado de coisas. Por mais que se sublime, com consciência
crescente, aquilo que se junta e, inclusive, por mais que o próprio a pessoa em um indivíduo, "esse meio termo entre a natureza e o
conceito da vontade seja formado, com isso, como algo substancial e mundus intelligibilis, o qual (caráter) Benjamin contrasta com o
uníssono - a forma de reação motora seria liquidada inteiramente; destino" (ND, 237). A razão prática e a liberdade moral, que foram
caso a mão não mais se contraísse, não haveria mais vontade."(ND, objeto dos esforços kantianos, só se desenvolvem em contextos da
229). A base de referência do "ser si mesmo" (Selbstsein) e da auto- história das vidas de pessoas preocupadas com o seu próprio bem.
atribuição das ações "respectivamente minhas" não é vontade racional Podemos ver agora que a fenomenologia da consciência da liberdade
enquanto tal, mas natureza subjetiva que acolhe tal vontade, seu que se propõe elaborar uma explicação de aspectos da autoria
enraizamento orgânico na natureza vivenciada de minha vida vivida responsável presentes até mesmo em ações ingênuas, ainda não se
somaticamente. refere à "vontade livre" no sentido kantiano estrito. Já que o sentido
intuitivo da autoria responsável refere-se a todo tipo de ações, não
6 Helmut Plessner escolhe o dualismo entre "ser corpo" {Leib) e "ter um corpo" apenas ás ações morais.
(Kõrper) como chave para análise da "posição excêntrica" do homem. Cf., Adomo descreve tal consciência da ação em geral ou experiência
id. Die Stufen des Organischen, Gasammelte Schriften. Vol. IV, Frankfurt/ de liberdade - ainda não especificada de acordo com argumentos
M., 1981. M. Weingarten retoma esse motivo no contexto da bioética. Cf. id. pragmáticos, éticos ou morais - sem projetá-la para um eu inteligível
Leben. Bibliothek dialektischer Grundbegriffe. Bielefeld, 2003. situado além da natureza e da história. Sua descrição aponta para um
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sujeito que procede da natureza e da história levado por sensações e problema da combinabilidade entre liberdade e causalidade da
impulsos, o qual se constitui como um "si mesmo" que age natureza. Porque o agente não se sente, enquanto tal, submetido à
responsavelmente apoiado em seu modo de existir somático e por natureza à qual ele se contrapõe e na qual ele intervém. Tampouco ele
intermédio da força individualizadora de cuidados éticos para com a pode sentir-se dependente da própria natureza subjetiva, pois, na
própria biografia. Sob o ponto de vista genético, a relação entre natureza espontaneidade de seu agir, enquanto "soma" que ele é, ele se sabe
e razão é assimétrica; - num bom sentido darwinista - uma resulta da idêntico a ela. Sob a premissa de ser uma só coisa com seu soma, a
outra: "Surgindo efemeramente desta, a razão é, ao mesmo tempo, estrutura de condições da natureza interior lhe aparece como conjunto
idêntica e não-idêntica à natureza."(ND, 285). Em suma, após a (Ensamble) de condições possibilitadoras da própria liberdade. E à
destranscendentalização da vontade livre, não é mais possível proporção que o substrato orgânico se introduz de modo determinante,
determinar os limites entre a razão e a natureza como fronteiras entre enquanto natureza de instintos, na biografia, o agente se reconhece
um inteligível e um empírico, já que a linha divisória passa a correr como o autor que toma posição frente aos próprios impulsos que ele
"em meio a uma empiria" (ND, 213). Sem embargo, convém perguntar, processa transformando-os em argumentos motivadores.
em que sentido se deve entender, aqui, o conceito de "natureza" e de Isso também vale para argumentos éticos do agir pelos quais o
causalidade natural. caráter e a história da vida conseguem motivar racionalmente uma
A proporção que Adorno retira a vontade - guiada pela razão - vontade. Como no caso da identificação com o próprio corpo {Kõrper)
da esfera do inteligível e a situa nos domínios da experiência corporal e com as tendências, trata-se, tanto aqui como lá, de um ato de
e das biografias individualizadoras de pessoas que agem, ele substitui apropriação, ou melhor, de um ato de identificação mais ou menos
o conceito de liberdade incondicionada, aporético, pelo conceito de consciente capaz de explicar porque as influências cunhadoras da
uma liberdade procedente da natureza. Na perspectiva do agente que identidade, oriundas da socialização e do entorno, não são sentidas
se entende como autor de ações responsáveis, tal conceito de uma como um destino que limita a liberdade. Em princípio, a criança pode
liberdade condicionada pela natureza e inserida em contextos da posicionar-se, numa visão retrospectiva, quanto aos próprios processos
história de uma vida ainda não oferece nenhum enigma. Porquanto, de formação e decidir quais formas de vida culturais, tradições ou
no processo do agir, a natureza se nos apresenta apenas frontalmente modelos são "determinantes" - a ponto de ela apropriar-se deles - e
como entorno, como uma esfera - determinada por leis da natureza - quais não são. Deixar-se determinar por isso não constitui obstáculo à
de condições limitadoras, de ocasiões convidativas e de meios liberdade, já que faz parte dela. O agente só pode experimentar os
disponíveis. A causalidade natural que entra em jogo a tergo é argumentos que resultam de seu "caráter" e de seu surgimento histórico
desfocalizada no decorrer da realização da ação - porque, na como uma coação quando ele se coloca, de certa forma, "ao lado de si
perspectiva participante, a visão não consegue atingi-la. mesmo", passando a considerar a história da sua própria vida como
A estabilidade da consciência da liberdade pode ser ameaçada algo indiferente, destituído de qualquer tipo de valor.7
reflexivamente por um saber proveniente do enfoque objetivador de
um observador da natureza objetiva - ou da natureza constituída pelas
ciências experimentais. Os motivos de nossas ações somente 7 Deixar-se determinar não constitui limitação da liberdade, e sim, uma forma
conseguem emaranhar-se contra-intuitivamente na complexa rede do de possibilitação dela. Cf. sobre isso SEEL, M. Sich bestimmen lassen. Frank-
evento do mundo, fechado e entrelaçado de modo causai, quando furt/M., 2002, 288: "Quem não fosse determinado em vários sentidos não
abandonamos a perspectiva de um participante e passamos a adotar a conseguiria determinar-se a si mesmo [...]. O ser determinado é um respaldo
de um observador. Na consciência do ator não pode colocar-se o constitutivo da determinação de si mesmo."

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Os argumentos e a troca de argumentos criam o espaço lógico incondicionalidade e condicionalidade. 10 Em que pese isso, a
para a configuração da vontade livre. Os argumentos podem, liberdade inteligível - desprendida do mundo - não pode ser negada
certamente, obrigar, por exemplo, alguém a modificar sua opinião. de modo incorreto. Adorno tem na mente a imagem de uma razão
Todavia, bons argumentos conduzem forçosamente a uma que procede da natureza e permanece enlaçada com ela. A natureza
compreensão perspicaz; mas não podem confinar (einschranken) a experimentada como conjunto das condições que possibilitam a
unidade de uma vontade - que é livre somente enquanto vontade liberdade abrange os impulsos corporais de uma existência
razoável.8 A "coação" inerente aos argumentos não deve ser vinculada a um soma (Leib), bem como aspirações e modos de
interpretada no sentido de uma limitação da liberdade. Antes, pelo sentir, por conseguinte, o "material" acessível à auto-experiência,
contrário, eles são constitutivos para a consciência da liberdade que a partir do qual é possível forjar, na flama das considerações
constitui a folha de contraste para as experiências da não-liberdade. discursivas, uma determinada vontade. A vontade livre é
Nesse contexto, Peter Bieri afirma, com razão: "A liberdade confiável determinada pela força da motivação de considerações que refletem
da decisão consiste no fato de que não se pode decidir diferentemente não somente sobre desejos e representações próprias, mas também
daquilo que temos por correto".9 Argumentos podem motivar ou causar sobre condições, ocasiões, meios e possíveis conseqüências. In-
ações, porém, é preciso que o sujeito que reflete esteja convicto de clusive, aos olhos do agente, tais pensamentos formadores da
sua força de imposição. Em processos de avaliação prática, os vontade nascem de sua natureza subjetiva; porém, eles não podem
argumentos adquirem sua força - capaz de motivar ações - pelo fato ser, na sua visão, projetados, ao mesmo tempo, para o interior da
de serem decisivos para uma ação alternativa. E à medida que eles, natureza objetivada de modo cientificista.
por intermédio disso, assumem a função de motivos, não adquirem Os complexos de condições que um sujeito assume in actu, na
sua eficácia por leis da natureza, mas por regras gramaticais. A conexão qualidade de autor de suas ações, refletem-se nessa consciência, porém,
lógico-semântica, a qual liga uma asserção a outra, que a precede, não não como complexos determinadores no sentido da causalidade da
é do mesmo tipo que a conexão nomológica entre um estado e um natureza, kantiana. Porque, se é verdade que os fenômenos da
outro estado precedente. consciência da liberdade, que acompanham de modo não-temático,
são acessíveis no enfoque performativo de um agente, só podemos
II. Liberdade como emancipação da "aparência de natureza" - atribuir à natureza a causalidade no sentido de uma conexão regular
Rememoração da natureza no sujeito. de estados que se sucedem um ao outro quando adotamos o enfoque
objetivador de um observador. Por isso, seria necessário, para superar
A fenomenologia da consciência da liberdade consegue formular, a antinomia entre liberdade e determinismo, estabelecer uma relação
pois, um conceito consistente de liberdade condicionada pela natureza. compreensível entre a auto-experiência do ato de decisão refletida, o
Contrapondo-nos a Kant, que via na liberdade uma faculdade qual se realiza intuitivamente, e o evento que ocorre simultânea e
inteligível, podemos sustentar a idéia de que não se pode entender a "objetivamente" no substrato do corpo (Leib). A análise
relação entre liberdade e não-liberdade a partir do contraste entre fenomenológica da liberdade condicionada pela natureza não dispõe,
por si mesma, de meios para a construção de tal ponte entre a linguagem
8 SCHNÀDELBACH, H. "Vermutungen über Willensfreiheit", in: id. Vernunft da filosofia, ligada à perspectiva da ação, e a linguagem da neurologia,
und Geschichte. Frankfurt;M., 1987, 96-125.
10 Ibid., 243.
9 BIERI, R Das Handwerk der Freiheit. Munique, 2001, 83.
214 215
ligada à perspectiva do observador." Como traduzir a assunção Adorno leva a sério uma antinomia entre liberdade e deter-
responsável da autoria em relação ao próprio agir para um minismo que se coloca nessa visão interna e tenta dirimi-la a favor da
acontecimento observável e explicável mediante causas, de tal modo conservação da liberdade: "As decisões do sujeito não se desligam da
que possamos saber, tanto antes como depois, que estamos falando corrente causai, por isso, acontece um solavanco."(ND, 226) A
sobre os mesmos fenômenos? fenomenologia da liberdade condicionada pela natureza proíbe,
Qualquer pessoa desejosa de solucionar a antinomia entre todavia, o desvio para o reino do inteligível: "E novamente a tradição
liberdade e determinismo deveria colocar tal pergunta. Adorno, filosófica interpreta tal elemento fático, que advém e no qual a
entretanto, não a coloca. Ao invés disso, ele retira a causalidade da consciência se aliena, apenas como consciência, como se fosse possível
primeira natureza, constituída pelas ciências experimentais, e a representar a intervenção do espírito puro." (Ibid.) E certo que Adorno
transfere para a esfera de uma segunda natureza, social, constituída atém-se à intuição que guiou Kant quando da elaboração de sua
pelo caminho da repressão da liberdade. Tal conceito de sociedade, proposta de solução: "Somente a reflexão do sujeito poderia, se não
revestido de características naturais, sui generis, torna possível analisar quebrar a causalidade da natureza, ao menos modificar sua direção
a relação entre causalidade e liberdade no horizonte da experiência de acrescentando outras séries de motivação." (Ibid.) Entretanto, já que a
sujeitos que agem livremente. Porque a causalidade só pode ser solução idealista é inconsistente, e uma vez que o naturalismo não
analisada em geral como "coação", isto é, como uma espécie de está mais interessado numa explicação que faça jus aos fenômenos,
encolhimento do espaço para a avaliação racional de possibilidades ele vê-se obrigado a ir em busca de uma outra solução, "materialista"
alternativas de ação, no interior desse horizonte da consciência da - no sentido de uma pesquisa causai das patologias sociais nas quais
liberdade cotidiana. se manifesta uma supressão estrutural da liberdade. E ele coloca tal
teoria da sociedade, materialista, no quadro de uma concepção da
" Na perspectiva de um observador, BIERI (ibid., 287) descreve o processo de história da humanidade: a história da humanidade é uma história da
avaliação de alternativas de ação como um "acontecimento", porém, ele natureza que saiu dos trilhos.
focaliza esse saber na própria consciência da ação de uma terceira pessoa. Nas três operações conceituais, delicadas, necessárias ao
Nesse ponto, ele comete o erro de nivelar a diferença de linguagem que desenvolvimento de tal concepção, o conceito de natureza interna ou
existe entre uma análise de condições realizada em conceitos de argumentos subjetiva, o qual conhecemos por intermédio da fenomenologia da
e uma análise de condições realizada em conceitos de causas: "De modo liberdade condicionada pela natureza, assume um papel indiscutível.
geral, a reflexão sobre as alternativas é um acontecimento que, juntamente
com minha história, no final, irá me amarrar a uma vontade determinada. Eu É decisivo o contraste entre a indisponibilidade da própria natureza,
sei disso, porém, isso não me incomoda. Ao contrário, é nisso que consiste experimentada na realização espontânea de nossa vida somática, de
precisamente a liberdade da decisão." De fato, porém, a estabilidade reflexiva um lado, e a submissão da natureza exterior, objetivada, de outro lado.
da consciência da liberdade mediante saber objetivador é colocada em risco No jogo alternado entre essas duas modalidades de natureza, isto é,
- e nessa medida a antinomia kantiana parece ter razão. A passagem para entre natureza subjetiva, indisponível, e natureza objetiva, tornada
uma descrição naturalista de considerações - daquilo que se nos afigura como
reflexão própria - como processos neuronais no cérebro provoca, certamente, disponível, há resquícios de uma normatividade jusnaturalista discreta,
uma dissonância cognitiva porque a consciência da liberdade e todas as suas resguardada nas filosofias da vida, a ser discutida mais adiante.
suposições se prende de tal modo ao enfoque performativo da realização Inicialmente, Adorno lança mão do conceito de "aparência de
atual da ação, que ela se decompõe instantaneamente quando tem início uma natureza" (Naturwuchsigkeit) para colocar em cena a causalidade so-
consideração objetivadora. cial de uma liberdade retida, expulsa da consciência (1). A seguir, ele
216 217
radicaliza a liberdade cotidiana ordinária transformando-a numa desenfreada insiste em se perfilar dialeticamente como o oposto
emancipação extra-ordinária de condições que se aparentam à natureza absoluto da natureza e quanto mais ela olvida a natureza que existe
(naturwüchsig) (2). Finalmente, ele limita a causalidade natural de dentro dela mesma, tanto mais ela regride, auto-afirmação asselvajada,
estados que resultam uns dos outros, de modo regular, a uma natureza simples natureza."(ND, 285).
constituída com a finalidade de tomar as coisas disponíveis, ou seja, E isso abre espaço paia um outro conceito de natureza, pejorativo
ele a circunscreve ao campo de objetos das ciências naturais cujas - o da involuntária "aparência de natureza" (Naturwuchsigkeit)
explicações são causais. Tudo isso é permeado por uma razão instru- assumida por condições sociais que se coagulam à maneira de um
mental que não combina com uma dimensão abrangente do destino sistema. Diferentemente da natureza interior - que inscreve na razão
natural da humanidade. A causalidade de condições sociais que apenas dela nascida uma orientação para a felicidade -, a razão instrumental
"se aparentam à natureza" é parasitária, já que se alimenta de uma - que visa uma autoconservação pouco inteligente - transformou-se
liberdade reprimida não podendo, por essa razão, ser superada mediante no agente de uma sociedade que "se aparenta à natureza". "Aparência
reflexão. A liberdade pode, por conseqüência, continuar mantendo a de natureza" significa uma sociedade assimilada às regularidades e
última palavra (3). leis de uma natureza objetivada, isto é, de uma sociedade que reprime
a interação social por intermédio de uma inversão, a qual coloca a
( 1 ) 0 destino que marca a natureza interna de sujeitos agentes liberdade abaixo do nível do agir livre. Na concorrência desenfreada
em decorrência de uma submissão, socialmente organizada e cada entre atores que tentam se auto-afirmar uns contra os outros e na
vez mais intensa, da natureza exterior, constitui o ponto de partida socialização funcional, intransparente, os imperativos da
para o conceito de "aparência de natureza" (Naturwuchsigkeit). No autoconservação, que não são, todavia, irracionais por natureza,
início, a razão distancia-se das carências primárias, afimde satisfazer voltam-se contra seu próprio objetivo, a saber, a felicidade do indivíduo
apenas funções insuspeitas de uma autoconservação - sem negar sua e da sociedade. Porquanto na concorrência egocêntrica entre indivíduos
procedência da natureza. Graças a considerações racionais, no entanto, singulares ligados sistemicamente uns aos outros é sufocada a
os sentimentos e carências se sublimam, em um primeiro degrau, camaradagem entre estranhos, a qual sempre inspirou o sonho socialista
transmutando-se em preferências de uma atividade teleológica de uma sociedade emancipada que garante a todos, em igual medida,
(zweckrational); no próximo degrau, eles se transformam em a liberdade.12
representações da felicidade ou em ideais de uma vida não-fracassada. A crítica à sociedade "que aparenta ser natureza" coloca à mostra
E à proporção que a razão continua trabalhando, em sintonia com a o ponto que a fenomenologia adomiana da consciência da liberdade
natureza subjetiva, na formação da vontade inteligente e ética, ela pretendia atingir: tal fenomenologia tinha uma tarefa propedêutica, a
passa a constituir uma "força psíquica separada para fins da qual consistia no esclarecimento do pano de fundo intuitivo que permite
autoconservação; e uma vez separada e colocada em contraste com a entrever experiências de não-liberdade. Já que a não-liberdade não
natureza, ela se toma o seu outro" (ND, 284 s.). Sem embargo, a pode aparecer a não ser no horizonte da liberdade. Nós sentimos que
razão, que se originou da natureza, entra em desavença com esta tão não somos livres quando descobrimos que as limitações de nosso
logo ela- impulsionada pela vontade de autoconservação transformada espaço de ação são conseqüência de uma coação, seja ela externa ou
numfimem si mesmo - entrega-se à corrida social desenfreada que interna. Nós agimos coagidos quando fazemos algo contra a vontade
visa uma submissão da natureza exterior chegando a ponto de negar a
natureza que se encontra nela própria. Ora, "quanto mais a razão l2 BRUNKHORST. H. Solidaritãl unter Fremden. Frankfurt/M., 1997.

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- na qualidade de súditos e necessitados, como dependentes parece centrar as energias impulsivas num eu, o qual, sob o jugo
internamente, ou como fugitivos.13 E somos não-livres num sentido rigoroso de um superego estranho ao eu, impõe normas da sociedade
ainda mais intenso, inquietante, quando não conseguimos mais sentir ao desejo de felicidade dos movimentos libidinosos individuais.
como tal, aquelas coações internalizadas. O interesse de Adomo volta- De outro lado, porém, Adomo não esconde de seus estudantes
se para os mecanismos sociais de coação que se estabelecem sob a que ele é um crítico da sociedade que fala a partir da filosofia moral
aparência de liberdade, isto é, que se transformam em coações de Kant. Adomo descobre, especialmente no formalismo e no patos
neuróticas, inconscientes, graças a uma internalização de princípios da incondicionalidade da lei moral, o corretivo de uma "imagem do
normativos. As sociedades que se aparentam à natureza funcionam possível que prescinde de imagens", a qual Kant opôs à tendência que
como se suas leis fossem leis da natureza. O controle sistêmico realiza- tudo nivela e transmuda em algo fungível (PM, 224 s.). Segundo
se pelo "médium" do agir livre, o qual continua intacto; apesar disso, Adomo, o mandamento que obriga a tratar toda a pessoa, ao mesmo
o controle impõe-se por sobre a cabeça dos sujeitos agentes degradando tempo e em qualquer momento, como fim e jamais somente como
a consciência da liberdade subjetiva, que passa a ser tida como mera meio, opõe-se à tendência geral que procura o sentido próprio do agir
ilusão. no desempenho de funções do mercado e da burocracia. Adomo é
tolhido, sempre e de novo, pela sua própria crítica à força niveladora
(2) Podemos desconsiderar, aqui, a assunção totalizadora, de leis gerais e abstratas - a crítica a uma "identidade" que agrega a si
segundo a qual, os mecanismos do mercado e da normalização mesma tudo o que é "não-idêntico" - como se ele pressentisse que a
burocrática culminam numa expansão descontrolada do princípio de liberdade de um universalismo igualitário, desenvolvida em termos
troca e no funcionalismo extremo de um mundo totalmente intersubjetivistas, não tem necessidade de se fechar a uma
administrado.14 Foucault continuou, no entanto, a trabalhar nesta linha. fundamentação de normas, sensível a diferenças, ou a uma aplicação
Quanto a mim, tendo em vista a controvérsia de Adomo com Kant, de normas, adequada à situação. A oposição entre dever e inclinação
interesso-me por uma outra questão: será possível encontrar, na não significa que deva haver, em cada caso, repressão da simpatia
filosofia moral de Kant, um elemento capaz de se contrapor à nem que "qualquer tipo de impulso deva ser suprimido". Porquanto
"aparência de natureza", da sociedade, ou será que tal filosofia nada Adomo pensa que a diferenciação entre desejo e vontade tem de ser
mais é do que um simples reflexo dessa "aparência de natureza" - atribuída à introdução de argumentos capazes de justificar o bem
apenas o espelho de uma auto-afirmação asselvajada? Adomo parece próprio no quadro da consideração simétrica dos interesses de outros.
sugerir essa segunda alternativa quando critica o imperativo categórico O único ponto controverso, a pedra de escândalo, tem a ver com
pelo fato de não conseguir descobrir nele nada mais do que "o próprio a idéia de um inteligível completamente destacado da natureza, ao
princípio da dominação da natureza elevado à condição de um princípio qual Adomo contrapõe o entrelaçamento da razão prática com a
absoluto e transformado em algo normativo" (PM, 155). O natureza. Ele não se interessa tanto pela liberdade na figura trivial da
mandamento abstrato da consideração simétrica dos interesses de todos consciência da autoria responsável, que acompanha todas as nossas
ações, mas pela liberdade como emancipação do feitiço de uma
l3 BIERI, (2001), Cap.4, 84 ss. sociedade que "se aparenta à natureza" (naturwüchsig): "A liberdade
'"HABERMAS, J. Theorie des kommunikativen Handelns. Frankfurt/M., 1981, toma-se concreta nas figuras cambiantes da repressão, isto é, na
vol. 1,489-534; id. Derphilosophische Diskurs derModerne. Frankfurt/M., resistência contra elas. Sempre houve tanta liberdade da vontade quanto
185, cap. V. os homens tiveram vontade de libertar-se."(ND, 262). Adorno atribui,
220 221
pois, a liberdade a uma vontade de segunda ordem, à vontade de tomar- natureza não cai diretamente do céu. Já que, motivada pelo sofrimento
se consciente de sua não-liberdade. Para apreender isso, mister se faz resultante de uma liberdade manietada, a auto-reflexão é levada a
um esforço auto-reflexivo da razão, o qual permita eludir a falsa buscar apoio na compreensão dos nexos e regularidades que se
constelação formada pela natureza e pela razão. estabelecem entre trauma, defesa e formação de sintomas. Nesse ponto
Segundo o modelo da análise freudiana de motivos excluídos da também se toma claro que, a partir do momento em que a causalidade
consciência, os quais determinam o comportamento eludindo uma é transferida semanticamente da "primeira" para a "segunda" natureza,
vontade esclarecida racionalmente e se tornam perceptíveis em o próprio problema da liberdade é deslocado. A emancipação das
sintomas patológicos, a "rememoração da natureza no sujeito" tem coerções de uma sociedade que detém uma "aparência de natureza"
como finalidade preparar a sua libertação da coação - com aparência não atinge a antinomia originária que resulta da relação entre a
de natureza - da sociedade.15 Aqui, mais uma vez, trata-se de elevar consciência da liberdade do agente e o saber posterior sobre o
para o plano da consciência necessidades e interesses excluídos do fechamento causai do mundo, que é desestabilizador.
discurso público, os quais continuariam, de outra forma, presos à sua Adomo poderia enfrentar tal objeção lançando mão de sua versão
força cega e determinante. O que corta a comunicação da natureza de uma "história da natureza" que imprime na história da humanidade
interna com a formação da vontade racional não é o processo que um duplo cunho. No entanto, impressionado pela filosofia da vida, de
toma a natureza exterior, enquanto tal, disponível do ponto de vista Simmel, e imbuído pelas lições de Benjamin, o jovem Adorno
técnico e científico. Porquanto o tipo de causalidade redutora da apropriou-se da idéia de uma "segunda natureza" em uma versão que
liberdade é fruto da auto-afirmação asselvajada de uma sociedade que o jovem Lukács tinha formulado na Teoria do romance, da seguinte
apenas se aparenta à natureza e que se organiza segundo o princípio maneira: "Esta natureza não é muda, nem manifesta ou, menos ainda,
de uma "persecução cega de fins da natureza". Ela desacorrenta o inimiga dos sentidos, como a primeira: ela constitui um complexo
círculo vicioso da dominação - monstruoso e em constante expansão petrificado de sentidos, o qual se tomou estranho e incapaz de despertar
-, o qual acompanha tanto a natureza exterior como a correspondente a interioridade; é uma espécie de cemitério da interioridade assassinada;
opressão da natureza interior. por isso, ela somente poderia ser reconquistada - caso isso fosse
possível - por um ato metafísico de ressurreição do elemento
(3) Sob tais premissas, Adomo pensa ter encontrado uma solução espiritual."16 Adomo interpreta tal diagnóstico da seguinte maneira: o
para a antinomia que decorre da relação entre liberdade e determinismo. destino de uma desunião provocada pela cultura se vinga com natureza.
Porquanto, quando se superam, de um lado e mediante reflexão, as Por isso, na reflexão sobre tal desunião está "contida a verdade oculta
restrições neuróticas ao espaço de liberdade da ação, e quando se de toda cultura" (DA, 57).
consegue reconstituir a comunicação interrompida entre a razão e os A Dialética do esclarecimento arremata tal pensamento. Aqui, a
elementos da natureza interior, dissociados, temos um crescimento "rememoração da natureza no sujeito" (ibid.) tem por função liberar a
da liberdade. De outro lado, tal ato libertador da rememoração da
16 ADORNO,TH. W. "Die Idee der Naturgeschichte", in: Gesammelte Schriften.
15 HORKHEIMER, M. e ADORNO, TH. W. Dialektik der Aufklürung. Frankfurt/M., 1997, vol. I, 356, s., cit. in: LUKÁCS, G. Die Theorie des
Amsterdam, 1947, 55; esta obra será citada daqui para frente por "DA". Cf. Romans. Berlim, 1920,52 s. Cf. HONNETH, A. "Eine Welt der Zerrissenheit.
também SCHMID NOERR, G. Das Eingedenken der Natur im Subjekt. Die untergründige Aktualitãt von Lukács' Frühwerk", in id. Die zerrissene
Darmstadt, 1990. Welt des Sozialen. Frankfurt/M., 1990, 9-24.

222 223
visão para a consideração dos inícios arcaicos - reconstruídos como e medida suprema de nosso saber a natureza das ciências naturais,
pré-história de nossa natureza subjetiva - de uma natureza ainda não cujas epistemologias são realistas, desperdiçamos os ganhos que a
desunida, os quais continuam legíveis nas cifras das mutilações. O idéia de uma história da natureza prometia fornecer para a superação
descarrilamento da história da natureza é atribuído à "disponibilização" da antinomia da liberdade. Porquanto, nesse caso, o saber sobre o
"selvagem" - incorreta - de uma natureza objetivada, à proporção fechamento causai do mundo do qual o homem participa enquanto
que tal disponibilização entrega uma natureza, inteiramente depredada, produto da evolução natural reduz-se - agora como antes - a uma
ao imperativo social de forças produtivas desencadeadas que se disputa com a consciência da liberdade, a qual é, de uma forma ou de
tornaram sistemicamente autônomas e cegas. Para nosso tema, é outra performativãmente inexterminável.
decisiva a suposição pragmático-transcendental, segundo a qual, a No final destas considerações, gostaria de averiguar se tal
mesma razão instrumental incorpora-se nas ciências que subsumem premissa, que nos obriga a uma maior sobriedade, ainda permite extrair
a natureza circundante aos conceitos da causalidade e da dos diagnósticos de Adorno algo instrutivo sobre a dissolução da
regularidade, afimde torná-la disponível. Entrementes, através desse antinomia kantiana. Há vários pontos que sugerem a possibilidade de
lance, a imagem naturalista de um mundo determinado por leis e se tomar a dialética do esclarecimento como ponto de referência para
regularidades perde seu poder sobre a autocompreensão dos sujeitos. uma interpretação do debate bioético sobre as possíveis conseqüências
Pois, tão logo a recordação da natureza no sujeito descobre a diferença das intervenções técnicas no genoma humano; porquanto nela também
abissal que se estende entre essa natureza constituída "para nós" e se trata dos limites de uma intervenção prática na natureza subjetiva
uma natureza que é "em si mesma", os enunciados das biociências que torna esta última disponível (1). Em que pese isso, a problemática
sobre a natureza objetivada do homem deixam de ser a medida envolvendo a liberdade e o determinismo atinge, antes, os limites da
indubitável para se medir a estabilidade reflexiva da consciência da disponibilização epistêmica da subjetividade vivenciadora e realiza-
liberdade de sujeitos que agem. dora de uma razão enlaçada com a natureza. Ora, o conteúdo normativo
da idéia adorniana de história da natureza não se esgota na indisponi-
III. A cominação naturalista à natureza subjetiva. bilidade da natureza subjetiva já que se estende ao "não-idêntico", o
qual se subtrai, no encontro com um outro, a uma intervenção
Um pensamento que pretendia continuar solidário com a objetivadora. Tal consideração pode lançar alguma luz sobre o debate
metafísica no instante da sua queda não tinha necessidade de temer a atual acerca das tentativas de naturalização do espírito (2).
concepção metafísica de uma prioridade da natureza não-objetivada
sobre a natureza constituída pelas ciências experimentais. Sem em- (1) A indisponibilidade dos inícios orgânicos da vida vivida
bargo, na perspectiva daqueles que vieram depois, como é o nosso desempenha um papel preliminar na fenomenologia da liberdade
caso, tal conceito de uma história da natureza que sai dos trilhos, que determinada pela natureza. A intuição, segundo a qual, a orientação
vem carregado normativamente - e de um direito natural posto em racional por metas no longo prazo deve estar em sintonia com as
movimento por uma filosofia da história - parece suspeito. E a partir sensações espontâneas e com os impulsos de uma natureza interior, a
do momento em que renunciamos a tal narrativa referencial não qual não pode estar à disposição de ninguém, é insuspeita do ponto de
podemos mais relativizar o que sabemos sobre a natureza constituída vista metafísico. O faro pelos limites morais da disponibilidade da
tomando como ponto de referência o destino de uma natureza natureza subjetiva pode ser justificado independentemente do sentido
pretensamente "outra". Quando reconhecemos como instância última normativo, próprio de uma ortogênese, que Adomo inscreve na história
224 225
da natureza descarrilada como um todo. Será que nós não nos a pessoa em crescimento experimenta como seu substrato orgânico
sentiríamos limitados em nossa liberdade ética de configurar coisas ou soma (Leib), o qual foi manipulado na fase pré-natal.
se, um belo dia, a manipulação bem-sucedida das disposições Em que pese isso, uma pessoa só pode atribuir suas próprias
hereditárias do organismo humano se tomasse um costume aceito pela ações a si mesma caso ela se identifique com o corpo (Kõrper)
sociedade?17 enquanto seu próprio soma (Leib). Caso contrário, não haveria
Não sabemos se no futuro teremos à nossa disposição tecnologias, nenhuma base de referência para uma familiaridade originária consigo
as quais permitem a manipulação genética de características desejadas, mesma enquanto autora de ações próprias. A pré-história pré-natal da
de disposições ou capacidades dos descendentes. Não obstante isso, natureza subjetiva, ela mesma, também precisa estar livre de
os progressos na pesquisa biogenética e na tecnologia dos gens abriram intervenções estranhas. Já que, por mais inteligentes, liberais e sensíveis
recentemente perspectivas de práticas eugênicas despertando, ao que os pais sejam, eles não podem excluir a possibilidade de que o
mesmo tempo, as fantasias de um "shopping no supermercado filho talvez rejeite, um dia, o dote genético que eles pensaram para
genético" shopping in the genetic supermarket (Peter Singer), as quais ele. E no caso de uma recusa, a pessoa programada irá questionar os
conferem surpreendente atualidade ao pensamento que serve de base pais pelo fato de eles não terem escolhido um outro design que teria
à Dialética do esclarecimento. De acordo com tal diagnóstico, um garantido melhores condições iniciais para o próprio projeto de vida.
sujeito que se autoriza a si mesmo e que transforma tudo à sua volta Na perspectiva de atingidos, os pais aparecem como co-autores
em objeto expande a disposição sobre a natureza exterior ao preço da indesejados da história de uma vida em relação à qual cada um exige
repressão da própria natureza interior. Aobjetivação do entorno exte- a autoria exclusiva, afimde se sentir livre no agir. Os pais tiveram de
rior intensifica a auto-objetivação no interior do próprio sujeito: "O escolher - seguindo preferências próprias - a distribuição dos recursos
domínio do homem sobre si mesmo [...] constitui virtualmente o naturais para um espaço de configuração no interior do qual uma outra
extermínio do sujeito, porquanto a substância dominada, reprimida e pessoa deverá desenvolver sua concepção de vida e persegui-la. Tal
decomposta por meio de autoconservação não é nada mais do que o escolha acarreta virtualmente implicações que coarctam a liberdade,
elemento vivo [...] precisamente aquilo que deve ser conservado." porque ninguém pode prever, sob as circunstâncias imprevisíveis da
(DA. 71). história de uma vida futura, o tipo de significação que determinadas
características genéticas poderão ter para a pessoa programada.
Tal relação dialética entre dominação da natureza e decomposição De acordo com a compreensão normativa de uma sociedade
do sujeito é provocada por uma segunda natureza que resulta da pluralista em termos de visões de mundo, na qual cada cidadão tem o
organização social de um crescimento descontrolado das forças direito de configurar sua vida conforme orientações valorativas
produtivas. Sabemos, no entanto, que hoje em dia tal dialética também próprias, a intervenção na definição de espaços de um jogo - que
pode ser vislumbrada quando situamos a relação entre uma pessoa, normalmente é entregue aos cuidados de uma loteria natural - no
cujos gens foram modificados, e seus pais - supostamente bem interior dos quais uma outra pessoa terá de fazer uso, um dia, da
intencionados e preocupados - fora de um contexto social mais amplo. liberdade de configurar sua própria vida, é tida como uma usurpação
A natureza exterior, tomada disponível, é, neste caso, o corpo (Kõrper) indevida. À proporção que a diferença entre "o que se tomou" e "o
embrionário de uma futura pessoa; e a natureza subjetiva em que foi feito" avança no organismo do ainda não-nascido, estabiliza-
decomposição é o organismo, desenvolvido a partir do embrião, que se, na esfera do próprio soma (Leib), uma vontade estranha, fazendo
estremer a base de referência para a auto-atribuição de iniciativas de
17 HABERMAS, J. Die Zukunft der menschlichen Natur. Frankfurt/M., 2002. uma conduta de vida própria. Na esteira do exercício reiterado de tais
226
227
práticas, passaria a ser tido como cada vez mais normal o fato de os "furos'' semânticos que surgem regularmente nas tentativas destinadas
pais imiscuírem-se, na qualidade de co-autores instrumentais, na a reconceitualizar argumentos em termos de causas. Parece que o poder
história da vida de seus filhos. Neste caso, uma corrente de ações de objetivação de uma razão que submete tudo a si mesma topa, na
intergeneracionais, cada vez mais densa, impor-se-ia irreversivelmente dimensão de uma auto-relação, com o sentido próprio de uma natureza
por intermédio das redes de interação contemporâneas causando danos interior espontânea e, na dimensão horizontal das relações sociais,
à consciência da liberdade cotidiana, conectada à indisponibilidade com a vontade e as características próprias de segundas pessoas -
prática da natureza subjetiva, que caminha junto, de modo pessoas que se diferenciam umas das outras e que podem contradizer.
performativo. Quando um alter ego tenta tomar disponível, de modo objetivador,
Tal experimento mental revela o modo como a autocompreensão uma outra pessoa, está ferindo essa pessoa, num duplo sentido. E com
não-naturalista de sujeitos agentes poderia impor-se pelo caminho de isso, ele deixa transparecer outros dois aspectos da indisponibilidade.
uma implantação muda de novas tecnologias e de práticas modificadas. O sentido próprio do outro faz-se valer, de um lado, como
No entanto, tal solapamento silencioso da consciência da liberdade individualidade de uma pessoa inconfundível, a qual se subtrai às
não atinge propriamente nossa questão sobre a estabilidade dessa intervenções de determinações gerais. O Adomo da Dialética negativa
consciência. Já que, para se chegar a um saber desestabilizador sobre confere grande destaque a esse momento do "não-idêntico".18 Ora, a
a determinação natural de nossa vontade, que supomos seja livre, não singularidade histórica do indivíduo só pode ser acessada
basta uma objetivação prática da subjetividade vivenciadora e performativamente, a saber, pelo caminho de um reconhecimento da
realizadora do homem: é necessária, além disso, uma objetivação alteridade do outro, a ser obtido no decorrer de uma interação.19
epistêmica. No sentido das ciências experimentais, os fenômenos Somente uma intersubjetividade invulnerada pode impedir que os
culturais tal como pensamentos, atitudes proposicionais, intenções e desiguais sejam assimilados ao igual. Ela consegue evitar a anexação
vivências tornam-se "disponíveis epistemicamente" tão logo são de um pelo outro e salvaguardar a possibilidade de ambos "continuarem
traduzidos para uma linguagem observacional. E a partir daí, podem sendo, numa proximidade consentida, o distante e o diferente, num
ser descritos, exaustivamente, como fenômenos mentais. Tal linguagem plano situado além do heterogêneo e do próprio" (ND, 192). De outro
é talhada conforme a ontologia nominalista de coisas e eventos lado, o sentido normativo próprio do "outro" também se manifesta
identificáveis no espaço e no tempo, o que possibilita uma interpretação nos posicionamentos do interlocutor, os quais não são manipuláveis.
de estados intramundanos com o auxílio de conceitos de um evento
explicável em termos de causas e encadeado em termos de I8 BUTLER, Judith ocupa-se, em suas aulas sobre Adomo, das implicações éticas
regularidades. Se tal tipo de programas de pesquisa naturalista fosse do "não-idêntico" (Kritik der Gewalt. Frankfurt/M., 2003). Seu princípio
bem-sucedido, seria possível substituir os fenômenos acessíveis na intersubjetivista consegue descobrir, na obra de Adorno, aspectos que ele
perspectiva participante por autodescrições objeti vadoras. E com isso, mesmo deixa imersos na penumbra levado pelo seu ceticismo em relação à
teríamos encontrado equivalentes funcionais para a consciência comunicação. Não obstante isso, ela dramatiza a responsabilidade para com
a segunda pessoa impulsionada pela visão cripto-teológica de Emmanuel
intuitiva da liberdade, os quais abririam o caminho a uma solução Levinas, o qual - diferentemente do, neste ponto kantiano Adorno - entende
naturalista para a terceira antinomia kantiana. a relação interpessoal não de modo igualitário, mas como uma relação triádica
assimétrica: LEVINAS, E. Die Spur des Anderen. Freiburg, 1983.
(2) Adomo jamais se ocupou de tais tentativas de redução. Mesmo 19 HABERMAS, J. "Individuierung durch Vergesellschaftung", in: id. Nachmeta-

assim, ele poderia interpretar como vestígios do "não-idêntico" os physisches Denken. Frankfurt/M., 1988, 187-241.

229
228
Qualquer tentativa de instrumentalização nega ao outro a posição de aos outros, o que constitui uma qualidade essencial para qualquer
uma pessoa insubstituível que toma, por conta própria, posição crítica, pessoa em geral e para um autor de ações, responsável, é imprescindível
dizendo "sim" ou "não" e que age de forma correspondente, por a capacidade de participar de uma troca de argumentos.
vontade própria.20 Não podemos interferir arbitrariamente nos Corresponde a tal precedência ontológica e social da linguagem
posicionamentos autônomos do outro. a precedência metodológica de que gozam, na ordem da explicação,
Ao topar com tais resistências singulares nos lembramos dos as significações incorporadas nas práticas comuns e compartilhadas
problemas conceituais com os quais se defrontam as tentativas que intersubjetivamente, as quais precedem os estados internos dos
pretendem reduzir os argumentos a causas.21 Esse é o primeiro lance indivíduos participantes. Até agora, todas as tentativas elaboradas com
no jogo epistêmico de uma naturalização da consciência da liberdade: o intuito de substituir a imagem pragmático-social da incorporação
Já que a vontade livre é uma vontade determinada por bons argumentos, do espírito em práticas compartilhadas intersubjetivamente pela
a motivação racional por argumentos tem de ser derivada de uma imagem naturalista de processos neuronais, que têm lugar no cérebro
causação de acordo com o modelo nomológico. Os argumentos, humano, ou por operações desenvolvidas no computador fracassaram
todavia, não valem de modo absoluto, porquanto são, naturalmente, ante a ineludibilidade de um dualismo de jogos de linguagem.22 Os
argumentos comunicáveis - são sempre argumentos para alguém. fundamentos desse fosso semântico, insuplantável, o qual se abre entre
Além disso, a comunicação de argumentos realiza-se pelo médium de o vocabulário das linguagens do cotidiano - que se apresentam
uma linguagem comum, de tal sorte que o "sim" ou o "não" dos carregadas normativamente permitindo a primeiras e segundas pessoas
participantes segue determinadas regras "gramaticais". O fato de que comunicarem entre si sobre algo - e o feitio nominalista das linguagens
uma das partes não pode dispor, num enfoque objetivador, sobre as científicas, especializadas em asserções descritivas, ancoram-se na
tomadas de posição da outra pode ser explicado lançando mão da diferença profunda que separa a perspectiva do observador da de um
circunstância de que a linguagem comum precede as intenções dos participante. Ambas são complementares no sentido de que nem tudo
falantes singulares. "Os significados são desprovidos de intenções" o que é acessível por uma dessas perspectivas pode ser alcançado por
(Meanings ain 't something in the head) (Putnam). A precedência de intermédio da outra. Tal complementaridade pode ser comprovada
uma estrutura de perspectivas entrecruzadas obriga os participantes a por um argumento epistemológico capaz de estremecer a convicção
se posicionarem uns em relação aos outros na qualidade de segundas básica do naturalismo cientificista, o qual insiste na precedência da
pessoas. Por meio disso, cada um toma-se dependente dos incalculáveis perspectiva do observador.23
posicionamentos de um outro. Através da socialização em uma De um lado, o saber "duro" sobre fatos, próprio das ciências
linguagem natural e pela entrada performativa no status de membro naturais, destaca-se da compreensão "branda" de práticas e contextos
de uma comunidade lingüística, as pessoas adentram o espaço público de sentido simbólicos. Uma das formas do saber pode apelar para a
dos argumentos. A fim de adquirir a capacidade de prestar contas uns "experiência" no sentido de uma confrontação controlada com "o

2U GÜNTHER, K. "Grund, der sich selbst begründet. Oder: Was heist eine Per- 22 KEIL, G e SCHNÀDELBACH, H. (orgs.) Naturalismus. Frankfurt/M., 2000,
son zu sein", in: Neue Rundschau, 114 (2003), 66-81. Introdução.
21 Cf. CRAMM, W.-J. Reprüsenlation oder Verstündigung. Eine Kritik 23 Cf. sobre o que se segue: WINGERT, L. "Die eigenen Sinne und die fremde
naturalistischer Philosophien der Bedeutung und des Geistes. Tese de dout. Stimme", in: VOGEL, M. e WINGERT, L. Wissen zwischen Entdeckung
em filosofia. Frankfurt/M., 2003. und Konstruktion. Frankfurt/M., 2003, 219-248.

230 231
mundo", apoiada em observação; e aqui supomos que esse mundo é em relação a algo no mundo, não pode ser separada da perspectiva de
"objetivo", isto é, constitui um mundo de objetos (de possíveis alguém que participa de uma disputa teórica, isto é, de alguém que, à
referentes), o qual é idêntico para todos os observadores e independente proporção que apresenta argumentos, refere-se a seus críticos
de suas descrições. Ao passo que a outra forma de saber apela para a assumindo um enfoque performativo: "Experiência e argumento
interpretação ou para a explicação de significações e casos que podem constituem dois componentes não-independentes da base ou do
ser controlados por questionamentos e respostas hipotéticos. O sentido fundamento de nossas pretensões de saber algo sobre o mundo."24
de exteriorizações simbólicas somente se revela ao intérprete na base Os programas reducionistas perdem, no entanto, sua
de suas próprias competências de linguagem e de ação, adquiridas plausibilidade se for demonstrado que a complementaridade das
performativamente, ou seja, a partir de uma pré-compreensão que perspectivas do saber, reciprocamente encadeadas, não pode ser
eles adquiriram enquanto participantes de práticas comuns. Os abolida, já que a intersubjetividade do entendimento não pode ser
conhecimentos das ciências da natureza distinguem-se do saber subordinada à objetividade da observação. Internamente, a instância
hermenêutico pela sua força de explicação e pela capacidade de do protesto da experiência, que parte do mundo objetivo, e a
formular prognósticos. A autoridade do conteúdo empírico desse sa- representação de algo no mundo continuam referidas a um
ber sobre o mundo decorre de sua aproveitabilidade técnica. Com entendimento com outros participantes da argumentação sobre algo
isso, temos a impressão de que, em última instância, existe apenas um no mundo e à instância de justificação do contraditório por eles mani-
caminho para nos certificarmos da realidade. O progressivo festo. Isso significa que só podemos aprender algo do confronto com
"desencantamento do mundo" (M. Weber) parece justificar a sugestão o mundo à proporção que formos capazes de aprender algo da crítica
de que o saber apoiado na observação é mais importante do que a do outro. A ontologização dos conhecimentos das ciências naturais, a
compreensão, a qual depende da comunicação. qual culmina numa imagem de inundo, naturalista, encolhida em fatos
Tal convicção alimenta a assunção naturalista de que o saber "duros", não é ciência, apenas metafísica ruim.
hermenêutico, menosrígido,ligado á perspectiva de um participante, A ineludibilidade do dualismo de linguagens impõe a idéia de
pode ser substituído, em geral, por um saber sobre fatos, mais que o cruzamento complementar entre perspectivas antropológicas
"consistente". Não obstante isso, tal programa fracassa, desde logo, de saber, profundas, surgiu junto com a própria forma de vida cul-
pelo simples fato de que a própria pesquisa do mundo objetivo depende tural. Uma emergência "co-originária" das perspectivas do observador
de uma disputa, a qual, mesmo estando estribada num evento ao qual e do participante poderia explicar, em uma visão evolucionária, por
se tem acesso na perspectiva de um observador, também lança mão que os complexos de sentido acessíveis numa visão dirigida a segundas
de recursos hermenêuticos, já que só pode ser decidida num foro pessoas não podem ser objetivados nem esgotados totalmente por
argumentativo. Isso porque as experiências são estruturadas de modo meios das ciências naturais. Isso pode levar a uma revisão de certas
conceituai e podem, no decorrer da aquisição do saber, assumir o concepções epistemológicas;25 mesmo assim, a "indisponibilidade
papel de uma instância de controle, porém, somente à proporção que epistêmica" da subjetividade do homem, que vivência e realiza, não
contam como argumentos e podem ser defendidas perante segundas eqüivale à imunização de um "inteligível" distanciado do mundo. Pois,
pessoas. Construção e descoberta, conceito e intuição, interpretação e a partir do momento em que o dualismo de linguagens, dependente
experiência são momentos que não podem ser isolados uns dos outros
durante o processo de conhecimento. Por isso, a perspectiva de um
observador que, ao fazer experiências, assume um enfoque objetivador "WINGERT, L. (2003), 218.
25 HABERMAS, J. WahrheitundRechtfertigung. Frankfurt/M., 1999, Introdução.
232 233
de perspectivas, é tido na conta de uma característica emergente de
formas de vida culturais, ele pode conciliar-se com um naturalismo
"menos rígido".
E a concepção de uma razão enlaçada com a natureza, que respeita
conhecimentos neodarwinistas, não constitui ameaça à estabilidade
reflexiva de nossa consciência da liberdade. Quando compreendemos
que a consciência da liberdade, atualizada performativamente, é co-
originária com a forma de vida estruturada lingüisticamente, não 8. A FRONTEIRA ENTRE FÉ E SABER.
precisamos mais nos inquietar com a idéia de que essa mesma forma SOBRE O ALCANCE E A IMPORTÂNCIA HISTÓRICA
de vida encontra-se num processo de evolução natural. DA FILOSOFIA DA RELIGIÃO, DE KANT. 1

O processo de helenização do cristianismo não foi unilateral.


Resultou de uma apropriação teológica e de uma contratação da
filosofia grega, a qual passou a servir à teologia. Durante a Idade Média
européia, a teologia era a protetora da filosofia. Enquanto pendant da
revelação, a razão natural tinha seus direitos reconhecidos. No entanto,
com o advento da guinada antropocêntrica, provocada pelo
humanismo, nos inícios da modernidade, o discurso sobre a fé e o
saber conseguiu evadir-se do cercado clerical. O peso da prova mudou
de lado a partir do momento em que o saber profano tornou-se
autônomo, não necessitando mais de uma comprovação enquanto saber
secular. Ora, a partir desse momento, a religião foi intimada a
comparecer em j uízo perante a razão. E nesse momento surge a filosofia
da religião.2 A autocrítica da razão, formulada por Kant, visa dois
pontos, a saber: a posição da razão teórica quanto à tradição metafísica
1 Agradeço a Rudolf Langthaler por seus comentários e por suas prestimosas
indicações de textos. Suas objeções e os resultados críticos de uma reiterada
leitura dos textos kantianos no decorrer de um seminário sobre filosofia da
religião ministrado na Northwestern University obrigaram-me a corrigir a
primeira versão que serviu de base a uma conferência em Viena e foi publicada
a seguir.
2 LUTZ-BACHMANN, M. "Religion, Philosophie, Religionsphilosophie", in:
JUNG, M., MOXTER, M., SCHIMIDT, Th., M. (eds.). Religionsphilosophie.
Würzburg, 2000,19-26: id., "Religion nachderReligionskritik", in: Theologie
und Philosophie, Ano 77, Cad. 2, 2002, 374-388.

234 235
e a posição da razão prática quanto à doutrina cristã. Ao passar pela da metafísica, o "andar seguro da ciência". Ao passo que a liquidação
auto-reflexão transcendental, o pensamentofilosóficoconfigura-se, da metafísica tem como objetivo liberar o caminho para uma moral
de um lado, como pensamento pós-metafísico e, de outro lado, como autônoma fundada sobre a razão prática; não obstante isso, o objetivo
pensamento pós-cristão - o que não significa, todavia, que ele deva imediato de tal superação tem de ser procurado no próprio negócio
ser necessariamente anticristão. teórico da filosofia. Já que o traçado de fronteiras entre o uso prático
Ao traçar as linhas demarcatórias entre o uso especulativo da da razão e a fé positiva segue numa outra direção. Uma domesticação
razão e o transcendental, Kant lançou as bases do pensamento pós- da religião pela razão não é tarefa da autoterapiafilosófica,uma vez
metafísico mesmo que ele continuasse a utilizar os nomes de uma qüe ela não se presta à higiene do pensamento, mas à proteção de um
"metafísica" - da natureza e dos costumes - e mesmo que a público em geral contra duas formas de dogmatismo. De um lado, o
"arquitetônica" de sua construção teórica, a qual separa o mundo Kant iluminista pretende fazer valer a autoridade da razão e da
inteligível do mundo dos sentidos, continue servindo-se dos préstimos consciência individual contra uma ortodoxia coagulada em igrejas, a
de um pano de fundo metafísico. A própria razão transcendental projeta, qual "transforma os fundamentos naturais da eticidade numa coisa
ela mesma, uma totalidade do mundo, lançando mão de idéias capazes secundária". De outro lado, o Kant moralista também se volta conüa
de fundar unidade; por essa razão, ela é obrigada a renunciar a asserções o derrotismo esclarecido da descrença. Ele pretende, inclusive, salvar,
hipostasiantes sobre qualquer tipo de estrutura ontológica ou das garras do ceticismo, certos conteúdos da fé e certas normas da
teleológica da natureza e da história. Porquanto, nem o ente em sua religião, as quais podem ser justificadas dentro das fronteiras da simples
totalidade, nem o mundo ético enquanto tal forma um objeto possível razão.4 Aqui, a crítica da religião se liga ao motivo de uma apropriação
de nosso conhecimento. Tal confinamento epistemológico da razão salvadora.
teórica, a qual se vê limitada ao uso de uma capacidade cognitiva O atual fundamentalismo religioso que pode ser observado dentro
(Verstand) dependente da experiência, encontra o seu pendant na e fora dos muros do cristianismo, confere inusitada atualidade, triste,
filosofia da religião onde temos o "confinamento da razão - limitada à intenção daquela crítica da religião. Existe, no entanto, um
às condições de seu uso prático - tendo em vista todas as nossas idéias deslocamento nas acentuações. Aqui, no Ocidente europeu, uma auto-
sobre o supra-sensível".1 Nesse ponto, Kant enfrenta "arrogâncias da afirmação antropocêntrica ofensiva, da compreensão de si mesmo e
razão" que se manifestam nas duas direções. do mundo, a qual se posiciona contra uma auto-afirmação teocêntrica,
Na perspectiva da autocompreensão da filosofia, a crítica da é tida na conta de uma batalha já passada, de ontem. Por esta razão, a
metafísica vem, certamente, antes da crítica da religião. Mediante ela, tentativa de recuperar conteúdos centrais da Bíblia numa fé racional
Kant tenta combater as fantasmagorias especulativas de uma razão passou a ser mais interessante do que a luta obstinada contra o
que não resultam apenas de erros, isto é, de proposições falsas, mas obscurantismo e as mentiras dos clérigos. A razão prática pura não
de uma ilusão da razão - assentada em raízes profundas - sobre o pode mais estar tão segura de sua capacidade de enfrentar, sozinha e
modo de operar e sobre o alcance da própria capacidade de conhecer. lançando mão apenas das compreensões perspicazes de uma teoria da
Ao delimitar o uso teórico da razão, Kant pretende franquear à filosofia, justiça, uma modernização que está começando a sair dos trilhos. Ela
que até aquele momento simplesmente vagueara pelo campo de batalha não possui a criatividade que permitiria franquear o mundo por meio
da linguagem, sem a qual toma-se difícil regenerar, a partir de si mesma,
'KANT, I. Kritik der Urteilskraft. A, 435/B, 440. (Todas as citações de Kant uma consciência normativa que está fenecendo em todas as partes.
são extraídas da edição das obras de Kant (Werkausgabe) em 12 vols.,
organizada por W. Weischedel para a Edit. Suhrkamp, Ia ed., 1974).
4 KANT, I. Kritik der reinen Vernunft. B, VII-XLIV, prefácio à segunda edição.
236 237
Por isso, meu interesse na filosofia da religião, de Kant, toma da idéia de um outro ser acima dele [...] nem de outra mola
como orientação a seguinte questão: é possível apropriarmo-nos da impulsionadora que não seja a própria lei".6 Para descobrir a lei moral
herança semântica de tradições religiosas sem borrar os limites que e reconhecê-la como pura e simplesmente obrigatória não se necessita
separam os universos da fé e do saber? E em caso afirmativo, como mais da fé num Deus criador do mundo nem de uma fé num Deus
isso é possível? No prefácio à Disputa das faculdades, o próprio Kant salvador.
lembra - e isso certamente não foi provocado por motivos de A moral do igual respeito por cada um vale independentemente
autoproteção - "a deficiência teórica da pura fé da razão, que esta não de qualquer tipo de contexto religioso. Numa outra passagem, Kant
nega". Ele entende a compensação de tal deficiência como "satisfação confessa, é verdade, que não somos capazes de intuir o sentido de
de um interesse da razão" e pensa que as sugestões e estímulos validade categórica de obrigações morais, isto é, a "obrigatoriedade
provenientes de doutrinas da fé, transmitidas historicamente, podem moral, sem pensar, ao mesmo tempo, em um outro e em sua vontade
contribuir "mais ou menos" para tal processo. E nesse sentido, pelo (perante o qual a razão legisladora em geral se transforma numa mera
ângulo da própria fé da razão, "a revelação é tida como uma doutrina locutora), ou seja, sem pensar em um Deus." Convém destacar,
da fé, contingente e não essencial, porém, mesmo assim, não supérflua entretanto, que esse "tomar acessível à intuição" serve apenas para
ou desnecessária".5 A pergunta que se coloca agora é: que razões as "fortalecer as molas impulsionadoras da moral em nossa própria razão
tradições religiosas podem aduzir e em que sentido elas podem exigir, legisladora". 7 O fato de considerarmos Deus ou a razão como
por parte de uma filosofia da religião agnóstica - desenvolvida sem legisladores morais não muda o conteúdo das leis morais - já que
nenhuma intenção apologética - um tratamento que as considere "não- "quanto à matéria, isto é, quanto ao objeto, a religião não se distingue,
supérfluas?" A resposta, à qual pretendo chegar por intermédio de em nenhum ponto, da moral, já que ela tem a ver com obrigações em
uma leitura crítica, não pode estribar-se tanto em asserções sistemáticas geral".8 Uma doutrina religiosa só é possível, enquanto disciplina
de Kant como em motivos e explicações de intenção. filosófica, no sentido de uma aplicação crítica da teoria moral a
Em primeiro lugar, vou lembrar o traçado dos limites delineado tradições históricas dadas. Nesta medida, a filosofia da religião também
por Kant em sua filosofia da religião (1-5); num segundo momento, não é parte da ética desenvolvida pela simples razão prática.9
lançarei um olhar sobre a repercussão histórica e a atualidade dessa Na perspectiva de uma crítica à religião, Kant descreve a religião
tentativa de apropriação racional de conteúdos religiosos (6-12). positiva como simples "fé da igreja", particular e exterior. As grandes
religiões mundiais, fundadas por profetas, transmitidas por doutrinas
(1) Nascida do espírito do Iluminismo - cujo principal alvo era a
crítica da religião - a filosofia da religião, de Kant, pode ser interpretada 6 KANT, I. Die Religion innerhalb derGrenzen blosser Vernunft. BA, III. Cit, a
inicialmente como a ufana declaração de independência da moral seguir, como Religion.
racional e profana das amarras da teologia. O próprio prefácio já inicia 7 KANT, I. Metaphysik der Sitten. (Doutrina das virtudes), A, 181.
com uma declaração altissonante: "A moral, à medida que está fundada 8Streit der Fakultüten, A, 45.

no conceito do homem tido como um ser livre, isto é, como alguém ''Nesta perspectiva, uma proposição contida na "Conclusão" da Doutrina das
que, mediante sua razão, se liga a leis incondicionais, não necessita virtudes, que é ocasião de muitas interpretações falsas, adquire um sentido
menos capcioso: "É possível numa 'religião nos limites da simples razão', a
qual, no entanto, não é deduzida apenas da simples razão, mas também, ao
mesmo tempo, está fundada nas doutrinas da história e da revelação [...].".
s KANT, I. Streit der Fakullaten, A XVII. Cf. Metaphysik der Sitten. Tugendlehre, A, 182.

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e praticadas em formas de culto fundamentam uma fé ligada a É natural que a hermenêutica racional marginalize, sobre tal base
determinados fatos e testemunhos históricos, cuja influência se antropocêntrica, inúmeros artigos da fé, tal como, por exemplo, a
desenvolve nos limites de uma determinada comunidade religiosa em ressurreição dos corpos, sob a alegação de que se trata aí de simples
particular. A fé eclesial, que se apoia sobre verdades reveladas, surge ornamento histórico. Ela se vê obrigada, além disso, a despir
sempre no plural; ao passo que o elemento puramente moral da religião proposições centrais da fé, como a encarnação de Deus na pessoa de
natural se "comunica a qualquer um": "Existe apenas uma (verdadeira) Jesus Cristo, de sua significação essencial e a reinterpretar, por
religião; pode haver, no entanto, muitos tipos de fé."10 A religião criada exemplo, a graça de Deus, passando a tratá-la como imperativo para o
pela pura razão prática não necessita de formas de organização nem auto-engajamento: "Por conseguinte, as passagens da Bíblia que
de estatutos; já que ela está ancorada na interioridade "do coração parecem conter uma entrega passiva a um poder exterior que provoca
para observação de todos os deveres humanos", "não em estatutos ou em nós santidade têm de ser interpretadas de tal sorte que fique claro
observâncias"." As doutrinas bíblicas formam um invólucro que não que nós temos de trabalhar por nós mesmos no desenvolvimento
podemos confundir com o conteúdo racional da religião.12 daquelas disposições morais que se encontram em nós."15 O contexto
Osfilósofos"ilustrados pela razão" fundam-se nessa premissa histórico e salvífico do pecado, do arrependimento e da reconciliação
quando pretendem discutir com os teólogos "ilustrados pela Bíblia" a e, com isso, a própria confiança escatológica no poder retroativo de
correta interpretação da Bíblia no que tange ao essencial da religião um Deus salvador, retiram-se, passando a ser retaguarda do dever que
("que consiste no elemento prático-moral, naquilo que devemos exige um esforço moral no interior do mundo. A retroligação subjetiva
fazer"). Kant eleva a razão como medida para a hermenêutica da fé de todas as referências transcendentes da fé à razão prática pura do
das igrejas transformando, destarte, "a melhora moral do homem, a homem tem, no entanto, o seu preço. Isso aparece tão logo é colocada
finalidade propriamente dita de toda religião racional" no "princípio a seguinte pergunta: qual é o ponto de partida de nosso agir moral: "a
supremo de toda a interpretação da Escritura".13 Na Disputa das fé no que Deus fez por nós? Ou o que temos de fazer para nos tomarmos
faculdades o tom se agudiza ainda mais. Aqui trata-se explicitamente dignos disso (independentemente da forma que isso venha a
da pretensão da filosofia, a qual se julga no direito de decidir sobre as assumir)?";16 Kant decide-se pelo valor intrínseco do modo de vida
verdades da Bíblia e de colocar de lado tudo aquilo que não pode ser moral: "O que o homem é em sentido moral, ou deve ser - bom ou
reconhecido "mediante conceitos de nossa razão à proporção que eles mau - tem de ser feito ou deve ser feito por ele mesmo."17 Sem em-
são puramente morais e, com isso, infalíveis". É interessante notar bargo, o comportamento moral não lhe confere nenhum direito à
que o pronome pessoal "nossa", sublinhado, é elucidado ironicamente felicidade. Por intermédio disso ele se mostra, quando muito, digno
por intermédio de uma referência ao princípio protestante da exegese de experimentar felicidade. A eticidade torna o justo digno da
individual de leigos. Porquanto, somente "o Deus em nós mesmos", é felicidade, mas não necessariamente feliz.
intérprete autêntico, o qual é confirmado por meio de um fato da razão,
a saber, a lei dos costumes.14
(2) À proporção que tradições religiosas são reduzidas, por este
caminho, a um conteúdo puramente moral, não podemos resistir à
10 Religion, A, 146/B, 154.
"Religion, A, 107/B, 116.
12 Streit der Fakultaten, A 65. 15 Streit der Fakultaten, A 60.
"Religion, A 152/B 161. 16Religion, A 163/B 172.
14Streit der Fakultaten, A 70 e A 108. ''Religion, A45/B 48.

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impressão de que a filosofia da religião se limita, a exemplo da crítica acreditar estarem sendo o fim terminal da criação", 20 encontra
da metafísica, à destruição de uma aparência transcendental. Kant, no certamente ouvidos na "doutrina do cristianismo".
entanto, não permite que a filosofia da religião se esgote no negócio A mensagem religiosa enfrenta a proverbial insensibilidade de
da crítica da religião. Precisamente na passagem onde ele lembra à mandamentos morais válidos incondicionalmente, os quais são
teologia que "a lei moral não [promete], por si mesma, nenhuma impassíveis ante as conseqüências do agir moral na história e na
felicidade",18 fica claro também um outro aspecto da filosofia da sociedade, lançando mão de uma promessa: "A lei moral, de si mesma,
religião, construtivo, porquanto ela é capaz de encaminhar para a razão não promete nenhum tipo de felicidade [...]. Entretanto, a doutrina
certas fontes religiosas das quais a própria filosofia pode extrair moral cristã preenche tal lacuna [...] por meio da representação do
estímulos e, desta forma, aprender algo. Entretanto, mesmo que não mundo - no qual seres racionais se entregam de todo coração à lei
fosse possível descobrir, nas próprias leis morais, "a menor razão para ética - como um reino de Deus no qual a natureza e os costumes [...]
um nexo necessário" entre a pessoa que se tornou moralmente digna entram em harmonia através de um autor sagrado que toma possível
da felicidade e a felicidade de que realmente ela goza, o fenômeno o bem supremo inferido."21 Como se vê, Kant traduz a representação
dos que sofrem injustamente ofende um sentimento profundo. Nossa bíblica do "reino de Deus" lançando mão do conceito metafísico de
indignação provocada pelo andar injusto do mundo nos revela, de "bem supremo", porém, não o faz - como era de se esperar - na
modo inequívoco, que "não pode ser indiferente o fato de um homem intenção de uma crítica da metafísica, isto é, na intenção de recolocar
honesto e justo até o final de sua vida não encontrar, ao menos em seu devido lugar uma razão especulativa divagadora. Porque à
aparentemente, nenhum tipo de felicidade como recompensa para suas filosofia da religião não interessa colocar limites à razão teórica, a
virtudes ou o fato de um homem desonesto e violento até o final de qual é importunada por questões não respondidas, e sim, ampliar o
sua vida não encontrar nenhum tipo de castigo para seus crimes. É uso da razão prática para além da legislação moral de uma rigorosa
como se [nós] captássemos uma voz que dissesse, tudo tem de ser ética do dever, incluindo os postulados presuntivamente racionais de
diferente"}9 Certamente, a respectiva felicidade de cada um, que Deus e da imortalidade.
pretendemos usufruir tendo em vista nosso comportamento virtuoso Já no prefácio ao texto sobre a religião, Kant chama a atenção
constitui apenas o fim terminal e subjetivo de seres racionais que vivem para o momento excedente que distingue a pura fé religiosa da simples
neste mundo, para o qual eles tendem por sua própria natureza. Em consciência de deveres morais, porquanto nós, na qualidade de seres
que pese isso, existe um outro pensamento que é quase mais ofensivo racionais, temos interesse na promoção de um fim terminal, mesmo
à razão prática - que visa o geral - do que a falta de garantia da que a sua realização - proporcionada por um poder superior - só possa
felicidade individual para as pessoas que agem corretamente: trata-se ser pensada como resultado de uma acumulação feliz de efeitos
do fato de que todas as ações morais no mundo, tomadas em seu colaterais, para nós inteiramente imprevisíveis, do agir moral
conjunto, não conseguem fazer nada para melhorar o estado desastroso incondicional. Sem dúvida, um agir correto não necessita de nenhum
em que se encontra a convivência da humanidade em sua totalidade. tipo de fim. E, inclusive, qualquer representação de fim desviaria os
E este protesto contra a contingência de um destino natural da sociedade que agem moralmente da incondicionalidade daquilo que é
que "relança na goela do caos absurdo da matéria aqueles que poderiam respectivamente exigido de forma incondicional. Mesmo assim, "a
18 KANT, I. Kritik der praktischen Vernunft, A 231. 0 Kritik der Urteilskraft, A 423/B 428.
19Kritik der Urteilskraft, A 434/B 439. Sublinhado por mim. 1 Kritik der praktischen Vernunft, A 231 s.

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razão não pode deixar de ser afetada pelas respostas dadas à pergunta: consonância com a lei, é uma simples idéia que nada acrescenta ao
o que advirá de nosso agir correto, o qual não pode deixar de ser o fim conteúdo da lei moral dirigida a cada indivíduo em particular. Com o
para o qual dirigimos e continuaríamos a dirigir nosso fazer e deixar auxílio de tal idéia transcendental, Kant soletra, é bem verdade, a
de fazer, mesmo que isso não estivesse plenamente ao nosso forma de uma convivência (ordenada, de certo modo, à maneira de
alcance?".22 O que transforma a pura fé religiosa numafé é o interesse uma republica) que adquire forma sob as condições de uma obediência
(que ultrapassa a consciência moral) da razão "em aceitar um poder geral a leis morais (quando "cada um faz o que deve fazer"). Não
capaz de assegurar a elas (às leis morais e às ações conformes à lei) o obstante isso, somente quando tal idéia deixasse de ser uma simples
inteiro efeito possível num mundo e coerente com um fim terminal diretriz de um agir moral individual e fosse traduzida para o ideal de
ético."23 um estado político e social, a ser realizado cooperativamente no mundo
Por que razão tal carência tem de ser racional e por que esse das manifestações fenomênicas, o reino inteligível dos fins transformar-
interesse tem de ser precisamente um interesse da razão? A tarefa de se-ia em um reino deste mundo. Ora, a filosofia da religião, de Kant,
mostrar isso compete à própria razão prática. E a prova não pode ser tentou realmente concretizar tal transposição mediante o conceito
esperada do encontro da filosofia com as doutrinas históricas da "comunidade ética". Ele introduzirá, todavia, no quadro de sua teoria
religião. Ela tem de ser apresentada na própria teoria moral (e moral, na forma de escrito intermediário, a concepção do "bem
franqueada pela crítica da faculdade do juízo, teleológica, portanto, supremo", a qual também projeta a "consonância entre moral e
por considerações heurísticas da filosofia da natureza24). Como ponte, felicidade" como um estado no mundo. Tal ideal, entretanto, não é
serve o antigo conceito de "bem supremo", o qual pode ser recheado representado como um alvo a ser perseguido cooperativamente, mas
com conteúdos escatológicos quando é equiparado ao conceito bíblico como o esperado efeito coletivo de todos os fins particulares
de "reino de Deus". De fato, é graças à antecipação imperceptível da perseguidos individualmente sob leis morais.
força semântica religiosa - capaz de franquear o mundo - que Kant Tal estado ideal de felicidade geral, derivado indiretamente da
tem condições de avançar, tateando, até uma doutrina de postulados, suma de todas as ações morais, não pode, no entanto, sob premissas
a qual é capaz, apesar de tudo e apesar dos paradoxos, de emprestar à da teoria moral kantiana, ser proposto propriamente como um dever.
razão prática a força necessária para insuflar esperança numa Quando Kant declara "nós devemos tentar promover o bem supremo",
"promessa da lei moral".25 tal dever fraco - como ele poderia ser chamado - bate de encontro aos
limites da perspicácia racional humana, a qual, quando se trata da
(3) Em sentido estrito, a competência da razão prática abrange persecução comum de fins benemerentes logo se enreda,
apenas as exigências morais que cada pessoa singular toma como seu inevitavelmente, nas malhas intransparentes de efeitos colaterais não
dever de acordo com a lei dos costumes. O próprio "reino dos fins", intencionados.26 Por si mesma, a razão prática não pode ir além da
no qual todas as pessoas se encontram reunidas na qualidade de reprodução fenomenal da realidade "noumenal" do reino dos fins no
cidadãos de uma comunidade moral e no qual legislam e agem em
26 Sobrea concretização do bem supremo cf. a análise primorosa de WIMMER,
22 Religion, BA VII. R. Kants kritische Religionsphilosophie. Berlim, 1990, 57-76 e 186-206. Eu
23 Religion, A 139/B 147. não vejo, entretanto, como é possível (75s.) entender a "promoção" do bem
24 Não posso aprofundar essas considerações nos parágrafos 82-91 da Critica supremo como idéia moral obrigatória sendo que, ao mesmo tempo, a
da faculdade do juízo. Por isso, limito-me algumas passagens esporádicas. "realização" desse fim terminal vale apenas como ideal. Eu posso "promover"
25 Kritik der Urteilskraft, B 463, nota de rodapé. um fim à medida que tento contribuir para a sua realização.

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ideal do bem supremo - que transparece em contornos debilitados -, Tal pergunta, no entanto, não conseguiu aflorar em Kant tendo
o qual não é, em todo caso, vinculante do ponto de vista moral. E em vista a obrigatoriedade incondicional de uma lei dos costumes
sabemos que os "ideais" são para Kant "platônicos", isto é, menos fundada unicamente no fato do sentimento do dever. Podemos
importantes. E já que a capacidade cognitiva humana não consegue convencer-nos da obrigatoriedade da lei dos costumes mesmo privados
prever a complexidade das conseqüências da cooperação ética no da possibilidade de uma promoção efetiva de um bem supremo e sem
mundo conduzido por leis da natureza, o agir por dever exige de quem a posse da idéia dos correspondentes postulados. Numa referência ao
se decide por ele uma orientação por idéias e uma circunscrição da exemplo de Spinoza temos: "Suposto que: um homem se convence a
escolha de seus objetivos (Zwecke) de acordo com leis morais; ele si mesmo [...] de que não existe Deus: mesmo assim, ele seria, aos
não pode, por outro lado, ser obrigado moralmente a perseguir um seus próprios olhos, alguém sem nenhuma dignidade caso considerasse
alvo (Ziel) efusivo, isto é, um fim que ultrapassa as leis morais - as leis do dever como simplesmente forjadas, inválidas, não
como seria o caso da concretização de um estado ideal no mundo. obrigatórias".31 Por conseqüência, as próprias tentativas de
É interessante notar que, não obstante isso, Kant manipula todos fundamentação, que Kant elabora em diferentes contextos, não
os registros conceituais disponíveis para alçar a realização do bem conseguem convencer de forma cabal. Uma ética fundamentada
supremo no mundo à categoria de um dever moral. E mesmo que o deontologicamente, a qual entende todo o agir moral como um agir
mandamento, segundo o qual cada um deve colocar como fim termi- sob normas justificadas moralmente, não consegue subordinar, a seguir,
nal (Endzweck) de seu agir o maior bem possível no mundo - uma a vontade autônoma, a qual se autovincula a compreensões morais, a
afinação geral entre moralidade e felicidade, - não possa estar contido uma finalidade.
nas próprias leis morais, ou seja, não possa ser justificado a partir da No entanto, Kant objeta: "Não existe nenhuma vontade sem
lei dos costumes, como é o caso de todos os deveres concretos ("por algum tipo de finalidade (Zweck); mesmo que, ao se tratar da pura
conseguinte, quando se coloca a questão acerca do princípio da moral obrigação legal das ações, seja necessário abstrair dele [...]."32 Convém,
pode-se passar por alto e deixar de lado a doutrina do bem supremo pois, perguntar se, ao desistirmos de um comportamento injusto,
[...]"27), Kant gostaria de nos convencer de que no "respeito pela lei devemos subordinar a decisão de nos atermos a leis morais a um fim
moral" já está implícita a "intenção dirigida ao bem supremo".28 Nós (Zweck). Entretanto, se todos os fins (Zwecke) já se subordinam a
devemos representar o bem supremo como "o objeto inteiro da razão uma avaliação moral, como é possível o "despontar" de um fim ter-
minal (Endzweck) a partir do conjunto de todos os fins legítimos, o
prática", "porque é inerente a esta um mandamento que exige envidar qual justifica a própria moralidade? Kant se satisfaz com uma indicação
todos os esforços possíveis para a concretização dele".29 Só é capaz da inexistência de proveito próprio na necessidade de participar da
de entender tal mandamento "supramoral" quem tiver ciência da realização do fim terminal, a qual só pode ser pensada nas condições
pergunta que provocou tal resposta, a saber: o que nos obriga a ser
seres morais?30
teleológica falsa. Cf. APEL, K.-O. Diskurs und Verantwortung. Frankfurt/M.,
1988,103-153; contra essa posição cf. HABERMAS, J. "Zur Architektonik der
27 KANT, I. Über den Gemeinspruch, A 213. Diskursdifferenzierung", in: BÕHLER, D., KETTNER, M. SKIRBEKK, G.
28 Kritik der praktischen Vernunft, A 239.
29 Kritik der
(eds.). Reflexion und Verantwortung. Frankfurt/M., 2003, 44-64. No presente
praktischen Vernunft, A 214. volume, cap. 2.
., Parece que Karl -Otto Apel dá esse passo na "Parte B" de sua ética, o qual 31 Kritik der Urteilskraft, A421/B 426.
conduz, mediante apreensão de um princípio deontológico, a uma conclusão 12 Kritik der Urteilskraft, A 42 l/B 426.

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de um agir totalmente moral: "Por isso, no homem, a mola propulsora existência de uma causa de toda a natureza, distinta da própria natureza,
- que consiste na idéia do maior bem possível no mundo mediante a que contem o fundamento de tal coesão, isto é, da coincidência precisa
sua participação - não é a felicidade própria, visada com isso, porém, entre felicidade e eticidade."35
apenas essa idéia como fim em si mesma, portanto (?) sua persecução Será que tal concepção do bem supremo, a qual não se coaduna
enquanto um dever. Porquanto ela não contém a perspectiva da sem mais nem menos com os fundamentos da teoria moral, não obriga
felicidade enquanto tal, apenas a perspectiva de uma proporção entre Kant a costurar uma argumentação sinuosa afimde postular, ao menos,
ela e a dignidade do sujeito, qualquer que ele seja. Entretanto, uma a existência de Deus? Sem embargo, a imputação de tal motivo ao
determinação da vontade que confina a si mesma - e sua intenção de espírito incorruptível que se exterioriza em cada uma das proposições
pertencer a essa totalidade - a semelhante condição não é elaboradas por esta filosofia seria, não somente barata, mas também
interessei™."33 Não obstante isso, a ausência de interesse próprio não inverossímil. Longe disso, Kant tentou acrescentar ao modo de pensar
perfaz o sentido de um dever, pois, ela pode eventualmente constituir moral a dimensão que abre a perspectiva de um mundo melhor por
uma pressuposição para a obediência a um dever determinado que se amor à própria moral, isto é, para fortalecer a própria confiança no
opõe aos próprios desejos. No final, Kant é obrigado a admitir que modo de pensar e sentir moral e para protegê-la contra o derrotismo.
aqui nos defrontamos com "uma determinação da vontade de tipo Adorno afirma que o segredo da filosofia kantiana reside em "a
especial", 34 a qual não pode ser colocada no mesmo plano dos inesgotabilidade (Unausdenkbarkeit) do desespero, o qual jamais pode
"deveres" que ele caracteriza geralmente. ser tematizado inteiramente pelo pensamento". Ora, eu não consigo
entender tal dito apenas no sentido de uma crítica aos olhos azuis do
(4) Por que razão Kant insiste, mesmo assim, no dever de iluminista, mas como assentimento ao Kant dialético que mira os
promover o bem supremo? Uma primeira resposta já é sugerida pelo abismos de um iluminismo que se enrijece e empertiga na
postulado da existência de Deus. Entretanto, supondo que aceitemos subjetividade. Kant pretende imunizar o Spinoza secular - "que se
um tal dever efusivo, não temos como fugir à seguinte pergunta: de mantém firmemente convencido de que: não existe Deus [...] nem
que modo uma obediência geral a leis morais poderia realizar o bem vida futura" - contra o desespero provocado pelos efeitos lamentáveis
supremo em um mundo dominado pela causalidade da natureza? A de um agir moral que tem o seu fim apenas em si mesmo.
razão prática só pode transformar numa tarefa moralmente obrigatória E bem verdade que Kant pretendia superar a metafísica, a fim de
a co-participação na realização de tal fim se a concretização desse abrir espaço para a fé. Não obstante isso, ele encara a "fé" mais como
ideal não fosse impossível a priori. Em que pese isso, ela tem de ser um modo do que como conteúdo. Ele procura um equivalente racional
possível ao menos em pensamentos. Por conseguinte, a razão prática para a atitude de fé, a saber, o hábito cognitivo do crente: "Afé (Glaube)
nos incumbe de uma tarefa que aparentemente ultrapassa as forças (caracterizada pura e simplesmente como tal, por conseguinte, não
humanas, e que consiste em contar com a possibilidade de uma somente afé religiosa, mas também afé da razão {Vernunftglaube) é
inteligência superior capaz de harmonizar os efeitos intransparentes uma confiança no êxito de uma intenção cuja promoção é dever, cuja
da moralidade com o movimento do mundo que é controlado por leis possibilidade de concretização, no entanto, não temos condições de
da natureza: "Nós devemos tentar promover o bem supremo (que deve ver."36 Na nota de rodapé, Kant acrescenta, a título de explicação: "É
ser possível, apesar de tudo). Por conseqüência, postula-se também a
15 Kritik der praktischen Vernunft, A 225.
33 Über den Gemeinspruch, A 213, nota de rodapé. "'Kritik der Urteilskraft, A 456/B 462 (as palavras em itálico foram inseridas
por mim).
34 Über den Gemeinspruch, A 212, nota de rodapé.

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uma confiança na promessa da lei moral; porém, não enquanto tal, ou traduzir a idéia do "reino dos fins", isto é, permite transpô-la da palidez
seja, enquanto promessa contida na mesma lei, mas como promessa transcendental do inteligível para uma utopia intramundana. Por este
que eu insiro nela [o itálico é meu] precisamente porque possuo uma caminho, os homens adquirem confiança, a qual lhes permite pensar
razão moralmente suficiente." Kant gostaria de manter um momento que, com o seu agir moral, eles podem colaborar na realização da
da promessa, porém, destituída de seu caráter sacral. Para imunizar o "comunidade ética" que Kant soletra filosoficamente lançando mão
modo de sentir e pensar moral contra as aparências que sufocam a da metáfora de um domínio de Deus sobre a terra.
coragem, ele deve ser ampliado pela inserção da dimensão de uma Sem a antecipação histórica que a religião positiva fornece à
confiança num sucesso finito que poderia ser tomado como fim de nossa imaginação por intermédio de seu tesouro de imagens
todas as ações morais contempladas em conjunto. Com esse passo, estimulantes, a razão prática estaria privada de estímulos epistêmicos
Kant não pretende recuperar conceitualmente, em primeira linha, capazes de alçá-la ao nível de postulados dos quais ela lança mão para
conteúdos religiosos, e sim, integrar na razão o sentido pragmático do recuperar, no horizonte de considerações racionais, uma necessidade
modo da fé religiosa. Nessa passagem ele mesmo comenta sua tentativa que já se encontra articulada em conceitos religiosos. E caso seja
como "imitação lisonjeira" do conceito cristão da fé (fides). A fé da possível apropriar-se, segundo medidas racionais, do material histórico
razão conserva, ao que tudo indica, o caráter especial de uma espécie encontrado, a razão prática pode encontrar algo já estruturado nas
de "ter-por-verdadeiro" que mantém, pelo ângulo do saber moral, a tradições religiosas que promete compensar uma precisão formulada
referência a argumentos convincentes e, pelo ângulo da fé religiosa, o em termos de "carência da razão" (Vemunftbedürfhis).
interesse na realização de esperanças existenciais.17 Kant não reconhece tal dependência epistêmica quando concede
Quando tentamos explicar a complementação da lei dos cos- à religião positiva e à fé eclesial uma função meramente instrumental.
tumes por meio do dever de colaborar na realização do fim terminal - Ele é de opinião que os homens necessitam de modelos concretos, de
que é problemática, inclusive, à luz dos próprios pressupostos kantianos histórias exemplares de profetas e de santos, de promessas e milagres,
- lançando mão do motivo da "inesgotabilidade do desespero que de imagens sugestivas e narrativas edificantes apenas como "ocasiões"
jamais pode ser tematizado cabalmente pelo pensamento" toma-se para superar sua "descrença moral" e explica tal fato apelando para a
claro o ponto da tradição judeu-cristã pelo qual Kant deve interessar- fraqueza da natureza humana. A revelação apenas abrevia o caminho
se acima de tudo. Mais do que a promessa de um além envolvendo a para a propagação de verdades da razão. Sob uma forma doutrinária,
existência de Deus (ou, inclusive, a imortalidade da alma humana) ela toma acessíveis verdades às quais os homens "poderiam ter chegado
trata-se da perspectiva da promessa do reino de Deus sobre a terra: por si mesmos [...] mediante o simples uso de sua razão" mesmo sem
"A doutrina do cristianismo, mesmo quando não se a considera como condução autoritária.39 De sorte que, no final das contas, "a fé
doutrina da religião, fornece [...] um conceito do bem supremo (do puramente moral" surgirá das cápsulas convencionais da fé eclesial:
reino de Deus) que é o único capaz de resistir às exigências mais "E preciso depor [...] as cápsulas [...]. O tomo principal da sagrada
severas da razão prática."38 O pensamento escatológico de um Deus, tradição, com seus apêndices, estatutos e observâncias que, no seu
que age na história e que supera todos os ideais platônicos, permite
Religion, A 219/B 233. Cf. também Streit der Fakultaten, A 46: "O teólogo
Esse conceito não cabe no esquema dos três modos de "ter por verdadeiro" bíblico diz: procurai na Escritura onde pensais encontrar a vida eterna. Esta,
que Kant tinha introduzido na Crítica da razão pura (A 828/B 856). porém, uma vez que as condições são as mesmas do aprimoramento moral
Kritik der praktischen Vernunft, A 230 s. do homem, não pode ser encontrada em nenhum lugar de nenhuma escritura.

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tempo, prestou bons serviços, torna-se, mais e mais dispensável e, no concreta de uma forma de vida. Kant não desenvolve o conceito da
final, peia [...]."40 "comunidade ética" em contextos da filosofia prática, mas no decorrer
de sua aplicação "a uma história já feita".44 Tudo indica que a "religião
(5) Sem embargo, quando Kant descreve tal "passagem da fé nos limites da simples razão" não extrai das tradições religiosas tudo
eclesial para o domínio exclusivo da pura fé religiosa" sob o aspecto aquilo que poderia fazer sentido perante a razão;45 ao contrário, parece
de uma "aproximação do reino de Deus"41 (o que constitui, por sua que ela também recebe, por seu turno, impulsos para a ampliação de
vez, uma cifra para representar o estado do "melhor dos mundos" um "estoque de razão" bem circunscrito do ponto de vista deontológico.
realizado), e quando o faz de tal modo que as formas de organização No processo de reconstrução do conteúdo racional das "doutrinas da
eclesial já antecipam determinadas características essenciais de uma história e da revelação" Kant interessa-se especialmente pela
constituição futura, isso não combina com arígidacompreensão crítica contribuição oferecida pelas comunidades de fé organizadas para a
da fé eclesial, segundo a qual, esta constitui simples "veículo" para a "fundação do reino de Deus sobre a terra". A "doutrina da religião
propagação da fé da razão. A fórmula da "aproximação" pode ser aplicada" elabora o conceito racional de uma "comunidade ética" -
entendida em dois sentidos: no sentido de um genitivo subjetivo, o que corresponde à cifra do reino de Deus sobre a terra - e obriga,
reino de Deus aproxima-se do homem (aproximação do reino de Deus); destarte, a razão prática a superar o plano de uma simples autolegislação
no sentido de um genitivo objetivo (aproximação ao reino de Deus), o moral por intermédio de um "reino dos fins", inteligível.
homem aproxima-se do reino de Deus. Isso significa que, quando nós Conforme já vimos, a teoria moral atribui ao "reino dos fins"
entendemos a realização de um "reino de Deus sobre a terra" - em um status inteligível, o qual não tem precisão de nenhuma
que pese o "contra-senso que é a idéia, segundo a qual, os homens complementação terrena.
deveriam fundar um reino de Deus"42 - como resultado dos esforços Tal idéia dirige-se, respectivamente, a cada um dos destinatários
cooperativos do próprio gênero humano, as instituições voltadas à da lei dos costumes. Ela não necessita de nenhum tipo de realização
salvação, que surgem inicialmente no plural, desempenham um papel na figura de uma comunidade moral porque o sentido de tal modelo
organizatório importante no difícil caminho que leva à "verdadeira de uma "união de seres racionais mediante leis objetivas comuns"
igreja". Ao passo que a aproximação ao reino de Deus é representada não consiste em forçar qualquer tipo de cooperação ou de participação
"na forma sensível de uma igreja [...], cuja organização compete aos numa prática comum. Somente in abstracto o "reino dos fins" coloca
homens enquanto obra que lhes é confiada e que pode ser exigida ante os olhos um estado em que dominam leis morais válidas
deles".43 categoricamente - sem a consideração das conseqüências fáticas da
A instituição de uma comunidade eclesial que se auto-entende ação no complexo mundo dos fenômenos. O caráter público desse
como "povo de Deus reunido sob leis éticas" estimula Kant a formar, mundus intelligibilis permanece, de certa forma, virtual. O seu pen-
na filosofia da religião, um conceito que oferece, para a pálida herança dam real no mundo encontra-se na comunidade de cidadãos
metafísica contida no "bem supremo", a incorporação plástica na figura
44 Metaphysik der Sitten, A 182 s.
w Religion, A 170/B 179. 45 A meta declarada da filosofia da religião consiste
em "representar [...] somente
41 Cf. o título do capítulo in: Religion, A 157/B 167. aquilo que, no texto da religião tida como revelada, isto é, no texto da Bíblia,
42 Religion, A213/B 227. pode ser reconhecido pela simples razão". Prefácio a Streit der Fakultaten,
4} Religion, A 212/B 226. A XI, nota de rodapé.

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republicanos organizados sob leis jurídicas. E a moralidade, que é individual, mas também àquilo que é "melhor para o mundo", isto é,
tida como interna, só pode aflorar passando pelo médium do direito para todos, o "superdever" de promover tal estado continua vazio de
coativo, o qual permite que ela deixe pegadas visíveis no comporta- sentido; porquanto ele não pode ser concretizado a não ser pelo
mento legal. caminho indireto da obediência individual a deveres simples.
Ora, Kant desfaz-se desse forte dualismo entre dentro e fora, Cada um em particular está ligado "diretamente" à lei dos cos-
entre moralidade e legalidade, quando traduz a idéia de uma igreja tumes. Ora, isso se modifica quando o bem supremo, que toda pessoa
geral, invisível e inscrita em todos os tipos de associação religiosa justa espera promover mediante um agir moral perseverante, é
para o conceito de "comunidade ética". Como resultado de tal passo, substituído pela visão de uma forma de vida que Kant traduz pelo
o "reino dos fins" se evade da esfera da interioridade e assume uma conceito de comunidade ética. Porquanto, a partir de agora, as práticas
figura institucional - em analogia com uma comunidade eclesial locais de uma vida em comunidade, que tal forma de vida antecipa
inclusiva e universal: "Podemos designar [...] uma relação entre mesmo que de forma truncada, e que incorpora de forma mais ou
homens sob simples leis da virtude [...] uma relação ética e, à medida menos aproximada, podem constituir "pontos de união" para tentativas
que tais leis são públicas, podemos caracterizá-la como relação ético- cooperativas de uma aproximação maior: "Pois somente assim pode-
cidadã (ethisch-bürgerlich) (para diferenciá-la da relação jurídico- se esperar uma vitória do bom princípio sobre o mau. A razão que dita
cidadã) (rechtlich-bürgerlich).,,46Tai passagem clarifica sobremaneira leis morais, além de prescrever leis a cada um em particular, ainda
o fato de que a formação dos conceitos e teorias da filosofia depende empunha a bandeira da virtude como ponto de união para todos os
de uma fonte de inspiração que se alimenta da tradição religiosa. que amam o bem, a fim de que eles se reúnam sob ela[...]."47 Nesta
Ao elaborar a concepção de um "estado ético-cidadão" de uma perspectiva, o dever individual de promover o bem supremo
comunidade organizada apenas de acordo com leis da virtude, o qual transforma-se no dever de membros de comunidades distintas, já
surge ao lado do "estado jurídico-burguês", Kant fornece uma nova existentes, de se unir em um "Estado ético", isto é, em um "reino da
possibilidade de interpretação, intersubjetivista, do "fim terminal de virtude" cada vez mais abrangente e inclusivo.48
seres do mundo racionais". Através disso, o próprio dever de colaborar
na realização do fim terminal adquire um novo sentido. Até agora, a (6) Entretanto, a razão não é capaz de recuperar a idéia de uma
"realização" do bem supremo tinha de ser pensada mais como uma aproximação do reino de Deus sobre a terra - a qual extrapola a lei
"espécie de resultado" (Hervorgehen) - não intencionado pelo homem dos costumes - lançando mão apenas dos postulados de Deus e da
- constituído pela soma de efeitos e efeitos colaterais complexos e imortalidade. Muito mais do que isso, a intuição que se liga a tal
imprevisíveis de todas as ações morais. Por isso, o curioso "dever" de projeção lembra que o correto tem de procurar respaldo no bem con-
colaborar na realização do fim terminal não poderia ter uma influência creto de formas de vida melhores e melhoradas. As imagens
direta sobre a orientação do agir, apenas, quando muito, sobre a orientadoras de formas de vida não-fracassadas que poderiam auxiliar,
motivação para o agir. Somente as leis morais possuem força de certa forma, a moral, pairam ante nossos olhos - mesmo sem a
orientadora, pois, segundo elas, cada pessoa decide por si mesma o certeza da proteção divina - como um horizonte do agir que é, ao
que o dever exige em cada situação. Mesmo quando o estado ideal da mesmo tempo, confinante e propiciador de abertura, porém, não como
convergência entre virtude e felicidade não é referido apenas à salvação
Religion, A 12 l/B 129.
Religion, A 122/B 130.
Religion, A 122/B 129 s.

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a comunidade ética kantiana no singular e também não nos contornos conservá-la ai como ponto de vista moral.49 A tentativa visando
rígidos daquilo que é devido. Elas nos inspiram e nos encorajam a desinflacionar racionalmente o modo da fé sem, contudo, liquidá-lo,
tentativas cautelosas de cooperação, e a repetições teimosas de um também se alimenta de tal genealogia.
mesmo tipo, que mui freqüentemente transcorrem sem sucesso algum O próprio idealismo kantiano, destituído de ilusões, é expressão
porque elas só podem ser bem sucedidas em circunstâncias felizes. de uma atitude cognitiva que liga uma abertura honesta para os
A doutrina dos postulados deve sua existência à introdução de protestos pessimistas da razão teórica a uma decisão otimista de uma
uma obrigação {Pflicht) problemática que permite ao "dever ser" razão prática que não se deixa intimidar. Tal combinação preserva um
{Sollen) ultrapassar a tal ponto o "ser capaz de" (Kõnnen) humano, "habitus da razão", o qual tende naturalmente ao ceticismo, de cair na
que tal assimetria precisa ser sanada pela ampliação do "saber" (Wissen) indiferença derrotista ou na autodestruição cínica. É bem verdade que
acerca da fé. Tal estado de coisas reflete também o dilema no qual Kant não conseguiu superar o umbral de uma consciência histórica,
Kant se enreda por causa do conflito provocado por sua intenção de cuja relevância foi reconhecida, logo a seguir, por Hegel. Ele ainda
considerar a religião como oponente e, ao mesmo tempo, herdeira. entendia a apropriação reflexiva de conteúdos religiosos na perspectiva
De um lado, a religião é, para ele, fonte de uma moral que satisfaz a de uma substituição gradativa da religião positiva por uma fé pura na
medidas da razão; de outro lado, ela pode ser tida como um refúgio razão, e não como a decifração genealógica de um contexto de
desde que a filosofia a purifique da ganga do obscurantismo e do surgimento histórico da qual a própria razão participa. Porém, de um
fanatismo. Entretanto, a tentativa de uma apropriação reflexiva de certo modo, a doutrina dos postulados já reconcilia a razão, que tem
conteúdos religiosos entra em conflito com o objetivo declarado da certeza de si mesma e que critica a religião, com a intenção de uma
crítica da religião, que consiste em julgar filosoficamente sobre sua tradução salvadora de conteúdos religiosos.
verdade e falsidade. A razão não pode realizar, ao mesmo tempo, duas Nosso olhar hermenêutico sobre a filosofia da religião, de Kant,
coisas opostas: comer o bolo da religião e, ao mesmo tempo, conservá- passa naturalmente pelo filtro de duzentos anos de influência histórica.
lo. Mesmo assim, a intenção construtiva da filosofia da religião, Nesse contexto, lembro-me do caráter apologético da obra de Hermann
Cohen, o filósofo da religião mais importante no âmbito do
kantiana, continua merecendo nosso interesse quando nossa questão neokantismo: ele utiliza a religião da razão, de Kant, como chave
é: será que - na perspectiva de um pensamento pós-metafísico - o uso para uma interpretação detalhada das fontes literárias da tradição
prático da razão poderia aprender algo da força de articulação das judaica.50 Contra o anti-semitismo intelectual de seu entorno, ele
religiões mundiais? pretende colocar em relevo o conteúdo humanista e o sentido
A tradução da idéia do poder de Deus sobre a terra para o conceito
de uma república sob leis virtuosas revela de maneira exemplar que HABERMAS, J. "Eine genealogische Betrachtung zum kognitiven Gehalt der
Kant liga a delimitação crítica, e, ao mesmo tempo, autocrítica, entre Moral", in: id., Die Einbezieliung des Anderen. Frankfurt/M., 1996, 11-64,
saber e fé, com a atenção para a possível relevância cognitiva de aqui, 16 ss.
conteúdos conservados em tradições religiosas. No seu todo, a filosofia COHEN, H. Religion der Vernunft aus den Quellen des Judentums
moral de Kant pode ser interpretada como tentativa de reconstruir o (Reimpressão da segunda ed. 1928), Wiesbaden, 1988, 4: "Uma vez que o
conceito de religião me leva às fontes literárias dos profetas, tenho a dizer
dever-ser {Sollen) categórico dos mandamentos divinos por um que elas permanecem mudas e cegas se eu não me aproximar delas com um
caminho discursivo. Em seu todo, a filosofia transcendental tem o conceito na mão - certamente instruído por elas, porém, não simplesmente
sentido prático de transladar o ponto de vista transcendente de Deus conduzido por sua autoridade - o qual coloquei na base do ensinamento que
para uma perspectiva intramundana funcionalmente equivalente e de elas me forneceram."

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universalista do Antigo Testamento, além de tentar comprovar com possível entender tal crítica como radicalização do princípio kantiano,
meiosfilosóficosa igualdade de status entre judaísmo e cristianismo.51 à proporção que ela própria pretende superar a oposição entre fé e
Entretanto, as três figuras mais influentes nas quais pretendo saber no interior do horizonte de um saber ampliado de modo racional.
concentrar-me, a seguir, não são herdeiras diretas de Kant. Hegel, Hegel certamente entende, de um lado, a história das religiões na
Schleiermacher e Kierkegaard reagiram às delimitações enüe fé e sa- amplitude de suas práticasrituaise de seus mundos de representações;
ber, estabelecidas pela crítica da religião, de Kant, de modo inteira- de outro lado, porém, as interpreta como genealogia de uma razão
mente distinto. E o pensamento dos três teve grande influência. Eles abrangente, cujo porta-voz é a filosofia. Ele se apega, além disso, às
estavam convencidos de que Kant, crítico da religião e filho do século pretensões do esclarecimentofilosóficoque justifica o conteúdo de
XVIII, tinha ficado preso a uma forma abstrata da Aufklarung, verdade da religião de acordo com as medidas da razão.53
privando, destarte, as tradições religiosas de sua verdadeira substância. De outro lado, no lugar de uma apropriação seletiva de conteúdos
É bem verdade que nesse capítulo da história da repercussão do religiosos isolados por uma razão consciente de seus limites, entra em
pensamento kantiano, dominado pelo protestantismo - o que não cena a superação consciente da religião em seu todo. A filosofia
aconteceu por mero acaso - luta-se especialmente por uma descrição reconhece o que é racional no pensamento representador da religião.
não-fragmentada do "fenômeno religioso" e pelo estabelecimento Todavia, o casamento desproporcional que o abraço da filosofia impõe,
correto dos limites entre razão e religião. Limitar-me-ei a delinear, em no final das contas, à religião subjugada, acarreta para o parceiro
pinceladas bem amplas, as três linhas metacríticas que se originam, aparentemente superior um resultado de dois gumes. O conceito do
respectivamente, em Hegel, Schleirmacher e Kierkegaard e atingem espírito absoluto que se aliena em natureza e história, a fim de
até a constelação atual. recuperar-se reflexivamente nesse "outro" permite à filosofia
incorporar o pensamento fundamental do cristianismo e fazer da
(7) Kierkegaard critica Kant como o iluminista que apreende a encarnação de Deus o princípio do próprio pensamento dialético -
religião mediante conceitos abstratos da razão cognitiva e menospreza isso, implica, no entanto, um preço dobrado: De um lado, a
o seu conteúdo essencial caracterizando-o como algo meramente ultrapassagem dos limites da razão transcendental, traçados numa
positivo. Ao dar esse passo, a razão subjetiva estaria obtendo apenas autocrítica, relançam a filosofia de volta à metafísica; de outro lado, o
uma vitória de Pirro sobre o pretenso obscurantismo; e a falsa fatalismo de um espírito que gira em torno de si mesmo - e que, após
autodelimitação transcendental da razão produziria, enquanto pen- ter alcançado o cimo do saber absoluto precisa ser relançado de volta
dant seu, um conceito de religião truncado de modo positivista.52 E á natureza - fecha precisamente a dimensão escatológica de um novo
começo, para o qual se dirige, apesar de tudo, a esperança de salvação
dos crentes.54
•1I BRUMLIK, Micha saúda a obra como expressão do "humanismo hebreu" in: A dupla desilusão - a da recaída numa metafísica e a da retirada
id. Vernunft und Offenbarung. Berlim/Viena, 2001, 11-28. quietista de uma teoria que abandona a prática - incitou os discípulos
52 HEGEL, G W. F. Glauben und Wissen. Obras, vol. 2, Frankfurt I986, 288:
"Após a vitória gloriosa da razão esclarecedora sobre aquilo que ela, à luz de
sua mínima compreensão religiosa, considerava como fé oposta a ela 53 HEGEL, G. W. F. Vorlesungen über die Philosophie der Religion II, Obras,
descobrimos, no entanto, que nem o positivo que ela combateu, a religião, Vol. 17, 318: "O verdadeiro conteúdo da fé cristã tem de ser justificado pela
continuou sendo religião nem ela, que venceu, continuou sendo razão." Cf. filosofia."
nesse contexto, SCHMIDT, Th. M. Anerkennung und absolute Religion. 54 LÕWITH, K. "Hegels Aufhebung der christlichen Religion", in: id. Zur Kritik
Stuttgart-Bad Cannstatt, I997. der christlichen Überlieferung. Stuttgart, I966, 54-96.

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da esquerda hegeliana a radicalizarem a crítica da religião, de Kant, natureza, seja nos esforços de salvação, de Benjamin, desesperados,
num outro sentido, materialista. Feuerbach e Marx contrapõem à porém, inspirados messianicamente, seja no negativismo gretado de
história idealista do desenvolvimento do espírito absoluto a visão de Adomo. De outro lado, certas concepçõesfilosóficasencontraram,
uma razão intersubjetiva, encarnada na linguagem e no corpo e situada inclusive, ressonância no interior da própria teologia. Encontram-se
na história e na sociedade. Além disso, atribuem primazia à razão nesse caso Johann Baptist Metz e Jürgen Moltmann.
prática, não à teórica. E bem verdade que eles entendem a religião, de Desde Hegel até Marx e o marxismo hegeliano, a filosofia tenta,
modo sóbrio, como um reflexo de condições vitais dilaceradas e como seguindo as pegadas semânticas do "povo de Deus" deixadas para
o mecanismo que permite à vida alienada ocultar-se de si mesma.55 A trás por Kant, apropriar-se do conteúdo de libertação coletiva
sua crítica da religião antecipa uma explicação psicológica de Freud, encontrável na mensagem de salvação judeu-cristã. Entretanto, para
segundo a qual, a consciência religiosa preenche projetivamente Schleiermacher e Kierkegaard, a salvação individual - a qual levanta
precisões negadas. Em que pese isso, aqui, como em Kant, tal as maiores dificuldades para a filosofia orientada para o geral - constitui
destruição de uma positividade falsa deve liberar um conteúdo de o núcleo da fé. Esses dois pensadores são cristãos, porém, pós-
verdade que está à espera de uma concretização prática. E aqui como metafísicos. O primeiro assume alternadamente dois papéis que Kant
lá, é novamente a idéia do reino de Deus sobre a terra, interpretada separara: o do teólogo e o dofilósofo;o outro mergulha no papel do
como comunidade ética, que deve encontrar uma incorporação profana, escritor religioso, passando a enfrentar os desafios de um Sócrates
agora na figura revolucionária de uma sociedade emancipada.56 que filosofa à maneira kantiana.
Tal apropriação ateísta de conteúdos religiosos teve continuadores
no marxismo ocidental. Aqui é fácil identificar os motivos teológicos, (8) Diferentemente de Hegel, Schleiermacher respeita as balizas
seja na filosofia da esperança de Bloch, fundada na filosofia da fincadas pela crítica à metafísica, elaborada por Kant. E bem verdade
que ele compartilha com Hegel a reserva contra uma crítica que
reencontra na religião apenas uma moral. Em que pese isso, no que
" MARX, K. Einleitung zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosoplüe (1843), respeita à crítica do conhecimento, Schleiermacher mantém firme a
Berlim/DDR, 1976, 378: "O homem, isto é o mundo do homem, o Estado, a auto-referência da razão subjetiva. Ao elaborar, no horizonte dos
sociedade. Esse Estado, essa sociedade produzem a religião, uma consciência conceitos fundamentais da filosofia da consciência, o sentido e o direito
invertida do mundo porque eles se encontram em um mundo invertido. A
religião é a teoria geral desse mundo [...], seu entusiasmo, sua sanção moral, próprios do elemento religioso, ele desloca a fronteira entre fé e saber
sua complementação festiva, sua razão geral de justificação e de consolo. para além da simples razão, tentando favorecer, por este traçado, a fé
Ela é a realização fantástica da natureza humana porque a natureza humana autêntica. Na sua qualidade defilósofo,Schleiermacher não se interessa
não possui uma realidade verdadeira. A luta contra a religião é, pois, pelos conteúdos da fé religiosa - "a fé que se acredita" (fides quae
indiretamente, a luta contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião." creditur) - mas pela questão: o que significa, de um ponto de vista
54 FEUERBACH L. Grundzüge der Philosophie der Zukunft (1843), § 59: "O performativo, ser um crente? - A fé pela qual se acredita" (fides qua
ser humano individual não tem, para si mesmo, a natureza do homem, seja creditur).51 Ele distingue entre uma teologia científica que elabora
enquanto ser moral, seja enquanto ser pensante por si mesmo. A natureza do
homem só está contida na comunidade, na unidade dos homens com os homens
- uma unidade, porém, que se apoia somente na realidade da diferença entre "Isso explica por que Bultmann pode encontrar um caminho que o leva de
'eu' e 'tu'." Aqui Feuerbach antecipa motivos essenciais da filosofia do Schleiermacher a Kierkegaard: cf. a contribuição de F. Nüssel sobre Bultmann
diálogo, de Martin Buber; cf. nesse contextoTHEUNISSEN, M. DerAndere in: NEUNER, R, WENZ, G. (eds.) Theologen des 20. Jahrhunderts.
(1964), Berlim, 1977,243-373. Darmstadt, 2002, 70-89.

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dogmaticamente conteúdos nos quais se acredita e uma piedade devota iluminismo. A experiência religiosa que lança raízes na "consciência
que inspira e serve de base à conduta de vida pessoal do crente. de si mesma imediata" pode reclamar co-originariedade com um uma
Schleiermacher amplia, por certo, a arquitetônica das faculdades razão que brota da mesma raiz. A filosofia transcendental da
da razão kantiana. Contudo isso, ele não a implode, mesmo quando religiosidade, de Schleiermacher, possui, inclusive, vantagens, quando
cria um lugar transcendental próprio para a fé religiosa, o qual fica confrontada com o conceito de religião da razão, já que tem condições
situado ao lado do saber, da intelecção moral e da experiência estética. de fazer jus ao pluralismo religioso na sociedade e no Estado sem
A partir de agora, ao lado das já conhecidas faculdades da razão, surge prejudicar a positividade de tradições religiosas recalcitrantes, isto é,
a religiosidade da pessoa crente que, no sentimento da devoção toma- sem reduzir nem eliminar o direito delas. O cunho pietista da
se imediatamente consciente de sua própria espontaneidade e de sua interioridade religiosa conduz ao segundo argumento, segundo o qual,
dependência pura e simples de um outro. Schleiermacher põe à mostra o sentimento antropológico e geral da dependência ramifica-se em
o modo como a autocertificação e a consciência de Deus se cruzam. diferentes tradições, tão logo o sentimento piedoso é articulado de
O famoso argumento toma como ponto de partida a posição uma certa maneira, isto é, alçado por sobre o umbral da expressão
intramundana de um sujeito cuja característica principal consiste na simbólica adquirindo a figura prática de uma fé praticada de modo
sua capacidade receptiva e na auto-atividade, bem como numa ação eclesial na socialização comunicativa de crentes.
recíproca entre o seu modo de relacionar-se com o mundo, o qual é A compreensão filosófica de que todas as religiões têm a mesma
ativo e passivo.58 Para um sujeito ftnito que se volta para o mundo é origem racional abre para as igrejas - e para a interpretação dogmática
impensável uma liberdade absoluta, assim como é impensável uma dos respectivos credos eclesiais - a possibilidade de encontrar um
dependência absoluta. Do mesmo modo que uma liberdade absoluta lugar legítimo em cápsulas diferenciadas das sociedades modernas.
é inconciliável com as barreiras colocadas pelo mundo ao agir situado, Sob tal premissa, elas podem, sem nenhum prejuízo de sua respectiva
assim também uma dependência absoluta não se coaduna com a pretensão de verdade vis a vis não-crentes ou crentes de outras
distância intencional do mundo, sem o qual, estados de coisas não confissões, exercitar a tolerância recíproca, reconhecer a ordem secu-
podem ser apreendidos de modo objetivador nem manipulados. lar do Estado liberal e respeitar a autoridade das ciências que se
Todavia, se este sujeito, ao tornar-se consciente da espontaneidade da especializam num saber sobre o mundo. A justificação filosófica da
própria vida consciente, se desvia do mundo, ele é sacudido por um experiência religiosa em geral liberta a teologia de um peso de prova
sentimento da mais absoluta dependência: na realização da desnecessário. Provas da existência de Deus, metafísicas, bem como
autocertificação intuitiva, ele se conscientiza da dependência de um especulações similares, são supérfluas. E ao lançar mão dos melhores
outro, o qual - aquém da diferença entre aquilo que recebemos do métodos científicos para a elaboração de seu núcleo dogmático, a
mundo e aquilo em função do qual agimos no mundo - toma possível teologia estabelece-se, sem nenhum alarde, nas universidades, ao lado
nossa vida consciente. de outras disciplinas práticas. Todavia, o protestantismo cultural do
final do século XIX e do início do século XX chama a atenção para o
Tal análise transcendental do sentimento de devoção proporciona preço pago por Schleiermacher por esta elegante reconciliação entre
à experiência religiosa uma base geral e independente, tanto da razão religião e modernidade, entre fé e saber. A integração social da Igreja
teórica como da prática, sobre a qual Schleiermacher desenvolve uma e a privatização da fé retiram da referência religiosa à transcendência
alternativa bem-sucedida para o conceito de "religião da razão" no sua força explosiva capaz de influenciar o interior do mundo.
A pessoa e a obra de Adolf von Harnack levantaram a suspeita
SCHLEIERMACHER, F. Der christliche Glaube (1830)/31 ),§§ 3-5. de que a seriedade religiosa tinha passado por um processo de
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amenização. Ora, a adaptação moderadora da religião ao espírito da radicalizada, faz com que a autonomia da razão caia na sombra do
modernidade priva o agir solidário da comunidade religiosa da força poder pura e simplesmente heterogêneo daquele Deus que é
de uma práxis reformadora no mundo, especialmente da energia de irreconhecível, atestado apenas pela história e que se comunica a si
uma práxis revolucionária. Sob tais premissas, a presença de Deus mesmo. Tal lance neo-ortodoxo que contradiz a autocompreensão
retira-se para as profundezas da alma individual: "O reino de Deus antropocêntrica da modernidade constitui um estágio extremamente
chega à medida que ele vem ao indivíduo e habita na sua alma."59 importante na história da filosofia da religião inspirada em Kant.
Max Weber e Ernst Troeltsch entendem a religião do mesmo modo Porquanto ele fortalece o traçado de limites entre a razão e a religião,
que Schleiermacher, como uma formação da consciência que mantém desta vez partindo do continente da fé da revelação. E neste
sua autonomia e sua força configuradora nas sociedades modernas. E procedimento demarcatório, Kierkegaard emprega a autolimitação
claro que, para eles, o sentido da tradição religiosa só pode ser captado transcendental da razão kantiana contra o próprio antropocentrismo
por meio de evidências empíricas. Para extrair algum tipo de conteúdo inerente a ela. Não cabe à razão traçar limites à religião, já que a
religioso normativo da esteira do historismo, eles têm de lançar mão experiência religiosa indica á razão o espaço que ela não pode
de uma reflexão astuta sobre as raízes cristãs da cultura individualista ultrapassar. No entanto, Kierkegaard sabe muito bem que a razão só
atual, esclarecida em termos liberais, na qual eles reencontram sua pode ser batida com suas próprias armas. Por isso, ele tem convencer
própria autocompreensão.60 "Sócrates" - que nada mais é do que a figura de seu próprio opositor
kantiano - de que a moral da consciência, pós-convencional, só poderá
(9) A obra de Kierdegaard apresenta-se como um contraponto à tornar-se um ponto de cristalização de uma conduta de vida consciente
análise schleiermacheriana, apaziguadora, de uma existência devota quando for inserida em uma autocompreensão religiosa.61
reconciliada com a modernidade. Ele compartilha, inicialmente, com Kierkegaard descreve desta maneira, inspirando-se em formas
Marx, seu coetâneo, a consciência de crise que acompanha uma de vida patológicas, estágios sintomáticos de uma "doença para a
modernidade inquieta. Não obstante isso, distanciando-se dele, ele morte", salutar, e figuras de um desespero inicialmente reprimido e
busca o caminho que permite sair do pensamento especulativo e da que, a seguir, ultrapassa o limiar da consciência obrigando, finalmente,
sociedade burguesa corrompida, o qual não consiste, segundo ele, a uma conversão da consciência centrada no eu. Essas diferentes figuras
numa inversão da relação entre teoria e práxis, mas na confecção de do desespero constituem outras tantas manifestações do fracasso da
uma resposta existencial à questão luterana dirigida a um Deus relação existencial fundamental que poderia tomar possível um ser
misericordioso, que o atormenta. A consciência do pecado, "si mesmo" (Selbst) autêntico. Kierkegaard descreve os estados
inquietantes de uma pessoa que, de um lado, se conscientiza de que
está determinada a tornar-se um "si mesmo" mas que, de outro lado,
HARNACK, A. v. Das Wesen des Christentums (ed. Por RENDTORFF, T.), foge para uma das seguintes alternativas: "desespera de querer ser
Gütersloh, 1999, 90; cf, tam.bém WENZ, G. "A. v. Harnack - alguém ou, num nível ainda mais baixo: desespera de querer ser "si
Herzensfrõmmigkeit und Wissenschaftsmanagement", in: NEUNER, WENZ mesmo" ou, descendo para o nível mais baixo de todos: desespera de
(2002), 33-52.
GRAF, F. W., TROELTSCH, E. "Theologie ais Kulturwissenschaft des
Historismus", in: NEUNER, WENZ (2002), 53-69; sobre Max Weber cf. 61 HABERMAS, J. "Begründete Enthalsamkeit. Gibt es postmetaphysische
SCHLUCHTER, W. "Zukunft der Religion", in: id. Religion und Antworten auf die Frage nach dem 'richtigen Leben'?", in: id. Die Zukunft
Lebensführung. Vol. 2, Frankfurt/M., 1988, 506-534. der menschlkhen Natur. Frankfurt/M., 2001, 11-33.

264 265
querer ser um outro diferente do que se é."62 Quem, no final das contas, Para Karl Barth, tal compreensão filosófica da religiosidade e da
reconhece que a fonte do desespero está, não nas circunstâncias, mas religião constitui pura e simplesmente "incredulidade" - já que a
nos próprios movimentos de fuga, empreenderá a tentativa revelação cristã é, pura e simplesmente, "superação da religião".65
recalcitrante, porém, mesmo assim, infrutífera, de "querer ser alguém". Barth e Bultmann fazem coro a Kierkegaard, afimde destacar, com
O fracasso desesperado desse derradeiro ato de força - do querer perseverança, o sentido normativo próprio da fé na revelação e a
ser "si mesmo" que se empertiga sobre si mesmo - tem como finalidade existência da fé cristã contra a corrente do pensamento histórico, con-
mover o espírito finito para o transcender de si mesmo e, com isso, tra a pressão de secularização da sociedade e contra a privatização da
também para o reconhecimento da dependência de um outro em sentido fé. Eles destacam na mensagem da fé cristã o elemento não integrável,
absoluto, no qual se fundamenta a própria liberdade. Tal reviravolta a oposição irreconciliável entre fé e saber. Todavia, tal confrontação
marca o ponto de virada, isto é, a superação da autocompreensão se desdobra sobre a base de um pensamento pós-metafísico, o qual é
secularizada da razão moderna: "À proporção que se relaciona consigo capaz de impedir que a crítica á modernidade seja vítima das presas
mesmo e à proporção que pretende ser ele mesmo, o "si mesmo" do antimodemismo reacionário (o posicionamento político de Barth
apóia-se de modo cristalino sobre o poder que o instituiu."6, Somente e Bultmann quanto ao regime nazista revelam bem isso).
tal consciência torna possível um ser si mesmo autêntico.64 A razão De outro lado, a filosofia da existência assume a herança de
que reflete sobre o fundamento mais profundo descobre sua origem Kierkegaard. Ela o acompanha no caminho para uma ética que
num outro; e ela tem de reconhecer tal poder, que é também um destino, caracteriza o modo histórico de uma conduta de vida consciente e
a fim de não perder sua orientação no beco sem saída de um híbrido autocrítica como sendo puramente formal.66 Karl Jaspers tenta, além
apoderar-se de si mesma. disso, reconstruir em termos racionais a tensão radical entre a
Em Schleiermacher, tal conversão da razão tem início na transcendência e o elemento intramundano na visão secular de uma
autoconsciência de um sujeito que conhece e age; em Kierkegaard, na "clarificação da existência". E o preço que ele tem de pagar por isso
historicidade da autocertificação existencial. Em ambos os casos, uma se contabiliza na equiparação da pretensão de validade das proposições
razão que se torna consciente dos seus limites ultrapassa a si mesma, filosóficas ao status de verdades de fé. Ele generaliza para toda a
indo em direção a um outro: seja no sentimento da dependência filosofia o conceito kantiano de "fé da razão", talhado para os
protegida de um elemento cósmico que tudo abrange ou na esperança postulados de Deus e da imortalidade, e distingue a "fé filosófica" do
desesperançada em um evento histórico de salvação. A diferença modo de conhecer da ciência. Tal procedimento enseja uma
decisiva consiste no fato de que Kierkegaard entende a conversão da similaridade familiar entre as doutrinas filosóficas e as tradições
razão como abdicação da razão perante a autoridade do Deus cristão religiosas. Ambos os lados encontram-se em concorrência com os
que se comunica a si mesmo; ao passo que Schleiermacher mantém a poderes da fé. A filosofia pode, quando muito, esclarecer o caráter
visão antropocêntrica e fundamenta filosoftcamente a experiência dessa disputa; mas não pode decidir a própria disputa com
religiosa fundamental, da qual derivam as tradições positivas da fé. argumentos.67

62 KIERKEGAARD, S. Die Krankheil zum Tode (ed. por RICHTER, v. L.), M PFLEIDERER, G. "Karl Barth - Theologie des Wortesals Kritik der Reli-
Frankfurt/M., 1984,51. gions", in: NEUNER, WENZ (2002), 124, aqui 135.
65 Ibid., 14. 66 HABERMAS (2001), 11-33.
M THEUNISSEN, M. Das Selbst auf dem Grundder Venweiflung. Meisenheim- 67 JASPERS. K. Der philosophische Glaube angesichls der Offenbarung.
Frankfurt/M., 1991.
Munique, 1984.
266 267
(10) O que nos ensina esse rude traçado histórico da atualidade uma filosofia que se tomou sóbria em termos de metafísica não tem
da filosofia da religião kantiana? Tal pergunta se coloca hoje, porém, mais condições de compensar tal falta, a qual já tinha sido farejada
na perspectiva de uma ameaça que coloca em risco o conteúdo por Kant. Ela não dispõe mais daquele tipo de argumentos capazes de
normativo da modernidade configurada no Ocidente. Hegel isolar uma única imagem de mundo motivadora, e de colocá-la, a
caracterizara as conquistas da modernidade lançando mão dos seguir, acima de todas as outras; ou seja, uma imagem de mundo
conceitos "autoconsciência", "autodeterminação" e "auto-realização". capaz de preencher expectativas existenciais, de orientar
A autoconsciência decorre de um incremento da reflexividade no normativãmente uma vida em sua totalidade ou de distribuir consolo.
contexto de uma revisão permanente de tradições fluidificadas; a Tivemos ocasião de averiguar que Kant, ao formular sua doutrina dos
autodeterminação é fruto da disseminação do universalismo postulados da religião, pretendia extrair da razão prática mais do que
individualista e igualitário no direito e na moral; ao passo que a auto- ela realmente suporta.
realização acompanha a pressão à individuação e a um autocontrole O que ele intencionava com o modo da fé racional tem mais a
sob as condições de uma "identidade-eu" extremamente abstrata.68 ver com a compreensão de si mesmos de membros de comunidades
Tal autocompreensão da modernidade também é resultado da religiosas e de grupos culturais em geral, os quais são determinados
secularização, portanto, da desintegração das coerções oriundas de por fortes tradições que cunham a identidade. Tal modo de fé equipara-
religiões detentoras de poder político. Hoje em dia, no entanto, aquela se aos enfoques proposicionais que nós assumimos perante modos de
consciência normativa corre perigo porque sofre ameaças, não somente vida que são nossos e, por isso, tidos como autênticos. Nós só vivemos
"a partir de fora" devido a pretensões reacionárias de uma contra- com a certeza de um modo de vida quando estamos convencidos de
modernidade fundamentalista, mas também "a partir de dentro", pela seu valor. Entretanto, existe uma pluralidade de modos de vida
própria modernização que está saindo fora dos trilhos. A divisão do autêntica, de tal sorte que, neste contexto, a certeza e a validade em
trabalho entre os mecanismos integradores do mercado, da burocracia termos de verdade não coincidem, o que não deixa de ser curioso. Por
e da solidariedade social deixou de ser equilibrada, o que permitiu um mais certos que estejamos de tal autocompreensão existencial, não
deslocamento na direção de imperativos econômicos que estimulam podemos confundir juízos de valor, subjacentes, com convicções
apenas um tipo de convivência dos sujeitos agentes entre si, isto é, a morais generalizáveis (ou, muito menos ainda, com proposições
convivência orientada pelo sucesso. A familiarização com novas teóricas). Em todo caso, nós não atribuímos a Orientações valorativas,
tecnologias que interferem profundamente nos substratos da pessoa que têm para nós - e para outros membros tal como nós - uma
humana, os quais eram tidos, até agora, como "naturais" fomenta, significação existencial, uma pretensão ao reconhecimento universal.
além disso, uma autocompreensão naturalista nos sujeitos que vivem Temos de assegurar inicialmente, contra Kant, que as
e se comunicam entre si.69 Tal abalo da consciência de normas representações do reino de Deus ou de uma "comunidade ética" surgem
manifesta-se também na insensibilidade cada vez maior para com sempre no plural. E temos de saber que não foi Hegel, e sim Kant, isto
patologias sociais - para com uma vida fracassada em geral. Ora, é, o Kant da filosofia da religião, quem percebeu que a moral da razão,
que surge no singular, e a institucionalização jurídico-constitucional
dos direitos humanos e da democracia necessitam de uma inserção no
HABERMAS, J. Der philosophische Diskurs der Moderne. Frankfurt/M denso contexto de uma forma de vida. Porquanto eles adquirem força
1985, 390-435.
HABERMAS, J. "Auf dem Weg zu einer liberalen Eugenik?" in: id (2001) impulsionadora mediante a inserção nos multifacetados contextos de
34-126. imagens de mundo e de modos de vida, nos quais estão inscritos fins
268 269
terminais concorrentes. Existe entre eles um dissenso que a própria em seu todo. Entretanto, tais conteúdos podem adquirir força
razão já pressupõe, o qual deve ser trazido à linguagem em discursos regeneradora perante uma consciência normativa, que se encontra em
públicos, a fim de evitar que ele fique chocando a violência ou leve à via de encolhimento, caso se consiga desenvolver, a partir desse fundo,
inimizada surda. Nesse ponto, a filosofia, no papel de uma tradutora, novos conceitos formadores de perspectiva. Por esse caminho, concei-
pode promover uma concórdia moral, jurídica e política caso ela tos tal como "positividade", "alienação" ou "reificação" - os quais
consiga esclarecer a multiplicidade legítima dos projetos de vida não escondem a sua procedência do pecado original e da proibição de
substanciais de crentes, de crentes que crêem de forma diferente e de criar imagens - conseguiram, em sua época, modificar uma percepção
incrédulos sem assumir a postura de um concorrente que sabe mais geral. Porquanto eles permitiriam, de um lado, que a marcha triunfal
do que os outros. Nesse papel de intérprete, ela pode, inclusive, da modernização capitalista fosse visualizada numa outra luz, e que
contribuir para renovar sensibilidades, pensamentos e motivos que se os sentidos, os quais não conseguiam mais captar patologias sociais,
originam, é verdade, de outras fontes, mas que permaneceriam fossem sensibilizados. O uso crítico de tais conceitos tirou o véu da
encapsulados caso o trabalho conceituaifilosóficonão os trouxesse á normalidade que cobria tais condições transformadas em hábito.
luz da razão pública.
Após o colapso da civilização, o conceito benjaminiano de
A filosofia da religião, de Kant, estabeleceu medidas para dois "solidariedade anamnética" com injustiças passadas - um conceito
papéis distintos da razão, a saber: para a contenção autocrítica de uma que, sem dúvida alguma, tenta cobrir a lacuna aberta pela perda da
razão que traça limites e para o papel maiêutico de uma apropriação esperança em um juízo final - traz a recordação de uma
discursiva e pública dos potenciais particularistas encapsulados em responsabilidade coletiva, a qual se estende para além da obrigação
linguagens especiais. Em que pese isso, para descobrir a luz que tal moral.70 A idéia da aproximação do reino de Deus adotada no âmbito
filosofia da religião pode lançar sobre a constelação formada pela fé e das fronteiras da simples razão apenas dirige o olhar para o futuro.
o saber em nossas sociedades pós-seculares é necessário considerar Em geral, tal idéia desperta em nós uma consciência de
também a história de sua repercussão. Em cada uma das três linhas
citadas - a do marxismo hegeliano, do protestantismo cultural e da responsabilidade coletiva pelos auxílios não prestados, pelos esforços
dialética da existência - destaca-se um aspecto diferente de tal cooperativos não envidados para evitar um mal que se aproximava ou
constelação modificada. Isso toma necessária uma breve observação simplesmente para melhorar uma situação que causa indignação.
no final das presentes considerações. Certamente, apenas em momentos felizes, uma cooperação bem-
sucedida pode estar à altura de tal expectativa. Todavia, a fraca
(11)0 olhar genealógico de Hegel consegue decifrar imagens responsabilidade pelo destino coletivo do próximo ou dos que se
sugestivas e a narrativa densa das religiões mundiais interpretando-as encontram distantes não é tirada de nossos ombros pelo simples fato
como história de um espírito que está à espera de uma apropriação de ela superar, na maioria das vezes, nossas forças falíveis levando,
reflexiva mediante o trabalho do conceito. Sob tal ângulo de visão, a de quando em quando, à loucura espíritos fanáticos ou obstinados
filosofia pode encontrar, ainda hoje em dia - em tradições religiosas que desconhecem sua própria falibilidade.
não-compreendidas e em práticas da vida da comunidade - intuições,
compreensões perspicazes, possibilidades de expressão, sensibilidades PEUKER, H. Wissenschaftstheorie, Handlungstheorie, jündamentale
e formas de trato, as quais não são de todo estranhas á razão pública, Theologie. Düsseldorf, 1976,278 ss. Cf. também HABERMAS, J. Vorstudien
e que são, não obstante isso, por demais enigmáticas, o que impede a undErganz.ungen zur Theorie des kommunikativen Handelns. Frankfurt/M.,
sua aceitação pura e simples pelo círculo comunicativo da sociedade 1984, 514 ss.

270 271
Kant, Hegel e Marx fizeram com que a consciência secular se da faculdade cognitiva (Verstand). O mesmo acontece no caso de
sentisse o aguilhão da herança religiosa. Schleiermacher e Kierkegaard, uma "transcendência" que irrompe no mundo a partir de fora. Por
no entanto, foram os primeiros a exigir da filosofia que aceitasse a meio desse conceito, a filosofia circunscreve o abissal e o ascendente,
religião como uma parceira a ser situada no mesmo nível. Eles inerentes a essa energia utópica, reinterpretando-os como "promoção
liberaram o cristianismo dos laços que o prendiam à metafísica grega do bem supremo" sobre cuja fonte uma razão destranscendentalizada
e o criticaram ou defenderam, ao nível de um pensamento pós- não possui mais nenhum poder. Porquanto ela só é capaz de reconstruir
metafísico kantiano, contra os eruditos e os indiferentes entre seus uma transcendência discursivãmente, a partir de dentro.71
detratores.
Schleiermacher, de sua parte, explica por que a religião não é Entrementes, a filosofia só consegue nutrir-se, de modo racional,
algo simplesmente passado e fechado à complexidade da modernidade. da herança religiosa até o momento em que se tomar inaceitável a
Ele mostra como a Igreja, a consciência religiosa e a teologia podem fonte da revelação que lhe é contraposta de forma ortodoxa. As
afirmar-se, no interior de uma diferenciação cultural e social, na perspectivas centradas exclusivamente ou em Deus ou no homem
qualidade de figuras contemporâneas e, inclusive, funcionalmente não podem ser substituídas uma pela outra. Por isso, tão logo a fronteira
específicas. Neste sentido, Schleiermacher apresenta-se como um pre- entre fé e saber toma-se porosa e tão logo motivos religiosos se infiltram
cursor no quadro da consciência de uma sociedade pós-secular que na filosofia sob nome falso, a filosofia perde seu sustentáculo, caindo
procura estar em sintonia com a continuidade da religião num entorno em devaneios. A autocrítica da razão, de Kant, não tinha como tarefa
em vias de secularização. Ao mesmo tempo, ele realiza, como que a apenas a de clarear a relação entre razão teórica e prática, mas também
partir de dentro, uma modernização da consciência religiosa que faz a de isolar a própria razão, em seu uso teórico e prático justificados,
coro com as condições normativas inalienáveis do direito pós- das extravagâncias de pretensões de conhecimento metafísicas, de
convencional, com o pluralismo de visões de mundo e com o saber de um lado, e das certezas da fé religiosa, de outro lado. Tais determinações
mundo institucionalizado cientificamente. Sem sombra de dúvida, das fronteiras do pensamento pós-metafísico (e pós-cristão) podem
Schleiermacher, ao tentar uma reconciliação entre religião e servir-nos, ainda hoje, como medida, a partir do momento em que
modernidade utilizando meiosfilosóficos,aproxima-se de uma pretendemos obter orientação, na paisagemfilosóficaatual, sobre as
filosofia que pretende farejar na fé elementos do saber. relações entre fé e saber.
Kierkegaard foi o primeiro a confrontar o pensamento pós- (12) Afimde obter indicadores de caminho para uma localização
metafísico com a heterogeneidade insuperável da fé que nega, genérica, gostaria de fazer uma distinção entre três tipos de correntes
descompromissadamente, a visão antropocêntrica do pensamento de pensamento: (a) as que retomam à tradição da metafísica situando-
filosófico, o qual toma como ponto de partida o interior do mundo. se atrás das fronteiras traçadas por Kant; (b) as que se atêm às fronteiras
Por intermédio deste desafio, a filosofia obtém uma relação dialética do pensamento pós-metafísico; (c) e as que apagam novamente tais
com o domínio da experiência religiosa. O núcleo dessa experiência marcas à proporção que "saem das fronteiras" e imergem num
subtrai-se às intervenções secularizadoras de uma análise filosófica pensamento criador de fronteiras.
do mesmo modo que a experiência estética, a qual também resiste a
intervenções racionalizadoras. Com os conceitos do belo, do feio e do (a) É bem verdade que a necessidade especulativa caracterizada
sublime, a filosofia consegue apenas circunscrever cuidadosamente a
excitação sensível e desprovida de linguagem que impulsiona o jogo por Platão, no momento em que propunha uma escalada até o cimo
da faculdade do juízo reflexionante. A fonte da sensibilidade evade-
71 HABERMAS, J. Texte und Kontexte. Frankfurt7M., 1991, 127-156.
272 273
das idéias e uma libertação das peias da matéria, como sendo o berço argumentação. Ambas não falam mais, é verdade, como a teologia
da filosofia, jamais se aquietou. De sorte que a revivescência, ou "em nome" de uma tradição de fé, mas "referindo-se" a uma tradição
melhor, a apropriação dialética - na plataforma pós-kantiana de uma de fé tida como verdadeira, e ambas aproveitam os princípios
consciência de si - de padrões de argumentação da tradição clássica filosóficos atuais (da Teoria Crítica até Wittgenstein) com a finalidade
também serve, ao menos de forma implícita, à recuperação de de uma justificação racional dos componentes cognitivos da respectiva
pensamentos relevantes para a salvação. Freqüentemente tais motivos doutrina religiosa.71 Todavia, a apologética moderna não compartilha
se combinam com impulsos de crítica à modernidade e correspondentes mais com a clássica a idéia de que a sociedade e a cultura seculares
intenções políticas (como é o caso de Leo Strauss). No entanto, a re- não têm nenhuma base espiritual. (Lado a lado com a moderna teologia)
obtenção da tradição da metafísica ocidental nem sempre aponta para ela promove, levada por uma intenção, ao mesmo tempo crítica e
os inícios gregos, estando voltada mais para uma onto-teologia medi- apologética, a racionalização interna de uma tradição de fé com o
eval (como no caso de Carl Schmitt). Neste caso, as feridas abertas objetivo de encontrar uma resposta dogmaticamente satisfatória para
pela modernidade não podem ser curadas pelo caminho da certificação os desafios modernos do pluralismo religioso, do monopólio científico
contemplativa de uma ordem cósmica (do ente em geral), ou seja, das ciências e do Estado de direito democrático.
pelo "caminho da salvação" que funda um parentesco entre a "vida O pólo oposto a tal reconstrução racional de conteúdos de fé é
teórica" (bios theoretikos) e as práticas de meditação orientais. Trata- formado pelo cientificismo, no entender do qual, as convicções
se, neste caso, acima de tudo, da justificação metafísica de proposições religiosas são per se inverídicas, ilusórias e destituídas de qualquer
fundamentais de doutrinas monoteístas, como era feito antes no sentido. De acordo com tal interpretação, saber legítimo é somente
neotomismo e como ainda acontece, hoje em dia, nafilosofiaislâmica. aquele que pode apoiar-se nos conhecimentos aceitos pelas ciências
Em determinadas interpretações, é possível detectar um hegelianismo experimentais institucionalizadas na sociedade. A validade de
teológico ou a ontologia analítica como continuação da apologética convicções religiosas, ela mesma, deve ser avaliada por essa mesma
clássica com outros meios. medida e somente por ela; por isso, o jogo da linguagem religiosa tem
de ser recusado como sem importância cognitiva, já por simples razões
(b) Kant elaborou uma diferenciação entre fé e saber, a qual gramaticais. Nesse caso, a avaliação prática da religião - a qual de-
pressupõe uma ruptura com a pretensão totalizadora do conhecimento cide se ela deve ser combatida ou eventualmente tratada de modo
metafísico. Tal guinada rumo ao pensamento pós-metafísico terapêutico por ser tida como perigosa - depende apenas de uma
desvalorizou certos conceitos ontológicos e uma determinada estrutura pesquisa empírica sobre suas causas, funções e conseqüências. O
de explicação, já que ela deveria trazer a filosofia para o mesmo plano cientificismo, não obstante isso, entra numa verdadeira concorrência
da ciência moderna.72 E certo que, após tal guinada, a filosofia passou com as doutrinas religiosas tão logo ele se propõe a desenvolver uma
a adotar vários posicionamentos quanto à religião. imagem do mundo extraída das ciências da natureza e quando estende
A apologética moderna, cuja importância não arrefeceu na
filosofia da religião católica, distingue-se da apologética clássica não 7, Cf.
somente pelos meios do pensamento, como também pelo alvo da PEUKERT, B. H. Wissenschaftstheorie, handlungstheorie, fundamentale
Theologie. Düsseldorf, 1976; LUTZ-BACHMANN, M. "Materialismus und
materialismus-kritik bei max Horkheimer und Theodor W. Adorno", in;
HABERMAS, J. "Motive nachmetaphysischen Denkens", in: id. Festschrift Alfred Schmidt. Munique, 1991, 143-159; RICKEN F.
Nachmetaphysisches Denken. Frannkfurt/M., 1988, 35-60. Religionsphilosophie. Stuttgart, 2003.

274 275
o olhar científico, objetivador, ao mundo da vida, à pessoa que age e conscientes de estarem vivendo numa sociedade pós-secular. Nessa
vivência coisas exigindo dela uma auto-objetivação da consciência atitude, a autocompreensão pós-metafísica de cunho kantiano
do dia-a-dia. distingue-se do neopaganismo, o qual se reporta - com ou sem razão
Caracterizo, finalmente, como pós-metafísicas num sentido - a Nietzsche.
substancial, portanto, não apenas num sentido puramente metódico,
o qual atinge apenas os procedimentos e os meios do pensamento, as (c) A posição da filosofia diante da religião não expressa apenas
posições agnósticas que estabelecem uma distinção rigorosa entre saber uma autocompreensão controversa da filosofia, ou seja, o que, segundo
e fé, porém, sem supor a validade de uma determinada religião (como ela, ainda pode ser feito por ela mesma e o que não pode mais ser
é o caso da apologética moderna) e sem negar (como no caso do feito. A interpretação da relação entre filosofia e religião deixa entrever,
cientificismo) a essas tradições em geral um possível conteúdo além disso, uma dupla atitude: de recusa pura e simples da modernidade
cognitivo. E gostaria também de fazer uma distinção entre princípios ou de aceitação crítica. De sorte que a força regeneradora da herança
racionalistas que suprassumem a substância da fé no conceito filosófico metafísica deve compensar uma falta sentida na modernidade. Em
(seguidores de Hegel) e princípios dialógicos que se comportam ante contrapartida, o pensamento pós-metafísico pode retirar-se dos
as tradições religiosas de uma maneira, ao mesmo tempo, crítica e conteúdos de uma formação do mundo a partir da natureza e da história,
disposta a aprender (Karl Jaspers).74 ou seja, da construção de um todo, porque ele simplesmente adota as
Tal divisão pode servir de auxílio quando tentamos enfrentar a diferenciações modernas, após terem passado pelo crivo de uma
seguinte questão: será que a filosofia pode decidir por si mesma o que ressalva crítica; as três "Críticas", de Kant, revelam que o pensamento
é verdade na religião e o que não é? Ou será que ela deixa as questões pós-metafísico integra-se às esferas de validade da ciência e da técnica,
internas de validade da religião entregues às disputas de uma do direito e da moral, da arte e da crítica, já diferenciadas. O nexo,
apologética racional, limitando-se a conservar conteúdos cognitivos quase sempre implícito, entre posicionamentos quanto à religião, de
extraídos das tradições religiosas? Tenho na conta de "cognitivos", um lado, e posicionamentos quanto à modernidade, de outro lado,
nesse sentido, todos os conteúdos semânticos traduzíveis em um eclode explicitamente no arraial pós-moderno dos herdeiros de
discurso que não se encontra sob o "efeito ferrolho" que acompanha Nietzsche.
normalmente verdades da revelação. Nesse discurso, contam apenas Aqui aparece em primeiro plano, tematicamente, a intenção de
argumentos "públicos", por conseguinte, argumentos capazes de superação - que no gesto é revolucionária e voltada ao futuro - de
convencer também os que se encontram fora de uma comunidade uma modernidade funesta e condenada. Desta feita, porém, o retorno
particular de fé. A separação metódica dos dois universos de discurso a um "outro começo" conduz para um contexto situado atrás da "era
combina com a abertura da filosofia para possíveis conteúdos axial" (Jaspers). Na modernidade, agarrada a si mesma e esquecida
cognitivos da religião. A "apropriação" acontece sem nenhuma das tradições, deve culminar uma história da queda que já se constata
intenção de intromissão ou de "assunção hostil". Em tal delimitação, nos inícios da metafísica e da religião, com Sócrates e Moisés. Resulta
ao mesmo tempo clara e tolerante, em relação à dogmática religiosa desse diagnóstico do tempo o escalonamento nivelador da religião -
reflete-se, além do mais, o estado de consciência de cidadãos seculares ela deve ser, do mesmo modo que a metafísica, expressão do
esquecimento do ser. Somente os poderes originários de um Mythos
74 JASPERS, K. Der philosophische Glaube angesichts der Offenbcirung. que ainda está por vir conseguem levar a cabo a tão sonhada conversão
Munique, 1962. que permite superar obstruções do Logos. Sem embargo, ao falar de

276 277
um local situado além do Lagos, tal especulação neopagã sobre "a
chegada ou a fuga dos deuses" é obrigada a apropriar-se de uma retórica
na qual a força do argumento convincente foi substituída pela auto-
encenação evocadora do "grande e oculto Indivíduo".
Ironicamente, nesses casos somente encontramos à nossa
disposição um único vocabulário, a saber, o escatológico! O Heidegger
tardio utiliza claramente as seguintes expressões: susto (Schrecken),
risco (Wagnis) e salto (Sprung), decisão (Entschlossenheit) e serenidade IV. TOLERÂNCIA
(Gelassenheit), recordação (Andenken) e arrebatamento (Entrückung),
privação (Entzug) e chegada (Ankunft), entrega (Hingabe) e dádiva 9. A TOLERÂNCIA RELIGIOSA
(Geschenk), acontecimento (Ereignis) e volta (Kehre). Ao mesmo COMO PRECURSORA DE DIREITOS CULTURAIS.
tempo, ele se vê obrigado a borrar os vestígios da procedência de tal
jogo de linguagem. Pois a mensagem de salvação cristã, a cuja
semântica ele não pode renunciar, foi por ele, mesmo assim, degradada (1) No século XVI, a palavra "tolerância" foi emprestada do
como interlúdio ontoteológico insignificante de uma "dominação de latim e do francês, por conseguinte, no âmbito do grande cisma
igrejas, que já perdeu sua força".75 O confinamento da razão ao seu religioso. Nesse contexto de surgimento, ela tinha, inicialmente, o
uso prático, levado a cabo por Kant na sua filosofia da religião, atinge significado mais restrito de uma transigência com outras confissões
hoje em dia, não tanto o fanatismo religioso, mas uma filosofia efusiva religiosas.1 No decorrer dos séculos XVI e XVII, a tolerância religiosa
que apenas se aproveita das conotações proféticas de um vocabulário passa a ser um conceito do direito. Governos redigem documentos de
religioso e salvífico a fim de se eximir do rigor de um pensamento tolerância que impõem aos funcionários e a uma população ortodoxa
discursivo. Nesse contexto, Kant tem algo a nos dizer: porquanto sua um comportamento tolerante no trato com minorias religiosas -
filosofia da religião pode ser entendida, no seu todo, como advertência luteranos, huguenotes e papistas.2 O ato jurídico das autoridades que
contra uma "filosofia religiosa". toleram pessoas e práticas de outras crenças estabelece a exigência de
um comportamento tolerante com os membros de uma comunidade
religiosa até então perseguida ou oprimida.

1 Cf. Allgemeines Handwõrterbuch der philosophischen Wissenschaften nebsl


ihrer Literatur und Geschichte (ed. K.RUG, Willelm Traugot, 2a. ed. 1832):
'Tolerância (de tolerar, agüentar, aturar) é transigência [...]. Entretanto, aquela
palavra é empregada na maioria das vezes no sentido estrito de transigência
religiosa, assim como a palavra oposta intolerância é empregada no sentido
de intransigência religiosa."
2 Em 1598 Henrique IV promulga o Edito de Nantes; cf. também o Act Con-
cerning Religion do governo de Maryland no ano de 1649; o Toleration Act
"HEIDEGGER, M. Beitrcige zur Philosophie. Vom Ereignis. Gesamtausgabe, do rei inglês de 1689; ou ainda - como um dos últimos nessa série de
vol. 65, Frankfurt/M., 1989. "permissões" da autoridade - o Toleranzpatent, de José II. Em 1781.

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No inglês, mais do que no alemão, é possível uma distinção os cristãos, do mesmo modo que o Papa os envia às índias, e se
mais nítida entre "tolerance" enquanto virtude ou disposição para o surpreendermos esses missionários turcos no momento em que se
comportamento e "toleratiori\ que constitui um ato jurídico. Nós introduzem em nossas casas afimdesempenhar sua tarefa na qualidade
empregamos a mesma expressão "tolerância" {Toleram) para designar de missionários, eu não creio que teríamos autorização para castigá-
ambas as coisas: tanto uma ordem jurídica que garante tolerância, los. Porquanto, se eles dessem a mesma resposta que é dada pelos
como a virtude política do trato tolerante. Montesquieu destaca o nexo missionários no Japão, isto é, que eles vieram levados pelo zelo de
consecutivo que existe entre aturar e tolerar: 'Tão logo as leis de um pregar a verdadeira religião àqueles que ainda não a conhecem e de
país conseguem ajustar-se à admissão de várias religiões, elas têm de cuidar da salvação de seus próximos [...], - se enforcássemos esses
obrigá-las, a seguir, a se aturarem mutuamente [...]. Por isso, é turcos, não seria, neste caso, extremamenteridículonos queixarmos
aconselhável que as leis estabeleçam a seguinte exigência: que essas se os japoneses agissem da mesma forma?"5 Bayle pratica uma
diferentes religiões não apenas deixem o Estado em paz, mas que assunção de perspectivas recíprocas insistindo na generalização das
mantenham, além disso, a paz entre si."3 idéias sob cuja luz nós julgamos "a natureza do agir humano - e neste
Até à época da Revolução, o conceito de tolerância englobava caso ele pode ser tido como um precursor de Kant".6
dois aspectos: de um lado, referia-se, acima de tudo, a destinatários Na base de um reconhecimento recíproco de regras do trato
religiosos, e de outro lado, tinha a conotação de uma simples tolerante, é possível solucionar também o paradoxo que levara
transigência das autoridades. Em que pese isso, já desde Spinoza e aparentemente Goethe a rejeitar a tolerância por considerá-la uma
Locke, as fundamentaçõesfilosóficasda tolerância religiosa apontam benevolência desdenhosa. O paradoxo estaria no fato de que todo ato
para um caminho que leva do ato jurídico autoritário, o qual declara de transigência tem de circunscrever, ao mesmo tempo, um âmbito de
unilateralmente a transigência religiosa, a um direito ao livre exercício características daquilo que precisa ser aceito e, com isso, tal ato traça,
da religião, o qual repousa no reconhecimento recíproco da liberdade inevitavelmente, um limite à própria tolerância: Nenhuma inclusão
de religião dos outros e que carrega após si um direito negativo de ser sem exclusão. E à proporção que esse traçado de limites se desenvolve
poupado de práticas religiosas estranhas. Rainer Forst contrapõe à de modo autoritário e, por conseguinte, unilateral, o ato de tolerar traz
"concepção de permissão" de uma autoridade que garante liberdades impressa a mácula de uma exclusão arbitrária. Somente a concepção
religiosas, a "concepção do respeito". Esta última corresponde á nossa de liberdades iguais para todos e a fixação de um domínio de tolerância
concepção da liberdade de religião, a qual é tida como um direito capaz de convencer simetricamente a todos os atingidos são capazes
fundamental que compete a toda pessoa enquanto ser humano, de extrair da tolerância o aguilhão da intolerância. Os possíveis
independentemente da religião à qual adere.4 atingidos têm de levar na devida conta perspectivas dos
Pierre Bayle continua a inventar novos exemplos, a fim de levar respectivamente "outros" caso pretendam chegar a um acordo sobre
seu oponente intolerante a assumir a perspectiva do outro e a aplicar as condições sob as quais desejam exercitar tolerância recíproca
as próprias medidas aos seus adversários: "Por conseguinte, se o Mufti apoiando-se no argumento de que todos merecem igual respeito.
for assaltado pelo desejo de enviar alguns missionários para doutrinar As conhecidas condições para a convivência liberal de diferentes
comunidades religiosas passam por tal teste de reciprocidade, o qual
'Citado de acordo com HERDTLE, C. e LEEB, Th. (eds.) Toleram, Texte zur
Theorie und politischen Praxis. Stuttgart, 1987, 49. 'BAYLE, P. cit. de acordo com HERDTLE e LEEB (1987), 42.
"Cf. nota de rodapé n° 10. 6 Ibid., 38.

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implica, em primeira linha, a renúncia a meios de coação política para contra os inimigos da constituição. Quando da passagem "legal" da
a imposição de verdades de fé, bem como uma liberdade de associação República de Weimar para o regime nazista, as pessoas tomaram
que exclui qualquer tipo de coação moral contra os próprios membros. consciência da peculiar dialética da auto-afirmação de uma democracia
Quando encontram reconhecimento intersubjetivo para além das "militante" ou "disposta à reação".7 Os tribunais podem enfrentar a
fronteiras confessionais, normas desse tipo podem fornecer argumentos questão sobre os limites da liberdade religiosa num determinado caso
em condições de sobrepujar razões subjetivas alocadas a favor de concreto apelando para a lei e a constituição. No entanto, quando a
uma recusa de convicções e de práticas religiosas estranhas. Em que própria constituição - a qual garante a liberdade - se defronta com
pese o fato de a tese de Jellinek sobre o surgimento dos direitos inimigos da liberdade, coloca-se, de forma auto-referencial, a questão
humanos a partir da liberdade de religião não ter consistência histórica, acerca dos limites da liberdade poética: Até que ponto e em que medida
existe, mesmo assim, um nexo conceituai entre tal fundamentação a democracia pode tratar tolerantemente os inimigos da própria
universalista do direito fundamental da liberdade de religião, de um democracia?
lado, e as bases normativas de um Estado constitucional, isto é, da Caso o Estado democrático pretenda evitar sua própria dissolução,
democracia e dos direitos humanos, de outro lado. ele tem de se comportar de modo intolerante contra o inimigo da
Porquanto os cidadãos só poderão especificar consensual mente constituição lançando mão dos meios do direito penal político ou das
a fronteira de uma tolerância exigida reciprocamente, se tomarem suas determinações para a proibição de partidos políticos (Art. 21,2 GG
decisões à luz de um modo de deliberação que leva as partes, ao mesmo [Lei Fundamental]) e para a perda de direitos fundamentais (Art. 18
tempo atingidas e participantes, à assunção recíproca de perspectivas GG, Art. 9,2 GG). Na figura do inimigo da constituição, retorna,
e à eqüitativa ponderação dos interesses. Os procedimentos revestido de conotações originariamente religiosas, o inimigo do
democráticos do Estado constitucional estão precisamente a serviço Estado - seja na figura secularizada do ideólogo político que combate
de tal formação da vontade deliberativa. A tolerância religiosa pode o Estado liberal, seja na figura do fundamentalista que combate formas
ser garantida de modo transigente pelas condições sob as quais os de vida moderna enquanto tal. Entretanto, convém perguntar, quem
cidadãos de uma comunidade democrática se concedem mutuamente deve definir o inimigo da constituição a não ser os próprios órgãos do
liberdade de religião. Desta maneira, é possível solucionar o aparente Estado constitucional? Este último encontra-se na iminência de
paradoxo há pouco mencionado: pelo direito ao livre exercício da enfrentar, não somente a inimizade de opositores existenciais, como
própria religião e pela correspondente liberdade negativa de não ser também traições aos seus próprios princípios - e o perigo permanente
molestado pela religião dos outros. Na visão de um legislador de uma recaída culposa numa prática de fixação unilateral e autoritária
democrático que eleva os destinatários do direito à condição de autores de fronteiras da tolerância. À proporção que a tolerância religiosa
desse mesmo direito, o ato jurídico que impõe a todos uma tolerância consegue passar adiante a tarefa paradoxal de uma autodelimitação,
recíproca funde-se com a auto-obrigação virtuosa a um comportamento colocando-a nas mãos da democracia, esta se vê confrontada com o
tolerante. paradoxo da tolerância constitucional no próprio médium do direito.
Parece, todavia, que o paradoxo envolvendo uma intolerância Uma proteção paternalista da constituição agudizaria, além do
que habita no âmago de toda tolerância delimitada não se dilui mais, tal paradoxo. Pois um direito objetivado na forma de "ordem
inteiramente mediante a generalização recíproca da liberdade de
religião, concebida em termos de um direito fundamental; e ela retoma 7 LOEWENSTEIN, K. "Militant Democracy and Fundamental Rights", in: Ameri-
no âmago do próprio Estado democrático constitucional. Uma ordem can PoliticalScience Review (31), 1937; id., Verfassum>slehre, 3a. ed. 1975
constitucional que pretende garantir tolerância precisa precaver-se 348 ss.

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objetiva de valores" carrega consigo, no entender de Konrad Hesse, Reconhecendo a desobediência civil, o Estado democrático
"a tendência a uma segurança da constituição e do Estado, constituído consegue processar o paradoxo da tolerância, o qual reaparece na
por seu intermédio, de preferência num sistema de defesa e de dimensão do direito constitucional. Com isso, ele traça a fronteira
policiamento." Não deveríamos deixar de levar na devida conta que entre um trato tolerante e um trato autodestrutivo com dissidentes
"a substância da democracia garantidora da liberdade não pode ser ambíguos, de tal sorte que estes - que no final das contas poderiam
assegurada porencurtamentos da própria liberdade."8 Se conseguisse ser considerados como inimigos da constituição-obtêm, contra todas
transladar a auto-referencialidade do procedimento democrático, que as aparências, a chance de aparecer como os verdadeiros patriotas
se auto-instala na própria disputa democrática - que é aberta em termos constitucionais, ou melhor, como os amigos de um projeto
de resultados - para as interpretações corretas de uma determinação constitucional interpretado de forma dinâmica. Tal traçado de fronteiras
da constituição, a democracia militante poderia evitar o risco do de tolerância da constituição, que é auto-reflexi vo, pode ser entendido,
paternalismo ele mesmo, como expressão do princípio da inclusão simétrica de
Em tal contexto, o trato da desobediência civil constitui uma todos os cidadãos, cujo reconhecimento geral tem de ser pressuposto,
espécie de teste do tornassol. Evidentemente, a própria constituição caso se pretenda institucionalizar corretamente a tolerância com
determina os procedimentos a serem seguidos para se enfrentar um pessoas que seguem outras crenças ou que pensam de modo diferente.
conflito de interpretações da constituição. Em que pese isso, mediante O pluralismo em termos de visões de mundo e a luta em prol da
a justificação da "desobediência civiC por parte das instâncias judiciais tolerância religiosa forneceram, certamente, combustível para o
superiores, (a qual não é isenta de pena), o espírito tolerante de uma surgimento do Estado constitucional democrático; em que pese isso,
constituição liberal ultrapassa a totalidade das instituições práticas eles ainda continuam, hoje em dia, a fornecer impulsos para a
nas quais o seu conteúdo normativo se solidificou. Uma constituição configuração conseqüente desse Estado. Pretendo guarnecer o conceito
democrática que se auto-entende como projeto de realização de iguais de tolerância com contornos mais nítidos e mostrar em que consiste,
direitos cidadãos tolera a resistência de dissidentes que, após o mais precisamente, o fardo das exigências de tolerância recíprocas(2);
esgotamento de todos os caminhos legais, combatem decisões tomadas a seguir, tentarei abordar o tema da tolerância religiosa como precursora
de modo legítimo, com a reserva, no entanto, de que os cidadãos de um multiculturalismo bem-entendido e de uma coexistência, com
"desobedientes" conseguem justificar sua resistência apoiados em iguais direitos, de diferentes formas de vida no interior de uma
princípios da constituição e em meios não-violentos, os quais são, por comunidade constituída de modo democrático (3).
conseqüência, simbólicos.9 Essas duas condições especificam a
fronteira de uma tolerância política aceitável por parte de uma (2) Já assinalamos en passant os três componentes do moderno
democracia erigida sobre os alicerces de um Estado de direito, o qual conceito de tolerância destacados por Rainer Forst: recusa
se protege contra seus inimigos utilizando meios não-patemalistas - (Ablehnung), aceitação (Akzeptanz) e repulsão (Zurückweisung).10
mesmo em se tratando de opositores com mentalidade democrática. Normas de tolerância surgem quando há conflitos de religião. O desafio
"HESSE, K. Grundzügedes Verfassungsrechts der Bundesrepublik Deutschland. FORST, R. "Toleranz, Gerechtigkeit und Vernunft", in: id. (ed.). Toleram.
17a. Ed. Heidelberg, 1990, Randnotiz, 694; cf. FRANKENBER, G Die Frankfurt/M., 2000, 144-161; id. "Grenzen der Toleranz", in: BRUGGER,
Verfassung der Republik, 107, ss. W. e HAVERKATE, G. (eds.) Grenzen ais Thema der Rechls- und
''Sobre a problemática da desobediência civil cf. minhas duas contribuições in: Sozialphilosophie, ARS, Beiheft, 84, Stuttgart, 2002; agora também: FORST,
HABERMAS, J. Die neue UnüberskhlichkeH. Frankfurt/M;. 1985, 79-117. R. Toleranz im Konjlikt. Frankfurt/M., 2003.

284 285
consiste em que a recusa mútua de convicções e práticas pode ser credos diferentes. Já que tolerância não é indiferença, uma vez que
entendida, é bem verdade, na base de bons motivos subjetivos mesmo indiferença por convicções e práticas estranhas e, inclusive, a avaliação
não havendo expectativa racional de uma dissolução cognitiva do do outro e de sua alteridade em termos meramente apreciativos,
dissenso (a). Por isso, o dissenso persistente entre crentes, crentes que anularia o objeto da tolerância. Todavia, os argumentos de rejeição,
acreditam de forma diferente, e incrédulos, tem de ser desacoplado da que exigem tolerância, não podem ser tidos como bons apenas de um
esfera social, a fim de que as interações entre os cidadãos da mesma ponto de vista subjetivo: eles têm de valer como legítimos perante a
comunidade possam prosseguir sem estorvos inoportunos. Para que esfera pública. Preconceitos não contam. Só podemos falar em
isso aconteça, há mister de uma base de argumentos imparciais, aceitos tolerância quando os participantes puderem apoiar sua recusa em uma
em comum, os quais não neutralizam, mesmo assim, bons argumentos não-concordância que encontra motivos razoáveis para continuar
em prol da recusa, já que os superam (b). A regulação jurídica existindo. Nesse sentido, nem toda recusa é racional. Porquanto não
obrigatória exige, finalmente, um traçado de fronteiras entre aquilo atingimos o racista, nem o chauvinista, apenas clamando por tolerância,
que deve ser tolerado e aquilo que não pode mais ser tolerado. A mas exigindo que eles superem seus preconceitos. Tendo em vista o
imparcialidade dos argumentos reflexivos, tecidos, seja em prol da "ser diferente" exige-se, inicialmente, que seja evitado qualquer tipo
aceitação, seja a favor da recusa, é assegurada, conforme mostramos, de discriminação, ou melhor, que se imponha o igual respeito por
por meio de um procedimento inclusivo de formação deliberativa da cada um - e não, como no caso do "pensar diferente", quando se
vontade, o qual exige, da parte dos participantes, respeito recíproco,
bem como a assunção das perspectivas um do outro. A isso corresponde exige simplesmente tolerância.
um mandamento de neutralidade dirigido ao Estado, que passa a Isso nos leva à conclusão interessante de que a tolerância só
oferecer, a seguir, a base normativa para a generalização dos direitos pode ter início além da discriminação. Como no caso da liberdade de
religiosos e culturais (c). religião, nós só podemos exigir tolerância após a eliminação do
preconceito que permitia a opressão de uma minoria. É bem verdade
Ad a) A especificação do componente de rejeição responde à que a rejeição de crentes de outros credos, e o exemplo do anti-
seguinte pergunta: quando é que a situação exige um comportamento semitismo pode ilustrar bem isso, se liga a preconceitos enraizados
tolerante e quando é que tal comportamento é possível? Estaríamos faticamente, cujo alcance ultrapassa, em muito, a emancipação jurídica
utilizando o conceito num sentido demasiado laxo caso a "tolerância" dos cidadãos judeus. Todavia, o Nathan, de Lessing, revela que, aos
se estendesse, em geral, às disposições para um trato paciente e olhos do cristão esclarecido, do muçulmano e do judeu, as diferenças
tolerante com outros ou com estranhos. O que se entende aqui é, antes da fé capazes de proporcionar "bons" argumentos para uma rejeição
de tudo, a virtude política, não exigível juridicamente, de cidadãos no de convicções e práticas estranhas só podem manifestar-se após a
trato com outros cidadãos que se apegam a uma convicção rejeitada. superação de todos os preconceitos em relação àquelas diferenças de
Devemos continuar respeitando no outro o co-cidadão, mesmo quando fé. De outro lado, após a superação dos preconceitos contra pessoas
avaliamos a sua fé ou seu pensamento como falsos ou rejeitamos a de cor, homossexuais ou mulheres, não restaria mais nenhum compo-
correspondente conduta de vida como ruim. A tolerância preserva nente do estranho ou do "heterogêneo" sobre o qual uma rejeição fun-
uma comunidade política pluralista de se dilacerar em meio a conflitos ddmentada e reconhecida em geral como legítima pudesse apoiar-se.
oriundos de visões de mundo diferentes. Ao lado de tal qualificação dos fundamentos da rejeição, que
De sorte que, só pode praticar tolerância quem tem argumentos resultam de um dissenso cuja continuidade é razoável, as próprias
subjetivamente convincentes para a rejeição de pessoas que seguem concepções rejeitadas, porém, toleradas, têm de comprovar uma
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relação interna com a práxis. Por tal caminho, religiões de salvação criticável. Eles estão à procura de verdades ainda não descobertas
adquirem, devido à sua importância para a salvação pessoal do crente, que, em relação a nós, estão depositadas no futuro. Ao contrario disso,
força, a qual é capaz de orientar diretamente a ação. Todavia, as próprias os crentes se entendem a si mesmos como intérpretes de uma verdade
cosmovisões de origem metafísica e, inclusive, as ideologias políticas, revelada no passado, que não é passível de revisões, podendo ser
explicam o mundo, a história, ou a sociedade numa linguagem dotada defendida, sobre a base de bons argumentos, contra verdades de fé
de conteúdo normativo que traz conclusões práticas para uma vida concorrentes. Nessa linha de pensamento, a disputa das compreensões
que pode não ser bem-sucedida. Somente concepções com tal conteúdo políticas de partidos que se digladiam entre si, seguindo procedimentos
ético têm eficácia para o comportamento e se qualificam para uma democráticos, a fim de conseguir influência, tem mais semelhanças
imputação de tolerância capaz de frear o comportamento. De outro com a disputa entre teorias dos cientistas do que com a disputa
lado, nossa atitude em relação a teorias científicas concorrentes pode dogmática dos teólogos. Mutatis mutandis, a própria disputa entre as
ser crítica e inspecionadora; mas jamais tolerante." opiniões políticas é regulada por procedimentos metódicos
No caso de uma disputa sobre teorias, a própria especificação democráticos, de tal forma que os participantes dessa contenda os
funcional do empreendimento científico cuida para que haja uma adotam a fim de chegar a soluções aceitáveis de um ponto de vista
neutralização dos conflitos envolvendo uma ação no mundo da vida, racional. É bem verdade que, nas contendas políticas, o traçado do
os quais, no entanto, eclodem quando se trata de uma querela de horizonte em cujos limites o presumível dissenso se desenrola é mais
religiões - devido à relevância direta das verdades de fé para a conduta amplo do que o horizonte das disputas científicas. Porém, a expectativa
da vida pessoal. Os cientistas só são envolvidos em conflitos desse de um dissenso permanente refere-se somente à inserção mais forte
tipo quando a prática de pesquisa (como no caso da pesquisa sobre das convicções políticas em contextos de convicções básicas
embriões) permite prever conseqüências que irão afetar a metafísicas, tecidas com fibras de visões de mundo, que servem de
autocompreensão ética das pessoas, mesmo fora do contexto da pano de fundo.
pesquisa propriamente dita. E nesse caso revela-se, além do mais, que
o naturalismo, enquanto fruto de um processamento sintetizador de Por conseguinte, a fala sobre "tolerância política" precisa
informações científicas, é de natureza metafísica - relacionada a configurar-se num sentido mais restrito - ela não pode dar-se ao nível
cosmovisões - e se encontra, no que tange á relevância do saber para dos assuntos políticos que constituem a rotina diária de uma
orientações éticas da ação, no mesmo plano das interpretações democracia, já que se situa no contexto de conflitos entre ideologias
religiosas. políticas abrangentes. Porque durante o tempo em que os cidadãos
De outro lado, somente exigem tolerância concepções que discutem sobre problemas que eles julgam solucionáveis, é suficiente
conflitam umas com as outras por razões que podem ser reconstruídas um comportamento civil: a tolerância não é o mesmo que a virtude
subjetivamente, porém, sem a expectativa racional de uma união política do trato civil. A definição que John Rawls propõe para tal
motivada racionalmente. Os cientistas tomam como ponto de partida "dever de civilidade" (civüity) aproxima-se muito, é verdade, da
a idéia de que estão trabalhando com problemas que admitem, por via tolerância: "Esse dever implica a disposição de ouvir outros e um
de regra, uma solução convincente mesmo que esta, no fundo, seja modo de pensar e sentir eqüitativo (fair) quando se trata de decidir, de
forma razoável, sobre o momento em que deveríamos fazer concessões
" HABERMAS, J. "Wann müssen wir tolerant sein? Über die Konkurrenz von
às opiniões de outros."12 Todavia, tolerância dos que pensam de modo
Weltbildern, Werten und Theorien", in: Juhrbuch (2202) der Berlin-
Brandenburgischen Akadenüe der Wissenschaften. Berlim, 2003, 167-178.
12 RAWLS, J. Politischer Liberalismus. Frankfurt/M., 1998, 317 s.

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diferente não pode ser confundida com disposição de compromisso têm de apropriar-se, elas mesmas, dos fundamentos normativos do
ou de cooperação. Já que, para além de uma busca paciente da verdade, Estado liberal, lançando mão de premissas próprias. Para a "inserção"
abertura, confiança mútua e de um sentido de justiça, a tolerância só é da moral dos direitos humanos em diferentes imagens de mundo
requerida quando as partes não buscam de modo razoável nem julgam religiosas, John Rawls escolheu a imagem de um módulo a qual,
possível uma união na dimensão de convicções conflitantes. mesmo tendo sido construída com auxílio de bases metafisicamente
neutras, cabe dentro dos respectivos contextos de fundamentação
Ad b) Se pretendemos saber em que consiste precisamente o ortodoxos.11 De um ponto de vista funcional, a tolerância religiosa
fardo de imputações de tolerância, temos de explicar, antes, a aceitação tem por finalidade receptar a destrutividade social de um dissenso
de argumentos capazes de superar moralmente argumentos de recusa. irreconciliável e permanente. Não obstante isso, a necessária
Trata-se, pois, de um duplo fardo: quem é tolerante, só pode realizar, diferenciação dos papéis de membro de uma comunidade e de cidadão
de um lado, o próprio etos no interior das fronteiras daquilo que com- da sociedade precisa ser fundamentada, convincentemente, na visão
pete, em igual medida, a todos. De outro lado, no espaço de tais da própria religião. Caso contrário, os conflitos de lealdade aprofundar-
fronteiras, ele tem de respeitar também o etos dos outros. O que se se-ão.
deve aceitar, não são, porém, opiniões recusadas ou pretensões de A socialização religiosa só estará afinada com a secular quando
validade concorrentes. Já que as próprias certezas e pretensões de os valores e normas se diferenciarem entre si, não apenas numa visão
verdade permanecem intocadas. O fardo não resulta de uma interna, mas também quando uma socialização surgir consistentemente
relativização de convicções próprias, mas de um "confinamento" de da outra. A diferenciação dos dois tipos de pertença, concebida para
sua efetividade prática. A imputação resulta da conclusão, segundo a superar o plano de um simples modus vivendi, só será eficaz caso a
qual, o modo de vida, prescrito pela própria religião, ou o etos inscrito modificação não se esgote numa simples adaptação - destituída de
na própria imagem de mundo só podem ser praticados sob a condição pretensões cognitivas - do etos religioso a leis impostas pela sociedade
de iguais direitos para todos e cada um. Tal fardo é de tipo cognitivo, secular. Ela exige, além disso, que a moral da sociedade, inscrita na
já que a moral e o direito de uma sociedade configurada em moldes constituição democrática, se diferencie cognitivamente do etos da
liberais têm de ser sintonizados com as convicções religiosas nas quais comunidade. E, em muitos casos, isso torna necessária uma revisão
o próprio etos está enraizado. O significado disso pode ser detectado de prescrições e representações que repousam sobre uma longa tradição
naquelas adaptações cognitivas que foram exigidas da consciência de interpretação das Escrituras Sagradas - como é o caso, por exemplo,
religiosa na Europa, desde a era da Reforma. da condenação dogmática da homossexualidade. Em casos mais
Cada religião é, originariamente, "imagem do mundo" ou, como difíceis, inclusive, a própria codificação de matérias carentes de uma
afirma John Rawls, "doutrina compreensiva" {comprehensive doc- regulamentação enquanto "éticas" e/ou "morais" é questionada. Na
trinè), inclusive no sentido de que ela pretende estruturar uma forma questão do aborto, por exemplo, os católicos têm de aceitar que lhes
de vida em sua totalidade. Em sociedades pluralistas, uma religião seja imputada, por parte dos tribunais públicos e como parte de seu
tem de renunciar a tal pretensão a uma configuração abrangente da etos religioso específico, uma compreensão que, na sua perspectiva,
vida, que inclui a própria comunidade, tão logo a vida da comunidade está apoiada em juízos morais, mas que, de acordo com sua própria
religiosa se diferencia da vida da comunidade política, que é mais pretensão, está apoiada em juízos válidos em geral. Sob tal ponto de
ampla. Caso haja, entre as duas comunidades, um nexo genealógico -
como é o caso da tradição judeu-cristã na Europa -, as grandes religiões " Ibid.,76 ss.

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vista complementar do respeito pelo etos do outro, torna-se ainda mais (ou uma "visão de algo que não se encontra em nenhum lugar") (view
claro que o peso resultante da tolerância não está distribuído de modo from nowhere), à luz da qual (ou a partir da qual) outros modos de
eqüitativo entre crentes e incrédulos. Para a consciência do cidadão vida aparecem, não somente como diferentes, mas também como
secular, que lida com pequena bagagem metafísica, e que é capaz de fracassados. Quando o etos estranho constitui, não apenas uma questão
aceitar uma fundamentação "livre" ou autônoma da democracia e dos da avaliação hipotética de valores, que pode ser relativizada, mas
direitos humanos, o ponto de vista do justo - ou moral - precede o também uma questão de verdade ou inverdade, a exigência que obriga
bem substancial. Sob tal premissa, o pluralismo dos modos de vida, a ter, por cada cidadão, o mesmo respeito, independentemente de sua
nos quais se refletem, respectivamente, diferentes imagens de mundo, autocompreensão ética e de sua conduta de vida, passa a ser tida na
não desperta nenhuma dissonância cognitiva nas convicções éticas conta de uma impertinência. Por isso, a concorrência entre verdades
próprias. Porquanto agora, nos diferentes modos de vida, incorporam- éticas, ao contrário do que ocorre quando de uma concorrência entre
se apenas diferentes orientações de valores. E valores distintos valores, obriga à tolerância.
constituem, quando comparados entre si, valores diferentes que não Tal assimetria entre os pesos que oneram, de modo diferençado
se excluem reciprocamente como verdades diferentes.
Nos juízos éticos fica inscrita a relação a uma primeira pessoa - crentes e não-crentes, é contrabalançada, em todo caso, pelo fato de
à história da vida de um indivíduo singular ou à forma de vida de uma que o cidadão desprovido de ouvidos religiosos vê-se confrontado
coletividade. Por esta razão, o que é bom para um, em seu próprio com uma imputação de tolerância de outro tipo. Porquanto, em
contexto, pode ser ruim para um outro, em outro contexto. E já que a sociedades pluralistas constituídas de modo liberal, a compreensão
forma de assentimento geral, exigido para uma avaliação de formas e da tolerância não exige apenas dos crentes,' no seu trato com crentes
projetos de vida, estranhos, não é a mesma que se exige para juízos de de crenças diferentes, que levem na conta, de modo razoável, a devida
justiça ou asserções sobre fatos, podemos respeitar de igual maneira permanência de um dissenso. Já que a mesma compreensão é exigida
cada um em particular, mesmo que não avaliemos da mesma maneira dos não-crentes no seu trato com crentes em geral. Para a consciência
todas as formas de vida. Por isso, não é difícil, para uma consciência secular isso implica, contudo, a exigência de determinar, de modo
secular, reconhecer que um etos estranho pode ter, para os outros, a autocrítico, a relação entre fé e saber. Pois a expectativa de uma não-
mesma autenticidade e gozar da mesma precedência que o etos próprio coincidência continuada entre saber de mundo, razoável, e tradição
tem para cada um de nós mesmos. Em que pese isso, a pessoa que religiosa só merece o predicado "racional" quando se atribui, na
obtém sua autocompreensão ética a partir de verdades de fé, as quais perspectiva de um saber secular, a convicções religiosas um status
pretendem validade universal, não pode tirar essa mesma conseqüência. epistêmico que não é pura e simplesmente irracional.
Para o crente, assim como para o viajante que carrega uma grande No entanto, como poderia a naturalização progressiva do espírito
bagagem metafísica, o bem precede epistemicamente o justo. Sob tal humano estar afinada com tal asserção de uma teoria política em geral?
premissa, a validade do etos depende da verdade de uma imagem de Hoje em dia, o tema do "saber e fé", que ocupou as atenções da filosofia
mundo, a qual forma o seu contexto. E em conformidade com isso, as desde o século XVII, toma-se novamente explosivo, ante os progressos
pretensões de validade, exclusivas, das imagens de mundo subjacentes da biogenética e das pesquisas sobre o cérebro. O Estado secular, em
ligam-se a diferentes orientações éticas de vida e a formas de vida todo caso, só pode garantir, de modo imparcial, tolerância quando for
concorrentes. E tão logo a própria representação da vida correta se capaz de assegurar, na esfera pública política, que o pluralismo de
orienta por caminhos de salvação religiosos ou por concepções cosmovisões se desenvolva sobre a base do respeito mútuo - sem
metafísicas sobre o bem, adquire contornos uma perspectiva divina regulamentações preconceituosas. E isso possui um bom sentido. Já
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que opiniões políticas sobre um assunto polêmico, que podem ser (3) A liberdade de religião constitui uma prova para a neutralidade
expostas numa linguagem religiosa e numa perspectiva metafísica do Estado. Freqüentemente ela é ameaçada pelo predomínio de uma
apoiada em visões de mundo, podem abrir os olhos de outros cidadãos cultura da maioria que abusa de seu poder de definição, adquirido na
para um aspecto até então negligenciado, de tal sorte que eles podem história, para determinar, de acordo com suas próprias medidas, o que
influenciar a formação da maioria - mesmo quando a descrição do pode valer, na sociedade pluralista, como a cultura política obrigatória
assunto, sobre o qual é necessário tomar uma decisão, não está em geral.15 Tal fusão, quando não solucionada, pode levar a uma
impregnada de conotações metafísico-religiosas. substancialização furtiva da compreensão de uma constituição, a qual
é, não obstante, essencialmente procedimental. A substância moral
Ad c) Com isso se atinge, após a apresentação das razões de dos princípios da constituição é assegurada por procedimentos que
rejeição e de aceitação, o terceiro componente conceituai: Pelas razões devem sua força legitimadora à imparcialidade e à consideração
de exclusão aduzidas a favor de um comportamento intolerante é eqüitativa de interesses; e perdem tal força quando certas idéias de
possível descobrir se o Estado observa ou não o mandamento da uma eticidade substancial se imiscuem na interpretação e na prática
neutralidade e se a legislação e a jurisprudência institucionalizam a das prescrições formais. E neste caso, é possível que o mandamento
tolerância de modo correto. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, por da neutralidade venha a ser ferido, seja pelo lado religioso, seja pelo
exemplo, os Sikhs conseguiram abrir exceções nas medidas de laico.
segurança válidas em geral para o porte de turbantes e punhais
(Kirpans). Também aqui, entre nós, nas respectivas querelas jurídicas, seu dever religioso de portar um turbante, a fim de eximir-se da obrigação
trata-se do traçado de fronteiras entre as práticas e leis da cultura cristã geral de portar um capacete de proteção? É imperativo fornecer a um
majoritária, de um lado, e as pretensões de minorias religiosas, de prisioneiro judeu alimentação pura? Terá um operário islâmico o direito de
outro lado. Em nome da liberdade de religião, estas exigem igualdade interromper inopinadamente o trabalho para fazer orações? Pode-se demitir
de tratamento (as testemunhas de Jeová, por exemplo, conseguiram um operário que não comparece ao trabalho nos dias santos de sua comunidade
reconhecimento judicial como corporação de direito público), regras religiosa? E terá alguém, demitido nestas circunstâncias, o direito ao seguro-
desemprego? É preciso permitir aos negociantes judeus a abertura de suas
de exceção (por exemplo, para o uso de turbantes ou para a rejeição lojas aos domingos, já que eles, por motivos religiosos, não podem fazer
de comidas tidas como impuras) ou medidas do Estado (por exemplo, nenhum tipo de negócio aos sábados? Terá a aluna islâmica o direito de ser
para o ensino da língua materna nas escolas públicas). Em tais casos, dispensada do ensino do esporte, dado que a ela não é permitido aparecer
os tribunais têm de decidir quem deve e quando deve aceitar o etos de diante dos outros alunos em trajes esportivos? Deve ser permitido às alunas
outros: os cristãos que habitam nas aldeias devem atender às chamadas islâmicas portar na escola o véu na cabeça? E como as coisas ficam quando
do muezim? Os nossos protetores dos animais devem aceitar o abate se trata de professoras em um escola pública? Será que as normas que valem
para as irmãs católicas não valem para as professoras islâmicas? [...] Deve-
de bezerros? Os alunos que não seguem nenhum tipo de religião ou se admitir, nas cidades alemãs, as conclamações do muezim, transmitidas
que são de outra denominação religiosa devem aceitar o traje da por alto-falante, da mesma forma que o dobrar dos sinos nas igrejas? Deve-
professora islâmica? Ou o pai turco deve aceitar que a filha tenha se permitir a estrangeiros o abate de animais, mesmo que isso constitua uma
aulas de esporte juntamente com meninos?14 violação das regras de proteção nacionais? [...] Deve-se permitir aos mórmons
exercer entre nós a poligamia, desde que ela seja permitida em suas nações
de origem?"
14Cf. a enumeração de GRIMM, D., in Frankfurter AUgemeine Zeitung de 21 15 Sobre a unidade da cultura política na pluralidade das subculturas, cf.
de junho de 2002, 49: "Pode um sikh, que dirige motocicleta, apelar para o HABERMAS, J. Die Einbeziehung desAnderen. Frankfurt/M., 1996, 142 ss.

294 295
Dois exemplos merecem menção neste contexto: oAffaire Fou- oficial(is), a promoção do ensino do idioma materno para minorias
lard e a reação do governo bávaro à sentença sobre o crucifixo, emitida étnicas ou nacionais, o estabelecimento de cotas para mulheres, negros
em Karlsruhe. No primeiro caso, a direção de uma escola proibira as e autóctones na política, no emprego ou na universidade. No entanto,
alunas muçulmanas de portarem seus tradicionais véus na cabeça; sob o ponto de vista da inclusão eqüitativa de todos os cidadãos, a
noutro caso, o governo de um Estado opusera-se à sentença do Tribu- discriminação religiosa, qualquer que ela seja, continua sendo
nal Constitucional Federal que aceitara a queixa de pais antroposóficos discriminação, não se distinguindo de outros tipos de discriminação:
que se opunham à manutenção do crucifixo na sala de aula de sua cultural, lingüística, étnica, racista, sexual ou física.
filha. No primeiro caso, colocou-se à discussão a liberdade de religião A inclusão atinge um de dois aspectos da igualdade de cidadãos
positiva. No segundo, a negativa. Os católicos opõem-se à sentença do Estado. Mesmo que, na maior parte das vezes, a discriminação de
contra o crucifixo alegando que defendem o símbolo religioso do minorias venha acompanhada também de discriminação social,
crucificado enquanto expressão de "valores ocidentais" e, com isso, recomenda-se que ambas as categorias de tratamento desigual sejam
enquanto componente de uma cultura que pode ser compartilhada mantidas separadas. A primeira pode ser medida pelos critérios do
por todos os cidadãos. Este é o caso clássico da generalização cultural direito à livre associação ilimitada; a segunda, pelo princípio da justiça
e política de uma prática religiosa predominante a nível regional, da distributiva.16 Sob pontos de vista da justiça distributiva, o princípio
qual o regime das escolas primárias da Baviera, estabelecido em 1983, do tratamento eqüitativo exige que todos os cidadãos tenham iguais
é um exemplo. Na França, no entanto, as alunas muçulmanas são chances de fazer uso concreto de liberdades e direitos, igualmente
proibidas de usar o véu sob a alegação laicista de que a religião tem de distribuídos, afimde realizar seus respectivos e pessoais planos de
ser encarada como algo atinente à esfera privada, a ser excluída da vida. As lutas políticas e movimentos sociais que se dirigem contra
esfera pública. Este é, sem dúvida alguma, o caso de uma determinada uma desigualdade de status, ancorada em estruturas de classes, visando
compreensão laicista da constituição e é necessário perguntar se a uma redistribuição de chances de vida sociais alimentam-se das
interpretação tradicional, republicana, a qual predomina na França, experiências de injustiças havidas na dimensão da justiça distributiva.
não é por demais "forte", a ponto de ferir a exigida neutralidade do Ao contrário, nas lutas pelo reconhecimento da integridade de uma
Estado no trato da pretensão legítima de uma minoria religiosa que determinada identidade coletiva encontra-se uma experiência de
tem direito à auto-apresentação e ao reconhecimento público. injustiça de tipo diferente, isto é, a experiência do desprezo, da
Tais casos conflituosos podem ilustrar bem por que a propagação marginalização ou da exclusão por razões de pertença a um grupo
da tolerância religiosa, que pode ser tida como pioneira do surgimento que, de acordo com os padrões da cultura da maioria dominante, é
das democracias, tomou-se não somente um modelo, mas também tida como "inferior". 17 É nesse sentido que a superação da
um estímulo para a introdução de outros tipos de direitos culturais. A discriminação religiosa toma-se, hoje em dia, uma precursora de
inclusão de minorias religiosas na comunidade política desperta e direitos culturais de tipo novo.
promove a sensibilidade para pretensões de outros grupos As proibições de discriminação por motivos de religião, do sexo,
discriminados. O reconhecimento do pluralismo religioso pode assumir da orientação sexual ou da raça não têm na mira, em primeira instância,
tal função de modelo porque ele traz à consciência, de modo exem-
plar, a pretensão de minorias a inclusão. E bem verdade que o debate
sobre o multiculturalismo não gira tanto em tomo da preterição de l6Cf. sobre essa distinção FRASER, N. "From Redistribution to Recognition?",
minorias religiosas como em tomo de pontos controversos tal como a in: WILLET, C. (ed.) Theorizing Multiculturalism. Oxford, 1998, 19-49.
17 HONNETH, A. (Das Andere der Gerechtigkeit, Frankfurt/M., 2000) trata
fixação de feriados nacionais, a regulamentação da(s) língua(s)
especialmente dessas patologias envolvendo o reconhecimento retido.
296 297
a distribuição desigual de chances de vida sociais. Em muitos casos, "pessoa de direito". A individuação de pessoas naturais ocorre pelo
inclusive, elas não podem visar uma compensação pelas conseqüências caminho da socialização. E indivíduos socializados desta maneira só
da desigualdade de status; as mulheres e os homossexuais distribuem- conseguem formar e estabilizar sua identidade no interior de uma
se, de modo mais ou menos igual, em todas as camadas da sociedade. rede de relações de reconhecimento recíproco. Esse fato tem
A exclusão de determinadas esferas da vida social revela o que é conseqüências para a proteção da integridade da pessoa de direito - e
recusado aos discriminados: uma pertença social isenta de qualquer para uma ampliação intersubjetivista do próprio conceito, que até o
tipo de limitação. Mecanismos de exclusão estruturalmente momento era tecido de uma forma por demais abstrata (e talhado
cristalizados são de difícil apreensão. É bem verdade que, à luz da conforme as dimensões de um individualismo possessivo).
igualdade formal de direitos, a discriminação retirou-se para zonas Os direitos constitutivos para a proteção da integridade do
menos salientes do trato informal, chegando até os confins da indivíduo singular determinam também seu status como pessoa de
linguagem corporal; até mesmo essas formas de discriminação mais direito. Tais direitos têm de ampliar-se a ponto de garantir o acesso
sutis são, não obstante, muito dolorosas.18 aos contextos da experiência, da comunicação e do reconhecimento
Os direitos culturais, do mesmo modo que o exercício da religião, nos quais uma pessoa pode articular a compreensão de si mesma,
têm por objetivo garantir a todos os cidadãos um acesso eqüitativo às bem como desenvolver e manter uma identidade própria. De acordo
comunicações, tradições e práticas de uma comunidade que eles julgam com isso, os direitos culturais, exigidos e introduzidos à luz de uma
necessária para o exercício e a manutenção de sua identidade pessoal. "política do reconhecimento", não podem ser entendidos como sendo
Tal fato não precisa limitar-se apenas a grupos de procedência, podendo naturalmente direitos coletivos. De acordo com o modelo da liberdade
incluir também entornos eleitos. É certo que, em muitos casos, de religião, trata-se, antes de tudo, de direitos subjetivos que garantem
membros de minorias nacionais, lingüísticas ou étnicas, atribuem aos uma inclusão completa.20 Eles garantem a todos os cidadãos um acesso
meios e possibilidades da reprodução desejada dos próprios idiomas eqüitativo aos entornos culturais, às tradições e relações interpessoais
e formas de vida grande importância, a qual não é menor que a à medida que estas são essenciais para a formação e a garantia de sua
importância atribuída, por minorias religiosas, à liberdade de identidade pessoal.
associação, à transmissão da doutrina religiosa e ao exercício de seu Todavia, os direitos culturais não significam simplesmente "mais
culto. Por isso, a luta pela igualdade de direitos da comunidade religiosa diferença" e autonomia. Já que grupos discriminados não chegam ao
proporciona, seja na teoria política, seja na jurisprudência, argumentos gozo de direitos culturais iguais "de graça". Eles não podem ser simples
e impulsos para o conceito de uma "cidadania estatal multicultural".19 aproveitadores de uma moral da inclusão eqüitativa antes de se
Em todas as culturas, as práticas e convicções religiosas têm engajarem, eles mesmos, nela. Isso não será difícil para velhos
influência decisiva na autocompreensão ética dos crentes. Detectamos discriminados, homossexuais ou deficientes, porque, neste caso, a
relevância semelhante nas tradições lingüísticas e culturais para a característica formadora de grupos, decisiva paia a discriminação, não
formação e manutenção da identidade pessoal dos falantes ou dos está ligada a tradições emperradas. Ao contrário, comunidades "fortes"
membros - que está sempre entrelaçada com identidades coletivas. (tal como as minorias étnicas, subculturas de imigrantes ou de
Tais conhecimentos sugerem uma revisão dogmática do conceito moradores autóctones, descendentes de escravos, etc.) trazem o cunho
a fenomenologia da discriminação racial em MILLS, Ch. W. The Racial
18 Cf. TAYLOR, Ch. Multikulturalismus und die Politik der Anerkennung. Frank-
Contract. Ithaka (N. Y.), 1997, Cap. 2, 41-89. furt/M., 1993. Cf, neste texto, minha crítica à compreensão comunitarista
'"KYMLICKA, W. Multicultural Citizenship. Oxford, 1995. dos direitos culturais que os trata como direitos coletivos.

298 299
de tradições comuns e já formaram uma identidade própria.21 Tais
tradições também abrem "perspectivas de mundo" que podem, por
seu turno, entrar em concorrência, do mesmo modo que as imagens de
mundo religiosas.22 Tolerância mútua exige, por isso, das próprias
comunidades seculares "fortes", o engate cognitivo de seu etos interno
à moral da humanidade, a qual prevalece no entorno social e político.
Em casos de "assincronia histórica", isso lhes parecerá, talvez, mais
difícil do que às comunidades religiosas que podem lançar mão de 10. DIREITOS CULTURAIS IGUAIS -
fontes conceituais altamente desenvolvidas das religiões mundiais. E OS LIMITES DO LIBERALISMO PÓS-MODERNO.
O empurrão para a reflexão que as sociedades dotadas de uma
pluralidade de visões de mundo esperam da consciência religiosa
constitui, por seu turno, um protótipo para a configuração mental de O liberalismo clássico cujas origens remontam, em primeira linha,
sociedades multiculturais. Porquanto um multiculturalismo bem- a Locke, lança mão do médium e dos conceitos do direito moderno, a
RBXD
entendido não constitui apenas uma via de mão única para a auto- fim de domesticar o poder político e colocá-lo a seu serviço. O
ç/CL
3 afirmação cultural de grupos que possuem identidade própria. Por pensamento liberal tem na mira o seguinte alvo: proteger a liberdade
3 outro lado, a coexistência, com igualdade de direitos, de diferentes do indivíduo enquanto cidadão da sociedade (Gesellschaftsbürger)
formas de vida não pode levar a uma segmentação. Ela exige uma O núcleo de uma constituição liberal reside na garantia de liberdades
-j integração dos cidadãos do Estado - e o reconhecimento recíproco de subjetivas iguais para todos. Tal núcleo eqüivale ao "princípio geral
suas pertenças a grupos subculturais - no quadro de uma cultura política do direito", de Kant, segundo o qual "a liberdade do arbítrio de cada
compartilhada. A autorização para formar características culturais um pode conviver com a liberdade de todos os outros de acordo com
U. típicas exige, como condição preliminar, que os "cidadãos da
Q sociedade" se entendam - para além de qualquer tipo de fronteira leis gerais". O "poder do povo" também continua sendo um
DO 1 subcultural - como "cidadãos do Estado" de uma mesma comunidade insü-umento do "poder das leis". A autonomia política dos cidadãos
política. Direitos e autorizações culturais encontram os seus limites do Estado (Staatsbürger) não constitui um fim em si mesmo, uma vez
nos fundamentos normativos de uma constituição que forma a base se mede pela tarefa de assegurai- a autonomia privada simétrica dos
de sua legitimação. cidadãos da sociedade.
O liberalismo é indicado porque nele se entrelaçam, elegante-
mente, duas intuições normativas fortes. A idéia das liberdades
21 Sobre o conceito de tais "encompassing groups" cf. M ARG ALIT. A., RAZ, J. subjetivas iguais para cada um satisfaz, de um lado, a medida moral
"National Self-Determination", in: KYMLICKA, W. (ed.). The Righls of de um universalismo igualitário que exige igual respeito e a mesma
Minority Cultures. Oxford, 1995, 79-92, aqui, 81 ss.
22 Quanto mais abrangentes as formas de vida culturais, tanto mais forte será o
consideração por cada um; de outro lado, ela satisfaz a medida ética
seu conteúdo cognitivo e tanto mais elas assemelhar-se-ão aos modos de
de um individualismo, segundo o qual cada pessoa deve ter o direito
vida estruturados mediante imagens de mundo religiosas: "The inescapable de configurar sua vida conforme as próprias preferências e convicções
aspect of any culture that it will include ideas to the effect that some beliefs (ou de deixar-se conduzir por outros). Na generalidade das leis
are true and some are false, and that some things are right and others wrong." manifesta-se a igualdade de todos os cidadãos, ao passo que os direitos
BARRY, B. Culture and Equality. Cambridge, 2001, 270. reclamáveis, que são inferidos das leis em cada caso particular, abrem

300 301
espaços, bem circunscritos, os quais permitem a cada cidadão modelar como para a consciência religiosa e a confissão religiosa de pessoas
sua própria forma de vida. O individualismo ético constitui, pois, o privadas. Isso permitiu o surgimento de uma interpretação "egoísta"
sentido próprio do universalismo igualitário, que o direito moderno da liberdade ética, a qual ainda repercute na polêmica do jovem Marx
empresta da moral. contra as declarações dos direitos humanos na França e nos Estados
A distinção entre projetos de vida éticos e questões de justiça Unidos. Segundo tal objeção, a liberdade do indivíduo não consiste
vem ao encontro das necessidades de um pensamento pós-metafísico apenas na autorização para uma busca utilitarista da própria felicidade
desarmado. Após lançar fora sua ambição de concorrer com imagens "pursuit of happiness", ou seja, não se esgota na autorização para a
de mundo religiosas, a filosofia não pretende mais formular persecução privada do interesse em bens da terra ou do céu.
fundamentações ontoteológicas ou cosmológicas a fim de tecer Para compensar tal déficit, a retomada moderna do republicanis-
modelos gerais e obrigatórios de uma vida não-fracassada. Ela con- mo coloca em jogo uma outra compreensão da liberdade, ampliada
tinua mantendo uma pretensão geral, porém, apenas no que respeita a intersubjetivamente e ligada ao papel do cidadão democrático. Nessa
asserções morais sobre o que é do "interesse simétrico de todos", isto tradição, que remonta a Rousseau, os iguais direitos de participação e
é, sobre o que é igualmente bom para todos ou suportável por todos. de comunicação servem não somente para a configuração de direitos
Tal teoria moral não pretende mais configurar representações privados subjetivos, mas possibilitam, além disso, uma práxis exercida
substanciais de uma conduta de vida exemplar determinante para em comum pelos cidadãos de um Estado, a qual é valorizada como
todos. A moral que, sob tal aspecto, tornou-se "formal" guarda fim em si mesma. Numa visão republicana, a autolegislação democrá-
semelhanças com a idéia do igual respeito e consideração por cada tica funda solidariedade, que é abstrata, uma vez que é mediada pelo
pessoa. Tal idéia retorna no próprio direito positivo da modernidade, direito, a qual permite, mesmo assim, que um indivíduo cidadão possa
estruturado de maneira individualista e obrigatório, a saber, no direito engajar-se pelo outro (mesmo estando com uma arma na mão). Na
a um tratamento igual e no conceito da "dignidade do homem" formação democrática da vontade do povo soberano reproduz-se e se
(purificado de todas as características estamentais). renova o etos político da coletividade. Em contrapartida, direitos iguais
garantem a liberdade ética, porém, agora não mais, em primeira linha,
Tal idéia de igualdade, liberal, foi submetida a reiteradas críticas. a liberdade subjetiva de um cidadão da sociedade, mas a liberdade en-
Inicialmente, o republicanismo, suplantado pelo liberalismo, retirou- tendida como soberania de uma nação de cidadãos de um Estado,
se objetando que a "liberdade dos antigos" não poderia ser sacrificada solidários. Tal soberania ramifica-se, internamente, na liberdade polí-
no altar da "liberdade dos modernos". O liberalismo clássico ameaçava tica - entendida de maneira comunitarista - dos membros de uma co-
realmente reduzir o sentido de liberdades éticas iguais a uma munidade nacional; e externamente, na liberdade de uma nação - en-
interpretação individualista possessiva de direitos subjetivos tendida de maneira coletivista - que defende sua existência contra
interpretados de forma instrumentalista. E com isso ele falseou uma outras nações.
intuição normativa importante, a qual merece ser salvaguardada mesmo Não obstante isso, tal republicanismo ético conta com uma
nas condições de sociedades modernas, a saber, a solidariedade que limitação do universalismo igualitário, que é o preço a ser pago por
une entre si, para além dos meros laços políticos, não somente uma solidariedade dos cidadãos de um Estado. É bem verdade que
membros, amigos e vizinhos em esferas da vida privada, mas também cada cidadão goza de iguais direitos, porém, isso tem de ser entendido
cidadãos do Estado enquanto membros de uma coletividade política. nos limites de um etos particular que se presume ser partilhado por
O núcleo da ordem jurídica liberal consiste em direitos de liberdade todos os membros da comunidade política. A fusão entre cidadania
talhados para relações econômicas de proprietários privados, bem do Estado e cultura nacional gera uma interpretação dos direitos dos

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cidadãos que é "de uma cor só" e insensível a diferenças culturais. No O uso adequado dos direitos políticos por parte dos cidadãos do
âmbito de sociedades pluralistas, quando se atribui precedência política Estado requer a configuração de uma vida autônoma e privada,
a um bem comum impregnado eticamente em detrimento da garantia assegurada eqüitativamente, o que só é possível quando eles se
efetiva de liberdades éticas iguais, gera-se discriminação de modos encontram em condições de agir e julgar de modo independente. De
de vida divergentes e, em escala internacional, impotência perante a outro lado, os cidadãos da sociedade só chegam ao gozo simétrico de
"guerra de culturas". sua autonomia privada plena se eles, enquanto cidadãos de um Estado,
Num nível fundamental, tais problemas não encontram solução fizerem um uso adequado de seus direitos políticos, isto é, se não
a não ser no quadro de uma concepção que desconfina a mobilização agirem apenas de modo auto-interessado, mas também orientados pelo
da solidariedade entre cidadãos de um Estado lançando mão de pontos bem comum. A idéia, introduzida por Rousseau e interpretada em
de vista de um universalismo igualitário radicalizado em termos de termos universalistas por Kant, segundo a qual, os destinatários do
uma solidariedade entre "outros". Além do mais, à proporção que a direito têm de poder entender-se, ao mesmo tempo, como seus autores,
formação soberana da vontade de cidadãos de um Estado, democráti- não coloca nas mãos dos cidadãos unidos de uma coletividade
cos, se liga a princípios constitucionais universalistas e a direitos "dos democrática nenhum tipo de carta de alforria para decisões arbitrárias.
homens", ela apenas está sendo coerente com os pressupostos que Eles devem decidir somente sobre aquelas leis que extraem sua
exigem uma institucionalização da própria práxis, juridicamente legitimidade do fato de poderem ser desejadas por todos. A liberdade
legítima.1 O entrelaçamento da idéia republicana da soberania do povo subjetiva que permite fazer e deixar de fazer, no âmbito das leis,
com a idéia de um poder da lei, soletrada em direitos fundamentais, qualquer coisa que se deseje, constitui o núcleo da autonomia privada,
pode transformar, não destruir, as formas históricas da solidariedade. não da autonomia de cidadãos de um Estado. Ao invés disso, aos
De acordo com essa terceira interpretação, que propõe uma mediação cidadãos do Estado, democráticos, imputa-se, tomando como base
entre liberalismo e republicanismo, os cidadãos do Estado entendem uma liberdade de arbítrio garantida juridicamente, autonomia no
o etos político que os mantém coesos como nação, como sendo o sentido mais pretensioso de uma formação racional e solidária da
resultado voluntarista da formação democrática da vontade de uma vontade - mesmo nos casos em que essa última pode apenas ser
população acostumada à liberdade política. E no futuro ter-se-á sugerida e não exigida legalmente. Um dever jurídico exigindo
depositado, no orgulho nacional de uma consciência da liberdade, solidariedade seria algo tão absurdo como, por exemplo, um "ferro de
adquirida e compartilhada intersubjetivamente, a experiência histórica madeira".
de que o nexo interno entre a autonomia privada do cidadão indi- A configuração democrática de um sistema dos direitos que a
vidual da sociedade subsiste em harmonia cumulativa com a própria democracia tem de pressupor, a fim de poder operar em formas
autonomia política do cidadão de um Estado, exercitada em comum. juridicamente institucionalizadas, liberta o liberalismo clássico da
obstinada abstração de leis gerais fundadas no direito natural, as quais
'HABERMAS, J. Faktizitat und Geltung. Frankfurt/M., 1992,cap. III; id.,"Über são tidas como imprescindíveis para que se tenha liberdades subjetivas
den internen Zusammenhang von Rechtsstaat und Demokratie", in: id. Die igualmente distribuídas. De outro lado, permanece intacta a lógica,
Einbez.iehung des Anderen. Frankfurt/M., 1996, 293-305; id. "Der segundo a qual, o universalismo igualitário do Estado de direito cria
demokratische Rechsstaat - eine paradoxe Verbindung widersprüchlicher condições de possibilidade para o individualismo ético dos cidadãos.
Prinzipien?", in: id. Zeitder Übergünge. Frankfurt/M., 2001, 133-154. Para Sem sombra de dúvida, tal lógica não transparece mais objetivamente
as considerações que seguem devo gratidão aos participantes de um seminário no poder anônimo das leis, passando, por assim dizer, por sobre as
realizado no verão de 2002 na Northwestern Univesity.

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cabeças dos cidadãos; já que, enquanto lógica internalizada pelos somente pode acontecer a partir do momento em que se rejeita pura e
próprios cidadãos, ela se incorpora no procedimento democrático de simplesmente a premissa, segundo a qual as próprias sociedades
formação da sua vontade política. A idéia de iguais liberdades para complexas são capazes, pelo médium do direito e da política, de influir
cada um, uma vez liberta de suas petrificações jusnaturalistas, as- sobre si mesmas, porquanto nesse momento se "tira a terra debaixo
sume uma figura reflexiva no processo da autolegislação. Ela obriga dos pés" das considerações essencialmente normativas.
os participantes do processo democrático a se concederem Desde Hegel, passando por Marx e chegando até Foucault, a
mutuamente, pelo caminho de uma assunção recíproca de perspectivas grande crítica à "impotência do dever ser", confeccionada em termos
e da generalização comum de interesses, os direitos exigidos pelo de teoria da sociedade, agudizou-se. Nesta linha de visão, os projetos
projeto de uma associação voluntária e autônoma de parceiros do normativos fracassam ante o desmentido gritante de uma realidade
direito, livres e iguais, à luz de circunstâncias históricas específicas. que se contrapõe, já pelo simples fato de que eles mesmos ainda fazem
A solidariedade de cidadãos do Estado, a qual se produz, atualiza- parte integrante da totalidade dominadora de uma forma de vida
se e se aprofunda mediante um processo democrático, faz com que a denunciada como "alienada" ou "esmigalhada". Tais diagnósticos
viabilização igualitária de iguais liberdades éticas assuma forma críticos, contudo, que atingem mais fundo, atribuem a lamentada força
procedimental. Em casos favoráveis, tal dinâmica pode colocar em niveladora e, ao mesmo tempo, isoladora do "geral abstrato" à
andamento processos de aprendizagem cumulativos e iniciar reformas facticidade de estruturas sociais, não ao poder dos conceitos de uma
duradouras. Uma democracia enraizada na sociedade civil consegue normatividade fechada em si mesma. De sorte que a uniformização
criar, na esfera pública política, uma caixa de ressonância para o sincronizadora e o isolamento devem ser atribuídos a mecanismos
protesto, modulado em muitas vozes, daqueles que são tratados de penetrantes do mercado e do poder administrativo, por conseqüência,
modo desigual, dos subprivilegiados, dos desprezados. Tal protesto a mecanismos da integração social que se transformam em poder
contra o sofrimento provocado por injustiças e discriminações pode reificador quando conseguem atingir o coração do mundo da vida,
transformar-se num aguilhão de autocorreções, as quais conseguem que é estruturado de modo comunicativo. Enquanto o esgotamento
extrair, partícula por partícula, o conteúdo universalista inerente ao dos recursos da solidariedade social se apresenta como efeito da invasão
princípio da igualdade de cidadãos de um Estado utilizando como de relações de troca e de regulamentações burocráticas na área nuclear
meio de troca a moeda das iguais liberdades éticas. das esferas públicas e privadas do mundo da vida, estruturadas de
Em que pese isso, tal interpretação democrática do liberalismo modo comunicativo, porém, desfiguradas patologicamente, a crítica
político também está sujeita a críticas, que ainda encontram eco. E ainda não se dirige a contradições aninhadas conceitualmente nas
nesse ponto, gostaria de salientar três tipos de objeções: as que são próprias normas.2 A obra de Adorno constitui a passagem para o terceiro
oriundas das ciências sociais, da teoria da sociedade e de uma crítica degrau de uma crítica ainda mais aguda, já que ele interpreta a troca
da razão. As reservas críticas da sociologia contra o normativismo de equivalentes e o poder de organização - que são os dois mecanismos
esclarecido - e contra o idealismo dissimulado - de uma teoria política sistêmicos da integração social - à luz de uma crítica da razão. Eles
cuja metodologia consiste numa análise conceituai oferece, é bem são, aos seus olhos, expressão de uma racionalidade instrumental que
verdade, correções salutares. Não obstante isso, tais reservas não se contradiz a forma espontaneamente individuadora de relações
condensam, por via de regra, numa objeção de princípio, segundo a
qual, as teorias normativas fracassam, em geral, ante a complexidade 2 HABERMAS. J. "Konzeplionen der Moderne". in id. Die Postnationale
social, mesmo quando as entendemos num sentido "meliorista". Isso Konstellation. Frankfurt/M., 1998, 195-231.
306 307
solidárias. Ao passo que Derrida dissolve os laços que - na tradição uma crítica da razão. Um tratamento igual, por mais refletido que
das teorias da racionalização weberianas que remontam a Lukács - seja, não seria justo quando se tem em vista os interesses da pessoa
ainda uniam a crítica da razão à teoria da sociedade1 e se limita a uma singular, "porque a realização da igualdade pode (sempre) entrarem
desconstrução dos conceitos fundamentais da teoria política. Ele se conflito com as obrigações resultantes do enfoque individual da
interessa especialmente pela heterogeneidade interna do conceito de justiça".7 A revolução, a graça e a ironia são "três formas do trato
um direito unido indissoluveltnente a um poder soberano.4 Em que soberano" da "relação" indissoluvelmente "paradoxal" entre
pese isso, a desconstrução da justiça, projetada por Derrida, aproxima- tratamento igual e modo de ser justo individualmente.
se muito da perspectiva de uma esperança messiânica indeterminada, O lado anti-utópico de tal concepção transparece no quietismo
nos termos delineados por Adorno. O discurso instante sobre um de uma reflexão que teima em focalizar os limites da liberdade. E
"evento" esperado com hesitação5 faz supor que Derrida "critica uma bem verdade que os atos de tratamento igual não conseguem jamais
compreensão da igualdade liberal existente, que é excludente e atingir seu alvo, porém, tal visão desconstrutiva, que nos mantém na
opressiva, na perspectiva de uma compreensão da igualdade liberal consciência do fracasso, não deve impedir que nossas tentativas
aturadora, ampliada e isenta de dominação".6 individuais visando maior justiça sejam ainda mais determinadas.8
Parece que a recordação das promessas da tradição da radical Na opinião de Menke, a desconstrução nada mais é do que uma
democracia continua inspirando Derrida; já que ela continua sendo, preparação para a consciência da finitude, já que ela franqueia à
para ele, uma fonte de esperança - contida, é verdade - numa filosofia a natureza oculta e paradoxal de sua própria ação.9 A análise
solidariedade universal, capaz de permear todas as relações. conceituai desse "mundo" inconsciente tem por finalidade processar
Contrapondo-se a isso, Christoph Menke imprime ao negócio da a "contradição performativa [...] entre dizer e fazer".10 Isso implica
desconstrução da justiça uma guinada anti-utópica. E nesse naturalmente um entendimento do modo como "a" filosofia interpreta
empreendimento, ele desenvolve uma interpretação do liberalismo, o seu próprio fazer.
interessante, autônoma e pós-moderna. Ele partilha com a versão No entender de Menke, a filosofia tem a ver, desde o início, com
clássica a opinião, segundo a qual, o papel desempenhado pelo aquilo "em que consiste o sucesso de nossa práxis" e ela entende tal
procedimento democrático e pela participação política dos cidadãos conhecimento transcendental como "compreensão do que é bom". E
não é essencial para a determinação da idéia liberal fundamental de com isso, ela pretende dar uma contribuição prática para a promoção
iguais liberdades éticas. Neste caso, a tentativa visando comprovar do bem." E caso a filosofia não possuísse tal autocompreensão
que a concepção de iguais liberdades cai em autocontradição constitui metafísica, faltar-lhe-ia um critério de interpretação capaz de atribuir
'Tal ligação continua sendo feita na 'Teoria do agir comunicativo"; sobre o 7 MENKE,
correspondente procedimento "reconstrutivo" cf. PETERS B. Die Integra- Ch. (2000), 41.
tion moderner Gesellschaften. Frankfurt/M., 1993. 371 ss. "Ibid., 33.
9 Não estou convencido de que a interpretação tecida por Menke sobre do
4 DERRIDA, J. Gesetzeskraft. Frankfurt/M., 1991; id. Politik der Freundschaft.
Frankfurt/M., 2000. Sobre o nexo constitutivo entre direito e poder cf também procedimento da assim chamada "desconstrução" coincida com a prática de
HABERMAS, J. (1992), 167-186. Jacques Derrida ou com a sua autocompreensão. Também não pretendo tomar
•'Cf., por exemplo, DERRIDA, J. Die unbedingte Universitiii. Frankfurt/M posição quanto a isso.
,0 Cf. a introdução a KERN, A. e MENKE, Ch. Phdosophieder Dekonstraktion.
2001.
6 MENKE, Ch. Spiegelungen der Gleichheil. Berlim, 2000. IX.
Frankfurt/M., 2002 a, aqui, 9.
11 MENKE, Ch."Kõnnen und Glauben". in: MENKE, KERN (2002 a), 243 ss.

308 309
à desconstrução um significado próprio. E nesse contexto, a prova de argumentos em prol de uma "outra" justiça ou de uma "cuidadosa"
que "as condições de possibilidade" de uma prática bem-sucedida justiça apontam para uma dimensão situada além do direito. Um
são, ao mesmo tempo, "condições da impossibilidade de ela ser bem- emprego moralmente obrigatório, inferido dos encontros pessoais e
sucedida" continua a movimentar-se no universo conceituai de um contextos comunicativos de biografias individuais enlaçadas
pensamento metafísico que lança mão do conceito de totalidade. Por solidariainente, transforma-se numa medida pretensiosa da crítica do
isso, o verdadeiro rival de uma crítica da metafísica é a direito, porém, inadequada.
autocompreensão pós-metafísica da modernidade, a qual toma como O direito obtém, naturalmente, sua legitimidade de conteúdos
ponto de partida a pressuposição da autonomia de sujeitos que agem morais; todavia, ordens jurídicas construídas complementam as
de modo responsável e autoconsciente: "A desconstrução dirige-se à orientações morais da ação, adquiridas mediante socialização, inclu-
pressuposição filosófica, segundo a qual, apenas nosso 'ser capaz de' sive com o objetivo de aliviar, em condições complexas e
(Kónnen) toma possível o sucesso da práxis."12 Nos termos de tal intransparentes, os cidadãos do peso das exigências cognitivas e
interpretação, a desconstrução tem por alvo inquietar uma modernidade motivacionais de uma moral pretensiosa. Isso explica diferenças de
desencantada afugentando-a da inquestionabilidade de suas forma entre a moral e o direito, que têm de ser levadas na devida
pressuposições mentais. conta quando se fala de "justiça" em sentido moral ou jurídico. O fato
Não obstante isso, as teorias da moral e da justiça, cujas de o direito não poder contradizer a moral não significa, no entanto,
referências encontram-se no universalismo igualitário kantiano e na que ele esteja situado no mesmo plano que ela. As diferenças aparecem,
sua concepção de autonomia, devem constituir um grande desafio com inteira nitidez, nas pretensões a nós dirigidas por deveres positivos
para tal tipo de projeto. E esse é precisamente o pano de fundo para a direcionados ao "próximo". E precisamente as éticas pós-modernas
controvérsia com John Rawls,11 que Cristoph Menke retomou na giram "não menos do que a teoria moral de Adomo - a qual nunca foi
Deutsche Zeitschriftfur Philosophie.14 A excelente análise merece ser escrita - em tomo da idéia de que a pretensão da justiça humana só
destacada, não somente por sua argumentação clara, mas também por pode ser satisfeita plenamente no trato correto do não-idêntico".15
seu objeto. Menke desenvolve sua crítica à idéia de igualdade tomando Numa comparação entre tais princípios, Axel Honneth já chamara
como exemplo o liberalismo político, ou seja, mais precisamente, a atenção para o perigo de uma supergeneralização. O "cuidado sem
tomando o exemplo de uma interpretação da igualdade juridicamente limites para com um indivíduo singular e insubstituível", sublinhado
institudionalizada de cidadãos de uma coletividade política. Ele pela fenomenologia de Levinas, é inferido de relações face-to-face
pretende chamar a atenção - no âmbito das relações entre pessoas de em situações existenciais agudizadas, as quais lançam luz sobre o
direito - para o sofrimento que a abstração violenta de leis gerais impulso moral fundamental e freqüentemente fundamentam deveres
inflige às pretensões individuais das pessoas atingidas. Tal concen- positivos de virtude; mas não é típico de deveres do direito. E bem
tração no direito e na política é importante à proporção que os verdade que a própria função da jurisdição consiste em aplicar as leis
de tal forma que, no caso singular, elas sejam justas tendo em vista as
"circunstâncias especiais". De uma jurisdição eqüitativa nós temos
12 Ibid., 247. de esperar, inclusive, um extraordinário senso hermenêutico para
13 MENKE, Ch. "Liberalismus im Konllikt", in: id. (2000), 109-131.
14 MENKE, Ch. "Grenzen der Gleichheit". in: Deutsche Zeitschrift fiir 15 HONNETH, A. DasAndere der Gerechtigkeit. Frankfurt/M., 2000, 133-170,
Philosophie. 50, (2002), 897-906. As páginas citadas no texlo relerem-se a aqui 134.
esse artigo.

310 311
circunstâncias cuja relevância é distinta, dependendo das perspectivas dos custos a serem assumidos pelas comunidades religiosas para a
biográficas individuais dos envolvidos no caso. Caso contrário, não adaptação cognitiva a exigências da modernização cultural e social
seria possível encontrar nem aplicar de modo suficientemente (IV).
"flexível" a única norma "adequada".16 Mesmo assim, as pretensões
individuais de pessoas de direito são, de certa forma, cunhadas II
previamente pelos predicados da norma do direito; elas restringem-se
basicamente àquilo que pessoas de direito podem esperar umas das Mencke pretende mostrar que a idéia das liberdades éticas iguais
outras: um comportamento sob as determinações de uma forma do para todos cai em contradição consigo mesma no decorrer da execução
direito, que, em última instância pode ser imposto. Normas do direito do programa liberal. Apesar de ele não se interessar pela proposta
regulam relações interpessoais entre atores que se reconhecem específica que o Rawls tardio apresenta como solução para o fato do
reciprocamente como membros de uma comunidade abstrata criada pluralismo das visões de mundo, isto é, a concepção de um módulo
apenas mediante normas do direito.17 de consenso que se sobrepõe,18 a teoria de Rawls é indicada para tal
Meu interesse pela tentativa sagaz de Menke, que procura desconstrução, já que ela configura, explicitamente, uma concepção
desconstruir o princípio da igualdade de cidadãos de um Estado, "política" da justiça por conseguinte, neutra e igualmente aceitável
garantidor da igualdade, lançando mão do exemplo do liberalismo por todos os cidadãos. Uma constituição liberal garante a todos os
político de Rawls, resulta do fato de que ele se limita à idéia liberal de cidadãos a igual liberdade de configurar sua vida seguindo os ditames
igualdade na sua forma clássica. Ou seja, ele desconsidera a de suas próprias "concepções do bom". Caso fosse possível demonstrar
generalização preliminar de interesses, a ser propiciada mediante que a própria garantia siméünca de liberdades éticas é apenas expressão
legislação democrática, ou melhor, por meio de uma justificação, de uma determinada compreensão substancial do que deve ser uma
deliberada e aceita em comum, das determinações legais de iguais vida "correta", os cidadãos que não compartilhassem tal visão liberal
liberdades subjetivas (II). Mesmo sob premissas de uma interpretação do mundo, agora predominante, teriam de sentir-se tolhidos no trabalho
que leva tal aspecto em consideração, não está excluída totalmente a espontâneo da configuração de sua vida. Suponhamos, por um só
crítica quando pensamos nos efeitos ambivalentes de direitos de grupos momento, que determinada compreensão antropocêntrica - por
fundamentados de modo tnulticulturalista. Tais direitos, que têm por exemplo, o contexto da fé nos ideais do iluminismo francês do século
função reforçar capacidades de auto-afirmação de grupos XVIII - fosse o único caminho viável para a explicação do princípio
discriminados, parecem, apesar de seu surgimento democrático exem- das iguais liberdades éticas. Neste caso, o pluralismo das visões de
plar, falar a favor de uma transformação dialética da igualdade em mundo, institucionalizado no Estado liberal, teria de marginalizar, no
repressão (III). E como conclusão, eu gostaria de submeter novamente longo prazo, todas as doutrinas religiosas.
à prova, numa perspectiva histórica, a consistência conceituai do Rawls precisa evitar tal liberalismo ético, o qual, em nome da
cruzamento entre igualdade e liberdade em casos de tratamento cul- igualdade de direitos, iria confinar eo ipso o igual direito de seguidores
tural igual, ou seja, mais precisamente na perspectiva da imputabilidade de doutrinas que se digladiam entre si. Menke concorda com ele, não

l6GÜNTHER, K. Der Sinn für Angemessenheit. Frankfurt/M., 1988, 261 ss. E "FORST R. Kontexte der Gerechtigkeit. Frankfurt/M., 1994, 152-160;
HABERMAS, J. "'Vernünflig' versus 'wahr' oder die Moral der Weltbilder",
135 ss.; cf. também HABERMAS (1992), 272 ss. in: id. Die Einbeziehung des Anderen. Frankfurt/M., 1996, 95-127.
17 Sobre as determinações da forma do direito, cf. HABERMAS, (1992), 143 ss.

312 313
no que tange à solução do problema, mas na sua formulação. No seu grupos culturais (2).21 Menke julga poder mostrar, sob ambos os
entender, qualquer tentativa, mesmo a mais refletida, visando garantir aspectos, que as condições que viabilizam uma ordem constitucional
a todos os cidadãos liberdades éticas iguais sobre a base de um conceito universalista e igualitária revelam-se, no final das contas, aporéticas,
de justiça neutro do ponto de vista das cosmovisões, está destinada ao isto é, aparecem como condições da impossibilidade de sua realização.
fracasso, por razões conceituais. Com isso, porém, Menke não pretende
afastar-nos da tentativa continuada que busca justiça sobre a base do (1) A neutralidade da meta de uma concepção de igualdade de
tratamento igual de todos. Mas sugere que abandonemos a presunção cidadãos do Estado se mede pela inclusão completa e simétrica dos
de produzir a justiça por nós mesmos. cidadãos. Todos eles devem ser incluídos simetricamente na
Na consciência trágica de um conflito aparentemente insolúvel comunidade política, isto é, sem nenhuma discriminação de seu modo
entre aquilo que é justo para todos e aquilo que é bom para um de viver ou de sua autocompreensão ou da compreensão que eles têm
indivíduo, a realização da igualdade política deve continuar sendo do mundo. Tal meta exige, evidentemente, uma demarcação
"um objeto da esperança e do desejo" - porém, não no sentido trivial (Abgrenzung) de doutrinas (tal como as sexistas, racistas ou
de que existe, sempre, uma diferença de nível entre norma e realidade, fundamentalistas) inconciliáveis com o princípio da igualdade de
mas num sentido metafísico mais profundo que nos leva a reconhecer cidadãos do Estado, bem como uma limitação (Begrenzung) de direitos
a "impossibilidade de realizações garantidoras de sucesso". Na própria e deveres para com pessoas (tal como, por exemplo, crianças menores
teoria de Rawls deveria ser possível pensar o "estar-por-chegar da de idade ou pacientes não imputáveis no sentido do direito) que ainda
justiça", por conseguinte, a idéia de que "o âmbito da justiça torna- não têm - ou que provisoriamente não têm - condições de preencher
se algo independente face à realização subjetiva da justiça".19 Ou os papéis de cidadãos ou de pessoas privadas capazes de negociar. O
seja, utilizando os termos da gramática hegeliana: a causalidade problema especial da demarcação, que se coloca no contexto de
do destino mantém a supremacia frente à justiça abstrata - agora, cosmovisões fundamentalistas e de membros dos assim chamados
naturalmente, não mais em nome de uma razão objetiva, grupos "iliberais", pode ser ignorado aqui.22
sobrepujadora ou absoluta. Menke fundamenta a tese, segundo a qual a neutralidade da meta
Mesmo quando os correspondentes princípios constitucionais é inatingível quando se trata de grupos ou doutrinas que aceitam
assumem a forma de procedimentos da legítima determinação ou premissas igualitárias, lançando mão do seguinte argumento: A história
aplicação do direito, uma concepção de justiça política não pode das constituições européia e americana oferece exemplos drásticos da
ser neutra no sentido de que lhe falta qualquer tipo de conteúdo exclusão de mulheres, de desclassificados, de negros, etc, a qual fere,
normativo. 20 Rawls exige, para uma ordem política justa, a neutra- evidentemente, o princípio do tratamento igual: "Por isso, qualquer
lidade do fim que se contrapõe às formas de vida e cosmovisões concepção liberal da igualdade não se encontra apenas em oposição
difundidas nas sociedades civis (1), mas não a neutralidade dos com representações de ordem e de justiça não-igualitárias, mas
efeitos que certas normas e medidas exercem sobre diferentes constitui, além disso, a tentativa de ultrapassar as determinações
passadas da idéia de igualdade liberal e de superar a opressão que
'"MENKE (2002 a), 250. ainda é inerente a elas." (901) Entretanto, a compreensão retrospectiva
2uCf.a crítica de Rawls a minha compreensão procedimentalista, in: "Reply to
Habermas", in: The Journal of Philosophy, XCII, 1995, 170 ss, bem como 21 FORST (1994), 82 s.
minha réplica in: HABERMAS (1996), 124ss. 22Cf. abaixo, secção III.

314 315
das inconseqüências de uma implantação seletiva e penosa de No entanto, é exatamente sobre isso que se apoia a objeção. E já
direitos fundamentais, não leva, como seria de se esperar, Menke que a nossa situação epistêmica não difere essencialmente, aqui e
a concluir que houve progressos de um processo de aprendizagem agora, da situação epistêmica das gerações anteriores, cujas tentativas
autocorretivo se corrige. Ao invés de entender que as tentativas destinadas à obtenção de determinações neutras da idéia de igualdade
passadas visando a concretização da idéia da inclusão simétrica sempre fracassaram, não podemos lançar fora a idéia "de que nossas
de todos os cidadãos só foi bem-sucedida em parte havendo, in- próprias propostas e determinações, quando inseridas numa
clusive, contradições à idéia, da igualdade, ele explica que isso consideração retrospectiva, são, por seu turno, criticadas por
tudo foi conseqüência de uma inconsistência da própria idéia da aparecerem como não-neutras" - nessa passagem Menke não afirma:
igualdade de cidadãos de um Estado, subjacente: é impossível "poderiam ser criticadas" (902). As gerações passadas também erraram
"determinar", de modo neutro, a idéia liberal de liberdades iguais e em todas as direções. Como o exemplo americano de uma tradição
porque nem os descendentes têm certeza quanto à validade de suas constitucional continuada de mais de duzentos anos revela, os
tentativas visando corrigir os erros do passado. descendentes corrigiram erros dos predecessores e dos pais fundadores,
por exemplo, no período da reconstrução ou na época do New Deal
E bem verdade que as gerações posteriores podem tentar "obter" ou ainda no movimento dos direitos dos cidadãos ocorrido no século
a neutralidade do alvo, mas não têm como "garanti-la". O grau de passado. E uma vez que a idéia da igualdade de cidadãos do Estado
falibilidade da razão prática é, inclusive, muito maior do que o da ultrapassa sua respectiva institucionalização, é possível eliminar
teórica.21 Além disso, não devemos excluir a possibilidade de que, à exclusões reconhecidas como injustificadas á luz de outras
luz de uma projeção futura, nossas atuais reformas também poderão circunstâncias históricas. Como no caso de domínios teóricos, aqui
ser consideradas incompletas e necessitadas de correções. Todavia, é também a relativização de compreensões antigas pode levar à
necessário perguntar, será que elas terão sido falsas ou terão de ser ampliação, não à liquidação de conquistas passadas.
necessariamente tidas na conta de falsas? A consciência falibiIista que Eu não consigo entender como seja possível explicar as cegueiras
nos acompanha quando formulamos uma asserção não significa, no notórias que desvendamos hoje em dia obnubilando interpretações
entanto, que com isso nós relativizamos ou, menos ainda, que passadas da igualdade cidadã e como seja possível concluir que as
abandonamos a pretensão de verdade que exteriorizamos a favor dela. práticas de exclusão e discriminação - que decorrem daquelas
A compreensão que obtemos mediante a retrovisão de uma terceira interpretações - são conseqüência de "condições de impossibilidade"
pessoa, segundo a qual, alguns de nossos esforços cognitivos sempre conceituais embutidas na própria idéia (da igualdade cidadã, n.t.). As
fracassam, não nos força, na perspectiva de um participante, a descrer interpretações seletivas de normas que são, de acordo com sua forma
completamente de qualquer tipo de conhecimento. gramatical, frases universais, mas que, no plano semântico não são,
de forma alguma, imunes à interpretação particularista dos "conceitos
Menke recusa uma interpretação falibilista de sua tese. Para isso ele não fornece, fundamentais" nelas empregados, tal como "pessoa" ou "homem",
no entanto, uma fundamentação plausível. O fato de as conseqüências de
juízos práticos incorretos serem, em geral mais graves do que as conseqüências exigem uma explicação empírica. E esta tem de englobar a semântica
de juízos teóricos falsos não impede que juízos morais e decisões jurídicas do pano de fundo metafísico e religioso, o qual impregna previamente
sejam privados do status de proposições que podem ser correias ou falsas. as interpretações de normas de igualdade que representam valores.
Cf. HABERMAS, J. "Richtigkeit versus Wahrheit. Zum Zinn der Sollgeltung Thomas A. McCarthy segue tal método em sua análise dos
moralischer Urteile und Normen", in: Wahrheit und Rechtfertigung. Frank- preconceitos raciais detectáveis na antropologia de Kant:
furt/M., 1999,271-318.
317
316
"Cosmovisões substanciais - religiões, cosmologias, metafísica, liberal do aborto, por exemplo, imputa aos crentes católicos e a todos
história da natureza, etc. - têm, para normas gramaticalmente os que se posicionam a favor da vida (Pro-Life) - fundamentados na
universais, o efeito de um mecanismo de retração {...}. A significação religião ou em visões de mundo - um peso maior do que ao cidadão
dos conceitos-chave utilizados para a formulação de normas universais secular, o qual, mesmo quando não compartilha a posição a favor da
foi, curiosamente, modificada, a fim de tomar visíveis diferenças de escolha (Pro-Choice), é capaz de enfrentar com menor sofrimento o
sexo, de raça, de etnia, de classe, de status ou de outras formas de pensamento de que o direito à vida do embrião humano pode, em
pertença a grupos e de adscrição de identidade, de tal modo que aqueles determinadas circunstâncias, ser suplantado pelo direito de
que entendiam a questionabilidade da linguagem podiam distinguir autodeterminação da mãe.
as diferenças da esfera de validade das normas, intencionada."24 De outro lado, Menke pretende limitar sua análise a perdas em
Interpretações seletivas de princípios fundamentais universalistas formas de vida e cosmovisões que são não-anti-igualitárias por
constituem sintomas de uma diferenciação incompleta entre o "justo" natureza. Nesse caso, porem, ele não deveria referir a não-neutralidade
e o "bom". Todavia, a experiência histórica, segundo a qual nós, dos efeitos a grupos dotados de identidade que não sobreviverão du-
felizmente, também podemos aprender algo a esse respeito não rante muito tempo na sociedade bem ordenada do liberalismo político."
confirma eo ipso a natureza paradoxal do projeto que se propõe garantir Porquanto, nesse caso, Rawls fala em grupos "iliberais" cuja
liberdades éticas para todos em geral. sobrevivência depende, por exemplo, da condição de que seus
membros "controlem o aparelho do Estado e tenham condições exercer
(2) Rawls pretende neutralidade para sua concepção de justiça efetivamente intolerância".25 Poderíamos encontrar um exemplo disso
tomada como um todo, não para os efeitos das normas singulares que na interpretação xiita do Corão tal como é concebida atualmente pelos
asseguram igualdade. As repercussões dessas (normas) sobre a mullahs que detêm o poder no Irã; no entanto, ela não poderia ser
autocompreensão ética e o modo de vida de cada um dos destinatários classificada como uma "concepção do bom que não é, em princípio,
não são necessariamente as mesmas. Aparentemente, Menke é de anti-igualitária". Muito mais do isso, a questão gira em torno do
opinião que essa tese tem de ser considerada como uma quase- seguinte ponto: será possível constatar, - a partir das sobrecargas
concessão à desconstrução. Consideremos, no entanto, os fenômenos diferenciais que as normas imputam, às vezes, aos seus destinatários
que constituem alvo de tal reserva. O primado conceituai do justo mesmo quando justificadas sob o ponto de vista da consideração
sobre o bom significa que, em certos casos, uma norma que é do simétrica dos respectivos interesses de cada um - uma aporia que
interesse simétrico de todos impõe não somente limitações em geral habita no âmago da própria idéia de igualdade?
(Einschrànkungen), mas também, de acordo com o círculo de Menke toma como guia de seu pensamento uma intuição,
destinatários, sobrecargas não-simétricas que acarretarão restrições, segundo a qual, qualquer determinação mais particularizada da idéia
as quais penalizarão um grupo mais do que outros na configuração de do tratamento igual constitui um geral abstrato, o qual necessariamente
sua forma de vida, que onerarão algumas pessoas mais do que outras é levado a forçar a vida individual de pessoas singulares. Neste ponto,
na persecução de metas individuais de vida. Uma regulamentação é importante evitar uma falsa colocação de diretrizes. Do ponto de
vista cognitivo, nós sempre temos à disposição a alternativa de julgar
24 M ACCARTHY, Th. "Die politische Philosophie und das Problem der Rasse", estados de coisas na perspectiva participante de cidadãos que
in: WINGERT, L. e GÜNTHER, K. (orgs.) Die ôffenllichkeit der Vernunft
und die Vernunft der Ôffenllichkeit. Frankfurl/M.. 2001, 627-654, aqui. 633.
"RAWLS, J. Poiitischer Liberalisimts, Frankfurt/M., 1998. 294.
318 319
colaboram, por intermédio de metas coletivas e normas obrigatórias, realizável. Por boas razões, a justiça política não tem, nos contextos
na formação política da opinião e da vontade, ou na perspectiva de da maioria das biografias dos indivíduos, prioridade sobre outras
uma primeira pessoa que, na qualidade de indivíduo inconfundível, orientações valorativas individuais, tidas como mais importantes.
toma a decisão de refletir sobre o seu próprio modo de vida. Tal A falha inerente a tal consideração pode ser descoberta facilmente,
possibilidade de mudança de perspectivas, que existe no plano já que as perspectivas da justiça e da "vida boa", opostas, não se
cognitivo, não encontra, no entanto, uma correspondência simétrica integram completamente, a ponto de formar uma verdadeira simbiose,
no plano normativo. Aqui, os "direitos" da perspectiva imparcial da mas permanecem, por boas razões normativas, entrelaçadas entre si
justiça não coincidem exatamente com os de uma avaliação ética da de modo assimétrico. No longo prazo, o auto-entendimento levado a
própria vida, já que a prioridade da justiça não pode ser arbitrariamente cabo na visão da primeira pessoa só pode ser bem-sucedido com a
invertida, a qualquer momento, a favor de uma precedência ética de ressalva de que a persecução de metas da vida individual não ultrapasse
metas de vida próprias: isso eqüivaleria a um nivelamento da prioridade as fronteiras da consideração moral por outros.28 De outro lado, os
da imparcialidade, da qual não podemos desvencilhar-nos. cidadãos - no seu papel de co-legisladores democráticos - dependem
Certamente, os atingidos podem submeter a uma avaliação de procedimentos da assunção recíproca de perspectivas, a fim de
pessoal, à luz de uma perspectiva subjetiva, os efeitos que normas que as perspectivas dos atingidos, que não pretendem deixar que suas
justificadas intersubjetivamente têm sobre sua vida. Tal opção, no metas de vida individuais sejam confinadas de uma forma
entanto, da qual os participantes lançam mão ex ante - durante o existencialmente insuportável, encontrem acesso à perspectiva da
processo de justificação - não implica, na seqüência dos passos da justiça.
reflexão e durante a assunção da respectiva perspectiva, numa A aplicação adequada de uma norma depende de tal justificação
valorização capaz de conferir, normativamente, a derradeira palavra democrática. Pode ser considerada "adequada" a um caso individual
ao auto-entendimento ético. a norma em cuja luz todas as características relevantes do conflito e
No final das contas, a fusão simbiótica destas duas perspectivas das pessoas envolvidas no conflito puderem ser consideradas "de modo
tenta preparai- o caminho para a concepção de uma justiça supostamente inteiramente satisfatório".29 Quem se satisfaz apenas com as
"superior" capaz de garantir uma coincidência feliz entre o justo e o características semânticas de uma norma geral e afirma que ela não
bom26 individual: "E neste caso, a prioridade da justiça liberal poderia pode fazer jus às especificidades de um caso e do contexto histórico
ser tida como uma prioridade política e ética, não apenas para as individual, passa por alto o sentido pragmático da "generalidade" de
instituições, mas também para nós, na qualidade de indivíduos que normas justificadas democraticamente. Tal espécie de normas foi
participam de instituições."27 No entanto, a natureza paradoxal de tal encontrada e estatuída após um procedimento de deliberação e de
standard, introduzido subrepticiamente, explica por que qualquer tipo decisão que cria bases para uma suposição capaz de fundar
de "justiça política" distribuída mediante a utilização da moeda de aceitabilidade racional e, neste sentido, geral. Não se pode dizer, de
liberdades éticas iguais, aparece, à luz de tal standard, como não- forma alguma, que o Estado de direito, democrático, ignora "o

36 MENKE (2000, 7) pretende colocar a idéia da igualdade numa relação tal SEEL, M. Versuch über die Form des Glücks. Frankfurt/M., 1999, 191 ss.
com "as obrigações derivadas da individualidade" que ela não esteja decidida GÜNTHER, K. "Ein normativer Begriff der Koharenz", in: Rechtstheorie, 20
desde o início a íavor da prioridade da igualdade. (1980), 163-190; id. "Warum es Anwendungsdiskursegibt", \ nJahrbuch für
"MENKE (2000), 122. Recht und Ethik, vol. 1, (1993) 379-389.

320 321
problema da possível demarcação do bem individual por meio da democrático. Já que o discurso político, à proporção que direciona o
igualdade política" (905). Nos cenários hipotéticos de uma esfera olharem direção àquilo que é igualmente bom para todos, permanece
pública militante e nas controvérsias políticas do legislador democrá- naturalmente referido aos juízos éticos "que os indivíduos emitem
tico, os efeitos não-neutros constituem ex ante o tema propriamente tendo em vista o que é importante e bom para a sua vida" (898). E
dito, portanto, não apenas nos discursos de aplicação da jurisdição. quando tal sobrecarga puder ser imputada tendo em vista a eliminação
Uma vez que o procedimento democrático faz a legitimidade de uma discriminação, os participantes podem aceitar como justa até
das decisões depender das formas discursivas de uma formação mesmo uma norma (por exemplo, uma regulamentação liberal do
inclusiva da opinião e da vontade, as normas destinadas a garantir aborto) cujos efeitos onerarão - na sua visão pessoal - mais a eles
iguais direitos só podem surgir quando se tem conhecimento dos fardos próprios do que aos outros cidadãos. Dado que a norma tem de ser
diferenciados que elas implicam e após a avaliação de tais fardos. legitimada pelo caminho democrático, isto é, com o conhecimento e a
Menke declara que os efeitos não-neutros das normas de igualdade consideração de seus efeitos não-neutros pela totalidade daqueles que
são "efeitos não visados" da "efetivação da igualdade" (903). Isso trai têm de suportar seus efeitos, as restrições assimétricas aceitas por
uma fixação na posição observadora de um teórico; ele se recusa a razões normativas são expressão do princípio da igualdade cidadã (de
assumir a perspectiva de cidadãos que se entendem, ao mesmo tempo, cidadãos de um Estado), não menos do que a própria norma - e não
como autores da lei e do direito. O liberalismo pós-moderno, ao seguir simples sinais de sua "heterogeneidade interna".
de perto o clássico, desfocaliza o componente democrático presente Por conseguinte, nem as delimitações impostas pela "neutralidade
na legislação e na idéia diretriz das iguais liberdades, além de não da meta" (1), nem os "efeitos não-neutros" de direitos distribuídos de
prestar mais atenção ao nexo dialético que une a autonomia privada à maneira efetivamente igual (2) proporcionam argumentos para uma
de cidadãos de um Estado. "fronteira da igualdade" inerente à idéia da igualdade de cidadãos do
Desta maneira, o processo de "determinação" da igualdade Estado. O inevitável "sofrimento dos indivíduos, provocado por toda
realiza-se apenas na cabeça do observadorfilósofo.Falta um lugar ordem da igualdade e que resulta de seus efeitos de delimitação"
para a prática comunicativa dos cidadãos participantes. Somente neste (Begrenzung) (906) não pode ser comprovado pelos meios de uma
espaço pode realizar-se como "autodeterminação" - na figura de uma análise conceituai. Apenas o universalismo igualitário que exige iguais
formação democrática da opinião e da vontade - o processo de direitos, sem deixar de ser sensível a diferenças, tem condições de
determinação daquilo que deverá culminar numa aplicação eqüitati va, satisfazer à exigência individualista que consiste em garantir
assumindo a forma de uma norma geral. Tendo participado do processo eqüitativamente a integridade vulnerável do indivíduo que é
de diferenciação do justo e do bom, tanto na perspectiva da insubstituível e cuja biografia é inconfundível.
compreensão de si mesmos e do mundo como sob a condição da
recíproca assunção de perspectivas, os atingidos vêem as normas gerais ffl
que encontraram assentimento geral, após a consideração discursiva
da exclusão antecipada e do confinamento, não mais - e, especialmente, E bem verdade que tal asserção atinge apenas as condições
não mais devido à sua generalidade garantidora de igualdade - como conceituais visadas pela desconstrução, e não as condições de fato,
um poder estranho que mutila sua vida individual. deformadas pela violência. Naturalmente, até hoje, as "ordens da
Não é necessária uma desconstrução da idéia de igualdade para igualdade", liberais, encobrem a injustiça gritante da desigualdade
se chegar ao ponto ao qual tende naturalmente o procedimento social. Nos quarteirões miseráveis de nossas cidades e nas terras
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devastadas residem os "que se tomaram supérfluos" e foram expulsos, indivíduos (2), a qual ainda desperta, apesar de tudo, a aparência
para os quais os iguais direitos não têm o "mesmo valor". Eles sofrem, paradoxal de uma mudança dialética: os direitos iguais transformam-
sob a aparência da igualdade, a miséria da insegurança e do se em opressão (3). w
desemprego, a humilhação da pobreza e da subalimentação, o
encapsulamento de uma vida à margem da sociedade, o sentimento (1) Na jurisprudência mais recente das nações ocidentais podemos
repleto de mágoa de que se é algo que não possui nenhuma utilidade, encontrar muitos exemplos de correções de leis gerais que tinham
o desespero pela perda de todos os meios que seriam necessários para efeitos assimétricos insuportáveis: autorizam-se os sikhs a portar seu
uma mudança, a partir das próprias forças, da situação acabrunhadora. turbante enquanto dirigem a motocicleta ou a portarem publicamente
Nesses fatos, porém, não se manifesta nenhum paradoxo oculto na seu punhal ritual; mulheres muçulmanas e alunas têm a permissão de
normatividade da própria idéia de igualdade. Antes, pelo contrário, a manter, na escola ou no trabalho, o seu "véu"; os açougueiros judeus
percepção da contradição que existe entre a pretensão normativa podem abater animais e aves seguindo métodos "puros", etc. E parece
levantada pelas condições de vida e a visão moralmente obscena que que se trata, nesses casos, de exceções de leis gerais (da segurança do
elas realmente oferecem produz dissonâncias cognitivas. trânsito, da proteção dos animais, etc.) Todavia, a interpretação de
Desde os primeiros socialistas até os atuais opositores da tais decisões como regulamentações de exceção sugere a idéia,
globalização, o protesto político é desencadeado por fatos que enganadora, de uma dialética inerente à idéia de igualdade. De fato,
desmentem a pretensão normativa de uma igualdade de direitos nesses casos, a jurisprudência apenas tira conseqüências do fato de
entendida de forma conteudística. Nasceu daí a promessa do Estado que sikhs, judeus e muçulmanos gozam da mesma liberdade de religião
social, segundo a qual, a garantia de liberdades éticas iguais tem de que a maioria da população cristã. Não se trata, pois, de uma misteriosa
incluir também a chance de poder fazer uso fático de direitos "virada do geral no particular", mas de um caso, trivial, onde se atribui
distribuídos de forma igual. Cidadãos em condições de vida prioridade a um direito fundamental sobre simples leis ou prescrições
subprivilegiadas têm o direito a realizações de compensação quando de segurança. Como no caso da decisão de Karlsruhe sobre a
lhes faltam os recursos e as chances de fazer uso de seus direitos equiparação da comunidade das testemunhas de Jeová (que, mediante
seguindo preferências e orientações axiológicas próprias. o reconhecimento enquanto instituição de direito público, obteve o
E bem verdade que a visão sobre as contradições que resultam gozo dos mesmos privilégios usufruídos pelas outras igrejas), aqui
da contraposição entre facticidade e validade pode até transformar-se também se üata da implantação do direito cultural igual pelo caminho
numa mola política capaz de impulsionar uma autotransformação da normal de uma materialização do direito.
sociedade - mediante uma desconstrução que projeta a contradição Regulamentações na parte organizacional da constituição (tal
na normatividade enquanto tal - caso as dissonâncias cognitivas não como a transmissão de competências da auto-administração para
venham a ser desarmadas por uma ontologização porque, neste caso, corporações regionais ou a concessão de direitos especiais de
elas perderiam o seu aguilhão. Entrementes, temos de averiguar se a representação para minorias culturais) e políticas multiculturais para
implantação de direitos culturais para os membros de grupos a proteção e a promoção de grupos discriminados (tal como regulações
discriminados e a introdução de direitos sociais acompanham um de cotas no sistema de educação, no mercado de trabalho e na política;
desenvolvimento do direito regido pelo princípio da igualdade cidadã
(de cidadãos do Estado)( 1). A justificação de direitos culturais explica Pelas considerações que seguem devo agradecer aos participantes de um
a concorrência inquietante entre direitos de grupos e direitos de seminário realizado na Northwestern University no verão do ano de 2002.

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subvenções para programas de ensino da linguagem e currículos constitui mediante a participação política e os direitos de comunicação
escolares; a regulação de linguagens oficiais, feriados oficiais, símbolos dos cidadãos do Estado. Por conseguinte, a "auto-reflexão" que visa
nacionais) são medidas destinadas a evitar a exclusão de grupos com "reconhecimento da diferença", para a qual Menke, com razão, chama
forte identidade própria. Um estudo de Charles W. Mills11 revela que a atenção, não depende de uma outra política, inteiramente distinta, a
tais tendências continuam a difundir-se mesmo sob o umbral dos qual - por sobre os escombros da igualdade desconstruída - livrar-se-
direitos formais iguais. Até na semântica da linguagem do corpo ia das algemas do direito refugiando-se na esfera da virtude.-1-1
operam mecanismos menos evidentes de exclusão nas formas de trato A discussão sobre "multiculturalismo" obriga a uma diferencia-
e nos padrões de comunicação do intercâmbio cotidiano. É bem ção cuidadosa no conceito da igualdade cidadã (de cidadãos do Estado).
verdade que uma "política do reconhecimento" se choca com os limites Discriminação ou desprezo, ausência nas arenas públicas da sociedade
estruturais do médium do direito, pelo qual é possível obter, no melhor ou deficiente auto-respeito coletivo são indicadores de inclusão
dos casos, um comportamento conforme as normas, mas não uma incompleta dos cidadãos, aos quais é vedado o status pleno de membros
mudança de mentalidade. Entretanto, os limites factuais de atuação de uma comunidade política. O princípio da igualdade cidadã é ferido
de um médium de controle, como é o caso do direito, não podem ser na dimensão da pertença, não na da justiça social. O grau de inclusão
confundidos com barreiras conceituais numa idéia da igualdade do tem a ver com relações horizontais entre membros da comunidade
conteúdo do direito, aparentemente contraditória. política, ao passo que a extensão da ordem de status atinge as relações
Designamos como liberal uma cultura que se caracteriza por verticais entre cidadãos de uma sociedade estratificada.
relações simétricas de reconhecimento recíproco - mesmo entre Camadas sociais formam-se na dependência de padrões de
membros de grupos de identidade diferentes. Tais condições de distribuição da riqueza social. Dependendo do status, os cidadãos
reconhecimento, que sobrepujam limites subculturais, podem ser dispõem de mais ou menos recursos e de mais ou menos oportunidades
criadas indiretamente com os meios da política e do direito, não diferentes para uma vida configurada de acordo com preferências e
diretamente. Direitos culturais e políticas de reconhecimento podem orientações axiológicas próprias. Entre cidadãos de um Estado dotados
fortalecer a capacidade de auto-afirmação de minorias discriminadas, de iguais direitos, toda ordem de status lança a questão acerca da
inclusive sua visibilidade na esfera pública; mesmo assim, não se pode legitimidade de uma medida de desigualdade social a ser admitida.
modificar, mediante a ameaça de sanções, o registro social de valores. Independentemente do modo como se encara a exploração econômica
O reconhecimento recíproco de membros com iguais direitos, o qual e a marginalização social (de acordo com os princípios da justiça
constitui o alvo do multiculturalismo, pressupõe relações interpessoais distributiva aceitos na sociedade14), e para além das interpretações
modificadas que se produzem pela via do agir comunicativo e do urdidas para a privação (de meios necessários para uma vida
discurso e se harmonizam na esfera pública democrática, em última autodeterminada), isso fere o princípio da igualdade cidadã, porém,
instância, mediante controvérsias políticas sobre a identidade.12
Todavia, esses mesmos processos desenrolam-se num espaço que se
"Não consigo entender bem o significado da seguinte tese: "que uma política
da igualdade tem de formar em si mesma a atitude ou virtude de fazer jus às
11 MILLS, Ch. W. The Racial Conlract. Ithaka (N. Y.),
1997. experiências de sofrimento e queixas dos indivíduos" (905), se a essa política
•,2 FRASER, N. "Struggle over Needs", in: id. Unruly
Practices. Minnesota, deve ser permitido "(ir) alé o ponlo extremo em que a igualdade se limite a si
1989, 161-190; BENHABIB, S. The Claims of Culture. Princeion. 2002, mesma tendo em vista tais limites".
114-122. ,J PAUER-STUDER, H. Autonom leben. Frankfurt/M., 2000.

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não da mesma forma que uma inclusão incompleta. Já que a (2) A garantia de liberdades éticas iguais para cada um constitui
desigualdade reside na dimensão da justiça distributiva, não na de o padrão de justificação para direitos culturais.17 Tais liberdades têm a
uma inclusão de membros. forma de direitos subjetivos que abrem um espaço bem definido de
Nancy Fraser reconheceu a importância de uma separação opções para decisões orientadas por preferências. A pessoa dotada de
analítica das duas dimensões (quase sempre ligadas entre si no plano direitos só consegue obter sua liberdade de decisão para fins de uma
empírico) da desigualdade cidadã (de cidadãos de um Estado) e conduta de vida ética quando dispuser de um espectro suficientemente
delineou uma distinção entre políticas da distribuição e políticas do amplo de orientações axiológicas que lhe permitam escolher metas
reconhecimento.15 A luz desta diferenciação, torna-se claro por que o de ação e fins. Ela só chega ao gozo real de iguais liberdades éticas
sentido de direitos culturais é falseado quando os integramos em uma quando, ao escolher suas preferências, puder confiar na força
forma de Estado social ampliado.16 Diferentemente dos direitos sociais, orientadora de valores culturais internalizados. Por isso, o valor de
os direitos culturais têm de ser justificados tendo em vista as uso de iguais liberdades éticas necessita das garantias de acesso a
possibilidades da inclusão simétrica de todos os cidadãos. Tal recursos culturais, dos quais os valores exigidos podem ser extraídos,
consideração nos obriga, é verdade, a uma ampliação do conceito isto é, adquiridos, reproduzidos e renovados.
clássico de pessoa de direito, talhado conforme dois papéis distintos: Em que pese isso, tal justificação instrumental não atinge o
o de cidadão da economia e o de membro da comunidade; tal revisão, sentido propriamente dito de direitos culturais. Já que o conceito de
no entanto, parece implicar, ao mesmo tempo, direitos de grupos, ambi- uma pessoa que age de modo racional-teológico e que realiza uma
valentes, os quais eventualmente podem em conflito com direitos escolha entre opções dadas seguindo preferências que trazem marcas
individuais. culturais é demasiadamente estreito para iluminar a significação
intrínseca da cultura para o modo de viver individual. Recém-nascidos,
M FRASER, N. "From Redistribulion to Recognition?", in: WILLETT, E. por exemplo, vêm ao mundo ainda incompletos do ponto de vista
(otg.)Theoriiing Multiculturalism. Oxford, 1998, 19-49; nas revisões que orgânico e permanecem, durante um longo tempo, extremamente
ela fez até o momento (in: FRASER, N. "Rethinking Recognition", in: New dependentes dos cuidados de outras pessoas. As pessoas só podem
Left Review, maio/junho, 2000, 107-120) não consigo descobrir modificações desenvolver-se enquanto membros sociais de comunidades culturais.
do princípio original. Cf. agora também FRASER, N. e HONNETH, A. E para se desenvolverem como pessoas, elas têm de entrar no caminho
Umverteihmg oder Anerkennung?'. Frankfurt/M., 2003. da socialização, introduzindo-se num universo de significações e
16 Assim procede BARRY {Culture andEquality. Cambridge [Mass.] 2001), que
deriva a pretensão de grupos discriminados a reconhecimento de uma falta de práticas, compartilhado intersubjetivamente. Tal constituição cultural
"meios e opções", porque ele mede a igualdade cidadã pela justiça distributiva, do espírito humano explica por que o indivíduo depende,
por conseguinte, por "oportunidades e recursos" necessários para que todo ininterruptamente, de relações interpessoais e de comunicações, de
cidadão tenha as mesmas chances de fazer uso efetivo de direitos distribuídos redes de reconhecimento recíproco e de tradições. Isso explica também
de fomia igual. Tal assimilação da falta de reconhecimento a uma marginalização, por que os indivíduos só conseguem desenvolver, revidar ou manter
a ser compensada materialmente leva, a seguir, a uma equiparação conira-intuiti va sua autocompreensão, sua identidade e o projeto de uma vida própria
de convicções de fé, religiosas, a preferências: 'The position regarding prelér- em contextos desse tipo.
ences and beliefs is similar."(36) De acordo c